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Prova sobre Baruch de Espinosa – Novembro de 2010

Thiago Henrique Ferreira Zoroastro

Baruch de Espinosa (1632-1677) é um filósofo holandês descendente de uma família judaica


que havia emigrado de Portugal para os Países Baixos devido à intolerância religiosa. Mesmo sendo
de origem judia, Baruch não seguiu o judaísmo e foi excomungado por ser acusado de ateísmo.
Devido às suas críticas ao antropocentrismo de Deus no monoteísmo transcendentalista e
. antropocêntrico, pode-se considerar Espinosa como um pensador que rechaçou as superstições e os
mitos religiosos para tentar compreender racionalmente o Mundo Natural.
Em seu modo de praticar filosofia, Espinosa concebe pelo pensamento complexo uma
expressão que predomina no pensamento naturalista da Idade Moderna: “Deus sive Natura”, ou
melhor dizendo, “Deus, ou seja, Natureza”. Pois é característico do pensamento moderno a
naturalização do Mundo como forma de ampliar as formas de conhecimento, ao invés de
transcendentalizar as causas e os motivos dos acontecimentos mundanos. Para Espinosa, tudo torna-
se cognoscível e racionalizável, uma vez que, no livro “Ética”, ele concebe a imanência de Deus, ou
seja, a presença de Deus em todo o mundo sensível e material.
Para isso, Espinosa fala de infinitos atributos infinitos, e a extensão (ou matéria ) seria
apenas um desses atributos que se concebem por si próprio. O segundo atributo citado é o
pensamento, ou seja, Deus ou Natureza, são uma e mesma substância e concebe por si próprio estas
diversas dimensões de realidade. Os atributos são infinitos em qualidades, mas o ser humano
conhece apenas estes dois atributos (pensamento e extensão); e são infinitos em quantidade pois a
substância deve ser necessariamente infinita, ou seja, para se manter a coerência ontológica, não
deve existir coisa alguma fora da substância. Dizer que todo o universo é infinito chama-se
Monismo. Dizer que a Natureza (ou Deus) é todas as coisas e que tudo faz parte da Natureza (ou
Deus) chama-se panteísmo.
Resolvido o problema ontológico, volta-se para a cosmologia. Os infinitos atributos infinitos
da substância exitem por si e por si são concebidas, assim temos a Natureza Naturante, que é como
se fosse o meio de contínua e profunda transformação imanente no Mundo, visto que os atributos
são concebidos por si próprios por serem uma dimensão ativa da realidade. É nesta parte que fica
evidente a “causa sui” (causa de si mesmo) de Deus.
Os modos, que são infinitos em efeitos e finitos no que concerne a modos mediatos,
resultam da necessidade e constituem a Natureza Naturada. Por isso, os modos não agem, mas são a
parte passiva da Natureza, uma vez que constituem as particularidades modificadas de Deus. Sendo
assim, cada coisa que há no Mundo é uma modificação de Deus, e cada fato é um modo de
manifestação de Deus. A Natureza Naturante precede a Natureza Naturada na difusa circularidade
de tempo da Natureza.
Falando na noção de tempo, há algumas coisas importantes nesse campo a se considerar da
filosofia espinosana. O pensador holandês combateu a tese criacionista porque para ele a substância
não é transitiva, mas eterna e continuamente infinita. Essa noção deve-se ao erro ontológico de
considerar a substância como criada por um Deus antropomorfo e que deverá ser posteriormente
destruída pelo apocalipse. A existência do Universo seria, portanto, transitiva, e não eterna.
Espinosa une a substância pensante à substância material de Descartes a fim de considerá-las
atributos de uma mesma e única substância, e ainda adiciona a possibilidade de existirem infinitos
atributos, mas pertencentes à mesma substância. Assim, elimina-se o raciocínio binário na
inferência de se tentar compreender uma única coisa: a Natureza, sendo a única em tudo o que há no
universo, sendo ela a mesma coisa que Deus. Explanando tudo no mesmo plano de importância
mundana, perde-se relevância a suposta superioridade de um atributo a outro, além de se obter do
mundo a ideia de não-existência de cargos superiores, mandantes e mandados, etc.
Para Espinosa, existem 3 graus de conhecimento: o primeiro é o conhecimento sensível, que
trata da subjetividade de sensações de cada ser vivo, ocasionando conhecimento racional, que, por
ser um modo abrangente de se compreender o Mundo, relacionando-se com a atividade de
contemplação; o terceiro e mais importante modo de conhecimento é a intuição intelectual, da qual
trata-se da busca de ideia adequadas, e isto chama-se amor intelectual a Deus.
As causas de todas as coisas, por serem de si próprias, são determinadas. E causas
determinadas envolvem efeitos necessários, cada um a seu modo dependendo de quais atributos
envolvidos. Assim, nega-se o livre-arbítrio porque em Deus não há vontade. E nós, por fazermos
parte desta substância, não temos vontades senão àquelas causadas por certas determinações. Isso
fica evidente nas espécies de animais em que a intuição natural prevalece sobre a racionalidade.
Pois quanto maior é a possibilidade de pensar, maior é a racionalidade antes de uma ação. A ação
humana é mais complexa por ser a noção do real mais ampliada. Mas apenas pelo conhecimento
racional é que se teria ideias que abordassem de modo abrangente cada questão se algo é bom ou
mau. E somente pelo raciocínio intuitivo que se chegaria a ideias adequadas sobre cada questão de
ética. E por esses motivos que talvez a obra se chame “Ética”, pois, segundo Deleuze, trata-se de
uma etologia dos animais e seus costumes.
A beatitude é a bem-aventurança ou a vida contemplativa que envolve o filósofo, segundo
Espinosa. E nesse sentido que Hegel elogia o racionalista holandês, pois trata-se da atitude
filosófica da relação indivíduo-Mundo, as investigações, percepções mundanas, além da forma
como o filósofo ira se relacionar com as outras pessoas, sempre em busca de conhecimento e
sabedoria.
Segundo os textos, Espinosa era dotado de felicidade por causa de seus insights, as poéticas
compreensões da Natureza e de suas afecções; o que ele chamou de “amor intelectualis dei”.
Enfim, buscando sempre o saber para sua contínua compreensão do Mundo, Espinosa
concebe Deus ou Natureza como integrador, includente e sistêmico, não havendo nada fora da
Ordem Natural de todas as coisas, essa forma das coisas acontecerem com racionalidade e
correspondência.