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"Pequei Senhor: mas não porque hei pecado.

De vossa alta clemência me despido


Porque, quanto·mais tenho delingüido
Vos tenho a perdoar mais empenhado"
(Guerra, Gregório de Mattos. "Obra Sacra nº 1 - A Jesus
Cristo Nosso Senhor:' in A Literatura Brasileira através de
textos. Massaud Moisés. São Paulo, Cultrix, (1971), p. 4).

Princípios da análise mórtica

2.1. O Vocábulo Formal

Mattoso Câmara Jr., baseando-se em Bloomfield (1933: 160),


define o vocábulo morfológico ou formal em português, tendo em
vista o seu funcionamento a nível de frase. De acordo com o lin-
güista americano, as unidades formais de uma língua são livres e
presas. As primeiras constituem uma seqüência que pode funcio-
nar isoladamente como comunicação suficiente, conforme livros
no enunciado: "O que você vai revender?" "Livros". As formas pre-
sas só funcionam ligadas a outras, como o prefixo re em revender
e a marca de plural em livro-s. O vocábulo formal ou morfológico
apresenta-se, então, como a unidade a que se chega quando não
é possível nova divisão em duas ou mais formas livres. ·
De modo a abranger· as partículas proclíticas e enclíticas,
em português (artigos, preposições, pronomes átonos etc.),
Mattoso Câmara Jr. introduziu um terceiro conceito, o de formas
dependentes as quais funcionam ligadas as livres, conforme se
observa em: '~s notícias da falsificação dojornal espalharam-se
rapidamente." Tais formas distinguem-se das livrese das presas:
das primeiras, porque não podem funcionar isoladamente como
comunicação suficiente; das segundas, pelas possibilidades de
intercalação de novas formas e de variação posicional na frase.

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. Modificando-se parcialmente o enunciado anterior: "As no- 2.2. A Análise Mórfica: princípios básicos e auxiliares
tícias verdadeiras e chocantes da falsificação do jornal se espa-
lharam rapidamente" e comparando-se as duas versões, verifi- A análise mórfica consiste na descrição da estrutura do
ca-se que dois vocábulos foram intercalados entre notícias e da vocábulo mórfico, depreendendo suas formas mínimas ou
e que o pronome se passou para a posição proclítica. Nesse morfemas, de acordo com uma significação e uma função ele-
mesmo enunciado, as formas presas (por ex.: -se -mente) apre- mentares que lhes são atribuídas dentro da significação e da
sentam-se intimamente ligadas às livres e às dependentes. função total do vocábulo.
Introduzindo a noção de forma dependente, Mattoso Câ- A significação global de um vocábulo como cantaríamos,
mara ampliou o conceito de vocábulo formal: é a unidade a que por exemplo, é de que pessoas - entre as quais o falante -
se chega quando não é possível a divisão em duas ou mais for- poderiam, no momento da enunciação lingüística, estar empe-
mas livres ou dependentes. nhados na emissão vocal peculiar que se entende pelo morfema,
Tanto as formas livres como as dependentes ora apresen- lexical ou radical I cant- f3. Depreende-se tal morfema utilizando-
tam-se indivisíveis (sol, a), ora são passíveis de divisão em unida- se o princípio básico da análise mórfica, a comutação, que con-
des menores (in-feliz-mente, im-pre-vis-í-vel, a-s). Em infelizmen- siste em uma operação contrastiva por meio de permuta de ele-
te, a forma livre feliz está combinada com formas presas; em im· mentos para a qual são necessárias: a) a segmentação do vocá-
previsível, a forma livre compõe-se apenas de formas presas. bulo em subconjuntos e b) a pertinência paradigmática entre os
Recordando a distinção estabelecida no capítulo 1 entre subconjuntos que vão ser permutados. Visualizemos como ope-
morfemas lexicais (que se situam·no léxico) e morfemas grama- ra este princípio:
ticais (que se situam na gramática), no vocábulo infelizmente tem-
se um morfema lexical e dois gramaticais, e no vocábulo imprevi- morfema lexical:
sível tem-se um morfema lexical e três morfemas gramaticais.
cant"" (a pertinência paradigmática está no
Ainda, o vocábulo as, citado anteriormente, é composto de dois
grit/ar fato de cada um dos segmentos ca-
morfemas gramaticais, um funcionando como forma i:Jepençien-
f ai racterizarem usos da voz humana)
te, outro como forma presa.
Portanto, não se pode confundir o conceito de formas li-
vres, dependentes e presas com o de morfeínas. 1 Trata-se de vogal temática:
conceitos estabelecidos a partir de critérios diversos: os primei- jog a ríamos (o confronto de verbos de conjuga-
ros, definem-se a nível de frase, isto é, do funcionamento das beb e ríamos ções diferentespossibilita evidenciar
unidades lingüísticas no enunciado; os segundos, a nível de vo- ped i ríamos a vo~al temática)
cá6l11o, 2 ou melhor, da possibilidade ou não de sua divisão em
menores unidades significativas ou de primeira articulação. marca de modo e tempo:
I joga ríamos (depreende-se ria como marca do
Nossa análise consiste justamente a depreensão e funcio- jogá va mos futuro do pretérito em oposição a va
namento dos morfemas lexicais e gramaticais que constituem o jogare mos do pretérito imperfeito, re do futuro do
vocábulo formal em português. presente etc.)

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marca de número e pessoa: Outro fenômeno importante na análise mórfica é o da neu-
tralização, que consiste na perda da oposição entre unid~
(depreende-se mos como marca de
significativas diferentes. Como a alomorfiê-, ela pode se dar ape-
jogaría mos primeira pessoa do plural em oposi-
nas no plano mórfico ou ser resultante de condicionamento
jogaria s ção a s que indica segunda pessoa
fonológico. Como exemplo do primeiro caso, tem-se a neutrali-
jogaríe is do singular e a is que indica segun-
zação entre a primeira e a terceira pessoas gramaticais em vá-
da pessoa do plural).
rios tempos verbais: cantava - cantava; cantaria - cantaria etc.
Como exemplo do segundo caso, tem-se, em alguns tempos
, . Ao .l~d~ da· comutação, existem dois outros princípios da verbais,· uma neutralização entre a segunda e a terceira conju-
analise morf1ca: a alomorfia e a mudanç_.a morfofonêmica. Os di- gação em decorrência da perda de tonicidade da vogal temática,
f~rentes morfemascietuma línQüãlíãb-esta6 obrigatoriamente isto é, a oposição entre essas conjugações, caracterizada pelas
ligados a um segmento fônico imutável: por exemplo, o segmen- vogais -e e -i, respectivamente, desaparece quando a vogal te-
to /-s/ marca, de modo geral, o plural dos nomes em português mática é átona final: temes, teme, temem; partes, parte, partem.
mas outros segmentos como 1-es/ têm essa mesma função. Do
mesmo modo, /-ria/, que marca o futuro do pretérito, tem uma
~ariante /-rie/. 4 Também os morfemas lexicais apresentam va-
2.3. Tipos de Morfemas
nantes:/ordem/, /orden-/, /ordin-/ têm a mesma significação em
ordem, ordenar e ordinário, respectivamente. A essa possibilida- Os morfemas gramaticais em português podem ser enqua-
de de variação de cada forma mínima dá-se o nome de a/omorfia.s drados em quatro tipos: classificatórios, flexionais, derivacionais
A alomorfia pode ser ou não fonologicamente condiciona- e relacionais.
da. A não-condicionada implica variações livres, que indepen- Os morfemas c/assificatórios são constituídos pelas vogais
dem de causas fonéticas, como as alternâncias vocálicas em a:
temáticas cuja função é de enquadrar os vocábulos em classes
faz, !ez, fiz. A_ fonologicamente condicionada consiste na agluti- de nomes (substantivos e adjetivos) e de verbos. Daí a sua subdi-
naçao de fonemas, nas partes finais e iniciais de constituintes visão em nominais /-a, -e, -o/ e verbais. -a, -e, -.. A ausência de
em seqüência, acarretando· mudanças fonéticas. Trata-se, pois, vogal temática em alguns nomes cria as formas atemáticas, que
de uma mudança morfofonêmica, porque, operando entre se circunscrevem às palavras terminadas em consoantes e vo-
fonemas, afeta o plano mórfico da língua. São exemplos de mu,.. gais tônicas. Incorporadas aos morfemas lexicais, as vogais temá-
danças morfofonêmicas a redução de /in-/ a /i-/ diante de con- ticas formam a base para a anexação dos morfemas flexionais.
soante nasal da sílaba seguinte: incapaz I imutável; o apareci-
Os morfemas flexionais "fletem", ou alteram, os morfemas
mento de uma semivogal na forma passeio ao lado de passear;
lexicais, adaptando,..os à expressão das categorias gramaticais
a tr?.ca de consoante~~ em._dúvida indubitável. Conforme se pode
venf1car pelos exemplos dados, a mudança morfofonêmica é fonte que a sua classe admite: (nos nomes, gênero e número; nos
constante de alomorfia. verbos, modo e tempo, número e pessoa). São cinco os morfemas
flexionais em português: aditivos, subtrathros, alternativos,
A consideração da variação morfofonêmica dentro do vocá-
morfema zero, níorfema latente.
bulo é muito importante na derivação vocabular, principalmente
nas fle~ões no~in.ais e verbais, porque simplifica a descrição Aditivos: resultam do acréscimo de um ou mais fonemas
gramatical, supnmmdo falsas irregularidades. ao morfema lexical. Considerando os pares: rapaz,.. rapazes, pro-

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fessor - professora, tem-se os segmentos /-es/ e /-a/ indicando da marca de plural /-es/ indica a noção de singular. Também
r~spectivamente as noções gramaticais de gênero e número. Há em professor, a ausência do morfema 1-a/ expressa a noção de ·
amda, um tipo específico de morfemas que se agrupam ness~ masculino. Em português, o mecanismo gramatical de gênero e
classe: os cumulativos, que resultam da acumulação de mais de número, baseia-se, essencialmente, em ml>rfemas aditivos que
uma noção gramatical numa· forma lingüística indivisível. Tais ficam em oposição a morfemas 0.
morfemas são constantes nos verbos portugueses. Em amára- Morfema latente ou alomorfe 0: ·embora tenha em comum
mos, bebêramos e partíramos, por exemplo, nos segmentos I-ra/ com o morfema zero a ausência da marca, distingue-se daquele
e ~-mos/ a indicação de modo se acumula com a de tempo e a de porque não apresenta morfema gramatical próprio para indicar
numero com a de pessoa. qualquer categoria, isto é, não traz em si mesmo o contraste entre
Subtrativos: resultam da supressão de um segmento fônico as categorias gramaticais. Os vocábulos lápis e artista, por exem-
do morfema lexical. No conjunto órfão - órfã, a noção de feminino plo, funcionam isolados e inalterados para indicar as significações
em vez de aparecer indicada através da adição de um morfema à gramaticais de singular-plural e de masculino-feminino, respecti-
forma masculina, processo básico de formação do gênero em vamente. A designação latente provém do fato de que essas signi-
português, decorre da própria subtração dessa forma. ficações revelam-se indiretamente no contexto. Trata-se dos
Alternativos: resultam da alternância ou permuta de um morfemas básicos de plural /-s/ e de feminino /-a/ que se realizam
fo,nema no int~rior .do vocábulo. Entre os nomes, a vogal tônica algumas vezes como 0 na qualidade de alomorfes. Por exemplo:
1-o/ do masculino s1ngular pode alternar com um 1-ó/ no feminino o lápis caiu - os lápis caíram; o artista chegou - a artista chegou.
e no plural, conforme demonstram os exemplos a seguir: povo -
povos;_ f~rmoso - fo~rn_osa. A alternância nos nomes é um traço Resta ainda falar acerca de dois outros tipos de morfemas:
morfolog1co secundano, porque ela complementa asflexões de os derívacionais e os relacionais. Os primeiros criam novas pala-
gênero e número. Os exemplos citados, além das marcas /-s/ e vras na língua: a partir do morfema lexical livr-o, tem-se livr-eiro,
1-a/, carregam na formação do núm~ro e gênero, respectivamen- livr-aria, livr-inho etc. Tais morfemas, ao contrário dos flexionais,
te, a alternância vocálica 1-ô/- 1-ó/ como traço redundante. Em não obedecem a uma sistematização obrigatória: assim é que
português é mais adequado considerar-se tais alternâncias como uma derivação pode aparecer para um dado vocábulo (de cantar
morfemas redundantes, aada a sua função unicamente subsi- deriva-se cantarolar}, e faltar para um vocábulo congênere (não
diária, e enquadrá..:los como uma subclasse dos alternativos há derivações ànálogas para falar e gritar). Já os morfemas
ex~eção feita ~o par av~-avó e seus derivados. Nesse par, a marc~ flexionais estão concatenados em paradigmas coesos e com
suf1xal. d.e fem1mno esta ausente e a distinção de gênero é indi- pequena margem de variação; compare-se a série sistemática:
cada umc~mente pela alternância que pàssa, no caso a ser tra- cantávamos, .falávamos, gritávamos, que ocorre toda vez que a
ço primário, distintivo e a ocorrer no fim do vocábulo ~onstituiri- atividade expressa no verbo é atribUída ao locutor e a mais al-
do o verdadeiro morfema alternativo. s ' guém em condições especiais de tempo passado.
· Morf~ma-zero: resulta da aúsência de marca para expres- Na derivação encontram-se, via de regra, idiossincrasias
s~r-de~erm~nada categoria gramatical. Só ocorre quando há opo- ao lado de regularidades, porque os morfemas derivacionais não
~lçao..: 1stoe, <:!u.ando o m.orfema lexical isolado assumé uma signi- constituem um quadro regular, coerente e preciso. Nem todos os
flcaçao gr~m~~lcal_em VIrtude da ausência do morfema que ex- verbos portugueses, como se exemplificou há pouco, apresen-
pressa a s1gmf1caçao oposta. No morferria lexical mar, a ausência tam nomes deles derivados e, para os derivados existentes, os

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processos são desconexos ~ variados: fala para fE!llar; consola- grau, aumentativo e diminutivo, como flexionais. Trata-se, na rea-
.ção e consolo para consolar; julgamento para julgar, e assim por lidade, de um processo derivacional.
diante. Também nem todos os substantivos portugueses, têm Finalmente, os morfemas relacionais ordenam os elemen-
um diminutivo correspondente e os que existem podem ou não tos da frase, possibilitando a concatenação dos morfemas lexicais
ser utilizados, numa Jrase c:fada, c:Je acordo com a vontage do entre si, como as preposições, conjunções e pronomes relativos
falante. Logo, morfemas como: -ção, -mento, -inho, entre ou- A manipulação desses morfemas pertence à sintaxe, motivo pelo
tros, não têm a mesma função em português que elementos como qual não serão abordados aqui.
1-s/, 1-a/, ou /-va/,~caracterizadores de número e gênero nos no-
mes e de modo e tempo nos verbos; Os primeiros formam pala-
vras que enriquecem o léxico, servem como base para deriva- NOTAS
ções posteriorés e possibilitam ao falante a escolha de uma for-
1. Não há sequer coincidência nas classificações. Em lisboeta, por exemplo,
ma vocabular; os segundos são elementos de· caracterização encontra-se um morfema lexical que não ocorre como forma livre na língua: lisbo.
exclusiva e sistemática impostos pela própria natureza da frase Evidentemente, se se considera o grau de autonomia e as regras de combinação
~(qúe nos faz colocar, por exemplo, um substantivo no plural ou dos morfemas, ter-se-á de admitir que os morfemas lexicais têm maior tendência a
um verbo na primeira pessoa do pretérito imperfeito) e não po- se constituir em formas livres, enquanto os gramaticais apenas são atualizados
como formas livres, quando lexicalizados e, portanto, deixando de ser gramaticais.
dem servir de base para formações derivacionais posteriores. Exemplo: é o -s do plural, trata-se do -inha de casinha.
O resultado da derivação é um novo vocábulo. Entre ele e 2. Parece procedente considerar o termo palavra equivalente a vocábulo, toman-
os. demais vocábulos derivados similares há esse tipo de rela- do por base a classificação das formas em livres e dependentes. Isto porque, se se
pedir a diversos falantes que reproduzam lentamente as palavras que compõem o
ções abertas, que caracteriza o léxico de uma língua em con-
enunciado "O livro da biblioteca", perceber-se-á a existência de quatro pausas corres-
. traste com a sua gramática. Nesta, o que se estabelece são rela- pondentes a quatro palavras diferentes. Se este enunciado for transposto para a lín-
ções fechadas, como, por exemplo, a que vigora entre cantáva- gua escrita, obter-se-á o mesmo resultado, visto que o princípio usado para se iden-
mos e todas as demais formas do verbo cantar, ou entre lobos tificar o número de palavras é a existência de espaços em branco entre as unidades.
Ora, tal critério corresponde exatamente àquele estabelecido por Mattoso Câmara Jr.
ou loba e o nome básico singular "lobo. A flexão caracteriza-se, para definir vocábulo, critério este que propomos abranja também a noção de palavra.
portanto, pelo alto teor de regularidade de seus padrões, ainda Mesmo partindo desse princípio, há casos de análise duvidosa. Em baixo e embaixo
que estes possam ser de grande complexidade, conforme vere- correspondem a duas combinações de morfemas diferentes ou apenas a duas repre-
mos ao tratar dos verbos chamados "irregulares". sentações gráficas de uma mesma combinação de morfemas? Trata-se de uma ou de
duas palavras? Em co-ocorrência qual o valor do hífen? Equivale a uni espaço e
Por se tratar de relações abertas, na derivação, as idiossin- então há aí duas palavras? Para um entendimento maior da questão, consultar: "Mor-
crasias constituem a regra e a não previsibilidade é uma cons- . fologia da Língua Portuguesa", in Revista da Universidade Católica de São Paulo,
tante, enquanto, na flexão, a regra é a previsibilidade e as idios- (1979). Parte significativa deste capítulo baseia.-se no referido artigo.
3. Adotar-se-ão os termos morfema lexical e radica/como equivalentes; este
- ~§õirl_C:!-ªsias c;oQs!!t1.Jel11a~)(~~~ç~. j\l~rn c:Jisso, as formas· d~riva­ último;- desvinculado da sinonímia com raiz,~ a fim de evitar interferência entre pro-
das podem assumir extensões de sentido de tipos variados, en- cedimento sincrônico e diacrônico. O radical mais a vogal temática constituem o
quanto as flexionadas mantêm o mesmo sentido ou função, de que se costuma designar de tema.
modo que as extensões, quando existem, ocorrem em termos J 4. Alguns lingüistas restringem a terminologia morfema ao nível de língua, con-

l
siderando-o como valor abstrato da estruturação lingüística; em nível de fala esta-
globais, para todos os itens de uma determinada classe. 7
riam os morfes, realização dos morfemas. De acordo com esses lingüistas, existe,
Portanto, apresenta-se como uma das incoerências de nos- por exemplo, um morfema correspondente à significação gramatical de plural /PI/
sas gramaticas ·a.· inclusão dos morfemás éáracterizadores ·de ! que se atualiza através dos mortes /-s/ 1-es/ etc. Cada· um desses mortes é um

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alomorfe. Do mesmo modo, há um morfema correspondente à significação grama- 5. o morfema lexical, além de funcionar como base de significa-
tical do futuro do pretérito no indicativo /ldFtaf, que se atualiza através dos mortes
/-ria/, /-rie/. Do ponto de vista pedagógico, parece mais adequado considerar morfema
do, serve para formar outras palavras do idioma ··············;····
o significante mais usual e sistemático na língua {forma básica) e os demais· como
variantes ou alomorfes. 6. o morfema gramatical tem a função de enquadrar o morfema
5. Em português existe também o fenômeno contrário, isto é, o da homonímia:
lexical dentro de categorias da lí~gua ..... :............................. .
-uma mesma forma, indicando diferentes significações gramaticais: /-s/ indicando
plural nos nomes e a 2ª pessoa gramatical nos verbos.
6. Além da alternância· de fonemas segmentais, também se encontra a de
fonemas supra-segmentais. Em português, há uma oposição entre formas verbais
paroxítonas e formas nominais proparoxítonas: fábrica-fabrica, exército-exercito, etc. Bloco 2 ·
Nestes casos, o morfema lexical enquadra-se numa determinada classe de palavra,
de acordo com a incidência do acento de intensidade na penúltima ou na antepe-
núltima sílaba. O acento de intensidade também indica uma oposição entre tempos 1. Considerando as frases abaixo:
verbais, mais especificamente entre o mais-que-perfeito do indicativo e o futuro do a) indique o número de vocábulos mórficos e classifique-os
presente. Por exemplo: cantara, vendera, partira/cantará, venderá, partirá. em formas livres e dependentes;
~- 7, Para um maior aprofundamento da questão, consulte-se Margarida Basmo {1981).
b) assinale todas as formaspresas -e~-a.·següir, liiâique os
morfemas lexicais e gramaticais que constituem as formas
EXERCÍCIOS livres:
As cartas estão rasuradas novamente.
Bloco 1 Não refiz o artigo de lingüística.
O rosto da acusada parecia transfigurado.
Se você concordar com cada uma das afirmações a seguir, Casas extraordinárias!
coloque ao lado um exemplo que a comprove; caso contrário,
/

2. Decomponha as palavras reconsolidare enéruzilhada em uni-


deixe o espaço em branco: dades significativas.
1 . tem-se a alomorfia quando a forma é a mesma, apenas o sig- 3. Para cada palavra abaixo, indique outra que contenha alomorfe
nificado. varia ..................... :..................................................... . do morfema lexical:
a) felicidade; b) petição; c) dúvida; d) visão; e) bandido.
2. as partículas enclíticas e proclíticas em português não são
vocábulos mórficos ..................................................................
Bloco 3
lj
em português há uma grande ocorrência de vocábulos forma- Línguas hipotéticas
dos de uma forma livre e uma ou mais formas presas .......... . 1. Observe os dados da língua A: i
l
ikaJveve - casa grande petatsosol __,;.. capacho velho
1
4. para dividir o vocábulo em cada um dos segmentos que o ikaJsosol - casa velha petaté:in - capacho pequeno
constituem, baseamo-nos no princípio da comutação ·····'····· ikaléin - casa pequena ikalmeh - casas
..................................................................................................
- . . - . . -. - . . petatveve - capacho grande petatmeh -:- capachos

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a) segmente os vocábulos; ,,
b) quais os elementos que significam "grande", ''velho", "pe:
queno"? -
c) quais os elementos que significam "casa" e "capacho"?
-d)-quais os morfemas indicativos do número e do gênero?

2. Observe agora os dados da língua B:


---- -- -filkas - forte- mafikas- - fortalecer
kelad - fraco mekelad - enfraquecer
batar - surdo -
mabatar -
~-·- """ "" "" "
ensurdecer
fusat ---,- escuro mufasat _- esceYecer Estrutura e formação de vocábulos
pesai - velho mepesal - envelhecer
a) qual o-ãfixoque àtfá-rece-ri6s dados? em- português
b) que idéia encerra?
c) esse afixo apresenta variantes (alomorfes), como aconte-
ce com in-, im-, i- em português? 3.1. Estrutura
d) dada a palavra posas (pobre), como você diria empobrecer?
No capítulo anterior, considerou-se a vogal temática como
morfema classifica tório, dado o seu valor gramatical. Mas, ao lado
Bloco 4 dela, existem, em português, certos fonemas que aparecem no
interior dos vocábulos sem qualquer valor ll]órfiçp. São as vo-
Classifique os morfemas flexionais encontrados em cada gais e consoante~fgfJ.f'ªº'- ocÕrrentesnâ-Ji:mção dos mortemas
par de vocábulos. lexicais e derivacionais e cuja única função consiste em evitar
a) freguês - freguesa dissonâncias na juntura daqueles elementos, 1 conforme os exem-
b) bisavô - bisavó plos gasogênio e chaleira entre muitos outros. O primeiro des-
ses vocábulos é formado por dois morfemas lexicais ligados pela
c) o, a pianista
vogal o sem valor significativo e o segundo é constituído do
d) cirurgião - cirurgiã morfema lexical chá e do sufixo -eira entre os quais aparece a
e) sogro - sogra consoante não significativa -f;-.
---------fpnao·-:::·mãos··--:-·--------- OICrnc,-n·T--r·\·C- ae-iig-aÇão~dado seu caráter puramente

g) o, os pires eufônico, devem ser considérados como constituintes dos


!ff "" "
h) compráramos ~ venderemos. morfemasaos quais se ligam. Tem-se, assim, casos de alomorfia
fonologicamente condicionada: o morfema lexical gás apresen-
ta uma variante gaso- em gasogênio e o morfema derivacional
-eira apresenta uma variante -feira, em chaleira.

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