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PRF

Policial Rodoviário Federal

1 Teoria geral dos direitos humanos. 1.1 Conceito, terminologia, estrutura normativa,
fundamentação......................................................................................................................................... 1

2 Afirmação histórica dos direitos humanos. ........................................................................................ 5

3 Direitos humanos e responsabilidade do Estado............................................................................. 12

4 Direitos humanos na Constituição Federal. ..................................................................................... 16

6 Institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. .............................................................. 18

7 Política nacional de direitos humanos. ............................................................................................ 20

8 Programas nacionais de direitos humanos...................................................................................... 21

9 Globalização e direitos humanos. ................................................................................................... 23

10 As três vertentes da proteção internacional da pessoa humana. 10.1 Direitos humanos, direito
humanitário e direito dos refugiados. ...................................................................................................... 27

11. A Constituição brasileira e os tratados internacionais de direitos humanos.................................. 29

12 Aplicações da perspectiva sociológica a temas e problemas contemporâneos da sociedade


brasileira: a questão da igualdade jurídica e dos direitos de cidadania, o pluralismo jurídico, acesso à
justiça. .................................................................................................................................................... 31

13. Práticas judiciárias e policiais no espaço público. ........................................................................ 35

14 Administração institucional de conflitos no espaço público. .......................................................... 52

Questões ........................................................................................................................................... 54

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1 Teoria geral dos direitos humanos. 1.1 Conceito, terminologia,
estrutura normativa, fundamentação.

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todo o prazo do concurso para auxiliá-lo em suas dúvidas e receber suas sugestões. Muito zelo e técnica
foram empregados na edição desta obra. No entanto, podem ocorrer erros de digitação ou dúvida
conceitual. Em qualquer situação, solicitamos a comunicação ao nosso serviço de atendimento ao cliente
para que possamos esclarecê-lo. Entre em contato conosco pelo e-mail: professores @maxieduca.com.br

Conceito

O homem ao longo da história percorreu um longo caminho marcado por lutas, principalmente
causadas pelo desejo de lucro e poder, visto que traz a herança da personalidade humana desde os
primórdios dos tempos, de extinto animal. Para eliminar, ou pelo menos diminuir essa personalidade “não
social” é indispensável a educação para “retirar o homem dos resquícios de sua condição primitiva”.
Os direitos humanos surgiram como um dos fatores mais importantes para a convivência do homem
em sociedade, refinando seu comportamento.
A expressão direitos humanos representa o conjunto das atividades realizadas de maneira consciente,
com o objetivo de assegurar ao homem a dignidade e evitar que passe por sofrimentos.
A concepção contemporânea de direitos humanos, foi estabelecida internacionalmente nem 1948, pela
Declaração Universal de Direitos Humanos, pouco tempo depois das crueldades cometidas pelos nazistas
na Segunda Guerra Mundial. Referida declaração foi ratificada pela Declaração dos Direitos Humanos de
Viena, em 1993, onde os direitos humanos e as liberdades fundamentais foram declarados direitos
naturais de todos os seres humanos, bem como definiu que a proteção e promoção dos direitos humanos
são responsabilidades primordiais dos Governos.
Além disso, os direitos humanos são universais e indivisíveis, visando proteger os direitos a vida, a
liberdade, igualdade e segurança pessoal, o que leva ao respeito integral a dignidade humana.

Os direitos humanos se orientam pelas seguintes expressões:


- Direitos do homem: empregada aos direitos conexos ao natural, direito a vida.
- Direitos humanos em sentido estrito: direitos conexos positivados em tratados e convenções
internacionais
- Direitos fundamentais: quando os tratados dos direitos humanos foram incorporados no
ordenamento jurídico do Estado.

A doutrina aponta certa distinção entre direitos humanos e direitos fundamentais, sustentando que
direitos fundamentais são os direitos reconhecidos positivamente pela ordem constitucional.
Direitos Humanos são a concretização das exigências de liberdade, igualdade e dignidade humana,
as quais devem ser reconhecidas nos ordenamentos jurídicos nacionais e internacionais, em cada
momento histórico.
Desta forma, é possível notar que os direitos fundamentais são direitos humanos positivados no
ordenamento jurídico.
Para que os direitos humanos sejam concretizados é necessário que o Estado cumpra seu dever de
respeitar a liberdade e autonomia do homem e, por outro lado, implementar ações aptas a proporcionar
a dignidade humana.

Em linhas gerais, direitos humanos são aqueles que pertencem à pessoa humana, independentemente
de leis, sendo considerados os principais: a vida, a liberdade, a igualdade e a segurança pessoal. São
direitos universais e indivisíveis.

Terminologia

Os direitos essenciais do indivíduo contam com ampla diversidade de termos e designações: direitos
humanos, direitos fundamentais, direitos naturais, liberdades públicas, direitos do homem, direitos
individuais, direitos públicos subjetivos, liberdades fundamentais. A terminologia varia tanto na doutrina
quanto nos diplomas nacionais e internacionais.

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O ilustre doutrinador José Afonso da Silva explica que a ampliação e transformação dos direitos
fundamentais do homem são as grandes responsáveis pela dificuldade para se obter um conceito sintético
e preciso a respeito desta espécie, até porque os direitos humanos fundamentais, em sua concepção
atualmente conhecida, surgiram como produto da fusão de várias fontes, desde a conjugação de
pensamentos filosófico-jurídicos até as ideias surgidas com o cristianismo e com o direito natural.
Todavia, a melhor doutrina vem apontando para o fim da heterogeneidade, ambiguidade e ausência
de consenso no tocante à esfera conceitual e terminológica, rechaçando a utilização, ao menos como
termos genéricos, das expressões: liberdades públicas, direitos individuais e direitos subjetivos públicos.
A expressão “direitos individuais”, por exemplo, mostra-se insuficiente para figurar como gênero dos
direitos, pois, limita-se ao rol das liberdades e direitos civis. De igual modo, a expressão “direitos
subjetivos públicos” denota o exercício do direito de acordo com a vontade do titular, o que fere as
características de inalienabilidade e irrenunciabilidade típicas destes direitos.
Contudo, ainda que estas expressões não sejam adequadas para abarcar todas as dimensões dos
direitos objetos deste estudo, elas não se excluem e também não são incompatíveis, apenas se
distinguem por suas esferas de alcance, positivação e consequências práticas.
De fato, os “direitos humanos” exprimem certa consciência ética universal, e por isso estão acima
do ordenamento jurídico de cada Estado, sendo a expressão preferida nos documentos internacionais.
Já os direitos fundamentais são compreendidos como princípios que resumem a concepção do mundo
e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico, no sentido de consagrar o respeito à
dignidade humana, garantir a limitação do poder e visar o pleno desenvolvimento da personalidade
humana no âmbito nacional.
José Joaquim Gomes Canotilho, que utiliza a expressão direitos do homem em lugar da expressão
direitos humanos, explica: “As expressões direitos do homem e direitos fundamentais são frequentemente
utilizadas como sinônimas. Segundo a sua origem e significado poderíamos distingui-las da seguinte
maneira: direitos do homem são direitos válidos para todos os povos e em todos os tempos (dimensão
jusnaturalista-universalista); direitos fundamentais são os direitos do homem, jurídico-institucionalmente
garantidos e limitados espacio-temporalmente. Os direitos do homem arrancariam da própria natureza
humana e daí o seu carácter inviolável, intemporal e universal; os direitos fundamentais seriam os direitos
objetivamente vigentes numa ordem jurídica concreta”.
A teoria positivista considera essa indagação como despida de sentido, pois, parte da premissa de que
não há direito fora da organização política estatal, fora do direito posto, escrito. Mas essa concepção,
notavelmente, demonstra-se incompatível com o reconhecimento da existência de direitos humanos, pois
a característica de tais direitos consiste, como proclamaram os revolucionários americanos e franceses
no século XVIII, no fato de valerem contra o Estado.
Seja como for, eventual conflito entre normas internacionais e internas, em matéria de direitos
humanos, invoca a aplicação da norma mais favorável ao ser humano, pois a proteção da dignidade da
pessoa é a finalidade última e a razão de ser de todo o sistema jurídico.
Quanto ao âmbito da discussão em torno da melhor terminologia a ser adotada, temos que a utilização
da expressão direitos humanos fundamentais possui o condão de reforçar a unidade essencial e
indissolúvel entre os direitos humanos e os direitos fundamentais e, por essa razão, torna-se a mais
adequada a este estudo, porque, além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo,
também informa a ideologia política de nosso ordenamento jurídico.
No qualificativo fundamentais, como bem explica José Afonso da Silva, acha-se a indicação de que se
trata de situações jurídicas sem as quais a pessoa humana não se realiza, não convive e, às vezes, nem
mesmo sobrevive, interpretação perfeitamente compatível com os demais direitos.
Trata-se, então de ênfase e valorização da condição humana como atributo para o exercício desses
direitos. Com isso, o adjetivo “humanos” significa que tais direitos são atribuídos a qualquer indivíduo,
sendo assim considerados “direitos de todos”.

Estrutura normativa

1. Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos: instrumentos de alcance geral e especial

O sistema global de proteção dos direitos humanos, da ONU, contém normas de alcance geral e de
alcance especial. As normas de alcance geral e destinadas a todos os indivíduos, genérica e
abstratamente, são os Pactos Internacionais de Direitos Civis e Políticos e o de Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais.
As normas de alcance especial são destinadas a indivíduos ou grupos específicos, tais como:
mulheres, refugiados, crianças entre outros. Dentre as normas especiais do sistema global da ONU,

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destacam-se a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos e
Degradantes, a Convenção para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher, a Convenção para a
Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial e a Convenção sobre os Direitos da Criança.
Nos sistema global da ONU, o Brasil ratificou a maior parte dos instrumentos internacionais de proteção
aos direitos humanos, tais como o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, em 24/01/92; o Pacto
de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, 24/01/92; a Convenção para a Eliminação de toda a
Discriminação contra a Mulher, em 01/02/84; a Convenção para a Eliminação de todas as formas de
Discriminação Racial, em 27/03/68; e a Convenção sobre os Direitos da Criança, em 24/09/90. Porém, o
Brasil ainda não reconhece a competência dos seus órgãos de supervisão e monitoramento, os
respectivos Comitê de Direitos Humanos, o Comitê contra a Discriminação Racial, o Comitê contra a
Tortura, no que tange à apreciação de denúncias de casos individuais de violação dos direitos humanos.
Assim, o Brasil aderiu aos mencionados tratados internacionais, porém, ainda não reconhece a
competências de seus órgãos de supervisão, impede a fiscalização de suas obrigações internacionais
por parte daqueles órgãos. Na prática, tal fato representa a impossibilidade de tais órgãos receberem
denúncias individuais de casos de violações de direitos humanos ocorridos no país, através do sistema
de petições ou denúncias individuais. A possibilidade de acionar outros órgãos internacionais de
supervisão, além da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, seria uma garantia a mais
da proteção dos direitos humanos no Brasil.
Assim, no sistema global, além do sistema de denúncias individuais, há também o sistema de
investigações e o de relatórios. Ao ratificar os tratados internacionais mencionados, o Brasil assumiu a
obrigação de enviar relatórios periódicos para os Comitês e de sujeitar-se a uma eventual investigação
sobre a situação dos direitos humanos no seu território. Uma forma de participação e de intervenção das
organizações de direitos humanos no sistema da ONU é o encaminhamento de relatórios próprios aos
respectivos Comitês, para que sejam analisados juntamente com os relatórios enviados pelos Estados.
O sistema da ONU possui dois tipos de procedimento: os convencionais e os não convencionais.
O procedimento convencional requer a sua previsão expressa em tratados, pactos e convenções
internacionais, e é supervisionado pelos órgãos internacionais de supervisão, os Comitês (através do
sistema de denúncias, relatórios e investigações).

Os procedimentos não convencionais são mecanismos não previstos em tratados que contribuem
para a maior eficácia do sistema internacional de proteção. Os mecanismos não convencionais são
bastante específicos e são acionados em caso de não assinatura dos tratados internacionais pelos países
violadores de direitos humanos num caso específico, como por exemplo, o sistema de ações urgentes.
Nestes casos, a ONU analisará as violações com base em requisitos como a persistência, a
sistematicidade, a gravidade e a prevenção, para decidir se intervirá através de um dos seus órgãos,
tomando providências concretas.

2. Sistema Regional Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos: instrumentos de


alcance geral e especial

O sistema interamericano de proteção aos direitos humanos, do qual participam os estados membros
da OEA, integra o sistema regional de proteção juntamente com os sistema europeu e a sistema africano.
O sistema interamericano de promoção dos direitos humanos teve início formal com a aprovação da
Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem em 1948 na Colômbia. A Declaração Americana
é um instrumento de alcance geral que integra o sistema interamericano, destinada a indivíduos genéricos
e abstratos, estabelecendo os direitos essenciais da pessoa independente de ser nacional de
determinado Estado, tendo como fundamento os atributos da pessoa humana. Além da Declaração
Americana, há outros instrumentos de alcance geral que fazem parte do sistema interamericano, como a
Convenção Americana sobre os Direitos Humanos ou “Pacto de San José” (1969), ratificada pelo Brasil
em 25/09/92.
Além dos instrumentos de alcance geral, os sistema interamericano também é integrado por
instrumentos de alcance especial, tais como: a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte
Interamericana de Direitos Humanos. Ao ratificar a Convenção Americana, o Brasil aceitou
compulsoriamente a competência da Comissão para receber denúncias de casos individuais de violações
de direitos humanos.
Assim, no caso do Brasil, até o presente, o único órgão internacional que têm competência para aceitar
denúncias de casos individuais; e a Comissão Interamericana conforme estabelece a Convenção
Americana no seu artigo 44: “Qualquer pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não-governamental

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legalmente reconhecida em um ou mais Estados-membros da Organização, pode apresentar à Comissão
petições que contenham denúncias ou queixas de violação desta Convenção por um Estado-parte”.
Além do recebimento de denúncias, a Comissão tem duas funções: promover e estimular em termos
gerais os direitos humanos através da elaboração de relatórios gerais; elaborar estudos e relatórios sobre
a situação dos direitos humanos nos países membros da OEA; realizar visitas in loco aos países membros
e, apresentar um Relatório Anual na qual são reproduzidos relatórios finais dos casos concretos, nos
quais já houve uma decisão sobre a responsabilidade internacional dos países denunciados. A publicação
de um relatório final no Relatório Anual da Comissão divulgado para os Estados membros da Assembleia
Geral da OEA é a sanção mais forte a que pode estar submetido um Estado, que ainda não tenha
reconhecido a competência da jurisdição da corte Interamericana, proveniente do sistema interamericano.
A Corte Interamericana, diferentemente da Comissão, é um órgão de caráter jurisdicional, que foi
criado pela Convenção Americana sobre Direitos Humanos com o objetivo de supervisionar o seu
cumprimento, como função complementar a função conferida pela mesma a Comissão.
Assim, a legitimidade processual para o envio de casos para a Corte é somente concedida para a
Comissão os Estado-parte, não sendo permitido o envio de casos pelas próprias vítimas de violações,
seus representantes, familiares ou pelas organizações não-governamentais. Para que os casos não
sejam encaminhados à Corte primeiramente terão que passar pelo exame da Comissão, esgotando o seu
procedimento:

“Art. 61-1. Somente os Estados-parte e a Comissão têm direito de submeter um caso à decisão da
Corte”.

“Art. 62-1. Todo Estado-parte pode, no momento do depósito de seu instrumento de ratificação desta
Convenção ou de adesão a ela, ou em qualquer momento posterior, declarar que reconhece como
obrigatória, de pleno direito e sem convenção especial, a competência da Corte em todos os casos
relativos à interpretação ou aplicação desta Convenção.”

No caso do Brasil, em 07 de setembro de 1998, o Presidente da República aceitou a competência da


Corte, após decorridos seis anos de ratificação da Convenção Americana pelo Brasil (25/09/92).
A Corte possui duas funções principais: a função contenciosa, que é a análise dos casos individuais
de violações de direitos humanos encaminhados pela Comissão ou pelos Estados-parte; e a função
consultiva. A sua função consultiva refere-se a sua capacidade para interpretar a Convenção e outros
instrumentos internacionais de direitos humanos. Qualquer dos Estados partes da OEA podem solicitar à
Corte uma opinião consultiva, mesmo os que não são partes na Convenção Americana ou outros órgãos
enumerados no Capítulo X da Carta da Organização, conforme o artigo 64 da Convenção Americana.
A função consultiva da Corte foi usada com mais frequência nos seus primeiros anos de
funcionamento, e as Opiniões Consultivas versaram sobre temas como: os limites de sua autoridade; os
limites das ações dos Estados; discriminação; habeas corpus; garantias judiciais; pena de morte;
responsabilidade do Estado, entre outros temas cruciais para a efetiva proteção dos direitos humanos.

3. A Conjugação dos Sistemas Global e regional e a prevalência da norma mais benéfica

Não existe hierarquia entre o sistema global e o sistema regional (interamericano) de proteção dos
direitos humanos. A lógica do sistema internacional é de somar e proteger de forma mais integral possível
os direitos da pessoas humana. Neste sentido, o critério adotado para evitar conflitos entre os vários
instrumentos internacionais é da prevalência da norma mais benéfica para a vítima de violações de
direitos humanos. Tal critério contribui para minimizar os conflitos e possibilitar uma maior coordenação
entre os instrumentos de proteção.
Além disso, igualmente não existe hierarquia entre o sistema internacional, seja global ou
interamericano, e o sistema jurídico dos países. A tendência e o propósito da coexistência de distintos
instrumentos jurídicos que garantem os mesmos direitos é no sentido de ampliar e fortalecer a proteção
dos direitos humanos, importando em última análise o grau de eficácia da proteção. Assim será aplicada
ao caso concreto a norma que melhor proteger a vítima seja ela de direito internacional ou de direito
interno.

Fundamentação

Em relação à fundamentação para os direitos humanos é possível notar que correntes filosóficas
buscam explicar em que momento, qual a origem dos direitos humanos.

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A primeira corrente que deve ser lembrada numa prova, é a corrente jus filosófico, também chamado
de corrente ético jurídico. Essa corrente idealizada pelo filosofo Perelman, entende que os direitos
humanos surgem em decorrência da consciência moral do povo.
A segunda corrente, que também deve ser lembrada no momento de se fazer uma prova é a corrente
jus naturalista. Para esta corrente os direitos humanos são inatos, ínsitos ao ser humano, vale dizer,
não se trata de criação humana, mas sim valores que precedem a criação humana e existem desde o
momento em que o ser humano nasce na sociedade.
Para esta corrente que é extremamente relevante e que será retomada quando tratarmos das
características dos direitos humanos, os direitos humanos antecedem a criação do Estado e também das
normas, prestando-se a limitação e ao direcionamento do Estado na execução de políticas que conduzam
a melhoria das condições de vida do homem.
Terceira corrente, também deve ser lembrada, é a corrente positivista. Para essa corrente que
também exprime o momento em que surgem os direitos humanos, na realidade eles surgiriam quando
advém uma criação normativa, e que refletem aspirações e manifestações presentes na sociedade. Para
esta corrente, na realidade, somente surgem esses direitos no momento em que advém uma alteração
normativa ou uma criação de uma norma que revela, na realidade, o pensamento vigente na sociedade.
O jurista Alexandre de Morais, de toda sorte, realiza um trabalho de complementação destas correntes
o que inclusive se conhece como acertado, o doutrinador aponta que na realidade os direitos humanos
eles se complementam em relação a essas correntes, e por que isso acontece?
Porque os direitos humanos surgem a partir da consciência moral do povo e revelam valores de ordem
superior presentes e inatos a todos os serem humanos, que passam a ser reconhecidos pelo
ordenamento jurídico vigente na sociedade.
Portanto, em que pesem as distinções das correntes aqui apresentadas, é possível identificar um
complemento entre elas, e em uma prova, seria importante concluir o raciocínio mencionando que todas
elas possuem esse caráter complementar a fim de demonstrar que os direitos humanos, eles acabam
permeando vários momentos da vida em sociedade.

2 Afirmação histórica dos direitos humanos.

A evolução dos Direitos Humanos está intrinsecamente ligada a questões sociais, econômicas e
culturais, moldando-se de acordo com a mobilização social para garantir que suas demandas possam ser
atendidas.
Difícil traçar um marco cronológico para a evolução dos direitos humanos, haja vista a complexidade
dos fatos e a identificação de pontos aleatórios para traçar tal análise1. Contudo, através do estudo do
Direito Natural é possível identificar que os direitos humanos existem desde os primórdios dos tempos.
O Direito Natural é o conjunto dos direitos à vida, à segurança pessoal, à liberdade e à igualdade, pois
são inerentes ao indivíduo desde o seu nascimento, sendo, portanto, justo por natureza.
No início da História, o direito teve raízes fincadas na dinâmica da natureza, porque o homem era
movido pelas leis naturais da sobrevivência.
Tales de Mileto, nascido por volta do ano 600 a.C., é considerado o mais antigo filósofo ocidental.
Fundou a Escola de Mileto, cujos principais pensadores foram Anaximandro e Anaxímenes.
A Escola de Mileto postulava que os elementos da natureza (physis), especificamente água, ar, fogo
e terra, eram os condicionantes da vida humana. Como nada escreveram, essa teoria chegou até nós por
meio dos filósofos que vieram depois de Sócrates. Segundo ela, o destino dos homens era regido por
fenômenos naturais, principalmente aqueles ocasionados pela água, que seria o princípio de todas as
coisas e estava em todas as coisas. Por isso, Tales de Mileto e seus seguidores eram chamados de
filósofos naturalistas. Esse pensamento, baseado no bom senso e na equidade (segundo definição dada
por Aurélio Buarque de Holanda), inspirou o Direito Natural. As primeiras noções do Direito Natural
surgem principalmente com os estudos do filósofo Aristóteles, que definiu duas concepções
complementares: o justo legal (díkaion nomikón) e o justo natural (díkaion physikón).
O Direito Natural também é chamado Jusnaturalismo.
Antonio Fernández-Galiano, no artigo “El jusnaturalismo”, inserido no livro Lecciones de teoría del
derecho y derecho natural, de Benito de Castro Cid (1999 – p. 419-420), diz o seguinte:
... o jusnaturalismo afirma a existência de uma ordem preceptiva de caráter objetivo, imutável e
derivada da natureza, que não pode contrariar os mandamentos dos homens e na qual encontra esse
direito humano sua fonte e fundamento.
1
AGRA. Walber de Moura. Curso de Direito Constitucional. 6ª edição. Ed. Forense. 2010

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Mas o entendimento da noção do que seja o jusnaturalismo modificou-se ao longo dos tempos.”2
O primeiro conceito de jusnaturalismo, foi o Jusnaturalismo clássico, que trazia em sua essência a
ideia de que o fundamento do direito é a natureza das coisas, ou seja, a ordem natural da natureza, que
deve ser seguida, pois, segundo Aristóteles, por exemplo, o que é natural é bom e justo. Esta primeira
ideia de jusnaturalismo acredita-se que adveio com a Antígona, de Sófocles, onde há a invocação de leis
divinas para justificar a desobediência às ordens dadas pelos rei.
Com o passar do tempo o direito passou a ser considerado uma herança divina, momento no qual
surgiu o Jusnaturalismo Teológico, tendo como fundamento as leis concedias por Deus. Referida
posição imperou até a Idade Média, até onde prevaleceu as convicções religiosas. Um dos primeiros
pensadores desse tipo de naturalismo foi Heráclito, que defendia a ideia de que o Universo era governado
por uma lei divina.
Posteriormente, surgiu o jusnaturalismo escolástico (ou tomista), onde acreditavam que o direito
tinha como base os mandamentos divinos, advindos da “lei eterna”. Para estes pensadores cristãos, como
Santo Tomás de Aquino, dentro desses mandamentos haviam as leis naturais e as leis humanas e que a
lei natural estabelece hierarquia entre as criaturas, mas que só é justa se baseada na lei eterna, na qual
Deus é o fundamento de todas as coisas.
Um dos primeiros pensadores do jusnaturalismo racional foi o holandês Hugo Grotius. Ele o definiu
desta maneira: “Ditame da justa razão, destinado a mostrar que um ato é moralmente torpe ou
moralmente necessário segundo seja ou não conforme a própria natureza racional do homem, e a mostrar
que tal ato é, em consequência disto, vetado ou comandado por Deus, enquanto autor da natureza”. Este
trecho está no livro de Norberto Bobbio, O Positivismo Jurídico: Lições de Filosofia do Direito.3 Para este
pensador, o fundamento do direito é o homem, que analisa as leis da natureza e as aplica. A base desse
pensamento foi elaborada por Zenon e os estoicos, mas a essência já estava em Protágoras, cuja célebre
fórmula determinava que o homem é a medida de todas as coisas. O jusnaturalismo racional foi, mais
tarde, adotado pelos romanos, mas profundamente modificado nos séculos XVII e XVIII, quando se
passou a atribuir à razão, por meio das ciências, o descobrimento da verdade, e não mais à entidade
divina. Surgia, então, uma nova conceituação para o Direito Natural.4
Nos séculos XIX e XX surgiu o jusnaturalismo contemporâneo, considerando que o direito precisa
de um fundamento ético justo, ou seja, o direito precisa ser analisado de acordo com o plano histórico e
social, considerando a variação da justiça no tempo e no espaço. Um dos pensadores desse
jusnaturalismo foi Joaquín Herrera Flores.
Importante ressaltar o contraponto do Direito Natural, qual seja, o Direito Positivo.
O direito positivo, também chamado de juspositivismo que direito é somente o conjunto de leis postas
pelo Estado, que define o que é justo por convenção ou justo por lei.
“O pensador Thomas Hobbes, no livro Leviatã (publicado em 1651) analisou cuidadosamente as leis
da natureza e chegou à conclusão de que elas somente funcionariam se fossem respeitadas por todos.
Mas considerou impossível essa obediência, porque achava que os homens são egoístas e somente
poderiam viver em harmonia se estivessem subordinados a uma autoridade que fiscalizasse o
cumprimento das leis naturais. Numa análise que considerava realista, definiu que havia grande perigo
na falta de uma autoridade central, porque os homens em situação de igualdade tinham o mesmo direito
a todas as coisas; o que ocorreria quando duas pessoas desejassem a mesma coisa e se considerassem
donas dessa coisa?
Cada uma tentaria tomar posse do objeto à força e acabariam deflagrando guerras generalizadas.
Nessas guerras, nem sempre valeria a lei do mais forte, porque mesmo o fraco poderia lançar mão de
recursos e desenvolver armas para vencer o oponente teoricamente mais poderoso. Por isso, Hobbes
desenvolveu a teoria em que defendia o absolutismo, ou seja, o poder absoluto ao rei, ao governante que
representava o Estado. Haveria entre os cidadãos e a autoridade um “pacto social”, pelo qual os homens
abriam mão de parte de sua liberdade, para permitir que o rei (o Estado) cuidasse de todos, garantindo
direitos e cobrando obrigações. Essa era a teoria, mas na prática sabemos que o absolutismo levou os
reis a pensarem que eram donos dos destinos dos súditos. Houve até a publicação de obras de filosofia
que demonstravam que os reis tinham poder originado dos deuses. Uma dessas obras foi A Política tirada
da Sagrada Escritura, de Jacques Bossuet, publicada em 1701, da qual o rei Luís XIV, da França, lançou
mão para justificar suas decisões totalitárias. É famosa uma frase de Luís XIV: “L’Etat c’est moi” (“O
Estado sou eu”).

2
Sinopses Jurídicas. Direitos Humanos. Ricardo Castilho. Editora Saraiva. 2011
3
Idem
4
Idem

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“Curiosamente, nessa época, a Inglaterra já havia abandonado os princípios da doutrina do direito
divino dos reis, desde a Revolução Gloriosa de 1688, que expulsou os católicos do poder.”5
Augusto Comte é considerado o pai do positivismo sociológico, porque sistematizou a doutrina, em
obras que publicou a partir de 1816. Mas o conceito já existia em Roma, quando o imperador Justiniano
criou um código legislativo para regular os povos conquistados e que firmou a base do Direito Romano.
O conceito juspositivista também estava incluído em obras de autores como Descartes, Humes e Kant,
que publicaram livros por volta de 1750. E é preciso considerar também o Código Napoleônico (também
conhecido como Código Civil Francês), já em 1804, na Idade Moderna, fortemente influenciado pelo
Direito Romano. Sua aceitação foi ampla em razão de a França ter sido berço da revolução que brandiu
os conceitos básicos dos direitos humanos modernos: liberdade, igualdade e fraternidade. O avanço
principal do Código Napoleônico foi a noção da separação dos poderes. No livro Memorial de Santa
Helena, escrito em 1817 por Emmanuel Les Cases, Napoleão Bonaparte incluiu a seguinte reflexão:
Minha verdadeira glória não foi ter vencido quarenta batalhas; Waterloo apagará a lembrança de tantas
vitórias; o que ninguém conseguirá apagar, aquilo que viverá eternamente, é o meu Código Civil”.
O Código de Napoleão deu origem a chamada Escola Exegética, que determinava que o juiz deve
julgar estritamente de acordo com a lei criada pelo poder legislativo. Referido Código reconhece o direito
natural, mas privilegia o direito positivo como forma de atuação do Estado, aplicando-se o Direito Natural
apenas nos casos em que haja conformidade. Referido código foi fundamental para o desenvolvimento
do direito no mundo ocidental contemporâneo, já que foi a primeira codificação do direito e fundamental
para o direito atual.
Em suma, o Direito Positivo é norteado estritamente nas leis impostas pelo homem, havendo punição
real e concreta pelo seu descumprimento. Já o Direito Natural, se baseia no que é justo por natureza,
tempo como fonte a ordem natural das coisas, a moral, a justiça, não havendo, portanto, punição no plano
concreto, mas apenas no plano moral.
Apesar de tais diferenças, e do fato do Direito contemporâneo ser baseado no Direito Positivo, não é
possível excluir o direito natural na interpretação das leis, do contrário, haveria o risco de grandes
injustiças, apoiado em leis frias, não interpretadas de acordo com a moral e a ética, aplicadas no caso
concreto. Além disso, o risco do legislador tornar-se totalitário seria enorme.
O Direito Positivo, orientado também pelo Direito Natural, auxilia na correta distribuição da Justiça e
ordem social.
Ademais, para preservar os direitos humanos é preciso levar em conta que o direito muda ao longo do
tempo, tendo em vista que os valores mudam, os costumes mudam, e por isso a interpretação das leis
também é modificada com o tempo.

Em termos contemporâneos, temos que a Magna Carta de 1215, é o primeiro documento escrito que
consagra os direitos humanos, assinado obrigatoriamente pelo rei da Inglaterra, João Sem-Terra.
Neste documento, pela primeira vez na história foram listados os direitos das pessoas em relação ao
poder da autoridade e é a base das Constituições Modernas.
“A história começa quando o rei Ricardo da Inglaterra, conhecido como Coração de Leão, seguiu para
o Oriente, para combater nas cruzadas. Seu irmão, o príncipe João, assume o trono e estabelece para si
mesmo prerrogativas que desagradaram profundamente os seus aliados, principalmente os barões. Entre
essas prerrogativas estava o Direito de Nomeação, segundo o qual o soberano podia nomear bispos,
abades e funcionários eclesiásticos, e o Direito de Veto, segundo o qual o soberano podia excluir pessoas
de determinadas funções ou impedir que tomassem posse. Quando foi escolhido para a função de
arcebispo o religioso Stephen Langton, o rei João não o aceitou e usou contra ele o Direito de Veto. O
arcebispo Langton tinha sido escolhido pelo próprio papa Inocêncio III, e a posição do rei iniciou uma
grande revolta da Igreja. Aproveitando-se da situação, os barões que formavam a corte real apoiaram o
pontífice, exigindo que o rei renunciasse a direitos que consideravam exagerados. O movimento revoltoso
ganhou força, e foram levadas ao rei duas exigências: que prometesse respeitar a lei e que admitisse que
a vontade do rei não era mais forte do que a lei. Os barões queriam um documento escrito, com essas
promessas, e para consegui-lo ameaçaram liderar os aldeões medievais, no seu legítimo direito de
rebelar-se, previsto no pactum subjectionis.
No início do século XVIII, os cidadãos não aceitavam mais a tese do absolutismo dos reis nem o
pretexto de que o poder dos soberanos provinha dos deuses. A própria palavra de São Paulo (omnis
potestas a Deo = todo poder vem de Deus) começava a ser questionada.
Entrava em cena a ideologia revolucionária chamada liberalismo, que defendia a liberdade individual.
A partir desse pensamento, a sociedade política da época fez um acordo de convivência com a autoridade

5
Ibidem

. 7
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real, o pactum subjectionis (pacto de sujeição), que funcionava assim: os aldeões, religiosos e nobres
concordavam em subordinar-se a um senhor que, em troca, cuidaria de manter o país protegido pelo
exército, organizar a produção agrícola e pecuária, cuidar do comércio e guardar as fronteiras. Nesse
pacto estava previsto que, se os cidadãos não concordassem com as decisões do rei, tinham o direito de
rebelar-se. No entanto, era um acordo tácito. Não havia documento escrito que o legitimasse. Por isso
mesmo os barões da Inglaterra queriam que João Sem-Terra assinasse um documento que tornasse
oficial a sua promessa de respeitar as liberdades individuais.”6
A partir da Magna Carta foi implementada a monarquia constitucional inglesa, imitada mais tarde pelo
mundo ocidental, apesar de em 1215 ter sido criada apenas para controlar o comportamento tirano do rei
João Sem- Terra.
A cláusula mais conhecida da Magna Carta é a 39, que contém em seu texto o seguinte:
Nenhum homem livre será preso, encarcerado ou privado de uma propriedade, ou tornado fora da lei,
ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém contra
ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra.
Em síntese, a Magna Carta foi o primeiro documento escrito a resguardar direitos humanos, criada
para limitar o comportamento tirano do rei João Sem-Terra da Inglaterra, que foi forçado a assinar o
documento, sob ameaça dos barões de liderarem uma revolta dos aldeões. Além disso, referido
documento foi a base para a as constituições modernas, notadamente com observância ao artigo 40:
“A ninguém venderemos, nem a ninguém recusaremos ou atrasaremos o direito ou a justiça”.
Com o Bill of Rights da Virgínia há um maior desenvolvimento dos direitos fundamentais, ocorrendo a
positivação dos direitos imprescindíveis ao desenvolvimento humano. Ele foi importante pela afirmação
de que os homens possuem direitos que são inerentes a sua própria natureza, de acordo com os ideais
jusnaturalistas; e por asseverar que todos são livres e iguais, sem distinção de qualquer natureza, no que
contribuiu para sepultar a ideia de superioridade da realeza e da nobreza advindas da idade média.7
Em 1789, a Assembleia Nacional da França votou a Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão,
importante documento para mudança das relações entre Direitos humanos e Estado, positivando as
prerrogativas do homem e obrigando os entes estatais a respeitá-los e garanti-los. Referida Declaração
tinha o escopo de levar a ideia de liberdade a todos os povos e a todos os tempos, tendo, portanto, caráter
universal.
Outro documento importante para evolução dos Direitos Humanos foi a Declaração de Direitos do Povo
Trabalhador e Explorado, a primeira a defender a doção de direitos sociais, garantindo prestações
mínimas que deveriam ser providas pelos entes estatais. Tal declaração surgiu em decorrência da
Revolução Bolchevique de 1917 e conferiu direitos as mulheres, restringiu a propriedade privada,
expandiu as liberdades associativas e colocou, em nível teórico, os trabalhadores como classe dominante
da sociedade.
Um marco muito importante para a evolução do conceito de Direitos que conhecemos atualmente foi
a Segunda Guerra Mundial, na qual ocorreram incontáveis atrocidades, como, por exemplo, a morte de
milhões de judeus. Com o fim dessa Guerra, em 1945 foi assinada a Carta de Organização das Nações
Unidas, que tem por fundamento o princípio da igualdade soberana de todos os Estados que buscam a
paz e, em 10 de dezembro de 1948 a ONU elaborou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Alexandre de Moraes8 lembra que a Declaração dos Direitos Humanos foi a mais importante conquista
no âmbito dos direitos humanos fundamentais em nível internacional, muito embora o instrumento
adotado tenha sido uma resolução, não constituindo seus dispositivos obrigações jurídicas dos Estados
que a compõem. O fato é que desse documento se originam muitos outros, nos âmbitos nacional e
internacional, sendo que dois deles praticamente repetem e pormenorizam o seu conteúdo, quais sejam:
o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais, ambos de 1966.
Posteriormente, surgiram muitos outros pactos importantes para o desenvolvimento dos direitos
humanos, como: Convenção Internacional sobre a eliminação de todas as formas de Discriminação
Racial, Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher, Convenção
sobre os Direitos da Criança, Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, Convenção
contra a Tortura, etc.
Além do Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos, surgiram os sistemas regionais, que
buscam internacionalizar os direitos humanos no plano regional, em especial na Europa, na América e na

6
Sinopses Jurídicas. Direitos Humanos. Ricardo Castilho. Editora Saraiva. 2011
7
AGRA. Walber de Moura. Curso de Direito Constitucional. 6ª edição. Ed. Forense. 2010
8
MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais. Ed. Atlas. São Paulo. 1997.

. 8
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África9. Desse Sistema Regional surgiu em 1969, a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto
de San José da Costa Rica).
Em âmbito nacional, destaca-se a Constituição Federal, que positivou direitos humanos e conforme
explica Lafer10, a afirmação do jusnaturalismo moderno de um direito racional, universalmente válido,
gerou implicações relevantes na teoria constitucional e influenciou o processo de codificação a partir de
então. Embora muitos direitos humanos também se encontrem nos textos constitucionais, aqueles não
positivados na Carta Magna também possuem proteção porque o fato de este direito não estar
assegurado constitucionalmente e uma ofensa à ordem pública internacional, ferindo o princípio da
dignidade humana.

Dimensões dos Direitos Humanos


Para bem discorrer acerca das gerações (ou dimensões, como alguns preferem) de evolução dos
direitos fundamentais deve-se dividi-las, ao menos, em três, sendo que hodiernamente, alguns autores
ainda fazem alusão a uma quarta e até a uma quinta geração de direitos fundamentais.

1. A primeira geração ou dimensão


A primeira geração trata dos direitos individuais. Por volta dos séculos XVI e XVII formulou-se a
moderna doutrina dos direitos naturais. Tratava-se de explicar os direitos naturais não mais com base no
direito divino e sim como expressão racional do ser humano.
Foi a partir do século XVII, com o inglês Thomas Hobbes, que se desenvolveu o chamado modelo do
jusnaturalismo moderno. Este modelo já explica o Estado político como expressão racional da vontade
dos indivíduos. É a base para influenciar pensadores de diversos pontos de vista políticos e ideológicos,
levando à construção do modelo liberal da sociedade e do Estado.
Com John Locke desenvolveu-se a teoria da liberdade natural do ser humano. O indivíduo devia limitar
sua própria liberdade para defender o valor fundamental da propriedade.
Assim, para Locke a verdadeira liberdade decorreria do direito à propriedade. Daí nasce a moderna
ideia de cidadão e da relação contratual entre os indivíduos, no qual sua garantias e liberdades eram
protegidas pelo poder público.
Locke entendia que o direito à propriedade era o direito fundamental do ser humano. É devido a esse
direito que os homens cederam parte de sua liberdade para a formação de um Estado-governo. Esse
Estado-governo lhe garantiria e protegeria quanto àquele direito.
O século XVIII representou o confronto direto com o antigo regime absolutista. Foi o momento das
grandes lutas políticas e ideológicas que garantiriam posteriormente as transformações sociais. As
declarações de direitos foram também um grande marco desse período.
Nesse contexto, influenciado pelas ideias iluministas, Jean-Jacques Rousseau afirmava que existia
uma condição humana natural à felicidade, à virtude e à liberdade. Ao contrário de Locke, entendia que
é a civilização que limita as condições naturais de felicidade humana.
Para Rousseau a propriedade era a fonte da desigualdade humana. Portanto para ele o princípio da
igualdade era a condição essencial para o exercício da liberdade.
As ideias rousseaunianas se enquadram no contexto da França no século XVIII, no qual a burguesia
era uma classe revolucionária que aglutinava em torno de si vários setores populares na luta contra o
Antigo Regime.
Foi a partir dessas lutas burguesas na Europa contra os Estados absolutistas que surgiram as bases
para a instituição formal de um elenco de direitos que seriam considerados fundamentais para o ser
humano.
Os direitos humanos em sua primeira geração são fruto das lutas da burguesia revolucionária, com
base na filosofia iluminista e nas doutrinas liberais, contra o Estado absolutista.
Os direitos de primeira geração ou dimensão referem-se às liberdades negativas clássicas, que
enfatizam o princípio da liberdade, configurando os direitos civis e políticos. Surgiram nos finais do século
XVIII e representavam uma resposta do Estado liberal ao Absolutista, dominando o século XIX, e
corresponderam à fase inaugural do constitucionalismo no Ocidente. Foram frutos das revoluções liberais
francesas e norte-americanas, nas quais a burguesia reivindicava o respeito às liberdades individuais,
com a consequente limitação dos poderes absolutos do Estado. Oponíveis, sobretudo, ao Estado, são
direitos de resistência que destacam a nítida separação entre o Estado e a sociedade. Exigem do ente
estatal, precipuamente, uma abstenção e não uma prestação, possuindo assim um caráter negativo,
tendo como titular o indivíduo.

9
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 9 ed. São Paulo. Saraiva.2008.
10
LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: Cia. Das letras. São Paulo. 2009

. 9
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2. A segunda geração ou dimensão

A segunda geração dos direitos humanos trata dos direitos coletivos.


Os primeiros setenta anos do século XIX são marcados pela consolidação do Estado liberal e pelo
fenomenal desenvolvimento industrial. Também foi um período de grandes conflitos sociais e
contradições políticas.
A burguesia há muito já tinha deixado de ser revolucionária e se via, agora, ameaçada: de um lado as
forças remanescentes do antigo regime e de outro a massa empobrecida que não usufruiu dos benefícios
alcançados na luta contra o absolutismo.
A consolidação do Estado liberal e do modelo industrial de produção (concentração de mão-de-obra
em uma mesma unidade de produção, sob a mesma disciplina interna da fábrica) possibilitou o surgimento
de uma nova classe social: o proletariado.
Essa nova sociedade do século XIX, aliada às crescentes lutas urbanas protagonizadas pela classe
operária, pela burguesia industrial e pelo Estado liberal não-intervencionista, possibilitou o surgimento da
crítica social, das ideias socialistas e do sindicalismo.
Karl Marx foi o principal pensador da época e analisou as declarações de direitos humanos americana
e francesa da seguinte forma: os direitos ali proclamados como universais tinham cunho individualista e
expressavam na verdade os anseios da classe que vencera o modelo absolutista. No entanto, tal classe
conseguira expressar os sentimentos da ampla maioria do povo.
Para a burguesia era essencial que todos os indivíduos pudessem ser considerados sujeitos de
direitos. Assim, a lei não seria feita para garantir privilégios, mas para assegurar a igualdade de todos.
Entretanto, essa igualdade não era real, era apenas uma formalidade.
O direito à liberdade aparece também como uma expressão formal. Para o povo era fundamental a
liberdade dos grilhões do sistema feudal e para a burguesia era fundamental a liberdade desse povo para
que ele pudesse vender sua força de trabalho para o mercado.
A liberdade tão proclamada era na verdade a liberdade para que a burguesia pudesse usar sua
criatividade, inteligência, poder, dinheiro, entre outros, para explorar a grande massa de trabalhadores
subjugados.
O pensamento socialista e a prática política e sindical dos movimentos europeus e norte-americanos
do século XIX passaram então a questionar as disparidades existentes entre os princípios e garantias
assegurados nas declarações de direitos e a realidade vivida pela ampla maioria do povo. Os
trabalhadores não tinham as mínimas condições de trabalho, eram mal remunerados, não tinham como
assegurar saúde e educação aos próprios filhos, enfim, eram privados de todas as condições básicas de
existência. E tudo isso em nome do direito sagrado de o homem contratar livremente com o seu
semelhante.
O movimento sindical sofreu muitas restrições, com a alegação de que não permitia que o indivíduo
manifestasse livremente (e individualmente) a sua vontade. Desse modo, o trabalhador tinha que negociar
seu contrato individualmente com o empregador, respeitando assim o direito de contratar livremente,
contanto que tudo fosse lícito e não desrespeitasse os direitos alheios.
A luta sindical daquela época era direcionada à realização dos direitos enunciados e não apenas à
mera formalização então vigente. A exploração chegou a tal ponto que os sindicatos e partidos políticos
passaram a reivindicar a intervenção do Estado na vida econômica e social, visando à regulamentação
do mercado de trabalho.
Por outro lado, o próprio capitalismo encontrava-se em transformação. Ele já não era mais o simples
sistema de livre concorrência entre empresas individuais e familiares. Surgiam os conglomerados de
empresas, em busca de novos mercados. Essa nova fase do capital ficou conhecida como imperialismo.
Por fim, as várias ideologias começaram a se contrapor em busca de uma forma que garantisse o
atendimento dos interesses coletivos. As revoluções do início do século XX ampliaram na realidade sócio-
política a abrangência dos direitos humanos, que deixaram de ser entendidos apenas como individuais e
passaram a ser concebidos como coletivos.

Os direitos de segunda geração ou dimensão relacionam-se com as liberdades positivas, reais ou


concretas, assegurando o princípio da igualdade material entre o ser humano. A Revolução Industrial foi
o grande marco dos direitos de segunda geração, a partir do século XIX, implicando na luta do
proletariado, na defesa dos direitos sociais (essenciais básicos: alimentação, saúde, educação etc.). O
início do século XX é marcado pela Primeira Grande Guerra e pela fixação de direitos sociais. Isso fica
evidenciado, dentre outros documentos, pela Constituição de Weimar, de 1919 (Alemanha), e pelo
Tratado de Versalhes, 1919 (OIT).

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3. A terceira geração ou dimensão

A terceira geração dos direitos humanos é a que trata dos direitos dos povos ou direitos da
solidariedade.
A ampliação do conteúdo dos direitos fundamentais seguiu o caminho indicado pelas lutas sociais e
pelas transformações sócio-políticas dos últimos três séculos.
Esse processo de ampliação de direitos passou a encarnar reivindicações e lutas democráticas e
populares passaram a representar os anseios de toda a humanidade. As lutas do século XIX
demonstraram que o homem deveria avançar mais na busca de novos espaços de liberdade coletiva e
material, que possibilitassem as condições de viabilização da felicidade humana.
Durante o século XX novas reivindicações sociais, humanas e estatais passam a fazer parte do
imaginário da sociedade contemporânea. Novas contradições e confrontos possibilitaram a ampliação do
conteúdo dos direitos humanos.
A partir do pós-guerra desenvolvem-se os direitos dos povos, que distingue entre os direitos individuais
da primeira geração, os direitos sociais, econômicos e culturais da segunda geração e os novos direitos,
ou direitos da terceira geração. Assim, os direitos dos povos são, ao mesmo tempo, individuais e coletivos.
O fim da 2ª guerra revelou uma nova realidade mundial. Junto com a valorização do ideal democrático
surgiu um mundo dividido em dois blocos de poder (de um lado o Ocidente – Estados-Unidos –
Capitalismo, de outro o Oriente – URSS – Comunismo), sob o fantasma da Guerra Fria.
As novas relações internacionais do pós-guerra contam com novos atores, com o processo de
descolonização da Ásia e da África, que formaram o bloco dos não-alinhados, ou seja, nem a favor dos
Estados-Unidos nem da URSS, por meio da Conferência de Bandung em 1955.
Por fim, a nova divisão internacional do trabalho possibilitou o surgimento de uma nova era na
acumulação de capitais: a era das multinacionais. O desenvolvimento possibilitado pelo dinheiro das
multinacionais promoveu a exploração dos recursos em níveis inimagináveis em todo o mundo. A
degradação ambiental, entretanto, afetou principalmente os países do Terceiro Mundo.
Todas essas mudanças trouxeram novas reivindicações de novos movimentos sociais. As principais
são: direito à paz, ao desenvolvimento e à autodeterminação dos povos, direito a um ambiente saudável
e ecologicamente equilibrado e direito à utilização do patrimônio comum da humanidade.

Os direitos de terceira geração ou dimensão consagram os princípios da solidariedade ou


fraternidade, sendo atribuídos genericamente a todas as formações sociais, protegendo interesses de
titularidade coletiva ou difusa, não se destinando especificamente à proteção dos interesses individuais,
de um grupo ou de um determinado Estado, mostrando uma grande preocupação com as gerações
humanas, presentes e futuras. Possui origem na revolução tecnocientífica (terceira revolução industrial),
revolução dos meios de comunicação e de transportes. Podemos citar como direitos de terceira geração:
direito ao desenvolvimento ou progresso, ao meio ambiente, à autodeterminação dos povos, direito de
comunicação, de propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade e direito à paz, cuidando-se de
direitos transindividuais, sendo alguns deles coletivos e outros difusos, o que é uma peculiaridade, uma
vez que não são concebidos para a proteção do homem isoladamente, mas de coletividades, de grupos.

4. Os direitos de quarta geração ou dimensão

Na atualidade existem doutrinadores que defendem a existência dos direitos de quarta geração ou
dimensão, apesar de ainda não haver consenso na doutrina sobre qual o conteúdo dessa espécie de
direito. Para Noberto Bobbio “tratam-se dos direitos relacionados à engenharia genética.”
Apesar de ser por uma visão um pouco diferente de Noberto Bobbio, Paulo Bonavides, também,
defende a existência dos direitos de quarta geração, com aspecto introduzido pela globalização política,
relacionados à democracia, à informação e ao pluralismo, conforme abaixo transcrito:
“A globalização política neoliberal caminha silenciosa, sem nenhuma referência de valores. (...) Há,
contudo, outra globalização política, que ora se desenvolve, sobre a qual não tem jurisdição a ideologia
neoliberal. Radica-se na teoria dos direitos fundamentais. A única verdadeiramente que interessa aos
povos da periferia. Globalizar direitos fundamentais equivale a universalizá-los no campo institucional.
(...) A globalização política na esfera da normatividade jurídica introduz os direitos de quarta geração,
que, aliás, correspondem à derradeira fase de institucionalização do Estado social. É direito de quarta
geração o direito à democracia, o direito à informação e o direito ao pluralismo. Deles depende a
concretização da sociedade aberta do futuro, em sua dimensão de máxima universalidade, para a qual
parece o mundo inclinar-se no plano de todas as relações de convivência. (...) os direitos da primeira
geração, direitos individuais, os da segunda, direitos sociais, e os da terceira, direitos ao desenvolvimento,

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ao meio ambiente, à paz e à fraternidade, permanecem eficazes, são infraestruturais, formam a pirâmide
cujo ápice é o direito à democracia.”
Além de Paulo Bonavides, outros constitucionalistas vêm promovendo o reconhecimento dos direitos
de quarta geração ou dimensão, conforme podemos perceber nas palavras do mestre Marcelo Novelino
(2008, p. 229), quando ressalta que “tais direitos foram introduzidos no âmbito jurídico pela globalização
política, compreendem o direito à democracia, informação e pluralismo. Os direitos fundamentais de
quarta dimensão compendiam o futuro da cidadania e correspondem à derradeira fase da
institucionalização do Estado social sendo imprescindíveis para a realização e legitimidade da
globalização política.”

5. Os direitos de quinta geração ou dimensão

Registre que já existem autores defendendo a existência dos direitos de quinta geração ou dimensão,
sendo que entre eles podemos citar o próprio Paulo Bonavides, aonde o mesmo vem afirmando nas
últimas edições de seu livro, que a Paz seria um direito de quinta geração. Vale à pena frisar as palavras
de Raquel Honesko, quando ressalta que:
“...em recentes debates científicos (IX Congresso Íbero-Americano e VII Simpósio Nacional de Direito
Constitucional, realizados em Curitiba/PR, em novembro de 2006, bem como II Congresso Latino-
Americano de Estudos Constitucionais, realizado em Fortaleza/CE, em abril de 2008), BONAVIDES fez
expressa menção à possibilidade concreta de se falar, atualmente, em uma quinta geração de direitos
fundamentais, onde, em face dos últimos acontecimentos (como, por exemplo, o atentado terrorista de
“11 de Setembro”, em solo norte-americano), exsurgiria legítimo falar de um direito à paz. Embora em sua
doutrina esse direito tenha sido alojado na esfera dos direitos de terceira dimensão, o ilustre jurista, frente
ao insistente rumor de guerra que assola a humanidade, decidiu dar lugar de destaque à paz no âmbito
da proteção dos direitos fundamentais”.

3 Direitos humanos e responsabilidade do Estado.

A proteção dos direitos humanos não pode, cingir-se ao território onde cada Estado atua. A época
contemporânea assistiu ao surgimento de aparelhos estatais, dotados de poderes incomensuravelmente
maiores do que os detidos por qualquer organização política em épocas anteriores. Esse reforço
descomunal de poderes, acoplado à teoria da soberania absoluta do Estado, criou situações de
esmagamento completo da pessoa humana, como nas trágicas experiências nazista e stalinista deste
século. Impõe-se, portanto, um controle internacional sobre a ação de cada Estado, no que tange ao
respeito aos direitos humanos.

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Ora, a situação do direito internacional vigente está longe de ser satisfatória, nesse particular (como
em vários outros, aliás). O princípio de não-ingerência dos Estados, ou de organismos internacionais, nos
assuntos internos de outros Estados, inscrito no art. 2º, § 7º, da Carta das Nações Unidas, tem servido
de pretexto para se evitar a aplicação de sanções internacionais aos Estados para se evitar a aplicação
de sanções internacionais aos Estados que violam sistematicamente os direitos da pessoa humana.
Trata-se, obviamente, de um pretexto, uma vez que, a toda evidência, a violação de direitos humanos
não é assunto de competência interna dos Estados, mas interessa, antes, a toda a humanidade.
A aceitação dos indivíduos como sujeitos do direito das gentes, com legitimidade para recorrer
diretamente às instâncias internacionais, tem sido parcimoniosamente admitida. Ela existe, no âmbito da
Organização dos Estados Americanos, pelo disposto no art. 44 da Convenção de São José de Costa
Rica, que criou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Mas essa medida, por si só, tem sido
perfeitamente inócua, dado que há sempre a possibilidade de os Estados recusarem a jurisdição
internacional.
A proteção dos direitos humanos é uma questão de organização de poderes na sociedade. É claro
que, nessa organização, os poderes do Estado (os chamados Poderes Públicos) assumem papel
decisivo. Mas a experiência histórica indica que uma sociedade bem organizada deve sempre manter
uma boa cópia de poderes nas mãos dos próprios cidadãos, como o necessário corretivo aos desvios e
abusos que acabam sempre por se instalar na organização estatal. Afinal, superada a polêmica entre os
adeptos da democracia direta e os da democracia representativa, é preciso convir na necessidade de
cada um desses sistemas completar e aperfeiçoar o outro. Da sábia montagem de mecanismos de
fertilização recíproca, entre esses duas técnicas políticas, dependerá a sobrevivência do homem, em sua
eminente dignidade de pessoa.

Para entender um pouco melhor a relação entre a responsabilidade do Estado e os direitos humanos,
vamos acompanhar em seguida parte do texto de Tatiana Botelho, “Direitos Humanos sob a Ótica Da
Responsabilidade Internacional”, vejamos11:

A proteção internacional aos direitos humanos teve início com a chamada proteção diplomática, cuja
origem se deu no sistema das cartas de represálias, sistema em que aquele que sofreu algum dano em
território estrangeiro apela para o Estado de sua nacionalidade para que este exija a reparação do Estado
responsável pelo dano.
O fundamento da proteção diplomática está no suposto dever internacional de todos os estados de
fornecer um tratamento considerado internacionalmente adequado aos estrangeiros em seu território.
Então, o dano ao estrangeiro é um dano indireto ao Estado de sua nacionalidade.
A Corte Permanente de Justiça Internacional decidiu que o Estado, ao conceder a proteção diplomática
a seu nacional, está, na verdade, afirmando ser o direito de ver respeitadas as regras de Direito
Internacional.
Embora a responsabilidade internacional do Estado por violação de direitos humanos tenha como
origem a responsabilidade internacional do Estado por danos causados a estrangeiros alterou o enfoque,
antes direcionado ao Estado, agora, no indivíduo.
A natureza das obrigações de proteção aos direitos humanos consagra o indivíduo como principal
preocupação da responsabilidade internacional por violação dos direitos humanos.
A lesão ao homem, em seus direitos naturais não é uma lesão direta ao Estado, não havendo porque
encontrar motivos para explicar a intervenção do Estado na defesa destes direitos visto a natureza
objetiva das obrigações de proteção de direitos humanos.
Assim, o desenvolvimento da responsabilidade internacional do Estado por violação dos direitos
humanos não é feito através da proteção diplomática, mas sim, através do Direito Internacional dos
Direitos Humanos, que fornece ao indivíduo um rol de direitos internacionalmente consagrados e, ao
mesmo tempo acesso a instâncias internacionais para que seja averiguada a lesão a esses direitos.
Foi somente após a segunda guerra mundial, com o nascimento da ONU que a responsabilidade
internacional foi discutida. Antes dela, em 1927, foi convocado a Conferência Internacional para
codificação do direito internacional. Esta foi realizada em Haia, e o tema da responsabilidade internacional
do Estado foi estudado na sua comissão de número 3, sem sucesso.
A Assembleia geral da ONU, assim, adotou em 7 de dezembro de 1953 a Resolução 799, na qual
requereu à Comissão de Direito Internacional o início de estudos visando à codificação dos princípios de
Direito Internacional que regem a responsabilidade do Estado.

11
Texto adaptado. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/textos/a_pdf/botelho_dh
_otica_responsabilidade.pdf. Acessado em: 27 de maio de 2016.

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Após várias tentativas de codificar esta responsabilidade internacional foi somente em 2001 que se fez
uma Convenção sobre o assunto que possui 58 artigos divididos em quatro partes.
Na primeira parte, com 27 artigos, refere-se aos princípios gerais da responsabilidade internacional,
ao fato ilícito de acordo com Direito Internacional, à existência de uma violação de norma ou
descumprimento de obrigação internacional, à imputação a um Estado de fato de terceiro e finalmente às
circunstâncias de exclusão da ilicitude da conduta estatal.
A segunda parte refere-se às formas e graus de responsabilidade internacional do Estado,
determinando as consequências e as espécies de reparação admitidas pelo direito internacional,
contendo 14 artigos.
A terceira parte com 13 artigos estabelece um procedimento de implementação da responsabilidade
internacional do Estado e a aplicação das sanções além de suas condições de licitude.
Na quarta parte, existem disposições gerais em cinco artigos, estabelecendo o uso subsidiário do
Direito Consuetudinário sobre o tema, além da responsabilização individual do agente público
paralelamente a responsabilização do Estado.
É difícil conceituar responsabilidade, mas, pode-se afirmar que seu conceito, fundamento e
consequências dependem do grau de coesão social e da visão do justo em cada comunidade humana.
André de Carvalho Ramos conceitua responsabilidade jurídica como sendo a imputabilidade a um
sujeito de direito de efeito do ordenamento jurídico, quando sucede determinado acontecimento,
significando a vulneração da esfera jurídica de outrem, não importando a fonte da imputação de
consequências jurídicas e quais as consequências no momento.
Deve ser entendido que o conceito de responsabilidade é justificado pelo fato do ser humano ter o
direito de ser respeitado enquanto pessoa e não prejudicado em sua existência.
É por este motivo que quando alguém reconhece ter feito injustiça a terceiro, deve reconhecer também
a necessidade de reparar devidamente o dano causado.
Ao mesmo tempo aquele que sofreu o dano exige a reparação como direito seu e faz o outro
responsável porque este é pessoa. Os fundamentos da responsabilidade são: alterum nom laedere,
honest vivere e suum cuique tribuere, ou seja, não lesar ao próximo, viver honestamente e dar a cada um
o que é seu, respectivamente.
Para ocorrer a responsabilidade se torna necessária uma sequência de elementos. Ocorrência de um
suporte fático (violação de uma esfera política de uma pessoa), nexo causal entre o fato, ou ato, e o dano,
além da culpa na conduta lesiva, eventualmente.
Desta sequência de elementos surge uma consequência, o dever de reparação imputado a alguém,
não necessariamente ao causador do dano. Além da pretensão reparatória ou indenizatória, a
responsabilidade internacional por violação dos direitos humanos tem ainda a pretensão punitiva para a
responsabilidade criminal.
Não é somente o dever jurídico de abstenção da conduta causadora de danos a outrem que
consubstancia a responsabilidade, pelo contrário, é a titularidade passiva da pretensão reparatória ou
indenizatória que, como conteúdo de uma relação jurídica é diretamente decorrente de uma norma.
A responsabilidade como direito objetivo aparece como a feição essencialmente garantidora da ordem
jurídica. A imputação do dever de indenizar, quando houver causado danos a outrem importa atribuir
consequências desfavoráveis àquele que desatendeu a um breve dever de não-vulneração da esfera
jurídica alheia.
No âmbito internacional, a responsabilidade é essencial ao sistema jurídico, sendo seu fundamento de
direito internacional um princípio da igualdade soberana entre os Estados. Isto ocorre porque um Estado
não pode reinvindicar para si uma condição jurídica que não reconhece para outro Estado. A
responsabilidade é de regra apresentada como obrigação internacional de reparação em face da violação
prévia de norma internacional.
O artigo número 1 do projeto de Convenção sobre responsabilidade internacional da Comissão de
Direito Internacional da ONU afirma que todo fato internacionalmente ilícito do Estado acarreta
responsabilidade internacional do mesmo.
A jurisprudência internacional considerou a responsabilidade dos Estado como sendo um princípio
geral do Direito Internacional. O princípio pelo qual qualquer conduta do Estado que caracteriza um fato
internacionalmente lícito acarreta a responsabilidade internacional do Estado é um dos princípios
enfatizados pelas decisões judiciais.
Para que se possa entender como funciona a responsabilidade internacional deve-se conceituar
obrigação primária e secundária. As normas primárias são aquelas que contém obrigações de Direito
Internacional cujo descumprimento enseja a responsabilidade internacional do Estado. As secundárias
são regras abstratas que têm o objetivo de determinar se houve violação à norma primária e quais são
as consequências resultantes da violação.

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As normas primárias são regras de conduta que quando violadas fazem nascer às obrigações
secundárias.
A responsabilidade independe do conteúdo da norma violada, assim, os Estados podem chegar a um
consenso sobre as regras de responsabilização por fatos ilícitos, sem necessariamente acordarem sobre
o conteúdo da norma primária transgredida.
A responsabilização do Estado visa superar o conflito existente entre condutas contraditórias de um
Estado (a aceitação de determinada obrigação e depois seu descumprimento), engendrando o
nascimento, por seu turno, de novas relações jurídicas. O artigo 1º do projeto de convenção sobre a
responsabilidade internacional do Estado é elástico o suficiente para abarcar todas as consequências
possíveis advindas da constatação do fato internacionalmente ilícito, tanto as de cunho meramente
reparatório, quanto as de cunho sancionatório.
A responsabilidade pode ser dividida em duas grandes espécies, a penal e a civil. Na penal as
obrigações secundárias almejam impor sanções punitivas ao indivíduo como retribuição ao mal causado
e prevenção à ocorrência de condutas semelhantes no futuro. Na civil, as obrigações secundárias têm
conteúdo reparatório de cunho patrimonial em geral.
Um problema encontrado nesta dicotomia advém da máxima societas delinquere non potest, ou seja,
a sanção penal só pode ser aplicada a indivíduos e nunca a entes morais como os Estados. Este
entendimento prestigia o Estado enquanto sujeito privilegiado do direito internacional e dotado da
igualdade soberana em face dos outros Estados.
Devem por esta razão, serem punidos os indivíduos que agindo em nome do Estado lesam os direitos
de outrem. Outros gravames são: falta de consenso na definição dos ilícitos penais, internacionalmente
falando e a falta de órgão competente para julgar os Estados nessas infrações. Há quem diga que o
Conselho de Segurança da ONU poderia ser o órgão julgador desde que fosse abolido o direito de veto
que determinados países tem e sua competência fosse ampliada a estes casos. Cita-se também, a Corte
Internacional de Justiça que, no momento, falece do caráter obrigatório de suas penas, sujeitando-as a
faculdade dos Estados.
Na violação de direitos humanos consagra-se a responsabilidade objetiva do Estado violador,
uma vez que o dever de reparação nasce sempre que houver a violação de uma norma primária
internacional. Não se verifica a existência ou ausência do elemento volitivo ou psíquico do agente, ou
seja, não se comprova dolo ou culpa deste. Basta à comprovação do nexo causal entre a conduta e o
dano em si.

Elementos da responsabilidade internacional por violação de direitos humanos

O fato ilícito é composto por um elemento subjetivo e outro objetivo. O primeiro é a identificação da
conduta atribuída a determinado Estado e o segundo é o nexo entre a conduta estatal e a violação de
obrigação internacional.
Quanto ao fato ilícito ser atribuído a determinado Estado, podemos ver que tal questão torna-se
complexa na medida em que o Estado, pessoa jurídica ou moral de Direito Internacional, não possui
existência física, sendo seu comportamento fruto de comportamento de seus órgãos.
Outro conceito que se deve ter em mente é o de imputabilidade, como sendo o elemento que vincula
a conduta do agente ao Estado responsável. Como já se viu, o Estado enquanto ente público comete atos
ilícitos através de seus agentes sendo necessário avaliar quais desses atos podem vincular o Estado.
Pouco importa a interpretação dada pelo direito interno quanto à imputação, já que, o direito
internacional não está vinculado a este. Neste sentido a Corte Permanente de Justiça Internacional
refutou o uso de direito interno, mesmo a própria Constituição, como escusa legítima para o
inadimplemento de obrigação internacional.
Então, o Brasil, ao ratificar tratados internacionais de direitos humanos, dada a teoria geral da
responsabilidade internacional do Estado, tem a obrigação internacional de respeitar e garantir direitos
humanos devendo zelar que os atos do poder executivo, as decisões do poder judiciário e as normas
constitucionais legais sejam compatíveis com os direitos elencados nestes tratados.
Na relação entre direito internacional e direito interno o prisma que deve ser observado é como direito
interno vê o direito internacional, ou seja, como as normas internacionais são incorporadas ao direito
interno. Neste sentido temos duas correntes: a dualista e a monista.
A monista estabelece a possibilidade de aplicação direta e automática das normas de direito
internacional pelos agentes do poder estatal.
A Dualista exige a transformação da “norma” internacional em direito interno através de normas
legislativas internas, que incorporariam as regras de conduta expostas internacionalmente.

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Assim, para o Estado invocar norma de direito internacional só poderia fazê-lo após a incorporação
desta, o que seria o mesmo de estar aplicando uma norma interna.
No Brasil, a praxe republicana de incorporação interna de tratados internacionais exige a aprovação
do tratado pelo Congresso (fase do decreto legislativo) e a posterior promulgação do mesmo pelo Poder
Executivo (fase do decreto executivo).
Abre-se a seguinte questão: as normas internacionais que versam sobre direitos humanos entrariam
no direito interno como leis ordinárias ou constitucionais? Embora o Supremo Tribunal Federal estabeleça
que estas normas estejam adstritas às limitações impostas constitucionalmente, os internacionalistas
afirmam que por estar expresso na Constituição como fundamento da República Federativa do Brasil a
dignidade da pessoa humana, tendo em vista ainda o artigo 4º, II, confirmando a prevalência dos direitos
humanos e o artigo 5º § 2º assegurando a incorporação automática como norma constitucional a
dispositivos de direitos humanos inseridos em tratados ratificados pelo Brasil, estaria afastada a
concepção do STF.
Desta forma, prevalece para o direito internacional o status de norma constitucional aos tratados que
versem sobre direitos humanos devidamente ratificados pelo Brasil.
Como princípio de direito internacional aplicado a esta questão supracitada tem-se a primazia da
norma mais favorável, face à proteção internacional dos direitos humanos.
No entendimento de Cançado Trindade: no presente domínio de proteção, não mais há pretensão de
primazia do direito internacional ou do direito interno, como ocorria na polêmica clássica e superada entre
monistas e dualistas. No presente contexto, a primazia é da norma mais favorável às vítimas, que melhor
as proteja, seja ela norma de direito internacional ou de direito interno.
O principal infrator dos direitos humanos de acordo com a jurisprudência internacional é o poder
executivo. Os agentes públicos deste poder violam as regras internacionais quando agindo de acordo
com as normas internas ou de modo ultra vires ou ainda se omitindo injustificadamente transgridem os
direitos humanos. Atos ultra vires ocorre quando determinado órgão estatal atua excedendo os limites
de sua competência fixados pelo Estado. O estado pela sua própria conduta em escolher o agente que
ultrapassou as competências oficiais do órgão, responde pela escolha dos mesmos. Faltou, portanto, ao
Estado, o dever de diligência em evitar tais atos.
Quanto aos atos particulares tem que ser observado que são as condutas de agentes estatais agindo
a título privado, sendo em regra impossível o Estado ser responsabilizado por estes atos, já que exercido
por um particular, que por coincidência é também um agente estatal.
Só existe uma hipótese em que o estado se responsabiliza e o ponto relevante desta responsabilização
está na omissão da realização dos atos de particulares.
Então a omissão dos agentes públicos em face de atos particulares, pode acarretar a responsabilidade
do Estado por violação dos direitos humanos. É necessário que além da violação aos direitos humanos
exista o não desempenho do dever do agente estatal em prevenir o resultado.
Quanto ao Poder Legislativo, a violação de direitos humanos por leis internas é feita, em geral, de
modo indireto. Com efeito, são atos administrativos ou judiciais que, embasados em leis, violam direitos
humanos.
A responsabilização internacional do Estado por violação de direitos humanos originada por ato judicial
pode ocorrer em duas hipóteses: quando a decisão é tardia ou Inexistente (ausência de remédio judicial),
ou quando a decisão judicial em seu, mérito é violadora de direitos humanos.

4 Direitos humanos na Constituição Federal.

A Constituição de 1988 assegura a proteção dos direitos humanos, a partir das noções de
universalidade e indivisibilidade destes direitos.
Com relação à universalidade dos direitos humanos, atenta-se que a Constituição de 1988, ao eleger
o valor da dignidade humana como princípio fundamental da ordem constitucional, compartilha da visão
de que a dignidade é inerente à condição de pessoa, ficando proibida qualquer discriminação. O texto
enfatiza que todos são essencialmente iguais e assegura a inviolabilidade dos direitos e garantias
fundamentais.
Além de afirmar o alcance universal dos direitos humanos, o texto constitucional ainda reforça essa
concepção, na medida em que realça que os direitos humanos são tema do legítimo interesse da
comunidade internacional, transcendendo, por sua universalidade, as fronteiras do Estado.
Essa concepção está embasada na interpretação de dois dispositivos inéditos na história constitucional
brasileira: o artigo 4º, II e o artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição de 1988.

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À luz da Carta de 1988, dentre os princípios a reger o Brasil nas relações internacionais, destaca-se
ineditamente o princípio da prevalência dos direitos humanos. Se o Brasil se orientará pela observância
desse princípio ao se relacionar com os demais países da ordem internacional, é porque assume que os
direitos humanos são um tema global, de legítimo interesse da comunidade internacional.
A partir do momento em que o Brasil se propõe a fundamentar suas relações com base na prevalência
dos direitos humanos, está ao mesmo tempo reconhecendo a existência de limites e condicionamentos à
noção de soberania estatal. Isto é, a soberania do Estado brasileiro fica submetida a regras jurídicas,
tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Rompe-se com a concepção
tradicional de soberania estatal absoluta, reforçando o processo de sua flexibilização e relativização em
prol da proteção dos direitos humanos. Esse processo é condizente com as exigências do Estado
Democrático de Direito constitucionalmente pretendido.
Ao lado do princípio da prevalência dos direitos humanos, a ênfase na proteção desses direitos vem
reforçada a partir de valores inovadores a guiar o Brasil no contexto internacional, como o princípio do
repúdio ao terrorismo e ao racismo, a concessão de asilo político e a cooperação entre os povos para o
progresso da humanidade (vide o art. 4º, incs. VIII, IX, X).
Além das inovações introduzidas pelo artigo 4º, ao consagrar princípios inovadores a reger o Brasil no
cenário internacional, um outro dispositivo merece destaque, qual seja o artigo 5º, parágrafo 2º. Ao fim
da extensa Declaração de Direitos enunciada pelo artigo 5º, a Carta de 1988 estabelece que os direitos
e garantias expressos na Constituição "não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por
ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte".
Ademais, observa que os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem
aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos
respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.
A Constituição de 1988 inova, assim, ao incluir, dentre os direitos constitucionalmente protegidos, os
direitos enunciados nos tratados internacionais de que o Brasil seja signatário. Ao efetuar tal
incorporação, a Carta está a atribuir aos direitos internacionais uma hierarquia especial e diferenciada: a
hierarquia de norma constitucional.
Conjugando os artigos 1º, III, 4º e 5º, parágrafo 2º, outra conclusão não resta senão a aceitação pelo
texto constitucional do alcance universal dos direitos humanos.
Quanto ao caráter indivisível, interdependente e inter-relacionado dos direitos humanos, ressalte-se
que a Carta de 1988 é a primeira Constituição que integra ao elenco dos direitos fundamentais, os direitos
sociais, que nas Cartas anteriores restavam pulverizados no capítulo pertinente à ordem econômica e
social. A opção da Carta é clara ao afirmar que os direitos sociais são direitos fundamentais, sendo pois
inconcebível separar os valores liberdade (direitos civis e políticos) e igualdade (direitos sociais,
econômicos e culturais).
Logo, a Constituição Brasileira de 1988 acolhe a concepção contemporânea de direitos humanos, ao
reforçar a universalidade e a indivisibilidade desses direitos.12

Federalização de crimes graves contra os direitos humanos.

A federalização dos crimes contra os direitos humanos veio com a Emenda Constitucional 45/2004,
amplamente conhecida como a Reforma do Poder Judiciário, é também conhecida como IDC (incidente
de deslocamento de competência), e consiste na possibilidade de deslocamento de competência da
Justiça comum para a Justiça Federal, nas hipóteses em que ficar configurada grave violação de direitos
humanos.
A finalidade da federalização dos crimes contra os direitos humanos é a de assegurar uma proteção
efetiva aos direitos humanos e o cumprimento das obrigações assumidas pelo Brasil em tratados
internacionais. O incidente, que poderá ser suscitado pelo Procurador-Geral da República, perante o
Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou do processo, é medida de caráter
excepcional e só poderá ser admitida em casos de extrema gravidade, quando houver a demonstração
concreta do risco de não cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais dos quais o
Brasil seja parte.
Tem previsão no art. 109, V-A e 5º, CF/88, in verbis:

12
A PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO SISTEMA CONSTITUCIONAL BRASILEIRO. Flávia Piovesan. Disponível em:
http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistaspge/revista5/5rev4.htm

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Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
(...)
V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o 5º deste artigo;
(...)
5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com
a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de
direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de
Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência
para a Justiça Federal.

O deslocamento de causas de competência da Justiça estadual para a Justiça federal é um meio que
garante a celeridade da tramitação de processos. Trata-se de uma garantia individual posta à
disposição tanto de acusados quanto de vítimas de delitos. Em caso de arquivamentos indevidos,
omissão ou demora injustificável na prestação jurisdicional em causas de direitos humanos, podem os
interessados provocar a federalização, dirigindo-se ao Procurador Geral da República, que, então,
decidirá sobre a instauração do incidente, não sem antes realizar uma apuração preliminar.
De fato, cabe ao Procurador-Geral da República, na condição de promotor natural, em qualquer fase
da investigação ou do processo, suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, o incidente de
deslocamento de competência para a Justiça Federal, quando presentes três pressupostos objetivos:
a) prática de grave crime contra os direitos humanos; b) possibilidade de responsabilização internacional
do Brasil; c) omissão, leniência, excessiva demora, conluio ou conivência dos órgãos de persecução
criminal do Estado-membro ou do Distrito Federal.
Em síntese, o IDC pode ser conceituado como:
a) incidente processual penal objetivo, de base constitucional, para modificação horizontal da
competência criminal em causas relativas a direitos humanos (ratione materiae);
b) garantia individual de efetividade da Justiça Criminal e de razoável duração do processo penal;
c) mecanismo de sucessão ou substituição da atividade da Justiça dos Estados ou do Distrito Federal
pela Justiça da União, dentro do esquema de federalismo cooperativo, nos casos de violação a direitos
humanos;
d) instrumento político destinado a resguardar a responsabilidade do Estado soberano perante a
comunidade internacional, em função de tratados de proteção à pessoa humana firmados pela União;
e) incidente processual que tem em mira a redução da impunidade e a concreta proteção dos direitos
humanos.13

6 Institucionalização dos direitos e garantias fundamentais.

Os direitos e garantias fundamentais tomam por base os direitos humanos reconhecidos no âmbito
internacional. Com efeito, após o processo de internacionalização dos direitos humanos vieram o de
regionalização de tais direitos e o de incorporação, transpondo-as para o ordenamento interno.
Com efeito, quando se fala em institucionalização dos direitos e garantias fundamentais, refere-se ao
modo pelo qual a Constituição brasileira disciplina a os direitos e garantias fundamentais.
O principal fator que influenciou o tratamento da temática é o fato de que a Constituição de 1988
demarcou o processo de democratização do Brasil, consolidando a ruptura com o regime autoritário militar
instalado em 1964. Após um longo período de 21 anos, o regime militar ditatorial no Brasil caiu,
deflagrando-se num processo democrático. As forças de oposição foram beneficiadas neste processo de
abertura, conseguindo relevantes conquistas sociais e políticas. Este processo culminou na Constituição
de 198814.
"A luta pela normalização democrática e pela conquista do Estado de Direito Democrático começará
assim que instalou o golpe de 1964 e especialmente após o AI5, que foi o instrumento mais autoritário da
história política do Brasil. Tomará, porém, as ruas, a partir da eleição de Governadores em 1982.
Intensificar-se-á, quando, no início de 1984, as multidões acorreram entusiásticas e ordeiras aos comícios
em prol da eleição direta do Presidente da República, interpretando o sentimento da Nação, em busca do

13
ARAS, Vladimir. Federalização dos crimes contra os direitos humanos. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 10, n. 687, 23 maio 2005.
Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/6762>.
14
PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito constitucional internacional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

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reequilíbrio da vida nacional, que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que
refizesse o pacto político-social"15.
A atual Constituição institucionaliza a instauração de um regime político democrático no Brasil, além
de introduzir indiscutível avanço na consolidação legislativa dos direitos e garantias fundamentais e na
proteção dos grupos vulneráveis brasileiros. Assim, a partir da Constituição de 1988 os direitos humanos
ganharam relevo extraordinário, sendo este documento o mais abrangente e pormenorizado de direitos
humanos já adotado no Brasil16.
Piovesan17 lembra que o texto de 1988 inova ao disciplinar primeiro os direitos e depois questões
relativas ao Estado, diferente das demais, o que demonstra a prioridade conferida a estes direitos. Logo,
o Estado não existe para o governo, mas sim para o povo.
A Constituição brasileira está arraigada no ideário dos direitos humanos, o que torna o Brasil um país
muito receptivo ao processo de internacionalização de tais direitos, sendo signatário da grande maioria
dos tratados de direitos humanos relevantes. Neste sentido, a Carta de 1988 é a primeira Constituição
brasileira a elencar a prevalência dos direitos humanos como princípio regente nas relações
internacionais que estabeleça18.
O preâmbulo do texto constitucional é apenas uma prévia do que está por vir, isto é, de um rol
extremamente detalhado de direitos e garantias fundamentais asseguradas à pessoa humana
abrangendo todas as dimensões de direitos humanos: "Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos
em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna,
pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e
internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a
seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL".
Após, o texto constitucional é formado por expressões de cunho valorativo importantíssimo em termos
de proteção de direitos humanos consagrados, a exemplo: cidadania (art. 1º, II); dignidade da pessoa
humana (art. 1º, III); sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I); bem de todos, sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, IV); prevalência dos
direitos humanos (art. 4º, II); inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade (art. 5º, caput); direitos sociais (art. 6º, caput); soberania popular (art. 14, caput); etc.
Talvez a expressão mais relevante, se é que é possível delimitar somente uma, seja a dignidade da
pessoa humana, que acaba por englobar todas as demais. Assim, reconhece-se a pessoa humana
enquanto ser digno, aos quais são garantidos direitos e deveres fundamentais, e isto abre espaço para
compreender o Direito apenas tendo em vista ditames éticos.
A dignidade da pessoa humana é o valor-base de interpretação de qualquer sistema jurídico,
internacional ou nacional, que possa se considerar compatível com os valores éticos, notadamente da
moral, da justiça e da democracia. Pensar em dignidade da pessoa humana significa, acima de tudo,
colocar a pessoa humana como centro e norte para qualquer processo de interpretação jurídico, seja na
elaboração da norma, seja na sua aplicação.
Sem pretender estabelecer uma definição fechada ou plena, é possível conceituar dignidade da pessoa
humana como o principal valor do ordenamento ético e, por consequência, jurídico que pretende colocar
a pessoa humana como um sujeito pleno de direitos e obrigações na ordem internacional e nacional,
cujo desrespeito acarreta a própria exclusão de sua personalidade.
O Ministro Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira, do Tribunal Superior do Trabalho, trouxe
interessante conceito numa das decisões que relatou: "a dignidade consiste na percepção intrínseca de
cada ser humano a respeito dos direitos e obrigações, de modo a assegurar, sob o foco de condições
existenciais mínimas, a participação saudável e ativa nos destinos escolhidos, sem que isso importe
destilação dos valores soberanos da democracia e das liberdades individuais. O processo de valorização
do indivíduo articula a promoção de escolhas, posturas e sonhos, sem olvidar que o espectro de
abrangência das liberdades individuais encontra limitação em outros direitos fundamentais, tais como a
honra, a vida privada, a intimidade, a imagem. Sobreleva registrar que essas garantias, associadas ao
princípio da dignidade da pessoa humana, subsistem como conquista da humanidade, razão pela qual
auferiram proteção especial consistente em indenização por dano moral decorrente de sua violação"19.

15
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2006.
16
Op. Cit.
17
Op. Cit.
18
Op. Cit..
19
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Recurso de Revista n. 259300-59.2007.5.02.0202. Relator: Alberto Luiz Bresciani de Fontan
Pereira. Brasília, 05 de setembro de 2012j1. Disponível em: www.tst.gov.br. Acesso em: 17 nov. 2012.

. 19
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Para Reale20, a evolução histórica demonstra o domínio de um valor sobre o outro, ou seja, a existência
de uma ordem gradativa entre os valores; mas existem os valores fundamentais e os secundários, sendo
que o valor fonte é o da pessoa humana. Nesse sentido, são os dizeres de Reale21: "partimos dessa ideia,
a nosso ver básica, de que a pessoa humana é o valor-fonte de todos os valores. O homem, como ser
natural biopsíquico, é apenas um indivíduo entre outros indivíduos, um ente animal entre os demais da
mesma espécie. O homem, considerado na sua objetividade espiritual, enquanto ser que só realiza no
sentido de seu dever ser, é o que chamamos de pessoa. Só o homem possui a dignidade originária de
ser enquanto deve ser, pondo-se essencialmente como razão determinante do processo histórico".
A abertura da Constituição brasileira a valores e princípios sustentada no princípio da dignidade da
pessoa humana confere novo sentido à ordem jurídica, rompendo com as barreiras do positivismo.
Na fase Positivista, os princípios entravam nos Códigos apenas como válvulas de segurança, eram
meras pautas programáticas supralegais, não possuindo normatividade; ao passo que na fase Pós-
positivista, as Constituições destacam a hegemonia axiológica dos princípios, transformando-os em
pedestal normativo que dá base a todo edifício jurídico dos novos sistemas constitucionais22. Esta fase
Pós-positivista, da nova hermenêutica constitucional, somente ganhou forma devido à Constituição de
1988.
Assim, temos que a Constituição Federal de 1988 foi o marco fundamental do processo de efetivação
e institucionalização dos direitos humanos no Brasil, os quais estão em acordo com comunidade mundial
que preserva esta garantia quanto aos direitos do homem. Ainda, é visível a abertura do sistema jurídico
nacional quanto à receptividade de uma maior gama de direitos e garantias expressos na Constituição
Federal (art. 5º, § 2º). Além do rol exemplificativo dos direitos e garantias fundamentais como fica
demonstrado no §2º do art. 5, estes ainda estão abarcados pelo princípio da aplicação imediata (art. 5º,
§1º). Ademais, conforme inovação do § 3º, os tratados e convenções internacionais sobre direitos
humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos
dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.

7 Política nacional de direitos humanos.

Política nacional é o instrumento que estabelece o patamar e orienta as ações governamentais


futuras, buscando o aperfeiçoamento de alguma das esferas consideradas essenciais para a sociedade.
No caso, o Brasil adota como uma de suas políticas nacionais os direitos humanos, sendo que a aborda
em detalhes em Programas Nacionais de Direitos Humanos, reelaborados periodicamente de acordo com
as novas necessidades sociais.
"A política nacional de direitos humanos do Estado brasileiro, desenvolvida desde o retorno ao governo
civil em 1985, e de forma mais definida, desde 1995, pelo governo do Presidente Fernando Henrique
Cardoso, reflete e aprofunda uma concepção de direitos humanos partilhada por organizações de direitos
humanos desde a resistência ao regime autoritário nos anos 1970. Pela primeira vez, entretanto, na
história republicana, quase meio- século depois da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948,
os direitos humanos passaram a ser assumidos como política oficial do governo, num contexto social e
político deste fim de século extremamente adverso para a maioria das não-elites na população brasileira.
[...]
Em meados dos anos oitenta, já começava a ficar claro que o desenvolvimento econômico e social e
a transição para democracia, ainda que necessários, não eram suficientes para conter o aumento da
criminalidade e da violência no Brasil. Ficava patente que esse fenômeno constituía um grande obstáculo
e uma ameaça aos processos de desenvolvimento e de consolidação da democracia. A questão era saber
se esta tendência de banalização da criminalidade, da violência e da morte poderia ser controlada e
revertida ou se ela acabaria por consumir os recursos humanos da sociedade brasileira a ponto de
inviabilizar os processos de desenvolvimento e de consolidação da democracia no país. [...]
Com o objetivo de limitar, controlar e reverter as graves violações de direitos humanos e
implementando uma recomendação da Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena em
1993 - na qual o Brasil teve papel muito atuante, pois foi o embaixador Gilberto Sabóia quem coordenou
o comitê de redação da Declaração e Programa de Viena ¾ o governo Fernando Henrique Cardoso
decidiu integrar como política de governo a promoção e realização dos direitos humanos propondo um
plano de ação para direitos humanos. Em 7 de setembro de 1995, o Presidente anunciava: 'Chegou a

20
REALE, Miguel. Filosofia do direito. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 228.
21
Ibid., p. 220.
22
BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2011.

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hora de mostrarmos, na prática, num plano nacional, como vamos lutar para acabar com a impunidade,
como vamos lutar para realmente fazer com que os direitos humanos sejam respeitados'.
Ao assumir esse compromisso, o governo brasileiro reconhece a obrigação do estado de proteger e
promover os direitos humanos e os princípios da universalidade e da indivisibilidade dos direitos humanos.
[...]"23.
O principal mecanismo utilizado para exteriorizar e planejar a Política Nacional de Direitos humanos é
o Programa Nacional de Direitos Humanos.

8 Programas nacionais de direitos humanos.

Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) é um programa do Governo Federal do Brasil, e


foi criado, com base no art. 84, inciso IV, da Constituição, pelo Decreto n° 1904 de 13 de maio de 1996,
"contendo diagnóstico da situação desses direitos no País e medidas para a sua defesa e promoção, na
forma do Anexo deste Decreto". Já existem três versões do PNDH. As versões I e II foram publicadas
durante o governo FHC, e a última, ou PNDH III, foi publicada no final de 2009, no governo Lula.
O Programa Nacional de Direitos Humanos enfatiza a importância do compromisso do Estado e da
sociedade com a proteção e promoção dos direitos humanos e do estabelecimento de uma parceria entre
o Estado e a sociedade para aumentar o grau de respeito aos direitos humanos no Brasil. O avanço no
processo de criação dessa parceria, principalmente por meio da realização de seminários regionais, foi
um dos principais resultados do processo de elaboração do PNDH, ao lado da formulação de um conjunto
de propostas de ações governamentais para limitar a incidência e o impacto das violações dos direitos
humanos e da impunidade no Brasil.
O PNDH também deixa claro que os problemas na área de direitos humanos no Brasil são muitos e
de difícil resolução e que a consolidação e expansão dessa parceria entre o Estado e a sociedade, na
fase de implementação do programa, é necessária não apenas para seu sucesso, mas também para a
consolidação da democracia no país.
Muitas pessoas e grupos não acreditam que o Programa Nacional de Direitos Humanos possa ser algo
mais que uma carta de intenções ou um programa "para inglês ver". Mas ninguém duvida de que uma
parceria entre o Estado e a sociedade pode contribuir de maneira decisiva para a implementação do
programa. Um papel fundamental será desempenhado pelos governos estaduais e municipais, que até
agora estão menos engajados na proteção e promoção dos direitos humanos do que o governo federal e
as organizações não-governamentais. Nesse sentido, um dos principais desafios do governo federal e
das organizações não-governamentais será obter o apoio dos governos estaduais e municipais para o
programa.
Para isso, conta-se não apenas com o idealismo dos governadores e prefeitos, mas também com dois
dispositivos do Programa Nacional de Direitos Humanos que tratam da concessão, por parte do governo
federal, de incentivos aos estados e municípios que implementarem medidas favoráveis aos direitos
humanos e da retenção, também por parte do governo federal, de recursos, subsídios ou favorecimentos
aos estados e municípios que não o fizerem. Da implementação desses dois dispositivos dependerá, em
grande parte, a integração dos governos estaduais e municipais na parceria entre Estado e sociedade
para proteção e promoção dos direitos humanos e o sucesso do Programa Nacional de Direitos Humanos.
A elaboração e o lançamento do PNDH mostram que a preocupação com os direitos humanos e o
movimento em favor da proteção e da promoção dos direitos humanos de todos os cidadãos já é uma
realidade no Brasil, não apenas na sociedade civil, mas também nos governos estaduais e no governo
federal. Esse movimento é ainda incipiente e tem uma capacidade de organização, mobilização e
legitimação ainda limitada, principalmente se comparado aos movimentos em favor dos direitos humanos
na Europa e na América do Norte. Entretanto, é um movimento que, iniciado na década de setenta, já
acumulou cerca de vinte anos de experiência na defesa dos mais variados tipos de direitos humanos e já
conseguiu legitimar-se como ator político perante a comunidade nacional e internacional. Esse movimento
já conseguiu mudanças significativas na legislação constitucional e ordinária, mas ainda não conseguiu
promover mudanças significativas nas regras e práticas informais que têm regulado, muitas vezes mais
do que as formais, os processos de resolução de conflitos na sociedade brasileira.
A continuidade de regras e práticas informais que incentivam, ou pelo menos não desincentivam, o
uso da violência ilegal na resolução de conflitos, pode ser considerada um dos principais obstáculos à
proteção e promoção dos direitos humanos e à consolidação da democracia no Brasil, ao lado das graves

23
PINHEIRO, Paúlo Sérgio; MESQUITA NETO, Paulo de. Direitos humanos no Brasil: perspectivas no final do século. Disponível em:
<http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/pspinheiro/pspinheirodhbrasil.html>. Acesso em: 13 jun. 2013.

. 21
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desigualdades sociais, econômicas e culturais que reforçam e são reforçadas por essas regras e
práticas. 24

PNDH I: ênfase nos direitos civis e políticos

O primeiro PNDH, publicado pelo Decreto presidencial nº1904 em 1996, foi o objeto de debate da 1ª
Conferência Nacional de Direitos Humanos. Isso ocorreu três anos depois da Conferência de Viena de
1993, que recomenda em seu plano de ação, que os países deveriam elaborar Programas Nacionais de
Direitos Humanos por meio dos quais os Estados avançariam na promoção e proteção dos direitos.
Explicitamente, o primeiro PNDH atribuiu uma maior ênfase na promoção e defesa dos direitos civis,
ou seja, com 228 propostas de ações governamentais prioritariamente voltadas para a integridade física,
liberdade e o espaço de cidadania de populações vulneráveis e/ou com histórico de discriminação.
Não havia no PNDH I mecanismos de incorporação das propostas de ação previstas no programa nos
instrumentos de planejamento e orçamento do Estado brasileiro. Além disso, a maioria das propostas se
colocava de maneira pouco afirmativa, genéricas, no sentido de apoiar, estimular, incentivar.

PNDH II: a emergência dos direitos econômicos, sociais e culturais

Devido a essas e outras críticas com relação ao formato do PNDH I, foi iniciado em 2001 um processo
de debates e construção do PNDH II, por meio de seminários regionais, que foi concluído com a
publicação do Decreto presidencial 4229 de 2002.
O PNDH II incluiu os direitos sociais, econômicos e culturais, “de forma consentânea com a noção de
indivisibildiade e interdependência de todos os direitos humanos expressa na Declaração e no Programa
de Ação da Conferência de Viena”.
Uma importante novidade foi a diretriz de criação de novas formas de acompanhamento e
monitoramento das ações contempladas no PNDH, por meio da relação entre a implementação do
programa e a elaboração dos orçamentos nos níveis federal, estadual e municipal.
Assim, o PNDH II deveria influenciar a discussão no transcurso de 2003, do Plano Plurianual 2004-
2007, servindo de parâmetro e orientação para a definição dos programas sociais a serem desenvolvidos
no país até 2007, ano em que se procederia a nova revisão do PNDH.2.
Essa intencionalidade foi um grande avanço do PNDH II, ou seja, a preocupação de que as propostas
constantes no Programa tivessem concretude com a formulação de políticas públicas e destinação de
recursos para sua execução. Nesse sentido, foi formulado pelo governo federal à época, um Plano de
Ação para 2002, por meio da vinculação entre parte das 518 propostas do PNDH e os programas e ações
governamentais, incluindo a previsão dos recursos previstos na lei orçamentária anual (LOA 2002) e as
metas físicas a serem atingida naquele ano.

PNDH-3- Universalizar direitos em um contexto de desigualdades

Apresentado pelo Poder Executivo em 2009, o PNDH-3 foi desenvolvido por a participação popular,
por meio de conferências nacionais e regionais. Diferente das versões anteriores, que listavam ações
programáticas em áreas de governo, o PNDH-3 foi organizado a partir de 6 eixos temáticos, com a lógica
da interdependência dos direitos, sem deixar de serem universais. As ações propostas, portanto, serão
transversais, ou seja, são executadas por vários ministérios, já que um direito não pode ser desvinculado
do outro.
Eixos do PNDH-3
- Interação democrática do Estado e da sociedade civil
- Desenvolvimento e Direitos Humanos
- Universalização de direito em um contexto de dificuldades sociais e econômicas
- Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à violência
- Educação e Cultura em Direitos Humanos
- Direito a memória e a verdade
Muito se avançou após a Constituição Federal de 1988 na construção de um arcabouço legal de
afirmação e garantia de direitos. Essas declarações e reconhecimentos formais de direitos são conquistas
importantes, muitas delas decorrentes das lutas populares. Contudo, ainda há no Brasil um fosso imenso
entre a previsão normativa e a ação executiva de implementação de políticas públicas que efetivem os
direitos humanos em geral e os DESCA em particular.

24
http://dhnet.org.br/direitos/militantes/paulomesquita/mesquita_pndh.html

. 22
1515427 E-book gerado especialmente para GUILHERME DE FREITAS
De fato, pouco se avançou na efetivação de direitos dentro de um contexto de grandes desigualdades.
No caso da sociedade brasileira, essa dimensão é essencial. Não há como se falar em direitos sem
considerar o ambiente de desigualdades estruturais, que permite que certos sujeitos de direitos (em razão
de fatores como cor, sexo, faixa etária, situação regional, orientação sexual, etnia, classe social etc)
tenham maiores dificuldades de acessar direitos ou tenham seus direitos negados e violados.
Combater a pobreza no Brasil ou as desigualdades de renda passa necessariamente pelo
entendimento de que aqui ambas têm relação com as variantes de cor e sexo. As mulheres negras são
as mais pobres e têm menor grau de escolaridade, enquanto os homens jovens e negros são os que mais
sofrem com a violência, por exemplo. As inaceitáveis distâncias que ainda separam negros de brancos,
em pleno século XXI, se expressam no microcosmo das relações interpessoais diárias e se refletem nos
acessos desiguais a bens e serviços, ao mercado de trabalho, à educação – que persistem apesar das
melhorias nos indicadores tomados para o conjunto da população –, bem como ao gozo de direitos civis,
políticos, sociais e econômicos.
Enfrentar as desigualdades sociais passa ainda pela necessidade de compreender que a opção pelo
atual modelo de “desenvolvimento” hegemônico - que é insustentável ambientalmente e concentrador de
renda - transformou a terra, urbana e rural, e os territórios tradicionais em mercadorias. Desse modo, para
privilegiar grupos de empresas nacionais e transnacionais, a todo tempo os direitos a terra e ao território
de povos indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores rurais e populações urbanas são negados.

Nesse sentido, o PNDH III avançou ao estabelecer diretrizes e ações destinadas à proteção da terra e
dos territórios tradicionais. Uma outra inovação do processo de construção do PNDH é a tentativa de
incorporação dos impactos do modelo de desenvolvimento em curso no país sobre os direitos humanos.
O direito ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável foram, portanto, incorporados pelo
programa, não só como elementos necessários a conformação da conjuntura, mas como direitos
humanos. O desafio é criar mecanismos efetivos para garantir o controle social, responsabilização e
reparação das violações causadas pelas atividades das empresas transnacionais e grandes obras de
infraestrutura, pois a impunidade das ações violadoras desses grupos perpetua o cenário de
desigualdades sociais, além de beneficiar o grande capital.

O PNDH III também incorporou diretrizes dirigidas à promoção, defesa e proteção da ação dos
defensores de direitos humanos. Os instrumentos anteriores sequer mencionavam a temática dos
defensores, cujo papel é essencial à construção de uma cultura de direitos no país e à consolidação da
democracia. Nesse sentido, é um avanço que o programa tenha absorvido desafios como a proteção aos
defensores de direitos humanos que têm suas vidas ameaçadas em razão de suas atividades, bem como
o enfrentamento à criminalização dos movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais.25

9 Globalização e direitos humanos.

Antes de iniciarmos o estudo sobre o tema, imprescindível tecer alguns comentários sobre o que é a
globalização.
Embora este seja um dos temas em maior enfoque na atualidade a globalização não é nenhuma
novidade. Há séculos ela evolui na forma de ciclos, intensificando os fluxos de pessoas, bens, capital e
hábitos culturais. Ela se originou com a primeira fase da expansão capitalista europeia, impulsionada
pelas Grandes Navegações do final do século XV. Entre 1870 e 1890, a globalização foi novamente
intensificada, graças à aceleração dos investimentos internacionais, a ampliação do comércio e o
aperfeiçoamento dos meios de transportes e comunicações. Posteriormente, durante o período que se
estende entre 1910 e 1920, houve nova aceleração desse processo, associada ao crescente militarismo,
que culminaria com a Primeira Guerra Mundial. Um terceiro pico ocorreu durante a década de 1930,
antecedendo a Segunda Guerra Mundial.

Após a Segunda Guerra Mundial, o processo de globalização foi mais lento, amarrado pelas relações
limitadas entre os países capitalistas e os socialistas e pelas políticas comerciais altamente
protecionistas. Somente na década de 1990 os investimentos internacionais retornariam ao patamar
de 1941.

25
Programa Nacional de Direitos Humanos: Efetivar Direitos e Combater as Desigualdades. Disponível em: http://terradedireitos.org.br/wp-
content/uploads/2010/05/Artigo-PNDH-Programa-Nacional-de-DH_-efetivar-direitos-e-combater-as-desigualdades.pdf.

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Com a expansão das transnacionais, a partir da década de 1950, a globalização foi acelerada. Hoje, a
Terceira Revolução Industrial, que gerou um sistema de produção econômica com regras que se
uniformizam e se universalizam rapidamente, está criando uma nova onda de globalização. Suas
instituições passam a controlar e organizar essa economia em que as fronteiras perdem a importância e
muitos Estados disputam o direito de abrigar as sedes ou as filiais das grandes corporações, que
controlam a oferta de empregos e investimentos.
Dessa forma, o espaço geográfico mundial tem caminhado em direção a uma crescente
homogeneização, fruto da imposição de um sistema econômico e social globalizado sobre toda a
superfície da Terra. Nas últimas décadas, esse processo sofreu uma forte aceleração, especialmente
porque o polo de oposição ao capitalismo, que durante 45 anos compartia o mundo, criando a bipolaridade
da Guerra Fria, entrou em crise.
Os investimentos internacionais são realizados de forma direta, pelas empresas transnacionais que
implantam ou ampliam suas unidades produtivas, ou indireta, quando se relacionam aos fluxos de capital
que entram por meio de empréstimos, moeda trazida por estrangeiros, pagamentos de exportações,
vendas de títulos públicos no exterior e investimentos no mercado financeiro (especialmente em bolsas
de valores). Observe sua evolução recente:

Os investimentos internacionais foram acelerados na Nova Ordem. Eles saltaram de 924 bilhões de
dólares em 1991 para mais de 5,4 trilhões em 2001.
Na era da globalização, quando as informações são instantâneas, um observador pode acompanhar a
abertura e o fechamento das mais importantes bolsas de valores do mundo durante 22 horas seguidas:
se ele estiver em São Paulo, a Bolsa de Tóquio abre às 21 horas (hora de Brasília) e fecha às 5 horas
do dia seguinte. Uma hora mais tarde, abre a Bolsa de Londres e, às 11 horas, a de Nova Iorque, que
só fecha às 19 horas.

Podemos notar facilmente que a maior parte dos investimentos tem sido sempre no mercado
financeiro, ou seja, nas bolsas de valores. É o que se chama de capital volátil. Esses investimentos entram
nos países e saem muito rapidamente, circulando diariamente no mundo, de uma bolsa para outra, mais
de 3 trilhões de dólares.
O mercado financeiro de ações comercializadas em bolsas de valores estocava um patrimônio coletivo
de 47 trilhões de dólares em 2005. Com o desenvolvimento da informática, o mercado financeiro se
acelerou como forma de investimento.
Os investimentos financeiros diretos também cresceram bastante, aumentando mais de sete vezes
nesse período, principalmente por meio da compra de empresas privatizadas, dentro da política
neoliberal. As privatizações se expandiram muito desde o início da década de 1990. Entre 1988 e 2003,
houve mais de 9 mil privatizações em cerca de 120 países, que somaram mais de 410 bilhões de dólares
de transações.
Grande parte das pessoas acredita que as privatizações, na atualidade, só ocorrem em países
subdesenvolvidos ou nos países socialistas que estão em transição para a economia de mercado. Na
verdade, a década de 1990 foi marcada pelo aumento das privatizações em diversos países
desenvolvidos.
Vale destacar que a maior parte dos investimentos diretos é destinada aos países desenvolvidos.
Em 1989, 39% dos investimentos mundiais eram realizados entre o Japão, os Estados Unidos e o MCE.
Em 2001, essa parcela já havia subido para mais de 50%.
Nos últimos anos, essa situação está mudando. Se tomarmos os investimentos dos últimos dois
quinquênios e chamarmos seu volume total do período de 100, veremos que está ocorrendo uma redução
dos investimentos nos países desenvolvidos e um aumento nos subdesenvolvidos (especialmente nos
emergentes).
Veja:

Países 1996/2000 2001/2005


Desenvolvidos 102,2 89,1
Subdesenvolvidos 97,1 135,3

A tabela mostra que no quinquênio 1996/2000 os países desenvolvidos receberam 2,2% a mais de
investimentos que no período anterior, enquanto os países subdesenvolvidos perderam 2,9% dos
investimentos que haviam tido. Já no quinquênio seguinte, a situação inverteu-se de forma surpreendente.
Os países desenvolvidos perderam 10,9% dos investimentos que haviam tido no quinquênio anterior,
enquanto os subdesenvolvidos receberam 35,3% a mais de investimentos.

. 24
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A relação de vizinhança, associada aos interesses geopolíticos de formar blocos, também se reflete
no fluxo de investimentos. Em 2003, por exemplo, cerca de 73% dos investimentos estrangeiros diretos
feitos no México eram dos Estados Unidos. No mesmo ano, 45% dos investimentos na Coréia do Sul
eram do Japão. Esse processo continua se intensificando dentro da Nova Ordem Internacional, formando
blocos econômicos e geopolíticos regionais.
Quando os investimentos se dirigem aos países subdesenvolvidos, quase sempre se destinam à
abertura ou ampliação de indústrias. A concorrência para atrair esses capitais é intensa. Durante a década
de 1990, muitos países criaram legislações bastante liberais para atrair os investimentos estrangeiros e
as transnacionais. Já não basta ter matérias-primas abundantes e mão de obra barata, é cada vez mais
importante facilitar a circulação financeira.
Hoje, o peso das transnacionais na economia mundial é enorme. Em 2005, elas totalizaram mais de
70 mil empresas, com um valor de mercado superior a 19 trilhões de dólares. Em 2001, elas controlaram
67% do comércio mundial e realizaram quase 95% dos investimentos financeiros diretos. Segundo o
World Investment Report, relatório publicado anualmente pela ONU, apenas as duzentas maiores
transnacionais controlam mais de 25% do PIB mundial. Outro dado importante, indicador de
concentração, é que mais da metade dos investimentos internacionais é feita entre as empresas
transnacionais. No Brasil estão presentes mais de 400 das 500 maiores empresas transnacionais, o que
indica o seu grau de internacionalização.
Os investimentos indiretos são realizados de duas grandes formas: por instituições supranacionais
(como o FMI, por exemplo) ou por bancos. Durante a Ordem da Guerra Fria, a maior parte desses
investimentos era realizada pelas instituições financeiras supranacionais. Após o fim da paridade do ouro
com o dólar (1971) e a crise do petróleo (1973), os bancos passaram a controlar parcelas crescentes dos
investimentos internacionais por empréstimo.
Os baixos juros internacionais praticados naquela época permitiram que os países subdesenvolvidos
contraíssem gigantescos empréstimos. A posterior elevação dos juros, associada à desvalorização dos
produtos que os países pobres exportavam, dificultou o pagamento do serviço da dívida, e para salda-lo,
eram feitos novos empréstimos.
Há ainda os investimentos chamados de ajuda financeira. Segundo critérios desenvolvidos na ONU,
os países ricos deveriam destinar 1% de seu PIB anual para ajuda aos países subdesenvolvidos. Essa
parcela raramente foi atingida. O dinheiro conseguido teve sua distribuição determinada pelos interesses
econômicos e geopolíticos de cada investidor e não pelo grau de carência ou de miséria dos países
necessitados.
Na década de 1990, essa meta da ONU foi substituída pela da OCDE (Organização para a Cooperação
e o Desenvolvimento Econômico), que previa destinar cerca de 0,7% do PIB anual de seus membros para
Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD). Esse valor também não foi alcançado e raramente superou os
0,3%.
Antes do atentado de 11 de setembro de 2001, podia ser percebido em vários dos mais importantes
países do mundo um cenário de desaquecimento da economia. O FMI já havia previsto que o crescimento
mundial no ano de 2001seria algo em torno de 2,6% menor que o de 2000 (4,7%). Assim, os investimentos
financeiros internacionais caíram cerca de 30% em 2001, quando comparados com o ano anterior. Isso
não significa que a globalização acabou ou que está abalada. Ao contrário, o peso das decisões
internacionais sobre os países que recebem investimentos estrangeiros é crescente.
Embora a globalização seja comandada pelos agentes financeiros e econômicos, há uma profunda
relação entre seus interesses e as ações políticas desenvolvidas pelos Estados. Na atualidade, vemos
uma espécie de privatização do Estado, que é colocado a serviço dos interesses do grande capital.
Hoje, mais do que em qualquer outra época da modernidade, a elite econômica colocou o Estado a
serviço de seus interesses. São os governos dos países mais ricos do mundo que promovem, numa ação
política bem orquestrada, a globalização, preparando encontros, ampliando o raio de ação das
organizações internacionais, realizando acordos comerciais, que favorecem a quem controla a economia.
Recentemente, por causa das transformações econômicas em direção à globalização, a redução das
taxas alfandegárias e a liberação do movimento dos capitais, muitos estudiosos passaram a acreditar que
o Estado nacional estava em fase de dissolução. Em verdade, ocorreu a sua transformação: as relações
entre o Estado e a economia se internacionalizaram, e a privatização tornou-se norma. Dessa forma, o
Estado abandonou o papel de agente econômico, desfazendo-se dos seus ativos, e passou a exercer o
papel de organizador e gestor de uma economia globalizada, no qual o conceito de soberania nacional
passou por uma revisão.

. 25
1515427 E-book gerado especialmente para GUILHERME DE FREITAS
As aquisições e fusões que têm caracterizado a globalização desde o início da década de 1990 não
pretendem aumentar a produção, criar novas fábricas e ampliar os empregos. A função dessa onda de
fusões é cortar as atividades redundantes, reduzir a concorrência e aumentar a concentração de capitais.
O resultado final tem sido sempre a elevação das taxas de desemprego e o aumento da monopolização.

O volume das transações financeiras provocadas pelas fusões de grandes empresas tem ampliado o
mercado de ações e acelerado a movimentação de capitais.

No contexto da globalização, os países subdesenvolvidos ou periféricos não têm peso na definição


desse novo panorama geopolítico mundial, ficando, cada mais uma vez, atrelados aos países líderes.
Assim, com a decadência do bloco socialista, resta para o capitalismo resolver, num futuro próximo, três
graves problemas:

Desigualdade – Há uma crescente desigualdade de padrão de vida entre os países desenvolvidos e


os subdesenvolvidos, além das diferenças de renda dentro dos próprios países desenvolvidos. Segundo
Hobsbawm, a ameaça que a expansão socialista representou após 1945 impulsionou a formação do
Welfare State (Estado de bem-estar social), com reformas sociais nos países desenvolvidos, criando-se
uma parceria entre capital e trabalho organizado (sindicatos), sob os auspícios do Estado. Isso gerou a
consciência de que a democracia liberal precisava garantir a lealdade da classe trabalhadora, com caras
concessões econômicas. O abandono dessas políticas sociais tem ampliado o quadro da desigualdade
social, até mesmo em países desenvolvidos.

Conflitos Étnicos – Ascensão do racismo e crescente xenofobia, especialmente na Europa e nos


Estados Unidos, devido ao grande fluxo de imigrantes das regiões mais pobres para os países
industrialmente mais desenvolvidos.

Meio Ambiente – Crise ecológica mundial, que alerta para a necessidade de solucionar as agressões
ao meio ambiente, que podem afetar todo o planeta. 26

Globalização e direitos humanos

Inúmeros aspectos do mundo globalizado tornam a defesa dos direitos humanos uma atividade
complexa, multidisciplinar, multisetorial e principalmente de interesse nacional e internacional. As diversas
facilidades das novas tecnologias advindas da leitura da pós-modernidade em relação aos padrões de
qualidade de vida, iludem com a promessa de muita prosperidade e quase nenhuma dor, fazem com que
todos queiram vivenciar e desfrutar deste adorável mundo novo.
Muitas promessas, poucas fronteiras e por vezes nenhuma barreira reedita a receita colonial clássica:
novas formas de escravidão, abusos contra os direitos humanos, incluídos os crimes ambientais,
consumo indiscriminado, uso disseminado de drogas, tráfico de pessoas, além dos já conhecidos crimes
financeiros, reproduzem de forma mais limpa ou indireta os saques iniciados com as navegações nos
séculos passados.
O resultado deste modelo é medido, não somente através da divulgação do índice de desenvolvimento
humano (IDH) de cada país subdesenvolvido, mas principalmente na carne e nos rostos da ponta mais
vulnerável do sistema que são as pessoas: pobres, mulheres, crianças, indígenas, negros e um exército
de deserdados residentes nas chamadas economias emergentes.
Menos mal que é que as consequências de tais atividades e práticas criminosas disseminadas em
nível internacional retornam de uma forma ou outra (por vezes como imigração, prostituição, desemprego
e drogadição) para sua origem. Esta forma reflexa de vivenciar o problema faz com que, os ditos países
desenvolvidos, necessitem se solidarizar com os chamados emergentes na busca de soluções
compartilhadas, normalmente, via tratados internacionais.
Apesar de nascer como compensação das violações econômicas e sociais, não se pode negar a
importância que tais instrumentos têm assumido na defesa da vida das populações mais vulneráveis,
pois, tais instrumentos, estão autorizados em nossa constituição de forma privilegiada, obedecida à forma,
a eficácia dos tratados de direitos humanos, assume status de Emenda Constitucional.
Neste sentido, importante passo foi dado com a adesão do Brasil à Convenção de Palermo. A
Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional composta por seus três
protocolos (Protocolo relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea, o

26
SCALZARETTO, Reinaldo. Geografia Geral – Geopolítica. 4ª edição. São Paulo: Anglo.

. 26
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Protocolo para Prevenir, Reprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças e o
Protocolo contra a Fabricação e o Tráfico Ilícito de Armas de Fogo, Suas Peças e Componentes e
Munições) constitui a estrutura jurídica internacional para o combate à criminalidade organizada
transnacional. Usar a Convenção de Palermo é uma importante e indispensável ferramenta de direitos
humanos no sentido da promoção de justiça e garantias internas.
Por isso, resta aos militantes sociais dos direitos humanos, incluírem em suas estratégias de defesa
destes direitos a exigência que a letra desta Convenção e seus protocolos sejam a encarnação viva da
liberdade, da justiça e da igualdade almejada pelas pessoas violadas pela globalização. Incorporar a
exigência dos dispositivos legais da Convenção de Palermo e seus protocolos é medida urgente, para
que, além da denúncia das violações sofridas diariamente, haja ações contundentes e concretas exigindo
o direito de quem é humano e quer viver feliz, sem meias medidas27.

10 As três vertentes da proteção internacional da pessoa humana


10.1 Direitos humanos, direito humanitário e direito dos refugiados.

As três vertentes da proteção internacional da pessoa humana

A proteção dos direitos essenciais do ser humano no plano internacional recai em três sub-ramos
específicos do Direito Internacional Público: o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH), o Direito
Internacional Humanitário (DIH) e o Direito Internacional dos Refugiados (DIR)

Por originarem de premissas diferentes, por muito tempo prevaleceu uma distinção rigorosa entre os
três, como se não houvesse diálogo. Atualmente, é unanimidade de que estas três vertentes se
complementam, não se excluem, e podem se fazer presentes simultaneamente em algumas situações.
"Uma revisão crítica da doutrina clássica revela que esta padeceu de uma visão compartimentalizada
das três grandes vertentes da proteção internacional da pessoa humana – direitos humanos, direito
humanitário, direito dos refugiados, em grande parte devido a uma ênfase exagerada nas origens
históricas distintas dos três ramos (no caso do direito internacional humanitário, para proteger as vítimas
dos conflitos armados, e no caso do direito internacional dos refugiados, para restabelecer os direitos
humanos mínimos dos indivíduos ao sair de seus países de origem). As convergências dessas três
vertentes que hoje se manifestam, a nosso modo de ver, de forma inequívoca, certamente não equivalem
a uma uniformidade total nos planos tanto substantivo como processual; de outro modo, já não caberia
falar de vertentes ou ramos da proteção internacional da pessoa humana. Uma corrente doutrinária mais
recente admite a interação normativa acompanhada de uma diferença nos meios de implementação,
supervisão ou controle em deter minadas circunstâncias, mas sem com isto deixar de assinalar
a complementaridade das três vertentes. [...] Nem o direito internacional humanitário, nem o direito
internacional dos refugiados, excluem a aplicação concomitante das normas básicas do direito
internacional dos direitos humanos. As aproximações e convergências entre estas três vertentes ampliam
e fortalecem as vias de proteção da pessoa humana"28.

Direitos humanos, direito humanitário e direito dos refugiados.

Direitos humanos: Como se estudou largamente até o momento, direitos humanos ou direitos do
homem são um conjunto de normas com base nas quais é garantida os indivíduos ou grupos de indivíduos
a proteção de sua dignidade, notadamente estabelecendo diversos bem jurídicos que devem ser
protegidos para que ele tenha uma vida digna. Tais direitos são enumerados em diversos documentos
internacionais e também nas Constituições dos Estados Democráticos de Direito.

Representa a proteção do ser humano em todos os aspectos, englobando direitos civis e


políticos e também direitos sociais, econômicos e culturais

27
Disponível em:http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=6862. Acessado em: 31 de maio
de 2016.
28
TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Direito Internacional dos Direitos Humanos, Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional
dos Refugiados: Aproximações ou Convergências. In: COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (Org.). As três vertentes da proteção
internacional dos direitos da pessoa humana: Direitos Humanos, Direito Humanitário, Direito dos Refugiados. [s.n.], 2004. Disponível em:
<http://www.icrc.org/por/resources/documents/misc/direitos-da-pessoa-humana.htm>. Acesso em: 13 jun. 2013.

. 27
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Direito humanitário: foca na proteção do ser humano na situação específica dos conflitos armados
(internacionais e não internacionais); é corpo de normas jurídicas de origem convencional ou
consuetudinário (costumeiro) que se aplica aos conflitos armados e que limita, por razões humanitárias,
o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra,
evitando que sejam afetadas as pessoas e os bens legalmente protegidos. Isto é, o Direito Internacional
Humanitário regulamenta as situações de conflito armado, com o intuito de proteger ao máximo os
envolvidos - direta (militares) ou indiretamente (civis e outros) - no conflito, minimizando os seus danos.
Também é conhecido pelo nome de Direito dos Conflito Armados.

Direito dos refugiados: o Direito Internacional dos Refugiados age na proteção do refugiado, desde
a saída do seu local de residência, concessão do refúgio e seu eventual término. O direito dos refugiados
é o que envolve a garantia de asilo fora do território do qual é nacional por algum dos motivos
especificados em normas de direitos humanos, notadamente, perseguição por razões de raça, religião,
nacionalidade, pertença a um grupo social determinado ou convicções políticas.
Diversos documentos internacionais disciplinam a matéria, a exemplo da Declaração Universal de
1948, Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados, Quarta Convenção de Genebra Relativa
à Proteção das Pessoas Civis em Tempo de Guerra de 1949, Convenção relativa ao Estatuto dos
Apátridas de 1954, Convenção sobre a Redução da Apatridia de 1961 e Declaração das Nações Unidas
sobre a Concessão de Asilo Territorial de 1967. Não obstante, a constituição brasileira adota a concessão
de asilo político como um de seus princípios nas relações internacionais (art. 4º, X, CF).
"A prática de conceder asilo em terras estrangeiras a pessoas que estão fugindo de perseguição é
uma das características mais antigas da civilização. Referências a essa prática foram encontradas em
textos escritos há 3.500 anos, durante o florescimento dos antigos grandes impérios do Oriente Médio,
como o Hitita, Babilônico, Assírio e Egípcio antigo.
Mais de três milênios depois, a proteção de refugiados foi estabelecida como missão principal da
agência de refugiados da ONU, que foi constituída para assistir, entre outros, os refugiados que
esperavam para retornar aos seus países de origem no final da II Guerra Mundial.
A Convenção de Refugiados de 1951, que estabeleceu o ACNUR, determina que um refugiado é
alguém que “temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou
opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse
temor, não quer valer-se da proteção desse país”.
Desde então, o ACNUR tem oferecido proteção e assistência para dezenas de milhões de refugiados,
encontrando soluções duradouras para muitos deles. Os padrões da migração se tornaram cada vez mais
complexos nos tempos modernos, envolvendo não apenas refugiados, mas também milhões de migrantes
econômicos. Mas refugiados e migrantes, mesmo que viajem da mesma forma com frequência, são
fundamentalmente distintos, e por esta razão são tratados de maneira muito diferente perante o direito
internacional moderno.
Migrantes, especialmente migrantes econômicos, decidem deslocar-se para melhorar as perspectivas
para si mesmos e para suas famílias. Já os refugiados necessitam deslocar-se para salvar suas vidas ou
preservar sua liberdade. Eles não possuem proteção de seu próprio Estado e de fato muitas vezes é seu
próprio governo que ameaça persegui-los. Se outros países não os aceitarem em seus territórios, e não
os auxiliarem uma vez acolhidos, poderão estar condenando estas pessoas à morte ou à uma vida
insuportável nas sombras, sem sustento e sem direitos"29.
As Nações Unidas30 descrevem sua participação no histórico do direito dos refugiados no mundo:
"Desde a sua criação, a Organização das Nações Unidas tem dedicado os seus esforços à proteção
dos refugiados no mundo. Em 1951, data em que foi criado o Alto Comissariado das Nações Unidas para
os Refugiados (ACNUR), havia um milhão de refugiados sob a sua responsabilidade. Hoje este número
aumentou para 17,5 milhões, para além dos 2,5 milhões assistidos pelo Organismo das Nações Unidas
das Obras Públicas e Socorro aos Refugiados da Palestina, no Próximo Oriente (ANUATP), e ainda mais
de 25 milhões de pessoas deslocadas internamente. Em 1951, a maioria dos refugiados eram Europeus.
Hoje, a maior parte é proveniente da África e da Ásia. Atualmente, os movimentos de refugiados assumem
cada vez mais a forma de êxodos maciços, diferentemente das fugas individuais do passado. Hoje, oitenta
por cento dos refugiados são mulheres e crianças. Também as causas dos êxodos se multiplicaram,
incluindo agora as catástrofes naturais ou ecológicas e a extrema pobreza. Daí que muitos dos atuais
refugiados não se enquadrem na definição da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados. Esta

29
http://www.acnur.org/t3/portugues/a-quem-ajudamos/refugiados/
30
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS - ONU. Direitos Humanos e Refugiados. Ficha normativa nº 20. Disponível em:
<http://www.gddc.pt/direitos-humanos/Ficha_Informativa_20.pdf >. Acesso em: 13 jun. 2013.

. 28
1515427 E-book gerado especialmente para GUILHERME DE FREITAS
Convenção refere-se a vítimas de perseguição por razões de raça, religião, nacionalidade, pertença a um
grupo social determinado ou convicções políticas. [...]
Existe uma relação evidente entre o problema dos refugiados e a questão dos direitos humanos. As
violações dos direitos humanos constituem não só uma das principais causas dos êxodos maciços, mas
afastam também a opção do repatriamento voluntário enquanto se verificarem. As violações dos direitos
das minorias e os conflitos étnicos encontram-se cada vez mais na origem quer dos êxodos maciços,
quer das deslocações internas. [...]
Na sua segunda sessão, no final de 1946, a Assembleia Geral criou a Organização Internacional para
os Refugiados (OIR), que assumiu as funções da Agência das Nações Unidas para a Assistência e a
Reabilitação (ANUAR). Foi investida no mandato temporário de registrar, proteger, instalar e repatriar
refugiados. [...] Cedo se tornou evidente que a responsabilidade pelos refugiados merecia um maior
esforço da comunidade internacional, a desenvolver sob os auspícios da própria Organização das Nações
Unidas. Assim, muito antes de terminar o mandato da OIR, iniciaram-se as discussões sobre a criação
de uma organização que lhe pudesse suceder.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) Na sua Resolução 319 A (IV)
de 3 de Dezembro de 1949, a Assembleia Geral decidiu criar o Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Refugiados. O Alto Comissariado foi instituído em 1 de Janeiro de 1951, como órgão subsidiário
da Assembleia Geral, com um mandato inicial de três anos. Desde então, o mandato do ACNUR tem sido
renovado por períodos sucessivos de cinco anos [...]".

11. A Constituição brasileira e os tratados internacionais de direitos humanos.

Os tratados internacionais de direitos humanos têm como fonte o Direito Internacional dos Direitos
Humanos, surgido do pós guerra da Segunda Guerra Mundial, tendo seu desenvolvimento pode ser
atribuído a uma resposta às monstruosas violações de direitos humanos da era Hitler e à crença de que
parte destas violações poderia ser prevenida se um efetivo sistema de proteção internacional de direitos
humanos existisse.
Neste cenário fortalece-se a ideia de que a proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao
domínio reservado do Estado, em âmbito exclusivo à jurisdição doméstica, dado seu relevante interesse
internacional.
Com o surgimento da Organização das Nações Unidas em 1948, é aprovada a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, como um código de princípios e valores universais a serem respeitados pelos
Estados, considerado como marco do desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos, a
partir do qual são adotados inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos
fundamentais.
Forma-se o sistema normativo global de proteção dos direitos humanos, no âmbito das Nações Unidas.
Este sistema normativo, por sua vez, é integrado por instrumentos de alcance geral (como os Pactos
Internacionais de Direitos Civis e Políticos e de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966) e por
instrumentos de alcance específico, como as Convenções internacionais que buscam responder a
determinadas violações de direitos humanos.
Ao lado do sistema normativo global, surge o sistema normativo regional de proteção, que busca
internacionalizar os direitos humanos no plano regional, particularmente na Europa, América e África.
Os sistemas global e regional não são dicotômicos, mas complementares. Inspirados pelos valores e
princípios da Declaração Universal, compõem o universo instrumental de proteção dos direitos humanos,
no plano internacional.
A crescente participação brasileira frente ao sistema internacional de proteção dos direitos humanos
tem como marco o processo de democratização do país, deflagrado em 1985, a partir do qual o Estado
Brasileiro passou a ratificar relevantes tratados internacionais de direitos humanos.
Tido como marco inicial do processo de incorporação de tratados internacionais de direitos humanos
pelo Direito Brasileiro, a ratificação, em 1989, da Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos
Cruéis, Desumanos ou Degradantes possibilitou que inúmeros outros importantes instrumentos
internacionais de proteção dos direitos humanos foram também incorporados pelo Direito Brasileiro, sob
a égide da Constituição Federal de 1988, tais como: a) a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir
a Tortura, em 20 de julho de 1989; b) a Convenção sobre os Direitos da Criança, em 24 de setembro de
1990; c) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, em 24 de janeiro de 1992; d) o Pacto
Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em 24 de janeiro de 1992; e) a Convenção

. 29
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Americana de Direitos Humanos, em 25 de setembro de 1992; f) a Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, em 27 de novembro de 1995.
As inovações introduzidas pela Carta de 1988 — especialmente no que tange ao primado da
prevalência dos direitos humanos, como princípio orientador das relações internacionais — foram
fundamentais para a ratificação destes importantes instrumentos de proteção dos direitos humanos.
Segundo o Art. 5º, § 2º da CF, os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a
República Federativa do Brasil seja parte.
Com efeito, quando um tratado internacional ingressa no ordenamento jurídico acrescenta outros
direitos e deveres para os cidadãos.
Para o tratado internacional ingressar no ordenamento jurídico brasileiro deve ser observado um
procedimento complexo, que exige o cumprimento de quatro fases: a negociação (bilateral ou multilateral,
com posterior assinatura do Presidente da República), submissão do tratado assinado ao Congresso
Nacional (que dará referendo por meio do decreto legislativo), ratificação do tratado (confirmação da
obrigação perante a comunidade internacional) e a promulgação e publicação do tratado pelo Poder
Executivo31.
O §1° e o §2° do artigo 5° existiam de maneira originária na Constituição Federal, conferindo o caráter
de primazia dos direitos humanos, desde logo consagrando o princípio da primazia dos direitos humanos,
como reconhecido pela doutrina e jurisprudência majoritários na época. "O princípio da primazia dos
direitos humanos nas relações internacionais implica em que o Brasil deve incorporar os tratados
quanto ao tema ao ordenamento interno brasileiro e respeitá-los. Implica, também em que as normas
voltadas à proteção da dignidade em caráter universal devem ser aplicadas no Brasil em caráter prioritário
em relação a outras normas"32.
Regra geral, os tratados internacionais comuns ingressam com força de lei ordinária no ordenamento
jurídico brasileiro porque somente existe previsão constitucional quanto à possibilidade da equiparação
às emendas constitucionais se o tratado abranger matéria de direitos humanos.
Antes da Emenda Constitucional nº 45/04 que alterou o quadro quanto aos tratados de direitos
humanos, era o que acontecia, ou seja, tratados de direitos humanos possuem caráter de lei ordinária,
mas isso não significa que tais direitos eram menos importantes. Na verdade, após a Constituição de
1988 passou-se a afirmar que os tratados de direitos humanos são mais do que leis ordinárias, mas fontes
de direitos implícitos, o que mostra a primazia dos direitos humanos.
O precedente histórico da declaração dos tratados internacionais como fonte de direito implícitos foi o
questionamento pelo Partido MDB com relação à LC nº 5. Tal partido político brasileiro que abrigou os
opositores do Regime Militar de 1964 ante o poderio governista da Aliança Renovadora Nacional
(ARENA). Organizado em fins de 1965 e fundado no ano seguinte, o partido se caracterizou por sua
multiplicidade ideológica graças sobretudo aos embates entre os "autênticos" e "moderados" quanto aos
rumos a seguir no enfrentamento ao poder militar. Inicialmente raquítico em seu desempenho eleitoral,
experimentou grande crescimento no governo de Ernesto Geisel obrigando os militares a extinguirem o
bipartidarismo e assim surgiu o Partido do Movimento Democrático Brasileiro em 1980. A LC nº 5 previa
que eram inelegíveis não só os condenados por certos crimes, mas também quem estivesse sendo
processado por estes. Foi efetuada a arguição incidental de inconstitucionalidade, identificando no padrão
de confronto o princípio do estado de inocência, que na época era implícito (uma vez que previsto na
Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948). O TRE não acolheu a tese, mas o TSE sim (4x3).
Contudo, o STF caçou a decisão (7x4). Ficou impedida, assim, a candidatura do MDB.
Logo, todos os tratados que ingressaram no ordenamento jurídico após a Constituição Federal de 1988
são mais que leis ordinárias, mas efetivas fontes de direitos implícitos. A exemplo, pode-se mencionar os
pactos internacionais dos direitos civis e políticos e dos direitos econômicos, sociais e culturais, ambos
de 1966, e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos de 1969, que entraram em vigor no
ordenamento em 1992; e a Convenção sobre a tortura de 1984, que entrou em vigor no Brasil em 1991.
A questão é que tais tratados não passaram pelo procedimento similar ao da Emenda Constitucional para
aprovação, uma vez que a alteração constitucional que passou a assim estabelecer data de 2004:
Ainda, segundo o Art. 5º, § 3º, os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos
votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.
Com o advento da Emenda Constitucional nº 45/04, que introduziu o §3º ao artigo 5º da Constituição
Federal, os tratados internacionais de direitos humanos foram equiparados às emendas

31
VICENTE SOBRINHO, Benedito. Direitos Fundamentais e Prisão Civil. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 2008.
32
PORTELA, Paulo Henrique Gonçalves. Direito Internacional Público e Privado. Salvador: JusPodivm, 2009.

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constitucionais, desde que houvesse a aprovação do tratado em cada Casa do Congresso Nacional e
obtivesse a votação em dois turnos e com três quintos dos votos dos respectivos membros.
Logo, a partir da alteração constitucional, os tratados de direitos humanos que ingressarem no
ordenamento jurídico brasileiro, versando sobre matéria de direitos humanos, irão passar por um
processo de aprovação semelhante ao da emenda constitucional. Não há dúvidas de que os tratados
internacionais posteriores à emenda, aprovados pelo quórum de 3/5, em dois turnos, têm status de norma
constitucional. Atualmente, está nesta condição a Convenção Internacional de Direitos da Pessoa
Portadora de Deficiência (Decreto nº 6949/09).
Mas e quanto aos demais tratados?
Há posicionamentos conflituosos quanto à possibilidade de considerar como hierarquicamente
constitucional os tratados internacionais de direitos humanos que ingressaram no ordenamento jurídico
brasileiro anteriormente ao advento da referida emenda. A posição predominante foi estabelecida pelo
Supremo Tribunal Federal na discussão que se deu com relação à prisão civil do depositário infiel, prevista
como legal na Constituição e ilegal no Pacto de São José da Costa Rica (tratado de direitos humanos
aprovado antes da EC nº 45/04 e depois da CF/88). O Supremo Tribunal Federal firmou o entendimento
pela supra legalidade do tratado de direitos humanos anterior à Emenda (estaria numa posição que
paralisaria a eficácia da lei infraconstitucional, mas não revogaria a Constituição no ponto controverso).
Logo, o tratado de direitos humanos anterior à Emenda Constitucional nº 45/04 é mais do que lei ordinária,
e por isso paralisa a lei ordinária que o contrarie, porém menos que o texto constitucional. Criou-se, então,
uma necessidade de dupla compatibilidade das leis ordinárias.
É possível que um tratado de direitos humanos anterior à Emenda Constitucional nº 45/04 adquira
caráter constitucional? Sim, basta que este tratado seja submetido a uma nova votação no Congresso
Nacional, desta vez nos moldes da Emenda (2 turnos, quórum de 3/5). Feito isto, se encerraria qualquer
controvérsia e o caráter do tratado passaria a ser de norma constitucional.

12 Aplicações da perspectiva sociológica a temas e problemas


contemporâneos da sociedade brasileira: a questão da igualdade
jurídica e dos direitos de cidadania, o pluralismo jurídico, acesso à
justiça.

A Constituição de 1988 assegura a proteção dos direitos humanos, a partir das noções de
universalidade e indivisibilidade destes direitos.
Com relação à universalidade dos direitos humanos, atenta-se que a Constituição de 1988, ao eleger
o valor da dignidade humana como princípio fundamental da ordem constitucional, compartilha da visão
de que a dignidade é inerente à condição de pessoa, ficando proibida qualquer discriminação. O texto
enfatiza que todos são essencialmente iguais e assegura a inviolabilidade dos direitos e garantias
fundamentais.
Além de afirmar o alcance universal dos direitos humanos, o texto constitucional ainda reforça essa
concepção, na medida em que realça que os direitos humanos são tema do legítimo interesse da
comunidade internacional, transcendendo, por sua universalidade, as fronteiras do Estado.
Essa concepção está embasada na interpretação de dois dispositivos inéditos na história constitucional
brasileira: o artigo 4º, II e o artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição de 1988.
À luz da Carta de 1988, dentre os princípios a reger o Brasil nas relações internacionais, destaca-se
ineditamente o princípio da prevalência dos direitos humanos. Se o Brasil se orientará pela observância
desse princípio ao se relacionar com os demais países da ordem internacional, é porque assume que os
direitos humanos são um tema global, de legítimo interesse da comunidade internacional.
A partir do momento em que o Brasil se propõe a fundamentar suas relações com base na prevalência
dos direitos humanos, está ao mesmo tempo reconhecendo a existência de limites e condicionamentos à
noção de soberania estatal. Isto é, a soberania do Estado brasileiro fica submetida a regras jurídicas,
tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Rompe-se com a concepção
tradicional de soberania estatal absoluta, reforçando o processo de sua flexibilização e relativização em
prol da proteção dos direitos humanos. Esse processo é condizente com as exigências do Estado
Democrático de Direito constitucionalmente pretendido.

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Ao lado do princípio da prevalência dos direitos humanos, a ênfase na proteção desses direitos vem
reforçada a partir de valores inovadores a guiar o Brasil no contexto internacional, como o princípio do
repúdio ao terrorismo e ao racismo, a concessão de asilo político e a cooperação entre os povos para o
progresso da humanidade (vide o art. 4º, incs. VIII, IX, X).
Além das inovações introduzidas pelo artigo 4º, ao consagrar princípios inovadores a reger o Brasil no
cenário internacional, um outro dispositivo merece destaque, qual seja o artigo 5º, parágrafo 2º. Ao fim
da extensa Declaração de Direitos enunciada pelo artigo 5º, a Carta de 1988 estabelece que os direitos
e garantias expressos na Constituição "não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por
ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte".
A Constituição de 1988 inova, assim, ao incluir, dentre os direitos constitucionalmente protegidos, os
direitos enunciados nos tratados internacionais de que o Brasil seja signatário. Ao efetuar tal
incorporação, a Carta está a atribuir aos direitos internacionais uma hierarquia especial e diferenciada: a
hierarquia de norma constitucional.
Conjugando os artigos 1º, III, 4º e 5º, parágrafo 2º, outra conclusão não resta senão a aceitação pelo
texto constitucional do alcance universal dos direitos humanos.
Quanto ao caráter indivisível, interdependente e inter-relacionado dos direitos humanos, ressalte-se
que a Carta de 1988 é a primeira Constituição que integra ao elenco dos direitos fundamentais, os direitos
sociais, que nas Cartas anteriores restavam pulverizados no capítulo pertinente à ordem econômica e
social. A opção da Carta é clara ao afirmar que os direitos sociais são direitos fundamentais, sendo pois
inconcebível separar os valores liberdade (direitos civis e políticos) e igualdade (direitos sociais,
econômicos e culturais).
Logo, a Constituição Brasileira de 1988 acolhe a concepção contemporânea de direitos humanos, ao
reforçar a universalidade e a indivisibilidade desses direitos.33

A questão da igualdade jurídica e dos direitos de cidadania,

Em diversas passagens, a Constituição de 1988 demonstra o apego à igualdade, na perspectiva formal


e material. O direito à igualdade implica dever de promoção da igualdade, o que traz como consequência
um dever de inclusão, não se aceitando a continuidade de situações fáticas desiguais.
Esse dever de inclusão leva a tratamentos desiguais aos desiguais. A própria Constituição lista
hipóteses de tratamento diferenciado para que se obtenha a igualdade material, como, por exemplo:
reserva de vagas às pessoas com deficiência nos concursos públicos (art. 37, VIII da CF/88); no
tratamento previdenciário privilegiado às mulheres (art. 40, § 1º, III, e art. 201, § 7º, I); na isenção das
mulheres e eclesiásticos do serviço militar obrigatório em tempo de paz, sujeitos, porém, a outros
encargos que a lei lhes atribuir (art. 143, § 2º); na garantia de um salário mínimo de benefício mensal à
pessoa com deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção
ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei (art. 203, V); na previsão de que a lei disporá
sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos
nacionais (art. 215, § 2º), entre outras.
Esse tratamento diferenciado explícito não elimina a possibilidade de outros tratamentos diferenciados
implícitos aceitos pela Constituição de 1988, a serem impostos futuramente por lei. Pelo contrário, o
objetivo de construção de uma sociedade justa e solidária exige que o Estado indague se há uma razão
suficiente para impor um tratamento desigual. Caso exista, esse tratamento desigual deve ser aplicado.
Porém, esse tratamento diferenciado implicitamente aceito pela Constituição deve levar em
consideração determinados requisitos para ser legítimo.
A igualdade jurídica consiste na afirmação de que todas as pessoas devem ser iguais perante a lei,
independentemente de sexo, raça, credo religioso, convicção política ou filosófica, ou qualquer outra
diferenciação que se queira ou se possa estabelecer. Da mesma forma que as declarações de direitos
afirmam que os homens nascem livres, também afirmam que estes nascem iguais em direitos. Esta
igualdade é a base sólida sobre a qual se sustentarão as liberdades individuais. Não haverá jamais a
liberdade onde não haja a igualdade. Nas sociedades antigas, a liberdade era um privilégio. Os escravos
estavam privados de todos os direitos, e mesmo entre os cidadãos, homens livres, existiam diferentes
graus de liberdade. Era assim na Roma antiga entre os patrícios e os plebeus. Na Idade Média, a
liberdade de ir e vir era negada aos servos; o direito de caça e pesca era reservado, até a revolução, aos
senhores feudais. Dessa forma, a liberdade constitui um “direito de superioridade”.42 A liberdade sem a

33
A PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO SISTEMA CONSTITUCIONAL BRASILEIRO. Flávia Piovesan. Disponível em:
http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistaspge/revista5/5rev4.htm

. 32
1515427 E-book gerado especialmente para GUILHERME DE FREITAS
igualdade vai sempre constituir um direito de poucos privilegiados, inclusive de maneira grave no Estado
Liberal.
O doutrinador Hauriou, estudando a liberdade como produto da desigualdade, e identificando nela um
“direito de superioridade”, afirma que ainda hoje, analisando “profundamente a natureza íntima dos
direitos individuais, sua qualidade de direitos de superioridade do homem sobre as coisas e os animais,
o direito da família representa o direito de superioridade dos pais sobre os filhos e mesmo em alguns
lugares, do homem sobre a mulher”.
Entretanto, assim como os direitos de liberdade aparecem em certo momento como “filhos” da
desigualdade, eles irão aparecer também como “filhos” da igualdade, e, a partir daí, mesmo aquelas
liberdades fundamentais que surgiram como fruto da desigualdade deixarão de ser um privilégio de
alguns, passando a pertencer a todos os indivíduos, independentemente de sua condição social, sua
raça, sua consciência política, filosófica ou religiosa. A igualdade a partir do pensamento de Rosseau e
dos filósofos do século XVIII será inseparável da liberdade, pois será a condição fundamental para a
realização desta.
A Constituição Federal de 1988 estabelece no caput do art. 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.
É importante notar a imprecisão da redação desse dispositivo, quando assegura somente aos
brasileiros e estrangeiros residentes no País os direitos individuais. A lei muitas vezes encontra palavras
dispensáveis, o que é o caso do termo “residentes”. É claro que esses direitos são garantidos a todas as
pessoas que se encontram no território brasileiro. É necessário esquecer regra antiga e incorreta que
afirmava que não há palavras inúteis na lei. Não só elas existem, como ocorrem com muita frequência,
como no dispositivo citado.
O princípio da igualdade jurídica é o alicerce dos direitos individuais, que os transforma de direitos de
privilegiados em direitos de todos os seres humanos; entretanto, a igualdade jurídica não fundamenta só
os direitos individuais, mas todos os direitos humanos.
A nossa Constituição se refere à igualdade jurídica ainda no art. 3º, inciso IV, quando determina como
objetivo fundamental da República Federativa do Brasil: “promover o bem a todos, sem preconceito de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
No inciso I do art. 5º é garantida a igualdade de homens e mulheres em direitos e obrigações. A
discriminação por motivo de raça encontra punição no inciso XLII do mesmo artigo, que dispõe: “A prática
do racismo constitui crime inafiançável e imprescindível, sujeito a pena de reclusão nos termos da lei.”
No capítulo dos direitos sociais, a igualdade jurídica está disposta nos incisos XXX, XXXI e XXXII do
art. 7º, que determinam:
“XXX – proibição de diferença de salários de exercício de funções e de critérios de admissão por motivo
de sexo, idade, cor ou estado civil;”
“XXXI – proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador
portador de deficiências;”
“XXXII – proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais
respectivos”.

É também a igualdade a base dos direitos políticos quando o art. 14 da Constituição Federal determina
que a “soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor
igual para todos”.

Com relação à igualdade jurídica, é importante recordar as palavras de Manoel Gonçalves Ferreira
Filho: “O princípio da isonomia oferece na sua aplicação à vida inúmeras e sérias dificuldades. De fato,
conduziria a inomináveis injustiças se importasse em tratamento igual aos que se acham em desigualdade
de situações. A justiça que proclama tratamento igual para os iguais pressupõe tratamento desigual dos
desiguais. Ora, a necessidade de desigualar os homens em certos momentos para estabelecer no plano
do fundamental a sua igualdade cria problemas delicados que nem sempre a razão humana resolve
adequadamente. [...]

Assim, o legislador há de estabelecer tratamento desigual para situações desiguais, mas se tratar
desigualmente situações que não são desiguais, o que sucede quando beneficia desarrazoadamente
determinadas categorias, incide em inconstitucionalidade.

. 33
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O pluralismo jurídico,

O reconhecimento do pluralismo na perspectiva da alteridade e da emancipação revela a origem de


coexistência para uma compreensão crescente de elementos multiculturais criativos, diferenciados e
participativos. Em uma sociedade composta por comunidades e culturas diversas, o pluralismo fundado
numa democracia expressa o reconhecimento dos valores coletivos materializados na dimensão cultural
de cada grupo e de cada comunidade.
Tal intento de conceber a pluralidade de culturas na sociedade, de estimular a participação de grupos
culturais minoritários e de comunidades étnicas se aproxima da temática do “multiculturalismo”.
O termo multiculturalismo, que adquire diferentes significados (conservador, progressista, crítico etc.)
expressa, no dizer de Boaventura de S. Santos e João A. Nunes, a “coexistência de formas culturais ou
de grupos caracterizados por culturas diferentes no seio da sociedade ‘moderna’. [...]”. Trata-se de
“conceito eurocêntrico, criado para descrever a diversidade cultural no quadro dos Estados-Nação do
hemisfério norte e para lidar com a situação resultante do afluxo de imigrantes vindos do sul para um
espaço europeu sem fronteiras internas, da diversidade étnica e afirmação identitária das minorias nos
EUA e dos problemas específicos de países como o Canadá, com comunidades linguísticas ou étnicas
territorialmente diferenciadas.
Naturalmente, o pluralismo como valor aberto e democrático, que representa distinções, diversidade e
heterogeneidade, tem no multiculturalismo uma de suas formas possíveis de reconhecimento e
articulação das diferenças culturais.
Na configuração dos princípios iniciais de um horizonte culturalmente compartilhado e dialógico, o
pluralismo legitima-se como proposta político-multicultural nos níveis teórico e prático.
Sob um viés progressista, o pluralismo se redefine como origem privilegiada que se contrapõe aos
extremos da fragmentação atomista e da ingerência sem limites do poder político. Como expressão da
hegemonia de corpos sociais intermediários, o pluralismo tem seu embate articulado contra as diversas
formas de individualismo e de estatismo, pautada por autonomia, diferença e tolerância.
A problematização e a relevância da temática pluralista conduz, necessariamente, à discussão das
possibilidades de nova cultura jurídica, com legitimação assentada no reconhecimento da justa satisfação
de necessidades básicas e na ação participativa dos sujeitos insurgentes, singulares e coletivos. No
âmbito do Direito, a pluralidade expressa a coexistência de normatividades diferenciadas que define ou
não relações entre si. O pluralismo pode ter como intento, práticas normativas autônomas e autênticas,
geradas por diferentes forças sociais ou manifestações legais plurais e complementares, podendo ou não
ser reconhecidas, incorporadas ou controladas pelo Estado.
Certamente que o pluralismo jurídico tem o mérito de revelar a rica produção legal informal engendrada
pelas condições materiais, lutas sociais e contradições pluriclassistas. Isso explica por que, no capitalismo
periférico latino-americano, o pluralismo jurídico passa “pela redefinição das relações entre poder
centralizador de regulamentação do Estado e pelo esforço desafiador de autorregulação dos movimentos
sociais e múltiplas entidades voluntárias excluídas”.
Sintetizando, é na perspectiva paradigmática do Pluralismo Jurídico de tipo comunitário-participativo e
com base num diálogo intercultural que se deverá definir e interpretar os marcos de uma nova concepção
de direitos humanos.

Acesso à justiça.

O direito ao acesso à justiça é um tema amplamente discutido pelos estudiosos do mundo jurídico
desde que o Estado tomou para si o poder de resolver conflitos.
Uma das maiores indagações sempre foi como garantir que todos, ou pelo menos o maior número
possível de pessoas, tivessem a oportunidade efetiva de posicionar-se diante do Poder Judiciário e
solicitar a tutela de seus interesses.
Muitas foram as mudanças ocorridas desde o Século XVIII até os dias atuais, permitindo, assim, um
avanço expressivo na busca pelo acesso à justiça. No Brasil, a inserção de direitos como o próprio acesso
à justiça (inafastabilidade da jurisdição) e a razoável duração do processo no patamar de direitos
fundamentais da Constituição foi um fator decisivo para a percepção de quão importante se mostrava a
ampla promoção dessa garantia básica.
Todavia, em um cenário relativamente recente, o Poder Judiciário brasileiro adentrou em uma de suas
mais gravosas crises, qual seja a crise de efetividade, e, a partir daí, dar aos jurisdicionados a tutela
adequada de que estes necessitavam tornou-se uma da maiores dificuldades até então encontradas.
Tudo isso acarretou na violação substancial do direito ao acesso à justiça.

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O efetivo acesso à justiça é garantido quando não há restrições para que se acione o Judiciário e no
momento em que as decisões proferidas sejam efetivas, justas e adequadas e, por que não, também
rápidas. Como já exposto anteriormente, o que se busca é a pacificação com justiça.
Para que isso seja obtido, é necessário que:
a) se eliminem dificuldades para o ingresso em juízo (v.g..: dificuldades econômicas das partes;
dificuldades considerando o baixo valor do objeto da discussão em juízo; dificuldades para defesa da
coletividade etc.).
b) a ordem legal dos atos processuais seja observada (princípio do devido processo legal.
c) as decisões sejam efetivas e úteis (decisão efetiva é aquela que tem resultados práticos: de nada
resolve uma decisão que não seja cumprida, e, decisão útil é aquela que dá a quem tem o direito tudo
aquilo e precisamente aquilo a que se tem direito). Nesta linha, cabe destaque para a tutela específica
das obrigações de fazer ou não-fazer.
d) as decisões sejam justas (além da aplicação técnica da lei, deve o juiz levar em conta, na hora de
decidir, o critério de “justiça”).
No Estado Democrático Contemporâneo, os direitos fundamentais constitucionalmente assegurados
têm eficácia imediata, cumprindo ao Estado garantir efetivamente a todos os cidadãos, o respeito a esses
Direitos de modo concreto e eficaz, não obstante as inúmeras desigualdades e condições adversas que
dificultam na prática o seu exercício.

13. Práticas judiciárias e policiais no espaço público.

A lei e a ordem, assim como a paz e a segurança, são questões de responsabilidade do Estado. A
maioria dos Estados escolheu incumbir das responsabilidades operacionais desta área uma organização
de aplicação da lei, seja ela civil, militar ou paramilitar. Este capítulo busca examinar a função e a posição
da aplicação da lei nas sociedades democráticas, assim como seu papel e sua importância na promoção
e proteção dos direitos humanos.34
O artigo 25 do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (PIDCP) estipula que:
Todo cidadão tem o direito e a possibilidade, sem nenhuma das discriminações referidas no
artigo 20 e sem restrições infundadas:
a) de tomar parte na condução dos assuntos públicos, diretamente ou por intermédio de
representantes livremente eleitos;
b) de votar e ser eleito, em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal e igualitário,
realizadas por voto secreto, assegurando a livre expressão da vontade dos eleitores;
c) de ter acesso, em condições gerais de igualdade, às funções públicas do seu país.

Apesar da dificuldade em identificar precisamente o que seja o direito a um regime democrático, as


disposições do PIDCP (como estipula o artigo 25 acima) protegem claramente o direito do indivíduo de
participar na condução dos assuntos públicos. Este direito obriga os Estados a não só se absterem de
cometer certos atos, mas também a tomarem medidas específicas que garantam à população o exercício
livre e igual deste direito.
Sem a pretensão de esgotar o terma e definir "democracia", deve ser buscado um significado que
levará ao estabelecimento de características de um regime democrático que possam ser consideradas
denominadores comuns, independente do sistema vigente em determinado Estado. Tais características
incluem um governo democraticamente eleito que represente o povo - e seja responsável perante ele; a
existência do estado de direito - e o respeito por ele; e o respeito pelos direitos humanos e liberdades. O
artigo 21 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) estipula que A vontade do povo é o
fundamento da autoridade do governo.... Eleições livres e legítimas, realizadas a intervalos regulares, são
de importância vital ao estabelecimento do governo democrático. É responsabilidade do Estado garantir
as eleições e assegurar a todas as pessoas seu direito de votar e de ser eleito, livres de coerção ou
pressão de qualquer natureza.
Um governo representativo não significa somente uma representação adequada da vontade do povo,
mas significa, também, que o governo, em sua composição, reflete a sociedade. A representação igual
de homens e mulheres, assim como a representação proporcional de minorias, são os meios pelos quais
o objetivo do governo representativo será alcançado.
A existência do estado de direito e o respeito por ele origina uma situação onde direitos, liberdades,
obrigações e deveres estão incorporados na lei para todos, em plena igualdade, e com a garantia de que
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as pessoas serão tratadas equitativamente em circunstâncias similares. Um aspecto fundamental deste
direito também pode ser encontrado no artigo 26 do PIDCP, que estipula que Todas as pessoas são
iguais perante a lei e têm direito, sem discriminação, à igual proteção da lei ... A existência das leis nesse
sentido serve para gerar um sentimento de segurança com relação aos direitos e deveres, já que estes
direitos e deveres estão inseridos no direito positivo. Sempre que necessário, as pessoas podem aprender
sobre os seus direitos e deveres de acordo com a lei, assim como obter proteção da lei contra interferência
ilegal e/ou arbitrária em seus direitos e liberdades por outrem.
Importante observar que as características descritas acima - governo representativo e democrático,
estado de direito e respeito pelos direitos humanos - formam os requisitos básicos para os Estados que
aspiram tornar-se membros do Conselho da Europa. Pode-se dizer que, no momento atual, a maioria dos
Estados adotou uma forma de regime democrático e concorda, pelo menos em princípio, com as três
características apresentadas acima.
A necessidade de se aplicar a legislação nacional, no sentido de assegurar o respeito pela lei e de
estipular as consequências dos delitos, é provavelmente tão antiga quanto a própria lei. Em certas áreas,
as sanções pelo não cumprimento da lei são impostas como resultado de procedimentos principalmente
administrativos, como, por exemplo, na legislação tributária. Não há nenhum componente visível da
aplicação da lei nessas legislações. Em outras áreas, no entanto, especialmente aquelas relacionadas à
vida pública e à ordem pública, a maior parte dos Estados fundou um órgão de aplicação da lei que, na
maioria dos casos, é de origem e natureza civis, ficando vinculado ao Ministério da Justiça ou do Interior.
Há também Estados que confiam a responsabilidade da aplicação da lei a órgãos militares ou
paramilitares vinculados ao Ministério da Defesa.
A maioria dos órgãos de aplicação da lei, de maneira geral, são sistemas fechados, estritamente
hierárquicos. Sua estrutura é frequentemente quase militar, assim como seu sistema de patentes. Operam
normalmente obedecendo a uma cadeia rígida de comando, com separações estritas de poder e
autoridade, na qual o processo de tomada de decisões é feito de cima para baixo. A capacidade deste
tipo de organização de aplicação da lei em responder a estímulos externos fica limitada a respostas
padronizadas, demonstrando pouca ou nenhuma antecipação proativa dos desenvolvimentos atuais e
futuros que não se encaixem no sistema. A organização de aplicação da lei como um sistema fechado
passará invariavelmente por dificuldades em estabelecer e manter relações eficazes com o público.
Também terá dificuldades em determinar os desejos, as necessidades e as expectativas do público em
dado momento. A mudança gradual, partindo de um sistema fechado para um sistema mais aberto na
área da aplicação da lei, é bem recente.
O policiamento comunitário tornou-se um slogan reconhecido com ênfase na descentralização da
organização, no desmantelamento das funções específicas de aplicação da lei e na extinção da
abundância de níveis funcionais em sua estrutura. O objetivo mútuo do policiamento comunitário é o de
(re)criar uma proximidade e entendimento entre a população e a organização, partindo da premissa
fundamental de que a responsabilidade pela aplicação da lei não é só da organização, mas compartilhada
entre o Estado e seus cidadãos. As palavras chaves na aplicação da lei democrática, como no próprio
regime democrático, são antecipação e reação, representação e responsabilidade.

Conduta Ética e Legal na Aplicação da Lei

As práticas da aplicação da lei devem estar em conformidade com os princípios da legalidade,


necessidade e proporcionalidade. Qualquer prática da aplicação da lei deve estar fundamentada na lei.
Seu emprego deve ser inevitável, dadas as circunstâncias de um determinado caso em questão, e seu
impacto deve estar de acordo com a gravidade do delito e o objetivo legítimo a ser alcançado. A relação
entre as práticas da aplicação da lei e a percepção e experiências dos direitos e liberdades e/ou qualidade
de vida, geralmente em uma sociedade, são assuntos que ainda recebem atenção e consideração
insuficientes.35

Código de Conduta para os Encarregados da Aplicação da Lei

A questão da ética profissional na aplicação da lei tem recebido alguma consideração nos instrumentos
internacionais de Direitos Humanos e Justiça Criminal, de maneira mais destacada no Código de
Conduta para os Encarregados da Aplicação da Lei (CCEAL) adotado pela Assembleia Geral das
Nações Unidas, em sua resolução 34/169 de 17 de dezembro de 1979. A resolução da Assembleia Geral
que adota o CCEAL estipula que a natureza das funções dos encarregados da aplicação da lei na defesa

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da ordem pública, e a maneira pela qual essas funções são exercidas, possui um impacto direto na
qualidade de vida dos indivíduos assim como da sociedade como um todo. Ao mesmo tempo que ressalta
a importância das tarefas desempenhadas pelos encarregados da aplicação da lei, a Assembleia Geral
também destaca o potencial para o abuso que o cumprimento desses deveres acarreta.
O CCEAL consiste em oito artigos. Não é um tratado, mas pertence à categoria dos instrumentos que
proporcionam normas orientadoras aos governos sobre questões relacionadas com direitos humanos e
justiça criminal. É importante notar que (como foi reconhecido por aqueles que elaboraram o código)
esses padrões de conduta deixam de ter valor prático a não ser que seu conteúdo e significado, por meio
de educação, treinamento e acompanhamento, passem a fazer parte da crença de cada indivíduo
encarregado da aplicação da lei.
O artigo 1.º estipula que os encarregados da aplicação da lei devem sempre cumprir o dever que
a lei lhes impõe, ... No comentário do artigo, o termo encarregados da aplicação da lei é definido de
maneira a incluir todos os agentes da lei, quer nomeados, quer eleitos, que exerçam poderes policiais,
especialmente poderes de prisão ou detenção.
O artigo 2° requer que os encarregados da aplicação da lei, no cumprimento do dever, respeitem e
protejam a dignidade humana, mantenham e defendam os direitos humanos de todas as pessoas.
O artigo 3° limita o emprego da força pelos encarregados da aplicação da lei a situações em que seja
estritamente necessária e na medida exigida para o cumprimento de seu dever.
O artigo 4° estipula que os assuntos de natureza confidencial em poder dos encarregados da aplicação
da lei devem ser mantidos confidenciais, a não ser que o cumprimento do dever ou a necessidade de
justiça exijam estritamente o contrário.
Em relação a esse artigo, é importante reconhecer o fato de que, devido à natureza de suas funções,
os encarregados da aplicação da lei se veem em uma posição na qual podem obter informações
relacionadas à vida particular de outras pessoas, que podem ser prejudiciais aos interesses ou reputação
destas. A divulgação dessas informações, com outro fim além do que suprir as necessidades da justiça
ou o cumprimento do dever, é imprópria e os encarregados da aplicação da lei devem abster-se de fazê-
lo.
O artigo 5° reitera a proibição da tortura ou outro tratamento ou pena cruel, desumano ou degradante.
O artigo 6° diz respeito ao dever de cuidar e proteger a saúde das pessoas privadas de sua liberdade.
O artigo 7° proíbe os encarregados da aplicação da lei de cometer qualquer ato de corrupção. Também
devem opor-se e combater rigorosamente esses atos.
O artigo 8° trata da disposição final exortando os encarregados da aplicação da lei (mais uma vez) a
respeitar a lei (e a este Código). Os encarregados da aplicação da lei são incitados a prevenir e se opor
a quaisquer violações da lei e do código. Em casos onde a violação do código é (ou está para ser)
cometida, devem comunicar o fato a seus superiores e, se necessário, a outras autoridades apropriadas
ou organismos com poderes de revisão ou reparação.

Responsabilidades: prevenção e detecção do crime; manutenção da ordem pública.

A prevenção e detecção do crime estão dentre as áreas de interesse imediato das organizações de
aplicação da lei em todo o mundo. O crime aparenta ser inerente à vida quotidiana e, embora toda e
qualquer organização de aplicação da lei faça o máximo possível para erradicar sua ocorrência de nossas
sociedades, elas provavelmente fracassarão em fazê-lo. É do conhecimento público que o número de
crimes solucionados por meio da atividade de aplicação da lei posiciona-se em total contraste quanto ao
número de crimes praticados. Além disso, os interesses das vítimas do crime - pelo menos de seu próprio
ponto de vista - são muito melhor servidos quando sua vitimização pode ser efetivamente prevenida. A
captura e punição de um infrator certamente não é uma reparação total ou adequada para a perda de
propriedade pessoal, para a invasão de privacidade pessoal ou a violação da integridade física. Mesmo
assim, o fato que as organizações de aplicação da lei frequentemente não conseguem identificar e
prender o(s) infrator(es) de um crime específico tende a agravar os sofrimento das vítimas de tais crimes.36
A responsabilidade pela prevenção e detecção do crime é atribuída primariamente às organizações de
aplicação da lei. O cumprimento por inteiro desta função, no entanto, requer mais do que a aplicação da
lei por si só. A prevenção e detecção efetivas do crime dependem criticamente dos níveis existentes e da
qualidade da cooperação entre a organização de aplicação da lei e a comunidade a que esta serve, e são
tanto uma responsabilidade privada quanto pública. Políticos, membros do judiciário, grupos comunitários,
corporações públicas e privadas, bem como indivíduos, necessitam unir forças para que os resultados da

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prevenção e detecção do crime sejam melhores que o resultado inevitavelmente insatisfatório da tentativa
de meramente aplicar-se a legislação criminal.

Obtenção de Provas

A efetiva detecção do crime depende completamente da obtenção bem sucedida de provas em relação
a um crime específico. A esse respeito, dois tipos de provas são importantes:
- provas materiais (testemunhas silenciosas);
- depoimentos de testemunhas.

Evidências materiais podem, em princípio, ser encontradas no local onde o crime foi cometido, ou onde
indícios deste foram deixados. Portanto, é importante que a cena do crime seja localizada, bem como
todos os locais onde indícios relacionados ao crime tenham sido subsequentemente deixados. No caso
de um assassinato, isto significa encontrar o local exato do crime (se este, por exemplo, não ocorreu onde
o corpo da vítima foi achado), descobrir a rota usada pelo assassino para chegar e sair do local (ou locais),
e tentar identificar os locais que o assassino possa ter usado para livrar-se de provas incriminadoras.
Antes de continuar com o assunto, deve ser lembrado que ninguém será sujeito à interferência
arbitrária em sua vida privada, família, residência ou correspondência (PIDCP, artigo 17). Esta proibição
não constitui um problema para a prática da aplicação da lei se houver indícios de um crime em um local
público. Todavia, se tais indícios foram deixados em uma residência particular, ou então, se o crime
ocorreu dentro desta, o mero fato da ocorrência do crime não é usualmente considerado como base
suficiente para que os encarregados da aplicação da lei possam adentrá-la. Em uma situação como essa,
os encarregados geralmente necessitam de um mandato judicial permitindo o acesso à residência, se
necessário contra a vontade dos moradores, com o propósito de colher provas. Esse procedimento é
adotado na maioria dos países, e visa proteger os indivíduos contra invasões ilegais e/ou arbitrárias em
sua vida privada.
O tarefa de proteger, coletar e processar as provas materiais é trabalho para peritos policiais. A análise
subsequente, em certos casos, é deixada para laboratórios forenses. As exigências para que provas
materiais sejam aceitas como prova irrefutável em um tribunal são muitas e extremamente rígidas. Estes
padrões representam um reconhecimento da importância de um julgamento justo, ao qual têm direito
todas as pessoas acusadas.
O segundo tipo de prova provém de informações obtidas de depoimentos de testemunhas. As
testemunhas são importantes para o processo de investigação, pois elas podem ser compelidas a depor
e, ao fazê-lo, são obrigadas a dizer a verdade. A situação das testemunhas é contrastada diretamente
com a das pessoas suspeitas e acusadas, que não podem ser obrigadas a testemunhar contra si mesmas
ou a confessar-se culpadas (PIDCP, artigo 14.3).
No entanto, para obter um depoimento útil de uma testemunha, o(s) encarregado(s) conduzindo a
inquirição deve(m) focalizar nas razões do conhecimento de cada testemunha. Ou seja, se a testemunha
viu, ouviu ou sentiu o cheiro do acontecido: o que é observação direta e o que é boato? Os depoimentos
de testemunhas ajudarão a estabelecer provas reais contra os criminosos, conhecidos ou desconhecidos.
Embora as regras de interrogatório de pessoas suspeitas ou acusadas não se apliquem a testemunhas,
alguns países apesar disso, recomendam a seus encarregados da aplicação da lei que observem as
mesmas regras com relação ao registro do tempo, duração, intervalos, etc. Isto é feito para se evitarem
críticas subsequentes, no tribunal, por exemplo em relação a não confiabilidade do depoimento de
testemunhas devido à fadiga extrema induzida pela frequência e duração dos interrogatórios.
Sob este mesmo título, alguns comentários devem ser feitos em relação à prática comum na aplicação
da lei de se usar informantes confidenciais para a prevenção e detecção do crime, e a prática da infiltração
com os mesmos propósitos. Em ambas as práticas, a premissa básica é a de que só devem ser usadas
quando for lícito e necessário para os propósitos legais de aplicação da lei.
Visto que o uso de informantes confidenciais geralmente envolve o pagamento de dinheiro pela
informação dada, chama-se a atenção dos encarregados da aplicação da lei para os riscos potenciais
que esta prática acarreta, incluindo o risco de que:
- o informante, atraído pela perspectiva de pagamento, possa incitar outros a cometer crimes, os quais
ele subsequentemente informa a seu contato policial;
- o informante pode explorar a relação com seu contato policial com o intuito de cometer crimes e evitar
a detecção;
- o informante pode ser induzido, por seu contato policial, a instigar crimes cometidos por outros que,
subsequentemente, permitam à organização da aplicação da lei fazer uma captura;

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- o dinheiro nas transações com informantes têm uma influência suscetível de corromper os
encarregados da aplicação da lei envolvidos com tais transações.
A palavra infiltração refere-se à prática pela qual um encarregado da aplicação da lei ou um informante
confidencial é inserido em uma organização criminal com o objetivo de obter informações que não
poderiam ser obtidas de outra forma. Essa prática deve ser lícita e absolutamente necessária para os
propósitos legais de aplicação da lei. Mesmo quando essas condições forem satisfeitas, alguns riscos
ainda perdurarão: em primeiro lugar, a infiltração pode ser altamente perigosa para a pessoa que a
executará. Em segundo lugar, visto que existe o objetivo da proteção da identidade dessa pessoa em
todos os estágios do processo criminal, há o risco de conflito com o princípio do julgamento justo e, em
particular, o dispositivo estabelecendo que o suspeito ou acusado tem o direito de interrogar as
testemunhas trazidas contra si (PIDCP, artigo 14.3). Este direito pode estar seriamente ameaçado nas
situações onde, por razões de segurança, a identidade do(s) infiltrado(s) não é revelada.

É evidente que ambas as práticas devem ser supervisionadas de perto por um membro competente
do judiciário e que, para salvaguardar o direito a um julgamento justo, sejam dependentes da obtenção
da permissão antes de sua implementação. Interrogatório
Os depoimentos de suspeitos ou pessoas acusadas em relação a um crime cometido são a terceira
fonte importante de provas. Deve-se enfatizar, porém, que no processo investigatório os encarregados
da aplicação da lei não devem confiar excessivamente em tais depoimentos como base para um caso ser
apresentado no tribunal. As razões para isso são simples. Um suspeito tem o direito de permanecer
calado, e não pode ser obrigado a testemunhar contra si mesmo ou a confessar-se culpado. Além disso,
o suspeito tem direito a retirar ou alterar os depoimentos feitos durante qualquer estágio do processo. É
evidente que, em muitas situações, provas materiais e depoimentos de testemunhas terão mais valor do
que informações obtidas pelo interrogatório de um suspeito.
Em relação ao interrogatório de suspeitos e pessoas acusadas, a proibição absoluta da tortura deve
ser mais uma vez reiterada. Não só a tortura é proibida por lei, mas os resultados (confissões ou
informações) obtidas mediante da tortura nunca serão confiáveis, pois em nenhum momento poder-se-á
determinar, sem sombra de dúvida, se a pessoa torturada está falando a verdade ou meramente
confessando culpa para que a tortura pare. A tortura é degradante tanto para a vítima quanto para o algoz.
Ela solapa os princípios básicos da liberdade, segurança e democracia sobre os quais nossas sociedades
deveriam ser construídas. A tortura jamais será justificada em nenhuma circunstância.
Os suspeitos e pessoas acusadas têm o direito a serem presumidos inocentes até que se prove sua
culpa em um tribunal. Portanto, os encarregados da aplicação da lei não estabelecem culpa ou inocência
mediante de seu interrogatório - sua tarefa é a de estabelecer fatos. Sua missão de busca de fatos começa
com uma investigação da cena do crime, bem como dos locais onde aquele crime deixou vestígios, com
o intuito de colher provas materiais relacionadas ao crime cometido. A atenção dos encarregados da
aplicação da lei volta-se, posteriormente, àquelas pessoas que possam ter presenciado o crime quando
este foi cometido, ou que tenham outras informações relevantes. Somente essa dupla abordagem
investigativa e uma análise das informações obtidas poderá permitir aos encarregados, por meio do
agrupamento de fatos suficientes, estabelecer uma suspeita razoável contra um indivíduo de haver
cometido o crime (se o(s) suspeito(s) não foi(ram) capturados em flagrante).
A captura de um suspeito é também cercada de procedimentos de salvaguarda, bem como sua
posterior detenção e interrogatório.
O interrogatório dos suspeitos requer preparação de parte dos encarregados da aplicação da lei
envolvidos. Estes agentes devem ter uma imagem clara dos fatos que foram estabelecidos até então, o
que ajudará a determinar a ordem em que os eventos aconteceram. O objetivo do interrogatório é o de
esclarecer os fatos já estabelecidos, bem como o de estabelecer fatos novos relativos ao crime. Todo
interrogatório deve ser claramente registrado. Os depoimentos de um suspeito que contenham uma
confissão de culpa devem ser anotados tanto quanto possível em suas próprias palavras. A duração do
interrogatório e as pessoas presentes neste, além do período de tempo entre dois interrogatórios, também
devem ser claramente registrados.
Já foi dito que a tortura ou pressão sobre o suspeito de modo a compeli-lo a depor pode resultar em
uma confissão falsa, dada pelo suspeito para evitar mais tortura ou pressão. Todavia, deve ser observado
que o fenômeno das confissões falsas não se limita a situações nas quais pessoas tenham sido sujeitas
à tortura ou maus-tratos. As organizações de aplicação da lei em todo mundo estão familiarizadas com
situações onde indivíduos confessam crimes que não cometeram, frequentemente por razões pessoais e
psicológicas complexas. A maioria dessas organizações escolheu a tática de não revelar certos fatos
pertinentes a um determinado crime (os quais somente o verdadeiro criminoso conhece), de modo a
descartar rapidamente tais confissões falsas.

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Poderes: captura; detenção; uso da força e de armas de fogo (práticas de tiro).

Esta disposição, declarada no artigo 3º da DUDH e reiterada no artigo 9.1 do PIDCP, reflete um dos
mais antigos direitos básicos de todas as pessoas. Por outro lado, a privação da liberdade pessoal há
muito tem sido o meio mais comum usado pelo Estado para combater o crime e manter a segurança
interna. Com a remoção gradual de outros meios de punição, tais como a pena de morte e castigo físico,
a prisão ganhou significado durante os últimos séculos. É também provável que, no futuro, a privação da
liberdade pessoal permanecerá como um dos meios legítimos para o Estado exercer sua autoridade
soberana.37
No entanto o PIDCP, em seu artigo 9.1, não quer gerar uma situação em que a privação da liberdade
é absolutamente proibida, como é o caso, por exemplo, da tortura e escravidão; representa, mais
propriamente, uma garantia de procedimento. O Pacto obriga o Estado a definir precisamente, em lei, os
casos em que a privação da liberdade é permissível e os procedimentos a serem aplicados, bem como
tornar possível a um judiciário independente adotar ações rápidas na eventualidade da privação arbitrária
ou ilegal da liberdade por autoridades administrativas ou encarregados.

Definições

Privação da liberdade é a definição mais ampla da violação da liberdade de ir e vir. Esta inclui a
retenção de menores, de pessoas mentalmente doentes, de viciados em drogas ou em álcool e de
desocupados. A privação se estende a situações em que esta é causada tanto por pessoas comuns
quanto por agentes públicos.

As definições a seguir foram extraídas do Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as


Pessoas sob Qualquer Forma de Detenção ou Prisão, aqui designado de O Conjunto de Princípios.
- Captura designa o ato de deter uma pessoa sob suspeita da prática de um delito, ou pela ação de
uma autoridade;
- Pessoa detida designa qualquer pessoa privada de sua liberdade, exceto no caso de condenação
por um delito;
- Pessoa presa significa qualquer pessoa privada de sua liberdade como resultado da condenação
por um delito;
- Detenção significa a condição das pessoas detidas nos termos acima referidos;
- Prisão significa a condição das pessoas presas nos termos acima referidos;
- Autoridade judicial ou outra autoridade significa uma autoridade judicial ou outra autoridade
perante a lei cujo status e mandato assegurem as mais sólidas garantias de competência, imparcialidade
e independência.

Captura na Aplicação da Lei

Razões para Captura

A missão de aplicar a lei e manter a ordem pública pode colocar os encarregados da aplicação da lei
e os demais membros da sociedade em lados opostos num dado conflito. Do interesse dos Estados na
lei e na ordem resultou o fato que os encarregados da aplicação da lei terem, não somente a
responsabilidade, mas também a autoridade para, se necessário, impor as leis do Estado a que servem.
Na maioria dos Estados, os encarregados da aplicação da lei têm poderes discricionários de captura,
detenção e do uso da força e de armas de fogo, e podem exercê-los em qualquer situação de aplicação
da lei.
Ninguém será privado de [sua] liberdade exceto com base em e de acordo com os
procedimentos estabelecidos por lei (PIDCP, artigo 9.1). Essa cláusula deixa claro que as razões, bem
como os procedimentos para uma captura, devem ser baseados na legislação do Estado. O princípio da
legalidade é violado se alguém for capturado ou detido com base em princípios que não estejam
claramente estabelecidos na legislação nacional, ou sejam contrários a esta.
No sentido técnico, toda infração da lei ou toda suspeita da prática de um delito (como denominada
no Conjunto de Princípios) poderia acarretar a captura da(s) pessoa(s) responsável(eis). Todavia, na
prática da aplicação da lei nem toda a suspeita da prática de um delito leva automaticamente (ou deveria
levar) à captura da(s) pessoa(s) responsável(eis). Existe um certo número de fatores que influenciam a

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decisão de efetuar ou não a captura. Por exemplo, a gravidade e as consequências do delito cometido,
combinadas com a personalidade e o comportamento do(s) suspeito(s), no ato da captura, devem ser
consideradas. A qualidade e a experiência (isto é, competência) dos encarregados da aplicação da lei
envolvidos também influenciarão, inevitavelmente a resolução de uma situação específica na qual o juízo
a respeito da captura ou não terá de ser exercido.

Captura ou Detenção Arbitrárias

....Ninguém será submetido à captura ou detenção arbitrárias.... A proibição da arbitrariedade, na


segunda frase do artigo 9.1 do PIDCP, representa uma restrição adicional à privação da liberdade. Isto é
direcionado tanto ao legislativo nacional quanto às organizações de aplicação da lei. Não basta que a
privação da liberdade esteja prevista em lei: a própria lei não pode ser arbitrária, tampouco deve ser a
sua aplicação em uma dada situação. Entende-se que a palavra arbitrária, neste caso, contenha
elementos de injustiça, imprevisibilidade, irracionalidade, inconstância e desproporcionalidade.
A proibição da arbitrariedade deve ser interpretada de forma ampla. Os casos de privação da liberdade
permitidos em lei não devem ser manifestamente desproporcionais, injustos ou imprevisíveis, e a maneira
pela qual uma captura é feita não deve ser discriminatória e deve justificar-se como apropriada e
proporcional em vista das circunstâncias do caso.
A captura arbitrária também é proibida na CADHP (artigo 6º) e na CADHP (artigo 7.1-3). A CEDH
(artigo 5.1) estipula as condições específicas sob as quais uma pessoa pode ser privada de sua liberdade.
Enquanto a CEDH é aplicável somente aos Estados Partes, suas disposições fornecem diretrizes
excelentes a todos os encarregados da aplicação da lei nas várias situações nas quais a privação da
liberdade pode ser considerada razoável e necessária. De acordo com a CEDH, uma pessoa pode ser
privada de sua liberdade nas seguintes circunstâncias:
- como resultado de uma condenação por um tribunal competente;
- como resultado do não cumprimento de uma ordem legal de um tribunal, ou de fazer cumprir uma
obrigação prevista em lei;
- com o intuito de trazer uma pessoa perante à autoridade legal competente sob suspeita razoável de
haver cometido um delito;
- (de um menor) por ordem legal com o objetivo de supervisão educacional ou trazê-lo perante uma
autoridade legal competente;
- com o propósito de evitar o alastramento de doenças infecciosas; e com respeito a pessoas
mentalmente instáveis, alcoólatras ou viciados em drogas, ou desocupados;
- com o propósito de impedir a entrada ou residência não autorizada no país.

A Conduta dos Encarregados da Aplicação da Lei

Os princípios da legalidade e necessidade, juntamente com a proibição da arbitrariedade, impõem


certas expectativas na conduta dos encarregados da aplicação da lei, em situações de captura. Estas
expectativas relacionam-se ao conhecimento da lei e dos procedimentos a serem observados em
situações específicas e/ou circunstâncias que possam levar à privação da liberdade.
O Conjunto de Princípios declara que captura, detenção ou prisão somente deverão ser efetuados
em estrita conformidade com os dispositivos legais e por encarregados competentes, ou pessoas
autorizadas para aquele propósito (Princípio 2).
A palavra competentes significa não somente autorizados, mas também deve ser entendida como
referindo-se à aptidão, à atitude mental e física dos encarregados da aplicação da lei em situações de
captura. Para efetuar-se uma captura que atenda a todos os requisitos de legalidade, necessidade, e não
arbitrariedade é necessário muito mais do que a mera aplicação da lei. Somente treinamento e
experiência podem desenvolver, nos encarregados da aplicação da lei, a capacidade de distinguir entre
situações individuais e adaptar suas reações às circunstâncias de um caso em particular.

Prática Gerencial 1

A necessidade de ter encarregados competentes para efetuar uma captura levou muitas organizações
de aplicação da lei, de vários países, a manter unidades ou equipes especializadas para situações de
capturas difíceis ou perigosas. Estas unidades ou equipes consistem de encarregados da aplicação da
lei que são selecionados e treinados para desempenhar uma função para a qual nem todo o encarregado
da aplicação da lei pode ser considerado competente.

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O comportamento individual dos encarregados da aplicação da lei em situações de captura
determinará, em cada situação, o grau de arbitrariedade que será atribuído àquele comportamento. A
garantia da igualdade e da prevenção da discriminação está nas mãos dos indivíduos encarregados da
aplicação da lei - assim como a responsabilidade de assegurar o respeito aos direitos de cada pessoa
capturada, de acordo com a lei.

A Pessoa Capturada

Direitos no ato da Captura

Sempre que uma pessoa for capturada, a razão deve ser pela suspeita da prática de um delito ou
por ação de uma autoridade (Conjunto de Princípios, Princípio 36.2).
Toda pessoa capturada deverá ser informada, no momento de sua captura, das razões da
captura, devendo ser prontamente informada de qualquer acusação contra ela (PIDCP, artigo 9.2;
Conjunto de Princípios, Princípio 10).
A pessoa capturada deverá ser levada a um local de custódia, devendo ser conduzida
prontamente perante um juiz ou outra autoridade habilitada por lei a exercer poder judicial, que
decidirá sobre a legalidade e a necessidade da captura (PIDCP, artigo 9.3; Conjunto de Princípios,
Princípios 11 e 37).
Estes dispositivos sobre captura e detenção repetem-se na CADH (artigo 7o) e na CEDH (artigo 5o).
A CADHP não contém nenhum destes dispositivos. Não há uma definição clara do que se entende
por prontamente. Em muitos Estados o período máximo permitido antes que uma pessoa capturada seja
trazida perante um juiz ou autoridade similar é limitado a 48 horas; em outros Estados este período é
limitado a 24 horas. Este período de 48 ou 24 horas é mais comumente chamado de custódia policial.
O período que o segue é chamado de prisão preventiva.
Uma pessoa detida sob acusação criminal terá direito a julgamento dentro de um prazo
razoável, ou aguardar julgamento em liberdade (Conjunto de Princípios, Princípio 38).
As autoridades responsáveis pela captura, detenção ou prisão de uma pessoa devem,
respectivamente, no momento da captura e no início da detenção ou da prisão, ou pouco depois,
prestar-lhe informação e explicação sobre os direitos e sobre o modo de os exercer (Conjunto de
Princípios, Princípio 13).

Prática Gerencial 2

Um exemplo de boa prática de aplicação da lei é a produção e disseminação de folhetos explicando


os direitos de pessoas capturadas. Em muitos países as organizações de aplicação da lei produzem tais
folhetos em várias línguas para assegurar sua acessibilidade. Ao ser levada à custódia policial, a pessoa
em questão recebe um desses folhetos na sua língua materna, explicando seus direitos e como exercê-
los.

Direitos imediatamente após a Captura

A presunção da inocência aplica-se a todas pessoas detidas e deve também refletir-se no tratamento
delas.
São proibidas medidas além das necessárias para evitar a obstrução do processo de
investigação ou para manter a ordem e segurança do local de detenção (Conjunto de Princípios,
Princípio 36).
Uma pessoa detida tem o direito à assistência de um advogado e condições razoáveis devem ser
propiciadas para que este direito seja exercido. Um advogado de ofício deve ser providenciado pela
autoridade judicial ou outra autoridade caso a pessoa detida não tenha advogado próprio, e de graça caso
não tenha condições financeiras (Conjunto de Princípios, Princípio 17).
Os direitos de uma pessoa detida e/ou seu advogado são os seguintes:
- ter oportunidade efetiva de ser ouvido por uma autoridade judicial ou outra autoridade;
- receber comunicação pronta e completa de qualquer ordem de detenção, juntamente com as razões
para tal (Princípio 11);
- comunicar-se entre si e ter tempo e condições adequadas para consulta em sigilo absoluto, sem
censura e sem demora;
- comunicar-se entre si sob vigilância de um encarregado da aplicação da lei, porém sem serem
ouvidos;

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- (...) tais comunicações serão inadmissíveis como prova contra a pessoa detida, a menos que sejam
conectadas com um crime em andamento ou em planejamento (Princípio 18);
- ter acesso às informações gravadas durante toda a duração de qualquer interrogatório, e dos
intervalos entre interrogatórios, e à identidade dos encarregados da condução dos interrogatórios e outras
pessoas presentes (Princípio 23);
- de tomar medidas, em conformidade com a legislação nacional, perante uma autoridade judicial ou
outra autoridade, para impugnar a legalidade da detenção, de forma a obter sua libertação caso seja ilegal
(Princípio 32);
- de apresentar requerimento ou queixa relativos ao tratamento do detido, em particular no caso de
tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante, às autoridades administrativas ou superiores e,
quando necessário, às autoridades apropriadas investidas de poderes de revisão ou correção (Princípio
33).
A proibição da tortura aplica-se às pessoas sob qualquer forma de detenção ou prisão (Conjunto de
Princípios, Princípio 6). Esta proibição está mais elaborada no Princípio 21, que proíbe explicitamente
que se tire vantagem da situação de uma pessoa detida para obter-se uma confissão, incriminação
própria, ou testemunho contra outros.
A pessoa detida tem o direito de informar ou requerer às autoridades competentes que
notifiquem membros de sua família ou outras pessoas apropriadas de sua escolha a respeito de sua
captura, detenção ou prisão. Este direito é renovado a cada transferência de local da pessoa (Conjunto
de Princípios, Princípio 16).
Além dos direitos mencionados acima, que estão diretamente ligados à situação de captura ou o
período imediatamente posterior, existe um certo número de disposições no Conjunto de Princípios que
se relacionam mais especificamente ao bem-estar da pessoa detenta ou presa. Embora estas
disposições sejam de grande importância à aplicação da lei, é mais apropriado que elas sejam
apresentadas no capítulo sobre Detenção.

As Obrigações dos Encarregados da Aplicação da Lei

Os direitos da pessoa capturada, conforme estabelecidos acima, impõem obrigações claras aos
encarregados da aplicação da lei. A primeira destas obrigações é unicamente efetuar capturas que sejam
legais e necessárias. Os encarregados da aplicação da lei somente podem usar os poderes que a lei lhes
permite. O exercício destes poderes é sujeito à revisão por uma autoridade judicial ou outra autoridade.
Os ditos direitos podem ser traduzidos nas seguintes obrigações para os encarregados da
aplicação da lei:
- dar informações prontamente NO MOMENTO da captura sobre as razões desta;
- informar à pessoa capturada, prontamente, qualquer acusação contra ela;
- informar à pessoa capturada, prontamente, seus direitos e de como exercê-los;
- registrar devidamente, para cada pessoa capturada:
- as razões para a captura;
- a hora da captura;
- a condução da pessoa para o local de custódia;
- a primeira apresentação daquela pessoa perante a autoridade judicial ou outra autoridade;
- a identidade dos encarregados da aplicação da lei envolvidos;
- informações precisas sobre o local de custódia;
- comunicar este registro à pessoa capturada ou seu advogado na forma prescrita por lei;
- trazer a pessoa capturada prontamente à presença de uma autoridade judicial ou outra
autoridade, que possa julgar a legalidade e a necessidade da captura;
- providenciar um advogado à pessoa capturada e permitir condições adequadas de
comunicação entre eles;
- reprimir a tortura ou outro tratamento ou pena cruel, desumano ou degradante, durante ou
após a captura;
- assegurar à pessoa capturada seus direitos posteriores como detida (vide também o Capítulo
9, Detenção);
- observar estritamente as regras para proteção da situação especial das mulheres e das
crianças e adolescentes.

Finalmente, deve ser enfatizado que, de acordo com os Princípios de Prevenção e Investigação
Eficazes de Execuções Extrajudiciais, Arbitrárias e Sumárias, é da responsabilidade dos governos
assegurar um controle rígido (incluindo uma clara linha de comando) sobre todos os agentes envolvidos

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em capturas, detenções, custódia e prisão - bem como sobre aqueles autorizados a usar força e armas
de fogo.
Os agentes policiais com responsabilidades de comando e supervisão estão obrigados a fazer com
que as necessárias medidas de controle e a linha de comando estejam estabelecidas, de modo a evitar
mortes extrajudiciais durante captura e/ou detenção.

Questões Éticas e Legais relacionadas ao Uso da Força e Armas de Fogo

Uma extensa série de meios legais foi dada às organizações de aplicação da lei, no mundo todo, de
modo a capacitá-los a cumprir seus deveres de aplicação da lei e de prestação de assistência em
situações em que seja necessário. Esses meios como, por exemplo, poderes e autoridades, estão
relacionados, entre outros, à prisão, detenção, investigação criminal e uso da força e armas de fogo. Em
especial, a autoridade legal para empregar a força, incluindo o uso letal de armas de fogo em situações
em que se torna necessário e inevitável para os propósitos legais da aplicação da lei, cria uma situação
na qual os encarregados da aplicação da lei e membros da comunidade se encontram em lados opostos.
A princípio, os confrontos envolvem os encarregados da aplicação da lei e cidadãos individualmente. Na
verdade, porém, têm a capacidade de influenciar a qualidade do relacionamento entre a organização de
aplicação da lei e a comunidade como um todo.38
É óbvio que este relacionamento será ainda mais prejudicado no caso de uso da força ilegal, isto é,
desnecessária e desproporcional.
Os encarregados da aplicação da lei têm que estar comprometidos com um alto padrão de disciplina
e desempenho que reconheça tanto a importância como a delicadeza do trabalho a ser realizado.
Procedimentos adequados de supervisão e revisão servem para garantir a existência de um equilíbrio
apropriado entre o poder discricionário exercido individualmente pelos encarregados da aplicação da lei
e a necessária responsabilidade legal e política das organizações de aplicação da lei, como um todo.
Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo
Os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de fogo (PBUFAF) foram adotados no Oitavo
Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Infratores, realizado em
Havana, Cuba, de 27 de agosto a 7 de setembro de 1990.
Apesar de não ser um tratado, o instrumento tem como objetivo proporcionar normas orientadoras
aos Estados-membros na tarefa de assegurar e promover o papel adequado dos encarregados da
aplicação da lei, os princípios estabelecidos no instrumento devem ser levados em consideração e
respeitados pelos governos no contexto da legislação e da prática nacional, e levados ao conhecimento
dos encarregados da aplicação da lei assim como de magistrados, promotores, advogados, membros do
executivo e legislativo e do público em geral.
O preâmbulo deste instrumento estabelece ainda o reconhecimento da importância e da complexidade
do trabalho dos encarregados da aplicação da lei, reconhecendo também seu papel de vital importância
na proteção da vida, liberdade e segurança de todas as pessoas. Ênfase é dada em especial à eminência
da manutenção da ordem pública e paz social; assim como à importância das qualificações, treinamento
e conduta dos encarregados da aplicação da lei. O preâmbulo finaliza, ressaltando a importância dos
governos nacionais levarem em consideração os princípios inseridos neste instrumento com a adaptação
de sua legislação e prática nacionais.

Disposições Gerais e Específicas

De acordo com essas disposições dos PBUFAF, os governos são encorajados a adotar e implementar
as normas e regulamentos sobre o uso da força e armas de fogo contra as pessoas pelos encarregados
da aplicação da lei. Além disso, são encorajados a manter as questões de natureza ética associadas com
o uso da força e de armas de fogo sob constante avaliação. (PB1.)

PRÁTICA GERENCIAL 1

As organizações de aplicação da lei em todo o mundo fazem uso de cães treinados para tarefas e
missões específicas de aplicação da lei, incluindo o uso do cão como uma arma. Cães são treinados na
captura de suspeitos armados e perigosos. Eles são usados com sucesso na busca de suspeitos
escondidos em terrenos ou áreas urbanas. Embora não mencionado nos PBUFAF, o cão policial é uma

38
http://www.dhnet.org.br/dados/manuais/dh/mundo/rover/c10.htm

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arma valorizada incluída entre aquelas que permitem às organizações uma abordagem diferenciada ao
uso da força e armas de fogo.
As normas e diretrizes devem incluir disposições:
- para desenvolver uma série de meios, os mais amplos possíveis, e equipar os encarregados com
vários tipos de armas e munições, permitindo um uso diferenciado de força e armas de fogo;
- para desenvolver armas incapacitantes não letais para restringir a aplicação de meios capazes de
causar morte ou ferimentos;
- para equipar os encarregados com equipamento de autodefesa como escudos, capacetes, coletes à
prova de bala e meios de transporte blindados, de modo a diminuir a necessidade do uso de armas de
qualquer espécie; (PB2.)
- para assegurar que o desenvolvimento e o emprego de armas incapacitantes não letais sejam
cuidadosamente avaliados de modo a minimizar o risco de pôr em perigo pessoas que não estejam
envolvidas, e que o uso de quaisquer dessas armas seja cuidadosamente controlado; (PB3)
- para especificar as circunstâncias dentro das quais os encarregados da aplicação da lei são
autorizados a portar armas de fogo e prescrever os tipos e as munições permitidos;
- para assegurar que as armas de fogo sejam empregadas apenas quando apropriado e de maneira
provável a diminuir o risco de ferimentos desnecessários;
- proibindo o uso de armas de fogo e munições que causem ferimento injustificado, ou apresentem um
risco injustificado;
- regulando o controle, estoque e distribuição de armas de fogo e munições, e incluindo procedimentos
que assegurem a responsabilidade dos encarregados das armas e munições que lhes forem entregues;
- exigindo que avisos sejam feitos, se apropriados, quando as armas estiverem por ser disparadas;
- estabelecendo um sistema de registros sempre que a polícia empregue armas de fogo no
desempenho de seus deveres; (PB11.)

Princípios Essenciais

Os princípios essenciais no Uso da força e Armas de Fogo são: LEGALIDADE, NECESSIDADE e


PROPORCIONALIDADE

Os Encarregados da Aplicação da Lei somente recorrerão ao uso da força, quando todos os outros
meios para atingir um objetivo legítimo tenham falhado, e o uso da força pode ser justificado quando
comparado com o objetivo legítimo. O Encarregados da Aplicação da Lei são exortados a serem
moderados no uso da força e armas de fogo e a agirem em proporção à gravidade do delito cometido e
o objetivo legítimo a ser alcançado (PB4, 5.). Somente será permitido aos encarregados empregarem a
quantidade de força necessária para alcançar um objetivo legítimo.
Esta avaliação, que tem que ser feita individualmente pelo encarregado da aplicação da lei em cada
ocasião em que a questão do uso da força surgir, pode levar à conclusão de que as implicações negativas
do uso da força em uma determinada situação não são equiparadas à importância do objetivo legítimo a
ser alcançado. Nestas situações, recomenda-se que os policiais se abstenham de prosseguir.

Qualificações, Treinamento e Aconselhamento

Recomenda-se aos governos e as organizações de aplicação da lei que se assegurarem de que todos
os encarregados da aplicação da lei:
Sejam selecionados mediante de procedimentos adequados de seleção;
Tenham as qualidades morais, psicológicas e físicas adequadas;
Recebam uma formação profissional contínua e meticulosa; e que sejam submetidos a verificações
periódicas sobre sua aptidão para o desempenho de suas funções. (PB18);
Sejam treinados e examinados de acordo com padrões adequados de competência para o uso da
força; e
Apenas sejam autorizados a portar armas de fogo quando tiverem sido especialmente treinados, caso
tenham que portar uma arma de fogo. (PB19)

PRÁTICA GERENCIAL 2

Em vários países, as organizações de aplicação da lei realizam experiências positivas com os


chamados grupos de autoajuda. Estes grupos são compostos de encarregados de aplicação da lei que
vivenciaram uma situação na qual eles usaram sua arma de fogo contra uma pessoa e sofreram as

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consequências emocionais decorrentes do acontecimento. Usam agora aquela experiência para
aconselhar os colegas traumatizados por algum incidente que envolveu o uso da força e armas de fogo.
O serviço do grupo de autoajuda é oferecido juntamente com os serviços de terapeutas, como psicólogos
e psiquiatras.
No treinamento dos encarregado da aplicação da lei, os governos e as organizações devem dar
atenção especial a:
Questões de natureza ética na aplicação da lei e direitos humanos;
Alternativas ao uso da força e armas de fogo, incluindo a solução pacífica de conflitos, compreensão
do comportamento de multidão e métodos de persuasão, negociação e mediação com vistas a limitar o
uso da força e armas de fogo.
Os programas de treinamento e os procedimentos operacionais devem ser revistos à luz de incidentes
particulares. (PB20)
Os governos e as organizações de aplicação da lei devem proporcionar orientação sobre estresse aos
policiais envolvidos em situações em que força e arma de fogo foram utilizadas. (PB21)

Uso de Armas de Fogo

O uso de armas de fogo com o intuito de atingir objetivos legítimos de aplicação da lei deve ser
considerada uma medida extrema. É por essa razão particular que os princípios de necessidade e
proporcionalidade são elaborados em maiores detalhes em PB 9,10 e 11.
Os encarregados da aplicação da lei não usarão armas de fogo contra indivíduos, exceto:
Em casos de legítima defesa ou defesa de outrem contra ameaça iminente de morte ou ferimento
grave;
Para impedir a perpetração de crime particularmente grave que envolva séria ameaça à vida; ou
Efetuar a prisão de alguém que represente tal risco e resista à autoridade, ou para impedir a fuga de
alguém que represente tal risco;
E apenas nos casos em que outros meios menos extremos se revelem insuficientes para atingir tais
objetivos.
O uso letal intencional de armas de fogo só poderá ser feito quando for estritamente inevitável para
proteger a vida (PB9).
O uso da arma de fogo é uma medida extrema, o que é evidenciado ainda mais pelas regras de
comportamento que devem ser observadas pelos encarregados da aplicação da lei antes de seu uso
prático. O Princípio Básico 10 dos PBUFAF afirma que as seguintes regras devem ser observadas em
todos os casos:

Nas circunstâncias especificadas acima, os encarregados da aplicação da lei deverão:

Identificar-se como tal e avisar prévia e claramente sua intenção de usar armas de fogo, com tempo
suficiente para que o aviso seja levado em consideração. A NÃO SER QUE tal procedimento represente
um risco indevido para os policiais OU acarrete para outrem um risco de morte ou dano grave OU seja
claramente inadequado ou inútil dadas as circunstâncias do caso.
Justifica-se a conclusão de que o uso da arma de fogo seja visto como o último recurso. Os riscos
envolvidos no uso da arma de fogo em termos de danos, ferimentos (graves) ou morte, assim como de
não apresentar nenhuma opção real após seu uso, transforma-a na última barreira na elevação dos riscos
de uma situação a ser resolvida. Pois que outros meios os encarregados da aplicação da lei empregarão
se o uso da arma de fogo deixa de assegurar que os objetivos da aplicação de lei sejam realmente
atingidos?
A atenção dos encarregados da aplicação da lei não deve estar voltada para a próxima opção
disponível que aponta para o uso da força e armas de fogo, mas sim para meios e estratégias que possam
levar ao arrefecimento de uma situação a ser resolvida. A preferência recai, novamente, na comunicação
e não na confrontação.
As consequências do uso (letal) de armas de fogo podem ser, é claro, limitadas nos termos legais. No
entanto, é bom que as consequências pessoais para os encarregados da aplicação da lei envolvidos
sejam destacadas. Embora existam regras gerais de como os seres humanos reagem a acontecimentos
estressantes, a reação específica de cada pessoa depende, em primeiro lugar, da própria pessoa, sendo
após ditada pelas circunstâncias particulares e únicas do acontecimento. O fato de que haja
aconselhamento disponível após o acontecimento não elimina a profunda experiência emocional que o
encarregado sofre em consequência do uso da força e ou armas de fogo, mas deve ser visto como a
aceitação da gravidade do incidente.

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Uso Indevido de Força e Armas de Fogo

Os governos deverão assegurar que o uso arbitrário ou abusivo da força e armas de fogo pelos
encarregados da aplicação da lei seja punido como delito criminal, de acordo com a legislação. (PB 7)
Não será possível invocar circunstâncias excepcionais, tais como instabilidade política interna ou
emergência pública como justificativa para o abandono destes princípios básicos. (PB 8)
Estes princípios devem ser vistos juntamente com o artigo 5º do CCEAL mencionado acima e as
disposições listadas nos procedimentos de comunicação e avaliação referidas mais adiante.
O uso arbitrário de força e armas de fogo pelos encarregados da aplicação da lei constitui violações
do direito penal de um país. Também constituem violações dos direitos humanos cometidas por aqueles
que são chamados a manter e preservar esses direitos. O abuso da força e de armas de fogo pode ser
visto como uma violação da dignidade e integridade humana tanto dos encarregados envolvidos como
das vítimas. No entanto, não importa como as violações sejam vistas, elas prejudicarão de fato o frágil
relacionamento entre a organização de aplicação da lei e toda a comunidade a que estiver servindo,
sendo capazes de causar ferimentos que levarão muito tempo para cicatrizar.
É por todas as razões expostas acima que o abuso não pode e não deve ser tolerado. A atenção deve
estar voltada para a prevenção destes atos, mediante formação e treinamento regular e apropriado e
procedimentos de avaliação e supervisão adequados. Sempre que existir uma situação de abuso alegado
ou suspeitado, deve haver uma investigação imediata, imparcial e total. Os responsáveis devem ser
punidos. As vítimas devem receber atenção adequada de acordo com suas necessidades especiais
durante toda a investigação. Para que se possa restaurar com sucesso a confiança em um relacionamento
abalado, deverá haver um esforço genuíno por parte da organização de aplicação da lei.

Policiamento de Reuniões Ilegais

DUDH reconhece no artigo 20 o direito de todos a participarem de reuniões pacíficas, reiterado pelo
PIDCP no artigo 21. É por esta razão que os governos e as organizações de aplicação da lei deverão
reconhecer que a força e as armas de fogo contra reuniões ilegais só poderão ser empregadas de acordo
com os Princípios Básicos 13 e 14.
Ao dispersar grupos ILEGAIS, mas NÃO VIOLENTOS, os policiais deverão evitar o uso da força ou,
quando tal não for possível, deverão restringir o uso da força ao mínimo necessário. (PB13)
Ao dispersar grupos VIOLENTOS, os encarregados da aplicação da lei só poderão fazer uso de armas
de fogo quando não for possível usar outros meios menos perigosos;
E APENAS nos termos minimamente necessários;
ASSIM COMO SOMENTE segundo as condições estipuladas no Princípio Básico 9 (PB 14)
Ao estudar o PB 14, pode-se chegar à conclusão inicial de que se apresenta aqui uma circunstância
adicional para o uso legal das armas de fogo. Isto, contudo, não é verdadeiro. Este princípio, em verdade,
reitera que, somente nas condições mencionadas no PB 9, no caso de uma ameaça iminente de morte
ou ferimento grave, o uso da arma de fogo estaria garantido. Os riscos adicionais colocados por uma
reunião violenta, por exemplo, a presença de grandes multidões, confusão e desorganização, fazem
surgir questões relacionadas à real praticabilidade do uso da arma de fogo em tais situações,
considerando as consequências potenciais de tal uso para as pessoas não envolvidas no local. Este
princípio (PB14) não autoriza o disparo indiscriminado na direção de uma multidão violenta como tática
aceitável para dispersar a multidão.

Policiamento de Indivíduos sob Custódia ou Detenção

Ao lidarem com detidos:


Os encarregados da aplicação da lei não farão uso da força, exceto quando tal for estritamente
necessário para manter a segurança e a ordem na instituição, ou quando existir ameaça à segurança
pessoal. (PB15)
Os encarregados da aplicação da lei não farão uso de armas de fogo, exceto em legítima defesa ou
em defesa de outrem contra ameaça iminente de morte ou ferimento grave, ou quando for estritamente
necessário para impedir a fuga de um detento que represente um perigo do tipo descrito no Princípio
Básico 9.

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Diretrizes sobre o Uso da Força pelos Agentes de Segurança Pública.

Foi editada pelo Ministério da Justiça e a Secretaria de Direitos Humanos a Portaria Interministerial nº
4.226, de 31 de dezembro de 2010, a qual Estabelece Diretrizes sobre o Uso da Força pelos Agentes de
Segurança Pública, direcionando seu teor ao Departamento de Polícia Federal, pelo Departamento de
Polícia Rodoviária Federal, pelo Departamento Penitenciário Nacional e pela Força Nacional de
Segurança Pública.
De acordo com a portaria, o uso da força deverá obedecer aos princípios da legalidade, necessidade,
proporcionalidade, moderação e conveniência.
Os agentes de segurança pública "não deverão disparar armas de fogo contra pessoas, exceto em
casos de legítima defesa própria ou de terceiro contra perigo iminente de morte ou lesão grave".
Também fica proibido "o uso de arma de fogo contra pessoa em fuga que esteja desarmada ou que,
mesmo na posse de alguma arma, não represente risco imediato de morte ou de lesão grave aos agentes
de segurança pública ou terceiros". Atirar contra um veículo que tenta escapar de uma barreira policial
também é considerado ilegítimo, a não ser que o desrespeito ao bloqueio "represente risco imediato de
morte ou lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros". Os chamados "disparos de
advertência" não são considerados prática aceitável, segundo a portaria, devido à "imprevisibilidade de
seus efeitos".
A portaria também determina que todo agente de segurança pública deverá portar no mínimo dois
instrumentos de menor potencial ofensivo. Caso haja lesão ou morte devido ao uso da força, o agente de
segurança deverá preencher um relatório individual.

PORTARIA INTERMINISTERIAL N°- 4.226, DE 31 DE DEZEMBRO DE 2010

Estabelece Diretrizes sobre o Uso da Força pelos Agentes de Segurança Pública.

O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA e o MINISTRO DE ESTADO CHEFE DA SECRETARIA DE


DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, no uso das atribuições que lhes conferem os
incisos I e II, do parágrafo único, do art. 87, da Constituição Federal e, CONSIDERANDO que a concepção
do direito à segurança pública com cidadania demanda a sedimentação de políticas públicas de
segurança pautadas no respeito aos direitos humanos;

CONSIDERANDO o disposto no Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela


Aplicação da Lei, adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas na sua Resolução 34/169, de 17 de
dezembro de 1979, nos Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos Funcionários
Responsáveis pela Aplicação da Lei, adotados pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a
Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delinquentes, realizado em Havana, Cuba, de 27 de Agosto a 7
de setembro de 1999, nos Princípios orientadores para a Aplicação Efetiva do Código de Conduta para
os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, adotados pelo Conselho Econômico e Social das
Nações Unidas na sua resolução 1989/61, de 24 de maio de 1989 e na Convenção Contra a Tortura e
outros Tratamentos ou penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, adotado pela Assembleia Geral das
Nações Unidas, em sua XL Sessão, realizada em Nova York em 10 de dezembro de 1984 e promulgada
pelo Decreto n.º 40, de 15 de fevereiro de 1991;

CONSIDERANDO a necessidade de orientação e padronização dos procedimentos da atuação dos


agentes de segurança pública aos princípios internacionais sobre o uso da força;

CONSIDERANDO o objetivo de reduzir paulatinamente os índices de letalidade resultantes de ações


envolvendo agentes de segurança pública; e, CONSIDERANDO as conclusões do Grupo de Trabalho,
criado para elaborar proposta de Diretrizes sobre Uso da Força, composto por representantes das Polícias
Federais, Estaduais e Guardas Municipais, bem como com representantes da sociedade civil, da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e do Ministério da Justiça, resolvem:

Art. 1º Ficam estabelecidas Diretrizes sobre o Uso da Força pelos Agentes de Segurança Pública, na
forma do Anexo I desta Portaria.
Parágrafo único. Aplicam-se às Diretrizes estabelecidas no Anexo I, as definições constantes no Anexo
II desta Portaria.

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Art. 2º A observância das diretrizes mencionadas no artigo anterior passa a ser obrigatória pelo
Departamento de Polícia Federal, pelo Departamento de Polícia Rodoviária Federal, pelo Departamento
Penitenciário Nacional e pela Força Nacional de Segurança Pública.
§ 1º As unidades citadas no caput deste artigo terão 90 dias, contados a partir da publicação desta
portaria, para adequar seus procedimentos operacionais e seu processo de formação e treinamento às
diretrizes supramencionadas.
§ 2º As unidades citadas no caput deste artigo terão 60 dias, contados a partir da publicação desta
portaria, para fixar a normatização mencionada na diretriz N°- 9 e para criar a comissão mencionada na
diretriz N°- 23.
§ 3º As unidades citadas no caput deste artigo terão 60 dias, contados a partir da publicação desta
portaria, para instituir Comissão responsável por avaliar sua situação interna em relação às diretrizes não
mencionadas nos parágrafos anteriores e propor medidas para assegurar as adequações necessárias.

Art. 3º A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e o Ministério da Justiça


estabelecerão mecanismos para estimular e monitorar iniciativas que visem à implementação de ações
para efetivação das diretrizes tratadas nesta portaria pelos entes federados, respeitada a repartição de
competências prevista no art. 144 da Constituição Federal.

Art. 4º A Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça levará em consideração a


observância das diretrizes tratadas nesta portaria no repasse de recursos aos entes federados.

Art. 5º Esta portaria entra em vigor na data de sua publicação.

ANEXO I
DIRETRIZES SOBRE O USO DA FORÇA E ARMAS DE FOGO PELOS AGENTES DE
SEGURANÇA PÚBLICA

1. O uso da força pelos agentes de segurança pública deverá se pautar nos documentos internacionais
de proteção aos direitos humanos e deverá considerar, primordialmente:
a. ao Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, adotado pela
Assembleia Geral das Nações Unidas na sua Resolução 34/169, de 17 de dezembro de 1979;
b. os Princípios orientadores para a Aplicação Efetiva do Código de Conduta para os Funcionários
Responsáveis pela Aplicação da Lei, adotados pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas na
sua resolução 1989/61, de 24 de maio de 1989;
c. os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela
Aplicação da Lei, adotados pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o
Tratamento dos Delinquentes, realizado em Havana, Cuba, de 27 de Agosto a 7 de setembro de 1999;
d. a Convenção Contra a Tortura e outros Tratamentos ou penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes,
adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em sua XL Sessão, realizada em Nova York em 10
de dezembro de 1984 e promulgada pelo Decreto n.º 40, de 15 de fevereiro de 1991.

2. O uso da força por agentes de segurança pública deverá obedecer aos princípios da legalidade,
necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência.

3. Os agentes de segurança pública não deverão disparar armas de fogo contra pessoas, exceto em
casos de legítima defesa própria ou de terceiro contra perigo iminente de morte ou lesão grave.

4. Não é legítimo o uso de armas de fogo contra pessoa em fuga que esteja desarmada ou que, mesmo
na posse de algum tipo de arma, não represente risco imediato de morte ou de lesão grave aos agentes
de segurança pública ou terceiros.

5. Não é legítimo o uso de armas de fogo contra veículo que desrespeite bloqueio policial em via
pública, a não ser que o ato represente um risco imediato de morte ou lesão grave aos agentes de
segurança pública ou terceiros.

6. Os chamados "disparos de advertência" não são considerados prática aceitável, por não atenderem
aos princípios elencados na Diretriz n.º 2 e em razão da imprevisibilidade de seus efeitos.

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7. O ato de apontar arma de fogo contra pessoas durante os procedimentos de abordagem não deverá
ser uma prática rotineira e indiscriminada.

8. Todo agente de segurança pública que, em razão da sua função, possa vir a se envolver em
situações de uso da força, deverá portar no mínimo 2 (dois) instrumentos de menor potencial ofensivo e
equipamentos de proteção necessários à atuação específica, independentemente de portar ou não arma
de fogo.

9. Os órgãos de segurança pública deverão editar atos normativos disciplinando o uso da força por
seus agentes, definindo objetivamente:
a. os tipos de instrumentos e técnicas autorizadas;
b. as circunstâncias técnicas adequadas à sua utilização, ao ambiente/entorno e ao risco potencial a
terceiros não envolvidos no evento;
c. o conteúdo e a carga horária mínima para habilitação e atualização periódica ao uso de cada tipo
de instrumento;
d. a proibição de uso de armas de fogo e munições que provoquem lesões desnecessárias e risco
injustificado; e
e. o controle sobre a guarda e utilização de armas e munições pelo agente de segurança pública.

10. Quando o uso da força causar lesão ou morte de pessoa(s), o agente de segurança pública
envolvido deverá realizar as seguintes ações:
a. facilitar a prestação de socorro ou assistência médica aos feridos;
b. promover a correta preservação do local da ocorrência;
c. comunicar o fato ao seu superior imediato e à autoridade competente; e
d. preencher o relatório individual correspondente sobre o uso da força, disciplinado na Diretriz n.º 22.

11. Quando o uso da força causar lesão ou morte de pessoa(s), o órgão de segurança pública deverá
realizar as seguintes ações:
a. facilitar a assistência e/ou auxílio médico dos feridos;
b. recolher e identificar as armas e munições de todos os envolvidos, vinculando-as aos seus
respectivos portadores no momento da ocorrência;
c. solicitar perícia criminalística para o exame de local e objetos bem como exames médico-legais;
d. comunicar os fatos aos familiares ou amigos da(s) pessoa(s) ferida(s) ou morta(s);
e. iniciar, por meio da Corregedoria da instituição, ou órgão equivalente, investigação imediata dos
fatos e circunstâncias do emprego da força;
f. promover a assistência médica às pessoas feridas em decorrência da intervenção, incluindo atenção
às possíveis sequelas;
g. promover o devido acompanhamento psicológico aos agentes de segurança pública envolvidos,
permitindo-lhes superar ou minimizar os efeitos decorrentes do fato ocorrido; e
h. afastar temporariamente do serviço operacional, para avaliação psicológica e redução do estresse,
os agentes de segurança pública envolvidos diretamente em ocorrências com resultado letal.

12. Os critérios de recrutamento e seleção para os agentes de segurança pública deverão levar em
consideração o perfil psicológico necessário para lidar com situações de estresse e uso da força e arma
de fogo.

13. Os processos seletivos para ingresso nas instituições de segurança pública e os cursos de
formação e especialização dos agentes de segurança pública devem incluir conteúdos relativos a direitos
humanos.

14. As atividades de treinamento fazem parte do trabalho rotineiro do agente de segurança pública e
não deverão ser realizadas em seu horário de folga, de maneira a serem preservados os períodos de
descanso, lazer e convivência sócio familiar.

15. A seleção de instrutores para ministrarem aula em qualquer assunto que englobe o uso da força
deverá levar em conta análise rigorosa de seu currículo formal e tempo de serviço, áreas de atuação,
experiências anteriores em atividades fim, registros funcionais, formação em direitos humanos e
nivelamento em ensino. Os instrutores deverão ser submetidos à aferição de conhecimentos teóricos e
práticos e sua atuação deve ser avaliada.

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16. Deverão ser elaborados procedimentos de habilitação para o uso de cada tipo de arma de fogo e
instrumento de menor potencial ofensivo que incluam avaliação técnica, psicológica, física e treinamento
específico, com previsão de revisão periódica mínima.

17. Nenhum agente de segurança pública deverá portar armas de fogo ou instrumento de menor
potencial ofensivo para o qual não esteja devidamente habilitado e sempre que um novo tipo de arma ou
instrumento de menor potencial ofensivo for introduzido na instituição deverá ser estabelecido um módulo
de treinamento específico com vistas à habilitação do agente.

18. A renovação da habilitação para uso de armas de fogo em serviço deve ser feita com periodicidade
mínima de 1 (um) ano.

19. Deverá ser estimulado e priorizado, sempre que possível, o uso de técnicas e instrumentos de
menor potencial ofensivo pelos agentes de segurança pública, de acordo com a especificidade da função
operacional e sem se restringir às unidades especializadas.

20. Deverão ser incluídos nos currículos dos cursos de formação e programas de educação continuada
conteúdos sobre técnicas e instrumentos de menor potencial ofensivo.

21. As armas de menor potencial ofensivo deverão ser separadas e identificadas de forma
diferenciada, conforme a necessidade operacional.

22. O uso de técnicas de menor potencial ofensivo deve ser constantemente avaliado.

23. Os órgãos de segurança pública deverão criar comissões internas de controle e acompanhamento
da letalidade, com o objetivo de monitorar o uso efetivo da força pelos seus agentes.

24. Os agentes de segurança pública deverão preencher um relatório individual todas as vezes que
dispararem arma de fogo e/ou fizerem uso de instrumentos de menor potencial ofensivo, ocasionando
lesões ou mortes. O relatório deverá ser encaminhado à comissão interna mencionada na Diretriz n.º 23
e deverá conter no mínimo as seguintes informações:
a. circunstâncias e justificativa que levaram o uso da força ou de arma de fogo por parte do agente de
segurança pública;
b. medidas adotadas antes de efetuar os disparos/usar instrumentos de menor potencial ofensivo, ou
as razões pelas quais elas não puderam ser contempladas;
c. tipo de arma e de munição, quantidade de disparos efetuados, distância e pessoa contra a qual foi
disparada a arma;
d. instrumento(s) de menor potencial ofensivo utilizado(s), especificando a frequência, a distância e a
pessoa contra a qual foi utilizado o instrumento;
e. quantidade de agentes de segurança pública feridos ou mortos na ocorrência, meio e natureza da
lesão;
f. quantidade de feridos e/ou mortos atingidos pelos disparos efetuados pelo(s) agente(s) de segurança
pública;
g. número de feridos e/ou mortos atingidos pelos instrumentos de menor potencial ofensivo utilizados
pelo(s) agente(s) de segurança pública;
h. número total de feridos e/ou mortos durante a missão;
i. quantidade de projéteis disparados que atingiram pessoas e as respectivas regiões corporais
atingidas;
j. quantidade de pessoas atingidas pelos instrumentos de menor potencial ofensivo e as respectivas
regiões corporais atingidas;
k. ações realizadas para facilitar a assistência e/ou auxílio médico, quando for o caso; e
l. se houve preservação do local e, em caso negativo, apresentar justificativa.

25. Os órgãos de segurança pública deverão, observada a legislação pertinente, oferecer


possibilidades de reabilitação e reintegração ao trabalho aos agentes de segurança pública que
adquirirem deficiência física em decorrência do desempenho de suas atividades.

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ANEXO II
GLOSSÁRIO

Armas de menor potencial ofensivo: Armas projetadas e/ou empregadas, especificamente, com a
finalidade de conter, debilitar ou incapacitar temporariamente pessoas, preservando vidas e minimizando
danos à sua integridade.

Equipamentos de menor potencial ofensivo: Todos os artefatos, excluindo armas e munições,


desenvolvidos e empregados com a finalidade de conter, debilitar ou incapacitar temporariamente
pessoas, para preservar vidas e minimizar danos à sua integridade.

Equipamentos de proteção: Todo dispositivo ou produto, de uso individual (EPI) ou coletivo (EPC)
destinado a redução de riscos à integridade física ou à vida dos agentes de segurança pública.

Força: Intervenção coercitiva imposta à pessoa ou grupo de pessoas por parte do agente de segurança
pública com a finalidade de preservar a ordem pública e a lei.

Instrumentos de menor potencial ofensivo: Conjunto de armas, munições e equipamentos


desenvolvidos com a finalidade de preservar vidas e minimizar danos à integridade das pessoas.

Munições de menor potencial ofensivo: Munições projetadas e empregadas, especificamente, para


conter, debilitar ou incapacitar temporariamente pessoas, preservando vidas e minimizando danos a
integridade das pessoas envolvidas.

Nível do Uso da Força: Intensidade da força escolhida pelo agente de segurança pública em resposta
a uma ameaça real ou potencial.

Princípio da Conveniência: A força não poderá ser empregada quando, em função do contexto, possa
ocasionar danos de maior relevância do que os objetivos legais pretendidos.

Princípio da Legalidade: Os agentes de segurança pública só poderão utilizar a força para a


consecução de um objetivo legal e nos estritos limites da lei.

Princípio da Moderação: O emprego da força pelos agentes de segurança pública deve sempre que
possível, além de proporcional, ser moderado, visando sempre reduzir o emprego da força.

Princípio da Necessidade: Determinado nível de força só pode ser empregado quando níveis de menor
intensidade não forem suficientes para atingir os objetivos legais pretendidos.

Princípio da Proporcionalidade: O nível da força utilizado deve sempre ser compatível com a gravidade
da ameaça representada pela ação do opositor e com os objetivos pretendidos pelo agente de segurança
pública.

Técnicas de menor potencial ofensivo: Conjunto de procedimentos empregados em intervenções que


demandem o uso da força, através do uso de instrumentos de menor potencial ofensivo, com intenção de
preservar vidas e minimizar danos à integridade das pessoas.

Uso Diferenciado da Força: Seleção apropriada do nível de uso da força em resposta a uma ameaça
real ou potencial visando limitar o recurso a meios que possam causar ferimentos ou mortes.

14 Administração institucional de conflitos no espaço público.

Historicamente, as instituições que compõem o "Sistema de Justiça Criminal" se vincularam


diretamente com a defesa do exercício dos direitos civis e sociais, seja através das atribuições de controle
e repressão das polícias, seja por meio da função de garantia de direitos por parte do Judiciário. A partir
do século XIX, Polícia e Justiça passaram a se preocupar com os limites do exercício do poder do Estado
e defender o exercício da cidadania como eixos fundamentais de atuação.

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No caso do Brasil, bem como em outros países da América Latina, estes temas estão atrelados à
questão das possibilidades de construção de um efetivo estado democrático de direito, considerando-se
que são Estados que ainda estão em processo de consolidação democrática. Neste sentido, é preciso
mencionar que, embora nosso país tenha adotado a forma político-jurídica republicana e uma economia
de mercado, muitas instituições utilizam representações e práticas próprias, reinterpretando os princípios
jurídicos de forma a negá-los. Como exemplo, podemos pensar na afirmação constitucional da igualdade
de todos perante a lei, que coexiste com regras jurídicas na esfera pública e com um espaço público onde
a desigualdade e a hierarquia são princípios organizadores de grande parte das interações sociais. Esse
paradoxo entre a igualdade/desigualdade formal e a hierarquia social se reflete, de forma paradigmática,
nos mecanismos de administração de conflitos no espaço público.
Em várias partes do mundo os conflitos são tratados em função de sua natureza. Há aqueles
considerados "menores", produto de relações de proximidade (vizinhança, parentesco, afinidade,
amizade) e aqueles classificados pelo campo jurídico como "macrocriminalidade" ou "crime organizado".
Essa divisão está relacionada ao fato de que os dois tipos de conflitualidade envolvem mecanismos e
lógicas de administração diferenciadas, por parte das agências de Segurança Pública e Justiça Criminal.
O problema é que na prática essa divisão acaba por incorporar distintas moralidades no tratamento dos
casos e das pessoas envolvidas.
Diversas pesquisas desenvolvidas até o momento apontam para o fato de que ambos os tipos de
conflitos não encontram, por parte dos agentes dos sistemas mencionados e por parte do campo jurídico
no Brasil, um padrão de administração conforme os princípios constitucionais de igualdade perante a lei
e acesso universal à justiça. Por um lado, os conflitos de proximidade parecem fugir da lógica da punição
penal clássica, por envolverem situações de convívio cotidiano entre pessoas conhecidas que se veem
ocasionalmente atraídas ao sistema criminal. Por outro lado, os eventos classificados como
"macrocriminalidade" se distinguem da chamada "criminalidade comum" (assaltos, roubos, furtos),
envolvendo a incriminação de sujeitos - grandes empresários, políticos, funcionários públicos - que, até
pouco tempo no Brasil, estavam longe de ser a clientela clássica do sistema criminal e que, de todo modo,
não são submetidos aos processos de sujeição criminal a que se submetem os criminosos comuns.

Prevenção delituosa

No Estado Democrático de Direito em que vivemos a prevenção criminal é integrante da “agenda


federativa”, passando por todos os setores do Poder Público e não apenas pela Segurança Pública e pelo
Judiciário. Ademais, no modelo federativo brasileiro a União, os Estados, o Distrito Federal e, sobretudo,
os municípios devem agir conjuntamente visando à redução criminal (art. 144, caput, da Constituição
Federal).
A prevenção delituosa alcança, portanto, as ações dissuasórias do delinquente, inclusive com parcela
intimidativa da pena cabível ao crime em via de ser cometido; a alteração dos espaços físicos e urbanos
com novos desenhos arquitetônicos, aumento de iluminação pública etc. (neoecologismo +
neorretribucionismo), bem como atitudes visando impedir a reincidência (reinserção social, fomento de
oportunidades laborais etc.)
O Estado utiliza-se de duas medidas de prevenção, uma que atinge diretamente o delito e a outra que
atinge indiretamente. As ações indiretas buscam solucionar os crimes, de maneira intensa e extensa,
erradicando ou diminuindo as causas de produção dos delitos. Estas ações agem no indivíduo e no meio
social em que vive, sendo denominado pela Criminologia Moderna como prevenção primária e terciária.
As ações diretas recaem sobre a infração penal. Aqui o Estado age diretamente, através da
investigação, repressão que se dará com as operações policiais, a abertura de Inquérito Policial, o
oferecimento da peça acusatória em juízo, a deflagração do processo criminal e a sentença penal
condenatória. Estas ações direitas são conhecidas como Criminologia de prevenção secundária.

Os diferentes níveis de prevenção:


- Prevenção Primária: é uma ação indireta ao delito, que vai na raiz do conflito antes que o crime
aumente ainda mais, obrigando o Estado a criar os direitos sociais, através dos instrumentos
constitucionais e legais. Geralmente, estas ações são onerosas, com reflexo a médio e longo prazo, está
voltada à segurança e qualidade de vida.
- Prevenção Secundária: são ações que estão voltadas a sociedade, em condições de vulnerabilidade
criminal, com propensão a delinquir. Baseado nisto, algumas ações devem ser melhor executadas, como
por exemplo com a reurbanização de certos bairros para que seja efetuado seu controle, tendo reflexos
a curto e médio prazos;

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- Prevenção Terciária: visa não permitir que o recluso volte a delinquir. Contudo, este tipo de
prevenção possui altos níveis de ineficácia, pela omissão estatal em pôr em prática os direitos e deveres
legais dos apenados e a mitigação da estigmatização por que passa o egresso do sistema prisional.
Realiza-se por meio de medidas socioeducativas como a laborterapia, a liberdade assistida etc
- Prevenção geral e específica: A prevenção geral permite que a pena seja dirigida à sociedade,
tentando intimidar as pessoas que queiram cometer crimes, delinquir, como por exemplo com as sanções
condenatórias que serão impostas ao transgressor.
Já a prevenção especial volta-se para o fato de que o delito é instigado por fatores endógenos e
exógenos, de modo que busca a recuperação do indivíduo que foi condenado
A prevenção especial, por seu turno, também pode ser vista sob as formas negativa e positiva.
Na prevenção especial negativa existe uma espécie de neutralização do autor do delito, que se
materializa com a segregação no cárcere. Essa retirada provisória do autor do fato do convívio social
impede que ele cometa novos delitos, pelo menos no ambiente social do qual foi privado.
Por meio da prevenção especial positiva a finalidade da pena consiste em fazer com que o autor
desista de cometer novas infrações, assumido caráter ressocializador e pedagógico.
Ao tratarmos da prevenção criminal como matéria estatal multisetorial, devemos pensar que a
problemática criminal está baseada nos problemas sociais, passando por todos os setores referentes ao
Poder Público (multisetoriedade estatal na aplicação de políticas públicas de segurança). Saindo dos
órgãos que compõem a Segurança Pública ou pelo Poder Judiciário, serão corresponsáveis os entes
públicos pertencentes aos níveis federal, estadual e municipal, além do cidadão comum.
Uma das formas de prevenção será com o aumento de bairros iluminados, policiais que fiquem nas
portas das escolas cuidando para que os estudantes estejam saindo com proteção, observando o fluxo
de pessoas que se encontrem pelas redondezas, até mesmo com um maior número de vagas de trabalho,
o que permite que muitos deixem de delinquir para sua própria sobrevivência.
Desta forma, o penalismo não será o único instrumento capaz de prevenir a criminalidade, e o que se
busca é a mudança para o prevencionismo criminal, diferentemente da Teoria da Reação Social, onde o
Ciclo de Persecução Criminal não passa de corredor estigmatizante. Passamos a entender melhor o que
traz a Teoria da Reação Social:
A ocorrência de ação criminosa gera uma reação social (estatal) em sentido contrário, no mínimo
proporcional àquela. Da evolução das reações sociais ao crime prevalecem hodiernamente três modelos:
dissuasório, ressocializador e restaurador (integrador).

1) Modelo dissuasório (direito penal clássico): repressão por meio da punição ao agente criminoso,
mostrando a todos que o crime não compensa e gera castigo. Aplica-se a pena somente aos imputáveis
e semi-imputáveis, pois aos inimputáveis se dispensa tratamento psiquiátrico.
2) Modelo ressocializador: intervém na vida e na pessoa do infrator, não apenas lhe aplicando uma
punição, mas também lhe possibilitando a reinserção social. Aqui a participação da sociedade é relevante
para a ressocialização do infrator, prevenindo a ocorrência de estigmas.
3) Modelo restaurador (integrador): recebe também a denominação “justiça restaurativa” e procura
restabelecer, da melhor maneira possível, o status quo

A Justiça Restaurativa como meio de prevenção criminal, além da interação dos órgãos públicos e dos
cidadãos com os problemas sociais, vem se desenvolvendo cada vez mais.
O ilustre doutrinador Saliba ressalta que, “a restauração se trata, sobretudo, de um processo voluntário,
distinguindo-se do modelo vingativo que é adotado pela Justiça Retributiva”.
Além disso, são adotadas medidas restauradoras em base na comunicação não violenta, permitindo o
uso da mediação, a conciliação e reuniões coletivas abertas à participação de pessoas da família e da
comunidade.

Questões

01. (PC/SP - Atendente de Necrotério Policia – VUNESP/2014) Assinale a alternativa correta com
relação ao conceito de direitos humanos.
(A) Direitos humanos é uma forma sintética de se referir a direitos fundamentais da pessoa humana,
aqueles que são essenciais à pessoa humana, que precisa ser respeitada pela dignidade que lhe é
inerente.

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(B) Direitos humanos são aqueles que estão previstos de forma expressa em uma Constituição e que
se referem somente a direitos das pessoas que respondem a um inquérito ou a um processo penal.
(C) Como os direitos humanos são inerentes à natureza humana, somente derivam do espírito humano
e não devem ser positivados nas leis.
(D) No âmbito da filosofia, a expressão direitos humanos significa a independência do ser humano,
tratando exclusivamente do direito de liberdade.
(E) Considerando o que prevê a Constituição de 1988, os direitos humanos se dão por meio da
propriedade, que se impõe como um valor incondicional e insubstituível, que não admite equivalente.

02. (ALESP – Procurador - FCC/2010) Considere:


I. O primeiro reconhecimento normativo da igualdade essencial da condição humana remonta a 1776
e 1789, com a proclamação das liberdades individuais e da igualdade perante a lei, nos Estados Unidos
e na França revolucionária.
II. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) marca outra fase de regulamentação dos
direitos do homem, seguindo os moldes liberais clássicos de não intervenção.
III. A Declaração de Viena (1993) consagra dois aspectos que caracterizam a concepção
contemporânea de direitos humanos: o alcance universal desses direitos e a unidade indivisível e
interdependente que assumem.

Está correto o que se afirma em


(A) I e II, apenas.
(B) I, II e III.
(C) I e III, apenas.
(D) II, apenas.
(E) II e III, apenas.

03. (DPE/PI - CESPE/2009) A respeito do desenvolvimento histórico dos direitos humanos e seus
marcos fundamentais, assinale a opção correta.
(A) Os direitos fundamentais surgem todos de uma vez, não se originam de processo histórico
paulatino.
(B) Não há uma correlação entre o surgimento do cristianismo e o respeito à dignidade da pessoa
humana.
(C) As gerações de direitos humanos mais recentes substituem as gerações de direitos fundamentais
mais antigas.
(D) A proteção dos direitos fundamentais é objeto também do direito internacional.
(E) A ONU é o órgão responsável pela UDHR e pela Declaração Americana de Direitos.

04. (DPE/PI - CESPE/2009) Os direitos fundamentais possuem determinadas características que


foram objeto de detalhado estudo da doutrina nacional e internacional. A respeito dessas características,
assinale a opção correta.
(A) O princípio da universalidade impede que determinados valores sejam protegidos em documentos
internacionais dirigidos a todos os países.
(B) A irrenunciabilidade dos direitos fundamentais não destaca o fato de que estes se vinculam ao
gênero humano.
(C) É característica marcante o fato de os direitos fundamentais serem absolutos, no sentido de que
eles devem sempre prevalecer, independentemente da existência de outros direitos, segundo a máxima
do “tudo ou nada”.
(D) A imprescritibilidade dos direitos fundamentais vincula-se à sua proteção contra o decurso do
tempo.
(E) A inviolabilidade evita o desrespeito dos direitos fundamentais por autoridades públicas, entretanto
permite o desrespeito por particulares.

05. (Agente Penitenciário - CESPE/2009) Acerca dos direitos fundamentais, julgue os itens a seguir.

O direito fundamental à vida é hierarquicamente superior a todos os demais direitos humanos, estejam
eles previstos na CF ou na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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06. (MPE-AM - CESPE/2007) Considerando a teoria geral dos direitos humanos, assinale a opção
correta.
(A) Consoante a teoria da margem de apreciação, nenhuma norma de direitos humanos pode ser
invocada para limitar o exercício de qualquer direito.
(B) A característica da indivisibilidade dos direitos humanos decorre da constatação de que a condição
de pessoa é o único requisito para a sua titularidade de direitos e das necessidades humanas universais.
(C) A superioridade das normas de direitos humanos caracteriza-se pela aferição de idoneidade,
necessidade e equilíbrio da intervenção do Estado em determinado direito fundamental.
(D) O princípio da proibição do retrocesso social é uma cláusula de defesa do cidadão em face de
possíveis arbítrios impostos pelo legislador no sentido de desconstituir as normas de direitos
fundamentais.
(E) Com a inclusão dos direitos sociais no rol dos direitos do homem, antes composto apenas de
direitos de liberdade, os direitos do homem passaram a constituir uma categoria homogênea.

07. (DPE-PI - CESPE/2009) A respeito do desenvolvimento histórico dos direitos humanos e seus
marcos fundamentais, assinale a opção correta.
(A) Os direitos fundamentais surgem todos de uma vez, não se originam de processo histórico
paulatino.
(B) Não há uma correlação entre o surgimento do cristianismo e o respeito à dignidade da pessoa
humana.
(C) As gerações de direitos humanos mais recentes substituem as gerações de direitos fundamentais
mais antigas.
(D) A proteção dos direitos fundamentais é objeto também do direito internacional.
(E) A ONU é o órgão responsável pela UDHR e pela Declaração Americana de Direitos.

08. (MPT – Procurador - 2012) Assinale a alternativa INCORRETA:


(A) A Declaração do Milênio das Nações Unidas reforça o dever dos Estados de administrar os desafios
globais de forma solidária, em um modo que distribua custos e responsabilidades, de acordo com os
princípios básicos da igualdade e justiça social. Aqueles que sofrem, ou menos beneficiados, merecem
ajuda daqueles que mais se beneficiam.
(B) Direitos de primeira geração são direitos que resultaram da influência do socialismo, voltados ao
bem-estar social, como o direito ao trabalho, à saúde e à educação.
(C) Os direitos sociais destinam-se a propiciar aos indivíduos a participação no bem-estar social,
apresentando uma dimensão positiva, que enseja o dever do Estado de propiciar estes direitos, não
apenas de abster-se de intervir.
(D) Consoante a Declaração das Nações Unidas dos Direitos dos Povos Indígenas, os indivíduos e
povos indígenas têm o direito de desfrutar plenamente de todos os direitos estabelecidos no direito
trabalhista internacional e nacional aplicável.
(E) Não respondida.

09. (MPT – Procurador - 2007) No estudo dos direitos humanos fundamentais, existe cizânia
doutrinária em torno da utilização da expressão “geração”, para indicar o processo de consolidação
desses direitos, sendo que alguns preferem utilizar “dimensão”. Examine as assertivas a seguir e
selecione o argumento que, efetivamente, dá suporte à doutrina que defende a necessidade de
substituição de uma expressão por outra.
(A) os direitos humanos fundamentais são direitos naturais e, como tais, imutáveis, de maneira que o
vocábulo “geração” faz alusão a uma historicidade inexistente nessa modalidade de direitos, enquanto
“dimensão” refere-se a aspectos relevantes de um todo, que simplesmente se destacam de acordo com
o grau de desenvolvimento da sociedade;
(B) o termo “geração” conduz à ideia equivocada de que os direitos humanos fundamentais se
substituem ao longo do tempo, enquanto “dimensão” melhor reflete o processo gradativo de
complementaridade, pelo qual não há alternância, mas sim expansão, cumulação e fortalecimento;
(C) a ideia de “geração” leva ao entendimento de que o processo de afirmação dos direitos humanos
fundamentais é linear e não comporta retrocessos, enquanto a de “dimensão” melhor expressa o caminho
tortuoso desse processo, de acordo com as relações de forças existentes nas sociedades;
(D) O termo “geração” sugere uma eficácia restrita dos direitos humanos fundamentais, meramente
vertical, ao passo que “dimensão” indica eficácia mais ampla, também horizontal;
(E) não respondida.

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10. (MPE/Promotor de Justiça/2008) Sobre os direitos humanos, assinale a alternativa correta.
(A) Têm como características a universalidade, a historicidade e a indivisibilidade.
(B) Conceituam-se como posições jurídicas reconhecidas pela ordem jurídico- constitucional de cada
Estado soberano.
(C) Sob uma perspectiva histórica abrangem apenas os direitos à liberdade, segurança e propriedade.
(D) Compreendem, além dos direitos civis e políticos, os direitos sociais, econômicos e culturais, sendo
que os últimos não são exigíveis.
(E) Correspondem aos direitos naturais e são protegidos por organismos internacionais.

11. (DPE-MS - VUNESP/2008) Quando se fala em Direitos Humanos, considerando sua historiciedade,
é correto dizer que
(A) somente passam a existir com as Declarações de Direitos elaboradas a partir da Revolução
Gloriosa Inglesa de 1688.
(B) foram estabelecidos, pela primeira vez, por meio da Carta Magna de 1215, que é a expressão
maior da proteção dos Direitos do Homem em âmbito universal.
(C) a concepção contemporânea de Direitos Humanos foi introduzida, em 1789, pela Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão, fruto da Revolução Francesa.
(D) a internacionalização dos Direitos Humanos surge a partir do Pós-Guerra, como resposta às
atrocidades cometidas durante o nazismo.

12. (PC-SP/2011) Quando, no final do século XVIII, foram declarados os direitos fundamentais, eram
encarados essencialmente como
(A) interesses coletivos não individualizáveis
(B) proliferação dos direitos naturais e objetivos
(C) expressões da liberdade humana em face do Poder
(D) objetivos políticos efetivamente protegidos
(E) vulgarização e trivialização dos direitos naturais

13. (TJ-RJ/2012) Após o holocausto, ocorrido no seio germânico na Segunda Grande Guerra, o crime
de genocídio passou a ser abominado em várias nações do mundo. No Brasil, considera-se crime de
genocídio, para efeitos penais, entre outras ações ou omissões, 

(A) submeter, por negligência, imprudência ou imperícia, determinado grupo nacional, étnico, racial ou
religioso, a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial.
(B) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio de grupo nacional, étnico, racial ou
religioso, como tal.
(C) matar membros de grupo em razão de orientação sexual.
(D) associarem-se 3 (três) ou mais indivíduos com intuito de causar lesão grave à integridade física ou
mental de membros de grupo motivados por discórdias desportivas.
(E) praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional.

14. (PM-PI – 2012 - NUPESE) Os Direitos Humanos ao longo da história estão em constante evolução,
assim em relação às Gerações dos Direitos Humanos, pode-se afirmar, EXCETO.
(A) Os direitos de 1ª geração são os direitos e garantias individuais e políticos clássicos (direito à vida,
à liberdade, à expressão e à locomoção).
(B) Os direitos de 3ª geração, também chamados de solidariedade ou fraternidade, englobam o meio
ambiente ecologicamente equilibrado, a paz, uma qualidade de vida saudável, a autodeterminação dos
povos, além de outros direitos difusos.
(C) Os direitos de 2ª geração são os direitos sociais, econômicos e culturais (direito ao trabalho, ao
seguro social, à subsistência, ao amparo à doença, à velhice, entre outros).
(D) Os direitos de 5ª geração são os direitos das minorias sociais, dos seres humanos em situação de
vulnerabilidade, entre eles: idoso, mulher, negro e grupo glbtts.
(E) Os direitos de 4ª geração, também chamados de direitos dos povos, são provenientes da última
fase da estruturação do Estado Social (globalização do Estado Neoliberal), englobam o direito à
democracia, à informação, ao pluralismo, entre outros. Há quem entenda ser o direito vinculado à
evolução da ciência (genética, DNA, clonagem, biodireito, biotecnologia, entre outros).

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15. (CGU - ESAF/2012) “Os direitos humanos podem ser exercidos simultaneamente e encontram
limites nos outros direitos igualmente consagrados na Constituição. Assim, pode ocorrer um conflito entre
direitos e nesse caso é preciso uma solução coerente que harmonize ambos os direitos.” Esse conceito
representa a seguinte característica dos Direitos Humanos: 

(A) Limitabilidade.
(B) Complementaridade.
(C) Relatividade.
(D) Inter-relação.
(E) Indisponibilidade.

16. (DPE-PI - CESPE/2009) A proteção dos direitos humanos no Brasil conta com legislação que
instituiu o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). A respeito do PNDH, assinale a opção
correta.
(A) Nesse programa, não é feita alusão à proteção internacional dos direitos humanos.
(B) O acompanhamento da implementação do PNDH deve ser feito pelo MP Federal.
(C) Os direitos econômicos não são promovidos pelo PNDH.
(D) Os direitos culturais não são promovidos pelo PNDH.
(E) Os direitos sociais são promovidos pelo PNDH.

17. (DPE-PI - CESPE/2009) A respeito da incorporação dos tratados internacionais de proteção dos
direitos humanos ao direito brasileiro, assinale a opção correta.
(A) Antes da EC n. 45, não havia, na doutrina brasileira, menção ao fato de que os tratados
internacionais sobre direitos humanos deveriam ter o status de norma constitucional.
(B) Após a EC n. 45, todos os tratados internacionais passaram a possuir status de norma
constitucional.
(C) Após a EC n.º 45, foi dado nova abordagem aos tratados internacionais sobre direitos humanos.
(D) Os tratados internacionais sobre direitos humanos não necessitam de aprovação pelo Congresso
Nacional.
(E) O STF sempre considerou o tratado internacional sobre direitos humanos como norma
constitucional superveniente.

18. (Agente Penitenciário/2010) A Constituição Federal permite a recepção de tratados internacionais


que versem sobre direitos humanos, tratados esses, que, uma vez aprovados pelo legislativo, se
equiparam às (aos)
(A) leis ordinárias.
(B) emendas constitucionais.
(C) decretos legislativos.
(D) medidas provisórias.
(E) leis federais.

19. (PC/SP – Perito Criminal – VUNESP/14) No tocante à temática da prevenção da infração à lei
penal, é correto afirmar que a prevenção
(A) secundária consiste em, dentre outras, políticas criminais voltadas exclusivamente à reintegração
do preso na sociedade.
(B) terciária consiste em políticas públicas de conscientização de todos os cidadãos quanto à
importância de se cumprirem as leis, mediante o fornecimento de serviços públicos de qualidade, tais
como saúde, educação e segurança.
(C) geral busca, por meio da pena, intimidar os indivíduos propensos a delinquir, inibindo-os de
transgredir a lei penal.
(D) geral negativa busca, por meio da pena, a reeducação e a ressocialização do criminoso.
(E) primária consiste em, dentre outras, ações policiais de repressão às práticas delituosas.

20. (PC/SP – Desenhista Técnico Pericial – VUNESP/14) A moderna criminologia exige do Estado
Democrático de Direito um controle razoável da criminalidade que, no Brasil, apresenta como sugestão
metodológica eficaz para a pequena e média criminalidade o modelo
(A) de justiça consensual como, por exemplo, a lei dos Juizados Especiais Criminais.
(B) da “tolerância zero”, criminalizando toda e qualquer conduta antissocial.
(C) do “Direito Penal do Inimigo”, desenvolvido pelo alemão Günther Jakobs.

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(D) de “recrudescimento da pena” como, por exemplo, o tráfico de drogas ilícitas, de acordo com a Lei
n.º 11.343/06.
(E) da utilização do Direito Penal como “prima ratio”, evitando desdobramentos mais graves.

21. (PC/SP- Atendente de Necrotério Policial – VUNESP/2013). Para a Criminologia, a prevenção


geral positiva, como uma finalidade da pena, é;
(A) uma espécie de neutralização do autor do delito, por meio de sua segregação carcerária.
(B) também chamada de integradora, pois tem por objetivo a formação e o fortalecimento da
consciência social, mediante o estímulo ao culto dos valores mais caros à comunidade.
(C) uma espécie de neutralização do autor do delito, por meio de medidas que o desestimulem a novas
práticas delitivas.
(D) também chamada de prevenção por intimidação, pois tem por objetivo desestimular o cidadão da
prática de delitos, por meio de aplicação de pena ao infrator da lei.
(E) uma espécie de consequência jurídica pelo comporta-mento inclinado às infrações penais.

22. (PC/SP - Delegado de Polícia – VUNESP/2014). A prevenção criminal que está voltada à
segurança e qualidade de vida, atuando na área da educação, emprego, saúde e moradia, conhecida
universalmente como direitos sociais e que se manifesta a médio e longo prazos, é chamada pela
Criminologia de prevenção
(A) primária.
(B) individual.
(C) secundária.
(D) estrutural.
(E) terciária.

23. (PC/SP – Perito Criminal – VUNESP/14) No tocante à temática da prevenção da infração à lei
penal, é correto afirmar que a prevenção
(A) secundária consiste em, dentre outras, políticas criminais voltadas exclusivamente à reintegração
do preso na sociedade.
(B) terciária consiste em políticas públicas de conscientização de todos os cidadãos quanto à
importância de se cumprirem as leis, mediante o fornecimento de serviços públicos de qualidade, tais
como saúde, educação e segurança.
(C) geral busca, por meio da pena, intimidar os indivíduos propensos a delinquir, inibindo-os de
transgredir a lei penal.
(D) geral negativa busca, por meio da pena, a reeducação e a ressocialização do criminoso.
(E) primária consiste em, dentre outras, ações policiais de repressão às práticas delituosas.

24. (DPE/PR -Defensor Público – NC-UFPR/2014). Na Criminologia, é frequente o debate a respeito


das funções da pena. Segundo a ideia de prevenção especial negativa, a pena teria a função de:
(A) ressocializar o condenado, promovendo sua harmônica integração social.
(B) retribuir proporcionalmente o mal causado pelo delito.
(C) neutralizar ou segregar o condenado do meio social, impedindo-o de cometer novas infrações
penais.
(D) reforçar a confiança da coletividade na vigência da norma, estimulando a fidelidade ao Direito.
(E) intimidar e dissuadir a coletividade, de modo que todos se abstenham da prática de infrações
penais.

Respostas

01. Resposta: A
Direitos Humanos é a concretização das exigências de liberdade, igualdade e dignidade humana, as
quais devem ser reconhecidas nos ordenamentos jurídicos nacionais e internacionais, em cada momento
histórico.
Direitos fundamentais são os direitos humanos reconhecidos positivamente pela ordem constitucional.

02. Resposta: C. Esta correta, conforme item 5 da Declaração de Viena (1993): Todos os direitos
humanos são universais, indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional
deve tratar os direitos humanos de forma global, justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma
ênfase. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração, assim como

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diversos contextos históricos, culturais e religiosos, é dever dos Estados promover e proteger todos os
direitos humanos e liberdades fundamentais, sejam quais forem seus sistemas políticos, econômicos e
culturais.

03. Resposta: D. Conforme art. 5º, §2º, CF: os direitos e garantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais
em que a República Federativa do Brasil seja parte.

04. Resposta: D. A imprescritibilidade é uma das características dos direitos fundamentais, significa
dizer que esse direito não prescreve com o não uso e pelo discurso do tempo.

05. Resposta: Errada. Não é hierarquia entre os direitos humanos e sim uma complementariedade.

06. Resposta: D. O princípio da proibição do retrocesso é uma das características dos direitos
humanos, portanto, no caso dos direitos sociais a proibição do retrocesso social visa a impedir que o
legislador venha a extinguir direito já garantido pela norma constitucional.



07. Resposta: D. Quando os direitos humanos estão inseridos no ordenamento interno de um Estado
ele leva o nome de direitos fundamentais, porém quando ainda estiver na esfera do direito internacional,
como num tratado internacional ou paco ele mantem o nome de direitos humanos é sinônimo de direitos
humanos.

08. Resposta: B. Esta incorreta. Os direitos de primeira geração que defluem da influência do
liberalismo, voltando-se ao indivíduo, como o direito a liberdade, direito à vida, direito à propriedade.

09. Resposta: B. Conforme Paulo Bonavides o termo “gerações” remete a ideia de que uma geração
sobrepõe-se a outra, onde a anterior deixaria de existir. Contudo, essa ideia não é correta, pois elas
nascem para se complementarem. Neste contexto, o mais correto seria utilizar o termo “dimensões”, onde
nasce a ideia de interpendência e indivisibilidade existente.

10. Resposta:A. Entre tantas características dos direitos humanos podemos citar: a)
imprescritibilidade; b) inalienabilidade; c) irrenunciabilidade; d) inviolabilidade; e) universalidade; f)
efetividade; g) interdependência; h) complementariedade; f) historicidade etc.

11. Resposta: D. Conforme ensina Flávia Piovesan "...internacionalização dos direitos humanos, que
constitui um movimento extremamente recente na história, surgindo a partir do Pós-Guerra, como
resposta às atrocidades e aos horrores cometidos durante o nazismo".

12. Resposta: C. O direito a Liberdade pertence aos direitos de 1ª dimensão. Possui como marco
histórico a Revolução Francesa e a Revolução norte-americana, ocorridas no final do século XVIII. É a
busca pela não intervenção do Estado, tratado assim como direitos negativos, por afasta o Estado do
indivíduo.

13. Resposta: B. De Acordo com a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de


Genocídio, art. 2º, alínea d: “medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo”;

14. Resposta: D. Paulo Bonavides deslocou o direitos a paz da 3ª geração para a 5ª, por compreender
ser a paz assunto de suma importância na atualidade, principalmente após o atentado de 11 de setembro
nos EUA.

15. Resposta: C. Uma das características dos direitos humanos é a sua relatividade, onde por não
serem absolutos devem ser sempre ponderados quando houver um conflito entre direitos humanos.

16. Resposta: E. A CF/88 contempla uma vasta proteção de direitos civis, políticos, econômicos,
sociais, culturais, além do pelo princípio da prevalência dos Direitos Humanos, contido em seu art. 4º, II.
O Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), por sua vez, amparado pela CF/88, tem por
finalidade identificar as principais limitações, com intuito proteger os direitos humanos no território
nacional, elegendo prioridades e apresentando propostas concretas de caráter administrativo, legislativo
e político-cultural que busquem reduzir os graves dificuldades, entre elas as sociais.

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17. Resposta: C. Conforme a redação dada pela EC 45/04 ao §3º do art. 5º, da CF, todo o tratado
internacional de direitos humanos possui caráter de emenda constitucional (ou norma constitucional)
quando aprovado na forma especial que dispõe o §3º.

18. Resposta: B. Previsto expressamente no art. 5º, §3º da CF acrescentado pela EC 45/04.

19. Resposta: C.
A prevenção geral permite que a pena seja dirigida à sociedade, tentando intimidar as pessoas que
queiram cometer crimes, delinquir, como por exemplo com as sanções condenatórias que serão impostas
ao transgressor.

20. Resposta: A.
A Lei Federal nº. 9.099, criada em 26 de setembro de 1995, dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis
e Criminais, e tem como objetivo criar nova forma de aplicação da Justiça no sistema penal brasileiro,
pois através desta lei surge um novo modelo de Justiça Criminal, o qual é baseado no consenso.
A lei em comento veio introduzir no nosso ordenamento jurídico, medidas despenalizadoras, forma
consensual de resolução de conflitos, uma Justiça mais célere, mais simples, e também maior acesso à
Justiça.

21. Resposta: B
A prevenção geral da pena pode ser estudada sob dois ângulos: negativo e positivo.
Segundo Nestor Sampaio Penteado Filho, em sua obra Manual Esquemático de criminologia
Pela prevenção geral negativa (prevenção por intimidação), a pena aplicada ao autor do delito reflete
na comunidade, levando os demais membros do grupo social, ao observar a condenação, a repensar
antes da prática delituosa.
A prevenção geral positiva ou integradora direciona-se a atingir a consciência geral, incutindo a
necessidade de respeito aos valores mais importantes da comunidade e, por conseguinte, à ordem
jurídica.

22. Resposta: A
A prevenção primária é uma ação indireta ao delito, que vai na raiz do conflito antes que o crime
aumente ainda mais, obrigando o Estado a criar os direitos sociais, através dos instrumentos
constitucionais e legais. Geralmente, estas ações são onerosas, com reflexo a médio e longo prazo.

23. Resposta: C.
A prevenção geral permite que a pena seja dirigida à sociedade, tentando intimidar as pessoas que
queiram cometer crimes, delinquir, como por exemplo com as sanções condenatórias que serão impostas
ao transgressor.

24. Resposta: C
Prevenção Especial: Procura evitar que o delinquente volte a cometer delitos.
Prevenção Especial Negativa: Neutralização do criminoso através da prisão, enquanto estiver preso o
criminoso não volta a delinquir;
Prevenção Especial Positiva: Evita que o criminoso volte a delinquir por meio da reinserção social,
ressocialização do delinquente.
Prevenção Geral: Procura evitar que os delitos sejam cometidos, controle prévio.
Prevenção Geral Negativa: Evita novos crimes em razão da punição prevista;
Prevenção Geral Positiva ou de integração: Tem caráter educativo, demonstra para a sociedade as
consequências do cometimento de um crime.

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