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Semeadores da Palavra

Digitalizado por:
Karmitta

Versão digital e doc.:


Levita Digital
©1999, de John Ortberg
Título do original • Love beyond reason,
edição publicada pela
zondervan publishing house,
(Grand Rapids, Michigan, eua)
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por

Prazer, Emoção e Conhecimento

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SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Categoria ‫ ׳‬Crescimento espiritual
Todas as citações bíblicas foram extraídas da
Edição contemporânea de Almeida (ECA), ©1990, de Editora Vida,
salvo indicação em contrário.
Gerência editorial • Reginaldo de Souza
Assistência editorial • Fabiani S. Medeiros
Preparação de texto • Sérgio Pavarini
Revisão de provas • Jair A. Rechia
Diagramação • Set-up Time Artes Gráficas
Capa • Douglas Lucas
EDITORA FILIADA A
Dedicatória
Com gratidão, dedico este livro a
Ian Pitt-Watson, David Hubbard,
Lew Smedes e Rich Mouw.
Sumário

..................................... 2

Agradecimentos ............................................................................................................................ 9

C A P í T ULO 1 ............................................................................................................................. 10

Duas verdades ......................................................................................................................... 12

Chamado para Amar ............................................................................................................... 15

Amar significa ser por aquele que é amado ............................................................................ 17

Amar é deleitar-se e alegrar-se no ser amado ........................................................................ 18

Amar é dar e servir ao ser amado ........................................................................................... 20

CA p í t u l o 2 ............................................................................................................................... 24

O Poder da Atenção ................................................................................................................ 24

Aprendendo a Dar Atenção a Deus ......................................................................................... 31

Síndrome da falta de atenção espiritual ................................................................................. 33

Aprendendo a Dar Atenção às Pessoas ................................................................................... 35

C A P í T U L O 3 ........................................................................................................................... 38

O Milagre da Acessibilidade .................................................................................................... 41

O Milagre do Toque................................................................................................................. 43

A Infecção Imaculada .............................................................................................................. 45

C A P Í T U L O 4 ........................................................................................................................... 47

Subjugado pelo Fracasso ......................................................................................................... 49


C A P Í T U L O 5 ........................................................................................................................... 58

Cada Pessoa Constrói uma Casa Diferente ............................................................................. 62

Todo o Mundo tem de Enfrentar a Tempestade .................................................................... 64

Tempestade para Testar a Casa .............................................................................................. 65

Momento de Decisão: Qual é o Alicerce? ............................................................................... 66

Como E a Casa Que Você Está Construindo? .......................................................................... 69

C A P Í T U L O 6 ........................................................................................................................... 71

Uma Parábola da Felicidade .................................................................................................... 71

A Frustração da Busca Inútil .................................................................................................... 72

O Povo Insatisfeito de Deus .................................................................................................... 74

O Alimento: a Satisfação de Ser Amado.................................................................................. 80

O Hábito da Gratidão .............................................................................................................. 81

Gratidão pelo Que Você Tem .................................................................................................. 83

Aprender a Apreciar as Dádivas Imperfeitas........................................................................... 84

C A P Í T U L O 7 ........................................................................................................................... 86

O Deus do Caminho Mais Árduo ............................................................................................. 86

A Experiência do Deserto ........................................................................................................ 88

O Deserto no Início da Vida Cristã........................................................................................... 89

No Deserto Encontramos Força .............................................................................................. 91

No Deserto é Preciso Perseverar ............................................................................................ 92

No Deserto Encontramos o Amor de Deus ............................................................................. 93

A Esperança no Caminho Árduo .............................................................................................. 95

Uma Fatalidade Que Daria uma História................................................................................. 97

C A P Í T U L O 8 ........................................................................................................................... 99

Bonecos de Pano "Religiosos" ............................................................................................... 102

Sem Esquecer Que Sou Amado pela Graça ........................................................................... 106

Perigo: Mau Uso da Graça..................................................................................................... 109


Viver em Graça ...................................................................................................................... 112

C A P í T U L O 9 ......................................................................................................................... 114

Em Que Time Você Vai Jogar? ............................................................................................... 116

Um Estudo sobre a Inveja ..................................................................................................... 118

Falando de Renúncia ............................................................................................................. 119

A Anatomia da Inveja ............................................................................................................ 121

A Sutileza da Inveja ............................................................................................................... 122

C A P Í T U L O 10 ....................................................................................................................... 128

Carruagens de Fogo............................................................................................................... 129

Perfeitamente Seguro ........................................................................................................... 130

Liberdade para Arriscar ......................................................................................................... 132

Uma Forma de Pensar ........................................................................................................... 134

Uma Forma de Cantar ........................................................................................................... 135

Uma Forma de Orar............................................................................................................... 136

Uma Nova Forma de Sentir ................................................................................................... 138

Criando um Lugar Seguro para os Outros ............................................................................. 139

C A P Í T U L O 11 ....................................................................................................................... 142

Desejo de Se Esconder. Necessidade de Ser Resgatado. Indecisão em Ser Encontrado ...... 143

Desejo de se esconder .......................................................................................................... 144

Necessidade de ser resgatado .............................................................................................. 146

Indecisão em ser encontrado ................................................................................................ 149

C A P Í T U LO 12 ......................................................................................................................... 155

A Glória de Deus .................................................................................................................... 157

A Degradação Humana.......................................................................................................... 159

Deus Bate à Nossa Porta ....................................................................................................... 162

Notas ......................................................................................................................................... 164


Agradecimentos
Ian Pitt-Watson foi o primeiro pastor que conheci que também é
poeta e artista. Quando ouvia outros pastores, geralmente sentia-me
informado, culpado ou inspirado. Quando ouvia Ian, às vezes, era como
se uma cortina se abrisse diante dos meus olhos e subitamente não sabia
mais se estava sentado numa sala de aula em Pasadena ou na Jerusalém
do primeiro século. Ao ouvir os sermões de Ian, era comum nos vermos,
de repente, misteriosa e completamente imersos na presença de Deus —
quase sempre para nossa surpresa. Duas dádivas em minha vida foram,
primeiro, seus ensinamentos e, depois, sua amizade.
Talvez seu melhor sermão seja a história dos dois tipos de amor: o
amor que busca um valor em seu objeto e o amor que lhe acrescenta
valor. Ian nunca o publicou, a não ser alguns trechos que usou como
exemplos da arte de pregar. Mas forneceu a idéia central para o primeiro
capítulo: a metáfora da boneca de pano. As histórias e experiências que
conto nesse capítulo são exclusivamente minhas. Pandy realmente existe
e passa muito bem em San Diego. Mas a inspiração veio de Ian.
Também quero agradecer a várias pessoas que leram partes ou o
todo do manuscrito: Ruth Haley Barton, Gerald Hawthorne, Rich Mouw,
Lauri Pederson, Scott Pederson, Lew Smedes e Jodi Walli. Jack
Kuhatschek mais uma vez foi extremamente prestativo e amigo como
editor, e os diligentes esforços de Jim Ruark deram clareza exatamente
onde mais era preciso.
A minha esposa, Nancy, por sua sinceridade e encorajamento, e a
Laura, Mallory e Johnny, a quem tributo eterna gratidão pelos que são
amados incondicionalmente.
C A P í T ULO 1
Amor além da razão
O amor destrói o que sempre fomos para que possamos ser o que não éramos.

AGOSTINHO

Seu nome era Pandy. Boa parte de seu cabelo já tinha caído, tinha
apenas um braço e, em termos gerais, estava quase completamente vazia
por dentro. Ela era a boneca favorita da minha irmã, Barbie.
Mas nem sempre foi assim. Ela foi um presente de Natal
pessoalmente escolhido por uma tia querida que viajou até Chicago para
comprá-la em uma loja de departamentos. Seu rosto e mãos eram feitos
de um tipo de borracha ou plástico que lhe dava uma aparência real, mas
seu corpo era recheado de trapos para que ficasse macia e fofa como um
bebê. Quando minha tia olhou a vitrine da Marshall Fields e viu Pandy,
percebeu que tinha encontrado um ótimo presente.
Quando Pandy era nova e bonita, Barbie a amava exageradamente.
Quando Barbie ia para a cama, Pandy ia dormir ao seu lado. Quando ia
almoçar, Pandy também comia ao seu lado. Sempre que Barbie ganhava
permissão, levava a boneca para tomar banho com ela. O amor de Barbie
por aquela boneca, do ponto de vista da própria Pandy, beirava a uma
"atração fatal".
Quando conheci Pandy, ela já não era uma boneca muito atraente.
Na verdade, para ser sincero, ela estava um trapo. Não era uma boneca
de muito valor; aliás, nem sei se serviria para dar a alguém.
Mas, por motivos inimagináveis, minha irmã, Barbie, ainda amava
aquela pequena boneca esfarrapada de uma forma que só as crianças são
capazes de amar. Ela passou a amar Pandy bem mais depois que ela se
transformou num trapo do que em seus dias de glória.
Outras bonecas vinham e iam, mas Pandy era da família. Quem
amasse Barbie, tinha de amar sua boneca de pano. Tudo vinha incluído
no mesmo pacote.
Certa vez, fizemos uma viagem de carro de nossa cidade, Rockford,
Illinois, até o Canadá. Na volta, quando estávamos quase na fronteira do
estado de Illinois, demos falta de Pandy. Ela tinha ficado no hotel.
Não havia escolha. Meu pai deu meia volta e percorremos todo o
caminho de volta, de Illinois até o Canadá. Éramos uma família unida.
Não muito inteligente talvez, mas unida.
Entramos no hotel, falamos com a recepcionista, e nada de Pandy
Subimos correndo para o quarto, e nada de Pandy. Descemos as escadas
até a lavanderia e... bingo! Lá estava Pandy, embrulhada no meio dos
lençóis, a ponto de tomar o derradeiro banho de sua vida.
O tamanho do amor de minha irmã por aquela boneca significava
viajar até um país longínquo para salvá-la.
Passaram-se anos, minha irmã cresceu e largou da boneca, que foi
substituída por um namorado chamado Andy (e, por incrível que pareça,
ele era mais feio que Pandy).
Pandy já não estava lá essas coisas; agora, então, o mais inteligente
a fazer era jogá-la fora. Mas minha mãe não teve coragem para tanto. Ela
pegou Pandy pela última vez, embrulhou-a em um pano com todo o
cuidado e colocou-a dentro de uma caixa que ficou guardada no sótão
por vinte anos.
Durante minha infância, tive todo tipo de brinquedo e bichos de
pelúcia, e minha mãe nunca guardou nenhum deles. Mas ela guardou
Pandy. Dá para adivinhar por quê? Quando eu era pequeno, achava que
talvez minha mãe amasse a sapeca da minha irmã caçula mais do que a
mim.
A natureza do amor de minha irmã por Pandy foi o que a tornou
tão preciosa. Barbie sentia por aquela pequena boneca um tipo de amor
que a tornava valiosa para qualquer um que amasse a própria Barbie.
Todas aquelas lágrimas e abraços e segredos, de alguma forma, ficaram
impregnados nos trapos da boneca. Se você amasse Barbie, naturalmente
acabaria também amando Pandy.
Mais alguns anos se passaram, minha irmã casou-se (não com
Andy) e mudou-se para outra cidade. Ela teve três filhos, sendo que o
último era uma menina chamada Courtney, que logo alcançou a idade de
querer uma boneca.
Barbie não encontrou outra alternativa senão ir até a nossa casa em
Rockford e pegar a caixa guardada no sótão. A essa altura, Pandy se
parecia mais com um trapo do que com uma boneca.
Minha irmã a levou para um hospital de bonecas na Califórnia
(esse lugar existe mesmo, pode acreditar!) e lá ela passou por uma
cirurgia reparadora. Pandy fez um lifting facial, uma lipoaspiração ou seja
lá o que for que se faz nas bonecas, até que, com mais de trinta anos de
idade, Pandy ficou novamente tão bonita exteriormente quanto sempre
fora aos olhos daquela que a amava. Não sei se ela mudou alguma coisa
para minha irmã, mas agora as outras pessoas também podiam ver o que
Barbie sempre vira naquela boneca.
Quando Pandy era nova, Barbie a amava. Ela comemorava a sua
beleza. Quando ela ficou velha e rasgada, Barbie não deixou de amá-la.
Agora, além de amar Pandy porque ela estava bonita, ainda sentia por ela
um tipo de amor que a tornava bonita.
E se passou mais tempo. O ninho de minha irmã logo ficou vazio.
Courtney agora é adolescente, está se preparando para entrar na vida
adulta e já tem um Andy Jr. ao telefone.
E Pandy? Pandy está pronta para entrar em outra caixa.

Duas verdades
Há duas verdades sobre o ser humano que são de extrema
importância. Somos todos bonecos de pano, com imperfeições, defeitos e
falhas. Desde a queda, cada membro da raça humana tem vivido no
limite da degradação. Em parte, nosso desgaste é algo que acontece
conosco. Nossos genes podem estar programados para apresentar alguns
defeitos. Nossos pais podem nos abandonar quando mais precisamos
deles. Mas isso não é tudo. Cada um de nós acrescenta uma contribuição
própria à degradação da raça humana. Preferimos mentir quando
deveríamos dizer a verdade, reclamar quando bastaria um pequeno
elogio, traímos deliberadamente mesmo quando damos nosso voto de
lealdade.
Como uma gota de tinta que cai num copo d'água, a degradação se
espalha por todo o nosso ser. Nossas palavras e pensamentos nunca estão
livres dela. Somos bonecos de pano sem dúvida alguma.
Mas somos os bonecos de pano de Deus. Ele conhece tudo sobre a nossa
degradação e nos ama da mesma forma. Nossa degradação não é o que
mais importa a nosso respeito.
Não estávamos degradados quando fomos criados. No início, havia
uma tal admiração pelos seres humanos que o próprio Deus, quando
olhou para eles na vitrine do mundo, disse: "Muito bom". Havia uma tal
admiração pelos seres humanos que o autor de Gênesis até disse que
eram feitos à imagem de Deus. Havia uma tal admiração pelos seres
humanos que o salmista disse que eles competiam com os seres divinos
em glória e honra. Há ainda uma tal admiração pelos seres humanos que
nem mesmo a nossa queda pôde apagá-la completamente.
E há uma grande admiração por você. A degradação não faz parte
da sua identidade. A degradação não é o seu destino nem o meu.
Podemos não ser amáveis, mas somos amados.
Mas não podemos ser amados sem passarmos por uma mudança.
Quando as pessoas experimentam o amor (e com isso não quero dizer
apenas o sentimento de afeto pelos outros, mas um sentimento que, às
vezes, é implacável, contestador e até impiedoso), passam a ser amáveis.
Isso vale mesmo para o plano físico. Os psicólogos dizem que a
emoção de estar apaixonado acelera os batimentos cardíacos: a pele fica
lustrosa, os lábios ficam mais vermelhos e até as olheiras diminuem! As
fortes emoções dilatam as pupilas, e por isso os olhos brilham mais e
ficam mais aguçados. Fomos tão bem construídos que até os nossos
corpos ficam mais amáveis quando são amados.
Estamos mais acostumados com o tipo de amor que busca alguém
ou algo de grande valor. É um amor que celebra a beleza ou a força do ser
amado. O amor que estamos mais acostumados a ver é dedicado a um
objeto pelo fato de ser caro, de ser atraente ou de dar status a quem
estiver relacionado a ele.
Os gregos tinham uma palavra que denotava bem esse tipo de
amor: eros. Quando ouvimos essa palavra, logo nos ocorre o termo
"erótico", mas eros era mais do que apenas o amor sexual. Em essência,
eros dizia respeito ao tipo de amor que sentimos pelo que satisfaz os
nossos desejos, ganha a nossa admiração ou sacia a nossa fome. Eros é o
amor em uma caça ao tesouro. É a recompensa que se ganha no desfile de
Miss Universo ou quando se é chamado de o homem mais sexy do ano
pela revista People.
Aprendemos sobre esse tipo de amor logo cedo. Estudos mostram
que os adultos sorriem, brincam, beijam e seguram no colo os bebês que
são bonitos mais do que os comuns. Os pais se envolvem mais
sentimentalmente com bebês atraentes do que com aqueles considerados
não atraentes pelos outros.
Karen Lee-Thorp observa que as histórias de criança reforçam
ainda mais essa idéia. "O príncipe não ficou admirado com a inteligência
e a perspicácia de Cinderela; mas foi arrebatado por seu vestuário e seus
pequenos e delicados pés. A Branca de Neve e a Bela Adormecida
conquistaram seus príncipes entrando em estado de coma". Rapunzel
passou vinte anos sozinha dentro de uma torre, nem um só dia o seu
cabelo esteve em baixa.
Eros — o amor que nasce da necessidade, da admiração e do desejo
— não é necessariamente um tipo ruim de amor. É bom que o bebê ame a
mãe cujo leite significa vida. É bom que o homem celebre a beleza de sua
amada.
Mas o eros por si mesmo é um amor fraco demais para um boneco
de pano construir sua vida em cima dele. Você vai cair na armadilha do
concurso invencível se tentar provar que é bonito, inteligente, forte ou
religioso o suficiente para merecer afeto. Você vai ter medo que uma falha
na sua costura mostre o seu verdadeiro eu. Não, os bonecos de pano
precisam de um amor com um recheio mais forte do que apenas o eros.
Esse amor existe, é um amor que acrescenta valor ao ser amado.
Existe um amor que transforma os bonecos de pano em tesouros de valor
inestimável. Existe um amor que busca frágeis criaturas degradadas, por
motivos que ninguém é capaz de adivinhar, e as transforma nos objetos
mais preciosos e valiosos do mundo. Esse é o amor além da razão. Esse é
o amor divino. Esse é o amor de Deus por você e por mim.
O amor, acima de todas as coisas, é o motivo pelo qual Deus nos
criou. Os teólogos defendem a idéia de que Deus criou tudo
espontaneamente, sem que houvesse necessidade. Esse fato é muito
importante, pois significa que ele não nos fez porque estava se sentindo
entediado ou solitário ou porque buscava algo para fazer.
Deus não nos criou por necessidade. Ele nos criou por amor. C. S.
Lewis disse: "Deus, que não precisa de nada, deu vida a criaturas
completamente supérfluas para poder amá-las e aperfeiçoá-las".
Toda a extensão do amor de Deus não ficou tão evidente quando
ele decidiu nos criar, mas quando nos tornamos pecadores e deixamos de
ser "amáveis".
Paulo explica essa idéia da seguinte forma: "Porque Cristo, estando
nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente morrerá
alguém por um justo, embora alguém possa se animar a morrer pelo bom.
Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós,
sendo nós ainda pecadores".
Pois Deus está plenamente ciente do nosso segredo. Ele sabe que
somos bonecos de pano. O profeta Isaías disse isso milhares de anos atrás:
"Todos nós somos como o imundo, e todos os nossos atos de justiça como
trapo da imundícia". Todos nós ficamos desgastados, tão degradados
pelo pecado e pela culpa que a coisa mais inteligente a fazer seria
descartar-se da raça humana; jogá-la fora e começar tudo de novo.
Mas este Deus jamais faria isso. Assim, ele propôs uma cirurgia
reparadora. Deus decidiu levar a raça humana para um lugar em que
poderia trocar os trapos imundos e remover a culpa e o pecado que
tornaram os objetos de seu amor tão desprezíveis.
Esse lugar existe e se chama cruz.
Segundo Paulo, o amor do ser humano comum, às vezes, é capaz
de sacrifícios por um coração nobre. Mas Deus foi até as últimas
conseqüências para provar seu amor por nós. Ele morreu por nós no
momento exato·, quando estávamos degradados e fracos e éramos
pecadores.
Os autores da Bíblia não quiseram usar a palavra eros para
descrever esse tipo de amor. Por isso, na maioria das vezes, usaram uma
palavra sem cor: ágape. Ela não era muito usada pelos gregos, mas agora
passaria a ter um novo significado. Seria usada para denotar o tipo de
amor que pode dar esperanças a um boneco de pano.
A palavra em nossa língua usada para esse ripo de amor é caridade.
A palavra caridade era usada antigamente para expressar o amor em
forma de pura dádiva. Ela não é muito usada atualmente e, quando o é,
geralmente está carregada de um sentido que denota auxílio ou
condescendência. Ninguém quer ser um "caso de caridade".
Mas, no final das contas, a expressão máxima do amor chega a nós
como uma dádiva.

C. S. Lewis escreveu:
Estamos todos recebendo Caridade. Há algo em cada um de
nós que não pode ser amado naturalmente. Ninguém tem culpa
então de não ser amado. Apenas o que é amável pode ser amado
naturalmente. Você pode até pedir para que as pessoas apreciem o
gosto de um pão bolorento ou o som de uma furadeira elétrica.
Podemos ser perdoados, causar compaixão e ser amados apesar
disso, por Caridade e nada mais. Todos aqueles que têm bons pais,
esposa, marido ou filhos podem ter certeza de que há momentos em
que estão recebendo a Caridade, de que não são amados porque são
amáveis mas porque o próprio Amor está naqueles que os amam.

Chamado para Amar


No Novo Testamento, há dois mandamentos que formam a
essência da nossa resposta ao amor de Deus. Eles não podem ser
separados. Toda a vontade de Deus resume-se nisso, conforme Jesus
disse: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua
alma e de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti
mesmo". A forma básica que o nosso amor por Deus assume na Bíblia
traduz-se no amar as pessoas que são tão caras para ele. Nas palavras de
Jesus: "Qualquer coisa que você fizer pelo mais insignificante deles, estará
fazendo para mim".
"Se quer me amar, ame também meus bonecos de pano", Deus está
dizendo. Tudo está incluído no mesmo pacote.
Se levamos a sério o nosso amor por Deus, precisamos começar
pelas pessoas, todas as pessoas. E precisamos aprender a amar
especialmente aqueles que o mundo costuma desprezar.
Na época de Jesus, o povo que mais tinha consciência de seu estado
de degradação foi exatamente o que se mostrou mais receptivo ao seu
amor. Certo dia, Jesus foi comer na casa de um fariseu chamado Simão, o
qual achava que, apesar de tudo e mesmo do ponto de vista de Deus, não
era uma pessoa assim tão difícil de ser amada.
Uma mulher entrou na casa. Lucas diz que ela era "uma peca-dora",
o que provavelmente devia ser uma forma bastante educada de dizer que
era uma prostituta. Obviamente, ela não tinha sido convidada e
escandalizou a todos os presentes, exceto àquele que era realmente santo.
A mulher tinha perdido a reputação, boa parte da virtude e, em termos
gerais, estava quase completamente vazia por dentro. Seu nome era
Pandy.
Mas nem sempre foi assim. Houve um dia em que ela foi a filha
querida de alguém e — quem sabe? — alguém alimentou seus sonhos.
Houve um dia em que, provavelmente, ela teve seus próprios sonhos.
Mas esses dias se foram há muito tempo. Fazia muitos anos que ela não
aparecia em um local de pessoas respeitáveis. Foi preciso muita coragem
de sua parte para enfrentar os olhares e sussurros de reprovação daquele
recinto.
Ela parou atrás de Jesus, a seus pés (as pessoas reclinavam-se em
vez de sentar-se à mesa naquela época). Mas, quando finalmente
conseguiu olhar para ele, em vez de desprezo, ela viu amor.
Havia trazido perfume para ungir Jesus. Normalmente, isso era
feito derramando-se o líquido sobre a cabeça da pessoa. Mas, ao fitar
Jesus, seus olhos se encheram de lágrimas. Talvez ela estivesse pensando
no que teve de fazer para ganhar o dinheiro que gastou com o perfume.
Talvez ela estivesse pensando na garotinha que tinha sido um dia. Talvez
estivesse pensando na distância que havia entre o que ela tinha se
tornado e o que ela desejava ser. De qualquer forma, em vez da cabeça,
ela começou a ungir os pés de Jesus com uma mistura de perfume e
lágrimas.
Então ela fez algo inesperado: soltou os cabelos. Isso nunca tinha
acontecido antes. Era uma violação das normas sociais; mulheres judias
respeitáveis sempre mantinham os cabelos presos em público. Como
prostituta, ela já tinha soltado os cabelos muitas vezes antes e, em cada
uma delas, seu coração ganhava uma nova ferida e sua alma, uma nova
cicatriz. Mas, desta vez, tinha sido num gesto de admiração e respeito,
para enxugar os pés que ela tinha banhado e ungido. Ela, que havia
soltado o cabelo muitas vezes antes, soltara-o mais uma vez. Só que esta
foi a última vez. Agora ela tinha feito o que era certo. Seus dias de
degradação estavam prestes a terminar.
Simão esperava que Jesus fosse chamar a atenção de todos
acusando essa mulher. Antes de ficarmos muito severos com Simão, é
bom perguntar como nós agiríamos se estivéssemos no lugar dele. Afinal,
essa mulher tinha desafiado a Deus com seu modo de vida. Tinha
rebaixado os padrões de fidelidade; cooperou para a destruição de alguns
lares. A sua degradação não serve de desculpa. Uma palavra a favor da
moral não seria descabida aqui.
Mas Jesus está escandalosamente pronto a perdoar. Ele sabe de
algo que Simão não compreende: se o arrependimento é sincero, o
julgamento já aconteceu. Ele mostra para Simão que, embora ele tivesse
deixado de dar água para que Jesus lavasse os pés, ela os tinha lavado
com a única coisa que possuía, suas lágrimas; embora Simão não lhe
tivesse oferecido um beijo, ela beijara os pés de Jesus repetidas vezes;
embora Simão não lhe tivesse oferecido nem mesmo um azeite barato
para aliviar suas dores, ela o tinha ungido com um perfume caro.
Simão não poderia receber muito amor, porque estava preso à idéia
de que não precisava de muito perdão. A simples idéia de sua
superioridade moral e espiritual fez com que perdesse a noção de sua
degradação. E assim seu coração tinha se tornado ainda menos amoroso e
amável do que a pecadora que ele desprezava.
Mas ela sabia. A mulher sabia exatamente quem era; sabia que
Jesus conhecia tudo a respeito dela e a amava mesmo assim. E com isso
ela foi transformada. "Os teus pecados te são perdoados. A tua fé te
salvou; vai-te em paz", Jesus disse a ela, surpreendendo Simão mais do
que a seus convidados e a mulher mais do que a Simão.
"Ela pode ser uma boneca de pano", Jesus poderia ter dito, "mas é a
minha boneca de pano. Quem ama a mim, ama a meus bonecos de pano".
Tudo está incluído no mesmo pacote.
Em que consiste esse milagre do amor? Acho que há três coisas que
compõem a essência imutável do que esse amor significa. E, como filhos
de Deus, precisamos aprender a receber cada um dos elementos de seu
amor se pretendemos crescer.

Amar significa ser por aquele que é amado


Se amamos alguém, significa que guardamos certas esperanças,
intenções e desejos em relação a essa pessoa. Significa que estamos no seu
caminho, que esperamos vê-la crescer e desabrochar, que desejamos a
realização do seu potencial, que seja repleta de virtudes e qualidades
morais. O amor deseja "que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de
Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a
qual resplandeceis como astros no mundo".
Isso significa que, talvez, sejamos obrigados a fazer algo que magoe
a quem amamos. O amor é geralmente confundido com brandura.
Quando falamos de "fazer algo por amor", às vezes pensamos que isso
significa "sempre fazer o que a pessoa que amo gostaria que eu fizesse".
Isso certamente não é amor; nem é saudável. Faça um teste com uma
criança de três anos de idade; é bem provável que nunca fique satisfeita.
Dizer que Jesus ama as pessoas não eqüivale dizer que ele sempre
fará o que elas querem. Dan Allender escreveu: "Se Cristo sentisse o tipo
de amor que defendemos hoje em dia, ele teria vivido até uma idade bem
avançada". Allender acrescenta que, em muitos casos, o amor autêntico
vai "enervar, irritar, perturbar ou até magoar o ser amado".
Ser por alguém é mais complexo do que apenas querer poupá-lo do
sofrimento. Quando realmente somos por uma pessoa, assumimos o risco
de dizer coisas que podem magoá-la, se essa for a única forma de induzi-
la ao crescimento. "Porque o Senhor corrige a quem ama." O verdadeiro
amor está pronto a advertir, reprovar, confrontar ou repreender se
necessário.
Aprendemos que devemos amar uns aos outros como Cristo amou
a igreja e se entregou por ela "a fim de apresentá-la a si mesmo igreja
gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e
irrepreensível". Veja: Paulo não diz que Jesus amou a igreja "e disse que
suas máculas e rugas não importavam". Sua intenção não é conseguir
apenas uma redução de defeitos. O amor espera que o outro alcance o
esplendor que Deus planejou — sem máculas, sem rugas, irrepreensível.
É quase impossível remover as máculas e rugas sem causar alguma dor.
Às vezes, amar significa deliberadamente magoar alguém, mas nunca
com arrogância e por prazer.
O amor verdadeiro nunca tem a intenção de infligir dor sem
motivo. Só que, muitas vezes, não apenas nos vemos desejando magoar
alguém, mas também ansiando por esse momento. Provavelmente, uma
boa maneira de evitar que isso aconteça é tomar todo o cuidado para não
magoar alguém se essa idéia lhe proporcionar uma ponta de prazer. O
amor de Deus faz com que ele suporte muito mais dor pelo nosso bem do
que jamais conseguiríamos: "e enviou o seu Filho como propiciação pelos
nossos pecados".
Ser por alguém significa identificar-se com essa pessoa, incentivá-la
a seguir em frente, comemorar suas vitórias e compartilhar da dor de
suas derrotas. Significa desejar-lhe, profunda e sinceramente, todo o bem.
Isso mostra como é difícil amar. Não preciso de muita coragem
para admitir que não quero que meus inimigos vençam. Mais sincero
ainda seria dizer que, bem no fundo, na maioria das vezes, não quero
nem que meus amigos tenham muito sucesso.
Essa é a verdade que comoveu o apóstolo Paulo: apesar de toda a
sua degradação, Deus era por ele: "Se Deus é por nós, quem será contra
nós? [...] Quem nos separará do amor de Cristo?".
Então, dizer que Deus nos ama significa que Deus é por nós. Ele
espera que desabrochemos e cresçamos além de nossas esperanças.

Amar é deleitar-se e alegrar-se no ser amado


Essa característica relaciona-se com o coração daquele que ama.
Quando amamos alguém, não o fazemos simplesmente por dever ou
obrigação.
Lembro-me que um palestrante cristão disse, certa vez, que
devemos sempre amar nosso cônjuge "apesar de" e não "por causa de" —
mas quem é que deseja estar do lado que recebe isso? Imagine se, quando
pedi minha esposa em casamento, dissesse: "Bom, não existe nada em
você que jamais interessaria a qualquer pessoa sensata, mas por causa de
meu nobre caráter vou fechar os olhos e amá-la de qualquer forma". O
resultado não teria sido tão bom quanto foi.
Não, quando amamos alguém, a mera presença dessa pessoa faz
nossos olhos brilhar. O texto de Êxodo consegue expressar lindamente
essa idéia na passagem da sarça ardente quando Deus conta a Moisés que
seu irmão Arão estava vindo a seu encontro: "Ele também te sai ao
encontro e, vendo-te, se alegrará em seu coração". Quando você vê alguém
que ama, seu coração se alegra.
O amor exige que o ser amado seja obrigatoriamente amado. O amor
celebra o ser amado. E por isso que o amor sempre foi e sempre será
expresso com mais intensidade nas canções de amor.
É muito importante lembrar que Deus nos ama dessa forma.
Alguns escritores cristãos dizem que Deus nos ama "apesar de" nós
mesmos. É claro, há casos em que muitas vezes isso acontece, mas a
degradação não é a única característica que você possui. Como disse
Lewis Smedes, pode ter sido péssimo que Deus tivesse de morrer por
mim, mas é maravilhoso que ele pense que sou digno disso. Podemos
estar degradados, mas nunca devemos confundir degradação com falta
de valor.
Deus não apenas ama você porque deve, ele o ama porque quer.
Deus deleita-se em você. É claro que isso não significa que ele se deleita
em tudo que você faz. Nem a sua mãe é capaz disso, se ela tiver a cabeça
no lugar. Mas o fato de você existir — você, o seu próprio ser — é muito
bom aos olhos de Deus. Ele sente prazer em amá-lo.
O salmista fala para Deus guardá-lo "como à menina dos olhos".
Essas palavras são usadas repetidas vezes na Bíblia. Elas poderiam ser
interpretadas como "o reflexo nos olhos" pois é isso o que acontece
quando olhamos bem de perto nos olhos de alguém e vemos a nossa
imagem refletida ali. Transponha isso para o seu relacionamento com
Deus: você verá a sua imagem nos olhos do Pai. Você é a menina dos
olhos de Deus.
É claro que quem já amou certamente já sofreu com o objeto do seu
amor. Em algum momento, conheceu a dor do amor não correspondido.
Quem ama não apenas sabe entoar canções de amor, mas, melhor do que
ninguém, sabe cantar a dor.
E Deus também. "Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito
chamei a meu filho. Mas quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam
da minha face. [...] Todavia, ensinei a andar a Efraim, tomando-o pelos
seus braços; mas não conheceram que eu os curava. Atraí-os com cordas
humanas, com cordas de amor; fui para eles [...] e lhes dei mantimento.
[...] O meu povo é inclinado a desviar-se de mim".
Deus é incomparavelmente supremo naquilo que todos aqueles que
o amam têm em comum em maior ou menor grau, o que Charles
Williams chamou de o dom da dupla visão: "... Nenhuma adoração sob o
céu deve impedir que o seu amado saiba (com razoável precisão e amor
irracional) quando ela está sendo lânguida, lasciva ou maliciosa. Ela tem
natureza dupla e ele tem dupla visão". Deus enxerga com extrema clareza
quem somos. Ele conhece bem nossos defeitos e fraquezas. Mas, quando
olha para nós, isso não é tudo o que vê. Também vê quem pretendemos
ser e quem seremos um dia. Às vezes, dizemos que o amor é cego, mas
isso não é verdade. O amor é capaz de enxergar a verdade com sua dupla
visão. E, ao enxergar, Deus passa a chamar à superfície a bondade e a
beleza que há em nós, a qual é visível apenas a ele, para que um dia todos
possam ver. E isso alegrará seu coração.

Amar é dar e servir ao ser amado


Amar, acima de tudo, é dar. A doação está para o amor assim como
a comida está para a fome. Dar é a própria expressão do amor. A
passagem mais conhecida da Bíblia começa dizendo: "Porque Deus amou
o mundo de tal maneira que deu...".
Dar é amar com retidão. Sem atos servis, o amor não tem estrutura
e nada que o ampare.
Dar, para Eros, é fácil no início. Flores, cartões e massagens nos pés
fluem tão naturalmente quanto as águas do Nilo. A efusão inicial de
emoções serve de alimento. Esses sentimentos são uma espécie de
preparação, mas, cedo ou tarde, eles se esgotarão. Eros é capaz de dar,
mas apenas quando espera conseguir uma troca justa.
A prova do amor está em dar mesmo quando nada se espera
receber em troca.
Anne Lamott conta a história de um garoto de oito anos de idade
cuja irmã mais nova estava morrendo de leucemia. Disseram para o
menino que sem uma transfusão de sangue ela morreria. Seus pais lhe
perguntaram se ele permitiria que testassem o seu sangue para ver se era
compatível com o dela e ele concordou. Ele foi testado e era compatível.
Então, perguntaram-lhe se daria um pouco de seu sangue para a irmã,
pois esta poderia ser sua única chance de viver. Ele disse que precisava
de uma noite para pensar.
No dia seguinte o menino disse aos pais que concordava em doar o
sangue e assim foi levado ao hospital. Ele ficou numa maca ao lado da
irmã de seis anos. Ambos foram ligados para a transfusão. Uma
enfermeira colheu uma medida de sangue do garoto que foi dada à irmã.
O menino permaneceu em silêncio enquanto o sangue que salvaria a irmã
saía de seu corpo. Um médico apareceu para ver como ele estava
passando. O garoto abriu os olhos e perguntou: "Quanto tempo eu ainda
tenho antes de começar a morrer?".
O amor não é amor de verdade até o momento de dar.
Há mais uma história sobre um boneco de pano. O nome deste era
Al.
Al era meu sogro. Ele era uma pessoa descomplicada e fácil de
gostar. Era um atleta nato e um grande aventureiro que adorava caçar e
pescar. Quando tivemos uma filha (sua primeira neta, pois minha esposa
não tinha irmãos), não percebemos o tamanho da empolgação de Al com
a possibilidade de levá-la para o Maravilhoso Mundo Selvagem com ele.
Até que um dia, quando buscamos Laura na casa dele, onde ela passou
algum tempo e foi secretamente treinada por ele, e estávamos a caminho
de casa, fizemos aquela brincadeira que todo o mundo faz com um filho
de um ano:
— Laura, diz como é que o gatinho faz?
— Miau.
— E o cachorrinho?
— Au, au.
— E o passarinho?
— Bang!
Seu avô queria que ela soubesse.
Al era o tipo de homem que não se importava que falassem mal de
sua esposa ou filha, mas não tolerava um insulto sequer contra seu cão.
Eppie (para dizer a verdade), infelizmente, era uma cadela obesa na
época que a conheci, mas Al não aceitava isso. Ele insistia em dizer que
ela era de uma raça especial, "labrador de pernas curtas", e o motivo de
sua barriga quase arrastando no chão não era que seu estômago estava
grande, mas que suas pernas eram curtas demais.
A parte degradada de Al alcançava também a bebida. Ele era
alcoólatra, da mesma forma que seu pai, tio e irmão. Mas não era do tipo
relaxado, não faltava ao trabalho nem jogava dinheiro fora; era, porém,
uma pessoa difícil de conviver. Nancy sempre soube que seu pai a
amava, mas à sua maneira, um amor "esfarrapado". Ele nunca tinha dito
isso a ela diretamente. Às vezes, quando ela dizia que o amava ao
telefone, ele respondia: "Eu também, fedelha", mas a iniciativa de dizer
nunca partia dele.
Certo dia, no outono, sua pele ficou amarela, da cor de uma banana
muito madura, e os médicos lhe disseram para fazer um exame de câncer
no pâncreas, que naquela época era invariavelmente fatal. Esperamos por
ele em sua casa com o resultado dos exames. "Já entendi!", disse assim
que entrou pela porta. Não falou quase nada mais a respeito do assunto.
Às vezes, o víamos com um olhar distante diante da janela, mas era difícil
adivinhar o que ele estava pensando.
Ele nunca tinha se mostrado muito interessado por qualquer coisa
que se relacionasse a Deus. Não era particularmente contra, apenas
naturalmente desinteressado. Tentamos falar com ele na ocasião, mas não
conseguimos muita coisa.
Um dia, quando minha mãe veio nos visitar, ela conversou com Al
sobre os netos que eles tinham em comum e sobre a imprevisibilidade da
vida. Ela disse que provavelmente partiria primeiro, mas queria saber,
caso Al morresse, o que deveria responder se um dia seus netos
perguntassem sobre a relação dele com Deus. "Vai bem", ele respondeu.
"Vai tudo bem entre Deus e eu. Qual o problema?"
Ela aprofundou-se e explicou como "Deus prova seu amor por nós
tanto que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós".
O dia raiou, a neve derreteu e Al orou e entregou a vida a Deus.
E Deus começou a fazer uma cirurgia reparadora. Al e eu
começamos a ler juntos o evangelho de João. Ele estudava um pouco
sozinho e depois conversávamos a respeito e, geralmente, orávamos
depois. Uma ou duas vezes, até oramos de mãos dadas.
Certo dia, quando o câncer já estava bastante avançado, Al estava
deitado na cama, muito fraco e debilitado para sentar-se, e tínhamos
terminado nossa conversa sobre Jesus.
— Agora vamos orar — ele disse. Isso foi comovente porque
raramente começava a oração.
— Tudo bem, respondi.
— E vamos fazer aquele negócio das mãos.
Ele esticou as mãos e pegou as minhas.
E me ocorreu que as mãos que tinham passado a vida toda jogando
bola, segurando tacos de golfe, arremessando, e atirando, e levantando
incontáveis latas de cerveja eram mais belas em sua fraqueza do que
jamais tinham sido em seu vigor.
Pouco tempo depois, Al foi internado no hospital. Em uma noite de
sexta-feira, ele ligou para Nancy. Eles conversaram um pouco e, depois,
antes que ela desligasse o telefone, pude ouvi-la dizer uma das poucas
frases de que vou me lembrar enquanto viver: "Eu também amo você,
papai", ela disse.
Perguntei-lhe se isso significava aquilo que eu estava pensando.
Sim, seu pai tinha dito que a amava.
Isso foi na noite de sexta-feira. Na manhã seguinte, Al teve um
derrame, o que não era surpresa dadas as suas condições e tratamento.
Por seis semanas, ele permaneceu quase incapaz de falar ou controlar as
funções mais básicas do organismo e depois veio a falecer.
A última vez que Nancy ouviu a voz de seu pai foi a primeira em
que o ouviu dizer: "amo você".
Existe um tipo de amor que procura algo de valor no ser amado.
Existe um tipo de amor que se sente atraído por status, riqueza e beleza.
Nós conhecemos esse amor e o vemos todos os dias.
Mas existe um tipo de amor que acrescenta valor ao ser amado.
Existe um amor que pega bonecos de pano como Al, como eu e como
você e nos ama além de toda a razão. E, se você permitir, Deus começará
sua cirurgia reparadora em você, até que um dia... cuidado!
"Vede quão grande amor nos concedeu o Pai, que fôssemos
chamados filhos de Deus. E somos mesmo seus filhos! [...] Amados, agora
somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser."
"Se quer me amar, ame também meus bonecos de pano", Deus está
dizendo. Tudo está incluído no mesmo pacote.
CA p í t u l o 2
Quem ama dá atenção
[Deus] enche nossa mente como ondas que invadem as praias, penetra em nossos
pensamentos pelos meandros de nosso cérebro e, oculto nas profundezas de nosso
ser, ilumina nosso caminho em explosões de luz. Recolhe-se em recantos e
esconderijos para nos pegar desprevenidos. Disfarça-se sob a matéria, a mesma
matéria que se estende dos meus braços até a ponta dos dedos e da minha cabeça aos
fios de cabelo.

VIRGÍNIA STEM OWENS

E sta é uma cena comum. Um casal sentado à mesa para o café da


manhã. Um dos cônjuges, digamos, o marido, está imerso lendo o jornal,
enquanto a esposa abre seu coração. Frustrada, ela finalmente reclama:
"Você não está me ouvindo".
E a resposta geralmente é: "Se quiser, repito tudo o que você acabou
de dizer". Ele prossegue para demonstrar. Ela fica satisfeita? Não! Ela não
quer que ele simplesmente seja capaz de repetir suas palavras — um
gravador seria melhor. Ela quer que ele esteja totalmente presente. Ela
quer que ele deixe o jornal de lado, olhe nos seus olhos e preste atenção
ao que está dizendo.
Ouvir não basta. É preciso dar toda a atenção.

O Poder da Atenção
A atenção é uma das forças mais poderosas do mundo. Além de
água e comida, o bebê precisa do olhar atento de um rosto humano.
Quando, deitado em seu berço, o bebê sorri e um rosto retribui-lhe o
sorri, ele percebe que alguém está olhando, respondendo, e o que ele faz é
importante. A alegria, a raiva ou a tristeza do bebê está refletida no rosto
de alguém. Os psicólogos chamam esse fenômeno de sintonização. O bebê
descobre que existe uma maneira de estabelecer um vínculo — entrar em
sintonia — com outro ser humano. Se o rosto olhar feio ou desaparecer, o
bebê vai tentar descobrir o que aconteceu, como trazê-lo de volta. Esse
rosto torna-se o espelho pelo qual a criança aprende se está sendo uma
fonte de alegria ou decepção. Ela simplesmente não sobrevive sem o
rosto. É o rosto que diz ao bebê que ele é importante.
Segundo Erik Erikson, "dificilmente alguém aprende a reconhecer o
rosto familiar (onde nasce a base da confiança) se ele também se mostrar
estranho, esquisito, indiferente, desinteressado e carrancudo. E assim
começa a inexplicável tendência do homem de sentir-se responsável pelo
fato de o rosto ter virado de lado".
Quando crescemos, ainda precisamos de atenção. De acordo com
Gerald Egan, em uma experiência, a partir de um sinal pré-estabelecido,
os alunos deveriam passar de uma atitude desinteressada e passiva, em
que não olhavam diretamente para o professor, para outra em que
olhavam atentamente para ele. O professor, que antes balbuciava
mecanicamente suas observações num tom de monotonia, gradualmente
foi mudando de atitude, passando a gesticular, olhar para os alunos e
falar em um ritmo mais rápido e enérgico. Dado outro sinal, os alunos
voltaram a se comportar da mesma forma que antes e o professor, "depois
de grande empenho tentando recuperar a atenção dos alunos", voltou ao
tom monótono.
Há ocasiões em que, durante meu sermão, sinto como se toda a
congregação participasse secretamente dessa experiência. Todo orador
sabe que existem pessoas que o encorajam e o alimentam simplesmente
prestando atenção ao que ele fala. Você busca alguns rostos porque, com
o olhar, um sorriso ou meneio da cabeça, eles estão dizendo: Vá em frente!
O que você está dizendo é interessante. Diga qual é a verdade!
Um dos grandes milagres da vida é que Deus presta atenção em
nós. Isso explica em parte por que os autores da Bíblia falam com tanta
freqüência no rosto de Deus. E a esperança da grande bênção sacerdotal
que o próprio Deus ensinou ao povo de Israel:

O SENHOR te abençoe e te guarde.


O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre
ti, e tenha misericórdia de ti.
O SENHOR sobre ti levante o seu rosto, e te dê a
paz.

Olhar para alguém é dar a essa pessoa sincera e total atenção. Não é
ouvir de maneira indiferente com a mente ocupada. É dizer: "Não tenho
nada mais para fazer e nenhum lugar em que gostaria de estar. Estou
totalmente voltado para ficar com você". É esse tipo de atenção que Deus
nos dispensa.
E ainda melhor. Essa bênção diz que Deus não vai apenas voltar
seu rosto para nós, mas fará com que "resplandeça" para nós. O rosto
resplandecente é uma imagem de alegria. É o rosto de uma pai orgulhoso
que se enche de luz quando o filho faz seu primeiro recital de piano. E o
rosto radiante da noiva que caminha para o altar em direção ao noivo.
Podemos voltar nossas faces para prestar atenção a qualquer um, com um
pouco de esforço. Mas nossas faces se iluminam, brilham e tornam-se
radiantes apenas na presença daqueles que amamos profundamente. E,
conforme a oração, é assim que Deus nos ama. Ele presta atenção em nós.
Por outro lado, perder a atenção de Deus foi, para o salmista,
perder tudo:

Quando disseste: Buscai o meu rosto;


o meu coração te disse:
O teu rosto, Senhor, buscarei.
Não escondas de mim a tua face,
e não rejeites ao teu servo com ira;
tu és a minha ajuda.
Não me deixes nem me desampares,
ó Deus da minha salvação.

Nada era pior para ele do que a idéia de Deus "esconder sua face".
A atenção é tão valiosa que não apenas damos, mas também
prestamos atenção. É como dinheiro e, sendo assim, geralmente ela flui
para aqueles que possuem mais status. Quanto mais importante você for,
o que disser vai receber mais atenção das pessoas em geral. Em Um
violinista no telhado, Tevye, um leiteiro, acha que se fosse rico, o povo da
vila escutaria tudo o que ele tivesse a dizer — mesmo que ele não fizesse
a menor idéia do que estivesse dizendo. "Quando você é rico, eles
acreditam que você sabe realmente do que está falando".
O evangelho de João conta a história de um homem que certamente
não tinha riquezas mundanas e a quem ninguém dava atenção. Ele
passou a vida toda sendo ignorado. Ele simplesmente não merecia
atenção. Ele era cego; era um mendigo.
Para ir até o local em que eu trabalhava, costumava passar por um
cruzamento onde ficava um homem vestindo um velho uniforme do
exército, segurando uma placa que dizia: "Trabalho por comida". Na
maioria dos casos, quem estava parado esperando o farol abrir desviava
os olhos. Às vezes, eu dava um dólar a ele, mas geralmente preferia não
notá-lo.
Essa era a vida do homem sobre o qual João escreveu. As pessoas
procuravam olhar para o outro lado e ele tentava fazer algo para chamar
a sua atenção. Estava acostumado a ser ignorado. Essa era a sua ocupação
na vida. Aquele homem era apenas mais um rosto na multidão.
Mas não para Jesus
As primeiras palavras da história são, inclusive, que, "quando Jesus
ia passando, viu um homem, cego de nascença". Esse é o primeiro
milagre da história. Eis um homem que não é apenas cego, mas invisível.
Quantos anos haviam passado desde a última vez em que um ser
humano tinha olhado para ele? Mas Jesus, que, afinal, tinha lugares para
ir e coisas para fazer ("quando Jesus ia passando"), olhou para ele. Jesus
viu a mágoa e a decepção de uma vida de dependência e anonimato.
Jesus viu a desesperança de uma vida de escuridão que nunca conheceria
a luz.
Ninguém jamais viu como Jesus.
Jesus viu um cobrador de impostos sentado disfarçadamente no
alto de um sicômoro. Ele sentiu quando uma mulher desesperada por
cura tocou a sua roupa, apesar da multidão apressada que o acotovelava.
Ele viu uma viúva para quem ninguém mais voltaria o rosto e observou
que ela deu tudo o que tinha. Ela fez o rosto dele se iluminar. Ele deu
atenção a crianças insignificantes que estavam sendo tragadas pela
multidão. Todos os ensinamentos refletem uma qualidade de Jesus: ele
via como as sementes de mostarda brotavam e o fermento crescia e como
as pessoas enganavam outras para conseguir lugares de destaque em
reuniões e títulos de grande status em suas comunidades. Ele viu quando
seus amigos discutiam sobre quem era o melhor discípulo; ele viu a
dúvida e o medo deles no barco em meio à tempestade; e, às vezes, eles
desejavam que ele não visse tanta coisa assim.
Ninguém jamais viu como Jesus.
Nessa história, várias vezes, aparece outra expressão que significa
ver". Aquele que lamenta sua cegueira, alcançará a verdadeira visão
espiritual. Aquele que se considera o mais perspicaz, acabará
espiritualmente cego. Mas João começa a história com o ato de
Jesus. Ele vê um homem que todos haviam aprendido a ignorar.
Quem ama a mim, ama a meus bonecos de pano., Jesus diz.
Para viver no amor de Deus, é preciso ganhar novos olhos.
Precisamos aprender sempre a ver a graça de Deus acontecendo diante de
nós.
Jesus era um mestre nisso. Para ele, era simplesmente claro que
vivemos em um mundo inundado por Deus. Bastava abrir os olhos para
ver os sinais disso. "Olhe para os pássaros", dizia a seus amigos. Eles não
semeiam, nem colhem, nem fazem estoques em celeiros. Não têm
cronômetros nem planos estratégicos. Nunca adquirem uma colite ou
úlcera e nem têm pressão alta. Mas nosso Pai celestial nunca deixa de lhes
dar alimento. O Pai dos Bonecos de Pano está engajado nisso também.
Cada vez que você acorda, pensa em alguma coisa, saboreia uma
refeição, suas experiências não são obras do acaso. Elas são dádivas
generosas do nosso Pai.
O Deus da Bíblia é o Deus que enxerga. "Ó Senhor, tu me sondaste
e me conheces", diz o salmista. Não existe um único detalhe em nossas
vidas que não seja de grande interesse para Deus.
Jesus sabia disso. E por isso que ele disse: "Não se vendem dois
passarinhos por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o
consentimento de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça
estão todos contados. Não temais, pois; mais vaieis vós do que muitos
pardais".
A propósito, se você não entender a espiritualidade de Jesus nessa
última frase, a idéia perde todo o sentido. Jesus está advertindo que a
ansiedade nos rouba a vida. Será que alguém repara? — pensamos. Será
que alguém se importa? Ele destaca a preocupação constante do Pai com
seus pardais — que era a carne mais barata que se podia comprar naquela
época. Portanto, não se preocupe, ele diz. Você vale muitos pardais.
Quantos pardais a sua vida vale aos olhos de Deus? Coloque todos
os pardais que já voaram na terra de um lado e você do outro lado. Deus
sempre ficará com você. Se Deus está atento a cada acidente que acontece
na vida de cada pardal, imagine então quanta atenção dedica a você!
Na história do homem cego, depois que Jesus o notou, os
discípulos também notaram.
Eles perguntam: "Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que
nascesse cego?". É uma pergunta estranha. Como poderia ser responsável
por sua própria cegueira se ele nasceu cego?
Existia uma crença naquele tempo de que era possível nascer
culpado por algum pecado. Por exemplo, se a futura mãe freqüentasse
um templo gentio, a criança por nascer era considerada culpada de
idolatria. Um documento antigo registra o nascimento de um bebê com
deformidade porque sua mãe passou por um bosque gentio e ficou
"maravilhada". Havia uma escola de pensamento que sustentava ser
possível um feto pecar.
Em geral, naquela época, as pessoas acreditavam que havia uma
relação de causa e efeito entre sofrimento e pecado. De alguma forma,
isso fazia com que as pessoas se sentissem melhor ao pensar que alguém
merecia seu sofrimento. Quando julgamos os outros, sentimo-nos menos
obrigados a sofrer com sua desgraça. Quando julgamos os outros,
deixamos de prestar atenção a eles. As pessoas sabiam em qual categoria
colocar esse homem: mendigo, cego, pecador. Boneco de pano. Elas não
olhavam além dos rótulos para ver a singularidade deste homem em
particular.
Então, o homem passou a vida inteira sendo ignorado. Ele era cego
e as pessoas achavam isso deprimente. Ele era mendigo e as pessoas
achavam isso perturbador. Era, na cabeça delas, um produto do pecado, o
que significava que elas o achavam repugnante.
As mães diziam para os filhos: "Não olhe para ele; não dê ouvidos a
ele; não preste atenção nele. Finja que você não o viu. Ele é pecador. Ele
quer algo que não merece".
Jesus passa por esse homem que todos ignoram e pára diante dele.
Seus discípulos querem saber se o homem tinha sido amaldiçoado por
causa de seu próprio pecado ou do de seus pais.
Eles olharam para o homem, mas não viram o que Jesus viu. Eles
viram um objeto para uma interessante discussão teológica. Sua visão não
lhes revelou o homem em si. De quem é a culpa: dele ou de seus pais?
Jesus disse: "Vocês não prestaram muita atenção. Deus não o
abandonou. Deus apresentou-se a ele". Este é exatamente o tipo de pessoa
que Jesus está procurando.
Ralph Ellison descreveu o sofrimento da vida de um homem negro
em uma sociedade de brancos: "Sou um homem invisível. [...] Sou um
homem que tem substância, de carne e osso, músculos e sangue — e diz-
se até que tenho um cérebro. Mas sou invisível, vejam só, simplesmente
porque as pessoas se recusam a me ver".
Certa vez, perguntaram a madre Teresa o que ela via quando
andava pelas ruas de Calcutá, nas quais os pobres viviam; o que ela via
quando olhava para os órfãos, famintos e moribundos. Ela disse: "Vejo
Jesus disfarçado".
Repare quando Jesus realizou esta obra de Deus: "quando Jesus ia
passando". João dá uma introdução bastante casual à história. Jesus
estava viajando. Ele não estava com pressa. Ele não estava em uma
sinagoga, não estava fazendo o Sermão da Montanha, não estava
alimentando cinco mil pessoas. Ele não estava em uma situação de
pregação formal.
O melhor lugar para realizar a obra de Deus é quando se vai
passando. Não é preciso ocupar um alto cargo ou ser importante. Se tiver
de acontecer, acontecerá, no dia a dia, em qualquer esquina de sua vida.
Quando você for passando.
Esse é o seu dia. Essa é a sua oportunidade de realizar a obra de
Deus. Não a deixe passar. Se você deixar, não terá outra. A noite está
chegando. Não perca o dia.
Qual é a obra de Deus? Simplesmente ver o que Jesus veria se
estivesse olhando através de seus olhos, e reagir da forma como ele
reagiria.
Os líderes religiosos estavam cegos pela idéia de sua própria
virtude. Este homem não é de Deus, disseram, pois não guarda o sábado.
Guardar o sábado era uma das formas pelas quais eles se
distinguiam. Havia trinta e nove trabalhos que eram proibidos no sábado
e a maioria deles tinha subcategorias. Não era permitido nem cortar as
unhas, arrancar um fio de cabelo ou de barba nem usar sandálias com
pregos de ferro (as sandálias costuradas eram permitidas mas, se
tivessem pregos, cada passo contaria como um castigo).
Um dos atos proibidos era trabalhar no barro. Não se podia fazer
nenhuma mistura ou massa — e Jesus o fez para formar o barro que
colocou nos olhos do homem.
Além disso, como prática geral, a cura não era permitida no
sábado. A regra era que você só poderia receber cuidados médicos nesse
dia se sua vida estivesse realmente em perigo. E mesmo assim, só poderia
acontecer com o propósito de evitar a morte e não de melhorar o seu
estado. Eles descreviam os detalhes: se as suas mãos ou pés fossem
deslocados, não era permitido colocar água gelada sobre eles, porque isso
poderia ajudar na cura da torção.
Ironicamente, parte do propósito do sábado, conforme está escrito
em Deuteronômio 5, era dirigir a atenção para os que costumavam ser
ignorados; essa vigilância deveria se estender a crianças, escravos e
estrangeiros, para que todos pudessem ter descanso: "Lembra-te de que
foste servo na terra do Egito", Moisés disse.
Os fariseus olharam para o homem que deixara de ser cego, mas
não viram motivo de alegria. Eles não viram a presença do reino de Deus
entre eles. Viram apenas um sábado violado. Viram uma ameaça ao
sistema religioso que alimentava mais a idéia de sua superioridade
espiritual. Eles olharam para o mesmo homem que Jesus olhara, mas não
viram o que Jesus viu. Estavam muito ocupados pensando em sua
posição para prestar atenção em Deus.
Eles estavam tão empenhados em mostrar a sua retidão que
esqueceram a essência da obra de Deus, que é o amor. Não viram o que
Jesus via, por isso não fizeram o que ele fez.
João inclui um detalhe que conta exatamente o quanto esse homem
era ignorado. Depois de curado, ele voltou ao lugar onde ficava: "Então
os vizinhos e os que dantes o tinham visto a mendigar, perguntavam:
Não é este o que estava assentado pedindo esmolas? Alguns diziam que
era ele. Outros diziam: Parece-se com ele. Mas ele mesmo insistia: Sou
eu".
Esse homem era cego de nascença. Por isso ficou a mendigar, no
mesmo lugar, a vida toda, talvez por trinta ou quarenta anos. Essa gente,
seus vizinhos, as pessoas que viviam e trabalhavam onde ele mendigava,
estiveram com ele todo esse tempo. Por trinta ou quarenta anos, dia após
dia, o homem fez parte do mundo deles.
Mas eles prestaram tão pouca atenção a ele que, quando aconteceu
o milagre, não souberam nem mesmo identificá-lo. Não sabiam nem
descrevê-lo, alguns até pensaram que ele não era o mesmo homem!
Enquanto isso, os fariseus estavam tão empenhados em acabar com
a credibilidade desse homem que chamaram seus pais para interrogá-los:
"É este o vosso filho? É este que vós dizeis ter nascido cego? Como é que
ele agora vê?".
Eles responderam: "Sabemos que este é nosso filho, e que nasceu
cego. Mas como agora vê, ou quem lhe abriu os olhos não o sabemos.
Tem idade. Interrogai-o ele falará por si mesmo".
Sua mãe e seu pai não estavam dispostos a se arriscar para proteger
seu filho. Quero acreditar que meus pais seriam um pouco mais
devotados.
Mas João conta que eles estavam com medo de serem expulsos da
sinagoga. Como Lesslie Newbigin explica, "eles vivem no mesmo mundo
que as autoridades, um mundo governado pelo medo. Eles temem as
autoridades e as 'autoridades' temem por sua própria autoridade'".
Por isso, chamaram o homem pela segunda vez. Lembre-se, esse
homem passou a vida inteira sendo ignorado. Agora, de repente, as
pessoas se atropelam para chegar até ele. Primeiro Jesus e seus discípulos,
depois seus vizinhos, então ele é levado até os líderes religiosos. Agora
ele é interrogado uma segunda vez. A intenção deles é clara: fazer com
que ele diga algo para desacreditar Jesus. E é maravilhoso o modo como
ele se porta. Ele é um dos personagens mais convincentes do evangelho
de João:
"Dá glória a Deus", os fariseus disseram, numa tática de
intimidação para fazer com que o homem dissesse a verdade que eles
queriam ouvir. "Sabemos que este homem é pecador", eles acrescentaram.
O que torna a cegueira deles incurável é a certeza que eles alegam ter.
João continua contrastando a intransigência dos fariseus ("sabemos", eles
dizem três vezes distintas) com a ignorância confessada do homem ("não
sei", ele repete três vezes). Se ao menos eles fossem abertos à
possibilidade de que não sabem.
"Se é pecador, não sei", o cego que passou a enxergar disse. "Uma
coisa sei: Eu era cego, e agora vejo".
"Que te fez ele? Como te abriu os olhos?" "Já vos disse, e não
ouvistes". Então, com admirável coragem ele disse: "Para que quereis
ouvir de novo? Quereis fazer-vos também seus discípulos?"
Nesse momento, começamos a ver o tamanho da cegueira deles. Eis
a ironia: eles acham que são totalmente devotados à obra de Deus, mas
estão tão mergulhados em si mesmos que nem percebem quando o
próprio Deus aparece. Eles não estão prestando atenção. Não reconhecem
a presença do próprio Deus a quem reclamam servir tão fielmente. Que
outra palavra, senão cegos, poderíamos usar para descrevê-los?

Aprendendo a Dar Atenção a Deus


O primeiro passo para se viver no amor de Deus é aprender a dar
atenção a ele.
Surdos, ouvi,
e vós, cegos, olhai, para que possais ver.
Quem é cego, senão o meu servo [...]
Tu viste muitas coisas, mas não as guardaste;
Ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada
ouves.
Deus está dizendo que até seu próprio servo e seu próprio povo
sofrem de cegueira espiritual. Isso significa que, sozinhos ou
naturalmente, não conseguimos dar atenção a Deus. Precisamos aprender
a fazer isso.
William Barry e William Connolly escreveram: "Nossa fé diz que
Deus se comunica conosco, quer saibamos ou não, ao nos criar e redimir
continuamente. Ele fala conosco mesmo quando não temos consciência
disso. [...] Somos continuamente seus 'receptores'". Mas não podemos
ouvi-lo porque não sabemos ouvir.
Um dia, minha família ficou numa sala de espera aguardando
minha irmã sair de seu dormitório e se juntar a nós para o "dia da
família". Na mesma sala encontrava-se a mãe de uma colega de classe da
minha irmã, que também esperava ao lado de seu filho de oito anos.
Ficamos esperando por uma hora e quinze minutos e creio que, em todo
esse tempo a mulher só parou de falar para tomar fôlego. Como se
costumava dizer na época, antes do advento do CD, ela falava como uma
vitrola quebrada, falava como se as palavras fossem o elo que a mantinha
firme na terra. Ela falou tanto que eu sabia mais sobre a família dela do
que sobre meus parentes mais chegados.
Finalmente, sua filha apareceu.
— Bom, é melhor irmos andando — ela disse, sem perder o ritmo.
— Preciso fazer as reservas para o jantar. Sabe, nós vamos encontrar meu
marido em um restaurante e... ah, sim, preciso parar em uma loja e
comprar alguns botões.
Então o filho dela disse, pelo que me lembro, as únicas palavras
que ele pronunciou durante uma hora e quinze minutos. Virou-se para a
mãe e disse como só uma criança de oito anos é capaz:
— Mãe, você precisa de um botão para a sua boca.
Só mesmo uma criança para dizer isso.
Todos nós estávamos pensando a mesma coisa, mas só uma criança
de oito anos teve a coragem, sinceridade ou cometeu a tolice de dizer
"você precisa de um botão para a sua boca".
Em alguns momentos, desconfio que se Deus tivesse qualquer coisa
a dizer, seria: você precisa de um botão para a sua boca.
"Sou o Deus do universo, criador do céu e da terra. Criei o seu
corpo, confeccionei o mundo, eu criei o seu potencial. Quero lhe dar
sabedoria, orientação e amor, mas não consigo alcançá-lo. Seu coração e
sua vida são muito barulhentos e não quero gritar. Eu lhe amo, mas você
precisa de um botão em sua boca".

Síndrome da falta de atenção espiritual


A primeira obrigação da vida espiritual, à qual precisamos recorrer
sempre, é simplesmente prestar atenção em Deus. Isso já é bastante difícil,
considerando-se as dificuldades que temos de prestar atenção em
qualquer pessoa. Acrescente a isso a dificuldade de dar atenção a um
Deus santo, misterioso e invisível e verá que nosso pecado sempre tentará
nos distrair. Todos nós temos uma espécie de síndrome da falta de
atenção espiritual.
Basil Pennington usa a metáfora de um lago para descrever a
importância da constante atenção que devemos dedicar a Deus. Quando
jogamos uma pedra dentro de um lago, ela cria ondulações na água que
se propagam por todos os lados, mas apenas quando o lago está calmo.
Quando as águas do lago estão calmas e tranqüilas, a chegada da pedra
pode ser percebida por toda a superfície.
Mas quando o lago não está calmo, quando a superfície da água já
está ondulada e agitada, a chegada da pedra passa despercebida. Quando
o vento abala a superfície, a pedra não faz diferença. Quando acontece
uma tempestade, tudo fica tão agitado que ninguém é capaz de notar
algumas ondas a mais ou a menos. Elas ficarão perdidas no movimento
frenético da superfície.
A calma sempre é pré-requisito para a receptividade. Os aparelhos de
televisão e telefone não recebem mensagens quando estão cheios de
estática e interferência. É preciso haver silêncio primeiro para depois se
poder ouvir; sempre nessa ordem. "Aquietai-vos, e sabei que eu sou
Deus", escreveu o salmista.
Uma das expressões mais fortes desse fato está no salmo 131.

Ó Senhor, o meu coração não é orgulhoso,


nem os meus olhos altivos [...]
Mas fiz calar e sossegar a minha alma;
como uma criança desmamada com a sua mãe,
como uma criança desmamada é a minha alma
[para comigo.
A criança que ainda não desmamou faz bastante barulho. Ela
descobre que o barulho acaba trazendo a satisfação para o seu desejo.
Mesmo que isso não aconteça, o barulho em si parece causar um certo
alívio. Ou, pelo menos, ele deixa os outros tão infelizes quanto aquele que
o está produzindo.
O bebê desmamado, no entanto, aprende que a presença da mãe
vai além da gratificação imediata do desejo. Ele consegue ficar em
silêncio. Descobre uma nova forma de se comunicar com a mãe.
Estabelece um relacionamento inteiramente novo com sua mãe. Agora ela
é mais do que simplesmente alguém que existe para satisfazer suas
necessidades, para matar a sua fome. Ela passa a ser vista como uma
pessoa e não apenas uma provedora.
Mas, obviamente, isso não é tão simples assim. Desmamar não é
um processo muito popular, pelo menos, não entre os bebês. Raramente a
criança toma a iniciativa de desmamar porque isso é difícil e doloroso.
Desmamar significa aprender a viver em silêncio com desejos não
satisfeitos. E um sinal de maturidade.
O salmista está descrevendo o retrato de sua alma, dizendo que
aprendeu a aquietar o coração. Ele passou por um processo de desmame
espiritual para não ficar à mercê de seus desejos, reflexos e necessidades.
Deus se tornou mais do que um Provedor. O salmista está entrando numa
nova fase: a de ouvir. Ele calou sua alma.
E como saber quando Deus está operando, tentando falar conosco?
• Quando estamos prontos para falar com raiva, dizer palavras
ferinas, mas algo nos faz parar e contemos a língua.
• Quando passamos pelo quarto de nossos filhos, rapidamente,
mas algo nos faz voltar e entrar exatamente no momento em que eles
estão precisando conversar com alguém.
• Estamos num restaurante, há um funcionário nos aguardando
mas nós nem percebemos. De repente, por algum motivo, ele chama a
nossa atenção, olhamos realmente para ele e começamos a conversar. Ele
tem a mesma idade que nós e filhos como os nossos. Não fala a nossa
língua corretamente. Tem de dar duro em dois empregos para sustentar a
família. Percebemos o quanto ele precisa de orações e oportunidades e
ficamos espantados por todas as coisas que recebemos e pelas quais
somos responsáveis.
Provavelmente momentos como esses não sejam meros acasos.
Talvez em cada um deles Deus esteja sussurrando alguma coisa para nós.
Para cada pessoa que notamos, quem sabe mil passem despercebidas,
pois as nossas mentes não estão silenciosas. Elas estão tão agitadas que
fica difícil distinguir as mensagens que vêm de Deus.
Nossas mentes estão incomodadas com desejos desordenados. O
que as pessoas acham de mim? Será que serei bem-sucedido? Será que
serei rico? Será que sou atraente?
Nossas mentes estão transtornadas com a estática e a ansiedade que
acompanham a fé pequena. O que vai acontecer amanhã? E se eu não
tiver mais idéias? E se não tivermos dinheiro suficiente? E se eu não
conseguir resolver o problema?
Nossas mentes estão agitadas com a turbulência do pecado. Nossos
remorsos acusam a nossa fraqueza espiritual. A culpa reclama da nossa
hipocrisia. A indecisão nos empurra para frente num determinado
momento e para trás em outro.
Nossas mentes perdem a tranqüilidade diante de nossa vida
agitada. Compromissos e atividades em excesso, poucas horas de sono,
estímulos demais, conversa demais, tudo isso abala o silêncio e não nos
permite enxergar a ondulação, a "voz interior", que é o sinal de que Deus
quer nos falar.

Aprendendo a Dar Atenção às Pessoas


Além de dar atenção a Deus, precisamos dar atenção às pessoas
que são importantes para nós. Amar é dar atenção. Quem ama sente.
Quem ama ouve. Quem ama sabe. Quando é o aniversário dela? Como
ele gosta do café? Qual é o seu filme favorito? O amor está nos pequenos
detalhes. Deborah Tannen escreveu uma linda história sobre uma boneca
de pano:
Depois de muitos anos de viuvez, minha tia-avó, já na
casa dos setenta, teve um romance. Gorda, com cabelos ralos,
mãos e pernas deformadas pela artrite, não se pode dizer que
ela se encaixava no estereótipo da mulher que tem um caso
amoroso. Mas ela foi amada por um homem também na casa
dos setenta, que vivia em um asilo, mas de vez em quando
vinha passar os fins de semana com ela em seu apartamento.
Ao tentar me explicar o que esse relacionamento significava
para ela, minha tia-avó contou-me de sua conversa. Certa noite,
ela saiu para jantar fora com os amigos. Quando voltou para
casa, seu amigo ligou e então ela contou-lhe sobre o jantar. Ele
ouviu com interesse e perguntou-lhe: "O que você vestiu?".
Quando ela me disse isso, começou a chorar: "Você sabe há
quanto tempo alguém não me faz uma pergunta dessas?".
Com isso, minha tia-avó quis dizer que fazia muito
tempo desde a última vez em que alguém se importou
realmente com ela, com tanta intimidade.

Quando entrei no curso de pós-graduação, todos nós, aspirantes a


psicólogo, aprendemos que há um tipo certo de postura que se deve ter.
Para demonstrar nosso interesse pelos clientes, deveríamos encará-los
com sinceridade, ser receptivos (nada de ficar com os braços cruzados),
inclinar o corpo na direção deles, estabelecer contato com os olhos e
permanecer calmos. Quando atendi meu primeiro cliente, passei os
quinze primeiros minutos tão preocupado em manter essa postura que
não ouvi uma palavra sequer do que ele disse. Logo depois descobri que
a melhor maneira de fazer com que alguém saiba que você está lhe dando
atenção é simplesmente dar-lhe atenção.
"Todo homem seja pronto a ouvir, tardio para falar e tardio para se
irar", disse Tiago, apresentando o que deve ser o mandamento mais
transgredido de toda a Bíblia.
Se você quer realizar a obra de Deus, preste atenção nas pessoas.
Olhe para elas. Olhe especialmente a pessoa que ninguém mais olha.
Quando você prestar atenção em alguém, quando se concentrar
totalmente nela, diga: "Você é a coisa mais importante do mundo para
mim agora".
O amor é uma forma de agir. Scott Peck escreveu: "A forma
principal que a obra de amar assume é a atenção. Quando amamos uma
pessoa, damos a ela nossa atenção; cuidamos do seu crescimento".
O dr. James Lynch, co-diretor da Clínica e Laboratórios
Psicofisiológicos da Universidade de Maryland, realizou um estudo sobre
a atenção. Ele descobriu que a verdadeira cura do sistema cardiovascular
acontece quando ouvimos. Os estudos revelaram que a pressão sangüínea
aumenta quando a pessoa fala e abaixa quando ela ouve.
Deus está totalmente atento a nós: "até mesmo os cabelos da vossa
cabeça estão todos contados", Jesus disse. Geralmente entendemos como
um sinal de amor quando alguém repara num corte de cabelo ou
penteado que fazemos. (Uma prova disso: deixar de reparar na mudança
do penteado é uma das maiores causas de brigas entre os cônjuges).
Deus calculou cada fio de nossos cabelos. Se faltar um, ele notará
(pode ser que ele não o substitua, infelizmente, mas certamente notará
sua falta). Deus percebe coisas que sua mãe nunca imaginou. E quando
vivemos no amor divino, começamos a prestar atenção às pessoas do
modo como ele presta atenção em nós.
Em relação à história do homem cego, João quer que os leitores
saibam que Jesus dominava a arte de preocupar-se com os outros.
Cada um dos personagens ou grupos de pessoas da história via de
forma diferente.
• Quando os discípulos olharam para o mendigo, viram uma
questão teológica interessante: quem havia pecado para ele nascer cego?
Mas eles não o viram com o coração. A visão deles não os comoveu.
• Quando os vizinhos olhavam para ele, viam uma coisa
desagradável, uma imagem perturbadora do sofrimento e da pobreza que
eles aprenderam a negligenciar. Mas eles não o viam com o coração e, por
esta causa, também não se comoviam.
• Quando os fariseus olharam para ele, viram a transgressão de um
sábado, uma ameaça à sua autoridade religiosa. Viram com um olhar frio
e metálico, sem lágrimas nem brandura. Eles não deixaram de ver
simplesmente, mas se recusaram a ver. Fecharam os olhos do coração e
não os abriram mais. A cegueira espiritual não é apenas ignorância. Jesus
disse aos fariseus: "Se fósseis cegos, não teríeis pecado; mas, como agora
dizeis: Nós vemos, permanece o vosso pecado". Há cura para os olhos
que não podem ver, mas para os que não querem ver não há remédio. Deus
não os abrirá contra vontade.
• Quando Jesus olhou para o homem cego, viu uma oportunidade
de realizar a obra de Deus. Viu um filho de Deus que precisava se libertar
da cegueira. Viu e ficou comovido. Viu com olhos que por vezes ficavam
marejados, faiscavam de raiva ou dançavam de alegria. Mas nada
passava despercebido a esses olhos.
E, assim, um homem que fora cego a vida inteira ganhou novos
olhos. Não apenas física, mas espiritualmente. Ele começou a ver o que
Jesus via.
A princípio, tudo o que o cego sabia era que o homem que o havia
curado chamava-se Jesus (Jo 9.11). Mais tarde, para os fariseus, ele
confessou que Jesus era um profeta (v. 17). Depois ele ainda se tornou um
defensor de Jesus dizendo que o que ele fizera mostrava que era de Deus
(v. 33). Em seu último encontro, ele passou a enxergar Jesus como o Filho
do Homem e o saudou e o adorou (v. 38).
Um homem que havia nascido cego passa a ver e percebe que a
visão que vai adorar a vida toda, a melhor coisa sobre a qual ele jamais
vai colocar os olhos, é a imagem daquele que o curou.
Pois agora ele vê que não foi esquecido por Deus. Agora ele pode
perceber, depois de ter sido ignorado a vida toda, que Deus não desviou
seu olhar nem mesmo do mais humilde de seus bonecos de pano. Deus
ouviu cada oração, contou cada lágrima.
Agora este homem tinha olhos que podiam realmente ver. E
suponho que ele passou o resto de sua vida aprendendo a ver como Jesus.
E para isso que servem os nossos olhos.
CAPíTULO3
Deus toca o intocável
Amar é ficar completamente vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração
ficará apertado e possivelmente se partirá. [...] O único lugar além do céu onde você
está completamente imune a todos os perigos e preocupações do amor é no inferno.

C. S. LEWIS

Quando eu era pequeno, a doença infantil mais temida não era


varíola, sarampo nem caxumba. Era um problema mais sutil e misterioso.
Era altamente contagioso. Não existia vacina, antídoto ou qualquer tipo
de inoculação.
Ninguém fazia idéia do que aconteceria quando se contraísse a
doença, mas a simples menção dela provocava terror tanto em mim
quanto em meus colegas. Sabíamos que ela era uma fatalidade pior do
que a morte. A única forma de se resguardar era colocar os portadores de
quarentena absoluta.
Felizmente, ela era facilmente detectável. A doença afetava somente
as garotas. Toda garota (exceto minha mãe) estava carregada disso. Não
sei exatamente o seu nome científico, mas nós a chamávamos piolho.
Bastava uma portadora tocar em você, respirar perto de você ou olhar
fixamente para você para que você fosse contaminado. Ninguém era
louco o suficiente a ponto de tocar alguém com piolho. Era como se todos
os portadores tivessem uma marca na testa dizendo: "Não me toque". Se
soubesse na época que acabaria numa casa com três mulheres, teria
enlouquecido. Eu moro na piolholândia.
Os seres humanos necessitam do toque. Gary Smalley e John Trent
citam estudos que demonstram que as pessoas que experimentam um
contato físico significativo e constante em suas vidas têm uma expectativa
de vida maior do que as outras pessoas. Naturalmente descrevemos a
intimidade em termos espaciais: estar próximo de alguém em contraste
com estar distante. Psicólogos descobriram que quanto maior a distância
física que um casal mantém durante uma conversa, maior a chance de
ficar insatisfeito com o casamento e, portanto, maior a chance de se
divorciar.
Algumas pessoas declaram não se sentir à vontade com o toque. A
revista The Economist relatou um incidente no estado de Bihar, ao norte
da índia, ocorrido em junho de 1994, sobre uma garota de uma casta
inferior que fugiu para se casar com um garoto "intocável". Com a
aprovação do conselho do povoado, a cabeça do menino foi esmagada
com uma pedra, enquanto a menina foi espancada e marcada com um
pedaço de lenha em brasa. Esse era o destino do intocável e daquele que o
tocasse.
Embora as conseqüências nem sempre sejam tão dramáticas assim,
toda sociedade tem seus próprios intocáveis, baseada na raça, status,
idioma ou nível cultural. E todos nós, em determinadas épocas ou
situações, sentimo-nos como esses intocáveis, ou seja, intrusos
desprezíveis e excluídos.
Esta é a história de uma pessoa que foi infectada por uma doença
terrível; ninguém nunca chegava perto dela, muito menos a tocava. Mas
então Alguém o fez. Esta também é a história de um mundo contaminado
por uma doença horrível. Mas Deus o tocou. É a sua história e a minha.
O homem da história era leproso. Vamos entender como essa
doença era encarada naquela época. O tipo mais comum começava com
uma sensação de letargia e dor nas articulações. Logo manchas
descoloridas e nódulos deixavam o rosto do doente irreconhecível.
Quando os machucados ulceravam, o mau cheiro ficava intolerável. As
cordas vocais também ulceravam, deixando a voz rouca e áspera.
O maior dano que a lepra causava era a perda da sensibilidade. O
dr. Paul Brand conduz uma pesquisa inédita sobre a lepra no século vinte
e passou a maior parte de sua carreira com leprosos na índia. Ele descreve
a história de um portão trancado com uma fechadura enferrujada que a
chave não conseguia abrir. Um jovem leproso colocou seu dedo na
fechadura e girou-o até abrir a fechadura. Quando tirou o dedo, Brand
viu que ele estava corroído até os ossos. Mas o garoto não sentiu nada.
Os leprosos freqüentemente perdem os dedos das mãos e dos pés e
as pessoas costumavam pensar que isso era causado pela doença. Brand e
outros pesquisadores passavam a noite em claro observando os leprosos
enquanto dormiam. Ratos apareciam e roíam as extremidades de seus
corpos mas, como eles não sentiam dor, continuavam dormindo. Eles
acordavam no dia seguinte com partes de seus corpos faltando, a menos
que alguém ficasse ao seu lado para cuidar deles.
O primeiro sinal da lepra era tratado como uma sentença de morte.
"Também o leproso, em quem está a praga, andará com as vestes
rasgadas, a cabeça descoberta e os cabelos soltos, mas cobrirá o bigode, e
gritará: Imundo! Imundo! Será imundo todos os dias em que a praga
estiver nele. É imundo, e habitará só; a sua habitação será fora do arraial".
A lei era bastante clara: "Nada de toques". Os rabinos iam mais
longe. Se a lepra acometesse a casa de alguém, a própria casa era
considerada contaminada e deveria ser destruída. Se um leproso fosse
visto em um local público, era perfeitamente aceitável que os outros lhe
atirassem ovos ou mesmo pedras. Tocar em um leproso significava
tornar-se poluído.
Imagine a idéia de nunca mais ser tocado por alguém: nunca poder
segurar uma criança no colo, sentir o aperto da mão de um amigo, o
abraço do seu cônjuge ou o braço de seu pai sobre o seu ombro.
E a lepra, além de ser uma doença física, também carregava um
estigma moral. Ela era considerada um castigo de Deus. Para as outras
doenças havia uma cura, mas para a lepra dizia-se que o doente precisava
ser limpo. Os leprosos não eram considerados apenas doentes, mas
"imundos", poluídos.
É por isso que o evangelho de Marcos fala de um leproso que se
aproximou de Jesus "rogando-lhe, e pondo-se de joelhos". Por isso o
leproso lhe disse: "Se quiseres, bem podes limpar-me". O pai de uma
criança endemoninhada disse a Jesus: "Se tu podes". O leproso não tinha
dúvidas que Jesus podia limpá-lo. Ele apenas duvidava se Jesus queria
fazê-lo. O homem sentia-se totalmente indigno. Estava tomado de
vergonha.
Esta não é apenas uma bela história sobre cura, mas um caso que
está em voga. Pense em uma doença da atualidade que seja altamente
contagiosa, desperte muito medo, seja considerada fatal e carregue um
estigma moral. Como Jesus reagiria a ela?
Recebi o telefonema de uma mulher cuja família freqüentava uma
igreja em que servi como pastor há alguns anos. Ela pediu-me para ir
visitar seu irmão no hospital e, embora conhecesse sua família muito
bem, fui surpreendido, porque nunca tinha ouvido falar que ela tinha um
irmão.
Ele estava morrendo de Aids e estava doente há um bom tempo.
Ele passara um ano sem ter uma única conversa com seus pais e seu
principal objetivo era morrer despercebido e só. Mas, finalmente, sua
irmã descobriu que ele estava doente e convenceu-o a ir para o hospital.
Ele contou-me que havia pensado em se matar na noite anterior
porque estava tomado pelo medo e pela vergonha. No entanto, fez as
pazes com Deus e pediu-me para batizá-lo. Foi o que fiz, na presença de
sua irmã, poucos dias antes de sua morte.
Seus pais foram visitá-lo algumas vezes no hospital, mas não
quiseram saber o motivo de sua internação. Sua mãe, a mulher que o
havia trazido ao mundo, recusou-se a tocar no assunto mesmo perto de
sua morte. Sua principal preocupação era garantir que em todos os
registros públicos a causa da morte não constasse como Aids, para que
ninguém jamais soubesse o motivo. Ela recusava-se até a pronunciar a
palavra.
Ele morreu sem nunca receber de seus pais o toque que poderia ter
curado a sua alma.
Os líderes religiosos da época de Jesus estabeleceram o que se
poderia chamar de estratégia do isolamento. Leprosos, gentios,
cobradores de impostos, mulheres, os não circuncidados, todos deveriam
ser evitados "como a uma praga". Ninguém podia comer, falar e trabalhar
com eles ou mesmo olhar para eles. Havia um grupo de rabinos
chamados rabinos que "sofrem e sangram" que se comprometia a nunca
nem mesmo olhar para uma mulher. É sério, não estou inventando!
A idéia por trás da estratégia de isolamento é que o pecado e o
sofrimento são contagiosos. A única forma de evitá-los era separar-se do
tipo de pessoa e lugar aos quais você estaria exposto. Era viver numa
quarentena espiritual.
Posso compreender por que essa idéia era interessante. O pecado
espalha-se como uma gripe comum. Ande com um grupo de insatisfeitos
para ver como você vai ficar. Vivemos num mundo que certamente é tão
poluído moral quanto fisicamente.
Quando olho para meus filhos e penso em toda a destruição que o
mundo causa, dá vontade de deixá-los de quarentena, colocar uma placa
pendurada no pescoço deles dizendo: se você está envolvido com drogas,
promiscuidade sexual, destruição de propriedade, retraimento social ou body
piercing bizarro, mantenha distância. Não toque. Quarentena. Mas as coisas
não são assim.
Através da história, os religiosos sempre recorreram à estratégia do
isolamento: evite os pecadores e viva em quarentena religiosa. O
problema é que, quando fazemos isso, passamos a ver o mundo em
termos de "nós" contra "eles". A quarentena transforma-se em um efeito
estufa para os pecados mais destrutivos: orgulho, exclusivismo,
superioridade moral. Quando isolado, o amor definha; a humildade, a
compaixão e a generosidade de espírito ficam sufocados. A conseqüência
final da estratégia do isolamento pode ser vista em lugares como a antiga
Iugoslávia onde o genocídio é visto como uma "limpeza étnica". As
pessoas diferentes, "os outros", são vistas como uma sujeira que precisa
ser removida.
Em Jesus, Deus deixa bem claro que sempre rejeitou a estratégia do
isolamento. Há vários milagres nessa história; o primeiro deles começa
logo a seguir.

O Milagre da Acessibilidade
Jesus era rabino. A tarefa do rabino era garantir que a lei fosse
compreendida e seguida.
Um homem era leproso. Era obrigação do leproso manter-se longe
das pessoas, especialmente dos rabinos. O rabino era a última j
pessoa que um leproso gostaria de ver. Se chegasse perto de um,
sabia que seria severamente criticado por ter desrespeitado a lei: o castigo
era certo.
Os rabinos orgulhavam-se de ser inacessíveis. Consideravam-se tão
próximos de Deus que os pecadores comuns — os leprosos, imundos —
não eram autorizados a chegar muito perto.
A ironia é que o único rabino de quem o leproso pôde se aproximar
era Deus em pessoa.
Que qualidade Jesus tinha que os outros rabinos não tinham? Ele
era eminentemente acessível. Não apenas para os leprosos. Isso acontecia
regularmente com prostitutas, cobradores de impostos e gentios pagãos
— todo tipo de bonecos de pano. Quanto mais religioso o rabino era, mais
inacessível se tornava.
Enfrentamos o mesmo problema. Sabemos que é importante
sermos puros, então começamos a tentar impressionar as pessoas com
nosso conhecimento teológico ou pureza moral para reforçar nosso senso
de superioridade espiritual. Se continuarmos assim, também não vai
demorar muito para nos tornarmos inacessíveis.
Há uma forma básica de distinguir o modo de vida de Jesus
daquele dos líderes religiosos. Para eles, quanto mais religiosos eles
fossem menos acessíveis se tornavam. Mas, com Jesus, era exatamente o
oposto. Jesus possuía uma "diferença" mais profunda que atraía os
pecadores para ele. Os fariseus possuíam uma diferença superficial que
afastava as pessoas.
Quando eu era criança, costumava achar que quanto mais
"religiosa" fosse uma pessoa, mais inacessível ela seria, que ser santo
significava manter uma certa rigidez, austeridade e distância.
Mas em Jesus vemos que a verdadeira religiosidade sempre torna a
pessoa mais acessível, e não o contrário. E por isso que vale a pena refletir
sobre isto: Jesus foi o ser humano mais acessível que já existiu.
E no ato do toque que nos tornamos mais presentes e reais uns para
os outros. Há alguns anos, levamos nossos três filhos à Disneylândia e
Mickey Mouse veio receber o público. Todas as crianças queriam a
mesma coisa. Elas não pediam presentes ou entradas grátis. Elas queriam
ser tocadas. Nosso filho caçula começou a saltar e a gritar sem parar:
"Toque em mim, toque em mim".
A Bela, personagem principal da história A bela e a fera, apareceu e
nossas duas filhas também começaram a pular e a gritar: "Toque em mim,
toque em mim" (algum tempo depois, encontramos o Kevin Costner com
seus filhos, e minha esposa começou a pular e gritar...).
Marcos narra uma ocasião em que um grupo de crianças foi trazido
a Jesus "para que as tocasse”. Os discípulos tentavam mantê-las afastadas
e "repreendiam" as pessoas. Eles entendiam que alguém tão importante
quanto Jesus não deveria ser normalmente acessível.
Mas Jesus indignou-se. "E tomando-as nos braços e impondo-lhes
as mãos, as abençoou". Ele não precisava fazer isso. Bastava dizer
algumas palavras. Mas ele preferiu lhes dar uma lembrança. Imagine ser
uma daquelas crianças, ser capaz de lembrar pelo resto da vida que fora
tocado por Jesus.
Uma das perguntas mais importantes que podemos fazer a nós
mesmos é: "Estou me tornando mais ou menos acessível?". Sou acessível às
pessoas que vivem em meu pequeno mundo? Meu cônjuge pode
conversar abertamente comigo? Já parei alguma vez para colocar o braço
sobre o ombro de um colega de trabalho, apenas para que ele saiba que
estou feliz por trabalhar ao seu lado? Estou procurando ouvir mais as
pessoas sem fazer julgamentos?

O Milagre do Toque
O segundo milagre tem a ver com a ordem dos fatos. A lei dizia:
"Não toque". O Evangelho está cheio de histórias sobre pessoas que
procuram tocar em Jesus: as crianças, a mulher que sofria de hemorragia
e desesperadamente tocou na bainha de suas vestes, a prostituta que
ungiu os pés de Jesus com lágrimas e enxugou-os com o cabelo e o
incrédulo Tomé, que queria sentir os ferimentos de Jesus com suas
próprias mãos.
Diferentemente de todas elas, os leprosos não tentaram tocar em
Jesus. Eles compreendiam a situação. Eles conheciam a lei.
Mas repare no que Jesus fez: "com grande compaixão, estendeu a
mão, tocou e lhe disse: Quero, sê limpo".
Jesus tocou o leproso antes de curá-lo. Ele tocou o leproso enquanto
o homem ainda era imundo. Isso escandalizaria qualquer um que visse a
cena. Quem tocasse num leproso também passava a ser considerado
imundo. Era um grande milagre. Trata-se de Deus, que, afinal, foi quem
criou a lei, quebrando a sua própria lei, pelo bem da humanidade. Jesus
não precisava tocar o leproso para limpá-lo. Ele já tinha feito outros
milagres à distância; bastava apenas "dizer a palavra". A palavra curou o
corpo e o toque curou a alma. Mas Jesus queria deixar uma coisa bem
clara.
O milagre do toque é que Jesus desejava compartilhar o sofrimento
de outra pessoa para dar-lhe a cura. É um prenúncio da cruz: Jesus toma
para si o nosso pecado para que possamos receber a sua vida. Por suas
feridas, somos curados.
Em um mundo contagioso, aprendemos a nos manter distantes. Se
chegarmos muito perto dos que sofrem, podemos acabar contaminados
por sua dor. Não nos parece conveniente ou agradável. Porém, somente
quando nos aproximarmos o bastante para sentir sua dor, eles se
aproximarão o suficiente para sentir o nosso amor.
Jesus não ordenou a seus discípulos que vivessem de quarentena.
Ele ordenou que fossem uma espécie de hospital. Imagine um hospital
onde os médicos dizem: "Este foi um dia de sorte. Não fui contaminado.
Meus pacientes estavam cheios de germes imundos, mas os deixei todos
lá fora. Pode ser que morram, mas pelo menos não toquei em nenhum
deles. Não fui contaminado".
Há alguns anos, estava quase entrando em uma loja de
antigüidades quando Nancy puxou-me de lado. Eu carregava nossa filha,
ainda bebê, em uma espécie de mochila nas costas e Nancy estava
grávida de oito meses.
— Já entrei nessa loja uma vez e vi as etiquetas de preço. Eles têm
peças bem valiosas aí. Há avisos por todo o lado dizendo: Não toque". Eu
o conheço bem. Você vai seguir direto para a seção de livros raros e vai se
esquecer que está carregando um bebê nas costas; e, assim que se distrair
um pouco, ela vai quebrar um vaso caríssimo e isso nos custará uma
fortuna.
— Desculpe — eu disse —, mas tenho trinta anos de idade e
doutorado em psicologia. Creio que posso dar conta de uma criança de
um ano de idade por meia hora.
— Ótimo. Mas quero deixar bem claro que se ela quebrar alguma
coisa, você vai pagar a conta com o seu dinheiro pelos próximos vinte
anos.
Então nós entramos.
Descobri a seção de livros raros e comecei a ler.
Esqueci completamente que carregava um bebê nas costas.
Ela fez um movimento brusco em direção a alguma coisa e
engasguei. Nancy ouviu o barulho e virou-se. Mas com oito meses de
gravidez, seu corpo ia muito além dos limites normais. Ela acabou
esbarrando em um vaso incrivelmente caro, que se espatifou no chão.
Isso aconteceu há dez anos. E ela ainda está pagando.
Todo dia passamos pela loja de Deus. Todo dia esbarramos em
objetos de valor incalculável para ele: pessoas. Cada uma delas carrega
uma etiqueta de preço, que não podemos ver. Os leprosos e aidéticos, as
crianças e os idosos, os sábios e os tolos, os santos e as prostitutas: vale a
vida do meu Filho, a etiqueta diz. Você vai respeitar o valor daqueles em
quem toca? Está disposto a pagar o preço? Quando alcança os intocáveis
do seu mundo, dispõe-se a sofrer. Amor significa decepção e pesar.
Mas existe alternativa? C. S. Lewis escreveu:

Amar é ficar completamente vulnerável. Ame


qualquer coisa e certamente seu coração ficará apertado e
possivelmente se partirá. Se você quiser manter-se intacto
a qualquer preço, não deve dar seu coração a ninguém,
nem mesmo a um animal. Esconda-o cuidadosamente
atrás de hobbies e luxos; evite qualquer complicação;
tranque-o na caixa ou caixão de seu egoísmo. Mas nessa
caixa — segura, escura, inerte, sem ar — ele mudará. Não
se partirá; tornar-se-á inquebrável, impenetrável,
irredimível. A alternativa para a tragédia, ou pelo menos
para o risco de uma tragédia, é a condenação. O único
lugar além do céu onde você está completamente imune a
todos os perigos e preocupações do amor é no inferno.

A loja de Deus está cheia de avisos que dizem: por favor, toque.
Podemos não querer; estamos ocupados, com medo ou vergonha. Mas
apenas quando as pessoas são tocadas em sua devastação é que acontece
a cura.
Hoje há pessoas em seu mundo esperando por alguém que as
toque. Será você? Coloque o seu braço sobre os ombros de seu amigo.
Segure a mão de alguém que sofre. Segure uma criança no colo. Por favor,
toque.

A Infecção Imaculada
Ninguém tocaria em um leproso, porque todo mundo sabia o que
poderia acontecer. Tocar um leproso significava ser infectado pela lepra.
Isso sempre acontecia ou, pelo menos, as pessoas pensavam assim.
Mas algo mais forte do que a lepra está agindo nessa história.
Marcos diz que Jesus tocou o homem e "imediatamente" a lepra
desapareceu. O leproso não infectou Jesus com sua doença. Jesus infectou
o leproso com sua vida! A isso podemos chamar de infecção imaculada. A
vida que fluiu através de Jesus para o homem foi tão forte que a lepra
simplesmente não podia coexistir com ela.
O pecado e o sofrimento não são as únicas coisas contagiosas.
Graças a Deus, o entusiasmo, a risada e a própria fé também são. Ande
com alguém com essas características e verá que elas são transmissíveis.
O contágio funciona dos dois lados.
Jesus usou duas vezes o fermento como exemplo em seus
ensinamentos. O fermento é um retrato do contágio. Coloque uma
quantidade de fermento em uma massa de farinha e logo ela ficará
fermentada. Em Mateus 16, ele avisou seus discípulos para que tivessem
cuidado com o fermento dos fariseus. Seu espírito crítico sobre quem é
tocável e quem não é estava se espalhando. Eles já tinham uma dose
suficiente de superioridade moral para serem inoculados contra a fé.
Mas em Mateus 13 Jesus usou o fermento para tratar de outra coisa:
o reino de Deus. Desta vez ele deu a dimensão. Falou sobre uma mulher
que misturou fermento em uma quantidade de farinha absurdamente
grande, como se estivesse trabalhando com sacos industriais de farinha e
fazendo uma refeição para a cidade de Cleveland. O fermento parece
crescer. De fato, a palavra que o texto usa é que ela "introduz" o fermento
na farinha. Parece um exercício de futilidade. O fermento aparentemente
desaparece. Mas é preciso ser paciente. Despercebida e sutilmente, o
fermento penetra em toda a massa. A farinha não tem chance. Agora, é
apenas uma questão de tempo.
O mesmo acontece no reino de Deus, Jesus disse. Ele não pode ser
impedido. Desde Jesus, o fermento tem agido. Ele pode parecer pouco e
insignificante: uma igreja pequena em um bairro decadente do centro da
cidade, uma reunião religiosa secreta na China, um pequeno grupo de
pessoas orando por um lugar no mundo. Pode parecer pouca coisa agora,
um pedaço de fermento, Jesus diz. Mas continue observando. Basta ter
um pouco de paciência. As trevas não terão chance. E apenas uma
questão de tempo.
O segredo da vida espiritual não é isolar-se do pecado e do
sofrimento. Isso seria impossível, mesmo que quiséssemos. Jesus viveu no
mesmo planeta contaminado que nós, mas ficou imune. Nossos corpos,
no entanto, não resistiram.
O segredo é se sentir tão pleno com a vida de Jesus que ao tocar o
mundo, em vez de ele nos infectar, somos nós que o infectamos.
O leproso curado tinha esse vírus. Ele era contagioso; simplesmente
não podia evitar de ser. Embora tivesse sido advertido para ficar em
silêncio, sentiu que não podia. Sua fé era tão infecciosa que ele a
espalhou, como um germe, uma gripe, como um boato quente. Todo o
mundo pegou: "E de todas as partes iam ter com ele".
E, desde então, aqueles que são tocados por Jesus têm espalhado
germes. Pequenos germes de alegria e de fé, bactérias de devoção.
Pois, conforme meu amigo Ian Pitt-Watson disse em um belo
tratado sobre essa passagem, vivemos em um planeta contaminado. Ele
está contaminado em todos os níveis. Deveria estar de quarentena do céu.
Qualquer Deus com um pouco de sensatez jamais se aproximaria dele
apenas com um cajado de três metros de altura.
Mas Jesus não é um Deus sensato. Ele se tornou homem,
adquirindo a sua impureza e a minha. Mas em vez do mundo infectá-lo,
foi ele quem infectou o mundo, com sua infecção imaculada. Ela ainda
está se espalhando.
E apenas uma questão de tempo.
CAPÍTULO4
O Senhor da segunda chance
O perdão é uma invenção de Deus para aceitar um mundo no qual as pessoas são
injustas umas com as outras e se magoam profundamente. Ele começou nos
perdoando e pede para todos nós perdoarmos uns aos outros.

LEWIS B. SMEDES

Há alguns anos participei de um jogo de golfe com alguns amigos


(algo que faço raramente e muito mal). No primeiro buraco, preparei-me
para dar a tacada, coisa que pela TV parece muito fácil. Afinal, a bola nem
está em movimento. Acertei a bola num ponto difícil de acreditar. Ela
voou em um ângulo de noventa graus. Foi impressionante. Ninguém
antes tinha visto uma bola de golfe fazer uma trajetória como aquela e,
até aquele momento, pensava-se ser fisicamente impossível. Desejei
muito poder fazer a tacada de novo (ela acertou o telhado de uma casa
vizinha e, pelo barulho, deve ter causado um bom estrago).
Comecei a seguir o rastro da bola para poder fazer a próxima
tacada e, então, as pessoas com quem estava jogando disseram algo
surpreendente: "Não se preocupe. Deixa para lá". Disseram-me que
pegasse o que chamam de mulligan. Você não precisa jogar de uma
posição impossível, explicaram. Você não tem nem mesmo que contá-la.
Não vamos marcá-la; ela não aparecerá no cartão de pontos. Será como se
nunca tivesse acontecido, concluíram. E irrelevante para a minha
pontuação final. Fiquei com a ficha limpa. Ganhei um novo começo.
Podia recomeçar, como se fosse a primeira vez. O mulligan é uma espécie
de bilhete de misericórdia para uma jogada imperdoável.
Então comecei a pensar: não seria maravilhoso se pudéssemos tomar
um mulligan em outras áreas da vida?
Imagine só, um policial pára seu carro por excesso de velocidade e
você destaca o bilhete. "Obrigado, guarda. Vou usar o meu mulligan."
"Certamente, senhor."
O banco diz que seu cheque está sem fundos. "Mulligan", você diz
para eles. Agora mesmo, eles respondem.
Numa discussão com um amigo, você diz algo que não deveria.
Mulligan.
Foi mal numa^prova, estragou uma apresentação no trabalho,
investiu na empresa errada, cometeu uma gafe constrangedora, esqueceu
de enviar o imposto: basta tirar um mulligan.
Nada de perguntas.
Nada de multas.
A verdade é que bonecos de pano precisam de mulligans o tempo
todo. Quando temos a chance de ajudar alguém, aproveitamos a
oportunidade para, em vez disso, nos autopromover. Deixamos a dúvida
pairar no ar para ganharmos crédito pelo que não fizemos. Explodimos
com os outros facilmente. Ao ajeitar um de meus filhos debaixo da
coberta depois de um episódio como esses, tentei retratar-me: "Me
desculpe por ter sido tão bravo. Não sei o que me aconteceu. Espero que
Papai Noel ainda me traga um presente".
Ele concordou, com tristeza nos olhos e um ar de dúvida: "Também
espero".
Será que Papai Noel aceita mulligans?
Às vezes, a necessidade de um mulligan é mais profunda. Pode ser
que precisemos de um mulligan em toda uma fase de nossa vida. Uma
mulher tinha um relacionamento complicado e cheio de conflitos com seu
pai; ela o amava, mas estava brava com ele e sua reação foi o retraimento.
Então, em outra parte do país, seu pai morre sozinho e agora ela fica
cheia de remorsos. Ela daria qualquer coisa por um mulligan.
Você toma uma atitude — faz uma escolha — que magoa alguém
próximo a você, alguém que realmente lhe é importante. E daí você se
afoga na culpa; não sabe se um dia vai conseguir recuperar a confiança
que havia — você daria tudo por um mulligan.
Você se envolve em uma prática ilícita por dinheiro. Depois passa a
viver com medo de ser descoberto e cair na desgraça; vive com a
consciência de que construiu sua vida enganando e trapaceando. Talvez
ninguém jamais venha a saber, mas sua consciência e senso moral vão
sendo bombardeados dia após dia. Sua desonestidade é como um câncer
espiritual que destrói a sua alma. Você precisa de um mulligan mais do
que é capaz de imaginar.
Você fracassa em algo importante — na vida profissional, conjugai,
na criação dos filhos ou ao demonstrar a sua integridade moral — e a
sensação de fracasso nunca desaparece. Você se sente impregnado por
ela, como se nunca fosse conseguir se livrar disso. Ela se apega a você
como a própria pele e você se desespera achando que nunca vai superá-
la. Se ao menos pudesse usar um mulligan.
Se existe algo que o homem realmente subestima em relação ao
amor de Deus, é a sua capacidade de perdoar. No maravilhoso romance
Montanha gelada, Charles Frazier fala de um pastor chamado Monroe que
é evitado por seus colegas porque "não acredita que Deus possua sérias
limitações em sua paciência e misericórdia. Monroe chegava mesmo a
pregar que Deus não era em nada semelhante a nós, que não era do tipo
explosivo, capaz de pisar sobre nós até nosso sangue jorrar e manchar o
seu manto branco...".
Subjugado pelo Fracasso
O evangelho de João conta a história de um homem que faltou com
seu melhor amigo e negou o seu senhor; achava que a sua falta o colocava
além do alcance da graça de Deus, no que estava completamente
enganado. E a história de todas as pessoas que já se sentiram subjugadas
pelo fracasso.
É a história da degradação do homem e da grandeza de Deus.
Esta é a história de um homem que desperdiçou a grande
oportunidade de sua vida. E esta é a história do Senhor da segunda
chance.
São seis horas da manhã. Pedro e seus amigos passaram a noite
pescando. Eles não pegaram nada.
Um vulto chama-os da praia. Uma voz que eles ouviram antes mas
não reconhecem diz: "Filhos, vocês não conseguiram apanhar nada, não é
mesmo?".
A pergunta é uma provocação. Ela serve para ver se eles admitem a
verdade: o fracasso.
Jesus sempre usou frases ou perguntas casuais para ver se as
pessoas admitiam a verdade sobre si mesmas: "Sobre o que debatiam no
caminho?", perguntou aos discípulos quando estavam discutindo para
ver quem era o melhor. "Onde está o seu marido?", perguntou à mulher
que havia se casado cinco vezes. "E então", agora ele pergunta, "pegaram
alguma coisa?".
Ele abranda suas palavras um pouco pelo modo como se dirige aos
seus amigos: "Filhos". Essa é a única vez que ele os chama assim na Bíblia.
"Bem, garotos, tiveram sorte?"
Então, algo extraordinário acontece. Um grupo de pescadores
admite não ter apanhado nada. Eles nem mencionam o peixe que fugiu (e
olha que os pescadores não são exatamente conhecidos por sua
honestidade).
A voz indaga: Pegaram alguma coisa?
Não, eles respondem. O que está querendo dizer? A história começa
com uma confissão de fracasso, e isso é tudo o que ele quer ouvir.
A voz diz: Tentem de novo. Joguem a sua rede no lado direito do barco.
Não desistam ainda. Tentem mais uma vez.
Foi o que fizeram. E logo a rede ficou tão cheia que eles nem
conseguiam puxá-la para o barco. De repente, eles percebem de quem é a
voz.
Pedro fica emocionado. Talvez tenha se lembrado da primeira vez
em que encontrou Jesus.
Lucas conta essa história: Jesus entrou no barco de Pedro e ensinou
a multidão na praia; depois disse a Pedro: "Faze-te ao mar alto, e lançai as
vossas redes para pescar".
Pedro explica: "havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos".
Tente de novo. Faça a minha vontade. E Pedro fez; e logo as redes
ficaram tão cheias que começaram a se romper e os barcos tão carregados
de peixe que começaram a afundar.
Naquela ocasião, Pedro disse a Jesus: "Senhor, afasta-te de mim;
sou homem pecador". Os degradados, às vezes, oram assim.
Mas Jesus disse: eu sei tudo a respeito dos pecadores. Tenho planos
para ajudá-lo a resolver esse problema. Vou dar-lhe uma nova vida. Você
vai recomeçar mas, agora, como pescador de homens.
Assim, Pedro conheceu o Senhor da segunda chance.
Agora, depois da crucificação e da ressurreição, depois de outro
milagre na pesca, Pedro percebe de quem era a voz. Em um gesto
característico de Pedro, ele tira a calça jeans e sua camisa de pescaria da
sorte que nunca lava, joga-se ao mar e nada até a praia. Talvez ele tenha
se lembrado de uma outra época em que deixou seus amigos no barco e
caminhou sobre a água. Sua fé se enfraqueceu e ele afundou — fracassou
—, mas o Senhor da segunda chance foi seu socorro naquela ocasião
também. O Senhor da segunda chance é muito paciente.
Pedro alcançou a praia e encontrou Jesus preparando o desjejum.
Ele tinha acendido uma fogueira. João inclui um detalhe: era uma
fogueira de carvão.
Havia um motivo para isso. Em João 18, quando perguntaram a
Pedro por três vezes se ele conhecia Jesus, se era um discípulo, ele estava
se aquecendo diante de uma fogueira. Era uma fogueira de carvão. E foi
ali que ele negou o Senhor.
Agora Pedro vê a fogueira, uma fogueira de carvão, e se lembra. Se
pretende caminhar com Jesus, terá de enfrentar a verdade sobre quem ele
é e o que fez.
Se quiser receber a ajuda do Senhor da segunda chance, você
também terá de reconhecer a verdade a respeito da sua condição. Encare
a realidade. Tire a máscara.
Há uma história antiga sobre um homem desesperado por um
emprego, que vai responder a um anúncio classificado do zoológico. O
responsável explica que o gorila morreu e eles não podem comprar outro,
por isso estão contratando um homem para se disfarçar desse animal. A
princípio ele recusa, mas, por precisar desesperadamente de dinheiro,
acaba concordando.
Cada dia fica mais animado em sua jaula. Ele balança em uma
árvore com tanta força que vai parar na jaula ao lado, na jaula do leão.
Sentindo o bafo quente do leão em sua face, ele esquece-se do disfarce e
começa a gritar por ajuda. Nesse momento, o leão diz: "Cale a boca, seu
idiota, ou nós dois vamos acabar perdendo o emprego".
Usar máscaras pode se tornar uma prática comum em sua vida.
Fingir que está feliz, quando está sofrendo. Fingir que é espiritualmente
saudável, quando há uma grande distância entre você e Deus. Fingir que
se tem um casamento perfeito, quando a verdade é que seu
relacionamento é um quarto frio e vazio.
Pedro lembra agora do grande erro de sua vida. Ele tinha cometido
muitos erros: quando afundou na água, quando Jesus disse que ele estava
proferindo as palavras de Satanás, quando tentou socorrer Jesus com uma
espada e realizou a primeira amputação de orelha da história, mas este
foi o seu maior erro. Às vezes, cometemos um erro como esse na vida.
Parece-nos algo irredimível, imperdoável.
Ele lembra de quando ficou diante da fogueira e decepcionou o seu
Deus.
Eles terminam o desjejum e ficam parados diante do fogo, apenas
Pedro e Jesus.
Ficam sozinhos, talvez pela primeira vez, desde a negação,
crucificação e ressurreição. Pedro está muito fragilizado; ele espera pelas
palavras de Jesus como um prisioneiro que espera ouvir o veredito do
júri.
Então, ele ouve a pergunta que o magoaria profundamente; a
pergunta que o curaria e o traria de volta à vida, a pergunta que ele
carregaria até sua morte.
Você me ama?
Jesus não pergunta: "Pedro, você se arrepende do que fez? Você
promete nunca mais me decepcionar de novo? Você vai se esforçar mais
agora?".
Murray Harris, um estudioso do Novo Testamento, resume essa
história dizendo o seguinte: "o mais importante deve vir primeiro".
Você me ama?
E uma pergunta delicada. Quando você faz essa pergunta, seu
coração está em jogo. E a pergunta de um apaixonado cheio de
esperanças. E a pergunta que o pai deseja fazer para o filho desertor, mas
tem medo.
Você me ama?
Tevye, o leiteiro cujas filhas rejeitaram o casamento arrumado para
se casar por amor, senta com sua esposa um dia, estranhamente tímido, e
pergunta a ela numa canção, porque a pergunta é muito delicada para ser
simplesmente dita: "Golde, você me ama?".
Ela não está preparada para essa conversa. Desempenhou o seu
papel de esposa daquela cultura, cumpriu com suas obrigações, cuidou
da casa e ponto-final.
— Você me ama? — ele repete.
Ela diz que ele é um tolo, e ele concorda, mas ainda quer uma
resposta. Ela analisa 25 anos de vida: esperanças, sofrimentos, brigas,
viver sob o mesmo teto, dormir na mesma cama... o que isso significa?
— Então... — como uma criança, um jovem apaixonado, ele diz —
... você me ama!
— Acho que sim.
— Creio que também amo você.
— Isso não muda nada — eles cantam juntos — mas, de qualquer
forma, depois de 25 anos, é bom saber.
Isso não muda nada, eles continuarão tendo de fazer as mesmas
coisas, tendo de seguir em frente, mas, ao mesmo tempo, isso muda tudo.
Os dois sentam-se no pequeno banco e dão-se as mãos. O
relacionamento que eles pensavam ser um arranjo, basicamente um
cumprimento de tarefas e obrigações, torna-se uma história de amor. Seus
corações estão tão cheios de alegria que mal conseguem falar.
Você me ama?
Essa é a pergunta de Jesus e ela não é fácil nem simples de se
responder com sinceridade. Às vezes, penso sobre Jesus, como ele era
bom e sábio, e sei que ele é maravilhoso, que sua oferta, sua palavra é a
melhor oportunidade que a humanidade já teve.
Sabemos que o amamos.
Mas a verdade é que, às vezes, ficamos tão ocupados pensando em
nós mesmos, que não sabemos se realmente o amamos.
Agora, apenas Jesus e Pedro estão diante da pequena fogueira, uma
fogueira de carvão.
"Simão, filho de João", Jesus nem usa o antigo apelido, Pedro. Ele
usa seu nome oficial, como se dissesse: "vou admitir que você não quer a
antiga intimidade que havia entre nós, vou admitir que você não quer
usar o nome que lhe dei".
"Simão, filho de João, amas-me?"
Agora é Jesus que se coloca numa posição vulnerável. Agora Jesus
é o apaixonado que espera a resposta do ser amado.
"Sim, Senhor", Pedro responde, mas sem muita convicção de sua
capacidade de conhecer seu próprio coração. Você sabe tudo. Você sabe
que sim.
Eu compreendo a resposta de Pedro: Senhor, tu sabes que sim. Eu
te amo da melhor forma possível. Quando estou no meu juízo perfeito, eu
amo. Quero amar, mais do que posso dizer agora. Nem sei toda verdade
sobre o meu coração. Tu sabes, Senhor.
"Apascenta as minhas ovelhas", Jesus diz. Ame e ensine e proteja e
guie e sirva o meu pequeno rebanho que é o que eu tenho de mais
importante no mundo. Não abandone o jogo.
Três vezes ele repete isso, até Pedro sentir-se magoado. Por que
Jesus fica perguntando? Às vezes, as pessoas acham importante o fato de
João usar uma palavra grega diferente para amor na terceira pergunta de
Jesus, como se ele fosse se conformar com um tipo inferior de amor por
parte de Pedro. Porém, o consenso dos estudiosos do Novo Testamento é
que João está simplesmente usando uma "variação estilística", para evitar
a repetição da mesma palavra várias vezes.
A importância da repetição não está nos sinônimos, mas no número
de vezes em que a pergunta é feita: três. Pedro não sabe o que sabemos,
que ele está sendo curado pelo Senhor da segunda chance.
Não uma, mas três vezes, em pé diante da fogueira, ele negou seu
Mestre; não uma, mas três vezes, em pé diante da fogueira, ele confessou
seu amor.
Jesus está dizendo a Pedro, está dizendo a qualquer um que já
tenha ficado diante da fogueira e decepcionado a Deus, está dizendo
também a você e a mim não importa o que tenhamos feito: "Não
abandone o jogo. Desenvolva os dons que lhe dei e guarde os planos que
tracei para você e dedique-se à igreja. Alimente as minhas ovelhas. Elas
precisam de você".
No filme Amigos, sempre amigos, Billy Crystal tenta consolar seu
amigo, um personagem cuja vida está em ruínas — seu casamento foi
desfeito, sua carreira foi destruída — e que está pronto para terminar com
tudo.
Billy Crystal diz a ele: "Comece tudo de novo. Faça como quando
éramos crianças. Quando as coisas davam errado, a gente parava e
começava tudo de novo. Você pode fazer o mesmo agora. Comece de
novo".
Mas onde vamos conseguir forças e o direito de começar de novo?
Eu dei outra tacada e meus amigos disseram a mesma coisa:
— Pegue outro mulligan.
— Tem certeza?
— Mas é claro — eles disseram. — Sempre fazemos isso.
Nesse momento, comecei a ficar preocupado com a integridade
do jogo. Se você continuar a pegar mulligans, a contagem de pontos
não faz muito sentido. Especialmente se, como eu, você fizer um monte
de tacadas péssimas. Acertei as bolas na água, fora dos limites; usei até
quatro mulligans no primeiro buraco.
O motivo de sermos tão liberais com os mulligans naquele dia é
porque o jogo não estava valendo. Não estávamos levando muito a sério.
Quando se trata de contagem de pontos, os golfistas geralmente se atêm a
um nível de verdade, honestidade e integridade semelhante ao dos
agiotas. Perto dos golfistas, os pescadores parecem até sinceros. A
verdade é que podemos concordar em não marcar uma tacada, mas não
estamos enganando ninguém com isso.
Porém, quando o jogo é para valer, a história é outra. Quando o
jogo está valendo, é preciso haver justiça. Se você está em um torneio
profissional, empata no último buraco e faz uma péssima tacada, não
pode chegar e dizer: "Acho que vou usar um mulligan nessa".
Não existem mulligans no torneio da Associação Profissional dos
Golfistas. A integridade do jogo é importante. As regras devem ser
seguidas. O jogo é para valer. Você faz a tacada de onde a bola estiver. Se
acertar na água, receberá uma punição. Colhe o que semeou. E preciso
que haja justiça. O total de pontos é resultado direto do que você fez.
Você compreende o significado disso. A vida é importante. As
regras são para valer — pelo menos, as importantes valem. Se Deus é
realmente um Deus, ele deve ser justo. Ele não pode dizer: "Hitler, pegue
um mulligan. Vamos esquecer o holocausto. Não marque isso. Vamos
fingir que nunca aconteceu".
Alguém precisa marcar o escore — dos campos de concentração de
Dachau e Tienanmen, da Bósnia, dos tiros perdidos, das crianças
molestadas sexualmente e da população pobre e oprimida em muitos
países. Um dia, a justiça será feita para que este mundo faça algum
sentido. E a Bíblia diz que esse dia chegará. Ela diz que, um dia, a justiça
correrá como o rio. Cada um de nós vai calcular os pecados e injustiças
que aconteceram em nossas vidas, inclusive você e eu. Todos nós vamos
marcar os nossos cartões de resultado.
A Bíblia diz que a cruz é o lugar onde se encontram o compromisso
inabalável de Deus com a justiça e sua eterna disposição em perdoar. A
cruz é a declaração do repúdio de Deus pelo pecado e por todo o mal
decorrente dele. A cruz é a declaração do amor de Deus pelos pecadores e
de sua insaciável paixão em redimi-los.
A Bíblia está cheia de exemplos da vontade de Deus de dar uma
segunda chance. "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o
Senhor se compadece daqueles que o temem".
Costumava fazer uma brincadeira com meus filhos na hora de
dormir quando ainda eram pequenos.
— Eu não a amo este tanto, nem este tanto, nem este tanto... —
dizia, mostrando com as mãos e aumentando cada vez mais a distância
entre elas.
— Eu a amo esse tantão! — mostrava, agora, com os braços
completamente abertos.
Às vezes, eles tiravam a prova. Estávamos lavando o carro quando
uma de minhas filhas entrou no porta-malas, colocou o que estava lá
dentro no chão e passou spray em tudo: livros, lençóis, minha raquete de
tênis e um vestido novo ficaram tão encharcados e espumando que não
dava nem para reconhecer. Minha filha, que na época tinha quatro anos,
percebeu pela expressão no meu rosto que tinha cometido um pecado e
que o preço dele era a morte. Ela olhou para cima com seus olhos
castanhos e abriu os braços o máximo que pôde: — Eu amo você esse
tantão — ela disse.
Como poderia castigá-la depois disso?
— Tudo bem, docinho. Ajude-me a levar essas coisas para a
garagem então.
Eu lhe perdoei, mas é claro que alguém teve de pagar pelo estrago.
Ela contraiu uma dívida pelos livros, roupas e raquete, mas mesmo que
eu limpasse o seu porquinho porta-moedas, não faria a menor diferença.
Perdoar não depende de simples palavras; há um preço por isso. E
alguém tem de pagar por ele.
Foi isso o que aconteceu na cruz, diz a Bíblia. De alguma forma que
jamais compreenderemos totalmente, uma dívida impagável foi quitada.
E agora podemos recomeçar. Precisamos.
A primeira pergunta não é quanto você ama a Deus, mas quanto
Deus ama você.
Deus criou um mundo cheio de mistério e beleza, com cachoeiras,
pôr-do-sol, geleiras, trópicos, tortas de banana. Mas ele disse: "Meu amor
não se resume nisso".
Deus lhe deu um cérebro, a capacidade de distinguir o certo do
errado, de escolher o bom, a vida. Mas ele disse: "Meu amor não se
resume nisso".
Ele lhe deu companhia: professores, amigos, heróis, pessoas com as
quais conhecemos a alegria da intimidade e comunhão. Mas disse: "Meu
amor não se resume nisso".
Então, Deus deu Jesus. Era a última tentativa de Deus de nos dizer
o quanto somos importantes para ele. O Senhor foi levado à cruz para
pagar uma dívida que não poderíamos quitar. Ele foi levado à cruz e
Deus disse: "Agora você está livre de todo arrependimento. Chega de
culpa. Que cada súplica por justiça seja satisfeita. Agora, finalmente, você
compreenderá o lugar que ocupa em meu coração".
Quando foi levado à cruz, Jesus disse: "Eu amo vocês esse tantão".
E agora era a vez de Pedro aprender que o Senhor da cruz é
também o Senhor da segunda chance.
Warren Bennis fala de um executivo com uma carreira promissora
na IBM que se envolveu em um empreendimento arriscado para a empresa
e acabou perdendo dez milhões de dólares nessa transação. Ele foi
chamado ao escritório de Tom Watson Sr., fundador e líder da IBM
durante quarenta anos, uma lenda viva.
O jovem executivo, oprimido pela culpa e medo, adiantou-se:
—Acho que o senhor me chamou por causa da minha demissão.
Aqui está. Eu me demito.
Watson respondeu:
— Você só pode estar brincando. Acabei de investir dez milhões de
dólares na sua educação; não posso aceitar a sua demissão agora.
Imagino que Pedro deve ter tido uma conversa como essa com
Jesus. .
Pedro fez sua famosa confissão de que Jesus era o Cristo, o Filho do
Deus vivo. Jesus o abençoou, disse que isso lhe havia sido revelado pelo
próprio Deus e continuou explicando que era necessário que ele fosse
para a cruz. Quando Pedro puxou-o de lado e "começou a repreendê-lo"
por isso ("tem compaixão de ti'), Jesus lhe disse que naquele momento era
Satanás quem falava por ele.
Imagine Pedro dizendo: "Você está certo a meu respeito. Falo
impulsivamente; estou sempre metendo os pés pelas mãos. Aqui está a
minha demissão".
E imagine Jesus respondendo: "Você só pode estar brincando.
Acabei de confiar uma revelação a você. Não posso aceitar a sua
demissão".
No mar da Galiléia, Pedro desce do barco e começa a caminhar
sobre a água. Mas ele desvia os olhos de Jesus. Fica tomado pelo medo e
pela dúvida, e se afogaria se Jesus não o salvasse. Jesus diagnostica o
problema com precisão dizendo: "homem de pequena fé".
Imagine Pedro dizendo: "Você está certo a meu respeito. Sou ótimo
em observações contundentes e dramáticas, mas não sou muito bom em
confiar. Interiormente, estou cheio de dúvidas e medos. Não é preciso
muita coisa para que eu desista. Aqui está a minha demissão".
"Você só pode estar brincando. Acabei de confiar uma revelação a
você. Não posso aceitar a sua demissão".
Pedro disse, no momento mais difícil da vida de Jesus: "Eu te
seguirei, custe o que custar, não importa o que os outros façam".
Mas ele não conseguiu segui-lo nem mesmo por uma noite. Ele
negou seu melhor amigo três vezes.
Imagine Pedro dizendo: "Você estava certo a meu respeito todo
esse tempo. Falhei com você completamente no momento em que mais
precisava de ajuda. Eu o neguei e o abandonei. Aqui está a minha
demissão".
E Jesus diz: "Você só pode estar brincando. Acabei de confiar uma
revelação a você. Não posso aceitar a sua demissão".
A igreja é o lugar certo para quem precisa de uma nova chance. É
isso o que Deus dá.
Ele foi ter com o velho pai Abraão que riu da promessa de Deus e
mentiu sobre a esposa; e Deus disse: "Que tal começar de novo?".
Para um pequeno pastor que se tornou rei e cometeu assassinato e
adultério, para um profeta que fugiu e foi tirado da barriga de um peixe e
queria morrer porque tinha de sentar-se sob o sol quente sem nenhuma
videira que lhe desse sombra, para uma nação inteira de pessoas teimosas
e idolatras, para um perseguidor chamado Saulo que riu de seu Filho e
aterrorizou seu povo, para os pecadores desesperados e solitários, Deus
sempre diz: "Que tal começar de novo: .
Redimir é a função de Deus. Ele é o pastor das ovelhas
desgarradas, o caçador dos tesouros perdidos, o bom pai dos filhos
pródigos e tolos. Seu departamento predileto é o de achados e perdidos.
Seu amor não tem limites, Seu perdão não tem tamanho,
Seu poder não encontra barreiras conhecidas pelo homem.
Ele redime, redime e redime, e está presente neste exato momento
enquanto você lê estas palavras. Ele deseja fazer por você o que já fez por
incontáveis bonecos de pano antes de você. Ele é o Deus do recomeço, o
Senhor da segunda chance. Pegue um mulligan.
CAPÍTULO5
Jesus, o Mestre
Embora Jesus não fosse filósofo nem teólogo, suas parábolas por si sós fornecem um
material de estudo inesgotável tanto para filósofos quanto para teólogos. Esse é o sinal
da genialidade suprema de Jesus. Temos o estranho costume, mesmo em se tratando
da humanidade de Jesus, de desprezar seu evidente valor intelectual.

C. W. F. SMITH

Conheci a sra. Beier há trinta anos. Ela deu aula de piano para a
minha irmã e para mim por cinco anos.
A sra. Beier era alemã, completa e irremediavelmente alemã. E,
quando digo que é alemã, estou dizendo tudo o que você precisa saber a
respeito dela.
Por cinco anos, ela dominou a vida de minha família. Os outros
professores de piano de Rockford seguiam um padrão não muito
exigente: pratique sempre que puder, siga o seu próprio ntmo. Para a sra.
Beier, as coisas não eram assim; nada desse papo furado da educação com
liberdade e respeito à capacidade da criança. Se você era aluno dela, tinha
de seguir as suas ordens.
Praticávamos o quanto ela nos mandasse praticar, pelo tempo que
determinasse. Se ela nos mandasse fazer escalas meia hora por dia,
fazíamos as escalas meia hora por dia. Ajustávamos o metrônomo no
tempo que ela mandava. Sentávamos do modo como ela aprovava,
curvávamos os dedos das mãos no ângulo exato que ela especificava.
Cortávamos as unhas bem curtas para evitar que tocassem no teclado, o
que era feito muito a contragosto de minha irmã quando ela se tornou
adolescente.
A sra. Beier tinha algo que fazia com que qualquer um a levasse a
sério como professora. Ela disse aos meus pais, certa vez, que o piano que
tínhamos em casa não era apropriado, que precisavam comprar um novo.
Eles compraram um novo piano.
Finalmente, chegamos a um ponto em nossa adolescência em que
tínhamos muitas outras coisas a fazer e não queríamos mais tê-la como
professora. Tinha chegado a hora de parar. O problema é que ninguém
ousava dizer isso à sra. Beier! Não sabíamos se ela ia permitir que
parássemos. Sentados à mesa do jantar uma noite, meus pais disseram
um para o outro: "Isso é ridículo!". Por fim, meu pai ofereceu-me cinco
dólares para ligar para ela e dar a má notícia por telefone. Como,
infelizmente, naquela época ainda não existia secretária eletrônica, tive de
dizer tudo diretamente.
Para não dar uma impressão errada, devo apressar-me a dizer que
as aulas da sra. Beier não se resumiram apenas a coisas desagradáveis. Às
vezes, isso significava praticar sem vontade, mas, na maior parte do
tempo, isso nos trazia grande prazer. Uma única coisa me manteve no
jogo: ela tocava como ninguém que eu conhecia.
Até conhecê-la, achava que não era possível que um ser humano
comum conseguisse fazer aquilo. Às vezes, assim que chegávamos, ela
nos mandava sentar e tocava Mozart, Beethoven ou Rachmaninov (seu
favorito), e era como se fôssemos transportados para outro mundo.
Depois, nos dizia algo que era difícil de acreditar: "Se confiarem em
mim, se vocês se entregarem nas minhas mãos, se fizerem o que disser,
um dia conseguirão fazer o que faço. Um dia a música estará em vocês". /
Eu era muito novo e distraído para perceber isso naquela época,
mas, quando não estava tocando, os dedos da sra. Beier eram
normalmente dobrados e torcidos, como se estivesse pronta para arranhar
alguma coisa. Ela possuía um tipo de artrite aguda. Não podia tocar uma
nota sequer sem sentir dor. Tocar partituras inteiras de Rachmaninov,
como fazia para nós até o Steinway balançar, deve ter sido uma agonia.
Mas ela o fazia porque amava a música. E ela o fazia por nós. Queria nos
cativar com a beleza de tudo aquilo, como ela era cativada; queria nos dar
esse magnífico presente, por isso suportava uma dor que não dava nem
para imaginar.
Como todo grande mestre, o que a movia a ensinar era o amor. O
amor pela música. O amor pelos alunos. As verdadeiras lições são sempre
uma manifestação de amor.
Quem tem filho sabe disso. É por isso que os pais compram
brinquedos educativos, gastam incontáveis horas ensinando seus filhos a
sentar e levantar e dar um passo, comemoram os sons bal-buciados pelos
filhos que não se parecem nem um pouco com uma palavra conhecida,
grudam figuras e desenhos na porta da geladeira, lêem histórias para as
crianças, ensinam lições e deixam que elas os "ajudem" nos afazeres da
casa, quando sozinhos poderiam realizá-los muito mais rapidamente.
Todo grande ensinamento é sempre uma forma de amor. Vemos
isso acontecer na história de Anne Sullivan que despertou a alma de
Helen Keller. Percebemos isso no círculo de alunos que cerca Sócrates,
enquanto ele fala sobre a morte, e procura expressar seu amor por ele. É
isso que nos emociona em filmes como Mr. Holland — adorável professor e
Sociedade dos poetas mortos: grandes professores que fazem mais do que
transmitir informações e fatos registrados. Eles enxergam além de nossa
degradação. Eles nos abrem — nossas mentes e corações — para um novo
mundo.
Jesus pedia a todos que desejassem segui-lo para que o aceitassem
como mestre. Ele vivia de uma forma que nenhum homem antes tinha
vivido. As pessoas que o viam e ouviam eram transportadas para outro
mundo.
Então, ele disse coisas que eram difíceis de se acreditar: essa é a sua
chance, ele dizia. Se você confiar em mim, se fizer o que estou dizendo, se
colocar sua vida em minhas mãos, um dia poderá viver como eu. Um dia
a música estará em você.
Mas, primeiro, você precisa aceitar Jesus como seu Mestre.
Um século atrás, um debate sobre Jesus que já durava certo tempo
tornou-se mais conhecido. De um lado, dizia-se que o Jesus da história
era simplesmente um mestre, embora muito importante e provavelmente
excelente. De outro dizia-se que "não, ele não era apenas um sábio. Ele
realmente era divino. O Jesus da História realmente é o Filho de Deus".
Minha tradição e entendimento diz que o Jesus do Novo
Testamento era completamente humano e completamente divino, que
hoje vive e se envolve ativamente nos assuntos humanos.
Mas nesse debate aconteceu uma coisa ruim. As pessoas que
acreditavam na divindade de Jesus começaram a desconsiderar o papel
do trabalho doutrinário de Jesus. Supunha-se que, se as pessoas
começassem a falar dos ensinamentos do Senhor, isso seria uma forma de
desacreditar sua divindade. Alguns setores da igreja até alegaram que
grande parte de seus ensinamentos, como o Sermão da Montanha, não se
aplicava à igreja nem mesmo nos dias de hoje. Por isso, a importância de
seus ensinamentos foi fortemente desprezada.
Mas ensinar não é algo que Jesus fazia apenas para passar o tempo
até a crucificação. Não era uma parte opcional e dispensável de seu
ministério. Quando ensinava, não estava simplesmente ocupando o
tempo até chegar a hora da morte.
Seus ensinamentos eram uma parte insubstituível de seu
ministério. Ele veio para nos ensinar como são as coisas. Frederick
Buechner diz:
O que é o reino de Deus? [Jesus] não fala de uma
reorganização da sociedade como possibilidade política ou
da doutrina da salvação como doutrina. Ele fala de coisas
como encontrar um anel de diamantes que se considerava
para sempre perdido, ganhar na loteria. Ele faz insinuações
em vez de explicar detalhadamente, evoca em vez de
explicar. Ele pega pela surpresa. [...] Parece-me que, na
maior parte do tempo, as parábolas podem ser lidas como
piadas tão sagradas e divinas a respeito de Deus, do
homem e do próprio evangelho quanto a mais sagrada e
divina de todas as piadas.
Os discípulos de Jesus foram em grande parte atraídos para ele
porque seus ensinamentos faziam muito sentido. Ele era, entre outras
coisas, simplesmente o homem mais inteligente que eles já tinham
conhecido. O que ele ensinava era coerente com sua própria vida e com a
natureza das coisas. Eles nunca tinham visto alguém viver daquela forma,
nem tinham idéia de que isso era possível. E ele disse que, se confiassem
nele, se colocassem suas vidas nas mãos dele, um dia seriam capazes de
ter esse tipo de vida também. Um dia a música estaria neles.
Eles descobriram que podiam confiar nele como seu mestre. E
exatamente por terem confiado nele como seu mestre que, depois da
morte e ressurreição de Jesus, tiveram condições de confiar nele como seu
Salvador.
Portanto, se realmente quisermos sentir o amor de Jesus,
precisamos aceitar um dos presentes mais importantes que ele tem a nos
dar: seus ensinamentos. Precisamos convidar Jesus para ser o professor
particular de nossas vidas. Precisamos acreditar que ele está certo sobre
todos os assuntos. Assim, se discordarmos dele, certamente será porque
estamos errados ou não entendemos o que ele disse. Precisamos permitir
que Jesus nos ensine a viver.
O próprio Senhor contou uma história sobre a importância
fundamental de seus ensinamentos. É uma de suas histórias mais
famosas. E sobre o comércio da construção. Era um negócio com o qual
ele estava extremamente familiarizado, pois assumira o trabalho do pai
de empreiteiro independente. A história fala de dois homens que
constroem casas, sendo que um usa areia e o outro, pedra como matéria-
prima.
Essa história tem algo de universal que a torna interessante em
vários aspectos. Há uma versão modesta dela que se tornou uma das
histórias mais conhecidas da literatura americana. Ela já inspirou filmes,
músicas e incontáveis livros. A seguir estão os elementos básicos que ela
contém. Veja se consegue adivinhar que história é essa:
• As personagens principais são construtores: cada um deles
constrói uma casa.
• Nem todas as casas são feitas da mesma forma; há uma
comparação entre a construção inteligente e a tola.
• Cada casa passa por um teste. A que foi construída com
inteligência resiste; a que não foi cai.
Parece familiar? É a história dos três porquinhos.
Cada porquinho constrói uma casa. Uma delas é feita de palha e
sapé, a outra de madeira e a outra de tijolo, mas cada um constrói a sua.
Todas enfrentam o temido Lobo Mau. Primeiro, os porquinhos
ouvem o lobo pedir educadamente para entrar, o que recusam com uma
afronta ("não, não, de jeito nenhum"). Depois, eles enfrentam a mesma
ameaça do inimigo pneumaticamente abastecido.
Dois dos porcos construíram suas casas com sucata. Eles nunca
pararam para se perguntar se ela resistiria ao lobo. Somente a casa
construída com inteligência não é derrubada.
Nessa parábola, Jesus na verdade conta duas histórias: a história de
um homem inteligente e a de um tolo. (Outros exemplos são a história do
pai que pediu aos dois filhos para trabalharem no campo e a história das
cinco virgens sábias e das cinco néscias.) Earl Palmer observa que a forma
de entender esse tipo de parábola é compará-las e descobrir suas
semelhanças e diferenças. Quando você conseguir enxergar a diferença,
entenderá o que Jesus estava querendo dizer.

Cada Pessoa Constrói uma Casa Diferente


Há um detalhe que nunca muda, que não é opcional: todos somos
construtores de casas.
Para entender essa idéia, podemos trocar a palavra "casas" por
"caráter" ou "almas". Estamos todos construindo uma vida. Isso acontece,
basicamente, pelas escolhas que fazemos, diz Palmer.
Cada compromisso que aceitamos, cada amizade que fazemos,
cada habilidade que desenvolvemos ou negligenciamos, cada promessa
que honramos ou quebramos, torna-se parte de nossas casas.
Você está construindo a sua vida. A qualidade das escolhas que
você faz determinará a qualidade do seu caráter, da sua alma.
A casa é uma metáfora comum na Bíblia.

No entanto, existem vários tipos de materiais que


podem ser usados para construir sobre esse alicerce. Alguns
usam ouro, prata e pedras preciosas; e outros constroem
com paus, com feno e até mesmo com palha! Está prestes a
chegar um tempo de prova, no Dia do Julgamento de Cristo
para verificar-se que tipo de material cada construtor usou.
O trabalho de cada um será provado por meio do fogo, para
que todos possam ver se ele conserva seu valor ou não, e o
que é que verdadeiramente foi realizado. Então, todo
construtor que edificou sobre o alicerce com materiais
certos, cujo trabalho ainda permanecer, esse receberá a sua
recompensa. Entretanto, se a casa que ele edificou queimar-
se, ele terá um grande prejuízo.
Cada um de nós, e ninguém mais, é responsável por sua própria
casa.
Mas isso é difícil de aceitar. Tentamos encontrar alguém em quem
colocar a culpa. Há alguns anos, uma agência de notícias divulgou a
história de um homem na Itália que foi preso por bigamia. Aliás, ele tinha
105 esposas. Quando as autoridades lhe perguntaram por que isso tinha
acontecido, ele respondeu que tinha sido mal aconselhado por seus
advogados. (E difícil acreditar que seus advogados diriam: "Procure
manter um número aceitável de esposas; umas cem, digamos. Só tome
cuidado para não exagerar".)
Essa verdade é tão grande que podemos acabar passando a vida
toda fugindo dela. Erich Fromm escreveu em seu livro O medo à liberdade
que muitas pessoas se recusam a realmente fazer uma escolha própria e a
assumi-la porque querem evitar a responsabilidade e a ansiedade que
inevitavelmente acompanham a liberdade do ser humano. Podemos ver
isso, em uma situação extrema, em seitas e comunidades. Igrejas
autoritárias freqüentemente crescem porque muitas pessoas buscam
apenas alguém que as poupe da pressão de ter de escolher. Porém, nossas
tentativas de fugir da responsabilidade geralmente são mais sutis.
Uma jovem decide onde vai estudar, que carreira seguir, quem
namorar e com quem se casar, tudo baseado no que ela acha que seus
pais aprovariam. Ela nunca questiona realmente as crenças, valores ou
convicção religiosa ao redor dos quais sua vida foi arranjada. Nem passa
pela cabeça dela que, ironicamente, seus pais são muito mais inseguros a
respeito dessas coisas do que ela imagina. Até sua casa é decorada de
uma forma, pensando em agradar seus pais.
Nada disso é intencional. Se perguntarem, ela vai teimar que tem
"personalidade própria". Mas a verdade é que ela abdicou de sua
individualidade. Ela não está construindo a própria casa, mas a casa de
outra pessoa. Porém, ela vai ter de viver ali de qualquer forma.
Paul Tournier escreveu: "Viver é escolher. É por meio de escolhas
sucessivas e resolutas que o homem constrói a sua vida".
Algumas pessoas têm tanto medo de se decepcionar com a própria
escolha que evitam tomar qualquer decisão. Mas, então, é nessa casa que
elas vão viver. Outras têm medo de se decepcionar e por isso adiam as
decisões. Aí, também vão ter de viver nessa casa.
A seguir estão alguns sinais de quem não está assumindo a
responsabilidade por sua própria casa:
• Sou exageradamente ansioso em agradar. Fico esperando que os
outros aprovem a minha escolha.
• Não consigo tomar uma decisão. Não tenho certeza do que
realmente penso que está certo, que é bom ou mesmo interessante. Hesito
em tomar uma atitude.
• Sou inseguro. Basta uma pequena crítica de alguém que me
interessa para eu ficar arrasado.
• Não sou franco. Em vez de dizer abertamente aquilo em que
acredito, calculo e escolho minhas palavras para dizer algo que se ajuste
melhor ao que acho que a outra pessoa quer ouvir.
Somos todos construtores de casas. Não temos alternativa.
Precisamos construir as nossas vidas.

Todo o Mundo tem de Enfrentar a Tempestade


Há mais um detalhe simples: todo o mundo tem de enfrentar a
tempestade. O lobo bate à porta de cada um dos porquinhos.
Aliás, Jesus é bastante explícito sobre essa parte da história. A
descrição da tempestade que se abate sobre os dois homens é idêntica,
palavra por palavra: "Desceu a chuva, transbordaram os rios, sopraram
os ventos, e deram contra aquela casa".
Jesus quer deixar bem claro: não se trata de uma história sobre
evitar tempestades. Não se pode construir uma casa onde não haja
tempestades.
Gostaríamos de uma história com dois climas, dois lugares com
climas diferentes, digamos, o meio-oeste e o "cinturão do sol": "e a casa
em Illinois era enterrada sob a neve, engolida pela chuva, destruída pelo
furacão; mas a casa na Califórnia era banhada pelo sol e pelo surfe".
Gostaríamos que existisse um lugar onde o lobo nunca batesse à
porta.
Nossos amigos Richard e Elizabeth, mais do que ninguém,
adorariam encontrá-lo. E ele é advogado e ela, psicóloga; eles eram
pessoas atraentes, prósperas, devotadas a Deus e um ao outro. Eles se
casaram depois de já estarem bem estabelecidos no campo profissional.
Por fim, o nascimento de um filho completou a felicidade de suas vidas
um tanto ocupadas.
Um dia, Richard sofreu uma queda andando a cavalo. Os médicos
do pronto socorro tiraram uma radiografia, deram-lhe algo para a dor,
disseram que ficaria de repouso por alguns dias e depois lhe deram alta.
No final daquela semana, a dor ficou tão insuportável que ele teve de
voltar. Dessa vez, um especialista examinou os raios x e seu rosto ficou
branco. Ele mandou Richard não se mover, nem mexer a cabeça, nem
respirar além do necessário. Acontece que ele tinha sofrido a mesma lesão
na coluna que o ator Christopher Reeve, e qualquer movimento em falso
ou mesmo um espirro poderia causar uma paralisia permanente. A vida
encantadora de antes, de repente, foi interrompida. Richard corria o risco
de ter de passar a vida numa cadeira de rodas ou de morrer durante a
cirurgia. Mas isso não aconteceu. Foi um alívio. Tudo ficaria bem. Ele foi
para casa, e ambos se sentiram aliviados e agradecidos.
Mas estavam tão aliviados que se esqueceram de confirmar os
resultados de outra cirurgia. Pouco antes do acidente, Richard tinha
passado por um pequeno procedimento cirúrgico (como os médicos
dizem) para não ter mais filhos. Mas, depois de toda a agitação dos
eventos que se sucederam, eles esqueceram de ver se o procedimento
tinha alcançado o efeito desejado.
Não tinha. Eles descobriram que teriam outro filho. Essa notícia
não foi muito bem recebida, pois agora tratava-se da vida de duas
pessoas ocupadas de quarenta e poucos anos. Mas eles estavam se
conformando com a idéia.
Então, vieram outras notícias. O bebê não estava se desenvolvendo
normalmente. Havia algo errado. A criança tinha síndrome de Down.
Dessa vez, o alívio não chegaria. Nenhuma cirurgia corretiva era
capaz de fazer com que tudo voltasse a ser como antes.
Alguns amigos bem-intencionados deram uma contribuição à sua
dor: "Deus deve sentir um amor especial por vocês, para lhes dar um
presente como esse". "Todo mundo está de olho em vocês para ver como
irão reagir. Tenho certeza de que farão a coisa certa."
Isso não era um presente, era uma tempestade. Há presentes que
vêm no seu despertar, mas não deixam de ser uma tempestade de
qualquer maneira. Se você perguntasse a Elizabeth e Richard, eles diriam
que essa frágil vida é incrivelmente preciosa para eles, que foi uma
bênção e enriqueceu suas vidas. Mas eles também diriam que trocariam
esse enriquecimento num piscar de olhos se essa frágil vida pudesse
receber a cura, a reabilitação e a perfeição que Deus pretendia que todos
os seus filhos tivessem.
Quando eu era criança, achava que qualquer coisa errada que
acontecesse poderia ser consertada. Se perdesse alguma coisa, ela poderia
ser encontrada ou substituída; se cometesse um erro, meus pais poderiam
consertá-lo. Entretanto, já passei por várias tempestades desde então.
Aprendi que estava redondamente errado com a ilusão de que passaria
ileso pela vida. Agora, olho para a minha família, para meus filhos e fico
imaginando o que ainda acontecerá nas vidas que habitam a minha
pequena casa. E fico feliz por não saber dizer. Já basta saber que haverá
tempestades.
Jesus nos disse: "não se preocupe com o dia de amanhã, pois o
amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio
mal". Preocupação hoje, preocupação amanhã. Esta é a profecia.

Tempestade para Testar a Casa


É na tempestade que a estabilidade da casa é revelada. O alicerce
não é algo interessante. Ninguém visita uma casa e diz: "Mas que ótimo
alicerce vocês têm!". Ninguém se importa. Até chegar a tempestade.
É a maior tempestade a que Jesus se referiu é o dia do julgamento.
Um dia nossas vidas serão examinadas por Deus. Cada graveto e tronco
de árvore, cada palavra e feito passarão por um exame minucioso. Um
dia, a verdade sobre nossas casas será revelada.
Cada decisão que tomamos entra para a construção das nossas
casas e vidas; portanto, não dá para transgredir os ensinamentos de Jesus
sobre o modo que as coisas são e ainda querer que tudo dê certo. Fazer
isso, é querer destruir as sementes do universo.
Você pode colar em uma prova na escola. Você faz isso pensando
em ter uma boa nota e ganhar aplausos, para conseguir passar de ano.
Mas exatamente por saber que trapaceou, a nota e os aplausos e o
diploma perdem todo o sentido e satisfação que possam ter ou
proporcionar. Não dá para viver com eles; eles não podem se tornar parte
de sua casa.
Talvez você use a raiva ou a manipulação para conseguir o que
quer de seus colegas de trabalho, amigos e até da família. Você sabe como
convencer as pessoas. Mas precisamente por causa desses artifícios, você
não consegue a intimidade que tanto deseja ter com eles. Não dá para
viver com esses relacionamentos; eles não podem se tornar parte de sua
casa.
Isso acaba se tornando a verdade a seu respeito. Se não
aprendermos agora, chegará um dia em que isso ficará bem claro. Todos
nós temos de enfrentar a tempestade.
Todo aluno tem de enfrentar o dia da prova. O professor dedicado
não procura poupar o aluno disso, mas prepará-lo para esse momento. O
dia da prova simplesmente revela o que já é uma realidade. Por mais
difícil que seja enfrentar a verdade, é melhor fazê-lo do que se esconder.
O dia do julgamento — a história final — é simplesmente uma outra
forma de falar sobre o dia em que a verdade será final, completa e
absolutamente revelada.

Momento de Decisão: Qual é o Alicerce?


Isso nos traz à variável na história de Jesus. Todo o mundo constrói
uma casa — tanto o homem inteligente quanto o tolo, cada um dos
porquinhos. E todo o mundo enfrenta tempestades; o lobo bate em todas
as portas.
A questão é: sobre o que você vai construir a sua vida? Pedra ou
areia? Com que material: tijolo ou palha? Qual será o alicerce? No que
você vai confiar acima de tudo?
Jesus disse que a má escolha é construir uma casa sobre a areia. É
colocar toda a sua confiança naquilo que não poderá resistir às
tempestades da vida, apostar que se vai alcançar a satisfação suprema de
algo que não a vida guiada pela sabedoria, pelo poder e pela dedicação
de Deus.
O homem que construiu sobre a areia certamente encontrará sua
própria destruição. A pergunta óbvia é: como ele foi entrar nessa
enrascada? Observe que, de acordo com Jesus, ele não planejou
deliberadamente fazer alguma maldade. Jesus não o chama de perverso.
O adjetivo que Jesus usa, com precisão cirúrgica, é "tolo".
Quando as crianças fazem alguma tolice, os pais, numa busca inútil
de significado e sentido, sempre fazem a mesma pergunta. São apenas
duas palavras: "Por quê?". Por que você rabiscou a parede com tinta
permanente? Por que você colocou a bicicleta estrategicamente atrás do
carro para que ele passasse por cima dela e a entortasse? Por que vocês
fizeram um concurso para ver quem conseguiria enfiar o maior fio de
macarrão dentro do nariz do seu irmão?
E as crianças geralmente respondem: "Não sei". (Aparentemente a
pergunta faz parte das instruções finais antes de nascermos: "Vão lhe
perguntar um monte de porquês. Fique firme na resposta de sempre".)
É claro que elas não sabem. Se elas agissem segundo a razão ou a
lógica, não teriam feito nada disso, em primeiro lugar. "Simplesmente não
sei. Aconteceu. Parecia uma boa idéia naquela hora".
Se fôssemos perguntar ao homem da história de Jesus: "Seu tolo,
por que você construiu sobre a areia?", o que você acha que ele diria?
"Não sei. Aconteceu. Parecia uma boa idéia naquela hora."
Ninguém planeja construir sobre a areia. Nenhum arquiteto diz:
"Veja um local arenoso. Uma boa tempestade varreria a casa
completamente nesse lugar. Vamos construir aqui".
A vida é assim. Ninguém se senta e planeja ter uma existência
medíocre. Nenhum casal jura fidelidade pensando em se divorciar um
dia. Ninguém guarda rancor pensando em se tornar uma pessoa amarga
e infeliz. Ninguém tem filhos pensando em ficar tão ocupado a ponto de
nem conhecê-los. Ninguém se senta e planeja ir para o inferno.
Apenas acontece. O teólogo Neal Platinga escreve:

O pecado, além de um erro, é uma burrice. Na


verdade, onde quer que os tolos estejam, o pecado é a atração
principal. O pecado é o exemplo de estupidez mais
impressionante do mundo. [...] Pecado é usar a receita errada
para manter a saúde; pecado é abastecer o tanque com o
combustível errado; pecado é pegar o caminho errado para
chegar a casa. Enfim, o pecado é inútil.
Garrison Keillor escreve sobre David Ingqvist, pastor luterano que
se desespera com a completa estupidez do comportamento humano:

David lia a coluna Dear Abby de vez em quando e


ficava espantado com a freqüência com que ela recomendava
os pastores de igrejas. "Fale com o seu pastor", ela respondeu a
uma garota de catorze anos que se dizia apaixonada por um
mecânico de carro (casado) de 51 anos, preso por estupro. Por
que Abby acha que um pastor saberia lidar com isso?
O modesto senhor estava mergulhado em seus estudos,
folheando o Apocalipse quando, de repente, a porta se abriu e
uma adolescente vestida com uma blusinha curta entrou,
chorando de paixão por um homem casado, com o triplo da
sua idade. O que o bom reverendo podia fazer? Que tal você
passar duas semanas fazendo artesanato no Acampamento
Tonawanda?
Pobre homem. Tudo parecia tão claro para ele há apenas
alguns minutos e, agora, enquanto ela contava sobre o seu
amor por Vince — sobre a sua crença na inocência dele, sobre
o fato de a esposa dele nunca tê-lo amado, pelo menos não de
verdade, como ela, Trish, amava, e sobre o fato de que, apesar
da idade dele e de eles nunca terem conversado a não ser por
cartas, havia algo indescritivelmente sagrado e precioso entre
eles —, tudo o que o pastor conseguia pensar era: "Você está
louca! Não seja ridícula!". Não serás ridícula. Paulo diz: "Vede
prudentemente como andais, não como néscios, mas como
sábio, remindo o tempo, porque os dias são maus". Como isso
se aplica especificamente a Trish, ao amor por
correspondência [...]? Quando Paulo escreveu essa
maravilhosa frase, provavelmente estava sentado em um local
alto de Atenas; era uma noite calma, e todos os néscios
dormiam. Ele podia escrever a pura verdade que nenhum tolo
estaria por perto para dizer: "Como? O que você quer dizer?
Você está dizendo que eu não devo entrar para o recorde de
caminhada de costas a longa distância? Mas eu sei que posso
fazer isso! Eu sou bom nisso! Eu posso andar quilômetros de
costas!".
Por Jesus nos amar, ele veio como mestre. Ele veio para oferecer aos
tolos construtores um alicerce seguro e aos porquinhos descuidados um
lugar seguro para viver. Ele veio para nos ensinar a viver. E diz que a
maior oportunidade que jamais teremos é construir nossas vidas sobre as
suas palavras a respeito de Deus e do mundo.
Para construtores degradados como nós, cada palavra dos
ensinamentos de Jesus é um presente de amor. E podemos aceitar um
tijolo de cada vez:
• Confrontando alguém que nos prejudicou, embora preferindo
maldizer essa pessoa para os outros, conhecemos a alegria de um
relacionamento resgatado — ou, pelo menos, a satisfação de ter a
consciência limpa e descobrir que Jesus estava mesmo certo.
• Dando um dinheiro que não faltaria, conhecemos a alegria de um
coração mais generoso — ou, pelo menos, de um coração que é um pouco
menos mesquinho e descobrimos que Jesus estava mesmo certo.
• Contando uma história direta e francamente, mesmo querendo
mudá-la para nos pintar como heróis, conhecemos a alegria de ser
verdadeiros e descobrimos que Jesus estava mesmo certo.
Estamos construindo a nossa casa com a sabedoria que recebemos
com cada tijolo.

Como E a Casa Que Você Está Construindo?


Uma das casas mais estranhas dos Estados Unidos é conhecida
como Winchester House, no litoral. Ela foi construída pela sra.
Winchester, cujo marido enriqueceu por conta do rifle associado ao seu
nome. A sra. Winchester perdeu o marido e seu único filho e, por pesar,
culpa ou motivos agora desconhecidos, tornou-se obcecada pelo
ocultismo. Ela deu início a um enorme projeto aparentemente baseada na
crença de que, enquanto continuasse a construir sua casa, não morreria.
É uma estrutura extraordinária. A construção precisou de dezesseis
carpinteiros trabalhando em tempo integral por trinta e
oito anos. A estrutura total (que depois foi parcialmente destruída
por um incêndio), continha duas mil portas, 160 mil janelas — mais do
que o Empire State Building. As portas de entrada foram instaladas pela
exorbitante quantia de três mil dólares. Elas foram usadas apenas uma
vez: pelo homem que as colocou. Há corredores e entradas para todo o
lado, passagens secretas e outras excentricidades que são difíceis de
entender: escadas que morrem no teto, portas com paredes de tijolo por
trás. Tudo isso foi feito aparentemente para confundir a Morte.
A construção ainda não tinha acabado quando/a Morte chegou e
não ficou nem um pouco confusa. A Morte tem um ótimo senso de
direção.
Depois da morte da sra. Winchester, foi preciso oito caminhões
trabalhando em tempo integral por seis semanas e meia para rebocar todo
o material de construção e sucata para fora da casa. Eles fizeram isso por
38 anos, e essa era a última vez. Eles vieram para pegá-la.
É uma casa impressionante. Mas foi construída sobre a areia.
Bem, porquinho, como vai ser? Palha ou tijolo? Pedra ou areia?
Construam rápido seus castelos de areia, porquinhos, diz a história.
Façam uma grande e impressionante construção e decorem-na com coisas
maravilhosas. Mas não se esqueçam de uma coisa. Não se esqueçam que
um dia o caminhão virá para levar tudo embora. Não se esqueçam que
um dia a Morte virá. Ela não se confundirá. Ela saberá exatamente onde
procurar. E ela vai bufar e soprar até a sua casa cair.
Não se esqueça que o mesmo Jesus que veio para ser o seu
Salvador, também veio para ser o seu mestre. E ele é o ser mais sábio que
já existiu. E por isso compartilhou seu conhecimento conosco.
Compartilhou, apesar disso ter-lhe custado tanto que nem podemos
imaginar. Ninguém que construiu sua casa sobre a verdadeira
compreensão das palavras de Jesus jamais se arrependeu.
Não se esqueça de que está chegando o dia em que sua casa, sua
vida, será testada por Deus.
E a casa de pedra agüentou firme.
CAPÍTULO6
A satisfação de ser amado
Estamos acima de todas as coisas amadas — essa é a boa nova do evangelho. [...] Estar
entre aqueles que acreditam que apenas talvez essa mensagem esteja realmente certa
deve ser como estar entre os que acabaram de ganhar na loteria.

FREDERICK BUECHNER

Uma Parábola da Felicidade

H avia uma garota cujos pais a levaram para o santuário dos


Arcos Amarelos. Lá, ela encontrou a oportunidade de comprar uma
mistura de comida com brinquedo que alguém, num momento de
genialidade de marketing, chamou de Lanche Feliz.
— Compra pra mim — ela pediu aos pais. — Eu quero um desse.
Quero de qualquer maneira.
— Não — seus pais responderam. — O brinquedo não passa de
uma coisa banal que só serve para aumentar o preço da embalagem além
do seu valor real. É muito caro. Não vamos comprar.
Mas vocês não entendem, ela pensou. Ela sabia que eles não estariam
apenas comprando batatas fritas, McNuggets e um adesivo de
dinossauro; eles estariam comprando a felicidade. Ela tinha certeza de
que tinha um pequeno McVazio no fundo de sua alma: "Nossos corações
não terão sossego enquanto não encontrarem a paz em um Lanche Feliz".
Então ela explicou:
— Eu quero um Lanche Feliz mais do que qualquer coisa no
mundo. Se vocês me derem, prometo que não vou pedir mais nada.
Nunca mais. Não vou mais reclamar de nada nem pedir nada. Se vocês
me derem o Lanche Feliz, ficarei satisfeita pelo resto de minha vida.
Pareceu uma boa barganha para seus pais, por isso eles
compraram.
E funcionou.
Ela cresceu e tornou-se uma mulher satisfeita, agradecida e alegre.
Ela viveu com serenidade e generosidade. Sua vida teve momentos
difíceis: seu marido era um parasita e abandonou-a com três filhos
pequenos e sem dinheiro. Seus filhos também foram uma decepção:
largaram a escola, sugaram suas magras economias e finalmente sumiram
sem deixar rastro. Quando ela atingiu a terceira idade, a ajuda da
Previdência Social foi cortada e ela teve de viver pensando apenas na sua
sobrevivência.
Mas ela nunca reclamou. Ela tinha conseguido o seu Lanche Feliz.
E sempre se lembrou disso. Lembro-me do Lanche Feliz, dizia a si mesma.
Que alegria ele me trouxe. Exatamente como ela havia previsto, ele lhe
trouxe grande felicidade. Ficou agradecida pelo resto da vida.
A vida tem alguma coisa a ver com isso? Você acha que depois de
algum tempo a criança vai entender tudo e dizer: "Sabe de uma coisa? O
Lanche Feliz nunca vai me fazer feliz para sempre; não vou cair nessa
história de novo". Mas não é isso o que acontece. Quando a emoção toma
conta, ela precisa de mais uma dose, de outro Lanche Feliz. Ela continua
comprando, e ele continua não satisfazendo. Na verdade, a única pessoa
para quem o Lanche Feliz traz felicidade é o sr. McDonald. Você já parou
para pensar por que o Ronald McDonald está sempre com aquele sorriso
estanpado no rosto? Por causa de bilhões de Lanches Felizes vendidos.
É claro que somente uma criança poderia ser tão ingênua. Só uma
criança seria tão tola a ponto de acreditar que uma mudança no curso dos
acontecimentos lhe traria a satisfação eterna.
Talvez não. Pode ser que, quando a gente cresce, não fica
necessariamente mais inteligente; só o Lanche Feliz é que fica mais caro.
Todos os dias somos bombardeados por mensagens que tentam nos
convencer de duas coisas: que estamos (ou deveríamos estar) insatisfeitos
e que a satisfação está a um passo de distância: "use tal coisa, compre tal
coisa, coma tal coisa, vista tal coisa, experimente tal coisa, guie tal coisa,
passe tal coisa no cabelo". As coisas que você pode comprar apenas para
satisfazer seu cabelo são inacreditáveis: você pode lavar os cabelos,
condicionar, usar musse ou tintura, fazer permanente ou alisamento,
fazer parar de crescer onde não deve e fazer nascer onde não cresce.
As pessoas estão mais saudáveis, limpas, ricas e bem informadas
do que nunca. Vivemos mais tempo, comemos melhor, vestimos roupas
mais quentes, trabalhamos menos e nos divertimos mais do que em toda
a história da humanidade. Mas estamos mais felizes? Ou não passamos
de limpos, saudáveis e bem vestidos insatisfeitos? A busca desesperada
por qualquer Lanche Feliz que estejamos procurando acaba se tornando
uma busca banal.

A Frustração da Busca Inútil


Há alguns anos, quando o jogo tinha acabado de ser lançado,
minha esposa e eu passamos uma noite frustrante jogando Trivial Pursuit
com outro casal. Foram raras as vezes em que alguém conseguiu
responder corretamente a uma pergunta. Ninguém estava se divertindo
com o jogo, mas não conseguíamos parar de jogar. Os teóricos no assunto
dizem que o comportamento mais difícil de se controlar é aquele que é
reforçado em intervalos intermitentes. Isso explica por que foi tão difícil
parar de jogar o Trivial Pursuit. A história mais absurda que apareceu foi
quando a esposa do outro casal tirou a pergunta: "Qual a cor do colar da
Mona Lisa?". Acontece que minha esposa tinha visto o quadro há pouco
tempo e lembrou que a Mona Lisa não usa nenhum colar! O jogo tinha se
tornado tão irritante que começamos a apenas ler as perguntas. Nada é
mais frustrante do que passar uma noite numa busca inútil — quanto
mais passar um dia inteiro numa busca inútil.
Ninguém quer gastar seu tempo com coisas inúteis: esperar na fila,
ficar preso no tráfego, realizar tarefas sem objetivo. Viktor Frankl, um
psiquiatra vienense e sobrevivente do holocausto, em sua obra Em busca
de sentido, escreveu que um dos aspectos mais humilhantes e destrutivos
dos campos de concentração era ter de cumprir tarefas planejadamente
sem sentido, como mover pilhas de terra indefinidamente de um lugar
para outro sem motivo nenhum. Sou capaz de agüentar qualquer
"procedimento" contanto que haja um "motivo", ele diz.
Mas as pessoas são capazes de realizar tarefas não apenas por um
dia, mas por semanas e anos para, depois, perceber que elas não fazem
sentido nenhum. "Vaidade de vaidades", diz o autor de Eclesiastes. "Tudo
é vaidade! Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz
debaixo do sol? [...] Todas as coisas são canseiras, mais do que ninguém o
pode declarar. Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir."
A lista não termina por aí: a busca pelo prazer supremo, fama, fortuna,
nada disso consegue trazer a felicidade eterna. Um dia a alegria termina.
As grandes conquistas acabam se tornando banalidades. Uma vida inteira
de frustração, voltada para uma busca inútil, é fatal para o espírito
humano.
Richard Mouw, estudioso da ética, foi convidado por alguns de
seus colegas pastores para assistir a um show dos Rolling Stones, no Rose
Bowl, porque eles queriam fazer uma reflexão teológica sobre a cultura
popular. Então, lá estavam eles: um grupo de clérigos de meia-idade, na
turnê Voodoo Lounge, ligando para seus filhos adolescentes e levantando
o telefone para o alto para que eles pudessem ouvir os Red Hot Chili
Peppers esquentando o púbico e acreditar que os pais deles estavam
mesmo ali.
Um dos pastores perguntou a Mouw: "Há 85 mil pessoas aqui; mais
do que todas as igrejas e sinagogas juntas de Pasadena conseguiriam
reunir num fim de semana. O que diria a essa gente se tivesse uma
oportunidade?".
Mouw não fazia a menor idéia... até que Mick Jagger começou a
cantar uma das marcas registradas dos Stones: Satisfaction. Oitenta e
cinco mil pessoas começaram a cantar junto com ele: "I can't get no
satisfaction. [...] But I try" ["Não consigo ficar satisfeito... Mas estou
sempre tentando"!.
Mick Jagger e 85 mil fãs chegaram à mesma conclusão que o autor
de Eclesiastes. Muita comida, muito sexo, muita fama, fortunas
incalculáveis, muito poder. Podemos ser bastante hábeis para conquistar
tudo isso, mas sem ter nenhuma satisfação. Todas essas buscas acabam se
tornando banalidades. A nossa sede não morre, mas nunca conseguimos
satisfazê-la.
Por que somos tão frustrados e insatisfeitos? A resposta, por mais
incrível que pareça, é que nossa frustração vem do próprio Deus. Veja o
que Paulo escreveu para Roma: "Pois a criação ficou sujeita à vaidade
[frustração] , não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou,
na esperança de que também a própria criação será libertada do cativeiro
da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus".
A situação, no caso, é Deus "sujeitar a criação à frustração". Deus
sabia que, depois da queda, tentaríamos impor outros deuses, entregar
nossas vidas à busca do prazer, riqueza, poder ou status. Por isso, ele
disse que uma das conseqüências do pecado original seria que nenhuma
dessas coisas traria "satisfação para o espírito". Nossa busca por essas
coisas sempre encontraria uma certa insatisfação e descontentamento.
Mas ele, segundo Paulo, fez isso "na esperança". A esperança de
Deus é que paremos de tentar encontrar uma satisfação infinita em coisas
finitas. Sua esperança é que a frustração mais uma vez faça com que o
filho pródigo pare de fuçar a gamela do porco e volte para o pai. A
frustração, nesse sentido, é uma espécie de dádiva. E uma das formas que
o amor de Deus assume para aqueles que, de outra forma, jogariam a
vida fora com banalidades.
Walter Wink, teólogo do Novo Testamento, escreveu que uma das
técnicas de ensino mais eficientes de Jesus era a "frustração
deliberadamente induzida". Ele vivia fazendo perguntas que seus
discípulos não eram capazes de responder, delegando tarefas que não
podiam cumprir, ensinando o que não conseguiam entender. Ele
acreditava que a frustração chama a nossa atenção, é capaz de nos abrir
para que aceitemos a ajuda dos outros.

O Povo Insatisfeito de Deus


A insatisfação foi um tema importante na vida de Israel desde o
Êxodo. Durante quatrocentos anos os israelitas foram escravos no Egito.
Por quatrocentos anos eles sonharam apenas com a liberdade; eles sabiam
que seriam realmente agradecidos se ao menos conseguissem ser livres.
Então aconteceu. Deus interveio milagrosamente. A escravidão
chegou ao fim; o inimigo foi destruído; eles ganharam uma identidade,
segurança e a promessa de ter sua própria pátria. Eles tinham tudo o que
queriam. Sabiam que viviam sob o amor e cuidado de Deus e seriam
gratos para sempre, certo?

Então chegaram a Mara, mas não puderam beber as


águas de Mara, porque eram amargas. [...] e o povo
murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber?
("Murmurar contra" são duas das palavras mais usadas na história
do Êxodo. A tradução grega dessa palavra era gogguzo, que, como a
palavra "murmúrio", é o que os lingüistas chamam de onomatopéia —
uma palavra que imita o som do seu significado. Junte uma multidão de
pessoas para repetir a palavra "murmúrio, murmúrio, murmúrio" — é
um som horrível.)
Então, Deus interveio de novo, e milagrosamente eles receberam
água fresca para beber. Agora, sem dúvida nenhuma, eles ficariam gratos.
Alguns dias depois...

Toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra


Moisés e contra Arão no deserto. Disseram-lhes os filhos de
Israel: Quem nos dera tivéssemos morrido pela mão do Senhor
na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas
de carne, quando comíamos pão a fartar! Tu nos trouxestes a
este deserto, para matardes de fome a toda esta multidão.

"Quem nos dera tivéssemos morrido" no Egito. Esse povo elevou a


reclamação a uma forma de arte completamente nova. "Não estamos
pedindo muito; se ao menos pudéssemos ter uma morte rápida quando
nossas barrigas estavam cheias. Se ao menos tivéssemos pão, ficaríamos
agradecidos para sempre".
O texto menciona três vezes que o Senhor "ouviu as vossas
murmurações" contra ele. Seria de esperar que ele ficasse impaciente a
essa altura. Mas ele é muito paciente com seu bonecos de pano
murmurantes.
Aí Deus interveio novamente. Ele fez chover pão do céu sobre eles.
Era chamado de maná, que mais do que um nome é uma pergunta. Uma
tradução livre seria: "O que é isso?".
Maná era, para todos os efeitos, um produto incrível. Tinha gosto
de wafer com mel. Aparentemente, era um alimento muito versátil. Os
israelitas foram instruídos a assar o quanto quisessem, cozer o quanto
quisessem e guardar o quanto quisessem comer cru. Parece o pequeno
Bubba no filme Forrest Gump, o contador de histórias descrevendo a
incrível variedade de formas de se fazer camarão: "maná assado, cozido
ou grelhado, no espeto, hambúrguer de maná, salada de maná, purê de
maná, torta cremosa de maná com banana etc".
Agora que eles tinham conseguido o maná, ficariam gratos, certo?
Chega de reclamação, certo?
Em um lugar chamado Taberá...

O populacho que estava no meio deles veio a ter


grande desejo de outro alimento, e os filhos de Israel
tornaram a chorar, dizendo: Quem nos dará carne a comer?
Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, e
dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e
dos alhos. Mas agora estamos definhando, e nenhuma coisa
vemos senão este maná.

Não era mais o Lanche Feliz.


Um dos grandes perigos da ingratidão é que ela é contagiosa.
Moisés não agüentou mais e, por isso, aproveitou quando teve uma
oportunidade. Ele argumentou com Deus como o faz alguém que se
considera mártir.

"Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei
graça aos teus olhos, visto que puseste sobre mim o encargo
de todo este povo? Concebi eu UM DOS porventura todo este
povo? Gerei-o eu para GRANDES que me dissesses: Leva-o em teus
braços, PERIGOS DA como a ama leva a criança no colo, à terra
INGRATIDÃO É que juraste a seus pais? [Essa pergunta é QUE ELA É
retórica.] Donde teria eu carne para dar a CONTAGIOSA. todo este
povo? Contra mim choram, dizendo: Dá-nos carne a comer.
Eu sozinho não posso levar a todo este povo; é muito pesado
para mim. Se assim me tratas, mata-me de uma vez, eu te
peço, se tenho achado graça aos teus olhos, e não me deixes
ver a minha própria ruína".

Quando os discípulos se rendem à síndrome da reclamação, o líder


corre o risco de ser destruído. Quando os líderes são engolidos por essa
sombra, todo o grupo pode acabar perdendo vida. A alegria, a energia e a
motivação, tudo vai por água abaixo; todo mundo quer desistir.
Mas Deus é misericordioso com os queixosos. Ele lhes dará
exatamente o que pedirem: "Consagrai-vos em preparação para amanhã,
quando comereis carne. O Senhor vos ouviu quando chorastes".
Mas, desta vez, há um tom de repreensão misturado à compaixão.
Pois ele lhes dará exatamente o que pedirem·. "Não comereis um dia, nem
dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias, mas um mês
inteiro, até vos sair pelos narizes, até vos enfastardes dela".
Os israelitas descobriram que não é ganhando o que se pede que
alcançamos a satisfação permanente em as nossas vidas insatisfeitas e que
ainda acabamos desprezando aquilo que antes nossos corações desejavam
porque isso não nos satisfez.
Mas essa história se repetiu por quarenta anos. Por mais coisas que
Deus lhes desse — liberdade da escravidão, orientação divina, o presente
dos Dez Mandamentos, maná e água, "uma esperança e um futuro" —,
nunca era o suficiente. O povo morria reclamando.
É impressionante ver o quanto os autores da Bíblia consideram a
ingratidão destrutiva. Paulo escreveu para a igreja em Coríntios sobre
quatro costumes que as pessoas praticavam na época de Moisés: idolatria,
imoralidade sexual, desacato deliberado a Deus; mas o quarto, o clímax
do lote, era "não reclame como alguns fizeram e foram destruídos pelo
destruidor".
A ingratidão é uma das maiores características de nossa
degradação. O crítico de arte, Robert Hughes, escreveu há alguns anos
uma crítica penetrante sobre a sociedade americana, chamada Cultura da
reclamação. Ele defende a tese de que vivemos em uma sociedade em que
as pessoas acham que merecem ter todos os seus desejos satisfeitos.
Achamos que esse é um direito de nascença. Nós nos colocamos na
posição de vítimas quando isso não é verdade. Vivemos uma cultura da
reclamação. Ela molda as nossas mentes e corações.
Quais são os sinais desse descontentamento presentes em nossas
vidas? Faça uma pausa para um pequeno inventário.
• Você se sente cansado do seu emprego ou insatisfeito. Espera que
ele não apenas pague as suas contas mas também lhe dê uma certa
identidade e valor próprio; e ele está bem aquém das suas expectativas.
• Você está decepcionado com seus relacionamentos. Seus amigos,
cônjuge ou filhos não suprem as suas necessidades emocionais e
sentimentais e você está ficando cada vez mais ressentido.
• Em vez de se entregar no momento presente, fica preocupado
pensando se é ou não realmente feliz.
• Você tenta fugir de seu descontentamento. Procura aliviar-se ou
distrair-se assistindo TV, fazendo compras ou bebendo.
• Você perde a tolerância. A sua primeira reação aos
acontecimentos é ser cínico ou mesmo hostil.
• Você fica cada vez mais ressentido ou invejoso de quem parece
estar numa situação melhor do que a sua.
John Cheever escreve: "O sentimento mais comum da média dos
adultos americanos privilegiados que têm dinheiro, uma boa educação e
cultura é a decepção'. E isso é verdade não apenas para as pessoas do
mundo moderno; o coração humano se sente insatisfeito desde que
deixou o Éden. Mas Deus nos ama apesar de nossos desejos insaciáveis e
degradantes. Na verdade, a satisfação só pode ser encontrada numa vida
autêntica baseada no amor. "Tu nos criaste para ti; e nossos corações não
descansarão até encontrar a paz em ti", disse Agostinho.
Uma alternativa é fazer o que os israelitas fizeram e reclamar da
vida. Esperar que algo aconteça para você se sentir grato. Cultivar a sua
própria cultura da reclamação.
Outro caminho é continuar buscando pequenas alegrias que nos
distraiam da nossa grande frustração. O psicólogo Neil Warren escreveu:
"Essa busca precipitada da felicidade instantânea foi criada para nos
distrair do vazio que sentimos e para anestesiar a dor de nossos fracassos
nos relacionamentos e da sensação de futilidade que nos consome. Esse
vício requer doses diárias e, às vezes, a cada hora".
Mas Deus continua esperançoso. Sua esperança é que depois de
uma boa dose de frustração deliberadamente induzida possamos
finalmente parar de fuçar na gamela do porco e voltar para casa.
O profeta Isaías colocou isso da seguinte maneira:

Escutem, os que têm sede: venham beber água!


Venham, os que não têm dinheiro: comprem comida e
comam! Venham e comprem leite e vinho, que tudo é de
graça. Por que vocês gastam dinheiro com o que não é
comida? Por que gastam o seu salário com coisas que não
matam a fome? Se ouvirem e fizerem o que eu ordeno, vocês
comerão do melhor alimento, terão comidas gostosas.

As traduções mais antigas são mais radicais: "a vossa alma se


deleite com a gordura" — a parte mais rica e saborosa da carne. Nada de
carne com baixas calorias, baixo teor de sódio ou de soja para Isaías. A
Bíblia é decididamente a favor das calorias.
O que Isaías quer então que as pessoas saibam é que, obviamente,
Deus é o verdadeiro alimento. Viver no seu amor e sob a sua proteção é a
única esperança de satisfação para o coração humano. "Sou o alimento da
vida", Ele diz. "Quem vier a mim jamais terá fome." Então, Deus observa
espantado as pessoas se consumindo atrás de realizações, status ou
posses que não aliviarão suas almas. "Por que vocês gastam dinheiro com
o que não é comida?", pergunta.
Essa passagem não apenas contém a promessa de Deus de
proporcionar satisfação, mas também ressalta que as pessoas que não
possuem esse desejo inevitavelmente tentam distrair-se com pequenas e
efêmeras alegrias onde quer que estejam, mesmo que
não tragam satisfação para sua alma. "Por que vocês gastam
dinheiro com o que não é comida?" Isso é lixo para a alma. São buscas
inúteis. Lanches Felizes.
Por que você se consome no trabalho, buscando nas promoções e
empreendimentos o que eles não podem dar?
Por que você dedica horas da sua noite num passeio infindável de
canais em busca de programas sobre a vida que possam fazê-lo rir, sentir
medo ou apenas se emocionar, em vez de viver?
Por que você se endivida tentando adquirir o que o dinheiro não
pode comprar?
É claro que as conquistas profissionais, as posses e a diversão não
são coisas ruins. E podem até ser grandes dádivas, mas podem também
se tornar deuses muito cruéis. Eles não servem de base para a sua vida.
Não são capazes de nutrir o espírito humano. Eles não alimentam.
Há alguns anos, conheci um homem em uma viagem de avião cujo
vício pelo trabalho combinava perfeitamente com a compulsão de
comprar de sua esposa. De fato, um dia, ele recebeu um telefonema de
uma loja de departamentos conceituada que ela freqüentava. Fazia uma
semana que a mulher dele não aparecia e eles estavam preocupados. Eles
sabiam mais sobre a mulher dele do que ele próprio! Eles tinham dado
entrada em um processo de divórcio e ele já estava com outra mulher. O
vôo inteiro foi uma longa lista de reclamações.
As pessoas às vezes pensam: se Deus quer que eu me sinta
agradecido, por que não me dá tudo o que quero?
Todo pai inteligente sabe que a melhor maneira de criar um filho
ingrato é dar tudo o que ele quer.
Ano passado, no Halloween, o Dia das Bruxas, quando um amigo
meu abriu a porta de sua casa, deu de cara com uma senhora já crescida
fazendo a brincadeira e pedindo doces: "É para a minha filha", ela
desculpou-se. O dia estava um pouco frio e ela 1 decidiu levar a filha de
carro pela vizinhança em vez de fazê-la vestir um casaco. E a filha sentiu-
se tão confortável no carro que caiu no sono; por isso, em vez de acordá-
la, a mãe foi, de porta em porta, pedir doces. Só faltou ela querer engolir
todos os doces para poupar a filha de uma dor de estômago. O teatrólogo
J. M. Barrie estava na casa de um casal de amigos, quando ouviu a dona
da casa dizer para o filho: "Chega de comer esse doce senão amanhã você
vai passar mal". "Não", o menino respondeu e continuou a comer
calmamente, "eu vou passar mal esta noite". Barrie ficou tão abismado
com a barganha que colocou isso em sua peça Peter Pan. O que aconteceu
com o garoto continua um mistério.
Por mais estranho que pareça, as pessoas cujos desejos são
constantemente satisfeitos desde a infância, tornam-se as mais ingratas.
Para sermos agradecidos, precisamos aprender que somos capazes de
lidar com a decepção e esperar pela gratificação com paciência e
perseverança. É por isso que hábitos como o jejum e a simplicidade são
ferramentas extremamente poderosas de transformação. A experiência da
frustração e da decepção é inestimável para se cultivar um espírito de gratidão.

O Alimento: a Satisfação de Ser Amado


Algum tempo atrás, passei um dia sozinho em uma reserva
florestal. Senti o tipo de "enfado da carne" sobre o qual o autor de
Eclesiastes falou. Percebi que estava me dedicando demais a alguns
empreendimentos e sentia um enorme peso quando não conseguia
realizá-los. Fui pego por minhas próprias buscas inúteis.
Mas eu estava numa espécie de ambiente natural em que é difícil se
sentir triste por muito tempo. Os castanheiros, os carvalhos, os bordos e
sicômoros estavam refletindo as cores do outono sob um sol brilhante.
Comecei a me soltar. De alguma forma, recebi a graça de poder sentir que
Deus me amava. Comecei a sentir de novo o que significava estar vivo,
neste planeta, neste lugar, neste momento. Essa sensação foi tão forte que
comecei a correr, com a força exata daquele sentimento.
Richard Foster escreveu uma vez sobre um pai que passeava em
um shopping center com seu filho de dois anos. O menino era bravo;
ficava gritando, se esquivando e reclamando. O pai teve de lutar para
permanecer calmo.
Normalmente, histórias como essa não têm um final feliz. Em outra
delas, um pai está andando no supermercado com seu filho de dois anos
incontrolável, repetindo calmamente: "Tudo bem, Danny. Você consegue,
Danny. Já está quase acabando, Danny".
Alguém pergunta a ele: "O seu filho Danny está num mau dia?". E
ele responde: "O nome do meu filho é Natã. Danny é o meu nome".
Mas o pai a respeito do qual Richard Foster escreve adota outra
estratégia. Ele pegou seu filho "reclamão" de dois anos no colo e,
segurando-o bem colado ao peito, começou a improvisar uma canção de
amor. Nenhuma palavra rimava. Ele cantava desafinado, mas da melhor
forma que podia, abriu seu coração: "Eu o amo. Sou tão feliz por você ser
meu filho. Você me faz rir".
De loja em loja, o pai continuou cantando, sem rimar, desafinado. O
filho acalmou-se, cativado pela estranha e maravilhosa canção.
Finalmente, quando eles estavam indo embora, o pai entrou no
carro e estava ajeitando o filho no banco quando o menino ergueu os
braços e disse olhando para ele: "Cante de novo, papai. Cante pra mim de
novo".
De alguma forma, quando fiquei sozinho com sua criação naquele
dia na reserva, Deus cantou essa canção para mim. Não importava quem
eu era ou o que fazia, estar vivo e ser amado por Deus foi o suficiente
para me trazer gratidão e contentamento — pelo menos por alguns
momentos.
Apesar disso, aquele sentimento maravilhoso não desapareceu
completamente, mesmo depois de sair de lá.
Muitos dias depois, estava sentado no meio de uma reunião
quando, de repente, percebi que não precisava dizer nada. Normalmente,
eu tomaria a palavra, não necessariamente porque tivesse algo a dizer
que pudesse contribuir de alguma forma, mas simplesmente porque
queria que as pessoas soubessem que tinha uma idéia, li alguma coisa ou
tinha algo a dizer que as faria pensar que sou inteligente ou posso ganhar
uma discussão.
Mas desta vez, sentado no meio da reunião, eu carregava aquele
momento que passei sozinho na reserva florestal. Deus me amava.
É difícil explicar essa sensação que Deus me deu: havia uma certa
leveza na minha alma naquele momento. Eu podia falar, se tivesse algo
que valesse a pena ser dito. Mas não precisava. Não precisa tentar
mostrar que tinha poder. Não precisava causar impressão. Eu tinha algo
melhor para me alimentar. Estava satisfeito.
Provei, pelo menos acho que um bocadinho, do que o salmista
pretendia dizer: "O Senhor é meu Pastor e nada me faltará". Fui guiado
para águas tranqüilas e pastos verdejantes.
Eu simplesmente fiquei sentado ali, enquanto uma parte de mim
ouvia a conversa e a outra dizia: "Cante de novo, Papai. Deus, diga que
me ama".

O Hábito da Gratidão
Como Lewis Smedes escreve, quando a Bíblia diz que devemos ser
gratos, mais do que um dever, é uma oportunidade que recebemos.
Quando o motivo básico da gratidão é a obrigação, ela acaba nos
sufocando.
Os pais sempre ensinam os filhos a serem educados. Geração após
geração a história se repete quando alguém dá um presente aos nossos
filhos ou lhes faz um favor, nós dizemos à criança: "Como é que se diz?".
"Como é que se diz ao bom homem?"
"Como é que se diz para a tia Eva pela comida gostosa que ela fez?‫׳‬
', meus pais me diziam.
O que a criança deve responder?
Não é exatamente uma pergunta. Eles ficariam surpresos se eu
dissesse: "Tia Eva, o que é que você tem na cabeça para fazer uma
gororoba dessas? Você não deveria nem estar cozinhando. Alguém devia
lhe proibir disso".
"Como é que se diz?" Obrigado.
A pergunta pode incitar essa resposta, mas a reação geralmente é
bastante mecânica.
Meus pais também ficariam surpresos se eu ficasse realmente
emocionado e dissesse: "Tia Eva, estou admirado e maravilhado com o
que acabei de experimentar. Não passo de uma criança. Sem um adulto
para cuidar de mim, como você tem feito, eu morreria. Você fez esta
refeição de livre e espontânea vontade, em um ato de amor e dedicação
por mim. Tia Eva, você é muito humanitária e, em nome de todas as
crianças do mundo, eu a saúdo".
Não, geralmente, eu dava uma resposta minimalista do tipo:
"Obrigado".
Mesmo que as crianças não se sintam gratas, queremos que
aprendam a agradecer apenas por uma questão de educação. Mesmo que
não sinta isso, preciso agradecer simplesmente porque esse é o certo, eu
devo minha gratidão.
Mas nossa esperança é que nossos filhos não se limitem a dizer a
palavra. Esperamos que um dia eles se tornem pessoas agradecidas,
porque a capacidade de experimentar a gratidão, dar graças e orar com
sinceridade é uma das características mais importantes da vida e da
plenitude espiritual.
"Viva a minha alma, para que te louve", o salmista diz para Deus. A
verdadeira gratidão significa enxergar que tudo é uma dádiva e a vida, a
maior dádiva de todas.
G. K. Chesterton disse certa vez: "Aqui termina mais um dia
durante o qual tive olhos, ouvidos mãos e o mundo inteiro ao meu redor,
e amanhã começa outro dia. Por que tenho direito a dois?".
A vida é boa. A vida é uma dádiva.
Há mais ou menos oito anos, Nancy e eu estávamos na sala de
parto do hospital para o nascimento do nosso caçula. Ela estava dando à
luz e eu a estava instruindo (esse era o combinado nos dois primeiros
partos e parece que deu um bom resultado).
Tudo parecia estar correndo de acordo com o esperado. Nancy
dizia claramente que a dor estava insuportável e que ela se vingaria de
mim um dia por tê-la feito passar por isso, mas a conversa foi a mesma
nos outros nascimentos, por isso achei que estava tudo bem.
Então, o médico ficou muito sério. Ele deu várias instruções, pegou
um instrumento qualquer e a situação ficou bastante grave. Não sabíamos
naquele momento, mas o cordão umbilical do bebê estava enrolado em
seu pescoço e seu rosto estava roxo; ele morreria sufocado se a situação
não fosse contornada com o maior cuidado.
O médico dava o máximo de si enquanto Nancy se contorcia de
dor. Ele tirou o bebê até um ponto em que conseguia cortar o cordão.
Naquele momento, o sangue jorrou para todo lado, o bebê e Nancy
choraram, mas o médico sorriu: "Tudo vai ficar bem".
Pode ser, a essa altura, mas eu já estava quase desmaiando. "Preciso
me sentar". Desabei sobre uma cadeira e, então, o médico me mandou
colocar a cabeça entre os joelhos.
Nancy perguntou: "Tem certeza que tudo vai ficar bem?".
"Sim", ele respondeu. "Na verdade, seu filho e seu marido estão
voltando a si ao mesmo tempo".
Eu soube, naquele momento, que tinha recebido uma dádiva, que
toda a terra é uma dádiva e a vida é a mais preciosa delas. Não é um
direito. Não pode ser tomado ou concedido. Ela pode se apagar em um
lapso de segundo. A vida é uma dádiva. E é boa. Como é bom estar vivo!
Senti uma gratidão que nunca havia sentido antes na vida.
Aprender a viver na gratidão de ser amado significa receber a
dádiva de poder enxergar. A forma com que você se sente a respeito da
vida depende em grande parte do modo como você a enxerga. Um amigo
me contou sobre uma carta que uma universitária escreveu para os pais:

Queridos pai e mãe:


Tenho tanta coisa para contar. Por causa do incêndio
no meu dormitório provocado pelas passeatas estudantis,
meus pulmões ficaram intoxicados temporariamente e fui
levada para o hospital. Enquanto estava lá, apaixonei-me por
um faxineiro e agora estamos morando juntos. Larguei a
escola quando descobri que estava grávida e ele foi
despedido porque bebia, por isso vamos nos mudar para o
Alasca, onde poderemos nos casar depois que o bebê nascer.
Assinado, Sua filha querida
P.S.: Nada disso aconteceu de verdade, mas eu fui
reprovada em química e queria que vocês vissem as coisas
sob esse ângulo.

Gratidão pelo Que Você Tem


Quando acho que uma mudança nas coisas — digamos, um carro
novo — poderia me deixar grato, veja o que essa linha de pensamento
realmente significa. Eu faço uma lista das coisas realmente maravilhosas
que já tenho:
• Fui criado à imagem de Deus. Tenho um corpo que funciona
bem. Posso enxergar e caminhar. Muitas pessoas não podem. Ainda
assim, faço isso todos os dias.
• Deus me ama. Ele me chama de filho. Por Jesus ter vindo ensinar
e viver, morreu na cruz e ressuscitou — meu futuro com Deus está
garantido para sempre.
• Fui aceito no maior sonho de Deus: a nova comunhão. Faço parte
da igreja — posso ser amado e aceito.
• Fui dotado, criado para dar a minha contribuição única e eterna à
obra de Deus. Tenho uma vocação. Mesmo quando estrago tudo, Deus
promete trabalhar em mim apesar de meus erros.
Quando faço essa lista inspiradora, concluo que todas essas
dádivas juntas — o dom da vida, um corpo perfeito, ser filho de Deus, ter
certeza do amor de Deus através de Cristo, o sacerdócio digno de um rei
na igreja, a orientação e o poder do Espírito Santo em minha vida — não
são suficientes para me fazer sentir uma gratidão permanente. Mas, digo
a mim mesmo, se tivesse tudo isso e um carro bem moderno, então ficaria
grato para sempre.

Aprender a Apreciar as Dádivas Imperfeitas


Você já foi nessas lojas de ponta de estoque que vendem produtos
com "pequenos defeitos"? Às vezes, as imperfeições são bem visíveis;
outras, não dá nem para notar. O mesmo é verdadeiro para nossas vidas,
não apenas em relação aos produtos que compramos, mas às dádivas que
recebemos.
Se você é casado, não precisou de muito tempo para perceber que
seu cônjuge era uma dádiva com um "pequeno defeito". Sem dúvida, ele
achou a mesma coisa de você.
Quando as crianças nascem, geralmente dizemos: "Ela é perfeita!".
Bem, nós dois sabemos que não é preciso muito tempo para perceber que
a perfeição não se resume nos dez dedos das mãos e dos pés. Seus filhos
provavelmente são capazes de jurar que não existem muitos pais
perfeitos no mundo.
No plano material, qual de nós já não ganhou um presente e depois
devolveu porque não era do tamanho ou da cor certos?
E quanto aos nossos corpos? Passamos a vida inteira pensando: se
meu corpo fosse diferente, se fosse perfeito, se eu tivesse o corpo de
Fulano, então seria grato. Seu corpo pode não ser perfeito, mas é
uma coisa bastante útil de ter.
Precisamos aprender a ser agradecidos por todas as dádivas com
"pequenos defeitos" de nossas vidas. Se guardar minha gratidão na
esperança de casar com a pessoa perfeita, ter o filho perfeito, o corpo
perfeito ou o presente de aniversário perfeito, nunca serei grato na vida.
O próprio Deus quer se deleitar com dádivas imperfeitas — em
nós. Mesmo que nossos corações sejam falhos e obscurecidos, mesmo que
o entreguemos temporariamente e por algum motivo específico, ele os
receberá com imensa alegria. O próprio céu regozija-se com a dádiva do
coração de um pecador arrependido.
Contudo, Deus sabe o que significa quando suas dádivas —
perfeitas na sua forma original — são colocadas de lado como se tivessem
um "pequeno defeito". Sua criação foi usada impropriamente, suas
palavras, deturpadas e seus propósitos, ridicularizados. Jesus, que em sua
época falou de dias que estavam por vir, conheceu a frustração de
oferecer a dádiva de suas palavras a pessoas que se recusaram a ouvi-las.
Ele conheceu a frustração de desejar transmitir a dádiva do perdão a
pessoas que não queriam se arrepender, conceder a cura a pessoas que se
recusavam a acreditar, comungar e congregar filhos que se recusavam a
ser unidos. Jesus conheceu a frustração de dar uma festa na qual os
convidados se recusavam a aparecer, servir o vinho que eles não
beberiam, trazer o pão que eles não comeriam.
E, por fim, ele conheceu a frustração da cruz. O que ele acreditava
ser a maior dádiva do mundo tornou-se a maior tentativa de demover a
vontade e a obra de Deus.
Mas a frustração de Jesus foi inundada de esperança. Pois a cruz
que pretendia frustrar o propósito de Deus tornou-se sua expressão final
e garantia.
Pois o milagre do amor de Deus pelos bonecos de pano é que, em
todo o universo que obedece a sua vontade, num cosmo de beleza e
ordem, em toda a sua obra, sua atenção se volta para um pequeno planeta
acidentado, num ponto insignificante de uma pequena galáxia. Seria bem
mais fácil para ele simplesmente tirá-lo do mapa. Um planeta rebelde
parece não valer todo o seu esforço e tempo. Parece uma busca inútil.
O milagre do amor de Deus é que ele se tornaria homem,
trabalharia como carpinteiro, sentiria fome, cansaço e fraqueza, ensinaria
e até choraria por nós. Pois, no final, a história do amor de Deus por este
mundo virou a história de uma busca que não era mais inútil. Que deixou
de ser inútil depois que ele se tornou homem. Deixou de ser inútil depois
da cruz.
CAPÍTULO7
0 caminho mais árduo
O homem que não se deixar abater e derrotar pela aridez e pelo desamparo, mas que
permitir que Deus o guie calmamente pelo deserto e não busque ajuda e orientação
em mais nada a não ser na pura fé e confiança somente em Deus, chegará à Terra
Prometida.

THOMAS MERTON

Quando você faz uma viagem acompanhado de crianças


pequenas, não há a menor dúvida do que vai acontecer. As crianças vão
perguntar. Elas vão perguntar logo no início, vão perguntar todo o
tempo. Elas vão perguntar resmungando obstinadamente. Elas vão
perguntar mesmo que você diga que não quer ouvir isso de novo. Elas
vão perguntar como se fosse uma obrigação legal que devessem cumprir.
Isso irá irritá-lo — tanto quanto arranhar o quadro negro — e a intenção é
exatamente essa.
Nós já chegamos?
Geralmente, o tempo de viagem é proporcionalmente inverso ao
tempo que elas demoram para começar a perguntar. Não precisa muito
para que alguém no banco de trás comece a reclamar que está sendo
puxado, beliscado ou torturado psicologicamente.
Os limites estão demarcados, mas então o espaço aéreo de alguém é
invadido. Em breve, começa como uma música, uma espécie de canto
pagão: Nós já chegamos? Nós já chegamos?
Imagine-se fazendo uma viagem e dizendo: "Não chegamos ainda.
Não chegaremos hoje. Não chegaremos amanhã. Na verdade, passaremos
a vida inteira viajando. Estamos seguindo para o único destino no mundo
para o qual vale a pena viajar e receber promessas maravilhosas da nossa
chegada. Mas ainda não".

O Deus do Caminho Mais Árduo


Os filhos de Deus estavam se preparando para uma jornada. Eles
estavam saindo da escravidão para a liberdade, da pobreza para a
riqueza, à terra prometida, um lugar onde o leite e o mel são abundantes.
Parecia uma jornada muito simples. A jornada consistia apenas de
duas partes como Deus descreveria a Moisés. Vou "fazê-lo subir daquela
terra", Deus disse, referindo-se ao Egito, à fome e à escravidão, "para uma
terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel". "Subir"
daquela "para" outra.
Eles não iam imaginar que demoraria tanto tempo. Depois de
deixarem o Egito, tudo o que tinham a fazer era cruzar a península do
Sinai. Não era uma viagem assim tão longe — menos de 300 quilômetros.
Eles chegariam lá em questão de semanas.
Mas Deus tinha uma rota alternativa em mente.
A Bíblia diz: "Quando o Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou
pelo caminho da terra dos filisteus, que era mais perto. Pois Deus disse:
para que o povo não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito.
Assim Deus fez o povo rodear pelo caminho do deserto perto do mar
Vermelho".
Este é o Deus que, precisamente por amar seus filhos, recusa-se a
tomar o caminho mais curto que eles preferiam. Por causa de sua falta de
fé e medo, ele os envia pelo caminho mais árduo. Mais tarde, é claro, por
causa da revolta e pecado do povo, o caminho se tornaria ainda mais
longo. Foi por isso que o reverendo David Handley chamou os caminhos
de Deus de árduos.
Já chegamos?
Ainda não. Um dia, mas não ainda. Seja paciente.
Imagine só, uma nação inteira reunida e chega o dia que eles
estiveram esperando por quatrocentos anos. Eles saem em sua jornada
para casa. Nenhum deles esteve lá antes, mas eles não estão preocupados
com o curso da viagem. Há uma coluna de nuvem e outra de fogo à sua
frente. O fogo que queimou a sarça para Moisés agora queima para todos
eles. Eles serão guiados por Deus.
A coluna começa a se mover e a caminhada se inicia. Mas então o
povo nota que a coluna está indo na direção errada! A terra prometida
fica a nordeste e a coluna está indo para o sul. A coluna está seguindo
contra o curso.
Já chegamos? — o povo pergunta.
O que Moisés poderia dizer? Suas instruções não são muito
precisas. Esta é a única vez na história que uma mulher pergunta ao
marido: "Você sabe para onde estamos indo? Estamos indo na direção
certa?". E o marido respondeu: "Só Deus sabe", e ele estava dizendo a
pura verdade.
O povo seguirá a Deus mesmo sem entender? Ele seguirá mesmo
que as coisas não façam muito sentido? Ele permanecerá fiel mesmo no
árduo caminho escolhido por Deus?
Deus guia seu povo por caminhos dificeis. Ele não faz nada rápido.
Ele nunca está com pressa. Esta é uma de suas características mais
irritantes.
Richard Mouw escreve que nos dias de hoje precisamos de uma
correção teológica sob a mensagem: "Deus não demora a agir". Deus
pode, é claro, agir rapidamente. Ele pode atender a uma oração
instantaneamente, num piscar de olhos, parafraseando Paulo. Mas, em
geral, ele é extremamente paciente. Os menonitas têm um ditado que diz:
"Vivemos no compasso da paciência de Deus". Deus está adiando o final
da história por amor, para que o máximo de gente possa encontrá-lo e ser
salvo.
Ele é o Deus que leva seu povo para a terra prometida pelo deserto.
Ele é o Deus do caminho mais árduo.

A Experiência do Deserto
Para o povo de Israel, este não seria um pequeno desvio. Ele
passaria quarenta anos nesse árduo caminho. Quarenta anos no deserto.
Quarenta é um número importante na Bíblia. Os estudiosos do
Antigo Testamento dizem que ele era usado como número redondo para
designar um período muito longo de tempo para os padrões da tolerância
e da existência humana. Quarenta anos era o tempo de uma geração.
Isaque e Esaú casaram-se aos quarenta; Davi e Salomão reinaram por
quarenta anos. Quarenta dias foi o tempo do dilúvio, o tempo que Moisés
passou no monte Sinai e o tempo entre a ressurreição e a ascensão de
Jesus.
Mas o número quarenta está associado especialmente ao deserto.
Quando Moisés matou um egípcio e fugiu do Faraó, viveu no deserto de
Midiã quarenta anos. Quando Elias fugiu de medo de Jezebel, foi levado
para o deserto em uma jornada que durou quarenta dias e quarenta
noites. E, é claro, o próprio Jesus começou sua pregação depois de jejuar e
orar por quarenta dias no deserto.
Isso se repete na vida daqueles que buscam a Deus. Todo mundo
tem de passar algum tempo no deserto. A vida começa aos quarenta.
O deserto é um lugar para onde ninguém gostaria de ir. Não
transborda de leite e mel. É seco e árido. A vida é frágil ali.
Se você levar a fé em Deus a sério, também vai aprender alguma
coisa em seus caminhos áridos. Haverá momentos em que seu coração
sofrerá pela mágoa ou perda. Haverá momentos em que você torcerá
para que aconteça algo de bom, em que suas motivações parecerão ser
justas, em que Deus poderia atender à sua oração facilmente, mas não o
faz. São momentos em que a vida parece não valer a pena.
Geralmente, a jornada pelo deserto é provocada por algum
acontecimento. Um relacionamento rompido, um filho revoltado, um
filho pródigo que vai embora e não volta, uma crise financeira. Você
alimenta um sonho por anos, aguardando o dia em que ele se tonará
realidade e, então, um belo dia você se dá conta não apenas de que ele
ainda não aconteceu, mas nunca vai acontecer. O sonho morre e você com
ele.
Porém, às vezes, parece que o deserto surge sem motivo aparente.
Nesses momentos, até ter fé se torna difícil. Você ora, abre seu
coração para Deus, mas não obtém nenhuma resposta. Não sente
nenhuma aproximação. A Bíblia não lhe dá consolo. Você se sente
confuso e pergunta por que aquilo está acontecendo, mas não recebe
nenhuma resposta. E o seu espírito, a sua alma, que se sente seca e árida.
Você não apenas está no deserto, mas o deserto está em você.
No deserto, tudo o que nos resta é a promessa.
Deus não esqueceu de você. Você não foi abandonado. Ele guia
seus filhos por caminhos áridos. Ele não tem pressa.
Deus está agindo no árido caminho do deserto, por meios que não
podemos ver e nem compreender. O caminho de Deus raramente é o
mais curto. Dificilmente é o mais fácil. Mas é sempre o melhor caminho.

O Deserto no Início da Vida Cristã


João da Cruz falou que a experiência no deserto, ou ao que ele
chama de noite escura da alma, geralmente faz parte da experiência de
um crente pouco após a sua conversão. Segundo ele, ela é necessária para
o crescimento.
Isso costuma acontecer da seguinte forma: quando nos tornamos
cristãos, geralmente recebemos o presente de Deus de uma sede
puramente espiritual. Você sente uma fome feroz de saber mais a respeito
de Deus. Você tem prazer em orar. Você tem vontade de ler a Bíblia e
sente como se Deus estivesse falando diretamente para você. A oração
tem vida para você. Seu coração se enche e você mal consegue encontrar
palavras para expressar seus pensamentos e sentimentos. Você procura
não pecar. Coisas que antes eram uma tentação, agora parecem ter
perdido todo o encanto. Você ama a Deus e a todo o mundo. Você tem
vontade de sair e fazer algum ato de bondade para as pessoas.
Pode ser que, se você tiver sorte, continue assim por cinqüenta ou
sessenta anos e depois morra. Pode ser que você passe toda a sua vida
seguindo um caminho direto para o crescimento espiritual.
Mas, para a maioria de nós, a vida não acontece dessa maneira.
Para a maioria, em algum momento no meio do caminho as coisas
mudam. O que antes era fácil, simples e divertido, agora se torna
complicado e extenuante. Você acaba perdendo a vontade de orar. Ora
com menos freqüência e, quando o faz, não o faz com a mesma
empolgação de antes. Fica difícil sentir a presença de Deus. A Bíblia
parece maçante. Você se encontra em meio a problemas, dúvidas e
confusão. As tentações que você achava que tinha superado começam a
lhe parecer atraentes de novo. Às vezes, quando você está assistindo o
culto, vê as pessoas ficarem profundamente comovidas — algumas até
choram —, mas para você as lágrimas não chegam.
Alguma vez você já se sentiu assim?
Você está passando por uma aridez espiritual. Talvez seja uma
conseqüência de um pecado que você está cometendo deliberadamente.
Se for esse o caso, você precisa confessá-lo e arrepender-se. Mas,
geralmente, parece que isso vem do nada. Você não quer se sentir dessa
forma.
Por que Deus permitiu que isso acontecesse?, você pensa. Por que as
coisas não podem ser fáceis como antes? Por que tenho de passar por esse
caminho árduo?
Uma coisa muito importante está acontecendo. Faz parte do
crescimento. Talvez uma parábola possa ajudá-lo.
Minha primeira bicicleta de verdade era uma bicicleta inglesa de
corrida, vermelha. Queria aprender a andar naquela bicicleta mais do que
tudo no mundo. Um dia, meu pai me levou para a pista de treino. Ainda
não estava totalmente preparado para andar sozinho, por isso meu pai
segurava na garupa da bicicleta com uma mão e corria para me
acompanhar. Senti-me como um profissional, mas, é claro, a verdade é
que ele estava atrás de mim, me empurrando. Eu ainda não era capaz de
andar sozinho.
Então, um dia, ele fez uma coisa estranha. Ele me largou.
Mas que truque sujo, eu pensei, porque caí. Uma queda feia.
E ele continuou a fazer isso e eu continuei caindo. A coisa ficou tão
feia que minha mãe fechou as cortinas porque não agüentou ver.
Aparentemente, nem a bicicleta nem eu estávamos tortos.
— Pai, por que você não segura mais?
— Porque se eu fizer isso, você nunca vai aprender a andar. Você
nunca vai conseguir andar sozinho. Você quer chegar aos vinte anos e
ainda precisar que o seu pai corra atrás de você segurando a sua bicicleta?
— Quero — respondi. No momento, pareceu-me uma alternativa
melhor do que aquilo que estava acontecendo. Mas agora, vejo que ele foi
sábio.
Ele não tinha me abandonado. Era um caminho árduo de aprender
a andar de bicicleta, mas não havia outro.
Quando você começa a pedalar sozinho, sem ajuda, sente que
nunca pedalou tão mal. Você cai toda hora. A verdade é que você está
evoluindo, mas não se dá conta disso.
C. S. Lewis escreveu que no início da vida espiritual, quando Deus
nos livra da tentação e nos incute a vontade de orar, ele está facilitando as
coisas para nós. E costumamos pensar: Posso fazer isso sozinho! Já tenho
maturidade espiritual.
Lewis acrescenta:

Mas Deus nunca permite que essa situação se


prolongue por muito tempo. Cedo ou tarde ele se retira,
senão de fato, pelo menos todo o apoio e incentivo de sua
experiência óbvia. Ele deixa a criatura se sustentar com as
próprias pernas — realizar, contando apenas com sua
própria vontade, as responsabilidades que perderam todo o
sabor. É durante esses períodos, muito mais do que nos
períodos de plenitude, que evoluímos para nos tornar a
pessoa que ele quer que sejamos. Por isso, as orações feitas
nesse estado de aridez são as que mais lhe agradam.
Você pode estar passando por um momento em que
não sinta a mão de Deus. Talvez permaneça assim por mais
algum tempo. Você fica tentado a desistir. Mas a verdade é
que você ganhou a chance de aprender a pedalar sozinho.

No Deserto Encontramos Força

Por que Deus tirou os israelitas da rota normal? A Bíblia diz que é
porque Deus sabia que se eles fossem pelo caminho direto, enfrentariam
resistência: "para que o povo não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao
Egito".
A rota direta, a auto-estrada do Sinai, iria forçá-los a passar pelo
povo que lhes era hostil. Deus era perfeitamente capaz de levá-los mesmo
assim, mas eles ainda não acreditavam nisso. Eles tinham muito medo.
Alguém disse certa vez: "Foi preciso uma noite para tirar Israel do
Egito. Foram precisos quarenta anos para tirar o Egito de Israel". Por
quatrocentos anos os israelitas foram escravos e ainda se consideravam
assim. Por isso Deus precisou de algum tempo para dar coragem e fé a
esse povo.
É fácil acreditar na terra de leite e mel quando tudo está bem.
Quando as orações são atendidas, os problemas desaparecem, quando os
dentes dos nossos filhos não têm defeitos e o nosso chefe gosta da gente é
fácil ter fé. Mas o deserto tem a sua própria maneira de dar força. Deus
não está nem um pouco preocupado em saber para onde seu povo está
indo, mas o que eles serão quando chegarem lá.
José recebeu a promessa de que seria um grande líder. Em seguida,
ele é vendido como escravo e acaba passando vários anos numa prisão
dos egípcios. Ele morre sem nem conhecer a terra prometida. De fato,
sabemos que Moisés carregou os ossos de José para fora do Egito. José
passou pelo caminho árduo.
Davi foi ungido rei de Israel. Pouco tempo depois, ele acaba se
tornando um fugitivo sem ter um lugar para morar, vivendo em cavernas
para não ser assassinado por um rei hostil. Davi passou pelo caminho
árduo.
Daniel era talentoso, inteligente e devotado. Ele terminou no exílio
em uma terra estrangeira e jogado numa jaula de leões. Deus ainda estava
com Daniel, mas o guiou por um caminho árduo.
Quando você consegue dar graças no deserto, ganha muita força.
Quando você está passando por um caminho árduo, mas diz: "Não vou
voltar para o Egito. Serei fiel", sua alma fica mais forte.
Talvez você queira se apaixonar, está procurando um companheiro
ou companheira para a vida toda, procurando algo bom. Mas está
passando por um caminho árduo. Tem esperado pelo sr. ou sra.
"Perfeitos" e já faz um bom tempo. Você então pensa: Talvez eu acabe
ficando mesmo com o sr. "Mais-ou-menos".
Será que você estará seguindo a Cristo então? Completamente? Vai
assumir todos os compromissos que isso significa? "Não vou me envolver
romanticamente com alguém que não compartilhe de minha fé e valores
morais. Não me envolverei sexualmente com ninguém antes do
casamento — mesmo sob grande pressão. Se tiver de terminar o
relacionamento, assim o farei. Agora. Vou permanecer no caminho árduo
do Senhor. Se isso significar quarenta anos, serão quarenta anos. Se
significar pelo resto da minha vida, será pelo resto da vida.

No Deserto é Preciso Perseverar

Seria bom se o deserto fosse uma experiência que acontecesse


somente uma vez na vida, como ser vacinado ou arrancar o dente do siso.
Mas o deserto é um lugar para onde sempre retornamos. Ele aparece
quando estamos sozinhos, ou cansados, ou tentados.
Talvez você esteja pensando em ter um relacionamento que sabe
será destrutivo para você e uma desonra para Deus, mas se sente só ou
com medo ou simplesmente está cansado de esperar.
Talvez exista uma pessoa problemática que faz parte da sua vida:
um de seus pais, um filho ou um colega de trabalho. Você não sabe como
salvar esse relacionamento. Está no fim de suas forças.
Talvez você viva lutando contra o mesmo pecado. Você tenta
superá-lo mas sempre retrocede. Já o confessou, resolveu, mas nada
parece adiantar. Você está pronto para se entregar secretamente de uma
vez por todas.
O deserto é o lugar das tentações. Foi no deserto que Jesus
enfrentou a tentação de não cumprir a vontade do Pai, de tomar um
atalho e governar os reinos do mundo em vez do árduo caminho da cruz.
O deserto é o lugar onde você tem de enfrentar a questão da
perseverança. O deserto é o lugar onde apenas os pacientes persistem.
Você vai seguir a coluna hoje de novo? Vai continuar a seguir quando
todo o estímulo para seguir terminar?
Talvez seu casamento tenha se tornado uma experiência no deserto.
Você tinha esperanças e sonhos que não se realizaram e quem sabe nunca
se realizarão. Você será pacientemente obediente a Deus em seu
casamento? Vai amar o seu cônjuge dia após dia? Vai amar com toda a
sabedoria de que é capaz, mesmo que não possa mais contar com a ajuda
dos hormônios, do romantismo ou da aparente compatibilidade entre
vocês?
Um casal de velhinhos está deitado na cama. A esposa não está
satisfeita com a distância que há entre eles. Ela lembra:
— Quando éramos jovens, você costumava segurar a minha mão na
cama.
Ele hesita e, depois de um breve momento, estica o braço e segura a
mão dela. Ela não se dá por satisfeita.
— Quando éramos jovens, você costumava ficar bem pertinho de
mim.
Uma hesitação mais prolongada agora e, finalmente, resmungando
um pouco, ele vira o corpo com dificuldade e se aconchega perto dela da
melhor maneira possível.
Ela não se dá por satisfeita.
— Quando éramos jovens, você costumava mordiscar a minha
orelha.
Ele dá um longo suspiro, joga a coberta de lado e sai da cama. Ela
se sente ofendida.
— Aonde você vai?
— Buscar minha dentadura.
Uma coisa é mordiscar a orelha de alguém quando se é jovem, está
apaixonado, ela cheira um perfume delicioso e fazer isso é fácil.
Outra coisa é mordiscar a orelha quando ela já não ouve muito
bem, usa um aparelho de surdez dentro do ouvido, seu corpo cheira gelol
e você ainda tem de levantar para buscar a dentadura.
O deserto é o lugar onde você aprende a ser obediente quando não
é fácil. Por isso, pode ser um lugar de grande fortalecimento.

No Deserto Encontramos o Amor de Deus


Por mais estranho que pareça, o deserto nos oferece a oportunidade
única de experimentarmos a intensidade do amor de Deus.
Quando você está por cima, orando com grande alegria, livre de
tentações, triunfando em seu ministério, e busca a Deus e ouve
novamente a mensagem de que ele o ama, é maravilhoso.
No deserto, por outro lado, a palavra do amor de Deus fala mais
fundo em nossos corações. No deserto você fala com Deus, mas não tem
orado muito (ou nenhuma vez), foi vencido pela tentação, ficou abalado
com dúvidas e acha que pode ser mais um empecilho do que uma ajuda
na obra que Deus está realizando no mundo, seja ela qual for. Mas,
mesmo assim, você ouve as palavras: "Eu ainda amo você. Não poderia
amar mais do que já amo. Ainda quero que seja meu filho. Você ainda
não aprendeu? Você é o objeto de minha eterna afeição. Você é querido
por mim".
Ser amado quando nos sentimos amáveis é bom. Ser amado
quando nos sentimos mal e desprezíveis, essa é a vida que todo mundo
pediu para ter. É uma bênção.
O deserto é o lugar onde podemos aprender a viver pelo amor de
Deus.
Algum tempo atrás, em um restaurante, uma de nossas filhas
encontrou uma daquelas máquinas em que se coloca uma ficha e,
operando com certa habilidade um pequeno guindaste, tenta-se pegar um
dos brinquedos amontoados dentro dela. São cinqüenta centavos por
ficha. A princípio, nossa filha adorou a máquina. Mas ela gastou cada
centavo que tinha sem conseguir ganhar nada. Isso acabou com ela.
Depois disso, ela deixou de adorá-la.
O deserto é um período em que não conseguimos a promoção, a
casa, o sucesso ou até mesmo a saúde que queremos. É esse o momento
em que descobrimos se amamos a Deus sinceramente ou o fazemos
simplesmente porque ele nos dá leite e mel. O que faço quando coloco
todas a minhas orações em ação e não ganho nada?
O deserto realmente tinha a intenção de ser um lugar onde Deus
poderia estar com seu povo, para que ele o conhecesse e confiasse nele.
Brevard Childs escreve: "A intenção de Deus era que eles aprendessem a
amá-lo e sempre se lembrassem da experiência no deserto como uma
época idílica que eles tiveram com ele na vida".
É claro que o deserto não é nenhuma terra prometida. Viver ali não
era fácil. Quarenta anos naquele lugar era uma sentença, uma
conseqüência do pecado. Mas até a sentença de Deus está cheia de amor e
o seu maior desejo era que o deserto não fosse um lugar de sofrimento
para Israel, mas de amor.
No deserto não era preciso construir grandes cidades, vencer
grandes batalhas. Era apenas Deus com seus bonecos de pano. Ele iria
alimentá-los toda manhã, guiá-los durante o dia e protegê-los durante a
noite. A intenção de Deus era que o deserto significasse vida além das
realizações. Era para ser uma vida de amor.
Frederick Buechner descreve como o deserto pode ser o lugar do
amor de Deus:

Quando acontece o pior, ou quase acontece, instala-se


uma espécie de paz. Já fui além da dor, do terror, de tudo
exceto a esperança, e foi lá, no deserto, que pela primeira
vez na minha vida pude ver o que significa amar realmente
a Deus. Foi apenas um vislumbre, mas foi o mesmo que
encontrar água fresca no deserto. [...] Eu o amei porque não
tinha restado mais nada. Eu o amei porque ele pareceu se
mostrar tão indefeso em seu poder quando eu estava em
meu desamparo. Eu não o amei apesar de não haver nada
ali para mim, mas quase exatamente porque não havia
nada. Pela primeira vez na vida, lá no deserto, entendi o que
pode significar realmente amar a Deus, só por amar, amá-lo
incondicionalmente.

A Esperança no Caminho Árduo


A vida de Sandy era um mar de rosas. Ela foi criada na fé; seu avô
era pastor de uma igreja na qual ela cresceu. Ela se formou em uma
faculdade cristã, começou a trabalhar como enfermeira pediátrica e
casou-se com um bom homem cristão.
Quatro anos mais tarde, quando estava grávida de dois meses de
seu primeiro filho, seu marido lhe disse que se sentia sufocado e achava
que não estava pronto para ser pai. Dois meses depois, ela ficou
gravemente doente e, enquanto estava hospedada na casa da irmã, ele a
deixou.
Sandy não sabia, mas tinha acabado de tomar um caminho árduo.
Ela orava por seu marido, certa de que ele retornaria como o filho
pródigo. Mas acabou descobrindo que ele era infiel. Além disso, ainda
tinha contraído uma doença sexualmente transmissível.
Quando a criança nasceu, o presente que ela recebeu do pai foi a
doença que tinha passado para ela. Na hora do nascimento, o bebê ficou
em silêncio em vez de chorar, estava azul e inerte quando deveria estar
rosado e ativo. Rachel nasceu anencefálica, com apenas uma haste que
cuidava das funções mais básicas.
Os médicos disseram que ela morreria em questão de dias ou
semanas, mas as semanas se tornaram meses e os meses, anos. A vida de
Sandy se resumia em trabalhar doze horas por dia, enquanto a irmã ou
uma amiga ficava com o bebê, e depois passar o resto do tempo cuidando
de Rachel.
Esse árduo caminho não continha nenhum dos sonhos que os pais
geralmente nutrem em relação aos filhos. Sandy nunca filmaria a filha
indo para o seu primeiro dia na escola; não haveria boletim, presente no
dia dos namorados, aulas de culinária, teste para tirar a carteira de
motorista e nem gente andando pela casa. Sandy nunca veria a filha dar o
primeiro passo, nunca sentiria seus dedos gorduchos segurando sua mão,
nunca ouviria sua risada nem a ouviria dizer "eu a amo" e nem "mamãe".
Sandy não podia nem dizer que Rachel sabia quem era sua mãe. A
única vez que a menina parecia reagir a qualquer coisa era na hora do
banho: quando Sandy esfregava suas costas, Rachel soltava pequenos
gemidos como se sentisse prazer.
Um dia, Sandy decidiu tirar férias, a única em três anos. Seria o
primeiro dia que ela passaria longe da filha desde que Rachel tinha
nascido. Quando Sandy ligou do hotel, sua irmã segurou o telefone no
ouvido de Rachel e depois contou-lhe que a menina tinha balbuciado
enquanto ouvia sua voz. Foi a única indicação que Sandy teve de que a
filha a reconhecia.
Quando chegou no aeroporto, seu cunhado a encontrou e disse o
que ela, de alguma forma, já esperava ouvir: sua filha tinha morrido.
O pai de Rachel não apareceu no funeral, nunca perguntou da fdha
e nem nunca disse: "Lamento muito". Somente seis anos mais tarde,
Sandy conseguiu ler o diário que ela fez durante a vida de Rachel. Na
maior parte, ela se perguntava por quê. "Não tive resposta naquela
época", Sandy disse. "E continuo não tendo agora". Era uma estrada
escura, esse caminho árduo.
Contudo, se você perguntar a Sandy se ela preferiria que sua fdha
nunca tivesse nascido, ela responderá que jamais pensaria nisso. Ela dirá
que sentia uma comunhão tão forte quando segurava o bebê no colo que
mal podia descrever. Ela dirá que aprendeu o que é amar além das
limitações e imperfeições, olhar direto para o espírito e amar o que se vê.
Ela não se arrepende nem um pouco de ter trazido Rachel para casa e ter
lhe dado todo o amor.
Ela dirá que decidiu perdoar. Ela teve de perdoar o marido que
nunca havia pedido o seu perdão nem demonstrava querer isso, mas
certamente não o merecia. Ela teve de perdoá-lo porque senão passaria a
vida presa ao ressentimento.
Ela teve de perdoar a si mesma, pela amargura, tristeza, pelas
limitações e oportunidades que desejou ter novamente.
E, por estranho que pareça, ela teve de encontrar uma forma de
perdoar a Deus, por não atender às suas orações que eram justas e por
não proteger Rachel.
De alguma forma, no árduo caminho, apesar das perguntas não
respondidas e de toda a confusão, ainda assim é preciso fazer uma
escolha. Há esperança nesse árduo caminho? É um beco sem saída ou
será que, depois de todas as curvas e voltas, essa estrada vai dar em um
lugar seguro?

Uma Fatalidade Que Daria uma História


Norman MacLean tem uma bela passagem em seu impressionante
livro Young men and fire [Os jovens e o fogo]. É a história poética de sua
longa tentativa de quatro décadas de encontrar um significado para a
morte de todo um esquadrão de jovens pilotos de avião de combate a
incêndio que morreram em ação no deserto de Mann Gulch Montana em
1948. O livro também é uma meditação sobre a vida e a mortalidade que
se torna mais premente com a morte de sua própria esposa.
MacLean fala das mortes em Mann Gulch:

E uma fatalidade que esperamos que não termine onde


começou; ela pode continuar e se transformar em uma
história [...] [Esperamos] que neste mundo maluco de formas
e cores, se tivermos um pouco de curiosidade, prática e
compaixão e tomarmos o cuidado de não mentir nem sermos
sentimentais [...], então este assunto do qual tratamos
começaria a mudar de uma fatalidade sem sentido para o que
poderíamos chamar de história de uma tragédia, sendo que a
tragédia seria apenas uma parte disso, como o é da vida.

A fatalidade não é apenas brutal, mas aleatoriamente brutal. Não


há nada de pessoal nela. E um acidente. E o rangido do acaso nas
engrenagens insensíveis da máquina cósmica. Não há nenhum sentido ou
significado; apenas dor. Se a existência humana é uma mera fatalidade —
o rolar de dados que um dia irá parar quando a última vida for destruída
—, então não temos esperança. Na fatalidade, o grito de abandono é a
última palavra.
Mas as histórias têm significados. Onde há uma história, há um
contador de histórias. As histórias podem conter tragédias, mas as
tragédias são pessoais, têm uma explicação. Portanto, onde há tragédia,
há a possibilidade de redenção. Onde há tragédia, há esperança.
Os autores da Bíblia sabiam tudo sobre fatalidades. O homem está
acostumado a vê-la desde a queda. Mas Deus não quer que a raça
humana termine em uma fatalidade; ele quer que ela continue e se
transforme numa história. A esperança cristã se baseia na declaração de
que Deus decidiu tomar a nossa tragédia para si. O próprio Deus tomou o
caminho árduo. MacLean escreve:

A expressão mais eloqüente desse grito partiu de um


jovem que veio do céu e retornou para ele; um jovem que,
enquanto estava na terra, sabia que estava sozinho e à frente
de todos os homens e que, quando morreu, morreu num
monte: "Por volta da hora nona exclamou Jesus em alta voz:
Eli, Eli, lemá sabactâni, que quer dizer: Deus meu, Deus meu,
por que me desamparaste?".

A esperança cristã diz que o próprio Deus passou pela Via


Dolorosa: o caminho árduo. Portanto, a cruz não é simplesmente uma
fatalidade, é uma parte da História. E o dia está chegando em que ela
salvará a sua história e a minha, se permitirmos.
A esperança cristã diz que o grito de desamparo é uma palavra
real, mas não será a última palavra.
A esperança cristã diz que o que aconteceu com Sandy não é
apenas uma fatalidade. Não é simplesmente o problema de um defeito
genético, um pedaço de DNA estragado, que conferiria a Rachel a
qualidade de ser um breve e insignificante acidente na ordem cósmica. A
esperança cristã diz que o que aconteceu a Sandy e a Rachel é parte de
uma história, uma trágica história até o momento, mas a tragédia não é
tudo. A esperança cristã diz que o DNA defeituoso não ficará com a última
palavra. A esperança cristã diz que um dia Sandy e Rachel se sentarão na
mesma mesa e se conhecerão e se entenderão profundamente; e as
palavras de gratidão que Rachel não pôde dizer antes, fluirão
naturalmente; e os órgãos que foram fracos e inúteis neste mundo, terão
graça e beleza então; a mente que foi traída aqui, resplandecerá num mar
de criatividade e inteligência. A esperança cristã diz que aquele que faz a
cirurgia reparadora ainda não terminou e que chegará o dia em que a
efêmera e despercebida vida de uma pequena boneca de pano deste
mundo, brilhará pelos tempos com uma glória que não somos capazes
imaginar nem compreender.
A esperança cristã diz que estamos a caminho de sair da fatalidade
e da tragédia para uma história de glória. Estamos a caminho. Pode ser
um caminho degradante e árduo, mas, apesar de tudo, está fadado à
glória.
Já chegamos?
Ainda não. Um dia, mas não agora. Seja paciente.
CAPÍTULO8
Amor e graça
Não recebemos de Deus nada além de seu amor e sua graça, pois Cristo nos deu sua
promessa e sua virtude e tudo o que possuía; ele nos entregou todos os seus tesouros,
cujo valor nenhum homem é capaz de avaliar e nenhum anjo é capaz de entender ou
sondar, pois Deus é uma fornalha incandescente de amor que aquece a terra e o céu.

MARTIN LUTHER KING

Esta história é sobre uma boneca de pano chamada Agnes, que


encontrou um homem de bom coração chamado Tony Campolo. De
viagem no Havaí mas ainda vivendo no fuso horário do leste, Tony
entrou em um restaurante às três da madrugada. As únicas pessoas que
restavam ali era um grupo de prostitutas que tinham terminado a noite.
Uma delas (Agnes) mencionou que fazia aniversário no dia seguinte e
que nunca teve uma festa de aniversário na vida.
Depois que elas saíram, Tony soube por Harry, o cara atrás do
balcão, que toda noite elas vinham para aquele restaurante. Tony
perguntou se poderia voltar na noite seguinte e dar uma festa. Harry
concordou, mas somente com a condição de que sua esposa fizesse a
comida e ele, o bolo. A seguir há uma versão resumida da história.

Às 2h30 da madrugada do dia seguinte, voltei ao restaurante.


Eu tinha comprado papel crepom em uma loja e fiz uma faixa de
cartolina em letras bem grandes escrito: "Feliz aniversário, Agnes!".
A mulher que fez a comida deve ter espalhado a notícia
porque, por volta das 3hl5, todas as prostitutas de Honolulu já
estavam no local. Era prostituta para todo o lado... e eu!
Às 3h30, a porta do restaurante foi aberta e Agnes e sua
amiga surgiram. Todo mundo estava pronto esperando por elas e,
quando entraram, gritamos: "Feliz aniversário!".
Eu nunca tinha visto alguém ficar tão surpreso. Ela abriu a
boca e suas pernas enfraqueceram. Quando paramos de cantar, ela
estava com os olhos marejados; quando trouxeram o bolo, ela
começou a chorar.
Harry disse bruscamente:
— Assopre as velas, Agnes. Vamos! Se você não assoprar,
vou ter de apagar por você. — E foi ele mesmo quem acabou
fazendo. Na hora de cortar o bolo, a hesitação demorou um pouco
mais.
— Corte o bolo, Agnes. Todo o mundo vai querer um
pedaço.
— Escute, Harry, será que daria para esperar um pouco antes
de cortar?
— Claro. Se você não quer cortar, não corte. Pode levar o
bolo para casa, se preferir.
— Eu posso? — Então ela olhou para mim. — Eu moro logo
ali no fim da rua. Vou levar o bolo pra casa e volto daqui a pouco,
tá?
Ela carregou o bolo pela porta como se fosse o Santo Graal.
Ficamos imóveis e o silêncio tomou conta do lugar. Sem saber o que
fazer, eu disse de repente:
— Que tal fazermos uma oração?
Lembrando disso agora, é uma coisa bastante estranha para
um sociólogo fazer uma oração em um restaurante em Honolulu às
3h30 da madrugada. Mas naquela hora me pareceu a coisa certa a
fazer. Orei por Agnes, por sua salvação, para que sua vida
mudasse. Para que Deus fosse bom para ela.
Quando terminei, Harry debruçou-se sobre o balcão e disse
um pouco irritado:
— Ei, você não tinha me dito que era pastor. Em que tipo de
igreja você prega?
Em um daqueles momentos em que as palavras certas saem
da sua boca, eu disse:
— Sou de uma igreja que dá festa para prostitutas às três e
meia da manhã.
Harry esperou um momento e disse em tom de zombaria:
— Mentira. Não existe uma igreja assim. Se existisse, eu já
estaria lá há muito tempo.
Não estaríamos todos? Será que todos nós não adoraríamos
entrar para uma igreja que prepara festas de aniversário para
prostitutas às 3h30 da manhã?
É esse tipo de igreja que Jesus veio criar. Não sei onde fomos
arranjar essa outra que é tão sóbria e comportada. Mas quem leu o
Novo Testamento sabe que Jesus adorava ser generoso em sua boa
vontade com os excluídos, os explorados e os humilhados. Os
pecadores o amavam porque ele festejava com todos eles. Os
leprosos da sociedade encontraram nele alguém com quem podiam
comer e beber.

E assim que a igreja deveria ser. Um grupo de bonecos de pano que


são amados, mesmo sabendo que não merecem, e que por sua vez o
transmitem aos outros porque se recusam a permitir que sua degradação
os impeça de amar. Porque o amor é a assinatura de Deus. E a graça
fortalece o amor.
Philip Yancey cita uma questão que Gordon MacDonald
apresentou para ele durante uma conversa que ambos tiveram: o que a
igreja tem a oferecer de diferente que o mundo não possa conseguir em
outro lugar?
Afinal, observou MacDonald, você não precisa ser cristão para
construir casas para os sem-teto, dar alimento aos necessitados ou
donativos para a caridade. Você não precisa ser cristão para tentar fazer
uma mudança política ou transmitir a legislação social. Também há
outras tradições e professores que oferecem orientações morais sábias.
O que a igreja tem a oferecer de diferente que o mundo não possa
conseguir em outro lugar?
Graça.
Onde o mundo vai encontrar graça?
Não vivemos num mundo de graça. Neste mundo, nada vem "de
graça". Você colhe o que planta. Nada de comida grátis. E olho por olho.
Tudo tem um preço.
Quando foi a última vez que você saiu de carro e viu um ato de
graça? Quantas vezes você já viu alguém abaixar a janela e dizer: "A graça
esteja contigo. Eu lhe perdôo por me cortar a frente. Eu dou o outro pára-
choque. Você quer que eu lhe dê passagem? Eu lhe dou até o meu braço
se você quiser". Quando foi a última vez que o juiz fez uma advertência a
um jogador do time da casa e o estádio lotado gritou: "Agora não é hora
de criticar. Agora mais do que nunca precisamos mostrar nossa graça
para com ele. Que o juiz seja perdoado!". Acho meio difícil. O nível de
descortesia é tão grande que até um grito do tipo "Batam nesse juiz!" seria
um ato de generosidade.
Viver na graça, e nunca se esquecer dela, é o que sustenta o amor.
Mas perder o contato com ela, esquecer de que se é amado só porque
Deus é graça, é o maior veneno contra o amor.
Sheldon Van Auken escreveu: "o melhor argumento a favor da
cristandade são os cristãos: sua alegria, certeza e plenitude".
Adivinhe qual, segundo ele, é o melhor argumento contrar?
"Quando os cristãos são melancólicos, sombrios, convencidos,
presunçosos, intolerantes e repressores — a cristandade morre mil vezes
seguidas".
Acho que Dallas Willard escreveu uma das mensagens mais sábias
que existem atualmente a respeito do perigo da vida espiritual "sem
graça" (nos dois sentidos):
Quantas pessoas são repelidas, de forma brutal e permanente, por
cristãos insensíveis, teimosos, inacessíveis, chatos, impassíveis, obsessivos
e insatisfeitos? E eles estão por toda a parte. O que lhes falta é a
jovialidade saudável de uma vitalidade equilibrada pelos preceitos do
amor de Deus. A espiritualidade, quando mal interpretada ou praticada,
é a maior causa do sofrimento humano e da revolta contra Deus.
A espiritualidade, quando bem compreendida, é um sinal de vida.
É a humilde aceitação da graça e a escolha confiante pelo amor.
A espiritualidade, quando mal interpretada, é um sinal de morte: a
maior causa do sofrimento humano e da revolta contra Deus. A
espiritualidade mal interpretada gera pessoas que, equivocada-mente,
consideram sua falta de amor uma superioridade moral. Gera pessoas
que pensam que sua degradação é, na verdade, uma virtude. Vamos
examinar alguns bonecos de pano considerados "religiosos", pessoas que
escondem sua degradação sob a máscara da religiosidade — porém, mal
interpretada.

Bonecos de Pano "Religiosos"


Ele era um homem nervoso: nervoso com seus filhos, com as
pessoas com quem trabalhava, com as pessoas com quem freqüentou a
igreja a vida toda. Ele comprava briga sobre aspectos da doutrina, sobre o
que deveria estar escrito na faixa em frente à igreja, sobre qual deveria ser
o lema da igreja.
O maior motivo de assistir aos cultos não era encontrar a Deus ou
abrir-se para ele, mas apontar as falhas dos sermões.
Quem não era da igreja, não o suportava porque ele era irritante.
Dentro da igreja, porém, seu modo de ser era considerado uma espécie de
zelo pela verdade.
Ele tinha a reputação de uma pessoa de grande religiosidade, mas não
era capaz de amar.
Ela era a pessoa mais temida na igreja. Era mestre em culpar e
manipular os outros. Ela era a orientadora do grupo feminino de estudo
bíblico, mas deixava bem claro que só seriam bem-vindas as pessoas que
cumprissem exatamente as suas ordens. Ela fazia parte da vida de muita
gente mas não amava ninguém. A verdade é que ela nem mesmo gostava
das pessoas.
Todo mundo sabia que, em casa, era ela quem mandava, muito
embora, ironicamente, defendesse com fervor a tradição que dita que o
homem é quem deve ser o chefe da casa. Em sua casa, portanto, seu
marido era o chefe — porque ela disse que ele era, e pobre dele se não
"chefiasse" do jeito que ela queria. Ela o colocava de joelhos.
Ela tinha a reputação de uma pessoa de grande religiosidade, mas não
era capaz de amar.
Ele é um escritor e líder cristão que se considera um defensor da
verdade. Ele adora arrasar com os cristãos que não concordam com sua
posição doutrinária. Ele não apenas se opõe às opiniões, mas ridiculariza,
distorce e denigre as idéias e motivações dos outros. Ele quer colocar
defeitos nos outros. Também gosta de colocar defeito nos personagens
políticos com quem ele não concorda. Ele cria e espalha boatos mesmo
sem ter certeza se está dizendo a verdade. Ele blasfema em nome da
verdade.
Ele tem a reputação de uma pessoa de grande religiosidade, mas não é
capaz de amar.
Ela vivia reclamando. Reclamava de seus filhos já adultos, dizendo
que não a tratavam bem, de seus vizinhos, do dinheiro, mudanças e da
vida em geral.
Quando a igreja que ela freqüentava passou por uma reforma, se
opôs a tudo, não tanto porque não gostava das modificações mas porque
elas poderiam significar uma perda de controle para ela. As mudanças
iriam abrir a igreja para descrentes, gente que ela não queria ali, gente
que não enxergava, nem pensava, nem se vestia e nem votava como ela.
Não faz muito tempo, essa igreja sofreu uma ruptura. Tratava-se de
atitudes desprezíveis e depravadas e, por isso, o corpo de Cristo foi
dividido em dois. As mudanças que ameaçavam o seu controle foram
banidas, junto com todos os descrentes. A igreja ficou muito mais sóbria,
artificial e inacessível para os visitantes do que antes.
E ela ainda comentou com uma amiga: "Não é maravilhoso? A
nossa igreja voltou a ser a mesma!".
Ela tinha a reputação de uma pessoa de grande religiosidade, mas não é
capaz de amar.
O maior problema não é que pessoas desse tipo existam. Todo
mundo tem seus defeitos. Deus sabe que eu tenho defeitos maiores do
que esses.
O problema não é existir pessoas desse tipo na igreja. A igreja é um
local para pessoas imperfeitas.
O problema é que em toda igreja essas pessoas não são
consideradas irmãos e irmãs mais fracos que precisam de ajuda. Elas
ficariam extremamente ofendidas se alguém pensasse ou lhes dissesse
isso.
O problema é que elas são vistas como exemplos de religiosidade.
Elas eram como os outros achavam que se deveria ser. As pessoas se
sentiam intimidadas por elas, por considerá-las modelos de
superioridade espiritual. As pessoas ficavam desanimadas e pensavam
que talvez não quisessem realmente ser religiosas porque não gostariam
de se parecer com elas. As pessoas se sentiam ofendidas, derrotadas ou
desesperadas com a degradação da cristandade desprovida de graça.
Qual o verdadeiro sentido da religiosidade? E uma vida de
admiração, respeito, alegria, simplicidade, devoção, gratidão, doação,
humildade, coragem e honestidade. Sendo que a sua característica
principal é sempre o amor.

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a


tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao
teu próximo como a ti mesmo.
Ainda que eu tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os
mistérios e toda a ciência, e ainda que eu tivesse toda a fé, de
maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada
seria.
Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é
amor.

Quando Jesus apresentou a verdadeira interpretação da


espiritualidade, as pessoas deixaram tudo para trás: abandonaram suas
posses, sacrificaram suas carreiras, renunciaram aos seus atos e pecados
do passado, aceitaram a perseguição e o sofrimento, e fizeram tudo com
alegria. Elas o fizeram rindo, chorando, comemorando e dançando,
porque eram amadas apesar de sua condição. Elas o fizeram porque
estavam convencidas de que tinham finalmente encontrado uma pérola
de grande valor, tinham encontrado o bilhete premiado da loteria, tinham
encontrado tudo. Jesus era tudo.
A espiritualidade mal interpretada gera pessoas convencidas,
presunçosas, incapazes de amar e de sentir. Gera corações de pedra,
máscaras de plástico, rostos tristes, vidas hipócritas e almas sofridas.
Não faz muito tempo, minha esposa, ou eu (de repente não me
lembro bem), teve a idéia de fazermos um curso de dança. O outro
concordou porque quem deu a idéia era uma pessoa graciosa e porque
essa era uma forma de ganhar pontos no casamento — como um
programa de "milhagem matrimonial" que poderia ser reembolsado mais
tarde.
Nossa instrutora era bailarina clássica da Europa oriental. Ela não
dava um passo nem fazia um movimento que não tivesse graça. Cada
gesto dela era pura poesia.
Prestei atenção em tudo o que ela disse. Tentei obedecer a todas as
suas ordens. Contava o ritmo como se fosse um metrônomo humano.
Sabia o que devia fazer. E tentei fazê-lo.
Mas eu contava em voz alta e olhava para os meus pés; ficava com
a língua para fora como Michael Jordan quando vai enterrar a bola na
cesta. Sentia-me duro e pesado. Conhecia meus defeitos.
A instrutora disse que me faltava uma coisa. Em uma única
palavra: graça. (O que ela realmente disse é que, simplesmente, me
faltava "equilíbrio, coordenação e a capacidade para fazer os movimentos
sem atrapalhar o resto da classe"; mas é quase a mesma coisa.)
O mundo está cheio de cristãos que declaram crer no que é
verdadeiro e se dizem estar comprometidos com os valores certos, mas
que não são capazes de nenhum ato de graça.
Sem a graça, a vida fica pesada e embrutecida.
Sem a graça, as pessoas se machucam.
A obra Os miseráveis, de Victor Hugo, conta a história da vitória do
amor misericordioso de Deus sobre a degradação humana. O condenado
fugitivo, Jean Valjean, que ficou preso por vinte anos por roubar um
pedaço de pão, conhece a hospitalidade de um bispo. Mas a tentação é
muito grande; ele rouba alguns objetos de prata do bispo à noite. Detido
por um policial, ele mente e consegue uma saída para se livrar da culpa.
A prata foi um presente, ele diz. O policial o leva de volta para o bispo e
Jean Valjean espera ouvir as palavras que o levariam de volta à prisão
para lá ficar até o dia de sua morte. Nada no mundo poderia prepará-lo
para o que ele estava para ouvir. "Você se enganou", o bispo disse a
Valjean. "É claro que essa prata foi um presente. Mas só parte dele. Você
se esqueceu da peça mais valiosa. Você se esqueceu de levar os
candelabros de prata."
Jean Valjean esperava por uma acusação que ele sabia que merecia,
em vez disso, é agraciado com o perdão. Num momento, ele está diante
da miséria e da prisão, no momento seguinte, ele ganha a liberdade e a
fartura. Antes de Valjean partir, o bispo lhe diz: "Nunca se esqueça do
que aconteceu aqui. Você ganhou uma nova vida e uma nova alma. Você
não está sozinho. De agora em diante, você pertence a Deus."
E por causa dessa graça, a vida de Jean Valjean se transforma num
ato de amor. Ele honra a promessa que faz a uma prostituta moribunda e
cria Cosette, a filha dela. Mais tarde, ele acaba se arriscando para salvar o
homem que ama Cosette, mesmo sabendo que isso significaria ficar
sozinho.
Ao contrário de Jean Valjean, existe um homem comprometido com
a lei, com a "espiritualidade mal interpretada"; o policial Jauvert. Jauvert
está convencido de sua própria retidão. Olho por olho, dente por dente.
Ele é um campeão de moralidade e justiça. Ele passa a vida inteira
tentando recapturar Jean Valjean.
Vamos ser justos com Jauvert. Ele acredita em muitas coisas boas.
Ele se compromete com a verdade, quer acabar com a injustiça, sonha
com uma sociedade sem roubos, fraudes ou corrupção. Ele sacrifica sua
vida em busca dessa sociedade e acredita sinceramente que é um
representante do bem.
Em seu mundo, porém, não há espaço para o perdão. E, cego em
sua própria necessidade de graça, sua capacidade de amar definha e
morre. Ele não tem misericórdia. A maior crise da sua existência acontece
quando Jean Valjean arrisca a própria vida para salvar a dele, seu
perseguidor implacável. Mas Jauvert não se permite receber essa graça.
Ele entra em desespero e se mata, em vez de admitir a verdade: sua
própria degradação era tão grande quanto a dos criminosos que ele tinha
passado a vida inteira tentando punir.
No final, é Valjean, o condenado, que se mostra capaz de amar. Ele
descobre o que é revelado tão lindamente no musical Les miserables‫׳‬.
"Amar alguém é poder ver a face de Deus".
A graça é a única coisa que a igreja tem a oferecer que não se
encontra em nenhum outro lugar. E por isso que o Novo Testamento fala
tanto sobre ela.
Um dia, ele veio para um boneco de pano chamado Paulo. Ele tinha
o tipo mais perigoso de defeito. Ele achava que Deus o amava porque ele
era digno do seu amor: "Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de
Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fariseu;
segundo o zelo, perseguidor da igreja; segundo a justiça que há na lei,
irrepreensível." Estava claro para Paulo que Deus estava fazendo um bom
negócio com ele. Como Jauvert, ele tinha devotado a vida perseguindo e
castigando aqueles que não respeitavam a lei como ele.
Ele tinha certeza do que acreditava, estava totalmente
comprometido com seus valores.
Mas faltava alguma coisa.
Então, Paulo encontrou a graça. Ou melhor, a graça o encontrou.
Com isso, Paulo percebeu que todos os seus atos — que em si não eram
maus — tinham alimentado o orgulho e o preconceito em seu coração.
Eles o levaram para longe de Deus e do amor pelos outros. Com isso, ele
percebeu que sua justiça era como um trapo sujo.
Assim, ele precisou fazer uma auditoria radical. Ele contou todas as
suas antigas posses que agora considerava skubala, uma palavra difícil de
traduzir. "Imundície", "estrume" e até "excremento" são usadas, mas são
palavras muito educadas; elas não traduzem o desprezo de Paulo. E uma
palavra bem forte: Skubalas acontecem. Tudo o que tentasse impedir
Paulo de viver na graça — por melhor que isso lhe parecesse antes — era
um skubala.

Sem Esquecer Que Sou Amado pela Graça


Paulo é conhecido como o apóstolo da graça porque não conseguiu
parar de escrever sobre ela. Nos poucos versículos de sua carta aos
colossenses, ele usa uma série de metáforas para explicar a graça do amor
de Deus.
Ele compreendeu uma das coisas mais importantes que, nós
cristãos, precisamos fazer que é lembrar, não apenas que fomos salvos
pelo perdão, mas que somos amados hoje pela graça divina. Deus não nos
salvou pela graça somente para decidir que agora iria nos julgar
conforme o nosso desempenho espiritual. O amor de Deus é sempre
misericordioso.
Ele fala da circuncisão e do batismo, os rituais de iniciação pelos
quais fomos introduzidos em uma nova comunidade.
Todo mundo já experimentou a dor de se sentir excluído, de não
ser desejado na escolha de um time, de ser desprezado por alguém que se
ama ou esquecido por quem se considerava amigo, de ser mantido à
distância por alguém da família, às vezes até pelo próprio cônjuge.
Agora o próprio Deus está dizendo que você foi escolhido. Você é
desejado. Deus quer que você faça parte de sua família. Esse é o milagre
da graça.
Por um ato de graça, diz Paulo, ainda estamos vivos. Você estava
morto aos olhos de Deus: você tinha temor mas ninguém para adorar,
culpa mas ninguém para perdoá-lo, necessidade de um propósito mas
ninguém para servir, medo mas ninguém que lhe desse esperança.
Agora você está vivo para Deus. você tem forças para resistir,
poder para servir e um motivo para ter esperança. A morte por si não tem
poderes sobre você. Esse é o milagre da graça.
Por um ato de graça, diz Paulo, fomos absolvidos. O "atestado de
dívida" foi cravado à cruz e completamente perdoado. Já viu um cheque
(não o nosso, é claro) com um carimbo escrito "sem fundo"? (Minha mãe
contou que, no começo do casamento, quando eles receberam um extrato
com a conta negativa, depositaram um cheque para compensar a
diferença.)
Isso é graça para quem já se desesperou com o pecado. É a anulação
de nossa montanha de dívidas morais. Se você já sentiu que há uma
distância entre o que você é aquilo para o que foi predestinado, se sentiu
como se não pudesse compensá-la, então recebeu uma graça. Deus
assumiu a sua dívida e culpa e a cravou na cruz. Ele cancelou a dívida,
destruiu a nota promissória, para que você pudesse ser eximido,
libertado, absolvido. Você pode viver com o coração tão leve quanto uma
pluma hoje, não importa o que tenha feito ontem. Esse é o milagre da
graça.
Por um ato de graça, diz Paulo, "os principados e as potestades"
foram despojados e expostos "publicamente ao desprezo" pela
crucificação e ressurreição de Cristo. E uma metáfora militar.
Quando um general romano obtinha uma vitória, ele desfilava
pelas ruas de Roma. Desarmava os generais derrotados e os fazia marchar
até o fim do desfile, (eles não ficavam nem um pouco satisfeitos com isso,
é claro). Eles eram tributos — gostando ou não — à vitória do
conquistador.
Na crucificação e ressurreição de Cristo, diz Paulo, uma coisa
diferente aconteceu. As forças que se uniram contra os seres humanos
depois da Queda — Paulo é gloriosamente vago neste ponto por isso
podemos incluir tudo: morte, culpa, maldade, poderes religiosos, poderes
econômicos, poderes, sistemas e estruturas políticas — perderam todo o
poder de causar um mal permanente. "Quem nos separará do amor de
Cristo?", Paulo pergunta e conclui dizendo que nada tem poder para
tanto.
A ressurreição de Jesus foi o começo de um desfile. O final ainda
não passou por nós, mas está se aproximando.
Portanto, Paulo conclui, podemos viver na alegria, com absoluta
segurança; hoje, amanhã, depois de amanhã e cada dia da eternidade.
Podemos distribuir amor a todos os seres humanos, mesmo que
degradados. Esse é o milagre da graça.
Para Paulo, a igreja mantém a custódia da graça.
Aliás, ele começa todas as suas cartas com a palavra "graça".
Normalmente, as cartas gregas começavam com a palavra chairein, que
significa "saudações". Era um lugar-comum, um costume, como hoje
escrevemos "prezado" no início das cartas, mesmo quando o destinatário
não é realmente prezado por nós.
Paulo mudou esse costume usando uma nova palavra para
designar "graça", charis, que era parecida na forma, mas radicalmente
diferente no significado. “Graça e paz seja convosco".
E ele terminava da mesma forma: "A graça do Senhor Jesus Cristo
seja com o vosso espírito"; "a graça seja com todos os que amam".
A graça é a sua invocação; a graça é a sua bênção, a graça é tudo o
que está entre as duas coisas.
Graça é o que levou Paulo ao chão na estrada para Damasco.
Graça é o que o colocou de joelhos por seu pecado e o livrou dele.
A graça cravou na pele de Paulo um espinho para que evitasse de
ser destruído por sua própria arrogância e transformou a fraqueza dele
na própria força do poder de Deus.
"A minha graça te basta", Deus disse, e, para Paulo, graça é a
primeira e a última palavra e todas as palavras do meio. Paulo nunca
mais deixou de ficar admirado diante da graça.
Tudo isso nos leva a uma questão interessante: se a graça é a única
coisa que a igreja tem a oferecer, se não há nada como um ato de graça,
por que nos esquecemos dela com tanta facilidade? Por que igrejas cheias
de pessoas que dizem que foram salvas pela graça podem ter gente tão
intolerante? Por que parece que produzem mais inspetores Jauverts do
que Jean Valjeans? Por que, quando se pergunta a um descrente o que
mais lhe vem à cabeça quando se diz a palavra "cristão" (especialmente
"evangélico"), ele cita uma postura política conservadora, condenatória
ou moralista e não o amor repleto de graça?
Acho que isso tem algo a ver com orgulho. Esse é um tema
importante na Bíblia. Os autores da Bíblia dizem que "Deus resiste aos
soberbos, mas dá graça aos humildes". Isto porque somente os humildes
desejam recebê-la.
Quando estamos desesperados, quando conhecemos a urgência da
nossa necessidade, estamos abertos à graça. Os cobradores de impostos e
os filhos pródigos caem de joelhos com a maior facilidade.
Quando começamos a pensar que fizemos algo importante,
passamos a querer ser reconhecidos por isso. Depois que conseguimos
entrar para um clube, ficamos seletivos com os que estão tentando entrar;
senão, que graça tem?
Há pouco tempo, um presidente de uma empresa cotada entre as
500 mais da revista Fortune parou em um posto de gasolina para encher o
tanque. Ele entrou para pagar e, ao sair, viu que sua esposa estava numa
conversa empolgada com um dos funcionários. Acontece que ela o
conhecia. Na verdade, quando estava cursando o colegial, antes mesmo
de conhecer seu atual marido, ela namorou esse homem.
O presidente entrou no carro e os dois saíram em silêncio. Ele
estava se sentindo muito bem consigo mesmo quando finalmente disse:
"Aposto que sei no que está pensando. Aposto que está pensando que
teve sorte de se casar comigo, um executivo das 500 mais da Fortune, e
não com ele, um funcionário de posto de gasolina". Ela respondeu: "Não,
eu estava pensando que se tivesse casado com ele, ele seria um executivo
das 500 mais da Fortune e você seria um funcionário de posto de
gasolina".
Ele não queria pensar que parte de suas conquistas poderia ter
acontecido por causa dela. Queria todo o crédito para si. Queria o
orgulho que acompanha aqueles que vencem com o esforço próprio.
Nós queremos a graça à moda antiga. Nós queremos merecê-la.

Perigo: Mau Uso da Graça


Outra forma de "má interpretação da espiritualidade" é o que
chamo de "mau uso da graça". É um costume tão antigo quanto a igreja:
quem consegue viver na graça sem abusar dela? Temos o antigo hábito de
usar a graça como uma licença para o pecado.
Um autor bíblico disse: "Pois certos homens se introduziram com
dissimulação [...], homens ímpios, que convertem em dissolução a graça
de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo".
De um lado, esse hábito de ‫ ׳‬corromper a graça se deve à nossa própria
natureza pecadora e, de outro, à falta de compreensão do seu verdadeiro
significado. Jesus usou a graça como exemplo na história do filho
pródigo.
Quando o filho estava longe de casa, distraiu-se da distância que o
separava do pai com dinheiro, amigos e o que Jesus chamou de "vida
dissoluta".
Um dia, ele acordou sem dinheiro e abandonado pelos supostos
amigos, e a escassez se abateu sobre a terra. Em pouco tempo, ele passou
a viver na pobreza e a comer o alimento que dava aos porcos. A cadeia de
eventos colocou-o de joelhos, fez com que recobrasse o juízo.
Você reconhece o que essa cadeia de eventos representa? Isso
mesmo, era a graça.
"Pela graça meu coração aprendeu a temer e por ela meus temores
foram dissipados", diz o antigo hino Amazing grace [Graça surpreendente],
Nem sempre pensamos na graça como algo que instila o medo, mas a
canção está certa.
Imagine alguém que mente descaradamente, engana sem o menor
escrúpulo, cobiça sem sentir remorso, trai os amigos para conseguir o que
quer e ainda faz tudo com arrogância e prazer. Então, um belo dia, ele
olha no espelho e, pela primeira vez, tem um vislumbre do monstro que
se tornou. Ele treme ao dar conta da sua capacidade de fazer coisas tão
vis e desprezíveis.
Esse tremor, essa dor, é o começo da salvação. "Pela graça meu
coração aprendeu a temer." Depois, "por ela meus temores foram
dissipados".
Observe o modo como Jesus não contou a história. A história não
conta que o pai procurou pelo filho enquanto ele ainda estava longe. Não
foi enquanto o filho esbanjava dinheiro na vida dissoluta que o pai disse:
"Vista esta túnica, coloque este anel na mão, coma o bezerro cevado para
festejarmos".
Não. O mais importante primeiro. O filho precisa querer voltar
para casa, não porque precisava merecer a graça de seu pai, mas porque a
graça consiste, sempre e unicamente, de tudo o que puder ajudar alguém a
voltar para casa e se entregar ao amor do Pai.
Portanto, se você não quiser voltar para casa, para_oJJii, não quer
sua graça.
Quando o filho estava se divertindo à toa, o que ele mais precisava
— para voltar para casa — era sofrer. Por isso, ojojrimenlílL·li uma graça
que ele recebeu de presente. Depois, quando o filho estava sofrendo, o
que ele mais precisava era ser recebido de volta em casa. Assim, a fejta
também foi uma graça.
Pois a graça consiste, sempre e unicamente, de tudo o que puder
ajudar alguém a voltar para casa e se entregar ao amor do Pai.
Há outro modo que Jesus não conta a história. O grande pastor
Fred Craddock, certa vez, contou como seria a história do filho pródigo se
não existisse um ato de graça.
Dessa vez, o pai procura o filho mais velho, e não o pródigo, e diz:
"Por toda a sua dedicação, pelos anos de trabalho no campo, vou mandar
matar o bezerro cevado. Vista a túnica e use o anel. Receba o que você fez
por merecer."
Então, uma mulher sentada no fundo da igreja levantou-se e disse:
"E assim que a história deveria ser".
Mas Jesus não contou dessa forma. O irmão mais velho despeja seu
ressentimento, e o pai abre o coração. Ficamos, porém, esperando pelo
fim da história. O que o irmão mais velho vai fazer: participar da festa ou
se tornar o novo fugitivo?
Jesus nunca chegou a dizer. Ele deliberadamente deixa a história
inacabada. Obviamente, ele está rodeado de irmãos mais velhos e eles
mesmos terão de dar um fim para a história. Os irmãos mais velhos
precisam de tanta graça quanto os filhos pródigos.
A graça consiste, sempre e unicamente, de tudo o que puder ajudar
alguém a voltar para casa e se entregar ao amor do Pai.
Por isso Dietrich Bonhoeffer escreveu que não existe tensão entre
discipulado e graça, quando entendidos corretamente. A graça, diz ele, é
simplesmente uma oferta de discipulado. O discipulado é simplesmente a
apropriação da graça. Não se pode ter um sem o outro. Mas isso é
geralmente mal entendido.
Um homem pensava em ter um caso. Ele me disse: "Vou fazer isso.
Pode estar errado, mas Deus vai me dar a sua graça".
Graça é exatamente o que esse homem não quer. Ele não quer cair
em si e arrepender-se. Só o que ele quer é não ter com o que se preocupar.
A graça não é nenhuma garantia de consciência limpa, mas muitas
pessoas adotam essa visão distorcida. Elas passam ano após ano sofrendo
de desobediência crônica, soltando a raiva sem pesar as conseqüências,
praticando transgressões sem parar para pensar, recusando-se a viver
com equilíbrio, gastando seu tempo e dinheiro do modo como bem
entendem, desconsiderando o caminho do Espírito, tudo em nome da
graça.
Vivemos, dessa forma, sob a falsa idéia de que graça significa
colocar Deus em uma situação delicada, inteligentemente tirando
vantagem do evangelho. Essa atitude infelizmente revela uma idéia falsa
de Deus, do pecado, do evangelho... e da graça.
Se você alimenta essa falsa idéia da graça, é hora de parar com isso.
Agora. Faça o que for preciso para estar em casa, com o Pai.
Viver em Graça
Finalmente, como vamos fazer para lembrar que o amor que nos
sustenta vem da graça?
Precisamos nos manter próximos da cruz. Precisamos,
regularmente, fazer um exame sincero de consciência, confessar nossos
pecados e defeitos e aceitar a palavra da graça de Deus.
Os sábios escritores da vida espiritual costumavam alertar as
pessoas para a necessidade de se refletir sobre a cruz, sobre a morte de
Cristo. Fica muito mais difícil ser ingrato com as pessoas e recusar-se a
perdoá-las, quando nos postamos sob a sombra da cruz.
Além disso, precisamos nos manter próximos daqueles que podem
ser chamados
de "generosos em graça". Precisamos de pessoas que nos aceitem,
recebam e amem incondicionalmente. Eu preciso de gente assim e você
também.
Você precisa de uma pessoa assim porque tem outro tipo de gente
que faz parte da sua vida. O "carente de graça", com quem você também
convive, é um tipo de gente que julga, critica e vive lembrando você de
seus defeitos, de uma forma que o deixa arrasado.
Há algum tempo, estava com um grupo de amigos conversando
sobre a solidão. Eu me empolguei um pouco com o assunto, pois conheço
profundamente a sensação, mas a conversa logo terminou.
Mais tarde, uma das pessoas desse grupo me convidou para
almoçar: "Gostaria de falar a respeito da sua solidão. Fiquei tão triste
quando você disse isso!", ele me disse, com lágrimas nos olhos.
De repente, foi como se alguém tirasse de cima de mim um fardo
muito pesado para eu carregar. Fiquei tão comovido com a bondade dele
que, desta vez, os meus olhos se encheram de lágrimas. Comecei a chorar,
ele começou a chorar e o garçom veio ver se, quem sabe, havia algum
problema com a comida.
Ele se tornou uma fonte de graça para mim, uma pessoa que se
! alegra com a sua alegria e sofre com a sua dor.

Como reconhecer os "generosos em graça"? Eles sentem as coisas


que afetam você; eles prestam atenção nos seus sentimentos e ] na sua
vida. Os generosos em graça falam com você com sinceridade, tanto
palavras amigas quanto difíceis. Eles não são do tipo de gente que só diz
o que você quer ouvir, mas alguém que fala a verdade por amor.
Os generosos em graça simplesmente nunca se cansam de amá-lo.
Eles enxergam além da superfície; eles vêem tanto a obscuridade quanto
a bondade em seu coração. Mas quando eles vêem a obscuridade, não se
retraem. Eles não o rejeitam. Eles se aproximam de você. Você pode ser
um boneco de pano, mas é o boneco de pano de Deus e os generosos em
graça nunca deixarão que se esqueça disso.
Precisamos sempre nos manter próximos da fonte de graça
suprema. João diz que quando Jesus se tornou homem, o "Verbo se fez
carne, e habitou entre nós. Vimos a sua glória, a glória como do unigênito
do Pai, cheio de graça e de verdade".
Ele estava cheio de verdade. Ele sabia o que era certo. Ele fazia o
que era certo. Finalmente, a raça humana viu alguém que conhecia o
certo, fazia o certo e cujo saber e fazer eram cheios de graça.
As pessoas que devotaram suas vidas à espiritualidade mal
interpretada se sentiram ofendidas com ele. Seu comentário para elas foi:
"Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não
chorastes". Mas, de vez em quando, alguém entendia. E a dança
continuava.
Entenda bem, era a graça que estava embrulhada em panos e
deitada numa manjedoura. Foi a graça que morou entre nós, que curou o
doente, fez o cego enxergar e levantou o morto. Foi a graça que festejou
com os cobradores de impostos degradados, que era chamada de amiga
dos pecadores, que não jogou a primeira pedra. Foi a graça que foi
cravada na cruz junto com nosso pecado e nossa culpa, a graça que a
sepultura não pôde esconder, que agora está sentada do lado direito do
Pai, que um dia voltará para nos buscar.
Depois que estivermos lá dez mil anos e todas as palavras se
esgotarem e se desgastarem, apenas então começaremos a aprender a
cantar sobre a graça.
CAPíTULO9
Ser amado significa ser escolhido
Aquele que é capaz de um amor desprendido, espontâneo e alegre é livre, e nada
poderá impedi-lo. Ele dá tudo, apesar de tudo, e tem tudo, porque repousa naquele
que é superior a todas as coisas, de onde nasce e flui toda bondade.

THOMAS À KEMPIS

S er amado significa ser escolhido. A sensação de ser escolhido é


um dos melhores presentes que o amor pode dar ao ser amado. Isso
significa que alguém o vê como um ser único, que deseja ficar mais
próximo de você, ficar do seu lado. Isso significa que alguém acredita que
você tem uma importante contribuição a dar.
Por outro lado, não existe dor igual à de não ser escolhido. No dia
em que estava escrevendo isto, uma criança de dez anos de idade
mandou uma carta para a coluna de jornal Dear Abby sobre a chatice que
era sua vida no playground: "A vida toda sempre fui a última a ser
escolhida. Esse é o meu problema. [...] Por que as pessoas não pregam
logo um aviso em mim dizendo: 'Rejeite. O último a escolher fica
comigo'?".
Não existe maior alegria do que a de ser escolhido e maior tristeza
do que a de ser rejeitado. E quando um rejeitado é escolhido por alguém,
sua vida é transformada. O excerto a seguir foi extraído de um livro
chamado The whisper test [O teste do sussurro]:

Cresci sabendo que era diferente dos outros e odiava isso.


Nasci com lábio leporino e quando entrei para a escola, meus
colegas deixaram bem claro para mim como me enxergavam:
uma menina com um lábio deformado, nariz torcido, dente
torto e fala distorcida.
Quando eles me perguntavam: "O que aconteceu com o
seu lábio?", eu dizia que tinha caído e me cortado num pedaço
de vidro. Parece que um acidente era mais aceitável do que um
problema de nascença. Tinha certeza de que ninguém além da
minha família me amava.
Havia, entretanto, uma professora da segunda série que
todo mundo adorava: a sra. Leonard. Ela era baixa, gorda e
feliz; uma senhora radiante.
Todo ano havia um teste de audição [...]. A sra. Leonard
aplicou o teste em todos os alunos da classe e, finalmente, tinha
chegado a minha vez. Sabia, pelos anos anteriores, que
deveríamos ficar contra a porta e tampar um ouvido; a
professora, da sua mesa, falava alguma coisa cochichado e
tínhamos de repetir o que ela havia falado, coisas do tipo: "o
céu é azul" ou "você está usando sapatos novos?". Esperei pelas
palavras que Deus colocaria em sua boca, as seis palavras que
mudariam minha vida. A sra. Leonard sussurrou: "Gostaria que
você fosse minha filha".

O amor confere a quem é amado a qualidade de ser eleito. O amor


sussurra: Eu escolhi você. Quero ficar ao seu lado. E para os degradados,
para os espíritos deformados, corações tortos e almas disformes isso é
vida.
Ser eleito implica em quatro fatores, sendo que três são positivos.
Quando você é escolhido, é visto como um ser único. Pode ser difícil de
se distinguir um objeto de outro; um tijolo é bem parecido com outro e é
facilmente substituível. Mas o homem luta para ser notado como um ser
especial e não apenas mais um da espécie.
Quando você é escolhido, é reconhecido como alguém que tem algo com
que contribuir. A sua característica única é positiva. Você possui um dom
que faz diferença. Tem algo que pode ajudar o grupo. Os eleitos são
importantes. As histórias de suas vidas viram biografias e são lidas pelos
outros porque são interessantes.
Quando você é escolhido, isso significa que alguém o quer. Você fc não
é isolado, afastado. E desejado e faz parte do grupo.
Quando Deus nos escolhe, ele transmite todo o bem implícito em
ser eleito. Em nosso mundo degradado, no entanto, a palavra escolhido
tem uma quarta implicação que não está presente no coração de Deus.
Quando alguém é escolhido em nosso mundo, isso significa que quase
sempre outro alguém foi desprezado. Ser escolhido significa ser melhor
ou superior a alguém, ser objeto de ciúme, ser o favorito. Em nosso
mundo, a disputa pela preferência torna-se uma competição acirrada. E o
prêmio de consolação aos perdedores é uma criaturinha maligna
chamada inveja. A rainha da escola e um destacamento de primeira linha,
esses são realmente os escolhidos. E quem é boneco de pano nem adianta
tentar.
Nossa vida é uma tensão constante. Serei escolhido ou rejeitado?
Será que serei escolhido logo na formação dos times de beisebol? Será que
ela dirá sim se eu a convidar para sair? Serei selecionado para esta escola,
emprego ou promoção?
Neste mundo, o preço da "preferência" valoriza muito em
comparação à quantidade de rejeitados para a mesma posição. Se uma
mulher é eleita "Miss América" significa que cinqüenta outras foram
desclassificadas, sem mencionar as milhares que nem conseguiram
chegar ao concurso final. A preferência por alguns acontece a custo da
rejeição por outros. Lembro-me que, depois de terminar o curso de pós-
graduação, os que ainda não tinham consegui do passar nas provas finais
para se tornar psicólogos licenciados, viviam esperando que escolhessem
uma junta de examinadores bem fraca. Mas, depois de aprovados, eles
passavam a desejar exatamente o contrário. Eles desejavam que a junta
fosse tão exigente quanto possível para impedir que a ralé entrasse.
Depois que entramos para o clube, queremos o máximo de exclusividade
— senão, qual é a graça? É por isso que Groucho Marx disse certa vez que
nunca entraria para um clube que tivesse critérios tão baixos a ponto de
aceitá-lo como membro.

Em Que Time Você Vai Jogar?


Robert Roberts escreveu a respeito de uma brincadeira chamada
"pisa na bexiga" que uma professora da quarta série aplicou na sua classe.
Amarrava-se uma bexiga na perna de cada criança e o objetivo do jogo
era estourar a bexiga de todo mundo e manter a sua. A última pessoa que
ficasse com a bexiga sem estourar ganhava.
A brincadeira da bexiga é um jogo sem pontuação. Se eu ganho,
você perde. O sucesso dos outros diminui a sua chance de vitória. Você
precisa enxergar os outros como um obstáculo a ser superado, alguém
que deve ser destruído.
Essa brincadeira é uma prova darwiniana — a sobrevivência do
mais forte — e como as crianças de dez anos de idade são darwinianas
por essência, elas entraram de cabeça no espírito da coisa. As bexigas não
paravam de ser perseguidas e estouradas. Algumas crianças menos
agressivas tentaram ficar afastadas, mas suas bexigas foram estouradas
da mesma forma. A batalha terminou em uma questão de segundos.
Restou apenas uma bexiga intacta e, é claro, o dono era a criança mais
odiada da classe. Não é nada fácil ganhar uma competição como essa.
Então, escreve Roberts, uma coisa intrigante aconteceu. Trouxeram
uma segunda classe para a sala, para fazer a brincadeira, só que esta era
composta apenas por crianças aleijadas. Elas também carregavam uma
bexiga cada uma e receberam as mesmas instruções e o mesmo sinal para
começar a brincadeira. "Estou sentindo um aperto no coração. Gostaria de
poder poupar as crianças da pressão de uma competição", disse um dos
espectadores.
Desta vez, porém, a brincadeira prosseguiu de forma diferente. As
instruções não foram muito bem explicadas para que essas crianças
pudessem entender. Em toda a confusão, a única coisa sobre a qual não
restou dúvida era que se devia pisar nas bexigas e estourá-las. Mas em
vez de uma lutar contra a outra, essas crianças entenderam que deveriam
ajudar umas às outras a estourar as bexigas. Então elas formaram uma
espécie de frente de cooperação para estourar bexigas. Enquanto uma
garotinha ajoelhou-se e segurou firme sua bexiga, como acontece em uma
das jogadas do futebol americano, um garotinho pisou nela até estourá-la.
Depois, ele ajoelhou-se e segurou a sua própria bexiga para a menina
também poder estourar. E o jogo prosseguiu dessa forma, com todas as
crianças se ajudando no grande estouro.
Finalmente, depois que estouraram o último balão, todo mundo
comemorou.
Todo mundo ganhou.
A pergunta que você deve fazer é: quem entendeu direito a
brincadeira e quem não entendeu?
Mas a pergunta que você deve responder é: em que time você vai
jogar?
Nos planos de Deus, a preferência dele por você deve me
enriquecer em vez de me diminuir. Israel foi chamado o povo eleito de
Deus, mas não no sentido de que era o favorito ou que tinham uma rota
interna, direta para o céu. A intenção de Deus, desde o início, é que
através de Abraão "serão benditas todas as famílias da terra". Israel foi
escolhido não à exclusão das outras nações, mas precisamente em
consideração a todas as outras nações da terra. A intenção de Deus era
que, depois que sua comunidade encarnasse na terra, todos os povos
entrassem para ela.
Foi essa a idéia que comoveu Pedro, quando finalmente entendeu:
Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas que lhe
e agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo".
Mas nosso mundo joga no outro time. O historiador Christopher
Lasch escreveu que estamos vivendo "na cultura do individualismo
competitivo, que em sua decadência leva a lógica do individualismo ao
extremo de uma guerra de todos contra todos e a busca da felicidade ao
beco sem saída de uma preocupação narcisista consigo mesmo".
Recentemente, percebi que jogamos nesse time com facilidade. A
primeira impressão e a reação reflexa que temos das pessoas é
normalmente crítica, comparativa, competitiva e nos distancia do amor.
Quando vemos alguém dirigindo um carro caro, pensamos: ela
provavelmente tem muito dinheiro; deve ser uma pessoa materialista. Se
alguém tem um carro muito mais caro do que o nosso, automaticamente,
começamos a pensar que isso é reflexo de uma vida materialista.
Por outro lado, quando alguém está dirigindo um carro que é mais
antigo ou pior que o nosso, geralmente pensamos: eis alguém que não tem
um nível tão alto quanto o meu; provavelmente não é tão bem-sucedido quanto
eu. (Acho que foi o comediante George Carlin que disse: se você vê um
motorista que dirige mais rápido que você, ele é idiota, e se vê um que
dirige mais devagar, é retardado.)
Se vemos alguém reclamando, pensamos: ele deve ser carente, do tipo
que gosta de se fazer de vítima. E melhor eu ficar longe. Por que ele não pode
ser um pouco mais maduro?
Se encontramos alguém que está sempre alegre, costumamos
pensar: Esse cara é alegre demais. Ele deve viver numa ilusão.
Sempre nos pegamos pensando em alguém: Essa pessoa tem uma
coisa que eu quero. Gostaria de ter a inteligência (aparência, sucesso,
casamento ou dinheiro) dela.
Ou desejamos que ela não tivesse o que tem. Se não podemos ter
essas coisas, ficaríamos mais felizes se ninguém mais as tivesse.
Pisa na bexiga!
Esse tipo de pensamento faz com que sejamos cruéis, fofoqueiros
ou insensíveis. Eles nos levam a entrar para o time contrário.

Um Estudo sobre a Inveja


No início do ministério de Jesus conta-se que os discípulos de João
Batista dizem a ele: "Rabi, aquele homem que estava contigo além do
Jordão, do qual deste testemunho, está batizando, e todos vão ter com
ele".
Os discípulos de João estavam preocupados com a baixa na sua
popularidade. Por algum tempo, ele era a notícia mais quente na área,
mas as últimas pesquisas confirmavam que sua popularidade de melhor
jogador estava em risco. Ele não era mais o número um.
Os psicólogos esportivos falam do costume de se sentir a glória
"por tabela". A auto-estima dos fãs do rabino era mais alta quando o time
estava vencendo. Quando ele começou a perder, eles ficaram deprimidos.
Quando o time se torna um perdedor crônico, os fãs vão aos jogos com a
cabeça escondida dentro de um saco de supermercado. Ninguém quer ser
identificado como perdedor.
Os discípulos de João deviam estar se deleitando por tabela na
glória dele. Se o prestígio de João Batista caísse, adivinha o prestígio de
quem mais cairia?
Eles precisavam que João fosse uma "estrela". Se você não pode ser
uma estrela, o melhor a fazer é se tornar amigo de alguém que seja.
Quando você é uma estrela — ou amigo de uma —, ganha status. Você é
importante. A posição de todos os outros é determinada pela
proximidade de cada um com a estrela. Eles estavam com receio de, se as
coisas continuassem seguindo por esse curso, terem de recorrer aos sacos
de supermercado.
Mas a popularidade e o status — a expressão de seu sucesso —
eram exatamente do que João teria de renunciar. Ser escolhido por Deus
não significa ter fama e sucesso, mas aprender a renunciar.

Falando de Renúncia
Uma das coisas mais difíceis na vida é aprender a renunciar.
Quando se é pai, pensa-se que a parte mais difícil é cuidar dos filhos. Mas
não é. A parte mais difícil é deixá-los partir.
Chega o primeiro dia de escola. Você sabe que haverá momentos
em que seus fdhos se sentirão pressionados e tentados, que sofrerão
fracassos e derrotas. Alguns colegas, com quem eles não se darão bem,
podem machucá-los, professores insensíveis podem não gostar deles, mas
você não pode fazer nada. Você tem de deixá-los partir. A primeira vez
que eles forem dirigir um carro sozinhos, você terá de deixá-los ir.
Há um adesivo de carro que diz: "Entregue tudo nas mãos de
Deus". "Entregar" não significa ser passivo ou inativo. Significa confiar.
Há uma velha história sobre um homem que está caindo de um
penhasco. Ele vai morrer, mas estica as mãos e milagrosamente consegue
se segurar num galho.
— Tem alguém aí em cima?
— Sim.
— Quem é você?
— Sou Deus e vou salvá-lo.
— Isso é maravilhoso. O que devo fazer?
— Largue o galho.
Pausa.
— Tem mais alguém aí em cima?
Renunciar é sempre um ato de confiança. Esse é o caso de João e
dos discípulos. Ele era uma estrela e os discípulos eram importantes
porque andavam com ele. Antes, a dúvida era: ele tem bastante fé para
agüentar firme e continuar pregando o arrependimento quando os líderes
religiosos se opuserem a ele? Agora, a questão era ainda mais difícil do
que se manter firme: ele tinha bastante fé para renunciar?
Se existia uma coisa na qual João era especialista, essa coisa era
renunciar.
Desde o início ele sabia que tinha sido escolhido por Deus para
realizar uma tarefa especial. Essa intimidade lhe custaria tudo. Para
cumprir a sua missão, João teve de renunciar a todas as esperanças e
aspirações normais da vida do primeiro século.
• Ele teve de abandonar o estilo de vida normal; "apareceu João
Batista pregando no deserto da Judéia". Nada de apartamento, TV a cabo
nem associação dos moradores de bairro. Não era nenhuma Palm
Springs; nos tempos de João, o deserto era deserto.
• Ele nunca teve um emprego normal. Quando preenchia o
questionário, tudo o que podia escrever sob o item experiência anterior
era: "devotado".
• Ele renunciou às suas esperanças de prosperidade financeira. Seu
tipo de trabalho não oferecia nada como seguro saúde ou plano de
aposentadoria.
• Ele teve de renunciar aos relacionamentos normais; era visto
como um estranho pela sociedade. Viveu como um eremita, e os eremitas
não são famosos por terem muitos amigos. Não havia cursos de auto-
ajuda para os eremitas aprenderem a se relacionar com as outras pessoas.
• Deus pediu para que abdicasse de todas as reivindicações de
conforto e ele o fez de bom grado. Ele não se preocupava muito com a
moda. Suas roupas não serviam nem para vender em lojas de segunda
mão. Sua dieta era mais magra do que qualquer receita de
emagrecimento; gafanhotos e mel selvagem não era um prato muito
apreciado nem mesmo para os padrões do primeiro século. Nada de
vinho no jantar também. Ele já não bebia antes mesmo de existirem as
bebidas. Ele era um tipo de abstêmio que não tomava nem chá.
• Viveu sem segurança nenhuma. Desafiou abertamente as
autoridades religiosas de sua época e elas o odiavam por isso. Certa vez,
chegou a chamar a sua congregação de "raça de víboras" e isso não lhe
trouxe muita popularidade.
Imagine a liturgia:
Líder: — Vocês são uma raça de víboras. Povo: — Sim, nós somos
uma raça de víboras. Ele chegou a enfrentar até o governador falando de
sua imoralidade e corrupção e, naquela época, se você quisesse manter a
cabeça no lugar era melhor não fazer esse tipo de coisa.
• Ele teve de renunciar a qualquer esperança de ter uma vida
normal. Ele nunca se apaixonaria nem casaria e nem teria filhos. Não
haveria ninguém para cuidar dele na velhice. Na verdade, ele nem se
iludia sonhando em chegar à velhice. João foi escolhido por Deus, antes
mesmo de nascer, para preparar o caminho do Senhor. Mas esse era um
tipo de predileção que significava sacrifício, excentricidade, coragem e
marginalidade. Era um tipo de predileção que fez com que Reb Tevye, de
Um violinista no telhado, dissesse a Deus: "Eu sei, eu sei. Somos o povo
escolhido. Mas será que não daria para, de vez em quando, escolher
outro?".
João renunciou voluntariamente a tudo em nome de seu ministério.
E agora Deus estava pedindo que renunciasse a mais uma coisa: seu
próprio ministério.
Seus discípulos sentiram como se ele tivesse perdendo até o
privilégio de ser eleito.
Eles vieram lhe falar, aparentemente, porque sentiam inveja do
sucesso de Jesus. Era inconcebível para eles que, depois de João ter
lançado Jesus no ministério e dado a ele toda a credibilidade de seu
testemunho, em agradecimento, Jesus fosse tomar o seu lugar. Eles
estavam tão inconformados que não conseguiram falar sem um pouco de
exagero: "Rabi, aquele homem que estava contigo além do Jordão, do
qual deste testemunho, está batizando, e todos vão ter com ele".
Já era bastante ruim Jesus começar a oferecer seu próprio ministério
de batismo independente, tirando de João a exclusividade do franchising,
mas agora todo mundo estava indo atrás de Jesus.

A Anatomia da Inveja
A inveja é o veneno daqueles que acham que não foram escolhidos.
Harold Boris escreveu: "A inveja [...] carrega consigo um tipo especial de
tormento. Além de nos sentirmos deficientes, defeituosos e cheios de
ódio, em nossa solidão, por causa da nossa solidão, sentimo-nos
diminuídos e até humilhados".
Inveja é querer o que o outro tem e sentir-se mal por não ter. Inveja
é desprezar a bondade de Deus para com as outras pessoas e rejeitar a
bondade dele para consigo mesmo. Inveja é um desejo misturado ao
ressentimento. Inveja é falta de fraternidade. Paulo disse: "Alegrai-vos
com os que se alegram e chorai com os que choram". A inveja nos faz
chorar quando os outros se alegram e nos alegrar quando os outros
choram.
A inveja é perigosa porque vai contra o outro. Pecados como a
ganância e a luxúria tratam simplesmente de suprir os próprios desejos. A
inveja não busca apenas suprir o próprio prazer, mas diminuir o prazer
de quem é invejado. Samuel Rogers, um poeta inglês do século dezenove,
conhecia tudo a respeito de inveja. Uma reunião de autoridades da
sociedade estava homenageando um de seus membros que estava
ausente, um jovem duque que tinha boa aparência, talento, fortuna e um
futuro promissor. Em uma breve pausa, Rogers disse: "Graças a Deus, ele
tem dentes ruins!".
Pisa na bexiga!
A inveja, por natureza, nunca termina. Ser indulgente na inveja é
como tentar matar a sede com água salgada.
De todas as emoções, a inveja pode ser a mais humilhante, porque
ela é muito mesquinha. Frederick Buechner disse: "A inveja é o desejo
ardente de que todo mundo seja tão infeliz quanto você".
Quando invejamos alguém, perdemos nossa humanidade.
Quando Caim olhou para Abel, não viu mais um irmão. Abel agora
era apenas um rival que ameaçava o prestígio de Caim perante Deus.
Abel era um eleito a ser odiado. O caso se transformou numa brincadeira
da bexiga levada ao extremo. Inveja é isolamento, é cada um por si.
A inveja é o oposto da empatia. Por empatia, buscamos nos colocar
no lugar do outro. Por inveja, tentamos incorporar o outro. Por empatia,
chegamos a nos sacrificar pelo bem do outro. Por inveja, procuramos
sacrificar o outro pelo nosso próprio bem.
João deve ter pensado de seus discípulos: Será que eles realmente me
amam ou estão apenas me usando?
E, é claro, como em qualquer relacionamento humano, era um
pouco de ambos.
Sem dúvida, ao ouvir a mensagem desse profeta apaixonante e
solitário, que rogava pelo verdadeiro arrependimento e pela total
renovação, eles devem ter se comovido e sentido um chamado dentro de
si.
Mas eram apenas humanos. Eles queriam que João fosse
importante para que também pudessem ser. E acabaram tentando desviá-
lo de sua verdadeira missão. Eles queriam que João mostrasse que era
mais poderoso que o Messias.
Da mesma forma que Jesus no deserto, seu amigo João também
conheceu a tentação. Essa foi a prova de João. Para Jesus, a tentação foi
transformar pedras em pão, jogar-se de cima do templo, prostrar-se
diante de Satã e adorá-lo. Fazer algo espetacular. Depois, a tentação veio
de seu amigo Pedro: "livre-se da cruz, do sofrimento, vá de um poder ao
outro".
Para João, a tentação tomou outra forma: "faça algo grandioso para
ganhar o povo de volta". Adapte a sua mensagem; mude a sua estratégia
de marketing. A medida do seu sucesso é a quantidade de pessoas
batizadas, assim como a medida do sucesso do McDonalds é a
quantidade de sanduíches vendidos. Confie nos números.
Havia outra mensagem nessa tentação, um pouco mais sutil, mas
que estava presente: Jesus é o nosso adversário. A pregação dele é uma
rival sua. Para ele, ser mais poderoso significa que você será mais
insignificante e isso é inaceitável.
Os discípulos de João talvez o amassem, mas era um amor
degradado. E o teria destruído se ele tivesse lhes dado ouvidos.

A Sutileza da Inveja
A inveja é perniciosa porque pode abranger tudo. É possível até
invejar-se a espiritualidade ou humildade dos outros.
Harold Boris fala dos três homens que vieram prestar sua
homenagem ao Senhor. Respeitando a ordem de sua situação financeira,
o homem vestido em ouro foi o primeiro a apresentar-se ao altar.
"Perdoa-me, ó Senhor", ele rogou. "Não valho nada."
O segundo homem adiantou-se, vestido em prata: "Ó Senhor,
perdoa-me. Não valho nada."
O terceiro homem aproximou-se do altar, vestido em trapos, todo
desgrenhado, com a túnica puída e rasgada. "O Senhor", ele rogou,
"perdoa-me, pois não valho nada".
Nesse momento, o primeiro homem cutucou o segundo e caçoou:
"Olha só quem está dizendo que não vale nada".
Pisa na bexiga!
Saul foi o rei guerreiro de Israel que "desde os ombros para cima
sobressaía em altura a todo o povo". Depois de algum tempo, você se
acostuma a desde os ombros se sobressair a todos os outros. Você não
gosta quando vê alguém metendo o bedelho onde não é chamado.
Mas acontece. Um jovem chamado Davi, que nem era tão grande
para caber na armadura de Saul, vence o antigo campeonato peso pesado
contra Golias. Davi mostra que é um exterminador tão bom quanto Saul.
E uma nova canção atinge as paradas de sucesso: "Saul matou milhares e
Davi, dez vezes mais".
Saul não ligava para letra. Ele não via mais Davi como uma pessoa,
um pastor. Davi era agora seu inimigo.
"Dez milhares deram a Davi, e a mim somente milhares. Na
verdade, o que lhe falta, senão só o reino? Daquele dia em diante, Saul
trazia Davi sob suspeita."
Conforme Neal Platinga observa, "suspeitar" é exatamente o que
Saul fez. Ele lançou o maligno olhar da inveja, que filtra toda a sua
humanidade até restar apenas um objeto de ameaça.
A inveja é basicamente um pecado do olhar. Ela faz com que o
pedaço de bolo do seu irmão pareça maior do que o seu. Uma criança
pode ter centenas de brinquedos, mas a inveja faz com que um único
brinquedo de um irmão pareça o mais desejável de todos. Quando se
trata de inveja, os olhos dizem tudo. É por isso que Dante diz que, no
inferno, os invejosos são condenados a passar a eternidade de olhos
costurados.
Há uma rede de inveja que permeia toda a Bíblia: desde Caim e
Abel, Isaque e Ismael, Jacó e Esaú, José e seus irmãos até o caso de Miriã e
Arão que falaram contra Moisés. Raquel foi escolhida; Lia era uma
boneca de pano com "olhos fracos". Acabe cobiça a vinha de Nabote;
Ananias e Safira cobiçaram a reputação de generosos; Paulo escreveu
para a igreja em Filipos dizendo que havia quem pregasse "por inveja e
porfia".
São palavras bastante sensatas para mim. Eu sinto inveja. Mas a
inveja não faz sentido quando se trata de pregar. Na pregação, minha
missão é dizer às pessoas para se arrependerem, para tomarem a cruz e
morrerem por si próprias. Como posso ter inveja de outros pastores que
pregam a mesma coisa melhor do que eu? Mas esse pensamento
condenatório não consegue sozinho acabar com a inveja.
A inveja nos faz lutar por coisas que nem queremos realmente. Em
Siblings without rivalry [Irmãos sem rivalidade], uma mulher conta de um
dia de verão em que libertou um enorme freezer na garagem de dois anos
de produção de gelo.
As crianças estavam com roupas de banho. [...] De brincadeira,
joguei uma enorme placa de gelo na direção de uma delas e disse:
— Ei, toma um pouco de gelo. Imediatamente, a outras duas
aderiram:
— Eu também quero.
Peguei mais duas placas e joguei para elas deslizando pelo chão.
Então, a mais nova gritou:
— Eles têm mais.
— Você quer mais? — perguntei. — Lá vai! — E joguei um
punhado de gelo a seus pés.
Então, as outras duas gritaram:
— Agora é ele quem tem mais. Joguei mais dois punhados de gelo
na direção delas. A primeira gritou:
— Agora são eles que têm mais.
A essa altura, as três crianças estavam com gelo até o tornozelo e
ainda gritavam por mais. Tão rápido quanto podia, lancei blocos imensos
de gelo aos pés de todas. Mesmo saltando de dor por causa do gelo, elas
continuaram a pedir mais, na loucura de uma tentar ganhar vantagem
sobre a outra.
Foi nesse momento que percebi que era inútil tentar ser justa com
todas. As crianças nunca teriam o bastante e eu, como mãe, nunca daria o
bastante.
Não gostamos de sentir inveja. Deixaríamos de senti-la se
pudéssemos. Mas não conseguimos parar de invejar simplesmente
porque nos esforçamos para isso. A inveja só é derrotada quando
vivemos como seres eleitos por Deus.
Uma das palavras mais importantes da Bíblia usadas para
descrever o povo de Deus é eleito. "Como eleitos de Deus, santos, e
amados", Paulo disse aos colossenses.
Neste mundo, os eleitos mandam e os outros servem. Mas a escolha
de Deus não funciona assim. No amor de Deus, a predileção por nós não
acontece às custas de alguém. Deus escolhe, ou ama, cada um de seus
filhos de maneira diferente. Sua
intenção é que a preferência por um possa melhorar a vida de
outros, e não prejudicá-la. Nos planos de Deus, os eleitos sempre
escolhem servir.
Harold Boris fala da possibilidade de a inveja se basear no medo de
não ser escolhido, de nunca ter havido essa "intenção". Faber observa que
o que as crianças almejam não é ser amadas "igualmente" em relação a
seus irmãos, pois o igual, de certa forma, sempre dá a sensação de menos.
"Ser amado exclusivamente — porque se é especial — é ter todo o amor de
que se necessita'. E isso o que Deus faz: ele ama exclusivamente cada um
de nós.
João compreendeu essa verdade e sua reflexão a respeito, capta
perfeitamente a idéia de quem somos e quem não somos: "O homem só
pode receber o que lhe for dado do céu". Precisamos entender a alegria
especial de poder receber.
Não sou o noivo, João diz, sou o amigo do noivo. Antigamente, nos
casamentos judeus, o amigo do noivo era seu shoshbin, o que significava
que ele era o melhor homem. O shoshbin ficava encarregado de vários
detalhes dos preparativos do matrimônio. Geralmente, era ele quem
convidava as pessoas, acompanhava o noivo até a cerimônia e sua última
responsabilidade era, no final da noite, montar guarda diante da tenda
onde a noiva esperava pelo noivo. Poderia estar escuro, mas o shoshbin
reconhecia a voz do noivo quando a ouvia e, assim, abria caminho para o
noivo entrar. O noivo entrava na tenda e conhecia a alegria de reivindicar
a sua esposa. O amigo do noivo sentia outra espécie de alegria: a de servir
a quem amava. Se o amigo invejasse o noivo, se tentasse reivindicar para
si a alegria que pertencia somente ao noivo, acabaria perdendo tudo. A
noiva jamais poderia ser dele e, ao tentar reivindicá-la, ele estaria traindo
seu amigo e também perderia a alegria que pertencia ao shoshbin.
Basicamente, João está dizendo aos seus discípulos:
"A alegria que pertence ao amigo do noivo é minha. Eu enviei os
convites. Fui aquele que gritou no deserto: 'Prepare o caminho do
Senhor'.
Eu servi ao noivo. Ele é meu amigo. Agora ele está aqui. Ouvi sua
voz; ele veio reivindicar sua noiva. E por isso que todos estão se
aglomerando ao redor dele. Ela é a noiva dele e não minha. A alegria da
união do noivo e da noiva pertence a ele.
Não pense que sofro com isso. Eu também me alegro. Minha
alegria é a do amigo do noivo. Se tentasse me apropriar da alegria dele,
terminaria sem alegria nenhuma. Agora minha alegria está completa. Não
a perderei. Não permitirei que a inveja destrua a minha alegria."
Na peça Amadeus, Antonio Salieri é um músico da corte cuja alma é
destruída pela inveja. Seu sonho é criar uma música que sobreviva ao
tempo, pela glória de Deus e (não por acaso) para ganhar fama. A dor de
sua própria mediocridade é intensificada pela genialidade de Mozart e
redobrada porque Mozart, aqui, é retratado como um grosseirão obsceno,
petulante e infantil. A inveja de Salieri se transforma em ressentimento,
ódio, traição e trapaça quando ele tenta assumir a autoria de um trabalho
de Mozart.
Salieri, como qualquer invejoso de primeira linha, acredita que
Deus foi extremamente injusto com ele. Por desejar ser maior que Mozart,
ele acredita que Deus tinha a obrigação moral de torná-lo melhor. A
inveja sempre carrega consigo a idéia de vítima. Ela sopra em sua mente:
"Você me deve isso. Eu mereço ter isso".
Então Salieri reivindica o título que lhe cabe, de "príncipe da
mediocridade", como uma acusação contra um Deus injusto. Ninguém,
nem mesmo o padre com quem ele se confessa, consegue justificar a
aparente injustiça de Deus.
Mas a verdade é que Salieri tinha a possibilidade de ter uma
grande alegria. Ele não possuía o dom de Mozart. Mas a ele foi concedido
um outro dom: o de ser o único a reconhecer a genialidade de Mozart,
declará-la ao mundo, abrir as portas e dar oportunidades a Mozart. E isso
teria enriquecido sua vida e seu mundo. Ele poderia ter sido o amigo do
noivo. Mas ele rejeitou essa alegria. Ele só se contentava em ser o noivo e
por isso terminou a vida sem experimentar nenhuma alegria.
O nome Amadeus significa "amado por Deus". O sofrimento de
Salieri era que ele acreditava que uma outra pessoa era amada em lugar
dele. O drama de Salieri era que ele também poderia ter sido amado, se
tivesse recebido o dom que lhe pertencia.
O mesmo câncer tomou conta da vida de outro Salieri chamado
Herodes, o Grande. Quando Jesus — o verdadeiro "Rei dos judeus" —
nasceu, Herodes poderia ter sido o seu padrinho e cuidado para que fosse
educado e bem tratado. Mas ele rejeitou essa alegria. Sua inveja se
transformou em ódio, trapaça, traição e assassinato. E foi assim toda a sua
vida. Herodes, o Grande, foi tão odiado que, no fim da vida, deixou
ordens para que setenta dos cidadãos mais proeminentes de Jerusalém
fossem executados quando ele morresse, para que houvesse luto depois
de sua morte.
Mateus conta que a inveja foi o motivo que levou os líderes
religiosos a condenar Jesus à morte. A inveja tentou impedir o seu
nascimento, a inveja perseguiu a sua vida, a inveja causou a sua morte. A
inveja é a face mais degradada da humanidade.
Deus guarda uma porção de alegria para cada um de seus filhos.
Por exemplo, qualquer pessoa pode partilhar da alegria de ser cantor.
Quando um artista talentoso canta, ele partilha o seu dom e nós o
recebemos. Todos nós ficamos agradecidos por nosso Criador conceder
esse dom ao artista e permitir que ele o compartilhe conosco.
Há, entretanto, uma forma certa de perder a alegria de ouvir, que é
invejar a alegria do artista, desejar estar no lugar dele, comparar o seu
dom com o dele e ter aquela sensação sufocante de que, quanto maior o
dom, talento ou beleza da outra pessoa, mais diminuído você fica. Viva se
comparando e competindo com os outros e acabará sem nenhuma alegria.
Deus reserva uma alegria para cada um de nós. Fomos criados para
fazer e ver as coisas de uma forma única — Deus o criou para que
conheça a alegria de ensinar, ajudar ou encorajar alguém ou criar algo —
e quando você a encontrar e a oferecer, conhecerá a alegria. E Deus o
criou para conhecer a alegria de receber e celebrar os dons dos que o
rodeiam. Se você oferecer os seus dons (compartilhá-los) e humildemente
aceitar os dons dos outros, sua alegria será completa.
Caso contrário, se você passar a vida buscando a alegria que
pertence aos outros, acabará não tendo alegria nenhuma.
O comentário final de João é: "É necessário que ele cresça, e que eu
diminua".
Esta não é uma declaração de resignação nem de martírio. É a
alegria do amigo do noivo que agora percebe que a noiva cumpre o seu
destino. Essa é a contribuição de João para o reino de Deus onde o
humilde é exaltado.
Há um motivo para o Natal ser celebrado no dia 25 de dezembro.
Não é uma data histórica, é claro, mas ela também não existe por acaso.
Ela foi escolhida porque é a época do ano em que os dias são mais longos.
A chegada de Cristo significa a chegada da luz no mundo; a escuridão se
retrai. E, na época em que não existia eletricidade, a duração do dia era
uma grande dádiva. O dia trazia luz e calor para um mundo inóspito.
Você sabe qual é o dia em que, no calendário eclesiástico, o
nascimento de João Batista é celebrado? Dia 24 de junho. Não é uma data
histórica, mas também não existe por acaso. Ela marca o período em que
os dias começam a ficar mais curtos e a luz começa a diminuir.
Todo ano, o calendário repete as palavras de João, embora poucas
pessoas saibam disso.
"Ele deve tornar-se cada vez maior, e eu devo diminuir cada vez
mais."
Mas na magnificência de Cristo está a esperança do mundo,
inclusive de João. Pois, em Cristo, Deus está atraindo todos os homens
para si. Deus murmura na cruz: "Quero que faça parte do meu grupo. Eu
escolho você".
C A P Í T U L O 10
Seguros no amor de Deus
Com este Deus magnífico posicionado entre nós, Jesus nos traz a certeza de que nosso
universo é um lugar perfeitamente seguro de viver.

DALLAS WILLARD

A lgum tempo atrás, levei meus três filhos para um auditório


vazio da igreja em que trabalho. Sentados na última fila, cortando o
silêncio com nossas vozes, conversamos. Uma das crianças então disse:
"Papai, pregue um sermão para nós".
Foi um momento maravilhoso e não acontece com freqüência na
família. Não é comum acontecer de Nancy e eu irmos para a cama e ela se
virar para mim e dizer: "Querido, pregue um sermão para mim". Era a
oportunidade de uma escolha, por isso pensei cuidadosamente no que
iria falar, pois queria que entendessem.
Desejava dizer que elas podiam viver seguras no amor de Deus,
por isso contei a história de um filme chamado O urso. É a história de um
filhote de urso que fica órfão. Ele sobrevive, mas o espectador sabe que
suas chances de futuro são nulas. Então, o inesperado acontece. O filhote
se torna uma espécie de filho para um grande urso marrom. Esse urso
enorme passa todo o tempo tomando conta do filhote. Ele o protege de
um leão da montanha que o perseguia. Ele ensina o filhote a ser um urso
de verdade. Tudo o que o urso adulto faz, o pequeno imita. Ele entra num
riacho e captura um peixe como o grande urso faz; ele fica em pé, sob as
pernas traseiras, e esfrega as costas contra um tronco de árvore como
tinha visto o outro fazer. Ao ver isso, o espectador se enche de esperança.
O filhote tem futuro. Ele vai sobreviver.
Um dia, eles se separam. O pequeno urso não consegue achar seu
pai em lugar nenhum. O leão da montanha, que nunca tinha se esquecido
do filhote, agora finalmente tem a oportunidade de capturá-lo. Ele se
aproxima rapidamente, em silêncio, fica frente a frente com o filhote e se
apronta para dar o bote. O pequeno urso faz o que tinha visto seu
padrasto fazer: ele fica em pé, levanta suas patas e ruge com toda a força;
mas o melhor que consegue fazer é soltar um grunhido amedrontado. O
leão da montanha não se convence. Tanto o filhote quanto seu predador
sabem que ele não tem esperança.
A câmera, então, dá um close no leão da montanha, cuja face de
repente registra o medo no seu olhar. Ele pára, contrariado, dá meia volta
e sai correndo.
A câmera se volta para o filhote. Ele parece tão surpreso quanto o
espectador. Será que seu rugido foi tão bom assim? Mas, então, a câmera
se afasta e podemos ver algo que não sabíamos antes, algo que o próprio
filhote não sabe. Atrás daquele pequeno urso, em pé, enorme, vemos o
grande urso marrom pronto para salvar seu filhote num único golpe.
Suas patas são enormes e seu rosnado, poderoso.
Então temos certeza. O ursinho não precisa se preocupar. O filhote
não podia ver nem ouvir o grande urso, mas seu pai estava ali o tempo
todo. A floresta era um lugar perfeitamente seguro para o pequeno filhote
viver. Ele podia confiar no pai, mesmo que, aparentemente, ele estivesse
ausente.

Carruagens de Fogo
Será que isso poderia acontecer comigo ou com você? O autor de
2Reis fala de uma época em que o rei da Síria, um inimigo de Israel — um
feroz leão da montanha — enviou um grande exército para cercar a
cidade de Dotã e destruir o profeta Eliseu.
"Ai, meu senhor, o que faremos?", perguntou o servo de Eliseu.
Então, Eliseu deu uma resposta extraordinária: "Não tenha medo.
Os que estão conosco são muito mais do que os que estão com eles". O
servo de Eliseu olhou em volta, tentando quem sabe descobrir onde os
"que estão conosco" se encontravam.
Mas Eliseu então orou: "Deus, abra os olhos dele para que possa
ver".
Lentamente, a câmera se afasta. "Então o Senhor abriu os olhos do
servo e ele olhou e viu que as colinas estavam cheias de cavalos e
carruagens de fogo ao redor de Eliseu".
Suas patas são enormes e seu rosnado, poderoso.
Eliseu pediu, então, para que os siros ficassem cegos, o que
aconteceu. E, quando pararam para perguntar qual era o caminho a
seguir, foi a Eliseu que consultaram. Numa comédia divina de erros, ele
os levou para o rei de Israel, que lhe perguntou: "Devo matá-los, meu pai?
Devo matá-los?".
"Mataria os homens que você capturou com seu próprio arco e
flecha?' , perguntou Elias, timidamente, como se arcos e flechas tivessem
alguma coisa a ver com isso. "Dê água e comida para eles, para que
comam e bebam e depois voltem para o seu senhor."
Então, os siros comeram um grande banquete e foram para casa, e
as "tropas de siros não entraram mais em Israel". Todo mundo foi para
casa em segurança.
Eliseu sabia de uma coisa que o seu servo desconhecia. Eles
estavam cercados com uma proteção de amor que o servo mal podia
imaginar. Seu momento de maior medo era, na verdade, o momento em
que estava mais seguro.
Vocês vivem sob a proteção de Deus, disse a meus filhos. O coração
de Deus se enche de ternura e alegria só de pensar em vocês. Quando
vocês amam alguém e pensam nessa pessoa, começam a sorrir. E isso o
que acontece quando Deus pensa em vocês.
Um dia, vocês vão ter de enfrentar perigos e resolver problemas.
Isso faz parte da vida e do crescimento e eu não os pouparia disso mesmo
que pudesse. Mas de uma coisa quero poupá-los. Quando estamos com
medo, costumamos pensar que estamos sozinhos. Achamos que ninguém
enxerga e nem se preocupa com o que está acontecendo, que estamos por
conta própria.
Quando isso acontecer, quero que se lembrem do urso. Lembrem-
se de que existe alguém que está por trás de vocês, cuidando para que
nada aconteça. Vocês podem não vê-lo nem ouvi-lo. Mas nunca estão
longe do seu alcance. Vocês estão sempre sob sua guarda.
Vocês são os bem-amados de Deus.

Perfeitamente Seguro
Dallas Willard disse que Jesus viveu com absoluta confiança
porque sabia que seu Pai era infalível em sua competência, além de
totalmente devotado. O resultado é impressionante: "Com este Deus
magnífico posicionado entre nós, Jesus nos traz a certeza de que nosso
universo é um lugar perfeitamente seguro de viver".
Será? O nosso universo? Falamos muito hoje em dia sobre lugares
seguros, porque nosso mundo parece ter ficado muito perigoso.
Desastres, violência e morte cobrem a terra.
E, contudo, essa descoberta acontece várias vezes na Bíblia. A jaula
do leão e fornalhas ardentes, a prisão do faraó e o leito do mar Vermelho,
um pequeno barco no meio de uma tempestade violenta, todas essas
situações parecem extremamente perigosas, mas acabaram se
transformando no lugar mais seguro de todos.
É verdade mesmo. Nosso universo é um lugar perfeitamente
seguro para viver. Não porque as coisas ruins não vão acontecer, mas
porque, como o próprio Paulo disse, "quem nos separará do amor de
Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a
nudez, ou o perigo, ou a espada?". As piores armas que este mundo pode
usar são impotentes diante do amor.
Essa é a descoberta do salmista: "Ainda que eu andasse pelo vale da
sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo". Até o
vale da sombra da morte é um lugar seguro.
Nossos fracos grunhidos e rosnados podem não ser grande coisa
sozinhos, mas por trás de nós está aquele que nunca se cansa de nos
vigiar. Podemos não vê-lo nem ouvi-lo, mas o Pai está sempre junto de
nós. E nada poderá nos separar de seu amor. Nem o fracasso, nem a
doença, nem a falta de dinheiro, nem a solidão e nem a própria morte.
Muito mais forte do que todos esses inimigos, ele está atrás de nós e
em todos os lugares. Um dia conseguiremos ouvir o seu rugido e ver as
mãos que agora mesmo nos amparam. Enquanto isso, caminhamos pela
fé. Mas a verdade permanece: nunca estamos sozinhos.
Uma mulher acorda com a tempestade. Ela corre para o quarto do
filho quando vê o clarão de um raio, porque sabe que vai encontrá-lo
aterrorizado. Para sua surpresa, ele está de pé, olhando pela janela.
"Estava olhando lá para fora", ele diz, "e você nunca vai adivinhar o
que aconteceu. Deus tirou uma foto minha".
Ele estava convencido de que Deus estava ali e que, portanto, o
universo era um lugar perfeitamente seguro de estar.
Mateus conta que, um dia, Jesus e seus discípulos estavam num
barco quando "de repente levantou-se no mar uma grande tempestade";
coisa que era bastante comum no mar da Galiléia. Os discípulos
compreensivelmente se desesperaram, mas o texto diz que Jesus estava
dormindo.
Por que Mateus inclui a informação de que Jesus estava dormindo?
Porque quer que entendamos. Dado o que sabia a respeito do Pai, o
Senhor tinha conhecimento de que o universo era um lugar perfeitamente
seguro para estar.
Os discípulos tinham fé em Jesus. Eles acreditavam que ele poderia
fazer alguma coisa para ajudá-los. Mas eles ainda não tinham a fé de
Jesus. Eles não compartilhavam da certeza de que estavam seguros nas
mãos de Deus.
A isso Paulo chama de a "paz de Cristo".
Como seria a minha vida se tivesse a certeza de que, por causa do
caráter e da competência de Deus, este mundo é um lugar perfeitamente
seguro para viver?
• O nível de tensão em minha vida diminuiria. Teria plena certeza
de que posso descansar colocando minha vida nas mãos de Deus. Não
ficaria preocupado com a minha incapacidade.
• Seria um pessoa mais calma. Poderia estar ocupado, com um
monte de coisas para fazer, mas internamente manteria a calma e o
equilíbrio que vem da certeza de se estar na companhia de Deus. Não
diria as tolices que agora digo por falar sem pensar.
• Não me deixaria abater pela culpa. Viveria com a confiança que
vem da segurança do amor de Deus.
• Confiaria em Deus a ponto de obedecê-lo cegamente. Não
acumularia valores. A preocupação faz com que me concentre em mim
mesmo. Ela rouba minha alegria, energia e compaixão.
Se a paz de Cristo reinasse numa pessoa, ela seria um oásis de
sanidade no mundo em caos.
Se a paz de Cristo reinasse em uma comunidade, ela seria capaz de
mudar o mundo.

Liberdade para Arriscar


Jesus não oferece essa certeza simplesmente para que possamos nos
comprazer na sensação de conforto e segurança. Não se trata de um
"útero espiritual". O útero pode ser confortável e tranqüilo, mas
certamente impõe limites sérios ao crescimento.
Queremos segurança, mas queremos mais do que isso. Sabemos
que, se nossa vida for tomada pela busca da segurança absoluta, iremos
estagnar e morrer. Precisamos crescer e explorar para vivermos
plenamente. Na verdade, o conforto pode ser mais fatal do que o perigo.
Assistimos a filmes de terror, andamos em montanhas-russas, praticamos
bungie-jump (há quem se arrisque) porque sabemos que se não
arriscarmos nossas vidas, viveremos, de certo modo, como se
estivéssemos mortos.
Todas as criaturas parecem ter uma necessidade ou um impulso de
crescer e amadurecer, que geralmente anda em conflito com a
necessidade de segurança. Há alguns anos, um aluno de psicologia de
Berkeley levou um rato para o estádio de futebol da universidade e abriu
a gaiola. No primeiro dia da experiência, o rato permaneceu na gaiola por
trinta minutos, colocou a cabeça para fora por alguns segundos e depois
recuou. No segundo dia, o rato aventurou-se a dar alguns passos para
fora. Depois de um mês, o rato corria para todo lado, descia as escadas,
atravessava o campo até o outro lado e depois voltava para casa de novo,
tudo sem nenhum reforço.
Fugimos da dor e temos medo da morte, mas sabemos que a vida é
mais do que evitar a morte. Então, a Bíblia se alterna em nos exortar a
aceitarmos riscos enormes e em nos garantir segurança absoluta. E
quando estudamos a vida dos grandes discípulos de Deus, vemos esta
combinação de riscos incalculáveis e uma confiança quase arrogante de se
estar seguro nas mãos de Deus. As garantias que recebemos da proteção
divina geralmente aparecem nas Escrituras na forma de golpes que fazem
com que pessoas amedrontadas se arrisquem e obedeçam a Deus mesmo
quando não parece seguro. Como o pai que ensina o filho assustado de
dois anos a pular da borda da piscina para dentro da água: "Confie em
mim. Não vou empurrar você. A piscina é um lugar perfeitamente
seguro".
Más a criança nunca saberá se não pular. O pai não pode dar esse
passo por ela. Se ele a segurar no colo e levá-la para dentro da água, ela
não tomará nenhuma decisão, nunca exercitará sua coragem. Ela precisa
dar um salto de fé sozinha.
Então Deus ensina seus filhos "de dois anos" inseguros:
• Você consegue derrotar o faraó.
• Você consegue ocupar a terra prometida.
• Você consegue enfrentar Golias.
• Você consegue dar tudo o que possui aos necessitados e se juntar
ao grupo de discípulos.
• Você consegue se sentar numa prisão romana e enfrentar sua
execução iminente.
Todas essas situações aparentemente arriscadas tornaram-se
perfeitamente seguras. Você também está sob a proteção de um grande e
poderoso Deus. Ele tem braços muito fortes. Nunca deixou ninguém cair.
Ele também não vai deixá-lo cair.
Mas você precisa confiar nele. Você vai ter de saltar.
Como dar esse salto de confiança?
Uma forma (que não é uma opção para os discípulos de Cristo) é
tentar viver sempre em situações de tranqüilidade. A revista Time
recentemente publicou uma matéria de capa sobre a tendência da vida
moderna: uma volta aos pequenos municípios. As pessoas estão fugindo
dos problemas, da pobreza e maus costumes da cidade grande para
buscar um lugar mais seguro, tranqüilo e confortável para se viver.
Não foi esse o tipo de paz que Jesus encontrou. Ao contrário, ele
experimentou grande perturbação. João conta que quando Jesus viu o
luto pela morte de Lázaro "comoveu-se profundamente em espírito, e
perturbou-se". Antes de sua própria provação, João diz que Jesus estava
profundamente perturbado e testificou: "em verdade vos digo que um de
vós me trairá".
Por amar Lázaro, Jesus ficou perturbado diante do terror da morte.
Por amar Judas, Jesus perturbou-se diante de sua traição e morte
espiritual.
Paulo, também, sabia que a paz de Cristo não era um passe livre
para escapar de uma profunda perturbação e preocupação. Ele conviveu
não apenas com o sofrimento exterior mas também com uma agitação
interior: "Além das coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre
mim, o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece, que também eu
não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me abrase?".
Você sabe o que é isso. Você cria seus filhos esperando que eles
vivam bem e com sabedoria. Às vezes, você ficará perturbado. Você vai
para a cidade e se preocupa com os desabrigados e pobres, ora por
amigos que estão perdidos ou são avessos a Deus e resistem a ele por
meses ou anos; você sabe o que é perturbação.
Não pense que o chamado à paz é uma busca por situações
cômodas.

Uma Forma de Pensar


Viver na paz de Jesus significa que precisamos começar a pensar e a
enxergar o mundo como o próprio Jesus enxergava. E preciso que "a
palavra de Cristo habite em vós abundantemente", diz Paulo. E o
fundamental na mensagem de Jesus era a sua insistência em que agora
mesmo em nosso mundo somos o objeto da contínua vigilância de Deus.
Jesus nunca se cansou de falar sobre isso. "Por que se preocupar
com a vida, com o que comer ou vestir?", ele diria.
"Veja os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam." Não
formam sindicatos florais, vivem sem planos estratégicos, nunca se
reestruturam. Não assistem a nenhum seminário de motivação para
aprender a libertar a árvore que lhes serve de abrigo à noite. Contudo, ao
lado deles, pareceria até que Salomão comprava roupas de brechó. Se
Deus esbanja uma beleza como essa numa planta que hoje existe, mas
amanhã deixará de existir, acha que ele não vestiria muito mais você, que
é o seu bem-amado?
"Veja as aves do céu", Jesus disse. Elas não são, em geral, criaturas
especiais. Não têm úlceras, pressão alta nem colite. Mas são alimentadas
pela mão de Deus.
Algum tempo atrás, eu e minha esposa vimos dois gansos e seus
gansinhos se alimentando. Um ganso adulto e nove filhotes comiam
plantas, enquanto que o outro adulto permanecia de guarda.
— Veja como a mamãe ganso protege a família —, Nancy disse.
— Como você sabe que é a mãe? Talvez seja o ganso pai — eu
disse.
— Não, é sempre a mãe que se sacrifica pela família, enquanto o pai
se farta junto com os filhos. É sempre a mesma coisa em qualquer espécie.
Nesse momento, os dois gansos adultos trocaram de lugar. O que
comia passou a vigiar e o outro começou a comer.
Fiquei tão agradecido a Deus.
Jesus disse que sempre que virmos um pássaro se alimentar de
sementes, não estaremos vendo um evento casual, mas o próprio amor
em ação. Ver um pássaro comer é algo tão comum que geralmente nem
nos damos conta. Mas não foi por acaso que ele encontrou comida.
Sempre que você acorda, pensa em alguma coisa ou saboreia uma
refeição, não está fazendo essas coisas por acaso. Elas são lembretes de
amor que o Pai distribui a toda a criação, na esperança de que alguém os
leia.
"Deixo-vos paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o
mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize."
Você já recebeu essa mesma atenção em sua vida.
Houve uma época em que você estava só e Deus lhe enviou um
amigo.
Houve uma época em que você precisou de sabedoria e orientação
e a encontrou em um livro, fita, mensagem ou palavras sábias que vieram
na hora certa.
Você estava desanimado e Deus lhe dedicou algum tempo,
enchendo-o de esperança e coragem.
Você foi tentado, mas sentiu uma força o conter e retomou o
autocontrole, deixando de fazer uma coisa que lhe seria extremamente
destrutiva.

Uma Forma de Cantar


Desde o início, a fé do povo de Israel, a fé do povo da igreja, é uma
fé que se expressa e se fortalece na música. Somos um povo que canta a fé
— mesmo que não cante muito bem. De alguma forma, quando
cantamos, as palavras encontram um caminho que liga a mente ao
coração.
A música conta a história de Cristo, desde o seu nascimento,
quando Maria, Zacarias e os anjos irrompem em cânticos, até o seu fim,
quando ele e seus amigos mais íntimos terminam a última Páscoa
cantando um hino antes de Jesus sair para a morte.
A música pode fortalecer a alma. O livro de Atos diz que Paulo e
Silas foram injustamente julgados, condenados e atacados por uma
multidão, despidos de suas roupas, castigados com varas, jogados na
prisão, colocados em uma cela afastada e amarrados em um tronco.
Então, a passagem diz: "Perto da meia noite Paulo e Silas oravam e
cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam" (como se
tivessem outra coisa para fazer!).
Como eles podiam cantar hinos na prisão? Porque eles sabiam que
— dado o Deus magnífico para quem eles cantavam — aquele era um
lugar perfeitamente seguro de estar.
Ê impossível ler os Salmos — mesmo que casualmente — sem
perceber que as músicas eram para o salmista tanto uma expressão de fé
quanto um veículo por meio do qual a fé encontrava forças. Cantar é, na
prática, sinônimo de confiar. "Mas confio no teu constante amor. [...]
Cantarei ao Senhor". Deus é quem inspira a música "à noite", quando
parece que não vale a pena cantar mais nada: "Tornaste o meu pranto em
folguedo; tiraste o meu pano de saco e me cingiste de alegria, para que a
minha alma te cante louvores, e não se cale".
Então, cantar torna-se uma parte vital da nova comunidade da
igreja. "Cante salmos, hinos e cânticos espirituais com o coração cheio de
gratidão a Deus", Paulo diz. Agostinho escreveu que, quando cantamos a
Deus, fazemos duas orações: uma com palavras e outra com a música do
coração.
Os momentos mais sublimes que temos com Deus são marcados
pela música: no funeral de alguém que amamos, quando testificamos com
a música que a morte não dará a palavra final; por alguns instantes no
culto, quando só a música consegue libertar nosso espírito; durante um
momento de devoção, em que precisamos dar voz a um voto solene de
obediência a Deus.
Quando cantamos, vemos que a música pode "fazer bem para a
alma", mesmo quando nada mais parece bem à nossa volta. Vemos que
este universo é um lugar bastante seguro de viver.

Uma Forma de Orar


Começamos a buscar a paz de Cristo quando praticamos uma
forma de orar em que há uma "entrega constante" a Deus: "Lançai sobre
ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós". Jogue para
Deus, Pedro está dizendo, como jogaria fora a água de um barco furado.
Os psicólogos falam da importância dos bebês aprenderem a ficar
sozinhos na presença de um dos pais, especialmente da mãe. Quando a
criança se convence de que a mãe é acessível, atenta e confiável, e de que
ela não será abandonada, toda a sua inquietação cessa. Ela não precisa ser
tocada e nem ver a mãe constantemente. Ela aprende a confiar. De certa
forma, o pai está presente mesmo quando a criança está só e, assim, a
solidão deixa de ser assustadora. Ela é capaz de explorar o seu mundo
com segurança.
Semelhantemente, na oração aprendemos a ficar sozinhos na
presença de Deus. Conversamos abertamente com ele sobre todas as
nossas preocupações e aflições. Passamos a crer que não fomos
abandonados, apesar de não podermos tocá-lo nem vê-lo. Ele está
conosco mesmo — e especialmente — quando estamos sozinhos.
Portanto, a solidão deixa de ser assustadora. Isso está implícito no belo
nome do Antigo Testamento, Emanuel: Deus conosco.
Precisamos aprender a entregar a Deus nossas inquietações, pois
são muitas. O mundo destrói a vida espiritual gerando uma inquietação
constante. Jesus disse em uma de suas parábolas que a vida de fé é
sufocada pelas "preocupações [inquietações] do mundo".
Sabemos que isso é verdade. Mas estamos mais amarrados e presos
ao mundo do que jamais estivemos em toda a história da humanidade.
Somos capazes de nos conectar ao mundo vinte e quatro horas por dia
com muito mais facilidade do que a Deus.
Temos canais a cabo, satélites, Fedex, telefones celulares, aparelhos
portáteis de fax, beeper e pager, e o correio eletrônico. Não existe
necessariamente nada de errado com toda essa tecnologia, mas ficamos
viciados nela, tornamo-nos escravos dela.
Richard Swenson, autor do livro Margin [Limite], contou de um
homem da Califórnia que volta para casa depois das férias e descobre que
recebeu mil e-mails. (Ele sugere que, para muitas pessoas, a melhor coisa
que se poderia receber é uma "linha sem telefone".)
Na verdade, estamos mesmo precisando é de vinte e quatro horas
de acesso a Deus.
Há uma forte relação entre inquietação e oração. Isso fica claro
quando Paulo diz: "Não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo,
pela oração e pela súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições
conhecidas diante de Deus".
Muitas vezes, pessoas perturbadas lêem palavras como essas e se
sentem mais perturbadas ainda porque são preocupadas demais. Mas
você não pode acabar com sua inquietação simplesmente pela força de
vontade.
A idéia é permitir que a inquietação se torne um caminho para 2 a
oração. Use a inquietação para reforçar a sua oração.
Da mesma forma que os cães de Pavlov ficavam condicionados a
salivar antes das refeições toda vez que ouviam o sino, podemos usar a
inquietação como uma deixa para a oração.
Não se preocupe com a intensidade de sua inquietação.
Simplesmente encaminhe suas preocupações para Deus.
Essa sensação perturbadora pode permanecer. Ou talvez não. Não
se deixe abater por isso. Sua tarefa não é garantir para que seus
sentimentos sejam "espiritualmente corretos".
Sua tarefa — a nossa tarefa — é sempre entregar nas mãos de Deus.
Você pode começar agora mesmo. Pense na coisa que mais o
preocupa. Pode ser um problema para o qual você não encontra resposta,
uma culpa que o persegue, uma responsabilidade que o sobrecarrega,
uma perda ou decepção que parece grande demais para se suportar.
Você tem carregado essa inquietação sozinho. Entregue-a para
Deus.
Uma Nova Forma de Sentir
Um amigo meu colocou a filha de cinco anos para dormir. Uma
hora depois de ajeitá-la na cama, ele voltou para ver se estava tudo bem e,
para sua surpresa, ela ainda estava acordada.
— Qual é o problema? — ele perguntou.
— Estava pensando.
— Sobre o quê?
— Estava pensando sobre ser noiva. Sabe? Um dia eu vou ser
noiva. Vou ter um casamento, vou usar um vestido especial. E você,
papai, será o meu príncipe.
Na cabeça dela, toda aquela história de noivas e princesas e noivos
e príncipes acabou se misturando. Ela seria uma princesa noiva.
— Isso é ótimo, querida, mas não posso ser o seu príncipe.
— Por que não? — ela protestou, contrariada com a notícia.
Então meu amigo teve de explicar que ele já era o príncipe da ãe
dela e que a sociedade acharia estranho se isso acontecesse.
— Bom, então quem vai ser o meu príncipe?
— Não sei. Talvez Aron, ou Brandon, ou um dos meninos que você
conhece. Ou não. Provavelmente, você nem o conheça ainda. Na verdade,
a melhor coisa a fazer, quando chegar a hora de escolher o príncipe, é:
deixe que o papai decide. Não faça nada que uma princesa faria sem falar
primeiro com o papai.
Há em todo coração humano um desejo permanente de ser o
príncipe ou a princesa de alguém. Queremos ser amados.
A Palavra diz que somos. Os autores da Bíblia usam os exemplos
mais diversos para nos convencer disso. O amor de Deus por nós é o
amor de um amigo que sacrificaria a vida por quem ele ama, o amor de
um pai pelo filho fugitivo, o amor da mãe que jamais permite que ela se
esqueça do filho. O amor de Deus por nós é mais apaixonado do que o
coração do noivo mais apaixonado por sua noiva.
Você é o bem-amado de Deus.
Essa ânsia de ser amado que existe em nosso coração é apenas um
vestígio do desejo de Deus de nos amar. Antes mesmo de você nascer, já
era amado por Deus. Esse é o maior segredo da sua identidade. Ele não
pode ser conquistado ou adquirido, apenas recebido com gratidão.
Nada do que você possa fazer fará com que Deus o ame mais do
que agora: nem uma obra mais grandiosa, nem mais beleza, nem mais
reconhecimento, nem mesmo mais espiritualidade e obediência.
Nada do que você já fez poderia fazer com que Deus o amasse
menos; nem seus pecados, nem seus fracassos, nem qualquer culpa ou
arrependimento.
A ironia é que passamos a vida tentando conquistar um amor que
só podemos receber quando admitimos a nossa pobreza de espírito.
João disse: "Vede quão grande amor nos concedeu o Pai, que
fôssemos chamados filhos de Deus. E somos mesmo seus filhos!".
Aprender a viver no amor de Deus é o desafio de uma vida inteira.
Martin Luther King escreveu: "Trata-se da inefável e infinita misericórdia
de Deus que o pobre coração do homem não consegue compreender e
muito menos expressar: é a incomensurável intensidade e o zelo
apaixonado do amor de Deus por nós".

Criando um Lugar Seguro para os Outros


Quando sentimos que estamos seguros nas mãos de Deus,
podemos começar a criar paraísos de segurança para os outros.
Há muitos anos, um amigo meu de Chicago começou o que ele
chamou de ministério de Emaús. As pessoas que eles estão tentando
ajudar são jovens com a idade aproximada de vinte anos que vêm para
Chicago e não têm família — na verdade, a maioria nem chega a conhecer
os pais. São vítimas de abuso de drogas que, para sobreviver, acabam se
tornando trabalhadores de rua — prostitutos. Não é um tipo de gente que
as pessoas amariam com facilidade.
Então essas pessoas do Emaús simplesmente andam pelas ruas de
Chicago à noite, das dez às duas ou três da manhã, e procuram pelos
bonecos de pano mais degradados. De vez em quando, algum homem
envolvido na prostituição dirá: "Não dá mais para agüentar. Será que
existe uma saída para esse inferno?". E, então, John e seu amigos oferecem
abrigo ou treinamento e tentam ajudar essa pessoa a encontrar uma saída.
Uma noite, John estava em sua sala com um homem chamado
Joseph. A esposa de John e alguns membros daquela pequena
comunidade que estavam sentados à mesa convidaram Joseph para jantar
com eles. Joseph sussurrou para John quando se sentaram:
— Nunca fiz isso antes.
John estava confuso.
— Fez o quê?
— Jantar com a família toda reunida à mesa. Nunca fiz isso.
Joseph era um jovem típico de seu mundo. Não conhecia seu pai,
sua mãe era viciada em crack e violenta, e ele tinha sido tirado de sua
casa quando com quatro meses de idade. Foi transferido de uma
instituição para outra da rede de assistência social. Já fazia parte de uma
gangue com onze anos de idade e foi para a prisão com dezesseis. Agora
estava com mais de vinte anos e nunca na vida tinha se sentado à mesa de
refeição com uma família de verdade. Nunca tinha passado pelo ritual
familiar de pai, mãe e filho passar a comida e se olhar diretamente nos
olhos e conversar sobre os acontecimentos do dia.
Ele estava constrangido:
— Nunca fiz isso, mas já vi fazerem na TV.
Quem vai contar para ele que ele não está sozinho? Quem vai
contar para Joseph que ele, também, é o bem-amado de Deus?
Nesses grupos de ajuda mútua, as pessoas geralmente se
apresentam dizendo: "Meu nome é Fulano. Sou alcoólatra". E uma forma
de acabar com a negação e aceitar a verdade de sua fraqueza. Já se
sugeriu que na igreja deveríamos nos cumprimentar dizendo: "Meu nome
é Fulano. Sou pecador". Provavelmente, não é uma má idéia.
Sei bem o que é gastar todo o tempo e energia tentando convencer
as pessoas de uma coisa que não sou. "Meu nome é Fulano. Sou um
pecador. Preciso dizer isso."
Mas há outras palavras que precisamos ouvir e dizer. De certa
forma, elas são muito mais difíceis de se dizer. Talvez sejam mais difíceis
ainda de se acreditar. As palavras são: "Meu nome é Fulano. Sou o bem-
amado. Sou amado por Deus".
Nós precisamos dessa palavras. Talvez você não possa dizê-las sem
dar risada ou não consiga dizê-las sem chorar.
Uma das passagens mais belas das Escrituras é Isaías 43. Deus está
falando ao seu povo e, embora as palavras sejam dirigidas para Israel,
elas também servem para nós. Leia e sinta as palavras de Deus para você.

Chamei-te pelo teu nome; tu és meu.


Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando
passares pelos rios, eles não te submergirão. Quando passares pelo
fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.
Pois eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu
Salvador [...]
Visto que és precioso e honrado aos meus olhos, e porque te
amo.

Talvez você deva escrever a última frase em um cartão e carregá-lo


consigo: "Visto que és precioso e honrado aos meus olhos, e porque te
amo".
Você é o bem-amado de Deus. O que mais você precisa conquistar,
provar ou adquirir? Você é o bem-amado de Deus. Quem mais você
precisa impressionar? Que outra escada você precisa subir?
Você é o bem-amado de Deus. O que você pode acrescentar ao seu
currículo que seja mais importante do que isso?
E se a sua vida fosse a experiência de viver no amor de Deus? Toda
manhã, quando você acordar, diga: "Sou o bem-amado". Toda noite, antes
de dormir, pense: "Sou o bem-amado".
Escreva essas palavras e carregue-as consigo. Sempre que for se
desesperar por causa de alguma coisa errada que fez, pegue o cartão e
leia-o. Quando acordar e se sentir sobrecarregado por tudo o que tem de
fazer, pegue e leia.
Pegue o cartão quando se sentir tentado a pecar a desonrar a Deus,
quando se sentir revoltado e quiser agredir, enganar ou usar alguém,
quando tiver medo, quando estiver perturbado ou quando estiver
sozinho. Lembre-se e alegre-se com essas palavras que dão vida.
O Deus que o ama é muito maior do que você pode imaginar. Você
pode não vê-lo nem ouvi-lo, mas ele está ao seu lado. Ele está vendo
tudo.
Patas enormes. Rugido feroz.
"Pois és precioso e honrado aos meus olhos, e porque te amo."
C A P Í T U L O 11
Deus busca os que se escondem
Então Deus se escondeu para que as almas se elevassem até a mais absoluta fé e
fossem capazes de descobri-lo por trás de todos os disfarces. Pois, quando conheciam
o segredo de Deus, disfarçar era inútil. Elas diziam: "Veja! Lá está ele, atrás da parede,
olhando através da grade daquela janela!". Ó Amor divino, esconda-se, desvie-se do
nosso sofrimento, faça com que sejamos obedientes. Engane, instigue e confunda a
todos. Destrua nossas ilusões e planos para que nos percamos e não possamos ver
nem o caminho nem a luz até encontrarmos você. [...] Pois como é triste, ó Amor
Divino, não poder vê-lo em tudo que é bom e em todas as criaturas.

JEAN PIERRE DE CAUSSADE

Uma forma de amar todas as coisas é perceber que nós podemos perdê-las.

G. K. CHESTERTON

N osso amado Deus, disse Jesus certa vez, é um pastor que não
deixa de buscar uma única ovelha, embora você pense que ele deve estar
satisfeito com as noventa e nove que ele já tem. Continuamos a nos
esconder, mas ele não se cansa de procurar.
Robert Fulghum escreveu que estava em seu escritório e ouviu as
crianças da vizinhança brincando de esconde-esconde. Ele
lembrou da sua infância. Lembrou-se especialmente de uma criança
que se escondia tão bem que chegava um momento em que todo o
mundo desistia de procurar — o que causava brigas sobre a verdadeira
natureza da brincadeira que era esconder, procurar e disputar.
Havia um garoto fora do escritório de Fulghum que se escondeu
tão bem que estava a ponto de ser abandonado. Fulghum pensou em
gritar: "Saia daí, garoto!", mas achou que isso iria piorar mais as coisas.
Os adultos, ele observa, também costumam se esconder muito bem.
Encobrimos nossas falhas, defeitos e medos e depois nos perguntamos
por que nos sentimos tão abandonados e sozinhos.
"Desejo de se esconder. Necessidade de ser resgatado. Indecisão em
ser encontrado": é um diagnóstico bem próximo da condição humana.
Fulghum observa que as informações sobre o próprio Deus foram
escritas na língua do esconde-esconde. Deus absconditus é termo antigo
que significa o Deus que se esconde.
Mas Fulghum tem um palpite de que Deus é aquele que procura e
não o que se esconde. Ele prefere uma brincadeira chamada sardinha:
uma pessoa, a sardinha, se esconde e os outros procuram por ela; mas
cada um que a encontra, fica junto com ela escondido até juntar um grupo
tão grande de crianças que, pelos seus risinhos e gritinhos, fica impossível
não descobrir o esconderijo.
"Acho que Deus gosta mais de brincar de Sardinha. E será
encontrado da mesma forma que todo mundo nessa brincadeira: pelas
risadas dos que ficam amontoados no final."
A Bíblia diz: "Então ouvindo a voz do Senhor Deus, que passeava
no jardim pela viração do dia, esconderam-se o homem e sua mulher da
presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. Mas chamou o
Senhor Deus ao homem, e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu:
Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu, e escondi-me".

Desejo de Se Esconder. Necessidade de Ser Resgatado.


Indecisão em Ser Encontrado
Esconde-esconde é uma brincadeira bem simples. Uma pessoa
procura e todas as outras se escondem. É mais divertida para quem se
esconde. Aquele que se esconde, pode escolher um lugar e tem de ficar de
olhos abertos. Quem se esconde tem todo o controle. Todo mundo quer se
esconder.
A parte mais difícil é procurar. O pegador deliberadamente permite
que os outros se escondam. Ele se coloca na posição humilde de procurar
pelas pessoas que intencionalmente fogem e riem dele. Ninguém quer
fazer esse papel.
O pegador nem tem um nome específico. Em outras brincadeiras, o
personagem principal pelo menos tem um título importante: atacante,
lançador, goleiro. O que procura é simplesmente isso, é ele ou ela. Não é
capitão isso, nem major aquilo, mas simplesmente o que procura. De fato,
o grito que inicia a brincadeira se resume em: "Lá vou eu!".
Mas seja lá quem ele for, tem de ser muito paciente. Ele vai ter de
procurar muito. Vai ter de enfrentar evasão e trapaça.
No final da brincadeira, se sobrar alguém que está muito bem
escondido, ele vai ter de gritar que a brincadeira acabou, que o caminho
está livre, que a pessoa pode voltar em segurança, pois nada vai lhe
acontecer. Ela pode voltar, como o filho pródigo que veio e recebeu um
banquete. Chega de se esconder. Venha para casa. E um grito de graça.
A história de Deus e da raça humana é uma história de esconde-
esconde. O único problema é que ficamos um pouco confusos às vezes
sobre quem vai ser o pegador.
Um adesivo de carro muito popular tempos atrás em alguns
círculos da igreja dizia: EU ENCONTREI. No sentido estritamente teológico, o
slogan está invertido. A verdade é: ele me encontrou.
Normalmente, quem está numa jornada espiritual pensa que é ele
quem procura. E, é claro, há uma certa verdade nisso. Ele faz perguntas,
lê livros, assiste aulas, procura a verdade que geralmente parece se
esquivar. Ele procura a Deus. A Bíblia diz: "Buscar-me-eis, e me achareis,
quando me buscardes de todo o vosso coração".
Mas essa não é toda a história. Não somos apenas aquele que
busca, mas também o que se esconde. Precisamos enfrentar o costume de
nos esconder, de nos perder.

Desejo de se esconder
Eu me escondi, dia e noite
Eu me escondi, anos enfim
Eu me escondi, no labirinto da minha mente
E dele me escondi mergulhado em lágrimas
Carregado numa correnteza de risos sem fim

Esconder-se é sempre a primeira reação à consciência de que se


pecou. Foi isso o que Francis Thompson escreveu no seu magnífico
poema chamado The hound of heaven [O perdigueiro dos céus]. Eu me
escondo de Deus num momento que se transforma em décadas. Eu me
escondo atrás de explicações lógicas e da negação — "no labirinto da
minha mente". Eu me escondo, apesar das lágrimas e dos risos que me
levariam de volta para ele se eu quisesse.
Essa tem sido a fuga da raça humana desde o Éden. O homem não
foi feito para se esconder. Desde o início, nosso maior desejo foi conhecer
e ser conhecido. É isso o que está dizendo esta passagem de Gênesis sobre
Adão e Eva: "Eles estavam nus e não sentiam vergonha". Nada de
esconderijos. Não havia motivo para se esconder. O conhecimento era
pleno.
Com o pecado, perdeu-se tudo. Depois da queda, quando Deus
veio encontrar-se com Adão, a reação dele foi que, quando ouviu a voz de
Deus no jardim, ficou com medo, pois percebeu que estava nu e por isso
se escondeu.
Essa é a nossa história. Nós nos escondemos porque não queremos
ficar expostos em nossa decadência, em nosso lado sombrio. Nós nos
escondemos porque temos medo de nunca mais sermos amados se a
verdade sobre nós for conhecida. Nós nos escondemos dos outros, nos
escondemos de Deus, nos escondemos da verdade e, de certa forma, nos
escondemos de nós mesmos.
O pecado e o ato de se esconder estão ligados para sempre, são
gêmeos siameses de alma pecadora.
A certa altura da vida, meu irmão Bart decidiu que queria ter
acesso irrestrito à lata de biscoitos. Ele queria, apesar de minha mãe ter
deixado bem claro que ela era o fruto proibido da cozinha. Podíamos
comer qualquer legume ou fruta livremente, mas a Lata do Conhecimento
do Bem e do Mal significaria a morte.
Mas Bart acreditava (e os psicólogos dizem que é uma coisa muito
comum até determinado estágio do desenvolvimento) que, contanto que
ele não visse ninguém, ninguém o veria também. Então ele foi para a
cozinha, com os olhos apertados e com uma das mãos esticada de um
lado do rosto para se esconder. Bartus absconditus. Ele entrou de fininho,
tateando com a mão livre pelo armário da cozinha e pelo aparador até
encontrar a lata de biscoitos. Então, abriu a lata, pegou os biscoitos e saiu
sorrateiramente sem nem abrir um olho. Meus pais acharam tanta graça
que não o impediram (mas eu não achei toda essa graça, mesmo porque
ele já estava com dezessete anos nessa época...).
A ironia é que nos escondemos porque temos medo de que toda a
verdade a nosso respeito seja conhecida e com isso os outros deixem de
nos amar. Mas o que está escondido não pode ser amado. Só se pode amar
o que se conhece. Só podemos ser completamente amados se nos
deixarmos conhecer completamente.
Quando escondemos alguma parte de nós, tentamos convencer os
outros de que somos melhores do que de fato somos. Se formos bons
nisso, dá até para enganar. Podemos até ganhar o afeto e o amor dos
outros. Mas uma voz interior vai ficar sempre nos importunando: tudo
bem, mas, se ele soubesse a verdade a meu respeito, se encontrasse meus
esconderijos, deixaria de me amar. Ele ama quem ele pensa que eu sou. Não
ama a mim realmente, pois não me conhece de verdade.
Adão estava fazendo algo bem semelhante. Mas talvez o mais
surpreendente tenha sido a atitude de Deus. Quando ele entra no jardim,
pergunta: "Onde estás?".
Por que Deus perguntaria isso? Será que um Deus onisciente ficaria
confuso? Deus estaria mesmo incerto quanto ao paradeiro de Adão?
Passei anos lendo essa pergunta sem perceber a sua importância.
E uma das perguntas mais marcantes da Bíblia. Deus está
permitindo que Adão se esconda dele. Deus não quer que ninguém seja
forçado a se apresentar, nem mesmo por ele. Deve acontecer
espontaneamente, com desejo sincero do coração. Deus concede a cada
ser que criou a liberdade de decidir se quer ou não ser conhecido por ele.
Deus cobre os olhos com as mãos.
Mas isso vai muito além. Deus não apenas permitiu que Adão se
escondesse, mas foi ele quem veio procurá-lo. É ele quem toma a
iniciativa de restaurar a intimidade perdida, mesmo sendo Adão o
fugitivo. Depois de contar até cem, ele avisa: "Lá vou eu".
"Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas", diz o profeta
Isaías.
Quem se esconde? O homem que sabe que precisa mudar suas
prioridades, cujos filhos não o conhecem, que não se lembra da última
vez em que fez uma oração sincera, de quem todo ato é calculado
pensando no sucesso, mas que é tão viciado nisso que se recusa a
enxergar a verdade e a permitir que os outros a conheçam. Ele está se
escondendo.
Quem se esconde? A mulher que está cheia de raiva de sua mãe,
marido ou filhos, ou de Deus, porque não tem um marido, ou o marido
que queria. Mas sua raiva está congelada. Ela não permite nem a si
mesma conhecê-la. A raiva simplesmente se evapora e corrói todos os
seus relacionamentos e seu coração. Ela está se escondendo.
Duas pessoas que freqüentam a igreja durante anos, levam uma
vida amigável e respeitável mas cujo casamento está morto, perderam
toda a intimidade da relação, não fazem amor e nem se divertem há tanto
tempo que já até se esqueceram. Eles estão se escondendo.
Usamos as palavras para nos esconder. Os agressores reconhecem
apenas que são "impacientes" com os filhos porque eles os perturbam. A
arrogância é chamada de auto-afirmação, a fofoca acontece sob o pretexto
de ajudar o outro a "orar com mais inteligência", a promiscuidade sexual,
contanto que se fique com um parceiro de cada vez, foi batizada de
"monogamia em série", a ganância por dinheiro é justificada pela
desculpa de se estar "fazendo o que é melhor para a família", a preguiça
agora é chamada de "falta de motivação" e as prostitutas são chamadas de
"deusas do sexo".

Necessidade de ser resgatado


Cheio de esperanças eu me apressei...
Longe das fortes pegadas que se seguiram,
me seguiram.
Mas numa caçada lenta
Em ritmo constante
Passos calculados, numa urgência sublime
Eles ecoam, e uma voz ecoa
Mais urgente do que as pegadas
"Tudo conspira contra vós,
mas vós conspirais contra mim".
FRANCIS THOMPSON, THE HOUND OF HEAVEN
Eu me escondo e fujo, mas Deus vem me buscar, sem pressa,
impassível, continuamente: o perdigueiro dos céus.
Na história de Jesus sobre a ovelha perdida, um animal se perde e
não consegue achar o caminho de volta sozinho. A ovelha não é um
animal muito inteligente. Todo mundo sabe que os animais com uma
certa inteligência acabam ganhando um programa de TV só para eles: os
golfinhos tinham o Flipper, os gatos têm o Garfield, os cachorros e
cavalos têm tantos que nem vale a pena citar, até os porcos já tiveram
seus representantes na TV e no cinema. Mas a celebrada ovelha é difícil de
aparecer.
As ovelhas são notórias criaturas de hábitos arraigados. Quando
sozinhas, andam pelo mesmo caminho até ele afundar, pastoreiam nas
colinas até elas virarem um deserto, poluem o solo do qual se alimentam
até ele ficar cheio de doenças e parasitas.
As ovelhas não são animais de iniciativa. Elas são maria-vai-com-
as-outras. Se uma delas for para um precipício, o rebanho inteiro irá atrás.
Você imagina que uma delas, em algum ponto do caminho, vai perceber,
parar e pensar: Humm. Sally foi para o precipício e nunca mais voltou. Acho
que vou parar por um instante antes de pular para lá cegamente.
Mas isso nunca acontece. As ovelhas pensam apenas: Bom, tudo
bem, acho que vou tentar também. Não parece uma má-á-á idéia.
Os pastores contam de ovelhas "empacadas", ovelhas que quando
caem de costas no chão, ficam paralisadas. O escritor e pastor Philip
Keller explica:
O fenômeno acontece da seguinte forma. Uma ovelha pesada,
gorda e sem tosquia deita-se confortavelmente em um pequeno buraco
ou depressão no chão. Ela rola um pouco para os lados tentando se
esticar ou relaxar. De repente, seu centro gravitacional muda tanto, que
seu corpo vira de costas e suas patas suspendem para o ar. Ela entra em
pânico e esperneia freneticamente, o que piora ainda mais as coisas. Seu
corpo acaba virando ainda mais e se torna quase impossível voltar à
posição normal.
Enquanto ela se debate, gases começam a se formar na pança [o
estômago dela]. Conforme eles se expandem, começam a diminuir e até
parar a circulação sangüínea nas extremidades do corpo, especialmente
nas pernas. Se estiver fazendo muito sol e calor, a ovelha emperrada pode
morrer em poucas horas.
Não dá para ficar sozinho se escondendo. Precisamos ser
encontrados. Muitas vezes na vida, essa busca acontece na forma de uma
pessoa que nos ama em nome de Deus, mesmo conhecendo os defeitos
que tentamos esconder.
Uma noite em casa, não faz muito tempo, desci as escadas e Nancy
estava trabalhando na cozinha. Eu devia estar no andar de cima passando
o aspirador ou coisa parecida. Nancy perguntou:
— Me ajuda a guardar a louça?
— Claro. Estou aqui para servir. Faremos isso juntos.
Depois de trabalhar nisso comigo por alguns minutos, ela começou
a fazer o balanço no talão de cheques.
Embora tenha sido uma seqüência muito natural de
acontecimentos, isso ficou registrado de alguma forma em minha mente e
sem perceber acabei concluindo: se ela vai parar por aqui, eu também vou.
Então comecei a preparar o café para o dia seguinte — eu tomo café
e ela não. Nancy disse:
— Você está fazendo café?
Entenda, ela não estava me perguntando para obter uma
informação do tipo: "sim, estou fazendo um delicioso café para amanhã".
Por isso eu respondi:
— Bom, você parou primeiro para mexer na contabilidade.
— Ah, mas isso é uma coisa que faço para nós dois e o café é
somente para você.
Era verdade, mas a essa altura eu já tinha perdido toda a sutileza
da questão.
Isso nos levou a uma discussão fascinante sobre a divisão do
trabalho, sobre a Bíblia e os papéis de cada um dos sexos, a influência da
família de cada um na nossa educação e revelações interessantes sobre as
nossas mães.
Quando terminamos e chegamos a uma conclusão, percebi uma
coisa estranha. Nancy estava pronta para restabelecer a nossa intimidade,
mas eu ainda sentia necessidade de me manter afastado dela.
Na minha cabeça estava passando mais ou menos o seguinte:
Vou me afastar dela e me fazer de vítima. Vá em frente, jogue toda a
culpa em cima de mim. Lincoln libertou os escravos, todos menos uma.
Quando ela perceber que me magoou e me deixou triste e que estou certo, vai
se sentir péssima. Aí ela vai fazer exatamente o que quero. Posso controlá-la e
manipulá-la me escondendo estrategicamente.
Mas, até agora, parece que a estratégia ainda não deu muito certo.
Esconder-se torna-se, para nós, não apenas uma forma de evitar a
dor e o constrangimento, mas também de punir aquele que sabemos
deseja estar em comunhão conosco.
Quando conseguimos tomar coragem e parar de nos esconder?
Quando somos amados. Em O fantasma da ópera, o fantasma usa uma
máscara para esconder sua face desfigurada. Ele vive nos bastidores de
uma casa de ópera, para ocultar sua presença e seus pecados. Mas uma
mulher chamada Cristina toca o seu coração. No clímax da história, ele
tira a máscara. Nesse momento, ele decide se revelar, se expor. Ele sabe
que sua face é repugnante e espera que ela grite em terror, mas isso não
acontece. O coração dela se enche de dó e compaixão. Ela não vira o rosto
e gentilmente beija sua face marcada por cicatrizes.
O amor dela o transforma, pelo menos um pouco. Ele a deixa partir
em liberdade, mesmo sabendo que isso acabará com seu sonho. Quando
ele consegue parar de se esconder naquele momento, é visto e amado
pelo que realmente é, apesar de sua deformação. Primeiro, é preciso
deixar a mascara cair para que o amor penetre no coração.

Indecisão em ser encontrado


Um passo que hesito em dar
Será a minha obscuridade, afinal
A sombra de sua mão, estendida carinhosamente?
"Ah, cegos, fracos, bem-amados,
Sou aquele a quem procurais!
Vós tendes sede de meu amor e eu, de vosso"

FRANCIS THOMPSON, THE HOUND OF HEAVEN

Lucas conta a história de um homem que se escondia, um cobrador


de impostos chamado Zaqueu.
Em Israel, algumas profissões carregavam um forte estigma social.
Elas eram consideradas "negócios desprezíveis" e nenhum judeu que se
considerasse sério as praticaria. Os líderes religiosos faziam uma lista
desses negócios e advertiam as pessoas a escolher outras profissões.
Algumas atividades davam listas pequenas. No final de uma delas,
estavam os médicos e os açougueiros (porque são tentados a abastecer os
ricos e ser injustos com os pobres) e comentários do tipo: "O melhor
dentre os médicos está fadado ao inferno e o mais digno dentre os
açougueiros é amigo do diabo".
Algumas profissões eram incluídas nas listas não por serem
desonrosas, mas simplesmente porque eram consideradas repugnantes.
Numa das listas estava o curtidor de peles e o coletor de estrume. A
limpeza do estrume era realmente uma opção de carreira. Se o marido de
uma mulher se tornasse um coletor, ela até ganhava o direito de se
divorciar dele e receber uma indenização em dinheiro. Mesmo que
tivesse casado sabendo que ele entraria para a profissão, nas palavras de
um rabino, poderia alegar: "Eu achava que iria suportar, mas não posso".
Havia algumas profissões, no entanto, que não eram apenas
desagradáveis, mas imorais. As pessoas que praticavam essas atividades
além de não serem apreciadas pelos outros, eram evitadas. Aqui está uma
dessas listas:
• Jogador de dados
• Agiota (por considerarem que eles exploravam os pobres)
• Treinador de pombos (nada contra os pombos; a corrida de
pombos era considerada uma forma de jogo)
• Cobrador de impostos
Israel foi invadida por Roma e Roma estava basicamente
interessada em saber quanto dinheiro conseguiria arrancar do país.
Então, em vez de romanos, eles colocaram israelitas para cobrar os
impostos.
Eles faziam um leilão pelo direito de ser cobrador de impostos de
uma determinada área. Quem fizesse a melhor oferta ganhava o direito.
Essa pessoa poderia cobrar tantos impostos quanto quisesse e tinha de
dar a Roma o valor de sua oferta. O que restasse, poderia ficar para ela.
Por isso, os cobradores de impostos eram traidores que vendiam
seus irmãos e irmãs para o inimigo por dinheiro. Supunha-se, portanto,
que todo cobrador era culpado de grande desonestidade. Havia um
ditado que dizia: "para os cobradores de impostos, o arrependimento é
difícil", porque eles enganavam tanta gente que não saberiam nem quem
procurar para se retratar e corrigir seu erro. Um escritor romano escreveu
certa vez que uma cidade chegou a erguer uma estátua para um cobrador
de impostos que era honesto.
Além de serem odiados, os cobradores de impostos perdiam seus
direitos políticos nem civis. Não poderiam servir como testemunha em
julgamentos e eram proibidos de julgar. Um israelita respeitável não
permitiria nem que a bainha de seu manto tocasse no manto de um
cobrador de impostos.
Se você quiser ter uma idéia do que isso significava, pense nas
categorias mais desprezadas da sociedade, como um traficante de drogas
ou mafioso assassino.
O que levou Zaqueu a querer entrar para uma profissão que o
tornaria odiado?
Não sabemos muito sobre Zaqueu, a não ser que tinha uma
característica física importante. Para um homem ser considerado atraente,
deveria ter três características: ser alto, moreno e bonito. Zaqueu tinha
duas delas, mas na terceira falhava redondamente. Ele era, como se
costuma dizer quando criança, um "tampinha".
Talvez Zaqueu tivesse decidido mostrar aos outros que poderia ser
um grande homem da única maneira que conhecia. O dinheiro tornou-se
a maior motivação em sua vida.
De qualquer forma, tornou-se um cobrador de impostos e era bom
no que fazia. Era um chefe de cobradores e tinha funcionários para fazer
o trabalho por ele. E era rico. E justo assumir que era altamente corrupto.
Tinha desistido da sociedade, dos amigos, da decência; apostou tudo que
tinha pensando que a riqueza lhe traria satisfação e daria um sentido à
sua vida.
Não estava funcionando. As posses, riquezas, segurança e poder
pelas quais vendeu sua alma não estavam compensando. Tudo conspira
contra vós, que trais a mim. Alguma coisa em Jesus o deixou intrigado. É
bastante fácil imaginar o quê.
O evangelho de Lucas conta que Jesus buscou um cobrador de
impostos para ser um de seus discípulos e amigos. Não apenas isso, Levi
— cobrador de impostos (também conhecido por Mateus) que tinha se
tornado um dos discípulos de Jesus — fez uma festa para seus colegas
também cobradores e Jesus compareceu a ela. Os líderes religiosos
desafiaram-no dizendo: "Por que corneis e bebeis com cobradores de
impostos?".
Um acontecimento como esse se espalha com a maior facilidade.
Jesus vai a uma festa de cobradores de impostos. Um de seus discípulos
já tinha exercido essa profissão. Zaqueu queria ver o homem que andava
com gente como ele.
Zaqueu queria ver Jesus, mas a multidão o impedia. Quando se é
coletor de impostos, não se deve esperar muita simpatia no meio de uma
multidão. As pessoas não dariam espaço para um cobrador de impostos
baixinho poder ver. É bem provável que haveria muitos empurrões,
cotoveladas e palavrões se um cobrador de impostos fosse estúpido o
suficiente para entrar ali.
Então ele subiu em uma árvore. Ele subiu para ver sobre a
multidão. Mas pode ser também que tenha subido para se esconder.
Conhecer e ser conhecido era seu grande desejo e seu maior medo.
Jesus chega mais perto e Zaqueu fica satisfeito porque terá uma boa
visão.
Porém, de repente, ele não apenas está próximo, mas pára bem do
lado da árvore e olha para cima. Toda a multidão, centenas de pessoas,
olham para a árvore como ele.
— O que ele está olhando?
— Não sei; parece que tem uma criança lá em cima. Jesus diz:
"Zaqueu". Uma única palavra bastou para deixar a multidão bastante
agitada.
Imagine como Zaqueu se sentiu. Ele pensava que ia ficar escondido
numa árvore, seguro, olhando à distância e, de repente, Jesus e todo
mundo que ele conhece olha para ele em cima de uma árvore.
"Zaqueu." A multidão prende a respiração para ver o que vai
acontecer a um cobrador de impostos corrupto e traidor.
"Zaqueu," Jesus diz, "desce; não dá para a gente conversar aqui.
Anda, depressa".
E ele disse o que ninguém esperava ouvir, muito menos Zaqueu:
"Hoje eu devo pousar em sua casa". Imagine uma pessoa assim, que é
evitada por todas as pessoas educadas e decentes. Agora, imagine Jesus
caminhando até ela e tratando-a com educação e dignidade — não apenas
tocando-a, mas pedindo para ir à casa dela, para sentar-se e comer com
ela — e você terá uma idéia do choque e da confusão que todo mundo
sentiu. Zaqueu obedeceu. Desceu da árvore.
Ele finalmente descobre a verdade: sua vida inteira tinha sido
construída na ganância e desonestidade. Tinha pecado contra seu Deus e
seu povo. E sai de seu esconderijo.
A revista Time incluiu um novo serviço telefônico algum tempo
atrás. Era uma "linha de desabafo", um serviço com capacidade para
receber duzentas ligações telefônicas por dia de pessoas que ligavam
apenas para desabafar alguma coisa. Houve confissões de todo tipo,
desde infidelidade conjugal até assassinato.
Há um outro número, cuja ligação é mais cara, em que as pessoas
podem discar e pagar para ouvir as confissões. Eles recebem até dez mil
ligações por dia.
Por que as pessoas pagam para confessar? Porque o coração
humano não sabe lidar com a culpa do segredo de uma desonra. É uma
forma de confessar a culpa sabendo que não se vai ser julgado por isso.
As pessoas desejam conseguir algum alívio contando a verdade a seu
respeito.
Imagine que, em vez de Zaqueu, você estivesse na árvore. Você
deseja ver Jesus e, contudo, em parte tem medo de vê-lo, porque sabe que
a sua vida não está à altura dele. Imagine-se nessa árvore, querendo que
Jesus o veja e que não o veja ao mesmo tempo. Se Jesus aparecesse hoje e
o visse na árvore, o que ele teria para falar com você? O que você procura
esconder sobre sua vida?
Parte de nossa degradação é querer viver com problemas enormes
sem que ninguém saiba a respeito deles.
Quando saía de casa para ir a algum lugar, minha mãe sempre
procurava saber se minhas roupas estavam limpas, não apenas a roupa
normal, mas a roupa íntima, meias e peças que os outros não podem ver.
Por quê? Não porque era mais confortável, saudável ou higiênico, mas
caso eu sofresse algum acidente.
Ela não estava preocupada com o acidente. Ela apenas queria
garantir que quando a polícia viesse checar se eu tinha ficado aleijado,
desfigurado ou paralisado, pelo menos eles não pensariam que minha
mãe me deixava sair de casa com a roupa íntima suja.
(Por um longo tempo, achei que essa era a primeira coisa que a
polícia checava em acidentes: "A coisa está feia; não sei se ele vai agüentar
um deles diria. "Tudo bem. É melhor então a gente checar a roupa íntima
dele para vermos que tipo de mãe ele tinha".)
Repare na atitude de Jesus. Poderíamos esperar que ele dissesse
algo do tipo: "Zaqueu, se você limpar a sua vida, mudar de profissão e
pagar o que deve, irei à sua casa. Não irei agora, pois pareceria que estou
perdoando o que você fez. Francamente, não posso me dar ao luxo de
permitir toda a crítica negativa que isso causaria, mas limpe a sua vida e
eu irei com você".
Mas Jesus não disse isso. O Perdigueiro dos Céus insistiu em
favorecer Zaqueu mesmo antes de ele ganhar respeito. Lucas é bastante
claro a respeito da repercussão disso: "Todos os que viram isso"
começaram a murmurar, diz ele.
O problema era que eles eram mais religiosos que Jesus (uma
religiosidade distorcida, é claro). Esse é um sinal de alerta: se você se
achar mais religioso do que Jesus, é porque passou dos limites.
E então Zaqueu saiu de seu esconderijo. Ele diz que pagará a quem
enganou o quádruplo do valor. Por lei ele era obrigado a pagar apenas o
que tinha tomado mais uma multa de vinte por cento. Mas ele foi mais
além para compensar a ganância com generosidade. E não parou por aí.
Além dessa compensação, ele disse que daria metade de tudo o que tinha
para quem precisasse.
O sinal de uma vida que foi realmente encontrada é quando o
maior desejo em reposta ao erro se torna a vontade de consertar as coisas,
enquanto for possível. Essa é a diferença entre arrepender-se e controlar-
se para não prejudicar ninguém.
O serviço de imposto de renda tem um fundo especial chamado
"conta do trapaceiro". A idéia é oferecer um serviço às pessoas que
extorquiram impostos e se sentem culpadas. Então quem trapaceou na
cobrança de impostos pode enviar dinheiro anonimamente para
compensar. O IR deve receber uma carta dizendo: "Passei anos cobrando
impostos injustos e por isso me sinto culpado e não consigo dormir à
noite. Anexo encontra-se uma ordem de pagamento de 10 mil reais. P.S.:
Se ainda não conseguir dormir, enviarei o restante que permaneço
devendo".
Zaqueu — por mais desgraçado e desprezado que fosse — estava
apenas a um passo de alcançar a intimidade com Deus, bastando uma
confissão sincera. Ele estava tão perdido quanto se pode estar, mas estava
muito próximo de viver no reino de Deus.
Para todos que desejam se esconder, precisam ser resgatados e
estão indecisos se querem ser encontrados, Deus falou através de Jesus
Cristo: "Você está salvo. Pode sair de onde quer que esteja. Acabou o
tempo de se esconder. Chegou a hora de voltar para casa. Você não será
castigado, punido, nem pego. Apenas volte para casa. Confie em mim".
Para todos aqueles que têm se escondido bem demais, Deus diz:
"Saia daí, criança! Venha para casa".
C A P Í T U LO 12
0 Deus degradado
O Verbo se fez carne, e habitou entre nós. Vimos a sua glória, a glória como do
unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

JOÃO 1.14

— Você sabe qual é a personagem mais trágica da Bíblia? — ele me perguntou.

— É Deus, abençoado seja o seu nome. Deus cuja criação o decepciona e trai com
tanta freqüência.

ELIE WIESEL

P or que será que temos de contemplar a glória de Deus


encarnados — como simples e limitados mortais: por que Deus veio para
se tornar um de nós? Por que ele é o Deus da manjedoura, o Deus da
cruz?
O filósofo dinamarquês S0ren Kierkegaard contou uma parábola
sobre o motivo de Deus comunicar o seu amor da forma como fez.
Imagine um rei que amava uma humilde donzela, disse
Kierkegaard. Ela não tinha sangue real, nem instrução e nenhuma posição
na corte. Usava roupas esfarrapadas. Morava numa cabana. Levava a
vida dura de uma camponesa. Mas por motivos que ninguém jamais
imaginou, o rei apaixonou-se por ela, como às vezes acontece. O motivo
de seu amor por ela é inexplicável, mas ele a amava. E isso ele não podia
controlar.
Então, um pensamento começou a afligir o rei: como ele revelaria o
seu amor àquela moça? Como ele venceria o abismo da condição
financeira e da situação social que os separava? Seus conselheiros, é claro,
diriam para simplesmente ordenar que ela se tornasse rainha, pois ele era
um homem de grande poder — os estadistas temiam sua fúria, as
potências estrangeiras tremiam diante dele, os cortesãos abaixavam a
cabeça à palavra do rei. Ela não teria como resistir; ela ficaria lhe devendo
sua gratidão eterna.
Mas o poder — até mesmo ilimitado — não pode impor o amor. Ele
poderia forçar seu corpo a apresentar-se diante dele, mas não poderia
forçar o amor por ele em seu coração. Ele poderia conquistar sua
obediência dessa forma, mas a idéia da submissão coagida não lhe
agradava. Ele buscava a intimidade do coração e a unidade do espírito.
Nem todo o poder do mundo é capaz de abrir o coração humano. Essa
porta precisa ser aberta de dentro para fora.
Seus conselheiros poderiam sugerir que o rei abdicasse do seu
amor e entregasse seu coração a uma mulher mais digna. Mas isso o rei
não faria, nem conseguiria fazer. E assim seu amor tornou-se também um
tormento. Kierkegaard escreve: "Que imenso pesar [jaz] nesse amor
infeliz. [...] Nenhum homem está fadado a sofrer tanto. [...] Deus reservou
esse pesar para si, essa tristeza incomen-surável. [...] Pois o amor divino é
um amor insondável que nunca encontra descanso".
O rei poderia tentar construir uma ponte entre o abismo que os
separava elevando-a à sua posição. Ele poderia enchê-la de presentes,
roupas de seda e veludo e coroá-la rainha. Mas se ele a trouxesse para o
palácio, se deixasse que o brilho da sua realeza se irradiasse sobre ela, se
ela visse toda a riqueza, poder e pompa de sua grandeza, poderia ficar
impressionada. Como ele (ou mesmo ela) saberia se ela o amava pelo que
ele era ou por tudo o que ele lhe teria dado? E ela, saberia que ele a
amava, e continuaria amando, mesmo que ela permanecesse na condição
de humilde camponesa? "Sua certeza seria forte o suficiente para esquecer
para sempre exatamente do que o rei não queria se lembrar, que ele era
rei e ela uma humilde serva?"
Todas as outras alternativas também não serviram. Havia apenas
uma saída. Então, um dia, o rei levantou-se, saiu do trono, tirou a coroa,
abdicou de seu cetro e abandonou o seu manto real. Ele assumiu a vida
de um camponês. Usou roupas esfarrapadas, com muita dificuldade
trabalhou na terra, implorou por comida, morou numa cabana. Ele não
apenas assumiu a aparência externa de um servo, mas seu próprio modo
de vida, sua natureza e sofrimento. Kierkegaard diz: "Mas a servidão não
é simplesmente uma roupa e, portanto, Deus precisa passar por tudo,
suportar todas as coisas [...], Ele precisa ser abandonado à morte, ser o
mais humilde de todos, contemplar o homem! Seu sofrimento não é o da
sua morte, mas o de uma vida inteira; e é o amor que sofre, o amor que dá
tudo é o que está em necessidade". Ele se tornou tão degradado quanto o
ser que ele amava, para que ela pudesse se unir a ele para sempre. Essa
foi a única saída.
Sua degradação tornou-se exatamente a marca de sua presença:
"Isto vos servirá de sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado
numa manjedoura".
"As raposas têm covis, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do
Homem não tem onde reclinar a cabeça."
Este é o Deus que tirou o manto e vestiu-se com a roupa de seus
servos e com ela enxugou os pés de seus discípulos. É o Deus sobre o qual
se disse em Isaías: "Não tinha parecer nem formosura; e, olhando nós
para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos". É o Deus
que, no fim, foi ridicularizado e vestido com um manto vermelho e,
depois, dele despido para ser crucificado com uma coroa de espinhos. De
todos os deuses da mitologia, literatura e religião, ele é o único Deus
degradado.

A Glória de Deus
Deus veio à terra. Nós contemplamos sua glória. Não a glória de
tronos e coroas. Não, sua glória é a de quem deixaria tudo isso de lado
por pobres camponeses degradados e pecadores como nós.
João diz: "Ninguém nunca viu a Deus". Deus é o único Filho, que
está próximo do coração do Pai, que se fez conhecido.
Quando a Bíblia diz que ninguém nunca viu a Deus, ela não está
falando obviamente de ver a forma física, no sentido mais comum da
palavra. Deus não se limita a um corpo físico; ele é espírito. A idéia não é
que Deus é um tipo recluso e esquivo como foram Howard Hughes e
Greta Garbo no fim da vida.
A verdade a ser dita é que ninguém nunca conheceu realmente a
verdade sobre Deus. Ninguém interpretou e compreendeu seu caráter e
natureza. Temos algumas idéias e descrições a respeito dele, mas as
imagens e interpretações erradas que fazemos estão sempre em ação,
distorcendo a visão que temos dele de uma forma ou de outra. C. S. Lewis
escreve em Cartas do inferno sobre a importância de orar a Deus pensando
nele "como ele realmente é" e não apenas "como acho que ele é". Lembrar-
se dessa diferença, falar com Deus pensando "como ele realmente é", é a
oração mais arriscada de todas, porque é a que o mal mais procura
desencorajar.
Talvez o assunto que mais nos deixa confusos seja o da idéia da
glória. Em termos humanos, a glória geralmente é relacionada a status.
Ela significa beleza, fama, poder, inteligência, conquista e fortuna. É
conquistada em campos de batalha e salas de reuniões, celebrada em
capas de revista e histórias na mídia.
Veja este anúncio da seção "Estritamente pessoal" da revista New
York, feito por uma mulher que, nas palavras de Neal Platinga, quer
conhecer um homem tão maravilhoso quanto ela própria:

Incrivelmente Bonita — formada pela Ivy League. Divertida,


estimulante, astuta, elegante, inteligente, articulada, com mente
criativa e espírito único. Possuo o raro equilíbrio entre beleza e
conteúdo, sofisticação e descontração, seriedade e apreço pelo divertido.
Bem-sucedida profissionalmente, perfeitamente capaz de se sustentar e
ser independente, porém incapaz de se sentir plenamente satisfeita até
encontrar você. Favor enviar uma resposta abrangente, descrevendo a
sua personalidade e história de vida. Foto é essencial.

Acho meio difícil possuir um raro equilíbrio entre beleza e


conteúdo e não deixar que os outros descubram isso mas, de qualquer
forma, isso é um pouco ameaçador. Mesmo que ela não lembre nenhum
dos outros ensinamentos de Jesus, certamente anotou o "não deixe sua
luz escondida na sombra". E um perfil de glória, pelo menos do ponto de
vista humano.
Corremos para a glória e fugimos da degradação. O escritor Elie
Wiesel conta de um acidente de carro que destruiu o lado esquerdo de
seu corpo; ele passou por dez horas de cirurgia reparadora e meses de
recuperação. Mas seus amigos sempre o consolavam com o mesmo
pensamento: você tem sorte; poderia ter sido pior. Você poderia ter
perdido a visão, as pernas, a memória.
Isso o lembrou de uma antiga história sobre um homem que
descrevia uma lista de desgraças a seus amigos — ele tinha perdido o
emprego, a casa, o dinheiro e a noiva — e seus amigos ficavam dizendo:
"Poderia ter sido pior". Finalmente, o homem gritou: "Pior como?". E seus
amigos confessaram: "Poderia ter acontecido comigo".
Corremos para a glória e fugimos da degradação, do sofrimento, da
solidão e da dor. "Poderia ser pior. Poderia ter acontecido comigo".
Deus entende a glória de maneira diferente de nós. Há provas disso
no Antigo Testamento. O autor de Êxodo conta que depois de Moisés
implorar a Deus para continuar a guiar Israel depois que o povo
idolatrou o bezerro de ouro, fez um pedido só para si mesmo:
"Rogo-te que me mostres a tua glória."
Moisés ansiava por ver a glória de Deus. E Deus concordou em
revelar sua glória a Moisés.
Mas antes de prosseguirmos com a história, vamos refletir por um
momento. O que você acha que Moisés vai ver? Em que você pensa
quando ouve a frase "a glória de Deus"? Trovões e raios? Terremotos e
maremotos? Um show de efeitos especiais cósmicos? Eu esperaria ver
uma cena de grande poder. Uma demonstração de brilho, esplendor e
poder capaz de sobrepujar esta pequena e insignificante criatura humana.
E assim que o homem geralmente imagina ser a glória dos deuses — Zeus
e Thor sempre deixavam uma meia dúzia de trovões à mão.
"Rogo-te que me mostres a tua glória."
Então Deus responde, com palavras capazes de tirar lágrimas de
nossos olhos quando pensamos a respeito. Deus concorda em revelar sua
glória a Moisés e diz: "Eu farei passar toda a minha bondade diante de ti".
E isso. Essa é a glória suprema de Deus. Não o seu braço forte nem
o seu terrível golpe de espada, embora isso, é claro, também faça parte
dele. O que é mais glorioso a respeito de Deus afinal não é a sua força,
poder, coragem ou magnificência, embora eles sejam grandes.
O mais glorioso a respeito de Deus é a sua absoluta e inabalável
bondade. Moisés pede para ver a glória de Deus e ele responde: "Eu farei
passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do
Senhor. Terei misericórdia de quem tiver misericórdia, e me
compadecerei de quem me compadecer".
O mais glorioso a respeito de Deus é a sua absoluta bondade.
Contudo, para ter uma visão completa do que isso significa o homem
teve de esperar até conhecer um carpinteiro da Galiléia.
Jesus veio nos mostrar a glória de Deus, mas não uma glória
humana. Não é o tipo de glória que tem o homem mais sexy do ano eleito
pela People, nem a personalidade do ano eleita pela Time ou o mais rico
do ano eleito pela Forbes. Sua glória ficou mais evidente quando ele
assumiu a nossa degradação.

A Degradação Humana
Elie Wiesel é um dos escritores da sua época que mais escreveu
sobre a degradação da vida. Romancista e ganhador do Nobel da Paz,
Wiesel sobreviveu ao holocausto, mas perdeu seu pai, mãe e irmã. Ele
quer impedir que nos contentemos com respostas simples quanto à
existência de sofrimentos tão terríveis. Ele viu com os próprios olhos a
fumaça preta subindo para o céu que saía das fornalhas nas quais sua
mãe e irmã morreriam.

Nunca me esquecerei daquela noite, a primeira no campo,


que transformou minha vida numa longa noite, sete vezes
amaldiçoada e sete vezes enterrada. Jamais me esquecerei daquela
fumaça. Nunca me esquecerei do rosto daquelas crianças, cujos
corpos eu vi se transformarem em anéis de fumaça sob o silêncio
do céu azul. [...] Nunca me esquecerei do silêncio noturno, que
tirou de mim, por toda a eternidade, o desejo de viver. Nunca me
esquecerei daqueles momentos que mataram o meu Deus e a
minha alma e transformaram meus sonhos em pó. Nunca me
esquecerei dessas coisas, mesmo que seja condenado a viver tanto
quanto o próprio Deus. Nunca.
Wiesel descreve uma viagem de trem em que os prisioneiros
ficaram sem comida, tiveram de viver sob a neve e novos corpos eram
diariamente jogados para fora. Os alemães, de vez em quando, jogavam
uma casca de pão no meio dos prisioneiros para vê-los brigar por ele. Um
senhor de idade conseguiu pegar um pedaço, mas quando foi comer, um
jovem o atacou e espancou selvagemente por trás. Meir, meu garoto, você
não me reconhece? Sou seu pai... você está me machucando... Você está
matando o seu pai. Eu tenho pão... , para você também... para você
também..."
Ele caiu no chão e morreu, ainda segurando o pão. Seu filho correu
para ele, pegou o pão, mas antes que pudesse devorá-lo, outros homens,
mais fortes do que ele, atacaram-no. Quando eles o deixaram, Wiesel
escreve, "próximo de mim havia dois corpos, lado a lado, pai e filho. Eu
tinha quinze anos de idade".
Ele fala de um garoto de treze anos de idade, com o rosto triste de
um anjo, que foi publicamente enforcado pela SS.

"Onde está Deus? Onde ele está?", alguém disse atrás de


mim. Os guardas fizeram todos os prisioneiros marcharem perto
da forca para que vissem.
Ele ficou pendurado ali por mais de meia hora, lutando
entre a vida e a morte, morrendo lentamente em agonia sob
nossos olhos. E tínhamos de olhá-lo de frente. Ele ainda estava
vivo quando passei à sua frente. Sua língua continuava vermelha
e seus olhos ainda não estavam vidrados.
Atrás de mim, ouvi o mesmo homem dizendo:
"Onde está Deus agora?"
Então ouvi uma voz dentro de mim responder:
"Onde ele está? Olha ele aqui. Aqui, pendurado nessa
forca."

Muitos anos mais tarde, Wiesel conheceu uma grande figura


literária da França, François Mauriac. Mauriac disse a Wiesel que ele
deveria contar sua história, que precisava declarar ao mundo a verdade
do que tinha acontecido. Wiesel pediu para Mauriac fazer o prefácio de
seu primeiro livro e a seguir estão as palavras que descrevem o momento
em que Wiesel e ele se encontraram pela primeira vez e ele, ainda jovem,
fez a pergunta "Onde estava Deus?":

E eu, que acredito no amor de Deus, que resposta poderia


dar ao meu jovem inquiridor, cujos olhos escuros ainda contêm o
reflexo daquela tristeza angelical que um dia surgiu na face
daquele garoto enforcado? O que eu disse para ele? Se falei
daquele outro israelense, um irmão seu, que se parecia com ele, o
crucificado, cuja cruz conquistou o mundo? Se eu afirmei que a
rocha que esmagou a sua fé era a pedra fundamental da minha, e
que a conformidade entre a cruz e o sofrimento dos homens era, a
meus olhos, a chave para aquele impenetrável mistério no qual a
fé de sua infância havia perecido? [...] Nós não conhecemos o
valor nem de uma única gota de sangue, de uma única lágrima.
Tudo é graça. Se o Eterno é o Eterno, a última palavra para cada
um de nós pertence a ele. É isso o que eu deveria ter dito a essa
criança judia. Mas consegui apenas abraçá-lo, chorando.

Onde está Deus? Onde ele está em meio a toda essa degradação,
sofrimento e dor? Onde ele está na sua dor, e na minha? Embora eu
admire as grandes histórias de sofrimento e dor, tenho a minha própria.
Pequena em comparação, mas também difícil de entender. Onde está
Deus quando o câncer aparece, quando o amor se transforma em traição,
quando o útero de quem anseia por dar vida permanece estéril, quando a
alegria é estrangulada pela culpa?
"Onde está ele? Ele está aqui. Bem aqui, pendurado nessa forca..."
Essa é a principal declaração do Novo Testamento. Só que não foi a
idéia de Deus que morreu, como Nietzsche disse. Foi o próprio Deus. "Mas
nós pregamos a Cristo crucificado", Paulo diz.
Poderia ser pior. Poderia ter acontecido comigo. "Que assim seja",
Deus disse. "Que aconteça comigo". E aconteceu. Toda a desgraça e
infelicidade da condição humana aconteceu com Deus. "Ele se fez carne e
viveu entre nós, e mostrou sua glória." Vimos o Ser onipotente ficar fraco
e esgotado. Vimos o criador da alegria chorar de tristeza por sua morte.
Vimos aquele cujo verbo deu exis-tencia à Via Láctea bater os pregos na
madeira para fazer mesas e bancos. Vimos o Senhor dos Exércitos ser
cuspido, espancado e manchado de sangue. Vimos o próprio Amor ser
traído, negado, desacreditado e abandonado por seus melhores amigos.
Vimos o Senhor da Justiça tornar-se uma vítima indefesa do maior ato de
injustiça da história. Vimos o filho de Maria crescer para cumprir a
profecia dada à sua mãe no seu nascimento: "E uma espada trespassará
também a tua própria alma".
A dor, o sofrimento e o pecado deste mundo segue somente para a
cruz. Sempre a cruz. E de alguma forma é na cruz que a glória de Deus é
finalmente revelada.
"Assim que Judas tomou o pedaço de pão, saiu. E era noite.
Quando ele saiu, Jesus disse: Agora é glorificado o Filho do homem, e
Deus é glorificado nele".
Quando se prepara para ir para a cruz, Jesus ora: "Pai, é chegada a
hora. Glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti.
[...] E agora, Pai, glorifica-me em tua presença com a glória que tinha
contigo antes que o mundo existisse".
"O Verbo se fez carne, e habitou entre nós. Vimos a sua glória, a
glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade."
Vimos essa glória, João diz. E exatamente isso o que as pessoas
pensavam que Jesus não tinha. Nascido na manjedoura, criado no
anonimato, treinado como carpinteiro, morto como criminoso. Um tipo
estranho de glória. Uma forma estranha de salvar o mundo.
Martin Luther King escreveu que o verdadeiro conhecimento de
Deus não levará ao que ele chamou de "teologia da glória", mas antes à
teologia da cruz. Se dependêssemos apenas de nossos próprios recursos,
pensaríamos sempre em Deus em termos de poder, domínio e controle.
Nós o faríamos à nossa própria imagem, pensaríamos nele da forma
como gostaríamos de ser se nós fôssemos Deus.
Mas não é esse Deus que se revela em Jesus. Vemos Deus mais
claramente quando estamos sob a luz da cruz. A cruz é a loucura de
Deus, o qual é mais sábio que o mais sábio dos homens, a fraqueza de
Deus é mais forte que todos os homens juntos. Por meio da cruz, Deus
revela a sua servidão e humildade. Na cruz, vemos Deus em toda a sua
degradação.
Pois a glória de Deus é a sua degradação. O aspecto mais glorioso
de seu ser é ele ter tomado para si a nossa degradação para não ter de
desistir de nós. Karl Barth diz que Deus prefere compartilhar o
sofrimento da desgraça humana do que ser o Deus abençoado de
criaturas não abençoadas.
Deus ficou como nós — tornou-se um de nós — e nós
contemplamos sua glória.

Deus Bate à Nossa Porta


Eu sei tudo sobre o lado bom e o lado ruim da glória. Fui um fã do
Chicago Cubs no final da década de sessenta. O campo inteiro fez um ano
com esse time de estrelas. Randy Hundley, o pegador, era o grande
favorito.
Um dia, o telefone tocou. A vizinha, uma garota da minha classe na
escola falou com minha mãe ao telefone.
— Sra. Ortberg, a senhora nunca vai adivinhar. Randy Hundley
está aqui na minha casa! Eu disse para ele que John era meu vizinho. Ele
quer ir na sua casa para conhecer o John.
Então, tudo deu terrivelmente errado.
Minha mãe não sabia quem era Randy Hundley. Como o faraó que
"não conhecia ninguém chamado José", ela nunca tinha ouvido falar dele.
Ela achou que se tratava de alguma criança com quem eu ia para a escola,
que estava querendo vir brincar comigo. Então ela disse:
— O Johnny está na aula de piano. Diga para o Randy que ele pode
vir brincar um outro dia.
Eu tive vontade chamar o pessoal da assistência social. Levem
minha mãe embora!
Naquela tarde, fiquei profundamente deprimido. Por volta das
cinco alguém bateu à porta. Quando abri, lá estava Randy Hundley, um
jogador de beisebol da liga principal. Uma estrela. Eu contemplei sua
glória, a glória de um pegador profissional, cheio de poder e de braço
forte.
Ele tinha dado uma parada em nosso bairro antes de seguir para
uma entrevista e foi então que minha colega ligou para casa. Depois da
entrevista, embora fosse um jogador da liga principal e tivesse uma vida
muito atribulada, decidiu fazer outra parada antes de ir para Chicago.
Ele fez todo o caminho de volta para o nosso bairro, rastreou minha
casa e bateu em nossa porta.
— Eu não queria atrapalhar a sua aula de piano — ele disse.
Ele me encorajou a continuar a seguir Cristo e me deu uma bola de
beisebol autografada que, ao que parece, minha mãe jogou fora,
provavelmente para dar espaço para a boneca de pano da minha irmã. De
qualquer forma, ela sumiu.
Para um garoto de dez anos de idade, a glória de Randy Hundley
não era que ele tinha um canhão no braço, nem que conseguia pegar a
bola de Ferguson Jenkins e Kenny Holtzman, nem que tinha feito grandes
home runs em cima de Bob Gibson e Nolan Ryan.
A glória era que alguém tão importante como ele se deu ao trabalho
de vir até a casa de um menino. A glória foi que um dia ele deixou sua
luva e bastão de lado e veio bater à minha porta. Um dia, ele veio
especialmente por mim.
"O Verbo se fez carne, e habitou entre nós. Vimos a sua glória", João
escreveu. Nós contemplamos a sua glória quando o Senhor de todos
voluntariamente se submeteu à sua mãe e pai em todas as coisas.
Contemplamos a sua glória quando o Criador do céu e da terra usou um
serrote, martelo e pregos para fazer cadeiras e bancos. Contemplamos a
sua glória quando o Senhor dos anfitriões envolveu-se em um pano,
carregou uma bacia e lavou os pés de seus discípulos. Contemplamos a
sua glória quando o Autor da vida morreu na cruz. Contemplamos a sua
glória quando a morte não foi capaz de detê-lo e a sepultura não pôde
aprisioná-lo.
Contemplamos a sua glória mesmo quando ele esteve entre os seres
comuns e decadentes. Pois a glória de Deus não está apenas na sua força,
poder e magnificência. Sua glória está em ter vindo neste ponto do
universo, para este insignificante planeta, para as pessoas degradadas de
quem ele não teve coragem de se desfazer. Sua glória está no dia em que
ele deixou sua magnificência e beatitude de lado e veio bater à sua porta.
Ele veio, um dia, especialmente por você.
Notas
Todos os grifos em citações foram acrescentados pelo autor e não
fazem parte do original, a não ser quando assim indicados. As citações
bíblicas foram extraídas da Edição Contemporânea de Almeida (ECA).

Capítulo 1: Amor além da razão


11: Agostinho: cit. M. C. DARCY, The mind and heart of love. New
York, Henry Holt, 1947, p. 87. 15: Thorp: Karen LEE-THORP, Why beauty
matters. Colorado Springs, NavPress, 1997.
16: Lewis: C. S. LEWIS, The four loves. Glasgow, William Collins, 1960,
p. 116.
16: "Porque Cristo, estando nós ainda fracos": Romanos 5.6-8. 16:
"Todos nós somos": Isaías 64.6.
17: Lewis: LEWIS, Os quatro amores. São Paulo: Mundo Cristão, 1983.
20: que sejais irrepreensíveis e sinceros": Filipenses 2.15.
21: Allender: Dan B. ALLENDER & Tremper LONGMAN HI, Bold love.
Colorado Springs, NavPress, 1992, quarta-capa. 21: "porque o
Senhor corrige": Hebreus 12.6. 21· 'a fim de apresentá-la a si mesmo igreja
gloriosa": Efésios 5.27.
21: "e enviou o seu Filho": l joão 4.10.
22: "Se Deus é por nós": Romanos 8.31,35.
22: "Ele também te sai ao encontro": Êxodo 4.14.
23: "como à menina do olho": Salmos 17.8.
23: "Você é a menina dos olhos": V. Lloyd OGILVIE, Caindo na grandeza.
São Paulo: Vida, 1985·
23: "Quando Israel era menino": Oséias 11.1-4,7.
24: Williams: Charles WILLIAMS, He came down from heaven. Grand
Rapids, Eerdmans, 1984, p. 107.
24: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira": João 3.16.
28: "Vede quão grande amor nos concedeu o Pai": l joão 3.1,2.

Capítulo 2: Quem ama dá atenção


29: Owens: Virginia Stem OWENS, And the trees clap their hands. Grand
Rapids, Eerdemans, 1983.
30: Erikson: Erik H. ERIKSON, Insight and responsability. New York, W.
W. Norton, 1964, p. 102.
30: Egan: Gerald EGAN, The skilled helper. Belmot, Wadsworth, 1975,
p. 62.
31: "O Senhor te abençoe e te guarde": Números 6.24-26.
31: "Quando disseste: Buscai o meu rosto": Salmos 27.8,9.
32: "If I were a rich man": do musical Urn violinista no telhado,
música de Jerry Bock, letra de Sheldon Harnick, baseado nas histórias de
Sholem Aleichem.
32: "Quando fesus ia passando": João 9.1.
34: "Ó Senhor, tu me sondaste": Salmos 139.1.
34: "Não se vendem dois passarinhos": Mateus 10.29,30.
34: "Rabi, quem pecou": João 9.2.
35: Ellison: Ralph ELLISON, The invisible man. New York, Random
House, 1963.
37: "Lembra-te de que foste servo": Deuteronômio 5.15.
37: "Então os vizinhos e os que": João 9.8,9.
38: "Sabemos que este é nosso filho": João 9.20,21.
38: Newbigin: Leslie NEWBIGIN, The light has come. Grand Rapids,
Eerdemans, 1982, p. 122.
39: "Já vos disse": João 9.27 (Anchor Bible).
39: "Surdos, ouvi": Isaías 42.18-20.
39: Barry: William BARRY & William CONNOLLY, A prática da direção
espiritual. São Paulo: Loyola, 1985·
41: "Aquietai-vos, e sabei": Salmos 46.10.
41: "O Senhor, o meu coração não é": Salmos 131.1,2.
44: Tannen: Deborah TANNEN, Você simplesmente não me entende. São
Paulo: Best Seller, 1992.
44: "Todo homem seja pronto": Tiago 1.19.
45: Peck: Scott PECK, A trilha menos percorrida: uma nova psicologia do
amor, dos valores tradicionais e do crescimento espiritual. Rio de Janeiro,
Imago, 1994.

Capítulo 3: Deus toca o intocável


48: Lewis: C. S. LEWIS, Os quatro amores. São Paulo: Mundo Cristão,
1983.
49:Smalley: Gary SMALLEY & John TRENT, A dádiva da bênção. Campinas,
United Press, 1997.
49: The Economist: 8 de outubro de 1994, p. 17.
49: Brand: Paul BRAND, Pain: the gift nobody wants. New York,
Harper Collins, 1993.
50: "Também o leproso": Levítico 13.45,46.
50: William BARCLAY. The gospel of Mark. Philadelphia, Westminster
Press, 1963. (The Daily Study Bible.)
50: "Se quiseres": Marcos 1.40.
51: "Se tu podes": Marcos 9.22.
54: "para que as tocasse": Marcos 10.13.
55: "com grande compaixão": Marcos 1.41.
49: Lewis: LEWIS, OS quatro amores.
Capítulo 4: O Senhor da segunda chance
61: Smedes: Lewis B. SMEDES, Forgive and forget. San Francisco, Harper
& Row, 1984, p. 11.
63: Frazier: Charles FRAZIER, Montanha gelada. São Paulo: Cia. das
Letras, 1999.
64: "Filhos, vocês não conseguiram apanhar": paráfrase de João 21.5
65: "Faze-te ao mar alto": paráfrase de Lucas 5.4.
65: "Senhor, afasta-te de mim": Lucas 5.8.
67: Harris: Murray HARRIS, palestra não-publicada, proferida na
capela da Trinity Evangelical Divinity School.
67: Você me ama?": "Do you love me?", do musical Um violinista no
telhado, música de Jerry Bock, letra de Sheldon Harnick, baseado nas
histórias de Sholem Aleichem.
68: Variação estilística: v. Raymond BROWN, The gospel of John. Garden
City, Doubleday, 1966, p. 370. (Anchor Bible, v. 1.)
71: "Como um pai se compadece": Salmos 103.13.
72: Bennis: Warren BENNIS & Burt NANUS, Líderes: estratégias para
assumir a verdadeira liderança. São Paulo: Harbra, 1988.
74: "Seu amor não tem limites": Annie Johnson Flint.

Capítulo 5: Jesus, o Mestre


75: Smith: C. W. F. SMITH, The Jesus of the parables. Philadelphia,
Westminster Press, 1948, p. 19.
79: Buechner: Frederick BUECHNER, Telling the truth. San Francisco,
Harper & Row, 1977, p. 62-3.
80: Palmer: Earl PALMER, Laughter in heaven. Waco, Word Books, 1980, 79
s.
81: "No entanto, existem vários tipos": BV, lCoríntios 3.12-15·
81: Fromm: Erich FROMM, O medo à liberdade. Rio de Janeiro, Ed.
Guanabara, 1986.
82: Tournier: Paul TOURNIER, The meaning of persons. New York,
Harper & Row, 1973, p. 205.
83: "Desceu a chuva": Mateus 7.27.
85: "Não se preocupe com o dia de amanhã": Mateus 6.34
parafraseado.
87: Plantinga: Cornelius PLATINGA, Not the way it's supposed to be.
Grand Rapids, Eerdmans, 1995, p. 121.
88: Keillor: Garrison KEILLOR, O lago das águas paradas. Rio de Janeiro,
Record, 1988.

Capítulo 6: A satisfação de ser amado


Buechner: Frederick BUECHNER, The longing for home: recollections
91:
and reflections. New York, Harper Collins, 1996, p. 129.
94: Frankl: Viktor FRANKL, Em busca de sentido. São Leopoldo, Sinodal,
1981.
94: "Vaidade de vaidades": Eclesiastes 1.2,8.
94: Mouw: Richard Mouw, conversa pessoal.
95: "Pois a criação ficou sujeita": Romanos 8.20,21.
96: "Então chegaram a Mara": Êxodo 15.23,24.
96: "Toda a congregação": Êxodo 16.2,3.
97: "O populacho que estava": Números 11.4-6.
9 8: "Por que fizeste mal": Números 11.11-15.
98: "Consagrai-vos": Números 11.18.
98: "Não comereis um dia": Números 11.19,20.
99: "uma esperança e um futuro": v. Jeremias 29.11.
99: Hughes: Robert HUGHES, Cultura da reclamação: o desgate
americano. São Paulo, Cia. das Letras, 1993.
100: Cheever: John CHEEVER. Fonte desconhecida.
100: Warren: Neil Clark WARREN, Finding contentment. Nashville,
Thomas Nelson, 1997, p. 26. V.
100: "Escutem, os que têm sede": BLH, Isaías 55.1,2.
102: Barrie: V. história de J. M. Barrie em The little, brown book of
anecdotes, org. Clifton Fadiman. Boston, Little, Brown, 1985, p. 39-40.
103: "enfado da came": Eclesiastes 12.12.
103: Foster: Richard FOSTER, Oração: o refugio da alma. Campinas,
Cristã Unida, 1996.
105: Smedes: Lewis B. SMEDES. Fonte desconhecida.
105: Recipe: de Cornelius PLATINGA, Not the way it's supposed to be.
Grand Rapids, Eerdmans, 1995, p. 14.
106: "Viva a minha alma, para que te louve": Salmos 119.175·
106: Chesterton: G. K. CHESTERTON. Fonte desconhecida.

Capítulo 7: O caminho mais árduo


111: Merton: Thomas MERTON, Novas sementes de contemplação. Rio de
Janeiro, Fisus, 1999.
112: "Para fazê-lo subir": Êxodo 3.8.
112: "Quando o Faraó deixou ir o povo": Êxodo 13.17,18.
113: Mouw: Richard Mouw, Uncommon decency. Grand Rapids,
Eerdemans, 1995.
114: Estudiosos do Antigo Testamento: v. The Interpreter's dictionary
of the Bible. Nashville, Abingdon, 1985, p. 565. v. 3.
117: Lewis: C. S. LEWIS, Cartas do inferno. São Paulo, Vida Nova, 1964.
118: 'Para que o povo não se arrependa": Êxodo 13.17.
118: José: v. Gênesis 37; 39—41; 50.22-26; Êxodo 13.19.
118: Davi: v. 1 Samuel 16; 18—19; 22—24.
118: Daniel: v. Daniel 1; 6.
122: Childs: Brevard CHILDS, The book of Exodus: a critical, theological
commentary. Louisville, Westminster John Knox, 1974. (Old Testament
Library.)
122: Buechner: Frederick BUECHNER, A room called remember. New York,
Harper & Row, 1984: citação de Bob BENSON SR. & Michael W. BENSON,
Disciplines of the inner life. Nashville, Thomas Nelson, 1989, p. 85·
125: MacLean: Norman MACLEAN, Young men and fire. Chicago,
University of Chicago Press, 1992, p. 38.
125: MacLean: Norman MACLEAN, Young men and fire, 299: citando
Mateus 27.46.

Capítulo 8: Amor e graça


128: Lutero: Martinho LUTERO, A sermon on the Eve of the Sunday
before Reminiscere, in Selected writings of Martin Luther, org. Theodore
Tappert. Philadelphia, Fortress Press, 1967, p. 259.
128: Campolo: adaptado de Tony CAMPOLO, The kingdom of God is a
party. Dallas, Word Books, 1990, p. 6-9.
130: Yancey: Philip YANCEY, Maravilhosa graça. São Paulo, Vida, ] 1999.
131: Van Auken: Sheldon van AUKEN, A severe mercy. San Francisco,
Harper & Row, 1977, p. 85
131: Willard: Dallas WILLARD, The Spirit of the disciplines. San Francisco,
Harper Collins, 1989, p. 80-1.
134: "Amarás ao Senhor teu Deus": Lucas 10.27.
134: "Ainda que eu tivesse o dom de profecia": ICoríntios 13.2.
134: "Aquele que não ama": ljoão 4.8.
137: "Circuncidado ao oitavo dia": Filipenses 3.5,6.
138: Várias metáforas: v. Colossenses 2.11-15.
140: "Quem nos separará": v. Romanos 8.35-39.
141: "A minha graça te basta": 2Coríntios 12.9.
141: "Deus resiste aos soberbos": 1 Pedro 5-5·
142: "Pois certos homens": Judas 4.
142: "Filho pródigo": v. Lucas 15.11-32.
143: Craddock: Fred C-raddock: citado por YANCEY, Maravilhosa graça.
144: Bonhoejfer: Dietrich BONHOEFFER, Discipulado. São Leopoldo,
Sinodal, 1999.
146: "O Verbo se fez carne": João 1.14.
146: "Tocamo-vos flauta": Mateus 11.17; Lucas 7.32.

Capítulo 9: Ser amado significa ser escolhido


148: Thomas: Thomas à KEMPIS, Imitação de Cristo. Petrópolis, Vozes,
1990.
148: The Whisper Test: cit. Les PARROTT, High-Maintenance relationships.
Wheaton, Tyndale House, 1996, p. 206.
150: Roberts: Robert ROBERTS, Taking the Word to heart. Grand Rapids,
Eerdemans, 1993, p. 156.
152: "Na verdade reconheço": Atos 10.34.
152: Lasch: Christopher LASCH, A cultura do narcisismo: a vida
americana nunca era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro, Imago,
1983.
153: "Rabi, aquele homem que estava": João 3.26.
156: Um violinista no telhado: música de Jerry Bock, letra de Sheldon
Harnick, baseado nas histórias de Sholem Aleichem.
157: Boris: Harold BORIS, Envy. Northvale, Jason Aronson, 1994, p.
xv.
157: "Alegrai-vos com os que se alegram": Romanos 12.15
157: Rogers: Samuel Rogers: cit. Clifton FADIMAN, The little, brown book
of anecdotes. Boston, Little, Brown, 1985, p. 474.
158: Buechner: Frederick BUECHNER, Peculiar treasures. New York,
Harper & Row, 1973, p. 20.
158: Caim e Abel: v. Gênesis 4.1-16.
159: Boris: BORIS, Envy, p. 155.
160: "Saul matou": 1 Samuel 21.11.
160: "Dez milhares deram a Davi": ISamuel 18.8,9.
160: Platinga: Cornelius PLATINGA, Not the way it's supposed to be: a
breviary of sin. Grand Rapids, Eerdmans, 1995, p. 156 s.
161: Siblings Without Rivalry: Adele FABER & Elaine MAZLISH, Siblings
without rivalry. New York, W. W. Norton, 1987, p. 88.
162: Faber: FABER e MAZLISH, Siblings without rivalry, p. 89.
162: "O homem só pode receber": João 3.27.
163: "Prepare o caminho do Senhor": Mateus 3.3.
165: "E necessário que ele cresça": João 3.30.
165: "Ele deve tornar-se cada vez maior": BV, João 3.30.

Capítulo 10: Seguros no amor de Deus


166: Willard: Dallas WILLARD, The divine conspiracy. San Francisco,
Harper Collins, 1998, p. 66, grifo original.
167: Eliseu e os siros: 2Reis 6.8-23; citações parafraseadas.
169: Willard: Dallas WILLARD, The divine conspiracy. San Francisco,
Harper Collins, 1998, p. 66.
169: "Quem nos separará": Romanos 8.35·
169: "Ainda que eu andasse": Salmos 23.4.
170: "De repente levantou-se no mar uma grande tempestade": Mateus
8.23.
171: Berkeley psychology student: v. Gilbert BRIM, Ambition. San
Francisco, Basic Books, 1992, p. 9-10.
173: Time: data da edição desconhecida.
173: "comoveu-se profundamente": João 11.33.
173: "Em verdade vos digo": João 13.21.
173: "Além das coisas exteriores": 2Coríntios 11.28,29.
174: "A palavra de Cristo": Colossenses 3.16.
174: "Por que se preocupar": Mateus 6.25, parafraseado.
175: "Deixo-vos a paz": João 14.27.
176: "Perto da meia noite Paulo e Silas": Atos 16.25·
176: "Mas confio no teu": Salmos 13.5,6.
176: "Tornaste o meu pranto": Salmos 30.11,12.
176: "Cante salmos, hinos": Efésios 5.19, parafraseado.
177: "Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade": lPedro 5.7.
177: Sivenson: Richard Swenson, em um local público.
178: "Não andeis ansiosos": Filipenses 4.6.
180: "Vede quão grande amor nos concedeu o Pai": ljoão 3.1.
180: Lutero: Martinho Lutero, cit. Roland BAINTON, Here I stand.
Nashville, Abingdon, 1950, p. 173.
182: "chamei-te pelo teu nome": Isaías 43.1-4.

Capítulo 11: Deus busca os que se escondem


184: Caussade: Jean Pierre de CAUSSADE, The sacrament of the present
moment. San Francisco, Harper Collins, 1989, p. 18-9. 184: Chesterton: G.
K. CHESTERTON, Tremendous triffles. New York,
Dodd, Mead, 1901, p. 56. 184: Fulghum: v. Robert FULGHUM, Tudo que
eu devia saber na vida aprendi no jardim-de-infância: idéias incomuns sobre
coisas banais. São Paulo, Best Seller, 1990. 185: "Então ouvindo a voz":
Gênesis 3.8-10. 187: "Buscar-me-eis": Jeremias 29.13.
187: Thompson: Francis THOMPSON, The hound of heaven, 1893.
187: "They were naked": Gênesis 2.25, parafraseado.
188: "Mas chamou o Senhor Deus": v. Gênesis 3.9.
189: "Todos nós andávamos": Isaías 53.6.
190: A parábola da ovelha perdida: v. Lucas 15.3-7.
191: Keller: Philip KELLER, A shepherd looks at the 23rd psalm. Grand
Rapids, Zondervan, 1996, p. 51-2. 193: Zaqueu: v. Lucas 19.1-9.
194: 'The best among physicians", Jeremias JOACHIM, Jerusalem in the
time of Jesus. Philadelphia, Fortress Press, 1989, p. 303s. 196:
Levi/Mateus: v. Lucas 5.27-32. 197: Time: data da edição desconhecida.

Capítulo 12: O Deus degradado


200: "O Verbo se fez carne": João 1.14.
200: Wiesel: Elie WIESEL, All rivers run to the sea. New York, Alfred
A. Knopf, 1995, p. 85. 200: Kierkegaard: Soren KIERKEGAARD, Migalhas
filosóficas, ou, Um bocadinho de filosofia de João Climacus. Petrópolis, Vozes,
1995. 202: Kierkegaard: KIERKEGAARD, Migalhas filosóficas. 202: "Isto vos servirá
de sinal": Lucas 2.12. 202: "As raposas têm covis": Lucas 9.58. 202: "Não
tinha parecer": Isaías 53.2. 202: "Ninguém nunca viu a Deus": João 1.18.
203: Lewis: C. S. LEWIS, Cartas do inferno. São Paulo, Vida Nova, 1964, carta
4.
203: New York: citado por Cornelius PLATINGA, Not the way it's
supposed to be. Grand Rapids, Eerdmans, 1995, p. 84. 204: Wiesel: Elie
WIESEL, All rivers run to the sea. p. 164. 204: "Rogo-te que me mostres":
Êxodo 33.18. 205: "Eu farei passar toda a minha bondade": Êxodo 33.19. 205:
Wiesel: Elie WIESEL, Night. New York, Hill and Wang, 1987, p. 43.
206: Wiesel: WIESEL, Night, p. 71-2. 207: Wiesel: WIESEL, Night, p. 11. 208:
"nós pregamos a Cristo": ICoríntios 1.23. 208: "He became flesh": João 1.14,
parafraseado. 208: "E uma espada trespassará": Lucas 2.35. 209: "Assim que
Judas": João 13.30,31. 209: "Pai, é chegada a hora": João 17.1,5.
209: Lutero: Martinho Lutero: v. Philip WATSON, Let God be God.
Philadelphia, Fortress Press, 1970, p. 78.