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AVALIAÇÃO E INTERVENÇÃO DA DISORTOGRAFIA

BASEADA NA SEMIOLOGIA DOS ERROS:


REVISÃO DA LITERATURA

Evaluation and intervention of dysortographia


based on error semiology: literature review
Amparo Ygual Fernández (1), José Francisco Cervera Mérida (2), Vera Lúcia Orlandi Cunha (3),
Andrea Oliveira Batista (4), Simone Aparecida Capellini (5)

RESUMO

Tema: avaliação e intervenção na disortografia. Objetivo: descrever e discutir os achados encon-


trados na literatura sobre a disortografia segundo a sua definição, etiologia, classificação da semio-
logia dos erros, quadro clínico, avaliação e intervenção. Conclusão: a avaliação e a intervenção
fonoaudiológica com a disortografia devem estar baseadas na classificação semiológica dos erros,
pois desta forma, pode-se compreender cada tipo de erro e os fatores cognitivos ou linguísticos
implicados. Isso se associa às orientações aos pais e professores de como enfocar o trabalho com a
ortografia, seja em casa ou na escola sem gerar angústia e ansiedade na criança.

DESCRITORES: Avaliação; Reabilitação; Escrita Manual; Transtornos de Aprendizagem

„„ INTRODUÇÃO
(1)
Logopeda e Piscóloga; Docente do Departamento de Psi-
cologia Evolutiva, do Departamento de Educação e do
Programa de Pós-Graduação em Dificuldades de Apren- A criança ao ingressar na escola possui o domí-
dizagem da Universidade de Valencia, Valencia, Espanha; nio do sistema linguístico em sua modalidade oral e,
e do Programa de Pós-Graduação de Logopedia da Uni-
versidade Católica de Valencia San Vicente Mártir, Valen-
portanto, encontra-se com suas habilidades linguís-
cia, Espanha; Doutora em Psicologia pela Faculdade de tico-cognitivas adequadas para a aprendizagem da
Psicologia da Universidade de Valencia, Espanha. leitura e escrita. No entanto, apesar de ter domínio
(2)
Logopeda e Biólogo; Docente da diplomatura de Logope- dessas habilidades na oralidade, a criança não tem
dia e Diretor de Mestrado Oficial “Intervenção Logopédica noção de quais aspectos fonológicos relacionados
Especializada” na Universidade Católica de Valencia San
Vicente Mártir, Valencia, Espanha; Mestre em Logopedia
com a linguagem oral são necessários para ler e
pela Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha. escrever. Assim, quando entra em contato com a
(3)
Fonoaudióloga; Mestre e Doutoranda do Programa de escrita, ela se depara com um novo sistema, em
Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Filosofia que precisa utilizar novas regras e voltar sua aten-
e Ciências da Universidade Estadual Paulista. Bolsista ção para elementos até então imperceptíveis 1.
CAPES.
Para isso, é necessário que a criança desen-
(4)
Fonoaudióloga clínica; Centro de Estudos e Reabilitação
Humana – CERH, Londrina, PR, Brasil. Mestranda do Pro- volva suas capacidades metalinguísticas, ou seja,
grama de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de que ela passe a refletir sobre sua linguagem. Essa
Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista. reflexão envolve a atenção aos aspectos da lingua-
(5)
Fonoaudióloga; Docente do Departamento de Fonoaudio- gem nos níveis fonológico, morfológico e sintático e
logia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da não apenas ao seu conteúdo, no nível semântico.
Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Esta-
dual Paulista, FFC/UNESP, Marília, SP, Brasil; Doutora em
A capacidade metalinguística, em seu nível fonoló-
Ciências Médicas pela Faculdade de Ciências Médicas da gico, faz com que a criança reflita sobre o sistema
Universidade Estadual de Campinas. sonoro da língua, tendo consciência de frases, pala-
Conflito de interesses: inexistente vras, sílabas e fonemas como unidades menores 2,3.

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Fernández AY, Mérida JFC, Cunha VLO, Batista AO, Capellini SA

A correlação entre a consciência fonológica e o nível fonológico da fala e à manipulação cognitiva


desempenho em atividades de leitura e escrita foi das representações neste nível. O contato com a
abordada em diversos estudos, sendo motivo de linguagem escrita possibilita o desenvolvimento
controvérsias. Três diferentes posições são apon- desta capacidade, sendo que este desenvolvi-
tadas pelos pesquisadores, conforme descrito a mento auxilia nos níveis mais avançados de leitura
seguir 4,5. e escrita 9,10.
Em uma primeira posição, estão aqueles que Apesar desta controvérsia, todos os autores
acreditam que a consciência fonológica (enquanto citados são unânimes em concordar que as ten-
habilidade para detectar rima e aliteração) ocorre tativas de leitura e escrita por parte de leitores e
a partir do progresso na aquisição da leitura e escritores iniciantes têm, em geral, mais sucesso
escrita, devido ao uso de analogias, da habilidade se estes compreenderem o que é o princípio alfa-
de perceber que duas palavras rimam, tornando a bético, pois, dessa forma, eles poderão fazer uso
criança sensível às semelhanças ortográficas no de maneira mais eficaz da informação obtida pela
final dessas palavras e, assim, possibilitar o estabe- decodificação letra-som, habilidade que apresenta
lecimento de conexões entre padrões ortográficos e um acometimento importante no escolar com pro-
sons no final das palavras. blemas de aprendizagem 12. Esse acometimento
Para esses autores, a consciência fonológica é geralmente está relacionado com a dificuldade no
considerada a chave para o desenvolvimento da mecanismo de conversão letra-som, ocasionando
alfabetização. Esse papel central da consciência os chamados erros de natureza fonológica e orto-
fonológica sobre a aprendizagem da leitura e da gráfica, características da disortografia.
escrita é atestado, segundo os autores, por nume- O objetivo desta revisão de literatura foi descre-
rosos trabalhos de pesquisa, com seus resultados ver a disortografia segundo a sua definição, etio-
demonstrando que o desempenho de crianças pré- logia, classificação e quadro clínico. Além disso,
escolares em determinadas tarefas de consciência propõe-se uma breve revisão da literatura interna-
fonológica relaciona-se com o sucesso na aquisi- cional e nacional sobre os estudos sobre avaliação
ção da leitura e da escrita 6,7. e intervenção na disortografia.
Na segunda posição, encontram-se aqueles que „„ MÉTODOS
defendem que a instrução formal do sistema alfabé-
tico é o fator ou causa primordial para o desenvol- A revisão da literatura foi realizada a partir de
vimento da consciência fonológica. A capacidade livros, monografias, teses, dissertações e artigos,
de fazer analogias no final das palavras pressupõe em sua maioria, publicados pelo LILACS, PUB-
habilidade de decodificação letra-som, sendo que a MED, SCIELO e MEDLINE. Foram utilizados os
capacidade de detectar fonemas em uma palavra é estudos mais relevantes relacionados à definição,
influenciada pelo conhecimento ortográfico 1,8. etiologia, classificação e quadro clínico da disorto-
Já em uma terceira posição, destacam-se os grafia, bem como a avaliação e intervenção com
autores que veem uma relação de reciprocidade a disortografia. Não foi estabelecido um período
entre a consciência fonológica e a aquisição da para o levantamento bibliográfico uma vez que
leitura e escrita. Esses autores explicam que os esta temática ainda é escassa tanto na literatura
estágios iniciais da consciência fonológica contri- nacional como internacional. Os descritores utiliza-
buem para o estabelecimento dos estágios iniciais dos em português para o levantamento bibliográ-
do processo de leitura, e estes, por sua vez, contri- fico fora: avaliação, intervenção, escrita manual e
buem para o desenvolvimento de habilidades fono- transtornos de aprendizagem em inglês: evaluation,
lógicas mais complexas. Dessa forma, enquanto a intervention, handwriting, writing e learning disor-
consciência de alguns segmentos sonoros (supra- ders; e em espanhol: escritura manual, evaluación,
fonêmicos) parece desenvolver-se naturalmente, intervención e trastornos del aprendizaje.
a consciência fonêmica parece exigir experiência
„„ REVISÃO DA LITERATURA
específica em atividades que possibilitam a identifi-
cação da correspondência entre os elementos fonê- Disortografia: definição, etiologia
micos da fala e os elementos grafêmicos da escrita. e quadro clínico
Este processo de associação grafema-fonema O Transtorno Específico da Escrita, também
exige um desenvolvimento de análise e síntese de conhecido como Disortografia, é uma alteração na
fonemas 9-11. planificação da linguagem escrita, que causa trans-
Para se chegar à descoberta do fonema, é tornos na aprendizagem da ortografia, gramática e
necessário adquirir e desenvolver a consciência redação, apesar de o potencial intelectual e a esco-
fonológica, que se trata da competência metalin- laridade do indivíduo estarem adequados para a
guística que possibilita o acesso consciente ao idade 13.

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Disortografia e semiologia dos erros

Disortografia, portanto, compreende um padrão da oralidade na escrita e dificuldade na produção


de escrita que foge às regras ortográficas estabele- de textos 21.
cidas convencionalmente, que regem determinada A disortografia é a escrita incorreta, com erros
língua. Os escolares que começam a alfabetização e substituições de grafemas, alteração atribuída às
com dificuldade para a aprendizagem da ortografia dificuldades no mecanismo de conversão letra-som
provavelmente chegarão ao final do ensino funda- que interferem nas funções auditivas superiores e
mental com dificuldades ortográficas 14,15. Isso pro- nas habilidades linguístico-perceptivas 14.
vocaria um impacto negativo para o desempenho A disortografia é parte do quadro da dislexia
acadêmico geral, pois ler e escrever, enquanto do desenvolvimento. As crianças que apresentam
processos de decodificação ou grafofonêmico e dislexia do desenvolvimento possuem o sistema
de codificação ou fonografêmico, ou seja, o reco- fonológico deficiente, ocasionando alterações na
nhecimento das letras e os valores atribuídos aos conversão letra-som. Assim, a correspondência
grafemas no reconhecimento das palavras e a pos- letra-som não consegue ser armazenada provo-
sibilidade de codificá-los, não são os únicos, nem cando leitura e escrita lenta, confusão entre pala-
os objetivos centrais da alfabetização, porém são vras similares tanto na leitura como na escrita e
necessários para toda aprendizagem acadêmica alteração na compreensão da leitura e escrita inefi-
futura sem os quais ocorreria um atraso na aqui- ciente 15, 22, 23.
sição de conhecimentos na maioria das áreas do
currículo 16.
Avaliação e intervenção baseada
A disortografia quando não está associada ao na semiologia dos erros
quadro de dislexia do desenvolvimento ou distúrbio A avaliação e a intervenção na disortogra-
de aprendizagem é rara, entretanto, muitos escola- fia devem ser centradas na base do sistema de
res apresentam alterações na escrita em decorrên- escrita da língua materna. Assim, antes do início
cia de a escola não enfatizar o ensino da ortografia da investigação clínica e educacional, professores
pela frágil fundamentação teórica e prática de seus e terapeutas devem conhecer o sistema de escrita
educadores 17. Muitos alunos têm na escola sua da Língua Portuguesa, ou seja, saber que esse sis-
principal fonte de contato com a linguagem escrita tema conta com um alfabeto composto de 26 letras,
e, considerando que muitas metodologias atuais de que, isoladas ou combinadas e com os diacríticos,
alfabetização não utilizam procedimentos de corre- marcas, sinais como acentos gráficos, til e cedilha,
ção e ensino eficazes da escrita, estas acabam por representam os fonemas. Assim, enquanto existe
manter os alunos em situação de desconhecimento uma variedade muito grande de sons, só existem
da ortografia 18-20. 26 letras para representar a língua portuguesa
Este artigo não visa enfatizar alterações orto- escrita 17.
gráficas decorrentes de problemas no processo de O sistema de escrita do português caracteriza-
alfabetização por uso de metodologias de ensino se pela Transparência Ortográfica, ou seja, pela
que não enfocam a base do princípio alfabético da regularidade, sendo cada fonema correspondente a
Língua Portuguesa, e sim a disortografia enquanto um e somente um grafema e vice-versa (cada som
manifestação de alteração no processamento corresponde a uma e somente uma letra) e, pela
fonológico e ortográfico decorrente de condições Opacidade Ortográfica, ou seja, pela irregularidade,
determinadas genética e neurologicamente, como com grafemas que correspondem a mais de um
os transtornos de aprendizagem específico (dis- som e com sons que correspondem a vários gra-
lexia do desenvolvimento) e global (distúrbio de femas 24.
aprendizagem).
A avaliação da ortografia deve trazer informa-
As características da disortografia fazem parte ções do nível ortográfico que a criança se encontra,
do processo de apropriação do sistema ortográfico revelando quais são os tipos de erros ortográficos e
da língua, mas são superadas ao longo da esco- sua frequência de ocorrência na escrita 25. De forma
larização. No caso de crianças com disortografia geral, deve conter a observação dos próprios tra-
decorrente do quadro de transtorno de aprendiza- balhos escolares, ditado sem correção e autocor-
gem, essas características não desaparecem com rigido, escrita de textos longos e curtos, ditado de
a progressão da escolaridade, mostrando-se per- pseudopalavras 14, cópia, ditado de letras, escrita
sistentes 18,19. de palavras a partir de figuras, ditado de frases e
A caracterização da disortografia se dá pela difi- palavras, completar palavras com um ou mais gra-
culdade em fixar as formas ortográficas das pala- femas, completar frases com palavras 15, tarefa de
vras, apresentando como sintomas típicos a substi- erro intencional, que fornece informação sobre o
tuição, omissão e inversão de grafemas, alteração nível de conhecimento ortográfico que os escolares
na segmentação de palavras, persistência do apoio possuem 24 e composição escrita descrevendo pro-

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blemas reais usando conteúdos das diversas disci- ou a reflexão que ele faz sobre elas que mais se
plinas acadêmicas para a solução dos mesmos 26. mostram nas ocorrências de hipersegmentações 33.
Subsequentemente, a análise dos dados da É justamente nesse entrelaçamento de práticas que
avaliação deve ser baseada na observação dos está a busca de critérios do que se pode ou não
erros que decorrem da alteração do princípio alfa- considerar como palavra já que, em 88,49% das
bético que afetam a Ortografia Natural e os erros ocorrências de seu estudo, emergiam justamente
nas convenções ortográficas, independentes deste palavras sob palavras, e não aleatoriamente cacos
princípio, que afetam a Ortografia Arbitrária 14,15. de palavras. Em outras palavras, é a história de lin-
A classificação baseada na semiologia dos guagem do sujeito que se mostra e se mobiliza no
erros 14 pode ser dividida em dois tipos de erros: os processo de alfabetização (e para a qual o alfabeti-
de ortografia natural e de ortografia arbitrária. Os zador deve estar bastante atento).
erros de ortografia natural têm uma relação direta Em outro estudo desenvolvido foi verificado até
com o processamento de linguagem, enquanto que que ponto as crianças poderiam ser guiadas por
os erros de ortografia arbitrária tanto para a orto- suas intuições sobre constituintes prosódicos da
grafia dependente de regras como a independente língua ao segmentarem seus textos escritos. Os
de regras estão diretamente relacionados com a resultados responderam afirmativamente à ques-
memória visual, conhecimento de regras ortográfi- tão principal, na medida em que todas as estruturas
cas, léxico e morfologia. Entre os erros de ortografia hipossegmentadas apoiaram-se, de algum modo,
natural destacam-se os erros de correspondência em estruturas prosódicas da língua. Destacou-
fonema-grafema tanto para a correspondência biu- se o fato de que o menor número de enunciados
nívoca como para unívocas dependentes do con- fonológicos e o maior número de frases fonológi-
texto, que estão diretamente relacionados com o cas parecem indiciar que o conjunto de crianças
processamento da fala e com a relação letra-som, encaminha-se para a percepção da palavra, tal
justificando os erros de substituição grafêmica. como estabelecida pelas convenções ortográficas
Os erros na sequencialização dos grafemas de nossa língua.
também estão relacionados com o processamento Assim, esse autor acredita que não apenas as
da fala e se manifestam como erros de omissão e crianças parecem refletir sobre características da
adição de segmentos e alteração na ordem dos seg- língua que detectam em sua inserção práticas de
mentos, gerando uma dificuldade para identificar a oralidade, como ainda levam essa reflexão para a
sequência fonêmica correta durante o processa- atividade de escrita que desenvolvem em suas prá-
mento da fala e a sua correspondência grafêmica. ticas de letramento 34.
Outro tipo de erro é o de segmentação da cadeia As estruturas das hipersegmentações frequen-
de fala que ocasionam segmentação indevida de temente encontradas na escrita inicial de crianças
palavras e união incorreta de palavras e estão dire- seriam resultado do trânsito do sujeito escrevente
tamente relacionados com a consciência lexical. por práticas sociais de oralidade observadas em
A figura 1 apresenta as classificações da disor- seu estudo sob a forma de constituintes prosódicos
tografia segundo a literatura especializada 15,27-29. e de letramento, podendo ser vistas como índices
Embora todos esses autores considerem como do modo heterogêneo de constituição da escrita,
um tipo de disortografia as situações em que o sendo assim, marcas de um sistema em constru-
escritor não se dá conta dos critérios exatos de ção 33, 34.
segmentação ou de separação de uma palavra das Estes estudos levam à reflexão de que a hiper-
outras, pesquisas brasileiras longitudinais sugerem segmentação e a hiposegmentação encontradas
que este comportamento na escrita não está vincu- na escrita de escolares com dislexia ou distúrbio de
lado estritamente a fatos de natureza fonético-fono- aprendizagem não podem ser caracterizadas como
lógica, apontando para um funcionamento normal próprias destas crianças, uma vez que tanto uma
da escrita infantil, em que poderia ser reduzido a como outra estão presentes e são marcas da cons-
problemas no modo de apropriação de aspectos do trução da escrita de escolares em fase de apropria-
código escrito 30-32. ção do sistema de escrita do português.
Em estudo sobre as hipersegmentações, foi A partir da observação e consideração sobre
verificado que, na alfabetização, o que mais insis- os achados encontrados na avaliação, a interven-
tentemente está em questão, de um ponto de vista ção da disortografia deve lançar mão de atividades
linguístico, é a relação sujeito-língua possibilitada que se adaptem às características semiológicas de
pelo movimento de muitas e complexas práticas cada tipo de erro e aos fatores cognitivos ou lin-
de oralidade e de letramento, que entrelaçadas guísticos implicados, usando uma metodologia que
compõem o universo de linguagem do aprendiz da se baseia na aprendizagem direta de palavras e
escrita. É a ação dessas práticas sobre o sujeito e/ regras ortográficas. O escolar, portanto, aprenderá

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Disortografia e semiologia dos erros

Manzano,
Cervera – Mérida &
Cagliari 27 Carraher 28 Zorzi 18 Sanz &
Ygual Fernández 29
Chocano15
Transcrição Transcrição da Apoio na Erros de ortografia Erros de
fonética fala oralidade natural: 1) Erros na caráter
correspondência linguístico-
biunívoca grafema- perceptivo
fonema e 2) Erros na
correspondência unívoca
dependente do contexto.
Uso indevido de Erros ligados à Representações Erros de ortografia Erros de
letras origem das múltiplas natural: caráter
palavras Erros na sequência dos visoespacial
grafemas
Hipercorreção Supercorreção Generalização de Erros de ortografia Erros de
regras natural: caráter
Erros na Segmentação na visoauditivo
cadeia de fala
Modificação da Erros nas sílabas Omissão de letras Erros de Erros com
estrutura de estruturas ortografia arbitrária: relação ao
segmental: trocas, complexas erros de independentes conteúdo
supressão, de regras e dependente
acréscimo e de regras.
inversão
Juntura Ausência de Junção/separação - Erros nas
intervocabular e segmentação e não convencional regras
segmentação segmentação de palavras ortográficas
indevida
Forma morfológica Erros por Confusão entra - -
diferente desconsiderar as as terminações
regras am x ão
contextuais
Forma estranha de Erros por Trocas surdas / - -
traçar as letras ausência de sonoras
nasalização
Uso indevido de Erros por trocas Acréscimo de - -
maiúsculas e de letras letras
minúsculas
Acentos gráficos - Letras parecidas - -
Sinais de - Inversão de letras - -
Pontuação
Problemas - Outras trocas - -
sintáticos

Figura 1 – Classificação das disortografias consoante a literatura

uma grande quantidade de palavras que contém o representam e a classificação delas em consoantes
erro (aprendizagem de competências) com o traba- e vogais; para poder operar com as regras grama-
lho com os déficits nos processos psicolinguísticos ticais 19.
subjacentes, mas, desta vez, sem gerar angústia e Foram propostos para a intervenção da disor-
ansiedade neste 14,15, 21, 34-36. tografia módulos de trabalho em: metacognição;
Os aspectos básicos de uma intervenção se linguagem oral; consciência fonológica; conheci-
iniciam pelo desenvolvimento de algumas noções, mento das regras de correspondência fonema-gra-
tais como: a definição de som e de letra; a explica- fema, aplicação das regras de codificação fonema-
ção de suas relações, estáveis ou convencionais; grafema e automatização do uso das regras na
o nome das letras e as diferenças dos sons que escrita 14, 37 além de uma instrução focada na orto-

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grafia associada à morfologia – estudo da estrutura –– Fazer a correção da ortografia sempre, não per-
e formação das palavras e produção textual 37-39. mitindo que a criança “fixe” uma forma incorreta
Com tudo o que já foi exposto, fica claro que não de escrita, porém ter critério para a correção dos
é a mera exposição dos alunos aos itens escritos e textos produzidos pelo aluno, sem cometer bor-
muito menos a tentativa de simples memorização rões e rabiscos com canetas coloridas.
de regras que vai garantir a escrita ortográfica. A –– O professor pode assinalar com pequenas mar-
ortografia de Línguas com base alfabética possui cas os erros ortográficos e solicitar que o aluno
diversas facetas que devem ser levadas em conta, procure a grafia correta em um dicionário ou em
já que suas regras não são de uma mesma natu- um fichário de palavras que o grupo de crianças
reza e envolvem diferentes competências para sua da sala de aula pode montar no decorrer do ano.
aquisição 23 e anos de prática/exercitação/fixação b) Sugestões aos pais
para seu correto e adequado uso 15, 40-44. –– Dizer à sua filha ou ao seu filho que você entende
Como parte das estratégias de intervenção e a sua dificuldade e que você estará sempre pre-
da compreensão da base alfabética do sistema de sente para ajudar.
escrita encontram-se as orientações a pais e pro- –– Escolher uma escola que seja de sua confiança
fessores que os fonoaudiólogos devem realizar. A e aberta para entender suas angústias, dúvi-
primeira questão que necessita ser enfocada com das, frustrações e que possa traçar um plano de
pais e professores de crianças com disortografia é trabalho integrado ao processo de intervenção
que a ortografia é um fim e não um começo. Pri- fonoaudiológica.
meiro, a criança precisa saber lidar com a escrita –– Garantir um ambiente sem pressões extremas
para depois se preocupar em como escrever orto- e exigências demasiadamente altas, que certa-
graficamente, pois ela, na escola, necessariamente mente a criança não poderá atingir.
deve realizar dois tipos de aprendizados: o princí- –– - Ajudar nas tarefas e trabalhos escolares de
pio do sistema alfabético e a norma ortográfica, ou acordo com a necessidade da criança, com
seja, das restrições regulares e irregulares para a paciência e compreensão, entendendo que ela
escrita de palavras 41. faz somente o que pode e não porque não quer.
As principais sugestões para orientar pais e A partir dessas sugestões, os autores citados
professores descritas na literatura19,43,44 estão da acreditam que as condições de aprendizagem da
seguinte forma distribuídas: criança com disortografia em sala de aula melho-
a) Sugestões aos professores ram, o que certamente proporcionará uma quali-
–– Dizer à criança que você entende a sua dificul- dade de vida escolar adequada para a continuidade
dade e que você fará o que for possível para do desenvolvimento da relação ensino-aprendiza-
ajudá-la. gem que sempre deve ser desenvolvida em um
–– Entender que crianças com disortografia apre- ambiente educacional acolhedor e estimulante para
sentam necessidade de tempo maior para a criança.
realizar as tarefas escritas e, então, oferecer
mais tempo para essa tarefa em sala de aula é „„ CONCLUSÃO
necessário.
–– Explicar para a criança como a escrita e a orto- Como foi explicitado no decorrer deste artigo, a
grafia funcionam, podendo, depois, utilizar a pro- disortografia é caracterizada como um transtorno
dução espontânea da própria criança (palavras da escrita que está diretamente relacionado aos
e histórias de poucas linhas), para explicar o que quadros de transtorno específico da aprendizagem,
ocorreu com a escrita para, em seguida, promo- como a dislexia do desenvolvimento e aos trans-
ver a escrita ortográfica. tornos globais da aprendizagem, como o distúrbio
–– Diferenciar os erros de ortografia das falhas de de aprendizagem. Por isso, a avaliação fonoau-
compreensão e possibilidade de elaboração de diológica da ortografia deve trazer informações do
respostas, para que a avaliação incida sobre o nível ortográfico que a criança se encontra, reve-
conteúdo. lando quais são os tipos de erros ortográficos e sua
–– A criança deve saber o que fez e porque precisa frequência de ocorrência na escrita, isto para que
corrigir. alterações ortográficas decorrentes de problemas
–– Valorizar o empenho do aluno e não somente o no processo de alfabetização não sejam erronea-
desempenho. mente classificadas como disortografia.
–– Ajudar em provas escritas na leitura, para que a A partir da classificação semiológica dos erros
criança não fique sem entender. encontrados na avaliação, a intervenção deve enfa-
–– Usar provas orais como um recurso extra se a tizar atividades que se adaptem às características
escrita estiver muito comprometida. semiológicas de cada tipo de erro e aos fatores cog-

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Disortografia e semiologia dos erros

nitivos ou linguísticos implicados, associando esses „„ AGRADECIMENTOS


fatores às orientações aos pais e professores de
como enfocar o trabalho com a ortografia, seja em À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
casa ou na escola sem gerar angústia e ansiedade de São Paulo – FAPESP pelo auxílio à pesquisa
na criança. concedido.

ABSTRACT

Background: evaluation and intervention in dysortographia. Purpose: to describe and discuss findings
from researches concerning dysortographia according to its definition, etiology, errors semiology classifica-
tion, clinical findings, evaluation, and intervention. Conclusion: speech language evaluation and interven-
tion should be based on error semiology classification because in this way it is possible to understand each
type of error and the linguistic and cognitive factors related to them. This is associated with the orientations to
parents and teachers on how to work with orthography at home or at the classroom without causing distress
and anxiety to the children.

KEYWORDS: Evaluation; Rehabilitation; Handwriting; Learning Disorders

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RECEBIDO EM: 10/12/2009


ACEITO EM: 05/02/2010

Endereço para correspondência:


Simone Aparecida Capellini
Rua Bartolomeu de Gusmão, 10-84
Bauru – SP
CEP: 17017-336
E-mail: sacap@uol.com.br
amparo.ygual@uv.es

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