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ICorfntios

RAYMOND BRYAN BROWN

Introdução Geográfica e economicamente, Corin­


to era importante porque era escala na
Quando Paulo chegou a Corinto, esta­ rota marítima entre o Ocidente e o Orien­
va no centro comercial da Grécia. Atenas te. Ela ficava localizada estrategicamen­
e Corinto eram as cidades mais impor­ te no istmo, que tinha cerca de quinze
tantes da Grécia na época do domínio quilômetros de comprimento e cinco de
romano. Corinto era uma trepidante me­ largura, e ligava a Grécia, no continente,
trópole, com uma população de mais com o Peloponeso. A oeste, o porto de
de meio milhão de pessoas. Utensílios de Lechaeum ficava a apenas três quilôme­
pedra e vasos de cerâmica dão testemu­ tros de distância. A leste, ficava o porto
nho da vida do homem no local da de Cencréia, a apenas treze quilômetros
cidade já no período neolítico. No sétimo de distância. Visto que era perigoso via­
século a.C., Corinto alcançou grande po­ jar rodeando o cabo Malea, promontório
derio, e se tornou famosa por seus tra­ no extremo sul da Grécia, e isso acarre­
balhos de cerâmica e bronze. No terceiro tasse um prolongamento de trezentos
século a.C ., como líder da Liga da Acaia, quilômetros na viagem, os navios peque­
ela entrou em conflito com Roma. Du­ nos eram arrastados por terra, de um
rante a vida de Paulo, Corinto se com­ porto para outro, em uma trilha chama­
parava com Roma, Alexandria e Éfeso, da “Diolkos” ou “arrastar através” . As
como as mais importantes cidades do mercadorias dos navios maiores eram
Império Romano. descarregadas de um lado e recarregadas
A Corinto que Paulo visitou, todavia, em diferentes barcos do outro lado. Nero,
não era a mesma cidade antiga. A velha imperador romano, começou a constru­
Corinto fora destruída por Lucius Mum- ção de um canal entre o golfo de Saros e o
mius, cônsul romano, em 146 a.C. Ela golfo de Corinto, em 67 d.C., não muitos
só foi reconstruída quando Júlio César anos depois que Paulo trabalhou em
empreendeu essa tarefa em 44 a.C., 102 Corinto (51 d.C.), mas abandonou o
anos depois que Roma a havia destruído. projeto. Só em 1893 foi construído um
Quando Paulo visitou a cidade, encon­ canal. Na época de Paulo, Corinto fre­
trou descendentes dos colonos romanos, mia de atividade comercial, e pode ser
que haviam sido enviados para povoá- considerada como um dos mais impor­
la, romanos que eram funcionários pú­ tantes centros econômicos do Império
blicos, gregos, judeus, orientais e outras Romano.
pessoas que haviam sido atraídas para A cidade de Corinto fica ao pé do
Corinto, devido à sua localização geo­ Acrocorinto, íngreme promontório, que
gráfica e o seu significado comercial. se levanta mais de seiscentos metros aci­
Inúmeros nomes romanos do Novo Tes­ ma do nível do mar. O Acrocorinto pro­
tamento estão ligados a Corinto (cf. At. piciava proteção à cidade de um lado.
18:7; Rom. 16:21-23; I Cor. 16:17). Os muros que a protegiam do outro lado
tinham nove quilômetros de circunferên­ Corinto, se erguem sete colunas do tem­
cia. No centro da cidade ficava o mer­ plo de Apoio, que foi edificado, prova­
cado, ou ágora, rodeado por lojas, basí­ velmente, no sexto século a.C. Esculápio,
licas e monumentos. A “bema” (plata­ deus da cura, era muito considerado em
forma para oradores) localizava-se perto Corinto no decorrer do primeiro século,
do centro da ágora. Os arqueólogos lo­ como tomam bem claro os restos arqueo­
calizaram, muito provavelmente, o pró­ lógicos. Serápis e Isis, deus e deusa egíp­
prio tribunal ou “bema” ao qual Paulo cios, eram muito populares entre todas
foi levado diante de Gálio (cf. At. 18: as nacionalidades. O culto mais famoso
12-17). em Corinto era o de Afrodite, cujo tem­
Politicamente, Corinto havia sido a plo ficava localizado no topo do monte
capital da província da Acaia desde 27 Acrocorinto. De acordo com Estrabão,
a.C. Era a residência do procônsul ro­ geógrafo que viveu no primeiro século
mano. Em 51-52 d.C., enquanto Paulo d.C., mais de mil mulheres, em época
estava em Corinto, Gálio, irmão mais anterior, serviam como prostitutas sagra­
velho do filósofo estóico Sêneca, era pro- das no templo de Afrodite, que na ver­
cônsul(Atos 18:12-17). dade era a licenciosa Astarte fenícia, com
Culturalmente, Corinto era a residên­ nome grego.
cia de italianos, gregos, egípcios, sírios, Havia uma sinagoga dos judeus em
judeus e orientais. Naturalmente, as pes­ Corinto, como ficamos sabendo em Atos
soas de diferentes raças levaram com 18:4. Os arqueólogos descobriram um
elas, para Corinto, a sua herança cultu­ bloco de mármore com a legenda “sina­
ral, inclusive diferentes costumes sociais goga dos judeus” , que, provavelmente,
e crenças e práticas religiosas. Como formava uma padieira ou verga da porta
Corinto fora reconstruída em 44 a.C. de entrada de uma sinagoga judaica em
não podia ter uma longa tradição cultu­ Corinto (cf. At. 18:4). Alguns gentios,
ral quando Paulo lá chegou em 51 d.C. atraídos pelo imponente monoteísmo e
Todas as nações tinham encontro ali, pela ética dos judeus, tornaram-se “ te­
lugar que era um corte vertical, mostran­ mentes a Deus” e ligaram-se ao culto da
do todos os estratos do mundo romano. sinagoga sem se tornarem judeus (me­
Corinto tornou-se famosa por sua moral diante a circuncisão). A sinagoga em
frouxa, talvez, em parte, como conse­ Corinto tornou-se, para Paulo, uma es­
qüência dos rituais religiosos pagãos. tratégica oportunidade evangelística e o
Desde a época do poeta Aristofanes veículo de seu inicial contato com os gen­
(c. 400 a.C.), “corintianizar” era uma tios, em Corinto, os quais se preocupa­
expressão proverbial de imoralidade (cf. vam muito com religião.
5:1-13; 6:12-20). A cidade era famosa
como sede bienal dos jogos do istmo, I. A Igreja em Corinto
realizados em Cencréia, fundados em
581 a.C. e excedidos em importância De acordo com Atos 18:1-19, Paulo,
apenas pelas olimpíadas quadrienais. na sua chamada segunda viagem missio­
Religiosamente, Corinto ocupava lu­ nária, chegou a Corinto, e encontrou ali
gar honroso em relação a várias religiões, um casal judeu, Ãqüila e Priscila, que,
trazidas de muitas partes do Império juntamente com todos os outros judeus,
Romano. Em uma colônia romana como havia sido forçado, pelo Imperador Cláu­
Corinto, o primeiro lugar devia ser dado dio, a sair da cidade de Roma em 49
à adoração dos Césares deificados, à deu­ d.C. Ãquila e Priscila, que eram cris­
sa Roma, personificação da cidade, e tãos e trabalhavam fazendo tendas,
aos deuses do Estado romano: Júpiter, que também era a profissão de Paulo,
Marte e Vênus. Hoje em dia, no local de evidentemente freqüentavam a sinagoga
judia com Paulo. Silas e Timóteo par­ (16:1). Ê também possível que os corín­
ticipavam, com Paulo, do seu trabalho tios tivessem feito perguntas a respeito
em Corinto. Depois de um conflito com de Apoio (16:12).
os judeus, Paulo começou a pregar na Paulo também escreveu I Coríntios
casa de Tito Justo, homem temente a para tratar de problemas na igreja corín-
Deus. A sua missão teve grande êxito tia, que haviam chegado ao seu conheci­
(At. 18:8), e ele permaneceu em Corinto mento provindo de outras fontes. Ele
por um ano e meio (At. 18:11). A igreja ouvira falar, por pessoas da família de
era composta de judeus (7:18; At. 18:4) Cloé, que havia discórdia na igreja
e de gentios (12:2), tanto ricos (Rom. (1:11). Provavelmente, também ouvira
16:23) como pobres (1:26,27). Depois de falar de outras questões. Deve ter toma­
um ataque, levado a efeito contra ele por do conhecimento dos problemas por
alguns judeus, que foi frustrado, e depois meio das conversas com Estéfanas, For-
de permanecer em Corinto “ ainda mui­ tunato e Acaico, coríntios que haviam
tos dias” , Paulo velejou para a Síria (At. visitado Paulo em Éfeso, talvez para le­
18:18). Ãqüila e Priscila foram com ele. var-lhe a carta (cf. 16:17). De qualquer
É possível que Sóstenes, chefe da sina­ forma, Paulo trata de assuntos de grande
goga, que foi surrado pelos judeus, mais interesse para ele, contudo, não men­
tarde tenha-se tomado cristão (At. 18:7; cionados pelos próprios coríntios. Havia
I Cor. 1:1). um conflito de partidos na igreja (1 :10),
imoralidade (5:1; 6:12), querelas judi­
II. Data do Ministério de Paulo ciais (6:1 ), problemas quanto ao uso do
em Corinto véu (11:2-16), desordem por ocasião da
Ceia do Senhor (11:17-22), e mal-enten­
De acordo com Atos 18:12-17, Paulo didos com respeito à ressurreição (cap.
esteve em Corinto durante a administra­ 15). Portanto, a Primeira Epístola aos
ção de Lucius Junius Annaeus Gallio, Coríntios é tanto uma resposta a per­
que fora enviado a Corinto em 51 ou 52 guntas feitas pelos coríntios, como uma
d.C., para servir como procônsul da interpretação de assuntos suscitados pelo
Acaia. (Uma inscrição, encontrada em próprio Paulo.
Delfos, confirma que Gálio foi procônsul Foi sugerido por Hurd que Paulo es­
da Acaia, e que ele esteve nessa cidade creveu I Coríntios para esclarecer tanto
durante o ano vigésimo sexto do reinado os ensinamentos que ministrara enquan­
de Cláudio.) Visto que Paulo chegou a to estava em Corinto como a sua carta
Corinto antes de Gálio ter sido nomea­ anterior, mencionada em 5:9. 1 Em uma
do procônsul (At. 18:12), é provável que explosão de entusiasmo — de acordo
ele tenha chegado lá em 50 d.C. Certa­ com Hurd — Paulo ensinara, em Corin­
mente Paulo estava pregando em Corinto to, um evangelho que enfatizava radical­
no ano 51. mente a liberdade, ao relacionar o evan­
gelho com vários assuntos. Porém, mais
III. Ocasião Para a Carta tarde, quando escreveu a sua primeira
carta aos coríntios (5:9), ele recomen­
A Primeira Epístola aos Coríntios foi dou o “ decreto apostólico” e expressou
escrita para responder a interrogações uma ênfase conservadora a respeito da
feitas em uma carta enviada pela igreja liberdade (cf. At. 15:20,29; 21:25). Os
em Corinto. Os assuntos referentes aos coríntios, supostamente confusos, fize­
quais os coríntios pediam conselhos ram perguntas a Paulo a respeito dos
eram: problemas matrimoniais (7:1),
carne sacrificada aos ídolos (8:1 ), dons 1 John Coolidge Hurd, Jr., The Origin of I Corinthians
espirituais (12 :1 ) e coleta para os santos (New York: Seabury: 1965), p. 213-296.
assuntos acerca dos quais ele mudara de Apoio havia impressionado os coríntios
opinião em sua carta mencionada em com a sua sabedoria, e alguns deles se
5:9. Paulo então escreveu I Coríntios, tomaram seus partidários, e declaravam:
que tinha o objetivo de expressar um “Eu sou de Apoio” (1:12; 3:4). Mas está
ponto de vista mais moderado do que ele bem claro que Paulo não sentia nenhuma
ensinara quando estava em Corinto pes­ tensão com respeito a Apoio. Tudo em
soalmente, ou do que expressara ao es­ I Coríntios indica amizade entre esses
crever a carta mencionada em 5:9. dois homens.
Porém, é bom que seja lembrado que O segundo partido, supostamente,
Paulo era cristão já havia, aproximada­ está ligado a Cefas, ou Simão Pedro,
mente, vinte anos, quando escreveu I Co­ que, sem dúvida, era um dos homens
ríntios. Tinha passado um ano e meio mais eminentes do movimento cristão
em Corinto. Não é mais provável que os (1:12). Presume-se que Cefas e seus se­
coríntios tivessem mudado depois que guidores eram devotos da lei judaica de
Paulo saiu de Corinto, do que ter Paulo forma que Paulo não era (cf. Gál. 2:11-
mudado depois de ter saído?E não pode 21). O partido de Cefas talvez estivesse
ser que o “decreto apostólico” , a res­ na mente de Paulo em II Coríntios 3:1-
peito do qual tão pouco se sabe, e que é 18, onde há uma referência aos minis­
por si mesmo um problema de recons­ tros da velha aliança. Embora não haja
trução histórica, tivesse sido usado para nenhum resquício de evidência direta de
resolver a situação histórica que deu mo­ que Pedro alguma vez esteve em Corin­
tivo a I Coríntios? A solução, provavel­ to, claro que é possível que ele tenha
mente, não se encontra no “zelo excessi­ estado. E, certamente, os seus seguido­
vo” ou espírito transigente de Paulo, mas res poderiam ter chegado até lá. Contu­
nos coríntios, que foram atraídos por do, de fato pouco, muito pouco se fala,
ensinamentos novos depois que Paulo em I Coríntios, a respeito de quaisquer
terminara o seu ministério naquela ci­ oponentes de Paulo que estivessem enfa­
dade. tizando grandemente a lei judaica. Muito
Outra sugestão é que, depois que Pau­ diferente, por exemplo, da Galácia.
lo saiu de Corinto, os cristãos daquele O partido paulino, que é o terceiro
lugar sucumbiram diante de vários mes­ grupo, seria composto dos que ainda
tres e vários ensinos. “Partidos” surgi­ eram leais a Paulo e à sua interpreta­
ram em Corinto, ligados a alguns gran­ ção do evangelho. Este grupo teria ado­
des mestres. Um grupo se devotava a tado a interpretação de Paulo a respeito
Apoio, que pregou ali depois que Paulo da lei judaica e de outros assuntos. Paulo
se foi (16:12; At. 18:27,28). Presume-se lamenta o partidarismo que o seu nome
que as pessoas que seguiram Apoio advo­ evoca (cf. 1:12-17).
gavam um cristianismo caracterizado por O quarto partido é considerado como
“palavras persuasivas de sabedoria” (cf. o partido de Cristo. O que se supõe que
At. 18:24; ICor. 1:18-31). Recentemente eles criam? As opiniões são as mais va­
tem sido dito que Apoio foi o autor do riadas: eles eram devotos radicais do
livro de Hebreus, que ele o enviou para a cristianismo judaico; eram gnósticos li­
igreja em Corinto, e que há semelhanças bertinos; eram devotos de Deus, da li­
entre o conteúdo de I Coríntios e He­ berdade e da imortalidade. Têm sido
breus. Antes da volta de Paulo para feitas ainda outras sugestões: eram se­
Éfeso, em seguida a uma viagem à Síria guidores de Tiago, irmão do Senhor, ou
(At. 18:19-19:1), Apoio foi de Éfeso para devotos do que Paulo condenava. É espe­
Acaia (At. 18:27) e voltou a Éfeso, pos­ cialmente popular hoje em dia a identifi­
sivelmente antes que Paulo escrevesse cação do partido de Cristo com os gnós­
I Coríntios (cf. At. 19:1; I Cor. 16:12). ticos.
Alguns estudiosos — coisa incrível — rinto, depois de sua partida, uma ênfase
têm declarado que a expressão “Eu sou na gnósis (conhecimento), que era uma
de Cristo” , em 1:12, é uma glosa, e foi ameaça ao autêntico evangelho apostóli­
introduzida na carta mais tarde, por co, arraigado no ministério, crucificação
outra pessoa, e não escrita por Paulo. e ressurreição de Cristo. Emerge em Co­
Mas a frase “ Será que Cristo está divi­ rinto um orgulho por essa sabedoria ou
dido?” , em 1:13, torna difícil crer-se conhecimento, uma exigência inflexível
que a expressão “Eu sou de Cristo” não de liberdade de expressão, insensibilida­
fizesse parte da carta originalmente. Ou­ de quanto aos outros e uma ênfase nas
tros sugerem que “Eu sou de Cristo” coisas “espirituais” , que é uma contra­
fosse o ponto de vista de algumas pessoas dição do evangelho. Os coríntios se tor­
que rejeitavam os três partidos que ha­ naram convencidos, deixando de inter­
viam surgido em Corinto, ou o ponto de pretar a liberdade em termos de amor.
vista do próprio Paulo. Todos os esfor­ Porém precisa ser enfatizado que não
ços para estabelecer um partido de Cristo há evidências obrigatórias que identifi­
são marcados por diferentes graus de quem as tendências “gnostizantes” , em
desespero. Corinto, com uma teologia gnóstica de­
É impossível isolar quatro partidos senvolvida. Os eruditos ainda não tive­
teológicos separados, baseando-se em ram êxito em demonstrar a existência, na
I Coríntios. E, a introdução dos textos época de Paulo, da espécie de sistemas
das outras cartas de Paulo no assunto gnósticos que podem ser identificados no
desse debate, só parece ter aumentado a segundo século d.C.
confusão. Por exemplo, os adversários Definindo o gnosticismo: O seu nome
em I Coríntios não são, necessariamente, deriva da palavra grega gnósis, que sig­
os mesmos adversários de II Coríntios. nifica conhecimento. Era um movimento
Visto que é impossível identificar os qua­ religioso complexo, sincretista, que sur­
tro partidos, ou mesmo três deles, com giu claramente em formas mais ou menos
certeza, é melhor dar uma explicação al­ sistemáticas, no segundo século d.C. Ele
ternativa. procurava explicar a origem do mal e
Provavelmente, surgiram divisões em julgar a condição humana. Enfatizava a
Corinto que se apegavam a líderes notá­ redenção através da revelação do conhe­
veis. Conseqüentemente, Paulo mencio­ cimento místico. A salvação veio quando
na os nomes deles. Mas não há evidên­ a flama da substância divina no homem
cias suficientes para se concluir que ha­ foi liberada da sua prisão em um mundo
via quatro grupos teológicos distintos na­ mau e voltou ao seu lugar no ser divino.
quela igreja. A preocupação de Paulo Qual é a evidência de que Paulo está
é refutar o espírito de partidarismo na se opondo a uma interpretação gnóstica
igreja, que ocasionara a criação de fric­ da fé cristã? Ele usa a palavra traduzida
ção e de “panelinhas” teológicas na mes­ como conhecimento (gnósis) 16 vezes em
ma (cf. 1:13). Ele dirige a sua atenção I e II Coríntios. Isto é quase três vezes
a toda a igreja, em I Coríntios 1-4. mais do que ele a usa em todas as suas
Está se opondo a uma tendência existen­ outras cartas juntas, e, certamente, in­
te em toda a igreja, e não lutando contra dica que a compreensão correta do co­
partidos separados. nhecimento, palavra favorita dos gnósti­
Provavelmente, a melhor interpretação cos, era um problema em Corinto. O ad­
da ocasião em que I Coríntios foi escrita jetivo “espiritual” (pneumatikos) ocorre
é que Paulo a escreveu depois de ter 14 vezes em I Coríntios, e, em todas as
notícias dos crescentes avanços de uma suas outras cartas, apenas nove vezes.
forma gnóstica-espiritualista de se inter­ Pneumatikos era uma palavra favorita
pretar a fé cristã. Havia surgido em Co­ dos gnósticos. Em 1:17 e 2:2, Paulo se
opõe a uma sabedoria especulativa, eso­ da parte de alguns dos adversários de
térica, que minimiza a cruz de Cristo Paulo em Corinto. Se a tendência gnós­
(a sua ignominiosa morte) e o seu poder tica é judaica ou helénica, é difícil de
redentor. Em 4:8, Paulo critica os corín- julgar. De qualquer forma, não nos sen­
tios agudamente, por viverem como se o timos livres para falar do gnosticismo em
reino de Deus já tivesse chegado. Em Corinto, mas apenas de tendências gnós-
6:12, “Todas as coisas me são lícitas” ticas. 5
aponta para um libertinismo, uma falta Alguns estudiosos preferem não iden­
de atenção pelo uso adequado do corpo, tificar a oposição a Paulo em Corinto
dizendo que ele é perecível. E a atitude com o gnosticismo, nem mesmo na forma
ascética em relação ao casamento, no bem limitada sugerida acima. De fato, se
capítulo 7, pode ser uma indicação de essa identificação for uma identificação
uma interpretação gnóstica contrária. Os exagerada, precisamos confessar que não
gnósticos ascéticos e libertinos viveram se pode delinear de maneira exata que a
no segundo século d.C. Em 8:1-3, Paulo oposição de Paulo, em Corinto, podia ser
subordina o conhecimento ao amor, e exercida à luz do nosso presente co­
insiste que o conhecimento cristão não se nhecimento.
alegra em uma liberdade insensível, com
o objetivo de auto-afirmação, com falta IV. A Correspondência com os
de atenção para com os outros. E em Coríntios
10:23, o genuíno conhecimento é men­
cionado por Paulo, que diz que ele edifi­ Sem dúvida, a menção que Paulo faz
ca os outros, e não se expressa com in­ de uma carta anterior, em I Coríntios
diferença para com eles. A expressão 5:9, levou os eruditos a empreender a
“Jesus é anátema!” , em 12:3, pode ser tarefa de isolar essa carta, ou partes dela,
interpretada como uma ênfase gnóstica no contexto de I e II Coríntios. Durante
exagerada, no Cristo exaltado, e um des­ mais de 90 anos se fizeram esforços para
prezo do Jesus humano. O desinteresse encontrar várias cartas. 6 Atenção es­
na ressurreição como evento futuro e pecial merecem os vários arranjos das
desinteresse no corpo da ressurreição cartas aos coríntios feitos por Johannes
também dão crédito a uma interpretação Weiss, Maurice Goguel, Walter Schmi­
gnóstica (cap. 15). thals e Jean Héring — que de maneiras
Rudolf Bultmann explica a teologia diferentes identificam passagens, de
paulina em termos de um gnosticismo acordo com as suas opiniões, para cons­
que se insinuou nas congregações cris­ tituir de duas a seis cartas. Visto que é
tãs através de um judaísmo helenista difícil crer que os coríntios teriam per­
sincretista. 2 Walter Schmithals3 e Ul- dido ou destruído a carta mencionada
rich Wilckens 4 encontram uma cristolo- em I Coríntios 5:9, é compreensível que
gia gnóstica entre os adversários de Pau­ os estudiosos se esforcem por identificar
lo em I Coríntios. Mas as tendências várias cartas dentro das duas cartas que
“gnostizantes” não são suficientes para conhecemos. Porém a grande maioria
substanciar um sistema desenvolvido de dos eruditos não é convencida por essas
teologia. Só podemos dizer que I Corín­ várias divisões. De fato, I Coríntios pode
tios revela um ponto de vista gnostizante ser esboçada com mais facilidade do que

2 Theology of the New Testament (N ew Y ork: S c rib n e r’s, 5 Se d esejar u m a d ec laraç ão ju d ic io sa a resp eito do g n o s­
1954). ticism o e o Novo T e stam en to , co n su lte, de R. M cL.
3 Die Gnosis in Korint (G o ettin g en : V an d en h o ec k a n d W ilson, Gnósis and the New Testament (P h ila d elp h ia:
R u p re c h t, 1965, 2 a ed.). F o rtress P ress, 1968)
4 Weisheit und Torheit (T u e b in g en : J. C. B. M o h r (P a u lo 6 P a ra inform açõ es ac erca d este assu n to , em ad içào a
Siebeck) 1959, p. 205-213. m uitos ou tro s, co n su lte H u rd , op. cit.
a maioria das outras cartas de Paulo. carta mencionada em I Coríntios 5:9.
Não há base adequada para se encontrar (Alguns estudiosos acham que II Corín­
mais de uma carta em I Coríntios. O pro­ tios 6:14-7:1 é um fragmento dessa car­
blema de se encontrarem várias cartas ta.) (4) A carta não obtém sucesso, e
em II Coríntios precisa ser estudado em Paulo recebe um relatório adicional a
um comentário a essa carta. respeito da situação em Corinto (1:11;
16:17,18). (5) Paulo então escreve a carta
V. A Autenticidade da Carta que chamamos de I Coríntios. (6) Ela
não consegue alcançar os objetivos de
‘ Mui poucos estudiosos chegaram a ne­ Paulo, e ele faz uma visita a Corinto
gar a autenticidade de I Coríntios. Em 96 (II Cor. 2:1; 12:14,21; 13:2). (7) Em
d.C., uma carta, I Clemente, foi enviada seguida, ele escreve uma carta severa
da igreja em Roma para Corinto, e ela (II Coríntios 2:4; 7:8,9). (Alguns estu­
contém citações e alusões a I Coríntios. diosos acham que parte dessa severa
Inácio (c. 35-c. 107 d.C.) muitas vezes carta está em II Coríntios 10-13; se não
faz eco à linguagem dessa carta. Citações for assim, ela está perdida para nós.)
são encontradas na obra de Justino M ár­ (8) Depois de ouvir boas notícias de Co­
tir (c. 100- c. 165), Diálogo com Trifo. rinto (IlCor. 7:5-13), Paulo escreve II
Irineu(c. 130-C.200) e Tertuliano(c. 160- Coríntios (pelo menos II Coríntios 1-9).
c. 220) também a mencionam. Nenhum Portanto, Paulo envia pelo menos quatro
livro do Novo Testamento tem confirma­ diferentes cartas a Corinto, e nós temos
ção mais. eloqüente. Também não há pelo menos duas delas.
nenhuma dúvida de que Paulo é o seu O esboço de I Coríntios faz com que
autor. seja relativamente fácil apresentar-se um
esquema dos seus temas mais importan­
VI. Data tes.
Problema de divisões (1:10-4:21) —
Paulo estava pregando em Corinto em Desde a partida de Paulo, os coríntios
51 d.C. (cf. At. 18:12). Saiu de Corinto, começaram a manifestar a espécie de
provavelmente, em 51 ou 52. Esteve em espírito beligerante, que criaria facções
Éfeso durante menos de três anos (cf. At. endurecidas, se elas fossem deixadas
19:8-10; 20:31). Portanto, I Coríntios foi, sem repressão. O orgulho se manifesta
provavelmente, escrita em 54 ou 55. Al­ na forma de sabedoria esotérica, que
guns eruditos acham que 5:7 é uma não leva a sério a sabedoria da cruz.
indicação de que Paulo escreveu na épo­ Ao considerar o problema de divisões na
ca da Páscoa. igreja, especialmente nos capítulos 3 e 4,
Paulo faz uma exposição do seu ministé­
VII. A Ordem dos Eventos rio e uma defesa do seu apostolado.
Problema de um membro da igreja que
O ministério de Paulo, em Corinto, é imoral (5:1-13) — Parece que um mem­
e a sua correspondência com a igreja, ali, bro da igreja está vivendo com a sua
podem ser esquematizados como se se­ madrasta, sem ter-se casado com ela,
gue: (1) Ele vai a Corinto na chamada embora isso não esteja absolutamente
segunda viagem missionária e é ajudado claro. Tanto a lei judaica como a roma­
na obra, ali, por Ãqüila e Priscila, Silas e na proibiam essa união. Paulo faz a
Timóteo (cf. At. 18:1-5). (2) Depois de igreja lembrar que é de sua obrigação
um ministério de um ano e meio em submeter esse homem à disciplina. O in­
Corinto, Paulo empreende um ministério dicativo dos assuntos da salvação de
de três anos em Éfeso (cf. At. 19:1-20:1). Deus fundamenta-se no imperativo da
(3) Enquanto esteve em Éfeso, escreveu a obediência do homem. Precisa haver, na
vida diária do crente, uma apropriação cristão. O exercício que Paulo faz, do
infindável da graça de Deus, através princípio enunciado em 8:13, que é ba­
de uma fé obediente. seado no amor, é feito devido ao interes­
Problema de processos judiciais (6:1- se pelos outros.
11) — Paulo insiste que os crentes lutem Em 10:1-13, o apóstolo emprega uma
por evitar mal-entendidos que requeiram lição do Velho Testamento, para indicar
solução judicial. É melhor sofrer o dano a importância da obediência às exigên­
nas mãos de um irmão em Cristo do que cias de uma fé madura. Visto que, na
precisar pedir a um não crente para adoração de Israel, aqueles que parti­
decidir o caso. cipam dos sacrifícios participam dos be­
Problema do uso adequado do corpo nefícios dos mesmos sacrifícios, e visto
(6:12-20) — Paulo estabelece a com­ que os demônios estão presentes nas fes­
preensão adequada a respeito da conduta tas pagãs, em seus templos, Paulo re­
sexual, visto que apresenta um exemplo comenda que os coríntios não participem
de conduta imprópria em 5:1-13. Visto de festas nos templos pagãos. Ele reitera
que o corpo é a expressão externa de uma o fato de que a liberdade se expressa em
pessoa, o que ela faz ao seu corpo, faz interesse amoroso pelos outros.
à sua personalidade ou eu. Visto que o Perguntas a respeito do culto cristão
corpo, transformado, voltará à vida por (11:2-14:40) — Três problemas são dis­
ocasião da ressurreição, a imoralidade cutidos: o uso do véu, pelas mulheres,
sexual danifica a personalidade ou ínti­ durante o culto (11:2-16), a conduta du­
mo dos que se envolvem com ela. O corpo rante a Ceia do Senhor (11:17-34), e o
é o templo do Espírito Santo. exercício dos dons espirituais (12:1-14:
Perguntas a respeito do casamento (7: 40). Paulo recomenda que as mulheres
1-40) — Paulo refere-se a problemas ajam conservadorafflente e usem o véu,
específicos (Consulte o esboço de I Co- lembrando a sua subordinação, que está
ríntios). A sua atitude para com o casa­ arraigada na criação, e a sua elevação a
mento é conservadora, mas não depre- uma condição igual à do homem na re­
ciadora. Ele crê que a maioria das pes­ denção. A Ceia do Senhor não é uma
soas precisa da expressão sexual que o apólice de seguro mágica contra o juízo
casamento se propõe a propiciar. Mas divino. É, isto sim, uma ocasião para
por causa da iminente segunda vinda e que a igreja expresse comunhão com
dos cuidados que o casamento ocasiona, Cristo e os membros uns com os outros,
Paulo prefere o celibato para os que, enquanto se lembra do significado da
como ele, possuem esse dom. vida, morte, ressurreição e volta de Cris­
Perguntas a respeito da liberdade cris­ to.
tã (8:1-11:1) — Embora o problema es­ No capítulo 12, Paulo indica que, as­
pecífico que está em discussão sejam os sim como há muitas partes diferentes em
alimentos sacrificados a ídolos, o assunto um corpo físico, também há muitos cren­
é mais amplo: da liberdade cristã. Paulo tes que formam um só corpo em Cristo,
enfrenta três interrogações, que emer­ todos eles com várias funções. Todos os
gem com o problema. Elas se referem seus diferentes dons são dons do Espírito
à compra de carne que foi sacrificada aos Santo. O amor é o dom que sublinha to­
ídolos, refeições em casas particulares dos os dons do Espírito Santo, porque ele
de amigos não-crentes, e banquetes reali­ é a base do evangelho e define o próprio
zados em templos pagãos. Vem à tona, Deus (cap. 13). É verdadeiramente um
em 8:1-3, a caracterização feita por Pau­ dom escatológico, que assim mesmo os
lo acerca de conhecimento e amor, que homens podem exercer em sua vida pre­
demonstra que a liberdade cristã é tem­ sente. No capítulo 14, Paulo assevera que
perada, em sua expressão, pelo amor a profecia é um dom que deve ser enco­
rajado, porque ajuda a toda a igreja, balharam na causa de Cristo, e se haviam
enquanto falar em línguas tem valor ape­ unido com ele e com os coríntios na pro­
nas para as pessoas que possuem esse clamação do evangelho de Deus (cf.
dom, a não ser que estejam presentes Rom. 16). O amor de Deus reivindica
intérpretes, para interpretar a mensagem de Paulo, e o amor de Paulo reivindica de
àqueles que não possuem esse dom. todos os coríntios.
O problema da ressurreição de Cristo A peculiaridade de I Coríntios está no
e dos crentes (15:1-58) — Alguns dos fato de que essa carta revela Paulo apli­
coríntios negam a validade da crença cando o evangelho a assuntos da vida
numa futura ressurreição e num corpo da quotidiana. A fé que Paulo tem é no
ressurreição. Paulo relembra a tradição Deus que age decisivamente em favor da
histórica da morte e ressurreição de Cris­ salvação do homem em Cristo Jesus.
to. O Senhor ressuscitado aparecera a Em I Coríntios aprendemos que a fé »
muitas testemunhas, inclusive a Paulo. cristã inclui não apenas dedicação a
Ele insiste na realidade de um novo corpo Deus, em Cristo, mas reflexão a respeito
da ressurreição para os crentes, e declara do que significa essa dedicação em refe­
que a ressurreição de Cristo nos dá a rência às afirmações teológicas e éticas,
certeza da ressurreição do crente. O cren­ na vida diária dos crentes, no mundo
te que morre recebe um novo corpo por atual.
ocasião da ressurreição. Os crentes se­ A fé cristã significa observações teo­
rão as mesmas pessoas, com corpos lógicas não apenas a respeito de Deus
transformados. Ao mesmo tempo, no (8:4-6; 15:28), mas também a respeito de
futuro, a ressurreição ocorrerá, e os cren­ Cristo. Jesus é a dádiva de Deus para
tes, tanto os vivos como os mortos, rece­ os homens. Todas as coisas vieram à
berão novos corpos, que serão adequa­ existência através dele (8:6; cf. 10:4).
dos para que eles vivam na própria pre­ Morrendo na cruz (1:18), ele é ressusci­
sença de Deus. tado dentre os mortos (15:4). Vencedor
Perguntas a respeito da oferta para os dos poderes demoníacos (2:6; 15:25-28),
santos (16:1-4) — A oferta para os cris­ ele voltará, para completar a sua con­
tãos pobres de Jerusalém era muito im­ quista e revelar o seu triunfo (1:7; 4:5).
portante para Paulo, como o indica II Os que pela fé vivem em Cristo partici­
Coríntios 8 e 9. A oferta coletada nas pam da salvação, que é o dom de Deus
igrejas de Paulo demonstra o amor e a (6:15,20; 7:23; 12:12). Vivendo em Cris­
unidade do povo que Deus reunira em to, mediante a fé, os crentes viverão com
Cristo. Não indica nenhuma primazia Cristo depois que forem ressuscitados,
eclesiástica da igreja em Roma. por ocasião do segundo advento (15:22).
Planos de viagem (16:5-11) — Paulo A fé cristã, que é entendida cristolo-
espera visitar Corinto, passar algum tem­ gicamente, abrange também observações
po ali, e prosseguir com novos empreen­ éticas. Antes de tudo, a vida cristã é
dimentos missionários. Evidentemente, vivida escatologicamente, com a cons­
isso foi o que ele fez (cf. Rom. 15:25-27). ciência das reivindicações de Deus e com
Perguntas a respeito de Apoio (16:12) a certeza do futuro. Paulo deixa isso bem
— Parece que Paulo e Apoio eram bons claro, em uma passagem notável (7:29-
amigos. Apoio ministrou em Corinto de­ 31), quando afirma que a reivindicação
pois da partida de Paulo (cf. At. 18:27- final sobre o homem não é a vida neste
19:1). Não há nenhuma evidência de que mundo, mas esta vida vivida no reino de
Paulo e Apoio se sentissem rivais. Deus, que não passará. A cuidadosa
Exortações, saudações e bênçãos (16: exposição a respeito da ressurreição, no
13-24) — Paulo não menospreza a im­ capítulo 15, leva a um grande “portanto”
portância das outras pessoas que tra­ final, que dá lugar ao imperativo da
devoção cristã. A escatologia é um es­
tímulo para a vida cristã, e não um fator Esboço de I Coríntios
de ansiedade.
A fé cristã inclui uma vida obediente. I. Introdução (1:1-9)
A Primeira Epístola aos Coríntios deixa
bem claro que a fé cristã é uma fé 1. Destinatário (1:1-3)
2. Ação de Graças (1:4-9)
obediente, que se renova em cada opor­
tunidade e cada decisão. A obediência II. O Problema das Divisões
não é opcional, no pensamento de Paulo. (1:10-4:21)
O indicativo da ação de Deus abre as
1. Divisões e a Sabedoria
portas para o imperativo da obediência
(1:10-17)
do homem. Repetidamente, no decorrer
2. Judeus e Gregos e a Sabedoria
desta carta, Paulo reclama uma fé que
(1:18-25)
seja obediente às reivindicações morais
3. A Igreja em Corinto e a Sabe­
de Deus e do próximo (10:31; 16:14;
doria (1:26-31)
cf. Rom. 6:12-19).
4. Paulo e a Sabedoria (2:1-5)
A fé cristã se manifesta em amor cris­
5. Os Crentes e a Sabedoria
tão. A maneira pela qual a fé se mani­
(2:6-16)
festa no mundo é através do amor.
6. Os Crentes Imaturos e a Sabe­
0 amor aparece primeiramente em 2:9,
doria (3:1-4)
vem à tona em 8:1-3, é uma corrente
7. Os Apóstolos e a Sabedoria
subterrânea nos capítulos 9 a 12 e volta
(3:5-17)
à tona de maneira plena no capítulo 13.
8. Os Apóstolos e a Sabedoria de
Em nenhuma outra carta Paulo demons­
Deus (3:18-23)
tra tão claramente a primazia do amor.
9. Os Servos de Cristo e a Sua
Em I Coríntios, o amor não é meramente
O bra (4:1-5)
uma emoção, mas uma forma de se viver
10. Os Coríntios e Seus Apóstolos
diante de Deus e com o homem.
(4:6-13)
A fé cristã se expressa na comunidade. 11. Os Coríntios e o Apóstolo
As pessoas não são salvas em isola­
Paulo (4:14-21)
mento, mas em comunidade, servindo a
Deus e ao próximo. A igreja é uma co­ III. O Problema de um M embro Imo­
munhão, de acordo com I Coríntios, que ral da Igreja (5:1-13)
ordena a sua vida pelo Espírito de Deus,
IV. O Problema de Processos Judiciais
e não mediante uma estrutura eclesiásti­
( 6 : 1- 11 )
ca rígida. Não os homens, mas o Espírito
Santo é que dá ordem à sua vida e evoca V. O Problem a do Uso Adequado do
a espontaneidade da adoração em comu­ Corpo (6:12-20)
nidade. Pode-se procurar, mas será em
VI. Perguntas a Respeito do Casamen­
vão, uma hierarquia eclesiástica em
to (7:1-40)
1 Cpríntios. A comunidade é sustentada
pelo Espírito. 1. Casamento e Sexo (7:1-7)
Cristologia — escatologia — obediên­ 2. Os Solteiros e os Viúvos
cia — amor — comunidade — liberdade (7:8-16)
— estes temas, com especial atenção 3. Casamento e Vocação
para a cruz, são a textura de I Coríntios. (7:17-24)
Enquanto a igreja procurar ajuda para 4. Quanto aos Solteiros (7:25-35)
viver a sua vida em épocas de pressão, 5. Noivado e casamento
considerará esta carta de Paulo como (7:36-38)
um tesouro. 6. Quanto às Viúvas (7:39,40)
VII. Perguntas a Respeito da Liberda­ 2. A Importância da Ressurrei­
de Cristã (8:1-11:1) ção (15:12-19)
3. A Ordem dos Acontecimentos
1. Conhecimento, Amor e ídolos (15:20-28)
( 8 : 1- 6 ) 4. Batismo Pelos Mortos
2. A Liberdade Cristã e o Irmão (15:29-34)
Fraco (8:7-13) 5. O Corpo da Ressurreição
3. Privilégios de um Apóstolo (15:35-50)
(9:1-6) 6. O Mistério do Fim dos Tem­
4. O Sustento de um Apóstolo pos (15:51-58)
(9:7-14)
5. A Renúncia de um Apóstolo X. Exortações, Assuntos Pessoais e
(9:15-23) Bênção Finais (16:1-24)
6. A Disciplina da Liberdade 1. Coleta Para os Santos (16:1-4)
Cristã (9:24-27) 2. Planos de Viagem (16:5-12)
7. A Liberdade Cristã e Obediên­ 3. Exortações, Saudações e Bên­
cia Moral (10:1-13) ção (16:13-24)
8. A Liberdade Cristã e a Co­
munhão à Mesa (10:14-22) Bibliografia Selecionada
9. Sumário da Liberdade Cristã
(10:23-11:1)
ALLO, E.B. Saint Paul premiere épitre
aux Corinthiens. Paris: J. Gabalda,
VIII. Perguntas a Respeito da Adoração 1934.
Cristã (11:2-14:40)
BAIRD, WILLIAM. The Corinthian
1. O Uso do Véu Pelas Mulheres Church — A Biblical Approach to
Durante o Culto (11:2-16) Urban Culture. Nashville: Abingdon
2. A Conduta Durante a Ceia do Press, 1964.
Senhor(ll:17-34)
3. O Exercício dos Dons do Espí BARRETT, C. K. The First Epistle to
rito Dados à Igreja the Corinthians. (“Harper’s New
(12:1-31) Testament Commentaries” , Vol.
4. A Primazia do Amor (13:1-13) IX.) New York and Evanston: Har­
1 ) Vida sem Amor (13:1-3) per and Row, Publishers, 1968.
2) Vida em Amor (13:4-7)
3) A Permanência do Amor BULTMANN, RUDOLF. Theology of
(13:8-13) the New Testament. New York:
Charles Scribner’s Sons, 1954.
5. Profecia e Línguas e o Culto
de Adoração (14:1-40)
CONZELMANN, HANS. An Outline of
1) Teste de Interesse Social the Theology of the New Testament.
Inteligente (14:1-25) New York and Evanston: Harper and
2) Teste de Domínio Próprio Row, Publishers, 1968.
(14:26-36)
3) Teste de Decência e Ordem CRAIG, CLARENCE TUCKER. “First
(14:37-40) Corinthians” , Interpreter’s Bible,
ed. GEORGE A. BUTTRICK, Vol.
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Cristo e dos Crentes (15:1-58)
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Comentário Sobre o Texto

I. Introdução (1:1-9) A saudação de uma carta particular


grega segue o padrão: O remetente faz
1. Destinatário (1:1-3) a sua saudação ao destinatário. Paulo
segue este procedimento, mas, em vez
1 P a u lo , c h a m a d o p a r a s e r ap ó sto lo de
Je s u s C risto p e la v o n ta d e d e D eu s, e o irm ã o
de usar a saudação grega charein (sau­
Sóstenes, dação), emprega as palavras graça e paz,
2 à ig r e ja d e D eu s qu e e s tá e m C orinto, para expressar o significado cristão da
ao s sa n tific a d o s e m C risto J e s u s , c h a m a d o s epístola. Muitas vezes, em uma carta
p a r a s e r e m s a n to s, com todos o s q u e e m particular grega, a informação de que o
todo lu g a r in v o c a m o n o m e de n o sso S enhor
J e s u s C risto p e la v o n ta d e d e D eu s, e o irm ã o
remetente está orando pelos que recebe­
3 G ra ç a s e ja convosco, e p a z , d a p a r te de rão a carta segue-se à saudação. Nas
D eus, nosso P a i, e do S en h o r J e s u s C risto . cartas de Paulo, freqüentemente o que se
segue é uma expressão de ação de gra­ Paulo, é incerta. Devido ao seu uso em
ças. Os versículos 4 a 9 do capítulo 1 conexão com um mensageiro, tem sido
compreendem a ação de graças em I Co- afirmado que o sentido de apóstolo pro­
ríntios. Precisa ser enfatizado que as vém de antecedentes judaicos, da pala­
cartas de Paulo não são particulares, mas vra shaliach, significando o representan­
apostólicas. São escritas em virtude de te temporário, comissionado pelas auto­
sua autoridade e servem para levar avan­ ridades judaicas, e que agia com plenos
te a causa de Cristo. poderes, em nome dos que o haviam
A palavra chamado é erradamente enviado.
omitida nos manuscritos A e D. A ex­ Recentemente, tem sido dito que a
pressão com todos os que em todo lugar palavra apóstolo deve ser pesquisada,
invocam o nome de nosso Senhor Jesus quanto às suas origens, no uso que dela
Cristo é considerada, por algumas pes­ se fazia no movimento missionário gnós-
soas — mas sem base suficiente — como tico pré-cristão, no meio do gnosticismo
adição editorial, para mostrar a relação judeu ou judaico-cristão na Síria. Isto
da carta com a Igreja universal. Prova­ significaria que o conceito original da
velmente, Paulo usa esta expressão para palavra que está por detrás do uso que
lembrar, aos coríntios, os laços que Paulo faz dela é gnóstico. Esta opinião
uniam a igreja em Corinto com as outras é difícil de ser sustentada à luz de I Co­
congregações ao redor do mundo. ríntios 15:7 e Gálatas 1:17, passagens
Paulo é chamado, juntamente com to­ que parecem referir-se claramente à mais
dos os outros crentes, para a salvação antiga comunidade, em Jerusalém.
(cf. 1:24,26). A sua opinião é que Deus Outra possibilidade é que o significado
chama os homens, em Cristo, através dos da palavra apóstolo tenha surgido essen­
seus próprios meios, para cumprir o seu cialmente dentro da própria comunida­
propósito. Paulo não é homem que se fez de cristã. Jesus enviou emissários (Luc.
sozinho; ele apenas respondeu ao cha­ 9:48; 24:47,48; João 17:18; 20:21; Mat.
mado de Deus. O chamado de Deus é 28:19,20). Paulo enfatiza ter visto o Se­
mais do que um convite para a sua graça; nhor ressurrecto, de ter recebido orde­
é uma conclamação para o cumprimento nação diretamente dele e de ter cumprido
do seu propósito. 0 ministério de apóstolo (Gál. 1:1,16;
Paulo é também um apóstolo, alguém 1 Cor. 9:1; 15:7-9; II Cor. 10-13). De
enviado em favor de outrem. A sua auto­ maneiras importantes, o apóstolo Paulo é
ridade de apóstolo é derivada do seu semelhante ao profeta do Velho Testa­
chamado, e não de si mesmo. A sua vo­ mento, que tinha um chamado de Deus e
cação provém do seu Deus, e não da uma mensagem para entregar (cf. Jer.
comunidade (cf. Gál. 1:1). O seu direito 1:4-19; 4:19-22; 15:16-20).
de falar e de ser ouvido se baseia no Provavelmente, o ofício judaico de sha­
fato de que ele é um apóstolo de Jesus liach foi transformado, na comunidade
Cristo. Como apóstolo, é tanto chamado primitiva cristã, no de apóstolo, que é
como enviado. Paulo usa a palavra ordenado, pelo Senhor ressurrecto, como
“apóstolo” para referir-se aos doze discí­ missionário e proclamador permanente
pulos (15:5,7), para designar os que ha­ do evangelho de Cristo.
viam visto o Senhor ressurrecto (Gál. O ministério de Paulo tem lugar pela
1:16) e para referir-se a pessoas que vontade de Deus. A expressão Cristo
eram notáveis, por terem ajudado a dis­ Jesus reúne a pessoa (Jesus) e a sua obra
seminação do evangelho (Gál. 1:19; salvadora (Cristo). A carta é enviada por
I Cor. 9:5,6; Rom. 16:7). alguém que é enviado por Cristo. Quan­
A origem da palavra “apóstolo” , da do Paulo emprega a palavra irmão em
maneira como é usada nas cartas de referência a Sóstenes, a quem ele associa
consigo próprio, nesta carta, usa uma (cf. Rom. 1:7; Êx. 19:6). Paulo é “cha­
palavra empregada na vida religiosa ju­ mado para ser apóstolo” e os coríntios
daica e grega (cf. II Macabeus 1:1). são “chamados para serem santos” .
Jesus a usa para referir-se aos que fazem A palavra “chamado” é um adjetivo.
a sua vontade (Mar. 3:35). Os crentes Paulo faz os coríntios se lembrarem de
são irmãos porque foram adotados na que eles estão ligados, na unidade da fé,
mesma família de Deus, através de Cristo com todos os que em todo lugar invocam
(cf. Rom. 1:13). Sóstenes pode ser a o nome de nosso Senhor lesus Cristo.
pessoa mencionada em Atos 18:17. Ele e Eles não estão sozinhos na terra, mas
Paulo não são co-autores, mas coopera- ligados aos fiéis em todo o mundo. A
dores. Igreja se estende até onde o chamado de
Paulo dirige a sua carta à igreja de Deus é ouvido e atendido por fé. Por
Deus. A palavra igreja relembra a assem­ outro lado, Paulo pode estar dizendo que
bléia de Deus mencionada na Septuagin- os cristãos em Corinto são chamados
ta em Deuteronômio 23:2-4. Jesus usou para uma vida de santidade, juntamente
esta palavra em Mateus 16:18 em sentido com os cristãos de toda parte (cf. II Cor.
universal, e, em Mateus 18:17, em senti­ 1:1). Ê interessante que Paulo nunca usa
do local. Paulo também a usou em am­ a palavra “cristão” , usada pela primeira
bos os sentidos: em sentido local, como vez em relação à igreja em Antioquia
aqui, e para todos os fiéis, como em 15:9. (At. 11:26) em qualquer uma de suas
Os gregos a usavam para referir-se a cartas. As expressões Cristo Jesus e Je­
qualquer assembléia secular (cf. At. 19: sus Cristo não são diferenciadas facil­
32,41). No pensamento de Paulo, a Igre­ mente.
ja é o povo de Deus reunido em Jesus Senhor é tradução da palavra grega
Cristo. A igreja de Deus é uma cui­ kurios, usada na Septuaginta para tra­
dadosa recordação, para os coríntios, de duzir a palavra hebraica conhecida, hoje,
que a Igreja pertence a Deus, e não ele como Yahweh. Ela é empregada também
à Igreja. Esta frase remove toda a tira­ no primeiro século d.C. na Síria, Egito
nia humana do controle da Igreja. e Ãsia, como designação dos deuses das
A Igreja não pertence ao povo.; é o povo seitas pagãs. Paulo refere-se ao fato de
que pertence à Igreja; e esta, a Deus. que, através do mundo, os homens têm
Aos santificados é uma referência à muitos senhores (cf. 8:5). A petição Ma-
santidade ou consagração concedida ao ranatha, que se traduz como “Vem, nos­
povo de Deus. A Igreja é entidade se­ so Senhor!” é aramaica, a língua da
parada, para servir a Deus. É uma co­ comunidade mais antiga dos cristãos ju ­
munidade de dedicação. Santificados re­ deus (16:22).
fere-se a uma nova condição de pessoas, Falar de Jesus como Senhor é procla­
que são consagradas a Deus. Santifica­ mar que ele é o dominador do mundo e
ção é dom de Deus, e não coisa que o mediador do relacionamento do homem
homem alcançou por seus próprios meios com Deus. O título nosso Senhor Jesus
(cf. 6:11). Não obstante, requer-se dos Cristo provavelmente se originou nas
santificados que também transformem a igrejas gentias helénicas, como uma atri­
sua posse de consagráção em um alvo buição de adoração (cf. 8:6). Jesus dá
(cf. II Cor. 7:1). Santificação é tanto testemunho de uma vida histórica; Se­
condição quanto progresso na vida cristã. nhor se relaciona com a adoração; e
A igreja em Corinto é descrita como os Cristo afirma a obra salvadora.
que são chamados para serem santos, Graça é a generosidade de Deus, ines­
pessoas separadas, pela vocação de Deus, perada e imerecida. Paz, considerada
para o serviço a Deus, enquanto se en­ como dom da era messiânica, é vida em
tregam em obediência a Deus, em Cristo harmonia com o propósito de Deus e é
baseada em uma reação favorável à sua Deus, que foi dada em Cristo lesus. A
graça. Graça fala da ação de Deus em sua vida é marcada por agradecimentos,
favor do homem. Aponta para Deus, e porque a vida dos coríntios é marcada
de Deus para o homem. Fala não apenas pela graça. Embora os coríntios sejam,
da atitude de Deus, mas dos seus dons, em sua maioria, materialmente pobres
ou seja, suas dádivas. Paz fala da con­ (1:26), pela graça de Deus, são espiri­
dição do homem depois que Deus agiu tualmente ricos, porque foram enriqueci­
em seu favor e ele correspondeu. Paulo dos em toda palavra, falando em línguas
assevera que graça e paz são dons de (12:10,28), em profecia (14:1) e outros
Deus e de Cristo, que estão separados um tipos de expressão cristã (12:8). Eles pos­
do outro, e, no entanto, ligados um ao suem todo o conhecimento ou compreen­
outro. Enquanto Deus é mencionado são intelectual. Conseqüentemente, pos­
como Pai, no Antigo Testamento (Sal. suem os dons tanto de proclamar como
103:13), é Jesus quem apresenta o título de entender a verdade. Paulo expressa
fundamental para uma devida compreen­ gratidão pelos tessalonicenses, porque
são de Deus (Mat. 6:9; Mar. 14:36). eles possuem fé, esperança e amor
Ao falar de Deus como Pai, Paulo está (I Tess. 1:3). A palavra conhecimento
seguindo Jesus e estabelecendo uma com­ (gnósis) é usada, por Paulo, dez vezes em
preensão de Deus em termos de amor, I Coríntios, e seis vezes, em II Coríntios.
autoridade e obediência. Isto é, aproximadamente, duas vezes
2. Ação de Graças (1:4-9) mais do que é usada em todas as suas
outras cartas. Sugere que a devida com­
4 S em p re dou g r a ç a s a D eu s p o r vós, p e la preensão do conhecimento é um proble­
g ra ç a de D eus q ue vos íol d a d a e m C risto
J e s u s ; 5 p o rq u e e m tudo fo ste s en riq u e cid o s
ma característico dos coríntios.
nele, e m to d a p a la v r a e e m todo o c o n h eci­ O testemunho de Cristo, isto é, a pre­
m ento, 6 a s s im com o o te s te m u n h o d e C ris­ gação concernente a Cristo, em que Pau­
to foi c o n firm a d o e n tr e v ó s ; 7 d e m a n e ira que lo está empenhado, transformara a vida
n en h u m dom vos fa lta , e n q u a n to a g u a rd a is dos coríntios. A mudança na orientação
a m a n ife sta ç ã o de nosso S enhor J e s u s C ris­
to, 8 o q u a l ta m b é m vo s c o n firm a rá a té o de suas vidas é confirmação para o evan­
fim , p a r a se rd e s Irre p re e n sív e is no d ia de gelho (cf. Rom. 10:14-17). Nenhum dom
nosso S enhor J e s u s C risto . 9 F ie l é D eu s, vos falta significa que os coríntios pos­
pelo q u a l fo stes c h a m a d o s p a r a a co m u n h ão suem vários dons do Espírito Santo que,
de seu F ilh o J e s u s C risto nosso S enhor.
infelizmente não usam com entendimen­
Esta passagem, que constitui um agra­ to. Grande parte de I Coríntios torna
decimento, sugere comparação com ou­ clara esta verdade. O problema deles é
tras cartas de Paulo. Como Romanos e uma compreensão imatura dos dons espi­
11 Coríntios, ela é estruturalmente menos rituais, e não uma falta deles.
elaborada e menos formal do que as ações Os coríntios, que possuem os dons
de graça encontradas em I Tessalonicen- necessários para a vida para Deus no
ses, Filipenses, Filemom e Colossenses. mundo, aguardam a manifestação de
Todas estas cartas começam com alguma nosso Senhor lesus Cristo. A palavra
forma de ação de graças. Isto não se en­ usada para traduzir manifestação é apo-
contra em Gálatas, provavelmente, por­ kalupsin, que significa desvendamento
que Paulo estava profundamente pertur­ ou revelação. Eles esperam o segundo
bado com a igreja naquela região. É cla­ advento, sustentado pelo Cristo vivo,
ro que as ações de graças de Paulo cuja palavra neles é firmada pelo Es­
refletem a situação que ele confronta em pírito (Ef. 1:13,14). A igreja possui uma
cada igreja a que escreve. confiança, que é uma dádiva do seu
Paulo afirma quç dar graças é o pa­ Redentor. Ele, que redime o nosso pre­
drão de sua vida, por causa da graça de sente, assegura o nosso futuro. A comu-
nidade de Cristo é uma comunidade es­ II. O Problema das Divisões
perançosa. Cristo é tanto aquele que veio (1:10-4:21)
como aquele que virá. O dia de nosso
Senhor Jesus Cristo é outra forma de
expressar a segunda vinda. Os primeiros quatro capítulos cons­
Fiel é Deus. Ele chama, e também tituem uma unidade e tratam, primor­
preserva (cf. I Tess. 5:24; Fil. 1:6). A dialmente, do problema da divisão, na
fidelidade de Deus é a maneira pela qual igreja em Corinto, e do assunto da sa­
ele demonstra o seu amor, e tal fide­ bedoria, que é central para o entendi­
lidade em amor é a base para o agrade­ mento e solução do problema da divi­
cimento de Paulo. A fidelidade de Deus são. Correndo como uma torrente sub­
sustenta a salvação pela fé. Ele guarda­ terrânea, pelos quatro primeiros capítu­
rá todos os que são chamados para a co­ los, está uma exposição do ministério e
munhão de seu Filho. A palavra traduzi­ do apostolado de Paulo, manifestado em
da comunhão é koinonia, que significa Corinto. A proeminência da cruz de Je­
compartilhamento. Os cristãos coríntios sus Cristo é central no pensamento de
compartilham, como comunidade, dos Paulo. Enquanto os coríntios falam de
benefícios da obra de Cristo. É Cristo sabedoria esotérica, Paulo proclama um
quem cria a comunhão; os coríntios en­ crucificado, alguém que é realmente a
tram nela. Eles participam juntos, por­ sabedoria de Deus.
que participam de Cristo e do relaciona­ O problema das divisões é apresentado
mento dele com Deus. Comunhão refere- agudamente em 1:10 e continua até 1:17.
se, primeiramente, a um relacionamento Em 1:18, Paulo volta a sua atenção para
com Cristo, e, em segundo lugar, a um a sabedoria, e prossegue até 2:16. Come­
relacionamento com os outros (cf. Fil. çando em 3:1, o problema das divisões
1:5). _____ na igreja é considerado mais de perto
Paulo refere-se a Jesus como o Filho e é o assunto da carta até 4:21.
(de Deus) em várias de suas outras cartas Paulo está escrevendo a toda a igreja,
(cf. Gál. 2:20; 3:16; Ef. 4:13; Rom. 1:4, e não a partidos individualmente. O tra­
9; Col. 1:13). tamento extensivo que ele dá à sabedoria
O título “filho de Deus” é dado a anjos pode indicar que os problemas relativos à
no Velho Testamento (Sal. 29:1; Dan. sabedoria e às contendas são causados
3:25). Ele é usado também para refe- por gnósticos, que dão grande ênfase ao
rir-se ao povo de Israel como um todo conhecimento esotérico, ou sabedoria, e,
(Êx. 4:22; Os. 2:1; Is. 30:1; Jer. 3:22). através do seu orgulho, criam conflitos
Refere-se ao rei em II Samuel 7:5 e Sal­ na igreja.
mos 89:27. Em Sabedoria de Salomão Embora seja bem fácil sugerir uma
2:10, refere-se a um homem justo sofre­ identificação experimental de três dos
dor. Refere-se, essencialmente, à eleição supostos grupos existentes em Corinto,
divina para uma tarefa determinada por é muito difícil estar certo da identidade
Deus. do “partido de Cristo” . Entre as possi­
A identificação do Messias como Filho bilidades encontram-se ( 1) os judaizantes
de Deus ocorre em Marcos 14:61 e Ma­ (II Cor. 11:12-29); (2) os “pneumáticos”
teus 16:16. Paulo usa esse título em (pessoas que se jactavam de dons exclu­
sentido funcional, como em Romanos sivos do Espírito); (3) partidários de Tia­
1:4; mas referências como as de Roma­ go, irmão de Jesus; (4) advogados de
nos 1:3; 8:3; 9:5; Gálatas 4:4 e I Co­ Deus, da liberdade e da imortalidade;
ríntios 15:24-28 sugerem algo mais do (5) discípulos de opiniões que só Paulo
que eleição e dedicação ao plano de aprova; (6) proponentes de opiniões que
redenção elaborado pelo Pai. Paulo rejeita; (7) gnósticos libertinos.
Alguns eruditos notam que Clemente viou p a r a b a tiz a r, m a s p a r a p r e g a r o e v a n ­
de Roma (96 d.C.) não menciona um gelho ; n ã o e m s a b e d o ria d e p a la v r a s , p a r a
não se to r n a r v ã a c ru z d e C risto .
partido de Cristo, em sua carta a Corin­
to, ao enumerar os partidos que haviam Paulo apela para a unidade entre os
criado perturbação naquela igreja. Eles irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus
concluem que as palavras “Eu sou de Cristo. Ele declara expressamente que
Cristo” constituem uma glosa, uma con­ ouvira falar da presença de divisões, ba­
jectura à luz da declaração “ Será que seadas, provavelmente, na lealdade a ou­
Cristo está dividido?” (1:13). Outros su­ tras pessoas. Ele declara que está alegre
gerem que essa expressão é o protesto de porque não batizou muitos dos coríntios,
Paulo contra as divisões que estava come­ e desta forma não se tornou uma fonte de
çando a emergir ali. Nenhuma definição divisões na igreja. Sua prioridade é a
realmente adequada do partido de Cristo pregação. O fato de que a carta é dirigi­
se recomenda a uma maioria de estudio­ da a toda a igreja, provavelmente, indica
sos. Presumir que esse partido é um que, embora existissem facções, eles não
grupo “gnostizante” é, talvez, a melhor se haviam endurecido, colocando-se em
sugestão que já foi feita. campos irreconciliáveis. Os crentes não
Em vários pontos da carta, Paulo pa­ estão separados da igreja, mas separados
rece estar atacando pontos de vista seme­ dentro dela.
lhantes a alguns que aparecem no se­ Os membros da mesma família são
gundo século, em alguns grupos gnôs- irmãos, e os irmãos (crentes) têm uma
ticos. Embora seja um erro, à luz do base para procurar unidade, porque têm
conhecimento presente, considerar o par­ o mesmo Pai. As dissensões são schis-
tido de Cristo como equivalente aos gnós- mata ou “separações” . São, por assim
ticos do segundo século, parece possível dizer, “trincas” , mas não separações
que estava surgindo, em Corinto, uma completas, em grupos à parte. Unidos é a
compreensão (ou incompreensão) gnôs- restauração a uma condição correta. No
tica incipiente da fé cristã. Talvez o mesmo pensamento significa a mesma
grupo em questão possa ser chamado de estrutura mental, e no mesmo parecer
“protognóstico” . Porém, deve ser repe­ significa no mesmo propósito. Paulo está
tido que é impossível uma clara identifi­ recomendando uma unidade que reflita a
cação das crenças dos quatro partidos. unicidade em Cristo, e dê um testemu­
nho convincente do evangelho da cruz.
1. Divisões e a Sabedoria (1:10-17)
Contendas, coisa condenada, como
10 R ogo-vos, irm ã o s , e m n o m e d e n o sso “obra da carne” (do homem pecador)
S enhor J e s u s C risto , q u e s e ja is co n c o rd e s em Gálatas 5:20, foram relatadas pelos
no fa la r, e q ue n ã o h a ja d issen sõ e s e n tr e da família de Cloé. Cloé apelido da deusa
v ó s; a n te s s e ja is u nidos n o m e s m o p e n s a ­ Demeter, é um nome freqüentemente
m en to e no m e s m o p a r e c e r . 11 P o is a r e s ­
p eito d e vós, ir m ã o s m e u s , fui in fo rm a d o dado a escravos. Ela é uma pessoa que
pelos d a fa m ília de Cloé q u e h á c o n te n d a s possui escravos, ou que emprega pessoas
e n tre vó s. 12 Q uero d iz e r, co m isto , q u e c a d a livres. Cloé é mencionada apenas aqui,
u m de v ó s diz: E u sou d e P a u lo ; ou, E u d e em todo o Novo Testamento. Não está
Apoio; ou, E u d e C e fa s; ou, E u d e C risto .
13 S e rá q u e C risto e s tá div id id o ? foi P a u lo
claro se ela era cristã; é provável que
c ru cificad o p o r a m o r d e v ó s? o u fo ste s v ó s alguns membros de sua família fossem.
b a tiz a d o s e m n o m e de P a u lo ? 14 D ou g ra ç a s Embora seja óbvio que vários líderes
a D eus q u e a n e n h u m de vós b a tiz e i, se n ã o cristãos notáveis se tornam fonte de divi­
a C rispo e a G alo ; 15 p a r a q u e n in g u é m são, é impossível isolar e formular minu­
d ig a q u e fo stes b a tiz a d o s e m m e u n o m e .
16 É v e rd a d e , b a tiz e i ta m b é m a fa m ília de ciosamente as várias crenças dos quatro
E s té f a n a s ; a lé m d e s te s , n ã o se i se b a tiz e i grupos mencionados. (Para uma discus­
a lg u m o u tro . 17 P o rq u e C risto n ã o m e e n ­ são detalhada, veja, na Introdução, a
parte 3, referente aos partidos existentes 2:12 considere que o batismo não é im­
na igreja em Corinto.) Talvez a melhor portante. Talvez Paulo esteja enfatizan­
idéia seja que o “partido de Cefas” enfa­ do, contra a opinião de alguns coríntios,
tiza a lei, o “partido de Apoio” , a sabe­ que o batismo não possui poder salvador.
doria, o “partido de Paulo” , os ensinos Ele não está lutando para desvalorizar
de Paulo, e o “partido de Cristo” , uma o batismo, mas para corrigir a ênfase
interpretação gnóstica do evangelho. exagerada que alguns coríntios davam a
Paulo não faz nenhum esforço para re­ ele. A sua referência ao batismo dos
futar as crenças desses diferentes grupos. mortos ou pelos mortos, em 15:29, pode
Ele ataca o espírito que cria, na igreja, referir-se a um ensino que era comum,
tal dissensão e reafirma a realidade teo­ de que o batismo tinha poder salvador
lógica básica, que é a base da reconcilia­ até por procuração.
ção: a cruz de Cristo. Paulo não quer que ninguém diga que
Será que Cristo está dividido? Isto é: foi batizado em meu nome. Há anos,
foi Cristo dividido entre vocês? Claro que Heitmüller sugeriu que esta expressão
não! Cristo é um, e a igreja em Corinto refletia uso generalizado, pelo qual uma
também precisa sê-lo. Afinal de contas, a pessoa era levada a pertencer a outra.
igreja em Corinto não é um corpo de Conseqüentemente, ser batizado em
cristãos, mas o corpo de Cristo. Dividir a nome de Paulo significaria que a pessoa
igreja é dividir o corpo de Cristo. A me­ batizada pertencia a Paulo, como alguém
táfora do corpo é uma das mais vivas que que pertence ao seu senhor. Mas Paulo
Paulo usa para descrever a igreja, como crê que os que são batizados pertencem a
aparece claramente no capítulo 12 (cf. Cristo, e só a Cristo.
Rom. 12:4-7; Col. 3:15; Ef. 4:14-16).
Nas religiões de mistério, às quais al­
Foi Paulo crucificado por amor de vós?
guns dos cristãos em Corinto podiam ter
Paulo enfatiza o significado de Cristo,
pertencido anteriormente, a pessoa ini­
que morreu na cruz. Há uma terceira
pergunta: ou fostes vós batizados em ciada na seita freqüentemente sentia um
nome de Paulo? A solução para um laço íntimo, que a ligava ao sacerdote
espírito faccioso se focaliza na cruz, na iniciador, que era chamado de “Pai” .
redenção dos homens efetuada por Deus. Desta forma, em Corinto os laços entre
Os versículos 14 a 17 indicam que es­ batizador e batizado podiam ter-se tor­
tavam dando, em Corinto, uma ênfase nado cada vez mais fortes, intensos e
expressos.
exagerada ao batismo, à pessoa que bati­
zava, ou a ambos. Paulo nega que o batismo cria uma
Quando Paulo afirma: A nenhum de relação peculiar entre a pessoa que é
vós batizei, senão a Crispo e a Gaio e batizada e a pessoa que a batiza. A rela­
batizei também a família de Estéfanas, ção peculiar é com Cristo, que envia os
está querendo dizer que não atribuía seus pregadores e os seus batizadores a
nenhuma eficácia salvadora nem ligava Corinto. Conseqüentemente, Paulo não
qualquer significado especial ao agente, menospreza o batismo, mas o coloca na
no batismo. Se o batismo possuísse qual­ devida perspectiva. Ele considera que a
quer eficácia especial, Paulo gostaria de sua vocação é pregar, e não batizar:
lembrar os nomes das pessoas que ele Porque Cristo não me enviou para bati­
salvara dessa forma! Crispo é menciona­ zar, mas para pregar o evangelho. A obra
do em Atos 18:8, Estéfanas, em I Co- de batizar pertence a outros. Claramen­
ríntios 16:15, e Gaio, em Romanos te, Paulo não coloca o batismo no mesmo
16:23. Não é provável que o homem que nível da pregação. A proclamação do
escreve o que escreve em relação ao ba­ evangelho precede o batismo, e o batismo
tismo em Romanos 6:1-11 ou Colossenses recebe o seu significado do evangelho.
A menção de notáveis líderes cristãos, de Cristo e constituem em negação clara
como Apoio e Cefas, indica que, sem do evangelho da graça e da paz. Cristo
qualquer desejo expresso da parte deles, não pode ser dividido; assim, quando a
esses irmãos haviam-se tornado motivo sua Igreja é dividida, ela nega Cristo,
de divisão na igreja coríntia. Portanto, é fazendo dele uma fonte de divisão entre
provável que mal-entendidos não apenas os homens, quando ele veio aos homens
a respeito do batismo, mas também do para ser uma fonte de cura.
papel do batizador desempenhassem A unidade que o evangelho propicia à
uma parte importante nas contendas que Igreja é um dom. Ela não surge dentro
havia em Corinto. A referência que Paulo do homem, mas é um dom que vem a ele.
faz a Apoio, em 4 :6, ajuda a indicar que Os coríntios já haviam recebido o único
uma espécie de culto à personalidade presente que precisavam para curar as
estava surgindo em Corinto. suas divisões: as boas-novas da cruz.
Cristo não envia Paulo em sabedoria Este é o meio indicado por Deus para
de palavras, que significa retórica sofis­ propiciar cura às pessoas que estão afas­
ticada, mas com a simples verdade da tadas dele; é a forma de cura para as
mensagem. A cruz não precisa ser ves­ pessoas que se estão afastando umas das
tida de floreios, mas apresentada sem outras e, portanto, de Cristo, que se
adereços, em sinceridade. Uma coisa tão manifesta dentro da Igreja. Paulo apela
importante como a maior mensagem de para os membros da igreja para que re­
Deus não precisa de qualquer floreio flitam na realidade de sua experiência
retórico de que o homem é capaz. Como cristã, e encontrem, em uma relação vital
nota um comentarista, as boas-novas não com Deus, um encorajamento para curar
são sabedoria, mas salvação. as suas diferenças. Todos os líderes ecle­
Paulo apela para a igreja em Corinto, siásticos e todos os interesses teológicos
em 1:10-17, para que encontre uma fonte precisam ser entendidos à luz do senho­
de unidade em seu Redentor. Ele é capaz rio de Cristo, que não é repartido com
de fazer isso com toda a liberdade, por­ nenhum homem, e à luz da realidade da
que não está apelando meramente para a salvação, unicamente através da fé.
força de vontade ou para qualquer dom
nativo, dos coríntios, que estivesse em 2. Judeus e Gregos e a Sabedoria
desuso. Ele os está fazendo lembrar que (1:18-25)
a base da unidade se encontra fora deles
mesmos. Não pede que eles olhem para 18 P o rq u e a p a la v r a d a c ru z é d e v e ra s
lo u c u ra p a r a os q u e p e re c e m ; m a s p a r a
dentro de si próprios, mas além de si nós, q u e som os salv o s, é o p o d e r de D eus.
mesmos, para Deus, que lhes enviara 19 P o rq u e e s tá e s c r ito :
“seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” D e stru ire i a sa b e d o ria dos sáb io s,
(1:9). Os homens precisam olhar para e a n iq u ila re i o e n te n d im e n to dos e n te n d i­
longe dos seus pecados, para aquele que dos.
20 O nde e s tá o sáb io ? O nde o e s c rib a ? O nde
tira os seus pecados através do seu poder o q u e stio n a d o r d e ste sécu lo ? P o rv e n tu ra
operando neles. não to rn o u D eu s lo u ca a sa b e d o ria d e ste
A base para a unidade é o evangelho m und o ? 21 V isto com o n a s a b e d o ria d e D eus
da graça de Deus, revelado em Cristo o m u n d o p e la s u a sa b e d o ria n ã o co n h eceu
a D eus, a p ro u v e a D eu s s a lv a r p e la lo u c u ra
Jesus (1:4). Ê excusado supor que os d a p re g a ç ã o os q u e c rê e m . 22 P o is , e n q u a n ­
crentes podem encontrar base para a to os ju d e u s p e d e m sin a l, e os g re g o s b u s ­
unidade nos conflitos a respeito de as­ c a m sa b e d o ria , 23 nós p re g a m o s a C risto
suntos teológicos ou personalidades hu­ cru cific ad o , que é e sc â n d a lo p a r a os ju d e u s ,
e lo u c u ra p a r a os g re g o s, 24 m a s p a r a os que
manas quando negam a unidade, que é são c h a m a d o s, ta n to ju d e u s c o m o g re g o s,
fundamental para a comunidade que C risto, p o d e r d e D eu s, e sa b e d o ria d e D eu s.
Cristo cria. As facções dividem o corpo 25 P o rq u e a lo u c u ra d e D eu s é m a is s á b ia
que os h o m e n s ; e a fra q u e z a de D eus é m a is de Deus à loucura do homem (cf. Rom.
forte que os h o m en s. 1:18). Paulo está confiante que Deus é
Ê difícil saber como definir sabedoria, capaz de fazer da cruz o instrumento
em suas várias manifestações, nesta pas­ eficiente da salvação. É a fé que per­
sagem. Algumas pessoas sugerem que, cebe que a autonegação e o auto-sacrifí-
em 1:19 e 1:21, Paulo se refere à reve­ cio da cruz não são loucura e fraqueza,
lação manifestada na natureza (cf. Rom. mas sabedoria e poder de Deus.
1:19,20). Outras propõem que Paulo está A citação de Isaías 29:14, encontrada
atacando a cristologia dos seus adver­ no verso 19, difere um pouco da redação
sários, no verso 23. O versículo 20 in­ da Septuaginta, seja porque Paulo está
dica que Paulo tem em mente não apenas citando de memória, seja porque está se­
algum pensador gnóstico, mas os rabis guindo uma tradução diferente, como em
judeus e os polemistas profissionais tam­ 14:21. Sabedoria é usada de uma ter­
bém (cf. At. 17:21). A palavra sabedoria, ceira maneira no verso 2 1, como o plano
no verso 2 1, provavelmente significa a de salvação elaborado por Deus (Os dois
sabedoria centralizada no homem, da primeiros modos de usá-la estão nos ver­
segunda vez que ela é usada. A sabedoria sos 17 e 19). Toda sabedoria centrali­
deste mundo é a sabedoria humana pro­ zada no homem na verdade não conse­
priamente dita. É sabedoria falsa, por­ gue conhecer a Deus. Os coríntios, jun­
que não conhece a Deus. É loucura dian­ tamente com todos os outros homens
te de Deus (3: 19). egocêntricos, não podem conhecer Deus
Em 1:17, sabedoria é uma forma de pela sua sabedoria.
expressão; em 1:19, uma forma de pen­ E possível que Paulo se esteja referin­
samento; em 1 :2 1, o plano de salvação do, aqui (v. 2 1), ao fracasso do homem
elaborado por Deus, da primeira vez que em observar a revelação de Deus presente
é usada. A maneira de Paulo entender na natureza. Os homens não redimidos
Cristo como sabedoria, em 1: 24,30, pre­ dizem que a Palavra da cruz é loucura,
cisa ser considerada em contraposição à porque parece loucura crer que ela é
maneira de os judeus a entenderem, en­ a sabedoria de Deus. Para tais pessoas,
contrada em Provérbios 8:22-31 e em alguém que não pode salvar-se da cruz —
Sabedoria de Salomão 7:7-8:1. A pala­ e Jesus não pudera — não pode salvar os
vra da cruz é simplesmente o evangelho, outros. Não obstante, Paulo declara que
que se centraliza no Cristo crucificado. os homens que têm fé na obra de Deus,
A mensagem que é proclamada tem um em Jesus Cristo, são salvos (cf. II Cor.
duplo efeito: para os que perecem é 5:17-19). Nenhuma sabedoria esotérica,
loucura, mas para nós, que somos sal­ nenhuma sabedoria reflexora, nenhuma
vos, é o poder de Deus. A sabedoria de sabedoria retórica, leva a um conheci­
Deus não é encontrada em palavras hu­ mento de Deus. Esta passagem é o evan­
manas, mas em uma dádiva divina — gelho de salvação apenas pela fé, prega­
Cristo crucificado. Os que perecem são do por Paulo, mas em um contexto di­
os que rejeitam o evangelho. O fato de ferente do encontrado em Romanos. Em
perecerem está em processo. Paulo fala Romanos, a ênfase não é a lei, mas a fé;
no presente. Os que somos salvos são os em Coríntios, não é a sabedoria, mas a
que vivem uma vida de obediência reno­ fé.
vada dia a dia na vitalidade da fé. A sal­ Os homens não estão dispostos a co­
vação tem um começo (Rom. 8:24) e nhecer Deus apenas pela fé. Os judeus
uma continuidade, como Paulo declara pedem sinal, algo para verem, antes de
aqui. Não é somente um ato de fé, mas crerem. Os gregos buscam sabedoria,
também uma vida de fé (cf. Rom. 1:16, algo sobre que possam raciocinar. Po­
17; 13:14). O poder de Deus é a resposta rém Deus não se submete aos homens;
são os homens que se submetem a Deus, m u n d o p a r a co n fu n d ir o s s á b io s ; e D eu s
em fé. O conhecimento de Deus provém esco lh eu a s c o is a s f r a c a s do m u n d o p a r a
co n fu n d ir a s fo r te s ; 28 e D eu s e sc o lh e u a s
através da rendição a Deus, e não atra­ c o isas ig n ó b eis do m u n d o , e a s d e s p re z a d a s ,
vés de declarações a respeito dele. Á sa­ e a s q u e n ã o sã o , p a r a re d u z ir a n a d a a s que
bedoria humana é a sabedoria que o sã o ; 29 p a r a q u e n e n h u m m o r ta l se g lo rie
homem pode dominar; a sabedoria de n a p re s e n ç a d e D e u s. 30 M a s v ó s so is d e le,
e m C risto J e s u s , o q u a l p a r a n ó s foi feito
Deus é a sabedoria que domina o ho­ p o r D eu s sa b e d o ria , e ju s tiç a , e s a n tific a ­
mem. ção, e re d e n ç ã o ; 31 p a r a q u e , co m o e s tá
O que os homens podem ver (sinais) e sc rito : A quele q u e g lo ria , g lo rie-se n o S e­
e o que podem pensar (sabedoria) fazem nh o r.
parte da auto-suficiência humana. Po­
rém constituem no orgulho humano, e A igreja em Corinto conseguira os seus
jamais podem em si conhecer a Deus. membros, em sua maior parte, nas ca­
Confiar em si mesmo nunca leva a con­ madas mais baixas da população, a des­
fiar em Deus. A cruz significa que Deus peito da declaração de Atos 18:8 e Ro­
é conhecido na morte do homem na cruz. manos 16:23. Não muitos eram sábios
Porém tal conhecimento é dado apenas à (muito inteligentes), ou poderosos (in­
fé. A sabedoria de Deus não é adquiri­ fluentes) ou nobres (da elite social). Os
da; apenas recebida. Os que slo chama­ versículos 27 e 28 indicam que Deus não
dos ouviram a voz de Deus e aceitaram a aceita o caminho humano da salvação,
sua mensagem de salvação. e, sim, traça o seu próprio caminho na
Tanto judeus como gregos, portanto, cruz, desta forma chamando todos os
são culpados de orgulho e falta de fé. homens a humildade e fé na obra salva­
Sendo o poder de Deus, Cristo é Deus em dora de Cristo (cf. Jer. 9:23,24).
operação; sendo a sabedoria de Deus, ele O versículo 29 é uma forma de dizer
é o conteúdo da salvação. A sabedoria de que a humildade, e não o orgulho, é o
Deus não é filosofia, mas o homem na caminho para Deus. A única condição
cruz. Paulo mantém a sua ênfase na que conta para Deus é a necessidade
cruz, através de suas cartas (cf. Gâl. 3:1; humana. Fé em Deus, e não orgulho
5:11; 6:12,14; Fil. 2:8; 3:18; Col. 1:20; diante dele, é o caminho para a salvação.
2:14). Quando os homens aceitam esta verdade
O contemporâneo estóico de Paulo, não se gloriam em si mesmos, mas em
Sêneca, ensinava que o verdadeiro sábio Cristo. Não são marcados pelo orgulho,
é o que coloca a sua confiança na ra­ mas pela fé. A obra de Deus em Cristo
zão. Sabedoria, de acordo com Sêneca, é Jesus é a única fonte de salvação do
o perfeito bem da mente humana. O sá­ homem. Mas vós sois dele em Cristo
bio está cheio de virtudes divinas, e é Jesus, mediante a fé — este é o dom de
“o pedagogo da raça humana” . O ho­ Deus, e não uma conquista do homem
mem sábio de Sêneca é meramente o (cf. II Cor. 5:17-20).
homem auto-suficiente de Paulo, cuja Jactância é um assunto bastante repi­
jactância precisa ser vencida, se ele qui­ sado em I e 11 Coríntios, onde Paulo se
ser conhecer a sabedoria de Deus. refere a ela muito mais freqüentemente
do que em todas as suas outras cartas
3. A Igrçja em Corinto e a Sabedoria juntas. De acordo com Paulo, o homem
(1:26-31) que se vangloria declara a sua autocon­
fiança diante de Deus, e possui um senso
26 O ra , v e d e , irm ã o s , a v o ss a v o c aç ã o , de creditar a si mesmo tudo o que con­
q ue n ã o sã o m u ito s o s sá b io s se g u n d o a
c a rn e , n e m m u ito s os p o d ero so s, n e m m u i­
quista. Jactância é antítese de fé, porque
to s os n o b re s q u e sã o c h a m a d o s. 27 P e lo c o n ­ é auto-afirmação e vanglória das con­
tr á rio , D eu s esco lh eu a s c o is a s lo u c a s do quistas humanas. Visto que a fé é o fim
da autoglorificação, o crente se gloria e não como hipóstase. As várias metá­
apenas em seu Senhor (cf. Rom. 5:11; foras do verso 30 descrevem a realidade
Fil. 3:3). A obra de Deus, em Cristo, e do que Deus fez pela salvação do homem
não a obra do homem, é a base para nos em Jesus Cristo.
gloriarmos. Cristo é nossa justiça, meio pelo qual
Nem a sabedoria do homem nem as somos separados para viver para Deus
obras do homem (Rom. 3:27) conduzem (cf. 6:11). Ele é nossa redenção meio
à salvação, porque ambas centralizam-se pelo qual somos libertos da tirania da lei,
no homem, e não em Deus. Sabedoria e do pecado da carne e da morte, e vi­
obras são simplesmente duas formas de vermos para Deus.
asseverar a autoglorificação. A vocação
de Deus para o homem se faz através da 4. Paulo e a Sabedoria (2:1-5)
cruz. Defrontando-se com a revelação de 1 E e u , irm ã o s , q u a n d o fu i t e r convosco,
Deus, o homem só pode abandonar toda an u n cia n d o -v o s o te s te m u n h o d e D eu s, n ão
a sua autoglorificação, e aceitar em fé o fui co m su b lim id a d e d e p a la v r a s ou d e s a ­
sinal do amor de Deus. b e d o ria . 2 P o rq u e n a d a m e p ro p u s s a b e r
A expressão em Cristo Jesus é usada e n tre v ó s, se n ã o a J e s u s C risto , e e s te c r u ­
cificad o . 3 E e u e stiv e convosco e m f r a q u e ­
freqüentemente por Paulo, em suas car­ za, e e m te m o r, e e m g ra n d e tr e m o r. 4 A m i­
tas (cf. 1:2,4). Ela é muitas vezes en­ n h a lin g u a g e m e a m in h a p re g a ç ã o n ã o
tendida em termos de experiência mís­ c o n sistira m e m p a la v r a s p e rs u a s iv a s d e s a ­
tica, para descrever a intensa relação b e d o ria , m a s e m d e m o n s tra ç ã o do E s p írito
pessoal do crente com Cristo (cf. Gál. e d e p o d e r; 5 p a r a q u e a v o ss a fé n ã o se
a p o iasse n a s a b e d o ria d o s h o m en s, m a s no
2:20; Rom. 8:9). No entanto, em algu­ p o d e r d e D eu s.
mas passagens, Paulo usa a expressão em
que a palavra “cristão” seria usada hoje Nesta seção, Paulo continua a sua dis­
em dia. Em termos mais simples, esta cussão a respeito da sabedoria (sophia).
expressão é a maneira de Paulo declarar Ela ocorre em seis versículos do capítu­
a realidade da salvação. A pessoa que é lo 2. Ele discute os judeus e gregos em
salva está “em Cristo” . Pertence ao povo referência à sabedoria, em 1:19-25, a
escatológico de Deus. Esta expressão in­ Igreja e a sabedoria, em 1:26-31, e o seu
dica a obra de Cristo, que foi crucifi­ apostolado e a sabedoria, em 2:1-5. Em
cado e ressuscitou dentre os mortos, e 2:6-16, ele fala dos crentes e a sabedoria.
também estabelece a realidade da exis­ O significado de sabedoria varia, e pre­
tência cristã, da forma como o crente cisa ser entendido em cada contexto em
a conhece. Estar em Cristo Jesus, nesta que é encontrada essa palavra.
vida presente, é preparação para estar Uma segunda palavra importante, es­
com Cristo na vida por vir. pírito (pneuma), é apresentada pela pri­
Cristo é nossa sabedoria, nosso veículo meira vez e empregada em sete versículos
de conhecimento de Deus. A sabedoria, diferentes, nesse capítulo. Também varia
no pensamento grego, era considerada de significado, como sabedoria, e precisa
como mediadora entre Deus e o homem, ser entendida no contexto.
na criação, e também na salvação. Pa­ Um problema textual se levanta em
rece ser, praticamente, um a hipóstase referência à palavra testemunho, no ver­
separada em Sabedoria de Salomão 7:24- so 1. Outros manuscritos importantes,
10:21. Porém, visto que a loucura é a P 46 e Aleph, contêm, em seu lugar, a
verdadeira sabedoria e visto que a sabe­ palavra “mistério” . As palavras são mui­
doria é empregada, no verso 30, com to semelhantes em grego. Testemunho é
outros termos, que são conceitos, é bem marturion, e mistério é musterion. Visto
provável que sabedoria seja usada aqui que mistério ocorre em 2:7, é a versão
como um conceito ou imagem mental, mais fácil de ser aceita. Por outro lado,
testemunho se enquadra na proclamação sua aparência nada impressionante (Gál.
de Paulo em Corinto. A Today’s English 4:13; II Cor. 10:10), ou aos seus senti­
Version adota mistério como versão cor­ mentos de limitação, em face da impie­
reta, e a traduz como “verdade secreta” . dade da cidade de Corinto.
Um segundo problema textual surge A expressão temor e tremor é usada
em 2:4, com a palavra traduzida como em outros lugares, por Paulo (II Cor.
persuasivas. Importantes manuscritos 7:15; Fil. 2:12; Ef. 6:5), descrevendo
contêm redações diferentes. Tal palavra outras pessoas, mas não a si mesmo.
nunca foi encontrada. Talvez Paulo te­ Essas três palavras devem ser entendidas
nha criado essa palavra. Certamente ela à luz de 1:25. Paulo sabe que qualquer
faz sentido no contexto. mensageiro das boas-novas de Deus deve
Paulo chegou a Corinto e pregou o estar cônscio de sua debilidade (cf. II
evangelho do crucificado sem palavras Cor. 4:7). Quem pode lidar com coisas
persuasivas (oratória sofisticada) ou sa­ santas sem tremer? Quem pode entregar
bedoria (raciocínio astuto). O testemu­ a palavra de Deus sem o temor, que faz
nho de Deus é simplesmente a cruz, pela parte da reverência? É a grandiosidade
qual Deus apela para um homem, o qual de sua missão que faz com que Paulo se
Paulo proclama. Paulo tinha uma men­ sinta tão cônscio de sua pequenez.
sagem clara, que pregava por toda parte: Contudo, a consciência de limitação
o Cristo crucificado. Tanto judeus quan­ pessoal é contrabalançada por confiança
to gregos (especialmente gnósticos) acha­ no poder de Deus. Não palavras persua­
vam difícil crer que Deus se revelara na sivas de sabedoria, ou seja, “palavras
derrota aparentemente ignominiosa de convincentes de sabedoria” (TEV), mas
uma cruz. A impressão de que Paulo o Espírito de Deus é o poder que leva os
adotou uma forma de pregação em Ate­ homens à fé em Cristo. Não há palavras
nas (At. 17) e outra diferente em Corin­ humanas de sabedoria que, exercidas
to — visto que alguns dizem que ele fra­ sobre a reflexão humana, levem os ho­
cassou em Atenas — é apenas conjec­ mens à fé. A maneira cristã de se conhe­
tura. Não há indicação em nenhuma das cer é a informada pelo Espírito. O único
cartas de Paulo de que ele tivesse, em conhecimento verdadeiro é o conheci­
qualquer tempo, outro evangelho, dife­ mento de acordo com a cruz. Só Deus, no
rente de Cristo crucificado. poder do Espírito Santo, leva os homens
O que Paulo enfatizara algures — o à fé. Portanto, não é o homem, mas Deus
Crucificado — ele decidira (me propus) que é poderoso.
colocar no centro de sua pregação em A tarefa do mensageiro não é dar tes­
Corinto. Porém havia, em Corinto, ou­ temunho do seu próprio poder, mas per­
tras pessoas, que não se contentavam em mitir que Deus demonstre o seu poder
pôr a cruz no centro. Colocavam um através da rendição do mensageiro ao
conhecimento esotérico nessa posição, e Espírito Santo (cf. 1:18-25). O evangelho
menosprezavam qualquer ênfase na mor­ da cruz é o poder de Deus, e apela para a
te do Redentor em uma cruz. Paulo sabia fé no que Deus fez, e ainda faz, em Jesus
que as boas-novas de Deus centraliza- Cristo. Deus, pelo poder do Espírito San­
vam-se na morte de Jesus Cristo, e em to, evoca fé e propicia salvação no tempo
nada mais. Ele nunca modificou a men­ presente, através da cruz de Cristo.
sagem e a sua conclamação para a fé. Em Romanos, Paulo estabelece o con­
O ministério de Paulo, em Corinto, dia traste entre a graça de Deus e as obras do
após dia, havia sido caracterizado por homem. Em I Coríntios, ele estabelece o
fraqueza, temor e tremor. Alguns co­ contraste entre o poder de Deus e a
mentaristas sugerem que fraqueza pode sabedoria do homem. Embora a ênfase
referir-se à condição física de Paulo ou à seja diferente, a mensagem e o alvo são
os mesmos em ambas as cartas: concla­ Nesta seção, Paulo fala de duas espé­
mar os homens à fé em Deus, e não à fé cies de espírito: o Espírito de Deus, ou
em si mesmos. Espírito Santo, e o espírito do mundo,
que se centraliza no homem. O espírito
5. Os Crentes e a Sabedoria (2:6-16) do mundo, a sabedoria humana e o
homem natural são maneiras diferentes
8 N a v e rd a d e , e n tr e os p e rfe ito s fa la m o s de descrever as pessoas que não conhe­
sa b e d o ria , n ão , p o ré m , a s a b e d o ria d e ste cem a realidade divina, que o Espírito
m undo, n e m d o s p rín c ip e s d e s te m u n d o ,
q ue e s tã o sen d o red u z id o s a n a d a ; 7 m a s
Santo revela aos que são abertos para
fa la m o s a sa b e d o ria d e D eu s e m m isté rio , ela.
que e s te v e o c u lta , a q u a l D eu s p re o rd e n o u
Começando com 2:6, Paulo não usa
a n te s do s sécu lo s, p a r a n o s s a g ló ria ;
8 a q u a l n e n h u m d o s p rín c ip e s d e s te m u n d o mais “eu” , porém “nós” (cf. v. 7,10,12,
c o m p re e n d e u ; p o rq u e , se a tiv e s s e m c o m ­ 13,16). Ele estabelece o que a Igreja
p reen d id o , n ão te r ia m c ru c ific a d o o S enhor universal recebeu de Deus, em Cristo.
d a g ló ria . 9 M as, com o e s t á e s c r ito : Há, afirma Paulo, duas espécies de sabe­
As c o is a s q ue olhos n ã o v ir a m , n e m o u v i­
dos o u v ira m , n e m p e n e tr a r a m o c o ra ç ã o doria: a sabedoria deste mundo e a sabe­
do h o m e m , sã o a s q u e D eu s p re p a ro u doria de Deus em mistério, que esteve
p a r a o s que o a m a m . oculta. Já foi indicado (veja o comentário
10 P o rq u e D eu s n o-las re v e lo u p elo se u E s ­ a 1:17) que Paulo usa a palavra sabedo­
p írito ; p o is o E s p írito e s q u a d rin h a to d a s ria de quatro maneiras diferentes: (1 ) um
a s co isa s, m e s m o a s p ro fu n d e z a s d e D eu s.
11 P o is, q u a l d o s h o m e n s e n te n d e a s c o isas método retórico (1:17); (2) uma interpre­
do h o m e m , se n ã o o e sp írito do h o m e m q u e tação da vida baseada na luta pessoal do
n ele e s tá ? a s s im ta m b é m a s c o isa s d e D eu s, homem (1:19); (3) o plano e o propósito
n in g u ém a s c o m p re e n d e u , se n ã o o E s p írito de Deus na salvação (1:21); (4) o con­
d e D eu s. 12 O ra , n ó s n ã o te m o s re c e b id o o
e sp írito do m u n d o , m a s , sim , o E s p írito q u e
teúdo da salvação dada em Cristo (1:30)
p ro v é m d e D eu s, a fim d e c o m p re e n d e rm o s (Veja C. K. Barrett, p. 49-56).
a s co isas que n o s fo ra m d a d a s g ra tu ita m e n ­ A sabedoria deste mundo é a inter­
te p o r D e u s; 13 a s q u a is ta m b é m fa la m o s,
n ão co m p a la v r a s e n sin a d a s p e la s a b e d o ria pretação da vida baseada na luta pessoal
h u m a n a , m a s co m p a la v r a s e n s in a d a s p elo do homem. Ela perecerá, porque não
E sp írito S anto, c o m p a ra n d o c o is a s e s p iri­ tem futuro além deste mundo (deste sé­
tu a is co m e s p iritu a is . 14 O ra , o h o m e m n a ­ culo), o presente mundo mau. A sabedo­
tu r a l n ão a c e ita a s c o is a s do E s p írito d e
D eus, p o rq u e p a r a e le sã o lo u c u ra ; e n ão
ria de Deus em mistério, que esteve
pode e n te n d ê -la s, p o rq u e e la s se d is c e rn e m oculta é uma referência ao plano e propó­
e sp iritu a lm e n te . 15 M a s o q u e é e s p iritu a l sito de Deus na salvação, manifestada
d isc e rn e b e m tu d o , e n q u a n to e le p o r n in ­ como dom gratuito em Jesus Cristo cru­
g u ém é d is cern id o . 16 P o is, q u e m ja m a is cificado (cf. 1:23,24). Ela terá um futu­
conheceu a m e n te do S en h o r, p a r a q u e p o ss a
in stru í-lo ? M a s n ó s te m o s a m e n te d e C risto . ro, porque tem um passado no coração
de Deus, que pretendia, desde o começo,
Surge, nesta seção, um problema re­ dar-nos um futuro com ele: a glorifica­
ferente à passagem bíblica citada em 2:9. ção. A palavra nossa glória indica o
A expressão como está escrito quase, cer­ processo da redenção, que será comple­
tamente, é uma forma de identificar uma tado no futuro. A sabedoria cristã é uma
passagem do Velho Testamento. Eviden­ compreensão crescente da vontade de
temente, Paulo está fazendo uma refe­ Deus, revelada em Jesus Cristo, aos ho­
rência excepcionalmente livre, de memó­ mens de fé, que vivem em amor. Deus
ria, a I saías 64:4, ou, se não, está se­ revela, a todos os homens de fé, mediante
guindo um texto que seja consideravel­ o Espírito Santo, que isto é verdade.
mente diferente do que encontramos no Os príncipes deste mundo não enten­
Velho Testamento. deram isto. Eram ignorantes da realida­
de de Deus, em operação em Cristo, ou cúlticos, em que o destino de um deus é
não quiseram aceitá-la. retratado de forma que dá aos devotos da
A quem se refere a expressão príncipes seita uma participação no destino do
deste mundo? Aos príncipes terrenos, ju ­ deus e certeza de salvação, ao participar
daicos e romanos, que foram ativos na da sina da divindade. A celebração era
crucificação de Jesus, ou aos seres invi­ conservada em segredo e revelada apenas
síveis, sobrenaturais. Jesus expulsou de­ aos iniciados.
mônios, e considerou a sua expulsão Os gnósticos do segundo século d.C.
como sinal da atividade de Deus no seu também falam de mistérios e de homens
ministério (Mat. 12:28). As referências perfeitos, teleioi. Entre eles, mistério se
em Romanos 8:38 e Colossenses 1:15,16 refere às coisas escondidas, ao mundo
parecem ser cósmicas, e ir além da es­ celestial, e à origem e redenção do ho­
pécie de demônios que Jesus expulsou. mem, enquanto teleioi se refere aos ini­
Os poderes malignos invisíveis cruci­ ciados na seita. As coisas celestiais são a
ficaram o Senhor da glória (cf. Ef. 1:17; verdadeira esfera dos mistérios. Segre­
At. 7:2; I Enoque 22:14; 25:3; 17:3). dos referentes à esfera das coisas celes­
A palavra glória refere-se ao majestoso tiais são desvendados aos perfeitos, como
esplendor de Deus. O Senhor Jesus Cris­ parte dos rituais de iniciação.
to reflete a glória de Deus. Talvez alguns A palavra mistério ocorre em escritos
dos coríntios estivessem preparados para judaicos posteriores, como Daniel, Sa­
prestar homenagem ao Senhor da glória, bedoria e II Macabeus. Em Daniel, ela
mas não ao Senhor da glória crucificado. se refere a uma revelação escatológica
No que tange a Paulo, a cruz de Cristo cósmica (2:28,29,47). Relaciona-se com
é a realidade, sem a qual não existe o que Deus ordena e fará acontecer, e
Senhor da glória. não ao que Deus sofre, como é o caso nas
A sabedoria em mistério, que esteve religiões de mistério.
oculta não se refere a nenhum ensina­
mento esotérico, ministrado a uma elite O entendimento de Paulo a respeito de
espiritual. Não é pensamento do homem, mistério é escatológico, e relaciona-se a
mas ato de Deus. Ê a obra de Deus na antecedentes judaicos, e não gregos. Ele
vida e morte de Jesus Cristo. É em mis­ aponta, em 2:7, para a sabedoria de
tério e oculta, porque é revelada apenas à Deus, a qual Deus preordenou antes dos
fé. E só homens de fé que são suficiente­ séculos, salvação revelada pela graça de
mente perfeitos (v. 6; na tradução ingle­ Deus na cruz, conhecida pela fé, e sus­
tentada nos crentes pelo Espírito Santo,
sa, “maduros”), suficientemente sensí­
mas escondida dos príncipes deste mun­
veis espiritualmente, são capazes de
aprender em Cristo qual é a profundida­ do.
de da sabedoria. Conseqüentemente, os De acordo com Paulo, o mistério ocor­
maduros (ou perfeitos, em nossa versão) re precisamente na cruz, e não além dela,
não são uma elite espiritual, mas, sim, os em algum conhecimento esotérico. Ela é
fiéis que vivem por fé e em amor. escondida do mundo, mas revelada aos
A primeira parte do verso 7, traduzida espirituais, aos homens de fé. Em Co­
literalmente, é: “mas falamos a sabedo­ lossenses (2:2), o próprio Cristo é o mis­
ria de Deus em um mistério.” “Mistério” tério de Deus. Em Efésios (3:4 e s.), o
^ é uma antiga palavra derivada de mueo, mistério é a inclusão dos gentios na sal­
fechar, trancar ou iniciar (cf. Ef. 3:4,9). vação.
Portanto, sugere segredo. Esta palavra é Portanto, o uso que Paulo faz do mis­
usada amplamente, para descrever as tério tem antecedentes judaicos, em vez
religiões de mistério, comuns no primei­ do encontrado nas religiões de mistério
ro século, e para definir os seus ritos ou no gnosticismo, e o seu uso de teleioi
reflete o significado de maturidade, e não cristã atual. Ele é um homem sem Deus.
a iniciação em uma seita. Para o homem natural ou não-espiritual,
Paulo está falando de uma maturi­ a cruz é loucura. Para o remido, ou
dade em questão de fé, e não uma ma­ homem espiritual, a cruz é salvação.
turidade em rituais secretos. A sabedoria O homem remido (espiritual) tem a ca­
dos versos 6 a 16 é simplesmente um pacidade de investigar e julgar o valor de
aprofundamento da sabedoria expressa a todas as coisas, porque ele possui o Espí­
respeito de Cristo em 1:17-25. O após­ rito de Deus e porque possui o padrão da
tolo identificou como crianças espirituais revelação manifesta em Jesus Cristo. Por
os que se propunham a interpretar Cristo outro lado, ele por ninguém é discerni­
em outros termos que não fossem a cruz. do, porque o homem é responsável diante
Qualquer crente, visto que possui o Es­ de Deus apenas, que julga todos os ho­
pírito, pode possuir a sabedoria de Deus mens (cf. 4:3-5).
em mistério, que esteve oculta, abrindo a Paulo menciona Isaías 40:13 no verso
sua vida à realidade da fé, que se apro­ 16 e, seguindo a LXX, usa a palavra
funda constantemente. Os que fazem mente, em lugar da palavra “Espírito” .
isto são perfeitos. Nesta passagem, Paulo menciona Deus,
Deus dá o seu Espírito aos homens, e o Espírito e Cristo. A mente de Cristo é
Espírito dá-lhes sabedoria. A única pes­ revelada na cruz, que é a manifestação
soa que realmente pode conhecer outra da sabedoria de Deus. Cristo, o crucifi­
pessoa como ela verdadeiramente é, é o cado, é a base e meio de entender-se o
espírito do homem, isto é, a própria significado da vida. Aquele que nos dá
pessoa. Os homens espirituais são aque­ vida nova nos ajuda a interpretar tudo na
les que dependem do Espírito Santo para vida, porque, através da habitação do
interpretar a verdade de Deus para eles, Espírito Santo, temos a mente de Cristo.
e não o espírito do mundo, que está
centralizado no homem. Por seu turno, 6. Os Crentes Imaturos e a Sabedoria
eles interpretam a verdade para os ou­ (3:1-4)
tros, que, como crentes, também pos­
suem o Espírito. As pessoas egocêntricas, 1 E e u , Irm ã o s , n ã o v o s p u d e f a la r com o
que dependem da interpretação do ho­ a e s p iritu a is , m a s com o a c a rn a is , c o m o a
c ria n c in h a s e m C risto . 2 L e ite vos dei p o r
mem a respeito da vida, não sendo in­ a lim en to , e n ã o c o m id a só lid a, p o rq u e n ã o
formadas por Deus, fazem parte da sa­ a pod íeis s u p o r ta r ; n e m a in d a a g o r a p o d e is ;
bedoria humana e do espírito do mundo. 3 p o rq u a n to a in d a sois c a r n a i s ; p o is, h a v e n ­
Sem dúvida, é possível que o espírito do do e n tr e vós in v e ja e c o n te n d a s, n ã o so is
p o rv e n tu ra c a rn a is , e n ã o e s ta is a n d a n d o
mundo se refira ao “deus deste mundo” , segundo os h o m e n s? 4 P o rq u e , dizen d o u m :
Satanás, mencionado em II Coríntios E u sou d e P a u lo ; e o u tro : E u d e A poio; n ão
4:4. sois a p e n a s h o m e n s?
O homem natural (que a versão Revi-
sed Standard Version, usada por este Nesta seção, Paulo continua com o seu
Comentário em inglês, traduz como “ho­ interesse na correta compreensão da sa­
mem não-espiritual”) é o que não possui bedoria. Alguns dos cristãos em Corinto
o Espírito Santo e, por isso, não conhece viviam baseados na sabedoria humana
a realidade divina. O Espírito Santo re­ (cf. 2:4). Eles viviam como pessoas car­
vela realidades espirituais para os que nais ou imaturas (cf. 2:4). Paulo usa
estão abertos para recebê-las. Não pos­ duas palavras diferentes, que são tra­
suindo o Espírito, o homem natural não duzidas como camais. No verso 1, ele
tem a sensibilidade para interpretar a emprega sarkinos, e no verso 3 ele uti­
realidade espiritual que Deus revela, no liza sarkikos. Ambas têm o mesmo signi­
Cristo crucificado, e torna real na vida ficado: egocêntrico, e não centralizado
em Deus. O homem carnal é dominado nas homens. Os homens verdadeiramen­
pelo pecado, e não pelo Espírito de Deus te unidos em Cristo não são desunidos
(cf. Rom. 8:12; II Cor. 10:2). O homem por contendas. Partidarismo não é obra
espiritual não possui substância espiri­ do Espírito, mas do homem (cf. Gál.
tual, mas um dom espiritual de Deus. 5:15-26). Não é do Espírito, mas da
Paulo continua a referir-se aos corín- carne. As pessoas que são guiadas pelo
tios como irmãos. A discussão teológica Espírito de Deus à maturidade espiritual
que ele está sustentando com eles não sabem que pertencem apenas a Cristo.
desfez a comunhão deles na família de A consciência de pertencer a ele trans­
Deus. Contudo, embora se esteja dirigin­ cende a todas as lealdades terrenas.
do a eles como irmãos, ele é incapaz de Não está claro por que Paulo mencio­
referir-se a eles como espirituais. Tal na a si mesmo e a Apoio, no verso 4.
designação pode ser aplicada apenas aos Talvez ele o faça porque há menos ten­
que possuem o Espírito de Deus, e tam­ são entre eles dois. Mencionar Apoio
bém estejam crescendo em entendimento não suscitará reações tão intensas da
espiritual. Os homens espirituais são es­ parte de seus leitores.
piritualmente maduros. Os carnais são
os que são dirigidos por interesses ego­ 7. Os Apóstolos e a Sabedoria (3:5-17)
cêntricos, e não por interesses centrali­
zados em Deus. São criancinhas em Cris­ 5 P o is, q u e é Apoio, e q u e é P a u lo , se n ã o
to; estão no jardim de infância espiritual. m in istro s p elo s q u a is c re s te s , e isso c o n fo r­
m e o q u e o S en h o r c o n ced eu a c a d a u m ?
Estão em Cristo, mas não estão cres­ 6 E u p la n te i; A poio re g o u ; m a s D eu s d eu
cendo nele. Possuem o Espírito, mas não o c re sc im e n to . 7 D e m o d o q u e , n e m o que
estão sujeitos inteiramente a ele. Por isso p la n ta é a lg u m a co isa, n e m o q u e re g a ,
são criancinhas, imaturas espiritualmen­ m a s D eu s, q u e d á o c re s c im e n to . 8 O ra , u m a
te. A diferença está no crescimento espi­ só co isa é o q u e p la n ta e o q u e r e g a ; e c a d a
u m re c e b e r á o se u g a la rd ã o se g u n d o o se u
ritual. O homem genuinamente espiri­ tra b a lh o . 9 P o rq u e nós so m o s c o o p e ra d o re s
tual é a pessoa que vive pelo Espírito de d e D e u s; vós sois la v o u ra d e D eu s e ed ifício
Deus (cf. Rom. 8:4,12-14; Gál. 5:16-26). d e D eu s. 10 Segundo a g r a ç a d e D e u s q u e m e
O ministério de Paulo, em Corinto, dera foi d a d a , la n c e i e u , com o sá b io c o n stru to r,
o fu n d am e n to , e o u tro e d ific a so b re e le ; m a s
ênfase ao ABC da fé cristã. Ele havia v e ja c a d a u m com o e d ific a so b re ele.
alimentado os novos cristãos com leite, 11 P o rq u e n in g u é m p o d e la n ç a r o u tro fu n ­
e não com comida sólida (cf. I Ped. 2:2; d a m e n to , a lé m do q u e j á e s tá p o sto, o q u a l
Heb. 5:12-14). é J e s u s C risto . 12 E , se a lg u é m so b re e ste
Reconhecendo os antecedentes daque­ fu n d am en to le v a n ta u m ed ifício d e ou ro ,
p r a ta , p e d ra s p re c io sa s, m a d e ira , fen o , p a ­
les cristãos no contexto social de Corinto, lh a, 13 a o b ra d e c a d a u m se m a n if e s ta r á ;
Paulo não pode presumir uma compreen­ pois a q u e le d ia a d e m o n s tra r á , p o rq u e s e r á
são amadurecida de cristianismo, por­ re v e la d a no fo g o ; e o fogo p ro v a r á q u a l
que os coríntios não estão suficientemen­ se ja a o b ra d e c a d a u m . 14 Se p e rm a n e c e r
a o b ra q ue a lg u é m so b re ele ed ifico u , e sse
te desenvolvidos. Ainda são incapazes de re c e b e r á g a la rd ã o . 15 Se a o b ra d e a lg u é m
se apropriar de uma exposição mais se q u e im a r, s o f re rá e le p re ju íz o ; m a s o ta l
aprofundada do evangelho (v. 3). A exis­ s e r á sa lv o , to d a v ia , com o q u e p elo fogo.
tência de inveja e contendas e a presen­ 16 N ão sa b e is vós q u e so is s a n tu á rio d e
ça de lealdade a grupos são evidências D eus, e q u e o E s p írito d e D eu s h a b ita e m
vós? 17 Se a lg u é m d e s tru ir o s a n tu á rio de
claras de imaturidade, de uma vida con­ D eus, D eu s o d e s tr u ir á ; p o rq u e s a g ra d o é o
trolada pela carne ou por interesses ego­ sa n tu á rio de D eu s, q u e so is Vós.
cêntricos. Pode ser que alguns dos corín­
tios se estivesse jactando de sua elevada Nem Apoio nem Paulo tem qualquer
experiência cristã. Se assim é, Paulo distinção, a não ser a sua devoção ao
lembra-os firmemente que eles são ape­ mesmo Mestre. Ambos são servos (dia-
konoi), que se desempenham das tarefas Paulo plantou a semente em Corinto
que o Senhor lhes atribui, em proclamar (At. 18:1-18), e Apoio a regou (At. 18:24-
o evangelho aos coríntios. Apoio veio a 19:1). A coisa mais nobre que pode ser
Corinto e pregou ali depois que Paulo se dita a respeito dos apóstolos é que eles
foi (cf. At. 18:24-28). A palavra traduzi­ são cooperadores de Deus.
da como servos (diakonoi) também pode Paulo introduz a metáfora de um edi­
ser transliterada como “ diáconos” . Ela fício, expressão que ele usa várias vezes
ocorre em vinte e nove versos do Novo em I e 11 Coríntios e Romanos (cf. J er.
Testamento. O contexto revela como ela 24:6). Esta expressão, Segundo a graça
deve ser traduzida. Na maioria dos lu­ de Deus que me foi dada, realmente
gares, ela significa “servos” , como aqui. significa: “ usando o dom que Deus me
Alguns estudiosos acham que ela deve deu” (TEV). Paulo trabalha como sábio
referir-se a diáconos em Atos 6:1-6. construtor, expressão usada na versão da
O seu significado é claramente de diá­ Septuaginta de Isaías 3:3. Ele lançou
cono em I Timóteo 3:8-13. o fundamento, pois nenhum arquiteto
Paulo emprega uma figura agrícola no pode edificar sem fundamento ou alicer­
verso 6, para ilustrar a relação dos após­ ce, e os peritos edificam com um bom
tolos para com Deus. Ele sabe que Israel alicerce.
é chamado de jardim ou vinha no Velho O único alicerce ou fundamento da
Testamento (cf. Is. 5:7; Ez. 36:9). Cada Igreja é Jesus Cristo com seu evangelho
servo tem uma tarefa para cumprir, dada (cf. Gál. 1:6,7). Nenhuma outra pessoa,
por Deus. Ela exige trabalho significa­ nem mesmo Simão Pedro (cf. Mat. 16:
tivo e necessário. Um planta a semente, 17-19), pode ser o ponto fundamental de
e outro rega a terra (cf. II Cor. 6:1). referência para a Igreja. Esforços para
Mas o crescimento é uma dádiva. Aque­ estabelecer qualquer espécie de lealdade
les que trabalham, tendo realizado a sua partidária põem em perigo a dedicação
obra, podem apenas esperar o crescimen­ básica dos coríntios a Cristo, o único
to. Eles não podem produzi-lo; só podem fundamento da Igreja. E nenhuma reve­
esperá-lo. A mesma coisa acontece com o lação ou filosofia fora de Cristo é ade­
crescimento espiritual. quada. Só Jesus Cristo é um fundamento
Os servos que servem os outros na adequado para a Igreja.
causa do evangelho nada produzem; é Visto que Cristo, o fundamento, foi
Deus quem produz os resultados (cf. At. feito a base da criação da Igreja, pes­
2:47). A vida espiritual é dom de Deus, soas com diferentes capacidades podem
e não trabalho do homem. Todos os que acrescentar algo à qualidade de vida da
servem nos campos estão na mesma base, igreja em Corinto, edificando sobre o
aos olhos de Deus, porque todos estão alicerce que Paulo lançou. Pessoas espe­
realizando a obra de Deus. Deus paga a cialmente maduras, como Apoio, podem
cada um dos seus trabalhadores segundo providenciar ouro, prata e pedras precio­
o seu trabalho. Ele não se descuida de sas. Outras, mais limitadas, podem uti­
ninguém que trabalha para ele (cf. 4:5; lizar madeira, feno e palha. No tempo
Mar. 10:29,30). Todos os que servem no devido, à discrição de Deus, a qualidade
campo de Corinto são cooperadores de de cada contribuição será revelada, isto
Deus. Eles não são competidores, mas é, no dia do juízo (cf. I Tess. 5:4; Heb.
aliados. São cooperadores na fazenda de 10:25). A obra de cada um se manifes­
Deus! tará... no fogo, porque somente o que é
O que caracteriza Paulo e Apoio não digno sobreviverá ao teste do fogo (cf.
é uma corrida em direção à superiorida­ II Tess. 1:7; I Ped. 4:12; Mal. 4:1).
de, mas uma dedicação à oportunidade Não há sugestão de que o fogo serve
dada por Deus para servi-lo em Corinto. como objetivos penais, disciplinares ou
purificadores. Os que edificam bem so­ nos em que o Espírito de Deus habita.
bre o fundamento de Cristo receberão A idéia da alma como templo de Deus é
galardão, embora Paulo não defina qual encontrada nas obras de Filo, filósofo
seja ele (cf. Mat. 25:21,23). Não há judeu contemporâneo de Paulo. E Epi-
doutrina de salvação pelas obras, aqui teto, filósofo estóico, bem conhecido no
(cf. Rom. 4:4,5). Deus não leva a efeito fim do primeiro século d.C., ensina que
empreendimentos empresariais com os Deus habita pela razão no templo do
homens, mas trabalha através deles (cf. coração humano. De maneira muito di­
Fil. 2:12,13). Mas ele os recompensa ferente de ambos os filósofos citados,
com base na sua graça, que é tanto amá­ Paulo crê que cada crente é o templo de
vel atitude como ação benevolente (cf. Deus (cf. 6:19). Mas o que Paulo está
Mar. 1029-31; Rom. 4:4; Mat. 20:1- asseverando aqui (v. 16) é algo não en­
16). Não há razão para se crer que Pãulo contrado em Filo ou Epiteto: O templo
está advogando uma doutrina de méritos de Deus é a comunidade dos crentes.
em 3:8,14. A imaturidade dos cristãos, em Corin­
Aqueles que fazem uma edificação fra­ to, não significa que eles não são o
ca, cujo trabalho não sobrevive às pro­ templo de Deus. Como crentes, eles pos­
vas, não receberão recompensa; mas re­ suem o Espírito de Deus. O problema
ceberão a sua salvação, embora sofram deles é que não deram ao Espírito Santo
a perda da recompensa. As palavras so­ permissão para possuí-los. A existência
frerá ele prejuízo podem ser traduzidas de facções na igreja é a mais clara indica­
como “o perderão” ou “serão punidos” . ção de que isto é verdade, porque os
É importante lembrar que a obra do partidos tendem a dividir, e o templo de
crente é o seu trabalho na igreja, e não a Deus é uma unidade. Um edifício que
sua fé ou caráter pessoal. seja cortado em várias partes tem a sua
Aquele que edifica com fé cristã ima­ unidade destruída. Sagrado é o santuário
tura será salvo, todavia como que pelo de Deus, porque Deus fez da Igreja a
fogo. As palavras como que pelo fogo comunidade que possui o seu Espírito.
podem ser traduzidas “como se tivesse A Igreja é separada, santa, para ser o
escapado pelo fogo” (TEV; cf. Am. instrumento do propósito de Deus no
4:11). Paulo sustenta a sua convicção de mundo. A expressão o santuário de Deus,
que os homens não são salvos através da que sois vós significa que todos os cris­
qualidade do seu trabalho, mas através tãos em Corinto faziam parte do templo,
da generosidade da graça de Deus. Não pois o Espírito de Deus habita na Igreja.
há razão plausível para se crer que este Em 3:17, Paulo adverte os coríntios
versículo seja uma referência ao purgató­ que as contendas intencionais serão jul­
rio. gadas severamente por Deus: Se alguém
Paulo lembra, aos coríntios, que a destruir o santuário de Deus, Deus o
Igreja é o santuário de Deus (cf. II Cor. destruirá. Paulo não esclarece o que quer
6:16; Ef. 2:21). Em 6:19 ele escreve que dizer, ao falar em destruição. De qual­
cada coríntio é o templo de Deus. Diz, o quer forma, não há razões suficientes
ensino judaico escatológico, que nos úl­ para crer que Paulo se refere, aqui, às
timos dias Deus levantará um novo e pessoas mencionadas nos versos 14, 15 e
glorioso templo, em que habitará (Is. 17. Não está claro se Paulo está se refe­
28:16; Jubileus 1:17; Enoque 91:13). rindo, neste versículo, a um líder espe­
Em o Novo Testamento, essa profecia é cífico da igreja em Corinto ou se a vários
considerada como tendo cumprimento deles. Ele faz os coríntios se recordarem
espiritual na Igreja (cf. I Ped. 2:5). de que cada um deles faz parte do tem­
Paulo enfatiza a verdade de que esse plo, e fazer parte para desunir é ajudar a
templo é construído de corações huma­ destruir o templo. Barrett sugere que as
palavras de Jesus em Mateus 16:18 de titui em voltar as costas para a sabedo­
forma alguma proíbem a destruição de ria egocêntrica, e aceitar a sabedoria
congregações em particular, como se tor­ centralizada em Deus, revelada na cruz
na claro em Apocalipse 2:5 e 3:16. O de Cristo. Não o que o homem pode
povo de Deus sobrevive, mas congrega­ aprender a respeito da vida no mundo,
ções em particular podem deixar de exis­ mas o que Deus revela na cruz — isso é
tir. sabedoria.
O filósofo estóico Sêneca, contempo­
8. Os Apóstolos e a Sabedoria de Deus râneo de Paulo, tinha uma opinião muito
(3:18-23) diferente acerca do homem sábio. Ele
18 N in g u ém s e e n g a n e a si m e s m o ; se cria que a mente do sábio domina todas
a lg u é m d e n tre v ó s se te m p o r sá b io n e ste as coisas, e que todas as coisas lhe per­
m undo, fa ç a -se louco p a r a se to m a r sáb io . tencem. Paulo declara que todas as coi­
19 P o rq u e a sa b e d o ria d e ste m u n d o é lo u ­ sas pertencem aos que estão unidos em
c u ra d ia n te d e D e u s; po is e s tá e s c r ito : E le
a p a n h a os sá b io s n a s u a p ró p r ia a s tú c ia ;
Cristo. Isso é verdade, porque eles foram
20 e o u tr a v e z : O S en h o r co n h ece a s co g i­ remidos por Deus em Cristo, e foram
ta ç õ e s do s sáb io s, q u e sã o v ã s . 21 P o rta n to , chamados para o reino de Deus. Eles
n in g u ém se g lo rie n o s h o m e n s; p o rq u e tu d o encontram verdadeira liberdade na co­
é vosso; 22 s e ja P a u lo , ou Apoio, ou G efas; munidade dos fiéis; colocam a sua con­
s e ja o m u n d o , ou a v id a , ou a m o r te ; s e ja m
a s co isa s p re s e n te s , ou a s v in d o u ra s, tu d o é fiança naquele que, por sua morte e res­
vosso, 23 e vós de C risto , e C risto d e D eu s. surreição, venceu os poderes malignos do
cosmos (Rom. 8:3; Fil. 2:10). O apelo
Na verdade, Paulo não esqueceu os de Paulo, nesta passagem, é um apelo
seus dois temas: facções e sabedoria para o senso de comunidade. A verda­
(cf. 1:20-2:16). Ele reintroduz a pala­ deira sabedoria não divide os crentes
vra para sabedoria (sophia) no verso 18. em facções, que se empenham em dispu­
Alguém é sábio neste mundo quando põe tas, mas os une todos em Cristo.
a sua confiança na sabedoria de sua luta Portanto, ninguém se glorie nos ho­
egocêntrica. Todos os esforços para co­ mens, visto que nenhum homem possui a
locar de lado a “loucura” da cruz são verdadeira sabedoria, exceto como um
obra do sábio neste mundo, do século dom de Deus (cf. 1:31; Gál. 6:14; Fil.
presente. Uma pessoa precisa fazer-se 3:3). Nenhum indivíduo, em Corinto,
louca, isto é, precisa aceitar pela fé, o merece espécie alguma de liderança que
Cristo crucificado, a fim de se tornar leve à divisão na igreja. Todos os líderes
sábia. Aí será verdadeiramente sábia. da igreja estão sujeitos a um líder: Cristo.
Essa fé é uma reação à obra de Deus em E todos os líderes da igreja pertencem
Cristo; e nenhum homem pode gloriar-se a toda a igreja, e não a facções em
de ter chegado a essa sabedoria por seus particular. Ninguém precisa escolher um
próprios méritos. A verdadeira sabedoria deles, porque todos pertencem a todos.
do homem é revelada quando ele aceita A apresentação de Cefas suscita, a
a loucura de Deus (do ponto de vista questão se ele alguma vez esteve em
humano): a cruz. Corinto. Apoio, com quem Paulo se en­
A sabedoria deste mundo é loucura tende em termos amigáveis (cf. 3:5-9),
diante de Deus (cf. 1:20), porque é um é o assunto, juntamente com Paulo, de
esforço para salvar-se a si mesmo, em uma discussão amigável de comunhão no
vez de ser salvo por Deus. Os, homens apostolado. Talvez Cefas esteja sendo
não podem acertar a sua situação com apresentado aqui de forma oblíqua, pelo
Deus; só Deus pode fazer isso. Precisa fato de ele ou seus seguidores serem uma
haver um rompimento radical na maneira fonte de dissensão em Corinto. A men­
da pessoa entender a sabedoria. Cons­ ção de Cefas, em 9:5, provavelmente
indique que os coríntios o conheciam.
Mas não há nenhuma indicação clara
de que ele visitou alguma vez Corinto, e
nenhuma indicação, em parte alguma, 1 Q ue o s h o m e n s n o s c o n sid e re m , p o is,
com o m in is tro s d e C risto e d e sp e n se iro s dos
de que ele se tornou pessoalmente uma m isté rio s d e D eu s. 2 O ra , a lé m d isso , o que
fonte de turbação em Corinto. A suposi­ se re q u e r n o s d e sp e n s e iro s é q u e c a d a u m
ção de que o “partido de Cefas” enfati­ s e ja e n c o n tra d o fiel. 3 T o d a v ia , a m im m u i
zasse a lei judaica, não é baseada em pouco se m e d á d e s e r ju lg a d o p o r v ó s, ou
p o r q u a lq u e r trib u n a l h u m a n o ; n e m e u t a m ­
qualquer evidência encontrada em I Co­ pouco a m im m e s m o m e ju lg o . 4 P o rq u e ,
ríntios. e m b o ra e m n a d a m e s in ta c u lp ad o , n e m p o r
isso so u ju s tific a d o ; p o is q u e m m e ju lg a é
Porque tudo é vosso é a maneira pela o S enhor. 5 P o rta n to , n a d a ju lg u e is a n te s do
qual Paulo abarca a vida, em revelar tem p o , a té q u e v e n h a o S en h o r, o q u a l n ã o
esta a divina intenção de Deus. Ele não só t r a r á à luz a s c o isa s o c u lta s d a s tr e v a s ,
é nem libertino nem asceta, mas alguém m a s ta m b é m m a n if e s ta r á os d esíg n io s dos
c o ra ç õ e s; e e n tã o c a d a u m r e c e b e r á d e
que aceita a vida como um dom de Deus,
D eus o se u lou v o r.
a ser interpretada e vivida à luz de Cristo
e através da fé em Cristo (cf. Rom.
No capítulo 4, Paulo termina a discus­
8:38,39). Deus deu, à sua Igreja, ho­
são das dissensões em Corinto, o errado
mens que sirvam ao seu povo. A glória
entendimento do evangelho da cruz, e
da vida, para eles, é encontrada na vida
faz uma defesa indireta do seu apos­
entregue ao serviço de Deus e de sua
tolado.
Igreja. E há a soberana certeza de que
Que os homens nos considerem —
o mundo, com os seus múltiplos tesou­
Cefas, Apoio e Paulo — como ministros
ros, tem o objetivo de servir ao bem-
de Cristo. Ministros (huperetas) são sub-
estar de todos os que pertencem a Deus
remadores, pessoas que servem remando
em Cristo. A vida pertence aos santos de
no nível mais baixo do navio. São tam ­
Deus, porque ela é o cenário e a expe­
bém servos ou ajudadores (cf. At. 13:5;
riência da redenção. O fiel testifica do Mat. 26:28; João 18:36). Paulo está en­
senhorio de Cristo todos os dias de sua
fatizando que nenhum dos líderes que
existência obediente. E a morte serve ao servira à igreja em Corinto pode dizer
povo de Deus, porque ela é abraçada,
que algo é deles, a não ser a honra do
pelo remido, na confiança de que a morte
trabalho humilde. Despenseiros dos mis­
é tragada na vitória da vida. O último
térios de Deus enfatiza a responsabili­
grande inimigo do homem encontrará
dade de se ser fiel, que cabe aos que
derrota, em seus esforços para destruir
servem à igreja (cf. Luc. 12:42; Mat.
os santos, porque o Senhor deles ressus­
25:21,23). Despenseiros (oikonomos) é
citou entre os mortos e se tomou as usado nos Evangelhos para designar o
primícias dos que dormem” (15:20). De
escravo que age como supervisor, e che­
fato, todas as coisas são vossas — as
fia outros escravos, e tem a responsabi­
incomensuráveis riquezas da sabedoria e
lidade de supervisionar os negócios de
graça de Deus, em Cristo!
uma casa (Luc. 12:42-48; Mat. 24:45).
E vós de Cristo, e Cristo de Deus. Usando estas palavras, Paulo indica
Que a Igreja, em Corinto e em todas as em direção diferente de qualquer reivin­
outras partes, se levante em adoração e dicação a proeminência pessoal e enfati­
louvor diante do altar de Deus, longe do za o serviço (servos, ministros) e a res­
altar do jactancioso orgulho humano. ponsabilidade (despenseiros, mordo­
Cristo é de Deus, de forma que todas as mos). A ênfase não é nos apóstolos,
coisas pertencem aos seus santos (cf. Fil. mas no Mestre que eles servem. Paulo
2:11; I Cor. 15:28). está indicando, para os coríntios, uma
direção diferente das lealdades facciosas, que Deus tem o direito de julgá-lo.
para uma central lealdade a Cristo, en­ O julgamento próprio não justifica a pes­
fatizando que todos os apóstolos recebe­ soa; só Deus o pode fazer (cf. Rom.
ram o evangelho e respondem perante 3:21 e ss.; 5:17,18; Gál. 2:16 e ss.).
Cristo. Os mistérios de Deus é referência Autojulgamento não é o último julga­
às boas noticias de salvação, reveladas mento. Autojulgamento é tão impossível
na atividade de Deus em Jesus Cristo. como auto-redenção (Schlatter). O julga­
Mistério não é referência a ensinamentos mento dos servos de Deus acontecerá
avançados, mas à revelação do plano quando o Senhor vier em juízo final. 7
de Deus para salvar os homens. Na pro­ Sêneca, contemporâneo estóico de
clamação da mensagem de salvação em Paulo, ensina que a consciência de uma
Cristo, que é a tarefa dos apóstolos, pessoa pode exercer o julgamento final.
como servos e mordomos, eles cumprem O homem é o seu próprio acusador, juiz
o mistério de Cristo, que fora oculto por e intercessor. De acordo com Sêneca,
séculos e gerações, mas agora é revelado Deus habita no homem, está presente na
aos santos (Col. 1:25,26). Mais uma vez, sua mente e na sua razão. Visto que a
Paulo indica direção diferente de qual­ consciência do homem faz parte do espí­
quer recomendação dos apóstolos, apon­ rito divino, o homem não precisa de
tando, pelo contrário, para a centrali- nenhum julgamento adicional além da
dade de Cristo, falando do evangelho consciência. O ponto de vista de Paulo é
como mistérios de Deus. O significado bem diferente. Ele declara que não é a
dos apóstolos é que eles testificam da consciência, mas Deus, que precisa exer­
revelação do plano de salvação elaborado cer julgamento. A consciência certamente
por Deus. não é a voz de Deus, porque ela pode ser
É imperativo que um despenseiro seja fraca (8:10) e, de acordo com Paulo,
fiel, de confiança. A sua responsabilida­ precisa ser informada pelo Espírito San­
de é lembrar-se de que as coisas do seu to, a fim de ser um guia digno de con­
senhor não são suas; as suas coisas são fiança (Rom. 9:1).
do seu senhor (Crisóstomo). O único Ê impróprio, para os coríntios, julgar
requisito de um despenseiro é que seja o conteúdo do ministério de Paulo antes
digno de confiança. do tempo (cf. Mat. 8:29), isto é, antes
Evidentemente, Paulo está sendo sujei­ do dia do juízo (cf. 3:13). Quando venha
to a críticas em Corinto, quando mem­ o Senhor, no último dia, ele iluminará
bros da igreja decidem a que líder par­ todos os escuros recessos da vida (cf.
tidário vão seguir, como o verso 3 pode 14:25; Rom. 2:16) e manifestará os de­
dar a entender. Neste ponto da carta, sígnios dos corações, porque revelará
Paulo deixa de usar o pronome “nós” , tanto os pensamentos quanto os atos do
para usar o pronome “eu” . Ele observa homem. Nenhum homem é capaz de se
que não fica perturbado quando é jul­ inocentar diante de Deus. Cristo julgará
gado pelos coríntios ou qualquer tribunal com justiça (cf. Rom. 2:16). Aqui Paulo
humano. Nem mesmo a sua consciência está enfatizando tanto o elemento de
é empregada para julgar-se, visto que o futurismo, na salvação, quanto a certeza
julgamento pertence apenas a Deus (cf. de que os homens não são capazes de
Mat. 7:1; Rom. 14:4). E, também, nem julgar-se uns aos outros, mas todos serão
os coríntios nem Paulo são capazes de julgados por Deus. E então, no dia do
julgar o trabalho de um homem. Só juízo, cada um receberá de Deus o seu
Deus tem o direito de fazê-ló. Embora louvor, recomendação ou aprovação (cf.
viva diante de Deus e dos homens sem
experimentar nenhuma auto-acusação 7 J. N. Sevenster, Paul and Seneca (Leiden: E. J. Brill,
(cf. II Cor. 1:12; Rom. 9:1), Paulo sabe 1961), p.97.
3:14; II Cor. 10:18; Rom. 2:29). O louvor lho Testamento, uma referência aos tex­
provém de Deus, e não do homem, e é tos do Velho Testamento citados em
reservado até o dia do juízo, que será 1:19,31; 3:19; ou uma ênfase de Corín­
marcado pela libertação final dos servos tios que coloque as suas interpretações
de Deus. Aquele que salva os homens no mesmo nível da Escritura, ou atribua
pela graça recompensará os remidos pela àquelas qualquer superioridade. Outras
graça, dando a Cristo a autoridade para sugestões são de que essa declaração se
julgar (cf. João 5:27; II Cor. 5:10; Rom. refere a uma coleção de palavras de Jesus
14:10). ou das próprias cartas de Paulo aos co­
ríntios. Além do mais, a maneira como
10. Os Coríntios e Seus Apóstolos Paulo entende a liberdade em contrapo­
(4:6-13) sição à lei pode ter levado alguns dos
6 O ra , irm ã o s , e s ta s c o isas e u a s a p liq u e i coríntios a dar ênfase exagerada na li­
fig u ra d a m e n te a m im e a A poio, p o r a m o r berdade.
d e v ó s; p a r a q u e e m n ó s a p re n d a is a n ã o ir Paulo novamente se refere aos corín­
a lé m do q ue e s tá e s c rito , d e m o d o q u e n e ­ tios como seus irmãos. A comunhão da
n h u m d e vós se e n so b e rb e ç a a fa v o r de u m
c o n tra o u tro . 7 P o is, q u e m te d ife re n ç a ? igreja não é quebrada, e Paulo apela
E que te n s tu q u e n ã o te n h a s re c e b id o ? E , se para o fato de juntamente serem mem­
o re c e b e s te , p o r qu e te g lo ria s, com o se n ã o bros da família de Deus, na qual foram
o h o u v e ra s rec e b id o ? adotados. Estas coisas, ou seja, toda a
8 J á e s ta is fa rto s ! j á e s ta is ric o s! s e m
discussão iniciada em 3:5, apliquei... a
nós j á c h e g a s te s a r e in a r I e o x a lá re in á s s e is
de fato , p a r a q u e ta m b é m n ó s re in á sse m o s mim e a Apoio, como lição objetiva, por
convosco I 9 P o rq u e te n h o p a r a m im , q u e amor de vós... para que... aprendais
D eus a n ó s, ap ó sto lo s, n o s pôs p o r ú ltim o s, mediante a forma como aceitamos um ao
com o co n d en ad o s à m o r te ; p ois so m o s fe ito s outro em amizade, e não em rivalidade,
e sp e tácu lo ao m u n d o , ta n to a a n jo s com o a
h om ens. 10 N ós som os loucos p o r a m o r de a não ir além do que está escrito: o ensino
C risto, e vós, sá b io s e m C ris to ; n ó s fra c o s, do Velho Testamento.
e vós fo rte s ; v ó s ilu s tre s , e nós d e sp re z ív e is. Paulo enfatiza a unidade que existe
11 A té a p re s e n te h o ra p a d e c e m o s fo m e, e entre Apoio e ele mesmo, para apelar aos
sed e; e s ta m o s n u s, e re c e b e m o s b o fe ta d a s,
e n ão te m o s p o u sa d a c e r ta , 12 e n o s afa d i-
coríntios, que estão correndo o perigo de
g am o s, tra b a lh a n d o c o m n o ss a s p ró p ria s se tornarem ensoberbecidos pela sua leal­
m ã o s; som os in ju ria d o s, e b e n d iz e m o s; so ­ dade partidária a diferentes líderes (3:6;
m os p e rse g u id o s, e o su p o rta m o s ; 13 so m o s 6:12). O uso que ele faz de ensoberbeça
d ifam ad o s, e e x o rta m o s ; a té o p re s e n te so ­ é confinado quase que inteiramente às
m os co n sid e ra d o s com o o re fu g o do m u n d o ,
e com o a e s c ó ria de tudo. cartas aos coríntios. Esta palavra com­
bina bem com a palavra “jactância” , que
Esta passagem apresenta um difícil é usada muito mais vezes nas cartas
problema de tradução no verso 6. A ex­ coríntias do que em todo o resto da sua
pressão traduzida como não ir além do correspondência.
que está escrito é literalmente “nada Pois, quem te diferença? significa:
além do que está escrito” . É traduzida de Quem te considera superior? E que tens
diferentes maneiras: “presumir de sábios tu que não tenhas recebido? Afinal de
além do que está escrito” (Trinitariana); contas, Deus é o doador de todos os
“ultrapassar o que está escrito” (Trad. dons (12:6; cf. Tiago 1:17). Visto que
Brasileira). Deus dá e os homens recebem, não há
Embora não haja razões suficientes motivo para orgulho. O receptor de uma
para considerá-la uma glosa, é difícil dádiva não se vangloria em si mesmo,
saber se esta passagem é uma referência porém expressa agradecimento a outrem.
ao Velho Testamento, um provérbio po­ Os coríntios estão-se esquecendo de que
pular, uma ênfase marcante sobre o Ve­ os dons que eles tanto prezam, não re­
fletem a sua capacidade, mas a graça futurista não deve ser eliminada do evan­
de Deus. O evangelho é dado a eles por gelho autêntico. Sarcasticamente, Paulo
Cristo, proclamado por Paulo, e os dons lamenta o fato de que os coríntios não
que eles prezam são dados pelo Espírito. estejam reinando; se estivessem, ele gos­
Os versículos 8 a 13 constituem em taria de reinar com eles!
dramático quadro do apostolado de Pau­ Deus a nós, apóstolos, nos pôs por
lo, colocado em contraposição ao remado últimos, como parte final de uma exibi­
majestoso dos coríntios. Paulo escreve ção de gladiadores, homens condenados
com sátira devastadora e ironia pene­ à morte em uma arena, às mãos de
trante. Ele diz que discipulado não é homens ou às garras de feras, diante de
a vida de um rei, mas uma vida de servo; muitos espectadores, um espetáculo,
não uma vida de auto-consideração, mas algo para todo mundo ver, um mundo
uma vida de abnegação. Já estais fartos! que é feito de aitfos e de homens. Como é
já estais ricos! Já entrastes no reino mes­ ridículo os coríntios presumirem que po­
siânico com as suas riquezas prometidas dem estar em descanso em Sião, enquan­
para os que reinam com o Messias (Paulo to o apóstolo está lutando por sua vida na
está falando com sarcasmo). Os coríntios arena! O quinhão do apóstolo não é
haviam cometido o erro de concluir que o jactar-se em um reino majestoso, mas
reino de Deus já havia vindo completa­ oferecer-se em serviço ao Rei, cujos dis­
mente. Parece que eles enfatizaram exa- cípulos são considerados como loucos,
geradamente a presença do reino e eli­ fracos e desprezíveis (cf. 3:18; 10:15;
minaram o seu futuro. Eram devotos de II Cor. 12:9; 13:4). Aqueles que já se
uma escatologia plenamente realizada. consideram sábios, fortes e ilustres não
Enfatizavam o aspecto imediato do reino entendem nem o reino nem o apostolado.
("já”) e eliminaram o aspecto mediato Os homens que entendem o significado
(“ainda não”). Já — não no futuro, mas do serviço do discipulado não falam tan­
já — eles possuem satisfação, riquezas, to em termos do que eles ganharam por
domínio! seus próprios méritos, mas do que eles
Paulo coloca-se contra essa maneira têm para dar aos outros.
errada de entender, que interpreta incor­ A vida do apóstolo é marcada por
retamente o evangelho e a fé e transfor­ privação, rejeição e labuta, e é moldada
ma os dois em conhecimento e entusias­ pelo Espírito de Jesus, que foi despreza­
mo, ao se crer que a consumação já está do e rejeitado pelos homens (cf. Mat.
realizada. 8 Paulo, que conhece a reali­ 5:10-44; 10:24,25; Rom. 12:14). Barrett
dade do reino de Deus através da presen­ (p. 1 1 1 ) sugere que nos afadigamos, tra­
ça do Espírito na vida dos crentes (II balhando com nossas próprias mãos
Cor. 1:22; 5:5), também sabe que o pode referir-se não apenas à labuta físi­
cumprimento do reino espera o futuro ca, mas ao trabalho cristão de pregar e
(15:24; Fil. 3:20,21). Como o indica Bar- fundar e cuidar das igrejas (Rom. 16:6,
rett (p. 109), nesta vida os homens ainda 12; Gál. 4:11; Fil. 2:16; Col. 1:29; I Tess.
vivem pela fé, e não pelo que vêem. 5:12). Nesse caso, Paulo estaria escreven­
O reino que os coríntios imaginam que do que, como mestre, ele faz o seu serviço
herdaram, é sem nós — e, por isso, é cristão e ao mesmo tempo trabalha com
uma ilusão, “ardil e engano” . Tal inter­ suas mãos para ganhar a vida, costume
pretação dos ensinos de Paulo é possível tido em grande consideração pelos ju­
apenas entendendo-os de cabeça para deus, mas desprezado pelos gregos, in­
baixo (Wendland, p. 36). A escatologia clusive por alguns dos coríntios.
Paulo entende bem que a vida do
8 Paul Wendland, Die Briefe an die Korinther (Goettin­ discípulo deve ser como a vida do seu
gen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1954), p. 35. Senhor, sofrendo, a fim de servir aos
outros. Esse discipulado inclui dedicação cruz (cf. Fil. 2:5-11; II Tim. 2:11-13).
por fé, ao Cristo crucificado, e confor­ A essa compreensão Paulo conclama os
midade com a sua forma de entender a coríntios, que não conseguem entender o
vida, na existência de cada dia. que significa viver diante da perspectiva
Morrer para o eu é maneira de viver do amanhã de Deus e ao mesmo tempo
para Cristo. Essa maneira de viver não em dedicação quotidiana ao serviço (e ao
dura um dia, mas uma vida. Um co­ sacrifício) da cruz.
mentário aos versos 11 a 13 se encontra
no testemunho posterior de Paulo aos 11. Os Coríntios e o Apóstolo Paulo
Coríntios: “Trazendo sempre no corpo o (4:14-21)
morrer de Jesus, para que também a vida
de Jesus se manifeste em nossos corpos; 14 N ão e sc re v o e s ta s c o isas p a r a v o s e n ­
v e rg o n h a r, m a s p a r a vos a d m o e s ta r, com o
pois nós, que vivemos, estamos sempre a filhos m e u s a m a d o s . 15 P o rq u e a in d a que
entregues à morte por amor de Jesus, te n h a is d ez m il a io s e m C risto , n ã o te n d e s ,
para que também a vida de Jesus se contudo, m u ito s p a i s ; p o is e u p elo ev a n g elh o
manifeste em nossa carne mortal” (II vos g e re i e m C risto J e s u s . 16 R ogo-vos, p o r­
tan to , q u e s e ja is m e u s im ita d o re s . 17 P o r
Cor. 4:10-11; cf. Fil. 3:10). É importante isso m e s m o vos e n v ie i T im óteo , q u e é m e u
lembrar que, nesta passagem, Paulo não filho a m a d o , e fiel no S e n h o r; o q u a l vos
está falando meramente de exposição a le m b ra r á os m e u s c a m in h o s e m C risto ,
perigo físico, mas de dedicação à vida da com o p o r to d a p a rte e u e n sin o e m c a d a
cruz, revelada na vida de Jesus, e que ig re ja . 18 M a s a lg u n s a n d a m in c h a d o s,
com o se e u n ã o h o u v esse d e i r te r convosco.
tem o objetivo de ser a marca de cada 19 E m b re v e , p o ré m , ire i t e r convosco, se o
cristão. A vida do apóstolo é de fato S enhor q u is e r, e e n tã o c o n h e ce re i, n ã o a s
exposta a toda sorte de angústias e sofri­ p a la v r a s dos q u e a n d a m in c h a d o s, m a s o
mento (cf. II Cor. 11:21-29). p o d er. 20 P o rq u e o re in o d e D eu s n ã o co n ­
siste e m p a la v r a s , m a s e m p o d e r. 21 Que
Somos considerados como o refugo do q u e re is? I r e i a v ó s co m v a r a , ou co m a m o r e
mundo, a ralé da terra, a escória de e sp írito d e m a n s id ã o ?
tudo, a borra da humanidade. A palavra
traduzida como refugo (perikatharmata) Não escrevo estas coisas para vos en­
é usada para designar homens despre­ vergonhar, mas para vos admoestar, co­
zados sacrificados aos deuses para afas­ mo a filhos meus amados. Envergonhar
tar calamidades. No plural aqui, alguns apenas humilhará os coríntios; admoes­
estudiosos sugerem que ela deve ser tra­ tar os inspirará. Os coríntios são filhos
duzida como “ bodes expiatórios” amados de Paulo, que é seu pai no
(Bauer, A Greek-English Lexicon of the sentido de lhes ter pregado o evangelho
NewTestament, p. 653). Escória (peripse- e levado à fé em Cristo (cf. II Cor. 10:14).
ma) é também uma referência a sacrifí­ Os coríntios podem ter dez mil aios em
cios de pessoas que eram consideradas Cristo, incontáveis guardiães que ensi­
indignas. Essas duas palavras gregas são nem o significado da vida cristã. Aios ou
encontradas apenas aqui, em todo o guardas eram geralmente escravos que
Novo Testamento. orientavam a conduta das crianças, dos
O propósito desta passagem, em que seis anos de idade até a maturidade
Paulo amplia uma exposição acerca do (cf. Gál. 3:24).
apostolado, é colocar diante dos coríntios Os coríntios nunca poderão ter mais
o ideal da dedicação cristã. A comuni­ do que um pai espiritual. Um pai ama
dade do Espírito é uma comunidade à os seus filhos, e a sua admoestação se
sombra da cruz. Os coríntios querem origina no amor que ele lhes tem. Paulo
usar a coroa sem terem suportado a cruz. aceita sem reservas a presença de outros
Eles precisam lembrar que o cetro é dado que nutram os coríntios, mas reserva-se
apenas àqueles cuja vida é marcada pela o direito de falar-lhes, por ter sido ele
quem os havia levado à salvação em ses, Colossenses e II Coríntios. Ele se
Cristo Jesus. Pois eu pelo evangelho vos uniu a Paulo desde o tempo da segunda
gerei em Cristo Jesus (cf. Gál. 4:19; viagem missionária (At. 16); ele, prova­
Filem. 10). No tratado “ Sinédrio” , é velmente, ajudou Paulo a fundar a igreja
declarado que, se um homem ensina a em Corinto. Timóteo levará os coríntios a
Torah para o filho do seu vizinho, a se lembrarem dos caminhos de Paulo em
Escritura considera como se ele o tivesse Cristo, dos seus ensinamentos espirituais
gerado. Em algumas das religiões de e morais (cf. 7:17; 12:31; II Tess. 2:15).
mistério, o iniciador é mencionado como “Caminho” é palavra usada no Velho
pai do iniciado. Cristo é a fonte, o evan­ Testamento para designar ensinamentos
gelho é o meio, e Paulo, o instrumento da morais (Deut. 5:33; 8:6; Jer. 32:39; Sal.
salvação dos coríntios. 1:6). Os princípios cardeais da vida cris­
Rogo-vos, portanto, que sejais meus tã, Paulo ensina em todas as igrejas.
imitadores. Não por causa de qualquer Ele não está disposto a permitir as espé­
arrogância espiritual, mas por ser o seu cies de inovações que os coríntios espo­
pai espiritual, Paulo é capaz de dizer: sam, porque elas subvertem a igreja, ti­
“Sede meus imitadores.” Ele colocou à rando-a de uma correta compreensão do
frente deles o quadro do apóstolo sofre­ evangelho.
dor, que dá a sua vida no serviço aos Paulo não está apenas enviando Ti­
outros, como Cristo fizera antes dele. móteo. Está também prevendo uma sua
Eles sabem como ele se deu por eles, viagem a Corinto, quando enfrentará os
como seu pai espiritual. Da mesma for­ arrogantes cristãos que o criticam e que
ma como Paulo segue o seu Senhor em não esperam que ele volte para enfrentá-
obediência à sua palavra, também os los pessoalmente. A sua declaração, em
coríntios são chamados para acompa­ 16:5-9, não acarreta em uma contradição
nhar o seu pai espiritual em sua obediên­ com o que ele escreve aqui, mas em uma
cia (Fil. 3:17; I Tess. 1:6; 2:14; II Tess. alteração dos seus planos. Provavelmen­
3:7-9). E qualquer pessoa que seguir o te, Paulo altera os seus planos enquanto
apóstolo estará seguindo a Cristo. A imi­ escreve esta carta, tarefa que deve ter
tação de Paulo deve ser dedicação ao levado alguns dias.
princípio da cruz para a vida, revelado A palavra “Senhor” , no verso 19, pro­
em Jesus, e colocado como o centro da vavelmente se refere a Cristo, e não a
vida de Paulo, da maneira como foi Deus(cf. Rom. 1:10; 15:32). Se o Senhor
vivido entre os coríntios. A imitação quiser dá testemunho de que Paulo en­
aponta tanto para Paulo como para o seu tende a providência (cf. 16:7; Tiago
Senhor. 4:15). Esta expressão é também encon­
Como clara evidência de interesse e trada fora da literatura cristã.
afeição, Paulo envia Timóteo... meu fi­ O reino de Deus, no pensamento de
lho amado, e fiel no Senhor a Corinto. Paulo, possui uma orientação para o
Talvez Timóteo já tivesse dado início à futuro (cf. I Cor. 6:9,10; 15:24; 15:50;
sua viagem, mas ainda não havia che­ Gál. 5:21). Esta expressão é usada ape­
gado (cf. 16:10). Ele não é apenas que­ nas uma vez na Epístola aos Romanos, e
rido para Paulo, mas também para os apenas cinco vezes em I Coríntios. Em
coríntios; ele também é fiel, como os Romanos 14:17 e Colossenses 1:13, se faz
coríntios não são. Paulo nunca descreve uma referência à realidade atual do rei­
os coríntios como fiéis. no, sem nenhuma ênfase na sua orienta­
Timóteo, convertido por Paulo, está ção futura. Quando o reino revela o seu
associado com Paulo pelo fato de ter poder na vida dos homens, é presente, e,
escrito com ele algumas das cartas, quando chega ao cumprimento e reali­
como, por exemplo, I e II Tessalonicen- zação, no fim dos tempos, é futuro.
Embora em outras partes Paulo enfa­ n e c e ss á rio s a i r do m u n d o . 11 M a s a g o ra vos
tize a palavra da pregação (2:4), e não e sc re v o q u e n ã o v o s c o m u n iq u eis co m a q u e ­
le q u e, d izendo-se ir m ã o , fo r d e v a ss o , ou
menospreze a comunicação do evange­ a v a re n to , o u id ó la tra , o u m a ld iz e n te , o u b e ­
lho, ele despreza as palavras vazias, es­ b e rr ã o , o u ro u b a d o r; c o m e ss e ta l n e m s e ­
pecialmente porque os coríntios enfati­ q u e r c o m a is. 12 P o is, q u e m e im p o rta ju lg a r
zam tanto a sabedoria. O reino de Deus os q u e e s tã o d e fo ra ? N ão ju lg a is vós o s que
e stã o d e d e n tro ? 13 M as D eu s ju lg a o s que
manifesta a sua vitalidade quando reflete e stã o d e fo ra . T ira i e ss e iníquo do m e io d e
o poder do Espírito Santo para trans­ vós.
formar a vida dos homens (cf. 2:4; Rom.
14:17; ITess. 1:5). O capítulo 5 se relaciona com o capí­
Paulo pede, aos coríntios, para faze­ tulo 4 pela referência à autoridade de
rem uma escolha e decidirem a maneira Paulo, mencionada em 4:18-20 e 5:3-5.
como ele devia fazer a sua próxima visita Ele se refere inteiramente a um problema
a eles. Como pai espiritual deles, ele de imoralidade na igreja.
tem a responsabilidade de discipliná-los. Quem vive com a mulher de seu pai.
Ele os tratará com a sua autoridade Imoralidade é ação descrita pela palavra
apostólica, com uma vara, com firmeza, pomeia, que é usada em o Novo Testa­
ou com espírito de mansidão (cf. II Cor. mento para designar lascívia e imorali­
12:20-21; 13:1-10). Eles é que deviam dade sexual. Literalmente, ela significa
fazer a escolha. prostituição. Pode ser traduzida como
“fornicação” . Evidentemente, um mem­
III. O Problema de um Membro bro da igreja está vivendo sexualmente
com a sua madrasta, em termos perma­
Imoral da Igreja (5:1-13) nentes. Paulo não usa as palavras gregas
1 G e ra lm e n te se ouve q u e h á e n tr e vós
que significam adultério nem incesto, de
im o ra lid a d e , e ta l Im o ra lid a d e q u e n e m forma que a relação deve ser união se­
m esm o e n tr e o s g en tio s se v ê , a p o nto de xual com a sua madrasta. O apóstolo não
h a v e r q u e m v iv e co m a m u lh e r d e seu p a i. diz que o homem está vivendo com a sua
2 E v ó s e s ta is in c h ad o s? e n e m a o m en o s própria mãe.
p ra n te a s te s p a r a q u e fo sse tira d o do v o sso
m eio q u e m p ra tic o u e ss e m a l? Parece que a mulher não é cristã. Não
3 E u , n a v e rd a d e , a in d a q u e a u s e n te no está claro se o pai do homem em ques­
corpo, m a s p re s e n te no e sp írito , j á ju lg u e i, tão já morreu ou se ele se divorciou da
com o se e stiv e ss e p re s e n te , a q u e le q u e c o ­ mulher. O membro da igreja parece estar
m e te u e s te u ltr a je . 4 E m n o m e d e n o sso
Senhor J e s u s , c o n g re g a d o s v ó s e o m e u e s ­
vivendo com a sua madrasta sem se casar
p írito , pelo p o d e r d e n o sso S en h o r J e s u s , com ela, embora isto não esteja absoluta­
5 s e ja e n tre g u e a S a ta n á s p a r a d e stru iç ã o mente claro.
d a c a rn e , p a r a q u e o e sp írito s e ja sa lv o no Paulo sabia que uma união sexual
d ia do Sen h o r J e s u s . como essa era proibida no Velho Testa­
0 N ão é b o a a v o ss a ja c tâ n c ia . N ão sa b e is
q u e u m pouco d e fe rm e n to le v e d a a m a s s a mento (Lev. 18:7,8; 20:11). De acordo
to d a ? 7 E x p u rg a i o fe rm e n to v e lh o , p a r a q u e com a Mishnah, o ofensor merecia ser
se ja is m a s s a n o v a , a s s im co m o so is s e m apedrejado até a morte (Sanhedrin 7:4).
fe rm e n to . P o rq u e C risto , n o s s a p á sc o a , j á Por outro lado, alguns dos rabis não
foi s a c rific a d o . 8 P e lo q u e c e le b re m o s a
faziam objeções ao fato de um prosélito
fe s ta , n ã o com o fe rm e n to v elh o , n e m co m
o fe rm e n to d a m a líc ia e d a c o rru p ç ã o , m a s ser casado com mulher que havia sido
co m os á zim o s d a sin c e rid a d e e d a v e rd a d e . esposa do seu suposto pai.
9 J á p o r c a r t a vo s e s c re v i q u e n ã o vos A lei romana também proibia tal rela­
c o m u n icásse is c o m os q u e se p ro s titu e m ; cionamento, mesmo depois da morte do
10 co m is to n ã o m e r e f e r ia à c o m u n ic a ç ã o
e m g e ra l co m o s d e v a sso s d e ste m u n d o , ou pai. “Institutos de Gaio” (1:63) relaciona
co m os a v a re n to s , ou c o m os ro u b a d o re s, as pessoas aparentadas com um homem,
ou co m os Id ó la tra s ; p o rq u e e n tã o vos s e r ia com quem ele não é livre para se casar.
Ao invés de manifestar tristeza, os co- carne (cf. I Tim. 1:20). É interessante
ríntios manifestam jactância ou arrogân­ notar que toda a igreja é responsável por
cia. São insensíveis para com os danos esta decisão; Paulo apela para toda a
morais que um ato indisciplinado desses igreja, e não para os oficiais da igreja.
causará à igreja. A arrogância e jactância De fato, Paulo sempre apela para a con­
podem indicar que havia entre os corín- gregação, no decorrer da carta, e nunca
tios uma interpretação do evangelho à para os líderes eclesiásticos. Ele não ape­
feição dos gnósticos, que de certa forma la para uma hierarquia, mas para os
têm a opinião de que o homem está livre próprios fiéis.
para se permitir uma certa lassidão mo­ Não há nenhuma indicação de que eles
ral que afete o corpo (cf. 6:12). Tal estivessem seguindo o costume da sina­
interpretação os levaria além das conven­ goga, onde qualquer expulsão era votada
ções de moral aceitáveis entre judeus e pelos anciãos. A decisão será válida ape­
gentios. Paulo rejeita a arrogância dos nas se nascer da convicção de toda a
coríntios. Um estilo de vida como aquele igreja, e não se for forçada pelas autori­
devia estar provocando lamentações. dades eclesiásticas. Embora Paulo esteja
Porém, mais do que lamentações se obviamente usando a autoridade pessoal
pede, visto que a pessoa culpada não que tem sobre a igreja, ele deixa a deci­
desistiu do seu estilo de vida. A igreja tem são final à congregação, quando se reu­
a obrigação de tirá-lo da comunhão dela nirem como comunidade que pertence a
(cf. Mat. 18:15-18). Embora a igreja não Jesus e vive pelo seu poder.
seja chamada para se retirar do mundo, Seja entregue a Satanás (cf. I Tim.
ela é chamada para tirar o mundo dela. 1 :20) significa expulsá-lo da comunhão
Tal disciplina, como Paulo recomenda da igreja. Também pode significar, de
aos coríntios, era praticada na comuni­ forma obscura para nós, que a vida fora
dade de Qumran (1QS 5:26-6:1). da igreja acarreta a colocação do mal­
Embora Paulo esteja fisicamente au­ feitor diretamente sob a má influência de
sente de Corinto, ele está presente psico­ Satanás e fora da influência benéfica de
lógica e espiritualmente (cf. Col. 2:5). Cristo.
Ele está presente em pensamento, e es­ Destruição da carne significa que o
tará lá enquanto os coríntios lembrarem homem morrerá fisicamente (cf. At. 5:5,
o seu ensino e maneira de entender a 10), ou que ele se purificará do seu estilo
vida cristã. As pessoas que estão ausentes de vida centralizado no pecado, aqui
podem estar presentes pelo fato de se mencionado como carne (cf. Rom. 7:5).
unirem com as presentes em termos es­ Ê uma impressionante forma de terapia,
pirituais. Paulo se imagina presente que mata um homem a fim de salvá-lo!
quando a congregação se reúne para Além disso, é Cristo, e não o homem,
decidir a respeito do assunto, e pronun­ quem salva do pecado. Provavelmente,
cia um veredicto de culpa. A igreja se Paulo quer dizer que, uma vez fora da
reunirá em nome do Senhor Jesus, por igreja, o pecador começará a refletir nos
dedicação à sua autoridade e à sua ver­ seus maus atos e refreará o seu estilo
dade. A igreja presente e Paulo ausente de vida centralizado no pecado, que é
no corpo, mas presente em espírito, serão característico da carne: vida sem Deus.
capazes de tomar a decisão requerida Penitente, então ele procurará perdão,
pelo poder ou ajuda do Senhor Jesus. e alcançará redenção final.
Aquele que os havia chamado como seus Seja o que for que signifiquem “entre­
discípulos dava-lhes poder para viverem ga a Satanás” e “destruição da carne” ,
como discípulos. é claro que Paulo prevê que o espírito
A igreja está na obrigação de entregar do homem, o seu eu básico, será salvo
esse homem a Satanás para destruição da no juízo final. Conseqüentemente, o so­
frimento ou morte que o malfeitor sofre, ação de Deus é compulsória para a sal­
não é destruidor em termos finais, e, sim, vação, e o imperativo da obediência do
redentor (cf. 3:15). homem é opcional. Paulo não rouba a
A jactância dos coríntios é uma expe­ vitalidade da vida cristã dessa forma.
riência altamente enganosa. Ela não é Não se deve apenas conhecer a verdade;
apenas ruinosa em referência a este ho­ deve-se também andar nela (cf. Gál.
mem e ilusória em sua indiferença para 5:25; João 3:21; Rom. 6:12-14).
com a moralidade, mas também afeta Porque Cristo, nossa Páscoa, já foi
toda a igreja de maneira insidiosa, visto sacrificado (cf. I Ped. 1:19; João 1:29).
que um pouco de fermento leveda a A palavra usada para traduzir Páscoa é
massa toda (cf. Gál. 5:9; Mat. 13:33, to pascha, que é usada também para
onde o fermento é usado no bom senti­ designar a festa de sete dias da Páscoa. (*>
do). Um pouco de fermento afeta toda a O cordeiro da Páscoa era imolado ao
massa. Da mesma forma, a torpeza mo­ meio-dia do décimo quarto dia de Nisã e
ral de uma pessoa influencia adversa­ comido depois do pôr-do-sol. Tem sido
mente a fibra moral de toda a comuni­ sugerido que Jesus se comparou com o
dade. Não há pecados inconseqüentes, na cordeiro da Páscoa e que a referência em
vida dos crentes. 5:7 significa que estar em Cristo é estar
Nos versos 6 a 8, Paulo refere-se à na Páscoa no seu mais completo cumpri­
celebração da Páscoa, que requeria que mento.
todo o fermento fosse removido da casa, Cristo, o cordeiro da Páscoa, já foi
desde o primeiro dia da celebração (cf. sacrificado; e os coríntios já estão atrasa­
Êx. 12:15; Pesahim 1:3; 3:6). O pão da dos em remover o mal de suas vidas de
Páscoa precisava ser asmo ou ázimo, isto forma que possam em verdade se apro­
é, sem fermento, e não podia haver ne­ priar do sacrifício dele. Cristo morreu; os
nhum traço de impureza, significada coríntios precisam corresponder, purifi­
pelo fermento (Êx. 12:18-20). Removen­ cando as suas vidas da presença pecami­
do o velho fermento, o homem imoral, os nosa do “iníquo” . Da mesma forma
coríntios podem tornar-se massa nova de como o cordeiro pascal lembra a salvação
pão, moralmente puros — a igreja como da escravidão no Egito, Cristo, o cordeiro
um todo. pascal, lembra a salvação do pecado.
Paulo exorta os coríntios com um im­ Os coríntios precisam lembrar-se que já
perativo: expurgai o fermento velho, e foi feito o sacrifício pelo qual eles podem
continua com uma declaração no modo se tomar ázimos, pão puro, que Deus
indicativo: assim como sois sem fermen­ pretende que eles sejam. Talvez Cris­
to. Coríntios, tomem-se o que vocês real­ to seja chamado de cordeiro pascal por­
mente são! Eles já são nova criação (II que morreu no dia 14 de Nisã, na
Cor. 5:17), mas precisam viver como tal, hora em que os cordeiros pascais estavam
e não cair em pecado grave (10:6-13; sendo imolados no Templo, ou porque
Gál. 4:9). Existe um “já ” e um “ainda Paulo está escrevendo aos coríntios na
não” na vida moral do crente. O indica­ época da Páscoa. Mas estas sugestões
tivo da salvação de Deus abre as portas não podem ser provadas nem pode ser
para o imperativo da obediência do ho­ demonstrado que esta referência ao cor­
mem (Rom. 6:5-14; 8:10-17; Col. 3:1-25;
Gál. 5:16-25).
(*) Tecnicamente, a Páscoa era comemorada apenas no
O crente torna-se realmente asmo me­ dia 14 de Nisã. O que se comemorava nos sete dias
diante a apropriação perene da graça de seguintes era a Festa dos Pães Asmos ou Ãzimos
Deus através da fé obediente. (Ler. 23:5,6; Êx. 23:15). Embora fossem duas fes­
tividades distintas, pelo fato de serem uma em se­
É um mal-entendido horrível do/evan- guida í outra, elas muitas vezes são confundidas.
gelho presumir-se que o indicativo da — Nota do tradutor.
deiro pascal se tenha originado da Úl­ como viviam com ela dentro da sua pró­
tima Ceia. pria igreja! A impureza marca o mundo,
Os cristãos de Corinto são exortados mas a pureza precisa marcar a igreja.
a se juntarem a Paulo na celebração A disciplina dentro da igreja e liber­
alegre dessa festa da vida cristã, que é dade disciplinada fora dela — este é o
um festival perene, visto que o cordeiro ensino de Paulo (cf. 10:16-21; 11:17-34).
pascal morreu uma vez por todas na As seis categorias mencionadas nos
cruz. A celebração ocorre pelo fato de se versos 10 e 1 1 não são, necessariamente,
viver agradecidamente, todos os dias, representativas de todos os cristãos em
no tipo de vida obediente, que não deixa Corinto, mas representam pessoas que
lugar para malícia e corrupção, mas é levam o nome de crentes, mas vivem de
fortalecida pelos ázimos da sinceridade maneira imoral (cf. 6:9,10; Gál. 5:19-21;
e da verdade. Rom. 13:13; Col. 3:8). Listas de vícios
No verso 9, Paulo refere-se ao seu con­ como esta são também conhecidas em
selho, dado em carta anterior (perdida círculos não cristãos. Mas Paulo conside­
para nós, a não ser que um fragmento ra estas atividades como pecados.
dela ocorra em II Cor. 6:14-7:1), para A responsabilidade de Paulo está em
que os coríntios não andem na compa­ dar conselho apostólico aos que perten­
nhia de pessoas imorais. As suas instru­ cem à igreja. O julgamento moral ou
ções eram de que a imoralidade não disciplina que ele ministra à igreja em
devia infestar a comunidade cristã. Ele Corinto resulta da comissão que lhe cabe,
está bem a par do fato de que não se como apóstolo e do relacionamento que
pode esperar que os crentes evitem todas ele tem com eles como seu pai espiritual
as pessoas imorais, porque, se a gente na fé.
vive neste mundo, encontrará toda sorte A igreja em Corinto tem a responsa­
de pessoas. A única maneira de evitar os bilidade de refletir a respeito da vida éti­
devassos, avarentos e roubadores e idó­ ca de sua comunidade e de, no poder do
latras é abandonar o mundo, e o crente Espírito Santo e com a ajuda da interpre­
não tem a liberdade de fazer essa esco­ tação cristã da vida, ministrada por con­
lha. A admoestação de Paulo é que os selho apostólico, tomar decisões em rela­
coríntios não tolerem tal imoralidade en­ ção à expulsão do membro moralmente
tre os irmãos que têm o nome, mas não recalcitrante e corrupto. Paulo está-se
o caráter de crentes. referindo à disciplina eclesiástica, quan­
É notável que Paulo não requer que os do escreve, no verso 12 , a respeito de
crentes se afastem da sociedade em geral, julgamento.
retirando-se para santos conclaves. Pelo Deus julga os que estão de fora, por­
contrário, o discípulo vive para Cristo no que exercita julgamento sobre todo o
mundo, onde outros homens e mulheres mundo. A responsabilidade da igreja é
vivem e trabalham. O crente não se exercer julgamento ou crítica amorosa e
afasta do seu ambiente, mas o transfor­ benevolente quanto à sua vida interior,
ma, vivendo no destemor e liberdade da confiando a Deus o julgamento dos que
fé (cf. I Cor. 8-10). O crente está liberto não reagem ao evangelho. Pertencer a
do mundo, quando vive uma vida cristã Deus, em Cristo, é viver uma vida disci­
disciplinada no meio do mundo. Os cren­ plinada aos olhos do mundo e exercer
tes devem evitar comer refeições de qual­ disciplina como membro responsável da
quer sorte com pessoas imorais, visto igreja (cf. Col. 4:5; I Tess. 4:12). Paulo
que essa aceitação social pode dar a conclui a sua admoestação referindo-se a
impressão de aceitação moral espiritual Deuteronômio 17:7 (cf. Deut. 19:19; 22:
destes. Mas os cristãos em Corinto não 21). Mais uma vez Paulo apela não para
apenas se associavam com a imoralidade, as autoridades eclesiásticas, mas para
toda a congregação, cuja responsabilida­ pletamente tais brechas entre entendi­
de é exercer disciplina. mento mútuo. Paulo está preocupado
com o crescimento espiritual deles, com
a sua reputação, como cristãos, e o seu
IV. O Problema de Processos testemunho diante dos que estão de fora
Judiciais (6:1-11) da igreja.
Durante o tempo em que Paulo viveu,
1 O u sa a lg u m d e v ós, te n d o u m a q u e ix a o povo judaico havia recebido de Roma a
c o n tra o u tro , i r a ju ízo p e ra n te os In ju sto s, autoridade para aplicar as suas próprias
e n ão p e ra n te os s a n to s? 2 Ou n ã o sa b e is leis aos judeus. Os rabis diziam que era
vós q u e os sa n to s h ã o d e ju lg a r o m u n d o ?
O ra, se o m u n d o h á de s e r ju lg a d o p o r vós, ilegal um judeu levar uma causa diante
sois p o rv e n tu ra in d ig n o s de ju lg a r a s c o isa s de juiz pagão, para ser decidida. Era
m ín im a s? 3 N ão s a b e is v ó s q u e h a v e m o s d e costume judaico nomear três juizes para
ju lg a r os a n jo s ? Q uanto m a is a s c o isa s p e r ­ decidir a causa entre os judeus. A co­
te n c e n te s a e s ta v id a ? 4 E n tã o , se tiv e rd e s
munidade de Qumran tinha estatutos
negócios e m juízo, p e rte n c e n te s a e s ta v id a ,
c o n stitu ís com o ju iz e s d e le s os q u e sã o de para resolver as disputas entre os seus
m en o s e s tim a n a ig r e ja ? 5 P a r a v o s e n v e r ­ membros. Outros grupos religiosos, no
g o n h ar o digo. S e rá q u e n ã o h á e n tr e vós mundo helénico, tinham instituições se­
s e q u e r u m sá b io , q u e p o ss a ju lg a r e n tre melhantes para a solução de disputas
se u s irm ã o s ? 6 M as v a i u m ir m ã o a ju ízo
c o n tra o u tro ir m ã o , e is to p e ra n te in c ré d u ­
entre os seus membros.
los? Os gregos eram famosos por sua incli­
7 N a v e rd a d e , j á é u m a c o m p le ta d e r r o ta nação e gosto por causas judiciais. Os
p a r a vó s o te r d e s d e m a n d a s u n s c o n tra os atenienses haviam desenvolvido um sis­
o u tro s. P o r q u e n ã o so fre is a n te s a in ju s ti­ tema judicial bem complexo, envolven­
ç a ? P o r q u e n ã o so fre is a n te s a fra u d e ?
8 M as vós m e s m o s é q u e fa z e is in ju s tiç a e do, algumas vezes, o incrível número de
d e fra u d a is ; e is to a irm ã o s . 9 N ão sa b e is seis mil cidadãos em um juri. Possivel­
que o s in ju sto s n ã o h e rd a r ã o o re in o d e mente, alguns membros da igreja em
D eus? N ão vos e n g a n e is : n e m o s d e v asso s, Corinto haviam trazido com eles, para a
n e m o s id ó la tra s , n e m os a d ú lte ro s, n e m
o s efe m in a d o s, n e m os so d o m ita s, 10 n e m os
igreja, a sua reação tipicamente grega
la d rõ e s, n e m os a v a re n to s , n e m os b ê b a d o s, aos assuntos legais. Mas a referência que
n e m o s m a ld iz e n te s, n e m os ro u b a d o re s h e r ­ Paulo faz não é tanto aos costumes ju­
d a rã o o re in o d e D eu s. 11 E ta is fo ste s daicos como à compreensão escatológica
a lg u n s d e v ó s; m a s fo ste s la v a d o s , m a s (cf. Mat. 19:28), e à nova condição de
fo stes sa n tific a d o s, m a s fo ste s ju s tific a d o s
e m n o m e do S en h o r J e s u s C risto e n o E s p ír i­ cristãos diante de Deus.
to do nosso D eus. O apóstolo não está sugerindo que as
cortes romanas ou coríntias são incapa­
Esta seção se relaciona com o capítulo zes de executar justiça. Em Romanos
5 pelos temas de julgamento, relação 13:1-7, ele argumenta claramente que o
com os de fora e catálogos de pecados. Estado é o ministro de justiça divinamen­
Os versículos 9 a 11 servem como con­ te aprovado por Deus para todos os
clusão para os versos 1 a 8, e como homens. Ele não está lançando em des­
introdução para os versos 12 a 20. crédito a capacidade legal dos juizes co-
Paulo, nos versos 1 a 8, trata das ríntios, mas repreendendo a insensibili­
relações dos cristãos em Corinto em ou­ dade moral dos cristãos coríntios.
tra área: os tribunais. Ele insiste que os Como pode um crente, que tem algo
crentes devem preferir ser defraudados, contra um irmão, membro da família de
a ter desacordo tão intenso com um Deus, reunida através de Cristo, ter a
irmão a ponto de precisar pedir a não- coragem de ir ao tribunal, diante dos
crentes para decidir a causa. Mais im­ juizes injustos, não-crentes, em vez de ir
portante do que isto, devem evitar com­ diante do povo de Deus, reunido em
Cristo e separado para viver para a glória menos um homem suficientemente sábio,
de Deus? Como pode uma pessoa cuja em seu meio, para decidir disputas de
vida foi transformada chegar ao ponto natureza civil. Quando vai a juízo um
de admitir o fracasso do seu discipulado irmão contra outro irmão, ele demonstra
e pedir a uma pessoa que não tem co­ derrota, fracasso moral (cf. Col. 3:13).
nhecimento do poder do Espírito Santo De fato, é melhor o crente ser prejudica­
para decidir uma causa entre ele e outro do do que prejudicar, ser defraudado do
crente? que defraudar. O crente precisa elevar-
Paulo usa a palavra irmão 38 vezes se acima da restrição da lei, para ser
nesta epístola, e a palavra santos seis constrangido pelo discipulado. Ele preci­
vezes. Ele precisa esperar que uma re­ sa preocupar-se não tanto com os seus
cordação de quem eles são em relação direitos, mas com as suas responsabili­
a Deus e ao próximo os ajude a chegar dades (cf. Mat. 5:39-42; I Ped. 2:23).
a uma compreensão mais amadurecida Roubo é roubo em qualquer parte do
do evangelho. Os santos hão de julgar mundo, mas roubo na família de Deus é
o mundo no dia do juízo (cf. Mat. 19:28; o pior de todos os roubos. A liberdade
Apoc. 20:4; Dan. 7:22). Visto que os da vida cristã demonstra a sua qualida­
cristãos em Corinto assistirão, no julga­ de transcendental quando os crentes
mento escatológico, não são eles dedica­ transformam os seus processos contra os
dos seriamente o suficiente à vida cristã homens em oportunidades para exibir
no mundo presente para tentar resolver qualidades cristãs. £ verdade que preci­
as disputas uns com os outros? Todos samos conservar as instruções de Paulo
os cristãos em Corinto são recomenda­ em seu contexto devido — por exemplo,
dos a exercer disciplina contra um mem­ não transformar a sua exposição feita
bro que havia errado (5:1-13). Não de­ aqui em uma defesa do pacifismo, visto
viam eles também receber recomenda­ que, em Romanos 13:1-7, ele atribui o
ções, como comunidade, de exercerem uso positivo da força ao Estado.
juízo moral, uns para os outros, em Pela terceira vez, neste capítulo, Paulo
assuntos de negócios? se dirige aos coríntios: Não sabeis?
Se os coríntios são tão cheios de sabe­ (v. 2,3,9). Os iqjustos não herdarão o
doria, devem ser suficientemente sábios reino de Deus. A palavra “injustos” , no
para viverem uns com os outros nas verso 9, não se refere diretamente aos
coisas rotineiras desta vida. Sem dúvida, injustos do verso 1 , onde a palavra é
pessoas que estão destinadas a exercer usada como sinônimo de não-crente. No
juízo quanto ao destino eterno dos outros verso 9, a palavra é referência aos dez
devem ser capazes de tomar decisões a tipos de pessoas imorais mencionadas
respeito dos negócios passageiros desta nos versos 9 e 10, que constitui em solene
vida! Afinal de contas, os crentes julga­ lista de deserdados. As palavras traduzi­
rão até os anjos! (cf. Jud. 6; 11 Ped. 2:4; das como efeminados e sodomitas são
Enoque 91:15). Os que são de menos usadas para expressar duas palavras gre­
estima na igreja são os juizes não-cren- gas, que, provavelmente, se referem a
tes, que se assentam em cortes pagãs. homossexuais ativos e passivos.
Seria incongruente crer que esta referên­ É claro que Paulo relaciona pessoas
cia se faz aos membros menos estimados que procuram o estilo de vida descrito
da igreja. Tal interpretação, falando de e que não possuem nenhum desejo de se
crentes mais humildes, atribuiria a Paulo elevar moralmente de sua degradação.
ironia e crueldade. Ele não está sugerindo que essas pes­
Paulo espera envergonhar os coríntios, soas não podem se arrepender e receber o
achando que uma igreja que se vangloria perdão de Deus. As pessoas que se con­
tanto de sua sabedoria encontre pelo tentam em continuar nessa vida não her-
darão o reino de Deus, porque esse tipo bem que os crentes vivem em dois mun­
de vida não é característica do homem dos ao mesmo tempo. O crente vive como
redimido (cf. Mat. 13:41-43; 25:41-46). pessoa nova no mundo velho, onde o
Paulo usa a expressão “herdar o reino pecado ainda predomina. O pecado não
de Deus” várias vezes, em suas cartas aceita o fato de que o crente vive agora
(6:9,10; 15:50; Gál. 5:21; Ef. 5:5). Jesus com nova orientação, um diferente pro­
a usa em Mateus 25:34. É bem claro que pósito, um poder diferente. Portanto, o
Paulo considera herdar o reino como fato pecado continua a luta, tentando obter
escatológico — indicando a vida no reino domínio até na vida do crente. Conse­
futuro — embora saiba que, em sentido qüentemente, Paulo recomenda, aos
genuíno, o reino já esteja presente (Rom. crentes, que tirem o máximo proveito de
14:17; Gál. 5:22). O reino de Deus é a sua nova existência, e que vivam pelo
realidade escatológica, já experimentada poder do Espírito Santo (cf. Rom. 8:3-
pelos crentes, que se seguirá à ressurrei­ 14; Gál. 5:22-25).
ção (15:50). Consciente da grande antítese que
Alguns dos coríntios, antes de sua marca a sua existência — como juízo e
conversão, eram do tipo de pessoas men­ graça, vida e morte — o crente deve abrir
cionadas nos versos 9 e 10. Mas agora são a sua vida para uma fé sempre renová­
novas criaturas (II Cor. 5:17); possuem vel, a fim de se tomar, na vida diária,
uma nova orientação, para Deus, em vez o que de fato Deus fez dele em Jesus
da velha orientação para o pecado. Fo­ Cristo (cf. Ef. 2:1-10; Col. 1:13,14;
ram lavados (purificados da contamina­ 2:13). O indicativo da graciosa redenção
ção), santificados (separados para o ser­ operada por Deus em Jesus Cristo recla­
viço de Deus) e justificados (acertados ma o imperativo da resposta do homem
com Deus). E fazê-lo não foi conquista redimido. O cristão, em Corinto, não
deles, mas dom de Deus. Em nome do está liberado das obrigações de esforçar-
Senhor Jesus Cristo significa que eles se por ter uma vida eticamente elevada;
foram colocados na possessão de Cristo; ele recebe poder para alcançar esse alvo,
no Espírito do nosso Deus declara que porque acertou o passo com Deus e rece­
eles são habitados pelo Espírito, que beu o poder de Deus para fazer a vontade
efetuou a sua nova relação com Cristo. de Deus.
Talvez o termo lavados se refira ao ato do
batismo, quando os coríntios, através
desse ato de fé, se tomaram cristãos. V. O Problema do Uso Adequado
Mas, no contexto, essa palavra parece do Corpo (6:12-20)
descrever o significado da entrega inicial
a Cristo, e não o batismo.
Godet afirma que, no verso 11, Paulo 12 T o d a s a s c o isa s m e sã o líc ita s , m a s
n e m to d a s a s c o isa s co n v é m . T o d a s a s co i­
está fazendo uma alusão à fórmula do s a s m e sã o líc ita s ; m a s e u n ã o m e d e ix a re i
batismo: “Em nome do Pai, e do Filho, d o m in a r p o r n e n h u m a d e la s . 13 O s a lim e n ­
e do Espírito Santo.” Embora esta seja to s são p a r a o e stô m a g o e o e stô m a g o p a r a
uma interpretação forçada, a atenção do os a lim e n to s; D eu s, p o ré m , a n iq u ila rá , ta n ­
leitor é chamada para a fórmula trini- to u m com o os o u tro s. M a s o co rp o n ã o é
p a r a a p ro s titu iç ã o , m a s p a r a o S en h o r, e o
tariana encontrada em II Coríntios S enhor p a r a o co rp o . 14 O ra , D e u s n ã o so ­
13:13. m e n te re s su sc ito u o S en h o r, m a s ta m b é m
Por um lado, Paulo assevera que os nos r e s s u s c ita r á a n ó s p elo se u p o d e r.
coríntios receberam uma nova existência. 15 N ão sa b e is vós q u e o s v o sso s co rp o s sã o
m e m b ro s d e C risto ? T o m a re i, p o is, o s m e m ­
Por outro, que eles vivem, alguns deles, b ro s d e C risto , e os fa r e i m e m b ro s d e u m a
com base na antiga existência. Qual é a m e re triz ? D e m o d o n e n h u m . 16 Ou n ã o s a ­
saída desse dilema? Paulo sabe muito b e is q u e o q u e se u n e á m e r e tr iz , faz-se u m
corpo co m e la ? P o rq u e , co m o foi d ito , os De fato, afirma Paulo, o corpo, trans­
dois s e r ã o u m a só c a rn e . 17 M a s, o q u e se formado, será ressuscitado por ocasião
u n e a o S en h o r é u m só e s p írito co m e le .
18 F u g i d a p ro s titu iç ã o . Q u a lq u e r o u tro p e ­ da ressurreição (cf. 15:35-44; Fil. 3:21).
cad o q u e o h o m e m c o m e te , é f o r a do c o rp o ; Na verdade, o corpo é o templo do Espí­
m a s o q u e se p ro s titu i p e c a c o n tr a o se u rito Santo nesta era, e será a base da
p ró p rio c o rp o . 10 O u n ã o s a b e is q u e o v o sso “existência corporal” na era vindoura
corpo é s a n tu á rio do E s p írito S an to , q u e
h a b ita e m v ó s, o q u a l p o ssu ís d a p a r t e d e
(15:35-44; II Cor. 4:14).
D eus, e qu e n ã o so is de v ó s m e s m o s? 20 P o r ­ Nesta seção, a liberdade em referência
q ue fo ste s c o m p ra d o s p o r p re ç o ; g lo rific a i, à moralidade é abordada de duas manei­
p ois, a D eu s no v o sso corpo . ras: fugir da fornicação e lembrar-se de
glorificar a Deus no corpo. O crente
A esta altura, Paulo passa a discutir» precisa deduzir o que ele é livre para
em princípio, a adequada compreensão fazer, perguntando se é útil para si mes­
da conduta sexual, que é apresentada mo e para os outros, lembrando que o
com o exemplo mencionado em 5:1-13. crente faz parte do corpo de Cristo.
No curso da exposição, ele introduz o Todas as coisas me são lícitas era,
assunto da natureza da liberdade cristã, provavelmente, o tema dos cristãos
que é tratado extensivamente nos capí­ “gnostizantes” na igreja em Corinto. Não
tulos 8 a 10. Nestes versículos, Paulo está claro se esta declaração é originá­
está conduzindo um vigoroso debate com ria de Corinto, ou se fora feita original­
os coríntios. Ele usa duas citações dos mente por Paulo em relação a leis ju ­
seus oponentes para demonstrar que a daicas a respeito dos alimentos, conclu­
interpretação deles está baseada em uma são com que ele agora discorda forte­
compreensão distorcida do evangelho. mente, porque elas representam mal o
Vemos emergindo, em Corinto, a espé­ que ele dá a entender (cf. Gál. 5:1).
cie de interpretação que se encontra em No segundo século d.C., alguns gnós­
alguns dos grupos gnósticos do segundo ticos assumiram uma atitude muito li­
século d.C. Os coríntios crêem que o bertina em relação ao corpo; outros, uma
que é feito com o corpo físico não tem atitude muito ascética. Aqui, a atitude
nenhum efeito danoso sobre o destino da condenada é a dos libertinos. Parece,
alma. Em outras palavras, separam as neste capítulo, que a interpretação frou­
coisas físicas das espirituais. Em segundo xa da liberdade, expressa nesta citação,
lugar, o corpo não tem significado per­ se origina de uma interpretação do corpo
manente na vida do homem. Como resul­ que afirma que a gratificação física não
tado, pode ser usado de qualquer manei­ tem efeitos permanentemente danosos
ra que produza prazer sensual. sobre o homem interior. Irregularidades
A resposta de Paulo a esse entendimen­ sexuais, diziam eles, não têm significado
to errado, em relação ao corpo, é que o moral. Paulo responde apontando para a
corpo é a expressão exterior do próprio necessidade de maturidade pessoal nas
homem. Ê outra forma de se falar em relações sociais (cf. 10:23). O que é mais
“eu” ou “personalidade” . Sem dúvida, importante não é a autogratificação, mas
um dos significados da palavra corpo é o serviço a si mesmo e a outrem.
simplesmente órgão físico. Porém outro A ausência de exigências legalistas não
significado, que os coríntios precisam en­ pode levar à licenciosidade na condes­
tender, é que o corpo também significa o cendência a desejos pessoais. A morali­
eu ou pessoa. Visto que isso é verdade, dade pessoal não é expressa e fortale­
o que uma pessoa faz com o seu corpo cida por indiferença pelo que um ato
faz à sua personalidade. E a imoralidade acarreta, para o autor ou para outras
sexual danifica a personalidade do ho­ pessoas. O amor aos outros, e não li­
mem. cenciosidade em relação a si mesmo, é a
regra para a vida cristã (cf. 8:1; Gál. deseja, por direito, ser o Senhor da per­
5:13). Paulo diria: Posso fazer o que me sonalidade.
agrada quanto a qualquer coisa, mas não É importante lembrar que os gregos
permitirei que nada faça comigo o que tinham uma atitude diferente, quanto ao
lhe agrada (James Moffatt, p. 68). A li­ corpo, da partilhada pelos judeus. Fa­
berdade cristã precisa ser definida em mosos mestres gregos falaram da insigni­
termos do que eu domino, e não em ter­ ficância do corpo comparada com a
mos do que me domina. imortalidade da alma. Os judeus, por
A segunda citação dos coríntios é: Os outro lado, ensinavam que o homem é
um ser psicossomático. Ele não tem um
alimentos são paia o estômago, e o es­
corpo; ele é corpo. A expressão exterior
tômago, para os alimentos. Paulo certa­
do ser de uma pessoa é o corpo. Ele
mente concorda que os alimentos e o
tem um estômago; ele é corpo.
estômago não são permanentes. Ele con­
Em alguns casos, Paulo usa a palavra
corda que a comida não contamina o
corpo para expressar simplesmente o ór­
homem (cf. 8:8; 10:25,26; Mar. 7:18,19).
Paulo acha-se de acordo com a afirmação gão físico. Nesta passagem, pode-se su­
bstituí-la pela palavra personalidade ou
básica da segunda citação, mas discorda
veementemente da aplicação que os co­ “eu” , na maioria dos casos, e entende-
ríntios fazem dela. Não se pode dizer que se ainda mais claramente o que Paulo
está querendo dizer (cf. Rom. 12:1 e leia
comida e sexo são simplesmente desejos
físicos que precisam ser satisfeitos sem “personalidades” , em vez de “corpos”).
Sem dúvida, visto que Paulo está escre­
escrúpulos morais. Embora o estômago
vendo acerca de imoralidade sexual, a
vá perecer, o corpo será ressuscitado
maneira de se entender corpo como a
(cf. 15:35-50).
expressão do físico é imediata. Corpo
A imediata reação de Paulo a esta tem mais conotação física no verso 13
citação é um apelo à responsabilidade pela primeira vez que esta palavra é
pessoal. O crente, na verdade, é livre, usada, bem como no verso 16, e mais
e não escravo. A sua servidão a Cristo é uma conotação de eu da segunda vez no
liberdade, porque lhe permite cumprir verso 13, bem como nos versos 14 e 15.
a intenção de Deus para com o homem. No verso 18, o significado não é claro; no
O que alguns dos coríntios ensinam não verso 19 se faz referência não tanto ao
é liberdade, mas licenciosidade. Apelar corpo físico quanto a toda a pessoa,
para a liberdade a fim de viver na li­ como, provavelmente, também é o caso
cenciosidade resulta não em liberdade, no verso 20.
mas em tirania. O corpo não é para a Deus não somente ressuscitou ao Se­
prostituição, mas para o Senhor; isto é nhor, mas também nos ressuscitará a nós
uma forma de se dizer que o corpo, a pelo seu poder é uma afirmação de que
personalidade humana, não tem o obje­ Deus ressuscitou Jesus em um corpo glo­
tivo, no desígnio da criação de Deus, rificado, e ressuscitará dentre os mortos
de ser usado como instrumento de grati­ os corpos de todos os fiéis, pelo mesmo
ficação sexual imoral, mas deve ser trata­ poder. Paulo está falando, no verso 14,
do como templo do Espírito Santo (cf. da ressurreição do corpo, e não da imor­
6:19). Não se está livre para condescen­ talidade da alma.
der em sexo ilícito simplesmente porque Os coríntios devem saber disto: os
se reconhece que não existe diferença vossos corpos são membros de Cristo
entre comida sagrada e profana! O es­ (cf. Rom. 12:5; Col. 1:18-24). Cristo é
tômago perecerá; o corpo, transformado, o corpo, do qual os crentes individual­
ressuscitará dentre os mortos. A perso­ mente são membros. Visto que Deus
nalidade deve ser devotada a Deus; Deus tomará a dar vida aos nossos corpos,
por ocasião da ressurreição, e visto que de Paulo, escreve, dizendo que a alma é o
os nossos corpos fazem parte do corpo do santuário de Deus; e Epiteto, mestre
Senhor atualmente, é impossível pensar- estóico do fim do primeiro século d.C.,
se que um crente una parte do corpo de declara que Deus habita na alma através
Cristo com o corpo de uma prostituta. da razão. Mas Paulo ensina, aqui, que
A relação sexual significa, em certo pela graça — através da redenção reali­
sentido, que as duas pessoas se tornam zada por Cristo — Deus habita no corpo,
uma física e mentalmente (cf. Gên. que expressa toda a personalidade, me­
2:24). A pessoa que une o seu corpo diante o Espírito Santo. Esta ênfase dá,
com o de uma prostituta, torna-se física e aos seus ensinamentos, um significado
mentalmente uma com ela, em uma vida adicional, quando são comparados com
da “carne” , centralizada no pecado; mas os ensinamentos dos pensadores não-
a pessoa que une o seu corpo ao Senhor cristãos do primeiro século.
toma-se espiritualmente uma com ele,
Falando do corpo como templo, Paulo
em uma vida de união espiritual. A rela­
ção com aquela é pecado; com este, é enfatiza que ele deve ser usado — e não
espiritual. abusado — para o objetivo para que foi
criado por Deus. Essa caracterização é
Fugi da prostituição porque ela ofere­
ce tentações com que o crente nunca deve um repúdio frontal da licenciosidade se­
se envolver. xual, advogada em Corinto. A referência
ao Espírito Santo indica as possibilidades
O lembrete do verso 18 é muito difícil
com que Deus dotou o corpo. Pela graça
de se interpretar. Os comentaristas lem­
de Deus, revelada em Cristo, o corpo
bram que glutonaria e bebedice também
são pecados contra a personalidade e o toma-se a habitação do Espírito de Deus,
corpo físico da pessoa. Ainda assim, ne­ e, assim, o Espírito dá poder e direção
nhum pecado acarreta tanto a doação para a vida do crente, que amadurece
e entrega de toda a personalidade — cada vez mais (cf. Rom. 8:9-11). O cor­
emoção, mente e vontade — violando a po, que é lugar de habitação do Espírito,
intenção revelada de Deus, como a imo­ não deve ser dado a uma prostituta.
ralidade sexual. Em nenhum outro vício Pela graça de Deus, o corpo do crente
o corpo é tão intimamente unido a outra toma-se santo, para os propósitos de
Deus. Falar do corpo como templo do
pessoa para prejudicar essa pessoa e a si
mesmo. Espírito Santo é falar, portanto, da sua
A imoralidade sexual acarreta uma dignidade e possibilidades propostas di­
degradação da relação sexual, uma indi­ vinamente. Ele não deve ser abusado
ferença às reivindicações de Cristo sobre nem por ascetas nem por libertinos.
a personalidade e uma negação da santi­ Não sois de vós mesmos, porque per­
dade do corpo para uma futura comu­ tenceis a Cristo. Em sentido genuíno, o
nhão com Deus. É importante notar que crente é o mais livre dos homens, porque
o repúdio da imoralidade, por parte de não tem senhor terreno. Ao mesmo tem­
Paulo, não é primordialmente psicoló­ po, a sua é a maior condição de escravo
gico ou sociológico, mas teológico. dentre os homens, porque pertence a
Pela sexta vez, neste capítulo, Paulo Deus. Mas essa escravidão é a perfeita
pergunta: Não sabeis? (cf. v. 2,3,9,15, liberdade. Cristo libertou o crente da es­
16). A expressão: O vosso corpo é santuá­ cravidão do pecado, reclamando-o para
rio do Espírito Santo, que habita em vós, Deus. Não sois de vós mesmos, de forma
abrange a aplicação da metáfora do tem­ que os vossos interesses egoísticos não
plo não somente à igreja em Corinto podem reclamar a posse de vossa vida.
(cf. 3:16), mas também ao crente indivi­ Cristo “morreu por todos, para que os
dualmente. Filo, judeu contemporâneo que vivem não vivam mais para si, mas
para aquele que por eles morreu e ressus­ cemos o alvo de usar os nossos corpos
citou” (II Cor. 5:15). para glorificar a Deus. Visto que perten­
Fostes comprados por preço: o sangue cemos a Deus, os nossos corpos perten­
do Cristo crucificado (cf. 7:23; Gál. 3:13; cem ao seu serviço. Quando vivemos para
4:5; I Ped. 1:18,19; Mar. 10:45). Um Deus e, por isso, o louvamos com os
costume, chamado alforria sacra, permi­ nossos corpos, fazemo-lo por obediência
tia que os escravos economizassem di­ jubilosa. Essa ordem se tom a uma fonte
nheiro suficiente, dos seus minguados de alegria, porque é o cumprimento do
ganhos, para comprar a sua liberdade. seu propósito para os nossos corpos, sem
Tinha então lugar uma cerimônia, em o qual não podemos cumprir o seu pro­
que eles levavam o dinheiro aos sacerdo­ pósito para as nossas vidas na terra ou
tes no templo do seu deus, e, depois que no céu. O serviço a Deus não pode ser
o dinheiro era depositado junto ao deus tão “espiritualizado” que nos permita
(e mais tarde transferido para o seu pos­ uso fundamentalmente errado do corpo.
suidor terreno anterior), eles eram decla­ O corpo que dedica a vida a Cristo será
rados escravos do seu deus. Agora eles ressuscitado, para viver com Cristo.
não eram mais escravos dos seus senho­
res terrenos. Tecnicamente, eles eram
escravos do deus; praticamente, eram VI. Perguntas a Respeito do Ca­
homens livres. samento (7:1-40)
Usando a metáfora deste processo de
redenção, Paulo relembra, aos coríntios,
que eles já foram comprados da servidão O capítulo 7 é uma resposta aos pro­
do pecado (cf. Rom. 7:14) e da morte blemas apresentados pelos coríntios em
(cf. Rom. 5:17; 6:23) sem nenhuma in- uma carta enviada a Paulo. Os capítulos
teiferência humana, mas pelo sacrifício subseqüentes referem-se a outras interro­
de Cristo (cf. Rom. 3:24,25). Os homens gações que lhe haviam sido feitas (cf. 8:1 ;
nunca poderiam ter comprado essa li­ 12:1; 16:1). Para comentários adicionais,
berdade; ela lhes teve que ser dada por reporte-se às seções 3 e 7, na Introdução.
Deus, em Cristo. Neste capítulo, Paulo volta-se de um
Precisa ser esclarecido que a redenção problema de imoralidade sexual, para
é mencionada no Velho Testamento, e os problemas relacionados com o casa­
Paulo pode estar referindo-se não tanto mento. Há algumas evidências de que
ao processo de alforria sacra, quanto ao havia uma tendência ascética no pensa­
ato de Deus, ao remir o seu povo do Egito mento de alguns coríntios. No segundo
(cf. Êx. 6:6; 13:3; Sal. 103:4). século d.C., os gnósticos assumiram a
A admoestação de Paulo, glorificai, posição de que o que importa é só o
pois, a Deus no vosso corpo, constitui espírito; alguns diziam que o que a pes­
em vivo contraste com os ensinos do seu soa faz com o corpo não importa; ou­
contemporâneo estóico, Sêneca, que su­ tros, que o corpo precisa ser tratado
gerira que um homem nunca glorifica asceticamente. Mesmo antes dessa épo­
a Deus com o seu corpo. Ele cria que ca, em Corinto havia atitudes libertinas,
uma pessoa podia glorificar a Deus com bem como ascéticas, no que se referia ao
a sua mente ou alma, mas não com o corpo.
seu corpo, que ele considerava como A atitude de Paulo em relação ao
uma ameaça à pureza de espírito, uma casamento é conservadora, mas não de-
concha, uma roupa usada apenas por preciadora. A sua atitude com respeito
algum tempo, uma prisão. ao sexo é conservadora, porém não anor­
É porque pertencemos a Deus, atra­ mal. Ele aprova o ponto de vista de que
vés da redenção, todavia, que estabele­ a maioria das pessoas necessitam do ca-
sarnento e da expressão sexual que ele p ró p rio co rp o , m a s , sim , o m a r id o ; e t a m ­
acarreta. É imperioso lembrar que a sua b é m d a m e s m a s o r te o m a rid o n ã o te m
a u to rid a d e so b re o se u p ró p rio co rp o , m a s ,
resposta às interrogações feitas pelos co- sim , a m u lh e r. 5 N ão v o s n e g u e is u m ao
ríntios, em relação ao casamento, está o u tro, se n ã o d e co m u m ac o rd o , p o r a lg u m
baseada, em parte, na situação moral te m p o , a fim d e vos a p lic a rd e s à o ra ç ã o e
vigente em Corinto, cidade notória por depois vos a ju n ta rd e s o u tr a vez, p a r a que
S a ta n á s n ã o v o s te n te p e la v o ss a in c o n ti­
sua imoralidade. Ele é favorável a uma n ê n c ia . 6 D igo isto , p o ré m , c o m o q u e p o r
vida sem uma expressão de relaciona­ c o n cessão , e n ã o p o r m a n d a m e n to . 7 C on­
mento sexual explícito, para os que são tu d o , q u e re r ia q u e to d o s o s h o m e n s fo ssem
solteiros, e aconselha relações sexuais com o e u m e s m o ; m a s c a d a u m te m d e D eu s
normais para os que são casados. Além o se u p ró p rio d o m , u m d e s te m o d o , e o u tro
d aq u ele .
disso, a expectativa escatológica de Paulo
o leva a aconselhar outros a não entra­ A expressão Bom seria que o homem
rem no casamento, se possuírem o dom não tocasse em mulher pode ser uma
da continência que lhe foi dado. No en­ citação da carta que Paulo havia recebi­
tanto, fica claro que ele não crê que do dos coríntios. Ou Paulo atribui valor
muitas pessoas possuam o dom do ce­ à declaração que eles haviam escrito, ou
libato. a apresenta para acompanhar a sua pró­
0 apóstolo não diz que o único valor pria opinião. Essa declaração é um eu­
do casamento é o controle da licenciosi­ femismo bíblico (cf. Gên. 20:6; Prov.
dade sexual. Mas ele crê que este é um 6:29). Paulo quer dizer que há valor em
dos valores do casamento, porque permi­ a pessoa não se envolver em relaciona­
te uma expressão divinamente aprovada mento sexual. Ele não está se referindo
de desejo sexual, que faz parte do dom ao sexo fora do casamento. Ele diz que
da criação. Em lugar nenhum ele ma­ há valor em as pessoas não se casarem,
nifesta desprezo pelo casamento, como mas viverem uma vida de celibatários.
foi a atitude de alguns dos pais da Igreja, Nem o mundo judaico contemporâneo
como Jerônimo ou Tertuliano, que se nem o mundo grego apresentavam qual­
referiam ao casamento como “uma des­ quer argumento em favor do celibato.
graça voluptuosa” . Pelo contrário, o casamento era encora­
A atitude de Paulo é permissiva, e jado. Os rabis esperavam que os judeus
não obrigatória, quanto à escolha entre jovens se casassem, geralmente aos de­
celibato e casamento. Ele dá grande va­ zoito anos de idade, porque isso era
lor ao celibato, à luz da imoralidade em considerado um dever. Em Gênesis 2:18,
Corinto e da esperança escatológica. é declarado que não é bom que o homem
A profunda compreensão do casamento, viva só. Paulo não está exaltando o celi­
em Efésios 5:22-33, passagem esta es­ bato acima do casamento, no verso 1 , mas
crita em data posterior, revela uma com­ está exaltando o celibato. Há valores em
preensão dos valores positivos do casa­ uma vida de celibato — é o que Paulo
mento, além do seu relacionamento com está dizendo.
o sexo. Tenha cada homem sua própria mu­
lher e cada mulher seu próprio marido,
1. Casamento e Sexo (7:1-7)
porque a maioria das pessoas necessita
1 O ra, q u a n to à s c o isas d e q u e m e e s c r e ­ da expressão sexual divinamente apro­
v e ste s, b o m s e r ia q u e o h o m e m n ã o to c a s se vada, que o casamento propicia. As pes­
e m m u lh e r; 2 m a s , p o r c a u s a d a p ro s titu i­ soas que não encontram uma vasão sadia
ção, te n h a c a d a h o m e m s u a p ró p r ia m u lh e r para os seus sentimentos sexuais no ca­
e c a d a m u lh e r s e u p ró p rio m a rid o . 3 O m a ­
rid o p a g u e à m u lh e r o qu e lh e é d ev id o , e
samento são tentadas a satisfazer os seus
do m e s m o m o d o a m u lh e r a o m a rid o . desejos sexuais fora do casamento. E isso
4 A m u lh e r n ã o te m a u to rid a d e so b re o se u leva à prostituição.
Paulo não apenas defende o casamen­ 10 T o d a v ia , a o s c a sa d o s , m a n d o , n ã o eu ,
m a s o S en h o r, q u e a m u lh e r n ã o se a p a r te
to, mas também aconselha que marido e do m a rid o ; 11 s e , p o ré m , se a p a r t a r , q u e
mulher sejam sensíveis às necessidades fique s e m c a s a r , ou se re c o n c ilie co m o m a ­
sexuais um do outro. A relação sexual é rid o ; e q u e o m a rid o n ã o deix e a m u lh e r.
erguida do nível de autogratificação para 12 M as a o s o u tro s digo e u , n ã o o S e n h o r:
o de sensibilidade moral um para com o Se a lg u m ir m ã o te m m u lh e r in c ré d u la , e
e la c o n se n te e m h a b ita r co m e le , n ã o se
outro. se p a re d e la . 13 E se a lg u m a m u lh e r te m
A relação sexual não é considerada m a rid o in c ré d u lo , e e le c o n se n te e m h a b ita r
favor, mas dívida. A abstenção é permi­ com e la , n ão se s e p a r e d e le . 14 P o rq u e o
tida apenas mediante concordância mú­ m a rid o in c ré d u lo é sa n tific a d o p e la m u lh e r,
e a m u lh e r in c ré d u la é sa n tific a d a p elo m a ­
tua, e para se usar esse tempo para rid o c r e n te ; d e o u tro m o d o , os v ossos filhos
reflexão espiritual. A abstenção é uma s e ria m in u n d o s; m a s a g o ra sã o sa n to s.
exceção sob certas condições, e não uma 15 M as, se o in cré d u lo se a p a r t a r , a p a r te - s e ;
regra sob quaisquer condições. Tanto p o rq u e n e ste c a so o Irm ã o , o u a ir m ã , n ão
judeus como gregos ensinam que o rela­ e s tá su je ito à se rv id ã o ; p o is D eu s nos c h a ­
m o u e m p a z. 16 P o is , com o sa b e s tu , ó
cionamento sexual produz impureza ri­ m u lh e r, se s a lv a r á s te u m a rid o ? ou, com o
tual (Êx. 19:15; Lev. 15: 18). As relações sa b e s tu , ó m a rid o , se s a lv a r á s tu a m u lh e r?
sexuais são suspensas pelos judeus, por
exemplo, no Dia da Expiação (Mishnah, Paulo continua os seus conselhos apos­
Yoma 8:1). No entanto, não há indica­ tólicos, nos versos 8 a 16, voltando a
ção de que Paulo considerasse contami- atenção para os solteiros e viúvos. Pro­
nadora a atividade sexual. vavelmente, ele inclui, nessas admoesta­
O período de abstenção não é para ser ções, tanto homens como mulheres, in­
indefinidamente, mas por algum tempo. clusive pessoas que são separadas. O seu
As relações normais precisam ser reini­ conselho é tais pessoas ficarem como eu.
ciadas, por causa da tentação da licen­ Solteiras? De fato, não está claro se
ciosidade sexual. Paulo era um solteirão. Ele podia ser
Paulo diz isso como que por concessão, viúvo. Em sua maioria, os rabis eram
e não por mandamento. Refere-se isto a casados, e o casamento era considerado
tudo o que é dito nos versos 1 a 5, ao uma obrigação para o homem judeu,
que ele diz no verso 2 ou ao que diz no quando ele alcançava a idade de dezoito
verso 5? Provavelmente, a referência é ao anos.
verso 5, e Paulo concorda que um casal O argumento de que os membros do
deve abster-se de relações sexuais duran­ Sinédrio precisavam ser casados, toda­
te certo período limitado, para usá-lo via, não é decisivo para se provar que
como tempo de reflexão espiritual. Paulo era viúvo. E a declaração feita em
Quereria que todos os homens fossem Atos 26:10 não prova que Paulo votou
como eu mesmo, capaz de viver uma vida como membro da corte, mas apenas que
sadia sem qualquer necessidade de ex­ ele concordou com o veredicto da mesma.
pressão sexual. Mas nem todos os ho­ Se Paulo havia sido casado, e pode ser
mens são dotados com o dom do celibato que sim, não há indícios diretos ou indi­
e continência (cf. Mat. 19:12). Algumas retos deste fato em suas cartas. De qual­
pessoas têm outros dons. Para essas, é quer forma, não pode ser estabelecido
bom e sábio casar-se. definitivamente se ele era solteiro ou
viúvo.
2. Os Solteiros e os Viúvos (7:8-16) No verso 8, Paulo está aconselhando as
pessoas que não são casadas, quer casa­
8 D igo, p o ré m , a o s so lte iro s e à s v iú v a s,
que lh es é b o m se f ic a re m com o e u . 9 M as, das anteriormente, quer não, a permane­
s e n ã o p o d e m c o n te r-se , c a se m -se . P o rq u e é cerem sozinhas. As pessoas que não pos­
m elh o r c a s a r do qu e a b ra s a r-s e . suem o dom da continência, contudo,
devem aceitar esse fato, e se casar. divórcio (v. 13) em referência à mulher.
Ê muito melhor estar casado e satisfazer Se o desquite ocorre entre esposos cren­
o desejo sexual do que permanecer sem tes, eles devem permanecer descasados,
casar e abrasar-se interiormente de isto é, não se casarem de novo, ou se
paixão. reconciliarem.
As viúvas consistiam em preocupação Os versículos 12 a 16 tratam de casa­
especial para a igreja primitiva, que to­ mentos em que um dos cônjuges é crente
mou uma atitude séria para tratar delas e confesso. Paulo não parece ser a favor
de seus problemas. Admoestações a res­ de que crentes se casem com não-cren-
peito das viúvas realmente não contradi­ tes, como indica II Coríntios 6:14-7:1.
zem o que é dito em I Timóteo 5:3-16 Nesta seção, a referência é a um marido,
(cf. v. 39 e 40). ou uma esposa, que se torna crente de­
Nos versos 10 e 11, Paulo dirige a sua pois de estar casado, ou casada, com
atenção para os casamentos em que ma­ uma pessoa que não é crente. Paulo se
rido e mulher são crentes. O seu conse­ opõe claramente à dissolução desse casa­
lho é que os crentes que estão casados mento, porque, por princípio, ele se opõe
não devem dissolver o seu casamento. ao divórcio. Não obstante, ele reconhece
Ele não advoga nenhuma adesão ao as- que o marido, ou esposa, não-crente
ceticismo. Neste caso, ele cita a palavra pode criar objeções à nova fé que o seu
de Jesus, o Senhor, e a considera como cônjuge abraçou. Se a fé do crente re-
ordem do Senhor. Ele está-se referindo cém-convertido cria conflito entre mari­
ao ensino de Jesus a respeito do divórcio do e mulher, e o cônjuge não-crente
(cf. Mar. 10:3-9). Paulo não faz menção deseja a separação, então o cônjuge cren­
da expansão interpretativa de Mateus te deve concordar com a separação. Mas
5:32 e 19:9. As escolas rabínicas de Hillel o cônjuge crente não deve dar início à
e Shammai diferiam em sua maneira de separação. A fé cristã não deve ocasio­
encarar o divórcio. Hillel permitia que o nar conflito irreconciliável em um lar, e,
homem se divorciasse de sua esposa por sim, produzir paz (v. 15).
quase qualquer razão. Shammai permi­ Não está claro o que Paulo está que­
tia que o homem obtivesse o divórcio rendo dizer quando escreve que o marido
tão-somente por causa de adultério. incrédulo é santificado pela mulher, e
Jesus fez referência, em Marcos 10: a mulher incrédula é santificada pelo
3-9, ao ensino de Moisés; e, indubitavel­ marido crente. Alguns eruditos suge­
mente, as escolas rabínicas tinham co­ rem que Paulo está-se referindo a um
nhecimento do ensino de Deuteronômio ponto de vista material de santidade e
e apresentavam diferentes interpretações impureza, que podem passar de uma
para ele. Desde a promulgação da lei de pessoa para outra mediante contato. A
Augusto, as mulheres do Império Roma­ qualidade física de santidade, suposta­
no estavam achando muito mais fácil mente, passa do cônjuge crente para o
iniciar ação de divórcio contra os seus não-crente, e a santificação é efetuada.
maridos. A mulher judia precisava abrir O resultado disso é que, adicionalmente,
processo de divórcio nos tribunais, e ele os filhos são supostamente santos. Não
lhe era concedido apenas sob condições há necessidade de batismo para essas
muito restritas. crianças, sustentam alguns estudiosos,
Paulo afirma que nem a mulher nem visto que por nascimento elas já perten­
o homem deve iniciar o processo de des­ cem ao corpo de Cristo.
quite ou divórcio. No judaísmo, só o ho­ Entre os rabis era ensinado que, se
mem, ou seja, o marido, tinha o direito uma mulher prosélita estivesse grávida
de se divorciar. Mas Paulo usa tanto quando fosse recebida no judaísmo, o seu
separação ou desquite — (v. 10) como batismo valia também pelo da criança.
O conceito de solidariedade corporativa, o .casamento, se o cônjuge não-crente
tão forte no judaísmo, em que Paulo iniciar a separação. Mas o crente deve
nascera, é sustentado por outros erudi­ fazer todos os esforços para manter o
tos, que sugerem que a santidade de uma casamento, que tem o propósito de criar
pessoa se estende ao seu cônjuge e aos harmonia, e não discórdia. Não há indi­
seus filhos. cação de que Paulo considere o crente
De fato, esta passagem (v. 12-16) não livre para se casar de novo, se ocorrer o
faz referência ao batismo de crianças. divórcio. O versículo 16 é traduzido como
Pode-se concordar com Barrett (p. 166), interrogação, na versão da IBB. Pode ser
que afirma que não há indicação, em também traduzido como afirmação:
nenhuma das cartas de Paulo, de que o “Esposa, talvez salvarás o teu marido;
batismo é administrado a qualquer pes­ marido, talvez salvarás a tua esposa”
soa que não seja crente, isto é, que não (cf. Barrett, p. 167). O fato de se tra­
tenha confessado a sua fé. Á palavra tra­ duzir este versículo como interrogação
duzida como santificado é a mesma usa­ pode dar a idéia de que Paulo está de­
da em 1:2. Será que Paulo pretende sencorajando o cônjuge crente a expres­
expressar o mesmo significado em ambos sar e manter interesse na conversão à
os casos? Em que sentido um não-crente fé cristã de seu cônjuge recalcitrante,
é separado para o serviço de Deus atra­ no interesse da paz no lar. Contudo, este
vés do casamento com um crente? Como versículo pode ser traduzido como in­
indica o verso 16, Paulo não considera terrogação, diferente, mas legitimamen­
santificação e salvação essencialmente te, e dar a entender que o cônjuge crente
como sinônimos. pode ajudar a levar o cônjuge não-crente
Talvez Paulo queira dizer, aqui, que à fé em Jesus: “Pois, como sabes tu,
o casamento de um crente com um não- ó mulher, se salvarás teu marido? ou,
crente, tem um caráter de devoção, por como sabes tu, ó marido, se salvarás tua
causa da fé cristã de um dos cônjuges. mulher?” (Salvarás é usada no v. 16 da
O crente dá uma qualidade de pureza maneira como em Romanos 11:14 e I Co-
ao casamento, de forma que o divórcio ríntios 9:22).
é indesejável. Não há profanação do ca­
3. Casamento e Vocação (7:17-24)
samento quando um dos dois cônjuges é
crente, mesmo que o outro permaneça 17 S o m en te a n d e c a d a u m com o o S en h o r
não sendo crente. lhe re p a r tiu , c a d a u m co m o D eu s o ch a m o u .
E é Isso o q u e o rd en o e m to d a s a s Ig re ja s .
Dizer que os filhos são santos é dizer 18 F o i c h a m a d o a lg u é m , e sta n d o c irc u n c i­
que eles vivem em uma atmosfera de dado? p e rm a n e ç a a s s im . F o i a lg u é m c h a ­
piedade, criada pelo seu progenitor cren­ m ad o n a in c irc u n c isã o ? n ã o se c irc u n c id e .
te, que é benéfica para o seu crescimento 19 A c irc u n c is ã o n a d a é, e ta m b é m a in c ir­
cu n cisão n a d a é , m a s , sim , a o b se rv â n c ia
espiritual. (É importante notar que o dos m a n d a m e n to s de D eu s. 20 C a d a u m
verbo grego traduzido como “ santificar” fique no e sta d o e m q u e foi c h a m a d o . 21 F o s ­
— hagiazein — e a palavra grega tra­ te c h a m a d o sen d o e sc ra v o ? n ã o te dê c u i­
duzida como “ santo” — hagios — pro­ d ad o ; m a s se a in d a p o d e s to m a r-te liv re ,
vêm da mesma raiz.) Seja o que for que a p ro v e ita a o p o rtu n id a d e . 22 P o is a q u e le
que foi c h a m a d o no S en h o r, m e s m o sen d o
Paulo esteja querendo significar, é bom e sc ra v o , é u m lib e rto do S en h o r; e a s s im
admitir que ele não está-se referindo ta m b é m o q u e foi c h a m a d o sen d o liv re ,
nem à salvação do esposo não crente e sc ra v o é d e C risto . 23 P o r p re ç o fo ste s
nem à salvação dos filhos desse casamen­ c o m p ra d o s; n ã o vos fa ç a is e s c ra v o s d e h o ­
m en s. 24 Ir m ã o s , c a d a u m fiq u e d ia n te de
to. Ele está-se referindo ao seu bem- D eus n o e sta d o e m qu e foi ch a m a d o .
estar, e não à sua salvação.
O cônjuge crente de uma pessoa não- O conselho de Paulo, aos casados,
crente não tem a obrigação de manter no decorrer deste capítulo, é que eles
permaneçam como estão. Se não são centará qualquer coisa que seja necessá­
casados, devem ficar sem se casar, se ria para a sua dedicação cristã (cf. Gál.
têm o dom da continência. Se são casa­ 5:6; 6:15).
dos, devem permanecer casados, se o seu Tais atividades não têm nenhum va­
respectivo cônjuge quiser continuar o ca­ lor para a vida cristã, simplesmente por­
samento. Nesta seção, Paulo estende a que tratam dos aspectos exteriores da
sua apreciação, do casamento, à vida vida. O cristianismo trata da reorienta-
como um todo. A sua observação básica ção básica e interior da vida. A marca
é que a fé cristã propicia uma nova fundamental da fé cristã é um coração
existência dentro da pessoa, mas não transformado, e não a mudança de cir­
necessariamente ao redor dela. A fé cris­ cunstâncias físicas. Leva a viver pela lei
tã opera uma mudança radical no ho­ do amor, com base na fé (cf. Gál. 5:6;
mem interior, mas não, necesariamente, 6:15; Rom. 1:5; 16:26). As circunstân­
qualquer mudança na situação física. cias exteriores da vida de um homem —
Por exemplo, um escravo que se torna do tipo das que ele pode alterar ou mani­
crente permanece exteriormente escravo; pular — não destroem a grande reali­
porém, interiormente ele é um homem dade de sua vida: a sua relação com
livre. Deus.
Paulo, exercendo a sua autoridade Cada um fique no estado em que foi
apostólica, espera que, quanto aos que chamado. Esta passagem declara que a
pertencem às igrejas que ele estabeleceu, pessoa deve permanecer no estado em
ande cada um como o Senhor lhe repar­ que está quando é chamada por Deus
tiu, cada um como Deus o chamou (cf. para se tomar crente. O cristianismo,
1:2; 4:17; 11:16; 14:33). Ele estabelece necessariamente, cria uma nova existên­
regras em todas as igrejas, a fim de cia dentro da pessoa, mas não, necessa­
guiar os novos convertidos à uma expres­ riamente, nova existência ao redor dela.
são madura de fé. Ele espera que tais A realidade espiritual não depende de
regras sejam obedecidas, porque elas es­ mudança nas circunstâncias exteriores.
tão baseadas no seu apostolado, conce­ Paulo dá este conselho, porque o crente
dido divinamente. Portanto, ele escreve: aprende que Deus está com ele, sejam
£ isto o que ordeno em todas as igrejas. quais forem as circunstâncias de sua
Uma pessoa que se tom a crente des­ vida.
cobre que a sua sorte atual é transfor­ Uma nova dimensão é dada às circuns­
mada. Portanto, espera-se que ela viva tâncias da vida terrena de um homem
como redimida no estado em que se en­ pelo próprio Deus. O escravo que se
contra à época da conversão. A palavra toma crente, por exemplo, na verdade é
chamou, no verso 17, não se refere ao livre, porque está livre da tirania do
chamado ou vocação de Deus para que a pecado, e passa a pertencer a um novo
pessoa se tome crente (1:26); é uma senhor, celestial: o Senhor (cf. Rom.
referência à sua condição ou circunstân­ 6:18,22; Gál. 5:1). A comunhão com
cias de vida à época em que se tomou Deus não é ditada pelas circunstâncias
crente. Por exemplo, um judeu que se que o homem chama à existência; é dom
toma crente não deve submeter-se a uma de Deus, sejam quais forem as privações
operação cirúrgica para remover as mar­ do homem. O homem livre não está livre
cas da sua circuncisão. (Alguns judeus de Cristo, mas livre em Cristo. A liber­
haviam feito exatamente isso pouco antes dade é interpretada em termos da ser­
da revolta dos Macabeus, como indica vidão do serviço a Cristo. Tanto o escravo
I Macabeus 1:15.) Um gentio que se como o homem livre gozam o mesmo tipo
toma crente não deve submeter-se à cir­ de liberdade, para obedecer a Cristo e
cuncisão, na suposição de que ela acres­ servi-lo.
A escravidão não impede, à pessoa, a Mas os homens que são libertados por
realização espiritual em sua vida. Mas, Cristo não podem vender-se de novo ao
se uma oportunidade se oferece para pecado, e esperar outra emancipação.
que o escravo ganhe a sua liberdade, São escravos de Cristo (Rom. 6:18; Gál.
deve aproveitar-se dela. Alguns estudio­ 5:1; Fü. 1:1).
sos crêem que Paulo ensina que um es­ A chave da maneira como Paulo en­
cravo não deve aceitar a liberdade, mas tende é a expressão com Deus. Ele tem
continuar a viver como um crente que confiança que Deus está presente com
redime a sua sorte na escravidão. Se eles, seja qual for o seu estado na vida,
Paulo se apegasse rigidamente ao signi­ se eles estão em Cristo. A condição de um
ficado de chamado, no verso 20, esta últi­ homem não é mais o que era quando ele
ma interpretação seria correta. De fato, está em Cristo. Ele é justificado e recebe
porém, Paulo introduz um elemento de a força do Espírito de Deus em sua vida.
contingência na maior parte do seu con­ Outrora ele vivia sem Deus, mas em
selho dado no capítulo 7. Não há razões Cristo ele vive com Deus. A diferença é
ponderáveis para se duvidar que Paulo que ele foi redimido. O homem redimido
aprovava a liberdade para o escravo, se é capaz de viver em qualquer estado ou
esta se apresentasse. condição de vida em que esteja, quando
Embora em parte nenhuma de suas ao ser chamado para ser um crente,
cartas advogue a emancipação dos es­ porque agora ele vive em Cristo e com
cravos, ele emite um conceito da trans­ Deus. A escravidão que os homens im­
formação das relações humanas que em­ põem não pode desfazer a liberdade que
presta apoio à libertação deles (Gál. Deus dá.
3:28; Col. 3:11; Ef. 6:5-9). E Cristo
efetua, entre os homens, uma irmandade 4. Quanto aos Solteiros (7:25-35)
que transcende todas as divisões terrenas 25 O ra , q u a n to à s v irg e n s, n ão te n h o m a n ­
feitas pelo homem. Todos os homens que d a m e n to do S e n h o r; d o u , p o ré m , o m e u
estão em Cristo são irmãos em Cristo e p a re c e r , com o q u e m te m a lc a n ç a d o m is e ­
ric ó rd ia do S en h o r p a r a s e r fiei. 26 A cho,
escravos do mesmo Senhor. pois, q u e é b o m , p o r c a u s a d a in s ta n te n e ­
O apóstolo recorda, aos coríntios, mais c essid a d e , q u e a p e ss o a fiq u e com o e s tá .
uma vez, a sua liberdade espiritual. 27 E s tá s lig ad o a m u lh e r? n ã o p ro c u re s
A discussão acerca da escravidão o leva s e p a ra ç ã o . E s tá s liv re d e m u lh e r? n ã o p ro ­
a lembrar o processo de redenção, intro­ c u re s c a sa m e n to . 28 M a s, se te c a s a r e s ,
n ão p e c a s te ; e , se a v irg e m se c a s a r , n ão
duzido em 1:30 e 6:20. Cristo pagou o pecou. T o d a v ia , e s te s p a d e c e rã o trib u la ç ã o
preço para emancipar os homens da tira­ n a c a rn e , e e u q u is e ra p o u p a r-v o s. 29 Is to ,
nia da escravidão do pecado, que prende p o rém , vos d ig o , irm ã o s , q u e o te m p o se
todos os homens. Tanto os homens li­ a b re v ia ; pelo q u e , d o ra v a n te , os que tê m
m u lh e r s e ja m com o se n ã o a tiv e s s e m ; 30 os
vres como os escravos se tomam escra­ que c h o ra m , co m o se n ã o c h o ra s s e m ; os que
vos do pecado, sempre que fazem do fo lg am , com o se n ão fo lg a sse m ; os q u e c o m ­
homem e sua vontade, e não Deus, o p ra m , com o se n ã o p o ss u íss e m ; 31 e os q u e
centro de sua orientação. E os homens u s a m d e s te m u n d o , com o se d ele n ã o u s a s ­
que estão encorajando lealdades partidá­ se m e m ab so lu to , p o rq u e a a p a rê n c ia d e ste
m undo p a s s a .
rias, em Corinto, estão encorajando os 32 P o is q u e ro q u e e s te ja is liv re s d e c u i­
coríntios a se tomarem escravos dos ho­ dado. Q uem n ã o é c a sa d o c u id a d a s c o isa s
mens. Paulo devia estar sabendo que do S enhor, e m com o h á d e a g r a d a r a o S e­
alguns homens se vendiam a si mesmos n h o r, 33 m a s q u e m é c a sa d o c u id a d a s co isa s
em escravidão, especialmente os pobres do m u n d o , e m com o h á d e a g r a d a r à s u a
m u lh e r, 34 e e s tá div id id o . A m u lh e r n ão
que desejavam ganhar a assistência de c a s a d a e a v irg e m c u id a m d a s c o isa s do
homens ricos que os ajudassem, dando- S enhor, p a r a s e r e m s a n ta s , ta n to no co rp o
lhes vantagens para a sua emancipação. com o no e s p írito ; a c a s a d a , p o ré m , c u id a
d a s c o isa s do m u n d o , e m com o h á d e a g r a ­ e mulheres, que resolverem se casar não
d a r ao m a rid o . 35 E digo isto p a r a p ro v e ito pecaram.
vosso; n ã o p a r a vos e n re d a r , m a s p a r a o
que é d e c e n te , e a fim d e p o d e rd e s d e d ic a r- Visto que o tempo se abrevia — isto é,
vos a o S en h o r se m d is tra ç ã o a lg u m a . visto que o mundo se apressa para o seu
fim — os homens precisam colocar esta
Esta seção apresenta uma declaração vida presente no contexto da era vindou­
a respeito de homens e mulheres que não ra. Precisam estar dispostos a afirmar a
são casados. Paulo não tem mandamento vida à luz das dimensões divinas esta­
do Senhor, nenhum ensino que remonte belecidas no evangelho de Cristo. E, o
a Jesus, a respeito dessas pessoas. Mas que isto requer? Significa que o casa­
tem confiança em que a sua opinião é mento não será a lealdade final na vida
digna de crédito. Pode-se observar que de uma pessoa; significa que os que
Paulo tem o máximo cuidado para distin­ choram se lembrarão de que serão con­
guir entre a ordem do Senhor e a sua solados; significa que os que folgam se
própria opinião, por confiável que ela lembrarão que a vida é mais do que riso;
possa ser (7:25; cf. Mat. 19:12). significa que os que compram coisas
Os versículos 26-35 apresentam um materiais se lembrarão que nenhum ho­
relato das razões de Paulo para os con­ mem vive pela abundância das posses­
selhos que ele dá não apenas aos não sões terrenas; significa que os que vivem
casados, mas também aos casados. A sua neste mundo não devem se casar com
opinião é emitida por causa da instante ele, mas com o mundo por vir. As rela­
necessidade. Isto se refere a algum so­ ções humanas não podem ter prioridade
frimento que esperava os cristãos em sobre as relações divinas. Os homens não
Corinto (4:11; I Tess. 3:3,4) ou aos ais devem permitir que esta vida se tome um
messiânicos que precederão o fim do cuidado tão grande, para eles, que se
mundo. tome o seu único cuidado.
O mundo atual está condenado a ser
A palavra traduzida como necessidade transitório. Só o mundo do espírito, es­
é usada escatologicamente em Lucas piritualmente redimido, sobreviverá. A
21:23. O tempo que se abrevia refere-se aparência deste mundo passa, mas a vida
à abreviação dos dias mencionados em no Espírito será preservada por Deus.
Marcos 13:20. O tempo está passando; Portanto, o crente vive com um certo
não se demora, e o Senhor voltará. A pa­ desligamento deste mundo.
lavra traduzida como tempo é kairos, Ele não rejeita o mundo, porque ele
que, muitas vezes, se refere a uma hora lhe oferece uma oportunidade para glori­
fatídica ou tempo estratégico. A apa­ ficar a Deus no corpo (cf. 6:19,20). Mas
rência deste mundo passa significa que ele não se abandona na criação; ele se
este mundo atual, com todas as suas preserva nela. Ele se oferece ao Criador
instituições, inclusive o casamento, não é em amorosa obediência e serviço. Liberto
permanente. O mundo está passando, da escravidão da criação, ele está livre
juntamente com todas as instituições que para servir ao Criador. Sendo ele mesmo
têm sido existência, pessoal e social uma nova criação, espera a criação de
(Mar. 12:25). um novo mundo (cf. II Cor. 5:17-20;
Por causa dos ais iminentes que es­ Rom. 8:18-23).
peram os coríntios e todos os outros Paulo deseja poupar os coríntios do
homens, Paulo aconselha os solteiros, em tipo de ansiedade que o casamento oca­
Corinto, a considerarem seriamente a siona (7:32; Mat. 6:25; Fil. 4:6). O não-
decisão de não se casarem. Ao mesmo casado não é assediado pelos cuidados
tempo, as pessoas que são casadas não que uma família inevitavelmente acarre­
devem separar-se. Os solteiros, homens ta. Ele está em condições de dar atenção
aos interesses espirituais. O casado, tumeira para designar “filha” . Significa
como pessoa cumpridora dos seus deve­ simplesmente virgem ou donzela.
res, está na obrigação de dar atenção aos Uma segunda interpretação introduz
cuidados que fazem parte do casamento a opinião de que Paulo está referindo-se,
e da família. Embora as suas intenções na primeira parte do verso 36, a um
sejam boas, os seus interesses estão moço que está noivo de uma jovem, a sua
divididos. noiva (Cf. a versão antiga da IBB;
A Bíblia na Linguagem de Hoje, da SBB;
5. Noivado e Casamento (7:36-38) a Tradução Trinitariana; e as Cartas às
36 M as, se a lg u é m ju lg a r q u e lh e é d e s a i­
Igrejas Novas, de Phillips). Estão ambos
roso c o n s e rv a r s o lte ira a s u a filh a d o n zela , inseguros quanto ao casamento. Mas, se
se e la e s tiv e r p a ss a n d o d a id a d e d e se c a s a r , a paixão se torna um problema agudo
e se fo r n e c e ss á rio , f a ç a o q u e q u is e r; n ão (especialmente para o moço), eles devem
p e c a ; c a se m -se . 37 T o d a v ia , a q u e le q u e e s tá
firm e e m se u c o ra ç ã o , n ã o ten d o n e c e s s id a ­
sentir-se perfeitamente livres para ir em
de, m a s ten d o dom ínio so b re a s u a p ró p ria frente e consumar o casamento. Ao mes­
v o n tad e, se re s o lv e u no seu c o ra ç ã o g u a r ­ mo tempo, se o moço pode controlar a
d a r v irg e m s u a filh a , f a r á b e m . 38 D e m odo sua paixão, é melhor que eles não se
que, a q u e le q ue d á e m c a s a m e n to a s u a casem, por causa das aflições escatológi-
filh a donzela, faz b e m ; m a s o q u e n ão a d e r,
f a r á m e lh o r.
cas que estão próximas e das pressões
que o casamento acarreta.
Esta passagem é muito difícil de se Esta interpretação é permitida pela
entender. Várias interpretações diferen­ RSV (Revised Standard Version, tradu­
tes têm sido apresentadas. Cada uma ção usada pelos autores deste Comentá­
tem os seus pontos fortes e fracos. A pri­ rio em inglês), visto que a palavra grega
meira interpretação, que remonta ao traduzida como passando da idade de se
tempo de Crisóstomo, sustenta que as casar, em nossa versão da IBB, é tra­
duas pessoas mencionadas no verso 36 duzida “se as suas paixões são fortes”
são pai e filha casadoira, isto é, em idade na RSV, e desta forma pode referir-se
de se casar, ou tutor e moça em idade ao homem mencionado anteriormente no
de se casar. O verbo empregado no verso verso 36. (A versão da I BB considera esta
38 é gamizo, que é traduzido, na versão expressão como referente à mulher, e
da IBB, como dá em casamento — tem significado diferente.)
como em outros lugares do Novo Testa­ Os que são a favor desta interpretação
mento (Mat. 22:30; 24:38; Mar. 12:25; sugerem o fato de que os verbos gameo
Luc. 17:27; 20:35). Um outro verbo que (casar) e gamizo (dar em casamento)
é traduzido como “casar” é gameo, tam ­ estavam perdendo a sua distinção no
bém usado em todas estas referências em tempo de Paulo, e foram usados por ele
que o verbo gamizo é usado. Isto pare­ sem diferença clara. Porém deve ser ob­
ce indicar que gamizo significa “dar em servado que Paulo usa a palavra gameo
casamento” , e gameo, “casar-se” . E ga- (casar) nos versos 9,10,28,33,34,36. Por
mizo é usado no verso 38. O alguém do que, então, ele usa gamizo no verso 38,
verso 36 pode ser o pai de uma filha em a não ser que esteja lhe dando um signi­
idade de se casar. A versão da IBB ficado diferente?
prefere esta interpretação. Uma terceira interpretação argumenta
Há dificuldades nesta opinião a res­ que Paulo está-se referindo a um ho­
peito desta passagem. A expressão ca­ mem que, levado por motivos espirituais,
sem-se parece incluir o homem mencio­ tomou uma jovem sob sua proteção e está
nado na parte anterior do versículo. E a vivendo com ela com votos de celibato.
palavra parthenos, traduzida como filha É uma união do espiritual sem união do
donzela no verso 36, não é a palavra cos­ físico. Em outras palavras, é um casa-
mento espiritual, mas sem relações se­ gunda e a terceira. A segunda e a pri­
xuais. Há evidência desse tipo de casa­ meira interpretações parecem as melho­
mento no fim do segundo século d.C. res alternativas, e nessa ordem.
Mas também está claro que mais tarde
esse costume foi condenado pelos concí­ 6. Quanto ás Viúvas (7:39,40)
lios da igreja primitiva. 39 A m u lh e r e s tá lig a d a e n q u a n to o m a ­
A RSV permite esta interpretação e a rid o v iv e ; m a s , se fa le c e r o m a rid o , fic a
tradução de Moffatt, em inglês, adota liv re p a r a c a s a r co m q u e m q u is e r, co n ta n to
este significado, ao traduzir desta forma que s e ja no S en h o r. 40 S e rá , p o ré m , m a is
o verso 36: “Ao mesmo tempo, se o ho­ feliz se p e rm a n e c e r com o e s tá , seg u n d o o
m eu p a r e c e r , e e u p en so q u e ta m b é m ten h o
mem considera que não está procedendo o E sp írito d e D eu s.
adequadamente para com a moça que é
sua esposa espiritual, se as suas paixões A mulher está ligada enquanto o ma­
são fortes e se é necessário que seja rido vive, porque Jesus ensina a indisso­
assim, que ele faça o que deseja — que se lubilidade do casamento e, de acordo com
casem; não é pecado para ele.” Marcos, não permite o divórcio (cf. 7:10,
O versículo 5 parece desaprovar esta 11; Rom. 7:2). Sem dúvida, o marido
maneira de entender esta passagem, a também está ligado à esposa enquanto
despeito do apelo que faz a vários comen­ ela vive. Talvez Paulo estivesse sabendo a
taristas modernos. E é difícil crer que crescente facilidade com que as mulheres
Paulo desse a sua bênção a um arranjo do Império Romano, desde o reinado de
tão ascético no casamento, em um lugar Augusto, estavam obtendo divórcio de
como Corinto, notório pela permissivi- seus maridos. Uma viúva é livre para se
dade sexual. casar com quem quiser, assevera Paulo,
Uma quarta interpretação é que Paulo depois da morte de seu marido. Mas ela
está-se referindo a um caso de casamen­ precisa casar-se no Senhor. Não está
to de levirato, que era praticado no ju ­ claro se Paulo quer dizer que ela precisa
daísmo (cf. Deut. 25:5-10). A palavra lembrar-se de sua dedicação a Cristo, ao
traduzida “filha donzela” (“sua vir­ adentrar um outro casamento, ou que ela
gem” , na versão antiga da IBB), no ver­ deve casar-se com um crente. Em qual­
so 36, se torna “viúva jovem” nesta in­ quer caso, a responsabilidade cristã é
terpretação da passagem. A expressão um requisito da maior importância. Pau­
“se ela estiver passando da idade de se lo crê que uma viúva ficará mais feliz se
casar” significa “na idade da puberda­ permanecer viúva e se não casar nova­
de” (Os regulamentos concernentes à mente (cf. I Tim. 5:14). De fato, ele crê
idade para se casar estão no Mishnah, que tem o Espírito de Deus quando dá
Niddah). Mas a palavra traduzida “filha esse conselho. Talvez algumas pessoas,
donzela” não significa viúva, e a expres­ em Corinto, tivessem opinião diferente, e
são traduzida “se ela estiver passando da reivindicassem a direção do Espírito de
idade de se casar” não significa que está Deus, ao exporem os seus pontos de
na idade da puberdade. Esta interpreta­ vista. Paulo replica e declara que ele
ção é bastante improvável por estas ra­ também possuía o Espírito.
zões e pelo fato de que o casamento de Está claro, no capítulo 7, que Paulo
levirato dificilmente seria um problema prefere que as pessoas não adentrem o
em um ambiente gentio em sua grande casamento, se possuem o dom de auto-
maioria. disciplina para ficarem fora dele. Ele
Que interpretação deve ser preferida? reconhece que muitas pessoas farão me­
Os comentários mais antigos favorecem a lhor em se casar. Também está claro
primeira interpretação, enquanto a que a instante necessidade (“angustiosa
maioria dos comentaristas favorece a se­ situação presente” , na Versão Atualiza-
da da SBB), que logo sobrevirá aos co- nado e aceito naturalmente, os sacerdo­
ríntios, seja ela o que for, desempenha tes e magistrados venderem, a carne que
um papel importante nos seus conselhos. não fosse usada nos sacrifícios públicos,
Precisa ser reiterado que Efésios 5:21- aos açougueiros locais, que, por seu tur­
33 apresenta o tipo de reflexão a respeito no, a vendiam ao público. Os pagãos se
do casamento que tem maior valor per­ referiam a essa carne como “sacrificada
manente para a Igreja. com propósitos sagrados” (cf. 10:28). Os
cristãos, não crendo nos deuses pagãos,
referiam-se a ela como “sacrificada aos
VII. Perguntas a Respeito da ídolos” .
Liberdade Cristã (8:1-11:1) Paulo discute, em 8:1-13 e 10:14-33,
o fato de os coríntios comerem a carne
No capítulo 8, Paulo volta-se para que havia sido sacrificada aos ídolos.
um novo problema: as carnes sacrifica­ O fato de que a sua discussão é inter­
das aos ídolos. Possivelmente, a igreja rompida em 9:1-10:13 e que o seu ponto
em Corinto o havia consultado a res­ de vista varia nos dois textos em que trata
peito desse problema. Esse problema re­ do assunto é aceito, por alguns eruditos,
cebe um tratamento extensivo, terminan­ como evidência de que essas duas partes
do em 1 1 :1 . O capítulo 8 trata do co­ pertenciam, originalmente, a duas cartas
nhecimento, amor, ídolos e do irmão diferentes. Que essa opinião não proce­
fraco. O capítulo 9 trata da liberdade, de, será demonstrado na exegese dos
direitos e responsabilidades cristãs. O ca­ capítulos 8 a 10 .
pítulo 10 expressa o significado da liber­ Os sacrifícios aos deuses eram prática
dade cristã em referência à obediência disseminada em todo o mundo antigo.
moral e à comunhão à mesa. Havia sacrifícios públicos e privados, em
que o animal todo não era consumido
1. Conhecimento, Amor e ídolos (8:1-6) sobre o altar. Algumas vezes, apenas
1 O ra, no to c a n te à s c o isa s s a c rific a d a s modestas porções do animal eram usa­
aos ídolos, sa b e m o s que to d o s te m o s c iê n ­ das. Depois que os sacerdotes recebiam
cia. A c iê n c ia in ch a, m a s o a m o r e d ific a . a sua parte, o resto ficava à disposição do
2 Se a lg u é m c u id a s a b e r a lg u m a co isa, a in ­
d a n ão sa b e com o co n v ém s a b e r . 3 M as, se
povo. Nos sacrifícios privados, o adora­
a lg u ém a m a a D eus, e ss e é co nhecido d ele. dor recebia a carne que restasse. Nos
4 Q uanto, pois, ao c o m e r d a s c o isas s a c r i­ sacrifícios públicos, os magistrados ven­
fic a d a s a o s ídolos, sa b e m o s q u e o ídolo n a d a diam, aos mercados locais, o que não
é no m u n d o , e qu e n ão h á o u tro D eu s, sen ão precisavam. Conseqüentemente, visto
u m só. 5 P o is, a in d a qu e h a ja ta m b é m a l ­
guns q u e se c h a m e m d e u se s, q u e r no céu que os melhores animais eram sacrifi­
q u e r n a t e r r a (com o h á m u ito s d e u se s e cados, a melhor carne, no mercado, ge­
m uitos s e n h o re s), 6 to d a v ia , p a r a n ó s h á ralmente vinha dos templos pagãos.
u m só D eus, o P a i, d e q u e m sã o to d a s a s Quando um cristão comprava carne
co isas e p a r a q u e m nós v iv e m o s; e u m só
S enhor, J e s u s C risto , p elo q u al e x is te m to ­
no mercado, não sabia se havia sido
d a s a s co isas, e p o r ele nó s ta m b é m . sacrificada a algum deus pagão. E, tam­
bém, muitas vezes as pessoas davam, em
Alguns comentários gerais, para re­ suas casas, banquetes feitos com a carne
visar os antecedentes do problema en­ que sobrara dos sacrifícios que haviam
frentado pelos cristãos em relação aos feito. Os casamentos e festivais familia­
costumes pagãos, devem ser úteis para se res também eram ocasião para essas re­
entender esta passagem. feições em casas particulares. Algumas
A maior parte da carne comprada nos vezes, eram realizados banquetes nos
mercados de Corinto havia sido sacrifi­ templos locais1 dos deuses, e eles eram
cada a ídolos. Era um costume dissemi­ associados com a adoração do deus em
cujo templo o banquete era realizado. Paulo aborda o problema falando de
Os cristãos de Corinto eram convidados conhecimento, amor e serviço. Ele come­
para participar desses banquetes. Eles ça declarando que sabemos que todos
propuseram a Paulo essa questão: Deve­ temos ciência. A ciência incha, mas o
mos aceitar convites para tomar refeições amor edifica. Encontramos, aqui, a rein-
em casas particulares ou em templos, trodução da palavra gnõsis (conhecimen­
quando poderá ser servida carne que fora to), que figura nos quatro primeiros capí­
sacrificada aos ídolos? tulos, juntamente com a palavra sophia
Um convite feito em papiro do se­ (sabedoria).
gundo século foi preservado, e diz: Provavelmente, Paulo está mencionan­
“Chairemon requer a sua companhia pa­ do uma declaração da carta enviada pe­
ra jantar à mesa do senhor Serápis no los coríntios ou um tema de alguns dos
Serapeum amanhã, dia 15, às 9 horas.” gnósticos coríntios. Ele concorda que to­
Possivelmente, Chairemon ia servir a car­ dos os crentes têm ciência ou conheci­
ne que restara do sacrifício que ele fizera mento. Porém o conhecimento cristão
ao seu deus Serápis. O cristão precisava não é do tipo que cria orgulho. Ele não se
enfrentar a questão de decidir se iria centraliza na compreensão humana ou
cortar os relacionamentos sociais impli­ nas conquistas intelectuais. O conheci­
cados no comer com os amigos não- mento de superioridade intelectual cria
cristãos. um sentimento arrogante de amor-pró­
Os gregos que não criam mais nos prio. Porém o amor cria uma preocupa­
deuses participavam dos vários banque­ ção pelos outros. A diferença é que o
tes e festas por razões sociais. Achavam conhecimento pode tornar-se autocentra-
valor social nessas ocasiões, muito tempo lizado; o amor é centralizado nos outros.
depois de ter rejeitado as suas associa­ O conhecimento habita no que ele pos­
ções religiosas. A pergunta era: O cris­ sui. O amor se detém no que ele tem para
tão está livre para fazer o que o pagão dar. A ciência, ou conhecimento, incha
é livre para fazer, contanto que o faça a pessoa que a possui; o amor serve às
com uma compreensão madura do signi­ outras pessoas que precisam dele. O co­
ficado do que faz? Paulo enfrentava três nhecimento é particular; o amor é social.
problemas: a compra de carne que fora O conhecimento incha; o amor edifica
sacrificada a ídolos, as refeições nas ca­ (cf. 3:10-14; Ef. 4:16; I Tess. 5:11).
sas particulares de amigos não-cristãos e Ê mais fácil dizer: todos nós temos ciên­
os banquetes realizados em templos pa­ cia, do que dizer: “ todos nós possuímos
gãos. amor” (Schlatter). O verdadeiro conheci­
Os comentaristas estão divididos com mento de Deus é marcado pelo amor.
referência à identidade do “fraco” (8:9). Enfrentar os problemas da igreja com
Os judeus convertidos ao cristianismo amor é fator básico, nos conselhos de
podiam ter preocupações a respeito de Paulo, nos restantes capítulos de I Co­
comer alimentos que haviam sido sacrifi­ ríntios. E, quando fala de amor, Paulo
cados aos ídolos (At. 15:29; 21:25). E os define-o no fato de Deus se ter dado aos
gentios, que haviam participado, no pas­ homens em Jesus Cristo. É amor dado
sado, de sacrifícios aos ídolos, podiam gratuitamente, a fim de levar os homens
achar muito difícil esquecer as associa­ a uma comunhão com o seu Redentor.
ções que tinham com os seus deuses. Embora o amor que os homens demons­
É possível que associações de ambas as tram uns aos outros não os possa remir,
origens convergissem em Corinto. ele pode dar testemunho do amor divino,
A essência da posição dos cristãos for­ que o pode fazer.
tes, em Corinto, é encontrada em 8:1,4,8 O princípio do conhecimento não é
e 10:23 (cf. Mar. 7:15). orgulho, mas humildade. O primeiro
passo, na aquisição de conhecimento, é a razão substancial para não se comer ali
confissão de ignorância. Mas os cristãos mentos sacrificados a ídolos. Os ídolos
de Corinto não parece estarem confes­ não são deuses. O ídolo nada é no mun­
sando ignorância, mas parece serem do do.
tipo que se vangloria. Paulo usa a palavra Mas os seres demoníacos existem, por­
incha em referência apenas a eles, com que há muitos deuses e muitos senhores
exceção de Colossenses 2:18. O conheci­ (cf. Col. 1:16). De fato, pode ser que os
mento não apenas principia na humilda­ homens não dediquem a sua lealdade a
de; ele também tem consciência de que é muitos deuses, mas podem dedicar, e
incompleto (cf. 13:9). Qualquer conheci­ realmente dedicam, a sua lealdade a de­
mento genuíno é adquirido através de mônios (10:19-21). Deuses e senhores
uma peregrinação humilde, e, certamen­ são a maneira de Paulo se referir aos
te, isto é verdade em relação ao conheci­ demônios. Ele não está-se referindo a
mento de Deus. Ele sobrevêm através de muitos deuses. Há um só Deus, mas há
o buscarmos com confiança e obediência, muitos demônios. O Senhor é alguém
e é do tipo de conhecimento que uma pes­ a quem os outros pertencem. O povo por
soa deve ter. Epiteto, o estóico, precavia- todo o Egito e todo o Oriente referia-se
se de qualquer declaração de compreen­ aos seus deuses como senhores; o termo
são perfeita. “senhor” foi pela primeira vez aplicado a
Mas, se alguém ama a Deus, esse é um imperador romano quando Tibério
conhecido dele. O conhecimento de Deus recebeu essa designação.
não é resultado do amor do homem, mas
sinal do amor de Deus pelo homem. Havia muitas evidências — Paulo as
É uma dádiva feita ao homem, em Cris­ deve ter visto — de muitos senhores na
to, e significa que o homem aceita o amor cidade de Corinto. Os Césares deifiçados
de Deus e por isso demonstra amor a eram adorados ali juntamente com os
Deus e ao próximo. Os homens não deuses romanos Júpiter, Marte e Vênus.
aprendem de Deus através do seu gnosti- A adoração de Afrodite (nome grego de
cismo, suas especulações místicas ou co­ Vênus), deusa do amor, havia tornado
nhecimento teórico, mas através da reve­ Corinto famosa, e tinha lugar em um
lação de Deus, em Cristo. Em Gálatas templo construído muito antes da época
4:9, Paulo trata da mesma relação entre de Paulo.
conhecer Deus e ser conhecido por ele A consciência de poderes demoníacos,
(cf. Rom. 8:29; 11:2). O conhecimento que atraem a devoção dos homens, levou
de Deus, pelo homem, como marca de Paulo a reafirmar a sua convicção de que
eleição divina, está arraigado no Velho há um só Deus, o Pai. Ele é o Criador de
Testamento (Am. 3:2; Jer. 1:5). A pessoa todas as coisas, e nos fez para si mesmo.
que ama a Deus sabe que Deus veio em A origem do mundo se encontra nele,
busca dela, em Cristo. Este é o maior de que chama os homens para a salvação.
todos os conhecimentos. Os homens co­ Não há muitos senhores, mas apenas
nhecem a Deus pela fé porque Deus um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual
conheceu o homem pelo amor. tudo foi criado e pelo qual os homens
O problema de comer alimentos sa­ podem conhecer a redenção (Col. 1:16;
crificados aos ídolos é colocado no con­ cf. Rom. 11:36). Paulo atribui a Jesus os
texto da percepção de que há um só Deus lugares dados no judaísmo à sabedoria
(cf. Deut. 6:4; Is. 40:18). Os ídolos não e à lei, porque ele o considera o agente
representam Deus, e, sim, não repre­ divino na criação. A existência do crente
sentam nada. Comer alimentos sacrifica­ é possível porque a sua redenção acon­
dos a ídolos representa comer alimentos teceu através do único Senhor, Jesus
sacrificados a nada. Portanto, não há Cristo. Portanto, a mediação cósmica de
Cristo é colocada no princípio, na cria­ “a faculdade de juízo moral responsá­
ção, e no fim, na redenção. vel” . Ela encontra-se em Sabedoria de
2. A Liberdade Cristã e o Irmão Fraco Salomão 17:11 e em escritores estóicos,
(8:7-13) entre eles Epiteto e Sêneca. Tem um uso
bem limitado no judaísmo.
7 E n tre ta n to , n e m e m todos h á e sse c o ­ A maneira de Paulo entender a cons­
n h e c im e n to ; po is alg u n s h á q ue, a c o s tu m a ­ ciência é esclarecida pela sua convicção
dos a té a g o ra c o m o ídolo, c o m e m co m o
de c o isas s a c rific a d a s a u m íd o lo ; e a su a de que ela, para ser confiável, requer a
c o n sciên cia, sen d o fr a c a , co n ta m in a -se . direção do Espírito Santo (Rom. 9:1).
8 N ão é, p o ré m , a c o m id a q u e n o s h á d e E fica bem claro que Cristo, e não o
re c o m e n d a r a D e u s ; pois n ã o so m o s p io re s homem, é o único juiz apropriado do
se n ão c o m e rm o s, n e m m e lh o re s se c o m e r­
homem (4:4). Paulo usa o termo “cons­
m os. 9 M as, v ed e q ue e s s a lib e rd a d e v o ssa
n ão v e n h a a s e r m o tiv o d e tro p e ç o p a r a os ciência” , encontrado entre os seus con­
fraco s. 10 F o rq u e , se a lg u é m te v ir a ti, que temporâneos gentios, e o enche de signi­
ten s c iê n c ia , re c lin a d o à m e s a e m tem p lo ficado cristão.
d e ídolos, n ão s e r á induzido, sen d o a su a
c o n sciên cia fr a c a , a c o m e r d a s c o isa s s a c r i­ A consciência dos crentes fracos não é
fic a d a s a o s ídolos? 11 P e la tu a c iê n c ia , pois, fraca porque eles não têm grande inte­
p e re c e a q u e le q u e é fra c o , o te u irm ã o p o r resse; é fraca porque eles têm uma com­
q u em C risto m o rre u . 12 O ra , p e c á n d o a s s im preensão elementar da fé cristã. Eles es­
c o n tra os irm ã o s, e ferindo -lh es a c o n sc iê n ­
c ia q u an d o fr a c a , p e c a is c o n tr a C risto .
tão muito conscientes de suas obriga­
13 P elo q ue, se a c o m id a fiz er tr o p e ç a r a ções morais. Os cristãos criam que ali­
m eu irm ã o , n u n c a m a is c o m e re i c a rn e , mentos sacrificados aos ídolos eram coisa
p a r a n ão s e r v ir d e tro p e ç o a m e u irm ã o . errada, e que a sua consciência era con­
A despeito de Paulo ter esclarecido a taminada quando os comiam. Se uma
realidade de um único Deus e a irreali­ pessoa sensível, espiritualmente imatura,
agir de maneira contrária à sua cons­
dade dos ídolos, ele reconhecia que havia
alguns cristãos que não tinham uma ciência, causará danos morais e psico­
compreensão assim amadurecida. Embo­ lógicos à sua vida. Os crentes mais ma­
ra todos os cristãos ali pudessem ter este duros precisam ser sensíveis à imaturi­
conhecimento, se a sua fé fosse madura, dade espiritual de muitos dos seus ir­
mãos.
havia os cristãos imaturos, que não con­
seguiam vencer completamente os seus Não é, porém, a comida que nos há de
antecedentes pagãos, que atribuíam aos recomendar a Deus, porque o fato de se
muitos deuses e ídolos uma existência comer a comida correta não tem nenhum
real. Conseqüentemente, quando co­ valor especial diante de Deus (cf. Rom.
miam carne sacrificada aos ídolos, sen­ 14:17). Os homens são recomendados a
tiam a sua consciência perturbá-los. Sen­ Deus quando vivem pela lei do amor
tiam-se pouco à vontade a respeito do (Gál. 6:2), e não quando observam leis
que estavam comendo, porque outrora acerca de alimentos, prática que se torna
criam que os seus deuses participavam uma fonte de auto-salvação, o que é
da comida que lhes era sacrificada. impossível. Não é a comida que os ho­
E achavam que o que estavam fazendo mens comem, mas o amor que eles de­
agora era errado. monstram para com os outros que os
A sua consciência, sendo fraca, con­ recomenda diante de Deus. A abstinên­
tamina-se. A palavra traduzida como cia de comida não leva os homens a
consciência (suneidesis) é usada oito ve­ Deus, e comer não os separa de Deus.
zes em I Coríntios e em todas as vezes O orgulho do maduro e do imaturo é
está relacionada com alimento (8:10, 12 ; visto como ilusório à luz de uma com­
10:25-29). Basicamente, ela significa preensão madura da fé cristã.
Essa liberdade (v. 9) é o poder ou provém da fé; e tudo o que não provém
autoridade dada ao crente, mediante a da fé é pecado” (Rom. 14:23).
obra de Cristo, e é dádiva de Deus aos Enfatizando a responsabilidade dos
homens de fé, que estão libertos do poder crentes fortes, Paulo se refere quatro
do pecado e da lei. Isso inclui liberdade vezes aos crentes fracos como irmãos
para comer qualquer tipo de comida. (v. 11-13). Os fracos são irmãos por
Mas o exercício dessa liberdade entre quem Cristo morreu (cf. Rom. 14:15).
os crentes fortes pode tomar-se uma bar­ Todos os remidos são irmãos, porque
reira para o crescimento espiritual de têm a mesma fonte de redenção: Cristo.
crentes imaturos e fracos. Um motivo de Os redimidos têm valor não por méritos
tropeço é qualquer coisa que faça uma humanos, mas devido ao amor de Deus
pessoa falsear o pé. E esse exercício de por eles, demonstrado na dádiva de Cris­
liberdade não é uma pedra na edificação, to, que morreu pela sua salvação. Desta
mas uma pedra de tropeço, na Igreja de forma, Paulo afirma o valor de cada vida
Deus em Corinto. humana com base no preço elevado da
Epiteto, contemporâneo estóico de redenção da humanidade.
Paulo, fala da liberdade fundamentada De fato, a insensibilidade para com os
no ser do homem. Isso é diferente do crentes fracos é um pecado contra eles.
pensamento de Paulo, em que a liberda­ A falta de interesse é não apenas pecado
de é uma dádiva de Deus ao homem, e contra Cristo, mas também pecado con­
não faz parte do homem natural. A pa­ tra o próximo. De fato, é pecado contra
lavra traduzida como liberdade, usada Cristo precisamente porque é um prejuí­
aqui, exousia, encontra-se entre obras zo para o irmão. “Em verdade vos digo
dos gnósticos “cristãos” . Irineu, fonte que, sempre que o fizestes a um destes
muito importante a respeito do gnosticis- meus irmãos, mesmo dos mais pequeni­
mo do segundo século, diz que os gnós­ nos, a mim o fizestes” (Mat. 25:40).
ticos eram sempre os primeiros nas festas Empenhar-se em uma atividade que os
pagãs (Contra as Heresias 31:21:2). crentes fracos são incapazes de imitar
Quando uma pessoa que tem ciência com consciência madura ferirá a sua
— alguém que sabe que não há conta­ consciência fraca, porque danifica a sua
minação no fato de se comer carne sa­ dedicação a ela. Depois de refletir sobre
crificada aos ídolos — participa de um comer carne sacrificada a ídolos, eles po­
banquete em templo de ídolos, pode in­ dem chegar à conclusão de que violaram
fluenciar um crente fraco a fazer o mes­ a sua consciência; e se sentirão culpados
mo. Mais tarde, depois de refletir no que de pecado. E o pecado leva à sua des­
fez, esse irmão de consciência fraca pode truição ou desastre espiritual. Paulo usa
sentir uma grande culpa, e até um abalo a palavra perece e pecando para descrever
em sua fé. o efeito sobre o fraco. A palavra ferindo-
O conhecimento do forte, embora cor­ lhes é usada para expressar fortes golpes,
reto, teve um efeito mau. Destruiu um como quando se bate numa pessoa.
crente fraco. A diferença entre os dois Pelo que, se a comida fizer tropeçar
homens é que o homem de conhecimento a meu irmão, nunca mais comerei carne,
come sabendo que a carne não está con­ para não servir de tropeço a meu irmão.
taminada, enquanto o fraco come com Aqui, Paulo expressa claramente um
medo de que ela esteja. Ele não está princípio continuamente válido de con­
seguindo a sua consciência, mas aban- duta cristã. A expressão cristã da liber­
donando-a. Abusa de sua consciência; o dade não se baseia primordialmente na
homem que tem conhecimento não o faz. propriedade social, mas no amor ao pró­
“Mas aquele que tem dúvidas, se come ximo. A liberdade pode ser meramen­
está condenado, porque o que faz não te um exercício de expressão egoís­
ta; o amor é sempre um exercício de tolado. O uso de várias perguntas, neste
interesse altruístico pelo próximo. Pau­ capítulo, é reminiscência de um método
lo está preparado para desistir de qual­ largamente usado pelos mestres da épo­
quer exercício de liberdade cristã que ca. (A ênfase de Paulo na sua experiên­
fira a peregrinação espiritual de um cia pessoal torna mais natural o uso de
irmão fraco (cf. 9:22). O amor cristão de­ pronomes da primeira pessoa nos comen­
ve ser o suficientemente maduro em seu tários a esta passagem.)
exercício de liberdade, para encontrar Não sou eu livre? Todos os crentes são.
uma expressão satisfatória em restrição Estabeleço limites à minha liberdade,
pelo bem-estar do irmão, em vez de em in­ definindo liberdade em termos de inte­
dulgência para consigo mesmo. O amor, resse e preocupação pelo meu irmão.
e não a liberdade, é o princípio mais A genuína liberdade dá-me liberdade
elevado da vida moral cristã. A fé dá para restringir-me de exercer a minha
liberdade; o amor governa a liberdade. liberdade. Não sou apóstolo? Sou. Eu vi
Em parte nenhuma de sua discussão, o Senhor (15:8; Gál. 1:16) e recebi o meu
nos capítulos 8 a 10, Paulo se refere ao comissionamento dele e do Deus Pai
“decreto apostólico” mencionado em (Gál. 1:1). Também é verdade que fiz
Atos 15:20-29; 21:25. E esse decreto a obra de um apóstolo. A igreja em Co­
menciona o comer carne sacrificada a rinto é testemunha do meu trabalho
ídolos, e o proíbe expressamente. Por como apóstolo (cf. Rom. 15:20). A fun­
que Paulo não o menciona? Será que o dação da igreja em Corinto é testemu­
decreto não tinha validade na Grécia? nha do meu apostolado (3:10). Quais­
Ou Paulo prefere responder à pergunta quer pessoas que tentem provar que não
apelando para a compulsão íntima do sou apóstolo precisam defrontar-se com
amor, e não para a ordem exterior de um três fatos: eu vi o Senhor ressurrecto;
decreto? recebi um comissionamento; tive sucesso
3. Privilégios de um Apóstolo (9:1-6) em meu trabalho. Outros podem negar o
meu direito de ser chamado de “apósto­
1 N ão sou eu liv re ? N ão so u a p ó sto lo ? lo” , mas, certamente, vocês, coríntios,
N ão vi e u a J e s u s nosso S en h o r? N ão sois não podem. Vocês têm pleno conheci­
vós o b ra m in h a no S en ho r? 2 Se e u n ã o sou
apóstolo p a r a os o u tro s, a o m en o s p a r a vós
mento disso!
o so u ; p o rq u e v ó s sois o selo do m e u a p o s ­ Vós sois o selo do meu apostolado no
tolado no Senhor. Senhor (cf. II Cor. 1:21,22). A igreja
3 E s ta é a m in h a d e fe sa p a r a co m os q u e autentica o apostolado (Rom. 1:5 e 6).
m e a c u s a m . 4 N ão te m o s n ó s d ire ito de
c o m e r e de b e b e r? 5 N ão te m o s nós d ire ito
Esta, incluindo o que acabei de escrever,
d e le v a r conosco e sp o s a c re n te , com o t a m ­ e o que se segue, é a minha defesa para
b é m os d e m a is ap ó sto lo s, e o s irm ã o s do com os que me acusam. E eu tenho al­
S enhor, e C efas? 6 Ou s e r á q u e só e u e gumas ilustrações dos meus direitos, que
B a m a b é n ão te m o s d ire ito d e d e ix a r d e t r a ­ desejo acrescentar, para os que me que­
b a lh a r?
rem “investigar” .
Alguns dos coríntios parecem estar Paulo relaciona três direitos que lhe
questionando a autoridade apostólica de pertencem como apóstolo: liberdade na
Paulo. Na exegese dos primeiros quatro escolha de alimentos, o privilégio de se
capítulos, é indicado que há uma defesa casar e o direito de receber sustento da
sutil do apostolado de Paulo, que corre comunidade cristã (cf. Gál. 6:6). Comer
através desses capítulos. O versículo 3, e beber provavelmente se refere ao pro­
do capítulo 9, introduz uma defesa do blema de comida sacrificada aos ídolos.
apostolado. E os dois primeiros versí­ Paulo é um crente maduro, e tem o
culos do capítulo expressam a consciên­ direito de tomar decisões a respeito do
cia que Paulo tem de seu próprio apos­ que deseja comer. Por outro lado, a frase
pode referir-se ao direito de ser sustenta­ de Pedro na igreja primitiva. Os apósto­
do pela comunidade. los têm o direito de esperar receber sus­
Ele tem o direito de levar... esposa tento das igrejas a que servem. Visto que
crente; outros apóstolos têm esse costu­ Paulo e Bamabé são apóstolos (cf. At.
me. Os Pais da Igreja consideravam as 14:14), eles também têm esse direito.
palavras “uma irmã uma esposa” , tra­ Paulo não aceita sustento material das
duzidas como esposa, como referência a igrejas, mas insiste que tem o direito
cooperadoras missionárias, que acompa­ de fazê-lo, porque é apóstolo.
nhavam os apóstolos e os assistiam em Paulo e Bamabé eram companheiros
seus trabalhos. Esses comentaristas se em trabalhos missionários (At. 9:27-15:
referiam às mulheres mencionadas du­ 39). Não há indicação de quando Barna-
rante o ministério terreno de Jesus (Luc. bé voltou à companhia de Paulo, em seus
8:2). Todavia, é quase certo que aqui se empreendimentos missionários, depois
está falando de esposa, e não de ajudado- de se ter separado dele, antes do começo
ras. da segunda viagem missionária de Paulo
Este versículo é uma indicação de que (At. 15:35-41; Gál. 2:13). A menção aqui
os apóstolos viajavam com suas esposas, feita a Bamabé é uma indicação de que
quando empreendiam jornadas missio­ os coríntios deviam conhecê-lo pessoal­
nárias. No verso 5, Paulo menciona três mente.
categorias diferentes: os demais apósto­
los, os irmãos do Senhor, e Cefas. Por 4. O Sustento de um Apóstolo (9:7-14)
que ele os separa? Será porque ele con­
sidera os três grupos importantes indi­ 7 Q uem ja m a is v a i à g u e r r a à s u a p ró p r ia
c u sta ? Q uem p la n ta u m a v in h a e n ã o co m e
vidualmente? do se u fru to ? O u q u e m a p a s c e n ta u m r e ­
Os irmãos do Senhor não seguiram b an h o e n ão se a lim e n ta do le ite do re b a n h o ?
Jesus durante a sua vida terrena (João 8 P o rv e n tu ra digo e u is to com o h o m e m ?
7:5). Embora os seus nomes sejam rela­ Ou n ã o diz a le i ta m b é m o m e sm o ? 9 P o i s n a
cionados em Marcos 6:3, e as irmãs de lei d e M oisés e s t á e s c r ito : N ão a t a r á s a
b o c a a o bo i q u a n d o d e b u lh a . P o rv e n tu ra
Jesus sejam ali mencionadas, também, e s tá D eu s c u id an d o dos b o is? 10 Ou n ã o o d iz
não há indicação de que eles seguiram a c e rta m e n te p o r n ó s? C om efeito , é p o r a m o r
Jesus, a não ser depois da ressurreição. d e nós q u e e s tá e s c rito ; p o rq u e o q u e la v r a
Tiago tornou-se líder na igreja em Jeru­ dev e la v r a r co m e s p e r a n ç a , e o q u e d e b u lh a
d e v e d e b u lh a r co m e s p e r a n ç a d e p a r tic ip a r
salém e é chamado de apóstolo por Paulo do fru to . 11 Se n ó s se m e a m o s p a r a v ó s a s
(Gál. 1:19). Paulo não limita o título de c o isa s e s p iritu a is , s e r á m u ito q u e d e vós
“apóstolo” aos doze, como o indica a sua c o lh am o s a s m a te ria is ? 12 Se o u tro s p a r tic i­
referência a Bamabé (cf. Rom. 16:7; At. p a m d e s te d ire ito so b re v ó s, p o r q u e n ã o n ó s
14:14). Aqui se encontra a única evidên­ co m m a is ju s tiç a ?
M a s n ó s n u n c a u sa m o s d e ste d ir e iro ; a n ­
cia bíblica de que os irmãos de Jesus te s su p o rta m o s tu d o , p a r a n ã o p o rm o s im ­
aceitaram o senhorio dele depois de sua p e d im e n to a lg u m a o e v an g e lh o d e C risto .
ressurreição e também de que eles eram 13 N ão sa b e is v ó s q u e o s q u e a d m in is tra m
missionários ativos. o q u e é s a g ra d o c o m e m do q u e é do te m p lo ?
E q ue os q u e s e r v e m a o a lt a r , p a rtic ip a m
A menção de Cefas (Pedro), em cone­ do a lta r ? 14 A ssim o rd e n o u ta m b é m o S e­
xão com este assunto, pode ser interpre­ n h o r a o s q u e a n u n c ia m o ev a n g e lh o , q u e
tada como alusão ao fato de que ele e sua v iv a m do ev a n g e lh o .
esposa haviam visitado Corinto, e eram
conhecidos dos coríntios (cf. Mar. 1:30). Paulo emprega a analogia de três tra­
Ou esse nome pode estar sendo mencio­ balhadores, para indicar que os após­
nado por causa do “partido” de Cefas em tolos, inclusive ele mesmo, merecem sus­
Corinto. De qualquer forma, esta men­ tento das pessoas a quem servem. Ele
ção testifica a respeito da proeminência menciona o soldado, o lavrador e o pas­
tor (9:7). Esses homens recebem sustento Ele apresenta uma ilustração adicional
material em troca do seu trabalho. da conveniência de sustento para os mis­
O direito de Paulo ao sustento não é sionários do evangelho. Os sacerdotes,
apenas apoiado pelos apelos a exemplos tanto nos templos pagãos quanto nas
do mundo, do trabalho diário, mas as sinagogas judaicas, recebiam sustento
Escrituras o apóiam. O livro de Deute- material em troca dos seus serviços
ronômio exibe uma profunda sensibilida­ (Núm. 18:9-32; Deut. 18:1-8). Os rabis
de para com as considerações humanas. judaicos diziam ao povo que o sustento
Paulo interpreta 25:4 de maneira espiri­ dos rabis era altamente meritório. Os
tual, à maneira dos rabis, para se refe­ membros da igreja em Corinto certamen­
rir não apenas aos bois, como está claro te conheciam esse costume.
em Deuteronômio, mas aos pregadores Uma palavra de Jesus é citada por
do evangelho na sua época. A passagem Paulo, no fim de tudo, para confirmar
do Velho Testamento demonstra que a a opinião de que os que anunciam o
pessoa que se esforça deve receber sus­ evangelho, que vivam do evangelho. Este
tento pelo seu trabalho. O homem que ensino de Jesus é preservado em Mateus
ara e o boi que debulha o grão merecem 10:9,10 e Lucas 10:7. Paulo usa várias
sustento. ilustrações para sustentar a sua convic­
ção de que, como apóstolo, ele tem o
Visto que Paulo propiciara benefícios direito de receber sustento em troca dos
espirituais aos coríntios, agora merece seus trabalhos (9:5,7,9,13,14).
deles benefícios materiais. Outros estão
servindo à igreja em Corinto, visto que
Paulo não está mais lá. Eles também 5. A Renúncia de um Apóstolo (9:15-23)
merecem ser sustentados pela igreja. Vis­
to que Paulo estabeleceu a congregação, 15 M a s e u d e n e n h u m a d e s ta s c o is a s ten h o
u sa d o . N e m e sc re v o is to p a r a q u e a s s im se
tem prioridade em suas reivindicações ao te ç a c o m ig o ; p o rq u e m e lh o r m e fo ra m o r ­
sustento material. Ê impossível dizer que r e r , do q u e a lg u é m fa z e r v ã e s ta m in h a g ló ­
pessoas, especificamente, ele tem em ria . 16 P o is , se a n u n c io o e v a n g e lh o , n ão
mente; talvez Apoio esteja incluído (At. ten h o d e q u e m e g lo r ia r, p o rq u e m e é im ­
19:1). p o sta e s s a o b rig a ç ã o ; e a i d e m im , se n ã o
a n u n c ia r o e v a n g e lh o ! 17 Se, p o is o fa ç o de
Paulo nega-se a fazer uso dos seus v o n tad e p ró p ria , te n h o re c o m p e n s a ; m a s ,
direitos, porque prefere fazer conforme se n ã o é d e v o n ta d e p ró p r ia , e sto u a p e n a s
diz: antes suportamos tudo para não in cu m b id o d e u m a m o rd o m ia . 18 L ogo, q u a l
é a m in h a re c o m p e n s a ? É q u e , p re g a n d o o
pormos impedimento algum ao evange­ ev an g elh o , e u o fa ç a g ra tu ita m e n te , p a r a
lho de Cristo. Algumas pessoas critica­ n ão u s a r e m a b so lu to d o m e u d ire ito no
vam os filósofos itinerantes gregos, que ev an g elh o .
aceitavam a remuneração pelas confe­ 19 P o is , sen d o liv re d e todos, fiz-m e e s c r a ­
vo d e to d o s p a r a g a n h a r o m a io r n ú m e ro
rências populares que realizavam. Sócra­ p o ssív e l: 20 F iz -m e co m o ju d e u p a r a os
tes achava que um mestre que aceitasse ju d e u s , p a r a g a n h a r o s ju d e u s ; p a r a o s q u e
dinheiro pelo seu trabalho não falaria tão e stã o d e b aix o d a le i, co m o se e stiv e ss e e u
livremente, ao seu auditório, como devia. d eb aix o d a le i (e m b o ra d e b a ix o d a le i n ã o
Paulo não deseja aceitar dinheiro dos e s te ja ) , p a r a g a n h a r o s q u e e s tã o d e b a ix o
d a le i; 21 p a r a os q u e e s tã o s e m le i, com o
coríntios, porque isso pode prejudicar a se e stiv e ss e s e m le i (n ão e sta n d o s e m lei
recepção do evangelho naquela cidade. p a r a co m D e u s, m a s d e b a ix o d a le i d e C ris­
A palavra grega traduzida como impedi­ to ), p a r a g a n h a r o s q u e e s tã o s e m le i. 22 F iz-
mento significa entrar por um atalho, m e co m o fra c o p a r a o s fra c o s , p a r a g a n h a r
os fra c o s . F iz -m e tu d o p a r a to d o s, p a r a p o r
para impedir a perseguição do inimigo. todos os m eio s c h e g a r a s a lv a r a lg u n s .
Paulo deseja ajudar a deixar a estrada 23 O ra , tu d o fa ç o p o r c a u s a do e v a n g e lh o ,
livre para o avanço do evangelho. p a r a d e le to m a r-m e c o -p a rtic ip a n te .
Paulo toma bem claro que a defesa emancipando-me da escravidão do peca­
que ele faz do seu apostolado não é, de do (Rom. 6:6-14) — fiz-me escravo de
forma alguma, um apelo por assistência todos. Quando eu digo que sou escravo
material. Ele não apenas deseja que ne­ dos homens, quero dizer que me esforço
nhum impedimento seja colocado ao para ser servo de todos os homens. Não
avanço do evangelho (v. 12), mas tam­ quero dizer que permito que todos os
bém conservar esta minha glória (v. 15). homens controlem minha vida. Só Deus
De fato, ele diz que melhor me fora faz isso, através de Cristo. Eu torno-me
morrer do que desistir de pregar o evan­ escravo, ou servo, a fim de ganhar o
gelho sem recompensa financeira. Um maior número possível e apresentar-lhes
chamado imperioso havia-se apoderado a salvação.
dele, e uma compulsão interior o impul­ A minha perspectiva significa, pratica­
sionava a pregar (cf. Jer. 20:9; Gál. mente, que fiz-me como judeu para os
1:15). A vida seria impossível para ele, judeus, para ganhar os judeus. Dizendo
se não pregasse o evangelho. Ele, na isto, quero dizer que procuro entender
realidade, não pode jactar-se de estar como os judeus podem considerar um
pregando o evangelho: Ai de mim, se judeu que prega que Jesus é o Messias.
não anunciar o evangelho! Sente o impul­ Esforço-me para entender os seus pontos
so de uma necessidade divina. Não prega de vista e ver no que posso concordar
por livre escolha, mas com base na voca­ com ele. Tenho a vantagem de ter ma­
ção de Deus. nifestado a mesma atitude legal para
Se Paulo pregasse com base em sua com a lei de Moisés que qualquer judeu
iniciativa própria, se sentiria de maneira tem. Não estou dizendo que, para tor-
diferente quanto a receber pagamento. nar-me judeu, me tomo um cristão le­
Porém, visto que prega por causa de um galista, porém quero dizer que procuro
dever que Deus lhe deu para se desin- colocar-me de acordo com o judeu que
cumbir, para não dizer o privilégio, ele desejo conquistar e encaro o cristianismo
prega como alguém que foi comissionado do ponto de vista do judaísmo.
para fazê-lo. Portanto, acha que não tem Há ocasiões em que eu mesmo observo
nenhuma razão imperiosa para aceitar a lei judaica (cf. At. 16:3; 18:18; 21:26),
pagamento. Prega não pelo que vai rece­ mas não vivo mais pela lei, como num
ber, mas pelo que jâ recebeu do Senhor. esforço para ganhar a salvação. Vivo,
A recompensa de Paulo por pregar é que agora, pela fé em Cristo. Embora debai­
ele o faz sem cobrar por isso. O seu xo da lei não esteja, guardo algumas de
pagamento é pregar sem receber paga­ suas provisões, por vezes, a fim de mos­
mento. Há também recompensa nos re­ trar a minha sensibilidade para com a
sultados e na alegria de servir a Cristo. interpretação judaica da religião e para
Paulo se gasta pelos outros, e não pede ganhar os que estão debaixo da lei. Con­
aos outros para gastarem alguma coisa sidero a sua perspectiva de vida a fim de
com ele. levá-los para fora dela. Mas jamais sacri­
Nos versos 19 a 23, Paulo apresenta fico qualquer princípio básico do evan­
a sua maneira de entender o exercício gelho cristão (cf. Gál. 2:3-5). Não tenho
desta liberdade em favor dos outros. a obrigação de guardar a lei. Estou sal­
Nos versos 15 a 18, ele fala do exercício vo pela graça, por meio da fé apenas
de sua liberdade em referência a si mes­ (cf. Rom. 10:4). Mas procuro entender
mo. (Novamente os pronomes na primei­ os que crêem de maneira diferente.
ra pessoa são usados no comentário, Para os que estão sem lei — estou
como em relação a 9:1-6.) Pois, sendo falando dos gentios — quando comecei o
livre de todos — visto que Deus fez de meu trabalho missionário entre eles, tor­
mim um homem verdadeiramente livre, nei-me como se estivesse sem lei, como
alguém que luta para simpatizar com do evangelho. O afã de ganhar outros
uma interpretação gentílica da salvação através do exercício de pregação que não
e a sua dedicação a vários deuses e pede recompensa monetária é uma forma
senhores. Certamente não estou dizendo pela qual dele eu possa tomar-me par­
que em qualquer tempo me tomei uma ticipante, cumprir a minha vocação como
pessoa proscrita, desprezando os eleva­ apóstolo e participar dos benefícios do
dos princípios morais. Ser crente signifi­ evangelho de Cristo.
ca que estou sempre debaixo da lei de
Cristo. E a lei de Cristo é uma forma pela 6. A Disciplina da Liberdade Cristã
qual manifesto a centralidade do amor, (9:24-27)
que mencionei (8:1 ) quando comecei a 24 N ão sa b e is vós q u e os q u e c o rre m no
discutir o problema de alimento ofereci­ e stá d io , todos, n a v e rd a d e , c o rre m , m a s
do a ídolos (cf. Rom. 13:8-10). Tomei- u m só é q u e re c e b e o p rê m io ? C o rre i d e ta l
me como se estivesse sem lei por uma m a n e ir a q u e o a lc a n c e is . 25 E to d o a q u e le
razão dominante: para ganhai os que q u e lu ta , e x e rc e do m ín io p ró p rio e m to d a s
a s c o is a s; o ra , e le s o fa z e m p a r a a lc a n ç a r
estão sem lei à fé em Cristo. u m a c o ro a c o rru p tív e l, n ó s, p o ré m , u m a
Deixem-me dirigir a sua atenção para in c o rru p tív e l. 26 P o is e u a s s im c o rro , n ã o
os fracos. Fiz todos os esforços para com o in d e c iso ; a s s im c o m b a to , n ã o com o
simpatizar com os fracos. Alguns cris­ b a te n d o no a r . 27 A n tes su b ju g o o m e u c o r ­
po, e o re d u z o à su b m iss ã o , p a r a q u e , dep o is
tãos judeus são fracos em relação a co­ d e p r e g a r a o u tro s, e u m e s m o n ã o v e n h a a
mer alimentos sacrificados aos ídolos, fic a r re p ro v a d o .
devido à sua experiência anterior (cf. At.
15:29). Isto certamente é verdade em Paulo muda de assunto neste ponto,
relação a alguns gentios, muitos dos para empregar ilustrações esportivas, a
quais crêem que os ídolos representam fim de demonstrar o princípio de liber­
verdadeiros deuses. Sempre tentei ter dade disciplinada e a necessidade de
consideração por pessoas como essas, domínio próprio e autodisciplina na vida
que são espiritualmente imaturas. Fi-lo cristã. Esta passagem enfatiza que Paulo
porque o amor cristão leva-me a inter­ considera a salvação não meramente co­
pretar a minha liberdade em termos de mo um ato, mas como uma experiência
sensibilidade para com os outros. A mi­ contínua. A vida cristã requer tudo da
nha esperança é que a minha compaixão vida de uma pessoa, por toda a sua vida.
para com os que são fracos me ajude a O crente é liberto da escravidão do peca­
ganhar os fracos, nutrindo-os com uma do a fim de se tornar escravo da justiça
fé madura. (cf. Rom. 6:6-14). Paulo apela para os
Fiz-me tudo para todos, para por to­ coríntios, a fim de que eles se apliquem
dos os meios chegar a salvar alguns. à busca do crescimento e obediência cris­
Quero deixar bem claro que não me tor­ tãos. A fé salvadora é uma fé dinâmica.
nei culpado de usar de expedientes tortuo­ Pelo menos dois atletas são menciona­
sos. A minha adaptação nunca abalou dos nesta passagem: o corredor e o pugi­
ou pôs em cheque a minha dedicação; lista. Os coríntios entenderiam estas re­
o meu objetivo é entender a dedicação ferências com toda a facilidade. Os jogos
dos outros. Um crente que ama os outros eram realizados em toda a Grécia, em
tem a liberdade de empregar o seu amor vários lugares. Os jogos olímpicos, reali­
de formas que mostrem que ele realmen­ zados em honra a Zeus, que eram os mais
te se preocupa com os outros o suficiente famosos de todos, foram iniciados em
para se esforçar no sentido de enten- Atenas em 776 a.C., e interrompidos só
dê-los e apreciá-los. Exercito o meu amor em 393 d.C. Realizados a cada quatro
em liberdade e a minha liberdade em anos, esses jogos davam muita fama aos
amor apenas por uma razão: por eausa vencedores dos acontecimentos atléticos.
Os jogos do istmo eram realizados em com um lutador imaginário, para entrar
Corinto, em honra a Poseidom, deus da nele. A vida cristã requer um claro senso
água e do mar, e tiveram inicio ali em de propósito.
581 a.C. Paulo usa ilustrações que esta­
Subjugo o meu corpo, e o reduzo à
belecem comunicação instantânea com
submissão. Paulo afirma que é necessá­
todos os coríntios. Talvez alguns deles rio que ele se discipline. Embora a pala­
freqüentassem os jogos, quando eram vra corpo, neste contexto, tenha um sig­
realizados a cada dois anos, em Corinto. nificado físico, não é meramente isso.
Filo, Epiteto e Sêneca estavam entre os Ê necessário que Paulo discipline o seu
famosos contemporâneos de Paulo que eu — toda a sua pessoa — cuja ex­
utilizaram a figura de jogos atléticos para pressão exterior se encontra no corpo
ensinar disciplina e restrição.) físico. Embora Paulo, provavelmente, in­
Ê importante lembrar que Paulo mol­ clua a disciplina voluntariamente assu­
da a analogia dos jogos aos seus objetivos mida para si mesmo, ele também está-se
pessoais. Nem todos os aspectos deles referindo à disciplina requerida para se
são importantes para os seus objetivos. viver dignamente a vida cristã (cf. Rom.
A vida cristã é semelhante a uma corri­ 6:13; 8:13: II Cor. 4:7-12). Ele não está
da. Todos os crentes precisam participar sugerindo que o corpo seja mau. Ele é
dela. É importante que todos corram um veiculo de glorificação a Deus (6:20)
com o esforço estrénuo que pode fazer em uma criação que pertence a Deus
deles os vencedores da corrida. Paulo não (10:26).
diz que só uma pessoa receberá o troféu
da vitória. Correi de tal maneira que o Paulo vive uma vida cristã disciplina­
alcanceis. Ele quer dizer que cada pessoa da, conforme diz: para que, depois de
deve dedicar-se inteiramente à corrida pregar a outros, eu mesmo não venha a
(cf. Fil. 3:12). A liberdade cristã exige ficar reprovado. Talvez, pela maneira
esforços sérios. como usa a palavra pregação, ele tenha
Todo aquele que luta, exerce domínio em mente o arauto dos jogos. O arauto
próprio em todas as coisas. De fato, os anuncia as regras da disputa e anuncia os
que participavam dos jogos de Corinto vencedores. Paulo está preocupado com
deviam jurar que haviam estado em trei­ o fato de se envolver tanto com o bem-
namento durante dez meses antes da estar espiritual dos outros a ponto de
disputa. A liberdade cristã exige discipli­ descuidar do seu. Ele se disciplina, “para
na própria. não ser rejeitado, depois de ter chamado
Eles o fazem para alcançar uma coroa outros para a luta” (9:27b TEV).
corruptível. Em Corinto, era uma grinal­ O que quer dizer Paulo com a palavra
da de pinheiro; em Atenas, uma grinal­ reprovado? Muitos comentaristas acham
da de oliveira; em Delfos, uma grinalda que ele está-se referindo à possibilidade
de louro. Essas amostras frágeis da vitó­ de ser rejeitado em sua salvação pessoal,
ria, que eram consideradas mui precio­ no fim da corrida. Mas Paulo não crê
sas, não se podem comparar com a coroa que a sua salvação depende de sua obra
imperecível que será dada aos coríntios de perseverança, pois os homens são
fiéis, por ocasião da ressurreição (cf. salvos pela fé, e não pelas obras. Por
I Ped. 5:4; Apoc. 2:10; II Tim. 4:8). outro lado, a fé salvadora é uma fé con­
A liberdade cristã exige um alvo: o reino tínua, ativa. Ela não descansa afetada­
de Deus. mente no passado, mas abraça o futuro,
Pois eu assim corro, não como indeci­ como base para a expressão de obediên­
so; assim combato, não como batendo no cia. Os homens não são salvos pela per­
ar. Ninguém se insinua sub-repticiamen- severança, mas salvos para perseverar
te no reino de Deus, e ninguém boxeia (cf. Fil. 3:8-14).
A vida cristã não é tolerante, mas exi­ tendo-se aos rituais corretos. Nos siste­
gente (cf. Rom. 6:10-14). A salvação em mas gnósticos do segundo século d.C.,
Cristo não é um convite para a compla­ a pessoa podia ter a certeza da salvação
cência, mas uma convocação para uma tendo adquirido o conhecimento místico
entrega. Cada novo dia é uma nova con­ correto. Porém a fé cristã abrange mais
vocação para a fé. do que fórmulas corretas; requer uma
nova vida, que encontre expressão na to­
7. A Liberdade Cristã e Obediência talidade da vida, enquanto houver vida.
Morai (10:1-13) Paulo mostrou a importância da discipli­
1 P o is n ã o q u e ro , irm ã o s , q u e ig n o re is na no exercício da liberdade na sua pró­
que n o sso s p a is e s tiv e ra m to d o s d e b aix o pria vida. No capítulo 10, ele demonstra
d a n u v e m , e to d o s p a s s a r a m p elo m a r ; que a mesma qualidade de liberdade
2 e , n a n u v e m e no m a r , todos fo ra m b a ti­ disciplinada exige obediência moral, da
z ados e m M oisés, 3 e to d o s c o m e ra m do
m esm o a lim e n to e s p iritu a l; 4 e b e b e ra m parte dos coríntios. Eles não podem pen­
todos d a m e s m a b e b id a e s p iritu a l, p o rq u e sar que estão seguros contra os perigos
b e b ia m d a p e d r a e s p iritu a l q u e o s a c o m p a ­ da sociedade coríntia só porque possuem
n h a v a ; e a p e d r a e r a C risto . 5 M as D eu s o nome de cristãos.
não se a g ra d o u d a m a io r p a r te d e le s ; p elo
qu e fo ra m p ro s tra d o s no d e se rto .
A maior parte dos eruditos concorda
6 O ra , e s ta s c o isa s n o s fo ra m fe ita s p a r a que Paulo está-se referindo ao batismo e
e x em p lo , a fim de q u e n ã o co b ic e m o s a s à Ceia do Senhor, em 10:1-13. Ele está-se
co isas m á s , com o e le s c o b iç a ra m . 7 N ão v o s opondo ao ponto de vista de que a parti­
to rn e is, pois, id ó la tr a s , co m o a lg u n s d e le s, cipação nesses acontecimentos assegura
co n fo rm e e s tá e s c r ito : O povo a ssen to u -se
a c o m e r e a b e b e r, e lev an to u -se p a r a fo lg a r. a salvação a uma pessoa. Evidentemente,
8 N e m n o s p ro s titu a m o s , co m o a lg u n s d e le s alguns dos coríntios estão correndo o
fiz e r a m ; e c a ír a m n u m só d ia v in te e tr ê s perigo de aceitar uma maneira mágica de
m il. 9 E n ã o te n te m o s o Sen h o r, co m o a lg u n s compreender o batismo e a Ceia do Se­
d eles o te n ta r a m , e p e r e c e r a m p e la s s e r p e n ­
te s . 10 E n ã o m u r m u re is , com o a lg u n s d e le s nhor. Paulo emprega o Velho Testamen­
m u r m u r a r a m , e p e re c e r a m p elo d e s tru id o r. to para refutar as suas opiniões.
11 O ra , tu d o is to lh e s a c o n te c ia , com o e x e m ­ A maneira como Paulo usa o Velho
plo, e foi e s c rito p a r a a v iso n o sso , p a r a Testamento, nesta seção, é um exemplo
q u em j á são ch e g a d o s os fin s d o s sécu lo s. do método tipológico de interpretação.
12 A quele, p o is, q u e p e n s a e s t a r e m p é ,
olhe n ã o c a la . 13 N ão v o s so b re v e io n e n h u ­ Em tipologia, as sombras de eventos
m a te n ta ç ã o , se n ã o h u m a n a ; m a s fie l é futuros são encontradas na história de
D eus, o q u a l n ã o d e ix a r á q u e s e ja is te n t a ­ Israel. A igreja no deserto, em o Velho
dos a c im a do q u e po d eis r e s is tir , a n te s co m Testamento, é um tipo da igreja em Co­
a te n ta ç ã o d a r á ta m b é m o m eio d e s a íd a ,
p a r a q u e a p o s s a is s u p o rta r.
rinto. O êxodo do Egito é o ato de
salvação, executado por Deus, para a
Depois de ter utilizado ilustrações ti­ salvação de Israel. A morte e ressurrei­
radas das disputas atléticas, o apóstolo ção de Cristo são o ato de salvação
emprega uma lição do Velho Testamen­ executado por Deus em favor da Igreja.
to, para mostrar a importância da obe­ Antes de entrar na Terra Prometida,
diência às demandas de uma fé madura. Israel passou um período de prova no
Os crentes não devem presumir que, deserto. Antes de entrar na sua terra da
só porque receberam graça gratuita, au­ promessa, por ocasião da segunda vinda
tomaticamente garantiram a salvação de Cristo, a Igreja precisa atravessar um
completa. A fé cristã não é uma apli­ período de provas em um mundo pagão.
cação de mágica, mas um chamado à A igreja em Corinto precisa aprender a
obediência moral. lição que a experiência de Israel ensina.
Nas religiões de mistério, a pessoa Pois não quero, irmãos, que ignoreis
podia ter a certeza da salvação subme­ é uma fórmula introdutória que Paulo
freqüentemente usa para apresentar algo Paulo identifica a Rocha com Cristo.
muito importante (cf. II Cor. 1:8; Rom. Ele é o mediador da criação (8:6), que
1:13; 11:25; I Tess. 4:13). Nossos pais supre as necessidades de água do povo.
estiveram todos debaixo da nuvem, que Esta passagem, que aponta para a pree­
simbolizava a direção de Deus. Eles mar­ xistência de Cristo, fala de Cristo como a
charam debaixo da coluna de nuvem que fonte de bênçãos no deserto.
cobria a multidão (Êx. 13:21; 14:19; Paulo diz que todos os pais foram re­
Núm. 14:14; Sal. 105:39). Eles são nos­ cipientes de bênçãos sobrenaturais. Mas
sos pais — isto é, os pais de todos os que Deus não se agradou da maior parte
pertencem a Cristo, a semente de Abra­ deles. Embora ele tivesse satisfeito as
ão. Todos os crentes, judeus e gentios, necessidades deles, eles não satisfizeram
são filhos de Abraão (Gál. 3:16,29). E, as ordens dele. A grande maioria deles
na nuvem e no mar, todos foram bati­ foi prostrada no deserto (Núm. 15:
zados em Moisés. A nuvem estava sobre 30-32). Nada serve de substituto para a
eles, e o mar os cercava de ambos os seriedade com que devemos receber as
lados, de forma que, em certo sentido, reivindicações de Deus sobre a nossa obe­
eles foram batizados (cf. Êx. 14:22). Eles diência. A presença da providência divi­
foram batizados em Moisés, o que signi­ na não deve ser interpretada como ausên­
fica que Moisés tomou-se seu líder. Eles cia de julgamento.
eram o povo dele (cf, 1:15). O que aconteceu ao Israel de outrora
Os crentes também foram batizados serve como advertência para todos os
(Rom. 6:3,4). Eles foram batizados em crentes. Não é possível aceitar a graça de
Cristo, e são o seu povo. Israel é tam­ Deus, e depois abusar dela. Ele não troca
bém manifesto na redenção da Igreja, o a sua graça pelo nosso pecado. Ele nos
novo Israel. fortalece para viver para buscarmos o
bem, e não o mal. Os coríntios, que
E todos comeram do mesmo alimento gostavam de freqüentar festas pagãs,
espiritual. O maná que Deus providen­ precisavam lembrar-se da praga que
ciou (Êx. 16:13-16) é chamado de espi­ Deus mandou sobre Israel, quando os
ritual, porque é o dom de Deus. Ele é israelitas buscaram as panelas de carne
citado como “pão do céu” e “pão dos do Egito (Núm. 11:4-34).
anjos” , em algumas fontes judaicas (Sal. O versículo 7 se refere ao perigo da
78:24,25; Sabed. de Salom. 16:20; cf. idolatria, que Deus puniu no Israel do
João 6:3-34; 49-51). passado (Êx. 32:1-35), e do qual os co­
E beberam todos da mesma bebida ríntios precisavam se guardar. A imora­
espiritual. Moisés feriu uma rocha, e lidade, freqüentemente ligada à idola­
supriu água para Israel (Êx. 17:6; Núm. tria, recebera o julgamento de Deus,
20:7-11). Porque bebiam da pedra espi­ quando caíram num só dia vinte e três
ritual que os acompanhava; e a pedra mil. Números 25:1-9 registra “vinte e
era Cristo. Os intérpretes judeus ensi­ quatro mil” . Paulo está citando de me­
navam que a Rocha seguiu Israel em suas mória ou usando um texto diferente.
jornadas. Todavia, o Velho Testamento Os filhos de Israel tentaram o Senhor,
não contém essa tradição. Filo relaciona a queixando-se de que não tinham comida,
Rocha, por vezes, com a sabedoria e o e foram destruídos por serpentes (Núm.
logos. Paulo dá uma interpretação espi­ 21:5-9). Alguns deles murmuraram de­
ritual da Rocha, como um tipo de Cristo. pois que foi ministrada punição, por
Ele devia conhecer a interpretação apre­ ocasião da rebelião de Coré, e foram
sentada pelos mestres judeus, de que a destruídos (cf. Núm. 16:1-50). A palavra
Rocha seguira Israel e suprira água para traduzida como destruidor encontra-se
o povo. apenas aqui e em Hebreus 11:28. Ela se
refere a Satanás (5:5) ou ao anjo que Sêneca comenta a respeito da tenta­
executa a sentença divina de castigo ção, que a natureza nos ama e nos cons­
(cf. Êx. 12:23). tituiu de forma a tornar a nossa dor
O que aconteceu a Israel ocorreu como suportável ou curta. Como Paulo é dife­
exemplo, para eles não desejarem o mal. rente! Ele não apela para a natureza,
Mas o que aconteceu-lhes anos antes foi mas para o Deus da natureza. As reli­
escrito para aviso nosso. A história deles giões de mistério, às quais alguns dos
é prefiguração de nossa história. Preci­ coríntios anteriormente haviam perten­
samos aprender, com a desobediência cido, também não oferecem a confiança
deles, a ser obedientes, nós, para quem em Deus, que caracteriza a fé cristã.
já são chegados os fins dos séculos. Es­
tamos perto do fim da era atual e perto 8. A Liberdade Cristã e a Comunhão á
do começo da era por vir — como um Mesa (10:14-22)
homem que está no patam ar de uma es­
cada. O fim da história está perto, visto 14 P o rta n to , m e u s a m a d o s , fu g i d a id o la ­
que Cristo veio e logo voltará. O seu reino tr ia . 15 F a lo co m o a e n te n d id o s; ju lg a i vós
m e sm o s o q u e dig o . 16 P o rv e n tu ra o c á lic e
já está aqui em parte, e logo virá em de b ê n ç ã o q u e a b e n ç o a m o s n ã o é a c o m u ­
grande poder. O crente vive na interse­ n h ão d o sa n g u e d e C risto ? O p ã o q u e p a r t i ­
ção das duas eras. m o s n ã o é p o rv e n tu ra a c o m u n h ão do co rp o
Aquele, pois, que pensa estar em pé, d e C risto ? 17 P o is n ó s, e m b o ra m u ito s, s o ­
que está muito confiante no seu exercício m o s u m só p ã o , u m só c o rp o ; p o rq u e todos
p a rtic ip a m o s d e u m m e s m o p ã o . 18 V ede a
de liberdade e brinca com a tentação de Is ra e l seg u n d o a c a r n e : os q u e c o m e m dos
fazer o mal, olhe não caia. Uma pessoa sa c rifíc io s n ã o sã o , p o rv e n tu ra , p a r tic ip a n ­
que entende a sua liberdade em termos te s do a lt a r ? 19 M a s q u e d igo? Q ue o s a c r if i­
de serviço a outros precisa estar certa de cado a o ídolo é a lg u m a c o isa ? Ou q u e o
ídolo é a lg u m a c o isa ? 20 A ntes d ig o q u e a s
que exercita uma liberdade disciplinada c o isas q u e e le s s a c rific a m , s a c rific a m -n a s
para consigo mesma (9:24-27). a d em ô n ios, e n ã o a D eu s. E n ã o q u e ro que
Todos precisam enfrentar o problema se ja is p a rtic ip a n te s co m os d em ô n io s.
da tentação. Ninguém vai escapar dele, 21 N ão p o d e is b e b e r do c á lic e do S e n h o r e do
inclusive os crentes, que enfrentam as cálice d e d e m ô n io s; n ã o p o d eis p a r tic ip a r
d a m e s a do S en h o r e d a m e s a d e d em ô n io s.
mesmas tentações que todas as pessoas 22 Ou p ro v o c a re m o s a zelo s o S en h o r? So­
enfrentam. Fiel é Deus, o qual não dei­ m os, p o rv e n tu ra , m a is fo rte s do q u e ele ?
xará que sejais tentados acima do que
podeis resistir, porque pode-se depender Portanto, meus amados, fugi da ido­
da sua fidelidade. O próprio Deus não latria. Amados é uma palavra favorita
induz os homens à tentação (cf. Tiago de Paulo, que ele usou em quase todas as
1:13); embora ele a permita, propicia a suas cartas. Os amados são as pessoas
maturidade espiritual para vencê-la. que se tomaram receptáculas do amor de
O crente não é preservado da tentação: Deus e são queridas de Paulo. O seu
é preservado nela e através dela. É Deus conselho, para aqueles que não enten­
quem lhe dá o poder para a suportar. dem que a adoração de ídolos e a par­
à nossa fé depende da fidelidade dele. ticipação em festas idólatras nos tem­
A palavra traduzida como meio de saída plos pagãos são perigosas para a sua
é ekbasis. Significa caminho de saída de liberdade, é que fujam de tais práticas.
um desfiladeiro, de uma passagem entre O seu conselho é o mesmo que fora dado
montanhas. Sugere um exército que está em referência à prostituição: fujam dela
cercado e precisa de um caminho que o (6:18). O objetivo não é verificar até que
leve à segurança. Deus providencia um ponto uma pessoa pode chegar perto do
caminho para a vitória, e não para a pecado, mas até que ponto ela pode se
derrota. afastar dele.
No capítulo 8, Paulo falara a respeito deus. A segunda sustenta que o sangue
de comer carne sacrificada aos ídolos. de Cristo e o corpo de Cristo se referem
Aqui escreve a respeito da adoração de à Ceia do Senhor, mas incluem um rela­
ídolos. Ele havia lembrado os coríntios cionamento espiritual, e não físico. A ter­
a respeito do grande dano que podia ser ceira esposa a opinião de que o sangue de
causado aos outros quando eles comes­ Cristo se refere à Ceia do Senhor, e o
sem em templos pagãos (8:10). Os mem­ corpo de Cristo se refere à Igreja. A pri­
bros da igreja certamente já sabiam o meira interpretação não tem apoio no
suficiente a respeito da adoração de ído­ verso 18 e no fato de que a Ceia é
los, sendo capazes de fazer uma avalia­ participação no corpo de Cristo, e não
ção inteligente acerca do conselho de participação de elementos. Contra a se­
Paulo, e decidir o valor que ele tem. gunda interpretação antepõe-se a refe­
Os versículos 16-22 são bem diferen­ rência feita por Paulo ao corpo de Jesus
tes, em conteúdo e em tonalidade, de como “o corpo da sua carne” (Col. 1:22).
8:1-13, e são considerados, por alguns E também ele usa “o corpo de Cristo”
comentadores, como parte da carta men­ para referir-se à Igreja (12:27; Rom.
cionada em 5:9. Contudo, a solução não 12:5).
é atribuir cada seção a uma carta dife­ A referência à Ceia do Senhor, nos
rente, mas atribuir cada seção a um pro­ versos 16 a 18, é feita, por Paulo, a fim
blema diferente. Em 8:1-13, Paulo está- de fortalecer o seu argumento contra o
se referindo ao uso particular da carne perigo de adorar-se ídolos. O cálice de
que havia sido sacrificada aos ídolos. bênção, pelo qual se dá graças a Deus,
Em 10:14-22, ele fala de tomar parte é uma referência ao cálice tomado por
em refeições sacrificiais em templos pa­ ocasião da Ceia. Na celebração da refei­
gãos. ção pascal, o cálice da bênção refere-se
Nos versos 16-18, Paulo faz uma das ao terceiro cálice de vinho que é tomado.
duas referências à Ceia do Senhor encon­ O cálice de bênção, pelo qual se dá
tradas nas Suas cartas; a outra, muito graças durante a Ceia do Senhor, em
mais longa, encontra-se em 11:17-34. Os Corinto, é uma forma simbólica de par­
versículos-chave, nesta seção, são os ticipar espiritualmente dos benefícios da
20 e 21. Paulo insiste que comer carne morte de Cristo. Ê uma comunhão do
em templos pagãos coloca o adorador, sangue de Cristo. A palavra comunhão,
inclusive os crentes, na presença de de­ usada duas vezes no verso 16, é tradução
mônios. E nenhum crente que tenha de koinonia, que também pode ser tradu­
sensibilidade gostará dessa possibilida­ zida como “participação” . É bem bíblico
de. O crente não pode participar da Ceia referir-se à Ceia do Senhor como comu­
do Senhor e de ceias realizadas em honra nhão. O versículo 16 toma óbvio essa
a deuses pagãos. conveniência.
Em lugar nenhum, nesses versículos, Paulo não está sugerindo que os corín­
Paulo dá a idéia de que Cristo é comido tios bebam juntos o sangue de Cristo,
na Ceia ou que ele come qualquer parte mas que, pela fé, eles participem dos
da Ceia. A analogia não deve ser levada benefícios de sua morte na cruz. As pala­
tão longe. vras sangue de Cristo referem-se à morte
Estes versículos podem ser interpreta­ de Cristo (cf. Rom. 3:24; 5:9). A parti­
dos pelo menos de três maneiras. A pri­ cipação do cálice simbolicamente une o
meira presume que Paulo modela a sua adorador com Cristo.
maneira de entender a Ceia do Senhor Em 11:23, Paulo menciona em pri­
segundo as religiões de mistério. Conse­ meiro lugar o pão, e não o cálice. (Para
qüentemente, o sangue de Cristo e o uma explicação mais completa a respeito
corpo de Cristo se referem a comer o da Ceia do Senhor, veja os comentários
a 11:17-34.) É difícil saber-se por que ele 15; I Sam. 9:10-24). Neste sentido, os
apresenta duas ordens diferentes. Tem sacerdotes e o povo são participantes do
sido discutido que ele coloca o pão em altar sobre que os sacrifícios são feitos.
último lugar a fim de propiciar uma Mas também é verdade que tanto os
transição menos brusca para o pão que é sacerdotes como o povo participam jun­
mencionado no versículo seguinte, para tos dos benefícios espirituais que advém
poder introduzir a referência à Igreja da oferta de sacrifícios a Deus. Os que
como “corpo” . A ênfase, neste caso par­ participam dos sacrifícios participam
ticular, não é litúrgica, mas teológica. também dos seus benefícios.
O pão é partido na Páscoa judaica. Paulo não está tentando provar que a
Paulo fala do pão que é partido na Ceia do Senhor é um sacrifício. Ele está
comunhão do corpo de Cristo. O corpo usando uma analogia tirada do sistema
é, provavelmente, referência à Igreja sacrificial judaico, para mostrar a reali­
(cf. 12:27; Cf. Rom. 12:5). Comer de dade da participação ou comunhão espi­
um só pão é participar da realidade da ritual na Ceia do Senhor.
Igreja. O pão único que é partido signi­ O apóstolo afirma outra vez o que já
fica a unidade da Igreja, que é o corpo expressara (8:4): a comida dos ídolos e os
de Cristo. Há unidade em Cristo e uni­ ídolos não representam realidades. Mas
dade na Igreja. A participação no único os demônios são reais. Quando os gentios
pão simboliza a unidade da Igreja. Outra pensam que estão sacrificando aos deu­
possibilidade é que o corpo de Cristo ses, na verdade estão sacrificando aos
seja referência ao pão da Ceia do Senhor. demônios. Os seus deuses não existem;
Isto significaria que tanto o cálice quanto os demônios existem (cf. Deut. 32:17;
o pão se referem à Ceia do Senhor. Neste Sal. 106:37). Quando o povo sacrifica aos
caso, a comunhão do sangue de Cristo e ídolos, os demônios estão presentes. Pau­
a comunhão do corpo de Cristo se refe­ lo não deseja que os coríntios estejam na
ririam à participação nos benefícios da companhia de demônios, ao participar
morte de Cristo. A participação simboli­ das refeições que honram deuses pagãos.
za a unidade da Igreja em sua apro­ Não quero que sejais participantes com
priação da morte de Cristo, à qual Paulo os demônios. Ninguém que leva a sério o
se refere quando usa as palavras pão e senhorio de Cristo pode permitir-se ma­
corpo. nifestar qualquer reconhecimento a
Alguns eruditos notam que, nas seitas quaisquer poderes sobrenaturais que se
dionísia e órfica, os deuses supostamente oponham a Deus.
eram comidos, e Paulo adotara essa in­ Não podeis beber do cálice do Senhor
terpretação da Ceia do Senhor. Mas o e do cálice de demônios. Compartilhar de
verso 18 mostra claramente que tal inter­ comida significa participar de comu­
pretação é impossível. Paulo refere-se a nhão. Você não pode ter uma participa­
comer os sacrifícios no judaísmo, fato ção que o torne dedicado a dois senhores
que não ensina que os sacerdotes comiam diferentes; uma escolha tem que ser feita.
a divindade quando comiam os sacri­ Você não pode admitir que o fato de
fícios. você ser crente, de obedecer às fórmulas
Na Ceia do Senhor, a Igreja participa apropriadas, lhe dê um seguro contra os
dos benefícios de Cristo e da comunhão perigos morais.
de uns com os outros. A comunhão com Mesa do Senhor é expressão usada no
Cristo acarreta comunhão de uns com os Velho Testamento (Mal. 1:7). A palavra
outros. mesa também é usada para referir-se
Na adoração de Israel, os sacerdotes a festas pagãs (cf. Is. 65:11; Jer. 7:18;
comem porções de alguns sacrifícios, e o Ez. 16:18,19). “A mesa do Senhor” é
povo come porções de outros (Lev. 10:12- expressão bem conhecida em círculos
pagãos. Certo papiro começa assim: Todas as coisas são lícitas é uma ex­
“Chairemon o convida para uma refeição pressão que Paulo já usou (6:12). A sua
à mesa do Senhor Serápis, no Sera- reação em ambos os casos é a mesma:
peum.” A refeição a que Paulo está-se nem todas as coisas convêm. Em cada
referindo, nestes versículos, abrange ri­ caso, ele repete a expressão todas as
tuais religiosos. São atos de adoração. coisas são lícitas. Mas, em 6:12, ele
O crente não pode adorar a Cristo diante; expressa o desejo de não perder a sua
da mesa do Senhor, e depois assistir liberdade por causa da escravidão ao que
impunemente um ritual religioso infecta­ quer que seja. Em 10:23,24, ele declara
do de demônios. Embora os gregos cres­ o desejo de expressar a sua liberdade
sem que a pessoa podia pertencer a inú­ mediante serviço amoroso aos outros
meras seitas, os cristãos precisavam lem- (cf. Rom. 14:20). Este ponto de vista é
brar-se de que só pode haver uma leal­ semelhante à sua convicção expressa em
dade final. 8:1, de que o amor edifica. A liberdade
Os crentes não podem provocar os não se encontra em expressar um direito
zelos ou ciúmes de Deus, porque ele individual, mas em ajudar os outros a
deseja a nossa lealdade única. Ele não crescerem espiritualmente. A liberdade
compartilhará a nossa dedicação com da fé é expressa em servir a Igreja.
outrem. Somos, porventura, mais fortes Ninguém busque o proveito próprio,
do que ele? Imaginamos que podemos antes cada um o de outrem (cf. Gál. 6:2;
fazer isto e não sofrer o seu julgamento?
Rom. 14:7; 15:2; Fü. 2:4). A Uberdade
9. Sumário da Liberdade Cristã do crente encontra expressão quando ele
(10:23-11:1) luta, de maneira positiva, pelo bem-estar
do seu próximo fraco, que pode ser ima­
23 T o d as a s c o isas sã o líc ita s , m a s n e m turo na sua maneira de entender a carne
to d as a s c o isas c o n v ê m ; to d a s a s c o isa s são sacrificada aos ídolos. Quando o crente
líc ita s, m a s n e m to d a s a s c o isa s e d ific a m .
24 N in g u ém b u sq u e o p ro v e ito p ró p rio , a n ­
faz isto, não está reduzindo a sua liber­
te s c a d a u m o de o u tre m . 25 G om ei d e tu d o dade, mas expressando-a. O amor é a
q u an to se v en d e no m e rc a d o , n a d a p e rg u n ­ base da liberdade, e a liberdade é a
tan d o , p o r c a u s a d a c o n sc iê n c ia . 28 P o is do expressão do amor. É o amor que edifica
S enhor é a t e r r a e a s u a p len itu d e . 27 Se, p o r ­ a Igreja (cf. Rom. 14:19; 15:2).
ta n to , a lg u n s dos in c ré d u lo s vos c o n v id a r, e
q u ise rd e s ir , co m ei d e tu d o o q u e se p u s e r A palavra grega traduzida como mer­
d ian te d e vós, n a d a p e rg u n ta n d o , p o r c a u s a cado (makellon) é uma forma helenizada
d a co n sciên cia. 28 M as, se a lg u é m vos d is­
s e r : Is to foi oferecid o e m sa c rifíc io ; n ão da palavra latina macelium. Visto que
c o m ais, p o r c a u s a d a q u e le q u e v o s a d v e rtiu Corinto já se tomara colônia romana
e p o r c a u s a d a c o n sc iê n c ia ; 29 co n sc iê n c ia , quando Paulo esteve lá, muitas das ins­
digo, n ã o a tu a , m a s a do o u tro . P o is, p o r crições eram feitas na língua latina. Os
que h á de s e r ju lg a d a a m in h a U b erd ad e
p e la co n sc iê n c ia de o u tre m ? 30 E , se e u
arqueologistas encontraram a palavra
com g ra tid ã o p a rtic ip o , p o r q u e so u v ili­ macelium em uma pedra, que, provavel­
p endiado p o r c a u s a d aq u ilo p o r q u e dou g r a ­ mente, se referia à espécie de mercado
ças? que Paulo menciona. Macella (merca­
31 P o rta n to , q u e r c o m a is, q u e r b e b a is , ou dos), em Pompéia, eram lojas abertas em
fa ç a is q u a lq u e r o u tra c o isa , fa z e i tu d o p a r a
g ló ria d e D eus. 32 N ão v o s to rn e is c a u s a de três lados, onde se vendia came, peixe,
tro p eço n e m a ju d e u s , n e m a g re g o s, n e m frutas e pão. Provavelmente, o mercado
à ig r e ja de D e u s ; 33 a s s im com o ta m b é m em Corinto era do mesmo tipo de merca­
eu e m tu d o p ro c u ro a g r a d a r a todos, n ão do aberto — quase uma feira livre. Ao la­
b u scan d o o m e u p ró p rio p ro v e ito , m a s o de
m u ito s, p a r a qu e s e ja m salv o s. do dele, bem provavelmente havia um
1 Sede m e u s im ita d o re s , com o ta m b é m eu templo consagrado a um dos deuses pa­
o sou d e C risto. gãos.
Visto que grande parte da carne ven­ ram graças a Deus pelo que receberam
dida no mercado era o que sobrara dos dele, inclusive a carne, e não achavam
sacrifícios aos deuses, seria bem difícil razão por que deviam ficar preocupados
os cristãos ficarem sabendo se a carne com críticas insignificantes. A resposta
havia sido sacrificada aos ídolos e achar de Paulo para eles é: Você não desiste de
carne que não o tivesse sido. Os cristãos sua liberdade quando decide não comer
tinham liberdade para comprar carne no dessa carne. Você está usando-a de ma­
makellon, de acordo com Paulo, e não neira cristã e amadurecida. A sua cons­
se preocuparem se ela havia sido sacrifi­ ciência não é problema para você; é a
cada a um ídolo. A razão apresentada consciência do outro que deve ser uma
por Paulo é que do Senhor é a terra, e a preocupação para você. A sua liberdade
sua plenitude (10:26). Esta citação do é expressa, e não perdida, quando você
Salmo 24:1, que foi enfatizada para favo­ prevê o que é permitido, a fim de não
recer as bênçãos sobre as refeições, é ferir um cristão imaturo. Pessoalmente,
uma indicação de que Paulo considera a diz Paulo, eu não considero nada errado
criação boa. Os crentes não precisam em comer o que você deseja comer (Rom.
renunciar a ela, mas usá-la para glorifi­ 14:1-15:6).
car a Deus e servir ao próximo. A carne
O apóstolo expressa, de maneira cla­
que é abençoada deve ser comida sem
ra, os princípios pelos quais o crente deve
arrepios de consciência a respeito de sua
ordenar a sua vida. Portanto, quer co­
origem.
mais quer bebais, ou façais qualquer
Se uma pessoa que não era cristã con­
outra coisa, fazei tudo para glória de
vidasse um cristão para jantar em sua
Deus (cf. Col. 3:17). Calvino diz que não
casa, o cristão tinha a liberdade de acei­
existe nenhuma parte de nossa vida ou
tar o convite. Afinal de contas, a maior
conduta que não deva ser para a glória
parte das pessoas em Corinto não era
de Deus, e que devemos nos preocupar
cristã, e recusar-se a atender a tais ex­
em comer e beber para promovê-la. E ele
pressões de amabilidade podia excluir os cita um provérbio antigo: “Precisamos
cristãos de muitas relações sociais e opor­
não viver para comer, mas comer para
tunidade de testemunhar acerca de sua
viver.” O homem glorifica a Deus quan­
fé.
do é sensível para com o seu próximo.
Mas se um cristão fraco (8:8-13) fosse
Como pode ele glorificar a Deus se preju­
convidado para a mesma refeição e co­
dicar a consciência cristã de um crente
chichasse, ao ouvido do cristão forte, que
mais fraco? O zelo pela glória de Deus é
sabia que a carne que estava sendo servi­
o primeiro princípio pelo qual devemos
da foi oferecida em sacrifício, então sim­
governar nossas ações, tanto em referên­
plesmente este devia rejeitar graciosa­
cia a nós mesmos quanto em referência
mente esse prato. Não devia comer essa
aos outros (cf. 6:20).
carne, por causa de uma preocupação
sensível para com seu irmão fraco, cuja Um segundo princípio é a aplicação do
consciência o acusaria de pecado, se ele amor cristão. Não vos torneis causa de
seguisse o seu exemplo e comesse tam­ tropeço nem a judeus, nem a gregos, nem
bém dessa carne. Devia usar a sua ma­ à igreja de Deus. Não sejais escandalo­
turidade para servir ao seu irmão ima­ sos; não causeis problemas, no que de­
turo. pender de vós. Sede sensíveis, como cren­
Os cristãos, parece, perguntaram por tes, tanto quanto possível, para com to­
que a sua liberdade para agir como dese­ das as pessoas, crentes e não-crentes. O
jassem, durante as refeições, devia ser teste da liberdade cristã está nas reivin­
limitada pela consciência de um irmão dicações que ela faz não para si mesma,
fraco. Eles deixam transparecer que de­ e, sim, para os outros.
Um terceiro princípio é esforçar-se pelas mulheres durante o culto (11:2-16),
para viver uma vida que seja simpática a conduta durante a Ceia do Senhor
para os outros, sem comprometer ne­ (11:17-34) e o exercício dos dons espiri­
nhum princípio. Tal vida demonstra cui­ tuais (12:1-14:40). O extensivo tratamen­
dado pelos outros, e tem em vista esta­ to que Paulo dispensa ao assunto dos
belecer harmonia com os outros. Precisa dons espirituais é uma indicação de que
ser enfatizado que quando Paulo fala de o falar em línguas (14:1-40) era um sério
esforços para agradar a todos, não está problema na igreja em Corinto.
se referindo à ausência de escrúpulos Devemos notar que Paulo baseia a dis­
morais, mas à presença de interesse mo­ cussão desses assuntos em um contexto
ral pelos outros. Ele também está se bem amplo. Por isso, vemos emergir,
referindo aos seus próprios atos, e não desses capítulos, uma profunda com­
aprovando a todos os atos dos outros. preensão da igreja e da primazia do amor
A sua ética e a sua teologia se originam na maneira cristã de se entender a exis­
da mesma afirmação: o Cristo crucifica­ tência.
do e ressurrecto, que evoca uma fé que se 1. O Uso do Véu Pelas Mulheres Duran­
origina em obediência moral. te o Culto (11:2-16)
Um quarto princípio é corolário do ter­
ceiro. O interesse último de Paulo é 2 O ra , e u vos louvo, p o rq u e e m tu d o vos
que sejam salvos (cf. 9:20-22; Rom. le m b ra is d e m im , e g u a rd a is os p re c e ito s
a ss im com o vo-los e n tre g u e i. 3 Q uero, p o ­
15:2). O exercício da liberdade cristã ré m , q u e s a ib a is q u e C risto é a c a b e ç a de
deve ter um motivo evangelístico. Paulo todo h o m em , o h o m e m a c a b e ç a d a m u lh e r,
está interessado nas suas relações com os e D eus a c a b e ç a de C risto . 4 Todo h o m e m
outros, porque se preocupa com o rela­ que o ra ou p ro fe tiz a co m a c a b e ç a c o b e rta
d e so n ra a s u a c a b e ç a . 5 M as to d a m u lh e r
cionamento deles com a salvação. Este q u e o ra ou p ro fe tiz a c o m a c a b e ç a d e s c o b e r­
princípio está intimamente ligado com t a d e so n ra a s u a c a b e ç a , p o rq u e é a m e s m a
todos os outros. co isa com o se e stiv e ss e ra p a d a . 6 P o rta n to ,
Um quinto princípio é o exemplo do se a m u lh e r n ã o se co b re co m o v é u , to squie-
testemunho apostólico. Sede meus imita­ se ta m b é m ; se , p o ré m , p a r a a m u lh e r é
v erg o n h o so s e r to s q u ia d a ou ra p a d a , c u b ra -
dores, como também eu o sou de Cristo. se com v é u . 7 P o is o h o m e m , n a v e rd a d e ,
Os coríntios viviam em um mundo em n ão d ev e c o b rir a c a b e ç a , p o rq u e é a im a ­
que muitas vozes os chamavam e muitas g e m e g ló ria d e D e u s; m a s a m u lh e r é a
veredas os seduziam. O princípio do g ló ria do h o m e m . 8 P o rq u e o h o m e m n ão
p roveio d a m u lh e r, m a s a m u lh e r do h o ­
amor, que guia a liberdade, encontra-se m e m ; 9 n e m foi o h o m e m c ria d o p o r c a u s a
em Jesus Cristo crucificado e ressuscita­ d a m u lh e r, m a s , sim , a m u lh e r p o r c a u s a do
do. A sua vida de entrega pelo amor aos h o m em . 10 P o rta n to , a m u lh e r d e v e tr a z e r
outros era manifesta também na vida de so b re a c a b e ç a u m s in a l d e su b m issã o , p o r
Paulo (cf. II Cor. 4:7-12). Paulo tornou c a u sa dos a n jo s . 11 T o d a v ia , no S enhor,
n e m a m u lh e r é in d e p en d e n te do h o m e m ,
visível, em uma vida humana, a vida do n e m o h o m e m é in d e p e n d e n te d a m u lh e r;
Senhor. Seguir a sua vida era seguir o 12 pois, a s s im com o a m u lh e r v eio do h o ­
padrão da vida do Senhor (cf. Fil. 3:17; m e m , a s s im ta m b é m o h o m e m n a s c e d a
ITess. 1:6; IITess. 3:7-9). m u lh e r, m a s tu d o v e m d e D eu s. 13 J u lg a i
e n tre v ó s m e s m o s : é co n v e n ie n te q u e u m a
m u lh e r co m a c a b e ç a d e sc o b e rta o re a
VIII. Perguntas a Respeito da D eus? 14 N ão v o s e n sin a a p ró p r ia n a tu r e ­
Adoração Cristã z a q u e, se o h o m e m tiv e r c a b elo co m p rid o ,
(11:2-14:40) é p a r a e le u m a d e s o n ra ; 15 m a s , se a m u ­
lh e r tiv e r o c a b e lo co m p rid o , é p a r a e la u m a
g ló ria ? P o is a c a b e le ira lh e foi d a d a e m
Os capítulos 11 a 14 tratam da adora­ lu g a r d e v é u . 16 M as, se a lg u é m q u is e r s e r
ção cristã. Três problemas distintos contencioso, n ó s n ã o te m o s ta l c o stu m e,
emergem na discussão: o uso do véu n e m ta m p o u co a s ig r e ja s d e D eu s.
Esta difícil passagem apresenta Pau­ jas. É impossível saber-se quando, onde
lo estabelecendo uma ordem de relacio­ e como Paulo recebeu essas tradições.
namentos básicos. Obviamente, o seu Para os coríntios, como para outros, ele
objetivo é aconselhar as mulheres, na transmitiu as tradições fielmente.
igreja coríntia, a se restringirem do tipo As mulheres de Corinto, depois de se
de emancipação social e eclesiástica que terem tomado cristãs, estavam interessa­
fosse inovadora e revolucionária. Talvez das em viver pelo princípio da liberdade,
o movimento de liberdade, em Corinto, que dava pouca importância ao costume
não apenas tivesse levado a reivindica­ de velar a cabeça durante o culto. Por
ções extravagantes de liberdade para os que precisavam elas ter a cabeça velada
homens, mas também para as mulheres. quando oravam e profetizavam? Tanto a
Paulo apresenta os seguintes argumen­ sociedade hebraica como a grega há mui­
tos, para sustentar a sua interpretação: to haviam estabelecido costumes em rela­
(1) da teologia, versos 3,7 e 8; (2) do bom ção às mulheres, embora a vida, no
senso, verso 13; (3) da natureza, versos Império Romano, estivesse acarretando
14 e 15; (4) do costume, verso 16. mudanças rápidas em alguns daqueles
Paulo elogia os coríntios por se terem costumes, inclusive os relativos às mulhe­
lembrado dele em tudo. Não está claro se res.
eles tinham feito perguntas a respeito Paulo usa a palavra cabeça três vezes,
dos assuntos discutidos no capítulo 1 1 , no verso 3, a fim de estabelecer uma
ou se ele os apresenta por iniciativa pró­ ordem de relacionamentos básicos. A or­
pria. Não somos capazes de saber como dem é: Deus, Cristo, homem e mulher.
é que Paulo ficou sabendo desses pro­ O que Paulo quer dizer, ao referir-se à
blemas. A igreja estava guardando os cabeça? Pode estar querendo falar em
preceitos que Paulo lhe havia entregado. grau superior ou em fonte de autoridade.
A palavra grega que significa preceitos é Aqui, o significado pode ser origem ou
paradosis. Literalmente, é “o que é fonte. Provavelmente o último. Deus é a
transmitido” . Neste sentido, a sua tradu­ fonte de Cristo. Cristo é a fotite do ho­
ção lógica, como em outras partes, é mem. O homem é a fonte da mulher.
“tradição” . Ela é usada nas cartas de Sem dúvida, Paulo pode estar queren­
Paulo para se referir ao que é bom, do dizer que Deus é o dominador de
como aqui, e ao que é mau, como em Cristo; Cristo, o dominador do homem;
Colossenses 2:8. O contexto determina o homem, o dominador da mulher. Vis­
o valor da tradição. Jesus fala de tradi­ to que Paulo não considera o homem
ção no mau sentido, em Mateus 15:2,3 e como o senhor da mulher, no verso 8,
Marcos 7:8. é provável que ele esteja se referindo ao
Paulo considera os ensinamentos cris­ homem como fonte e explanação do ser
tãos como tradições no bom sentido (cf. feminino (Barrett, p. 248 e 249). Ele
15:1-11; II Tess. 2:15; 3:6). Preceitos, apela para esse princípio em um esforço
maneira de interpretar positivamente a para ajudar as mulheres a aceitarem o
palavra “tradição” , significa que em véu, considerado apropriado para oração
muitos casos os ensinamentos remontam e profecia.
aos primeiros cristãos. Em 11:23, a tra­ Os homens do primeiro século, judeus
dição remonta ao próprio Jesus. Em 15: e gentios, participavam do culto com a
3-7, a origem da tradição se encontra na cabeça descoberta. Paulo diz que os ho­
primeira comunidade de discípulos. Tan­ mens, que têm papel de liderança no
to Jesus como Paulo rejeitam a tradição culto, desonram a Deus se tiverem um
humana (Col. 2:8). Este versículo indica véu sobre a sua cabeça. A referência
que havia ensinamentos e instruções que pode ser a véus que eram suficientemen­
eram passadas oralmente entre as igre­ te longos para cobrir a cabeça e a parte
superior do corpo. Alguns véus cobrem A mulher que não usa véu quando
apenas o cabelo, orelhas e testa. O verbo ora ou profetiza desonra a sua cabeça.
traduzido como desonra pode ser tradu­ Cabeça refere-se ao seu marido, ou à sua
zido como “envergonha ou degrada” . própria cabeça? Não está claro, a não
Por que desonra ele a cabeça do homem? ser que da segunda vez em que esta pala­
Afinal de contas, ele é a imagem e glória vra é usada, no verso 5, ela mostre que se
de Deus. refere à sua própria cabeça.
O que deseja dizer Paulo ao usar ca­ O homem não deve cobrir a sua ca­
beça no verso 4? O homem desonra a sua beça durante a adoração, porque é a
cabeça física, ou desonra a sua cabeça imagem e glória de Deus. De acordo com
espiritual, que é Cristo? O mesmo pro­ Gênesis 1:26,27, Deus criou o homem e
blema ocorre no verso 5. A mulher deson­ a mulher à sua imagem e semelhança.
ra a sua cabeça física ou a sua cabeça Em Colossenses 1:13-15, Cristo é a ima­
espiritual, Cristo? Ou será que ela deson­ gem de Deus, significando “um reflexo
ra o seu marido? perfeito do protótipo” . Quando aplicada
ao homem, a palavra imagem tem o
Um comentarista interpreta os versos objetivo de separar o homem do resto
4 e 5 em referência a II Coríntios 3:18, e da criação e de significar a sua capaci­
combina as duas interpretações. Aqui dade de ter comunhão com Deus. O ho­
Paulo ensina que o crente que não tem mem é a glória de Deus no sentido de que
véu sobre a face reflete a glória do Se­ é criado e existe para louvar a Deus e
nhor. O fato de cobrir a cabeça tornaria dar-lhe honra em todas as áreas da vida.
impossível a reflexão da glória de Cristo A mulher é a glória do homem. Paulo
pela sua cabeça, e ele privaria Cristo do não diz a respeito da mulher o que diz
espelho em que a sua glória devia refle­ acerca do homem. O homem é tanto a
tir-se. Esta interpretação, apresentada imagem quanto a glória de Deus. A mu­
por Alio, sustenta os significados literal e lher é a glória do homem. Indubitavel­
metafórico da palavra. mente, Paulo está-se referindo à história
Toda mulher que participa de culto de Gênesis 2:18-23, onde a mulher é feita
público, orando ou profetizando, deve do homem, para ajudar o homem —
cobrir-se com o véu, isto é, velar-se. A ca­ depois que os animais e o homem foram
beça do homem não pode estar coberta; criados. A relação imediata do homem é
a cabeça da mulher precisa estar coberta. com Deus. A relação imediata da mulher
Isto indica que as mulheres têm permis­ é com o homem. A mulher existe para
são para desempenhar um papel no culto ajudar o homem, para propiciar a honra
público. A passagem, no capítulo 14: e louvor à sua vida. O papel dela é de
33-36, provavelmente não altera este cos­ ajudadora. A glória do homem provém
tume e estas instruções. de Deus. A glória da mulher provém do
As prostitutas não usam véus. Elas dão homem.
muita atenção ao seu penteado. Cabe­ Portanto, a mulher deve trazer sobre a
ças raspadas, para as mulheres, são sinal cabeça um sinal de submissão, por causa
de desonra. De acordo com os ensina­ dos ai\jos. Uma antiga interpretação des­
mentos judaicos, a mulher condenada ta passagem sugere que os ai\jos são os
por adultério devia ter a cabeça raspada. sacerdotes. Uma interpretação mais pro­
Visto que era descrédito para a mulher vável, todavia, é que a referência seja, na
o fato de não usar véu, bem como o de verdade, a anjos. Mas a que anjos refe-
cortar o cabelo, as mulheres da igreja em re-se Paulo? Alguns eruditos acham que
Corinto deviam evitar ambas as coisas. Gênesis 6:2 é uma referência a anjos
Tais práticas não elevavam a condição da decaídos, e que o pensamento de Paulo
mulher — elas a rebaixavam. reflete esse pensamento. Seriam eles an-
jos bons, que, de acordo com Orígenes, uns com os outros à obra de Deus, não
rodeiam as assembléias cristãs (cf. Sal. deles. A sexualidade é dádiva de Deus, e
138:1)? Deve a mulher usar véu para se não criação do homem. Como obra da
proteger dos anjos maus? A mulher deve graça de Deus, ela não suscita nenhum
usar véu para demonstrar respeito pelos orgulho no homem.
anjos bons, que são guardiães da ordem Julgai entre vós mesmos. Aqui está um
natural? Nos Rolos do Mar Morto há apelo ao bom senso. É conveniente que
indicações de que a comunidade de uma mulher com a cabeça descoberta ore
Qumran cria que anjos estavam presen­ a Deus? Segue-se um apelo à natureza.
tes nas assembléias. Por que Paulo acha que a natureza en­
A palavra traduzida como véu pode ser sina que é degradante para o homem
traduzida literalmente como “autorida­ usar cabelo longo não está claro. Nem
de” .^) Talvez Paulo esteja querendo di­ está claro por que a natureza ensina que
zer que, quando a mulher usa véu, de­ cabelo longo é a glória da mulher. Na
monstra que aceita a autoridade do ho­ natureza, a constituição da realidade, diz
mem. Outra forma é traduzir este ver­ Paulo, o cabelo longo pertence à mulher,
sículo usando a palavra “autoridade” , e e não ao homem.
não “véu” , e presumir que “a mulher Por fim, Paulo apela para o costume
deve trazer sobre a cabeça um sinal de eclesiástico. Todas as igrejas seguem o
autoridade” . Com esta tradução, pode mesmo procedimento, em não permitir
ser dito que o véu da mulher cristã lhe dá que as mulheres orem e profetizem sem
autoridade para orar e profetizar publi­ estarem veladas. Não está claro se Paulo
camente — algo que é inovação na ado­ está-se referindo apenas às igrejas que ele
ração originada do judaísmo. estabeleceu ou ao costume de todas as
Outra interpretação possível é que o igrejas.
véu da mulher é aceito como símbolo do É óbvio que Paulo pretende fazer abor­
respeito que lhe é devido, como mulher tarem todas as tendências feministas sen­
de boa conduta. sacionais e emancipadoras em Corinto.
Em uma passagem notável (v. 11,12), O capítulo 7 indica que a sua maneira de
Paulo demonstra que, aquilo que ele entender a liberdade não reclama ten­
discute, baseado na ordem da criação, é dências revolucionárias na sociedade. A
esclarecido pela ordem da redenção. O liberdade inclui restrição. A fé cristã
homem e a mulher não são independen­ não requer uma revolução social para
tes um do outro. Eles são interdependen­ efetuar a redenção da vida de uma pes­
tes. Possuem a mesma condição, do pon­ soa. A preocupação de Paulo é que a
to de vista da redenção (cf. Gál. 3:28). igreja em Corinto exercite a sua liberda­
Há uma dependência mútua (cf. Ef. 5: de da maneira como ele exercita a sua.
21-31). Ele procura ganhar os outros para Cristo
Tudo vem de Deus. É Deus quem es­ (10:33). O seu objetivo não é emancipa­
tabelece os relacionamentos humanos. ção social, mas emancipação espiritual.
Os homens e mulheres são criados por A profunda conexão de Paulo com os
Deus, e devem o relacionamento que têm seus antecedentes judaicos e com o cos­
tume social universal, entremostra-se
(*) No verso 10, a palavra submissão é a palavra em ques­ através dos seus conselhos, particular­
tão. Os tradutores da versão da IBB acharam melhor mente em referência à escravidão e à
traduzir essa palavra como “ submissão” , porque, se
a mulher está debaixo do véu, ou seja, debaixo de
mulher. O que ele escreve em relação às
autoridade, está em submissão. Assim, ao invés de relações mútuas, em 11:11,12, Gálatas
traduzir literalmente, a versão da IBB ateve-se mais 3:28 e Efésios 5:21-33, forma uma pro­
à interpretação do pensamento de Paulo, expressando,
desta forma, o sentido mais exato do texto. — Nota funda base teológica, no entanto, para se
do tradutor. entender as relações entre homens e mu­
lheres em nossa geração também. A igre­ n a ç ão v o ssa . E a s d e m a is c o isa s e u a s o r ­
ja ainda não chegou a entender ou acei­ d e n a re i q u an d o fo r.
tar, plenamente, as implicações destas
passagens, e, aparentemente, Paulo tam­ Tendo elogiado os coríntios no verso 2,
bém não conseguiu. Precisamos conti­ Paulo os censura nos versos 17 a 34, por
nuar a aprender o que significa ser res­ sua conduta durante a Ceia do Senhor.
ponsavelmente livres “em Cristo Jesus” . O seu procedimento era inaceitável, por­
que eles consideravam a Ceia do Senhor
2. A Conduta Durante a Ceia do Senhor como ocasião de hilariedade, e não de
(11:17-34) adoração reverente a Deus e de amor
cristão uns para com os outros. Eles
17 N isto, p o ré m , que vou d izer-v o s n ã o vos
lo u v o ; p o rq u a n to vos a ju n ta is , n ã o p a r a m e ­ deixavam de reconhecer o fato de que a
lhor, m a s p a r a p io r. 18 P o rq u e , a n te s de Ceia do Senhor não é nenhum “elixir da
tudo, ouço q ue, q u an d o v o s a ju n ta is n a ig r e ­ imoralidade” , de efeitos mágicos. É uma
ja , h á e n tr e vós d is se n sõ e s ; e e m p a r te o conclamação à fé obediente, que aceita
creio. 19 E a té im p o rta qu e h a ja e n tr e vós
facçõ es, p a r a q u e os a p ro v a d o s se to rn e m
seriamente o significado e a realidade de
m a n ifesto s e n tr e vós. 20 D e s o rte q u e , q u a n ­ Cristo. O fato histórico de que Israel não
do vos a ju n ta is n u m lu g a r , n ã o é p a r a c o m e r se tornara imune ao julgamento de Deus,
a c e ia do S en h o r; 21 p o rq u e q u an d o co m eis, devido à provisão do maná e da água,
c a d a u m to m a a n te s d e o u tre m a su a p ró ­ é uma indicação de que a igreja em
p ria c e i a ; e a s s im u m fic a co m fo m e e o u tro
se e m b ria g a . 22 N ão te n d e s, p o rv e n tu ra , Corinto estava também sujeita ao juízo
c a s a s onde c o m e r e b e b e r? Ou d e sp re z a is a divino.
ig re ja d e D eus, e en v e rg o n h a is os q u e n a d a Mais uma vez, alguns coríntios esta­
tê m ? Q ue vos d ire i? L o u v ar-v o s-ei? N isto vam interpretando erradamente a liber­
não vos louvo.
dade cristã. Eles a interpretavam de for­
23 P o rq u e eu re c e b i do S en h o r o que t a m ­
b é m vos e n tre g u e i: q ue o S en h o r J e s u s , n a ma a significar liberdade para fazer a sua
n oite e m q ue foi tra íd o , to m o u p ã o ; 24 e , h a ­ própria vontade, em vez de para exer­
vendo d ad o g ra ç a s , o p a r tiu e d is s e : Isto é citarem amor uns para com os outros.
o m eu co rp o qu e é p o r v ó s; fa z e i is to e m A fé cristã requer reações, das pessoas
m e m ó ria d e m im . 25 S e m e lh a n te m e n te t a m ­
b ém , dep o is d e c e a r, to m o u o c á lic e , d i­ que são chamadas, para edificarem ver­
zendo: E s te cá lic e é o novo p a c to no m e u dadeira comunidade na comunhão da fé
sa n g u e ; fazei isto , to d a s a s v e z e s q u e o b e ­ obediente. Mas, se os coríntios achavam
b e rd e s , e m m e m ó ria de m im . 26 P o rq u e que participar da Ceia do Senhor era
to d as a s v ezes q ue c o m e rd e s d e ste p ã o e
b e b e rd e s do c á lic e e s ta re is a n u n c ia n d o a
uma espécie de apólice mágica de seguro
m o rte do S enhor, a té qu e ele v e n h a . para o indivíduo, não sentiam nenhuma
27 D e m odo q u e q u a lq u e r q ue c o m e r do necessidade de se preocupar com a co­
pão, ou b e b e r do cá lic e do S en h o r in d ig n a ­ munidade. Paulo levou-os a se lembra­
m en te, s e r á cu lp ad o do corp o e do sa n g u e do rem que eles destruíam a comunidade,
S enhor. 28 E x a m in e -se , pois, o h o m e m a si
m esm o , e a s s im c o m a do p ã o e b e b a do esquecendo-se de exercer amor para com
cálice. 29 P o rq u e q u e m co m e e b e b e , co m e e o próximo.
b ebe p a r a s u a p ró p r ia c o n d e n a ç ã o , se n ão As passagens acerca da Ceia do Senhor
d is c e rn ir o co rp o do S enhor. 30 P o r c a u s a encontradas em 10:16,17 e 11:17-34
disto h á e n tr e vós m u ito s fra c o s e e n fe rm o s,
e m u ito s q ue d o rm e m . 31 M as, se nós nos
constituem o relato escrito mais antigo,
ju lg á sse m o s a nós m e sm o s, n ã o s e ría m o s a respeito da Ceia, em o Novo Testamen­
ju lg a d o s; 32 q u an d o , p o ré m , so m o s ju lg a d o s to. (Joachim Jeremias trata cuidadosa­
pelo Senhor, so m o s co rrig id o s, p a r a n ão s e r ­ mente da Ceia do Senhor; veja a biblio­
m os cond en ad o s com o m un d o . grafia.) É difícil descobrir qual dos qua­
33 P o rta n to , m e u s irm ã o s , q u an d o vos
a ju n ta is p a r a c o m e r, e s p e ra i u n s p elo s o u ­ tro relatos (Mar. 14:22-25; Mat. 26:26-
tro s. 34 Se a lg u m tiv e r fo m e, c o m a e m c a s a , 29; Luc. 22:15-20; I Cor. 11:23-26) re­
a fim de q ue n ão vos re tin a is p a r a c o n d e ­ monta à fonte primitiva. Provavelmente,
as várias narrativas contêm elementos que toda a comida já havia sido consu­
primitivos, não sendo nenhuma delas a mida. Outro se embriaga — essa frase
mais antiga, em sua totalidade. descreve um grupo.
Lietzmann expressou a opinião impro­ A Ceia do Senhor não é oportunidade
vável, há mais de quarenta anos, de que para grande sociabilidade. A igreja não
as quatro narrativas refletem duas dife-B é lugar da espécie de expressão social
rentes interpretações acerca da Ceia do que envergonha os que não têm nada.
Senhor. (Hans Conzelmann, p. 50-59, Que tristeza que até no altar da igreja os
apresenta um breve exame das fontes). pobres são esquecidos e maltratados por
Paulo apresenta a Ceia como um mesmo- aqueles que são chamados de “santos” !
rial da morte de Cristo. Lucas 22:15-20 e Os pobres ficam com fome, e os ricos
Atos 2:46 a interpretam como continua­ embriagados! Não é a Ceia do Senhor,
ção da comunhão à mesa que Jesus tinha essa em que o seu povo fica separado em
com os seus discípulos. duas classes. Ê impensável a possibilida­
A observância da Ceia entre os corín- de de louvar os coríntios pela sua ver­
tios não estava criando genuína comu­ gonhosa conduta. Claro que ele diz: Não
nhão. Eles observavam a Ceia não para vos louvo!
melhor, mas para pior. Quando eles se Os versículos 17 a 22 e 33 e 34 indicam
reuniam na igreja (ou “como igreja”), que uma refeição era comida por ocasião
havia dissensões, grupos partidários. da Ceia do Senhor. Não está claro que
Paulo lamenta que tais facções precisas­ a Ceia do Senhor era sempre observada,
sem existir, de forma que os cristãos em Corinto, com um culto em que se
realmente aprovados e espiritualmente ministrava a palavra. É provável que a
maduros pudessem ser reconhecidos, ou Ceia fosse observada de noite, visto que
dessa forma se colocassem em evidência, os pobres chegavam tarde, provavelmen­
por contraste. Não há dúvida de que os te depois de um dia de trabalho.
aprovados eram os que se apegavam ao Originalmente, parece que o pão era
significado da Ceia dentro de um sentido comido, seguido pela refeição. Depois
de comunidade, demonstrado por sensi­ passava-se o cálice. Esse processo é se­
bilidade de uns para com os outros. Não guido no costume judaico tanto para a
há indicações de que essas facções estives­ refeição pascal quanto para outras re­
sem diretamente relacionadas com as feições. No entanto, neste relato, parece
discutidas nos capítulos 1-4. As facções que a Ceia do Senhor é separada da
em 11:19 parecem ter sido a dos abasta­ refeição principal, e é tomada depois que
dos e a dos pobres. essa refeição já foi servida.
Paulo acusa bruscamente os coríntios Porque eu recebi do Senhor o que
de, na verdade, não comerem a Ceia também vos entreguei é a maneira pela
do Senhor quando se reuniam. Ele pinta qual Paulo indica que o que ele ensinara
um quadro surpreendente de uma igreja aos coríntios era o que lhe havia sido
supostamente celebrando a Ceia do Se­ ministrado. As palavras recebi... entre­
nhor. Alguns saciam os seus apetites. guei referem-se a uma cadeia de tradi­
Outros permanecem famintos. Alguns ção. “Recebi do Senhor’! não precisa
estão embriagados! Talvez os que se dar a entender, necessariamente, uma
apressavam a comer o que fora trazido revelação diferente ou à parte da tradi­
fossem mais os membros abastados da ção histórica recebida através dos que
comunidade. Os que ficavam com fome eram cristãos antes dele (cf. Jeremias,
eram, provavelmente, os membros mais p. 129, 188, 101-104). O conhecimento
pobres, talvez mesmo os escravos, que que Paulo tem, dessa tradição, não está
tinham que trabalhar o dia todo, e, arraigado primeiramente na revelação
quando chegavam à igreja, descobriam direta, mas em uma tradição histórica
(cf. 7:10,12). A tradição tem raízes his­ E, havendo dado graças. Era costume,
tóricas na vida de Jesus. A sua interpre­ de acordo com a prática judaica, ex­
tação é o dom do Senhor ressurrecto, pressar o agradecimento dos comensais
que a autentica (cf. Gál. 1:12). Outra antes de uma refeição. Jesus partiu o
interpretação possível, de acordo com pão para dar a entender a participação
Oscar Cullmann, é que a autoridade do de todos os discípulos do único pão.
Senhor ressuscitado opera na tradição Partir o pão juntos significava participar
humana e através dela, em relação à em conjunto.
Ceia. De qualquer forma, Paulo está Isto é o meu corpo, que é por vós,
insistindo que a Ceia tem a sua origem na sugere que Jesus pode entender a si mes­
história, e não em idéias próprias, elabo­ mo como o verdadeiro cordeiro pascal,
radas por ele. conforme sugere Jeremias (p. 224,225,
Na noite em que foi traído é uma ex­ 232,233). Paulo refere-se a Jesus, assim
pressão que ancora a Ceia do Senhor na como em I Coríntios 5:7. O que Cristo
história. Este não é um relato mítico, faz com a sua vida, faz para os outros.
como se encontrava nas religiões de mis­ Ele vive para se entregar em morte.
tério. A Ceia do Senhor refere-se a um Isto é o meu corpo se refere à sua morte.
homem, o Senhor Jesus, e a uma certa Que é por vós refere-se à redenção.
noite — a noite em que ele foi traído. Fazei isto em memória de mim. Esta
Aqueles que estavam mais perto daquele declaração aparece apenas em I Corín­
acontecimento do que Paulo o haviam tios. Mediante ela, Paulo torna explí­
contado a ele, e ele, por sua vez, o conta cito o que está implícito na Ültima Ceia.
aos coríntios. A Páscoa dá grande ênfase para se lem­
Por ocasião da Ültima Ceia, o Senhor brar o Êxodo do Egito. Aqui se enfatiza
Jesus tomou pão. Em nenhum ponto de uma pessoa, em lugar de um evento.
sua narrativa Paulo chama a Ültima Ceia Na celebração da Páscoa (de acordo
de Páscoa, como acontece também em com a Mishnah), os filhos perguntam ao
todos os Evangelhos Sinópticos. Por ou­ seu pai: “Por que esta noite é diferente
tro lado, ele não afirma que não é uma das outras noites?” O pai, então, conta
Páscoa, que é o caso de João (13:1,2). a história, começando com a desgraça
Paulo se refere, sim, a Cristo como cor­ (da escravidão) e terminando com a gló­
deiro pascal (5:7) ou páscoa, o que é ria (da redenção). Declara-se, na Mish­
considerado, por alguns eruditos, como nah, que em cada geração a pessoa pre­
indicação de que ele considerava a Ülti­ cisa considerar como se tivesse saído
ma Ceia uma Páscoa. Certamente a Ül­ pessoalmente do Egito. O Senhor é exal­
tima Ceia tem associações com a Páscoa. tado por ter tirado o seu povo da es­
É mais fácil entender a motivação teo­ cravidão para a liberdade, da tristeza
lógica de João do que presumir que os para a alegria, das trevas para a luz, da
Evangelhos Sinópticos alteraram o tem­ servidão para a redenção (Mishnah, Pe-
po do acontecimento em si. O problema sahim 10:5).
deve ser estudado em comentários es­ A recordação de Jesus faz lembrar a
critos sobre os Evangelhos (cf. Jeremias, glória do seu sacrifício, quando ele leva
p. 15-88). o seu povo da desgraça da escravidão
Antes de tudo, é importante notar-se ao pecado para a glória da redenção.
que, corretamente, os melhores manus­ É o seu sacrifício na cruz que leva a
critos não dizem “que é partido por vós” . Igreja de Deus da escravidão sob o peca­
Paulo crê firmemente que a Igreja é o do para a liberdade dos filhos de Deus,
corpo de Cristo, e que o corpo não é da tristeza sob o pecado para a alegria do
partido quando a Ceia do Senhor é ob­ perdão, das trevas da separação de Deus
servada. para a luz da glória do seu conhecimen­
to, da servidão em Adão para a redenção mundo. O pacto não foi feito entre partes
em Cristo. iguais, mas era uma característica da
O culto em que se lembra de Jesus graça de Deus. Ordinariamente, sangue
significa mais do que recordar uma mor­ era derramado para simbolizar o laço
te lamentável. É a recordação de uma entre os que entravam num pacto. O fra­
morte que propicia vida. Lembrar é tor­ casso do povo levou Jeremias, o profeta,
nar vivo, tomar real, rememorar e tomar a falar de uma nova aliança nos dias
presente a realidade desse feito. Na Ceia futuros.
do Senhor, o Redentor dos fiéis é reme­ Essa nova aliança é selada com o san­
morado, e se torna muito real, quando os gue de Jesus, a sua morte sacrificial,
crentes fiéis recordam a morte sacrificial que liga os homens não com uma lei
do Senhor. exterior, mas com a lei do Espírito, que é
Os coríntios estavam familiarizados o amor. A profecia de Jeremias cumpriu-
com refeições memoriais, realizadas en­ se na morte de Jesus, e indicava a era
tre os gregos no aniversário dos fale­ escatológica que Jesus inaugurou. A fé
cidos. Provavelmente, alguns deles ha­ genuinamente espiritual deve caracteri­
viam participado de festividades assim. zar o povo de Deus, que é o receptá­
Alguns eruditos têm indicado a possibi­ culo de um pacto que é dádiva de um
lidade de que esses memoriais pagãos Deus de graça. É o meu sangue, o sangue
podiam ter influenciado a formação do do Filho de Deus, dado sacrificialmente
memorial cristão, a Ceia do Senhor. No por amor, e não o sangue de animais
entanto, a Páscoa é considerada memo­ ignorantes. O fiel nunca será capaz de se
rial em Êxodo 13:9. Ê desnecessário en­ esquecer do preço de sua redenção. Be­
contrar a ênfase no caráter memorial ber do cálice é lembrar quanto Jesus se
da Ceia fora dos antecedentes judaicos de dispôs a fazer para tornar a sua obra
Jesus e de Paulo. J. Jeremias (p. 237-255) eficiente: ele deu-se a si mesmo.
fez a sugestão improvável de que o pe­ O cálice, que é bebido por todos os que
dido: “Fazei isto em memória de mim” participam da refeição, declara o sacri­
significa: “Fazei isto para que Deus se fício pelo qual se entra no pacto. Beber
lembre de mim.” Nessa interpretação, do cálice é afirmar e lembrar o pacto
Jesus pede aos discípulos para esperarem estabelecido pelo sangue de Cristo. O
a sua vinda no futuro, por ocasião da fato de beber-se do cálice liga-se à obser­
consumação dos séculos. Conseqüente­ vação feita em 10:17, a respeito de co-
mente, essa petição olha para o futuro, e mer-se o pão. Todos os que estabelecem
não para o passado. um pacto com o Senhor estabelecem um
A expressão depois de cear pode indi­ pacto uns com os outros, ao mesmo
car que em Corinto os elementos eram tempo. Desta forma, estabelece-se uma
tomados já depois que a refeição havia comunidade pactuai(Barrett, p. 269).
sido tomada. O fato de que os menos Memória de mim não é meramente
afortunados, que chegavam mais tarde, a memória da morte. É também a memó­
não tinham nada para comer, parece ria da vida. Lembrar de Jesus é lembrar
indicar isto. O padrão anterior teria sido: a sua vida, bem como a sua morte. E é
pão, refeição e cálice (Conzelmann, lembrar a sua fé em Deus, que é justi­
p. 52). ficada pela sua ressurreição dentre os
O novo pacto no meu sangue (cf. Mar. mortos. De fato, a Ceia do Senhor n\itre
14:24) relembra a declaração de Jeremias a fé, porque aquele que viveu e morreu
31:33 (cf. Êx. 24:8). Deus, por inicia­ foi' ressuscitado dentre os mortos. Ele
tiva própria, havia entrado em um pacto “foi entregue por causa das nossas trans­
com o povo de Israel, a fim de fazer gressões, e ressuscitado para a nossa
deles o seu instrumento de justiça no justificação” (Rom. 4:25).
Lembrar Jesus é confessar que ele é o ela coloca diante dos olhos dos homens
Senhor vivo, reinante. Nós não apenas o que a pregação expressa aos seus ouvi­
olhamos para o passado, para a sua dos: o Cristo crucificado — “Cristo, po­
vinda, e para o futuro, para a sua vinda der de Deus, e sabedoria de Deus”
novamente — também nos regozijamos (1:24).
em sua presença espiritual entre nós. Em Corinto, a Ceia do Senhor tornara-
Lembramos não apenas o Jesus crucifica­ se uma ocasião de manifestação de egoís­
do, mas também o Senhor vivo. Desde os mo e insensibilidade para com o próxi­
dias finais de sua peregrinação terrena, mo. E isso era uma contradição direta
a sua presença espiritual tem sido uma do significado da morte de Jesus — al­
realidade para nós. truísmo e amor.
Cristo pediu-nos para nos lembrarmos Até que ele venha é uma afirmação
dele. Só o Filho de Deus iria desejar ser do segundo advento. Aquele que veio
lembrado por pecadores! Ele sabe que, se virá. A Igreja vive em esperança. A Igre­
verdadeiramente nos lembrarmos dele, ja, que proclama a sua morte porque os
essa memória vivificará a realidade, trará remidos estão em Cristo, espera em gran­
renovação e nutrirá a fé. Lembrando-nos de esperança a vida com Cristo. Pro­
dele, lembramo-nos de que ele perdoa clamando a morte de Cristo, ela procla­
pecadores, e ficamos perdidos em “admi­ ma que ele voltará. Cônscia de sua pre­
ração, amor e louvor” . 9 sença espiritual, ela espera a sua volta.
Com este pão e este cálice estareis O reino de Deus começou a vir porque
anunciando a morte do Senhor. A pala­ Cristo veio, e ainda virá em plenitude
vra traduzida como “anunciando” é ka- porque Cristo voltará.
taggellete, que também é usada em rela­ A pessoa que participa da Ceia do
ção à palavra falada (I Cor. 9:14). Senhor indignamente será culpada do
A Ceia do Senhor é uma forma de pregar corpo e do sangue do Senhor. Indigna­
o evangelho. Ela é repetida, na igreja, mente é a maneira descrita por Paulo
para proclamar a nossa libertação do nos versos 17 a 22. A pessoa come de
pecado, como a liturgia da Páscoa é maneira indigna quando não age por
repetida para lembrar a libertação dos amor, em favor da comunhão da igreja,
judeus do cativeiro no Egito. Embora a e também quando é insensível para com
observância da Ceia esteja proclamando a presença de Cristo, ingrata para com
o evangelho primordialmente em atos, sua morte sacrificial, e irresponsável
e não em palavras, também é verdade quanto ao significado de sua redenção.
que as palavras que são faladas inter­ O que se quer dizer por ser culpado do
pretam os atos de partir o pão e beber o corpo e do sangue do Senhor? Ser cul­
cálice. Desta forma, tanto palavras como pado do corpo e do sangue é ser culpa­
atos tornam vivo o evangelho da nossa do de pecado. O corpo e o sangue,
redenção, quando observamos a Ceia do provavelmente, refere-se a Cristo (cf.
Senhor. 10:16,17). Quem agir indignamente du­
Proclamar a morte do Senhor significa rante a Ceia do Senhor mostra-se indigno
expressar o seu significado, interpretar de Cristo. Age indignamente em relação
e anunciar o evangelho da sua morte ao Filho de Deus crucificado. Peca con­
sacrificial. Na Ceia do Senhor, procla­ tra Cristo e demonstra que, na verdade,
mamos a morte do Senhor. Desta forma, não se apropriou de Cristo por fé. Alguns
comentaristas sugerem que profanar o
9 Para uma exposição da maneira bíblica de se entender corpo e o sangue é uma forma de ser
memória, veja o artigo “Memorial Memory” , por culpado da crucificação de Cristo. Pela
G. Henton Davies. The Interpreter’s Dictionary of the
Bible (Nashville: Abingdon Press, 1962) Vol. K — Q, conduta na Ceia do Senhor, a pessoa
p. 344-346. mostra se o confessa ou crucifica.
Ê importante, por conseguinte, que a Por ocasião da Ceia do Senhor, onde
pessoa se examine antes de participar da os crentes devem estar conscientes, de
Ceia do Senhor. Ela deve provar-se, para maneira dramática, da expressão de
ver se é genuína, como se faz com uma amor divino e da necessidade de fiel
peça de metal. Examinando-se à luz do obediência a Deus, os coríntios não de­
significado da fé cristã e do amor cris­ monstraram amor nem a Deus nem ao
tão, será impossível o tipo de ação de que próximo. Mais uma vez, usaram a sua
os coríntios se tornaram culpados (cf. religião para se satisfazerem, e feriram os
Rom. 14:15). seus companheiros na fé.
Quem participa da Ceia do Senhor, Assim sendo, Paulo faz um apelo aos
se não discernir o corpo do Senhor, come seus irmãos — e eles eram irmãos, a
e bebe para sua própria condenação. despeito de não entenderem e de maltra­
Qual é o significado de corpo aqui? tarem a Ceia do Senhor: Quando vos
Refere-se a Cristo? Ou ao pão? Quer di­ ^juntais para comer a refeição que prece­
zer igreja? É provável que corpo signifi­ de a Ceia do Senhor, esperai uns pelos
que igreja em 10:17. Se Paulo dá a outros. Se não o fizerdes, fracassastes
entender que corpo se refere à igreja em miseravelmente em mostrar o verdadeiro
11:29, não discernir o corpo provavel­ significado de lembrar-se de Jesus.
mente significa não julgar corretamente Se algum tiver fome, quando estiver se
que a igreja é o corpo de Cristo, em que o aprontando para ir a essa refeição na
amor é manifestado pelos irmãos. igreja, que coma antes de sair de casa.
Se não, a Ceia do Senhor não o forta­
É improvável que Paulo queira referir-
lecerá espiritualmente, mas condená-lo-á
se, ao falar em discernir o corpo, ao
tanto espiritual quanto fisicamente, por­
reconhecimento da presença de Cristo
que a Ceia do Senhor significa muito
nos elementos. A presença de Cristo com
mais do que a satisfação do apetite.
os seus discípulos é sempre uma presen­
De fato, os crentes devem refletir a
ça espiritual, e o pão e o cálice são sím­
respeito dos requisitos intensamente im­
bolos. Uma terceira interpretação possí­
portantes que uma significativa obser­
vel é que “não discernir o corpo” signifi­
vância da Ceia do Senhor acarreta. Ela
que não reconhecer que o pão representa
requer um exame interior, uma verifica­
o corpo de Cristo.
ção da vida do crente, quando ele se
A ênfase de Paulo, nos versos 17 a 34, aproxima da mesa da Ceia (11:27-29).
é o fato de a igreja não ter conseguido Ela requer um exame exterior, o reco­
exercitar amor durante a Ceia do Senhor. nhecimento de participação em unidade
Os membros da igreja destroem a comu­ com os outros, no significado da morte
nhão, esquecendo-se do amor. Conse­ de Cristo (10:16,17). Significa comu­
qüentemente, a primeira interpretação é nhão com outros crentes. Centraliza-se
a mais correta, provavelmente. em uma verificação em direção ao alto,
Muitos cristãos, em Corinto, haviam uma percepção da presença do Senhor
ficado doentes; alguns haviam falecido, vivo (10:18-21), uma participação em
porque não haviam conseguido viver ba­ sua morte sacrificial, mediante a fé (10:
seados em uma interpretação verdadeira­ 16), que obriga o fiel a ele, em aliança,
mente espiritual do cristianismo. Um estando os seus pecados já perdoados
julgamento apropriado de conduta, por (11:25), e uma proclamação, em palavras
ocasião da Ceia do Senhor, levará a uma e em obras, do significado de sua morte
libertação da doença e da morte, que no tempo presente de salvação (11:26;
estão sendo o resultado do pecado, mani­ 1:18; cf. Rom. 6:4). A Ceia requer tam­
festo especialmente em conduta anticris- bém um exame do que ficou para trás,
tã durante a Ceia do Senhor. uma memória vivificada do Crucificado,
que morreu pelo homem (11:24,25). Ela semelhante a esta, em outros lugares,
requer um exame do que está adiante, quando deseja apresentar assuntos im­
da esperança do seu segundo advento portantes em suas cartas (II Cor. 1:8;
(11:26). Na Ceia do Senhor, a igreja dá I Tess. 4:13; Rom. 1:13; 11:25). Ele
testemunho da esperança que tem. repete a palavra irmãos depois de ter
Ê um horrível empobrecimento da tornado claro que eles não agiam de
Ceia do Senhor o fato de interpretá-la maneira muito fraternal uns para os ou­
como “apenas um memorial” . tros, durante a Ceia do Senhor. A ima­
tura expressão de fé cristã não destrói
3. O Exercício dos Dons do Espírito
os laços fraternais.
Dados à Igreja (12:1-31)
No capítulo 12, Paulo começa uma A maior parte dos cristãos, em Co­
discussão dos dons espirituais. É prová­ rinto, era, provavelmente, de gentios,
vel que a questão tivesse sido levantada embora alguns deles fossem judeus (At.
por outras pessoas, e Paulo responde às 18:5,6,8). A palavra gentios refere-se à
inquirições (cf. 7:1; 8:1). Existe íntima sua vida em seitas pagãs e à adoração de
relação entre o que Paulo escreve neste ídolos do mundo gentio.
capítulo e o que ele expressa em 11:17- Os coríntios eram profundamente co­
34. A preocupação pelos outros tem prio­ movidos emocionalmente pela sua par­
ridade nas relações entre os irmãos. O ticipação nas religiões de mistério, que
amor cristão edifica os outros (8:1 ; 10: faziam fortes apelos às emoções dos par­
24; 11: 22). Portanto, o exercício de dons ticipantes. Os gentios da igreja em Corin­
espirituais é feito no espírito de amor. to não eram estranhos aos estados de
Paulo enfatiza que os dons espirituais êxtase em que caíam os participantes de
são dons de Deus, que cada crente possui ritos religiosos. Não obstante eles terem
um dom, e que todos os dons devem ser sido comovidos emocionalmente, eles se
utilizados para o bem dos outros. desviavam para os ídolos mudos, e não
Os coríntios precisavam ser informa­ para o Deus vivo. Os ídolos que são
dos a respeito dos dons espirituais. O mudos (cf. Sal. 115:5) excitam os seus
dom de que eles mais gostavam — falar devotos, mas não têm revelação ou prb-
em línguas — é um dom em que Paulo clamação a dar. Paulo não diz quedi
excede todos eles (14:18). Conseqüente­ desviou os coríntios. Eles se desviavam
mente, ele era capaz de analisar a situa­ quando se desviaram do Deus vivo.
ção, por ser sensível ao dom que ele tanto O versículo 3 é muito difícil. Ele indica
prezava. Esta foi uma forma pela qual um problema existente em Corinto.
ele se tornou tudo para todos (9:21-23), O frenesi emocional que tomava conta
entendendo a sua compreensão espiritual de alguns dos coríntios era tão agudo que
do momento, e levando-os dela para uma eles gritavam no meio do seu êxtase:
compreensão mais amadurecida de vida Jesus é anátema! Isto é, que Jesus fosse
espiritual. condenado à destruição! Eles não enten­
1 O ra, a re s p e ito dos dons e s p iritu a is , não diam claramente que os dons espirituais
q uero, irm ã o s , q ue s e ja is ig n o ra n te s. 2 Vós são muito mais do que manifestações
sab eis que, q u an d o é re is g en tio s, vos d e s v iá ­ incontroláveis de emoções.
veis p a r a os ídolos m u d o s, co n fo rm e é re is
lev ad o s. 3 P o rta n to , vos q u ero fa z e r c o m ­ Mas quem pronunciava este anátema?
p re e n d e r q ue n in g u ém , fa la n d o p elo E s p ír i­ Uma sugestão é a de que os judeus que
to de D eu s, d iz : J e s u s é a n á te m a ! e n in g u é m diziam: “Jesus é anátema!” em antipatia
pode d iz e r: J e s u s é o Senhor! sen ão pelo contra os cristãos, não podiam dizer es­
E sp írito Santo.
tar seguindo a direção do Espírito de
Paulo usa a expressão não quero, ir­ Deus. O Espírito Santo ajuda os homens
mãos, que sejais ignorantes ou uma bem a entenderem Jesus, e não a condená-lo.
Uma segunda interpretação é que al­ de vida que justifica a afirmação a con­
gumas pessoas na igreja tinham dificul­ fessar a sua fé em Jesus. Através do seu
dade em controlar as suas emoções, e ir­ Espírito, Deus dá origem à nossa con­
rompiam nessa expressão, a despeito de fissão. E essa breve confissão resume a
si mesmas, em um esforço de conseguir fé, dos crentes, de que Jesus é uma
controlar-se emocionalmente. manifestação histórica de Deus, em ação
Uma terceira possibilidade sugere cris­ em nossa existência. A palavra Senhor
tãos que foram forçados, em alguma indica não apenas a divindade de Jesus,
corte legal, a negar que Jesus é Senhor, e mas também a sua obra de salvação, que
declararam: “Jesus é anátema.” Mas não suscita a adoração de todos os fiéis (Fil.
há evidências de que os cristãos estavam 2:11). Nem Serápis, nem César, mas
passando por testes desse tipo em Co­ Jesus é o Senhor!
rinto. No verso 4, Paulo se refere a vários
Um quarto ponto de vista é que Paulo dons espirituais. Ele demonstra a manei­
está tratando de extremos hipotéticos. ra como todos os dons operam para o
Ele está sugerindo hipoteticamente que bem da Igreja, referindo-se à Igreja
nenhum cristão deve jamais dizer nada como o corpo de Cristo (12:27). Torna-se
tão extremo como “Jesus é anátema” e claro, mediante os versos 1 a 3, que
atribuí-lo ao Espírito de Deus. A pes­ alguns coríntios davam valor inusitada-
soa que é por Cristo não pode ser con­ mente alto aos dons emocionais. Nos
tra ele. versos 28 a 30, Paulo declara que há
Uma quinta explicação é talvez possí­ vários dons do Espírito, dados pará pro­
vel. Alguns dos coríntios possuíam algu­ piciarem forças à vida do fiel na Igreja.
mas das características do gnosticismo
4 O ra , h á d iv e rsid a d e d e d ons, m a s o
do segundo século. Alguns gnósticos do E s p irito é o m e s m o . 5 £ h á d iv e rsid a d e de
segundo século demonstravam indiferen­ m in isté rio s, m a s o Sen h o r é o m e sm o . 6 E h á
ça para com a humanidade de Jesus. d iv e rsid a d e d e o p e ra ç õ e s, m a s é o m e sm o
Eles estavam prontos para zombar dela e D eus q u e o p e ra tud o e m todos. 7 A c a d a
até a condená-la, porque a sua lealdade u m , p o ré m , é d a d a a m a n ife s ta ç ã o do E s ­
p írito p a r a o p ro v e ito c o m u m . 8 P o rq u e a
era ao Senhor celestial. Eles diziam que u m , p elo E s p írito , é d a d a a p a la v r a d a s a b e ­
o emissário celestial apartou-se do ho­ d o ria ; a o u tro , p elo m e s m o E sp írito , a p a la ­
mem Jesus antes da crucificação, de for­ v r a d a c iê n c ia ; 9 a o u tro , p elo m e s m o E s ­
ma que só o homem Jesus foi crucificado, p írito , a fé; a o u tro , p elo m e s m o E sp írito ,
os d ons d e c u r a r ; 10 a o u tro a o p e ra ç ã o de
e não o celestial. Portanto, esses cristãos m ila g re s ; a o u tro a p ro fe c ia ; a o u tro o d o m
gnósticos, em Corinto, mostravam indi­ d e d is c e rn ir os e s p írito s ; a o u tro a v a r ie d a ­
ferença para com o Jesus terreno, che­ de de lín g u a s ; e a o u tro a in te rp re ta ç ã o de
gando a gritar, na igreja: “Jesus é aná­ lín g u as. 11 M a s u m só e o m e s m o E s p írito
tema!” Essas pessoas estavam amaldi­ o p e ra to d a s e s ta s c o isa s, d istrib u in d o p a r ­
tic u la rm e n te a c a d a u m com o q u e r.
çoando o Jesus terreno e adorando o
Cristo celestial. Embora os dons espirituais sejam mui­
Visto que Paulo está-se referindo aos tos e variados, todos têm apenas uma
cultos cristãos de adoração e à expres­ fonte: o mesmo Espírito. A palavra grega
são da emoção cristã, é provável que a traduzida como dons (charismata) é uma
segunda ou a quinta interpretações de­ palavra rara, e é muito semelhante à
vam ser preferidas. palavra traduzida como graça (charis).
A pessoa que diz Jesus é o Senhor Os dons apontam para Deus como fonte
sinceramente faz essa profissão por obra das capacidades do homem. Os dons são
do Espírito Santo. O Espírito Santo não amostras da graça de Deus.
gera frenesi emocional, e, sim, manifesta Há diferentes espécies de serviço que
a sua presença no crente em um estilo podem ser demonstradas aos outros. Mas
há apenas um Senhor Jesus Cristo. A pa­ a obra que cada um faz para ele atra­
lavra traduzida como ministérios (na ver­ vés dos dons do Espírito.
são atualizada da SBB é serviços) é dia- Paulo passa a mencionar nove diferen­
konion, que é muito semelhante à pala­ tes dons do Espírito. Ele atribui a uma
vra traduzida como diácono (diakonos; pessoa uma mensagem de sabedoria,
cf. Luc. 10:40; I Cor. 16:15). uma compreensão do conhecimento de
Há diferentes espécies de operações, Deus, revelado no Cristo crucificado e
ou atividades, ou capacidades, mas é o ressurrecto (2:6,7). A outro, ele atribui
mesmo Deus que opera ou transmite uma mensagem de ciência ou conheci­
energia a tudo em todos. Nos versos mento, que mostra a relação da sabedo­
4 a 6, Paulo menciona o Espírito, o ria de Deus para com a vida diária do
Senhor e Deus, e demonstra o tipo de crente (cf. 8:10-13). O conhecimento é
pensamento que levou a posteriores for­ relacionado com a revelação e a profecia
mulações da doutrina da Trindade (cf. 11 em 13: 2 e 14:6. Talvez sabedoria se
Cor. 13:13; II Tess. 2:13,14). O Espírito refira ao significado da cruz, e ciência ou
dá dons. O Senhor oferece serviço. Deus conhecimento, a uma exposição dela.
dá poder. Ê notável que, antes de tudo, Paulo
menciona dons que se expressam na
Nos versos 4 a 6, também fica estabe­ mente, e não nas emoções (cf. 14:19).
lecido que todas as capacidades dos ho­ Os coríntios davam maior ênfase aos
mens são dons da mesma fonte: Deus. dons que se manifestavam nas emoções.
Paulo assevera que há diferentes espé­ Paulo coloca em primeiro lugar dois dons
cies de dons, que são demonstrados de pedagógicos.
maneiras diferentes. A frase traduzida A outras pessoas é dado o dom da fé.
como em todos provavelmente significa A fé que um crente manifesta para com
que todas as pessoas possuem dons, que Deus, em Cristo, é de fato um dom. Mas,
Deus lhes deu (cf. 12:22). Mas ninguém nesta passagem, Paulo está-se referindo
faz todas as coisas. E nem todos fazem a uma espécie de fé manifestada por
uma determinada coisa. Deus opera em pessoas que também possuem fé salvado­
nós de muitas maneiras, e, dessa forma, ra. Aqui fé significa a capacidade de
revela a riqueza do seu senhorio (Schlat- fazer grandes coisas para Deus (cf. 13:2;
ter). Visto que há diferentes serviços (mi­ Heb. 11; Mar. 5:34; 10:52). É a fé que
nistérios) a serem feitos, há diferentes remove montanhas.
dons. Outras pessoas possuem dons de curar.
O Espírito outorga um dom (ou mais) Esses charismata são mencionados em
a casa crente, para o proveito comum Atos 4:30 (cf. Tiago 5:14).
(cf. 14:12). Nenhum dom é dado para Operação de milagres é um dom re­
nutrir uma sensação de orgulho ou de gistrado em Atos 3:1-10 e 14:8:12. Pau­
interesse próprio. Cada dom é dado para lo escreve a respeito do seu próprio mi­
ser usado em benefício dos outros. Em­ nistério, que é marcado “pelo poder de
bora a palavra amor não seja aqui men­ sinais e prodígios, no poder do Espírito
cionada, é claro que Paulo está reconhe­ Santo” (Rom. 15:19). Os milagres testi­
cendo o lugar destacado do amor na vida ficam da presença do tempo messiânico
da comunidade cristã (8:1). Ele está su­ (Gál. 3:5; Heb. 2:4). A palavra traduzida
gerindo indiretamente que o exercício como milagres também significa poderes
dos dons em Corinto precisava focalizar- ou prodígios, e, provavelmente, inclui a
se no interesse pelo próximo. O dom nem expulsão de demônios.
sempre é manifesto ou feito visível ao Profecia é o dom de proclamar a pala­
olho físico, sem dúvida, mas ao olho da vra de Deus aos ouvintes. Ela consiste,
fé. Os que pertencem a Cristo percebem em grande parte, de enunciação, embora
não elimine a predição. Paulo dá-lhe intérpretes adquiriam o dom de interpre­
muito valor (14:1-3). Repetidamente, tação, embora Paulo diga que ele vem do
Paulo menciona os profetas logo depois Espírito (v. 4,11). De qualquer forma,
dos apóstolos (12:28-31; Ef. 2:20; 3:5; eles desempenham uma importante fun­
4:11; cf. Apoc. 18:20). Os profetas são ção. Quando não estão presentes para-
diferentes dos entusiasmados “pneumá­ " interpretar a “fala e línguas” , para al
ticos” , que se jactavam de uma experiên­ congregação, não deve haver o exercício!
cia peculiar no Espírito, ao ter plena j desse dom, no culto de adoração (14:28)_J
consciência e controle sobre as palavras Os nove dons que Paulo menciona
que lhes era dado falar. A profecia é são verdadeiramente os dons do Espírito.
discutida um tanto extensamente no ca­ Representam dons de instrução, dons de
pítulo 14. poder e dons de enunciacão. Visto que
O dom de discernir espíritos é uma eles vêm de Deus, devem ser recebidos
referência aos que têm o dom de distin­ como seus dons. O Espírito atribui a
guir entre profecia verdadeira e falsa. cada pessoa o seu próprio dom. Todos os
Eles se preocupam em esclarecer o que I dons são amostras da graca de Deus, e
vem do Espírito Santo, e o que não vem. j não dão nenhum lugar a orgulho hu-
Alguns espíritos que possuem os homens [ mano. —■*
(e conseqüentemente estes ficam “pos­ Visto que Deus é quem concede todos
sessos”) não são divinos, mas demonía­ os dons, não pode haver nenhuma cor­
cos (cf. I Tim. 4:1). As pessoas que rida atrás de dons que pertençam ape­
discernem espíritos possuem sensibilida­ nas a outrem: e não pode haver nenhuma
de e maturidade espiritual. Elas preci­ quota de dons que deixe de considerar o
sam saber como avaliar adequadamente fato de que tõdos os dons são dados para
o lugar da mente, da vontade e da emo­ o proveito comum (v. 7). Não há hierar­
ção, na expressão religiosa. quia nos dons de Deus. O ministério da
A outras pessoas é dada variedade de igreja não seapoia em posições,, mas em
línguas. Elas possuem o dom do êxtase sénaçõT^nIíunr^õnrque^^aãosÕü~-
e de fala ininteligível. oiTacãpãcIHãde de tros é pequeno. Deus usa tanto as es­
“falar em línguas” . Este dom em parti- trelas quanto as velas para iluminar o
cíüaFfolTõntede^grandes mal-entendi­ mundo.
dos na igreja em Corinto. É uma capaci­
dade de falar altamente emocional, que 12 P o rq u e , a s s im co m o o co rp o é u m , e
te m m u ito s m e m b ro s, e to d o s o s m e m b ro s
tem valor para a pessoa que possui o do co rp o , e m b o r a m u ito s, fo r m a m u m só
dom, mas pouco valor para a igreja como corpo, a s s im ta m b é m é C risto . 13 P o is e m
j L i m todo. Provavelmente, devido às suas u m só E s p irito fom os to d o s n ó s b a tiz a d o s
associações de êxtase com as seitas e p or e m u m só c o rp o , q u e r ju d e u s , q u e r g re g o s,
causa do seu senso de profunda satisfa­ q u e r e s c ra v o s , q u e r liv re s ; e a to d o s n ó s foi
d ad o b e b e r de u m só E sp írito .
ção emocional, em sua nova fé, os corín-
tios davam valor excepcionalmente alto “Pois Cristo é como um corpo com
_a falar em línguas. De fato, isso assume os seus muitos membros e órgãos, que,
uma importância tão grande, quei embora sejam muitos, perfazem um cor­
precisou colocar esse dom no seu______ po” (12:12 NEB). A maneira de Paulo
luear — o último luear — entre os dons entender a igreja como o corpo de Cristo
que edificam a igreja (12:28; 14:19). está sujeita a interpretações bem diferen­
(Veja uma discussão mais detalhada no tes. Um dos problemas é decidir a eti­
capítulo 14.) mologia da palavra “corpo” . Outro, é
Algumas pessoas possuem o dom de determinar se Paulo entende o seu uso
interpretação de línguas. 6 impossível como uma metáfora, ou como outra
saber precisamente por que processo os coisa.
A palavra corpo tem várias etimolo­ to” , ele considera isso o “corpo” do
gias, qualquer das quais pode ter in­ último Adão.
fluenciado a interpretação que Paulo lhe Um quinto ponto de vista é que o
dá. Ela é usada 152 vezes em o Novo Messias e seu povo compreendem uma
Testamento. Encontra-se 91 vezes nas corporação. Os crentes são batizados no
cartas de Paulo. Embora, em suas car­ corpo de Cristo, e estão nele e ele neles.
tas, ela se refira mais freqüentemente ao Portanto, a Igreja é o corpo de Cristo
indivíduo, também é usada para referir- porque ela é diluída nele, por assim
se à Igreja. dizer, em Seu corpo.
De acordo com Lívio, historiador ro­ Outros sugerem que a maneira mais
mano, essa metáfora foi usada por Me- própria de se entender essa palavra se
nenius Agripa (c. 494 a.C.), que aquie­ encontra na palavra “esposa” ou na ex­
tou um motim entre os plebeus romanos, pressão “em Cristo” .10
lembrando-lhes que eles tinham os mes­ Nenhuma dessas interpretações expli­
mos interesses que os patrícios (classe ca adequadamente a maneira como Pau­
elevada). Plebeus e patrícios eram mem­ lo usa essa palavra. Embora o pano de
bros do mesmo corpo. fundo do pensamento de Paulo seja im­
A palavra corpo era usada amplamen­ portante, não se segue que Paulo seja
te pelos escritores estóicos, dos quais inteiramente compreendido quando en­
Sêneca e Epiteto eram representantes. tendemos os seus antecedentes. Paulo
Em uma passagem famosa, Sêneca diz usa o que herdou ou adquiriu, mas de
que tudo o que se pode ver, tudo o que forma criativa.
compreende Deus e o homem, é um; Não há nenhuma palavra hebraica que
somos partes de um grande corpo (cf. Ef. expresse “corpo” . Entre os hebreus, a
1:22,23; 4:15,16; Col. 2:10). ênfase é dada ao homem como pessoa
responsável diante de Deus. Entre os
Uma segunda sugestão é que os ante­
gregos, o corpo é usado para expressar
cedentes da palavra corpo sejam gnós-
unidade ou inteireza. Paulo usa a palavra
ticos. Entre os gnósticos, o mundo era
grega que significa corpo (soma), algu­
considerado como um grande corpo.
mas vezes, para expressar simplesmente
O redentor é o cabeça do corpo, que
“eu” ou “pessoa” . Em seu corpo, Cristo
compreende o novo homem, que resulta
morre e é ressuscitado em favor dos
da incorporação do remido no redentor.
homens. Em seus corpos, os homens
Os que são redimidos formam o seu
vivem para Cristo quando vivem na fé
corpo, e o redentor é o cabeça deles
em Cristo e em amor para com os seus
(Corpus Hermeticum 2:2; Odes de Salo­
semelhantes. Em seus corpos, os homens
mão 17:13).
vivem uns com os outros no corpo de
Uma terceira interpretação encontra Cristo, porque estão em Cristo.
o significado desta palavra na Ceia do Os coríntios eram o corpo de Cristo
Senhor. Os crentes, que participam do (12:27). A Igreja, o corpo de Cristo, exis­
corpo de Cristo, se tornam o seu corpo te através da obra de Cristo. Os corín­
místico (cf. 10:16b,17TEV). Eles comem tios não criavam o corpo de Cristo, mas o
o pão, e se tornam o seu corpo. manifestavam, porque confessavam Cris­
Uma quarta interpretação argumenta to em fé obediente, aceitando os benefí­
que o pano de fundo do pensamento de cios de sua morte e ressurreição. A Igre­
Paulo encontra-se nas especulações rabí- ja é o corpo de Cristo porque recebe a sua
nicas a respeito de Adão. A formação do vida dele.
corpo físico de Adão simboliza a unidade
10 Consulte Eamest Best, One Body ln Chrlat (London:
da humanidade. Portanto, quando Paulo SPCK, 1955), que apresenta uma discussão minuciosa
fala de sermos incorporados “em Cris­ das várias interpretações.
Os coríntios, como corpo de Cristo, um só Espírito. É a operação do Espírito
maniíestavam uma unidade ou inteireza. Santo que atrai os homens a Cristo.
A palavra corpo significa unidade. Todos E a nossa aceitação de Cristo é declarada
os membros do corpo derivam a sua vida pelo nosso batismo em um só corpo.
da existência que têm no mesmo corpo. Nós não criamos o corpo: Cristo o faz.
Visto que eles pertencem ao mesmo cor­ Nós entramos nele. A sua obra precede a
po, pertencem uns aos outros. nossa apropriação dela. Pessoas de todas
A palavra corpo estava “na moda” na as nações e de todas as classes, median­
época de Paulo. Ele a usa de maneira te a fé, pertencem ao mesmo corpo.
criativa. O que ele quer dizer, quando a A cada uma delas foi dado beber de um
usa, precisa ser aprendido primeiramen­ só Espirito, isto é, cada uma recebe o
te em suas cartas, e não em alguma outra dom do Espírito Santo. O Espírito de
fonte. Deus nos atrai para a participação no
O segundo problema concernente à corpo de Cristo, criado pela morte de
Igreja como “corpo” é decidir se Paulo Cristo e sua ressurreição pelos homens, e
usa corpo como metáfora ou como reali­ nos dá dons.
dade antológica e realista. Os comen­ Três vezes Paulo usa a palavra um,
taristas católicos romanos presumem neste versículo. Ele deseja enfatizar a
como verdade literal o fato de que a unidade da Igreja. O corpo de Cristo é
Igreja é o corpo de Cristo. Litezmann, um. Deus é um, e ele cria uma família,
um dos grandes expositores protestantes, os remidos, de todas as raças e classes;
sustenta que a palavra não é simples­ e os coloca em um corpo, a Igreja
mente metáfora, mas um a “verdade mís­ (cf. Gál. 3:28). A Igreja não existe como
tica” . Moffatt também insiste que ela um trituto à engenhosidade do homem,
não é um símile, mas uma “realidade em “reunir as pessoas” , mas à graça de
espiritual” . Deus, que atrai os homens a Cristo.
As metáforas são expressas de maneira Através de Cristo, não vivemos mais para
vívida, no Velho Testamento. Por exem­ nós mesmos ou contra os outros, mas
plo, Israel é “cordeiro desgarrado” (Jer. para Deus.
50:17). O mesmo uso se encontra em o Batizados em sua morte, possuímos
Novo Testamento: “Eu sou a porta das novidade de vida, através de sua ressur­
ovelhas” (João 10:7); “Eu sou a videira” reição e de sua redenção; e vivemos em
(João 15:5). um corpo, a Igreja, para Deus e para os
A Igreja também é chamada de tem­ outros (Rom. 6:3,4). Mas a vida expressa
plo de Deus. De fato, cerca de cem ex­ na igreja em Corinto, na verdade, era
pressões diferentes são usadas para de­ uma negação desse único corpo, ao qual
signar a Igfeja. Como se pode decidir todos os fiéis pertencem, e desse único
que a expressão “corpo de Cristo” é uma Espírito, que é a fonte dos multiformes
realidade ontológica ou uma realidade dons, e não apenas o de falar em línguas.
espiritual, e as outras expressões não Os antepassados de Paulo possuíam
são? um forte senso de solidariedade. Os gru­
Podemos concluir, com base sólida, pos freqüentemente eram personificados
que a expressão “corpo de Cristo” é uma ou individualizados (cf. Núm. 20:14-21;
metáfora, uma das mais significativas 21:1-3; Juí. 1:1-4,17). Toda um a tribo
usadas para descrever a Igreja (cf. 12:12 era incluída em seu ancestral. A metá­
nas traduções NEB e TEV). fora do “corpo de Cristo” mostra a ín­
Pois em um só Espírito fomos todos tima solidariedade existente entre Cristo
nós batizados em um só corpo, quer e seus seguidores. Cristo inaugurou uma
judeus, quer gregos, quer escravos, quer nova humanidade. Ele foi o último Adão.
livres; e a todos nós foi dado beber de Os crentes estão em Cristo. Como seu
corpo, eles vivem na esfera de sua sal­ inteireza na aceitação de cada parte em
vação, derivada de Cristo. Em Cristo, na sua função no corpo. Não apenas isso,
nova humanidade, eles são o corpo de mas o fato de qualquer parte deixar de
Cristo, e dependem unicamente de Cris­ cumprir a sua função afeta adversamente
to, para a sua salvação. o funcionamento de todo o corpo. De
A maior parte dos eruditos crê que fato, o corpo não pode cumprir a sua
a palavra batizados é uma referência existência como corpo sem a presença
ao batismo, e a palavra beber uma re­ dos seus vários membros. Portanto, a
ferência à Ceia do Senhor. Outros pre­ diversidade de dons não é base para
ferem considerar a referência ao batismo orgulho, porém de ações de graça, por­
como correta, enquanto afirmam que a que todos os membros do corpo cum­
palavra beber se refere ao dom do Es­ prem as suas funções, servem uns aos
pírito, que é dado a todos os fiéis. O ver­ outros e expressam unidade na diversi­
sículo convida a uma comparação com dade do corpo. Todos são necessários
10:1-4. para cada um, e cada um é necessário
para todos.
14 P o rq u e ta m b é m o co rp o n ã o é u m m e m ­
b ro , m a s m u ito s. 15 Se o p é d is s e r : P o rq u e Onde a conformidade iria matar o
não sou m ã o n ã o sou do c o rp o ; n e m p o r Isso corpo, a diversidade lhe dá vida. Honra­
d e ix a rá de s e r do co rp o . 16 E se a o re lh a mos a Deus quando aceitamos a diversi­
d is s e r: P o rq u e n ã o so u olho, n ã o sou do dade que ele dá aos seus filhos e quando
co rp o ; n e m p o r isso d e ix a r á d e s e r do co rp o .
17 Se o co rp o todo fo sse olho, onde e s t a r ia
não exigimos uniformidade. Nós o ser­
o ouvido? Se todo fosse ouvido, o n d e e s ta r ia vimos ao glorificá-lo no que ele nos dá,
o o lfato ? 18 A las a g o ra D eu s colocou os e não invejando o que ele dá a outrem.
m e m b ro s no corpo, c a d a u m d e le s com o
quis. 19 E , se to d o s fo sse m u m só m e m b ro ,
Deus arranjou os órgãos do corpo de
onde e s t a r ia o co rp o ? 20 A g o ra, p o ré m , h á forma que eles se complementem. Eles
m uitos m e m b ro s , m a s u m só co rp o . 21 E o não se chocam um com o outro, nem
olho n ã o p ode d iz e r à m ã o : N ão te n h o n e ­ competem por superioridade, porém for­
c e ssid ad e de t i ; n e m a in d a a c a b e ç a a o s mam uma unidade. O corpo é aleijado,
p é s : N ão ten h o n e c e ss id a d e d e v ó s. 22 A n tes,
os m e m b ro s do co rp o q u e p a re c e m s e r m a is
se os seus membros não funcionam. E,
fra c o s sã o n e c e s s á rio s ; 23 e o s m e m b ro s de fato, as partes do corpo que são invi­
do corpo qu e re p u ta m o s s e r e m m e n o s h o n ­ síveis ou cobertas, são vitais para a ope­
ro so s, a e s s e s re v e s tim o s co m m u lto m a is ração do corpo.
h o n ra ; e os q u e e m n ó s n ão sã o d e co ro so s
tê m m u lto m a is d eco ro , 24 a o p a ss o q u e os Na Igreja, Deus dá dons a todos, aos
d ecorosos n ão tê m n e c e ss id a d e d isso . M as fortes e aos fracos. E a Igreja vive pela
D eus a s s im fo rm o u o co rp o , d an d o m u lto vontade de Cristo quando tem todos os
m a is h o n ra ao qu e tin h a fa lta d e la , 25 p a r a membros do corpo na devida honra. Es­
que n ão h a ja d iv isão no co rp o , m a s q u e os
m e m b ro s te n h a m ig u a l cu id ad o u n s d o s o u ­ timar apenas aqueles cuja função é espe­
tro s. 26 D e m a n e ir a q u e , se u m m e m b ro tacular é viver pela vontade do homem,
p ad ece, todos os m e m b ro s p a d e c e m co m e não pela vontade de Deus. Os homens
e le ; e , se u m m e m b ro é h o n ra d o , to d o s os costumam honrar os fortes; mas os ho­
m e m b ro s se re g o z ija m co m ele.
mens redimidos honram os fracos.
Porque também o corpo não é um A harmonia do corpo é demonstrada
membro, mas muitos. O corpo humano quando todas as partes se ajudam umas
tem muitos membros. Os seus membros às outras a cumprir os seus respectivos
e órgãos são uma unidade; consistem em papéis, e quando não são umas contra as
um corpo. O corpo não é menos corpo outras, mas umas pelas outras. A ele­
porque tem muitos membros. A unidade vação e depressão que ocorrem a uma
do corpo se manifesta na diversidade dos parte do corpo são compartilhadas pelo
seus membros. O corpo encontra a sua corpo como um todo. O corpo cuida de
cada membro e participa de todas as que deviam manter em honra todos os
aflições e dores de cada membro. que pertenciam à igreja. Pertencer ao
corpo de Cristo significa não apenas per­
27 O ra , vós so is co rp o d e C risto , e in d i­ tencer a ele, mas ajudar uns aos outros,
v id u a lm e n te se u s m e m b ro s. 28 E a u n s pôs
D eus n a ig r e ja , p rim e ira m e n te a p ó sto lo s,
honrar uns aos outros e ser sensíveis uns
e m segu n d o lu g a r p ro fe ta s , e m te rc e iro para os outros. Significa possuir um dom
m e s tre s , depois o p e ra d o re s d e m ila g r e s , d e ­ espiritual.
p ois d ons de c u r a r , so c o rro s, g o v ern o s, v a ­
rie d a d e s de lín g u a s. 29 P o r v e n tu r a sã o to d o s
Os dons se manifestam nos vários mi­
ap ó sto lo s? sã o todos p ro fe ta s ? são todos nistérios que são colocados a serviço da
m e s tre s ? sã o to d o s o p e ra d o re s d e m ila g re s ? Igreja. Não se pode deixar de notar que
30 T odos tê m d ons d e c u r a r ? fa la m to d o s e m os apóstolos são colocados em primeiro
lín g u as? in te r p r e ta m tod o s? 31 M a s p r o ­ lugar, e falar em línguas em último lu­
c u ra i co m zelo os m a io re s dons.
A d em ais, eu v o s m o s tra r e i u m cam in h o gar. (Na lista dos nove dons mencionados
sobrem odo e x c elen te. nos versos 8 a 10, falar em línguas e in­
terpretação de línguas estão em último
Ora, vós sois corpo de Cristo, e indi­ lugar.) Porém, não há uma hierarquia
vidualmente seus membros. Paulo dirige- distinta de dons, como o revela um exa­
se diretamente aos coríntios: Vocês en­ me das várias passagens da Bíblia que
traram no corpo de Cristo porque acei­ falam do assunto (cf. os sete dons de
taram a sua obra salvadora. Vocês são Rom. 12:6-8; Ef. 4:11).
membros do seu corpo porque ele os fez Vinte dons diferentes são menciona­
tais, e não porque vocês formaram um dos em I Coríntios, Romanos e Efésios.
corpo de cristãos em Corinto. Ele é o Esta é uma indicação muito intensa de
último Adão, que inaugura uma nova que o ministério é funcional, e não hie­
humanidade (15:45-49). Vocês têm um rárquico. E indica uma democracia, e
relacionamento tão íntimo com ele, em
não uma aristocracia.
sua obra redentora, que pode-se dizer
que são o corpo dele. Vocês não estão A ordem é a que pertence à autoridade
mais “em Adão” nem são homens não- do Espírito, e não a um cargo. É o Es­
remidos; vocês estão “em Cristo” , são pírito que dá ordem aos dons, e não os
homens remidos. receptores deles. A ordem se origina do
Porque vocês estão “em Cristo” , são reconhecimento dos dons de Deus e da
o corpo dele. Cada um de vocês é um necessidade de ser receptivo à verdade de
membro dele, vocês pertencem a ele e à Deus e de expressá-la. O importante é
nova humanidade que ele inaugura. Co­ que os que possuem dons reconheçam
mo seu corpo, vocês estão na esfera da que a sua fonte está em Deus, confessem
sua salvação. Visto que pertencem a ele, Jesus como Senhor e empreguem os seus
pertencem uns aos outros, e todos ao seu dons no serviço da Igreja. A vida cristã,
único corpo. Pertencer ao mesmo corpo por conseguinte, é uma reação positiva
é servir e cuidar uns dos outros. “Todos aos dons de Deus, utilizando os dons que
vocês, portanto, são o corpo de Cristo, Deus dá.
e cada um faz parte dele” (v. 27, TEV). Talvez Paulo use a palavra igreja aqui
Nenhum de vocês é tudo; todavia, cada em sentido universal, pois é improvável
um de vocês é algo. que todas as funções relacionadas exis­
Os coríntios deixaram de perceber o tissem em Corinto. Mesmo que existis­
que significa ser o corpo de Cristo. Es­ sem, há diferentes funções mencionadas
queceram que não há virtude excepcio­ em Romanos e Efésios. Apóstolos certa­
nal no exercício individualista de dons mente estão relacionados com a Igreja
altamente emocionais, especialmente o mundial, e não meramente com uma
de falar em línguas. Deixaram de lembrar igreja local. Por outro lado, alguns dos
dons mencionados certamente eram piloto de um navio, que guia o navio
exercidos em Corinto. através das rochas, até o porto. O admi­
Os apóstolos são mencionados em pri­ nistrador é um timoneiro. Não está claro
meiro lugar aqui e em Efésios 4:11. Em como os bispos e diáconos de Filipenses •
ambos os lugares, os profetas são men­ 1 :1 e “ os que ... presidem sobre vós”
cionados em segundo lugar. Os apósto­ de I Tessalonicenses 5:12 se relacionam
los são aqueles que viram o Senhor res- com os administradores (cf. Ef. 4:11).
surrecto e foram chamados e autoriza­ É claro que não havia, no primeiro sé­
dos por Deus para realizarem a sua obra. culo, ministérios funcionais que existis­
(Os comentários sobre 1:1 e 9:1,2; tam­ sem em todas as igrejas e em todos os
bém II Cor. 12:12; 6:3-10; I Cor. 4:9-13 lugares, chamados pelos mesmos nomes.
apresentam maiores esclarecimentos a Por fim, Paulo menciona os que falam
respeito de apóstolo.) em línguas e os que as interpretam. Ele
Os profetas são mencionados em se­ coloca estes dons em último lugar, na
gundo lugar, provavelmente porque eles relação de 12:8-10. E não os menciona
são servos da palavra de Deus. Eles apa­ em Romanos 12:6,7.
recem nas primeiras comunidades cristãs Será que Paulo menciona apenas pri­
(At. 11:27; 13:1; 15:32; 21:10). Procla­ meiro, segundo e terceiro a fim de mos­
mam a palavra de Deus, através do Es­ trar o caráter fundamental dos três pri­
pírito Santo, e edificam a vida espiritual meiros? É um esforço calculado para
da Igreja (cf. I Tess. 5:20). A profecia tirar a ênfase de posição, e enfatizar
baseia-se na revelação (14:29,30; cf. função?
ITess. 5:21; I Cor. 14:29; Mat. 24:11). Ninguém possui todos os dons, e todos
Os mestres aparecem em terceiro lu­ nâo possuem o mesmo dom. Deus dá
gar, nesta lista. É necessário lembrar que multiformes dons, e supre as necessi­
Jesus é chamado de mestre mais de 30 dades de sua Igreja. Corpo significa uni- .
vezes, nos Evangelhos, por causa de sua dade com diversas operações. No corpo ^
autoridade e dignidade. É um título ho­ há unidade na diversidade, e diversidade
norífico na sinagoga. Na comunidade na unidade (cf. v. 14-21). Falar em lín-“ j
cristã, os mestres suplementam a obra rj^ias não é dom que esteja entre os
dos profetas (cf. At. 13:1). A sua obra maiores dons, porque tem pouco valor, a
diz respeito à instrução, provavelmente não ser para aquele que possui o dom.
incluindo as palavras e atos de Jesus, Os maiores dons são os que beneficiam J
estudo do Velho Testamento e interpre­ I os outros.
tação da mensagem cristã. / --"EiTVos mostrarei um caminho sobre­
Operação de milagres e dons de curar modo excelente. Esta sentença, sem dú­
também são mencionados nos versículos vida, é transicional. Ela aponta para o
9e 10. capítulo 12 , que está terminando, e para
Em todo o Novo Testamento, socorros o capítulo 13, que se inicia. No verso 31a,
é mencionado apenas aqui. São as pes­ Paulo fala de dons. No verso 31b ele não
soas que “dão uma mão” aos outros que fala do amor como dom, mas como um
necessitam de ajuda. Na LXX e nos “caminho” . Quererá ele dizer que o
papiros, a palavra traduzida como socor­ amor é tanto um dom como um ca­
ros ou ajuda (antilempseis) refere-se aos minho? Como o amor se relaciona com os
que ajudam aos necessitados (cf. At. dons? É ele o caminho dos dons? É ele
25:35). Este serviço indica o interesse da o maior dos dons? Ou é o caminho a base
igreja pelos ministérios sociais. dos dons?
Os governos são mencionados também Indica o verso 31b que o capítulo 13
apenas aqui, em todo o Novo Testamen­ foi colocado aqui por um editor, e não
to. Esta palavra se refere à obra do pelo próprio Paulo? Alguns têm dito
que o capítulo 13 se seguia ao capítulo 8 Paulo faz, em resposta aos problemas
ou ao capítulo 10, originalmente. Po­ que existiam na igreja em Corinto, é real­
rém não há evidências suficientes para mente o apelo do amor, mesmo quando
sustentar esse ponto de vista. É muito essa palavra não é mencionada. O con­
improvável que um seguidor de Paulo texto de 8:1-3, em que o amor é expresso,
tenha escrito o capítulo 13 e o tenha é uma clara indicação do lugar supremo
colocado aqui. do tema do amor no pensamento de
Tendo discutido os dons espirituais Paulo e uma preparação para a discussão
dentro do arcabouço da Igreja como desse tema, que agora se faz.
corpo de Cristo, Paulo recomenda aos O capítulo 13 é freqüentemente cha­
coríntios que busquem os maiores dons, mado de hino. Embora haja bons argu­
os que são mais elevados, porque servem mentos para crer que Paulo utiliza parte
aos outros (cf. Rom. 13:10; Gál. 5:22). de alguns hinos em suas cartas, não há
No verso 31b, ele dá a entender que o razões suficientes para considerar este
amor é o caminho fundamental de viver- capítulo um hino. Ele não é escrito me-
se dentro do desígnio de Deus para o trificadamente. É prosa em sua mais alta
homem. expressão, caracterizada por uma expo­
Quando Paulo fala de amor, fala da sição ritmada de paraenese ou exortação.
realidade, que o homem pode experi­ Paulo usa uma palavra grega especial
mentar, que é mais característica do para designar amor: agape. Há outras
próprio Deus. De fato ele é um dom de palavras gregas que significam amor, ao
Deus, porque se origina da redenção de passo que há apenas uma palavra que
Cristo. Porém, de outro lado, ele não é designa amor em português. Por que
exclusivamente um dom, como a profecia- __ Paulo usa agape, em vez de alguma das
e o falar em outras línguas, porque é outras palavras, que são mais usadas no
dado quando o evangelho é dado. Só em mundo de fala grega? A resposta precisa
amor o evangelho é dado ou recebido. ser baseada, em parte, na maneira de se
Pois, quando alguém recebe pela fé o entender as várias palavras gregas que
dom de Deus em Cristo, age em amor a ele poderia ter usado.
Deus e em reação ao amor de Deus. O substantivo eros e o verbo eran
Em sentido bem genuíno, a fé é a reação expressam amor de profundo desejo, as­
do amor ao amor. piração apaixonada e anseio sensual.
Eros freqüentemente possui conotação
4. A Primazia do Amor (13:1-13) física ou sexual. Nem o substantivo nem
O tema do am o r11 não é apresentado o verbo aparecem jamais em o Novo
inesperadamente, no capítulo 13. Paulo Testamento.
já usou a palavra “amor” em 2:9, 4:21 e O substantivo storge e o verbo stergein
8:1,3. referem-se ao tipo de afeição encontrada
O conhecimento de Deus é revelado na em uma família. Platão escreve que uma
pregação apostólica da cruz (1:18-25). criança ama (stergein) os seus pais e os
Portanto, o conhecimento de Deus é co­ seus pais a amam. Estas palavras, que
nhecimento do seu amor. O apelo que indicam amor, nunca aparecem em o
Novo Testamento, embora o adjetivo phi-
11 Para aprofundar-se no significado do amor, em o lostorgos, afeição fraternal, apareça em
Novo Testamento, consulte Ceslaus Spicq, Agape in Romanos 12:10.
the New Testament, Vol. II (St. Louis, Missouri: B.
Herder Book Company, 1965); Anders Nygren, Agape Uma terceira palavra que significa
and Eros, trad, para o inglês por Phillip S. Watson amor encontra-se em o Novo Testamen­
(Philadelphia: The Westminster, 1953); Karl Barth, to. O substantivo é philia e o verbo é
Church Dogmatics, Vol. IV, Part II (Edinburgh:
T & T. Clark, 1958); Peter Ainsworth, St. Paul Hymn philein. São usados para descrever dife­
to Love (London: Epworth Press, 1920). rentes espécies de amor (cf. Mat. 10:37;
João 11:3,36; 21:15-17). Philein é usada O significado de amor, em o Novo
33 vezes em o Novo Testamento. Philos Testamento, não é uma simples conti­
é usada 29 vezes. São as palavras mais nuação do que se encontra no Velho
comuns, entre os gregos, para expressar Testamento. O amor é radicalmente re­
amor. definido em torno de Jesus. Ele é a
O quarto substantivo que significa realidade encontrada em Jesus e na rela­
amor é agape. Aparece apenas raramen­ ção de Deus para com ele (Mat. 1:11;
te entre os gregos, e isso é notável. Não Mat. 12:18). Esta é uma realidade que
obstante, é a palavra mais amplamente vai além dos ensinamentos do Velho Tes­
usada para traduzir “ amor” em o Novo tamento. Agape é entendida à luz do
Testamento e na LXX. O verbo agapan ministério de Jesus e de sua morte na
ocorre, aproximadamente, 200 vezes na cruz (cf. João 3:35; 15:9,10; Rom. 5:6-
LXX. O substantivo agape é usado ali 19 10; I João 4:10).
vezes. O verbo agapan é usado 130 vezes Agape é usada para expressar o amor
em o Novo Testamento, e o substantivo expontâneo, criativo e carinhoso que
quase 120 vezes. manifesta a natureza de Deus e que se
Esta palavra é encontrada nas obras estendeu, em Cristo, a homens que não
do filósofo judeu Filo, e pode aparecer o mereciam. Os homens que aceitam o
em algumas fontes pagãs pré-cristãs. Pa­ amor de Deus recebem, pelo Espírito de
rece que ela enfatiza a vontade de uma Deus (Gál. 5:22), o poder de viver agra­
pessoa e expressa interesse em ajudar os decida e obedientemente, em resposta ao
outros. amor de Deus, e, dessa forma, de viver
pelo amor que redime em Cristo Jesus.
Ê claro que agape foi escolhida pelos
Ele se tom a o seu amor, mas é um dom
escritores dos documentos constantes em
o Novo Testamento, para expressar a sua do amor de Deus. Não é realização deles,
maneira de entender o amor. Os cristãos mas dom de Deus. Ninguém o adquire;
recebe-o. Ele não se manifesta por auto-
percebiam bem a sua presença na LXX,
para expressar diferentes tipos de amor afirmação, mas por auto-rendição.
(cf. Jer. 2:2; Deut. 4:37; Os. 3:1; 11:1; O amor evoca fé, e a fé evoca amor.
O amor é o objetivo dos crentes, porque
Gên. 22:2). Paulo usa esta palavra, em
eles morreram e ressuscitaram com Cris­
parte, porque é usada amplamente na
to (Rom. 6:3,4) e porque o amor é dado
LXX.
aos que se dão ao Espírito (Gál. 5:22;
Quando Jesus citou os mandamentos Rom. 5:5; 15:30).
de amar a Deus e o próximo (Deut. 6:5; 0 amor está centralizado no interesse
Lev. 19:18), estava referindo-se a passa­ pelos outros. Além do mais, o amor é o
gens da LXX que usam o verbo agapan. princípio que controla o exercício de
Os Evangelhos também se referem a todos os dons: o amor cria unidade, e
ensinamentos de Jesus que contém a não divisão. Seguir o caminho do amor
palavra agape (Mat. 5:43-45). é seguir a própria natureza do próprio
As outras palavras gregas traduzidas Deus. Agape é o caminho mais excelente,
como amor tinham conotações específi­ porque está arraigado em Deus. O amor
cas entre os povos de fala grega. Visto é o próprio Deus entre os homens (Wen-
que a palavra agape não era muito usada dland, p. 103).
por eles, ela podia ser preenchida de
significado cristão. E é empregada para 1) Vida sem Amor (13:1-3)
expressar várias espécies de amor em o
1 A in d a q u e e u fa la s s e a s lín g u a s dos
Novo Testamento (cf. João 17:26; Rom. h o m en s e dos a n jo s , e n ã o tiv e sse a m o r ,
8:37; I Cor. 2:9; II Tess. 2:16; Mat. s e ria com o o m e ta l q u e so a o u co m o o c ím -
5:43-48). b alo q u e re tin e . 2 E a in d a q u e tiv e sse o d o m
d e p ro fe c ia , e c o n h ecesse todos os m isté rio s está ausente, descanso algum vale algu­
e to d a a c iê n c ia , e a in d a q u e tiv e sse to d a a ma coisa.
fé, de m a n e ir a ta l qu e tr a n s p o rta s s e os m o n ­
te s , e n ã o tiv e sse a m o r , n a d a s e r ia . 3 E
No segundo versículo, Paulo passa a
a in d a q u e d is trib u ís se todos os m e u s b e n s dons maiores, porque eles edificam os
p a ra su s te n to d o s p o b re s , e a in d a q u e e n tr e ­ outros. Profecia, que tem significado
g asse o m e u co rp o p a r a s e r q u e im a d o , e n ão muito alto no pensamento de Paulo (12:
tiv e sse a m o r , n a d a d isso m e a p ro v e ita r ia . 28), se baseia na revelação (14:29,30),
Provavelmente, a palavra línguas se e é a proclamação da palavra de Deus
refere à experiência espiritual de falar em através do poder e da presença do Es­
línguas, e não a diferentes idiomas. Con­ pírito Santo. Ele edifica a vida espiritual
tudo, a expressão usada aqui: línguas da congregação. No entanto, sem amor,
dos homens e dos aqjos pode ser uma até uma pessoa que profetiza é nada.
forma retórica de se incluir todas as lin­ Mesmo que o profeta seja capaz de pene­
guagens possíveis. Também pode referir- trar mistérios — conselhos divinos ocul­
se a duas espécies diferentes de lingua­ tos em Deus e revelados aos seus profetas
gem. De qualquer forma, Paulo quer — e possua toda a ciência referente ao
dizer que nem mesmo a maior eloqüência significado da mensagem cristã na vida
de linguagem é suficiente. Os coríntios humana, se não possui amor, ele não é
precisavam lembrar-se da necessidade de nada. A pessoa que exercita um dom sem
amor e o que importa a linguagem mais amor é, nas palavras de Spicq, “espiri­
rica sem amor. tualmente zero” . A pessoa que tem fé
O címbalo era empregado na adoração operadora de milagres (12:9) e realize
no Templo (Sal. 150:5). Era usado tam­ notáveis maravilhas, sem o motivo do
bém na adoração helénica. Gongos eram amor, é nada.
dependurados nos templos, e usados nas No verso 3, Paulo passa a mostrar a
procissões de Cibele e Dionísio. Desde o relação do amor com os atos de boa
tempo de Platão, referiam-se aos ora­ vontade ativa. É possível fazer coisas
dores superficiais como “gongos” . boas para os outros sem os amar, fazer o
Um orador sem amor, sugere Paulo, é bem movido por outro motivo que não
simplesmente oco e vazio. Faz barulho, seja o amor. Dar esmolas a ponto de
mas não tem melodia. Produz sons, mas ficar pobre não adianta nada para a
não comunica nada real, porque não é pessoa que não dá amor. Livrar-se de
possuído pelo amor. A linguagem sem suas posses pode ser uma expressão de
amor é apenas conversa. E é meramente asceticismo, e não ter absolutamente na­
barulho, se não se preocupa com os ou­ da de amor. Se tal é o caso, nada apro­
tros. O amor é algo que, se ausente, faz veita para a pessoa que se empobreceu.
com que tudo o mais seja nada. Nem mesmo o convite do Senhor para
O amor é a boa vontade expontânea, aliviar as condições dos pobres (Mat.
altruísta e criativa, revelada por Deus, 19:21) pode salvar a pessoa da condena­
em Jesus Cristo. Está arraigado em Deus, ção, se ela não tem amor. Existe uma
o Pai. É a autodoação de Deus ao ho­ autodoação que não é amor. Autodoação
mem. É a autodoação do homem a Deus é amor somente quando é o tipo de amor
e também ao próximo. 12 Através do que Deus revela em Cristo e nos chama a
Espírito Santo, Deus ajuda o homem a demonstrar ao nosso próximo. Autodoa­
demonstrar, pelo seu próximo, o tipo ção é autopromoção, se o motivo é louvor
de amor que Deus demonstra por todos próprio.
os homens. Quando esse tipo de amor A pessoa pode dar mais do que as suas
propriedades: pode dar a sua própria
vida. A profundidade do sacrifício pode
12 Barth, op. cit., p. 828. ser demonstrada quando se dá o corpo
para ser queimado. Referências a acon­ exercício dos mais nobres dons é desfeito,
tecimentos desses se encontram em Da­ se não for feito em amor. Todas as pos­
niel 3:19-28 e II Macabeus 7. (•) Um sibilidades humanas reduzem-se a nada,
hindu, Zarmanochegas, deixou-se quei­ se eu “não tenho amor” , o amor que me
mar até a morte, em Atenas, em 20 d.C. é dado porque Cristo me foi dado como
No seu túmulo se inscreveram palavras fonte e veículo do amor.
que ele mesmo escreveu: “Ele se fez
imortal.” Dar o próprio corpo por amor 2) Vida em Amor (13:4-7)
é um ato heróico. Mas dar o próprio 4 O a m o r é so fre d o r, é b e n ig n o ; o a m o r
corpo por amor próprio é um ato de n ão é in v e jo so ; o a m o r n ã o se v a n g lo ria ,
egoísmo. O amor cristão, e não o amor n ão se e n so b e rb e c e , 5 n ã o se p o r ta in c o n v e ­
próprio, faz a diferença. n ie n te m e n te , n ã o b u s c a os se u s p ró p rio s
in te re ss e s, n ã o se ir r it a , n ã o s u s p e ita m a l;
Todavia, é possível que Paulo preten­
6 n ão se re g o z ija co m a in ju s tiç a , m a s se
desse que entendêssemos o fato de se re g o z ija co m a v e rd a d e ; 7 tu d o so fre , tu d o
queimar o corpo como referência à mar­ c rê , tu d o e s p e r a , tu d o su p o rta .
cação de escravos com ferro quente. Cle­
mente de Roma conta que alguns corín- É impressionante que Paulo usa “eu”
tios haviam-se vendido à escravidão, e através dos três primeiros versículos, mas
usaram o preço pago para comprar comi­ emprega o substantivo “amor” como su­
da para os pobres. Baseando-se nesta jeito dos versículos 4 a 7. É por acaso?
interpretação, queimar o corpo significa Não é provável. Os primeiros três versí­
entrega à escravidão voluntária. culos do capítulo 13 falam dos esforços
A RSV apresenta, em nota de rodapé, do homem sem a realidade do amor de
uma redação diferente, para a expres­ Deus como motivo, enquanto os quatro
são o corpo para ser queimado, a saber: versículos seguintes retratam o que o
“o corpo para que eu possa me gloriar” . amor é capaz de realizar. Sabemos muito
Se esta versão fosse adotada, o versículo bem que não podemos substituir a pala­
então diria: “e ainda que eu entregasse vra “amor” por “homem” nesses versí­
o meu corpo para que eu pudesse me glo­ culos. Os três primeiros versículos do
riar” . Manuscritos antigos, P 46, A e B e capítulo retratam o homem não-redimi-
o Sinaítico, favorecem esta redação. do e sem o maior dom de Deus, enquanto
Mas, se Paulo estava falando de entregar os quatro seguintes retratam o homem
o corpo de alguém a fim de “se gloriar” , redimido, com esse dom.
não haveria necessidade de falar de não Por que fala Paulo de amor em grande
ter amor. Obviamente, jactar-se ou glo­ parte em termos negativos, isto é, em
riar-se em tais circunstâncias não é cris­ termos do que ele não é? Provavelmente,
tão. O contexto, portanto, favorece a tra­ porque o amor é tão difícil de se retratar,
dução para ser queimado, a despeito das mas também porque o amor não mani­
fortes evidências fornecidas pelos manus­ festa, na vida, o tipo de resultado de­
critos que apóiam a outra versão. monstrado pelos coríntios. Estes versí­
Nos três primeiros versículos, Paulo culos são, ao mesmo tempo, um retrato
expressa o exercício de dons de ampli­ do que é amor cristão e do que os corín­
tude ainda mais notável. Porém algo está tios não são.
faltando, algo que tem valor supremo: Em grande parte, esta exposição, feita
o amor. E, se está faltando amor, “Eu nos versos 4 a 7, é expressa em uma série
nada sou” ; “Nada me aproveita.” O de verbos, num total de quinze, apare­
cendo o substantivo agape apenas três
(*) Durante a Guerra do Vietnã, há poucos anos, monges vezes no texto grego (todas elas no v. 4).
budistas e outras pessoas puseram fogo. no seu próprio
corpo ensopado de gasolina, como protesto contra a Todas as referências mostram uma preo­
guerra, num espetáculo público. — Nota do Tradutor. cupação por outrem. Nenhuma das refe­
rências é feita diretamente ao amor do sentido, significando “ desejo” “zelo” na
homem a Deus. versão da IBB) nesses dois casos, mas
O amor é sofredor, é benigno. O Ve­ em mau sentido em Filipenses 3:6, como
lho Testamento diz que Deus é “tardio também neste versículo. A igreja em
em irar-se” ou paciente para com os Corinto era uma igreja toda fraturada
homens (cf. Rom. 2:4). E alguns versí­ por inveja e luta (cf. 3:3). Há sempre
culos, no Sermão da Montanha, podem uma linha muito clara de distinção entre
ser entendidos em termos de paciência o desejo do bem-estar dos outros e o
(Mat. 5:10,11). Paulo freqüentemente desejo do bem estar próprio. Desejar
admoesta os seus leitores a serem pacien­ bons dons é certo; invejar pessoas talen­
tes para com os outros (cf. I Tess. 5:14; tosas é errado.
II Cor. 6:6; Gál. 5:22). A paciência O amor não se vangloria. Ele não se
é a força suave, que tem poder. Ela não ensoberbece. O verbo traduzido como
é insensibilidade, mas sensibilidade para vangloria encontra-se apenas aqui, em
com os outros, que os tolera no meio todo o Novo Testamento. A pessoa se
das maiores dificuldades. Paciência não vangloria quando não tem senso de pro­
é fraqueza, mas força, que emerge de­ porção, o que se torna evidente, em
baixo de pressão. É a capacidade para procedimento e em conversa sem nexo,
aceitar as pressões. Os crentes são ca­ da frivolidade até a insolência. 13 Certa­
pazes de ser pacientes para com os outros mente falava, aos coríntios, um senso de
porque Deus exercita paciência para com equilíbrio, e eles manifestavam orgulho
eles e toda a humanidade e porque Deus por causa de sua confiança ilimitada na
lhes dá o dom da paciência através da profundidade do seu conhecimento (cf.
operação do Espírito (Gál. 5:22). A pa­ 8:1 ). O amor não recita um catálogo de
ciência do homem tem sua fonte na suas virtudes, liberdade e realizações.
glória de Deus (Col. 1:11). Não se porta inconvenientemente. Ele
O amor é benigno. Uma pessoa benig­ não se envaidece nem fica enfatuado com
na é expontaneamente boa para com os um senso de amor-próprio. O termo
outros. Ela não mede a bondade dos traduzido como inconvenientemente po­
outros, e, sim, expressa a sua bondade de ser traduzido como “arrogantemente”
para com os outros. O amor não só (4:6; 8:1). Esta é uma das palavras favo­
suporta muito (paciência); ele é benigno ritas de Paulo para tratar dos enfatuados
sem pensar em recompensa. Ele age be­ coríntios. Tão valiosos se tornaram eles
nignamente porque é livre para agir, e, aos seus próprios olhos, que incharam
assim, agir é amor em ação. A paciência como balões — com tanto ar. Mas o
é auto-restrição; a benignidade é auto- amor não encontra forças no inchado de
expressão. Benignidade é afeição rica, um espírito orgulhoso.
que nunca vacila em sua devoção aos O amor não é rude, porque assim
outros, e não desanima com as faltas feriria os outros. Ele não tem maneiras
deles nem fica amargurada por causa de incivilizadas, pelo fato de outros não
sua ingratidão (Moffatt, p. 195). Paciên­ terem boas maneiras. Ele não se dispõe
cia e benignidade são apresentadas jun­ a se portar de forma grosseira, ou fazer
tas, por Paulo, em outras passagens qualquer coisa vergonhosa (cf. 7:36; 12:
(Rom. 2:4; II Cor. 6:6; Gál. 5:22; Col. 23). Há uma profunda sensibilidade no
3:12). amor; há nele uma delicadeza, que não
O amor não é invejoso; o amor não deseja ferir.
se vangloria, não se ensoberbece. Paulo Não busca os seus próprios interesses,
usa a palavra aqui traduzida como inve­ porque tal espírito é uma contradição
joso também em 12:31 e 14:1. O verbo
correspondente é encontrado num bom
flagrante do amor cristão. Uma das qua­ errado de correto, w O amor tem alegria
lidades do amor é ter grandeza de espí­ na lealdade à verdade, e dá testemunho
rito, colocar de lado qualquer auto-afir- do triunfo da verdade.
mação e autopreservação. De fato, o No verso 7, Paulo já não fala mais do
amor emprega a renúncia própria de que o amor não é, mas do que o amor
maneira positiva, para ganhar outros à faz. Ele tudo sofre. Ele agüenta tudo. Ele
lealdade a Cristo (cf. 6:7; 10:33; Mat. permanece a despeito de tudo. Ele sobre­
5:38-42). O amor insiste no bem-estar vive à tristeza, à decepção, à crueldade,
dos outros, e não na afirmação de inte­ à disposição da verdade, à indiferença.
resses próprios (cf. 10:24; Fil. 2:4). O Ele continua avançando, mesmo em face
amor que insiste em seus próprios inte­ de todos os inimigos que ameaçam anu-
resses não é amor. Isto é falta de amor — lá-lo. O amor jamais vacila; nunca cessa.
na verdade, é egoísmo. Ele levanta a cabeça e continua na mes­
ma marcha. O amor nunca desiste.
O amor não se irrita, não suspeita mal. Ê possível que o verbo traduzido como
O amor não é mesquinho; não é difícil sofre possa ser traduzido como “conser­
viver com ele. Não irrita nem provoca os var-se escondido” . Traduzido desta for­
outros. Não torna a vida dos que o ro­ ma, Paulo estaria dizendo que o amor
deiam miserável, por ter um tempera­ tolera a fraqueza dos outros. Ele é tardio
mento nervoso. O amor não cultiva um em expor os erros dos outros (cf. I Ped.
espírito de má vontade, que afeta adver­ 4:8). Uma terceira interpretação possível
samente as outras pessoas. O amor não existe: “ O amor sustenta o mundo” (Bar-
se ocupa em criar adversários em meio rett, p. 304).
aos vizinhos, por causa de um espírito O amor tudo crê. Ele tem uma atitude
mesquinho. Não é difícil conviver com o de confiança para com os outros. Ele não
amor. Ele não é vil, nem explosivo. Não cria desconfiança por manifestar descon­
suspeita mal, nem acumula ódio dos fiança. Ele prefere crer nas boas inten­
outros. O amor não guarda queixas con­ ções dos outros. Ele crê nos outros, e,
tra os outros, porque uma vontade al­ desta forma, provoca maturidade nos
truísta não permitirá que exista, simul­ outros. O amor nunca perde a fé. Ele
taneamente, na mesma vida, um espírito está, como traduziu Moffatt, “sempre
queixoso. Não guarda as faltas que fo­ disposto a crer o melhor” . O amor prefe­
ram cruel e injustamente cometidas. re ser generoso demais, do que suspeitoso
O amor é perdoador, e o perdão esquece. demais.
Ele se lembra da graça de Deus, que agiu O amor tudo espera. Ele tem esperan­
decisivamente em favor da salvação dos ça, porque está arraigado em Deus e
seres humanos, “não imputando aos ho­ porque Jesus, a manifestação do amor de
mens as suas transgressões” (II Cor. Deus, dá sentido à esperança. O amor
5:19). não apenas faz aparecer um futuro,
Não se regozija com a iqjustiça, mas se como que por mágica; ele sabe que pos­
regozya com a verdade. Não se alegra sui um futuro. No meio de todo o mal, ele
com a injustiça dos outros. Não encon­ pode abalançar-se a esperar com muita
tra a alegria em contemplar o pecado dos esperança, porque espera com promessa.
outros. Não acha ocasião no pecado dos Quando o amor é desapontado, continua
outros para manifestar orgulho por sentir tendo esperança (cf. Rom. 5:5).
a sua própria santidade. Não encontra O amor tudo suporta. Ele espera cheio
nenhum prazer nos fracassos dos outros. de esperança, e, quando desapontado,
Pelo contrário, o amor tem alegria na não se abala (cf. Rom. 5:3). Ele sobrevi­
obediência à verdade (cf. Rom. 2:8;
II Tess. 2:10,12). Ele não chama o
ve a circunstâncias desfavoráveis e difí­ O amor durará tanto quanto Deus durar:
ceis (cf. II Tess. 1:4). Possui uma grande para sempre. O crente é possuído de uma
paciência. Suporta a negridão da noite, realidade que não finda nem languesce.
confiante na manhã. Não há limites para O amor nunca falha. Se os homens dei­
o que o amor pode suportar. Ele nunca xam de ser dignos de amor, o amor não
acaba. deixa de amar o indigno. O amor não
O amor é a realidade que vence tudo desfalece nem falha, mas continua a
o que intervenha para derrotar o homem. manifestar-se na semelhança de Cristo.
Quatro vezes, no verso 7, Paulo usa a E será no distante amanhã a mesma
palavra tudo. O amor tem o poder de coisa que é hoje. O infindável amor é
fazer tudo o que decide, até o fim. Ne­ sempre o mesmo amor. O amor que co­
nhum inimigo é capaz de derrotá-lo (cf. nhecemos hoje é o amor que conhecere­
Rom. 8:38,39). A desilusão e a amargura mos amanhã.
não são características do amor. Nada disto pode ser dito acerca de
Nos versos 1 a 3, Paulo fala da vida profecias, línguas ou ciência. Todas estas
sem amor, e, nos versos 4 a 7, da vida terão fim. Portanto, a única realidade
em amor. Nos três primeiros versículos, que perdura já tem um início na vida dos
fica claro que quaisquer dons não são crentes. O mais precioso dom do futuro
suficientes, se o amor cristão estiver au­ já foi derramado sobre nós na forma do
sente, e, nos versos 4 a 7, fica óbvio que dom do amor. O futuro, através do
somente o amor cristão pode fazer o que amor, já está fazendo espargir a sua luz
o amor faz. O homem natural não pode eterna nos passageiros anos de nossa
manifestar esse amor. Ele precisa ser existência presente. O amor não sofre
outorgado ao homem na sua redenção. por causa da recordação do “agora”
Deus é capaz de ajudar o crente a amar e do “então” .
com a espécie de amor com que ele ama o O nosso futuro teve início porque o
homem, da maneira como é expresso amor já nos possui. O amor é a promessa
através do ministério mediador de Jesus cumprida já no presente. Ele é o elo de
Cristo. ligação entre o agora e o então, e entre o
aqui e o porvir. 15
3) A Permanência do Amor (13:8-13) Profecias, línguas e ciência serão des­
8 O a m o r ja m a is a c a b a ; m a s h av en d o necessárias na presença de Deus. Por
p ro fe c ia s, s e rã o a n iq u ila d a s ; h av en d o lín ­ outro lado, o amor caracteriza a própria
g u as, c e s s a rã o ; h av en d o c iê n c ia , d e s a p a r e ­ natureza de Deus. Será que Paulo quer
c e r á ; 9 p o rq u e e m p a r te co n h e c e m o s, e e m dizer que profecia, línguas e ciência se
p a rte p ro fe tiz a m o s; 10 m a s , q u an d o v ie r
o que é p e rfe ito , e n tã o o q u e é e m p a rte
tomarão extintas, ou será que ele quer
s e r á a n iq u ilad o . 11 Q uando eu e r a m en in o , dizer que elas serão transformadas em
fa la v a com o m en in o , s e n tia com o m en in o , formas novas e diferentes? Elas serão
p e n sa v a com o m en in o ; m a s , logo q u e c h e ­ deixadas para trás como as experiências
guei a s e r h o m em , a c a b e i com a s c o isa s de
da infância, que deixamos para trás.
m enino. 12 P o rq u e a g o ra v em o s com o p o r
espelho, e m e n ig m a , m a s e n tã o v e re m o s Elas darão lugar a uma compreensão
face a fa c e ; a g o ra conheço e m p a rte , m a s mais amadurecida do significado da vida
e n tão co n h e c e re i p le n a m e n te , c o m o ta m ­ com Deus. Necessárias neste mundo, elas
b é m sou p le n a m e n te conhecido. 13 A g o ra, se tornarão desnecessárias no mundo
pois, p e rm a n e c e m a fé, a e s p e r a n ç a , o
a m o r, e s te s tr ê s ; m a s o m a io r d e ste s é o
porvir. Quando vier o que é perfeito,
a m o r. quando a vida for conhecida com Deus,
desimpedida das complexidades desta
O amor jamais acaba. Ele é eterno. era, então o que é em parte, em termos
Nunca chegará ao fim, porque está fun­
damentado em Deus, e Deus é amor.
de profecias, línguas e ciência, será des­ quando comparado com o que conhece­
necessário, e desaparecerá. remos no futuro.
A vida nesta era, comparada com a A vida neste mundo permite, até para
vida na era porvir, é como a infância, o crente, apenas uma visão limitada.
comparada com a maturidade. Nesta vi­ A visão limitada do “agora” dará lugar à
da presente, possuímos apenas uma fra­ visão clara do “então” . O nosso enten­
ção infinitesimal do conhecimento de dimento de Deus não será mais obscuro,
Deus e da sua verdade. Na vida porvir, porque será face a face, não mais indi­
conheceremos vastos tesouros do conhe­ reto, mas direto (cf. Apoc. 22:4; I João
cimento de Deus, de forma que podemos 3:2). Por significativo que o amor cristão
descrever a vida de agora como a vida de seja agora, ele não pode se comparar com
crianças, se comparada com a vida de o que será conhecido no futuro.
então como a vida de maturidade adul­ Nesta vida presente, o crente possui
ta. Não haverá necessidade de velas, genuíno conhecimento, o conhecimento
quando possuirmos o resplendor do sol! de Deus. Porém ele é incompleto. O co­
Paulo não está interessado (v. 11) em nhecimento parcial dará lugar ao pleno
enfatizar uma continuidade entre um conhecimento, porque o crente conhece­
menino e um homem. O seu interesse rá Deus como ele tem sido plenamente
conhecido por Deus. Embora o homem
não é estabelecer continuidade, mas dis-
não consiga compreender Deus plena­
semelhança. É claro que a pessoa pos­
mente agora, Deus compreende o ho­
suída pelo amor cristão agora será pos­
mem plenamente (cf. Gál. 4:9). O nosso
suída pelo mesmo amor no futuro. As­
sim, a pessoa é a mesma, porém a me­ conhecimento será da mesma ordem que
o de Deus. 16 E, sobretudo, o nosso co­
dida de sua vida em Deus é grandemente
nhecimento de Deus baseia-se no fato de
aumentada.
que ele primeiro nos amou. Nós o conhe­
Porque agora vemos como por espelho, cemos tão-somente porque ele nos conhe­
em enigma, mas então veremos face a ceu primeiro. A origem do amor e o ali­
face. Há um agora, esta era presente, em cerce do amor é Deus (cf. I João 4:19).
que temos um conhecimento indireto e Deus nos concederá um conhecimento
parcial de Deus; há um então, a era por aumentado de si mesmo, à medida que
vir, quando o nosso conhecimento será vivermos em uma comunhão não mais
direto e completo. Paulo, em primeiro velada pelas limitações desta era presen­
lugar, coloca o amor no contexto de te. Quando o virmos face a face, entra­
profecias, línguas e conhecimento. De­ remos ainda mais profundamente no co­
pois ele reflete a respeito à luz do co­ nhecimento do Deus que salva os peca­
nhecimento e da profecia. Por fim, ele o dores através de Cristo. Face a face, em
entende à luz apenas do conhecimento. devoção pessoal, nós o conheceremos
O espelho é usado para expressar o como ele é.
fato de que o nosso conhecimento atual, Agora, pois, permanecem a fé, a es­
por prezado que seja, é um conhecimen­ perança, o amor, estes três; mas o maior
to indireto e parcial. Enquanto Filo, destes é o amor. Chegará o tempo em que
judeu contemporâneo de Paulo, usa o todos os dons de Deus para a igreja,
exemplo de um espelho, às vezes, para sobre a terra, terão cumprido o propó­
sugerir claro e pleno conhecimento de sito de Deus, e os fiéis habitarão na casa
Deus, Paulo o emprega neste versículo de seu Pai. E então? A fé e a esperança
para enfatizar as limitações e a imperfei­ e o amor caracterizarão a vida dos santos
ção do nosso conhecimento de Deus. Ele eternamente.
não dá a entender que o nosso conheci­
mento é inadequado, mas que é limitado, 16 Spicq. op. cit., p. 166.
A fé permanece, porque ela é confian­ Portanto, Paulo admoesta os coríntios
ça na obra salvadora de Deus, revelada a fazerem do amor o seu alvo, não tra­
em Cristo. Só os que confiam conhecerão balhando por ele, mas vivendo uma vida
a eterna presença em Deus. de amor através da obra do Espírito
A esperança permanece, porque é fé Santo dentro deles. A única caracterís­
perseverante e mantém serena confiança tica segura do amor de Deus no homem é
em Deus. que ele serve aos outros, ao próximo.
O amor permanece, porque é a nature­ Tem sido sugerido que os coríntios
za de Deus e, portanto, é tão eterno como conheciam uma fórmula: “fé, amor
o Pai. O amor de Deus, que é altruísta, é (eros), conhecimento e esperança” , que
respondido pelo amor do homem, que é Paulo alterou e usou contra eles, elimi­
altruísta. E o amor, que é altruísta, é nando o “conhecimento” . Sem dúvida,
baseando-se nesta interpretação, ele su­
eterno.
bstituiu eros por agape. Esta sugestão
O amor é a realidade pela qual Deus, não é muito convincente, porque fé, es­
o Pai, revela o seu coração ao homem e, perança e amor aparecem em uma carta
pela graça de Deus, a realidade pela qual escrita por Paulo vários anos antes de ele
o homem revela o seu coração a Deus e ter escrito aos coríntios (I Tess. 1:3; 5:8).
ao próximo. Ele não cessa. E, na vida por Essa tríade é usada também em Gálatas
vir, ele permanecerá, entendendo o Pai, 5:5,6, Colossenses 1:4,5, Romanos 5:1-5
que suscita o amor dos homens devido ao e Hebreus 10:22-24.
seu amor por eles (cf. I João 4:19). Em I Tessalonicenses e Colossenses,
O amor é a maior de todas as virtudes, Paulo escreve, em ordem, a respeito de
porque expressa a pessoa de Deus, coisa fé, amor e esperança. A fé introduz o
que a fé e a esperança não conseguem homem na existência cristã; o amor é a
fazer. O amor de Deus dá ao homem maneira pela qual a fé exercita a sua
uma base para a fé e a esperança, que vida; e a esperança é a confiante perse­
são características da vida do homem, e verança, que abrange o futuro. Paulo
não de Deus. coloca o amor em último lugar, na tría­
Paulo, neste capítulo 13, de sua epís­ de, quando escreve aos coríntios, porque
tola, alcança o ápice. Nem mesmo o falta-lhes notoriamente a compreensão
capítulo 15 é mais notável. O amor de da primazia do amor.
Deus é ainda mais grandioso do que a A primeira palavra do verso 13, agora,
ressurreição, porque a graça e o amor é é traduzida como “assim” na RSV, ver­
que propiciam a ressurreição do homem. são inglesa usada pelos compiladores
A escatologia resplandece não apenas deste comentário em inglês. A palavra,
nos capítulos 7 e 15, mas também no em grego, provavelmente, não se refere a
capítulo 13. O amor é o futuro que lança tempo. Pelo contrário, significa “portan­
os seus raios esplendorosos no presente. to” ou “ assim” . Tendo colocado a com­
Ê o dom escatológico, que já se torna preensão da vida cristã de maneira clara
uma possessão presente. no contexto do amor, Paulo passa, no
Porém o amor não possuía os corín- capítulo 14, a demonstrar como o amor
tios. Quase todos os primeiros quatorze se manifesta no desejo de alcançar os
capítulos demonstram este fato. O amor dons espirituais.
não é apenas maior do que todos os
outros dons: ele era a maior necessidade 5. Profecia e Línguas e o Culto de
dos coríntios. Todavia, não se possui o Adoração (14:1-40)
amor mediante captura, mas mediante O capítulo 14 trata, em grande parte,
rendição. Ele não é obra do homem, mas de “falar em línguas” e de profecia no
dom de Deus. culto de adoração. Os dons do Espírito
à Igreja é o tópico do capítulo 12; a do acontecimento, o autor de Atos em­
primazia do amor é o assunto do capítulo prega-o para apresentar a sua interpreta­
13, enquanto “falarem línguas” , proble­ ção teológica da história da Igreja.
ma de grande importância na adoração O dom do Espírito dado no Pentecostes
em Corinto, emerge como base para a foi o meio de dotar a Igreja de poder, e
discussão do capítulo 14, juntamente constitui a certeza da conversão das na­
com a profecia. ções ao evangelho. Esta interpretação
I mediatamente precisa ser enfrentada enfatiza as diferenças entríTts^hjas nar­
a relação entre 14:1-40 e Atos 2:1-42. rativas.
Não existe solução fácil para este pro­ Dois versículos de Atos (10:46; 19:6)
blema. Está razoavelmente claro que os podem ser interpretados como o mesmo
versos 1 a 40 tratam de enunciações fenômeno encontrado em I Coríntios 14.
ininteligíveis (a não ser que sejam inter­ Por outro lado, Atos 10:46 é semelhante
pretadas) e extáticas (v. 9 e 28). Mas o a Atos 2:11, e Atos 19:6 se refere tanto a
fenônimo descrito em Atos 2 não pode falar em línguas como à profecia. Estas
ser avaliado de maneira tão simples. duas referências podem se referir à enun­
Uma das intrepretações de Atos 2:1-42 ciação inteligível, e não extática.
é que ali falar em línguas é o mesmo A exposição que Paulo faz acerca de
fenômeno que o encontrado em I Corín- falar línguas precisa ser conservada no
tios 14. Os versículos 4 e 13 de Atos 2 contexto dos capítulos 12 e 13. Ele já
podem ser tomados como indicação de tornou bem claro que a liberdade cristã
semelhança. Porém há uma diferença madura se expressa em amor, mediante
fundamental entre as duas narrativas. interesse pelos outros (cf. 8:1-3). Ele
Em I Coríntios 14:1-40 havia necessi­ declarou que todos os dons espirituais
dade de intérpretes, enquanto em Atos são colocados a serviço da Igreja (cap.
2:1-42 cada pessoa era capaz de enten­ 12). E ele insistiu que todos os dons são
der o que era dito, sem intérpretes. Em expressos com alicerce no amor, que é
Atos havia um milagre no falar, no ouvir, altruísta e se dá aos outros (cap. 13).
ou em ambos (v. 4 e 8). E também em S Falar em línguas precisa passar por três‘
1 Coríntios havia uma diferença flagran­ ) testes, que agora trataremos em ordem:
te entre falar em línguas e profecia. ) cTteste do interesse social inteligente,
Não há essa distinção aguda no relato 'j 14:1-25; o teste do domínio próprio,
de Atos. \ 14:26-36; e o teste da decência e ordem,
Uma segunda interpretação apresenta 14:37-40.
o ponto de vista de que a narrativa de
Atos tem por detrás de si fontes que 1) O Teste de Interesse Social Inteli­
foram elaboradas e reescritas pelo autor, gente (14:1-25)
devido aos seus objetivos teológicos. De (Para facilitar referências convenien­
acordo com esta teoria, o que original­ tes, esta passagem será impressa por
mente era uma narrativa, como I Co­ parágrafos.)
ríntios 14, foi refeito, para retratar a
disseminação do evangelho para todas as 1 S egui o a m o r ; e p ro c u r a i co m zelo os
dons e s p iritu a is , m a s p rin c ip a lm e n te o de
nações da terra. A maior dificuldade, p ro fe tiz a r. 2 P o rq u e o q u e fa la e m lín g u a
com esta interpretação, é que é impossí­ n ão fa la a o s h o m e n s, m a s a D e u s; pois n in ­
vel isolar-se essas fontes primitivas, para g u ém o e n te n d e ; p o rq u e e m e sp írito fa la
estudo. m isté rio s . 3 M a s o q u e p ro fe tiz a fa la a o s
Uma terceira interpretação é que Atos h o m en s p a r a ed ific a ç ã o , e x o rta ç ã o e co n so ­
la çã o . 4 O q u e fa la e m lín g u a s e d ific a -se a
2 descreve um milagre no falar ou no si m e sm o , m a s o q u e p ro fe tiz a e d ific a a
ouvir, algo diferente do que se encontra ig re ja . S O ra , q u e ro q u e todos vós fa le is
em I Coríntios 14. Seja qual for a fonte e m lín g u a s, m a s m u ito m a is q u e p ro fetiz e is,
p o is q u e m p ro fe tiz a é m a io r d o q u e a q u e le interpretada por alguém perito na arte
qu e f a la e m lín g u a s, a n ã o s e r q u e ta m b é m da interpretação. Há exemplos de enun­
in te rp re te p a r a q ue a ig r e ja r e c e b a e d ifi­
cação . ciação extática no Velho Testamento e no
helenismo. 17 Porém dificilmente pode-
Segui o amor. A saber, nunca cessem se concluir que o que se encontrava ali era
de fazer do amor o alvo de suas vidas, e o mesmo fenômeno que se encontrava na
“firmem os seus corações nos dons espi­ igreja em Corinto. Sem dúvida, há seme­
rituais” (TEV), principalmente o de pro­ lhanças, na excepcional ênfase dada às
fetizar. A orientação básica da vida cristã emoções, com a exclusão da mente.
é amar, que é a base para o exercício de A ênfase de Paulo é clara. O “falar em
todos os dons espirituais. O uso mais línguas” dirige-se a Deus, o único que
importante da vida é oferecê-la para o pode entendê-lo. Mas é precisamente de­
serviço do amor cristão. Os dons espiri­ vido ao fato de outras pessoas não po­
tuais, que são introduzidos em 12:1, derem entendê-lo, que Paulo dá pouco
onde o assunto é expresso pela primeira valor a esse dom. A pessoa que profe­
vez, são discutidos no capítulo 12. No tiza, que proclama revelações pela di­
capítulo 14, Paulo enfatiza o valor do reção do Espírito Santo, empenha-se em
dom de profecia, que toma possível a um ato que tem valor para os outros.
proclamação da revelação, sob a direção As suas palavras ajudam a edificação
do Espírito e baseada na palavra de Deus dos homens. Paulo usa a palavra edifi­
(cf. o comentário sobre 12:28). É apro­ cação quatro vezes, neste capítulo. Ela
priado procurar com zelo os dons espiri­ significa fortalecimento da vida espiri­
tuais, porque eles são os dons de Deus tual. A pessoa que profetiza contribui
para os que servem aos outros, e não às para o bem-estar espiritual dos outros.
obras de homens para aqueles que se A profecia também oferece exortação,
vangloriam diante de Deus. ou seja, força que estimule a viver a vida
Quem fala em língua não fala nada cristã, e consolação, conforto que vem
que os outros possam entender. Ineludi- de Deus (cf. I Tess. 2:11,12; II Cor.
velmente, Deus é capaz de entender os 1:3-7). Como o falar em línguas é dife­
inefáveis mistérios falados em espírito rente de profetizar!
pela pessoa que fala em línguas. A ver­ A pessoa que fala em língua edifica-se
são antiga da IBB usa a expressão “lín­ (eleva-se) a si mesma, porque esta ex­
gua estranha” . A palavra “estranha” periência tem valor espiritual para a pes­
não se encontra no grego, mas é usada soa que possui o dom. Por outro lado, a
para esclarecer a expressão em língua. pessoa que profetiza edifica (eleva) a
Devido ao seu uso na versão antiga da igreja de que é membro, visto que co­
IBB, falar em línguas é freqüentemente munica, em linguagem inteligígel, uma
citado como “falar em língua estranha” . mensagem inspirada pelo Espírito Santo.
A palavra traduzida como língua A superioridade da profecia sobre o falar
(glossa) é usada de três maneiras, em o em línguas está na sua utilidade para os
Novo Testamento: como o órgão da fala outros.
(Luc. 16:24), como um sinônimo de lin­ 6 E a g o ra , irm ã o s , se e u fo r te r convosco
guagem, idioma (Atos 2:11) e como enun­ fala n d o e m lín g u a s , de q u e v o s a p ro v e ita re i,
ciação extática ininteligível. Paulo a usa se vos n ã o f a ia r ou p o r m eio d e re v e la ç ã o ,
nó sentido de enunciação extática no
17 Um estudo cuidadoso acerca de falar em línguas e
verso 2. uma avaliação diferente das fontes seguidas neste tra­
Saber precisamente o que abrange o balho se encontrarão no artigo de Johannes Behm,
falar em línguas, em o Novo Testamento, "Glossa” , no Theological Dictionary of the New Testa-
m a t, ed. Gerhardt Kittel; trad, para o inglês de
é impossível. Porém é claro que tal enun­ Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: Gerdmans,
ciação é ininteligível, a não ser que seja 1964), I, p. 719-727.
ou de c iê n c ia , ou d e p ro fe c ia , ou d e d o u tri­ coisa do que fazer música. A mesma
n a ? 7 O ra , a té a s c o is a s In a n im a d a s , q u e coisa acontece com a linguagem. Ela tem
e m ite m so m , s e ja fla u ta , s e ja c ít a r a , se
n ão fo r m a re m so n s d istin to s, com o se c o ­ o objetivo de ser meio de comunicação,
n h e c e rá o q u e se to c a n a fla u ta o u n a c íta r a ? e não barreira. Se as pessoas não com­
8 P o rq u e , se a tr o m b e ta d e r sonido in c e rto , preendem a língua que é usada, você
q u em se p r e p a r a r á p a r a a b a ta lh a ? 9 A ssim não se comunica com elas. O problema
ta m b é m v ó s, se c o m a lín g u a n ã o p ro n u n ­
de falar em línguas é, em parte, que ela
c ia rd e s p a la v r a s b e m In telig ív eis, com o
se e n te n d e rá o q u e se d iz? p o rq u e e s ta re is não comunica nada aos outros. Falar em
com o q u e fa la n d o a o a r . 10 H á , p o r e x e m ­ línguas a uma pessoa que não pode en­
plo, ta n ta s e sp é c ie s d e v o zes no m u n d o , e tendê-las é como pessoas que falam idio­
n e n h u m a d e la s se m sig n ific a ç ã o . 11 Se, pois, mas diferentes falando umas com as ou­
eu n ão so u b e r o sen tid o d a voz, s e r e i e s ­
tr a n g e iro p a r a a q u e le q u e fa la , e o q u e fa la tras. O que Paulo quer esclarecer é que
s e r á e s tra n g e iro p a r a m im . 12 A ssim t a m ­ os coríntios, já que estão desejosos de
b é m v ó s, j á q u e e s ta is d esejo so s d e dons dons espirituais, devem desejar ardente­
e s p iritu a is , p ro c u r a i a b u n d a r n e le s p a r a a mente os dons espirituais que sejam me­
e d ific a ç ã o d a ig r e ja .
lhores para a edificação da Igreja. Falar
Paulo não despreza o falar em línguas. em línguas não se enquadra nessa cate­
Pelo contrário, ele crê que esse hábito goria. A profecia sim. O profeta traz
pode nutrir, alimentar, a devoção par­ uma mensagem de Deus para o povo.
ticular. Mas ele quer que os coríntios O que fala em línguas declara uma men­
profetizem mais do que deseja que eles sagem de si mesmo a Deus (cf. v. 2,14,
falem em línguas, porque a profecia faz 16,17).
uma contribuição para o enriquecimento
13 P o r isso , o q u e f a la e m lín g u a , o re
espiritual dos outros. p a r a q u e a p o s s a I n te r p r e ta r . 14 P o rq u e se
E agora, irmãos (Paulo usa a palavra e u o r a r e m lín g u a , o m e u e sp írito o ra , sim ,
“irmãos” muito mais em I Coríntios m a s o m e u e n te n d im e n to fic a in fru tífe ro .
do que em qualquer outra de suas cartas 15 Q ue fa z e r, p o is? O ra re i co m o e sp írito ,
— e fala aqui diretamente a eles), como m a s ta m b é m o r a r e i c o m o e n te n d im e n to ;
c a n ta re i co m o e sp írito , m a s ta m b é m c a n ­
serei capaz de lhes dar conselhos espi­ ta r e i co m o e n te n d im e n to . 16 D e o u tr a m a ­
rituais, se eu chegar a vocês falando em n e ira , se tu b e n d is s e re s co m o e sp írito ,
línguas que não podem entender? A úni­ com o d ir á o a m é m so b re a tu a a ç ã o de
ca maneira pela qual Paulo poderia aju­ g ra ç a s a q u e le q u e o c u p a o lu g a r d e in d o u to ,
v isto q u e n ã o s a b e o q u e d iz e s? 17 P o rq u e
dá-los, na sua compreensão espiritual, re a lm e n te tu d á s b e m a s g r a ç a s , m a s o
seria levando-lhes uma mensagem que o u tro n ã o é e d ifica d o . 18 D ou g r a ç a s a D eu s,
eles pudessem compreender. Eles pode­ q u e falo e m lín g u a s m a is do q u e v ó s todos.
riam aprender de uma revelação, men­ 19 T o d a v ia, n a ig r e ja e u a n te s q u e ro f a la r
sagem dada por Deus (Rom. 2:5; 16:25; cinco p a la v r a s co m o m e u e n te n d im e n to ,
p a r a q u e p o ss a ta m b é m in s tr u ir os o u tro s,
II Cor. 12:1,7; Gál. 2:2). A ciência do q u e d ez m il p a la v r a s e m lín g u a .
(conhecimento) teria valor como a eluci­
dação do significado da vida cristã. A referência feita por Paulo a orar
A profecia é valiosa porque expressa a em língua provavelmente significa a mes­
vontade de Deus através do poder do ma coisa do que falar em línguas. Ele
Espírito Santo. A doutrina é útil porque também fala do espírito e do entendi­
esclarece e aplica o significado do evan­ mento. Entendimento é uma referência à
gelho da atividade de Deus em Jesus faculdade de discriminação inteligente,
Cristo. ou mente. Abrange o pensamento. A pa­
A flauta e a citara precisam emitir lavra espírito é mais difícil de se enten­
sons distintos, e a trombeta precisa dar der, porque Paulo a usa de várias manei­
um toque claro; senão, falharão em seus ras, em vários contextos. No verso 14,
objetivos. Fazer barulho não é a mesma espírito, provavelmente, significa o ho­
mem sob a influência do Espírito Santo. são crentes, mas estão interessadas na
Não é provável que esta expressão seja fé cristã, e freqüentam os cultos de ado­
sinônimo de “Espírito Santo” , como se ração. O que as separa dos incrédulos
dá a entender na tradução NEB (ingle­ (v. 24) é o seu interesse ativo na fé.
sa). (Interessante a este respeito é a A palavra grega traduzida como indouto
interpretação do “Novo Testamento Vi­ é idiotes, e pode significar pessoa pri­
vo” .) Dificilmente Paulo estaria referin- vada, um leigo em contraste com os sa­
do-se ao Espírito Santo como “meu es­ cerdotes, ou um cidadão particular, e
pírito” (Rom. 8:26). não um magistrado.
Outra boa interpretação, contudo, é a Falar em línguas pode constituir em
sugestão de Calvino, de que meu espírito genuína ação de graças para a pessoa que
é sinônimo de “dom espiritual” . Em­ exercita o dom, mas as outras pessoas
bora seja tentador considerar meu espí­ não são edificadas por essa expressão do
rito como sinônimo de “minhas emo­ dom. É do próprio caráter da adoração
ções” , não há em outra parte qualquer na igreja, que juntos todos os adoradores
indicação de que Paulo use espírito dessa sejam capazes de dizer “amém” .
forma. Em 2:14-16, ele parece usar espí­ Paulo declara abruptamente que ele
rito e mente como sinônimos. ultrapassava todos os coríntios na capa­
Orar em língua é exercitar um dom cidade de falar em línguas. Porém ha­
do Espírito, mas significa orar sem en­ via claras prioridades na igreja. Falar em
volver a mente. O uso dos dons espiri­ línguas não possuía, praticamente, ne­
tuais deve envolver a inteligência. De nhum valor para a igreja como um todo.
fato, toda a personalidade deve se envol­ O versículo 19 deve remover qualquer
ver no exercício dos dons espirituais, dúvida concernente ao valor excepcional­
especialmente na oração. mente limitado de falar em línguas. Cin­
As declarações feitas por Paulo no co palavras, número redondo, faladas
verso 15 são uma repreensão áspera con­ com inteligência, para ajudar os outros a
tra os que condenam o uso do entendi­ crescerem no entendimento espiritual,
mento na adoração cristã. A religião são preferíveis a dez mil palavras em lín­
emocional, não informada pelo enten­ gua. A caracterização apropriada da ava­
dimento, precisa ser rejeitada. A mente liação feita por Paulo, acerca de falar em
e a emoção se unem no serviço de Deus línguas na igreja, é chamá-la de devas­
(cf. Col. 3:16). tadora. O seu valor é pessoal; ela não
Se você ora com o espírito, mas sem a contribui em nada para os outros. A ma­
mente, os que são “de fora” não podem neira de Paulo usar a frase para que
dizer amém (“assim seja”) à oração, e possa também instruir os outros indica
desta forma fazê-la deles. Era costume os que a adoração deve estimular não ape­
judeus se unirem para dizer “ amém” no nas as emoções, mas também a mente.
fim das orações (cf. I Crôn. 16:36; Sal. 20 Ir m ã o s , n ã o s e ja is m e n in o s no e n te n d i­
106:48). Visto que os de fora não podem m e n to ; n a m a líc ia , co n tu d o , se d e c r ia n c i­
entender o que a pessoa que está falando n h a s, m a s a d u lto s no e n te n d im e n to . 21 E s tá
em línguas está dizendo, como pode en­ e sc rito n a l e i : P o r h o m e n s d e o u tr a s lín g u a s
e p o r lá b io s d e e s tra n g e iro s fa la re i a e ste
dossá-lo? p o v o ; e n e m a s s im m e o u v irã o , diz o S en h o r.
Não está claro a quem Paulo está-se re­ 22 D e m od o q u e a s lín g u a s sã o u m sin a l,
ferindo no verso 16, quando fala em aque­ n ão p a r a os c re n te s , m a s p a r a os in c r é d u ­
le que ocupa o lugar de indouto. Ele pode lo s; a p ro fe c ia , p o ré m , n ã o é sin a l p a r a os
estar falando de alguma pessoa que não in c ré d u lo s, m a s p a r a os c re n te s . 23 Se, pois,
to d a a ig r e ja se re u n ir n u m m e s m o lu g a r , e
tenha o dom de falar em línguas ou de todos f a la re m e m lín g u a s, e e n tr a r e m in ­
interpretá-las. Contudo, nos versos 23 a doutos ou in c ré d u lo s, n ã o d irã o p o rv e n tu ra
25, os indoutos são pessoas que ainda não que e s ta is lo u co s? 24 M a s, se todos p ro f e ti­
z a re m , e a lg u m In créd u lo ou in d o u to e n tr a r , “Não dirão eles que vocês estão loucos?”
p o r to d o s é convencido, p o r to d o s é ju lg a d o ; (TEV). Outra interpretação possível é
25 os se g re d o s do se u c o ra ç ã o se to r n a m que os indoutos e incrédulos chegarão à
m a n ife sto s; e a s s im , p ro s tra n d o -se so b re o
se u ro s to , a d o r a r á a D e u s, d e c la ra n d o q u e conclusão de que a igreja é possessa de
D eus e s t á v e rd a d e ira m e n te e n tr e vós. poderes demoníacos.
Alguns comentaristas crêem que o in­
Irmãos (apelo a vocês com base na crédulo e o indouto são usados, no verso
fraternidade de Deus, que é um dom de 24, para referir-se a uma pessoa só, e não
Deus para nós), não sejam infantis e a duas. Mas é provável que Paulo conti­
incompreensivos em sua maneira de pen­ nue a referir-se a duas pessoas diferentes.
sar. A ênfase dada, pelos coríntios, ao Se todos profetizarem ou revelarem
falar em línguas indica que o seu enten­ alguma palavra, da parte de Deus, ba­
dimento da fé cristã é infantil e imaturo. seada no evangelho, o incrédulo ou in­
Os crentes precisam passar da imaturi­ douto será profundamente influenciado
dade para a maturidade (cf. 3:2). pelo que for dito. É claro que nem o
Na lei (cf. Rom. 3:19) é expressão incrédulo nem o indouto são crentes.
usada em sentido geral, visto que a cita­ Porém há esperanças de que, ouvindo a
ção que se segue provém de Isaías 28:11, palavra de Deus, eles serão levados à fé.
12. Há uma clara indicação de que as Primeiro, o incrédulo ou indouto é con­
pessoas não ouvirão o que se falar em vencido de pecado (cf. João 16:8). Ele vê
outras línguas. Não reagirão em fé e a si mesmo como pecador diante de
obediência, que é o que Deus deseja dos Deus. Em segundo lugar, ele é julgado.
homens. O mesmo se aplica ao falar em A sua vida interior é focalizada e son­
línguas. Os homens não reagirão em fé dada. A sua vida é examinada cuidado­
e obediência, ao ouvir algo que são in­ samente. Ele percebe que é responsável
capazes de compreender. Esta espécie de diante de Deus. Em terceiro lugar, os
enunciação não converte ninguém; deixa segredos do seu coração se tornam mani­
os que são incrédulos precisamente onde festos pela luz penetrante da verdade.
se encontram. Por outro lado, a profecia A realidade de sua vida é revelada, e ele
ajuda a suscitar e a sustentar a fé. Por­ percebe a sua necessidade espiritual.
tanto, pode-se dizer que falar em línguas Como conseqüência, o incrédulo ou in­
é para os incrédulos, porque os endure­ douto cairá com o rosto em terra, em
ce, e a profecia é para os crentes. (É im­ sinal de penitência e adoração (cf. Gên.
portante lembrar que Paulo faz uma ava­ 17:3; Luc. 5:12; Apoc. 7:11). O poder da
liação positiva de falar em línguas para a profecia para induzir uma transformação
edificação do indivíduo que possui o dom básica em sua vida é evidência da pre­
— cf. 14:4.) Através deste capítulo, Pau­ sença de Deus entre os que se reúnem
lo enfatiza que ele tem muito pouco valor para adorar (cf. I Reis 18:39; Dan. 2:47;
para qualquer outra pessoa. Barrett Is. 45:14; Zac. 8:23). O testemunho de
(p. 323) assinala que Paulo usa Isaías uma vida transformada e confessante é o
8:14 e Isaías 28:16, para demonstrar os trabalho da evangelização. E este é o
efeitos positivos e negativos possíveis do resultado da profecia, proclamação da
mesmo dom. palavra de Deus. Porém não há evange­
Se os indoutos, pessoas que ainda não lização em se falar em línguas.
são crentes, mas estão interessadas, e os
incrédulos, que não manifestaram ne­
nhum interesse profundo na fé cristã, 2) Teste de Domínio Próprio (14:26-36)
vierem a um culto de adoração e ouvirem
todos falando em línguas, chegarão à 26 Q ue fa z e r, po is, irm ã o s ? Q u ando vos
conclusão de que a igreja toda está louca. c o n g re g a is, c a d a u m de v ó s te m sa lm o , te m
d o u trin a , te m re v e la ç ã o , te m lín g u a , te m que possua o dom de profecia, pode
In te rp re ta ç ã o . F a ç a -s e tu d o p a r a e d ific a ­ trazer uma revelação da parte de Deus,
ção. 27 Se a lg u é m f a l a r e m lín g u a , fa ç a -se
Isso p o r d ois, ou q u an d o m u lto tr ê s , e c a d a
comunicada a ela pelo Espírito Santo.
u m p o r s u a vez, e h a ja u m q u e In te rp re te . Outra mais, pode falar em língua, e
28 M a s , se n ã o h o u v e r in té rp re te , e s te ja outra dará a interpretação do testemu­
c ala d o n a ig r e ja , e fa le consigo m e sm o , e nho extático. O que é de significado
c o m D eu s. 29 E fa le m o s p ro fe ta s , d o is ou fundamental é que cada parte da adora­
tr ê s , e os o u tro s ju lg u e m . 30 M a s, se a o u tro ,
que e s tiv e r se n ta d o , fo r re v e la d a a lg u m a ção pública precisa ser para edificação de
coisa, ca le -se o p rim e iro . 31 F o rq u e todos toda a igreja.
p o d e re is p ro fe tiz a r, c a d a u m p o r s u a v e z ; Não deve haver mais do que três pes­
p a r a q u e to d o s a p re n d a m , e to d o s s e ja m soas — duas de preferência — a que se
con so lad o s; 32 p o is os e sp írito s dos p ro fe ­
ta s e s tã o su je ito s a o s p ro f e ta s ; 33 p o rq u e
permitir falar em língua, em um culto de
D eus n ã o é D eu s d e co nfu são , m a s , s im , de adoração, e elas devem falar uma de
paz. cada vez, ou cada um a por sua vez.
C om o e m to d a s a s ig r e ja s d o s sa n to s, Elas não podem interromperem-se umas
34 a s m u lh e re s e s te ja m c a la d a s n a s ig r e ja s ; às outras. Uma pessoa interpretará para
p o rq u e lh e s n ão é p e rm itid o f a l a r ; m a s e s ­
te ja m su b m is s a s com o ta m b é m o rd e n a a todos os que falarem em línguas. A não
lei. 35 E , Be q u e re m a p re n d e r a lg u m a co isa, ser que esteja presente pelo menos um
p e rg u n te m e m c a s a a se u s p ró p rio s m a r i­ intérprete, todos os que falam em línguas
d o s; p o rq u e é in d eco ro so p a r a a m u lh e r o precisam guardar silêncio na igreja. To­
f a la r n a ig r e ja . 36 P o rv e n tu ra foi d e v ó s que
p a rtiu a p a la v r a d e D e u s? Ou v eio e la so ­
davia, têm liberdade para falar consigo
m e n te p a r a v ó s? mesmos e com Deus. Isto pode ser feito
particularmente, em casa, mais tarde,
Os versículos 26 a 36 tratam do esforço visto que falar em línguas acarreta enun­
de Paulo para colocar alguma ordem no ciação audível. Paulo não tolera tu­
culto de adoração, manter expontanei- multo vocal na adoração a Deus, nem
dade na assembléia e reafirmar a priori­ mesmo quando se diz que ele é divina­
dade da edificação para toda a igreja. mente inspirado.
Quando a igreja se reúne para adorar, Não mais do que dois ou três profetas
qualquer um dos membros pode ter algo têm permissão para falar em um culto, e
com que contribuir. Não havia hierar­ eles devem submeter as suas palavras
quia ministerial em Corinto. Paulo ja ­ ao escrutínio de toda a congregação (ou
mais menciona quaisquer oficiais da dos outros profetas). Será que Paulo
igreja que dirigissem a vida da igreja, sabia da existência — ele devia saber —
como é costume hoje em dia. Ele fala a de profetas falsos e verdadeiros (cf. Mat.
toda a igreja. Mas o que Paulo discute, 7:15; Mar. 13:22; At. 13:6; I João 4:1)?
nestes versículos, não constitui, necessa­ Se uma pessoa está dando uma profe­
riamente, uma ordem de culto. cia e o Espírito Santo comunica alguma
Uma pessoa pode contribuir com um coisa por revelação a outrem, a pessoa
salmo, seja um salmo do Velho Testa­ que está dando a profecia precisa silen­
mento, seja um hino de composição cris­ ciar imediatamente e permitir que o se­
tã. Pode ser um destes ou ambos (cf. Col. gundo orador prossiga. As revelações di­
3:16; Ef. 5:19). Há evidências de hinos vinas não são intermináveis. As pessoas
cristãos engastados no texto do Novo que estão falando em línguas não podem
Testamento (cf. Eg. 5:14; I Tim. 3:16; se interromper umas às outras, mas os
Apoc. 5:9,10; 15:3,4). O cântico fazia profetas estão livres para interromper os
parte da adoração judaica e helénica. outros profetas. Estas instruções são no­
Outra pessoa pode trazer uma doutri­ táveis. É certo que o falar em línguas
na, um ensinamento que ilumine o signi­ perdeu algo do seu caráter sensacional
ficado da dedicação cristã. Ainda outra, e tumultuoso por causa destas restrições,
e a profecia tornou-se muito mais clara, baseados em I Timóteo 2:11,12, e podem
menos prolixa e mais compreensiva. ter-se originado como glosa marginal.
Paulo sugere que todos os coríntios Eles crêem que ele pode ter sido inserido
tinham a liberdade de profetizar — pre­ no texto. Certamente, pelo menos na
sumindo que eles haviam recebido o dom superfície, há uma contradição entre 11:
da profecia. Deus faz profetas; o homem 5,13 e os versos 33 a 35. É possível que
não. A liberdade de expressão é dada Paulo tenha mudado de idéia a respeito
onde o dom é dado. Este versículo pre­ de permitir que as mulheres falassem na
cisa significar que o dom da profecia é igreja, em algum tempo entre o em que
exercido por mais do que um grupo de escreveu os capítulos 11 e 14. Ê impro­
seletos (cf. 12:28,29). Pelo menos Paulo vável que ele esteja se referindo, em 11:5,
está dizendo que a profecia se relaciona a pequenos grupos, e, em 14:34,35, a
com uma mensagem que Deus dá, e toda a igreja. Porém é mais provável que
Deus tem a liberdade de escolher os seus 11:5,13, se refira a uma coisa, e 14:34,35
mensageiros como quer. Conseqüente­ a algo diferente.
mente, qualquer crente pode receber o Está claro que Paulo permitia que as
dom da profecia (cf. At. 2:16-18). Deus mulheres falassem na igreja, de acordo
tem a liberdade de dar, a pessoas dife­ com 11:5,13. Elas tinham liberdade para
rentes, mensagens diferentes, em oca­ se empenharem em profetizar, porque é
siões diferentes. É muito improvável, to­ Deus que dá a sua palavra profética em
davia, que todos os membros da igreja revelação, a quem ele escolher (cf. At.
em Corinto exercessem o dom da pro­ 21:9). Portanto, os homens não podem
fecia. reduzir a liberdade do Espírito Santo.
Pois os espíritos dos profetas estão Por outro lado, as mulheres não tinham
siyeitos aos profetas. Os homens redi­ permissão para se envolverem em con­
midos que empregam os seus dons de versas e perguntas indevidas e violarem
profecia, estão se controlando o tempo as regras de decoro social daquela era,
todo. Não ficam fora de si, em êxtase. que encorajavam uma presença quieta e
Ninguém pode dizer que “ficou fora de sem ostentação das mulheres em reu­
si” por causa de sua experiência espiri­ niões públicas. Paulo simplesmente está
tual. As pessoas não recebem tanta reli­ seguindo o costume judeu e romano,
gião que percam os sentidos! Porque amplamente aceito, na sua insistência
Deus não é Deus de confusão, mas, sim, para que as mulheres não interviessem,
de paz. O Deus de Jesus Cristo não de moto próprio na adoração pública.
inspira confusão na adoração. Se várias Portanto, não há razão convincente para
pessoas falarem em línguas ao mesmo considerar os versos 34 e 35 uma7interpo­
tempo e várias outras profetizarem em lação ou em posição deslocada.
uníssono, o resultado é desordem, e isto A subordinação das mulheres, como é
não provém de Deus. indicado aqui, de que a lei fala, é talvez
A expressão como em todas as igrejas uma referência a Gênesis 3:16. Paulo
dos santos, na última parte do verso 33, recomenda que elas não façam perguntas
tem uma redação um tanto desajeitada, em público, mas na privacidade dos seus
quando, devido à pontuação, faz-se dela lares. Porque é indecoroso para a mulher
uma parte ou uma introdução do verso falar na igreja, porque as mulheres que
34, como aqui e na maioria das tradu­ davam valor ao seu caráter não falavam
ções modernas. A decisão a respeito des­ em público nem no mundo romano nem
te assunto não é fácil. no judaico. (Para um esclarecimento da
Alguns manuscritos colocam os versos maneira de Paulo entender o lugar da
34 e 35 depois do verso 40. Alguns eru­ mulher na igreja, veja o comentário sobre
ditos sustentam que estes versículos estão 11:2-16).
No verso 36, Paulo faz perguntas di­ de como a ordem servem à igreja, em seu
retas: A palavra de Deus, a revelação no culto de adoração. Na igreja, faça-se
evangelho, se originou com vocês, corín- tudo decentemente e com ordem. A ex­
tios? São vocês os que decidem, portan­ citação e correria da liberdade entusiás­
to, se algumas mulheres devem ter per­ tica na adoração não pode degenerar em
missão para falar na igreja? São vocês a tumulto fanfarrão, em excitamento com
única igreja que recebeu a interpretação estardalhaço ou em estravagância emo­
correta do lugar das mulheres na assem­ cional.
bléia pública? Aqui há uma repreensão
bem áspera, que prevê uma resposta
mansa e apropriada. IX. O Problema da Ressurreição
de Cristo e dos Crentes
(15:1-58)
3) Teste de Decência e Ordem (14:37-40)
A importância do capítulo 15 de I Co­
37 Se a lg u é m se c o n sid e ra p ro fe ta , ou
ríntios dificilmente pode ser exagerada-
e s p iritu a l, re c o n h e ç a q u e a s c o isa s q u e vos
e screv o sã o m a n d a m e n to s d o S enhor. mente enfatizada. Ele contém o mais
38 M as, se a lg u é m ig n o ra isto , e le é ig n o r a ­ antigo relato extenso, escrito sobre a res­
do. 39 P o rta n to , irm ã o s , p ro c u ra i co m zelo surreição de Jesus, e o mais antigo tes­
o p ro fe tiz a r, e n ã o p ro ib a is o f a l a r e m lín ­ temunho cristão preservado, concernente
g u as. 40 M as fa ç a -se tu d o d e c e n te m e n te e
com o rd e m .
à ressurreição dos crentes.
A despeito dos brilhantes esforços dos
Paulo está convencido de que as pes­ eruditos, continua impossível certificar-
soas que dizem ter dons espirituais de­ se de que Paulo está se opondo a um só
vem reconhecer que o que ele escreve é ponto de vista unificado, em sua extensa
mandamento do Senhor. Ele não quer exposição no capítulo 15. Mais prova­
dizer que está citando palavras de Jesus, velmente, há várias opiniões na igreja
mas que está interpretando corretamente em Corinto em relação à ressurreição.
a mente de Cristo. As pessoas que não Não está claro se os coríntios pediram
estiverem dispostas a aceitar o seu jul­ informações a respeito da ressurreição ou
gamento não devem ser reconhecidas se Paulo as deu voluntariamente.
pela igreja. É possível que ele esteja É importante tratarmos de alguns as­
dizendo que tais pessoas não serão reco­ suntos importantes, antes de mergulhar­
nhecidas por Deus, no dia do julgamento mos no texto. Em I Coríntios, está Paulo
(cf. I João 4:6). se opondo ao ponto de vista grego que se
A profecia deve ser encorajada; falar apegava à imortalidade da alma e rejei­
em línguas deve ser tolerado. É óbvio que tava a ressurreição do corpo (cf. At. 17:
Paulo vê uma dramática diferença entre 18-32)? Estará ele argumentando contra
o valor dos dois dons. As línguas não são os coríntios que não se opunham à res­
proibidas, se um intérprete estiver pre­ surreição de Cristo, mas se levantavam
sente. contra a ressurreição dos mortos? Es­
É erro presumir que Paulo está pres­ tará ele resistindo aos que negavam a
crevendo uma ordem de culto para todas ressurreição de Cristo, mas criam no
as suas igrejas e para sempre, quando Cristo exaltado e que ascendeu ao céu?
fez estas observações aos coríntios. Ele Estará ele refutando os coríntios que
está tentando regular o uso do dom de criam que a ressurreição já acontecera
línguas, e não introduzi-lo. Ele está pro­ para eles (cf. II Tim. 2:18)?
curando criar ordem e serenidade no Será que Paulo expressa o testemunho
culto de adoração, sem eliminar uma vi­ da ressurreição, em I Coríntios 15:3-11
brante expontaneidade. Tanto a liberda­ a fim de provar a ressurreição de Cristo,
ou para reafirmar a morte de Cristo — por que se preocupar com uma futura
para aqueles que enfatizavam exagera- ressurreição do corpo? A ressurreição do
damente apenas a sua ressurreição? De­ corpo certamente não fazia parte dos
clara ele a realidade da ressurreição, em seus antecedentes, em termos de pensa­
parte, relatando o que algumas testemu­ mento recebido no mundo grego.
nhas ainda vivas podiam confirmar, sem Paulo evita qualquer ligação com a
fazer nenhum esforço para provar a res­ ressurreição da carne ou com uma imor­
surreição? O entendimento de Paulo talidade natural da alma. É apropriado
afasta-se da prioridade da fé, quando ele salientar-se que imortalidade da alma é
afirma a existência de testemunho his­ assunto encontrável em obras judaicas,
tórico? Em que sentido a ressurreição de como o Livro da Sabedoria (3:4) e IV M a-
Cristo é um evento histórico. cabeus 9:21,22. O próprio Paulo fala da
As respostas para estas perguntas im­ imortalidade em 15:54. Mas a ressurrei­
portantes não são fáceis. Porém algu­ ção permanece como ponto de vista ju ­
mas observações são necessárias, a res­ daico generalizado. E Paulo, em 15:54,
peito da exposição que aparece neste não considera a imortalidade como qui­
comentário. A exegese baseia-se no pres­ nhão do homem por sua própria nature­
suposto de que alguns coríntios negavam za, mas pela graça de Deus. Ele crê que
tanto a ressurreição do corpo como a o próprio Jesus foi levantado dentre os
ressurreição como acontecimento futuro. mortos por um ato de Deus. Tanto a fé
Em resposta a eles, Paulo insiste na quanto a história estão no cerne da cren­
ressurreição passada de Jesus, em um ça cristã na ressurreição de Cristo.
corpo transformado (novo), e na ressur­ Tanto a cruz de Cristo quanto a sua
reição futura dos crentes, em corpos ressurreição estão inseparavelmente liga­
transformados (novos). das, na fé de Paulo e de todos os fiéis,
Provavelmente, a mais ferrenha oposi­ que colocam a sua confiança “ naquele
ção a Paulo, neste assunto, provinha dos que dos mortos ressuscitou a Jesus nosso
coríntios gnósticos, que davam ênfase Senhor; o qual foi entregue por causa das
exagerada à sua existência presente, nossas transgressões, e ressuscitado para
exaltada e ressurrecta, e rejeitavam uma a nossa justificação” (Rom. 4 :24b,25).
ressurreição corporal futura para si mes­ No capítulo 15, Paulo trata diretamen­
mos ou para outros crentes. A referên­ te apenas da ressurreição dos crentes.
cia em II Timóteo 2:17,18 pode repre­ As perguntas referentes à relação deste
sentar a posição deles. Os oponentes de capítulo com as passagens acerca da res­
Paulo, em Corinto, parecem ter espiri­ surreição, nos quatro Evangelhos e em
tualizado a ressurreição. Pelo menos eles II Coríntios 5:1-10, que alguns estudio­
não entendiam a importância da ressur­ sos crêem contenham uma alteração da
reição do corpo, embora devessem crer perspectiva de Paulo, precisam ser es­
muito em uma vida após a morte. tudadas nos comentários a essas passa­
As religiões de mistério, que eram bem gens.
conhecidas em Corinto, garantiam a
imortalidade mediante a iniciação na sei­ 1. A Tradição Histórica (15:1-11)
ta. Desde o tempo de Platão (c. 427-347 1 O ra , e u v o s le m b ro , irm ã o s , o ev an g e lh o
a.C.), os gregos criam na imortalidade que j á vos a n u n c ie i; o q u a l ta m b é m r e c e ­
da alma e na mortalidade do corpo. b e ste s, e no q u a l p e rs e v e ra is , 2 p elo q u a l
Sêneca apresenta o mesmo ponto de vis­ ta m b é m sois sa lv o s, se é q u e o c o n se rv a is
ta. Os coríntios não pareciam estar muito ta l com o vo-lo a n u n c ie i; se n ã o é q u e c re s te s
e m vão.
preocupados com qualquer ressurreição 3 P o rq u e p rim e ira m e n te vos e n tre g u e i o
do corpo no futuro. Eles já estavam que ta m b é m r e c e b i: q u e C risto m o r re u p o r
vivendo numa exaltada vida ressurrecta nossos p e c a d o s, se g u n d o a s E s c r itu r a s ;
4 que foi s e p u lta d o ; q ue foi re s su sc ita d o ao que têm o caráter de uma confissão de fé.
te rc e iro d ia , segu n d o a s E s c r itu r a s ; 5 que A palavra grega hoti, que significa
a p a re c e u a C efas, e d ep o is a o s d o ze; 6 d e ­
pois a p a re c e u a m a is d e q u in h en to s irm ã o s “que” , é usada quatro vezes nos versos
d u m a v ez, d o s q u a is v iv e a in d a a m a io r 3 a 5: ela constitui o equivalente às as­
p a rte , m a s a lg u n s j á d o rm ira m ; 7 dep o is pas, e sugere uma fórmula. Há também
a p a re c e u a T iag o , e n tã o a todos os a p ó sto ­ numerosas expressões idiomáticas, que
lo s; 8 e p o r d e rr a d e iro d e todos a p a re c e u
ta m b é m a m im , com o a u m a b o rtiv o . 9 P o is
indicam que Paulo está usando palavras
e u sou o m e n o r dos ap ó sto lo s, q u e n e m sou que não usa ordinariamente (cf. J. Jere­
digno de s e r c h a m a d o ap ó sto lo , p o rq u e p e r ­ mias, p. 101-103). Em suma, o verso 3b
seg u i a ig r e ja d e D eu s. 10 M a s p e la g r a ç a parece ser o início de uma citação, e as
d e D eus sou o q u e so u ; e a s u a g r a ç a p a r a palavras aos doze, no verso 5, parecem
com igo n ão foi v ã , a n te s tr a b a lh e i m u ito
m a is do q u e todos e l e s ; to d a v ia , n ã o e u , m a s ser o fim da citação. A palavra hoti não
a g ra ç a d e D eu s qu e e s tá com igo. 11 E n tã o , é usada no verso 6. Não está claro se essa
ou s e ja e u ou s e ja m e le s , a s s im p re g a m o s e fórmula confessional vai além do verso 5.
a s s im c re s te s . Algumas pessoas sugerem que ela se es­
tende até o fim do verso 7. Outras crêem
Paulo começa lembrando o que os que ela pára no verso 4.
irmãos de Corinto já sabiam, porque fora Nesta passagem (v. 3-5), Paulo relem­
ele quem pregara para eles (cf. Gál. bra o conteúdo do evangelho, que fora
1:11). Ele recorda os termos em que pregado pelos cristãos antes de Paulo
pregara o evangelho: a atividade de Deus ter-se convertido, e que ele pregara aos
na história, mediante Jesus Cristo, para a coríntios (cf. v. 11). A fé no poder sal­
salvação dos homens. Os coríntios rece­ vador da morte e ressurreição de Jesus
beram o evangelho, e sobre ele a sua fé não se originou com Paulo. Era mais
permanecia firme (cf. Rom. 5:2). Por ele antiga do que a sua própria conversão.
foram eles salvos (“sendo salvos”). Paulo Quando ensinou-se a Paulo o conteúdo
usa o tempo presente do verbo que mos­ da confissão que ele cita? Em Damasco
tra ação contínua. Ele fala de salvação (cf. At. 9:19; Gál. 11:17)? Em Jerusalém
tanto presente (cf. 1:18) como futura (cf. Gál. 1:18)?
(cf. 3:15). Se os coríntios perseveram Antes de Paulo ter-se tomado cristão,
no que ele pregou, inclusive na sua ma­ a igreja proclamava o evangelho, as boas-
neira de entender a ressurreição, e a novas da atividade salvadora de Deus em
construção, no grego, indica que ele pre­ Jesus Cristo através de sua morte e res­
sume isto, eles podem ter a certeza da surreição, e a interpretava como o cum­
salvação. Se os coríntios rejeitarem a primento da Escritura. Os versículos 3b a
mensagem, terão crido em vão. O assun­ 5 constituem confissão de fé, que prova­
to é tão grave quanto a própria salvação. velmente, se originou entre os cristãos dé
As expressões vos entreguei e recebi Jerusalém, que falavam aramaico, e re­
constituem em conhecida fórmula oficial cebeu a sua formulação presente nos cír­
judaica, usada para referir-se à recepção culos cristãos do mundo de fala grega.
e transmissão de tradições, paradosis (A vigorosa defesa, feita por Paulo, de
(cf. o comentário sobre 11:23). Primeira­ sua pregação, em Gálatas 1:11,12, não
mente significa “que é da maior impor­ significa que ele não aprendera nada dos
tância” . Paulo empresta a maior impor­ outros cristãos, acerca da vida, morte e
tância à verdade que ele recebeu, relativa ressurreição de Jesus, mas que a fonte
à ressurreição de Jesus. O que ele rece­ de sua interpretação dessas realidades
beu estava arraigado na história, e não era uma revelação de Jesus Cristo.)
era simplesmente uma idéia. A confissão (v. 3b-5) é composta de
O que Paulo recebeu da igreja primi­ duas linhas longas e paralelas, cada uma
tiva é expresso em uma série de frases, das quais seguida por uma linha curta.
A palavra hoti (que) introduz cada uma citado ou com segundo as Escrituras.
das linhas. A primeira linha é: que Cris­ A expressão ao terceiro dia difere um
to morreu por nossos pecados, segundo pouco do que se encontra nos Evangelhos
as Escrituras (cf. At. 2:23,24; 3:15; (Mat. 12:40; Mar. 8:31; 9:31). Oséias
4:10; 5:30). A morte de Cristo tem signi­ 6:2 é a passagem do Velho Testamento
ficado central e salvador para a fé (cf. mais provável a que pode se referir esta
Gál. 1:4; Rom. 5:6; 8:3; I Tess. 5:10). declaração (cf. Sal. 16:10; Is. 25:8).
A sua morte trata dos pecados do ho­ O terceiro dia é uma lembrança de que,
mem, e, desta forma, afeta as relações do em determinado dia do calendário crono­
homem com um Deus santo (cf. Rom. lógico do homem, Deus ressuscitou Jesus
3:21-26; II Cor. 5:18-21; Gál. 3:12-14). dentre os mortos. Em um certo dia Jesus
Paulo não indica que passagens da morreu; a sua vida terrena chegou ao
Escritura são aludidas em sua declaração fim. Em um certo dia ele foi ressuscita­
segundo as Escrituras. Talvez ele esteja do; tornou-se vivo outra vez.
se referindo a Deuteronômio 21:23 e Ele apareceu a Cefas (cf. Mar. 16:7;
Isaías 53:5-12. Esta expressão pode ser Luc. 24; 34; João 21:1-23). Paulo não faz
usada não em referência a versículos quaisquer menções a aparecimentos às
específicos, mas em uma conexão ampla mulheres (cf. João 20:1-18). Simão Pe­
com as promessas de Deus, no Velho dro, que negou Jesus (cf. Mar. 14:66-
Testamento, de redimir o seu povo. 72), e que não pôde fugir de sua devo­
A apologética cristã do Novo Testamento ção a ele, mesmo depois de tê-lo negado
tem um lugar para a discussão do cum­ (cf. João 20:1-10), é um dos três indiví­
primento da profecia. duos, mencionados por Paulo, a quem o
Que foi sepultado é uma maneira de Senhor ressuscitado apareceu. Os outros
expressar o fato de que Jesus realmente dois são Tiago e o próprio Paulo.
morreu. As únicas pessoas que são se­ Os doze é um nome especial para os
pultadas são as que estão mortas, como doze discípulos de Jesus (cf. Mat. 28:16-
são lembrados de maneira indireta os 20; Luc. 8:1; 22:3; João 20:19-24). Na
que duvidam da realidade da morte de verdade, ele nem sempre apareceu aos
Jesus. O sepultamento é uma forma de doze, visto que nem sempre todos esta­
aceitar o caráter final da morte (cf. Mar. vam juntos; seguramente, Judas não es­
15:42-47). teve presente em nenhuma dessas oca­
Que foi ressuscitado é uma afirma­ siões (cf. Mat. 27:3-5; João 20:19-23).
ção central do Novo Testamento. Os ver­ Paulo nunca fala dos “doze” em outro
bos morreu e sepultado estão no tempo lugar. Provavelmente, a fórmula confes­
aoristo, no texto grego, e se referem sional que Paulo havia recebido dos dis­
simplesmente ao que aconteceu. Mas o cípulos cristãos primitivos continha essa
verbo foi ressuscitado está no pretérito expressão. E, provavelmente, a confissão
perfeito no texto grego, e significa que termina no verso 5.
Jesus foi ressuscitado e permaneceu res Ele apareceu a mais de quinhentos ir­
suscitado dentre os mortos. (O pretérito mãos duma vez, declara Paulo. Nenhu­
perfeito encontra-se também em 15:12, ma aparição como essa é mencionada em
13,14,16,17 e 20.) Paulo crê firmemente qualquer parte nos Evangelhos. Alguns
na importância da ressurreição (cf. Rom. eruditos identificam esta aparição, sem
4:25; Gál. 1:1; II Cor. 1:9). Freqüente­ base adequada, com a multidão que re­
mente, ele fala da ressurreição como ato cebeu o dom do Espírito Santo no dia de
de Deus (cf. 15:15; 6:14; Gál. 1:1; I Tess. Pentecostes (cf. At. 2:1-41). É notável
1:10; Col. 2:12). que Paulo fala da aparição a mais de
Não podemos saber com certeza se ao quinhentas pessoas como tendo ocorrido
terceiro dia deve ser lido com foi ressus­ só duma vez. Claramente, o fato de que
a maior parte deles vive ainda indica que lo menciona três aparecimentos a indi­
eles eram capazes de testificar da reali­ víduos, e três aparecimentos a grupos.
dade da ressurreição de Cristo. Ele apa­ Há um total de onze aparecimentos men­
receu a eles. cionados nos Evangelhos e em I Corín­
Alguns deles, obviamente, depois de tios. Paulo menciona apenas seis deles.
mais dé vinte anos, já dormiram. Paulo Ele não faz referência à ascensão (At.
usa esta belíssima expressão para referir- 1:9). Não houve mais aparições do Se­
se à morte, tanto em I Coríntios como nhor ressurrecto depois da sua aparição a
em I Tessalonicenses (4:13-15). Precisa Paulo.
ser lembrado que Paulo não considera a Paulo se considera como um abortivo.
morte como amiga do homem, porém Infelizmente, não há explicação satisfa­
como sua inimiga (15:26). O sono pode tória para o que ele está dizendo. A difi­
ser considerado como um eufemismo culdade é indicada pela variedade de
para referir-se à morte somente em lem­ traduções da palavra grega envolvida:
brar que Cristo venceu a morte. O sono ektromati. Esta palavra significa “abor­
que é morte é amigo apenas do homem to” ou “prematuro” ou “nascimento
redimido. fora de tempo” . Em que sentido Paulo
Provavelmente, o Tiago a quem Cristo pode estar-se referindo a si mesmo por
apareceu era seu irmão, que assumiu um um desses termos? Talvez os seus adver­
papel muito proeminente na igreja pri­ sários, acumulando zombaria contra ele,
mitiva, de acordo com o livro de Atos (cf. se referissem a ele causticamente com
15:13-21). Nenhum aparecimento a Tia­ essa palavra (cf. II Cor. 10:10). Ele era
go é relatado nos Evangelhos canônicos, um excêntrico física e teologicamente —
mas essa aparição é contada no Evange­ assim devem ter eles dito. Possivelmente,
lho apócrifo aos Hebreus. ele se refere à sua súbita experiência de
A quem Paulo se refere quando fala de conversão.
aparecimento a todos os apóstolos é obs­ Paulo coloca a aparição do Senhor
curo. É possível, mas improvável que ele ressurrecto a ele na mesma base das
esteja se referindo novamente aos doze aparições a todos os outros. Não há dife­
apóstolos como um grupo. Mais prova­ rença na realidade ao usar o verbo apa­
velmente ele tem em mente um grupo receu, que é usado nos versículos 5 a 8?
diferente, não dos doze (cf. o comentário Podemos apenas responder que o Senhor
referente a apóstolos, em 1:1; 9:1,2; ressuscitado, na verdade, apareceu. Não
12:28). Não há maneira se determinar é uma questão de fé entre aqueles a quem
quantas pessoâs Paulo designa como ele apareceu, mas a realidade do apare­
apóstolos. cimento em si. O Senhor ressurrecto
Por derradeiro em importância ou cro­ apareceu; não foi alucinação nem visão
nologicamente? Provavelmente, Paulo subjetiva.
quer dizer derradeiro cronologicamente, Paulo admite francamente que ele ou-
visto que começa usando um advérbio trora perseguira os cristãos (cf. Gál.
grego: eita (“então” , que a IBB tradu­ 1:13). Só a graça de Deus pode explicar
ziu como “ depois”) no verso 5b, e o usa o seu apostolado. Quando pondera acer­
até o verso 7. O fato de Paulo usar ca da graça de Deus, em sua vida, ele
“então” pode significar que ele está está pronto para dar a si mesmo a quali­
apresentando as aparições do Senhor res­ ficação de um homem inteiramente in­
suscitado em ordem cronológica. Mas é digno, porque perseguiu a igreja de
impossível saber em que ordem crono­ Deus. O que o toma digno é a graça de
lógica todas as aparições do Senhor res­ Deus, que fez dele um apóstolo, e não o
suscitado mencionadas nos Evangelhos e julgamento dos homens que zombam
neste capítulo devem ser colocadas. Pau­ dele (cf. II Cor. 11:5; 12:11), e nem a
inferioridade dos seus trabalhos. Paulo nece ressuscitado”. Nos nove versículos
deu a sua vida a Deus, que operou com seguintes, Paulo usa a mesma palavra no
grande poder através dele (cf. II Cor, pretérito perfeito em seis vezes diferen­
11:23-27). Visto que Paulo perseguira os tes.) Se os coríntios sabem o que signi­
cristãos em Jerusalém (cf. At. 8:1; 9:1,2; fica crer em Cristo como ressurrecto den­
22:4,5) e estava a caminho de Damasco, tre os mortos, é impossível dizer que os
para persegui-los, quando foi convertido homens não são ressuscitados dentre os
(At. 9:1,2), parece que Paulo usou o mortos.
termo igreja de Deus em sentido univer­ Por outro lado, se não há ressurreição
sal (cf. Gál. 1:13). de mortos, se tal coisa simplesmente não
A mensagem apostólica é a mesma, pode ocorrer, então, obviamente, Cristo
seja quem for que a pregue. Um após­ não foi ressuscitado. A pregação apostó­
tolo não é a fonte do evangelho, mas seu lica centraliza-se na cruz e na ressur­
canal. O importante é que o evangelho reição. Se de fato Cristo não foi ressus­
fala da atividade de Deus na morte e citado dentre os mortos, essa pregação
ressurreição de Cristo para a salvação é vã e crer nela é coisa vã. Sem uma
dos homens. Esse evangelho apostólico é ressurreição, estamos sem um evangelho.
o evangelho que Paulo pregou quando Por quê? Porque a pregação não possuirá
estava em Corinto, e é o que ele pregou a nota de vitória sobre a derrota (15:55),
por onde andou. Esse evangelho é o evan­ ou a certeza de redenção através da
gelho em que os coríntios creram. _ morte de Cristo (15:17), ou a justificação
do senhorio de Cristo (Rom. 1:14), ou
2. A Importância da Ressurreição a certeza da aproximação da salvação
(15:12-19) messiânica (15:20). A ressurreição de
12 O ra , se se p re g a q ue C risto foi re s s u s c i­ Cristo nos assegura que a sua morte
ta d o d e n tre os m o rto s, com o d iz em a lg u n s significa a nossa vida. Recebemos o po­
e n tre v ó s qu e n ã o h á re s s u rre iç ã o d e m o r ­ der do Espírito de Deus através da fé,
to s? 13 M a s se n ã o h á re s s u rre iç ã o d e m o r­
tos, ta m b é m C risto n ão foi re s su sc ita d o . para confirmar, para nós, a certeza de
14 E , se C risto n ã o foi re s s u s c ita d o , logo é nossa salvação. Negar a ressurreição é
v ã a n o ss a p re g a ç ã o , e ta m b é m é v ã a rejeitar “o poder de Deus para salvação
v o ssa fé. 15 E a s s im so m o s ta m b é m c o n si­ de todo aquele que crê” (Rom. 1:16).
d e ra d o s com o fa ls a s te s te m u n h a s d e D eu s,
pois te s tific a m o s de D eu s que e le re s s u s c i­
Se, na verdade, os mortos não são
to u a C risto , ao q u a l, p o ré m , n ão re s s u s c i­ ressuscitados, segue-se que Paulo e os
tou, se , n a v e rd a d e , os m o rto s n ã o sã o r e s ­ outros apóstolos estavam representando
su sc ita d o s. 16 P o rq u e , se os m o rto s n ão são Deus de maneira errada. Eram falsos
re s su sc ita d o s, ta m b é m C risto n ã o foi r e s ­ profetas, porque pregavam que de fato
su sc ita d o . 17 E , se C risto n ão foi re s s u s c ita ­
do, é v ã a v o ssa fé, e a in d a e s ta is nos v ossos Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos.
p ecad o s. 18 L ogo, ta m b é m os q u e d o rm ira m Os coríntios firmavam sua fé na morte e
e m C risto e s tã o p e rd id o s, 19 Se é só p a r a ressurreição de Cristo; desta forma, eles
e s ta v id a qu e e sp e ra m o s e m C risto , so m o s tinham a certeza da salvação do pecado.
de todos os h o m en s os m a is d ig n o s d e l á ­
g rim a .
Porém, sem dúvida, se Cristo não ressus­
citou dentre os mortos, não há nenhum
Alguns dos coríntios estavam dizendo remédio eficiente que esteja disponível
que não há ressurreição de mortos. Tal para tratar do pecado, “ainda estais nos
afirmação dá um golpe mortal no cora­ vossos pecados” ; vocês ainda não têm
ção da fé cristã (cf. Rom. 10:9). O evan­ uma resposta para o seu maior problema
gelho declara que Cristo foi ressuscitado nesta vida presente: os seus pecados.
dentre os mortos. (O verbo ressuscitado Não apenas isto, mas também não há
está no pretérito perfeito, no grego, e resposta para a maior preocupação
significa “ ele foi ressuscitado e perma­ quanto a uma vida futura; não há ne­
nhuma vida significativa porvir. Os que e s tá q u e se e x c e tu a a q u e le q u e lh e su je ito u
dormiram em Cristo estão perdidos. Se a to d a s a s c o isa s. 28 E , q u a n d o to d a s a s c o isa s
fé cristã não propicia um presente sig­ lh e e s tiv e re m s u je ita s , e n tã o ta m b é m o p r ó ­
p rio F ilh o se s u je ita r á à q u e le q u e to d a s a s
nificativo e um futuro significativo, ela c o isas lh e su je ito u , p a r a q u e D eu s s e ja tudo
não tinha verdadeiro significado para os e m todos.
coríntios e não o tem para ninguém mais.
Ninguém pode dormir “em Cristo” , se o Os crentes não precisam se desesperar,
próprio Cristo pereceu. Mas o que é ver­ porque Cristo foi ressuscitado dentre os
dade é exatamente o oposto: a morte é mortos. Paulo freqüentemente usa a pa­
um sono significativo para os que estão lavra mas para introduzir importantes
em Cristo. A morte é o maior inimigo do afirmações (cf. Rom. 3:21; 6:22). Cristo
homem (v. 26), mas em Cristo o seu é chamado de primícias, o primeiro feixe
aguilhão é tirado (v. 55). da colheita, que é oferecido no Templo
O significado do verso 19, versículo (cf. Lev. 23:10-14). As primícias da co­
difícil de se traduzir, é: “Se a nossa lheita são uma promessa de que mais
esperança em Cristo é boa apenas para colheita está por vir. A ressurreição de
esta vida, e nada mais, então somos mais Cristo é uma garantia e uma segurança
dignos de piedade do que qualquer outra da nossa (cf. Rom. 8:23; 11:16). No verso
pessoa em todo o mundo” (TEV). O que 20, pode existir uma alusão à oferta do
faz com que o crente seja tão digno de primeiro feixe da colheita no dia imedia­
piedade — se Cristo não foi ressuscitado to ao sábado posterior à Festa da Páscoa,
dentre os mortos — é o fato de que ele isto é, no dia em que Jesus ressuscitou
emprega toda a sua dedicação à convic­ dentre os mortos. Num sentido genuíno,
ção de que terá um bendito futuro com o fim dos tempos começou quando Cristo
Cristo, mas de fato não terá absoluta­ foi ressuscitado dentre os mortos. As pes­
mente nada. Ele é “o mártir de uma soas a quem Jesus ressuscitou dentre os
ilusão” (Héring). Ele precisa ter fé que mortos, de acordo com os Evangelhos,
possui um futuro. Ele não tem fé a fim de tiveram que morrer de novo. Não foi
assegurar um futuro; ele tem fé que lhe assim com o Senhor ressurrecto, que
assegura um futuro. Sem a ressurreição inaugurou uma nova humanidade.
de Cristo não há fé com um futuro. Nos versos 21 e 22, Paulo apresenta o
tema do primeiro e do último Adão (cf.
3. A Ordem dos Acontecimentos v. 45-49; Rom. 5:12-21). O primeiro
(15:20-28) Adão introduziu a morte para a humani­
20 M as n a re a lid a d e C risto foi re s s u s c ita ­ dade, por causa do seu pecado, como
do d e n tre os m o rto s, sen d o e le a s p rim íc ia s resultado de que todos os homens vivem
dos q ue d o rm e m . 21 P o rq u e , a s s im com o em um mundo egocêntrico e pecaminoso,
p o r u m h o m e m veio a m o rte , ta m b é m p o r tendo a morte como seu quinhão (cf.
u m h o m e m veio a re s s u rre iç ã o d o s m o rto s.
22 P o is com o e m A dão todos m o r re m , do Rom. 5:12,19). O pecado de Adão acar­
m esm o m odo e m C risto todos s e rã o v iv ific a ­ retou a morte para todos os homens
dos. 23 C a d a u m , p o ré m , n a s u a o rd e m : (cf. Gên. 3:17-19), porque todos os ho­
C risto a s p rim íc ia s , dep o is os q u e sã o d e mens, de acordo com o princípio de
C risto, n a s u a v in d a . 24 E n tã o v ir á o fim ,
guando e le e n tr e g a r o re in o a D eu s o P a i,
solidariedade corporativa, em certo sen­
q uando h o u v e r d e stru íd o todo do m ín io , e tido, estão em Adão.
toda a a u to rid a d e e todo p o d e r. 25 P o is é O último Adão, Cristo, não leva os
n e c e ssá rio q u e e le re in e a té q u e h a ja p o sto homens à morte, mas lhes oferece a vida
todos os in im ig o s d eb aix o d e se u s p é s. através de Sua ressurreição. Através da
36 O ra , o ú ltim o in im ig o a s e r d e stru íd o é
i m o rte . 27 P o is se lê : T o d a s a s c o isa s fé, todos os homens podem estar em
sujeitou d eb aix o d e se u s p é s. M a s, q u an d o Cristo, e, desta forma, ser membros do
diz: T o d as a s co isa s lh e e stã o s u je ita s , c la ro seu corpo (cf. 12:27; R o^. 6:3-11).
É-lhes dada uma nova existência (II Cor. em tela deva ser traduzida como “o fim” ,
5:17). Os que estão em Cristo agora serão como se faz em quase todas as traduções.
ressuscitados, no futuro, para estar com Então, depois que Cristo voltar, virá o
Cristo. fim desta era, ou a consumação dos
Paulo, na verdade, não quer dizer que séculos. Desde a sua vitória sobre os
em Cristo todos os homens serão vivi­ poderes malignos na cruz, Cristo, o Se­
ficados. Ele fala, em outro lugar de suas nhor ressurrecto, reina à direita do Pai
cartas, a respeito de julgamento severo (cf. Fil. 2:9-11). Ele entregará o reino
(cf. II Cor. 5:10; Rom. 1:18; 2:6-8). a Deus o Pai, depois de ter destruído os
Ele quer dizer que todos os que estão em vários poderes demoníacos, humanos e
Cristo serão vivificados. Ele não faz ne­ não-humanos, que se opõem ao governo
nhuma promessa de uma bendita ressur­ de Deus (veja o comentário sobre 2:8;
reição, aqui, para os que não estão em cf. Rom. 8:38; Col. 1:16). Pois é necessá­
Cristo. Cristo inaugura uma humanida­ rio que Cristo continue reinando até que
de, da mesma forma como Adão inaugu­ tenha colocado em sujeição tudo o que se
rou uma. Como o último Adão, Cristo é opõe a ele (cf. Sal. 110:1).
uma figura histórica, escatológica. Ele Alguns estudiosos (Lietzmann, Weiss,
inaugura uma nova humanidade, no Schweitzer e Craig) argumentam que os
tempo do fim. O Cristo ressurrecto, em versos 23 a 25 indicam que Paulo crê
certo sentido, inaugura uma nova huma­ que, por ocasião da Sua Vinda, Cristo
nidade, os remidos, os que nele estão, reinará por um período de tempo não
mediante a fé. especificado com todos os que nele estão.
Este reinado supostamente corresponde­
Cristo já foi ressuscitado dentre os rá ao milênio mencionado em Apocalipse
mortos. Por ocasião de sua parousia ou 20:4-6. Mas não é surpreendente que
segunda vinda, os que são de Cristo Paulo tenha “camuflado” a sua crença
receberão a vida ou existência da ressur­ em um reino intermediário (Zwischen-
reição. Isto incluirá todos os crentes que reich) de maneira tão eficiente? Ele não
estiverem vivos por ocasião de sua vinda, dá nem sequer indícios de qualquer en­
e todos os crentes que morreram ante­ sinamento como esse em I e II Tessalo-
riormente (cf. I Tess. 4:13-17). A pala­ nicenses. A única maneira de se desco­
vra ordem pode ser traduzida como brir um milênio, em 15:23-25, é colocá-
“grau” . Isto significa que há três graus: lo ali. Os comentaristas, entre eles
Cristo (que não é realmente um grupo), Kuemmel, Héring e Barrett, rejeitam,
os crentes que morreram, e os crentes com razão, o ponto de vista de que Paulo
que estiverem vivos na sua vinda (por ensina um reino milenar, nesta passa­
ocasião de sua vinda) (cf. Mat. 24:27; gem. Colossenses 1:13, que fala do “rei­
I Tess. 2:19; 4:15). Paulo espera para no do seu Filho amado” , usa essa ex­
logo a volta de Cristo, mas não estabele­ pressão para referir-se ao reino atual de
ce nenhuma data exata (cf. I Tess. 4:15; Cristo, e não a um reino milenar.
Fil. 4:5). O último inimigo a ser destruído é a
Alguns estudiosos (Lietzmann e Weiss) morte. A morte é inimiga do homem,
crêem que Paulo se refere a três ordens porque destrói a vida terrena dos ho­
ou graus, e que estes são: Cristo, os cren­ mens, reclamando tanto os bons como os
tes e os não-crentes. Estes estudiosos maus e triunfando, por fim, sobre toda
traduzem a palavra telos, no verso 24, a obra dos homens. Ela é a constante
como “o restante” , em vez de como rememoração da mortalidade dos mais
“o fim” : “Então virá o restante dos ho­ nobres e dos mais belos. Ela destruiu
mens, os incrédulos” (cf. Apoc. 20:12, Cristo — assim pensavam os homens —
13). Mas é bem provável que a palavra mas Deus o ressuscitou como vitorioso
sobre a morte, e, desta forma, é o subju- Algumas pessoas, talvez alguns dos
gador da morte. Cristo desfará a morte, próprios coríntios, criam que deviam se
ressuscitando os que pertencem a Cristo, batizar pelos mortos. Uma opinião a
depois que a morte tentou fazê-los dela respeito disto é que alguns cristãos se
(cf. Apoc. 20:13,14). batizavam por entes queridos que ha­
Paulo usa o Salmo 8 para demonstrar viam falecido sem se terem tornado cris­
que Deus sujeitou todas as coisas a Cris­ tãos. Criam que, submetendo-se ao ba­
to. Ele, através de quem todas as coisas tismo, eles podiam assegurar a participa­
são criadas, terá toda a criação sujeita ção dos falecidos na ressurreição. Essa
a ele (cf. Col. 1:16). Indubitavelmente, prática, assevera Paulo, é uma indicação
Deus, o Pai, é exceção. Quando Cristo de que os que a adotavam criam na res­
tiver completado a sua missão e obtido surreição dos mortos. Não há nenhuma
vitória sobre todos os poderes que se lhe indicação, contudo, de que Paulo apro­
opõem, estando sujeita a ele toda a or­ vasse esse costume. Ele simplesmente a
dem criada, então o próprio Filho se usa como ilustração referente à res­
sujeitará a Deus, o Pai, a fim de que surreição.
Deus, autor da criação e da redenção, Outra interpretação aceitável do verso
possa receber a adoração de todos e de 29 é que os cristãos que eram batizados
tudo (cf. Rom. 11:36; Sal. 110; Mar. submetiam-se ao batismo em lugar de
12:36; note a tradução de outras versões outros que haviam morrido antes de te­
dos versos 27 e 28). rem sido batizados. Esta seria uma for­
O versículo 28 não indica qualquer ma de afirmar a confiança de que Deus
espécie de absorção mística, na entidade os iria ressuscitar dentre os mortos, em­
divina, ou qualquer perda de personali­ bora eles não tivessem sido batizados.
dade. Pelo contrário, Deus será visto Muitas interpretações deste versículo têm
como Deus, e os remidos reconhecerão sido apresentadas.18
a sua glória. A sujeição do Filho não será Por que está Paulo disposto a expor a
uma sujeição de natureza, mas uma sub­ sua vida a perigos a toda hora, se não
missão no cumprimento de uma missão. existe ressurreição dos mortos? Toda a
A sua sujeição não é nada mais do que a sua vida é dedicada ao serviço dos ou­
continuação da amorosa obediência ale­ tros, revelada em Jesus. Morro todos os
gremente prestada ao Pai (cf. Heb. 5:8). dias! “Por onde vamos carregamos a
A sujeição do Filho é a sujeição de serviço morte conosco em nosso corpo, a morte
amoroso. que Jesus sofreu, para que neste corpo
também a vida possa revelar-se, a vida
4. Batismo Pelos Mortos (15:29-34) que Jesus vive” (II Cor. 4:10, NEB;
cf. II Cor. 11:28). Por que Paulo se
29 D e o u tr a m a n e ira , q u e fa r ã o os q u e se entregava a tal maneira de entender a
b a tiz a m pelos m o rto s? Se a b so lu ta m e n te
os m o rto s n ão re s s u s c ita m , p o r q u e e n tã o se vida, e a tal medida de devoção, se não
b a tiz a m p o r e le s ? 30 X! p o r q u e n o s e x p o m o s havia ressurreição dos mortos? Como
ta m b é m nó s a p e rig o s a to d a h o ra ? 31 E u podia Paulo passar pela espécie de luta
vos d e c la ro , irm ã o s , p e la g ló ria q u e d e vós que enfrentara em Êfeso — combati com
tenho e m C risto J e s u s no sso S en h o r, q u e
m o rro to d o s os d ia s . 32 Se, co m o h o m e m ,
as feras — se não cresse na ressurreição?
c o m b a ti e m É fe so co m a s fe r a s , q u e m e Era contrário à lei romana requerer-se
a p ro v e ita isso ? Se os m o rto s n ã o sã o r e s s u s ­ que um cidadão romano como Paulo
c itad o s, co m a m o s e b e b a m o s , p o rq u e a m a ­ lutasse contra feras propriamente ditas,
n h ã m o rre re m o s . 33 N ão vos e n g a n e is. As
m á s c o m p a n h ia s c o rro m p e m os b o n s c o stu ­ 18 Veja Bernard M. Foschini, Those Who Are Baptized
m e s. 34 A co rd ai p a r a a ju s tiç a e n ã o p e q u e is for the Dead, 1 Corinthians 15:29. An Exegetical
m a i s ; p o rq u e a lg u n s a in d a n ã o tê m c o n h e c i­ Historical Dissertation (Worcester: Heffeman Press,
m en to d e D e u s ; digo-o p a r a v e rg o n h a v o ssa . 1951).
em uma arena. Esta figura de linguagem p o d er. 44 S em eia-se c o rp o a n im a l, é r e s s u s ­
citad o c o rp o e s p iritu a l. Se h á co rp o a n im a l,
provavelmente se refira a conflitos e tri­ h á ta m b é m c o rp o e s p iritu a l. 45 A ssim t a m ­
bulações em que Paulo quase perdeu a b é m e s t á e s c r ito : O p rim e iro h o m e m , A dão,
sua vida (cf. II Cor. 11:23-28; At. to rnou-se a lm a v iv e n te ; o ú ltim o A dão, e s ­
19:23-40). p írito v iv ific a n te . 46 M a s n ã o é p rim e iro o
Se os mortos não são ressuscitados, e sp iritu a l, se n ã o o a n im a l; d ep o is o e s p iri­
tu a l. 47 O p rim e iro h o m e m , sen d o d a te r r a ,
seria razoável viver sem quaisquer res­ é te r re n o ; o seg u n d o h o m e m é do c é u .
trições morais (cf. Is. 22:13). Porém, de 48 Q ual o te rre n o , ta is ta m b é m os te r r e n o s ;
fato, os coríntios não podiam ser enga­ e, q u a l o c e le stia l, ta is ta m b é m os c e le s ­
nados — não vos enganeis por pessoas tia is . 49 E , a s s im com o tro u x e m o s a im a ­
g e m do te rre n o , tr a re m o s ta m b é m a im a ­
que não crêem na ressurreição e não g e m do c e le stia l. 50 M a s digo is to , irm ã o s ,
vivem com preocupações morais. A cita­ q ue c a rn e e sa n g u e n ã o p o d e m h e r d a r o
ção (v. 33) é um conhecido provérbio de rein o d e D e u s; n e m a c o rru p ç ã o h e r d a a
“Thais” , comédia perdida do poeta gre­ in c o rru p çã o .
go Menander. Modere sua mente e pare
de pecar, é a injunção de Paulo; vocês, Alguém perguntará a respeito do cor­
coríntios, precisam evitar a companhia po da ressurreição. Os judeus debatiam
de pessoas que não têm fé nem moral esta interrogação: “Em que forma os que
(cf. Rom. 1:18-25). Pessoas que não en­ vivem viverão no Teu dia?” (II Baruque
tendem que a ressurreição é essencial 49:2). E os gregos criam não na res­
para a correta compreensão da vida não surreição do corpo, mas na imortalidade
têm conhecimento de Deus. Pessoas que da alma. Insensato! declara Paulo, a
dizem que a ressurreição é desnecessá­ única maneira pela qual uma semente
ria realmente são ignorantes a respeito que você planta pode viver é morrendo
de Deus. De fato, Paulo diz: Detesto ter (cf. João 12:24). A morte precede a vida.
que dizer isto, porque é uma reflexão Paulo não está falando como um botâ­
acerca de vocês: alguns de vocês sim­ nico moderno, que conhece o poder de
plesmente não conhecem a Deus. germinação que existe em uma semente.
Ele quer dizer que uma semente é en­
5. O Corpo da Ressurreição (15:35-50)
terrada, e algo diferente, uma planta,
35 M as a lg u é m d ir á : C om o r e s s u s c ita m provém dela. Um corpo humano é enter­
os m o rto s ? e co m q ue q u a lid a d e d e co rp o rado, e na ressurreição ele se torna um
v ê m ? 36 In s e n sa to I o q u e tu s e m e ia s n ã o é outro tipo de corpo. Paulo não está en­
v ivificado , se p rim e iro n ão m o r r e r . 37 E , fatizando a continuidade, neste ponto,
q uan do se m e ia s , n ão s e m e a is o co rp o q u e
h á de n a s c e r , m a s o sim p le s g rã o , com o o de mas a diferença. Você planta uma coisa,
trig o , ou d e o u tr a q u a lq u e r se m e n te . 38 M a s e outra surge. O corpo que é sepultado é,
D eus lh e d á u m corpo com o lh e a p ro u v e , no máximo, o simples grão, quando com­
e a c a d a u m a d a s se m e n te s u m c o rp o p r ó ­ parado com o corpo que ressuscita dentre
p rio . 39 N em to d a c a rn e é u m a m e s m a
c a rn e ; m a s u m a é a c a rn e d o s h o m e n s,
os mortos. O corpo que há de nascer
o u tra a c a rn e dos a n im a is , o u tra a d a s a v e s é a obra de Deus, que dá o corpo que ele
e o u tr a a dos p e ix e s . 40 T a m b é m h á c o rp o s escolheu a cada uma das sementes. Por­
c e le ste s e c o rp o s te r r e s tr e s , m a s u m a é a tanto, não deveínos presumir que há con­
g ló ria d o s c e le ste s e o u tr a a dos te r r e s tr e s . tinuidade entré o corpo físico e o corpo
41 U m a é a g ló ria do sol, o u tr a a g ló ria d a
lu a e o u tr a a g ló ria d a s e s tr e la s ; p o rq u e da ressurreiçãp, como hoje em dia sabe­
u m a e s tr e la d ife re e m g ló ria d e o u tr a e s t r e ­ mos que existe entre uma semente que é
la . plantada e a planta que surge dela.
42 A ssim ta m b é m é a re s s u rre iç ã o dos De fato, peus criou toda sorte de
m o rto s. S em eia-se o co rp o e m c o rru p ç ã o ,
é re s su sc ita d o e m in c o rru p ç ã o . 43 S em eia-
criaturas;7 mas nem toda came é uma
I

se e m ig n o m ín ia, é re s su sc ita d o e m g ló ria . mesma came, como perceberemos, se


S em eia-se e m fra q u e z a , é re s su sc ita d o e m olharmos ao nosso redor. Os animais,
aves e peixes têm corpos diferentes. Os lidade meramente natural, terrena, dos
corpos terrestres não são como os corpos corpos que agora possuímos. Isto se tor­
celestes, e nem todos os corpos celestes na óbvio no verso 45.
são semelhantes. Nos versos 39 e 40, O corpo que será ressuscitado será um
carne e corpos são palavras usadas como corpo espiritual. O que Paulo quer dizer
sinônimo. Os vários corpos são diferen­ com esta expressão precisa ser entendido
tes; cada um tem a sua glória ou es­ à luz do que ele quer dizer ao falar em
plendor. corpo físico, animal. Corpo espiritual
Da mesma forma que acontece com as é aquele que é vitalizado pelo Espírito,
sementes que são plantadas, assim acon­ e apropriado para estar na presença de
tece na ressurreição dos mortos. O corpo Deus na era futura. O corpo físico, na­
que é sepultado não é o mesmo corpo que tural, animal, é apropriado para esta era
ressuscita, porque ocorre uma transfor­ presente; o corpo espiritual será apro­
mação. Paulo apresenta quatro antíteses, priado para a era futura. O corpo animal
para mostrar a diferença entre o corpo (físico) é apropriado para esta era; o
que morre e o corpo que ressuscita dentre corpo sobrenatural (espiritual), apro­
os mortos. Primeiro, o corpo que morre é priado para a era porvir. Da mesma
semeado em corrupção, ou sujeito à de­ forma como é necessário ter um corpo
composição, porque faz parte de um físico agora, será necessário ter um corpo
mundo que é sujeito à corrupção (cf. espiritual no futuro. Paulo não ensina,
Rom. 8:21). O corpo que ressuscita é nesta passagem, que os nossos corpos
em incorrupção, livre da corrupção e atuais são feitos de “substância psíqui­
capaz de realizar a plenitude da vida ca” e que nossos corpos futuros serão de
desejada pelo Criador. “substância espiritual” . O corpo físico
Segundo, o corpo que é sepultado é pertence a todos os homens; o corpo
caracterizado por ignomínia ou humilha­ espiritual aos homens redimidos.
ção e miserabilidade, enquanto o corpo É importante observar-se que Paulo
que ressuscita é caracterizado por glória não considera corpo e alma como dois
ou esplendor (cf. Fil. 3:21). elementos conflitantes, na natureza do
Terceiro, o corpo que morre é marcado homem, como os gregos o consideravam.
por fraqueza física e espiritual, e é vítima O corpo representa o homem todo. No
da morte, enquanto o corpo que ressusci­ pensamento de Paulo, a diferença não
ta é marcado por poder ou força, porque está entre um corpo mortal e uma alma
ele será dado por Aquele que tem o poder imortal (ensinamento grego), mas entre
de ressuscitar os mortos. a pessoa não-redimida, que possui um
Quarto, o corpo que falece é um corpo corpo físicò (natural), e a pessoa redimi­
animal (físico), sujeito às limitações da da, que possuirá um corpo espiritual
criatura mortal, enquanto o corpo que (sobrenatural), por ocasião da ressurrei­
ressuscita é corpo espiritual, animado ção dos mortos.
pelo Espírito de Deus, e sobrenatural, Há, porém, uma conexão entre o corpo
porque é apropriado para a vida com que morre e o corpo que é ressuscitado,
Deus, que é Espírito. A palavra psuchi* da mesma forma como há uma conexão
kon, traduzida como animal, também entre a semente que é semeada e a planta
pode ser traduzida como “natural” . Re­ que cresce dela. Ao mesmo tempo, há
fere-se, neste versículo em particular, aos uma dramática diferença entre a semen­
nossos corpos atuais, físicos, que são te que é enterrada no solo e a planta que
animados pela “alma” (vitalidade, vida), emerge dela. Assim também acontece
com que vivemos neste mundo (cf. Gên. com o corpo físico que é sepultado e o
2:7). É um corpo físico, contendo vida. corpo espiritual que ressuscita. Há um
Este termo indica as limitações da vita­ corpo novo e diferente, mas a mesma
pessoa. O que é vital para uma pessoa criação do homem histórico, empírico,
como pessoa ressuscitará em um corpo que peca. Conseqüentemente, o homem
espiritual. Assim sendo, há continuidade ideal, divino, vem primeiro, e o homem
entre o que morre e o que ressuscita, empírico, físico, em segundo lugar. Mas
porque é a mesma pessoa que é sepul­ Paulo nega essa espéôie de ensino, quer
tada e ressuscita. Porém há deseontinui- ele o tenha aprendido de Filo ou de outra
dade, no sentido de que o mesmo corpo qualquer fonte.
físico não ressuscitará. A mesma pessoa
ressuscitará em um novo corpo, espiri­ Em contraposição a este ponto de vis­
tual. Paulo não descreve esse corpo, mas ta, Paulo afirma que o homem histórico,
o Adão que peca, vem primeiro. E o
vive na fé em que Deus dará ao corpo a
sua forma apropriada para a vida na pre­ último Adão, que se torna espírito vivifi­
sença dele (cf. I João 3:2). cante, vem em último lugar e prepara o
homem para um futuro escatológico.
A fim de esclarecer a sua posição de Paulo não faz referência a Gênesis 1:26,
que haverá um corpo imperecível e espi­ nesta passagem. Ele é sabedor do primei­
ritual, que é dádiva de Deus, Paulo se ro Adão, que intoduziu o pecado no
refere ao primeiro e ao último Adão, mundo, e do último Adão, que, tendo
tema que também deve ser estudado em ressurgido dentre os mortos, inaugura a
Romanos 5:12-21. Ele começa citando era escatológica. Há duas eras históricas,
Gênesis 2:7. E acrescenta duas palavras uma, que tem sua origem em Adão, e,
à citação, para esclarecer o seu ensina­ uma, que se origina em Cristo. De fato,
mento. São as palavras “primeiro” e Paulo ensina algures que Cristo precedeu
“Adão” . O primeiro homem, Adão, tor­ Adão, porque o mundo foi criado atra­
nou-se alma vivente, uma pessoa. O úl­ vés de Cristo, que é preexistente (8:6;
timo Adão, Cristo, tomou-se mais do que 10:4; Col. 1:15-17). Mas, nesta passa­
alma vivente ou ser vivente. Tomou-se gem, Paulo está escrevendo sobre o papel
espírito vivificante, isto é, que outorga escatológico de Cristo, em que assegura a
vida. Ele conseguiu sê-lo ressuscitando ressurreição dos fiéis. O primeiro Adão
dentre os mortos e concedendo o Espírito conduz o homem à morte; o último Adão
Santo aos que confessam o seu senhorio o conduz à vida. Portanto, conforme
(cf. Ef. 1:13). Portanto, há decisivos Paulo insiste, contra Filo e outros que
contrastes entre o primeiro e o último pensam como este, não é primeiro o
Adão, como Romanos 5:12-21 também espiritual, senão o animal (físico). O
indica. Não está claro se Paulo está-se homem representativo, Adão, vem em
referindo à encarnação ou à ressurreição, primeiro lugar, e o homem representa­
no verso 45b, mas, provavelmente, é à tivo, Cristo, em último lugar.
ressurreição.
O primeiro homem, Adão, de acordo
Mas não é primeiro o espiritual, Cris­ com Gênesis 2:7, foi feito do pó da terra.
to, senão o animal, Adão; depois o espi­ O segundo homem, Cristo, é do céu.
ritual, Cristo. Nesta passagem, Paulo Ele é o Filho do Homem, que vem com as
parece ter em mente um ensino encontra­ nuvens do céu (cf. I Tess. 4:16; II Tess.
do nos escritos de Filo (Sobre a Criação 1:7). O homem celestial é mencionado
134; Interpretação Alegórica 1:31). Na em Daniel 7:13 e em obras apocalípticas
obra de Filo, consta o ponto de vista de não canônicas (I Enoque 46:1-6; IV Es-
que há narrativas da criação de dois dras 13:1-13). O ensino referente a um
homens diferentes. De acordo com Filo, homem primevo ou arquétipo, através do
Gênesis 1:26 apresenta a narrativa da qual veio a redenção ao mundo, tem
criação do homem ideal, o arquétipo de raízes no pensamento primitivo. A ex­
Platão, e Gênesis 2:7 é a história da pressão do céu denota o caráter essen­
cialmente celestial e sobrenatural de 6. O Mistério do Fim dos Tempos
Cristo, que virá no segundo advento e (15:51-58)
dará corpos espirituais aos santos. No
momento, Paulo não se preocupa em 51 E is a q u i v o s digo u m m is té rio : N em
enfatizar a humanidade de Cristo, mas todos d o rm ire m o s, m a s todos se re m o s
tra n s fo rm a d o s , 52 n u m m o m e n to , n u m a b r i r
as suas qualidades divinas, como faz ao e fe c h a r d e olhos, a o so m d a ú ltim a tr o m ­
empregar o tema dos dois Adãos. A terra b e ta ; p o rq u e a tr o m b e ta s o a r á , e os m o rto s
define Adão; o céu define Cristo. se rã o re s su sc ita d o s in c o rru p tív e is , e n ó s s e ­
re m o s tra n s fo rm a d o s . 53 P o rq u e é n e c e s s á ­
Adão é da terra, é terreno, destinado rio q u e is to q u e é c o rru p tív e l se re v is ta d a
a retornar ao pó, do qual foi formado. in c o rru p tib ilid a d e e q u e is to q u e é m o r ta l
A sua natureza não garante uma ressur­ s e re v is ta d a im o rta lid a d e . 54 M as, q u an d o
reição, mas apenas um túmulo. Assim, isto que é c o rru p tív e l se re v e s tir d a in c o r­
ru p tib ilid a d e , e is to q u e é m o r ta l se re v e s tir
todos os homens, que são seus filhos, d a im o rta lid a d e , e n tã o se c u m p r irá a p a la ­
estão destinados ao mesmo sepultamen- v r a q u e e s tá e s c r i t a :
to. Cristo é do céu. Ele tem o poder de T ra g a d a foi a m o rte n a v itó ria .
dar vida aos que morrem. Não um tú­ 55 O nde e s tá , ó m o rte , a tu a v itó ria ?
mulo, mas a ressurreição, pertence aos O nde e s tá , ó m o rte , o te u a g u ilh ã o ?
56 O a g u ilh ã o d a m o rte é o p e c a d o , e a fo rç a
que pertencem a ele. do p e c ad o é a le i. 57 M as g ra ç a s a D eu s q u e
Todos os homens ostentam a imagem nos d á a v itó ria p o r n o sso S e n h o r J e s u s
do terreno, ou seja, de Adão (Gên. 5:3), C risto . 58 P o rta n to , m e u s a m a d o s irm ã o s ,
se d e firm e s e c o n sta n te s, s e m p re a b u n d a n ­
cujo futuro é a morte. Os corpos de todos te s n a o b ra do S en h o r, sa b e n d o q u e o vosso
os homens são como o corpo de Adão, tra b a lh o n ão é v ã o n o Senhor.
e se decompõem. Mas as pessoas que
estão em Cristo ostentarão a imagem do Ao usar a palavra Eis aqui, Paulo
celestial, e receberão corpos espirituais, demonstra que tem algo especial a dizer
que não estarão sujeitos à corrupção. (cf. II Cor. 5:17; 6:2). Ele tem um mis­
Ostentaremos a imagem de Cristo, quan­ tério para apresentar, uma mensagem
do, no futuro, recebermos um corpo de além da compreensão humana, a respei­
ressurreição (cf. Rom. 8:29; Fil. 3:21). to do grande evento escatológico (cf.
Paulo fala com a linguagem mais clara I Cor. 2:1; Rom. 11:25; “mistério” tem
possível, a respeito do corpo da ressurrei­ uma conotação diferente em I Cor. 14:2).
ção. Carne e sangue não podem herdar Nem todos os crentes “dormirão”, ou
o reino de Deus. “Carne e sangue” é morrerão, antes da segunda vinda. Os
uma forma de se referir à humanidade, que estiverem vivos quando Cristo retor­
que vive sob as condições terrestres. Re­ nar serão transformados. Quando a
fere-se a pessoas vivas. Os corpos físicos trombeta escatológica soar (Is. 27:13;
são necessários para esta era. Mas os Joel 2:1), o crente falecido será ressusci­
corpos espirituais serão apropriados para tado incorruptível, já não sujeito à cor­
vivermos na era porvir (cf. Mar. 12:25). rupção (cf. I Tess. 4:13-17), e os que
Precisa acontecer uma transformação de estiverem vivos receberão corpos espiri­
nossos corpos, por ocasião da ressurrei­ tuais. A vida na era porvir requer uma
ção (Fil. 3:21). As pessoas que estiverem natureza incorruptível e a imortalidade.
vivas (carne e sangue), por ocasião do A palavra traduzida como imortalidade
segundo advento, serão transformadas, (athanasia) é uma palavra empregada
e as pessoas que já tiverem morrido também em obras judaicas, como a Sa­
(a corrupção) e cujos corpos estiverem bedoria de Salomão (3:4; 15:3) e IV Ma-
decompostos herdarão a incorrupção, o cabeus (14:5). Entre os gregos, ela é
corpo espiritual, que não estará sujeito à usada para falar da imortalidade da
dissolução. alma. Mas Paulo não considera o homem
imortal por natureza, mas apenas pela lé m ; 4 m a s , se v a le r a p e n a q u e e u ta m b é m
graça de Deus. O Redentor é que dá ao v á , irã o com igo.
homem um corpo espiritual, por ocasião
da ressurreição. Em quatro cartas, Paulo menciona
Paulo usa a linguagem de Isaías 25:8 uma coleta ou oferta que devia ser tira­
e Oséias 13:14, para fazer soar a triun­ da entre as igrejas que ele estabelecera
fante certeza de que o poder da morte e ser enviada para os pobres de Jerusa­
é desfeito, e o aguilhão da morte, tirado. lém (aqui e em Gál. 2:10; Rom. 15:25-
Por três vezes ele proclama a morte da 29; II Cor. 8-9). É um assunto de grande
morte. O pecado propicia morte (cf. preocupação para Paulo, como o indica o
Rom. 5:12,13). Ele atinge o homem e o extenso texto que ele escreve a respeito
desfaz através da lei (cf. Rom. 7:7-25). em II Coríntios 9-10. A palavra quanto
O homem é escravo da lei, do pecado provavelmente indica que os coríntios
e da morte. Mas há vitória para os que haviam-no consultado a respeito (cf. 7:1;
estão em Cristo, que é vitorioso sobre o 8 :1; 12:1).
pecdo e a morte (Rom. 6: 5-14; 8:39). De acordo com Gálatas 2:9,10, Paulo
Portanto, graças a Deus; Cristo suplan­ concordou e de fato queria ajudar os
tou a morte! pobres de Jerusalém. Não dá nenhuma
Um tão glorioso evangelho da ressur­ indicação de que ele concordara em man­
reição leva Paulo a exortar os fiéis, como dar uma oferta porque reconhecia a pri­
amados irmãos, que são conclamados mazia da igreja em Jerusalém. Da mes­
a serem firmes e constantes na dedicação ma forma, não há nenhuma evidência de
ao Deus que ressuscita os mortos. A sua que ele adaptara o sistema judaico de
devoção significa estarem ocupados em uma taxa pessoal anual, que era reque­
viver uma vida cristã, lembrando, en­ rida de todos os judeus do sexo mas­
quanto labutam, que o seu trabalho no culino de vinte anos de idade ou mais,
Senhor não pode ser perdido. para sustentar o Templo de Jerusalém.
Provavelmente, as várias pressões sofri­
X. Exortações, Assuntos Pessoais das pelos empobrecidos cristãos de Jeru­
e Bênção Finais (16:1-24) salém haviam tornado agudas as necessi­
dades, que eles passaram a ter, de assis­
tência financeira. E Paulo certamente
0 capítulo 16 trata de vários proble­
gostaria que fossem suavizadas quais­
mas, mas nenhum deles de natureza teo­
quer suspeitas que eles tivessem a res­
lógica premente. Paulo escreve primeira­
peito dele e de sua obra entre os gentios.
mente a respeito da coleta para os cris­
A oferta era uma excelente maneira de
tãos pobres de Jerusalém (v. 1-4); em se­
demonstrar a unidade da igreja. Eviden­
guida, conta os seus planos de viagem
temente, o projeto de levantar o dinheiro
(v. 5-12); por fim, estende-se em exor­
teve sucesso, porque em Romanos 15:25-
tações, saudações e uma bênção
(v. 13-24). 31, escrito depois de I Coríntios, o pró­
prio Paulo planeja levar, as contribui­
1. Coleta Para os Santos (16:1-4) ções reunidas na Macedônia e Acaia,
para Jerusalém, na companhia de outros
1 O ra , q u a n to à c o le ta p a r a os sa n to s,
fazei v ó s ta m b é m o m e s m o q u e o rd e n e i irmãos, e espera que os seus esforços
à s ig r e ja s d a G a lá c ia . 2 N o p rim e iro d ia sejam bem recebidos.
d a s e m a n a c a d a u m d e v ó s p o n h a d e p a r te A admoestação do apóstolo é pessoal e
o q ue p u d e r, co n fo rm e tiv e r p ro s p e ra d o , direta: Espero que vocês façam o que eu
g u ard an d o -o , p a r a q u e se n ã o f a ç a m c o le ­
ta s q u a n d o e u c h e g a r. 3 E , q u an d o tiv e r instruí que as igrejas da Galácia fizes­
ch eg ad o , m a n d a r e i os q u e p o r c a r t a a p r o ­ sem: formar o hábito de colocar de lado
v a rd e s p a r a le v a r a v o ss a d á d iv a a J e r u s a ­ uma quantia proporcional dos seus re-
cursos, cada domingo, e guardá-la até que ele não foi imediatamente de Éfeso.
que eu chegue. Dessa forma, não preci­ A visita de Paulo a Corinto precisa ser
saremos fazer muita força para levantá- estudada especialmente em um comentá­
la quando eu chegar aí. Vocês a irão rio a II Coríntios (veja também a "Intro­
guardando sistematicamente no primeiro dução a I Coríntios).
dia da semana (cf. Apoc. 1:10). As de­ Paulo está escrevendo de Éfeso, onde
clarações cuidadosas de Paulo a respeito quer permanecer até o Pentecostes, por­
dos mensageiros aprovados é uma indi­ que uma porta grande e eficaz se me
cação de que ele não queria vir a ser abriu. Ele usa a palavra porta para des­
acusado de malversação de fundos (cf. 11 crever uma oportunidade evangelística
Cor. 8: 18-21; At. 20:4). excepcional (II Cor. 2:12; Col. 4:3). O
Podemos observar que, embora a exor­ fato de que havia muitos adversários foi
tação de Paulo, no verso 2, se referisse outra razão para ele permanecer em Éfe­
particularmente a uma forma prática so. Nesta observação de Paulo encontra­
de levantar fundos para ajudar pessoas mos algo da resistência que fez dele um
necessitadas e expressar comunhão cristã grande apóstolo. Ele permaneceu por
— e isso deve ser levado em conta — causa dos adversários; ele não saiu por
esta exortação pode ser aplicada, apro­ causa deles.
priadamente, ao exercício de mordomia Timóteo estava sendo enviado a Corin­
cristã fiel e à contribuição cristã como to, de acordo com 4:17 (cf. At. 19:22),
ato de adoração. onde Paulo se refere a ele como “meu
filho amado, e fiel no Senhor” . Paulo o
2. Planos de Viagem (16:5-12) associa com a elaboração de I Corín­
5 I r e i, p o ré m , te r convosco d ep o is d e te r tios (1:1). E recomenda os coríntios que
p a ss a d o p e la M ac e d ô n ia , p o is te n h o d e p a s ­ se lembrem de que Timóteo trabalha na
s a r p e la M ac e d ô n ia ; 6 e ta lv e z d e m o re c o n ­ obra do Senhor (cf. 4:17; Fil. 2:19-21)
vosco a lg u m te m p o , ou m e s m o p a s s e o in ­ e que Paulo quer muito que ele volte
v ern o , p a r a q ue m e e n c a m in h e is p a r a onde
q u e r q u e e u fo r. 7 P o is n ã o q u e ro v er-v o s para estar com ele. Por que Paulo é tão
d e sta v e z a p e n a s d e p a s s a g e m , a n te s e s ­ solícito, não se sabe, exceto que o que
p ero f ic a r convosco a lg u m te m p o , se o S e­ conhecemos a respeito do caráter da igre­
n h o r o p e rm itir. 8 F ic a r e i, p o ré m , e m É feso ja em Corinto é suficiente para simpati­
a té o P e n te c o s te s ; 9 p o rq u e u m a p o rta g r a n ­
d e e e fic a z se m e a b riu ; e h á m u ito s a d v e r ­
zarmos com a solicitação de Paulo.
sá rio s. Quem são os irmãos, não se sabe. Esse
10 O ra , se T im ó teo fo r, v e d e q u e e s te ja termo pode incluir Erasto (At. 19:22) ou
se m te m o r e n tr e v ó s; p o rq u e tr a b a lh a n a as pessoas mencionadas no verso 15 deste
o b ra do S en h o r, com o e u ta m b é m . 11 P o r ­ capítulo.
ta n to , n in g u é m o d e s p re z e ; m a s en c a m i-
nhai-o e m p a z , p a r a q u e v e n h a t e r com igo, É bem claro que Apoio e Paulo tra­
pois o e sp e ro com os ir m ã o s . 12 Q u an to ao tavam-se amigavelmente. Apoio ficou
irm ã o A poio, roguei-lhe m u ito q u e fosse com afastado de Corinto, para ajudar a afas­
os irm ã o s te r co n v o sco ; m a s d e m o d o a lg u m tar qualquer turbação (cf. 3:1-9).
q uis i r a g o ra ; ir á , p o ré m , q u a n d o se lh e
o fe re ç a b o a o casião .
3. Exortações, Saudações e Bênção
Paulo escreve, nos versos 5 á 7, que (16:13-24)
deseja fazer uma visita sem pressa a 13 V ig iai, e s ta i firm e s n a fé, p o rta i-v o s
Corinto. (De acordo com Atos 19:21 e v a ro n ilm e n te , se d e fo rte s. 14 T o d as a s v o s­
20:1-3, ele de fato visitou igrejas da s a s o b ra s s e ja m fe ita s e m a m o r.
Macedônia, algum tempo depois de es­ IS A g o ra v o s ro g o , ir m ã o s — p ois sa b e is
que a fa m ília d e E s té f a n a s é a s p rim íc ia s
crever I Coríntios, e foi até Corinto, onde d a A ca ia , e q u e se te m d ed ic a d o a o m in is ­
permaneceu durante três meses.) Mas té rio dos sa n to s — 16 q u e ta m b é m v o s s u ­
II Coríntios 1:16 dá a impressão de je ite is a o s ta is , e a todo a q u e le q u e a u x ilia
n a o b ra e tr a b a lh a . 17 R eg o zijo -m e co m a não incluía Corinto. Atenas estava na
v in d a d e E s té f a n a s , de F o rtu n a to e d e A cai- Acaia, e o ministério de Paulo nessa
co; p o rq u e e s te s s u p r ira m o q u e d a v o ssa
p a rte m e fa lta v a . 18 P o rq u e r e c r e a r a m o cidade precedera o seu ministério em Co­
m eu e sp írito , a s s im com o o vo sso . R ec o n h e ­ rinto. Houve convertidos em Atenas (cf.
cei, p o is, a o s ta is . At. 17:34). Paulo recomenda, aos corín­
19 As ig r e ja s d a Á sia vos s a ú d a m . Saú- tios, que aceitem e incrementem a li­
d am -vos a fe tu o s a m e n te no S en h o r Á q ü iia e
P ris c a , co m a ig r e ja q ue e s tá e m s u a c a s a .
derança desses homens de confiança, que
20 T odos os ir m ã o s vos s a ú d a m . S au d ai-v o s tinham por detrás de si uma história de
u n s a o s o u tro s co m ósculo sa n to . devoção à igreja. O reconhecimento que
21 E s ta sa u d a ç ã o é d e m e u p ró p rio punho, devia ser dado é baseado na fidelidade
P a u lo . 22 Se a lg u é m n ã o a m a a o S enhor, desses líderes no seu trabalho, e não nas
s e ja a n á te m a 1 M a r a n a ta . 23 A g r a ç a do
S enhor J e s u s s e ja convosco. 24 O m e u a m o r prerrogativas que acompanham um car­
s e ja co m todos vó s e m C risto J e s u s . go eclesiástico (cf. I Tess. 5:12). A pala­
vra traduzida como espirito, no verso 18,
Este breve parágrafo (v. 13,14) parece é pneuma, e é a mesma palavra usada
estar fora de lugar. Todavia, precisa ser com respeito ao Espírito de Deus. Neste
lembrado que as cartas de Paulo não são versículo, essa palavra significa simples­
sempre rigidamente sistemáticas. Vigiai; mente “mim mesmo” . Ela não define
ficai acordados (cf. I Tess. 5:6). Estai alguma faculdade altamente espiritual
firmes em vossa confiança e obediente ou intelectual, dentro da pessoa.
reação à atividade de Deus em Jesus É claro que havia várias igrejas locais
Cristo (cf. Gál. 5:1; II Tess. 2:15). na província em que Paulo trabalhara,
Portai-vos varonilmente, mostrai que sois enquanto usara Éfeso como a base de
homens. Sede fortes. Os imperativos com operações principal (cf. At. 19:10,26).
que Paulo ordena aos coríntios no verso 14 Àquila e Prisca (*) estão entre os com­
recebem o seu poder motivador no apelo panheiros mais devotos de Paulo, na
para que ajam em amor (cf. o comentá­ extensão do evangelho. Paulo os encon­
rio ao cap. 13; 8:1-3). Mais uma vez tra em Corinto, depois que eles haviam
Paulo se aproveita de uma oportunidade sido expulsos de Roma, juntamente com
para ensinar aos coríntios a primazia os outros judeus, pelo Imperador Cláu­
do amor. Este cria uma só mente e uma dio, em 49 d.C. (cf. At. 18:2). Eles aju­
só vontade, de forma que ninguém vive daram na fundação da igreja em Corinto,
para si mesmo, nem busca os seus pró­ e saíram de Corinto ao mesmo tempo que
prios interesses, mas faz o que beneficia Paulo (cf. At. 18:18). Quando Paulo es­
a todos. O amor é o caminho que leva creveu Romanos, pouco depois de escre­
além de tudo o que uma pessoa pode de ver I Coríntios, Ãqüila e Priscila estavam
outra forma possuir ou adquirir. Através novamente em Roma (Rom. 16:3,4).
do amor, nos rendemos a Deus, e esta é a (O edito de Cláudio foi abrandado não
condição necessária para que usemos to­ muito depois de 54 d.C., quando ele
dos os nossos poderes e dons de acordo morreu.) Em toda parte onde Ãqüila e
com a sua vontade; para ele e não para Priscila iam, estabeleciam uma igreja em
nós mesmos (Schlatter). casa(cf. Rom. 16:5).
Paulo recomenda os emissários envia­ Todos os irmãos não podem ser iden­
dos por Corinto, e lembra que a casa tificados especificamente. Eram coope-
(família) de Estéfanas, eles mesmos, radores de Paulo. O ósculo santo é men­
eram as primícias da Acaia (cf. 1:16),
isto é, os primeiros cristãos convertidos
na Acaia. Talvez Paulo use o termo (*) Aqui Paulo usa a forma normal desse nome, Prisca,
(que significa “idosa” ), de que “Priscila” é um di­
“Acaia” livremente, visto que geralmen­ minutivo. Hm outras partes Paulo usa de preferência
te ele, da maneira que era entendido, a forma diminutiva Priscila (Nota do Tradutor).
cionado em outras cartas de Paulo (cf. maico, que foi preservada na língua ori­
Rom. 16:16; II Cor. 13:12; I Tess. ginal, como “Aba” , a palavra aramaica
5:26; é encontrado também em I Ped. que Jesus usou ao dirigir-se a Deus como
5:14). É simplesmente uma expressão de Pai.
amor fraternal. De acordo com o cris­ A oração Maranatha (vem, Senhor
tão do segundo século, Justino Mártir, nosso!), visto que se segue imediatamen­
esse ósculo era dado nos novos conver­ te ao anátema, pode ser interpretada
tidos logo que eram batizados, antes que juntamente com este, como se segue:
participassem da Ceia do Senhor. Ter- “Que qualquer pessoa que não ama ao
tuliano se refere a ele como “beijo de Senhor seja anátema. E, Senhor, vem,
paz” . Porque, com o tempo, em algu- e toma a tua igreja para ti mesmo.”
guns lugares, o ósculo santo manifestou Também tem sido sugerido que esta ora­
a tendência de se tornar algo mal enten­ ção era usada em conexão com a Ceia do
dido e mal usado, o beijo propriamente Senhor, para invocar a presença e a
dito deixou de ser usado, mas a fraterni­ volta do Senhor, bem como para proibir
dade que ele expressava continuou atra­ de participar dela os que não amavam o
vés de um simbolismo diferente, mas a Senhor, invocando o anátema.
ele relacionado.
De fato, “M aranatha” pode ser inter­
Muitas vezes, Paulo enviava sauda­
ções de próprio punho, no fim das suas pretado de várias maneiras. Uma suges­
cartas, depois de as haver ditado a um tão, tão antiga quanto Crisóstomo, é que
secretário (cf. Filem. 19; Col. 4:18). ela deve ser escrita desta forma: “Maran
atha” , para significar “o Senhor tem vin­
Em II Tessalonicenses 3:17, observamos
do” , referindo-se à encarnação. Uma
a autenticação da carta que este ato
expressa. Quando Paulo faz a sua sau­ segunda possibilidade é “o Senhor está
dação de próprio punho em Gálatas agora presente” , na adoração ou na Ceia
do Senhor. Uma terceira sugestão é que
6:11, volta a acusar violentamente os
ela significa “Nosso Senhor é o aleph
seus detratores, uma última vez (cf.
Gál. 6:12-18). Aqui, no verso 22, ele e o tau” (primeira e última letras do
escreve a sua saudação, e evoca uma alfabeto hebraico). Uma quarta possibi­
maldição sobre quem não ama ao Se­ lidade é a que deve ser preferida. Esta
oração, “maran atha” , é a expressão de
nhor. A palavra traduzida como amor,
um anelo pelo retorno do Senhor, em seu
que Paulo usa nesta expressão, é uma
forma de philein, e não agapan. Talvez segundo advento (cf. Apoc. 22:20).
isto possa ser lançado à conta do pres­ A presença desta expressão no Didaquê
suposto de que Paulo está citando uma (10:6), manual eclesiástico do segundo
fórmula cristã corrente (Barrett, p. 396). século, no estabelecimento da observân­
cia da Ceia do Senhor, pode indicar o seu
Ele ficava profundamente perturbado
quando se lembrava que alguns cristãos, lugar original no contexto da observância
na verdade, não amavam o Senhor. E o da Ceia do Senhor no primeiro século.
amor é a realidade que liga Deus e o No fim da carta, Paulo volta, como
homem nos níveis mais profundos. fizera ao começar, à graça do Senhor
Paulo cita a fórmula Maranatha, que Jesus (cf. 1:3). O favor imerecido de
significa: “Vem, Senhor nosso!” imedia­ Cristo fez de Paulo um seu apóstolo
tamente depois de expressar a maldição. (15:10) e requereu o amor de Paulo, que
A expressão maranatha é aramaica, e é o apóstolo estende a todos os coríntios,
transliterada para o grego por Paulo. sem exceção. Os coríntios, respondendo
Ela foi primeiramente usada nas igrejas em fé confiante e obediente, estão em
da Palestina. Era uma oração tão impor­ Cristo Jesus. O amor cristão estende-se
tante, para os cristãos que falavam ara- até aqueles que entendem erradamente
as implicações do evangelho. A carta de diária, incluindo tanto a teologia como
Paulo mostra como a fé cristã satisfaz o a ética, através do exercício do amor
desafio dos prementes problemas da vida entre aqueles que estão em Cristo lesus.

Emanuence
Digital
e
Mazinho
Rodrigues