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Estudo de Caracterização Ambiental Geológica e

Geotécnica
ECAGG 5 Report/ Relatório ECAGG 5
Volume 1 –Relatório/ Texto
Tomo I – Sumário Executivo e Capítulos 1 a 6
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA

Frente Ribeirinha Nascente da


Cidade de Almada

Relatório ECAGG 5

Volume 1 – Relatório /Texto

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Trabalho/Proposta Nº: JRB0420 Refª do Documento: ECAGG_5

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Entrega à Câmara Municipal de


0 AR/JES/DLB ICB
Almada
ALF
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Relatório ECAGG 5

Volume 1- Relatório/Texto

Tomo I – Sumário Executivo e Capítulos 1 a 6

Sumário Executivo........................................................................................................................ 1
1 Introdução ............................................................................................................................. 21
2 Directrizes seguidas e estratégias de investigação...................................................... 23
2.1 Introdução............................................................................................................................................23
2.2 Estratégias de investigação e avaliação............................................................................................23
2.3 Princípios da análise de risco.............................................................................................................24
2.4 Normas adoptadas e documentos de referência..............................................................................25
2.5 Directrizes OMEE................................................................................................................................25
2.6 Avaliação de acordo com a Abordagem OMEE ‘Genérica’..............................................................26
2.7 Abordagem OMEE ‘Site Specific Risk Assessment’.........................................................................27
2.8 Environmental due diligence ..............................................................................................................28
2.9 Desk study da Área de Intervenção...................................................................................................28
3 Historial da Área de Intervenção....................................................................................... 29
3.1 Enquadramento...................................................................................................................................29
3.2 O estaleiro da Margueira ....................................................................................................................30
4 Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção........................................ 35
4.1 Introdução............................................................................................................................................35
4.2 Área de Intervenção............................................................................................................................36
4.2.1 Características físicas.........................................................................................................................36
4.2.2 Geologia, tectónica e sismicidade......................................................................................................44
4.2.3 Qualidade do ambiente.......................................................................................................................63
4.3 Área do estaleiro.................................................................................................................................67
4.3.1 Conquista de terrenos ao rio e trabalhos de construção..................................................................67
4.3.2 Condições de exploração actuais ......................................................................................................73
5 Principais Potenciais Fontes de Poluição - área do estaleiro.................................... 75
5.1 Introdução............................................................................................................................................75
5.2 Caracterização da área do estaleiro..................................................................................................77
5.2.1 Informação base sobre emissões de poluentes em estaleiros navais ............................................77
5.2.2 Descrição das principais actividades/processos que decorreram no estaleiro da Lisnave............78
5.2.3 Principais áreas de operação.............................................................................................................82
5.2.4 Principais fontes de poluição potencial (tipologia e escala) .............................................................83
5.3 Relatórios ambientais existentes .......................................................................................................90
5.3.1 Relatório “Caracterização da Situação Ambiental, Lisnave – Estaleiros Navais, SA em
Mitrena, Setúbal, e Viana do Castelo”...............................................................................................90
5.3.2 Relatório “Contaminação do Solo e Riscos Ambientais no Estaleiro Naval da Margueira” ...........90
5.4 Referências .........................................................................................................................................92
6 Principais Potenciais Fontes de Contaminação – áreas exteriores ao
estaleiro ................................................................................................................................. 93
6.1 Introdução............................................................................................................................................93
6.2 Descrição da área...............................................................................................................................93

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Tomo II – Capítulos 7 a 21

7 Investigação intrusiva, amostragem e análises............................................................. 98


7.1 Introdução............................................................................................................................................98
7.2 Base da estratégia de investigação...................................................................................................98
7.3 Técnicas de amostragem e equipamento .......................................................................................100
7.3.1 Descrição genérica das técnicas .....................................................................................................100
7.3.2 Descrição detalhada das técnicas ...................................................................................................100
7.4 Supervisão dos trabalhos de campo................................................................................................107
7.5 Controlo de qualidade dos trabalhos de campo..............................................................................108
7.6 Infraestruturas em serviço................................................................................................................109
7.7 Implementação da estratégia de investigação................................................................................110
7.7.1 Introdução..........................................................................................................................................110
7.7.2 Amostragem de solos superficiais ...................................................................................................113
7.7.3 Amostragem de solos .......................................................................................................................117
7.7.4 Amostragem de águas subterrâneas...............................................................................................118
7.7.5 Amostragem de sedimentos.............................................................................................................119
7.8 Determinações analíticas .................................................................................................................119
7.8.1 Análises aos solos ............................................................................................................................120
7.8.2 Análises às águas subterrâneas ......................................................................................................121
7.8.3 Análise de sedimentos......................................................................................................................122
7.8.4 Análises aos lixiviados......................................................................................................................122
7.8.5 Laboratórios.......................................................................................................................................123
7.9 Garantia e Controlo de Qualidade (QA/QC) Laboratorial...............................................................125
8 Resultados das Determinações Analíticas...................................................................126
8.1 Introdução..........................................................................................................................................126
8.2 Resultados das Análises aos Solos Superficiais ............................................................................126
8.2.1 Fase 1 – Resultados das análise químicas aos solos superficiais (SS1 – SS8) ..........................127
8.2.2 Resultados das análises granulómetricas dos solos superficiais ..................................................129
8.2.3 Resultados da fracção inalável dos solos superficiais....................................................................130
8.2.4 Fase 2 – Resultados das análises de solos superficiais ...............................................................131
8.3 Resultados das análises dos solos..................................................................................................132
8.3.1 Resultados das análises químicas...................................................................................................132
8.3.2 Resultados da análise granulométrica dos solos............................................................................150
8.3.3 Resultados das análises microbiológicas........................................................................................152
8.3.4 Resultados da identificação de amianto ..........................................................................................153
8.4 Resultados das águas subterrâneas ...............................................................................................154
8.4.1 Resultados da Fase 1 de Monitorização de Águas Subterrâneas.................................................154
8.4.2 Monitorização Adicional de Águas Subterrâneas (24 de Julho de 2003)......................................157
8.4.3 Resultados da Fase 2 de Monitorização das Águas Subterrâneas...............................................158
8.5 Resultados do Controlo de Qualidade.............................................................................................161
8.5.1 Controlo de Qualidade das Amostras de Campo............................................................................161
8.5.2 Exercícios de verificação..................................................................................................................163
8.6 Controlo de Qualidade Analítica Laboratorial..................................................................................164
8.6.1 Alcontrol Geochem Limited ..............................................................................................................164
8.6.2 Mountainheath Services Limited......................................................................................................165
8.6.3 Chemex International Limited...........................................................................................................165
8.6.4 Resumo do Controlo de Qualidade Analítica..................................................................................165
9 Análise Fonte - Via de Exposição -Receptor (FVR) e Modelos Conceptuais
Locais...................................................................................................................................166
9.1 A abordagem Fonte-Via de Exposição-Receptor............................................................................166
9.2 Modelos Conceptuais Locais ...........................................................................................................167
9.2.1 Fontes................................................................................................................................................167
9.2.2 Vias de exposição.............................................................................................................................168
9.2.3 Receptores ........................................................................................................................................168
9.2.4 Desenvolvimento de Modelos Conceptuais Locais (MCLs)...........................................................169
9.2.5 Modelo Conceptual Local 1: Utilização Actual (MCL 1)..................................................................174
9.2.6 Modelo Conceptual do Local 2: Demolição e Construção (MCL 2)...............................................176
9.2.7 Modelo Conceptual Local 3: Local após desenvolvimento urbanístico (MCL 3)...........................178
9.3 Valores genéricos das directrizes de Ontário..................................................................................180

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9.4 Análise dos riscos para a saúde humana........................................................................................182


9.4.1 Vias de exposição de contacto directo ............................................................................................182
9.4.2 Exposição a vapores no ar do interior de edifícios .........................................................................183
9.4.3 Água para Consumo Humano..........................................................................................................184
9.5 Avaliação do risco ecológico............................................................................................................184
9.5.1 Solos..................................................................................................................................................184
9.5.2 Águas subterrâneas..........................................................................................................................184
9.6 Comparação das ‘ligações poluentes’ específicas do local com as normas genéricas de
Ontário ...............................................................................................................................................185
9.6.1 Modelo Conceptual do Local 1: Utilização Actual...........................................................................186
9.6.2 Modelo Conceptual de Local – 2: Demolição e Construção ..........................................................187
9.6.3 Modelo Conceptual do Local 3: Local após desenvolvimento .......................................................187
9.7 Abordagem por níveis na análise de risco ......................................................................................188
10 Análise de Risco de Nível 1 .............................................................................................189
10.1 Introdução..........................................................................................................................................189
10.2 Solos superficiais (<0,20 mans).......................................................................................................203
10.3 Resultados dos Solos .......................................................................................................................204
10.3.1 Zonas de Deposição de Resíduos...................................................................................................204
10.3.2 Zonas de Soldadura..........................................................................................................................205
10.3.3 Zonas de Oficinas .............................................................................................................................206
10.3.4 Zonas de Produção de Energia .......................................................................................................206
10.3.5 Zonas de Armazenamento ...............................................................................................................207
10.3.6 Zonas de Granalha ...........................................................................................................................207
10.4 Águas subterrâneas..........................................................................................................................208
10.4.1 Cobre .................................................................................................................................................208
10.4.2 Chumbo .............................................................................................................................................208
10.4.3 Estanho..............................................................................................................................................208
10.4.4 Mercúrio.............................................................................................................................................209
10.4.5 Tetracloroetileno (PCE)....................................................................................................................210
10.5 Resumo da Análise de Risco de Nível 1 .........................................................................................211
10.5.1 Resumo das excedências de Nível 1 nos solos superficiais..........................................................211
10.5.2 Resumo das excedências de Nível 1 nos solos não superficiais...................................................212
10.5.3 Águas subterrâneas..........................................................................................................................213
11 Análise de Risco Específica de Nível 2 para os Solos ...............................................214
11.1 Introdução..........................................................................................................................................214
11.2 Resumo dos Resultados da Análise de Nível 2..............................................................................215
11.2.1 Chumbo .............................................................................................................................................215
11.2.2 Metais fitotóxicos...............................................................................................................................215
11.2.3 Boro 216
11.2.4 Estanho e compostos organo-metálicos de estanho......................................................................216
11.2.5 Benzo(a)pireno e xilenos..................................................................................................................217
11.2.6 Hidrocarbonetos Totais de Petróleo (TPH) .....................................................................................217
11.2.7 Outros Compostos Orgânicos Voláteis............................................................................................218
11.2.8 Conclusões........................................................................................................................................218
11.3 Desenvolvimento de Valores de Triagem (“Screening Values”) de Nível 2 ..................................218
11.3.1 Compostos Orgânicos Voláteis........................................................................................................218
11.4 Resumo da análise de risco de Nível 2 ...........................................................................................224
11.5 Fundamentação técnica da Análise de Nível 2...............................................................................226
11.5.1 Introdução..........................................................................................................................................226
11.5.2 Metais e Compostos e Compostos Organo-Metálicos de Estanho ...............................................226
11.5.3 Contaminantes Orgânicos................................................................................................................236
11.6 Referências bibliográficas ................................................................................................................240
12 – Análise de Risco Específica de Nível 2 Para as Águas Subterrâneas e
Superficiais .........................................................................................................................242
12.1 Introdução..........................................................................................................................................242
12.2 Caracterização do Aquífero..............................................................................................................242
12.2.1 Hidroquímica .....................................................................................................................................242
12.2.2 Influência da Maré.............................................................................................................................243
12.3 Análise de Nível 2 .............................................................................................................................247
12.3.1 Contaminantes inorgânicos..............................................................................................................248
12.3.2 Contaminantes Orgânicos................................................................................................................249

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12.4 Resumo .............................................................................................................................................251


12.5 Referências bibliográficas ................................................................................................................252
13 Avaliação específica do local relativamente a outras ligações FVR .......................253
13.1 Introdução..........................................................................................................................................253
13.2 Inalação de poeiras por trabalhadores no local e por utilizadores fora do local...........................253
13.3 Análise de risco específica devido à inalação de poeiras por trabalhadores locais .....................254
13.3.1 Metodologia.......................................................................................................................................255
13.3.2 Identificação de perigos....................................................................................................................255
13.3.3 Avaliação da exposição....................................................................................................................256
13.3.4 Avaliação de toxicidade....................................................................................................................256
13.3.5 Resultados.........................................................................................................................................257
13.3.6 Conclusões........................................................................................................................................259
13.4 Avaliação de ligações FVR relacionadas com os materiais de construção ..................................259
13.4.1 Betão..................................................................................................................................................260
13.4.2 Aço 260
13.5 Riscos para sedimentos fora do local..............................................................................................260
13.5.1 Migração de soluto............................................................................................................................261
13.5.2 Arrastamento de partículas ..............................................................................................................261
13.6 Ingestão de produtos hortícolas cultivados no local por residentes locais....................................261
13.6.1 Chumbo .............................................................................................................................................262
13.6.2 Cádmio ..............................................................................................................................................262
13.6.3 Resumo .............................................................................................................................................263
13.7 Ingestão e contacto da pele com as águas subterrâneas durante os trabalhos de
demolição e construção....................................................................................................................263
13.8 Referências .......................................................................................................................................263
14 Resumo da análise de risco relativa à contaminação na zona do estaleiro ..........265
14.1 Introdução..........................................................................................................................................265
14.2 Resumo dos riscos inaceitáveis.......................................................................................................265
14.3 Granalha ............................................................................................................................................266
15 Gestão de Perigos Ambientais........................................................................................270
15.1 Perigos Ambientais ...........................................................................................................................270
16 Implicações em termos de engenharia..........................................................................272
16.1 Introdução..........................................................................................................................................272
16.2 Obras de engenharia ........................................................................................................................272
16.2.1 Docas e paredões ribeirinhos...........................................................................................................274
16.2.2 Fundações.........................................................................................................................................274
16.3 Critérios de dimensionamento das novas estruturas......................................................................274
16.4 Protecção dos novos materiais de construção utilizados no sub-solo ..........................................275
17 Potenciais impactes devido à contaminação fora da zona do estaleiro.................276
17.1 Introdução..........................................................................................................................................276
17.2 Migração aérea de granalha para fora dos limites do estaleiro durante o período de
actividade da Lisnave .......................................................................................................................276
17.2.1 Concentrações máximas aceitáveis de contaminantes nas hortas ...............................................277
17.2.2 Taxa máxima de deposição de poeiras considerada para que as concentrações de
metais nos solos das hortas permaneçam a nível aceitáveis ........................................................279
17.2.3 Comparação com concentrações com potencial para criar situações de incómodo para
a comunidade....................................................................................................................................281
17.2.4 Resumo dos efeitos históricos da migração de poeiras de granalha para fora dos limites
do estaleiro........................................................................................................................................281
17.3 Migração da granalha para fora da área do estaleiro através de fenómenos de
“lavagem” a partir das docas e do sistema de bombagem.............................................................282
17.4 Referências .......................................................................................................................................282
18 Classificação dos resíduos e critérios de aceitabilidade em aterros......................284
18.1 Introdução..........................................................................................................................................284
18.1.1 Definição de Resíduos......................................................................................................................284
18.1.2 Reutilização de materiais .................................................................................................................284
18.1.3 Critérios .............................................................................................................................................285
18.2 Directiva de Resíduos Perigosos.....................................................................................................286
18.2.1 Normas Portuguesas de Classificação de Resíduos......................................................................286
18.2.2 Critérios de classificação de resíduos na EU..................................................................................286

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18.3 Critérios de aceitação de resíduos ..................................................................................................286


18.3.1 Critérios Portugueses relativos à aceitação de resíduos ...............................................................287
18.3.2 Critérios de aceitação de resíduos na UE .......................................................................................287
19 Identificação e Selecção das Opções de Remediação...............................................292
19.1 Introdução..........................................................................................................................................292
19.2 Gestão de Riscos..............................................................................................................................292
19.3 Identificação das opções de remediação possíveis........................................................................292
19.4 Selecção das opções de remediação viáveis .................................................................................293
19.5 Resumo da análise das opções de remediação .............................................................................294
19.6 Selecção das opções de remediação viáveis .................................................................................302
19.6.1 Deposição fora do local de estaleiro (off site).................................................................................302
19.6.2 Sistema de barreiras de protecção..................................................................................................303
19.6.3 Confinamento no local......................................................................................................................307
19.6.4 Tecnologias de tratamento de solos................................................................................................307
19.7 Implicações dos cenários de ocupação para as opções de remediação ......................................307
20 Principais Oportunidades e Condicionantes................................................................308
20.1 Introdução..........................................................................................................................................308
20.2 Oportunidades versus Condicionantes............................................................................................308
20.3 Considerações associadas ao desenvolvimento ............................................................................309
20.3.1 Docas e pontões ...............................................................................................................................309
20.3.2 Ligações viárias.................................................................................................................................310
20.3.3 Zonamento do local ..........................................................................................................................311
20.3.4 Desenvolvimento inicial ....................................................................................................................311
20.3.5 Massa de edificação .........................................................................................................................312
21 Conclusões .........................................................................................................................313
21.1 Estaleiro.............................................................................................................................................313
21.1.1 Contaminação de solos e de águas subterrâneas..........................................................................313
21.1.2 Gestão de Perigos Ambientais.........................................................................................................313
21.1.3 Aspectos de Engenharia...................................................................................................................314
21.1.4 Classificação de Resíduos ...............................................................................................................314
21.1.5 Opções de Remediação ...................................................................................................................314
21.2 Restante Área de Intervenção..........................................................................................................315

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LISTA DE FIGURAS

Figura S1 – Condicionantes: geologia e geotecnia

Figura S2 – Condicionantes: principais estruturas na área do estaleiro

Figura S3 – Condicionantes: contaminação de solos e sedimentos

Figura 3.1 – Evolução da ocupação industrial na Área de Intervenção (AI)

Figura 3.2 – Fotografia aérea do Estaleiro da Lisnave

Figura 3.3 – Fotografias aéreas do Estaleiro da Lisnave (1958 – 2003)

Figura 4.1 – Hipsometria e declives na AI

Figura 4.2 – Carta hidrográfica da AI (1999 e 1932)

Figura 4.3 – Regime de marés

Figura 4.4 – Correntes em situações de preia-mar e baixa-mar

Figura A.1 a A.8 – Perfis geológicos

Figura 4.5 – Formações geológicas (Mapa Geológico de Lisboa)

Figura 4.6 – Falhas activas e intensidade sísmica

Figura 4.7 – Evolução da Área de Intervenção

Figura 4.8 – Evolução dos trabalhos de aterro na AI

Figura 7.1 – Localização de zonas de amostragem de solos superficiais

Figura 8.1 – Contaminação superficial por granalha

Figura 9.1 – Modelo conceptual local: uso actual

Figura 9.2 – Modelo conceptual local: demolição+ construção

Figura 9.3 – Modelo conceptual local: situação final

Figura 10.1 – Contaminação do solo por arsénio

Figura 10.2 – Contaminação do solo por cobre

Figura 10.3 – Contaminação do solo por chumbo

Figura 10.4 – Contaminação do solo por compostos organo-metálicos de chumbo

Figura 10.5 – Contaminação do solo por zinco

Figura 10.6 – Contaminação do solo por boro

Figura 10.7 – Contaminação do solo por hidrocarbonetos totais de petróleo

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Figura 10.8 – Contaminação do solo por compostos orgânicos voláteis

Figura 10.9 – Contaminação do solo por hidrocarbonetos aromáticos policíclicos

Figura 10.10 – Concentração de poluentes nas águas subterrâneas acima dos


valores guia utilizados para a análise de risco de Nível 1

Figura 10.11 – Concentrações de tetracloroetileno (PCE) nas águas subterrâneas


nas amostras recolhidas nas 1ª e 2ª Fases

Figura 12.1 – Diagrama Piper para os resultados das amostras de águas


subterrâneas (Fase 1 dos trabalhos de campo)

Figura 12.2 – Registos dos níveis dos dataloggers da Fase 1 e da Fase 2, metros
acima do nível médio das águas do mar

Figura 14.1 – Tipos de revestimentos na área do Estaleiro da Lisnave

Figura 14.2 – Estimativa do volume de solos que representa riscos


potencialmente inaceitáveis

Figura 16.1 – Principais restrições físicas/engenharia

Figura 19.1 - Exemplos de sistemas de barreiras aplicáveis na protecção de áreas


plantadas, áreas de serviços e áreas construídas, relativamente aos solos
contaminados

Figura 19.2 – Exemplos de sistemas de barreiras aplicáveis na protecção de


árvores e plantas, relativamente aos solos contaminados.

LISTA DE DESENHOS

Desenho 1 – Localização das sondagens e perfis geológicos

Desenho 2 – Profundidade do topo do substrato miocénico

Desenho 3 – Actividades históricas na zona do estaleiro

Desenho 4 – Sistema de drenagem

Desenho 5 – Potenciais fontes de contaminação na área exterior ao estaleiro

Desenho 6 – Localização dos pontos de amostragem

Desenho 7 – Localização dos pontos de recolha de amostras de sedimentos

Desenho 8 – Localização dos pontos de amostragem/actividades históricas no


estaleiro

Desenho 9 – Estruturas dos cais

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Volume 2 - Anexos

Tomo I – Anexos 1 a 8

Anexo 1: Valores Guia para Utilização em Sítios Contaminados em Ontário

Anexo 2: Valores de Intervenção publicados pelo Governo Holandês VROM


2000 Guidelines

Anexo 3: Resumo das Características do Estaleiro e do Potencial de


Contaminação

Anexo 4: Utilizações com Potencial de Contaminação dentro da AI, na Zona


Exterior ao Estaleiro

Anexo 5: Detalhes do Processo de Desenvolvimento dos Piezómetros,


Medição dos Níveis Piezométricos, Purga e Amostragem

Anexo 6: Detalhes do Equipamento Utilizado (Informação do Fabricante)

Anexo 7: Certificado de Calibração do PID e Registo de Calibração das


Sondas de Monitorização da Qualidade da Água Subterrânea

Anexo 8: Registos das Formações Atravessadas - Exploratory logs

Tomo II – Anexos 9 a 26

Anexo 9: Folhas do Diário Local

Anexo 10: Coordenadas dos Pontos de Amostragem

Anexo 11: Resumo dos resultados do controlo de qualidade das amostras, feito
no local

Anexo 12: Resumo dos Resultados Químicos

Anexo 13: Composição Química da Granalha (exemplo)

Anexo 14: Resultados das análises granulométricas e químicas nas amostras


superficiais

Anexo 15: Resultados da análise química da fracção inálavel presente nos


solos superficiais

Anexo 16: Lista de COV (VOC target list)

Anexo 17: Resultados das análises granulométricas às amostras de solos

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Anexo 18: Resumo das amostragens de solos e dos exercícios de verificação

Anexo 19: Normas inglesas para a classificação do betão - UK Building


Research Establishment (BRE) Guidelines for classification of
concrete

Anexo 20: Folhas de cálculo actualizadas - OMME Rationale Document

Anexo 21: Identificação da extensão visível de granalha

Anexo 22: Resultados dos testes feitos à granalha pela Quimiparque

Anexo 23: Cálculo da Taxa Aceitável de Deposição de Poeiras em solos de


hortas urbanas situadas fora da zona do estaleiro

Anexo 24: Decreto-Lei nº 152/2002

Anexo 25: Informação acerca de Tecnologias de Remediação

Anexo 26: Resultados das amostras de sedimentos e normas

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Relatório ECAGG 5
Introdução

Sumário Executivo

A. Introdução e objectivos
O ECAGG (Estudo de Caracterização Ambiental, Geológica e Geotécnica) foi adjudicado à
Atkins pela Câmara Municipal de Almada (CMA) em simultâneo com o PU (Plano de
Urbanização) para a Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada, o qual fornecerá
cenários de desenvolvimento do local.

Os objectivos específicos do ECAGG são os seguintes:

o caracterização da área de intervenção sob o ponto de vista da geologia e


geotecnia e, especificamente, caracterização das principais estruturas existentes
na área dos antigos estaleiros da Lisnave

o delineação/quantificação da contaminação existente em solos, águas


subterrâneas e sedimentos;

o identificação e avaliação dos riscos associados a essa contaminação;

o avaliação da importância/relevância desses riscos para o ambiente em geral e,


em particular, para as opções de desenvolvimento do local;

o avaliação das opções de remediação tecnicamente adequadas para gerir os


riscos relevantes e;

o selecção das tecnologias com uma melhor relação custo/benefício para a gestão
dos riscos associados a cada um dos cenários de desenvolvimento.

O presente relatório (designado por ECAGG 5):

o caracteriza a área em estudo (designada por Área de Intervenção);

o caracteriza o enquadramento geológico e as questões geotécnicas

o descreve o trabalho de campo e o trabalho laboratorial desenvolvido no estudo;

o identifica a natureza e o significado da contaminação detectada e as


características físicas existentes dentro da Área de Intervenção, no contexto do
seu potencial desenvolvimento;

o apresenta os modelos conceptuais utilizados para a análise de risco e seus


resultados; e

o apresenta as opções de remediação consideradas como as que melhor se


adequam às condições locais.

Num relatório separado, ECAGG 6, efectuar-se-á uma análise de custo-benefício e definir-


se-á a estratégia de remediação para cada um dos cenários de ocupação gerados pelo
PU.

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Relatório ECAGG 5
Introdução

B. Estratégia do estudo
A estratégia genérica seguida pelo ECAGG baseou-se na seguinte sequência de
actividades

o Caracterização da história da ocupação industrial da Área de Intervenção,


identificando as actividades que aí se desenvolveram e avaliando o respectivo
potencial para causar contaminação dos solos e das águas subterrâneas.

o Caracterização, recorrendo à informação existente e a observações locais, das


condições físicas dos terrenos, quer à superfície, quer em profundidade, incluindo
os regimes de águas superficiais e subterrâneas.

o Identificação e caracterização das principais estruturas de engenharia presentes


na área do estaleiro, por forma a avaliar potenciais implicações no
desenvolvimento do local.

o Identificação dos tipos, localizações e natureza dos potenciais “receptores”, ou


alvos (quer no interior da Área de Intervenção, quer no exterior) que possam vir a
ser afectados pelas condições de contaminação existentes.

o Formulação de uma série de hipóteses quanto à natureza e localizações da


contaminação relevante, para construção de uma série de Modelos Conceptuais
Locais.

o Elaboração e implementação de um programa de investigações intrusivas de


solos e águas subterrâneas dentro da área do antigo estaleiro da Margueira,
incluindo a selecção dos parâmetros químicos e físicos relevantes, cujos
resultados foram, posteriormente, utilizados nas análises de risco efectuadas.

o Realização de análises de risco (por “Níveis”) segundo procedimentos, normas e


critérios pré-definidos (ver abaixo), iniciando-se com uma análise mais abrangente
para avaliar, de uma forma genérica, a natureza da contaminação e o
cumprimento dos critérios seleccionados; e

o Identificação de medidas, quer para eliminar, quer para mitigar os riscos


relevantes até um nível aceitável.

C. História industrial e contexto ambiental na Área de


Intervenção
História da ocupação industrial da Área de Intervenção

A ocupação industrial da frente ribeirinha de Almada, entre Cacilhas and Cova da Piedade,
data do século XIX, quando se iniciou a construção das primeiras unidades industriais,
incluindo a indústria da moagem metalurgia do ferro, corticeiras e conserveiras. A
disponibilidade de terrenos baratos e de águas profundas e calmas forneceu excelentes
condições de ancoragem e foram factores cruciais para o desenvolvimento industrial da
área.

A introdução da indústria pesada, essencialmente actividades de construção e reparação


naval, alterou definitivamente a paisagem desta zona e causou um novo surto de
crescimento urbano. No início dos anos 60 iniciou-se a construção dos estaleiros navais da

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Relatório ECAGG 5
Introdução

Lisnave na Margueira, com o aterro contínuo das baías da Margueira e da Mutela. O


estaleiro da Lisnave foi inaugurado em 1967.

Com o declínio da indústria corticeira, que ocorre mais marcadamente nos anos 50, e da
indústria da moagem, nos anos 80, a área da Mutela, Caramujo e Romeira começa
progressivamente a decair até ao abandono total das fábricas, já no século XX. O recente
encerramento dos estaleiros da Lisnave na Margueira representou o fim da indústria
pesada em Almada.

Dentro da área do antigo estaleiro da Margueira, o principal material contaminante que se


encontra presente é constituído pelos resíduos de granalha. As actividades de decapagem
foram fundamentais no processo de reparação naval e, em termos genéricos, envolviam
uma lavagem a alta pressão e abrasão com projecção de granalha. A granalha utilizada no
estaleiro da Lisnave era proveniente, essencialmente, da companhia de minas de Rio Tinto
(Huelva) e consistia em escória do cobre. A granalha era armazenada numa área aberta,
localizada no limite sul do estaleiro. Embora a maioria da granalha usada ou batida tivesse
sido removida do fundo das docas e armazenada temporariamente no local antes de ser
conduzida a destino final, permanecem no local quantidades consideráveis deste material.

Contexto ambiental

A Área de Intervenção encontra-se contida a Oeste e a Sul por encostas com altitudes que
chegam a atingir os 91 metros. A Este, a área é delimitada pelo rio Tejo, facto que confere
uma grande amplitude visual e fisiográfica ao espaço. A área ocupada pelo antigo estaleiro
da Margueira é efectivamente plana. As cotas mais altas surgem na zona Noroeste da
Área de Intervenção, onde se desenvolve uma encosta, com declives quase sempre
superiores a 25%.

O uso do solo na AI apresenta-se bastante diversificado. Os usos industriais (antigos e


actuais) representam uma percentagem elevada relativamente aos valores totais. A área
do estaleiro da Margueira representa a maior zona de ocupação industrial, com cerca de
40% do total da AI. Em 2001 a AI tinha uma população residente de cerca de 6000
habitantes, localizados predominantemente nas áreas noroeste e sul (a zona do antigo
estaleiro não regista a presença de população).

O local é dominado pelo estuário do rio Tejo, sob a influência da maré, que apresenta, na
secção que liga Cacilha-Santos, uma largura de cerca de 2km, uma profundidade média
superior a 20m e uma profundidade máxima de 45m. A amplitude da maré varia entre
cerca de 3-4m.

A sequência geológica genérica existente na Área de Intervenção é a seguinte

o Aterros - a zona do antigo estaleiro da Margueira está localizada numa área que
foi conquistada ao rio Tejo, na sua maioria através da execução de aterros
formados por materiais de diversas proveniências e idades, a profundidades que
podem atingir aproximadamente 10m; estas areias, bombadas directamente do
leito do rio, podem sofrer fenómenos de liquefacção no caso de ocorrência de um
sismo intenso.

o Aluviões – materiais diversos (lodos, areias e cascalheira) que se encontram


presentes entre os aterros e o firme. Na zona da vala do Caramujo a espessura
de aluviões pode ultrapassar os 30m.

o Formações miocénicas – formações que podem estar presentes à superfície (na


zona do morro) mas que, na zona de implantação do estaleiro, o topo dessas
formações pode ser encontrado a profundidades de aproximadamente 10m
abaixo do nível do solo ou mais.

Uma das implicações da existência da estrutura geológica acima descrita prende-se com o
facto de todas as estruturas significativas existentes no local se encontrarem fundadas no
substrato rochoso do Miocénico, por estacas.

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Relatório ECAGG 5
Introdução

O estaleiro da Lisnave inclui uma série de estruturas bastante importantes, como sejam as
4 docas secas, das quais a mais pequena tem um comprimento de 268 m e a maior, Doca
13, mede 520m de comprimento. Outro aspecto relevante prende-se com a existência de
mais de 1600m de cais.

D. Investigação intrusiva, amostragem e análise


Foi realizada uma avaliação das condições ambientais genéricas existentes na totalidade
da Área de Intervenção, tendo apenas sido realizadas investigações intrusivas, incluindo
recolha e análise de amostras de solos e águas subterrâneas, na zona correspondente ao
antigo estaleiro da Lisnave.

As investigações intrusivas foram realizadas em duas fases, durante Abril de 2003 e


Setembro de 2003, respectivamente, e envolveram o recurso a uma variedade de técnicas
de exploração, executadas por pessoal técnico experimentado e supervisionado por
técnicos da Atkins com qualificações na área do ambiente.

Todo o trabalho de campo foi conduzido de acordo com as melhores práticas ambientais e
os procedimentos de controlo da qualidade internacionalmente aceites.

A localização dos pontos de amostragem baseou-se numa revisão detalhada dos usos
históricos do local dentro da zona do estaleiro, por forma a integrar todas as áreas
potencialmente contaminadas no âmbito da investigação. Em resultado deste exercício a
área do estaleiro foi dividida nas seguintes sub-áreas, com base nos anteriores usos do
solo:

o Oficinas;

o Zonas de deposição de resíduos (sobreposto com algumas outras


funções);

o Granalha (zona de lavagem, de utilização e de armazenamento);

o Planos de Soldadura;

o Armazenamento (quaisquer materiais);

o Produção de energia (subestações e compressores);

o Escritórios.

Foram recolhidas e analisadas 328 amostras de solos sub-superficiais, 65 amostras de


águas subterrâneas e 16 amostras de sedimentos. Todas as análises químicas foram
efectuadas no Reino Unido por laboratórios acreditados pelo UKAS/ISO 17025. As
análises químicas incluíram uma vasta gama de contaminantes orgânicos e inorgânicos,
consistentes com os usos anteriores do local.

E. Avaliação do risco associado à contaminação do


solo
Critérios de Avaliação da Contaminação

Na elaboração, planeamento e implementação do ECAGG os principais documentos de


referência são constituídos pelo conjunto de normas publicado pelo Ontario Ministry of
Environment and Energy (OMEE).

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Relatório ECAGG 5
Introdução

Estas normas, que foram especificamente recomendadas pelo Instituto dos Resíduos,
foram preparadas para utilização em casos onde os proprietários dos locais contaminados
pretendem descontaminar os mesmos e/ou requalificar esses locais contaminados, em
Ontário. Desta forma, as directrizes estabelecidas neste documento são orientadas para a
assistência aos proprietários na tomada de decisões relativamente à qualidade dos solos
e/ou das águas subterrâneas e à avaliação das condições ambientais da propriedade, por
forma a determinar a necessidade de implementar medidas de remediação e, se requerido,
avaliar o grau adequado dessa remediação.

Embora a grande maioria dos contaminantes que podem estar associados à zona do
estaleiro estejam incluídos nas directrizes OMEE, existe um pequeno número de
contaminantes que não estão cobertos por essas directrizes. Para esses casos recorreu-se
às directrizes holandesas – Dutch Government VROM 2000 Guidelines. A utilização destas
normas alternativas é consistente com as sugestões feitas nas próprias normas OMEE

Como nem as normas OMEE nem as holandesas consideram a avaliação de potenciais


impactes de solos e águas subterrâneas contaminadas nos materiais de construção, foram
consultadas outras normas internacionais para avaliar estes aspectos, principalmente as
normas publicadas pelo UK Building Research Establishment ou pela British Standards
Institution.

Avaliação Fonte/Via/Receptor (FVR) e Modelos Conceptuais Locais


(MCL)

A análise de risco levada a cabo para a zona do antigo estaleiro da Margueira estabeleceu
quer o facto de as concentrações de um ou mais químicos presentes no local poderem
causar impactes sobre um receptor particular (ser humano, animal, cultura agrícola,
microrganismos do solo, água superficial ou aquífero), quer o facto de esse impacte poder
ter uma consequência significativa.

Uma das metodologias de avaliação de riscos ambientais mais aceite prende-se com a
avaliação dos potenciais efeitos adversos usando uma análise Fonte/Via /Receptor. Para
existir um risco tem que existir um contaminante capaz de causar perigo, um receptor
sensível à contaminação e uma via que permita que a contaminação existente atinja o
receptor.

O processo de avaliação de risco inicia-se com o desenvolvimento de Modelos


Conceptuais Locais (MCL) que detalham, numa forma esquemática, as fontes de
contaminação que podem estar presentes no local, os potenciais receptores que possam
ser afectados e as vias a ligar os dois. Nos casos onde uma fonte possa realisticamente
afectar um receptor, pode ocorrer uma “ligação” pelo que deverá ser avaliada em detalhe.
Os modelos conceptuais locais podem ser desenvolvidos para um número de cenários,
incluindo condições actuais e/ou futuras. Para o presente trabalho desenvolveram-se três
MCLs, relacionados com:

o o estado actual (abandonado / expectante) do local

o durante o desenvolvimento do local/construção e

o após conclusão do desenvolvimento.

Os três MCLs são apresentados graficamente no relatório, nas Figuras 9.1 a 9.3, do
Capítulo 9.

Uma vez que, à data de elaboração do presente relatório, não existem, ainda, planos
específicos para a ocupação futura do local, o modelo baseado no uso futuro foi construído
tendo por base um número de pressupostos conservativos. Por exemplo, a avaliação de
risco de Nível 1 incluiu casas de habitação de baixa densidade com jardins e a abordagem
de Nível 2 incluiu o consumo de vegetais cultivados no local. Na avaliação de risco também
se assumiu que os jardins não teriam qualquer cobertura (ou meio de crescimento) e que
poderiam ser localizados a qualquer profundidade abaixo dos níveis actuais do solo.

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Relatório ECAGG 5
Introdução

Avaliação de risco por Níveis

A avaliação de risco foi efectuada num determinado número de estágios sequenciais,


referidos como níveis. Os critérios de avaliação de risco de Nível 1, que foram utilizados
para o primeiro estágio da análise de risco são conservativos uma vez que se baseiam nos
riscos mais sensíveis, de entre uma vasta gama de estimativas de risco contributivas (por
exemplo, ingestão de solos, ecotoxicidade e lixiviação para as águas subterrâneas) ou
mesmo concentrações de referência para os solos e para o ar no interior dos edifícios.
Assim sendo, os critérios podem não ser todos directamente aplicáveis à Área de
Intervenção. Consequentemente, onde se registam excedências dos critérios de Nível 1, é
importante perceber os factores chave para o critério que foi excedido e avaliar se os
critérios genéricos de Nível 1 são, ou não, relevantes para as condições específicas do
local.

A revisão de Nível 2 compreende uma análise mais detalhada de quaisquer excedências


identificadas na abordagem de Nível 1. Esta abordagem destina-se particularmente ao
estabelecimento de vias de exposição críticas para qualquer excedência e à justificação de
qualquer modificação ao critério de Nível 1, sempre que os pressupostos possam ser
razoavelmente alterados para reflectir as circunstâncias específicas do local.

Adicionalmente aos processos de avaliação de risco com base em abordagens de Nível 1


e de Nível 2, foram ainda considerados outros riscos potenciais, não cobertos pelo OMEE
ou pelas normas Holandesas. Estes incluem possíveis riscos relativos à durabilidade dos
materiais de construção, riscos associados com a geração de poeiras contaminadas no
local e para fora do local, o consumo de vegetais e fruta cultivados, uma vez ocupado o
local, e os riscos para os sedimentos do rio Tejo nas imediações do local.

Resultados da Análise de Risco de Nível 1

Os resultados da análise de risco inicial, de Nível 1, indicaram excedências para os


seguintes contaminantes nos solos:

o metais pesados (arsénio, boro, cobre, chumbo, estanho e zinco);

o compostos organo-metálicos de estanho;

o hidrocarbonetos totais de petróleo (TPH);

o benzo(a)pireno (um hidrocarboneto poliaromático);

o compostos de benzeno; e

o xilenos.

As excedências de Nível 1 nas águas subterrâneas compreenderam:

o metais pesados (cobre, chumbo, estanho e mercúrio);

o tetracloroetileno (PCE).

No Capítulo 10 do relatório principal apresentam-se as excedências do Nível 1 quer para


solos quer para águas subterrâneas.

Resultados da Análise de Risco de Nível 2


Solos

Na tabela seguinte apresentam-se as principais conclusões da análise de risco de Nível 2


para a contaminação de solos.

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Introdução

Fonte Via de Receptor


Contaminação

Tipo de Contexto físico Características de Via principal Receptor


contaminação perigosidade principal
dominante
A granalha contem
Solos afectados pela Resíduos superficiais de elevadas Ingestão Utilizadores no
granalha: granalha, e granalha concentrações de (solos e local;
entranhada nos solos mais metais tóxicos e plantas locais); ecologia local.
Metais tóxicos e profundos (visualmente compostos organo- Contacto com
compostos organo- observáveis até cerca de metálicos de estanho a pele;
metálicos de 0.7m de prof. e . Exposição
estanho presentes concentrações químicas A granalha usada ou ecológica; e
nos solos. significativas até cerca de batida foi assimilação
3,5m prof.). transportada pelo ar pelas plantas.
e depositada na
zona do estaleiro,
permanecendo solta
e friável nos solos
superficiais

Solos afectados por Concentrações localizadas Odores e potencial Ingestão Utilizadores no


contaminação em redor dos tanques inflamabilidade. (solos locais); local
orgânica enterrados e de tubagem, Tóxico. Contacto com
e possíveis fugas ou Cancerígeno. a pele; e
Hidrocarbonetos derrames de óleo e inalação de
totais de petróleo combustíveis. A presença vapores no ar
(diesel, óleos), de xilenos pode estar do interior de
benzo(a)pireno, e relacionada com usos edifícios
xilenos presentes históricos de solventes e
nos solos de diluentes.
Profundidades até cerca
de 3,9 m.

Tabela S.1 : Resumo dos Riscos Inaceitáveis

A contaminação por metais pesados e por compostos organo-metálicos de estanho em


concentrações inaceitáveis encontra-se, geralmente, associada à presença de granalha. A
maioria da granalha compreende granalha usada, ou batida, que regista uma distribuição
generalizada pela área do estaleiro. Nas zonas do estaleiro que se encontram cobertas
com uma superfície dura (por exemplo lajes de betão) a presença de granalha encontra-se
restringida a uma camada superficial. Contudo, em áreas do local do estaleiro com
superfícies “macias” (como por exemplo, caminhos em betuminoso, gravilha e outras
superfícies não acabadas) a granalha encontra-se misturada com o solo até uma
profundidade máxima de 0,4m. Existem ainda algumas pequenas áreas isoladas, onde a
granalha se misturou com solos até profundidades maiores, até cerca de 1m.

A Figura 14.1 do Capítulo 14 do relatório principal mostra a extensão visível da presença


de granalha no local.

A contaminação por hidrocarbonetos totais de petróleo em concentrações inaceitáveis


encontra-se presente apenas dentro de áreas relativamente pequenas e localizadas,
associadas com a ocorrência de fugas ou derrames de óleos lubrificantes ou combustíveis.
Esta contaminação localizada por hidrocarbonetos foi identificada como ocorrendo a uma
profundidade máxima de cerca de 4m e a uma profundidade média de cerca de 2m.

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Relatório ECAGG 5
Introdução

A Figura 14.2 do Capítulo 14 do relatório principal mostra todos os solos contaminados que
se consideram apresentarem um risco inaceitável para os receptores identificados,
incluindo os solos contaminados com granalha e com hidrocarbonetos. A possibilidade de
ocorrerem pequenas áreas adicionais de solos contaminados não pode ser completamente
excluída, sendo recomendável o desenvolvimento de um plano de gestão da contaminação
dos solos, para ser implementado aquando das futuras operações de desenvolvimento do
local.

No total estima-se que estejam presentes nos terrenos do antigo estaleiro da Margueira
cerca de 45 000 m3 de granalha e solos contaminados. Esta quantidade total pode ser sub-
dividida da seguinte forma:
Material Quantidade estimada (m3)
Granalha 700
Solos contaminados com granalha 25,700
Solos contaminados com hidrocarbonetos 19,000
Total 45,400

Tabela S.2 : Volume estimado de solos com contaminação significativa

Água subterrânea

Uma análise mais detalhada das excedências registadas com a abordagem de Nível 1
mostrou que, exceptuando uma ocorrência de contaminação por cobre, não se considera
que a contaminação identificada nas águas subterrâneas apresente um risco ambiental
significativo.

As excedências dos critérios de Nível 1 para alguns dos metais pesados ocorreram
principalmente porque os critérios de Nível 1 definidos pelo OMEE são baseados no
pressuposto de que a água subterrânea é, ou pode ser, utilizada como água potável, e
portanto como água de abastecimento. Como a água subterrânea existente na área em
estudo é altamente salina, devido à mistura com a água do estuário do Tejo, fortemente
influenciada pelas marés, não poderá ser utilizada como água de abastecimento e, desta
forma, os critérios de Nível 1 afiguram-se inapropriados para o contexto específico do local.
Alternativamente, o principal risco, ou factor chave relaciona-se com os riscos
ecotoxicológicos e, assim, a informação relativa à qualidade da água foi re-avaliada à luz
dos critérios US Environmental Protection Agency (USEPA) para águas salobras.

Quando se aplicou a metodologia de Nível 2, apenas o cobre foi identificado como


contaminante com concentrações que excedem ligeiramente os critérios de Nível 2 para
uma única localização. Contudo, mesmo este critério de Nível 2 é considerado como
conservativo no que respeita à diluição antecipada que ocorreria devido à mistura da água
subterrânea com a água superficial no rio Tejo. Assim sendo, considera-se que, no geral, a
única excedência ocorrida não representa um risco significativo para o ambiente aquático.

Identificaram-se valores de contaminação de PCE que excederam o critério de Nível 1,


sendo que este composto foi avaliado em maior detalhe na análise de Nível 2. As normas
da OMEE para a presença de PCE em águas subterrâneas baseiam-se nos pressupostos
que o PCE se degrada em compostos derivados mais tóxicos como é o caso do cloreto de
vinil e que a água subterrânea pode ser utilizada como fonte de água potável. Devido às
condições específicas encontradas no antigo estaleiro da Margueira, estes pressupostos,
nos quais o critério de Nível 1 se baseou, não são válidos. Tal como discutido
anteriormente, a água subterrânea subjacente ao local nunca poderá ser utilizada como
fonte de água potável devido à sua salinidade. Adicionalmente, as condições redox nas
águas subterrâneas no local onde foi identificada a presença de PCE são inadequadas à
degradação destes compostos em cloreto de vinil. Consequentemente, foi desenvolvido
um critério específico de Nível 2 para o local, alternativo, com base em possíveis impactes
ecotoxicológicos e em possíveis impactes para o desenvolvimento do local devido à
volatilização de vapores de PCE para o ar no interior dos futuros edifícios, com o potencial
de poderem ser inalados pelos utilizadores dos edifícios. Com base nesta metodologia

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Relatório ECAGG 5
Introdução

demonstrou-se que as concentrações máximas de PCE identificadas no local são cerca de


50 vezes mais baixas que aquelas que poderiam apresentar quaisquer riscos ambientais
significativos.

Qualidade do ar

Foi efectuada uma avaliação específica dos riscos de inalação de poeiras, quer pelos
trabalhadores que venham a estar presentes no local, quer por residentes nas imediações,
para todos os três MCLs considerados (situação actual; durante desenvolvimento /
construção; e após finalização do desenvolvimento). Para os cenários do uso actual do
local e do uso após finalização do desenvolvimento considerou-se que a geração de
poeiras seria mínima e, assim, estes MCLs não foram considerados em detalhe durante a
avaliação deste aspecto.

O modelo correspondente à fase de construção foi considerado como sendo o único


modelo que poderia resultar numa mobilização de solos de forma a gerar poeiras
transportadas por via aérea. Consequentemente, este cenário foi avaliado em maior
detalhe. A inalação de poeiras foi avaliada independentemente da avaliação principal de
Nível 1, uma vez que esta ligação não foi incorporada nos critérios OMEE. Esta parte da
análise de risco foi efectuada recorrendo a uma metodologia publicada pela USEPA, cuja
referência é feita no texto do relatório principal.

A avaliação incidiu sobre os riscos associados com os contaminantes presentes na fracção


inalável (<10 micron) da granalha, a qual foi determinada por análises químicas específicas
levadas a cabo numa amostra compósita e representativa da granalha recolhida na
generalidade do local. Os principais contaminantes considerados foram: arsénio, cádmio,
crómio, cobre, chumbo, mercúrio, níquel, selénio, compostos organo-metálicos de estanho.

Desta análise concluiu-se que os riscos quer para o pessoal no local quer para os
residentes nas proximidades seriam aceitavelmente baixos, mesmo para concentrações
totais de poeiras que fossem, pelo menos, de uma ordem de magnitude acima daquelas
que poderão vir a ser geradas durante o processo de desenvolvimento.

Assim sendo, considera-se que, mesmo com base nos pressupostos muito conservativos
adoptados neste trabalho, será altamente improvável que exista um impacte adverso na
saúde de qualquer indivíduo exposto, como resultado da inalação de metais pesados e
TBT presente nas poeiras libertadas durante qualquer operação de remediação ou
actividade de construção. De qualquer forma, considera-se prudente exigir o
desenvolvimento e a implementação de um plano de gestão da emissão de poeiras para
esta fase das operações.

Sedimentos

Existe um potencial risco para os sedimentos existentes fora do local, identificado para
todos os três cenários dos MCLs. Este risco pode ser originado a partir de dois tipos de
vias de exposição:

o migração do soluto para o rio através da interacção do aquífero com a água


superficial ou com a água de escorrência superficial, com efeitos subsequentes
nos sedimentos;

o arrastamento de partículas nas águas de escorrência superficiais e arrastamento


de poeiras através do vento, que possam atingir o rio Tejo.

Uma vez que os critérios genéricos OMEE são protectivos da qualidade da água
superficial, deverão também ser protectivos dos sedimentos existentes dentro dessas
massas de água. Assim, o risco associado com a migração de soluto através da água
subterrânea é considerado como sendo aceitavelmente baixo.

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Introdução

Considera-se que o arrastamento de partículas representa uma proporção muito pequena


dos contaminantes que migram para o rio, particularmente se os trabalhos de construção
forem levados a cabo de forma controlada e se forem implementadas medidas práticas
para controlar o arraste de partículas pelo vento e a gestão das drenagens superficiais.

Potenciais impactes devido a contaminação na área exterior

Fontes de Contaminação no Exterior da Área do Estaleiro

Embora não se tenham realizado investigações intrusivas na zona da Área de Intervenção


exterior à área do estaleiro, identificaram-se uma série de actividades (históricas e actuais)
industriais e comerciais com algum potencial para causar contaminação dos solos e águas
subterrâneas (fontes de contaminação exteriores). Com base na informação disponível
considera-se que, embora seja inevitável a existência de alguma contaminação localizada
nesta área, será pouco provável que a mesma apresente uma escala e um significado que
possa colocar qualquer restrição prática aos objectivos gerais do desenvolvimento da Área
de Intervenção.

Migração histórica da contaminação a partir do local do estaleiro da Margueira

Adicionalmente às fontes exteriores discutidas acima, existe ainda um potencial para que
parte da área exterior ao estaleiro possa ter sido afectada pela contaminação que possa
ter migrado a partir do próprio estaleiro. Tal prende-se, essencialmente, com dois assuntos
específicos:

o migração aérea, para fora do local do estaleiro, de granalha durante as


operações de utilização da mesma;

o “lavagem” de granalha a partir das docas para o rio Tejo

Cada um destes aspectos é discutido de forma resumida seguidamente.

Migração de granalha para fora do local do estaleiro

Durante a operação do estaleiro, parte das poeiras provenientes das operações de


utilização de granalha terão, inevitavelmente, sido depositadas fora da área do
estaleiro, existindo informação factual que suporta esta consideração. É muito
provável que a deposição aérea da granalha sobre superfícies “duras” e edifícios
localizados fora da área do estaleiro tenha sido dispersada ao longo do tempo, em
virtude da acção dos ventos e de lavagens associadas a períodos de precipitação.
Contudo, a deposição deste materiais sobre áreas “macias”, tais como solos,
apresenta um potencial de acumulação ao longo do tempo, particularmente em áreas
onde a camada superficial de solos é regularmente misturada, como é o caso de
jardins e quintais/hortas. Assim sendo, considera-se que a deposição de granalha
mais significativa pode ter ocorrido nessas zonas “macias”. Considera-se
potencialmente mais significativa, em termos de exposição de potenciais receptores,
a deposição de poeiras em áreas utilizadas para plantação de vegetais destinados à
alimentação, uma vez que este uso induz a gama mais vasta de vias de contacto. A
zona de hortas privadas que se localiza a nordeste da zona do estaleiro, a cerca de
200 a 300m do limite do mesmo, apresenta particular relevância relativamente a este
aspecto.

Este assunto foi avaliado através de um processo de três estágios:

o determinação das concentrações máximas de contaminantes que podem


estar presentes nos solos superficiais e que não representam riscos
inaceitáveis;

o determinação de uma estimativa de uma taxa de deposição de poeiras que


tenha ocorrido durante os cerca de 35 anos de exploração do estaleiro,

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Relatório ECAGG 5
Introdução

necessária para que as concentrações de contaminantes nas hortas


atingissem níveis inaceitáveis;

o uma comparação desta estimativa da taxa de deposição requerida com as


taxas de deposição que possam ter ocorrido no local, e que tenham sido
encontradas nas áreas adjacentes.

Como conclusão desta avaliação considera-se ser muito pouco provável que a
acumulação histórica de granalha transportada por via área e depositada na área
exterior ao estaleiro possa constituir um risco inaceitável significativo. Desta forma,
considera-se não serem necessárias medidas de gestão de risco relativamente a este
aspecto.

Lavagem de granalha para fora do local

De acordo com informação factual recolhida, uma vez finalizada a operação de


decapagem dos cascos dos navios, a maioria da granalha usada ou batida era
recolhida no fundo da(s) doca(s) e armazenada temporariamente no local, antes de
ser levada a destino final. Contudo, é provável que uma pequena parte dos resíduos
de granalha presentes nas docas na altura em que se efectuavam essas operações
pudesse aí ter permanecido e, quando as docas eram enchidas com água e as
comportas abriam, a granalha usada poderia ter sido “lavada” para o rio Tejo.

Estes processos apresentam o potencial para causar migração significativa de


granalha para os sedimentos existentes nas proximidades, dentro do rio Tejo. Os
efeitos históricos desta contaminação não são conhecidos. Contudo, estes
sedimentos podem, agora, representar uma fonte secundária de contaminação que
pode ter impactes adicionais quer para o rio Tejo, quer para os receptores ecológicos
existentes nos sedimentos e na água do estuário. O potencial para a ocorrência de
impactes seria mais significativo se essa fonte de contaminação secundária fosse, de
alguma forma, perturbada, como poderá acontecer no decurso de operações de
dragagem desses sedimentos, por exemplo.

Os resultados das análises efectuadas nas 16 amostras de sedimentos superficiais


indicam a ocorrência, no passado, de alguma migração de contaminantes associados
á granalha para os sedimentos. Contudo, não existe uma relação óbvia aparente
entre as localizações onde se registaram as concentrações mais elevadas e as fontes
desses contaminantes, embora os padrões de sedimentação/erosão em torno do
estuário possam ter causado alterações na qualidade dos sedimentos superficiais
desde o encerramento do estaleiro.

F. Opções de remediação e estratégia


Para cada tipo de fonte de contaminação identificou-se uma gama de opções possíveis de
remediação de solos, consideradas adequadas para reduzir os riscos identificados até
níveis aceitáveis. Foram consideradas três categorias principais de opções de remediação:

o in-situ (levadas a cabo sem recurso a escavação ou sem extracção de solos ou


de águas subterrâneas);

o ex-situ no local (escavação de solos e extracção de água subterrânea para


posterior tratamento ou eliminação dentro da área do estaleiro); e

o ex-situ fora do local (tratamento e eliminação dos solos e águas subterrâneas


fora da área do estaleiro).

11
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

Adicionalmente, as opções de remediação podem ser agrupadas nos seguintes tipos de


remediação, com base no modelo genérico FVR para a redução ou remoção dos riscos
das ligações :

o remoção física da fonte de contaminação;

o eliminação biológica da fonte;

o modificação térmica da fonte;

o modificação da fonte; e

o modificação da via de exposição.

Muitas das técnicas consideradas são apenas aplicáveis a uma gama limitada de fontes de
contaminação (por exemplo a bioremediação não é uma técnica adequada para lidar com
contaminação devida a metais pesados). Desta forma, poderá ser necessário utilizar duas
ou mais técnicas para lidar com os riscos inaceitáveis de fontes de contaminação
predominantemente afectadas pela presença de granalha ou de compostos orgânicos. No
relatório principal apresentam-se os detalhes de todas as técnicas de remediação que
foram consideradas no estudo. Em anexo ao relatório principal apresenta-se informação
técnica mais detalhada relativamente a essas técnicas de remediação.

A análise comparativa das opções de remediação foi levada a cabo através de uma
avaliação qualitativa de uma gama de critérios de avaliação, incluindo:

o tempo e espaço necessários;

o implicações a nível ambiental e de sustentabilidade;

o utilizações e tecnologia com provas dadas;

o características geotécnicas do solo resultante (se aplicável);

o riscos para os trabalhadores; e

o custos relativos.

As técnicas de remediação que seguidamente se apresentam são consideradas as mais


adequadas para reduzir ou remover os riscos inaceitáveis identificados no local:

Opção de remediação Aplicabilidade ao tipo de


contaminação

Deposição fora da área do estaleiro Todos os tipos


Mais aplicáveis
Criação de barreiras no local Todos os tipos

Biopilhas / “landfarming”/ revolvimento de Apenas para contaminação


pilhas / reactores de biomassa orgânica
Todos os tipos
Confinamento no local
Potencialmente
aplicável Todos os tipos
Lavagem do solo

Granalha (e TPH residual até


Estabilização / solidificação do solo
um determinado grau)

12
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

Tabela S.3 : Resumo das opções de remediação mais aplicáveis

A análise das opções de remediação foi efectuada com base apenas nos resultados do
processo de análise de risco.

A consideração de algum grau de contenção através de um sistema de barreiras artificiais


(por exemplo; lajes de betão, fundações, estradas, elevação dos níveis do terreno,
cobertura dos solos, etc), que muito provavelmente será inerente a qualquer projecto de
desenvolvimento urbanístico do local, levará a uma redução dos riscos para os futuros
utilizadores e para o ambiente em geral. Assim sendo, a re-avaliação dos processos de
análise de risco e das opções de gestão de riscos resultará, muito provavelmente, numa
redução do volume de solos que poderão apresentar potenciais riscos inaceitáveis e, desta
forma, uma redução da necessidade de implementar medidas de remediação.

G. Principais oportunidades e condicionantes


Introdução

Em termos de contaminação dos solos e dos factores geológicos e geotécnicos, considera-


se que as condições encontradas na Área de Intervenção não constituem restrições
profundas ao desenvolvimento urbanístico dessa área. Todavia, existem determinados
aspectos relacionados com as estruturas de engenharia existentes no local do estaleiro,
que poderão representar ou oportunidades ou restrições, dependendo do uso proposto
para os mesmos. Estes aspectos deverão ser devidamente acautelados nas fases
subsequentes de definição e concretização da ocupação futura do local e incluem:

o Docas e cais;

o Ligações viárias;

o Zonamento do local;

o Desenvolvimento inicial e

o Massa de edificação

A oportunidade mais significativa encontra-se relacionada com a possibilidade de


reciclagem de materiais à base de betão existentes no local, quer em edifícios, quer em
pavimentos. Este material pode ser efectivamente partido, esmagado e usado como
material de enchimento ou como material para construção de estradas. Esta abordagem
permite, ainda, reduzir a necessidade de importar materiais e, desta forma, vai de encontro
aos princípios da sustentabilidade.

Docas e cais

Um dos factores chave na avaliação das estruturas actuais prende-se com a hipótese de
as mesmas manterem as suas funções actuais no futuro; por exemplo, numa situação
futura, a(s) doca(s) poderão ser aterradas e, consequentemente, os aspectos ligados à
estabilidade estrutural tornam-se irrelevantes, ou um cais pode ser demolido para
acomodar novas propostas e, similarmente, as questões de estabilidade deixam de ser
importantes. Assim sendo, as docas (incluindo as paredes e o fundo) e os cais/frente
ribeirinha podem apresentar três tipos de efeitos, cada um dos quais com uma determinada
implicação nos custos:

o Necessidade de manutenção da estabilidade;

13
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

o Futuras necessidades de manutenção; e

o Obstruções à ocupação prevista.

Estas implicações podem estar relacionadas com os potenciais usos futuros das docas,
tais como:

o Estacionamento; caves ou semi-caves;

o Aproveitamentos do meio aquático profundo ou superficial

o Deposição no local (on-site) de resíduos e solos contaminados.

Alternativamente, a frente ribeirinha pode ser utilizada como a base para uma nova marina,
ou pode-se ainda considerar a conquista de novos terrenos ao rio Tejo quer para
construção quer para usos recreativos e ecológicos, como por exemplo, a criação de
habitats ribeirinhos.

Ligações viárias

A construção de um túnel na área em estudo é a principal ligação viária passível de ser


fortemente influenciada pelas condições gerais do terreno existentes. A possível
necessidade de construção de um túnel encontra-se relacionada com as condições de
acesso a Sul, onde se regista a presença de inúmeros edifícios que necessitariam de ser
demolidos para dar lugar aos acessos e ao próprio túnel. A opção de ‘escavação e
cobertura’ para a construção do túnel implica uma maior quantidade de demolições nas
zonas onde não existem actualmente espaços abertos, se bem que nessa opção a área
correspondente à implantação do túnel pudesse vir a ser utilizada como via de transporte
à superfície.

Dentro da zona do antigo estaleiro não se considera que existam problemas significativos
durante os trabalhos de escavação de um possível túnel, uma vez que a contaminação dos
solos é de origem superficial e que a contaminação das águas subterrâneas se encontra
relativamente localizada.

Zonamento do local

Não se considera que o nível de contaminação identificado no local possa representar uma
restrição significativa relativamente ao zonamento dos usos do solo na proposta de
ocupação do local. De forma similar, as obstruções físicas existentes no local não são
susceptíveis de se constituírem como restrições significativas à ocupação do local.

Desenvolvimento urbanístico inicial

Antes de se proceder aos trabalhos de construção, dever-se-ão tomar em atenção as


seguintes actividades:

o A gestão do risco/remediação dos solos que colocam um risco inaceitável para o


cenário de desenvolvimento em consideração; e

o A demolição antecipada das principais estruturas existentes à superfície.

Se conduzidas em simultâneo com os trabalhos de desenvolvimento urbanístico, as duas


actividades acima referidas podem ter um impacte adverso nas fases iniciais de
desenvolvimento. Assim, considera-se importante que estas actividades sejam conduzidas
numa fase inicial dos trabalhos de construção, o que é vantajoso quer do ponto de vista
ambiental quer em termos de eficácia de custos. Podem também levar-se a cabo trabalhos
de remediação localizados na fase inicial dos trabalhos de construção, se estes trabalhos
forem definidos de forma adequada e com a devida antecipação. No entanto, dever-se-á
ter em conta a possibilidade de se encontrar contaminação em áreas consideradas,

14
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

presentemente, como não contaminadas, devendo ser previstas medidas para fazer face a
este aspecto.

Massa de edificação

Considera-se que a necessidade de construção de fundações por estacas, quer em


dimensão quer em número, não será comprometida pelas condições do terreno, excepto
quando essas fundações se encontram próximas das docas ou dos paredões ribeirinhos
que permanecerão no local. O planeamento cuidadoso da localização destas fundações
permitirá ultrapassar quaisquer condicionantes existentes para a ocupação prevista para o
local.

H. Conclusões
Zona do antigo estaleiro

Geologia e geotecnia

As areias utilizadas para a construção da plataforma do estaleiro apresentam um potencial


para sofrer fenómenos de liquefacção no caso de ocorrência de um sismo de grandes
dimensões.

O nível freático encontra-se muito próximos da superfície e sofre influência das marés. As
características do aterro onde se encontra implantada a zona do estaleiro e a existência de
níveis freáticos elevados implica que as futuras escavações que venham a ser executadas
requererão, certamente, uma contenção adequada.

Todas as estruturas significativas a serem implantadas no local terão que ser fundadas, por
estacas, nas formações do Miocénico, a profundidades até cerca de 10m abaixo do nível
do solo.

Na Figura S.1 apresenta-se uma representação gráfica destas restrições.

15
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

Aspectos de engenharia

As grandes extensões de cais existentes no sector norte do local, construído em betão e


aço, requererão, certamente, uma manutenção a longo prazo.

Considera-se que as principais condicionantes inerentes às docas estão relacionadas com


as paredes e, onde existentes, com as ancoragens das paredes.

As docas representam uma oportunidade para criação de parques de estacionamento


subterrâneos; tal pode ser conseguido através da construção de estruturas independentes,
dentro das docas.

Todos os edifícios existentes, bem como as infra-estruturas de maiores dimensões,


exceptuando as docas, foram fundadas com estacas, o que implica a existência de um
número massivo de estacas espalhadas por toda a área do estaleiro, que podem ser
consideradas como uma obstrução potencial para algumas das actividades associadas
com a ocupação futura do local. O enrocamento utilizado para a delimitação da primeira
fase da plataforma do estaleiro pode, também, ser considerado como uma obstrução
parcial.

A existência de uma grande quantidade de materiais de betão na área do estaleiro


representa uma oportunidade ambiental para reciclagem e integração dos mesmos no
desenvolvimento urbanístico a criar.

Na Figura S.2 apresenta-se uma representação gráfica das restrições associadas à


estruturas existentes no local.

Contaminação do solo e das águas subterrâneas

A contaminação mais significativa encontrada na zona do antigo estaleiro da Margueira diz


respeito a metais pesados tóxicos e a compostos organo-metálicos de estanho ,
associados principalmente com os depósitos de granalha e com as zonas isoladas com
elevadas concentrações (hotspots) de contaminantes orgânicos nos solos.

Embora a contaminação encontrada nos solos não possa ser encarada como uma
restrição severa às opções de desenvolvimento, considera-se necessário toma-la em
consideração em todas as fases do processo de desenvolvimento.

A Figura S.3 mostra as áreas de solos contaminados para as quais se considerou a


necessidade de proceder a remediação, assim como as localizações dos pontos de
amostragem de sedimentos que apresentam evidências de contaminação.

A possibilidade de que existam áreas adicionais, previsivelmente de pequena dimensão,


com solos contaminados não poderá ser excluída. Como tal, é recomendável o
desenvolvimento e implementação de um plano de gestão da contaminação dos solos para
as operações de desenvolvimento urbanístico do local. Também se considera prudente
desenvolver e implementar um plano de gestão de poeiras durante as operações de
remediação e de construção do local.

Considera-se que a água subterrânea existente na zona do estaleiro se apresenta


ligeiramente contaminada, não colocando riscos significativos para os receptores
identificados no âmbito da análise de riscos (incluindo o rio Tejo).

A contaminação da água subterrânea não constitui qualquer restrição significativa para o


futuro desenvolvimento.

17
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

Opções de remediação

Foi avaliada uma gama vasta de opções de remediação susceptíveis de serem aplicadas à
zona do estaleiro como potenciais medidas de gestão dos riscos identificados.

As medidas que se consideraram com maior aplicação incluem a consideração de uma


deposição final dos materiais contaminados fora da área do estaleiro e a criação de um
sistema de barreiras artificiais (engineered barriers). Entre as medidas potencialmente
aplicáveis referem-se processos de bio remediação (biopilhas/ “landfarming” / revolvimento
de pilhas / reactores de biomassa), confinamento no interior da zona do estaleiro, lavagem
e/ou estabilização/solidificação dos solos. Estas opções serão re-avaliadas uma vez
definidos os cenários de ocupação do solo para a Área de Intervenção.

Restante Área de Intervenção

Do ponto de vista físico, faz-se referência aos depósitos aluvionares existentes na zona da
Vala do Caramujo, que podem atingir mais de 20 m de profundidade em algumas
localizações. O morro existente nas imediações do estaleiro não mostra sinais aparentes
de instabilidade e, todas as acções que se considerarem para as áreas adjacentes não
deverão por em risco esta situação.

Considera-se que as fontes de contaminação existentes na zona exterior ao estaleiro não


representarão um risco significativo, devido à sua dimensão e tipo de actividade, que
possa comprometer os objectivos do desenvolvimento urbanístico previsto para a Área de
Intervenção.

Foram avaliadas potenciais fontes de contaminação secundárias, fora da área do estaleiro,


recorrendo a modelos de predição da deposição de poeiras provenientes do estaleiro
durante o período em que o estaleiro se manteve operacional. Os resultados deste
exercício indicam que é pouco provável que este aspecto da operação do estaleiro tenha
resultado em riscos significativos na generalidade da Área de Intervenção e, desta forma,
não se prevê a necessidade de medidas de gestão de risco relacionadas com este aspecto.

20
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

1 Introdução
Em Novembro de 2002, por decisão da Assembleia Geral da Câmara Municipal de Almada,
foi adjudicado ao consórcio constituído pela WS Atkins International, WS Atkins Portugal,
Santa Rita Arquitectos e Richard Rogers Partnership, o “Estudo de Caracterização
Ambiental, Geológica e Geotécnica (ECAGG) e Plano de Urbanização (PU) para a Frente
Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada”.

A Área de Intervenção (AI) coberta pelo ECAGG e pelo PU corresponde a um área total de
115 hectares, dos quais cerca de 50 hectares correspondem à área ocupada pelo antigo
estaleiro da Lisnave, que se manteve em actividade durante mais de 30 anos e cujo
encerramento decorreu em Dezembro de 2000. A ocupação dos restantes 65 hectares,
apesar de ser de natureza predominantemente residencial, inclui instalações comerciais e
industriais de diferente natureza e dimensão, em actividade ou já encerradas, como sejam
estações de serviço, fábricas de cortiça abandonadas e oficinas de reparação.

Como signatária da Carta de Aalborg, a Câmara Municipal de Almada assumiu um


compromisso público de incorporar, a todos os níveis, os princípios de Desenvolvimento
Sustentável nas suas políticas de governação ao nível local. A recuperação da Frente
Ribeirinha Nascente de Almada, projecto de grande dimensão e visibilidade, representa
uma oportunidade única para a implementação destes princípios a uma escala importante.

Nos Termos de Referência a Câmara Municipal de Almada dá ênfase à sua convicção de


que o desenvolvimento sustentável da área em estudo deve ser baseado numa avaliação
exaustiva das respectivas condições ambientais e físicas, em particular no que se refere à
natureza das actividades industriais que tiveram lugar no Estaleiro da Lisnave, e à
possibilidade da existência de condições ambientais susceptíveis de causar riscos na
saúde humana e nos ecossistemas locais, quer no presente quer no futuro. Da mesma
forma, as condições geológicas e geotécnicas existentes na área do antigo estaleiro,
constituída por terrenos conquistados ao estuário do Tejo, assim como o estado de
conservação das principais infra-estruturas existentes, principalmente as docas, os
paredões fronteiros ao estuário e as pontes de atracação, podem vir a ter influência nas
opções de desenvolvimento

Independentemente das questões de sustentabilidade, e do ponto de vista de protecção da


saúde pública, torna-se absolutamente necessário assegurar que a Câmara Municipal de
Almada possui um conhecimento profundo dos problemas ambientais associados à área
em estudo, e das medidas necessárias à resolução desses problemas, que lhe permita
proceder ao licenciamento de futuras actividades, quer durante as fases de demolição e
construção (licenças de obra), quer na fase final de nova ocupação da área (licenças de
habitação ou utilização).

O ECAGG foi desenvolvido com dois objectivos distintos. O objectivo principal consistiu na
avaliação pormenorizada das condições da zona do antigo estaleiro da Lisnave, com base
em metodologias bem estabelecidas e em normas reconhecidas internacionalmente como
as mais adequadas no estudo de situações desta natureza. O segundo objectivo do estudo
consistiu na avaliação preliminar do risco ambiental associado às restantes instalações
comerciais e industriais existentes na Área de Intervenção. Esta última avaliação, de
carácter mais geral, baseou-se apenas na informação recolhida durante as visitas ao local,
e em entrevistas realizadas com os proprietários das instalações assim como com antigos
gestores e trabalhadores.

A avaliação do grau de risco associado aos níveis de contaminação detectados na zona do


antigo estaleiro da Lisnave teve por base as normas de qualidade do solo e de águas
subterrâneas desenvolvidas para a província de Ontário no Canadá (“Directrizes de
Ontário”). Estas normas foram especificamente recomendadas para este estudo pela
entidade nacional com competência na área da contaminação de solos, o Instituto dos

21
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Introdução

Resíduos. Por forma a aprofundar o conhecimento destas normas e, assim, garantir a sua
correcta aplicação, a Câmara Municipal de Almada, em colaboração com o Instituto dos
Resíduos, organizou um seminário técnico em Abril de 2002, com a duração de um dia,
que contou com a presença do chefe da equipa de cientistas canadianos responsável pelo
desenvolvimento das referidas normas. Tendo ainda em vista o aprofundamento do
conhecimento destas normas, a equipa de projecto da Atkins International, levou a cabo
uma análise detalhada da documentação de base das Directrizes de Ontário.

Reconhecendo a ligação intrínseca entre o nível de risco associado aos solos


contaminados ou às águas subterrâneas contaminadas e as utilizações do solo previstas,
os Termos de Referência para este estudo sublinham a importância da necessidade de
forte articulação entre as equipas responsáveis pelo ECAGG e pelo PU, de modo a
assegurar que os cenários de utilização sustentável do solo propostos contribuem para
uma gestão eficaz, em termos de custos, quer dos riscos ambientais quer das limitações
físicas. Esta necessidade de articulação é de importância fundamental na fase seguinte do
processo, em que se procederá à análise das limitações ambientais e físicas assim como
das oportunidades de desenvolvimento, no contexto das opções de ocupação
identificadas, e de que resultará um relatório sobre a Análise de Custo-Benefício dos
Cenários Alternativos de Utilização do Solo, a apresentar em separado.

Dada a importância da informação do público sobre o andamento do projecto, a Câmara


Municipal de Almada organizou um primeiro fórum público, em Abril de 2003, em que foram
abordadas a metodologia geral do projecto e as formas de articulação previstas entre as
componentes ECAGG e PU. Seguiu-se um segundo fórum, em Julho de 2003, para
apresentação dos resultados da primeira fase dos trabalhos, nomeadamente a informação
histórica disponível, os dados obtidos durante as investigações de campo e os resultados
das análises laboratoriais. Em Janeiro de 2004 realizou-se o terceiro fórum para
apresentação dos resultados contidos neste relatório. Estes resultados constam
igualmente do Sumário Não-Técnico já disponibilizado ao público pela Câmara Municipal
de Almada.

22
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Directrizes seguidas e estratégias de investigação

2 Directrizes seguidas e estratégias


de investigação

2.1 Introdução
A avaliação da contaminação dos solos e águas subterrâneas (avaliação que inclui,
normalmente, uma avaliação preliminar “desk study” e eventuais trabalhos de investigação
intrusiva) pode ser um processo complexo em alguns antigos locais industriais, de
características similares ao caso em estudo. Tal prende-se com a potencial
heterogeneidade quer da contaminação química susceptível de ser encontrada, quer das
características físicas desses locais. Desta forma, as avaliações preliminares ou desk
studies (Capítulos 3-5) as investigações subsequentes nesses locais (Capítulos 6 e 7) e a
avaliação dos potenciais riscos relevantes (Capítulos 8-10) necessitam de ser efectuadas
com base em estratégias robustas, com base em critérios devidamente fundamentados e
nas melhores práticas ambientais estabelecidas.

Com este processo assegurar-se-á uma maior confiança nos resultados das avaliações por
parte das entidades interessadas, tais como os proprietários dos terrenos, as entidades
competentes na área do ambiente, as instituições de financiamento e os investidores, e
especialmente, o público, que poderá ter uma percepção diferente dos riscos actuais da
área em estudo.

Para tornar este processo mais eficaz recorreu-se, no presente trabalho, a critérios e
protocolos internacionalmente reconhecidos, essencialmente aqueles que foram
desenvolvidos na Província de Ontário, no Canadá (seguindo a recomendação do Instituto
dos Resíduos), assim como na Holanda e no Reino Unido, sendo de realçar que cada um
destes países tem estado activamente envolvido em estudos e projectos de avaliação da
contaminação de solos e de águas subterrâneas nos últimos 25 anos.

Descrevem-se seguidamente os principais aspectos das normas e documentos de


referência utilizados no âmbito deste estudo.

2.2 Estratégias de investigação e avaliação


A estratégia geral seguida para as investigações e avaliações baseou-se na seguinte
sequência de trabalho:

(i) descrição do historial industrial do local e da sua vizinhança imediata, por forma a
estabelecer a natureza e escala de quaisquer actividades com potencial de causar,
ou de ter causado, alguma contaminação do solo e das águas subterrâneas;

(ii) identificação, tão detalhada quanto possível, da natureza geral das condições
físicas do solo, superficialmente e em profundidade, incluindo a caracterização dos
regimes das águas superficiais e das águas subterrâneas;

(ii) identificação dos tipos, localizações e natureza dos potenciais “receptores” ou


alvos (no interior e no exterior da AI) que possam ser afectados pelas condições de
contaminação;

(iv) formulação de uma série de hipóteses relativamente à natureza e às localizações


de contaminação potencialmente relevante para, dessa forma, construir uma série de
Modelos Conceptuais Locais que resumam a forma como os vários receptores (seres

23
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Directrizes seguidas e estratégias de investigação

humanos e meio ecológico) podem entrar em contacto com os contaminantes


identificados.

(v) planeamento e execução de investigações intrusivas de solos e águas


subterrâneas, incluindo a selecção dos parâmetros relevantes para análises físicas e
químicas, cujos resultados serão utilizados nas fases subsequentes de análise de
risco. Estas investigações intrusivas e os programas de determinações analíticas são
frequentemente conduzidos em duas (ou mesmo mais) fases por forma a obter, de
uma forma progressiva, uma definição mais detalhada das condições do local (tal
como foi o presente caso). Esta abordagem requer uma forte interacção com os
processos de avaliação de risco, tal como se descreve seguidamente, e

(vi) análises de risco por níveis (“tiers”) que seguem os procedimentos relevantes e
os valores guia estabelecidos (ver abaixo), e que se iniciam com uma análise mais
abrangente para avaliar, de uma forma geral, a conformidade com os critérios
seleccionados.

Após esta análise de risco por níveis, foram identificadas medidas quer para eliminar quer
para minimizar os riscos relevantes até níveis considerados aceitáveis. Estas medidas
podem variar entre opções básicas tais como (a) escavação e remoção (e possível
tratamento), (b) criação de uma barreira física ou química para evitar perigos para os
receptores mais significativos, (c) tratamento da contaminação para reduzir a sua escala de
risco inerente ou (d) alteração do uso futuro proposto para o local para um uso menos
sensível.

2.3 Princípios da análise de risco


O risco pode ser definido como uma combinação da probabilidade, ou frequência, de
ocorrência de um determinado perigo conhecido e da magnitude das consequências dessa
ocorrência num receptor. Para que um risco exista é necessário que esteja presente um
perigo (ou uma fonte de contaminação) um receptor e uma via de exposição definida a
ligar os dois. No contexto da avaliação dos solos contaminados, esta ligação é referida
como fonte-via-receptor (source-pathway-receptor (SPR) ‘pollutant linkage’).

A análise de risco envolve uma avaliação qualitativa, semi-quantitativa ou quantitativa da


magnitude dos riscos potenciais actuais, e a consideração da sua aceitabilidade. Esta
avaliação envolve, normalmente, uma abordagem por estágios ou níveis (tiers), tal como
discutido anteriormente, com um nível de detalhe progressivamente maior à medida que se
caminha para níveis de análise mais detalhados. A análise de risco quer dos usos actuais
do local, quer dos possíveis futuros usos, pode ser levada a cabo de acordo com o nível de
detalhe conhecido para o futuro uso do local, na altura em que se efectua a análise de
risco. O processo de análise de risco pode, assim, envolver a avaliação dos riscos
residuais, que permanecem após a aplicação de medidas de gestão de risco, tal como
descrito anteriormente.

Existe uma vasta gama de normas internacionais, largamente divulgadas, que fornecem
metodologias detalhadas para análises de risco e para a avaliação da aceitabilidade dos
riscos avaliados. Neste estudo a principal referência a normas internacionais relaciona-se
com as normas publicadas pelo Ontario (Canadá) Ministry of the Environment and Energy
(OMEE), cujos principais aspectos são discutidos seguidamente. O conjunto principal de
normas da OMEE podem ser descarregados a partir da internet através do site:

http://www.ene.gov.on.ca/envision/decomm/index.htm.

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Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Directrizes seguidas e estratégias de investigação

2.4 Normas adoptadas e documentos de referência


Na elaboração, planeamento e implementação do ECAGG os principais documentos de
referência que foram utilizados são constituídos pelo conjunto de normas publicado pelo
OMEE. Estas normas, que foram especificamente recomendadas pelo Instituto dos
Resíduos, foram elaboradas para utilização em casos em que os proprietários dos locais
contaminados pretendem descontaminar os mesmos e/ou requalificar esses locais
contaminados, em Ontário. Desta forma, as directrizes estabelecidas neste documento são
orientadas para a assistência aos proprietários na tomada de decisões relativamente à
qualidade dos solos e/ou das águas subterrâneas e à avaliação das condições ambientais
da propriedade, para determinar a necessidade de implementar medidas de remediação e,
se se concluir sobre a necessidade das mesmas, avaliar o esforço de remediação
necessário e adequado.

O principal documento utilizado no ECAGG foi ‘Guideline for Use at Contaminated Sites in
Ontario, February 1997, com referência aos documentos associados emitidos pelo OMEE
(Anexo 1) sempre que apropriado. As directrizes do OMEE dizem respeito,
essencialmente, a trabalhos de investigação intrusiva e a análises de risco, sendo assim
muito relevantes para o trabalho em causa, a realizar no antigo estaleiro da Lisnave, na
Margueira.

Nas situações em que se verificou a inexistência, ou a não adequação, de critérios


específicos ou directrizes dos documentos do OMEE, adoptaram-se outros procedimentos
e práticas internacionalmente reconhecidos sendo que, no caso dos valores de referência
relativos a contaminação genérica, se recorreu às normas Holandesas “Dutch Government
VROM 2000 guidelines” (Anexo 2).

As normas Britânicas “British Standards” foram aplicadas nas seguintes situações: (i)
descrição dos registos das escavações (BS5930) e (ii) acreditação de laboratórios e
análises (UKAS/ISO 17025).

As avaliações não-intrusivas (ou “desk based’) a realizar na AI, mas fora da área do
estaleiro da Margueira, foram efectuadas de acordo com as melhores práticas
internacionais, consideradas apropriadas para atingir os objectivos do estudo (ver Capítulo
1). Foram ainda feitas referências genéricas ao documento US ASTM Standard E1527-00
“Standard Practice for Environmental Site Assessments: Phase 1 Environmental Site
Assessment Process”, embora se reconheça que este documento contenha directrizes
específicas aplicáveis a potenciais compradores. A abordagem aplicada para este caso é
explicada no Capítulo 2.

2.5 Directrizes OMEE


As directrizes OMEE descrevem duas possíveis abordagens a serem utilizadas na
avaliação do local e na realização da investigação intrusiva na área do antigo estaleiro da
Margueira:

• Abordagem genérica : esta abordagem envolve a utilização de critérios de


qualidade de solos e águas subterrâneas (abrangendo cerca de 116 substâncias)
que foram desenvolvidos para fornecer protecção contra os potenciais efeitos
adversos na saúde humana, ecologia e no ambiente em geral. Estes critérios
baseiam-se em concentrações aceitáveis, em solos e águas subterrâneas, que
asseguram protecção suficiente para os receptores em causa, e para as vias de
exposição consideradas na sua elaboração. Os critérios são apresentados numa
série de tabelas, de acordo com o uso do solo, uso local da água subterrânea e
profundidade da contaminação. Os critérios genéricos podem ser aplicados a
locais cujo modelo conceptual corresponda aos cenários genéricos de exposição
considerados pelo OMEE. Sempre que os critérios genéricos são excedidos,
pode ser efectuada uma análise de risco específica (ver adiante) e/ou
implementadas medidas de gestão de risco. As normas OMEE referem que os
critérios genéricos não devem ser utilizados em “locais sensíveis”, definidos

25
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Relatório ECAGG 5
Directrizes seguidas e estratégias de investigação

como aqueles onde a espessura da camada de solos sobrejacente à formação


rochosa é inferior a 2m, aqueles onde a área que apresenta contaminação das
águas subterrâneas se situa, hidraulicamente, a jusante da fonte de
contaminação, e aqueles que registam a presença de habitats e sistemas
ecológicos de interesse, de acordo com a legislação canadiana.

• Abordagem baseada na análise de risco específica do local: esta abordagem


pode ser utilizada (em vez dos critérios genéricos) para estabelecer critérios de
remediação (i.e. concentrações máximas admissíveis alternativas) para um local
ou para estabelecer um nível de protecção da exposição, baseado em análise de
risco. Esta abordagem pode ser aplicada a substâncias não incluídas no critério
genérico, a substâncias cujas concentrações excedem o critério genérico, ou em
situações em que os cenários de exposição aplicáveis à área de estudo não
correspondem aos cenários considerados na derivação dos critérios genéricos. A
metodologia de análise de risco adoptada pelo OMEE admite a hipótese de poder
aumentar, através de uma SSRA devidamente fundamentada, os valores
máximos admissíveis apresentadas nas tabelas genéricas até aos limites
indicados numa tabela elaborada para este efeito (Anexo E do Rationale
Document). Solos ou águas subterrâneas que apresentem valores acima dos
limites indicados neste Anexo não podem permanecer no local sem a
implementação de medidas de gestão de risco (ex. barreiras de vapores,
isolamento da fonte de contaminação, etc.)

Estas directrizes também permitem uma terceira abordagem - ‘Abordagem de


background’. Uma vez que essa abordagem envolve a utilização de critérios de qualidade
dos solos para restaurar um local até condições designadas por “condições naturais” ou
“condições de background”, não foi considerada relevante para o ECAGG, uma vez que o
antigo estaleiro da Margueira é um local “artificial”, tendo sido conquistado ao rio.

Assim sendo, a investigação intrusiva foi planeada de forma a permitir desenvolver as


abordagens “genérica” e “análise de risco específica do local”. Os detalhes dos trabalhos
de campo são apresentados no Capítulo 7 e os resultados das determinações analíticas no
Capítulo 8.

A estratégia para a realização do “desk study” na AI, fora da zona do estaleiro da


Margueira, é descrita seguidamente, sendo os resultados apresentados nos Capítulos 3-5.

2.6 Avaliação de acordo com a Abordagem OMEE


‘Genérica’
De acordo com as directrizes da OMEE, o local em estudo não é considerado como um
“local sensível”.

A avaliação de acordo com a abordagem genérica tem em consideração duas


profundidades de solos para possível restauração, e dois tipos de textura de solos. No
primeiro caso, considera-se que, quando a contaminação se estende até profundidades
superiores a 1.5m a partir da superfície, pode ser adoptada uma estratégia de restauração
estratificada, aplicando diferentes critérios genéricos abaixo dessa profundidade (ver
Tabela D no Anexo 1), os quais são, invariavelmente, menos exigentes que os critérios
aplicáveis às zonas mais superficiais (ver Tabela B no Anexo 1). A adopção desta
estratégia requer que as condições do local permaneçam semelhantes à situação actual,
ou seja que as cotas do local não aumentem ou diminuam significativamente ao longo do
tempo. Da mesma forma, factores como a textura do material sub-superficial
(granulometria fina ou grosseira), a gama de potenciais usos futuros para o local, e a
qualidade e usos da água subterrânea, podem influenciar a selecção de valores numéricos
genéricos para muitos dos parâmetros.

No presente estudo, devido à gama de potenciais cenários de futura ocupação do local,


ainda não são conhecidas as cotas finais do terreno, nem os locais onde poderá ser
necessário proceder a escavações. Como tal, não será possível aplicar os critérios

26
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Directrizes seguidas e estratégias de investigação

constantes da Tabela D do Anexo 1 aplicáveis a solos abaixo de 1,5m de profundidade.


Assim sendo, recorreu-se a uma abordagem conservativa, em que se utilizaram os critérios
aplicáveis a solos superficiais (i.e. menos que 1,5m de profundidade) constantes da Tabela
B do Anexo 1.

Na altura devida, uma vez definidas as opções de ocupação do local pelo PU, este
pressuposto conservativo pode ser revisto se necessário, para assegurar que quaisquer
medidas de mitigação agora recomendadas reflectirão as condições do local após
desenvolvimento. De qualquer forma salienta-se que a investigação delineada incluiu a
amostragem de solos superficiais e de estratos mais profundos.

Foi também tomada em consideração a textura do solo, com base na informação obtida a
partir das análises de granulometria efectuadas. Considerou-se que os solos grosseiros
incluem os solos com mais de 70% de partículas com um diâmetro igual ou superior a 50
µm ou seja, genericamente comparáveis com um solo arenoso de grão médio.

Uma vez que, à data de elaboração do presente relatório, a equipa do PU se encontrava


ainda a trabalhar nos potenciais usos futuros para o local, na avaliação “genérica”, foram
adoptados critérios adequados para os usos mais sensíveis “residenciais/zonas verdes”.

Os valores de qualidade e usos da água subterrânea que foram adoptados para o local
estão relacionados com o facto de o aquífero existente não ser utilizado para
abastecimento público (água não potável) e do mesmo apresentar condições “semi-
salinas”, resultantes da proximidade relativamente ao estuário do Tejo.

A utilização da abordagem “genérica” foi considerada apropriada como um primeiro nível


na metodologia faseada de análise de risco. A necessidade de progredir para um maior
detalhe de análise de risco estava dependente do resultado do primeiro nível da avaliação
de risco. A necessidade e extensão das medidas de gestão de risco foi determinada após
a avaliação de risco.

2.7 Abordagem OMEE ‘Site Specific Risk Assessment’


A abordagem ‘Site Specific Risk Assessment (SSRA)’ pode ser utilizada em vez de/ou
adicionalmente à abordagem genérica, para estabelecer critérios específicos para cada
local, tendo em conta um determinado leque de potenciais cenários de ocupação.

A abordagem adoptada neste estudo foi no sentido de uma progressão até uma SSRA, no
caso dos poluentes para os quais não existiam critérios genéricos, ou onde a utilização de
critérios genéricos indicou a existência de um risco potencialmente inaceitável (i.e. os
critérios genéricos foram ultrapassados). Adicionalmente, adoptou-se uma abordagem
SSRA para os cenários de exposição não incluídos na derivação dos critérios genéricos.

A quantidade e os requisitos da informação que será necessária para permitir a inserção


dos parâmetros específicos do local no modelo numérico SSRA, podem ser significativos e
tendem a aumentar em complexidade para permitir a adopção de pressupostos menos
conservativos na análise de risco.

Tal como é descrito no Capítulo 7, foi realizada uma investigação intrusiva em duas fases
na zona do estaleiro da Margueira. A Fase 1 dessa investigação foi planeada para fornecer
um conjunto de parâmetros locais que poderão ser utilizados quer na abordagem de risco
genérica, quer no modelo SSRA. Como parâmetros de análise de risco, além de um
conjunto de resultados químicos representativos e robustos, foi considerada informação
relativa à granulometria dos solos em presença, concentrações em carbono orgânico total
nos solos e dados de monitorização dos níveis piezométricos. A Fase 2 da investigação
centrou-se na recolha de informação adicional, apropriada para a avaliação do local.

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Relatório ECAGG 5
Directrizes seguidas e estratégias de investigação

2.8 Environmental due diligence


O conceito de environmental due diligence encontra-se internacionalmente estabelecido e,
no essencial, relaciona-se com a responsabilidade dos proprietários de terrenos
eventualmente contaminados ou entidades interessadas em adquirir terrenos
eventualmente contaminados na avaliação de quaisquer riscos mais alargados associados
a estes locais. Esses riscos podem ser totalmente independentes de quaisquer propostas
de utilização futura ou de requalificação existentes para o local, mas o desenvolvimento de
um local contaminado pode aumentar os mesmos (por exemplo através da criação de
novas vias que permitam a migração da contaminação existente).

A existência, real ou potencial, desse tipo de passivos ambientais pode também afectar as
potenciais opções de utilização futura do local. Contudo, este não é sempre o caso uma
vez que, por exemplo, a migração de água subterrânea contaminada para fora do local
poderá não ter consequências para as actividades propostas à superfície (dependendo da
ausência de vapores ou de interacções humanas com a contaminação).

Assim sendo, é usual levar a cabo uma avaliação inicial, usualmente designada por desk
study, dos potenciais riscos (suportada por uma visita ao local, quando possível) e, depois,
progredir em direcção a uma investigação intrusiva, se as circunstâncias assim o ditarem.
A este respeito refere-se que, por vezes, o acesso às propriedades não é possível devido a
restrições dos proprietários e/ou a potenciais interferências com a operação do local. Estas
avaliações são designadas por “avaliação preliminar do local”, um processo que foi levado
a cabo na AI situada fora dos estaleiros da Lisnave na Margueira (ver capítulo seguinte).

2.9 Desk study da Área de Intervenção


Foi levada a cabo uma Avaliação Preliminar do Local (ver acima) na AI (incluindo a área do
estaleiro e área exterior ao estaleiro), sendo os resultados desta avaliação apresentados
nos Capítulos 3, 4 e 5. A estratégia adoptada prendeu-se com a revisão da informação
histórica disponível para as actividades levadas a cabo numa série de locais dentro da AI
(assim como alguns na vizinhança imediata da AI) e avaliação do potencial de
contaminação associado aos vários usos do solo, da natureza desses usos e da sua
duração (ou seja, a determinação do período de tempo durante o qual a referida actividade
ocorreu).

A análise crítica da informação recolhida, que foi complementada com visitas ao local (e,
onde possível, com contactos com os proprietários/ocupantes dos locais) foi
essencialmente qualitativa. Nesta avaliação foi dado particular ênfase aos riscos
associados a quaisquer utilizações que envolvessem o manuseamento e utilização de
hidrocarbonetos e solventes, uma vez que esses materiais representam, frequentemente,
os riscos potenciais mais elevados para a contaminação de solos e de águas
subterrâneas.

No que respeita à área ocupada pelo antigo estaleiro, a informação recolhida nesta
avaliação preliminar foi, depois, incorporada no dimensionamento e implementação da
investigação intrusiva, que é descrita de forma pormenorizada no Capítulo 6.

28
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Relatório ECAGG 5
Historial da Área de Intervenção

3 Historial da Área de Intervenção

3.1 Enquadramento
A frente ribeirinha de Almada, entre Cacilhas e a Cova da Piedade foi fortemente
influenciada em termos físicos e sócio-económicos pela relativamente tardia
industrialização que ocorreu em Portugal. No séc. XIX assiste-se a uma forte implantação
de indústrias transformadoras - numa linha continua que partindo da Trafaria atravessa o
Ginjal, Cacilhas, Margueira, Mutela, Romeira até à zona do Alfeite - integrando um sistema
complexo de várias indústrias, desde a moagem às indústrias da pólvora, da metalurgia do
ferro, corticeiras e conserveiras. A disponibilidade de terrenos baratos e de águas
profundas e calmas forneceu excelentes condições de ancoragem e foram factores cruciais
para o desenvolvimento da área.

Em meados do séc. 19 a frente ribeirinha entre Cacilhas e o Alfeite incluía poucos centros
residenciais – Murgueira, Mutela, Romeira, Caramulo, Cova da Piedade – suportados por
actividades agrícolas, artesanato e actividades transformadoras.

O registo efectuado a partir de 1852 atesta a fundação da companhia “Parceria dos


Vapores Lisbonenses”, criando o estabelecimento regular de carreiras normais entre esta
margem e a de Lisboa. A existência deste tipo de embarcação de ferro foi impulsionadora
para o aparecimento dos primeiros estaleiros navais, que vem substituir gradualmente os
antigos de fabricação de embarcações em madeira, na zona do Ginjal da H. Parry & Son
no ano de 1865 - embora tivesse a sua sede em Lisboa bem como as oficinas de
metalurgia - com vocação para a construção de um outro tipo de embarcações em ferro.

Relativamente às unidades corticeiras, maioritariamente na zona do Outeiro do Alfeite, do


Caramujo, da Romeira, Margueira e Cacilhas, a sua implantação começa a efectivar-se
entre meados do século XIX (cerca de 1870) prolongando-se a sua actividade até às
décadas de 50/60 do século XX. Os principais factores para esta fixação residiram na
existência de ligação ferroviária entre os montados alentejanos, fornecedores da matéria
prima, e a Estação Central de Sul e Sueste com terminal no Barreiro. O contacto acessível
com os centros de produção da matéria e a presença do Mar da Palha, enquanto
plataforma de escoamento, foram aspectos basilares para a passagem da cortiça em bruto
para as fábricas transformadoras e daqui para os respectivos destinos finais no porto de
Lisboa. Esta actividade, inicialmente desenvolvida como actividade preparatória,
transformou-se mais tarde numa indústria transformadora.

A indústria conserveira, remontando ao período romano, é a resposta natural à vocação


histórica das zonas em contacto com o rio e uma localização ideal com o estuário do
mesmo. A sua instalação gera desenvolvimento da indústria alimentar e, simultaneamente,
toda uma série de subsidiárias de transformação de derivados de peixe, tais como a dos
óleos e das farinhas.

Em 1864 instala-se a primeira fábrica de moagens designada por “Moinhos Reunidos” com
um programa definido de produção de farinha através de processos industriais, embora
nesta primeira fase ainda assente em critérios de moagem por mós. Desde a sua
inauguração foi sofrendo continuas adaptações (1872,1889 e 1890) com o objectivo de se
adequar às exigências e requisitos da técnica de transformação vigente.

No início de 1930 com a instalação do Arsenal do Alfeite, a chegada de migrantes rurais e


a intensificação do tráfego a área da Cova da Piedade sofre novas pressões demográficas
e urbanísticas. A construção da Estrada Nacional nº 10, entre 1945 e 1951, alterou
substancialmente a paisagem física desta zona. A faixa de terreno entre a Cova da
Piedade e Cacilhas foi criada essencialmente à custa do aterro das baías da Margueira e
da Mutela e da destruição de parte da colina existente na zona do Pontal de Cacilhas.

29
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Historial da Área de Intervenção

A introdução da indústria pesada, essencialmente construção e reparação naval, alterou


definitivamente a paisagem nesta zona e causou um novo surto de crescimento urbano. No
início dos anos 60 iniciou-se a construção dos estaleiros navais da Lisnave na Margueira,
com o aterro contínuo das baías da Margueira e da Mutela. O estaleiro da Lisnave foi
inaugurado em 1967.

Com o declínio da indústria corticeira, que ocorre mais marcadamente nos anos 50, e da
indústria da moagem, nos anos 80, a área da Mutela, Caramujo e Romeira começa
progressivamente a decair até ao abandono total das fábricas. O recente encerramento
dos estaleiros da Lisnave na Margueira representou o fim da indústria pesada em Almada.
Da antiga actividade industrial tudo o que resta hoje em dia resume-se ao complexo naval
militar do Arsenal do Alfeite, a sul da Cova da Piedade, confinando com o município do
Seixal.

Na Figura 3.1 pode observar-se a evolução do desenvolvimento industrial na zona ao


longo do tempo.

3.2 O estaleiro da Margueira


No início dos anos 60 ocorreu um enorme aumento no tráfego marítimo de petróleo e uma
crescente necessidade de infra-estruturas portuárias. Por outro lado, os principais
estaleiros europeus – essencialmente holandeses e suecos – experimentavam inúmeras
dificuldades de falta de mão-de-obra. Estes factores apontavam para uma clara
necessidade de construção de estaleiros navais na Europa e influenciaram a Lisnave, que
lançou o projecto para a construção do estaleiro da Margueira. A 20 de Novembro de 1962
o governo Português autorizou o Porto de Lisboa a ceder à Lisnave a área onde o estaleiro
seria construído (Decreto-Lei nº 44708). Uma das condições desse acordo era que, após
cessação das actividades navais, a área reverteria para o governo que, então, daria uma
indemnização à Lisnave por todos os trabalhos portuários, edifícios e equipamentos
instalados pela sociedade.

A construção do estaleiro da Lisnave na Margueira iniciou-se em 1962 e a actividade


industrial começou em 1967. O processo de construção foi executado em duas fases, com
a primeira fase a ser finalizada em 1967 e a segunda fase a ser finalizada em 1971 (ver
Figuras 3.2 e 3.3). Também em 1967, devido à guerra, o canal do Suez foi encerrado e as
rotas do transporte marítimo foram alteradas, levando à necessidade de petroleiros de
maiores dimensões.

Em 1969 a Lisnave iniciou a construção de componentes para cascos de navios. Nessa


altura a empresa tinha cerca de 4000 trabalhadores. Por volta de 1970/1971 foi construída
a doca 13. Em 1974, com o 25 de Abril e a mudança do regime político, o estaleiro da
Margueira recebeu todos os trabalhadores que trabalhavam em companhias subsidiárias,
aumentando o número total de trabalhadores para cerca de 9000 pessoas.

No período compreendido entre 1978/79 a Lisnave abandonou a construção naval,


transferindo todos os trabalhadores e equipamento relacionados com a construção naval
para Setúbal, mantendo apenas as actividades relacionadas com a reparação naval.
Entretanto o número de trabalhadores na Lisnave foi sendo progressivamente reduzido e
por volta de 1985 o estaleiro da Margueira empregava cerca de 4000 pessoas. O período
compreendido entre 1984 e 1986 foi de grande crise e de enormes convulsões sociais no
estaleiro da Margueira, tendo como consequência uma grande redução no número de
trabalhadores e no colapso do principal grupo sindical.

30
Frente Ribeirinha Nascente
da Cidade de Almada

ECAGG
Evolution of industrial occupation in the IA
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 3.1


Frente Ribeirinha Nascente
da Cidade de Almada

ECAGG
Aerial photo of Operational site
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 3.2


1958

1967

2003
Frente Ribeirinha Nascente
da Cidade de Almada

ECAGG
Aerial site photos (1958-2003)
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure. nº 3.3


Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Historial da Área de Intervenção

Contudo, aproximadamente entre 1986 e 1992 a Lisnave registou um aumento na


produção devido à conjugação de uma série de factores externos favoráveis. Embora a
produção tenha aumentado o número de trabalhadores da empresa manteve-se, tendo a
Lisnave recorrido a subcontratação. Cerca de 1992/94 os estaleiros do Médio Oriente
começaram a criar uma forte competição às instalações europeias e a produção na
Lisnave registou novo decréscimo. Em 1993 o governo Português aprovou o encerramento
do estaleiro da Margueira, concentrando a actividade naval no estaleiro da Mitrena em
Setúbal, através da Deliberação do Conselho de Ministros de 26 de Agosto de 1993).

Este documento legal estabeleceu que os terrenos onde o estaleiro da Margueira se


encontrava instalado deveriam reverter para o Estado Português através do pagamento de
uma indemnização à Lisnave, que resultou na internalização da dívida bancária da
Margueira às instituições credoras. Essas instituições foram, então, obrigadas a adquirir a
propriedade do estaleiro da Margueira através de um fundo de investimento, formado em
conjunto com o Estado, na proporção dos seus créditos. Esta operação, incluída na Lei nº
71/93 de 26 de Novembro (Artº 11º) foi materializada com a assinatura de dois contratos
em 31 de Dezembro de 1993 entre o Estado, Lisnave e as 15 instituições credoras e entre
a Lisnave e os accionistas. Desta forma a propriedade da Lisnave reverteu para o Estado
Português e foi transferida para o Fundo Imobiliário Fechado MARGUEIRA CAPITAL.

A 27 de Julho de 1995 foi criada a sociedade Margueira – Sociedade Gestora de Fundos


de Investimento Imobiliário, S.A. com o objectivo de gerir a MARGUEIRA CAPITAL. O
Fundo tornou-se o proprietário de uma área de cerca de 79 ha, que incluía o terreno, os
edifícios, as docas secas e o plano de água e passou a ser responsável pela elaboração
de um plano de urbanização para os terrenos, a ser finalizado até ao final de Dezembro de
2002. O estaleiro da Margueira encerrou formalmente a sua actividade em 1999/2000.

34
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

4 Enquadramento ambiental e físico


da Área de Intervenção

4.1 Introdução
No presente capitulo apresenta-se o enquadramento físico e ambiental da Área de
Intervenção (AI). De acordo com o Caderno de Encargos, a Área de Intervenção (IA)
divide-se em duas zonas distintas: o estaleiro da Margueira, ocupando uma área de
aproximadamente 50 ha, e a área exterior ao estaleiro, que ocupa os restantes 65 ha.

A descrição aqui apresentada baseou-se em elementos recolhidos em diversas fontes de


informação. As observações directas no local, realizadas por elementos da equipa da
ATKINS, consistiram numa das mais importantes fontes de informação usadas.
Adicionalmente, e para efeitos do ECAGG, foram contactados e entrevistados alguns
antigos trabalhadores da Lisnave, assim como trabalhadores actuais. Recolheu-se ainda
informação junto dos técnicos que procedem actualmente à manutenção eléctrica do
estaleiro (essencialmente informação acerca da operacionalidade do equipamento eléctrico
utilizado na manutenção das docas e no abastecimento energético). A caracterização
geológica e geotécnica baseou-se na informação disponibilizada pela Câmara Municipal de
Almada e pela Administração do Porto de Lisboa (APL).

Para a realização deste capítulo foram consultados os seguintes documentos e relatórios:

• Plano Director do estaleiro da Margueira, 1990

• Serviços Geológicos de Portugal (1963) Carta Geológica de Portugal na escala


1:50000, folha 34-D, Lisboa

• Universidade Nova de Lisboa (2003) Carta Geológica do Concelho de Almada.


Zona Nascente, na escala 1:15000 (fornecida pela CMA)

• Serviços Geológicos de Portugal (1988) Carta Neotectónica de Portugal na escala


1:1000000

• Centro de Projectos CUF (1963) Lisnave, S.A.R.L.. Novo Estaleiro Naval de


Lisboa. Reconhecimento Geológico e Geotécnico da Área do Futuro Estaleiro
Naval

• CMA (1992) Plano Director Municipal de Almada

• APL (1999) Carta hidrográfica do Porto de Lisboa

• INAG (1999) Plano de Bacia Hidrográfico do Rio Tejo

• Ecossistema (2001) Empreitada de Concepção / Construção da ETAR da Mutela,


Estudo de Impacte Ambiental, Relatório Técnico

• Instituto de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


(2002) Caracterização e Monitorização das Comunidades Bentónicas da Mutela e
do Portinho da Costa

• Dados de qualidade do ar da Estação do Laranjeiro em 2003, fornecidos pela


CMA

35
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

• DCEA, FCT-UNL (2001) Campanhas de avaliação das concentrações de dióxido


de azoto, dióxido de enxofre e ozono no ar ambiente em Portugal

• APL (1983) Pontal de Cacilhas, Sondagens executadas em 1983

• Rodio (1969) Trabalhos de Prospecção dos terrenos de fundação da doca de


500m na Margueira – Doca 13

• Sopecate (1954) Sondagens de reconhecimento geológico entre Cacilhas e


Alfeite

• CANIFA/Construções Técnicas Lda (1970) Sondagens geotécnicas


complementares na Base Naval de Lisboa no Alfeite (2ª fase)

• Ricardo e Teixeira Duarte (1937) Relatório das sondagens geológicas de


reconhecimento executadas na margem esquerda do Tejo, entre Cacilhas e
Barreiro

• Teixeira Duarte (2000) – Sondagens de reconhecimento geotécnico, “Empreitada


das obras terminais da bacia de Almada – emissários e ETAR da Mutela”

• J.Keller (1969) Reconhecimento Geotécnico na Bacia de Flutuação da Base Naval


do Alfeite

• MST (2003) – Metropolitano Ligeiro da Margem Sul do Tejo, Projecto de


Execução, Troço 3, Tomo 1 – Geologia e Geotecnia

• Sondagens realizadas no âmbito do presente estudo para caracterização do


estado de contaminação de solos e águas subterrâneas, incluindo 36 sondagens
até uma profundidade de 6 metros, por motivos de instalação de furos de
monitorização das águas subterrâneas, 53 sondagens até 4 metros com recolha
contínua de amostras, e 64 poços de observação até 2-4 metros de profundidade.

4.2 Área de Intervenção


4.2.1 Características físicas
Neste capítulo são descritas as características físicas da AI respeitantes ao clima,
topografia, uso do solo (incluindo a zona urbana principal e o sistema rodoviário),
hidrologia, marés, correntes e ondulação.

Clima

A Área de Intervenção apresenta um clima húmido subtropical com as seguintes


características: verões quentes e secos com forte influência continental e invernos amenos;
temperaturas moderadas; chuvas intensas comuns entre períodos secos e húmidos;
temperatura média do mês mais quente acima dos 22ºC. A análise do regime de ventos
permite identificar uma dominância do vento de Noroeste, representando mais de 32% do
total, e com uma velocidade média anual a variar entre 7 e 12 km/h.

Topografia

A AI encontra-se contida a Oeste e a Sul por encostas com altitudes que chegam a atingir
os 91 metros. A Este, a área é delimitada pelo rio Tejo, facto que confere uma grande
amplitude visual e fisiográfica ao espaço. A área ocupada pelo antigo estaleiro da
Margueira é efectivamente plana. As cotas mais altas surgem na zona Noroeste da AI,

36
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

onde se desenvolve uma encosta, com declives quase sempre superiores a 25%. O talude
que define esta encosta surge como uma forte condicionante, que resulta das grande
inclinações que o caracterizam e que se traduzem sobretudo em riscos de erosão e de
desmoronamento consideráveis. A restante encosta encontra-se já muito consolidada no
que se refere à ocupação humana. No entanto, surgem pontualmente áreas expectantes
inseridas no tecido construído, onde se verificam também riscos de erosão e
desmoronamento. A Figura 4.1 mostra estes aspectos.

Ocupação actual do solo

Em 2001 a AI tinha uma população residente de cerca de 6000 habitantes, localizados


predominantemente nas áreas noroeste e sul (a zona do antigo estaleiro não regista a
presença de população). Para oeste da EN10, na área norte da AI, residem cerca de 70%
da população total da AI. Os aglomerados de Cacilhas, Margueira e Quinta da Alegria
concentram mais de 65% da população que reside na AI. Os restantes 30% residem na
área sul, na zona da Cova da Piedade.

O uso do solo na AI apresenta-se bastante diversificado. Os usos industriais (antigos e


actuais) representam uma percentagem elevada relativamente aos valores totais. A área
do estaleiro da Margueira representa a maior zona de ocupação industrial, com cerca de
40% do total da AI. Existe ainda um pequeno número de antigas fábricas, abandonadas,
localizadas essencialmente na zona sul da AI, enquanto que um largo número de
pequenas unidades industriais e de armazenagem se encontram espalhadas por toda a AI.

Existem algumas áreas verdes espalhadas ao longo da AI, sendo de referir como exemplo
o pequeno jardim localizado no Largo 5 de Outubro, Cova da Piedade, o talude localizado
paralelamente à Avenida Aliança Povo – MFA, localizado na parte este do limite norte da
AI, com coberto arbustivo e algumas árvores, e uma área localizada no sul da AI, ocupada
com pequenos quintais.

A ocupação residencial é fortemente marcada pela descontinuidade e pela fragmentação.


A estrutura urbana da AI revolve em torno do principal eixo viário – a EN10 - Avenida
Aliança Povo MFA, Avenida António José Gomes, Avenida 23 de Julho que constitui a
principal ligação entre o Terminal Fluvial de Cacilhas e as várias áreas urbanas que se têm
vindo a desenvolver ao longo da EN10. Cacilhas, localizada a norte da AI, representa o
principal aglomerado urbano. Para sul o aglomerado de Cova da Piedade constitui o outro
núcleo urbano com importância. Existem ainda áreas ocupadas por equipamentos tais
como o Hospital Particular de Almada (perto to Cova da Piedade), A Brigada de Bombeiros
de Cacilhas (perto do limite norte da AI) e o Parque Tecnológico da Mutela.

Hidrologia

O rio Tejo desagua sensivelmente a meio de uma pronunciada reentrância, com uma
abertura de 22 milhas, compreendida entre o Cabo Raso e o Cabo Espichel. O trecho
fluvio-marítimo do Tejo estende-se desde a foz até Vila Franca de Xira, cerca de 50 Km a
montante. O trecho entre a foz e a linha Cacilhas-Santos, conhecido como “Corredor do
Tejo”, tem 2 Km de largura e profundidades média superior a 20 m e máxima de 45 m. A
partir da linha Cacilhas-Santos o rio alarga bruscamente, atingindo a largura máxima de
15 Km, imediatamente a montante de Alcochete, e reduzindo depois progressivamente até
1 Km, em Alhandra. A profundidade média é de cerca de 5 m e a máxima de 20 m. Este
trecho constitui um complexo sistema de canais naturais e artificiais cortando baixios e
ilhas arenosas. As zonas norte e este são muito pouco profundas, ficando a descoberto na
baixa mar.

37
Frente Ribeirinha Nascente
da Cidade de Almada

ECAGG
Hypsometry and slopes in the IA
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 4.1


Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Na Figura 4.2 representa-se um excerto da carta hidrográfica 26304 do Porto de Lisboa,


datada de Maio de 1999, que abrange a área de intervenção do estudo. Como se pode
verificar, a profundidade no extremo norte desta área é de (-30 m)ZH, junto aos postos de
acostagem das carreiras fluviais, diminuindo para sul. Esta diminuição é brusca até à
batimétrica (-10 m)ZH, que se situa próxima da entrada das docas do estaleiro H. Parry &
Son, depois muito suavemente até ao extremo sul dos cais do estaleiro da Margueira, onde
atinge a batimétrica (-5 m)ZH. Como se pode constatar, o estaleiro da Margueira foi
construído sobre um baixio que avançava sobre o rio e as profundidades junto aos actuais
Cais n.º 1 e 1B eram entre (-5 m)ZH e (-3 m)ZH enquanto que em 1999 essas
profundidades situavam-se entre (-6 m)ZH e (-7 m)ZH. Isto revela que os fundos de serviço
dos cais do estaleiro foram obtidos por dragagem. A formação superficial que constitui o
fundo natural é composta por lodos, lodos arenosos e areias lodosas (ver esquema
abaixo). De acordo com informações recolhidas, toda a área adjacente ao rio, exceptuando
a secção mais próxima da Base Naval, apresenta uma profundidade suficiente para servir
a maioria dos barcos que chegam ao porto de Lisboa. Os fundos são relativamente
estáveis com as profundidades de serviço estabelecidas, sendo pouco frequentes as
dragagens de manutenção.

Marés

As marés ao longo da costa de Portugal Continental são marcadamente do tipo semi-


diurno regular, ou seja, têm duas preia-mares e duas baixa-mares por dia. Na Figura 4.3
pode observar-se o regime de marés. As marés em Cacilhas têm os seguintes valores
característicos:

PMMax (+4,3 m)ZH

PMAV (+3,7 m)ZH

PMAM (+2,9 m)ZH

NM (+2,2 m)ZH

BMAM (+1,4 m)ZH

BMAV (+0,6 m)ZH

BMMin (+0,0 m)ZH

Onde:

PMMax, BMMin – são as alturas de água máxima ou mínima que se prevê que
possam ocorrer devidas à maré astronómica

PMAV, BMAV – são os valores médios, tomados ao longo do ano, das alturas de maré de
duas preia-mares ou de duas baixa-mares sucessivas, que ocorrem quinzenalmente
quando a amplitude de maré é maior (próximo das situações de Lua Nova ou Lua Cheia)

PMAM, BMAM – são os valores médios, tomados ao longo do ano, das alturas de
maré de duas preia-mares ou de duas baixa-mares sucessivas, que ocorrem
quinzenalmente quando a amplitude de maré é menor (próximo das situações de Quarto
Crescente ou Quarto Minguante)

NM – é o valor médio das alturas da água

ZH – é o plano de referência em relação ao qual são referidas as linhas batimétricas das


cartas náuticas e as previsões da altura da maré.

39
A - Exctract of carta hidrográfica, May of 1999 B - Extract of carta hidrográfica de 1932

Frente Ribeirinha Nascente


da Cidade de Almada

ECAGG
Hidrographic Map of IA (1999 and 1932)
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 4.2


4,50

PM
4,00
PM

3,50

3,00

2,50

Ní vel Médio

2,00
Ní vel Médio do Mar em Cascais
(Nivelament o Geral do Paí s)
1,50

1,00

0,50

BM Zero Hidrográf ico BM


0,00
0 5 10 15 20 25

H or a

Frente Ribeirinha Nascente


da Cidade de Almada

ECAGG
Tidal regime
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 4.3


Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Correntes e agitação

As correntes no rio Tejo são devidas ao fluxo e refluxo da maré oceânica e ao afluxo de
águas fluviais drenadas pelo rio. O prisma de maré correspondente a uma maré com
amplitude de 1,3 m é de cerca de 7,5 x 108 m3. O estuário recebe afluxos dos rios Tejo,
Sorraia e, com menor importância, dos rios Coina, Judeu e outras pequenas linhas de
água. A bacia hidrográfica do Tejo e Sorraia, em Vila Franca de Xira tem aproximadamente
82 000 km2.Estima-se que o caudal fluvial em Vila Franca de Xira atinja os seguintes
valores:

Percentagem de Caudal
Excedência (m3/s)
90 95
50 385
10 1800
1 4800

As correntes de vazante entre Vila Franca de Xira e o alinhamento Santos - Cacilhas são
mais fortes junto às margens que a meio do rio porque sobre a margem direita correm as
águas vindas das calas do Norte e das Barcas e sobre a margem esquerda as que vêm
das calas de Samora e de Alcochete. Estas águas dirigem-se para SW e vão encontrar, no
Mar da Palha, as águas provenientes das calas do Montijo, do Barreiro e do Seixal, que
correm para NW (Figura 4.4). Este encontro de águas verifica-se a E do pontal de Cacilhas
e origina uma ondulação especial, conhecida por “bailadeiras”. Depois, as águas dirigem-
se para WNW em direcção ao Cais do Sodré, Santos e Alcântara, seguindo de seguida
para W, orientadas pela configuração da costa, até Paço de Arcos, onde inflectem para
SW, na direcção da barra Grande. No pontal de Cacilhas forma-se, por vezes, cerca de
uma hora depois da preia-mar, uma contra-corrente, designada por “revessa”. Em águas
vivas, as correntes de vazante atingem velocidades de 2 nós, junto ao pontal de Cacilhas,
sendo progressivamente menores à medida que se avança para sul.

A enchente corre sensivelmente no enfiamento da barra Sul, inflectindo próximo de Caxias


para E e correndo paralelamente às margens. Próximo do pontal de Cacilhas, a enchente
bifurca-se: um braço segue para NE, na direcção das calas do Montijo e Samora, e outro,
mais fraco, contorna o pontal de Cacilhas e inflecte para E e SE (ver Figura 4.4).

Em resultado da configuração da barra do Tejo e do trecho terminal do rio, só a agitação


marítima de Oeste e Sudoeste consegue penetrar no estuário. As ondas de Oeste afectam
principalmente a margem esquerda e as de Sudoeste a margem direita. São ondas
geradas ao largo, com períodos da ordem de 8 a 12 s. Da área de intervenção do estudo,
só o pequeno trecho da margem esquerda virado a Norte, onde estão implantados os
postos de acostagem das carreiras fluviais, é afectado pelas ondas de W. No entanto,
tendo em conta os baixios que constituem a barra e a distância a que este trecho se
encontra da foz do rio, a altura das ondas que o atingem é pequena, inferior a 1 m.

A restante margem da área de intervenção, virada a nascente, é essencialmente afectada


pela agitação provocada pelos ventos locais no plano de água do estuário. De acordo com
os registos realizados na estação meteorológica de Lisboa (Geofísico), entre 1941 e 1970,
os ventos predominantes são de N (33,4%), seguidos dos de NE (16,6%), de NW (14,2%)
e de SW (14,0%). Dada a localização deste trecho de margem, só os ventos
compreendidos entre N e SE, a que corresponde a percentagem global de cerca de 55,7%,
provocam ondas que o atingem.

42
A - Currents in low tide B - Currents in high tide

Frente Ribeirinha Nascente


da Cidade de Almada

ECAGG
Currents at high and low tide
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 4.4


Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

4.2.2 Geologia, tectónica e sismicidade


4.2.2.1 Considerações Prévias

A caracterização geológica e geotécnica que agora se apresenta resulta essencialmente


da recolha e análise da informação geológica e geotécnica disponível nos arquivos do
Porto de Lisboa, bem como da análise da informação constante da Carta Geológica de
Portugal na escala 1:50 000, folha 34 – D Lisboa, do extracto da Carta Geológica do
Concelho de Almada (elaborado no âmbito de um protocolo entre a Câmara Municipal de
Almada e a Faculdade de Ciências e Tecnologia), dos registos das sondagens e poços de
observação executados no âmbito do presente estudo, dos resultados das análises
laboratoriais efectuadas e de visitas à AI.

É de salientar o facto de que todos os elementos recolhidos junto da APL referentes à zona
dos antigos estaleiros da Lisnave se reportarem a zonas onde não existiam quaisquer
ocupações, não caracterizando geotecnicamente, por isso, os aterros que entretanto aí
foram construídos. Nos itens que se seguem apresenta-se uma síntese da geologia,
tectónica e sismicidade da área em estudo, bem como das principais características
geotécnicas dos materiais ocorrentes.

4.2.2.2 Enquadramento Geológico da Área em Estudo

Do ponto de vista geológico, a área em estudo engloba-se numa unidade morfoestrutural


do território português mais vasta – a Bacia Cenozóica do Tejo-Sado – que por sua vez
inclui a denominada região do Vale Inferior do rio Tejo, que consiste numa depressão
tectónica complexa que se começou a desenvolver no soco varisco e em formações
mesozóicas do bordo oriental do Fosso Lusitânico durante o Paleogénico, evoluindo de
forma coesa ao longo do Terciário, onde está preservado um enchimento sedimentar
cenozóico.

Os sedimentos de idade miocénica, que constituem o elemento fundamental da área em


estudo, incluem-se numa série marinha de sedimentação aparentemente contínua,
constituída por um conjunto de camadas de areias e argilas intercaladas com margas e
calcários, de espessura decamétrica, com o total de 200 m na região de Lisboa.

A referida área é marginada por uma bacia interior do rio Tejo, denominada Mar da Palha,
onde a reduzida capacidade de transporte daquele rio é responsável por assoreamentos
importantes que se traduzem na existência de depósitos aluvionares com várias dezenas
de metros de espessura.

Um pouco dispersos por toda a região, e cobrindo indiferentemente todas as formações


ocorrentes, encontram-se depósitos de aterro com características e espessuras bastante
variáveis.

À excepção da área do Pinhal Novo, sujeita à acção de uma estrutura diapírica em


profundidade, e das estruturas dobradas da cadeia da Arrábida, o enchimento sedimentar
apresenta-se de um modo geral pouco deformado, sub-horizontal ou apenas afectado por
dobramentos de grande raio de curvatura ou balançamentos suaves.

Na figura seguinte apresenta-se um extracto da Carta Geológica do Concelho de Almada –


Zona Nascente, na escala 1:15 000, realizada no âmbito de um protocolo entre a Câmara
Municipal de Almada e o Centro de Estudos Geológicos da Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, onde se mostram as formações ocorrentes na
área em estudo.

44
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Figura 4.5: Extracto da Carta Geológica do Concelho de Almada – Zona Nascente,


na escala

45
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

De acordo com o enquadramento geológico anteriormente descrito e a Carta Geológica


referida, resulta que a área em estudo se caracteriza pela ocorrência de um substrato de
idade miocénica, coberto localmente na zona emersa por depósitos de aterro e, na zona
imersa, por aluviões do rio Tejo. Assim, na caracterização geológica da área em estudo
consideraram-se as seguintes unidades:
Actual

Aterros

Recente

Aluviões

Plistocénico

Camadas argilosas

Miocénico

Areolas de Braço Prata (M4VIIa)

Calcários de Marvila (M3VIc)

Grés de Grilos (M3VIb)

Argilas azuis de Xabregas (M3VIa)

Actual

Ao longo de toda a margem do rio Tejo (incluindo aqui a zona dos antigos estaleiros) e um
pouco disseminados por toda a área em estudo, ocorrem aterros resultantes da forte
ocupação existente. No primeiro caso, bordejando a antiga zona ribeirinha, a ocorrência de
aterros resulta da conquista de terrenos ao rio levada a cabo ao longo do século passado e
à construção das infra-estruturas dos estaleiros da Lisnave, enquanto que no segundo
caso tratam-se de casos pontuais devido a necessidades locais.

Em termos de características físicas, os aterros ocorrentes na zona dos antigos estaleiros,


são essencialmente arenosos, provenientes de materiais dragados no rio (i1ª fase de
execução do terrapleno). Na restante parte das referidas instalações e da área, os aterros
são constituídos, em grande parte, por materiais rejeitados de escavações diversas, de
entulhos e escombros, portanto mais heterogéneos e irregulares.

A espessura dos depósitos de aterro pode variar de cerca de 3 m, valor reconhecido na


zona sul dos antigos estaleiros e que poderá ser tomado como máximo na restante parte
urbana, até cerca de 9 m nas imediações do rio Tejo.

Recente

As formações referenciadas na cartografia geológica da zona como de idade recente, são


as aluviões do rio Tejo que assentam discordantemente sobre as formações do miocénico
marinho que afloram no interior da área em estudo. Estas aluviões aumentam de
espessura da margem para o interior do estuário, atingindo espessuras superiores a 30 m
e litologicamente, do topo para a base, caracterizam-se por:

o lodos de cor cinzenta, esporadicamente com fragmentos de conchas, cujas


espessuras aumentam com a distancia à margem, ultrapassando nalguns casos
30 m.

46
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

o na zona meridional do estaleiro e em frente da Mutela, foram reconhecidas


importantes acumulações de areias de grão grosseiro, cuja espessura, de acordo
com os elementos recolhidos, excede 14 m. Este depósito deverá corresponder
ao preenchimento de um vale fóssil existente no prolongamento da actual Vala do
Caramujo e assenta directamente sobre materiais de idade, provavelmente
plistocénica. Ocasionalmente ocorrem no seu seio zonas de conchas e areais de
grão fino, por vezes lodosas.

o Na base das aluviões ocorre, por norma, uma cascalheira constituída por seixos e
calhaus sub-rolados a subangulosos de calcário, arenito e quartzito, envoltos por
matriz arenosa. A espessura média deste depósito é de 1 m, não excedendo 4 m
nas zonas de maior possança.

Nesta zona, o substracto apresenta, principalmente na parte sul, algumas irregularidades


que se reflectem na espessura das aluviões (ver Figuras A.1 a A.8). Tais irregularidades
devem-se ao facto da transgressão flandriana, que se seguiu à última regressão onde o
nível de base se situava cerca de 100 m abaixo do actual, não se processar de modo
continuo, mas sim com pequenas oscilações de avanço e recuo do nível de base da rede
hidrográfica, que originaram sucessivas erosões e assoreamentos, nomeadamente na
zona de desembocadura da Vala do Caramujo.

A referida Vala do Caramujo, de acordo com sondagens realizadas para o Metropolitano


Ligeiro da Margem Sul do Tejo (MST, 2003) apresenta espessuras de aluviões na ordem
de 20 metros)

Plistocénico

Na zona da Vala do Caramujo, o vale fóssil detectado por várias sondagens aí efectuadas
apresenta no seu curso inferior uma camada argilosa que assenta em discordância sobre
os estratos de idade miocénica subjacentes. Estas argilas, de cor cinzento esverdeado ou
amarelo acastanhado, são em geral pouco arenosas e apresentam pequenos fragmentos
de conchas dispersos. Camadas da mesma natureza foram ainda identificadas na zona
central da área do estaleiro, afastadas cerca de 450 m da margem.

Miocénico

Zona imersa

Os elementos recolhidos nos relatórios existentes no Porto de Lisboa não permitem


destrinçar convenientemente as várias unidades ocorrentes do substrato miocénico.

Assim, entre o Pontal de Cacilhas e a Base Naval do Alfeite, as formações de idade


recente e plistocénica descritas anteriormente assentam sobre uma superfície
profundamente erodida, constituída, do topo para a base e de Sul para Norte, por uma
formação calcária, uma série de camadas argilo-arenosas, calcários margosos e uma
alternância de camadas de areias argilosas e calcários margosos. De acordo com as
informações obtidas, os vários estratos inclinam para sul cerca de 8º.

Formação calcária – esta formação apresenta do topo para a base os seguintes níveis:

o calcário compacto muito rijo;

o calcário arenoso rijo, de cor clara;

o arenito de grão fino, carbonatado, com núcleos muito rijos formados por
aglomerados de conchas ligados por cimento sílico-calcário, mas frequentemente
friável, transformando-se nalguns casos em bolsadas de areia;

o arenito de grão grosseiro, friável.

47
P1 - P1' P2 - P2'

P3 - P3' P4 - P4'

Frente Ribeirinha Nascente


Fonte: da Cidade de Almada
Sondagens de reconhecimento geotécnico, "Empreitada das Obras ECAGG
Terminais da Baixa de Almada - Emissarios e ETAR da Mutela Perfis Geológicos
Teixeira Duarte
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.1


P1 - P1'

Fonte:
Sondagens de reconhecimento executadas
na margem esquerda do Rio Tejo em
Cacilhas e Barreiro, Ricardo e Teixeira
Duarte, 1939

Frente Ribeirinha Nascente


da Cidade de Almada

ECAGG
Perfis Geológicos
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.2


P1 - P1' P2 - P2'

P3 - P3'

CONVENÇÕES

Frente Ribeirinha Nascente


Fonte: da Cidade de Almada
Reconhecimento geotécnico na Bacia de Flutuação da ECAGG
Base Naval do Alfeite, Janeiro de 1970, Keller Perfis Geológicos
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.3


P1 - P1' P2 - P2'

P3 - P3'

P4 - P4'

P5 - P5'

P6 - P6'

Fonte: Frente Ribeirinha Nascente


Sondagens geotécnicas complementares na Base Naval da Cidade de Almada
de Lisboa no Alfeite (2ª fase), Novembro 1970 ECAGG
Canifa / Construções Técnicas, Lda Perfis Geológicos
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.4


P1 - P1'

P2 - P2'

P4 - P4'

P3 - P3'

Frente Ribeirinha Nascente


Fonte: da Cidade de Almada
Trabalhos de prospecção dos terrenos de fundação
da doca de 500m na Margueira. Doca Seca nº13
ECAGG
Sondagens Rodio, Abril de 1969
Perfis Geológicos
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.5


P6 - P6'
P5 - P5'

P7 - P7'

P8 - P8'

P9 - P9'

P10 - P10'

Frente Ribeirinha Nascente


Fonte: da Cidade de Almada
Trabalhos de prospecção dos terrenos de fundação
ECAGG
da doca de 500m na Margueira. Doca Seca nº13
Sondagens Rodio, Abril de 1969
Perfis Geológicos
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.6


P1 - P1'

Frente Ribeirinha Nascente


da Cidade de Almada

ECAGG
Fonte: Perfis geológicos
Pontal de Cacilhas, APL, 1983 Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figura nº A.7


Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Estes níveis, pela sua posição estratigráfica, composição e fósseis, alguns deles
característicos, permitem a sua inclusão na formação denominada de Grés de Grilos
(M3VIb) e Calcários de Marvila (M3VIc).

Série argilo-arenosa – a norte da formação calcária anteriormente descrita e


desenvolvendo-se até ás imediações do Pontal de Cacilhas, ocorrem areias de grão fino,
silto-argilosas e micáceas, de cor cinzento escuro e de elevada compacidade, com
intercalações de camadas finas de arenito de grão fino, de cimento calcário, rijo.

Série margosa – trata-se de uma sequência de estratos de natureza calcária, por vezes
muito arenosos e um pouco argilosos, de cor amarelada, com intercalações de natureza
argilo-arenosa, com significativa percentagem de cimento carbonatado.

Complexo calcário-arenoso – na zona do Pontal de Cacilhas ocorrem várias litologias


caracterizadas sempre pela abundância de fósseis de ostraídeos de grandes dimensões.
Em termos de sucessão de estratos pode considerar-se a seguinte:

o sequência de camadas argilo-arenosas, levemente calcárias e micáceas, por


vezes com intercalações de calcários margosos detríticos, de cor amarelada, que
passa em profundidade a cinzenta escura,

o calcários margosos detríticos, por vezes com marcas de dissolução, de cor


acastanhada, muito fossilíferos,

o areia de grão fino, argilosa de cor amarelada com fósseis de ostraídeos,


passando com frequência a uma arenito friável,

o arenito carbonatado de cimento argiloso.

Zona emersa

A distribuição espacial das diferentes unidades geológicas do Miocénico que ocorrem na


zona da área de intervenção está representada com pormenor e fiabilidade na Carta
Geológica do Concelho de Almada na escala 1:15 000.

Estas unidades, regularmente estratificadas e datadas do Miocénico Superior (Areolas de


Braço Prata, Calcários de Marvila e Grés de Grilos) e do Miocénico Médio (Argilas Azuis de
Xabregas), dispõem-se em monoclinal com inclinação suave, da ordem de 6 a 8º, para
SSE, ou seja, para o centro do sinclinal de Albufeira, na Península de Setúbal.

Referem-se, de seguida, de modo sumário algumas das principais características destas


unidades.

Areolas de Braço Prata (M4VIIa)

Afloram na zona da escarpa da Mutela, atingindo aí uma espessura de 25 a 26 m. Trata-se


de areolas amareladas, fossíliferas, em alternância com pequenas bancadas consolidadas
de natureza margo-calcária e gresosa.

Calcários de Marvila (M3VIc)

Os Calcários de Marvila formam um estreito afloramento que se estende desde a zona da


Margueira, passa pela S.ª do Monte e termina na zona da Costa da Caparica. No corte da
escarpa da Mutela, esta unidade está representada por dois níveis: um, superior,
caracterizado por margo-calcários cinzento-azulados e outro, inferior, de um arenito de
grão fino de cor cinzento-azulado.

55
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Grés de Grilos (M3VIb )

Os Grés de Grilos constituem uma estreita faixa que se prolonga desde a zona da
Margueira até à Costa da Caparica, passando pelo Pragal e S.ª do Monte. Na escarpa
anteriormente referida, apresentam uma espessura de cerca de 7 m, correspondendo a
camadas de natureza arenítica, de grão médio a fino e cimento argiloso ou calcário, de cor
cinzento-escuro e amarela, por vezes com abundantes fósseis de equídeos.

Argilas Azuis de Xabregas (M3VIa)

As Argilas Azuis de Xabregas formam um largo afloramento entre a Margueira, Almada,


Pragal, S.ª do Monte e a Costa da Caparica, com uma espessura que varia entre 12 e
15 m. Correspondem a alternâncias de camadas de espessura variável de arenitos de grão
fino e cimento margo-calcário, com calcários margosos e margas, uns e outros de cor
cinzento-escuro, azul-escuro e amarela.

Estes diferentes tipos litológicos originam nas frentes de vertentes ou taludes uma
morfologia irregular devida a fenómenos de erosão diferencial, que por vezes originam
derrocadas de massas de terras ou blocos, e que conduzem à formação de depósitos de
vertente na base das escarpas. Na Área de Intervenção não são observáveis
presentemente situações deste tipo.

4.2.2.3 Tectónica e sismicidade

Ao nível de estruturas neotectónicas, na região de Lisboa estão referenciadas várias:

o O lineamento ou falha do vale inferior do Tejo (ou falha do Tejo), que corresponde
a uma estrutura provável de orientação N30ºE, seguida aproximadamente pelo rio
Tejo no seu troço compreendido entre Vila Nova da Barquinha e o Barreiro.
Atribui-se-lhe um carácter provável, pois encontra-se muito mal caracterizada,
nunca tendo sido identificada em afloramento. Com efeito, a sua presença é
indicada apenas por evidências indirectas de natureza diversa: geomorfológicas,
imagens de satélite, sismológicas e geológicas.

o Falha de direcção aproximada W-E que acompanha a desembocadura do rio


Tejo, de Lisboa até à foz. É uma falha activa provável, do tipo desligamento
direito.

o No Estudo de Impacte Ambiental da ETAR da Mutela é referenciada uma falha


paralela à anterior, desenvolvendo-se cerca de 3 km a sul desta, entre as
proximidades de Sobreda e Cova da Piedade, encontrando-se com o Tejo junto à
ETAR da Mutela. Trata-se de uma falha activa provável de inclinação
desconhecida, com componente de movimentação vertical e marcas no bloco
inferior, a sul, o qual apresenta basculamento para ENE.

Na cartografia geológica que cobre a área em estudo (carta Geológica de Portugal, Folha
34-D) estão representadas outras falhas (sem actividade, dita neotectónica), identificadas
parte como certas, parte como prováveis, de orientação próxima de N-S e NNW-SSE, que
se desenvolvem desde a zona do Ginjal, atravessam Almada e terminam na zona da
Mutela.

A região em causa desde tempos históricos que tem sido afectada por diversos sismos.
Estes podem dividir-se em dois tipos: aqueles cujo epicentro se situa no mar, a SW do
Cabo de S. Vicente (como o de 1755), e aqueles cujos epicentros se situam na zona do
Ribatejo, como por exemplo o de Benavente, em 1909.

Segundo o referido na notícia explicativa da carta Geológica de Portugal, Folha 34-D, em


relação ao primeiro daqueles sismos, na área deste estudo, a intensidade foi de grau VIII,
enquanto que para o segundo esses valores foram da ordem de IX.

56
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Área em estudo

Figura 4.6: Esquema das principais falhas activas do Quaternário (Fonte: Carta Geológica
de Portugal na escala 1:500 000) e Carta de Isossistas de Intensidades Máximas

Do ponto de vista sismológico e de acordo com a Carta de Isossistas de Intensidade


Máxima, do Instituto de Meteorologia, o local em questão situa-se numa zona de
intensidade IX.

De acordo com o RSAEEP a área localiza-se na zona sísmica A, à qual corresponde um


coeficiente de sismicidade α = 1.

Segundo Oliveira, 1977 (LNEC), nesta região são expectáveis acelerações sísmicas
máximas da ordem de 150 cm/s2 para um período de retorno T= 1000 anos. Segundo o

57
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

mesmo autor, e para o mesmo período de retorno, a velocidade máxima é de 18 cm/s e o


deslocamento máximo de 8 cm.

4.2.2.4 Caracterização geotécnica local

Neste item reúne-se a informação de carácter geotécnico recolhida em vários estudos


efectuados na área dos antigos estaleiros navais da Margueira, bem como de alguma
experiência em formações de carácter semelhante., para além de se analisar também à
informação produzida no âmbito do ECAGG.

No Desenho nº 1 apresenta-se uma planta com a localização de todas as sondagens


anteriormente efectuadas a que se teve acesso e, nas Figuras A.1 a A.8, apresentam-se
alguns perfis interpretativos retirados desses vários estudos realizados. É de salientar mais
uma vez que todos os estudos geotécnicos existentes até à data sobre a zona do estaleiro
se referem a situações anteriores à construção do mesmo.

De acordo com o referido na síntese das características geológicas da área em estudo, os


materiais detectados são essencialmente de três tipos:

o Aterros

o Complexo aluvionar constituído por uma sequência de lodos, areias e cascalheira


de base

o Complexo miocénico constituído por alternâncias de calcários, calcários


margosos, areias finas silto-argilosas, arenitos e argilas siltosas.

De salientar que na área do antigo estaleiro naval, todas as estruturas importantes se


encontram fundadas no complexo miocénico por meios indirectos através de estacas,
excepto no caso das docas secas que possuem fundação directa por meio de sapatas e
lajes no referido complexo.

De seguida apresenta-se, por complexo, uma síntese das principais de características


geotécnicas, recolhidas nos vários trabalhos consultados.

4.2.2.4.1 Aterros

Os aterros, conforme se referiu anteriormente, são essencialmente de dois tipos: areias


dragadas na zona dos antigos estaleiros, e materiais rejeitados de escavações diversas,
de natureza areno-argilosa ou siltosa, entulhos e escombros, na restante parte da área.

Assim sendo, estes aterros apresentam características geotécnicas muito variáveis que
dependem do modo como foram colocados e da sua idade. A experiência recolhida
noutros locais, com aterros de natureza semelhante mostra que normalmente caracterizam
estes materiais, são de molde a prever que os mesmos apresentem consistência e
compacidade baixas e que, em consequência, sejam igualmente baixas as suas
características resistentes e apresentem alta deformabilidade.

58
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Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

Um facto que poderá ser relevante no estudo de futuras intervenções sobre estes materiais
na zona dos antigos estaleiros, é que no local onde actualmente se situa a ETAR da
Mutela existiram depósitos de entulhos com cerca de 10-12 m de altura sem que haja
conhecimento de qualquer fenómeno de rotura. Tal pode indiciar que futuras intervenções
que apliquem cargas da mesma ordem de grandeza das que os referidos entulhos
aplicaram sobre os aterros aí existentes, não se deverão traduzir por situações de risco.

Contudo, acha-se recomendável que toda e qualquer intervenção, dada a ausência de


dados que caracterizem convenientemente em termos de resistência e deformabilidade os
aterros existentes, seja precedida de uma campanha de trabalhos de reconhecimento
adequada ao projecto a que se destina.

Eventuais escavações que sejam necessárias deverão ser efectuadas ao abrigo de


medidas de contenção/entivação adequadas à profundidade das mesmas e vizinhança
da(s) obra(s).

Um facto que poderá ter algum significado em termos económicos é a reutilização dos
aterros constituídos por areias dragadas devido às boas características granulométricas
das mesmas. No entanto, antes de uma possível reutilização deverão ser efectuados
ensaios de compactação tipo Proctor modificado e índice de suporte CBR, de modo a
parametrizar as características como material de empréstimo desses materiais.

Factor importante que importa caracterizar nestes aterros é a sua susceptibilidade à


liquefacção, a qual deverá ser considerada sempre que as formações interessadas pelas
fundações das estruturas incluam extractos de areias soltas com continuidade lateral ou
com alguma espessura, com ou sem fracção fina, localizados abaixo da cota do nível
freático e próximo da superfície.

De acordo com a informação geológica disponível dos aterros existentes verifica-se que os
estratos ou bolsas de areias soltas (que poderão apresentar NSPT inferior a 15 pancadas)
são susceptíveis a fenómenos de liquefacção se localizam na zona dos antigos estaleiros,
mais precisamente na área dos aterros constituídos por areias dragadas, pois aparentam
continuidade lateral razoável, localizam-se próximo da superfície e abaixo da cota do nível
freático.

Os valores do coeficiente de uniformidade, Cu, (calculado pela razão D60/D10 ou seja, pela
razão entre os percentis 60 e 10 da distribuição granulométrica) e percentagem de
materiais finos, determinados das curvas de distribuição granulométrica efectuadas sobre
algumas das amostras recolhidas aquando da execução das sondagens e poços de
observação efectuados no âmbito do ECAGG, leva a considerar como provável a
mobilização de fenómenos de liquefacção, ou seja, apresentam valores de Cu < 15 e % de
finos < 10%.

No quadro seguinte apresenta-se o valor desses dois parâmetros para as amostras


ensaiadas.
Amostra Cu (D60/D10) % de finos
TP/S13/TP26/S/0.8m 4 0.33
PS/W8/PS14/S/0.7m 3.5 0.92
TP/S13/TP27/S/2.0m 3.3 0.04
PS/WS16B/PS23/S/4m 3.9 0.1
PS/W3/PS3/S/3.5m 3.75 0.09
PS/PS1/S/0.8m 4.2 0.04
PS/S11B/PS24/1.3m 3.1 0.13
PS/S11B/PS24/5.5m 3.7 0.06
PS18 (1.0m) 1.7 0.07
PS18 (4m) 7.3 0.77
PS/W5/6A/PS20/S/0.8m 3.2 0.06
TP/S13/TP25/S/1.5m 3.4 0.11

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Amostra Cu (D60/D10) % de finos


PS/EI/PS2/S/1.2m 3.1 0.12
PS/W3/PS3/S/1.2m 3.2 0.1

4.2.2.4.2 Aluviões

Conforme se referiu em item anterior, as aluviões são caracterizadas pela presença de


uma zona inicial lodosa que pode atingir 30 m de espessura (em zonas exteriores à Área
de Intervenção), a que se segue uma camada arenosa com cerca de 14 m de espessura, e
por fim uma cascalheira cuja espessura não ultrapassa 4 m.

Visto que as aluviões se caracterizam por materiais diferentes, diferentes também serão as
suas características em termos de resistência e deformabilidade. Assim, de acordo com
elementos obtidos em litologias idênticas noutras zonas do estuário do Tejo (pois que não
existem elementos caracterizadores na área em estudo), são frequentes nos lodos valores
de NSPT na ordem de 0 a 8 pancadas, enquanto para as areias os valores mais comuns
estão compreendidos entre 5 e 30 pancadas e a cascalheira apresenta valores, por norma,
sempre superiores a 30.

De acordo com os elementos recolhidos no relatório elaborado pelo Centro de Projectos


CUF (1963), em algumas das sondagens efectuadas na área dos antigos estaleiros navais,
recolheram-se várias amostras de lodos que posteriormente foram sujeitas a ensaios
laboratoriais que revelaram os seguintes resultados.

Peso específico aparente 15 a 17 KN/m3

Teor de humidade 30% a 60%

Limite de Liquidez 40% a 60%

Limite de plasticidade 20% a 40%

Índice de compressibilidade 0.4 a 0.6 cm2/kg

Índice de vazios 1.35 a 2.3

A susceptibilidade à liquefacção das camadas arenosas das aluviões deverá ser


equacionada, pois estas poderão apresentar-se soltas (NSPT inferior a 15 pancadas), com
alguma continuidade lateral ou ainda, relativamente próximo da superfície. Uma melhor e
mais precisa avaliação deverá ser efectuada através da realização de trabalhos de
reconhecimento que avaliem a compacidade das areias e determinação do coeficiente de
uniformidade, Cu, e percentagem de materiais finos, através da execução de análises
granulométricas.

Eventuais escavações que sejam necessárias deverão ser efectuadas ao abrigo de


medidas de contenção/entivação adequadas à profundidade das mesmas e vizinhança
da(s) obra(s).

4.2.2.4.3 Plistocénico

As argilas plistocénicas identificadas na área em estudo sob as aluviões, apresentam


compacidade muito variável, caracterizada por valores de NSPT compreendidos, por norma,
entre 9 e 24 pancadas, ou seja, correspondentes a materiais com resistência e
deformabilidade medias.

Segundo a informação constante do relatório elaborado pelo Centro de Projectos CUF


(1963), em algumas das sondagens efectuadas na área dos antigos estaleiros,
recolheram-se várias amostras de argilas plistocénicas que posteriormente foram sujeitas a

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ensaios laboratoriais que revelaram valores para o peso específico aparente variáveis
entre 18 e 20 KN/m3.

4.2.2.4.4 Miocénico

As diversas litologias do substracto miocénico correspondem, quer a solos arenosos de


compacidade, em regra, elevada, quer a solos argilosos sobre-consolidados de elevada
consistência, quer ainda a rochas brandas de resistência média a baixa. Estes terrenos,
por norma apenas amolecidos ou descomprimidos no topo, apresentam características
muito favoráveis em termos de resistência e deformabilidade.

Assim sendo, quaisquer estruturas correntes que se pretendam edificar na zona onde as
várias litologias miocénicas afloram, poderão contar com um tipo de fundação directa por
sapatas que, em geral, não se deverão situar nunca a profundidades inferiores a 1.5-2 m,
de modo a ultrapassar a zona superficial mais descomprimida. Eventuais escavações que
sejam necessárias deverão ser efectuadas ao abrigo de medidas de contenção/entivação
adequadas à profundidade das mesmas e vizinhança da(s) obra(s).

Na zona dos antigos estaleiros, dada a ocorrência à superfície e em profundidade de


materiais com fracas e heterogéneas características geomecânicas, as fundações de
quaisquer estruturas deverão ser do tipo indirecto, por estacas, encastradas no substracto
miocénico.

Dado, como se referiu, que as diversas litologias apresentam boas características de


resistência e deformabilidade, considera-se como muito pouco provável a ocorrência de
fenómenos de liquefacção.

No entanto é de ressalvar que quaisquer projectos a efectuar na zona da área de


intervenção deverão ser precedidos de adequadas campanhas de trabalhos de
reconhecimento, de modo a comprovar (ou não) as considerações agora efectuadas.

Outro aspecto importante a ter em conta são os problemas de estabilidade conhecidos


desde longa data ao longo do trecho entre Cacilhas e a Trafaria. Os dados sobre o
comportamento destes materiais miocénicos e as estabilizações ocorridas estão coligidos e
tratados com pormenor (de acordo com informação verbal a que se teve acesso) no Estudo
Geológico e Geotécnico da Escarpa Norte do Concelho de Almada (1987), efectuado para
a C.M. de Almada por Coelho A. e Rodrigues L.F. Sublinha-se que a estabilidade destes
taludes naturais pode ser perturbada por intervenções que modifiquem as condições
actuais, nomeadamente a execução de terraplenagens. Na Área de Intervenção,
nomeadamente na escarpa da Margueira, os taludes existentes apresentam-se estáveis, o
que não dispensa a referência aos cuidados a que quaisquer intervenções que se venham
a realizar naquela zona deverão obedecer.

Com base nos elementos disponíveis nas várias campanhas de reconhecimento, efectuou-
se uma interpretação da morfologia do topo do substrato miocénico, cuja representação é
apresentada no Desenho nº 2 e que, na área em estudo, apresenta duas situações
distintas:

o uma superfície que inclina de nascente para poente e de sul para norte na
extremidade norte do estaleiro, aqui de forma mais significativa;

o a mesma superfície, na zona sul, ao largo da ETAR da Mutela, apresenta-se


talhada pelo que parece corresponder a um vale fóssil da actual ribeira do
Caramujo de orientação próxima de E-W.

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4.2.3 Qualidade do ambiente


Neste capítulo apresenta-se uma breve análise dos principais descritores ambientais na AI,
incluindo qualidade do ar, qualidade da água e instalações de tratamento e ecologia.

Qualidade do ar

Para a análise da incidência regional de fontes emissoras dos principais poluentes


atmosféricos, foram consultados os resultados das Campanhas de avaliação das
concentrações de dióxido de azoto, dióxido de enxofre e ozono no ar ambiente em
Portugal, realizadas pelo Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, com o objectivo de
constituir um elemento de suporte para a avaliação preliminar da qualidade do ar, tendo
em vista o cumprimento do estipulado no artigo 8º do Decreto-Lei nº 276/99, de 23 de
Julho.

Por análise desses resultados, verifica-se que a área de estudo pode ser afectada pelas
emissões de SO2 originadas na área industrial da Península de Setúbal (Setúbal e
Barreiro), onde se localiza uma central termoeléctrica, uma indústria produtora de pasta de
papel e uma cimenteira. A AI também pode ser afectada pelas emissões de óxidos de
azoto (NOx) originadas, em grande parte, pelo forte tráfego rodoviário que se faz sentir na
Área Metropolitana de Lisboa.

Dada a localização geográfica da AI e a sua proximidade com áreas urbanas de elevada


densidade populacional, verifica-se que na área de estudo a concentração de ozono é
reduzida. De facto, constata-se que em ambientes marcadamente urbanos, as elevadas
concentrações de monóxido de azoto que aí habitualmente se verificam são responsáveis
por reacções de destruição daquele poluente.

Para a análise da qualidade do ar na área de estudo recorreu-se aos registos da estação


de monitorização de qualidade do ar do Laranjeiro, integrada na Rede de Qualidade do Ar
da zona de Lisboa e Vale do Tejo, para o período entre Junho de 2001 e Abril de 2003.
Esta estação encontra-se localizada em Almada, na Escola EB 1º ciclo n.º 3 do Laranjeiro,
sendo que monitoriza os seguintes poluentes: dióxido de enxofre, monóxido de carbono,
monóxido de azoto, dióxido de azoto, ozono e partículas de diâmetro inferior a 10 µm
(PM10).

Recorrendo ao Serviço do Índice de Qualidade do Ar disponibilizado pela Direcção-Geral


do Ambiente, que permite detectar as excedências dos poluentes monitorizados na
estação do Laranjeiro relativamente aos valores-limite definidos pelas Directivas da União
Europeia, verifica-se que apenas o poluente PM10 foi responsável por concentrações
superiores ao definido na lei. Estas excedências ocorreram particularmente no decorrer
dos meses de Julho e Agosto de 2001 e em Março de 2002, onde se registou um máximo
de 123 µg/m3, para um valor limite de 50 µg/m3.

Todos os restantes poluentes monitorizados apresentaram concentrações permitidas por


lei.

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Qualidade da água

De acordo com o estudo “Caracterização e monitorização das Comunidades bentónicas da


Mutela e do Portinho da Costa (Instituto de Oceanografia, FC-UNL, 2002), verifica-se que o
meio hídrico adjacente aos antigos estaleiros da Lisnave apresenta sérios problemas de
contaminação orgânica e industrial. De facto, toda essa área se encontra sob forte
influência do esgoto não tratado que aí desemboca (apesar da ETAR da Mutela estar já
prestes a iniciar o seu funcionamento) e permanece ainda hoje afectada pelas zonas
industriais da região envolvente.

Tal como se referiu parte desses problemas encontram-se em vias de resolução com a
entrada em funcionamento da ETAR da Mutela onde são tratados os efluentes que
anteriormente eram descarregados directamente para o rio Tejo.

Os dados de qualidade da água disponíveis inviabilizam o uso balnear da frente ribeirinha


da área de estudo, tornando ainda essencial a tomada de fortes precauções para a
realização de actividades lúdicas, o que pode constituir uma condicionante importante à
futura ocupação que aí se irá implementar.

As fontes poluentes do meio hídrico adjacente à área de estudo podem ser divididas
segundo a sua origem geográfica. A um nível regional, e de acordo com a informação
constante no Plano de Bacia Hidrográfica do Tejo, as principais fontes de poluição que
poderão afectar a AI são:

• zonas industriais dos concelhos banhados pelo Tejo, sendo de destacar a Cala do
Norte (fonte de mercúrio e cádmio) e a zona adjacente ao Barreiro-Seixal
(arsénio, cobre, zinco e chumbo, na água, e arsénio, chumbo e cádmio, nos
sedimentos);

• efluentes domésticos não tratados, provenientes, em particular da zona a Norte de


Lisboa e nos esteiros da Margem Sul, do que resulta a existência de elevadas
concentrações bacterianas próximas da linha de costa.

A um nível local podem-se considerar as seguintes fontes de poluição:

• Operação e manutenção da Base Naval do Alfeite, localizada na zona sul da AI; e

• Operação e manutenção do Terminal de Cacilhas, na Doca 13 dos antigos


estaleiros da Lisnave, no limite norte da AI.

Estas duas fontes podem ser responsáveis por diversos efluentes líquidos como óleos,
produtos de limpeza e manutenção dos navios/ cacilheiros, assim como PCB’s e TBT’s,
com efeitos muito adversos nos seres vivos aquáticos (substâncias geralmente presentes
em áreas na próximas de zonas portuárias ou de elevado tráfego fluvial).

A Estação de Tratamento de Águas Residuais da Mutela ocupa uma área de cerca de 3ha,
imediatamente adjacente ao limite sul do estaleiro da Margueira, dentro da AI. Esta área foi
conquistada ao rio Tejo através da construção de um aterro artificial. A ETAR procede ao
tratamento terciário dos efluentes residuais, apresentando duas linhas de tratamento, em
paralelo, através do processo de lamas activadas de média carga e baixa idade das lamas.
Inicialmente prevê-se apenas o funcionamento de uma das linhas, estimando-se o
funcionamento simultâneo de ambas, em pleno, a partir do ano de 2010 (incluindo o
tratamento dos efluentes potencialmente produzidos na AI). Da área da ETAR faz parte
uma área de expansão para a 2ª fase (ano 2030), onde se prevê a implantação de um
sistema de nitrificação/desnitrificação com zona anóxica.

A ETAR inclui uma Instalação de Cogeração, com vista à produção de energia eléctrica a
partir do biogás originado na digestão das lamas. Procede-se ainda à Desodorização dos
Gases provenientes de todas as instalações cobertas, em 2 torres com filtros de absorção
com carvão activado.

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Ecologia estuarina

A AI encontra-se incluída no estuário do Tejo. O estuário do rio Tejo é um dos maiores


estuários europeus sujeito a marés, constituindo um ecossistema onde o estudo das
comunidades biológicas intertidais existentes é particularmente relevante, dada a sua
extensa área de espraiado de maré (cerca de 22,3 a 37,9 % da área total,
respectivamente), em marés mortas e vivas (Costa e Câmara, 1982). Esta zona encontra-
se classificada como Parque Natural.

O estuário do Tejo é utilizado anualmente como local de alimentação, reprodução e


repouso de muitas espécies de aves aquáticas constituindo um dos locais mais
importantes como zona de invernação, devido às condições que apresenta. De acordo com
a Convenção de Ramsar (12 Fevereiro 1971) e com a Convenção de Berna de 19 de Julho
de 1980, ambas transpostas para a legislação nacional, o estuário do Tejo é uma das
zonas húmidas mais importantes da Europa. Este estuário alberga ainda populações
importantes de várias espécies, incluídas no anexo I da Directiva de Aves da Comunidade
Europeia 79/409/CEE.

O estuário apresenta especial importância para as espécies de peixes que utilizam o


estuário como viveiro. Tratam-se de espécies que se reproduzem no mar e cujos
elementos mais jovens se deslocam para os estuários, onde encontram grande quantidade
e disponibilidade de alimento e abrigo durante as primeiras fases de crescimento (com
menor número de predadores e boas condições de temperatura), após o que retornam ao
mar. No que diz respeito à avifauna, verifica-se que os ecossistemas estuarinos, dada a
sua elevada produtividade, são favoráveis à fixação de populações importantes de
produtores secundários, constituindo zonas de "nursery" para diferentes espécies de aves
aquáticas. Em termos de Avifauna, os últimos dados publicados referem-se ao ano de
1996 (Leitão et al., 1998). No Inverno de 1994, foram contadas 96500 aves no estuário do
Tejo, o que constitui cerca de 38 % das aves inventariadas nas principais zonas húmidas
portuguesas. Por esta razão o estuário do Tejo está englobado na área geográfica
conhecida como “rota migratória do Atlântico Leste”.

A um nível mais local, contudo, constata-se que a AI apresenta uma importância ecológica
muito reduzida. De acordo com o EIA da ETAR da Mutela, detecta-se na área de estudo a
presença frequente de corvos-marinhos, gaivotas e andorinhas-do-mar. Relativamente à
ictiofauna, o mesmo estudo refere que as únicas espécies que podem ser encontradas
nesta zona são tainhas, robalo, sargo e dourada.

No estudo “Caracterização e Monitorização das Comunidades Bentónicas da Mutela e do


Portinho da Costa”, levado a cabo pelo Instituto de Oceanografia, Faculdade de Ciências
da Universidade de Lisboa, analisaram-se alguns parâmetros físicos e químicos
considerados relevantes para um melhor conhecimento da comunidade bentónica na AI:
oxigénio dissolvido (%), sólidos totais dissolvidos na coluna de água e percentagem de
matéria orgânica nos sedimentos (%), entre outros parâmetros.

A informação recolhida aponta para a existência de problemas de oxigenação da água,


com valores de oxigénio dissolvido que frequentemente se apresentam abaixo de 50%, o
que corresponde ao limite inferior de oxigenação que permite o normal desenvolvimento
dos processos biológicos (Alabaster, 1959).

Percentagens de matéria orgânica em sedimentos acima dos 5% são também valores


bastante comuns. Valores desta ordem de grandeza são considerados valores limite para
classificar a área como contendo uma elevada contaminação orgânica. Algumas amostras
recolhidas na zona da Mutela registaram mais de 20% de matéria orgânica nos
sedimentos, o que, certamente, se encontra relacionado com a descarga de águas
residuais urbanas sem qualquer tratamento durante um largo período, até à construção da
ETAR da Mutela.

Nas amostras sazonais que foram recolhidas durante o período de 1 ano para melhor
caracterizar a comunidade bentónica na zona da Mutela, registaram-se apenas a presença
de 11 taxa, o que mostra claramente a actual pobreza biológica da zona. Entre estes taxa
incluíam-se muitos anelídeos, alguns pequenos crustáceos (anfípodes e isópodes) e larvas

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de insectos (família Psicodidae). Entre estes as maiores densidades populacionais foram


registadas nas larvas de insectos e especialmente para as minhocas (WORMS) da classe
Oligochaeta e das espécies Capitela capitata , sendo esta última um bio indicador comum
da presença de matéria orgânica. As análises de abundância relativa em matéria de
densidade e de biomassa confirmam a sua fraca condição actual e deixam antecipar um
aumento da tensão fisiológica nestes organismos, provocada pelos parâmetros químicos e
físicos já descritos.

Os limites de tolerância mesmo para espécies bio indicadores poderão estar a mudar. Não
forma encontrados quaisquer organismos filtrantes, os quais são excelentes indicadores da
qualidade ambiental em ecossistemas estuarinos.

Estes factos não significam que estejamos em presença de uma área que reduz o
interesse ecológico mas exactamente o oposto, uma vez que estas áreas estuarinas
constituem localizações com elevado potencial de produtividade, permitindo o
estabelecimento de complexas cadeias tróficas, o que lhes dá um estatuto de elevada
importância para a reprodução de espécies ictiológicas de elevado interesse comercial.

4.3 Área do estaleiro


4.3.1 Conquista de terrenos ao rio e trabalhos de construção
4.3.1.1 Historial de conquista de terrenos ao rio

Os trabalhos de conquista de terrenos ao rio Tejo, para expansão da área de construção


constituíram uma actividade que, no século XX alteraram significativa e definitivamente a
frente ribeirinha de Cacilhas. Foi um processo que, de uma forma progressiva, transformou
a relação dos habitantes de Almada com a frente ribeirinha, originando uma ruptura da
parte este da cidade. Os principais aterros efectuados nesta zona estão relacionados com
a construção do Alfeite, com o subsequente aterro da doca do Caramujo (de 1926 a 1939),
com a construção da EN10 (entre 1945 e 1951) com a construção do estaleiro da
Margueira (de 1964 a 1969), com a expansão da base naval do Alfeite na doca do
Caramujo (final dos anos 80) e, mais recentemente, com a construção da Estação de
Tratamento de Águas Residuais da Mutela. Nas Figuras 4.7 e 4.8 apresenta-se a evolução
da frente ribeirinha na AI, onde são visíveis as alterações acima referidas.

A construção do estaleiro da Margueira foi efectuada em duas fases. A primeira fase


decorreu entre 1964 e 1967 e a segunda, que incluiu a construção da Doca 13 e a área sul
do estaleiro, iniciou-se em 1969. A primeira fase foi concluída com um ROCK BUND para
reter as areias bombadas do Tejo. Para a segunda fase recorreu-se a materiais
provenientes de escavações, nomeadamente para a Doca 13, assim como diversos outros
tipos de materiais originados em escavações efectuadas na região.

4.3.1.2 Paredes das docas e comportas

Os únicos elementos específicos e consistentes acerca da estrutura física das docas do


estaleiro da Margueira dizem respeito à Doca 13, para a qual se dispõe de alguns
elementos provenientes do Plano Geral de Construção dos estaleiros, documento
elaborado pelo projectista entre o Anteprojecto e o Projecto de Execução.

De acordo com esses elementos, a estrutura física da Doca 13 é composta pelos seguintes
elementos:

- Paredes laterais do tipo muros de contraforte com sapata em laje corrida, com as
seguintes dimensões

 parede lateral: 0,45 m de espessura;

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 sapata : 12,75 m de largura e espessura variável entre 0,875 e 2,25


m;

 contrafortes trapezoidais, espaçados de 5 m e espessura de 0,6 m

- Laje de fundo com uma espessura de 0,85 m, reforçada longitudinalmente com 3


vigas de quilha com 5 m de largura e 1,9 m de altura.

68
Frente Ribeirinha Nascente
da Cidade de Almada

ECAGG
Evolution of the Intervention Area
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 4.7


Frente Ribeirinha Nascente
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ECAGG
Evolution of reclamation works in the IA
Escala:

CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA Figure nº 4.8


Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
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No Desenho nº 9 apresenta-se uma série de detalhes de construção da Doca 13 e de


outras estruturas no local.

Tendo em vista reduzir a impulsão da água quando a doca está vazia foi criada uma
cortina de estacas-prancha ao longo do perímetro exterior da doca, cravada no “bed-rock”
e um sistema de leitos drenantes sob a laje com recolha de águas por 4 tubos
longitudinais, em betão poroso, que descarregam no canal transversal da central de
bombagem.

Ocorreu um acidente na Doca 13, quando a mesma já se encontrava operacional, que


consistiu no colapso de parte da parede ocidental quando a doca se encontrava seca
(nessa altura estava na doca com um barco de grandes dimensões a ser reparado).
Aparentemente este acidente deveu-se a um aumento da pressão hidrostática no tardoz
dessa mesma parede. As medidas correctivas que foram aplicadas na altura provaram ser
eficazes até à presente data. Não é provável que este tipo de situação ocorra com a doca
aberta ao rio (ou seja, na situação actual).

As comportas das docas podem ser caracterizadas como do tipo caixão flutuante, com
uma estrutura metálica que afunda abaixo do nível da água quando a doca está fechada e
que flutua quando a doca necessita de ser esvaziada. Para garantir o encerramento total
das docas, as comportas ajustam-se com batentes que estão incluídos na estrutura de
entrada das docas

4.3.1.3 Cais

O estaleiro da Margueira dispõe de 1620 m de cais, designados do seguinte modo, que


podem ser observados no esquema seguinte:

Cais n.º 5 - com 450 m, situado na face


exterior do lado nascente da Doca N.º 13;

Cais n.º 3 - com 200 m e duas frentes de


acostagem: o Cais N.º 3A, do lado de
Almada, e o 3B do lado do Barreiro;

Cais nº 2 - paralelo ao Cais N.º 3, com


200 m de comprimento e duas frentes de
acostagem: o Cais N.º 2A, do lado de
Almada, e o 2B do lado do Barreiro;

Cais n.º 1 - no prolongamento do Cais


N.º 2B, com 230 m de comprimento;

Cais n.º 1B - no prolongamento do Cais


n.º 1, com 100 m de comprimento;

Cais n.º 1A - paralelo ao Cais n.º 1B,com


65m de extensão

Cais n.º 0- A oeste e paralelo ao Cais n.º


1A, com 375 m de comprimento.

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Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

O fundo do rio nestes cais varia entre (-9 m)ZH, no Cais n.º 5 e (-6 m)ZH, no Cais n.º 0.

No enfiamento dos Cais N.º 3 e N.º 2 e afastados destes para N cerca de 100 m, existem
dois duques d’Alba de amarração e acostagem. Também no enfiamento dos Cais N.º 1A e
B e a 100 m para S, existe um duque d’Alba.

A estrutura física dos cais não é consistente ao longo da sua extensão total. O Cais nº 5,
adjacente à Doca nº 13, é o que se conhece com mais detalhe, devido à existência de do
projecto da Doca nº 13, referido anteriormente. A sua estrutura inclui os seguintes
elementos:

- Infra-estruturas constituídas por gabiões de estaca-prancha rombas com


16 m de largura, cheios de areia.

- Super-estrutura em betão armado, com 1,4m de espessura, saliente 0,3m


em relação À tangente dos gabiões, fundada sobre estacas de betão
armado moldadas no terreno.

Os caminhos dos guindastes que servem o cais e a Doca 13 são apoiados em quatro
fiadas de estacas de betão armado moldadas espaçadas de 5m, no sentido longitudinal, e
nos contrafortes do muro da doca (2 carris).

As cargas exercidas são transmitidas aos contrafortes do muro da doca através de


escovas de betão armado.

A estrutura dos restantes cais são

- Em colunas de blocos de betão simples, fundados directamente sobre um


prisma de enrocamento colocado em vala aberta na formação arenosa.

- Em cortina de estacas-prancha ancorada a uma segunda cortina, do


mesmo material, através de tirantes constituídos por varões com diâmetro
φ 25 (A80/105), espaçados de 1m; super-estrutura em betão armado com
2,2m de altura e 1,0m de largura; no tardoz desta, acima do zero
hidrográfico, existe um prisma de enrocamento para reduzir os impulsos
do terreno e servir de filtro para eventuais corrosões localizadas.

- Em estacas de betão, com tabuleiro em betão armado, no Cais nº 10,


sendo o terrapleno de tardoz, retido por um prisma de enrocamento.

4.3.1.4 Edifícios, estradas e outras áreas

O estaleiro da Margueira apresenta diversos tipos de ocupação física, sendo a mais


importante constituída pelas docas, diversos edifícios em alvenaria e noutros materiais,
área exteriores que se destinavam a operações de soldadura, áreas de armazenamento e
zonas de deposição de resíduos. Estas áreas apresentam-se bastante diferenciadas no
que respeita ao tipo de fundações, tipo de pavimento e existência de estruturas enterradas.

Excluindo as docas que, aparentemente, terão sido fundadas directamente no substrato


miocénico (exceptuando uma pequena secção da Doca 13), os edifícios ocupados pelas
diversas oficinas representam as zonas edificadas com fundações mais fortes, devido à
natureza dos trabalhos que aí se desenrolavam. Nessas áreas (devido ao tamanho das
peças de navio que aí eram reparadas) havia manuseamento de materiais pesados e,
consequentemente, necessidade de maquinaria e equipamento pesado, o que levou à
necessidade de fundações bastante fortes.

Analisando os desenhos das fundações de alguns dos maiores edifícios construídos na 1ª


Fase (por exemplo o edifício da mecânica), pode-se verificar que o tipo de fundações
existente foi seleccionado tendo em consideração o peso da maquinaria que teriam que
suportar resultando, em muitos casos, na existência de fundações não homogéneas
debaixo de cada um dos edifícios.

72
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

No que respeita ao pavimento, constatou-se a existência de 4 tipos de pavimento em toda


a zona do estaleiro:

- Áreas “macias”, com uma cobertura com areia e restos de granalha, onde
se situam a maioria das “áreas verdes” existentes no estaleiro e onde
foram depositados resíduos diversos;

- Estradas, com um pavimento de asfalto e betuminoso, geralmente


construído sobre zonas “macias”;

- Áreas pavimentadas com gravilha compactada, de grão médio a


grosseiro, semi-rígido, e frequentemente misturada com restos de
granalha e de resíduos da soldadura (eléctrodos, borrachas, etc)

- Áreas pavimentadas em betão, em todos os edifícios em alvenaria, na


maioria dos restantes edifícios e também em algumas zonas exteriores,
onde se utilizavam equipamentos e maquinaria pesada.

4.3.2 Condições de exploração actuais


4.3.2.1 Comportas das docas e outra manutenção eléctrica

Actualmente as comportas e portões das docas encontram-se encerradas, exceptuando as


da Doca nº 13, que são deixadas abertas, sendo esta doca utilizada para estacionamento
dos ferrys do Terminal Fluvial de Cacilhas. As comportas e portões das docas requerem
manutenção eléctrica, especialmente os esgotos das docas que necessitam de ser
descarregados periodicamente.

A descarga das Docas 10,11 e 12 é comandada a partir de 3 casas de bombagem.


Actualmente apenas uma dessas casas se encontra a funcionar, usando corrente a 6 kV.
O posto de transformação PT5 fornece energia às casas de bombagem.

Geralmente as docas são esvaziadas cada 3 ou 4 semanas, ou sempre que o nível da


água suba acima do nível máximo no interior de cada doca.

Exceptuando as comportas das docas, apenas algumas das subestações são mantidas em
funcionamento e sujeitas a manutenção periódica: Subestação 10 (fornece energia à
cidade de Almada), Subestação 1 (apenas funciona como subestação de substituição),
Postos de transformação PT13, PT5 e PT11 (fornecem energia ao Pórtico da Doca 13).
Todas as restantes subestações e postos de transformação são monitorizadas
periodicamente por forma a avaliar a sua integridade física e a evitar inundações nos
meses de Inverno.

4.3.2.2 Reciclagem de metais

A Sociedade Fundo Margueira autorizou uma empresa de sucateiros a recolher todos os


materiais metálicos existentes no estaleiro susceptíveis de aproveitamento, sob condições
em que sejam asseguradas a integridade física do estaleiro bem como a segurança de
eventuais visitantes e dos próprios trabalhadores dessa empresa.

O destino final dos materiais que são recolhidos no estaleiro e a certificação da empresa
que procede a essa recolha são desconhecidos.

4.3.2.3 Áreas “verdes”

As áreas “verdes” existentes na zona do estaleiro da Margueira permaneceram no local


após encerramento do mesmo e não são alvo de qualquer tratamento ou manutenção
regular. Esporadicamente estas zonas são regadas pelo pessoal que ainda permanece no
estaleiro (pessoal da segurança, da manutenção eléctrica, etc).

73
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Enquadramento ambiental e físico da Área de Intervenção

A maioria destas áreas “verdes” encontram-se concentradas nas imediações da entrada e


portaria do estaleiro, embora também se registe a presença de algumas árvores de fruto na
área adjacente ao edifício do Bloco E. As fotografias seguintes mostram dois exemplos de
áreas “verdes”.

Fotos 4.1 e 4.2 – “Áreas verdes”

74
Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada
Relatório ECAGG 5
Principais Potenciais Fontes de Poluição - área do estaleiro

5 Principais Potenciais Fontes de


Poluição - área do estaleiro

5.1 Introdução
Neste capítulo descrevem-se as potenciais fontes de poluição presentes na AI, de acordo
com revisão da informação disponível e com visitas de campo. Foram ainda contactados
antigos e actuais empregados da Lisnave, tendo sido obtida informação do responsável
pela manutenção eléctrica das instalações da Margueira. Foram ainda realizadas reuniões
com o Eng. Óscar Mota, da empresa Tecnologias Ambientais e realizada uma visita
conjunta ao local. O Engº Óscar Mota trabalhou no estaleiro da Lisnave na Margueira
tendo, posteriormente, levado a cabo uma investigação de solos no local para determinar a
contaminação existente, particularmente no que se refere a hidrocarbonetos. As
observações efectuadas no local pelos técnicos da Atkins constituíram uma das fontes de
informação mais importantes. Para a elaboração do presente relatório foram consultados
os seguintes documentos e relatórios:

• Lisnave (1990) Plano Director do Estaleiro da Margueira;

• Caracterização da Situação Ambiental – Mitrena Setúbal - Lisnave Estaleiros


Navais, SA, Tecnologias do Ambiente, Junho 1998;

• Caracterização da Situação Ambiental – Viana do Castelo - Lisnave Estaleiros


Navais, SA, Tecnologias do Ambiente, Junho 1998;

• Contaminação do Solo e Riscos Ambientais no Estaleiro Naval da Margueira,


Tecnologias do Ambiente, Junho 1999;

• Surface Coating Operations at Shipbuilding and Ship Repair Facilities—


Background Information for Proposed Standards, Emission Standards Division,
US Environmental Protection Agency;

• Shipbuilding and Repair Industry Sector Notebook Project, Profile Of The


Shipbuilding And Repair Industry EPA, Office of Compliance Sector Notebook
Project EPA/310-R-97-008. November 1997;

Os dados referentes à informação recolhida acerca dos usos anteriores do local,


especialmente aqueles que se relacionam com potencial contaminação são sumariados no
Anexo 3 e no Desenho nº 3.

O desenho correspondente ao Plano Director do Estaleiro da Margueira foi o principal


elemento que serviu de base para definir a localização das actividades específicas na zona
do estaleiro. Este desenho contem informação relevante acerca da utilização/actividades
desenvolvidas nos vários edifícios, informação essa que foi corroborada com contactos e
conversas tidas com antigos empregados da Lisnave que estiveram envolvidos na
exploração do estaleiro.

Tal como referido anteriormente, foram estabelecidos contactos tidos com o Engº Óscar
Mota da empresa Tecnologias do Ambiente (TA). No Anexo 3 apresenta-se um resumo dos
resultados das diversas inspecções locais que foram efectuadas para avaliar as
localizações e condições das potenciais fontes de poluição dentro da área do estaleiro.

75
07.10

5
3.
C.P. Proj. Des. Data

281 03
1/1
3

8 4
3. .9 6.
Nov 2003

14
1:2 000

4
D

3.
CP
CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA

6
3.
6
Escalas:

3.
0420
Desenho:
Projecto:

Desenho

Data:
Vistos:

±

9
3.
FRENTE RIBEIRINHA NASCENTE

9
3.
2
4.
DA CIDADE DE ALMADA
Alteração de algumas áreas

Actividades históricas na A.I.

7
3.
6
5 5.
5.
Alterações:

5 2
10 5. 3.
15 1 6
20 2. 5.
2
3.
.7
E 21

4.
2 43
ECAGG

.7
30
9
2..9
3322 . 9
30

.32 9 .6
32 32. 24 3
4.
.3 .8 8
28 . 03 1 3 1 .
33
7
3.
25

3
3.
.4
22
.6
27 20
15
10
6
4.
3
5.
5

6
4.
Ref. Subs.

.7 .6
26 37
.7 .20
37 35
.9
3
3 44 3A
5 3B
6.
A

6
.3 3C 4.
23 5 5A
6
5B
.9
.3
5C 64 4.
6
24 7 7A
8

7B
.0
.1 65
26
7C
9
10

9A
6 .1
8. 65
9B
1
.9 3.
25
12

.1
65
POVO - MFA

.3
11 3
3.
R.
.6
AV. ALIANCA

45 11 E UG
.6 EN
10 IO 8.
6
DE
.6 CA 1A .1
45 13
ST 1D 1 6 .1
1E
RO 1I 1 6
.6
1
6

45
S2

P
3A

CT 7
A. .8 4.
45
8
SE
21 BA .2
.3 ST 41
3

C
49 21 IA
3

O
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23 GA
.2 MA
49
A
23 .4
11
5A
5

.2
41
Metros

PC
TA 25 3
.
.9 6.
FL B
48
5B

OR 25
B EL 6A
A 8
ES 6 4. 4
PA .1 6B 2. 7
NC 2.
7

A 49 .4 3
7B

.3 3.
100

41 11
7C

3
6.
9

A
D 13

33
.2 .4
9

41 11
2

E8

R. .7
35

MA .6 47
50
35 A

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35
B

9C
2A

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7 3
11A

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.8
11C

37
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11

S1

N.E4 8
15 I RO .2 4.
.1 41
11B

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4

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4A

11E

3
E

3.
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3A
13

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13B 1
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.1
6

49 41
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50
13C
6A

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R.

15

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15A

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.7 11
8

49 .2
11
15B

.8
12 .4
41
17

1 7A
10

.2
50 .4
11
1 7B
19

8
.3 4.
11
19

.9
40
.2
11
1
3.

0
.7
23
7
8. 9
4.
.2 5
18
0.4
.3 3.
1
2 5 24 . 8
.6 2
21 4
3.
2
3.
.1
.8 23
24 .7 4
23 3.
.1
24 4
3.
.5
14
.1 .8
E 20

20 14
2
3.
.2
30
25

6
6. 9
4. 3
.1 3.
20
.2
24
.2
5

22
.6
HA
S 13
C IL
CA
DE 3
V. 3. 4 2.
3
B.
O 13

3. 3
4 4 0
3.
5 3.
30

6. 6. 7.
3
.6 3 3.
E 17

.8 14 3.
28
5 3
.1 3 9. 3.
4 4 3.
26 3. 3 3.
3.
2 3.
.7 .7 9
31 17 4.
.6 3.
4 4
14 3.
O 11

7
8.
E 16

.6 .9
28 2 8 12
6. . 2
7.
12 . 1
11
DP "11/12"

.6
S 17

2
DP "13"

17 .
14
.4 8
14 8.
WS 16B

.6 3
O9

32 8 3.
6.
20

2
6. 4
.0
2 3. 3
14
. 3.
12
S 16

7
6.
O7

3 1
E 10

3. 3.
.2
E9

.8 14 . 3
22 1 14
6. .9
4 12
WS 17B

6.
7 8. 3.
7
.6 4.
5
.1 13 4 2 9
13 3 5. 14
. 9.
.1 3.
11
S 13

.4 0
S0

E 12

23 8.
5 . 6 9.
.9 . 2 8.
8 .8 11
.9 .9 13 10 68 1
35 15 3.
3 7.
3.
C7

4 . 3
3. 14
.2 5.
4
33 6
WS 15

5.
.4 .7
32 16
MFA

. 2
4 14
4 3. 3.
5
5.
POVO -

.5 3.
2
23
W1

.2 2
.7 29 .1 14
. 6
3.
ANCA

41 12 3
3.
S 11B

.7 3 4
37 3. 3.
AV. ALI

3
3.
.4
39
S 15

3
D 12

3. 3 7
WS 16A

14
. 64.
3.
35

.3 8 . 3 2
42 8. 11 9.
.3 .7 .7 .6
40
E6

35 .7 42 39
5

3
20

40 .
15

14 2
10

.2 3.
25
35

40 . 9
.4 21
.3 38 .7
WD 1

.0 42 35
.8 40 5
37 8.9 3 3.
3 .7 14
. 4
40 0 3.
.3 .0 5 .
38 39 42
.3 4 4
37 0 7.
7 3.
.6 7.
.7 41 4 3.
2 3
42 14
.
D 11

.6
WS 21

4 3 4
40 .2 .5 4. 3. 8.
37 19 4
3.
WS 13

3
.8 3.
3
14
. .3
37 10
S 14

5
C8

4 8.
.7 3. 6.
5
6
S 19

WS 16D WS 16C

.3 54 8.
36 6
.1 8. .2
S

.0
WS 1

.4 38 13 3
ALVE

WS 14

39 5 3.
45 0.
4 .5 14
.
44
. 46
.6
40 .0 .4
8 56 44
WS 2

0. 51 .0
6

RDO

WS 17A

.4 .8 4 .8 .5 39
.0
E7 O8

45
WS 20

40 40 40 46
.6 .2
EDUA

15
WS 12

.4 .8 44 0 3
.0 .2 9. .
4

45 3 933.81 40 2 .5 3 14
.
5

40 46
WS 16E

4
ANTE

.8 .6
36 .0 44
SBOA

.1
8

.8 .0 51 45 4
45 40
MAND

3.
WS19

.7 7 5
E LI

46 4 9 .55. .
21

4 .5 . 95
6. 53. 44 4 .0 .1 14
37
R. CO

2 HO 53 45 36 .8
RVAL 11
EN

6 .7
DE CA .6 40.
25

.5
1

45
23

.2
15

S
R. IR

10

40 .6
20

ADA 44
8 6

13
10

30

BARR .9 36 .0
5
3

. 2 PCTA. 49 45 .5 2
33 6 14 3. 2
.0 6 .5 5. 2 3.
.6
25

38 41.
3
36
V.
.4 44 4 .1 3.
1

3
.1 40 3.
CAR 3
45 3.
WS 3
12A

42
D OS
.8 O
.4 .1 .6 8
43 39 .7 .5 5.
27

41 56
J

40 .2 44 4 3 .5
ALHO

4. 14
12

.6 39 .8
35

3 88 . 6 61
.1
S3

.1 3
CARV

E 15E 13
41
38 3.
3 . 8
.1 32
L

42 2
S DE

4.
48
.0 14
.6 C4
O6

8
6.
RADA

4 35 2 8
.7 3. .
8B

C3
36 6 38 . 0
22
BAR

.5 6 . . 2 3 0 2
35 3. 0.
O6

56 8 24 3.
8A
R.

.3
35
DO .5
CHA 61
A MA 1F .7 .2 8
MARI 34 .7 .
O1

R. 10 14 9 14
.3 1E . 4 .
WS 18

33 64 32 3
1D 4 7 3.
4. 1 6. 4
4.
O

15 A 12
.
CHAD

1C 2
.4 .2 3 5 9.
E 11

2 1B 36 9. 9.
156 .7 1
S 11A

1A 10 3.
A MA
6

.9 15B 1 4.
7
W2

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C6

36 15 C 13
S 12

3
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3A
1 7B

5
3B .6 3. . 1
5

.4 .4 33 5 15
62 7.
.

35 3C .5 .6
17 1

PCTA

.6 3D6 4 36
2

41 6 6 . 1
6. 6. 9 15
7C

.8
3E 2 5.
32 7.
1 9A

.8 6
. 3F
33 .5 61
.0 62 2
1

39 3.
19 1

.2
C5

38 .6 .4
2
40 4. 3
O6

19