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OS CAMINHOS DO CRESCIMENTO URBANO E TERRITORIAL DE

CARUARU-PE

Daniella Burle de Loiola

Caroline Barreto Calado

Bruna Rafaela de Assis

Nicolas Mateus Macêdo Teixeira

* Daniella Burle de Loiola: Arquiteta e Urbanista (2011) pela UFPE, Doutoranda (2017) e Mestre em
Urbanismo (2014) pelo Programa de Pós-graduação em Urbanismo (PROURB) da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ), professora e coordenadora da pesquisa de Iniciação Científica e Tecnológica na UNIFAVIP-
DeVry, denominada A produção da moradia social em Caruaru-PE e o processo de formação urbana e
expansão territorial da cidade. Endereço: 53030-030/665. Email: daniellaburle@gmail.com.

* Caroline Barreto Calado: Estudante de Arquitetura e Urbanismo e bolsista na pesquisa de Iniciação


Científica e Tecnológica na UNIFAVIP-DeVry, denominada A produção da moradia social em Caruaru-PE e o
processo de formação urbana e expansão territorial da cidade. Email: caroline.barreto.calado@gmail.com.
Endereço: Rua Maria Margarida Alves da Silva, nº 316, Adalgisa Nunes II, Caruaru -PE. CEP: 55000-000

* Bruna Rafaela de Assis: Estudante de Arquitetura e Urbanismo e voluntária na pesquisa de Iniciação


Científica e Tecnológica na UNIFAVIP-DeVry, denominada A produção da moradia social em Caruaru-PE e o
processo de formação urbana e expansão territorial da cidade. Email: assisbrunarafaela@gmail.com. Endereço:
Rua Adalgisa Ribeiro Maciel, nº96, Ayrton Maciel, Belo Jardim -PE. CEP: 55154-100

*Nicolas Mateus Macêdo Teixeira: Arquiteto e Urbanista (2016) pela DEVRY UNIFAVIP – Voluntário no
programa de Iniciação Científica e Tecnológica em 2016 (A produção da moradia social em Caruaru-PE e o
processo de formação urbana e expansão territorial da cidade). Email: nicolasmmteixeira@gmail.com. Endereço:
2ª Travessa Roberto Mesquita, nº 81, Divinópolis, Caruaru-PE. CEP: 55014-133
RESUMO
A pesquisa apresenta dados sobre o crescimento urbano territorial da cidade de Caruaru
mediante a aprovação de loteamentos e empreendimentos advindos da política habitacional.
Para realizar a pesquisa, mapeou-se todos os loteamentos aprovados desde o ano de 1951 até
os dias atuais, apontando quais correspondem a construções advindas de programas
habitacionais (BNH, município e MCMV). A base teórica da pesquisa buscou discorrer a
respeito de alguns condicionantes que colaboram com a qualidade urbana e a sustentabilidade.
Na análise dos resultados foi possível compreender que os caminhos do crescimento da cidade
estão em boa parte vinculados as iniciativas definidas pela política nacional de habitação.
Nesse sentido, a percepção do quadro mais recente é extremamente problemática, na medida
que o Minha Casa, Minha Vida, principal programa habitacional da atualidade, tem
estimulado uma expansão urbana descontrolada, bem como a formação de espaços
completamente carentes de qualidade. Para reverter esse quadro parece ser necessário
redefinir os caminhos da política urbana e habitacional do município de Caruaru. A revisão do
plano diretor, atualmente em curso, se mostra como uma excelente oportunidade dentro desse
debate. Da mesma forma, discutir a redução dos limites da área urbana pode ser uma das mais
importantes iniciativas para estimular uma ocupação do solo mais eficiente na cidade.

Palavras-chave: Crescimento Urbano-Territorial, Política Habitacional, Moradia Popular,


Caruaru-PE.

1
INTRODUÇÃO

O artigo apresenta parte dos resultados da pesquisa A produção da moradia social em


Caruaru-PE e o processo de formação urbana e expansão territorial da cidade que foi
realizada na UNIFAVIP-DeVry no ano de 2016. Nesse ensaio, há uma leitura e reflexão sobre
o crescimento territorial do município mediante a aprovação de loteamentos pela prefeitura do
município, sejam eles frutos de moradias populares ou não. Essa avaliação considerou os
períodos onde houveram programas habitacionais e as diversas gestões administrativas do
município.

Sobre a política habitacional, diante da história do planejamento urbano brasileiro, é possível


pontuar que ela esteve a maior parte do tempo centralizada em ações de âmbito federal. Foi
assim durante a era Vargas (1930-1945), com os Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs)
e com a Fundação da Casa Popular (FCP). O mesmo ocorreu no período da ditadura militar
(1964-1985), com o Banco Nacional de Habitação (BNH) e Sistema Financeiro de Habitação
(SFH). E recentemente, o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) tem concentrado
grande parcela dos investimentos da política habitacional.

Embora cada um desses programas apresente características específicas e sejam diferentes


entre si, há entre eles semelhanças. A principal é que todos financiaram a produção de novas
unidades privadas, quase sempre em conjuntos habitacionais ou em loteamentos de mesmo
padrão construtivo. Logo, nesses espaços, não há variedade de usos e tampouco diversidade
social. Outra questão debatida é que o BNH estimulou e o MCMV vem estimulando a
produção de parques habitacionais de grande escala, periféricos e descontextualizados da
cidade existente.

É notório, desta forma, que os programas habitacionais têm influenciado a conformação


urbana de várias cidades brasileiras. Em Caruaru não foi diferente. Assim, a investigação
apresentada nesse artigo buscou compreender os caminhos desta transformação urbana.
Observando as características dos espaços criados e a forma do crescimento da cidade.

O município de Caruaru apresentou um intenso crescimento populacional entre os anos de


1960 a 1970. Os dados do Censo do IBGE apontam que a população mais que dobrou nesse
período. Para conter o déficit habitacional, a Companhia Habitacional de Pernambuco
(COHAB-PE), com financiamento do BNH, construiu vários bairros de moradia popular no

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município, transformando, desta maneira, seu tecido urbano e ampliando o território ocupado.
O mesmo processo vem ocorrendo recentemente com o programa MCMV.

A base teórica utilizada foi fundamental para compreender o processo de formação urbana das
cidades e como seu crescimento pode colaborar ou não com a criação de espaços de qualidade
e sustentáveis. Para atender a tais questões, foi utilizado como referenciais principais o livro A
Cidade como um Jogo de Cartas de Carlos Nelson Ferreira dos Santos [CNF dos Santos
(1988)] e o livro Cidades para Pequenos Planetas de Richard Rogers e Philip Gumuchdjian
(2009).

O artigo será apresentado em quarto partes além das considerações finais. A primeira explicita
a metodologia utilizada na pesquisa. A segunda a fundamentação teórica onde é apresentado
alguns parâmetros que colaboram para formação de espaços com qualidade e sustentáveis. A
terceira apresenta a cidade de Caruaru e a política habitacional no município. A quarta e
última mostra os resultados da pesquisa na leitura do crescimento urbano-territorial da cidade.

METODOLOGIA

A metodologia adotada neste recorte da pesquisa consistiu num levantamento documental e


sistematização dos dados através da produção de mapas com a finalidade de compreender os
caminhos do crescimento territorial da cidade de Caruaru-PE. Para tanto, foram coletados na
Secretaria de Planejamento Urbano do Município de Caruaru dados referentes a aprovação de
loteamentos desde os primeiros registros, que remontam o ano de 1951, até os dias atuais.

Após a coleta dos dados, todos os loteamentos registrados pelo município foram localizados
na Unibase da cidade de Caruaru-PE, inclusive os irregulares e clandestinos, indicando o ano
de aprovação de cada um deles ou a situação de irregularidade ou clandestinidade. Para
levantar dados complementares sobre alguns empreendimentos financiados pelo BNH,
consultou-se os registros da COHAB-PE na empresa pública Pernambuco Participações e
Investimentos (PERPART). A espacialização das informações permitiu a confecção de três
tipos de mapas.

O primeiro indica a localização de todos empreendimentos advindos de programas


habitacionais. Para sua confecção foi utilizado como base a foto aérea do Google Earth e nela
cada tipo de empreendimento recebeu uma cor especifica. Foram diferenciados os
empreendimentos construídos através da COHAB-PE, os geridos pelo município e os

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financiados pelo MCMV. No caso do MCMV diferenciou-se ainda os que foram produzidos
para a demanda social e os produzidos para as famílias que ganham entre R$ 1600 a R$ 5000.

O segundo mapa cruza as informações da aprovação de todos os loteamentos com os anos de


gestão administrativa da cidade. O seu processo de elaboração consistiu em especializar os
loteamentos na Unibase da cidade e depois colorir cada um deles com tons específicos para
cada gestão. As cores apresentam uma gradação mais clara para os loteamentos mais antigos e
cores escuras para os mais recentes. Nesse mapa também está demarcado o que formava a
cidade até os anos de 1951, bem como os loteamentos irregulares e clandestinos.

O terceiro mapeamento sistematizou os dados cruzando as informações com os períodos de


vigência da política nacional de habitação. Logo, foram produzidos quatro mapas onde foi
possível ler a forma da ocupação, através de uma mancha preta, em quatro períodos
diferentes. O primeiro apresentou como era o espaço urbano de Caruaru até os anos de 1964,
início do período do BNH e COHAB-PE; o segundo apresentou como se conformou a cidade
até o ano de 1999, quando foi extinta a COHAB-PE; o terceiro mostra o crescimento até o
surgimento do MCMV no ano de 2009; e o quarto apresenta a cidade desde o MCMV até ano
de 2016.

Partindo da problemática e objetivos traçados, essa pesquisa aplicou um método de análise


empírica de abordagem qualitativa. Os dados levantados foram interpretados, descritos e
avaliados de modo indutivo. Para a produção das reflexões e considerações finais a respeito
do objeto de estudo – a cidade de Caruaru - foi utilizado os resultados demonstrados nos
mapas bem como os preceitos de qualidade urbana e sustentabilidade apresentados a seguir.

A QUALIDADE URBANA E A SUSTENTABILIDADE

Como já afirmado, a presente pesquisa buscou compreender como procedeu o crescimento


urbano territorial da cidade mediante as ações da política habitacional. A base teórica para
realizar essa leitura utilizou como principais referências CNF dos Santos (1988) e Rogers e
Gumuchdjian (2009). Através desses autores avaliou-se a qualidade dos espaços e se a forma
do crescimento urbano tem contribuído ou não com sustentabilidade.

Nesse sentido, a grande contribuição de CNF dos Santos (1988) foi apontar um caminho
contrário ao urbanismo vigente até a década de 1980, baseado nos preceitos difundidos pelos
Congressos Internacionais de Arquitetura (CIAMs) e pela Carta de Atenas (produto do CIAM

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de 1933). O racionalismo ou modernismo, como é chamado esses princípios, defendiam a
cidade zoneada e separada a partir das funções de moradia, lazer, trabalho e circulação.

O autor, diante dos seus estudos, onde comparou espaços de características tradicionais com
os modernistas, pode perceber que o discurso simplista do racionalismo tinha acabado por
criar espaços segregados, inseguros e desconfortáveis ao homem. Portanto, para reverter esse
quadro, ele acreditava ser preciso retomar um planejamento de características mais
tradicionais.

Segundo CNF dos Santos (1988) era necessário valorizar um desenho urbano pensado a partir
do ordenamento de elementos simples como o lote, a quadra e a rua. Para ele, um bom arranjo
desses elementos, na escala do território, pode contribuir com a formação de espaços de
qualidade. Da mesma forma, ele acredita que a diversidade de usos e a mistura social podem
funcionar como características capazes de conferir vida e segurança aos espaços urbanos.

O modernismo, por outro lado, defendia o planejamento a partir da distribuição das funções.
Nos lugares destinados a moradias, as ruas não deveriam possuir muitos cruzamentos, e se
possível, não ter saída. De forma a induzir que pessoas que não morassem na região
passassem por ali. Ou seja, era uma ideologia crítica de um tecido urbano integrado na escala
global.

A diversidade de usos no mesmo espaço também era condenada. Do mesmo modo, se


defendia a separação dos espaços de acordo com as classes sociais. Um planejador
racionalista pensaria onde morariam os operários e as famílias mais ricas. A ocupação urbana
deveria ser pouco densa. E entre as edificações era necessário possuir largos recuos e muita
área de solo natural.

Como foi um princípio urbano que surgiu com a intensificação do processo de


industrialização na sociedade moderna, a cidade era planejada e pensada em função da
utilização dos automóveis. Uma das tipologias criadas e construídas em larga escala sob esses
preceitos foi o conjunto habitacional que racionalizava o espaço da moradia.

Também ao criticar o racionalismo, Rogers e Gumuchdjian (2009) ensaiaram um modelo de


cidade sustentável e densa no início dos anos 2000. Eles acreditam que para promover a
sustentabilidade, além de criar sistemas de reciclagem e energias limpas, é preciso reverter a
lógica urbana, criando ocupações compactas, diversificadas e com transportes eficientes.

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Os autores ressaltam o quanto a expansão territorial tem contribuído com a formação de
espaços insustentáveis. Eles indicam que os de bairros periféricos, pouco densos e pouco
diversificados são as maiores ameaças ao ecossistema. Esses espaços, além de ocupar áreas
que poderiam ser destinadas ao plantio de alimentos e de reservas ambientais, estimulam o
uso automóveis privados, contribuindo, desta forma, com o aumento da emissão de CO2 na
atmosfera.

Portanto, uma forma de colaborar com a sustentabilidade é incrementar o aumento da


densidade urbana. Ao invés de construir novos bairros periféricos, deve-se estimular a
ocupação dentro das áreas já urbanizadas. Para tanto, é importante reduzir a área os limites
urbanos das cidades com a finalidade de coibir a expansão territorial desordenada.

Diante da lógica da política nacional de habitação, com a construção de empreendimentos de


mesmo padrão, periféricos, sem diversidade, fica evidente o quanto suas ações não tem
contribuído para a formação de espaços com qualidade e sustentáveis. Para entender essas
questões em Caruaru, será apresentada a seguir a política habitacional na cidade.

CARUARU E A POLÍTICA NACIONAL DE HABITAÇÃO

Distante 135 km da capital Recife, Caruaru, considerada a “Capital do Agreste”, está inserida
no eixo de intersecção de dois vetores de expansão: a BR 232 e a BR 104. Com área de
aproximadamente 920 km², e uma população de cerca de 314.912 habitantes, segundo o
último Censo feito pelo IBGE em 2010, a cidade é a quarta mais populosa do Estado de
Pernambuco.

Historicamente, ela era um local de passagem obrigatória entre o litoral e o sertão para o
transporte do gado. Sendo assim, diversas propriedades agropastoris foram se firmando no
entorno do primeiro núcleo urbano. O cruzamento das duas estradas, que se tornariam depois
a BR 232 e BR 104, fazia da cidade um local atrativo para os comerciantes da região. Desse
modo, as trocas comerciais foram constantes desde a formação do primeiro povoado
(MIRANDA, 2009).

Para MIRANDA (2009) a feira livre de Caruaru se confunde com o desenvolvimento da


cidade, porque ela foi a responsável tanto pelo crescimento econômico e social quanto pela
sua visibilidade em âmbito nacional. Caruaru também integra a região do Polo Têxtil, junto
com as cidades próximas de Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Ela também faz parte da

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Bacia do Rio Ipojuca que tem como nascente a cidade de Arcoverde e desembocadura no
Porto de Suape.

As políticas habitacionais na cidade se iniciaram com o BNH (1964-1985). O programa, de


escala nacional, foi criado para suprir o imenso déficit de moradias enfrentado nas cidades
brasileiras. A gestão dele era feita pelos Estados. No caso de Caruaru, o órgão responsável era
a Companhia de Habitação de Pernambuco (COHAB-PE) que funcionou até o ano de 1999.

Em 1967 foi registrado junto ao Cartório de Caruaru o projeto do primeiro loteamento que
seria financiado com recursos do BNH. O loteamento Núcleo Residencial de Caruaru foi o
responsável pela expansão da cidade no sentido oeste dando origem ao Bairro Kennedy, um
dos mais populosos da cidade atualmente. Além desse, há o loteamento COHAB-1 que teve
seu projeto registrado em 1977, o COHAB-21 cujo projeto foi registrado em 1978, o Parque
Residencial do Cedro com projeto registrado em 1985 e o Loteamento Vila Popular de
Caruaru construído na década de 19702. Com a construção desses loteamentos, as famílias
puderam adquirir unidades a partir de financiamentos com baixa taxa de juros.

No fim da década de 1980, com a extinção do BNH e queda da ditadura, houve um incentivo
a municipalização da política habitacional. Sendo assim, é possível também observar na
cidade a construção de novos bairros populares geridos pelo próprio município. O loteamento
Vila Padre Inácio, construído no início da década de 1990 por meio de mutirão, é um
exemplo.

No ano de 2009, para driblar a crise internacional, o governo nacional lança o programa
MCMV com o intuito de financiar e subsidiar o acesso a casa própria, estimulando a indústria
da construção civil. Até então nenhum programa havia subsidiado o acesso a moradia, apenas
financiado. Na verdade, o MCMV foi incubado pelo Sindicado da Indústria da Construção
Civil do Rio de Janeiro (SINDUSCON-RJ) com base na experiência mexicana, inspirada no
programa habitacional chileno que surgiu na década de 1980. Com a iminência da crise, com
o calote das hipotecas nos EUA, o Governo Lula lança o programa como medida anticíclica.

De acordo com Edilson Mineiro e Evaniza Rodrigues (2013), o MCMV na verdade é um


conjunto de programas, com diversas fontes de recursos, atendendo a diferentes faixas sociais,

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Os bairros COHAB 1 e COHAB 2 configuram atualmente o bairro Boa Vista.
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Dados sobre a data de inauguração destes empreendimentos não foram obtidas. Considera-se, deste modo, as
relativas à venda dos terrenos à COHAB-PE e a do registro do projeto urbanístico junto ao 1º Cartório de
Registros de Imóveis de Caruaru.

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comportando, por isso, diferentes tipos de produção. Para a demanda social em áreas urbanas,
chamada de faixa 1, o programa se utiliza de dois fundos. O primeiro é o Fundo de
Arrendamento Residencial (FAR), através do qual a Caixa Econômica Federal (CEF), agente
regulador, destina verbas para uma produção gerida por uma empresa do ramo da construção
civil; o segundo utiliza recursos do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS), e a CEF repassa
as verbas para projetos geridos por Organizações não Governamentais (ONGs) – modalidade
chamada de entidades. Em ambas as modalidades o subsídio chega a 95% do valor da
unidade.

Para as famílias com renda entre R$1600 e R$9000, a produção também é gerida por
empreiteiras. Essa modalidade engloba as faixas 2 (R$1600-R$4000) e faixa 3 (R$4000-
9000), mas como não há distinção operacional entre elas, são chamadas usualmente de apoio
à produção. Para essa modalidade há uma combinação de subsídios e financiamento
calculado de modo proporcional à renda. Os valores de venda das unidades são regulados pelo
programa.

No ano de 2012 foi lançado o MCMV 2 com um reajuste nas faixas renda e contratação de
um maior número de unidades habitacionais. Em 2016 houve o lançamento do MCMV 3, nele
a novidade foi inserir uma nova faixa de atendimento, conhecida como “Faixa 1,5”, destinada
a atender famílias com renda de R$1.800 até R$2.350 reais. Dessa forma o programa
contempla as famílias cuja a renda não se enquadra na Faixa 1, com renda de até R$ 1,8 mil,
tampouco na Faixa 2, com renda de até R$ 4,0 mil. Segundo o Ministério das Cidades as
famílias que se enquadram nesta faixa têm direito a subsídio do governo para a compra do
imóvel, além de financiamento com taxa de juros abaixo da praticada no mercado. O subsidio
oferecido para a Faixa 1,5 passa de R$ 45 mil para R$45,500 mil em 2017.

Na cidade de Caruaru, observa-se a existência de muitos empreendimentos financiados pelo


MCMV. É possível perceber que eles estão localizados quase sempre na periferia e muitas
vezes descontextualizados do tecido existente (ver figura 01). Também se constata que há
muito mais unidades destinadas a faixa 2 e 3 do que para faixa 1.

FIGURA 01: Mapa dos empreendimentos de habitação popular no município de Caruaru-PE

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Fonte: Elaborado pelos autores com base nas imagens disponibilizadas pelo Google Earth.

Para a demanda social foram construídos apenas três conjuntos, o Loteamento Demóstenes
Veras e o Condomínio Luiz Bezerra Torres com financiamento do FAR e o Loteamento Alto
do Moura através da modalidade Entidades. Como pode ser observado no mapa a seguir (ver
figura 1), a localização deles é mais periférica e ainda mais descontextualizada da mancha
urbana quando comparada aos empreendimentos da faixa 2 e 3.

Diferente do MCMV, foi possível perceber que os conjuntos do BNH, quando construídos,
ocupavam o limite da cidade (ver figura 1). Com o passar dos anos, a cidade se desenvolveu
ao redor deles. O desenho desses espaços eram elaborados pela iniciativa pública através da
COHAB-PE e se baseavam no arranjo de ruas e quadras abertas a cidade. Os bairros, no
entanto, eram formados apenas por moradias populares, sem mistura social e sem diversidade
de usos.

Nos empreendimentos do MCMV, como boa parte está descontextualizada do tecido urbano,
os conjuntos ou loteamentos são desenhados de forma isolada e com pouca permeabilidade,
além de não apresentarem diversidade social e usos mistos. O programa, quando comparado
ao BNH, mostra ser muito mais prejudicial a cidade. Nele, todas as ações de planejamento

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como localização, desenho urbano e definição das tipologias, fica a cargo da iniciativa
privada.

Com o mapa dos empreendimentos habitacionais, apresentado na Figura 1, também foi


possível notar o quanto a mancha urbana de Caruaru é composta por construções advindas de
programas de produção de moradias populares, seja MCMV, gestão do município ou
COHAB-PE. Nesse sentido, como será demonstrado no capitulo a seguir, é notável a grande
influência da política habitacional na forma do crescimento urbana e expansão territorial da
cidade.

O CRESCIMENTO URBANO-TERRITORIAL DA CAPITAL DO AGRESTE

De acordo com Oliveira (2016), Caruaru apresenta mudanças significativas em sua expansão
a partir de 1920. O acelerado crescimento populacional do município se intensifica ano a ano
e o território ocupado multiplica-se inúmeras vezes frente a ao que constituía o núcleo inicial.
A esse respeito, o gráfico 01 demonstra que houve um intenso crescimento entre os anos de
1960 a 1970. A cidade, que contabilizavam cerca de 65 mil habitantes, passou a computar
cerca de 143 mil habitantes, apontando um aumento de quase 120% em apenas uma década.

O aumento significativo da população, seguido do aumento no déficit habitacional, induz a


pensar que a cidade cresceu desordenadamente e sua população passou a habitar espaços
precários nas franjas urbanas. Oliveira (2016, p.32) confirma essa hipótese quando diz que:
“neste processo [de crescimento] Caruaru vai se conformando sob o território como uma
mancha urbana descontínua, de bordas imprecisas e vazios internos”.

Gráfico 01: População de Caruaru 1920-2010

314.912
253.637
213.697
172.532
143.653
65.031
43.500
8.900 24.600

1920 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010

População de Caruaru 1920 - 2010

Fonte: Dados do IBGE sistematizados pelos autores em conjunto com o grupo de pesquisa da Iniciação
Científica e Tecnológica: “A produção da moradia social em Caruaru-PE e o processo de formação urbana e
expansão territorial da cidade”

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O mapa de crescimento de Caruaru-PE por gestões administrativas (ver figura 02) revela que
a construção do território da cidade se deu basicamente pela aprovação dos loteamentos ao
longo do tempo. O tecido da cidade, dessa forma, pode ser lido como uma grande “colcha de
retalhos”. Ao observar a Unibase da cidade é possível perceber que essa sobreposição não
criou um espaço integrado. Muitas ruas entre loteamentos, apesar de muito próximas, por
vezes não se conectam.

Essa forma de crescimento urbano denota vários problemas. Como sugere CNF dos Santos
(1988), uma boa integração do tecido urbano na escala global é fundamental para criar
espaços que ofereçam condicionantes capazes de colaborar com a vivacidade e segurança.
Essa baixa integração também dificulta a implementação de uma rede de transporte urbana
adequada já que não há boa permeabilidade entre os espaços ocupados, principalmente, os de
moradias.

O mapa da figura 2 também apresenta aspecto importante, os limites urbanos, definidos pelo
Plano Diretor de Caruaru de 2004, mostram o quando o poder público é permissivo no
espraiamento da cidade. Provavelmente, por conta disso, é possível localizar cada vez mais
empreendimentos distantes da mancha urbana. Nesse cenário, questiona-se como é possível
criar uma cidade sustentável e compacta se o seu planejamento não é direcionado a isso.

A respeito da forma da ocupação de Caruaru, foi constatado que o tecido urbano começou a se
espalhar a partir do núcleo central, espaço que constituía parte do centro histórico da cidade
(ver figura 2 – mancha cinza escura). De início, esse crescimento se manteve praticamente
dentro dos limites das BRs 104 e 232.

Na gestão de João Lyra Filho (1959-1963) em diante é possível observar a aprovação de


diversos loteamentos na margem esquerda da BR 104. Atualmente essa porção ainda hoje
representa um vetor de crescimento. No entanto, como apontado, surgem cada vez mais
loteamentos desarticulados da cidade e localizados próximos aos limites urbanos definidos
pelo Plano Diretor. Muitas dessas novas ocupações, como demonstrado na figura 1, são
empreendimentos do programa MCMV.

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FIGURA 02: Mapa de crescimento de Caruaru-PE por aprovação de loteamentos nas gestões municipais

Fonte: Elaborado pelos autores utilizando como referência a Unibase de Caruaru.

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A partir dos anos de 1979 a cidade expande para a margem inferior da BR 232, considerando
ainda o limite direito da BR 104. Ainda que tímido, essa porção da cidade tem recebido
alguns loteamentos, principalmente, nos períodos mais recentes.

Também se nota períodos de “boom” de aprovações de loteamentos vinculados aos anos de


política habitacional. Caruaru viveu basicamente dois períodos de alta aprovação: nas gestões
de Drayton Jaime Nejaim (1977/1983), período de representatividade do BNH; e na gestão de
José Queiroz de Lima (2009-2016) quando foi implementado o MCMV.

Desta maneira, os indícios levam a crer que durante a era da COHAB-PE e MCMV, pela
própria dinamização do mercado imobiliário, há um estimulo indireto na construção de novos
empreendimentos. Essa realidade pode ser observada no mapa que relaciona o crescimento da
cidade com os períodos de vigência da política habitacional (ver figura 03).

Figura 04: Mapa de crescimento urbano territorial de Caruaru-PE de acordo com os períodos de políticas
habitacionais brasileiras

Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados levantados, utilizando como referência a Unibase de Caruaru.

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Ao fazer uma leitura da expansão do território, com o auxílio do mapa apresentado na figura
3, fica evidente o quanto ele se transformou entre os anos de 1964 a 1999. Apesar do período
formar mais que três décadas, e ser mais extenso quando comparado as demais análises, ele
também coincide com uma época de intenso crescimento populacional.

Os maiores vetores de crescimento de Caruaru tem sido o sentido oeste e norte da cidade.
Entre os anos de 1999 a 2009 percebe-se um aumento da mancha urbana pouco
representativo. No entanto, já é possível observar a existência de loteamentos
descontextualizados do núcleo principal. De 2009 em diante a ampliação do território é um
pouco mais acentuada. Nela também se observa vários empreendimentos soltos da mancha
urbana.

Sobre a questão da ampliação do território observada nesses mapas da figura 3, somados a


permissibilidade do poder público no espraiamento da cidade, fica evidente que a forma de
desenvolvimento urbana de Caruaru não tem criado condicionantes capazes de colaborar com
a sustentabilidade. Da mesma forma, questiona-se a qualidade desses espaços de moradia
periféricos. Será que todos possuem serviços adequados de transporte, saúde e educação?

A forma como está estruturada a política habitacional no Brasil tem configurado muitos
problemas para as cidades. No fim da década de 1980, com os resultados da produção do
BNH, diversos estudos indicavam que a solução de financiar novas unidades em conjuntos
habitacionais era extremamente problemática (SOUZA, 2007). Com o surgimento do MCMV
os resultados podem ser bem piores, tendo em vista o apontado caráter predatório do
programa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observando como Caruaru tem se constituído, é evidente que não está se produzindo espaços
com qualidade e tampouco sustentáveis. Para reverter esse processo parece ser necessário
redefinir as estratégias de planejamento das cidades. Não faz sentindo conceber imensos
programas habitacionais incapazes de conferir um bom desenho urbano para as cidades. Desta
forma, criam-se espaços imensamente carentes de diversidade, sem vida e inseguros.

No caso do MCMV, a localização das moradias, o desenho urbano e definição das tipologias
fica totalmente a cargo da iniciativa privada. Em Caruaru, onde há um imenso espaço para

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expansão urbana, os empreendedores podem continuar construindo conjuntos completamente
dissociados da cidade e sem acesso a serviços de forma adequada.

Embora as iniciativas do BNH tenham sido bastante criticadas, em Caruaru, percebe-se que os
bairros construídos foram localizados na borda da cidade, mas tiveram, de certo modo, um
desenho articulado ao espaço preexistente. Por terem sido planejados como bairros e não
conjuntos habitacionais, há uma maior integração com a cidade bem como acesso aos
serviços.

De forma geral, é notável que na última década tem surgido na cidade vários
empreendimentos desarticulados do tecido urbano. Tal aspecto, além de não colaborar com a
sustentabilidade, acaba por criar condições de vida precárias a quem vai habitar esses espaços.
Além de serem distantes de centros comerciais, não há um acesso adequado a serviços
públicos básicos.

Para mudar esse cenário, sugere-se que a revisão do Plano Diretor reconsidere os caminhos da
política urbana e habitacional. Nesse sentido, construir moradias populares bem localizadas
pode ser muito mais econômico ao município na medida que não se necessita expandir a
infraestrutura urbana (rede de transporte, saúde, educação, abastecimentos, etc.). Da mesma
forma, é preciso reduzir drasticamente o perímetro de crescimento da cidade com a finalidade
de estimular o adensamento. Logo, é necessário redefinir uma ocupação do solo mais
eficiente.

REFERÊNCIAS

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