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Análise Psicológica (2008), 4 (XXVI): 679-687

Reflexões sobre o pesquisar em psico-


logia como processo de criação ético,
estético e político

ANDRÉA VIEIRA ZANELLA (*)


ALMIR PEDRO SAIS (**)

INTRODUÇÃO relação à realidade onde estas reflexões se


originam. A produção brasileira de conheci-
Este texto apresenta reflexões sobre o mentos em Psicologia vem sendo incrementada
pesquisar para alicerçar a tese de que se trata de nos últimos tempos, o que se relaciona
um processo de criação que se caracteriza como diretamente com a expansão dos Programas de
ético, estético e político. Pós-Graduação no país. É expressão desse
São apresentados alguns debates sobre esse aumento o número de titulados entre 1996 e
processo de produção de novos conhecimentos 2003 nos Programas de Pós-Graduação: o
que mobilizam pesquisadores de diferentes áreas documento de área (Triênio 2001-2003) da
do conhecimento, debates esses que balizam, de CAPES1 registra 298 mestres e 61 doutores em
certo modo, os embates e tensões entre dife- Psicologia titulados no ano de 1996, número que
rentes enfoques metodológicos em psicologia. no ano 2003 passa a ser de 810 mestres e 218
Dessa reflexão são identificados fundamentos do doutores em psicologia titulados2. A produção
pesquisar que podem vir a ser reconhecidos de artigos publicados em periódicos, por sua vez,
como comuns às diferentes tendências metodoló-
gicas, o que se apresenta como condição para 1 Consulta realizada em 19/08/2005, no site
que algum diálogo possa vir a ser instituído em http://www.capes.gov.br/capes/portal/conteudo/2003_0
torno da tese aqui apresentada. 37_Doc_Area.pdf
Inicialmente cabe esclarecer alguns aspectos 2 No Brasil, após a graduação é possível realizar
da produção de conhecimentos em Psicologia no cursos de pós-graduação lato sensu, denominados
Brasil para que o leitor possa se situar em especializações e voltados para a atualização
profissional, ou cursos de pós-graduação strictu sensu.
Estes são oferecidos por Programas de Pós-Graduação
(*) Professora do Departamento e do Programa de vinculados a Instituições de Ensino Superior ou Insti-
Pós-Graduação em Psicologia da UFSC, Florianópolis, tutos de Pesquisa. Há duas modalidades: mestrado,
Santa Catarina, Brasil. Bolsista em produtividade do com duração média de 30 meses, e doutorado, com
CNPq. tempo previsto de conclusão de 48 meses. Informações
(*) Professor e coordenador do curso de Psicologia sobre a realidade da pós-graduação strictu sensu no
da UNIVALI, Biguaçu, Brasil. Brasil podem ser obtidas no site www.capes.gov.br.

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distribui-se por mais de 500 títulos nacionais e mica, plural e complexa. Sujeitos e(em) reali-
estrangeiros, muitos deles vinculados a outras dade são, na perspectiva do enfoque histórico-
áreas de conhecimento. -cultural em psicologia adotado neste trabalho,
Além dos Programas de Pós-Graduação, os constantemente constituídos, sendo tudo, todos e
cursos de Graduação em Psicologia também cada um, expressão e fundamento de condições
contribuem para o incremento da produção essencialmente históricas, marcadas pelas
científica na área, em especial os que vêm dando (im)possibilidades de cada tempo e lugar3.
ênfase à dimensão de pesquisador na formação O não reconhecimento dessa pluralidade,
profissional. Essa formação acontece em espaços historicidade e complexidade caracterizam uma
formais, como as disciplinas de métodos e história da civilização ocidental, marcada por
procedimentos de pesquisa, mas também e fundamentalismos e exercícios de intolerância.
fundamentalmente em espaços outros em que se No que se refere às ciências, por muitas décadas
investe nas possibilidades de leitura crítica da o debate sobre o processo de produção de
realidade. conhecimentos também foi marcado pelos
A significativa produção científica em psico- mesmos dogmatismos e intolerâncias, o que
logia no Brasil não é acompanhada, com a mesma demarcou limites por vezes intransponíveis entre
intensidade, pela divulgação de reflexões sobre os diferentes campos de saber, geralmente
embates metodológicos que a caracterizam. É objetivados na cisão entre ciências da natureza,
propósito deste texto justamente contribuir, à luz por um lado, e ciências humanas e sociais, por
das reflexões teórico-metodológicas do enfoque outro. Essa separação, problematizada por
histórico-cultural em psicologia, com esse debate. Boaventura de Souza Santos em uma obra que é
referência em discussões epistemológicas e que
foi publicada pela primeira vez em 1978 (“Um
discurso sobre as ciências”), provocou uma série
SOBRE CIÊNCIA(S):
de acontecimentos e polêmicas que o próprio
ALGUNS APONTAMENTOS
autor e vários pesquisadores por ele convidados,
PARA INÍCIO DE CONVERSA
de diferentes áreas de conhecimento, discutem
quase 20 anos depois (Souza Santos, 2004).
Ao refletir sobre o pesquisar no campo da A “Guerra das Ciências”, modo como o
Psicologia, uma primeira questão que se embate ficou conhecido no universo acadêmico,
apresenta diz respeito a possíveis especificidades explicitou que “as diferenças epistemológicas
de uma prática social em um determinado campo não ocorriam apenas entre cientistas naturais e
disciplinar: afinal, há especificidades no cientistas sociais, mas também entre cientistas
processo de produção de conhecimentos em naturais e entre cientistas sociais, e que tais
Psicologia que diferencie as pesquisas aí diferenças se articulavam de modo complexo
desenvolvidas das realizadas em outros campos com diferenças culturais e políticas, com
disciplinares? Essa pergunta, por sua vez, remete diferentes concepções sobre a relação entre
à reflexão sobre possíveis especificidades conhecimento científico e outras formas de
intradisciplinares, o que engendra outra per- conhecimento” (Souza Santos, 2004, p. 25).
gunta: diferenciam-se as pesquisas psicológicas Além das discussões epistemológicas,
em contexto de intervenção, na docência ou na demarcadas por diferentes modos de se conceber
esfera acadêmica? sujeito, validade, possibilidades de produção de
Estas duas perguntas são consideradas como conhecimento e sua generalização, as polêmicas
dispositivos para a reflexão que se apresenta eram caracterizadas por intolerâncias e práticas
neste texto, a qual se assenta em um debate de exclusão assentes em critérios de verdade que
maior: o processo de produção de conheci- assumiam dogmaticamente, por um lado, os
mentos, independentemente dos seus fins, é preceitos iluministas que fundamentavam as
sempre e necessariamente marcado pelas tensões
e os jogos de poder que caracterizam as relações 3 Sobre as relações sujeito e sociedade na perspec-
em diferentes contextos sociais e que caracte- tiva do enfoque histórico-cultural em psicologia, ver
rizam a realidade como essencialmente polissê- Vigotski (2000), Pino (2000) e Zanella (2004, 2005).

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ciências modernas ou, por outro lado, critérios Embora se reconheça o caráter histórico da
de verdade opostos que negavam peremptoria- separação quantitativo e qualitativo, que demarca
mente esses mesmos preceitos. Em uma ou outra possibilidades de pesquisa a reivindicar/lutar
perspectiva, o critério de realidade como verdade por espaço em contextos acadêmicos e verbas
era assumido como fundamento. junto às instâncias de fomento, entende-se que
Essas oposições apresentaram-se visivelmente necessário se faz superar falsas oposições e
no interior das ciências humanas e sociais, reconhecer as contribuições de diferentes modos
demarcando territórios distintos e geralmente de produção de conhecimentos. Afinal, a
excludentes em relação ao modo como se conce- realidade não fala por si só e todo número –
bia o processo de produção de conhecimentos. apresentado como ícone das pesquisas quantita-
Sob a égide do debate, por vezes mais animoso do tivas – é sempre e necessariamente expressão de
que animado, apresentava-se o embate sobre o que uma qualidade que precisa ser explicitada. A
se legitimava como conhecimento científico, luta oposição quantitativo/qualitativo é, nesse sentido,
em que se procurou impor um determinado modo falaciosa e mantê-la significa reproduzir
de fazer ciência com argumentos de objetividade, dicotomias que marcam o pensamento ocidental
neutralidade e generalidade. e pouco revela sobre a diversidade que carac-
Um dos modos de objetivação desse embate foi teriza a própria ciência.
o suposto antagonismo entre pesquisas quantita- Toda homogeneização precisa ser problemati-
tivas e qualitativas, sendo as primeiras privilegia- zada, pois uniformizar diferenças que demarcam
das nas pesquisas das ditas ciências naturais, e as singularidades no processo de produção de
pesquisas qualitativas reconhecidas como perti- conhecimentos – tanto no que se refere às
nentes ao campo das ciências humanas e sociais. ferramentas a serem utilizadas para a coleta de
Importante ressaltar que estas também foram informações e análise de dados, quanto na
historicamente marcadas pela territorialização assunção dos resultados daí advindos – oblitera a
anteriormente referida em razão de muitas de possibilidade de olhar criticamente o que se faz e
suas práticas assumirem, sob o mesmo discurso de diz, assim como são dificultadas as condições
cientificidade, os preceitos metodológicos e para engendrar práticas criativas necessárias à
epistemológicos das ciências da natureza. produção de respostas para os complexos
A estatística foi utilizada como artífice da problemas sociais que contemporaneamente se
oposição quantitativo/qualitativo em razão de apresentam.
sua suposta objetividade e precisão, funda-
mentais na busca da distância da polissemia que
obnubilava a inteligibilidade das expressões PESQUISA ACADÊMICA EM PSICOLOGIA:
científicas. Procedimentos estatísticos, portanto, FUNDAMENTOS COMUNS?
foram apresentados como instrumentos por
excelência na produção de conhecimentos que se A pesquisa em contextos de pós-graduação ou
pretendiam exatos, precisos, fiéis à realidade instituições de pesquisa tem por compromisso a
investigada, enfim, científicos. produção de novos conhecimentos, de novas
A exatidão estatística, no entanto, pouco serve explicações sobre a ou compreensões da
às pretensões de verdade unívoca e igualmente se realidade, explicações/compreensões essas que
apresenta como falácia, assim como a oposição necessariamente se assentam sobre o que já foi
quantitativo/qualitativo que, por seu intermédio, dito ou sobre os não ditos, sobre os silêncios e
buscou-se afirmar. Estranham Bourdieu, omissões que também requerem atualização.
Chamboredon, e Passeron (2004, p. 20) que “a “Novo” aqui pode ser entendido tanto como a
estatística – ciência do erro e do conhecimento explicitação de algo até então desconhecido,
próximo que, em procedimentos tão usuais quanto portanto inédito, original, quanto a apresentação
o cálculo do erro ou dos limites de confiança, de uma nova faceta/uma nova leitura sobre algo
coloca em ação uma filosofia da vigilância crítica há muito tempo estudado e cuja familiaridade
– possa ser utilizada como álibi científico da cega para o que pode vir a ser (re)conhecido. Em
submissão cega ao instrumento”. qualquer das situações, o conhecimento sobre o

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dito e o não dito é condição sine qua non para o em pesquisa que permitam instituir a própria
pesquisar, a base sobre a qual se assentam as interlocução.
reflexões a serem produzidas. Que fundamentos podem ser esses que, ao
A pesquisa acadêmica caracteriza-se, pois, mesmo tempo, reconheçam/preservem as
pelo diálogo estabelecido com a realidade e com especificidades dos diferentes métodos 4 de
a própria ciência psicológica, com o que se fala pesquisa em psicologia e viabilizem algum
em seu nome e o uso que dela se faz. Poderia-se diálogo? Como reconhecê-los sem recair em
dizer que, de modo geral, a pesquisa em discursos normatizadores, discursos esses que
psicologia é assim delimitada na medida em afirmam direções unívocas para o pesquisar e se
que aquilo que se investiga é atinente à ciência traduzem em manuais onde a produção de
psicológica, aos seus focos de estudo: maiores conhecimentos é reduzida à seqüência de passos
especificações, por sua vez, implicam em riscos a serem seguidos?
na medida em que não se caracteriza como Procura-se apresentar aqui algumas respostas
ciência singular. Seus dilemas são os mesmos para essas perguntas. Respostas provisórias, por
que concernem às ciências em geral, assim como certo, e que são somente anunciadas, pois cada
sua história é marcada pelas relações de força e uma delas demanda uma complexa reflexão que
tensões características dos momentos históricos se estende para além dos limites desse texto.
em que se insere. Ousa-se apresentá-las com a pretensão de
Se há, por sua vez, compromisso com a contribuir para o diálogo sobre o pesquisar e
própria ciência e seu desenvolvimento, toda e como suporte para a defesa desse processo como
qualquer pesquisa em psicologia, para além da criação ética, estética e política.
diversidade epistemológica em que pode se
assentar, responde a inquietações que marcam o 1) Toda e qualquer pesquisa parte de uma
status do processo de produção de conheci- pergunta que se quer responder
mentos, com suas implicações econômicas,
sociais e políticas. A interação é uma constante, Como afirma Sérgio Luna (2000), “a
seja com a realidade (re)conhecida ou com os realidade não se mostra a quem não pergunta”.
muitos interlocutores que caracterizam a Afirma-se que ela tampouco se esconde, porém a
civilização ocidental da qual se é signatário. assertiva deste autor é apresentada porque revela
Nessa complexa e intrincada rede de relações, a possibilidade de existência humana como mera
com suas influências e pressões variadas, as passagem, uma existência cuja cotidianidade e
uniformidades são poucas e as exigências garantia da sobrevivência imediata se apre-
muitas, nem sempre reveladas. sentam como suficientes. Porém, é facultado ao
Difícil pensar, nessa condição, em fundamentos ser humano, enquanto característica de sua
que possam ser comuns às pesquisas e suas própria humanização, superar o existente e
diferentes práticas. Esse exercício de identificação projetar-se em direção a devires, instituir
de consonâncias, porém, é importante, pois relações outras que se diferenciem das relações
quando se nega a possibilidade de reconhecimento utilitárias e impessoais que caracterizam a
de afinidades, de pontos de referência em comum sociedade capitalística5. Essas relações outras
ainda que destes possam decorrer explicações
4 Utiliza-se aqui método em sua acepção etimoló-
variadas, quiçá opostas, o diálogo é impossível, as
trocas ficam obliteradas, negadas. Negadas tal gica, ou seja, como caminho para se chegar a algum
lugar.
como acontece no diálogo verbal de surdos 5 “Guattari acrescenta o sufixo ‘ístico’ a ‘capitalista’
relatado por Vigotski (1992), onde três deficientes por lhe parecer necessário criar um termo que possa
auditivos defendem veementemente seus pontos designar não apenas as sociedades qualificadas como
de vista, sem se dar conta de que falam sobre capitalistas, mas também setores do ‘Terceiro Mundo”
assuntos diferentes. Para que não continuem ou do capitalismo ‘periférico’, assim como as
economias ditas socialistas dos países do leste, que
surdos e cegos às diferenças, para que algum vivem numa espécie de dependência e contradepen-
diálogo possa acontecer, é preciso (re)conhecer dência do capitalismo” (Guattari & Rolnik, 1986, p. 15
aspectos de interesse comum às diferentes práticas – nota de rodapé).

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são fundamentalmente relações estéticas 6 , mesmo referencial de base permite problematizar
pautadas em uma sensibilidade que revela a explicações já consolidadas, verdades supostas,
cada um e a todos a riqueza de ser ao mesmo ou então reafirmá-las, posições essas que
tempo uno e coletivo, de ser expressão e revelam igualmente condições ético-estéticas e
fundamento da realidade. Sensibilidade que se políticas.
funda na possibilidade de reinvenção da própria
existência, problematizada e problematizadora, 2) Reconhecer, no caso das pesquisas em
superação do fato, do dado. psicologia, a complexidade do que se
Nesse sentido, é preciso (re)aprender a olhar, investiga
a ad-mirar e, fundamentalmente, a perguntar, a
questionar, a problematizar. Em pesquisa, Este é outro aspecto que se pode apontar
perguntar é fundamental, uma tarefa primeira e como comum a diferentes métodos de pesquisa e
difícil, pois há que se considerar de certa forma reconhecido, embora com diferentes
vários aspectos: se essa mesma pergunta já não implicações, por teóricos de vertentes tão
foi feita e, em caso afirmativo, analisar a distintas como Sokal e Bricmont (1999), Morin
qualidade da(s) resposta(s) que foi(foram) (1998) e Souza Santos (2004).
produzida(s); as condições que se têm para Reconhecer a realidade como complexa é
respondê-la; as possibilidades de respostas para mais um indicador da necessidade de se
esta pergunta, considerando suas implicações transcender supostas fronteiras no que se refere a
éticas7. procedimentos e práticas de pesquisa. Isso não
Apontar esses aspectos não significa que boas significa que fronteiras não existam: afinal,
perguntas se caracterizem pelo grau de dificul- foram historicamente produzidas para demarcar
dade na sua compreensão. Ao contrário, Souza lugares de saber/poder. No entanto, estas
Santos (2003, p. 15) propõe que “é preciso parecem não se situar nos locais tradicional-
voltar às coisas simples, à capacidade de mente reconhecidos, ou seja, nos procedimentos
formular perguntas simples, perguntas que, como de coleta de informações e análise de dados, pois
Einstein costumava dizer, só uma criança pode dependendo do que e como se investiga, é
fazer, mas que, depois de feitas, são capazes de preciso lançar mão de técnicas diferentes e
trazer uma luz nova à nossa perplexidade”. referenciais de análise variados. Por exemplo:
Perguntas, por sua vez, indicam escolhas, e informações obtidas com a observação partici-
em pesquisa essas se relacionam com o pante, ferramenta fundamental da pesquisa
referencial teórico de base de quem questiona, etnográfica que provoca a instituição de olhares
com os seus valores e concepções de mundo, para além do contexto imediato, reportando a
escolhas essas que apontam alguns caminhos a uma busca histórica de modo a reconstituir
serem trilhados para a produção de respostas. cenários e problematizar o supostamente
Por sua vez, é importante destacar que esse conhecido, podem ser cotejadas com a leitura de
dados estatísticos: utilizados em uma mesma
6 Sobre relações prático-utilitárias e relações investigação, a ser desenvolvida não necessaria-
estéticas ver Sánchez Vázques (1999). mente por um pesquisador, mas por uma equipe,
7 Ética, neste trabalho, é entendida como “uma observações participantes e dados estatísticos
postura que se pauta pelas noções do que é bom ou possibilitam (re)conhecer diferentes ângulos de
mau para a vida, para a existência humana. Sendo esta uma mesma situação/problema.
existência necessariamente relacional, posto que Assumir o princípio da complexidade do real
somos sujeitos em relação, falar em ética significa
falar no compromisso com os outros e consigo mesmo significa, portanto, conceber que o próprio
de valorização e luta pela vida, pela denúncia de toda processo de produção de conhecimentos é
e qualquer forma de violência e degradação humana. igualmente complexo, o que leva ao reconhe-
Luta permanente por modos de vida dignos para cimento de que explicações causais diretas, ou
todos, o que requer o exercício contínuo e permanente seja, que partem do isolamento de variáveis
de crítica em relação ao que se faz cotidianamente e as
conseqüências dessas ações para a vida em sociedade” desconsiderando que o isolamento real é uma
(Sais, Zanella, & Zanella, 2007, p. 323). ficção posto que todos os fenômenos se

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interrelacionam e mutuamente constituem, têm determinados procedimentos e linguagem tidos
um poder explicativo limitado. Por sua vez, toda como exatos, precisos. Por sua vez, as respostas
e qualquer explicação é datada, e “... a ciência é possíveis, ou a interpretação do que se produziu
ciência de um mundo real e que este, por sua como dado (vale observar a inadequação desse
natureza, é mudança, movimento e variação termo, posto que em pesquisa nada é “dado”, é
constantes. As proposições científicas, portanto, gratuito, nada está pronto, tudo é resultado de
só tem uma estabilidade relativa, o que não quer árduo trabalho do pesquisador), igualmente se
dizer que por isso sejam falsas, pois exatamente sustentam em uma perspectiva teórica
por serem relativas se ajustam ao ritmo mutante epistemológica, seja esta explicitada ou não.
e dinâmico do real. Nesse sentido, todas as No que se refere à pesquisa acadêmica, a
ciências – e muito especialmente as ciências afirmação a priori de procedimentos a serem
humanas e sociais, entre as quais seria preciso utilizados se esvai, pois a escolha destes decorre
lutar para incluir a Estética – são tão mutantes – da pergunta que se pretende responder e dos
ou seja, tão históricas – quanto a realidade que fundamentos ontológicos em que se sustentam os
estudam” (Sánchez Vázquez, 1999, p. 20). diferentes referenciais teóricos que balizarão as
análises a serem empreendidas.

3) Relação entre pergunta, método de


4) Pesquisar é intervir
pesquisa e referencial teórico-epistemológico
Toda e qualquer pesquisa implica relações
Toda e qualquer pergunta de pesquisa indica,
entre sujeitos, entre pesquisador e as pessoas
em maior ou menor grau, o lugar de onde fala o
e/ou práticas sociais que são foco de seu olhar,
pesquisador. Lugar teórico, epistemológico,
ou entre pesquisador e o conhecimento já
ético, instituído e instituinte de possibilidades de
produzido, no caso de pesquisas documentais,
olhar, de compreender, de (re)conhecer e de ser onde muitos outros, ausentes, se fazem
(re)conhecido, o que demarca a inexorável presentes. Destaca-se aqui a noção de relações,
condição social do próprio pesquisador e do que necessariamente pressupõem um e outros,
que investiga. entendidos à luz do enfoque histórico-cultural
As escolhas metodológicas, a definição dos em psicologia como mutuamente constitutivos.
procedimentos para coleta de informações e Isso porque, aparentemente distintos, separados,
análise de dados, por sua vez, carecem de as pessoas em relação se amalgamam pela
sentido se feitas à priori, descoladas do que se própria condição de que uma pressupõe a outra e
quer investigar. Esclarece Vigotski (1995, p. 47) tem sua existência (re)conhecida nessa condição,
que “a elaboração do problema e do método se fundadora da própria humanização. Por sua vez,
desenvolvem conjuntamente, ainda que não de modificam-se no curso dessas relações todos os
modo paralelo. A busca do método se converte envolvidos, posto que lhes é facultado ressigni-
em uma das tarefas de maior importância na ficarem a si mesmos em razão tanto do outro
investigação. O método, nesse caso, é ao mesmo presencial, quanto dos muitos outros anônimos
tempo premissa e produto, ferramenta e que são necessariamente parceiros de toda e
resultado da investigação”8. qualquer atividade9. Mesmo no caso de docu-
Problematiza-se assim a assunção de procedi- mentos, considerados “não reativos” (Valles,
mentos melhores desconsiderando-se as per- 1997), é importante considerar que estes
guntas que se quer responder. Problematiza-se a (re)existem nas relações que com eles os pesqui-
desqualificação de práticas de pesquisa e seus sadores estabelecem, relações essas em que novos
resultados, baseada em pressuposições do que é sentidos necessariamente se produzem sobre o que
científico cunhadas na afirmação de verdades a- se apresenta como imagem/texto a ser lido.
históricas, e que se sustentam no uso de
9 Sobre a noção de outro – alteridade – à luz do
8 Sobre as reflexões metodológicas de Vigotski, enfoque histórico-cultural em psicologia ver Zanella
ver Zanella et al. (2007). (2005).

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Nesse sentido, toda pesquisa é uma inter- produzidos10. Técnica, porque toda e qualquer
venção, posto que ali se recriam sujeitos, conhe- pesquisa, independente do referencial teórico-
cimentos e a própria realidade. Toda pesquisa -epistemológico que a sustenta, requer rigor na
transforma tanto o pesquisador quanto as pessoas escolha e explicitação dos procedimentos para
com as quais trabalha no processo de produção coleta de informações e para a análise dos dados.
de conhecimentos, assim como seu produto, Rigor que não significa engessamento, ou
uma vez publicado, tornado público, apresenta- adoção cega de instrumentos considerados
-se como dispositivo a deflagrar diálogos e científicos. Rigor que se traduz como coerência,
intervenções outras. Esclarece Maraschin que “O pois como afirmado anteriormente, a escolha de
próprio fato de perguntar produz, ao mesmo procedimentos não se faz à priori, mas sim em
tempo, tanto no observador quanto nos razão do que se busca investigar e do referencial
observados, possibilidades de auto-produção, de teórico-epistemológico que, como uma luneta,
autoria. Nossos ‘objetos de pesquisa’ também foca o olhar sobre a realidade e os fragmentos
são observadores ativos, produzem outros que dela serão recortados e sustentarão o
sentidos ao se encontrarem com o pesquisador, processo de criação.
participam de redes de conversações que podem Desse modo, questiona-se a assunção prévia de
ser transformadas a partir de novas conexões, procedimentos mais ou menos adequados. Afinal,
novos encontros” (Maraschin, 2004, p. 105). toda pesquisa é uma (re)invenção, e procedi-
mentos se atualizam a cada nova investigação,
embora seja importante reiterar que não se cria do
5) Pesquisar é criar
nada. O que se quer destacar é a necessidade de se
Se o compromisso da pesquisa científica é (re)conhecer as importantes contribuições sobre o
produzir novos conhecimentos, pesquisar tema que já se encontram difundidas na literatura
(como exemplo, ver Olabuénaga, 1999; Delgado
caracteriza-se como atividade estética criadora,
& Gutierrez, 1994) e, no diálogo com o já dito,
como atividade “que não se limita a reproduzir
refletir sobre o que se diz e os muitos não ditos
fatos ou impressões vividas, mas que cria novas
que carecem de voz e vez.
imagens, novas ações...” (Vigotski, 1990, p. 9),
Por fim, criar requer relações estéticas pautadas
novos conceitos e explicações sobre a realidade
em uma sensibilidade que possibilite não somente
investigada.
ver, mas fundamente olhar, admirar, problematizar
Necessário ressaltar que criar não é atividade
a realidade; sensibilidade para não somente estar,
mágica, sequer tranqüila. Vigotski (1990)
mas para viver intensamente e sensivelmente os
esclarece que quem cria o faz a partir de um
encontros e desencontros que caracterizam a
complexo processo em que aspectos da própria
existência humana – as relações que caracterizam
realidade são descolados dentre uma infinidade
o pesquisar aí se incluem – e o que esta produz
de possíveis, e combinados de múltiplas
como mediação fundamental para o seu próprio
maneiras. O inusitado está nas infindáveis
vir a ser. Sensibilidade, enfim, que mobilize para a
possibilidades de decomposição, de recortes de
procura de algumas respostas às perguntas que são
fragmentos daqui e dali que são recompostos em
feitas e que movem o pesquisador em direção à
novas combinações, em produções inovadoras,
produção de possíveis respostas, respostas essas
decorrentes tanto do que intencionalmente se
decorrentes da reflexão sobre os resultados da
produz quanto dos acasos, dos encontros
inesperados que surpreendem com o que emerge. 10 Esclarece Alves-Mazzotti (2002, p. 27): “A
Por sua vez, para criar é necessário conheci-
proposição adequada de um problema de pesquisa
mento, técnica e uma boa dose de sensibilidade. exige, portanto, que o pesquisador se situe nesse
Conhecimento porque só é novo aquilo que não processo, analisando criticamente o estado atual do
repete o já existente, e no caso da pesquisa conhecimento em sua área de interesse, comparando e
científica, conhecer o que já foi produzido sobre contrastando abordagens teórico-metodológicas
utilizadas e avaliando o peso e a confiabilidade de
a temática investigada é condição para a resultados de pesquisa, de modo a identificar pontos
delimitação do próprio problema e dos diálogos de consenso, bem como controvérsias, regiões de
que se irá estabelecer com os conhecimentos já sombra e lacunas que merecem ser esclarecidas”.

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investigação e que não raro provocam a afirmação modo, a reflexão sobre o que se faz, o como se faz
de muito mais dúvidas do que certezas. e o que resulta dessa prática vincula-se inexora-
Mas o criar não se encerra aí, pois o ciclo do velmente à reflexão sobre as implicações ou
processo de criação se completa somente com a decorrências dessas práticas, sejam estas
objetivação do produto criado, o que requer a tecnológicas, sejam no plano das idéias.
escolha de signos mediadores que permitam
expressar o que se quer comunicar. Mas essa é
uma outra questão, que foge ao escopo deste REFERÊNCIAS
trabalho11.
Alves-Mazzotti, A. J. (2002). A “revisão da
bibliografia” em teses e dissertações: Meus tipos
CONSIDERAÇÕES FINAIS inesquecíveis – O retorno. In L. Bianchetti, L. Etti,
& A. M. N. Machado (Eds.), A bússola do
escrever: Desafios e estratégias na orientação de
As reflexões aqui apresentadas sobre o teses e dissertações (pp. 25-41). Florianópolis:
pesquisar em psicologia permitem afirmar que se Ed. da UFSC & São Paulo: Cortez.
trata de um processo de criação, de uma prática Bianchetti, L., & Machado, A. M. N. (2002). A bússola
social complexa que busca compreender/explicar do escrever: Desafios e estratégias na orientação
ou encontrar soluções para uma realidade de teses e dissertações. Florianópolis: Ed. da UFSC
& São Paulo: Cortez.
igualmente complexa. Enquanto prática social,
pressupõe sujeitos em todo o seu processo e Bourdieu, P., Chamboredon, J., & Passeron, J. (2004).
Ofício de sociólogo: Metodologia da pesquisa na
necessário se faz, considerando a sua implicação sociologia. Petrópolis, RJ: Vozes.
com as condições históricas em que se vive e com
Delgado, J. M., & Gutierrez, J. (1994). Métodos y
a história que se quer (re)produzir, reconhecer que tecnicas cualitativas de investigación en ciencias
se trata de uma ação ética, estética e política. sociales. Madrid: Editorial Síntesis.
Ética, porquanto socialmente comprometida Guattari, F., & Rolnik, S. (1986). Micropolítica:
com alguma visão de mundo, com os valores, Cartografias do desejo (2ª ed.). Petrópolis: Vozes,
conhecimentos e crenças que (re)(de)formam o Luna, S. V. (2000). Planejamento de pesquisa: Uma
olhar do pesquisador e constituem seu projeto de introdução. São Paulo: EDUC.
vida. No caso da pesquisa acadêmica, está Machado, A. M. N. (2007). Do modelo ao estilo: As
presente em todos os momentos do processo de possibilidades de autoria em contextos acadêmicos.
produção de conhecimentos, desde a formulação In E. Calil (Ed.), As trilhas da escrita: Autoria,
da pergunta de partida até a interpretação dos leitura e ensino (pp. 171-207). São Paulo: Cortez.
resultados e sua divulgação. Maraschin, C. (2004). Pesquisar e intervir. Psicologia &
Sociedade, 1, 98-107.
É também uma prática estética, posto que se
pauta em sensibilidades que estranham o instituído Morin, E. (1998). Ciência com consciência. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil.
e reconhecem infinitas possibilidades de devir e
acolhimento das diferenças que conotam ou Olabuénaga, J. I. R. (1999). Metodología de la
investigación cualitativa (2ª ed.). Bilbao:
podem vir a conotar a existência humana. Estética Universidad de Deusto.
porque se funda em relações estéticas, ou seja, em Pino, A. (2000). O social e o cultural na obra de Lev S.
“relações sensíveis em que é possível reconhecer a Vigotski. Educação & Sociedade, 71, 45-78.
potência criadora que afirma o ser humano Sais, A. P., Zanella, A. V., & Zanella, R. M. V. (2007).
enquanto humanidade” (Zanella, 2006, p. 36). Constituição Brasileira, direitos humanos e ética:
Por fim, pesquisar é uma prática política, na Algumas considerações. Revista Brasileira de
medida em que, como toda e qualquer ação Direito Constitucional, 9, 321-335.
humana, necessariamente se engaja em um projeto Sánchez Vázquez, A. (1999). Convite à estética. Rio de
de sociedade que se quer (re)produzir. Desse Janeiro: Civilização Brasileira.
Sokal A., & Bricmont, J. (1999). Imposturas
11 Sobre a relação pesquisar e escrever, consultar intelectuais. Rio de Janeiro: Record.
Machado (2007) e os vários textos compilados por Souza Santos, B. (2003). Um discurso sobre as
Bianchetti e Machado (2002), entre outros. ciências. São Paulo: Cortez.

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Souza Santos, B. (2004). Conhecimento prudente para produção de conhecimentos e defende a tese de que
uma vida decente: ‘Um discurso sobre as ciências’ pesquisar é um processo de criação ético, estético e
revisitado. São Paulo: Cortez. político. Tendo como foco a pesquisa acadêmica,
Valles, M. S. (1997). Técnicas cualitativas de investi- apresentam-se alguns debates sobre o processo de
gación social: Reflexión metodológica y práctica produção de conhecimentos para identificar funda-
profesional. Madrid: Universidad Complutense. mentos do pesquisar que podem vir a ser reconhecidos
Vigotski, L. S. (1990). La imaginación y el arte en la como comuns às diferentes tendências metodológicas
infancia (2ª ed.). Madri: Ed. Akaal. em psicologia, o que se entende como condição para que
algum diálogo possa vir a ser instituído em torno da tese
Vigotski, L. S. (1992). Obras escogidas II: Problemas
aqui apresentada. Esses fundamentos são: a importância
de psicología general. Madrid: Visor
da pergunta de pesquisa; o reconhecimento da
Distribuiciones S.A.
complexidade do que se quer investigar; a inexorável
Vigotski, L. S. (1995). Obras escogidas III: Problemas relação entre pergunta de pesquisa, método e referencial
del desarollo de la psique. Madrid: Visor teórico-epistemológico; a falsa dicotomia entre pesquisa
distribuiciones. e intervenção; a assunção de que pesquisar é criar.
Vigotski, L. S. (2000). Manuscrito de 1929. Educação Palavras-chave: Metodologia, Método, Pesquisa
& Sociedade, 21, 23-44. em psicologia, Prática social ética-estética-política.
Zanella, A. V. (2004). Atividade, significação e
constituição do sujeito: Considerações à luz da
psicologia histórico-cultural. Psicologia em
Estudo, 9, 127-135. ABSTRACT
Zanella, A. V. (2005). Sujeito e alteridade: Reflexões a
partir da psicologia histórico-cultural. Psicologia & This text, based on theoretical-methodological
Sociedade, 17, 99-104. concepts of the description-cultural approach in
Zanella, A. V. (2006). “Pode ser flor se flor parece a psychology, presents reflections about the production
quem o diga”: Reflexões sobre educação estética e o process of knowledge and defends the thesis that to
processo de constituição do sujeito. In S. Z. Da Ros, search is an ethical, esthetic and politician creation
K. Maheirie, & A. V. Zanella (Eds.), Relações process. According with the academic research, some
estéticas, atividade criadora e imaginação: Sujeitos discussions are presented about the process of
e(em) experiência. Florianópolis: NUP/CED/UFSC. knowledge production to identify basis of searching
Zanella, A. V., Reis, A. C. dos, Titon, A. P., Urnau, L. that can come to be recognized as common to the
C., & Dassoler, T. (2007). Questões de método em different methodological trends in psychology, what is
textos de Vigotski: Contribuições à pesquisa em understood as condition for some dialogue could
psicologia. Psicologia e Sociedade, 19, 25-33. become instituted around the thesis proposed here.
These basis are: the importance of the research
question; the recognition of complexity of it wants to
investigate; the inexorable relation between research
RESUMO question, method and theoretician-epistemological
reference; the false dichotomy between research and
Este texto, fundamentado nos aportes teórico- intervention; the presumption of to search is to create.
-metodológicos do enfoque histórico-cultural em Key words: Methodology, Method, Research in
psicologia, apresenta reflexões sobre o processo de Psychology, Social practice ethical-esthetic-politician.

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