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O QUE OS MENINOS PENSAM DELAS?

Inspirado em

Arlequim, Pierrot, Colombina e Marshall McLuhan

Texto de Adélia Nicolete


PERSONAGENS

CAROL - adolescente, a dona do apartamento

ANA PAULA - sua melhor amiga

PACO - irmão de Ana Paula

ALEXANDRE - o rapaz

A ação de passa na sala de estar de um apartamento de classe média, num


dos últimos andares. Um pôster de algum astro de música pop decora uma
das paredes. As meninas fazem reverência a ele de vez em quando.

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Sábado à tarde. Televisão, revistas espalhadas por todo o ambiente. Refrigerantes,
salgadinhos, etc. A cena começa com Carol e Ana Paula acompanhando um clipe
internacional de rock na TV, lendo a letra da música em uma revista. As duas cantam,
dançam. De repente, Ana Paula emburra e desliga a TV.

CAROL

Êh, animal! Dá aqui esse controle remoto! O que foi agora, Ana Paula?

ANA PAULA

Não se faça de desentendida!

CAROL

Eu tava desafinando tanto assim?...

ANA PAULA

Não! É que eu tô aqui toda amiguinha sua e me lembrei que eu devia estar uma fera com
você!

CAROL (liga novamente a TV, mais baixo)

Fera comigo?! Tá louca? O que que eu fiz, Ana Paula?

ANA PAULA

Eu vou embora! (começa a juntar algumas revistas)

CAROL

Como vai embora? Sua mãe viajou! Vai ter que me agüentar o fim de semana in-tei-ri-nho!
E eu vou conversar até de madrugada, você não vai conseguir dormir!!! (gargalhada
macabra) Porque eu tenho insônia!!!!

ANA PAULA

E a noite tá só começando...

CAROL (Terrorista)

Eu tenho insônia!

ANA PAULA

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Pára! Que terrorismo! (procura algo nas revistas) Insônia, insônia... Eu tenho a solução.
Cadê? T’aqui: “um copo de leite morno antes de dormir pode ajudar”. Pronto. Você mama e
dorme.

CAROL

Não adianta copo de leite morno. É mal de família. Só dormimos depois das três.

ANA PAULA

Se ao menos usasse esse tempo pra estudar, garanto que tirava notas melhores.

CAROL

Começou a humilhação. A vingança da CDF! Se eu não fosse sua amiga, Ana Paula, juro
que ia ser sua pior inimiga!

ANA PAULA

Amiga! Que amiga?... Contar pro Toninho que eu tava a fim dele!?

CAROL

Ah! É por isso que você tá tão fula da vida?

ANA PAULA

Contou ou não contou?

CAROL

Contei, e daí? Você não tão tava mesmo a fim do cara?

ANA PAULA

Tava! Mas era segredo, entre mim e você! Cadê? (procura nas revistas) Ah! Essas
revistas são a minha salvação! Achei! (beija a revista) Tem aqui uma coisa básica sobre
paquera, escuta só: “Quando o menino sabe que a menina tá a fim, a tendência é a relação
esfriar”. E foi o que aconteceu! O Toninho começou a me evitar!!!

CAROL

Ai, Ana Paula! Só quis ajudar, pôxa... O cara também não se decidia! Uma hora dava bola,
outra hora, não... Cara indeciso... (vai pegar a pipoca)

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ANA PAULA

Eu detesto isso, detesto! Deixa que eu resolvo as minhas coisas do meu jeito!

CAROL (Carol dá de ombros, come pipoca)

Só quis ajudar...

ANA PAULA

Dispenso a sua ajuda! Sempre que eu dou ouvidos pros seus planos eu me ferro. Sempre!
Eu não me abro mais com você, Carol! Nunca mais!

CAROL (se desculpando)

Puxa vida, Aninha, também não é pra tanto...

ANA PAULA

Cadê? (procura nas revistas) Onde tá? “Quando uma amiga rompe um segredo, isso,
muitas vezes, significa que poderá romper muitos outros. Cuidado!”

CAROL

Ah, é? Então vem cá. (procura também) Tá naquela que tem o Léo di Caprio...
(encontra, lê) Escuta essa: “Amigas também erram. Se houve sinceridade por tanto tempo,
por que não perdoar um errinho de nada? Relaxe!” (mostra pra Ana) Tá vendo? (oferece
pipoca e abraço)

Ana Paula aceita o abraço. Fazem gestos de reconciliação com as mãos.

ANA PAULA

Eu não devia! Não vai demorar muito pra você aprontar outra das suas! É do seu caráter...

CAROL

Enquanto isso...

AS DUAS

Anestesia!

As duas correm se prostram em frente à TV por um tempo, comem pipoca.

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ANA PAULA

Ai, amiga, tô me sentindo tão pra baixo...

CAROL

Por causa do Toninho? (Ana Paula confirma) Não acredito!

ANA PAULA

Por que não?

CAROL

Não pego bem com ele...

ANA PAULA

Lá vem ela...

CAROL

Sei lá... Parece meio devagar, daqueles caras que demoram uma semana pra pegar na
mão, um mês pra pôr a mão no ombro, um ano pra dar um beijinho!

ANA PAULA

Exagerada!!!

CAROL

Exagerada é a cara de sonso que ele tem!

ANA PAULA

Às vezes o cara pode ter jeito de sonso mas ser bem espertinho.

CAROL

Prefiro os que são espertinhos logo de cara. (Conforme fala vai se empolgando,
esquentando) Aquela linha barba mal feita, camisa desabotoada, meio caída assim no
ombro, linha “num tô nem aí”, sabe? (Ana Paula mexe a cabeça negativamente
enquanto come pipoca) É claro que tem hora que ele tem de ser vaidoso e tal, mas eu

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adoro um relaxo. Dou a vida por uma calça meio larga, sem cinto! Camisa básica! Ai, ai, tá
me dando um troço. Emergência! Emergência!

ANA PAULA

Um antídoto! Algum canhão! (procura à volta, nas revistas, não encontra) Mas nessas
revistas só tem homem bonito?!

CAROL

Depressa, um Godzila. Rápido!

Ana Paula lembra e pega depressa uma foto em sua bolsa. Mostra pra Carol que se
assusta.

CAROL

Ai! Que horrível!

ANA PAULA

É o meu irmão.

CAROL

Eu sei que é o seu irmão. Mas por que você anda com a foto daquele alienado na bolsa?

ANA PAULA

Pra ocasiões como essa...

CAROL

É. Deu certo. Agora esconde isso. Até por foto ele consegue ser desagradável...

Ana Paula olha para a foto, se assusta, guarda novamente. Carol folheia uma revista.

CAROL (lê)

“O que os meninos pensam delas?”

ANA PAULA (distraída)

Ahn?

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CAROL

Aqui na revista. Uma matéria: “o que os meninos pensam delas?”

ANA PAULA

Delas quem?

CAROL (Impaciente)

Das meninas! De nós, Ana Paula!

ANA PAULA (Imitando)

Entendi, Cíntia Carolina!

CAROL

Já falei pra não me chamar assim. Parece “sim, tia Carolina”, “não, tia Carolina”. (pausa.
Lê sozinha, fazendo desfeita)

ANA PAULA (arrancando a revista dela)

Ai, dá aqui essa revista, é minha, eu leio!

CAROL

Êh Primeiro desliga a TV, agora arranca a revista...! Depois a grossa sou eu!
(levantando)Vou pegar guaraná, quer?

ANA PAULA (encontrando numa revista)

Não. Olha só: refrigerante tá aqui na lista da celulite. Só quero se for light.

CAROL (imita)

”Só quero se for light”. Se entupiu de hamburguer e pipoca e agora quer guaraná light! Se
liga, Ana Paula! (traz o guaraná e serve) Se quer toma, se não quer não toma, que isso
aqui não é restaurante, tá legal?

ANA PAULA

Ai, vamo elevar o nível do papo, vamo? (pegando a revista, lê) Vamos ver o que os
meninos pensam da gente. É sempre bom saber. Aqui. Carlito, 13 anos, estudante: “Acho
as meninas muito indecisas. Uma hora falam uma coisa, outra hora, outra”.

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CAROL

Imaturo. Treze anos 13 anos e já vem querendo falar sobre as mulheres!?

ANA PAULA

Li numa revista que homem demora mais pra amadurecer.

CAROL

Demora, mas quando amadurece! Ai, que eu morro! Eu adoro homem maduro, Aninha!
(Pega a revista e continua a leitura, comendo pipoca) Júnior, 17 anos, modelo. Já
reparou que quase todos dizem que são modelos?

ANA PAULA

Lê aí!

CAROL

“Minhas melhores amigas são meninas, acho mais fácil me abrir com elas: são mais
compreensivas que os homens, não ficam querendo competir com você.”

ANA PAULA

Isso que ele falou é real... Com eles eu me sinto mesmo compreensiva, meio mãezona, sei
lá.

CAROL

Ih, entra nessa, não! Homem não quer mãe pra namorar! Cadê? (procura revista,
encontra, lê) Aqui: “cuidado com esse seu jeitinho maternal. Pode ser gostoso até certo
ponto. Passou disso, ele começa a te encarar como a própria mãe, e aí o romance... bau
bau.”

ANA PAULA (Toma, distraidamente, o guaraná)

Você acha isso?

CAROL

Acho! Não quero ser maternal, quero ser primal.

ANA PAULA

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Hein?

CAROL

Primal! Um jeito de prima! Pode ver: todo mundo já teve ou vai ter alguma coisa com um
primo ou uma prima. Tô errada? Ai, eu adoro primo! Primo e professor!

ANA PAULA (vai enumerando nos dedos enquanto fala)

Aliás, você adora primo, professor, dentista, mecânico, bombeiro, motorista, jogador de
basquete, que mais?

CAROL

Adoro mesmo! O que vier eu traço! Não fico escondida atrás dos óculos que nem você!

ANA PAULA

Carol!

CAROL

É isso mesmo! Fica aí toda cheia de ti-ti-ti. A vida passa, garota!

ANA PAULA

Carol!!

CAROL

Jamais seria como você! Eu sou assim, rebelde, revolucionária e louca!

ANA PAULA

Carol!!!

CAROL

Nem sequer transou ainda!!!

ANA PAULA

Você também não!!!!

As duas se entreolham. Silêncio. Abrem um berreiro farsesco.

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AS DUAS

Invictas!

ANA PAULA

Imaculadas.

CAROL

As intocáveis! (desesperada)Ah, intocável, não! Eu não quero ser intocável, Ana Paula!!!

ANA PAULA (encontra e lê)

Calma! “Tudo tem sua hora e seu lugar. Não adianta ficar ansiosa, você vai saber o
momento certo”.

CAROL (constatando, trágica)

Eu estou ficando velha...

As duas riem do exagero. Comem pipoca. Ana Paula bebe guaraná.

CAROL (grita)

Te peguei, sua ridícula! Aí! Tá bebendo guaraná! Agora não vai beber, dá aqui!

ANA PAULA

Não dou! Fui eu que trouxe, tá legal? (As duas csossegam. Ana propõe,
animada)Vamos ver a novela mexicana?

CAROL (Mede a febre de Ana)

Tá delirando? Vamos saber o que os meninos pensam da gente. Quem é esse aí?

ANA PAULA

É aquele da propaganda de cueca. Tem tatuagem, não falei, ó. Sérgio, 18 anos, ator.
Vamos ver: “Detesto quando elas vêm querendo saber o meu signo, analisando se
combina com o delas, essas coisas. Acho a maior falta de imaginação”.

CAROL

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Esse deve ser de escorpião. Escorpião se acha superior, o melhor de todos.
Problemático!!!

ANA PAULA

O Paco é de escorpião.

CAROL

Num falei? O seu irmão é ou não é bicho-ruim?

ANA PAULA

Todo irmão é bicho-ruim, Carol, não tem nada a ver com signo.

CAROL

Mas o Paco é um monstro.

ANA PAULA

Ué, você não disse que gosta de cara todo desarrumadão, folgadão?

CAROL

Mas o Paco abusa do direito de ser folgado! O seu irmão é aquele cara perfeito pra se
detestar. Ah, chega, vamo parar de falar nele! Continua a ler o bagulho aí, vai.

ANA PAULA

Oi, onde eu parei... deixa ver... Aqui: Luís Alberto, 21 anos, promoter: “As mulheres são
heroínas. Elas não precisam provar sua força, que vem da própria natureza, do simples
fato de serem mulheres.”

CAROL

Taí, gostei! Que que ele faz mesmo?

ANA PAULA

É promoter.

CAROL

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Eta profissãozinha boa! Promover festas. Deve ser o máximo! Organizar uma festa como a
de sábado, hein, Aninha? Uma daquelas por mês e eu juro que ficava conhecendo todos os
meninos do cursinho.

ANA PAULA

Eu ainda estou nas nuvens...

CAROL

E eu? Nunca fiquei numa festa até o fim, sempre achava um saco, foi a primeira vez. Tava
perfeito: a música, a comida, o lugar...

ANA PAULA

Aquele jardim... Tinha até fonte!

CAROL

Que fonte? O máximo que eu conheci foram umas árvores atrás da piscina...

ANA PAULA

Tinha uma fonte meio escondida, do lado das quadras.

CAROL

Como você descobriu?

ANA PAULA

Eu fui lá, ué! Com um carinha que eu conheci... Por que essa cara de espanto? Achou que
eu ia ficar a noite toda sentada pagando mico?

CAROL

Não tô falando nada!

ANA PAULA

Fui na fonte, bebi água, conversei...

CAROL

Deram pelo menos um beijo?

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ANA PAULA

Não, Carol. Era um cara super legal, que não ficou forçando a barra. Detesto esses
meninos que já vêm logo se encostando, fungando no pescoço. Nós só conversamos, e foi
o máximo.

CAROL

Pra quem gosta... Pois eu, fui depressinha pra trás das árvores e crau, não pensei duas
vezes.

ANA PAULA

É bem seu isso.

CAROL

Claro! O menino tava ali, lindo maravilhoso, dando a maior bola, vou ficar conversando?

ANA PAULA

É por isso que eles não respeitam mais a gente, porque tem menina que nem você que já
vai se esfregando de primeira! (lendo matéria) “A mulher tem que se fazer respeitar!”

CAROL (lendo também)

“A vida é curta, então, curta a vida”. Foi ótimo! Me deu o telefone e tudo. Depois foi cada
um pro seu canto, numa boa.

ANA PAULA

Não ficaram a noite inteira?

CAROL

Não. Eu tava de olho nele desde o começo, mas ele dava umas sumidas. Ficamos juntos
depois das duas. E você com o seu pensador?

ANA PAULA

Tava na sala e a Patrícia veio pro meu lado querendo conversar. Saí de mansinho porque a
Patrícia não tem controle, ela fala até não poder mais. Daí eu fui andar sozinha pelo jardim
e chegou esse cara e a gente começou a conversar, fomos até a fonte... eram umas onze e
pouco...

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CAROL

Bonito, pelo menos? Porque você arranja cada bagulho...

ANA PAULA

Lindo. Inteligente, charmoso, cheiroso. Ai, Carol, não consigo tirar ele da minha cabeça.

CAROL

Pegou o telefone? A gente podia fazer um encontro aqui... a quatro...

ANA PAULA

Não peguei o telefone. Só sei o primeiro nome e que é bicho de Ciências Sociais.

CAROL

Cabeção. Deve ser um chato. O meu eu não sei o que faz, não perguntei.

ANA PAULA

Entre um amasso e outro pegou o nome, pelo menos?

CAROL

Nome de imperador, de homem forte!

ANA PAULA

Herodes? Nero?

CAROL

Babaca.

ANA PAULA

Napoleão?

CAROL

Não, ridícula, Alexandre.

ANA PAULA

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Não! É o mesmo nome do meu!

CAROL

Não brinca? Dois Alexandres, os maravilhos, na mesma festa?

ANA PAULA

E tão diferentes um do outro! Você tá gostando dele, Carol?

CAROL

Acho que sim. Ele é do jeitinho que eu gosto: (sonhando) alto, moreno, magro, faz
musculação. E tava de preto!

ANA PAULA (sonhando)

Cabelo curtíssimo, máquina 2 ou 3.

CAROL

Ombros largos...

ANA PAULA

Tinha uma pulseira de couro no pulso esquerdo. Não usava relógio.

As duas se olham

AS DUAS

Usava perfume da Calvin Klein... (pausa) Meu Deus! É o mesmo cara!

ANA PAULA

Tava de botas? (Carol confirma) Quando ria fazia covinha na bochecha? (Carol
confirma)

CAROL

Ai... Dizia coisas enquanto beijava, quando abraçava passava as mãos pelas minhas
costas, e apertava a minha cintura... do jeito que eu gosto...

ANA PAULA (cai sentada no sofá)

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É o fim... (pausa. Procura uma revista desesperadamente) Eu preciso achar. Eu preciso
achar.

CAROL

O que?

ANA PAULA

“Quando duas amigas se apaixonam pelo mesmo cara”.

CAROL

Elas se estapeiam até morrer.

ANA PAULA (encontrando)

Aqui. “Se uma das amigas não está muito interessada no menino” (se entreolham)

CAROL

Eu não desisto!

ANA PAULA

“... o melhor a fazer é observar as atitudes dele e perceber qual das duas ele prefere”.
(convicta) Prefere a mim. Disse que há muito tempo não conversava tão gostoso!

CAROL

E me disse que nunca beijou tão gostoso!

ANA PAULA

O único que pode decidir é ele.

CAROL

Então eu tenho a solução! (Pega o telefone e mostra)

ANA PAULA

Você não vai fazer o que eu tô pensando!

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CAROL

Já tô fazendo. (Disca) Vamos resolver isso rapidinho. Chamando. Um toque, dois toques...
Alô, por favor, o Alexandre? Obrigada. (imita) “Um momento que eu vou chamar”.

ANA PAULA

Desliga isso, Carol!

CAROL

Alô, Alê? É Carol, tudo bem? Carol, da festa da Mônica, de sábado.

Ana Paula tenta desligar o telefone, Carol a impede. Ana emburra.

CAROL

É, você me deu o telefone, lembra? Tudo bem... Sabe o que é? Eu tava pensando, você
não pode vir aqui em casa hoje? É. Não. Eu soube que você é bicho de Ciências Sociais,
eu tenho que fazer um trabalho sobre... (tenta imaginar algo) as minorias, é isso, se você
pudesse me ajudar... Certo... Tudo bem. Claro! (para Ana) Me ajuda! Ele quer saber que
tipo de minorias.

ANA PAULA

Se vira.

CAROL

Hum... Minorias à beira de um ataque de nervos... é... minorias necessitadas... minorias


carentes! É isso. Eu preciso da sua ajuda. Então tá. É aquele prédio em cima da locadora.
É. Apartamento 83. Falou. Um beijo. (desliga)

ANA PAULA

Maluca, irresponsável!

CAROL

Ele vem. Só não pode ficar muito, tem compromisso à noite.

ANA PAULA

E eu vou embora. Que vergonha!

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CAROL (empurrando-a até a porta)

Vai, sim. Fica mais fácil ele decidir. Por mim!

ANA PAULA

Não! Eu não vou dar esse mole, não, sua bruxa!

CAROL (senta no sofá)

Agora é esperar.

As duas sentadas. Olham o relógio, ansiosas.

CAROL

Acho melhor você ir lá pra dentro, quando ele chegar, você aparece de surpresa.

ANA PAULA

Isso não vai dar certo. (lendo na revista) “Virginiana, aja com a ponderação característica
do seu signo. Não tome decisões precipitadas, não se meta em confusões.” Tá vendo?

CAROL (pegando a revista)

Essa revista é da semana passada! (joga a revista no chão)

ANA PAULA

Precisamos arrumar essa bagunça!

CAROL

Não! Faz parte da pesquisa. Qual é mesmo o tema?

ANA PAULA

Minorias.

CAROL

Ah, é. Minorias necessitadas (agarrando Ana Paula, que se esquiva) de abraços,


beijinhos...

ANA PAULA

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Sai pra lá!

CAROL

Ana Paula, olha pra mim. (encontra e lê) “Um amor pode ser passageiro, mas a verdadeira
amizade, essa pode durar uma vida.” Promete que não fica triste se ele me escolher?

ANA PAULA

Não prometo nada. E não vou lá pra dentro coisa nenhuma. Liga pra ele e desmarca, ainda
dá tempo. Coitado. Não quero nem ver a cara dele...

CAROL

É por isso que deve ir lá pra dentro, vai.

ANA PAULA

Não. Vou ficar bem aqui!

Tocam a campainha.

CAROL

É ele! O deus grego chegou. Vai lá pro quarto, quando eu der o sinal você vem.

ANA PAULA

Não!

CAROL

Entra! (campainha) Vai, Ana Paula, pode favor, confia em mim.

Ana Paula entra, inconformada. Carol vai atender a porta. Entra um rapaz
completamente maloqueiro, com algumas Playboys debaixo do braço, Carol o
observa, catatônica.

PACO

E aí, galera? Tudo belê? (pára no meio da cena, observa o ambiente. Carol não
responde. Ele aperta as bochechas dela, tentando ver sua língua) Cadê a sua língua?
Algum gato comeu? (ri, malicioso. Ela continua perplexa) Tudo bem, não quer falar não
fala, mas me arruma alguma coisa pra comer que eu vim a pé e tô com uma fome lascada.

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(Faz um gesto obsceno para o pôster.) Teu pai deixa colocar foto de boiola na sala? (Vai
se acomodando no sofá, coloca as revistas na mesinha, toma posse do controle
remoto) Vamos, comida! (Ana Paula coloca a cabeça pra fora do esconderijo, vê
primeiro Carol atônita, olha para o sofá, reconhece o sujeito, pára em posição
simétrica à amiga e fica paralisada também. Paco percebe o silêncio, olha para trás e
esbraveja) E aí, Ana Paula, não vem dar um abraço no irmãozinho querido?

ANA PAULA (entre ódio e surpresa)

Paulo Francisco!!!

AS DUAS (arranhando o próprio rosto)

O que você tá fazendo aqui, Paco???! (atacam o rapaz, ele se defende como pode)

PACO

Nossa, que mêda! Pára, ai. Pára!

ANA PAULA

Vai, diz que é um pesadelo, por favor! O que esse trambolho do meu irmão tá fazendo
aqui?

PACO

Mami viajando e você nem pra deixar um rango pra mim, né, sua vagal? Daí eu pensei: vou
até a Carol, que tem um depósito de comida em casa, me abasteço, e tal. (Acende um
cigarro)

CAROL (Arrancando o cigarro dele)

Pode parar com essa folga aí! Minha mãe tem faro de perdigueiro, vai pensar que fui eu
que fumei! (Paco vai comendo o que tem na mesinha)

PACO

Comida! Comida!

ANA PAULA (procura algo nas revistas)

Paco, você não ia andar de skate com o Tubarão hoje?

PACO

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O que você tá procurando nessa revistinha babaca?

ANA PAULA

“Como se livrar de um irmão numa corrida contra o tempo”. (desiste de procurar)

PACO

Desista. Comida! Touro sentado quer comida!

CAROL (enchendo a mão dele de coisas para comer e o empurrando para fora)

Toma, toma tudo isso. Provisão pra uma semana. Mas vai comer na sua casa!

PACO

Índio não entende...

CAROL

Ai, que stress! (a Ana Paula) Fala aí com o seu irmão, que baixou o touro sentado nele...
Eu tô saindo fora!

ANA PAULA

Índio pega alimento e vai pra oca. (empurrando-o para a porta) Vai pra oca. Xô, xô.

PACO

Tá brincando? (observa-as, volta a sentar) Agora é que eu não saio. Vocês tão aflitas
demais pra eu ir embora. Aqui tem coisa... (começa a comer. Ana Paula começa a
chorar de nervoso)

ANA PAULA

Eu sei que são os hormônios, Paco, que você não consegue controlar, mas eu não
agüento! (desesperada) Me dá uma folga, pelo amor de Deus! Que carma! Que carma!

PACO

Nossa, Ana P. Que exagero! Vim comer, só isso. E dar uma olhada nessas revistas que eu
emprestei, e depois dormir um pouco, que é que tem?

CAROL

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Então vai dormir, depois fica vendo as revistas lá no quarto e, por último, vem comer, que
tal? Lá pelas três da manhã.

PACO

Primeiro eu como, depois eu relaxo, depois é que eu durmo. Eu tenho um método, Carol.
(mostra a bagunça da sala) Diferente de vocês, que gostam de desordem. Agora traz
mais comida, vai. (Meninas levam comida) O guaraná é light? Porque eu só tomo se for
light.

CAROL

Mais um da família light.

ANA PAULA

Meleca. (chama Carol, prepara outra bandeja. Cochicham) Tive uma idéia! Capricha aí.
Leite, põe leite. Isso. Agora essa aveia, deixa ficar bem pastoso.

CAROL (nojo)

Ai... O que você vai fazer? Não vai colocar nada na comida, né? Por favor! Assassinato na
minha casa, não!

ANA PAULA

Não é nada disso. Eu conheço o meu irmão. O próprio organismo dele vai interceder em
nosso favor. Você vai ver. (leva bandeja até Paco) Pronto, Paquito. Tem pão de mel e
doce de leite, ervilha, patê de sardinha e cebola.

PACO

Ô, valeu! Assim que eu gosto. Doeu, por acaso? Querem um teco?

Elas recusam, ficam paradas observando. Ele devora a comida enquanto assiste TV.
Ana Paula cronometra reações do irmão, como em contagem regressiva. Carol
acompanha mas também está preocupada com a porta. A certa altura, Ana conta
com os dedos 4, 3, 2, 1, e faz sinal com a mão. Mas Paco não esboça nenhuma
reação. As duas se olham, Ana Paula não entende, até que Paco começa a sentir
fortes dores na barriga e se contorce, dramático, fazendo cena.

PACO

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Ai... Ai!

CAROL (assustada)

O que foi, Paco? O que tá acontecendo? (o examina)

PACO

As dores.

CAROL

Que dores? Onde? Ai, meu Deus!

PACO

Estão cada vez mais intensas. (olha o relógio) Em tempos regulares...

CAROL

O que você fez, Ana Paula? (Ana Paula nem reage, apenas pede para Carol esperar)
Onde dói, Paquito?

PACO

Ai! Aqui! Põe a mão. As contrações. Vai nascer! Respiração cachorrinho... Onde é a sala
de parto? (Ana Paula aponta o interior do apartamento) Ai, rezem por mim... (vai
entrando) Ana Paula vai ser titia! (já fora) Vou ser mãe! Vou ser mãe!

CAROL

Que nojento! Todo esse barulho só pra ir...

ANA PAULA

Necessidade fisiológica. Meu irmão vive em função de quatro necessidades principais:


dormir, comer, ir ao banheiro e ler Playboy. Sempre nessa ordem, e em grande quantidade.

CAROL

Bem, ele tá no banheiro... parindo. E agora?

ANA PAULA

Temos um bom tempo até os bebês nascerem.

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CAROL

Os planos continuam os mesmos, hein? Você entra, se esconde e espera o meu sinal.
(campainha) Ai, agora é ele! Entra, entra!

ANA PAULA

Não!

Carol a arrasta pra dentro. Campainha. Carol abre a porta e se deslumbra.

ALEXANDRE (usa um estilo esportivo)

Ôpa! E aí? (pausa atônita de Carol, Alexandre estranha) Tudo bem? Bati em porta
errada?

CAROL (“acordando”)

Não! É aqui mesmo, entra! Não repara na bagunça... (inspira seu perfume quando ele
passa. Ana Paula observa, Carol faz sinal pra ela se esconder) ... é a pesquisa...

ALEXANDRE

Desculpa a demora, é que eu tava terminando de lavar o carro. Sabe como é, final de
semana... (vai até a janela. Ana Paula observa, Carol faz sinal pra ela se esconder)
Olha, eu moro perto daquelas árvores lá, ó. Legal a vista daqui...

CAROL

Do meu quarto é ainda melhor... (Ana Paula pigarreia alto)

ALEXANDRE

O que foi isso? Você não tá sozinha?

CAROL

Ahã. Deve ser a empregada... (Ana Paula fica furiosa) Meus pais foram pra Manaus. Eu
fiquei... a pesquisa.

ALEXANDRE

Ah, desculpa. Você me pediu ajuda e eu fico enrolando. Desculpa. (sentando no sofá,
manuseando algumas revistas) Vamos ver. Sobre o que é mesmo a pesquisa?

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CAROL

Minorias.

ALEXANDRE

Minorias... E você tá pesquisando nessas revistas? (Ana Paula faz sinal que não. Carol
confirma, orgulhosa) Não sei, não, mas acho que você não vai encontrar nada aqui,
Claudinha...

CAROL

Carol.

ALEXANDRE

O que?

CAROL

Eu sou a Carol.

ALEXANDRE

Carol. O que eu falei? Carol. Então, Carol, você tem que procurar em jornais, em livros.
(Ana Paula faz gestos, querendo ser chamada. Carol finge não ver)

CAROL (sempre se insinuando)

Jura? E agora? Não tenho livro, não. Quer dizer, emprestei pra todas as minhas amigas.

ALEXANDRE

Sabe, naquela festa, eu nem podia imaginar que você curtisse tanto estudar.

CAROL (sensual)

Ih, eu? Você nem imagina quanto!

ANA PAULA (entrando. Enquanto ela fala, Alexandre se espanta, levanta e a encara)

É, Alexandre. Você nem imagina o quanto ela odeia ler, o quanto ela escreve mal.

CAROL

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Ana Paula!

ALEXANDRE

Acho que caí numa armadilha.

ANA PAULA

Não. Você ia cair numa armadilha se acreditasse que essa aí já leu um livro inteiro na vida.

CAROL

Ana Paula!

ANA PAULA (se insinuando, mas menos que Carol)

Oi, Alexandre, lembra de mim? (estende a mão. Ele a cumprimenta., meio atordoado) A
festa, a fonte, a conversa inesquecível.

ALEXANDRE

Gente! Aquela festa rendeu mais do que eu podia imaginar! (cai sentado no sofá, as duas
ao lado. Grande pausa) Então, vocês duas são amigas?

AS DUAS

Quase irmãs.

PACO (entra eufórico)

Nasceram, nasceram! São gêmeas. Vão se chamar Ana Paula e Cíntia Carolina! (todos se
olham, perplexos. Meninas envergonhadas. Paco e Alexandre se encaram) Xandão!!!!

ALEXANDRE

Grande Paco! (se cumprimentam com gestos codificados, se abraça) Grande Paco!!!

PACO

Xandão!

CAROL

Era só o que me faltava: Xandão e Grande Paco na minha sala, sábado à noite. Não. Isso
não é verdade.

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ANA PAULA

Eu quero morrer... (as duas vão para o fundo da cena)

ALEXANDRE

Grande Paco, sempre o mesmo! O que você tá fazendo aqui, meu?

PACO

Sou irmão daquele abajur de óculos ali. E você, o que você tá fazendo aqui a essa hora?

ALEXANDRE

A Carol me convidou, pra ajudar numa pesquisa.

PACO (levantando)

A Carol? Pesquisa num sábado à noite? (gargalhada) Conta outra. Por que você tá aqui a
essa hora, com os pais dela viajando e com a minha irmã presente, cara?

ALEXANDRE

Tô falando sério! Elas tão fazendo uma pesquisa!

PACO

Pois agora você tá livre. Senta aqui, amigão. Vamo colocar a conversa em dia.

ANA PAULA

Quer largar de ser chato, Paco! Não percebe que tá sobrando? (se toca) Desculpa, viu,
Alexandre, mas é que esse cara me tira do eixo!

PACO

Você tem irmã, Xandão? (ele nega) Não??? Então acaba de ganhar uma! Zerinho e com
todos os opcionais de fábrica! (agarra Ana Paula e Carol e as empurra para Alexandre)
E leva outra de brinde!

ANA PAULA (elas se livram de Paco)

Imbecil!

ALEXANDRE

28
Pega leve, Paco.

PACO (imitando)

Pega leve! Pega leve! (dando um tapa nas costas do amigo) Esse é o Xandão que eu
conheço, quietinho, quietinho, fatura alto com as meninas!

CAROL (para Ana Paula)

Esse papo interessantíssimo vai longe, amiga.

ANA PAULA (exausta)

Meu irmão me rouba todas as energias.

CAROL

E agora tá roubando o paquera também.

ANA PAULA

Olha lá, eles tão folheando as Playboys do Paco! Ai, que descaramento! Bem na nossa
frente!

CAROL

Vamos ouvir! (atentam os ouvidos)

PACO (comentando sobre uma imagem da revista)

Deixa eu te mostrar isso aqui, Xandão! Você não vai acreditar! Olha que máquina!

ALEXANDRE

Ôpa! Isso é coisa do outro mundo!

PACO

Não é?

ALEXANDRE

Dois faroizões de milha, Paco! Acesões!

PACO

29
E olha que traseira!

ALEXANDRE

Eu dava tudo por uma traseira dessas!

PACO

A que o Tubarão tá agora é a cara dessa! Precisa ver o molejo... (continuam babando)

ANA PAULA (a Carol)

Olha o jeito que eles falam da gente! Falam de mulheres como se falassem de máquinas!

CAROL

Eu tenho nojo deles!

ANA PAULA

Nessas horas eu me transformo, o Paco me conhece... (vai se exasperando)

ALEXANDRE

Deve ser macia que é um negócio...

PACO

Vira, deixa eu ver, assim.

ALEXANDRE

Mas eu ia querer uma zerinho, pra ela pegar o meu jeito! Nada de ter passado pela mão
dos outros!

PACO

Trocar o óleo todo dia...

ALEXANDRE

Se eu tivesse com uma dessa eu ia montar e nunca mais ia querer sair de cima.

ANA PAULA (histérica)

Chega! Chega! Isso é demais!

30
CAROL (excitada)

Basta!

ALEXANDRE

O que foi, gente?

CAROL

Seus machistas!

ANA PAULA (palanque)

Em pleno século 21, o homem conquista o universo, as mulheres se destacam cada dia
mais em todas as áreas do conhecimento e, em pleno sofá da sala, na minha frente, sou
obrigada a ouvir esse discurso retrógrado e preconceituoso! Somos seres humanos! Gente!
A Idade Média acabou há cinco séculos!!! (silêncio, ninguém entende o que está
acontecendo. Pausa)

PACO

Liga não, Alexandre. TPM.

ALEXANDRE (para Paco)

Do que elas estão falando?

ANA PAULA

Do jeito que vocês falam de nós. “Traseiro, faróis, motor amaciado, montar e não sair mais
de cima!”

CAROL

Não deixa de ser... excitante... mas é absolutamente... (pede ajuda para Ana Paula)

ANA PAULA

Aviltante.

CAROL (não entende)

31
O que?

ANA PAULA

Deixa pra lá.

PACO

Mas a gente tava falando dessa moto, suas antas!

AS DUAS

Uma moto?

CAROL

A gente pensou que era...

PACO

Mulher pelada, né? (levanta e vai até uma porção de porta-retratos) Um escândalo, né?
Escândalo é essa foto aqui!

CAROL

Larga isso, Paco.

PACO

Olha, Xandão! Isso é pornográfico! A Carol completamente pelada, numa pose dessas!
(Ana Paula ri, Carol fica furiosa)

CAROL

Eu tinha 8 meses, seu pervertido!

ALEXANDRE

Que lindinha!

PACO

O estatuto da criança e do adolescente devia proibir essas fotos! São... aviltantes!

Carol arranca a foto de Paco

32
CAROL

Dá aqui essa foto!

PACO

Ai, como as mulheres são emocionalmente desequilibradas.

ANA PAULA

Só porque elas nem percebem que você existe, Paco?

Paco se levanta pra acertar a irmã. Alexandre o detém.

ALEXANDRE

Ôpa! Não exagera!

PACO

As meninas olham pra mim, sim! É tudo intriga dessa pamonha aí... (tenta acertar um
sopapo nela, Alexandre o controla)

ANA PAULA (Tem uma idéia)

Carol, vem aqui um minutinho... (só para a amiga) Acabo de ter uma idéia genial!
(cochicha algo para Carol. Para todos: )Bom, gente, vocês querem alguma coisa da
padaria? Tô indo lá.

PACO

Padaria? O que é isso agora?

ANA PAULA

Vou comprar uma bomba. Pra explodir na sua barriga, Paco. Ai, que carma!

Ana Paula sai. Carol se insinua para Alexandre e ele não deixa de ficar interessado

CAROL

Quer comer alguma coisa, Alê?

ALEXANDRE

33
Não precisa se incomodar.

PACO

Eu quero!

CAROL

Vai pegar.

PACO

Vocês se conhecem de onde, hein?

ALEXANDRE (fala ao mesmo tempo que Carol)

De uma festa.

CAROL (fala ao mesmo tempo que Alexandre)

Da escola. (corrige) De uma festa na escola.

ALEXANDRE

É. Festa beneficente.

CAROL

É mesmo. Aquela festa fez um bem enorme...

PACO

Você conheceu minha irmã lá também? (Alexandre confirma) Olha lá, hein, jacaré? Essa
daí é solta no mundo, mas a minha irmã tem quem tome conta dela, viu? Tô de olho em
você!

Toca o telefone.

CAROL (se faz de sonsa)

Oh, o telefone! Quem será? Alô. Quem? Fala mais alto, meu! (aos meninos) Abaixa o
som, que tá ruim de ouvir aqui! (ao telefone) Fala. Tá aqui, sim. Quem quer falar? Quem?
Só um minuto. (para Paco) Paco, é pra você. Parece que o nome dela é Jéssica.

PACO (exultante)

34
Tá brincando? Jéssica? (descontrolado) O que será que ela quer? Como me descobriu
aqui?

CAROL

Maravilhosa! Manda um beijo pra ela!

PACO (pega o telefone, nervoso)

Alô. E aí? Só. Sei. Não sei... Quando? Onde? Você mora aí? Sei... Pode ser... É. Falô.
Como eu faço pra chegar? Falô. Até. (desliga, arrogante) Tô chegando. Sinto muito mas
vocês vão ter de suportar a minha ausência.

CAROL (se fazendo de sonsa)

Por que?

PACO

A Jéssica, uma menina que eu paquero há séculos me descobriu aqui. Uma festa na casa
dela. E eu não posso perder essa chance!

CAROL

Espera a Ana Paula, vocês vão juntos.

PACO

Tá brincando? Levar mala comigo? Agüenta ela você. Bom, a mina mora em Capão
Redondo (se arrepia) Êta nome tenebroso. Vamo nessa, Xandão? Boca livre.

ALEXANDRE

Não posso. Daqui a pouco tenho um compromisso.

PACO

Bom, então a gente se cruza por aí.

Se despedem. Paco de saída, cruza com a irmã

ANA PAULA

Aonde vai? O banheiro é lá.

35
PACO

Não vou ao banheiro nem vou pra casa. Vou atrás de melhores companhias. (pega o que
a irmã trouxe e sai)

ANA PAULA

Já vai tarde! (pra Carol) Ele mordeu a isca?

CAROL

Caiu direitinho.

ANA PAULA (pisca pra Carol)

E Capão Redondo é bem longe, não é?

ALEXANDRE

Ei, o que vocês estão aprontando?

ANA PAULA

Nada, não, Alexandre. (senta ao lado de Alê, provoca Carol) E aí, o que os dois
danadinhos fizeram na minha ausência?

CAROL

Pode apostar que não ficamos batendo papo...

ANA PAULA

Por que? Você grudou no pescoço dele e não deixou ele falar?

ALEXANDRE

Meninas!

ANA PAULA

Desculpa. Tudo em paz. Você quer tomar alguma coisa?

ALEXANDRE

Bem, o que vocês têm aí?

36
Imediatamente, as duas se levantam e vão pegar alguma coisa, bebida, comida, etc.
No decorrer da cena, com diálogos improvisados e superpostos pelo som da TV, os
três conversam, riem. Às vezes elas consultam alguma revista, disfarçadamente. Ele
é igualmente simpático com as duas que ficam “babando” por ele e competindo
entre si. Lapso de tempo.

CAROL (como que continuando um papo)

Não! Eu tenho uma ótima! Palavras preferidas. Eu começo! (pensa. Insinuante, diz:)
Metalinguagem - eu adoro essa palavra. Acho tão... insinuante... (se insinua para Alê, que
ri) Você gosta de metalinguagem? Hein? De que palavra você gosta?

ALEXANDRE

Não sei, nunca pensei... (olha em volta) Acho que gosto de alfajor.

CAROL

Eu também... De chocolate branco.

ALEXANDRE

Não! Da palavra alfajor.

CAROL

Ah! (Posando de linguista) Deve ser latim: alfa – jor...

ANA PAULA (Mais relaxada)

Alfa é grego, Carol. Parece árabe: Salim All Fajor...

ALEXANDRE

Parece patente militar: tenente, major, alfajor. (Riem) Acho gostoso também.

CAROL

Tem aí, quer?

ALEXANDRE

Não, não...

37
ANA PAULA

Eu quero!

CAROL

Vai pegar no armário.

ALEXANDRE

E você, Aninha? De que palavra você gosta?

ANA PAULA

Não sei. Tem uma que não eu acho esquisita: é litigante. Quando meus pais se separaram,
eu era bem pequena, eu só lembro de ouvir o juiz falando essa palavra: litigante.

ALEXANDRE

Meus pais também são separados.

ANA PAULA

Verdade?!

CAROL (Depressa, para não ficar de fora)

Os meus, não. Mas do jeito que eles brigam não demora muito...

ALEXANDRE (Depois de uma pausa sem assunto)

Bom, meninas, tá na hora. Preciso ir.

AS DUAS (Depois de se olharem, cúmplices, decidem)

A pesquisa!

ANA PAULA

Não pode sair!

CAROL

Espera só um pouquinho!

38
Pedem licença, vão conversar. Ele vê TV, folheia algumas revistas, faz „não‟ com a
cabeça. Elas consultam revistas e voltam decididas, minutos depois.

CAROL

Alê, queremos saber o que você pensa da gente.

ANA PAULA

Você acha a gente legal?

ALEXANDRE (Pego de surpresa, se recompõe)

Claro!

ANA PAULA

E qual das duas você acha mais legal?

ALEXANDRE

Não sei. Eu conheço vocês há tão pouco tempo! As duas são legais.

ANA PAULA

Assim não vai ter jeito, então.

ALEXANDRE

O que?

CAROL

A gente precisa que você escolha.

ALEXANDRE

Péraí. Vocês querem que eu escolha qual a mais legal? Pra que? Se eu escolher uma, a
outra vai ficar chateada e vocês são amigas muito antes de me conhecerem.

ANA PAULA

Nós consultamos as revistas e... você não pode escolher as duas.

ALEXANDRE

39
Por que não?

ANA PAULA

Porque não, ora!

ALEXANDRE

Não tô entendendo. Acho melhor ir embora...

CAROL

Espera! Você pode escolher uma das duas que a outra não vai ficar chateada.

ALEXANDRE

Gente! Por que tem de ser assim?

ANA PAULA

Consultamos as revistas.

ALEXANDRE

O pessoal que escreve pra essas revistas nem sabe que a gente existe! Não sabem da
Ana Paula romântica, inteligente, que gosta de música, que é filha de pais separados. Não
sabem da Carol esperta, decidida. Não sabem. Não podem ditar regras pra gente seguir!

CAROL

Queremos saber com qual das duas você quer ficar.

ANA PAULA

Com qual das duas quer namorar. Agora que conhece a gente um pouco melhor. Uma é
namoro, a outra é amizade. Olha, nós vamos fazer um pacto de amizade aqui na sua
frente, seja qual for a sua escolha. Vamos, Carol, é agora ou nunca!

Começam a simular um ritual de sangue, quase vão até o final. Alexandre é que
interrompe.

ALEXANDRE

Opa! Péraí! E se eu não quiser nenhuma? (As duas param o ritual e emudecem) É!
Vocês eme chamaram aqui pra ajudar num trabalho de escola que nem rolou. Só isso!

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ANA PAULA

A idéia foi da Carol. Ela é que inventou essa história de pesquisa. Eu não queria!

CAROL

Por você não ia ter nem telefonema, né, sua bundona?

ANA PAULA

Eu fui contra desde o começo!

CAROL

Ia dar tudo certo se não fosse o pentelho seu irmão aparecer!

ANA PAULA

Não põe o Paco nessa história! Eu acabei de mandar ele pra Capão Redondo, coitado! E a
Jéssica mora a três quarteirões daqui, e nunca nem olhou pra cara dele... (Começa a
chorar)

ALEXANDRE

O que é isso...

ANA PAULA

E ele tem astigmatismo! Não enxerga direito à noite! Ai, o meu irmãozinho tá metido numa
fria...

ALEXANDRE

Meninas! Pra que tudo isso? Que bobagem...

CAROL

Não é bobagem. Planejamos tudo isso pra ter uma decisão sua.

ANA PAULA

Quer um tempo pra pensar?

ALEXANDRE

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Não! Vocês são legais, mas eu não quero namorar com nenhuma...

CAROL

Por que? Tem que haver um motivo!

ALEXANDRE

Simplesmente não quero... vocês vão achar carinhas super legais, vão se apaixonar, daqui
um tempo nem vão se lembrar de mim.

ANA PAULA

Mas por que?

ALEXANDRE

Ai, gente! Eu já tô namorando! É isso que queriam ouvir? Pronto.

ANA PAULA

Namorando?

CAROL

Quem?

ALEXANDRE

É uma menina linda como vocês. Conheci na festa também.

ANA PAULA

Ah, não! Com quantas mais você ficou nessa festa?

ALEXANDRE

Só com as três.

ANA PAULA

E por que escolheu a outra? O que ela tem que nós não temos?

CAROL

O que vocês fizeram na festa?

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ALEXANDRE

Eu a conheci depois de vocês duas. Não foi amor à primeira vista. Um amigo nos
apresentou, nós dançamos um pouco. E então...

ANA PAULA

E então...

ALEXANDRE

Fomos andando até a fonte, conversamos...

CAROL

E depois?

ALEXANDRE

Fomos pra perto da piscina, nos beijamos. Acho que foi isso. Não tem muito mistério.
Trocamos o telefone, nos ligamos, e acho que estamos numa boa.

ANA PAULA

Então por que aceitou vir até aqui?

ALEXANDRE

Porque era pra ajudar numa pesquisa. Não podia?

CAROL

Aposto que não vai contar pra ela.

ALEXANDRE

Não tem nada demais se eu contar: visitei duas colegas muito legais, revi um grande
amigo. Pronto. Ela é gente fina, vocês vão gostar de conhecer.

CAROL

Não, obrigada.

ALEXANDRE

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Que pena. Porque ela ia gostar muito de vocês. Mesmo com todas essas revistas pra
adolescentes, que ela detesta...

As duas se entreolham, ele dá de ombros, impotente.

ALEXANDRE

Sinto muito. Amigos? (Elas ficam emburradas) Que pena. Então, tchau. (Beija as duas e
vai saindo) Ah! Dá um abraço no Paco. Grande Paco! E tranquem a porta, hein?

CAROL

Alexandre!

ALEXANDRE (Retornando)

Oi!

CAROL (Desiste de falar)

Nada não. Tchau.

Alexandre sai. Carol tranca a porta. Silêncio, apenas a TV com volume baixo. As
meninas se olham, olham o ambiente. Grande pausa. Procuram coisas nas revistas,
desistem. Ana Paula pega coisas de comer e beber, leva pra mesinha, meio
autômata. Ajusta a imagem da TV, senta.

ANA PAULA (Tentando se convencer)

Nada disso aconteceu. Que vergonha... E ele não escolheu nenhuma...

Pausa. As duas folheiam as revistas sem vontade, tristes.

CAROL (imitando Alexandre, com pouco caso)

“Ela detesta essas revistas pra adolescentes”. (Joga a revista no chão) O que será que
ele quis dizer com isso?

ANA PAULA

No mínimo que a namorada dele é mais madura que nós...

CAROL

É.. acho a gente deu uma exagerada, né?...

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ANA PAULA

O que será que ele tá pensando da gente? Que somos duas crianças. Ai, que vergonha!

CAROL

O pior é que me tirou até a vontade de consultar alguma revista pra saber o que fazer.

ANA PAULA

Quero distância delas! Tô traumatizada!

CAROL

Você fica conversando comigo até eu dormir, amiga?

ANA PAULA (Confirma. O clima vai se amenizando)

É claro que eu fico, Carol. Relaxa. Pelo menos nós tentamos. Como é que se fala? Saímos
com mais experiência.

CAROL

Só espero que o Paco não resolva voltar pra se vingar da gente...

ANA PAULA

Deixa que eu me entendo com ele. Faço um lanche especial pro meu irmãozinho com um
pedido de desculpa e fica tudo bem. Agora fica quietinha pro sono vir. Relaxa, respira
fundo. Fica tranqüila. Tá tudo bem agora.

CAROL (deitando no colo da amiga)

Quer saber de uma coisa, Ana Paula? Acho que foi melhor assim... A gente tava
precisando de uma chacoalhada dessas, é ou não é?

Olham em torno, observam as revistas. Olham-se.

ANA PAULA

Tá pensando o mesmo que eu?

CAROL

Acho que sim... Amanhã bem cedo.

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ANA PAULA

Tem uma campanha de papel reciclado no meu prédio. Acho que eles iam ficar felizes com
a nossa doação...

CAROL

Mas podemos ficar com alguma, não podemos? Umazinha só...

ANA PAULA

Acho que sim, se a gente quiser.

CAROL (com sono, bocejando)

Combinado... Você espera até eu pegar no sono?

ANA PAULA

É claro! Amigas são pra essas coisas... E isso eu não li em nenhuma revista, não.

Luzes vão diminuindo até o final.

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