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A alienação religiosa no pensamento de Karl Marx

Por maurocastro / 14/10/2011 / Danilo dos Santos Gomes, Marx / 16 Comentários

Danilo dos Santos Gomes

Karl Marx define a religião pura e simplesmente como uma projeção de nossa realidade
terrena para um plano superior metafísico. A religião consiste para ele em um mundo
fantástico, criado pela mente humana que tenta dar a certos fenômenos naturais um ar
sobrenatural, isto significa que religião com o seu Deus não passa de uma mera ilusão, algo a
que não se deve dar crédito.

Para aqueles que estudam, estudaram ou têm pelo menos uma noção de história da filosofia,
veremos que vários autores em sua antropologia não hesitaram em afirmar que o homem é
um ser dotado de carência. Marx é um destes:

Ele define a natureza humana por suas carências ou necessidades e pela dialética da satisfação
dessas necessidades, desdobrando-se seja na relação do homem com a natureza exterior pelo
trabalho, seja em sua relação com os outros homens pela natureza (LIMA VAZ, 2000, p. 129).

O homem, segundo Marx, é aquele que produz, homo faber (NOGARE, 1990, p. 101). Ele está
sempre a produzir algo para suprir suas necessidades para facilitar sua vida, gerando assim seu
bem-estar. Sendo o homem, como vimos, frágil, isso significa que ele necessita de algo para
preencher sua existência. A partir de suas dificuldades ele passou a criar não só elementos
materiais, mas criou também um ente e um lugar metafísico, uma espécie de muleta para
suportar o peso e as exigências de sua vida, visto que a matéria não consegue preencher ou
responder certas questões que envolvem a vida humana tais como a morte e o sofrimento. Daí
a criação de um Deus transcendente, que possa apoiar todas as suas dificuldades e esperar
que este mesmo Deus possa acalentá-lo em seu desterro e recompensá-lo futuramente com
bens celestiais e uma vida eterna. A religião, portanto, para Karl Marx, passa a uma
ilusão, alienação, ou num dizer mais marxista “um ópio” para amenizar o sofrimento.

Uma teoria marxistas sustentam, como por exemplo, Engels, é que a religião surgiu através do
espanto, medo. Ao observar a fúria de certos fenômenos naturais que ocorriam ao seu redor
os homens primitivos começaram a atribuir tais forças a alguma entidade sobrenatural, e a
partir desta descoberta ele passou a criar certos ritos e oferecer determinados sacrifícios para
apaziguar a divindade ofendida. Passaram a acreditar também que certas dádivas, tais como
chuva para os campos, boa colheita são sinais da benevolência divina (FADDEN, 1963).

O que deve ficar bem claro, nesta teoria, é que o medo criou a divindade. Deus nada mais é
que o reflexo do próprio homem. Foi o homem quem criou a divindade e não o contrário. A
religião com os seus ritos são apenas manifestações de um homem desesperado e indefeso
diante da fúria da natureza. “A religião nasceu com o método supersticioso para mitigar os
horrorosos efeitos das forças naturais” (FADDEM, 1963, p. 150).
Um fator que provavelmente influenciou o pensamento de Marx contra a religião foi a
sua história de vida. Ele viveu em um ambiente em que os cidadãos não podiam exercer as
profissões se não fossem cristãos. A família de Marx era de origem judaica, seu pai aceitou o
batismo na igreja luterana, simplesmente para exercer sua profissão. “A imposição externa de
um credo religioso certamente contribuiu para orientar religiosamente o espírito de Marx,
que, com toda a probabilidade, foi ateu desde a mocidade” (ROVIGHI, 1990, p. 78).

Outra grande influência que marcou Karl Marx foi o pensamento filosófico de Feuerbach:
“Consta que nos primeiros e mais decisivos anos de sua atividade filosófica, entre 1841, data
da publicação da obra a Essência do cristianismo, e 1844 Marx foi um entusiasta
feuerbachiano” (NOGARE,1990, p. 89).

Feuebarch, em Essência do cristianismo, afirma que a criatura inventou o criador e, portanto, é


ela verdadeiramente o criador. Deus é um reflexo do próprio homem, uma projeção, uma
inversão dos desejos humanos, um produto no qual o homem finito precário e dependente
projeta seus desejos e possibilidades de perfeição, onipotência. A religião consiste no
sentimento mais puro e absoluto do homem. O homem deseja para si o que nele mesmo não
encontra, como por exemplo: o ideal de justiça, bondade e virtude. Deus é um homem
genérico que idealizamos e que não conseguimos realizar por nós mesmos (NOGARE, I990).

Marx viu na ideologia de Feuerbach a resposta para destronar a grande farsa que é a religião.
Talvez tenha encontrado em suas palavras o forte instrumento que tanto precisava para a
libertação do homem de uma ideologia religiosa, alucinante, que ensinava que o homem
deveria rejeitar o sensível tendo em vista o imaterial, abstrato, aceitar o sofrimento, a
exclusão, deveria negar a si próprio, ou seja, perder a sua identidade visando o próximo. Ter
uma atitude passiva diante de seus opressores tendo assim uma atitude de pseudo-humildade.
Por fim, a religião alienava o povo fazendo-o acreditar que quanto mais lhe faltasse algo nesta
vida mais teria na eternidade. A religião transformava os homens em marionetes fazendo-os
cumprir sem reclamar ou blasfemar as leis que lhes foram impostas por Deus, pela moral e por
uma sociedade decadente.

Marx certamente vibrou ao ler estas audaciosas palavras de Feuerbach:

Temos de colocar no lugar do amor de deus, o amor dos homens, como uma única, verdadeira
religião, no lugar da fé em um deus, a fé no homem em si, em sua força, a fé em que o destino
da humanidade não depende de um ser fora ou acima dela, mas dela própria, que o único
diabo do homem é o próprio homem (NOGARE, 1990, p. 90).

Podemos nos perguntar: o que é alienação?

Etimologicamente, vem de alienar = tornar alheio; alienar-se = tornar-se alheio. Como se vê, o
termo significa uma noção relativa e não pode, pois, entender-se exatamente sem a
especificação do segundo termo da relação ao qual se opera a alienação (NOGARE, 1990, p.
93).

Alienação em Marx, como também em Feuerbach, é uma transferência de nossa consciência


para umarealidade fora de nós. Daí a comparação da religião com o ópio. Por que Marx
comparou a religião com o ópio? O ópio é um coquetel de plantas alucinógenas, possui um
efeito sedativo. Ele acalma os nervos, intoxica a mente, fazendo seus usuários delirarem,
criando assim um mundo imaginário onde eles vivem as suas fantasias. Karl Marx quer afirmar
com essa comparação o seguinte: “A religião, por sua natureza e atividade, visa os sofrimentos
físicos e mentais da vida, prometendo maior ventura num estado futuro da existência”
(FADDEN, 1963, p. 151).

A religião é um anestésico na terrível e dolorosa existência do homem. Para Marx, a religião


não passa de uma “quimera”, ilusão, e aqueles que aderem a tal alucinação, são fracos e
incapazes de enfrentar suas dificuldades. “A religião é o ópio do povo, porque engana o
homem, induzindo-o a pensar que deve aceitar com mansidão o seu presente estado de vida”
(FADDEN, 1963, p. 154). Por isso, para Marx, somente quando a religião for destruída é que o
homem recuperará a sua liberdade e dignidade.

Vivemos hoje em nossa sociedade uma busca pelo transcendente. O número de religiões e
correntes espirituais tem crescido exacerbadamente. Hoje se promete tudo e ao mesmo
tempo nada, as pessoas podem escolher o lugar em que elas se sentirem melhor sem
comprometimento, a religião começa a ser vista como uma terapia. Muitos fazem dela um
esconderijo, um abrigo, através do qual elas podem negar ou esconder suas misérias. Outros a
fazem como instrumento de exploração, em que o dinheiro extorquido de uma classe
necessitada constitui o crescimento e enriquecimento de outros.

Nesse aspecto, podemos dizer que Karl Marx estava correto ao afirmar que a religião é
alienação, narcótico espiritual. O homem cria uma falsa ideia de Deus e passa a acreditar que
de fato ele existe. Projeta na maioria das vezes sua própria consciência e cria uma ideologia
escravizante, que tiraniza o homem em vez de libertá-lo. São exemplos disso os fanatismos e o
fundamentalismo.

Ao mesmo tempo em que vivemos esta busca pelo transcendente, estamos em uma crise.
Infelizmente as ditas religiões e correntes espirituais não libertam, mas aprisionam o homem
em duras cadeias, apresentando ora um deus materialista, em que somente os que possuem
bens são agraciados, ora espiritualista demais, em que a matéria e a vida terrena devem ser
deixadas de lado, tendo em vista a eternidade. De fato a natureza divina varia de acordo com a
necessidade daqueles que a adoram.

Referências

FADDEN, J. Mc. Filosofia do comunismo. 2. ed. Lisboa: União gráfica, 1963. (Galáxia, vol. I).

LIMA VAZ, Henrique Cláudio. Antropologia filosófica I. 5. Ed. São Paulo: Loyola, 2000.
(Filosofia).

NOGARE, Pedro Dalle. Humanismos e anti-humanismos: introdução à antropologia filosófica.


12. ed. Petrópolis: Vozes, 1990.

RIVIGHI, Sofia Vanni. História da filosofia contemporânea do século XIX à


neoescolástica. Tradução de Ana Pareschi Capovilla. São Paulo: Loyola, 1999.