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Fabiany Lais Gomes de Pontes, Cristiano Rodrigo Gobbi e Enne Karol Venancio de Sousa
As contribuições de Édouard Lucas para a Teoria dos Números

AS CONTRIBUIÇÕES DE ÉDOUARD LUCAS PARA A TEORIA DOS


NÚMEROS

THE CONTRIBUTIONS OF ÉDOUARD LUCAS FOR THE THEORY OF


NUMBERS

Fabiany Lais Gomes de Pontes1


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte
Cristiano Rodrigo Gobbi2
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte
Enne Karol Venancio de Sousa3
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte

Resumo
Este trabalho traz um relato histórico sobre as principais contribuições do matemático
francês François Édouard Anatole Lucas (1842 – 1891) no âmbito da Teoria dos
Números, área na qual houve uma maior dedicação de sua parte e, consequentemente,
um grande número de trabalhos publicados que obtiveram êxito. Todavia, enunciaremos
também, trabalhos de outros campos em que Édouard Lucas atingiu sucesso, como por
exemplo em relação à Matemática Recreativa, onde ele expressou seus conceitos em
forma de jogos que se consagraram e até hoje tem um grande alcance popular e de
comercialização, como a Torre de Hanói, elaborada a partir de um desafio inspirado em
uma antiga lenda Hindu e publicado em um de seus trabalhos que é, até hoje,
considerado um clássico da matemática recreativa, a Récréations Mathématiques. Por
essas e outras contribuições que iremos relatar no decorrer desse artigo, Édouard Lucas
se consagrou como um dos maiores matemáticos franceses de todos os tempos, porém
não sendo dado a isso uma merecida relevância, já que seu nome quase nunca é citado
nos principais livros, revistas, etc. Tamanha relevância é atribuída não só por seus
trabalhos inéditos, como também em continuações de trabalhos de outros, como é o
caso da série de Lucas, surgida de uma generalização da sequência de Fibonacci, de
forma a atender à mesma recorrência linear desta. Além disso, também ocorre o inverso,
quando outros importantes matemáticos lançam algumas de suas contribuições a partir
de trabalhos de autoria de Édouard Lucas, como é o caso do Lema de Kaplansky, o qual
foi desenvolvido em decorrência de um problema proposto pelo mesmo. Diante de
tamanho aporte, trazemos como objetivo enaltecer a obra deste que tanto contribuiu
para a Matemática, de modo geral, mas que assim como outros, não tem um alcance
considerável de visualização e reconhecimento, quanto aos seus estudos. Através de
uma pesquisa bibliográfica e qualitativa, abordaremos os principais fatos que levam a
legitimar a grandiosidade apresentada nos trabalhos de Édouard Lucas.

1
fabianylais@hotmail.com
2
enne.sousa@ifrn.edu.br
3
cristiano.gobbi@ifrn.edu.br

Boletim Cearense de Educação e História da Matemática - Volume 05, Número 14, 243 – 252 (2018)
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Fabiany Lais Gomes de Pontes, Cristiano Rodrigo Gobbi e Enne Karol Venancio de Sousa
As contribuições de Édouard Lucas para a Teoria dos Números

Palavras-chave: Édouard Lucas; Fibonacci; Números Primos; Teoria dos Números;


Torre de Hanói.

Abstract
This work presents a historical account of the main contributions of the French
mathematician François Édouard Anatole Lucas (1842 - 1891) in the scope of the
Theory of Numbers, an area in which there was a greater dedication on his part and,
consequently, a great number of published works that were successful. However, we
will also mention the work of other fields in which Édouard Lucas achieved success, as
for example in relation to Recreational Mathematics, where he expressed his concepts in
the form of games that were consecrated and to this day has a great popular and
commercial reach, as the Tower of Hanoi, drawn from a challenge inspired by an
ancient Hindu legend and published in one of his works that is, until today, considered a
classic of recreational mathematics, Récréations Mathématiques. For these and other
contributions that we will report in the course of this article, Édouard Lucas was
consecrated as one of the greatest French mathematicians of all time, but not being
given a deserved relevance because his name is almost never mentioned in the main
books, magazines, etc. Such relevance is attributed not only to his unpublished works,
but also to the continuations of other works, such as the Lucas series, arising from a
generalization of the Fibonacci sequence, in order to meet the same linear recurrence. In
addition, there is also the reverse, when other important mathematicians make some of
their contributions from works by Édouard Lucas, as is the case of Kaplansky's Lemma,
which was developed as a result of a problem proposed by him. In view of this
contribution, we aim to extol the work of this one that has contributed so much to
Mathematics, in general, but as well as others, does not have a considerable scope of
visualization and recognition, as for his studies. Through a bibliographical and
qualitative research, we will address the main facts that lead to legitimize the grandeur
presented in the works of Édouard Lucas.

Keywords: Édouard Lucas; Fibonacci; Prime Numbers; Theory of Numbers; Tower os


Hanoi.

Introdução
Durante toda a história da evolução da ciência, muitos foram os estudiosos que
contribuíram para tal crescimento, formando assim toda a grandiosidade existente hoje.
Na Matemática, em especial, estudamos diferentes conceitos e teorias herdados de
diversas pessoas que se propuseram a explorá-la, o que nos garante hoje uma certa
facilidade, nesse aspecto. Graças a essas pessoas, temos hoje uma ciência e tecnologia
altamente desenvolvidas e preparadas para suprir necessidades de diversos tipos.
Todavia, nem todas essas pessoas são reconhecidas e obtiveram um alcance de
popularidade tanto quanto outras. Além disso, existe ainda o fato de por muitas vezes
um certo estudioso ter desenvolvido algum trabalho importante e, por algum motivo, tal
trabalho ser atribuído como criação de outro mais popular. Como exemplo disso,

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apresentamos a famosa Fórmula de Bháskara, que leva o nome do matemático e


astrônomo Bhaskara Akaria (1114 – 1185), mesmo não sendo este o idealizador da
mesma. Fontes históricas afirmam que as fórmulas algébricas surgiram apenas 400 anos
após a sua morte, não sendo possível ser ele o idealizador.
Levando em consideração isso, apresentamos como proposta para esse artigo,
enaltecer o trabalho de um grande matemático francês que não obteve no decorrer do
tempo uma visibilidade merecida, já que até mesmo seus trabalhos mais importantes,
por serem respostas a outras consagradas teorias, levam o nome dos criadores destas
primeiras, como é o caso do Pequeno Teorema de Fermat. O matemático em questão é
François Édouard Anatole Lucas e o exemplo anterior se refere ao fato de Pierre de
Fermat (1601 – 1665) ter contribuído com um caso particular para testes de primalidade
e Édouard Lucas, por meio de uma prova recíproca, ter abrangido esse teste para outros
casos, porém esse procedimento leva até hoje o nome de Fermat, e não o seu.
A metodologia aqui abordada trata-se de uma pesquisa bibliográfica e
qualitativa, que se sucedeu da abstração de informações quanto ao tema que se está
sendo tratado, com o intuito de relacionar de forma histórica tais informações, para que
sejam apresentados e expostos os resultados. Foi usado como base a vida e obra do
francês François Édouard Anatole Lucas, para se obter referências a trabalhos
matemáticos de sua autoria e ainda, de outros que mantém ligações com este.
Apresentaremos tais resultados a fim de enaltecer a importância dos mesmo e para que
haja a disseminação dos conhecimentos gerados a partir desta pesquisa.

Biografia
François Édouard Anatole Lucas nasceu em abril de 1842 na cidade de Amiens,
localizada ao norte da França, a 120 km de Paris. Desde cedo apresentava um notório
talento matemático, o que o fez ingressar em uma das mais renomadas instituição de
ensino superior da França, a École Normale Supérieure em 1861, onde permaneceu até
1864. Já com o título de graduação, trabalhou no observatório de Paris juntamente com
o astrônomo que ficou conhecido por prever a existência de Netuno: Urbain Joseph Le
Varrier (1811 – 1877) (SILVA, 2017).

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Figura 1 – Édouard Lucas


Fonte: http://learn-math.info/portugal/historyDetail.htm?id=Lucas

Entre 1870 e 1871, Édouard Lucas serviu ao exército francês como oficial de
artilharia em meio à guerra contra a Prússia, na qual a derrota o fez retornar e dar início
oficialmente a sua carreira de professor de matemática, que se iniciou no Lycée of
Moulins, onde atuou de 1872 a 1876. Logo após, ainda em 1876 até 1879, lecionou em
Lycée Saint-Louis e entre 1879 e 1890 no Lycée Charlemagne.

Tinha a reputação de ser um ótimo professor, entretendo e instigando seus


alunos com desafios matemáticos que requeriam considerável inventividade
para serem resolvidos. Além de trabalhar como professor do ensino médio,
foi um matemático bastante prolífico, tendo publicado durante toda sua vida
mais de 180 artigos sobre as mais diversas áreas da matemática, nos mais
diversos jornais de matemática do mundo. (SILVA, 2017, p. 21)

Durante todo esse período, Édouard Lucas desenvolveu trabalhos e pesquisas


dentre diversas áreas da Matemática, em especial para a Teoria dos Números, onde
deixou mais de suas contribuições com resultados bastante satisfatórios para a época em
questão. Um exemplo disso é o caso do maior número primo encontrado manualmente,
ou seja, sem o auxílio de máquinas.
A motivação surgida dos estudos sobre divisibilidade e fatoração o levaram a
grandes resultados, como a série de Lucas, que surgiu como uma generalização da
sequência de Fibonacci e ainda uma prova recíproca do Pequeno Teorema de Fermat
(SILVA, 2017), dentre outras que serão abordadas no decorrer desse artigo.
Como grande apreciador também da Matemática Recreativa, escreveu diversos
volumes do chamado Recréations Mathématiques, onde apresentou trabalhos como a
famosa Torre de Hanói e o quebra-cabeça de Baguenaudier, também conhecido como
anéis chineses.

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Édouard Lucas faleceu em 1891, após ter seu rosto atingido durante um jantar
por um pedaço de porcelana, lançado de um prato quebrado, o qual gerou uma forte
infecção bacteriana poucos dias depois.

As sequências de Fibonacci e de Lucas


Leonardo de Pisa (1170 – 1250), também conhecido como Leonardo Fibonacci
é, para muitos, o maior matemático da idade média. Esse título deve-se aos inúmeros
trabalhos deixados por ele que tiveram grande relevância em várias áreas da
Matemática. Porém, um trabalho em especial eleva até hoje o seu nome a grandes
conquistas. A chamada sequência de Fibonacci, definida em seu termo geral por 𝐹𝑛 =
𝐹(𝑛−1) + 𝐹(𝑛−2) é uma sequência que, dentre outras coisas, relaciona-se com a razão
áurea, de modo que ao dividir-se um certo número n por seu antecessor, o valor
aproxima-se do chamado número de ouro.
Ao tentar difundir o sistema de numeração hindu-arábico pela Europa que, até
então, utilizava o sistema romano, Fibonacci lançou um problema matemático que tinha
como intuito apenas, mostrar a superioridade de um para o outro. O “problema dos
coelhos” questionava o seguinte: “Quantos pares de coelhos serão produzidos num ano,
começando com um só par, se em cada mês cada par gera um novo par que se torna
produtivo a partir do segundo mês?”
Esse questionamento fez surgir a mais famosa das sequências, da qual
desenvolveram-se inúmeras generalizações que atendem outros inúmeros problemas.
Uma dessas generalizações diz respeito a proporção áurea para as n-ésimas potências. A
sequência de Lucas é definida, em relação a de Fibonacci, imediatamente por 𝐿𝑛 =
𝐹(𝑛+1) + 𝐹(𝑛−1) , dentre outras relações e, também resolve um famoso problema do qual
surgiram outros trabalhos com o intuito de resolvê-lo. Segue o “problema de Édouard
Lucas”: “De quantas maneiras n casais podem sentar em 2n cadeiras diferentes em torno
de um círculo de modo que pessoas do mesmo sexo não se sentem juntas e que nenhum
homem fique ao lado de sua mulher?” Irving Kaplansky (1917 – 2006) sugeriu em um
lema relacionado à análise combinatória, uma das formas de solução para esse
problema. As soluções para as duas sequências serão apresentadas na tabela que se
segue.

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Tabela 1 - Números de Fibonacci e de Lucas


n 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12
𝐹𝑛 0 1 1 2 3 5 8 13 21 34 55 89 144
𝐿𝑛 2 1 3 4 7 11 18 29 47 76 123 199 322
Fonte: Elaborada pelos autores

Observe pelos espaços destacados, a validade da fórmula 𝐿𝑛 = 𝐹(𝑛+1) + 𝐹(𝑛−1) ,


quando n > 1. Assim, a sequência de Lucas tornou-se uma das principais generalizações
do trabalho de Fibonacci, sendo Édouard Lucas ainda o responsável por tornar popular
o termo “sequência de Fibonacci”, já que era conhecida até então por “série de Lamé”.
Assim como os números de Fibonacci, todas as suas generalizações atendem a diversas
propriedades aritméticas estudadas na Teoria dos Números. A de Édouard Lucas, em
particular, diz que 𝐿𝑛 é congruente a 1 módulo n, quando n for primo. A partir desse
trabalho, foram desenvolvidos outros de tamanha relevância que serão citados no
decorrer deste artigo.

Édouard Lucas e o Pequeno Teorema de Fermat


Pierre de Fermat (1601 – 1665), foi um juiz francês que, mesmo sem formação
alguma na área de Matemática, muito contribuiu para esta. Essas contribuições o
fizeram ficar conhecido como o “príncipe dos amadores”, todavia seus trabalhos
mostram o quanto de profissionalismo existia em seus conceitos, mesmo sem ter
estudado apropriadamente para isso.
Apesar de nunca ter publicado nada, Fermat desenvolveu importantes teorias em
diversas áreas da Matemática, como por exemplo a Teoria das Probabilidades,
desenvolvida em parceria com Blaise Pascal (1623 – 1662). Porém, foram seus
trabalhos na área da Teoria dos Números que o consagraram. Dentre eles, o Pequeno
Teorema de Fermat, composição essa da qual gerou o teste de primalidade de Fermat,
que diz que sendo p um número primo e a um inteiro qualquer, p divide 𝑎𝑝 − 𝑎.
Usando a linguagem moderna inserida por Carl Friedrich Gauss (1777 – 1855), temos
que:
𝑎𝑝 ≡ 𝑎 (𝑚𝑜𝑑 𝑝)
Como enunciado, esse teorema só vale para o caso em que a é divisível por p.
No entanto, há também uma forma de realização disso quando a não é divisível por p.

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Essa forma se dá por uma prova recíproca do Pequeno Teorema de Fermat apresentada
por Édouard Lucas em 1876 e diz que se a não é divisível por p:
𝑎𝑝−1 ≡ 1(𝑚𝑜𝑑 𝑝)
Com isso, Lucas complementou um dos mais importantes teoremas da Teoria
dos Números. Todavia, esse é um teste para números genéricos e que requer muito
tempo para a execução. Com essas duas afirmações, é possível confirmar ou não a
primalidade de números e isso serviu como base para outros importantes trabalhos que
enunciaremos em seguida.
Além deste teorema, em uma carta escrita ao Padre Marin Mersenne (1588 –
1648), Fermat lançou uma conjectura da qual descrevia uma outra fórmula para se
encontrar números primos. Os chamados “números de Fermat”, inteiros e positivos,
com n pertencente aos naturais, tinham a seguinte forma:
𝑛
𝐹𝑛 = 22 + 1
Contudo, posteriormente o matemático suíço Leonhard Euler (1707 – 1783)
negou essa conjectura, ao mostrar que quando tem-se n = 5, o resultado é
4.294.967.297, um número composto. Atribuiu então, uma correção:
𝐹𝑛 = 𝑘2𝑛+1 + 1
Sendo esta ainda, melhorada por Édouard Lucas, que propôs o seguinte:
𝐹𝑛 = 𝑘2𝑛+2 + 1.

Édouard Lucas e os primos de Mersenne


Vimos até aqui que diferentes estudiosos publicaram distintas fórmulas e formas
de se encontrar números primos. Todavia, uma em especial se destaca por ser a mais
usada na procura dos maiores números primos encontrados manualmente. Os chamados
“Primos de Mersenne”, apresentados em 1644 pelo Padre Marin Mersenne (1588 –
1648) em um trabalho intitulado Cogita physico-mathematica, identificam-se pela
forma 2𝑝 − 1, com p sendo primo e, ainda, p não sendo maior que 257. Com a ascensão
das maquinas e computadores, hoje é possível mostrar que essa forma vale para muitos,
maiores que 257, inclusive, porém não todos os primos.
Inserindo a isso propriedades referentes aos números de Fibonacci em 1857, aos
15 anos de idade, Édouard Lucas deu início ao teste de primalidade para o número
2127 − 1, o 12º número primo de Mersenne, só conseguindo concluir 19 anos após, em

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1876. Com isso, Édouard Lucas encontrou o maior número primo calculado a mão,
número esse que contém 39 dígitos. Hoje, com a ajuda de máquinas, números primos
imensamente maiores já foram encontrados. O maior é o 50° primo de Mersenne, que
acaba de ser calculado (dezembro de 2017) por Jonathan Pace, um engenheiro eletricista
americano que tem se dedicado a encontrar números primos com o auxílio de máquinas
e tecnologia.

Édouard Lucas e a Matemática Recreativa


Além das contribuições para a área da Teoria dos Números, Édouard Lucas
também foi um grande estudioso no âmbito da Matemática Recreativa. Um dos maiores
clássicos existentes nessa área, a Récréations Mathématiques, de sua autoria, foi escrita
entre 1882 e 1894 e contém vários volumes. Foi no quarto volume que Édouard Lucas
apresentou o famoso “Problema das Torres de Hanói”, o qual anos depois em outra
publicação, veio sugerido no formato do popular jogo que é comercializado até hoje.
Esse problema surgiu de uma antiga lenda hindu sobre três torres localizadas na
cidade sagrada de Bernares, na Índia.

A lenda dizia que no início dos tempos, foi dado aos monges uma pilha de 64
discos de ouro de diâmetros diferentes e com um furo no meio, empilhados
em uma das torres de forma que cada disco se sobrepunha a um disco maior
de modo que sempre o disco de cima fosse menor que o disco imediatamente
abaixo dele. A atribuição que os monges receberam foi a de transferir todos
os 64 discos de uma torre para outra, usando a terceira como auxiliar. Apenas
2 regras foram estabelecidas: os monges deveriam movimentar apenas um
disco de cada vez e nunca colocar um disco maior sobre um menor. Os
monges foram compelidos a trabalhar com eficiência dia e noite e quando
terminasse a tarefa, o templo seria transformado em pó e o mundo acabaria!
(COSTA, 2011, p. 40)

Daí, surge a Torre de Hanói. Um jogo do tipo quebra-cabeça que envolve


além de recorrência, função exponencial. As comercializadas hoje trazem geralmente
entre 5 e 8 discos, com 3 pinos, em referência a lenda. O objetivo é transferir os discos
para um pino diferente do inicial, de forma que não seja realizado mais do que um
movimento por vez e que discos maiores não fiquem por cima de menores.

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Figura 2 – Torre de Hanói


Fonte: http://www.ibilce.unesp.br/#!/departamentos/matematica/extensao/lab-
mat/jogos-no-ensino-de-matematica/ensino-medio/

Ao lançar o problema, Édouard Lucas relatou que sendo n o número de discos, a


quantidade mínima de movimentos é dada por 2𝑛 − 1.

Figura 3 – Movimentos
Fonte: http://www.realidadevirtual.com.br/cmsimple-
rv/?%26nbsp%3B_APLICA%C7%D5ES:Torre_de_Hanoi:O_Problema

Outro jogo popular no meio matemático, o quebra-cabeça de Baguenaudier,


também conhecido como anéis chineses, citado por Lucas ainda em Récréations
Mathématiques, traz o uso das recorrências para resolução de um problema também
surgido a partir de uma antiga lenda, sendo essa chinesa.

O quebra-cabeça chinês das argolas consiste em um conjunto de fixo de


argolas presas caprichosamente à uma haste fixa de metal. Obedecendo-se a
um conjunto de regras bem definidas, o objetivo é determinar a sequência
correta de inserções e remoções das argolas de maneira que todas as argolas
presas à haste de metal sejam retiradas. (MARTINHON, [20-?], p. 1)

Salientamos que esse material não é de autoria de Édouard Lucas, mas sim de
Girolamo Cardano (1501 – 1576). Édouard Lucas apresenta apenas suas considerações
quanto ao material em si e sua resolução.

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Figura 4 – Quebra-cabeça de Baguenaudier


Fonte: https://pt.aliexpress.com/

Considerações Finais
Após o término dessa pesquisa, pôde-se comprovar a genialidade apresentada
nos trabalhos de Édouard Lucas, não só pelos conceitos matemáticos envolvidos, como
também pelo caráter metodológico, onde certamente a atuação como professor de
Ensino Médio deve ter grande influência. O que queremos dizer com isso, é que além de
apresentar resultados e formas, Édouard lança juntou a isso desafios e possibilidades de
resolução de problemas, além ainda de materiais manipuláveis e jogos, tudo direcionado
a uma melhor visualização do que está sendo proposto.
Essa metodologia é hoje defendida pela maior parte dos educadores
matemáticos. Existem milhares de estudos na área que comprovam, tanto quanto a
resolução de problemas, como para o uso de materiais manipuláveis, o quão satisfatório
são os resultados gerados por práticas semelhantes. Sendo assim, Édouard Lucas estava
à frente de seu tempo também nesse quesito. Como professor de Ensino Médio, as
necessidades apresentadas por seus alunos devem ter desenvolvido nele essa
característica, o que por muitas vezes não ocorreu com outros grandes matemáticos que
trabalharam apenas com Ensino Superior.

Referências
COSTA, E. B. L. A História da Ciência e o ensino da recursividade: as torres de
Hanói. – História da Ciência e Ensino: Construindo Interfaces, São Paulo, v. 4, p. 38-48,
2011.

MARTINHON, C. A. O quebra-cabeça chinês das argolas – Niterói: RJ, [20-?].

SILVA, Bruno Astrolino e. Números de Fibonacci e números de Lucas. / Bruno


Astrolino e Silva. – São Carlos: SP, 2017.

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