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Luzes apagadas
De Manjula Padmanabhan
Tradução de Manoela Wolff

Personagens:
Frieda
Bhasker
Leela
Mohan
Naina
Surinder

Uma nota para a personagem de FRIEDA: ela permanece constantemente à vista, fazendo
seus deveres de uma maneira muda e sem exigências. Os outros personagens não prestam
atenção nela exceto para lhe dar ordens. Quando ela está fazendo nenhuma tarefa específica,
ela pode ser vista se movendo pela cozinha. Ao público deve ser permitido imaginar o que ela
pensa.

CENA UM

Levanta-se a cortina revelando a área de estar-jantar de um apartamento de sexto andar em um prédio em


Bombay. A decoração é indistintamente classe média alta. O ponto focal do espaço é uma ampla janela para os
fundos, com suas cortinas fechadas. Através delas, o público pode ver o céu e apenas uma sugestão do telhado de
um prédio vizinho, ainda não pintado. Durante a primeira cena, o céu míngua do lusco-fusco para noite.
Um sofá e duas poltronas estão em primeiro plano, parcialmente obscurecendo a mesa de jantar que ocupa a
área entre a sala de visitas e a janela. Há uma modesta área de bar dividindo os dois espaços. A cozinha e a
entrada principal para o apartamento estão ao lado esquerdo do palco. Ao lado direito fica a entrada para o
quarto principal.
Apenas o primeiro plano está iluminado, enquanto Frieda tira o pó dos objetos no divisor-de-salas-com-bar.
Ouve-se o som da porta da frente sendo aberta. Frieda se endireita imediatamente e se move em direção à
cozinha enquanto Bhasker entra, chaves em uma mão, pasta e o Evening News na outra. Ele vai direto
para o sofá, jogando a pasta e as chaves. Retém o jornal, começando a sacudi-lo e lê-lo enquanto afrouxa a
gravata e se prepara para sentar no sofá.

BHASKER: Frieda? (uma vez acomodado) Frieda! (não espera uma resposta). Onde está meu chá?

Ela aparece da cozinha, já carregando a bandeja, completa com o abafador de chá e uma xícara, caminhando
lentamente. Leela aparece na porta do quarto à direita do palco. Ela parece não ter trocado o seu cafetã desde a
manhã. Ela fica parada encarando Bhasker, tensa de ansiedade. Mas ele está imerso em seu jornal e não a
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percebe.

LEELA (movendo-se em direção a ele): Oh…! Bhasker -

BHASKER (sem tirar os olhos do jornal): Oi.

LEELA (quando já está mais perto dele): Me conte!


BHASKER (sem tirar os olhos do jornal): Mm?

LEELA (senta ao lado dele): Você… fez?

Frieda acomoda a bandeja de chá em uma mesa baixa ao lado do sofá. Ela se curva, servindo o chá, já
misturado com leite, nas xícaras. Adiciona açúcar e mexe. Quando acaba, volta para a cozinha. Suas
atividades passam despercebidas pelos outros dois.

BHASKER (absorvido em seu jornal): Mm.

LEELA (encara-o e então enterra a cabeça nas mãos): Não! Você não fez!

BHASKER: O quê?

LEELA: De novo?

BHASKER: De novo o quê?

LEELA: Como você pôde esquecer? (levanta a cabeça para o encarar).

BHASKER (seu olhar está preso ao jornal): Huh?

LEELA (cheia de lágrimas): Eu desejava que eu pudesse!


BHASKER: Pudesse o quê?

LEELA: Esquecer?

Uma pausa durante a qual Bhasker alisa as páginas do jornal.

LEELA: Você não pode tentar agora?

BHASKER (finalmente abaixando o jornal): Tentar o quê?

LEELA: A polícia. Ligar pra polícia.

BHASKER (faz uma careta): Ah, pelo amor de deus! (voltando ao jornal). Você ainda está
preocupada com aquilo?
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LEELA: O tempo todo!

BHASKER: Olha - o que você quer que eu faça?

LEELA: Liga pra eles - você disse que ligaria!

BHASKER: Mas não tem por quê!

LEELA: Você tentou?

BHASKER: Não. (tenta concentrar-se no jornal)

LEELA (de repente): Você não se importa, não é mesmo!

BHASKER: É claro que sim -

LEELA: Você não se importa com o que eu sinto, com o que eu passo todo dia!

BHASKER (colocando o jornal para baixo): Querida, eu -

LEELA: Eu me sinto amedrontada. Durante todo o dia, eu me sinto tensa -

BHASKER: Mas não há nada do que se ter medo! Eles não podem te machucar-

LEELA (ignorando-o): Primeiro era só na hora em que estava acontecendo. Depois, assim que
escurecia. Depois, na hora do chá, quando as crianças chegavam em casa da escola. Depois no
meio do dia, quando quer que a campainha tocasse. Depois, de manhã, quando eu mandava as
crianças para a escola. E agora - do momento em que eu acordo…

BHASKER: Ah, convenhamos! Você está exagerando!

LEELA: Não estou! É como uma bola dura, apertada, bem… aqui (ela segura a garganta)
BHASKER (parecendo preocupado): Dor? Você está com dor?

LEELA: Meu medo, é - como se minhas entranhas tivessem sido atadas.

BHASKER: Você já foi ver o médico?

LEELA: Eu carrego essa coisa comigo o dia todo. Às vezes é como um xale que se enrola em
meus ombros e eu começo a tremer.

BHASKER (colocando o braço em volta dela): Calma, calma, calma.

LEELA (bajulando-o): Você não pode chamar a polícia? Por mim?


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BHASKER (afastando-se): Não.

LEELA: Mas por que não?

BHASKER: Nós discutimos isso antes -

LEELA: Eu sei, eu sei - você me disse que eles não estão interessados em casos como esses,
eles não se importam com pequenos delitos menores - mas – mas – eu estou com medo! Você
não consegue ver? Isso não é suficiente?

BHASKER: Vá dizer à polícia que você está com medo de barulhos no prédio ao lado! Eles
vão rir na sua cara!

LEELA: Eu já não deixo as crianças saírem mais.

BHASKER: Elas farão seus deveres de casa!

LEELA: Quando você estava fora viajando, eu não conseguia dormir à noite! E com todas as
janelas fechadas, todas as cortinas puxadas, com algodão nos meus ouvidos - o som ainda
passava! Mesmo no quarto das crianças, do outro lado da casa, eu conseguia ouvir!

BHASKER: Mas não é tão alto. Você está imaginando -

LEELA (apertando os braços em volta de si mesma): E eu estou com medo, eu estou com medo!

BHASKER (tentando segurá-la outra vez) Acalme-se, agora, acalme-se. Realmente não vale tudo
isso.

LEELA (mudando de rumo): Você sabe o que a Sushila disse?

BHASKER: Nenhuma ideia (claramente perdendo o interesse. Procura ao redor pelo jornal.)

LEELA: Que nós somos parte do… do que acontece lá fora. Que por assistir, nós estamos
nos tornando responsáveis-

BHASKER (encontra o jornal): Bobagem!

LEELA: Foi o que eu disse de início! Mas então…

BHASKER (começa a ler): Sushila é uma tola.

LEELA: Nós nem mesmo realmente assistimos, assistimos? Eu quero dizer, eu não. Pausa.
Mas… você assiste! Você assiste!

BHASKER (distraído, não olhando para ela): Sim. Quero dizer, eu assisti. Uma ou duas vezes.
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LEELA: E é… terrível?

BHASKER: Sim. Terrível.

LEELA (tocando as orelhas pateticamente): Eu não preciso nem assistir! Os sons são ruins o
suficiente! (pausa) E… você tem certeza que nós não podemos chamar a polícia? Agora mesmo,
só uma vez?

BHASKER (exasperado, baixando novamente o jornal): Leela, se nós ligássemos agora, o que
diríamos?

LEELA (animada): Nós podíamos contar pra eles tudo! Que tem um prédio em construção ao
lado e que toda noite no complexo…

BHASKER: Espere! Primeiro eles nos perguntariam, ‘Qual é a reclamação?’ e nós teríamos
que dizer -

LEELA: Que nós estamos com medo! Que nós estamos gravemente perturbados!

BHASKER: Não, isso não é suficiente, você não vê? Se a polícia tivesse que se preocupar com
coisas como essa eles seriam psiquiatras, não policiais.

LEELA: Nós podemos contar-lhes que vemos um crime sendo cometido!

BHASKER: Mas não está ocorrendo agora -

LEELA: Nós podemos dizer que aconteceu a noite passada!

BHASKER: Mas aí eles nos perguntariam, ‘Por que vocês não nos ligaram ontem à noite?’

LEELA: Nós podíamos dizer que… que nós só agora conseguimos nossa conexão
telefônica...

BHASKER: E eles diriam, ‘Senhora, seu bairro tem telefones desde 1968!’ E em todo caso - e
os vizinhos?

LEELA: O quem têm eles?

BHASKER: Por que eles não reclamaram?

LEELA: Talvez eles tenham?

BHASKER: Huh! Neste caso, a polícia obviamente ignorou as reclamações! Então por que nós
deveríamos gastar um telefonema?
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LEELA: Mas qual é o mal em tentar?

BHASKER: Eu não quero correr o risco, é só isso.

LEELA: Talvez nós possamos organizar alguma coisa - todos juntos -

BHASKER (aborrecido): Uff! Quem tem tempo pra tudo isso!

LEELA: Mas todos estão falando sobre isso…

BHASKER: Todos quem?

LEELA: Kummu, Picky, Tara, a senhora Menon, Nini…

BHASKER: E o que elas estão fazendo sobre isso?

LEELA: Bem… elas estão…

BHASKER: Certo! Preocupando-se e importunando seus maridos!

LEELA: Ninguém quer fazer isso sozinho.

BHASKER: Huh! Então por que nós deveríamos?

LEELA: Porque… porque eu estou com medo! Eu não posso mais suportar isso!

BHASKER: Querida, do que você tem medo? Quem ousaria te machucar?

LEELA: Mas eu posso ouvi-los…

BHASKER (como para uma criança): Mas sons não podem te machucar…

LEELA: Oh, mas eles machucam, aqueles sons feios e sujos…

BHASKER: Então feche os ouvidos, vê? Assim - (coloca as mãos sobre as orelhas dela). Aí está!
Assim está melhor?

LEELA (debatendo-se dentro do seu meio-abraço): Mas os sons deles vêm pra dentro, pra dentro da
minha casa agradável e limpa, e eu não posso empurrá-los para fora! (para de se debater.) Se ao
menos eles não fizessem tanta algazarra, eu não me importaria tanto! (Pausa durante a qual
Bhasker a embala gentilmente) Por que eles têm que fazer isso aqui? Por que não podem ir para
qualquer outro lugar?

BHASKER (inspirando profundamente): Leela, a coisa a se fazer é não deixar que eles te
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perturbem desse jeito. Finja que eles não estão lá…

LEELA: Mas como? Eu não posso evitar ouvi-los! Eles são tão - tão barulhentos! E rudes! Como
eu posso me fazer de surda apenas para eles!

BHASKER (soltando-a): Mas veja - Eu não sou surdo e eu não sou perturbado por eles!

LEELA: Eu não entendo como você faz isso -

BHASKER: Eu não sei, realmente. Eu não os permito, eu suponho. É o que eles querem,
você vê, eles querem te aborrecer, eles querem te amedrontar, e - você não vê?- quando você
fica com medo você está jogando o jogo deles, fazendo o que eles querem…

LEELA: Mas como eu posso apenas parar! Eu não quero me sentir desse jeito! Quem
gostaria?

BHASKER: Algumas pessoas poderiam gostar. Quem sabe?

LEELA: Bem, eu não. Eu me sinto horrível, eu me sinto enjoada. Eu mal consigo comer, eu
me sinto tão enjoada.

BHASKER: Você precisa aprender a relaxar. A coisa mais importante é não ceder a eles.

LEELA: Eu não consigo relaxar. Não enquanto isso estiver acontecendo toda noite!

BHASKER: Olha - faria diferença para você se eu ligasse para a polícia?

LEELA: Sim! Ah sim, faria! Realmente faria.

BHASKER: Farei o seguinte - Eu ligarei pra eles hoje à noite, enquanto está acontecendo.
Afinal, não é como filme ou algo do gênero, não há garantia de que acontecerá hoje à noite!

LEELA: Eu tenho certeza que vai - é claro! Por que pararia hoje à noite? (pausa) E - e eles vão
vir, não vão?

BHASKER: Quem?

LEELA: A polícia. Eles certamente virão?

BHASKER: Quem sabe? Afinal -

LEELA: Não, nem mesmo diga, eu não vou aguentar se eles não vierem!

BHASKER: Você nunca sabe com a polícia nos dias de hoje. Eles podem dizer que não tem
nada a ver conosco, o que acontece no complexo vizinho. Afinal, tem o vigia…
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LEELA: Mas ele foi subornado! Você mesmo disse!

BHASKER: Nós não sabemos disso de fato. Era só uma ideia.

LEELA: Talvez ele esteja com medo também?

BHASKER: Talvez ele goste!

LEELA: Ah não! Não isso! Ninguém poderia!

BHASKER: Por quê? Algumas pessoas gostam…

LEELA: Ninguém poderia apreciar coisas tão horríveis!

BHASKER: Exceto aqueles envolvidos…

LEELA: Oh, se ao menos eu pudesse ter certeza de que a polícia virá!

BHASKER: E os donos daquela construção? Realmente, é responsabilidade deles, é isso que a


polícia poderia dizer…

LEELA: Mas os donos não estão lá. O prédio recém foi construído - certamente qualquer um
pode ver isso? Tem todos os quartos e janelas e luzes, mas não há ninguém vivendo lá ainda,
então não há ninguém para assistir o que acontece ali. Exceto nós.

BHASKER: E o vigia.

LEELA: Quando a polícia vier eles poderão ver o quão terrível é tudo isso, como isso tem
invadido as nossas vidas, nossos lares, como nós não podemos receber convidados para jantar
-

BHASKER: Não seja boba! É claro que podemos!

LEELA: Mas nós não temos recebido, não por duas semanas -

BHASKER: Eu estive longe e as crianças tinham exames…

LEELA: Não! É isso. Eu não consigo imaginar deixar mais alguém ver tudo isso.

BHASKER (respira profundamente e precipita-se adiante): Bem - de qualquer maneira. Tem alguém
vindo hoje à noite.

LEELA: O que?! Você - você chamou alguém?


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BHASKER: Sim. Mohan -

LEELA: Mohan? Mohan quem?

BHASKER: Mohan Ram, lembra dele? De Delhi?

LEELA: Quem? Ah… Seu amigo de Delhi! (pausa, então pânico repentino). Mas - o que faremos
em relação a...?

BHASKER: Nós apenas manteremos a janela fechada, as cortinas puxadas e colocaremos


alguma música. Aliás, por que não colocamos música agora mesmo - (começa a levantar-se).

LEELA (agarrando-o) Não! Não! O som vai me deixar tensa, eu não consigo suportar nenhum
som mais!

BHASKER: Leela, Leela - você não deve reagir assim, você não vê?

LEELA: Não, eu não vejo!

BHASKER: É isso que eles querem, essas pessoas!

LEELA: Ah, mas por quê? Por que fariam isso? Eles não me conhecem! O que eu fiz pra eles?

BHASKER: Meu bem, você deve aprender a ignorar isso agora, eu insisto.

LEELA: Mas - eu não consigo! Você não vê isso?

BHASKER: Faça alguma meditação. Isso sempre ajudou você.

LEELA: Não funciona mais.

BHASKER: Você provavelmente não está se concentrando o suficiente -

LEELA: Eu estou. Eu estou me concentrando com toda a minha força - mas não funciona -

BHASKER: Por que você não vai ver seu professor de yoga novamente?

LEELA: Se demanda tanto esforço ignorar alguma coisa, não é a mesma coisa que não a
ignorar?

BHASKER: Não, porque no seu caso, ao não ignorá-la, você está sendo perturbada, e isso é
errado. Você não deve deixar coisas te perturbarem. O que o seu professor de yoga disse? Que
a sua mente deve ser como uma-?

LEELA: Como uma fresca, limpa poça d’água, através da qual meus pensamentos conseguem
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nadar sem obstáculos - mas não funciona! Eu já tentei!

BHASKER: Eu tenho certeza de que você não estava se concentrando o suficiente!

LEELA: Eu estava, eu realmente estava. Eu fiz exatamente o que o meu guruji me disse. Eu
sentei em uma almofada, ali junto à janela e eu tornei minha mente um espaço em branco. Eu
pensei em uma parede branca, com nada escrito nela. E eu pensei no cosmos, e na minha
respiração, entrando (ela inspira bruscamente)... e saindo (ela expira)... entrando… e saindo…
entrando… e saindo. E em minha mente eu disse… Om… de novo e de novo… Om…
Om… até que a minha mente se tornou absolutamente quieta, absolutamente calma… Om…
Om… Om… (Assim que ela começa a entrar em um estado calmo tipo-transe, Bhasker, com óbvio alívio,
silenciosamente volta para o seu jornal. Por alguns segundos tudo que se ouve é o som da meditação de Leela e o
ocasional farfalhar do jornal. De repente a campainha toca estridentemente) Ahhh! (saindo do transe em um
tranco violento) Qu-quem é! O que - o que está acontecendo? Frieda? Oh!

BHASKER (derruba o jornal, conforta-a): Aqui, aqui, vamos - pare!

Frieda aparece da cozinha caminhando em direção à porta com um balde para leite, contando trocados na mão.

BHASKER: É apenas o leiteiro! Veio buscar seu dinheiro!

Frieda acerta as contas na porta e retorna para a cozinha, ainda contando os trocados.

LEELA (meio-soluçando): Você vê? Você vê? É isso que acontece, é por isso que eu não consigo
meditar! Tem sempre alguma coisa vindo e me perturbando!

BHASKER: Shhh, shhh, agora! Nós teremos que tentar de novo hoje à noite, enquanto a
coisa está de fato acontecendo.

LEELA (com medo): Eu estou ficando louca?

BHASKER: É claro que não! Apenas excessivamente sensível, só isso -

LEELA: E quem consegue meditar com aquele barulho horrível lá fora!

BHASKER: Mas esse é o momento, não é? Você deve ter a habilidade de barrar qualquer tipo
de distração, especialmente enquanto está acontecendo. Caso contrário - qual o objetivo?

LEELA: Eu… Eu suponho que você esteja certo. Eu só terei que tentar mais arduamente
(mudando de rumo). Seu amigo, Mohan, ele ficará para o jantar?

BHASKER: Ah - só faça algo simples -

LEELA: Tem as sobras desta tarde - arroz, dal -


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BHASKER: O que for - eu quero dizer, ele não é exigente (alonga-se, bocejando). Mmhh! O que
você acha de … parathas?

LEELA (levantando-se): Eu vou ver o que a Frieda acha -

A luz diminui.

CENA DOIS

Leela, vestida para a noite, segurando um drink, senta no sofá. Ela olha o relógio com ansiedade. Bhasker está
perdendo tempo com o sistema de som no divisor-de-salas-com-bar. A campainha toca, sobressaltando Leela,
fazendo-a derramar a bebida. Bhasker vai até a porta, abre-a.

BHASKER: Mohan! (vai para o lado) Olá, olá -

MOHAN: Olá - (entra)

BHASKER: Venha! (Fecha a porta atrás de si.)

MOHAN: Desculpem o atraso (pausa, vendo Leela).

BHASKER: Sem problema! Venha - você conhece minha esposa? Leela?

Mohan acena uma saudação, e assim que Leela o reconhece, força-se a sorrir.

MOHAN: Sim -

LEELA: É claro que nos conhecemos!

MOHAN: E como você está? (parado formalmente enquanto Bhasker hesita atrás dele).

LEELA: (com um sorriso afetado): Ah… bem! (com um gesto, convida-o a sentar.) E você?

MOHAN: Bem também, obrigado (procurando em volta por Bhasker).

BHASKER: Preparo um drink?

MOHAN: Apenas um pequeno!

LEELA: Você não vai sentar?

MOHAN: Obrigado, sim (se encosta na poltrona mais próxima, mas olha para onde Bhasker está)

LEELA: Então? Quando você chegou?


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MOHAN: Oh, ontem (distraído por Bhasker)

BHASKER: O que vai ser?

MOHAN: O de sempre - só um pequeno-

LEELA: De manhã?

MOHAN (para Leela): Sim -

BHASKER: Soda?

MOHAN (para Bhasker):... obrigado - e gelo… obrigado (Bhasker acena, preparando também o seu
drink. Mohan dá a volta na cadeira e senta, sorrindo brilhante para Leela) Então? Estou tentando me
lembrar qual a última vez que nos encontramos -

LEELA (tensa): Uh…Um ano atrás? Em abril?

MOHAN: E… como estão as crianças?

LEELA: Dormindo - é claro!

MOHAN (levanta a sobrancelha): ‘É claro’?

Bhasker chega com os drinks, alcança um a Mohan.

MOHAN: Obrigado - na medida -

Bhasker dá a volta no sofá.

LEELA (empurrando uma tigela de amendoins para Mohan): Por favor! Sirva-se -

MOHAN: Claro! (serve-se). E como vocês estão?

LEELA: Nós temos nossos próprios -

BHASKER: Ahh - é tão agradável te ver aqui, Mohan… Então? Saúde!

LEELA (incerta): Saúde…

MOHAN: Saúde!

Eles tomam um gole dos seus drinks. Leela se recosta, tensa, olha o relógio. Mohan a vê. Há um silêncio após
o qual cada um deles abre a boca para dizer algo, causando a irrupção de envergonhados risos abafados. Leela
transforma o dela em uma tosse. Bhasker olha para Mohan no lado oposto, Leela olha novamente o relógio, de
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relance.

MOHAN (limpa a garganta): Bem! Então - quando começa?

LEELA (encolhendo-se): O qu-O quê?


BHASKER (sem expressão): Por volta da hora do jantar.

LEELA (com os olhos saltando do rosto): Você - você contou pra ele?

BHASKER (suavemente): Querida, eu tive que - afinal, ele está fadado a perceber, quando
começar -

LEELA: Mas então - por que ele veio! (virando-se para Mohan) Por que você veio, sabendo que
algo horrível aconteceria?

MOHAN: Ah - mas eu insisti!

BHASKER: Ele queria ver -

LEELA: Você queria ver!

MOHAN (impenitente): Claro! Por que não?

LEELA (ela não está se divertindo): Mas por quê! Por que ver essas coisas terríveis a não ser que
você seja obrigado!

MOHAN: Bem, eu estava - curioso.

LEELA: Sobre tais coisas!

MOHAN (mais seriamente): Eu quero dizer, com que frequência você pode parar e assistir a
(rápida olhadela para Bhasker) um crime sendo cometido bem na sua frente?

BHASKER: Normalmente, você está próximo demais…

MOHAN: Você poderia acabar se machucando…

BHASKER: Ou você chega alguns minutos mais tarde e vê apenas os resultados.

MOHAN: Ou está acontecendo com alguém que você conhece e você precisa se envolver…

BHASKER: Ou é perturbador demais pra assistir.

MOHAN: Mas isso! Longe o suficiente para não se envolver, e perto o suficiente para ver
tudo claramente. Ou é o que Bhasker me diz.
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BHASKER: Oh, sim… Você consegue ver.

LEELA: Mas é tão amedrontador - você não vai ficar com medo?

MOHAN: Quem, eu? Não! De quê?

LEELA: Deles! Eles são tão terríveis, as coisas que eles fazem.

MOHAN: Mas eles estão tão distantes, como eles podem me machucar?

LEELA: Até mesmo os sons deles me machucam.

BHASKER: Minha Leela é muito sensível!

MOHAN: Oh, eu entendo - afinal, não é exatamente algo para uma mulher.

LEELA (consternada): Vocês também não deveriam assistir, vocês sabem! Vocês realmente não
deviam!

MOHAN: Mas - por que não? Qual é o mal em assistir?

BHASKER (com um sorriso irônico): Alguém disse a Leela que assistir a um crime e não fazer
nada é estar - o quê? Envolvido nele você mesmo?

MOHAN: Huh! Ridículo!

BHASKER: Exatamente o que eu disse. Eles estão lá e você está aqui. Qual é a conexão?

LEELA: Sushila disse - se você pode parar um crime, você deve - caso contrário você está
ajudando ele a acontecer…

MOHAN (bufa ironicamente): Essa Sushila soa como uma intelectual!

BHASKER: E ela é!

LEELA: Não, ela não é! Ela é minha amiga…

BHASKER: Ela fez mestrado em ciências políticas.

MOHAN: Isso o prova!

LEELA: De forma alguma, ela é muito gentil…

MOHAN: Esses intelectuais sempre reagem desse jeito, sempre confundem problemas
simples. Afinal, qual é o mal em simplesmente assistir alguma coisa? Mesmo quando há um
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acidente na rua, todos nós não viramos nossas cabeças para olhar?

LEELA: Eu nunca olho!

BHASKER: Mas Leela, supondo que você sofreu um acidente na estrada e ninguém olhou, e
daí? O que aconteceria a você? Como você conseguiria ajuda?

MOHAN: Sim - você vê? É antinatural não olhar. É antinatural não se envolver -

LEELA (gesticulando em direção à janela): Mas eu ficaria com medo demais para ir em auxílio
deles!

MOHAN: Quem falou em ajudar? Eu estou falando em olhar, isso é tudo -

BHASKER: Além do mais - você é quem quer que essa coisa pare…

LEELA (bastante firme sobre seu posicionamento): Eu quero que a polícia venha e tire eles daqui. Eu
não quero ir lá eu mesma!

MOHAN: Só olhar não é o mesmo que ir ajudar -

LEELA (desequilibrada): Bem… Mas e os gritos!

MOHAN: São gritos de socorro?

LEELA (virando para Bhasker): não são de socorro?

MOHAN: Ou são só generalizados? Isso importa, você sabe. Afinal - isso poderia ser só, você
sabe, drama -

BHASKER: Quem pode dizer! Com essas pessoas lá fora, ninguém pode dizer por que elas
fazem o que fazem!

MOHAN: E sobre os tipos de grito? Por exemplo - é apenas uma pessoa?

LEELA: Não… Bem… sim, eu acho.

MOHAN: Mas você não tem certeza?

LEELA: Não se trata disso-

MOHAN: Mas de qualquer forma, que tipo de grito é? Agudo? Histérico?

BHASKER: Você ouvirá você mesmo em um minuto. Por que perder tempo falando sobre
isso?
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MOHAN: Isso nos dá uma oportunidade de comparar a versão de Leela com a coisa real.

BHASKER: Mas é uma pessoa diferente toda noite, então como você pode fazer uma
comparação?

MOHAN: É uma pessoa diferente? Você tem certeza disso?

BHASKER (dá de ombros): Você sabe como é isso - todos eles lá fora parecem exatamente os
mesmos.

MOHAN: Então como você pode dizer que é uma pessoa diferente?

BHASKER: Bem, as roupas, você sabe…

MOHAN: Mmmm! É claro -

LEELA: Oh, eu só não quero ouvir sobre isso!

MOHAN: De qualquer forma, voltando à questão. Vamos nos restringir ao caso da noite
passada… era uma voz aguda?

LEELA: … Bem… Eu…

MOHAN: Ou pra colocar de forma diferente, havia nela uma ponta de histeria?

LEELA: Eu não saberia como histeria soa…

BHASKER: Leela viveu uma vida muito calma até agora - tudo isso é muito novo para ela!

MOHAN: ...Como eu devo descrever o que quero dizer? Havia… Okay! Era, por exemplo,
como a voz de uma cantora, aguda e doce? Era musical?

LEELA (decididamente): Não! De forma alguma! Na verdade - (para de repente)

MOHAN: Sim?

LEELA (acalmando-se): Na verdade, eu a achei tão horrenda e gorgolejante -

MOHAN: Gorgolejante?

LEELA: Sim, e rouca, como se… quem quer que fosse estivesse com um resfriado ou algo
assim.

MOHAN: Essa é uma pista importante. Talvez a vítima esteja sempre um pouco doente?
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BHASKER: Oh, eu não acho. Eu duvido disso.

MOHAN: O que o faz ter tanta certeza?

BHASKER: Elas todas parecem bastante saudáveis. Magras, mas saudáveis.

MOHAN: Então por que a rouquidão, o gorgolejo?

BHASKER: Bem, você sabe, depois que você está gritando por um tempo, eu acho… eu
quero dizer, talvez… uh… a garganta fique dolorida? É claro - eu não saberia realmente, eu
mesmo.

MOHAN: É claro.... mas, o que você sugere é, talvez o catarro se forme e então -

LEELA: Uff-oh! Como vocês podem falar dessas coisas!

BHASKER: E tem uma razoável quantidade de choro, você sabe, então lágrimas também,
além do catarro.

LEELA: Lágrimas? Você acha que eles estão realmente chorando?

BHASKER: Bem, sim, eu acho que sim. Soa como choro pelo menos.

MOHAN: Bem, bem, rouquidão, gorgolejo, choro - nós estamos conseguindo uma imagem
mais clara das coisas agora.

LEELA: E são gritos autênticos, então?

BHASKER: Bem, certamente eles parecem bem reais.

LEELA (com medo): E se eles estão realmente gritando por socorro, se é mesmo autêntico,
então… isso significa que nós mesmos devemos ir salvá-los?

MOHAN: Não, é claro que não. Nada está provado ainda, exceto que os gritos são, bem
possivelmente, autênticos. Ou ao menos soam autênticos…

LEELA: Certamente, se eles são, nós devemos ir?

MOHAN: B-e-m… (ainda não bem convencido do que está dizendo) não realmente - afinal, supondo
que os gritos são genuínos, mas eles não querem ajuda?

BHASKER (cético): Que tipo de situação produziria isso, você supõe?

LEELA (de forma infeliz): Eu acho que sempre que alguém realmente grita, deve ser por ajuda.
Do contrário - por que gritar?
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MOHAN: Oh, bem! Quanta ingenuidade! Pessoas gritam pelas mais variadas razões!

BHASKER (mudando de terreno): Porque elas estão com medo de pesadelos, por exemplo…

LEELA: Mas essas pessoas não estão dormindo!

MOHAN: Um barulho alto -

BHASKER: Ou às vezes pelo simples prazer!

LEELA (perdendo a esperança): Prazer? Não, isso não é por prazer -

MOHAN: Como sabemos?

LEELA (afobada): Porque… é tão… eu quero dizer… o choro, o gorgolejo - tudo soa tão
amedrontador, simplesmente não pode ser por prazer -

MOHAN: Bem, tudo certo, nós vamos descartar o prazer no momento. Entretanto… (pausa
para refletir);

LEELA: O que?

MOHAN: A menos que eles efetivamente chamem por ajuda, é nossa obrigação ir? Essa é a
questão!

BHASKER: Essas pessoas não dizem exatamente muitas palavras - é tudo bastante
inarticulado.

MOHAN: Afinal, pode ser algo privado, uma briga doméstica; como podemos intervir?

BHASKER: Não é provável que seja algo doméstico. Eu quero dizer… Eles têm todos
aproximadamente a mesma idade, eu diria, não são pais, nem jovens - e dificilmente há
qualquer conversa no todo -

MOHAN: De fato? Nenhuma?

BHASKER: Nós não ouvimos nada a não ser os gritos.

LEELA: Se fosse doméstico nós não precisaríamos intervir, não é?

MOHAN: Pessoalmente, eu sou contra me enredar na vida privada das outras pessoas.
Estranhos nunca podem realmente ser o juiz de quem está certo e quem está errado.

BHASKER: Mas isso dificilmente é privado!


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MOHAN: Bem… eu não sei - quero dizer, eu não gosto de me envolver. A menos, é claro…

LEELA: A menos o quê?

MOHAN (relutantemente): A menos, eu quero dizer, se for assassinato…

LEELA: Ah, mas isso não é assassinato!

MOHAN: Você tem certeza?

BHASKER: Não, não! Digo, a vítima está se contorcendo e se movendo mesmo no final.

MOHAN: Bem, então, a menos que seja assassinato, eu não acho que ninguém deva ficar
entre os membros de uma família.

BHASKER: E se fosse tortura, então?

MOHAN: Mmmm… bem, isso é muito mais difícil… afinal, o que vamos descrever como
tortura? É um termo muito vago, eu sempre senti.

LEELA: E eu não acho que seja tortura, de qualquer forma.

MOHAN: Como podemos ter certeza?

LEELA (estranhamente confiante): Bem, sempre há um propósito por trás da tortura, não é? Eu
quero dizer, a polícia ou alguma coisa, tentando conseguir informação de alguém… Eu digo,
não é apenas aleatório e repugnante, não é?

BHASKER: Geralmente… Mas aí eu me lembro de ter lido na revista Time muitos anos atrás,
sobre uma família que torturou alguém apenas pela diversão. Uma simples e simpática família
de classe-média Americana.

MOHAN: Imagine!

LEELA: Coisas tão horríveis acontecem na América!

BHASKER: Mas Leela está certa - eu também não acho que seja tortura.

MOHAN: Por que você diz isso?

BHASKER: Eu não sei, afinal, tortura, mesmo quando agrada aos torturadores, é
normalmente… de alguma forma… mais… qual é a palavra?

MOHAN: Digna?
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BHASKER: Não.. não…

MOHAN: Restrita? Refinada?

BHASKER: É mais próximo disso… mas-

MOHAN: Organizada? Controlada?

BHASKER: É isso, eu acho, controlada! Enquanto que, aqui, se sente que não há controle ou
decência em absoluto. Abandono selvagem é mais próximo.

LEELA (balançando a cabeça): É terrível.

BHASKER: E é muito exibicionista, você sabe, pra ser tortura real.

MOHAN: Exibicionista! Esse é um tipo de termo muito específico…

BHASKER: Sim… O que quero dizer é, torturadores normalmente trabalham em segredo,


não é?

MOHAN: Bem… não nos velhos tempos…

BHASKER: Exatamente - mas nestes dias você não consegue imaginar sair a céu aberto e
torturar alguém, consegue?

MOHAN: Enquanto que isso…

LEELA:... isso acontece em plena vista de três prédios!

MOHAN: Enquanto que isso…

LEELA: … na frente de decentes pessoas comuns como nós! Realmente, é terrível que tais
coisas sejam permitidas.

MOHAN: Vocês supõem que eles saibam que vocês podem ver?

LEELA: Bem - é claro!

MOHAN: Como você pode ter tanta certeza?

BHASKER: Eles nos pediram para desligarmos as luzes, afinal -

LEELA: Eles não teriam feito isso a não ser que quisessem que assistíssemos!

MOHAN: Pediram que desligassem as luzes? Tem alguém em contato com o porta-voz deles
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então?

LEELA (fazendo uma careta): Não, não! Quem falaria com essas criaturas?

BHASKER: Bem, não pediram, exatamente, mas -

LEELA: Todos os que deixaram as luzes acesas têm tido suas janelas quebradas.

MOHAN: Quebradas! Mas isso é terrível! Eles podem ser processados por isso!

BHASKER: Bem… ao menos uma pessoa teve a janela quebrada -

MOHAN: Apenas uma? Mas mesmo assim! Vocês devem reclamar sobre isso! É um ultraje!
Vocês devem chamar a polícia!

LEELA: A polícia? Bem - eu tenho implorado a Bhasker por dias…


BHASKER: Bem, eu só ouvi a história. Quem sabe se é verdade?

LEELA: E o carro daquele homem estava coberto com imundície!

BHASKER: Dizem que a esposa e os filhos dele foram ameaçados…

MOHAN: Mas como vocês sabem de tudo isso?

LEELA: Nós ouvimos, no prédio.

BHASKER: Você sabe como é nesses bairros - não dá pra manter segredo de ninguém -

MOHAN: Bem, bem! Isso muda as coisas, não muda!

LEELA (esperançosa): Por quê?

MOHAN: Eu digo, se eles vão ser agressivos, então onde fica a questão de ir em seu auxílio?

BHASKER: Mas Mohan - não são as vítimas que quebram as janelas -

MOHAN: E como você sabe disso?

BHASKER: Convenhamos! Por que as vítimas iriam querer que assistíssemos?

MOHAN: Elas podem pensar que vão conseguir ajuda mais rápido desse jeito.

BHASKER: Hmmm. Eu não tinha pensado nisso. De qualquer forma - é improvável.

MOHAN: Por quê?


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BHASKER: As vítimas estão geralmente sendo seguradas.

LEELA (estremecendo): Oh, eu odeio ouvir isso.

MOHAN: Seguradas?

BHASKER: Sim, pelos outros.

MOHAN: Que outros?

BHASKER: Eu quero dizer, você sabe, os agressores. Normalmente há uns quatro deles.

LEELA: Oh não! Eu não gosto mesmo que vocês falem sobre isso!

MOHAN (virando-se para Leela com interesse): Você realmente nunca viu?

LEELA: Eu? Não! Nunca! Como eu poderia? Isso me deixaria doente por semanas!

BHASKER: Então se as janelas são quebradas é pelos agressores.

MOHAN: A imagem está se tornando mais clara - então há vítimas diferentes todos os dias -

BHASKER: Você que o diga, nós não podemos ter certeza disso!

MOHAN: Eu achei, pelas roupas…?

BHASKER: Mas eles não estão completamente vestidos.

MOHAN: O quê?

LEELA: Você quer dizer que eles estão…

BHASKER: Nus. Eles normalmente estão nus.

LEELA: Oh - que repugnante, que terrível! Estar nu!

MOHAN: Ah sim, eu acho que você mencionou isso pra mim mais cedo - mas então, no que
a questão das roupas importa?

BHASKER: Eles começam vestidos e então começam a perdê-las.

MOHAN: Todos eles? Os agressores também?

BHASKER: Bem, os agressores arrancam as roupas da vítima e então, talvez em uma


excitação generalizada, tirem as suas próprias roupas também.
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LEELA: Oh, mas por que, por que estamos falando de tais coisas!

MOHAN: Mas Leela - nós devemos, do contrário como podemos saber se ajudamos ou não a
vítima?

LEELA: Oh -! (balançando a cabeça, desanimada)

MOHAN: E como são as roupas das vítimas?

BHASKER: Ah trapos e farrapos, normalmente -

MOHAN: Então você diria que as vítimas são, em geral, pessoas pobres?

BHASKER: Definitivamente!

LEELA: Isso não é terrível? Atacar os pobres?

MOHAN: Mas e os agressores? Eles também são pobres?

BHASKER: Eu quero dizer, eles não são ricos. As roupas deles são, você sabe, calças
rasgadas, camisetas, esse tipo de coisa -

MOHAN: Bem, enquanto forem pobres atacando pobres (ele se perde significantemente)... vocês
sabem como é… eles vivem a vida deles e nós a nossa.

LEELA (esperançosa): Então - nós não temos que fazer nada?

BHASKER (incerto): Ainda há o problema, vocês sabem, do porquê eles fazem isso dessa
forma, regularmente, sob as luzes e tudo.

MOHAN: Sim, essa é uma característica estranha. Mas - você sabe – acabo de me dar conta de
uma coisa (ele parece repentinamente animado).

BHASKER: O quê?

MOHAN: Há algum objeto de aparência estranha em volta, por um acaso?

BHASKER: Que pergunta curiosa!

LEELA: Por quê?

MOHAN: Eu quero dizer, algum tipo de, vocês sabem, pedras esculpidas, ou estatuetas, ou -
ou - qualquer coisa?

BHASKER (parecendo intrigado): Mmm… não que eu me lembre…


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LEELA: Mas por que você pergunta?

MOHAN: É só que - vocês sabem, todas as descrições, os gritos, o abandono selvagem, o


exibicionismo, sim, mesmo a nudez - vocês sabem o que isso poderia ser? Vocês sabem o que
explicaria tudo?

BHASKER & LEELA (juntos): Não, o quê?

MOHAN: Uma cerimônia religiosa! Ritos sagrados!

BHASKER: B-E-M (balançando a cabeça) Digo, certamente -

LEELA (bastante aflita): Não, não! É horrível demais!

MOHAN: Mas - vocês não vêem? Isso explicaria por que ninguém sai em auxílio das vítimas -
porque, é claro, se é algo religioso, ninguém pode interferir, nem mesmo a polícia.

BHASKER (considerando a questão): Isso é verdade, é claro. Se é religioso, então não há como
parar a coisa. Condição de liberdade religiosa e tudo isso.

MOHAN: Todos protestariam.

LEELA: Mas - mesmo quando não é… uma boa religião?

BHASKER: Ninguém mais pode dizer o que é ou não é bom. A religião dos outros é assunto
dos outros.

LEELA: Mas mesmo quando ela não soa correta?

MOHAN: Você vê, Leela, o que quero dizer é que se trata de uma questão de gosto. O que
soa celestial para uma pessoa pode soar infernal para outra!

LEELA: Mas os gritos? Se for genuíno?

MOHAN: Talvez para eles é isso que soa celestial! Quem pode dizer, hoje em dia? Tem de
todos os tipos.

BHASKER (dando a volta): Sim, realmente. Quem pode dizer? Esse é um ponto muito bom,
Mohan, muito bom. Ele explica muito!

MOHAN: Especialmente por que a polícia não foi chamada. Ou se foi, por que ela não fez
nada. Você pode imaginar o tumulto se eles tivessem tentado parar um rito religioso?

LEELA: Mas mesmo que seja algo religioso, não pode ser parado? Se eles estão fazendo algo
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realmente horrível?

MOHAN: Esse é todo o objetivo de ser uma nação secular! Ninguém tem o direito de decidir
que isso é horrível e aquilo não é!

BHASKER: Nossa Constituição nos garante liberdade de louvar como desejarmos -

MOHAN: Desde que não ofendamos a sensibilidadedos outros.

LEELA: Mas isso está ofendendo a minha sensibilidade!

MOHAN: Ah, mas isso é porque até agora você não tinha se dado conta da natureza sagrada
do espetáculo!

LEELA: Mas e quanto às vítimas? Certamente as suas sensibilidades estão sendo ofendidas?

BHASKER: Eu não tenho mais nem certeza se ainda as podemos chamar de vítimas! No
máximo elas sentem dor. Isso não é o mesmo que ser uma vítima.

LEELA: Mas não é errado sentir dor?

MOHAN: Não se é em nome da religião. Veja os sadhus? Eles sentam voluntariamente sobre
pregos ou atravessam carvões em chamas. Veja os dias de jejum? A flagelação com facas?
LEELA: Mas essas são pessoas fazendo coisas em si mesmas, enquanto que aqui… são quatro
pessoas se unindo contra uma vítima, a qual, nós concordamos, está genuinamente gritando…

BHASKER: E o que dizer da circuncisão?

LEELA (sem convicção): Mas isso é diferente… isso é, você sabe, pais tem alguns direitos sobre
os seus filhos -

BHASKER: Furar as orelhas? Furar o nariz? Todas essas coisas machucam!

MOHAN: O fato mesmo de sempre haver o mesmo número de agressores - ou sacerdotes,


agora, eu suponho! – me parece uma clara indicação de que nós estamos finalmente na trilha
certa. Eu estou quase convencido disso! Foi o seu relato de antes, seu uso da palavra ‘crime’
que me direcionou para a trilha errada completamente!

BHASKER: Por que você diz ‘quase’ convencido?

MOHAN: Há apenas uma pequena dúvida…

LEELA: Qual?

MOHAN: Você tem certeza que não há nenhum objeto incomum ao redor?
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BHASKER: Espere um minuto - eu entendo seu objetivo! Você quer dizer… objetos
ritualísticos - relíquias, estátuas, ídolos - esse tipo de coisa?

MOHAN: Exato! É justamente sobre isso que eu estava me perguntando. Parece estranho
pensar em uma cerimônia religiosa sem nenhum desses elementos -

BHASKER (confiante): Não, por quê? As religiões que nos são familiares têm esse tipo de
coisas, mas talvez esse seja um tipo completamente novo de fé? O Culto dos Fisiculturistas -

LEELA (incerta): Isso explicaria por que eles estão pelados, então?

MOHAN: Sim - e talvez o barbarismo também. Novos cultos podem ser bem violentos de
início - especialmente nos ritos de iniciação.

BHASKER: Sim! E isso explicaria porque tem uma nova vít - uh, iniciante - toda vez.

MOHAN: E quanto a música? Vocês ouvem alguma música?

LEELA (desanimada): Não, apenas os gritos.

BHASKER: Provavelmente leva algum tempo até que uma religião alcance a fase dos hinos e
cantos -

LEELA: Ainda assim - parece uma forma muito repugnante de religião.

BHASKER: Oh Leela! Quem somos nós para criticar!

MOHAN: Afinal, se nós criticarmos os outros, eles podem nos criticar - e então onde
estaríamos?

LEELA: Mas nós todos somos boas pessoas, o que nós fizemos de errado? Nós não corremos
por aí, gritando nus, no meio da noite -

BHASKER: Leela, Leela! Nós não devemos julgar os outros, nós não devemos mostrar
preconceito -

LEELA: Onde está o preconceito? Eu estava apenas descrevendo o que acontece do lado de
fora da nossa casa todas as noites - é isso que temos feito pela última meia hora, todos nós!

BHASKER: Mas até agora nós não tínhamos entendido o que estávamos descrevendo. Agora
que nós adivinhamos, nós não podemos mais usar palavras como ‘correndo por aí nus no
meio da noite’. Isso soa tão crítico e julgador!

Enquanto Bhasker fala, um som fraco é ouvido do lado de fora. Deve ser indistinto o suficiente para que o
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público não reconheça de imediato o som de uma mulher gritando.

BHASKER: Supondo que eu descreva a Santa Missa dos católicos como ‘comer hóstias’ ou
um Abhishekam como ‘jogando líquidos sobre um pedaço de pedra’?... As pessoas não se
sentiriam insultadas?

MOHAN (cortando-o) Shh! Espere um minuto! O que é isso que eu ouço? (os outros fazem silêncio)
Isso não são eles? Não é hora de começar?

LEELA (escutando) Sim. É sim. (ficando em pé, chamando pela Frieda) Frieda? Traga umas velas!
Desligue as luzes! Puxe as cortinas! (virando-se para os outros dois) Venham! O jantar está na mesa.
Vamos comer.

Durante os últimos dez minutos Frieda esteve preparando a mesa de jantar, lenta e metodicamente. Na hora
em que Leela anuncia que a refeição está pronta, a mesa está posta. Enquanto Leela, Bhasker e Mohan se
movimentam para os fundos, a luz diminui, e fecha a cortina.

CENA TRÊS

A cena reabre em uma sala de jantar escurecida. A mesa de jantar está em primeiro plano. Todas as luzes
elétricas estão desligadas. Bhasker, Leela e Mohan estão comendo na mesa, sobre a qual algumas velas estão
acesas. Há uma vela na cozinha. As cortinas da janela foram fechadas, mas a luz do lado de fora da janela é
potente o suficiente para iluminar o espaço. Vindo de fora da janela também podem ser ouvidos os
inconfundíveis sons de uma mulher gritando por ajuda. Assim como no relato feito, o som é realmente rasgado e
desagradável. Inicialmente, devem ser vigorosos e determinados - com palavras distintas como - ‘me soltem’,
‘socorro!’, entre outros - mas à medida que a noite avança eles se degeneram em gritos generalizados, soluços,
com uma irregularidade beirando o cansaço. A mulher que grita vai ficando exausta, soluçando até parar, e
então começa novamente com vigor renovado, como em resposta a uma nova agressão. Os gritos devem ser
cuidadosamente regulados para se encaixar dentro do ritmo do diálogo na sala, mas não devem parecer
controlados por ele. A conversa responde aos gritos, e não o contrário. A intensidade dos gritos deve ser mantida
com precisão, não tão alta a ponto de parecer logo fora da janela, nem tão suave que possa ser ignorada.

MOHAN: Minha nossa! Que banquete você produziu, Leela!

LEELA: É o trabalho da Frieda, na verdade…

MOHAN: Ela cozinha tudo?

LEELA: Bem, sob a minha supervisão.

MOHAN: Ela é boa!

BHASKER: Oh - certamente. Está conosco há bastante tempo…


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Ambos olham para Leela, que não comeu nada e tem os olhos pesados de tensão.

LEELA (abruptamente): Vocês sabem - eu não me importo sobre o que é isso! Religião ou não -
eu odeio esse som! Eu odeio!

BHASKER: Realmente, Leela…

MOHAN: Não, eu entendo o que ela quer dizer, Bhasker. O som real disso é desagradável. Me
deixa com os dentes trincando.
BHASKER: Isso continuará agora por pelo menos mais uma meia hora…

MOHAN: Então vamos comer primeiro e daí -

LEELA: Vocês ainda vão assistir?

MOHAN: Mas agora é um claro caso de preocupação sociológica! Uma obrigação!

LEELA: Vocês que sabem. (ela procura por Frieda) Frieda, as crianças jantaram?

Frieda acena e sai para a cozinha.

MOHAN: Eu achei que você tinha dito que elas estavam dormindo.

LEELA: Eu as mantenho trancadas no quarto de hóspedes, para que elas não consigam ver
essa coisa. Normalmente, elas caem no sono antes de comer o jantar-

BHASKER: Agora que nós conhecemos a importância cultural do espetáculo - talvez


poderíamos deixá-las assistir?

LEELA: Não! Isso eu absolutamente não vou permitir - quaisquer que sejam as leis seculares
desse país, eu não permitirei que meus filhos sejam prejudicados com essas visões
repugnantes!

BHASKER: Eu não entendo como você pode ser tão intolerante -

LEELA: Eu não me importo com o que seja, cerimônia religiosa ou não! Tudo que eu sei é
que isso é chocante e deveria ser impedido!

BHASKER: E você nem mesmo viu!

MOHAN: Além do mais, e o mal que elas sofrem por estarem aprisionadas em um quartinho
a noite toda?

LEELA: Eu não me importo com o que seja. Enquanto isso estiver acontecendo, elas vão ficar
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trancadas aqui dentro.

BHASKER: Você preferiria que as crianças se tornassem vegetais estúpidos do que que eles -

A campainha toca de repente, sobressaltando a todos. Leela parece aterrorizada.

LEELA: Oh! Quem poderia ser - a essa hora!

BHASKER: Nós estamos esperando alguém?

LEELA: Não - ninguém! Pode ser alguma coisa horrível! A Frieda deveria abrir a porta ou
não?

Frieda caminha lentamente até a porta.

BHASKER: Diga-lhe que coloque a corrente, e então veja quem é - não há razão em correr
riscos!

LEELA: Frieda? Coloque a corrente! Não deixe ninguém entrar (a campainha toca novamente)
Ooh!

MOHAN: Ele está impaciente, quem quer que seja!

LEELA: É tudo tão assustador!

Frieda, tendo aberto a porta cautelosamente, vê a visitante, então fica de lado para deixá-la entrar. Entra
Naina. Sua aparição coincide com uma relativa calmaria nos gritos.

NAINA: Olá, olá, olá!

LEELA: É Naina!

NAINA: Oh, desculpem-me! Vocês já começaram a jantar?

LEELA: Oh… sem problema (ela está claramente constrangida)

BHASKER: Naina! Que… agradável surpresa!

NAINA: Há muito tempo não nos vemos -

LEELA: Uh - você não vai se juntar a nós? (apelando a Frieda) Frieda!

Frieda já está perto da cozinha. Olha de lado para a mesa, aguardando instruções.

BHASKER: E o que a traz aqui a essa hora?


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NAINA (rindo) Convenhamos Bhasker, é apenas nove e meia!

LEELA: Por favor, sente-se Naina… Eu pedirei a Frieda que traga pratos. Mas onde está
Surinder?

NAINA: Obrigada - não se incomode, por favor! Nós já comemos -

LEELA: Qualquer coisa?

NAINA: Não - mesmo, Leela! Não se incomode, nós pensamos em aproveitar a oportunidade
-

BHASKER: Vocês deveriam fazer isso mais frequentemente -

NAINA: Faz tanto tempo desde que demos uma passada! Lembra? A última vez foi quando
(ela olha em volta, percebendo as luzes pela primeira vez) que engraçado! Havia uma queda de energia
também!

LEELA (sem pensar): Não é uma queda de energia! (ela para repentinamente)

NAINA (risonha): Então por que as velas? Aniversário de alguém? (olha claramente para Mohan, a
quem ela não foi apresentada.)

BHASKER: Não - mas - vocês já se conheceram? Este é Mohan Ram - Naina -

NAINA: Olá - não se levante!

MOHAN: Olá.

LEELA: Naina e eu éramos amigas de escola -

NAINA: Não diga isso! Faz eu me sentir antiga!

LEELA: Todos nós somos antigos hoje em dia.

BHASKER: Então - mas - onde está Surinder?


NAINA: Ele foi colocar gasolina. Nós não queríamos ficar sem no caminho pra casa.

BHASKER: Ele terá que andar uma boa distância. Não há nenhum lugar perto daqui.

Do lado de fora, o choramingar está se tornando perceptível mais uma vez.

LEELA (tentando desesperadamente disfarçar o som): Então - então - como estão as coisas, Naina?

NAINA: Oh, bem! Eu queria trazer Shashi, você sabe, mas eu pensei que as crianças deveriam
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estar dormindo na hora que eu chegasse aqui.

LEELA (rapidamente): Sim, elas estão indo pra cama cedo nesses dias.

NAINA: Quanto tempo faz! O apartamento parece tão diferente…

LEELA (desesperadamente): Viu - você viu algum filme ultimamente, Naina?

NAINA (com um sorriso amplo): Nada! Nem mesmo na TV!

BHASKER: E - Surinder? Como vai seu – o negócio?

NAINA (surpresa): Ele não falou com você ontem? Ele está se demitindo -

BHASKER: Oh - uh - sim… mas ele… uh, ele mencionou - alguma coisa sobre - planos de
expansão -

Um grito angustiado invade a sala. Naina enrijece, vira-se.

BHASKER (levantando a voz): Talvez eu esteja confundindo ele com outra pessoa - oh! Eu sei
quem! É o -

NAINA: O que é isso?


LEELA (sem expressão): O quê?

NAINA: Esse… (vira-se para a janela, então de volta para os outros) Vocês não ouviram? Soava
como alguém pedindo ajuda!

LEELA: Eu não ouço nada.

Outro grito.

NAINA: Não… Vêem? Vocês não ouviram? Está vindo de lá, lá de fora… (começa a se
levantar).

BHASKER: Não é nada realmente, Naina. Só um - um-

MOHAN: É algum tipo de cerimônia religiosa, você vê, os moradores das favelas fazendo um
programa.

NAINA: Uma cerimônia religiosa? Que estranho - quero dizer, que festival é esse? (olhando em
direção à janela) Eu quero dizer, vocês tem certeza? Soa mais como alguém chamando por
ajuda…
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BHASKER: É assim que soa, mas…

NAINA (decididamente): Eu vou só dar uma olhada - você nunca sabe -

BHASKER: Naina, eu acho que você deveria se sentar.

LEELA (para Bhasker): Por que você simplesmente não explica? Vai parecer tão ruim do
contrário.

NAINA: Realmente não soa religioso…

LEELA: É isso que eu disse!

MOHAN: Todos nós concordamos que soa bizarro, nem um pouco religioso. Mas aí eu
penso que tambores também soam horríveis - vocês sabem, durante aqueles festivais em que
eles saem por aí batendo seus tambores a noite toda…

LEELA (tentando agitar o tópico): Ah, sim, eu odeio os tambores também - tão insensível!

MOHAN: E imaginem como deve ser quando alguém está doente!

NAINA (não querendo trocar o foco): Eu quero dizer - isso não - eu não sei, mas não soa como se
alguém estivesse realmente pedindo ajuda?

Os gritos são vigorosos agora.

BHASKER (suavemente): É parte do ritual, você sabe.

NAINA: Mas - que ritual? Eu posso apenas dar uma olhada? Quero dizer, eu gostaria de ver
por mim mesma o que eles estão fazendo -

BHASKER (de forma grave): Eu não olharia, Naina, mesmo - Eu quero dizer, seriamente, é
melhor não olhar -

NAINA (divertindo-se com a seriedade): Por que? Não me diga que vai dar má sorte?

BHASKER (ainda de forma grave): Sim - é exatamente isso que quero dizer: dá má sorte ver
essas coisas.

LEELA: Má sorte?

MOHAN (seguindo o fio): Sim! Com certos ritos religiosos - não crentes não tem permissão de
assistir -

NAINA: Você está falando sério?


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LEELA (perplexa, para Bhasker e Mohan): Mas - mas - então, e as luzes, por que eles fazem isso a
céu aberto, por que eles quebram nossas janelas se eles não querem que assistamos (pára,
percebendo que havia dito demais)

NAINA: Janelas?

BHASKER: Francamente, Naina, isso é realmente uma coisa sobre a qual não queremos falar
-

NAINA: Agora eu acho que eu devo ver! (levanta-se)

BHASKER (detendo-a): Realmente, Naina, não vale a pena ver.

NAINA: Mas eu devo, eu não posso suportar ouvir esse som e não ver. Mesmo que seja algo
religioso, isso soa como se devesse ser parado!

LEELA (triunfantemente): Isso é exatamente o que eu disse!

BHASKER: Naina -

Mas ela o empurra para o lado e vai para a janela. Ela abre as cortinas. Há um silêncio sem respiração na
sala, os gritos do lado de fora sendo o único som. Naina se aproxima da janela, protegendo seus olhos do brilho
das luzes. Sua atenção é captada. Ela arfa, sua mão na boca. Então um som estrangulado sai dela, à meio
caminho entre um vomitar-em-seco e um grito. Mohan e Bhasker já tinham levantado. Eles vão em sua ajuda.

NAINA: Auugh! (ela se empurra para longe da janela. Bhasker a pega pelos ombros, a conduz para
longe)... Auugh!

Mohan permanece na janela, agora olhando ele mesmo para fora.

BHASKER: Calma, calma - eu te disse que era melhor não ver -

NAINA: Tem alguém sendo… (ela luta pela sua voz) Eles estão - eles estão (ela vomita-em-seco).

BHASKER: Não diga nada em voz alta - Leela vai ficar chateada!

Mohan permanece na janela, mesmerizado.

NAINA: Tem alguém sendo (ela ainda não consegue completar sua afirmação. Ela vomita em seco
novamente)Tem uma mulher sendo -

MOHAN (por sobre seus ombros): arrastada pelo pé.

Leela, que estava sentada imóvel, agora segura a cabeça com as duas mãos, cobrindo os ouvidos.
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BHASKER (vivamente): Você acha que isso pode ser parte do ritual, Mohan?

NAINA: Que ritual? Isso não é ritual! Isso é um - um-

BHASKER (cobrindo a boca de Naina): Não… Não, não diga. Você vê, a Leela está
extremamente sensível nesses dias. E eu não quero que ela saiba…

NAINA (empurrando a mão dele): Mas o que você pode querer exprimir, dizendo que é um ritual!
Nós temos que fazer alguma coisa, fazer com que isso pare, chamar a polícia!

BHASKER: Shhh… shhhh. Não. Você vê – isso acontece todo dia..

NAINA: Todo dia?!

BHASKER: Bem, toda noite… por essa hora…

NAINA (ela o encara, quase esperançosa): Você quer dizer - quer dizer – que é algum tipo de show?
Não é real, é só um tipo de - não! Deve ser real! Eles estavam realmente nus! (virando-se para
Bhasker) O que você está dizendo?

BHASKER: Não há nada que possamos fazer a respeito. Nós só temos que ignorar.

LEELA (mesmo que suas orelhas estivessem cobertas, ela ouve o último comentário): Não, nós não temos!
Nós podemos chamar a polícia!

NAINA (para Bhasker): Então ela sabe?

BHASKER: Não - ela apenas ouviu o som - ela nunca viu.

Um espasmo de gritos agonizantes entram na sala e Naina cambaleia, seus olhos bem fechados. Ela começa a
vomitar-em-seco novamente. Leela se levanta e a conduz para o quarto.

MOHAN (moderadamente exaltado, vira da janela para falar com Bhasker, que havia vindo parar ao seu
lado): Bem, bem, bem!

BHASKER: O que você acha?

MOHAN: Isso muda as coisas, é claro!

Eles assistem pela janela enquanto falam.

BHASKER: A vítima sendo uma mulher, você quer dizer?

MOHAN: Sim.
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BHASKER: Você acha, então, que isso pode não ser um festival religioso afinal?

MOHAN: Oh, eu não descartaria inteiramente, não, não mesmo.

BHASKER: É difícil ter certeza de qualquer coisa a essa distância…

MOHAN: E mesmo assim….

BHASKER: Poderia-se dizer…

MOHAN: Considerando tudo…

BHASKER: Os quatros homens, a mulher, a nudez, os gritos, o exibicionismo…

MOHAN: Isso - ainda – pode – ser - religioso.

BHASKER: Realmente?

MOHAN: Na verdade - não apenas qualquer ritual religioso, mas - você sabe o que isso me
lembra?

BHASKER: Não, o quê?

Leela retorna, vencida.

MOHAN: Um exorcismo!

BHASKER: Bem! Eu nunca tinha pensado nisso!

MOHAN: Isso explicaria o espancamento, não?

BHASKER: Sim, especialmente o tipo de espancamento -

MOHAN: Mais cedo eu vi eles na verdade meio que socando e chutando - em ritmo, quase -

BHASKER: Vê, eles estão chutando ela-

MOHAN: Sim, pelo estômago e no - uh - peito e no rosto.

BHASKER: E agora - eles a estão acertando com os punhos, não?

MOHAN: Sim, isso também.

BHASKER: E agora… eles estão segurando suas pernas separadas -


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MOHAN: Um homem cada perna, amplamente abertas…

Ambos assistem em silêncio, por alguns momentos, quando um novo ataque de gritos começa.

BHASKER: Hmmm. Bem, você sabe, pessoas iletradas acreditam que quando um demônio
possui uma mulher, é sempre via o - uh - orifício mais baixo -

MOHAN: Sim, certamente, e é por isso que, mais cedo, eles a estavam arrastando naquela
desagradável posição, como que para persuadir o demônio a sair -

BHASKER: Frequentemente, em um exorcismo, a pessoa possuída já está em grande agonia,


tem convulsões e grita alto e imprudentemente, às vezes em uma voz rouca, não natural…

MOHAN: Aí está! Isso explica o som feio da voz!

BHASKER: Veja como ela luta!

MOHAN: Como o próprio diabo!

BHASKER: E há tanto sangue!

MOHAN: Oh sim! De ser arrastada no concreto, eu suponho. Sangue em volta da boca


também - o que explica o som gorgolejante dos gritos.

BHASKER: Não é espantoso que alguém em tal condição tenha energia sobrando para gritar?

MOHAN: Dizem que as pessoas sob o poder de um demônio, mesmo uma mulher, tem a
força de três homens grandes…

BHASKER: Engraçado, como é mais frequente que mulheres sejam possuídas…

Pausa enquanto os gritos se intensificam.

MOHAN: Elas são mais suscetíveis…

BHASKER: O sexo mais fraco, afinal…

Naina retorna à sala.

LEELA (definitiva): É um estupro então, não é?

Os dois homens se viram, de forma culpada.

MOHAN (como que afrontado pela palavra): Não!


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BHASKER: É claro que não!

MOHAN: De forma alguma!

BHASKER: Que prova nós temos?

NAINA: De que prova vocês precisam? Só olhem pela janela e vocês os verão sobre ela!
LEELA: Então. Nós estamos ouvindo os sons de uma mulher sendo estuprada. Do lado de
fora da nossa janela, sob as luzes.

BHASKER: Não exagere, Leela, é quase definitivamente um exorcismo.

MOHAN: Você não vê, essa é a única situação que explica o porquê disso estar sendo
repetido noite após noite - eu li em algum lugar que há um padrão em possessões demoníacas,
que as crises vem em horários regulares, todo dia -

BHASKER: Apesar de que - você sabe - como é uma mulher diferente toda noite é bastante
improvável que cada uma delas tenha sido possuída pelo mesmo, pontualíssimo, demônio!

NAINA: Vocês estão… vocês estão loucos! Vocês dois - vocês estão falando absurdos!
Apenas um olhar para fora da janela e você sabe que é estupro!

MOHAN: Minha nossa! Você deve ter visto muitos estupros, Naina, para reconhecê-los com
um olhar!

NAINA: Três homens, segurando à força uma mulher, com as pernas separadas, enquanto o
quarto enfia seu - órgão - dentro dela! Como você chamaria isso - uma leitura de poesia?

BHASKER: Mas e o espancamento? A brutalidade? Se tudo que eles queriam era um pouco
de sexo, por que eles se dariam o trabalho de tanta violência?

NAINA: A maior parte dos estupros, especialmente estupros coletivos, são acompanhados de
violência física extrema!

MOHAN: Mas todos os estupradores estão normalmente nus, como essas pessoas lá fora?

BHASKER: E eles normalmente o fazem sob as luzes, na frente de um público de pessoas


decentes e respeitáveis?

MOHAN: E eles repetem o ato, noite após noite, no mesmo local?

Naina está em silêncio, enquanto tenta encontrar uma resposta para isso.

LEELA (repentina, mas silenciosamente): Eu não me importo com o que seja. Eu quero chamar a
polícia e ter esse horrível transtorno terminado.
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BHASKER: E escutem: há mais uma consideração extremamente importante para ser levada
em conta… (há uma nota de triunfo na sua voz)

NAINA (com nojo): O quê? O que sobrou?

BHASKER: Ela poderia ser uma puta, vocês sabem!

LEELA: Ugh!

NAINA: Uma puta! Você acha que é isso que ela é?

MOHAN: É claro - ela está com quatro homens de uma vez!

NAINA (incerta): Isso é suficiente para provar que ela é uma puta?

BHASKER: Uma mulher decente nunca estaria com quatro homens de uma vez.

NAINA: Mas ela pode ter sido raptada de algum lugar, sido trazida para cá e…

MOHAN: Mulheres decentes nunca se submeteriam a esse tipo de coisa.

LEELA (insensivelmente): Se ela é uma puta, isso significa que vocês não vão chamar a polícia?

BHASKER: Se ela é uma puta, Leela, então, isso não é estupro… assim baseados em que
motivos poderíamos chamar a polícia?

NAINA: Por quê? Uma puta não pode ser estuprada? É essa a lei?

MOHAN: Oh, convenhamos! Afinal de contas, o que é estupro?

NAINA (incerta): Estupro é… quando uma mulher é forçada… a fazer sexo -

MOHAN (confiante): E o que é uma puta?

NAINA (infeliz): Uma puta…

BHASKER (triunfante): Uma puta é uma mulher cujo meio de vida é sexo!

LEELA (com desgosto): Uma puta é uma mulher sem pudor.

NAINA: Mas - isso significa que apenas mulheres decentes podem ser estupradas?

MOHAN: É claro!

BHASKER: Afinal de contas, o que uma puta tem a perder?


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NAINA: Bem - eu quero dizer -

MOHAN: Convenhamos! Uma puta não é decente, então uma puta não pode ser estuprada!

NAINA (com teimosia): Mas então - se apenas mulheres decentes podem ser estupradas, qual a
razão pra ser decente?

MOHAN: Tch! Ela está ficando toda confusa!

LEELA: O que você está dizendo, Naina!

BHASKER: Escutem… (reprimindo os outros) escutem… vocês veem aquilo lá fora? (ele gesticula).
Agora… aquela (com uma certa satisfação diabólica) aquela é a razão para ser uma mulher decente!
(pausa dramática) Vocês veem, se ela fosse uma mulher decente, nós iríamos resgatá-la! (pausa)
Ela não é, e então ela está sendo deixada ao seu destino!

NAINA (pouco convencida): Certamente - eu quero dizer - mesmo uma puta tem o direito de
escolher seus clientes?

MOHAN: Escolher seus clientes? Uma puta pega o que conseguir!

BHASKER: Quaisquer direitos que uma mulher tenha, eles são perdidos no momento em que
ela se torna uma puta.

LEELA (insensivelmente): Como deve ser horrível ser puta.

NAINA: Você quer dizer, se ela é uma puta, não há nada que possamos fazer?

MOHAN: O que há pra se fazer? Nós podemos ou assistir ou não assistir - isso é tudo.

BHASKER: Por que deveríamos nos envolver com uma mulher imoral e seus amantes?

LEELA (insensivelmente): Por que nós estamos aqui sentados falando sobre isso? Por que não
podemos chamar a polícia?

NAINA: Mas escutem! A mulher não está só sendo estuprada, ela também está sendo
brutalizada!

MOHAN: Onde está o estupro eu não sei -

BHASKER: Veja. Essas coisas acontecem o tempo todo, por toda a cidade - quem somos nós
para interferir?

LEELA: Por favor. Vamos mandar a polícia e acabar com isso.


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MOHAN: É só que, dessa vez, você pode ver acontecer na sua frente. É só isso.

BHASKER: Essa é a única diferença.

NAINA (sem mais certeza de nada): Você acha que essas coisas acontecem o tempo todo?

MOHAN: A todo nosso redor, está acontecendo - putas, cafetões, prostitutas, violência…

BHASKER: É um mundo difícil lá fora, Naina, um mundo difícil. Pessoas como nós -
simplesmente não há contato de forma alguma.

LEELA: Chamem a polícia. Por favor. Por favor.

NAINA: Mesmo tudo isso… quatro homens de uma vez… batendo… ferindo… chutando…

MOHAN: Quero dizer, quem sabe? Quem sabe como essas pessoas vivem?

BHASKER: Elas são como animais, na verdade. Pessoas decentes como nós, nós não
podemos entender suas vidas de forma alguma.

LEELA: Por favor chamem a polícia.

NAINA: Escutem - mas supondo que ela não seja uma puta?

MOHAN: Como poderíamos provar isso de qualquer forma?

NAINA: Certamente deve haver alguma forma de diferenciar uma mulher decente de uma
puta!

BHASKER: Se torna difícil uma vez que elas estão sem roupas e estão cobertas em sangue e
sujeira…

NAINA: Que tipo de roupas essas mulheres lá fora vestem? Isso deveria nos dizer alguma
coisa…

BHASKER: Normalmente só trapos. Pedaços sujos de tecido.

LEELA: Nós-devemos-chamar-a-polícia.

NAINA: Bem, isso não parece muito com uma puta, não é? Quero dizer, eu achava que putas
eram espalhafatosas e vulgares -

MOHAN: Depende de que tipo elas são.


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BHASKER: As pobres são bem esfarrapadas.

MOHAN: E elas devem ser pobres, do contrário - por que elas se submeteriam a isso?

LEELA: Chamem a polícia. Por favor. Chamem a polícia.

NAINA: Leela está certa. Deve ser terrível ser uma puta.

MOHAN: Terrível, sim.

BHASKER: Elas vivem nos limites externos da sociedade humana -

MOHAN: Em uma selva de vergonha e desgraça -

LEELA: Vamos chamar a polícia. Por favor. Por favor.

NAINA: Ao perder a vulnerabilidade delas para o estupro, putas perdem seu direito de ser
mulheres? É isso que você quer dizer?

MOHAN: Isso. Afinal, finalmente, a diferença entre homens e mulheres é que mulheres são
vulneráveis ao estupro…

BHASKER: E homens não são.

LEELA: Chamem-a-polícia. Chamem-a-polícia.


NAINA (entrando na litania): E mulheres acreditam que são vulneráveis ao estupro-

MOHAN: E homens não.

NAINA: E mulheres são decentes o suficiente para serem estupradas…

MOHAN: E homens não são.

LEELA: A polícia. Por favor chamem a polícia!

BHASKER: Afinal de contas… o que é uma mulher senão alguém decente o suficiente para
ser estuprada?

MOHAN: E o que é um homem senão alguém indecente demais para ser estuprado?

NAINA: Mas se homens são indecentes demais para serem estuprados isso significa que
homens são putas?

Leela começa a gritar, levando a discussão a uma parada.


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LEELA: AAAAAAAH!

NAINA: Rápido! Ela está histérica! (tenta segurar a cabeça de Leela firmemente)

LEELA: AAAAAAAHH!

BHASKER: Frieda, água!

NAINA: Leela, Leela!

LEELA: AAAAAAAHHHHH!

MOHAN (a uma distância segura): Vamos lá, vamos lá -

NAINA: Não leve isso tão a sério, Leela, ninguém vai te machucar.

BHASKER: Eu disse a vocês, ela está extremamente sensível!

LEELA: AAAAAAAHHHHHHHHH! (agora soluçando)

Frieda traz a água.

NAINA: Aqui - beba isso -

LEELA: Não! Eu não quero água nenhuma! Eu quero a polícia! Eu quero a polícia!

BHASKER: Certo, Leela, certo! Nós vamos ligar para eles agora mesmo.

LEELA: Você promete?

MOHAN: Neste minuto.

NAINA: Afinal, qualquer que seja a verdade por trás disso (ele gesticula em direção à janela), é um
transtorno e deve ser parado.

MOHAN: Pense nos efeitos que isso está tendo nos mais jovens!

BHASKER: Para qual polícia devemos ligar?

NAINA: Disque 100, eu acho?

MOHAN: Mas esse é só o número geral - nós devíamos chamar a polícia do bairro.

LEELA: Diga a eles que estamos sendo torturados por uns goondas!

BHASKER: Isso dificilmente é verdade, Leela, não é? Quero dizer, quem acreditaria em tal
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reclamação?

LEELA: Eu não me importo no que eles acreditarem. Os sons me torturam. Diga à polícia
que eu não consigo dormir a noite… diga à polícia que os goondas devem ir embora e que
levem suas putas sujas pra algum outro lugar! (ela está novamente perdendo o controle.) Eu não me
importo com o que eles fazem, ou com quem eles são, ou o que eles são - eu só os quero bem
longe, fora da minha escuta… fora da minha vida…

NAINA: Ela está certa. É uma agressão em todos nós, conseguir vê-los e ouvi-los desse jeito -

LEELA: Você vai chamar a polícia? (a nota histérica retornou)

BHASKER: Sim, sim! Veja! Eu estou no telefone! Eu estou discando o número… um…
zero… zero… oh-droga! Desconectou! Eu vou tentar de novo -

De repente a campainha toca. Todos eles congelam. Leela, sendo confortada por Naina choraminga. Frieda, na
porta, aguarda instruções.

NAINA: Oh - deve ser o Surinder, é claro. Há quanto tempo ele está fora!

Frieda abre a porta. Surinder entra, amigável e inconsciente do que está acontecendo.

SURINDER: Alô, alô!

NAINA: Oh - Surinder! Graças a deus você está aqui!

SURINDER: Por que -

NAINA: É a Leela!

MOHAN: Ela está histéric-

SURINDER: O quê?

BHASKER (meio que se desculpando): Nós temos que chamar a polícia.

SURINDER: Polícia?

MOHAN: Por causa de uns goondas lá fora.

SURINDER: Que goondas -

MOHAN: Tem uns goondas lá fora, com uma puta -

BHASKER: E os sons perturbaram tanto a Leela que ela ficou histérica…


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NAINA: De fato, é um incidente terrível, a coisa toda!

MOHAN: Está acontecendo há semanas!

SURINDER: Mas -

MOHAN: Dê uma olhada lá fora - você vai ver -

Surinder vai até a janela. Há um silêncio na sala enquanto ele assiste. Ele agarra a grade ferozmente,
parecendo puxá-la. No momento em que ele se vira, ele está mudo de raiva. Bhasker, vai até o bar, planejando
preparar para Surinder um drink. Surinder volta à mesa, incapaz de falar. Finalmente ele se apoia na mesa
cravando nela os nós dos dedos.

SURINDER (controlando a voz com esforço): Vamos lá aniquilá-los! (em sua paixão ele varre um copo da
mesa).

Frieda imediatamente se apresenta para limpar o copo quebrado. Os outros não prestam atenção nem a ela
nem ao copo. Bhasker deixa o bar, perturbado.

BHASKER: O que você quer dizer –

MOHAN: Matá-los?

NAINA: Surinder, por favor…

LEELA: O que, todos nós?

SURINDER: Só há uma forma de lidar com animais como esses!

BHASKER: Eu quero dizer -

MOHAN: Mas nós não podemos simplesmente matá-los!

LEELA: Você pode se machucar!

BHASKER: Eu estou à postos!

MOHAN: Todos vão nos ver, nós não podemos assumir um risco como esse.

SURINER (silenciando os outros com a sua voz): Estou dizendo a vocês - esses bastardos entendem
apenas uma coisa: violência!

NAINA: Surinder -
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BHASKER: Sim, mas nós não podemos matá-los assim.

SURINDER: Você viu o que eles estão fazendo àquela mulher!

MOHAN: Mas quem somos nós pra decidir que eles deveriam morrer?

LEELA: Nós não podemos só chamar a polícia?

SURINDER: A polícia não levantará um dedo - o que importa a eles se uma pobre mulher
está sendo estuprada?

BHASKER: Eu concordo que eles devam ser parado, mas nós não podemos simplesmente -

SURINDER: E por que não? Do jeito que está, a vida daquela mulher está acabada. Ela vai
cometer suicídio, se ela conseguir sobreviver!

MOHAN: Eu nunca matei ninguém na minha vida.

LEELA: Vocês não vão se meter em problemas?

SURINDER: Escutem. Ou nós descemos lá e lidamos com esses desgraçados ou nós


sentamos aqui e deixamos eles mijarem nas nossas caras!

LEELA: Shiii!

NAINA: Surinder, não fique entusiasmado, agora -

SURINDER: Você cale a boca! Não é o momento para o nonsense de mulheres!

BHASKER (sentindo-se confrontado): O que você quer dizer, ‘mijando nas nossas caras’?

MOHAN: Por que nós deveríamos nos envolver no que essas pessoas fazem?

BHASKER: Afinal de contas, eles não fizeram, na verdade, nenhum mal a nós -

LEELA: Nós só queremos que eles vão para outro lugar -

SURINDER: Escutem. Escutem. O que vocês acham que esses merdas estão fazendo? Só
fodendo uma mulher, é isso? E eles não têm nenhum outro lugar pra ir então eles vêm e
fazem isso aqui, é isso? Depois de colocar refletores, pra que então todos vocês, pessoas boas
possam assistir? (ele pausa dramaticamente.) Eles estão fodendo todo esse maldito bairro, droga!
Eles sabem que nós todos estamos aqui parados! Cagando em nossas calças, com medo
demais pra fazer qualquer coisa a não ser assistir! Eles estão nos fazendo de idiotas! (apelando
para Bhasker) Você! Você não vê isso?
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BHASKER: Bem, eu -

MOHAN: Espere um momento, Bhasker, eu acho que eu consigo ver - uh, Surinder? – o que
o Surinder quer dizer...

BHASKER: Oh, desculpem! Surinder - este é Mohan -

SURINDER: Alô, sim - mas você entende o que quero dizer? Nós devemos agir
imediatamente!

MOHAN: Você realmente sente que isso será melhor que ir na polícia?

SURINDER: Veja. Se nós chamarmos a polícia, eles virão duas semanas depois, haverá um
inquérito, pessoas serão questionadas, um pouco de barulho vai ser feito e então nós vamos
todos dormir de novo. Se nós formos nós mesmos - chega! O problema está resolvido de uma
vez.

BHASKER: Eu não sei…

MOHAN: Mesmo que nós o façamos, como nós faremos? Com nossas próprias mãos?

SURINDER: Não - nós usaremos facas.

LEELA: Facas!

SURINDER: Facas são limpas e rápidas.

BHASKER: Eu não sei. Eu não acho que essa seja a melhor maneira.

SURINDER: Tudo bem. Então o que você quer fazer?

BHASKER: Eu quero dizer, afinal, eles também são seres humanos. Nós temos que entender
os seus problemas, seus -

SURINDER: E o que é você - um homem? Ou um rato?

NAINA: Ora, Surinder, controle-se!

MOHAN: Que tipo de facas nós precisamos?

SURINDER: Qualquer tipo, desde que sejam afiadas.

LEELA: Tem aquele cutelo de carne -

SURINDER: Peça pra criada trazer todas as facas.


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BHASKER: Mas e a questão de todos poderem nos ver?

LEELA: Frieda? Traga todas as facas.

Frieda pode ser vista acatando a ordem, abrindo gavetas, tirando os talheres.

MOHAN: Nós podemos quebrar as luzes!

NAINA: Isso é insano! Vocês não podem sair por aí matando pessoas!

BHASKER: Supondo que eles resistam?

SURINDER: É bastante simples. Cada um de nós vai ter uma faca –

LEELA: O que - todos nós!!

SURINDER: Nós três teremos cada um uma faca. Eles não estarão esperando por nada. Nós
vamos atacar um por vez-

Frieda entra com as facas e as coloca sobre a mesa.

BHASKER: E o vigia?

SURINDER: Nós vamos lhe dar uma faca também!

MOHAN: Ah - deixem-me ver -

BHASKER: Ah não! Elas estão muito cegas!

MOHAN: Aqui – para que são essas?

BHASKER: Facas de bife -

SURINDER: Há três delas?

LEELA: Há seis!

BHASKER: Não vai haver muito sangue?

MOHAN: Nós podemos levar umas toalhas também.

SURINDER: Essas devem servir -


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NAINA: Surinder, por favor! Pare com todo esse absurdo!

SURINDER (vira para ela de repente e diz com silenciosa malevolência): Cale a boca - ou eu vou te
acertar os dentes! (virando de volta) Nós vamos levar essas!

Naina afasta-se, embaraçada. Nem ela nem os outros percebem que os sons lá fora cessaram.

BHASKER: Escutem, facas não são o caminho. Elas são muito diretas.

MOHAN: O que você quer dizer, ‘diretas’?

BHASKER: Com facas, nós teremos que dominar eles, lutar, pegá-los de surpresa - e supondo
que eles se virem contra a gente, por acaso?

LEELA: Oh! Será tão perigoso!

SURINDER: Então o que você sugere?

MOHAN: E gasolina? Nós podíamos ir e jogar gasolina neles -

BHASKER: Não, não! Supondo que nós explodamos junto?

LEELA: Oh, sejam cuidadosos!

SURINDER: Então nos diga - o que infernos você quer que nós façamos?

BHASKER: Bem, eu só estava pensando… o que acham de ácido?

MOHAN: Há algum na casa?

BHASKER: Leela, há algum ácido?

SURINDER: Ácido… bem, nós precisaríamos de algo para colocá-lo dentro… vocês sabem,
tipo bulbos…

LEELA: Bulbos de lâmpadas comuns?

BHASKER: Mas e o ácido?

LEELA: Tem algum na despensa. Frieda? Sabe aquela garrafa marrom?

Frieda já havia partido em sua missão.

BHASKER: Uma casa bem estocada!


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LEELA: Eu vou pegar os bulbos - quantos?

SURINDER: Seis-sete -

MOHAN: Isso é suficiente, pra só jogar neles?

BHASKER: Por que seis? Eles são só quatro?

SURINDER: No caso de errarmos -

MOHAN: Talvez nós devêssemos esperar eles saírem do complexo? E daí jogar?

BHASKER: O risco de sermos vistos diminui então.

SURINDER: Nós podemos levar facas também, por precaução.

MOHAN: Supondo que alguém nos alcance, no caminho?

BHASKER: E daí? Nós só estaremos carregando algumas coisas.

SURINDER: Todo mundo carrega facas hoje em dia.

Frieda entra com a garrafa de ácido.

BHASKER: Aqui está o ácido, agora - oh droga! Não há muito.

MOHAN: Inferno! O que faremos agora?

SURINDER: Nós poderíamos fazer uma combinação de ácido e gasolina -

BHASKER: Eu ainda acho que gasolina será muito arriscado. E fará um barulho muito
grande. E se mais alguma coisa pega fogo? Nós seremos culpados.

NAINA: E se vocês colocarem fogo na mulher também?

MOHAN: Sabe o que mais - nós poderíamos segui-los em um carro e atropelá-los!

BHASKER: Não… Nós nunca pegaríamos os quatro juntos, um deles pode pegar o número e
- além do mais, uma vez que eles saírem daqui, que prova nós teremos de que eles estavam
fazendo alguma coisa pela qual eles mereciam morrer?

SURINDER: Bhasker está certo - vai ser muito difícil -

MOHAN: E além do mais, pode danificar o carro!

Naina com repugno se distancia dos outros e senta pensativamente na mesa.


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SURINDER: Digo, e uma arma? Você tem uma arma, Bhasker?

BHASKER: Não -

MOHAN: Armas são muito barulhentas e além do mais - quem consegue atirar?

LEELA: Aqui estão os bulbos -

SURINDER: Supondo que os eletrocutemos?

BHASKER: Convenhamos! Isso é muito complicado -

SURINDER: Não… veja, nós jogamos água neles e então nós trazemos alguns fios e -

MOHAN: Esperem um minuto! Eu tenho uma ideia!

BHASKER & SURINDER: Qual?

MOHAN: Sua menção às armas me fez pensar nisso -

BHASKER: O que significa?

MOHAN: Por que nós não vamos lá embaixo de uma vez e tiramos fotos deles como eles
estão, nus e tudo, e então as publicamos nos jornais?

LEELA: Isso vai ser suficiente para pará-los?

MOHAN: É claro! Vocês não vêem? Quando todos souberem que isso está acontecendo, nós
seremos capazes de - eu não sei! - organizar um linchamento público, ou alguma coisa -

SURINDER: Bem, eu não sei… Eu ainda acho que devíamos dar uma surra neles…

BHASKER: Supondo que nós descubramos onde eles moram e coloquemos fogo em seus
barracos?

LEELA: Nem mesmo diga tal coisa!

BHASKER: Por quê? Veja o que eles estão fazendo conosco! Nos ameaçando, quebrando
nossas janelas, aterrorizando nossas mulheres…

LEELA: Pense no que aconteceria se vocês fossem pegos!

NAINA: Vocês são todos velhos demais pra ficar correndo por aí fazendo coisas desse tipo!

BHASKER (para Leela): Você está certa - nossas prioridades andam todas erradas nesses dias -
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se nós formos pegos, o pessoal dos direitos civis protestaria, defendendo essa escória de
sarjeta!

MOHAN: Mas Bhasker, e as fotos, hein?

SURINDER: Quem as publicaria?

MOHAN: Ei, convenhamos! Qualquer jornal! Imagens como essas, mesmo a imprensa
estrangeira as abocanharia - estou te dizendo, nós faríamos muito dinheiro - afinal, com que
frequência alguém vê imagens autênticas de um estupro coletivo em ação?

BHASKER: Você tem razão - tais imagens devem ser muito raras…

NAINA: A maioria das pessoas simplesmente não fica parada por aí tirando fotos!

Todos eles a ignoram.

SURINDER: Eu ainda acho que devíamos bater neles -

MOHAN: Certo - primeiro, as imagens, depois o espancamento -

Naina balança a cabeça para si mesma e olha em direção à janela.

BHASKER: Bem, se nós vamos bater neles, então eu acho que tenho a coisa exata - umas
barras de aço. Vocês acham que elas podem ser de algum uso?

SURINDER: Primeira classe!

Naina parece de repente alerta. Ela se levanta e vai até a janela. Ela olha para fora por um momento, então
de volta pro grupo, com uma expressão curiosa em seu rosto. Ela fecha as cortinas e retorna para onde o
restante ainda está conversando.

MOHAN: Digo, mas Bhasker, quão boa é a sua câmera?

BHASKER: Perfeita - zoom-shoom, focus-pocus! Eu mesmo carreguei um rolo novo de filme


apenas dois dias atrás -

MOHAN: E um flash? Nós vamos precisar de um nessa luz.

BHASKER: Sim, isso também. Leela?

LEELA: Está no cofre, no meu armário!

SURINDER: Bom, então está decidido -


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MOHAN: Como vamos chegar lá?

SURINDER: Nós podemos pegar meu carro -

NAINA: Vocês não precisam se incomodar mais!

BHASKER: O quê?

MOHAN: Por quê -

NAINA: Vocês estão atrasados - os gritos pararam (ela fica metade voltada para a janela). Não há
mais ninguém lá fora -

SURINDER: O que você está dizendo?

NAINA: Todos eles se foram!

LEELA (desapontada): Oh! Então deve ter acabado por hoje!

As luzes são cortadas rapidamente. O elenco se move para o lado para proporcionar uma visão sem
desimpedida da cortina sobre a janela. Na cortina a seguinte mensagem é brevemente projetada:

‘Esta peça é baseada no relato de uma testemunha. O incidente aconteceu em Santa Cruz,
Bombay, 1982.’

‘Os personagens são ficcionais. O incidente um fato.’

‘Na vida real, como na peça, um grupo de pessoas comuns de classe média escolheram parar e
assistir enquanto uma mulher estava sendo brutalizada em um complexo vizinho.’

‘Na vida real, como na peça, o incidente aconteceu durante um período de semanas.’

‘E na vida real, como na peça, ninguém foi em auxílio das vítimas.’

Cada slide aparece por aproximadamente cinco segundos. No momento em que o quinto aparece, o elenco já
saiu. Há silêncio. O último slide é mantido na cortina. Lentamente ele se enche de vermelho, até que as letras
estejam praticamente obliteradas.
A luz do teatro acende abruptamente. Não há fechamento de cortina.

Nota:
No caso de ser difícil conseguir um projetor, a alternativa é:

LEELA (desapontada): Oh! Então deve estar acabado por hoje!


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A luz do teatro diminui e o elenco começa a sair. De fora da janela, a luz ofuscante permanece.
O texto dos slides é ouvido em off, lido em um tom calmo e sem emoção, com pausas distintas entre as
mensagens.
A luz por trás da janela se torna gradualmente vermelha até que quando a última mensagem é ouvida, o palco
está lívido.
Há uma pausa de silêncio.
Então as luzes do teatro acendem abruptamente. Não há fechamento de cortina.