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DELUMEAU, Jean. Os agentes de satã: a mulher. In: História do Medo no Ocidente.

Rio de Janeiro: Editora Record LTDA, 2008.

P.462 Do mesmo modo que o judeu, a mulher foi então identificada como um perigoso agente de
Satã; e não apenas por homens de Igreja, mas igualmente por juízes leigos.
P.462 A atitude masculina em relação ao “segundo sexo” sempre foi contraditória, oscilando da
atração a repulsão, da admiração à hostilidade. O judaísmo bíblico e o classicismo grego
exprimiram alternadamente esses sentimentos opostos. Da idade da pedra, que nos deixou
muito mais representações femininas do que masculinas, até a época romântica, de certa
maneira a mulher foi exaltada.
P.463 Essa veneração do homem pela mulher foi contrabalançada ao longo das eras pelo medo que
ele sentiu do outro sexo, particularmente nas sociedades de estruturas patriarcais. Um medo
cujo estudo por muito tempo se negligenciou e que a própria psicanálise subestimou até
época recente. No entanto, a hostilidade recíproca que opõe os dois componentes da
humanidade parece ter sempre existido e “trás todas as marcas de um impulso inconsciente”.
P.463 As raízes do medo da mulher no homem são mais numerosas e complexas do que pensara
Freud, que o reduzia ao temor da castração, ela mesma consequência do desejo feminino de
possuir um pênis. Essa inveja do pênis não é sem duvida senão um conceito sem fundamento
introduzido subrepticiamente na teoria psicanalítica por um tenaz apego à superioridade
masculina. Em compensação, Freud notava com razão que na sexualidade feminina “tudo é
obscuro [...] e bastante difícil de estudar de maneira analítica”. Simone de Beauvoir
reconhece que “o sexo feminino é misterioso para a própria mulher, oculto, atormentado [...].
é em grande parte porque a mulher não se reconhece nele que não reconhece como seus os
seus desejos”.
P.463 [...] O medo que a mulher inspira ao outro sexo prende-se especialmente a esse mistério,
fonte de tantos tabus, terrores e ritos, que a religa, muito mais estreitamente que se
companheiro, à grande obra da natureza e faz dela “o santuário estranho”.
P.467 Porque mais próxima da natureza e mais bem informada de seus segredos, a mulher sempre
foi creditada, nas civilizações tradicionais, do poder não só de profetizar, mas também de
curar ou de prejudicar por meio de misteriosas receitas. Em contrapartida, e de alguma
maneira para valorizar-se, o homem definiu-se como apolíneo e racional por oposição à
mulher dionisíaca e instintiva, mais invadida que ele pela obscuridade, pelo inconsciente e
pelo sonho.
P.464 Atraído pela mulher, o outro sexo é do mesmo modo repelido pelo fluxo menstrual, pelos
odores, pelas secreções de sua parceira, pelo liquido amniótico, pelas expulsões do partos.
[...] Essa repulsão e outras semelhantes engendraram ao longo das eras e de um extremo ao
outro do planeta múltiplas interdições.
P.464 A mulher que tinha suas regras era tida como perigosa e impura. Corria o risco de ser
portadora de toda espécie de males. Então, era preciso afastá-la. Essa impureza nociva era
estendida à própria parturiente, de modo que ela precisava ser, após o nascimento,
reconciliada com a sociedade por meio de um rito purificador.
P.465 A repulsa em relação ao “segundo sexo” era reforçada pelo espetáculo da decrepitude de um
ser mais próximo da matéria que o homem e portanto mais rápida e mais visivelmente
“perecível” do que aquele que pretende encarnar o espírito. Daí a permanência e a
antiguidade do tema iconográfico e literário da mulher aparentemente graciosa, mas cujo
dorso, os seios ou o ventre são já podridão.
P.465 Essa ambiguidade fundamental da mulher que dá a vida e anuncia a morte foi sentida ao
longo dos séculos, e especialmente expressa pelo culto das deusas-mães. A terra mãe é o
ventre que nutre, mas também o reino dos mortos sob o solo ou na agua profunda. É o cálice
de vida e de morte. É como essas urnas cretenses que continham a agua, o vinho e o cereal e
também as cinzas dos defuntos.
P.465 Não é por acaso que em muitas civilizações os cuidados dos mortos e os rituais funerários
cabem às mulheres. Elas eram consideradas muito mais ligadas do que os homens ao ciclo –
o eterno retorno – que arrasta todos os seres da vida para a morte e da morte para a vida. Elas
criam, mas também destroem.
P.466 A deusa hindu Kali, mãe do mundo, é sem dúvida a representação mais grandiosa que os
homens forjaram da mulher a uma só vez destruidora e criadora. Bela e sedenta de sangue,
ela é a deusa “perigosa” a quem é preciso sacrificar todos os anos milhares de animais. É o
principio materno cego que impulsiona o ciclo da renovação. Ela provoca a explosão da vida.
Mas ao mesmo tempo espalha cegamente as pestes, a fome, as guerras, a poeira e o calor
opressivo. A sanguinária Kali correspondia de certa maneira, nas mentalidades helênicas, as
Amazonas “devoradoras” de carne humana, as Parcas que cortavam o fio da vida, as Erínias
“assustadoras”, “loucas” e “vingadoras”, tão terríveis que os gregos não ousavam pronunciar
seu nome a Dulle Griet, “Margot, a furiosa”, de Brueghel, não exprime por sua vez o temos
masculino diante do cego arrebatamento feminino.
P.466-467 O medo da castração se exprime ao longo de um capítulo inteiro de O martelo das feiticeiras:
As feiticeiras podem iludir até fazer crer que o membro viril é retirado ou separado do corpo?
A resposta é: sim, sendo garantido, além disso, que os demônios podem realmente subtrair o
pênis de alguém. Essa pergunta e essa resposta, que se encontram na maior parte dos tratados
de demonologia da Renascença, desdobram-se na época em afirmações categóricas sobre o
atamento da agulheta – verdadeiro equivalente da castração, já que a vítima se via,
momentânea ou definitivamente, privada de sua potencia viril.
P.467 No inconsciente do homem, a mulher desperta a inquietude, não só porque ela é o juiz de sua
sexualidade, mas também porque ele a imagina de bom grado insaciável, comparável a um
fogo que é preciso alimentar incessantemente, devoradora como o louva-a-deus.
P.467 O vazio é a manifestação fêmea da perdição. Assim, é preciso resistir aos turvos apelos de
Circe e de Lorelei. Pois, de qualquer maneira, o homem jamais é vencedor no duelo sexual.
A mulher lhe é “fatal”. Impede-o de ser ele mesmo, de realizar sua espiritualidade, de
encontrar o caminho de sua salvação. Esposa ou amante, é carcereira do homem. Esse deve,
pelo menos, às vésperas ou no caminho de grandes empreendimentos, resistir às seduções
femininas.
P.467 Um homem ser amigo de uma mulher foi, por muito empo, considerado impossível. Tudo se
passa, escreve Marie-Odile Métral, “como se [a amizade] fosse uma invenção dos homens
para dominar seu velho medo da mulher”. A ligação amistosa aparece então como um meio
de “neutralizar a magia feminina, efeito do poder da mulher sobre a vida e de sua conivência
com a natureza”. A partir daí, “sujeitar a mulher é dominar o caráter perigoso que se atribui à
sua impureza fundamental e à sua força misteriosa”.
P.468 Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e enganadora, a mulher foi acusada pelo outro sexo
de ter introduzido na terra o pecado, a desgraça e a morte. Pandora grega ou Eva judaica, ela
cometeu a falta original ao abrir a urna que continha todos os males ou ao comer o fruto
proibido. O homem procurou um responsável para o sofrimento, para o malogro, par o
desaparecimento do paraíso terrestre, e encontrou a mulher. Como não temer um ser que
nunca é tão perigoso como quando sorri? A caverna sexual tornou-se a fossa viscosa do
inferno.
P.470 Acentuaram ainda a marginalização da mulher na cultura cristã, a fim de se constituir à
espera do fim do mundo, por muito tempo considerado próximo, a exaltação da virgindade e
da castidade e a interpretação masculinizante do relato da queda no Gênesis (III, 1-7). A
partir daí, não nos surpreendamos de encontrar sob a pena dos primeiros escritores cristãos e
dos doutores da Igreja traços antifeministas solidamente fundamentados. Tertuliano,
dirigindo-se à mulher, diz-lhe: “[...] Tu deverias usar sempre o luto, estar coberta de andrajos
e mergulhada na penitencia, a fim de compensar a culpa de ter trazido a perdição ao gênero
humano [...]. Mulher, tu és a porta do diabo. Foste tu que tocaste a árvore de Satã e que, em
primeiro lugar, violastes a lei divina”.
P.471 É verdade que, ao exaltar a virgindade, ele propõe um tipo de feminismo inédito destinado a
uma longa carreira: não sendo o casamento senão um último recurso, não trazendo a
maternidade senão dores e aborrecimentos, mais vale deles desviar-se e optar pela
virgindade, estado sublime e quase divino.
P.472 [...] Mas, exaltando a virgindade feminina, a teologia não deixou de continuar teorizando a
misoginia fundamental da cultura que inconscientemente adotada. [...] santo Agostinho
consegue isso graças a uma surpreendente distinção: todo ser humana, declara ele, tem uma
alma espiritual assexuada e um corpo sexuado. No indivíduo masculino, o corpo reflete a
alma, o que não é o caso da mulher. O homem é portanto plenamente imagem de Deus, mas
não a mulher, que só o é por sua alma e cujo corpo constitui um obstáculo permanente ao
exercício de sua razão. Inferior ao homem, a mulher deve então ser-lhe submissa.
P.472 “Essa imagem de Deus está no homem [=Adão], criado único, fonte de todos os outros
humanos, tendo recebido de Deus o poder de governar, como seu substituto, porque é a
imagem de um Deus único. É por isso que a mulher não foi feita à imagem de Deus”.
Graciano endossa em seguida o texto do pseudo Ambrósio: Não foi sem motivo que a mulher
foi criada, não da mesma terra de que foi feito Adão, mas de uma costela de Adão [...]. Foi
por isso que Deus não criou no começo um homem e uma mulher, nem dois homens nem
duas mulheres; mas primeiro o homem, em seguida a mulher a partir dele.
P.472-473 Portanto, santo Tomás de Aquino não inovou ao ensinar por sua vez que a mulher foi criada
mais imperfeita que o homem, mesmo quanto à sua alma, e que deve obedecer-lhe “porque
naturalmente no homem abundam mais o discernimento e a razão”. Mas aos argumentos
teológicos ele acrescentou, para equilibrar, o peso da ciência aristotélica: só o homem
desempenha papel positivo na geração, sendo a mulher apenas receptáculo. Não há
verdadeiramente senão um único sexo, o masculino. A mulher é um macho deficiente.
Portanto, não é espantoso que, ser débil, marcado pela imbeclitas de sua natureza – um clichê
mil vezes repetido na literatura religiosa e jurídica –, a mulher tenha cedido às seduções do
tentador. Assim, ela deve permanecer sob tutela. A mulher tem necessidade do macho não só
para gerar, como os outros animais, mas até mesmo para governar-se, pois o macho é mais
perfeito por sua razão e mais forte em virtude.
P.473 Segundo eles, esse sangue carregado de malefícios impedia a germinação das plantas,
fazendo morrer a vegetação, corroía o ferro, provocava a raiva nos cães. Penitenciais
proibiram a mulher que estivesse menstruada de comungar, e até de entrar na Igreja. Daí, por
extensão, as mulheres serem proibidas de servirem à missa, tocarem os vasos sagrados, terem
acesso às funções rituais.
P.474-474 [...] A cultura encontrava-se agora, em vastíssima medida, nas mãos de clérigos celibatários
que não podiam senão exaltar a virgindade e enfurecer-se contra a tentadora de quem temiam
as seduções. Foi o medo da mulher que ditou à literatura monástica esses anátemas
periodicamente lançados contra os atrativos falaciosos e demoníacos da cúmplice preferida
de Satã.
P.475 A Idade Média exaltou cada vez mais Maria e consagrou-lhe imortais obras de arte; e, por
outro lado, inventou o amor cortês que reabilitou a atração física, colocou a mulher sobre um
pedestal a ponto de fazer dela a suserana do homem apaixonado e o modelo de todas as
perfeições.
P.475 Pois na Idade Média não foram interpretados e utilizados como uma espécie de colocação à
parte, fora de alcance, de personagens femininos excepcionais, de modo algum
representativos de seu sexo? A exalação da Virgem Maria teve como contrapartida a
desvalorização da sexualidade.
P.475-476 Mas, se o amor cortês sublimava e mesmo divinizava tal ou qual mulher excepcional e uma
feminilidade ideal, em contrapartida abandonava à própria sorte a imensa maioria das
pessoas do “segundo sexo”. Daí as palinódias do clérigo André Le Chapelain, que, no De
amore (por volta de 1185), após dois livros em que canta os méritos da dama e a submissão
do amante, lança-se em seguida em uma furiosa datribe contra os vícios femininos. Daí ainda
– ao passar do amor cortes ao amor platônico – o estranho paradoxo de um Petrarca
apaixonado por Laura, angélica e irreal, mas alérgico aos cuidados cotidianos do casamento e
hostil à mulher real, considerada diabólica.
P.476 Nessas condições, pode-se legitimamente presumir, à luz da psicologia das profundezas, que
uma libido mais do que nunca reprimida transformou-se neles em agressividade. Seres
sexualmente frustrados que não podiam deixar de conhecer tentações projetaram em outrem
o que não queriam identificar em si mesmos. Colocaram diante deles bodes expiatórios que
podiam desprezar e acusar em seu lugar.
P.477 Com a entrada em cena das ordens mendicantes, no século XIII, a pregação adquiriu na
Europa importância extraordinária, cuja amplitude agora temos certa dificuldade de avaliar.
E seu impacto aumentou ainda mais a partir das duas Reformas, protestante e católica.
Embora a maior parte dos sermões de outrora esteja perdida, aqueles que nos restam deixam
adivinhar bem que foram frequentemente os veículos e os multiplicadores de uma misoginia
com base teológica: a mulher é um ser predestinado ao mal. Assim, jamais tomaremos
precauções suficientes contra ela. Se não a ocupamos com sãs tarefas, em que não pensará
ela?
P.478 Em primeiro lugar, ela é um “diabo doméstico”, à esposa dominadora é preciso portanto não
hesitar em aplicar surras – não se diz que ela tem sete vidas? Em seguida, é comumente
infiel, vaidosa, viciosa e coquete. É o chamariz de Satã se serve para atrair o outro sexo ao
inferno: tal foi durante séculos um dos temas inesgotáveis dos sermões. Como provas, entre
mil outras, estas poucas acusações lançadas por três pregadores célebres dos séculos XV e
XVI: Ménot, Maillard e Glapion. “A beleza na mulher é causa de muitos males”, afirma
Ménot, que, aliás sem originalidade brada contra a moda.
P.479-479 Quanto a Glapion, confessor de Carlos V, recuse a levar em consideração o testemunho de
Maria Madalena sobre a ressurreição de Jesus: “Pois a mulher entre todas as criaturas, é
variável e mutável, pelo que não poderia provar suficientemente contra os inimigos de nossa
fé – transposição no plano teológico da sentença dos juristas: “As mulheres – diante dos
tribunais – são sempre menos críveis do que os homens”.
P.479-480 [...] estes exprimiram de mil maneiras ao longo dos séculos o medo duradouro que esses
clérigos consagrados à castidade experimentavam diante do outro sexo. Para não sucumbir
aos seus encantos, incansavelmente o declararam perigoso e diabólico. Esse diagnóstico
levava a extraordinárias inverdades e a uma indulgencia singular em relação aos homens.
P.480 Assim, o sermão, meio eficaz de cristianização a partir do século XIII, difundiu sem
descanso e tentou fazer penetrar nas mentalidades o medo da mulher. O que na alta Idade
Média era discurso monástico tornou-se em seguida, pela ampliação progressiva das
audiências, advertência inquieta para uso de toda a Igreja discente que foi convidada a
confundir vida dos clérigos e vida dos leigos, sexualidade e pecado, Eva e Satã.
P480 Naturalmente, os pregadores não faziam senão explorar e distribuir amplamente com a ajuda
do jogo oratório uma doutrina estabelecida havia muito tempo por doutas obras. Mas estas,
por sua vez, conquistaram um novo prestígio graças à imprensa que contribuiu para oprimir a
mulher ao mesmo tempo em que reforçava o ódio ao judeu e o temor do fim do mundo.
P.481 Tudo o que O martelo das feiticeiras conterá de mais misógino é explicitado no De Planctu...
com muitas referencias ao Eclesiástico, ao Livro dos provérbios, a são Paulo e aos Doutores
da Igreja. Essas citações se tornam incendiárias porque são descoladas de seu contexto e
extraídas arbitrariamente de maneira favorável a um antifeminismo virulento. Encontramo-
nos aqui diante daquele que é talvez o documento maior da hostilidade clerical à mulher. Mas
esse apelo à guerra santa contra a aliada do diabo só é compreendido se reinserido no meio
que o lançou: o das ordens mendicantes preocupadas com a cristianização e inquietas com a
decadência do corpo eclesial.
P.481-482 Desde o início, fica entendido que ela partilha “todos os vícios” do homem. Mas, além disso,
tem os seus próprios, nitidamente diagnosticados pela Escritura: “N°1: Suas palavras são
melífluas [...]; n°2: ela é enganadora [...]; n°13: está cheia de malícia. Toda malicia e toda
perversidade cêm dela (Eclesiástico 25) [...] n° 44: é faladora, sobretudo na igreja [...]; n°81:
muitas vezes tomadas de delírio, elas matam seus filhos [...]; n° 102: algumas são
incorrigíveis [...]”.
P.482-484 Mais vale portanto reagrupar em sete pontos os argumentos principais de um requisitório que
amalgama, à revelia mesmo de seu autor, acusações teológicas, medo imemorial da mulher,
autoritarismo das sociedades patriarcais e orgulho do clérigo macho.
a) [...] Eva foi o “começo” e a “mãe do pecado”. Ela significa para seus infeliczes
descendentes “a expulsão do paraíso terrestre”. [...];
b) Ela atrai os homens por meio de chamarizes mentirosos a fim de melhor arrastá-los
para o abismo da sensualidade. [...];
c) Mulheres são “adivinhas ímpias” e lançam mau-olhado. Algumas, “muito
criminosas”, “servindo-se de encantamentos, de malefícios e da arte de Zabulão”,
impedem a procriação. Provocam esterilidade com ervas e composições mágicas. [...];
d) [...] “A mulher é ministro de idolatria”. Pois “torna o homem iníquo e o faz comer
apostasia.”[...];
e) [...] A mulher é “insensata”, “lamurienta”, “inconstante”, “tagarela”, “ignorante”,
“quer tudo ao mesmo tempo”. É “briguenta” e “colérica”. Não existe “cólera mais
forte que a sua”. É “invejosa”. É por isso que o Eclesiático (XXVI) diz: “É mágoa e
dor que uma mulher inveja de outra. E tudo isso é o flagelo da língua”. [...];
f) O marido deve desconfiar de sua esposa. Por vezes ela o abandona ou então “lhe traz
um herdeiro concebido de um estranho”, ou ainda lhe envenena a vida com suas
suspeitas e com o seu ciúme. [...];
g) Ao mesmo tempo orgulhosas e impuras, as mulheres perturbam a vida da Igreja.
Falam durante os ofícios e assistem a eles de cabeça descoberta, apesar das
recomendações de são Paulo. [...]
P.487 O antifeminismo virulento de Alvaro Pelayo e de seus semelhantes, caminhando através dos
múltiplos canais do discurso oral e escrito da época, não podia deixar de desembocar na
justificação da caça às feiticeiras. Do mesmo modo, encontramo-lo no coração das
argumentações maniqueístas de O martelo das feiticeiras. Este, segundo a feliz formula de A.
Danet, é composto por um redator que tem “o medo na barriga” e se sente cercado por uma
desordem satânica. As palavras cuja raiz é mal – mal, mal-aventurado, mau, maléfico,
maleficio – retornam incessantemente sob sua pena: até trinta vezes em uma mesma pagina.
Ele vê catástrofes por toda parte, adultérios e atamentos de agulhetes continuamente
multiplicados. Esse tempo do pecado é o da mulher.
P.488 Para o redator de O martelo das feiticeiras “a experiência ensina” que a perfídia (de
feitiçaria) se encontra mais frequentemente entre as mulheres do que entre os homens.
P.489 Uma diabolização da mulher – que se encontra, lado a lado com a sexualidade, desonrada –;
eis o resultado a que chegam em um “clima dramatizado” tantas reflexões clericais sobre o
perigo que representa então para os homens de Igreja – e para a Igreja inteira que eles
anexam – o eterno feminino.
P.490 Significativa das generalizações acusadoras por que os teólogos e moralistas de então se
deixam constante – e inconscientemente – levar, é a leitura que Benedicti propõe da palavra
MVLIER. Advertindo contra a “mulher dissoluta”, afirma que ela “arrasta atrás de si” toda
espécie de infortúnios expressos pelas seis letras da palavra: “M: a mulher má é o mal dos
males; V: a vaidade das vaidade; L: a luxúria das luxúrias; I: a ira das iras; E [alusão às
Erínias]: a fúria das fúrias; R: a ruína dos reinos”. Em principio, não se trata aqui senão da
“mulher má”, mas se o uso aplicou a palavra mulier ao conjunto do outro sexo, não foi
porque este é globalmente perigoso?
P.493 Essas linhas foram lidas a partir do final do século XVI por milhares e milhares de
confessores, que desempenharam o papel de diretores de consciência de dezenas de milhões
de lares. Vê-se o desprezo pela mulher que elas veiculavam – desprezo que camuflava o
medo de um ser misterioso e inquietante diante do qual devia intervir a solidariedade
masculina, isto é, a conivência do padre e do marido.
P.493 Ao lado dos homens da Igreja, outras pessoas de peso – os médicos – afirmaram a
inferioridade estrutural da mulher. Herdeiros a esse respeito de concepções antigas, mas
retomando-as à sua conta, difundiram-nas amplamente, graças à imprensa, nos diversos
setores da cultura dirigente.
P.494-495 Qual é então a opinião de Rabelais sobre a mulher? Seguramente a obra está recheada de
episódios libertinos, e o tom é muitas vezes zombeteiro. À primeira vista, a mulher aparece
como lasciva, desobediente, indiscreta e curiosa. Mas o Terceiro livro é dedicado a
Margarida de Navarra, e Rondibilis, havendo oportunidade, louva as “mulheres sérias”. Além
disso, Rabelais não pensa que a mulher tenha sido criada apenas para a “perpetuação da
espécie humana”. Ela o foi também para o “social deleite do homem”, para o “consolo
domestico e a manutenção da casa”. A mulher é menos viciosa do que frágil (“Ó grande
fragilidade do sexo feminino”, cap. XVIII). Por isso tem necessidade de proteção e, em
primeiro lugar, de boa educação e bons pais. Daí o conselho de escolher uma esposa “oriunda
de gente do bem, instruída em virtudes e honestidade, não tenho convivido nem frequentado
senão companhia de bons costumes”. Rabelais é, além disso, muito duro no capitulo XIVIII,
contra os corruptores de moças. Quando elas se tornam esposas, cabe aos maridos zelar por
sua “pudicícia e virtude”. Mas não de maneira tirânica. Panurgo aconselha, em primeiro
lugar, acariciar a mulher à saciedade para que ela não tenha vontade de ir a outra parte. É
verdade, por outro lado, que as mulheres são curiosas; desejam o fruto proibido. Mostrar-se
ciumento e tirânico é se preparar para ser traído.
P.496 Resumamos em uma palavra a posição de Rabelais em relação à mulher: indulgencia e até
mesmo gentileza, va lá. Devoção não. Ela tem necessidade de ser mantida na coleira e não
deve desviar o homem das nobres tarefas que lhe são reservadas.
P.496 Ora, para Ambroise Paré, assim como para a imensa maioria de seus colegas, “a mulher tem
sempre menos calor do que o homem [...]. As partes espermáticas desta são mais frias, e mais
moles e menos secas que as do homem”. Suas ações naturais não são portanto “tão perfeitas
nela como no homem”. Se os órgãos sexuais da mulher são internos, contrariamente aos do
homem, isso se deve à “imbecilidade” de sua natureza “que não pôde expelir e lançar fora as
ditas partes, como no homem”. Tratando da procriação, o cirurgião de Laval assegura que “a
semente mais quente e mais seca engendra o macho e a mais fria e úmida a fêmea”. É porque
– desdobramento do raciocínio – “a umidade é de menor eficácia que a secura [...], a femea é
formada mais tarde que o macho”. [...]
P.498 Tal é a mulher para os mais ilustres médicos da Renascença: um “macho mutilado e
imperfeito”, “uma imperfeição, quando não se pode fazer melhor”. Ela é como o joio e a
aveia estéril em relação ao trigo e a cevada. Assim a fez a natureza que a estabeleceu em um
estatuto de inferioridade física... e moral. A ciência médica da época não faz portanto senão
repetir Aristóteles revisto e corrigido por Santo Tomás de Aquino.
P.499 Com grande reforço de citações estraídas de Aristóteless, Plínio e Quintiliano, das leis
antigas e das obras teológicas, os jurisconsultos afirmam a categórica e estrutural
inferioridade das mulheres. Tirequeau, amigo de Rabelais, é inesgotável sobre o assunto.
Elas são, diz ele, menos providas de razão que os homens. Portanto, não se pode confiar
nelas. São faladoras, sobretudo as prostitutas e as velhas. Contam os segredos. "É mais
forte que elas" (vel invitae). Ciumentas, são então capazes dos piores delitos, como matar o
marido e o filho que tiveram dele. Mais frágeis que os homens diante das tentações, devem
fugir da companhia das pessoas de má vida, das conversas lascivas, dos jogos públicos, das
pinturas obscenas Convém-lhes ser sóbrias "para permanecer pudicas", evitar a ociosidade
e sobretudo calar-se (mulieres maxime decet silentium et taciturnitas)
P.500 Contudo, é evidente entre os demonólogos leigos, a esse respeito primos próximos dos
inquisidores, que se encontra, fora do espaço eclesiástico, o juízo mais pessimista sobre a
mulher. Eles precisam, com efeito, explicar por que os tribunais veem desfilar dez feiticeiras
para um feiticeiro. Nicolas Rémy, juiz loreno, não fica surpreendido com tal proporção, pois
"esse sexo é muito mais inclinado a se deixar enganar pelo demônio".
P.501 Apoiando-se nessas constatações que qualquer um pode fazer, com base não só em Platão
mas também em Plínio, em Quintiliano e nos provérbios hebreus, Jean Bodin repete após
tantos outros os sete defeitos essenciais que levam a mulher à feitiçaria: sua credulidade,
sua curiosidade sua natureza mais impressionável que a do homem, sua maldade maior, sua
presteza em vingar-se, a facilidade com que se desespera e, afinal, sua tagarelice.
Dignóstico, como se vê, altamente motivado e pronunciado em plena caça ás feiticeiras por
um magistrado muito ouvido que é sucessivamente advogado no parlamento de Paris [..].
P.502 Uma regra geral na Europa do Antigo Regime proíbe-lhes o acesso às funções públicas. "A
mulher não pode nem deve de modo algum ser juiz, pois ao juiz cabe enorme constância e
discrição, e a mulher, por sua própria natureza, delas não está provida". "Igualmente, são
privadas as mulheres [de ser advogados em corte] em razão de sua impetuosidade. Em
Namur, um decreto urbano de 1687 proíbe as professoras primárias de ensinar os meninos:
seria "indecente". Alguns tribunais admitem que o testemunho de um homem vale pelo de
duas mulheres.
P.503 Ao contrário, o temível Jean Bodin não descobre para a mulher culpada nenhuma
circunstancia atenuante, já que não crê na "fragilidade" de um sexo que lhe parece, ao
inverso, "na maioria" marcado por uma "obstinação indomável" e pela "força da cupidez
bestial". Para ele, assim como para os autores de O martelo das feiticeiras, a mulher é "a
flecha de Satã" e a "sentinela do inferno".
P.504
Na realidade, cruzaram-se duas linhas de evolução, das quais uma era favor´vel e a outra
desfavorável ao "segundo sexo". Encontraremos em uma obra posterior a corrente
feminista, cuja audácia, contudo, é preciso sublinhar desde já, considerando-se os
obstáculos que encontrava. A lém disso, em certa medida pelo menos, a prática temperava
a estrita teoria. Na França, por exemplo, ainda que as mulheres não pudessem reinar
sozinhas, contrariamente ao que aceitavam os ingleses, regentes ou favoritas reais
exerceram verdadeiro poder. Do mesmo modo, em todas as grande cidades da Europa, as
esposas de comerciantes por vezes tiveram participação ativa nos negócios Enfim, a
jurisprudência nem sempre se modificou, entre os séculos XIV e XVII, em um sentimento
uniformemente desfavorável à mulher. P.504
P.505 Uma vez anotados esses corretivos, permanece verdade que o renascimento do direito
romana, a escalada do absolutismo e do "modelo" monárquico (com seus corolários do
plano familiar) e a ação conjunta - e que nunca fora tão forte - dos três discursos 'oficiais"
apoiando-se mutuamente agravaram no começo da Idade Moderna e incapacidade jurídica
da mulher casada: o que foi observado por historiadores, juristas e sociólogos. P.505