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Apresentação

Conversa interessantíssima

- Podíamos talvez começar por justificar as balizas


temporais da antologia, que são tudo menos arbitrárias.

- Sem dúvida. O arco cronológico da antologia define


um período curto: começa com Carnaval de;:: Manuel Ban-
deira, publicado em 1919, e fecha com Cobra Norato de
Raul Bopp, que apareceu em livro em 1931. Em rigor,
porém, pretendemos abarcar apenas o período compreen-
dido entre 1922 e 1930. Não são, de facto, limites arbitrários.
Trata-se de marcos cronológicos importantes do século XX
brasileiro: o primeiro centenário da independência do Bra-
sil (e também, já agora, a fundação do Partido Comunista
Brasileiro) e a "revolução de 30", que levou Getúlio Vargas
ao pocler '. E coincidem com outros dois marcos da história

1 A "revolução de 30" é a designação dada ao golpe de Estado que, em Ou-


tubro de 1930, derrubou o então presidente Washington Luís; marca o fim da Re-
MEL BARROSBAPTISTAensina Literatura Brasileira na Universidade Nova de Lis- pública Velha e o começo da chamada «Era de Vargas», que durou quinze anos.
boa. É autor de vários livros, principalmente ensaios sobre literatura portuguesa e Um dos principais factores que conduziram à "revolução de 30" foi a crise eco-
brasileira. É director-adjunto da. revista Colóquio/Letras. Os seus livros mais recen- . nómica decorrente da superprodução de café. O governo de Vargas deslocou o
tes são Coligação de Avulsos. Ensaios de Crítica Literária (Lisboa, 2003) e Ensaios Fa- eixo da actividade económica brasileira do sector agrário para o industrial, com-
cetos (Lisboa, 2004), ambos nas Edições Cotovia. bateu a divisão regional do poder, procurando estabelecer uma administração
única, promulgou várias leis trabalhistas para captar o apoio da classe operária e
OSVALDO MANUEL SILVESTREensina Teoria da Literatura e Estética pa Faculdade impulsionou a difusão do ensino básico, com a ideia de que assim formaria cida-
de Letras de Coimbra. Escreveu ensaios e livros sobre literatura portuguesa, bra- dãos mais aptos a escolher os seus dirigentes. Eleito presidente pela constituinte
sileira, africana, questões de teoria e comparatismo. Foi co-fundador e co-director em 1934, Vargas levaria a cabo, em 1937, novo golpe de Estado que o manteria
do Ciberkiosk. Coordenou, com Carlito Azevedo, a revista de poesia de Brasil e no poder até à deposição em 1945 (regressaria em 1951), instalando o regime fas-
Portugal Inimigo Rumor, e organizou com Pedro Serra a antologia Século de Ouro. cista do Estado Novo (que começou por apoiar a Itália e a Alemanha, ate que as
Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX (2002). pressões americanas o obrigaram, em 1942, a romper com o Eixo).

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APRESENT AÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

literária brasileira: a Semana de Arte Moderna, realizada em .c.~~~:"As forças coletivas que provocaram o movimento re-
São Paulo em Fevereiro de 1922, sinaliza o começo do m?- volucionário do modernismo na literatura brasileira, que se
. dernismo - e consequentemente, para muitos críticos e iniciou com a Semana de Arte Moderna de 1922, em São
historiadores, o começo do século XX na literatura brasilei- Paulo, foram as mesmas que precipitaram, no campo social e
ra -, enquanto 1930 é o ano apontado para início da segun- político, a Revolução de 1930."2 Esclarecedor, não é?
da fase do movimento modernista, chamada construtiva por
oposição à primeira, destrutiva, mas também conhecida - Para dizer o mínimo ... Calha bem a autoridade de
como "fase heróica". Getúlio Vargas para garantir que o marco de 30 não é nada
Sublinho ainda que a coincidência dos marcos da his- arbitrário ... talvez ajude a perceber, pelo menos, que a dife-
tória política e da literária também não é fortuita. Não por rença entre a primeira e a segunda fase do movimento mo-
acaso a Semana de Arte Moderna surgiu no âmbito das CQ- dernista corresponde grosso modo à diferença entre a vaga
memoraçóes do centenário da independência do Brasil: o vanguardista, assente na reivindicação do direito de experi-
grupo de escritores e artistas que a projectou actuava pelo mentação permanente e no repúdio das formas e convenções
menos desde 19l7, e quando se apresentou em São Paulo, do passado, sobretudo o passado parnasiano e académico
em Fevereiro de 22, associava a vertente vanguardista - - as regras de bem escrever, o purismo em matéria de lín-
então quase sempre chamada "futurista" - ao comprornis- gua, a ideia de uma linguagem poética internporal, o culto da
so com a nação e o desenvolvimento cultural, político e so- ornamentação poética -, e o compromisso nacionalista,
cial do Brasil. De facto, Ç> traço vincadamente característico orientado para a construção de uma nova cultura e de uma
do modernismo brasileiro é o nacionalismo, talvez aquele nova literatura, adequadas à nova realidade social do Brasil.
v. que .dita a mudança para a chamada segunda fase sob influ- Mas essa diferença caracterizou sempre o modernismo bra-
xo das transformações políticas e sociais ocorridas ao longo sileiro, desde o primeiro momento tão empenhado na livre
das décadas de 30 e 40. A "revolução de 30" teve o apoio experimentação. formal como obcecado com a identidade
de vários intelectuais ligados ao movimento modernista - brasileira. O primitivisrno de Q?'Y~sI.d.~_-6Pª~ad~, por exem-
o hino da revolução foi composto por Villa-Lobos, destaca- plo, tanto nos manifestos? como na sua poesia, representa a . ;

do participante da Semana - e iniciou um processo de vertente heróica do movimento, quer dizer, a..~~.Qra.Üyª..deele-
transformação cultural vasto, em que o modernismo prati- sentranhar da dependência, da subalternidade ou da menori-
camente se constituiu doutrina oficial do Estado para as _dade da n~va nação forças próprias e até factores de supe-
artes e a cultura.

2 Getúlio Vargas, O Governo trabalb ista do Brasil, Rio de Janeiro, José


- Vale a pena lembrar umas palavras de Getúlio Vargas
Olympio, 1951, p. 828 .
. que sublinham esse ~Ç9~c10expressiyoentrea cronologia do J Manifesto da poesia Pau-Brasil (1924) e Manifesto antropófago (928), cujo
modernismo e a da história política do Brasil 90 início do sé- texto integral o leitor encontra na secção «Alguns documentos" do presente volume.

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CONVERSA INTERESSANTfsSIMA
APRESENT AÇÃO

rioridade. O leitor que percorra os documentos que divul- modernismo brasileiro do europeu, e desde logo do portu-
ga;;~;~~ anexo - desde os já referidos manifestos à cor- guês, cuja relação com o romantismo, e
sobretudo com a
respondência entre os principais poetas antologia dos - sua "política cultural", é residual e, como é visível na "li-
perceberá cedo que .::grande discussão passa quase sempre quidação" pessoana do sujeito, negativa, na medida em que
pelo problema "o que é ser brasileiro?", ou antes, "como a hipertrofia heteronímica da máscara é um nítido posicio-
ser brasileiro em poesia?"4 Pode-se dizer, numa fórmula tão namento anti-rornântico. A identidade nacional tematizada
r~dutora como expressiva, que a.p_<2~~.~.!Do.ª~~l}i.~~~_.!:?r.~?~~. pelos modernistas portugueses é, sobretudo em Pessoa, a
leira assenta basicamente. naaliançadQ_Y~r.~9-.l!yr~.sQ.Ip ..o de um império decadente, revigorável no plano mítico - e,
~aci~~~í"i;~·;. ~~p~~~~',
'N~';~~'
de resto' crucial, o modernis- porventura, apenas nele - por uma pedagogia do sebastia-
;;:;oprosseg~iu a tradição inaugurada pelo r.omªP.t..i?!Do)isto nismo (na Mensagem) e, no plano empírico e histórico, pelo
é, relançou o projecto moderno de construção de uma [ire- cosmopolitismo possível num grupo de escritores e artistas
,..,..,',.', ratura nacional, fundada no Brasil e destinada ao Brasil. cujas escassas posses faziam de uma viagem a Paris um triunfo
pessoal (o que não é exactamente o caso dos modernistas bra-
_ Nesse sentido, poder-se·ia reconhecer aquia conçlj.- sileiros, com ou, porque não necessitando deles, sem rnece-
ç~~_9.1!~b:~~_ªs?i.~aria_n:lOs..p_9.:>~cgl<?[1
..L~l,centrada na e ob- nas). A questão importa especialmente, julgo, por aquilo que
cecada com a questão da "identidade nacional", o que, arrastou consigo na literatura brasileira, e nas "letras" brasi-
como acabaste de dizer, faz do ~2tpanti"~!Il..2o an!~~~_Q~D..t.~ leiras em geral, incluindo nelas o ensaio literário e aquele
necessário -aindª.que ..9.9._!:!l.9_-
necessariamentt:'s'-:1pe~~Y..<:!...:-::: que se virá a definir, a partir dos anos 30, como "brasilia-
d~~'~i;~~'~'~ Brasil. Esta articulação entre dois momentos nística": um insistente centramento da reflexão, e dos ins-
ii~;;;~';i';~'~'~~lturai~separados por um século (o século pri- trumentos analíticos, na questão da identidade nacional
. '
meiro da independência do país), afasta do mesmo passo o que mesmo quando deixa de ser produtiva em termos estri-
tamente literários (a partir talvez do final dos anos 50, com a
irrupção do grupo concretista em São Paulo), acaba por se
4 A discus;ão pressupõe algum conflito, e evidenteIll.e.!ltepií.o2!..2.QSk.S.l-!pgr
manter e revigorar no plano do ensaio, naquela linha densa e
e:.!qcJ()s ()~2.<:>eS~~l11_()c:I~r.!l~s.t.?s.Jo...ss<;fIJ:
.'.',,' '.".,' qU.. nacionalistas com o fl!..e.sIllqgpl,:, ..ds"f9.Q: .
.' .y.icçã.o .•e. .aJ!l~~_~!1}_ensj.9.~çl.!:. Veja-se esta passagem de uma cana de Carlos familiar que vai dos três brasilianistas de referência (Gilberto
.... (. Drummond de Andrade para Mário de Andrade, datada de .30 de Dezembro de
Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., "anun-
"".,-,,;,,< ',' 1924: "Repito: há mil maneiras de ser. A pior é ser nacionalista." Ou o veemente
. repúdio do nacionalismo literário em carta anterior, também para Mário de An· ciados", em contexto modernista, pelo Paulo Prado que es-
drade, de 22 de Novembro de 1924, aqui incluída em apêndIce. No entanto, e o creve o Retrato do Brasil) às figuras. da escola da USP, de
.;;. "','" , caso permite avaliar a importância do nacionalismo enquanto força estruturadora
do modernismo, junto com esta carta, Drummond enviava um caderno de poemas
Antonio Candido a Roberto Schwarz e depois. A que have-
cuja segunda parte se chamava" Minha terra tem palmeiras"; este título, logo re- ria de acrescentar o Glauber Rocha de Revisão crítica do
putado "admirabilíssimo" por Mário de Andrade, foi mantido por Drummond
cinema brasileiro (1963), de facto mais uma obra dessa
durante anos, até como título para o seu primeiro livro, que VIrIa a chamar-se sim-
plesmente Alguma poesia.
longa sequência modernista de reflexões sobre a identidade

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APRESENTAÇÃO CON VERSA INTERESS!,>NTíSSI MA

do Brasil, para Glauber uma identidade assumidamente dicional", representa bem esse "sentido amplo" do moder-
pós-coir.nia (rraciuzivel naquilo a que mais tarde chamará nismo, ou melhor, a viragem que resolveu aquela tensão
"est êtica da fome"). O modernismo brasileiro, assim como as constitutiva entre vanguarda e nacionalismo: desqualificação
suas tão vastas duradouras consequências artísticas, inte- da experimentação formal e da liberdade de invenção em
lectuais, sociais e políticas - refira-se apenas a mais especta- favor da compulsão nacionalista para fixar a identidade do
cular: Brasília -, integra aquela "condenação à identidade" Brasil, desvalorização da literatura e da arte em favor da
(ainda que antropofágica) reconhecível na sintomatologia ideologia. Os anos 30, ademais, eram por todo o lado anos
pós-colonial, condenação que herda do romantismo e que, de empenhamento político e ideológico.
paradoxalmente, reforça. A nossa antologia, em suma, pretende representar ape-
nas a pri~eira-fase- do modernismo: heróica ou destrutivaL
- Compreende-se, até por isso, que a palavra "rnoder- através de um pequeno grupo de poetas, ainda assim hete-
nisrT?<:?"clesignediferentes coi.s.~.?
__
no I?~_~s.P:o movimento rogéneo: Manuel Bandeira, o mais velho, que seria aclama-
vanguardista dos anos 20, decerto, mas também um perío- do como o S. João Baptista da poesia moderna (e daí a es-
do da história literária, compreendendo umarcotâovasto colha de Carnaval: não obstante publicado em 1919, nele se
que praticamente abarca o século; uma revolução literária e encontram vários poemas que os poetas de 22 reivindica-
arÍ:i~t-ica, mas também a transformação cultural e social da ram para o movimento, especialmente o famoso "Os sapos",
primeira metade do século brasileiro; o período fremente declamado na Semana de Arte Moderna, em que Bandeira
de inovações e rupturas, mas também a construção, a esta- não participou, entre vaias e apupos); as duas figuras carac-
bilidade, o nacionalismo. E é muito significativo que a dife- terísticas do movimento de 22, Mário e Oswald de Andra-
rença entre as duas fases se traduza mim diferente predo- de; Raul Bopp, com percurso irregular, empenhado na visão
mínio de géneros. Nos anos 20, o modernismo é sobretudo antropofágica de Oswald de Andrade nos anos de 28 e
uma revolução poética, de que emergirão poetas da estatura 29 (chegou a ser um dos editores da Revista de Antropo.fa-
de Carlos Drummond de Andrade ou Murilo Mendes. Na gia), altura em que começa a divulgar Cobra Norato, uma
década seguinte, predominam a ficção e o ensaio. O surto das obras características deste período, apesar de a publi-
do romance nordestino - que as histórias literárias arrolam cação integral e em livro só ocorrer em 31 por _iniciativa
entre os frutos do modernismo - teve, como se sabe, enor- de um grupo de amigos; e enfim, dois dos maiores poetas
me influência no neo-realismo português; orientou para o do século, que estreiam em livro em 1930, representando
Nordeste a recuperação do realismo oitocentista, deixando a passagem- entre a primeira e a segunda fase do movi-
obras como as de Jorge Amado, Graciliano Ramos, José
5 Os melhores exemplos da experimentação romanesca no modernismo b ra-
Lins do Rego ou Rachel de Queiroz. O romance nordesti-
sileiro são dois dos romances de Oswald de Andrade: Memórias sentimentais de
no, ao tornar-se a tendência dominante na ficção brasileira, João Miramar. de 1924, e Serafim Ponte Grande, escrito em 1928-29 mas publ.i ca-
contrariando e obscurecendo uma linha inve:ntiva e antitra- do apenas em 3933_

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CONVERSA INTERESSANTíSSIMA
APRESENTAÇÃO

. I
mento modernista: Carlos Drummond de Andrade e Muri- grupo como tal identificável; e da pregação de Mário de
Andrade se pode extrair uma intenção de trabalho em con-
10 Mendes. junto, baseado substancialmente na conquista de um novo
_ Uma breve nota para enfatizar o carácter grupal do idioma poético."?

modernismo de 22, carácter que, como seria inevitável, se


esboroa depois dessa fase heróica, quer por inevitáveis de- - É preciso, entretanto,
recapitular algumas informa-
ções a respeito da Semana de Arte Moderna. Realizou-se
sinteligências pessoais - e a mais marcante será sem dúvi:
da a que ocorreu entre Mário e Oswald de Andrade, que e em 13, 15 e 17 de Fevereiro de 1922, no Teatro Municipal
e não é apenas uma desinteligência pessoal- quer pela ne- de São Paulo, projectada como manifestação colectiva da
cessidade de seguir trajectos individuais de evolução literá- arte moderna, reunindo escritores e artistas que vinham,
pelo menos desde 1917, a travar sucessivos combates con-
ria. Ainda assim, não deixa de ser significativo. que Mário de
tra os alvos centrais da cultura vigente. Desde a célebre ex-
Andrade, na conferência de 1942 sobre "O movimento mo-
dernista'"', apesar de todo o desencanto da retrospecção, posição de Anita Malfatti", começara a constituir-se um
grupo que, em 1921, está coeso e unido, pronto a declarar
não questione nunca, e antes reforce, uma solidariedade de
a sua existência como força em guerra contra a cultura es-
grupo (do grupo paulista, bem entendido) nimba~a. ~liás _de
alguma nostalgia e, como seria fatal, de alguma mitificação. tabelecida. Ao longo desse ano, Oswald de Andrade, Mário
de Andrade e Menotti deI Picchia, entre outros, publicam
O papel que esse texto ocupa hoje na "história do mo.d:r-
nismo" revela aliás, se dúvidas houvesse, o lugar deCISlVO nos jornais vários artigos de polémica e de exposição do
ocupado por Mário de Andrade nessa história,. da qual. foi programa modernista: combatem o passado, do romantis-
o-piuot central e O principal memorialista-histonador. DIga- mo ao parnasianismo, a métrica, a rima, o soneto, o puris-
mos que não cedeu este último papel a nenhum outro com-
7 José Guilherme Merquior, "A poesia modernista", Razão do poema, 2" ed.,
panheiro de aventuras, reforçando assim, como que já .pos- Rio de}apeiro, Topbooks, 1996, p_ 43.
tumamente, quer o seu peso na história do modernlsmo . 8 A exposição da pintora Anita Malfatti ficaria como uma espécie de anún-
quer o peso da sua versão dessa história. Sobre isto, e sobre CIO da Semana. Anita Malfatti estudara na Alemanha e nos Estados Unidos, entre
1913 e 1916; apresenta 53 trabalhos em São Paulo, fortemente marcados pelo ex-
a centralidade da "pregação" de Mário de Andrade no mo- pressionismo, associando à exposição alguns' artistas americanos influenciados
dernismo brasileiro, deixo uma citação de um ensaio deci- pelo cubismo. As reacções não foram inteiramente desfavoráveis, mais caracteri-
zadas pela perplexidade; até que Monteiro Lobato desencadeou um verdadeiro
sivo de José Guilherme Merquior, datado de 1962: "Parece vendaval (vários compradores de quadros da exposição apressaram-se mesmo a
que os poetas modernistas não preservaram depois ~e 22 devolvê-los) quando publicou no Estado de São Paulo uma crítica demolidora
contra a exposição e a "arte moderna". Era o começo de uma sucessão de polé-
uma intensa consciência de equipe. No entanto, eles sao um
micas e conflitos que conduziriam à incorporação dos novos artistas e escritores.
Nesse mesmo ano de 1917 começa a amizade e a colaboração (que duraria até
1929, altura em que romperam definitivamente) das duas figuras impulsionudoras
• Mário de Andrade, "O movimento modernista", Aspectos da literatura bra-
do movimento, os dois Andrades, Mário e Oswald.
sileira, 5: ed., São Paulo, Manins, 1974.

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APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

mo Iinguístico. Era o grupo "futurista", como foram sendo


chamados e corno eles próprios por vezes se designavam.
,
teve em Mário de Sá-Carneiro a sua encarnação mais con- .

vincente (e Fernando Pessoa, que nas cartas de Sá-Carneiro


A influência do futurismo italiano no modernismo bra- se foi actualizando em matéria parisiense, que o diga). Em
sileiro é decerto inegável. É costume dizer-se que Oswald sentido inverso, refira-se, por todos os europeus que no iní-
de Andrade o trouxe na mala quando, em 1912, fez uma cio do século XX descobriram o Brasil -lista que incluirá,
viagem à Europa: teve de facto ocasião de aí conhecer o a partir de 30, os participantes na fundação da Universidade
Manifesto técnico da literatura futurista, de Marinetti. de São Paulo que foram homens como Bastide , Braudel ,
Lévi-Strauss ou Ungaretti -, o nome de Blaise Cendrars, tão
- Um breve parêritesis, já agora, para sugerir o..~!. importante para a própria descoberta do Brasil pelos mo-
.4~_c:i.~i.Y<:)_ª.~.~~.fl1penhado
pelas yi~g~l:J:? ..ª~._Q~:yal.c.LL9~!.ºP~· dernistas locais .
I!?_~E!osãos!o .!!1_od~.~!Ij_s_f0g
..~r:~~t.l~jr:9,mas sobretudo para
sublinhar o seu carácter "pari-americano", digamos. Como - Retomando a história da Semana ... Ainda em 1921 ,
lembra Nicolau Sevcenko, "as viagens e a figura do viajan- o mesmo Oswald incendiaria as hostes literárias e artísticas
te se tornaram, pois, centrais nesse processo de renovação com o artigo "O meu poeta futurista" 10. O "poeta futuris-
formal e temática. Para se ter uma ideia, cumpririam esse ta", não nomeado, era Mário de Andrade, e Oswald divul-
papel, entre os poetas, figuras decisivas como Jorge Luís gava o poema "Tu", de Paulicéia desvairada, ainda inédito,
Borges, Ricardo Güiraldes, César VaIlejo, Vicente Huido- desencadeando um escândalo pela novidade e pela liber-
bro, Miguel Angel Astúrias, Rómulo Gallegos, Alejo Car- dade. Mário, que abominava termos como "futurismo" ou
pentier e o intelectual José Carlos Mariátegui, todos perma- "futurista", reagiu mal e, dez dias depois, no mesmo jornal,
necendo por mais ou menos tempo em Paris. O mesmo publica um artigo com o título "Futurista>!", no qual, sem'
ocorreu com muitos dos pintores mais marcantes do perío- nomear Oswald, nega ser futurista. O caso teve aspectos se-
do?". Sabendo-se das relações pouco intensas entre o mundo melhantes aos da exposição de Anita Malfatti - Mário so-
literário e cultural brasileiro e o da Bispano-América, e freu por isso vários dissabores, foi enxovalhdo em público,
tendo ainda em mente a tão diversa conformação do "mo- perdeu alunos que frequentavam as suas aulas particulares,
dernismo" hispano-arnericano e do brasileiro, esta sintonia pressões na família, etc. -, e ficou sempre a suspeita de que
- na qual é possível ler a um tempo o.drama moderno da r~- a briga tinha sido forjada para causar escândalo. Como quer
l~çiçu~.m!:~_I2eriferiae centr2 e o tema, modernista por exce- que seja, Mário de Andrade foi obrigado a assumir de vez
lência, do cosmopolitismo - não deixa de ser reveladora de um lugar à cabeça do grupo, talvez menos como poeta do
um mesmo devir epocal. Que em Portugal, como se sabe,

10 Oswald de Andracle, "O meu poeta futurista", Jornal do Comércio, 27 de

9 Nicolau Sevcenko, Orfe« estático na metrópole. São Pau.,lo,sociedade e cul- Maio de 1921. O texto integral encontra-se aqui reproduzido, na secção "Alguns
tura nos frementes anos 20, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, pp. 217 ·218. documentos" .

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APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

que como crítico, teórico e polemista. Nessa condição, publi- "futurista", composto de escritores e poetas - Mário de An-
ca, ainda em 1921, uma série de artigos, "Mestres do passa- drade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Ronald de
do", em que analisa o parnasianismo e os principais poetas Carvalho, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira (que não
parnasianos, ainda tidos por modelos apenas imitáveis!'. Com estaria presente) -, pintores como o citado Di Cavalcanti e
aquele artigo de Oswald de An.drade, o termo "futurismo" Anita Malfatti, músicos - Villa-Lobos -, escultores - o cé-
entrou definitivamente na cena brasileira, sobretudo como lebre Victor Brecheret - e arquitectos - António Garcia
sinónimo de extravagância, bizarria ou desatino destrutivo. Moya, Georg Przyrembel. As três noites do programa en-
E chega a Semana de Arte Moderna. Começando por globavam conferências, recitais de poesia, exposições de
~' .:.( ser uma ideia do pintor Di Cavalcanti, patrocinada por um pintura e concertos. A conferência inaugural de Graça Ara-
1/ acadêmico, Graça Aranha (participação não isenta de.equí- nha, "A emoção estética na arte moderna", foi recebida res-
vocos e que geraria depois vários conflitos), com o apoio peitosamente pelo público, o mesmo se passando com o
além do mais financeiro de um representante da aristocracia concerto de Villa-Lobos. O reboliço surgiria no segundo
do café, Paulo Prado ", foi iniciativa conjunta desse grupo dia, em que estavam previstas palestras de Menotti del Pic-
chia e Mário de Andrade e leituras ilustrativas de poesia e
II Trata-se de sete artigos publicados por iniciativa de Oswald de Andrade prosa. Estas leituras é que suscitaram a algazarra, recebidas
na coluna que assinava então no Jornal de Comércio, edição de São Paulo. Prece-
com apupos, assobios, pateadas constantes. A fazer fé nos
didos por uma introdução e seguidos de conclusão, abordam a poesia de Francis-
ca J úlia, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e Vicente de Carva- testemunhos, custa imaginar que a Semana de Arte Moder-
lho. Encontram-se reproduzidos na íntegra no livro de Mário da Silva Brito, na viesse a desempenhar tão decisivo papel na cultura bra-
História do modernismo brasileiro. Antecedentes da Semana de Arte Moderna, 6.-
ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1997, pp. 251-307. Vale citar aqui pelo sileira do século XX.
menos esta passagem do último artigo: "Malditos para sempre os Mestres do Pas-
sado! Que a simples recordação de um de vós escravize os espíritos no amor in-
condicional pela Forma' Que um olhar passeando por acaso nos vossos livros se
- Deixa-me introduzir aqui duas notas, uma mais filo-
cegue à procura de um verso de ouro! Que uma flor tombada de umas mãos sobre lógica, ou histórica, outra de teor sócio-cultural. A primei-
'vosso túmulo rebente em silvas de tais espinhos que nelas se fira e sucumba a as-
ra, para corrigir um certo erro de paralaxe em que a histó-
censão dessa infância! Que o Brasil seja infeliz porque vos criou' Que a Terra vá
bater na Lua arrastada pelo peso dos vossos ossos' Que o Universo se desmante- ria literária é fértil, quando se trata da Semana de 22 e do
le porque vos comportou' E que não fique nada' nada' nada!" (op. cit., p. 305.) terrarnoto que ela rep reseritou+'. De facto, como é visível
'2 Como já referimos, Paulo Prado seria também autor de um dos livros de
interpretação do Brasil escritos sob influxo do movimento modernista, Retrato do
Brasil (1928). Não foi, porém, o único apoio financeiro da Semana. Outro foi José do, e uma forma de escaparem ao tédio e à pequenez do meio. Isso explica que,
Freitas Valle, senador e empresário de enorme fortuna, que há muito se destaca- bem antes da Semana de Arte Moderna, vários artistas brasileiros já beneficiassem
va pejo patrocínio dos novos artistas, através sobretudo da organização de expo- de generoso apoio dos representantes das maiores fortunas paulistas, que' chegava
sições. Significativo também o apoio de Washington Luís, então presidente do Es- a traduzir-se em bolsas para estudarem no estrangeiro.
tado de São Paulo, que abriu aos modernistas as páginas do Correio Paulistano, 13 A metáfora do terramoto, talvez excessiva, é todavia pertinente no plano _....
órgão do Partido Republicano Paulista. Pode dizer-se que a Semana foi apoiada de uma certa" conjunção astral", já que o ano de 1922 começou, de facto, em São
pela elite financeira e mundana paulista, que via nos novos rumos da literatura e Paulo com um terramoto. Como nos diz icolau Sevcenko, "o «balo incidiu sobre
da arte um meio de engrandecimento da nova metrópole, imitando Paris sobreru- uma extensa zona, cobrindo uma faixa recurva entre os estado' do Rio ele .J aner-

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APRESENTAÇÃO . CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

pelo programa da Semana, e pelas reconstituições do even- [lão cabe nos parârnetros das disciplinas dos "estudos lite-
to realizadas por vários historiadores, de Aracy Amaral a rários" (História, Crítica, Teoria), sendo em corisequêricia
Nicolau Sevcenko,' a literatura - a poesia e o ensaio em. objecto de uma sistemática deriegação e desvalorização,
forma de palestra ou conferência - não foi o epicentro da Assim como a conferência de Almada Negreiros no Teatro
Semana. Como afirma Sevcenko, "quando afinal as coisas República em 1917, na qual leu, de fato-macaco, o seu "Ulti- .
ficaram decididas, o grupo dos poetas entrava de permeio, matum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" , é
com poemas e palestras, mas as colunas mestras do espetá- sistematicamente relegada para a zona do anedótico e do "
culo eram outras, de prestígio e popularidade abaladores: folclore vanguardistas, também ª ~ema,p_~.,.Pe~.s~.2~r.~i.c.lllªr.'-
- ',.~, •.........._.'r. ..

Guiomar Novaes, Villa-Lobos e Graça Aranha"!". Nas pa- rúiQ .sli.s.p.ªS..~~in9~..º,ºJÚs.~()~i?.g9!}._n_é;ç.~~_S..~.!:!~~~.t~.D.1.}.!Pª..R.9...:....


lavras enfáticas do mesmo autor, "chalaças, chufas e remo- siç~-º_jº.f_~.t.:çli~çjp)~!1?!:Lgl:1.~.
T~~ª!2~i~~_t1:l-ª-º-.ª~ilº_.9.l!..e_._º.é;~~
ques à parte, os poetas não eram protagonistas do espetá-
culo "!", papel que ficou reservado a Villa-Lobos, único ma tivoquemarcaram
ª...
!TI ~j.~.q~-.-~-~!)9~__ ~~!1_~q.q~.~~
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~~~~_~.<?_s~_ª~.!jJ2.<2._P_~:f9~.~
~.irr:up 窺.,º ?s"y'?ngY.ª!:SÜ!_~
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..históri cas,
artista que participou nas três jornadas de sessões públicas do futurismoa D.a.q.ª~aº,s_~E!:~ªJ_i_sI1:1.º:_Ç5)m9 ..~~111P~e?uce-
da Semana. Este elemento ajuda a perceber a dimensàoin- çI~, a perfotJ?:l_tl.~t;.(ó',.~A~squ.alificad:3.e.rp.n()ll1~\
_e.~fil função,.
terartística da. S~!llaml.-º~..b-__r~e_MQ.cl_~mA.
(não esquecer o al- ~a_ºb.!:ª ..q1.}~_~l~.~iºéf..~.sllP.2~_t_ªII!~m~_!:D.i§.üfis:a. O que é cu-'
cance amplo desta designação do ponto de vista das disci- noso, embora não surpreendente, é que os próprios prota-
plinas artísticas) e ajuda eventualmente a que se repare num gonistas do modernismo interiorizam este modelo analítico
Ponto sistematicamente menorizado, para não dizer recaI- e valorativo, que é um modelo textualista, desqualificando
.ª-~__
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o' •.•• _~ •• ", , ._ •• '. __ •••• ' •• • __ ,_'._._. _ •• ' •••••• ;. __ ••• _~ •• __ ._., .'. '. •• • O" ••• _. " •••• _._ ••••••• _

C a do , p<:!~.b
i~tÓ ria ~j~~~~E~~~_<:>
. J2?~_s.i~_~
__e:~!5.~L<:>~.e esse lado da sua actuação pública -leia-se, a.esta luz, a já
teren1.apT~?erg~ºº_ªº.2~-º.1i~Q-ª-~_;;.~JEil~~..S()J2.2.~!:~jQ.da p~~- referida conferência de Mário de Andrade sobre "O movi-
formance, de que a.s~~~!?~ __ ~.f.l:~E_c::i~,
no_~_!:asiJ:}..A..~ua
ilor~.?::. mento modernista", e reencontrar-se-á toda essa sintoma to-
.'.cente .b.i?~2.~~.~
..Q2Y_eceD.!t~~.Estamos aqui perante uma típi- logia. Para terminar este ponto, eu diria que en'lu?;Q.~9não
ca consequência da lógica disciplinar, quando aplicada a se fizer ..uma
...." "'",.~,~~-.., .".'
"história
-.
da performance
..".... . .. "'..
nas artes
.
brasileiras"
'.. L

objectos híbridos como a performance: na medida em que n%.oteremos noção exacta das múltiplas dimensôesrlaSe.
.não é texto, embora possa apoiar-se nele - e foi o caso, tra- mana ele Arte Moderna, qu~ desse pontode yi~IªRº2~yjr.
tasse-se da leitura de conferências ou de poemas, com reac- ainda a serum evento revitalizador da própria noção de
ção mais ou menos estridente do público -, a performance "história das artes" no Brasil, quero dizer, da necessidade
de se reconceptualizar o próprio modelo de uma tal histo- .,,-

ro, São Paulo e Minas. mas, ao que parece, não se pôde detectar o seu epicentro riografia. Ou seja: em rigor, a Semana não está acabada.
ou as suas causas" i.op. cu., p. 224). Ou seja, após o terramoto real, chegaria a vez
do "simbólico", de certo modo anunciado pelo primeiro.
A nota sócio-cultural visa aquilo que na Semana é legí-
" Nicolau Sevcerik o, op. eu .. p. 268. vel como articulação entre as oligarquias paulistas (café, fi-
" Idem, ibid., p. 272. nanças, etc.) e o poder político para, de modo muito deli-

28 29
APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTfsSIMA

berado, promover a Arte Moderna, ou pelo menos um "IIJ.al!t être_~1?solum~nt m9d~~~'._~~g~~fica~~.!...~~m~nflit~,


evento chamado Semana de Arte Moderna, já que nem ouyoluÇ.ão de continuidade, ~.!"vir o_~ns~rumept2...J21~~_sív_~1
tudo o que ocorreu na Semana merece a designaçâo de do Moderno
.~.----._-- no Brasil: o Estado'".
.. Isto é também o moder-
_---

"Arte Moderna". Este modelo afasta decididamente o per- nismo brasileiro na sua dimensão sócio-política e institu-
fil do modernismo brasileiro do do europeu, pelo que pres- cional, e convém não o esque<::et
supõe de um muito diverso entendimento do "conflito das
modernidades" (voltaremos a isto, mais adiante) e pelas - Na sequência do que vimos sobre a questão do "fu-
suas também diversas consequências no plano de uma tra- turismo" paulista e da mobilização geracional desses anos
dução institucional dos modernismos. Pense-se, por facili- iniciais, creio que é necessário realçar:_o sentido destrutivo
dade comparatista, nas dificuldades experimentadas pelo 90 modernismo de 22. q impulso destrutivo foi nele tão - ,-'-

.- -o,
modernismo português para simplesmente vir a público, no forte como em qualquer modernismo europeu, com a par-
seu lugar excêntrico no devir maioritário da literatura em ticularidade de ter atingido uma eficácia que tudo deve, afi-
Portugal' nas duas primeiras décadas do século, e na sua nal, ao nacionalismo que também o definiu. Pondo em
lenta institucionalização seguinte e, em todo o caso, sempre causa uma literatura e uma cultura caracterizadas pelo par-
muito mais como literatura do que como cultura. nasianismo e pelo academismo, o modernismo brasileiro
Esta questão é ainda legível na forma como o Estado tinha alvos semelhantes aos seus congéneres europeus; mas,
brasileiro, nas suas várias encarnações novecentistas, na medida em que o estado de coisas com que pretendia
"cooptou" escritores e intelectuais, fazendo com que, de romper assentava na regressão relativamente à particulari-
. ".0.'
Carlos Drummond de Andrade a João Cabral de Melo zação romântica e na vontade de construção no Brasil de
-Neto ou a Guimarâes Rosa, as letras brasileiras tivessem uma cultura tão europeia como as europeias, o modernismo
sido dominadas por uma figura recorrente, e talvez simbó- l1:~<? ~~t.l!aliz~y~ ~p~n.as. e. assim ..restituíaao Brasila litera tu-
lica: a do escritor-burocrata ou do escritor-diplomata, numa
'6 Os estudos de Sergio Miceli, reunidos no volume lruelectuais à brasileira
versão dignificada daquela "biografia a 5 %" que, de acor-
(São Paulo, Companhia das Letras, 2000), sobretudo Lntelectu ais e classe dirigen-
do com Eugenio Montale, definiria o perfil dos grandes mo- te no Brasil (1920-1945), carreiam 'abundantes elementos para esta caracterização.
dernistas (e que é também o perfil de Pessoa ou Eliot). Com No prefácio a esse volume, aliás, Antonio Candido, sociólogo de formação, mani-
festa as suas reservas à hermenêutica da suspeita posta em marcha por Miceli e re-
algumas poucas excepções - e uma delas é notoriamente corda o dilema dos intelectuais: "todos mais ou menos mandarins quando se rela-
Oswald de Andrade, personag<,;rI1.para_ 1l~..fiJrn~_Q~9r~2P cionam com as instituições, sobretudo políticas; e inoperantes se não o fazem" (p.
7l). E, argumentando a favor da distinção metodológica "entre os intelectuais que
W~ll;s-=-~~--;;;-~d~~-;;is~~sb;~~il~iros não verão impedimen-
'servem' e os que 'se vendem'" ressalva, a propósito de Carlos Drummond de An-
t~ éti~~ ou ideológico nessa colaboração com a' máquina do drade, que o poeta "<serviu' o Estado Novo como funcionário que já era antes
dele, mas não alienou por isso a menor parcela da sua dignidade ou autonomia
Estado, decerto porque, entre outras razões, o modernismo
mental. Tanto assim que as suas idéias contrárias eram patentes e foi como mem-
não podia deixar de ser no Brasil, como noutras latitudes, a bro do gabinete do ministro Capanema que publico os versos ooiíticos revolu-
forma literária e artística do imperativo da modernização. cionários do Sentimento do mundo e compôs os da Rosa do povo" Ip. 74).

30 31
APRESENTAÇÃO
CONVERSA INTERESSANTÍSSIMA

ra brasileira moderna - visou fundá-Ia de novo, como se só mitindo-lhes a sua "expressão", mas não lhes permitindo o
e~-ã~ ela corneçass~ ·~rdadr:; ramente~I!q~a.~!2 __
.!.Ü_~?,_~1,lEa. acesso aos seus direitos históricos. O fascismo pretenderia,
nacioriaie mo derna. E é por isto que o movimento moder- pois, que as massas se exprimissem, -desde que as relações so-
nista e fazia nacionalista quando se pretendia genuinamen- ciais se mantivessem inalteradas-". Este ponto merece algum
te modernista; e na podia deixar de ser - e de se ver - desenvolvimento, pois é óbvio, para quem estuda a fenome-
r~pe~S~()E~:,is~o~nist" cl~_m~ntisr::.~' nologia das vanguardas históricas na América Latina (mas o
Daí que o modernismo se entendesse no âmbito de um quadro não é substancialmente diverso nas zonas periféricas
movimento mais vasto de reconstrução nacional, de que da Europa, de Portugal à Rússia ou à Ucrânia), que ainren-
seria justamente a vanguarda, e por isso literatura e ideolo- sa fetichização da Vanguarda naquelas duas décadas iniciais
gia evoluíram associadas, em equilíbrios e desequilíbrios su- do século pressupôs que da vanguarda se cultuasse sobretu-
cessivos. Esta característiça ajudará a perceber o que se pas- do O que antes referi como âmago do projecto futurista, com
sará na década de 30, sobretudo na ficção romanesca. consciência plena das suas implicações políticas ou não (e
este último até terá sido o caso largamente dominante).
- Pois, era o que há pouco eu dizia sobre a versão bra- De facto, a explosão vanguardista na América Latina
sileira do conflito das modernidades. Quando se fala de - e importa chamar a atenção para o facto de que, entre
vanguarda, no âmbito do modernismo brasileiro, ou quando vanguardas importadas e outras orizinadas localmente
. b . ,
se usam expressões próximas para exprimir essa ideia, o _q:t:le houve manifestos e manifestações vanguardistas da Cidade
está em causa é quase sempre uma vanguarda modernizado- do México às pampas ou ao Lago Titicaca .;- fília-se domi-
ra, sem agon assinalável contra o moderno, quero dizer, con- nantemente no futurismo, que incendiou, como fogo em
tra a modernidade técnico-científica, capitalista e burguesa, _ palha, as aspirações artísticas, culturais e sociais de toda
enfim, aquilo ..que é uso chamar modernidade social. Tam- uma geração. Em consequência, I)_m!~!:?}_
~qy-'~I_~9;g9Di§.!ti2__
bém por isso, o modernismo brasileiro se refere quase exclu- . ele f.~içªQm_~5~.9x~xnªtiçfl_():g)[~gjç-ªgª-_~y;::tgrande recusa da
sivamente ao futurismo, de todas as vanguardas históricas a JIlg9~.r!ÜS!~çl~_'§.9_çÜ~L_~
__
qy~__
~_.amar_ca rec~;;he~i~~ld-~--D~d;-
que desposou mais intensamente a lógica da modernidade
social, no plano técnico-científico, colocando-a ao serviço de
i~;;~~:r~~~~:J~~e~t.~~r~JJ;~~g;-~~~
~.~.
uma epopeia ambivalente, no plano ideológico e político, da
era das massas, as quais, digamo-lo assim, ganhariam em não - Há porém uma questão nominalista, mas relevante,
passar à fase da individuação (tema também reconhecível em que passa pela "confusão" de termos como "modernismo"
Almada Negreiros,.sobretudo nos anos 30). Nos termos em e "vanguarda"! que na mesma América Latina significam
que Benjamin leu o projecto do fascismo no que toca às mas-
sas - que era, maioritariamente, o projecto 80 futurismo en-
" " Referimo-nos a algumas das teses centrais do ensaio de Walter Benjamin,
quanto estética secular -, tratava-se de salvar as massas per- A Obra de Arte na Era da Sua ReprodutibiJidade Técnica".

32 .33
CONVERSA INTERESSAN"rISSIMA
APRESENT AÇÃO

este O ponto: os nomes e as coisas não coincidem, quando


coisas diversas, consoante falemos da Bispano-América ou
sejam usados na América hispânica ou no Brasil; mas, por
do Brasil'". Naquela, "modernismo" é o nome usado para o
esteticismo finissecular, com predomínio do simbolismo outro lado, brasileiros e hispano-americanos coincidem num
razoavelmente comum entendimento do moderno, da "van-
sobre o parnasianismo, embora este tivesse conhecido uma
guarda" e da sua versão do conflito das modernidades , afas-
forte irradiação local (o Brasil sabe-o, e os modernistas o
sabiam especialmente, tão virulenta será a sua reacção con- tando-se nesse ponto do entendimento europeu desses fenó-
tra os próceres do parnasianismo local, com Olavo Bilac à menos, ou privilegiando drasticamente o entendimento
cabeça). Desse "modernismo" a figura central será Rubé~ futurista da questão, em detrimento de todos os outros que
Darío (Nicarágua, 1867-1916), verdadeiro ícone do movi- com ele concorreram nessa altura, Nada disto é realmente
mento e figura pan-americana desde, pelo menos, a publi- surpreendente, e podemos mesmo lê-lo como mais uma ma-
cação de .Azul.,», em 188819, O "modernismo", entre outras nifestação do carácter imaginado que, para Nestor García
coisas teve para os hispano-falantes da América a impor- Canclini, toda a globalização possui. "Vanguarda" e "moder-
tância' de ter sido um movimento literário nascido lá, e não nismo" são nomes disponiveis.ino início do século XX, para
essa imaginação activa da globalização, então numa fase deci-
na Espanha imperial, que depois o importou e assimilou,
numa pioneira inversão do processo de influências cult~- siva da sua expansão planetária, Em São Paulo, em 1922, as
rais. Este nome, contudo, não se coaduna com o modernzs- palavras "modernismo" e "futurismo" funcionaram como sig-
mo na acepção que se tornará comum no Brasil, tanto mais nos de uma imaginação que mobilizou empresários, gover-
que este modernismo se constituirá, em boa parte, por, r~ac- nantes, académicos, imigrantes e artistas (e artistas imizran-
b

ção contra aquele, que contudo localmente se chamara sim- tes). Como sempre ocorre, alguns deles foram capazes de uma
bolismo ou parnasianismo, tal como em Portugal e na Eu- imaginação circular ou' holística da modernidade
. , outros fica-
rarn-se por formas tangenciais de imaginação-". Todos,
ropa, de resto.
Problema análogo ocorre com a designação "vanguar- porém, depuseram nessas palavras o melhor da sua imagina-
da", que n~ América hispânica, como em Espanha, usada ção e empenho criativos, na área artística ou na económica e
em geral no plural, nomeia toda a fenomenologia antes re- política. Desse ponto de vista, aliás, São Paulo é e não é o
ferida, mas que no Brasil coincide, muito proximamente~ local onde o evento teria necessariamente de ocorrer, onde o
com aquilo que veio a chamar-se modernismo, Ou seja, e e modernismo teria de ser anunciado ao Brasil, como quem
anuncia uma salvação secular. São Paulo permitiu a concen-
tração e intersecção produtiva de formas várias, diversas e
18 Para um panorama das vanguardas latino-americanas, veja-se Jorge, Schwar:z
concorrenciais, de imaginar a globalização novecentista, mas
(org.), Vanguardas latino-americanas. Polêmicas, manifestos e t~tos CrztICOS,Sao
Paulo, EDUSP, 1995. .'
19 Sobre o "modernismo" hispano-americano, sugira-se a leitura da obra hIS-
20. Usamos aqui a terminologia de Canclini em La globalización imaginada,
tórica de Max Henriquez Urefia, Breve historia del modernismo, 1954. A b ib lio-
Buenos Aires, Paidós, 1999.
grafia sobre o assunto é, como se imagina, imensa.

34 35
CONVERSA INTERESSANTíSSIMA
A PRESENT AÇÃO

O facto de o modernismo ter também eclodido em cidades uma "estruturação modernista", porque a "reverificação"
bem menos eufóricas, do ponto de vista económico e finan- modernista persiste a matriz de todas as reverific.ações ...
ceiro, como Lisboa, Dublin, Moscovo ou Alexandria, mostra
bem que, ~n9uant~ imagin~ão,...2JDo..sier!l!~!!19_P_od~9.is2eD-- - Sem dúvida. Sobre essa "estruturação modernista",
sar a tradução empírica_.clo ...?<::1l_.5>EjEi~J:.!.1()
..te~.J:1~~~~P!~~li~!.~.- uma citação de José Guilherme Merquior, no ensaio "A poe-
urba-~':"E-;;q~;;;t~ m~dernismo que deseja suturar a relação sia modernista", já aqui referido: "A primeira conseqüência
~ens;-~'cÜlemática da modernidade artística com a social, en- de um olhar distanciado da poesia de 22 (e de 30 - da poesia
. quanto modernismo que se pensa como uma paideia, aí sim, antes de 45) é transformar essa visão em próxima; pois do
contrário desses poemas nasce pouco a pouco a certeza de
" faz todo o sentido que ele tenha eclodido em São Paulo e
que o espírito de 22 se conserva absolutamente vivo, e ainda
não, por exemplo, no Rio de Janeiro, cidade que já não dis-
mais vivo, porque depois dessa data e da fundação da grande
punha das condições sociais e históricas para permitir uma
21 obra dos modernistas, nada mais alterou vertical~ente a poe-
imaginação holística da globalização novecentista .
sia brasileira" (sublinhado meu)". Suponho que ~_J??ssív.:~l
'. •••••••; =:Ó,

d.~creve~o século XX, na literatura brasileira, como "um..-.-


-------.---.---.--------.-.- sé-
É preciso avançar. Ocorre-me agora uma passagem ul mo d ernist~-':, a partir dessa formulação de Mário de Ari- ~~/.
c_<?
curiosa da conferência de Mário de Andrade já citada atrás
drade - a constante reverificação dos materiais -, para dei-
em que ele diz que "a arte, como a ciência, como o proletaria-
xar cair a coisa ligeiramente para o lado de Adorno. Nessa
do não trata apenas de adquirir o bom instrumento de traba-
acepção, é hoje evidente que I]efl.humª-_outra_poética cOll~e-
lho, mas impõe a sua constantereverificação"22. Isto liga-se ao
gtlLt.l.~r:l?:
...~f~.i~<?
__~.ª~global, alterando "verticalmente" o todo
que ele definira pouco antes como um dos princípios funda- d?_po~sia brasileira. O ~;-;di-~f~to ;;;i~6b~io';~;:;~- alt~;~çã~
mentais do movimento modernista, o "direito permanente à
qualitativa desse teor, após o modernismo, e igualmente am-
pesquisa estética"23; neste sentido, o século XX brasileiro tem
bicioso nos termos em que a colocou, foi talvez o concretis-
mo, que contudo produziu apenas efeitos localizados, esusci-
'IA forma mais holística, ou circular, deimagillll.r.~..&lobaJizaçã.Q..l!?.51.º.R~.!,!19 tando sempre uma viva resistência de zonas várias do campo
dos ano; 20: foi~~.8.:-,_r:.a..r:ryiI?.l~"i·EI?i~.2E.()I~gj;-d~·.Os'Yald
-ª.~_An9...!:ade
(e nã_º_~ªnlQ..? literário (a começar pela do modernismo, desde logo na sua
de_8!~Ei.·~ ~dr~e ou ~~, bem mais limitadas no seu raio de acção,
PO~~S}.a,L.9.~l!rístico e ambições prog~~rn3.y'ç:.!!.s).
Para Oswa1d, a Antropofagia era
tradução universitária), resistência 9..ueevidencia a dificulda-
,.t-. uma filosofia ou um "sistema", tão mais visível quanto o autor a eles era infenso na de de subrogar o mode~~ismo-d~-~;;-p-;;içã-;--'~~;~~~~;d~ra
sua produção literária. O percurso de Oswald é bem esclarecedor quanto a isto, já
no camp.'?
.
literáriobrasileiro". O_. pr~rio
+:
concretisrno
-'.-,--,-'- ",p--~.-.~,~
-,~-"~.-
é ainda
...-----.,,,,--.
que a partir dos anos 30 e até 50, ele tentará a1argar o âmbito dos objectos explicá:
veis pela Antropofagia, tornando-se evidente que esse âmbito não conhece limites.
. 22 Mário de Andrade, "O movimento modernista", op . cit., p. 246. '4 Merquior, op. cit., p. 36.
" Escreve Mário de Andrade: "O que caracteriza esta rea1idade que o movi- 2> Lembre-se, a este propósito, e a título contrasrivo, que a resistê~cia glo-
mento modernista impôs, é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o bal ao modernismo durou pouco, sendo disso sintoma a sessão que a Academia
direito permanente à pesquisa estérica; a actualização da inteligência artística brasi- Brasileira de Letras, em 1952, levou a cabo, celebrando os 30 anos sobre a reali-
leira; e a estabilização de uma consciência criadora naciona1." (Op. cit., p. 242.) zação da Semana de Arte Moderna.

37
CONVERSA INTERESSANTlsSIMA
APRESENT AÇÃO

legível como mais um momento na sequência n:oderpistª, gue dele não é já possível extrair uma orientação global, mas
momento. de "depuração" do impulso modernista. I1Ll~,a. apenas parcelas que concorram para um novo idioma poé-
corno que tadicalização da sua pesquisa sobre os materiais tico. Um idioma que, porém, manifesta grandes dificulda-
poéticos(depuração que, ~a sua óp tica, e com ~gu~_~J§_gj_<::_a, des em ser novo (mas essa é uma das aporias do pós-mo-
faria seu precursor João Cabral de Melo Neto, figura de tr~~~ derno) ou em configurar-se como um "idioma" tão global
siç~;?:_~!1~I'e.,2):noder.n~sITlo
de 22 e os concret~~t,a.:~<!e..?~~: quanto o foi o do modernismo. De tudo isto, o poema "Pós- ,',' \

A "poesia marginal", nos anos 70, faz ainda sistema -tudo" de Augusto de Campos, datado de 1984, é talvez a
com a poética modernista, se bem que não a convoque no melhor baliza temporal para um devir estético em que em
todo mas apenas em parte (o poema-piada, o coloquiali~- geral se sente uma situação de "Extudo", o que é obvia-
mo, a lição de Bandeira e do primeiro Drummond e Mun- mente conciliável com a insistência .- ética, dir-se-ia - no
10, etc.), o que étambém revelador das dificuldades em pro- "estudo" de outras possibilidades do novo, apesar da des-
mover uma subst ituiçáo global da poética modernista. Ou, crença subjacente.
o que vai' dar no mesmo, em conseguir um diálogo global
com a mesma poética, como se a situação herdada pelos poe- - A situação tem algum paralelo no que ocorre em Por-
tas de 7 O fosse tal que o idioma modernista se uvesse trans- tugal, diga-se. O confinamento do modernismo em Portugal
formado numa linguagem prévia a toda a tentativa de fazer a um período que vai de 1915 a 1927 (datas de edição do
poesia. Se aceitarmos que a "poesia marginal" é uma versão Orpheu e da presença) e, depois, admitindo a sua divisão em
peculiar do pós-moderno - um pós-moderno que se. rela- duas fases, desta última data até 1940, quando a série mo-
ciona ludicamente com a lição inaugural do modermsmo, dernista é supostamente interrompida pelo soluço neo-realis-
recupeíando-o, ou parte .dele, da sua canonização posterior ta, não permite explicar uma série de fenómenos, a saber: a
_, então poderemos concluir quea..,poe.sia P"<?s-rp5~<:1e.!:'I)~. geração que nos anos 40, em torno de Jorge de Sena, relan-
brasileira, com raras excepções em geral desinteressantes, çará a poética modernista, nessa altura por contaminação do
"
não alimenta uma negatiy!d~de anti-modernista, optando modernismo inglês, tanto quanto por descoberta de Pessoa,
~~tes Ol.l po~-'resg~t_aLg"i!DPulsocriativo inicial do moder- por essa data a começar a ser editado em livro; a eclosão do
, nisrnoou p-~r distender o imperativo desse impulso inova- surrealismo português, entre 40 e 50 e a obra poética, crítica
.',,' dor em favor de um pluralismo estético que coritudor ara- e ensaística de Mário Cesariny; poetas como Antônio Ramos
"', mente chega ao ponto de recuperar poeticamente a liç_~º de Rosa e, pelo menos, a revista Árvore, nos anos 50; esse cul-
_, 'J.".

'p'~r-~asiarlos e, mais latamente, pré-_rn.oªerl?i~~as.Neste ,senti- minar explosivo da lógica moderna que será Herberto Hel-
.. " ",
der no início de 60; enfim, o retomar da lógica intransigente
"

do o modernismo não é apenas o período que vai de 1922 a


~':.«'
.... ,
1930 e depois a 1945, mas antes um macro-período ou, pelo do moderno na Poesia 61, ou na obra das suas principais
menos" uma estética dominante na maior parte do século, figuras nos anos 60.
mesmo quando, a partir de 70 e 80, os poetas consideram

39
APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTÍSSIMA

_ Retomando o caso do Brasil, tem-se muitas \Te~.~.L? nação "modernismo" para o período aqui abarcado __ericori-
sensação de que a história literária brasileira resolveu a ques- tr~.-~.~p~r(~.~<l!!1.~!1t~._
estabilizada, como esta antologia não
~i;' periodológica sobrepondo simplesmente a desigl:?:~5ª? deixa de revelar.
"modernismo" ao período heróico do movimento moderno
n;:B~asil, entre 1922 e 1930 ou pouco mais: ou seja, (lc~itan- - No fundo, o termo "modernismo"designa sobretu:.
do a cartografia lega da pelos próprios modernistas, a_ç2!T.l_~~ do a fundação de uma tradi~......Qacional12!Óprial. ou ~ai~,_
çarjxor Mário de Andrade. A consequência deste gesto foi RE!':.<;j~amente,a esti}2ulação br~ileir~c!~s_~no.Q.~C:2_l!:'_~X.-
transformar o modernismo numa sociologia e nUI1"l ..s.<?9igo 5=.lusãoda tradição literária E.0rt~B_~~?a. O triunfo do mo~
muito reconhecíveis nos set.:ls.~iIlllisext.~rnos, e eIl.q\l:mtq tal dernismo é isso: a possibilidade de estabelecer, a partir de
facilmente catalogáveis - verso livre, primitivisino, poema- 22, uma tradição formadora dos novos poetas por ser a
_piada, etc. -, descurando um .t.a1?:.to 3 consciencia~i~aç~(). de única que define o que é "poesia brasileira". João Cabral de
que o que estava em pauta era antes a culminação moderna MeIo Neto, numa série de artigos de 1952, diz dos poetas
da dialéctica do iluminismo na arte, ou seja: a crítica ir.n?:n~~l- modernistas que escreviam sob o "sentimento de que sua
te dos materiais, como diria Adorno, ou, noutro jogo delin- voz não teria de se submeter a nenhuma forma preexisten-
guagem, aexponenciação da dialéctica entre o latente eoma- te": "Eles estavam colocados numa posição especial. Na-
nifesto. Nesse sentido, o modernismo não acaba tãoc~.92_~ . quele momento coincidia a criação de sua poesia pessoal
precisa mesmo, do pon.~o.._º.e...vista da sua dinâmica histórica, com a criação de uma nova poesia brasileira, com suas
de incluir, pelo menos, João Cabral de Melo Neto e os con- novas formas, sua mitologia, sua sensibilidade, isto é, seu
cretos (é altura de recordar a forma como estes reinventaram público. "27 O mesmo João Cabral é o primeiro grande
Oswald de Andrade, fazendo dele uma figura maior da refe- poeta brasileiro a emergir no quadro delimitado da poesia
rida dialéctica iluminista na arte: transformação do poema brasileira e o primeiro em cuja poesia, particularmente, não
em .mecânica de materiais, "empobrecimento" drás~i.cº da . existe qualquer diálogo com a tradição portuguesa. Eis um
. .. fi . . )26 E
sua latência em favor de flagraIltes super iciais, etc. .' ...1]1 caso importante: um poeta que aceita subordinar-se tradi- à

~odo .~ caso, e apesar da óby'!ª.n~ce.._ssidadecl~p.!"9slu~.i!: ~!ll . ção criada pelos modernistas, e que por isso mesmo parece
modelo historiográfico que responda à forma. corno _ª-gl_º _ ficar livre de subordinação à tradição lírica portuguesa. ':'-:'
.. ;, .
dernidade artística problematizou a transparência e...l~Il~a._~i_~ .. O sucesso dessa estipulação canónica depende decisiva-
. __
dade da narrativa
. _
-._.....
tradicional,
__ ,_ .
na .1it.~Tª.t:t:"!rªbra?ile..!r~ª_.ge~!g~_ mente de factores institucionais: a crítica, o ensino, a uni-
versidade, também inseparáveis da acção modernista; mas a
-~I~~~~~d~'
neste ponto, as obras maiores que na literatura brasileira do sécu- ilusão retrospectiva que ainda vigora fá-Io depender da irio-
lo XX são as de Clarice Lispector e João Guimarães Rosa, também não fazem sentido
senão numa relação de filiaçâo clara com o modernismo, na acepção mais lata deste.
A colocação, por Clarice. do seu primeiro romance sob a égide de um grande mo- n João CabraI de MeIo Neto, "A Geração de 45"', PW5a, .Rio de Janeiro,
derno - Joyce - é a esse título suficientemente esclarecedora. Nova Fronteira, 1998, p. 76.

40 41
APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

vação modernista, como se esta por si só fundasse a poesia - Belo exemplo. O alvo dos modernistas era essa con-
brasileira autêntica28. Daí dois pontos-chave nessa "estrutu- cepção, digamos popular, do poema definido pela métrica,
ração modernista" da poesia brasileira do século XX: a li- pela rima e pelo ornamento: em suma, a noção parnasiana.
berdade de composição poética - de que o verso livre é o "Só não se inventou uma máquina de fazer versos - já
emblema (como o parnasianismo fora o emblema do passa- havia o poeta parnasiano", escreve Oswald de Andrade no
do) - e o abrasileiramento da língua literária, isto é, o pro- Manzfesto da poesia Pau-Brasil. O parnasianismo significava
jecto de eliminar a matriz portuguesa e consolidar uma lín- a possibilidade de produzir versos independentemente da
I gua literária brasileira através do que Mário de Andrade situação, do tempo e do local: uma máquina, portanto - e
. designava "estilização culta do linguajar vulgar". máquina importada, para recorrer a outra dicotomia oswal-
diana no mesmo manifesto -, gerando produtos ridículos.
- No que toca ao verso livre, deixa-me introduzi-Io A liberdade que os modernistas reivindicavam - a princi-
aqui por meio de uns deliciosos versos de um outro moder- pal reivindicação de Mário de Andrade no "Prefácio inte-
nista, Ribeiro Couto, no poema "L'école des femmes", es- ressantíssimo" de Paulicéia desvairada - opunha-se à ideia
crito entre 1921 e 1922 e depois reunido no volume Um de uma linguagem poética universal, transcultural e clássi-
homem na multidão (1926): ca, em nome da restituição (decerto ilusória e até conflituo-
sa com o ideário modernista) da poesia à pureza definida
Eu quero que tu gostes de mim, quero ... pela rasura do ornamento e do artifício e da adequação às
Mas não me peças nunca para que te leia poemas. condições de tempo e de lugar, isto é, o despontar do sécu- ..
Cada vez que te obedeço e vou buscar poemas 10 XX no Brasil. A poesia não precisava de regras, preceitos
começo a ler e te espantas logo: U-:- Mas a métrica?"
ou convenções - precisava de soluções. DaÍa.escolha dum
E é preciso repetir toda uma explicação monótona.
verso de Drummond para título da antologia, 'retirado da
conhecida estrofe paródica do "Poema de sete faces":
28 A verdade é que, 'nesse plano, o fracasso era inevitável, por ser impossível
manter a poesia brasileira nos limites definidos pelo modernismo de 22. A acção
Mundo mundo vasto mundo,
'; . decisiva nesse fracasso deve- se a 'Carlos Drummond
terior ao do aparecimento
de Andrade que, no ano an-
destes artigos de João Cabral, publicara uma contro- se eu me chamasse Raimundo
versa obra-prima: Claro enigma. A controvérsia decorreu em volta da chamada
seria uma rima, não seria uma solução .
. "virada classicizante" desse livro, que chegou a ser reputada traição do modernis-
mo em que o poeta emergira. Importa realçar um aspecto particular da "virada": Mundo mundo vasto mundo
a presença da tradição lírica portuguesa, antiga e moderna. Qualquer que seja a mais vasto é o meu coração.
natureza dessa presença, certo é que, em Claro enigma, "A máquina do mundo"
_ para alguns o maior poema brasileiro do século - remete para Camões e Os
Lusíadas, "Sonetilho do falso Fernando Pessoa" é o primeiro poema que um poeta A força do modernismo, aliás, mede-se também pela
_.,
..
.> .
brasileiro publicou sobre Pessoa, e enfim, toda a primeira secção do livro, justo
aquela em que a "virada classicizante" se elabora, recebe título, "Entre lobo e popularização .das formas livres. Mário de Andrade, num
cão", que provém duma trova de Sã de Miranda. ensaio sobre o ano de 1930, queixava-se dos efeitos da assi-

42 43
APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

,
milação rápida e desenfreada do verso livre, que chamava O verso verdadeiramente livre foi para mim uma con-
"inconveniências da aurora": "A poesia brasileira muito quista difícil. O hábito do rirmo metrificado, da construção
tem sofrido destas inconveniências, principalmente a con- redonda foi-se-me corrigindo lentamente a força de que estra-
temporânea, em que a licença de não metrificar botou nhos dessensibilizantes: traduções em prosa (as de Poe por
muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo Mallarmé), poemas désavoués pelos seus autores, como o fa-

mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra moso que Léon Deubel escreveu na Place du Carroussel às

fazer verso-livre. Os moços se aproveitaram dessa facilida- 3 horas de uma madrugada de 1900 (Seigneurf [e suis sans

de aparente, que de fato era uma dificuldade a mais, pois, patn, sans rêve et sans demeure), menus, receitas de cozinha,
fórmulas de preparados para pele, como esta:
desprovido o poema dos encantos exteriores do metro e
rima, ficava apenas ... o talento. "29
Óleo de rícino
Óleo de amêndoas doces
- Convém sublinhar que o verso livre corresponde a di-
Álcool de 90°
ferentes "soluções" no modernismo brasileiro. Refiro-me às
Essência de rosas
diferenças observáveis entre Manuel Bandeira, Mário de An-
drade e Oswald de Andrade, que tomo aqui como casos
Versos como os do meu "Debussy", "Sonho de uma
"~O exemplares. Ao contrário dos dois primeiros, Oswald não
Terça-Feira Gorda", "Balada de Santa Maria Egipcíaca", "Na
conciliou, nem que brevemente, o verso livre com a metrifi-
solidão das noites úmidas", "Bélgica", "A vigília de Hera",
cação regular. Como ele próprio declarou, o verso livre foi
"Madrigal melancólico", "Quando perderes o gosto humilde
uma pré-condição da própria existência da sua poesia, dadas
da tristeza" ainda acusam o sentimento da medida. Ora, no
as dificuldade que tinha de escrever dentro da métrica regu-
verso livre autêntico, o metro deve estar de tal modo esqueci-
lar. Oswald é nitidamente um produto da revolução do verso
do que o alexandrino mais ortodoxo funcione dentro dele sem
livre, que adopta sem reservas ou timidez de qualquer tipo. virtude de verso rncdrdo.??
Já Bandeira, o patriarca dessa revolução, começou nas for-
mas tradicionais, em que foi um mestre - veja-se por exem- Basta ler este passo para sentirmos que, também para
plo "Verdes mares.", de Carnaval, notável poema (parnasia- Bandeira, O facto de que" On a touché au 'uers", como disse
no ... ) na exploração do verso de 12 sílabas - e passou Mallarmé, releva da heresia, exigindo por isso contrição e
depois, não sem resistência, ao verso livre. Como ele próprio expiação longa. É espantoso como ainda assim a poesia mo-
declara, numa passagem de Itinerário de Pasárgada, dernista de Bandeira impressiona pela sua fluidez musical e
cadência rítmica perfeita, como se a "conquista difícil" a
29 Mário de Andrade, "A poesia em 1930", Aspectos da literatura brasileira,
ed. cit., p. 27. Apresentamos no anexo" Alguns documentos" as passagens mais JO Manuel Bandeira, "Itinerário de Pasárgada", Poesia completa e prosa, Rio
significativas deste ensaio. de Janeiro, Editora Nova Aguilar, J 990, pp. 47 -48.

44 45
APRESENT AÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

que o poeta se refere tivesse sido objecto de uma rasura, ou A discrepância métrica dos dois versos iniciais de "O
silenciamento, nada ou quase nada restando à superfície Martelo" (e ainda o recurso ao advérbio de modo, sempre
dessa luta íntima com o verso. Libertinagem, desse ponto de tão difícil de acomodar metricamente - o que nos faz pen-
vista, é a obrá admirável de um grande poeta moderno, que sar em Cesário Verde, que foi nisso mestre), ou a extensão
consegue proezas difíceis de igualar. Um breve exemplo, "despreocupada" do verso inicial de "Mozart no céu", que
apenas: dois dos versos finais de "Poética", poema decisivo parece tombar o poema para o poema em prosa, tudo isto
para a autoconsciência do modernismo brasileiro, e que se são marcas de um grande poeta do verso livre, como aliás,
inicia com o famoso "Estou farto de lirismo comedido": pelo menos no domínio do ritmo e da gestão melódica da
curva do verso, outro não houve no século XX em português.
De resto não é lirismo Como Bandeira, Mário de Andrade recorreu também
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante às formas fixas, sempre que isso se lhe afigurou pertinente.
[exemplar com cem .modelos de cartas e as diferentes É o caso dos poemas em que recupera formas tradicionais,
[maneiras de agradar às mulheres, etc. com destaque para Clã do jabuti (por exemplo, no poema
"Coco do major", incluído nesta antologia). Mas Mário, en-
.É notável como se passa de um verso curto para um tão quanto poeta que inicia a sua carreira poética com Paulicéia
longo e como se muda, em simultâneo, de uma linguagem desvairada, após a falsa partida de Há uma gota de sangue
aceitável na lírica para a linguagem da burocracia e de um em cada poema, representa no modernismo brasileiro aque-
certo antilirismo, culminando naquele "etc." que resume la versão do verso livre, tão cara aos modernismos, que se
toda a mestria do poeta, na medida em que sugere que, diria o correlato necessário da intensificação e proliferação
sendo longo, o verso aparece aqui em .versão bastante eco- da cultura objectiva na modernidade: verso e poema lon-
nómica, e ainda porque o "etc." surge como uma espécie de gos, ritmo marcado, tonalidade próxima da ode, o poema
marcador da liberdade versificatória que o poeta se permi- como receptáculo extático de um mundo em mutação ace-
te (ou arroga). lerada. Nas cartas entre Mário e Bandeira.isão frequentes as
Não resisto a citar outros dois exemplos, de um livro ressalvas que o último vai fazendo a alguma "rudeza rítmi-
posterior de Bandeira, Lira dos cinquent'anos (1940). Refi- ca" da poesia do primeiro, ou a saltos excessivos na com- . :
ro-me aos dois versos iniciais do poema "O martelo" - posição do poema, cuja articulação nem sempre manifesta a
"As rodas rangem na curva dos trilhos / lnexoravelmente" harmonia reconhecível nos poemas de Bandeira. Mas essa é
- e ao verso inicial de "Mozart no céu": a versão do verso livre em Mário, e apesar da pertinência de
algumas das restrições de Bandeira, convém notar, por ser
No dia 5 de Dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart entrou de justiça, que sem a poesia de Mário de Andrade o mo-
[no céu, como um artista de circo, fazendo piruetas dernismo brasileiro seria uma coisa bem iferente, já que
[extraordinárias sobre um mirabolante cavalo branco. sem ela, e de um modo um tanto chocante para um moder-

46 47
APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA

nismo nascido em São Paulo, a paulicéia não teria encon- liteE~r.:L~~_._Q_~q'=I.n<?_


qu~ é a sua mais poderosa versão do pri-
trado o seu cantor. Além de que é sempre possível advogar fl2(t~~l~~<?, quer em Pau-Brasil, qller,~~is i~~~g~alm~~;~~,~~
que o ritmo áspero e rude da paulicéia seria atraiçoado por Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade. Ve-
um canto que o transformasse em harmonia coral": jamos um poema emblemático do primeiro livro:
Finalmente, Oswald, poeta do verso curto e do poema
com tendência a flash fotográfico - quantas vezes ilusório, 3 DE MAIO
como a inclinação fatal do autor para a "chave de ouro",
denunciada por Mário, deixa manifesto, já que a dita chave Aprendi com meu filho de dez anos
transforma a fotografia em ready made laboriosamente Que a poesia é a descoberta
construído (ou melhor: ideologicamente premeditado P". Das coisas que eu nunca vi.
A poesia de Oswald
- •.- -- -.-
distingue-se com toda a nitidez da de
Bandeira e da de Mário (como aliás da de todos os outros o verso livre é contudo em Oswald umamáquina de de-
modernistas), no próprio terreno do ver~sdi"y!"'e.,que nele voração das linguagens e das culturas objectivas modernas, o
começa por ser uma reivindicação .. º-e_ªrnn~.~!.a.cllh~t:a.L~_ que muitas vezea coincide, em poemas que são vitrines de lin-
guagens reificadas. Por exemplo, "Música de manivela":
JJ A questão ganha em nitidez se recorrermos a uma passagem da obra de "Sente-se diante da vitrola / E esqueça-se das vicissitudes da
Nicolau Sevcenko, em que está em pauta a adequação do verso livre de Blaise vida / Na dura labuta de todos os dias / Não deve ninguém
Cendrars à metrópole paulista. A passagem, é a nossa proposta, adequa-se igual-
que se preze /Descuidar dos prazeres da alma / / Discos a
mente ao verso livre com que Mário cantou a paulicéia: "São Paulo era uma au-
daciosa obra de arte modernista em si mesma, com suas contradições intrínsecas, todos os preços". É aqui que Oswald se torna um poeta in-
sua coleção de ambições delirantes e seu desprezo pela história, passada ou futu-
tensamente moderno, na verdade mais vanguardista do que
ra" Çop. cit., p. 294).
32 Na sua histórica leitura da poesia de Oswald (que é também, iridissocia- modernista, transformando o poema ern colagem e monta-
velmente, um resgate e uma apologia de Oswald), Haroldo de Campos defende, a gem de elementos provenientes de uma empiria que contudo
este respeito, e contra Mário, que se trata antes "de um verso de ouro para acabar
com o verso de ouro, de um desmascararnento sistemático da rotina parnasiana
não se esquece da sua radicação local, isto é, brasílica. E é
.........
pela exposição do seu avesso" (Haroldo de Campos, "Uma poética da radicalida- aqui que a humildade dos seus objectos de eleição se afasta
de", in Oswald de Andrade, Pau-Brasil, São Paulo, Editora Globo, 1990, p. 15).
da humildade de um Bandeira - p or exemplo, o Bandeira \ '"..
Muito tipicamente, Haroldo atribui a Oswald o saber não contingente que não
consegue reconhecer em Mário, que "sempre se preocupou a sério com a estética de "Quando perderes o gosto humilde da tristeza" -, pois
parnasiana [. .. ] e mais de uma vez, em diferentes épocas, quis mostrar que sabia essa humildade é a face ambígua de um projecto muito am-
fazer sonetos em clave áurea ao gosto dessa estética" (idem, pp. 15-16). Mário,
enfim, estaria refém do seu contexto histórico-cultural, ao contrário de Oswald, bicioso, ligeiramente megalómano, de Retrato do Brasil, que
que estaria por definição além dele. A fundamentação desta diferença deixa con- se situará, para recorrer a termos com que Nicolau Sevcenko
tudo um tanto a desejar no ensaio de Haroldo, que nitidamente dfci.d_~__ eo!D..fª-v..ºr
de Oswald e contra M.~fÍo, nurn"jog"cjaaliás típiçados discursos revisionistas,
contrasta a pintura de Pernand Léger com a de Tarsila do
q~:~-~ã~' disc~rs~~ e'~ 'que, por definição, a instância valor ativa precede. e sobre , Amara}, entre "uma utopia da sociabilidade moderna e in-
determina a analitica.
dustrial" e uma "utopia da brasilidade tropical", sem verda-

48 49
CONVERSA INTERESSANTÍSSIMA
,
deiramente optar por uma delas em definitivo. Nesse senti-
do, ~.l?º-~s~aqe .. º_~~Lº ~J?2e.~-ª.d2_oétiç-ª>
e.t..<!0t:zá de.tuqQjsso em-.?imul!_ªD_eO,
__
so~i2logi~_ºlíti~a
como Haroldo de Cam-
- Isso liga-se a outro traço da poesia de Oswald, o
humor, O sentido da galhofa e da ridicularização. Muitos dos
poemas curtos dele são quase meras piadas: Mas nisso não
. , .. ",. '-'-: ."'~

pos, poeta e metapoeta, intuiu para seu uso e benefício pró- está sozinho. Se o verso livre representa a reivindicação de li-
prio; e como, num quadrante bem diverso - o da escola da berdade, em nome do "direito permanente à pesquisa estéti-
USP, centrada .na reflexão sobre a literatura enquanto orga- ca", liga-se numa espécie de sistema a vários outros tópicos:
non da identidade nacional - Roberto Schwarz percebeu o assunto do quotidiano, o tema vulgar, o coloquialismo, o
também, dedicando a um poema central de Pau-Brasil, repúdio do tom solene, em suma, a recusa do "tema próprio
"Pobre alimária", um famoso ensaio, cuja primeira frase é de poesia", da "linguagem própria de poesia" - do decoro.
assaz esdarecedora: "Oswald de Andrad.e inventou uma fór- Drummond é o maior humorista da poesia brasileira, como
mula fácil e poeticamente eficaz para ver o Brasil"}}. Essa fór- se sabe, característica particularmente visível no seu primei-
mula coopta o verso livre, que Oswald põe ao serviço de uma ro livro, Alguma poesia. Aí se encontram exemplos' antológi-
galeria de quadrinhos, ou quadradinhos, em que a miniatura, cos do poema-piada>', a bem dizer condensação de'todas as
a narrativa residual, a colecção de clichés, tudo trabalha para características do típico poema modernista. Por exemplo
a grande alegoria do Brasil moderno, "bárbaro tecnizado", este, dedicado a Manuel Bandeira:
que se chama na sua obra Pau-Brasil, mas se pode chamar
também, e com especial justeza, verso livre. POLíTICA LITERÁRIA

- O verso livre de Oswald de Andrade também pode- o poeta municipal


ria ser descrito com a designação que ele forjou no Mani- discute com o poeta estadual
festo da poesia Pau-Brasil: "inocência construtiva". Conju- qual deles é capaz de bater o poeta federal.
gação do bárbaro e do engenheiro, do primitivismo e da
técnica, da selva e da escola: a inocência dos bárbaros "in- Enquanto isso o poeta federal
civilizados" aliada à técnica construtiva·da modernidade so- tira ouro do nariz.
cial. Q2E~!1:Ú.!i.~i~r:n.g
~_sY'-aldianonão é o.utra coisa: a devo-
ração antropo(~~i<.;a da técnic~. Para Merquior, o poema-piada permitiu aos poetas mo-
dernistas apoderarem-se de uma "psicologia brasileira", de
3} Trata-se do ensaio "A carroça, o bonde e o poeta modernista", incluído
no volume, de título ironicamente ilurninista, Que horas sâo>, São Paulo, Compa-
um "realismo social e psicológico pelo qual a nossa Íitera-
nhia das Letras, 1987. O ensaio, que analisa miudamente o projecto de Oswald e
todas as suas aporias, integra aquela sequência de autores que, de Machado de " No já citado ensaio "A poesia em 1930", Mário de Andrade critica acer-
Assis a Francisco Alvim, passando por Oswald, narram, segundo Schwarz, a mo- bamente o poema-piada, numa passagem que aliás reproduz parte da carta que
dernidade brasileira, ou melhor, a modernidade no Brasil, com todos os seus pro- enviou a Drummond e em que analisa dernoradarnente Alguma poesia: é a última
blemas de aclimatação local. carta que incluímos na correspondência incluída na secção "Alguns documentos".

50 51
APRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTfsSIMA

tura conquistou para expressão lírica tantos 'moods', com- - Isso suscita-me outra achega, que tem a ver com as
portarrientos e jeitos do homem nacional. Justamente neste consequências do poema-piada na poesia brasileira. De
ponto o tão censurado poema-piada teve um papel relevan- facto, o poema-piada tornou-se património poético brasi-
te, já que por ele freqüentemente se comunicava o humo- leiro, com maior ou menor rentabilidade consoante as poé-
rismo dos novos poetas, de Bandeira a Drurnmorid"?". Ou ticas e idiossincrasias pessoais, ao longo do século XX. Se
seja, o poema-piada é ainda parte integrante do grande pro- João Cabral e os concretos parecem dispensá-Io, dando razão
jecto de nacionalização literária e cultural, uma nacionaliza- às críticas de Mário de Andrade - noutra óptica, diríamos
ção que, em seu entender, dominou largamente a economia que são típicas posições de construtivistas, mais dados à teo-
de trocas activada pelo modernismo, já que - posição ria do que à piada ... -, já Drummond e Bandeira nunca o
muito debatível- "A importação foi quase nada"36. abandonarão, e gerações como a da poesia marginal recupe-
rá-Io-ão, bem como poetas isolados mas maiores como,. para
_ Só uma achega para sugerir que se o verso livre é um citar um nome apenas, Sebastião Uchoa Leite, ainda que re-
traço "universal" dos modernismos, e como tal reconhecí- codificando-o. A meu ver o poema-piada teve consequências
vel em Apollinaire, Eliot, Pessoa, ete., e também; como vimos, poderosas na poesia brasileira, afastando-a do horizonte anti-
nos brasileiros, que nele foram mestres, o poema-piada é humanista que é possível reconhecer, por exemplo, emPes-
um produto local, quase 100% brasílico (o contraste com o soa, ou mesmo da angústia existencial que marcará a poesia
caso português, em que nada há de semelhante, torna as de grandes modernistas europeus até aos anos 50 (e não é se-
coisas ainda mais nítidas). Isso permitir-nos-ia deslocar a quer preciso chegar ao caso extremo de um Celan). Pelo con-
questão representacional, como a representativa, que atra- trário, o poema-piada manteve a poesia brasileira próxima de
vessa o modernismo brasileiro, dos temas e universos abor- um horizonte intramundano, para usar a expressão com que
dados (antropofagia, mau selvagem, brasilídade tropical, Merquior, em ensaio de referência, qualifica a poesia de
etc.) para esse operador formal que é o poema-piada e que, Murilo Mendes, a qual, em seu entender, funciona "em
na tese de Merquior, é um instrumento estratégico para dar plano contato-protesto com a realidade mesma negada pela
"expressão lírica aos 'moods' brasileiros". Esta deslocação força do visionário"?". Se isto é assim com um poeta visita-
mantém contudo o modernismo brasileiro muito próximo do por visões como Murilo, mais ainda o é em poetas como
das questões de identidade nacional, ratificando o modelo e Drummond ou Bandeira, para quem a visão séria-problema-
intensificando-o, na medida em que o desloca para a pró- tizante da existência não tinha de forçosamente· conflituar
pria dimensão retórica da poesia. com a forma d? poema-piada nem de recorrer a um léxico

}7 José Guilherme Merquior, "Notas para uma Muriloscopia", in Murilo


n José Guilherme Merquior, op. cit., p. 38. Mendes, Poesia completa e prosa, Organização, preparação do texto e notas de Lu-·
36 Idem, p. 37. ciana Stegagno Picchio, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1994, p. 13.

52 53
CONVERSA INTERESSANTíSSIMA
APRESENT AÇÃO

elevado e nobre. O poeta que "tira ouro do nariz", do poe- brasileiro vulgar'; mas não me meto nelas, porque, para
ma-piada drummondiano, seria assim uma excelente tradu- mim, ainda é cedo." Resposta algo diversa deu Manuel Ban-
ção das possibilidades de conciliar um léxico vulgar com cor- deira ao mesmo Mário de Andrade, quando este, agora em
dialidade brasileira e deflação da retórica poética herdada, artigo crítico em 1924, notou alguma "influência lusitana"
quer do século XIX parnasiano, quer das desmesuradas na poesia do autor de Carnaval: "Influência lusitana. De
ambições gnoseológicas modernistas. fato. Não desaparecerá, creio, porque se apoia em funda-
mentos estéticos. Não renuncio a uma infinidade de recur-
_ Isto vai longo, e não podemos terminar sem referir sos expressivos do português moderno e arcaico. O essencial
o problema da língua. Nos documentos que publicamos em é que apareçam na linguagem como recursos de expressão
anexo, há alguns testemunhos da discussão que suscitou e artística. "38
:,. da importância enorme que teve. Por ,exemplo, uma famo- Poder-se-ia deduzir que Bandeira ou Drummond resis-
sa carta de Mário de Andrade para Carlos Drummond; data tiam ao impulso de abrasileiramento de Mário de Andrade ,
de 18 de Fevereiro de 1925, e trata du'm poema de Drum- decerto notório e até radical. Parece evidente que sim , mas ,
mond, também incluído da antologia, "Nota social". No em rigor, há nos três um pressuposto comum: a recusa da
primeiro verso, Drummond escrevera "o poeta chega na es- prioridade natural da língua portuguesa, ou melhor, de
tação", emendando depois para "o poeta chega à estaçào ". certa norma da língua imposta pelo academismo brasileiro.
Mário recrimina esta mudança, reputando-a submissão à Trabalhar para a "estilização do vulgar" ou não renunciar
norma portuguesa: "Foi uma ignomínia a substituição do aos" recursos expressivos do português moderno e arcaic~"
na estação por à estação só porque Portugal paisinho de- são, desse ponto de vista, modalidades análogas dejnsu-
simportante para nós diz assim." E adiante esclarece o que bordinação perante a chamada "língua de Camõe~;;,q~~'~'~
ele próprio julga fazer a respeito da língua: "Trata-se de puristas tinham imposto como a única versâodo português
uma estilização culta do linguajar popular da roça como da ~s.<:ri~g.Qra, essa língua já não existia em lado nenhum, e a
cidade, do passado e do presente". Drummond repôs o "na ruptura com ela não era mais vasta nem menos necessária
estação", que ficou definitivo, mas sem partilhar inteira- do que a. gue e!1contramos no modernismo português,
mente as razões do amigo: "Perdão, Mário, eu não escrevi Nesse ponto, o laço do modernismo com o nacionalismo é
aquele' chega à estação' em homenagem a Camilo e caterva. quase indestrinçável. Quando Drummond escreve , no últi-
Foi um escrúpulo, sim, mas inocente. Com um pouco mais mo verso do "Poema de sete faces", "botam a gente como-
de reflexão, torno a pôr 'chega na estação'. Realmente, a vido como o diabo", ou quando, no célebre "No meio do
razão está com você. Mas, compreende, essas coisas a gente caminho", ostensivamente opta pelo "tinha uma pedra",
só faz depois de muito observar, e com muita andependên-
cia. Tímido e ínexperiente como sou, acompanho com inte- 38 Veja-se, no apêndice, a carta de Manuel Bandeira para Mário de Andra-
de datada de 18 de Dezembro de 1924.
resse as suas pesquisas e tentativas no sentido de 'estilizar o

54 55
f\PRESENTAÇÃO CONVERSA INTERESSANTíSSIMA
.!
'•.........

em vez de "havia uma pedra", o abrasileiramento confun- a língua escrita e as variantes da falada -
corre o risco de
de-se com a mistura de estilos, típica da poesia drummon- P..;;~~.~j.;~p~~ti~;;;-;;·~·~ÚªJ.~~Ú:~·-d;i~~~;~~f~lldir
~2.1]1~ ~~ l

diana, como mostrou Mer quior?". Mas, por outro lado, é Oswald de Andrade, no Manifesto da poesia Pau-Brasil cha-
inegável o projectopersistente, atravessandotodoo rnoder- I"Q-~ya'o"~ado do~t-;~da ~~ltu~~b!;·~ilei;a. Nesse ca~p~~"a
ni~mo.~~brasileir~JIl.~!?_t2._~~JíEgua,. que levou Mário de rpatriz modernista, de ]ibertadora, tornou-se ~~;;-do;~
'li~-"
t.'~"'.'~

Andrade a projectar uma Gramatiquinha da fala brasileira. g~f~ti~~;â~ ~~~~~Ü~~dora como o era ~;;Ü;;g~~'d-;;Ca;;;6~~~' . 0., v·~

A distância relativamente à norma portuguesa alargou-se de- e;;';22;.~(_ªaT-q~~ ~ -~~g;~~~~


.~~ p~~ições a'~i~a-~it;das d~
cisivamente: foi destruída a ideia de que a norma portuguesa .Qxpwmond e Bandeira acabe por revelar certo lado da li ..
seria o princípio regulador da arte de bem escrever no Brasil, bertação modernista negligenciado ou excluído'-"-"o~ ~~-~~~
e isto é consequência, tudo indica que irreversível, do mo- tonado na versão singularíssima de Guimarãe~ ':Rº'~;.'" .
dernismo. Mário de Andrade, no entanto, no momento do
balanço, na conferência de 42 que já citámos várias vezes, - Posto isto, vamos lá tirar o ouro do nariz de todos
achava insuficiente o trabalho realizado: "O estandarte mais estes poetas federais. Entremos na antologia ...
colorido dessa radicação à pátria foi a pesquisa da 'língua
brasileira'. Mas foi talvez boato falso. Na verdade, apesar das ABB e OMS
aparências e da bulha que fazem agora certas santidades de
última hora, nós estamos ainda actualmente tão escravos da
gramática lusa como qualquer português. Não há dúvida ne-
nhuma que hoje sentimos e pensamos o quantum satis brasi-
leiramente. Digo isto até com certa malinconia, amigo Macu-
naíma, meu irmão. Mas isso não é suficiente para identificar
a nossa expressão verbal, muito embora a realidade brasilei-
ra, mesmo psicológica, seja agora mais forte e insolúvel que
nos tempos de José de Alencar ou de Mach do de Assis. "40
A.... vercf.~_ª~._~qu~!.~i1]ª~_.b..<?J~!._2_.!Ei.r.lj
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um~.l~gua ~i~~~Eia arre~!'l.9~.ª9_ f9-~ili~!:_9lLc:º!ºg~.!~J -::.0u.
!ll.ais._.~~ª.~tam eD~~.ªP.<?..?.!.~
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)9 Recordo que, num dos sonetos de Claro enigma, Drummond retomará o
"tinha uma pedra no meio do caminho" rescrevendo-o em "uma pedra que havia
em meio do caminho"; a mudança foi vista como regresso ao castiço lusitano,
ainda por cima em chave de ouro de soneto.
40 Mário de Andrade, "O movimento modernista", p. 244.

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