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INOVAÇÃO

EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM
NO ENSINO SUPERIOR

RELATOS DE PROFESSORES
DA FACULDADE AVANTIS
INOVAÇÃO
EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM
NO ENSINO SUPERIOR
RELATOS DE PROFESSORES
DA FACULDADE AVANTIS

Organizadores Autores
André Gobbo Debora Regina Ferreira
Gabriella Depiné Poffo Eliz Marine Wiggers
Micheline Ramos de Oliveira Fabrícia Teodoro
Xana Raquel Ortolan Gabriela Piske
Gilmar da Silva
Glauciaglivian Erbs da Costa
Heron de Sousa Arruda
Marcelo Jorge Werner
Maria Balbina de Magalhães Gappmayer
Rodrigo Cezario da Silva
Rodrigo Fernando Belli
Shirlei de Souza Correa
Capa e Projeto Gráfico Syndel Almeida Silveira
Ana Pizzol Wanderley Pivatto Brum
Presidente – Sr. Mohamad Hussein Abou Wadi
Vice-Presidente – Sr. Artenir Werner APRESENTAÇÃO
Diretora Geral – Me. Isabel Regina Depiné
Gerente de Ensino, Pesquisa e Extensão – Gabriella Depiné Poffo
Diretor Administrativo – Bernardo Werner da Rocha
Secretária Acadêmica – Joseana Voss de Melo Essa obra consiste na publicação dos treze trabalhos que foram
Bibliotecária – Aline Medeiros D’Oliveira inscritos na primeira edição do Prêmio Avantis de Inovação em Práti-
cas de Ensino-aprendizagem no Ensino Superior, promovido durante
o ano de 2018, em homenagem à memória da professora Elisangela
Maschio de Miranda.
A ideia de registrarmos essas experiências exitosas realizadas
pelos nossos professores em sala de aula é justamente para que possa-
mos compartilhar o que estamos fazendo e a forma que concebemos
a educação do século XXI a qual clama por atualizações constantes
de modo que possa produzir conhecimentos de maneira mais efetiva.
Nesse mesmo ano em que comemoramos os primeiros 15 anos
de nossa atuação no Ensino Superior de Balneário Camboriú e re-
gião, ao mesmo tempo em que somos reconhecidos pelo Ministério
da Educação como a melhor Faculdade do Estado de Santa Catarina,
somos sabedores que uma parte significativa desses méritos se devem
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca da Faculdade Avantis
Aline Medeiros d’Oliveira CRB 14 – 1063 ao o que e como os nossos professores atuam em sala de aula. Des-
Gobbo, André (org.)
sa forma, reconhecer publicamente suas iniciativas é uma forma de
G574i Inovação em práticas de ensino-aprendizagem no ensino compensarmos todos os seus esforços para que continuemos sendo
superior. / André Gobbo; Gabriella Depiné Poffo; Micheline Ramos
de Oliveira (orgs.). Balneário Camboriú: Faculdade Avantis, 2018. uma referência no ensino superior.
144 p. il.
Como forma de sempre lembrarmos aquele semblante meigo e
Inclui Índice jeito amigo que nos deixou, usamos o nome da professora Elisange-
ISBNe: 978-85-5456-062-1
la Maschio de Miranda para esse prêmio, sendo que ela sempre nos
1. Educação - Inovação. 2. Educação - Tecnologia. 3. Ensino
superior - Inovação. 4. Metodologias ativas – Educação. 5. Ensino ensinava e cativava com suas metodologias inovadoras aliadas às tec-
Hibrido – Desenho de projeto – computador. I. Faculdade Avantis. II. nologias e hoje, de onde estiver, há de se orgulhar ao ver que por aqui
Título.
seguimos o seu legado de encarar a educação como um ato de amor!
CDD 21ª ed.
Como educadores não podemos perder as esperanças e nem
desistirmos de nossa capacidade de impulsionarmos a regeneração
371.334 – Educação - Inovação
social, imbrincado a filosofia à prática de modo que possamos resga-
tar os valores sociais, morais e intelectuais que o mundo contempo- A HOMENAGEADA
râneo tanta clama. E a chave para que possamos vencer estes desafios
que se impõem e para que reconstruamos esta humanidade caracte-
rizada pela estagnação é justamente o amor que deve inebriar nossas
consciências, nossos corações e nossas almas de educadores.
Faço votos de que esses primeiros relatos registrados possam
inspirar outros tantos professores em constante aprendizado e forma-
ção, que cada vez mais são desafiados a inovarem de modo que todo
o processo de ensino-aprendizagem seja verdadeiramente a favor da
construção de homens e, consequentemente, de um mundo muito
melhor!

Isabel Regina Depiné Poffo


Diretora Geral da Faculdade Avantis

O Prêmio Avantis de Inovação em Prática de Ensino-aprendiza-


gem no Ensino Superior, foi realizado pela primeira vez em 2018 pela
nossa faculdade, com o objetivo de reconhecer as práticas inovadoras
de ensino-aprendizagem realizadas pelos nossos professores junto
aos mais variados cursos de graduação ofertados na IES. Também,
com isso, visamos promover a reflexão sobre mudanças nas práticas
pedagógicas de sala de aula da atualidade, para garantirmos cada vez
mais qualidade na formação de futuros profissionais.
Nessa sua primeira edição, esse concurso homenageia nossa
colega Professora Elisangela Maschio de Miranda, que nos deixou no
dia 08 de novembro de 2016, depois de ser vencida pelo câncer, aos 41
anos de idade.
A professora Elisangela era graduada em Ciência da Computa-
ção pela Universidade do Vale do Itajaí (2000), graduada em Tecno- SUMÁRIO
logia Em Processamento de Dados pela Universidade do Contestado
(1996), Especialização em Docência no Ensino Superior pela Faculda-
de Avantis (2014) e mestrado em Ciências da Computação pela Uni-
versidade Federal de Santa Catarina (2004). Foi uma estimada profes-
sora da Faculdade Avantis a quem homenageamos com esse prêmio. COMO A TEAM BASED LEARNING PODE TRANSFORMAR UMA DISCIPLINA DE
MARKETING EM UMA METODOLOGIA ATIVA, DINÂMICA E INTERESSANTE..........13
Rodrigo Fernando Belli

USO DO MODELO ROTAÇÃO POR ESTAÇÕES: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA NO


ESTUDO SOBRE AMOSTRAGEM....................................................................................25
Wanderley Pivatto Brum

OFICINAS DE CONCEPÇÃO: PRÁTICAS VOLTADAS PARA CONSTRUÇÃO DE


INTERFACES PENSANDO NA INTERAÇÃO HUMANO-COMPUTADOR...................... 32
Fabricia Teodoro

ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM PEDAGOGIA: A NUTRIÇÃO ESTÉTICA NA


SALA DE AULA.................................................................................................................40
Glauciaglivian Erbs da Costa

UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO HÍBRIDO NA DISCIPLINA DE DESENHO DE


PROJETO AUXILIADO POR COMPUTADOR...................................................................45
Heron de Sousa Arruda

METODOLOGIAS ATIVAS: UMA FERRAMENTA DE CUIDADO AO SOFRIMENTO NO


ESPAÇO ACADÊMICO?.....................................................................................................51
Eliz Marine Wiggers • Maria Balbina de Magalhães
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JUSTIÇA RESTAURATIVA SISTÊMICA E O CÍRCULO DE DIÁLOGO: UMA


EXPERIÊNCIA COM TURMA DA DISCIPLINA DE ESTÁGIO DE PRÁTICA JURÍDICA
DO CURSO DE DIREITO DA FACULDADE AVANTIS.....................................................68 COMO A TEAM BASED LEARNING
Syndel Almeida Silveira
PODE TRANSFORMAR UMA
DISCIPLINA DE MARKETING EM
PHP ROBOT: UMA FERRAMENTA PARA REFORÇO NO ENSINO DE PROGRAMAÇÃO
ORIENTADA A OBJETOS NA LINGUAGEM PHP............................................................ 75 UMA METODOLOGIA ATIVA,
Rodrigo Cezario da Silva DINÂMICA E INTERESSANTE
Rodrigo Fernando Belli
QUANDO A APROXIMAÇÃO FAZ A DIFERENÇA...........................................................95
Shirlei de Souza Correa

VISITA TÉCNICA À INOVAÇÃO..................................................................................... 100 Transformar uma metodologia ativa em uma atividade metodoló-
Gilmar da Silva gica, impactante e interessante é o desafiador tema do presente artigo. Por
meio da pesquisa qualitativa, descritiva e procedimento de relato de expe-
riência, construído com base na metodologia Team Based Learning (TBL),
ARQUITETANDO UM OLHAR DIFERENCIADO SOBRE O ENSINO E APLICABILIDADE
aplicado ao 3° período na disciplina de Gestão de Marketing do curso de
DA MATEMÁTICA............................................................................................................ 110
Debora Regina Ferreira Administração da Faculdade Avantis no primeiro semestre de 2018, com
51 acadêmicos, apresentou-se a prática da atividade aliada a metodologia
TBL, aplicada às atividades de conteúdo sobre o mix de marketing, conhe-
USO DE UM APLICATIVO DE GAMIFICAÇÃO NA DISCIPLINA DE COMUNICAÇÃO E cido como os 4P´s de marketing. A aplicação da metodologia permitiu
ENDOMARKETING: UMA POSSIBILIDADE DIVERTIDA DE APRENDIZAGEM.........128 uma série de benefícios entre os grupos como: aprendizado coletivo, união
Gabriela Piske das equipes em prol do conhecimento, melhoria na qualidade de estudar,
maior retenção dos conteúdos, sendo o eixo da metodologia aplicada uma
dinâmica capaz de impulsionar outras experiências e contribuir para o me-
SENTIDO BIOLÓGICO.....................................................................................................135
Marcelo Jorge Werner lhoramento do ensino-aprendizagem.

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS

A geração que se encontra na atual educação, retrata a neces-

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sidade da utilização de modelos que prendam o foco e mantenham a referentes a condução das atividades da disciplina, além de maior re-
concentração dos alunos, aliados a uma linguagem didática que atinja tenção dos conteúdos, melhorar as experiências vivenciadas em sala,
quem a escuta para compreender o assunto correspondente. contribuir para o aperfeiçoamento do ensino-aprendizagem e maior
Em meio às diversas abordagens criadas, estudadas e até mes- concentração das atividades de forma a oportunizar maior aprendiza-
mo já aplicadas, destaca-se neste relato a metodologia ativa, o TBL do na performance dos discentes, possibilitando a aproximação con-
(Team Based Learning), ou seja, Aprendizagem Baseada em Times, ceitual com a prática que o mercado de trabalho tanta almeja.
que além de cobrir o conteúdo, garante aos acadêmicos a oportuni-
dade de praticar o uso de conceitos da disciplina para resolver pro-
blemas. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA
Além disso, a Aprendizagem Baseada em Times é projetada
para fornecer aos acadêmicos conhecimento tanto conceitual quanto No decorrer do trabalho desenvolvido, o docente pôde aplicar
processual. Nesse relato aborda-se a experiência dessa metodologia a prática da metodologia ativa com o método TBL (Team Based Lear-
aplicada aos 51 acadêmicos do curso de Administração na disciplina ning) ou, Aprendizagem Baseada em Times. Essa atividade foi desen-
de Gestão de Marketing, ao qual foi dinamizada no primeiro semestre volvida no curso de Administração da Faculdade Avantis, no primeiro
de 2018. Apresenta-se de forma contextualizada, as instruções, o mo- semestre de 2018, com o terceiro período do curso de Administra-
delo utilizado de PBL (Aprendizado baseado em problemas) além dos ção. Esse método foi aplicado com 51 alunos da disciplina Gestão de
critérios avaliativos nas atividades do mix de marketing, conhecido Marketing durante o semestre letivo, por meio de 18 encontros. Os
como 4P´s (Produto, Preço, Praça e Promoção) aplicados aos acadê- alunos foram divididos em 10 grupos, sendo que um grupo ficou com
micos. seis integrantes e os demais 9 grupos ficaram com cinco integrantes
Com relação à metodologia, a abordagem do problema carac- cada. Os grupos foram formados pela escolha de dez líderes autode-
terizou-se por uma pesquisa qualitativa, com o objetivo de caráter terminados na sala de aula e posteriormente estes líderes escolhiam
descritivo e quanto aos procedimentos técnicos, utilizou-se relato entre os acadêmicos o seu time para complementar a equipe e seguir
de experiência, pois essa técnica descreve uma experiência que pos- as atividades da metodologia TBL.
sa contribuir de forma relevante e apresentar elementos sólidos na
construção de ferramentas consistentes no ensino-aprendizado para
a área de atuação no curso de Administração. MÉTODO UTILIZADO
Por consequência, o presente relato deseja contribuir com con-
siderações e impressões que a vivência permite resgatar dos acadê- A metodologia aplicada no contexto foi a TBL. Esse método vai
micos, desenvolvendo em sala de aula com a metodologia aplicada além de cobrir o conteúdo, pois garante aos acadêmicos a oportuni-
pelo docente, contextualizar a prática docente a fim de aperfeiçoar dade de praticar o uso de conceitos do curso para resolver problemas.
os métodos e contribuir para um ensino de maior transparência de Além disso, a Aprendizagem Baseada em Times é projetada para for-
objetividade entre os envolvidos, aclaramento de estratégias e ações necer aos acadêmicos conhecimento tanto conceitual quanto proces-

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sual, ou seja, os acadêmicos do terceiro período da disciplina Gestão perante as suas equipes de trabalho e também com um componen-
de Marketing foram organizados em grupos permanentes no início te motivacional para o estudo que é a aplicação dos conhecimentos
do semestre e o conteúdo do curso foi organizado em quatro grandes adquiridos na solução de questões relevantes no contexto da prática
unidades: Produto, Preço, Praça e Promoção, conhecidos como mix de profissional.
marketing A utilidade na aplicação dessa metodologia TBL vem ao en-
As atribuições da equipe foram identificar e reconhecer o uso contro da dinâmica e da forma estruturada que, segundo Michaelsen
de conceitos da disciplina de Gestão de Marketing para tomada de de- (2002), a aplicação do conhecimento deve ser estruturada seguindo
cisão, por meio da Aprendizagem Baseada em Problemas já predefini- alguns preceitos. Os quatro princípios básicos para elaborar esta fase
dos pelo professor, (no caso do 1P – Produto e 2P Preço), seguindo da são conhecidos em inglês como os 4 S’s:
confecção de um paper (3P Praça) e, por conseguinte, a realização de
tarefas envolvendo a criatividade do grupo (4P – Promoção) de forma a. Problema significativo (Significant): estudantes resolvem
a promover a aprendizagem por meio da interação dos grupos. problemas reais, contendo situações contextualizadas com
Segundo os autores Frenk et al (2010) para que as equipes te- as quais têm grande chance de se depararem quando forem
nham alto desempenho, sejam coesas e eficientes, a implantação do para os cenários de prática do curso.
TBL exige o respeito aos seus quatro princípios essenciais, a saber: b. Mesmo Problema (Same): cada equipe deve receber o mes-
mo problema e ao mesmo tempo para estimular o futuro
a. os grupos devem ser heterogêneos, devidamente formados debate.
(por cinco a sete membros), com composição mantida por c. Escolha específica (Specific): cada equipe deve buscar uma
longos períodos (todas as unidades ou módulos do curso); resposta curta e facilmente visível por todas as outras equi-
b. os estudantes devem ser responsabilizados pelo trabalho pes. Nunca se deve pedir para que as equipes produzam
individual e em grupo; respostas escritas em longos documentos.
c. as tarefas realizadas pelo grupo devem promover aprendi- d. Relatos simultâneos (Simultaneous report): é ideal que as
zagem e desenvolvimento de da equipe; respostas sejam mostradas simultaneamente, de modo a
d. estudantes devem receber feedback frequente e oportuno. inibir que alguns grupos manifestem sua resposta a partir
da argumentação de outras equipes.
De acordo com Michaelsen (2002) quanto maior e mais efetiva
a interação entre os membros da equipe, mais disposta e capaz estará Assim, cada equipe se compromete com uma resposta e deve
a equipe para enfrentar os desafios propostos. Os estudos mostram ser capaz de defendê-la em caso de divergência com outras equipes.
que 98% das vezes, o desempenho da equipe vai superar o desempe- Idealmente, diferentes equipes devem escolher diferentes respostas,
nho do seu melhor membro da equipe isoladamente. o que justificará a argumentação desejada nesta etapa, realizada en-
O TBL é uma estratégia embasada na aprendizagem de adul- tre as equipes. Caso todas optem pela resposta correta, o professor
tos, com valorização da responsabilidade individual dos acadêmicos pode estimular o debate perguntando porque as demais alternativas

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estão erradas. resultados na lousa, passando por todos os grupos, de variável em


variável.
Após a atividade sobre o ambiente de marketing, parte-se
ENVOLVIMENTO DOS ATORES para as atividades dos 4P´s (mix de marketing) onde cada grupo, to-
talizando 10 grupos, recebe um produto que pode ser comestível ou
Conforme explicitado anteriormente, a metodologia utilizada não, sorteado pelo professor ao qual esses produtos serão trabalhados
foi a TBL. Assim na aplicação do método, antes de qualquer trabalho ao longo do semestre em cada atividade distinta. No 1P: Produto, os
em sala de aula, os acadêmicos estudam materiais específicos, conhe- acadêmicos precisam classificar o produto quanto, encontrar na le-
cidos como: ambiente de marketing; 1P Produto; 2P Preço; 3P Preço e gislação todos os atributos relacionados a embalagem e por fim, pre-
4P Promoção, constituídos como a instrumentalização para as ativi- encher a matriz de classificação horizontal de produto encontrando:
dades da disciplina Gestão de Marketing. características, vantagens e benefícios. Posteriormente cruzarão essa
Estes estudos antecipados dos conceitos, foram deixados uma classificação vertical do produto relacionando: forma, qualidade de
semana antes no AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), platafor- desempenho, conformidade, confiabilidade, durabilidade, estilo e de-
ma de estudos da faculdade, que permite os acadêmicos anteciparem sign. Assim, todos os grupos apresentam seus resultados, entregando
os estudos e adiantarem o pronto debate com os demais membros da anteriormente ao professor sua pesquisa, e todos avaliam os demais
sua equipe. grupos.
A partir das leituras individuais dos alunos junto com o gru- No 2P Preço, há a realização de um estudo de caso sendo as
po, é solicitado para que os mesmos encontrem dentro dos textos as equipes responsáveis por encontrar o preço médio no mercado, calcu-
variáveis macro ambientais como: variável demográfica, econômica, lar, margem, impostos, precificação, mark-up divisor, mark-up multi-
político-legal, tecnológica, social-cultural e natural. plicador, retorno sobre investimento, ponto de equilíbrio, faturamen-
Após encontradas as variáveis, os acadêmicos, por meio de to, lucratividade, impostos, custos unitários e totais além de fornecer
seus grupos, deverão encontrar uma oportunidade (variável externa um percentual que oportunizará as equipes que confeccionar 3 obje-
positiva que possa oferecer uma possibilidade a organização) e uma tivos, estratégias e ações para uma campanha no estado de SC dando
ameaça (variável externa negativa, que pode causar prejuízos a orga- maior dinâmica em relação ao 2P preço. Todos sendo avaliados pelo
nização ou até mesmo sua morte). professor e por todos os demais grupos.
Em seguida, o professor coloca no quadro todas as seis vari- O terceiro trabalho é a confecção de um paper (3P Praça) onde
áveis e as devidas lacunas para preenchimento das oportunidades as equipes necessitam se organizar de forma a pesquisar materiais so-
e ameaças pelos grupos. Na sequência o professor vai perguntando bre o terceiro elemento do mix de marketing, e confeccionar em for-
para cada grupo, uma ameaça e uma oportunidade sobre o ambiente mato de paper todo a informação disponível, inserindo 3 citações di-
demográfico e vai preenchendo o mesmo quadro refeito na lousa da retas, 6 citações indiretas sendo 3 paráfrases e 3 condensações, além
sala de aula, onde todos os grupos, um a um, vão ditando ao profes- de inserir dados referentes a distribuição, logística, armazenamento,
sor sua variável encontrada e sendo inserido pelo professor todos os transporte do seu produto.

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E na última atividade, a realização de tarefas envolvendo a cria- micos em cada um dos 4P´s, anunciam o líder da atividade. Esses lí-
tividade do grupo (4P – Promoção) que consiste em o grupo gravar um deres assumem o papel de facilitador, de agilizar as atividades e supe-
vídeo B2C (business to consumer) gerando um ruído na comunicação, rar as expectativas, ajudando os demais colegas de forma organizada,
uma propaganda formato A4 para uma revista B2B (business to busi- humanista e entendendo suas limitações em determinadas ativida-
ness) um storytelling da marca e um pitch de vendas de 30 segundos. des, que são diversas e diferentes, procurando capacitar nas ativida-
Todos sendo avaliados pelo professor e por todos os demais grupos. des suas habilidades e competências, mas principalmente, no quesito
de liderança, colocar em prática um estilo que os demais participantes
poderão avaliar o estilo comportamental da liderança naquela ativi-
PRINCIPAIS RESULTADOS dade.
d) Melhoria da percepção de maior apoio social: nas atividades
Após a aplicação da metodologia ativa TBL, em todos os com- desempenhadas, principalmente na do 4P – Promoção, onde os aca-
ponentes do mix de marketing (4P´s: produto, Preço, Praça e Promo- dêmicos necessitam produzir uma propaganda, geralmente há apoio
ção), pode-se interpretar situações e algumas análises capazes de e participação dos pais, amigos, parentes e filhos nas atividades, ou
auxiliar e melhorar a performance das aulas numa dinâmica onde os seja, contempla o âmbito não somente acadêmico, mas principalmen-
acadêmicos, em alguns retornos informais, contribuíram para os re- te familiar, o que contribui para a união, fortalecimento e apoio da
sultados a seguir. família dos estudos dos acadêmicos.
e) Melhoria na vontade pelo gosto de estudar: diante das difi-
a) Melhoria do desempenho acadêmico: os alunos em grupo culdades, os acadêmicos acabam se unindo, procurando entender em
trabalham se auxiliando, tirando as dificuldades dos demais colegas conjunto e explicar aos colegas a forma de aprender, pois todos estão
que ainda têm alguma restrição quanto ao aprendizado de pesquisas, no mesmo “barco” e envolvidos tanto na dificuldade quanto nos mé-
ou intepretação do que são benefícios, vantagens, ou características ritos. Além disso, o conteúdo explanado em sala é contemplado pelos
de um produto, auxiliando um ao outro nestas atividades. acadêmicos em momentos em que o grupo está reunido, fazendo com
b) Melhoria na aprendizagem de cálculos. Na confecção da ati- que o momento seja oportuno para aprender com seus pares, orien-
vidade do 2P – Preço, os acadêmicos se reúnem em sala de aula para tar as colegas na dificuldade a aperfeiçoar outros comportamentos no
efetuar os cálculos, mas, principalmente, acabam se unindo nos fi- momento de sua apresentação.
nais de semana para realizar os cálculos e ensinar os demais colegas f) Melhoria na retenção dos conteúdos acadêmicos e na prática:
que, mesmo tendo uma disciplina de cálculos no semestre anterior, além da reunião para a execução das atividades, os acadêmicos que-
os mesmos se ajudam, aprendem em conjunto e reforçam os ensina- rem entender o conteúdo de forma prática, ou seja, acabam relacio-
mentos em termo de cálculos como precificação por meio do método nando o aprendizado com as práticas do seu dia a dia.
mark-up, retorno sobre investimento, ponto de equilíbrio, lucrativi-
dade e investimentos. Diante disso, os grupos acabam se organizando de tal maneira
c) Melhoria na qualidade das relações interpessoais: os acadê- que os mesmos produzem camisetas com a marca dos produtos sor-

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teados entre os grupos, fazem bonés, aventais e também trazem para De acordo com Bacich e Moran (2018, p. 2) “aprendemos quan-
a sala de aula degustação dos produtos aos demais colegas, de forma a do alguém mais experiente nos fala e aprendemos quando descobri-
inovar e criar vínculos com a classe e dar uma dinâmica profissional e mos a partir de um envolvimento mais direto, por questionamento
prática na forma de aprender. e experimentação (a partir de perguntas, pesquisas, atividades, pro-
jetos)”.
O que constatamos, cada vez mais, é que a aprendizagem por
PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E meio da transmissão é importante, mas a aprendizagem por questio-
APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS namento e experimentação é mais relevante para uma compreensão
mais ampla e profunda. Estas palavras abrem o cenário e exibe as
A realidade escolar demonstra o quão preciso é evoluir no pen- oportunidades do método, porém vale dar crédito ao mediador disto
samento metodológico aplicado, principalmente na relação profes- tudo, já que no novo perfil, o educador tem grande relevância e para
sor-aluno. Atualmente, o processo de ensino-aprendizagem passou que haja um ensino inovador, o professor precisa entender o perfil
de passivo para totalmente ativo e os educadores que não conseguem atuante do aluno, no qual ele possui uma participação direta no pro-
se adequar a este modelo têm sérias dificuldades durante sua atuação cesso de ensino-aprendizagem, onde é capaz disto e não se faz ape-
na sala de aula. É nítido o papel do magistério na questão de mediar nas como um recebedor de informações, uma característica passiva,
e não mais possuir todo conhecimento. Por isso, nos próximos anos, muito pelo contrário, ele é totalmente presente e interfere em todo
o aluno deixará de ser um receptor e estará muito mais ágil e partici- procedimento.
pante de todo contexto escolar. Um exemplo disto é da bagagem de O conceito dado a essa habilidade é aplicação de metodologia ati-
informações que muitos adolescentes e/ou crianças carregam quando va, onde contribui e dá abertura ao discente atuante. Inovar é reformar,
chegam na escola, pois muitos já tiveram contato com aparelhos ele- transformar, mudar, reparar, renovar, criar, todos esses verbos no infini-
trônicos que dispuseram os dados à vontade a eles e ocorreu a absor- to, pois são ações a serem realizadas e depende do professor aproveitar
ção daquilo que mais lhe interessou. todo esse universo em busca do sucesso do ensino-aprendizagem. Rele-
Observa-se a rapidez e superficialidade constante hoje, de onde va-se ainda, o modelo híbrido para ensinar, consistente de flexibilidade
caracteriza essa capacidade dos aprendizes de realizar multitarefas, na qual constrói a metodologia unindo o virtual/digital com o físico/real,
porém sem profundidade e reflexão naquilo que faz e consequen- lembrando que este método é pertencente ao modelo ativo, onde o alu-
te a isto está a agilidade, o ativo: aprendemos ativamente desde que no tem voz ativa e precisa construir o conhecimento. Utiliza-se recursos
nascemos e ao longo da vida “[...] enfrentando desafios complexos, tecnológicos tanto digitais, quanto não eletrônicos para trabalhar de ma-
combinando trilhas flexíveis e semiestruturadas, em todos os campos neira híbrida na educação.
(pessoal, profissional, social) que ampliam nossa percepção, conheci- Se faz mister um olhar para a didática, pois esta tende a ser
mento e competências para escolhas mais libertadoras e realizadoras. empática, humanizada e considerar o social (ambiente), com intui-
A vida é um processo de aprendizagem ativa, de enfrentamento de to de melhor preparar o planejamento e ministrar aulas conforme o
desafios cada vez mais complexos” (BACICH; MORAN, 2018, p. 2). diagnóstico da turma e há diversas técnicas a ensinar, porém ocorre

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a mudança constante, adaptando-se a cada momento, respeitando a


realidade vigente e interligando social, cultural, educacional com o USO DO MODELO ROTAÇÃO
mundo científico. Reflexão e senso crítico são indispensáveis no am-
biente escolar hoje e o universo científico-pedagógico lança diversas POR ESTAÇÕES: UM RELATO DE
teorias e fundamentos para auxiliar os inclusos neste mundo. Por EXPERIÊNCIA NO ESTUDO SOBRE
isso, aumentar os horizontes e procurar aprofundar-se sempre mais
para atualizar-se e é condição sine qua non para melhorar um indiví-
AMOSTRAGEM
duo, uma sala de aula, uma cidade, um país e um mundo melhor.
Wanderley Pivatto Brum

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
O presente trabalho, de cunho predominantemente qualitati-
BACICH, Lilian; MORAN, José (orgs). Metodologias ativas para uma vo, tem por objetivo analisar o aporte do modelo de rotação por esta-
educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: ções como modalidade de ensino híbrido para a compreensão sobre
Penso, 2018. o tema amostragem. Para tanto, foi aplicada uma sequência didática
com um grupo de acadêmicos de Ciências Contábeis, utilizando-se
MICHAELSEN LK. Getting Started with Team Based Learning. In: MI-
CHAELSEN LK, KNIGHT A B, FINK LD , editors. Team-Based Learn- como procedimentos para coleta de dados a observação sistemática,
ing: A Transformative Use of Small Groups. Praeger; 2002. as produções desenvolvidas em cada estação e roda de conversa. Os
resultados apontaram maior interação entre professor e alunos, en-
TONON, Maria Helena Haninsch. Matemática: um olhar empático volvimento entre os acadêmicos em cada estação e produções que in-
sobre o ensino-aprendizagem. União da Vitória: Face, 2004. dicam compreensão dos conceitos estudados.

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS

Diante de novos desafios que emergem em diversas frentes no


campo da Educação, um em destaque concentra-se na reflexão sobre
novas estratégias educativas que excedam a instrução direcionada
pelo livro didático, centrada na fala do professor e, por consequên-
cia, a passividade do aluno (NOVAK, 2000), (BRUM; SILVA, 2015). A
produção e divulgação de novas estratégias educativas, conclama,

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cada vez mais, a participação de professores nos debates e forma- com o contexto social, reconhecendo a estrutura e as formas de orga-
ções continuadas, possibilitando avanços experimentais, científicos nização em sociedade, suas transformações e expressões e, por fim, o
e tecnológicos no processo de disseminação do conhecimento (IM- trabalho demonstra importância profissional, desenvolvendo forma-
BERNON,2009). Uma estratégia educativa divulgada e relevante no ção científica que confira qualidade ao exercício profissional, solucio-
processo de ensino e aprendizagem é o uso de metodologias ativas nando desafios no campo da comunicação, a fim de tomar decisões,
(BERBEL, 2011), (MORAN, 2015), (PINTO et al., 2013), (PRINCE, 2004). de intervir no processo de trabalho, de trabalhar em equipe e de en-
O termo metodologia ativa, muitas vezes chamada de estratégia edu- frentar situações em constante mudança.
cativa ou pedagógica, coloca no centro do processo de ensino e apren-
dizagem o aluno, divergindo da abordagem pedagógica do ensino tra-
dicional, focado no professor, detentor do saber, e o aluno como uma MÉTODO UTILIZADO
lousa em branco, pronta para ser preenchida.
Diante desse cenário, o presente trabalho tem como objetivo ge- O referido trabalho, cuja abordagem é predominantemente
ral analisar as contribuições da metodologia ativa rotação por estações, qualitativa, foi desenvolvido com um grupo de 40 acadêmicos da ter-
como modalidade de ensino híbrido para a compreensão sobre o tema ceira fase do Curso de Ciências Contábeis de uma faculdade do Vale
amostragem da área de Estatística, ramo da matemática que tem por do Itajaí, Santa Catarina, durante três semanas do mês de maio de
objetivo obter, organizar e analisar dados. Para o alcance do objetivo 2018, abordando um tópico específico de Estatística: a amostragem.
geral, traçou-se os objetivos específicos, delineados por: identificar os Os acadêmicos, por motivos éticos, foram nomeados por números
conhecimentos acerca de amostragem em cada estação; registrar as (A1, A2, ..., A39, A40) e o professor (P). Para identificar os conhecimen-
percepções dos acadêmicos acerca da atividade desenvolvida em aula; tos acerca de amostragem em cada estação e as percepções dos acadê-
distinguir os resultados de cada grupo nas estações. micos sobre a atividade realizada, foi utilizado como instrumento de
coleta de dados as observações sistemáticas, registros das produções
desenvolvidas e roda de conversa. Bauer e Gaskell (2003) compreen-
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA dem que a roda de conversa não é apenas um processo de informação
de mão única passando do entrevistado para o entrevistador. Ao con-
A experiência trata sobre o uso da sala por estações, eviden- trário, ela é uma interação, uma troca de ideias e de significados, em
ciando a importância no uso das metodologias ativas como subsídio que várias realidades e percepções são exploradas e desenvolvidas.
a prática docente. Nesse sentido, demonstra-se a relevância acadêmi- A etapa das análises consiste num importante momento da inves-
ca, pois valoriza a atuação do trabalho colaborativo na construção do tigação e tem como seu principal objetivo procurar significados e com-
conhecimento estatístico, incorporando na prática discente a ciência preensão. O que é realmente apresentado pelo acadêmico durante cada
da interpretação estatística como instrumento profissional. As meto- estação constitui dados, mas a análise transcende a aceitação desses re-
dologias ativas vislumbram as interações entre os pares e, por isso, o sultados aparentes. Para isso, cada momento da metodologia ativa rota-
trabalho apresenta relevância social, pois estabelece novas relações ção por estações e os resultados apresentados pelos acadêmicos foram

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

analisados a procura de evidências que apontam maior compreensão e


assimilação do tema abordado. Antes da ocorrência do primeiro momen-
to da sequência didática, o professor explicou a turma da atividade a ser ENVOLVIMENTO DOS ATORES
desenvolvida nos próximos três encontros e reforçou a importância da
realização da leitura dos textos sobre amostragem. A sequência didática desenvolvida, seja por etapa online e presen-
Com efeito, o primeiro momento culminou, durante uma se- cial, permitiu ao professor que objetiva a aprendizagem por parte de seus
mana, com a leitura de modo online e a distância de textos sobre acadêmicos uma visão qualitativamente diferente da simples transmis-
amostragem deixados pelo professor no ambiente virtual aprendiza- são do conhecimento e a recepção por parte do aluno de modo passivo.
gem, afim de que cada acadêmico familiarizar-se com novos concei- A participação do professor enquanto mediador no processo de constru-
tos e significados acerca do tema estudado e, diante da necessidade de ção dos conceitos é essencial, pois se reconhece a dificuldade de trans-
esclarecimentos, entravam em contato com o professor via aplicativo formar situações concretas em pensamento estatístico e, seu contato
de comunicação virtual (WhatsApp). direto com estudante com relação as dúvidas, gera uma segurança e cria
No segundo momento, já em sala de aula, os acadêmicos foram no acadêmico a sua autonomia e permite a continuidade dos trabalhos,
organizados em quatro grupos (G1 – G2 – G3 – G4) ocupando uma das progredindo em seus estudos. A promoção de momentos que potencia-
quatro estações: uso de computadores para elaboração de seminário; lizam a cooperação e interação no decorrer da atividade em sala de aula,
uso do diagrama SWOT; uso de câmeras para elaboração de vídeo; possibilitou maior alcance de significados, de possíveis soluções e quais
construção de mapas mentais. As estações foram planejadas de acor- as ações necessárias para testá-las sobre o tema amostragem. Com rela-
do com o objetivo para a aula do professor, fornecendo autonomia e ção a metodologia ativa “rotação por estações” se mostrou importante no
maior envolvimento entre os acadêmicos. Neste modelo é importante delineamento das atividades propostas, bem como colocou o acadêmi-
valorizar momentos em que os acadêmicos trabalharam de forma co- co em posição ativa, maior engajamento dos estudantes frente ao desa-
laborativa, trocando informações, chocando pensamentos e evoluin- fio da aprendizagem. As estações se mostraram eficazes na participação
do na apropriação de conceitos no campo da amostragem. dos acadêmicos com relação a troca de ideias, nas tentativas de resolução
Após 45 minutos, previamente combinado com os acadêmicos, de problemas e na qualidade das produções. Os materiais concretos e as
os grupos rotacionaram até todos terem passado por cada estação. Ao tecnologias disponibilizadas serviram como instrumentos valiosos para
final, todos os grupos vivenciaram os desafios das estações e entrega- a obtenção de informações a respeito das mudanças cognitivas ocorridas
ram as produções solicitadas. ao longo da sequência didática.
No terceiro momento, foi realizada uma roda de conversa com
a turma afim de avaliar potencialidades e fragilidades da atividade de-
senvolvida. Nesse momento, cada acadêmico teve a oportunidade de PRINCIPAIS RESULTADOS
opinar sobre suas percepções, atribuindo um juízo de valor acerca da
sequência didática e seu desempenho acadêmico acerca da apropria- No presente trabalho, a análise das produções realizadas pelos
ção do conhecimento sobre amostragem. acadêmicos se concentra nas estações “diagrama SWOT” e “mapas

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

mentais”. A escolha por essas estações ocorre pelo volume de inter- derou a amostragem não probabilística (região amarela) como viés a
conexões das informações ocorridas entre os envolvidos de cada gru- formação da amostragem, em função de sua manipulação, intencio-
po. A análise SWOT (Strengths ou força; Weaknesses ou fraquezas; nalidade ou conveniência.
Opportunities ou oportunidades; Threats ou ameaças) constitui uma
ferramenta para fazer análise de cenário. É perceptível a existência
de itens convergentes em Forças, mas também em Oportunidades PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E
“rapidez” e “ampliação de contatos” ou até mesmo em Fraquezas e APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS
Ameaças “erros” e “manipulação”, o que reflete a ampla visão de mui-
tos acadêmicos pensando sobre o mesmo assunto. A maioria dos aca- O objetivo geral do trabalho foi alcançado com êxito a partir
dêmicos (25 – 62,5%) repetiu no diagrama os termos “manipulação”, do delineamento dos objetivos específicos que buscaram identificar,
“custo elevado para realização de censo”, “amostragem probabilística registrar e diferenciar os conhecimentos assimilados durante as es-
e não probabilística”, “uso de software”. tações na metodologia ativa “rotação por estações”. As metodologias
Dos quatro itens no diagrama SWOT, as “forças” receberam em ativas formam um acervo de possibilidades para a apresentação de
média 9 indicações, as “fraquezas” 8 indicações, as “oportunidades” 8 conteúdos na qual valoriza os conhecimentos prévios dos acadêmi-
indicações e as “ameaças” 7 indicações, apontando certa homogenei- cos, intensifica a relação entre os pares, favorece os momentos de in-
dade na quantidade de apontamentos. O termo mais indicado é “in- teração, colaboração, envolvimento com o tema faz inovar o modelo
formação rápida” com 5 apontamentos no diagrama SWOT, indicando tradicional de ensino transformando os alunos em protagonistas do
que o estudo sobre amostragem apresenta resultados mais rápidos do próprio aprendizado, bem como, torna o professor mediador na re-
que a realização do censo. De modo geral, os acadêmicos apresenta- lação sujeito e conhecimento, contraria o pensamento da instrução
ram conceitos e significados pontuais sobre amostragem, verificados baseada na educação tradicional e, por fim, para que possamos criar
na estação “mapas mentais”. A repetição no uso de conceitos reforça pesquisadores, é preciso estarmos conscientes e dispostos a escutar
a ideia de que, a partir das leituras e discussões entre os pares, a visão os acadêmicos.
global dos acadêmicos constrói uma hierarquia de pensamento com
lógica e coerência.
De modo geral os mapas mentais construídos pelos grupos
apresentam conceitos fundamentais no estudo sobre amostragem,
com destaque a “tipos de amostragem”, “subtipos de casos de amos-
tragem”, “inferências”, “erros” e “tamanho da amostra”. No mapa
mental construído por G3 (linha vermelha), as conexões entre o con-
ceito “probabilística” e “amostragem” indicam que o grupo visualiza
a amostragem, enquanto técnica de formação da amostra, por meio
de modelos valorativos à probabilidade uniforme. Também G3 consi-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

a explicação teórica da mesma, contextualizando com exemplos e


OFICINAS DE CONCEPÇÃO: possibilidades de uso na área de sistemas de informação, correlacio-
nando com as fases (ciclos de vida) do projeto, com ambientes neces-
PRÁTICAS VOLTADAS PARA sários/apropriados, etc. Após esse explanação e diálogo mais teórico,
CONSTRUÇÃO DE INTERFACES o grupo apresentou uma situação (caso de uso, estudo de caso, pro-
blematização, ...), conforme seu planejamento. Os demais alunos, não
PENSANDO NA INTERAÇÃO pertencentes ao grupo mediador, nesse momento “assumiram” o pa-
HUMANO-COMPUTADOR1 pel de usuário.
Os resultados foram positivos, pois a ideia não era apenas de-
Fabricia Teodoro senvolver o conhecimento teórico e prático dessas técnicas, mas,
mostrar que essa interação entre usuário e equipe de desenvolvimen-
to é possível. A “sensibilização” para perceber o usuário em toda sua
complexidade, não pode se limitar apenas em estudar e trabalhar
Um dos grandes desafios em projetos voltadas para área de in- com os alunos questões teóricas, como, por exemplo, apresentar os
terface humano-computador (IHC), é contemplar aspectos humanos aspectos da psicologia cognitiva voltados para IHC, é preciso ir além,
promovendo não só a eficácia e eficiente do mesmo, mas a satisfação mostrar na prática conceitos e métodos que eles possam levar e incor-
do usuário, e, sendo a satisfação do usuário um aspecto também sub- porar em seus projetos.
jetivo, entende-se a necessidade de o mesmo estar presente desde a
fase inicial do projeto. Convergindo com esse desafio e aliado a neces-
sidade de proporcionar experiências inovadoras aos alunos, buscan-
do despertar seus interesses em aprender e aprofundar seus conheci-
mentos, foi proposto a criação de oficinas de técnicas de concepção
em IHC.
Os alunos organizaram-se em grupos, e cada grupo ficou res-
ponsável em pesquisar uma determinada técnica utilizada em proje-
tos com paradigma “centrado no usuário”, e então, desenvolver uma
oficina a ser aplicada em sala – as técnicas trabalhadas e distribuídas
pela professora foram: Card Sorting; Maquetes; Story Board; Diagra-
ma de Afinidades; Prototipagem e Brainstorming.
A criação e aplicação dessas oficinas simularam um cenário
real, onde, o grupo responsável pela técnica proposta, iniciava com
Oficinas de Técnicas de concepção aplicadas na disciplina de Engenharia de Usabilidade.
1 Trabalho classificado em 5º lugar

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA

Entre as principais causas identificadas na situação problema, Trata-se da construção de oficinas, no qual os alunos organi-
pode-se citar a necessidade de sensibilização e capacitação dos alu- zados em grupo (4 alunos – 6 alunos), recebem por meio de sorteio
nos para envolver usuários desde a fase inicial em projetos voltados e/ou indicação da professora uma técnica de concepção de projetos,
para interface humano-computador (IHC), de forma que possam apli- ficando encarregados de pesquisar os fundamentos, formas, procedi-
car tais conhecimentos e práticas em sua vida profissional. mentos e possiblidades de aplicação das técnicas propostas.
Em relação à origem dos problemas contextualizados, esses fo- Inicialmente o grupo organiza uma apresentação, no qual ele
ram facilmente identificadas em aulas dialogadas em que se percebe estará como responsável em “ensinar” e compartilhar tais informa-
por meio das conversas e experiências compartilhadas entre a classe, ções e conhecimentos com os demais colegas da classe.
que no cotidiano profissional dos alunos os usuários raramente são Entende-se, portanto, que nesse momento a sala está dividida
envolvidos em seus projetos, e que aspectos humanos nem sempre entre o grupo que irá aplicar a oficina (técnica já determinada), e os de-
são discutidos e contemplados em sua complexidade, e muitas vezes mais alunos que nesse momento assumem (simulam) o papel do usuá-
nem há entendimento sobre tal importância. rio que estará sendo envolvido, convidados a participar da oficina.
Então um problema vira oportunidade: em se tratando de siste- Assim, essa Oficina tem o intuito de simular, criando um cená-
mas computacionais, no qual, há a necessidade eminente em atender rio de um projeto voltado para a IHC, mostrando-se de forma efetiva
as necessidades do usuário (humano), existe uma forte oportunidade como “trazer” os usuários desde sua fase inicial, inclusive, fazendo
em mostrar possibilidades de “como fazer” e “formas de fazer” para o que o mesmo colabore com as ideias iniciais; requisitos dos sistemas;
aluno, ou seja, construir com eles meios/métodos que eles possam apli- formas de interação, no sentido de como este realiza as tarefas; arqui-
car tais técnicas de forma eficiente e criativa em um cenário real/profis- tetura da informação do ponto de vista do usuário; etc.
sional, visando desta forma, atender o problema já citado. Pretende-se A oficina segue com as práticas planejadas pelo grupo, bem
também que por meio de ações práticas e criativas, e que promovam um como recursos físicos, tecnológicos preparados pelos alunos, e cuida-
diálogo reflexivo, sensibilizar os alunos para um maior entendimento dosamente mediados pela professora durante a fase de criação e pla-
sobre como as questões humanas podem ser complexas, e, assim sen- nejamento da oficina. Pois a mesma precisa apresentar início (orien-
do, reafirmando e confirmando a importância de o usuário estar pre- tação dos conceitos e problematização que será trabalhada); meio
sente e representado em todas as fases do projeto. (aplicação) e fim (apresentação/fechamento dos resultados – dados
Portanto, com a implantação do projeto de criação de oficinas, coletados).
busca-se desenvolver não apenas conhecimentos teóricos e práticos Para sistematização das oficinas cada grupo foi encarregado de
a respeito das questões atendidas pela própria oficina. Mas colaborar filmar sua própria aplicação, e posteriormente (após editado), cada
para a formação de alunos (sujeitos) mais criativos, proativos, orga- um entregou um vídeo com média de 10 minutos dessa experiência.
nizados e emancipados, capazes de transformar e levar para seu am-
biente de trabalho novas percepções, ideias, técnicas, etc.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

que usuários de sistemas nem sempre tem acesso ou conhecimento


de ferramentas tecnológicas, por isso, cada grupo utilizou-se de re-
cursos de acordo com case e possíveis usuários. Todos os grupos fize-
ram fechamento de seus trabalhos-oficinas, demonstrando e socia-
lizando aos demais toda as fazer que compõe a técnica apresentada.

Aplicação das Oficinas de Técnicas de concepção

MÉTODO UTILIZADO

Para criação da oficina foi aplicada pesquisa por meio de refe-


renciais teóricos dos livros utilizados em sala de aula, com capítulos
e páginas previamente indicados, podendo o aluno se estender ao Socialização dos resultados das Oficinas de Técnicas de concepção.
estudo-pesquisa de artigos científicos e vídeos. Para apresentação da
fundamentação da técnica socializada em sala, cada grupo criou uma
apresentação utilizando o Power Point ou Prezzi
Para a aplicação da oficina propriamente dita os recursos uti- ENVOLVIMENTO DOS ATORES
lizados foram trabalhados de forma livre, sendo que alguns usaram
ferramentas tecnológicas e sistemas/aplicativos; outros utilizaram re- Todos os alunos participaram, destacando que alguns assumi-
cursos físicos como, postits, cartazes, para criação de maquetes foram ram papéis de maior “destaque” durante a aplicação da oficina. Um
utilizadas cartolinas, isopor, etc. fator bem interessante foi quando no papel de “usuários”, todos fo-
Essa diversidade de recursos se deu devido ao entendimento ram receptivos e participaram de forma dinâmica e divertida com os

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

colegas da turma, gerando uma sinergia na classe, discussões e dúvi- foi o que me ajudou [...] E quando eu tive que ir atrás do meu trabalho
das que foram atendidas. eu fui atrás de vídeo. Aluno 2: [...] com essa metodologia eu achei bem
melhor porque pude pegar os pontos que eu precisava. Aluno 3: foi
conseguir dividir a aprendizagem em carga diferente e quando tiver
PRINCIPAIS RESULTADOS dúvida poder vir buscar mais “pílulas de conhecimento”.

Para apresentar o antes e depois da aplicação dessa ferramen-


ta compartilho, apresentarei de maneira informal algumas falas dos PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E
alunos. Após a aplicação foi solicitado aos alunos algumas questões APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS
para perceber como foi para eles trabalhar com esse método. Durante
toda a disciplina eles tinham que construir seus conhecimentos de Em relação a essa questão, penso ser bastante complexa a res-
forma autônoma, pois mesmo a professora estando perto, mediando, posta ao tentar projetar “perspectivas e reflexões sobre a docência e
as técnicas aplicadas em sala, destacando aqui, as oficinas, eles foram o ensino e aprendizagem nos próximos 20 anos”, todavia, de forma
os principais autores de suas aprendizagens. sucinta respondo que frente as mudanças sociais, etc.... sempre me
Assim, a experiência desse semestre foi bastante interessante, posicionei, buscando desenvolver trabalhos em sala que abordem as
e que de forma “sucinta” tento trazer aqui a resposta de alguns alunos questões e problemáticas contemporâneas, de modo que possam ser
por meio de um diálogo informal para avaliação do método e da aula trabalhadas em sala de aula de forma reflexiva, incorporando os te-
– perguntas norteadoras: mas transversais de forma direta por meio de problematizações apre-
- Em relação a aprendizagem, como foi para vocês “aprender” sentadas e propostas aos alunos.
por meio desse método proposto? Pontos positivos que vocês mais Para atender tais demandas, atualmente estou fazendo um
curtiram da aula: Aluno 1: Dá mais liberdade para aprender. Aluno 2: mestrado multidisciplinar de Gestão em Políticas Públicas, cujo tema
Achei interessante porque você tinha que fazer muita pesquisa, muita de dissertação será a criação de uma Tecnologia Social a ser utiliza-
pesquisa e muita discussão, reforçou bastante o conceito [...] assimi- da em uma IES em diversos cursos/áreas para se trabalhar questões
lando mais, do que de repente tivesse só ouvindo, assim é mais ativa. contemporâneas, inicialmente o foco será “Violência”. Meus projetos
Aluno 3: muitas vezes em sala de aula a gente não presta tanto a aten- e atividades em sala, em sua grande maioria seguem uma temática
ção quando a gente pesquisa, e quando vai todo mundo apresentar socioambiental - educacional, e obviamente a formação continuada é
junto, como é uma coisa mais dinâmica, chama mais a atenção e a uma constante em minha vida profissional, como leituras, socializa-
gente aprende com mais facilidade. ção com os colegas de profissão, trocas de ideias, práticas, pesquisas,
- E esse processo/método deixou a aula mais dinâmica? Pon- e outras ações que me inspirem e permitam o planejamento de aulas
tos positivos e negativos: Aluno 1: eu como não gosto de ler muito [...] mais dinâmicas e reflexivas.
tenho dificuldade com leitura, não consigo gravar o que tô lendo. Eu
prefiro os professores explicando, mas eles apresentando lá na frente

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

tretanto, a rotina não necessita ser rígida, pelo contrário, quando re-
ESTÁGIO SUPERVISIONADO pensada e revista à melhoria do bem-estar das crianças em consonân-
cia com os preceitos do projeto político-pedagógico da instituição de
EM PEDAGOGIA: A NUTRIÇÃO Educação Infantil, é muito bem-vinda.
ESTÉTICA NA SALA DE AULA Foi a partir daí que, as cortinas do espetáculo se abrem à atua-
ção das acadêmicas em Pedagogia no Estágio Supervisionado na Edu-
Glauciaglivian Erbs da Costa cação Infantil sob minha orientação e acompanhamento dos traba-
lhos. Como minha função na condição de tutora e professora do curso
envolve o processo de responsabilização dos acadêmicos na tarefa da
O Estágio Curricular Supervisionado em Pedagogia constitui-se docência, estes, foram impulsionados a garantir a nutrição estética na
em uma parte importante da formação à docência em que os funda- sala de aula, o oferecimento aos aprendizes de objetos culturais, tra-
mentos teóricos adquiridos são consolidados através da experiência. zendo inovação para a “hora” do Estágio Supervisionado”.
A nutrição estética na sala de aula é compromisso assumido pelo es-
tagiário, um modo de gerar o abastecimento dos sentidos movendo o
saber sensível pelo oferecimento aos aprendizes de objetos culturais. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA
O estudo volta-se ao estágio na primeira infância, a cultura
circense, na construção e socialização do saber científico, artístico e “Hoje tem palhaçada? Tem sim senhor! Hoje tem marmelada?
filosófico. O método adotado: Pesquisa-ação possibilitou reflexão da Tem sim senhor! ... Hoje tem espetáculo? Tem sim senhor! O circo che-
prática, mediação e consolidação do propósito do estágio, de ofertar goouuuu.” Realizarei um recorte do Estágio para fazer parte deste rela-
alegria, conhecimento e valorização da cultura circense na explora- to de experiência, especificamente, o trabalho de Estágio da acadêmica
ção de diferentes linguagens. O binômio, circo – estágio, nos atirou Jennifer Amabel Severino, parceria bem-sucedida, pois, realizou a prá-
ao ar como um trapezista, pelo desejo de novos encontros, para que o tica na Instituição de Educação Infantil no qual eu atuava como Super-
circo seguisse tocando subjetividades em diferentes temporalidades. visora Escolar. Também, será objeto de estudo, análise e documentação
da prática, o Estágio da acadêmica Dailene de Fátima Saviak Oliveira,
cuja temática, “Circo”, voltou-se em romper com a rotina estanque à
DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS conquista sorrisos. Há algo mais puro e belo que o espontâneo sorriso
de uma criança? A alegria é a mola propulsora da educação para a felici-
Estágio Supervisionado na Educação Infantil - A rotina na dade e para a aprendizagem. O que lhe vem à cabeça quando você pensa
primeira infância é um elemento importante por proporcionar sen- em alegria e criança? Dentro de nós adultos há uma criança adormeci-
timentos de estabilidade e segurança à criança. Com a organização da, é esta mesma criança que se empolga e sorri interiormente quando
espaço-temporal desenvolvidos mediante uma rotina estruturada, vê uma lona colorida armada. Circo! As acadêmicas Dailene e Jennifer
supera-se o sentimento do estresse, causa equilíbrio e conforto. En- desenvolveram seu Estágio Curricular Supervisionado em Pedagogia,

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

cuja temática, possibilitaram a exploração de campos de experiências e risos. É nesta arena, antes mesmo do palhaço entrar em cena que ele
desenvolvimento de aprendizagens. estrutura e planeja seu momento no espetáculo para que se mantenha
no centro das atenções ao alcance do seu objetivo.
Em anuência, as Acadêmicas na Observação e Regência, reali-
MÉTODO UTILIZADO zavam o planejamento à melhoria do trabalho pedagógico do campo
de Estágio. Buscamos unificar palco e plateia, artista e público, tudo
E, por que trabalhar com a temática Circo com crianças de zero em uma coisa só. Tal proposta veio ao encontro às nossas buscas, a
a cinco anos de idade – primeira etapa da educação básica? Porque criação desse universo lúdico, teatral e circense recheado de musicali-
circo é ambiente vivo, metáfora de felicidade, diversão, cultura e gera dade e imaginação junto às crianças. Diante da reação dos pequenos,
muitas possibilidades de trabalho com as diferentes linguagens, cai refletimos sobre a nutrição estética na sala de aula, filosofamos sobre
na graça das crianças, faz parte do universo infantil. Deu-se origem a dicotomia alienação/separação versus acesso/apropriação que en-
a proposta didática do Estágio em Pedagogia, a observação e inter- volve os elementos culturais
venção, planejamento participativo com as crianças, ações diante do
processo investigativo e envolvimento com a comunidade escolar.
Os procedimentos envolveram a metodologia Pesquisa-ação, PRINCIPAIS RESULTADOS
ou seja, enquanto atuávamos em parceria, a prática era objeto de estu-
do, análise e intervenção. O Estágio teve este teor, de picadeiro ilumi- O trabalho desenvolvido com o Projeto Circo proporcionou às
nado teoricamente e de envolvimento com a plateia. Cores vibrantes, crianças muita alegria e diversão que é justamente o que elas buscam
encenações, malabarismos ousados, superação motora e cognitiva nesta etapa de suas vidas. Passamos dias pendurados no circo da imagi-
testando os limites do corpo e da mente, em meio a sentimentos e nação. Demos corda à fantasia; com o palhaço arrancando sorrisos sem
emoções. O Circo foi armado! dentes, cambalhotas com o ginasta, mãozinhas escondendo olhos com
o que trago na cartola. Num golpe de magia foram desenvolvidas múlti-
plas linguagens em cena, a música na cultura corporal, o equilíbrio e a
ENVOLVIMENTO DOS ATORES força, da autoestima ao autoconhecimento, a integração social.
O método de Pesquisa-ação nos possibilitou refletirmos sobre
“Chegou, chegou está na hora da alegria, o circo tem palhaço os procedimentos da prática pedagógica. Não tivemos como intenção
tem, tem todo dia!”. Qual personagem associamos quando ouvimos trazer uma receita de aulas de circo das modalidades acrobáticas e de
“O circo chegou”!? O palhaço é o principal artista da arena, embora o manipulação. A experiência nos mostrou que além das capacidades
circo com a modernidade e a tecnologia tenha sofrido variações. De físicas e cognitivas ampliadas, aproximamo-nos da docência e o uni-
igual modo, as acadêmicas assumiram comigo esse papel, propiciar verso infantil socializando e apreciando arte circense, confeccionan-
à plateia diversão e cultura. O palhaço no espetáculo consegue cons- do fantasia, representando diferentes papéis.
truir junto às crianças comunicação, predispondo-se a (re) produzir

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E


APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO
O binômio, circo – estágio nos atirou ao ar como um trapezis- HÍBRIDO NA DISCIPLINA
ta, pelo desejo de novos encontros, para que o circo seguisse tocando DE DESENHO DE PROJETO
subjetividades em diferentes temporalidades. Como a cultura circense
milenar atravessou a história da sociabilidade humana, o que depen-
AUXILIADO POR COMPUTADOR.
deu da intimidade entre palco e público, nossas buscas tiveram este
fio condutor. Vislumbro um futuro, em que, cada vez mais, o protago- Heron de Sousa Arruda
nismo e comunicação com/ das crianças precisarão ser foco, princípio
educativo a ser praticado no Estágio Supervisionado em Pedagogia.
Nesta lógica, pela alma inquieta e pelo fôlego nas acrobacias O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma experi-
não nos deixamos abater pelas negativas, pelas tentativas e erros ência de implementação do Ensino Hibrido na disciplina de “Desenho
como estagiárias inexperientes, pois, o bom artista não vive apenas de projeto auxiliado por computador”, do curso de Engenharia Elé-
dos aplausos, não se envaidece com pouco, busca na multidão de ca- trica e de Engenharia Mecânica da Faculdade Avantis em Balneário
deiras vazias, sua reinvenção. É nisso que reside o efeito do Palhaço, Camboriú SC. Apresenta também as apropriações e as fragilidades
embora ele perca, sempre demonstra recomeçar, enquanto outros enfrentadas no processo de utilização de metodologias ativas em sala
personagens voam ele cai, do encontro com a fragilidade se potencia- de aula, abordando as dificuldades na aplicação da “aprendizagem
liza a humanizar. Na representatividade deste personagem buscamos baseada em projetos” como metodologia, aborda o novo perfil do alu-
disseminar a cultura circense referenciada em suas múltiplas facetas: no autônomo e emancipado, tendo em vista o seu protagonismo na
nas ruas, nos picadeiros, debaixo de lonas, nos teatros, nas praças e construção do conhecimento. Entre os resultados revelou-se que as
semáforos [...] talento no Estágio Supervisionado em Pedagogia, show atividades desenvolvidas em salas de aulas encontraram amplo am-
no palco da vida profissional, no palco da Avantis. paro dos alunos da instituição, havendo algumas resistências pontu-
ais contornáveis com estratégias da metodologia.

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS

A educação está em processo de alinhamento com a contem-


poraneidade, sendo assim os professores necessitam de uma forma-
ção que os capacite para exercer a função de mediador nestas novas
salas de aulas que estão se delineando no horizonte. Estar aberto aos

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

novos paradigmas impostos por uma sociedade que busca melhorar ternautas da educação”, necessitam sobremaneira ter um perfil dis-
e crescer, apostando no ambiente virtual, aceitando a diversidade e ciplinado, não por imposição, mas por necessidade de administrar
abrindo novos caminhos. O aluno hoje possui habilidades natas para seu tempo disponível. Devem também ser dinâmicos, independentes
trabalhar com o mundo virtual, cabendo aos mestres exercerem seu e possuírem um aguçado espírito de pesquisa. Esse perfil atual dos
papel no contexto, propiciando o aprendizado de forma adequada às jovens é percebido de forma contundente nos cursos de Engenharia
novas turmas que usam as tecnologias como um utensílio de uso di- Mecânica e Engenharia Elétrica, daí a apropriação quase imediata,
ário. Uma nova prática de ensino está em curso e a questão principal com algumas dificuldades que serão relatadas mais adiante, das me-
do Ensino Híbrido está em colocar as tecnologias digitais disponíveis, todologias que utilizam as ferramentas de softwares aprendidas na
que podem colaborar com os processos de ensino e aprendizagem, prática, com um objetivo claro e definido de procurar soluções. Ter
porém apenas o uso da tecnologia não é suficiente. um objetivo que se traduz num produto tangível é um componente
O Ensino Híbrido, que combina o uso da tecnologia digital com poderoso: os alunos irão à busca de informações nos seus smartpho-
as interações presenciais, é um modelo eficaz para construir essa mis- nes e notebooks, em sites de conteúdos científicos, trocando essas
são, usando a combinação do ensino online com o ensino presencial. informações com outros das equipes de trabalho, motivados pela dis-
Mesmo com as dificuldades iniciais, a disciplina de “Desenho de pro- puta para realizar o melhor produto final.
jeto auxiliado por computador” dos cursos de Engenharia Mecânica Tudo se inicia com uma pergunta motivadora: qual a maneira
e Engenharia Elétrica da Faculdade Avantis de Balneário Camboriú, mais eficiente de aprender a usar um software de desenho? Desco-
tem ganhado apoio da instituição e a confiança dos alunos que, aos brem logo que é estar motivado para usar essa ferramenta com um
poucos, percebem que esse é o caminho para o futuro. fim específico de vencer um desafio. Em seguida foi escolhido o ob-
jeto de projeto da disciplina: um veículo motorizado, comandado por
rádio controle. Seguiu-se o caminho inverso: com as peças do modelo
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA* em mãos, os alunos mediram as peças. Para desenhar essas partes do
projeto foi necessário aprender uma ferramenta de desenho no com-
Iniciando com os desenhos à mão e inserindo as medidas afe- putador e aplicar imediatamente, utilizando os conhecimentos. A
ridas com instrumentos, para em seguida utilizar o computador atra- etapa seguinte foi a montagem do veículo com as peças reproduzidas
vés do programa de AutoCad, os desenhos foram sendo construídos e em impressora 3D. Mais que esperar por resultados, o processo todo
repassados para impressão. O aprendizado da ferramenta de compu- é importante, todo o trabalho colaborativo e as pesquisas trouxeram
tador deu-se através da necessidade dos comandos para representar para o ambiente de sala de aula um clima de aprendizagem prazeroso.
as peças do modelo, o desenho foi criado a partir de algumas infor-
mações iniciais sobre criação de layers e configurações do espaço de
trabalho na tela. Muitos comandos são “intuitivos”, então a continui- MÉTODO UTILIZADO
dade do projeto foi alcançada pela maioria dos alunos.
Os alunos contemporâneos, que podem ser denominados “in- O sistema educacional da Faculdade Avantis vem sofrendo

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transformações com o intuito de adaptar os currículos para desenvol- A provável expectativa de assimilar informações prontas em
ver capacidades que são requisitos dos profissionais de Engenharia sala de aula acaba em frustração, assim como o desempenho poderá
Mecânica e Engenharia Elétrica nos dias de hoje, tais como: conhe- ser baixo, se não houver o envolvimento de todos. Embora as metas
cimentos em ciência computacional através de Metodologias Ativas. tenham sido atingidas, com a realização do projeto proposto, boa par-
Segundo Thomas (2000), a aprendizagem baseada em projetos te dos alunos não leu o material enviado para leitura em casa, na sala
é um modelo que organiza o processo de aprendizagem em torno de- de aula invertida – por terem pouco tempo, pois trabalham durante
les e podem ser definidos como tarefas complexas baseadas em desa- o dia e estudam à noite. Não leem também por não possuírem o há-
fios que envolvem os alunos na solução de problemas, na tomada de bito da leitura e por dificuldade cognitiva: não interpretam os textos.
decisões e em atividades investigativas e de pesquisa. Estas atividades Quando solicitados para pesquisarem nas redes sobre o tema propos-
de projeto de um veículo automotor, realizadas pelos alunos das en- to, a reação mais comum é a dispersão.
genharias, resultam em produtos e apresentações. Outro aspecto importante é a disponibilidade da tecnologia.
Conforme Wijnen (1999), a aprendizagem baseada em projetos Para que a nova proposta de ensino se efetive é necessário que as TICs
pode ser vista como integradora, indo além das disciplinas convencio- estejam funcionando com perfeição, o que não acontece na prática, os
nais, cooperativa, por possuir um trabalho em equipe, orientada à prá- problemas com aparelhos e redes são frequentes, sabotando a didá-
tica e às competências, multidisciplinar de forma criativa e motivadora. tica. Como por muito tempo a prática educativa era centrada no pro-
fessor, e este repassava os conteúdos, os alunos absorviam ou memo-
rizavam sem qualquer reflexão ou indagação, ao final, o conteúdo era
cobrado em forma de uma avaliação. Essa prática pedagógica em nada
PRINCIPAIS RESULTADOS contribui para o aspecto cognitivo do aluno, mas é a forma de como os
alunos estão acostumados a perceberem o ensino.
O sucesso obtido no resultado final da disciplina aponta para A resistência existe, mais porque a busca por soluções deman-
uma nova forma de trabalhar, com muitos ganhos em qualidade de da um esforço maior, levando a questionar, debater e romper paradig-
aprendizagem. Porém a conquista da confiança no método não acon- mas. A exposição interrogada gera a dúvida, a dúvida gera o estresse
tece de imediato. Muitos ainda pedem um professor que utilize um positivo, e este estresse abre as janelas da inteligência. Assim forma-
método tradicional, pois veem no modelo hibrido um abandono do mos pensadores, e não repetidores de informações (CURY, 2003). Para
mestre no processo, como se ele estivesse transferindo a carga do en- trabalhar com o ensino hibrido é necessário disposição para avançar
sino para o aluno, condenado a ouvir apenas os colegas nos estudos sempre sabendo das resistências e das diferenças de um indivíduo
e pesquisas. A avaliação dos professores da disciplina de Desenho au- para outro. Diante de tal desafio, o professor terá que dar sempre o
xiliado por computador dos cursos de Engenharia Mecânica e Enge- feedback dos resultados e avaliar o tempo todo o andamento da aqui-
nharia Elétrica, feita pelos alunos, não foi boa no semestre 2018/2, sição de conhecimento, fazendo com que os discípulos percebam os
revelando uma inadaptação ao modelo proposto, possivelmente por ganhos de conhecimento. Uma das ferramentas metodológicas utili-
ser uma experiência nova para todos os envolvidos. zada neste trabalho é a observação participante, sendo realizado em

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

contato direto, frequente e prolongado do investigador, com os atores


sociais (LUDKE; ANDRÉ, 2011). METODOLOGIAS ATIVAS: UMA
Estar aberto aos novos paradigmas impostos por uma socieda-
de que busca melhorar e crescer, apostando no ambiente virtual, acei- FERRAMENTA DE CUIDADO AO
tando a diversidade e abrindo novos caminhos. O aluno hoje possui SOFRIMENTO NO ESPAÇO
habilidades natas para trabalhar com o mundo virtual, cabendo aos
mestres exercerem seu papel no contexto, propiciando o aprendizado
ACADÊMICO?
de forma adequada às novas turmas que usam as tecnologias como
um utensílio de uso diário. Uma nova prática de ensino está em curso Eliz Marine Wiggers
e a questão principal do Ensino Híbrido está em colocar as tecnologias Maria Balbina de Magalhães
digitais disponíveis, que podem colaborar com os processos de ensino
e aprendizagem, porém apenas o uso da tecnologia não é suficiente.
O Ensino Híbrido, que combina o uso da tecnologia digital com as in- O adoecimento e o sofrimento coletivos que nos deparamos
terações presenciais, é um modelo eficaz para construir essa missão, na prática docente, têm nos demandado uma compreensão e olhar
usando a combinação do ensino online com o ensino presencial. plural, e exigido uma abordagem interdisciplinar. Nesse sentido, foi
realizada uma prática diferenciada, a partir das metodologias ativas,
possibilitando que os alunos se deslocassem da sala de aula, e pudes-
PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E sem atentar para as relações que estabelecem atualmente, e pudes-
APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS sem falar do que estão vivenciando, na contemporaneidade. O obje-
tivo deste debate foi de possibilitar aos acadêmicos experienciar uma
Mesmo com as dificuldades iniciais, a disciplina de “Desenho atividade prática, sobre o tema do sofrimento psíquico na contempo-
de projeto auxiliado por computador” dos cursos de Engenharia Me- raneidade, saindo do formato convencional de ensino.
cânica e Engenharia Elétrica da Faculdade Avantis de Balneário Cam- Este artigo se propõe a fazer algumas reflexões a partir das mu-
boriú, tem ganhado apoio da instituição e a confiança dos alunos que, danças que estamos vivendo, seja a nível tecnológico ou das próprias
aos poucos, percebem que esse é o caminho para o futuro. relações interpessoais. E, como os acadêmicos, com histórias tão di-
ferentes, chegam aos espações universitários e têm reagido diante
do ensino e das novas estratégias de aprendizagem. Participaram da
experiência, em torno de 100 alunos, do Curso de Psicologia, do ter-
ceiro semestre e do sexto semestre, de uma universidade, situada em
Balneário Camboriú, no litoral catarinense. Nesta experiência, cons-
tatou-se que a utilização das metodologias ativas pode ser uma fer-
ramenta bem relevante para minimizarmos o sofrimento dos alunos,

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dentro dos espaços universitários. família e para o coletivo. Este contexto justifica a preocupação que es-
tamos vivenciando e, em função disso, nos reunimos, no papel de pro-
fessoras, para refletirmos com os estudantes, como eles, em seu coti-
DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS diano, estão lidando com estas questões. A proposta apresentada aos
acadêmicos foi de estabelecer uma discussão, de modo amplo. O debate
Cotidianamente nos deparamos com diferentes realidades so- teve como objetivo abordar esta complexidade do ponto de vista do so-
cioeconômicas, e consequentemente, também com inúmeros tipos frimento psíquico, em seus vários aspectos, entre eles: o adoecimento,
de vulnerabilidades que, por sua vez, geram intenso sofrimento psí- a ética profissional e as relações no espaço acadêmico.
quico na população desprovida de uma situação social e/ou econô-
mica mínima, que possa prover suas necessidades mais básicas. Esta
realidade não é exclusiva do momento social atual brasileiro, mas DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA
também latino-americano. Os altos índices de pobreza, retirada de in-
vestimentos na área da educação, moradia e saúde, traz junto a incer- Cabe esclarecer que o contexto universitário em que a experiên-
teza e um sentimento de angústia, contribuindo para o adoecimento cia foi desenvolvida, se situa em Balneário Camboriú, no litoral catari-
da população, em geral. nense. A maioria dos acadêmicos do Curso de Psicologia é advinda de
As sequelas provocadas pela ideologia neoliberal, caracterís- outras regiões do Estado e do Brasil, e vem morar no Município, com
tica deste momento político, se refletem no coletivo através das di- expectativa de encontrar melhores condições de trabalho, mas se depa-
ficuldades de convívio social, no isolamento, na intolerância com o ram com um contexto marcado por intenso marketing turístico, explo-
outro, na quebra de valores e, principalmente, um individualismo e ração do trabalhador, um cenário decorado com prédios altos e de luxo,
falta de ética avassaladoras. Além disso, este cenário contribui ainda com custo de vida alto, e, ainda, com o status e um modo de vida elitiza-
para a instabilidade nos contextos de trabalho, para a fragilidade nas do. E, diante deste contexto, cabe considerar que vivemos atualmente
relações afetivas, no aumento do adoecimento psíquico e no intenso num cenário de muitas mudanças e que atingem a sala de aula, já que
uso da tecnologia para comunicação, o que “aproxima os distantes”
e “afasta os próximos”. Este sofrimento, no entanto, também passa a As transformações sociais, econômicas, políticas, cul-
atravessar as relações no contexto acadêmico. A estas informações, se turais e tecnológicas das últimas décadas têm impacta-
somam aos dados publicados pelo Ministério da Saúde, em 2017, de do de forma significativa a vida das pessoas, as relações
que a região sul concentra 23% dos suicídios vivenciados no Brasil. estabelecidas entre elas, o mundo do trabalho e, por
O caos instalado, tanto na economia como na política, traz como conseguinte, a escola. Esta última talvez seja a que mais
consequência, um movimento de agressão à vida social e, consequen- tem sido “sacudida”, dada a solidez histórica de sua es-
temente, à subjetividade e qualidade de vida, das pessoas e dos grupos trutura (DIESEL, BALDEZ, MARTINS, 2017, p. 269).
sociais organizados. A situação atual de nosso país nega, basicamente,
o direito ao cidadão de sonhar com uma vida melhor pra si, para sua O espaço acadêmico é, antes de tudo, o lugar mais propício para

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

se realizar os debates, os questionamentos, as descobertas e falar novos recursos tecnológicos durante as aulas não alte-
também das dificuldades que assolam o homem. A universidade não ra esse cenário de insatisfação coletiva, posto que, sozi-
pode ficar alheia a vivência da dor, seja de seu professores, colabo- nha, a tecnologia não garante aprendizagem, tampouco
radores e acadêmicos. Como um contexto de saberes e de produção transpõe velhos paradigmas.
de conhecimento, tem potencial para lidar com a questão, de forma
humanizada e acolhedora, pois possui ferramentas e potencial huma- Como emblema das mudanças intensas e tecnológicas e que
no qualificado para tal empreendimento, nada fácil. Assim, se propõe atingem em cheio os modos de ensino e de aprendizagem, em 2017 foi
a pensar as metodologias ativas como uma estratégia para abordar o promulgado o Decreto nº 9.057 no âmbito do Ministério da Educação,
problema do sofrimento psíquico, dentro do espaço acadêmico. que estabelece as diretrizes e bases para a educação nacional, e em
Já o fenômeno do sofrimento psíquico, identificado na vivência seu artigo 1º consta que
das pessoas na contemporaneidade, é uma questão multifatorial, que não
escapa a nenhum contexto. Neste artigo, focaremos nas relações acadê- [...] considera-se educação a distância a modalidade
micas, visto que é nosso local de trabalho e que tem nos mobilizado mui- educacional na qual a mediação didático-pedagógica
to, no sentido de discutir com outros colegas, pesquisar e refletir sobre o nos processos de ensino e aprendizagem ocorra com a
tema. Mas, o que tem gerado mudanças no contexto educacional? utilização de meios e tecnologias de informação e co-
Como afirma Bates (2017, p. 49) “A tecnologia está levando a municação, com pessoal qualificado, com políticas de
grandes mudanças na economia, na nossa forma de nos comunicar- acesso, com acompanhamento e avaliação compatíveis,
mos e relacionarmos com os outros, e cada vez mais no modo como entre outros, e desenvolva atividades educativas por
aprendemos”. E, como estes alunos tão diversos, que chegam à uni- estudantes e profissionais da educação que estejam em
versidade com diferentes idades, intenções, e com uma “bagagem” e lugares e tempos diversos (BRASIL, 2017, s.p.)
recursos diversos, têm reagido diante do ensino e das estratégias de
aprendizagem? Para esclarecer a este questionamento, Diesel, Baldez Outro elemento que precisa ser evidenciado ainda nesta análi-
e Martins (2017, p. 270) pontuam se, é que os acadêmicos que estão inseridos no âmbito universitário
mudaram. São alunos trabalhadores, exigindo que grande parte do
Um exemplo que evidencia essa dualidade reside nos ensino seja ofertado no período noturno. São poucos os alunos que
discursos comumente verbalizados por docentes e es- conseguem se dedicar integralmente ao contexto universitário, pois
tudantes em que estes últimos reclamam das aulas roti- muitos dos acadêmicos trabalham intensamente, às vezes de segun-
neiras, enfadonhas e pouco dinâmicas, ao passo que os da a segunda, e são poucos os que fazem parte de uma classe privile-
primeiros destacam a frustração pela pouca participa- giada. Pode-se entender ainda, que “[...] Estar no trabalho atualmente
ção, desinteresse e desvalorização por parte dos estu- não significa, necessariamente, estar em ação significativa, mesmo
dantes em relação às aulas e às estratégias criadas para cumprindo adequadamente suas tarefas” (LUZ, 2008, p. 208). Além
chamar atenção destes. Percebe-se que a utilização de disso, as relações mudaram por conta das influências tecnológicas e,

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como aponta Bates (2017, p. 66): buscou, nesta atividade, desenvolver nos acadêmicos um olhar em
relação à saúde, já que conforme consta no artigo 4º das Diretrizes
Outro fator que faz com que os alunos sejam um pouco Curriculares para os Cursos de Graduação de Psicologia, e constan-
diferentes hoje é sua imersão e facilidade com a tecno- tes na Resolução do Conselho Nacional de Saúde - CNE/CES de nº
logia digital, em particular mídias sociais: mensagens 5/2011, a(o)s psicóloga(o)s “devem estar aptos a desenvolver ações de
instantâneas, Twitter, videogames, Facebook e toda prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde psicológica e
uma série de aplicativos (apps) que são executados em psicossocial, tanto em nível individual quanto coletivo”, bem como
uma variedade de dispositivos móveis como iPads e te- a realizar seus serviços com intensa qualidade e fundamentados nos
lefones celulares. Esses alunos estão constantemente preceitos da ética e da bioética. Além disso, teve ainda como proposta
“ligados”. A maioria dos estudantes vem à universidade que os acadêmicos pudessem desenvolver a tomada de decisões, já
ou faculdade imersa em mídias sociais, e grande parte que “o trabalho dos profissionais deve estar fundamentado na capa-
da sua vida gira em torno dessas mídias. cidade de avaliar, sistematizar e decidir as condutas mais adequadas
para atuar, baseadas em evidências científicas” (BRASIL, 2011, p. 2).
E, seguimos nos questionando: Como manter a excelência nos Como esta atividade foi realizada? Inicialmente, foi disponibili-
processos de ensino e aprendizagem, no contexto universitário, frente zado aos acadêmicos que os mesmos pudessem ler o artigo científico
aos alunos tão diferentes, tantas exigências e desafios vividos, em sala intitulado “Notas sobre a política de produtividade em pesquisa no
de aula? O mal-estar e o adoecimento coletivos, que nos deparamos na Brasil: Consequências para a vida acadêmica, a ética no trabalho e a
prática docente, têm nos demandado uma compreensão e olhar plural, saúde dos trabalhadores”, publicado por Luz (2008). Ainda, foi dispo-
e exigido uma abordagem interdisciplinar. Desse modo, nos dispomos a nibilizado dois vídeos para que os alunos pudessem refletir sobre o
realizar uma prática diferenciada, a partir das metodologias ativas, pos- sofrimento na contemporaneidade, disponível através do link: https://
sibilitando que os alunos se deslocassem da sala de aula, e pudessem www.youtube.com/watch?v=Lgh_K-s6roQ, e sobre um breve históri-
atentar para as relações que estabelecem atualmente, e pudessem falar co da Luta Antimanicomial no Brasil, sendo possível de ser acessado
do que estão vivenciando, na contemporaneidade. no link: https://www.youtube.com/watch?v=lh_XWMeKabc.
Os dois vídeos foram acessados pelas docentes em 06 de abril
de 2018. Estes materiais foram disponibilizados aos acadêmicos, atra-
MÉTODO UTILIZADO vés do ambiente virtual de aprendizagem, uma semana antes da rea-
lização da atividade, que foi desenvolvida no dia 16 de maio de 2018.
O objetivo desta atividade foi de possibilitar aos acadêmicos Os acadêmicos foram recebidos em sala de aula e juntamente com
experienciar uma atividade prática interdisciplinar, sobre o tema do as docentes se deslocaram para o ginásio, que faz parte da estrutura
sofrimento psíquico na contemporaneidade. Também foi realizada universitária, e já estava reservado com o professor e coordenador de
como uma atividade em comemoração ao Dia Nacional da Luta An- curso responsável pelo uso do ambiente, anteriormente, pelas profes-
timanicomial, comemorada no dia 18 de maio, no Brasil. Ainda se soras para o desenvolvimento desta atividade.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

Os acadêmicos foram orientados pelas docentes a se organiza- versitário. Em seguida, foram reunidos em um grande grupo para que
rem em pequenos grupos e dialogar sobre como lidam com o sofri- pudessem socializar o que observaram e o que destacaram do diálogo
mento psíquico vivenciado na atualidade, por aproximadamente 30 estabelecido nos pequenos grupos. Neste momento, os acadêmicos
minutos. Neste momento, eles puderam falar de desafios que se de- ao verbalizarem o que vivem e os sofrimentos que se deparam na con-
param no trabalho, das dificuldades que encontraram para se adaptar temporaneidade, foram levados a se questionar pelas docentes: Qual
em um contexto tão diferente do que estavam acostumados, ao se mu- saída é possível para estas dificuldades e problemáticas?
dar para Balneário Camboriú, ou para os municípios próximos, como
lidam como a instabilidade econômica, com o individualismo, com
as exigências sociais, e ainda com o sofrimento vivido nas relações ENVOLVIMENTO DOS ATORES
afetivas. As relações vividas no contexto acadêmico também foram
foco de diálogo, sendo que muitos se sentem isolados, não acolhidos, Os acadêmicos da disciplina de Teoria e Técnicas dos Processos
e que encontram muita diversidade de interesses entre os colegas que Grupais, do terceiro semestre do curso, e da disciplina de Abordagem
se encontram na universidade, sendo que foi citado o intenso risco de Gestalt, do sexto semestre, compreendendo aproximadamente 100
suicídio presenciado, em que se carece de empatia e sensibilidade nas alunos, das duas turmas, se envolveram intensamente na vivência
relações acadêmicas. Como compreender estas vivências que foram proposta. Em alguns momentos os acadêmicos relataram e dialoga-
explicitadas pelos acadêmicos? Luz (2008, p. 210-2011) esclarece que ram sobre as experiências pessoais, as vivências acadêmicas, e tam-
bém por alguns alunos foi realizada relação com atuação profissional
[...] o trabalho transformado em emprego (difícil e pre- do psicólogo. Diante do questionamento das docentes: Qual saída é
cário) vem acarretando uma perda grave de sentidos do possível para estas dificuldades e problemáticas? Os acadêmicos le-
próprio ato de trabalhar. O que, somado ao sofrimento vantaram as seguintes alternativas: a necessidade de acolhimento ao
gerado pela perda de significados e valores coletivos outro, pois não sabemos qual dificuldade o mesmo está vivenciando;
implicados anteriormente na cultura e na vida social a proposta de vivenciar a empatia, como exercício para se colocar no
ligadas ao trabalhar, ao ser trabalhador, assim como à lugar do outro, a partir da perspectiva do outro; a disposição para a
perda de importância e prestígio do próprio trabalho conversa presencial com as pessoas, possibilitando que o celular e o
humano na estrutura contemporânea de produção face computador, no contexto acadêmico, sejam deixados de lado em al-
à natureza das transformações tecnológicas em curso, guns momentos; e o estabelecimento de relações éticas, em que a re-
estão gerando, em grande parte, o mal-estar e adoeci- flexão sobre as ações seja vivenciada, bem como o exercício do sigilo,
mento coletivos. tão presente na atuação profissional da(o) psicóloga(o), já seja pratica-
do no contexto e nas relações acadêmicas. Como pode ser percebido
Após as discussões em pequenos grupos, os acadêmicos foram na foto a seguir:
desafiados a fazer um intervalo de aproximadamente 20 minutos e
observar o comportamento de outros acadêmicos no contexto uni-

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cos como enriquecedora, sendo destacado como aspectos positivos: a


dinâmica das discussões vivenciadas, a relação entre teoria e prática
que foi realizada, e a complementariedade dos conteúdos da emen-
ta das disciplinas, bem como o desenvolvimento pessoal. Os aspec-
tos considerados como frágeis, no processo de desenvolvimento da
atividade, e avaliados pela ótica das docentes, compreendeu que os
alunos têm dificuldade de fazer pesquisa de modo autônomo, os mes-
mos apresentam fragilidade na interpretação dos textos e vídeos, bem
como, em alguns momentos da atividade, se sentem perdidos com a
falta de regras, e no estabelecimento de um diálogo que não seja diri-
gido pelos professores, apresentando dificuldade de pensar e agir de
modo próprio e expressando autoria.
Compreendemos que tal sofrimento vivenciado, é presenciado
pelos docentes já no âmbito da sala de aula, de modo que alguns alu-
nos se expressam por meio do que carinhosamente denominamos de
“piercing” e outros, ainda, “tatuagens”. Isso se dá pela disposição de
alguns acadêmicos ao diálogo com os professores, à disponibilização
para dividir suas frustrações ou desafios, e ainda, tem realizado este
modo de expressão em diversos momentos, como se não houvesse
FOTO 1: Atividade em grande grupo. outras pessoas com as quais se relacionem para compartilhar suas vi-
FONTE: Wiggers e Magalhães (2018) vências. Problematizamos, diante disso: “O que se passa com quem
foi identificado a representações sociais indesejáveis, como a loucura,
a diferença, a minoria, a marginalidade?” (GRANZOTTO, 2010, s.p.).
Ainda, o que estes comportamentos e formas de expressões indicam?
PRINCIPAIS RESULTADOS Dadalte (2013) ao realizar uma pesquisa que se propôs a inves-
tigar as representações identitárias da tatuagem e do piercing por
Podemos considerar que a “[...] a criação, em situações em que aqueles que fazem uso, identificou que este modo de expressão cor-
se pode verificar sofrimento ético-político, tem relação com a solida- poral pode ser compreendido como complemento estético, como sig-
riedade, com os pedidos genuínos de inclusão, na forma da qual efeti- nificação anteriormente estabelecida do desenho no corpo, e, ainda,
vamente atribuímos e reconhecemos o poder do semelhante para nos pode ser considerado como marca permanente e decorrente de um
ajudar” (GRANZOTTO, 2010, s.p.) Esta prática vivenciada, em outros momento significativo na vida. Cabe destacar que “[...] Divergências
momentos posteriores em sala de aula, foi verbalizada pelos acadêmi- nas representações desses tipos de enfeites são responsáveis por gerar

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

atitudes preconceituosas para com aqueles que os possuem” (DADAL- Consideramos, ainda, do ponto de vista psicológico, que os aca-
TE, 2013, p. 42). dêmicos apresentam um sofrimento ético-político, do qual Granzotto
Com relação ao preconceito, os acadêmicos que apresentam (2010, s.p.) esclarece que
este comportamento de ser “piercing” ou “tatuagem” de seus profes-
sores, geralmente estão isolados, não interagem com os colegas em [...] o sofrimento ético-político é antes um efeito dos
sala de aula, e mesmo fora da sala de aula, e são julgados pelos outros acidentes naturais e dos conflitos sociológicos e sua
alunos de modo discriminatório. Não temos a intensão aqui de reduzir característica fundamental tem relação com o fato de a
a compreensão das expressões humanas, e nem mesmo padronizar o função de ego sentir-se privada dos dados sociais con-
comportamento dos acadêmicos com os quais nos deparamos, mas a cretos em que pudesse fruir de determinada identifica-
intensão é de compreender como os acadêmicos tem se expressado de ção. Por conta de uma limitação do meio – que assim
modo diverso e que indicam para o que vivenciam no seu cotidiano, e se furta à livre ação da função do ego – sentimo-nos
por diferentes motivos e singularidades. impedidos de encontrar dados de realidade ou, que é a
Nesta mesma direção, Oliveira, Cavalcante e Freitas (2010, p. mesma coisa, laços sociais (instituições, valores, identi-
586) abordam que “Tais práticas corporais representam formas de dades ou valores), na mediação dos quais conseguimos
manifestações de conflito psíquico ou do seu silenciamento, mas que, fazer contato.
em última instância, consistem em modos de subjetivação”, já que
“[...] enfocamos as tatuagens, os piercings e as escarificações, que em- Ao avaliarmos a experiência vivenciada, e a compreendermos,
bora se constituam como modos distintos de manifestação no corpo, nos cabe considerar que não estamos acostumados a realizar abor-
apresentam-se como formas de linguagem que apontam para a subje- dagens interdisciplinares. Na área da saúde, nos deparamos, muitas
tividade”. Estas inserções no corpo são tomadas pelos autores como vezes, com as dicotomias, entre estas: “o subjetivo versus objetivo,
formas de linguagem e que explicitam a constituição da identidade e psicológico versus biológico, ou individual versus coletivo e os re-
o modo de expressão do sujeito. Nesse sentido, ducionismos que ensejam são artefatos ideológicos resultantes das
separações disciplinares que estão na origem das ciências humanas
A presença de inscrições no corpo, seja por intermédio e seus regimes de produção discursiva” (LUZ, 2008, p. 214). Ao de-
de tatuagens ou de escarificações, e o aparecimento de senvolvermos esta atividade, a partir do vivido em sala de aula, e de
sintomas corporais que traduzem sofrimentos eminen- imensos sofrimentos e inseguranças que os acadêmicos estão se de-
temente psíquicos, destaca-se cada vez mais na con- parando no contexto acadêmico, tivemos como proposta enfrentar os
temporaneidade. Na verdade, o corpo passa a ocupar reducionismos, as dicotomias, e estabelecer rompimentos no modo
um espaço privilegiado de manifestação e comunica- de pensar e agir de futuros psicóloga(o)s.
ção de conflitos psíquicos (OLIVEIRA, CAVALCANTE,
FREITAS, 2010, p. 590).

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E diferentes tecnologias, sejam estas recentes ou anteriormente existen-
APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS tes, para que possam distinguir como e em que momento é condizente
e faz sentido para serem utilizadas, já que a “aprendizagem híbrida e
Qual têm sido nosso norte, como docentes, no ensino superior, online, mídias sociais e ensino aberto são todos desenvolvimentos ne-
a partir de uma proposta como esta, utilizando metodologias diferen- cessários para o ensino eficaz em uma era digital” (BATES, 2017, p. 71).
ciadas? O ensino pautado centralmente no professor, e que caracteri- E, como nos propusemos a promover atenção à saúde e rea-
za as metodologias de ensino tradicionais, passa a ser alterada para lizar a diminuição do sofrimento, e ao mesmo tempo em que reali-
a dinâmica de ensino tutorial, que “pode funcionar muito bem para zamos estratégias inovadoras de aprendizagem? “A intervenção que
estudantes com autonomia acadêmica para estudar, pesquisar, reali- acreditamos produzir um efeito de potencialização da autonomia da
zar leituras orientadas ou não, que “aprenderam a aprender”, lema função de ato nos sofredores, a elevação das vítimas à condição de
difundido na legislação educacional brasileira e que caracteriza as protagonistas, é aquela que empresta corpo ao desesperado” (MÜL-
metodologias ativas” (SILVA, 2016, p. 1087). Além disso, LER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO, 2012, p. 363). Nesse sen-
tido, como abordam Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012, p.
[...] as universidades e faculdades de hoje têm um propó- 361-362)
sito um pouco diferente: garantir, na medida do possí-
vel, que o maior número de alunos deixe a universidade Escutar o sofrimento é, sobretudo, escutar o discurso
devidamente qualificado para a vida em uma sociedade que os atingidos fazem relativamente àquilo que per-
baseada no conhecimento. Não podemos nos dar ao luxo deram, porquanto, em algum momento, a despedida
de jogar fora a vida de 95% dos estudantes, seja ética ou ao que se foi é condição para que possam se abrir para
economicamente. De qualquer maneira, os governos o futuro (desejante), ou para as possibilidades (antro-
estão cada vez mais usando as taxas de conclusão e di- pológicas) ainda disponíveis. Trata-se de um trabalho
plomas como indicadores-chave de desempenho que paciente e desinteressado de acolhimento a queixas,
influenciam financiamentos. É um grande desafio para lamentações.
instituições e professores permitir que o maior número
possível de estudantes tenha sucesso, dada a grande di- Fundamentadas num modo de intervenção inclusivo e de aten-
versidade do corpo discente. (BATES, 2017, p. 67). ção psicossocial é que nos propusemos a minimizar o sofrimento e
gerar aprendizado. A atividade prática foi realizada como uma atitude
Como promover aprendizagem, ao mesmo tempo em que for- de atentar para o sofrimento e, ao mesmo tempo, estar aberto para a
mamos profissionais qualificados, diante da diversidade dos acadê- construção de alternativas psicossociais.
micos, das mudanças tecnológicas, e econômicas, presenciados no Nesta experiência, podemos apreender que a utilização das
contexto universitário? Este intenso e rápido desenvolvimento das metodologias ativas pode ser uma ferramenta bem relevante, para
tecnologias educacionais tem levado professores a avaliar o valor de lidarmos com o sofrimento dos alunos, dentro dos espaços universi-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

tários. O trabalho com esta metodologia diferenciada, sai do formato BRASIL. Resolução nº 5 de 15 de março de 2011. Institui as Diretrizes
convencional de relação professor-aluno, propiciando assim um es- Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, es-
paço diferente da sala de aula, para que os estudantes possam falar de tabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a
Formação de Professores de Psicologia. Brasília, DF, mar. 2011.
seu sofrimento, das suas dificuldades.
GRANZOTTO, R.. Mini-curso 06: A clínica gestáltica da aflição e os
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66 67
INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

vantes para a Prática Jurídica, dentre as quais se podem ressaltar edu-


JUSTIÇA RESTAURATIVA cação, respeito, empatia, escuta ativa, transparência, responsabilida-
de, comprometimento, organização, honestidade e legalidade.
SISTÊMICA E O CÍRCULO DE
DIÁLOGO: UMA EXPERIÊNCIA
DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS
COM TURMA DA DISCIPLINA DE
ESTÁGIO DE PRÁTICA JURÍDICA É necessário destacar que os encontros inaugurais das disciplinas
DO CURSO DE DIREITO DA de graduação, habitualmente, seguem o modelo tradicional da educa-
ção, com aulas expositivas. Na etapa atual da graduação, os acadêmicos
FACULDADE AVANTIS2 da disciplina de Estágio de Prática Jurídica realizam os atendimentos
jurídicos à população hipossuficiente, em atenção à dupla finalidade
Syndel Almeida Silveira da disciplina: pedagógica-social. Sob este viés, o desenvolvimento das
competências e habilidades dos acadêmicos, sublinha-se, futuros ope-
radores do direito, é direcionada às questões técnicas, em atenção as
Esta iniciativa teve como objetivo geral demonstrar a experiên- diretrizes curriculares nacionais sobre o curso de direito.
cia vivenciada com a aplicação da dinâmica denominada “círculo de Nesta linha, com o intuito de humanizar a disciplina para ques-
diálogo”, integrante da justiça restaurativa sistêmica. O círculo foi faci- tões que transcendem as competências e habilidades técnicas, como
litado no primeiro encontro dos acadêmicos da disciplina de Estágio de forma de preparar os acadêmicos para um semestre diferenciado, no
Prática Jurídica do curso de Direito da Faculdade Avantis. É necessário primeiro encontro da disciplina não houve aula expositiva, mas fa-
destacar que os encontros inaugurais das disciplinas de graduação, ha- cilitação de diálogo a fim de desenvolver o senso crítico e reflexivo
bitualmente, seguem o modelo tradicional de aulas expositivas. dos acadêmicos sobre a disciplina de Estágio de Prática Jurídica, cujo
Com o intuito de humanizar a disciplina para questões que tema central trabalhado foi “conflito”. Isso porque, além da técnica é
transcendem as competências e habilidades técnicas, como forma de indispensável para a adequada operação do direito a humanização em
preparar os acadêmicos para um semestre diferenciado, no primeiro sentido amplo, que compreende a educação, respeito, empatia, escuta
encontro da disciplina não houve aula expositiva, mas facilitação de ativa, transparência, responsabilidade, comprometimento, organiza-
diálogo a fim de desenvolver o senso crítico e reflexivo dos acadêmi- ção, honestidade e legalidade.
cos sobre a disciplina de Estágio de Prática Jurídica, cujo tema central A facilitação do diálogo circular permite o posicionamento dos
trabalhado foi “conflito”. participantes em igualdade, a identificação de sentimentos em co-
Buscou-se enfrentar o desafio de despertar nos acadêmicos a mum, reflexão sobre visões diversas dos participantes e vínculo que
importância das habilidades e competência comportamentais rele- a dinâmica apresenta com os atendimentos jurídicos realizados pelos
acadêmicos. A dinâmica de diálogo em círculo teve, portanto, dois ob-
2 Trabalho classificado em 4º lugar

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

jetivos principais: a) refletir acerca de temas relevantes para o estágio para transformar o aparato intelectual adquirido ao longo do curso
de Prática Jurídica, tais como as concepções dos participantes sobre em ação relevante e eficaz para a satisfação dos interesses dos consu-
conflito e as formas que adotam para lidar com os conflitos em suas lentes do NPJ; d) uma estátua da deusa Têmis, personificando o ideal
vidas; e b) desenvolver habilidades e competências relevantes para abstrato de Justiça, que deve estar presente no fazer profissional de
o estágio de Prática Jurídica, como a comunicação eficiente, a escuta todo jurista; e) um mouse, emblemando as ferramentas materiais de
ativa, o respeito, a tolerância e a empatia. trabalho dentro do NPJ; e f) um bastão da fala, indicando o respeito
e a escuta ativa. Após o intervalo, os alunos foram direcionados para
essa sala preparada e instados a tomarem assento dentro do círculo.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA Foram-lhes explicados o sentido de se sentar em círculo e os signifi-
cados dos elementos do círculo simbólico ao centro. Em seguida, a
Em um primeiro momento, os alunos foram recepcionados condutora da atividade tomou o bastão da fala em mãos, esclareceu
para o novo semestre e receberam informações acerca das regras de seu significado e explicitou como a dinâmica iria desenvolver-se.
funcionamento do NPJ. Nessa oportunidade, ressaltaram-se as ha- Foram executadas cinco rodadas, nas quais o bastão da fala
bilidades e competências comportamentais que o estágio de Prática passou pelas mãos de todos os participantes, dando-lhes a oportu-
Jurídica demandaria, a saber: responsabilidade, comprometimento, nidade de se manifestar livremente e sem interrupções acerca dos
educação, organização, lealdade, honestidade, empatia, escuta ativa, assuntos debatidos. As rodadas trataram dos seguintes temas, res-
comunicação, transparência e legalidade. Os acadêmicos foram infor- pectivamente: a) breve apresentação dos participantes, servindo de
mados que, após o intervalo, eles participariam de uma atividade que demonstração para a dinâmica e desempenhando a função de que-
trabalharia essas habilidades e competências. bra-gelo; b) indicação das expectativas pessoais de cada participante
A sala de aula ao lado foi preparada para o círculo de diálogo. para o semestre, em especial no que diz respeito à Prática Jurídica; c)
As mesas ficaram encostadas nas paredes, e as cadeiras foram orga- definição do que é conflito; d) reflexão sobre como cada participante
nizadas em um grande círculo, capaz de acomodar todos os partici- lida com seus próprios conflitos e com os conflitos de outras pesso-
pantes. Ao centro do círculo de cadeiras, no chão, foi montado um as; e) feedback dos pontos positivos e negativos do círculo de diálogo.
círculo simbólico, com objetos que remetiam às atividades realizadas Após a última rodada, fez-se o registro fotográfico da dinâmica e os
pelo NPJ. O círculo em si foi formado por livros, agenda, Vade Mecum acadêmicos foram dispensados.
e autos processuais. Ali estavam representados os instrumentos inte-
lectuais utilizados para lidar com as demandas que chegam ao NPJ.
Dentro do círculo de livros, foram colocados os seguintes ob- MÉTODO UTILIZADO
jetos: a) um vaso de flores, simbolizando as vidas das pessoas que
buscam o auxílio do NPJ; b) um urso de pelúcia, lembrando que boa Foi utilizada a técnica do círculo de diálogo, facilitada por um
parte dos casos do NPJ envolve os interesses e os sentimentos de círculo simbólico, com elementos que remetiam às temáticas a serem
crianças; c) uma estátua de coruja, traduzindo a sabedoria necessária abordadas durante a dinâmica. A fim de garantir um diálogo respeito-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

so, utilizou-se também um bastão da fala, para representar o direito mestre em relação a disciplina de Prática Jurídica. De maneira ampla,
de fala de seu portador e estimular a escuta ativa dos demais partici- os alunos apontaram que esperavam aprimorar os conhecimentos
pantes da atividade. práticos, ter novas experiências dentro do âmbito do direito, e ainda,
poder auxiliar a população por intermédio do atendimento jurídico.
Adentrando no tema principal do círculo de diálogo, os participantes
ENVOLVIMENTO DOS ATORES puderam assinalar sobre o que entendem por conflito, cada um nos
limites de sua interpretação, vivências pessoais e jurídicas.
Trabalhou-se com um grupo formado pelas turmas de Prática Ainda dentro dos conflitos, na etapa seguinte, os acadêmicos
Jurídica II e IV do Curso de Direito da Faculdade Avantis, em Balne- explanaram sobre como lidam com os conflitos próprios e de tercei-
ário Camboriú/SC. O grupo era composto por 18 (dezoito) alunos da ros, inclusive trazendo histórias pessoais e de atendimentos já reali-
oitava fase, 7 (sete) alunos da nona fase e 8 (oito) alunos da décima zados na Prática Jurídica. Por fim, os integrantes passaram um fee-
fase, vinculados às quatro modalidades de prática jurídica ofertadas dback sobre a dinâmica, afirmando, de forma uníssona, terem sido
atualmente pela instituição — Prática Judicial Simulada (laborató- surpreendidos com o rumo do círculo de diálogo, superando a des-
rios), Prática Judicial Real (Escritório Modelo), Prática em Pacificação confiança inicial. Ressaltaram ainda, sobre a importância de serem
de Conflitos (Centro de Mediação e Conciliação) e Prática em Atuação escutados atentamente e de poder conhecer os colegas com maior
Jurídico-Social (Clínica Jurídica). Estavam presentes também os qua- profundidade, sugerindo ainda que a atividade fosse implantada em
tro professores/advogados orientadores do Núcleo de Prática Jurídica outras disciplinas.
(NPJ). Ao total, participaram 33 (trinta e três) pessoas da dinâmica. Em
termos etários, a faixa dos participantes variava dos 20 aos 60 anos.
PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E
APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS
PRINCIPAIS RESULTADOS
Com a facilitação do diálogo, desenvolveu-se o respeito, ao passo
Depois de passadas as orientações sobre o círculo de diálogo, que os participantes tiveram que escutar ativamente aquele que estava
aparentemente, a maioria dos participantes estranhou a dinâmica, vis- fazendo o uso do bastão da fala, sem interrupções. Logo, tem-se o víncu-
to estarem acostumados com o modelo tradicional de aulas expositivas. lo desta experiência com as situações em que os acadêmicos vivenciam
Ao iniciar a primeira rodada, os alunos tiveram oportunidade de apre- durante os atendimentos jurídicos, em que precisam escutar ativamente
sentarem-se aos demais colegas, e sentirem-se mais tranquilos para se e com absoluto respeito o problema apresentado pelo consulente.
expressar, após a condutora da dinâmica explicar a necessidade de es- Durante o diálogo, considerando o respeito à fala e à escuta
cutar atentamente aquele que estiver com o bastão da fala em mãos, e ativa, os participantes se identificaram em diversos momentos, e, em
ainda, ressaltar que no círculo de diálogo não deve existir julgamentos. outros, compreenderam o outro participante, o que acarretou numa
Na rodada seguinte, pontuou-se o que cada um esperava do se- acolhida, aproximação e empatia no grupo. Neste momento, estabele-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

ceu-se a ponte com os atendimentos jurídicos realizados pelos acadê-


micos na medida em que é necessário se colocar no lugar do outro e PHP ROBOT: Uma ferramenta para
compreender, sem qualquer preconceito ou julgamento.
Percebeu-se que apesar das diferenças dos participantes, em reforço no ensino de programação
diversos aspectos se posicionam e se comportam de forma idêntica, ORIENTADA A OBJETOS na
o que permitiu desenvolver a reflexão crítica acerca da igualdade no
sentido de seres humanos. Aqui também foi permitido criar o elo com
linguagem php3
os atendimentos jurídicos, visto que apesar de toda e qualquer dife-
rença que possa existir entre o consulente e o acadêmico, a essência Rodrigo Cezario da Silva
humana deve prevalecer ante a igualdade.
Uma vez que foi possível notar que todos os participantes lidam
com conflitos, foi permitido espelhar a importância do comprometi- A linguagem PHP é uma linguagem de script multiplataforma
mento e responsabilidade para lidar com os atendimentos jurídicos e de código fonte aberto e gratuito mais utilizada para desenvolvimento
demandas judiciais, sempre de forma organizada, com transparência, web. Na Faculdade Avantis, a linguagem PHP (Hypertext Preprocessor
honestidade e legalidade, da mesma forma que se espera que nossos em um acrônimo recursivo) é aplicada no ensino de desenvolvimen-
conflitos sejam tratados. to de aplicações para internet no curso de Sistemas de Informação.
Portanto, com a facilitação do diálogo circular, concluiu-se que Para que os acadêmicos possam desenvolver utilizando a linguagem
foi possível desenvolver reflexões das habilidades e competências dos PHP, envolve como objetivo de aprendizagem “conhecer os principais
acadêmicos da disciplina de Estágio de Prática Jurídica do curso de Di- conceitos sobre a linguagem PHP”, o que implica conhecer e compre-
reito da Faculdade Avantis, de forma mais humanizada e acolhedora ender os conceitos do paradigma de programação orientada a objetos
que transcendem as capacidades técnicas necessárias para a adequa- empregados na linguagem.
da operação do direito. E, acima de tudo, conclui-se que a facilitação Por sua vez, os acadêmicos do curso já tiveram o contato com
do diálogo circular ultrapassou o objetivo esperado com enfoque na o paradigma de programação orientada a objetos em outra discipli-
disciplina, visto que a dinâmica trouxe resultados para a vida profis- na. No entanto, mesmo tratando os mesmos conceitos apresentados,
sional e pessoal dos participantes. estes devem ser brevemente revistos nesta disciplina, pois existem
detalhes diferentes no desenvolvimento. A revisão deste conteúdo
normalmente é feita através de exposição oral. Em turmas anterio-
res, observou-se que quando apresentado esses conceitos utilizando
como estratégia aulas expositivas baseadas em problemas como me-
todologia de ensino, este não se mostra efetivo, pois não “prende” a
atenção dos alunos. Assim, normalmente ao revisar este conteúdo, os

3 Trabalho classificado em 2º lugar

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

alunos não se demonstram interessados ou motivados, o que por con- CARGA, 2018), a sua sobrecarga é diferente da maioria das linguagens
sequência, leva a um baixo aproveitamento. orientadas a objeto. Diferente do PHP, o Java provê a possibilidade de
Neste sentido, considerados os benefícios relatados na literatura ter múltiplos métodos construtores, sendo estes como quantidades e
no uso da plataforma Arduino no processo de ensino-aprendizagem em tipos de argumentos diferentes.
disciplinas de programação, foi desenvolvido uma ferramenta (baseada Considerando esse contexto, evidencia-se que é imprescindível
em hardware e softwares) para prestar suporte na utilização da plata- uma revisão dos conceitos do paradigma de programação orientada a
forma Arduino no contexto de desenvolvimento para web com a lin- objetos apresentando as diferenças entre as implementações no PHP
guagem PHP. Com o uso desta estratégia de ensino, observou-se que os em relação a linguagem Java. Por sua vez, a apresentação desse conte-
acadêmicos ficaram mais motivados na participação da aula de revisão údo vinha sendo realizada através de aulas expositivas e dialogadas,
de programação orientada a objetos e tornou o encontro mais divertido. ilustrada com exemplos de trechos de código fonte na linguagem PHP.
Adotava-se esta abordagem devido a entender que o conteúdo apre-
sentado era uma revisão com pequenos pontos de mudança. No en-
DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS tanto, percebeu-se que a abordagem não estava sendo eficaz, notan-
do-se a dispersão dos alunos e havendo a necessidade da retomada
A disciplina de Programação III trata diversas tecnologias para o do assunto em encontros posteriores. Neste sentido, tendo como ob-
desenvolvimento de aplicações para o ambiente internet. No entanto, jetivo de motivar os acadêmicos no engajamento da revisão, pensou-
a tecnologia que é abordada nesta disciplina para o desenvolvimen- -se em utilizar a plataforma Arduino na construção de um robô para
to de páginas dinâmicas é a linguagem PHP. O PHP é uma linguagem apoiar o processo de ensino-aprendizagem. Existem muitos relatos de
de fácil aprendizagem, que a partir da versão 5 passou a dar suporte trabalhos que observam que a utilização da robótica educacional per-
a programação orientada a objetos de forma adequada. O paradigma mite ao acadêmico estimular a sua criatividade e raciocínio. Portanto,
de orientada a objetos é o modelo de análise, projeto e programação esta abordagem busca explorar uma maneira de motivar e incentivar
de software onde as unidades da linguagem são baseadas na com- a criatividade de alunos na disciplina de desenvolvimento web (Pro-
posição e interação entre objetos. O paradigma pode ser aplicado a gramação III), de forma que proporcione maior interesse dos alunos.
qualquer linguagem de programação, mesmo a aquelas consideradas Neste sentido, surgiu a ideia de utilizar uma plataforma Ardui-
como “não orientadas a objetos”. Na verdade, o que ocorre é que al- no e desenvolver um middleware que permita a utilização do código
gumas linguagens se utilizam de alguns mecanismos específicos para fonte desenvolvido na linguagem PHP com um protótipo de um robô
atender os conceitos do paradigma. Sendo assim, a implementação que deverá interagir com o ambiente a partir da implementação do
desses conceitos é diferente entre as linguagens. Um exemplo seria a aluno. Além disso, a utilização do middleware deverá reforçar os con-
implementação do método construtor com sobrecarga (overload). A ceitos de orientação a objetos (abstração, encapsulamento, herança,
sobrecarga permiti a sua chamada do método construtor de formas composição e polimorfismo) ao aluno.
diferentes, sendo esta a característica do conceito conhecido como
polimorfismo. Como consta na especificação do PHP (PHP: SOBRE-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA

A base deste trabalho é a aliança entre ensino de programação e


o uso de plataformas de prototipagem eletrônica para alterar a maneira
como são abordadas as revisões de programação orientada a objetos na
disciplina de Programação III. Neste sentido, a ferramenta aqui apre-
sentada, buscou introduzir uma forma inovadora de ensinar progra-
mação, utilizando componentes e técnicas que atualmente podem ser
facilmente implantadas no cotidiano de um estudante de programação.
Este trabalho apresenta com produto final um conjunto de sof-

Figura 1: Modelo de classes da ferramenta pedagógica PHP Robot.


twares (firmware e middleware) e um hardware que poderá ser utili-
zado para apoiar o processo de ensino-aprendizagem em disciplinas
de linguagem de programação. O diferencial da abordagem apresen-
tada aqui reside no fato de que não foi encontrado na literatura um
trabalho que reúna o uso da robótica com o intuito de potencializar o
ensino e motivação em disciplinas de linguagem de programação para

Fonte: Autor, 2018


web. A maioria dos trabalhos encontrados utilizam o Arduino para
apoiar o ensino de algoritmos e linguagem de programação de forma
básica, não em contexto web, e muito menos no ensino de conceitos
de orientação a objetos.
O projeto da ferramenta chamado de PHP Robot foi disponibi-
lizado para a comunidade de forma gratuita na plataforma GitHub,
disponível na url https://github.com/rodrigocezario/phprobot. Os
componentes de hardware utilizado no projeto também são tecno-
logias de código aberto, podendo ser construídos a partir de sucata
de eletrônicos. Na página do projeto é possível encontrar a descrição
completa do funcionamento da ferramenta. Além disso, também é
apresentada a especificação do middleware utilizando um modelo de
classes, conforme retratado na Figura 1.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

do robô.
Esse modelo permite ao aluno entender o relacionamento das b. Implementação em bancada: desta forma o aluno precisa
classes e o funcionamento geral do middleware. A ideia inicial do pro- montar em um protoboard os componentes mínimos para
jeto da ferramenta PHP Robot era de permitir a implementação dos execução da ferramenta. Além disso, o acadêmico preci-
conceitos de orientação a objetos com a linguagem PHP para que o sa de um computador configurado com um servidor web
aluno pudesse codificar o acionamento de motores de um carro robô. quer permita executar scripts na linguagem PHP (os com-
No entanto, o custo de cada carro robô ficou elevado devido a utili- putadores do laboratório já têm esse ambiente configura-
zação do minicomputador chamado de Raspberry Pi (o custo do Ras- do) para conectar a placa do Arduino. Neste computador,
pberry Pi foi estimado em R$ 239,90 na ocasião). Além do Raspberry o aluno também deve utilizar o software navegador para
Pi e do Arduino, o robô é composto por 4 (quatro) motores com cai- executar o código implementado.
xa de redução e rodas, uma placa para controle dos motores (placa
motor drive ponte H), um kit chassi para fixação dos componentes Para flexibilizar a ferramenta, foram implementados dois fir-
e um cartão de memória do tipo micro sd para instalação do sistema mware: o primeiro (chamado de phprobot_firmware) para um su-
operacional e servidor web para execução do PHP. Naquele momento, porte ao Driver Motor Ponte H Shield L293D, que pode ser utilizado
para a utilização em sala de aula, o professor contava somente com para controlar até 4 motores (sendo este adotado no robô); o segun-
2 (dois) robôs completos, o que poderia inviabilizar o projeto, assim, do (phprobot_firmware_l298n) para o Driver Motor Ponte H L298n,
pensou-se em permitir a utilização da ferramenta à uma versão re- permitindo controlar até 2 motores (usado em bancada com kits de
duzida do robô, usando peças mais baratas e permitindo a execução Arduino e computadores da instituição).
do middleware em computadores da instituição ou em computado-
res pessoais. Desta forma, o middleware foi refatorado para permitir a
utilização da ferramenta de duas formas: MÉTODO UTILIZADO

a. Implementação do carro robô: Após a implementação, o Conforme Máttar (2008), a metodologia é a descrição dos mé-
aluno acessa o robô através de uma rede sem fio e envia o todos ou procedimentos que serão adotados na pesquisa. A especi-
código fonte (envia para o servidor web através do proto- ficação da metodologia é muito importante porque através da meto-
colo ftp) que pode ser executado por software navegador. dologia adotada pode-se saber de antemão os possíveis resultados
Desta forma, o aluno não precisa se preocupar com a mon- do trabalho tratado pela pesquisa (MÁTTAR, 2008). Quanto aos seus
tagem dos componentes de hardware, permitindo um foco objetivos, este trabalho pode ser enquadrado como uma pesquisa ex-
maior na construção da solução que contemple o objetivo ploratório, objetivando familiarizar-se com um assunto ainda pouco
de aprendizagem. A execução do código implementado explorado. Também se utiliza da pesquisa bibliográfica (do ponto de
pelo aluno pode ser realizada de qualquer computador ou vista dos procedimentos técnicos) como instrumento para funda-
smartphone que esteja conectado na mesma rede sem fio mentação do trabalho (GIL, 2008). Este trabalho em relação ao ponto

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

de vista dos procedimentos técnicos também pode ser enquadrado 2.3.1 Elaboração do questionário de avaliação utili-
como pesquisa-ação educacional, pois permite ao pesquisador e pro- zando o método GQM (Gol Quest Metric).
fessores aprimorem seu ensino e o aprendizado de seus alunos (TRI- 2.3.2 Empacotamento do questionário utilizando o
PP, 2005), propiciando o alcance dos resultados esperados. Google Forms.
Utilizando-se do entendimento de Andrade (2010), a metodo- 2.4 Elaboração do plano de aula.
logia é definida como o “conjunto de métodos ou caminhos que são 2.4.1 Elaboração do material de apoio (slides) e das
percorridos na busca do conhecimento”. Partindo dessa definição, atividades práticas.
utilizou-se os seguintes procedimentos para o desenvolvimento deste 2.5 Execução do plano de aula.
trabalho (considerou-se as fases do ciclo básico da investigação ação 2.5.1 Apresentação da ferramenta.
apresentado em Tripp (2005)): 2.5.2 Execução da atividade prática.
1. Etapa 1: Planejar uma melhora da prática: 3. Etapa 3: Monitorar e descrever os efeitos da ação
1.1 Pesquisa sobre métodos para apoio à aprendizagem 3.1 Monitorar a execução da atividade prática.
de programação. 3.2 Observar nova situação.
1.2 Pesquisa bibliográfica sobre plataformas de prototi- 3.3 Executar avaliação de percepção dos participantes.
pagem eletrônica. 4. Etapa 4: Avaliar os resultados da ação
1.3 Pesquisa sobre integração da plataforma Arduino 4.1.Tabulação dos resultados da avaliação.
com a linguagem PHP. 4.2 Analisar os resultados e ampliar a compreensão.
1.4 Desenvolvimento do projeto da ferramenta de apoio. 4.3 Traçar estratégia e ajustes a partir da análise dos re-
2. Etapa 2: Agir para implantar a melhora planejada sultados da ação.
2.1 Desenvolvimento de protótipo do hardware físico 4.4 Elaborar artigo científico.
(robô). 4.5 Disseminação dos resultados através de publicação
2.1.1 Programação do software embarcado (firmware de artigos.
do robô).
2.1.2 Montagem do protótipo. Por sua vez, a proposta do projeto aqui apresentado como prá-
2.1.3 Testes com o protótipo. tica pedagógica inovadora está alinha ao projeto pedagógico do curso
2.2 Implementação da ferramenta de apoio (PHP Robot). de Sistemas de Informação, onde tange “cultivar no aluno principal-
2.2.1 Implementação do middleware. mente as suas capacidades de criatividade, crítica e reflexiva” (AVAN-
2.2.2 Documentação do middleware no GitHub. TIS, 2018). Além disso, a prática permite que o aluno seja “despertado
2.2.3 Execução de testes com Raspberry Pi. para a área técnica e lógica” (AVANTIS, 2018). Em relação a disciplina,
2.2.4 Execução de testes utilizando ambientes Win- a prática pedagógica permite ao professor atingir o objetivo de apren-
dows. dizagem de “conhecer os principais conceitos sobre a linguagem
2.3 Planejamento da avaliação do método. PHP”, implicando em conhecer e compreender os conceitos do para-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

digma de programação orientada a objetos empregados na linguagem


PHP. Entende-se que a prática agrega valor ao Curso de Sistemas de
Informação, oportunizando a utilização da robótica educacional no
ensino de programação para web. Muitas vezes esse recurso fica ocio-
so, sendo aplicada somente para o reforço no ensino nas disciplinas
de Programação I e Algoritmos.
Cabe ressaltar que a utilização da robótica educacional no con-
texto de ensino de programação para web não é trivial devido a com-
plexidade e necessidade de um middleware para sua aplicação. Este
fato evidência também a contribuição e relevância deste trabalho.
Além disso, a ferramenta apresentada também pode ser facilmente
utilizada para ensino e implementação de soluções para a Internet das
Coisas (do inglês, Internet of Things, IoT). Por fim, outra contribuição Figura 2: Protótipo do hardware do carro robô.
que pode ser destacada seria o resultado da avaliação de percepção de Fonte: Autor, 2018.
uso da ferramenta pelos alunos.
Quanto aos recursos utilizados ao longo da implementação na Para execução da atividade prática com ferramenta PHP Ro-
prática, podem ser divididos em três classes: bot foram utilizados os computadores do laboratório de informática
e os kits de Arduino adquiridos pela instituição. Os kits de Arduino
(i) Recursos de software: para o projeto considerou-se somente da instituição contemplam os requisitos mínimos para a utilização
a utilização de softwares livres, a citar: Arduino IDE (para im- da ferramenta aqui apresentada. Os componentes utilizados em ban-
plementação do código e testes do firmware); NetBeans (imple- cadas foram: protoboard, placa Arduino, placa driver motor ponte H
mentação do middleware). L298n, jumpers (fios para conexão dos componentes com a protobo-
(ii) Recursos de hardware (componentes do carro robô, retra- ard), motores com caixa de redução com rodas e cabo usb. Os carros
tado pela Figura 2): kit chassis, placa Arduino UNO, placa Ras- robôs (ilustrado na Figura 2) foram disponibilizado aos alunos pelo
pberry Pi, placa driver ponte H L293d, cartão de memória tipo professor da disciplina.
micro sd, 4 motores com caixa de redução e rodas.
(iii) Recursos humano: para execução do projeto contou somen-
te como esforço pessoal do professor da disciplina. Cabe dizer ENVOLVIMENTO DOS ATORES
que o desenvolvimento de todo o projeto não onerou nenhum
custo para a instituição. No escopo deste trabalho, além do professor da disciplina, par-
ticiparam os acadêmicos da turma do 5º período do Curso de Sistema
de Informação. A prática pedagógica foi realizada no dia 06 de junho

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

de 2018 no laboratório de informática da instituição. Em um primei- implementar uma interface para controlar o carro robô através de um
ro momento, foi explicado para os acadêmicos o objetivo pedagógi- navegador de internet, como uma segunda prática.
co a partir do uso da ferramenta. Após isso, foi apresentado para os
acadêmicos a ferramenta e a página do projeto. No passo seguinte, os
acadêmicos foram organizados em grupos de 2 (dois) integrantes. Um PRINCIPAIS RESULTADOS
kit com os componentes básicos para implementação em bancada foi
entregue para grupo conforme apresentado na Figura 3. Além de trabalhar os assuntos sobre orientação a objetos, as
atividades práticas com a ferramenta permitiram aos acadêmicos
exercitarem outros aspectos de programação e “boas práticas” no de-
senvolvimento web com a linguagem PHP, a citar: auto carregamento
das classes; inclusão de arquivos; padrões de projeto; configuração de
ambiente de desenvolvimento. Outros aspectos importantes aplica-
dos nas atividades que podem ser destacados são: uso do repositório
do GitHub; e, montagem do protótipo em hardware com Arduino.
Por sua vez, também foi realizado um experimento para avalia-
ção da abordagem e da ferramenta de apoio. Através do desenvolvi-
mento das atividades práticas, buscou-se identificar se a abordagem
e a ferramenta atingiram o objetivo de auxiliar no processo de ensi-
no-aprendizagem na disciplina. Para tanto, foi elaborado um questio-
Figura 3: Alunos montando kit com Arduino. nário utilizado o método GQM (BASILI et al., 1994) com o objetivo de
Fonte: Autor, 2018. avaliar a percepção de uso da ferramenta de apoio ao ensino-aprendi-
zagem sob o ponto de vista de alunos de graduação no contexto aca-
Após a montagem do kit na bancada os acadêmicos acessaram o dêmico na disciplina de Programação III. Este questionário (em for-
projeto da ferramenta no repositório do GitHub e fizeram um “clone” mato eletrônico) foi aplicado no final do encontro, onde os acadêmi-
da implementação do middleware para o computador da instituição. cos foram convidados a participar de forma espontânea. Infelizmente
A partir deste ponto, os acadêmicos puderam realizar a atividade prá- a avaliação contou com poucos participantes, no qual somente 7 (sete)
tica proposta como revisão do conteúdo sobre os conceitos de orien- acadêmicos responderam ao questionário. Cabe dizer que a turma era
tação a objetos utilizando a linguagem PHP. Como prática foi solici- composta de 21 acadêmicos, onde 18 estavam presentes no dia do ex-
tado para que os acadêmicos desenvolvessem uma interface (página perimento.
web) para controlar um motor (conforme ilustra a Figura 3). A página A primeira questão (retratada na Figura 4) buscou identificar a
desenvolvida em PHP deveria enviar comandos para mudar o sentido percepção do aluno quanto a facilitação da compreensão do conteú-
de sua rotação. Após este momento, o acadêmicos foram desafiados a do utilizando a abordagem. Segundo os participantes, a abordagem

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

facilitou a compreensão do assunto abordado em sala de aula. Mesmo


sendo em graus diferentes, essa percepção foi declarada por todos os
participantes.

Figura 5: Percepção do aluno quanto a dificuldade no uso da ferramenta.


Fonte: Autor, 2018.

Na terceira questão (ilustrada pela Figura 6), foi solicitado aos


Figura 4 - Percepção do aluno quanto a facilitação da participantes se a utilização da ferramenta realmente estimulou o uso
compreensão do conteúdo utilizando a abordagem. do seu conhecimento em relação aos conceitos dentro do paradigma
Fonte: Autor, 2018. de programação orientada a objetos. Todos os participantes concor-
daram que a ferramenta proporcionou a prática dos conceitos de
A Figura 5 ilustra o resultado da questão que avaliou o grau de orientação a objetos no projeto.
dificuldade na utilização da ferramenta apresentada. Nesta questão,
foi utilizada uma escala de 5 pontos para que os participantes pudes-
sem descrever suas percepções. A percepção dos participantes quanto
à esta questão ficou dividida conforme pode ser visto na Figura 5.

Figura 6: Percepção do acadêmico se a utilização da ferramenta estimulou o uso do seu conheci-


mento em programação orientada a objeto. Fonte: Autor, 2018.

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Na quarta questão (apresentada na Figura 7), os participantes


avaliaram as orientações de uso da ferramenta. Dos sete participantes
somente um não concordou que as orientações de uso da ferramenta
foram suficientes para sua utilização.

Figura 8: Percepção quanto a motivação proporcionada pela ferramenta no estudo do assunto


abordando. Fonte: Autor, 2018.

A sétima questão (retratada na Figura 9) permitiu capturar a


percepção dos participantes quanto a utilização da ferramenta em
proporcionar uma aula mais divertida em relação à uma aula “tradi-
Figura 7: Percepção quanto as orientações para o uso da ferramenta. cional”. Todos os participantes relataram que a aula foi mais divertida
Fonte: Autor, 2018. com o uso da ferramenta.

Na quinta questão os participantes deveriam citar as dificulda-


des no uso da ferramenta, caso houvesse. Como resposta, nenhuma
dificuldade foi relatada pelos participantes.
Na questão seguinte (ilustrado pela Figura 8) foi perguntado aos
participantes se a ferramenta o motivou a estudar o assunto abordado
em sala. Quase todos os participantes (exceto um) concordaram que a
ferramenta motivou o estudo sobre o assunto abordado.

Figura 9: Percepção dos participantes se a ferramenta proporcionou uma atividade divertida em


relação às aulas tradicionais. Fonte: Autor, 2018.

A última questão solicitava para os participantes para relacio-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

narem sugestões para melhoria da ferramenta e da abordagem. So- PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E
mente um participante respondeu: “Uma explicação mais prática e em APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS
um tempo mais curto, para assim os alunos terem o conhecimento
para partir para a prática o mais rápido possível”. No contexto de desenvolvimento web, o profissional desta área
A partir dos resultados coletados na avaliação pode-se afirmar deve conhecer uma vasta gama de tecnologias para o desenvolvimen-
que existem indícios que a utilização da ferramenta pode motivar os to. Trata-se de várias siglas e nomes “estranhos” que nomeiam estas
alunos na participação da revisão do conteúdo proposto. Além disso, tecnologias. Para motivas os alunos no início do semestre, costumo
os participantes concordaram que a utilização da ferramenta propor- mostrar anúncios de sites de recrutamento de pessoal na área de tec-
cionou uma aula mais divertida em relação aos métodos tradicionais. nologia de informação. Meu objetivo, além de motivar os alunos, é de
No entanto, não existiu consenso em relação a dificuldade de uso da associar o conteúdo programado da disciplina com o que está sendo
ferramenta pelos alunos. Na percepção do professor, percebeu-se que requerido pelo mercado de trabalho. Em um desses momentos, per-
os alunos estavam mais motivados e atentos as discussões realizadas cebi que muitas dessas tecnologias que trabalho em sala de aula, eu
no encontro. Percebeu-se também que a aula foi mais divertida para mesmo não aprendi em minha graduação. Se fizermos uma reflexão
os alunos, no entanto, sem perder o foco em demasiada descontração. sobre as profissões atuais demandadas pelo mercado e pela socieda-
Por sua vez, a avaliação não tinha o escopo de avaliar a aprendizagem de, pode-se percebe que muitas dessas profissões foram criadas pelos
dos participantes, sendo esta uma direção futura de estudos. Enten- próprios profissionais, onde vendo a oportunidade, um produto ou
de-se que este tipo de abordagem/ferramenta pode dar maior visibili- serviço foi ofertado. Hoje percebo que não estou mais ensinando para
dade ao curso junto a comunidade, visto que os acadêmicos apresen- formação de indivíduos para uma posição específica no mercado, mas
tam grande interesse na plataforma Arduino. Cabe ainda dizer que é sim, em muitas vezes, para formação em uma profissão que ainda não
fácil a reprodutibilidade desta inciativa em sala, pois os componentes existe.
utilizando são encontrados facilmente em lojas do ramo de eletrôni- Frente aos próximos anos, vejo que a utilização de tecnologias
ca. Salienta-se também que os softwares utilizados são os mesmos para apoia o processo de ensino aprendizagem, como vídeos aulas se-
utilizados em disciplinas ou cursos de programação para web, não ha- rão dominantes. Acredito que isso ocorra devido a evolução das tec-
vendo necessidade de instalação ou configurações adicionais. Por sua nologias de informação e comunicação. Essas tecnologias permitem
vez, a página do projeto apresenta informação para utilização da fer- acesso rápido e facilitado à uma imensa quantidade de informações,
ramenta (firmware e middleware), montagem do hardware e demais o qual, por sua vez, facilita e simplifica o aprendizado. Com um mun-
passos para implementação. do globalizado de hoje as tecnologias de informação e comunicação
trazem soluções eficazes para o ensino a distância, permitindo uma
aprendizagem flexível e autossuficiente para o aluno. Acredito que a
educação do futuro será personalizada com foco específico em habi-
lidades específicas. No entanto, apesar da educação ser onipresente
no futuro o professor terá um papel fundamental neste futuro tecno-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

lógico. O professor será o curador do conhecimento, como também,


em muitas vezes, o criador do conhecimento. Além disso, ele será o QUANDO A APROXIMAÇÃO
elemento humano que irá orientar os alunos nos processos de apren-
dizagem, como também o responsável por desenvolver o pensamento FAZ A DIFERENÇA
crítico sobre as informações que os alunos absorvem.
Shirlei de Souza Correa

REFERÊNCIAS
O problema apresentado na turma de Pedagogia era que os
ANDRADE, M. M. Introdução à metodologia do trabalho científico: acadêmicos não se conheciam, mesmo estudando juntos depois do
elaboração de trabalhos na graduação. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2010. período de um ano. O fato de não haver socialização entre o grupo
prejudicava algumas atividades propostas. Em função disso propus o
AVANTIS, FACULDADE. Projeto Pedagógico do Curso de Graduação
desenvolvimento de atividades em grupo, especialmente as ligadas a
em Sistemas em Informação. Balneário Camboriú - SC, 2018.
arte cênica.
BASILI, V. CALDIERA, G. ROMBACH H. D. Goal Question Metric Ap- O principal objetivo da atividade era a aproximação e a exce-
proach, Encyclopedia of Software Engineering, pp. 528-532, John lência educativa a partir da Educação Sensível, uma vez que esta nos
Wiley and Sons, Inc. 1994 desafia a tornarmo-nos seres sensíveis capazes de interpretar através
das experiências educacionais nossas formas de agir, pensar, e con-
GIL, A. C., Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: duzir a prática docente. Os objetivos secundários eram: a) motivação
Atlas, 2008.
dos acadêmicos a trazerem para a prática a questões teóricas traba-
MÁTTAR, J. A., Metodologia científica na era da informática. 3ª edi- lhadas no semestre, e b) a criação de um grupo de encenação que ti-
ção, São Paulo: Saraiva, 2008. 310p. vesse a participação de outros acadêmicos e que pudesse representar
a Faculdade Avantis em diferentes contextos.
PHP: SOBRECARGA, PHP.NET. Disponível em < http://php.net/manu- Os resultados alcançados apontam que o nível de participação
al/pt_BR/language.oop5.overloading.php >. Acessado em 10 de agos- foi muito alto e refletiu na baixa dos índices de desistência e/ou aban-
to de 2018. dono. No que tange ao aproveitamento também tivemos um alto índi-
ce. é fato que a participação dos acadêmicos na aula aumentou e isso
TRIPP, D. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e
Pesquisa. São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443-466, set./dez. 2005. Disponível pode ser percebido no resultado final das avaliações. Os autores Bau-
em < http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a09v31n3.pdf >. Acessado man (2007), Duarte Junior (2000), Meira e Pilloto (2010) e Vani (2013)
em 11 de agosto de 2018. contribuíram teoricamente para o desenvolvimento das atividades.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS nesse campo atribuem à prática da mediação o crescimento e o de-


senvolvimento do ser humano, nas suas diversas relações. Sobretudo
Ao iniciar a docência na turma de Pedagogia – 3NB, em 2018, por acreditarmos que o desenvolvimento acontece na relação com o
percebi a necessidade de aproximar os acadêmicos que, em função outro, em um movimento recíproco de troca de experiências, convi-
de estudarem na formatação da Educação a Distância, tinham apenas vências, sentimentos, etc.
um encontro semanal presencial. Percebi que poucos acadêmicos se Acreditando nesse movimento, aliamos a essa discussão a ques-
conheciam ou mantinham alguma relação no decorrer das aulas. Em tão da Educação Sensível, aquela que, baseada na mediação, almeja
algumas atividades de grupo por mim propostas, permaneciam sem- uma formação integral do ser humano, considerando sua composição
pre os mesmos integrantes e havia pouca socialização entre eles – o de corpo, mente, alma e espírito. Atenta a detalhes que compõem esse
que em alguns momentos, atrapalhava a dinâmica das atividades a ser humano, que o regem e que o governam em suas ações cotidianas.
serem desenvolvidas. Sabemos, baseados em Duarte Junior (2010), que educação sensível é
Entretanto, o que teve mais peso nesse contexto foi saber que uma educação baseada em sensações, sentimentos e experiências. E
muitos alunos que frequentavam a mesma sala, por mais de um ano, por assim ser, exige sensibilidade por parte dos agentes participantes
sequer sabiam os nomes dos próprios colegas. Para modificar essa desse processo. Ter a convicção de tratar o ser humano como comple-
situação – que contraria os propósitos teorizados por Vygosky que xo e múltiplo é, também, assumir uma postura contrária à visão uni-
sugere que os seres humanos aprendem na mediação com o outro, o lateral e uniforme do mundo e do homem que a contemporaneidade
desafio proposto foi o de trabalhar em grupos heterogêneos. O instru- insiste em (re)afirmar e (re)inventar.
mento utilizado foi a dramatização e a encenação. O principal obje- Nesse mundo de relações líquidas, de sentimentos e de postu-
tivo era a aproximação e a excelência educativa a partir da Educação ras que se desfazem facilmente, que são permeáveis, que não assu-
Sensível, uma vez que esta nos desafia a tornarmo-nos seres sensíveis mem/respeitam limites e contornos (BAUMANN, 2008), entender o
capazes de interpretar através das experiências educacionais nossas ser humano sob essa lógica é um desafio. Por meio da Educação Sensí-
formas de agir, pensar, e conduzir a prática docente. Os objetivos se- vel existe um tênue caminho para se chegar à uma educação integral,
cundários eram: a) motivação dos acadêmicos a trazerem para a prá- uma educação pautada no saber/poder/ser sensível. Através desse ca-
tica a questões teóricas trabalhadas no semestre, e b) a criação de um minho é possível oferecer ao ser humano um poder que vai se consti-
grupo de encenação que tivesse a participação de outros acadêmicos e tuindo e “possibilita que ele dê importância demasiada a alguns cam-
que pudesse representar a Faculdade Avantis em diferentes contextos. pos mais restritos do conhecimento, consequentemente, esquecidos,
fazendo com que ocorra a integração do homem consigo mesmo, com
os outros e com a sociedade”. (DUARTE JUNIOR, 2010, p. 436).
MÉTODO UTILIZADO Que ele se torne, efetivamente, um ser autônomo e crítico. Acre-
ditando nesse propósito a metodologia do trabalho em grupo e propria-
No campo da Educação, seria, talvez, um clichê trazer para a mente as ações envolvidas com a arte cênica garantiram a prática da Edu-
discussão a questão da mediação. As várias teorias disseminadas cação ensível, pautada na coletividade e na aproximação com os pares.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

ENVOLVIMENTO DOS ATORES O nível de participação foi muito alto e refletiu na baixa dos
índices de desistência e/ou abandono. No que tange ao aproveita-
O envolvimento dos acadêmicos foi evidenciado pela realiza- mento também tivemos um alto índice. é fato que a participação dos
ção de atividades em grupo durante as aulas e principalmente com acadêmicos na aula aumentou e isso pode ser percebido no resultado
a realização de encenações de peças teatrais em eventos da própria final das avaliações. Com frequência ouvíamos dos acadêmicos: “Eu
Faculdade. Como no evento da Base Nacional Comum Curricular - só vinha para cá, fazia as avaliações e ia embora. Nunca conversava
que esse grupo de acadêmicos fez a abertura do evento. Importante com ninguém. Agora fiz amigos que vou levar para sempre!” E: “eu
ressaltar que nesse mesmo evento o grupo contou com a participação nem sabia que na minha própria sala tinha uma vizinha da minha rua.
de convidados externos a Faculdade, pessoas que pertencem a comu- Agora além de dividir carona, nós fazemos trabalhos juntas e estuda-
nidade. isso garante uma interação entre a Faculdade Avantis e a co- mos para as provas.” Essas e outras questões nos levam a acreditar
munidade em que está inserida. nisso, e continuamos buscando, a partir dos pressupostos da Educa-
ção Sensível, fundamentos para pautar as ações realizadas no curso
de Pedagogia, na turma 3NB.
PRINCIPAIS RESULTADOS As atividades de teatro e/ou encenações propiciaram aos acadê-
micos espaços de convivência, de interação, de afetividade que refle-
Sabemos que as [boas] relações estabelecidas com os outros tiu positivamente no desenvolvimento e participação das aulas. Com
refletirão em melhores condutas sociais e condutas morais. Pois base nessa prática, acreditamos que a Educação Sensível, transforma-
quando estabelecemos atitudes de autonomia e de respeito por nós dora e inovadora aconteceu na interação com o outro, numa ação recí-
mesmos e pelo próximo, facilmente aceitaremos as diferenças, as proca de troca de vivências e experiências, possibilitando olhares afe-
controvérsias e efetivaremos os deveres que nos competem enquanto tivos que contribuem para uma sociedade mais justa e mais humana.
cidadãos comprometidos com as ações para uma sociedade mais hu-
mana (VANI, 2013).
A partir da contribuição da autora, acreditamos que os princi- PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E
pais resultados alcançados com essa atividade desenvolvida a partir APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS
de uma problemática encontrada na própria sala de aula refletem ini-
cialmente em cada acadêmico que faz parte dessa história. O fato de É fato que estamos diante de um momento marcado pelas [no-
“se conhecerem” e terem a oportunidade de dividirem o tempo e os vas] tecnologias, pela comunicação digital e, por isso mesmo, preci-
anseios juntos proporcionou um novo olhar ao formato da Educação samos interpretar as diferentes experiências que a interação pessoal
a Distância. Os próprios acadêmicos perceberam e fazem questão de nos proporciona. Com base nesta questão este artigo foi escrito com
divulgar, que mesmo tendo um encontro presencial na semana, eles a intenção de investigar as contribuições da Educação Sensível para o
podem inovar, fazer diferente e participar ativamente do cotidiano da campo da educação.
Faculdade.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

uma breve exposição conceitual, que indique o caminho a ser seguido,


não seja impositiva e abra horizontes para novas reflexões. Adotando
VISITA TÉCNICA À INOVAÇÃO essa postura, a do orientador didático e não apenas a do transmissor
direto de informações, o professor não apenas resgata o interesse e
Gilmar da Silva a atenção da turma, como auxilia o estudante na construção do re-
pertório de conhecimentos de uma forma muito mais eficiente. Ele
troca ideias, discute, lança questões provocativas, chama à reflexão,
Não basta trazer assuntos desafiadores e polêmicos em sala de estimula o pensamento crítico e proporciona experiências de visita ao
aula, pois é preciso ir além e conquistar o acadêmico a pensar “fora da campo quando possível.
caixa”, e este anseio o docente tem presente no dia a dia. Assim sendo, Uma tarefa fundamental do professor é auxiliar o aluno a orga-
após pesquisas, foram identificadas organizações voltadas ao desen- nizar, selecionar, hierarquizar e dar sentido à enorme quantidade de
volvimento econômico com foco nas inovações tecnológicas, sendo informações a que tem acesso diariamente. É uma verdadeira avalan-
elas: startups, incubadoras de empresas, aceleradora de empresas e che de novidades, e é importante saber quais as que são úteis, quais as
o próprio Sebrae, que possui como meta auxiliar o desenvolvimento que merecem ser investigadas e aprofundadas e quais as que podem ser
de micro e pequenas empresas, estimulando o empreendedorismo no descartadas. A aula tem de ser muito bem pensada, organizada, plane-
país. E as melhores experiências de mercado ocorrem lá, e foi lá que jada. O professor, a partir de um problema, deve ser capaz de buscar so-
algumas turmas tiveram este momento exclusivo de vivência tecnoló- luções e respostas mais complexas, de estabelecer relações, conexões,
gica. Os acadêmicos, alguns deles já egressos, demonstram através de de estabelecer contextos, mostrando aos alunos horizontes mais am-
questionamentos e afirmações o sentimento de surpresa e até de rea- plos e estimulando o espírito crítico, empreendedor e criativo.
lização ao ingressarem em algo que, muito próximo desta região geo- A avaliação certamente deve acompanhar essas transforma-
gráfica, evolui, gera empregos, alavanca a economia e mostra como o ções. Ela não pode ser mais simplesmente quantitativa, aquelas pro-
futuro tecnológico está bem próximo da sociedade. vas que privilegiam a repetição de conceitos prontos. Ela precisa ser
reflexiva, estimulante, interpretativa, capaz de medir a criatividade,
de trabalhar o argumento. Devemos abrir espaço para outros instru-
DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS mentos de avaliação, que não simplesmente as provas. Embora seja
mais difícil mensurar, é plenamente viável imaginar nota por partici-
A sala de aula e os alunos mudaram profundamente. Eles se pação, por trabalhos feitos em casa, por pesquisas de aprofundamen-
acostumaram, gradativamente, com os efeitos e o potencial da tele- to dos temas discutidos em sala, pelas intervenções feitas em debates,
visão e rapidamente mergulharam na era da informática, no mundo por pesquisas de campo feitas através de visita técnicas. O professor
dos computadores. Esse novo cenário exige dos professores uma nova passa a ser, então, uma espécie de orientador pedagógico, desempe-
postura. Aquela tradicional aula expositiva, apenas com giz e lousa, nhando um papel muito próximo ao que já desempenha. Neste con-
não se sustenta mais. Os alunos preferem uma aula mais curta, com texto, a visita técnica vem complementar o ensino e aprendizagem,

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dando ao aluno a oportunidade de visualizar os conceitos analisados competitiva de mercado. E é exatamente nestas organizações que te-
em sala de aula. É um recurso didático-pedagógico que obtém ótimos mos focada a ideia de visita técnica, agregando valor à IES Avantis, aos
resultados educacionais, pois os alunos, além de ouvirem, veem e acadêmicos, e também ao docente. A Visita técnica é considerada um
sentem a prática da organização, tornando o processo mais motivador instrumento inovador, a partir do momento em que as áreas visitadas
e significativo para a aprendizagem. e exploradas representam compromisso e competitividade no cenário
A visita técnica é de extrema importância como ferramenta de econômico projetado para a atualidade e para, pelo menos, os próxi-
ensino para o professor, um apoio que o auxilia na condução das aulas, mos 10 anos.
e o que é mais importante, permite ao aluno o contato com a aplicação
prática dos conteúdos aprendidos em sala de aula. As visitas técnicas
em empresas auxiliam na formação geral dos acadêmicos, buscando MÉTODO UTILIZADO
aliar teoria e prática. Esta atividade visa, também, proporcionar co-
nhecimentos de diferentes realidades tecnológicas, propiciando aos Para a escolha metodológica das técnicas e métodos utiliza-
alunos um aprendizado mais efetivo na observação das inúmeras va- dos para aprofundar o conhecimento das ciências de um modo geral,
riáveis que influenciam os processos produtivos. Seus objetivos são: • pode-se perceber que dentro de uma visão mais holística a empresa
Levar os acadêmicos a estabelecer relações entre o conteúdo teórico a ser observada é o palco de todas as inter-relações que se pretende
e a prática; • Exercitar as habilidades de análise, observação e crítica; analisar. Sabendo-se dessas potencialidades, como definir uma meto-
• Interagir criativamente em face dos diferentes contextos técnicos e dologia de trabalho de campo ou visita técnica? Para o conhecimento
produtivos; • Aliar o conhecimento sistematizado com a ação profis- e análise dos fatos, a observação empírica assume uma ampla dimen-
sional; • Buscar o desenvolvimento da visão sistêmica; • Interagir com são, na medida em que o enfoque do conhecimento local, específi-
os diferentes profissionais da área, com vistas a ampliar e aprofundar co, deve ser o ponto de partida para a efetivação da compreensão em
o conhecimento profissional; • Estimular o aluno à pesquisa científica escalas mais amplas, extrapolando assim a pura e simples descrição,
e a pesquisa de campo. para os conceitos gerais apresentados em sala de aula. Nesta visão
conceitual, observa-se que a preocupação com a base metodológica
é fator principal para obtenção de um bom resultado no que diz res-
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA peito ao trabalho que foi preestabelecido, ou seja, a elaboração dos
objetivos propostos tem que se difundir na análise positiva dos re-
Pensar mercado de trabalho competitivo e novas carreiras é algo sultados a serem obtidos posteriormente, como observa Elias (1999),
constantemente desafiador. Sabemos que teoria é essencial mas que o para quem “... a metodologia é o conjunto de recursos técnicos de
peso da prática abona o processo de aquisição do conhecimento. Vol- apreensão da realidade e nos serve para a obtenção dos dados empí-
tadas à questão prática, muito próximo de nossa região, encontram- ricos e seu processamento, nos auxiliando na mensuração do objeto
-se instaladas diversas empresas ligadas ao crescimento econômico de estudo. Apesar de não conter a essência deste, é fundamental para
baseado na intensificação da exploração tecnológica, como vantagem melhor apreendê-lo.” (ELIAS, 1999).

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

Na prática estabelecida para o desenvolvimento do estudo da suficientemente o que deve ser coletado (TRUJILLO, 1982).
Administração e sua aplicabilidade, as visitas técnicas são atribuídas Barros & Lehfeld (1997) defendem que é aconselhável iniciar a
conforme as temáticas utilizadas e também com as necessidades con- elaboração do projeto de pesquisa, após a definição do problema. Para
juntas com outras atividades que lhe forem cabíveis. Para este con- tanto, um estudo exploratório deverá ser efetivado, observando-se
texto, as técnicas e métodos utilizados se pautam na necessidade de os elementos que evidenciam seu surgimento. Assim, no período do
desenvolvimento prático de determinados assuntos, como também estudo exploratório, a preocupação estará centrada na formulação e
para fins de planejamento e estratégias destinadas ao mercado de delimitação do problema. Contudo, será durante a elaboração do pro-
trabalho. As visitas devem ser formuladas de acordo com a temática jeto de pesquisa que se poderá avaliar a viabilidade de investigação do
de estudo. Por exemplo, uma visita técnica que aborde as questões de problema formulado. Portanto, pode-se encarar a visita técnica como
processos de fabricação requer que o mediador da disciplina dispo- parte de um processo de pesquisa científica, que exige uma pesquisa
nha de um breve estudo sobre processos, apresentando os conceitos bibliográfica anterior, exploratória, para fixação dos conceitos teóri-
que retratem as questões relacionadas com a temática em estudo. cos, e assim obter-se os resultados esperados na pesquisa de campo
Complementando, é necessário que os alunos façam pesquisa sobre através da visita propriamente dita. Fica claro a relevância do planeja-
o assunto antes do trabalho no campo, como forma de planejamento mento da pesquisa, que é responsável por mapear um caminho a ser
da visita técnica. seguido durante a investigação e, desta forma, esclarecer para o pró-
Segundo Ander-Egg (LAKATOS, 2001) pesquisa “é um procedi- prio investigador os rumos do estudo.
mento reflexivo sistemático controlado e crítico, que permite desco- Ora, sabendo onde se quer chegar e como fará isto para lograr
brir fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo do conheci- sucesso, certamente o pesquisador não se perderá no trajeto (DES-
mento”. Assim, o resultado desta busca reflexiva é conhecer verdades LANDES, 1994). Na busca pela formulação de um roteiro a ser segui-
parciais. Sobre pesquisa, Gil (2002) também fala em “procedimento do, Lakatos (2001) propõe que o planejamento da pesquisa é constitu-
racional e sistemático”, e para ser realizada é imprescindível métodos ído por quatro grandes momentos ou grupos de ação: preparação da
e caminhos técnicos, dentre os chamados procedimentos científicos. pesquisa, fases da pesquisa, execução da pesquisa e relatório.
Pode-se dizer que neste alicerce funda-se o edifício da ciência, na qual
a construção dos conhecimentos é forjada com rigor, cuidado e parâ-
metros que oferecem segurança e legitimidade às informações des- ENVOLVIMENTO DOS ATORES
cobertas. A pesquisa consiste na observação de fatos e fenômenos tal
como ocorrem espontaneamente, na coleta de dados a eles referentes Tanto a Diretoria da IES Avantis, quanto a Coordenação do cur-
e no registro de variáveis que se presume relevantes, para analisá-los. so concordam e incentivam esta prática docente inovadora. Desde o
A pesquisa de campo propriamente dita não deve ser confundida com momento em que o pedido formal é solicitado junto aos responsáveis
a simples coleta de dados (este último corresponde à segunda fase de até a partida à empresa requisitada, há muita cumplicidade por parte
qualquer pesquisa); é algo mais que isto, pois exige contar com con- do conjunto da IES com intuito de que tal momento seja um diferen-
troles adequados e com objetivos preestabelecidos que descriminam cial no mercado de trabalho. Os acadêmicos demonstram altíssimo

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grau de satisfação durante todo o desenvolvimento do projeto: em- tão, pois estas agregam muito mais valor a esta IES que é considerada
presa-alvo, dia da visita, informações expostas, etc. Tanto o Sebrae de a melhor faculdade de Santa Catarina, enquanto que as outras tantas
Florianópolis, quanto às incubadoras de empresas visitadas naque- existentes abordam visita técnica apenas em sua teoria.
la região desempenham um excelente papel de agente inovador que Todas estas ações contribuem inclusive para o perfil do egres-
transmitem os conhecimentos relacionados ao mercado de trabalho so, que tem como base a capacidade de raciocínio crítico e analítico
com muita transparência e competência. para operar com diversos segmentos de empresas, expressando-se de
modo crítico e criativo diante dos diferentes contextos e necessida-
des organizacionais e sociais. Acadêmicos e egressos, independente
PRINCIPAIS RESULTADOS do momento, me abordam e dialogam sobre como uma visita técnica
faz diferença em suas vidas profissionais e que adorariam vivenciar
No decorrer de 2017 ocorreram algumas visitas técnicas no Se- outros momentos.
brae de Florianópolis, na Incubadora de empresas do Sebrae, na acele-
radora de empresas Darwin Starter, no espaço das Startups da Acate,
no Centro Tecnológico Celta, ambos também em Florianópolis, bem
como na empresa Ala Calçados, localizada no polo industrial do cal-
çado em São João Batista/SC. Toda teoria da sala de aula relacionada
ao competitivo mercado de trabalho em seus diversos segmentos, foi
vislumbrada na prática, por mais de 100 acadêmicos do Curso de Ad-
ministração, independente da fase/semestre cursado. Isso sem levar
em conta os demais acadêmicos que lá estiveram presentes em 2016.
Alguns desses acadêmicos começaram a idealizar projetos em
função do universo moderno, avançado e tecnológico observado nes-
tes ambientes. Muitos deles começaram a seguir nas redes sociais e
até frequentar a ACATE - Associação Catarinense de Tecnologia - Flo-
rianópolis, com intuito de acompanhar as modificações tecnológicas
que afetam direta e indiretamente a economia local, regional e nacio-
nal. Durante uma das visitas realizadas, um dos acadêmicos fez a se-
guinte afirmação: “Enquanto estamos em sala de aula pensando em
como abrir uma padaria, por exemplo, este espaço e estas empresas
estão gerando de maneira evoluída economia em escala avançada;
isto é simplesmente incrível”. As visitas técnicas para a IES Avantis
são diferenciais, principalmente no curso de Administração em ques-

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PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E


APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS

Acompanhar a evolução e as mudanças tecnológicas é requi-


sito essencial ao docente que intermedia a transmissão de conheci-
mento. Há quem defenda que até o ano de 2.050, em razão do avanço
tecnológico, a “geração dos inúteis”, ou seja, daqueles que estarão de-
sempregados e não-empregáveis, será expressiva, e que destacar-se-á
quem deter conhecimento e manter-se competitivo. Pensar docência
para os próximos 20 anos, é estar ciente que a teoria deverá estar em-
butida em vivências práticas e diretamente tecnológicas. Em contra-
partida, valores éticos e moralidade estarão expostos como uns dos
maiores desafios da humanidade e principalmente do docente. A vida
segue, o ser humano evolui, e a educação estará em constante aperfei-
çoamento, alinhada ao competitivo mercado de trabalho.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

ser de todos: a acessibilidade.


O estudo foi precedido por uma gincana que abordou temas
ARQUITETANDO UM OLHAR transversais referentes à inclusão, a acessibilidade, aos preconceitos e
DIFERENCIADO SOBRE O um olhar diferenciado sobre as deficiências humanas. O desenvolvi-
ENSINO E APLICABILIDADE DA mento da gincana resultou em maior interesse, motivação e envolvi-
mento efetivo dos acadêmicos em todo o processo de aprendizagem,
MATEMÁTICA4 refletindo consequentemente nas avaliações e nas notas finais dos
acadêmicos.
Debora Regina Ferreira

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS
O presente relato descreve a aplicação de uma experiência sin-
gular voltada para a Aprendizagem da Matemática, aplicadas na pri- Embora ninguém seja indiferente à Matemática, sabe-se que
meira fase da disciplina de Matemática para Arquitetura, no Curso de enquanto disciplina escolar, a mesma é vista como algo difícil de ser
Arquitetura, da Faculdade Avantis, campus Balneário Camboriú-SC, assimilada, sendo a mesma, responsável por inúmeros desaponta-
durante o segundo semestre de 2017. Após discussão sobre o ensino e mentos ao longo da vida escolar. Observa-se também que a Matemá-
aprendizagem da Matemática, constatou-se grande aversão dos aca- tica apresentada aos discentes é, muitas vezes, por sua própria espe-
dêmicos pela disciplina, sendo observado que essa aversão, foi desen- cificidade, extremamente abstrata, sem relação direta com a realidade
volvida, justamente na escola. que os cerca e, portanto, sem significados para eles, sendo comum os
Defronte da realidade, foi necessário inicialmente a revisão das alunos compreenderem o cálculo e até mesmo resolver os exercícios
práticas metodológicas de aprendizagem, objetivando transcender a propostos pelo docente, sem conseguirem, contudo, interpretar o que
transmissão de conhecimentos, desenvolvendo nos acadêmicos a real estão resolvendo, a aplicação do que estudam ou porque o fazem.
consciência da importância da Matemática na área da Arquitetura, Dessa forma, muitos concluem que a Matemática é desprovida
bem como a aplicação direta da mesma na profissão escolhida, des- de um sentido e de uma aplicação real, o que a classifica como “inútil”
pertando neles, a vontade genuína e o prazer em aprender Matemá- por muitos estudantes. Entretanto, constata-se que o fato dos alunos
tica. Para tal, foi utilizado diferentes metodologias ativas, tais como a não gostarem de Matemática, não está diretamente relacionado com
aprendizagem baseada em problemas (ABP), o Peer Instruction (PI), a Matemática em si, mas com a forma como ela é trabalhada em sala
entre outras. Dentre as experiências desenvolvidas, a que denotou de aula, visto que muitos educadores utilizam as mesmas metodolo-
maior interesse, envolvimento e compreensão dos acadêmicos, refe- gias que repudiavam quando eram estudantes, ou seja, aquele ensino
re-se a aprendizagem dos conceitos de trigonometria, cujo ensino foi bancário, tradicional, onde há preocupação excessiva em seguir uma
desenvolvido totalmente voltado para garantir um direito que deveria ementa sistematizada e pré-estabelecida, em que o conhecimento, se
dá através de “exercícios de fixação”.
4 Trabalho vencedor dessa edição do prêmio

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Reconhece-se ainda que isso não ocorre exclusivamente em objetivou-se não apenas fazê-los entender em sua totalidade os con-
relação a aprendizagem da Matemática, mas em diferentes áreas do ceitos previstos na grade curricular, mas principalmente, desenvolver
conhecimento, sendo também, um reflexo de diferentes mudanças a consciência da importância da Matemática para a área da Arquitetu-
tecnológicas e sociais que interfere diretamente em como a aprendi- ra; Denotar a aplicação direta da Matemática na profissão escolhida,
zagem é construída pelo indivíduo. para que a disciplina tivesse um real significado para os acadêmicos;
Nesse sentido, o grande desafio é mudar o enfoque e a tática Desenvolver nos acadêmicos a vontade genuína em aprender Mate-
comumente utilizada no ensino tradicional, tendo por objetivo não mática, bem como o verdadeiro interesse em estar presente nas aulas
apenas despertar o interesse real dos alunos, mas tornar significativo e até mesmo o prazer de aprender.
todo o processo de aprendizagem.
Ciente dessa realidade, no primeiro dia de aula na disciplina de
“Matemática para Arquitetura e Urbanismo”, ofertada até então, na DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA
primeira fase do curso de Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade
Avantis, foi iniciada a apresentação da disciplina e fomentado o de- Com o objetivo de demostrar a aplicabilidade e importância
bate sobre o “ódio natural” pela Matemática. Assim, foi solicitado que dos conceitos a serem estudados, optou-se inicialmente pela metodo-
os acadêmicos que não gostassem de Matemática, se manifestassem logia de aprendizagem baseada em problemas. Assim, todos os con-
levantando as mãos, e, constatou-se que mais da metade da turma ceitos previstos na disciplina, originavam de Modelos Matemáticos
possuíam desgosto ou até mesmo aversão pela Ciência. aplicáveis diretamente à área de Arquitetura, sendo estruturada em
Durante a discussão, foi comum a pergunta: “Aonde eu usarei a três etapas específicas: A primeira consistia na identificação da situa-
Matemática em minha profissão?”, e colocações específicas como: “Ado- ção problema, na familiarização e na contextualização com a área de
ro e sou bom em desenhar, mas sou péssimo em Matemática” e ainda “É Arquitetura. Na segunda etapa ocorria a “Matematização”, ou seja, a
possível eu ser um bom Arquiteto sem ser bom em Matemática?”. formulação do problema matemático e a obtenção da solução mate-
Foi levantado então quais os motivos que levaram os acadêmi- mática do modelo. Nessa etapa os acadêmicos analisavam as informa-
cos a não gostarem da Matemática e averiguou-se que dentre estes, os ções relevantes e identificavam os fatos envolvidos, decidindo quais
principais eram: o fato deles não compreenderem verdadeiramente o os fatores deviam ser avaliados na problemática em questão, poste-
que estudavam, a forma como era “imposto” o conteúdo e o fato dos riormente, levantavam e validavam as hipóteses e por fim, apresenta-
acadêmicos não encontrarem aplicações “práticas” para os conceitos vam quais os conceitos matemáticos aplicados na situação problema.
ensinados e findou-se o debate concluindo que o “ódio” desenvolvido A terceira e última etapa compreendia a interpretação da solu-
pela Matemática foi desenvolvido justamente na escola. ção, comparação com a realidade e validação do modelo, sendo que
Diante do diagnóstico envolvendo o ensino da Matemática para a conclusão e utilização do modelo era necessária uma checagem
surgiu a problemática de como fazê-los aprenderem e se interessa- para verificar em que nível este se aproximava da situação problema
rem verdadeiramente pela Matemática, transcendendo a aversão já apresentada. Assim, a interpretação do modelo devia ser feita por
arraigada, adquirida no decorrer de toda a vida escolar. Dessa forma, meio de análises das implicações da solução, para então, verificar se

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o mesmo estava adequado (ou não) à situação problema investigada. dependentemente de suas habilidades individuais, sendo um direito
Alguns conceitos foram abordados e problematizados de ma- constitucional (artigo 5º da C.F. - 1988), fundamental para o processo
neira cômica, onde apresentava-se fotos, imagens, reportagens es- de inclusão social, sendo sua falta, fruto não de uma incapacidade do
critas, matérias televisivas, dentre outros meios, que traziam erros indivíduo, e sim, de um meio deficiente, que limita as pessoas em di-
matemáticos que resultavam em obras tortas, pitorescas ou até mes- ferentes situações. (ALMEIDA, 2011).
mo inúteis; Posteriormente foi dado o desafio “Ver por outros ângu- A partir dessa concepção, os ambientes devem ser planejados
los”, cuja tarefa era observar erros semelhantes existentes nos locais de maneira a promover a independência e a autonomia de todos os
que frequentavam, fotografar e trazer para análise e debate em sala indivíduos, sendo a matemática (em seus diferentes ramos), a enge-
de aula, tirando os acadêmicos da passividade habitual que estavam nharia, a arquitetura, bem como outras áreas, empregadas para adap-
acostumados enquanto alunos, fazendo-os pensar sobre e analisar o tar, melhorar ou alterar o meio, para garantir tal direito. Nesse senti-
que estudavam, toda vez que saiam às ruas. do, as rampas são soluções excelentes e definitivas quando se trata
Assim, os próprios acadêmicos passaram a levantar e analisar em edificações acessíveis, tanto por cadeirantes quanto por pessoas
situações problemas, hipóteses e conceitos matemáticos aplicados às com mobilidade reduzida ou temporária. Dessa forma, as rampas de-
situações pertinentes a realidade deles, abandonando o posto de me- vem beneficiar, além de cadeirantes, pessoas com fraturas utilizando
ros “receptores” e assumindo uma postura mais ativa diante da aqui- muletas, idosos, gestantes, etc.
sição do próprio conhecimento. De acordo com Guimarães (2002, p. 3) “está comprovado que a
Ao ser abordado o estudo de triângulos vislumbrou-se a opor- acessibilidade prevista em um projeto arquitetônico representa 0,1%
tunidade de trabalhar temas transversais. Triângulos são ferramentas dos gastos a serem feitos com um projeto convencional”, entretanto,
efetivas para a Arquitetura, sendo utilizados tanto no desenho dos pro- constata-se que ainda há projetos que não contemplam o que é regula-
jetos de construções, quanto nas estruturas, por fornecerem força e es- mentado pela NBR 9050/2004, criada em 1985, revista em 2004 e que
tabilidade, visto que o mesmo é capaz de aguentar peso, devido à forma vigora atualmente. Tal norma regulamenta os parâmetros técnicos de
como a energia é distribuída ao longo dele. O estudo da Triângulos é acessibilidade no país e visa estabelecer e direcionar as referências
amplo, abrangendo diferentes conceitos que possuem aplicações dire- mínimas para a execução de projetos arquitetônicos e urbanísticos
tas na área da Arquitetura. Dessa forma, para a aprendizagem das “Rela- Balneário Camboriú, de acordo com pesquisas e publicações, é a
ções trigonométricas”, foi organizado um pequeno projeto de gincana, orla mais vertical do Brasil e a segunda cidade mais vertical do país, sen-
objetivando despertar inicialmente nos educandos reflexões referentes do que, segundo reportagem publicada pelo site “Jus Brasil”, em 2012,
à inclusão, a acessibilidade, aos preconceitos e um olhar diferenciado “ao contrário da maioria dos municípios catarinenses, Balneário Cam-
sobre as deficiências humanas, relacionando as diversas aplicações de boriú aposta na acessibilidade, humanizando o trânsito, privilegiando
conceitos matemáticos como forma de garantir alguns direitos funda- o pedestre, deficientes físicos e ciclistas”. A reportagem traz ainda que
mentais a qualquer cidadão, como a Acessibilidade. “os cadeirantes acessam facilmente as calçadas através das rampas, mas
Na Arquitetura, a Acessibilidade significa a construção de espa- têm dificuldade com os obstáculos nas calçadas, como postes, árvores,
ços que apresentem condições de fácil acesso a todas as pessoas, in- floreiras, entradas de garagem, além de desníveis e buracos”. Entretan-

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to, cidades vizinhas como Florianópolis, Brusque, Joinville são inaces- mundialmente.
síveis aos deficientes físicos quando comparadas com Balneário Cam- A prova possuía um tempo para cada equipe e era pontuada
boriú, “o que faz com a que a cidade seja referência em acessibilidade, de acordo com acertos e erros. Ao término foi passado um vídeo re-
sendo procurados por turista deficientes que encontram condições de ferente aos padrões de beleza, aos procedimentos estéticos e outro
se locomover com tranquilidade”. sobre as pessoas que possuem deficiência visual, mas que supera-
Nesse sentido, objetivo da atividade foi despertar a consciên- ram suas limitações saindo do papel de “vítima”. Após os vídeos
cia do papel que os acadêmicos possuirão enquanto futuros (excelen- foi levantado um debate breve e reflexivo sobre os estereótipos
tes) arquitetos e também seres humanos. imposto pela sociedade, o julgamento da aparência física e a aná-
lise de que os maiores nomes da História são conhecidos não por
sua aparência, mas por seus atos, trabalhos, obras e feitos, sendo
MÉTODO UTILIZADO finalizada a prova com um convite para uma autoanálise referente
ao debate e as reflexões abordadas.
A organização do trabalho foi estruturado em diferentes etapas: A segunda prova consistia no desafio de “Imagem e Ação”, as-
inicialmente, foi montado as equipes composta por oito a dez pesso- sim, eles precisavam descrever obras Arquitetônicas famosas através
as, selecionado líder, nome da equipe e disponibilizado uma lista de do recurso da mímica ou do desenho. Ao término foi discutido sobre
tarefas, que consistiam na organização de materiais a serem organi- as dificuldades de comunicação e compreensão sofridas por pessoas
zados e levados na data da gincana, como: estranhos tipos de comida, com deficiências auditivas.
bebidas (com exceção das alcoólicas), utensílios, venda para os olhos, Para a terceira prova todos os acadêmicos, com exceção dos
cabo de vassoura e quatro cadeiras de rodas por equipe. líderes das equipes, foram vendados e com o auxílio de um cabo de
A gincana ocorreu em um sábado e iniciou com um vídeo mo- vassoura, deveriam seguir um trajeto estabelecido, que compreendia
tivacional sobre os diferentes tipos de deficiência física e motora, a a saída da sala de aula, uma volta na cantina, biblioteca e a volta à sala
superação, inclusão e reflexões diante das mesmas. de aula. O objetivo era fazê-los vivenciar as dificuldades de locomo-
A primeira prova iniciou com a frase: “Se o mundo todo fosse ção e autonomia sofridas por portadores de deficiência visual, sendo
cego, quantas pessoas você impressionaria?”, de autor desconhecido. que a tarefa dos acadêmicos era elencar ações que poderiam melhorar
Um membro da equipe visualizava uma imagem e descrevia a pessoa a acessibilidade, segurança e autonomia.
relatando suas obras, seus feitos ou outra marca que essa pessoa dei- Durante a prova os líderes auxiliavam na condução dos colegas,
xou no mundo, não podendo descreve-la fisicamente. Deste modo foi orientando-os e alertando sobre possíveis obstáculos no trajeto. Em
apresentado imagens de diferentes pessoas como: Dalai Lama, Jesus alguns trechos há o piso tátil e os ao andar sobre, os acadêmicos per-
Cristo, Malala Yousafzai, Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá, ceberam a diferença existente no piso, pois alguns trechos há “boli-
Adolf Hitler, Osama Bin Laden, Frida, Oscar Niemeyer, I. M. Pei , nhas” em alto-relevo e restante do piso é constituído por faixas tam-
Lucio Costa dentre outras pessoas relacionadas à Arquitetura, ao bém em alto-relevo. Muitos acadêmicos, durante a prova, relataram
ramo musical, político, artístico ou de alguma forma marcante que nunca haviam notado e questionaram o porquê daquilo, mas no

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decorrer da experiência, eles próprios constataram que essas boli-


nhas existem em pontos específicos de parada, alerta ou bifurcações
do piso tátil. Quando todos completaram a prova, os líderes também
participaram. Finalizou-se a prova com o levantamento das dificulda-
des locomotivas e os sentimentos vivenciados durante a experiência,
onde os mesmos relataram a sensação de estarem em perigo, vulnerá-
veis, dependentes e apontaram falhas estruturais, como o fato do piso
tátil existente na entrada estar, na época, obstruído pelo balcão de in-
formações.

Figura 2: Prova 3
Fonte: Autor, 2018

Figura 1: Prova 3.
Fonte: Autor, 2018.

Figura 3: Prova 3
Fonte: Autor, 2018

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A quarta prova foi a vivência de se locomoverem com a cadeira bem como os julgamentos errôneos e os preconceitos ainda existentes.
de rodas no trajeto estabelecido que compreendia áreas comuns e a A gincana também teve por objetivo significar a aplicação dos
subida e descida de duas rampas, com graus diferentes de inclinação conceitos estudados em trigonometria e indo de encontro ao que o
– tal experiência objetivava a análise das dificuldades de acesso, dos renomado Professor Ubitaran D’Ambrosio (2001, p. 46) aponta: “a
impactos sofridos pelos diferentes tipos de piso na cadeira de rodas, Educação Matemática, não pode focalizar a mera transmissão de con-
da força física necessária para locomoção, dentre outras identifica- teúdos obsoletos, na sua maioria desinteressantes e inúteis na cons-
ções. A prova também foi finalizada com o levantamento das dificul- trução de uma nova sociedade”, devendo ser oferecido aos nossos
dades locomotivas, como a força necessária para subir as rampas e os discentes, “instrumentos comunicativos, analíticos e materiais que
sentimentos vivenciados durante a experiência. estimulem a capacidade de crítica, numa sociedade multicultural e
impregnada e tecnologia”.
Dessa forma, faz-se necessário trabalhar os conteúdos mate-
máticos de forma contextualizada, relacionando, se possível, à reali-
dade do educando, sendo que a Matemática acadêmica deve se apro-
ximar da Matemática do cotidiano. Assim, é preciso trazer o ensino da
Matemática para dentro da vida humana, desenvolvendo no discente
a análise de que a matemática que ele aplicará futuramente em sua
profissão, é a mesma praticada no ambiente educacional.

Figura 4: Prova 4 Figura 5: Prova 4 ENVOLVIMENTO DOS ATORES


Fonte: Autor, 2018 Fonte: Autor, 2018
Nas atividades desenvolvidas em sala de aula, observou-se a
participação ativa dos acadêmicos desde o questionamento dos con-
A quinta prova foi sensorial e também uma confraternização, ceitos estudados, o desenvolvimento da análise e validação dos Mo-
os acadêmicos foram vendados e precisavam descobrir quais eram os delos Matemáticos, a realização das atividades apresentadas em sala,
objetos que tocavam e o que era aquilo que cheiravam, comiam ou be- como também a propositura de novas problemáticas e abordagens,
biam, a prova tencionava destacar como alteramos a nossa percepção quando o desafio “olhar por outros ângulos” foi iniciado.
sensorial mediante a falta da visão. No tocante à vivencia, a mesma contou com a participação de
A gincana foi encerrada com um vídeo motivacional e uma refle- aproximadamente, noventa por cento dos acadêmicos matriculados
xão sobre o papel dos acadêmicos enquanto futuro profissionais frente na primeira fase do curso, sendo que estes participaram de forma efe-
à realidade das pessoas portadoras dos diferentes tipos de deficiência, tiva, desde a organização de materiais solicitados: como cabo de vas-
de mobilidade reduzida (como idosos) ou temporária (como gestantes), soura, vendas, cadeiras de rodas e utensílios e na realização de todas

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as provas e vivências. no primeiro dia de aula.


Os líderes da equipe, auxiliariam também na organização e no Torna-se complexo o comparativo do “antes e depois” das me-
cuidado dos colegas durante as provas. todologias aplicadas, uma vez que o processo se deu desde o início do
semestre e perdurou até o último dia de aula. Entretanto foi possível
constatar desde o início, um grande envolvimento e o interesse real
por parte dos acadêmicos em realizar as atividades propostas.
Referente à vivência propiciada, os acadêmicos deram um feedba-
ck extremamente positivo, sendo que muitos desde o início da gincana,
demonstraram grande aprazimento pela forma como estava sendo de-
senvolvida as provas e a relação das mesmas com a área de Arquitetura.
Ao término da experiência foi feito um debate sobre o papel dos
Arquitetos no que tange a acessibilidade, a autonomia e a liberdade
dos indivíduos e foi mais uma vez discutido pontos elencados pelos
acadêmicos no decorrer das provas, como as dificuldades locomoti-
vas, a força física necessária para a locomoção com as cadeiras de ro-
das, o fato de muitos nunca terem reparado na diferenciação do piso
tátil, além dos sentimentos vivenciados, como a sensação de perigo,
vulnerabilidade, dependência e de como a Matemática, aliada a ou-
tras áreas, é utilizada e importante nesse contexto.
Muitos acadêmicos denotaram também a aprovação da vivên-
cia por publicações nas redes sociais, via Instagram e Facebook, sendo
Figura 6: Encerramento que alguns enviaram ainda mensagens particulares de agradecimento
Fonte: Autor, 2018 via WhatsApp.
A sequência do desenvolvimento do estudo de trigonometria
permaneceu com a metodologia da problematização e do envolvi-
mento constante dos acadêmicos, como a análise dos registros feitos
pelos próprios alunos referente às construções de rampas com grau
PRINCIPAIS RESULTADOS de inclinação errado, obstruções ou obstáculos existentes nos locais
que frequentavam.
As aulas foram todas desenvolvidas objetivando sanar as difi- Foi possível constatar de fato um maior interesse, motivação e
culdades, reclamações e observações como: “Aonde eu usarei a Mate- envolvimento efetivo dos acadêmicos em todo o processo de apren-
mática em minha profissão?”, apontadas pelos próprios acadêmicos dizagem e que consequentemente refletiu nas avaliações e notas fi-

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nais dos discentes. É possível comprovar que dos trinta e nove alunos danças tecnológicas, de geração e da própria sociedade e que interfere
matriculados, houve a reprovação de apenas cinco, sendo que destes, diretamente em como a aprendizagem é estruturada cognitivamente.
três desistiram do Curso ao longo do semestre e um faltou ao exame. Nesse sentido, observa-se que embora a sociedade e a forma
Referente à relevância da vivência, destaca-se a contextualiza- como se aprende tenha sofrido mudanças nas últimas décadas, a forma
ção da aplicação dos conceitos matemáticos estudados e que objeti- como se ensina, não acompanhou todas as transformações ocorridas,
varam dar sentido aquilo que era aprendido pelos acadêmicos, indo uma vez que muitos educadores ainda utilizam as mesmas metodo-
de encontro às reclamações e dificuldades de compreensão e da uti- logias que repudiavam quando eram estudantes. Nessa perspectiva,
lidade da Matemática - apontadas pelos acadêmicos no primeiro dia o professor deve estar em contínua análise e constante reflexão sobre
de aula - além da própria conscientização da importância do papel do suas práticas educativas, partindo da premissa de que não apenas as
arquiteto no que tange a garantia de direitos fundamentais, a acessi- tecnologias, a economia, a sociedade e os tempos são outros, mas que
bilidade e até a própria inclusão. a forma como os educandos concebem a educação e a forma como se
aprende também mudou, sendo que os objetivos transcendem o “ensi-
nar”, e onde o professor deixa de ser a figura principal no processo edu-
PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E cativo, para se tornar um mediador, sendo que este, deverá investir em
APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS si próprio, buscando capacitação constante, devendo estar atualizado e
preparado para acompanhar as futuras gerações de educandos.
Embora ninguém seja indiferente à Matemática, denota-se que A perspectiva referente à docência e aprendizagem para os pró-
a Educação Matemática é concebida, muitas vezes, como um instru- ximos 20 anos é complexa, todavia, na contemporaneidade muito se
mento seletivo, “uma forma privilegiada de conhecimento, acessível avalia sobre as metodologias ativas, as TICs, o ensino hibrido, dentre
apenas a alguns especialmente dotados, e cujo ensino deve ser estru- outras questões referentes a forma como se concebe, se organiza e se
turado levando em conta que apenas certas mentes, de alguma ma- estabelece a Educação atual, sendo que tais discussões fomentam in-
neira “especiais” podem assimilar e apreciar a Matemática em sua ple- dícios de como a educação será estruturada futuramente. Observa-se
nitude”, (D’ AMBROSIO, 2001, p. 09). Observa-se que a difusão dessa que as atuais discussões partem do pressuposto que os educandos
concepção ainda é deveras presente, ao ponto da Matemática, ser devem ser protagonistas de sua própria aprendizagem, abandonando
muitas vezes responsável não apenas por fracassos como até mesmo, assim, o papel de passividade, no qual ele era submisso, apenas rece-
pela desistência escolar. (D’ AMBROSIO, 2001) bendo informações e ordens, para assumir uma postura mais respon-
Entretanto, como já citado anteriormente, nota-se que o fato sável e ativa perante a construção do próprio conhecimento.
dos alunos não gostarem de Matemática, não está diretamente rela- Nesse contexto, sabe-se que a maneira como o ensino é estru-
cionado com a Matemática em si, mas com a forma como ela é tra- turado influencia diretamente nos resultados obtidos, haja vista que
balhada em sala de aula. Constatando-se ainda que isso não ocorre esta pode ser eficiente e prazerosa ou contribuir para as dificuldades
unicamente em relação a aprendizagem da Matemática, mas em di- de aprendizagem e no desinteresse dos educandos. Assim, presumin-
ferentes áreas do conhecimento, sendo também, um reflexo de mu- do que o educador busque contínuo aprimoramento, este, deverá

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

almejar constantemente novas formas de ensinar e que venham de D’AMBROSIO, U. Educação matemática: da teoria à prática. Campi-
encontro às necessidades e a realidade das novas gerações. Assim, de- nas: Papirus, 2001. (Coleção Perspectivas em Educação Matemática).
verá se priorizar metodologias que acompanhem e desenvolvam obje-
GUIMARÃES, M. P. A eliminação de barreiras possibilita aos porta-
tivos que transcendam a simples aquisição de conhecimento, mas que
dores de deficiência agirem na sociedade. São Paulo: CVI-BH, 2002.
fomentem cada vez mais a proatividade, a criatividade, a análise, a
capacidade de enfrentar desafios, de argumentar, de tomar decisões,
bem como o espirito crítico e a autonomia nos estudantes.

REFERÊNCIAS

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“cadeirantes” no espaço de ensino público: Unesp, Campus de Pre-
sidente Prudente - SP. Topos, v. 5, n. 2, p. 21-46, 2011.

Balneário Camboriú aposta na acessibilidade. 2012. Disponível em:


https://al-sc.jusbrasil.com.br/noticias/3160132/balneario-camboriu-
-aposta-na-acessibilidade. Acesso dia 15 de Agosto de 2018.

Balneário Camboriú é a 2ª cidade mais vertical do Brasil. 2012. Dis-


ponível em:https://infodocorretor.wordpress.com/2012/02/26/bal-
neario-camboriu-e-a-2a-cidade-mais-vertical-do-brasil/ Acesso dia
15 de Agosto de 2018.

BERBEL, N. A. N. As metodologias ativas e a promoção da autono-


mia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v.
32, n. 1, p. 25-40, jan./jun. 2011.

BIEMBENGUT, M. S, HEIN, N.; Modelagem Matemática no Ensino;


3a ed – São Paulo: Contexto, 2003.

BIEMBENGUT, M. S., Modelação Matemática como Método de


Ensino Aprendizagem de Matemática em cursos de 1o e 2o graus.
UNESP, Rio Claro - SP, 1990. (Dissertação de mestrado).

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

perspectiva na educação: sai o ensino tradicional, entra o processo


USO DE UM APLICATIVO DE que enfatiza o ensino-aprendizagem. Enquanto até pouco tempo o
professor detinha todo o conhecimento em sala de aula, a escola de
GAMIFICAÇÃO NA DISCIPLINA hoje tem mostrado que o aluno também pode ter um papel de pro-
DE COMUNICAÇÃO E tagonista e contribuir, significativamente, na sua formação. Os estu-
dantes que ingressam em uma Instituição de Ensino Superior (IES),
ENDOMARKETING: UMA em grande parte, já possuem amplo domínio das tecnologias. São au-
POSSIBILIDADE DIVERTIDA DE todidatas e buscam informações por meio digital a qualquer hora, em
APRENDIZAGEM qualquer lugar, sem esperar que outra pessoa o responda.
Os alunos que nasceram na era 2000, quando a Internet rei-
nava e o smartphone começou a ganhar força. De outro lado, os que
Gabriela Piske decidem entrar na graduação com um pouco mais de idade costumam
também ter um mínimo de acesso ao que envolve a web. Este contexto
revela que o docente em sala precisa se reinventar, usar as tecnolo-
As metodologias pedagógicas da atualidade têm exigido mu- gias a favor dos seus métodos pedagógicos; chamar a atenção de seus
danças significativas por parte do professor em sala de aula, bem como alunos com recursos que já fazem parte do dia a dia fora da IES. Afi-
do papel do aluno nesse processo de ensino-aprendizagem. Tudo se nal, será que usar apresentação em slides e leituras continuam sendo
dá em virtude de um cenário de estudantes cada vez mais conectados metodologias eficazes? Explorar recursos tecnológicos não pode ser
e à frente de seu tempo, com interesses mais dinâmicos e autodidatas. alternativa diferenciada para atrair os estudantes para a proximida-
Neste sentido, um dos recursos que mais se discute é sobre o uso de de do conhecimento? Diante do exposto, esta iniciativa teve como
gamificação durante as aulas. Para experimentar essa estratégia, obje- seguinte objetivo: analisar os benefícios do uso de um aplicativo de
tivou-se analisar o uso de um aplicativo de jogos educativos, chamado gamificação para o ensino-aprendizagem de estudantes da discipli-
Kahoot, nas aulas de Comunicação e Endomarketing do curso de Ci- na de Comunicação e Endomarketing, calouros do curso de Ciências
ências Contábeis. Os resultados mostraram que mais 90% dos alunos Contábeis da Faculdade Avantis. Também objetivou contribuir coma
aderiram ao método de estudo e consideraram uma estratégica ino- revisão dos conteúdos trabalhados em sala de aula e identificar uma
vadora de ensino. Além disso, as notas nas avaliações tiveram ampla potencialidade diferenciada de estudos.
melhor após o uso do Kahoot como um auxílio de estudo.

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA


DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS
A exploração do aplicativo de gamificação ocorreu durante o
A realidade atual do ensino superior no Brasil revela uma nova primeiro semestre de 2018. A turma era composta por mais de 50 alu-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

nos, com idades, principalmente, entre 17 e 30 anos. Alunos jovens, recursos próximos ao entretenimento, ao cotidiano de estudantes acos-
dinâmicos, comunicativos e conectados. A estratégia voltada à tec- tumados a competir, a duelar, a passar horas diante de um vídeo game.
nologia realizou-se justamente em um período em que a Faculdade Figueiredo; Paz; Junqueira (2015, p. 1154 e 155) explicam que “os
Avantis incentivava os docentes de graduação para o uso de metodo- processos de apropriação de elementos da mecânica, estética e dinâ-
logias mais ativas de aprendizagem, uma vez que a IES identificava mica de jogos eletrônicos em atividades e objetos têm constituído um
a mudança no perfil dos estudantes – consequentemente dos pro- campo de práticas e pesquisas em torno do que vem sendo chamado
fessores –, bem como do cenário educacional do país, e até mesmo de gamificação. A gamificação não envolve necessariamente ativida-
internacional. Diante de toda a percepção de evolução e de estudos des com jogos eletrônicos, mas a aplicação da lógica dos games em
quanto a essa nova educação, optou-se por experimentar o Kahoot, diferentes contextos, como o contexto escolar.” Quando se discutem
uma plataforma educacional baseada em tecnologia, a partir de jogos sobre metodologias ativas de aprendizagem, a proposta é justamente
que testam os conhecimentos dos alunos. tornar a sala de aula um lugar mais dinâmico; quando as mesas dei-
O aplicativo oferece espaço tanto para professor, quanto para xam de ser enfileiras e passam a ganhar espaços diferentes; quando
aluno. É o professor que desenvolve o quiz de perguntas e respostas, o professor deixa de estar à frente dos alunos, para estar entre eles;
conforme o conteúdo que deseja explorar. Para participar, os alunos quando o quadro negro/branco deixa de ser o recurso principal, para
ganham um código de acesso e podem jogar todos ao mesmo tempo, dar lugar ao celular, ao tablet, ao notebook, aos livros. Ao optar por
competindo entre si, ou responder a qualquer momento, indepen- ensinar sobre Comunicação e Endomarketing, o objetivo passou a
dentemente de ter outro aluno como adversário. O Kahoot disponibi- cada aula trazer metodologias mais ativas, entendendo a necessida-
liza até quatro opções de respostas; as regras para subir no pódio en- de de tornar os encontros com os alunos mais próximos da realidade
volvem responder corretamente às perguntas, bem como responder em que estavam inseridos. As metodologias mais ativas são aquelas
em tempo mais rápido. Os efeitos áudios-visuais contribuem com o que “dão ênfase ao papel protagonista do aluno, ao seu envolvimento
interesse dos alunos, pois o design é chamativo, com cores vibrantes, direto, participativo e reflexivo em todas as etapas do processo, ex-
e o som que toca enquanto precisam responder às questões é similar perimentando, desenhando, criando, com orientação do professor”
às músicas de vídeo game. Recursos que fazem uso da gamificação. (MORAN, 2018, p. 4).
Desta forma, uma das estratégias mais utilizadas foram as revi-
sões de aula com o aplicativo Kahoot, explorando a gamificação. Des-
MÉTODO UTILIZADO de o início do semestre, em diversas aulas, ao finalizar os conteúdos
discutidos em cada noite, os alunos eram convidados a responder a
A gamificação tem sido uma das estratégias de ensino-aprendi- um quiz. A finalidade era testar os conhecimentos adquiridos e, da
zagem mais incentivadas na atualidade. Trata-se de uma contribuição mesma forma, reforçar os conceitos colocados em discussão. Uma re-
para inverter papeis de aluno e professor, colocando o aluno mais ao visão que também se tornava uma maneira de divertimento para en-
centro da aquisição do conhecimento. O uso de jogos digitais torna o cerrar a aula. Como prêmios, um chocolate, um pirulito e até mesmo
estudante mais participativo, mais autônomo. Além disso, faz uso de um meio ponto a mais na avaliação das Médias 1 e 2.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

ENVOLVIMENTO DOS ATORES cilidade de uso do Kahoot como estratégia de aprendizagem: “forma
de aprendizagem boa e mais fácil”; “muito dinâmico, divertido e útil,
A aceitação dos alunos quanto ao uso do Kahoot foi totalmen- além de ser fácil de aprender”; “uso do Kahoot nas aulas de Comuni-
te positiva desde a primeira tentativa. Todos participavam com en- cação e Endomarketing foi muito importante, pois pode proporcionar
tusiasmo, entrega; inclusive pedindo que o aplicativo fosse utilizado um aprendizado mais lúdico e dinâmico para os alunos”. Outros es-
mais vezes. Por aderirem ao recurso, também foi um pedido deles que tudantes evidenciaram a diferença que o aplicativo fez para que rea-
um quiz exclusivo para a prova da M2 fosse elaborado, para que pu- lizassem a avaliação da M2: “aplicativo super interessante e para mim
desse ser uma forma extra de estudos. facilitou muito na hora de estudar para provas e para fixação”; “achei
bem diferenciado o método de ensino, o que incentivou os alunos a
estudarem o assunto através do aplicativo e auxiliou todos a obterem
PRINCIPAIS RESULTADOS boas notas nas avaliações”; “auxilia totalmente na aprendizagem e
interpretação, facilitando para as provas!”. As notas da avaliação da
A aderência dos estudantes à ferramenta metodológica contri- M2, após estudarem também por meio do Kahoot, comprovaram as
buiu também para resultados positivos, uma vez que os próprios alu- respostas dos alunos ao questionário e a eficácia do aplicativo como
nos solicitaram mais uso, adequando-o para as avaliações. Além dis- um recurso pedagógico. Mais de 80% da turma conseguiu tirar notas
so, de acordo com um questionário aplicado aos alunos, por meio do consideradas boas e ótimas, sendo que mais da metade da turma teve
Google Forms, ao término do semestre, para obter um feedback sobre o um acerto de acima de 75% das questões. Em comparação a avaliação
aplicativo Kahoot, os dados comprovaram essa aceitação. Quando per- da M1, quando não tiveram o auxílio do Kahoot, notou-se uma melho-
guntados se conseguiram utilizar a ferramenta com facilidade, 92,9% ra significativa nas notas dos estudantes.
responderam que sim. Essa mesma porcentagem identificou que, na
opinião deles, a professora soube fazer uso desse aplicativo para fins
de aprendizagem. As respostas também identificaram que, para 92,9%, PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E
o Kahoot contribuiu para que compreendessem melhor os conteúdos APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS
trabalhados em sala de aula. Sobre a avaliação da M2, os quais conta-
ram com um quiz específico anteriormente, para que auxiliasse nos es- O retorno positivo do Kahoot nas aulas de Comunicação e En-
tudos, 92,9% dos alunos responderam que conseguiram fazer a prova domarketin revelam o que as teorias e pesquisas já ressaltam: a escola
com mais facilidade após estudarem também pelo Kahoot. precisa se reinventar. E ao falarmos em “escola”, ressaltamos tudo o
As experiências dos estudantes com esse aplicativo também que envolve a educação. Do ensino infantil a pós-graduação; da for-
podem ser percebidas pelas respostas discursivas do questionário: mação básica à formação profissional. Uma mudança de cultura que
“pra mim foi maravilhoso, pois é uma forma divertida de testar a me- deve partir do professor, ao assumir que suas estratégias muitas vezes
mória”; esse mesmo aluno complementou, dizendo que “todos os podem estar ultrapassadas; que é preciso se aproximar dos alunos por
professores deveriam usar o Kahoot”. Alguns alunos ressaltaram a fa- meio dos recursos que eles dominam, que eles têm interesses. Confor-

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

me Daros (2018, p. 3) evidencia em sua pesquisa, os próprios alunos


do ensino básico e superior reconhecem que “os modos de ensinar e
aprender, o ensino essencialmente transmissivo, centrado unicamen-
SENTIDO BIOLÓGICO5
te no conhecimento do professor, é motivo para muitas insatisfações”.
O autor ainda comenta que os recursos continuam sendo o giz, o ca- Marcelo Jorge Werner
derno e a caneta, e que quando se trata de mudança, muitos fazem uso
apenas de recursos audiovisuais como filme e apresentações gráficas.
“Já os alunos continuam a receber o conteúdo passivamente e cada O título do projeto, “Sentido Biológico”, é uma referência à frase
vez mais esperam tudo produzido pelos professores” (p. 3). Frases que proferida por Theodosius Dobzhansky em 1973: “Nada na Biologia faz
nos colocam à reflexão. Qual é a sala de aula que queremos? Quais são sentido, exceto à luz da evolução”. Resumo: a dificuldade de compre-
os alunos que queremos formar? Aqueles passivos, que agem confor- ensão da evolução biológica é flagrante na sociedade brasileira e muito
me o que o professor pede? Ou aqueles que buscam o conhecimen- preocupante nos cursos das ciências da saúde. Para tentar superar esse
to através de um jogo educativo? Que se desafiam a aprender mais, paradigma, foram propostas a ampliação da discussão sobre o tema,
quando se desafiam a ganhar um quiz com o conteúdo da disciplina? dando ênfase às iniciativas do aluno, através de pesquisa científica, sala
As tecnologias são o presente e serão o futuro. Seria impossível que a de aula invertida, seminário e gamificação. Para alcançar essa supera-
educação também não fosse afetada por elas. A diferença é que essa ção, os alunos de uma turma (n=41) de um curso da área da saúde da
influência deve ser aproveitada de maneira benéfica. Quando bem ex- Faculdade Avantis participaram de um projeto que promoveu a pesqui-
ploradas, podem trazer resultados extraordinários. Como exemplo, o sa científica e a divulgação dos achados em seminário na sala de aula.
que revelam os próprios alunos que se entregaram aos estudos com Além disso, um jogo adaptado da Universidade da Califórnia em Berke-
uma brincadeira, que tem um cunho pedagógico. A gamificação ga- ley permitiu o contato e a compreensão do principal motor da evolução,
nhando espaço na educação. A tecnologia guiando as perspectivas do a seleção natural. O envolvimento dos alunos foi integral desde o início
amanhã dos nossos alunos e da nossa vida como docente. do projeto, mas o engajamento foi gradual e sempre crescente. Após os
procedimentos, percebeu-se maior engajamento dos alunos em geral,
medido pela adesão à questão discursiva da prova 2 (39, contra 33 da
prova 1), além da adequação da compreensão do assunto por um núme-
ro maior de alunos (27, contra 9 antes da intervenção).

DIAGNÓSTICO E OBJETIVOS

A evolução biológica permeia toda a compreensão das ciências

5 Trabalho classificado em 3º lugar

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

da saúde e o domínio do seu conhecimento é essencial para qualquer DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA INOVADORA
inovação que envolva aspectos biológicos, em qualquer área do co-
nhecimento científico. Além disso, os conceitos apresentados por Historicamente, o Brasil não tem tradição científica. Nunca foi
Darwin e Wallace no século XIX, e atualizados desde então por todos agraciado com um Prêmio Nobel e, apesar de apresentar grande nú-
os cientistas, são cobrados frequentemente em concursos e exames mero de publicações científicas, sendo o 14º país no ranking de arti-
de avaliação de cursos, como o Enem e o Enade. Contudo, a trans- gos publicados, a qualidade parece ser ruim, já que o Brasil ocupa a
posição didática da evolução depara-se com importantes paradigmas 163º posição no ranking de citações por artigo [pesquisa mais recente,
difundidos na sociedade brasileira, como a inadequada formação de relativa ao ano de 2017], que é comumente utilizado como um índice
professores do ensino básico, além de vieses introduzidos pelo ensi- confiável de qualidade (SCIMAGO, 2018). Os ensinos fundamental e
no do criacionismo como se fosse ciência, advindo da disciplina de médio no Brasil, quando comparados a outros países, também deixam
religião nas escolas públicas (obrigatório por lei) e nas confessionais. a desejar quando o assunto é ciência.
O resultado desse paradigma causou grande preocupação Um programa (PISA – Program for International Student Asses-
quando foi identificado e quantificado em uma aula de ciências para sment) conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvi-
um curso da área da saúde, no primeiro semestre de 2018. Após ter mento Econômico (OCDE) compara o conhecimento em leitura, ciên-
sido motivo de discussão entre alunos, foi promovida uma pesquisa cias e matemática entre alunos de 15 anos em 70 países. O resultado
que revelou a negação total ou parcial da teoria da evolução por mais mais recente, divulgado em 2016, colocou o Brasil, novamente, entre
de 78% dos 41 alunos participantes. Ainda mais grave foi o fato de os piores países em matemática (66º lugar) e ciências (63º lugar). Entre
24 alunos (58,6%) sequer considerarem a evolução uma possibilidade tantos fatores que concorrem para esse quadro, está um paradigma que
científica, relegando exclusivamente ao criacionismo uma série in- tem se cristalizado na sociedade brasileira – a dificuldade de compre-
contável de relações entre organismos, patologias, tratamentos e pre- ensão adequada da evolução biológica –, e que pode trazer impactos
venção. Apenas 9 alunos compreenderam que as premissas da evo- ainda mais preocupantes em nossa instituição, uma vez que temos nos
lução deveriam ser consideradas nos estudos científicos, ainda que, dedicado fortemente às ciências da saúde (e.g. cursos de Enfermagem,
em muitos casos, o criacionismo poderia ser discutido em ambiente Fisioterapia, Nutrição, Odontologia, Medicina Veterinária).
diverso da academia (e.g. escolas dominicais). Como já foi ressaltado, a evolução biológica é essencial para a
Considerando todos esses fatores, em especial o diagnóstico de compreensão adequada dos aspectos biológicos do conhecimento cien-
conhecimento prévio da turma, pretendeu-se ampliar a discussão do tífico e acadêmico, em todos os níveis. Além disso, é importante lem-
tema para permitir uma transposição adequada da teoria da evolução brar que esses conceitos não são adequadamente compreendidos pelos
e a compreensão profunda e prática do seu principal mecanismo, que é alunos, devido aos fatores também já discutidos. Sendo assim, o projeto
a seleção natural. Adicionalmente, o incremento da capacidade de con- apresentado pretende viabilizar ampla discussão sobre um tema polê-
dução dos preceitos científicos, em qualquer área, também foi objetivo mico, mas essencial à transposição dos saberes científicos, principal-
do projeto, incentivando a busca por evidências e, principalmente, re- mente para as questões que envolvam relações biológicas. Destaca-se,
futações, independentemente do ponto de vista e convicção do aluno. ainda, que a academia é o espaço privilegiado para a aprendizagem e o

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

mais adequado para discussões honestas e livres de preconceitos, que lução, enquanto o GC buscou evidências que a negassem.
podem transformar a sociedade através da elevação do patamar cien- Ambos os grupos ofereceram explicações dos seus achados em
tífico e tecnológico, tão necessária ao país. Além das discussões – por slides, que foram apresentados em sala de aula (1 hora para cada grupo),
vezes acalorada –, houve a proposta de uma atividade dinâmica, em sob o questionamento dos integrantes do grupo oposto (cada integran-
forma de jogo, (adaptado para nosso ambiente) de experiência utilizada te deveria propor uma questão, caso contrário, seria questionado pelo
regularmente na Universidade da Califórnia, em Berkeley. professor, o que ocorreu em apenas 2 casos). Após as apresentações dos
Essa atividade permitiu a demonstração do motor mais impor- pontos de vista concordantes com as convicções prévias dos alunos, foi
tante da evolução: a seleção natural. Por fim, a alternância da necessi- proposta a inversão dos trabalhos. Dessa vez, os alunos que aceitavam a
dade de se encontrar evidências e refutações para cada ponto de vista, evolução foram convidados a buscar por provas que a refutem, enquan-
ampliou a competência científica, independentemente das convic- to o GC deveria identificar fatos que comprovassem sua veracidade.
ções pessoais do aluno. Para isso, foram disponibilizadas 2 horas em sala de aula e biblioteca,
sempre com a orientação do professor, uma vez que alguns alunos acre-
ditavam ser impossível realizar a tarefa, dada sua convicção prévia. No
MÉTODO UTILIZADO encontro seguinte, uma semana depois, mais duas horas foram dedica-
das à apresentação, seguindo a recomendação de questionamento pe-
O método mesclou ambientes diversos da sala de aula, como los membros do grupo oposto. O tempo foi insuficiente, principalmente
a biblioteca e ambientes virtuais. Além disso, promoveu uma apren- devido às perguntas (no total, foram utilizadas 3 horas).
dizagem baseada em problemas, que foram posteriormente apresen- Após a segunda apresentação dos grupos, foi proposto um
tados e questionados em seminário. Também se utilizou a técnica de jogo, adaptado da aula de evolução da Universidade da Califórnia, em
sala de aula invertida, ao estimular a pesquisa dos alunos, incluindo Berkeley, no qual um campo é coberto por grãos de 4 cores diversas
seus conhecimentos prévios, sem a intervenção do professor. (sendo uma delas igual à superfície do tabuleiro) e cada aluno deve
Uma ferramenta importante para o envolvimento dos alunos retirar um grão, até que apenas 10% deles tenha restado (Predador de
foi a gamificação, que estimulou a competição, ampliando o aprendi- Grãos, tradução minha, em Berkeley; Predador e Presa, na Avantis).
zado adjacente à disputa. Em todas as fases, o pensamento e a pesqui- O resultado provável é que os grãos que têm a mesma cor da superfí-
sa científica foram a base para a consecução dos trabalhos. De forma cie sejam menos retirados e, portanto, sobrem mais na configuração
geral, procedeu-se à divisão da turma em dois grupos: os que aceita- final. Essa nova “população de grãos”, com nenhum ou poucos repre-
vam a evolução (GE, n=17) e os que a rejeitavam por completo (GC, sentantes de outras cores, é uma aproximação adequada do processo
n=24). A cada grupo foram oportunizadas horas de trabalho à distân- de seleção natural.
cia (7 h), além de 8 horas de trabalho em sala de aula. Durante o tra- Devido à dificuldade de reprodução completa do experimen-
balho à distância, os grupos realizaram pesquisas e confeccionaram to, adaptou-se essa dinâmica, transformando o jogo em um produto
as apresentações em slides. Inicialmente, utilizando parte do tempo extremamente portátil e reprodutível. Foram disponibilizados 60 pe-
disponibilizada à distância, o GE reuniu provas que sustentam a evo- daços de cartolina de três cores distintas (amarelo, azul e rosa), mas

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

tamanhos e formas iguais, que ficaram dispostos sobre uma folha de davam com a convicção prévia de cada grupo. Nessa fase, a participação
cartolina amarela. Então, dez alunos foram convidados a competir en- foi adequada aos objetivos, mas sem diferença para outras apresenta-
tre si. Cada um deveria sair de um local distante 5 metros do tabuleiro, ções de seminário, pesquisa científica ou sala de aula invertida.
localizado atrás de uma cadeira, e retirar um pedaço de cartolina por Na segunda fase, porém, houve intensa discussão, principal-
vez, enquanto o tempo era computado. No total, cada aluno poderia mente devido ao fato de que os alunos de cada grupo deveriam apre-
utilizar 30 segundos. Além disso, os 10 alunos foram divididos em sentar razões que iam de encontro com suas convicções iniciais. Logo
dois grupos: o que poderia utilizar o polegar para pegar o pedaço de no início da segunda fase, houve questionamento sobre a pertinência
cartolina e o grupo de não poderia. Os resultados do jogo do “Preda- da metodologia, que também foi rapidamente superada pela explica-
dor e Presa” foram condizentes com a teoria. ção (que, aliás, já havia sido dada nas aulas tradicionais) de que o pes-
Os pedaços de cartolina de cor amarela, igual ao tabuleiro, so- quisador não deve sucumbir aos seus pontos de vista quando trabalha
braram em maior quantidade, evidenciando o processo de seleção com o método científico.
natural e permitindo uma transposição mais adequada desse conhe- Dessa forma, o envolvimento na segunda fase foi muito mais
cimento. Mais do que isso, na adaptação para nossa sala de aula, foi intenso e produtivo. Por fim, o jogo proposto motivou ainda mais as
possível também avaliar a capacidade de preservação do “predador” discussões e serviu como argumento complementar aos que defen-
(o que não é possível na atividade proposta em Berkeley); notou-se diam a adequação da teoria da evolução, especificamente sobre a sele-
que os alunos que puderam utilizar o polegar conseguiram um nú- ção natural. Mais alunos pretendiam participar do jogo, mas a impor-
mero maior de pedaços de cartolina (média=8,5), em relação àqueles tância da surpresa do resultado para a transposição didática e o tempo
que não puderam utilizá-lo (média=4,6). Esse fato evidenciou um de dedicação que seria necessário não permitiram outras rodadas.
importante aspecto da evolução dos primatas, em especial a dos ho-
minídeos, que é a oposição do polegar. Todos os recursos são ou de
uso corrente da instituição (e.g. projetores), ou de fácil reutilização/ PRINCIPAIS RESULTADOS
reciclagem (e.g. cartolinas).
O projeto teve a adesão de todos os alunos desde o início, mas o
engajamento foi crescente. Esse envolvimento promoveu a mudança
ENVOLVIMENTO DOS ATORES de compreensão de 18 alunos, que não consideravam a evolução uma
teoria científica aplicável no início do projeto. Além disso, a segun-
Inicialmente, alguns alunos consideraram que havia inadequa- da prova teve como tema da questão discursiva específica a evolução;
ção na discussão de tema tão polêmico em sala de aula. Contudo, logo apenas 2 alunos deixaram a questão em branco, contra 8 que haviam
ficou evidente que não há outro espaço mais privilegiado para assuntos feito isso na primeira prova, antes da intervenção. Por fim, o número
assim, desde que trabalhados de forma isenta e sem preconceitos ou de alunos que passaram a considerar a evolução como a teoria cien-
dogmatismo. Sendo assim, todos aceitaram participar do projeto. A pri- tífica adequada passou de 9 para 27, sendo que apenas 14 ainda insis-
meira fase consistiu na pesquisa e apresentação dos pontos que concor- tem no criacionismo, ainda que concorrente com a evolução (contra

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um número anterior de 32).

PERSPECTIVAS E REFLEXÕES SOBRE A DOCÊNCIA E O ENSINO E


APRENDIZAGEM NOS PRÓXIMOS 20 ANOS

As alterações que vêm sendo promovidas na educação decor-


rentes das mudanças tecnológicas, sociais e culturais demandam
adaptação permanente do docente. Porém, independentemente das
mudanças observadas, o respeito às técnicas e resultados da ciência
deverá ser preservado, sem possibilidade de relativização.

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INOVAÇÃO EM PRÁTICAS DE ENSINO-APRENDIZAGEM NO ENSINO SUPERIOR

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