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MAT0326 - Geometria Diferencial 1 - Lista 1

Monitor: Ivo Terek Couto∗

19 de outubro de 2016

Observação. Assuma que todas as curvas e superfícies são diferenciáveis.

1 Aquecimento
Exercício 1. Seja α : I ⊆ R → R3 uma curva parametrizada que não passa pela origem.
Suponha que α(t0 ) é o ponto do traço de α que esteja o mais próximo da origem e que α0 (t0 ) 6= 0.
Mostre que α(t0 ) e α0 (t0 ) são ortogonais.

Exercício 2. Seja α : I ⊆ R → R3 uma curva parametrizada e v ∈ R3 um vetor fixado.


Suponha que hα0 (t), vi = 0 para todo t ∈ I e que hα(t0 ), vi = 0 para algum t0 ∈ I. Prove
que α(t) é ortogonal à v para todo t ∈ I.

Exercício 3. Seja α : I ⊆ R → R3 uma curva parametrizada regular. Mostre que kα(t)k é


constante se e somente se α0 (t) e α(t) são sempre ortogonais. Interpretação geométrica?

Curiosidade. Tem alguns resultados sobre curvas (como por exemplo os três exercícios acima)
que não usam o fato de a curva estar no R3 - podia ser no Rn . Vamos continuar focando no R3
(e um pouco no R2 ), mas como um exercício mental, tente prestar atenção quando é possível
fazer alguma generalização desse jeito.

Exercício 4. Considere o conjunto C = {( x, y) ∈ R2 | x3 + y3 = 3axy}, denominado o fólio


de Descartes. Obtenha uma curva parametrizada diferenciável cujo traço é C, de tal forma
que o parâmetro t seja a tangente do ângulo compreendido entre o eixo y = 0 e o vetor posição
( x, y). (Dica: experimente y = tx.)
Exercício 5. Considere um círculo de raio a rolando sobre o eixo y = 0 sem deslizamento.
Um ponto dessa circunferência descreve uma ciclóide. Supondo que, para o tempo t = 0, o
ponto da circunferência coincide com a origem do sistema de coordenadas, obtenha uma curva
parametrizada diferenciável cujo traço é a ciclóide. Esta curva é regular? (Dica: decomponha o
movimento em dois - a rotação e o movimento horizontal.)

Exercício 6. Sejam α, β : I ⊆ R → R2 curvas regulares do plano tais que, para todo t ∈ I,


a reta determinada por α(t) e β(t) é ortogonal a α e β em t. Verifique que o comprimento do
segmento de reta de α(t) a β(t) não depende de t.
∗ terek@ime.usp.br

1
2 Curvas no Plano
Exercício 7. Seja α : R → R2 dada por α(t) = ( aebt cos t, aebt sin t) com a > 0 e b < 0
constantes. Mostre que
Z +∞
lim α0 (t) = (0, 0) e que kα0 (t)k dt < +∞.
t→+∞ 0

Esboce o traço de α.

Exercício 8 (Tratriz). Considere a aplicação:


  
t
α(t) = sen t, cos t + log tg , t ∈ (0, π ).
2

Prove que:

(i) α0 (t) 6= 0 para todo t 6= π


2

(ii) o comprimento do segmento de reta tangente, compreendido entre α(t) e o eixo y é cons-
tante igual a 1. O traço desta curva é chamado tratriz.

Definição ("Diedro" de Frenet). Seja α : I ⊆ R → R2 , parametrizada por comprimento de


·
arco. O vetor tangente à α em s ∈ I é o vetor T(s) = α0 (s). O vetor normal à α em s ∈ I é
o vetor obtido de T(s) após aplicar uma rotação de π/2 no sentido anti-horário (você sabe fazer
isso?). Como T tem comprimento constante, T0 é ortogonal a T (isto segue do exercício 3 com
T fazendo o papel de α), e portanto é proporcional à N. A função κ : I ⊆ R → R caracterizada
pela relação T0 (s) = κ (s) N(s) é dita a curvatura de α em s ∈ I.
Se a curva α não estiver parametrizada por comprimento de arco, defina todo o aparato
acima para α como sendo o aparato de uma reparametrização por comprimento de arco, que
sempre existe. (Por que existe? Por que não depende da reparametrização?1 )
Observe que esta noção de curvatura é um pouco diferente da noção dada para curvas no
espaço. A curvatura no plano tem sinal, enquanto a do espaço não tem. Isso causa umas dife-
renças sutis no desenvolvimento da teoria de curvas planas, dependendo de como o approach é
feito.

Exercício 9. Seja α : I ⊂ R → R2 uma curva regular, digamos, α(t) = x (t), y(t) . Mostre


que seus vetores tangente, normal e sua curvatura (com sinal) são dados, respectivamente, por:

( x 0 (t), y0 (t)) (−y0 (t), x 0 (t)) − x 00 (t)y0 (t) + x 0 (t)y00 (t)


T(t) = p , N(t) = p e κ (t) = .
x 0 ( t )2 + y 0 ( t )2 x 0 ( t )2 + y 0 ( t )2 ( x 0 (t)2 + y0 (t)2 )3/2

Observação. Note que


det(α0 (t), α00 (t))
κ (t) = .
kα0 (t)k3
É mais fácil lembrar assim. Além do mais, a fórmula serve mesmo se α não estiver parametrizada
por comprimento de arco.
1 Spoiler:
duas reparametrizações por comprimento de arco, digamos, β(s(t)) = γ(s(t)) acabam sa-
tisfazendo s = ±s + a para alguma constante a ∈ R. Prova?

2
Exercício 10. Seja r = r (θ ) uma curva regular dada em coordenadas polares. Verifique que o
comprimento do arco da curva de θ0 a θ1 é obtido por:
Z θ1 q
`= r (θ )2 + r 0 (θ )2 dθ
θ0

e a curvatura por:
2(r 0 (θ ))2 − r (θ )r 00 (θ ) + r (θ )2
κ (θ ) = .
(r (θ )2 + r 0 (θ )2 )3/2
(Dica: parametrize a curva pondo α(θ ) = ( x (r (θ ), θ ), y(r (θ ), θ )), abuse da regra da cadeia
e use o exercício anterior.)
Exercício 11. Considere a elipse α(t) = ( a cos t, b sin t), t ∈ R. Determine os pontos onde a
curvatura de α é máxima e onde é mínima.
Exercício 12. Seja f : ] a, b[ ⊆ R → R uma função suave (C ∞ ). Mostre que a curvatura do
gráfico de f é dada por
f 00
κ= 3/2 .
1 + (f )0 2

Dê uma interpretação para o sinal de κ em termos da concavidade de f . Como toda curva


regular no plano é localmente o gráfico de uma função (você sabe por que?), essa interpretação
vai servir pra qualquer curva regular no plano.
Exercício 13 (Evolutas). Seja α : I ⊆ R → R2 uma curva regular parametrizada pelo com-
primento de arco s. A evoluta de α é a curva definida por β(s) = α(s) + κ (1s) N(s), onde N(s)
é o vetor normal e κ (s) é a curvatura de α. Prove que:
(i) Suponha que κ (s) 6= 0, ∀ s. Então β é regular se κ 0 (s) 6= 0, ∀ s.

(ii) Nas condições do item (i), o vetor tangente à evoluta em s é paralelo ao vetor normal a α
em s.

(iii) Suponha que κ 0 (s) > 0, ∀ s. Verifique que o comprimento de arco da evoluta de α entre
s0 e s1 é igual à diferença entre os raios de curvatura2 de α em s0 e s1 .
Exercício 14. Descreva todas as curvas planas regulares tais que:
(i) todas suas retas tangentes se interceptam num ponto fixado;

(ii) todas suas retas normais se interceptam num ponto fixado.

3 Curvas no Espaço
Exercício 15. Prove que se α : I ⊆ R3 é uma curva regular, então valem as expressões:
α0 (t) × α00 (t)
(i) B(t) = ;
kα0 (t) × α00 (t)k
|α0 (t) × α00 (t)|
(ii) κ (t) = ;
kα0 (t)k3
2O raio de curvatura é o inverso da curvatura, a saber, 1/κ (s).

3
hα0 (t) × α00 (t), α000 (t)i
(iii) τ (t) = .
kα0 (t) × α00 (t)k2
Observação. Você vai achar as páginas de 28 a 30 da 1a edição do livro Differential Geometry
and Its Applications - John Oprea bem legais. O objetivo deste exercício é que você acompanhe
··
e entenda os cálculos realizados para obter essas expressões. ^
Comparar a expressão de κ (t) encontrada aqui com a expressão encontrada no exercício 9, e
notar que hα0 (t) × α00 (t), α000 (t)i = det(α0 (t), α00 (t), α000 (t)) pode ser instrutivo.
Exercício 16. Calcule o triedro de Frenet, a curvatura e a torção das seguintes curvas:
(i) α(s) = 54 cos s, 1 − sin s, − 35 cos s ;


(ii) α(t) = (t, t2 , t3 );

(iii) α(s) = a cos cs , a sin cs , bsc , onde c2 = a2 + b2 ;


  

 
(iv) α(s) = 31 (1 + s)3/2 , 13 (1 − s)3/2 , √s ;
2

(v) α(t) = (e−t cos t, e−t sin t, e−t ).


Exercício 17. Prove que se duas curvas em R3 são simétricas em relação à origem, então têm a
mesma curvatura e suas torções diferem de sinal.
Exercício 18.
 2

(i) Verifique que a curva α : ]0, +∞[ → R3 dada por α(t) = t, 1+t t , 1−t t é uma curva
plana.

(ii) Verifique que toda curva regular de R3 , cujas funções coordenadas são polinômios de grau
menor ou igual a dois, é uma curva plana.3
Curiosidade. Será que uma curva no Rn cujas entradas sejam polinômios de grau até k estão
contidas num subespaço afim de Rn de dimensão até k? Dependendo da sua solução dada acima,
··
a resposta pode ser óbvia ou não. Pense nisso. ^
Exercício 19 (Vetor de Darboux). Se um corpo rígido se move ao longo de uma curva α no R3
com velocidade unitária (i.e., parametrizada por comprimento de arco), seu movimento consiste
de uma translação ao longo de α e de uma rotação ao longo de α. A rotação é determinada por
um vetor velocidade angular ω que satisfaz T0 = ω × T, e expressões análogas para N e B.
O vetor ω é chamado o vetor de Darboux de α.
Mostre que ω = τ T + κ B e que T0 × T00 = κ 2 ω. (Dica: escreva ω como combinação
do triedro de Frenet de α e aplique produtos vetoriais. Estas expressões assumem a convenção
B0 = −τ N.)
Exercício 20 (Curvas Esféricas). Seja α : I → R3 uma curva parametrizada por compri-
mento de arco, com curvatura e torção não-nulas. Se α está contida em uma esfera de centro
c ∈ R3 e raio r > 0, então vale que:
 0  2  0 !2
1 1 1 1 1 1
α(s) − c = − N(s) + B(s) e r2 = + ,
κ (s) κ (s) τ (s) κ (s) κ (s) τ (s)
3O item (i) logo acima é um contra-exemplo para a recíproca.

4
para todo s ∈ I. Por outro lado, se
 2  0 !2
1 1 1
+ = r2
κ (s) κ (s) τ (s)

para todo s ∈ I, então α está contida em uma esfera de raio r. (Dica: todo vetor é combinação
linear do Triedro de Frenet de α, em particular α(s) − c. Talvez introduzir as notações ρ(s) =
1/κ (s) e σ (s) = 1/τ (s) ajude a simplificar a escrita.)

Exercício 21. Considere uma curva α : I ⊆ R → R3 parametrizada por comprimento de arco


tal que κ (s) > 0 para todo s ∈ I e que todos os planos osculadores de α tem um ponto em
comum. Prove que α é uma curva plana.

Exercício 22 (Hélices). Lembremos que uma curva α : I ⊆ R → R3 é uma hélice se existe


v ∈ R3 unitário tal que hα0 , vi é constante. Supondo τ (s) 6= 0 mostre que:
κ
(i) α é uma hélice se e somente se τ é constante;

(i) α é uma hélice se e somente se as retas passando por α(s) na direção de N(s) são todas
paralelas a um plano fixado.

(i) α é uma hélice se e somente se as retas passando por α(s) na direção de B(s) fazem ângulo
constante com uma direção fixada.

Exercício 23. Mostre que uma curva regular α : I ⊆ R → R3 é uma circunferência de raio
a > 0 se e somente se κ ≡ 1a e τ ≡ 0.

4 Superfícies - Parte 1
Exercício 24. Verifique que as aplicações:

(i) x(u, v) = (0, u, v), (u, v) ∈ R2 ;

(ii) x(u, v) = (u + v, 2(u + v), u), (u, v) ∈ R2 ;

(iii) x(u, v) = (cos u, 2 sen u, v), (u, v) ∈ R2

são superfícies parametrizadas regulares. Em cada item, descreva o traço de x na forma

S = {( x, y, z) ∈ R3 | F ( x, y, z) = 0} = F −1 (0)

para alguma função F : R3 → R diferenciável conveniente.

Exercício 25 (Projeção Estereográfica). Considere a esfera unitária

S2 = {( x, y, z) ∈ R3 | x2 + y2 + z2 = 1}.

Seja N = (0, 0, 1) o polo norte de S2 . Para cada (u, v) ∈ R2 a reta em R3 que liga o ponto
(u, v, 0) a N intercepta S2 \ { N } em precisamente um ponto St−1 (u, v). Isto determina uma
parametrização St−1 : R2 → S2 \ { N }.

(i) Escreva uma expressão para St−1 . Esta parametrização é regular?

5
(ii) Escreva uma expressão para a inversa St : S2 \ { N } → R2 . (Dica: pensar geometrica-
mente e fazer um raciocínio análogo ao do item acima é mais rápido do que inverter a
expressão lá encontrada.)

(iii) Reescreva a expressão de St−1 identificando R2 ≡ C via (u, v) 7→ z = u + iv, em termos


de z, z, Re(z) e Im(z).

Curiosidade. A aplicação St é chamada de projeção estereográfica. Sendo

Sn = {( x1 , · · · , xn+1 ) ∈ Rn+1 | x12 + · · · + xnn+1 = 1}

a esfera unitária de dimensão n, você pode repetir o feito acima para conseguir uma aplicação
St−1 : Rn → Sn \ { N } (quem é N dessa vez?). Talvez você até ache mais limpo fazer para
o caso geral logo, identificando Rn ≡ Rn ⊕ {0} ⊆ Rn com v = (ṽ, 0). Não existe uma
expressão análoga à encontrada em (iii) para n 6= 2 em geral. Você vai se deparar com isso
novamente quando fizer o curso de Funções Analíticas.
Ainda mais, você pode repetir toda essa discussão utilizando o polo sul da esfera ao invés do
polo norte. A moral da história é que dá pra cobrir a esfera usando apenas duas parametrizações.

Exercício 26 (Superfícies de Revolução). Seja α : I ⊆ R → R3 uma curva regular cuja


imagem está contida no plano Oxz e nunca toca o eixo Oz, isto é, α(t) é da forma α(u) =
f (u), 0, g(u) , onde f , g : I → R são funções diferenciáveis e, para todo u ∈ I, f (u) > 0.


(i) Obtenha uma parametrização para a superfície obtida pela rotação desta curva em torno
do eixo Oz.

(ii) Mostre que esta superfície é regular.

(iii) Descreva as curvas coordenadas dessa parametrização. As curvas u = u0 são chamadas


de paralelos e as curvas v = v0 são chamadas de meridianos.

(Dica: cada ponto α(u) vai percorrer um círculo de raio f (u), num plano de altura g(u), e você
sabe parametrizar círculos, certo?)

Exercício 27. Seja α uma curva como a do exercício 26. Mostre que a aplicação

x(u, v) = f (u) cos v, f (u) sin v, g(u) + av , (u, v) ∈ R2




é uma parametrização de superfície regular, para toda constante a ∈ R. Determine as curvas


coordenadas dessa parametrização e descreva a superfície quando:

(i) g(u) é uma função constante;

(ii) a = 0.

Exercício 28. Verifique que a aplicação:

x(u, v) = (u cos v, u sen v, φ(v)),

onde u ∈ ]0, +∞[, v ∈ R, e φ : R → R é uma função diferenciável, é uma superfície parame-


trizada regular. Determine a função φ de modo que o traço de x esteja contido no paraboloide
hiperbólico:
P = {( x, y, z) ∈ R3 | ax = yz}.

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Exercício 29. Se uma vizinhança coordenada de uma superfície regular pode ser parametrizada
na forma
x(u, v) = α1 (u) + α2 (v),
onde α1 e α2 são curvas parametrizadas regulares, mostre que os planos tangentes ao longo de
uma curva coordenada fixa desta vizinhança são todos paralelos a uma reta.

Exercício 30. Prove que se uma superfície regular S encontra um plano Π em um único ponto
p ∈ S, mostre que Π = Tp S.

Exercício 31. Mostre que a área A de uma região limitada R da superfície z = f ( x, y) é


ZZ q
A= 1 + f x2 + f y2 dx dy,
Q

onde Q é a projeção ortogonal de R sobre o plano xy.

Exercício 32. As curvas coordenadas de uma parametrização x constituem uma rede de


Chebyshev se os comprimentos dos lados opostos de qualquer quadrilátero (na superfície) for-
mado por elas são iguais. Mostre que isto acontece se e somente se

∂E ∂G
= = 0.
∂v ∂u
··
Bons estudos! ^