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LIVIA LAUBMEYER ALVES DE SOUZA

DIAGNÓSTICO DO USO DO BIM EM EMPRESAS DE PROJETO DE

ARQUITETURA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Civil. Área de Concentração: Tecnologia da Construção

Orientador: Prof. Sérgio Roberto Leusin de Amorim D.Sc.

Niterói

2009

S XXX

Souza, Livia Laubmeyer Alves de

Diagnóstico do uso do BIM em empresas de projeto de arquitetura./ Lívia Laubmeyer Alves de Souza. – Niterói: [s./n.],

2009.

XXX f. : il., 30 cm.

Orientador: Prof o . Sergio Roberto Leusin de Amorim. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Universidade Federal Fluminense, 2009.

LIVIA 2. – LAUBMEYER Teses. I. Título. ALVES DE SOUZA

CDD XXX.XXXX

LIVIA LAUBMEYER ALVES DE SOUZA

DIAGNÓSTICO DO USO DO BIM EM EMPRESAS DE PROJETO DE ARQUITETURA

Aprovada em 4 de junho de 2009

Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Civil. Área de Concentração: Tecnologia da Construção

BANCA EXAMINADORA

Prof. Sérgio Roberto Leusin de Amorim – Orientador Universidade Federal Fluminense

Prof. Carlos Alberto Pereira Soares, D.Sc. Universidade Federal Fluminense

Prof. Márcio Minto Fabrício, D.Sc. Universidade de São Paulo

Niterói

2009

AGRADECIMENTOS

Ao professor Sergio Leusin pelo suporte e orientação.

Ao amigo Marcelo Moraes e aos demais colegas do grupo Nitcon.

As empresas Acrópole Arquitetura, ARQ & URB Projetos, Contexto Arquitetura, Contier Arquitetura, Fernanda Salles Arquitetura, Gui Mattos Arquitetura, Índio da Costa Arquitetura, Michelutti Vassimon Arquitetura, NitArq Arquitetura e Construção, Paulo Baruki Arquitetura, Sérgio Gattás Arquitetos Associados, SPBR Arquitetos, VIA 6B Estúdio de Arquitetura e Design, e a Alex Justi, agradeço a atenção despendida e imensa contribuição, sem as quais essa pesquisa não seria possível.

A Capes pelo apoio financeiro concedido.

Ao IAB-RJ por ceder espaço para o debate e divulgação desse trabalho.

Ao amigo Luís Cláudio Medeiros e demais colegas pelo grande apoio.

Aos verdadeiros amigos pelo estímulo,

motivação

e

compreensão

pela

minha

ausência.

 

Aos

meus

pais

pelo

apoio

e

força

constantes.

SUMÁRIO

 

RESUMO

9

ABSTRACT

10

1

INTRODUÇÃO

11

1.1 APRESENTAÇÃO

11

1.2 JUSTIFICATIVA

14

1.3 OBJETIVOS

16

1.3.1 Objetivo principal

16

1.3.2 Objetivos específicos

16

1.4 METODOLOGIA

17

1.5 ESTRUTURA DO TRABALHO

19

2

PROCESSO DE PROJETO E TI

21

2.1

PROCESSO DE PROJETO

21

2.1.1 Definição de projeto

21

2.1.2 Importância do projeto para a edificação

25

2.1.3 Etapas do processo de projeto

26

2.1.4 O processo de projeto do empreendimento

27

2.1.4.1 Agentes do processo de projeto do empreendimento

28

2.1.4.2 A relação Projeto-produção

32

2.1.5 Empresas de Projeto

34

2.1.6 Processo de projeto e mudanças relacionadas à gestão

35

2.2

ENGENHARIA SIMULTÂNEA

36

2.2.1 Definição de Engenharia Simultânea

36

2.2.2 ES na construção de edifícios

38

2.3

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO

41

2.3.1 Definição de TI

41

2.3.2 TI e indústria da construção civil

42

2.3.3 Contribuições da TI ao processo de projeto

45

3

BUILDING INFORMATION MODELING

49

3.1 ORIGENS DO BIM

49

3.2 DEFINIÇÃO DE BIM

51

3.3 CARACTERÍSTICAS DOS SISTEMAS BIM

52

3.3.1 Modelagem paramétrica e visualizações múltiplas

53

3.3.2 Abordagem de todo ciclo de vida da edificação

55

3.3.3. Ambiente de projeto colaborativo e interoperabilidade

56

3.4

BENEFÍCIOS DO BIM

58

5

3.6 PERSPECTIVAS PARA O BIM

62

3.7 ESTUDOS DE CASO PESQUISADOS

64

3.7.1 Scheer et al., 2007

64

3.7.2 Campbell, 2007

64

3.7.3 BIRX, 2006

65

3.7.4 Suermann e issa, 2007

67

3.7.5 Manning e Messner, 2007

67

4

ESTUDOS DE CAMPO

69

4.1 INTRODUÇÃO

69

4.2 CARACTERIZAÇÃO DAS EMPRESAS

72

4.3 RESULTADOS

75

 

4.3.1

Implantação do software

75

4.3.1.1 Porque ainda não implantou

75

4.3.1.2 Porque buscou a tecnologia

77

4.3.1.3 Treinamento dado pela empresa

79

4.3.2 Uso de softwares

79

4.3.3 Troca de informações de Projeto

80

4.3.4 Vantagens do BIM

81

4.3.5 Dificuldades do BIM

83

4.3.6 Mudanças identificadas

84

4.3.6.1 Equipe de Projeto

84

4.3.6.2 Prazo de Projeto

85

4.3.6.3 Qualidade de Projeto

87

4.3.6.4 Produtos finais

87

4.3.6.5 Qualidade da apresentação

88

 

4.4

QUESTÕES LEVANTADAS / NECESSIDADES IDENTIFICADAS

89

4.4.1 Criação de um padrão para uso do BIM

89

4.4.2 Autoria de projetos

90

4.4.3 Nível de Informações de projeto

90

4.4.4 Como ganhar mais com projetos em BIM?

91

4.4.5 Ensino do BIM

91

 

4.5

CONCLUSÕES DOS ESTUDOS DE CAMPO

91

5

CONCLUSÕES

93

5.1

SUGESTÕES DE TRABALHOS FUTUROS

94

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

96

ANEXOS

103

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1. Metodologia para realização do trabalho

Figura 2. Gráfico do processo de projeto criativo, adaptado de Markus e Arch (1973)

19

apud Menezes

23

Figura 3. Processo intelectual de projeto, adaptado de Fabrício

24

Figura 4. Relação situação de maior “investimento” na fase de projeto X práticas

26

Figura 5. Processo de projeto seqüencial - “Over the wall”. Adaptada de Evbuomwan

e Anumba (1998)

Figura 6. Diagrama de uma equipe de projeto integrada, adaptada de Evbuomwan;

Anumba (1998)

Figura 7. Estruturação da equipe multidisciplinar de projeto, adaptado de Melhado

(1994)

Figura 8. Elementos da mudança organizacional, adaptado de Ferreira; Reis; Pereira

(2001) apud Oliveira (2005)

Figura 9. Aspectos relacionados ao conceito de Engenharia Simultânea, adaptado

36

32

30

convencionais, adaptada de Barros; Melhado (1993) apud Melhado

31

de Brookes; Backhouse (1997) apud Kamara; Anumba; Evbuomwan

38

Figura 10. Metodologia dos estudos de Campo

72

Figura 11. Caracterização das empresas – Número de Funcionários 73

Figura 12. Estágio de implantação do software BIM

73

Figura 13. Ano de aquisição do software

74

Figura 14. Tempo que a empresa utiliza efetivamente o software

74

Figura 15. Porque ainda não implantou

76

Figura 16. Porque buscou a tecnologia

78

Figura 17. Formatos utilizados na troca de informações de projeto 80

Figura 18. Vantagens do BIM

81

Figura 19. Dificuldades do BIM

83

Figura 20. Mudanças identificadas – Equipe de projeto 85

Figura 21. Mudanças identificadas – Prazo de projeto 85

Figura 22. Mudanças identificadas - Qualidade do projeto

87

Figura 23. Mudanças identificadas – Produtos finais gerados

88

Figura 24. Mudanças identificadas – Qualidade da apresentação 89

LISTA DE TABELAS

Tabela 1. Elementos necessários para garantir a otimização dos processos na

construção civil segundo Kymmel (2008)

13

Tabela 2. Caracterização da utilização dos softwares BIM

75

Tabela 3. Utilização de softwares conforme etapas de projeto

79

Tabela 4. Relação entre tempo de uso do BIM e principais mudanças identificadas86

LISTA DE ABREVIATURAS

ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas

ASBEA Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura

AEC Arquitetura, Engenharia e Construção

AIA The American Institute of Architects

BIM Building Information Modeling

CAD Computer Aided Design

ES Engenharia Simultânea

FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo

IAI International Alliance for Interoperability

IAB Instituto de Arquitetos do Brasil

IFC Industry Foundation Classes

NBIMS National BIM Standards

TI Tecnologia da Informação

RESUMO

Esta pesquisa propõe uma análise da implantação da tecnologia BIM (Building Information Modeling) em escritórios de projeto de arquitetura, identificando os principais impactos dessa nova abordagem sobre o processo de projeto. Neste trabalho foram detectadas algumas peculiaridades do “caso brasileiro”, buscando preencher uma lacuna diante da escassez de dados nacionais sobre o assunto. Foram avaliadas as principais vantagens obtidas e as dificuldades encontradas na adoção da tecnologia BIM nas empresas do país. Tal análise foi desenvolvida a partir de estudos de campo em empresas do Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. A avaliação dessas experiências possibilitou a identificação de inúmeros problemas na transição da tecnologia tradicional atual para novos sistemas de informação: falta de adaptação aos padrões nacionais, escassez de mão-de-obra especializada, alto custo dos softwares, entre outros. Acredita-se que os dados gerados nesta pesquisa podem contribuir para a promoção de melhorias e avanços na tecnologia BIM, facilitando a sua implantação em maior escala no país em busca da modernização e melhoria dos processos na construção civil nacional.

ABSTRACT

The objective of this research is an analysis of the implementation of BIM (Building Information Modeling) technology in architecture companies, identifying the impacts of this new approach in the project process. Some peculiarities of the Brazilian case were detected, aiming to fill the gap related to the lack of national data regarding this matter. The main advantages and the difficulties faced in the adoption of BIM technology by Brazilian companies were evaluated. The research was developed based on studies in the cities of Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. The evaluation of these experiences led to the identification of problems in the transition from the traditional technologies to the new information systems: low level of conformity with Brazilian standards, lack of specialized work force, high cost of softwares and so on. It is expected that the results of this research will contribute to the achievement of improvements and advances in BIM technology, allowing its implementation in a broad scale in Brazil in search of the development and improvements of the building construction process in the country.

1 INTRODUÇÃO

1.1 APRESENTAÇÃO

O contexto atual do ambiente produtivo globalizado é caracterizado por pressões econômicas crescentes, alta complexidade dos processos, necessidade de redução de prazos e aumento das exigências dos clientes. As organizações necessitam processar grande quantidade de informações, adaptar-se a mudanças e tomar decisões em tempos cada vez menores (FISCHER; KUNZ, 2004).

Assim, com o aumento da competitividade, a indústria precisa buscar novas formas para aumentar produtividade, gerando rapidamente e com custos reduzidos produtos de maior qualidade alinhados às necessidades dos clientes. Além disso, observa-se hoje uma preocupação com os impactos ambientais e questões sociais que também interferem no processo de produção (FABRICIO, 2002).

Desta forma, para sobreviverem, as empresas precisam acompanhar a evolução mundial, modernizando-se, investindo em quadro funcional e equipamentos e utilizando as inovações tecnológicas como estratégia competitiva (NASCIMENTO; SANTOS, 2003b).

Segundo relatório da FIESP (2008), no contexto da construção civil:

esta busca pelas novas qualificações é uma necessidade do setor para crescer, fazer frente à competição global crescente e responder aos anseios dos clientes por maior produtividade e qualidade. É, também, uma necessidade particular das empresas para que possam continuar competitivas e, em última análise, dos empregados do setor para que possam manter sua empregabilidade (FIESP, 2008).

Algumas características da indústria da construção civil dificultam o seu crescimento e fazem com que seu nível de produtividade, qualidade e

12

competitividade encontrem-se bem abaixo de outros setores industriais. O setor de construção civil no Brasil se mostra bastante conservador, com poucos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, e apresenta um imenso atraso tecnológico no que diz respeito à aplicação de novas técnicas construtivas e à implantação de novas tecnologias de informação. Além disso, observam-se índices

elevados de desperdício de materiais e retrabalho, e uma qualidade insatisfatória dos produtos e serviços gerados. Grande parte desses fatores pode ser relacionada

à natureza fragmentada do setor, formado por inúmeras pequenas e médias

empresas que não valorizam a qualificação de seus empregados, não investem em novas tecnologias e na aplicação de ferramentas de planejamento e gestão (FIESP,

2008).

Diante deste cenário, as empresas de AEC (arquitetura, engenharia e construção) necessitam urgentemente realizar uma reengenharia de seus processos

a fim de maximizar sua posição competitiva e atingir melhores resultados.

(BJORNSSON; EKSTROM, 2004). Kymmel (2008) apresenta um levantamento dos aspectos que devem ser aprimorados na construção civil a fim de otimizar seus processos (Tabela 1).

Segundo Codinhoto (2003), a necessidade de aceleração da produção e o surgimento de processos cada vez mais complexos, têm exigido das empresas de AEC um olhar mais atento sobre o desenvolvimento do produto, fazendo surgir novas práticas de gestão baseadas em ampliar a eficiência do processo de projeto, tradicionalmente realizado sequencialmente através de fases segmentadas.

13

Tabela 1. Elementos necessários para garantir a otimização dos processos na construção civil segundo Kymmel (2008).

Redução de riscos

Redução de riscos

-

-

-

-

-

-

-

-

Melhoria na comunicação

Melhoria na comunicação

Colaboração dos agentes

Colaboração dos agentes

Antecipação de problemas

Antecipação de problemas

Melhoria da segurança

Melhoria da segurança

Redução de custos

Redução de custos

-

-

-

-

Paralelismo com outras indústrias

Paralelismo com outras indústrias

Aplicação de conceitos de Engenharia

Aplicação de conceitos de Engenharia

Simultânea e Produção Enxuta

Simultânea e Produção Enxuta

-

-

Pré-fabricação

Pré-fabricação

Redução de tempo

Redução de tempo

-

-

-

-

Melhoria no planejamento

Melhoria no planejamento

Otimização dos prazos

Otimização dos prazos

Aumento da qualidade

Aumento da qualidade

-

-

-

-

Aumento da qualidade do projeto

Aumento da qualidade do projeto

Aumento da qualidade da construção

Aumento da qualidade da construção

Melhoria na performance

Melhoria na performance

ao longo do ciclo de vida

ao longo do ciclo de vida

-

-

-

-

Melhoria na manutenabilidade dos componentes

Melhoria na manutenabilidade dos componentes

Otimização do uso de energia no projeto

Otimização do uso de energia no projeto

Sobre a importância do projeto na conformação do produto final edificação, Oliveira (2000) destaca:

os processos de concepção e projeto são estratégicos para a qualidade do

edifício ao longo do seu ciclo de vida. E a busca de novos métodos e processos que possam considerar precocemente a totalidade das questões envolvidas no projeto é de extrema relevância para o sucesso dos empreendimentos e para o progresso do setor de construção (OLIVEIRA,

2000).

Por sua vez Melhado (1994) defende que:

a inserção de uma mentalidade industrial na orientação filosófica e

organizacional das empresas de construção de edifícios traz, como condição indissociável, a necessidade de maior integração entre as etapas

do processo de geração do empreendimento (MELHADO, 1994).

Muitos autores destacam a urgência para implantação de novas formas de integração dos processos como estratégia para eliminar a grande fragmentação do setor da construção civil e vêm buscando estudar o processo de aplicação de novas formas de gestão baseados na inovação tecnológica e no conceito de engenharia simultânea (LOVE; GUNASEKARAN, 1997; FABRICIO, 2002; KAMARA; ANUMBA; EVBUOMWAN, 2001; ANUMBA; BAUGH; KHALFAN, 2002).

14

Entre as novas tecnologias e técnicas gerenciais destaca-se a difusão da engenharia simultânea, que se baseia na execução de tarefas em paralelo e na troca de informações de forma constante e eficaz entre os diversos agentes do processo, tendo como suporte o uso da tecnologia da informação (TI).

Segundo Nascimento, Laurindo e Santos (2003) “a utilização da TI como fator diferencial de competitividade pode colocar estas empresas em posição estratégica frente ao mercado, permitindo que também colham os benefícios comumente proporcionados pela TI às indústrias de outros segmentos”.

A aplicação dos conceitos de engenharia simultânea pode ser facilitada através da tecnologia BIM (Building Information Modeling) (FERREIRA, 2007). Os sistemas BIM possuem a capacidade de armazenar informações necessárias ao longo do ciclo de vida do projeto, contemplando aspectos relativos a concepção, operação, manutenção e gerenciamento da edificação. Os softwares baseados no conceito BIM trabalham com objetos parametrizados capazes de abrigar inúmeros dados, ao contrário dos softwares tradicionais que somente representam entidades gráficas (SCHEER et al., 2007). Desta forma, a tecnologia BIM proporciona competitividade às empresas, reduzindo o tempo de trabalho e garantindo maior qualidade e diminuição dos erros de projeto.

A implantação de novas tecnologias baseadas em BIM pressupõe a reestruturação das empresas através da reorganização dos processos, da implementação de uma nova forma de organização do trabalho e de um novo modo de pensar o processo de projeto, visto agora de forma totalmente integrada. Além disso, o uso do BIM requer novas qualificações do profissional, aquisição de novos equipamentos, e uma nova forma de lidar com os demais agentes no processo (JUSTI, 2008).

1.2 JUSTIFICATIVA

Observa-se na Europa e Estados Unidos o crescimento da aplicação do conceito BIM em projetos de arquitetura e engenharia, tratando de forma integrada os elementos de projeto, da obra e processos gerenciais a partir da formulação de modelos virtuais (FIESP, 2008). As experiências internacionais vêm confirmando a forte tendência de adoção da tecnologia, que tem demonstrado um grande potencial

15

para ser aplicada no desenvolvimento de projetos da indústria de AEC, melhorando

a produtividade e proporcionando aumento da qualidade.

A migração das tecnologias atuais para os sistemas baseados em BIM, apresenta-se hoje como uma evolução inevitável, sendo comparada com a revolução da prancheta para o computador. O aumento da competitividade e da cobrança por parte dos clientes, provoca pressões para que sejam adotados novos métodos de trabalho e tem levado diversas empresas de AEC ao redor do mundo a buscar a tecnologia BIM como forma de otimizar seus processos e manter sua sobrevivência.

Motivados pelas inúmeras possibilidades e facilidades apresentadas pela tecnologia BIM, alguns escritórios de projeto brasileiros acompanharam o movimento internacional, lançando-se na vanguarda da aplicação dos sistemas BIM em suas empresas ainda no início dos anos 2000. Tal processo intensificou-se nos últimos anos, frente à evolução dos programas e estímulos para compra dos softwares, fazendo-os migrar para a prateleira dos escritórios, mas não definitivamente para as máquinas dos projetistas.

A escassez de mão-de-obra especializada, a resistência à mudança, o alto investimento com máquinas e treinamento, como veremos adiante, são alguns fatores que dificultam a implantação efetiva da tecnologia nos escritórios de projeto do país. Devido a riscos e incertezas as empresas acabam criando barreiras e aguardando a consolidação da tecnologia para sua implantação (NASCIMENTO; SANTOS, 2003b).

Essa recente movimentação de introdução do BIM na indústria de AEC brasileira faz com que sejam necessárias investigações, a fim de compreender este fenômeno, buscando identificar problemas e soluções na transição da tecnologia tradicional atual para novos sistemas de informação. A indústria nacional precisa

acompanhar a evolução mundial, buscando adaptações da tecnologia BIM ao perfil brasileiro de forma a facilitar a sua implantação em maior escala no país, buscando

a modernização dos processos da construção civil. Para isso tornam-se essenciais estudos que contribuam para difusão das possibilidades do BIM, encorajando e dando maior suporte para que novas empresas brasileiras possam implantá-lo.

16

Este trabalho insere-se no grupo de pesquisa NITCON - APLICAÇÕES DE NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO NO SETOR DE AEC (ARQUITETURA ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO), dentro das atividades de modelagem de processos de gestão e gerenciamento. Dá continuidade à tese de Luiz Carlos Brasil de Brito Mello (defendida em 2006) e articula-se com os trabalhos de tese de Pedrinho Goldman, Regis de Azevedo Lopes (em andamento) e José Alberto Costa Salles (em andamento) e dissertação de Marcelo Ciaravolo de Moraes (em andamento), bem como às dissertações já aprovadas de Alexandre de Andrade Cardozo de Menezes, Arnaldo Lyrio Fº, Sabrina Gassner Ribeiro, Raul Fernando Matos Vasconcellos, Alessandra C. Frabis, entre as mais recentes. Este trabalho integra-se também ao projeto REDE BIM BRASIL - MODELAGEM E REPRESENTAÇÃO DE PRODUTO PARA PROJETOS DE ENGENHARIA DE CONSTRUÇÃO EM MÚLTIPLAS DIMENSÕES – INTEGRAÇÃO DE SISTEMAS. Vincula-se também aos projetos de pesquisa em andamento: Ontologias para AEC (PBIC- CNPq), Aplicações e impactos da tecnologia de informação na Arquitetura e Construção (CNPq) e GEDOC- A Gestão dos Projetos e a Padronização dos Documentos Informatizados (PRODOC CAPES).

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo principal

O objetivo desse trabalho é avaliar os principais impactos da implantação da tecnologia BIM (Building Information Modeling) sobre o processo de projeto nas empresas de arquitetura brasileiras adeptas deste novo sistema.

1.3.2 Objetivos específicos

Os objetivos específicos da pesquisa são:

a) Avaliar o uso, os benefícios, as dificuldades encontradas e as mudanças

provocadas pelo uso do BIM através da análise de sua utilização em

empresas de projeto de arquitetura nas cidades do Rio de Janeiro, São

Paulo e Curitiba;

17

b) Analisar como os principais stakeholders envolvidos no processo estão

sendo afetados com a transição do CAD geométrico para o uso de

programas CAD parametrizados;

c) Identificar necessidades e demandas dos usuários e empresas para

expansão das possibilidades de uso da tecnologia BIM no país.

1.4 METODOLOGIA

A pesquisa inicial consistiu na busca e análise de referencial teórico, desenvolvendo os conceitos envolvidos com o tema. De acordo com os objetivos deste trabalho, visando o estudo do impacto de uma nova tecnologia de informação (BIM) diante do processo de projeto, foram definidos três assuntos principais a serem abordados: processo de projeto, tecnologia da informação e tecnologia BIM. Desta forma, foram realizadas pesquisas buscando os principais autores nacionais e internacionais que tratam de aspectos relacionados à conceituação, implantação e uso da tecnologia BIM, bem como consultas a trabalhos já desenvolvidos no campo do processo de projeto e relativos à aplicação de novas tecnologias da informação na indústria da construção civil.

Como instrumentos foram utilizados: pesquisas bibliográficas, consultas a banco de dados de teses e dissertações, buscas no ambiente da Internet, pesquisas em jornais, revistas e outras publicações. Também foram realizados levantamentos de dados junto a entidades de classe e outras organizações.

O segundo momento do trabalho consistiu em compreender o problema, com intuito de entender o funcionamento da tecnologia BIM e identificar as possíveis dificuldades dos usuários e as melhorias que aparentemente o BIM poderia proporcionar.

Para isso, inicialmente houve treinamento prático da autora em software específico baseado na tecnologia BIM. Tal treinamento possibilitou maior percepção do funcionamento da ferramenta e foi essencial para uma inserção plena dentro do processo. Muitas dificuldades já puderam ser identificadas nesse momento e essas percepções iniciais foram complementadas com uma troca preliminar de informações com outros usuários.

18

Por tratar-se de uma tecnologia de recente aplicação na indústria brasileira, existe uma grande dificuldade na obtenção de dados nacionais sobre a utilização do BIM. Foram então utilizados estudos de caso internacionais buscando referências a partir da análise de experiências relativas à implantação do BIM em outros países.

Devido à escassez de dados nacionais tornou-se imprescindível a realização de uma pesquisa de campo, a fim de verificar os impactos da tecnologia no Brasil que, certamente se mostrariam diferenciados em virtude de questões culturais, econômicas, etc. Assim, houve necessidade de realizar um levantamento de dados junto às empresas brasileiras e principais envolvidos no processo.

Benbasat, Goldstein e Mead (1987) defendem que a utilização de estudos exploratórios é bastante adequada em pesquisas relativas à implantação de novos sistemas de informação, uma área em constante mudança, na qual novos elementos surgem a todo tempo necessitando novas investigações. Segundo os autores, o processo de implantação de uma nova tecnologia é complexo, e uma pesquisa baseada em estudos de campo pode ajudar na análise do seu impacto nas organizações, identificando mudanças nos processos e nos comportamentos organizacionais. (BENBASAT; GOLDSTEIN; MEAD, 1987).

Os estudos de campo apresentados nessa pesquisa foram desenvolvidos em empresas de projeto de arquitetura situadas nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, que trabalham com a tecnologia BIM. A formulação dos estudos permitiu a coleta de dados e informações, proporcionando um entendimento claro sobre a implantação da nova tecnologia no país.

Para a formulação dos estudos de campo, foram realizadas aplicações de questionários e uma reunião com as empresas selecionadas, no qual os resultados puderam ser debatidos. A metodologia específica empregada nos estudos de campo será abordada de forma detalhada no capitulo 4.

A metodologia geral utilizada nessa pesquisa pode ser resumida de acordo com a figura 1:

19

19 Figura 1. Metodologia para realização do trabalho 1.5 ESTRUTURA DO TRABALHO O trabalho apresenta-se dividido

Figura 1. Metodologia para realização do trabalho

1.5 ESTRUTURA DO TRABALHO

O

trabalho apresenta-se dividido em 5 (cinco) capítulos, descritos a seguir:

O

capítulo 2 procura relacionar os temas processo de projeto - ferramentas de

gestão – tecnologia da informação, como fatores interdependentes e essenciais na busca da otimização dos processos na construção civil. Para isso, inicialmente são apresentados os temas relativos ao processo de projeto e a conformação do empreendimento na indústria da construção. Posteriormente abordam-se questões relacionadas a mudanças organizacionais e necessidade de implantação de novas formas de gestão como a Engenharia Simultânea. Por fim trata-se da Tecnologia da Informação e sua importância para o processo de projeto.

20

O capítulo 3 apresenta os conceitos relativos à tecnologia BIM, abordando

suas origens, demonstrando seus usos, aplicações, possibilidades e dificuldades.

O capítulo 4 consiste nos estudos de campo desenvolvidos em empresas de

projeto de arquitetura no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, buscando traçar um panorama do uso da tecnologia no país.

O capítulo 5 apresenta as conclusões da dissertação com base no referencial

teórico, na análise de estudos internacionais e nos estudos de campo desenvolvidos

neste trabalho, além de propor sugestões para novas pesquisas.

2 PROCESSO DE PROJETO E TI

2.1 PROCESSO DE PROJETO

2.1.1 Definição de projeto

Diversos autores buscam definir o conceito de projeto, com diferentes ênfases em virtude das épocas e das variadas áreas as quais o termo pode estar atribuído.

Lawson (1980) aborda o ato de projetar como um processo mental de organização de idéias a partir da manipulação de informações de naturezas distintas, a fim de conformar um produto. Segundo o autor, o projeto pode ser caracterizado por dois aspectos: como produto (através da produção de uma solução) e como processo (a partir da busca na resolução de problemas).

Analisando

o

projeto

no

contexto

da

indústria

da

construção

civil,

a

Associação Brasileira de Normas Técnicas delimita o projeto como sendo

a definição qualitativa e quantitativa dos atributos técnicos, econômicos e financeiros de um serviço ou obra de engenharia e arquitetura com base em dados, elementos, informações, estudos, discriminações técnicas, cálculos, desenhos, normas e disposições especiais (ABNT, NBR 5670, 1977).

Rodriguez (1992) define o projeto como “um processo para a realização de idéias que deverá passar pelas etapas de: idealização, simulação (análise) e implantação (protótipo e escala de produção)" (RODRIGUEZ, 1992).

Melhado (1994) apresenta o conceito de projeto como: “atividade ou serviço integrante do processo de construção, responsável pelo desenvolvimento, organização, registro e transmissão das características físicas e tecnológicas especificadas para uma obra, a serem consideradas na fase de execução” (MELHADO, 1994).

22

Na construção de edifícios apresentam-se então duas abordagens do conceito de projeto, uma referente ao conjunto de informações técnicas e geométricas que definem o produto edificação e outra a partir da análise do projeto como um processo de busca de métodos e técnicas construtivas para geração de um produto final em conformidade com as necessidades dispostas (OLIVEIRA,

2005).

Tzortzopoulos (1999) baseia-se no trabalho de Markus e Arch (1973) para apontar dois padrões dentro do conceito de projeto: o projeto como processo criativo (baseado na execução de modelos pelos projetistas a partir de informações pré- definidas) e o projeto como processo gerencial (formado por um conjunto de fases com nível crescente de detalhamento).

O processo criativo de projeto fundamenta-se na atuação de dois aspectos

complementares: identificação do problema e desenvolvimento da solução. Esses

elementos, problema e solução, são interdependentes e podem ser desenvolvidos de forma conjunta a partir de croquis, desenhos e modelos (CROSS, 1994).

Tzortzopoulos (1999) apresenta o modelo de Markus e Arch (1973) onde o processo criativo do projeto compreende as seguintes etapas:

1- Análise - compreensão do problema a partir de coleta, cruzamento e análises das informações;

2-

Síntese – formulação de soluções;

3-

Avaliação – verificação do desempenho da solução.

Com base nos trabalhos de Riba (1980), Gray, Hughes, Bennet (1994) e Cross (1994), que colocaram algumas críticas e sugestões ao modelo de Markus e Arch (1973), Menezes (2003) elabora um fluxograma específico (figura 2) adicionando ao modelo a etapa de documentação e comunicação.

23

PESQUISAPESQUISA PESQUISAPESQUISA ANANÁÁLISELISE ANANÁÁLISELISE PROJETAPROJETAÇÇÃOÃO PROJETAPROJETAÇÇÃOÃO
PESQUISAPESQUISA
PESQUISAPESQUISA
ANANÁÁLISELISE
ANANÁÁLISELISE
PROJETAPROJETAÇÇÃOÃO
PROJETAPROJETAÇÇÃOÃO
AVALIAAVALIAÇÇÃOÃO
AVALIAAVALIAÇÇÃOÃO
DOCUMENTADOCUMENTAÇÇÃOÃO
DOCUMENTADOCUMENTAÇÇÃOÃO
Reestruturação do problema
Reestruturação do problema
Faltam dados
Faltam dados
ESTUDO DO
ESTUDO DO
SÍNTESE E
SÍNTESE E
ENTRADA
ENTRADA
ANÁLISE E
ANÁLISE E
ANÁLISE E
ANÁLISE E
ANÁLISE E
ANÁLISE E
SOLUÇÃO
SOLUÇÃO
PROBLEMA
PROBLEMA
DESENVOL-
DESENVOL-
DECISÃO
DECISÃO
DE DADOS
DE DADOS
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
PROBLEMA 1
PROBLEMA 1
HIPÓTESES
HIPÓTESES
VIMENTO
VIMENTO
Mais desenvolv.
Mais desenvolv.
Utilização de outra hipótese
Utilização de outra hipótese
Comunicação e Esquematização
Comunicação e Esquematização
Comunicação e Esquematização
Comunicação e Esquematização
Comunicação e Esquematização
Comunicação e Esquematização
Comunicação e
Comunicação e
Comunicação e
Comunicação e
Cenário/Necessidades
Cenário/Necessidades
Hipóteses
Hipóteses
Hipótese em desenvolvimento
Hipótese em desenvolvimento
Esquematização
Esquematização
Documentação formal
Documentação formal
PESQUISAPESQUISA
PESQUISAPESQUISA
ANANÁÁLISELISE
ANANÁÁLISELISE
PROJETAPROJETAÇÇÃOÃO
PROJETAPROJETAÇÇÃOÃO
AVALIAAVALIAÇÇÃOÃO
AVALIAAVALIAÇÇÃOÃO
DOCUMENTADOCUMENTAÇÇÃOÃO
DOCUMENTADOCUMENTAÇÇÃOÃO
Reestruturação do problema
Reestruturação do problema
Faltam dados
Faltam dados
ESTUDO DO
ESTUDO DO
ENTRADA
ENTRADA
ANÁLISE E
ANÁLISE E
ANÁLISE E
ANÁLISE E
SOLUÇÃO
SOLUÇÃO
PROBLEMA
PROBLEMA
DE DADOS
DE DADOS
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
AVALIAÇÃO
PROBLEMA 2
PROBLEMA 2
HIPÓTESES
HIPÓTESES
ESTUDO DO
ESTUDO DO
ESTUDO DO
ESTUDO DO
PROBLEMA 2
PROBLEMA 2
PROBLEMA 1
PROBLEMA 1
GERALPARTICULAR
GERALPARTICULAR

Figura 2. Gráfico do processo de projeto criativo, adaptado de Markus e Arch (1973) apud Menezes (2003).

Na figura 2 as etapas horizontais dizem respeito ao processo criativo refletindo o pensamento dos projetistas enquanto que as etapas verticais abordam o processo gerencial onde o projeto incorpora detalhes e se desenvolve de acordo com o avanço das fases.

Entre as principais habilidades intelectuais exercidas no projeto se destacam:

a capacidade analítica e de síntese (formulando o problema a partir das informações fornecidas), a criatividade e o raciocínio, o conhecimento (gerado por experiências anteriores dos projetistas) e a representação e comunicação das soluções (FABRICIO, 2002). A figura 3, a seguir, demonstra como tais habilidades contribuem na geração de informações qualificadas:

24

INFORMAÇÕES

INFORMAÇÕES

HABILIDADES HABILIDADES INTELECTUAIS INTELECTUAIS PROJETOPROJETO PROJETOPROJETO Análise e síntese das Análise e
HABILIDADES
HABILIDADES
INTELECTUAIS
INTELECTUAIS
PROJETOPROJETO
PROJETOPROJETO
Análise e síntese das
Análise e síntese das
informações
informações
Criação de soluções
Criação de soluções
projetuais
projetuais
Conhecimentos,
Conhecimentos,
procedimentos e
procedimentos e
cultura
cultura
Representações /
Representações /
Comunicações
Comunicações

INFORMAÇÕES

INFORMAÇÕES

QUALIFICADAS

QUALIFICADAS

ENTRADA

ENTRADA

PROCESSO

PROCESSO

SAÍDA

SAÍDA

Figura 3. Processo intelectual de projeto, adaptado de Fabrício (2002).

A representação e comunicação da solução são pontos chaves no processo de projeto. Elas acontecem em geral através de desenhos e esquemas que, além de exteriorizar a criação, interagem com a própria criatividade. Da mesma forma, a solução pode ser transmitida a outros participantes que podem agregar novos elementos e exercer alguma influência nessa solução inicial, tornando o projeto um processo social resultante da interação entre diversos agentes. Desta forma, o processo de projeto configura-se hoje como uma atividade multidisciplinar e resultante da interação de um número cada vez maior de profissionais especializados com apoio constante de novos dispositivos e ferramentas tecnológicas (FABRICIO, 2002).

Numa abordagem contemporânea, Fabricio e Melhado (2002) afirmam que “o projeto é resultado das atividades mentais de cada projetista tanto quanto da interação entre os múltiplos agentes envolvidos no projeto e também do ambiente técnico que suporta tais processos intelectuais” (FABRICIO; MELHADO, 2002).

25

2.1.2 Importância do projeto para a edificação

O projeto possui papel fundamental na definição do produto, permitindo a otimização dos processos de construção e contribuindo diretamente com o aumento da satisfação dos usuários finais (OLIVEIRA, 2005).

Koskela (2000) defende que as etapas iniciais de definição de projeto são as

que geram maior agregação de valor ao produto percebido pelo cliente. Além disso,

a qualidade do produto está intimamente relacionada ao processo de elaboração do projeto (MELHADO, 1994).

O projeto pode ser visto como um processo estratégico que reflita as

necessidades do empreendedor, a partir da identificação de demandas dos clientes,

e como um processo operacional que visa a eficiência dos processos que darão

origem ao produto, “antecipando no papel o ato de construir” (MELHADO, 1994).

Devido à essa grande influência do projeto sobre o produto final edificação, Barros (1999) aponta o “projeto como elemento estratégico no processo de inovação tecnológica do setor de construção de edifícios, sendo o processo de projeto um elemento estratégico para se alcançar maior nível de competitividade” (BARROS,

1999).

O projeto influenciará todo o processo de produção do edifício, definindo os

materiais e processos construtivos, agregando qualidade e eficiência aos processos

e principalmente tendo grande repercussão nos custos da edificação (MELHADO, 2001; FABRICIO, 2002; OLIVEIRA, 2005).

A antecipação de soluções projetuais adequadas, a partir da identificação de problemas logo nas etapas iniciais de projeto, contribui de forma significativa para redução dos custos. Assim, quanto antes forem identificados os problemas e encontradas suas soluções, maiores serão os ganhos de custo ao final do empreendimento (OLIVEIRA, 2005). A figura 4 demonstra os ganhos de custo ao longo do tempo a partir de um maior investimento na fase de projeto.

26

PRÁTICA PRÁTICA CORRENTE CORRENTE MAIOR INVESTIMENTO MAIOR INVESTIMENTO NO PROJETO NO PROJETO TEMPO TEMPO
PRÁTICA
PRÁTICA
CORRENTE
CORRENTE
MAIOR INVESTIMENTO
MAIOR INVESTIMENTO
NO PROJETO
NO PROJETO
TEMPO
TEMPO
PROJETO
PROJETO
CUSTO MENSAL DO
CUSTO MENSAL DO
EMPREENDIMENTO
EMPREENDIMENTO

Figura 4. Relação situação de maior “investimento” na fase de projeto X práticas convencionais, adaptada de Barros; Melhado (1993) apud Melhado (1994).

2.1.3 Etapas do processo de projeto

Podem ser encontradas na literatura diversas formas de subdivisão do processo de projeto. Neste trabalho foram selecionadas algumas delas que serão apresentadas a seguir.

De acordo com a NBR 13.531 (ABNT, 1995) as etapas de projeto podem ser dividas da seguinte maneira: Levantamento, Programa de Necessidades; Estudo de Viabilidade; Estudo Preliminar; Anteprojeto; Projeto Legal; Projeto Básico (opcional); Projeto para Execução.

Melhado (1994) divide as etapas do processo de projeto em: Programa de Necessidades; Estudo Preliminar; Anteprojeto; Projeto Executivo; Projeto para Produção; Planejamento e Execução; e Entrega.

As Etapas de projeto segundo Tzortzopoulos (1999) compreendem:

Planejamento e Concepção do Empreendimento; Estudo Preliminar; Anteprojeto; Projeto Legal; Acompanhamento da Obra; Acompanhamento do Uso.

Fabrício (2002) apresenta as atividades de projeto divididas da seguinte

forma:

1-

Concepção

do

negócio

e

desenvolvimento

do

programa

(aspectos

financeiros, definição das características do produto);

27

2- Projetos do produto (projetos em si);

3- Orçamentação (levantamento de custos);

4- Projetos para produção (definição dos materiais e ferramentas necessárias, aspectos de construtibilidade);

5- Planejamento de obra (definição e acompanhamento de cronogramas e fluxo de caixa);

6- Projeto “as built”;

7- Serviços associados (avaliação pós-ocupação).

Lyrio Filho (2005) acrescenta ainda a etapa de Incepção, precedente imprescindível ao projeto propriamente dito, onde ocorre a verificação da viabilidade do empreendimento a partir da demanda do mercado.

2.1.4 O processo de projeto do empreendimento

Na indústria da construção, o produto (empreendimento) é único, com terreno, projeto e sistema de produção próprio. Enquanto na indústria seriada o produto passa por uma linha de produção, na construção civil a produção se adéqua e se volta para o produto, se desmobilizando com o fim da construção. O sistema de produção se conforma, portanto, para atender as necessidades de um produto específico e não repetitivo. Além disso, os empreendimentos da construção apresentam ciclos de vida longos (maiores que 50 anos) abrangendo diversas etapas, tendo início com a concepção passando pela construção e uso, até alcançar por fim a demolição ou reabilitação (FABRICIO, 2002).

Observa-se hoje na indústria da construção civil e em outras indústrias, o aumento da complexidade dos produtos e das organizações e um aumento constante do volume de informações. Sobre o processo de projeto na atualidade Machado (2006) afirma que:

o processo de projeto de edificações tem se tornado mais complexo em função de fatores como: especialização do conhecimento, aumento do número de intervenientes, grande quantidade de tecnologias construtivas existente, grande volume de informação produzida e circulante durante o processo, necessidade de gerenciamento do conhecimento produzido, diminuição de prazos para projeto, sobreposição de etapas de projeto e

28

obra e diversidade de recursos de tecnologia de informação disponíveis para projeto e gerenciamento (MACHADO, 2006).

Desta forma

torna-se

essencial investigar de

que forma cada

um dos

aspectos citados acima atua sobre o processo de projeto.

Romano et al. (2001), destacam a necessidade de se modelar o processo de projeto a fim de garantir melhorias no seu gerenciamento. A modelagem do processo

de projeto visa, entre outros, servir de base para a tomada de decisão, abrigando conhecimentos que poderão ser utilizados pela empresa posteriormente, facilitando

o planejamento de novos empreendimentos, a alocação de recursos, a escolha de tecnologias de informação e melhorando a comunicação e troca de informação.

2.1.4.1 Agentes do processo de projeto do empreendimento

Vários são os agentes que participam do processo e suas atuações variam em função de cada etapa de desenvolvimento do empreendimento. Fabrício (2002) aponta a existência de três “esferas” de desenvolvimento do empreendimento que

serão geridas por esses diferentes agentes: operação imobiliária, projeto de produto

e construção.

Melhado e Violani (1992) apresentam 4 (quatro) agentes principais que irão atuar durante o desenvolvimento do empreendimento: o empreendedor, os projetistas, o construtor e o usuário.

Os promotores dos empreendimentos são aqueles que formulam o conceito do produto. Eles são responsáveis por buscar o terreno e a partir da análise do mercado, montar um programa de necessidades contendo as principais características do produto que pretendem construir em função da sua localização e da demanda identificada. O programa do empreendimento abrange questões ligadas ao negócio, ao público-alvo, ao terreno, financiamento, a questões espaciais e funcionais e a questões relacionadas à construção, como prazos e custos. Esse programa de necessidades servirá de base para o trabalho dos projetistas. É preciso destacar que, o projeto do edifício também será influenciado por normas, regulações, códigos de obra e posturas, sendo necessária a sua aprovação junto a diferentes órgãos (FABRICIO, 2002).

29

Para realizar o projeto de empreendimentos o promotor contrata uma série de

profissionais especializados nas diferentes áreas (arquitetura, estrutura, instalações prediais, etc). Observa-se que a conformação das equipes de projeto varia conforme

o empreendimento. Cada profissional/escritório fica responsável pela realização do projeto de uma disciplina específica. A contratação de projetistas e consultores ocorre de maneira gradual conforme as etapas do empreendimento. Muitas vezes o critério selecionado é o de menor preço, não levando em conta a qualidade dos serviços prestados e a capacidade de integração com outros projetos e com o sistema de produção da empresa (FABRICIO, 2002).

Uma das grandes dificuldades no processo de projeto é a segmentação desses projetistas em diferentes empresas e, muitas vezes, em diversas localidades,

fazendo com que eles acabem trabalhando de forma separada. Em geral, a maneira de apresentar a informação ocorre de forma diferenciada por cada um deles de acordo com sua formação. Esses fatores podem acarretar dificuldades de comunicação e incompatibilidade de projetos. Portanto, torna-se essencial a troca de informações de forma sistemática e a intensa colaboração entre os agentes durante

o processo (TZORTZOPOULOS, 1999).

Nos projetos contemporâneos, as funções estão cada vez mais específicas, e observa-se um aumento no número de especialistas participantes. A responsabilidade de cada um no processo é cada vez menor. No entanto, a quantidade de informações isoladas a serem compartilhadas e compatibilizadas é cada vez maior. Assim, os documentos de projeto sofrem inúmeras alterações e ajustes conforme o avanço e a inserção de novos agentes que darão sua contribuição ao processo (GRILO, 2002).

Em sua dissertação de mestrado Tzortzopoulos (1999) indica as principais queixas dos projetistas pesquisados em seus estudos de caso. Grande parte deles atribui as falhas e incompatibilidades de projeto à falta de integração entre projetistas desde as etapas iniciais de projeto, bem como o número reduzido de informação disponíveis nessa fase. Além disso, apontam também a dificuldade de comunicação entre os participantes. Em suas entrevistas a autora constatou que os projetistas atuam de forma restrita às suas áreas de competências, não permitindo

30

que obtenham uma visão da totalidade do processo no qual estão envolvidos (TZORTZOPOULOS, 1999).

O processo de projeto, elemento de grande importância para conformação final do produto edificação, se encontra hoje na mão de projetistas subcontratados muitas vezes não conhecedores dos aspectos da construtora para qual prestam serviços, com relação ao sistema de produção da empresa e integração com os demais projetos que serão contratados (FABRICIO, 2002).

Os projetistas estão se distanciando das decisões estratégicas do negócio, focando cada vez mais em suas especialidades e perdendo a visão do “todo”. Devido à grande diversidade dos especialistas envolvidos, é preciso investir na busca por ferramentas e métodos integradores e que facilitem a compatibilização das informações (GRILO, 2002).

Em muitos projetos a falta de planejamento, a divisão através de etapas seqüenciais e segmentadas, a dificuldade de integração projeto/produção, e a pouca integração entre os agentes ocasionam a falta de qualidade do processo de projeto que irá repercutir diretamente sobre a qualidade do edifício (ROMANO et al., 2001).

Evbuomwan e Anumba (1998) criticam o modelo atual de processo de projeto baseado em etapas seqüenciais que denominam “over the wall” (figura 5). Nesse sistema o projeto é desenvolvido pelo arquiteto e as informações são repassadas para os projetistas complementares, impedindo uma maior contribuição dos mesmos nas soluções iniciais desenvolvidas. Algumas desvantagens desse processo apontadas pelos autores estão relacionadas a: falta de comunicação entre os agentes, consideração tardia de aspectos relacionados à construtibilidade, fragmentação do processo e dificuldade de troca e validação das informações.

e dificuldade de troca e validação das informações. ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO EMPREITEIROS
e dificuldade de troca e validação das informações. ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO EMPREITEIROS
e dificuldade de troca e validação das informações. ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO EMPREITEIROS
e dificuldade de troca e validação das informações. ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO ENGENHEIRO EMPREITEIROS

ENGENHEIROENGENHEIRO

ENGENHEIROENGENHEIRO

EMPREITEIROSEMPREITEIROS EE

CLIENTECLIENTE

ARQUITETOARQUITETO

ESTRUTURALESTRUTURAL

INSTALADORINSTALADOR

FORNECEDORESFORNECEDORES DEDE

MATERIAISMATERIAIS

Figura 5. Processo de projeto seqüencial - “Over the wall”. Adaptada de Evbuomwan e Anumba (1998).

31

Sobre as dificuldades resultantes de um processo de projeto baseado em atividades seqüenciais Fabricio (2002) destaca que:

neste processo fragmentado e seqüencial, a possibilidade de colaboração entre projetistas é bastante reduzida e problemática e a proposição de modificações por um projetista de determinada especialidade implica a revisão de projetos já mais amadurecidos de outras especialidades, significando enormes retrabalhos ou até mesmo o abandono de projetos inteiros (FABRICIO, 2002).

Evbuomwan e Anumba (1998) destacam a urgência para implantação de novas estratégias que busquem a integração entre os diversos agentes desde as etapas iniciais de projeto e propõem um modelo baseado na atuação participativa dos envolvidos tomando-se como elemento central o projeto (figura 6).

ARQUITETOS ARQUITETOS ARQUITETOS ARQUITETOS ENGENHEIROS ENGENHEIROS ENGENHEIROS ENGENHEIROS ORÇAMENTISTAS
ARQUITETOS
ARQUITETOS
ARQUITETOS
ARQUITETOS
ENGENHEIROS
ENGENHEIROS
ENGENHEIROS
ENGENHEIROS
ORÇAMENTISTAS
ORÇAMENTISTAS
ORÇAMENTISTAS
ORÇAMENTISTAS
DE ESTRUTURA
DE ESTRUTURA
DE ESTRUTURA
DE ESTRUTURA
PROJETO
PROJETO
PROJETO
PROJETO
ENGENHEIROS
ENGENHEIROS
ENGENHEIROS
ENGENHEIROS
PROMOTORES DE
PROMOTORES DE
PROMOTORES DE
PROMOTORES DE
DE
DE
DE
DE
EMPREENDIMENTOS
EMPREENDIMENTOS
EMPREENDIMENTOS
EMPREENDIMENTOS
INSTALAÇÃO
INSTALAÇÃO
INSTALAÇÃO
INSTALAÇÃO
FORNECEDORES
FORNECEDORES
FORNECEDORES
FORNECEDORES
DE MATERIAIS
DE MATERIAIS
DE MATERIAIS
DE MATERIAIS

Figura 6. Diagrama de uma equipe de projeto integrada, adaptada de Evbuomwan; Anumba

(1998).

Da mesma forma, Tzortzopoulos (1999) defende que o processo de projeto deve ser participativo, permitindo a conformação de um produto com mais qualidade. Essa participação intensa dos agentes favorece o compartilhamento das decisões de projeto entre todos os participantes, uma maior participação do cliente e o aumento de troca de conhecimento técnico entre os projetistas.

A figura 7 demonstra os principais agentes e alguns fatores que irão influenciar o processo de projeto, apresentando um modelo de estruturação de

32

equipe multidisciplinar de projeto onde o gerente de projeto é o responsável pela coordenação do grupo (MELHADO, 1994).

EMPREENDEDOREMPREENDEDOR

EMPREENDEDOREMPREENDEDOR

NecessidadeNecessidade dosdos NecessidadeNecessidade dosdos UsuUsuááriosrios UsuUsuááriosrios Exigências
NecessidadeNecessidade dosdos
NecessidadeNecessidade dosdos
UsuUsuááriosrios
UsuUsuááriosrios
Exigências
Exigências
Legais/Normas
Legais/Normas
DiretrizesDiretrizes dede projetoprojeto
DiretrizesDiretrizes dede projetoprojeto
dada empresaempresa
dada empresaempresa
ARQUITETOARQUITETO
ARQUITETOARQUITETO
PROJ.PROJ. ESTRUTURALESTRUTURAL
PROJ.PROJ. ESTRUTURALESTRUTURAL
CONSULTORESCONSULTORES
CONSULTORESCONSULTORES
GERENTEGERENTE DEDE
GERENTEGERENTE DEDE
PROJETOPROJETO
PROJETOPROJETO
PROJ.PROJ. HIDROSSANIT.HIDROSSANIT.
PROJ.PROJ. HIDROSSANIT.HIDROSSANIT.
OUTROSOUTROS PROJETISTASPROJETISTAS
OUTROSOUTROS PROJETISTASPROJETISTAS
PROJ.PROJ. ELELÉÉTR.TR. TELEF.TELEF.
PROJ.PROJ. ELELÉÉTR.TR. TELEF.TELEF.

Figura 7. Estruturação da equipe multidisciplinar de projeto, adaptado de Melhado (1994).

2.1.4.2 A relação Projeto-produção

Uma das grandes dificuldades na indústria de AEC é a segregação existente entre as etapas de projeto e produção, gerando incompatibilidades entre o projeto e o sistema de produção da construtora. Os projetos em geral, caracterizam o produto sem a preocupação com a forma como ele será construído (FABRICIO, 2002).

A falta de detalhamentos de projeto que resultem em informações suficientes para a execução da obra permite que recaia sobre engenheiros e mestres de obras a responsabilidade por desenvolver na obra soluções improvisadas que deveriam estar contempladas no projeto (PICHI, 1993 apud FABRICIO, 2002). Muitas decisões são postergadas para a etapa de obra, tornando segregadas as atividades de projeto e construção, gerando inúmeras dificuldades e erros de execução. (MELHADO; VIOLANI, 1992 apud OLIVEIRA, 2005).

33

Barros (1999) afirma a necessidade de que sejam adotados projetos voltados à produção, defendendo a etapa de projeto como essencial para que haja uma racionalização da construção. Os projetos para produção são essenciais para garantir a qualidade do produto e a exeqüibilidade do que foi descrito em projeto.

Segundo Melhado (1994) pode-se definir os projetos para produção como:

conjunto de elementos de projeto elaborados de forma simultânea ao detalhamento do projeto executivo, para utilização no âmbito das atividades de produção em obra, contendo as definições de: disposição e seqüência de atividades de obra e frentes de serviço; uso de equipamentos; arranjo e evolução do canteiro; dentre outros itens vinculados às características e recursos próprios da empresa construtora (MELHADO, 1994).

Em sua pesquisa, Barros (1999) identificou uma grande insatisfação das empresas frente aos projetos para produção que, mesmo existindo, não atendem plenamente à produção. A autora verificou uma tendência de maiores investimentos em projetos para produção nas empresas da construção civil. No entanto, muitos projetos ditos “para produção” muitas vezes não funcionam no canteiro, pois, apesar de oferecer dados e modulações, esses nem sempre são suficientes para a correta execução do serviço pelos operários.

Cabe ressaltar que muitas vezes os projetos para produção só são realizados após as compatibilizações, na etapa de projeto executivo, não permitindo ganhos em racionalização que poderiam ocorrer se a produção estivesse já embutida em fases anteriores, como a de anteprojeto (BARROS, 1999).

Observa-se que, a falta de conhecimento dos projetistas com relação aos processos construtivos e o distanciamento dos arquitetos de projeto das questões relativas à obra, levam a soluções projetuais que não funcionam no canteiro. Da mesma forma, no canteiro, o projeto é visto como um balizador, sofrendo inúmeras modificações em função da execução.

Torna-se, urgente compreender os processos de projeto e produção de forma integrada para que as soluções geradas possam ser efetivamente realizadas e contribuam para otimização dos processos, redução dos custos e garantia da qualidade do empreendimento.

34

Os projetos de produto e produção devem ser realizados de forma simultânea, permitindo agregar ao projeto de produto a questão da construtibilidade, levando em conta aspectos relativos aos sistemas de produção empregados e a execução dos elementos propostos. Para que isso ocorra, torna-se necessária uma maior compatibilização dos projetos, a implantação de uma equipe multidisciplinar que conte com engenheiro de obra e uma boa coordenação de projetos (FABRICIO,

2002).

2.1.5 Empresas de Projeto

Existe uma grande gama de profissionais prestadores de serviços às empresas construtoras e incorporadoras. O ramo de projetos para edificações na construção civil é formado em grande parte por pequenos escritórios e profissionais autônomos. Tal disposição se dá pela natureza do serviço projeto, pouco valorizado dentro do ramo da construção civil e devido à sua inconstância uma vez que a indústria é afetada diretamente por questões econômicas e políticas (OLIVEIRA,

2005).

Na elaboração de seu modelo de gestão voltado para pequenas empresas de projeto, Oliveira (2005) destaca as principais limitações aplicadas a esses negócios:

escassez de recursos humanos, financeiros e tecnológicos e carência de formação gerencial de seus líderes.

Grilo (2002) indica uma tendência de redução do tamanho dos escritórios de projeto. O autor aponta que alguns fatores comprometem a sobrevivência dos escritórios de arquitetura: as concorrências do tipo “menor preço”, os estudos de risco, a facilidade de entrada de novos concorrentes e as baixas margens de lucro. Além disso, acredita que o afastamento do arquiteto das funções gerenciais e da própria obra afeta a sua margem de atuação. Por fim, o autor defende que “a sobrevivência dos escritórios de projeto demanda a antecipação das tendências e conversão dos desafios em fontes de vantagens competitivas e oportunidades de negócio” (GRILO, 2002).

Para aumento da competitividade Grilo (2002) sugere que sejam observados os seguintes aspectos:

35

1- Gerenciais;

2- Mercadológicos, através de identificação de oportunidades de negócio, estabelecimento de parcerias com outros agentes, diferenciação nos produtos desenvolvidos, etc.;

3- Tecnológicos, a partir do investimento em tecnologias que permitam redução de prazo de projeto, facilitando a integração com outros projetistas e permitindo maior participação do cliente, facilitando o atendimento de suas necessidades;

4- Organizacionais.

2.1.6 Processo de projeto e mudanças relacionadas à gestão

Diversos autores destacam a importância da mudança e modernização dos sistemas de gestão como fatores essenciais para um maior aproveitamento das vantagens e benefícios que podem ser obtidos com o rearranjo do processo de projeto (TZORTZOPOULOS, 1999; MELHADO, 2001; OLIVEIRA, 2005).

Sobre a necessidade de mudanças relacionadas a gestão Oliveira (2005) destaca que:

É de suma importância que se melhorem todos os outros subsistemas da empresa (recursos humanos, comercial, finanças, marketing, sistemas de informação, etc.) além de outros elementos de gestão como estrutura organizacional, liderança e empreendedorismo, cultura organizacional, de forma a se reunirem as condições mínimas para que o projeto seja desenvolvido com eficiência e eficácia, para que as melhoras em sua metodologia possam ser implementadas com sucesso (OLIVEIRA, 2005).

Analisando o trabalho de Ferreira; Reis; Pereira (2001), Oliveira (2005) demonstra a interligação entre 3 (três) elementos: estrutura, tecnologia e comportamento (figura 8). A alteração em qualquer um desses elementos provoca uma mudança organizacional que irá influenciar os demais. Logo, qualquer mudança deve considerar a influência desses aspectos um sobre o outro.

Da mesma forma, Toledo et al. (2000) apresentam o modelo de Orlikowski (1992) que discorre sobre a existência de três pontos: propriedades institucionais, os

36

agentes humanos e a tecnologia. Segundo o autor, a interação desses pontos resultará num novo arranjo organizacional.

ESTRUTURAESTRUTURA ESTRUTURAESTRUTURA TECNOLOGIATECNOLOGIA TECNOLOGIATECNOLOGIA COMPORTAMENTOCOMPORTAMENTO
ESTRUTURAESTRUTURA
ESTRUTURAESTRUTURA
TECNOLOGIATECNOLOGIA
TECNOLOGIATECNOLOGIA
COMPORTAMENTOCOMPORTAMENTO
COMPORTAMENTOCOMPORTAMENTO

Figura 8. Elementos da mudança organizacional, adaptado de Ferreira; Reis; Pereira (2001) apud Oliveira (2005).

A mudança organizacional pode estar baseada em transformações de natureza estrutural (funções e tarefas), estratégica (mercado-alvo), cultural (valores e estilos de liderança), tecnológica (processos de produção) e humana (formação, seleção de pessoal), “sendo capaz de gerar impacto em partes ou no conjunto da organização” (WOOD et al.,1995 apud MOURA; OLIVEIRA, 1998).

Toledo et al. (2000) defendem que, para a aceitação da mudança, todos os envolvidos direta ou indiretamente com a inovação devem ser bem informados e conscientizados, e que tal tarefa demanda tempo e investimentos financeiros em treinamentos para que os indivíduos compreendam o processo de mudança e se empenhem com a inovação.

É preciso que haja preparação dos colaboradores para a mudança através de treinamentos e orientações, as empresas devem valorizar o desenvolvimento de pessoas como forma de mitigar as possíveis resistências que geralmente ocorrem nos processos de mudança organizacional (FERREIRA; REIS; PEREIRA, 2001 apud OLIVEIRA, 2005).

2.2 ENGENHARIA SIMULTÂNEA

2.2.1 Definição de Engenharia Simultânea

A engenharia simultânea (ES) vem sendo aplicada nas etapas de desenvolvimento de produtos de diversos setores da indústria como forma de

37

proporcionar agilidade ao processo de produção, garantindo qualidade e facilitando a inovação tecnológica (FABRICIO, 2002). Seu surgimento está relacionado à necessidade de introdução rápida de novos produtos no mercado como forma de garantir a competitividade das indústrias (ANUMBA; BAUGH; KHALFAN, 2002).

Evbuomwan e Anumba (1998) apresentam a definição de Winner et al. (1988), abordando a engenharia simultânea como:

o desenvolvimento integrado e simultâneo do projeto e seus processos correlatos, incluindo a produção e suporte. Essa abordagem pretende motivar os agentes para que considerem desde o inicio todos os elementos do ciclo de vida do produto, desde a sua concepção até o descarte, estando atentos a questões como a qualidade, custo, planejamento e requisitos do cliente (WINNER et al, 1988 apud EVBUOMWAN; ANUMBA, 1998).

A engenharia simultânea enquadra o desenvolvimento do produto como um processo contínuo buscando a eliminação de atividades não geradoras de valor e a otimização dos processos. Prevê a integração de diversas especialidades num único processo, criando uma equipe multidisciplinar em constante colaboração, unindo projeto, produção, marketing e demais aspectos ligados ao produto (LOVE; GUNASEKARAN, 1997).

A engenharia simultânea baseia-se na execução de tarefas em paralelo e exige uma imensa colaboração dos agentes como forma de garantir ganhos de tempo e qualidade do produto (FERREIRA, 2007).

Fabricio (2002) destaca alguns elementos da ES:

1- Valorização do projeto e das primeiras etapas de concepção do produto;

2- Realização das etapas de desenvolvimento do produto de forma paralela (projeto e produção);

3- Integração entre os diversos agentes do processo de produção;

4- Interação das equipes de projeto;

5- Utilização intensiva de tecnologia da informação;

6- Coordenação de projetos;

7- Orientação para a satisfação do cliente e para o mercado.

38

Alguns benefícios decorrentes desse ambiente integrado são: a satisfação do cliente; a redução do tempo de projeto e custos; o aumento da qualidade; o aumento da eficiência dos processos produtivos; a diminuição do desperdício e de gastos posteriores com mudanças (ANUMBA; BAUGH; KHALFAN, 2002).

Kamara; Anumba e Evbuomwan (2001) apresentam o modelo de Brookes e Backhouse (1997) que resume os diversos aspectos do conceito de engenharia simultânea e suas interações (figura 9).

Satisfação do Cliente Satisfação do Cliente Competitividade do Negócio Competitividade do Negócio
Satisfação do Cliente
Satisfação do Cliente
Competitividade do Negócio
Competitividade do Negócio

Minimizar o tempo de entrada no mercado

Minimizar o tempo de entrada no mercado

Redução dos custos

Redução dos custos

Aumento da qualidade do produto

Aumento da qualidade do produto

da qualidade do produto Aumento da qualidade do produto Integração e simultaneidade dos processos Integração e
da qualidade do produto Aumento da qualidade do produto Integração e simultaneidade dos processos Integração e

Integração e simultaneidade dos processos

Integração e simultaneidade dos processos

Uso de equipes multidisciplinares

Uso de equipes multidisciplinares

Consideração antecipada de todos os aspectos do

Consideração antecipada de todos os aspectos do

ciclo de vida do produto

ciclo de vida do produto

Análise de requisitos

Análise de requisitos

do produto Análise de requisitos Análise de requisitos Sistemas de Gestão Sistemas de Gestão Softwares (CAD,
do produto Análise de requisitos Análise de requisitos Sistemas de Gestão Sistemas de Gestão Softwares (CAD,

Sistemas de Gestão

Sistemas de Gestão

Softwares (CAD, etc.)

Softwares (CAD, etc.)

FACILITA

FACILITA

METASMETAS

METASMETAS

PROPORCIONA

PROPORCIONA

OBJETIVOSOBJETIVOS

OBJETIVOSOBJETIVOS

PERMITE

PERMITE

ESTRATESTRATÉÉGIASGIAS

ESTRATESTRATÉÉGIASGIAS

FERRAMENTASFERRAMENTAS EE TTÉÉCNICASCNICAS

FERRAMENTASFERRAMENTAS EE TTÉÉCNICASCNICAS

Figura 9. Aspectos relacionados ao conceito de Engenharia Simultânea, adaptado de Brookes; Backhouse (1997) apud Kamara; Anumba; Evbuomwan (2001).

2.2.2 ES na construção de edifícios

O avanço tecnológico e a crescente exigência dos clientes resultam numa complexidade dos empreendimentos, com aumento das exigências relativas a prazo, custo e qualidade da edificação e uma maior preocupação quanto ao desempenho e impactos gerados pelo edifício ao longo do seu ciclo de vida (FABRICIO, 2002).

No entanto, alguns pontos ainda dificultam a otimização dos processos na indústria da construção civil (LOVE; GUNASEKARAN, 1997): (1) a falta de integração e coordenação entre os projetistas; (2) a comunicação pobre (3) os

39

desvios de qualidade e (4) uma enorme quantidade de tempo improdutivo. Além disso, segundo Love e Gunasekaran (1997), a grande fragmentação da indústria, formada por pequenas empresas subcontratadas, que se unem para um projeto específico, desencoraja os esforços das equipes de projeto em aumentar qualidade e reduzir custos.

Diversas medidas foram adotadas ao longo do tempo, como a informatização dos escritórios e a industrialização dos canteiros através da inserção de elementos pré-fabricados, mas esses conceitos não atingiram completamente os processos da indústria da construção. Muitos problemas ainda persistem por conta da ausência de ferramentas de gestão efetivas (LOVE; GUNASEKARAN, 1997).

Quanto ao processo de projeto, observa-se hoje uma grande fragmentação dos intervenientes, através de diversas disciplinas, gerando falhas nas trocas de informação. Essa fragmentação acarreta erros e omissões que terão conseqüências futuras e que irão refletir em inúmeras mudanças realizadas em etapas posteriores de forma onerosa. Percebe-se também que não há uma abordagem do edifício ao longo de todo seu ciclo de vida. Assim, a indústria da construção precisa urgentemente de novas ferramentas para o desenvolvimento de seus negócios e gestão de seus processos a fim de garantir vantagem competitiva (ANUMBA; BAUGH; KHALFAN, 2002).

Tomando–se a engenharia simultânea como o desenvolvimento paralelo e integrado do projeto e produção e que antecipa as decisões para as fases iniciais de projeto, considerando desde o inicio todo o ciclo de vida da edificação, a aplicação da engenharia simultânea se mostra benéfica na construção civil uma vez que:

- o

desenvolvimento da edificação;

estágio inicial de projeto é

um

dos mais críticos

para

o

ciclo de

- A integração entre os intervenientes do ciclo de produção é um fator chave para a qualidade do produto final;

- As decisões tomadas nas fases iniciais de projeto têm maior influência sobre o desempenho e custo final da edificação (MACHADO, 2006).

Desta forma, diante do alinhamento dos objetivos da CE com as necessidades atuais da construção civil (integração de processo, satisfação do

40

cliente) e considerando a construção civil como um processo fabril (com repetição de processos, assim como em outras indústrias), acredita-se que os ganhos de produtividade obtidos em outras indústrias a partir da aplicação do conceito de engenharia simultânea também podem ser alcançados com a sua implantação na construção civil (KAMARA; ANUMBA; EVBUOMWAN, 2001).

No contexto da construção civil, Evbuomwan e Anumba (1998) definem a ES

como:

de otimizar o projeto e seu processo de construção para alcançar

redução de tempo, melhorando a qualidade e diminuindo os custos a partir

da integração de atividades de projeto, fabricação e construção, maximizando a simultaneidade e a colaboração nas práticas de trabalho (EVBUOMWAN; ANUMBA, 1998).

tentativa

Fabricio (2002), em sua tese de doutorado apresenta o conceito de “Projeto simultâneo” representado como a adaptação e aplicação da engenharia simultânea no desenvolvimento do produto na construção de edifícios. A definição de Projeto Simultâneo segundo Fabricio (2002):

O desenvolvimento integrado das diferentes dimensões do empreendimento, envolvendo a formulação conjunta da operação imobiliária, do programa de necessidades, da concepção arquitetônica e tecnológica do edifício e do projeto para produção, realizado por meio da colaboração entre o agente promotor, a construtora e os projetistas, considerando as funções subempreiteiros e fornecedores de materiais, de forma a orientar o projeto à qualidade ao longo do ciclo de produção e uso do empreendimento (FABRICIO, 2002).

Na mesma linha de raciocínio Machado (2006) apresenta o conceito Arquitetura Simultânea como: “um método de gestão de projeto que promove a integração dos processos e o estabelecimento de paralelismo entre atividades por meio da colaboração e da utilização da TI como suporte”.

Como pré-requisitos para implantação do Projeto Simultâneo, Fabricio (2002) destaca:

1- A parceria entre os diversos agentes do processo de projeto;

41

3- A utilização de novas tecnologias da informação buscando facilitar a integração e troca de informações entre os agentes.

Sobre a importância da tecnologia de informação como ferramenta de apoio à engenharia simultânea, Machado (2006) destaca que:

A

evolução da Tecnologia da Informação é considerada um fator chave para

o

desenvolvimento da Engenharia Simultânea por fornecer o suporte à

integração dos processos, ao compartilhamento da informação, à colaboração e ao controle integrado. A TI é necessária para dar suporte à integração, permitindo a gestão do processo, o gerenciamento da informação e comunicação, a simulação, a colaboração e compartilhamento

de conhecimento (MACHADO, 2006).

Percebe-se que na atualidade, a TI não é mais função isolada, mas está entranhada no negócio, sendo necessária para dar apoio ao grande número de informações geradas pela engenharia simultânea e facilitando o gerenciamento dos processos com o aumento das subcontratações (BJORNSSON; EKSTROM, 2004).

2.3 TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO

2.3.1 Definição de TI

Segundo Nascimento e Santos (2003b) a expressão Tecnologia da Informação (TI) está relacionada “às tecnologias utilizadas para capturar, armazenar, processar e distribuir informações eletronicamente” (NASCIMENTO; SANTOS

2003b).

A tendência de intensificação do uso da TI se confirmou a partir da década de 90, proporcionando a redução de tempo das atividades, o aumento da qualidade e a customização dos produtos. Além disso, a TI possibilitou novas formas de organização e controle, a formação de alianças e parcerias entre empresas e a conformação de novos canais de distribuição. (LAURINDO, 2000)

Numa visão mais abrangente, o termo TI não diz respeito apenas a sistemas de informação e processamento de dados, mas está relacionado também a questões humanas, administrativas e organizacionais. Além disso, devido ao grande poder de impacto da TI sobre os processos, torna-se essencial o seu alinhamento com o negócio e a estratégia da empresa para que seja possível atingir um aproveitamento máximo de todas as suas possibilidades (LAURINDO, 2000).

42

Surge então uma nova abordagem para o termo tecnologia da informação podendo compreender "o conjunto dos conhecimentos que se aplicam na utilização da informática envolvendo-a na estratégia da empresa para obter vantagem competitiva” (NASCIMENTO; SANTOS, 2003a).

Desta forma, a implementação efetiva de novos sistemas de informação requerem não somente visão e investimento, mas mudanças significativas nos processos, que implicam reestruturação organizacional. (EGA, 1998 apud EASTMAN et al., 2002). Devem ser avaliados os aspectos técnicos e organizacionais, encarando a TI como uma importante ferramenta que pode dar origem a novas estratégias empresariais e permitir novas possibilidades de negócio (LAURINDO, 2000).

A padronização e alteração na gestão das empresas são essenciais para a

expansão de novas tecnologias de informação. Assim, para o pleno uso da TI devem

ser observados os seguintes aspectos: (NASCIMENTO; SANTOS, 2003b)

1- Conscientizar os profissionais sobre os benefícios da tecnologia e oferecer

treinamento adequado, investindo na equipe;

2-

Buscar a padronização dos processos;

3-

Fazer uso da tecnologia de forma a agregar valor, gerando novos produtos e serviços;

4- Garantir o gerenciamento de informação, a troca de informação entre usuários, a armazenagem e validade das informações geradas, a interoperabilidade e a integração de sistemas.

2.3.2 TI e indústria da construção civil

Percebe-se um grande atraso tecnológico comparando-se a indústria da construção civil com outras indústrias. O setor de construção civil demora mais para absorver novas tecnologias de informação, o que leva a um nível de produtividade e qualidade bem inferiores ao observado em outros ramos industriais (NASCIMENTO; SANTOS, 2003b).

43

Esse atraso tecnológico pode ser observado não somente no Brasil, mas também em diversos outros países. Bjornsson e Ekstrom (2004) demonstram em seu trabalho que nos últimos 30 anos as indústrias dos EUA alcançaram ganhos significativos de produtividade a partir do alto investimento em TI. No entanto, os autores observam que, a indústria da construção civil americana obteve crescimento muito menor quando comparada a outros setores industriais, fato que relacionam ao baixo nível de investimento em TI praticado por esta indústria.

A adoção de novas tecnologias da informação na indústria da construção civil ainda é bem restrita em função das particularidades apresentadas pelo setor. Um dos principais pontos a serem observados é a fragmentação da indústria formada por inúmeras pequenas e médias empresas subcontratadas que apresentam pequena parcela de atuação frente ao todo. (EASTMAN et al. 2002). Toledo et al. (2000) destacam que “as pequenas empresas não dispõem de recursos para suportar uma inovação radical e, devido à natureza sazonal dos trabalhos, tampouco se comprometem com estes esforços” (TOLEDO et al., 2000).

Para se tomar riscos e investir na implantação dessas novas tecnologias de informação, uma das condições iniciais é uma situação econômica que favoreça o crescimento do setor de construção civil propiciando investimentos baseados em conhecimento. As empresas precisam estar atentas aos benefícios que a TI pode garantir, propiciando a melhoria dos processos e ganho de mercado, trazendo assim, maiores lucros para a empresa (EASTMAN et al.,2002).

Sobre os principais fatores relacionados ao baixo investimento em TI na indústria da construção civil, Scardoelli, et al. (1994) apud Nascimento, Laurindo, Santos (2003) destacam a resistência a novas tecnologias, a falta de formação da mão-de-obra e a falta de um gerenciamento adequado dos processos.

Nascimento e Santos (2002) atribuem a baixa utilização da TI a:

1- Pouca valorização e investimentos em TI pela indústria ao contrário de outros setores;

2- Falta de uma implantação integrada juntamente com sistemas de gestão e estratégia de negócios;

44

3-

Alto custo dos softwares, equipamentos e manutenção;

4-

Falta de formação profissional;

5-

Ausência de padronização na comunicação e troca de informações;

6-

Poucas empresas estão investindo, logo não há impacto global.

O

relatório da FIESP (2008) apresenta algumas diretrizes para aumentar o

uso das novas tecnologias de informação na indústria da construção civil, defendendo que o Estado deve contribuir na formação de profissionais preparados, com incentivo a novas pesquisas, com maior abertura de financiamentos e mudanças na legislação. Deve-se buscar a adaptação dos conceitos internacionais à realidade brasileira bem como investir em projetos que proponham a padronização de informações e procedimentos. Da mesma forma, o empresariado também deve investir em pesquisas, equipamentos e profissionais. A tecnologia de informação precisa ter uma aplicação mais abrangente, estando envolvida nos diversos aspectos referentes tanto ao projeto como a produção do edifício (FIESP, 2008).

Na última década, porém, observa-se um movimento crescente de empresários da construção civil brasileira buscando investir na implantação de novas tecnologias para reduzir o tempo de construção, o desperdício de materiais e aumentar seus índices de produtividade (TOLEDO et al., 2000).

No entanto, no processo de adoção de novas tecnologias de informação percebe-se que a implantação de ferramentas de TI de forma isolada não é garantia de aumento de produtividade. Para este se realizar deve haver comprometimento de todos os participantes do processo, bem como devem ser revistos os aspectos organizacionais, a forma de se trabalhar e pensar o processo de projeto e a troca de informações. Para isso, toda a cadeia deve compreender os ganhos que a implantação plena e integrada dessas tecnologias pode propiciar ao setor (NASCIMENTO; SANTOS, 2003b). Para se alcançar melhores resultados globais torna-se essencial que a implantação das tecnologias aconteça em toda indústria da construção civil abrangendo desde as empresas de extração de matéria-prima até as imobiliárias e clientes (FIESP, 2008).

45

Nascimento e Santos (2003b) apontam como tendências futuras para a indústria da construção civil:

1-

Utilização

de

um

modelo

único

para

gestão

e

armazenamento

da

informação;

2- Maior troca de informação entre as diversas fases do ciclo de vida da edificação;

3- Mudanças na relação com fornecedores de materiais e serviços;

4- Expansão do uso de Simulações e análises;

5- Consolidação da TI como vantagem competitiva.

2.3.3 Contribuições da TI ao processo de projeto

O processo de projeto sofre hoje grande influência das ferramentas

computacionais existentes. Fabrício e Melhado (2002) afirmam que “as novas tecnologias permitem aumentar produtividade, mas também mudam substancialmente os processos intelectuais e cognitivos envolvidos no projeto” (FABRICIO; MELHADO, 2002).

As novas técnicas de informática permitem “estender as simulações para

fases mais adiantadas do processo de projeto” e “permitem descolar parte das habilidades projetuais ligadas à intuição para a simulação de possibilidades e análise comparativas”. Além disso, a maior facilidade de gerar várias possibilidades permite uma comparação das soluções que vão sendo validadas ao longo da sua elaboração. As imagens virtuais permitem representar realisticamente idéias e conceitos de projeto muito antes da construção efetiva do edifício e podem contribuir para uma melhor comunicação entre os diferentes projetistas e clientes (FABRICIO; MELHADO, 2002).

Assim, a informática torna-se uma importante ferramenta de apoio ao projeto, podendo ser utilizada propiciando a simulação, análise e avaliação da performance do edifício em seus diversos aspectos: funcionais, de produção, de custo, etc. Desta forma, a TI possibilita a otimização do projeto envolvendo todos os âmbitos e disciplinas (FISCHER; KUNZ, 2004).

46

Fabricio (2002) em sua tese de doutorado propõe que sejam estudados os impactos das ferramentas de informática e telecomunicações no processo de projeto, identificando como essas novas tecnologias estão afetando o trabalho dos projetistas, o pensamento projetual e a comunicação e troca de informação entre os agentes do processo.

Todo projeto contempla a atuação de diversos colaboradores, cada qual na sua especialidade, muitas vezes trabalhando em diferentes sistemas de informação e utilizando os mais variados formatos. Além disso, com o aumento da complexidade dos projetos, o número de informações eletrônicas geradas pelas diferentes disciplinas é cada vez maior (FISHER; KUNZ, 2004).

A busca de ferramentas que permitam a comunicação e integração entre os agentes durante o processo de projeto torna-se então, questão fundamental para o seu pleno desenvolvimento. Nascimento e Santos (2003b) apontam que “na indústria da construção, o tratamento do fluxo de informações entre os vários agentes multidisciplinares dentro de todo processo é um dos fatores críticos para o sucesso de um empreendimento” (NASCIMENTO, SANTOS 2003b).

A fim de garantir melhorias no processo de projeto e desenvolvimento do produto, é essencial que as empresas promovam investimentos voltados para a implementação de novos sistemas computacionais, capazes de facilitar a comunicação e troca de informações, integrando projeto e produção de forma a antever os problemas, visando a conformação de um produto com mais qualidade e alinhado as necessidades do cliente (BOUCHLAGHEM; KIMMANCE; ANUMBA,

2004).

Fabrício e Melhado (2002) destacam a imensa possibilidade de integração entre os agentes a partir da aplicação e uso de novas ferramentas de telecomunicação. Segundo os autores:

Essa possibilidade é fundamental num setor marcado pela fragmentação e num processo de projeto em que os agentes estão dispersos em diversas empresas e locais distintos. A eficiência na colaboração no processo de projeto depende cada vez mais da compatibilidade e intercomunicação não só entre os agentes humanos, mas também entre as ferramentas computacionais de apoio ao projeto (FABRICIO; MELHADO, 2002).

Tzortzopoulos (1999) conclui em seu trabalho que torna-se essencial:

47

o uso de sistemas computacionais integrados juntamente à criação de

banco de dados orientado a objeto, estabelecendo um sistema que possibilite a troca de informações eficiente e a compatibilização de projetos, e sua integração a outros processos gerenciais (orçamento, suprimentos, ) (TZORTZOPOULOS, 1999).

Alguns autores indicam que o uso de TI pode reduzir o custo de projetos em até 30% (MICALI, 2000 apud NASCIMENTO, SANTOS 2003a). Bouchlaghem; Kimmance e Anumba (2004) destacam algumas vantagens que a TI pode propiciar ao processo de projeto:

1- Melhor colaboração entre as equipes trabalhando no projeto;

2- Ganhos de tempo com processamento de dados e redução no tempo de projeto;

3-

Aumento

da

informações;

qualidade

do

produto,

com

maior

consistência

das

4- Maior atendimento as necessidades do cliente;

5- Maior integração da cadeia da construção civil e seus agentes envolvidos no projeto.

Em sua dissertação de mestrado, Ito (2007) avalia a gestão da informação nas empresas de projeto, desenvolvendo estudos de caso em empresas de projeto na região metropolitana de Curitiba. Com base na análise dos resultados obtidos, o autor conclui que:

a empresa que investe constantemente em melhorias dos processos, na

gestão e organização da empresa, no planejamento estratégico e TI, tem maior capacidade para oferecer serviços de melhor qualidade, em prazos menores, e atender melhor às necessidades e exigências clientes (ITO,

2007).

Apesar da crescente expansão do uso de novas tecnologias de informação, observa-se hoje no setor de projetos da construção civil, um uso restrito das suas possibilidades. Ainda se utiliza muito papel, a comunicação é falha e inúmeras informações são geradas repetidamente sem necessidade, devido a falta de integração entre os agentes e os softwares que eles utilizam (BOUCHLAGHEM; KIMMANCE; ANUMBA, 2004).

48

A pesquisa de Ito (2007) demonstra que apesar do investimento em máquinas e softwares CAD, as empresas estudadas, em geral, apresentam um processo de projeto sendo realizado tal qual era no passado, com o uso de pranchetas. O autor identificou que as ferramentas 3D ainda são pouco utilizadas e que o potencial dos softwares não é plenamente aproveitado pelos projetistas. Tal fato pode estar atribuído ao baixo treinamento dos projetistas, a falta de alinhamento da TI com a estratégia e gestão da empresa e muitas vezes pela aquisição de softwares não adequados ao trabalho desenvolvido (ITO, 2007).

Sobre esse mesmo ponto Fabrício e Melhado (2002) fazem a seguinte colocação:

A tecnologia da informação tem se difundido rapidamente entre as empresas e agentes ligados ao projeto e à construção, entretanto, no estágio atual, a utilização dessas novas ferramentas ainda é limitada e problemática. Com a falta de formação na utilização de computadores e softwares, os projetistas têm uma aproximação empírica o que leva, em muitos casos, à subutilização ou uso inadequado da tecnologia (FABRICIO; MELHADO, 2002).

A inserção de novas tecnologias de informação no setor de projetos de edificações acarreta em aumento da necessidade de treinamento e formação de recursos humanos, necessidade de padronização de arquivos e objetos de projeto, mudança na comunicação e na troca de informação de projetos. (JACOSKI, 2005) Além disso, conforme as ferramentas tecnológicas evoluem, tornam-se mais caras, exigindo equipamentos mais robustos, e uma nova estrutura organizacional que apóie seu pleno funcionamento (FABRICIO; MELHADO, 2002).

Para que se possa tirar proveito máximo das ferramentas torna-se essencial além do desenvolvimento tecnológico dos sistemas, que haja preocupação com a organização do processo de projeto e dos processos gerenciais da empresa. Só assim poderá ser garantida a plena troca de informações e comunicação entre os diversos intervenientes e sistemas computacionais (FABRICIO; MELHADO, 2002).

3 BUILDING INFORMATION MODELING

3.1 ORIGENS DO BIM

O conceito de modelagem do produto ganhou força no final da década de 70, diante das inúmeras mudanças econômicas, com a globalização dos mercados e aumento das pressões sobre as empresas. Na busca pela melhoria dos processos tornava-se essencial uma abordagem integrada dos diferentes aspectos relacionados ao produto, a fim de atingir um mercado cada vez mais exigente quanto a prazos, qualidade e custos. A modelagem de produto surge então, como uma importante ferramenta auxiliando na concepção, validação e construção do produto, garantindo aumento da produtividade e a sobrevivência dos negócios. A modelagem baseia-se na integração dos sistemas envolvidos no desenvolvimento do produto e na utilização da tecnologia de informação como suporte para esses processos (AYRES, 2009).

No contexto da construção civil, o aumento da complexidade dos processos acarretou a necessidade de inserção de uma mentalidade industrial, buscando a aplicação de soluções adotadas na indústria da manufatura. Neste sentido, a noção de modelagem de produto adotada por outras indústrias deu origem ao conceito BIM (Building Information Modeling), como uma modelagem que busca integrar todos os processos relacionados à construção do produto edificação.

Diversos trabalhos sobre a modelagem de produto na indústria de AEC foram desenvolvidos ainda nas décadas de 70 e 80, nos EUA e Europa. Nos EUA o conceito inicial era denominado Building Product Models e já na Europa e Finlândia era apresentado como Product Information Model (EASTMAN et al., 2008).

Em 1973, Gingerich apresentou um sistema que integrava às visualizações 3D aos elementos bidimensionais, permitindo atualizações automáticas dos

50

elementos em todas as vistas conforme as modificações de projeto. Além disso, também previa uma interface que possibilitaria a inclusão de informações relativas a materiais e a inserção de elementos como portas, janelas e sistemas estruturais (GINGERICH, 1973 apud AYRES, 2009).

Algumas das primeiras linhas explicitadas sobre o BIM também podem ser encontradas no artigo de Eastman publicado em 1975 no AIA Journal. O conceito desenvolvido por Eastman foi denominado Building Description System (BDS). Tratava-se de um sistema onde a representação dos elementos de projeto era baseada em informações geométricas associadas a outros atributos. Desta forma, além de criar desenhos, o sistema permitia gerar relatórios e análises referentes a quantitativos de materiais, estimativas de custo, entre outras. O projeto seria resultado do arranjo de elementos construtivos, que ao serem modificados uma única vez, eram atualizados em todas as visualizações (EASTMAN, 1975 apud EASTMAN et al., 2008).

O trabalho de Ayres (2009) demonstra uma trajetória interessante da evolução do conceito BIM. Segundo o autor, a modelagem de produto na indústria de AEC surge no desenvolvimento dos primeiros sistemas CAD (Computer Aided Design) pela equipe de Douglas Ross no MIT, ainda na década de 1960. Na sua concepção inicial, o CAD foi pensado como ferramenta capaz de abrigar dados referentes a diferentes disciplinas, permitindo o trabalho simultâneo de diversos projetistas e a integração de vários tipos de informações, viabilizando o desenvolvimento de análises e simulações diversas. No entanto, a baixa capacidade de processamento dos computadores da época não permitia suportar a grande quantidade de informações gerada pela complexa rede de processos envolvidos no projeto. Desta forma, as empresas de software desenvolveram inicialmente a parte geométrica, mais fácil de ser resolvida diante das tecnologias disponíveis na ocasião (AYRES, 2009).

A evolução dos softwares CAD é dividida por Kale e Arditi (2005) em três gerações: 1) desenho auxiliado por computador, 2) modelagem geométrica e 3) modelagem de produto.

Na primeira geração, o objetivo era a formulação de desenhos baseados em figuras geométricas (linhas, arcos, etc) cuja associação representaria os objetos da

51

vida real (ex.: duas linhas paralelas representariam uma parede). O objetivo era automatizar e levar para o computador o processo de desenho até então realizado nas pranchetas. A segunda geração permitia a inserção de informações na terceira dimensão, possibilitando a obtenção de visualizações em 3D dos objetos (maquete eletrônica). Os softwares da terceira geração surgiram efetivamente nos anos 80 e baseiam-se na associação de dados geométricos e não-geométricos (materiais, altura, custo, etc) criando uma relação de parametrização e correlação de dados (KALE; ARDITI, 2005). A tecnologia BIM insere-se nesta última geração, oferecendo a possibilidade de conjunção de diversos tipos de informações na conformação do modelo.

3.2 DEFINIÇÃO DE BIM

A tecnologia BIM permite a criação de um modelo composto por dados geométricos e inúmeras informações relativas a todas as atividades envolvidas na produção do edifício (planejamento, projeto, construção, etc.) (EASTMAN et al.,

2008).

Segundo o NBIMS (National BIM Standards), o BIM pode ser definido como:

Uma representação digital das características físicas e funcionais de uma

e um recurso para o compartilhamento de informações de uma

facility conformando uma base confiável para a tomada de decisões ao longo do seu ciclo de vida, desde a concepção até a demolição (NBIMS, 2008, tradução da autora).

facility

1

Para Bazjanac (2004) o BIM é um modelo de informações de edifícios que abriga um conjunto de dados multidisciplinares específicos, contendo informações sobre vários pontos de vista, incluindo as relações e aspectos relativos à descrição dos componentes que irão compor uma determinada edificação.

Kymmel (2008) define o BIM como uma simulação de projeto formada por modelos 3D de componentes associados, que abrigam todas as informações necessárias relativas ao projeto e ao produto seja no planejamento, construção, operação e desmobilização.

1 No idioma português ainda não se consagrou um termo equivalente a facility que extrapola o conceito relativo de “edifício” ou “obra”.

52

Ferreira (2007) defende que o modelo BIM “é mais do que o Modelo de um Produto (Product Modeling) já que procura modelar todos os assuntos relativos à edificação: produtos, processos, documentos, etc.” (FERREIRA, 2007).

Eastman et al. (2008) definem o BIM como “uma tecnologia de modelagem associada a processos que permitem produzir, comunicar e analisar modelos de edifícios”.

O BIM pode ser visto como uma ferramenta que permite gerar e abrigar informações de diversas origens, simular diferentes possibilidades e comunicar diversos tipos dados. Neste sentido, Kymmel (2008) relaciona quatro atributos que interconectados entre si conformam os sistemas BIM: vizualização, compreensão, comunicação e colaboração.

3.3 CARACTERÍSTICAS DOS SISTEMAS BIM

Os sistemas computacionais baseados em BIM permitem a construção do edifício no ambiente virtual a partir de softwares que irão simular a construção. Trata-se da formulação de um protótipo digital do edifício que possibilita uma série de experimentações e ajustes no projeto antes que se torne real, permitindo a consideração antecipada de diversos aspectos relativos à edificação (KYMMEL,

2008).

Campbell (2007) identifica seis características chaves do sistema BIM:

1-

Digital (possibilita simulação do projeto e da construção);

2-

Espacial (permite representação em 3D);

3-

Quantificável (informação pode ser quantificada);

4- Compreensivo

(abriga

informações

relativas

ao

design,

performance,

seqüência de construção, aspectos financeiros);

5- Acessível (formato aberto e disponibilidade de informações para todos os participantes);

6- Durável (aplicável a todas ao longo de todo ciclo de vida do edifício; projeto, construção, manutenção).

53

A lista de softwares BIM disponíveis no mercado é extensa. Alguns deles são:

Active3D, Archimen, Autodesk AutoCAD Architecture, Autodesk Revit Architecture, Bentley Architecture, DDS-CAD Building Service, DDS Nemetschek Allplan, Facility Online, Graphisoft ArchiCAD, MagiCAD, Oracle CADView-3D, Solibri Model Checker, Tekla, VectorWorks, entre outros.

3.3.1 Modelagem paramétrica e visualizações múltiplas

O BIM permite uma construção virtual do edifício com todos os seus elementos, conformando um modelo de onde podem ser retirados um número infinito de cortes e vistas. (BIRX, 2006). Assim, “a cada visualização que o projetista necessita, a informação é apenas reorganizada e apresentada de uma nova maneira, ao invés de ser recriada” (SCHEER et al.,2007).

Desta forma, as informações geradas em plantas, cortes e visualizações 3D são correspondentes e uma modificação em qualquer visualização gera modificação automática em todas as demais. Essa capacidade de modificação de todos os desenhos simultaneamente permite que a informação seja inserida uma única vez, impossibilitando a geração de dados redundantes, e diminuindo a possibilidade de erros (EASTMAN et al., 2008).

Além disso, todas as informações complementares e simbologias (indicações de corte, numeração de desenhos e pranchas) são geradas automaticamente e se ajustarão conforme a mudança de escala. Também não há preocupação com configurações de espessuras de linhas, que já se encontram pré-definidas em função dos elementos de projeto. Do mesmo modo, as cotas também podem ser lançadas com grande facilidade, muito rapidamente.

Assim, no BIM os desenhos apresentam-se como uma conseqüência do processo de projeto. Como muitos deles são gerados e ajustados de forma automática, o projetista pode se dedicar mais à solução projetual sem grandes preocupações com o desenvolvimento de desenhos técnicos (BIRX, 2006).

O BIM permite a geração de visualizações 3D logo nas fases iniciais de projeto. Essas visualizações irão auxiliar a verificação de incompatibilidades, facilitando a análise de pontos diversos sobre o projeto e a busca por soluções.

54

Muitas questões de projeto que, tradicionalmente só seriam percebidas em etapas posteriores, poderão ser resolvidas pelos projetistas logo nas fases iniciais, diminuindo futuros retrabalhos por conta de mudanças e adequações de projeto.

A coordenação de projetos também pode ser facilmente realizada no BIM a partir de ferramentas de clash detection que proporcionam um destaque visual das interferências, chamando atenção para as incompatibilidades entre os projetos (KYMMEL, 2008).

Por abrigar tanto dados geométricos quanto textuais, o BIM permite que a qualquer momento sejam extraídos documentos contendo quantitativos, especificações, e outras informações que também serão atualizadas conforme as modificações de projeto (SCHEER et al., 2007).

Nos sistemas BIM os objetos são gerados para representar os componentes da construção real. Uma parede não é mais representada através de duas linhas paralelas. O objeto “parede” se comporta como tal e possui propriedades agregadas de altura, espessura, material, composição, acabamento, preço, entre outros. Para isso, o usuário precisa inserir uma série de parâmetros que definem o objeto e são essenciais para sua utilidade no projeto. Esses parâmetros estão relacionados ao conhecimento de arquitetura, exigindo noções relativas à forma como aquele objeto de fato é construído (IBRAHIM; KRAWCZYK; SCHIPPOREIT, 2004).

A modelagem paramétrica oferece ao usuário a possibilidade de obter diferentes possibilidades para o mesmo elemento (AYRES, 2009). Por exemplo, as diferentes combinações entre os atributos podem gerar paredes com revestimentos diferenciados (pintura, cerâmica, etc).

Além de possuir geometria própria e receber atributos de informações não geométricas relativas à material, desempenho, etc., os objetos podem ter regras associadas. A possibilidade de associação entre componentes faz com que a mudança em um objeto leve à modificação de outros componentes a ele relacionados (EASTMAN et al., 2008). Por exemplo, ao se alterar a altura do pé- direito de um pavimento, o número de degraus da escada poderá ser modificado automaticamente.

55

As informações dos objetos devem ser atribuídas de acordo com o estágio de projeto. O projetista vai inserindo especificações e detalhando o objeto conforme o avanço das etapas. Na fase inicial, pode-se utilizar objetos genéricos definindo sua geometria e localização, conformando ambientes e determinando elementos principais. Posteriormente, poderão ser inseridas informações relativas ao acabamento, revestimentos, comportamento, preço, entre outras (IBRAHIM; KRAWCZYK; SCHIPPOREIT, 2004).

Assim, o nível de informação contida no projeto vai depender da fase de desenvolvimento. O nível de detalhe e a quantidade de informação atribuídas aos objetos vão variar conforme o avanço dos projetos (KYMMEL, 2008).

3.3.2 Abordagem de todo ciclo de vida da edificação

Uma das principais características do BIM é a possibilidade de abordar todo o ciclo de vida da edificação podendo abrigar o desenvolvimento de atividades relativas ao planejamento, projeto e construção. O BIM pode auxiliar na formulação de programas de necessidades, estudos de viabilidade, na formulação do projeto, no gerenciamento da construção, na operação do uso do edifício e até mesmo na sua demolição.

Análises de custo e comportamento (análise térmica, de energia, entre outras) podem ser realizadas precocemente e a qualquer momento, podendo ser consideradas na busca de melhores soluções de projeto (EASTMAN et al., 2008).

Essa possibilidade de diversas simulações permite que sejam feitas avaliações de inúmeras possibilidades, analisando a melhor alternativa a ser adotada (KYMMEL, 2008).

A possibilidade de inserção da ferramenta 4D (tempo) permite visualizar o processo de construção, verificando como estará o andamento da obra em cada etapa, sendo possível planejar as interferências de equipamentos e a melhor configuração do canteiro de obras (EASTMAN et al., 2008). Além disso, podem ser atribuídas instruções e seqüência de montagens nos objetos facilitando a execução da obra em especial em áreas complicadas (KYMMEL, 2008).

56

O BIM torna possível a realização de estudos de custo ao longo do ciclo de

vida da edificação. Através de análises comparativas de diferentes materiais é possível simular a operação e uso do edifício e escolher soluções que sejam mais adequadas a longo prazo (KYMMEL, 2008).

3.3.3. Ambiente de projeto colaborativo e interoperabilidade

No BIM o processo de projeto ocorre de forma colaborativa com inúmeras informações sendo agregadas ao projeto a todo tempo. Conforme os projetistas desenvolvem os projetos, vão acrescentando informações, aumentando gradativamente o nível de detalhamento do projeto. Esses projetistas podem trabalhar em várias partes do projeto de forma independente e combinar seu trabalho a qualquer momento para análises e verificações de interferências. A intensa colaboração entre os agentes resulta num melhor entendimento do projeto e na redução dos riscos (KYMMEL, 2008).

No BIM a informação está contida em um único banco de dados tornando a integração entre os projetistas quase que “obrigatória”. Scheer et al. (2007) destacam que “dessa maneira, nos escritórios que utilizam o Sistema CAD-BIM, todos os envolvidos do empreendimento participam de modo integrado e simultâneo, contribuindo para a análise dos dados e para a tomada de decisão”.

A constante troca de dados entre um número cada vez maior de agentes

utilizando os mais diferentes softwares, torna necessário o desenvolvimento de

novas formas de intercâmbio das informações de projeto.

A falta de padronização para comunicação, armazenagem e passagem de

informação é hoje uma das grandes dificuldades encontradas no processo de projeto de empreendimentos. Nesse sentido, resolver a questão da interoperabilidade torna- se questão chave para a evolução na implantação de novas tecnologias da informação na indústria da construção civil (JACOSKI; LAMBERTS, 2002).

Entende-se como interoperabilidade a capacidade de comunicação de dados entre diversos processos produtivos (JACOSKI, 2004). Diante desse conceito Ayres (2009) destaca que:

57

idealmente, a informação agregada por diferentes disciplinas deveria fluir sem obstáculos entre o projeto, a fabricação, a construção, a manutenção, e todas as outras atividades interrelacionadas que constituem o desenvolvimento de um edifício, ficando disponível a todos os envolvidos automaticamente (AYRES, 2009).

Diversos autores defendem a adoção de um modelo aberto, que possa ser facilmente acessado por todos os agentes envolvidos, podendo ser adaptado e utilizado de acordo com as necessidades específicas de cada usuário. (CRESPO; RUSCHEL, 2007, FERREIRA, 2007, JACOSKI; LAMBERTS, 2002).

A integração entre as informações geradas por diferentes softwares torna necessário o desenvolvimento de padrões de interoperabilidade que permitam a troca irrestrita de informações garantindo sua consistência (KYMELL, 2008). Nesse sentido, surge em 1995, nos EUA, a IAI (International Alliance for Interoperability) uma associação formada por grandes empresas da indústria da construção, pesquisadores e entidades da construção civil com o objetivo de definir especificações e padrões para a indústria da construção civil. A IAI foi responsável pela criação do IFC (Industry Foundation Classes) um padrão neutro e aberto que possibilita o compartilhamento de informações entre diferentes aplicativos (JACOSKI, 2004).

Segundo Campbell (2007), o IFC foi criado como forma de estocar, classificar e padronizar os componentes e sistemas da construção definindo as especificações dos objetos através de classes.

Na utilização do padrão IFC as informações geradas em determinado software são traduzidas para esse formato neutro, garantindo que todas as informações dos objetos sejam transferidas corretamente e possam ser abertas e utilizadas por outros softwares que também trabalhem com esse padrão. Desta forma, se permite a compatibilização com modelos criados em diferentes softwares que utilizam o formato sem perdas de informação (KYMMEL, 2008).

Segundo Campbell (2007), o padrão IFC ainda está sendo pouco utilizado no mercado, encontra-se imaturo e ainda precisa ser melhor desenvolvido. No entanto, acredita-se que é muito possível que o IFC se torne futuramente um padrão na indústria da construção, já sendo adotado atualmente por grande parte dos softwares BIM (JACOSKI, 2004).

58

3.4 BENEFÍCIOS DO BIM

O BIM permite uma maior integração de projetos e de todos os processos

envolvidos na construção, trazendo maior qualidade para o edifício, com menor

custo e redução do tempo de projeto (EASTMAN et al., 2008).

Desta forma, no contexto fragmentado da indústria de AEC, o BIM mostra-se como uma importante ferramenta, capaz de contribuir na integração dos processos a partir da eliminação de ineficiências e redundâncias, aumentando a colaboração e comunicação, a fim de garantir melhores resultados de produtividade (CAMPBELL,

2007).

O BIM promove melhorias na comunicação e troca de informações, além de

proporcionar redução dos conflitos, uma vez que o arquivo base utilizado por todos é

o mesmo. Todos esses fatores contribuem na redução de tempo e custo, com aumento da eficiência e qualidade do trabalho desenvolvido (JACOSKI; LAMBERTS,

2002).

Nos sistemas BIM as informações são inseridas uma única vez e acessadas por todos os participantes do processo. Tal fato reduz o retrabalho e não permite a geração de informações redundantes, diminuindo a possibilidade de erros (EASTMAN et al., 2008, JACOSKI; LAMBERTS, 2002, SCHEER et al., 2007).

O uso de modelos 3D permite que a compreensão do projeto seja acessível a

todos, não sendo restrita apenas àqueles que conhecem as simbologias e representações de desenho (KYMMEL, 2008). Isso facilita o entendimento do cliente e do usuário final e contribui para formulação de soluções mais alinhadas às suas necessidades.

Birx (2006) enumera algumas vantagens obtidas com o uso da tecnologia

BIM:

1- Maior facilidade na coordenação dos projetos (as interferências entre os elementos podem ser destacadas visualmente);

2- Redução de carga horária por projeto (redução de custo através de diminuição de horas trabalhadas por projeto);

59

3-

Aumento da qualidade do projeto e detalhes; uma vez que se gasta mais tempo projetando e menos tempo com representações gráficas;

4-

Maior controle das informações de projeto, já que o BIM se torna banco de dados central das informações de projeto;

5-

Expansão do mercado de atuação da empresa, através da geração de novos produtos pelo escritório, como imagens, estimativas de custo, quantitativos;

6- Educação a jovens arquitetos, que precisam desenvolver rapidamente soluções construtivas logo nas etapas iniciais de projeto;

7- Maior facilidade no gerenciamento de mudanças.

3.5 DIFICULDADES E DESAFIOS

Apesar dos esforços de fabricantes de softwares e de organizações para promover o BIM, a grande maioria dos projetos de edifícios ainda é desenvolvida no método tradicional, com desenhos 2D e documentos de texto. O setor de projetos, em geral, está resistindo à mudança em direção a esse novo modelo de informação. As causas por esta resistência são diversas, entre elas, o longo processo de aprendizagem, a falta de tempo e recursos financeiros dos escritórios de projeto e a deficiência dos softwares (BAZJANAC, 2004).

O contratante é aquele que obtém os maiores lucros e benefícios com a

adoção da tecnologia BIM e como principal interessado deveria incentivar o desenvolvimento das equipes e a implantação das ferramentas (KYMMEL, 2008). No entanto, são os escritórios de projeto subcontratados que acabam tendo que arcar com despesas e riscos na implantação da tecnologia. No caso brasileiro isso é agravado pela escassez de recursos financeiros, decorrente da desvalorização da atividade de projeto, mas apesar disso os escritórios necessitam despender altos investimentos em equipamentos, softwares e treinamento para modernizar seus negócios adequando-se a tecnologia. Muitas vezes estas empresas não são recompensadas financeiramente para essa reestruturação e continuam recebendo uma parcela muito pequena diante do custo global da construção (JACOSKI; LAMBERTS, 2002).

60

Por se tratar de uma tecnologia recente, o número de profissionais utilizando efetivamente as ferramentas BIM ainda é restrito. Tal fato ocasiona certo isolamento daqueles que investiram na tecnologia e acarreta no uso incipiente da totalidade de suas possibilidades (CAMPBELL, 2007).

Uma das grandes questões que surgem no desenvolvimento de projetos em BIM está relacionada ao pertencimento do modelo. Os aspectos legais relacionados ao BIM merecem destaque, e é preciso que se busque soluções legais para atribuição do pertencimento do modelo e da responsabilidade na exatidão do conteúdo de informações. A constante atualização do modelo, mesmo durante a construção e posteriormente durante o uso do edifício, torna necessária a formulação de contratos que garantam os direitos autorais dos projetistas, mas que permitam a inserção de novas informações e o acesso ao modelo por todos outros participantes do processo (KYMMEL, 2008).

A visualização 3D facilitada possibilitada pelos softwares, ao mesmo tempo em que é uma grande vantagem do BIM, apresenta-se como um obstáculo aos projetistas uma vez que a visualização aponta facilmente todas as incompatibilidades e dificuldades, solicitando respostas imediatas (KYMMEL, 2008). Neste sentido, as ferramentas BIM exigem um certo nível de conhecimento projetual e referente a tecnologia da construção do usuário para formulação do modelo. Isso dificulta seu uso por estagiários e arquitetos recém-formados com pouca experiência.

Aliado a isso, a “distância tecnológica” existente entre o ensino das universidades e o mercado de projeto dificulta a contratação de mão-de-obra especializada. A velocidade das transformações é enorme e o que se observa é que as universidades não conseguem alcançá-las. Além disso, observa-se nos cursos de Arquitetura e Engenharia “uma dissociação entre o ensino do projeto e as ferramentas computacionais existentes no mercado” (JACOSKI, 2005).

A grande dificuldade de encontrar pessoal qualificado faz com que as empresas tenham que proporcionar treinamento a seus funcionários demandando tempo e alto investimento financeiro. Além disso, é preciso enfrentar a relutância de alguns profissionais na substituição das ferramentas computacionais existentes pelo sistema BIM e diante da decorrente alteração do processo de projeto proporcionado

61

pela tecnologia. O uso do BIM requer da equipe de projeto uma integração muito diferente da que ocorre nos moldes tradicionais de projeto. A conformação da equipe influenciará diretamente nos resultados finais obtidos, tornando-se essencial um efetivo gerenciamento dos recursos humanos a fim de se obter um resultado satisfatório com o uso da ferramenta (KYMMEL, 2008).

Birx (2006) identificou as seguintes dificuldades encontradas na transição da tecnologia tradicional para os novos modelos de edifício:

1- Necessidade de treinamento da equipe nos novos softwares;

2- Poucos profissionais utilizando efetivamente o BIM. Muitos engenheiros, contratantes e clientes não usam ainda, dificultando um aproveitamento maior na troca de informações entre os participantes do projeto;

3- Os softwares ainda necessitam evoluir, atendendo as demandas dos projetistas a partir da inserção de novas ferramentas e possibilidades;

4-

grande

programas;

dificuldade

na

contratação de mão-de-obra treinada nos

5- Os próprios professores que oferecem treinamento em BIM são novatos na utilização dos softwares;

6- O processo de transição é lento, o que deve fazer com que a tecnologia leve cerca de uma década para ser implantada efetivamente com aproveitamento de todas as suas possibilidades.

Os próprios softwares BIM ainda apresentam muitas dificuldades e precisam evoluir. Tse e Wong (2005) apud Crespo e Ruschel (2007) apresentam alguns problemas demonstrados por com relação aos softwares baseados em BIM:

1-

Dificuldade de adequação de objetos ao projeto;

2-

Poucas possibilidades de customização dos objetos;

3-

Complexidade da ferramenta, consumindo tempo para modelagem;

4-

Falta de treinamento e apoio técnico;

62

6- Indisponibilidade para avaliação do software de forma gratuita.

Nota-se que os 3 (três) primeiros itens são uma consequência do pouco envolvimento da indústria de materiais e componentes, que ainda não fornece os dados de seus produtos de modo conveniente.

3.6 PERSPECTIVAS PARA O BIM

Birx (2006) afirma que o CAD geométrico não mudou de maneira significante a forma de trabalho dos arquitetos, apenas computadorizou a prática de desenho realizada anteriormente nas pranchetas. Segundo o autor, ao contrário do que ocorreu com os sistemas CAD tradicionais, que afetaram de forma restrita o processo de projeto, assim que houver a propagação do uso do BIM na indústria da construção civil haverá mudanças culturais em diversos aspectos referentes ao projeto, processos construtivos, serviços oferecidos, estrutura organizacional das empresas, entre outros. Segundo Crespo e Ruschel (2007), “formular e utilizar um BIM corretamente influencia profundamente a maneira de trabalhar nos empreendimentos da construção”.

Kymmel (2008) afirma que a indústria da construção só irá evoluir em direção ao BIM de forma mais concreta quando se tornar necessário, seja por exigência do contratante ou pela competição entre os projetistas e construtores que levará a implantação como forma de manter sua sobrevivência no mercado.

Somente a introdução de novos softwares não será isoladamente capaz de produzir efetivas mudanças nos processos da indústria da construção. Torna-se necessária uma abordagem colaborativa de todos os envolvidos na cadeia a partir da integração dos agentes envolvidos no planejamento, projeto, construção e fornecimento, em busca de uma adoção mais generalizada visando maior aproveitamento das possibilidades oferecidas pelo BIM (KYMMEL, 2008).

O sucesso na aplicação de novas tecnologias baseadas em BIM no desenvolvimento do produto devem levar em conta fatores humanos e organizacionais e “deixar de considerar qualquer destes fatores durante a implementação da modelagem resulta em um investimento que gera baixo retorno ou até prejuízo” (AYRES, 2009)

63

Segundo Ayres e Scheer (2007), “não somente a ferramenta utilizada na geração das documentações projetuais deve ser modificada: o próprio processo de projeto deve sofrer alterações, dadas as novas possibilidades oferecidas pela tecnologia.”

A situação ideal para a definição dos elementos de projeto, por exemplo, seria que os fornecedores disponibilizassem seus catálogos num formato neutro, de forma que fosse possível baixar os objetos da internet com todas as especificações incluindo-os diretamente no projeto. Com a disponibilidade dos componentes pelos fabricantes, será possível reduzir o tempo gasto pelos projetistas com a modelagem, permitindo a inserção de objetos mais detalhados e alinhados aos produtos efetivamente disponíveis no mercado. Além disso, os fabricantes seriam responsáveis pela consistência das informações fornecidas que poderiam estar sendo atualizadas constantemente (IBRAHIM; KRAWCZYK; SCHIPPOREIT, 2004).

Outra grande tendência com a expansão do uso do BIM é o surgimento de novos softwares complementares ligados à estrutura, instalações prediais, planejamento da construção, estimativas de custo e análises diversas, que poderão se comunicar com o modelo arquitetônico, tomando-o como referência para realizar uma tarefa especifica (IBRAHIM; KRAWCZYK; SCHIPPOREIT, 2004).

Com a confirmação cada vez maior da tendência de adoção da tecnologia BIM pelo mercado de AEC, algumas universidades internacionais já estão buscando a atualização de seus currículos inserindo disciplinas relativas ao BIM. Kymmel (2008) descreve sua experiência como professor na Universidade do Estado da Califórnia (EUA) onde hoje os alunos recebem 4 (quatro) semestres de aulas sobre o BIM, englobando desde o uso de programas computacionais até a simulação do processo colaborativo de projeto proporcionado pela tecnologia. Os programas dos cursos de engenharia e arquitetura pouco a pouco precisarão ser revistos, com inserção de novas disciplinas a fim de formar profissionais com conhecimentos alinhados às necessidade do mercado (JACOSKI, 2005).

64

3.7 ESTUDOS DE CASO PESQUISADOS

3.7.1 Scheer et al., 2007

Os autores apresentam um estudo dos impactos dos sistemas CAD geométrico e CAD-BIM sobre o processo de projeto. Para isso, foram analisados dois escritórios de arquitetura em Curitiba onde um deles utilizava software CAD geométrico e o outro software CAD-BIM. O estudo descreve como as principais atividades relacionadas ao projeto são desenvolvidas em cada empresa.

O usuário de CAD geométrico afirma estar satisfeito com a produtividade, diante das facilidades do CAD geométrico quando comparado à prancheta. O usuário de CAD-BIM indica possibilidades de aumento de produtividade em função da ferramenta operacional, a partir da geração automática de desenhos e facilidade de inserção de textos e carimbos. O escritório usuário de CAD geométrico não percebeu como desvantagem a necessidade de atualização de cada um dos desenhos no CAD geométrico. O arquiteto entrevistado alegou que apesar do BIM gerar atualizações automáticas das visualizações, perde-se muito tempo na configuração dos parâmetros dos objetos. Em contrapartida, segundo os autores, pode se perder muito mais tempo nas atualizações do que na configuração dos parâmetros.

Na conclusão do estudo Scheer et al. (2007) observaram vantagens no sistema CAD-BIM sobre o sistema CAD geométrico. Os autores apontam para existência de muitas dificuldades encontradas pelos usuários na definição dos parâmetros dos objetos. Atribuem tal fato a atual forma de trabalhar dos projetistas onde muitas decisões de projeto são deixadas para etapas futuras, fato que não acontece no BIM. Os autores acreditam que “a persistência no uso do sistema CAD geométrico também pode ser resultado da falta de informação não a respeito da potencialidade do CAD-BIM, mas sim de que a sua implantação, em geral, demanda modificações no próprio processo de projeto.”

3.7.2 Campbell, 2007

Campbell (2007) demonstra os benefícios alcançados na empresa M. A. Mortenson Company com o uso do BIM. A empresa teve oportunidade de testar o

65

software em projetos de diferentes tipos, com prazos e complexidades variáveis. O autor afirma que o BIM melhorou a gestão do conhecimento e a comunicação, aumentou qualidade e segurança, reduziu o retrabalho e permitiu a diminuição dos custos e prazos.

Algumas aplicações do sistema BIM desenvolvidas na empresa são:

1- Visualização de projeto;

2- Analise de aspectos de construtibilidade;

3- Planejamento do terreno e entorno;

4- 4D (tempo);

5- 5D (custo);

6- Integração com fornecedores e subcontratados;

7- Coordenação de projetos;

8- Projeto de componentes construtivos (peças);

9- Pré-fabricação de sistemas;

10- Operação e manutenção do edifício

3.7.3 BIRX, 2006

Birx (2006) demonstra as principais mudanças alcançadas com o uso do BIM no escritório ASG, nos Estados Unidos. A implantação na empresa teve início em 2004, com treinamento inicial de apenas dois funcionários utilizando um pequeno projeto teste. Após um ano do início da implantação, todos os projetos da empresa já eram desenvolvidos em BIM e todos os 40 (quarenta) arquitetos do escritório já haviam sido treinados.

Entre os principais benefícios proporcionados pelo BIM no escritório, o autor destaca melhorias na quantidade e qualidade das visualizações e imagens, facilidade na coordenação de projetos, economia de tempo e motivação da equipe a partir da identificação das facilidades apresentadas pelo software. Diminuiu-se a carga horária de arquitetos principiantes e estagiários aumentando as horas de arquitetos plenos e coordenadores de projeto. Como o número total de horas por projeto diminuiu, houve redução de custos mesmo com aumento da carga horária de profissionais mais caros.

66

Outra grande vantagem identificada pelo escritório foi a centralização da informação em um arquivo único onde todas as modificações ocorrem de forma automática em plantas, vistas e cortes, ao contrário dos inúmeros desenhos 2D que precisavam ser modificados um a um. Apesar das informações estarem contidas em um modelo único, os projetistas podem trabalhar de forma simultânea, cada um desenvolvendo diferentes partes do modelo.

Birx (2006) destaca que o BIM mudou a forma de projetar uma vez que diminuição do tempo gasto com desenhos técnicos e representações gráficas permite que os projetistas dediquem mais tempo aos detalhes de projeto, contribuindo para o aumento da qualidade do projeto. Além disso, o BIM possibilitou que o escritório gerasse novos produtos como estimativas de custo, quantitativos, e imagens, garantindo novas fontes de lucro para a empresa.

O autor cita a contribuição do BIM na educação de jovens arquitetos, uma vez que a tecnologia exige respostas rápidas e entendimentos dos diversos parâmetros envolvidos na construção. Se antes o trabalho dos arquitetos recém-formados estava baseado em aprender a desenhar, hoje a partir do uso do BIM estes jovens profissionais irão aprender a projetar de fato. Além disso, o software BIM permite que os arquitetos mais experientes acompanhem de perto o trabalho executado pelos novatos.

Como principais problemas enfrentados na transição para a nova tecnologia, Birx (2006) destaca: o grande tempo a ser despendido com treinamentos, não utilização dos softwares por outros projetistas e pelo contratante, a necessidade de complementação e maior desenvolvimento dos softwares e a dificuldade na contratação de mão-de-obra especializada.

O autor destaca que o ideal seria que o contratante, projetistas e consultores, também utilizassem o formato BIM. Em 2006, dois anos após o início da implantação do BIM, o escritório ainda precisava transformar os desenhos para arquivos 2D de forma que pudessem ser abertos por outros intervenientes do projeto.

67

3.7.4 Suermann e issa, 2007

O trabalho de Suermann e Issa (2007) apresenta as percepções de alguns stakeholders da indústria de AEC americana com relação aos impactos do BIM na construção. Para o estudo, foram realizados levantamentos junto aos membros do comitê National BIM Standard (NBIMS) Facility Information Council (FIC) do National Institute of Building Sciences (NIBS). A pesquisa foi realizada através de questionários enviados por e-mail e disponibilizados na web. Os 50 (cinqüenta) entrevistados avaliaram os impactos do uso do BIM de acordo com seis indicadores de performance comumente utilizados na indústria da construção: qualidade (incluindo retrabalho), custo global, segurança, prazo, unidades/homem hora e custo/homem hora.

Os participantes atribuíram valores de 1 a 5 a cada indicador, sendo computada a porcentagem de citações acima do nível 3. Os aspectos mais favoráveis indicados pelos entrevistados foram qualidade (90%), prazo (90%) e custo global (84%). Posteriormente unidades/homem hora (76%) e custo por unidade (70%). Poucos demonstraram percepção com aumento de segurança (46%). Os participantes também deveriam fazer um ranking dos indicadores e a ordem resultante, do mais relevante para o menos relevante, foi: 1) qualidade, 2) prazo 3) unidades/homem hora 4) custo por unidade 5) custo global e 6) segurança.

3.7.5 Manning e Messner, 2007

Manning e Messner (2007) apresentam um panorama do uso do BIM em dois projetos na área de saúde.

O primeiro caso aborda um projeto com parte da equipe na Europa e parte nos Estados Unidos. Por questões de projeto, o cliente optou por redesenhar o projeto inicial buscando melhores soluções. Os primeiros desenhos feitos em CAD consumiram 350hs em 24 meses, enquanto que seu redesenho em software BIM foi realizado em 214hs em 44 dias. Houve, portanto, uma redução de 39% do tempo, e a equipe conseguiu gerar muito mais detalhes do que os últimos 3 (três) anos do projeto tinham sido capazes de produzir.

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Os autores destacam que a facilidade de gerar levantamentos de quantitativos facilitou bastante a formulação de estimativas de custo. No projeto inicial em 2D esse serviço não foi realizado pela equipe de projeto, em função do imenso trabalho e tempo necessário para calcular e recalcular os quantitativos além da grande responsabilidade a ser assumida pelo fornecimento de uma informação gerada a partir de métodos imprecisos.

Outro ponto destacado no estudo diz respeito às mudanças de projeto. Os autores observaram que havia uma barreira de colaboração interna na equipe de projeto para realização de modificações nos desenhos. Com as atualizações automáticas proporcionadas pelo BIM esse problema estava acabado.

Um dos grandes benefícios proporcionados pelo BIM no projeto foi a possibilidade de conversão de unidades que facilitou a comunicação entre as equipes da Europa e Estados Unidos que facilmente convertiam seus desenhos para as unidades utilizadas em cada país.

O segundo caso apresenta um projeto de retrofit. O BIM foi utilizado para gerar um modelo inicial da edificação existente sobre o qual eram discutidas as propostas de modificações. As visualizações 3D oferecidas pelo BIM facilitaram a comunicação com os clientes e usuários, proporcionando embasamento para a tomada segurança de decisões. Estima-se que o uso do BIM economizou cerca de 100 homens/horas na realização do projeto. A modelagem economizou cerca de 20% do tempo necessário para realização do projeto, reduzindo custos em aproximadamente 62%. O estudo demonstrou que mesmo a equipe sendo novata no uso do BIM, não tendo conhecimento pleno de todas as suas ferramentas e possibilidades, a utilização apenas dos componentes básicos proporcionou o alcance de ótimos resultados evidenciando inúmeras vantagens do uso da nova tecnologia quando comparada aos sistemas tradicionais.

4 ESTUDOS DE CAMPO

4.1 INTRODUÇÃO

Para formulação dos estudos de campo foram selecionados escritórios de arquitetura localizados nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. O primeiro passo foi identificar as empresas usuárias efetivas da tecnologia BIM. Tal levantamento foi realizado a partir de contato junto a revendedores e centros de treinamento dos softwares. Houve certa dificuldade nessa etapa inicial, uma vez que alguns revendedores, alegando sigilo profissional, se recusavam a fornecer o contato de seus clientes. Utilizou-se também a REDE BIM BRASIL como agente facilitador para o contato com os escritórios de São Paulo e Curitiba.

Assim, obteve-se uma lista inicial com cerca de trinta empresas. Nesse momento, verificou-se que alguns escritórios, mesmo investindo na compra de programas e treinamento de pessoal, ainda não utilizavam amplamente os softwares. Seria interessante também avaliar essas empresas para entender o que dificultava a implantação das novas ferramentas.

Desta forma, foi desenvolvido um questionário com perguntas chaves, voltado tanto para as empresas que já haviam implantado efetivamente a tecnologia como para as que estavam iniciando esse processo. As questões propostas foram definidas a partir da prática da autora no uso de software BIM, de conversas preliminares com usuários, da análise de referencial teórico sobre o tema e de estudos de caso desenvolvidos por outros autores. O questionário foi criado como um formulário eletrônico, onde o entrevistado preenchia os campos no próprio arquivo digital. Os primeiros itens tinham como objetivo obter informações descritivas sobre os entrevistados, caracterizando as empresas. As demais questões buscavam traçar um panorama da implantação do BIM nos escritórios buscando identificar:

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a) Estágio de implantação do BIM

b) Dificuldades na implantação

c) Por que a empresa buscou a nova tecnologia

d) Vantagens e desvantagens do BIM

e) Abrangência de utilização nas etapas de projeto

f) Mudanças identificadas:

-Equipe de projeto;

-Prazo de projeto;

-Qualidade de projeto;

-Produtos finais gerados;

-Qualidade da apresentação.

As questões propostas apresentavam-se no formato de múltipla escolha permitindo mais de uma reposta, sem número máximo de marcações.

Foi realizado um teste preliminar do questionário, aplicado inicialmente em apenas um escritório, a partir do qual foram realizados alguns pequenos ajustes. Após a finalização do documento foi feito um contato inicial por telefone com as empresas previamente selecionadas e o questionário foi enviado por e-mail para os escritórios nos meses de agosto e setembro de 2008.

Nesse primeiro contato algumas empresas alegaram que, mesmo tendo adquirido o software BIM, não tinham intenção de empregá-lo. A compra do software BIM sem objetivo de empregá-lo pode estar atribuída à prática comercial de um determinado fornecedor que ofereceu pacotes CAD com aplicativo BIM incluído, sem aumento de custo. Ficou constatado também que alguns escritórios utilizavam os softwares apenas como ferramenta de desenho 2D, não explorando a parte BIM dos programas.

71

Após os contatos iniciais houve uma resposta de 10 (dez) empresas. Esses primeiros resultados foram compilados, sendo organizados em gráficos para uma análise preliminar.

Com objetivo de complementar a pesquisa e confirmar os dados coletados, foi necessário um retorno aos entrevistados buscando esclarecer algumas questões e desenvolver pontos não contemplados no levantamento inicial.

Desta forma, o NITCON realizou em outubro de 2008, no IAB-RJ, uma reunião sobre o uso da tecnologia BIM com o objetivo de promover uma discussão sobre o tema a partir da apresentação dos resultados parciais da pesquisa, dando um retorno aos escritórios pesquisados e enriquecendo a pesquisa com novos dados.

Com objetivo de ampliar a participação de interessados os convites para o evento foram distribuídos pela mala direta do IAB, com cerca de 45 (quarenta e cinco) inscritos e larga penetração na categoria. Estiveram presentes nesse encontro cerca de trinta participantes, entre eles, pesquisadores da UFF, representantes de seis escritórios colaboradores da pesquisa, um escritório de projeto estrutural, uma construtora, entre outros.

Essa reunião foi muito importante pois permitiu discutir os resultados da pesquisa e abordar com mais profundidade as perguntas levantadas no questionário. Além disso, os escritórios puderam partilhar suas experiências e expor suas principais dificuldades de modo extenso e livre. Os participantes se demonstraram muito entusiasmados, havendo interesse unânime pela manutenção de contato por meio virtual e futuramente com a promoção de novos encontros. O sucesso deste evento deixa clara a relevância do tema e a necessidade de abertura de novos canais de discussão sobre a implantação do BIM em escritórios de projeto.

As idéias dispostas na reunião agregaram imenso valor às informações recolhidas nas entrevistas. Finalizando o levantamento de dados, novas respostas foram somadas aos resultados, totalizando 13 (treze) empresas pesquisadas.

Os resultados obtidos foram compilados e analisados. Por fim, houve a formulação das conclusões dos estudos, identificando pontos destacados e questões a serem aprimoradas.

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A figura 10 ilustra resumidamente o processo para elaboração dos estudos de campo:

o processo para elaboração dos estudos de campo: Figura 10. Metodologia dos estudos de Campo 4.2

Figura 10. Metodologia dos estudos de Campo

4.2 CARACTERIZAÇÃO DAS EMPRESAS

Os escritórios de arquitetura pesquisados situam-se nas cidades do Rio de Janeiro (7 empresas), São Paulo (5 empresas) e Curitiba (1 empresa). São empresas de pequeno porte, tendo 69,23% delas até 15 funcionários. 2 (figura 11)

2 Provavelmente as empresas que não responderam a esse questionamento omitiram tal informação porque adotam práticas de contratação informais. Talvez tivesse sido mais conveniente denominar “colaboradores permanentes” ao invés de “funcionários” mas, este ponto não surgiu no momento de aplicação do teste.

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73 Figura 11. Caracterização das empresas – Número de Funcionários Quanto ao estágio de implantação do

Figura 11. Caracterização das empresas – Número de Funcionários

Quanto ao estágio de implantação do BIM, conforme pode ser observado na figura 12, no momento da pesquisa 46,15% dos escritórios utilizavam a tecnologia em um projeto piloto ou uma equipe de projeto, 23,08% utilizavam na maioria dos projetos e outros 23,08% já utilizavam em todos os projetos. As figuras 13 e 14 apresentam o ano de aquisição dos softwares e o tempo que a empresa utiliza o software efetivamente.

softwares e o tempo que a empresa utiliza o software efetivamente. Figura 12. Estágio de implantação

Figura 12. Estágio de implantação do software BIM

74

74 Figura 13. Ano de aquisição do software Figura 14. Tempo que a empresa utiliza efetivamente

Figura 13. Ano de aquisição do software

74 Figura 13. Ano de aquisição do software Figura 14. Tempo que a empresa utiliza efetivamente

Figura 14. Tempo que a empresa utiliza efetivamente o software

O estágio de implantação do software não necessariamente está relacionado ao tempo de uso dos aplicativos pelas empresas. Pode-se observar na tabela 2 que alguns escritórios, mesmo utilizando a tecnologia há pouco tempo (menos de um ano), já se arriscam a empregá-la na maioria ou em todos os projetos (empresas 6 e

10).

Como se pode verificar na tabela 2, o tempo entre a aquisição do programa e a sua efetiva implantação é relativamente curto. No entanto, não é possível afirmar que na maioria dos casos o uso se inicia pouco tempo após a aquisição do software.

75

Pelo contrário, existe um grande número de empresas que compraram os softwares e ainda não os utiliza amplamente. Segundo o arquiteto Luiz Augusto Contier (especialista vinculado a um determinado fornecedor para desenvolvimento do sistema presente na reunião realizada no IAB), em 2006 foram vendidas em São Paulo 600 licenças de determinado software BIM, no entanto, apenas seis escritórios estavam utilizando efetivamente o programa naquele ano.

Tabela 2. Caracterização da utilização dos softwares BIM

 

SOFTWARE

ADQUIRIDO

TEMPO DE

 

UTILIZADO

EM

USO

ESTÁGIO DE IMPLANTAÇÃO

     

1

ano e

 

Empresa 1

Revit

2006

6

meses

Uso piloto em 1 projeto ou equipe de projeto

   

antes de

4

anos e

 

Empresa 2

Revit

2006

8

meses

Uso em todos os projetos

Empresa 3

Revit

2007

 

1 ano

Uso piloto em 1 projeto ou equipe de projeto

Empresa 4

Revit

2008

8

meses

Uso piloto em 1 projeto ou equipe de projeto

Empresa 5

Revit

2008

 

Não usa ainda

Empresa 6

Revit

2008

5

meses

Uso na maioria dos projetos

     

1

ano e

 

Empresa 7

Revit

2006

8

meses

Uso piloto em 1 projeto ou equipe de projeto

Empresa 8

Revit

2006

2

anos

Uso piloto em 1 projeto ou equipe de projeto

   

antes de

   

Empresa 9

Revit

2006

4

anos

Uso na maioria dos projetos

Empresa 10

Revit

2008

7

meses

Uso em todos os projetos

     

2

anos e

 

Empresa 11

Archicad

2008

6

meses

Uso na maioria dos projetos

Empresa 12

Archicad

antes de

mais de

Uso em todos os projetos

2006

4

anos

Empresa 13

Revit

2008

3

meses

Uso piloto em 1 projeto ou equipe de projeto

4.3 RESULTADOS

4.3.1 Implantação do software

4.3.1.1 Porque ainda não implantou

Essa questão estava direcionada às empresas que estavam iniciando a implantação do software BIM. Os principais motivos alegados pelos escritórios dizem respeito à falta de tempo para implantação (25%) e a resistência à mudança de

76

software pela equipe (25%). A figura 15 demonstra os resultados alcançados nessa questão.

PORQUE AINDA NÃO IMPLANTOU

Incompatibilidade com parceiros de projeto 16,67% O software não se adequa ao trabalho desenvolvido 8,33%
Incompatibilidade com parceiros de projeto
16,67%
O software não se adequa ao trabalho desenvolvido
8,33%
Carência de profissionais especializados
8,33%
Resistencia à mudança de software pela equipe
25,00%
Custo elevado com treinamento de pessoal
0,00%
Custo elevado do programa
8,33%
Falta de infra-estrutura de TI
8,33%
Falta de tempo para implantação
25,00%
0%
5%
10%
15%
20%
25%
30%

Figura 15. Porque ainda não implantou

A implantação do BIM demanda tempo, por se tratar de uma ferramenta completamente nova que necessita aprendizado e adaptação. A resistência dos profissionais frente aos novos programas parece aceitável e decorre do intenso uso de programas CAD. No CAD existe grande preocupação com as formas de representação gráfica e as soluções de projeto podem ser adiadas para etapas futuras. O BIM exige que grande quantidade de informação seja inserida logo nas fases iniciais de projeto. Portanto, não se trata apenas de aprender novos comandos e ferramentas. A tecnologia BIM propõe uma nova forma de trabalhar e pensar o processo de projeto.

Como há poucos profissionais atualmente com domínio sobre os programas BIM (8,33%), torna-se essencial que as empresas ofereçam treinamento à equipe. Parar as atividades de um escritório para desenvolver cursos é tarefa complicada e necessita planejamento e recursos financeiros. Curiosamente, apesar da queixa em relação ao tempo necessário para implantação, não houve nenhuma citação relacionada ao custo elevado com treinamento de pessoal.

77

A incompatibilidade com parceiros de projeto também foi um item bastante citado (16,67%). O fato é que a revolução está se iniciando pelos escritórios de arquitetura e a tecnologia BIM ainda está sendo pouco utilizada por outros projetistas (instaladores, calculistas).

Existe certa preocupação dos escritórios com investimento em equipamentos para suportar os softwares (8,33%). Em geral os arquivos gerados nos programas BIM são muito grandes e exigem muita capacidade de processamento. Se o escritório for realizar trabalhos de renderização, por exemplo, vai realmente necessitar de uma máquina robusta. No entanto, é possível ter cada estação voltada para um tipo de trabalho, não sendo necessário que todas as máquinas possuam alta configuração. Além disso, existem alguns “truques” adotados pelos projetistas para deixar os arquivos mais leves. Mas esta ainda é uma questão que preocupa os usuários.

Alguns escritórios alegaram que o software não se adequa ao trabalho desenvolvido (8,33%). Este ponto foi citado por empresas que afirmam não trabalhar com projetos que seguem um mesmo “padrão”. Desta forma, os arquitetos acabam levando muito tempo modelando componentes que são exclusivos daquele determinado projeto e que não poderão ser aproveitados em outros trabalhos. Tal aspecto pode estar relacionado também ao baixo nível de industrialização da construção no Brasil, com poucos componentes pré-montados ou pré-fabricados. Disso resulta uma escassez de produtos ofertados em bibliotecas BIM obrigando o projetista a suprir essa deficiência do setor.

4.3.1.2 Porque buscou a tecnologia

O principal motivo apontado pelos entrevistados para terem buscado a tecnologia BIM, diz respeito a melhorar a qualidade do projeto, com menos erros (21,28%) (figura 16). O uso do BIM permite a melhoria do projeto com diminuição de erros uma vez que antecipa as definições de projeto, e desta forma evita problemas em etapas futuras, onde as modificações costumam gerar conseqüências maiores. A facilidade de visualização através de inúmeros cortes, vistas e perspectivas também contribui para a geração de soluções de projeto mais inteligentes.

78

Outras respostas bastante citadas pelos entrevistados foram: facilitar modificações de projeto (17,02%), diminuir prazo de entrega de projeto (17,02%), reduzir a carga horária por projeto (14,89%) e melhorar/facilitar a apresentação dos projetos (12,77%).

A tecnologia BIM permite que as modificações de projeto sejam realizadas

facilmente através da parametrização dos objetos. Aliado a isso, a geração automática de vistas e cortes indica uma possível redução de trabalho. Com isso, os escritórios esperam diminuir o prazo de entrega a partir da redução da carga horária despendida em cada projeto.

A apresentação de projetos pode ser melhorada com relação ao CAD, uma

vez que o BIM facilita a adequação das escalas, tamanhos de textos e indicações.

Além disso, é possível gerar perspectivas de maneira rápida e apresentá-las de forma bastante profissional ao cliente.

As pouquíssimas citações quanto à exigência do cliente (2,13%) demonstram que construtoras e demais contratantes não estão cobrando a utilização da tecnologia pelos prestadores de serviço. A busca pela implantação do BIM está partindo dos escritórios, visando a melhoria de seus processos.

PORQUE BUSCOU A TECNOLOGIA

Melhorar / facilitar apresentação dos projetos 12,77% Melhorar a qualidade do projeto (menos erros) 21,28%
Melhorar / facilitar apresentação dos projetos
12,77%
Melhorar a qualidade do projeto (menos erros)
21,28%
Facilitar modificações de projeto
17,02%
Complexidade dos projetos trabalhados
8,51%
Reduzir a carga horária por projeto
14,89%
Diminuir prazo para entrega de projeto
17,02%
Exigência do cliente
2,13%
Outros
6,38%
0%
5%
10%
15%
20%
25%

Figura 16. Porque buscou a tecnologia

79

4.3.1.3 Treinamento dado pela empresa

Em 84,62% dos casos pesquisados houve treinamento de funcionários em software BIM fornecido pela empresa. Tal fato pode ser reflexo da pequena oferta de cursos de especialização em BIM mas certamente está intimamente relacionado a formação profissional defasada nas universidades.

4.3.2 Uso de softwares

Um dos aspectos destacados na pesquisa foi a continuidade de utilização do Autocad pelas empresas que trabalham com software BIM. Contier defendeu na reunião que é interessante que as empresas continuem utilizando o acervo DWG que já possuem. Segundo o arquiteto, certos detalhes construtivos, por exemplo, não precisam ser modelados, uma vez que já existem em DWG e funcionam quase como padrão para qualquer projeto. Além disso, para deixar o arquivo BIM mais leve alguns escritórios costumam usar blocos 2D do CAD no modelo BIM.

A tabela 3 demonstra a utilização dos softwares de acordo com as etapas de projeto desenvolvidas pelos escritórios:

Tabela 3. Utilização de softwares conforme etapas de projeto

 

Não

 

BIM

 

Outros

costuma

 

Não usa, mas pretendo usar nos próx. 6 meses

softwares

Etapas de Projeto

fazer essa

Outros

mais

etapa

Uso

utilizados

         

Autocad

Estudo de viabilidade

11%

37%

11%

42%

Sketchup

         

Autocad

Estudos preliminares

0%

53%

6%

41%

Sketchup

         

Autocad

Anteprojeto

0%

50%

11%

39%

Sketchup

Projeto Legal

0%

56%

11%

33%

Autocad

Projeto Executivo

0%

47%

18%

35%

Autocad

Projeto para Produção

13%

40%

20%

27%

Autocad

80

4.3.3 Troca de informações de Projeto

Grande parte dos escritórios (44,44%) utiliza arquivos DWG para troca de informações de projeto. Como visto anteriormente os softwares CAD continuam sendo muito usados pelos escritórios. Além disso, os arquivos DWG são utilizados para troca com os demais projetistas (calculistas, instaladores) que não estão trabalhando amplamente com a tecnologia BIM. As construtoras também costumam solicitar a entrega dos arquivos salvos em DWG. Além disso, como os programas BIM ainda apresentam algumas falhas e dificuldades, muitas vezes o desenho gerado em BIM é complementado em programas CAD.

Os arquivos PDF e DWF apresentaram boa contribuição na pesquisa (25,93% e 14,81%, respectivamente) o que pode ser um indício de preocupação com direitos de autoria do projeto ou decorrente de práticas mais avançadas na comunicação com o cliente (figura 17).

Arquivos IFC não receberam nenhuma citação. Acredita-se que com o crescimento na utilização dos programas e suas possibilidades haverá aumento do uso desse padrão no Brasil.

TROCA DE INFORMAÇÕES DE PROJETO

Arquivos proprietários (.rvt, .pln, .mcd, .dgn) 7,41% Arquivos IFC 0,00% Arquivos DWG 44,44% Arquivos DXF
Arquivos proprietários (.rvt, .pln, .mcd, .dgn)
7,41%
Arquivos IFC
0,00%
Arquivos DWG
44,44%
Arquivos DXF
3,70%
Arquivos PDF
25,93%
Arquivos DWF
14,81%
Outros
3,70%
0%
10%
20%
30%
40%
50%

Figura 17. Formatos utilizados na troca de informações de projeto

81

4.3.4 Vantagens do BIM

As principais vantagens reconhecidas na tecnologia BIM dizem respeito à diminuição de erros de desenho (14,29%), facilidade nas modificações de projeto (14,29%) e visualização 3D facilitada (14,29%). Tais aspectos vão ao encontro de algumas das motivações mais citadas pelas empresas pesquisadas que decidiram implantar a tecnologia (ver Por que buscou a tecnologia).

Com o BIM os erros de desenho diminuem uma vez que a parametrização de objetos permite a correção automática de cortes e vistas. Além disso, não há preocupação com numeração de desenhos e pranchas, espessura de linhas e tamanho de textos.

A visualização 3D permite trabalhar com uma representação do edifício bem próxima da realidade, possibilitando ao arquiteto experimentar inúmeras soluções de projeto. No CAD o projeto feito em 2D dificultava a visualização do resultado final. Do mesmo modo, essa facilidade na geração de um modelo 3D permite um melhor entendimento do projeto pelo cliente.

VANTAGENS DO BIM

10,71% 0,00% 14,29% 10,71% 10,71% 14,28% 14,28% 9,52% 9,52% 4,76% 1,19% 2,5% 5,0% 7,5% 10,0%
10,71%
0,00%
14,29%
10,71%
10,71%
14,28%
14,28%
9,52%
9,52%
4,76%
1,19%
2,5%
5,0%
7,5%
10,0%
12,5% 15,0%

0,0%

Possibilidade de simulações

Melhora na troca de informações entre projetistas

Visualização 3D facilitada

Geração automática de quantitativos

Maior foco no projeto e menor preocupação nas formas de representação gráfica.

Facilidade nas modificações de projeto

Diminuição de erros de desenho

Facilidade na passagem para nova etapa de projeto Maior agilidade de desenho que softwares tradicionais Geração de mais detalhes e informações de projeto

Outras

Figura 18. Vantagens do BIM

82

Outra vantagem indicada pelos entrevistados diz respeito ao maior foco no projeto e menor preocupação com as formas de representação gráfica (10,71%). Contier destaca que os softwares BIM permitem um retorno ao ato de projetar de modo pleno. Segundo o arquiteto, o CAD é uma ferramenta que apresenta abstração, com inúmeros comandos, funcionando de forma artificial a partir de representações em 2D. O BIM oferece a oportunidade de modelar o espaço e trabalhar com objetos, definindo composição de paredes, portas e outros elementos, sem abstração. Permite pré-construir virtualmente e testar o edifício. Assim, torna-se mais fácil de trabalhar que o CAD, pois oferece elementos que qualquer arquiteto conhece. Nos programas BIM, não há preocupação com tamanhos de textos e escalas e, cotas e áreas são geradas de forma automática. Isso permite ao arquiteto concentrar-se no ato de projetar, tornando o desenho apenas uma conseqüência desse processo.

Outra resposta bastante citada foi a geração automática de quantitativos (10,71%). Em geral as construtoras contratam um profissional para realizar levantamentos de quantitativos que serão utilizados na composição de orçamentos. Essas quantificações demandam tempo e podem apresentar muitos erros. A geração automática desses dados pelo software BIM, permite que tais informações sejam emitidas pelo próprio escritório de arquitetura juntamente com a entrega do projeto, tornando-se um serviço a mais que pode ser oferecido ao cliente agregando valor aos produtos gerados pelo escritório.

Não houve citação com relação à melhoria na troca de informações entre projetistas uma vez que não está ocorrendo uso do BIM pelos demais projetistas de complementares. Observa-se que apesar dos escritórios desenvolverem o projeto de arquitetura em modelo BIM, o arquivo acaba sendo repassado para os projetistas de complementares em DWG, perdendo inúmeras informações e todo o potencial do BIM na parametrização de dados. Ao mesmo tempo torna-se difícil incorporar as informações dos projetistas repassadas em DWG ao modelo BIM. Desta forma, percebe-se que não está ocorrendo a criação plena do modelo, que fica restrito às informações de arquitetura.

83

4.3.5 Dificuldades do BIM

A principal dificuldade indicada pelos entrevistados está relacionada ao custo

elevado do software (25%). Cabe ressaltar que, geralmente, é preciso adquirir uma

licença do software para cada máquina.

Outra

questão

bastante

citada

diz

respeito

ao

tempo

necessário

para

treinamento de pessoal (18,75%) (ver Por que não implantou).

DIFICULDADES DO BIM

Dificuldades no próprio software 12,50% Tempo necessário para treinamento de pessoal 18,75% Tamanho dos arquivos
Dificuldades no próprio software
12,50%
Tempo necessário para treinamento de pessoal
18,75%
Tamanho dos arquivos gerados
15,63%
Falta de compatibilidade com outros programas
9,38%
Não adaptado aos padrões brasileiros de construção
9,38%
Custo elevado do software
25,00%
Incompatibilidade com exigências do cliente
0,00%
Outras
9,38%
0%
5%
10%
15%
20%
25%
30%

Figura 19. Dificuldades do BIM

O tamanho dos arquivos gerados (15,63%) foi outra dificuldade apontada. Ao

utilizar informação demais no projeto o arquivo realmente fica muito pesado 3 Os

projetistas precisam avaliar o nível de detalhe a ser apresentado e suprir as informações desnecessárias.

(12,50%) diz respeito à

trabalhabilidade do programa. Há certa preocupação de alguns escritórios,

O

item

dificuldades

no

próprio

software

3 Apesar dos arquivos gerados em BIM terem um tamanho razoável, cabe ressaltar que eles centralizam uma série de informações que estariam segregadas em inúmeros arquivos CAD cuja soma de tamanhos certamente ultrapassaria o tamanho do arquivo BIM.

84

acostumados a trabalhar com desenho de forma quase artesanal, com relação ao pouco controle sobre o desenho oferecido pelos softwares BIM.

Outro fator identificado foi a falta de compatibilidade com outros programas (9,38%). As empresas afirmaram que há uma imensa dificuldade na troca de arquivo entre os diversos programas e até mesmo na conversão do arquivo BIM para DWG. Além disso, alguns usuários reclamaram de dificuldades que muitas vezes ocorrem nas trocas de arquivo entre diferentes versões do mesmo software (Outras 9,38%).

Algumas empresas apontaram como desvantagem a falta de adaptação dos softwares aos padrões construtivos nacionais (9,38%). Acreditava-se inicialmente que este seria um dos grandes problemas identificados pelos escritórios na tecnologia BIM. No entanto, a pesquisa demonstrou que as empresas não apresentam grande preocupação com esse ponto. Quanto à disponibilidade de componentes, Contier afirma que muitas vezes não há necessidade de possuir uma biblioteca muito grande de famílias, já que no dia-dia do escritório utiliza-se um número reduzido delas. Além disso, como a maior parte dos projetos trabalha com o mesmo padrão, uma vez criado um modelo ele acaba sendo replicado em inúmeras situações. O arquiteto acredita que os escritórios não reclamam da falta de famílias porque alguns modelos em 3D são semelhantes as peças utilizadas aqui no Brasil, e para representação em planta, pode-se usar os blocos 2D do CAD.

4.3.6 Mudanças identificadas

4.3.6.1 Equipe de Projeto

A maioria da empresas afirma que não houve alteração na equipe de projeto com a utilização do BIM (66,67%). Apenas 25% dos escritórios apontaram que houve redução na equipe para a mesma carga de projeto (figura 20).

85

EQUIPE DE PROJETO

Mudou perfil c/ mais estagiários

Mudou perfil c/ menos estagiários

Foi reduzida para mesma carga de projeto

Foi ampliada para mesma carga de projeto

Não houve alteração

0,00% 8,33% 25,00% 0,00% 66,67% 0% 25% 50% 75%
0,00%
8,33%
25,00%
0,00%
66,67%
0%
25%
50%
75%

Figura 20. Mudanças identificadas – Equipe de projeto

4.3.6.2 Prazo de Projeto

Um aspecto curioso da pesquisa foi a não redução no prazo de projeto (72,73%) na grande maioria das empresas pesquisadas, aspecto apontado por algumas pesquisas e apregoado pelos fornecedores de softwares (figura 21). Alguns escritórios afirmam que realmente não houve redução de prazo de projeto, mas o BIM propiciou ganho de tempo na fase concepção e a geração de novos produtos e serviços antes não oferecidos ao cliente.

PRAZO DE PROJETO

Foi ampliado

Foi reduzido

Não houve

alteração

0,00% 27,27% 72,73% 0% 25% 50% 75% 100%
0,00%
27,27%
72,73%
0%
25%
50%
75%
100%

Figura 21. Mudanças identificadas – Prazo de projeto

86

Tabela 4. Relação entre tempo de uso do BIM e principais mudanças identificadas

   

PRODUTOS FINAIS

TEMPO DE USO

EQUIPE DE PROJETO

PRAZO DE PROJETO

GERADOS

Empresa 1

1

ano e 6 meses

Não houve alteração

Não houve alteração

Mais informações

Empresa 2

4

anos e 8 meses

Foi reduzida

Foi reduzido

Mais informações e Novos produtos

Empresa 3

 

1 ano

Não houve alteração

Não houve alteração

Não houve alteração

Empresa 4

 

8

meses

Não respondeu

Não respondeu

Não respondeu

Empresa 5

iniciando implantação

Não respondeu

Não respondeu

Não respondeu

Empresa 6

 

5

meses

Foi reduzida

Não houve alteração

Mais informações e Novos produtos

Empresa 7

1

ano e 8 meses

Não houve alteração

Não houve alteração

Mais informações

Empresa 8

 

2

anos

Não houve alteração

Não houve alteração

Mais informações e Novos produtos

Empresa 9

 

4

anos

Não houve alteração

Não houve alteração

Mais informações e Novos produtos

Empresa 10

 

7

meses

Não houve alteração

Não houve alteração

Mais informações

Empresa 11

2

anos e 6 meses

Foi reduzida

Foi reduzido

Mais informações e Novos produtos

Empresa 12

mais de 4 anos

Não houve alteração

Foi reduzido

Mais informações e Novos produtos

Empresa 13

 

3

meses

Não respondeu

Não respondeu

Não respondeu

Observa-se na tabela 4 que algumas empresas que utilizam o software há mais tempo (empresas 2, 11 e 12) alcançaram a redução do prazo de projeto, o que não é unânime visto que a empresa 9 já utiliza o BIM há 4 (quatro) anos e não obteve esta redução.

Uma possibilidade é que a redução de prazo não seja aplicada mas haja redução de carga horária aplicada. A não redução de prazo pode estar atribuída à alteração de escopo, com os projetistas agregando novos produtos (perspectivas, vistas 3D, etc.) ou pode também ser explicada pela demanda de modelagem dos objetos, conforme já apontado anteriormente.

87

4.3.6.3 Qualidade de Projeto

No que se refere à qualidade do projeto, uma das mudanças mais significativas identificada pelos escritórios foi a diminuição de erros de projeto (21,21%). Esse ponto foi destacado anteriormente como um dos principais motivos pela busca da tecnologia e como uma das principais vantagens reconhecidas no BIM.

Outro item bastante citado está relacionado à antecipação de problemas de projeto (21,21%). Conforme já relatado, para formulação do modelo BIM torna-se necessário resolver grande parte das questões projetuais logo nas etapas iniciais de projeto, antecipando a solução de problemas.

A facilidade para definir soluções de projeto (18,18%) pode ser atribuída à visualização 3D, que permite identificar facilmente as diversas interfaces do projeto. Além disso, a possibilidade de geração de uma infinita quantidade de cortes e vistas contribui para o estudo das soluções.

QUALIDADE DO PROJETO

Diminuição de erros de projeto 21,21% Antecipação de problemas de projeto 21,21% Facilidade para definir
Diminuição de erros de projeto
21,21%
Antecipação de problemas de projeto
21,21%
Facilidade para definir soluções de projeto
18,18%
Geração de maior número de detalhes
12,12%
Facilidade na compatibilização dos projetos
12,12%
Diminuição de mudanças nos projetos
9,09%
Não houve alteração
6,06%
0%
5%
10%
15%
20%
25%

Figura 22. Mudanças identificadas - Qualidade do projeto

4.3.6.4 Produtos finais

Quanto aos produtos finais gerados muitos escritórios afirmam que o BIM possibilita a geração de mais elementos de projeto em cada etapa (37,50%).

88

Conforme citado anteriormente, o BIM permite a geração de inúmeros cortes, vistas e esquemas que podem ser apresentados logo nas etapas iniciais de projeto. Além disso, com a antecipação das soluções, as etapas de projeto ficam mais completas, contendo informações anteriormente disponibilizadas nas etapas posteriores (25%).

Alguns escritórios destacam que o uso do BIM permitiu a geração de novos produtos antes não executados pela empresa (29,17%). Assim, os escritórios fornecem ao cliente serviços de levantamento de quantitativos, imagens, vídeos, entre outros. Isso diversifica o trabalho da empresa, abrangendo seu campo de atuação.

PRODUTOS FINAIS GERADOS

Etapas de projeto mais completas, com informações anteriormente disponibilizadas somente nas etapas posteriores

Geração de mais elementos de projeto em cada etapa (ex. cortes, vistas, etc.)

Geração de novos produtos antes não executados pela empresa (ex. perspectiva, levantamento de quantitativos, etc)

Execução de novas etapas de projeto antes não realizadas pela empresa

Não houve alteração

25,00% 37,50% 29,17% 4,17% 4,17% 0% 10% 20% 30% 40% 50%
25,00%
37,50%
29,17%
4,17%
4,17%
0%
10%
20%
30%
40%
50%

Figura 23. Mudanças identificadas – Produtos finais gerados

4.3.6.5 Qualidade da apresentação

Avaliando a qualidade da apresentação, muitas empresas afirmam que o BIM propicia maior padronização das formas de representação gráfica (28%). Como o BIM não trabalha com layers, os elementos são organizados por tipologia (parede, porta) o que condiciona a melhoria na organização das informações de projeto (20%). Além disso, a visualização 3D facilitada acarreta na melhoria de entendimento do projeto pelo cliente (24%).

89

QUALIDADE DA APRESENTAÇÃO

Maior padronização das formas de representação

Melhoria na organização das informações do projeto

Melhoria no entendimento do projeto pelo cliente

Melhoria no entendimento do projeto por outros projetistas

Não houve alteração

28% 20% 24% 16% 12% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30%
28%
20%
24%
16%
12%
0%
5%
10%
15%
20%
25%
30%

Figura 24. Mudanças identificadas – Qualidade da apresentação

4.4 QUESTÕES LEVANTADAS / NECESSIDADES IDENTIFICADAS

4.4.1 Criação de um padrão para uso do BIM

Uma das necessidades destacadas pelas empresas pesquisadas é o estabelecimento de um padrão para uso do BIM. Todo escritório possui um template de trabalho, um arquivo onde deve estar salvo aquilo que é comum em todos os projetos: tipos de paredes, tabelas vazias, estilos de visualização, entre outros. Desta forma, pode ser criado um padrão a ser utilizado por todos os escritórios, disponibilizado pelas empresas que desenvolvem os softwares. A criação deste padrão deve ocorrer de maneira cooperativa, como foi criado o padrão CAD da ASBEA (ASBEA, 2002), por exemplo. O ideal é que esse padrão seja desenvolvido pelos arquitetos, pensado em termos de projeto, antes que seja imposto por construtoras e outros. Ele deve ser construído de forma consensual, com a participação de toda cadeia produtiva. Especialistas acreditam que as empresas de softwares poderão adaptar seus programas ao constatarem que haverá retorno financeiro. Assim um template com padrões e nomenclaturas brasileiros poderá ser criado a partir da demanda, com o aumento do número de usuários no país.

90

4.4.2 Autoria de projetos

Com o BIM surge a idéia de que se forneceria o modelo ao cliente, que vai administrar o prédio e inserir novas informações ao longo do ciclo de vida da edificação. Ao entregar o modelo, no entanto, de certo modo entrega-se a “autoria” do projeto. Há de se diferenciar o serviço de desenvolvimento do projeto do edifício do desenvolvimento dos “objetos” nele inseridos. Hoje a remuneração do projeto não inclui este último desenvolvimento, mas nada impede que os objetos sejam reutilizados pelo contratante. Com isso é preciso encontrar uma forma de trabalho em que os direitos do arquiteto sobre o projeto sejam resguardados. Outra questão levantada está relacionada à responsabilidade de projeto. Ao inserir uma família com informações completas e detalhadas do sistema de um objeto (uma porta, por exemplo) torna-se necessário identificar se a responsabilidade pelas informações geradas é do projetista ou do fabricante.

4.4.3 Nível de Informações de projeto

As informações necessárias sobre componentes variam conforme a fase do projeto, o que leva à necessidade de versões variadas do mesmo objeto. O ideal seria ter vários níveis de desenho do mesmo objeto, um com todas as informações e detalhes e outras versões mais simplificadas. Além disso, uma vez que é possível modelar tudo, deve haver uma clara definição do escopo de projeto determinando os elementos contidos em cada etapa de projeto e seus diferentes níveis de detalhamento.

Outro ponto analisado diz respeito à contribuição dos fabricantes em termos de informação nesses novos padrões de modelagem. Acredita-se que os fabricantes irão desenvolver os componentes de acordo com as necessidades identificadas pelos arquitetos. Além disso, foi constatado na pesquisa que diversos atributos disponíveis nos softwares não estão sendo utilizados (preço, por exemplo). Mesmo outros parâmetros importantes nem sempre estão presentes, obrigando o projetista a complementar a modelagem dos objetos.

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4.4.4 Como ganhar mais com projetos em BIM?

Os projetos estão melhores e com maior conteúdo de informações. Uma das questões colocadas pelos escritórios é como fazer o cliente reconhecer a qualidade dos projetos desenvolvidos com o BIM e como ser remunerado por isto. Alguns escritórios afirmam que não cobram um valor superior, mas acabam ganhando com novos produtos que não geravam antes (imagens, levantamento de quantitativos, entre outros). Aparentemente, os clientes podem perceber o valor agregado por estes novos produtos, mas existe certa dificuldade na avaliação do aspecto qualitativo do projeto como, por exemplo, a redução de conflitos.

4.4.5 Ensino do BIM

A universidade como berço da inovação tecnológica não pode ficar estática diante da revolução que se apresenta e deve contribuir na formação de profissionais preparados para o mercado de trabalho futuro. Quanto ao ensino dos programas nas universidades, Contier acredita que as duas tecnologias (CAD e BIM) devem ser ensinadas já que o CAD é uma realidade de mercado e o BIM é uma tendência de mercado. Além disso, como o uso do BIM exige maiores conhecimentos projetuais do arquiteto, o ensino de arquitetura deverá estar focado na formação de profissionais completos e não apenas meros desenhistas. Torna-se essencial a inserção de disciplinas e programas baseados no ensino do BIM, difundindo conhecimentos relativos tanto a operação dos softwares quanto ao entendimento do processo de projeto colaborativo decorrente do seu uso. Do mesmo modo é preciso investir em novas pesquisas e na qualificação e atualização de professores.

4.5 CONCLUSÕES DOS ESTUDOS DE CAMPO

Os principais motivos apontados para busca de utilização da tecnologia BIM dizem respeito à diminuição de erros de projeto e aumento de qualidade. A pesquisa indica que esses resultados estão sendo alcançados pelos escritórios de arquitetura analisados.

A maioria dos escritórios não indica redução de prazo de projeto com a utilização do BIM. Acredita-se que essa redução poderá ocorrer com o aumento do uso da tecnologia, com a maior adaptação dos profissionais aos softwares e com a

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inserção efetiva dos demais projetistas e agentes no processo como um todo. Da mesma forma, apesar de não indicarem diminuição de prazo, pode ter ocorrido diminuição de carga horária dos arquitetos. Tal fato acabou não sendo contemplado nas respostas obtidas, talvez em decorrência de uma formulação equivocada da questão proposta.

Observa-se na pesquisa que, o BIM propiciou um aumento da quantidade de informações disponíveis nos projetos realizados. Além disso, houve a geração de novos produtos antes não oferecidos ao cliente, como levantamentos de quantitativos e imagens 3D.

Outro ponto a ser destacado é que o edifício, em todas as suas especialidades, não está sendo modelado de fato. O uso do BIM ainda encontra-se muito restrito aos escritórios de arquitetura. A compatibilização de projetos que pode ser facilitada, ajudando na diminuição de erros e facilitando as soluções de projeto, na verdade ainda ocorre nos moldes tradicionais do CAD.

Os softwares ainda precisam evoluir no que diz respeito a interoperabilidade. Muitas informações de projeto se perdem com a realização de trocas de arquivo em diversos formatos. A utilização da extensão IFC deve ser estimulada, facilitando a troca de informação entre os agentes do processo.

5 CONCLUSÕES

Entre os principais resultados alcançados nesse trabalho pode-se destacar a formulação de um diagnóstico da implantação da tecnologia BIM em escritórios de arquitetura brasileiros, a partir da análise de empresas no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. Embora a amostra pareça diminuída, acreditamos que ela seja representativa dos escritórios que utilizam a tecnologia.

O referencial teórico inicialmente desenvolvido permitiu o entendimento das

correlações existentes entre o processo de projeto, a tecnologia da informação e as

questões gerenciais. Tais elementos encontram-se intimamente ligados sendo afetados diretamente quando algum deles sofre alteração. Portanto, qualquer aspecto a ser modificado torna necessária a avaliação dos outros dois pontos por ele influenciados, buscando adaptações para que as melhorias sejam alcançadas de forma mais abrangente. Também fica evidenciado neste trabalho que o investimento em novas tecnologias da informação e ferramentas de gestão são aspectos essenciais na busca pela melhoria dos processos, a fim de suprir o grande atraso produtivo da indústria da construção civil frente a outras indústrias.

A pesquisa realizada sobre a tecnologia BIM foi baseada no treinamento

prático da autora, na busca de referencial teórico sobre o assunto e na análise de estudos de caso já desenvolvidos por outros autores, proporcionando uma compreensão do funcionamento dos softwares e das possibilidades de seu uso. A avaliação de experiências internacionais, a partir da leitura de estudos de casos, permitiu verificar os resultados alcançados em outros países, servindo como importante fonte de embasamento para o desenvolvimento de uma pesquisa específica no Brasil.

O desenvolvimento de estudos de campo nas empresas brasileiras proposto

neste trabalho possibilitou traçar um panorama da adoção da tecnologia BIM no

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país, identificando as vantagens obtidas e as dificuldades enfrentadas pelos escritórios de projeto que se lançaram na busca da modernização de seus processos a partir da implantação dos novos softwares. No decorrer da formulação dos estudos foi realizado um encontro com interessados pelo tema, onde a ampla participação dos usuários deixou claro o imenso interesse de escritórios e projetistas para que novos canais de discussão sejam abertos buscando encontrar soluções para uma melhor adaptação da tecnologia na indústria de AEC brasileira.

A partir da análise dos estudos de campo conclui-se que a implantação da tecnologia BIM no Brasil ainda encontra-se em fase bastante preliminar. Seu uso ainda é restrito a escritórios de arquitetura. As empresas contratantes ainda não estão exigindo a utilização da tecnologia. As construtoras ainda estão começando a enxergar as reais vantagens oferecidas pelos projetos desenvolvidos em BIM e a sua influência positiva sobre os demais processos da construção. Com a cobrança maior por parte desses clientes, os escritórios não terão como evitar essa evolução. Nesse momento, acredita-se que as empresas que hoje estão se aventurando na implantação do BIM estarão a frente no mercado.

Aliado a esses fatores, verifica-se que os softwares ainda estão sendo subutilizados, uma vez que poucas informações relativas a outros integrantes do processo e da cadeia produtiva estão sendo agregadas ao modelo. A tecnologia está sendo usada mais como ferramenta de desenho e como facilitadora do processo de projeto dentro do escritório de arquitetura, não atingindo diretamente outros processos ligados a produção do edifício. É preciso que haja maior participação de fornecedores e clientes no processo como um todo para que maiores vantagens sejam alcançadas com a tecnologia. Fica claro que a questão da integração dos projetos precisa avançar para que se garantam maiores lucros de tempo e ainda mais qualidade no projeto.

5.1 SUGESTÕES DE TRABALHOS FUTUROS

Espera-se que este trabalho incentive o desenvolvimento de novos estudos em busca de uma adaptação da tecnologia aos padrões nacionais, facilitando a expansão de sua utilização.

Algumas sugestões para o desenvolvimento de trabalhos futuros:

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1- Avaliar de que forma o uso do BIM pode influenciar efetivamente o produto final, o edifício construído;

2- Analisar os diversos aspectos de relacionamento do BIM com os demais processos de produção do edifício (planejamento, gerenciamento da construção, etc.);

3- Desenvolver estudos que promovam melhoria nos softwares e a questão da interoperabilidade;

4- Criação de um padrão brasileiro através de um referencial normativo, seja a partir de norma ABNT, seja através da ASBEA;

5- Propor diretrizes para a implantação do BIM em toda a cadeia produtiva da indústria de AEC;

6- Desenvolver modelos para que as empresas implantem mais facilmente a tecnologia;

7- Relacionar as fases de projeto e o uso da metodologia de projeto BIM.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS