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STARLING, Heloísa Maria Murgel.

Os senhores das Gerais: os Novos Inconfidentes e o golpe militar de


1964. 5ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1986.
Visão sobre a mineiridade:
“Foi também necessário levar em conta o cenário onde a conspiração ocorreu – as Minas Gerais, com
seu conjunto de particularidades e especificidades. De fato, não são apenas as elites mineiras que possuem
suas características próprias, capazes de distingui-las do resto do país; não basta também analisar as
particularidades regionais e geográficas. Na verdade, as Minas Gerais possuem um universo ideológico
próprio e distinto, que foi percebido, considerado e intensamente utilizado pelos conspiradores de 1964. Ao
analisar esse universo, optei em diversos momentos por abrir espaço a alguns de seus mais argutos
observadores: poetas e compositores, por exemplo. Ao mesmo tempo, considerei também a advertência de
Paulo Mendes Campos: ‘Minas, deveras, não é explicar’” (p.15).
Esse comando revolucionário (Novos Inconfidentes), integrado pelas elites “tradicionais”, buscaram
“encontrar, nas raízes essencialmente mineiras, elementos capazes de oferecer algum tipo de legitimação
ideológica para a conspiração de 1964” (p.83). Para tanto, foi mobilizado a Inconfidência mineira. Os NI se
apresentavam como os continuadores dos inconfidentes, especialmente de Tiradentes. Eles próprios
acalentavam a imagem de rebeldia e de insubmissão que seria característica dos mineiros ao longo do
tempo. O próprio Villar conduziu esse processo de apropriação ideológica. Outro aspecto levanto pela autora
é a ausência de participação popular na Inconfidência mineira, o que coadunava com os ideias da elite
tradicional e empresarial “moderna” da época. Além disso, havia o aspecto da liberdade comum aos dois
movimentos, mas Starling ressalta: “tratava-se, sim, de liberdade, mas tal como as elites mineiras a
entendiam e aceitava: a liberdade que se devia impor” (p.86). Finalmente, o fato da Inconfidência ter se
transformado “no grande momento da história política do estado de Minas Gerais” (p.87), e passou a
representar a resistência à opressão que se entranhou ao “ser mineiro”, ao “viver em Minas”. Com isso, os
conspiradores de 1964 buscavam “a sua legitimidade em um movimento que passou a ser identificado com a
essência mesma do que se convencionou (grifo meu) designar como o “espírito mineiro”.

Ver principalmente p.141-150. Explicita a sua visão sobre mineiridade (a seguir).


Para garantir sucesso à conspiração, as lideranças do IPES-Novos Inconfidentes deveriam integrar as
elites tradicionais do Estado. Para tanto, foi preciso que “a elite ‘modernizante’ incorporasse ao seu discurso
os apelos ideológicos retirados do universo ‘tradicional’, de tal modo que esse discurso se apresentasse
relativamente unificado frente ao conjunto das forças sociais ‘tradicionais’ de Minas” (p.142). Dois
“ganchos ideológicos” foram usados para garantir essa soldadura: o sentimento anticomunista e o
sentimento antipopulista. Mas esses ganchos eram alimentados com base nos traços ideológicos comuns às
diferentes forças conservador-oposicionistas mineiras, que seriam capazes de “oferecer unidade, identidade e
homogeneidade a essas forças” (p.143).
Essa fonte estava na “concepção de ‘mineiridade’ enquanto fulcro ideológico pelo qual a ‘sociedade
mineira’ construiu seu imaginário e simbolizou sua origem” (p.143).
A mineiridade é construída sobre ambiguidades: Minas é múltipla e uma ao mesmo tempo. Seu
território é indefinido: o sertão de Guimarães, o beco do Mota de Milton Nascimento, e a Itabira universal de
Drummond. “Desse terreno fértil porém ambíguo e oscilante, que foi retirada toda uma variedade de traços
psicológicos e culturais que configuram a ‘mineiridade’” (p.144).
Essa construção imaginária, ideológica, simbólica, mitológica, etc., foi devidamente introjetada e
incorporada pelos habitantes do estado. Saborosa e popular, tornou-se ‘senso comum’, interiorizando-se na
consciência dos membros dos grupos subalternos da sociedade” (p.146). A mineiridade, dessa forma, exerce
influência direta na realidade, na medida em que reflete o mundo real em um mundo imaginário, que
possibilita a compreensão de si e da vida coletiva.
Por isso, autora privilegia a leitura da mineiridade como ideologia: “Ao desdobrar o ‘mundo real’ em
um ‘mundo imaginário’ a ‘mineiridade’ situa-se no campo da ideologia – um corpo de representações e de
normas ‘através do qual os sujeitos sociais e políticos se representarão a si mesmos e à vida coletiva’. (...) A
‘mineiridade’ atua no campo da ideologia, cumprindo uma função anestésica de ‘ocultamento’ do real, isto é,
a tentativa de transformar o interesse particular de uma classe social determinada no interesse coletivo de
toda a sociedade, de modo a impedir que os demais setores dessa sociedade, de modo a impedir que os
demais setores dessa sociedade se apresentem no cenário político de forma organizada, expressando
interesses e demandas próprias. Portanto, o que transforma a concepção de ‘mineiridade’ em uma concepção
própria das elites mineiras é o fato de que, ao ser apropriada pelas elites, a ‘mineiridade’ cumpre
precisamente a função de escamotear o conflito, dissimular a dominação e ocultar a presença do particular,
dando-lhe a aparência do universal” (p.146).
Starling assinala ainda que os detentores das características da mineiridade “não são,
necessariamente, os moradores das Minas Gerais e sim uma construção imaginária – a figura do ‘mineiro’”
(p.146-7).
O IPES utilizou largamente da mineiridade como cimento ideológico capaz de oferecer força política
aos setores conservador-oposicionistas de Minas. “O IPES-MG explorou sobretudo, e em primeiro lugar, a
‘missão’ e a ‘vocação’ de Minas: o equilíbrio entre Liberdade e Ordem” (p.148). Mas como a autora aponta,
em Minas a Liberdade é em última instância a garantia da ordem. Trata-se de uma combinação
eminentemente conservadora. Foi assim também que se deu a apropriação da Inconfidência de 1789, mas
com uma diferença – estes, a liberdade contra o despotismo (que não é ordem social propriamente dito); em
1964, lutava-se pela liberdade contra o “comunismo” (significando ditadura) e a ordem contra a anarquia
(significando a ascensão popular na política).
Outro aspecto ressaltado por Starling é “uma das mais caras elaborações ideológicas da
‘mineiridade’: a ilusão de que o mineiro possui uma dupla identidade que é, ao mesmo tempo, regional e
nacional” (p.150). Assim, mais uma vez, a mineiridade foi utilizada em nome da defesa do Brasil. Dessa
vez, contra a ameaça comunista simbolizada sobretudo na presidência da República.
A família, um dos centros fundamentais do discurso da mineiridade, converteu-se na mais importante
bandeira das mulheres mineiras. Estas entraram, pela primeira vez, na arena política, imbuídas pelo
sentimento de mineiridade. No entanto, esse ineditismo não significou rupturas com a tradição política de
Minas e do Brasil. Elas apareciam como donas de casa, defensoras do lar mineiro, e era nessa condição que
elas apelavam aos homens para tomar a ação definitiva contra Jango. A exceção maior foi Lydia Magon
Villar (mulher de Aluízio Aragão Villar), cuja atuação era muito mais política do que propriamente uma
extensão do lar para a praça, como o restante das mulheres mineiras. Por isso, a mineiridade serviu para
manter essas mulheres sob o controle dos dirigentes do IPES. A política continuava, portanto, uma “coisa de
homem”.

Resumo Geral
“A preocupação central deste trabalho reside na discussão de como uma classe dominante, em um
determinado momento histórico, se organizou estratégica e taticamente para desenvolver sua ação política,
de modo a assegurar a concretização de seus objetivos. (...) Procurou-se enfatizar, ao lado da reconstituição
histórica, alguns aspectos da discussão sobre estratégia, tática, organização, capacidade e recursos de uma
classe, assim como questões referentes à discussão sobre formas de intervenção política, ação estratégica,
poder de classe e consciência de classe” (p.16).

“Os primeiros anos da década de sessenta correspondem ao que talvez tenha sido a mais intensa
fermentação ideológica e política da história de um país que então se politizava – ou se ‘conscientizava’,
para usarmos a palavra mágica da época” (p.19).
Essa euforia conscientizadora era “decorrente da vontade real de participação. Manifesta por
diferentes setores da sociedade de se engajarem no processo de transformação do país” (p.21). Para a autora,
“o país inteiro envolvia-se com a política” (p.23). Minas, e especialmente BH, era um dos pontos que mais
fervilhava politicamente. Houve várias “explosões políticas que se estenderiam por todo o estado e
caracterizariam Minas Gerais ‘como uma das áreas mais críticas do quadro geral de tensão social e
ideológica a que fora conduzido o país’” (p.78
Nessa leitura, o golpe foi fruto de uma reação pela classe empresarial-associado contra a ascensão
popular na política, que estaria também ligado aos nacionalistas e à esquerda. “No final da década de
cinquenta, pelo menos parte do empresariado mineiro começava a manifestar (...) preocupações com o
quadro político do país. Essas preocupações estavam, via de regra, dirigidas para um tema específico: o
alargamento crescente da participação popular no processo político brasileiro, propiciando a emergência e o
desenvolvimento de pressões reivindicativas por parte das camadas subalternas” (p.41).
“Sem dúvida, a insurreição partiu de Minas” (p.37). Porém, muito mais que a investida militar, a
autora chama atenção para a cuidadosa e complexa articulação política dirigida pelo empresariado multi-
associado, cuja base mais forte estava no eixo Rio-São Paulo. Em Minas, o setor não era muito forte, mas
conseguiu compor uma articulação entre os diversos setores do empresariado (tradicionais, estatistas, etc)
em torno do IPES, criado no final de 1961 no RJ e SP.
A expansão para Minas era crucial para o projeto ipseiano, devido ao papel político desempenhado
por Minas a nível nacional, ao alto grau de prestígio político alcançado por suas elites, “decorrente
sobretudo da preservação da identidade regional e do consenso tácito estabelecido internamente entre as
elites mineiras, soprepondo-se às demais disputas internas” (p.47), que dava a Minas um lugar central na
estratégia do IPES a nível nacional.
“Na construção do IPES em Minas Gerais, teriam de ser levadas em conta as especificidades do
universo político regional, bem com as particularidades da estrutura social e da composição do empresariado
mineiro” (p.49). Em Minas, a industrialização foi limitada, em comparação com RJ e SP. O setor
multinacional cresceu a partir dos anos 1950, mas sua participação ainda assim era pequena. Paralelamente,
desenvolveu-se no Estado a “vocação financista”, isto é, o grande destaque para o setor bancário. É nesse
quadro que o IPES teria de se formar, articulando os diversos grupos empresarias em torno de um projeto
unificado, em função dos interesses do capital estrangeiro.
Para essa articulação, seria necessário “um profundo conhecimento da situação política e daquele
universo específico onde se movimentavam os diversos segmentos do empresariado mineiro que, inclusive,
eram originários de diferentes background ideológicos” (p.53). O grande articulador foi o advogado mineiro
Aluízio Aragão Villar, homem de extensos contatos no Estado, e que se transformou “no advogado da
ascensão burguesa e do desenvolvimento capitalista em Minas” (p.56).
A atuação de Villar foi central, e “quando o IPES passou a existir oficialmente em Belo Horizonte, no
dia 9 de maio de 1962, refletia, com extraordinária limpidez, o heterogêneo universo onde se movimentavam
as diversas frações da burguesia mineira” (p.58). Ao contrário do IPES do RJ e SP, em cuja direção
encontravam-se militares, em Minas o IPES era coordenado apenas pelo empresariado, constituindo um
“estado-maior empresarial fechado” (p.63).
O IPES tinha duas faces: uma pública, que era de promover palestras, conferências, cursos, estudos,
distribuição de folhetos, publicação de livros, além de uma revista mensal. que defendessem a democracia –
associada ao capitalismo. Mas também havia o “seu lado clandestino, de coordenador da sofisticada
campanha político-ideológica, de desestabilização do regime nacional-populista, de modo a criar condições
propícias à ação militar” (p.60-61).
“Os efeitos da intensa campanha político-ideológica desencadeada pelo IPES no interior das classes
dominantes mineiras não tardaram a se fazer sentir” (p.71), conseguindo articular a liderança militar do
estado, a partir da figura do general Carlos Luís Guedes, que comandava a 4ª divisão de Infantaria em Belo
Horizonte desde 1961. Para Starling, os militares serviram como instrumento de ação do empresariado. “O
que o IPES mineiro desejava de Guedes era, em última instância, o desencadeamento da ação militar,
ocultando, sob a bandeira dos militares, seu papel de liderança estratégica; em momento algum cogitou
abdicar de sua função de direção político-ideológica do movimento conservador-oposicionista no estado”
(p.73).
Em Minas, o IPES conseguiu ainda articular os diversos “bolsões de insatisfação” na sociedade,
especialmente entre os círculos conservadores, em torno de uma organização de caráter tático, uma espécie
de comando revolucionário, que pudesse atuar diretamente na sociedade. Esse grupo se autodenominava os
Novos Inconfidentes. O IPES manteve-se como centro estratégico de poder empresarial, os NI, um
organismo tático e operacional, dentro do marco estratégico encabeçado pelo IPES.
Esse comando revolucionário (Novos Inconfidentes), integrado pelas elites “tradicionais”, buscaram
“encontrar, nas raízes essencialmente mineiras, elementos capazes de oferecer algum tipo de legitimação
ideológica para a conspiração de 1964” (p.83). Para tanto, foi mobilizado a Inconfidência mineira. Os NI se
apresentavam como os continuadores dos inconfidentes, especialmente de Tiradentes. Eles próprios
acalentavam a imagem de rebeldia e de insubmissão que seria característica dos mineiros ao longo do
tempo. O próprio Villar conduziu esse processo de apropriação ideológica. Outro aspecto levanto pela autora
é a ausência de participação popular na Inconfidência mineira, o que coadunava com os ideias da elite
tradicional e empresarial “moderna” da época. Além disso, havia o aspecto da liberdade comum aos dois
movimentos, mas Starling ressalta: “tratava-se, sim, de liberdade, mas tal como as elites mineiras a
entendiam e aceitava: a liberdade que se devia impor” (p.86). Finalmente, o fato da Inconfidência ter se
transformado “no grande momento da história política do estado de Minas Gerais” (p.87), e passou a
representar a resistência à opressão que se entranhou ao “ser mineiro”, ao “viver em Minas”. Com isso, os
conspiradores de 1964 buscavam “a sua legitimidade em um movimento que passou a ser identificado com a
essência mesma do que se convencionou designar como o “espírito mineiro”.
Os NI eram formados por militares do exército e da PM, profissionais liberais, estudantes, os
latifundiários, a ala ultramontana da Igreja, os “empresários de estado” e os empresários “tradicionais”. O
que ligava todos esses grupos ideologicamente era o sentimento anticomunista e antipopulista.
Todo esse processo reforçou ainda a imagem dos mineiros como vocacionados para a política de
conciliação, isto é, habilidosos em superar as diferenças em torno de um projeto comum num bloco
unificado e coeso.
“Muito embora a cuidadosa preparação estratégica realizada pelo IPES-Novos Inconfidentes visasse
reduzir a zero todos os imponderáveis, essa preparação foi prejudicada em 31 de março, em virtude da
precipitação do golpe militar. Nesse momento, entram em cena dois atores políticos inesperados, que se
colocaram no centro dos acontecimentos, com profundas consequências do ponto de vista da articulação
IPES-Novos Inconfidentes” Trata-se de Mourão Filho e Magalhães Pinto. Nenhum deles se integrou à
conspiração liderado pelo IPES- NI, que tinham profundas desconfianças com os dois.