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Arrigo Barnabé, Sabor de Veneno, Itamar Assumpção e a banda Isca de Polícia, Luiz Tatit,

Grupo RUMO, Suzana Salles, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Ná Ozetti,
Premeditando o Breque e Língua de Trapo.

Arrigo Barnabé

CITAR: ARRIGO Barnabé. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São
Paulo: Itaú Cultural, 2019.

Londrina, 14 de setembro de 1951.

Filho de pai escrivão e mãe dona de casa, ou seja, uma família de classe média. Ainda jovem,
estuda música no conservatório Carlos Gomes em Londrina. Muda-se para São Paulo em 1970
para cursar Arquitetura e Urbanismo na USP. Abandona o curso para ingressar na faculdade de
Música em 1974, mas acaba abandonando-o em 1978, pois sentia que o curso o desestimulava
a tocar e compor. No mesmo ano, vence, em meio a vaias, o Festival de Música da TV Cultura
com a música Diversões Eletrônicas, que viria a ser lançada no ano seguinte no álbum Clara
Crocodilo, uma produção independente concluída na metade de novembro e lançada apenas no
final de dezembro, após passar pelo crivo da censura. Em 1984, seu disco Tubarões Voadores é
eleito pela revista francesa Jazz Hot como um dos mais importantes discos do ano. Escreveu
trilhas para peças e filmes, inclusive ganhando o prêmio do festival de Gramado em 1987 com a
trilha de Janete, filme de Chico Botelho.

“A mistura de elementos da música popular com procedimentos composicionais provenientes


da música erudita modernista, aliados a letras ferinas sobre a vida nas metrópoles”
(DISSERTAÇÃO DE MESTRADO).

“A tropicália é um negócio que mexe muito com a paródia, não é um movimento propriamente
musical. A loucura é a letra, toda fragmentada. (...) A gente achava, então, que o passo seguinte
era mudar a própria música. (...) Depois do tropicalismo, só a música atonal tinha futuro.”
(Arantes, p. 17, 1981).

“No Clara Crocodilo eu tava vivendo um momento em que me sentia altamente impotente. Eu
comecei a tomar consciência do que estava acontecendo politicamente neste país, que a gente
vivia numa ditadura, que de repente os caras odiam me prender, me torturar. Porra, eu pensava:
a gente não vai fazer nada? Vou me formar arquiteto e não vou fazer nada para mudar isso? Vai
ficar tudo assim?” (Depoimento do compositor a Arantes, p. 9, 1981).

 Discografia:
 (2014) De nada mais a algo além • Atração Fonográfica • CD
 (2009) Orquestra à Base De Sopro De Curitiba & Arrigo Barnabé • Disc Press • DVD
 (2006) Missa in memoriam-Itamar Assumpção • Thanx God Records/Tratore • CD
 (1999) A saga de Clara Crocodilo • Tranx God Records • CD
 (1998) Gigante Negão • Núcleo Contemporâneo • CD
 (1997) Ed Mort • Rob Digital • CD
 (1992) Façanhas • Camerati • CD
 (1987) Suspeito • 3M • LP
 (1986) Cidade Oculta • Barclay • LP
 (1984) Tubarões voadores • Ariola
 (1980) Clara Crocodilo. Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno • Independente

Itamar Assumpção

Nascido em Tietê, no estado de São Paulo, em 1949, muda-se com 12 anos para a cidade de
Arapongas, no Paraná, com os pais. O pai de Itamar é pai de santo, e quando criança ele toca
atabaque nas reuniões religiosas. Chegou a cursar contabilidade, não tendo finalizado o curso.
Enquanto morava no paraná conheceu o músico e amigo Arrigo Barnabé, e em 1973 mu9da-se
para São Paulo, onde Arrigo já residia, e Itamar passa a dedicar-se integralmente à música. Vence
o festival de música de campinas com a música Luzia. Também participou do festival da TV
cultura cuja música vencedora foi Diversões Eletrônicas, fazendo parte da banda Sabor de
Veneno, que acompanhava o amigo Arrigo Barnabé. Seu primeiro disco, Beleléu, Leléu, Eu (1980)
foi o primeiro a ser lançado pelo selo Lira Paulistana, homônimo do teatro onde se reuniam os
músicos e artistas da contracultura paulistana da época.

No disco Beleléu, Leléu, Eu, Itamar introduz um personagem que chama de Benedito
João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, cascavel. O autor () nos aponta que a utilização
e repetição ao longo da canção homônima nos remetem a designação dada aos marginalizados
no Brasil, em especial aos descendentes de escravos, cujos pais e avós foram desprovidos de
seus nomes próprios na chegada ao país. Os filhos, netos, bisnetos desta imigração forçada
foram e continuam sendo sistematicamente colocados à margem por uma engrenagem de
políticas higienistas. No entanto, além de cantar suas dificuldades e as injustiças que são
cometidas contra estes grupos, Itamar parece nos apontar que “esse homem comum não é um
submisso (...). A canção de Itamar relaciona o personagem com uma serpente justamente por
demonstrar que ele se esquiva dos instrumentos de captura e de exclusão do poder. O
personagem é capaz de, instintivamente, cravar os dentes e verter o seu veneno naquele que o
ameaça” (ALMEIDA, 2018).

Grupo Rumo

Fundado em 1974, era formado inicialmente por Paulo e Luiz Tatit, Hélio Ziskind,
Zecarlos Ribeiro, Pedro Mourão, Gal Óppido, Geraldo Leite e Akira Ueno. Alguns destes eram
colegas desde os tempos de colégio, outros foram colegas universitários, vindos das faculdades
de Comunicação e Artes e da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Posteriormente
viriam a integrar o grupo as cantoras Ná Ozetti e Ciça Tuccori. O grupo Rumo tem a
particularidade de ser uma banda formada por universitários que viam o projeto também com
uma curiosidade acadêmica. Como Luiz Tatit explica em entrevista à revista da FAPESP,
“Começou mais como uma proposta teórica do que uma banda de música (...) O desafio era
conseguir arranjar a musicalidade das canções, que eram feitas a partir de entoação. Os
instrumentos não podiam burlar aquelas inflexões que vinham da fala. Por isso as músicas
tinham uma entoação explícita, todos diziam que era “canto falado”. Era exatamente essa a
proposta: mostrar a origem da canção em cada composição”.

O grupo lançou em 1981 seus dois primeiros álbuns, “Rumo” e “rumo aos antigos”, de
maneira simultânea, com gravação e produção independente. O projeto nunca garantiu aos
participantes um reconhecimento ou sucesso necessário para tornar-se lucrativo, até por ser
um grupo muito grande. Lançaram mais dois álbuns até o término do grupo em 1992, um deles
voltado ao público infantil, além de coletâneas e gravações ao vivo.

Luiz Tatit

Nascido em São Paulo no ano de de 1951, Luiz Tatit foi membro da formação original do
Grupo Rumo. Formou-se em Letras no ano de 1978 e em Música (composição) em 1979, ambos
pela Universidade de São Paulo. Embora tenha formação universitária, sua música não é
cerebral e desconstruída, como a de Arrigo Barnabé, por exemplo. Sua motivação teórica
sempre foi, como ele mesmo diz, “mostrar a origem da canção em cada composição”. Suas
músicas, assim como as do Grupo Rumo, são marcadas por uma preocupação com a
musicalidade da palavra falada, mais do que com as subversões tonais que podemos encontrar
em álbuns como Clara Crocodilo. Atualmente, Tatit é pesquisador e dá aulas na pós-graduação
do Departamento de Linguística da FFLCH, onde fez mestrado, doutorado e pós-doutorado
sobre semiótica da canção. Apesar do gosto pela pesquisa acadêmica, nunca abandonou a
vocação musical, tendo lançado vários discos solo, além de ter feito participações em trabalhos
de outros artistas, como Ná Ozetti, Arrigo Barnabé, Zé Miguel Wisnik, entre outros.

Premeditando o Breque

Premeditando o Breque, que mudou o nome para Premê, também é um grupo oriundo
da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, que encontrou no Lira
Paulistana um local para se apresentar e conseguiu relativo sucesso, tendo conseguido um
contrato com a gravadora EMI ainda no início da história do grupo, embora os álbuns gravados
na empresa nunca tenham obtido o sucesso das produções independentes lançadas com o selo
da gravadora do teatro Lira. O grupo se caracterizava por apresentar um certo refinamento
musical aliado ao humor. Uma de suas músicas de maior sucesso, São Paulo São Paulo, é uma
versão bem-humorada da música New York New York de Frank Sinatra, adaptada à capital
paulista, e chegou a ser utilizada em uma novela da rede Globo. Após um certo sucesso inicial,
a banda viria a cessar suas atividades em 1991.