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Pietro Ubaldi

I – PARTE II – PARTE

III – PARTE
A LEI DE DEUS
PREFÁCIO .................................................................................................................................................................. 1
I. Novos Caminhos ...................................................................................................................................................... 2
II. Separatismo Religioso ............................................................................................................................................ 3
III. O Problema do Destino ........................................................................................................................................ 5
IV. Em Harmonia com A Lei ..................................................................................................................................... 7
V. A Infalibilidade da Lei ........................................................................................................................................... 8
VI. A Justiça da Lei................................................................................................................................................... 10
VII. Mudança de Planos ........................................................................................................................................... 12
VIII. A Transitoriedade do Mal e da Dor ............................................................................................................... 13
IX. Das Trevas À Luz ............................................................................................................................................... 15
X. Aparências e Realidades ...................................................................................................................................... 17
XI. O Extraordinário Poder da Vontade ................................................................................................................ 18
XII. O Edifício da Evolução ..................................................................................................................................... 20
XIII. O Funcionamento da Lei ................................................................................................................................. 22
XIV. Escola da Vida .................................................................................................................................................. 23
XV. Em Busca da Felicidade .................................................................................................................................... 25
XVI. Do Separatismo À União ................................................................................................................................. 27
XVII. A Realidade dos Instintos .............................................................................................................................. 29
XVIII. A Musicalidade da Lei .................................................................................................................................. 31
XIX. O Fracasso da Astúcia ..................................................................................................................................... 33
XX. A Justiça da Lei ................................................................................................................................................. 35
XXI. O Evangelho e O Mundo ................................................................................................................................. 36
XXII. A Impecável Justiça da Lei ............................................................................................................................ 38
XXIII. A Conquista do Poder e A Justiça Social .................................................................................................... 40
XXIV. A Lei Aplicada À História ............................................................................................................................ 41
XXV. Evolução da História ..................................................................................................................................... 43

QUEDA E SALVAÇÃO
PREFÁCIO ................................................................................................................................................................ 51
INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................................... 52
O PROBLEMA DO CONHECIMENTO ............................................................................................................... 52
I. Esquema Gráfico: Involução – Evolução............................................................................................................. 57
II. A Sabedoria da Lei............................................................................................................................................... 62
III. A Ética Universal ................................................................................................................................................ 67
IV. Negatividade e Positividade ............................................................................................................................... 71
V. Princípios de Uma Nova Ética ............................................................................................................................. 78
VI. O Erro e Sua Correção ....................................................................................................................................... 84
VII. Mecanismo da Correção do Erro ..................................................................................................................... 88
VIII. Evoluído e Involuído ........................................................................................................................................ 94
IX. Determinismo da Lei .......................................................................................................................................... 97
X. Dinâmica do Processo Evolutivo ....................................................................................................................... 102
XI. Impulsos da Evolução ....................................................................................................................................... 108
XII. O Fenômeno Queda - Salvação ...................................................................................................................... 115
XIII. Uma Etica Progressiva .................................................................................................................................. 119
XIV. Níveis Evolutivos e Tipos Biológicos ............................................................................................................ 126
XV. Técnica do Fenômeno da Redencão ............................................................................................................... 132
XVI. Ajuda de Deus e Missão................................................................................................................................. 138
XVII. As Estratégias do Bem e do Mal.................................................................................................................. 142
XVIII. Conceito de Morte para O Evoluido e O Involuído ................................................................................ 146
A TÉCNICA FUNCIONAL DA LEI DE DEUS
P R E F Á C I O .................................................................................................................................................................. 153
I. Verdades e Morais Relativas.......................................................................................................................................... 153
II. A Posição do Homem Espiritual Diante das Religiões de Massa. A Religião Unitária e Científica do Futuro ..... 155
III. A Atual Fase Evolutiva da Sociedade Humana ........................................................................................................ 157
IV. Um Mais Avançado Conceito de Deus e da Vida ..................................................................................................... 161
V. Arremesso e Correção da Trajetória da Vida. A Terapia dos Destinos Errados..................................................... 163
VI. As Três Fases do Ciclo da Redenção .......................................................................................................................... 165
VII. A Técnica Funcional do Destino. A Futorologia e A Racional Planificação da Vida .......................................... 171
VIII. A Nova Moral e A Técnica da Salvação .................................................................................................................. 176
IX. A Resistência À Lei e Suas Conseqüências ................................................................................................................ 186
X. O Problema do Karma e A Justiça de Deus ................................................................................................................ 188
XI. A Função da Bondade e do Amor de Cristo Diante da Rígida Justiça da Lei do Pai ............................................ 190
XII. O Homem Diante da Lei ............................................................................................................................................ 194
XIII. A Inteligência do Diabo ............................................................................................................................................ 198
XIV. O Conceito de Criação .............................................................................................................................................. 199
XV. As Conquistas Espirituais do Novo Homem do Futuro.......................................................................................... 202
CONCLUSÃO .................................................................................................................................................................... 206

PENSAMENTOS
PRIMEIRA PARTE – COMO ORIENTAR A PRÓPRIA VIDA ................................................................................... 209
INTRODUÇÃO – ORIENTAÇÃO ................................................................................................................................... 209
I. O Princípio de Retidão ................................................................................................................................................... 211
II. A Lei do Retorno ........................................................................................................................................................... 212
III. Um Novo Estilo de Vida. O Método do Respeito Recíproco ................................................................................... 213
IV. Um Novo Tipo de Moral .............................................................................................................................................. 216
V. As Posições do Indivíduo Perante A Lei ...................................................................................................................... 218
VI. Análise das Forças da Personalidade e O Conhecimento do Futuro. O Fim das Guerras. ................................... 220
VII. O Futuro Estado Orgânico Unitário da Humanidade ............................................................................................. 222
VIII. Por Que Se Vive. As Trajetórias Erradas e A Técnica de Sua Correção ............................................................ 223
IX. O Problema da Delinquência ...................................................................................................................................... 225
X. A Fabricação do Técnico, do Produto e do Consumidor .......................................................................................... 227
CONCLUSÃO .................................................................................................................................................................... 230

SEGUNDA PARTE – ANÁLISE DE CASOS VERÍDICOS .......................................................................................... 233


INTRODUÇÃO – ORIENTAÇÃO ................................................................................................................................... 233
I. Diálogo Com As Leis da Vida ........................................................................................................................................ 235
II. A Nova Ética .................................................................................................................................................................. 237
III. A Técnica do Fenômeno .............................................................................................................................................. 239
IV. Primeiro Caso ............................................................................................................................................................... 241
V. Segundo Caso ................................................................................................................................................................. 247
VI. Terceiro Caso ............................................................................................................................................................... 248
VII. Quarto Caso ................................................................................................................................................................ 250
VIII. Quinto, Sexto e Sétimo Caso .................................................................................................................................... 252
IX. O Novo Tipo de Exame de Consciência ...................................................................................................................... 255
X. Como Fazer Um Novo Exame de Consciência ........................................................................................................... 258
CONCLUSÃO .................................................................................................................................................................... 261

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)...............................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 1
A velha linguagem continua sendo repetida. Mas todos estão
A LEI DE DEUS acostumados a ouvi-la e não reparam mais. O mundo progrediu
e se tornou diferente. Parece que, nos milênios da sua vida reli-
giosa, em vez de ser transformado pelas religiões ao realizar os
PREFÁCIO princípios delas, ele as transformou para suas comodidades. Em
vez de aprender a viver nas regras da Lei, aprendeu a arte de
Os capítulos deste livro constituem uma série de vinte e qua- evadir-se delas, a astúcia das escapatórias para enganar o próxi-
tro palestras, proferidas na Rádio Cultura São Vicente, todos os mo e até mesmo, se fosse possível, Deus. Então, se os velhos
domingos, no período de 17 de agosto de 1958 a 8 de fevereiro sistemas não adiantam mais e se este é o resultado deles, por que
de 1959, tendo por isso, algumas vezes, o caráter de conversa. não usar hoje outra linguagem, que seja mais bem compreendi-
Ao mesmo tempo, elas foram publicadas no jornal O Diário, de da? Por que não se apoiar sobre outros impulsos e movimentar
Santos. Apresentamos agora, aqui reunidas, essas palestras. Elas outras alavancas, às quais o homem possa melhor obedecer? Por
continuam desenvolvendo sempre mais os conceitos expostos que não ver a vida no seu sentido utilitário, oferecendo também
em nossos dois livros: A Grande Batalha e Evolução e Evange- vantagens, quando se pede virtudes e sacrifícios?
lho, da segunda trilogia de nossa segunda Obra, de 12 volumes Foi por isso que nasceram estas palestras. Com os nossos
como a primeira. Trata-se sempre do estudo da lei de Deus, para livros: A Grande Síntese, Deus e Universo e O Sistema, tínha-
que saibamos, realmente, como orientar a nossa própria vida. mos atingido uma visão bastante completa da estrutura orgâni-
No livro O Sistema (Gênese e Estrutura do Universo), fo- ca do universo. Tratava-se, então, apenas de deduzir destes
ram apresentadas as teorias básicas da formação e do funcio- princípios gerais as suas consequências práticas, colocando-os
namento do universo. Nos dois referidos livros, A Grande Bata- em contato com a realidade da nossa vida e verificando se eles
lha e Evolução e Evangelho, entramos no terreno prático das permanecem verdadeiros também nos pormenores do caso par-
consequências e aplicações dessas teorias, efetuando o controle ticular. Deste modo, o problema da conduta humana foi en-
racional e experimental da sua verdade. Tivemos, por isso, de frentado de uma forma diversa, isto é, em sentido racional e
enfrentar o problema da conduta humana no campo da ética, as- positivo, tornando-se – tal como os da ciência – logicamente
sunto do presente volume (A Lei de Deus) e do que se lhe se- demonstrável e experimentalmente controlável, apoiado nos
guirá (Queda e Salvação). Mas há uma diferença entre os dois. fatos que todos vemos, e encontrando assim a sua explicação.
O primeiro, este que temos em mãos, trata o assunto de um Foi possível deste modo chegar a uma ética universal, que,
modo geral, com uma linguagem fácil, acessível, adaptada a pa- sendo independente de qualquer religião particular, é absolu-
lestras pelo rádio. O segundo, Queda e Salvação, considera o tamente – como são a matemática e a ciência em geral – im-
mesmo assunto da conduta humana e da ética, mas de maneira parcial e verdadeira para todos, porque faz parte da grande lei
diferente, penetrando em profundidade os problemas, atingindo que rege tudo, escrita no pensamento de Deus, podendo ser
os pormenores, provando as teorias com demonstrações racio- vista realizada nos fatos. Chegamos assim, nestas palestras, a
nais e colocando-as em contato com a realidade dos fatos. Por uma orientação que sai do terreno empírico das religiões para
isso esse segundo livro voltará a falar de temas que, no primei- entrar no terreno positivo da ciência, e isto justifica a nossa
ro, foram esboçados apenas superficialmente e tratados com conclusão de que elas têm de ser ponderadas por toda mente
linguagem diferente, em função de outros ângulos. Podemos que queira e saiba raciocinar e, por isso, aceita sua demonstra-
afirmar isto porque o plano desse segundo livro já está se apro- ção, como a de um teorema de matemática.
ximando de nossa mente e, desde agora, vemos os liames que A novidade e importância deste ponto de vista, sustentado
unem os dois volumes no mesmo motivo fundamental de ética. nestas palestras, baseia-se nos seguintes fatos:
O aspecto em função do qual encara-se este problema no pre- 1) Trata-se de uma ética universal, que diz respeito à vida e
sente livro é o homem, como cidadão do seu mundo terreno. permanece verdadeira em todas as suas formas, ao atingirem
Por outro lado, a perspectiva sob a qual será tratado o mesmo um dado nível de evolução, em qualquer corpo celeste do uni-
problema no livro Queda e Salvação é o pensamento de Deus, verso. Por isso, ficando acima de todos os pontos de vista par-
que, através de Sua lei, dirige o ser para a sua salvação final. ticulares e relativos, esta ética resulta absolutamente imparcial
No primeiro caso, a ética é concebida olhando-se para a Terra; a respeito das divisões humanas, porque é completamente in-
no segundo, olhando-se para o Céu. dependente delas.
Até agora, o problema da nossa conduta foi enfrentado empi- 2) Trata-se de uma ética positiva, baseada em fatos, como é
ricamente pelas religiões, que se encarregaram disto. Porém as a ciência, constituindo nada mais senão um capítulo da Lei, que
soluções oferecidas por elas se baseiam em princípios teóricos rege tudo e que é estudada pela ciência em seus outros aspectos.
axiomáticos, não demonstrados, representando na realidade, Ética de efeitos calculáveis, determinística, baseada em princí-
muitas vezes, apenas o resultado de ilusões psicológicas não pios absolutos, sem escapatórias, a exemplo da lei da gravitação
controladas, ainda não comprovadas, cegamente aceitas, produto e das leis do mundo físico, químico, biológico, matemático etc.
do desabafo de instintos e impulsos do subconsciente. No entan- 3) Trata-se de uma ética utilitária e praticável, concorde
to a forma mental moderna tornou-se mais culta e astuta, que- com o princípio fundamental da Lei: a justiça, que é também o
rendo, por isso, olhar atrás dos bastidores da fé, para ver o que anseio do ser, e esta justiça exige que o sacrifício da obediên-
há de positivo, tanto mais porque aquela fé implica em uma vida cia à Lei e o esforço para evoluir encontrem a sua recompensa.
dura de virtude e sacrifício. O temor genérico de uma penalidade Ética correspondente ao instinto fundamental do ser, que é fu-
e a esperança de um ganho, sem saber onde e como, nos céus gir do sofrimento e chegar à felicidade. Por isso vem a ser uma
que começam a ser explorados e percorridos de verdade pela ci- ética capaz de ser entendida e aceita, pois satisfaz à forma
ência, não convencem mais as consciências insatisfeitas. Agora mental do homem moderno.
que se aproxima o fim da civilização europeia, encontramo-nos 4) Trata-se de uma ética racional, logicamente demonstrada,
nas mesmas condições do fim do Império Romano, quando nin- que se sustenta não porque se baseia na fé cega, no princípio de
guém acreditava mais nos deuses. Como, então, ficará de pé a autoridade ou no terror de castigos arbitrários e obscuros, mas
forma, esvaziada da substância? No meio de tantas religiões, an- porque convence quem saiba pensar. Uma ética que não admite
tes de tudo preocupadas em combater umas às outras, para con- enganos, porque nela se pode ver tudo com clareza, na perfei-
servar e aumentar o seu império espiritual, o mundo fica subs- ção e na bondade das regras, às quais devemos obedecer até às
tancialmente materialista, apegado sobretudo aos seus negócios. últimas consequências de cada ato nosso.
2 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
5) Esta ética resulta de um sistema filosófico-científico uni- maneira a ser compreendida. Procurarei fazer com que estas
versal, que abrange e explica tudo do princípio ao fim, sistema conversas se prolonguem o mais possível, a fim de chegar, se
do qual ela representa um aspecto controlável nas suas conse- porventura já não tenha sido alcançada, a uma comunhão de
quências práticas da vida comum. Estas conclusões se baseiam pensamento mais completa, a uma união de mente e coração,
no valioso apoio de teorias positivas gerais, que as sustentam, que constitua uma ponte através da qual eu possa dar tudo de
orientando-nos também a respeito de tantos outros fenômenos, mim mesmo, doando tudo aquilo que consegui compreender e
dos quais estas teorias oferecem uma interpretação lógica. realizar na minha longa experiência, numa vida de tempesta-
6) Esta ética pode ser submetida a um controle experimental des e introspecção profunda. A dor constrangeu-me a apren-
no laboratório da vida, com o mesmo método positivo da expe- der a superá-la, para fugir dela ou, pelo menos, domesticá-la.
rimentação utilizado pela ciência para controlar a verdade das Neste nosso mundo, são muitos os que sofrem, e ensiná-los
outras leis que vai descobrindo. E, juntas, todas estas leis, ao como amansar a dor é obra de caridade. Procuraremos tam-
lado desta ética, constituem a grande lei que rege o todo. bém satisfazer a sede de conhecimento que se encontra ani-
7) De fato, estas conclusões foram submetidas por nós, que nhada no fundo de cada alma. Tudo isto quero comunicar aos
as estudamos em nossa própria vida e na alheia por meio sécu- amigos, que serão meus herdeiros.
lo, a controle experimental, o qual as confirmou plenamente. E Dizem que meus livros são difíceis demais, mas eles não
muitas testemunhas viram os fatos que aconteceram. constituem todo o meu trabalho. Eis que é chegado o momento
8) Trata-se de uma ética que não diz coisa nova, mas apenas da realização desta outra parte do trabalho, na qual minha tarefa
repete com outras palavras o que já foi dito pelo Evangelho e é traduzir as teorias difíceis em palavras simples, repetindo e es-
pelas religiões mais adiantadas que o mundo possui. Apenas clarecendo tudo numa forma diferente, acessível a todos, sem as
quisemos dar de tudo isto a demonstração lógica e a prova expe- complicações da ciência, sem as dificuldades da alta cultura,
rimental, explicando com outras palavras a necessidade de tomar conservando-nos apegados à substância, mas simplificando o
a sério e viver o que, há milênios, está sendo repetido ao mundo. que é mais complexo, aproximando-nos da realidade do nosso
9) Esta ética não somente nos orienta no imenso mundo mundo, melhor compreendida por todos, porque a vivemos em
fenomênico em que vivemos, dirigindo com conhecimento a nossa vida de cada dia. As grandes teorias do universo serão
nossa conduta, mas também explica o que está acontecendo, descritas de outra forma. Esta nova exposição daquelas mesmas
dando a razão dos fatos que nos cercam e justificando-os logi- teorias terá a vantagem de confirmá-las, em virtude de estar em
camente, quando não desejamos aceitá-los, como no caso do contato mais direto com os fatos. Desta maneira, elas se tornarão
sofrimento. Respondendo às nossas perguntas e oferecendo acessíveis sem a necessidade de esforço mental, que nem todos
uma solução razoável aos problemas da nossa vida, esta ética podem fazer, e de cultura, que nem todos possuem. Assim, estas
ilumina o caminho que temos a percorrer, para que possamos verdades poderão ser compreendidas e utilizadas por um número
vê-lo e avançar por ele, mas não de olhos fechados, e sim com cada vez maior de pessoas que desejem ser beneficiadas e preci-
as vantagens oferecidas pelo conhecimento da Lei e a certeza sem de orientação, a fim de melhor se dirigirem na vida.
da sua justiça e bondade. Para que não haja qualquer mal-entendido, desejamos
10) Esta ética responde a uma necessidade do momento his- afirmar, logo de começo, que a nossa finalidade é só fazer o
tórico atual. O céu, contemplado, admirado e venerado na Terra, bem. Queremos fazer isto, oferecendo o fruto do nosso pen-
sempre de longe, como sonho praticamente irrealizável, não pode samento e da nossa experiência, para que os amigos possam
ser apenas teoria vivida por poucas exceções, mas deve descer e deste conhecimento tirar para si próprios a maior utilidade,
realizar-se entre nós. Seria absurdo que os grandes ideais existis- que é a utilidade espiritual, a base da material, porque não se
sem para nada, como o homem preguiçoso preferiria. Apesar da pode isolar uma da outra.
sua indiferença, ele não pode paralisar as forças da evolução na Nossa tentativa não se destina a impor ideia alguma ou a
realização do seu objetivo fundamental, que é o progresso. fazer prosélitos. É apenas uma oferta livre, que não obriga nin-
Com o desenvolvimento da inteligência e o aumento do guém a aceitá-la. Quem estiver convencido de possuir outra
conhecimento, vai aparecer também no terreno da ciência po- verdade melhor e estiver satisfeito com ela, que não a abando-
sitiva a verdadeira concepção de Deus e da Sua lei. Então ela ne. Quem não gostar de pesquisas no terreno dos inúmeros
sairá das formas das religiões particulares em luta entre si, da mistérios que nos cercam de todos os lados, quem não quiser
clausura das igrejas, do exclusivismo dos seus representantes, incomodar-se com o trabalho de aprofundar o seu conhecimen-
e o homem, mais consciente, perceberá a grande realidade que to, enriquecendo-o com novos aspectos da verdade, fique tran-
é Deus, colocando-se finalmente, para o seu bem, na obediên- quilo na sua posição. Não desejamos perturbar ninguém; não
cia à ordem da Lei. andamos em busca de seguidores, a fim de conquistar domínio
na Terra; não somos rivais de ninguém neste campo. O nosso
São Vicente, Páscoa de 1959. único interesse é a pesquisa para atingir o saber. Este, e só es-
te, é o nosso objetivo, que não visa absolutamente conquistar
I. NOVOS CAMINHOS qualquer poder neste mundo.
Permanecemos, por isso, com o maior respeito por todas as
Plano e método de trabalho. verdades que o homem possui e pelos grupos que as represen-
tam. Respeitamos os campos já conhecidos, embora sigamos
Na véspera do meu septuagésimo segundo aniversário, aqui por nossa conta, explorando novos continentes. Respeitamos
em Santos, onde desembarquei, vindo da Itália, há quase seis as verdades já conquistadas, embora procuremos ver mais lon-
anos, em dezembro de 1952, começo esta primeira série de rá- ge. Respeitamos todas as religiões e doutrinas, sem pretender
dio-palestras, a fim de poder chegar a um contato mais próximo de maneira nenhuma destruí-las ou superá-las, a fim de substi-
com os meus amigos. Até agora, este contato se realizou por in- tuí-las por outras. Ensinaremos sempre o maior respeito pela fé
termédio da palavra escrita, através dos meus livros. Hoje ele se e pela filosofia dos outros.
realiza também de viva voz, o que torna mais real e mais atual O nosso lema é que o homem civilizado jamais agride o
o contato com o ouvinte, resultando em uma aproximação mai- seu próximo, assim como um ser evoluído nunca entra em
or do que aquela obtida pelos escritos dirigidos ao leitor. polêmicas. Isto significa que, para nós, quem agride o próxi-
Entro assim numa fase nova do meu trabalho, na qual me mo não é civilizado e aquele que entra em polêmicas, para
aproximarei do povo com uma linguagem mais simples, de impor à força as suas ideias aos outros, ainda não é evoluído.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 3
Não quer dizer que ele seja mau, mas simplesmente que está O mundo atual parece que está se tornando cada vez pior.
atrasado no caminho da evolução, fato comprovado pelo uso Mas Deus pôs limites à liberdade do homem. Desse modo, es-
de métodos que o aproximam mais da fera. O método utiliza- te não tem o poder de parar o funcionamento da Lei, que tudo
do revela a sua própria natureza e o nível de vida a que per- rege. O mundo pode ser conduzido ao desmoronamento e ao
tence. Mais adiante explicaremos isto melhor. “Dize-me co- fracasso, mas o prejuízo é somente para quem levá-lo a seguir
mo lutas e dir-te-ei quem és”. tal caminho. A lei de Deus permanece imutável. Isto quer di-
Tranquilizem-se, assim, aqueles que supõem esteja eu fa- zer que, no meio de tantos crimes e injustiças, a justiça de
zendo campanhas contra alguém. Isso significaria retroceder Deus fica de pé, e os que fracassarem serão os piores. Mas,
milhares de anos no caminho da evolução. Proceder assim se- para os justos, para os honestos, que não mereceram a reação
ria sintonizar com forças negativas de destruição. E veremos da Lei, fica em sua defesa a justiça de Deus. Perante Ele, cada
que, entre tantas leis que dirigem o mundo, existe uma segun- um fica sozinho com o seu destino, para colher o que semeou
do a qual quem destrói acaba destruindo a si mesmo, quem e receber o que mereceu.
agride o próximo agride a si mesmo, quem faz o mal o faz an- Veremos o que significa destino, procurando penetrar o se-
tes de tudo a si mesmo. Veremos a maravilhosa justiça de gredo da nossa vida através do conhecimento das leis que a re-
Deus sempre presente em ação, inclusive neste mundo de in- gem. Muita coisa teremos de ver juntos. Nesta primeira palestra
justiça. Veremos que a ciência e a lógica não estão contra a fé. não é possível tocar senão em alguns assuntos gerais. Mas,
Os poderes do intelecto nos foram dados por Deus para com- pouco a pouco, entraremos cada vez mais nos problemas da vi-
preender e demonstrar a verdade com provas reais, pois que a da, que temos de resolver, e nas perguntas que surgem em nos-
fé pode apenas vislumbrá-la. sa mente, às quais é necessário responder. Eis a conclusão que
Veremos, provenientes de planos de vida mais elevados, podemos antecipar: Deus vem ao nosso encontro de braços
muitas coisas boas e maravilhosas, que, se quisermos, podemos abertos, com uma lei de bondade e de justiça, e podemos rece-
atrair à Terra. ber felicidade, quando a tivermos merecido, por termos semea-
Maravilhosa descida de sabedoria e de bondade, através de do bondade e justiça. Há um caminho para chegar à felicidade,
que se manifesta entre os homens a presença de Deus! Procu- mas se o homem não quer segui-lo, a culpa e as justas conse-
raremos aprender a arte de viver em paz e no respeito ao pró- quências não podem ser senão dele mesmo. Devido à escassez
ximo, o que constitui a base de uma feliz convivência social.
do tempo, não podemos prosseguir hoje, mas continuaremos
As longínquas teorias dos nossos livros descerão do mundo
depois. Irá, assim, realizar-se um colóquio entre as nossas al-
das abstrações, até a sua aplicação se tornar prática, podendo
mas, até chegarmos a um abraço de compreensão e alegria para
assim conferir frutos reais a quem o desejar. Não prometemos
mim, por tornar-me útil ao próximo, para que os ouvintes pos-
poderes mágicos nem felicidade fácil, mas seremos nós mes-
sam desfrutar das vantagens de compreenderem melhor a vida
mos que nos colocaremos, juntamente com tudo o mais, den-
e, consequentemente, semearem para si menos sofrimentos.
tro de uma visão da vida clara, singela e positiva, constituída
Procurarei falar de alma para alma, a cada um, como em segre-
pela lei de Deus, a qual pode ser dura quando o merecemos,
do ao ouvido, a fim de esclarecer os vossos problemas, focali-
mas é sempre boa e justa. Devemos compreender, finalmente,
como está feita e como funciona esta grande máquina do uni- zando-os diretamente, para confortar os que sofrem, orientar os
verso, construída e movimentada por Deus, dentro da qual vi- que duvidam, pacificar os revoltados, encaminhar para Deus os
vemos e de que somos parte. Ela é a nossa casa, onde mora- desviados, dar uma fé e uma esperança aos descrentes. Para nos
mos, sem no entanto a conhecermos. libertarmos da disciplina da Lei, de nada vale dizer que Deus
Movimentando-nos acertadamente, evitaremos o sofrimen- não existe: Ele permanece existindo; de nada vale negar a Sua
to, que é a campainha de alarme que nos avisa quando comete- lei: ela continua funcionando; de nada vale escondermo-nos nas
mos um erro, que deve ser corrigido para voltarmos à harmonia trevas: a luz persiste resplandecendo no Alto. Estamos vivendo
na ordem da Lei. Enquanto não regressarmos àquela harmonia, dentro desta lei viva, da qual deriva nossa própria vida. Esta lei
a dor não pode acabar. É lógico que o bem-estar possa nascer representa o pensamento e a vontade de Deus, que é a causa
apenas de um estado harmônico e que a desordem não possa primeira da vida universal.
gerar senão sofrimento. O ser é livre, mas o universo é um con- Continuaremos, assim, falando juntos, de amigo para amigo,
certo musical, onde qualquer dissonância produz sofrimento. unidos por um liame de bondade, para o bem de ambos. “Sem
Na verdade, o que se deve colher, quando o homem continua- bondade não se pode dizer a verdade”. Considerarei cada ouvin-
mente se rebela contra a ordem da lei de Deus? Num sistema te como um amigo meu pessoal, com o qual estou desabafando a
dessa natureza, é lógico que a felicidade não possa ser atingida minha paixão de beneficiar o próximo. Não sou rico para dar di-
senão pelo caminho da obediência e que a revolta não possa nheiro, não sou poderoso para oferecer vantagens materiais. Dou
trazer senão sofrimentos. O estado em que se encontra nosso o que tenho: o pensamento que recebi por inspiração e o amor
mundo comprova, na realidade dos fatos, a verdade desta afir- do meu coração. Como recompensa, espero que este pensamento
mação. Dado que seria absurdo atribuir a causa de tanto mal a seja compreendido e que este amor seja retribuído.
Deus, que não pode ser senão bom e perfeito, não resta outra al-
ternativa senão atribuí-la ao homem Quanto maior for a revolta, II. SEPARATISMO RELIGIOSO
tanto maior será o sofrimento, até o homem rebelde aprender, à
sua custa, a obediência. Se quisermos fugir à dor e conquistar a
Respeito por todas as crenças
felicidade, qualquer que seja a nossa filosofia ou religião, temos
de compreender que existem leis, existem leis, existem leis; se
continuarmos violando-as, como costumamos fazer, teremos Estou novamente convosco, continuando a nossa primeira
tanto sofrimento, que acabaremos por compreender que existem conversa. Destas conversas faremos muitos elos, e destes elos
leis e, se não quisermos sofrer, não há outro caminho a não ser uma corrente de inteligência e de bondade, para construir um
nos ajustarmos a elas. Se o mundo conseguisse aperceber-se dique contra a ignorância e a maldade que inundam o mundo.
disso, esta seria a maior descoberta dos nossos tempos. Eis o Estas palestras singelas, estas palavras que saem dos meus
conhecimento que consegui atingir em meio século de trabalho lábios, serão úteis para afastar tantos mal-entendidos e dúvidas
mental e de controle experimental. Este é o presente que agora que, por incompreensão do meu trabalho, nasceram desde a mi-
quero oferecer aos meus amigos. nha primeira vinda ao Brasil em 1951. Peço desculpas por ter
4 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
de falar de mim, o que me é desagradável. Mas não há outra uns aos outros. Dizemos civilizado porque só esse tipo de ho-
maneira de esclarecer o caso. Tenho aqui de repetir mais uma mem pode fazer parte da nova humanidade que está surgindo, a
vez aquela afirmação de universalidade e imparcialidade, que qual não será constituída por bandos de lobos, mas sim por uma
foi e sempre será meu lema. Devo também explicar que as mi- coletividade social unida e colaborando organicamente. Esse
nhas palavras têm de ser entendidas literalmente: elas não con- novo mundo, que amanhã será melhor, é o que mais nos inte-
têm outros significados ou subterfúgios. Ora, imparcialidade ressa; um mundo de compreensão e de colaboração recíprocas;
quer dizer inexistência de partido, compreendendo-os todos; o mundo do “ama o teu próximo como a ti mesmo”. Assim, po-
significa não ficar fechado na forma mental de facção ou de demos concordar com tudo, menos com essa vontade de não
grupo particular algum, sobretudo quando este grupo, seja ele concordar. Mas não condenamos ninguém por isso, porque esse
qual for, impõe que se combata outros grupos, perseguindo-os método corresponde a uma lei que pertence a um dado plano de
com suas condenações e julgando-os errados e maus, porque vida. Não se deve considerar isso maldade, nem se deve chamar
são diferentes do próprio grupo. de mau o ser que, não sendo bastante evoluído, comete erros
Infelizmente, esse instinto de exclusividade, pelo qual não porque ainda não compreendeu e não sabe fazer melhor.
se pode afirmar a verdade própria a não ser condenando como Uma vez expliquei a alguém o meu ponto de vista de im-
erradas as verdades dos outros, é produto do nosso nível de vi- parcialidade e universalidade. Sua face iluminou-se e, de súbi-
da humana, sendo isso apanágio do homem em geral, qualquer to, ele respondeu: “compreendo, trata-se de um novo partido: os
que seja a religião ou grupo doutrinário ao qual pertença. Não é imparcialistas e universalistas”. Este fato mostrou-me como a
a diferença ideológica dos pontos de vista das religiões que forma mental comum não consegue conceber coisa alguma, se
deixamos de aceitar. Tudo isso é natural e lógico. Em nosso não a vir bem fechada dentro dos limites do relativo, isto é, na
mundo relativo, não pode existir coisa alguma senão de forma forma de um grupo particular bem separado dos outros e, logi-
relativa. Assim, nele, também a verdade não pode aparecer se- camente, em luta com eles. Esta forma mental, colocada perante
não dividida em seus aspectos diferentes. O que não podemos a ideia de universalidade, não consegue concebê-la senão na
aceitar é a atitude de condenação, de exclusividade da posse da forma de um imperialismo dominador, cujo poder central con-
verdade e de agressividade, que muitas vezes se encontra nas segue submeter a todos. E, de fato, é assim que o mundo se en-
religiões e nos grupos doutrinários. Não nos interessa tomar contra, é isso o que vemos na Terra.
parte nestas rivalidades terrenas, que nada têm a ver com a pes- Quando cheguei ao Brasil, a convite de um desses grupos,
quisa da verdade, que buscamos. outro grupo levantou-se contra mim, dizendo ter chegado um
O nosso objetivo não é defender um patrimônio já adquirido, enviado de Satanás. E, quando sustentei algumas teorias deste
mas sim nos enriquecermos com novas conquistas, para doá-las outro grupo, fui censurado pelo que me havia convidado. Assim
a quem as quiser. Não estamos amarrados a quaisquer interesses acontece sempre, pois se trata do mesmo tipo de homem, que,
terrenos, que imediatamente se constroem por cima de toda e possuindo uma só forma mental, é levado a proceder sempre da
qualquer verdade. Quem está mergulhado no trabalho de pesqui-
mesma maneira, isto é, com condenações e anátemas, seja qual
sa não pode despender as suas energias nessa luta de rivalidades.
for o grupo a que ele pertença.
A nossa tarefa não é conservar o passado, defendendo-o, mas
É assim que nascem os mal-entendidos. O meu trabalho não
sim construir o futuro. Os nossos interesses não estão na Terra,
é, como todos desejariam, oferecer-me para ser um seguidor a
mas somente nessa construção. O respeito que temos pela ver-
mais e engrossar as fileiras desse ou daquele grupo, mas sim fa-
dade de cada um e que todos devem ter para com as verdades
zer pesquisas, a fim de resolver problemas ainda não resolvidos,
que o mundo possui, não pode interromper o caminho da vida e
esclarecer dúvidas, compreender mistérios, responder perguntas
a evolução do pensamento. O passado não pode paralisar o flo-
para as quais as religiões, as doutrinas e as filosofias ainda não
rescimento do futuro. E no mundo há lugar para todos.
deram respostas. Disso se conclui que a ideia comum de imperi-
O primeiro mal-entendido nasceu quando julgaram que nós
representávamos este ou aquele grupo e, por conseguinte, que alismo religioso, em busca de adeptos e seguidores, não me inte-
éramos inimigo dos outros grupos, inimizade para nós sim- ressa e não faz parte do meu trabalho. Falo bem claro: não quero
plesmente inconcebível. De maneira alguma saberíamos tomar de nenhum modo chefiar coisa alguma na Terra; não quero con-
parte nessa luta de rivalidades, que requer uma forma mental quistar poder algum neste mundo. Não há, portanto, qualquer
adaptada para isso, a qual não possuímos. Assim, fugimos de razão para rivalidades. O que almejo é só utilizar esta minha
qualquer grupo tão logo apareça esse espírito de condenação. O condenação de viver neste baixo nível de vida para ajudar os ou-
mal-entendido consistiu em se ter julgado encontrar um inimigo tros a se elevarem a um nível espiritual mais alto. Se me fosse
onde não existia inimigo algum, pensando em guerra, quando permitido, só uma vez, ser egoísta, o meu único desejo seria ir-
tratávamos apenas da maneira como resolver os problemas do me embora, fugindo para bem longe deste mundo, e não voltar
universo. Gostaríamos de explicar aqui, de um modo bem claro: mais. Por isso as lutas pelas conquistas humanas, que tanto inte-
não somos guerreiros, mas sim pensadores, que não tem inte- ressam aos meus semelhantes, não têm sentido para mim. Con-
resses humanos a defender. Nosso inimigo é a ignorância, causa sidero-as muito cansativas e não cuido delas. As minhas lutas di-
de tantos sofrimentos, e não o homem, a quem queremos aju- rigem-se para objetivos totalmente diferentes.
dar. Neste mundo, podemos ser presas dos fortes e astutos, mas É necessário explicar tudo isso, para que meu trabalho seja
não somos fortes nem astutos para fazer presas. compreendido. Infelizmente, em nosso mundo, estamos acostu-
Concordamos assim com todos. Os únicos seres com os mados a supor que cada palavra seja uma mentira, julgando que
quais não podemos concordar são os que não querem concordar somos astutos quando conseguimos descobrir essa mentira. Isso
de forma alguma e buscam, pelo contrário, impor-se ao próxi- é o que, suponho, aconteceu também a meu respeito. Daí nasceu
mo, vencendo-o. Ora, esta é uma mentalidade atrasada, que o o mal-entendido, porque, neste caso, acontecia o inacreditável,
homem verdadeiramente espiritualizado não pode aceitar sem isto é, que as minhas palavras, na realidade, eram verdadeiras,
retroceder milênios no caminho da evolução. Mesmo que seja não havendo por trás delas outra ideia para encobrir. É necessá-
permitido fazer guerra, isso só será possível contra quem quiser rio tomar as minhas palavras literalmente, pois elas querem di-
fazer guerra. Em vez dos pontos de contraste, para lutar, esma- zer simplesmente o que dizem, não contendo segundas inten-
gando-se uns aos outros, o homem civilizado procura e sabe ções. Para quem não quer conquistar poderes na Terra, é lógico
encontrar os pontos de concórdia, para colaborar, ajudando-se que o método seja diferente daquele empregado pelo mundo.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 5
Nosso método, na verdade, é oposto ao do homem comum. III. O PROBLEMA DO DESTINO
Nós queremos trazer harmonia ao invés de luta, paz em vez de
guerra; queremos levar esclarecimento onde exista dúvida, es- A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.
perança onde haja desespero, fé onde esteja a descrença, co- Como orientar nossa vida no plano geral do universo,
nhecimento onde se encontre a ignorância. Eis o que procura- conhecendo o funcionamento da Lei.
mos fazer. Conseguiremos realizar o que Deus quiser. Quando
sucede que o homem empregue toda a sua boa vontade, as qua- No capítulo anterior, tocamos rapidamente no assunto de uma
lidades que possui e o seu esforço para colaborar com a vonta- ciência da vida como método para ser menos infeliz e alcançar
de de Deus, o restante fica nas mãos d'Ele. O triunfo depende êxito, através da aprendizagem da arte de viver sabiamente, em
de elementos que não conhecemos, escapando ao nosso domí- harmonia com a lei de Deus, seguindo com obediência a Sua
nio e ao nosso controle. Mas se procurarmos compreender e Vontade. Vamos agora explicar melhor estes conceitos.
seguir a vontade de Deus, certamente esta vontade virá ao nos- É difícil a arte de saber viver. A vida é um vaso que pode-
so encontro para nos ajudar. mos encher com o que quisermos. Mas a verdade é que temos
Estudando juntos esse método, aprenderemos a arte de al- desejado enchê-lo de erros. O que podemos receber então, se-
cançar sucesso, inclusive na vida prática. Os homens práticos não sofrimentos? Quando era moço, li alguns livros sobre a arte
não observam que, para obter êxito no campo material, é ne- de alcançar sucesso na vida. E hoje ainda se encontram livros
cessário, antes de tudo, uma boa orientação no campo espiritu- sobre este assunto. Mas trata-se de uma ciência de superfície,
al, do qual tudo depende, não apenas os resultados dos negó- que se baseia na sugestão, na arte exterior de se apresentar, de
cios, mas também a conservação da saúde e a sensação de falar e de convencer o próximo. Ora, isso só pode levar a um
bem-estar em nós mesmos e em tudo o que nos rodeia. Em êxito parcial, momentâneo, superficial. O verdadeiro êxito na
nosso universo, tudo está coligado, e as coisas não podem iso- vida consiste no problema da construção de um destino, um
lar-se umas das outras. Quem não está orientado nos grandes problema complexo e de longo alcance, que só pode ser resol-
conceitos da vida, não o pode estar tampouco nas coisas pe- vido conhecendo-se não só o funcionamento das leis profundas
quenas de cada dia, que são consequências das grandes. O nos- que regem a vida, mas também a posição de cada um dentro
so trabalho nestas palestras será esmiuçar as teorias gerais da dessas leis, enxergando assim o plano de uma vida enquadrada
grande orientação até às suas consequências concretas, que nos no plano geral do universo, em função de Deus. Mas o homem
tocam de perto, para aprender a viver conscientemente, conhe- não conhece nem um nem outro desses dois planos. Como se
cendo o valor dos nossos atos, desde suas origens até seus úl- pode chegar a uma orientação completa do caso particular,
timos efeitos. Esta é a ciência da vida, que nos explica a signi- quando não se conhece a lei geral? A maioria não é dona dos
ficação dos movimentos da nossa alma, bem como dos aconte- acontecimentos da sua vida, mas sim serva, sendo dirigida por
cimentos que nos rodeiam. Cada vida se desenvolve não ao eles. A vida deveria ser um trabalho orgânico, consciente, exe-
acaso ou guiada pelos nossos caprichos, mas sim conforme um cutado em profundidade, dirigido logicamente para finalidades
certas, que a valorizem, dando-lhe um sentido construtivo.
plano particular, que se chama destino e é consequência do
A vida é um jogo vasto e complexo. Podemos deixá-la de-
nosso passado, na forma em que o quisemos viver.
correr levianamente, mas, neste caso, ou perdemos o nosso
Temos falado que há uma lei. Aprenderemos, pouco a
tempo, ou semeamos sofrimentos, cometendo erros. E, depois,
pouco, a arte sutil de viver em harmonia com essa lei, que re-
as consequências terão de ser suportadas inevitavelmente por
presenta Deus, arte que constitui o segredo da felicidade. Ire-
nós. Fala-se de destino e da sua fatalidade. Mas nós mesmos
mos verificando, cada vez mais, que a espiritualidade, verda-
somos os construtores desse destino e, depois, ficamos sujei-
deiramente entendida e vivida, produz incríveis efeitos “úteis”
tos à sua fatalidade. A nossa vida atual se apresenta como um
também no plano material. Falamos de utilidade, pois não
fenômeno sem causas e sem efeitos, se considerada isolada-
queremos roubar o tempo dos nossos leitores, mas sim fazer mente. Para ser compreendida, é preciso concebê-la em fun-
um trabalho “útil” a todos. É preciso usar com mais inteligên- ção das vidas precedentes, que a prepararam, e das vidas futu-
cia a nossa vida, tornando-nos cidadãos iluminados e consci- ras, que a completam. O presente não pode ser explicado se-
entes deste nosso universo, colaborando com a vontade de não como fruto do passado, das ações livremente desencadea-
Deus, que o dirige. Aprenderemos a ver com outros olhos, en- das, cujas consequências são agora o que chamamos o nosso
tão tudo será diferente. Ao invés de rebeldes construtores de destino. Da mesma forma que o passado representa a semea-
sofrimentos, como somos hoje, tornar-nos-emos, para o nosso dura do presente, o presente representa a semeadura do futuro.
bem, obedientes construtores da felicidade. Seremos então A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Verifica-se,
amigos e colaboradores de Deus, seus obreiros na grande obra assim, este jogo complexo de semeadura e colheita, entrelaça-
da vida, que vai subindo até Ele, pois, tão logo tivermos com- das em cada momento da nossa vida.
preendido que a Sua vontade visa somente ao nosso bem, não Esta é a lei de Deus, e ninguém pode modificá-la. Mas, den-
desejaremos outra coisa senão realizá-la. tro desta lei, somos livres para nos movimentar à vontade. As-
Diz-se muitas vezes que Deus está presente. E não há dú- sim, somos ao mesmo tempo livres e dependentes. Temos, de
vida: Deus está presente. Mas não basta dizer isto. É preciso acordo com nossa vontade, o poder de nos arruinar ou de nos
aprender a perceber esta presença, chegar a compreender o salvar, mas não podemos alterar a Lei, ficando a nossa ruína ou
Seu pensamento e seguir o caminho marcado pela Sua vonta- salvação fatalmente sujeitas às suas normas. A lei de Deus re-
de. É verdade que Deus está entre nós, mas isto tem uma fina- gula os movimentos de tudo que existe e, portanto, do homem
lidade. Deus está entre nós, dentro de nós, para que respire- também. Conhecê-la quer dizer conhecer as regras do jogo da
mos esta Sua presença e possamos fundir-nos em harmonia vida, isto é, a ciência da própria conduta, a arte de evitar os
com a Sua vontade, realizando em nossa vida os ditames da movimentos errados e fazer os certos, para fugir do dano pró-
Sua Lei. E isso também tem uma finalidade, que é nos levar a prio e atingir o máximo bem-estar possível. É indiscutível a su-
não errar mais, como se costuma. Não errar quer dizer não so- perioridade do homem que possui este conhecimento, em com-
frer mais os dolorosos choques recebidos em consequência do paração com quem, na luta pela vida, não o possui. O primeiro
erro, que por sua vez é violação da Lei. Isso significa evitar tem muito mais probabilidades de alcançar sucesso do que o
sofrimento, proporcionando-nos tranquila felicidade, que só é segundo. Para quem conhece a lei geral, é possível colocar-se
possível num estado de ordem. dentro dela, na devida posição, evitando as dolorosas conse-
6 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
quências de uma posição errada. O homem comum acredita vi- luta de todos contra todos, sem repouso. Esse contínuo estado de
ver no caos, onde procura impor a própria vontade a tudo e a guerra é uma dura, mas merecida, condenação, devida à psico-
todos. Mas, de fato, não é assim. Esta suposição é fruto da sua logia de revolta que domina na Terra. Pelo contrário, naquele
ignorância. Não há vontade humana que possa dominar o poder mais alto nível de vida, a qualidade mais útil é a boa vontade de
da Lei. Esta é constituída não só como norma, pela inteligência obedecer a Deus e à Sua lei, merecendo assim, conforme a justi-
de Deus, mas também como poder, pela vontade d'Ele. Isto ça, a Sua ajuda. Acontece desse modo um fato incompreensível
quer dizer que as normas são ao mesmo tempo uma força que para a mentalidade do mundo: quando a merecemos, esta ajuda
quer a realização delas, uma força irresistível, viva e ativa, chega por si mesma, não nos pedindo coisa alguma sequer em
sempre presente em todos os tempos e lugares, da qual não é troca. O resultado é maravilhoso e inacreditável para o nosso
possível fugir. A Lei é boa, sábia, paciente e misericordiosa, mundo. A nossa vida passa a ser garantida, e tudo é providenci-
mas é também justa, de uma justiça inflexível, de modo que, ado de maneira a não nos faltar nada. Mas isso pode verificar-se
quando a criatura abusa, ela se desencadeia como furacão e der- somente quando o tivermos merecido, cumprindo o nosso dever
ruba tudo, coibindo o abuso. perante a Lei, vivendo conforme a vontade de Deus.
A coisa mais importante na vida, a base de tudo, é a orien- Surge então uma coisa que o mundo não acredita ser possí-
tação. E a maioria vive correndo atrás das ilusões do momen- vel. Para chegar a possuir aquilo que precisamos e para alcan-
to, desorientada e descontrolada. Só quem conhece tudo isto çar sucesso não é necessário força ou astúcia. Basta tê-lo mere-
pode orientar-se, inclusive a respeito do seu destino e das fi- cido, como a justiça o exige. Aqui não é o prepotente ou o astu-
nalidades particulares que lhe cabe atingir na vida atual. Pode to quem vence, mas sim o homem justo, que cumpre o seu de-
assim evitar os atritos dolorosos contra a Lei, que atormentam ver. Em um nível de vida mais evoluído, somos regidos por um
os rebeldes, e subir mais facilmente, levado pela corrente da princípio mais alto. Trata-se do nível a que pertencem os indi-
Lei. Esta então o ajuda, uma vez que ele quis colocar-se em víduos mais amadurecidos.
obediência a ela. Quem, por ter compreendido, sabe obedecer O incrível é que, nesse novo mundo, vemos funcionar a Di-
com inteligência, conhece o caminho mais rápido e menos do- vina Providência. Ela funciona de verdade, mas, logicamente,
loroso para a salvação. só para quem o merece. É lógico que ela não funcione para
Seguir a Lei quer dizer seguir a vontade de Deus. Esta é quem não o merece. Quando o tivermos merecido, podemos ter
uma posição bem estranha para o mundo, que ainda obedece à a certeza de que se verificará para nós esse milagre da Divina
lei animal do mais forte. Seguir a vontade de Deus não quer di- Providência, que nada nos deixará faltar do que precisarmos,
zer perder a própria e tornar-se autômato. Essa obediência é um seja para a alma, seja para o corpo. Em geral não se acredita
estado de abandono em Deus, em absoluta confiança, como o que isto possa acontecer de verdade, porque é de fato muito ra-
filho nos braços da mãe. Mas esse abandono é ativo e dinâmico, ro tal acontecimento, porquanto também é raro haver mereci-
como o de quem vai atrás de um guia sábio e bom, que o de- mento. O mundo está cheio de necessidades porque está cheio
fende e lhe garante o êxito, desde que o seguidor queira obede- de cobiça. A causa da necessidade é a cobiça. Quem semeia in-
cer com boa vontade, sinceridade e fidelidade. É o abandono do saciabilidade tem de colher fome. Quem furta, tirando dos ou-
operário consciente da sabedoria do patrão, que é quem manda tros o que não ganhou honestamente, com o seu trabalho, terá
e a quem, para sua própria vantagem, convém o operário obe- de viver na miséria, até que aprenda, à sua custa, a lição da ho-
decer, acompanhando e colaborando. Ninguém pode negar as nestidade. Para reconstituir o equilíbrio da Lei, surge a privação
vantagens de trabalhar juntamente com Deus, apegado ao To- correspondente ao nosso abuso. Paga-se caro esse abuso, mas o
do-Poderoso. Esta é uma posição de vantagem, pois fornece à mundo parece ignorar uma lei tão simples. Somos livres, mas
criatura poderes que não pode atingir quem caminha sozinho, responsáveis. E o seremos tanto mais responsáveis, quanto mais
dirigido apenas pela sua própria vontade e inteligência. possuirmos em riqueza e poderes, pelo bom ou mau uso que de-
Se soubermos aprender esta arte de viver em harmonia com les fizermos. Teremos sempre de prestar contas à Lei, que po-
Deus, a nossa existência se deslocará do plano da injustiça e da derá nos tirar tudo, deixando-nos na penúria, se, pelo mau uso
força, no qual vive o homem, ao plano da justiça e da bondade, do poder ou da fortuna, tivermos merecido.
onde tudo funciona com princípios diferentes. Trata-se de subs- O próprio Sermão da Montanha, de Cristo, baseia-se nesse
tituir o instinto de domínio do nosso eu individual, que vai até à princípio. Mas quem o toma a sério? É por isso que vemos tanta
revolta contra Deus, pelo desejo de concordar com a Sua vonta- pobreza no mundo. Quem criou a pobreza não foi Deus, mas
de, num estado que, em vez de ser de separação, representada sim o homem com a sua desobediência à Lei. Deus não ficou
pela nossa debilidade, será, ao contrário, de união, que constitui esperando até agora para que o socialismo descobrisse o pro-
a nossa fortaleza. Então, a vida se tornará outra coisa para nós. blema da justiça social. A justiça da Lei, completa e perfeita,
Ela não será mais dirigida pelo princípio da força e do engano, sempre funcionou. Quem tem olhos para ver, fica horrorizado
que levam ao esmagamento e à desilusão, mas será, antes, diri- ao considerar a leviandade do mundo, que está brincando com
gida pelo princípio da justiça e da sinceridade, que reconhecem forças terríveis, condenando-se a sofrer as consequências. É as-
o nosso direito a tudo de que necessitamos para viver, de acordo sim que vemos tantas humilhações para os que foram orgulho-
com o nosso merecimento. São dois princípios absolutamente sos, tanta necessidade onde houve desperdício no supérfluo,
diferentes. Cabe a nós, conforme os nossos pensamentos e con- tanto constrangimento à obediência onde houve poder demais e
duta, pertencer a um ou outro desses dois planos e, por conse- mau uso das posições de domínio.
guinte, sermos regidos por princípios bem diferentes, muito me- O mundo é ainda tão ingênuo, que acredita ser suficiente
nos duros e dolorosos no segundo caso. Este é um problema ab- apossar-se de uma coisa de qualquer maneira, para que se te-
solutamente individual, de escolha e resultados individuais, in- nha o direito de possuí-la. Não sabe que tudo quanto possuir-
dependente da maneira boa ou má como os outros queiram re- mos sem justiça, por não havê-lo ganhado com merecimento e
solvê-los. Não importa se o mundo não quer transformar-se, pre- por não ter querido fazer dele bom uso, será gasto, consumido
ferindo o contrário. Cada um pode transformar-se e salvar-se por e corroído interiormente por esta falta de justiça, que, mais ce-
sua conta. Cada um constrói o seu próprio destino. É lógico que do ou mais tarde, não pode deixar de conduzir ao fracasso. A
Deus seja justo, e é justo que as consequências advindas do nos- riqueza mal construída é coisa podre e envenenada, que não
so comportamento sejam o efeito de causas engendradas por nós pode dar senão frutos da mesma natureza para quem a possui.
mesmos. De acordo com o mundo atual, as qualidades mais Só pode acabar, assim, em uma traição, como é justo que acon-
úteis para vencer são a força e a astúcia. Isso cria um estado de teça. No fundo das coisas não existe o que aparece na sua su-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 7
perfície. Ali reina de fato a justiça de Deus, e não importa que concordam, ou lutando uma contra a outra quando são discre-
o homem não queira tomar conhecimento dela, pois ela conti- pantes. No primeiro caso, elas dizem a mesma coisa, e então é
nua funcionando da mesma forma. Possuir o mundo inteiro, fácil conhecer a vontade de Deus. No segundo caso, elas dizem
quando esta posse estiver fora da justiça, não oferece seguran- duas coisas diferentes. Mas, quando tivermos separado desse
ça alguma. Acima de todos os poderes humanos existe esse conjunto o que é efeito da nossa vontade, restará aquilo que nos
poder maior, que é a justiça da Lei. Lembremo-nos de que a vai revelar qual é a vontade de Deus a nosso respeito.
vida é uma força inteligente e só defende os que são úteis à Se observarmos a nossa vida, veremos que há fatos sobre os
conservação e ao desenvolvimento dela. quais podemos exercer a nossa livre-escolha à vontade. Mas ve-
A conclusão desta palestra é que a Divina Providência exis- remos também que existem outros fatos acima da nossa vontade,
te de verdade e funciona. Mas, para isso, é necessário saber fa- acontecimentos em relação aos quais não há escapatórias. Há
zê-la funcionar, movimentando-a através do acionamento das uma parte da nossa vida que é regida como por um destino, com
alavancas às quais ela obedece. Veremos depois quais são estas características quase de fatalidade, onde prevalece uma outra
alavancas. O fato é que ela funcionará a nosso favor, se mere- vontade, maior do que a nossa, à qual, queiramos ou não, temos
cermos. Observei isso, controlando e experimentando, durante de obedecer. Muitos acontecimentos parecem possuir uma von-
toda a minha vida e sei que é verdade. O que tivermos merecido tade própria, contra a qual não adianta nos rebelarmos, sendo
com as nossas obras não são os bens que ficam espalhados pela inútil fugir deles, apesar de tentarmos por todos os meios.
rua, aonde podem chegar os ladrões, mas está regular e ordena- Na vida há para todos uma parte livre, mas também existe
damente guardado no banco do Céu, de onde nada se pode fur- uma parte em relação à qual vigora o princípio da aceitação, na
tar. Este é o único emprego verdadeiramente seguro dos nossos qual a vontade de Deus se manifesta e o espírito da nossa deso-
capitais. Esta é a maneira verdadeiramente inteligente de fazer bediência não tem poder algum. Esta parte pode ser triste ou
negócios. A Divina Providência não é um milagre, mas sim a alegre, de satisfação ou de sofrimento, mas é sempre justa,
lei natural de um plano de vida mais alto, onde vigora uma jus- obrigatória, imposta pela Lei. Em geral, esta é a consequência
tiça que não atraiçoa. Ali não existe engano, e não se pode en- fatal do que livremente semeamos em nosso passado. Isto, po-
ganar. Esta Providência é um princípio que pode funcionar para rém, não por um princípio de fatalismo, que nos tornaria autô-
todos aqueles que se encontram na posição devida, de maneira matos irresponsáveis, mas sim como efeito exato do que nossa
a serem por Ela alcançados. Deus está presente para proteger a livre-vontade quis realizar no terreno das causas, para que ela,
todos, mas é natural e justo que só receba o benefício dessa pro- conforme a Lei, tivesse de atuar no terreno dos efeitos. Aqui
teção quem compreendeu a necessidade de obedecer à Sua Lei. termina o domínio da nossa livre-escolha e vigora, em seu ple-
no poder, a Lei, que exige sempre obediência.
IV. EM HARMONIA COM A LEI Entramos assim no domínio do destino e vemos a maneira
pela qual o construímos para nós mesmos. O que domina tudo e
O nosso destino e a vontade de Deus. todos é sempre a Lei, ou seja, a vontade de Deus. Disso não se
pode escapar. Mais cedo ou mais tarde, teremos de obedecer. Os
Continuemos falando sobre a Divina Providência. Se sou- inteligentes procuram conhecer a Lei nos seus princípios gerais
bermos olhar em profundidade, além da superfície das coisas, e a vontade de Deus no caso particular das suas vidas. Aceitando
veremos um mundo regido por leis diferentes daquelas que vi- o que eles sabem que é justo, evitam atritos, choques e revoltas,
goram em nosso mundo. Trata-se de substituir o espírito de que geram a dor. Este é o caminho direto, mais proveitoso e me-
egoísmo e de separatismo vigente por um espírito de união com nos doloroso. Se cometeram erros, estão prontos a pagar de boa
Deus e de colaboração com o próximo. Trata-se de nos colo- vontade, conforme a lei de Deus. O método da aceitação pacífi-
carmos num estado de aceitação perante a lei de Deus, ao invés ca resolve o conflito entre a criatura e a Lei de maneira mais rá-
de nos colocarmos num estado de imposição para com o pró- pida e tranquila, seja qual for a pena que se deva pagar.
ximo. É na aplicação desta nova lei, enunciada pelo Evangelho, Os que não possuem esta inteligência e boa vontade, estan-
que consiste o segredo da felicidade e o caminho para fugir dos do ainda mergulhados na ignorância e na revolta, rebelam-se,
muitos sofrimentos que nos atormentam. ao invés de aceitar, aumentando assim as suas faltas, piorando a
Falamos de união com Deus, de obediência à Lei, de aceita- sua posição, amontoando novas dívidas por cima das antigas.
ção da vontade d'Ele. Surge agora a pergunta: como é possível Estão acostumados a usar o sistema próprio do plano de vida
chegar a compreender esta vontade de Deus a que devemos obe- animal do homem na Terra, segundo o qual o mais forte é o que
decer? Deus não tem boca, mas fala; não tem mãos, mas opera. vale e vence. Mas não sabem que esse plano de vida inferior
Deus está presente, não há dúvida, mas não podemos percebê- encontra-se regido pelas leis dos planos superiores, que a vio-
Lo em forma material, na superfície das coisas, com os nossos lência só pode dar fruto na Terra e que unicamente nesse baixo
sentidos. Deus está presente, mas na profundeza de tudo o que nível de vida é possível o domínio da injustiça. O que esse tipo
existe. Há então dois caminhos para percebê-Lo: ou com a in- de homem julga ser a lei de tudo, não é senão a lei do seu am-
trospecção, olhando e penetrando dentro de nós, por intermédio biente terrestre. Assim o homem, revoltando-se, usa o método
da meditação ou concentração, ou olhando os efeitos que, da errado, pensando que por intermédio da revolta possa vencer,
profundidade onde está Deus, vêm até à superfície, revelando impondo-se, quando, na verdade, está agindo de um modo que
assim a natureza das coisas que os geram e movimentam. Pode- serve apenas para fabricar a dor.
se assim chegar a compreender o pensamento de Deus, pelo me- Mas é lógico e justo que assim seja, porque a dor é a única
nos no que diz respeito à nossa vida, quer afinando os sentidos voz compreendida por ele, e não há outro caminho para guiar
no caminho da espiritualização, quer, para os que não conse- um indivíduo que, por natureza, recusa submeter-se, até que
guem olhar para dentro, olhando para fora, ou seja, observando ele compreenda a existência da Lei. Rebelar-se é o maior erro
o que vai acontecendo conosco e ao redor de nós. Não podemos que se pode cometer. Se a Lei do universo quer que o caminho
negar que a primeira origem de tudo está na profundidade e que para a felicidade seja de obediência, é lícito ao homem cons-
Deus, embora não tenha mãos, opera. A nossa vida e o nosso truir para si quantos sofrimentos queira, porque isto o faz abrir
destino não se desenrolam ao acaso, mas são dirigidos por Deus. os olhos e o obriga, para seu bem, a aprender. Mas não lhe é
Então, se os acontecimentos podem, até certo ponto, ser o efeito possível destruir a Lei, pois nesse caso, se ele possuísse esse
da nossa vontade, exprimem em grande parte também a vontade poder, lançaria tudo no caos. Se Deus permitisse ao homem
de Deus. As duas vontades se misturam, colaborando quando tanto poder, a ruína e o sofrimento humanos já não seriam
8 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
apenas momentâneos e suscetíveis de reparação por intermédio terreno, sobre o qual, de outra maneira, não seria possível
da dura limpeza feita pela dor, mas seriam um fracasso defini- construir. Trata-se de um trabalho feio, desagradável, desairo-
tivo, um mal irreparável, uma derrota de toda a obra de Deus, so, mas necessário, que os construtores, de raça mais nobre,
sem outra possibilidade de salvação. nunca fariam, nem poderiam fazê-lo, porque, depois de termi-
De certo, a ignorância e a rebeldia do homem almejariam nado, quem o executou tem de ser afastado para não prejudi-
chegar até tal fim. Mas a sabedoria e a bondade de Deus o sal- car a nova construção. E é isto, de fato, o que vemos aconte-
vam à força, para seu bem, de tão grande desastre, constran- cer nas revoluções, nas quais é raro constatar que quem as
gendo-o a não se perder, obrigando-o a limpar-se, a corrigir-se realizou tenha recolhido para si o fruto das suas lutas.
e a aprender através da dor. Perante um quadro de lógica, bon- Continuaremos, nestas nossas conversas, observando quão
dade e justiça assim tão perfeitas, ainda há no mundo gente profunda é a sabedoria da Lei e quão grande é a ignorância do
que, sem ter compreendido nada, quer julgar Deus como cul- homem a seu respeito. Concluímos a nossa conversa de hoje
pado pelos sofrimentos existentes no mundo. Procuram-se as- observando que, queiramos ou não, nos fatos concernentes a
sim infelizes escapatórias, lançando-se a culpa em Deus ou nos nós, a nossa vontade e a vontade de Deus, no final das contas,
próprios semelhantes. Mas é inútil. Tudo fica na mesma. Os trabalham juntas. Não porque a boa vontade do homem tenha
erros têm de ser corrigidos, as dívidas têm de ser pagas, a lição de colaborar, mas porque Deus permite que a nossa vontade
tem de ser aprendida. Quando chega a dor, nunca queremos também trabalhe, estabelecendo para ela limites, efeitos e dire-
admitir que a culpa seja nossa, e não de outros. Perante a Lei, ção final. Podemos assim calcular quantas forças atuam entre-
cada um se encontra sozinho e trabalha por sua conta. Cada um laçadas, a todo o momento, em cada ato da nossa vida. Antes de
fica com o destino que quis construir para si mesmo. Rebelar- tudo, está presente a nossa vontade passada, agora na forma dos
se é pior. O máximo que se pode fazer é resignar-se e corrigir- seus efeitos, que aparecem como fatais. Acima desses impulsos
se, construindo para si, de agora em diante, um destino melhor, sobrepõe-se e opera a nossa vontade atual, que tem o poder de
de convicta obediência a Deus, agradecendo-Lhe pela dura li- corrigir, nos seus efeitos, aquela nossa vontade passada, inici-
ção que vai conduzi-lo à felicidade. ando novos caminhos ou endireitando os antigos. Todo esse
Esta é a verdade mais importante que cada um precisa trabalho o homem não o cumpre sozinho, abandonado a si
compreender: Deus é, em tudo e sempre, o dono absoluto, e mesmo, mas, pelo contrário, executa-o ao longo dos trilhos de
da Sua Lei não podemos nos evadir. Seja qual for a religião a uma estrada já marcada pela lei de Deus, que estabelece o ponto
que o homem pertença, seja até o maior dos ateus, ele obede- até aonde o ser está livre para errar, o poder e a natureza das re-
ceu, obedece e obedecerá sempre a Deus, no sentido de que ações da Lei ao erro, a técnica da elaboração e assimilação das
não pode escapar da Sua lei. Por exemplo: o fato de perten- experiências e a meta final de todo o grande caminho da evolu-
cermos a uma ou outra crença não nos isenta da dependência ção. Estamos no começo das nossas explicações e já podemos
da lei da gravitação. O erro está em acreditar que estas verda- vislumbrar quantas coisas contém a nossa vida de cada dia,
des, das quais estamos falando, sejam particulares a este ou mesmo nos seus impulsos e atos mais simples.
àquele grupo, religião ou filosofia humana, quando elas, de
fato, são verdades que existem e continuam existindo e funci- V. A INFALIBILIDADE DA LEI
onando mesmo quando o homem não as conheça ou não as
queira admitir. Elas existem de maneira independente do co- A função da dor e a sabedoria da Lei.
nhecimento, da negação e mesmo da existência do homem. A
conclusão é que todos obedecem a Deus: os crentes, sabendo Em nossos dois últimos capítulos, falamos da Divina Provi-
o que fazem; os descrentes, sem o saberem; os bons, de boa dência e da vontade de Deus. Dissemos tudo aquilo não para
vontade, de olhos abertos, por amor, sustentados pela justiça fazer teorias, mas porque se tratam de forças que dirigem a nos-
de Deus; os maus, de má vontade, nas trevas, revoltados, com sa vida e que devem ser levadas em consideração, se não qui-
raiva, esmagados pela mesma justiça de Deus. sermos sofrer as consequências. Quem quiser viver com sabe-
É bem estranha e primitiva esta maneira de conceber tudo doria, sem se lançar aos mais variados perigos, evitando sofri-
em função de si mesmo, pela qual o homem se faz centro, fi- mentos, tem de compreender que há uma lei sempre presente e
nalidade única e também, como se pudesse, dono da criação. ativa, sendo muito arriscado não a respeitar. Se já tivéssemos
Mas em quantos erros e ilusões psicológicas ele incorre nessa aprendido todas as lições que a Lei contém, não cometeríamos
primitiva maneira de conceber as coisas! E com quantas dores mais erros, desaparecendo assim as reações, necessárias para
terá o homem de pagar a sua ignorância! Quantas vezes terá nos reconduzir ao caminho certo da nossa libertação. Então de-
de bater a sua dura cabeça contra as paredes da Lei, até que veria desaparecer também a dor, dado que a sua presença no
compreenda quão inútil e dolorosa é a loucura da sua rebeldia mundo seria absurda, porque, uma vez aprendida a lição, ela
e quão grande é a vantagem de coordenar-se com a Lei, con- não teria mais função alguma a preencher. Lembremos que a
forme a vontade de Deus! Lei é sempre boa e justa. Se às vezes usa o chicote, é apenas
Esta vontade, saibamos ou não, queiramos ou não, é a at- porque, devido à nossa dura insensibilidade, não há outro meio
mosfera que todos respiramos, da qual não podemos sair, as- para nos corrigir e conduzir-nos assim para o nosso bem.
sim como, inevitavelmente, respiramos o ar da atmosfera ter- Todos sabem, através da sua própria experiência, que a dor
restre. Os materialistas julgam que a ciência poderá impor-se é ponto fundamental da nossa vida. No entanto, também é ver-
à lei de Deus, quando na verdade poderá apenas demonstrá-la. dade que cada um, no fundo de sua alma, alimenta um sonho
Ao mesmo tempo em que eles estão trabalhando para constru- de felicidade. Mas quando é que, tanto para os poderosos como
ir um mundo sem a espiritualidade, a Lei, que rege a evolução para os humildes, chega a realizar-se de fato o que mais ambi-
da vida, dirige-os, impulsionando-os a construir um mundo cionam? Os desejos dos pobres e dos poderosos, na maioria
baseado nessa espiritualidade. Todos, construtores e destrui- dos casos, ficam insatisfeitos e acabam fracassando em desilu-
dores, apesar de agirem de formas opostas, na verdade colabo- sões. Todos correm atrás de miragens que nunca se realizam, e
ram dentro da mesma Lei, para realizar a mesma construção. tudo, no final, desaparece num engano. Encontra-se, porventu-
Assim como a morte é necessária para gerar a vida, colabo- ra, no mundo alguém que esteja satisfeito? O que há de real
rando com ela para sua constante renovação, sem o que não para todos é o sofrimento.
seria possível a sua evolução, os destruidores também são ne- Por que tudo isso? Quem deu origem a essa condenação?
cessários para realizar os mais baixos trabalhos de limpeza do Estamos cheios de desejos de felicidade, mas apenas encontra-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 9
mos sofrimentos! Que maldade! E quando procuramos uma Também as células do câncer quereriam viver, mas somos nós,
causa para tudo isso, pensamos logo em alguém para sobre ele porventura, cruéis quando as afastamos, cortando o tumor?
lançar a culpa de tanta crueldade. Então, ou culpa-se Deus, por Também os criminosos quereriam gozar a vida à sua maneira,
ter feito uma obra errada, ou o próximo, que deveria comportar- mas poderemos nós considerar-nos ruins quando, em defesa da
se de outra maneira. Mas isso nada resolve, porque Deus per- sociedade, os isolamos nas prisões?
manece inatingível e o próximo sabe defender-se. Além disso, a A rebeldia do homem é uma espada que ele usa contra si
dor não desaparece, pelo contrário, torna-se mais dura na revol- mesmo. A Lei, no entanto, impede a sua destruição. Ele quere-
ta contra Deus e na contínua luta de todos contra todos. ria perder-se, e a Lei quer levá-lo à salvação. Mas Deus o per-
Continuamos, assim, todos mergulhados no mesmo pânta- doa, pois sabe que o homem é um menino carente de ajuda e,
no: ricos e pobres, cultos e ignorantes, poderosos e fracos. Al- na sua inconsciência, está procurando só o seu dano. Mas Deus
guns que se julgam mais astutos procuram emergir do pântano, não pode permitir que esse dano se realize. Ele quer somente o
amontoando riquezas, enganos e crimes, pisando os outros para nosso bem. A lição tem de ser aprendida. Disto não há como
atingir a felicidade. Mas esta é instável, porque falsa, disputada fugir, porque, de outra maneira, o plano de Deus desmoronaria
contra mil rivais invejosos, roída por dentro pela natural insaci- e nós involuiríamos, ao invés de evoluirmos. Cientifiquemo-nos
abilidade da alma humana. E, mais cedo ou mais tarde, na luta destes pontos: o progresso tem de se realizar, por isso a lição
de todos contra todos, também os poucos que emergem acabam tem de ser aprendida; o homem é o mesmo, não restando para o
afundando-se e desaparecem, tragados pelo pântano comum. educador outro método senão a dor. A prova desta verdade é
Que jogo torpe é a vida! Esta seria a conclusão. encontrada no mundo: para os educadores e suas leis vemos
Se tivermos nas mãos uma maquina maravilhosa, mas, pela acontecer o mesmo que acontece com Deus e a Sua lei. Assim,
nossa ignorância da técnica do seu funcionamento, somente Ele tem de salvar à força os rebeldes inconscientes.
conseguirmos que ela produza péssimos resultados, dando-nos O chicote é duro. A dor não foi criada por nossa imagina-
apenas atribulações em vez de satisfação, quais providências ção. Ela existe. É fato positivo que todos conhecemos. Penetra
seriam aconselháveis para resolver o caso? As máquinas hu- por todas as portas, sem sequer pedir licença. Não adianta ser
manas, se mal usadas por estarem em mãos inábeis e, portanto, rico, inteligente ou poderoso. Ela sabe tomar todas as formas,
destruidoras, estragam-se e deixam de funcionar. Mas existe adaptando-se a cada situação. Há dores feitas sob medida para
uma tão perfeita, que o homem não conseguiu estragar ou im- os pobres, os ignorantes e os fracos, assim como para os ricos,
pedir seu funcionamento. Acontece por vezes que, pelo mau os homens cultos e os poderosos. Os deserdados estão cheios de
uso da máquina, não é ela que sofre, mas sim o mau operário, inveja dos que se encontram acima deles, mas não sabem que
que não soube fazê-la funcionar. Assim é que surge a dor, e acima das suas dores encontram-se, às vezes, dores maiores.
então só há um remédio: aprender a técnica do funcionamento Será que nas mais altas camadas sociais desaparecem os defei-
da máquina, a fim de fazê-la trabalhar bem, para nossa vanta- tos humanos? E se não desaparecem, como pode não funcionar
gem, e não mal, para nosso dano. a salvadora reação da Lei? Ela não pode abandonar ninguém,
Esta máquina representa a lei de Deus. Ela é também boa tampouco os que, por terem subido mais alto na Terra, são os
educadora. E qual o papel do educador? Seu único objetivo é o mais invejados, e não pode porque, sendo o poder deles maior,
bem dos alunos, e nós somos os alunos da lei de Deus. O edu- maior é a sua responsabilidade e, por conseguinte, maior a rea-
cador não deseja vinganças, punições ou sofrimentos, porque ção da Lei. Deus pode perdoar muito mais facilmente a um po-
ama os seus alunos. Se estes tivessem boa vontade para ouvir e brezinho ignorante e fraco do que àqueles que possuem recur-
fossem bastante inteligentes para compreender, bastaria a ex- sos, conhecimento e posição de domínio. Aos que mais conse-
plicação das grandes vantagens da obediência. Mas os alunos guem materialmente subir na vida, estão muitas vezes destina-
são rebeldes, não querem aceitar outras regras de vida senão das provas mais difíceis e dores maiores. Mas a Lei é justa e
aquelas provindas de suas próprias cabeças, além do que, se não pode deixar ninguém fora do caminho da redenção. É justo
têm inteligência, querem usá-la só para se revoltar contra a e lógico que a riqueza, o poder, a glória e coisas semelhantes
Lei. Então o que pode fazer o educador? O fato é que os alunos pelas quais o homem primitivo tanto luta, sejam apenas mira-
não querem ser educados, mas sim destruir o educador. Eles gens que acabam na desilusão. A última realidade da vida con-
desejariam estabelecer uma república independente dentro de tinua sendo sempre a insaciabilidade do desejo e o sofrimento.
um Estado, uma outra máquina funcionando às avessas, contra Em que impasse nos encontramos, meus amigos, pelo fato
a máquina maior que a hospeda. É um caso parecido com o do de possuirmos um desejo louco de felicidade e termos de viver
câncer, que representa uma tentativa de construção orgânica numa realidade de insatisfação e de dor! Estamos presos neste
em sentido parasitário e destruidor da vida, através da multi- contraste. Almejamos o que nunca poderá realizar-se: a satisfa-
plicação celular em forma antivital. ção completa. Mas como se pode satisfazer completamente a
Então, para o educador, não há outra escolha. Das duas insaciabilidade? Como se pode resolver assim para nós este de-
uma: para agradar, poderia não reagir, como desejaríamos nós, sejo de felicidade, senão numa ilusão? Parece que a felicidade
os alunos, e como acontece no caso do câncer com os organis- está atrás de um horizonte e que basta atingi-lo para encontrá-
mos fracos, que não sabem defender-se. Neste caso, porém, de- la. Mas, quando o atingimos com o nosso esforço, descobrimos
pois de ter destruído tudo, as próprias células destruidoras do outro horizonte e verificamos que a felicidade está ainda mais
câncer, por sua vez, hão de morrer também. Ora, o educador adiante. A corrida continua assim, sem fim, atrás de uma mira-
sábio não pode permitir isto. O que lhe resta é reagir, impondo gem que se afasta à medida que avançamos. Mas ninguém se
disciplina. Isto é duro, porém não há outro caminho. Esta tenta- pergunta o que quer dizer este jogo estranho, de querer encher
tiva de construir uma máquina às avessas dentro da máquina um vazio que não se pode encher, de procurar atingir uma de-
regular, ou uma república inimiga dentro de um Estado organi- terminada meta que vai fugindo de nós à medida que nos apro-
zado, ou um câncer dentro de um organismo sadio, ameaça a ximamos dela. Queremos sempre mais. Quem não possui, quer
função de bem que o educador, custe o que custar, tem de cum- possuir. Quem possui, quer possuir mais, seja riqueza, conhe-
prir. E ele pode fazer tudo, menos renunciar a esta sua função, cimento, glória, poder etc. De fato, é o que vemos acontecer no
porque dela depende o que para ele é mais importante: o bem mundo. O desgosto de quem não possui é a carência. A pena de
dos alunos. Então, se ele quer verdadeiramente bem a estes, o quem possui é não possuir o bastante ou o medo de perder o
que pode fazer senão usar de disciplina e ensinar por esse mé- que já possui. Qualquer que seja a nossa posição, tudo tende a
todo, já que os outros, mais benignos, não deram resultado? se resolver no sofrimento da insatisfação.
10 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
Mas como é possível que a Lei, dando prova de tanta sabedo- des. O impasse está no fato de parecer impossível atingir na
ria no funcionamento do universo, possa fazer, sem objetivo al- Terra a felicidade, apesar de ser isto o que todos mais alme-
gum, um jogo tão cruel, condenando-nos a essa corrida que não jam. A crueldade do jogo está na condição de se ter absoluta
acaba e que parece sem sentido? E se há um sentido, qual é? Não necessidade de uma coisa que nunca se chega a possuir. Por
estamos fazendo teorias, mas apenas procurando compreender o que somos condenados a esta traição?
que vemos acontecer em nosso mundo, a toda hora. Pensemos Todos procuram a felicidade. Quanto mais é primitivo e ig-
um pouco. Pode o objetivo último da vida ser o de continuarmos norante o ser, tanto mais acredita na ilusão de que seja possível
satisfeitos com as comodidades materiais deste mundo? Ou tem encontrá-la na Terra. Mas, ao mesmo tempo, ele tem de com-
de ser ele a conquista de formas de existência em planos sempre preender que uma felicidade, ao ser atingida, não é mais felici-
mais elevados, progredindo e aperfeiçoando-nos sempre mais? dade. O homem se acostuma a tudo, e tudo perde o valor com o
Se não houvesse a insaciabilidade, tudo ficaria parado na satisfa- hábito. A satisfação habitual de todos os desejos acaba no enfa-
ção atingida, estagnado, inerte, num estado em que tudo acabaria do. Tudo vale e satisfaz enquanto é luta de conquista, esforço
apodrecendo. Se fosse assim, quem nos impulsionaria para fren- para realizar. Se, após atingir-se a primeira meta, não surgisse
te? Dessa maneira, deixaria de haver o movimento mais impor- outro desejo para alcançar resultados maiores e, com isso, um
tante, que constitui a razão da existência, isto é, o deslocamento novo esforço, tudo acabaria no tédio. Se nós recebêssemos tudo
no sentido da perfeição, progredindo por meio de contínuo aper- de graça, não dando prova do nosso valor para ganhá-lo e, por-
feiçoamento. É preciso compreender que este é o escopo da vida: tanto, sem ter um verdadeiro direito à posse, tudo acabaria anu-
a busca da própria evolução. A evolução, com essa corrida que lado no vazio produzido pela sensação de nossa inutilidade. Na
parece sem sentido, é indispensável para ascender. A ascensão é justiça da Lei está escrito que desfrutaremos de uma satisfação
necessária para chegar à salvação, porque não há outro caminho em proporção à necessidade que ela vai compensar e ao esforço
para nos libertarmos do mal e atingirmos a verdadeira felicidade. que fizermos para atingi-la. É agradável comer quando temos
A mesma coisa se pode dizer a respeito da dor. A nossa fome, beber quando estamos com sede e possuir as coisas de
vida se baseia nesta dura condenação, que parece uma cruel- que necessitamos e pelas quais lutamos. Mas quem tem e sem-
dade sem sentido. Por que isso? O mundo ocidental aceita a pre teve de tudo, de tudo está farto e cansado. Isto chega até a
ideia de que a paixão de Cristo foi um meio de redenção. O destruir o desejo de viver, e é justo que seja assim, porque se
que significa isto? Em todas as religiões do mundo existe o trata de uma vida inútil. Desse modo, os mais desafortunados
conceito de que o sofrimento é útil, que saber sofrer é virtude são os que nasceram demasiadamente ricos, sem terem conhe-
cido necessidades ou feito esforços para aprender alguma coisa
que constitui mérito. A razão deste fato é sempre a mesma: a
ou procurá-la, não tendo nada a desejar.
dor existe porque é um meio para progredir. Nela se baseia a
evolução, que tem exatamente a maravilhosa função de des- Assim, vai-se aprendendo cada vez mais a arte do sábio
comportamento, em disciplina, ordem e obediência à Lei, até
truir a dor. Se a dor, que todos percebem e tantas coisas ensi-
que a criatura não vá mais bater contra as duras paredes dessa
na, é meio de evolução, a evolução é por sua vez meio de sal-
Lei, livrando-se, dessa forma, do choque da desilusão e do so-
vação. Tudo o que é maceração, seja dor, trabalho para criar
frimento. Isto porque a gaiola é uma prisão apertada só para o
ou esforço para subir, é meio de salvação. É grande erro que-
ser que não sabe dentro dela andar e movimentar-se com inteli-
rer parar o progresso que nos leva para Deus.
gência, mas é palácio maravilhoso para quem, já tendo batido
O quadro aqui apresentado parece duro, mas não contém
muitas vezes contra aquelas paredes, sabe guiar-se e, assim, não
enganos: é justo, lógico e verdadeiro. A conclusão não é a tris-
provoca mais, com os seus movimentos errados, a reação que se
teza nem o pessimismo. A porta para a felicidade não fica fe- chama dor. A Lei é realmente um palácio maravilhoso para os
chada, mas bem aberta para todos os honestos, todos os de boa que aprenderam a conhecer a disposição dos seus apartamentos
vontade. Não estamos aqui para destruir, mas para construir. Se e instalações, localizando as portas e as janelas, que permitem
destruímos alguma coisa é só no terreno das ilusões, para cons- toda a liberdade, desde que os movimentos sejam inteligente-
truirmos no terreno sólido da verdade. mente ordenados. A Lei é palácio maravilhoso, repetimos, para
ali morar a nossa alma, com tanto maior satisfação quanto mais
VI. A JUSTIÇA DA LEI se aprenderam as regras do sábio comportamento, e com tanto
maior sofrimento quanto menos se conhecem estas regras. É um
O homem em busca de felicidade e a disciplina da Lei. palácio feito de andares sobrepostos, que se apoiam uns por ci-
ma dos outros, em perfeita lógica, com passagens e escadas dos
Temos falado da Divina Providência, da vontade de Deus, inferiores aos superiores. É um palácio em que as paredes falam
das desilusões e dos sofrimentos da vida num quadro único, e raciocinam, em que o mobiliário e as demais comodidades
em que cada coisa esta conexa a outra e todos os fatos e pro- crescem em beleza à medida que se sobe para os andares superi-
blemas estão ligados entre si, revelando-nos cada vez mais, na ores. Mais ainda, é uma máquina que obedece quando sabemos
unidade do pensamento diretor central, a sabedoria e a bonda- apertar os botões que a movimentam. A Lei se torna assim um
de de Deus. Mas o assunto é vasto e aparecem sempre novos extraordinário veículo para quem tiver desenvolvido a inteligên-
aspectos a contemplar, novos problemas a resolver e novas cia necessária ao seu controle, um veículo de sabedoria, de po-
perguntas a responder. Um problema leva a outro, cada respos- der e de felicidade. Mas o homem atual ainda não possui essa in-
ta provoca outra pergunta. Iremos assim avançando de maneira teligência, de maneira que, para ele, a máquina funciona muito
a compreender cada vez melhor o grande plano de Deus, com mal, produzindo apenas atritos, choques e sofrimentos.
o qual Ele dirige a nossa vida e a existência do universo. Nesta Este estudo da estrutura da Lei, que, queiramos ou não, é a
viagem, teremos de ir ainda mais longe do que as mais magni- nossa casa, dentro da qual temos de morar, leva-nos a uma con-
ficentes e longínquas estrelas, porque elas estão fechadas nas sequência importante, pois nos ensina o caminho para viver
dimensões do espaço e do tempo, enquanto o pensamento per- bem, fugindo à dor. Como vimos, na lógica da Lei, o sofrimen-
tence às dimensões espirituais superiores. to é tanto maior quanto mais se desce aos andares inferiores do
Mas continuemos a desenvolver o nosso assunto atual. Vi- palácio, até que, nos seus subterrâneos, encontram-se as cadeias
mos em que impasse nos encontramos na vida. E verificamos torturantes a que se costuma chamar inferno; e tanto menor
isto apenas num rápido esboço de explicação. Temos de enten- quanto mais se sobe para os andares superiores, onde finalmen-
der melhor como funciona este jogo, que parece tão cruel e te encontramos nas torres altíssimas do palácio a feliz liberdade
sem sentido, e compreender, enfim, as suas causas e finalida- a que costumamos chamar paraíso.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 11
Ora, dentro desse palácio, moramos no andar que nos per- ceis ou atalhos, para encurtar o caminho à felicidade. Visando
tence, conforme a nossa natureza, a qual é precisamente aquela nossa comodidade, desejaríamos enganar e contraverter a Lei,
que construímos voluntariamente para nós com as nossas obras. mas, como é lógico e justo, não conseguimos desta maneira
No entanto a porta que leva aos andares superiores está sempre senão ludibriar a nós mesmos, porque, ao invés de chegar à
aberta a todos. O problema é só um: descobrir onde ela está, en- felicidade, chegamos à dor.
trar por ela e, uma vez achada a escada para subir, escalar de- Não há dúvida, tudo isso é bem duro. Porém a Lei é hones-
grau a degrau com o nosso esforço. Este é o caminho lógico, ta e não nos engana. Cada esforço para subir recebe a sua re-
justo, sem enganos, para vencer a dor e nos aproximarmos da compensa e, a cada passo dado à frente, sobe-se um pouco no
felicidade. Pode parecer uma maneira dura de falar, mas tudo caminho que nos afasta do sofrimento e nos leva à felicidade.
isto é claro, sincero e honesto. Acredita-se, porém, mais nas fe- Cada prova superada representa uma conquista de sabedoria,
licidades que o mundo promete, porque, não exigindo o nosso um desenvolvimento de inteligência, um enriquecimento de
esforço, são fáceis e cômodas. Mas elas se desvanecem como experiências e um amadurecimento superior, que nos conferem
bolha de sabão. Isto é lógico. Só os ignorantes podem acreditar novos poderes, os quais nos ajudam a subir sempre mais rápi-
que seja possível ganhar o que não foi merecido. Mas isto é do e facilmente. Cada luta vencida contra a inferioridade da
exatamente o que o mundo mais anseia, portanto é justo que re- própria natureza é um degrau escalado; significa um cresci-
colha desengano e tudo pareça traição. mento em estatura, por ter atingido uma posição mais elevada;
De tudo isso se pode tirar uma conclusão muito importante, constitui um empecilho removido, para nos erguermos, ga-
mesmo no terreno prático, ou seja, que existe um meio certo nhando cada vez mais altura. Este é o caminho da libertação
para fugir à dor. Esse meio é evoluir. Isso quer dizer que o so- marcado pela Lei, e não existe outro.
nho de felicidade aninhado no fundo de cada alma não se en- Tudo se transforma à medida que subimos: o terreno, a pai-
contra ali para nunca chegar a ser satisfeito, não é um impulso sagem, o ambiente, a visão, o ar que respiramos. E se transfor-
traidor que tenha apenas a função cruel de nos levar ao engano. mam também, para a espiritualidade, os próprios conceitos de
Esse instintivo e irresistível desejo de felicidade tem um senti- liberdade e felicidade.
do sadio e verdadeiro, porque o seu escopo é nos empurrar pa- Para os animais que evoluíram até ao plano humano, este
ra frente, constrangendo-nos a experimentar muitas formas en- pode parecer um paraíso. Mas, para os que pertencem a planos
ganadoras de felicidade, até encontrarmos a verdadeira. Assim, mais adiantados, nosso mundo pode parecer um inferno. Se é
o homem, fechado na sua atual moradia ou apartamento, que é fácil e natural a um diabo viver entre diabos, não o é, porém,
o plano de vida ao qual pertence, vai tateando pelas paredes até para um anjo. Mas a condenação a essa descida pode verificar-
encontrar a porta e, desse modo, a escada que conduz ao andar se por dois motivos: ou para o ser pagar as suas dívidas, ou para
superior. O homem supõe que ela possa estar aqui ou acolá, e cumprir uma missão em benefício dos seus irmãos inferiores.
assim vai experimentando tudo que se encontra no seu plano: a Este é, em suas linhas gerais, o mecanismo da Lei, ao qual
riqueza, o poder, a glória, os gozos dos sentidos etc. Ele julga estamos encadeados. Iremos estudá-lo sempre mais de perto,
encontrar assim o caminho para satisfazer o seu desejo de feli- para aprendermos a nos movimentar dentro dele, de maneira a
cidade. Mas logo repara que não encontrou a porta que alme- não provocarmos dor, mas sim felicidade. O que queremos sali-
java, mas apenas uma porta que conduzia a uma parede dura, entar na conclusão do presente capítulo é a absoluta impossibi-
sem saída. Então ele diz ter sido enganado e começa de novo a lidade de nos evadirmos dessa lei, porque ela representa o prin-
experimentar por outro lado, sempre à procura da porta que o cípio fundamental da nossa própria vida. Não há filosofia, igno-
levará à verdadeira felicidade. rância ou subterfúgio que nos possa eximir dessa obediência.
Isso parece uma condenação. No entanto o homem, corren- Podemos inverter tudo, mas, dessa maneira, nós é que ficamos
do atrás das suas miragens, vai trabalhando experimentalmente em oposição à Lei, a qual continua de pé. Esta obediência é o
e, assim, aprendendo o caminho certo, desenvolvendo a sua in- nosso único apoio, porque, fora da Lei, estamos fora da vida. A
teligência. Cada desilusão é uma lição aprendida, um erro no fuga à dor não está na revolta. Isso só piora a situação. Quando
qual não se cai mais, um degrau subido na escada da evolução. uma máquina não funciona, não se deve ser tão ignorante a
Se tudo isso parece ser traição, não o é de fato, nem para a Lei, ponto de acreditar que ela possa ser consertada com pancadas e
que atinge assim o seu verdadeiro objetivo, ao fazer o homem pontapés. Saindo dos trilhos da estrada, não conquistamos a li-
evoluir, nem para o ser humano, que, a seu turno, acaba alcan- berdade, mas caímos no abismo. O homem está acostumado a
çando a real finalidade de sua existência: evoluir. Só quem não iludir as leis humanas e julga possível e vantajoso fazer o mes-
compreendeu nada desse sábio jogo pode queixar-se dele. Mas mo com a lei de Deus. Como se pode dela evadir-se, se ela está
agora, que vemos claro e compreendemos o seu significado e dentro de nós, representando a nossa própria vida, e se nosso
objetivo, é mister concluir que não se poderá imaginar método afastamento dela conduz à morte? É possível burlar as leis hu-
mais perfeito e sabedoria mais profunda. manas, mas não é possível enganar a lei de Deus.
É lógico que, para o homem, tudo isso represente trabalho. Essa lei está em todos os lugares e em todos os tempos, di-
Ele gostaria de satisfazer o seu desejo de felicidade sem fazer rigindo a vida em todos os seus níveis. Ela existe para todos.
esforço algum. Mas a Lei é justa e nada concede gratuitamen- Ninguém lhe escapa, qualquer que seja a sua filosofia ou reli-
te. É precisamente a dureza dessa justiça a melhor garantia de gião. A lei de Deus é verdadeira e funciona tanto para católicos,
que as promessas da Lei serão mantidas, enquanto vemos que protestantes, espíritas, budistas, maometanos etc., como para os
os fáceis caminhos do mundo levam ao engano. Por razões ateus, que tudo negam. Um avião, se violar as leis que regem os
profundas, as quais veremos pouco a pouco, a evolução é co- seus movimentos, cai da mesma forma, seja qual for a religião
mo a subida de uma montanha. E temos de subi-la com nossos dos seus comandantes, ou mesmo que sejam descrentes. Assim
próprios esforços. No entanto somos preguiçosos e preferimos também, o organismo humano tem saúde ou adoece indepen-
ficar sentados à beira do caminho. Mas, desse modo, não nos dente da fé ou filosofia do indivíduo. A lei de Deus é a lei uni-
afastamos do feio pântano que se encontra na base da monta- versal da vida, como universais são as leis do mundo físico e
nha. E no pântano estão todas as dores, enquanto no cume da dinâmico, que dela fazem parte. No caso em questão, trata-se
montanha estão todas as felicidades. O terreno, porém, que pi- de leis morais e espirituais, positivas como as outras, e que um
samos na subida é de pedras, escorregadio, cheio de tropeços. dia a ciência descobrirá e demonstrará para o homem do futuro.
Então paramos desanimados, porque, enquanto nossa alma Esta é a lei que estamos estudando e explicando aos homens de
anseia felicidade, temos de enfrentar sofrimento. Procuramos boa vontade que tenham ouvidos para ouvir e desejem, para o
de todas as maneiras fugir dele, seguindo travessas mais fá- seu bem, ser orientados na vida.
12 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
VII. MUDANÇA DE PLANOS dele, em última análise, não fica aqui nada de definitivo. Tudo
o que fazemos está sujeito a uma tal caducidade, que o trabalho
A vida é escola para aprender e subir. parece a tarefa de um escravo condenado a construir eterna-
mente em cima de areias movediças. Observado só na sua apa-
Procuremos agora ver mais de perto a estrutura do meca- rência exterior, esse trabalho parece inútil, uma condenação
nismo da Lei, que, como observamos, dirige a nossa vida. sem sentido. Mas existe um sentido, pois a construção que o
Temos verificado que o homem é impulsionado para as du- homem realiza não está na Terra, e sim dentro de si mesmo. Se
ras experiências da vida pelo seu instintivo e irrefreável desejo suas obras se reduzem, afinal de contas, a um deslocamento de
de felicidade, mas que esta, na Terra, não pode ser atingida. E matéria, que permanece na superfície terrestre, onde esse contí-
temos visto que tudo isso se resolve numa corrida em busca de nuo esforço aparenta, em sua essência, ser apenas uma corrida
um inacessível ponto final, que se afasta de nós à medida que atrás de ilusões, não é, todavia, inútil, pois não se trata de uma
nos aproximamos dele. Embora não seja satisfeito nosso desejo, vitória terrena, mas representa uma fadigosa experiência para
realiza-se a vontade da Lei, pois ela atinge assim o seu escopo, aprender. Se não quisermos cair como presas da ilusão, é preci-
que é nos fazer evoluir, e isto significa aproximarmo-nos sem- so compreender que o verdadeiro fruto do nosso trabalho não
pre mais da almejada felicidade. Acontece desse modo que a está na obra realizada, mas na lição aprendida, na qualidade ad-
corrida, dolorosa e cheia de desilusões, conduz sempre à felici- quirida, no progresso atingido. Só assim se explica porque as
dade, ainda que o caminho seja mais fatigante e amargurado do leis da vida não se interessam por aquilo que mais nos interes-
que o homem desejaria. Assim, o que parecia ser crueldade da sa, ou seja, a conservação dos resultados materiais atingidos
Lei revela-se como sua bondade e profunda sabedoria. com tanto sacrifício, que, abandonados a si mesmos, ficam sem
A conclusão, então, é que esse jogo complexo representa defesa e logo acabam por se perder. Nem por isso, no entanto, o
somente uma escola destinada a ensinar a disciplina da Lei, pa- progresso para. O que permanece não é a obra realizada, mas é
ra sabermos desejar com inteligência o que é possível atingir o conhecimento adquirido da sua técnica construtiva, com a
para o nosso bem, dirigindo-nos sabiamente pelos seus cami- qual se podem realizar outras obras semelhantes em número in-
nhos. O mais importante disso tudo é que vamos subindo de um finito, abandonando-se as anteriores, que valem só como expe-
plano de existência para outro mais elevado, onde vão desapa- riência. Este é o verdadeiro significado de todos os trabalhos e
recendo a prepotência, a injustiça, a maldade, as lutas e os so- de todas as obras humanas. A Lei não cuida da conservação do
frimentos que atormentam o ser nos planos inferiores. É pelos fruto material, porque é o fruto espiritual que tem valor, e este
frutos que se conhece a árvore, e não se poderiam desejar frutos fica gravado na alma de quem realizou o trabalho.
melhores. Isto nos prova a sabedoria e a bondade de Deus, sen- Podemos agora compreender o verdadeiro valor das coisas
do um convite para nos entregarmos confiantes aos seus braços. que chegam às nossas mãos. A Lei no-las deixa possuir, manu-
É possível compreender agora o significado e a boa finali- sear e dirigir, contudo, cedo ou tarde, chega o dia em que temos
dade da luta pela vida, que é a lei do nosso plano. Esta lei, de nos desprender delas, e teremos então de devolvê-las à terra,
nesse seu aspecto tão duro, não é princípio biológico univer- de onde a tomamos, restituindo tudo, até o nosso próprio corpo.
sal, mas só qualidade dolorosa particular dos planos inferiores Assim, todas as coisas não nos são dadas senão por emprésti-
de existência, próximos aos da animalidade, existindo apenas mo, em usufruto temporário. Nosso é só o bom ou mau uso que
como meio a ser superado e destinado a ser relegado aos pla- tivermos feito das coisas recebidas. Todo o restante fica na Ter-
nos inferiores pelos seres em evolução. Os diferentes planos ra. Isto não quer dizer que, com a morte, não possamos levar
de existência são regidos por princípios diferentes, de modo a nada conosco. A Lei nos tira apenas o que é inútil e que, na ilu-
desaparecerem lutas e necessidades, à medida que vamos su- são da vida, julgávamos ser a coisa mais importante, enquanto
bindo a escada evolutiva. nos deixa levar conosco o que vale mais, o verdadeiro fruto do
Chegamos ao ponto que mais nos toca de perto. Continuan- nosso trabalho, ou seja, a nossa experiência, representando a
do ao longo desse caminho, acabaremos por atingir um plano sabedoria a ser utilizada por nós mesmos. Esta experiência é a
onde lutas e necessidades já não existirão mais. Isto quer dizer riqueza acumulada de que somos donos, o capital que teremos a
que as necessidades da vida, pelas quais tanto se combate, serão nosso dispor nas futuras vidas.
satisfeitas sem luta, gratuitamente. Explica-se assim o fenôme- Então tudo o que possuímos na Terra é somente material es-
no da Divina Providência, fato que se realiza inclusive em nos- colar, meio para aprender. E as consequências desse fato tam-
so mundo, em benefício dos mais evoluídos, pertencentes, pelos bém estão escritas na lógica da Lei e são muito importantes. Se a
seus merecimentos, a mais altos planos de vida. O esforço exi- finalidade de tudo o que chega ao nosso poder é nos ensinar o
gido pela Lei é duro, mas a sua justiça quer também que, à me- uso certo das coisas, adquirindo-se o sentido da justa medida e
dida que avançamos, ele se vá tornando cada vez mais leve. as qualidades de ordem, autocontrole e disciplina, é justo que a
Quanto mais ascendemos, tanto mais diminui o esforço neces- Lei nos tire tudo, quando temos cobiça demais e fazemos mau
sário para continuar a ascender, aumentando ao mesmo tempo o uso dos nossos poderes. E é justo também que a Lei nos deixe
rendimento do nosso trabalho. Com a evolução tende a diminu- tudo, quando não temos cobiça e fazemos bom uso do que pos-
ir o esforço requerido para continuar a evoluir, tornando-se to- suímos. Se a perda das coisas nos abala, porque a elas estamos
dos os benefícios cada vez mais gratuitos. Ocorre uma coisa pa- muito apegados, então, para aprender a lição de que elas são um
recida com a velocidade do movimento. Este é tanto mais fati- meio e não um fim, é bom perdê-las, para podermos entender
gante quanto mais estamos apegados a Terra, porém torna-se que os verdadeiros valores da vida, aqueles que merecem o nos-
mais fácil e rápido no ar, prosseguindo sem dificuldades e sem so apego, encontram-se noutro lugar. Mas, se a perda das coisas
esforço algum nos espaços siderais. Evolução quer dizer liber- não nos abala, porque a elas não estamos mais apegados, isto
tação e potencialização, levando a anular os empecilhos que, significa que aprendemos que elas são um meio e não um fim.
nos planos inferiores, nos tolhem o caminhar. Nos planos supe- Nesse caso, somos espontaneamente o que devemos ser, isto é,
riores de existência desaparecem, juntamente com todas as suas apenas administradores honestos, e podemos possuir tudo sem
tristes consequências, as duras leis da animalidade e ferocidade, perigo algum para nosso espírito. Acontece, então, que, na lógi-
predominantes em nosso plano de vida. ca da Lei, passa a não haver razão para que as coisas nos sejam
Compreende-se e justifica-se, assim, a dura necessidade do tiradas, mas, pelo contrário, até há motivo para que tudo nos seja
trabalho em nosso mundo. A última razão para a existência des- doado, porque, uma vez aprendida a lição, não há razão que jus-
se trabalho não se pode, no entanto, encontrar na Terra, porque tifique renúncias forçadas e limitações dolorosas. Esta é a lógica
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 13
da Lei. O caminho para chegar à abundância é o desapego. A da satisfação, para acordar em nós o desejo de coisas mais ele-
lógica do mundo é uma contraversão da lógica divina, e a prova vadas e no fazer ir à procura delas. É assim que, desapegando-
disso são os frutos que nele se colhe, isto é, luta e necessidade, nos das coisas inferiores e apegando-nos às superiores, conse-
onde poderia haver paz e bens em abundância para todos. guimos subir um novo degrau na escada da evolução, realizando
Como se vê, a Lei é inteligente e tem a sua lógica, podendo- dessa forma aquilo que é a maior finalidade da vida, em vez de
se raciocinar com ela. Ora, a lógica da Lei é que o impasse de correr atrás de dolorosas ilusões. Eis pois que, como quer a bon-
sofrimentos e desilusões no qual se encontra o homem em seu dade da lei de Deus, a felicidade está em nosso caminho, espe-
plano de vida, tem de ser resolvido e não pode existir senão pa- rando por nós, para ser atingida com o nosso esforço, vindo ao
ra ser resolvido, porque, se assim não fosse, seria uma conde- nosso encontro, se quisermos cumprir esse dever.
nação louca e cruel, um trabalho duro sem escopo nem sentido. Desta maneira, ficam de pé a bondade de Deus e a sabedoria
Mas a Lei é boa e lógica. Assim, a vida é apenas uma escola da Lei, revelando-se justo, então, o que ao primeiro olhar pare-
para aprender, e tudo se explica e justifica. ce ser um engano cruel. Compreende-se, assim, o verdadeiro
A conclusão desta nossa conversa, por estranha que pareça, sentido do jogo de nossa vida, tal qual o vemos desenvolver-se
é que podemos obter tudo e de graça, mas só quando não dese- em nosso mundo.
jarmos mais com cobiça, porque, só neste caso, o possuir não Continuaremos, assim, a explicar o significado de tantas
representará mais um perigo para nós. Se o escopo de tudo é coisas e fatos que nos cercam.
evoluir, é lógico que seja tirado de nós tudo o que constitui a
base de um apego excessivo, pois isto não nos deixaria prosse- VIII. A TRANSITORIEDADE DO MAL E DA DOR
guir em nossa mais importante obra, que é progredir no cami-
nho da evolução. Em outras palavras, o obstáculo para que tudo Os loucos métodos do mundo e o verdadeiro caminho.
chegue da infinita abundância existente em todas as coisas é a
nossa incapacidade de saber fazer bom uso delas, esquecendo- Já aprendemos que a finalidade da posse das coisas não é
nos da verdadeira razão pela qual as possuímos. Às vezes fal- gozá-las, mas sim aprender a arte de possuí-las conforme a Lei,
tam ao homem muitas coisas porque ele ainda não aprendeu a fazendo delas não uma prisão que nos retém em baixo, mas um
empregá-las sensatamente. Após atingir as necessárias qualida- meio de experiência para evoluir.
des de inteligência, bondade e desapego, imprescindíveis à boa Agora podemos compreender quão louco é o método que o
direção de tudo, não há mais motivo que justifique a privação. mundo usa. Ele corre cegamente atrás das coisas, para apode-
Por que deveria a Lei atormentar-nos sem um escopo útil para o rar-se delas, movido pelo seu instinto de ambição, que julga
nosso bem? Deus não pode querer isto. levá-lo à felicidade. Mas não sabe que tudo está regido por
Na Terra há de tudo em demasia. O que falta é saber de tudo leis, ignorando que, para conquistar e manter a posse de ri-
fazer bom uso. O homem ainda não aprendeu esta lição, e, para quezas e poderes, existem regras e que esses resultados não
que evolua, faz-se mister ele aprendê-la. Enquanto estiver preso podem ser alcançados por quem não as segue. Não basta a co-
aos seus baixos instintos de luta, esmagando todos com o seu biça de querer possuir tudo. Este é um impulso cego que nos
egoísmo, seria um dano para ele possuir poderes maiores. Por- faz cometer erros, constituindo uma estratégia enganadora,
tanto é lógico e bom que ele perca tudo quanto não saiba em- pois nos leva para o ponto oposto ao que desejamos. Como se
pregar senão para o seu próprio prejuízo. Isso revela a sabedo- pode chegar à abundância, usando o método da destruição?
ria da Lei. E isso é, de fato, o que acontece normalmente. O Na sua insaciabilidade de possuir sempre mais, o homem fur-
homem, apesar de ter descoberto a energia atômica, não possui ta, agride o próximo e, no caso maior das nações, faz as guer-
ainda uma psicologia bastante evoluída para saber usar, sem ras. Quer sempre se iludir, supondo que assim vai sair vence-
dano seu, uma força tão poderosa. A descoberta que ainda falta, dor. Mas, depois, seja ele formalmente vencedor ou vencido,
mais importante do que a energia atômica, é esta psicologia, sai da luta com os ossos quebrados, empobrecido e esgotado.
sem a qual aquela se torna perigosa e não pode dar nenhum fru- Não foi isso o que aconteceu na última guerra mundial? A ló-
to senão a destruição. Por isso, infelizmente, é inevitável que o gica deste método é a mesma de quem, para construir um pré-
homem, com a descoberta atômica, destrua tudo, para aprender dio, colocasse bombas, em vez de alicerces, no terreno que
a indispensável lição de saber usá-la e chegar, assim, a realizar serve de base para sustentá-lo, deixando-as estourar. O que se
a descoberta maior, da nova psicologia do homem civilizado, pode construir com tal sistema? De fato, estamos vendo o que
que sabe utilizar, só para o bem da humanidade, e não para des- o mundo consegue realizar com ele. Para edificar é necessário
truí-la, o progresso atingido pela ciência. Da descoberta atômi- construir, e não destruir. A destruição é o único resultado do
ca e da destruição a que ela levará, surgirá, como seu maior e desencadeamento da cobiça cega e descontrolada.
verdadeiro fruto, a construção de um homem mais sábio. Tudo O erro fundamental está no fato de se conceber a vida
é lógico. Se o escopo é evoluir e se o homem é o que é, como egoisticamente, e não coletiva ou fraternalmente. É próprio
atingir de outra maneira esse escopo? dessa psicologia atrasada, natural dos planos inferiores de vida,
Assim, o homem está criando, com a sua cobiça de possuir o erro que leva o indivíduo a centralizar tudo em si mesmo,
demais, a sua miséria. Isto é loucura. Mas ele terá de experi- apegado ao próprio eu, para o qual desejaria que todo o univer-
mentar constantes sofrimentos, até aprender que isto é loucu- so convergisse. Este é o princípio de todos os imperialismos,
ra. Até agora, ele não sofreu o bastante com as suas guerras baseados na força. Mas esse procedimento errado não pode
para resolver acabar com elas. Mas chegou a hora da última e impedir que a vida seja um fenômeno coletivo, no qual todos
decisiva experiência, para esse caso ser resolvido. E quando, os elementos se misturam numa mesma base comum, dentro
com a guerra, for morto também o instinto feroz de destruição das mesmas regras fundamentais. Nesse ambiente, quem julga
recíproca, então, por ter aprendido com a destruição, acabará que seja vantajoso fazer somente seus negócios, sem incomo-
a necessidade da lição para o homem, e ele poderá gozar da dar-se pelo dano alheio, fica automaticamente isolado e não
natural abundância das coisas, da qual somente o seu mau pode viver senão cercado de armas para o ataque e a defesa.
comportamento o afasta. Com todos seguindo esse método, a Terra se transforma num
Na sabedoria da Lei, o desejo existe para ser satisfeito, e não campo de guerra para todos, onde o único trabalho que se faz é
para ser traído com enganos. Quando isto acontece, não pode ser destruir tudo. É isso, realmente, o que está acontecendo em
devido senão à falha de quem deseja, porque desejou na medida nosso mundo. E o que fazem as nações em grande escala, os
e na direção erradas. Com a privação, a Lei nos fecha as portas indivíduos o fazem em pequena. Todos se estão agredindo e
14 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
defendendo, cada um julgando alcançar sua vantagem. O resul- prejuízo. Mas, pelo contrário, este pai dá tudo ao seu filho,
tado é um atrito, luta e destruição geral. Cada um semeia bom- quando vê que ele se tornou capaz de fazer bom uso das infinitas
bas no campo do vizinho. Mas também ao seu próprio campo coisas e poderes de que o universo está cheio. A consequência
chegam os estilhaços, quando elas estouram. Na vida não se disso tudo é que, nos planos inferiores, onde domina o estado
pode isolar o dano de ninguém. O dano dos outros acaba, mais involuído com a correlativa ignorância, tudo fica mergulhado na
cedo ou mais tarde, sendo nosso também. Quem desconhece luta, na violência, na destruição, na carência extrema, enquanto
esse fato terá depois de sofrer suas consequências. que, nos planos superiores, onde domina o estado evoluído com
Aqui poderia surgir uma pergunta: como pode a sabedoria a correlativa sabedoria, tudo emerge e se eleva na paz, no amor,
da Lei permitir que aconteça tudo isso? na construção, na abundância. Repetimos estes conceitos para
A sabedoria do mestre não quer dizer a sabedoria do aluno, tornar bem compreendido que a causa primeira dos nossos ma-
que tem de conquistá-la com o seu esforço. O homem ainda les advém do estado de involução em que nos encontramos e
tem de aprender muitas coisas. O trabalho que lhe cabe fazer na que, para nos libertarmos deles, só há um remédio: evoluir. Para
sua atual fase de evolução e nível de vida é exatamente experi- isso, é necessário o nosso esforço, a fim de que as vantagens se-
mentar sofrimentos e dificuldades, até que aprenda a viver em jam merecidas, pois nada cai de graça do céu. Todas as dores
harmonia com o bem. Ninguém é culpado por estar atrasado no permanecerão, enquanto o homem não tiver aprendido a não
caminho da evolução, mas cada um sofre o dano de não ser mais as provocar com o seu comportamento negativo.
obediente à Lei. Só tem direito a desfrutar vantagens quem su- Esta conversa parece dura, mas é justa e verdadeira. Encon-
biu a planos de existência superiores. trar justiça e verdade, ao invés de enganos, é vantagem. Não há
O fato positivo da absoluta vontade da Lei é a evolução do dúvida também que nada se perde de tudo o que tivermos feito
ser. O desenvolvimento da inteligência a fim de se orientar no com boa vontade para subir. Como cada sofrimento encontra
caminho da vida é um dos trabalhos mais importantes para as suas causas em nossas obras erradas, do mesmo modo todo
atingir esse escopo. Ora, no baixo nível em que se encontra o trabalho que quisermos realizar no sentido do bem não pode
homem, são necessários, para desenvolver a inteligência, os deixar de produzir, para nossa satisfação, seus bons frutos. A
choques e os sofrimentos enfrentados por ele na Terra, como Lei é justa e imparcial. É lógico, então, que, pela mesma razão
consequência da sua ignorância. É necessária a destruição, a pela qual quem semeia o mal tem de colher o mal, quem se-
dor, a guerra, a insegurança de tudo. É necessária essa luta, que, meia o bem tem de colher o bem. Está garantido, de maneira
com prejuízo da própria vida, tem de ser vencida, custe o que absoluta, que tudo isso se realize. Tudo fica, através de uma
custar. Golpes mais leves não seriam percebidos. E a Lei pro- técnica sutil de vibrações, gravado nas correntes dinâmicas que
porciona as suas provas na medida da sensibilidade dos indiví- fazem parte da Lei, a qual, como já dissemos, é também von-
duos, dando suas aulas de acordo com a inteligência dos alunos. tade e ação. E tudo pode sempre ser corrigido por novos im-
Pela mesma razão, os selvagens vivem num ambiente selva- pulsos, mas nada pode ser anulado. Nestas correntes está escri-
gem, e as feras num mundo feito de ferocidade. Mas todos es- ta a nossa história de milênios, tendo cada um o seu registro,
tão cumprindo o mesmo trabalho de desenvolver a sua inteli- que não se mistura com os dos outros. Ali tudo pode ser lido e
gência, cada um no seu nível, na forma adaptada ao conheci- a toda hora se podem fazer as contas de débito e de crédito,
mento que já possui. É assim que, através das mais duras expe- que marcam a nossa posição com relação à Lei, conforme nos-
riências, o ser vai ascendendo e, à medida que sobe, estas se so merecimento, tanto no sentido do bem como no do mal. Tu-
tornam mais leves. Isso porque, aumentando a sensibilidade e a do na Lei é profundamente honesto, sem possibilidade de es-
inteligência, as experiências mais dolorosas não teriam sentido capatórias ou burla. Mesmo o mínimo esforço que quisermos
na lógica da Lei, pois seriam contraproducentes, esmagando em realizar receberá a sua proporcionada recompensa.
vez de educar. E, já dissemos, a Lei é sempre boa e construtiva. É assim que, lentamente, vamos reconstruindo a nossa indi-
Assim, o homem, experimentando os dolorosos efeitos dos vidualidade com as suas qualidades boas ou más, as quais re-
seus erros, vai aprendendo a não os cometer mais e, desse presentam o total de todas as operações realizadas, sintetizadas
modo, vai construindo a sua sabedoria. Quando a tiver cons- neste seu último resultado, que constitui a nossa personalidade,
truído, já não cometerá mais erros. A planta má do sofrimento com a sua história passada, seus instintos atuais e seu destino
não poderá mais nascer, porque não será semeada. Tudo está futuro. Assim a Lei funciona com absoluta honestidade e res-
claro e é lógico, ao mesmo tempo em que é bom e justo. No peito pela liberdade do ser, qual máquina perfeita.
quadro do universo, tudo está certo, quando colocamos cada Observando-nos a nós mesmos, podemos ler a história do
coisa no seu devido lugar. Mas o que se encontra em nosso nosso passado. Quem tiver olhos abertos para ler dentro de si,
mundo é, sobretudo, cego desabafo de instintos, em vez de porque se acostumou ao autocontrole e à introspecção, pode,
sábia orientação. Acima de tudo, porém, permanece a sabedo- olhando para o fruto, reconstruir a estrutura da árvore e das raí-
ria da Lei, por intermédio da qual recebemos o que merece- zes. Isto quer dizer que o ser, olhando para os seus instintos e
mos, não importando se cada um procura culpar o outro. O qualidades atuais, pode reconstruir as séries de pensamentos e
importante mesmo é que há um caminho de libertação da dor: atos que, longamente repetidos, tornaram-se hoje os hábitos
a evolução. E quando chegar a dor, se soubermos usá-la, atin- constituintes de sua personalidade. Existe, pois, um meio pelo
giremos a libertação da própria dor. qual é possível, de maneira lógica e positiva, reconstruir nossa
A verdade de tudo isso está provada pelos fatos que vemos. história passada. E, se em nossa vida atual chega o sofrimento,
Hoje, o homem, pelas grandes descobertas que alcançou, encon- isto, na lógica da Lei, tem de possuir um significado e um obje-
tra-se neste cruzamento: ou se decide a desenvolver a inteligên- tivo. O significado é que esta dor tem como origem as más qua-
cia e a bondade, indispensáveis para fazer bom uso das novas lidades por nós adquiridas, sendo o seu objetivo dado pela sua
forças, ou destruirá tudo. Isto significa que, quando se atinge própria função: corrigir os nossos defeitos.
novo poder e a posse de maiores recursos, a inteligência neces- É através desse caminho que se vai aperfeiçoando a mecâni-
sária para usá-los tem de crescer paralelamente, se não quiser- ca da reconstrução do nosso eu. O caminho é duro, mas todo
mos cair num desastre, cuja finalidade é precisamente tirar po- esforço é bem pago. O patrão que tudo dirige é honesto. Ele
deres das mãos daqueles que não os merecem. Esta é a prova exige conforme sua justiça. A Lei é dura, mas não há nela lugar
que a humanidade está hoje esperando. Se ela não souber vencê- para enganos. Assim, se é triste olhar para nosso feio passado e
la, como se espera, perderá tudo. Um bom pai tira tudo das mãos observar nosso presente infeliz, podemos com alegria olhar
do seu menino, se este começa a usar armas perigosas em seu também para nosso futuro. Já sabemos, sem sombra de dúvida,
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 15
que a evolução nos leva das trevas para a luz. Então, se no pas- dos fatos e permanecer apegados à realidade da vida prática,
sado houve trevas, no futuro haverá luz. A evolução é uma cor- tendo como objetivo a nossa utilidade. De tudo o que falamos,
rente que nos impulsiona para essa luz. Basta apenas paciência, podemos dar uma explicação objetiva, sem derivar para abstra-
para esperar que venham tempos melhores, boa vontade e obe- ções filosóficas. Nossas teorias estão baseadas na razão, na ob-
diência à Lei, para que eles amadureçam em benefício nosso. servação dos fatos, na ciência positiva. O que vamos explican-
Assim, quando tivermos aprendido a lição do desapego, do não foi aprendido só nos livros, não é repetição do que se
quanta riqueza poderá chegar! Aprendida a lição da renúncia, costuma dizer neste terreno, mas representa material inédito,
quanta abundância! Aprendida a lição da humildade, quanto porque foi sobretudo vivido, experimentado e controlado na lu-
poder! Quando tivermos adquirido a virtude da paciência no ta e no sofrimento. Não estamos repetindo lições aprendidas de
sofrimento, quanta felicidade! Quando tivermos adquirido a cor, mas sim oferecendo as conclusões de uma vida de pensa-
virtude da bondade, quanto amor poderemos receber! E, fi- mento, dedicada ao esforço de compreender, de uma vida de
nalmente, depois de ter conseguido tanto, quanto repouso! amarguras, por não ter querido aceitar os caminhos vulgares do
Não estamos fantasiando coisas absurdas. Temos visto como mundo. Foi principalmente por intermédio da minha própria
tudo isso está escrito na lógica da lei de Deus. Este é também experiência, e não por intermédio da experiência dos outros,
que quis enfrentar e resolver o problema do conhecimento, esta
o significado do Sermão da Montanha. Estas são as verdades
tão tormentosa questão para o homem em todos os tempos. E,
que Cristo nos ensinou.
assim, chegamos a perspectivas que, diferentes das comuns, por
“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o
serem originais, podem parecer erradas, se medidas com o me-
reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque eles se-
tro formal das verdades tradicionais.
rão consolados... Bem-aventurados os que têm fome e sede de Com esse método, porém, atinge-se a grande vantagem de
justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordio- quem fala sem repetir coisas aprendidas dos outros, estando
sos, porque eles alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os por isso bem convencido do que diz, e a melhor maneira para
limpos de coração... Bem-aventurados os pacificadores... Bem- convencer os outros é estar convencido. O que mais fortifica a
aventurados os que têm sido perseguidos pela justiça... Alegrai- transmissão de ideias e determina a persuasão não é o método
vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus... ”. de convencer à força, tratando de impor as próprias ideias, pois
Os comentadores deste discurso nunca se perguntaram, por isso desperta o instinto de defesa, mas sim a linguagem sim-
acaso, qual seria a profunda razão desta inversão de todos os ples e sincera de quem está convencido da verdade que repre-
valores humanos? Já se dispuseram alguma vez a meditar no senta. A vida exige que o fruto brote de sua própria origem.
porquê disso? O motivo de tudo não se pode descobrir senão Para chegar a transmitir a chama da própria convicção, é ne-
em função da Lei, que rege o funcionamento do universo. É ne- cessário possuí-la, de outra maneira não se poderá transmitir
cessário ter primeiramente entendido o significado do fenôme- senão o gelo da própria indiferença. O que tem poder não são
no da evolução, as causas que o geraram e o seu telefinalismo as palavras, que vão da boca para o ouvido, mas a vibração ar-
ou objetivo final a atingir, isto é, o seu ponto de partida e de dorosa do coração e da mente, que se dirige ao coração e à
chegada. Então é possível compreender, como aqui estamos mente do próximo. A verdadeira conversa não se dá com pala-
explicando, que o mal e a dor, na perfeição da obra de Deus, vras, mas faz-se interiormente, por sua força, de alma para al-
são defeitos que não podem ser admitidos senão como imper- ma. A arte da oratória é outra coisa; é fruto artificial, fingido,
feição relativa e transitória, como qualidades passageiras pró- que pode ser agradável para observar, mas não serve para dige-
prias da criatura, ao longo do caminho de sua evolução. Isso rir, porque não contém alimento. Ao contrário, a verdadeira
quer dizer que o mal e a dor existem só para serem corrigidos e convicção abala as mentes e sabe dar-nos palavras que nos
transformados em bem e felicidade. Eis que, à tristeza de veri- ajudam a chegar a esse resultado, palavras substanciais e pode-
ficar tantas coisas horríveis no presente, sucede a alegria de sa- rosas, que são as únicas a possuírem esta força.
ber que, se quisermos, podemos realizar no futuro muitas coisas Quando eu era moço, o maior choque que recebi, ao primei-
maravilhosas. Eis ainda que, ao pessimismo de quem fica ven- ro despertar da minha mente nesta nossa Terra, foi aperceber-
do só o caso particular do momento, sucede o otimismo de me da presença da mentira. Na pesquisa a que me dediquei, pa-
quem alcança e abrange, numa visão de conjunto, todo o pro- ra saber em que espécie de mundo me encontrava, essa foi uma
cesso da evolução da vida, até à sua última etapa. Seria uma ab- descoberta bem dura, tanto mais porque estava eu com sede de-
surda blasfêmia admitir que fosse permitido ao mal e à dor sesperada de alguma coisa de justo, de sinceramente honesto e
manchar, de forma definitiva, a obra de Deus e, assim, vencer verdadeiro. E tudo se apresentava de tal maneira corresponden-
Sua infinita sabedoria e bondade. te à aparência de verdadeiro, que, antes de fazer a triste desco-
berta, eu acreditava que tudo era genuíno, sem de nada suspei-
tar. E o pior ainda é que muitos se ufanavam de, por esse meio,
IX. DAS TREVAS À LUZ ou seja, com o engano, vencer o próximo. Então me perguntei
em que mundo infernal tinha nascido. Um mundo em que do-
Em busca da verdade que nos orienta e minavam a ausência de Deus e a presença das forças do mal.
constrói rumo à perfeição. Esta foi a verdade que saltou à minha vista, logo que comecei a
olhar atrás dos bastidores das aparências. Tudo isto me poderia
O que temos afirmado neste livro não está assente no ar, nem ter passado despercebido. Mas, infelizmente, tinha o instinto de
é fruto apenas de uma escola filosófica ou de uma opinião pes- querer olhar as coisas também por dentro, para conhecer o se-
soal. Nossa afirmação de fé não é cega, mas sim uma afirmação gredo de sua estrutura e de seu funcionamento, desde os brin-
baseada em conclusões extraídas de teorias complexas, que fo- quedos de menino até à grande máquina do universo.
ram em nossos livros cabalmente demonstradas e, nesta exposi- Fiquei desiludido, mas isso não perturbou minhas pesquisas.
ção simples, não podem ser repetidas. Quem quiser aprofundar Como quem procura um tesouro escondido, sem o qual não po-
seu conhecimento poderá encontrar naquelas teorias as razões de viver, em vez de cair no desânimo e no pessimismo, continu-
últimas destas nossas afirmações, desde as primeiras causas até ei escavando ainda mais fundo, para descobrir qual era a última
suas derradeiras e resolutivas consequências. Mas, atrás destas, verdade e o que havia de real atrás dessas enganadoras aparên-
está também o apoio de uma vida inteira de controle experimen- cias do mundo. A pesquisa foi longa e dura, porque escarnecida
tal dessas teorias, em contato direto com a realidade dos fatos. como coisa inútil por uma maioria que buscava objetivos dife-
Isso nos oferece, quando se trata dos problemas da vida e do rentes. Pesquisa condenada, porquanto a procura, atrás das ver-
espírito, a seguinte vantagem: podemos pisar no terreno firme dades fictícias, da altíssima verdade incomodava a todos, pois
16 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
revelava muitos jogos de interesses que eles desejavam conser- para responder de uma maneira exata ou não tinham muito inte-
var escondidos. Encontrei-me, então, sozinho, desprezado por resse em conhecê-las. Talvez porque estivessem preocupados
não fazer negócios para amontoar dinheiro – a coisa mais impor- com alguma outra coisa mais importante ou então desesperan-
tante segundo a opinião geral – e culpado por buscar a verdade e çados por não ter encontrado respostas adequadas às suas inda-
trazê-la à tona. Mas um instinto indomável me dizia que, com gações. O que mais os atraía e prendia eram as ilusões do mun-
toda a certeza, tinha de existir em algum ponto, para além deste do, nas quais mais acreditavam, embora todos vissem, a todo o
nosso mundo, um outro melhor, onde reinasse a justiça em vez momento, que elas acabavam sepultadas, com o nosso corpo,
da força, a sinceridade em vez do engano, a inteligência em vez no túmulo. Foi assim que, para satisfazer meu desejo ardente de
da ignorância, a verdade em vez da mentira, a bondade em vez orientar sabiamente minha vida, comecei sozinho o trabalho de
da maldade, a felicidade em vez do sofrimento. E, uma vez que pesquisa com todos os meios ao meu alcance, tantos os da cul-
eu tivesse descoberto esse outro mundo, o que mais almejaria tura como os da intuição, da observação e do sofrimento,
era encontrar o caminho para chegar até ele. olhando e controlando, por dentro e por fora, tudo o que acon-
Considerava-me como se estivesse encerrado numa prisão tecia comigo e, na medida do possível, com os outros. Juntando
escura, sem portas nem janelas. Mas percebia, por intuição, os extratos de conhecimento adquiridos na Terra, completando
que, além das paredes duras, havia o ar livre e a beleza do céu com o raciocínio e a intuição, foi possível fundir, num sistema
na luz do sol. Para chegar até lá, escavei, sozinho, nas trevas, unitário e orgânico, os muitos elementos separados e obter a vi-
com as unhas a sangrarem, atormentado pelos sofrimentos da são global do universo. Assim, cheguei a me encontrar, hoje, na
reclusão; escavei as pedras duras da parede espessa, desalenta- posição de quem não somente pode viver completamente orien-
do e, às vezes, esgotado. As pedras iam caindo, uma após outra, tado a respeito da sua própria vida, mas também pode oferecer
até que, um belo dia, um raio de luz apareceu, anunciando-me a quem precisar, como eu precisei, as respostas às perguntas
que tinha encontrado o caminho para a libertação. Até agora, fundamentais que dizem respeito à nossa existência. Eu preci-
foram afastadas dezessete pedras. Para que nada se perdesse da sava absolutamente destas respostas, porque não conseguia
experiência do meu trabalho, nem para mim nem para os ou- compreender como fosse possível percorrer este trajeto – o ca-
tros, para que nada se perdesse da visão sempre mais ampla e minho da vida – sem conhecê-lo. É lógico que viver correndo
bela que aparecia lá fora, tudo eu gravava na minha mente e ao acaso, como um cego, atrás de tentativas, para cair finalmen-
descrevia em livros. Dezessete pedras significam dezessete li- te em desilusões, não representa um trabalho construtivo, mas
vros. Outra pedra agora está caindo, e estou escrevendo o dé- um louco desperdício de forças, de nossas forças.
cimo-oitavo livro. Aparecem, assim, horizontes sempre mais Assim cheguei à maior conquista da minha vida, que é ter
vastos, planícies e montanhas, cidades e rios, o mar e o céu, e a descoberto a presença sensível da lei de Deus. Todos sabem e
luz do sol, que tudo ilumina, dissipando as trevas da prisão e falam da existência de Deus, da sua presença e da sua lei. Outra
aquecendo também os duros corações dos prisioneiros. A estes
coisa, porém, é perceber essa presença, vendo como ela está
ofereço o fruto deste trabalho, para que também cheguem a
operando tanto nos grandes acontecimentos da história como
compreender o caminho da libertação.
nas pequenas ocorrências de cada ser. É completamente dife-
Cada um, ao nascer, traz consigo certos instintos, construí-
rente ver que, a todo o momento, a lei de Deus está funcionan-
dos por ele mesmo em existências passadas, e sente-se impulsi-
do ao redor e dentro de nós e que, apesar da nossa vontade de
onado a segui-los, sejam bons ou maus, encontrando-se acor-
rentado a eles pela mesma irresistível e fatal força que liga o nos subtrairmos a ela com nossa revolta, ninguém pode fugir
efeito à causa. Ora, o instinto que me guiava, antes que eu, ob- dela, pois todos devem permanecer sujeitos a ela.
servando e raciocinando, pudesse compreender tudo, exigia que Foi assim que atingi a grande satisfação de constatar que, de
a minha vida não fosse um inútil desperdício de forças em bus- fato, quem manda é Deus e que, assim, a vida não é dirigida pe-
ca de miragens, como depois vi que muitas vezes acontece na la prepotência do homem, mas sim pela sabedoria, bondade e
Terra, mas sim uma construção sólida, fundamentada no terre- justiça divinas. Então, quando o patrão maior, que está acima
no seguro e inabalável dos valores eternos, em vez de apoiada de todos, é Deus, o que temos a temer? Vi, assim, que bastava
nas areias movediças dos valores fictícios e caducos do mundo. isso para transformar num otimismo salvador o desespero dos
Talvez por ter experimentado bastante e por ter aprendido a li- sofredores, a tristeza dos desamparados e o natural pessimismo
ção, não me pertencesse mais a prova de cair vítima das mais dos honestos condenados a viver neste nosso mundo. Então, pe-
comuns ilusões humanas, tais como a riqueza, o poder, a glória, la ajuda que esta tão grande esperança nos dá, é possível aceitar
as satisfações materiais etc. Tão-só pelo olfato sensibilizado, a dura prova de uma vida na Terra. Assim sendo, a vida pode
percebia logo serem elas apenas engodos. Precisava, assim, fa- tornar-se uma festa também para os sofredores e os deserdados.
zer da vida um uso diferente do comum, uma verdadeira obra Possuímos, desse modo, o tesouro de uma alegria confortadora
de construção, e não uma escola de ilusões, que não mais podi- para nós e para os outros. Quem faz tudo isto ser visto ajuda a
am enganar-me. Para construir, era necessário um terreno fir- bondade de Deus a descer e manifestar-se na Terra, tornando-se
me, onde pudesse fixar os alicerces. Percebia, por intuição, que operário d'Ele e, semeando felicidade para os outros, semeia fe-
esse terreno tinha de existir, mas na Terra era difícil encontrá- licidade para si mesmo. Mas poder-se-ia objetar que tudo isso
lo. Alguns raios de luz apareciam aqui ou acolá, nas religiões, já é sabido por nós e constitui a pregação de todas as religiões.
nas filosofias, na ciência, porém fracos, desconexos, torcidos, E é verdade, esta esperança já existe, mas como coisa longín-
disfarçados, sepultados no fundo das formas. Era necessário qua e nebulosa, apoiada só na fé; esperança duvidosa, pois só
iniciar tudo novamente. E assim foi feito. Trabalho duro, cujo pode realizar-se numa outra vida, desconhecida, que, para nós,
fruto oferecemos neste e nos outros livros àqueles que deseja- vivos, perde-se no mistério da morte. A novidade consiste em
rem orientar-se de maneira a fazerem das suas vidas a mesma apresentar esta esperança como realidade positiva, verdadeira,
obra de construção sólida à qual nos referimos. porque não somente demonstrada com as provas da razão e da
Para dar uma orientação à minha conduta na vida, era preci- ciência, mas também submetida a um processo regular de expe-
so, antes de tudo, conhecer o lugar aonde eu acabava de chegar. rimentação, confirmada pela nossa própria vida, que nos mostra
Por que tinha nascido e por que tinha de viver esta vida presen- como são verdadeiros os princípios em que se baseia aquela es-
te? Para onde este caminho se dirigia, ou tinha eu de dirigi-lo? perança. Nosso problema agora é só um: deixar os outros toca-
Mas, para resolver o meu caso particular, tinha também de en- rem esta outra realidade com as mãos, como nós a tocamos, pa-
contrar resposta às mesmas perguntas para o caso geral. Per- ra que assim possam tirar desse conhecimento a certeza, o oti-
guntava aqui e ali, mas não obtinha resposta satisfatória. Pare- mismo e a força que ele nos deu. E esta também é a razão pela
cia que meus semelhantes não sabiam o suficiente dessas coisas qual escrevemos estes livros.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 17
X. APARÊNCIAS E REALIDADES gria. Por isso nunca nos cansaremos de explicar estes conceitos,
de demonstrar e confirmar estas verdades, para que os outros
Novo modo de conceber e encarar a vida. também tomem parte nesta festa. Alegria nenhuma é completa,
A alegria de quem compreendeu. se não é compartilhada com os outros. Vamos assim, gradativa-
Não julgar, para não ser julgado. mente, explicando sempre mais o conteúdo da nossa obra e o
seu objetivo. Utilizando apenas as armas da inteligência, da sin-
Minha maior satisfação foi ter descoberto que o mundo é re- ceridade e da bondade, nossa luta é só para vencer o mal que
gido pela sabedoria, bondade e justiça de Deus, conclusão a que inunda o mundo, é para oferecer a ele, de graça, o produto que
chegamos no capítulo anterior. Mas, se tudo é regido por Deus, mais parece faltar-lhe, ou seja, um meio de orientação para
o universo é uma máquina perfeita e o nosso mundo, portanto, aprender a viver com mais inteligência e menos sofrimento.
não é só, como pode parecer, o reino da desordem e do mal. Há Quem conseguiu compreender tudo isso e viver olhando
uma realidade diferente para além das aparências. Minha grande para Deus, concebe tudo de maneira diferente, torna-se outro
satisfação foi ter descoberto essa outra realidade. Olhando em homem e, como se houvesse descoberto um outro mundo, nele
profundidade, cheguei a ver que o pior está na superfície e que, vive uma outra vida, mais satisfeita, ampla e poderosa. Desfaz-
debaixo dessa, encontra-se um outro mundo, regido por uma ou- se então, para ele, o jogo das ilusões humanas, em que tantos
tra lei, feita de sabedoria, justiça e bondade. Esta lei é a lei de acreditam com fé inabalável, e aparece atrás delas outra reali-
Deus, que, agindo na profundidade, tudo dirige. Este terreno é dade, que nos explica a razão pela qual existe esse jogo e por
de rocha resistente, onde se pode construir sem perigo de enga- que temos de suportá-lo. Por outras palavras, vive-se de olhos
nos. Esta é a fonte que pode saciar quem tem sede de justiça, de abertos, compreendendo o motivo por que tudo acontece. Vi-
bondade e de verdade. Então a vida, em vez de um caos de lutas ve-se orientado a respeito da conduta a seguir e das finalidades
desordenadas, onde só há lugar para os mais fortes, que costu- da vida. Quando, por ter evoluído, cai o véu da ignorância, que
mam vencer de qualquer modo, é um lógico e justo trabalho de nos impede de ver esta outra realidade, então se compreende
experiências, constituindo um caminho dirigido para nossa feli- que fazer o mal aos outros, acreditando ser possível levar van-
cidade. E, realmente, não vivemos ao acaso, abandonados a nós tagem, é loucura que não tem o alcance desejado. Auferir lu-
mesmos, perdidos neste imenso universo desconhecido. Temos cros por esse caminho pode parecer possível só para quem está
um Pai nos Céus, que, se golpeia os maus com a Sua justiça – ainda mergulhado na ignorância, própria dos níveis inferiores
assim fazendo para o bem deles – também recompensa os bons, da evolução. O que de fato acontece é que quem espalha vene-
que o merecem. Podemos contar com Ele e n'Ele confiar. Ele no o espalha para todos e para si também. Assim quem faz o
mantém sempre Sua palavra, que está escrita em Sua lei, e con- mal acaba por fazê-lo também a si mesmo.
cede-nos o que tivermos merecido. Ele vela por todos nós. Te- Não há somente um funcionamento físico e dinâmico, mas
mos, pois, alguém que defende nossa vida e que está pronto a também um funcionamento moral e espiritual do universo, com
ajudar a todos, bons e maus, para levá-los ao bem e à felicidade. suas leis exatas e fatais, como são as leis do plano físico e di-
Somos elementos constitutivos e cidadãos de um universo orgâ- nâmico que a ciência estuda. O universo onde moramos está
nico, em cujo seio a Lei coordena nossa vida em relação a todos construído de tal maneira, que seria grande erro dizer que um
os outros elementos, todos irmanados em função do mesmo determinado dano não nos interessa por não ser nosso. Não é
princípio central diretor, orientados e impulsionados para a possível nos isolarmos de coisa alguma no universo. Queiramos
mesma finalidade, que é a salvação universal. ou não, estamos irmanados à força no mesmo mundo, respiran-
Assim, vemos que, na realidade, a injustiça é fenômeno do todos a mesma atmosfera de fenômenos, sejam físicos, di-
transitório e de superfície. Quem verdadeiramente manda é nâmicos ou espirituais – entrelaçados entre si – de maneira que
Deus, isto é, o bem, sendo que as próprias forças do mal aca- qualquer movimento ecoa e repercute em todos os sentidos, não
bam trabalhando apenas em função do bem. E, se é Deus quem podendo parar enquanto não atingir seus últimos efeitos. Não
manda, quem na realidade reina e tem de vencer não o faz pela existem compartimentos estanques, divisões absolutamente
força, mas sim pela justiça. Não há força que possa impor-se, trancadas, que possam parar uma vibração, uma vez que esta
violando esta lei. Mais cedo ou mais tarde, cada um acaba rece- tenha sido posta em movimento. Não é possível construir pare-
bendo o que merece. A revolta contra a ordem, permitida por des suficientemente fortes para poder separar seres feitos da
Deus, não consegue, como o homem desejaria, subverter essa mesma vida e sujeitos à mesma lei, paredes capazes de isolar a
ordem para sua vantagem, mas, antes, só o arrasta para seu da- nossa vantagem da vantagem dos outros, ou o nosso dano do
no. Assim como quem faz o bem tem de receber sua recompen- dano dos outros. Tudo, enfim, precipita-se na mesma atmosfe-
sa, quem faz o mal também tem de pagar com seu sofrimento. ra, de onde cai a chuva para todos.
Se esclarecer tudo isso, como estamos fazendo, representa É verdade que existem na natureza prepotência e parasitis-
um aviso para os maus, não há dúvida que constitui também mo, e a vida os permite e os aceita. Mas por quê? A vida age
um grande consolo para os bons. Desloca-se assim, comple- assim não para vantagem do vencedor, mas da vítima, que, por
tamente, o conceito da vida. A força maior está em Deus, e este caminho, lutando, aprende a conquistar para si o seu lugar
quem está junto d'Ele, porque vive conforme Sua lei, é o mais no mundo. Assim, acontece que, quando a vítima aprende a li-
forte. O verdadeiro poder não está nas mãos dos prepotentes e ção sob os pés do vencedor, lição que este mesmo lhe ensinou
astutos, como parece ao mundo. Coisa incrível para quem não com o exemplo, esmagando-a, ela se rebela, Então o escravo,
sabe ver além das exterioridades. O poder está nas mãos dos se puder, escraviza o patrão. Mas quem foi que doutrinou e
honestos, que, pelo fato de obedecerem a Deus, com Ele cola- adestrou os subordinados, mostrando-lhes este caminho? É as-
boram e são por Ele protegidos. Podemos, assim, ter confian- sim que a prepotência, filha da injustiça, só dá fruto até certo
ça na vida, porque ela está sempre bem dirigida por Quem tu- ponto, e essa superioridade e predomínio duram apenas en-
do sabe, mesmo quando ela se encontra repleta de ignorância; quanto ensinam. Isso é de fato o que vemos acontecer no mun-
está bem comandada pela divina bondade, mesmo quando do. O que sustenta tanta luta é tão-somente a antevisão da vitó-
somos maus; está sempre dirigida para o nosso bem e felici- ria. E a razão dessa luta contínua é o fato de constituir ela, em
dade, mesmo quando vivemos na dor. si, uma escola para desenvolver a inteligência, até se chegar a
Quanta luz e alegria de otimismo pode espalhar ao redor de compreender que a vitória antevista é uma ilusão. Mas, na ver-
si quem compreendeu tudo isso! E quem se sente alegre não po- dade, serviu como estímulo para que o indivíduo alcance o ob-
de renunciar à satisfação de comunicar aos outros esta sua ale- jetivo da vida, que é o progresso.
18 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
O homem foi sempre vítima de enganos dos sentidos e de da do homem, como organismo físico, estrutura social, desen-
sua mente, enganos que o levaram a interpretações erradas dos volvimento histórico e ascese espiritual, não fosse dirigida por
fatos. Já se acreditou que a matéria fosse sólida e indestrutível; uma mente superior à dela, tudo no mundo teria fracassado há
que a Terra fosse imóvel e que, portanto, o Sol girasse ao redor muito tempo. Se tudo o que significa rebeldia do homem à Lei
da Terra, e não a Terra ao redor do Sol; e, assim também, em não fosse continuamente corrigido e devidamente orientado na
muitas outras coisas. Só agora o homem começa a perceber direção certa para a salvação final, como poderia esta ser atin-
quão enganadora é a aparência das coisas, entendendo que a gida, uma vez que tem absolutamente de se realizar? Certamen-
verdade é bem outra, embora ainda esteja profundamente es- te não é o homem que pode dirigir o navio da humanidade atra-
condida. De quantas ilusões psicológicas temos ainda que nos vés do oceano do tempo. Ele está perdido nos pormenores do
libertar! Isto sobretudo no terreno intelectual, porque é nosso momento, nas suas lutas e interesses particulares. Falta-lhe a vi-
intelecto o meio através do qual percebemos e concebemos tu- são para se orientar no caminho dos milênios.
do. O que condiciona nossos julgamentos e ideias em todos os Assim a Lei, trabalhando de dentro para fora, da profundi-
campos são a natureza, as capacidades e o desenvolvimento do dade para a superfície, vai sempre suprindo os gastos que se ve-
intelecto. Cada ser não pode viver senão em função da compre- rificam na vida, emendando os erros, retificando os desvios da
ensão que possui. Assim, muitas vezes aceitamos como verda- criatura inexperiente. É a vontade de Deus que salva tudo, e não
des absolutas, axiomáticas, ideias que, sendo frutos da nossa a vontade do homem. É ela que, na justiça final, reequilibra a
forma mental, estão a ela submetidas. É necessário, com um injustiça do mundo; que na, sua ordem, corrige a desordem;
controle contínuo, saber olhar em profundidade, para se chegar que, com a sua inteligência, dirige nossa ignorância; que, com a
a compreender a falsidade de tantos conceitos que cegamente sua bondade, cura e elimina nossa maldade; que, educando-nos,
aceitamos e que dirigem nossa vida. anula nossos erros com o sofrimento, levando-nos para a felici-
Cada um julga com os elementos que possui. Quanto mais dade. Esse fenômeno é devido ao que se chama imanência de
somos ignorantes, menos elementos possuímos, e, quanto me- Deus, pois Ele não existe só transcendente nos Céus, mas tam-
nos elementos possuímos, mais rápidas e absolutas são nossas bém presente entre nós. Se assim não fosse, quem poderia sal-
conclusões. Ao contrário, quem possui mais conhecimento e, var o mundo? Tudo estaria perdido. É a Sua presença que im-
com isso, mais elementos para julgar, não chega a conclusões pulsiona e dirige a evolução, reorganiza o caos, reconstrói o
simplistas, rápidas e absolutas. Portanto quem mais se aproxi- edifício despedaçado, fazendo retornar todos os elementos à sua
ma da verdade é quem julga lentamente, sem absolutismo, mas unidade, o mal ao bem, as trevas à luz.
com profundidade. Então quem julga, lançando seu julgamento A essa altura, ergue-se com mais força ainda a pergunta que
sobre os outros, em última análise julga a si mesmo e, com seu surgiu anteriormente. Como acontece essa retificação? Qual é
julgamento, revela-se. Pelo fato de não poder ele julgar senão mais exatamente a técnica de funcionamento desses fenôme-
conforme seu tipo de pensamento e natureza, com o seu julga- nos? O assunto é vasto, e não é possível desenvolvê-lo inteira-
mento ficam expostos o seu pensamento e a sua natureza. A mente neste capítulo.
melhor maneira de se chegar a conhecer uma pessoa é observar
os seus julgamentos a respeito dos outros. Quando alguém cai XI. O EXTRAORDINÁRIO PODER DA VONTADE
na ilusão de supor que, julgando os outros, está assim deixan-
do-os expostos e colocando-se acima deles, na realidade está A técnica do funcionamento da lei de Deus.
apenas se submetendo a julgamento, descobrindo-se e revelan- Quem faz o mal o faz a si mesmo.
do a todos seus próprios defeitos.
O mundo em que vivemos é muito diferente daquilo que No precedente capítulo, falamos da função da Lei, que é en-
aparece por fora e que a maioria julga ser real. Quem faz o mal direitar as posições erradas adotadas pelo homem, e formula-
aos outros o faz a si mesmo, quem julga está sendo julgado. mos a seguinte pergunta: como se processa esse endireitamento
Apesar da tentativa do homem de contraverter a lei da justiça e qual é a técnica do funcionamento desse fenômeno? Agora
para sua vantagem, a justiça o vence, se assim ele o merecer. E perguntamos mais. Qual é o jogo de forças através do qual se
desse modo é sempre. Esta é uma constatação que estamos fa- chega a esses resultados e com que método se consegue realizá-
zendo. Mas, a essa altura, poderíamos perguntar como é possí- los? De que modo o mal volta à fonte que o gerou. Por que, as-
vel tudo isso? Como acontece essa retificação? Qual é a mecâ- sim, acontece que quem faz o mal o faz a si mesmo? Como po-
nica desse fenômeno? de nosso mundo, onde vigora a lei da força, ser regido interior-
Tudo é devido à Lei, cuja presença nunca nos cansaremos mente por outra lei, uma lei de justiça, que acaba por vencer?
de salientar. E a presença da Lei quer dizer presença da vontade Já explicamos que a nossa personalidade atual foi construí-
viva e ativa de Deus. O Pai nosso que está nos céus não está au- da por nós mesmos no passado, pelos pensamentos e atos que,
sente do nosso mundo, indiferente à nossa vida, vida que acaba- longamente repetidos, com a técnica dos automatismos, torna-
ria de súbito, se não fosse sustentada por Ele, por Sua presença ram-se hábitos. O resultado de todas as nossas atividades pas-
viva. Dentro da Lei ou vontade de Deus, o homem é livre para sadas encontra-se escrito, em síntese, em nosso tipo individual.
se movimentar, porém restrito apenas aos limites estabelecidos. Nossas qualidades e instintos atuais são o resultado da nossa
Por isso, sem ultrapassar esses limites, ele pode agir de maneira história vivida, possuindo uma velocidade adquirida na direção
diferente da que manda a Lei. Nasce então, quando o homem que eles representam e, por isso, a não ser que sejam corrigidos
não age de maneira concorde com a Lei, a luta entre ele e Deus, em outra direção, significam um impulso e uma tendência a
um choque de vontades. Por um lado, a criatura rebelde, que- continuar da mesma forma no futuro, fenômeno a que chama-
rendo inverter tudo, para tornar-se centro e dona de tudo, o que mos destino. Isso já dissemos.
seria o caos, a destruição e a morte. Por outro lado, Deus, que- Ora, uma parte do nosso ser é ainda completamente animal,
rendo endireitar tudo, para permanecer Ele centro e dono de tu- isto é, entregue ao subconsciente. Como acontece quando se
do, o que é a ordem, a salvação e a vida. domesticam os animais, que se acostumam a viver em ambien-
Se a vontade de Deus, escrita na Lei, não retificasse a todo o tes diferentes do seu ambiente natural, adquirindo assim, por
momento o desvio que o homem tenta realizar fora do caminho meio de novos hábitos, novas qualidades e instintos, o mesmo
certo, tudo acabaria na desordem. Na verdade, seria absurdo acontece com o homem, através do mesmo método de trans-
que a criatura pudesse substituir-se ao Criador na direção de um missão para o subconsciente. Trata-se de um trabalho mecâni-
mundo cujas leis profundas escapam à sua inteligência. Se a vi- co, automático, espontâneo, e não de um produto reflexo da in-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 19
teligência e da vontade. Confiado ao subconsciente, que vai fruto de nossa própria vontade, isto é, feitos de mal, mergulha-
tomando nota de tudo, absorvendo ou reagindo, este trabalho dos numa atmosfera de mal, amarrados às forças do mal, cer-
constitui um esforço de adaptação, fundamental para a vida se cados de todos os lados pelo mal, que, atraindo-nos e sendo
defender e prosseguir. É da profundidade do subconsciente por nós atraído, irá golpear-nos, porque dele seremos constitu-
que, depois, tudo o que ali foi impresso pela longa repetição ídos, nós e o mundo ao qual pertencemos.
volta à superfície em forma de instintos, os quais, por inércia, Pela mesma lógica da Lei, acontecerá o contrário a quem
continuam automaticamente a nos impulsionar na direção já escolher o caminho do bem. O certo é que, depois de praticada
adquirida, até que novos impulsos venham gerar novos atos e a uma ação, qualquer que seja sua natureza, temos de colher seu
repetição destes forme, por sua vez, novos hábitos, instintos e resultado, seja ele bom ou mau. Se tivermos semeado o bem, a
qualidades, que se irão sobrepondo aos que já possuímos, lan- alegria será nossa, e ninguém dela nos pode privar. Se tivermos
çando-nos em direção diferente. semeado o mal, o sofrimento será nosso, e ninguém no-lo pode-
Ora, o primeiro motor de tudo isso é a nossa vontade, que rá tirar. No caso de erro, só há um remédio: a dor, que estará ali
assim pode livremente impulsionar nossa evolução, dirigida pe- para nos avisar que erramos. À nossa frente há sempre um ca-
la sua livre escolha. Pertence-nos então o poder de nos constru- minho virgem, onde teremos oportunidade de endireitar o pas-
irmos como quisermos. É lógico, portanto, que nos pertençam a sado. Mas o impulso renovador tem de partir da nossa vontade,
responsabilidade e as consequências dessa escolha. Mas é lógi- que, como vimos, é a primeira força geradora do nosso destino.
co também que, num fato assim tão importante como o da evo- Olhando o fenômeno em seu conjunto, vemos que há dois
lução, a escolha do caminho, o seu desenvolvimento e o ponto transmissores de vibrações e impulsos dinâmicos: a vontade do
de chegada não possam ser confiados ao acaso ou à vontade de nosso eu e a vontade de Deus. Através de suas emanações, es-
uma criatura que nada sabe além dos problemas do momento e ses dois sistemas de forças se encontram e reagem um em rela-
do seu pequeno mundo. Isto seria pôr em risco o resultado úl- ção ao outro. A Lei, representando a vontade de Deus, é o sis-
timo do imenso trabalho reconstrutor do universo, trabalho tema mais poderoso. A Lei é feita de ordem e harmonia, rea-
grande demais para ser entregue ao capricho e à ignorância da gindo a cada dissonância em proporção a esta (como faria um
criatura. Nesse resultado último, a criatura não pode influir, diretor com sua orquestra), para que tudo volte à posição certa,
pois ele pertence só a Deus e, para Ele, tudo não pode ser senão logo que o homem tenha ultrapassado os limites preestabeleci-
absoluto, determinístico, fatal. dos. Por outro lado, o homem, não podendo deixar de perceber
Ao lado da vontade do homem, que não permite atingir se- essa reação que se chama dor, reage conforme a sua natureza e
não os resultados que lhe dizem respeito, isto é, a construção do o grau de compreensão atingido, revoltando-se ou, então, acei-
indivíduo, há outra vontade, fixando os limites dentro dos quais tando a prova para aprender a lição e não cair mais em erro. Por
aquela pode mover-se, para que seja possível chegar, em qual- sua vez, a Lei percebe as novas vibrações e impulsos gerados
quer caso, seja qual for a obra do homem, ao resultado final de por estes novos movimentos da vontade do homem, toma nota
salvação, e não de destruição, como poderia acontecer se a von- de tudo, modificando as suas primeiras reações em função des-
tade do homem prevalecesse. Esta outra vontade, à qual, aliás, tas outras. Tais reações constituem-se na transmissão de ondas
tudo está confiado, é a vontade de Deus. Dentro dela, o homem de regozijo, se o ser voltou à ordem dentro dos limites da Lei,
está mergulhado, com a liberdade de se mover como um peixe ou de sofrimento ainda maior, se o ser continuou rebelando-se,
num rio. O peixe pode deslocar-se para todos os lados, menos surdo ao aviso recebido. O aviso tem de ser entendido, e o so-
para fora do rio, encontrando assim o caminho já marcado por frimento cresce em proporção à surdez. E assim, sucessivamen-
leis absolutas e tendo, em qualquer caso, que nadar na direção te, tudo ecoa e repercute, por ação e reação, num contato contí-
do mar. Assim, a criatura pode semear desordem à vontade, nuo entre o homem e a lei de Deus.
mas só para si, enquanto, nas linhas gerais, tudo está dominado Trata-se de dois mundos vivos, sensíveis, em contínuo mo-
por um poder maior e inalterável, que mantém sempre a ordem. vimento, como as ondas do mar, com fluxos e refluxos, cada
O que acontece então? Quando a nossa livre vontade quer um com as suas deslocações e conforme as suas características,
realizar pensamentos e obras de mal, eles acabam, por repeti- chegando ambos sistema de forças a mutuamente se tocarem
ção, tornando-se automáticos, isto é, hábitos. Isso quer dizer nos pontos nevrálgicos. Verifica-se, dessa forma, uma rede de
que as qualidades e os instintos adquiridos por automatismos impulsos, um colóquio de perguntas e respostas, um contato su-
constituem nossa personalidade, com todos os seus recursos, til por radiação, que liga e une entre imensas distâncias, no
por intermédio dos quais ela continuará funcionando com a ca- mesmo trabalho, o homem na Terra, que não quer evoluir e ser
racterística automática dos instintos, pelo menos enquanto estes salvo, e Deus nos céus, Que quer sua evolução e redenção. E
não forem corrigidos. Por isso, conforme o que tivermos livre- assim, através da influência mútua que os dois sistemas de for-
mente realizado no passado, teremos construído para nós uma ças excitam um no outro, explica-se como cai do céu o nosso
personalidade com qualidades boas ou más e, ao redor de nós, merecido e fatal destino. Esta é a técnica do fenômeno da retifi-
um ambiente de vibrações positivas ou negativas, com todas as cação do erro. Eis aí o jogo de forças. Através dele o mal volta
suas consequências de felicidade ou sofrimento. Teremos for- à fonte que o gerou, e, como já o dissemos, quem faz o mal o
mado nossa própria atmosfera, na qual ficaremos respirando e faz a si mesmo. Assim ficam respondidas nossas perguntas.
vivendo, com sua natureza boa ou má, de alegria ou de dor, que O mais importante no estudo que estamos fazendo, depois
teremos merecido e que agora volta para nós, constituindo o de ter explicado o funcionamento do fenômeno, é compreender
que podemos considerar como sendo nosso destino fatal. suas consequências, pois elas constituem aquilo que mais nos
Quando pensamos e operamos num dado sentido, deixamos toca de perto, que é a sua realização em nossa vida prática, di-
entrar no sistema de forças que constituem a nossa personali- zendo respeito à nossa conduta e nos dando soluções racionais
dade outras forças, que ali se fixam, modificando, conforme no difícil terreno da moral, tratado até agora empiricamente, e
sua natureza, esse sistema. Nunca esqueçamos que, em cada não com métodos positivos. Olhemos, assim, para um ponto
momento da nossa vida, estamos construindo, com os nossos muito importante do problema, constituído pela correção dos
atos, o edifício do nosso eu, isto é, nosso espírito, nossa psico- nossos erros. Ponto prático e atual para todos, porque envolve o
logia e também, como consequência, o corpo onde moramos. problema da dor; ponto fundamental, porque implica o proble-
Com que tijolos realizamos esta obra? Que resultado podere- ma de nossa libertação do mal e do melhoramento das condi-
mos alcançar se, quando construímos, em vez de utilizarmos ções de nossa vida. A consequência mais importante que po-
pedra, só empregamos lama informe e suja? Então seremos o demos depreender deste estudo é que os erros cometidos no
20 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
passado, porque de outra maneira não estaríamos presentes na passado não só pela qualidade dos nossos pensamentos e atos,
Terra, são a causa dos nossos sofrimentos atuais e podem ser isto é, pela direção em que os movimentamos, mas também por
corrigidos, significando isto a libertação da dor. sua quantidade ou volume, assim como pela força adquirida com
Quando um homem inteligente entende a técnica do fenô- a velocidade e o ímpeto que nós os tenhamos lançados. Tudo is-
meno que estamos estudando e, por conseguinte, a razão da so pode ser corrigido, mas até que o esforço necessário seja fei-
existência da dor em nosso mundo, é lógico que não deseje ou- to, nosso passado nos prende, e somos seus escravos. Essa ser-
tra coisa senão cuidar de corrigir seus erros, para se libertar de vidão é proporcional à qualidade, direção e poder dos nossos
suas tristes consequências. E tanto mais procurará realizar essa pensamentos e atos passados, até que fiquemos livres.
correção quanto mais claro e positivo for o método mostrado e Costuma-se dizer que cada um tem a sua estrela e nasce
oferecido para chegar a esse resultado. Quem não procura sua com o seu destino. É dessa forma que nosso passado, tal como
própria vantagem? Esta é a moral que mais facilmente pode ser o quisemos viver, volta e nos prende. Quando uma causa é ori-
aceita, porque tudo está claro e demonstrado, só existindo o ginada e, em consequência, foi movimentada uma força, é ne-
problema da inteligência para compreendê-la. Infelizmente, o cessário exauri-la até seus últimos efeitos. Por isso deveríamos
pior surdo é aquele que não quer ouvir. Explica-se dessa forma ter o máximo cuidado antes de gerar qualquer pensamento ou
como a Lei tem de nos corrigir pela dor, sendo este o único ra- ato, porque depois ficamos a eles amarrados e os levamos co-
ciocínio que todos podem perceber. Além de ser justo para que nosco até atingir todas as suas inevitáveis consequências. Disso
tudo se pague, este é o único meio para impulsionar o homem não se pode fugir. Aquilo que cada um faz é feito para si mes-
no caminho da correção dos seus erros. mo, semeado no próprio campo, e não no do vizinho, e deverá
Lembremos uma vez mais: tudo o que recebemos na vida depois ser colhido e servir de alimento para quem o semeou.
não é um fim em si mesmo, objetivando nosso gozo, mas sim Tudo o que pensamos e realizamos é criação nossa, gerada por
um instrumento de experiência, aprendizado e evolução. É ló- nós, carne da nossa carne, ambiente em que, depois, teremos de
gico, desse modo, que a Lei nos tire tudo, quando não o usamos viver. E, quanto mais repetimos um pensamento ou um ato, tan-
para nosso bem, sua única finalidade. Pelo contrário, apegando- to mais ele se fixa, torna-se firme e estável, descendo à profun-
nos às coisas materiais, arruinamo-nos, paralisando nossa evo- deza de nossa personalidade, onde fixa aqueles marcos indelé-
lução. Quando julgamos que o objetivo de tudo é somente a veis que são as nossas qualidades. Mas, sobrepondo uma outra
nossa satisfação, também é lógico que não estamos em condi- repetição à anterior, podemos apagar aquele marco, substituin-
ção de compreender o verdadeiro significado do jogo da vida. do-o por outro, isto é, adquirindo novos e bons hábitos, que se
Mas, se em nosso mundo existe tanta luta pelas coisas materi- colocam no lugar dos velhos, destruindo más qualidades, para
ais, isso não deixa de ter também seu sentido e utilidade, embo- substituí-las por boas. Dessa maneira, podemos corrigir nossos
ra no seu nível inferior de evolução. Assim, por intermédio des- erros. O arrependimento é bom, mas só para iniciar o novo ca-
ta luta feroz, experimenta-se e aprende-se. Os meios que a Lei minho. Depois, é preciso percorrer todo este novo caminho,
usa para ensinar são proporcionados ao grau de sensibilidade e sem o que o arrependimento, sozinho, nada resolve. Para corri-
compreensão atingido pelo ser. Quando ele evoluir até um grau gir o velho caminho, é necessário percorrê-lo todo novamente,
mais elevado, a luta nesta forma terá de desaparecer, porque às avessas, em sentido contrário.
não terá mais escopo útil a atingir nem razão para existir, tor- Cada vida representa uma construção nova que se levanta
nando-se, pelo contrário, contraproducente e destruidora. Os sobre os resultados atingidos na precedente. E não é possível
níveis inferiores estão cheios de forças que, com a experimen- escolher outros alicerces. O verdadeiro objetivo da nossa exis-
tação, vão sendo transformadas em inteligência. Esta vai preva- tência, que é nos construirmos a nós mesmos, não pode ser al-
lecendo cada vez mais, chegando, nos planos superiores, a cançado no limitado número de experiências de uma só vida.
substituir totalmente a força, que não é mais necessária, porque Assim, cada vida se ergue em cima da outra, como num edifício
a inteligência se desenvolveu o suficiente para chegar a com- cada andar se ergue em cima do outro, que constitui o seu único
preender a vantagem de obedecer espontaneamente à Lei. apoio, sobre o qual não pode deixar de assentar-se. Os hábitos
Temos esclarecido pouco a pouco esses problemas, para me- adquiridos representam essa base que, ao nascermos neste
lhor entender e enfrentar aquele outro, da correção dos nossos mundo, encontramos já feita por nós mesmos no passado.
erros, mencionado acima. Mas, para que seja possível explicar Quanto mais esses hábitos se tenham enraizado em nossa per-
tudo cabalmente a este respeito, temos de deixar o desenvolvi- sonalidade, tanto mais ficaremos amarrados à estrutura dos an-
mento mais completo deste assunto para o próximo capítulo. dares inferiores. Na construção dos andares superiores, pode-
mos modificar aquela estrutura, mas sem nunca deixar de ter
XII. O EDIFÍCIO DA EVOLUÇÃO em conta a construção já feita. Podemos, assim, fazer uma
construção nova e diferente: corrigindo erros, modificando,
Como se realizam o endireitamento dos desvios e a correção acrescentando e melhorando, porém o novo trabalho não pode
dos erros na construção da nossa individualidade. ser realizado senão em função do precedente.
Podemos representar este fenômeno também com outra
Vamos então, agora, desenvolver o problema da correção imagem. Uma avalancha é nada no começo, é apenas uma pe-
dos nossos erros. quena quantidade de neve que, caindo e rolando sobre a pró-
Os seres não são iguais. Eles se encontram em posições di- pria neve, atrai mais neve, de modo que assim vai sempre
ferentes. Cada um, conforme sua posição, comete erros diferen- crescendo, cada vez mais, até se tornar uma terrível avalan-
tes e, pelo equilíbrio da Lei, recebe exatamente a reação corres- cha, que tudo destrói no seu caminho. Aquele primeiro frag-
pondente, a mais adaptada à sua aprendizagem. Cada movimen- mento de neve é também efeito da tempestade que o gerou, e
to nosso repercute na Lei e, conforme a natureza e o tipo de vi- sua queda é consequência da sua posição no cume do monte.
bração irradiada, movimenta aquele sistema de forças nos dife- Assim também, nossos hábitos não são nada no começo. São
rentes pontos correspondentes, gerando assim uma resposta a apenas pequenos movimentos sem importância, em que nin-
essa excitação, resposta feita sob medida, como vibração corre- guém repara. Mas, caindo e rolando sobre o caminho da nossa
tora dos nossos erros, à qual chamamos reação da Lei. vida, eles atraem outros movimentos, que, com a repetição,
Os nossos erros podem diferenciar-se pela qualidade (dire- descem até à profundidade de nosso eu, tornando-se hábitos e
ção seguida) e pela grandeza ou peso (massa dada e velocidade transformando-se, finalmente, na terrível avalancha dos nos-
adquirida). Em outras palavras, nós estamos amarrados ao nosso sos instintos, aos quais é difícil resistir.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 21
Acontece que, com a repetição de nossos pensamentos e salvação, como também nos liberta do fracasso espiritual. Eis o
atos, podemos adquirir, como numa avalancha, velocidade, motivo pelo qual estamos conversando. Existe um paraíso para
maior ou menor, numa direção ou noutra. E, quanto mais velo- todos, mas a maioria não quer realizar o esforço de subir até
cidade adquirimos, mais somos levados a continuar no mesmo ele. Não há escapatórias. Esta é a lei de nossa vida, e ela funci-
sentido, sendo então mais difícil parar e corrigir o caminho, ou ona desta maneira em nosso nível.
seja, endireitá-lo no sentido oposto. Esta comparação nos expli- Assim, enquanto permanece o desejo de felicidade, vamos
ca o motivo pelo qual estes princípios não são aceitos por mui- merecendo sempre mais sofrimento, porque a velocidade adqui-
tos, apesar de nos conduzirem à nossa própria vantagem. A ob- rida nos leva sempre mais para baixo. A felicidade que alcança-
jeção deles é que as leis, por nós analisadas, funcionam somen- mos por meios ilícitos ou atalhos, para escapar à Lei, não é o sa-
te para as criaturas escolhidas, que sabem vivê-las, e não para lário merecido de nosso trabalho, mas sim um roubo, algo conse-
os demais, simples seres comuns. Acham eles que as vantagens guido fraudulentamente. E julgamo-nos inteligentes e hábeis
da evolução são usufruídas apenas pelos que conseguiram evo- quando conseguimos realizar isso. Acreditamos ser inteligentes
luir, e não por eles próprios, que humildemente se declaram por ter imaginado enganar a Lei. Mas isto é astúcia, a inteligência
atrasados. Preferem, assim, permanecer onde estão, em poder dos loucos, porque não se pode enganar a Lei. Este é um raciocí-
de todos os males relativos, em vez de se movimentarem para nio às avessas, porque o engano sempre volta sobre o enganador.
melhorar suas condições. Chegam até a reconhecer a lógica do Significa disparar uma arma contra si mesmo. Não é possível
que estamos demonstrando, mas concordam tão-somente no evadir-se da justiça de Deus. O dia da prestação de contas acaba-
terreno teórico, pois consideram sua aplicação, na prática, um rá por chegar, e tudo terá de ser pago. O que acontece então?
pesado trabalho, uma dura fadiga, que não estão dispostos a en- Acontece aquilo que vemos no mundo: desastres. Eles, de fato,
frentar. Ficam assim parados, esperando, até que venha o cho- representam o ponto final da queda da avalancha. Eis onde acaba
que da dor, infelizmente indispensável para acordá-los Prefe- a grande sabedoria dos astutos deste mundo. Assim, a loucura
rem adaptar-se a viver num nível inferior, reconhecendo-o co- humana fica enquadrada dentro da perfeita lógica da Lei.
mo seu e aceitando-o com todos os seus sofrimentos, a fazer o Estamos aqui tecendo uma rede de conceitos e armando um
esforço para sair dele. Como desculpa, dizem: “este método de edifício de fatos para explicar e demonstrar estas verdades. Nos
viver, contando com as ajudas do céu, não é para nós, mas só meus livros, o ponto de partida está nas teorias, para chegar de-
para os santos, e nós não somos santos”. pois às suas consequências práticas. Nestas palestras, o ponto de
Colocam-nos em altares para venerá-los, mas como seres partida é a realidade de nossa vida, que se torna compreensível,
longínquos, inimitáveis, que pertencem só ao Céu, para serem quando é explicada por aquelas teorias. Podemos assim entender
glorificados, e não seguidos na Terra. Veneram-nos e, acabada quão complexo é o jogo, se o olharmos em profundidade. Cada
a homenagem, voltam aos seus negócios. uma de nossas vidas passadas teve seu destino, e nele se esgota-
Vamos agora explicar por que motivo alguns podem julgar ram os efeitos próximos das causas que anteriormente havíamos
absurda, ou pelo menos inaceitável, esta orientação. Eis a razão: posto em funcionamento. Da mesma forma, nosso destino atual
eles estão lançados no caminho da descida, e para quem, pela é a consequência dos pensamentos e atos com que o construí-
velocidade adquirida, sente-se impelido para baixo, é absurdo mos, como a queda da avalancha não depende só da neve que a
falar em caminhar para o alto. É devido a essa velocidade atin- forma, mas também da altura de onde partiu. Ao mesmo tempo,
gida na descida que nos parece impossível percorrer o caminho esses pensamentos e atos foram por sua vez a consequência de
da subida. Mas, na verdade, para inverter a direção no sentido da hábitos adquiridos através dos pensamentos e atos das vidas pre-
subida, é necessário primeiramente ter vencido, reabsorvido e cedentes. Tudo, em cada momento, é efeito e causa ao mesmo
neutralizado toda a velocidade tomada na descida. Por isso, mui- tempo, é fruto do passado e semente do futuro. Enquanto nosso
tas vezes, estas teorias são julgadas inaplicáveis. É como alguém impulso anterior não se esgotar e o nosso caminho não estiver
que, estando perto de declarar falência, julga ser inútil fazer endireitado, nossos pensamentos e atos serão determinados pe-
economias. É a psicologia do desespero, de quem, não conhe- los nossos hábitos e instintos, como os construímos no passado.
cendo coisa alguma do amanhã, fica cego e desorientado, con- Com os pensamentos e atos atuais, construímos os hábitos e ins-
vencido de que não vale nada trabalhar para um futuro comple- tintos futuros, que dirigirão nossos pensamentos e atos de ama-
tamente ignorado. Se, assim, o que vale é o presente, escolhe- nhã. E com estes, por sua vez, construiremos nossa personalida-
mos, então, a vantagem imediata, aproveitando-nos de tudo o de de depois de amanhã, e assim sucessivamente.
que chega ao nosso alcance, aconteça o que acontecer, mesmo Assim, estão acorrentados à mesma cadeia os diferentes
contraindo novas dívidas. Isso porque nunca verificamos a reali- momentos da construção de nós mesmos, ou seja, os degraus
dade da existência de um banco no Céu, que toma nota de tudo. sucessivos da evolução do nosso eu. Cada degrau apoia-se so-
Não sabemos se existe ali um débito ou um crédito nosso, nem bre o precedente. Ai de quem começa a resvalar ao longo da
como e quando, se por ventura ele existir, acertar as contas. descida e a tomar velocidade nesse rumo! Quanto maior for a
Se o mundo está repleto daqueles que pensam assim, isso velocidade adquirida, tanto mais difícil será parar e mudar a
não quer dizer que esse seja um método lógico, vantajoso e re- direção do caminho. O contrário acontece para quem tomou a
comendável. Que ajuda pode chegar do Céu, se nós fechamos estrada da subida.
as portas, impedindo sua entrada? Neste caso, as leis do Alto Na economia do Céu não há inflação monetária, porque o
querem ajudar-nos, mas nós não as deixamos funcionar em valor da moeda está sempre sustentado por uma reserva de ou-
nosso benefício. ro infinita, que é Deus. Assim, vale a pena fazer economias,
Na verdade, o desejo de felicidade permanece neles, mas, porque no Banco de Deus nunca há perigo de desvalorização.
para satisfazê-lo, em vez de procurarem, com seu esforço, ga- Elas ficam sujeitas a um juro composto, que representa uma
nhar um crédito, pretendem antes alegrias, aumentando sempre tendência a fazer crescer sempre mais o capital. Tudo isso aju-
mais o seu débito, isto é, aumentando a sua velocidade no ca- da na subida, que assim se torna cada vez mais fácil, enquanto
minho da descida, como acontece com o alcoólatra, que bebe a velocidade na descida tem, da mesma forma, seus juros com-
sempre mais, e com o toxicômano, que se intoxica cada vez postos, às avessas, isto é, no sentido de dívida, e não de crédi-
mais, até destruírem a si mesmos. Este é, de fato, o ponto onde to. Encontra-se então, nas duas direções opostas, a mesma ten-
automaticamente termina o caminho da descida. Disso se deduz dência para a aceleração, cada uma dirigida para seu ponto fi-
quão grande valor representa para nosso bem o fato de pos- nal: a salvação para quem sobe e a destruição para quem desce.
suirmos uma orientação, porque não somente ela nos conduz à Cabe a nós escolher o caminho.
22 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
XIII. O FUNCIONAMENTO DA LEI ganos! Isto porque não há inteligência nem má vontade que
possa conseguir subverter a ordem e paralisar a justiça de Deus.
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
A loucura dos astutos e a invencibilidade da Lei.
eles serão fartos”. Esta grande promessa, embora nosso mundo
“Os que têm fome e sede de justiça serão fartos”.
esteja cheio de prepotência e de injustiça, nos garante a existên-
cia da justiça, e dela seremos saciados.
Até agora, não somente afirmamos a presença de uma lei Mas os astutos do mundo querem continuar com as suas as-
que dirige os fenômenos do universo e, portanto, os da nossa túcias e revoltas e, assim, sofrem mais. Infelizmente, esta é sua
vida e conduta, mas também estudamos a técnica do funciona- forma mental, e não há coisa mais difícil que sair da própria
mento dessa lei e o modo como é possível corrigir os erros do forma mental. Ninguém compreende além de suas possibilida-
passado. A sabedoria e perfeição da Lei manifestam-se também des, além daquilo que, com a sua experiência e evolução, adqui-
na sua capacidade de recuperação, a qual, deixando o ser livre riu e agora possui. Não compreender quer dizer errar e depois
para experimentar as consequências do mal, permite que ele, ter de pagar. A grandeza e a sabedoria da Lei está em não ser
desse modo, adquira uma sabedoria sempre maior e possa, as- enganada. Procurar escapatórias significa, em última análise,
sim, reconstruir o que, na sua ignorância, destruiu. Essa lei é construir para si armadilhas e nelas ficar preso. A Lei está feita
universal, portanto tem de estar presente e funcionando em to- de tal maneira, que, a cada tentativa de nos evadirmos, acaba-
dos os pontos do universo, tanto mais quanto este, na sua evo- mos constrangidos à sua obediência. A Lei não pode ser subju-
lução, tenha chegado aos níveis da vida, da inteligência e do gada nem torcida pela força; não pode ser corrompida por di-
espírito. Trata-se de uma lei verdadeira tanto para os indivíduos nheiro, nem vencida com armas; não pode ser frustrada com o
como para os povos, que rege não só o destino a ser construído tempo, nem desviada e defraudada em sua justiça. Não vale a
pelo homem para si mesmo, mas também o desenvolvimento da pena lutar contra ela. Que pode a astúcia, a maldade e a força do
história, na qual se vai realizando o destino que a humanidade, homem contra uma potência imaterial, invisível, presente sem-
com a sua conduta no passado, deu origem no presente e con- pre, em todos os lugares e em todos os tempos, absolutamente
sequentemente no futuro. O conhecimento do funcionamento superior a tudo e a todos em inteligência, domínio e disponibili-
da Lei nos fornece não somente a chave para compreender o dade de recursos? Desafiar uma tal lei, julgando ser possível
complexo jogo de nossa vida, mas também oferece, através da vencê-la, pode apenas ser fruto de uma grande ignorância!
aplicação de sua lógica, o meio de prever aquilo que, como Os que procuram justiça no mundo e não a encontram são a
efeito do passado, nos está esperando, permitindo-nos corrigir o maioria. Mas eis que a Boa Nova de Cristo nos garante que
que estiver errado e ajudando-nos a voltar para o caminho cer- eles serão fartos. A verdadeira solução, porém, encontra-se, e
to, para avançar, assim, com uma orientação sempre melhor. sempre se encontrou, além dos estreitos limites de nosso mun-
Observando qual foi e atualmente é a conduta de cada um e do e de nossa vida atual, nos braços da Lei, em nossa vida
da sociedade humana no seu conjunto, é fácil prever o que nos maior, em que tudo tem de equilibrar-se conforme a justiça.
espera no futuro. Parece que o esforço do homem se dirigiu uni- Estamos aqui explicando a maravilhosa lei de Deus, anunciada
camente no sentido de se rebelar contra a Lei, havendo usado pelo Evangelho de Cristo, para demonstrá-la claramente aos
sua inteligência sobretudo na busca de escapatórias para fugir às honestos, esmagados pela prepotência humana, e dar-lhes a sa-
suas sanções. O que foi semeado no passado? Então, o que se tisfação de saber que, apesar de tudo, a justiça existe e será re-
pode colher? Alguns se consolam dizendo: “o inferno não exis- alizada. Vimos também a técnica do fenômeno, pela qual tudo
te”, e acreditam dessa maneira ter destruído o poder de reação isto acontece. É lógico que quem não quer raciocinar e não sa-
da Lei, que os incomoda. Assim, ser-lhes-ia possível fazer tudo be sair da sua forma mental só possa julgar, condenar e operar
o que quisessem, sem ter de pagar nada. Descoberta maravilho- de acordo com ela. E os desastres que se sucedem como con-
sa! Porém, vejamos. Se a ideia de um inferno, tal como foi con- sequência dessa psicologia de cegos são vistos em nosso mun-
cebido no passado, constituiu produto da forma mental da Idade do a toda hora. Estamos analisando tudo isso também para en-
Média, e se a evolução da inteligência humana superou essa sinar a não se fazer o mal, mostrando o resultado àqueles que o
ideia, ela não pode representar senão um modo de conceber o fazem e demonstrando como se paga pela má conduta, quando
fenômeno indestrutível da reação da Lei, fenômeno que assim enganamos os outros. Assim nosso trabalho está apoiado inte-
persiste, ainda quando o consideremos de forma racional e cien- gralmente na moral evangélica.
tífica. Poderemos, então, dizer que o inferno, no sentido em que Talvez os mais atrasados não tenham desejo algum desse
foi concebido no passado, não existe, mas com isso não se pode conhecimento. Pelo contrário, talvez queiram fugir dele, in-
crer que fique anulada a reação da Lei, necessária para manter comodados pelo descomedido descontrole dos seus instintos.
aquele equilíbrio, ou seja, sua justiça. Temos de conceber o in- Mas que grande felicidade para os mais adiantados, para os
ferno de outra maneira, mas isso não significa que ele seja nega- que “têm fome e sede de justiça”, saber que serão fartos, por-
do ou que deixe de existir para quem o merece. Em outras pala- que existe de verdade um lugar mais alto, onde domina a or-
vras, não há evolução de pensamento que possa admitir que al- dem e a harmonia, e que só Deus, na Sua justiça e bondade é
guém deixe de pagar todo o mal por ele praticado. vencedor absoluto! Que felicidade saber que verdadeiramente
É interessante observar a atitude do mundo perante a Lei. O quem manda, porque está acima de tudo, é essa lei, inatingível
homem a enfrenta com a psicologia do seu plano de existência, aos assaltos humanos, invulnerável perante todos, inalterável
em forma de luta para vencê-la, como se tratasse de um patrão e indestrutível para sempre!
egoísta e inimigo, contra o qual é preciso rebelar-se, entenden- Aparece, assim, a visão da infinita multidão dos seres que
do que são hábeis os que conseguem triunfar, mas fracos e des- vão andando pelos caminhos da evolução numa imensa corren-
prezíveis os que se deixam escravizar. Mas, na realidade, tudo é te, assim como as gotas de água num rio seguem para o mar.
diferente. Procedendo assim, o homem agride o seu maior ami- Elas vão para o mar fatalmente, porque esta é a Lei.
go, que é a Lei; afasta-se de Deus, que é a sua própria vida; re- Da mesma forma, o cortejo dos seres vai para Deus fatal-
bela-se contra aquela harmonia, somente na qual pode consistir mente, porque esta é a Lei. Eles não podem deixar de ir para
sua felicidade. Quão estranho é ver como os grandes astuciosos Deus. Este é o caminho marcado para todos: nascer, viver, mor-
da Terra julgam ser possível lograr a Deus e, na sua ignorância, rer, renascer, viver e morrer outra vez, levados para um lado ou
lançam-se eles próprios na armadilha construída com seus en- outro do dualismo da existência, experimentando, evoluindo, re-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 23
construindo-se a si mesmos, até aprender toda a lição da Lei e do fica submetido a sanções invencíveis e absolutas, que o ser
reintegrar-se em espírito no seio de Deus. não pode, de boa ou má vontade, recusar.
Explicar a razão pela qual tudo isso acontece, e exatamente A conclusão deste capítulo é, de um lado, a afirmação da
dessa maneira e não de outra, nos levaria bem longe, a um imensa superioridade, inclusive na luta pela vida, do homem
campo mais extenso, de teorias abstratas e complexas, afastan- justo e, de outro, a constatação da inferioridade daqueles que,
do-nos da realidade prática de nossa vida, que todos conhece- em meio aos enganos do mundo, julgam-se hábeis por serem
mos. Para os interessados neste assunto, ele foi estudado, até astutos. O primeiro está progredindo no caminho do equilíbrio
às suas primeiras causas e últimas consequências, nos livros A e da harmonia, que constituem a felicidade; o segundo tipo des-
Grande Síntese, Deus e Universo e O Sistema. Aqui, nestas pa- ce sempre mais, abismando-se no desequilíbrio e na desordem,
lestras de caráter mais singelo, não é possível apresentar destas que constituem a infelicidade.
teorias senão as consequências que mais de perto nos tocam. Por isso nunca me cansarei de demonstrar as vantagens de se
Queremos com isso salientar que, das conclusões práticas aqui agir corretamente, conforme a lei de Deus. É muito doloroso ver
apresentadas, como acima referimos, já foi explicada a causa o mundo cair em tantos sofrimentos por ignorar uma coisa tão
primeira de onde elas derivam e a razão profunda que as justi- importante e evidente como a presença e o funcionamento dessa
ficam. Dessa forma, já possuímos os elementos racionais e po- lei. Quem compreendeu tudo isso, não pode deixar de se pergun-
sitivos em que estas conclusões se baseiam e de onde foram tar como é possível que, para aprender uma lição tão clara, se-
extraídas, elementos que nos demonstram e garantem aquela jam necessárias tantas dores e desilusões? Por que, para impelir
verdade. Isso nos permite tratar com lógica e objetividade o o homem a cumprir sua trajetória evolutiva, que representa o
assunto – em geral enfrentado empiricamente – da moral e das caminho da própria felicidade, são necessários tantos sofrimen-
leis da vida que dirigem nossa conduta. Esse tema nos pareceu tos? Como é possível, para quem se rebela contra a lei de Deus,
mais interessante e ardente para nossos ouvintes, porque toca o não ver que ele nada mais gera senão o seu próprio dano? Como
terreno de nossas lutas quotidianas e envolve consequências pode alguém não ver que, semeando o mal, semeia para si tantas
que todos temos de viver. O fato de se ter compreendido estas dores? Quanto se poderia meditar a respeito de tudo isso!
palavras e de se tomar a sério estes conceitos, para aplica-los
na vida, pode produzir efeitos incríveis, inclusive melhorar um XIV. ESCOLA DA VIDA
homem e renovar um destino.
O maravilhoso é que a lei de Deus está pronta a entrar em A arte de viver, preparando para si um futuro melhor.
ação em qualquer lugar, inclusive em nosso mundo inferior, Erros e dores nos ensinam muitas coisas.
tão logo a aceitemos e vivamos. Quem faz isto se torna parte
dela, como cidadão de uma nova pátria, adquirindo assim o di- Agora que chegamos à compreensão da lei de Deus, vamos
reito de possuir o poder, os recursos e as defesas que a Lei procurar ver, antes de enfrentar outros assuntos, o fruto do es-
confere aos seus seguidores. Estes, também em nosso mundo, tudo que estamos desenvolvendo. Temos diante dos olhos um
tornam-se assim os mais fortes, porque são protegidos por quadro geral bastante claro no que diz respeito à nossa conduta,
Deus. O universo está dividido em duas partes: uma a favor da com suas razões e consequências.
Lei, onde estão os bons, e outra dos rebeldes contra a Lei, onde Já sabemos que Deus é o ponto final das nossas vidas. Sa-
estão os maus. O dualismo, que tudo domina, nos demonstra bemos que o caminho para atingir esse ponto final é a evolução,
claramente que vivemos num universo despedaçado: Deus e ou seja, a subida para Deus. Sabemos que vivemos para isso e
Anti-Deus, bem e mal, vida e morte, felicidade e dor, luz e tre- que a evolução se realiza da matéria ao espírito, sendo nós
vas, e assim sucessivamente. O que mais desejaríamos de- mesmos os construtores desse caminho. Sabemos que as nor-
monstrar nestas palestras são as vantagens de pertencer ao lado mas de conduta que se encontram vigorando na Terra, ditadas
a favor da Lei, isto é de Deus, e não ao lado contra a Lei, isto pela moral e pelas religiões, representam as regras necessárias
é, do Anti-Deus. Viver e agir ao lado da Lei e de Deus, quer para executar esse trabalho de subida e reconstrução.
dizer operar conforme a justiça. Ora, o homem que vive de Quem tiver compreendido o que explicamos pode agora vi-
acordo com a justiça sabe, em consciência, diante de Deus, que ver orientado no seio do funcionamento orgânico do universo.
tem verdadeiramente razão, e isto lhe confere total segurança. Não viajará mais ao acaso nas trevas, mas terá nas mãos a bús-
Esta segurança, porém, inexiste para quem, pelo contrário, não sola cuja agulha lhe indicará o polo magnético em relação ao
age de acordo com a justiça, conscientemente, perante Deus. qual terá de orientar-se. E não há quem não perceba como é
Essa consciência íntima de estarmos limpos, cumprindo um mais vantajoso viajar orientado no grande mar da vida, em vez
dever, constitui nossa força, e é esta força que nos faz vencer. de andar perdido ao sabor das ondas.
Essa convicção profunda de que a justiça tem de triunfar, Isso é tanto mais conveniente quando a função das normas
quando somos justos, nos dá a certeza da vitória. de boa conduta, ditadas pela moral e pelas religiões, é precisa-
Deus protege os justos, pois eles merecem Sua proteção. mente evitar que cometamos erros, excessos e desvios – causa-
Quando um homem, com a sua conduta, coloca-se do lado opos- dores da dor. Podemos agora chegar a compreender quão gran-
to ao da Lei, em posição anti-Lei, a situação emborca-se. Deus de é o valor dessas regras, pelo fato de que elas cumprem a ta-
não o pune nem se vinga, mas também não o protege, deixando refa de nos ensinar o método para corrigir nosso caminho ante-
o ser na posição escolhida por ele mesmo, de quem está fora da rior errado, mostrando-nos o correto, impedindo-nos de semear
Lei. Então, ele fica abandonado, sozinho, entregue apenas às su- novos sofrimentos para o futuro e permitindo-nos, assim, anular
as pobres forças, o que significa estar perdido e sob o poder de a dor que surge ou poderá surgir em nosso destino. Essas regras
todas as forças negativas, que procurarão unicamente destruí-lo. podem representar o remédio amargo, mas que é bom engolir
Quando as criaturas se ausentam de Deus, afastando-se d'Ele, porque nos cura a doença. Temos falado de fatalidade do desti-
voltam aos seus instintos inferiores e decaem. Com isso, casti- no. Veremos aqui como ele está em nossas mãos e como temos
gam-se a si mesmas, agredindo-se umas ás outras e mergulhan- a possibilidade de endireitá-lo e dirigi-lo para onde quisermos.
do sempre mais numa atmosfera de destruição. Isso porque Deus Se adotarmos um bom comportamento e se não cometermos
é amor e vida, não havendo para quem se afasta d'Ele senão ódio mais erros, violando a Lei, veremos que está ao nosso alcance
e morte. Disso não há como fugir, porque é tudo automático e criar para nós destinos sempre menos duros, porque estarão
fatal, fazendo parte da estrutura e do funcionamento da Lei. Tu- menos carregados de erros a corrigir e culpas a expiar.
24 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
Eis a conclusão otimista que eu desejaria não fosse esqueci- mais baixos da vida, cheios de erros, ferocidades e sofrimentos.
da por ninguém: está em nossas mãos o poder de criar a nossa Dizer que impossível saber é abandonarmo-nos à preguiça de
felicidade. Esta convicção representa o fruto de nossa conversa, não querer usar os meios da inteligência que Deus nos deu para
fruto que entrego aos meus amigos, para seu próprio bem. subirmos o monte da evolução, no cume do qual Ele nos espera.
Não há dúvida que um Evangelho verdadeiramente vivido Deixar de abrir os olhos para ver e fazer pesquisas em busca de
realizaria a mais benéfica revolução do mundo, porque, reno- compreender e instruir-se, é parar inerte perante o mistério, sem
vando a nossa maneira de conceber a vida, reformá-la-ia de al- desejar e procurar descerrar as portas fechadas do desconheci-
to a baixo. Mas isso é um problema coletivo. Infelizmente, ca- do. Tudo isto significa não querer conquistar uma vida melhor,
da um fica esperando que seja o próximo o primeiro a movi- mais próxima de Deus. Dizer, como muitos o fazem, que os
mentar-se no duro caminho da renovação. Aqui, nestas conver- grandes problemas do ser não são solúveis, significa querer
sas, falamos do esforço individual, pelo qual cada um, de ma- aceitar para sempre uma condição de inferioridade dolorosa,
neira independente da conduta dos outros, pode plasmar para cheia de males e perigos. O fato de não se ter interesse nesses
si, à vontade, o destino que quiser. Já dissemos que o problema problemas significa declarar o fracasso da inteligência e renun-
da salvação é problema absolutamente individual, independen- ciar ao progresso, perdendo toda a esperança de salvação.
te da vontade dos vizinhos. Quando alguém cai no seio de um Que acontece então? São muitos a buscarem somente a van-
carma coletivo, é porquê fez por merecê-lo. Esta conclusão é tagem imediata, a satisfação efêmera, sem se importar com o
um convite para que cada um comece a viver esses princípios, que acontece depois. Poucos sabem alguma coisa a respeito
para sua própria vantagem. Não têm importância as formas em desses problemas com a necessária certeza. Só consideram po-
que quisermos realizá-los. É possível ter boa conduta e ser jus- sitivo o que podem agarrar com as mãos. Isto é o que se acredi-
to em todas as religiões. O que importa é a substancia, que é ta ser a única e verdadeira realidade, aquela da vida prática, em
precisamente ser justo. Quando Deus julga os seres, não leva que o mundo crê, rindo-se dos sonhadores de realidades mais
em conta se pertencem a esta eu aquela religião, mas sim se fo- longínquas, que escapam à maioria, porque estão situadas além
ram justos, por terem vivido a Sua lei. Não estamos falando do alcance limitado de seus olhos míopes. Mas estas outras rea-
em favor de grupo particular algum, mas unicamente em favor lidades existem, e amanhã teremos, pela evolução, de chegar
de Deus, que está acima de todos. até lá. Então, nada teremos feito para enfrentá-las. Ignorar as
O nosso grande inimigo é o mal, gerador de sofrimento. últimas finalidades da vida significa ignorar nossa própria vida
Aqui estamos explicando a arte de vencer o mal, porque só as- no futuro, que, embora longínquo, não pode um dia deixar de
sim se pode destruir a dor. Agora podemos compreender a me- tornar-se presente. Que poderá acontecer conosco, se nada ti-
cânica dessa arte. Ela nos garante que, não cometendo mais er- vermos feito para prepará-lo? Assim, muitos furtam porque não
ros, a dor pode ser evitada e a felicidade atingida. Essa arte de veem que depois, mais cedo ou mais tarde, têm de acabar na
saber viver com conhecimento representa uma verdadeira ciên- cadeia; abusam dos gozos materiais porque não veem que de-
cia, que a humanidade mais evoluída do futuro vai descobrir e pois chega a doença; esmagam o próximo porque não pensam
aplicar. A maioria vê somente os efeitos imediatos e não olha à que este acabará rebelando-se e vingando-se, e assim por dian-
distância. Por isso não acredita que seja possível atingir esses te. A leviandade e a imprevidência não nos podem levar senão
resultados. Mas o fato de tudo isso não se realizar num dia, não ao erro, que depois é necessário pagar.
destrói a possibilidade de alcançá-lo e a alegria que nos pode O desenvolvimento e o esforço da inteligência criam as ci-
dar esta grande esperança de uma salvação final, que Deus nos vilizações. Hoje mesmo vemos o que tem produzido a ciência e
oferece e nos ajuda a conquistá-la, procurando até impô-la a como, a fim de viver nas novas condições de vida criadas por
nós por todos os meios. Estamos subjugados pelas garras do so- ela, é necessário (para dirigir as máquinas modernas) muito de
frimento no fundo de um abismo, mas um raio de luz desce do inteligência e nada de ferocidade. Este é o primeiro passo para a
Céu e nos diz: “Coragem!”. A cada um de nós, sofredores, diz: espiritualização consciente. O problema é nos civilizarmos.
“Tu tens o direito à felicidade. Este ardente anseio que está Costuma-se hoje insistir muito na solução dos problemas soci-
aninhado em teu coração não é para terminar num engano, ais. Mas a solução destes não é apenas um problema coletivo,
mas sim para ser satisfeito. Estás ainda preso ao teu passado, mas antes a soma das soluções dos problemas individuais. Se
mas andando pela vida a fora irás superando cada dia mais es- quisermos progredir, é necessário começar, antes de tudo, a to-
se passado, que se afastará paulatinamente de ti, desaparecen- mar esta direção, cada um por sua conta. E a vantagem virá
do com ele o inferno dos seres inferiores, enquanto sempre primeiro para quem primeiro o fizer. Procuremos conquistar
mais se aproximará o paraíso dos seres superiores. Estás mer- nós mesmos as virtudes, em vez de exigi-las do próximo. Tudo
gulhado na dura luta pela vida. Mas é verdade que a luta e o está sempre regido pela justiça de Deus. Assim, se caímos víti-
sofrimento ensinam muitas coisas e desenvolvem a inteligência. mas dos outros, não somos na realidade vítimas deles, mas sim
E, com a inteligência aprimorada, cada vez mais se torna com- unicamente de nós mesmos, dado que o merecemos. Os outros
preensível a presença da Lei e a vantagem de se obedecer a não são senão instrumentos de Deus, que os utilizou para cum-
ela, coordenando-se em sua ordem”. prir Sua justiça. Já explicamos que a dor somente pode atingir-
Muitos males acontecem ao homem por falta de entendi- nos quando tivermos aberto as portas para ela poder entrar.
mento. Mas quem sofre é levado a pensar por que razão está so- Ninguém pode lançar o peso do seu destino sobre nós, assim
frendo. E, pela experiência que se vai adquirindo, aprende-se a como nós não podemos lançar o peso do nosso destino sobre os
cometer sempre menos erros. É verdade que o mal sobrevém, outros. Se assim fosse, não haveria justiça.
mas, ao sobrevir, ele cumpre sua tarefa e desenvolve a inteli- Não é acusando o próximo de desonestidade que se pode
gência necessária para se transformar em bem. Ao mesmo tem- provar a honestidade própria. Não é pregando e exigindo virtu-
po, a criatura descobre os caminhos que a levam à felicidade. de dos outros que poderemos chegar a extinguir nossos defeitos
Quando o homem faz o mal, o faz por ignorância, pensando e deixar de pagar pelas nossas culpas. Cada um está sozinho pe-
que, prejudicando seu próximo, pode beneficiar-se, sem saber rante Deus e tem de, sozinho, prestar contas dos seus atos, con-
que, pelo contrário, só consegue prejudicar-se. Por isso é um forme as responsabilidades que lhe cabem. Podemos ficar tran-
dever esclarecer os mistérios, iluminar as mentes e orientar o quilos, pois ninguém pode fazer-nos mal algum que já não este-
próximo. Ficar na ignorância significa permanecer nos níveis ja dentro de nos e não seja por nós bem merecido, por termos si-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 25
do os primeiros a querer realizá-lo. Cada um é julgado confor- XV. EM BUSCA DA FELICIDADE
me suas obras, e não conforme as dos outros. Tudo na lei de
Deus é sempre justiça, e não há má vontade e prepotência hu- Como a Lei nos faz atingir a abençoada posição dos
mana que possam impor-se à Lei. O que reina soberano, apesar bem-aventurados do Sermão da Montanha,
das aparências do momento, é sempre a justiça. O que vale e segundo relata o Evangelho.
resolve é a nossa posição perante Deus, julgue o mundo como
quiser, porque, em todos os casos, ninguém pode fazer nada Se quisermos resumir em duas palavras o assunto que foi
mais senão a vontade de Deus. desenvolvido até agora nestes capítulos, poderíamos dizer que
Assim, vamos errando, mas justamente com isso aprende- falamos da Lei. Temos falado dela porque ela representa o pon-
mos sempre mais. O que parece ser um mal é, ao mesmo tem- to central da nossa vida e o caminho da nossa salvação. A Lei
po, um remédio que nos leva para o bem, porque o erro, exci- exprime o pensamento e a vontade de Deus, constituindo a re-
tando a reação da Lei, nos ensina a não errar mais. Assim, pelo gra fundamental da nossa conduta.
muito julgar e agir de maneira errada, aprendemos a julgar e Poder-se-ia perguntar, no entanto, qual é o seu conteúdo? O
agir de maneira certa. Então os julgamentos, que deveriam ser o conteúdo da Lei, pelo menos no que se refere às normas que re-
gem a conduta humana, é bem conhecido no mundo, e não nos
resultado da compreensão, mas são feitos sem ela, acabam por
cabe repeti-lo. Ele já foi sintetizado nos Dez Mandamentos de
nos levar à compreensão.
Moisés, exemplificado no Evangelho, explicado pelas religiões e
A Lei é uma regra de vida estabelecida por Deus. O homem
pelos princípios morais aceitos pelo homem. Há milênios o
é um menino que tem de aprender. Mas, quando um menino
mundo repete estas verdades. A nossa tarefa não é fazer mais
precisa aprender a andar, nós não fazemos para ele um curso so- um tratado de moral ou de religião. Não é deles ou de pregações
bre a arte de andar. Deixamo-lo experimentar e cair, porque sa- que temos falta, mas sim da sua aplicação na vida prática.
bemos que só à força de muitas quedas ele pode aprender a não Nossa tarefa foi só demonstrar, também aos que não acredi-
cair mais. O homem não precisa de aulas teóricas, mas de um tam nas religiões, que a Lei está presente e funciona de verda-
conhecimento pessoal, atingido com seu esforço, fruto da sua de, trazendo consigo sérias consequências práticas, às quais não
experiência direta. A escola é automática, constituindo o natural se pode fugir, sejam elas de utilidade ou de prejuízo. Quem ti-
conteúdo da vida. Desenvolve-se, assim, a inteligência necessá- ver entendido nossas palestras saberá agora o que lhe acontece-
ria para compreender qual é a regra que rege os nossos movi- rá, se a sua conduta não for aquela que a Lei estabelece. Não
mentos, avaliando o prejuízo de não a observar e a vantagem de temos falado de infernos longínquos, nem de vinganças de
segui-la. Assim, a escola da vida nos ensina a conhecer a Lei. Deus – absurdas, porque Ele não pode ser mau – mas só de Sua
Uma escola é lugar para se estudar e aprender, e não para se fi- bondade e justiça, o que convence muito mais. Temos falado
car sempre nela. Acabado o curso, os estudantes a deixam. O aos homens práticos, com palavras de lógica, sobre fatos con-
mesmo acontece com a experimentação terrena. Uma vez con- cretos, que cada um, com seus próprios meios, pode verificar
quistado o conhecimento, os meios terrenos que foram usados em nosso mundo, fatos cujo sentido só assim é possível expli-
para esse escopo são abandonados como material de refugo, en- car e compreender. Agora podemos claramente entender as ra-
quanto levamos conosco a sabedoria armazenada, para utilizá-la zões pelas quais nos convém seguir o caminho da honestidade,
e gozar seus frutos em ambientes superiores. Pode-se assim ver e ver quão louco é o mundo, ao provocar o seu próprio prejuí-
o quanto seja útil viver e também, se tivermos errado, sofrer. zo, seguindo o caminho oposto. Quem compreendeu tudo isso,
Quando o mundo tiver sofrido bastante os danos que deri- torna-se muito mais responsável pelas consequências dos seus
vam da insistência de se apoiar só na força e na astúcia, então atos, porque agora sabe que, quando chegar a reação da Lei em
evitará isso e procurará organizar-se numa forma de vida feita forma de dor, é porque a causa está nele mesmo, pois essa dor
de trabalho pacífico e fraternal. Os sofrimentos não são inúteis, foi ele quem semeou com seus erros. Então só lhe resta resig-
pois, através deles, o homem toma conhecimento e vê como nar-se e iniciar o trabalho de se corrigir.
custa caro ser mau e, assim, para não voltar a sofrer as conse- Mencionamos anteriormente o Sermão da Montanha, de
quências, aprende a não cometer mais erros. As guerras não são Cristo. Este Sermão sintetiza em poucas palavras aquilo no que
propriamente inúteis, porque, pelo fato de padecer duramente a Lei quer que nos tornemos, chamando de bem-aventurados
com as destruições a que elas conduzem, o homem vai aprender os que atingirem aquele nível superior de vida ao qual o Ser-
a não fazer mais guerras. O uso da força não é inútil, porque mão se refere. Por estas palavras do Evangelho, a Lei nos diz o
quem a pratica, mais cedo ou mais tarde, acaba esmagado por que nos aguarda, se obedecermos a ela e, assim, adquirirmos
as qualidades dos mais evoluídos, tornando-nos humildes de
ela mesma e, então, aprende a não mais usá-la. As astúcias hu-
espírito, pacientes nos sofrimentos, mansos, justos, misericor-
manas não são inúteis, porque o homem, empregando-as, terá
diosos, limpos de coração, pacificadores etc. Eis as palavras de
depois de ficar sabendo quão duras são as consequências de ter
Cristo, no Sermão da Montanha:
procurado furtar-se à justiça de Deus, prejudicando os outros
“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é
com o engano, e terminará por compreender a loucura da men-
o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque herda-
tira na exploração do próximo e o dano que representa para rão a Terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justi-
quem a usa. Os atritos das rivalidades e as competições huma- ça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos,
nas na luta pela vida não são inúteis, porque nos levam a co- porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos
nhecermos uns aos outros, a fim de realizarmos a construção de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacifi-
daquela grande obra de engenharia biológica que será o orga- cadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-
nismo da sociedade humana no futuro. aventurados os que têm sido perseguidos por causa da justiça,
A Lei devolve, ricocheteando como um eco, o que lhe porque deles é o reino dos céus... Alegrai-vos e exultai, porque
queremos enviar. Se quisermos viver na ordem e na harmo- é grande o vosso galardão nos céus...” 1.
nia, ela nos receberá num abraço de paz e felicidade. Muito o Esta é a posição dos bem-aventurados, daqueles que obe-
homem terá de andar ainda pelo caminho da experimentação, decem à Lei. Mas esta não é a nossa posição no atual nível
até que, com seu esforço, faça nascer a nova raça do porvir, a humano, cujas “virtudes” de força e astúcia são completamente
raça de homens honestos e inteligentes, que conhecem a Lei e
1
obedecem a Deus. Evangelho de Mateus, Caps. 5, 6, 7 – Sermão da Montanha. (N. da E.)
26 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
diferentes. Procuremos, então, parafrasear este trecho do O Evangelho aplicado ao O Evangelho aplicado à Terra
Evangelho, repetindo-o numa forma diferente, para ver quais Sistema (aos evoluídos) (aos involuídos)
são as reações com que a Lei nos impulsiona para que nos tor-
nemos os bem-aventurados mencionados no Sermão da Mon- 1) Bem-aventurados os soberbos,
tanha. Este apresenta um aspecto superior da Lei, mas agora a 1) Bem-aventurados os hu- porque eles terão de sofrer tantas
veremos, neste mesmo assunto, sob outro aspecto, ou seja, mildes de espírito, porque humilhações, que aprenderão a lição
como ela funciona a este respeito no nível humano (que não é deles é o reino dos céus. de humildade e, assim, deles será o
na realidade o dos bem-aventurados), mostrando os meios pe- reino dos céus.
los quais a Lei nos estimula a atingir aquela abençoada posição
2) Bem-aventurados os prepotentes,
de bem-aventurados. Assim, os homens práticos do nosso
2)Bem-aventurados os os ferozes e os guerreiros, porque
mundo, mesmo podendo pensar que o Sermão da Montanha tanto serão esmagados pela prepo-
exprime uma filosofia de sonho, verão que ele, por caminhos mansos, porque
tência, ferocidade e agressão dos ou-
diferentes, mais duros e proporcionados à rudeza do homem, herdarão a Terra. tros, que se tornarão mansos e, en-
também está se realizando em nosso baixo nível de vida. Ve- tão, herdarão a Terra.
jamos, assim, qual é a posição, não dos bem-aventurados do
Evangelho, que vivem a Lei, mas do homem comum do mun- 3) Bem-aventurados os que susten-
do, que, ainda não vivendo a Lei, é impulsionado a vivê-la. tam e praticam a injustiça, porque
Eis, então, como se poderia repetir o Sermão da Montanha, re- 3) Bem-aventurados os que tanta injustiça terão de receber, que
lacionado com este outro ponto de referência: têm fome e sede de justiça, compreenderão quão duro é ter de es-
porque serão fartos. tar submetidos a ela e, então, por te-
“Bem-aventurados os soberbos, porque eles terão de sofrer rem aprendido à sua custa a ambicio-
tantas humilhações, que aprenderão a lição de humildade e, as- nar a justiça, desta serão fartos.
sim, deles será o reino dos céus. Bem-aventurados os que gozam
demais, só pensando em si e para além dos limites razoáveis, 4) Bem-aventurados os desapieda-
porque terão de sofrer necessidade e abandono, até aprender a dos, porque não encontrarão miseri-
4) Bem-aventurados os mise-
regra da justa medida e do amor ao próximo e, então, serão con- córdia e, por demais a invocarem pa-
ricordiosos, porque alcança-
solados. Bem-aventurados os prepotentes, os ferozes e os guer- ra si sem recebê-la, compreenderão a
rão misericórdia.
necessidade da bondade e do perdão,
reiros, porque tanto serão esmagados pela prepotência, ferocida-
alcançando, então, misericórdia.
de e agressão dos outros, que se tornarão mansos e, então, her-
darão a Terra. Bem-aventurados os que sustentam e praticam a 5) Bem-aventurados os impuros de
injustiça, porque tanta injustiça terão de receber, que compreen- 5) Bem-aventurados os lim- coração, porque ficarão tão sub-
derão quão duro é ter de estar submetidos a ela e, então, por te- pos de coração, porque mersos na ignorância e na maldade,
rem aprendido à sua custa a ambicionar a justiça, desta serão verão a Deus. com os consequentes erros e dores ,
que purificarão seu entendimento
fartos. Bem-aventurados os desapiedados, porque não encontra-
e, assim, compreenderão a Lei e
rão misericórdia e, de tanto a invocarem para si sem recebê-la, verão a Deus.
compreenderão a necessidade da bondade e do perdão, alcan-
çando então misericórdia. Bem-aventurados os impuros de cora- 6) Bem-aventurados os que gostam
ção, porque ficarão tão submersos na ignorância e na maldade, de brigas e de disputas, porque, pelo
com os consequentes erros e dores, que purificarão seu entendi- 6) Bem-aventurados os pacifi- fato de não conseguirem encontrar
cadores, porque serão chama- paz, irão almejá-la e procurá-la em
mento e, assim, compreenderão a Lei e verão a Deus. Bem-
dos filhos de Deus. toda a parte, até que se tornarão paci-
aventurados os que gostam de brigas e de disputas, porque, pelo
ficadores e, então, serão chamados
fato de não conseguirem encontrar paz, irão almejá-la e procurá- filhos de Deus.
la em toda a parte, até que se tornarão pacificadores e, então, se-
rão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que perse- 7) Bem-aventurados os que perse-
guem com injustiça os justos, porque tanto serão perseguidos 7) Bem-aventurados os que guem com injustiça os justos, por-
pela sua própria injustiça, que aprenderão a ser justos e, então, têm sido perseguidos por que tanto serão perseguidos pela
deles será o reino dos céus... Alegrai-vos e exultai todos vós que causa da justiça, porque deles sua própria injustiça, que aprende-
é o reino dos céus. rão a ser justos e, então, deles será
quereis rebelar-vos contra a Lei, porque grande é o sofrimento
o reino dos céus.
que vos espera e, assim, tereis de aprender a lição da obediência,
pela qual ganhareis um grande galardão nos céus”. 8) Bem-aventurados os que gozam
Eis como o Evangelho dos Céus – assim se poderia chamar demais, só pensando em si e para
a palavra de Cristo – tem de se traduzir na Terra, para que seja 8) Bem-aventurados os que além dos limites razoáveis, porque
possível realizar-se aqui. Eis como o Evangelho vai tornar-se choram, porque serão terão de sofrer necessidade e aban-
realidade viva também para os surdos e os rebeldes. Eis como consolados. dono, até aprender a regra da justa
a Lei se mantém em ação e se realiza plenamente também em medida e do amor ao próximo e, en-
nosso mundo. Seria absurdo que à ignorância e à má vontade tão, serão consolados.
do homem fosse deixado o poder de paralisar a Lei e, com is-
Alegrai-vos e exultai, todos vós que
so, Sua obra de salvação. Eis como Deus, para nosso bem, nos quereis rebelar-vos contra a Lei, por-
torna bem-aventurados, mesmo se não o quisermos. Ele quer, Alegrai-vos e exultai, porque
que grande é o sofrimento que vos
custe o que custar, nossa salvação. Por isso, quando for indis- é grande o vosso galardão
espera e, assim, tereis de aprender a
pensável, usa também o chicote da dor, porque Ele sabe que nos céus.
lição da obediência, pela qual ganha-
um dia a abençoaremos, quando, por este caminho, nos tiver- reis um grande galardão nos céus.
mos tornado bem-aventurados.
A grande maravilha da Lei é que ela responde a cada um con- ta. Da mesma forma, o tratamento que recebemos da Lei depende
forme sua natureza. Ela responde aos nossos movimentos com a do que somos e fazemos. Se somos bons e obedientes, ela res-
mesma exatidão com que um espelho reflete nossa imagem. Se ponderá com bondade. Mas, se somos maus e rebeldes, ela nos
nossa imagem no espelho é feia, a culpa não é do espelho, mas ensinará o que temos de aprender, com o azorrague da dor. Cada
de nós que somos feios. Se formos bonitos, a imagem será boni- um pode escolher seu método. Todos, porém, temos de viver
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 27
dentro da Lei. O que dela receberemos em troca das nossas ações sar a Deus na ascese da evolução, o homem, que trabalhosa-
depende da posição em que nos situamos diante da própria Lei. O mente procura estabelecer alguma ordem, corre atrás das gló-
Evangelho é pregação para os homens de boa vontade, dispostos rias humanas e não toma conhecimento da sua glória maior: ser
a se tornarem anjos. Já vimos qual o papel que o Evangelho tem criatura filha de Deus. Procura as riquezas do mundo e não per-
de representar quando não queremos tornar-nos anjos, mas sim cebe as ilimitadas riquezas ao alcance de suas mãos, as quais
permanecer demônios. Cada um, olhando para dentro de si, pode Deus lhe entregará, tão logo ele aprenda a usá-las bem. Ele vai
saber a qual dos dois grupos pertence e, por conseguinte, o tra- procurando desesperadamente a felicidade e não sabe que
tamento que receberá por parte da Lei. Por isso os bons, se é justamente para ela foi criado. Como pode o verme, que com
verdade que podem ser esmagados pelo mundo, nada têm a temer esforço se arrasta no chão, compreender que, nos espaços, a ve-
de Deus, enquanto os maus, se podem por um momento vencer locidade é gratuita e que corpos imensos a possuem sem limites
no mundo, muito têm a temer por parte da justiça de Deus, que e sem esforço? Da mesma maneira, como pode o homem, que
os constrangerá a pagar até o último ceitil. É muito mais seguro e trabalhosamente procura estabelecer uma ordem no seu planeta,
vantajoso ficar do lado de Deus do que do lado do mundo. Que campo de lutas desenfreadas, compreender que o universo é um
valem e podem os recursos do mundo em comparação com os de imenso organismo de ordem, regido pela inteligência de Deus?
Deus? Que poderá e quererá fazer o mundo para nos defender, Quando resolverá o homem, vítima do seu atraso, avançar
quando a ele nos escravizamos? E que poderá e quererá fazer para a conquista dos novos continentes do espírito que o espe-
Deus para nos defender, quando pertencemos a Ele? ram? Quando conseguirá ele, preso na sua forma mental, que-
Vemos então brilhar, no fundo do grande quadro da Lei que brar as paredes dessa sua prisão? Quando quererá ele resolver
estamos descrevendo, a resplandecente apoteose final dos bons, de uma vez para sempre todos os seus problemas, evoluindo?
não importa se desprezados e condenados pelos poderosos do Tudo depende de nossa boa vontade e de nosso esforço.
mundo, apoteose em que se realizarão as palavras de Cristo: “as
forças do mal não prevalecerão”. XVI. DO SEPARATISMO À UNIÃO
Por quanto tempo continuará o homem sem compreender tu-
do isso? Quantos erros terá ainda de cometer e quantas dores terá A realização da Lei no mundo.
de sofrer, antes de abrir os olhos para ver a substância da vida? O Ela nos impulsiona a evoluir para a ordem e a unidade.
homem continuará a rebelar-se contra a Lei, a fechar-se no seu
egoísmo, a conceber a vida só individualmente, enquanto a Lei O assunto fundamental estudado por nós foi, até agora, a
arrasta o mundo para a fase orgânica, em que os elementos das Lei – sua presença, conteúdo e ação – conhecimento que nos
grandes coletividades colaboram fraternalmente. Quantas lutas leva para uma nova maneira de conceber a vida, com uma
serão ainda necessárias para se chegar à compreensão recíproca consciência melhor de nós mesmos, proporcionando-nos uma
e, assim, coordenar os esforços de todos para finalidades comuns norma para nos conduzirmos sabiamente, para nosso bem. Ex-
de bem? Quantas experiências dolorosas serão ainda necessárias plicamos que a Lei está acima das religiões e filosofias particu-
para se aprender a não provocar as reações da Lei? Estamos acos- lares, as quais ela abrange, porque é lei universal da vida, da
tumados às leis humanas, que, por serem feitas muitas vezes pela qual ninguém pode fugir, pois ninguém pode fugir da vida e das
classe dirigente, para seu próprio interesse, parecem estar cum- suas leis. O que estamos expondo não é produto de nossa men-
prindo a tarefa de nos ensinar, antes de tudo, a arte de nos eva- te, mas da leitura que fazemos da Lei, e todos também podem
dirmos delas. Isso porque há luta entre quem manda e quem tem lê-la, pois ela está escrita nos fenômenos de nossa existência,
de obedecer. Mas, é bem diferente o caso da lei de Deus. Esta sempre presente no funcionamento orgânico do universo, por-
não é feita para o interesse d'Ele, mas sim para o nosso. Então que não há coisa alguma que esteja fora do pensamento de
procurar evadir-nos dessa Lei não é realizar nosso bem, indo con- Deus. O homem está muito apegado às suas divisões, porque
tra quem manda, mas é abdicar de nossa vantagem e não obter sua forma mental dominante ainda é separatista, divisionista,
senão nosso prejuízo. Isso porque o domínio da Lei não se baseia feita de luta para vencer e dominar. Mas isso só tem valor no
na imposição de quem manda contra quem tem de obedecer, mas nível humano. Assim como o céu está acima da terra, igual-
na justiça, no amor e na livre obediência de quem compreendeu. mente a Lei está acima das divisões e lutas humanas. Procure-
Quanto tempo continuará o homem se rebelando contra a ordem mos aprofundar-nos sempre mais no estudo dela, para alcançar
da Lei e fugindo, assim, da sua própria felicidade? a satisfação de que toda alma goza ao experimentar sempre
As forças da vida são movimentadas pela Lei, de maneira mais o sabor das coisas do absoluto e da eternidade.
que a compreensão terá de chegar. Houve tempo em que o ho- Procuramos atingir esta satisfação para nós e para nossos
mem acreditou com certeza absoluta na imobilidade da Terra e leitores. Esta é nossa finalidade maior, e não, como é mais co-
na imutabilidade da matéria. Mas agora entende que a imobili- mum, buscar prosélitos para o próprio grupo ou fazer propa-
dade e a imutabilidade aparentes são um estado de velocidade ganda para aumentar as próprias fileiras. Nossa forma mental é
constante, que nos parece sem movimento, porque nós só per- completamente diferente. Não estamos à procura de seguidores,
cebemos o movimento quando há mudança de velocidade, o porque nossos objetivos não estão na Terra. Por estranho que
que se chama de aceleração. Da tremenda corrida que, juntos pareça, esta é exatamente a verdade. Estamos explicando, para
com o nosso planeta, estamos realizando, ou que se verifica no quem quer compreender, como funciona a vida. Nosso maior
interior do átomo, não percebemos coisa alguma. desejo é que cada um fique satisfeito na posição onde se encon-
Da mesma forma, o homem acredita que está vivendo no tra, se esta lhe convém e disso esteja sinceramente convencido.
caos, julgando que somente sua vontade tem valor e que a ele O ser humano é relativo, e cada um precisa acreditar seja abso-
cabe impor a ordem, a ordem dele. Isto o faz rebelde num uni- luta aquela verdade mais adaptada à sua forma mental. Real-
verso regido pela ordem, e esta revolta o conduz ao sofrimen- mente são tão-só pequenas ondas de superfície no imenso ocea-
to, em virtude do choque contínuo contra a Lei. O homem fica no do conhecimento. São pontos de vista, perspectivas particu-
apegado às pequenas coisas do seu mundo, acredita com certe- lares, experiências diferentes. Nada disso impede que a lei de
za absoluta na verdade das ilusões deste, porque isto é o que Deus funcione e que todos a devam seguir, permanecendo den-
percebe, e não vê que está vivendo no seio de uma ordem e de tro dela, seja pelos caminhos do bem ou seja pelos do mal. É
uma harmonia maravilhosas. maravilhoso observar como o pensamento e a vontade de Deus
Cego para tudo isso, incapaz de ver o imenso trabalho que nos cercam de todos os lados, sempre nos guiando e impulsio-
todos os seres e tudo o que existe estão cumprindo para regres- nando para o caminho certo, a nós e a todos os seres do univer-
28 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
so. Para quem vive diante de uma visão desta envergadura e manos, entre as diferentes camadas sociais, entre as divergen-
vastidão, qualquer poder terreno perde todo o valor e, assim, tes forças e impulsos coletivos.
todas as sagacidades humanas que possam atingi-lo não interes- Na história da vida do homem, venceu e dominou até agora o
sam mais, tornando-se tentativas inúteis. princípio do individualismo, pelo qual o ser vive isolado, como
Nós podemos oscilar livremente de um polo a outro, entre o num castelo, fechado no seu egocentrismo e armado contra to-
bem e o mal, entre a luz e as trevas, deslocando-nos para qual- dos, um ser cujas relações com os outros não podem ser senão de
quer posição da vida, mas ficaremos sempre dentro do pensa- luta, atacando e defendendo para dominar, num estado de guerra
mento e da vontade de Deus, ou seja, dentro da Lei, que é a at- permanente, a fim de não acabar escravo. Este sistema gera rea-
mosfera na qual tudo o que existe no universo vive e da qual ções e contrarreações contínuas, de vinganças, ódios e dores sem
ninguém pode sair. Procuremos ficar apegados ao universal, fim, constituindo um método de vida selvagem, útil para desen-
porque ele contém também todos os pontos do particular, volver uma inteligência elementar, de tipo inferior, que reina nos
abrangendo-os todos, sem, contudo, ficar fechado em nenhum níveis baixos da animalidade, mas inadequada para elevá-la ao
deles. Somente subindo a esse nível mais alto é possível superar nível evolutivo superior que a humanidade está agora atingindo.
as divisões e lutas humanas, que fazem da Terra um inferno. Só A nova sensibilização nervosa e psíquica do homem civilizado
assim atingiremos a paz e a harmonia, que representam o paraí- pode e poderá cada vez menos suportar os ferozes métodos de
so e só se realizam no seio da ordem da Lei. Quem conseguiu vida do passado, com todas as suas tristes consequências.
ascender a esse nível de vida não deseja mais o triunfo separado Vemos, desse modo, que está na vontade da Lei, estabeleci-
de algum grupo particular, mas só a compreensão recíproca e a da na própria natureza das coisas, que o homem, com o progre-
harmonia universal. Procuramos, assim, demonstrar, para nos dir da civilização, não pode deixar de aprender a difícil arte da
convencermos, que só poderemos alcançar a maior alegria, se convivência. Ele se sente atraído pelas vantagens encontradas
sairmos do estado de separatismo, luta e desordem que tanto nas grandes cidades, mas ali tem de viver junto com os outros,
atormenta o mundo, encaminhando-nos sempre mais para a portanto não mais como indivíduo isolado no campo, e sim co-
unidade, a paz e a harmonia, princípios fundamentais da Lei. mo elemento do organismo social. Esta mudança de ambiente
É exatamente neste sentido que se está orientando o pro- constrói novos hábitos de relações recíprocas, antes desconhe-
gresso da civilização humana. Esta é a direção em que estamos cidos. O ser vai, assim, adaptando-se às novas formas de vida
orientados e procuramos orientar os outros. Geralmente, nesse organizada, mais complexas, que constituem a sociedade. Nes-
particular, o que mais interessa ao homem é a sua salvação pes- ta, ele propende e destina-se cada vez mais a desaparecer como
soal. Para atingi-la, ele acredita ser necessário apenas pertencer indivíduo isolado e reaparecer como célula de unidades coleti-
ao próprio grupo, que pode garanti-la, porque possui e contém vas múltiplas, sempre mais vastas. O mundo se transforma para
toda a verdade, ao passo que os outros grupos contêm todos os ele, que tem desse modo de aprender novas lições, adquirir no-
erros. Assim, imaginando possuir toda a verdade, o indivíduo vas qualidades, correlacionar-se a novos pontos de referência,
fica satisfeito, porque sua salvação está assegurada, e isto é o possuir valores diferentes e julgar com outra psicologia. O va-
que mais lhe importa, enquanto os outros, possuindo somente lor do homem do campo, que consistia em saber defender-se e
erros, estão perdidos, e essa certeza para ele é, muita vezes, trabalhar fisicamente, em caçar e matar, tem de se transformar
também motivo de satisfação. Assim, quando o indivíduo sus- no valor do homem dos grandes centros civilizados, que consis-
tenta seu grupo e a verdade que este possui, fica livre para viver te em saber movimentar-se, conduzir-se, trabalhar e pensar con-
sua vida como melhor lhe convém. Já a prática, na vida, dos forme regras que o enquadram numa indispensável disciplina.
princípios de uma religião, que, na sua forma particular, repro- Realiza-se, assim, a evolução. O que é a evolução senão uma
duzem mais ou menos os princípios gerais da Lei, é outra coisa, sempre maior realização da Lei? E qual é o conteúdo da Lei se-
menos urgente, que se pode também pôr de lado como secundá- não, antes de tudo, ordem e disciplina?
ria. A Lei representa, de fato, o verdadeiro e mais precioso con- O homem primitivo que pela primeira vez entra neste novo
teúdo das formas e crenças de todas as religiões. No entanto, se ambiente social, traz consigo todos os seus instintos de ser in-
estas não são usadas na Terra como um meio para realizar os dividualista e, por isso, tende a opor resistência, gerando desor-
princípios da Lei, a presença delas é inútil, porque fica frustra- dem na organização, na qual se sente preso. Mas esta, porque
do seu objetivo principal, que é nos guiar e impulsionar para os representa uma unidade maior do que ele e, portanto, mais po-
justos caminhos, levando-nos a Deus. Este objetivo principal é derosa, termina por vencê-lo, constrangendo-o a aprender a vi-
o que estamos pregando aqui, procurando compreensão e união, ver sob a regra de uma disciplina, ou seja, a evoluir para uma
em vez de exclusividade e condenações. forma de vida mais adiantada.
De fato, como agora dizíamos, é nesta direção que está ori- Tudo, queiramos ou não, segue nesta direção. A engenharia
entado o progresso da civilização humana. Um dos maiores moderna dirigiu-se para o arranha-céu, que é uma colmeia onde
problemas que o mundo de hoje tem de enfrentar e resolver é o centenas de abelhas têm de viver juntas. Esta vida em comum
de sua unificação em todos os campos: político, econômico, numa vizinhança recíproca implica, impõe e ensina regras de
demográfico, religioso, social. Com a vida se concentrando respeito recíproco, em que se compensam direitos e deveres
cada vez mais nas grandes cidades, o homem tem de se adaptar numa nova forma organizada de vida coletiva, que só desta ma-
a formas sempre mais estreitas de convivência social. Mas ele, neira, baseando-se na ordem, pode existir. De todos os lados,
como resultado do seu passado, está ainda fechado numa psi- tudo nos confirma que a vida progride do caos para a ordem, da
cologia estreitamente individualista, que o isola dos outros, desenfreada liberdade para a disciplina. Nisto consiste, como
enquanto a irresistível vontade da Lei é que ele venha a se unir dissemos, o progresso, que é a realização da Lei.
aos outros, para todos formarem juntos a grande unidade cole- Quando esse homem sai do seu apartamento, não encontra
tiva da humanidade. A evolução quer que todos os egocentris- selvagens nem feras contra os quais deva lutar, mas carros que
mos separatistas se fundam num estado orgânico, a futura situ- exigem disciplina de movimentos no trânsito. Nas ruas, nas lojas
ação da humanidade. Mas contra isto o indivíduo de hoje se e nos escritórios, encontra gente que exige respeito, conforme
rebela, temendo perder a sua liberdade. Então nascem revoltas, regras de comportamento. Quanto mais um homem é civilizado,
choques com os vizinhos e atritos recíprocos. Mas também tanto mais ele tem de tomar nota da presença, das exigências e
surgem adaptações, porque este é o caminho marcado pela Lei dos direitos dos outros – dever que, entretanto, exige reciproci-
e dele não se pode fugir. É assim que, como nunca, hoje se dade – e tanto menos lhe é permitido ser individualista, egocên-
tornou vivo e atual o problema das relações entre os seres hu- trico, indiferente à vida dos outros. Isto pode parecer uma pesa-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 29
da disciplina, tanto que o ser primitivo se rebela contra ela. No de, a inteligência não se usa para enganar, a consciência de si
entanto tal regime, pelo fato de se basear na reciprocidade, re- mesmo não é orgulho que despreza o próximo, a cobiça, em
presenta no fim uma vantagem para todos. O fato de ter de res- vez de servir ao próprio egoísmo, destina-se ao bem de todos,
peitar os direitos dos outros pode constituir, às vezes, uma re- e o espírito não é servo, mas dono dos sentidos. A vida, na sua
núncia à própria liberdade. Mas esse sacrifício fica depois bem evolução, quer criar agora, na Terra, um novo tipo biológico,
pago, quando por ele recebemos, como recompensa, respeito pa- um homem mais adiantado, ao qual confiará a tarefa de orga-
ra com nossos direitos. Só o homem civilizado, que tem deveres, nizar a nova ordem do mundo. O ser dos futuros milênios,
pode exigir os correspondentes direitos. O homem da selva, na mais evoluído olhará para o tipo humano atual como nós
sua absoluta liberdade, não possui direito algum a não ser aquele olhamos para os primitivos dos milênios passados.
dado pela sua força, que, na luta, o defende contra tudo. Ele está Assim, colocado no seu devido lugar, tudo fica claro e en-
sozinho, desprovido de toda a defesa da organização social. contra sua explicação lógica. Também as feras têm de aprender
Tudo isto é problema de ordem e disciplina. Mas estamos sua lição, e esta lhes é proporcionada pela Lei na forma e na
ainda no começo desse processo de reordenação. A disciplina é medida que elas podem entender. Para o homem selvagem, as
ainda formal, exterior, de superfície, representando tudo o que aulas são um pouco menos duras, porque ele desenvolveu mais
o homem conseguiu alcançar até hoje. Mas, com o progresso inteligência e sensibilidade. Para o homem atual, devido ao
da civilização, a ordem terá de se tornar sempre mais substan- progresso destas qualidades, as condições de vida melhoram
cial, interior e profunda, transformando-se de simples regras de ainda mais, pois, como é lógico, as provas necessárias ao
boas maneiras em compreensão recíproca, em psicologia de aprendizado se tornam, com a evolução, sempre mais leves e
colaboração e unificação, até atingir o nível do amor para com inteligentes. Cada nível tem de cumprir um gênero particular de
o próximo, anunciado como meta final pelo Evangelho de experiência, conforme o tipo biológico que o ser deve construir.
Cristo. Neste processo de descentralização do egocentrismo Tudo muda de um plano para outro, inclusive a maneira de
realiza-se a evolução da personalidade humana, que se abre conceber e julgar. Poderíamos assim dizer que em cada nível de
por este caminho, para libertar-se da prisão do seu primitivo vida vigora uma lei e, com ela, uma diferente moral. O que é
egoísmo, desabrochando e florescendo até atingir o estado de normal, justo e lícito para uma fera não o é para um selvagem e,
altruísmo, ou seja, de unificação em Deus, todos juntos e ir- menos ainda, para um homem civilizado. Encontramos assim
manados num mesmo organismo. tantos sistemas de moral sobrepostos quanto os andares de um
Desta maneira, vemos que os princípios da Lei se realizam prédio, onde o inferior sustenta o superior, subindo sempre. Es-
também nas pequenas coisas da nossa vida de cada dia, assim ta contínua edificação, que se levanta sempre mais, um andar
como o pensamento e a vontade de Deus, que ela representa, sobre o outro, representa a construção progressiva do próprio
dirigem o progresso da nossa civilização para objetivos de- eu. Enquanto o ser permanece em um determinado plano, ele
terminados. No caminho da evolução, o mais rebelde contra a aceita a moral desse plano com naturalidade, mas, tão logo suba
Lei é o ser mais atrasado, enquanto o mais obediente a ela é o para um plano superior, escandaliza-se com a moral do inferior,
ser mais adiantado. O conteúdo da civilização é representado que se torna para ele corrompida e ilícita. Tudo depende do ní-
pela realização da Lei, ou seja, pelo grau com que consegui- vel de onde parte o julgamento. A fera é julgada fera pelo sel-
mos vivê-la, irmanando-nos com os nossos semelhantes. vagem ou pelo homem civilizado. Mas, para as feras, não é fe-
Quanto mais o homem for evoluindo, tanto mais terá de per- ra. Assim o selvagem é selvagem para nós, mas, para os seres
ceber que, para sobreviver na luta pela vida, há uma força do seu nível, não é selvagem. Nós nos consideramos civilizados
muito mais poderosa do que a violência, a prepotência e a as- em relação às feras e aos selvagens, mas poderíamos ser consi-
túcia levada até à mentira e à traição: é a força da inteligência, derados selvagens por seres mais evoluídos. E a nós mesmos,
da honestidade e da bondade. quais hoje somos, julgaremos selvagens, quando tivermos pro-
gredido mais. Assim como reputaríamos criminoso um homem
XVII. A REALIDADE DOS INSTINTOS selvagem que praticasse entre nós a sua moral de antropófago,
os métodos de luta do homem atual também poderiam, numa
Como a sabedoria da Lei, corrigindo erros e excessos com o humanidade mais civilizada, ser considerados criminosos.
sofrimentos, leva o ser livre a evoluir para sua meta final. Desse modo compreende-se por que os seres inferiores não
Origem e função dos instintos. podem ser em si mesmos condenáveis pelos seus instintos. A
presença destes, como de tudo o que existe, explica-se pelo
Explicamos como a evolução nos leva sempre mais para o cumprimento de sua própria função. Nada existe sem um moti-
estado orgânico, conduzindo-nos da desordem, resultado de um vo, sem um escopo a atingir e uma razão que o justifique. Mas
individualismo separatista, à ordem, situação final ao nos har- permanece o fato de que os baixos instintos revelam a inferiori-
monizarmos com a Lei. Quanto mais evoluímos, tanto mais a dade do ser, e este então, enquanto não evoluir do seu plano in-
Lei nos disciplina, irmanando-nos e conduzindo-nos à unifica- ferior, tem de ficar sujeito à dura lei que ali vigora. Se o ser é
ção. Esta é a nova lição que o homem tem de aprender. As ou- um diabo, seu legítimo lugar, onde ele tem de morar, é o infer-
tras, relativas à animalidade, já foram aprendidas, e demorar-se no. Se ele subiu até ao nível do anjo, então o lugar que lhe per-
nelas significaria retardar o caminho da subida, permanecendo tence, onde ele tem de morar, é o paraíso. Isto quer dizer que o
atrasado nos níveis inferiores da vida. primeiro ficará sujeito às leis do inferno, enquanto o segundo se-
A vida oferece lições proporcionadas ao plano de existên- rá regido pelas leis do paraíso. A punição e o prêmio são ineren-
cia em que o ser se encontra, de acordo com suas vicissitudes. tes à própria natureza do indivíduo e se realizam automatica-
Todavia o homem tem de adquirir novos instintos, que não são mente, sem castigo nem vingança, porque correspondem à posi-
de agressividade, engano, orgulho, cobiça ou sensualidade, ção de cada um. A fera está sujeita à dura lei da fera. Cada um
pois estes, se foram úteis num estado de desordem geral, não o recebe conforme a justiça, segundo o que é, porque, de acordo
são mais num mundo organizado. Estas são as posições do com o seu nível, ele se coloca no degrau que lhe pertence ao
passado, não as do futuro. E a evolução é uma força viva, pre- longo da escala da evolução. Justiça automática, inflexível e per-
sente dentro de nós, fazendo pressão, constrangendo-nos à su- feita, porque cada ser traz em si mesmo, nas condições de vida
bida de modo premente. Isto quer dizer que chegou a hora de que mereceu, o julgamento e a respectiva pena ou recompensa.
progredir, levando aqueles instintos para frente, elevando-os a Dissemos acima que a presença dos instintos se explica pelo
um nível superior, onde a coragem não reside na agressivida- fato de corresponderem ao cumprimento da sua própria função.
30 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
A fome ensinou o animal a desenvolver sua força e inteligência abuso na disciplina da Lei – pelo fato de ser fundamental no
na arte de capturar os outros animais para devorá-los. A função processo evolutivo e de ter, por isso, absolutamente de realizar-
do instinto, nesse caso, é a conservação da vida individual. se, é automático. Entramos aqui no campo determinístico da
Querendo aumentar a legítima alegria que vem da satisfação da Lei, seu aspecto inviolável, no qual não pode entrar a livre-
fome, nasceu no homem a gulodice, que, por ser gozo ilegíti- escolha do homem. Este é irresistivelmente levado a realizar
mo, provoca distúrbios e doenças. Estas alterações representam em si mesmo o controle de seus instintos por intermédio do au-
o freio com o qual a Lei resiste a toda violação da sua ordem e todomínio, pois, enquanto não se dispor a aprender a viver na
equilíbrio, para reconduzir tudo novamente à justa medida. As- ordem, permanecendo dentro dos limites marcados pela Lei, te-
sim se explica como nasceu no homem tal instinto e também a rá de sofrer as dolorosas consequências que derivam disso. Este
necessidade de corrigi-lo, reconduzindo-o aos devidos limites. processo, aparentemente cruel, pelo qual todo movimento erra-
As exigências do impulso sexual ensinaram o animal a do gera dor, como uma reação automática à qual não se pode
amar. A função do instinto, neste caso, é assegurar a continua- fugir, parecendo uma vingança de um Deus desapiedado pela
ção da espécie. Querendo aumentar a legítima alegria do amor, ofensa recebida, é de fato a Sua maior providência, produto de
no homem nasceu a sensualidade, que, no excesso dos vícios, Sua sabedoria e bondade, porque representa o remédio amargo
também provoca distúrbios e doenças, pelos quais a Lei resiste que cura a doença. Providência cuja função é conduzir o ser pa-
à desordem e nos guia para a justa medida. Explica-se, assim, ra seu bem, ou seja, sua salvação final na felicidade.
como no homem nasceu tal instinto e também a necessidade de É lógico que, para um ser livre e ignorante, cada experiên-
corrigi-lo, reconduzindo-o à sua devida disciplina. cia implique também em resultados de excesso ou de abuso, o
A absoluta exigência de sobreviver contra todos os assal- que traz como consequência condições opostas às da satisfa-
tos num ambiente hostil, gerou no animal o indispensável ins- ção, a qual se encontra somente dentro dos devidos limites.
tinto de conservação, ensinando-lhe o egocentrismo e a arte Não é escravizando-nos que a Lei nos guia para nosso bem,
do ataque e da defesa. A função destes instintos é construir o porquanto não seria possível conciliar isto com a bondade de
indivíduo forte e astuto, apto a defender-se a si mesmo, inclu- Deus, mas sim compelindo-nos indiretamente, sem violar nos-
sive atacando, para ser o vencedor na luta pela vida. Querendo sa liberdade. De que outra forma poderia Deus obter este re-
reforçar a sua individualidade e fortalecer as suas defesas, no sultado, respeitando a vontade de um ser ignorante que, para
homem nasceu o egoísmo separatista e a agressividade bélica, aprender (o conhecimento é necessário para subir e salvar-se),
e ele se tornou guerreiro, escravizando vencidos e dominando tem de experimentar tudo? A Lei resolveu o problema fazen-
povos. Em consequência de tudo isso, nasceram os males que do corresponder a cada movimento do indivíduo uma deter-
atormentam a humanidade e com os quais a Lei quer restabe- minada sensação, boa ou má, de acordo com sua sensibilida-
lecer a ordem. Explica-se, assim, como nasceram no homem de, que cada vez mais se aguça.
esses instintos e também a necessidade de corrigi-los, recon- Desse modo, cada ato nosso nos leva, conforme sua nature-
duzindo-os à sua justa medida. za, a um correspondente resultado, ou seja, tudo o que foi feito
Da falta do indispensável nasceu o instinto sadio da pre- dentro das regras da Lei tem como consequência um estado de
vidência, mas o excesso desta gerou a cobiça de possuir, pro- satisfação, e tudo o que foi feito fora dessas normas tem como
duziu a avidez de apoderar-se de tudo para acumular recur- consequência um estado de aflição. Falamos da verdadeira sa-
sos, criou o instinto da avareza, que espolia o próximo atra- tisfação, sadia, pacífica, duradoura, e não da satisfação mórbi-
vés do excessivo apego às coisas. Mas a isto também se se- da, enganadora e transitória, cuja tendência final, pelo motivo
guem males e a consequente necessidade de corrigi-los para de ter sido atingida pelo abuso contra as regras da Lei, é nos
dentro dos limites da justa medida. conduzir à sua lógica conclusão: o sofrimento.
Assim, explica-se como, da necessidade da defesa, nasceu Isso acontece todas as vezes que saímos dos trilhos estabele-
para os fracos a arte do engano, cujo excesso gerou o instinto cidos pela Lei, não somente pela qualidade do ato, mas também
da mentira, que não permite discernir a verdade do fingimento. pela sua quantidade. Assim, o que é lícito e satisfatório na sua
Isso criou um ambiente de traição insuportável para todos e a justa medida, torna-se ilícito, prejudicial e doloroso no excesso.
necessidade de ser honesto e sincero para corrigi-lo. Este é um erro em que é fácil cairmos quando, iludidos pela im-
Se desta maneira se compreende a origem dos instintos, ou pressão agradável da primeira satisfação, somos impulsionados
seja, a necessidade de cumprir uma função de auxílio à vida, a aumentá-la com o abuso. Mas eis que a Lei nos reconduz à
revela-se também a outra necessidade de dominá-los e corrigi- justa medida, porque, se o uso da quantidade um dá a satisfação
los conforme os princípios da Lei, reconduzindo-os para os um, se dois dá resultado dois e três resulta em três, não é verda-
seus limites. Se os instintos não se modificarem paralelamente de que, se continuarmos acrescentando as doses, a satisfação
à evolução, as qualidades que eram antes úteis à vida se tornam sempre aumente proporcionalmente. Pelo contrário, quatro con-
prejudiciais à medida que ela progride. É assim que o ser tem tinuará a nos dar o prazer de três ou pouco mais, cinco não será
de se transformar de animal em homem, e de homem em super- mais agradável, mas dará só um sentido de saciedade, seis co-
homem, porque, chegando a um nível superior, a vida requer meçará a nos enjoar e, quando chegar à quantidade sete, come-
outras qualidades, e o ser tem de adquiri-las. çará o sofrimento. Essa emborcação do prazer da satisfação na
Os instintos inferiores se justificam enquanto permanecem amargura do padecimento nada mais é senão a lição da Lei, que
no seu nível, onde têm uma função a cumprir. Mas tornam-se assim nos ensina a nos corrigirmos, voltando ao caminho certo.
abuso, defeito e culpa nos níveis mais adiantados. O verdadei- Desta maneira, sem constrangimento algum, o ser, perma-
ro progresso é constituído por esta íntima transformação da na- necendo livre, tem de sair do erro, expulso automaticamente
tureza do ser, que adquire hábitos e constrói instintos superio- para longe dele, porque é repelido pela respectiva sensação de
res por cima dos antigos, num contínuo processo de melhora- desgosto. E ele mesmo, através da própria experiência, vai
mento e aperfeiçoamento. É assim que, como já dissemos, o cada vez mais relacionando sua dor com o erro cometido. As-
egoísmo separatista e o desenfreado individualismo do homem sim, a Lei vai ensinando ao ser – ansioso por movimentar-se e
primitivo têm de transformar-se em altruísmo unificador, in- ardente de desejos, mas inexperiente – como agir com inteli-
dispensável ao homem evoluído, que terá de viver no estado gência, sem cair na dor.
orgânico da humanidade do futuro. Eis o que podemos ver, por trás dos bastidores, na realidade
Este fenômeno da reorganização do caos – isto é, da reor- da vida. Muitas outras maravilhas ainda se encerram na Lei, e
denação da desordem na ordem, do excesso na moderação, do as iremos analisando em nossos estudos.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 31
XVIII. A MUSICALIDADE DA LEI ceram e se fixaram pela necessidade de satisfazer exigências vi-
tais, e somente se justificam enquanto permanecem dentro dos
A desobediência à Lei se torna autopunição. limites dessa sua função. Isso é o que se chama permanecer na
A revolta é autodestruição. As maravilhas da técnica da co- ordem. Tudo na Lei tem o seu devido lugar. Assim, é bom e ge-
nexão do erro para chegar à salvação. ra boas consequências o fato de comer para sustentar o corpo,
mas é mau e produz más consequências o fato de comer demais
A lição que a lei de Deus nos quer dar, infligindo-nos dor por gulodice. Também é bom descansar depois de ter trabalha-
com a sua reação, é para ensinar o caminho certo e a justa me- do, mas é mau o ócio da preguiça. Da mesma forma, a liberali-
dida. Todos procuramos atingir a maior satisfação, e isto não é dade não pode tornar-se esbanjamento e dissipação, assim co-
contrario à Lei, pois ela quer a nossa felicidade. O erro não está mo o espírito de economia não deve chegar à avareza. Por outro
nesse desejo em si, mas sim nos meios que, devido à nossa ig- lado, a consciência de si mesmo não deve transformar-se em
norância, escolhemos para realizá-lo. A Lei não quer o nosso orgulho, assim como a vontade de ganhar com o trabalho o ne-
sofrimento, somos nós que o produzimos, violando a sua or- cessário para viver não deve tornar-se sórdido apego ao dinhei-
dem. Seja qual for o nosso desejo de revolta, não podemos dei- ro e imoderada cobiça de riqueza.
xar de viver dentro dessa ordem. Mas o homem não quer levar Os erros se podem cometer não somente no sentido da
em conta o fato positivo da presença dessa ordem, preferindo quantidade, mas também através da qualidade dos nossos atos.
substituí-la pela desordem criada pela lei particular do seu pró- Pela lei do mínimo esforço, procuramos, para atingir os maio-
prio eu. Só a sua ignorância pode acreditar nessa possibilidade. res resultados, trabalhar o menos possível, e assim, em vez de
Mesmo a ciência positiva nos demonstra, cada dia mais, que seguir o caminho certo, buscamos utilizar a astúcia para andar
vivemos cercados de leis por todos os lados. por travessas e atalhos, que são desvios fora da senda correta
Num tal ambiente, é lógico que todos os movimentos errados do trabalho honesto, único rumo capaz de nos conferir a base
não possam produzir senão efeitos errados. Pela sua própria na- segura do merecimento. Gostamos de coisas bem-feitas e dese-
tureza, como podem movimentos errados levar a resultados cer- jamos que os outros também as façam assim para nós. Mas nos
tos? O trânsito de veículos e pedestres nas ruas não poderia rea- julgamos hábeis quando, com o engano, sabemos levar vanta-
lizar-se sem regras. Que aconteceria se, num relógio, cada roda gem sobre os outros, entregando-lhes produtos malfeitos. Fale-
quisesse tornar-se independente das outras, para movimentar-se cem assim o crédito e a confiança, e a mentira embaraça cada
por sua conta? E que música poderia executar uma orquestra, se vez mais a vida social.
cada um dos seus componentes, em nome da liberdade, quisesse A Lei exige honestidade de quem esteja na posse de uma
tocar a seu bel-prazer? Apesar de ser evidente a necessidade de posição social, a fim de que seja cumprida a função que aquela
movimentar-se conforme uma disciplina, o homem julga possí- posição implica e representa. Assim os governos deveriam rea-
vel, no terreno mais elevado, constituído por sua conduta, so- lizar a função que justifica o seu poder, que é dirigir, defender e
brepor a desordem à ordem da Lei, sem prejuízo ou até com ajudar os povos. Mas, infelizmente, quanto mais o homem é
vantagem. E tanto acredita nessa loucura, que a considera como primitivo, tanto mais concebe o poder egoisticamente, conside-
a maior prova da sua sabedoria. Por isso, em nosso mundo, ve- rando-o não como uma função para o bem coletivo, mas apenas
mos realizar-se o que aconteceria numa rua onde carros e pedes-
como um meio para satisfazer sua ambição e seu desejo de gló-
tres corressem uns contra os outros, ou num relógio feito de ro-
ria e riqueza. Se não existisse esta vantagem pessoal e imediata,
das que lutassem umas contra as outras pela sua independência,
não se explicaria tanta luta e dissipação de recursos para a con-
ou numa orquestra em que cada um tocasse o que quisesse. As-
quista do poder. Pode, porém, acontecer que os povos se aper-
sim explica-se por que neste mundo se verificam os efeitos que
cebam desse jogo dos seus governantes. Então estouram as re-
vemos. O resultado de tanta “sabedoria” é caos e sofrimento.
voluções, com as quais se ajustam as contas e, tal como aconte-
A Lei quer a nossa felicidade, mas esta só existe para quem
ceu na Revolução Francesa, faz-se a liquidação das classes di-
permanecer em sua ordem. Quem sai dessa ordem sai também
rigentes. Esses movimentos representam uma desordem que
daquela felicidade. Por isso a regra fundamental é: sem discipli-
na não se pode atingir satisfação. Todos procuramos alegria, não poderia nascer, se não fosse gerada por outra desordem,
sempre maior alegria, o que é justo e concorda plenamente com originada em geral do abuso dos dirigentes. Isto faz crer que, na
a vontade da lei de Deus. No entanto não se atinge este conten- Terra, a justiça da Lei não possa realizar-se senão por uma con-
tamento, como se julga, fartando-nos com qualquer das satisfa- tínua correção de abusos, o que parece ser afinal a tendência
ções humanas comuns, mas somente aceitando-as só na justa predominante no instinto do homem.
medida. Eis o que a Lei quer ensinar, quando nos deixa recolher Mas, então, se esta é a realidade atrás das aparências, qual é
amarguras, seja no excesso como na carência. A toda nossa ten- o estranho jogo que está escondido por trás dos métodos eleti-
tativa de exagerar para subverter a ordem, chega o golpe da Lei, vos, e qual a significação do direito de voto para povos que não
que nos reconduz para dentro da ordem. Não é que a Lei exerça sabem usá-lo? Neste caso, na prática, o voto não é um direito,
vingança e nos puna. A Lei está sempre firme. Somos nós que a porque não pode ter direitos quem não sabe o que faz, mas é
movimentamos e, com os nossos movimentos errados, produzi- uma escola para aprender a usar esse direito, escola dolorosa,
mos resultados dolorosos. Ela é como um instrumento musical. porque, conforme a Lei, os erros não podem ser corrigidos se-
Um pianista que conhece o teclado pode extrair do seu piano não através da dura experiência dos próprios sofrimentos. Em
música maravilhosa. Um músico inexperiente, porém, se tocá-lo todos os campos, o homem rebelde tem de sofrer para aprender.
ao acaso, não poderá alcançar senão irritantes dissonâncias. Isto Nesse caso, os povos têm de sofrer a tirania e a exploração até
é o que todo dia fazemos com a Lei. Não é surpresa, então, se aprenderem a eleger seus dirigentes, enquanto os governantes
não encontramos no mundo senão desafinações e desarmonias têm de sofrer revoltas até que aprendam a governar com hones-
dolorosas. E teremos de ouvi-las até aprendermos a tocar. tidade. Cada um recebe as consequências dos seus atos, con-
Todo abuso fere e queima para nos ensinar a lição da ordem forme seu merecimento. Assim, os governantes têm os povos
e desenvolver em nós o instinto do autocontrole e o sentido da que merecem, e os povos têm os governantes que merecem. A
justa medida. Vamos assim aprendendo, através de tantas expe- vida não pode basear-se em valores fictícios e exige valores re-
riências de uso e abuso, a viver na ordem, fazendo bom uso de ais. Quem nada vale e nada faz, nada pode receber, até aprender
tudo. Os instintos, como dissemos, representam desejos que nas- a merecer e fazer algo de valor. Esta é a justiça da lei de Deus.
32 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
Estamos vendo como os princípios da Lei repercutem em guém quer. Assim, quanto mais o ser é involuído, tanto mais
todos os aspectos da vida. A exatidão da sua justiça se expres- tem de sofrer, experimentar e aprender para, com isso, evoluir.
sa pela lei de talião, porque a reação corretiva corresponde Na justiça de Deus, libertar-se de tudo isso não pode ser senão a
exatamente à natureza e proporções da culpa. Por isso foi pos- merecida recompensa do esforço feito para subir. Assim, quan-
sível interpretar a fenômeno dessa reação como vingança de to mais o ser é indisciplinado e, por isso, quer a desordem, tanto
Deus, em semelhança à lei de talião. Conhecemos agora a téc- mais ele será impelido à disciplina e confinado na ordem. Desse
nica da Lei para corrigir o erro e, sem imposição, obter obedi- modo, a revolta se torna absurda, contraproducente e, por isso,
ência. O resultado é que, apesar de ficar livre, a criatura acaba insuportável e inaceitável, porque, quanto mais o ser se rebela,
obedecendo. Isto porque sair da Lei constitui o maior erro, o tanto mais se aperta em volta do seu pescoço o nó corrediço do
que equivale ao maior sofrimento. Assim tudo o que está den- sofrimento. Quanto mais o ser se faz surdo para não ouvir a li-
tro da Lei é bom, belo, agradável, enquanto o que está fora de- ção, tanto mais esta se torna enérgica. Na Lei, que é ordem e
la é mau, feio, doloroso. A maravilha dessa técnica está no fato harmonia, tudo, inclusive a sua reação, é proporcionado e equi-
de, em última análise, não ser possível rebelar-se contra a Lei, librado. Acontece então, automaticamente, que quanto mais o
porque fora dela não há vida nem satisfação. Os rebeldes, que- ser é ignorante e rebelde, maiores são os seus erros e, por isso,
rendo desobedecer à Lei, distanciam-se, eles próprios, do para- maior a reação que eles excitam; quanto mais o ser precisa ser
íso e lançam-se no inferno; querendo emborcar a Lei, embor- corrigido, tanto mais poderosa é a correção encarregada de en-
cam-se a si mesmos, condenando-se a viver de borco, num direitá-lo. Por outro lado, quanto mais o ser é sábio e obediente,
mundo contravertido. Emborcado quer dizer sofrimento ao in- menores são os seus erros, bem como a reação que eles exci-
vés de felicidade, morte ao invés de vida. Assim a desobediên- tam, de modo que, quanto menos o ser precisa ser corrigido,
cia é suicídio, condenação e punição que o rebelde executa tanto mais leve é a correção necessária para endireitá-lo. Como
contra si mesmo com suas próprias mãos. vemos, trata-se de uma verdadeira escola, onde os alunos rece-
Os rebeldes quereriam libertar-se desse jugo da Lei, porque, bem aulas no nível justo, proporcionadas à sua necessidade de
em sua ignorância, julgam e acreditam que isso seja possível.
aprender. Escola maravilhosa, na qual cada aprendiz, automati-
Mas a Lei é a substância da nossa vida, porque nós mesmos, em
camente, tem de aprender por si próprio a lição que lhe seja
essência, somos Deus e, desse modo, também Sua Lei. Portanto,
mais adaptada. Poderia Deus ter feito coisa melhor?
se chegasse a haver uma verdadeira revolta e se ela alcançasse
De tudo isso segue-se outra maravilha. A correção dos er-
sucesso, vencendo a batalha contra a Lei, isto seria destruir nos-
ros e a retificação do caminho errado são automáticas, progres-
sa própria vida. A Lei está arquitetada de maneira que, automa-
sivas e absolutamente inevitáveis. Logo, qualquer movimento
ticamente, a revolta movimentada pelo rebelde constitui, por si
que o ser faça usando sua liberdade, seja para o bem ou para o
mesma, a força que o leva à sua destruição. Se, desta maneira,
mal, tudo o leva, seja pelo caminho da alegria ou seja pelo ca-
rebelar-se quer dizer destruir-se a si mesmo, mais cedo ou mais
minho da dor, à sua salvação final. O ser pode livremente es-
tarde a revolta há de se acabar, se o ser não quiser ser destruído.
colher um dos dois caminhos, mas não pode impedir que a
Disso não se pode fugir. A Lei é o pensamento e a vontade de
evolução se cumpra e seja atingido o seu ponto final: a salva-
Deus, e se fosse possível destruí-la com a revolta, seria possível
também destruir Deus, o que é o mais inaceitável dos absurdos. ção. A sabedoria de Deus colocou no sistema da Lei essa ma-
Então, o que faz a Lei? Liberta-se da doença da revolta, liqui- ravilhosa técnica da salvação, técnica tanto mais valiosa, por-
dando-a e eliminando-a do seu sistema, anulando os rebeldes. que é inviolável. Vimos que a liberdade do ser não é absoluta,
Este seria o verdadeiro inferno eterno, realizado pela absoluta havendo para os seus erros fronteiras que não se podem ultra-
negação da vida no nada. Mas quem, por mais ignorante ou passar. Esta é outra sábia providência de Deus para impedir
maldoso que seja, pode querer isto? Se quem se rebela vai con- que, na sua ignorância e revolta, o ser excite por parte da Lei
tra sua própria vida e trabalha só para sua própria destruição, uma reação demasiadamente forte, que ele não poderia supor-
como pode alguém se obstinar a perseverar definitivamente nes- tar. Assim os limites permitidos para a desobediência são pro-
se caminho? O leitor que desejar maiores explicações a respeito porcionados ao grau de evolução. Quanto mais o ser sobe e
deste assunto as encontrará no meu livro O Sistema, onde tudo aprende, tanto mais reduzida se torna a amplitude do seu erro,
foi cabalmente explicado. Agora podemos constatar como estas até desaparecer. Com a evolução, o mal vai sendo progressi-
nossas conclusões práticas a respeito da conduta humana estão vamente cercado, sitiado sempre mais de perto, até não lhe so-
relacionadas com o funcionamento do todo e ficam justificadas brar mais espaço, acabando assim por ser eliminado.
também em função dos mais altos princípios do absoluto. As duas forças estão uma contra a outra. De um lado a evo-
Quem se rebela é o ser involuído, que, pela sua ignorância, lução, que impulsiona o ser para a salvação; do outro lado a re-
mas julgando saber, caminha contra sua própria vida. Quanto volta do mal, que o impele para a destruição. A tarefa da evolu-
mais o ser é involuído, tanto mais está apegado à vida do seu ção é corroer o mal e consumi-lo até destruí-lo.
plano inferior, mais cheio de sofrimentos se encontra e maior é Quem consegue penetrar no pensamento que construiu e di-
a sua rebeldia. Então, quanto mais o ser é rebelde, tanto mais rige esta maravilhosa técnica, com a qual a Lei guia o ser à sua
está sujeito ao sofrimento, que representa a correção dos seus necessária salvação em Deus, não pode deixar de ficar admira-
erros. Quanto mais o ser entra no caminho que o leva para fora do perante uma tão deslumbrante sabedoria e tão assombrosa
da Lei, tanto mais é impelido a voltar para ela; quanto mais o perfeição, que sabe resolver tantos problemas, atingindo suas
ser é ignorante e, por esse motivo, comete erros, tanto mais ele mais altas finalidades, com meios tão simples, lógicos, automá-
tem de experimentar suas dolorosas consequências para apren- ticos e justos, dos quais não se pode fugir. É empolgante obser-
der a não cometê-los mais. Eis a maravilhosa mecânica por var e estudar o pensamento com que a Lei governa o funciona-
meio da qual o erro tem de automaticamente corrigir-se e os re- mento orgânico do universo e a nossa própria vida. E, para che-
beldes têm de tornar-se obedientes à Lei. gar a uma orientação certa e completa, indispensável à direção
Chega-se assim à conclusão de que ninguém está tão amar- correta de nossa conduta, não há outro caminho a não ser nos
rado pela obediência à Lei quanto o rebelde. O que o acorrenta relacionarmos com esse pensamento, que, tudo explicando, po-
a esta obediência, apesar do seu desejo de revolta, é seu próprio de mostrar-nos também a razão última pela qual temos de agir
apego à vida, porque, buscando a vida, ele tem de mergulhar na de um modo em vez de outro, afastando-nos dos caminhos do
Lei, pois ela é vida e fora dela não há senão morte, e isso nin- mal, para percorrer os do bem.
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 33
XIX. O FRACASSO DA ASTÚCIA A evolução é uma necessidade absoluta. A estrada está mar-
cada, e não se pode sair dela. Este é o conteúdo da Lei. Somos
Estamos todos encadeados à necessidade de evoluir. livres e podemos escolher à vontade. Mas o que nos acorrenta à
Os seguidores do caminho mais curto e a errada sabedoria necessidade de evoluir é o nosso desejo de felicidade. Podemos
do mundo. A inteligência do involuído e a do evoluído. parar no caminho e recuar. Mas o sofrimento que então encon-
traremos nos impelirá para frente. Podemos errar, mas a dor
Continuemos falando de nosso grande guia: a lei de Deus. que se segue nos queima. Assim, aprendemos a fugir dela,
As conclusões práticas aqui apresentadas, como já dissemos, compreendendo quais são as causas que a geram, para evitá-las
estão relacionadas com as teorias que, em nossos livros, expli- e não mais gerá-las. Às vezes, consideramos a dor como uma
cam as causas primeiras das coisas. É naquelas teorias gerais maldição de Deus, acreditando no absurdo de que seja produto
que as conclusões observadas no terreno da conduta humana da Sua maldade, sem percebermos quão salutar e indispensável
encontram sua raiz, explicação e justificação, garantindo-nos remédio ela é para nosso bem. Se não existisse a dor e se não
com isso a certeza de sua veracidade. Mas, ao mesmo tempo, é houvesse esse nosso irresistível desejo de felicidade, ligado a
nesta sua aplicação prática, no plano controlável da nossa reali- essa triste insatisfação enquanto ela não é atingida, quem nos
dade, que aquelas teorias – em si mesmas incontroláveis expe-
movimentaria ao longo do caminho da evolução? Quem nos
rimentalmente, porque muito afastadas da nossa vida quotidia-
impulsionaria para a subida? Sem a insatisfação e a dor, tudo
na – encontram sua confirmação e, portanto, sua verdade. Veri-
seria paralisado pela nossa preguiça e ficaria estagnado na mor-
fica-se, assim, o fato de que as longínquas teorias gerais e suas
te. Então o escopo final da existência de todos os seres ficaria
consequências particulares – estas últimas mais próximas de
nós e, portanto, mais compreensíveis – escoram-se e sustentam- comprometido, e a vida deles, assim como a presença de todo o
se reciprocamente, uma fornecendo a prova da verdade da ou- universo, não teria mais sentido. Todos quereríamos suprimir a
tra, num sistema único, em que a teoria e a prática se harmoni- dor, não compreendendo que, assim, suprimiríamos a força
zam e colaboram, com uma realidade confirmando a outra. providencial que nos leva à salvação.
Com isso, atingimos nosso escopo de esclarecer tudo, expli- Vamos assim, fatalmente, sendo impulsionados para nossa
cando e demonstrando. Seria absurdo pensar que nossa palavra meta final, à qual somos atraídos pelo nosso anseio de felicida-
pudesse ter o poder de transformar o mundo. Isto cabe apenas a de, repelidos pela dor, logo que nos afastamos do caminho cer-
Deus, pois só Ele possuí e pode usar os adequados meios apo- to. Isto parece uma armadilha em que o ser se encontra preso.
calípticos para tanto. Nós podemos apenas explicar como tudo Sua vontade seria fugir dela, mas não sabe que nessa prisão está
isso funciona e porque vemos sucederem tantos desastres no a sua salvação. Em última análise, quem se revolta contra a dis-
mundo. A tarefa de corrigir o erro pertence à dor, que existe por ciplina da Lei rebela-se contra sua própria salvação. Não se po-
esta razão e disso está encarregada. Para amadurecer os involu- deria imaginar ignorância e loucura maiores.
ídos, são necessários choques proporcionados à sua ignorância Quem ainda não entendeu isso julga-se inteligente, quando
e insensibilidade. Para os surdos ouvirem, é preciso mais que imagina enganar a Lei, furtando satisfações imerecidas e con-
pregações; é necessária uma voz que se faça, por si mesma, en- seguindo escapar às sanções dela. Almejamos felicidade, po-
tender claramente por todos; é indispensável sofrer para apren- rém, muitas vezes, não queremos fazer o esforço para ganhá-la
der. Se existem no mundo tantas dores, isto quer dizer que a es- honestamente. Acreditamos que somos hábeis, quando conse-
cola está funcionando bem. E isto é bom, porque garante o me- guimos atingir o resultado da satisfação, sem fazer aquele in-
lhor, ou seja, que a evolução se cumpra. É bom que o mundo dispensável esforço, que constitui o único valor real, porque
sofra as consequências dos seus erros, porque assim, para seu nos faz progredir. Procuramos todos os meios para nos deter-
bem, ele vai aprendendo a não errar mais. mos no caminho da salvação. Tentamos todas as escapatórias,
Embora Deus esteja presente em nosso mundo, operando travessas e atalhos, para nos esforçarmos o menos possível no
do interior da sua própria lei, parece que Ele está olhando de trabalho mais importante da vida: a evolução.
longe, deixando o homem livre para fazer o que quiser. É co- Eis que a sabedoria do mundo está no desejo de conquistar
mo se Ele estivesse dizendo: “Experimenta à vontade, menino. sucesso de qualquer maneira, por todos os meios. Então, na es-
Verificando e avaliando as consequências dos teus atos, apren- trada marcada que nos leva à felicidade, verifica-se uma corrida
derás a sabedoria do bem e do mal. Podes fazer de tudo. So- para chegar em primeiro lugar ao maior sucesso, com a maior
frendo as consequências da tua conduta, poderás conquistar tua satisfação possível. Assim, ao invés de movimentos coordena-
sabedoria, sem a qual não pode haver felicidade para ti. Para dos, avança-se numa peleja de todos contra todos, o que faz do
chegares a isso, é necessário atravessar o deserto das desilu-
progresso uma marcha desordenada e fatigante, corroída pelos
sões. Anda, menino. Não podes destruir a carga da tua igno-
atritos e executada numa atmosfera de caos. Desse modo, o tra-
rância, a não ser experimentando na dor as consequências do
balho necessário da evolução não se pode cumprir a não ser
erro. Caminhando, sofrendo e aprendendo, o fardo se tornará
carregado de sofrimentos.
cada vez mais leve, a estrada menos íngreme e o passo mais
Imaginemos uma estrada de rodagem onde correm muitos
rápido. É necessário andar até que todo o caminho seja percor-
rido. És livre... Podes parar, retroceder, rebelar-se, errar à von- carros. Eles são livres para correr numa direção ou em outra,
tade. Faze o que quiseres. Mas, acima de tudo, a Lei permane- mais ou menos rapidamente, tendo liberdade de parar etc., mas
ce inatingível e imutável. As consequências de tua conduta são tudo isso conforme normas estabelecidas, sem o que não seria
tuas e, se ela for errada, terás que sofrer todas aquelas conse- possível o trânsito regular. A desordem seria um desastre para
quências até aprenderes a movimentar-te com disciplina dentro todos e, por isso, embora às vezes contra a vontade, todos têm
da Lei, de maneira a não gerares para ti mais sofrimentos. Po- de se colocar em obediência, na disciplina da ordem. O cami-
des, se quiseres, não prestar ouvidos aos sábios avisos. Junto a nho da evolução, ao longo do qual se desenvolve a série das
muitas fontes em que tu quererias matar tua sede de felicidade, nossas vidas, é parecido com aquela estrada onde nós andamos
há tabuletas que avisam: “Veneno!”, prevenindo-te para que todos juntos, como os carros, e nele também, para que a marcha
não bebas. Mas tu não acreditas e não escutas. Então sorverás não se transforme numa confusão dolorosa, existem normas,
veneno até saberes quantas amarguras ele gera e, assim, apren- sem as quais a caminhada regular não é possível. No entanto,
deres a não bebê-lo mais. O caminho é longo e duro, mas Eu embora a desordem torne-se um desastre para todos, nem todos
velo pela tua salvação, que terá de realizar-se”. se colocam em obediência na disciplina da Lei.
34 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
Ao contrário, a maior inclinação do indivíduo parece con- O tipo biológico do primitivo, ainda não evoluído, possui
sistir em pensar só em si mesmo, descuidando-se dos prejuízos somente essa inteligência microscópica, mas, em compensação,
que pode ocasionar aos outros. Surgem assim os astutos, sem- é dotado de muita força no seu plano físico, com capacidades
pre trilhando o caminho mais curto. A sua maior tentação é sal- guerreiras para agredir o próximo e maxilares de lobo para tudo
tar à frente dos outros. Escolhem as estradas mais fáceis, que devorar. Isso lhe é necessário para sobreviver no seu nível. Mas
encurtam distâncias, para ser os primeiros por qualquer meio. que sentido tem isso em relação ao caminho progressivo da
Infelizmente, a inteligência deles desenvolve-se apenas neste evolução? A força, no nível material, representa o capital dei-
nível primitivo do individualismo caótico, sendo ainda incapaz xado pela Lei ao involuído para ele conquistar a inteligência, e
de compreender qualquer forma orgânica de funcionamento co- esta, nas mãos do evoluído, que já a conquistou, é um meio
letivo. Em nosso mundo, acontece então o que aconteceria nu- mais poderoso. Na parte inferior da cabeça do lobo está a boca,
ma estrada onde cada carro corresse por sua conta, sem regra poderosa na sua voracidade. Na parte superior estão o nariz pa-
alguma, procurando vencer os outros, passando à frente deles. ra cheirar, os ouvidos para ouvir e os olhos para ver, ou seja, as
A sabedoria desses astutos, que se julgam tão hábeis e querem atividades mais requintadas dos sentidos. No alto, entretanto,
somente sua própria vantagem, acaba no que vemos sempre está o cérebro para pensar, cuja atividade é necessária para
compreender as mensagens dos sentidos e dirigir os movimen-
acontecer, ou seja, em esmagamento recíproco, revoluções,
tos da boca e de todo o corpo.
guerras e destruição. Mas, no fim, quem vence não é um ven-
Que acontece então? Para usar a parte física, é necessária a
cedor, pois restam apenas o caos e o sofrimento que permanen-
inteligência, que começa, assim, a se desenvolver através do
temente dominam o mundo.
uso necessário à sua atividade, o que é indispensável à sobrevi-
O mundo está cheio de astutos no encalço do caminho mais vência do ser no seu plano. Eis que a necessidade da luta pela
curto. Eles estão presos às suas miragens de felicidade, em bus- sobrevivência nos planos inferiores leva à necessidade do de-
ca de riqueza, glória e poder. Impele-os a cobiça, o orgulho e o senvolvimento da inteligência, que é o meio para sair daqueles
desejo de domínio. E pensam: “Por que escolher o caminho lon- planos. Assim, só pelo fato de existir, a vida automaticamente
go do trabalho honesto, do verdadeiro valor, com uma finalidade tende a se deslocar no sentido dos níveis superiores, realizando
de bem, que nos dê conforme a justiça direito à recompensa me- a evolução. O centro vital se desloca dos maxilares para o cére-
recida, quando o atalho está ali pronto, convidando-nos a encur- bro do lobo, até que ele, como aconteceu no cão, perde a fero-
tar o caminho?”. Para os conhecedores da ciência do proveito cidade dos dentes, para transformá-la, convivendo com o ho-
imediato, em curto prazo, é lógico praticar esse outro método, mem, no poder muito maior da inteligência. Não vemos nós
menos fatigante e mais vantajoso. Trabalhar e produzir seria acontecer isso na evolução dos seres, em sua passagem do esta-
uma loucura para eles, quando podem com o roubo enriquecer do selvagem ao civilizado? A ferocidade fica abandonada nos
mais fácil e rapidamente, satisfazendo o próprio orgulho, para planos inferiores, para os atrasados que ainda permanecem ali,
chegar à glória com o engano e a mentira; quando há tantos ata- e a inteligência desenvolve-se sempre mais, valorizando as qua-
lhos para chegar ao poder e, desse modo, saciar o próprio desejo lidades da mente. Só neste nosso século vemos os cientistas
de domínio. Assim pensam e fazem os astuciosos, enquanto amparados e admirados, porquanto, no passado, a sociedade os
olham com desprezo para os simples, que avançam ordenada- desprezava, deixando-os morrer de fome e glorificando tão-
mente, na estrada de todos. Mas nem por isso deixa de subsistir somente os grandes e ferozes guerreiros. Isto quer dizer que,
a Lei, que, empurrando os astutos para o abismo, procura, com a com a evolução, têm de desaparecer mandíbulas e garras,
destruição deles, libertar a vida dos elementos parasitários, que agressividade e ferocidade, armas de destruição e guerras, para
semeiam tão-somente a desordem e o sofrimento. que vença a inteligência criadora e pacífica.
Poderíamos perguntar-nos por que acontece tudo isso? A nossa humanidade atual ainda está na fase das mandíbu-
Como se explica essa loucura? A loucura é um problema de las e das garras, mas, usando-as, está desenvolvendo a inteli-
pobreza de inteligência. A tarefa da evolução é desenvolver es- gência. Eis como se compreende e se justifica a presença de
sa inteligência, pois todo ser possui maior ou menor inteligên- tanta luta em nosso mundo. Tudo na vida existe porque tem
cia, conforme o grau de desenvolvimento atingido. Ela começa uma função a cumprir. De outro modo não existiria. Se a Lei
a aparecer como um fenômeno de superfície, quando o indiví- permite que neste nível domine a luta, isto acontece pelo fato
duo apenas compreende os efeitos imediatos dos fatos que desta representar, para os seres situados neste plano, o melhor
abrange com os sentidos, e tende depois a tornar-se sempre meio para desenvolver a inteligência, indispensável à sua en-
mais profunda, chegando a atingir também as causas longín- trada nos planos superiores. Estamos ainda no nível animal,
em que o ser é impelido pelas necessidades e cobiças materi-
quas dos fatos e os efeitos em longo prazo. A visão psicológica
ais, muito mais do que pelas exigências intelectuais e espiritu-
dos primitivos poderia ser chamada de microscópica. Nessa
ais. Domina o individualismo egoísta e separatista em função
sua forma mental, eles estão mergulhados até o pescoço, de
do eu, porque a evolução tem de cumprir aí, antes de tudo, a
modo que não conseguem admitir nem compreender a visão
construção da personalidade.
psicológica dos evoluídos, que se poderia chamar de telescópi- Num grau mais avançado cuida-se, pelo contrário, de rea-
ca. Os primitivos estão apegados às verdades pequenas, que se lizar um trabalho diferente, destinado a coordenar as persona-
pode tocar com as mãos, verdades que eles julgam como reali- lidades na unidade coletiva da humanidade. Então, a luta entre
dade objetiva e única, enquanto negam, porque lhes escapa, egoísmos rivais perde todo o sentido, tornando-se um empeci-
qualquer outra realidade mais vasta e longínqua. Assim eles lho que é necessário afastar. O herói, vencedor das pelejas do
vivem como aventureiros, procurando, por qualquer meio, sa- nível atual, torna-se um criminoso que a sociedade civilizada
tisfazer o momento presente, sem prever e organizar nada para isola e afasta. Com o progresso, a evolução quer atingir outros
o futuro. Vivem como micróbios encerrados dentro de uma go- objetivos, enfrentando novos problemas, ligados à fase orgâ-
ta de água, ignorando o mundo maior que existe fora; apegam- nica, desconhecida anteriormente. A evolução conduz à união,
se aos pormenores da sua vida microscópica, com a sua vista e o indivíduo, quanto mais evoluído, tanto melhor sabe viver
míope, percebendo só os resultados próximos e correndo atrás em forma orgânica. Desponta, assim, uma disciplina que regu-
deles, sem nada suspeitar da imensa vida das estrelas nos céus, la as relações humanas e a conduta dos homens, para torná-
sem saber que, para além dos seus mínimos movimentos, exis- los elementos do novo eu múltiplo, que é a sociedade humana.
tem também os imensos movimentos dos astros. Em lugar da revolta na desordem, valorizam-se as qualidades
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 35
de ordem na obediência à Lei. Então, rebelar-se contra Ela É possível, desse modo, estabelecer a causa do que nos
torna-se loucura. Desse ponto em diante, a vida obedece a acontece e também dos ataques recebidos.
princípios novos, que o ser, pertencendo a um plano inferior, 1o) Ela não está no acaso.
não pode compreender enquanto não houver superado tal ní- 2o) Dentro dos limites marcados pela Lei, ou vontade de
vel. A baixa inteligência, constituída de luta e astúcias, que Deus, a causa está na vontade do homem. Isto porque lhe é per-
conduzem à desordem, transformar-se-ão na superior inteli- mitido escolher entre o certo, permanecendo na ordem da Lei, e
gência, constituída de disciplina e ordem. o errado, saindo dessa ordem com a desobediência. Tudo o que é
Sem dúvida, para quem alcançou uma compreensão mais devido à vontade do homem poderia chamar-se de causa próxi-
vasta, é um sofrimento ver a inteligência, centelha de Deus, ma. Neste ponto sua vista míope detém-se, e ele, nada vendo
corromper-se em astúcias e enganos. Mas este baixo uso dela mais além, acredita ter atingido o ponto final do problema.
se justifica como sendo um meio para chegar a compreender a 3o) Além das causas secundárias e periféricas – encarrega-
inferioridade desses métodos e, assim, acabar por superá-los e das de dirigir o caso particular, deixando o homem em liberda-
abandoná-los. O involuído despreza, julgando-o tolo e simpló- de, de maneira que ele aprenda – existe uma causa maior, prin-
rio, quem não usa seu sistema e não vence com ele. Mas a Lei cipal e central, que, por ser a origem de todas as outras, dirige e
é tal que os inferiores têm de usar estes métodos baixos sobre- domina as causas menores. Então aquilo que se julga como a
tudo para chegar a encontrar e aceitar, amanhã, métodos supe- única e primeira fonte dos acontecimentos da vida, não é senão
riores, que hoje desprezam. uma causa relativa, momentânea e aparente, um meio em que
se realiza uma causa muito mais longínqua – verdadeira, fun-
XX. A JUSTIÇA DA LEI damental, absoluta e definitiva. É lógico que esta outra causa,
tão diferente, só pode estar no seio do último termo, isto é, em
Contra o método do mundo, de ataque e defesa, Deus e na sua vontade, acima de todas as coisas.
só a não-resistência do Evangelho resolve. Acontece que essa causa maior abrange e coordena todas as
Nosso ofensor, instrumento da justiça da Lei. causas menores movidas pelo homem, inclusive sua liberdade
de oscilação entre acerto e erro, bem e mal etc., as quais têm de
obedecer e estão sujeitas àquela causa maior, que é a justiça de
No capítulo precedente, constatamos que a sabedoria do
Deus. Desse modo, o homem está livre para agir de modo certo
mundo consiste, em grande parte, na arte que praticam os astu-
ou errado, porém sua liberdade termina aí, pois, além desse
ciosos, que seguem o caminho mais curto com a intenção de
ponto, atua outra causa, que é a Lei, isto é, a justiça de Deus,
escapar à Lei. Dessa forma de encarar a vida, como já vimos,
com as suas fatais reações contra a desobediência.
nasce a luta, cuja finalidade, que a explica e justifica, é desen-
Sem dúvida, o ataque que nos golpeia é movimentado por
volver a inteligência nos seus níveis mais baixos.
um ser ao qual, por isso, chamamos de inimigo. Este, no entan-
Continuemos a observar outros aspectos do problema de
to, é só a causa próxima, contra a qual, em nossa miopia, come-
nosso comportamento com respeito à Lei, para ver quais são
çamos a lutar. Mas como se pode corrigir tal fato, enquanto não
as consequências de nossos diferentes atos e a maneira como
atingirmos suas causas profundas e, nelas, realizarmos nossa
nos conduziremos melhor, para evitar erros e sofrimentos. Ve-
rificamos que nossa vida atual está regida pela lei da luta, on- atividade corretora? Explica-se, assim, o motivo pelo qual o
de o mais forte vence e domina. Isto significa que, a todo o mundo, operando na superfície, não recolhe senão resultados
momento, estamos sujeitos a receber ataques. Daí a necessi- superficiais. Na verdade, apesar das armas para a defesa esta-
dade de uma defesa. Que nos diz a Lei a esse respeito? Como rem sempre em ação, os ataques voltam a surgir continuamente,
resolve ela o problema? Quais são nossos direitos e deveres? de todos os lados, e o problema permanece sem solução. O úni-
Qual a conduta que nos conduz a resultados melhores? Qual co fato que continua de pé é a luta contínua de todos contra to-
deve ser a nossa reação ao ataque? Qual o método mais sábio dos. Mas isto é lógico, pois não se pode curar uma doença só
e vantajoso para resolver o caso? com o tratamento dos seus sintomas exteriores.
Este é um dos pontos onde mais ressalta a oposição entre o Assim, o mundo fica na superfície do problema. Cada um
sistema do Evangelho e o do mundo. O primeiro sustenta a re- procura destruir seus inimigos, mas não a causa que os gera;
gra da não-resistência, e o segundo, o uso da reação violenta. Já afastar os golpes, mas não a causa que os produz. É lógico que,
vimos que se tratam de leis pertencentes a dois níveis evoluti- para o problema ser resolvido, eliminando em definitivo os
vos diferentes, leis verdadeiras, cada uma no seu respectivo efeitos, é necessário que seja removida não somente a causa
plano de vida, ao qual estão adaptadas. Trata-se de duas manei- próxima deles, mas também sua causa primeira, de onde tudo
ras de conceber, em função de pontos de referência diferentes. deriva. Porém os homens práticos do mundo, sempre apegados
Quando recebemos um golpe, sabemos nós de onde ele à realidade, preferem cuidar das causas próximas, porque estas,
vem? Sua origem pode, em princípio, encontrar-se em uma des- podendo ser tocadas com a mão, são consideradas positivas,
tas três causas: 1o) O acaso; 2o) A vontade do agressor; 3o) A enquanto as causas primeiras, sendo julgadas teóricas e fora da
vontade de Deus. Observemo-las: realidade, por não serem percebidas pelos sentidos, são ignora-
1o) A teoria do acaso é inaceitável para quem sabe que o das. Mas o fato de que esse problema, nascido com o homem e
universo é um organismo cujo funcionamento é regulado pela sempre encarado com este critério, não ter sido resolvido de-
Lei. Num sistema desta natureza não pode haver lugar para o pois de tantos milênios e ainda subsistir, nos prova que, neste
acaso, sobretudo no que respeita à dor, coisa tão importante, caso, esses homens práticos estão errados.
por suas causas e pelos seus efeitos no destino de um homem. Num sistema centro-periférico como o nosso universo não
2o) Temos visto que a vontade do homem está fechada entre pode haver caminho que não leve a Deus. Só pode estar n'Ele a
limites, como a liberdade de um peixe no rio ou de um carro na causa primeira de tudo. Mas como pode Deus ser a causa dos
estrada, de onde não podem sair. golpes que recebemos? Não há dúvida que eles saem das mãos
3o) Quem estabelece esses limites intransponíveis e a regra dos nossos inimigos. Mas, se existe uma lei geral de ordem, co-
certa de todo movimento dentro deles é a vontade de Deus, mo nos parece cabalmente demonstrado, qual é o poder que os
por Ele mesmo escrita na Sua lei. Transpor esses limites dá deixa movimentar-se contra nós? E por que de uma determinada
origem à dor. forma, e não de outra? Como pode Deus permitir que uma fun-
36 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
ção tão importante como a Sua justiça fique abandonada nas não merece nem ódio nem vingança. Quem compreendeu isto,
mãos dos nossos agressores, deixando a eles o poder de julgar e ao receber o ataque, aceita-o como lição das mãos de Deus, que
punir, que só pode pertencer a Ele, pois só Ele sabe o que faz? A não quer com isso vingar-se nem punir, mas sim endireitar-nos,
reação da Lei tem de ser, conforme a justiça, proporcionada à para que, assim, saiamos do erro e do sofrimento. Desse modo,
qualidade e extensão do nosso erro. Num trabalho tão importan- voltamos à ordem da Lei, enquanto que, usando o método do
te, que exige tanto conhecimento, como pode Deus, que tudo di- mundo, saímos mais ainda para fora daquela ordem, aumentan-
rige, ser dirigido pelos nossos ofensores e ter de obedecer à von- do dívidas e sofrimentos. Se alguém nos ofender sem que o me-
tade e ignorância deles? Que podem eles saber do nosso mere- reçamos, o ataque não nos alcança, pois não pode penetrar, e
cimento? Nesse caso, então, desabaria todo o edifício da Lei, ba- quem nos quis fazer o mal não o faz a nós, mas a si mesmo. Tu-
seado na ordem e justiça; seria o caos no seio de Deus. Segue- do volta à sua fonte. Quem é verdadeiramente inocente perma-
se de tudo isso que não pode surgir um ataque contra nós se não nece invulnerável a todos os assaltos. Mas encontra-se porventu-
o tivermos merecido. O homem que o executa, seja quem for, é ra, em nosso mundo, quem seja completamente inocente?
só uma causa secundária. Qualquer indivíduo, funcionando co- Então, quando alguém nos ataca, isso acontece conforme a
mo instrumento, pode realizar isso, quando, pelas qualidades justiça de Deus. Nossas contas são com Deus, e não com nosso
que possui, encontra-se nas condições apropriadas. Então, apa- inimigo. Se ele nos faz mal, ele terá também suas contas com
recerá em nossa vida um ofensor. Se isto não for possível de um Deus e deverá pagá-las, mas isso não nos pertence. Surgirão pa-
modo, acontecerá de outro. Sejam quais forem nossos poderes ra ele outros inimigos e ataques, para que sempre se cumpra,
humanos, ninguém poderá paralisar o funcionamento da Lei no em relação a todos, a justiça de Deus. Seja qual for o mal, quem
seu ponto fundamental: a justiça de Deus. Conforme esta justiça, o pratica – apesar de funcionar como instrumento de Deus para
ninguém poderá chegar até nós, se não tivermos, com nossos er- corrigir seu irmão, aproveitando-se da fraqueza deste, que dei-
ros, deixado as portas abertas. Ficaremos, assim, à mercê de to- xou suas portas abertas, para lhe fazer o mal – abre por sua vez
dos os atacantes, quaisquer que eles sejam, se tivermos merecido suas próprias portas, pelas quais outros inimigos estão sempre
a reação da Lei, que os fez seus instrumentos. prontos a entrar, utilizados por Deus como instrumentos da Sua
Quando o problema está enquadrado nesses termos, parece justiça. Desse modo, também os maus são utilizados por Deus
claro que a defesa praticada pelo mundo, limitada só contra o como instrumentos da Sua justiça, para gerar o sofrimento, cuja
ofensor, não somente é inútil, mas também representa um novo tarefa é purificar os bons A conclusão é que ninguém pode re-
erro que se junta ao velho, aumentando-o. O remédio, então, é ceber uma ofensa que não tenha sido merecida. Neste caso, não
só um: não merecer a ofensa, ou seja, tomar cuidado em prepa- nos resta senão bater no peito, procurando, antes de tudo, pagar
rar o nosso futuro, não errando em ir contra a Lei e, assim, não nossa dívida, deixando aos nossos inimigos, quando chegar sua
merecendo sua reação. E, se a tivermos merecido, em nada vez, pagar igualmente suas contas pelo mal que tiverem feito,
adianta fugir: é necessário pagar. Poderemos destruir com a porque a Lei é igual para todos. Há uma Divina Providência pa-
força todos os nossos inimigos. Outros surgirão para nos per- ra cada um. Mas, para ser justa, ela providencia o bem para os
seguir, enquanto não tivermos pagado tudo. Se construirmos a bons e o mal para os maus.
casa do nosso destino sobre as areias movediças da prepotên-
cia e da injustiça, é lógico que ela caia sobre nós. Mas, se co- XXI. O EVANGELHO E O MUNDO
locarmos seus alicerces sobre as rígidas pedras da justiça, ela
não desmoronará. Assim sendo, tudo depende de nós mesmos, Não-resistência ao mal não quer dizer anulação da justiça.
e não dos outros. O inimigo que nos agride somos nós mes- Renunciar à vingança. Perdoar a ofensa; esquecê-la.
mos, ao provocarmos com o erro a reação da Lei, que, por sua Com o afastamento, desligar-se em tudo do ofensor.
vez, movimenta os elementos apropriados para executar essa
reação. Agora se pode compreender melhor o que tantas vezes O que temos dito até agora explica e justifica o método da
dissemos: quem faz o bem, assim como quem faz o mal, o faz não-resistência pregado pelo Evangelho. Assim chegamos a
a si mesmo. Pela justiça de Deus não pode haver um mal que compreender o seu significado, seus objetivos e a razão de sua
não tenha sido merecido. Isto não quer dizer que a justiça de existência. Trata-se do método de vida mais adiantado e perfei-
Deus, sozinha, por si própria, quer movimentar o ataque contra to que existe. Trata-se do sistema de quem pertence a um plano
nós. A divina justiça representa apenas a norma que regula- de existência superior. Trata-se, como num trabalho de intros-
menta e o poder que impõe o desencadeamento do ataque con- pecção, de se colocar perante Deus, examinando nossa consci-
ência, para ver o que de verdade merecemos. Entre os dois mé-
forme a Lei, quando o tivermos merecido.
todos, o homem é livre para escolher aquele que preferir, mas
Por isso nosso inimigo, contra o qual apontamos nossas
não é livre para deixar de aceitar as consequências de sua esco-
armas, não tem contra nós poder algum além daquele que nós
lha: 1) O método revela o grau de evolução atingido; 2) O mé-
mesmos lhe conferimos com nossas obras contra a lei de Deus.
todo do mundo, que é o da luta pela seleção do mais forte, está
Se nós destruirmos com a força esse inimigo, crescerá a nossa
adaptado para desenvolver apenas a inteligência do tipo bioló-
dívida perante a justiça da Lei, e, com isso, concederemos a gico egocêntrico, separatista, que vive no plano animal. Trata-
um número maior de inimigos poderes maiores contra nós. se de uma inteligência de curto alcance, sujeita a todas as ilu-
Que se ganha então usando o método do mundo? Aparece aqui sões sensórias e psicológicas do ser primitivo, que ignora a ver-
a necessidade lógica de praticar o método da não-resistência, dadeira natureza da vida e a estrutura do universo; 3) O método
porque ele é o único que representa um verdadeiro sistema de do Evangelho, que é o da não-resistência, está adaptado para
defesa. Paralisar o inimigo não paralisa o ataque, mas piora desenvolver a inteligência do tipo biológico altruísta, unitário,
nossa posição, porque o verdadeiro inimigo não é aquele que que superou o plano animal e vive na fase da colaboração fra-
vemos. Trata-se de uma ilusão dos nossos sentidos, ilusão que ternal dos grandes organismos sociais, nos quais a luta foi bani-
cabe à inteligência desfazer. da por ser contraproducente. Trata-se de uma inteligência de
Quem compreendeu como funciona o jogo da vida, que es- longo alcance, que chegou a compreender a realidade além do
tamos explicando, não reage contra seu ofensor quando recebe jogo das ilusões e pode, por isso, orientar com conhecimento o
uma ofensa, pois sabe que ele, representando apenas um instru- homem na sua conduta; 4) O método do Evangelho resolve o
mento cego nas mãos de Deus, não tem valor algum e, por isso, problema da luta, o que não sucede com o método do mundo,
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 37
porque este só gera uma série de ações e reações sem fim. O entrega-se apenas à defesa que lhe podem garantir suas forças,
mundo não pode deixar de aceitar a consequência do método porque não sente a presença de Deus e não acredita no domínio
que ele mesmo pratica, e o efeito neste caso significa a guerra absoluto da Sua lei de justiça. Ele acha, por isso, que, se ele pró-
contínua. Esta guerra, que parece uma triste condenação, está prio não realizar a justiça com seus recursos, ela não será feita.
implícita no sistema hoje em vigor, não sendo ela senão uma Está convencido de que, se praticar o método evangélico da não-
consequência inevitável da involuída psicologia do homem e da resistência, ele acabará sendo vítima de todos. O erro está no fa-
sua respectiva conduta, inerentes ao seu atual nível de evolução. to de acreditar que a função de realizar a justiça seja um direito
Cristo, com Seu exemplo, realizou na prática o método da do ser humano e que, sem sua iniciativa, esta justiça não se
não-resistência, que constitui a condenação mais completa ao cumpre. O homem pode realmente intervir, mas não por si pró-
sistema humano de ataque e defesa. A luta entre Cristo e o prio, e sim apenas para obedecer à Lei, quando esta quiser utili-
mundo representa a luta entre dois planos de vida e tem um zá-lo como instrumento da sua justiça. Que esta, no entanto, só
profundo significado biológico em relação ao problema da evo- dependa do homem é absurdo, porque a Lei é feita de ordem e
lução. O Evangelho tem não só um sentido moral e religioso, equilíbrio, e a sua função fundamental é a justiça. Então praticar
mas também biológico e social, que a ciência um dia terá de o método da não-resistência não significa que a justiça não será
compreender. O homem que chega a praticar o Evangelho entra feita em favor de quem a merece. Mesmo que o homem não se
num plano de existência superior e possui poderes superiores, defenda, nem por isso o transgressor deixará de ter de pagar o
dominando o atual plano humano e ficando acima de todas as que deve pela sua transgressão, pois, caso contrário, não haveria
suas lutas. Mas quem continua enganando e esmagando o pró- justiça. Tudo o que se faz contra a ordem da Lei tem de ser pa-
ximo permanece amarrado ao método da luta e a todos os seus go, porque só assim tudo pode ser reconduzido à sua ordem.
sofrimentos. Para este último, a inteligência especulativa, que Quando recebemos uma ofensa, não somos nós que deve-
procura o conhecimento das causas primeiras, é considerada lu- mos exigir do ofensor a necessária reparação. Deus, que é o ju-
xo de sonhadores e perda de tempo, porque o que vale para ele iz, necessariamente vai julgá-lo e impor Sua justiça, exigindo o
são as capacidades guerreiras, estando o problema da vida fe- pagamento da dívida e reconduzindo o transgressor à ordem da
chado dentro do pequeno mundo da agressão recíproca e da vi- Lei. Não devemos achar que, com o perdão, a justiça não seja
tória de cada um sobre os outros. feita. O melhor para nós será a não-reação, permanecendo ino-
O erro do mundo consiste em ignorar a presença da Lei, centes perante Deus. Assim, não teremos dívidas a pagar, por-
deixando de levar em conta este fator fundamental. Assim, que não transgredimos a Lei. Desse modo, enquanto nosso
quando o homem recebe um ataque, em geral apressa-se a rea- ofensor fica esmagado pela reação da Lei, nós ficaremos livres
gir com um contra-ataque, porque julga que, se não o fizer, e tranquilos, porque, uma vez que perdoamos, não somos deve-
perdoando, isto significa ter de receber e absorver o mal. Mas dores, mas sim credores, e, assim, a justiça de Deus, ao invés de
nisto só pode acreditar o homem míope, fechado no seu pe- nos perseguir, irá nos defender. Eis o método do Evangelho,
queno mundo de lutas, ignorando que vivemos dentro de um que nos leva a posição mais vantajosa, em contraposição ao
todo orgânico, dirigido e dominado pela justiça de Deus. Quem método do mundo. É erro acreditar que a moral do Evangelho,
compreendeu sabe que deixar de reagir não significa ter de ab- com suas virtudes, esteja contra a vida. Ela está a favor da vida,
sorver o mal, pois: 1) A reação é um direito que não pertence mas de uma vida maior, que o mundo ainda não compreende.
ao homem, mas só à lei de Deus; 2) Se desejamos justiça, po- Então, qual deve ser nosso método de defesa, quando rece-
demos ter certeza de uma coisa: a reação da Lei é muito mais bemos uma ofensa? Qual é, neste caso, a melhor forma de rea-
poderosa que as reações alcançáveis pelos nossos pobres recur- gir? Como se resolve o problema da vingança? Com o princípio
sos humanos, isso porque também não há distância de tempo ou da não-resistência, verificamos a entrada de outras forças no
espaço que possa paralisá-la; 3) Com nossa reação humana, não sistema de nossa estratégia de guerra, e isto nos leva para uma
afastamos nem anulamos o mal, a não ser na aparência e provi- conduta diferente da comum. Quando alguém faz uma coisa in-
soriamente, porque, sem eliminar sua causa, ele voltará para justa contra nós, a grande maioria acredita que temos de reagir,
nós; com nossa reação, geramos outro mal igual, aumentando-o pois julga ser loucura, e não sabedoria, deixar a reação nas
em lugar de anulá-lo, atraindo-o para nós, em vez de afastá-lo. mãos da Lei, que sabe cumpri-la muito melhor. Não será o nos-
Assim, quem entendeu o Evangelho, quando fala de não- so desejo, porventura, que haja justiça? Então, se o nosso dese-
resistência, não pode julgar o método do nosso mundo senão jo, ao invés de praticar outra injustiça maior, é verdadeiramente
como uma loucura, capaz de gerar somente sofrimentos. este, ninguém poderá realizá-lo melhor do que a Lei, cuja tarefa
O Evangelho não está perseguindo sonhos fora da realidade. fundamental é exatamente a justiça.
Pelo contrário, tem uma lógica bastante racional e positiva. Tra- Observemos, então, a técnica pela qual se desenvolve esse
ta-se tão-somente de uma realidade diferente, que o homem, processo de defesa. Examinemos quais são as condições neces-
por não a compreender, julga errada, como coisa irrealizável. sárias para que a Lei funcione e realize em nosso favor essa de-
Se, ao invés de nos impelir contra o ofensor, o Evangelho nos fesa. Antes de tudo, é necessário que renunciemos à vingança.
leva para o perdão, isto encontra sua plena justificação no fato Isto é lógico para quem compreendeu que é muito mais fácil
de que a verdadeira causa que devemos combater não é o ofen- chegar à justiça por intermédio da Lei, porquanto ela possui
sor, mas nós mesmos, que, perante a Lei, merecemos a ofensa. poderes maiores do que os nossos. O mundo julga essa renún-
Se o objetivo tem de ser a destruição do mal, e não o seu deslo- cia, que nos faz recuar perante o ataque, como fraqueza e co-
camento de um lugar para outro, como faz o mundo, então é ló- vardia. Isso pode ser verdade na lógica das leis que dirigem o
gico e sábio o método do Evangelho, pois este, ao invés de nos plano de vida animal e, também, do homem que pertence a este
estimular contra a causa próxima e aparente, que é o nosso ini- nível. Mas, para quem subiu a um plano mais alto, essa renún-
migo, convida-nos a perdoar-lhe e entregar tudo à justiça de cia significa remover um obstáculo, lançando por terra a barrei-
Deus, sem resistência, dirigindo-nos, pelo contrário, para a ver- ra representada pela nossa intervenção, que paralisaria o funci-
dadeira causa, que são nossos erros e defeitos. Só desse modo onamento da Lei com relação a nós.
se pode acertar o alvo. E isto o mundo ainda não conseguiu, Assim, a primeira coisa a fazer é renunciar à vingança. Só
como prova o fato de que ele, apesar de estar sempre destruindo quando tivermos atingido a completa libertação deste liame
inimigos, ainda está cheio deles. com nosso ofensor, poderá entrar em ação a Lei, substituindo
Então, o que teremos de fazer, se quisermos, de fato, enca- sua ação à nossa. Porém, enquanto quisermos fazer justiça, a
minhar-nos para um nível de vida superior? O homem comum Lei respeitará nossa livre escolha e não intervirá, para não so-
38 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
brepor um juiz e executor de justiça a outro. Mas acontece tam- XXII. A IMPECÁVEL JUSTIÇA DA LEI
bém outro fato. Quando tivermos realmente renunciado à vin-
gança, e só neste caso, ela se realizará automaticamente, sem Por que o mundo não segue o método da não-resistência?
nossa intervenção, por intermédio da Lei, que, indiretamente, Para que ele funcione, é necessário merecer a defesa da Lei.
para que a justiça seja feita, tem de cumprir também essa vin- Não adianta pedir justiça, quando estamos praticando
gança, que está nela implícita. Portanto poderíamos afirmar que injustiça. A Divina Providência.
só se pode chegar à mais completa vingança, quando tivermos
destruído em nós todo o desejo dela, perdoando tudo, e não ti- Explicamos no capítulo precedente o significado, a razão
vermos feito nada para realizá-la, deixando, pelo contrário, tudo profunda e as vantagens do método da não-resistência susten-
nas mãos de Deus, isto é, entregue à reação da Lei. tado pelo Evangelho. Terminamos nossa conversa com esta
O primeiro passo, então, é renunciar à vingança. O segundo pergunta: por que o mundo ainda não compreende a utilidade
é perdoar a ofensa. Mas ainda há mais. Embora renunciando à deste método de vida e não o segue? Observemos agora as ra-
vingança e perdoando a ofensa, podemos ficar com sua lem-
zões deste fato.
brança e com o rancor e ódio por ela gerados. Enquanto tiver-
O sistema do Evangelho, pode-se dizer, funciona em longo
mos dentro de nós a ideia de um direito nosso não satisfeito, ele
prazo, por ser de longo alcance. O sistema do mundo, pelo con-
pertencerá a nós, e a Lei não poderá transformá-lo em seu direi-
trário, funciona em curto prazo e é de curto alcance. Isso é lógi-
to, para tomar nosso lugar na defesa. Para que isto aconteça, é
co, porque, neste segundo caso, tratando-se de um plano de vi-
necessário esquecer o problema de exigir justiça para nosso ca-
so particular, porque só assim ele se pode tornar problema per- da menos evoluído, tudo nele é mais limitado no tempo e no
tencente à Lei, que é a realização da justiça universal. Quando espaço. Isso também corresponde à forma mental do homem
cumprirmos todas essas condições, podemos ficar sossegados, prático, que percebe só de perto, como os míopes, e se julga po-
esperando a automática realização da justiça, o que elimina a sitivo e adaptado à realidade porque só enxerga as coisas con-
necessidade de uma vingança. Neste caso, a realização da justi- cretas e os efeitos imediatos. Esse tipo de homem tem pressa de
ça terá a vantagem de não representar, de nossa parte, uma nova realizar as coisas, porque seu mundo é o caos, o reino desorga-
injustiça para corrigir a anterior, como se costuma fazer no nizado da desordem, onde nada de duradouro se pode construir,
mundo, e ela, assim, não aumentará nossa dívida, mas será ape- pois só há lutas e incertezas no amanhã. Esse homem está fe-
nas o cumprimento da justiça em nossa defesa, na qual o deve- chado na sua psicologia de nível sensório, que, por isso, é cheia
dor terá de pagar, enquanto que, ao mesmo tempo, nos deixa de ilusões, nas quais ele acredita cegamente, pois não possui
inocentes de tudo isto, livres de novas culpas, que depois, por ainda a inteligência de nível especulativo, capaz de orientá-lo
sua vez, teríamos de pagar. com o conhecimento das causas primeiras e do funcionamento
A coisa mais importante é ficarmos isentos de qualquer orgânico do todo. Por estas razões, o mundo não pode ainda
dívida. O segredo de nossa vitória não é possuirmos força, compreender a utilidade desse novo método de vida que aqui
mas sim estarmos limpos de qualquer mancha. Por isso não explicamos e, por conseguinte, não o pratica.
devemos ficar ligados ao ofensor, que representa a injustiça, Mas não o pratica também por outra razão. Nas mãos do
nem mesmo por um pensamento de vingança. Quem apenas homem comum, o método do Evangelho não funciona porque
perdoa não reage e não exige compensação, no entanto admi- ele não sabe fazê-lo funcionar. Para que isso seja possível, é ne-
te a ofensa e a dívida dos outros a seu respeito. Mas, para que cessária a execução de todas as condições indispensáveis já es-
se desloque completamente de nós para a Lei a função da rea- tudadas. Para que, em relação a nós, possa funcionar a Lei da
lização da justiça, é necessário não conservar na própria men- justiça, é preciso, antes de tudo, nos colocarmos dentro da justi-
te nem a lembrança da ofensa nem a do ofensor. Não signifi- ça desta Lei, e não fora dela. Isso quer dizer que, com nossa ino-
ca isso que a experiência não tenha de ser aprendida, mas sim cência, merecemos a defesa da Lei, mas, com nossa culpa, me-
que venha a se completar no esquecimento definitivo, que é o recemos os golpes da Lei. Para poder reclamar justiça, é indis-
único que resolve, para que o caso não se repita e não conti- pensável viver no terreno da justiça. A Lei não pode funcionar
nue numa cadeia de novas injustiças sem fim. É difícil sair em favor da injustiça. Ora, se a Lei interviesse para defender
dessa rede, uma vez que caímos nela. À força de injustiças, quem, pelo contrário, merece uma lição corretora, isto não seria
nunca será possível chegar à justiça, ao passo que, perdoando justiça, mas sim injustiça. E este, muitas vezes, seria o desejo do
e esquecendo, se entregarmos tudo à Lei, perante ela ficam homem. E aí está o problema. Quando somos atingidos por uma
de pé e terão de ser resolvidos, em perfeita justiça, o débito
decepção, podemos, porventura, ter a certeza de que ela foi cau-
do ofensor e o crédito do ofendido. Perdoar não quer dizer
sada somente por quem a provocou? Ou existirá uma causa mais
que o primeiro não tenha mais de pagar e que o segundo não
profunda, constituída pelo merecimento do golpe? Se o golpe foi
tenha de receber. É erro acreditar que o perdão seja contra-
merecido, a Lei terá de intervir contra nós, e não a nosso favor.
producente para nós. Ele representa vantagem, porque liberta
quem perdoa de todas as más consequências e, ao mesmo Para a Lei funcionar a nosso favor, é necessário que sejamos
tempo, não apaga o débito do ofensor, que não tem de prestar inocentes e não tenhamos dívidas a pagar. Mas quem no mundo
contas a um homem (o ofendido), mas sim ao próprio Deus. se encontra nestas condições? É por isso que o método da não-
Só assim se pode sair do plano da injustiça, baseada na força, resistência do Evangelho, na Terra, é julgado utopia absurda. O
que é o plano do mundo, e entrar no plano da justiça, que homem julga com uma forma mental completamente diferente.
pertence a Deus, condição que, para o homem justo, repre- O que lhe interessa não é a justiça, mas a imposição de seu inte-
senta a melhor posição e a maior vantagem. resse com a força. Outra psicologia não pode dominar num pla-
Não há dúvida de que tudo isso tem sua lógica e beleza, mas no onde vigora a lei da luta pela vida. Como pode a Lei defender
é verdade também que quase ninguém o pratica, julgando-o o ofendido, se ele, por outro lado, é um ofensor? Muitas vezes,
loucura. A fera também julgaria loucura mudar-se para as nos- reagimos contra o ofensor, quando nos alegramos com a chega-
sas cidades, onde não saberia viver. Cada um está adaptado ao da de sua punição, merecida por ele e advinda da própria Lei,
seu plano de vida. E isto não destrói as vantagens do progresso. que é justa. Nesse momento, por estarmos festejando a justiça,
Mas por que o mundo ainda não compreendeu e não segue a estamos, na verdade, praticando uma injustiça e, com isso, me-
utilidade desse novo método de vida? Quais são as razões? recendo punição da própria Lei. Como podemos exigir que os
Responderemos a estas perguntas no próximo capítulo. outros nos paguem suas dívidas, quando nós ainda não lhes pa-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 39
gamos as nossas? Como podemos, no banco da justiça da Lei, caso também, trata-se de um fenômeno de longo prazo e de
criar e exigir créditos, quando estamos cada vez mais cheios de longo alcance. A inteligência de muitos, porém, não vê senão o
débitos? Para que possa funcionar o método da não-resistência, que acontece de um dia para o outro e o que eles podem atingir
é necessário primeiramente termos pago à justiça da Lei todas as com suas mãos. A maioria acredita viver no caos e procura, no
injustiças que, antes, praticamos contra o próximo. momento, agarrar o mais que pode, não suspeitando que vive
Ao recebermos uma ofensa, em vez de nos dirigirmos ao num universo orgânico, onde há de tudo, de sobejo e sempre a
ofensor, deveríamos falar com Deus e com nós mesmos, para nosso dispor, se fizermos os movimentos certos conforme as
saber onde está a verdadeira causa da ofensa e verificar se ela normas da Lei. Mas a inteligência para chegar a esse nível ain-
se encontra dentro de nós, em vez de estar nos outros. No mé- da não foi conquistada. Viramos então as costas à Divina Pro-
todo da não-resistência, o problema está equacionado de uma vidência, renunciando à sua ajuda, e voltamos às lutas do nosso
forma completamente diferente da utilizada pelo mundo, onde, mundo. Parece loucura que tanta gente tão astuta renuncie es-
em geral, cada um prefere atirar a culpa sobre os outros, ao in- pontaneamente a estas vantagens. Mas, desse modo, cumpre-se
vés de reconhecer-se culpado. Num sistema de justiça tal como a justiça da Lei, da qual não se pode fugir. É conforme a justiça
é o da Lei, se esta nos golpeia, como se pode admitir que a cul- que nada possa ser ganho sem ser merecido.
pa seja dos outros? De fato, se alguém vive de acordo com a Já falamos sobre a Divina Providência em nosso livro A No-
justiça e recebe um ataque não merecido, a Lei, por si mesma, va Civilização do Terceiro Milênio, Cap. XI. Enumeramos na-
pelo seu princípio de justiça, irá defendê-lo, quando ele praticar quele livro as condições indispensáveis para o seu funciona-
o método da não-resistência, de modo que a reação não terá mento. Elas são as seguintes:
mais sentido. Ele já se colocou dentro do equilíbrio da Lei. En- 1o) Merecer ajuda.
tão é justo, para que se realize a justiça, que ele tenha de ser 2o) Haver, antes de mais nada, esgotado as possibilidades
protegido pela Lei, a qual o defenderá como sendo coisa sua, de suas próprias forças.
que faz parte do seu sistema. Só ao mundo pertence o erro de se 3o) Estar, de acordo com suas condições, em estado de ne-
enredar no sistema desequilibrado de reações e injustiças recí- cessidade absoluta.
procas, num encadeamento sem fim, porque não se pode ree- 4o) Pedir o necessário e nada mais.
quilibrar o desequilíbrio acrescentando novos desequilíbrios. 5o) Pedir humildemente, com submissão e fé.
Ao equilíbrio não se pode chegar senão pelos caminhos reequi-
Quem quiser aprofundar-se neste assunto em particular, vai
libradores da não-resistência.
encontrá-lo desenvolvido no livro e capítulo já mencionados.
Que acontece, então, quando o Evangelho apresenta ao
No presente capítulo, estamos discorrendo sobre esta grande re-
homem este novo método de vida, o único que pode levá-lo à
alidade: a lei de Deus, que tudo rege. Procuramos ver as normas
salvação, libertando-o do mal? Para quem pede a defesa da in-
que dirigem o mundo moral, reconhecendo nelas a mesma exa-
justiça, e não da justiça, a Lei não funciona. Então aquele mé-
tidão das leis que regulam o mundo físico e dinâmico. Procura-
todo é loucura, e o homem lhe vira as costas. Volta assim ao mos, assim, atingir uma orientação a respeito da nossa conduta
seu sistema de injustiça, força e luta. Volta às leis do seu plano de acordo com os métodos positivos da ciência, isto é, a lógica e
animal e aos seus instintos inferiores. Recusa-se a fazer o es- a observação. O que temos exposto aqui satisfaz a razão, porque
forço para evoluir e, assim, resolver seus problemas, libertan- a Lei é também racional. Nossas afirmações baseiam-se sobre
do-se de seus sofrimentos. O mundo não quer aceitar o remé- dois pontos fundamentais: 1) Uma teoria geral da estrutura e
dio que lhe foi oferecido para a cura dos seus males. Preferir o funcionamento orgânico do universo, da qual estas afirmações
próprio dano à própria vantagem não é maldade, pois somente representam as conclusões práticas, derivadas daquela teoria; 2)
pode ser fruto da ignorância e da falta de inteligência. Mas aí, O controle experimental a que estas conclusões foram submeti-
então, está a dor, providencialmente encarregada de mostrar das, resultado, como já dissemos no começo, de meio século de
que a loucura não está no Evangelho, mas em nós, porque não experiências, que se poderia chamar de laboratório, porque exe-
queremos compreendê-lo. cutado no banco experimental da realidade da vida.
Estamos reclamando justiça e não compreendemos que es- Como acontece a todos, que, seja como for, têm de movi-
tamos recebendo justiça, mas na forma de sofrimento, porque a mentar-se e adotar uma conduta, nós também, percorrendo os
justiça pedida, muitas vezes, não é senão injustiça, isto é, justiça caminhos da vida, não pudemos deixar de tocar as teclas da Lei
às avessas. Tal justiça só podemos receber em forma de sofri- e de receber, através dos acontecimentos, sua resposta. E nada
mento. A Lei quer nosso bem, e não se pode chegar a ele acres- tem mais poder para convencer do que os fatos. Vimos, na prá-
centando ao mal um novo mal. A grande loucura do mundo é tica, o funcionamento da Lei. Podemos, assim, dar testemunho
querer chegar à justiça pelos caminhos da injustiça. Assim, um de que ela funciona, devolvendo-nos o que lhe entregamos, re-
regime social toma lugar de outro, mas são todos filhos dos tribuindo-nos conforme o que merecemos. E não podemos
mesmos enganos e violências. Vemos na realidade da vida os re- acreditar, pois isso seria ilógico e injusto, que a Lei, sendo a
sultados desse método. A justiça tem de ser absoluta e imparcial, mesma, não venha a funcionar da mesma forma para todos.
e não consistir de uma série de justiças relativas e partidárias, Não queremos com isso impor crença alguma. Só podemos
em função de interesses dos que as praticam. A Lei não pode es- convidar todos aqueles que se interessarem por estes conceitos
tar sujeita aos egocentrismos individuais ou de grupo. Ela está a experimentá-los, por si mesmos, a fim de realizarem, para
acima de tudo isso, acima das nossas concepções e lutas. sua vantagem, a mesma descoberta. Aqui se encontram expli-
◘ ◘ ◘ cadas as regras do jogo, para que se possa controlá-las e, as-
Dissemos nos capítulos anteriores que iríamos falar sobre a sim, verificar se são verdadeiras. Nosso desejo não é, de ma-
Divina Providência. Trata-se de um fenômeno parecido com neira nenhuma, espalhar ideias em busca de seguidores. Fala-
aquele que estamos estudando, sujeito também às suas regras. E mos unicamente porque ficaríamos muito satisfeitos, se pudés-
muitos também não acreditam nele, porque não conseguem fa- semos ver também os outros, apesar de se encontrarem no
zê-lo funcionar em suas mãos, fato que se dá em razão de não meio deste mundo feroz, obter os resultados maravilhosos, di-
terem sido satisfeitas as condições necessárias. Então afirma-se ríamos mesmo milagrosos, de satisfação interior e de sucesso
que a Divina Providência não existe. E, de fato, para eles não prático com que a Lei nos respondeu, permitindo-nos alcançá-
existe. Entretanto ela continua funcionando para outros. Neste los com a ajuda de Deus.
40 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
XXIII. A CONQUISTA DO PODER E ninguém faria, nesse nível de vida, o trabalho de conquistar o
A JUSTIÇA SOCIAL poder e desempenhar as obrigações a ele inerentes.
Até esse ponto, tudo está bem equilibrado em seu devido
Antes de deixar definitivamente o assunto tratado nos lugar. O chefe é o mais forte e mais astuto. Isto, em seu plano,
precedentes capítulos, queremos acrescentar alguns conceitos confere a ele o direito de ser chefe. Direito reconhecido tam-
que continuam desenvolvendo o tema da Lei, mas num seu bém pelos seus subordinados, que possuem a mesma forma
aspecto diferente, que diz respeito às consequências da con- mental. Mas até quando dura tudo isso? Se a posição se baseia
duta humana no terreno histórico-social da posse do poder e na força e na astúcia, ela vai durar enquanto houver força e
do uso e abuso da função de comando, problema dos mais in- astúcia. O chefe tem de provar isso a todo o momento, pois
teressantes para o mundo atual, demonstrando-nos o alcance tanto dominados como rivais, tendo a mesma forma mental,
universal da Lei. estão sempre prontos a agredi-lo, para tomarem o poder. To-
Continuaremos usando o mesmo método dos capítulos an- dos estão mergulhados na mesma atmosfera de luta, e, mesmo
teriores. Quando se trata do problema da conduta humana, é que o chefe não quisesse usar esses métodos, os subordinados
fácil cair no erro comum daqueles que, pregando virtudes, em o constrangeriam a fazê-lo. Estes são os primeiros a exigirem
nome dos santos princípios por eles defendidos, acusam, con- da parte do chefe essa forma de poder, embora ela não corres-
denam e se deixam arrastar pelo desejo de perseguir o próxi- ponda à função de cérebro diretor de uma sociedade orgânica,
mo. Isso é devido ao natural instinto de agressividade que o que espontaneamente, para sua vantagem, deve reconhecer no
homem teve de desenvolver na sua luta pela vida, porque esta seu chefe o cérebro cumpridor de uma função de interesse co-
é a lei do seu plano, levando cada um a esmagar os outros para letivo. Nos planos inferiores, quando um chefe não mostra sua
subjugá-los. Esta é uma das muitas ilusões psicológicas de que força, são os próprios subordinados, antes constrangidos à
já falamos, às quais o homem muitas vezes obedece sem sus- obediência, que o eliminam. A toda hora ele tem de dar pro-
peitar de seu papel, que é apenas seguir a lei de seu nível evo- vas de saber dominar e ser o mais forte.
lutivo. Como não aproveitar tão bela oportunidade de desaba- Esta é a justiça do seu mundo. Neste, um santo não pode
far o próprio instinto de agredir para dominar, tanto mais ser chefe, porque não pertence ao nível evolutivo da maioria,
quando isto se pode fazer em nome dos mais altos ideais, co- não possui sua forma mental e não usa os métodos de domí-
brindo-se do manto das mais nobres finalidades? Por isso pro- nio que ela pode compreender e exige. O método da obediên-
curamos seguir um método diferente, que não está em conde- cia consciente e espontânea não pode ser entendido e pratica-
nar, colocando-nos na cátedra de juiz, método que o Evange- do num mundo onde o poder é respeitado não porque repre-
lho desaprova, quando nos diz: “não julgueis”. senta uma função, mas somente porque é defendido pela for-
Como há pouco dizíamos, nossa tarefa não pode consistir ça. Neste mundo, os subordinados obedecem somente en-
em constranger, porque não possuímos nem poder nem auto- quanto o chefe possui força para sujeitá-los. Num tal ambien-
ridade alguma. Temos, antes de tudo, de respeitar a liberdade te de luta de todos contra todos, os subordinados, sejam súdi-
dos outros. Cada um é dono de si mesmo e pode fazer aquilo tos ou criados, ficam à espera de que esta força falte ao che-
que for de sua preferência. Tudo o que podemos fazer é expli- fe, para, ao seu primeiro sinal de fraqueza, tirar-lhe o poder
car como funciona a lei de Deus e quais são, para nós todos das mãos e, apoderando-se da sua posição de domínio, substi-
que estamos nela mergulhados, as consequências dos nossos tuí-lo. Usam-se, assim, a psicologia e os métodos do mesmo
atos, pois é com estes que cada um automaticamente premia plano de vida, repetidos por eles próprios, seja na posição de
ou condena a si mesmo. O julgamento e a reação a esses atos chefes, seja na de dominados.
estão contidos na Lei e se realizam fatalmente, sem possibili- Esta é a realidade que, na prática, encontra-se atrás de to-
dade de escapatórias. Por isso não nos cabe nem sequer julgar. das as teorias. A primeira função do poder é demonstrar-se
Tudo que podemos fazer é expor aquilo que temos de recolher poderoso. Os homens chegaram assim a governar em nome de
como inevitável consequência dos nossos atos, convidando Deus, intitulando-se representantes d'Ele, por direito divino,
todos a julgarem-se a si mesmos. porque Deus é o mais poderoso. Mas, repetimos a pergunta,
Como já foi explicado anteriormente, nos Caps. XVII, até quando irá durar tudo isso? Temos visto quais são os ali-
XVIII e outros deste volume, a Lei deixa o homem ainda não cerces sobre os quais se baseia essa posição de domínio. De
evoluído o bastante lutar para chegar ao poder, dando-lhe a fato, tratando-se de um plano inferior de vida, quem vive nele
possibilidade de operar com a sua psicologia egocêntrica, pela não pode deixar de ficar sujeito às ilusões que lhe são relati-
qual ele é levado a crer que a conquista do poder significa, an- vas. A ilusão consiste no fato de que esse tipo de homem não
tes de tudo, uma vantagem para si. Quando o homem, vivendo conhece o jogo que está jogando. A vitória, que ele acredita
nesse plano evolutivo, chega ao poder, no seu mais amplo ser unicamente para sua vantagem, constitui uma miragem
sentido como forma de domínio social, é lógico e também jus- temporária, útil apenas para impulsioná-lo à experiência e, as-
to, em seu nível de vida, que ele use sua posição no poder sim, fazê-lo avançar no caminho da evolução. A Lei movi-
conforme sua forma mental (porque outra ele não possui), isto menta estas alavancas para abalar o indivíduo, porque são as
é, dominando e explorando para tirar proveito pessoal. Esta é únicas que o movimentam. Acontece então que o homem, pa-
a forma mais involuída de domínio usada pelos poderosos, ra conquistar e manter sua posição de comando, tem de fazer
que corresponde ao estado primitivo tanto de chefes como de esforços na luta para desempenhar os compromissos que essa
subordinados. A Lei permite tudo isto, porque esta é a reali- condição impõe, sendo obrigado a colocar em ação suas qua-
dade e a maneira de conceber nesse plano de evolução, que lidades e, assim, adestrar cada vez mais sua inteligência.
eles ainda não conseguiram superar. Quem alcançou a posição Como se vê, o jogo real das leis da vida é diferente do que
de chefe não a recebeu de graça, mas teve de lutar para con- aparece por fora. A substância desta realidade é a evolução para
quistá-la, vencendo seus rivais, enfrentando perigos e fazendo ascender de um degrau para outro. Quando o ser atinge um de-
esforços para desenvolver sua força e inteligência. Ora, é justa terminado nível evolutivo, deve elevar-se ao seguinte. Como
e merecida a sua conquista. E a vantagem pessoal usufruída acontece isto? Nesse degrau superior, a posição de chefe não
por ele representa a devida retribuição de seu trabalho, a justa pode mais existir para sua vantagem pessoal, justificando-se
recompensa que lhe pertence. Se não houvesse esse prêmio, apenas enquanto constitui uma função de utilidade coletiva,
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 41
como missão social. Isso, no entanto, é inconcebível para o che- XXIV. A LEI APLICADA À HISTÓRIA
fe involuído. Se ele, às vezes, chega a sustentar essa ideia, trata-
se apenas de astúcia para dominar melhor, utilizando palavras O caso da Revolução Francesa e o verdadeiro jogo da vida.
nas quais não acredita. Este é o tipo do Príncipe, de Maquiavel.
E ele não pode deixar de aprender a nova lição, tal como a evo- Procuraremos agora explicar melhor os conceitos do capítu-
lução exige. Mas quem vai ensinar-lhe? lo precedente, observando-os quando aplicados a um caso clás-
Temos visto que a Lei não se manifesta diretamente. Neste sico concreto: a Revolução Francesa. Examinemos a natureza e
caso, ela intervém através de outros elementos, encarregando- os movimentos das forças que lhe deram origem.
os dessa tarefa, para funcionarem como seus instrumentos. Ve- Luís XIV foi rei absoluto. Ele dizia: “L'etat c'est moi” (“O
jamos então o que acontece. O chefe domina os seus subordi- Estado sou eu”). Hoje isto seria considerado tirania. Porém
nados, sujeitos à sua vontade. É lógico que, enquanto existam ninguém, no seu tempo, o considerou tirano, enquanto assim
ovelhas inexperientes, sem conhecimento, precisando de pasto- foi chamado o meigo Luís XVI, tão ecônomo para si e amigo
res, estes surjam para dirigi-las. Mas é lógico também que, do povo. Por que razão ninguém reclamou contra Luís XIV,
neste nível, eles venham a explorá-las. Isto continuará aconte- que era tirano, mas todos reclamaram contra Luís XVI, que
não o era? O primeiro não foi julgado tirano porque tinha o
cendo, enquanto as ovelhas necessitarem de pastores. Mas
poder da força e da inteligência. O segundo foi chamado tira-
aqueles que ficaram dependentes estão ansiosos por imitar seu
no porque era simples e fraco. Luís XIV, que se fez chamar
chefe, pois têm a mesma forma mental. Então ficam olhando
“Le Roi Soleil” (“O Rei Sol”), usou o poder na forma que era
como ele age, coisa que eles compreendem bem, principalmen-
mais adaptada tanto para si como para seus súditos, dada pelo
te porque o peso da exploração escravizadora é duro. No en- nível de evolução atingido por todos eles naquele tempo. A
tanto o sofrimento vai desenvolvendo a inteligência deles. A forma mental nesse nível é o egocentrismo, e o rei não podia
opressão do chefe se transforma para eles numa escola, na qual ser senão a expressão mais completa dessa forma, o modelo
aqueles que foram submetidos à obediência vão estudando pa- da psicologia então vigorante, isto é, o exemplo máximo do
ra chegar aos mesmos resultados de vantagem atingidos por individualismo egocêntrico. Para cumprir a função de cuidar
quem os domina, aprendendo, nessa escola, a usar os mesmos do seu povo, era necessário que ele o considerasse como sua
métodos do sucesso: a força e a astúcia. propriedade, pois, nesse nível evolutivo, o homem não sabe
Assim, os subordinados ficam cheios de inveja e cobiça, es- superar o seu egocentrismo e, por isso, não cuida de coisa al-
perando qualquer oportunidade que os favoreça, num momento guma que não seja sua. Dada essa forma mental, aquele rei
de fraqueza do chefe, para agredi-lo com a força e traí-lo com a não podia fazer seu trabalho senão em função do seu orgulho
astúcia. O próprio chefe não pode ficar isento das consequên- pessoal. E o seu povo, que tinha os mesmos instintos, com-
cias do seu método, pois também tem de sujeitar-se às leis do preendeu e aceitou o rei dominador como coisa natural. De fa-
sistema que ele utiliza, inerentes ao plano de vida onde todos to, nesse nível, todos os direitos pertencem ao mais forte,
vivem, chefe e subordinados. Os comandados estão sempre que, por virtude da sua força, merece respeito. Por outro lado,
olhando os defeitos e erros do chefe, para tirar proveito e usu- os povos não tinham consciência coletiva alguma. Então, uma
fruir vantagem, visando furtar-lhe os frutos da vitória e, ven- vez que as ovelhas não possuíam conhecimento algum para
cendo-o, substituí-lo na tão almejada posição de domínio. escolhê-lo, o rebanho só poderia receber seu chefe à força, por
Os que tiveram de obedecer aprenderam tudo isso na escola imposição, conforme as leis naturais.
do chefe e, agora, vão ensinar ao mestre. Observaram o suficien- O eco do poder de Luís XIV sustentou o reinado vazio de
te e acabaram por se dar conta do que se acha de fato atrás dos Luís XV, por lei de inércia, por força do impulso recebido. A
bastidores das bonitas teorias do domínio em nome de Deus, do classe dos vencedores na luta pela vida tinha de gozar os frutos
direito e da justiça para o bem do povo, do progresso do mundo dos seus esforços. Mas o seu crédito se esgotou, e eles, no
etc. Descobriram lá, por muito andarem nesse caminho, uma ócio, tornaram-se seres inúteis. A vida, porém, não admite os
verdade bem diferente, constituída da luta pela vida, na qual o seres inúteis e preparou-se para liquidá-los. Foi um reinado em
mais forte vence para atender seu próprio interesse, posição descida, em que a grande Versalhes apodreceu na dissipação.
aberta a qualquer um, logo que dê prova de ser o mais forte. Aqui começa a emborcação das posições. Enquanto a aristo-
Quando a maioria chega a desenvolver sua inteligência até cracia perde virtude e força nos prazeres da vida, o povo, no
esse ponto, então caem as barreiras do mito, da fé cega, do medo sofrimento, conquista inteligência e energia para rebelar-se e,
do desconhecido, da ignorância, com as quais os chefes procu- cheio de desejo, olhando ao longe a bela festa, vai se prepa-
rando para a revolta. Temos assim dois movimentos opostos,
ram acalmar a natural rebeldia do homem. Aparece então, nua e
pelos quais o nível da força descia de um lado e subia do outro.
crua, a realidade biológica das duras leis da vida. E os povos,
Enquanto o povo ignorante, no sofrimento encontrava o estí-
quando chegam a perceber que os chefes têm direitos porque
mulo para desenvolver suas qualidades de luta, os dominado-
souberam conquistá-los com força e astúcia, acabam compreen-
res no gozo requintado encontravam o entorpecente que ador-
dendo também, pela mesma lei, que não poderão ter direito, en-
mecia suas qualidades vitais. Tudo foi, assim, automaticamen-
quanto não souberem conquistá-los com o mesmo método. Ini- te preparado durante o reinado de Luís XV.
cia-se assim, através de um amadurecimento natural, o lento de- Quando Luís XVI subiu ao trono, tudo estava quase madu-
senvolvimento da reação, até estourar na revolta, onde os rebel- ro e esperava somente a oportunidade para estourar. A classe
des imitam o método que conduziu os seus chefes à vitória. dirigente estava completamente apodrecida, e o rei era um
Podemos ver, desta maneira, como a Lei realiza automati- campeão de fraqueza. Dos dois vasos opostos, um se tinha en-
camente sua justiça, utilizando elementos diferentes, colabo- chido e o outro, esvaziado. O próprio Luís XV tinha intuído is-
rando todos para o mesmo objetivo: a evolução comum. Assim, so, quando dizia: “Après-moi, le déluge” (Depois de mim, o
se a opressão dos chefes gera a dor nos que a eles estão sujei- dilúvio). E o dilúvio chegou.
tos, nestes também acorda a inteligência, que os fará vencedo- Vemos aparecer então aquele que o povo chamou de tirano.
res. Assim a posição de dominantes e dominados é posição per- Um homem sobretudo bom, que teria sido um ótimo pai de fa-
corrida por todos, para que todos aprendam na mesma escola a mília; um rei que pensava ser o pai do seu povo. Para não der-
mesma lição. Esclareceremos ainda melhor estes conceitos, ramar o sangue do povo, ele afastou de Versalhes os batalhões
com exemplos, no próximo capítulo. na hora em que mais precisava de defesa, pois a multidão se
42 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
aproximava para levá-lo com a família a Paris, onde iria encon- Tudo o que vivemos fica escrito não só na história, mas tam-
trar a morte. Este era o tirano. Mas os tempos estavam maduros. bém em nossa carne. A dor tem o poder de fincar em nós um
A injustiça dos abusos da aristocracia e do clero havia sido co- marco indelével. Assim, o homem vai entendendo cada vez me-
metida, e agora era necessário saldar as contas e pagar a dívida lhor a inviolável estrutura da Lei, pela qual, como já tantas vezes
perante a justiça da Lei. Eis, então, que a história atinge seu ob- dissemos, quem faz o bem ou o mal o faz a si mesmo. Tudo vol-
jetivo, lançando na boca do povo esse rei manso, para que seja ta à fonte, com um movimento de forças semelhante ao das for-
mais fácil devorá-lo. Se estivesse reinando Luís XIV, que possu- ças do espaço curvo, cujas leis parecem vigorar também no ter-
ía não apenas muito orgulho, mas também poder, e que não ti- reno da moral. Encontramo-nos, assim, perante um princípio de
nha apenas egoísmo, mas também habilidade política e militar, curvatura universal, verdadeiro em todas as dimensões e níveis
então o povo teria encontrado um osso duro demais para roer e, de existência. Parece que, em todos os planos, cada impulso ten-
perante a força, teria não só achado justo respeitar tudo, mas de automaticamente a voltar à fonte de onde partiu, sendo este
também considerado absurdo proclamar direitos, quaisquer que um dos princípios fundamentais da Lei. Assim a teoria científica
fossem suas necessidades e seus sofrimentos. A injustiça sempre do espaço curvo concorda com a teoria apresentada aqui – que
existiu, mas só foi reconhecida como tal naquele momento, se poderia chamar de moral curva – confirmando-a. Em ambas
quando a fraqueza do governo permitia ao povo tornar-se pro- não haveria deslocamentos em sentido absoluto, mas só relativo.
porcionalmente forte para impor com a força sua própria justiça. Seriam então movimentos apenas aparentes, como os das ondas
Eis o verdadeiro jogo da história, e o exemplo se repete to- do mar, onde não há deslocamentos de água, mas uma espécie
das as vezes que a vida se encontra nessas condições. Um direi- de vibração fechada em si mesma, num contínuo movimento de
to é considerado tal somente quando quem o sustenta possuir os retorno. Da mesma forma, os movimentos da conduta humana
meios para realizá-lo. E o sofrimento está sempre pronto para seriam uma espécie de vibração fechada nesta lei de retorno, pe-
fornecer ao homem, por reação, esses meios, fazendo-o desen- la qual cada impulso nosso nada desloca a não ser nossa própria
volver suas qualidades na luta. Bondade, caridade e compreen- natureza, recebendo sobre si o que quis lançar fora de si. Desse
são recíproca só aparecem em níveis superiores de vida. modo, o ser vai experimentando, amadurecendo e evoluindo.
Qual foi então o resultado de todo esse movimento de forças Quisemos assim, neste capítulo, observar como o princípio da
aqui observado? curvatura da moral se verifica também no terreno social da cole-
1) O povo deu provas de ter aprendido a lição na escola de tividade humana. Por isso podemos concluir que o princípio pe-
seus chefes, repetindo seus métodos para dominar. E esse méto- lo qual quem faz o bem ou o mal o faz a si mesmo é verdadeiro
do continua sendo repetido, numa escala sempre maior, até hoje. não somente para o indivíduo, mas também para as diferentes
2) Os povos saíram da menoridade e começaram a se dirigir classes, camadas e grupos sociais.
por si próprios, aprendendo a eleger bem ou mal seus chefes, Com esta técnica maravilhosa são superadas todas as tentati-
experiência nova, adequada para desenvolver uma consciência vas humanas de injustiça, pois acaba sofrendo o mal na própria
coletiva e novas formas de inteligência. carne quem, para seu bem-estar, faz o mal aos outros, assim co-
3) O sangue da aristocracia não foi derramado em vão na mo quem, por ter feito bem ao seu próximo, recebe para si o
Revolução Francesa. A lição ficou e ensinou muita coisa ao bem que mereceu. Com esta técnica, cada vez mais o ser está
mundo de então, para que não caísse mais nos mesmos erros. A constrangido, automaticamente, a realizar a justiça da Lei, su-
lição fez ver que os abusos são perigosos, porque depois, por bindo da injustiça para a justiça, da desordem para a ordem, da
compensação, a injustiça e a dívida têm de ser saldadas. Dessa luta entre egocentrismos rivais ao estado orgânico da humanida-
vez também, o mestre que ensinou a lição foi a dor. Hoje, se- de civilizada. O processo é sempre o mesmo. O homem tem de
melhantes abusos não seriam mais possíveis, pois tais privilé- experimentar os dolorosos efeitos da injustiça, da desordem e do
gios da aristocracia e do clero seriam hoje um absurdo. egoísmo, para chegar a compreender que o mais proveitoso para
É verdade que o homem, no fundo, permaneceu o mesmo. si mesmo é que se realizem a justiça, a ordem e o altruísmo.
A burguesia substituiu a aristocracia e procurou imitá-la, assim Semelhante às ondas do mar, há um movimento ordenado
como está pronto a imitar a burguesia o proletariado, que quer na sucessão histórica das revoluções. Cada uma sustenta e im-
hoje substituí-la. Mas semelhantes excessos de egocentrismo pulsiona a outra, num movimento comum que as liga todas
em favor de grupos particulares e em forma legalmente reco- num mesmo processo. Acontece então que, enquanto houver
nhecidas, hoje, não seriam mais possíveis. Torna-se cada vez camadas inferiores exigindo justiça por se encontrarem esma-
mais inaceitável a concentração dos benefícios da vida nas gadas pelas superiores, estas não terão paz e serão obrigadas a
mãos de poucos, que os subtraem dos outros para si. A moder- se defender das contínuas tentativas de assalto por parte daque-
na tendência coletivista e igualitária procura estender a um las. Quando, nesta luta, os dominados vencem, então eles se
número sempre maior de indivíduos as vantagens que antes fi- apoderam da posição dos dominadores e tomam o seu lugar,
cavam concentradas somente em favor dos vencedores. O para gozar das mesmas vantagens, mas sujeitando-se aos mes-
mundo progride, assim, para a justiça social, a igualdade, o al- mos perigos e cometendo os mesmos erros. São assim obriga-
truísmo e formas de vida organizada, coisas que pertencem a dos a pagar a mesma pena, porque, enquanto houver um ho-
níveis evolutivos mais adiantados. mem explorado por outro, ele procurará saltar em cima de seu
Vemos aqui, uma vez mais, funcionar a Lei, em sua mara- opressor, para tomar dele a posição de domínio. Trata-se tão-
vilhosa sabedoria. A cada erro corresponde, também no terreno somente de posições diferentes, que os mesmos homens vão
social, uma lição de sofrimento, para que o erro não se repita. ocupando sucessivamente, como a mesma água toma as dife-
Assim o mundo automaticamente tem de progredir. Cada lição rentes posições das ondas em movimento. A Lei é uma só para
representa uma dura experiência, que não é fácil esquecer. Ter todos, e cada um tem de aceitar as vantagens, os perigos e os
experimentado as consequências do abuso representa o melhor esforços que a posição de cada um implica. Assim, em posi-
meio para tirar a vontade de repetir o abuso. Desse modo, o ções diferentes, todos estão cumprindo o mesmo trabalho,
homem aprende a não olhar mais para a vantagem imediata de igual para todos, de fazer experiências, as quais, embora dife-
que foi vítima e torna-se capaz de enxergar além das aparên- rentes, levam ao objetivo fundamental: evoluir.
cias formadas por suas ilusões psicológicas, apercebendo-se da Nesse rodízio de posições e respectivos trabalhos, nessa se-
necessidade de levar em conta, também, o bem-estar do pró- quência de vantagens e abusos escalonados ao longo do cami-
ximo, porque o problema da felicidade não se pode resolver nho das experimentações comuns, nessa compensação entre tan-
isoladamente, só para si. tas injustiças diferentes, realiza-se a justiça da Lei, pela qual tu-
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 43
do se paga e todos têm de aprender a mesma lição através das tar os ânimos duros dos céticos do materialismo, entregues a
mesmas experiências. De sua variedade o universo constitui uma todas as sutilezas do pensamento e esmagados pelos comple-
unidade, na qual uma infinita multiplicidade se coordena em xos intelectualismos culturais e científicos. Tratava-se, ao in-
harmonia, regida por uma lei geral. Assim, através da coordena- vés, de acender uma chama de bondade e verdade, com sim-
ção das inúmeras injustiças particulares, pelas quais cada um plicidade de sentimento, oferecendo-se em doação completa,
paga o que deve, realiza-se a justiça universal da Lei. “Quem es- sem nada pedir, vencendo a dureza de ânimo com o poder da
tiver sem pecado atire a primeira pedra”. Quem, porém, está bondade, com uma grande paixão de ajudar, indo ao encontro
sem pecado e não tem de pagar alguma dívida à justiça da Lei, dos mais humildes e desprezados, para abraçá-los e elevá-los
sofrendo o que ele, às vezes, chama de injustiça? Esta é a verda- num trabalho de coração, em contato direto com as formas
deira justiça que abrange a todos e está acima de todos, pela qual mais elementares e instintivas da vida. Era, para aquele ho-
todos têm de pagar e perante a qual todos somos iguais. Eis co- mem, um campo diferente e inexplorado, um caminho novo
mo, pela Lei, foi realizada e sempre existiu a verdadeira igual- para inculcar no próximo o amor de Cristo.
dade, hoje tão almejada em vão pelas classes sociais em luta. Assim, quem já fora peregrino das grandes cidades, trans-
Agora podemos compreender o significado de tudo isso e en- formou-se um dia em peregrino das aldeias abandonadas, das
tender o que está acontecendo. Acima de todas as rivalidades do praias longínquas, das terras perdidas à margem da civilização
formigueiro humano, permanece resplandecendo a sabedoria da das cidades. Navegando com alguns amigos em pequenas bar-
Lei, invisível, poderosa, inflexível, sempre presente. Nela, com- quinhas, chegou um dia a uma ilha próxima à costa, numa al-
pensando-se e coordenando-se, tudo se resolve. Eis a conclusão. deia de pescadores pobres, simples e primitivos.
Nesse estado de simplicidade, mesmo se o homem não
XXV. EVOLUÇÃO DA HISTÓRIA compreende as fórmulas difíceis da cultura e da ciência, ele in-
tui, instintivamente, sem muitas palavras, os motivos funda-
Apêndice: Uma fábula. mentais da vida: amizade ou inimizade, ódio ou amor, fome,
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. perigo. As apresentações não necessitaram, por isso, de muitas
palavras, bastando, através de um simples olhar frente a frente,
Em minhas peregrinações brasileiras, ocorreu ter de demo- uma recíproca e instintiva observação quanto às respectivas in-
rar-me alguns dias numa ilha habitada apenas por pescadores tenções. Assim se conhecem os animais e até as plantas, resul-
pobres, no litoral paulista. Entretive-me, então, com aquela tando daí relações de amizade ou de inimizade.
gente simples, dividindo com eles alegrias e dores. Nessa vida, Realizada essa primeira aliança, sistematizadas as necessi-
reduzida aos mais singelos elementos, diante das harmonias de dades materiais de alimento e repouso noturno, sentou-se aque-
uma paisagem exuberante, imerso na infinita paz das coisas de le homem ao lado dos novos amigos, à beira da praia, para sa-
Deus, senti a profunda justiça e bondade de Sua lei, compreen- tisfazer a curiosidade deles de conhecerem os recém-chegados,
dendo como, mesmo na Terra, é possível aos homens de boa e, falando de si e dos companheiros, começou a lançar as pri-
vontade realizar a grande máxima evangélica: “Amai-vos uns meiras pontes da confiança e da compreensão. O próprio ambi-
aos outros como eu vos amei”. Destas observações e medita- ente sugeria que se falasse das grandes coisas de Deus. O ar-
ções nasceu esta fábula. gumento alimentava-se das harmonias daquela natureza encan-
Havia certa vez um homem que era julgado louco porque tada. Os pensamentos mais simples assumiam naturalmente a
pregava e praticava no mundo o amor de Cristo. Dizia ele: musicalidade das ondas e dos ventos, sintonizando-se na sinfo-
“Não necessitamos de novas religiões, nem precisamos fazer nia das cores dos bosques, do mar e do céu. O pensamento de
prosélitos a favor de uma, condenando as outras e criando, as- Deus, alma de tudo, transparecia tão poderoso e evidente nas
sim, cada vez maiores inimizades, mas é indispensável torna- formas de seu revestimento, que Ele parecia falar sem palavras
rem-se bons e honestos os homens de todas as religiões”. ao âmago da alma. E todos, tanto o peregrino como os pescado-
Enfrentara, assim, com os meios da cultura, do raciocínio e res, ouviam juntos, como numa evocação mágica em que Deus,
da ciência a elite intelectual das grandes cidades, as classes di- essência da vida, falava-lhes em silêncio, e o espírito das coisas
rigentes dos mais aptos a compreender por esses caminhos a se revelava, arrebatando-os todos no mesmo êxtase.
verdade como produto do pensamento. Mas, um dia, sentiu ne- Se os primitivos não sabem exprimir-se para traduzir estas
cessidade de completar seu trabalho, escolhendo outra gente; sensações, isto não significa que eles não as percebam, ainda
sentiu que deveria aproximar-se também dos deserdados, dos que confusamente. Em cada uma de suas formas, a própria vi-
simples e ignorantes, para os quais estão fechadas essas estra- da nos mostra que ela procura ser bela, alegra-se com isso e lu-
das de luxo. Para eles, era mister outra linguagem: a linguagem ta por sê-lo. A beleza representa um valor próprio porque tem
simples do Evangelho, que ensina por fé, sem a demonstração sua função biológica. Nos mais altos planos evolutivos, revela-
das provas exigidas pela inteligência cética; a linguagem fácil e se essa beleza na harmonia espiritual da bondade e do amor
clara dos fatos e dos exemplos; a linguagem do amor, que todos para com todas as criaturas. A musicalidade e a alegria de ou-
compreendem e que percorre estradas diferentes, seguindo não vi-la crescem à proporção que se sobe para os mais altos pla-
os caminhos mente, mas sim do coração. nos da existência, formando, enfim, uma harmonia única, em
É verdade que, assim como das nuvens desce a chuva, o que se fundem o belo e o bem.
pensamento desce de cima para baixo nas classes sociais e, O nosso peregrino e aqueles homens conheciam também os
uma vez firmado na classe culta, por si mesmo se difunde nos outros aspectos da vida, o lado positivo e prático das necessida-
planos inferiores, por uma lei de gravitação. Mas trata-se de des materiais. A vida também se constitui de problemas concre-
um pensamento frio, filtrado através de outros cérebros. Era tos. Sem dúvida, os primitivos também são poetas, mas só po-
indispensável dar ainda mais, dar algo mais vivo e pessoal, dar dem dar-se ao luxo de sê-los depois de resolvida a premente
de si mesmo, como exige o amor e como não pode deixar de questão das necessidades imediatas. Por isso ninguém mais do
fazer quem ama verdadeiramente. Assim, quis um dia aquele que os primitivos quer prender-se aos valores reais terrenos e,
homem entrar em contato também com os homens simples dos para ouvir e respeitar, exigem uma prova de superioridade. Por
campos, menos providos de cultura. esse motivo, não podendo Cristo apoiar-se nas qualidades de
Para eles, a linguagem seria outra. Não mais a profundida- inteligência e cultura de Seus seguidores, teve de dar provas di-
de de conceitos nem a evidência de provas para convencer a ferentes das racionais a Seu respeito. Teve de operar prodígios,
razão mediante demonstrações. Não se tratava mais de enfren- as únicas provas acessíveis àquelas mentalidades, tanto que
44 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
ainda hoje a apologética cristã católica aceita os milagres como eles estão todos no estado caótico. Compete ao homem, com
prova da divindade de Cristo. Para aquelas formas mentais, eles seu trabalho, transformar o caos em uma ordem na qual ele
são verdadeiras provas, ainda que nada provem para quem te- possa viver bem. Ordem exterior, nas ações, que só pode nas-
nha do milagre um conceito totalmente diferente. cer de uma ordem interior, no espírito.
Sendo a psicologia de todos os primitivos a mesma, nosso “Respeitemos o amor, mas disciplinado, com respeito à
homem tinha de mostrar, para ser ouvido e seguido, suas cre- mulher e à família alheia, santificado com a proteção da mãe
denciais, dando testemunhos de seu valor. Ora, quem vive lon- aos próprios filhos, com a educação destes, com a sublimação
ge dos centros, na periferia da civilização, permanece sempre do afeto recíproco, que, provindo não apenas dos sentidos, so-
com os olhos fixos e os ouvidos atentos aos oriundos daqueles brevive à própria morte.
ambientes, ávido de aprender e imitar. O peregrino chegava “Respeitemos o instinto da posse e de domínio das coisas,
desses centros e lá trabalhara e vencera. O homem, para avaliar, mas sob condição de que ele não seja egoísta, não represente
exige uma prova de poder, seja ele material ou econômico, inte- opressão aos fracos e não seja feito de ambição. Seja respeita-
lectual ou espiritual. Trata-se, em todos os casos, de provar que da a propriedade, fruto do trabalho. Mas, para ter direito do
soube vencer em algum campo. E o sinal, ainda que tenha sido respeito pelas próprias coisas, deve-se antes respeitar as coi-
conseguido em um campo menos compreensível, nem por isso sas alheias. Em todos os campos, só tem direito a ser respeita-
é menos convincente. Uma das razões por que as multidões do quem respeita. Seja respeitada a vida em seus instintos,
modernas admiram os cientistas é o fato de serem eles capazes mas esteja tudo disciplinado na medida e na ordem estabele-
de dominar matéria inacessível a elas. Assim é tanto mais fácil cidas pela lei de Deus.
convencer quanto mais se tenha sido precedido da fama das “Quanto mais aprenderdes a viver na ordem, tanto mais di-
próprias vitórias. Aos próprios santos era tanto mais fácil arras- minuirão vossas atribulações, e, quanto mais desobedecerdes à
tar as multidões quanto mais poderosa se formavam a seu res- Lei, tanto mais elas crescerão. Não vedes que cada coisa tem
peito a lenda do prodígio e a auréola de santidade. Mesmo no seu lugar na natureza? Que aconteceria se o mar quisesse usur-
plano espiritual, a vida premia o forte que sabe vencer. par o espaço que pertence à terra, ou se esta quisesse invadir o
Dessa forma, apoiando-se nesse jogo psicológico natural e céu? Tudo é belo, e há lugar para tudo, inclusive para vossa vi-
inevitável, imposto pela forma mental humana, procurava o pe- da, porque tudo está organizado e em paz. Mas logo que esta
regrino penetrar no ânimo de seus ouvintes. Suas palestras eram ordem e esta paz se perturbem, surge para todos o desastre.
simples, concretas, constituídas de conceitos revestidos de fá- Somente se respeitardes as regras indispensáveis da vida, esta-
bulas e parábolas, baseando-se nas sensações oferecidas pelo belecidas por Deus, é que Ele vos poderá dar a felicidade, da
ambiente. Seria inútil bater em teclas mudas, lançar pensamen- qual elas são a condição essencial”.
tos que não pudessem encontrar eco. A princípio eram poucos a ◘ ◘ ◘
ouvi-lo. Mais tarde reuniu-se toda a aldeola, rodeando-o. Todo Assim falou nosso peregrino àqueles homens simples. Mas
homem, mesmo não entendendo tudo, sente-se sempre atraído a vida é ação, e era mister, para melhor convencê-los, dar-lhes
pela palavra quente, que, por ser convicta, transmite convicção. um exemplo, um testemunho tangível.
Então, o peregrino lhes falou assim: “Meus amigos. Aqui Nos arredores do lugarejo, numa praia abandonada, vivia
vim entre vós para vos ensinar o amor e a paz, diminuir vossas solitário um rebelde à ordem social, um homem feroz, ladrão e
dores e vos tornar mais felizes. Não enfrentaremos os proble- assassino, que, ao invés de trabalho, preferia viver de delitos e
mas longínquos que atormentam as grandes mentes e não foram de rapinagem. Era chamado o Lobo. Ninguém ia à sua cabana
ainda solucionados pela ciência, pela religião e pela filosofia. nem dela se aproximava, se não estivesse armado.
Para dirigir vossa vida, bastam-vos as normas simples. Falaram desse Lobo ao peregrino, que resolveu então ir ao
“Falo-vos em nome de Cristo, para vos explicar seu pensa- seu encontro. Lembrava-lhe isto outro encontro, com outro Lo-
mento. Assim falo para vos ajudar, e não para vos condenar. bo, talvez o nome de outro ladrão, o assassino que foi amansa-
Não vos peço para castigar a vida, mas sim para respeitá-la e do por São Francisco às portas de Gúbio. Os homens da peque-
melhorá-la, vivendo-a com inteligência. Ela é um dom de Deus na aldeia procuraram dissuadi-lo, mas ele se sentiu irresistivel-
e não deve ser renegada, mas sim levada cada vez mais para o mente impelido àquela realização. Ir por aquelas paragens, sem
alto, na direção d'Ele. O desejo de felicidade é um instinto sadio armas, ou mesmo levando-as, mas sem saber usá-las, era loucu-
e vital, e tendes pleno direito a ela. Deveis aprender, no entanto, ra. Para que se deixar matar?
que ela só pode ser conquistada na ordem, com a própria disci- Após muita discussão, um dia partiu o peregrino, desarmado,
plina, obedecendo à lei de Deus. Só assim conseguireis diminu- para a cabana do Lobo. Entretanto acompanhavam-no alguns
ir cada vez mais o fardo de vossas dores, efeito de vossos erros. homens fortes e bem armados. Deixou-os em certo ponto, es-
“Vossos instintos fundamentais devem ser respeitados, condidos entre as árvores, de sobreaviso para socorrê-lo, se hou-
porque eles servem para conservar a vida, necessária para atin- vesse necessidade, e encaminhou-se sozinho para a choupana.
gir seu objetivo de elevar-se, regressando a Deus. Por isso Ele Enquanto caminhava, refletia. Já dera um exemplo, nas
fez que vós os adquirísseis e os fixásseis em vós. São eles hoje grandes cidades, vencendo os mais poderosos obstáculos que
a mola necessária à vossa vida, em vossa atual fase. Amanhã lhe queriam impedir o cumprimento de sua missão. Vitória
conquistareis outros instintos, mais evoluídos, para viver em clamorosa, milagre de Deus, que lhe havia provado Seu auxílio
planos mais altos. Não vos prego as abstinências e os jejuns e Sua presença a seu lado. Toda resistência havia caído, e os
dos santos. Não peço renúncias, mas disciplina. Se não amar- elementos negativos tinham sido afastados, apesar de fortes e
des o trabalho, seja ele a vossa penitência. Mas, aprendei a renitentes. Deus o ajudaria também, realizando este outro mila-
amá-lo para apressar as satisfações que ele proporciona, e ele gre. Era lógico e necessário também este exemplo num plano
se transformará na alegria de criar. social diferente. Precisava aceitar, tinha de expor-se a esta nova
“Respeitemos os instintos fundamentais da fome e do prova, em que Cristo deveria triunfar mais uma vez.
amor. Devemos nutrir o corpo para trabalhar melhor, mas não O peregrino era também homem e, como tal, temia. Talvez
para empanturrar-nos. Quem abusa, seja por excesso ou por tivessem razão os homens da pequena aldeia. Sua ousadia era
falta, estraga um instrumento que lhe foi confiado por Deus loucura perigosa e inútil. Então, como sempre ocorrera nos
para fins mais altos, e um deles é produzir com o trabalho, ca- maiores momentos de sua vida, Cristo lhe apareceu ao lado,
da qual segundo sua capacidade. Em nosso planeta existem to- tomou-o pela mão e, enquanto o guiava, desenvolveu-se o se-
dos os elementos para torná-lo a sede de vidas felizes. Mas guinte colóquio:
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 45
“Filho, por que temes? Não estou sempre a teu lado? a felicidade é muito maior. O estridor daquela alma rebelde
“Senhor, que posso eu? Não é orgulho meu pretender mais era uma dissonância triste nesta grande música. Esta, porém,
uma vitória? sufocava a discórdia com sua potência, quase a anulando e ab-
“Vai, filho, e não temas; estou contigo. Falarei em teu pen- sorvendo em sua harmonia. Descia do alto uma grande onda
samento, brilharei em teu olhar, vibrarei em ti e manifestar-me- das forças do bem, para amansar aquela alma, impelindo-a pe-
ei através de tua paixão pelo bem. Vai! Através de ti, meu ins- las grandes vias da bondade e do amor. Ela queria resistir,
trumento terreno, vencerei com o amor esta alma rebelde. Vai! mas Deus determinara que Ele havia de vencer. Cada vez
Vencerás. Estou contigo”. mais poderosa resplandecia a luz, e as trevas recuavam, ven-
Peregrino do amor e da dor, nosso homem continuou pela cidas. Luta apocalíptica entre as forças do bem e as do mal. O
praia, aproximando-se cada vez mais da choupana. Assusta- pobre instrumento humano permanecia mudo, como que tritu-
dos, os homens armados o vigiavam de longe. Mas ele cami- rado em meio ao embate dessas forças.
nhava como uma criança, abaixando-se para apanhar conchi- Assim, a luta atingiu um momento terrível, e o peregrino
nhas na praia, admirando-lhe as belas formas. Depois, extasi- sentiu dentro de si um tipo de estouro, acreditando que a morte
ado, olhava o mar, a floresta, os montes, o céu. Toda aquela houvesse chegado. Viu, confusamente, o Lobo lançar de si as
beleza lhe falava de Deus. Sentia-O tão próximo, que nada armas, e procurou segurar-se a alguma coisa para não cair, mas
mais percebia além d'Ele. instantaneamente se encontrou amparado nos braços dele.
Assim, chegou à cabana. Chamou, mas não houve resposta. Estava cumprido o milagre. O Bem, Deus, o Amor tinham
Aproximou-se e bateu. Ouviu um barulho de ferragens, e logo sido mais fortes e haviam vencido.
apareceu um homem forte, alto, de aspecto feroz. Olharam-se. Os homens da guarda, que tinham visto tudo, correram, lar-
Olharam-se ainda mais, nos olhos. Nos momentos decisivos, de gando também suas armas. O Lobo foi levado em triunfo para a
vida ou morte, o esforço da vida se concentra no silêncio. As aldeia. Todos se abraçaram. Não havia mais medo. Acabara a
coisas mais graves são compreendidas sem palavras. Com o preocupação da luta e da guerra entre os dois, verdadeiro infer-
olhar, eles se mediram e se pesaram. O Lobo em seu instinto de no. O peregrino organizou um novo regime de paz no trabalho.
fera, compreendeu que se achava diante de um homem inerme. E, no amor recíproco, um ajudando o outro, muitas dores desa-
O fato de não se achar diante do antagonista que imaginava de- pareceram. Cristo permaneceu entre aqueles humildes, que ago-
sarmou seu primeiro ímpeto de agressão. O recém-chegado não ra viviam Seu grande mandamento: “Amai-vos uns aos outros
era um inimigo. Quem era então? E que podia querer dele? E como eu vos amei”. Assim, também entre os simples e os po-
quem lhe dera coragem de chegar até lá desarmado? bres, pode formar-se aquilo que simbolizava um primeiro nú-
Assim, o Lobo ficou desarmado pelo inerme. Já se viram fe- cleo da nova civilização do Terceiro Milênio.
ras bravias respeitarem criancinhas inocentes. Muitas vezes, a ◘ ◘ ◘
agressão é um ato de defesa, provocado pela agressão alheia, e, Esta fábula mostra como o amor é capaz de vencer. Mas o
se esta não existe, a outra não estoura. O Lobo disse apenas: problema do “Ama teu próximo” é muito vasto e se apresenta
“Que queres aqui? Quem és?”. também sob outros aspectos. Amar o próximo significa unificar
Silêncio... os ânimos, superando na compreensão recíproca as divergências
Em redor vibrava, partindo de todas as coisas, a grande voz e lutas em todos os campos; significa pacificação. Estudaremos
de Deus. Cantavam as harmonias do criado, pulsava a essência agora dois aspectos da pacificação: um no terreno religioso e ou-
espiritual da vida, a transbordar da forma que a revestia e es- tro no terreno prático da produção e distribuição econômica na
condia. Parecia que a natureza, naquele dia, celebrava uma festa sociedade moderna. Comecemos pelo primeiro aspecto.
e entoava uma sinfonia imensa de infinitas vibrações a se abra- Dissemos, no princípio, que não precisamos de novas reli-
çarem unidas em amor, harmonicamente, musicalmente, tecidas giões, nem de fazer prosélitos em favor de uma condenando as
numa mesma trama de bondade e de paz. O peregrino sentia um outras, criando dessa forma cada vez maiores inimizades, mas
choque em seu coração e estava em êxtase, fora de si. Algo, pa- sim ajudar os homens de todas as religiões a se tornarem bons e
recendo um novo poder, penetrava nele e já cintilava em seu honestos. Desenvolvamos o primeiro conceito. Depois, desen-
olhar, inclinado com um sentido de ilimitada bondade para volveremos a segunda parte deste tema.
aquela pobre alma, repelida por todos, que se tornara tão feroz Infelizmente, as rivalidades no terreno religioso foram, e
talvez porque jamais tivesse recebido bondade e amor. são ainda, sempre grandes, justamente no campo em que, por
Silêncio... estar mais próximo de Deus, deveria ser maior o amor ao pró-
Estavam frente a frente, falando-se em diálogo cerrado, fei- ximo. A finalidade de qualquer religião deveria ser sempre pa-
to de sentimentos opostos e contrastantes, num violento assalto cificar e unificar. Qualquer religião que não trabalhe nesse sen-
de vibrações, através dos olhares. De um lado, o desencadear tido pode ser considerada irreligiosa, realmente contrária à reli-
das forças elementares da vida no primitivo, egocêntrico e pre- gião. Mas, infelizmente, elas operaram no sentido exclusivista
potente, dominador no caos, ignaro de Deus e rebelde a qual- de grupo, centralizador e imperialista, com espírito de expansi-
quer ordem e harmonia. Do outro lado, o poder da ordem, a que onismo dominador e proselitismo. Essa é a natureza do homem
obedecem todos os elementos, coordenando-se fraternalmente em sua fase atual de evolução, e ele não sabe comportar-se de
em harmonia, no conhecimento da Lei e no amor de Deus. Es- outra forma, seja qual for o campo. A compreensão recíproca e
tavam frente a frente, o Lobo e o peregrino, empenhados numa a colaboração na organicidade da coletividade social ainda são
luta desesperada para vencer. A ferocidade ávida e agressiva de para ele conceitos inatingíveis. Ele ainda é guiado pelo instinto
um lado, a bondade generosa e pacífica do outro. Enfrentavam- gregário, pelo qual ele apenas sabe fazer alianças de grupo, for-
se dois tipos biológicos diferentes, dois exemplares diferentes tificando-se nelas para condenar e procurar eliminar todos os
da vida, que personificavam as forças do bem e do mal, do outros grupos que não sejam o próprio. A humanidade vive, em
amor e do ódio, de Deus e de Satanás. O anjo e a fera estavam todos os campos, mesmo no religioso, em regime de lutas, e
frente a frente, sozinhos, diante de Deus. Quem venceria? qualquer ordem só é concebível como resultado de uma disci-
Silêncio... plina imposta por alguém mais forte e, por isso, pelo vencedor.
Mas nesse silêncio reboava a voz de Deus, lampejava Cris- Por isso, em todas as religiões, encontramos as mesmas quali-
to. Acima das forças do mal, moviam-se as falanges do bem. dades, próprias do homem: absolutismo, dogmatismo, farisaís-
A grande sinfonia que a natureza entoava transparecia nos mo, proselitismo, imperialismo etc. É a natureza egocêntrica do
planos de vida mais elevados, onde, atingida a harmonização, ser humano que o leva a ser assim em todas as suas manifesta-
46 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
ções, fazendo-o conceber também as religiões como uma po- tece com todas as coisas. Mas isto não significa destruição. Re-
tência que cresce por centralização e por expansionismo centra- novando-se, a vida não se destrói, mas rejuvenesce. Não há dú-
lizador. É por isso que os diferentes pontos de vista das nossas vida que o patrimônio das verdades adquiridas deve ser conser-
verdades relativas e progressivas são tomados como verdades vado, e cada religião tem de conservar o seu. Mas, para isso,
absolutas, mesmo nas religiões que, em suas palavras, dizem o também deve respeitar o patrimônio que as outras religiões têm
contrário. Este é o estado de fato. de conservar. É preciso não sufocar o desenvolvimento e o aper-
A tese que sustentei desde 1951, em minha primeira chega- feiçoamento dessas verdades, evitando que venham, por excesso
da ao Brasil, e que já havia sustentado na Europa, foi de “im- de zelo, a cristalizar-se e morrer de velhice.
parcialidade e universalidade”. Permaneci a ela igualmente fiel, Na economia das religiões, também são necessários os pio-
diante desta ou daquela religião. Mas todas mostraram a mesma neiros, que, condenados pelos ortodoxos, assumem a dura tare-
vontade de enclausurar-me e fechar-me em seu próprio grupo, fa de fazê-las avançar. Tarefa que eles têm de realizar correndo
impondo-me uma verdade já feita, que exclui qualquer pesquisa risco e perigo, enquanto os demais podem repousar seguros e
e condena toda tentativa de progresso e aperfeiçoamento. Mas tranquilos nas posições conquistadas. Não é a estes, sem dúvi-
nem todos podem apenas aceitar e dormir, somente para forne- da, que a vida confia as funções de fazer progredir. Dentre os
cer material a fim de engrossar suas fileiras. Não há dúvida que pioneiros, Cristo foi o maior exemplo. Foi Ele o primeiro re-
todas as igrejas querem ser universais, mas apenas no sentido belde à ortodoxia do passado, o inovador que tinha de levar o
imperialista; todas querem unificar, mas somente debaixo do Velho ao Novo Testamento, não o destruindo, mas sim conti-
próprio domínio. Não foi nesse sentido que compreendi a uni- nuando-o, aperfeiçoando-o e desenvolvendo-o em formas mais
versalidade. Não a entendi no sentido de um partido religioso adaptadas ao amadurecimento do homem. Sem Cristo, julgado
que, expandindo-se, conquista tudo. blasfemo pelas autoridades, estaríamos ainda nas velhas con-
Ao contrário, deve-se entender universalidade no sentido de cepções mosaicas. Nesses amadurecimentos, deve sempre ser
imparcialidade, para chegar, não à submissão, mas à convivên- travada a luta entre o velho e o novo, entre os conservadores e
cia livre, fruto da compreensão. E a compreensão é mais do que os inovadores, entre os ortodoxos e os declarados hereges.
tolerância, pois esta apenas tolera, dignando-se a permitir, o que Cristo, diante da religião hebraica, foi o maior herege e, por is-
subentende sempre a própria supremacia. Compreensão signifi- so, foi condenado à morte.
ca recíproca integração dos vários aspectos do relativo humano, Na evolução religiosa acontece a mesma coisa que se verifi-
para poderem assim, unidos, aproximar-se cada vez mais do ab- ca na evolução política. Os poderes constituídos resistem ao no-
soluto. É uma confraternização dos fiéis de todas as religiões di- vo, para não perder as posições conquistadas. Isto até que uma
ante do mesmo Deus, igualmente adorado por elas. A identidade revolução, lançando ideias mais avançadas, sobrevenha e, ven-
da meta para a qual todas convergem deveria uni-las, ao invés cendo, fixe-as depois em novas instituições, defendidas por ou-
de dividi-las. Ora, esse espírito de divisionismo e de exclusivis- tros poderes constituídos. Assim tudo caminha, mas por meio do
mo, bem como a luta que daí deriva, representam os instintos contraste e da luta. De acordo com o exemplo de Cristo, pode-
próprios de um plano biológico atrasado, que o progresso espiri- mos de fato acreditar que, aos cristãos não-ortodoxos, natural-
tual do mundo se apressará em liquidar. Também no terreno re- mente sempre condenados, possa ter sido confiada, em alguns
ligioso, a evolução dirigir-se-á cada vez mais para a unificação, casos, a mesma missão que Cristo teve diante do judaísmo, ou
dado que esta é sua direção. Trata-se de uma maturação biológi- seja, forçar o cristianismo a dar um salto adiante, sem o que
ca que penetrará todos os campos, inclusive o religioso, porque aquela religião teria permanecido fechada nas velhas fórmulas,
é um amadurecimento do ânimo humano. Partindo do atual sis- impedida de ulterior evolução. Logicamente, também podemos
tema de atritos entre egocentrismos que não se conhecem um ao acreditar que, para um novo cristianismo amanhã, porém verda-
outro, chegar-se-á à cooperação dos indivíduos, transformados deiro e espiritual, trabalhem e produzam mais aqueles pioneiros
em unidade orgânica na sociedade humana. Este deslocamento condenados do que os conservadores e ortodoxos perfeitos. E
fundamental a um novo plano evolutivo levará a uma transfor- quem sabe, talvez Deus tenha confiado justamente a esses pio-
mação também no modo de compreender as religiões. Como re- neiros a dura e perigosa tarefa de realizar esse progresso, de
ação natural ao atual rebaixamento da onda histórica, expresso modo que o próprio catolicismo, quando os tempos estiverem
pelo materialismo que domina hoje o mundo, chegar-se-á, por maduros e uma reforma for indispensável, encontre um plano já
meio de uma reação complementar e inevitável, ao despertar es- pronto, não improvisado, oferecendo uma doutrina mais evoluí-
piritual. Isto forçará o homem a sentir sempre mais, nas religi- da, capaz de levá-lo a espiritualizar-se e tornar-se, junto com as
ões, a sua substância espiritual, dando cada vez menos impor- outras religiões afins, no verdadeiro cristianismo, constituindo
tância às formas exteriores, que hoje têm valor maior. Perten- aquela religião de substância concebida pelo Cristo, à qual ainda
cendo à matéria, elas representam o que divide, ao passo que sua não chegamos. Ele disse: “Amai-vos uns aos outros”, e não
substância, sendo espiritual, representa o que une. “condenai-vos uns aos outros em meu nome”.
Será o fenômeno biológico dessa espiritualização de todo o Esta fusão de ânimos no terreno religioso é um dos maiores
ser humano, levando-o a subir das aparências à essência interior aspectos daquele amor evangélico, que é a síntese dos ensina-
das religiões, que lhe fará compreender a substancial unidade mentos de Cristo.
entre elas. E o ser humano compreenderá como é absurdo, ou ◘ ◘ ◘
coisa pior, litigar, condenar e até perseguir em nome de Deus, Mas o amor ao próximo assume também outros aspectos.
do mesmo Deus. O passado é naturalmente separatista. Mas o Trata-se de superar, na compreensão recíproca, as divergên-
futuro só pode trazer unificação. cias e as lutas, mesmo em outros campos. Estudamos o pro-
Hoje, ao invés, o que acontece? O dogmatismo não é quali- blema da pacificação no terreno religioso. Estudemo-lo agora
dade de uma determinada religião, mas sim do homem, e pode no terreno prático da produção e distribuição econômica de
aparecer em todas as religiões, quando apareça nelas um indiví- nossa sociedade. Dissemos, pouco atrás, que o mais impor-
duo que seja levado ao absolutismo por seu temperamento. O tante é “tornarem-se bons e honestos os homens de todas as
maior erro é considerar erro tudo o que está fora do grupo; a religiões”. Desenvolvemos a primeira metade do tema e, ago-
maior heresia é considerar heréticos todos os que pensam dife- ra, desenvolveremos a outra.
rente; o maior pecado é não respeitar as consciências alheias. A Sejamos práticos e positivos. Todos, teoricamente, desejari-
verdade é uma coisa em contínua evolução e não pode deter-se am ser bons e honestos. Mas os homens de todas as religiões
no caminho As verdades envelhecem e renovam-se, como acon- querem, antes de tudo, viver e que vivam também suas esposas
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 47
e seus filhos. É por isso que lutam e, se não são bons e hones- giões se amoldam. E, assim, o Evangelho pode ser transforma-
tos, é porque, para viver, eles se põem a escorchar o próximo. do em mentira. Trata-se de mudar a natureza humana, introdu-
Quanto mais a família é sadia e compacta, mais ela representa zindo nela uma persistente correção do passado, através de ati-
um castelo bem defendido contra todos. Quanto mais o chefe é vidades opostas. Com a repetição destes atos, até o surgimento
forte e hábil, melhor ele sabe cumprir o dever de defender sua de hábitos, através dos automatismos, tal como se domesticam
esposa e filhos e mais essa família é um carro armado para as- animais, nascerão novos instintos em lugar dos velhos. Mas a
salto e defesa contra as outras famílias, como cada nação o é dureza da vida, imposta pela luta, e as necessidades materiais
contra as outras nações. Ora, é evidente que, neste mundo, a não cessam. O assalto da defesa e do ataque está sempre pronto
máxima evangélica do “ama a teu próximo” é totalmente utópi- para reduzir a pó a máxima evangélica do “ama a teu próximo”.
ca. Isto fica demonstrado pelo fato de que ninguém, ou quase É verdade que ela pertence ao futuro. Por isso, em nosso mun-
ninguém, a aplica completamente Reduz-se ela, assim, a um do, ainda aparece como um absurdo, como algo impraticável.
desejo piedoso, a uma afirmação teórica, a um sentimentalismo O Evangelho seria belo, se fosse praticado por todos, por-
mais ou menos hipócrita. Mas, então, por que Cristo quis fazer que então a reciprocidade do sacrifício pelo próximo torná-lo-
e transmitir essa afirmação? Seria Ele, talvez, um sonhador que ia compensado. Mas, onde não existem essa reciprocidade e
não conhecia as condições reais e as exigências de nossa vida? essa compensação, o cordeiro, que é o único a amar no meio
Não. Cristo não se colocava fora da realidade da vida, ig- de um bando de lobos, acaba sendo simplesmente despedaça-
norando suas leis e pedindo o impossível. Se estas são inega- do e eliminado. Sem dúvida, aquele que, sozinho, for o pri-
velmente as condições atuais do homem, ainda imerso no pla- meiro a viver, num mundo como este, cem por cento o Evan-
no biológico animal, esse mandamento exprime a lei de um gelho, não pode deixar de ser um mártir. Por isso o homem
plano biológico mais alto, que o homem terá de atingir, come- começa a vivê-lo em porcentagens mínimas, mas, assim mes-
çando a praticá-lo para, dessa maneira, aprender uma nova mo, elas já penetram e se enxertam em sua natureza inferior,
norma de vida e preparar-se, desde agora, para entrar naquele conseguindo modificá-la um pouco. O progresso é uma con-
plano. As leis da vida mudam relativamente ao grau de evolu- quista laboriosa e só pode realizar-se por etapas. O Evangelho
ção que se atingiu. A lei feroz da luta pela seleção do mais é uma inversão tão grande da bestialidade humana, que, se a
forte é a lei de nosso plano animal. Nele, os seres, não se co- ela fosse aplicado integralmente, de uma só vez, destrui-la-ia
nhecendo uns aos outros, encontram-se num estado caótico, e, com isso, destruiria a única forma de vida que o ser inferior
no qual o indivíduo está sozinho com suas forças, contra to- possui. É necessário, primeiro, fazer esse tipo biológico evo-
dos. É lógico que a natureza, nesse nível, premie o mais forte. luir, ensinando-o a viver num plano mais alto, de modo que,
Neste mundo ainda não nasceu o novo homem civilizado do no Evangelho, ele não só continue a viver, mas também en-
futuro, o ser orgânico das futuras grandes unidades coletivas. contre uma forma de vida melhor e mais vantajosa.
Esse novo homem colabora com o próximo em suas ativida- A vida quer durar de qualquer maneira e rebela-se contra
des; ao invés de colidir com ele, coordena-se; ao invés de ten- quem a queira sufocar. Jamais se deve sufocar a vida. Ora, é
der a destruí-lo na luta, soma-se a ele para o bem de todos, mister compreender que o Evangelho não é contra a vida. Ele é
com grande vantagem para o bem de cada um. apenas contra a bestialidade que domina a vida, cujo desenvol-
O atual e egoístico esmagamento recíproco, derivado da vimento ele não atrapalha, mas encoraja a levá-la a um plano
forma mental atrasada do homem, seria considerado, numa so- evolutivo mais alto. Trata-se de ser mais inteligente, a fim de
ciedade mais evoluída e menos ignorante das leis da vida, uma compreender a enorme vantagem, para todos, de viver segundo
estupidez, porque é antiprodutivo e antiutilitário para todos, in- o Evangelho. Observei, certa vez, alguns passarinhos prisionei-
clusive para o indivíduo. Ainda estamos longe de uma verda- ros numa gaiola. Evidentemente todos sofriam. Mas, ao invés de
deira civilização inteligente. A selvageria ainda prevalece em procurar juntos um caminho para a fuga, que teria sido fácil, se
nossa humanidade, sobrevivendo como fruto do passado besti- eles o tivessem compreendido, viviam a bicar-se uns aos outros.
al, no instinto e até no gosto de matar. Os jornais, o cinema, a Assim, para vencer uma pequena partida um contra o outro, per-
televisão, os romances populares estão cheios de histórias de diam a partida maior, que ganhariam se todos se unissem. É as-
delitos que o público lê e vê com alegria, ao invés de olhá-los sim que o homem age. Tal como aqueles pássaros, ele sabe fazer
com horror. Isso revela uma forma mental confusa, que, não apenas o que lhe dizem os instintos e assim, por falta de inteli-
podendo satisfazer-se na prática, por medo do código penal, gência, acreditando vencer a partida, para ganhar a menor, perde
busca aliviar-se na imaginação. Essa presença de gostos ferozes a maior. O defeito todo reside no fato de que o homem, usando o
explica-se como uma sobrevivência do passado, quando, na ri- raciocínio do indivíduo isolado, não vai além dele, pois não sabe
validade da luta pela vida, o extermínio de quem estava fora do servir-se do raciocínio do homem orgânico, que vive em função
próprio grupo representava sinal de vitória e, portanto, de bem- da coletividade. Assim, os homens, lançando a culpa uns nos ou-
estar. É por isso que, para os mais involuídos, a ideia da des- tros, permanecem todos fechados na gaiola da própria ignorân-
truição do próximo está ligada à ideia da alegria de viver. Eles cia e sofrem igualmente essa prisão. Cada um sempre espera
se encontram no polo oposto do Evangelho, que busca inverter bondade e virtude do outro, e não de si mesmo; sempre começa
completamente as posições. Se fosse compreendida quão gran- pelos próprios direitos, e não pelos próprios deveres. “Sim,
de revolução biológica o Evangelho quer operar, não nos mara- amemo-nos uns aos outros”, dizem; “mas, se eu for bom, os ou-
vilharíamos ao verificar que, em dois mil anos, apenas muito tros se aproveitam disso; se me torno cordeiro entre os lobos,
pouco se fez como realização sua na vida do homem. eles me despedaçam. Então, tenho cada vez mais interesse em
É bem difícil a tarefa e bem árduo o trabalho que o Evange- ser lobo, para despedaçar até mesmo os lobos”. Todos procuram
lho tem de levar a termo, para transformar esse tipo biológico e agir desta forma, e o nó da ferocidade, da luta e do contínuo pe-
transportar essa animalidade feroz e egoísta até ao extremo rigo cada vez mais se aperta em redor do pescoço de todos. E a
oposto, constituído pelo “ama a teu próximo”. Há dois mil anos humanidade, por isso, permanece imersa num pântano de atribu-
que se prega, procurando-se fixar com a repetição, no cérebro lações. Bastaria querer sair daí, pois o monte está bem próximo
humano, essa nova ordem de ideias. Mas justamente a realidade e todos podem subi-lo. Mas é preciso fazer o esforço de galgá-
que se procura modificar é diferente. O passado resiste ou res- lo, e isso ninguém quer fazer, porque viver o Evangelho é um
surge a cada passo. Desse contraste entre os dois princípios di- árduo sacrifício para o atual tipo biológico, que pertence a ou-
versos, que buscam conquistar o campo das atividades huma- tros planos de evolução. E o homem não quer fazer o esforço de
nas, nascem as acomodações e as hipocrisias nas quais as reli- evolver. Mas deverá realizá-lo, porque esta é a razão pela qual
48 A LEI DE DEUS Pietro Ubaldi
ele vive. O Evangelho é a lei do futuro, e é fatal que a humani- tampouco se satisfaz com guerras e revoluções, que não criam
dade tenha de atingi-lo um dia. meios. Para elevar o nível econômico, o meio positivo é o tra-
Como se vê, o problema do “ama a teu próximo”, se for balho, que produz maiores frutos. Com uma distribuição dife-
concebido, como muitas vezes se faz, só como um ato de sen- rente, da pouca riqueza total existente, poderão alguns melho-
timentalismo, permanece fora da realidade. Ele faz parte da rar, mas, no conjunto, o nível de vida geral permanece baixo.
evolução. O progresso é um fenômeno complexo, que requer, Então uma sociedade na qual todos, pelo fato de trabalharem e
para realizar-se, o amadurecimento de muitos elementos dife- produzirem, são mais ricos, ainda que assim a riqueza não seja
rentes: psicológicos, econômicos, científicos, sociais. Aquela distribuída com toda a justiça, será melhor do que uma socieda-
máxima evangélica envolve nela outros problemas, inclusive de de em que a riqueza é distribuída com justiça, mas todos são
natureza prática. O fato de cada um permanecer apegado ao pobres, porque ninguém trabalha nem produz.
próprio egoísmo, constrange os outros a também permanecerem No terreno prático, o “ama a teu próximo” é um problema
apegados a si mesmos. Forma-se, assim, uma culpabilidade e de distribuição equânime de direitos e deveres. Dado que, do
responsabilidade coletivas, que arrastam todos ao mesmo bára- nada, nada pode nascer, é evidente que, para poder alegar di-
tro de atribulações. O trabalho para se chegar a viver o Evange- reitos contra o organismo coletivo, é necessário realizar em fa-
lho é árduo e complexo. Mas é verdade também que, ao lado de vor dele todos os deveres próprios. Para receber, é preciso dar.
todos os outros instintos, o homem também tem o instinto do Sem dúvida, o instinto do primitivo é tomar sem dar, e é nisso
progresso, que visa a melhorar suas condições. Além disso, es- que ele ainda faz consistir a sua sabedoria. Tal procedimento
tão ai seus atuais sofrimentos, e nada há como o sofrimento pa- pode ser utilitário e produtivo num regime de caos, em que o
ra despertar a inteligência. Dessa forma, o homem poderá co- indivíduo está sozinho num ambiente hostil. Esse sistema, to-
meçar a compreender como dirigir seu insaciável desejo de su- davia, torna-se antiutilitário e contraproducente num regime de
bir e, assim, subir inteligentemente, na direção indicada pelo ordem, em que o indivíduo necessita de completar-se com to-
Evangelho. Também já estão em curso e cada vez mais se reali- dos os outros, cada um se especializando em uma função dife-
zando as soluções para muitos outros problemas paralelos, co- rente para compor uma sociedade orgânica. Nessa sociedade, o
mo a justa distribuição da riqueza e a elevação do nível de vida indivíduo que busca vencer, subjugando com a luta, não en-
por meio do progresso científico. Tudo concorre, inclusive a so- contra mais lugar. Nela, o homem atual seria eliminado. Em
lução de muitos problemas do conhecimento, até agora conside- um organismo assim, a honestidade de todos é a primeira con-
rados insolúveis, para melhorar as condições de vida, amansan- dição da vantagem e do bem-estar de todos. Então o trabalho
do a ferocidade, suavizando a aspereza e abrindo as mentes e os deve criar um produto genuíno, e o mercado deve oferecer uma
corações, para uma melhor compreensão recíproca. mercadoria não falsificada, pois de outra forma o dinheiro só
Realizar-se-á assim, por etapas, a grande transformação. poderia comprar enganos e perderia seu valor para todos.
Assim como a escravidão foi abolida, também será abolida a Quem rouba o próximo, nada dando em troca do valor que
miséria, mediante providências sociais estatais. Desse modo, apanha, rouba a sociedade humana de que faz parte e, assim,
assim como cada indivíduo, pelo nascimento, tem direito à li- acaba roubando também a si mesmo. Um sistema como este
berdade, também terá direito àquele mínimo que lhe é indispen- desvaloriza o poder aquisitivo da moeda e leva as nações à fa-
sável para viver, embora mesclado com o dever do trabalho. lência, arruinando os povos. Numa sociedade assim, os finó-
Serão inauguradas novas formas de vida social, e o indivíduo, rios, que acreditam ter vencido, enganando o próximo, acharão
no seio de novos sistemas, poderá amadurecer melhor. A vida um exército de outros finórios como eles, e a vida se tornará
opera suas transformações biológicas por etapas. O interesse para todos uma peleja feroz, até que todos, enganadores e en-
coletivo disciplinará cada vez mais o desordenado interesse in- ganados, caiam na mesma ruína. Mas o homem atual está tão
dividual. O mais vasto egoísmo da unidade coletiva circunscre- alucinado com a sua exclusiva vantagem imediata, que não
verá e reabsorverá sempre mais em si o limitado egoísmo indi- compreende o absurdo de considerar a si mesmo como a única
vidual. O poderio e as vantagens da organização social vence- vítima. Assim sendo, estes tantos impulsos iguais, todos soma-
rão a anarquia do indivíduo rebelde. Isto, por etapas, até que se- dos no mesmo sentido, não podem deixar de levar todos ao
ja eliminado o elemento egoísta absoluto, para o qual a justa mesmo desastre. O mal reside na ignorância absoluta das leis
medida do dar e do receber é “tudo para si e nada para os ou- da vida e no fato de se pensar que elas podem ser violadas im-
tros”. Ao longo dessa estrada de subida, o homem poderá ir punemente. A conclusão, então, é que, para fazer o homem
constatando os benefícios da disciplina, porque a ordem, à qual compreender como ele deve comportar-se, são necessários os
ele deve esforçar-se por obedecer, volta a ele depois, como re- sofrimentos buscados por ele mesmo. E estes são até poucos
ciprocidade da parte dos outros, com vantagem para si. Dessa diante daquilo que ele provoca e merece.
forma, ele verá quão melhor é viver, mesmo como indivíduo, “Ama a teu próximo” será o conceito basilar das sociedades
num regime de ordem do que num regime de caos. Na floresta, futuras mais evoluídas. Nestas, a riqueza será uma função soci-
o homem poderia gozar de modo absoluto aquela liberdade que al nas mãos dos dirigentes, para o bem de todos, e não um meio
tanto lhe agrada. Mas ele prefere viver na cidade, onde normas de vantagem exclusiva e egoística. Nesse novo mundo, o poder
numerosas limitam aquela liberdade. Isso porque a liberdade da político ou governo será uma missão a desempenhar, com a ta-
floresta inclui lutas e perigos que desaparecem nas cidades, on- refa de guiar os povos para o bem e o progresso deles, e não o
de lhe são ofertadas outras utilidades, antes desconhecidas. fruto da feroz luta contra os rivais para conquistar uma posição
O impulso que mais recrudesce a luta e, assim, mais nos de domínio, apenas no próprio benefício egoísta. Nossa socie-
mantém afastados do amor evangélico, é o assalto das necessi- dade está nos antípodas do “ama a teu próximo”. Vive-se hoje
dades materiais. É verdade que não basta havê-las satisfeito o princípio oposto: “esmaga teu próximo, antes que teu próxi-
com o bem-estar para que o homem se torne espiritualizado. mo te esmague”. Nossa evolução emerge do caos, que é o nosso
Mas também é verdade que não se pode falar de coisas espiritu- passado, mas caminha para a ordem e a harmonia. Em nosso
ais a um faminto, nem dizer que é preciso sacrificar-se pelos planeta e dentro de nós existem todos os recursos para fazer da
outros a quem precisa de tudo. O problema do amor evangélico Terra um jardim, e de nós, anjos. Deus nos deu todos os meios,
é, portanto, também um problema econômico. O amor é bem mas o esforço de procurá-los, desenvolvê-los e utilizá-los com
difícil entre famintos, que precisam lutar para obter o próprio conhecimento, deve ser nosso. O desenvolvimento da sensibili-
alimento. O homem quer a satisfação concreta de suas necessi- dade e da inteligência nos levarão a compreender não só a tre-
dades e não se satisfaz com sentimentalismos teóricos. Mas menda estupidez da fraude, da exploração e da violência das
Pietro Ubaldi A LEI DE DEUS 49
guerras e das revoluções, mas também a grande importância da Não nos esqueçamos de que não estamos sós. Quem se en-
honestidade, da paz e da colaboração. A evolução consiste, so- caminha por essa estrada não pode deixar de ter o auxilio de
bretudo, na reorganização do caos. A passagem para a fase do Deus. Ele ajuda a todos nos esforços de realização da Sua lei.
“ama a teu próximo” faz parte dessa reorganização. Reorgani- Deus dirige o grande caminho da evolução, através do qual atrai
zação do caos do ambiente externo de nosso planeta e também todos os seres a Si. Deus dirige a história e o desenvolvimento
de nosso mundo interior, ainda tomado pelos instintos elemen- do progresso humano, direcionando-o para novos tipos de civili-
tares e pelas trevas da ignorância. zação, em que o espírito dominará. Os homens de boa vontade
Eis a diagnose do mal e o remédio para curá-lo. Procure- serão arrastados pela torrente da onda histórica, que lhes valori-
mos, todos nós, introduzir em nossa vida a maior dose percen- zará o esforço, fazendo-os alcançar resultados inesperados.
tual do Evangelho que possamos suportar. Aplicá-lo todo, cem Não nos espantemos pelo fato de nos acharmos agora no
por cento, imediatamente, requer a força dos santos. Mas co- fundo da descida da onda da evolução, em pleno período involu-
mecemos por etapas, procurando aumentar as doses à propor- tivo, expresso pelo materialismo. Quem conhece a estrutura do
ção que aumentarem nossas forças. Será grande o esforço, mas, fenômeno sabe que a descida é o prelúdio do progresso na dire-
certamente, podemos fazê-lo, se tivermos consciência da nossa ção do alto e que, brevemente, no inicio do novo milênio, uma
participação na grandiosa obra de regeneração da sociedade reação fecunda e construtiva de renovação espiritual nos espera.
humana, para fazê-la evoluir da animalidade à verdadeira civi- Seu resultado será o nascimento do novo tipo de civilização, a
lização. Seremos os pioneiros dos grandes continentes inexplo- nova civilização do Terceiro Milênio, em que o espírito triunfará
rados do espírito. Espalhemos a cada momento, em redor de e a matéria será sua escrava. Nessa civilização, o Evangelho não
nós, atos de sinceridade e de bondade. As vibrações de cada será apenas pregado, mas também vivido, inclusive pelas insti-
movimento jamais se perdem, alcançando distâncias inimagi- tuições sociais. É, pois, a própria natureza do presente momento
náveis, e, com o tempo, voltarão para nós em forma de bênção histórico que, como nunca, torna atual a aplicação do manda-
ou de malefício próprio. “Quem faz o bem o faz a si mesmo, e mento de amor evangélico, porque rapidamente se avizinha o
quem faz o mal a si mesmo o faz”. Comecemos tendo a boa dia em que se tornará realidade a palavra lançada por Cristo co-
vontade de fazer o esforço. Não procuremos justificar nossa mo Sua maior recordação e seu maior ensinamento
preguiça, dizendo que essa subida é muito difícil, nem escapar
às nossas responsabilidades, jogando a culpa sobre os outros. "AMAI-VOS UNS AOS OUTROS
Principiemos cultivando nossas virtudes, e não as exigindo do COMO EU VOS AMEI".
próximo. Ao invés de importuná-lo, salientando-lhe os defeitos,
procuremos amá-lo. E não lhe peçamos que faça os sacrifícios e FIM
esforços que achamos árduos demais para nós.
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 51
aplicações práticas daquelas teorias, para ver se a realidade dos
QUEDA E SALVAÇÃO fatos corresponde aos princípios gerais nelas afirmados. Assim,
tudo vai sendo controlado racionalmente. E fazer isso é um de-
ver. Quem prega uma teoria aos outros é ele mesmo o maior
PREFÁCIO responsável pelas afirmações feitas, porque deve possuir a certe-
za e a garantia da verdade pregada. Quem ensina não pode sim-
Este livro foi iniciado no inverno de 1959. Em julho desse plesmente acreditar cegamente nas teorias que afirma aos outros,
ano, fui convidado a proferir uma conferência em São Paulo e mas deve controlar cada passo, para certificar-se que não está
logo comecei a tomar notas, mas elas foram rapidamente au- sustentando fantasias, e sim verdades. Ele tem de conhecer e
mentando, até que compreendi tratar-se da recepção de um no- oferecer as provas concretas, submetendo tudo ao teste da expe-
vo volume, que agora estamos aqui apresentando. Era de fato rimentação. Deve observar as consequências das teorias, entrar
um caudal de ideias novas que estava chegando. Outra coisa nos seus pormenores e comparar seus resultados com a realidade
não restava senão apressar-me em registrar tudo por escrito, an- dos fatos, estando sempre pronto a repudiar o que não resiste a
tes que elas desaparecessem. Assim, de um trabalho febril, exe- esse exame, aceitando qualquer objeção e resolvendo toda difi-
cutado quase todo durante a noite, nasceu este livro. culdade, para que tudo se torne claro, lógico e demonstrável.
Eu havia sido pego desprevenido pela inspiração. Ao invés Chegando hoje a este ponto, podemos compreender a lógica
de uma palestra, o resultado foi um livro. Sem ter planejado na- do desenvolvimento do pensamento que nos conduziu até este
da de antemão, nasceu um trabalho ordenado, segundo um plano volume, Queda e Salvação.
lógico e unitário. A primeira ideia que surgiu em minha mente O Sistema havia completado a visão de A Grande Síntese e
foi a visão sintética do esquema da figura apresentada neste li- Deus e Universo. Os choques, porém, dos primeiros anos bra-
vro, na sua forma mais simples, constituída pelo eixo central XY sileiros chamaram a minha atenção para o mundo terreno da
e os dois triângulos invertidos, um positivo (vermelho) e o outro realidade biológica. Eis então que tive de olhar de outro ângu-
negativo (verde). No entanto, à medida que observava essa vi- lo, não mais voltado para o céu, e sim para a Terra. Depois de
são, ela ia cada vez mais se enriquecendo de pormenores, apre- ter estudado e resolvido o problema da criação e das primeiras
sentando sempre novos problemas, que exigiam soluções, as origens, foi necessário estudar e resolver o problema da sobre-
quais chegavam assim que a minha curiosidade de saber formu- vivência do homem evangélico no inferno terrestre, do evoluí-
lava novas perguntas. Parecia que eu estava seguindo uma lógi- do em contato com as ferozes leis da animalidade humana. Es-
ca preexistente, ao longo de um caminho já traçado. Não me res- sa foi a origem de onde nasceram os dois livros: A Grande Ba-
tava outra alternativa senão admitir que se tratava de uma ver- talha e Evolução e Evangelho. Tudo isto nos levou então ao
dade completamente pronta, antes mesmo de eu conhecê-la, a problema da conduta humana em geral, surgindo assim a ne-
qual ia, pouco a pouco, apenas descobrindo-se aos meus olhos. cessidade de resolvê-lo. Após o desenvolvimento realizado nos
Mais exatamente, a técnica receptiva deste volume, regis- livros: Deus e Universo e O Sistema, o assunto tratado foi
trado em português, foi composta de três fases: 1 a) Uma rápida sempre mais se ampliando nos seus aspectos humanos, de na-
compilação por escrito, à mão, registrando em suas linhas ge- tureza terrena e prática. Nasceram, assim, mais dois livros, A
rais o conjunto de toda a concepção, com uma visão sintética Lei de Deus e Queda e Salvação. Eles representam dois graus
do esquema geral do trabalho; 2 a) Nova leitura do texto inicial, diferentes de aproximação do problema da conduta humana ou
observando atentamente a visão nos seus pormenores, contro- da ética. No primeiro, o assunto foi tratado de modo geral,
lando a exatidão da primeira percepção e ampliando-a agora acessível, prático, mais próximo à compreensão do homem
em todos os seus aspectos; 3a) Transcrição à máquina deste se- comum e de sua vida de cada dia, porque esta era a forma mais
gundo rascunho, onde se realizou, com a segunda leitura, a adaptada para palestras na rádio. No segundo, o mesmo assun-
tradução da visão em palavras, cuidando-se da língua, melho- to foi ampliado e aprofundado em relação a outros pontos de
rando-se a forma e focalizando-se com mais exatidão cada ex- referência, não mais em função das necessidades e vantagens
pressão particular, para controlar e ter certeza que a palavra imediatas da vida humana atual, mas em função dos princípios
correspondesse à visão. Assim, o trabalho se desenvolveu indo universais fundamentais e da salvação do ser no plano geral da
do geral para o particular, do conjunto para os pormenores, criação. O presente volume, Queda e Salvação, pode ser assim
primeiro em forma de síntese e depois de análise. Para me considerado como uma ampliação do outro, A Lei de Deus, tra-
apoderar completamente da visão e dominá-la em todos os tando ambos do mesmo assunto, mas em formas diferentes,
seus aspectos, tive de me aproximar progressivamente dela, como já foi mencionado anteriormente.
através de três degraus sucessivos de observação: 1 o) Uma lei- Eis o fio que liga, de um polo ao outro do conhecimento,
tura panorâmica, de longe, poder-se-ia dizer telescópica. 2o) estes livros num único desenvolvimento lógico, segundo um
Uma leitura comum, mais de perto, a uma distância normal, pensamento unitário, que vai sempre continuando e se reno-
poder-se-ia dizer a olho nu. 3 o) Uma leitura minuciosa, a cur- vando. Podemos assim compreender qual foi o caminho que
tíssima distância, poder-se-ia dizer microscópica. nos levou até Queda e Salvação. Neste volume, não se trata
Assim nasceu este volume, como consequência das teorias mais, como no precedente, A Lei de Deus, de considerações a
expostas em A Grande Síntese, Deus e Universo e O Sistema. respeito da conduta humana, mas sim da construção de uma
Cada um deles, como também o presente, é a continuação lógica verdadeira “ética racional”, que, em vez de ser fruto dos im-
do precedente. Quando acabo de escrever um livro, tenho a im- pulsos do subconsciente da maioria e das interpretações das
pressão de ter esgotado todo o assunto, havendo dito a última vagas afirmações das revelações religiosas, é o resultado posi-
palavra a seu respeito. Mas, depois, apercebo-me que tudo vai tivo de uma lógica científica e, por isso, tem valor real e uni-
continuando e que aquela última palavra é só a primeira de um versal, constituindo um produto das leis da vida, verdadeiras
novo livro. Quando chegar ao fim deste volume, também terei a para todos, independente do tempo, da raça e da religião de
impressão de ter esvaziado o depósito do meu conhecimento a cada um. O escopo da presente obra é formular e afirmar esta
respeito do tema tratado, entretanto verificarei, depois, que o nova ética, como uma norma de conduta mais inteligente e
ponto atingido, mesmo parecendo ser de chegada, é de fato o adiantada para os evoluídos de amanhã.
ponto de partida do volume seguinte. E assim por diante. Na ló- Infelizmente, a ética atual, na sua tentativa de disciplinar os
gica do pensamento que fui registrando naqueles livros, o pre- baixos instintos da cobiça, do sexo e da luta para vencer, repre-
sente trabalho representa a fase do controle experimental e das senta mais um desabafo dos impulsos primordiais da vida do que
52 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
que uma regra para o indivíduo se coordenar em função de fina- ra formar um castelo de conceitos e teorias abstratas fora da
lidades superiores no seio de uma unidade orgânica, futuro es- realidade, mas sim de uma visão positiva, aderente aos fatos
tado da humanidade. Neste livro, nós, apelando ao sentido prá- e cientificamente controlável, que abrange todos os aspectos
tico que todos possuem e a um cálculo utilitário compreendido da existência e dá respostas às perguntas mais relevantes para
por todos, queremos demonstrar quanto seria mais vantajoso a vida, podendo-se dizer que ele resolve o problema do co-
praticar uma regra de vida mais civilizada, menos primitiva e nhecimento, dando-nos, pelo menos nas suas linhas gerais,
feroz. Com isto, buscamos possibilitar, em paralelo ao mundo uma orientação definitiva. A filosofia deveria responder a es-
atual, que se tornou mais poderoso pela ciência, o surgimento tas perguntas fundamentais, tais como: por que existimos, por
de um outro, melhor pela inteligência e pela bondade. As gera- que nascemos, vivemos e morremos, por que sofremos, de
ções atuais talvez não compreendam isto. Mas nosso objetivo é onde viemos e para onde vamos? Há um funcionamento or-
atingir as futuras gerações, mais aptas à compreensão, porque, gânico no universo, mas quem o dirige? O movimento de tu-
tendo sido selecionadas no próximo expurgo terrestre, estarão do o que existe está orientado para uma dada finalidade, mas
amadurecidas pelas grandes dores que nos esperam, as quais qual é o princípio que tudo guia para ela e qual o plano de
têm o poder de abrir os olhos aos cegos. todo esse trabalho? Qual é o seu resultado final? Se estamos
Impelido pelo desejo irresistível de encontrar este mundo seguindo um caminho, a coisa mais importante é conhecê-lo.
melhor, para me evadir do selvagem estado atual, procurei de- Como podemos percorrê-lo sem saber para onde ele vai? E,
sesperadamente outro lugar. Sufocado pela terrena atmosfera se estamos desesperadamente fugindo da dor e procurando a
de engano, egoísmo, esmagamento e ignorância, fugi em busca felicidade, qual é o meio para realizar aquilo que mais alme-
de sinceridade, bondade, honestidade e conhecimento. Tive de jamos? Um sistema filosófico deste tipo representa a vanta-
viajar muito, mas encontrei o que procurava. Atrás dos basti- gem de nos oferecer em todos os campos uma orientação que,
dores desta peça humana de teatro, suja e trágica, apareceu-me embora não resolva todos os pormenores dos problemas,
uma essência mais profunda e verdadeira: a realidade do espí- permite encararmos os assuntos particulares sem ter de cons-
rito. Quando tive diante dos olhos o plano geral do universo, o truir hipóteses por tentativas, proporcionando um caminho
horrível presente se completou num melhor amanhã, trazendo pré-ordenado, no qual somos dirigidos pela visão de conjunto
uma radiante visão de conjunto, em que a futura felicidade jus- anteposta à nossa pesquisa. Veremos agora qual é o método
tificava os sofrimentos atuais. A certeza de que, através da ir- que torna possível atingir esta visão.
refreável vontade da lei de Deus, este futuro melhor estava ga- O filósofo moderno tem de ser não somente um construtor
rantido à criatura amargurada pela dor e deveria, por isso, fa- de castelos lógicos, mas também um cientista, um matemáti-
talmente tornar-se realidade para nós um dia, encheu meu co- co, um biólogo, um historiador, um sociólogo, um moralista,
ração de esperança. Vislumbrei ao longo do caminho das as- um parapsicólogo etc., porque assume a posição de quem, co-
censões humanas a lenta e fatal aproximação do reino de Deus, locando-se acima de todos os ramos do conhecimento huma-
em que Ele triunfa, vencedor das trevas. Esta foi para mim no, tem a tarefa de fazer deles uma síntese que oriente e en-
uma grande descoberta, que me encheu de alegria. Significou caminhe para a unidade os resultados das tantas conquistas
uma descoberta maravilhosa ter chegado a perceber dentro de analíticas em que o conhecimento está hoje fracionado. Então
cada coisa a imanência de Deus, não de um Deus a quem se o valor de um sistema filosófico pode ser avaliado pelo grau
costuma orar só com a boca ou no qual se tem de acreditar por de unificação por ele atingido, pela medida na qual ele conse-
medo, nem de um Deus só estátua e imagem, mas sim de um guiu revelar e demonstrar, além das aparências da superfície,
Deus que sentimos presente em toda a hora e lugar, vivo e ope- a substancial coordenação que, na profundidade, funde num
rante entre nós, pai que nos ama e nos ajuda a viver e a subir só princípio tudo o que existe.
para o nosso bem. Finalmente foi possível sair da névoa das Surge agora, como dizíamos, o problema do método que
lendas, da fantasia, da ignorância e da fé cega. Finalmente uma nos permita alcançar esses resultados. A filosofia antiga afir-
visão clara do nosso destino, um apoio sólido, um caminho mou e a ciência moderna demonstrou que estamos vivendo num
certo e uma meta segura, encontrando a verdadeira vida. mundo de aparências. Os sentidos, que representam o meio para
Tudo isto não caiu de graça do céu, mas foi o fruto de um chegar ao conhecimento da realidade, ficam apenas na superfí-
duro trabalho de amadurecimento, de maceração interior e de cie, sem saber atingir a verdadeira essência na profundidade.
sofrimentos profundos. Mas este fruto está aqui, e a minha ale- Como poderemos chegar até lá?
gria agora é oferecê-lo aos que sofrem e lutam para subir, meus O homem possui dois métodos de pesquisa: o dedutivo e o
companheiros na viagem da vida, a fim de lhes mostrar o cami- indutivo. Através do primeiro, que se realiza pela inspiração,
nho da felicidade e explicar-lhes que é possível atingi-la, vi- intuição ou revelação, o homem, antecipando a evolução e co-
vendo conforme a lei de Deus. locando-se acima das pequenas coisas do contingente, pode
atingir os princípios gerais, para deles descer aos casos particu-
São Vicente (São Paulo), Brasil. lares, que são enfrentados e resolvidos somente como conse-
Natal de 1960 quência do universal. Acontece, porém, que a pesquisa condu-
zida neste nível não nos coloca diretamente em contato com a
realidade dos fatos, que é o único meio de controle da verdade
INTRODUÇÃO dos princípios gerais. Utilizando o segundo, que é o método
positivo da ciência, com base na observação e na experimenta-
O PROBLEMA DO CONHECIMENTO ção, o homem permanece no terreno objetivo da realidade,
procurando chegar ao conhecimento da verdade através do le-
Antes de iniciar este novo livro, apresentaremos, numa vi- vantamento de hipóteses a partir daquela base segura, até con-
são de conjunto, um rápido resumo do sistema filosófico de- firmá-las com o apoio dos fatos, em teorias positivamente de-
senvolvido por nós até hoje, na I e na II Obra de doze volumes monstradas. Desse modo, segue-se um caminho inverso ao
cada uma, que estamos acabando. Esta exposição sintética po- precedente. Em lugar de se descer do geral para o particular,
derá ser útil como premissa para orientar o leitor a respeito do sobe-se do particular para o geral. Assim o pesquisador per-
novo tema, que iremos desenvolver neste livro. manece diretamente em contato com a realidade dos fatos. As
Entremos rapidamente no assunto. Qual é o nosso sistema verdades atingidas são exatamente controladas, no entanto são
filosófico? Não se trata de uma construção lógica artificial, pa- parciais, fragmentárias e relativas, ficando fechadas no particu-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 53
lar, de onde não se consegue sair senão depois de um longo e nores, encontrará tudo nos meus quatro livros básicos: A Grande
duro trabalho para subir ao universal. Síntese, Deus e Universo, O Sistema e o presente volume.
O primeiro método dá resultados vastos, mas não controla- O plano, embora contenha o dualismo, é estritamente mo-
dos. O segundo dá resultados positivos, mas restritos. Para re- nista. O conceito central, que tudo rege em unidade, é Deus.
solver o caso por nossa conta, usamos outro método, que pode- Ele, na Sua essência, está no absoluto e não pode ser definido,
ria ser entendido como uma combinação dos dois, utilizando ou seja, não pode ser limitado no relativo, onde está a criatura.
assim as vantagens de ambos, tanto do dedutivo, que trabalha Veremos como esse relativo nasceu. Estes são os dois polos
por síntese, como do indutivo, que trabalha por análise. opostos da mesma unidade.
Em outras palavras, usamos num primeiro momento o método Deus simplesmente é. Ele é tudo. Deus significa existir.
outrora empregado pelas religiões, com base na revelação, que Ele é a essência da vida. Tudo o que existe é vida, isto é,
mais exatamente chamamos de intuição ou inspiração, enquanto, Deus. E Deus é tudo o que existe, que é vida. Deus é o “ser”,
num segundo momento, usamos o método positivo da ciência, acima de todos os atributos e limites. O nada significa o que
que se apoia no controle objetivo por meio da observação e da ex- não existe, a ausência de Deus, ausência que não pode exis-
perimentação. Deste modo, chegamos primeiramente a uma ori- tir. Portanto o nada – representando a plenitude da negação,
entação geral, que nos indica como dirigir a nossa pesquisa, e, de- ou da ausência de Deus, isto é, do não ser – não pode existir
pois, realizamo-la em contato com os fatos, para controlar se a in- como verdadeira realidade por si mesmo, mas só como fun-
tuição, que aceitamos apenas como hipótese de trabalho, corres- ção oposta à positividade, como segundo polo da mesma
ponde à realidade. Colocamos assim o fruto da inspiração no ban- unidade. Eis como o dualismo fica fechado dentro do mo-
co do laboratório das experimentações, como fazem o físico e o nismo, de modo que, ao invés de destruir, confirma e forta-
químico, quando, observando o funcionamento dos fenômenos, lece a unidade do todo.
descobrem as leis que os regem. Temos usado este método de Este Tudo-Uno-Deus abrange tudo. Nada há fora Dele. Ele
controle também no campo moral e espiritual, observando o fun- é: 1o) Uma inteligência que tudo dirige; 2 o) Uma vontade que
cionamento da lei de Deus, através dos efeitos de nossas ações no se quer realizar; 3o) Uma forma gerada como a inteligência a
bem ou no mal sobre o desenvolvimento dos destinos. Pudemos pensou e como a vontade a quis realizar. Eis a Trindade da
chegar assim a uma ética biológica racional, não mais empírica, e mesma unidade de Deus, os três momentos do mesmo Tudo-
sim positiva, baseada nas leis da vida. Com isso, foram alcançadas Uno-Deus. Eles são: 1o) Espírito (concepção); 2 o) Pai (verbo
novas conclusões, que nos levaram bem longe. ou ação); 3o) Filho (o ser criado).
O problema agora consiste em explicar como funciona esse Que existe uma inteligência, chame-se Deus ou como se
método da intuição ou inspiração. Entramos aqui no campo da quiser chamá-la, dirigindo todos os fenômenos, enclausurando-
parapsicologia. Nesta breve exposição, podemos apenas resu- os dentro de leis exatas e orientando-os para um dado telefina-
mir as conclusões. Julgo que o grau de conhecimento depende lismo, conclusivo de todo o transformismo, não há dúvida.
do nível de amadurecimento evolutivo atingido pelo ser que o Como não há dúvida também que essa inteligência possui uma
concebe. Desde tempos anteriores ao surgimento do ser huma- vontade que realiza em formas definidas o seu pensamento.
no, todos os problemas já estão resolvidos e tudo está funcio- Por esse processo, Deus gerou a primeira criação. Ele tirou
nando. O homem, portanto, não cria nada, mas apenas desco- da Sua própria substância as individuações de tudo o que exis-
bre a verdade, aprofundando sempre mais a sua pesquisa, para te. Ele as tirou de Si, porque nada pode existir fora e além de
conseguir ver o que já existe por si mesmo, independente dos Deus, que é tudo. E todas ficaram em Deus, porque nada pode
recursos perceptivos utilizados. A verdade é obra eterna de sair do todo. Portanto todas as criaturas são feitas da substân-
Deus, e não do homem. Ela sempre esteve e sempre estará toda cia de Deus e, pelo fato de não terem saído Dele, existem em
escrita no absoluto. E o homem, situado no relativo, vai gradu- Deus, uma vez que a criação não podia ser exterior, mas so-
almente, por aproximações sucessivas, abrindo os olhos, con- mente interior a Deus.
seguindo ler cada vez um pouco mais da verdade, em propor- A primeira criação de Deus originou-se, então, do resultado
ção à sua sensibilização e compreensão, dadas pelo seu grau de de três momentos: 1o) O pensamento; 2o) A ação; 3o) A obra,
amadurecimento evolutivo. no instante em que a ideia, por meio da ação, atingiu a sua rea-
◘ ◘ ◘ lização. Aqui temos a obra terminada, na qual a ação gerou a
Então o problema do conhecimento é, antes de tudo, uma expressão final da ideia originária do primeiro momento.
questão de evolução do instrumento humano. Não se trata de Tudo assim continuou existindo em Deus, como antes da
um verniz cultural pintado por fora e colado no cérebro por lei- criação, mas, agora, de maneira diferente, não mais como um
tura de livros, mas trata-se de um amadurecimento profundo, todo homogêneo, indiferenciado, e sim como um sistema orgâ-
preparado às vezes pelos choques da vida, com o sofrimento e a nico de elementos ou criaturas, no centro do qual está Deus, re-
consequente elaboração íntima do subconsciente. Trata-se de gendo-o com Seu pensamento, que chamamos “Lei”, pois cons-
um fenômeno que se realiza para além dos comuns processos titui a regra da existência de todos os seres, dirigindo tudo.
da lógica, num plano de vida e dimensão super-racionais. Não há tempo agora para entrar na demonstração da verda-
Quando o ser está maduro, o conhecimento aparece como reve- de destas afirmações, nem para dar provas ou aprofundar o as-
lação, em forma de visão interior, que enxerga até onde o racio- sunto nos pormenores, como foi feito nos três primeiros livros
cínio não alcança. Expliquei nos meus livros como, espontane- acima mencionados. Falamos de primeira criação? Por quê?
amente, fui levado a usar esse método. Estudei também o pro- Nas aproximações que conseguimos alcançar em nossa re-
gressivo desenvolvimento da sua técnica, que se vai aperfeiço- presentação humana da ideia de Deus, colocamos o conceito de
ando sempre mais. Temos nas mãos seus resultados concretos, perfeição. A lógica das coisas impõe conceber um Deus perfei-
com a obtenção de mais de 6.000 páginas escritas pelo mesmo to e, por conseguinte, uma Sua obra também perfeita. Ora, o
processo, cuja veracidade foi possível, depois, controlar com a nosso universo representa, porventura, uma obra perfeita? Nele
observação e a experimentação, que a confirmaram. Estes resul- existem a desordem, a ignorância, o erro, o mal, a dor, a morte,
tados, quando colocados em contato com a vida, demonstraram e essas coisas parecem mais o resultado de um emborcamento
corresponder à realidade dos fatos. de Sua obra. Se temos de admitir que a obra de Deus deve ser
Que nos diz esse sistema filosófico? Qual o conteúdo da vi- um sistema perfeito, vemos de outro lado que o nosso universo
são que ele nos oferece? Podemos, resumidamente, reproduzi-lo está colocado nos antípodas da perfeição, possuindo qualidades
em síntese, nesta “Introdução”. Quem quiser entrar nos porme- opostas. Se o Sistema de Deus representa a positividade, em nos-
54 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
so universo nos encontramos, pelo contrário, num Anti- práticas, que podemos controlar em nossa vida e para as quais,
Sistema, que representa a negatividade. assim, encontramos uma explicação.
Temos, então, dois termos opostos: o Sistema, de sinal posi- Devido ao mau uso da liberdade que a criatura possuía –
tivo, cujo centro é Deus; e o Anti-Sistema, de sinal negativo, cu- porque feita da substância de Deus, de natureza livre – ocor-
jo centro é Satanás, o Anti-Deus. Ora, como nasceu o Anti- reu a desobediência à Lei, e, por um automático jogo de for-
Sistema? Que impulso o gerou? No todo, não existia senão ças, o qual não é possível explicar aqui, iniciou-se o afasta-
Deus, e Nele estavam todas as criaturas. Tudo isto representava mento dos rebeldes através do fenômeno da involução, que
o estado perfeito do Sistema, no fim da primeira criação, obra originou o caos, dando início ao nosso universo. Apareceu as-
direta de Deus. Ora, se de Deus, que é perfeito, não pode sair o sim, no relativo, uma nova maneira de existir, constituída pelo
imperfeito, é absurdo que a perfeição de Deus possa ter gerado o tornar-se, ou vir-a-ser, ou transformismo, pela qual nada pode
Anti-Sistema, cujas qualidades são opostas às Dele, não nos res- existir senão encerrado em uma forma que se modifica cons-
tando outra escolha para justificar o fato positivo e inegável da tantemente. A perfeição ficou longe no Sistema, nada mais
presença do Anti-Sistema, senão atribuí-lo à única outra fonte existindo dela senão a necessidade de recuperá-la e o caminho
que existia no Sistema, isto é, à criatura. Mas, se ela atribui tanto da evolução, que reconduz a ela.
mal a Deus, isto explica e até mesmo prova a sua revolta, porque No dualismo que nasceu assim, surgiu então um fato novo: o
lançar a culpa nos outros é sempre o desejo instintivo do rebel- movimento de transformação, realizado nos dois sentidos, de in-
de, ainda que isto, como neste caso, represente o maior absurdo volução e de evolução. Foram iniciadas duas corridas em dire-
possível. Tudo isso somente pode ser explicado se admitirmos ções opostas: uma para a negatividade do Anti-Sistema, como
que, na primeira criação, tenha acontecido uma alteração intro- consequência da queda, e outra para a positividade do Sistema,
duzida por esse outro impulso existente no Sistema, o único ao como consequência e continuação do primeiro impulso criador,
qual, não sendo ele de Deus, é possível atribuir a causa da for- que busca recuperar e salvar tudo, levando de volta à fonte:
mação de um sistema contrário, isto é, imperfeito. Tudo isto se Deus. Dois movimentos opostos e complementares, que consti-
mostra verdadeiro, pois podemos verificar que a imperfeição en- tuem as duas metades inversas do mesmo ciclo: ida e volta, des-
contrada em nosso universo representa o emborcamento exato cida e subida, doença e cura, afastamento e retorno, emborca-
da perfeição do Sistema e das suas qualidades positivas, agora mento e endireitamento, involução e evolução, onde a segunda
levadas para o negativo. Em relação à primeira criação, estamos fase somente é possível e explicável em função da primeira.
no seu polo oposto, e isto nos indica que não se trata de uma cri- Eis, então, que o quadro geral do fenômeno da queda, em
ação nova, realizada com princípios novos, mas simplesmente seu conjunto, compreende um circuito completo de ida e volta,
de uma cópia emborcada e corrompida da primeira. ao qual chamamos “ciclo”. Este ciclo se divide em dois perío-
Eis então que aparece racionalmente justificável a hipótese dos: a fase da descida, chamada involução, e a fase da subida ou
da desobediência das criaturas à lei de Deus, e o fato de já ser ascensão, chamada evolução. Cada período divide-se em três fa-
conhecida pelo homem através da intuição e de ter sido, desde a ses, que são: espírito, energia e matéria, apresentadas nesta or-
mais remota Antiguidade, afirmada pelas religiões, por meio da dem sucessiva no período da descida, ou involução, e na ordem
revelação, oferece-nos uma confirmação da teoria da revolta e inversa no período da subida, ou evolução, que é o nosso.
da queda, que só agora é possível ser apresentada com base na O período involutivo parte da fase espírito, que representa o
evidência dos fatos e demonstrada logicamente, até às suas últi- estado originário ou ponto de partida, de onde se inicia a desci-
mas consequências, como fizemos em nossos livros. Pelo fato da. Enredado no processo involutivo, o espírito sofre uma trans-
de se referir a um mundo que não pertence ao nosso relativo e de formação por contração de dimensões, pela qual – sendo demo-
estar além de todas as nossas possibilidades de observação e ex- lidas as qualidades positivas do Sistema – também ele, o espíri-
perimentação, tal teoria não é diretamente controlável em si to, fica demolido até à fase energia. Através da continuação
mesma. Podemos, no entanto, controlá-la através de seus efeitos, deste processo na mesma direção, a energia chega à fase maté-
que constituem o nosso universo e a nossa própria vida, cuja ria, transformação que é fenômeno já conhecido pela ciência
forma e funcionamento só deste modo podem ser explicados e moderna. Temos assim, diante dos olhos, as três fases do pri-
justificados. E é lógico que assim seja, porque o Anti-Sistema, meiro período, chamado involutivo: espírito, energia, matéria.
onde nós vivemos, é exatamente a consequência dos desloca- No fim desse período, a substância que constitui a parte cor-
mentos realizados no Sistema, com a revolta. Esta teoria foi as- rompida da esfera do Todo-Uno-Deus, no Seu terceiro aspecto
sim, em nossos livros, submetida a controle racional. Observan- de Filho, inverteu todas as suas qualidades originárias positivas
do muitos fenômenos e fatos, vimos que eles confirmam em em qualidades negativas. Assim, a causa originária exauriu-se,
cheio essa interpretação da primeira origem de nosso universo, produzindo todo o seu efeito, e o impulso da revolta se esgotou.
cuja estrutura físico-dinâmico-psíquica, transformismo evolutivo Neste ponto de máxima inversão dos valores positivos e de má-
e última finalidade, se não fossem relacionados com essas cau- xima saturação de valores negativos, no Sistema invertido, o
sas primeiras, permaneceriam um mistério inexplicável. processo se detém. A transformação em direção involutiva, ou
◘ ◘ ◘ de descida, cessa. Nesse momento, Deus retoma a Sua lenta
Deixemos agora o Sistema, isto é, o universo espiritual in- ação de atração para Si, como centro de tudo.
corrupto, onde Deus permaneceu no Seu aspecto transcenden- Iniciou-se assim aquele longuíssimo processo de subida, no
te, como causa e centro de tudo, junto com as criaturas que não qual vivemos hoje, que é o segundo período, inverso e com-
desobedeceram, e olhemos para o Anti-Sistema, ou seja, o uni- plementar, chamado: evolução. Enquanto o primeiro período,
verso material e corrupto das criaturas rebeldes, onde estamos dado pela queda ou involução, significou a destruição do uni-
e no qual, presente no Seu aspecto imanente, Deus permaneceu verso espiritual e a criação ou construção do nosso universo fí-
para guiar tudo à salvação, orientando e dirigindo o ser decaí- sico, esse segundo período, dado pela subida ou evolução, sig-
do, curando o que se tornou doente, reconstruindo o que foi nifica a destruição da matéria como tal e a reconstrução do
destruído, endireitando com a evolução o que se emborcou, re- originário universo espiritual. Estamos agora neste segundo
organizando o caos em que tudo caiu. Sem essa presença de período do ciclo, o evolutivo. Aqui, o caminho é inverso do
Deus, a salvação não seria possível. Explica-se assim o concei- precedente. Se a descida foi do espírito para a energia, chegan-
to de “redenção”. Não existe no universo outra força salvadora do até à matéria, agora a subida vai da matéria para a energia,
pela qual o ser pudesse ser redimido. Eis que, saindo dos prin- voltando até ao espírito. A soma dos dois períodos forma o ci-
cípios gerais, vamos aproximando-nos das suas consequências clo completo, feito de um movimento que se fecha, dobrando-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 55
se sobre si mesmo. No conjunto, a correção neutraliza o erro, a produto direto da obra de Deus, encontram a sua razão de ser,
expiação reabsorve a culpa e, assim, tudo volta ao seu lugar. No sem nos fazer cair no absurdo de admitir que tudo isto tenha saí-
fim, acima de tudo, triunfa a perfeição de Deus, que, tendo pre- do das mãos de Deus, o que demonstraria a sua maldade, ou pe-
visto tudo, acaba por reconstruir e salvar tudo. lo menos falta de sabedoria. Assim, a contradição entre opostos,
A estrada que A Grande Síntese nos mostra é aquela per- que é o princípio no qual se baseia a estrutura e o funcionamento
corrida pelo ser no segundo período do ciclo, o evolutivo. de nosso universo, encontra a sua explicação e justificação den-
Aquele livro nos explica o caminho ascensional da evolução, tro da lógica de Deus, a qual fica inatingível e íntegra, acima dos
partindo da matéria, a sua origem, e progredindo através das absurdos gerados pela revolta. Desta forma, a sabedoria domina
formas de energia, depois de vida mineral, vegetal e animal, o erro, a ordem sobrepuja a desordem, o bem prevalece sobre o
subindo sempre, até alcançar o homem, seu espírito, seu mun- mal, a vida é senhora da morte, o endireitamento supera o em-
do social e moral, indicando o seu futuro em mais altos planos borcamento, a salvação corrige a revolta, o Sistema é senhor do
de existência. O período involutivo, precedente ao nosso atual, Anti-Sistema, Deus é superior ao anti-Deus, Satanás.
A Grande Síntese aceita como fato consumado, sem indagar- Neste sistema filosófico, a grande cisão do dualismo, em
lhe as causas e antecedentes. O seu objetivo é somente o trecho que o nosso universo aparece inexoravelmente despedaçado, fi-
que vai do Anti-Sistema ao Sistema. Nisto, aquele livro segue ca sanada, pois se encontra enclausurada dentro de um monis-
o mesmo método da Bíblia, onde a gênese também começa mo maior, que a abrange e a encerra dentro de si. Fica salvo as-
com a criação da matéria, sem explicações sobre como isto sim o supremo principio da unidade do todo, onde reina Deus,
pôde acontecer e o que houve antes. Assim, o assunto se torna um só Deus, em cujas mãos está todo o poder, que não é com-
mais compreensível, porque abrange apenas o nosso atual tre- partilhado com outro anti-Deus, nem despedaçado no dualismo,
cho de existência, que o homem pode compreender melhor. como infelizmente apareceu a vários teólogos e filósofos que
A visão apareceu completa no livro Deus e Universo, abra- ficaram na superfície das aparências, sem compreender. Com a
çando o ciclo todo, nos seus dois períodos, o involutivo, de ida, revolta, a desordem nasceu, mas não saiu da ordem; o caos sur-
e o evolutivo, de volta. Porém, nesta primeira exposição do es- giu, mas permaneceu controlado por Deus; o mal surgiu, mas
quema geral do fenômeno, não foi possível entrar em pormeno- ficou apenas como sombra do bem. O segundo termo do dua-
res para tudo explicar e provar. Assim, o livro deixou muitos lismo não é senão uma função menor do termo originário, que
leitores em dúvida, porque não compreenderam. permaneceu como eixo fundamental, em volta do qual aquele
Chegou depois o volume O Sistema. A sua tarefa foi fixar continua a rodar. O ponto central permaneceu, e tudo continua
as ideias desenvolvidas em vários cursos sobre esse assunto, a gravitar em torno dele. A cisão da unidade entre dois opostos
respondendo às objeções que neles foram apresentadas pelos não somente lhe é interior, mas também constitui fenômeno
ouvintes. Entrando em maiores pormenores, procuramos ofe- temporário, que, pela própria estrutura da obra de Deus, auto-
recer naquele livro novas provas da verdade sobre a teoria, a maticamente tende para a sua solução. De fato, logo que surge a
fim de controlar tudo, fazendo contato com a realidade de nos- doença, aparece o seu tratamento. Assim, o próprio erro da se-
sa vida, na qual se encontram as últimas consequências daque- paração e involução leva automaticamente à evolução, que o
la teoria. Se tivesse havido erro, este exame e o contínuo con- corrige, não havendo para o processo de emborcamento outra
trole da teoria deveria tê-lo mostrado. Se não apareceu, então alternativa senão terminar no endireitamento.
é porque a teoria, ao invés de ser desmentida, foi confirmada Na lógica desse sistema filosófico, fica resolvida a contradi-
pelos fatos, que correspondem à verdade. ção – de outra modo, impossível de suprimir – entre monismo e
Eis, em síntese, o quadro geral de nosso sistema filosófico. dualismo, dois fatos inegáveis, que, embora aparentemente in-
O primeiro volume, A Grande Síntese, fica assim enquadrado conciliáveis, é necessário pôr de acordo, pois, caso contrário, fra-
na visão dos dois, muito mais vasta. Se aquele livro representa cassa o princípio fundamental da unidade do Uno-Tudo-Deus.
uma síntese científico-filosófica, os outros dois são uma síntese Fomos assim observando esse sistema filosófico de todos
teológica. Mas o primeiro não esgotou todo o assunto, porque os lados e tivemos de concluir que ele satisfaz todas as exi-
não se pode admitir um processo evolutivo por si só, como efei- gências da razão, coordenando tudo num quadro lógico, onde
to não justificado por uma causa precedente, como um movi- tudo encontra a sua explicação e justificação. Ele, simples-
mento isolado, sem o movimento oposto, no qual ele encontra a mente demonstrando, convence sem deixar como resíduo
sua contrapartida, que o equilibra. aqueles pontos obscuros que, em razão do problema não ter
◘ ◘ ◘ sido equacionado na forma certa, precisam depois ser resolvi-
Este sistema filosófico nos ofereceu um ponto de referência, dos à força, com dogmas e mistérios. Esse sistema filosófico
o Sistema, que representa o absoluto. Sem isto, o contínuo nos esclarece o significado de tudo o que nos cerca, até às su-
transformismo de tudo o que existe no relativo de nosso univer- as razões mais profundas, satisfazendo o nosso instinto de jus-
so não teria nenhum ponto de apoio nem meta final a atingir tiça e nosso desejo de felicidade, que é reconhecida como
que justifique e sustente aquele transformismo. Ele nos fornece, nosso direito, pois tudo progride para ela. É um sistema que,
assim, a explicação para muitos acontecimentos, inexplicáveis além de saciar o coração, porque nos oferece uma grande es-
de outra maneira. E o valor de um sistema filosófico pode ser perança, também nos dá de Deus um conceito completamente
avaliado em função dos fatos que ele desvenda. Explica-se, isento das maldades carregadas pelo antropomorfismo. Ofere-
também, a origem de nosso relativo, do vir-a-ser, da evolução, ce-nos de Deus uma ideia na qual Ele permanece verdadeira-
da imperfeição encerrada na perfeição, dos limites do espaço e mente bom e grande, apesar dos tantos erros e sofrimentos
do tempo no seio da eternidade e do infinito. Uma evolução as- que, aos nossos olhos, parecem macular Sua obra.
sim orientada para o seu telefinalismo adquire um sentido lógi- Temos agora, diante dos olhos, todo o caminho do ser, sain-
co, permitindo por seu intermédio a manifestação da obra sal- do do Sistema, onde Deus o criou, e viajando até ao Anti-
vadora de Deus em favor da criatura decaída. O maior fenôme- Sistema, de onde Deus o traz à salvação. Através do vir-a-ser
no de nosso universo resulta, deste modo, dirigido para um ob- involutivo e evolutivo, podemos agora seguir o roteiro que cabe
jetivo definido, sem o qual a evolução se tornaria um caminho a cada um percorrer, até atingir o ponto final de sua trajetória.
sem meta, iniciado sem razão, para ser percorrido fatalmente, E, quando conhecemos o problema maior nas suas linhas ge-
como uma condenação não merecida. rais, é possível nos orientarmos a todo o momento em qualquer
Assim, a presença do mal, da dor e da morte, qualidades ponto de nossa caminhada, colocando no lugar que lhe cabe, no
próprias da negatividade de nosso mundo, que não podem ser quadro geral, cada fenômeno, cada movimento do ser e cada fa-
56 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
to particular de nossa vida. Eles, assim, por menores que sejam, gens e funcionamento do universo. O trabalho de construir um
encontram a sua razão de ser, até à longínqua primeira origem tal sistema não fica tão somente no terreno abstrato e teórico,
das coisas. Só deste modo se poderá viver inteligentemente, não representa apenas a produção filosófica de um castelo de
compreendendo o sentido de tudo o que nos cerca e sabendo o ideias, mas se dirige para a realização do melhoramento das
que temos de fazer e por quê. Esta visão é progresso, porque duras condições da vida humana, demonstrando que elas são,
nos aproxima do estado orgânico do Sistema, e também é van- em grande parte, devidas ao fato de ignorarmos o caminho cor-
tagem, porque nos reconduz à felicidade plena. Trata-se de uma reto que deveríamos percorrer. Sendo assim, o trabalho desta
filosofia sadia, que busca ajudar, admitindo o utilitarismo ho- construção filosófica não tem somente escopo e sentido inte-
nesto do homem de bem. É uma filosofia que vem ao nosso en- lectual, mas também sublimação, uma vez que seu objetivo é
contro para nos salvar, mostrando-nos a ativa presença entre beneficiar o homem e, ao mesmo tempo, libertá-lo o mais rá-
nós de um Deus bom, que, antes de tudo, é nosso amigo e nos pido possível dos seus sofrimentos.
quer bem. Filosofia consoladora, pois nos fala com a forma O fruto útil de tudo isto, para nós, é ter descoberto a exis-
mental do Sistema, que está no Alto, trazendo luz à forma men- tência de uma lei que representa o pensamento e a presença de
tal do Anti-Sistema, para reerguê-la até ele, aos níveis de vida Deus em nosso mundo. Esta lei dirige tudo, funcionando conti-
mais adiantados e felizes. Somos infelizes decaídos no caos, nuamente para cada um, e todos estão sujeitos a ela, não impor-
nas trevas, no mal, no sofrimento e na morte. Apesar de tudo is- tando se a conhecem ou não, se a admiram ou se a negam. Tra-
so, esta filosofia nos mostra que, mesmo se as aparências nos ta-se de uma lei cujo conteúdo – ou seja, princípios diretivos,
levam a acreditar o contrário, há ordem nas profundezas do ca- impulsos de ação e reação, técnica de funcionamento e objetivo
os, há luz nas trevas, há o bem no mal; indica-nos que o sofri- final a atingir – é possível descobrir. Essa Lei é viva e operante
mento é um meio para se chegar à felicidade e que a morte ser- entre nós, sempre presente e em ação. Ela não é só pensamento,
ve para se ressuscitar numa vida sempre melhor. Assim vemos mas também uma poderosa e irrefreável vontade de realização.
que, além da injustiça, domina a justiça e que, acima da negati- Eis o que nos mostrou a visão da teoria geral deste sistema filo-
vidade destruidora do Anti-Sistema, está a positividade recons- sófico. Isto é o que, nestes nossos livros, vamos estudando e
trutora do Sistema de Deus. Quão diferente e maior se torna a expondo como resultado de nossa investigação, conduzida com
vida, quando a vivemos em profundidade, em contato com o método positivo da ciência: a observação e a experimentação,
Deus, com o mais poderoso centro vital do universo! que aplicamos à minha vida e às vidas de outros, colocando o
◘ ◘ ◘ conteúdo delas sobre a bancada do laboratório desta nova ética
A parte mais interessante deste sistema filosófico é o seu experimental, para calcular os efeitos de cada movimento nosso
aspecto prático, quando descemos ao terreno das suas conse- no terreno da dinâmica moral e espiritual.
quências e aplicações nos casos concretos de nossa vida. É pelo Nós temos estudado essa lei porque o seu conhecimento
fruto que se conhece a árvore, é neste terreno que se pode medir nos ensina as regras da conduta certa, revelando-nos assim o
o valor da teoria, quando, para controlar a sua verdade, a colo- segredo para evitar a sua reação, que chamamos: dor. Só quem
camos em contato direto com os fatos. Se ela nos orienta, expli- conhece a Lei pode viver orientado, porque compreendeu o
cando-nos o significado das coisas, então a realidade em que significado da sua vida até às suas primeiras origens e últimas
vivemos tem, por sua vez, de concordar com a teoria até às úl- finalidades, em função da gênese, estrutura e supremos objeti-
timas consequências práticas, fundindo tudo no mesmo sistema vos do funcionamento orgânico do todo. O universo é um sis-
filosófico, que assim, embora tendo por base os longínquos tema inteligentemente dirigido, então, para quem quer viver
princípios abstratos do absoluto, pode ser vivido em todos os nele com o menor dano e a maior vantagem possível, é lógico
seus pormenores em nossa vida miúda de cada dia. que deva se comportar com inteligência e consciência, resol-
Isto é o que nós mesmos temos procurado fazer de duas vendo todos os seus problemas, inclusive os pequeninos de to-
maneiras: 1a) Observando e controlando, por mais de meio sé- da hora, em função da solução dos problemas máximos, dos
culo na minha vida, se os acontecimentos vividos por mim e quais os menores dependem. Só conheceremos a razão e a fi-
pelos outros confirmavam a interpretação filosófica do universo nalidade de tudo o que somos e fazemos, se tivermos nas mãos
oferecida por esta teoria; 2a) Coordenando e analisando, racio- a chave de nosso destino e, com ela, a possibilidade de cons-
nal e logicamente, os frutos destas observações, para construir truí-lo da forma que melhor quisermos. Com os nossos pensa-
uma nova norma de conduta humana, uma ética não mais empí- mentos e atos, livremente semeando as causas, ficaremos fa-
rica, como as que ainda vigoram, não mais fruto do desabafo de talmente amarrados às consequências.
instintos, mas sim positiva, apoiada no conhecimento e na A Lei representa uma construção lógica, que pode ser estu-
compreensão do problema, filha da lógica dos fatos, racional- dada como se estuda uma teoria matemática. Com este escopo,
mente demonstrada até à primeira fonte da qual deriva, fundada fizemos neste volume um esquema gráfico, representando, em
sobre bases cósmicas que a justificam; uma moral biológica, síntese, uma expressão geométrica dos princípios fundamentais
derivada diretamente das leis da vida, e não da vontade do le- que regem o funcionamento da Lei. É possível, portanto, medir
gislador ou dos instintos das massas. o valor quantitativo e qualitativo dos diferentes impulsos que
Este trabalho foi realizado em vários livros meus, sobretudo movimentam o ser e as correspondentes reações da Lei. O ser é
nos últimos quatro que se seguiram ao volume O Sistema, que livre para se movimentar à vontade, mas, logo depois, as forças
completa até agora a exposição da teoria filosófica. Eles são: A da Lei se apoderam destes movimentos, guiando-os fatalmente
Grande Batalha, Evolução e Evangelho, A Lei de Deus e o pre- aos seus efeitos. Eles são calculáveis, porque estão regidos por
sente, Queda e Salvação. princípios de equilíbrio e justiça bem definidos. A Lei é inteli-
Tudo isto nos autoriza a acreditar que este sistema filosófico gente, poderosa e sensível. Não há movimento que não se re-
não é fantasia, uma vez que os fatos o justificam e, quanto mais percuta nela, não há impulsos ou sucessão de deslocamentos
o controlamos, tanto mais vemos que ele corresponde à realida- que não sejam percebidos por ela e aos quais ela não reaja. A
de. Por mais que se queira negar e não ver, estão aí para dar tes- Lei quer a ordem do Sistema, e não o caos do Anti-Sistema.
temunho toda a minha vida, os acontecimentos da vida alheia e Em sua substância, a reação da Lei não é senão a continua-
milhares de páginas escritas. ção de nosso próprio impulso, que ricocheteia e se volta contra
Este sistema filosófico fica valorizado, porquanto represen- nós, devolvendo-nos o que nós lançamos aos outros. Assim, ca-
ta as premissas cósmicas racionais de uma norma para a vida da força que, em sentido negativo, projetamos contra o próximo,
humana, norma justificada por ser elaborada em função das ori- transforma-se numa força inimiga, que se volta contra nós para
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 57
nos agredir, e cada força que, em sentido positivo, projetamos a ordem da Lei. O ser é livre para cometer erros, mas tem de
favor do próximo, transforma-se numa força amiga, que retorna aceitar depois, forçosamente, a reação corretiva da Lei, cujos
a nós para nos favorecer. A conclusão é sempre a mesma: rece- equilíbrios não podemos violar sem que tenhamos de devolver
bemos de volta o que lançamos aos outros. Pode-se então esta- tudo à justiça de Deus, pagando às nossas custas.
belecer o seguinte princípio da Lei: “Quem faz o bem, assim É possível assim estabelecer o princípio de reação nos se-
como quem faz o mal, acaba por fazê-lo a si mesmo”. guintes termos: “Cada ação do ser contra a vontade da Lei exci-
No campo de forças do todo, são possíveis três impulsos ta e gera uma reação inversa e proporcional, de mesma natureza
fundamentais: o do Sistema, positivo, o do Anti-Sistema, ne- ou qualidade e de mesma medida ou quantidade”.
gativo, e o do ser, indeciso, ora dirigindo-se num sentido, ora Estudando as regras que dirigem o funcionamento da Lei,
no outro. A positividade do Sistema está em luta contra a ne- podemos calcular as fatais consequências dos nossos atos,
gatividade do Anti-Sistema, filha da revolta, para corrigir a tornando possível deste modo, com uma conduta mais inteli-
desordem, reconduzindo-a para a ordem. A negatividade do gente, eliminar o máximo possível das causas primeiras de
Anti-Sistema está em luta contra o Sistema, para destruí-lo e tantos sofrimentos, que são devidos, como agora podemos
substituir-se a ele. O ser existe atualmente dentro desse dua- ver, ao fato de querermos colocar-nos fora do caminha certo
lismo de impulsos opostos. Porém, dos dois termos, o mais da Lei. Mas o homem não sabe ou não quer saber estas coisas
poderoso é o Sistema, onde Deus permaneceu em seu aspecto e continua errando e pagando. Não adianta explicar. Então,
transcendente, ao mesmo tempo em que continuou presente para ensinar a um ser que tem de ficar livre, não resta, na in-
também no Anti-Sistema, para salvá-lo, dirigindo-lhe os mo- violável lógica da Lei, senão o azorrague da dor, que é o raci-
vimentos no processo evolutivo. Assim o dualismo não só é ocínio compreendido por todos.
temporário, mas também está fechado dentro da unidade, que Deus nos corrige com a dor porque Ele quer a nossa felici-
ficou íntegra no monismo, senhor de tudo. dade, não havendo outro caminho para atingi-la senão seguir a
Então tudo é dominado pela Lei, que expressa a positivida- Sua lei. E o desejo de felicidade é o nosso instinto fundamental,
de do Sistema, o princípio de ordem, de equilíbrio e de justiça. mas a procuramos fora do caminho certo. Então a Lei, que nos
É neste campo de forças que o ser está livre para se movimen- ama e protege, nos avisa com a sua reação e nos endireita,
tar, mas só em função da vontade da Lei. Esta quer realizar os constrangendo-nos com a dor a irmos para onde nos convém. O
seus princípios, estabelecidos pelo Sistema, que ela representa. homem continua rebelando-se, buscando uma vantagem onde,
Então, em cada movimento seu, o ser tem de levar em conta a pelo contrário, está o seu prejuízo. Mas a Lei, com grande paci-
presença da Lei, que, embora o deixe livre, está sempre o im- ência, volta sempre a corrigi-lo e não para de golpeá-lo, até que
pulsionando para frente, para que ele volte ao Sistema. Mas ele a lição seja toda aprendida.
também pode dirigir-se no sentido oposto, para o Anti-Sistema, Assim, o homem vai experimentando e aprendendo. A ver-
agindo não conforme a vontade da Lei, mas contra ela. No pri- dade que possuímos é um fenômeno em evolução, portanto re-
meiro caso, em razão do ser colocar-se na corrente das forças lativa e progressiva. Nós a vamos conquistando por sucessivas
da Lei, é por ela ajudado. No segundo caso, pelo fato de querer aproximações, à medida que amadurecemos. Compreendere-
andar contra aquela corrente, a Lei se opõe e reage. mos assim cada vez mais o pensamento de Deus, que está es-
Eis a relação que existe entre os três impulsos fundamentais crito na Sua Lei, e alcançaremos um maior progresso, o qual
que se encontram no campo de forças do todo. O mundo, no en- nos permitirá dirigir mais inteligentemente a nossa conduta, li-
tanto, não quer levar em conta um fato essencial, pelo qual, se bertando-nos cada vez mais do sofrimento.
ele está livre para se dirigir ao Anti-Sistema, que é o mal, tem Quisemos nesta introdução, para orientar o leitor, apresentar
fatalmente de receber o choque da reação por parte da Lei, por- os conceitos fundamentais que desenvolveremos neste livro e,
que a vontade dela é, pelo contrário, levar tudo para o Sistema, ao mesmo tempo, resumir numa rápida síntese – tanto no seu
que é o bem. Nunca esqueçamos que, acima dessa luta entre aspecto teórico como no prático, tanto nos seus princípios gerais
positividade e negatividade, está Deus, dirigindo tudo, e que as- como nas suas consequências em relação à nossa conduta na
sim, no final das contas, tudo tem de se desenvolver conforme a realidade da vida – a estrutura de nosso sistema filosófico, que
Sua vontade. Se assim não fosse, a evolução representaria ape- vai da primeira criação realizada por Deus até à conclusão do ci-
nas uma tentativa incerta, que, se não alcançasse sucesso, aca- clo involutivo-evolutivo, com a salvação final de todos os seres.
baria na falência definitiva da obra de Deus, estabelecendo a
derrota final Dele, que não teria conseguido salvar Sua obra I. ESQUEMA GRÁFICO: INVOLUÇÃO–EVOLUÇÃO
com a evolução, e isto significaria a vitória definitiva do Anti-
Sistema. Na lógica do desenvolvimento dos impulsos no campo Depois da precedente premissa orientadora, podemos agora
de forças do todo, é absolutamente necessário o aniquilamento entrar no assunto do presente volume. Os aspectos básicos das
total de toda a negatividade e o triunfo completo de toda a posi- teorias que iremos aqui desenvolvendo foram equacionados nos
tividade, sem qualquer resíduo negativo. Se qualquer traço do livros mencionados anteriormente: Deus e Universo e O Sistema.
mal sobrevivesse, isto representaria a derrota de Deus, que é o O atual livro é o terreno das suas consequências e aplicações.
bem. Todos os efeitos da queda têm de ser destruídos definiti- Focalizemos então nossa atenção na figura apresentada na
vamente, realizando-se a reconstrução integral do Sistema. próxima página, que nos oferece geometricamente uma ex-
Este, em síntese, é o terreno dentro do qual se movimenta a pressão mais exata e evidente do fenômeno da queda e salva-
nossa conduta ética, num jogo de ações e reações, entre os im- ção, por nós aqui estudado. Usamos a representação gráfica
pulsos do ser e a vontade da Lei, cuja presença nunca se deve desta figura por se tratar de um recurso mais adequado para
ignorar. O ser age livremente, porque tem de experimentar para fixar em forma visível, intuitivo-sintética, os conceitos que
aprender e subir, enquanto a Lei reage deterministicamente, pa- iremos desenvolvendo.
ra que o ser suba para o Sistema e nele encontre a sua salvação. Esta figura nos dá o esquema completo do processo de ida e
O afastamento da Lei é o que chamamos “erro”; a reação da Lei volta do transformismo involutivo-evolutivo, que é a base da
ao erro é o que chamamos “dor”. No esquema gráfico, o com- estrutura de nosso mundo fenomênico, fornecendo-nos o dia-
primento da linha do erro, na direção da negatividade, expressa grama do ciclo constituído pela gênese, desenvolvimento e tra-
a medida do mal cometido, enquanto o comprimento da linha tamento da doença da queda e cisão, que foi causada pela revol-
da dor, que leva o ser na direção da positividade, nos expressa a ta e deu origem ao estado material de nosso universo corrupto.
medida do trabalho de endireitamento, necessário para voltar à O princípio fundamental do dualismo, no qual se baseia o esque-
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Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 59
ma, é a primeira impressão que nos salta à vista nesta figura, ção de cada ser, mas também o campo ao qual ele pertence, po-
dividida em duas partes opostas e equilibradas pela condição de sitivo ou negativo. Os limites geométricos da figura nos expres-
recíproco emborcamento. Quem não estiver ainda convencido sam o conceito da presença da lei de Deus, que abrange tudo,
da verdade das teorias apresentadas nos dois livros, Deus e inclusive o desmoronamento do AS, dentro dos seus limites, di-
Universo e O Sistema, encontrará aqui não só novos esclareci- rigindo com as suas normas todos os movimentos, retificando
mentos, que as explicam com maior clareza, mas também novas os erros através de suas reações contra qualquer violação e re-
provas, que as confirmam ainda mais. conduzindo à ordem tudo o que procurou afastar-se dela.
Já sabemos que, devido à revolta e à consequente queda, a Como podemos ver, esgotando-se ao atingir seu objetivo,
unidade do Sistema, ou todo orgânico em Deus, despedaçou-se que é a realização do AS, o impulso que saiu do S em direção
no dualismo Sistema e Anti-Sistema. Este processo de divisão ao AS é então neutralizado e anulado, seguindo um movimento
chegou à sua plenitude com a realização do Anti-Sistema, que oposto, que o leva novamente ao ponto de partida, seu estado
ficou, porém, sujeito a outro processo, agora de reunificação, o de origem no S. Tudo se reduz deste modo a um erro que foi
qual chegará à sua plenitude com a reconstrução da parte decaí- corrigido, a uma doença temporária que foi curada, a um afas-
da, no seio do Sistema. Separação e reunião, destruição e re- tamento que foi compensado pela reaproximação, a uma positi-
construção, doença e tratamento, descida e subida, saída e retor- vidade perdida que foi recuperada, a uma negatividade adquiri-
no, involução e evolução, são estes os dois momentos que en- da que foi expurgada, a um processo de ida que foi compensado
contramos sempre opostos, num contraste de forças rivais em lu- pelo de volta, resultando assim num intervalo de imperfeição na
ta para a supremacia. Justamente neste contraste está a base do eterna e indestrutível perfeição de Deus.
dinamismo de todo o processo, que vai, assim, amadurecendo de Tudo isto já foi dito naqueles dois livros, mas quisemos
uma posição à outra, deslocando os seus elementos ao longo das aqui acrescentar-lhe uma expressão gráfica, mais evidente e
posições escalonadas pelo caminho a fora, até haver percorrido exata. E, se temos falado de erro corrigido, foi porque procura-
todo o trajeto, desde a sua origem até à sua conclusão. mos salientar melhor este aspecto do fenômeno, pois um dos
Este é o conceito fundamental que domina o fenômeno por maiores problemas que teremos de encarar agora se refere à re-
nós agora estudado: a cisão no dualismo. Temos então duas ação da Lei para corrigir os nossos erros, com o qual entrare-
forças básicas em luta entre si, cada uma com o objetivo de mos no terreno da ética, nosso assunto atual. A este respeito, o
vencer a outra, prevalecendo uma em cada fase, a do Anti- fenômeno da queda representa o primeiro e maior caso de erro
Sistema no período de descida, ou fase involutiva, e a do Sis- cometido pela criatura e corrigido por Deus. Na queda, temos o
tema no período de subida, ou fase evolutiva. Estas forças são: erro máximo, atrás do qual ecoam e se vão repetindo todos os
1) O Sistema, que representa a positividade e os impulsos outros erros menores, que o ser repete a toda hora, ao longo de
deste tipo, constituindo as qualidades de afirmação: vida, sa- sua escala evolutiva, os quais veremos agora.
bedoria, amor, unidade, ordem, disciplina, felicidade etc. Este Observemos primeiro o processo no momento do início do
é o lado de Deus, do espírito, do bem. Por isso o sinal do Sis- ciclo, no ponto X do S, onde começa a viagem em descida para
tema é “+” (positivo). Y, ao longo da linha da involução. Na linha WW1, o S se encon-
2) O Anti-Sistema, que representa a negatividade e os impul- tra na plenitude da sua positividade, enquanto o valor efetivo da
sos deste tipo, opostos aos do Sistema, constituindo as qualida- revolta é apenas potencial, sendo o volume de negatividade ape-
des de negação: morte, ignorância, ódio, separatismo, desordem, nas um ponto sem dimensões, situado na plenitude da positivida-
revolta, sofrimento etc. Este é o lado de Satanás, da matéria, do de do S. Mas eis que essa potencialidade vai ficando cada vez
mal. Por isso o sinal do Anti-Sistema é “–” (negativo). mais próxima do AS e, pouco a pouco, a revolta vai se concreti-
Para nos expressar de maneira mais rápida, abreviamos a zando. Este fato está expresso na figura pela superfície sempre
palavra “Sistema” com a letra S, e a palavra “Anti-Sistema”, mais ampla que, na descida, a revolta vai conquistando e domi-
que também teremos de usar muitas vezes, com as letras AS. nando, até atingir a plenitude de sua realização, com uma total
Na figura, tudo o que pertence ao S está marcado com cor inversão ao negativo na linha ZZ1, na qual o triângulo verde está
vermelha, escolhida como a cor da positividade (+), e tudo o completo, pois seus lados atingiram a abertura máxima. Assim, a
que pertence ao AS está marcado em verde, escolhida como a negatividade, com o processo da involução, vai cobrindo toda a
cor da negatividade (–). superfície do triângulo do AS, cujo vértice está em X e a base é a
A linha vermelha WXW1 representa a plenitude do S, cons- linha ZZ1. No fim deste processo, o ponto X se dilatou sempre
tituindo a base do triângulo WYW1, que contém o campo de mais, até atingir as dimensões da linha ZZ1. A superfície sempre
forças positivas do S. A linha verde ZYZ1 representa a plenitu- maior, coberta pelo progressivo impulso da revolta ao longo da
de do AS, constituindo a base do triângulo ZXZ1, que contém o linha da involução XY, representa a dilatação do campo de forças
campo de forças negativas do AS. Este é o terreno não da origi- dominado pelo AS, que vai assim potencializando-se sempre
nária unidade do S, mas do dualismo em que fracassou o nosso mais, até atingir sua plenitude máxima na base ZZ1 do triângulo.
universo. Por isso, todos os valores, impulsos e movimentos Neste ponto, o impulso da revolta atingiu a sua completa realiza-
que vigoram no AS, realizam-se sempre em função da oposição ção com a criação do AS, que é o nosso universo material.
entre os dois sinais: “+” e “−”. O que acontece simultaneamente, então, em relação ao S?
A figura é simétrica e está dividida ao meio em duas partes Se o AS, no início do ciclo, em X, encontra-se no estado punti-
iguais, no sentido vertical, pela reta XY, comum ao triângulo forme, com um valor apenas potencial, o S se encontra, ao con-
vermelho do S e ao triângulo verde do AS. Marcamos uma li- trário, na sua plenitude WW1. Por outro lado, se durante a des-
nha central em verde, que representa o caminho de descida ou cida involutiva, na gênese do AS, o ponto X foi ampliando
involução, e outra em vermelho, que representa o caminho de sempre mais o seu campo de ação, até se tornar a plenitude ZZ1,
subida ou evolução, nossa atual fase. a linha WW1, ou plenitude do S, foi paralelamente contraindo
Esta figura nos oferece a representação completa da visão sempre mais o seu campo de ação, até se tornar o ponto Y. As
do fenômeno da queda nas suas duas fases, ida e volta, pelas duas transformações inversas se realizaram uma em função da
quais o ciclo se fecha, chegando novamente ao seu ponto de outra, com a negatividade ganhando onde a positividade perdia,
partida original. Tendo perante os olhos esta representação grá- num processo de emborcamentos simétricos das dimensões dos
fica, adequada para fixar as ideias, poderemos estudar melhor o respectivos valores. O que era mínimo no S tornou-se máximo
fenômeno nos seus pormenores. As duas cores diferentes nos no AS, e vice-versa. Passou-se assim da plenitude da positivi-
permitem perceber à primeira vista não só a natureza e a posi- dade à plenitude da negatividade. Isto porque, no processo da
60 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
queda, foi sendo realizada sempre mais a inversão das qualida- Vemos então que a negatividade, que quer continuar a ser ne-
des positivas do S nas negativas do AS. Além disso, à medida gativa, e a positividade, que quer continuar a ser positiva, de fato
que se dava o enfraquecimento do poder do S, ocorria o forta- colaboram no mesmo sentido da reconstrução. A negatividade,
lecimento do AS. Isso até que, na linha ZZ1, o poder positivo porque quer ser negatividade; a positividade, porque quer ser po-
do S, que era no início expresso pela linha WW1, ficou reduzi- sitividade. Maravilhosa sabedoria da Lei, que providencia trata-
do ao ponto Y, enquanto o poder negativo do AS, que era no mento e cura, prevendo tudo isto de antemão e pré-ordenando es-
início expresso pelo ponto X, tornou-se a linha ZZ1. Tudo isto a se jogo de forças, que, automaticamente, leva à salvação. Técnica
figura nos indica com o aumento progressivo da extensão da estupenda, pela qual vemos que o bem e o mal – o impulso posi-
superfície ou campo de forças dominado pelo triângulo do AS, tivo do bem e o impulso negativo do mal – trabalham juntos para
associado à paralela diminuição da extensão da superfície ou chegar ao mesmo resultado, que é o triunfo do bem.
campo de forças dominado pelo triângulo do S. Continuemos nossa observação. O processo, assim, vai-se
Tudo isto – é importante esclarecer – refere-se ao fenômeno desenvolvendo na segunda parte do ciclo, até que a linha ZZ 1
da queda ou ciclo involutivo-evolutivo, originado no S e dizen- da negatividade do AS fica reduzida a um ponto: X, enquanto
do respeito somente à parte corrompida, que dele quis sair, e não o ponto Y da positividade do S vai-se ampliando até chegar à
ao S todo, que permaneceu íntegro com a parte restante, não re- linha WW1. Estes deslocamentos significam que o campo de
belde. Esgotamos até aqui somente a primeira parte deste fenô- forças do S, que se havia antes comprimido sempre mais, até à
meno, isto é, a fase da queda. Observemos agora a sua segunda sua anulação, agora vai-se dilatando cada vez mais, ganhando
parte, inversa e complementar, a outra fase do ciclo, constituída em superfície, isto é, potencializando-se até voltar à sua pleni-
pela salvação. Por isso o título deste livro: Queda e Salvação. tude, enquanto o campo de forças negativas do AS, que se ha-
Se a primeira parte do ciclo está constituída por um proces- via anteriormente dilatado e potencializado sempre mais, até
so de inversão da positividade da parte rebelde do S na negati- chegar à sua plenitude, vai-se agora apertando sempre mais,
vidade do AS, a segunda parte é constituída por um processo de até chegar à sua anulação.
endireitamento da negatividade do AS na positividade do S, Neste ponto, o ciclo se completa, fechando-se sobre si
devolvendo ao S a parte corrupta que dele se afastou. Em Y, mesmo, porque atingiu o seu ponto de partida. Assim, o embor-
acabou o caminho da descida, ou involução, e inicia-se o do re- camento foi endireitado, a negatividade do AS foi reabsorvida
gresso em subida, ou evolução. Observando a figura, veremos na positividade do S, o caminho involutivo-evolutivo está todo
que ela nos expressa todo o processo do ciclo, que contém, nos percorrido e tudo voltou, reconstruído e saneado, ao seio do S.
seus dois movimentos fundamentais, de descida e de subida, Desse modo, os opostos se compensam e, em perfeita corres-
quatro deslocamentos, isto é: pondência na proporção de impulsos e movimentos, os dois
No movimento de descida: 1) O deslocamento do estado de caminhos – a queda e a salvação – equilibram-se, resolvendo-se
nulidade da negatividade do AS ao estado de plenitude daquela na perfeita ordem da Lei. Tanto a construção do triângulo verde
negatividade (gênese do triângulo verde); 2) O deslocamento do AS e a destruição do triângulo vermelho do S, geradas pelo
do estado de plenitude da positividade do S ao estado da nuli- processo de involução ou descida XY, como a destruição do
dade daquela positividade (destruição do triângulo vermelho). triângulo verde do AS e a reconstrução do vermelho do S, ge-
No movimento de subida: 3) O deslocamento do estado de radas pelo processo da evolução ou subida YX, estão grafica-
plenitude da negatividade do AS ao estado de nulidade daquela mente expressas na figura, saltando à vista ao primeiro olhar.
negatividade (destruição do triângulo verde); 4) O deslocamento Esta figura tem um significado profundo. Ela nos orienta,
do estado de nulidade da positividade do S ao estado de plenitu- explicando a causa, a razão e o objetivo do vir-a-ser universal,
de daquela positividade (reconstrução do triângulo vermelho). mostrando-nos as origens e o porquê do processo evolutivo em
Eis que a segunda parte do ciclo, inversa e complementar da que vivemos. Ela nos deixa ver com que exatidão geométrica a
primeira, completa-o, concluindo a segunda parte do mesmo sabedoria da Lei opera a salvação, uma vez que está contido em
fenômeno. Se, na primeira parte, como há pouco dissemos, pas- sua ordem todo o desmoronamento da queda. Para compreender
sa-se da plenitude da positividade à plenitude da negatividade, a figura, é necessário penetrá-la nos seus movimentos de con-
vemos agora que, na segunda parte do ciclo, passa-se da pleni- tração e expansão, de criação e reabsorção de valores, no seu
tude da negatividade à plenitude da positividade. Então todo o contínuo dinamismo regulador de todo o ciclo involutivo-
fenômeno da queda se reduz à gênese do dualismo, constituído evolutivo. Vemos então, de X, um ponto sem dimensão, nascer
pelos dois sinais opostos, + e −, fenômeno pelo qual, num pri- todo o campo de forças do AS e, igualmente, do ponto Y, o S
meiro momento, a positividade se torna negatividade, gerando voltar à sua plenitude. A posição reciprocamente emborcada
o AS, e, num segundo momento, a negatividade volta à positi- dos dois triângulos, S e AS, pela qual um diminui na proporção
vidade, reconstituindo-se no S. que o outro aumenta, até um desaparecer na plenitude do outro,
O processo de endireitamento evolutivo, que corrige a nos mostra quão ordenadamente a Lei tenha dirigido a desor-
precedente inversão involutiva do S para o AS, inicia-se na dem da queda no AS, até reconduzi-la toda à ordem do S. A fi-
linha ZZ1, na qual o AS se encontra em sua plenitude e o S, gura nos mostra como, a cada ponto e posição ao longo da linha
representado pelo ponto Y, encontra-se reduzido a uma po- da involução ou da evolução, corresponde uma proporcionada
tencialidade. Estamos na fase do maior constrangimento da amplitude do campo de forças negativas ou positivas dominado,
positividade e da maior expansão da negatividade vitoriosa. amplitude expressa pela superfície contida entre os dois lados
Mas, neste ponto, o originário impulso da revolta, que gerou oblíquos dos triângulos que se vão abrindo ou fechando. Pode-
a negatividade, aprisionando a positividade do S, esgota-se e se assim calcular, em cada ponto do seu caminho, a extensão do
o caráter fundamental de cada um dos dois impulsos volta a terreno dominado pelos seres que o percorrem e o valor das
prevalecer. Então o AS, que não pode deixar de seguir a sua forças possuídas por eles, perdendo num sentido e ganhando no
natureza negativa, será por ela levado a renegar a si mesmo, noutro, conforme a direção do seu caminho.
anulando-se como negatividade no caminho do regresso, pro- Assim, a figura não somente nos expressa com representa-
cesso ao qual é levado também pelo impulso do S, que, por ção geométrica espacial o esquema estático do fenômeno, mas
sua vez, não pode deixar de manifestar sua reação ao cons- também o dinamismo que o anima e transforma a cada passo,
trangimento sofrido dentro da negatividade do AS, afirmando da gênese à anulação dos espaços vitais, seja do S seja do AS.
a sua indestrutível natureza positiva, agora que o esgotamen- Pela aproximação um do outro dos dois lados de cada triângulo,
to do impulso contrário se desvaneceu. avizinhando-se pouco a pouco do vértice, a figura, com o relati-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 61
vo estreitamento do campo de forças ou espaço vital que o S ra o AS, uma vez que se realizou, esgota-se e assim, não pos-
ou o AS domina, apresenta-nos, expresso graficamente, em suindo mais força, jaz exausto, inerte. Que outro impulso ativo,
forma espacial intuitiva, o conceito de anulação do S, ou des- então, poderá surgir nesse ponto?
truição do AS. E, ao contrário, com o afastamento dos dois la- Tal movimento só pode ser determinado pelo S. Enquanto o
dos dos triângulos e a relativa ampliação do campo dominado, caminho XY consumiu todo o impulso da negatividade devida à
a figura nos expressa o conceito de formação do AS, ou re- revolta, realizou-se também, por esse mesmo processo de expan-
construção do S. Se pensarmos no significado implícito no es- são construtora da negatividade do triângulo verde, uma com-
quema, com as qualidades e consequências de um triângulo pressão destruidora da positividade do triângulo vermelho. Disto
prevalecendo sobre o outro, poderemos compreender quão vas- se segue que, quando o processo chega à plenitude do AS, a ne-
to significado a figura contém e a importância das conclusões gatividade atinge seu estado de expansão máxima, ou seja, de
às quais nos poderá levar este estudo. completo esgotamento e total inércia, enquanto a positividade al-
◘ ◘ ◘ cança seu estado de concentração máxima, ou seja, de potenciali-
Vamos continuar observando a nossa figura, para compre- dade e dinamismo máximos. Sendo o fenômeno da queda um jo-
endê-la cada vez melhor. Procuremos aprofundar sempre mais go de emborcamento, sua vitória só pode resultar no fortaleci-
o nosso olhar no mistério da estrutura do fenômeno do universo mento da reação evolutiva. É justamente no ponto onde foi atin-
e dos abstratos princípios gerais que o regem. Poderemos assim gido o completo triunfo da negatividade, que o impulso da posi-
penetrar os significados sempre mais íntimos de nossa repre- tividade comprimida encontra algo como uma parede, na qual
sentação gráfica, as razões da sua estrutura e a técnica do funci- bate e ricocheteia para trás. E esta barreira que constrange o pro-
onamento das suas forças. cesso de emborcamento na negatividade a inverter-se, fazendo-o
Temos até aqui observado, numa simples visão de conjun- endireitar-se na positividade, é o próprio triunfo da negatividade.
to, a figura em sua estrutura estática, para ver como está cons- Isto nos permite pensar que se trata apenas de uma nova di-
truída. Estudamo-la depois em seu dinamismo, isto é, no de- reção do mesmo impulso, continuando no sentido contrário, pa-
senvolvimento das duas fases, uma de ida e outra de volta. Es- ra percorrer o trecho complementar do mesmo ciclo, do qual
tamos aprofundando e ilustrando em forma visível, com exa- involução e evolução são duas fases consecutivas. Então a evo-
tidão cada vez maior, os conceitos apresentados nos livros lução seria só a continuação do caminho da involução. Se isto é
Deus e Universo e O Sistema, trabalho que é possível somente verdade, então é fato também que esse novo impulso deriva do
agora, pois o esquema geral já foi traçado e os problemas fun- S, cuja prevalência sobre o AS só pode se manifestar no ponto
damentais estão resolvidos. Y, onde o caminho do AS está esgotado. É assim que, em Y,
Vimos em que consiste o processo involutivo-evolutivo, começa a predominar o S. Desse modo, no ponto onde a nega-
isto é, as duas fases do ciclo, com a ida e a volta. Explicamos tividade atingiu a plenitude da sua realização, a positividade
que o movimento de descida ou afastamento do S, ao chegar pode iniciar o seu trabalho, lento mas constante, que se realiza-
no ponto Y, inverte-se no movimento de subida ou aproxima- rá até reconduzir tudo ao S, tudo redimindo na salvação final.
ção do S, até atingi-lo. Torna-se necessário levar em conta também o fato de que,
Surge neste ponto uma pergunta espontânea. Por que motivo com a queda, foi gerada e se iniciou a maneira de existir no rela-
o processo da queda, atingindo esse grau do seu amadurecimen- tivo, sob a forma do vir-a-ser ou transformismo. É neste processo
to, ao invés de continuar na mesma direção, volta para trás? A que o ser está situado agora, constrangido a percorrer o caminho
que força se deve esse emborcamento do seu caminho? Como já do ciclo involutivo-evolutivo, no qual ele não pode parar. Então a
dissemos, o fenômeno acontece assim porque o impulso da re- primeira condição para a sua sobrevivência é a continuação desse
volta se esgota. Mas isto não basta para explicar. Há mais ainda. caminho. Se o fruto amadurecido pela queda não quiser ficar
A lei de cada impulso tende a progredir até atingir a plenitude congelado na total ausência de vida – pois a vida é estabelecida
da sua realização. Quando, porém, essa realização for atingida, o pela positividade – é necessário que o movimento continue. Po-
impulso não funciona mais. Então dizemos que ele se esgota, rém, se ninguém, devido ao transformismo universal – que é lei
porque, atingido o alvo, ele para. Isto porque, quando a causa ti- de vida e condição de existência no relativo – pode parar sem
ver sido transformada toda em efeito, ela não existe mais como morrer, o ser não tem outra escolha, para continuar a existir, a
causa e, com isso, anula-se o motor do processo. Quando o alvo não ser emborcar-se novamente, voltando ao positivo.
for atingido, acaba a trajetória da viagem, que não pode continu- Por que não há outra escolha? Porque no todo não existe ou-
ar. Quando realizamos uma obra, manifestando nela o nosso pen- tro modelo, exceto o estabelecido pelo S. Este é o modelo do To-
samento e nossa vontade – fazendo o que se encontrava dentro de do-Uno-Deus. A criatura não é o Criador e, por isso, não tem o
nós em estado potencial passar para fora de nós em estado atual – poder de gerar outros modelos. Tudo o que existe tem de girar ao
a força que tudo movimentou não pode continuar atuando. Como redor de Deus, estando incluído e fechado dentro do sistema de
poderia continuar, se o objetivo foi atingido? Para continuar, pre- forças da Sua obra. Outra obra não há, nem pode haver. Então a
cisaria determinar novo objetivo e novo impulso para atingi-lo. única coisa que pode existir é o sistema de Deus ou uma altera-
Não há movimento que possa continuar além do seu ponto de ção daquele modelo, porém jamais um novo. Não é possível um
chegada, a não ser iniciando outro caminho para outra finalidade. sistema de outro tipo, uma ordem diferente, mas apenas um des-
Então, pela própria lei que o fenômeno traz escrita dentro locamento, uma desordem dentro da ordem de Deus. Daí o em-
de si, tudo está automaticamente pré-ordenado, de modo que, borcamento gerado pela revolta. Quando tal fenômeno, pelo fato
no ponto onde toda a positividade da parte rebelde do S se de se ter realizado, chega ao fim, nem por isso ele pode sair do
transformou na negatividade do AS, cumprindo-se a obra de sistema de forças do todo, que abrange tudo. Tudo está enclausu-
construção do triângulo verde na linha ZZ 1, o processo tem de rado neste sistema e nada pode existir fora dele. Se Deus é tudo e
parar forçosamente e, se quiser continuar, não pode fazê-lo este é o modelo do todo, não é possível sair deste sistema. Por is-
senão mudando o tipo do seu movimento e iniciando outro so, quando o impulso da ida se tiver esgotado, não lhe resta, para
caminho para outro objetivo. sobreviver, senão repetir o mesmo motivo do emborcamento, in-
E que direção poderá esse novo movimento assumir? Que vertendo-se para voltar atrás. Esta é a razão pela qual a negativi-
outro tipo de causa poderá surgir dentro do efeito realizado? O dade do AS tem de endireitar-se na positividade do S.
novo impulso somente poderá ser determinado pelas forças dis- Observando a figura, vemos que, quando a negatividade atin-
poníveis naquele ponto do caminho ou desenvolvimento do ge sua expansão máxima, a positividade fica comprimida no pon-
processo. Mas o que se encontra naquele ponto? O impulso pa- to Y, acima do qual gravita o triângulo vermelho, convergindo
62 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
para aquele vértice todas as suas forças. É lógico que, neste pon- Mas o tormento deste mal-entendido não pode durar para
to, onde é mínimo o poder da negatividade (enfraquecido devido sempre. Nada constrange a pensar tanto como a desilusão; nada
à sua maior expansão) e máximo o poder da positividade (forta- acorda a inteligência como o sofrimento. Eis que, no meio de
lecido devido à sua maior concentração, dado que o ser nada po- todas as dores, abre-se a mente fechada pelo orgulho, então a
de criar ou destruir), este último prevaleça sobre o primeiro, sen- alma começa a vislumbrar a luz de Deus, que chama de longe e,
do exatamente este o ponto onde se inicia o caminho da volta. assim, inicia-se o caminho da volta a Ele. Quem é filho Dele,
Começa assim o regresso. Por este automático jogo de for- feito da Sua mesma substância, não pode deixar de sê-lo e, mais
ças, contidas no próprio seio do processo, tudo continua desen- cedo ou mais tarde, acaba voltando ao Pai.
volvendo-se deterministicamente, pré-ordenado pela sabedoria Eis como o ser se encontra impulsionado a enfrentar o traba-
de Deus, que, havendo previsto tudo, já tinha preparado o remé- lho de reconstrução. A estrada é longa e cheia de dificuldades. E
dio para o mal, caso a criatura viesse a desobedecer. Trata-se de não há como o ser fugir, uma vez que ele, como vimos, encon-
leis que regulam todo o movimento do ser livre, dentro das quais tra-se mergulhado nesse jogo de forças. É necessário superar os
estamos situados. Leis benfazejas e consoladoras, porque que- obstáculos com o próprio esforço. Se o supremo objetivo do ser
rem e sabem dirigir a loucura de um ser livre para a sua salva- é voltar à plenitude da vida e à felicidade no S, não há outro ca-
ção. A compreensão desse processo de regresso do AS ao S nos minho senão a evolução. O roteiro da viagem está todo marcado
mostra e garante que, no fundo do mal, o ser não pode encontrar de antemão. O ser, feito da vida do S, não pode permanecer para
senão o caminho para o bem e que, no fundo da culpa, não pode sempre nas angústias do AS. Ele tem de subir e, por isso tem de
haver senão o arrependimento, pois a Lei determina, no extremo lutar e vencer. O paraíso perdido o está esperando, mas ele tem
do afastamento de Deus, o início do processo de aproximação e, de reconquistá-lo com o seu esforço. O ambiente é hostil, a exis-
no máximo da revolta, o começo da obra de reconciliação. tência é dura. Ao anseio de felicidade e vida responde apenas
Chegamos então a compreender e podemos aqui afirmar que uma realidade de sofrimento e morte. Para sobreviver, o ser tem
existe uma lei que poderemos chamar de “lei do regresso”, pela de lutar a cada passo contra mil inimigos.
qual, obedecendo a um princípio geral de equilíbrio, tudo o que Eis que estas nossas elucidações nos explicam porque a
se afasta de Deus tem de retornar, retrocedendo para trás, até ao existência do nível vegetal, animal e humano se baseia numa
seu ponto de partida, que se torna então o ponto de chegada em guerra contínua de todos contra todos, que não conhecem ou-
Deus, a única referência para tudo o que existe. Por esta lei de tras relações senão o ataque e a defesa. Isto é fruto do AS e do
regresso, a revolta não pode acabar senão na obediência; o em- esforço evolutivo para sair dele. Nos níveis de vida mais adian-
borcamento, no endireitamento; a perdição, na salvação. A nos- tados, que estão mais próximos do S, tudo isto vai desapare-
sa admiração jamais terá limites perante tão profunda sabedo- cendo no pacifismo evangélico do “ama o teu próximo como a
ria, que faz o erro se resolver numa experiência para aprender a ti mesmo”. Podemos compreender assim qual é a origem, razão
verdade, o impulso para a subida despontar no fundo da descida e objetivo da fundamental lei da evolução: a luta pela vida.
e o caminho para a felicidade se abrir no âmago do sofrimento. Deus é vida, e tudo tende para a vida, que é Deus. A luta pe-
Assim, o ser, indiretamente constrangido por esta lei de re- la vida é a luta pelo S, contra o AS. Ela representa o esforço do
gresso, não pode deixar de realizar a sua salvação. Em todo ser para emergir da negatividade, que o sufoca. Através dessa
momento, seja qual for a posição atingida, ele permanece sem- dura lição, ele vai experimentando, aprendendo e reconstruin-
pre filho do S, com as indeléveis qualidades que possuía ali, as do. Tudo isto é trabalho pesado, mas o ser está apegado à vida,
quais foram desviadas, torcidas na negatividade, mas nem por princípio do S, e não pode deixar de defendê-la desesperada-
isso destruídas. O ser se tornou um exilado, mas a sua pátria mente. Portanto ele tem de fazer esse esforço. Mas isso implica
permaneceu sempre o S. A sua natureza positiva se manteve, em desenvolver a inteligência, o que significa voltar para o S.
porém dela, no fundo da negatividade, não subsistiu para ele Então a função da lei da luta pela vida não se esgota na sua fi-
senão o vazio, a sensação de perda, a saudade e o choro do ins- nalidade mais próxima, que é a seleção do mais forte, mas ad-
tinto insatisfeito. As qualidades positivas do S ficaram escritas quire e contém um significado mais profundo, pois constitui um
na sua alma, como anseio de vida e de felicidade na desespera- meio para abrir a mente e acordar o espírito adormecido, para
da lembrança do paraíso perdido. O desenfreado desejo de que este, potencializando-se, progrida e, emergindo da materia-
crescer fora da sua medida e da ordem do S, lançou o ser no lidade, suba até regressar ao S. Esta é a história de nossa evolu-
AS, onde ele ficou mergulhado às avessas, na negatividade. As- ção planetária, entendida no seu sentido substancial e concebida
sim, ele perdeu o seu tesouro, que ficou no S, e, quanto mais se na mais vasta amplitude do ciclo inteiro da queda e salvação.
aprofunda no AS, tanto mais fica ansioso para recuperá-lo. Mas
o ser é rebelde e, então, tenta buscá-lo na descida, afastando-se II. A SABEDORIA DA LEI
sempre mais dele, perdendo a positividade, ao invés de recupe-
rá-la. Eis o que vemos de fato acontecer em nosso mundo. E, Antes de entrar no estudo dos pormenores da maravilhosa
depois destas elucidações, podemos compreender a irracionali- técnica de funcionamento da Lei, que nos mostra a sua expres-
dade de um trabalho assim tão contraproducente. são gráfica em nossa figura, continuemos observando as razões
Mas eis que, para salvar a criatura desta loucura, intervém a que a explicam e justificam.
sabedoria da lei do regresso. Quanto mais o ser desce, tanto Falamos no capítulo precedente do constrangimento ao
mais aumenta a carência de tudo o que ela possuía no S e, qual o ser está sujeito para que se realize a sua salvação. A es-
quanto mais ele empobrece, tanto mais aumenta o seu anseio de te respeito surge espontaneamente uma pergunta. Como se
enriquecer novamente. Mas, quanto mais ele desce na negativi- pode conciliar, de um lado, essa absoluta necessidade de sal-
dade do AS, tanto menos positividade ele encontra no seu am- vação, que leva ao constrangimento, e, de outro lado, a liber-
biente e, com isso, tanto menos possibilidade tem para ficar sa- dade do ser, sua qualidade fundamental e inviolável? Como se
tisfeito. Quanto mais ele se torna faminto, tanto mais se torna pode conciliar essa invencível vontade da Lei de realizar a
difícil satisfazer a sua fome. Quanto mais o ser procura perse- salvação e o livre arbítrio do ser? Se é a Lei que tem de atuar
verar na sua loucura de querer encontrar a positividade do S e se o ser está fechado dentro dela, sem possibilidade de se
dentro da negatividade do AS, tanto mais ele fica traído e desi- evadir, então ele não é mais livre. Eis que encontramos aqui a
ludido, porque, como é lógico, não encontra senão o contrário Lei em conflito consigo mesma, porque vemos existir nela
do que está procurando. Não está tudo isto confirmado pelos fa- dois princípios opostos: o domínio absoluto da Lei e a liber-
tos que vemos acontecer em nosso mundo, a todo o momento? dade do ser. Posição de plena contradição, porque, num mo-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 63
mento, a Lei quer a liberdade do ser e, em outro, ela quer a não o fosse, fracassaria toda a obra de Deus. Mas, ao mesmo
sua obediência. Como se resolve esse conflito? tempo, ela não pode ser realizada à força, porque o ser não pode
O fato é que a Lei foi elaborada para o ser funcionar nela regressar ao S como escravo. No S, não há lugar para escravos.
por convencimento, obedecendo-a espontaneamente, e não à Eis então que a solução dos dois problemas é dada pela reação
força. O constrangimento não existia no S e somente apareceu da Lei. A função dela não é impor-se à força, mas sim ensinar e
fora dele, com a revolta, que gerou a necessidade de salvação educar. E, à força, não se educa. Então a Lei deixa o ser livre
dos rebelados. A Lei não é responsável pela desobediência, po- para experimentar e, assim, aprender. Com a sua reação, ela não
rém previu a doença e a cura, cuja realização ela atinge através escraviza, mas educa. Através da dor, a Lei ensina a lição ao ser
do constrangimento, que, de outro modo, não seria necessário. e, com isso, reergue-o para salvá-lo.
Tal recurso é inconcebível no S, sendo apenas fruto do AS. Se olharmos bem, veremos que há uma razão mais profun-
Porém, se a Lei realiza essa coação, ela o faz somente para da para tudo isto. A reação da Lei, em substância, não é, como
o bem de quem errou. Quando um homem enlouquece, amea- pode parecer, o resultado de uma vontade contrária inimiga,
çando matar-se, pode alguém que, mesmo respeitando a liber- no terreno do ataque e defesa, mas sim o automático efeito da
dade dele o máximo possível, constranja-o a salvar-se da auto- negatividade que o ser, com a revolta, produziu na positivida-
destruição ser chamado de escravagista? Será isto escravidão de do S. Trata-se de uma reação automática que o ser provoca
ou um ato de bondade? Representará isto para o ser um ataque contra si mesmo, em razão da posição emborcada na qual ele
ou um ato de defesa? Como poderia deixar de fazer isto uma lei quis colocar-se com a revolta. Revoltando-se, ele renegou
baseada na justiça e na bondade? E, de fato, é justo que o rebel- apenas a si mesmo e, em vez de alterar a Lei, como desejava,
de sofra as consequências da desordem que semeou, experi- mudou somente a si próprio, permanecendo dentro dela, que,
mentando no sofrimento, para aprender a lição e, assim, não apesar de tudo, continuou indestrutível, indelevelmente escrita
cair mais. Constitui, então, um ato de bondade constranger um no íntimo do ser, constituindo a própria natureza dele. Pen-
louco suicida a salvar-se, mesmo que, para isso, seja necessário sando renegar a Deus com a revolta, a criatura só renegou a si
tirar-lhe a liberdade, quando esta, nas suas mãos, torna-se um mesma. Sendo um elemento do sistema de Deus, ela, ao agir
instrumento de mal e um prejuízo para ele. contra Deus, agiu contra si mesma. Desse modo, o que apare-
Mas será que Deus verdadeiramente escraviza, recorrendo à ce agora como reação da Lei nada mais é, na realidade, senão
força? Toda a ação Dele, neste caso, não vai além do que cha- a reação da íntima e própria natureza do ser contra a sua re-
mamos de “reação da Lei”. Mas isto não é escravidão, porque o volta, que o levou à dor e à morte, enquanto ele não pode dei-
ser não fica de modo algum constrangido pela força. Aqui não xar de querer a felicidade e a vida.
há força nem coação direta. Deus não tira, nem poderia tirar a Não há escravidão alguma nisso. O ser ficou perfeitamente
liberdade da criatura, porque, deste modo, faria dela um autôma- livre para continuar a se aprofundar à vontade na dor, até anular-
to. Se isto fosse possível, Deus teria antecipadamente resolvido se. Por isso, para que não fosse violada a sua liberdade, foi ne-
todo o problema da queda, criando uma máquina perfeita e, por cessário admitir a possibilidade da sua destruição final como in-
isso, totalmente obediente, em vez de um ser livre e consciente. dividuação ou eu pessoal (“eu sou”), no caso extremo em que o
Mas os fatos nos mostram o contrário. Tudo o que aconte- ser quisesse insistir na revolta, aprofundando-se na negatividade,
ceu no drama da revolta é exatamente o efeito da inviolável li- até ao aniquilamento da sua positividade como elemento do S.
berdade do ser. Se a Lei reage, é porque o ser foi deixado livre Então, se ocorre a reação da Lei, esta, na substância, não é
para violá-la e, se ela continua reagindo, é porque o ser é livre senão a reação do ser, que não quer sofrer e morrer. Sua escra-
para continuar violando-a quantas vezes quiser. Mas isto não vidão é dada pelo fato de ser ele cidadão indestrutível do S, fi-
significa que Deus renuncie aos Seus planos e deixe nas mãos lho de Deus, isto é, da felicidade e da vida. O constrangimento
da criatura o poder de emborcar e destruir toda a Sua obra, por- depende apenas do fato de que o ser não pode viver fora do S
quanto isto resultaria também na destruição do próprio rebelde, nem deixar de ter de voltar para o S. E, se ele hoje se encontra
que a quis. Tudo que o ser pode realizar com a revolta trans- nesse impasse de estar situado no AS, isto se deve justamente
forma-se em seu próprio prejuízo. Eis a perfeita justiça e equi- ao fato de ele ser livre e ter querido sê-lo demais. Enquanto o
líbrio, pelo que o efeito tem de ser proporcional à causa. ser estava no S, possuía plena liberdade, mas a perdeu devido
A criatura não gosta de receber punição e desejaria uma li- ao mau uso que fez dela. Assim, o ser se lançou, por si mesmo,
berdade que lhe permitisse fazer o mal sem ter de ficar sujeito na falta de liberdade, não lhe restando senão endireitar-se do er-
às consequências. A possibilidade de violar a Lei, mas ter de ro, se não quiser piorar sempre mais as suas condições e sofrer
pagar por isso, não é considerada liberdade pelo ser, mas sim mais ainda. Não há coisa alguma que possa sair de Deus e da
escravidão. Ele se rebela ao amargo remédio. Mas como pode o sua Lei, feita de justiça e ordem, e não voltar a Ele. Se os equi-
médico não procurar curar a doença e suprimir, para satisfazer líbrios foram deslocados, não resta outra alternativa senão ree-
o doente, o amargo remédio, paralisando assim a sua ação sal- quilibrá-los. O ser quis lançar-se na negatividade do AS, e ago-
vadora? Como pode Deus deixar de impulsionar a criatura pelo ra não há para ele outro caminho a não ser reconstruir a positi-
caminho da evolução, se esse, embora duro, é o único que leva vidade perdida do S. Tudo isto é consequência natural e auto-
para o S, somente onde é possível encontrar a salvação? Com a mática da estrutura do S. Não se trata de escravidão, mas da ne-
revolta, o ser se tornou ignorante, tornando-se agora tão louco, cessidade de reintegrar os rebeldes na posição de filhos do Pai.
que vai procurando a plenitude da vida na morte, no AS. O ser A lição a se aprender é que é absurdo e impossível encon-
emborcou-se e quer continuar a descer. Se não fosse constran- trar a positividade na negatividade, a felicidade na revolta, a
gido pela dor a endireitar o seu caminho para a subida, ele se vantagem no emborcamento. Isto nos explica a função educa-
aprofundaria sempre mais no pântano, até à sua destruição. Esta dora e saneadora da dor, cuja presença se justifica assim, em
não pode ser uma solução, nem a poderia permitir Deus, que consonância com a bondade de Deus, como Seu instrumento
gerou a criatura para a vida, e não para a morte. Eis, então, que para atingir o nosso bem. Assim, respeitando a nossa liberdade,
aparece, no meio do triângulo verde (AS), a linha vermelha da Ele nos conduz à nossa felicidade, usando um método duplo,
Lei, ou evolução, que representa a salvação. Todo o fenômeno que estabelece o livre arbítrio nas causas e o determinismo nos
se desenvolve, em cada momento, com perfeita lógica. efeitos, sendo o primeiro temperado, corrigido e retificado pelo
Ora, a sabedoria da Lei tem de conciliar as soluções de dois segundo. Este é o método da livre semeadura e da colheita
problemas opostos: a necessidade da salvação e o respeito à li- obrigatória. Assim, a sabedoria de Deus soube conciliar a ne-
berdade individual. A salvação tem de ser atingida, porque, se cessária liberdade do ser com o imperativo de que ele seja sal-
64 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
vo. Maravilhosa escola, na qual os alunos, permanecendo li- Os problemas são conexos e interdependentes uns com os
vres, têm necessariamente que aprender e subir. outros. Tendo resolvido agora a questão do constrangimento,
Eis, então, a série dos momentos sucessivos através dos aproximamo-nos de um problema paralelo, dado pelo aniqui-
quais se desenvolve, por um encadeamento lógico, o processo lamento da substância constituinte do ser, no caso em que ele
da salvação: queira persistir definitivamente na sua revolta. Já tocamos neste
1) Deus é bom e quer o nosso bem e felicidade. 2) Bem e fe- ponto em nossos dois livros: Deus e Universo e O Sistema. Será
licidade não podem ser atingidos a não ser no seio do S. 3) Deus, útil para o leitor encontrar aqui o assunto rapidamente resumi-
respeitando a liberdade do ser, deixou que ele se afastasse do S e, do, porquanto ele é apresentado de forma diferente, com rela-
com isso, caísse no mal e na dor do AS. 4) Para regressar ao seio ção aos outros problemas que estamos tratando, levando a um
do S, é necessário evoluir. A salvação está na evolução, para re- maior esclarecimento de todos eles.
cuperar o que foi perdido. 5) Por não haver outro caminho para a Tratando há pouco do assunto do constrangimento, vimos que
salvação, Deus nos impulsiona para que avancemos ao longo de a Lei, só indiretamente, impulsiona o ser à sua salvação, ficando
nossa trajetória evolutiva. 6) O ser não pode voltar ao seio do S sempre na posição de um absoluto respeito para com a sua liber-
senão livre e consciente. 7) Então Deus não pode escravizá-lo, dade. Surge então o problema. Será que esse respeito da Lei para
pois uma máquina ou autômato, embora perfeito e obediente, não com a liberdade do ser chega até ao ponto de ter de aceitar a re-
serve. 8) O ser, para voltar ao S, tem de se transformar, ficando volta definitiva dele? Se o ser quiser usar da sua liberdade até ao
absolutamente livre, sem coação. 9) Não resta a Deus outra coisa caso limite, teoricamente possível, de nunca querer voltar atrás,
senão educar-nos, sem usar a força e a escravidão, que não edu- recusando-se a evoluir para a salvação, poderá então a Lei permi-
cam. Deus não pode querer o absurdo. Ele não age loucamente, tir que tal violação atinja o ponto de aniquilar os seus efeitos?
mas com sabedoria e poder. 10) Por isso não há para Deus outro Chegará esse respeito pela liberdade ao ponto de deixar o ser,
caminho senão nos educar, para nos fazer conscientes cidadãos com a sua revolta, vencer definitivamente a Lei e construir um
do S. 11) Para alcançar tal condição, os alunos têm de aprender a AS não temporário e sanável, mas eterno e definitivo, o que re-
lição, experimentando-a livremente. 12) Isto significa aprender às presentaria o fracasso da obra de Deus? Como a sabedoria da Lei
próprias custas, livres para cometer erros, mas fatalmente impe- resolve esse outro conflito entre duas exigências opostas?
didos de fugir às suas consequências; livres para se afastar do Temos aqui dois princípios contrários: a liberdade do ser,
caminho da Lei, mas não para fugir aos dolorosos efeitos que es- que não pode ser destruída, e a supremacia da Lei, que tem de
se afastamento produz. 13) Por isso Deus usa o único método atingir as suas finalidades. Temos de um lado a impossibili-
que satisfaz a todas essas exigências, empregando o método do dade de tirar a liberdade do ser, porque ela é o requisito fun-
constrangimento indireto. 14) Esse constrangimento é represen- damental da substância divina da qual o ser é feito. O filho
tado pelas reações da Lei, que nos devolve em forma de dor cada tem de ser da mesma natureza do pai, então, se a natureza do
violação nossa contra sua ordem, golpeando-nos até que apren- pai é ser livre, a do filho também deve ser. Se o espírito não
damos a lição, ensinando-nos a não errar mais. fosse livre, ele não seria filho de Deus, porque não seria cons-
O método da reação da Lei resolve o caso. Ela estabelece truído com a livre substância do Pai. Mas eis que, ao mesmo
que o ser fica livre para violar a Lei à vontade e afastar-se do S, tempo, na própria liberdade está contido o perigo da revolta,
mas, com isso, ele se afasta da felicidade e cai no sofrimento, que está implícito nela, pois, se tirássemos do espírito a liber-
diminui em positividade e perde em vida, aprofundando-se cada dade para desobedecer, ele não seria mais livre. A liberdade
vez mais na negatividade da morte. Então, se o ser não quer deve ser total, completa, incluindo também a possibilidade de
anular-se, tem de voltar para trás e evoluir, para, com o seu es- uma revolta perpétua e definitiva.
forço, sair do inferno que gerou para si. Esta é a encruzilhada Eis, então, que é necessário deixar nas mãos da criatura o
em que ele se encontra: ou ter que sofrer sempre mais, se quiser poder de desvirtuar para sempre, com uma rebelião permanen-
continuar satisfazendo o seu desejo de revolta, ou arrepender-se te, a obra de Deus. No entanto, se uma só gota de desobediência
e mudar a sua trajetória, se quiser libertar-se do inferno e re- e de mal sobrevivesse na obra, ela não seria mais perfeita, pois
conquistar o paraíso perdido. São os próprios resultados da sua se constituiria de bem corroído pelo mal, o que deixaria a di-
revolta que o obrigarão a se revoltar contra ela, cujos frutos são vindade derrotada pelo seu inimigo, manchada, mutilada e frus-
amargos demais para ele aceitá-los. trada pela imperfeição.
Isto é o que nos confirmam os fatos oferecidos pela vida. Os Encontramo-nos na contradição entre duas posições opostas.
seres se encontram disputando os fragmentados sobejos da A liberdade existe e representa um perigo, mas não se pode tirá-
grande vida que possuíam no S. Aprofundados no AS, não é la do ser, para garantir a obra de Deus. Que esta fique sujeita à
possível viver senão em trechos intercalados com períodos que vontade do ser é absurdo inadmissível. Então é necessário admi-
negam a vida, sempre abraçados à morte, devorando-se uns aos tir que, pela divina sabedoria, existe um meio para impedir essa
outros numa luta contínua. A existência tem de ser ganha a todo liberdade de fazer naufragar a obra de Deus. Qual é esse meio?
o momento, com o próprio esforço, o que significa necessaria- Primeiramente, antes de se chegar à última e definitiva so-
mente evoluir, experimentando, aprendendo e, assim, desen- lução, existem muitos meios para resolver o caso, evitando des-
volvendo a inteligência, para acordar o espírito. Da grande vida sa forma a necessidade de usá-la. Há a elasticidade da Lei, ha-
no S nada restou senão esse pobre resto, uma vida fechada no bitualmente chamada de divina misericórdia, que nos espera no
tempo, despedaçada a cada momento pela morte, que está sem- tempo, oferecendo-nos assim a possibilidade de encontrarmos
pre à espera, espreitando-a para destruí-la. Quem pode aceitar as condições mais adaptadas para compreendermos, pagarmos e
isto para sempre? Eis aí a causa que gera o irresistível impulso nos corrigirmos. Há a bondade de Deus, que nos ajuda, e a sua
para se libertar dessa condenação e, com isso, a necessidade de vontade, que nos impulsiona ao longo do caminho da evolução.
fazer o esforço de evoluir. Este é o significado do livre cons- Neste sentido atuam duas grandes forças: uma negativa e
trangimento pelo qual a Lei obriga o ser a atingir a sua salva- outra positiva, colaborando para atingir a mesma finalidade.
ção, voltando ao S. Enquanto isso não se realizar, teremos de Pela primeira o ser é repelido para longe do AS; pela segunda
defender, com o nosso esforço de toda hora, a nossa vida inse- ele é atraído para o S. Quanto mais o ser insiste na revolta,
gura, acossados pelo constante medo de perdê-la. E muito te- tanto mais ele desce para o AS, aprofundando-se nas suas
remos de lutar e sofrer, para que possamos subir todo o cami- qualidades de negatividade, que são as trevas, a dor, a morte.
nho da volta e atingir o ponto final de chegada. Ora, como é possível que o ser queira insistir para sempre
◘ ◘ ◘ num caminho que o leva para uma tão absoluta negação do
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 65
que ele mais almeja? Como pode durar algo que vai contra si mistério. Mas isto, além de não ser a solução, não pode mais
mesmo, contra a sua própria natureza? ser aceito hoje pela mente humana, que vai amadurecendo.
Por outro lado, quanto mais o ser se torna obediente à Lei, Deus não é exterior aos fenômenos, como se dá com o ho-
tanto mais ele se aproxima do S, isto é, ganha nas suas qualida- mem, que vive no relativo. Isto seria concebê-lo antropomor-
des de positividade, subindo para a luz, para a felicidade, para a ficamente. Deus é interior a tudo o que existe, assim como o
vida. Como pode o ser continuar usando a sua liberdade no senti- nosso eu é interior ao nosso corpo, agindo nele, movimentan-
do de aumentar o próprio dano e diminuir a própria vantagem, do-o e curando-o de dentro, e não de fora. Eis o que nos ensi-
quando o seu instinto quer justamente o contrário, isto é, diminu- nam estes fenômenos que vamos observando.
ir o primeiro e aumentar o segundo? O fato é que há sempre mai- Continuando o nosso processo lógico, poderia ser contra-
or vantagem na obediência e sempre maior dano na desobediên- posta outra dificuldade. Se o ser, como criatura filha de Deus, é
cia. Do fundo do ser não pode deixar de falar a sua íntima e pró- antes de tudo espírito, constituído da substância de Deus, que é
pria natureza de cidadão do S. Acontece então que, naturalmente, eterna, então essa substância e o espírito feito com ela não po-
cada posição em descida se faz sempre mais insustentável e insu- dem ter fim, porque não tiveram origem, e não podem ser des-
portável. Assim o problema tende a se resolver por si mesmo, truídos, porque não foram criados.
porque a mecânica de redução da utilidade e aumento do dano Analisemos a questão. O que nasceu na primeira criação
leva automática e fatalmente ao arrependimento e à retificação. realizada por Deus não foi a substância, mas sim a sua indivi-
Tudo isto, porém, não basta para eliminar a possibilidade dualização pessoal, que constitui o ser. A substância de Deus,
teórica de uma revolta perpétua e definitiva, porque, se esta com a obra da criação, foi transubstanciada no particular mo-
possibilidade fosse negada, não haveria uma verdadeira liber- delo da individuação pessoal. Somente a individuação teve
dade do ser. No entanto é necessário que a obra de Deus esteja um nascimento, portanto somente ela pode morrer. Então o
absolutamente acima de toda tentativa de alteração, permane- aniquilamento final, mencionado aqui, só pode referir-se a es-
cendo inatingível na sua perfeição. Existe então, no fim, um úl- sa individuação, que constitui o ser, e não à eterna substância
timo e definitivo meio de defesa: a destruição do ser. Veremos da qual ele é constituído. Eis que, quando entendemos o con-
agora em que sentido isto se daria. ceito de destruição e aniquilamento neste sentido, tudo se tor-
Antes de tudo, a lógica impõe a necessidade de admitir essa na lógico, claro e admissível.
destruição como uma possibilidade teórica, porque, se ela não Tudo isto também é justo, porque o rebelde, neste caso,
fosse possível, seria necessário aceitar que a criatura poderia acaba destruindo somente a si próprio, e nada mais, somente a
destruir a obra de Deus, e isto seria inadmissível. Então, se o sua individuação, seu eu pessoal, mas nada do que pertence ao
ser quiser usar a sua liberdade para permanecer definitivamente S, à Lei ou aos outros elementos, tanto dos que não se rebela-
rebelde a Deus, não resta outra alternativa, porquanto não se ram como dos que escolheram recuperar o que tinham perdido,
pode escravizá-lo, senão a sua eliminação. Essa é a natural so- seguindo o caminho de volta. Assim o mal fica sempre fechado
lução para o dilema entre as duas condições impossíveis: 1) Ti- em si, isolado, sendo levado à destruição somente de si próprio,
rar a liberdade do ser, violando a própria natureza da divina quando o singular elemento livremente o quiser. Ninguém pode
substância da qual ele é constituído; 2) Permitir que tal liberda- ser infectado por essa doença, que mata só quem a gerou dentro
de possa destruir a perfeição da obra de Deus. de si e quis depois, definitivamente, aceitá-la.
Temos falado de destruição e eliminação do ser. Mas como Tudo isto é justo também porque a destruição do ser é o
é que isto aconteceria? Também neste caso, Deus continua retorno, contra ele, do impulso de destruição que ele, com a
sempre respeitando a liberdade do ser, não sendo Sua vontade revolta, lançou contra o S. Quanto mais aprofundamos a nossa
de modo nenhum destruí-lo à força, o que seria pior do que lhe pesquisa para compreender a estrutura da Lei e as suas rea-
tirar a liberdade. A destruição do ser está implícita na própria ções, tanto mais nos apercebemos que não há um Deus à ima-
estrutura do fenômeno. Se o ser não fez da liberdade o uso pa- gem e semelhança do ser humano, que intervém premiando ou
ra o qual ela estava destinada, isto é, no sentido positivo e punindo. Os fatos falam diferentemente. Deus não opera nesta
construtivo, mas a empregou às avessas, emborcando-a no sen- forma antropomórfica. Embora Ele exista em forma pessoal,
tido negativo e destrutivo, é lógico que, com a revolta, apro- no Seu aspecto transcendente, não O encontramos em nosso
fundando-se cada vez mais na negatividade do AS, ele acabe universo a não ser no Seu aspecto imanente, em forma impes-
por si mesmo destruindo-se e eliminando-se. Logicamente, no soal, presente em todos os fenômenos e individuações do Ser.
caso limite da revolta perpétua e definitiva, o ser tem de atingir Então, quando nós violamos a Lei e ofendemos a Deus, não
o extremo do processo de emborcamento da positividade na significa que a Lei nos castigará ou que Deus nos punirá, mas
negatividade, ou seja, um estado de destruição completa de to- sim que as forças do S nos devolverão os impulsos que lan-
da a positividade e de absoluto triunfo da negatividade, que é o çamos contra ele. É o retorno dos nossos próprios impulsos,
nada. É automático e fatal que, por sempre querer negar tudo, ricocheteando de volta, que proporciona a reação à ação, equi-
o ser rebelde acabe negando também a si mesmo, até chegar ao librando-as e constituindo a base da justiça divina. O que os
próprio aniquilamento. Não quis ele, usando a sua livre vonta- fatos nos dizem a respeito da natureza de Deus é muito dife-
de, destruir todas as qualidades positivas que possuía no S? E o rente de tudo que o homem, com sua concepção antropomór-
que pode ficar quando tiramos de uma entidade tudo o que é fica, até agora imaginou. É difícil para ele, acostumado à in-
positivo? Somente pode restar o nada. Eis a solução, automáti- certeza da escolha e à tentativa, próprias do seu estado de im-
ca e fatal, implícita no próprio fenômeno da queda, sem inter- perfeição, compreender esse estranho modo de operar segun-
venções coativas e exteriores. É o próprio fato de ter desejado do um determinismo automático, que parece mecânico, mas
com a revolta escolher o uso do método da negação, que leva o age com lógica, justiça e segurança absolutas, como só pode
ser fatalmente para o seu aniquilamento no nada. acontecer na obra perfeita de Deus.
Tudo é simples e claro, regido por uma lógica perfeita, Somente encarando-o assim, em sua profundidade, pode-
como num processo matemático. A dificuldade para compre- mos compreender o problema da destruição do ser. A Lei nos
ender está no fato de que estamos acostumados a pensar an- devolve automaticamente, em bem ou mal, o que de nós rece-
tropomorficamente e ficamos fechados nessa forma mental beu. Os seus equilíbrios se restabelecem à nossa custa, na me-
também quando enfrentamos esses problemas. Por isso eles dida em que nós quisemos deslocá-los. Seja qual for o dano
não são equacionados do modo correto e não encontram ex- que fizermos, temos de restaurá-lo. O fenômeno da evolução
plicação, fazendo que tudo tenha de acabar na fé cega e no se baseia nesse princípio. Temos que reconstruir os equilíbrios
66 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
da Lei na medida em que os violamos. Assim acontece por- também como qualidade, isto é, na natureza deles. A revolta re-
que, quando saímos da ordem da Lei, aparece a dor, que nos presenta um movimento separatista, correspondente a um im-
continuará golpeando até regressarmos àquela ordem. A dor pulso pelo qual o ser procura afastar-se e separar-se do S. Po-
não é o efeito de uma intervenção de Deus, mas sim a carên- demos ver então qual é a técnica do fenômeno da queda ou ani-
cia de harmonia com as forças das quais depende a nossa feli- quilamento. Sendo o impulso original de tipo separatista, o pro-
cidade. Cada revolta nossa destrói essa harmonia, lançando- cesso, uma vez iniciado, não pode deixar de continuar a se de-
nos na desordem e na carência, que chamamos dor. Assim, a senvolver e, tal como uma desintegração atômica em cadeia,
cada afastamento da Lei, tem de corresponder uma proporcio- não se detém até o esgotamento do impulso, tendo como resul-
nal aproximação dela. Então é lógico que, com o esforço da tado final, no caso da revolta completa e absoluta, a pulveriza-
evolução, seja possível pagar uma revolta temporária, corri- ção do ser. E isto é possível, porque o espírito, sendo constituí-
gindo o seu impulso limitado, percorrendo em subida o cami- do de substância divina, é de natureza infinita e pode, portanto,
nho feito em descida. Mas, quando a revolta é completa e de- gerar impulsos e efeitos também de natureza infinita.
finitiva, não há subida que possa corrigi-la facilmente, tão Mas por que pulverização? Porque o impulso é de tipo divi-
grande é a desordem provocada. Neste caso, o ser se aprofun- sionista. Ele, como vimos, não pode sair dos limites do campo
dou tanto, que é difícil recuperar-se. Assim, ele não pode res- de forças do ser. Então o impulso divisionista, lançado por ele
suscitar do seu negativismo, daí a razão do seu aniquilamento. contra o S, ricocheteia e, devido ao princípio de regresso à fon-
Tudo é lógico. Com a revolta, o ser procurou destruir a obra te, pelo qual tudo o que é lançado para fora acaba retornando à
de Deus. Mas a obra de Deus, com relação ao ser, foi justamen- sua origem, começa a trabalhar dentro do próprio indivíduo que
te criá-lo. Seu estado de criatura, portanto, como eu individua- o lançou. Assim, o princípio divisionista começa progressiva-
lizado, é exatamente o produto da criação. Então o ser, revol- mente a transformar interiormente o ser, desagregando-o cada
tando-se contra a obra de Deus, revolta-se contra a sua própria vez mais nos seus elementos componentes. É um processo pa-
existência e procura destruí-la. A individuação do ser represen- recido ao que vemos verificar-se num organismo biológico no
ta um campo de forças limitado, dentro do qual lhe é permitido momento da sua morte física, que, com o afastamento do eu
agir, mas sem poder sair dele. Isto quer dizer que o S, a obra de central diretor do organismo, resulta no fenômeno da dissocia-
Deus, não pode ser atingido pela criatura, que é dona apenas do ção dos elementos componentes, verificado no caminho involu-
que lhe pertence, sendo livre somente para destruir a si mesma, tivo. Assim como, na desagregação do corpo físico, as células,
seja temporariamente, recuperando-se depois com a evolução, não mais vivendo em função umas das outras e não mais se co-
seja definitivamente, se quiser insistir para sempre na revolta. nhecendo, dissociam-se, porque a unidade orgânica se dissolve,
Tudo é justo e lógico. Mas queremos saber ainda mais. Con- também na morte da célula, suas moléculas se separam em
tinuamos então olhando para a nossa visão, para vê-la sempre componentes químicos, seguindo apenas os mais simples im-
mais profunda e pormenorizadamente. Perguntamos, então, pulsos associativos da matéria inorgânica. Essa desagregação
como acontece mais exatamente esse aniquilamento do ser? do edifício biológico poderia continuar até à separação dos
Com estas contínuas perguntas, às quais vamos respondendo, átomos constituintes da molécula, dos elementos constituintes
pedimos a Deus que Ele nos mostre um pouco da Sua face, que do átomo, e assim por diante. O mesmo processo de pulveriza-
é feita de pensamento e na qual procuramos lê-lo. ção se verifica no caminho involutivo, de modo que, quanto
O conceito de aniquilamento do ser está ligado ao conceito mais a organicidade do S desmorona e o ser, involuindo, apro-
de limite de desmoronamento da queda, que se realiza em funda-se no estado caótico próprio do AS, tanto mais a unidade
proporção ao poder do impulso originário na revolta. O efeito orgânica do eu se vai dissolvendo. É lógico que, se o impulso
tem de corresponder à causa. Isto quer dizer que a amplitude foi limitado, o processo, ao esgotar-se, para num dado ponto,
do caminho percorrido em descida na queda tem de ser pro- permitindo ao ser desemborcar a descida em subida. Mas é cla-
porcional ao volume do impulso que o ser gerou com a sua ro também que, se a revolta foi completa e definitiva – um caso
revolta. Deus, criando dentro de Si e com a Sua substância, tão excepcional, que é praticamente apenas uma possibilidade
gerou as individuações conforme o modelo fundamental for- teórica – esse processo de desagregação terá de acabar no ani-
mado por Ele, pelo qual a criatura se constituiu de um eu cen- quilamento da unidade que constitui o ser.
tral com autonomia dentro dos limites da obediência hierár- A contraprova de tudo isto pode ser encontrada no fato de
quica, capaz de gerar impulsos próprios e independentes, que que, enquanto a involução se nos apresenta como um processo
deveriam se coordenar com os paralelos impulsos de todos os divisionista, a evolução é constituída por um processo unifica-
outros seres, em função do impulso central de Deus, como dor. Neste segundo caso, não vemos mais uma desagregação,
acontece nas células de nosso organismo. Assim, dentro dos na desordem do AS, do estado orgânico do S, mas sim uma
limites do campo de forças da própria individuação, o ser es- reunificação, na organicidade do S, dos elementos desorgani-
tava livre para gerar e lançar os impulsos que quisesse, dando zados do AS. De fato, como explicamos em A Grande Síntese,
origem a efeitos que, depois, seriam fatalmente seus. E foi is- na evolução vigora a lei das unidades coletivas, cuja função é
to que aconteceu com a revolta, cujos efeitos têm de ser pro- reconstruir, com os elementos que se desuniram, a organicida-
porcionais ao poder do impulso que os gerou. de destruída do S. Então, o fenômeno, em toda a sua amplitu-
Se esse impulso é limitado, então, no momento em que de, resulta situado entre dois polos opostos ou casos limites.
atinge seu efeito, dado pela sua completa realização, ele se es- No extremo da queda, no fundo máximo do AS, temos a pleni-
gota, como vimos no capítulo precedente, e o ser pode voltar tude da dissolução da unidade até ao aniquilamento do ser. No
atrás, para corrigir e recuperar tudo. Mas, se o impulso corres- extremo oposto, no cume máximo do S, temos a organicidade
ponder a uma revolta completa, absoluta e definitiva, isto não plena da unidade no Tudo-Uno-Deus.
pode acontecer. Cada causa não pode parar de atuar enquanto De fato, vemos a evolução progredir neste sentido, levantan-
não se esgotar completamente, atingindo todo o seu efeito. En- do andares cada vez mais elevados da sua construção, agrupan-
tão, se foi tal o impulso original, ele não poderá parar até se es- do seus elementos e organizando-os em unidades coletivas sem-
gotar, e o ser, não podendo voltar atrás, terá de atingir a realiza- pre mais vastas. O ser humano encontra-se ao longo desse cami-
ção da causa em toda sua plenitude, representada pelo estado de nho. Ele é constituído pela organização de átomos em molécu-
negatividade absoluta, isto é, de aniquilamento do ser. las, de moléculas em células e de células em tecidos e órgãos,
Ora, esse processo de destruição do ser corresponde à sua com os quais atinge um organismo unitário, dirigido por um só
causa não apenas como quantidade, na medida dos efeitos, mas eu. Mas o ser humano, embora já conheça os organismos da fa-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 67
mília, do grupo a que pertence e das várias formas de associa- III. A ÉTICA UNIVERSAL
ções, de Estado, de povo e de unidade étnica, ainda é uma célula
desorganizada em relação à unidade coletiva da humanidade e às Depois de termos resolvido no capítulo precedente alguns
sociedades de humanidades. Eis o passado e o futuro, o caminho problemas colaterais, para esclarecer as dúvidas e responder
percorrido e aquele a percorrer no trabalho da reconstrução da às perguntas que vão surgindo ao longo do caminho, voltamos
unidade máxima na completa fusão orgânica do S. agora ao assunto central deste volume, cujo objetivo principal
Quando o ser, com a sua revolta, sai dessa organicidade que não é nos fornecer uma orientação geral – trabalho já realiza-
o funde em unidade com os outros elementos componentes do do nos livros Deus e Universo e O Sistema, com uma visão de
S – suas criaturas irmãs – ele fica sozinho, abandonado ao pro- conjunto de todo o ciclo involutivo-evolutivo – mas sim foca-
cesso de sua desagregação interior, pela qual se vai dissolvendo lizar mais de perto o processo de recuperação, que se chama
nos seus elementos constitutivos, até que o edifício todo do seu evolução. Entramos cada vez mais no terreno das consequên-
eu se pulveriza. Assim, a centralidade representada pelo eu pes- cias e aplicações práticas das teorias, encarando sempre mais
soal se fragmenta, pulverizando-se cada vez mais, num movi- de perto os problemas de nossa vida, dentre os quais o mais
mento centrífugo, dirigido à periferia, oposto ao realizado na importante é o da nossa salvação.
evolução, que vai na direção centrípeta, no sentido da recons- O nosso universo representa o fato consumado da revolta e
trução da unidade, forma na qual se manifesta o eu. A unidade se nos apresenta imerso nas suas consequências. A primeira e
máxima é o “Eu sou” de Deus, que centraliza e reúne em si to- maior foi a cisão da unidade do S no dualismo S e AS. Este
dos os elementos do todo, suprema unidade que a revolta tentou dualismo constitui o esquema fundamental do universo em que
quebrar, mas só conseguiu quebrar os revoltados. vivemos. Ele se apoia sobre duas posições básicas: a positivi-
Eis como se realiza a eliminação do ser rebelde. A observa- dade e a negatividade. Esta última, com todas as qualidades
ção de perto desse fenômeno nos levou a uma compreensão que a acompanham, apareceu como produto da revolta, porque,
mais profunda do processo involutivo e evolutivo. Quando o na obediência dentro do S, não pode haver senão positividade.
ser escolhe o caminho da revolta, ele movimenta as forças da A desobediência gerou o que a Bíblia representa com a ima-
negatividade, então se inicia e se desenvolve o desmoronamen- gem da expulsão do paraíso terrestre, depois do que nasceram
to do seu eu, numa progressiva desintegração das suas dimen- todos os males e dores. Se, acima de tudo, ficou inatingível e
sões, que somente se deterá quando o impulso originário se es- inalterado o monismo de Deus, que abrange tudo, incluindo o
gotar completamente, com a realização da causa no seu efeito. AS, o nosso universo, dentro desse monismo, representa a ci-
O fato de chegar ou não até ao aniquilamento final depende do são dualista. Todos os seres têm de viver nesta forma de exis-
peso do impulso que o ser quis lançar em sua revolta. Deus não tência despedaçada pela queda, enquanto o processo inverso da
persegue e não inflige pena a ninguém. É pela própria mecânica evolução não tiver saneado esse estado, que representa uma
do fenômeno que o rebelde, escolhendo livremente esse cami- verdadeira condição patológica do ser.
nho, acaba condenando a si mesmo e se penitenciando. A culpa A revolta gerou o caminho do afastamento, expresso pela
e a pena não saem do campo de forças do ser responsável. As- linha verde da figura, isto é, a posição emborcada da negativi-
sim cada um, por sua própria conta, paga o que deve e recebe o dade. A evolução, percorrendo a linha vermelha da positivida-
que merece. O S permanece perfeito e inatingível, acima de de, em obediência à Lei, reconstrói tudo, até atingir a plena
qualquer revolta e queda. Não é possível vencer Deus. Quem reintegração na perfeição do S. Este volume foi intitulado Que-
procura fazer isto, vence a si próprio. Se a vontade do filho é da e Salvação porque analisa esses dois momentos ou proces-
destruir a obra do pai, ele atinge o seu escopo, porque acaba sos inversos, nos quais o ciclo se cumpre e o dualismo se com-
destruindo a si mesmo, que é a obra do pai. pleta, fundindo-se na unidade que abraça, num mesmo movi-
Quando, nos outros volumes, falamos de destruição do espí- mento, tanto o primeiro, de separação para longe do S, como o
rito, muitos, por não entenderem, reclamaram. Mas repetimos, segundo, de reunificação no S. Que representa a salvação senão
trata-se da destruição apenas da particular individuação da a destruição do dualismo e a reconstrução de tudo na unidade?
substância que constitui o ser, e não da substância em si. So- A função da evolução é exatamente eliminar a negatividade do
mente essa individuação, que teve princípio com a criação, po- AS e restaurar tudo na positividade do S.
de ter fim, pois a substância eterna, que não teve princípio, não Eis então que o problema nos aparece como uma situação
pode ter fim. Também esse processo do aniquilamento da indi- de conflito, na qual lutam duas forças contrárias, uma para
viduação é regido pela ordem do S e tem de se desenvolver se- sobrepujar a outra e vencê-la. A análise do contraste entre es-
gundo as regras precisas estabelecidas por esta ordem. ses dois impulsos, o da negatividade e o da positividade, nos
Concluímos esse assunto com uma explicação prática. Tudo permitirá equacionar e resolver vários problemas que se refe-
se passa como se tivéssemos uma estátua feita de material in- rem à nossa conduta e posição na vida. O impulso da negati-
destrutível. Não se pode destruir esta matéria, no entanto é pos- vidade é devido à vontade da criatura, que gerou o processo
sível anular a forma tomada por ela na estátua. Assim, se temos da queda. O impulso oposto, da positividade, é devido à von-
uma estátua de bronze, então, fundindo-se a estátua, o bronze tade de Deus, que, com a evolução, gera o processo de salva-
continua existindo, mas a forma da estátua deixa de existir. ção. No primeiro caso, tudo é devido ao erro cometido pela
Desse modo, a forma da estátua é aniquilada, enquanto fica in- vontade do ser. No segundo caso, verifica-se a correção desse
tacta a sua substância, que é o bronze. No caso que observa- erro, realizada pela vontade de Deus. O nosso mundo se nos
mos, a substância espiritual, por ser indestrutível, volta à ori- apresenta como um campo de luta, no qual se chocam esses
gem, à fonte que a gerou, reabsorvida em Deus. Sendo Ele um dois impulsos, gerados por duas fontes rivais; de um lado, a
infinito, não pode por isso ser aumentado nem diminuído, e tu- criatura rebelde e pecadora e, do outro, Deus, que retifica e
do permanece inalterado e inalterável, seja qual for a quantida- redime tudo. Lá, onde vence a desobediência, tudo acaba na
de (n) que se lhe acrescente ou que se lhe diminua, porque: destruição. Se o ser renunciar à sua vontade de revoltado,
+n= e −n= aceitando a vontade de Deus, poderá encontrar a salvação.
Vimos que, embora respeitando a vontade do ser, Deus o
Eis o que significa destruição do espírito, conceito concebí- impulsiona para a subida, que é o caminho da salvação. Mas o
vel e lógico, quando bem entendido. Eis como a sabedoria de ser quer a sua vontade, e não a de Deus. Não há dúvida que a
Deus resolve este caso, satisfazendo com harmonia e coerência evolução está orientada e dirigida por Deus para a Sua última
todas as exigências opostas. finalidade, que é a salvação. O desenvolvimento desse proces-
68 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
so é representado pelo desenrolar dessa luta entre aquelas duas sempre acompanhadas da respectiva recuperação. Porém, ago-
vontades opostas: a rebeldia da criatura e a lei de Deus. A pri- ra, a queda não é mais representada pela linha verde XY, que
meira quer a queda no AS, a segunda quer a salvação no S. Eis sai do S para o AS, e o caminho de volta não é mais representa-
os dois termos de nosso assunto atual. Do choque entre esses do pela linha vermelha YX, que leva tudo novamente do AS
dois impulsos nascerão várias posições de luta, problemas e para o S. Em vez disso, o desvio é representado na figura por
soluções, que iremos observando. deslocamentos laterais, que se afastam da linha central verme-
Estes conceitos nos explicam a razão pela qual, como ponto lha da Lei. Para confirmar o que já foi por nós sustentado, estu-
de partida, as leis civis e religiosas pressupõem que o homem daremos nas próximas páginas esses casos menores, constituí-
seja um rebelde e que a tarefa delas é subjugá-lo. Elas revelam dos pelos acontecimentos de nossa vida comum, nos quais vi-
essa luta entre as duas vontades opostas. Parece que a primeira goram os mesmos princípios gerais da queda e da salvação. O
função do legislador é, antes de tudo, reprimir e domar, proi- conceito é sempre o mesmo, retornando em todos os momentos
bindo o que o homem desejaria espontaneamente fazer, como e pontos, porque constitui o problema central de nosso univer-
se o instinto natural dele fosse somente ser mau. Os mandamen- so. Trata-se do erro que nos levou à negatividade e da sua cor-
tos de Moisés são uma lista das culpas humanas, onde se pre- reção, que nos conduzirá de volta à positividade.
sume que o ser tenha muita vontade de cometer aquelas faltas, Como quer a vontade de Deus, tudo que decaiu no AS deve
as quais Deus ordena que não sejam consumadas, porque são ser reconduzido salvo para Ele, no S. Assim, também é vontade
proibidas. Ninguém se pergunta por que a voz de Deus se mani- da Lei que todo afastamento do ser, devido ao erro, seja recon-
festou nesta forma de imperativo negativo. Mas isto se explica, duzido a ela, isto é, à linha vermelha que a expressa. Eis, então,
porquanto a Lei representa a positividade de Deus, que se dirige que a nossa figura nos mostra, utilizando o caso maior da queda
à destruição da negatividade na qual a criatura, com a revolta, e salvação, como se realiza e depois se corrige a repetição de to-
mergulhou. Eis o que a ética das religiões busca corrigir e por- dos os outros casos de desvios menores, que podem acontecer a
que ela assumiu a forma de condenação. Está claro que a Lei toda hora e altura na escala evolutiva, ao longo do caminho. Isso
segue o principio do dualismo e encara o problema como nós o se verifica através do mesmo processo. Teremos então, em lugar
encaramos. Ela representa a positividade, que impõe a luta con- da linha XY e YX, outra linha, que se desenvolve lateralmente à
tra a negatividade, para destruí-la. linha vermelha da Lei, com igual movimento de ida e volta, ou
A história do mundo se baseia no dualismo; trata-se da histó- seja, de erro e correção, de doença e saneamento, de afastamento
ria do progresso, da evolução, da luta entre S e AS. Observemos e recuperação. O ciclo involução-evolução, nestes casos meno-
como falou Deus nos dez mandamentos. A primeira frase é: “Eu res, repete-se segundo o mesmo modelo da grande queda, pelo
sou”, a afirmação absoluta, que testemunha a completa positivi- qual as duas forças opostas têm de se equilibrar: o impulso do
dade. Este é o terreno de Deus e do S, o ponto de partida da Lei. ser para a desordem, e o impulso corretor da Lei para a ordem.
Quando Deus fala de Si, tudo é afirmativo. Assim que Ele se di- Neste caso, também temos uma linha verde que expressa o
rige ao homem, começa a série de negações, que se repetem a afastamento para a negatividade, e uma linha vermelha que ex-
cada passo: “não terás, não farás, não tomarás, não matarás, não pressa a aproximação de volta para a positividade. Assim, te-
adulterarás, não furtarás, não dirás, não cobiçarás etc.”. O terreno mos a linha da queda, gerada pela vontade da criatura, e a linha
do homem é o terreno da negatividade, no AS. E logo se delineia da salvação, gerada pela vontade da Lei. Tudo se desenvolve
a luta, porque, assim como a afirmação do S é a negação do AS, com o mesmo método da retificação do erro, ou seja, pela cor-
a afirmação do AS é a negação do S. A primeira coisa que Deus reção da desordem, que é reconstituída na ordem. Contra a von-
tem de fazer na formulação da Sua Lei é a afirmação do S contra tade destruidora do ser levanta-se sempre a vontade reconstru-
a revolta do homem, para vencer o AS, a que ele pertence. tora de Deus, que trata e cura toda doença.
A estrutura das leis divinas e humanas nos faz pensar que, por Assim como, no caso da grande queda, o ponto de referência
sua natureza, o homem seja mau, como se ele tivesse nascido pe- é o S, o ponto de referência, nestes casos menores laterais, é a
cador e assumisse por regra uma conduta errada. A tarefa da Lei, Lei. Da mesma forma, o ponto de partida e de chegada, que era
impondo com sua ética uma conduta correta, é corrigir essa cria- antes o S, agora é a Lei. Neste caso, também há um ciclo com-
tura má, que, senão admitirmos a revolta e a queda, não podería- pleto de ida e volta, isto é, um processo dividido em duas partes
mos absolutamente aceitar ter saído das mãos de Deus. Seria co- inversas e complementares, que, em forma dualista, constituem
mo se disséssemos que Deus, arrependido pelo Seu erro, procura uma unidade. Tal como o ponto de referência, no fenômeno da
agora remediá-lo, retificando tudo com a Sua Lei. Este seria o grande queda, é o S, em função do qual tudo se movimenta, o
significado da ética e da Lei, se não aceitássemos a teoria da ponto de referência em função do qual, no fenômeno desses
queda, pela qual o mal, que mancha o ser e satura o mundo, foi afastamentos parciais, tudo se movimenta é a Lei, expressa pela
devido à desobediência da criatura, e não obra direta de Deus. Se linha vermelha YX. Podemos agora compreender o seu signifi-
a causa de tudo isto estivesse em Deus, então Ele, para remediar cado. Marcando o caminho da evolução, essa linha representa a
o Seu malfeito, não teria condenado ao trabalho duro da evolução norma a ser seguida para se atingir a salvação. Ela expressa, en-
a criatura inocente, injustamente julgada responsável e, por isso, tão, o princípio da ética, ou norma de conduta correta. Afastar-se
forçada a pagar à sua custa. Da mesma forma, Cristo, em vez de dela significa erro e culpa, sendo necessário depois voltar para
redimir o homem, deveria ter redimido Deus, que, com o Seu er- recuperar o que foi perdido, trabalho que não pode ser realizado
ro, gerou tanto mal. É verdade que o homem é mau e que a Lei senão com o esforço do ser, como dever, penitência e sofrimen-
está aí para corrigi-lo. Mas, se o homem é mau, é porque ele quis to. Assim, porquanto se trata de um trabalho de reconstrução, is-
cair no AS, e não porque Deus o criou mau. De Deus não pode to tem de ser realizado pelo próprio ser que, em sentido oposto,
sair o mal. E, se o homem não é mau pela maldade de querer ser fez a obra de destruição. Tudo ocorre dessa forma porque o nos-
assim, mas sim pela ignorância decorrente de sua involução, en- so universo, apesar de estar decaído na desordem devido à revol-
tão esse estado de negatividade tem de ser consequência da que- ta, continua sempre sendo regido pela ordem de Deus, que im-
da e, por isso, representa uma responsabilidade. põe um princípio de equilíbrio, pelo qual não são possíveis afas-
A revolta foi um desvio da posição correta. Esse foi o pri- tamentos definitivos e gerais, com resultados permanentes, mas
meiro e o maior erro, que gerou todo o processo da queda. Mas somente deslocamentos temporários e locais, prontamente corri-
veremos agora que, ao longo do caminho da evolução, o ser gidos, contrabalançados e restituídos ao equilíbrio de origem,
pode voltar a realizar o seu impulso de desobediência, afastan- constituindo desordens parciais, que, por fim, têm sempre de
do-se da Lei e gerando quedas semelhantes, porém menores, acabar sendo reconduzidas à ordem geral.
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 69
Podemos ver assim, neste caso, o dualismo equilibrado nos Se a ética universal da Lei representa a linha central ou
seus dois momentos opostos, tornando possível até mesmo cal- tronco das normas que dirigem o ser na realização da sua evo-
cular, a cada momento, a posição de débito ou crédito na qual o lução, esse tronco, na prática, vai sempre mais se ramificando,
ser se encontra a respeito da Lei, que, sendo o ponto de referên- quanto mais nos aproximamos do caso particular. Vemos então
cia universal, estabelece os valores e as normas da vida. Eis que o ser não se movimenta livremente, como é comum se
como pode despontar a ideia de uma regra de vida, ou norma de acreditar, mas enclausurado numa rede de princípios menores.
conduta, baseada sobre princípios que mergulham as suas raízes O homem conta, antes de tudo, com a sua força e astúcia, acre-
na própria estrutura do universo. Começamos então, desde já, a ditando ser livre para realizar à vontade tudo o que deseja. As-
vislumbrar a possibilidade, como veremos neste volume, de es- sim, ele nem imagina que vive enredado dentro de uma gaiola
tabelecer uma ética positiva e racional, poderíamos dizer cientí- de regras, onde nenhum de seus movimentos pode ser realizado
fica, independente da fé e das religiões, obrigatória porque de- senão em função de muitas outras forças em ação, continua-
monstrada; uma ética exata, suscetível de cálculo, cujos valores mente submetido a normas que, como paredes invisíveis mas
podem ser medidos, contendo assim qualidades que as éticas férreas, agem para canalizar cada atividade, livremente, na di-
em vigor estão bem longe de possuir. reção de finalidades preestabelecidas.
Poderemos deste modo atingir um conceito de ética de uma Com a revolta, o ser pensou que poderia emborcar o S e se
vastidão até agora desconhecida. A presente ética humana, dada tornar ele o chefe, substituindo a ordem da Lei pela desordem
pelo tipo fundamental a que se podem reduzir as várias éticas representada por uma lei sua. Mas, não conseguiu emborcar se-
das religiões atualmente em vigor na Terra, não é universal, não a si mesmo dentro do S, que permaneceu íntegro e sobera-
mas sim particular a esta humanidade e relativa ao nível de evo- no. Desse modo, apesar da tentativa de revolução, as funda-
lução por ela atingido. Tal como acontece com todas as verda- mentais leis de equilíbrio do S continuaram a vigorar e a domi-
des que o homem consegue possuir, trata-se de uma ética rela- nar tudo, inclusive o AS. Estas regras representam barreiras in-
tiva e em evolução, na qual o homem conhece somente uma transponíveis, e o ser tem de levá-las em conta, uma vez que
aproximação do seu ponto final: a perfeição do S. não pode evitar suas devidas reações todas as vezes que não as
No entanto as transformações evolutivas dessa ética nos di- respeitar, chocando-se com elas.
zem que ela é progressiva, transformando-se ao longo de sua tra- A consequência de tudo isto é que o homem, embora acredite
jetória numa ética universal, que abrange e disciplina não so- ser poderoso porque sabe vencer com a força ou astúcia, não faz
mente uma posição relativa do ser ao longo do caminho da evo- de fato outra coisa senão contrair dívidas perante os equilíbrios
lução, mas também todas as suas posições possíveis. Essa ética da Lei, para depois ter de pagar, reconstituindo-os à sua custa.
universal, abraçando todas as restritas éticas relativas atravessa- Isto não quer dizer que o ser, embora enclausurado dentro
das pelo ser na sua ascese para o S, é a que estudamos neste vo- desta rede de regras, não seja livre. Ele o é, mas somente
lume. Ela está acima das éticas particulares e transitórias de nos- dentro do espaço que a Lei, para lhe tornar possível cumprir a
so mundo. Essa ética universal é a Lei. Deste modo, estudando- oscilação entre o caminho certo e o errado, deixa-lhe dispo-
a, é possível descobrir os princípios universais que sintetizam as nível, condição necessária para ele realizar o trabalho de ex-
normas pelas quais o ser é dirigido em todos os níveis de evolu- perimentação, a fim de aprender e, assim, evoluir. Fora des-
ção, proporcionadas a cada um deles. Sem ficar fechados em tes limites, vigora o determinismo absoluto e o indivíduo não
nenhuma posição particular, possuiremos a chave para compre- tem poder algum. A sua vontade de revolta pode alterar so-
endê-las todas, porque, ao invés de conceber cada uma como mente ele, e não a obra de Deus, que está acima de qualquer
completa e definitiva em si mesma, passaremos a reconhecê-las revolta e tentativa de emborcamento. O ser rebelde, com toda
como expressões de uma ética progressiva em evolução, vendo- a sua revolta e as respectivas consequências, está contido
as não mais isoladas, e sim no seu conjunto, todas unidas numa dentro da ordem do S e não pode de maneira alguma sobre-
corrente, quais momentos sucessivos da mesma ética universal. pujar os limites pré-estabelecidos pela Lei. A revolta foi co-
Cada uma dessas éticas relativas, como por exemplo a mo uma rebelião de peixes contra o rio onde vivem, de den-
humana atual, contém as normas de vida adaptadas para fazer tro do qual eles não podem sair de maneira alguma, pois a
o ser evoluir em relação ao nível em que ele se encontra ao sua liberdade não chega até lá. E, aconteça o que acontecer
longo do caminho evolutivo, a fim de superar aquele plano e dentro do rio, fora dos seus limites tudo permanece inatingí-
entrar num outro mais adiantado. Assim, a ética do homem de vel e inalterado na ordem de Deus.
hoje não é igual a de ontem nem será a mesma amanhã. O A Lei da luta pela vida e da seleção do mais forte, vigoran-
homem atual julga crime o que o selvagem do passado julgava te em nosso mundo, é apenas uma lei transitória para aprender
lícito e normal. Do mesmo modo, o homem mais civilizado do uma determinada lição. Deste modo, além desta pequena liber-
futuro julgará crime muitos atos que o homem atual julga líci- dade, que chamamos de livre arbítrio e que nos parece absolu-
tos e normais. Cada período de evolução possui o seu dado ti- ta, há uma lei de ordem da qual ninguém pode sair. Quanto
po de ética, a qual vai-se transformando e, com o progresso, mais nós queremos ser fortes para nos rebelar, tanto mais ela
tem de ser continuamente superada. Tudo está proporcionado nos constrangerá a regressar à sua ordem. Isto não significa
ao grau de sensibilização e inteligência atingidas. Constrói-se que ela reaja ativamente. A sua resistência, assim como a da
assim o sentido moral, que é fruto de duras e longuíssimas rocha, que só quer ficar onde está, é passiva, e ninguém conse-
experiências. Logicamente, na proporção do grau atingido, há gue deslocá-la. Quando os peixes rebeldes procuram sair do rio
regras diferentes, escalonadas nos vários níveis, conforme o para espalhar a sua revolta, eles não são repelidos por nin-
trabalho a ser realizado, que é dirigido por elas. Em todos os guém, mas tão-somente pelo choque automático que recebem
planos de existência, o ser fica sempre enquadrado em um jo- de volta ao se lançarem contra as paredes, batendo nelas com a
go de princípios e forças proporcionado ao trabalho que a Lei cabeça. É o que chamamos de reação da Lei. A lição que o
o submete, para fazê-lo atingir um determinado escopo, per- homem tem de aprender é que existem limites dentro dos quais
correndo o trecho do caminho evolutivo pertinente a ele na- cada movimento do universo, inclusive o caos da revolta, está
quele dado momento. Tudo isto é lógico, pois, se o nosso uni- canalizado, de modo que ninguém pode sair da ordem e, se al-
verso se baseia no princípio do relativo em evolução, tudo, e guém tentar, baterá com a cabeça contra as duras paredes da
também a ética, não pode deixar de ter que acompanhar o mo- Lei, ficando preso nas dolorosas consequências do seu erro, até
vimento desse transformismo universal. que, evoluindo, esteja retificado na posição correta. Este é pro-
◘ ◘ ◘ blema fundamental da vida e é o nosso presente assunto.
70 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
Num mundo onde se acredita na liberdade indisciplinada, que deram origem aos dois impulsos não pode deixar de
na qual tudo é lícito, bastando que seja sustentado pela força, é acompanhá-los até à conclusão do seu caminho.
necessário mostrar quantos sofrimentos custa ao homem o erro A revolta não tirou nada à supremacia e poder de Deus, que
tremendo de violar os princípios da Lei. Este é o nosso traba- permaneceu dono absoluto de tudo. Ela só foi possível porque
lho, no qual também estudamos a medida do esforço necessá- Deus a permitiu, deixando o ser livre para realizá-la. Por outro
rio para reconstituir os equilíbrios destruídos e reintegrar na lado, a rebeldia, que o ser viu como prova de sua força, consti-
ordem a desordem gerada pela liberdade indisciplinada. Como tuiu, de fato, somente a sua fraqueza, porque, no choque entre
se vê, estamos nos antípodas da concepção normal do mundo, as duas vontades, quem vencerá será Deus com a Sua Lei, e não
que obedece mais aos instintos primitivos do que a um verda- a criatura, que quis violá-la. No fim, não será o ser rebelde que
deiro conhecimento, racional e exatamente demonstrado, do conseguirá construir um AS, mas será o S que reabsorverá o AS
fenômeno conduta humana. e toda a revolta. Tudo isto, porém, não pode anular o fato de
Eis, em última análise, a liberdade que o ser possui. Ele se que a revolta se realizou, continua existindo e pode repetir-se
move como um avião livre no ar. Mas, nessa sua liberdade, o em casos menores, que iremos observar agora.
avião está fechado dentro de uma estrutura de forças que domi- O ser possui uma amplitude de liberdade que lhe permite
nam todos o seus movimentos, submetidas a um emaranhado de afastar-se da linha da Lei, violando as normas da conduta cer-
leis que exigem obediência completa, caso contrário, ao primei- ta. Veremos, no entanto, ocorrer uma verdadeira maravilha,
ro erro, o avião cai e tudo fracassa. Vemos que todas as ativi- pois, independente do que o ser faça, a Lei permanece inviolá-
dades humanas demandam uma disciplina tanto maior, quanto vel, e ele, mais cedo ou mais tarde, tem de voltar para a sua
mais vastas e importantes elas se tornam, condição resultante ordem. O estudo de nossa figura nos mostrará como se desen-
da necessidade de retificar a desordem na ordem, o caos no es- volve a luta entre essas duas vontades e como, a cada impulso
tado orgânico, os métodos do AS nos do S, a fim de corrigir a e movimento do ser no sentido do afastamento da linha da Lei,
revolta com os princípios da Lei. corresponde um proporcionado impulso e movimento de cor-
No terreno da ética e das normas de sua conduta, o com- reção no sentido da aproximação e retorno a ela. A consequên-
portamento do homem atual é parecido ao de quem, pelo fato cia necessária é que, assim como não foi possível o ser alcan-
de possuir um automóvel mais poderoso e ser mais hábil – ou çar a construção definitiva do AS, também não é possível ele
seja, só pelo direito da força e da astúcia – acredita estar auto- se afastar definitivamente da linha da Lei, isto é, do caminho
rizado a correr à vontade, sem qualquer regra, numa pista re- que o leva à sua própria salvação. O resultado final é que o re-
pleta carros, desrespeitando toda a disciplina do trânsito. To- belde não vai conseguir aniquilar-se com a sua loucura. E esta
dos pensam horrorizados nas consequências desse método de é a vitória de Deus: o bem da criatura, reintegrada na perfeição
dirigir, e fala-se que a perda de vidas nos acidentes rodoviá- e felicidade do S. Eis aí a verdadeira vantagem, para os dois,
rios é maior do que nas guerras. Este porém é o método que da vitória do mais poderoso: Deus. Esta é a razão que torna
prevalece na conduta humana. No terreno do trânsito, o ho- saudável e justo aquele impulso da Lei para trazer tudo de vol-
mem chegou a compreender a necessidade de uma disciplina, ta a ela, com uma outra conduta, enquadrada na sua ordem.
sendo levado a esta conclusão pelos sofrimentos resultantes Uma vez que estamos dentro do dualismo e, por isso, tudo
da sua ignorância. Quantas dores teremos de sofrer ainda, co- está cindido em dois termos opostos, a luta é inevitável. Ela é
mo consequência dos nossos erros, para compreender que, se universal e se encontra em todos momentos e lugares, porque a
não quisermos continuar sempre pagando, é indispensável se- estrutura de nosso universo, originado com a revolta, baseia-se
guirmos uma disciplina igual também no campo da ética, que na oposição e contraste entre positividade e negatividade, fun-
dirige a nossa conduta? Tudo, com o progresso, passa do es- damentando-se sobre o princípio de contradição. É por isso que
tado de desordem ao de ordem. Assim, a Lei vai sempre mais a ética tomou a forma dualística dada pelo erro e sua correção.
se revelando e se manifestando em nosso mundo, transfor- Até às suas últimas consequências, tudo é o resultado da pri-
mando-o, cada vez mais, no estado orgânico do S. meira revolta, de que se conservam os caracteres fundamentais.
Então o que de fato encontramos, acima de tudo e regulando Eis por que a luta de todos contra todos é o motivo dominante
tudo, é a ordem soberana de Deus, da qual nada pode escapar. de nossa vida. Dada a exigência lógica e absoluta que Deus seja
Contida e fechada dentro das paredes invisíveis dessa ordem es- unidade, não seria possível, sem a revolta, explicar o fato ine-
tá a desordem da revolta, que quer estabelecer como principio gável dessa contraposição dualista. Entre as duas partes não há
dominante o caos do AS. É verdade que a desordem é somente outra ponte que possa ter estabelecido uma passagem, a não ser
um episódio dentro da ordem, constituindo apenas uma sua va- um desvio capaz de realizar o emborcamento. Não quis o ser
riante excepcional e transitória, que nunca conseguirá fixar-se separar-se? Eis a separação desejada então, no dualismo e na
em forma definitiva, porque não pode existir senão como vir-a- luta, cuja existência é prova da revolta. Não se explicaria, de
ser ou transformismo dirigido para a ordem da Lei, que é o seu outra forma, como poderia, sem a revolta, ter nascido tal prin-
ponto de chegada. No entanto isso não impede que ela constitua cípio e estado de luta, nem se compreenderia como um Deus
uma vontade contrária no seio da ordem, o que torna possível, unitário tivesse escolhido essa técnica separatista, de oposição
no estado representado pelo nosso universo atual, o nascimento de contrários, quando o principio Dele é o da unidade.
de um choque entre as duas vontades opostas. Só assim se explica e justifica o fato de existir uma Lei, que
Eis então como o nosso mundo se tornou um terreno de lu- é regra de vida, e, ao lado dela, o impulso da desobediência.
ta entre dois impulsos opostos: a vontade da criatura e a vonta- Não é esta a história de cada ato nosso e da nossa vida? Temos
de do criador. Dualismo não significa apenas cisão em duas sempre, de um lado, o legislador e a ética, querendo impor-se à
partes, mas também oposição entre elas, uma contra a outra, força, e, do outro, o instinto humano da revolta. Não é verdade
porque, com a revolta, o ser, ao invés de se coordenar no seio que, apesar de sabermos como deveríamos agir, acabamos fa-
do S em obediência à Lei, quis erguer-se como principio autô- zendo o contrário? A Lei, que representa a ordem do S, está
nomo independente. Logicamente, sendo Deus o mais forte, sempre presente. Mas parece que essa afirmação solene dos
quem, apesar da cega tentativa de revolta para substituir-se a nossos deveres esteja aí só para ser renegada nos fatos, a cada
Ele, terá por fim de dobrar-se, vencido em obediência, não será passo. A Lei é sempre a pedra angular do edifício da vida, mas
Deus perante a criatura, como esta acreditou ser possível, mas só para nós batermos a cabeça contra ela, em choques contí-
sim a criatura, que é a mais fraca, perante Deus, que é o mais nuos. O que tende a prevalecer em tudo não é a ordem do S,
poderoso. A diferença de valor intrínseco entre as duas fontes mas a desordem do AS. Tudo isto tanto mais é verdade, quanto
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 71
mais nos aproximamos do AS e nos afastamos do S, descendo tia apenas numa posição, terá de viver, até que se tenha tudo
involutivamente. Prevalece então, sempre mais, o princípio di- saneado, oscilando entre os dois polos opostos: a positividade
visionista, e a luta se torna mais feroz. Verifica-se o contrário, e a negatividade. Assim, ele terá de viver oscilando, até que
porém, quando subimos evolutivamente e nos aproximamos do tenha, com seu esforço e sofrimento, reabsorvido e neutrali-
S, que representa o princípio unitário, até a luta desaparecer zado completamente essa oscilação, reconduzindo a separação
completamente na harmonia universal. do dualismo à unidade.
Se o sistema da luta domina em nosso universo, ele não Como é possível encontrar a felicidade na negatividade? É
existe no S. Tendo sido gerado pela separação, ele desaparecerá como querer encontrar na morte a plenitude da vida. Como po-
com o regresso ao ponto de partida. A primeira e maior luta foi deria a revolta, com essa estranha lógica, realizar o absurdo? E
entre a criatura rebelde e Deus. No estudo da ética, veremos o homem repete esse erro todas as vezes que se afasta da linha
voltar, a cada passo, esse motivo da luta entre a Lei, que repre- da Lei, violando as normas de conduta da ética. É o impulso
senta a ética, e o ser, que não quer, na sua conduta, seguir-lhe inicial da rebeldia que o leva novamente a lutar contra Deus.
as normas. Verificaremos aparecer sempre o mesmo contraste Como é possível, também nesse terreno das menores desobedi-
entre a vontade do ser e a de Deus. Eles são os centros dos dois ências, construir, destruindo; avançar, retrocedendo; adquirir as
impulsos e os dois elementos básicos do problema da ética, que qualidades do S, descendo para o AS? Conclui-se então que, se
enfrentaremos. Não se trata, porém, de um contraste inútil e a função da revolta é emborcar tudo, a sua lógica constitui um
destrutivo, mas sim construtivo, porque se vai resolvendo sem- absurdo, representado nesse caso pelo fato de procurar a felici-
pre mais, até desembocar na salvação. Seja o que for que o ser dade onde não é possível encontrar senão dor. O princípio é
realize, ele tem de voltar à ordem da Lei. O AS rebelde se con- sempre o mesmo. O processo de recuperação é só um. Não se
trapõe à positividade do S na posição menor de negatividade. pode sair do inferno do AS senão subindo até ao S; não é possí-
Mas o impulso da positividade é maior e, por isso, tem de ven- vel libertar-se do sofrimento senão reintegrando a desordem na
cer, levando tudo à salvação final. ordem, voltando, em obediência, ao seio da Lei.
Esta é a maravilha do processo da queda, que tem deposita- O absurdo da revolta é acreditar que seja possível chegar à
do em si a semente da salvação, tornando esta automática e fa- positividade, ou felicidade, seguindo o caminho da negativi-
tal. Estamos observando a técnica desse fenômeno. O nosso dade, ou desobediência. A lógica do movimento oposto, da
universo é caos, mas também é luta, para transformar a desor- salvação, consiste em saber que somente se chega à positivi-
dem em ordem, a guerra em paz, as rivalidades em concórdia. dade, ou felicidade, percorrendo o caminho da retificação da
Compreende-se e se justifica assim, apesar de ninguém desejá- negatividade em positividade. Continuaremos sempre encon-
la, este triste e inevitável fato: a guerra, algo inconciliável com trando frente a frente, de um lado o absurdo do ser rebelde, e
a bondade de Deus e com as regras da moral pregadas pelo ho- do outro, corrigindo e ensinando para salvá-lo, a lógica da
mem. O que ele prega representa o impulso salvador do S, e o Lei. É a lógica da obediência que retifica o absurdo da revol-
que ele faz deriva do impulso destruidor do AS. Explica-se as- ta. Eis o significado das palavras que, em Sua oração do Pai
sim a ferocidade da vitória do mais forte sobre o mais fraco, re- Nosso, Cristo nos deixou para repetir: “Seja feita a Vossa
sultado que não se coaduna com a justiça de Deus. No entanto, vontade”. Ora, fazer a vontade do Pai quer dizer obedecer à
por intermédio das rivalidades, realiza-se o progresso, que faz o Lei, e obedecer à Lei significa o caminho da salvação. Eis o
mais adiantado vencer, destruindo sempre mais a ignorância, o problema que estudamos aqui: a nossa salvação.
mal e a dor. Desse triste pântano, desabrocha a esplêndida flor
da redenção e da salvação. O impulso para o emborcamento IV. NEGATIVIDADE E POSITIVIDADE
acaba por inverter a si próprio, de modo que ele mesmo, auto-
maticamente, retifica tudo. É para se atingir a paz que existem O problema que iremos agora focalizar cada vez mais de
tantos extermínios de vidas nas guerras, é para se chegar à perto, não é mais o da grande queda – já estudado por nós
compreensão que há tantas inimizades, é para se alcançar à feli- em outros volumes e expresso na figura pela vertical XY –
cidade que tão grande mar de sofrimentos tem de ser atravessa- mas sim os das quedas menores laterais, há pouco referido
do. Eis o significado da presença da dor e da luta numa criação por nós, onde observaremos as consequências desses afasta-
que foi obra da bondade de Deus. mentos da linha da Lei, ou ética, que estabelece qual deve
A luta está destinada a resolver-se. A monstruosidade em- ser a conduta correta. Estas quedas menores são o que cha-
borcada, o AS, saiu do S como um aborto. O câncer não tem mamos de erro ou culpa. Podemos agora dar a estas palavras
direito à vida. A negatividade nada pode gerar, porque termi- um significado positivo de deslocamento para a desordem,
na na sua própria destruição. O AS é uma doença contida no longe da devida posição de ordem estabelecida pela Lei.
organismo sadio do S. Mas o S é Deus, ou seja, um organismo Uma lei universal de equilíbrio impõe que esta ordem, todas
tão forte, que não há doença capaz de vencê-lo. Então não é a as vezes que for violada, seja reconstituída. Podemos assim
doença que destrói o doente, mas é o doente que destrói a do- dar um valor exato também às palavras expiação e redenção,
ença. O antagonismo existe em posição de inferioridade para em função desse processo de reordenação. Revela-se assim
quem se rebelou à ordem. Não pode vencer uma batalha todo o valor da dor como meio de recuperação e elemento
quem, colocando-se em posição invertida, luta em posição fundamental na lógica do fenômeno da salvação.
emborcada. Não pode avançar quem quer ir para trás. Nada se Essa linha da ética representa a espinha dorsal do processo
pode construir com os métodos destruidores, próprios da ne- de salvação. Este é o percurso dentro do qual está canalizado o
gatividade. Como pode a revolta alcançar sucesso, se ela con- caminho da evolução, que o ser tem de percorrer para recuperar
siste em se colocar em posição de inferioridade? Quem toma tudo que perdeu com a queda. Todas as vezes que o ser se afasta
esse caminho sempre trabalha em perda e, desde o início, pelo dessa linha de retorno, dirigida para o S, comete um erro e tem
seu próprio método, está condenado à derrota, que é a dor. Eis de sofrer até neutralizá-lo, reconstruindo tudo com o seu esforço
por que, para não ficar derrotado no sofrimento, o rebelde tem e sofrimento. Também no processo desses afastamentos laterais,
de voltar desta condição à obediência. temos uma linha verde de descida para a negatividade, represen-
No S, tudo é positivo. A negatividade foi um produto da tando o afastamento ou trabalho de destruição e uma linha ver-
revolta, da qual nasceu para terminar no seu próprio autoani- melha de volta para a positividade, representando a aproximação
quilamento. A unidade fundamental original reabsorverá toda de retorno ou trabalho de reconstrução. Assim como a força de
a cisão do dualismo. Mas, com a revolta, o ser, que antes exis- atração terrestre constrange tudo a ficar equilibrado, em contato
72 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
com a superfície do solo, fazendo voltar qualquer coisa que se so maior da involução-evolução e regido pelo mesmo princípio.
afaste, a Lei, que representa a divina bondade e vontade de sal- Eis por que vemos aqui, novamente, aparecer o modelo dualista
vação, também constrange tudo a ficar em equilíbrio, unido à li- da oposição de contrários. Por isso este processo se desenvolve
nha da Lei, fazendo voltar a ela tudo que se afastar. em forma de inversão recíproca, de erro e sua correção. A linha
Essa é a função da linha da Lei. Ela representa um raio do da desobediência sai da linha da Lei e volta a ela transformada
pensamento e da vontade de Deus, que desce no próprio centro em linha de dor. O movimento que se iniciou com o sinal nega-
do universo dos rebeldes para salvá-los da destruição em que de tivo volta à fonte com o sinal positivo. O ser adoece para voltar
outro modo acabariam. Além da pequena redenção realizada à saúde. É o princípio de equilíbrio que aprisiona o fenômeno
por Cristo num dado momento, em favor de uma das infinitas dentro do jogo de reciprocidade.
humanidades que povoam o universo, existe uma redenção Vemos assim repetirem-se os motivos fundamentais do
muito maior, contínua, realizada por Deus no Seu aspecto ima- universo até aos últimos pormenores do particular. E isto é ló-
nente, em favor de todas as humanidades e de tudo que existe. gico. No todo existe somente o modelo do S, no qual existe
Essa redenção maior, operada pela Lei, está expressa na figura Deus. Uma vez que a criatura não possui poder para criar, ela
pela linha vermelha YX, de sinal positivo, que sustenta o triân- é incapaz de gerar outros modelos. Sendo efeito, e não causa,
gulo da mesma cor e seu respectivo campo de forças, represen- ela não pode ser causa inédita de novos efeitos. Tudo o que
tado por sua superfície. Com a base no S e a ponta dirigida para ela podia fazer, então, era alterar o que já existia. Se o S era
baixo, esta linha penetra todo o triângulo do AS até ao fundo, tudo o que havia, nada de novo poderia surgir, mas somente a
como uma projeção da positividade lançada no campo da nega- sua negação. Como o S permaneceu o centro de tudo, a nega-
tividade, a fim de, através do seu impulso reconstrutor, salvá-lo ção não pôde seguir outro caminho senão o seu endireitamen-
do aniquilamento, que seria a conclusão lógica do processo. to para o positivo, isto é, reafirmando o que foi negado. Eis
Tudo o que, na figura, é vermelho representa o princípio de por que, no caso ora observado, aparece primeiro a linha ver-
positividade do S, a presença de Deus, a salvação. Disto deriva de e depois a vermelha. Aqui também, a primeira fase é cons-
a grande importância de se conhecer a Lei, o seu conteúdo, a tituída da queda, e a segunda, da salvação. Tudo foi criado de
técnica do seu funcionamento, as normas de ética com as quais tal modo que, em qualquer caso, independente da negativida-
ela nos dirige, porque este conhecimento significa saber a rota a de do ser, nada se perde, sendo tudo resolvido e redimido nos
seguir e ter nas mãos o leme para dirigir, no oceano da evolu- braços de Deus, sempre centro de tudo.
ção, o nosso barco para a salvação. Nós existimos e temos de ◘ ◘ ◘
funcionar dentro dessa grande máquina do universo, mas não Analisemos de perto como se desenvolvem esse processo do
conhecemos a Lei que a dirige. Assim a nossa conduta se asse- erro e sua correção. Entramos agora no terreno específico da
melha a de um cego ignorante, que vai sempre cometendo er- ética, para estabelecer as suas bases positivas. Colocando-nos
ros, sem terminar jamais de pagar as consequências. Quantas perante a figura, escolhemos ao longo da linha vermelha YX da
dores se poderiam evitar, se o homem aprendesse a se movi- Lei o ponto N, situado num dado nível de evolução. Suponha-
mentar com inteligência dentro dessa máquina, pois ela é diri- mos que a posição do ser cujos movimentos agora estudamos
gida por uma suprema inteligência, a inteligência de Deus! É seja esta, num ponto intermediário ao longo do caminho da
necessário compreender essa máquina, para funcionar de acor- evolução do homem. As linhas YN e NX representam, respec-
do com ela, disciplinadamente, ao invés de violar suas leis com tivamente, o caminho já percorrido e o caminho ainda a percor-
a desordem, batendo a cada passo a cabeça contra as suas sá- rer. Este último é o trecho que falta para o ser acabar de cum-
bias resistências. Enquanto não aprendermos a nos movimentar prir a sua redenção, e ele deveria segui-lo, porque constitui o
corretamente, teremos de aceitar a dura lição da dor, necessária caminho direto e, portanto, o mais curto para voltar ao S. Mas
para aprender. Não se trata de teorias longínquas, mas dos mais eis que retorna o motivo da revolta, e o ser, assim como se afas-
vivos e próximos problemas de nossa existência. Trata-se de tou do S para o AS na queda, agora se afasta da linha da Lei
conhecer a Lei, e isto não constitui só uma grande vantagem, com o erro. Enquanto tudo o que pertence ao AS não for neu-
mas também imenso consolo, porque ela representa o princípio tralizado pela evolução, este impulso divisionista continuará
do amor de Deus, que tudo reordena, reconstrói e salva. ecoando em casos menores até que tenha desaparecido. No caso
Este é o significado da linha da Lei. Ela representa o centro maior, com a queda, o ser desceu a linha XY e, agora, tem de
dos fenômenos que iremos estudando. Observaremos primeiro subi-la às avessas. No caso menor, com o erro, o ser percorre a
o percurso da linha verde da negatividade, que o ser origina la- linha do afastamento NN1, para depois ter de seguir a linha da
teralmente, quando se afasta da linha da Lei, para vermos de- aproximação N1N. O ponto de partida desse processo é N, onde
pois a linha vermelha de retorno à Lei, completando o ciclo que se manifesta o impulso da revolta. O ponto onde esse impulso
reproduz em medida menor o trajeto XY e YX. O processo da se esgota é N1, onde sobre ele leva vantagem a atração da Lei,
queda se repete nestas menores tentativas da revolta, dirigidas que, por um processo inverso, tudo restaura na sua ordem. Esse
para a construção de pequenos anti-Sistemas laterais, que são é o esquema do fenômeno que estamos estudando aqui.
construídos e destruídos, desenvolvendo-se e sendo reabsorvi- Temos assim dois momentos ou elementos fundamentais
dos com o mesmo método de ida e volta. Obedecendo ao im- neste processo: o da linha verde NN1, e o da vermelha N1N.
pulso inicial da desobediência, o fenômeno avança ao longo da Ambas juntas constituem o ciclo completo de ida e volta, NN1N,
linha verde, até que o impulso se esgote. A reabsorção se reali- que corresponde ao ciclo completo da queda e salvação, XYX.
za ao longo de uma linha vermelha paralela correspondente, Trata-se do mesmo processo de emborcamento e endireitamento
que representa a correção dos valores negativos e a recuperação que, no caso da queda, vemos desenvolver-se na figura em sen-
dos valores positivos. Na figura, podemos controlar o fenôme- tido vertical de descida e subida, mas que se cumpre, neste caso,
no em seus movimentos, posições e medida. em sentido horizontal de afastamento e aproximação. O princí-
Vemos assim que o nosso erro tenta gerar um pequeno AS pio é sempre o mesmo: um erro devido à vontade da criatura e,
lateral, fugindo da linha da Lei YX, assim como, na primeira depois, uma reintegração devida à vontade de Deus.
queda, o ser fugiu da linha WW1 do S. Esse processo também A expressão gráfica que, na figura, demos ao fenômeno nos
tem de ser neutralizado por um equivalente caminho de regres- ajudará a compreender melhor o seu desenvolvimento. Mas, pa-
so. O trajeto percorrido na ida pela linha verde lateral tem de ra que tudo seja claro, é necessário antes de qualquer coisa es-
ser compensado por uma proporcional linha vermelha de re- tabelecer o valor das palavras e conceitos que usamos e o ponto
gresso. Trata-se de um fenômeno menor, contido dentro do ca- de referência em função do qual os usamos. Já tocamos ligeira-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 73
mente neste assunto no Cap. III. Dissemos que o ponto de refe- fo da sua vontade divisionista, o que, para o rebelde, constitui
rência do fenômeno é a Lei. Foi em relação a este ponto que a positividade, enquanto a linha N 1N representa a renúncia à
linha verde do afastamento da linha da Lei tomou o sinal nega- sua vontade na obediência e no dever, significa a penitência
tivo e que a linha vermelha de aproximação a ela tomou o sinal do regresso na ordem e no esforço da subida, o que, para o re-
positivo. O primeiro trecho, representado pela linha verde, é belde, constitui negatividade.
negativo, porque nele opera o impulso do ser contra a Lei. O Cada um dos dois “eus” quer atingir uma plenitude de reali-
segundo trecho, representado pela linha vermelha, é positivo, zação oposta à do outro. O objetivo de Deus é o S, o do ser re-
porque nele opera o impulso da Lei contra o do ser. Dado que o belde é o AS. Com relação à realização do objetivo de cada um, o
ponto de referência é a Lei, o sinal negativo expressa o período primeiro leva o sinal positivo, enquanto o segundo recebe o sinal
em que o emborcamento prevalece e a Lei está vencida, en- negativo. Sendo duas vontades opostas, o caminho de ida XY, ou
quanto o sinal positivo expressa o período em que o endireita- NN1, vai do + para o − e é negativo em relação ao S, porque gera
mento prevalece e a Lei triunfa. o AS, mas, do ponto de vista da criatura, esse caminho vai do −
A negatividade expressa o processo de destruição dos valo- para o +, tornando-se assim positivo em relação ao AS, que surge
res positivos da Lei, e a positividade expressa o processo de como afirmação para o rebelde, cujo desejo é substituir a ordem
reconstrução daqueles valores. Tudo o que, na figura, tem a de Deus pela sua desordem. Da mesma forma, o caminho de vol-
cor verde ou o sinal negativo é fruto da vontade rebelde da cri- ta YX, ou N1N, vai do − para o + e é positivo em relação ao S,
atura e se dirige em posição emborcada para o AS. Tudo o que porque nele tudo se reconstrói para a salvação do ser, destruindo
tem cor vermelha ou sinal positivo é fruto da vontade de Deus o AS, mas, do ponto de vista da criatura, esse caminho vai do +
e se dirige para o S, para endireitar as posições emborcadas pe- para o −, tornando-se assim negativo em relação ao AS, cuja
la revolta. A nossa figura está concebida em função desse pon- morte aparece como negação para o rebelde, que gostaria de se
to fundamental de referência, que é Deus, o S, representado afastar da ordem do S e, agora, tem de voltar a ela.
pela Lei. É em relação à positividade desse ponto de referên- Esse jogo de contínua inversão de opostos é devido ao em-
cia, que todos os movimentos gerados pelo impulso da revolta borcamento gerado pela revolta. É assim que, quando o ser se
tomaram o sinal negativo. afasta do S, tudo, em relação à Lei, é negativo, mas, em rela-
É possível, porém, escolher como ponto de referência o ou- ção ao próprio ser, o sinal se emborca, tornando-se positivo. E,
tro termo existente do dualismo, isto é, não Deus, ou o S, ou a ao contrário, no caso do regresso do ser ao S, tudo, em relação
Lei, mas sim a criatura rebelde, ou o AS, ou anti-Lei. Então à Lei, é positivo, mas, em relação ao próprio ser, emborca o si-
tudo adquire o valor oposto, porque passa a ser considerado nal e se torna negativo.
em relação não à positividade, mas sim à negatividade. Neste A posição direita na qual observamos aqui o fenômeno, es-
caso, tudo o que na figura é positivo se torna negativo. Em ou- colhendo como ponto de referência a positividade de Deus, é
tras palavras, se o ser, com a sua revolta, quer o contrário da verdadeira e básica, sendo a predominante. A posição do ser
vontade de Deus, concebendo tudo em função de si mesmo, e representa somente um desvio lateral, um deslocamento fora da
não em função de Deus, é lógico que os valores se embor- ordem, uma exceção à regra, uma desordem, um erro. Infeliz-
quem, adquirindo o valor oposto. E, realmente, o homem, do- mente, porém, esta estranha posição emborcada é a que o ho-
ente de antropomorfismo crônico, costuma erguer-se em centro mem mais usa. Nós, humanos, estamos mergulhados no AS e
do universo, substituindo o seu “eu” ao de Deus, fato que somos, por isso, levados a usar o segundo dos dois pontos de
acontece a toda hora e representa a maior prova da teoria da referência, concebendo tudo em função do nosso “eu”, que foi
revolta. Este é o ponto de referência humano, portanto é lógico efeito da revolta. A nossa posição atual nasceu da vontade de
que seja às avessas, pois o ser que decaiu no AS se encontra emborcar o S e representa o antagonismo entre o nosso “eu” e o
em posição emborcada e não pode conceber senão nessa con- “Eu” de Deus. O nosso instinto nos levaria a estudar o fenôme-
dição, que estabelece sua forma mental. no às avessas, construindo uma tábua de valores não em função
Temos então, frente a frente, dois centros opostos, que que- de Deus, mas do nosso “eu”, dando o primeiro lugar não à or-
rem impor-se como “eu” absoluto: o “Eu” de Deus e o “eu” da dem do estado orgânico do todo, mas ao separatismo individua-
criatura. A oposição nasceu com a revolta, pela qual o “eu” do lista da vantagem egoísta (a lei da seleção do mais forte).
ser rebelde mudou-se da posição de coordenação dentro do S Se a afirmação de Deus é: “Eu sou o senhor teu Deus (...),
para uma de insubordinação, situada fora e nos antípodas do S. Não terás outros deuses diante de mim” 1, a afirmação do ho-
Ora, se aceitamos como centro o “Eu” de Deus, o fenômeno mem é: “Eu sou o senhor de tudo. Não terás outros senhores
se nos apresenta na sua posição direita. Porém, se aceitamos diante de mim”. Afirmação emborcada, que, diante de Deus,
como centro o “eu” individual da criatura, o mesmo fenômeno, é uma negação. A afirmação do homem é a negação de Deus,
observado do seu polo oposto, apresenta-se na sua posição em- assim como a afirmação de Deus é a negação do homem. O
borcada. O ponto de partida, no primeiro caso, é X no S, ou N modelo é só um, e o fenômeno se baseia sobre o processo do
na linha da Lei, enquanto, no segundo caso, é Y no AS, ou N1, seu emborcamento. Se o olharmos de cima para baixo, ele
fora da linha da Lei. Então, se o ponto de referência é a Lei, a toma o sinal +, porque é Deus que afirma. Se o olharmos de
linha NN1, que agora estudamos, é de sinal negativo e a linha baixo para cima, o modelo toma o sinal −, porque é o homem
N1N é de sinal positivo. Porém, se escolhemos, ao invés, como que nega. Por isso pode parecer que a concepção mosaica de
ponto de referência a posição do ser em revolta, a linha NN1 é um Deus que quer dominar sozinho, cioso de todos os rivais,
de sinal positivo e a linha N1N é de sinal negativo. seja a reprodução da psicologia de qualquer rei humano, cuja
É lógico que, aqui, temos de estudar o fenômeno na sua primeira preocupação é defender o seu reino, matando todos
posição direita, em função de Deus e da Lei, e não em posição os rivais do seu trono. Mas isto é lógico, porque o modelo é
emborcada, em função do ser, que se faz centro de tudo, com um só, dado pelo egocentrismo, que, com a revolta, cindiu-se
seu “eu” separado e egoísta. O ponto de referência em relação em dois polos, assim cada um deles pode, alternadamente,
ao qual a nossa figura foi concebida é Deus, ou S, ou Lei. Por funcionar como ponto de referência: o egocentrismo positivo
isso a linha NN1 tomou o sinal negativo, enquanto a linha N 1N de Deus ou o negativo do ser rebelde. O mesmo modelo quer
tomou o sinal positivo. Veremos daqui a pouco o significado dizer o mesmo tipo de forma mental, que impõe o próprio
prático desses sinais. “eu” como o centro de tudo.
Era necessário, porém, explicar o sentido segundo a posi-
1
ção oposta. Para o ser rebelde, a linha NN 1 representa o triun- Êxodo, 20:2-3 (N. da E.).
74 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
Agora que determinamos o nosso ponto de referência, em verde, que nasce primeiro, como filho da revolta, enquanto o
função do qual a figura foi concebida, e estudamos o caso dos caminho da volta ou recuperação, representado na cor verme-
afastamentos da linha da Lei, é necessário, como há pouco dis- lha, ocorre depois, para corrigir e reabsorver o outro.
semos, definir o valor dos conceitos e o sentido das palavras Esclarecemos assim o sentido das várias palavras que temos
que usamos. Qual é na prática o significado e conteúdo destes de usar no estudo da ética, tais como: bem e mal, amor e ódio,
conceitos de positivo c negativo? Eles têm de corresponder a erro e culpa, obediência e recuperação, revolta e perdição, etc.
alguma coisa de concreto, que vemos existir e dirigir nossas vi- Além das acima mencionadas, também existem outras, que ad-
das, porque o objetivo destas nossas pesquisas é conhecer estas quirem um significado exato e profundo, encontrando a sua ex-
normas, a fim de orientar a nossa conduta. Poderemos assim plicação lógica em função da estrutura do grande organismo do
saber com mais exatidão a correspondência, na figura, da cor universo e da solução dos maiores problemas do conhecimento.
vermelha ou verde com o sinal + ou sinal −. ◘ ◘ ◘
Positividade quer dizer Deus, ou S, ou Lei, representando a Procuremos penetrar agora, ainda mais, no terreno especifi-
vontade que tudo fique na ordem e o domínio do respectivo co da ética, que é o nosso objetivo, explicando sempre melhor
impulso de levar novamente para essa ordem tudo o que saiu estes conceitos.
dela. Negatividade representa a criatura rebelde, o ser que, Vimos que o conteúdo da ideia de negatividade é dado pelo
com a revolta, colocou-se na posição de egocentrismo oposto erro ou culpa, dirigindo-se para o mal, no sentido de perda,
ao de Deus. Isto significa vontade de sair da ordem e o domí- porque é afastamento da linha da Lei, nosso ponto de referên-
nio do impulso de se afastar sempre mais de Deus, para ficar cia. Vimos também que o conteúdo da ideia de positividade é
no polo oposto, no AS. Veremos assim as duas linhas: a verde, de correção na dor, dirigindo-se para o bem, no sentido de re-
de sinal −, e a vermelha, de sinal +, sempre contrapostas e cuperação, porque é retorno à mesma linha da Lei. O primeiro
compensadas num dúplice movimento de ida e volta, que aca- movimento, sendo do + para o −, vai para a perdição. O segun-
ba reequilibrando tudo na ordem. do movimento, sendo do − para o +, vai para a salvação. Temos
O fato é que o verdadeiro e fundamental ponto de referência assim, de um lado, os conceitos de erro, culpa, afastamento pa-
é o primeiro, isto é, Deus. O outro é apenas um pseudoponto de ra o mal e perdição, enquanto, do outro lado, temos os concei-
referência, que, por estar no campo da negatividade, não é cen- tos de dor, expiação, volta para o bem e salvação.
tro real como o primeiro e, portanto, não pode sustentar nada de- Mas os princípios de negatividade e positividade contêm
finitivo fora do seu terreno relativo. Por isso a figura nos mostra também outros conceitos e aspectos. Vimos que a Lei reage, reti-
não somente a contraposição entre a primeira vontade, que é de ficando o primeiro movimento com o segundo, isto é, corrigindo
ordem, e a segunda, que é de revolta, mas também nos indica o erro com a dor. Por quê e como acontece isto? Qual é a mecâ-
que, neste contraste, a primeira acaba vencendo a segunda. nica desse processo? Com que técnica se cumpre o fenômeno da
Eis então que positividade, ou vontade de ordem, significa salvação ou redenção? Esse é o conteúdo e o objetivo ético do
também impulso para a salvação, enquanto negatividade, ou que estamos estudando aqui: conhecer a norma que, premiando
vontade de revolta, significa também impulso para a perdição, os nossos esforços positivos, refreando e endireitando os afasta-
pelo qual tudo pereceria, se não fosse salvo pela positividade mentos para o negativo, buscando sempre nos reconduzir para o
do primeiro impulso, gerado por Deus. Assim, em função do caminho certo da salvação, dirige a nossa conduta. O ser rebelde
ponto de referência em Deus, a linha vermelha, indo contra a é louco. A Lei é sábia. O ser quer encontrar as qualidades positi-
vontade de revolta do ser, expressa a recuperação e a vanta- vas nos caminhos que levam às negativas. A Lei, para salvá-lo, o
gem dele em relação à vida, representando o impulso da posi- reconduz com a dor aos caminhos da positividade. Esse é o jogo
tividade de Deus contra o impulso da negatividade da criatura, da mecânica da salvação. O ser rebelde quer encontrar a luz nas
que, percorrendo a linha verde da perda, dirige-se loucamente trevas, mas a Lei o reconduz à luz; quer encontrar a vida na mor-
para o seu aniquilamento. te, mas a Lei o leva novamente para a vida.
Os conceitos de positividade e negatividade são conceitos Aqui, descemos do terreno das teorias gerais, penetrando
centrais sintéticos, que, em nosso mundo relativo, vão-se ramifi- sempre mais na prática de nossa vida. Problemas que nos tocam
cando no periférico e analítico, manifestando-se em muitos con- de perto e nos interessam, porque se trata do nosso sofrimento
ceitos particulares menores. Assim os sinais + e − podem ser en- ou bem-estar. Com a revolta, o ser foi à procura de felicidade,
tendidos de várias maneiras, dando-se a eles diferentes sentidos mas fora da ordem, da regra e da justa medida, o que representa
e conteúdos. Então positividade pode significar não somente um absurdo. Seguindo o caminho da revolta, que é emborca-
Deus, o S, a Lei, a vontade de ordem, o impulso para a salvação, mento, o ser não poderia encontrar outra coisa senão sofrimen-
mas também o amor, o bem, a espiritualização, a linha da corre- to. Poderia perguntar-se por que motivo o caminho da volta, ou
ção do erro, a neutralização da culpa na obediência e na purifi- reconstrução, é feito de dor? Isto acontece porque o ser procu-
cação pela dor, o caminho de volta para a recuperação da vida, a rou a felicidade, que é qualidade positiva, no terreno da negati-
sabedoria, a liberdade, a felicidade, a perfeição. Por outro lado, vidade, com a desobediência na desordem, e não com a obedi-
negatividade pode significar não somente a criatura rebelde, o ência na ordem, lançando-se para fora do S, no AS, isto é,
AS, o caos, a vontade de revolta, o impulso para a perdição, mas agindo às avessas. É lógico que ele encontrasse o inverso da fe-
também o ódio, o mal, a materialidade, a linha do desvio no er- licidade, isto é, dor. Aqui está a tragédia da revolta. Eis o erro
ro, a culpa pela desobediência e pelo gozo desordenado, o cami- fundamental que fez o ser fracassar no absurdo. Para crescer
nho do afastamento em direção à morte, a ignorância, a escravi- demais fora da ordem, ele entrou na desordem. Para se afirmar
dão, a infelicidade, o estado manco e falho da imperfeição. além dos limites devidos, entrou na negação. Para se estender
Por isso a linha verde NN1, que representa o caminho de além da lei da sua existência, o ser saiu do S, isto é, da positivi-
afastamento do ser do seu ponto de referência, a Lei, pode ser dade e de todas as suas qualidades, para entrar no AS, isto é, na
chamada de “linha do erro ou culpa”, dirigida para o mal (−), negatividade, com todas as suas qualidades. Assim, do bem o
enquanto linha vermelha oposta, N1N, que representa o cami- ser caiu no mal; da luz, nas trevas; da vida, na morte; da felici-
nho de regresso do ser para a Lei, seu ponto de partida, pode ser dade, na dor etc. Tudo é lógico. Então ele tem de ficar no mal,
chamada de “correção na dor”, dirigida para o bem (+). Na fi- nas trevas, na morte, na dor, imerso nesse mar de tristeza, até
gura estudaremos o fenômeno nesta ordem, isto é, primeiro a atravessá-lo totalmente, reabsorvendo a negatividade que pas-
linha da negatividade e, em seguida, a linha da positividade, sou a ter com a revolta e, assim, neutralizando-a, voltar à Lei,
porque é o trajeto do afastamento ou perda, representado na cor reintegrando-se na positividade perdida.
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 75
Com a revolta, o ser quis fazer de si mesmo centro e ponto um absoluto antagonismo entre o mundo e o Evangelho, justifi-
de referência, enquanto o centro só pode ser Deus e nada pode cando-se a existência e o significado desses dois métodos opos-
existir senão em função desse ponto de referência. Eis por que, tos. O homem do dever se sacrifica, mas constrói na ordem; o
com a revolta, o ser não podia adquirir senão qualidades nega- homem da força triunfa em proveito próprio, mas destrói, por-
tivas. Elas agora são suas, e não há outro caminho para se liber- que é rebelde à ordem. O mártir morre, mas semeia vida; o herói
tar delas senão a marcha à ré da reabsorção da negatividade e do mundo vence e vive, mas semeia morte. O sacrifício em obe-
da recuperação da positividade. Para se endireitar, é necessário diência à Lei reconstrói ao longo da linha positiva da dor; a for-
que o ser cumpra à sua custa o trabalho de se redimir e, com o ça na revolta à Lei destrói ao longo da linha negativa do erro e
seu retorno, cumpra, no caminho de regresso à ordem, a fadiga do mal. O triunfo do mundo é emborcado ao negativo, nos antí-
de voltar atrás em disciplina, assimilando a sua culpa. Isto é podas do triunfo positivo nos céus, representando a vitória das
dor, e eis porque ela adquire qualidades positivas de recupera- células do câncer, e não o domínio das células sadias do orga-
ção. Eis a sua origem, a razão da sua presença, a função que nismo. O triunfo do mundo se constrói esvaziando e destruindo,
cumpre e o objetivo que deve atingir. e não gerando e construindo valores. Por isso o homem perma-
O impulso fundamental da existência é sempre do S, isto é, nece sempre insaciável, pois aquele nutrimento é falso, negativo
no sentido positivo, portanto da própria vantagem. Mas o ser e não satisfaz, mas apenas dá fome.
deveria realizar esse impulso no sentido positivo, dentro da or- Verifica-se então o seguinte fenômeno. O caminho do erro
dem. Seu erro, porém, foi querer realizá-lo em sentido negativo, representa um trabalho que aspira, para fora do S ou da linha
fora da ordem, dai o seu dano. Eis por que a linha do erro, NN 1, da Lei, uma quantidade de substância, que se inverte em nega-
é também a linha de prejuízo do ser, enquanto a linha da dor, tiva e constitui os espíritos rebeldes. Este processo gera um
N1N, é a de sua vantagem. Assim, uma vez que a linha do erro espaço negativo, que se vai enchendo (AS) fora do campo da
é de emborcamento (−), a linha da dor é de endireitamento (+). positividade (S) e, paralelamente, um correspondente vazio
Mas as linhas da negatividade e da positividade têm também dentro desse campo da positividade (S). Tudo isto, como é ló-
outros significados afins e paralelos. Observemo-los para escla- gico, gera um desequilíbrio, que é necessário equilibrar de
recer melhor o assunto. Na primeira linha, temos os rebeldes, os novo. Isto quer dizer que o deslocamento da positividade para
criminosos, os guerreiros, os chamados fortes, que, à disciplina a negatividade tem de ser compensado por um equivalente
de todos os seres no estado orgânico do S, ao redor do centro caminho de regresso da negatividade para a positividade. En-
único ou “Eu” de Deus, substituíram a revolta na desordem do tão o vazio que se formou dentro do campo da positividade
caos, cada ser por si mesmo, cercado por outros tantos pequenos (S) tem de ser preenchido com o que saiu dele, processo no
centros ou egocentrismos individuais das criaturas. O método qual se esvazia o terreno da negatividade (AS), com a reinte-
deles, nessa sua posição, não é a espontânea colaboração, mas a gração da substância no estado positivo do S.
imposição pela força. Podemos agora compreender por que exis- Eis por que existe a linha da dor. Explica-se, dessa forma, a
te na Terra a lei do mais forte, o que ela significa e por que se marcha à ré compensadora de todo o afastamento, o caminho de
pratica esse método de vida. Entendemos, assim, por que o prin- ida e volta, a necessidade de recuperação. Compreende-se,
cípio vigorante em nosso mundo, da luta e da vitória do mais também, como a linha do erro, que vai para o mal, não pode re-
forte, represente um princípio separatista e, por isso, próprio do presentar senão uma pseudovantagem, uma perda, porque é ga-
AS, e não do S. Isto significa um estado primitivo, involuído, nho ao negativo. Trata-se de uma dívida, um enriquecimento
mais próximo da animalidade que do homem evoluído. Então momentâneo, que é necessário pagar depois. Representa um
essa lei biológica não é uma expressão de positividade, isto é, de caminho de descida fácil, que depois temos de subir de novo,
poder construtor, como se acredita, mas sim de negatividade, is- com nosso próprio esforço. Significa um atalho para uma feli-
to é, de poder destruidor. Trata-se da sobrevivência de estados cidade mentirosa, que se resolve no engano, do qual não pode-
involuídos do passado, e tais qualidades, perante a Lei, que quer mos sair senão recuperando tudo com o nosso sofrimento. Tudo
o evoluído do S, e não o involuído do AS, representam fraqueza, isso nos mostra a verdade e nos ensina que a desobediência é
e não força; defeito, e não virtude; derrota, e não vitória. Se o erro. Infelizmente, não há outro meio. O raciocínio, que de-
principio da força parece ser de afirmação, isto é somente em monstra e convence, não tem valor para o rebelde, pois a forma
função do ponto de referência estabelecido no homem. Mas isso mental de quem vive neste estado de negatividade não se baseia
significa caminhar às avessas, contra a Lei, pois, perante Deus, na lógica, mas sim no absurdo. Faz-se necessário então a dor,
quer dizer afastamento ao longo da linha do erro. que se imprime no subconsciente, pois só ela tem o poder de,
De fato, o método do triunfo do mais forte leva a ganhar não queimando, fincar nos instintos um marco indelével.
em sentido positivo, gerando e construindo para o bem dos ou- Eis a razão e a técnica dessa justiça compensadora, pela
tros, o que conduz para o S, mas sim em sentido negativo, es- qual, automaticamente, todo afastamento tem de se endireitar
cravizando, destruindo, matando, semeando mal e sofrimentos com o regresso à Lei. O ser que quis gerar o impulso do em-
para os outros, como acontece em todas as guerras, o inferno do borcamento tem de ficar sujeito a esse mesmo princípio até ao
AS. O vencedor não cria nada, apenas ganha espaço vital, sub- fim, isto é, até à completa reconstrução da ordem violada.
traindo-o aos demais. Este é o método das rivalidades, oposto ao Trata-se do mesmo impulso de emborcamento que, por inér-
da concórdia. Estamos no caminho da negatividade, no qual se cia, tem de continuar, automaticamente, até atingir seu endi-
conquista a vida própria tirando-a dos seus semelhantes, enquan- reitamento, retificando tudo. No microcosmo de nosso mundo,
to, no caminho da positividade, para se conquistar a vida, é ne- parece que, assim como as trajetórias de nosso pequeno espa-
cessário procurá-la para os outros. Eis os dois tipos: o guerreiro, ço terrestre, a linha do desenvolvimento causa-efeito seja uma
egoísta e agressivo, e o homem pacífico do Evangelho, altruísta reta e que o encadeamento dos trechos causa-efeito aparece
e pronto a colaborar. O primeiro é positivo só em relação à gota como uma junção de retas, uma após a outra. Todavia, saindo
de água que é o seu mundo, do qual ele se faz centro, mas é ne- desse pequeno espaço terrestre, encontramos no universo as-
gativo em relação ao universo, do qual, sem saber, faz parte e tronômico outro tipo de espaço, cuja curvatura nos indica que
cujo centro é Deus. O mártir do sacrifício para o bem de todos é a sucessão causa-efeito, vista no seu conjunto ou totalidade do
negativo na gota de água humana, mas é positivo dentro do uni- seu ciclo completo, também se torna uma curva, fechando-se
verso, perante Deus. Tudo está emborcado em nosso ambiente sobre si mesma. Disto se conclui que o efeito não é uma con-
terreno, por isso quem se sacrifica para o bem do próximo é jul- sequência que, ao longo de uma reta, afasta-se do seu ponto
gado fraco e condenado como tolo. Explica-se assim por que há de partida, mas sim um momento do desenvolvimento de uma
76 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
curva que tem de voltar àquele ponto, à causa que gerou tudo. para a Lei, seu ponto de referência e objetivo. Para quem vive
Os dois termos, causa e efeito, não são então os dois extremos neste caminho, orientado nesta direção, a morte é vida. O ho-
de uma reta, mas sim o mesmo ponto, onde se inicia e se fe- mem comum não pode entender essa psicologia, porque está
cha o mesmo ciclo. No todo, não podem existir afastamentos percorrendo o caminho oposto NN 1, de ida para a negativida-
verdadeiros e definitivos, sendo impossível o ser gerar deslo- de, que o afasta da Lei. Aqui, o ponto de referência é o próprio
camentos nas imutáveis posições da ordem universal. Podem “eu”. Eis então que o sacrifício é perda, e a morte é morte. É
existir oscilações parciais e compensadas, aparentes e particu- lógico que esses valores sejam vistos em função do respectivo
lares, semelhantes às ondas do mar ou às vibrações da maté- ponto de referência e que, se esse pontos são emborcados, as
ria, movimentos que nada deslocam, pois tudo acaba reinte- mesmas coisas adquiram um valor oposto. É assim que a morte
grado no estado de origem, como Deus quer. Eis a razão pela pode significar vida e a vida, morte. Então, quando o ser se en-
qual a involução tem de ser corrigida pela evolução. Eis por contra na posição direita de positividade, cujo ponto de refe-
que, à linha do afastamento da Lei ou linha do erro, tem de rência é o “eu” universal, Deus, é lógico que ele viva em obe-
seguir a linha de regresso ou linha da dor. A obra de Deus é diência e em função do S, e que a morte, então, tenha valor de
inviolável, e nada, em definitivo, o ser pode nela mudar. Se vida, e a vida, de morte. Mas, quando, pelo contrário, o ser se
ele, por ser livre, pode realizar alguma mudança, tudo tem, no encontra na posição emborcada de negatividade, cujo ponto de
entanto, de voltar ao seu ponto de partida e ser restaurado na referência é o “eu” individual, em função do AS, aquela con-
integridade do seu estado de origem. cepção de vida tem de adquirir o valor de morte, e a morte, de
Vamos assim observando sempre mais em profundidade o vida. Para quem vai do + para o −, é lógico que tudo seja às
significado das linhas da negatividade e da positividade. Ve- avessas de quem vai do − para o +.
mos que a contraposição entre estes dois termos opostos, na Eis um exemplo que nos mostra como a mente humana,
substância, não é cisão, mas sim um conjunto dualista, que ainda emborcada no AS, é levada a conceber tudo às avessas. A
constitui a forma e o conteúdo da unidade. Eis então que o du- ressurreição de Cristo é concebida pelas religiões como um mi-
alismo, ao invés de dividir e afastar, como se poderia acreditar, lagre (sobrevivência física), sendo encarada como prova de vi-
liga e funde no mesmo ciclo seus dois termos opostos consti- tória sobre a morte. Ela é prova de vida para a psicologia do in-
tuintes, que, em última análise, não são senão as suas duas me- voluído do AS, porque, para ele, a vida está no corpo, mas sig-
tades. O dualismo não é cisão, mas complementaridade entre nifica morte para a forma mental do evoluído, porque, para ele,
dois movimentos contrários compensados, que se invertem um a vida está no espírito. O fato de que o homem concebe a res-
no outro, o segundo neutralizando o primeiro. Isto porque o surreição de Cristo como prova de vida física, demonstra que
movimento que vai do + para o − gera uma carência no campo ele concebe como positivo o que é negativo, julgando ser vida o
do +, um débito que a negatividade tem de pagar à positivida- que é morte. Somente pode fazer isto o ser que está situado na
de, ou seja um crédito que a positividade exige da negativida- negatividade do AS. Para o ser situado no polo oposto (+), o
de. Se o ser encontra satisfação na culpa que o afasta da Lei, corpo (−) representa apenas a forma, a casca que aprisiona o
ele nada ganha com isso, porque se trata de um empréstimo espírito, ou seja, não significa vida, mas sim morte, na qual a
que ele tem de devolver aos equilíbrios da Lei com o seu es- positividade se precipita na negatividade. Para satisfazer o ins-
forço e sofrimento. A linha do erro, NN 1, expressa o primeiro tinto do homem, o mito da ressurreição de Cristo deifica este
destes dois movimentos (+ para −), enquanto a linha da dor, produto da negatividade, a matéria, levando-o para fora do úni-
N1N, expressa o segundo movimento (− para +). Com a dor, o co ambiente no qual ele encontra uma razão para existir: a Ter-
− paga o seu débito ao +, satisfazendo o crédito do +. ra, razão que não existe nos céus.
Uma consequência desta oposição de contrários é que o Que a maior paixão de Cristo consista na sua descida até à
homem da força, vitorioso no mundo, é um vencedor somente matéria, isto é concebível. Mas que Ele tivesse de levar consigo
enquanto o ponto de referência é o AS, mas se torna um der- aos céus o instrumento da sua maior tortura, é difícil compreen-
rotado em relação ao S, que representa o organismo maior e der. Tanto mais isto é verdade, que essa sobrevivência nos céus,
mais poderoso. Trata-se então, como dizíamos, de uma vitória de uma estrutura feita somente para a Terra e, portanto, em nada
em pura perda, de um débito a pagar, de um empréstimo a de- proporcionado àquele ambiente, implicava no fato de que o espí-
volver, ou, mais exatamente, de um roubo aos equilíbrios da rito de Cristo teria de continuar morando aprisionado em um
Lei, delito que, perante a justiça de Deus, é culpa e exige a corpo, a não ser que este fosse colocado de lado como uma relí-
sua penitência. O S está representado na Terra pelo homem do quia sem vida, tornando-se outro cadáver a enterrar. Então, essa
altruísmo e do sacrifício. O AS está representado pelo homem ressurreição não seria a continuação da vida de Cristo, mas a
do egoísmo e da prepotência. Que S e AS não são teorias fora perpetuação de seu aprisionamento na negatividade da matéria,
da realidade está provado pela presença destes seus dois o que, para o espírito, é morte. Impor a Cristo essa condenação
exemplos vivos e concretos. O julgamento que o homem co- para sempre, mesmo depois de ter Ele, com a morte, atingido a
mum em geral faz desses dois tipos é logicamente às avessas, libertação, é crueldade demais. Além disso, sem essa libertação
porque ele é filho emborcado da revolta e tem, por isso, seu pela destruição do corpo físico, como poderia ele, preso no invó-
ponto de referência no anticentro negativo do AS. O choque lucro da animalidade humana, voltar ao Pai?
entre esses dois tipos é contínuo na Terra, tal como entre a luz O homem, porque vive na negatividade do AS, acredita que
e as trevas, a verdade e o erro etc. O terreno da vida e da evo- a vida e o “eu” consistam no corpo. Para ele, a morte é morte, e
lução é o campo de luta da criatura contra o Criador e vice- não libertação. Porém a verdadeira ressurreição está nessa des-
versa. Há inconciliável antagonismo, como diz o Evangelho, truição material, que liberta o espírito. A sobrevivência física é
entre os dois opostos: Deus e o mundo. Por isso Cristo falou morte. Mas, para o homem, que concebe a vida às avessas, é
que não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores. A ta- necessário que esse corpo saia do túmulo, para continuar vi-
refa da evolução é destruir o tipo separatista do homem da vi- vendo O homem concebe tudo à sua imagem e semelhança,
olência, substituindo-lhe pelo tipo colaboracionista do homem porque não pode pensar senão com o seu cérebro e a sua forma
do amor. Este é o conteúdo do percurso da linha YX da evo- mental, que é filha do plano físico onde ele se encontra. Para
lução, assim como da linha N1N. ele, tudo o que sai desse seu mundo desaparece na morte, dei-
Explica-se assim a psicologia dos santos e dos mártires do xando de existir porque não é mais percebido. As ideias do ho-
ideal, que parece loucura ao mundo. Eles vivem no caminho da mem saem do seu cérebro para satisfazer as suas necessidades.
dor, que é o trecho de regresso para a positividade, N 1N, indo Assim, ele transforma tudo em mito para o seu uso, conforme
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 77
as suas exigências mentais. E isto é justo, porque as religiões adquirir coisa alguma furtando-a aos equilíbrios da Lei. A feli-
são feitas para o homem. O mito é uma adaptação dos fatos às cidade só pode ser atingida permanecendo-se na ordem do S,
necessidades da psicologia humana, que assim os transforma. A com o método positivo. Pela própria estrutura do fenômeno,
verdade é outra coisa, que existe de modo independente da ma- nunca se poderá, com o método da negatividade, encontrar se-
neira como o homem a vê. As interpretações que o homem faz não felicidade emborcada, isto é, dor. A condenação do rebel-
dela comprovam este fato, porquanto mudam e evoluem com o de está no fato de que ele não pode seguir outro caminho. A
seu cérebro, demonstrando que o ponto de referência é o “eu” sua meta natural e fatal é o fracasso. Furtar felicidade não pode
humano. Isto significa antropomorfismo, que é egocentrismo, e dar felicidade, mas somente carência de felicidade. A punição
prova que o ser humano pertence ao AS. está no fato de que o rebelde, pela sua própria posição, tem de
O mundo, pelo fato de estar imerso no AS, é ignorante. Por acreditar no absurdo e na possibilidade de se realizar alguma
isso vive enganado, acreditando que a vida seja vida, quando de coisa ao negativo. Com o método da revolta somente se pode
fato é morte; pensando que o caminho da desobediência o con- atingir a falta do que procuramos. O absurdo está em acreditar
duza à felicidade, quando de fato o leva à dor. E, quanto mais que equilíbrios estáveis possam ser mantidos com o poder da
ele se apega a essa sua vida de emborcado em busca de gozo, força, e não com a justiça. A primeira gera desequilíbrio ainda
tanto mais se aproxima do sofrimento. Tudo isto se explica com maior, enquanto a segunda vai gerar o verdadeiro equilíbrio.
plena lógica e justiça, pois quem vive na negatividade não ob- Com a mentira, não se pode encontrar a verdade. Posições es-
serva senão o contrário do que aparece, invertendo todas as táveis não se podem basear sobre valores falsos. Só com a sin-
afirmações em negações. Por isso o mundo foi definido como a ceridade e a honestidade é possível construir. A astúcia e a
grande Maya2 ou ilusão. Quem tem a forma mental emborcada mentira podem realizar apenas uma pseudoconstrução, que pa-
na negatividade encontra a morte onde, ao invés, há vida. rece construção, mas é destruição. Os efeitos não podem ser de
Acontece que o herói da força, quando acredita obter vida, natureza diferente das causas que os geraram.
vencendo na Terra, ele obtém de fato morte, porque, endivi- É lógico que a felicidade do mundo acabe no sofrimento.
dando-se, terá de pagar depois; quando triunfa com a violên- Quando se procura a felicidade em direção negativa, é lógico
cia, acreditando lucrar, ele está de fato involuindo, isto é, des- que não se possa encontrar senão felicidade ao negativo, isto
cendo à dor do AS, para obter uma vantagem instável, que é é, sofrimento. Com a revolta, o ser saiu do estado de felicida-
dívida de negatividade, numa vida temporária, que se amarra de, que, no S, é natural, espontâneo, fundamental, e caiu na
à necessidade de morrer. Mas o mártir do sacrifício, quando carência dele, guardando no instinto a saudade insaciável de
perde sua vida, vencido na Terra, ele de fato ganha vida, por- sua condição de origem. Afastar-se do S, assim como fugir da
que, ao sacrificá-la, adquire crédito, pelo qual terá de ser Lei, é uma procura de satisfação fora da direção correta. Uma
compensado; quando, com a sua bondade e o seu sofrimento, vez que NN1 é a linha do erro, é lógico que a procura de feli-
é vencido, ele está de fato evoluindo, subindo para a felicida- cidade neste sentido emborcado gere dor. Quando o movi-
de do S, para obter uma vantagem estável, que não é emprés- mento chega em N1, atingindo a plenitude da negatividade, o
timo a devolver, mas sim positividade na vida eterna, onde a ser caiu em cheio no inferno da dor. Para se libertar desta
morte não existe. O primeiro método parece certo, mas está condição e não sofrer mais, não existe outro caminho senão o
errado, porque é contraproducente, gerando dano ao invés de regresso ao ponto de partida, percorrendo às avessas para a
vantagem. O segundo método parece errado, mas está certo, positividade o trajeto que foi percorrido no sentido da negati-
porque é produtivo, gerando verdadeira vantagem, e não dano vidade. O esforço da subida tem de pagar a fácil descida, a lu-
como parece. E não poderia ser de outro modo, pois, no terre- ta no sofrimento tem de compensar o roubo de alegrias não
no do emborcamento, não pode existir senão verdade às aves- merecidas. Só o trabalho de reordenação na ordem poderá li-
sas, isto é, engano. E este é o método do mal, que promete bertar o ser da desordem que o atormenta.
vantagem, mas traz o resultado contrário. Somente nos apercebendo que vivemos num mundo em-
É lógico que as vitórias do mundo sejam contraproducen- borcado, poderemos compreender essas verdades e encontrar
tes, porque seguem o caminho da negatividade. Os triunfos do uma explicação para as ações humanas e seus resultados. Nesta
mal são como afirmação de vida do câncer. Quanto mais ele posição, a verdade parece erro, e o erro parece verdade. As
cresce e vence, tanto mais se aproxima da morte, porque é ne- conquistas reais se fazem obedecendo a Deus, na ordem da
gativo, não tem vida própria e não pode viver senão destruin- Lei, e não se impondo ao próximo à força, com o próprio ego-
do a vida dos outros. Esta é a automática punição daqueles ísmo. A riqueza é conquistada com o desapego e o desejo de
que vencem à custa dos outros, querendo, com a força ou a as- usá-la para o bem dos outros. As aparências nos mostram uma
túcia, furtar-se à justiça da Lei. Nada se pode ganhar com o face oposta à verdade. O que é absurdo se apresenta como ló-
roubo. O que é fictício não pode dar senão frutos falsos. Mais gico, e o que é lógico se apresenta como absurdo. Mundo es-
cedo ou mais tarde, cada um tem de ficar reduzido aos seus tranho este, onde tudo está disfarçado em formas enganadoras
valores substanciais. O que é negativo e desejaria viver à cus- e onde as portas se fecham, abrindo-as, e se abrem, fechando-
ta da positividade dos outros, tem de acabar aniquilado no va- as. O corpo, onde vemos a vida, representa a morte de nosso
zio da sua negatividade. Quem age positivamente ganha vida, verdadeiro “eu” espiritual, enquanto o fim deste corpo, o que
quem age negativamente ganha morte. O primeiro evolui para chamamos de morte, abre as portas à vida.
o S, enchendo-se de vida e enriquecendo-se de todas as quali- As religiões e a ética conhecem e ensinam estas conclusões.
dades positivas. O segundo involui para o AS, esvaziando-se Dirigindo a nossa conduta, elas nos mostram o caminho da sal-
de vida, empobrecendo-se de todas as qualidades positivas e vação. Não dizem a razão pela qual temos de segui-lo, parecen-
adquirindo as negativas. Por isso, como nos referimos há pou- do não saber por que isto acontece, o que justifica essas nor-
co, as conquistas do mundo nunca chegam a satisfazer a insa- mas, qual é o jogo íntimo do fenômeno da redenção que esta-
ciável fome de nossa negatividade. mos vivendo e por que temos de realizá-la. O fato é que o ser se
O vencedor no mundo não é vencedor. Na sua vitória está a encontrava no paraíso do S, mas, devido à desobediência, saiu
sua condenação, porque, com ela, ele penetrou mais e se tor- de lá e caiu de cabeça para baixo no inferno do AS. O ser está
nou rei no AS, que é o reino das dores. As vitórias humanas agora saindo deste inferno e tem de reconquistar o paraíso per-
vacilam e acabam caindo, porque não têm base. Não se pode dido, atravessando um purgatório de penitência, constituído de
um imenso oceano de dores. Estamos encontrando sempre no-
2
Termo sânscrito: engano, aparência (N. da E.). vos fatos que nos confirmam esta teoria.
78 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
V. PRINCÍPIOS DE UMA NOVA ÉTICA A ética hoje vigorante em nosso mundo e as regras de vida
que o homem estabelece para si de fato, não são produtos nem
Antes de continuar a nossa pesquisa no terreno da ética, pa- da lógica nem do conhecimento, mas constituem um simples
remos um pouco para nos orientar. O nosso caminho se dirige desabafo de instintos, produto do subconsciente. O ponto de
do universal para o particular, do tronco para os ramos. Depois partida desta ética é a fera, e o seu ponto de referência é a ani-
de ter explicado as teorias gerais nos nossos livros: Deus e malidade. Esta ética, exatamente pelo fato de ensinar a supera-
Universo e O Sistema, entramos, agora, no terreno das suas ção do nível biológico da fera, reconhece e prova com isso que
consequências práticas. Isto é útil, porque aproxima o absoluto o homem pertence a esse plano de vida. Quando os mandamen-
de nosso relativo, transformando os longínquos princípios abs- tos dizem: “não matarás”, pressupõem que o desejo do homem
tratos em normas práticas à nossa vida. É necessário, porém, é matar, e quem quer agir assim é fera. Tanto isto é verdade,
não perder contato com aqueles princípios fundamentais, por- que o homem, apesar de todas as leis e sanções penais e religio-
que, se nos afastarmos daquele fio condutor que tudo orienta, sas, continua matando. A ética representa uma tentativa de apa-
há o risco de nos perdermos no labirinto das particularidades gar esses instintos, regulando-os e disciplinando-os, o que de-
de que está feita a realidade dos fatos. Neste caso, ficaremos monstra o seu conteúdo fundamental.
imersos na ilusão das aparências da superfície e nos escapará o As grandes massas humanas vivem nesse nível. Estes ins-
verdadeiro sentido das coisas. tintos se encontram adormecidos apenas momentaneamente,
Eis então as linhas gerais de nosso caminho, no qual procu- pois estão sempre prontos a reaparecer, como vimos nas últi-
ramos conciliar as duas exigências opostas. A primeira visão mas duas guerras e como vemos, também fora do terreno béli-
apareceu na sua forma mais abstrata no livro Deus e Universo. co, a cada dia na delinquência. E as verdades que vigoram na
Aí, a concepção é cósmica, científica, esquemática, fria, tão prática são aquelas estabelecidas pela maioria, cuja vontade os
acima da realidade de nosso mundo, que parecia não ter contato chefes mais iluminados, caso eles não sejam da mesma raça e
nem qualquer relação possível com a vida prática, que nos inte- não possuam os mesmos instintos, têm de conhecer para se
ressa de fato. Por isso esse livro não foi compreendido, pois ele, adaptar ela, se quiserem ser obedecidos. Infelizmente, o ho-
iniciando a partir das primeiras origens, permaneceu no terreno mem não é de forma alguma civilizado. Se ele assim se consi-
do absoluto, longe de nosso relativo. Focalizado não no concre- dera, é apenas por orgulho. A civilização é apenas um verniz
to, mas no abstrato, não no prático, mas no teórico, não no par- colocado na superfície, pintado por fora. Nos fatos, o homem
ticular, mas no universal, ele permaneceu bem afastado da rea- vive a lei da sua animalidade.
lidade que nos cerca, aquela que melhor compreendemos. Isto não quer dizer que não exista na Terra uma ética supe-
Continuando, porém, no mesmo caminho, eis que o segun- rior. Mas ela não é produto do homem, desceu do Alto por re-
do volume, O Sistema, aproximou-se de nosso mundo, para velação, ditada a seres superiores excepcionais, que no-la ensi-
encontrar nele as primeiras consequências concretas e particu- naram. Mas esta é a ética oficial, escrita nos livros e nas leis,
lares dos princípios abstratos e universais do primeiro volume. aquela que se prega, não a que se pratica. Ela representa uma
A maneira de tratar o assunto se humanizou então, aproxi- tentativa para civilizar o animal humano. A este convite e à
mando-se cada vez mais da forma mental do homem, apoian- ajuda do Alto para melhorar e subir, os instintos inferiores gra-
do-se nos seus pontos de referência. Por isso esse livro foi vados no subconsciente responderam com o método dos rebel-
mais bem compreendido. des do AS, lutando para se eximir do esforço evolutivo, eva-
Por esse mesmo caminho, chegamos ao presente volume, dindo-se desse jugo para libertar-se desse constrangimento. As-
Queda e Salvação, no qual a primeira visão, atingindo as suas sim, os seres inferiores, ainda criaturas do AS, apegados à sua
últimas consequências, enxerta-se em cheio e se funde em nos- forma mental de rebeldes, procuraram aprender a arte de esqui-
sa vida humana, como lei de salvação. Podemos agora, como var-se da disciplina, ao invés de segui-la. Da escola da ética
estamos fazendo no momento presente, ao chegar neste ponto saiu uma contraescola às avessas, com a sabedoria dos embor-
de nosso caminho, explicar esta nova ética. Podemos compre- camentos, própria do AS, constituída de adaptações, sagacida-
ender por que, depois de ter nos outros livros falado da teoria des, astúcias e escapatórias. Seguindo o instinto fundamental,
geral da criação, acabamos agora falando da conduta humana, que é o egocentrismo, a ética, ao invés de praticar as virtudes
do erro e da dor, da Lei e da redenção. Eis o valor prático e o para melhorar, emborcou-se na procura e na perseguição dos
fruto concreto das abstrações do livro Deus e Universo. defeitos do próximo. Assim, o homem conseguiu emborcar a
O caminho foi longo, mas era necessário percorrê-lo todo, lógica do S na do AS. Infelizmente, o maior trabalho de todas
porque, se não tivéssemos começado das primeiras origens das as formas de cristianismo na Terra, isto é, dos seguidores de
coisas, não teria sido possível chegar a esse tipo de ética, isto Cristo, transforma-se, em última análise, na arte de enganá-Lo.
é, não empírica e arbitrária, mas sim racional, justificada pelo Acreditando que aprenderam a se evadir das Suas leis e respec-
fato de derivar, por dedução lógica, dos princípios absolutos de tivas sanções, pensam que podem lograr a Deus. Como verda-
Deus e da Sua primeira criação. Se quiséssemos traçar o fio deiro cidadão do AS, o homem preferiu colocar-se na posição
condutor que liga esses três livros, poderíamos dizer que eles de luta contra a Lei do S e, ao invés de se transformar conforme
representam o mesmo caminho pelo qual Deus vai progressi- os ditames dela, busca torcê-la, adaptando-a aos seus instintos
vamente sempre mais se aproximando de nós. Esta nova ética é inferiores. Assim, a sabedoria dos deveres se tornou, nas mãos
a etapa final, o ponto de chegada deste caminho, constituindo o do homem, a sabedoria das escapatórias.
momento em que Deus aparece entre nós, vivo na Sua Lei, pa- O homem acabou criando para si um Deus à sua imagem e
ra nos salvar, dirigindo-nos e impulsionando-nos para o S. É semelhança, conforme a sua forma mental e instintos. Tudo is-
assim que da teoria da queda chegamos à demonstração desta to foi trabalho despercebido, fruto de instintos, feito sem que-
nova ética racional, que constitui o objetivo deste livro. rer nem saber, sem má fé; trabalho realizado no passado,
O mundo precisa desse novo tipo de ética, bem sólida. quando o controle positivo das ciências psicológicas, que ana-
Uma ética derivada dos princípios fundamentais que regem o lisam esses fenômenos, era desconhecido; trabalho profundo
universo, apresentada de forma lógica, demonstrada e susten- do subconsciente das massas, do qual as próprias Igrejas fazem
tada por eles, mas, ao mesmo tempo, coerente com a realida- parte, porque elas, no seu conjunto, não podem ser constituídas
de de nossa vida prática, capaz de explicá-la até às suas pri- por biótipos diferentes do comum.
meiras causas, confirmando com os fatos ao nosso redor os Aconteceu deste modo porque, na luta entre o ideal e o
princípios universais. homem, quem, até o momento, venceu na Terra foi o homem. A
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 79
ele pertencem o passado e o presente, ao ideal somente resta o e festa tornar-se, mesmo que seja em medida mínima, conforme
futuro. Apesar das revelações das religiões, o homem criou para as próprias forças, operários colaboradores de Deus na grande
si uma ideia absurda de Deus, que vigora na prática, produto da obra da evolução redentora da criatura decaída.
forma mental do homem, a única que ele sabe compreender, Se o homem concebe tudo às avessas, isto se deve ao fato
porque corresponde aos seus instintos. A sua lei é a luta pela de estar ele situado no AS. É a sua posição de emborcado que o
vida, que impõe a necessidade de vencer, se quiser sobreviver. leva a imaginar um Deus emborcado, que domina à força e faz
Daí o instinto fundamental do homem de se afirmar contra to- mau uso do Seu poder, atormentando-nos com punições doloro-
dos. Eis então que o Deus concebido pelo homem tem de ser sas, enquanto a causa dos nossos sofrimentos não é Deus nem a
antes de tudo, para ser obedecido, o mais forte, o todo-poderoso Lei, mas a nossa desordem e desobediência a Ele e à Sua lei.
no sentido humano de arbítrio, capaz de impor com o milagre, Deus não pune. Somos nós que nos punimos a nós mesmos.
ainda que se contradizendo, uma correção à Sua própria lei, Somente nós, que estamos no AS, podemos fazer alguma coisa
efeito do capricho de uma vontade desordenada, inadmissível de negativo, que vai contra a vida e a nossa felicidade. Repre-
na perfeita organicidade do universo. Este Deus pode operar à senta o maior absurdo acreditar que alguma coisa desse gênero
vontade, fora da lógica e dos justos equilíbrios do merecimento. possa sair das mãos de Deus, que existe no S e representa o
Ele é respeitado não pela Sua inteligência, justiça e bondade, centro de toda a positividade. Mas quem está situado no AS não
mas porque está armado de punições infernais eternas. Isto re- pode conceber tudo o que se encontra perfeitamente lógico no
vela o homem primitivo, que, desprovido de raciocínio, não age S, senão emborcado no absurdo de que está feito o AS. Tal é a
convencido pela compreensão, mas só pelo terror do seu prejuí- lógica do AS, a lógica do absurdo. E é lógico também que a ló-
zo. Este homem não pode ser dirigido pelos caminhos de uma gica do AS não possa ser senão a lógica do absurdo.
inteligência que ele ainda não desenvolveu, mas só pelo temor Eis a ética atual e as suas bases psicológicas. O tipo de ética
do mais forte. É deste temor que foi gerado o desejo de escapar que explicamos aqui é diferente. Nela não há lugar para enga-
da força de Deus. Eis então como Ele foi concebido como um nos. Encontramos finalmente uma ética sem escapatórias. Ela é
simples ser, ludibriável com astúcias, susceptível de ser aman- sincera, evidente, claramente demonstrada. Nela, funciona em
sado com sacrifícios, ofertas e preces. toda a hora e lugar, automática e infalível, a justiça de um Deus
Ninguém pode sair da sua forma mental e conceber mais que não é pequenino fruto da forma mental do homem, mas es-
do que a sua ignorância permite. Se a psicologia do homem é tá bem acima de nosso mundo, ao lado de Sua bondade. Um
subjugar o fraco e enganar o simplório, e se não ele possui ou- Deus tão inteligente, que não há astúcia humana que O possa
tro cérebro senão este, como pode ele compreender que Deus enganar. Embora o primeiro desejo do homem seja aproveitar-
está completamente acima desta forma mental? Outro Deus se da bondade alheia, porque a julga fraqueza, Deus previu tudo
representa para ele um inconcebível. De tal cérebro humano, isto e arrumou as coisas de maneira tão justa e perfeita, que Ele
nascido das necessidades e feito para resolver os problemas da pode continuar infinitamente bom, sem que por isso seja possí-
vida material, não podia sair outra concepção senão esta. O vel aos seres inferiores explorar esta Sua bondade. Pelo contrá-
homem comum pensa que o mais forte seja também o mais rio, como estamos demonstrando neste livro, vigora substanci-
perigoso, porque a experiência com a qual ele construiu a sua almente uma lei de justiça, soberana e absoluta, pela qual tudo
forma mental lhe ensinou que quem tem o poder nas mãos volta à sua fonte geradora e quem faz o mal o faz a si mesmo.
costuma fazer dele um uso egoísta, só para a vantagem pró- Quem entendeu a lógica e a técnica desse fenômeno conhece
pria e o dano dos outros. Os chefes que o homem conhece na uma grande verdade, que o mundo não conhece e paga caro por
Terra são, na maioria dos casos, dominadores que escravizam isso, ou seja, sabe que fazer o mal nunca pode levar à própria
e exploram os seus súditos. Os cidadãos, por experiência mi- vantagem, mas só ao próprio dano; sabe que tentar ser astuto pa-
lenária, consideram os governantes como patrões, seus inimi- ra lograr a Deus, significa querer ser astuto para intrujar apenas
gos naturais, assim como acontece para cada criado em rela- a si mesmo. Perante tal sabedoria da Lei, as armas humanas da
ção a seu dono. Então é dever defender-se, é mérito e valor força e da astúcia não têm poder algum. No final, a Lei corta as
usar a inteligência não para obedecer, mas para torcer tais leis garras da fera e a justiça triunfa. Os inferiores podem gerar o in-
inimigas, usando a astúcia para escapar delas. ferno só para si. Que Deus possa ser enganado é um absurdo em
Eis o que está no cérebro do involuído. Mas, logo que se de- que só o involuído, na sua ignorância, pode acreditar. O que de
senvolva um pouco a inteligência, aparece o absurdo de tudo is- fato vigora na substância é a lei do merecimento. Isto significa o
to. Deus não é de maneira nenhuma um chefe desse tipo. Ele triunfo da sinceridade, bondade e honestidade, qualidades hoje
não domina para escravizar e explorar as Suas criaturas. As Su- completamente desvalorizadas em nosso mundo, que segue a lei
as leis são sábias e benfazejas, e obedecer a elas não é dano, do mais forte e as considera quase imperdoáveis fraquezas de
mas vantagem. Tal Deus é muito inteligente, justo e bom. Pode- doentes. Trata-se de um Deus no qual se pode confiar, porque dá
se falar com Ele, porque sabe compreender bem, e o homem prova de ser invencível de fato; um Deus mais inteligente, cuja
honesto não tem o que temer Dele. Ele não está morando nos Lei não pode ser torcida; um Deus no qual se pode acreditar, se-
céus, como um soberano no meio da Sua corte, olhando de lon- guindo-O, porque Ele sabe garantir a vida para quem segue a
ge para o nosso inferno selvagem, só para receber na Sua glória Sua Lei, que o mundo julga loucura; um Deus que pode ser se-
egoísta as nossas humildes homenagens. Ele está sempre pre- guido em segurança, porque significa inviolável justiça, que tu-
sente, vivo entre nós, operando ao nosso lado, tomando parte na do retribui segundo o merecimento.
vida e nas dores dos Seus filhos. Não precisa de ministros e in- É interessante observar a técnica dessa luta, na qual, contra
termediários hierárquicos para nos comunicarmos com Ele e, a força e a astúcia do homem, vence a sabedoria e a justiça de
quando falarmos de coração aberto e tivermos nosso ouvido Deus. O ponto fraco do método do homem é a sua posição em-
bastante sensibilizado para ouvir a Sua voz profunda, Ele nos borcada de cidadão do AS. Ele é forte e astuto, mas o seu ego-
responderá, dizendo-nos coisas maravilhosas, bem diferentes centrismo separatista o expulsa do terreno do S, onde está o co-
daquilo que os homens dizem. Descortina-se então um mundo nhecimento, deixando-o isolado na sua ignorância. E, no fundo
novo, que a Terra não conhece, onde tudo é claro, justo e bom, dessa sua ignorância, ele continua acreditando saber tudo. A re-
de uma sabedoria e de uma beleza indescritíveis. Aparece então volta, filha do egocentrismo, significa orgulho, e o orgulho tira
todo o absurdo da corrente concepção de Deus, pela qual não se a visão. Assim, apesar de cego, o homem se julga plenamente
pode chegar à obediência a não ser pelo caminho do terror, co- capaz de se orientar. Alucinado por esta condição, ele acredita
mo exigem os selvagens, enquanto, pelo contrário, é vantagem nas ilusões do mundo e nas miragens criadas pelos seus desejos,
80 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
estando sempre pronto a cair em qualquer uma das incontáveis os maus ficam maus e pagam, e os bons ficam bons e recebem,
armadilhas contidas em seu ambiente terreno. Seu orgulho, re- qualquer que seja a sua nação, grupo, partido ou religião.
sultado do exagerado crescimento do “eu”, leva-o a crer que Deus não é chefe desta ou daquela hierarquia religiosa, mo-
bastam a força e a astúcia individual para vencer, desconside- nopolizado por ela e armado contra os deuses de todas as outras
rando totalmente o fator merecimento. Este, no entanto, é o religiões. Ele é universal, abraçando a todos sem preferências e
único meio para obter alicerces firmes na construção de nosso exclusividades; usa a Sua Lei na mesma medida para todos,
destino e de nossa posição na vida, porque só o merecimento sem privilegiar um grupo em detrimento dos demais. Sua justi-
representa o verdadeiro valor. Apoiando-se sobre estas bases ça está acima de todas as injustiças humanas; é universal, e não
verdadeiras, respeitando os princípios de equilíbrio e de ordem particular; é amiga de todos os justos, e não somente dos segui-
da Lei, qualquer posição pode resistir, porque é real, e não ar- dores de um dado grupo, considerados bons, e inimiga dos se-
rancada pela força ou furtada com a mentira. guidores de outros grupos, somente por isso considerados
Sabemos que esta ética não pode satisfazer aos fortes e aos maus. É necessário superar essa psicologia animal de vencedor
astutos do mundo, que não a aceitam, pois não a compreendem, e vencido, pela qual tudo o que é feito por quem vence está cer-
mas somente aos maduros, que a merecem. Nada se pode ganhar to, e tudo o que é feito por quem perde está errado!
de graça, e quem não fizer o esforço necessário para subir, tem Encontramos nessa ética uma verdade sólida, positiva, aci-
de ficar em sua ignorância, submetido aos respectivos erros e so- ma da luta, dos poderes e dos enganos do mundo. Ninguém lhe
frimentos, até ter aprendido toda a lição. Seria fácil demais re- escapa. Não adianta possuir comando de grande chefe, recursos
solver o problema da evolução e da salvação só porque alguém econômicos, poder bélico ou força política. Não há como fugir,
nos explicou o método com palavras. Os mestres ensinam, mas mesmo se tratando da massa do povo, que, por representar a
nós mesmos temos de fazer o trabalho de nosso amadurecimen- maioria, age como quiser. As nações têm de pagar, assim como
to; nós mesmos temos de aprender à nossa custa, pagando as os indivíduos. Ninguém pode fazer o mal impunemente. A Lei
consequências dos erros, para não cometê-los mais. É assim que é um torno de ferro que nos prende a todos, confinando-nos
os fortes e os astutos ficam surdos aos conselhos e, acreditando dentro do canal das consequências de nossas ações, ao longo da
saber tudo, não querem abrir os olhos para ver, permanecendo, linha dos efeitos, cujo amadurecimento é fatal, não havendo
como é justo, imersos no inferno que merecem. Acontece então distância de espaço ou de tempo que possa impedi-lo. Cada um
que todos encontram no mesmo ambiente terreno as mesmas tem de colher o fruto daquilo que semeou. Todos têm de pagar:
oportunidades e os mesmos perigos, mas cada um escolhe se- os grandes, os pequenos, os homens de todos os partidos ou re-
gundo o seu tipo, revelando assim a sua natureza e recebendo as ligiões. É a derrota dos finórios do mundo, contra os quais se
consequências que merece. Logicamente, quem entendeu o jogo levanta a lei do merecimento. O mundo quer outras verdades,
das ilusões da vida não cai mais nelas. Assim, é justo que quem em função dos seus interesses. Mas encontramos aqui uma ver-
tem cobiça seja por ela atraído e submetido aos perigos que são dade mais profunda, que ninguém pode abalar.
evitados por quem não tem cobiça, pois isto é o que cada um Eis a ética por nós sustentada. Ela representa uma revolta
merece, além disso é bom que quem ainda não sabe aprenda. contra a revolta, uma reação contra o AS, para voltar ao S. Isto
Deste modo, quem ainda não subiu tem de subir. Quanto significa trabalho de retificação para chegar à salvação. Procu-
mais o ser se encontra atrasado em baixo na escala evolutiva, ramos aplicar à ética o método positivo da lógica, para conven-
tanto mais para ele a lei é a força. Mas quanto mais ele pro- cer os que sabem pensar, oferecendo um produto da razão ilu-
gride, tanto mais a lei se transforma em justiça. Assim à lei do minada, e não dos instintos do subconsciente.
“eu” separado e rebelde, substitui-se a lei do “eu” organizado Estamos atualmente percorrendo o caminho da reconstrução.
e disciplinado. A primeira é a dura lei do AS, a segunda é a do Com a revolta, o “eu” menor da criatura, que existia no S em
S. Tudo isto também é lógico e justo, correspondendo ao me- função do “eu” maior de Deus, tentou o absurdo de fazer o “eu”
recimento. Para quem, com o seu esforço, subiu acima de to- maior de Deus existir em função do “eu” menor da criatura.
das as prepotências humanas, funciona uma lei de justiça, que Acreditar nesse absurdo, ou seja, que o maior possa existir em
ninguém pode torcer ou enganar. Se o passado e o presente função do menor, constitui o ponto fraco do AS, e isto é a garan-
pertencem ao mal, o futuro, por lei de evolução, pertence ao tia da vitória final do S. Esse contraste que temos até agora ob-
bem, que não pode deixar de ser o vencedor final. Das pro- servado entre os dois tipos de ética expressa em nosso pequeno
fundidades da vida responde uma voz que satisfaz a procura mundo a cisão e a contraposição dualista entre S e AS. Também
desesperada dos honestos em busca de justiça. Esta voz nos o AS tem a sua ética, que é a do mundo. E nós sustentamos, em
diz que há para todos uma lei de justiça, que ninguém pode contraposição a ela, a ética do S. Ora, se a vitória do S está ga-
torcer ou enganar para escapar a ela. rantida, o mesmo acontece com sua ética. Isso significa que ela
◘ ◘ ◘ está destinada a vencer a ética do mundo, a qual, com o tempo,
Eis o conteúdo deste novo tipo de ética. Finalmente, ao tra- terá de ficar abandonada nos níveis inferiores da evolução.
balho milenário do homem, para torcer as verdades eternas e Essa nova ética não é um invento inédito, pois, na sua subs-
adaptá-las aos seus instintos inferiores, querendo enganar a Deus tância, nada mais é senão a ética do Evangelho. Trata-se, po-
para escapar às suas leis, é possível hoje contrapor uma concep- rém, de um Evangelho racionalmente demonstrado, compreen-
ção diferente da vida, em que o jogo contra a Lei é um absurdo dido profundamente na sua lógica férrea e, sobretudo, tomado a
antiutilitário, perigoso e contraproducente. Finalmente, um lugar sério, para ser vivido, e não apenas pregado. É evidente que o
onde há justiça, onde é possível ser sincero e honesto sem ter de Evangelho se encontra na linha que vai para o S, portanto esta
pagar caro por isso. Finalmente, alguém em quem se pode con- ética não pode deixar de repeti-lo. Porém, aqui, ele adquire ou-
fiar e colaborar com amizade, um amigo que ajuda, e não um ser tro sentido e importância. Universalizando-se, ele sai dos limi-
todo-poderoso que vive só para si e contra o qual temos de nos tes de uma religião e se torna lei biológica, psicológica e social,
defender. Finalmente, um Deus inteligente, que, ao invés de se entrando no terreno positivo da ciência, que não poderá mais,
apegar à forma, compreende a substância. Um Deus que vive ao como fez até agora, afastar o problema com o seu agnosticismo.
nosso lado, luta e sofre conosco, que é, com justiça imparcial, A doutrina de Cristo, assim entendida, não é somente um pro-
vencedor absoluto dos maus, onde quer que eles estejam, sem duto histórico, fruto de uma casta sacerdotal, algo que, para
favorecer grupo algum para condenar todos os demais. Caem as- quem pertence a outra religião ou seja ateu, só por isto não teria
sim as barreiras interesseiras humanas, e cada um é julgado não mais valor. Ela constitui um fruto vivo da vida em evolução,
pela sua posição terrena, mas segundo o que é e merece. Então fenômeno sempre presente e atual. O Evangelho expressa uma
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 81
lei biológica que terá fatalmente de se realizar no futuro. Trata- dor. Permanece assim a regra geral de se perder qualquer van-
se de princípios universais, nos quais, e neles acima de tudo, o tagem tão logo se faça mau uso dela. Quem quer emborcar,
homem pode acreditar, utilizando-os para se realizar. Ninguém acaba emborcado. A violação da Lei gera dor.
pode alterar ou destruir estes princípios, que, independentes de Tudo vai-se transformando com a evolução. Quanto mais o
serem aceitos ou não, permanecem. ser sobe na escala evolutiva, tanto mais o determinismo se
Trata-se de uma ética universal, que está hoje em vigor na abranda, suavizando-se até desaparecer, reabsorvido na liber-
Terra, como caso particular no tempo e no espaço, sendo ela dade, que se amplia, expandindo-se e prevalecendo sempre
também concebida não como fenômeno estático, mas em evo- mais à medida que o ser se avizinha do seu estado de origem.
lução, como é tudo o que existe no relativo. A ética do mun- A planta se liberta mais do que o mineral, o animal mais do
do, portanto, é relativa e progressiva, representando no seu es- que a planta, o homem mais do que o animal, conquistando in-
tado atual apenas um nível de vida ou degrau da escada que dependência e amplitude de movimento cada vez maiores, da
sobe do AS ao S. água dos mares à superfície da Terra, à atmosfera com o voo, e
Assim se deslocam as nossas concepções comuns da ética, agora no espaço interplanetário. O homem possui uma vastidão
que se torna um momento do fenômeno do transformismo uni- de escolha que os animais, regidos apenas pelo instinto, não
versal. É assim que, como já mencionamos, cada plano de vida conhecem, mas tal autonomia existe apenas na sua parte espiri-
tem a sua respectiva ética. As feras têm a sua ética, que não é a tual, a mais adiantada, pois nele ainda sobrevivem determinis-
do homem, assim como ele tem a sua ética, que não é a do su- mos que ele tem de aceitar, inerentes aos mundos inferiores,
per-homem. Dessa forma, desde os mais baixos níveis, que se como a estrutura atômica e molecular na parte mineral, o me-
abismam no AS, até aos mais altos, que se levantam para o S, a tabolismo no nível vegetal e os instintos no nível animal. A li-
ética, concebida no sentido mais vasto de ordem e regra que di- berdade maior começa a aparecer só no alto, no espírito, grada-
rige a vida do ser, vai-se transformando, assumindo qualidades tivamente, em proporção ao desenvolvimento deste e tanto
diferentes conforme a sua posição mais atrasada ou adiantada mais quanto mais o ser se aproxima do S. Assim como a nossa
ao longo do caminho de subida pelo qual o universo decaído ética é mais adiantada do que a das feras, a ética do homem de
regressa para Deus. Eis então que vemos a ética tornar-se tanto amanhã também será mais adiantada do que a do homem de
mais determinista e compulsória quanto mais o ser regido por hoje, a qual será julgada selvagem pelas gerações futuras, tal
ela se encontra em baixo, perto do AS, e tanto mais livre e con- como são julgadas por nós a ética dos nossos antepassados das
victa, quanto mais o ser regido por ela se encontra no alto, perto épocas primárias. Quanto mais o ser sobe, tanto mais ele se
do S. Este fenômeno é lógico e tem uma razão profunda. torna consciente, passando, por isso, a obedecer à Lei de uma
Não foi Deus quem tirou a liberdade do ser, quando este forma cada vez menos compulsória e sempre mais livre. Assim
involuiu pela revolta, mas foi o próprio impulso do ser que essa ética universal vai-se transformando do seu ponto mais
emborcou tudo. Por ter iniciado um caminho às avessas, o ser baixo, no AS, até ao seu ponto mais alto, no S. Não se trata de
não podia deixar de emborcar tudo, inclusive a sua liberdade um modo estranho de conceber a ética, porque tudo o que exis-
na escravidão do determinismo, que é o seu oposto. A vontade te está fundido em Deus, numa só lei unitária.
do ser rebelde era destruir a Lei, para substitui-la por si pró- Chegamos assim ao conceito de uma ética cósmica, na qual
prio, mas ela estava acima de toda tentativa de destruição. se revela a presença universal da lei de Deus; uma ética que,
Aconteceu então que o ser conseguiu emborcar somente a sua nos seus diferentes níveis, sustenta todos andares do edifício do
posição dentro da Lei em relação à sua liberdade. A Lei ficou ser, regulando a existência e dirigindo a evolução, para reorga-
de pé, mas, ao invés de conservar-se na forma livre do S, as- nizar o caos na ordem. Ela representa a assistência contínua de
sumiu para o ser a forma compulsória do AS. E esse processo, Deus, no Seu aspecto imanente, ao lado e em favor do ser, para
quanto mais o ser se aprofundou no AS, tanto mais se intensi- que ele siga fatalmente o caminho de sua salvação. Trata-se de
ficou. Eis a lógica e a razão desse fenômeno. uma ética viva, inteligente e sempre em ação. Ela dirige o con-
Assim, o que era antes livre aceitação tornou-se constran- tínuo transformismo do relativo, operando pouco a pouco e dis-
gimento à força. O ser pôde transformar a ordem em caos no ciplinando tudo, para reconduzir o caos ao estado orgânico do
AS, mas, acima deste, a ordem ficou íntegra, para constrangê-lo S. É por esse caminho que tudo vai voltando àquela ordem, pois
a regressar, deterministicamente, do caos à ordem, impondo ao a revolta deslocou para a desordem tudo que estava na devida
rebelde louco a sua salvação. É absurdo e inadmissível que ordem no S. Os egocentrismos separados, filhos da rebeldia,
Deus possa ser vencido pela Sua criatura, que a parte seja mais têm de se fundir para colaborar em unidades coletivas sempre
poderosa do que o todo, que uma revolta pudesse sobrepor-se à maiores, até reconstruir a organicidade do todo, voltando ao S.
Lei e destruir a obra de Deus. Ética estupenda, que desce do infinito e do absoluto. Ela
Esse fenômeno se explica também pelo fato de que, devido expressa a suprema vontade de ordem contida na lei de Deus.
à queda e involução, a linha da livre expansão do ser se foi Ética global, presente em todos os níveis da evolução, manifes-
sempre mais curvando sobre si mesma, contraindo seu dina- tando-se em formas diferentes, cada uma adaptada à posição de
mismo numa cinética cada vez mais apertada em si mesma, até cada ser. Temos assim a ética atômica, molecular, celular, dos
atingir a forma de movimento fechado nas trajetórias do átomo. grupos celulares reunidos nos tecidos, de cada órgão, de cada
Os seus elementos não podem sair delas, escravos completos organismo no seu conjunto, do sistema nervoso e cerebral, dos
das leis da matéria. Esta é a sua ética, dada pela obediência for- sentidos, psíquica, espiritual, reguladora da ordem de uma de-
çada no AS, nos antípodas da obediência livre dos espíritos no terminada unidade. Assim, todos os seres, caminhando na gran-
S. Os cristais têm de orientar as suas moléculas e moldar as su- de marcha da evolução, são orientados para um objetivo único
as formas exatamente conforme modelos pré-estabelecidos. Es- pela Lei, que, embora se adaptando às exigências de cada caso
ta é a sua ética. No mundo inferior da matéria, não se concebe particular do relativo, dirige todos eles segundo um mesmo
desobediência. Ninguém pode desobedecer à Lei, isto é, a princípio, levando-os para a unidade.
Deus. A obediência se realiza sempre, tanto no AS como no S, Agora está nascendo na Terra a nova ética social internacio-
porém, no AS, às avessas, sem liberdade. Assim o resultado au- nal e mundial, que terá de reger em unidade o novo organismo
tomático da revolta, para o ser, foi ele permanecer aprisionado coletivo da humanidade. Se a ética do homem primitivo do pas-
no determinismo. Para o homem, que está subindo ao longo do sado teve de basear-se no princípio da seleção do mais forte,
caminho da evolução, há liberdade, mas ela é limitada, pois, tão que leva à agressividade e à luta, e se o homem atual deve ao
logo ele cometa erros, estes são sempre corrigidos à força pela fato de ter usado essa ética a sua condição de ser o vencedor e
82 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
dono do planeta, eis que hoje a vida tem de atingir objetivos di- mal se verifique. Este é o terreno da positividade, onde não há
ferentes, sendo necessário, portanto, mudar a ética que dirige a lugar para nenhuma forma de negatividade, tanto para o mal
conduta do homem. Assim apareceu a civilização com as suas como para a sua punição e repressão. Tudo está previsto e pre-
leis civis e religiosas, dando origem a uma nova ética, pela qual venido naquela ordem, onde a desordem não pode nascer.
furtar e matar, que eram no mundo selvagem virtudes do mais Nós existimos nos antípodas, no AS, onde prevalecem prin-
forte, são, pelo menos em alguns casos oficialmente reconheci- cípios opostos. A mesma lei de Deus, irradiada do S para o AS,
dos, considerados como culpa e crime. Isto porque a humanida- também está presente aqui, impulsionando para a sua ordem,
de começou a se encaminhar para o estado coletivo social orgâ- mas o biótipo que mora aqui é um rebelde, que quer, mesmo
nico, constituído pela convivência pacífica na colaboração. A sendo à sua própria custa, impor-se contra a vontade da Lei, o
humanidade, sem dúvida, está atingindo um novo plano de que lhe é permitido, porque ele é livre. Aqui, estamos no terre-
existência com a mudança das regras que a dirigem. Trata-se de no da revolta, da desordem e da luta. Só o fato de ser este o tipo
uma ética diferente, porque tem de atingir finalidades mais adi- de ética vigorante em nosso mundo constituiria uma prova sufi-
antadas, sendo necessário conquistar outras qualidades, com ciente para demonstrar a teoria da queda.
outras normas de conduta. Eis por que o Evangelho, que as re- Explica-se, assim, por que a nossa ética não é filha da com-
presenta, não tem, como há pouco dizíamos, somente um signi- preensão, que evita espontaneamente o mal, mas sim da luta.
ficado religioso, mas também social e biológico. Está sendo Entende-se por que ela, em vez de ser positiva, altruísta e edu-
construída hoje a nova unidade coletiva, constituída pelo estado cativa, tendo por objetivo realizar o bem, é uma ética negativa,
orgânico da sociedade humana, fato que requer uma nova or- fechada no egoísmo para evitar o prejuízo do próprio grupo.
dem e uma nova disciplina de cada indivíduo em função do in- Vemos aqui se revelarem os dois métodos opostos: o do S e o
teresse comum. Trata-se de conceitos antes desconhecidos e do AS. A ética do mundo também é educativa, mas na forma
contraproducentes, mas que hoje são úteis e, por isso, valoriza- emborcada, atuando não de forma preventiva, a priori, e sim
dos. São virtudes novas, mais adiantadas e inteligentes, que to- repressiva, a posteriori, deixando o mal acontecer e depois in-
mam o lugar dos já superados valores da força individual de- tervindo para corrigi-lo, o que revela a posição do rebelde do
sorganizada e destrutiva, socialmente negativa e criminosa, AS. Em outras palavras, a fim de respeitar a liberdade de um
inadmissíveis nas novas condições de vida. ser rebelde, permite-se que ele erre, para, depois, endireitar o
Ética diferente, em função de outras finalidades a atingir, erro por intermédio da dor. E é lógico que, no mundo do AS,
porque a vida nunca para no seu trabalho de construção e, ago- emborcado na negatividade, não haja outro caminho para se
ra, quer levantar um outro andar do seu edifício, levando o ho- chegar ao bem, a não ser a dura lição do sofrimento.
mem para um mais alto plano de existência, regido por leis di- Os seres do S permaneceram inteligentes como Deus os cri-
ferentes, que têm de sobrepor-se ao passado, até apagá-lo. As- ou, compreendendo que é a vantagem para eles permanecer na
sim, o método da luta entre egoísmos separados se tornará cada ordem, em obediência à Lei. Os seres do AS, com a queda, tor-
vez mais antivital e, por isso, será condenado e repelido como naram-se ignorantes, sendo, por isso, levados a acreditar que
desordem perigosa dentro da harmonia da nova ordem, na qual seja vantagem existir em posição emborcada na desordem do
é vantagem e interesse de todos permanecerem unidos em cola- caos. Mas a Lei continua firme em sua vontade de ensinar, o
boração. A evolução progride pelo caminho da organização dos que, neste caso, é ainda mais urgente, porque se trata da salva-
seus elementos em unidades coletivas cada vez mais vastas e ção de criaturas extraviadas. Como é possível ensinar a seres
complexas. O ponto final desse caminho é o estado orgânico que, por serem ignorantes, são incapazes de compreender onde
completo do S, que abrange a fusão de todos os seres do uni- está a sua vantagem e o seu bem? Como é possível ensinar-
verso na unidade em Deus. O processo da descida foi uma que- lhes, senão por intermédio do sofrimento? Esta é a única coisa
da no separatismo, período no qual a desordem dos elementos que conseguem entender, porque aparece depois do erro, como
pulverizou a unidade do S no caos do AS. O atual período de sua consequência, para que aprendam a não cometê-lo mais.
subida é representado por um processo inverso, no qual os ele- Eis a razão pela qual a ética humana é a posteriori, e não a
mentos separados são reunidos e fundidos no originário estado priori, como a lógica exigiria. Mas, tratando-se de um sistema
orgânico do S. A humanidade não pode deixar de seguir o ca- emborcado, é lógico que, no AS, também vigore uma lógica
minho da evolução universal e tem de galgar agora um novo emborcada no absurdo. Dada a sua posição, o biótipo comum
degrau na sua escalada ascensional. não pode aprender a regra certa da vida senão pelo caminho do
Eis então a razão positiva pela qual chegou a hora do Evange- sofrimento. E é isto o que de fato acontece. Na lógica emborca-
lho, razão também científica, porque ele representa a lei biológi- da do AS, este absurdo é perfeitamente lógico. Explica-se assim
ca no novo nível evolutivo que o homem agora tem de atingir. O a técnica da tentativa – método de cegos ignorantes – que vigora
Evangelho é exatamente a lei do “ama o teu próximo”, ou seja, o em nosso mundo. A automática condenação para os cidadãos do
método da convivência pacífica, da colaboração e do altruísmo, AS está no fato de que eles não podem chegar à positividade a
que funde os egocentrismos rivais até agora em luta. Assim, será não ser pelo caminho da negatividade, ou seja, não podem al-
julgado o melhor biótipo, ou modelo da raça, quem tiver perdido cançar a felicidade, senão através do sofrimento. Assim o ho-
as qualidades desagregantes do involuído egoísta de hoje, substi- mem tem de aprender à força a ética da sua salvação, constran-
tuindo as virtudes da fera pelas do homem civilizado. gido pela dor a seguir o caminho que o leva para a felicidade,
É para explicar esse fenômeno e orientar o homem neste sen- que, ao mesmo tempo, representa o seu maior desejo. Eis em
tido, obedecendo às leis da vida, que estamos aqui falando no que estranho jogo de absurdos se emborca a lógica do S, quando
momento histórico em que a evolução está amadurecendo os o ser cai de cabeça para baixo no AS, ficando constrangido a al-
novos destinos da humanidade. Tudo está pronto para a realiza- cançar à força a realização do seu maior anseio: a felicidade.
ção desse novo destino, e ele se realizará, tão logo a inteligência Desesperadamente o ser vai invocando e procurando por ela,
humana se desenvolva o bastante para chegar a compreender. mas a cegueira na qual ele decaiu o impede de ver onde o seu
Uma das características essenciais da ética é que ela deve ser objetivo se encontra! Tudo é absurdo, quando o ser usa a psico-
preventiva, e não repressiva. É inútil chegar depois que o mal já logia do AS, mas volta a ser lógico, tão logo seja visto e julgado
foi feito. Uma ética eficiente previne e evita o mal, impedindo com a psicologia do S. E, de fato, a dor corrige o erro, ensina e
que ele se realize, mais do que o reprimindo depois com a puni- ilumina a consciência, destrói a ignorância e reconstrói a sabe-
ção. É o que acontece no S, onde a Lei estabelece qual deve ser doria, reabsorvendo a negatividade do AS e reconstituindo a po-
a ordem e os seres compreendem e obedecem, evitando que o sitividade do S. Eis a profunda razão da estrutura dessa técnica
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 83
do erro e sofrimento, com a qual a Lei se realiza em nosso mun- orgânico do universo. Ética à qual não se pode fugir só pelo fa-
do. Eis a lógica fatal dessa ética que vigora em nosso mundo, de to de ser descrente, cético ou ateu materialista. Não adianta ne-
caráter corretivo, a posteriori, e não preventivo, a priori. gar, rebelar-se, pensar e agir com outra psicologia. A Lei conti-
Tudo o que existe na Terra assume as qualidades do AS. É nua funcionando igual para todos. Ela vence os vencedores do
por isso que vigora aqui uma ética exterior, e não interior; mundo, porque é mais poderosa e inteligente do que a força e a
uma ética que ao invés de atuar de dentro para fora, porque o astúcia deles. Ela sabe se fazer compreender por todos, também
ponto de partida é o espírito do S, atua de fora para dentro, pelo tipo involuído e ignorante, porque fala a linguagem da dor,
porque o ponto de partida é a matéria do AS; uma ética de linguagem que todo homem compreende, qualquer que seja a
formas, e não de substância; uma ética que, ao invés de norma sua raça, nível social, crença ou forma mental. A cada erro se-
para o pensamento, é regra para atos; uma ética que, ao invés gue automaticamente a dor corretora, pela qual cada um tem de
de se basear nos princípios gerais para orientação nas grandes se corrigir à sua custa. Trata-se de uma lei que está dentro da
linhas, respeitando a liberdade de quem compreende, apoia-se substância das coisas, funcionando sempre, e que ninguém po-
sobre particularidades materiais, amarrada aos pormenores fa- de agredir e destruir; inatacável porque invisível, indestrutível
risaicos, constrangendo quem não merece liberdade, porque porque inatingível. Ela constitui a essência do ser, que não a
não sabe e não quer compreender. pode aniquilar sem, com isso, aniquilar a si mesmo.
O deslocamento do S para o AS transformou tudo. E, como Trata-se de uma ética racional, que não se baseia no princípio
prova da verdade dessa teoria, vemos aqui os efeitos que vigo- da autoridade, mas na lógica e na demonstração das razões pelas
ram no mundo humano. Eis então que, no S, porque o ser é quais é nossa vantagem obedecer. Sem mistérios, oferecem-se as
obediente, tudo é livre e espontâneo, enquanto, no AS, porque o provas do que se afirma e a razão porque temos de operar de uma
ser é rebelde, tudo é constrangido à obediência. Isto é o que a forma em vez de outra, explicando-se e justificando-se as conse-
criatura gerou com a sua revolta. Mas, acima de toda revolta, quências necessárias e inevitáveis de cada ato nosso. Assim, por-
ficou inatingível a Lei, dentro da qual ficou preso o ser rebelde, que estabelece virtudes que levam ao bem e à felicidade de quem
sem poder fugir. Tão logo ele se arrisca a fazê-lo, é paralisado as pratica, ela é também uma ética utilitária, que, ao invés de
pela dor que a tentativa provoca. Quanto mais ele procura rebe- oprimir, reconhece o direito à vida e à expansão.
lar-se, tanto mais a dor o aperta, até que ele tem de desistir. De Ela é uma ética objetiva, impessoal, que, ao contrário do
fato, são justamente os indisciplinados que se chocam com as que sucede com a ética comum, está acima dos instintos e in-
reações da Lei. Para aqueles, porém, que a obedecem e a se- depende da forma mental. Trata-se de uma ética que, ao invés
guem ordenadamente, a Lei, ao invés de reagir, fala então so- de ser função somente do homem e do momento histórico –
mente da bondade de Deus. Para quem quer ficar dentro da or- subjetiva, pessoal, relativa ao tempo e a quem a definiu para
dem, tudo corre bem. São apenas os desordenados que recebem seu uso, seguindo os gostos e os descontrolados impulsos ir-
de volta o choque dos impulsos lançados por eles contra a or- racionais do subconsciente tanto do legislador como das mas-
dem. A Lei não agride ninguém, mas tem de ficar íntegra, de sas, que estabelecem as verdades para si pelo direito da maio-
pé, respondendo com a mesma agressividade com que a sua or- ria – é função da própria vida.
dem for agredida por uma vontade de desordem. Chegamos, assim, como foi anunciado em A Grande Síntese
◘ ◘ ◘ (Caps. LXXV e LXXXVI), a uma ética cientificamente conce-
Para encerrar este assunto, observemos, em resumo, outras bida em forma exata, não só racionalmente demonstrada, posi-
das principais qualidades que caracterizam esta nova ética. Elas tivamente apresentada e controlada, baseada na lógica dos fa-
já foram mencionadas rapidamente, para uma primeira orienta- tos, mas também geometricamente representável e matemati-
ção geral do leitor, no início do prefácio, no fim da introdução e camente calculável, porque os fenômenos contidos nela são
na metade do Cap. III deste volume. O assunto foi desenvolvi- suscetíveis de expressão gráfica em forma de linhas e de cam-
do não como teoria geral da ética, mas de um ponto de vista pos de forças. Isto nos permite, como já mencionamos no fim
mais fácil e prático, em nosso livro A Lei de Deus, que contém da introdução, medir quantitativa e qualitativamente o valor dos
a transcrição de uma série de vinte e quatro palestras, proferidas diferentes impulsos do ser e das correspondentes reações da
por mim na Rádio Cultura de São Vicente, no ano de 1958, Lei, verificando-se a extensão das superfícies cobertas pelos
também publicadas no Diário de Santos. Aqui, completaremos campos de forças, ou seja, o volume do dinamismo conquistado
estes conceitos, reunindo-os em resumo, para concluir. pela positividade ou negatividade na luta entre S e AS, ao longo
Tal ética é teórica e prática ao mesmo tempo, no sentido de do caminho evolutivo ou involutivo. A ética, assim, pode ser
que, enquanto se justifica até às suas primeiras origens, porque estudada como um momento vivo do grande fenômeno do dua-
as suas raízes se encontram nos princípios do S, que regem a lismo universal em seu dinamismo de choques contínuos, pelo
criação, ela também se realiza até às suas últimas consequên- qual se estabelecem ações e reações entre os dois termos opos-
cias práticas dentro do AS, em nossa vida de cada dia. Ética tos (+ e −) do todo, ou seja, a Lei e o ser rebelde, o S e o AS.
completa, porque vai do S ao AS, do absoluto de Deus ao rela- Ética sólida como um teorema de geometria. A novidade está
tivo da criatura e, assim, abrange tudo, de um polo da existên- no fato de apresentar a possibilidade de aplicar os métodos ci-
cia ao outro. Ética universal, porque contém todos os tempos, entíficos exatos à ética, estudando e definindo seus impulsos e
todos os planos de evolução, todas as éticas relativas; universal os movimentos resultantes, com a aplicação dos processos da
porque está colocada no quadro geral do todo, desde as primei- matemática no cálculo dos seus valores.
ras origens até às últimas finalidades, com a conclusão da obra Esta é a ética que oferecemos aqui, a moral da qual o ho-
de Deus. Ética máxima, porque, na sua substância, coincide mem moderno precisa, proporcionada ao seu atual merecimen-
com a lei de Deus. Ao mesmo tempo, ética mínima, porque re- to. Ética séria, a única que os inteligentes, pela sua forma men-
ge o universo até os seus mais ínfimos pormenores. tal crítica e positiva, podem aceitar; ética prática, razoável, ho-
Porque está escrita na lei de Deus, que está acima de todas nesta, utilitária, que calcula com justiça e, por isso, convence.
as divisões do relativo, essa ética é verdadeira para todos, aci- Ética que dá o que promete e de tudo explica o porquê, a razão
ma de todos os partidos e religiões, independente da orientação pela qual nos convém obedecer e o bem que temos o direito de
e posição étnica, política, filosófica ou religiosa do sujeito. Éti- receber em troca do sacrifício que ela nos pede. Ética evidente,
ca verdadeira porque imparcial e positiva, não mais empírica, onde tudo está claro, porque cada um pode calcular o efeito
concebida em função do homem; moral biológica, concebida dos seus pensamentos e atos. Ética justa, que nos devolve o
em função das leis da vida, da evolução e do funcionamento que lhe apresentamos, de acordo com nosso mérito, premiando
84 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
os justos e golpeando os injustos com a dor e a desilusão, sen- se rebelar, ou seja, a não mais se desviar, por meio do erro, fora
do estes dois últimos resultados explicados como consequência do caminho certo da Lei. A dor existe como método de ensino e
lógica e automática do caminho errado percorrido pelo ser, em educação na escola dos primitivos.
direção à negatividade, quando ele desobedece à Lei. Tudo isto Os involuídos são ignorantes porque, decaindo no AS, per-
é implícito e fatal, decorrendo da própria estrutura de todos os deram a luz da inteligência, que é qualidade das criaturas do S.
fenômenos do universo. Ora, para ensinar aos ignorantes, não se pode usar os meios de
O que oferecemos neste livro é somente um esquema dessa uma inteligência que eles não possuem. Por isso é necessária e
nova ética, apresentada nos seus elementos básicos, fornecen- aparece a dor, pois este é o único raciocínio que eles podem
do, assim, o quanto basta para uma orientação geral, que permi- compreender. Não há outro meio para que, na forma mental de
ta depois o desenvolvimento do assunto e o aprofundamento um rebelde, possa nascer a convicção de que o caminho da de-
dos princípios gerais nos seus pormenores, possibilitando sub- sobediência não representa uma vantagem, mas sim um prejuí-
metê-los a cálculo matemático, com a medição exata dos valo- zo; não leva à felicidade, como só uma lógica emborcada no
res e das suas transformações. absurdo pode acreditar, mas sim à dor. Então, por falta de co-
nhecimento, o ser ignorante vai experimentando ao acaso, por
VI. O ERRO E SUA CORREÇÃO tentativas, de todos os lados, e, para ele aprender o caminho
certo, é necessário, todas as vezes que entrar na porta errada,
Nestes capítulos, entraremos cada vez mais no terreno es- rechaçá-lo para trás, fazendo-o perceber que, ao invés da alme-
pecífico da ética, para estabelecer as suas bases positivas. Ti- jada felicidade, encontrou a dor, até que ele, de tanto experi-
vemos de nos afastar do assunto central da figura, demorando mentar, descubra a porta certa e entre por ela. Isto se verifica
em problemas colaterais e exemplos demonstrativos, porque quando o ser, cansado de todas as experiências realizadas no
este trabalho era útil para esclarecer e compreender melhor o terreno do AS e desiludido por não ter encontrado aí a felici-
tema fundamental. dade, acaba compreendendo que ela é inatingível no AS. Então
Uma vez estabelecido o jogo da ação do ser contra a Lei, e ele é constrangido a procurá-la alhures, fugindo do mundo in-
da reação da Lei contra o ser, isto é, do erro e da dor, o pro- ferior, que o traiu. Inicia assim uma nova tentativa em direção
blema da ética aparece por si mesmo, como norma de conduta diferente, evadindo-se nos céus, em busca de superiores níveis
indispensável para evitar esse choque, filho da revolta, e con- de evolução. Verifica-se então o fenômeno da sublimação dos
duzir tudo para a ordem da Lei. Esta é a gênese, o ponto de instintos, fazendo surgir o ser evoluído e o santo. Quando o
partida e a finalidade da ética. homem tiver assimilado todo o fruto da sua escola terrena, en-
Antes de penetrarmos ainda mais no estudo da técnica do tão não será mais o ser ignorante e simplório que, errando, vai
fenômeno do erro e sua correção pela dor, será útil resumir contra a Lei, mas se terá tornado, ao invés, inteligente e terá
brevemente o assunto, esclarecendo melhor o significado des- acabado, por isso, com a loucura de cometer erros, deixando
tes conceitos e definindo o valor destes dois impulsos opostos de receber o seu efeito, que é a dor.
que entram em choque. O problema, assim observado de no- Esse choque entre tais impulsos opostos nos mostra, de um
vos pontos de vista, poderá aparecer sob novos aspectos. Em- lado, a loucura do homem querer procurar a felicidade onde é
bora isto possa parecer repetição, voltamos às vezes ao mes- absurdo que ela se encontre e, de outro, a sabedoria da Lei,
mo assunto, isto porque não podemos evitar que, em última que usa a dor como meio seguro para que o ser compreenda
análise, o assunto, em sua substância, seja sempre um só, ou qual é o caminho certo para atingir essa felicidade. De um la-
seja, o nosso universo, além disso nunca há de fato uma ver- do, é lógico que o ser, por causa de sua revolta, seja levado a
dadeira repetição, porquanto não podemos deixar de dizer a percorrer o caminho inverso. De outro lado, é lógico também
mesma coisa de modo diferente, para explicá-la melhor, nem que a Lei, sábia e boa, venha endireitá-lo através do único
podemos deixar de acrescentar alguma observação para ilu- meio possível: a dor, dirigindo-o deste modo para o único ca-
minar o assunto com uma nova luz, a fim de esclarecê-lo minho que leva à felicidade. Dada a estrutura do sistema do
sempre mais, em todos os seus aspectos. universo, é absurdo que a felicidade possa ser encontrada pe-
Um dos efeitos da revolta foi a queda do estado orgânico do los caminhos da revolta à ordem de Deus. É lógico que, pro-
S no estado de separatismo do AS, resultando na pulverização curando a felicidade no AS, isto é, às avessas, com a revolta,
da unidade em muitas unidades menores. Assim, ao invés de em vez da obediência, não se possa encontrar senão o oposto,
permanecerem fundidos na unidade orgânica, os “eus” ficaram isto é, uma felicidade emborcada, ou seja: a dor.
separados uns dos outros, em posição de antagonismo, tal como Esta é a estrutura lógica desse jogo entre os dois impulsos
os encontramos nas diferentes individuações de nosso universo, opostos: o erro, da parte do ser, e a dor, da parte da Lei. O ser
entre elas a personalidade humana. Nestes níveis inferiores, está livre para se movimentar à vontade, mas só dentro das pa-
próximos do AS, vigora o princípio do egocentrismo e do sepa- redes da gaiola de ferro constituída pela Lei. Ele, através da
ratismo, que encontramos em nosso mundo. Esta é a razão pela sua experimentação, tem de aprender livremente a dirigir-se
qual este é regido pela lei da luta. É por isso que o homem, por com exatidão, sem fazer movimentos errados, que o levem a
sua natureza, é espontaneamente levado a agredir e subjugar bater a cabeça contra as paredes. Se agir em harmonia com a
tudo, para que vença somente o seu “eu”. Lei, tudo corre bem, sem choques. Mas, se for contra ela, eis
Que acontece então quando o homem se encontra perante a que surge o atrito chamado dor. Quanto maior for a desobedi-
Lei? Com o seu método, ele entra em choque com tudo, porque ência do ser e o seu desvio fora da ordem, tanto maior será o
não quer colaborar, mas só subjugar e dominar. Enquanto ele impulso oposto da reação por parte da Lei, na forma de dor,
está imerso no seu nível, este método pode ser útil para superar para restabelecer o equilíbrio. Quanto mais baixo o nível evo-
os seres do seu mundo. Mas, quando o homem, rebelando-se lutivo do ser e quanto maior a sua rebeldia contra a ordem, tan-
com este sistema de agressividade pelo triunfo apenas do seu to maior é a reação da Lei, para que tudo volte à ordem. Tudo,
“eu”, enfrenta a Lei, violando-a, então ele, com a sua conduta, automaticamente, equilibra-se em perfeita justiça.
excita uma reação automática em forma de dor, da qual não há O ser é livre e pode cometer à vontade todo os erros que
força que lhe permita fugir. É assim que se realiza a ação sane- quiser. A eles, porém, segue a dor, que queima, e este fato per-
adora através da dor, porque o homem, realizando as suas expe- manece como regra absoluta, à qual ninguém pode fugir. O ser
riências, vai aprendendo pelas reações dolorosas que recebe e, não deseja cair na dor, portanto tem de aprender e seguir as
com isso, adquirindo uma sabedoria que lhe ensina a não mais normas da boa conduta. O S é como um grande relógio que fun-
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 85
ciona com perfeição, porque cada roda está no seu respectivo tinua repetindo-se toda vez que o ser, desobedecendo à Lei,
lugar, funcionando na devida ordem. O AS é um relógio cujas comete um erro. Eis como nasce a luta entre os dois princípios
rodas se deslocaram, emborcando os seus movimentos numa opostos, razão pela qual, no egocêntrico instinto humano de re-
desordem que gera atrito, isto é, dor. Para sair desse estado, o volta, encontramos a origem da dor, que é gerada pelo contraste
ser tem de eliminar, com o seu esforço, estes atritos, que geram e atrito entre a vontade da Lei e essa outra vontade de desordem
o sofrimento. Mas, para eliminar estes atritos, é necessário re- por parte do ser. Este, assim, fica submetido a um processo de
ordenar toda esta desordem, recolocando cada coisa no seu de- constrangimento por parte da Lei, pelo qual, forçosamente, ele
vido lugar e aprendendo a se movimentar ordenadamente. Este tem de voltar à ordem. Tudo isto significa dor, porque, se a re-
duro trabalho pertence ao ser, porque foi ele que, com a revolta, volta, para a Lei do S, foi emborcamento, então a retificação de
gerou a desordem. Os seres são como as rodas de um relógio retorno ao S, para o ser rebelde, criador do AS, representa a ne-
que, saindo da posição correta, passaram a se atritar, gerando a gação da sua afirmação, ou seja, o emborcamento da ansiada
dor, condição na qual se permanece, enquanto todas as partes revolta e a destruição da sua construção: o AS.
não voltarem ao seu lugar de origem, para funcionar em ordem. Eis a íntima técnica do fenômeno erro-dor. O ser, no caso
◘ ◘ ◘ maior da queda e em todos os erros menores repetidos por ele,
Podemos agora compreender quais são as primeiras origens não é ferido pela Lei, mas sim pela sua própria vontade de ferir
e as causas profundas do fenômeno da dor. Quando falamos a Lei. Esta, uma vez que nunca age em sentido destrutivo, não
que a Lei reage contra o rebelde, estamos apenas usando uma faz nada contra o ser, apenas lhe devolve seu próprio impulso
imagem antropomórfica, a fim de facilitar sua compreensão pe- destruidor, deixando-o ricochetear para trás, na direção dele, ao
lo homem, que concebe tudo em função do seu instinto de luta invés de absorvê-lo, como ele desejaria. A completa positivida-
para dominar. A Lei não é um “eu” livre e pessoal que queira de do S constitui uma barreira insuperável, na qual é impossível
dominar alguém, mas sim uma vontade determinística e impes- qualquer penetração de negatividade. É exatamente pela com-
soal, cuja realização se dá automaticamente, cumprindo os pleta positividade do S que nenhuma negatividade pode ser
princípios que a constituem. Por isso não há lugar para se pen- emitida pela Lei, de onde se conclui que não provém da Lei a
sar que exista na Lei uma vontade inimiga específica, no senti- reação negativa recebida pelo ser, mas sim do próprio impulso
do humano de ofensa e reação punitiva, buscando vingança negativo lançado pelo ser contra ela. Não há nem pode ser ge-
contra o ser por ele ter errado. Tal ideia é fruto da forma mental rado no S nada de mal, agressividade, dor e negatividade, qua-
do homem, que concebe tudo à sua imagem e semelhança. A lidades exclusivas do AS, filhas da revolta. É importante com-
Lei não odeia e não pune, apenas restabelece os equilíbrios, preender este conceito, porque, conforme ele nos mostra, a cau-
quando eles são violados. Trata-se somente de um absoluto e sa primeira dos nossos sofrimentos está em nós e em nossa
universal princípio de ordem, que tem de se realizar, regendo o conduta errada, e não na Lei, que nos responde sempre benfaze-
funcionamento de todos os fenômenos. ja, reconstituindo para o nosso bem os equilíbrios violados. Nós
Dada essa estrutura da Lei, há efeitos necessários, já marca- a culpamos porque ela faz isso à nossa custa, com a nossa dor.
dos com antecedência, que têm de se verificar como conse- Mas a Lei não pode deixar de ser justa. Faz parte dos seus invi-
quência de cada movimento, conforme sua natureza. Não se oláveis equilíbrios exigir o pagamento da parte de quem é cul-
pode negar o fato de que vemos a Lei reagir, fazendo aparecer a pado. Explica-se assim como, no terreno da ética, é possível
dor quando violamos sua ordem. Mas, se olharmos melhor, ve- chegar à conclusão de que tanto quem faz o bem como quem
remos que esta reação, ou seja, a dor, é de fato gerada pelo pró- faz o mal acaba por fazê-lo a si mesmo.
prio ser, que, com a sua revolta, age na direção errada e movi- Temos à nossa custa de compreender que levar a desordem
menta os mecanismos da Lei, estabelecendo assim a forma e a da desobediência para dentro do organismo de ordem da Lei é o
medida dessa reação. Este resultado, portanto, é apenas uma maior dos absurdos, que só um ser ignorante pode conceber.
resposta automática e determinística, que se pode calcular com Revolta ou não, nada há que não fique contido na lei de Deus.
antecedência, como estamos fazendo neste volume. Assim, O ser rebelde não construiu para si outra lei, mas somente se
apesar de parecer bastante ativa, trata-se de uma ação passiva, colocou em posição emborcada dentro da organização perfeita
porque a Lei apenas responde ao impulso do ser, nada iniciando do S e dos princípios da Lei.
ou provocando por si mesma. A Lei quer somente se manter em Chega-se deste modo a um resultado que pode parecer es-
sua ordem, reconstruindo os equilíbrios violados. Ela existe pa- tranho, no qual se conciliam duas posições aparentemente in-
ra permanecer imóvel em sua perfeição, sem exigir mais nada, a conciliáveis, ou seja, a Lei permanece perfeitamente justa e, ao
não ser que a vontade livre do ser queira gerar impulsos contrá- mesmo tempo, o ser recebe a sua punição. Ele cai na dor, mas
rios, buscando deslocar seus equilíbrios. Quando isto acontece, não pode culpar a ninguém senão a si mesmo. Nada do mal
a Lei simplesmente os reconstrói. Se isto implica dor, ela se de- que a revolta produziu pode atingir Deus e a sua Lei, mas fere
ve ao ser, que quis deslocar tais equilíbrios. O trabalho e a fun- apenas quem foi a causa desse mal. Triunfa assim a bondade
ção da dor são para que ele aprenda a não os deslocar mais. de Deus, que não nos deixa sofrer, a não ser para nos corrigir,
A Lei é um organismo de ordem perfeito, que ninguém a fim de atingirmos a felicidade. Triunfa a justiça de Deus, que
pode violar. Ela é toda positiva, afirmativa. Nela, não existe a não deixa a dor atingir senão quem a mereceu. Não é necessá-
cisão dualística dos contrários, não há lugar para a negativi- rio que Deus se torne mau para que Sua justiça seja feita. A
dade. Quando erramos, saímos da ordem e, com isso, geramos dor ministra assim a sua lição, respeitando a liberdade do ser e,
um vazio de negatividade, movimentando os impulsos reequi- ao mesmo tempo, fazendo com que tudo seja deterministica-
libradores da Lei, que têm de encher esse vazio, e eles o fa- mente retificado para a salvação. Quando erramos, Deus não
zem da única maneira possível, isto é, à nossa custa, tirando nos pune, lançando-nos num inferno criado por Ele para se
de nós e reabsorvendo o que nós furtamos àqueles equilíbrios. vingar das ofensas recebidas. Essa psicologia é do homem, e
Assim, a positividade tem de ser reconstituída com o nosso não de Deus. A Lei está construída de uma tal maneira, que
esforço e dor, porque se trata de um débito nosso para com a nós mesmos, ao errarmos, geramos com isso nossa punição,
ordem, o qual temos de lhe pagar. lançando-nos no inferno que a nossa desordem criou, para nós
O problema está todo no fato de que a Lei é ordem, e nin- mesmos, na felicidade da ordem da Lei. Tudo ocorre assim de-
guém pode mudar esta realidade. O ser quis substituir esta or- vido à nossa ignorância, e isto é justo, pois ela é o merecido
dem por uma outra, ditada por ele mesmo e oposta, de tipo AS, fruto da revolta, que destruiu a sua qualidade oposta, a inteli-
a qual, para a Lei do S, é desordem. E esse mesmo motivo con- gência, característica do S. Não podemos deixar de ficar admi-
86 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
rados perante tanta sabedoria, e é agradável contemplar a per- de contínuos e desequilibrados deslocamentos no sentido do
feição da Lei, que, soberana, sempre triunfa de tudo. erro, corrigidos depois pela dor.
O único resultado que o ser podia atingir e atingiu foi a efe- Eis de onde nasceu essa oscilação erro-dor, que caracteriza a
tivação, somente para si mesmo, do princípio da desordem e da nossa vida. No reino da revolta, carregado de negatividade, não
luta, pelo qual ele é atormentado. Desde o inicio, dada a estru- é possível um tipo de felicidade contínua, completamente positi-
tura da Lei, a revolta não podia ser senão uma derrota e o re- va, mas somente temporária, como dívida a pagar, sempre mis-
belde senão um vencido. Isto fazia parte da própria lógica do S, turada com o seu termo oposto (AS) no dualismo, isto é, a dor.
na qual não pode haver a possibilidade de Deus ser vencido, Se esta oscilação erro-dor representa os contínuos desloca-
pois, se houvesse, Deus não seria mais Deus. mentos de um estado de desequilíbrio, a Lei está no meio para
Pelo contrário, o que sempre vemos triunfar é a sabedoria equilibrar a cada passo a balança e restituir tudo à ordem con-
Dele. Esta se revela também na revolta, mesmo que esta possa forme a justiça. Quando funciona o erro (revolta), a agulha da
parecer um erro e um defeito do S. A revolta gerou ignorân- balança se desloca para a esquerda, no sentido da negatividade.
cia, luta e sofrimento. Mas eis que, por este caminho embor- Quando funciona a dor (em obediência), a agulha da balança se
cado, a Lei sabe atingir o objetivo oposto, realizando com desloca para a direita, no sentido da positividade, corrigindo e
seus meios o endireitamento, porquanto, com a experimenta- equilibrando assim o deslocamento oposto. É lógico então que,
ção na luta e na dor, desenvolve e reconstrói a inteligência. quanto maior for o erro e seu deslocamento para a esquerda, tan-
Assim, a Lei destrói a ignorância, causa de tanto mal, acaban- to maior terá de ser a dor, isto é, o deslocamento para a direita.
do com o sofrimento, porque o rebelde chega a compreender A medida da dor é estabelecida pela medida do erro. Quanto
que a causa das suas dores está na desobediência e que não há mais o ser, com a revolta, afasta-se da positividade e aprofunda-
outro caminho para conduzi-lo à felicidade, a não ser a obedi- se na negatividade, tanto mais cai no sofrimento, tornando-se
ência na ordem. Desse modo, pela sabedoria da Lei, o cami- maior o trabalho necessário para sair dele. É o homem que, com
nho da perdição, iniciado pelo ser rebelde, tem automatica- a sua conduta errada, determina a quantidade das suas dores.
mente de se endireitar dentro do caminho da salvação. Tanto Nisto ele está totalmente livre, com autonomia para sofrer à von-
no caso maior da queda e do grande ciclo involutivo-evolutivo tade. Mas ele, porque é filho do S, não gosta de sofrimento, e is-
como no caso menor erro-dor, já estudado, a sabedoria da Lei, to é o que constrange o ser para a sua salvação. Ele, livremente,
substituindo ao mal o bem, continua sempre corrigindo e re- não pode deixar de cumprir o duro esforço da subida, porque, se
construindo, lá onde o ser errou e destruiu. não o fizer, terá de sofrer até o fim do seu resgate.
Aquela sabedoria nos mostra que, com a revolta, surgiu não Se o erro representa o afastamento da positividade para a
somente o modelo do fenômeno da queda, mas também do en- negatividade, é lógico que, quanto maior for o erro, ou seja, es-
direitamento-salvação, que corrige o primeiro. Esse segundo te afastamento, tanto maior terá de ser o caminho a percorrer
modelo estava implicitamente contido no primeiro, latente, à para voltar da negatividade à positividade. É lógico também
espera de se tornar atual, tão logo o ser acionasse o botão da re- que, assim como é a negatividade da revolta que destrói a posi-
volta. Em outro lugar, já observamos que o universo – portanto, tividade da obediência à Lei, também é a positividade da obe-
mais perto de nós, também a natureza – funciona por repetição diência que neutraliza a negatividade da revolta e recupera o
dos tipos de fenômenos ou modelos construídos anteriormente, que foi perdido. É sempre a Lei que domina tudo. Ela é o pon-
que voltam depois como hábitos adquiridos e continuam, assim, to de referência em relação ao qual toda revolta que afasta e
ecoando em série na economia do todo. Podemos, por isso, destrói torna-se negatividade e cada dor que reaproxima e re-
considerar o caso erro-dor, que estamos estudando aqui, uma constrói torna-se positividade. Eis o valor e o significado da
repetição menor do modelo do fenômeno da revolta- função de reconstrução dos equilíbrios deslocados. Eis então
endireitamento ou queda-salvação, que estabelece a estrutura do que a dor, para corrigir o erro, neutraliza os efeitos dele, ou se-
objeto de nossas pesquisas atuais. Eis que, antes de enfrentar o ja, ela não somente corrige o erro, mas também se destrói a si
estudo do fenômeno erro-dor, já possuímos seu esquema fun- mesma. Com o seu funcionamento, ela consome, destrói e eli-
damental, dado pelo ciclo queda-salvação, que vemos repetir-se mina a si mesma como negatividade, deixando o lugar livre
aqui nas suas características fundamentais. para o seu oposto, a positividade da alegria. É assim que se re-
Assim como, no ciclo involutivo-evolutivo, o ser está cons- aliza automática e fatalmente a correção do caso particular,
trangido a voltar ao S, para fugir dos sofrimentos que encontrou que, no conjunto, leva à salvação final. Foi possível aqui con-
no AS, ele também está constrangido, no deslocamento de ida e templar a maravilhosa sabedoria da Lei, revelada neste jogo de
volta do fenômeno erro-dor, a retornar à Lei pela dor, que não equilíbrios entre opostos, pelo qual, no contraste entre impul-
pode terminar, enquanto não terminar todo o trabalho de recu- sos contrários, consegue reordenar a desordem através de cho-
peração. Em ambos os casos vigora a mesma lógica, pela qual ques restauradores, que sempre, seja repelindo ou seja atrain-
não se pode fugir aos efeitos do mau funcionamento da máqui- do, impulsionam o ser para a sua salvação.
na, até que seja eliminada a causa, que é a desordem. Para A revolta foi o erro maior, e a evolução representa o esforço
quem sai do caos, não é fácil funcionar organicamente na or- maior que o ser tem de cumprir para corrigir aquele erro. A dor
dem. Com seu próprio esforço, o ser tem de reconstruir a sua é o peso que o ser tem de carregar, percorrendo todo o caminho
inteligência, que é necessária para chegar àquele funcionamen- da subida, e só esse peso de um lado pode equilibrar o outro
to. Ele quer fugir a este esforço, mas não pode e, enquanto, prato da balança, saturado de erro. A involução é corrigida pela
através da sua dura experiência, não reconquistar a inteligência evolução, a louca desobediência é corrigida pela dura obediên-
perdida, ele continuará, com seus movimentos errados, chocan- cia, a culpa tem de ser reabsorvida pelo sofrimento. Cada afas-
do-se com a Lei e recebendo dor. Para se afastar do inferno do tamento da linha da Lei gera uma carência de positividade, um
AS e atingir o paraíso do S, só há um caminho: a evolução. vazio negativo que é necessário encher de novo, se não quiser-
Quem não quiser, com seu próprio esforço, ir em frente e subir, mos ficar para sempre nesse estado, que se constitui de dor. Ela
terá de ficar no sofrimento. Se o ser quer libertar-se da dor, tem nasce da exigência de satisfazer essa carência, da necessidade
de reconstruir para si a ordem que destruiu. de saciar o pedido desse abismo, esfaimado do equilíbrio com-
O binômio erro-dor é um momento do dualismo universal pensador da sua negatividade, em que a vida morre. Por isso a
em que, com a revolta, a unidade do todo se despedaçou. Não dor, no organismo universal, representa a função da recupera-
existe mais uma felicidade duradoura em posição estável de ção, um meio de salvação. Tivemos que explicar tudo isto por-
equilíbrio, mas somente uma felicidade instável, pois é fruto que só assim é possível compreender a função benfazeja da dor,
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 87
o seu valor positivo, o único que lhe podemos atribuir num sis- ajuda, quando a seguimos. No caso oposto, o fracasso é muitas
tema perfeito, como tem de ser o universo regido por Deus. O vezes devido ao peso de uma série de circunstâncias que, de
mundo concebe a dor em sentido oposto, como um empecilho, acordo umas com as outras, obedecem a uma vontade contrária
e não como uma ajuda, como um inimigo, e não como um ami- à nossa, atuando até vencer todos os nossos esforços. Eis aí o
go, isto porque o ponto de referência do homem não é a Lei do outro tremendo imponderável, que se manifesta como um far-
S, mas o seu próprio “eu” rebelde. Esta maneira de conceber às do, dirigido pelas mãos de Deus. Esse imponderável é sempre a
avessas prova que o homem, em relação à Lei, vive em posição Lei, cuja corrente, neste caso, é a vontade inimiga que se rebela
emborcada, que deve ser retificada pela evolução. contra nós, fazendo que recebamos de volta tudo o que semea-
Eis o sentido deste jogo de contradições e compensações mos. É essa nossa revolta que automaticamente nos condena ao
entre os dois opostos, erro e dor, que vamos estudando sempre fracasso. Então o imponderável, isto é, a Lei, ao invés de nos
mais de perto. Por isso chamamos a este volume de Queda e salvar, vem nos arruinar. Explicam-se assim muitos fracassos,
Salvação. Eis a razão pela qual vemos estes dois elementos tanto de indivíduos como de acontecimentos históricos, que, de
contrários e complementares correrem um atrás do outro, como outro modo, seriam inexplicáveis.
inimigos abraçados e indivisíveis, em contínua luta um contra o Tudo isto se refere ao nosso tema atual, do fenômeno erro-
outro, com a única finalidade de colaborarem juntos para a re- dor. A tentativa do ser de procurar a sua utilidade contra a cor-
construção da unidade despedaçada, ponto de partida e de che- rente da Lei se chama: erro. O impulso da Lei para reconduzir o
gada do imenso ciclo da queda e salvação. ser dentro de sua corrente e, com isto, levá-lo para a sua salva-
◘ ◘ ◘ ção, contra a sua vontade, que quer o contrário, produz o atrito
Vamos assim explicando estas verdades tão vivas e tão chamado: dor (o peso do imponderável). A causa é a ação do
pouco conhecidas, que tanto nos tocam de perto e que tão pou- ser. A reação da Lei é o efeito. É lógico que o tamanho do efei-
co levamos em conta em nossa conduta, mas segundo as quais, to seja proporcional ao da causa, isto é, que a medida da dor se-
se errarmos, temos depois de pagar as duras consequências. ja estabelecida pelo homem com o seu erro. É lógico que, quan-
Não há quem não tenha reparado que, na solução dos aconte- to maior for o erro, isto é, o impulso do ser contra a corrente da
cimentos de nossa vida, há uma parte que escapa ao nosso co- Lei, tanto mais ela resistirá e se manifestará com um impulso
nhecimento e vontade, obedecendo a outras forças e leis, que contrário, para arrastar o ser na direção dela. Esta imagem da
chamamos de imponderável. Um imponderável bem ponderá- corrente e, dentro dela, a vontade contrária do ser, oferece-nos
vel nas suas consequências, porque resolve contra os cálculos uma ideia bastante clara do que significa a reação da Lei.
humanos, de modo bem diferente do que pensávamos e deseja- De tudo isto se segue que, quanto mais formos a favor da
ríamos. Qual é o conteúdo desse misterioso imponderável? Es- corrente da Lei, tanto mais fácil será o nosso caminho e tanto
ta outra inteligência e vontade, que está além do conhecimento mais aquela corrente nos ajudará e, por isso, nos fortalecerá.
e vontade do homem, é a Lei. Se o homem conhecesse a Lei, E, ao contrário, quanto mais nos rebelarmos à corrente da Lei
não haveria mais para ele imponderável. Ele está imerso nesta com as nossas tentativas de desvio, tanto mais difícil será o
Lei, que é um mundo de forças poderosas, que dirigem tudo nosso caminho, porque, na corrente contrária, ao invés de aju-
para finalidades bem definidas; forças que reagem contra da, encontraremos resistência, o que nos levará ao fracasso, e
quem, fazendo movimentos errados, viola a sua ordem; forças não ao sucesso. Quanto maior for o nosso erro, tanto mais fra-
contra as quais o homem, pela sua ignorância e espírito de re- gilizados e vulneráveis estaremos e tanto maior será a reação
volta, vai chocando-se a cada passo, para depois ter de pagar. da Lei contra nós, aumentando, nesse embate, nossa amargura
Eis como aparece o binômio erro-dor. e padecimento. O impulso corretor da Lei para reconduzir o
Que acontece então? É lógico que o homem procure a sua ser à ordem é proporcional à desordem gerada pela vontade do
vantagem. Mas os sentidos que o guiam podem facilmente en- próprio ser, que terá de voltar àquela ordem, pois, quanto mais
ganá-lo a respeito da sua vantagem, dirigindo-o para um bem- ele se afastar da Lei, tanto mais esforço terá de fazer para
estar imediato, que representa na verdade um prejuízo futuro. O vencer a corrente contrária, gerando com isso atrito e sofri-
fato é que o homem não sabe qual é para ele a verdadeira van- mento cada vez maiores. Assim, por um automático jogo de
tagem, nem o caminho para atingi-la. Esta, em geral, não é forças, o ser, permanecendo livre, não pode deixar de voltar à
aquela imediata, escolhida por ser a mais visível, mas sim uma corrente da Lei, renegando e reabsorvendo o seu próprio im-
outra, a longo prazo. Então é facílimo que ele escolha o cami- pulso rebelde, porque este impulso é a causa da sua dor, que
nho errado. Acontece então que ele, ao invés de ir ao encontro não irá parar de atormentá-lo, enquanto ele não tiver pagado
da Lei, para que ela venha ao seu encontro, ele vai de encontro tudo e voltado à ordem, em obediência à Lei.
à Lei, de modo que esta reage contra ele. A Lei, que não permi- A conclusão é que, pela própria lógica de todo o processo,
te ser torcida, opõe resistência a quem não segue a sua vontade a dor é o destino dos rebeldes, enquanto a Lei, com a sua cor-
e corrente de forças. Essa resistência contra o ser, que desejaria rente, conduz para o sucesso final aqueles que a seguem. En-
subjugá-las em favor do seu “eu”, é o que chamamos de reação tão o segredo do sucesso está em conhecer a Lei e obedecê-
da Lei. Tal como a corrente de um rio, a Lei representa um im- la. Mas como pode fazer isso o homem que, por ser ignoran-
pulso para que tudo avance na sua direção. E, como tudo o que te, não conhece a Lei e, por ser filho da revolta, é levado à
existe, nós estamos imersos nesse rio, que é a Lei. desobediência? Este organismo de leis, para ele, é um mundo
O resultado de tudo isto é que, se o ser seguir os impulsos de forças desconhecidas, que ele chama de imponderável,
da Lei, acompanhando o seu caminho, ela o envolve em sua como se fosse alguma coisa irreal, fora do seu alcance e da
corrente e assim o ajuda. Mas se, pelo contrário, o ser quiser vida. No entanto é justamente este imponderável a causa
seguir somente os seus impulsos, buscando outro caminho, con- primeira de tudo que depois, na sua fase de efeito, torna-se
forme sua própria vontade, eis que a Lei, com a sua corrente bem ponderável. Eis como o mundo vai amontoando erros
contrária, resiste e, ao invés de ajudá-lo, passa a arrastá-lo e em cima de erros, pelo que tudo tende ao fracasso. Assim,
persegui-lo, porque a vontade dela é que tudo avance para os com tudo funcionando às avessas, contra a corrente da Lei,
seus objetivos. Muitas vezes, o sucesso é devido ao peso de nada se pode colher senão desilusões e sofrimentos.
uma série de circunstâncias que se harmonizam, obedecendo a Trata-se de forças sutis, contra as quais a prepotência do
uma vontade que, embora não seja a nossa, está a nosso favor. homem não tem poder algum. Elas trabalham no íntimo das
Isto nos escapa no que chamamos de imponderável. Mas o coisas, de dentro para fora, e não, como acontece no mundo,
imponderável é a Lei, e a sua vontade é a sua corrente, que nos de fora para dentro. Elas agem lenta e constantemente, desper-
88 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
cebidas na superfície, escapando aos nossos sentidos, tudo desenho geral, que constitui a nossa verdadeira vida, escapa aos
construindo e acumulando em nosso favor, da profundeza para nossos olhos. Só os evoluídos, que aprenderam a olhar nas pro-
cima, como nossas amigas, quando navegamos obedientes à fundezas, vivem conscientemente em função dos grandes ciclos
corrente da Lei, ou tudo roendo e consumindo em nosso preju- da vida, onde se revela mais evidente a presença desses vastos
ízo, operando como nossas inimigas, quando navegamos re- impulsos da corrente da Lei, os quais estamos estudando aqui.
beldes, contra a corrente da Lei. Quanto mais o indivíduo é involuído, tanto mais apertado é o
Os nossos olhos não percebem o movimento do Sol. Mas círculo dos seus horizontes, mais estreita é a visão que ele do-
vemos que ele, ao se pôr, deu a volta em todo o céu. Assim, em mina e menor é o ciclo que ele conhece e regula de sua vida. Os
nossa vida, os acontecimentos amadurecem através de peque- momentos sucessivos ficam separados, isolados um do outro,
nos deslocamentos, imperceptíveis, que, se movidos por um sem o fio condutor que os liga em uma unidade maior, pela qual
impulso constante numa dada direção, acabam por se manifes- são explicados e justificados como elementos de um plano geral,
tar em efeitos gigantescos, como uma avalanche. A vida se de- que confere outro sentido à vida. É para atingir esse outro modo,
senvolve com a soma de instantes que perfazem minutos, minu- mais profundo, de concebê-la, que vamos aqui estudando o fun-
tos que perfazem horas, horas que perfazem dias, dias que per- cionamento da Lei e as consequências de nossos erros a seu res-
fazem meses e anos, anos que perfazem vidas inteiras, séculos, peito. Se, em vez de considerarmos os acontecimentos de nossa
milênios etc. No tempo vigora também o princípio das unidades vida como momentos divididos e isolados um do outro, passar-
coletivas, que vemos manifestar-se no espaço, através da união mos a vê-los como trechos unidos ao longo de um mesmo fio
de partículas elementares para construir átomos, de átomos para condutor, que os liga num desenvolvimento lógico comum, apa-
formar moléculas, de moléculas para formar células, e depois recerá para nós uma outra vida a longo prazo, na qual se torna
órgãos, organismos, famílias de seres, cidades, nações, huma- visível, além dos pormenores do momento, as grandes linhas de
nidades etc., tal como as moléculas da matéria compõem jazi- nosso destino. Veremos então aquilo que o homem comum,
das geológicas, planetas, sistemas solares, galáxias, sistemas imerso nas particularidades de sua vida, não consegue perceber;
galácticos etc. Assim, em todos os campos, cada elemento me- veremos a presença da Lei e o funcionamento do imponderável,
nor, associando-se com outros iguais, constrói uma unidade co- realizando os princípios que aqui sustentamos.
letiva maior, que, por sua vez, jungindo-se a outras iguais, for-
ma uma nova unidade coletiva ainda maior, e assim por diante. VII. MECANISMO DA CORREÇÃO DO ERRO
Cada unidade, portanto, resulta constituída pela junção de
partes elementares menores e, tanto no espaço como no tempo, Tomemos novamente as nossas pesquisas, continuando a
organiza-se conforme o mesmo modelo de agrupamento de ele- desenvolver o tema do Cap. I, a respeito do esquema gráfico
mentos por ritmo de ciclos, em que a composição das unidades do processo involutivo-evolutivo, e o tema do Cap. IV, a res-
menores edifica a unidade maior. Deste modo, assim como se peito dos diversos pontos de referência. Voltemos assim à
organizam no espaço os planetas, os sistemas planetários, sola- nossa figura, para observar outros aspectos do fenômeno que
res, galácticos etc. e, no terreno da vida, os grupos humanos, as ela representa. No Cap. I, observamos o caso geral do ciclo
humanidades e sistemas de humanidades, também o desenvol- completo nos seus dois caminhos, abrangendo a ida e a volta.
vimento dos nossos destinos se realiza pelos intervalos mínimos No Cap. IV, observamos o fenômeno menor, que se repete,
de cada minuto, que, juntando-se, produzem deslocamentos de conforme o mesmo modelo, no caso particular de cada erro do
horas, dias, anos, séculos, sempre maiores, tudo ordenadamente, ser. É neste ponto que o ser, ao errar, é corrigido pela reação
segundo um ritmo de ciclos menores incluídos em ciclos maio- da dor. Desponta assim a necessária forma orientadora para
res, estes em outros ainda maiores, até se cumprir o destino mai- dirigir a sua conduta, entrando no terreno específico da ética.
or do ser, que é perfazer o ciclo da queda e salvação. Observemos este fenômeno, representado na sua expressão
Criados pela corrente da Lei, cada deslocamento mínimo gráfica, em nossa figura. Continuamos dessa forma levando as
vai se somando ate produzir um deslocamento maior, que, so- teorias dos dois livros, Deus e Universo e O Sistema, às suas
mando-se a outros maiores, gera outro ainda maior etc. Trans- consequências práticas e aplicações.
corre assim uma quantidade de ciclos miúdos, que constituem Estudamos na primeira parte do Cap. IV o caso simples de
os maiores e que, pela sua pequenez, passam despercebidos. um deslocamento horizontal nos seus dois movimentos, de ida e
Mas não há instante de nossa vida em que um destes desloca- volta. Já conhecemos o significado das expressões gráficas da
mentos não se realize, amadurecendo alguma coisa. Assim, por figura, dadas pela linha do erro NN1 e pela linha da dor N1N, in-
sucessivos movimentos imperceptíveis, do nascimento chega- versas e complementares. A primeira representa a vontade do
mos à velhice e à morte. Mas, a cada momento, nada vemos se ser, que quer o emborcamento e dirige-se da positividade para a
alterar, parecendo tudo imóvel, como o Sol no céu. Porém, no negatividade. A segunda representa a vontade de Deus, que quer
fim, vemos que tudo mudou, o mundo se transformou, muitos a retificação e dirige-se da negatividade para a positividade. Se
desapareceram e não conhecemos a nova geração, porque nós escolhemos como ponto de referência o ser, a primeira linha re-
mesmos nos tornamos diferentes. Acumulando incontáveis presenta a satisfação do rebelde, que realiza a sua vontade de
transformações mínimas, porém constantes e dirigidas sempre vencer contra Deus, enquanto a segunda representa o sofrimento
no mesmo sentido, uma mudança profunda se realizou. do rebelde, que tem de renegar a sua vontade de revolta para
Os olhos míopes de nossa forma mental, feita para ver as obedecer à vontade de Deus. Se escolhemos como ponto de re-
coisas miúdas da vida, percebem apenas as linhas deste dese- ferência a Lei, a primeira linha representa o caminho que, com a
nho menor, escapando-lhe a visão maior, do esquema geral. Fi- violação da Lei, vai para a desordem, enquanto a segunda repre-
camos fechados no pequeno ritmo de nossa vida de cada dia, senta o caminho que, em obediência à Lei, volta à ordem. Como
sem nos apercebermos do ciclo maior do qual ela faz parte. Co- já dissemos no Cap. IV, o fenômeno pode ser observado em
nhecemos bem o ciclo quotidiano do trabalho, das refeições, do função destes dois diferentes pontos de referência, tanto de Deus
repouso, do dia e da noite, mas não sabemos para onde tudo is- e Sua Lei, como do ser rebelde e sua vontade de revolta, pontos
to avança. Vivemos a realização de princípios gerais que nos opostos, que representam os dois polos do dualismo universal.
escapam. Efetuamos amadurecimentos que nos levam para bem Procuremos agora compreender como funciona o mecanis-
longe, atravessando transformações profundas. Estamos desen- mo da correção do erro pela dor. A coluna central do fenômeno
volvendo o nosso destino, e de tudo isto não vemos senão uma da queda é representada pelas duas linhas XY e YX. A primeira
sucessão de pormenores miúdos e episódios desconexos, cujo representa o desenvolvimento do impulso negativo da revolta,
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 89
devido à vontade do ser; a segunda representa o desenvolvi- de revolta sem ter de chocar-se com a reação da dor. Como já
mento do impulso positivo do endireitamento, devido à vontade mencionamos, observamos até agora apenas o caso mais sim-
de Deus. O primeiro deslocamento XY quer destruir a positivi- ples, dado pelo deslocamento horizontal, em que as duas linhas,
dade, dirigindo-se para a negatividade; o segundo quer destruir a do erro e a dor, são iguais entre si e perpendiculares à linha da
a negatividade, reconstruindo a positividade. O primeiro movi- Lei. Observemos agora o caso em que a linha do erro não se
mento vai contra Deus, o segundo vai contra o ser. Por isso o afasta em sentido horizontal, perpendicular à linha da Lei, mas
primeiro é erro, e o segundo é dor. É erro a revolta para embor- sim em direção oblíqua. Temos de considerar primeiro a linha
car a vontade de Deus. É dor o endireitamento que emborca a do erro, que expressa o impulso gerador do fenômeno e estabe-
vontade do ser. Este, com a dor, recebe de volta o seu próprio lece a forma do seu desenvolvimento, definindo a medida da li-
impulso de emborcamento, que volta, no fim, contra o próprio nha da dor e suas consequências.
ser. Assim ele mesmo, que, com a revolta, quis torcer a Lei, fi- A linha do erro pode então ser oblíqua em duas direções:
ca constrangido por ela à obediência. 1) Dirigindo-se para o alto, isto é, para o S; 2) Dirigindo-se
O caminho da evolução não é pacífico, mas se realiza no para baixo, isto é, para o AS. Como poderemos então calcular
choque entre essas duas forças contrárias. Isto representa o es- qual será a correspondente linha da dor, que leva o ser de vol-
forço da reconstrução que o ser tem de realizar contra a sua ta à linha da Lei?
própria vontade de destruição. O ser tem de percorrer o cami- Aqui, a direção oblíqua introduz no fenômeno novos ele-
nho YX da evolução, constrangido pela dor, contra a sua von- mentos, já que ela implica um deslocamento não somente late-
tade rebelde, que é de se afastar do S, e não de retornar a ele. ral, de afastamento da linha da Lei, como no primeiro caso, mas
Eis que chegamos ao ponto chave do problema e podemos também um deslocamento que se repercute ao longo da linha
compreender porque nasce o erro, isto é, a causa primeira do vertical, seja no sentido de subida ou no de descida. Assim, se a
que se chama culpa ou pecado. A posição do ser situado ao posição oblíqua for dirigida para o alto da figura, então a linha
longo do caminho YX da evolução representa um contraste do erro terá percorrido também um trecho da linha da Lei em
entre o impulso da Lei, que impele o ser para o S, e o impulso sentido evolutivo, para o S, mas, se a posição oblíqua for diri-
do ser, que opõe resistência, porque ele, pelo contrário, quer gida para baixo, então a linha do erro terá percorrido também
dirigir-se para a realização do AS. A vontade da Lei é levar o um trecho da linha da Lei em sentido involutivo, para o AS.
ser para o ponto X. A vontade do ser é realizar a plenitude da Nestes dois casos, que chamaremos 2o e 3o casos – tendo em
sua revolta no ponto Y. vista o primeiro, horizontal, já estudado – o desvio adquire e
Disto se segue: 1) A linha do erro NN1 é produto da vontade representa valores diferentes, porque não se trata mais, como no
do ser contra a da Lei; 2) A linha da dor N1N é produto da von- 1o caso, apenas de um afastamento da linha da Lei, enquanto
tade da Lei contra a do ser; 3) Este deslocamento lateral NN1N é tudo permanece sempre à mesma altura na escala da evolução,
da mesma natureza do deslocamento maior XYX, do qual se isto é, à mesma distância e na mesma posição em relação tanto
apresenta como um caso menor; 4) Cada erro ou pecado repre- ao S como ao AS. Nestes dois casos, pelo contrário, o desloca-
senta uma tentativa de revolta contra o S, para se aproximar do mento da linha do erro, sendo oblíqua, gera também correspon-
AS, e tem origem na vontade do ser rebelde à ordem de Deus, dentes deslocamentos na posição ao longo da linha da Lei. Mais
surgindo como efeito desse impulso de emborcamento e consti- exatamente, no 2o caso (oblíquo em subida), verifica-se um des-
tuindo uma queda menor, da qual é necessário depois recuperar locamento de aproximação para o S, com todas as respectivas
com a dor; 5) O deslocamento lateral NN1 representa um desa- vantagens como consequência evolutiva, enquanto, no 3o caso
bafo da vontade rebelde do ser, que quer ir contra a vontade da (oblíquo em descida), verifica-se um deslocamento para o AS,
Lei e, para atingir a satisfação de sua vontade, segue o caminho com todas as respectivas perdas como consequência involutiva.
de menor resistência, afastando-se no sentido lateral porque, Assim, no desenvolvimento do processo de correção e endirei-
nesta direção, encontra menor resistência do que se retrocedesse tamento, é necessário então, para chegar a conhecer quais são
diretamente contra a vontade da Lei, no sentido vertical para Y. os seus resultados finais, levar em conta e calcular o valor de
Este é o caso mais simples, que estudamos primeiramente. todos esses movimentos, que vemos expressos pelo compri-
Mas veremos agora casos diferentes e mais complexos, cujos mento das linhas apresentadas na figura.
afastamentos não são horizontais, mas sim oblíquos, tanto para Aqui, a trajetória de retorno ou linha da dor não é constitu-
cima como para baixo, e nos quais, por conseguinte, prevalece ída somente pela contrapartida igual à linha do erro, mas sim
em maior ou menor medida o impulso da vontade rebelde do por um caminho mais longo e complexo, no qual aparecem ou-
ser contra a vontade da Lei. tros elementos, cujo valor é necessário definir. Enfrentemos
O ser, impulsionado por sua vontade de revolta – dirigida pa- então o problema mais de perto, observando as suas diferentes
ra o AS, contra a vontade oposta da Lei, que quer levá-lo para o posições em nossa figura. Ela nos apresenta três modelos ou
S – procura uma saída para solucionar esse contraste, por meio casos fundamentais:
de um compromisso que lhe permita atingir a sua satisfação. 1o) O primeiro caso representa o afastamento horizontal, de
Uma vez que o caminho de retrocesso para o AS ao longo da li- que já falamos. Ele está expresso pelo percurso NN 1N, isto é,
nha XY apresenta uma resistência muito maior, ele busca, então, pelo mesmo comprimento da linha verde do erro e da linha
empregar o menor esforço possível para ir contra a vontade da vermelha da dor. A primeira linha nos expressa a medida do
Lei, que o aperta do outro lado, a fim de levá-lo ao S. Do con- afastamento para fora da linha da Lei, ou caminho percorrido
traste entre esses dois impulsos opostos nascerão, segundo a po- em sentido negativo na ida, e tem amplitude igual à segunda li-
tência do impulso de revolta do ser, diferentes modelos ou tipos nha, que nos expressa a medida do trabalho de reaproximação à
de afastamento, como agora estudaremos. Veremos que as li- linha da Lei, ou caminho a percorrer em sentido positivo de
nhas do erro e da dor tomarão posições, medidas e valores dife- volta. A fórmula deste 1o caso é:
rentes, mas sempre obedecendo ao mesmo princípio de equilí- NN1(−) = N1N(+)
brio que rege o caso mais simples NN1N, já observado por nós,
princípio pelo qual sempre há uma exata correspondência e 2o) O segundo caso representa o afastamento oblíquo em
compensação entre a amplitude do erro e a dor recebida. subida. Aqui, o problema se torna mais complexo, porque po-
Estudaremos assim, em vários dos seus aspectos, esse fe- demos encontrar muitas posições e relações diferentes entre as
nômeno pelo qual o ser tenta buscar saídas laterais para escapar duas linhas, a do erro (−) e a da dor (+), a segunda encarregada
ao impulso corretor da Lei, a fim de realizar sua própria vonta- de neutralizar a primeira. Para simplificar, escolhemos na figu-
90 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
ra só duas posições principais, pois todas as outras representam frer por esse caminho, neutraliza o erro e, recuperando o que
apenas possíveis variações destas. Cada posição pode ser ex- perdeu, aproxima-se de novo da Lei, onde está a felicidade.
pressa pela sua fórmula. Aqui, quando falamos de dano ou vantagem, o nosso ponto
a) Posição a, do 2o caso. Esta posição de afastamento oblí- de referencia é o mais importante, isto é, Deus, o S, a Lei. É aí
quo em subida resulta do percurso NN2N3. Uma vez que a linha e somente aí que se encontra o único verdadeiro bem do ser, e
do erro é em subida, o caminho reconstrutor pela dor acaba no não no gozo momentâneo e ilusório, que rouba à justiça da Lei
ponto final N3, e não no ponto de partida N, como no 1 o caso. e, por isso, é dívida a pagar, cujo pagamento leva ao estado
Assim, neste caso, o deslocamento lateral do erro implica tam- completo e definitivo da sua felicidade.
bém na trajeto NN3, percorrido em subida, em sentido positivo, Este novo modo de equacionar o problema em direção oblí-
evolutivo, ao longo da linha da Lei, em favor do ser, pois tudo qua, com a consequente inclinação da linha do erro em relação
que o leva para o S representa uma vantagem para ele. à linha da Lei, introduz no fenômeno elementos e valores no-
b) Posição b, do 2o caso. Esta posição resulta do percurso vos, que é necessário levar em conta e definir. Nestes dois ca-
NN4N5 e é semelhante à precedente. A diferença está apenas no sos, 2o e 3o, não há somente a linha do afastamento lateral, do
fato de que, sendo o afastamento ainda mais oblíquo em subida, erro, mas verifica-se também um deslocamento no sentido ver-
tornam-se mais intensas, acentuadas com maior evidência, as tical, ao longo da linha da Lei. Se esse deslocamento é em su-
qualidades do caso precedente ou posição a. Uma vez que a li- bida, para o S, ele se resolve num caminho percorrido no senti-
nha do erro é ainda mais íngreme em subida, o caminho recons- do da obediência, mas, se é em descida, para o AS, então ele se
trutor pela dor não acaba no ponto final N 3, mas no ponto N5. resolve num caminho percorrido no sentido da revolta.
Assim, neste caso, o deslocamento lateral do erro implica tam- Assim temos agora de calcular não somente os valores da
bém no trajeto NN5, percorrido em subida, em sentido positivo linha do erro no sentido da negatividade e da linha da dor no
evolutivo, ao longo da linha da Lei, em favor do ser, porém sentido da positividade, mas também, no 2o caso, os valores po-
maior que o precedente NN3. sitivos construtivos, produto do deslocamento ao longo da linha
3o) O terceiro caso representa o afastamento oblíquo em da Lei em subida (evolução), e, no 3o caso, os valores negativos
descida. Aqui, nos encontramos nos antípodas do 2o caso, pre- destrutivos, produto do deslocamento ao longo da linha da Lei
cedente. O mesmo processo se repete, mas às avessas, em for- em descida (involução). O valor do resultado final, atingido pe-
ma emborcada, gerando, por isso, valores opostos. Aqui tam- lo ser nestes dois casos, será obtido através da comparação en-
bém, como acima, para simplificar, escolhemos só duas posi- tre o valor expresso pelo comprimento do conjunto de todas as
ções principais, deixando as outras possíveis posições interme- linhas positivas de um lado e o valor do conjunto de todas as li-
diárias, que são apenas variações. Igualmente, neste caso, cada nhas negativas do outro, ou ao contrário.
posição pode ser expressa pela sua fórmula, como veremos. Nestes dois casos, temos então de observar os comprimen-
a) Posição a, do 3o caso. Esta posição do afastamento oblí- tos de 4 linhas, que nos expressam e dão a medida do conteúdo
quo em descida resulta do percurso NN6N7. Uma vez que a li- e valor delas.
nha do erro, desta vez, é em descida, o caminho reconstrutor 1) A linha do erro (−), oblíqua, de afastamento da linha da
pela dor acaba no ponto final N7, e não no ponto de partida N. Lei, em subida (2o caso), ou descida (3o caso).
Assim, neste caso, o deslocamento lateral do erro implica tam- 2) A linha da dor (+), horizontal, de volta, dirigida para a
bém no trajeto NN7, percorrido em descida, em sentido negati- linha da Lei.
vo, involutivo, ao longo da linha da Lei, em prejuízo do ser, 3) A linha vertical ao longo da linha da Lei, em subida, no
pois tudo que o leva para o AS representa um dano para ele. sentido positivo, dirigida para o S, como no 2 o caso. Poderemos
b) Posição b, do 3o caso. Esta posição resulta do percurso chamá-la de linha da obediência.
NN8N9 e é semelhante à precedente. A diferença está apenas no 4) A mesma linha vertical, mas em descida, no sentido ne-
fato de que, sendo o afastamento ainda mais oblíquo em desci- gativo, dirigida para o AS, como no 3o caso. Poderemos chamá-
da, tornam-se mais intensas, acentuadas com maior evidência, la de linha da revolta.
as qualidades do caso precedente ou posição a. Uma vez que a Então o resultado final do processo do 2 o caso será dado pe-
linha do erro é ainda mais íngreme em descida, o caminho re- la soma do comprimento das linhas de sinal positivo (neste caso
construtor pela dor não acaba no ponto final N 7, mas no ponto maiores), isto é, a linha da dor (+), mais a linha da obediência
N9. Assim, neste caso, o deslocamento lateral do erro implica (+), menos a linha do erro (−), neste caso a linha menor. Assim,
também no trajeto NN9, percorrido em descida, em sentido ne- agora prevalecem e vencem os valores positivos. No 3 o caso,
gativo, involutivo, ao longo da linha da Lei, em prejuízo do ser, pelo contrário, o resultado final do processo será dado pela so-
porém maior que o precedente NN7. ma do comprimento das linhas de sinal negativo (neste caso
Eis o esquema geral dos três casos e suas posições. Entrando maiores), isto é, a linha da erro (−), mais a linha da revolta (−),
em outros pormenores, explicaremos mais adiante tudo melhor. menos a linha da dor (+), neste caso a linha menor. Assim, ago-
◘ ◘ ◘ ra prevalecem e vencem os valores negativos.
Analisemos agora os conceitos acima mencionados, para Qual é mais exatamente o significado contido nestas linhas?
compreender o seu significado e ver a que realidade eles cor- A linha do erro expressa a nossa direção errada na procura
respondem. Vigora sempre, em todo o momento do fenômeno, da satisfação de um desejo fundamentalmente legítimo, para
o contraste entre as duas forças opostas: o impulso da negativi- atingir a felicidade, porque para isso fomos criados. O caminho
dade, devido à vontade de revolta do ser, dirigido para o AS, e certo para ela é dado pela Lei, que vai direto para o S. Todos os
o impulso da positividade, devido à vontade de ordem da Lei, outros caminhos são errados. É lógico porém que, como está
dirigido para o S. Na figura, tudo que é negativo está marcado expresso na figura, quanto mais oblíqua é a linha do erro e, com
em cor verde e com o sinal “−”, enquanto tudo que é positivo isso, quanto menor o afastamento para longe da linha da Lei,
está marcado em cor vermelha e com o sinal “+”. tanto menor tem de ser o comprimento da linha da dor, que é de
O impulso da negatividade gera a linha do erro, e o da posi- correção do erro e retorno à Lei.
tividade gera a linha da dor. Então a linha verde do erro, de sinal Mas o fenômeno não se esgota só com estas duas linhas, a do
“−”, representa o dano do ser, pois ele, por esse caminho, apesar erro e a da dor. Se a primeira expressa a procura da felicidade
de correr atrás de gozos efêmeros, afasta-se da Lei, que repre- em sentido errado, e a segunda a correção de tal erro pela peni-
senta a sua verdadeira felicidade. E a linha vermelha da dor, de tência da dor, as duas linhas que, no 2 o e 3o casos, aparecem
sinal “+”, representa a vantagem do ser, porque ele, apesar de so- em sentido vertical, não são afastamentos para longe do caminho
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 91
correto da linha da Lei, mas constituem um deslocamento verti- damentais deslocamentos evolutivos ou involutivos, cujo resul-
cal, que se dirige, no 2o caso (obediência), direto para o S e, no tado é de construção e adiantamento para o nosso bem, ou de
3o caso (revolta), direto para o AS. Nestes dois casos, não se rea- destruição e retrocesso, dano que depois é necessário pagar com
liza apenas uma fuga para longe do caminho da Lei, como na li- um novo trabalho de reconstrução e recuperação. Neste último
nha do erro, mas também um caminho direto ao longo da linha caso, ao erro se junta a culpa da revolta. Isto se verifica quando
da Lei, seja para Deus, seja contra Deus para o Anti-Deus. Nes- se faz o mal de propósito, com conhecimento e vontade de fazer
tes dois casos, uma vez que o ser, em vez de agir no sentido de o mal. No 2o caso, em subida, existe somente o erro, onde a von-
se afastar da linha da Lei, permanece dentro e percorre um tre- tade, ao invés de revolta, é, pelo contrario, de obediência, que
cho dela, repete-se então o motivo fundamental da primeira re- contrabalança o afastamento da Lei, levando para o alto, e não
volta e queda para o AS, se o ser vai em descida, e o motivo da para baixo. Esta boa vontade de, embora errando, seguir a Lei
obediência e salvação para o S, se ele vai em subida. significa introduzir no fenômeno uma dada percentagem de po-
Podemos agora compreender como se desenvolve o fenô- sitividade, capaz de neutralizar a negatividade do erro. No 3o ca-
meno. No 2o caso, a linha do erro não se resolve só em puro so, a má vontade da revolta contra a Lei significa introduzir no
valor negativo de erro, mas também, pelo fato de ser dirigida fenômeno ainda mais fatores de negatividade, que se somam aos
para o alto, resulta corrigida pelo valor da linha da obediência, elementos negativos do erro. O ser também é responsável pelo
que, com a sua positividade, neutraliza a negatividade da linha erro cometido sem vontade de revolta, e isto é justo, pois o erro
do erro, resolvendo o caso com uma linha de dor proporcio- se deve à sua ignorância, consequência da queda, que foi o fruto
nalmente menor. da sua vontade de revolta. É justo então que o ser também tenha,
No 3o caso, pelo contrário, a linha do erro não somente fica à sua custa, de resgatar esse erro pela dor.
com o seu valor negativo de erro, não corrigido pelo valor de al- ◘ ◘ ◘
guma linha positiva de obediência, mas também, pelo fato de ser Analisemos ainda mais de perto o problema, escolhendo
dirigida para baixo, resulta aumentada, porque soma a sua nega- agora como ponto de referência a verdadeira vantagem ou pre-
tividade com a da linha da revolta, resolvendo o caso com uma juízo do ser.
dor proporcionalmente maior, porque funciona duas vezes, uma Com a ajuda de nossa figura, procuramos chegar ao cálculo
para corrigir o afastamento do erro, voltando à linha da Lei, e geométrico dos fenômenos da ética. Colocamos aqui os seus
outra para corrigir a revolta, percorrendo em subida o caminho princípios fundamentais, suscetíveis de desenvolvimento com
percorrido em descida, involuindo. Para neutralizar a negativi- teoremas, demonstrações e conclusões racionais.
dade de duas linhas em descida, seria necessária a presença de Voltemos a observar o 2o e o 3o caso, nas suas duas posições
um correspondente caminho positivo, isto é, de uma linha da dor „a‟ e „b‟, para resolvê-los em termos de débito ou crédito da
maior, a fim de neutralizar a linha do erro mais a linha da revol- parte do ser.
ta. É lógico que os valores negativos destruidores não podem ser 2o caso: Poderíamos chamar este caso de favorável, porque,
levados ao seu endireitamento e correção, senão pela sua neutra- sendo o caminho das linhas positivas maior do que o das nega-
lização por um correspondente peso de valores positivos, atuan- tivas, o balanço se fecha em vantagem do ser.
do no sentido da reconstrução. Temos então neste 3 o caso uma Posição „a‟ do 2o caso: O cálculo, neste caso, baseia-se so-
dupla linha de correção. Ela se realiza em dois momentos: 1) A bre três linhas: 1) A linha verde negativa do erro, NN 2; 2) A li-
linha do erro (−) resulta corrigida pela linha da dor (+), que se nha vermelha positiva da dor, N2N3; 3) A linha vermelha posi-
desenvolve em sentido horizontal; 2) O trecho que, pela inclina- tiva da evolução ao longo da linha da Lei, NN3. Na balança en-
ção da linha do erro, foi uma descida tornou-se, com isso, tam- tre os valores negativos e os positivos, vencem os positivos,
bém linha de revolta, e esta, para ser corrigida, tem de ser per- uma vez que estes são representados por duas linhas contra uma
corrida de novo às avessas em subida, como linha de obediência, só negativa. Do lado da negatividade, temos a linha NN 2(−). Do
fato que, como veremos, representa um valor diferente. lado da positividade temos:
É necessário compreender que o impulso gerador da linha
[N2N3(+)] + [NN3(+)]
da revolta não é da mesma natureza que o da linha do erro. Es-
ta, como há pouco mencionamos, deriva de um desejo de feli- Então a linha do erro (−) fica compensada por duas linhas
cidade, o qual, por si só, não constitui um impulso errado, pois de sinal oposto, a linha da dor (+) e a da obediência (+). A dife-
pertence ao ser como seu direito fundamental, que ele possuía rença entre o caminho de destruição e o de reconstrução de va-
em seu estado de origem, como cidadão do S. Esse impulso, lores é no sentido positivo. Então o movimento todo, no seu
portanto, pertence à positividade. O que o torna errado é a sua conjunto, resolve-se em proveito do ser, porquanto a soma das
direção, que, afastando-se da linha da Lei, o leva à negativida- duas linhas positivas é maior do que a negativa.
de, na medida em que se distancia. A linha da revolta, por sua A fórmula da posição „a‟ do 2o caso tem de exprimir a van-
vez, tem como princípio psicológico o egocentrismo separatista tagem (+) em termos de valores positivos em favor do ser, as-
contra Deus, para substituir-se a Ele. Trata-se então, pelo con- sim como, no 3o caso, que é o oposto, a respectiva fórmula tem
trário, de um impulso fundamentalmente errado, completamen- de exprimir, como veremos, o dano do ser (−) em termos de va-
te negativo, porque dirigido somente ao emborcamento do S no lores negativos. Desse modo, enquanto, no 1o caso, os dois va-
AS, para a derrota de Deus e a vitória do Anti-Deus. Neste ca- lores opostos, + e −, são iguais e se equilibram, há neste 2 o caso
so, não se trata de erro, mas sim de revolta. Este não é um da- uma diferença em sentido positivo favorável, de vantagem, co-
queles pecados comuns de nossas vidas, e sim o maior. Trata-se mo também é lógico que haja no 3o caso, oposto, uma diferença
da rebeldia que gerou a queda, um pecado que a criatura não em sentido negativo contrário, de prejuízo.
comete contra si mesma, mas sim contra Deus. Se a linha do er- Expressemos com a letra V(+) o conceito dessa vantagem.
ro representa o princípio do afastamento, a linha da revolta ex- Ela significa tudo o que o ser ganha em sentido de positividade,
pressa o princípio do emborcamento total. Este é o pecado de como subida do AS para o S, em termos de evolução e do cor-
Lúcifer, pecado de orgulho, que tenta agredir a Deus para des- relativo melhoramento. Então a fórmula resolutiva da posição
truí-Lo. Não se trata da comum fraqueza humana, que toma o „a‟ deste 2o caso é a seguinte:
caminho errado na busca do gozo, mas de uma revolta consci-
V(+) = [N2N3(+) + NN3(+)] − NN3(−)
ente, feita de propósito, para atingir a sua finalidade subversiva.
Seja em subida com a linha da obediência (2o caso), seja em Posição „b‟ do 2o caso. Nesta outra posição se repete em
descida com a linha da revolta (3o caso), trata-se sempre de fun- medida e evidência maiores o que temos observado a respeito
92 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
da posição „a‟ do mesmo caso. A fórmula contém os mesmos comprimento da linha da dor (dano) e um progressivo aumento
elementos, porém ainda mais deslocados para os valores positi- do comprimento da linha do progresso em subida (vantagem).
vos em favor do ser. Aqui selecionamos só estas duas posições Esta tendência nos leva a considerar a posição limite deste
„a‟ e „b‟, para simplificar. Mas é possível imaginar entre elas processo, a qual poderíamos chamar de posição „c‟ deste 2o ca-
quantas posições intermediárias quisermos, conforme a medida so. Isto significa que o fenômeno está dirigido para conquistar
de deslocamento de valores que escolhermos. uma quantidade de valores positivos sempre maior, em vanta-
Aqui, o cálculo também se baseia sobre três linhas: 1) A gem do ser, e para uma quantidade de valores negativos cada
verde negativa do erro, NN4, 2) A vermelha positiva da dor, vez menor, à custa e em dano do ser. Não há somente o fato de
N4N5; 3) A vermelha positiva da evolução, ao longo da linha que os primeiros funcionam em favor do ser, como resgate do
NN5. Igualmente vencem aqui os valores positivos, representa- seu erro, mas há também, ao mesmo tempo, uma diminuição
dos por duas linhas contra só uma negativa. Do lado da negati- progressiva do comprimento da linha da dor.
vidade, temos a linha NN4(−). Do lado da positividade, temos Ora, é claro que, se levarmos esse processo até ao seu caso
[N4N5(+)]+[NN5(+)]. Novamente, a diferença é no sentido posi- limite, atingiremos uma posição na qual a quantidade dos valo-
tivo, e o movimento todo se resolve em proveito do ser. Então a res positivos conquistados será máxima e, portanto, também
fórmula resolutiva da posição „b‟ deste 2 o caso é a seguinte: máxima será a vantagem do ser, ficando anulada a quantidade
dos valores negativos e, com isso, o dano do ser. Acontece que,
V(+) = [N4N5(+) + NN5(+)] − NN4(−)
no fim, a linha da dor desaparece e o erro deixa de ser erro, mas
Algumas observações. Observamos que, quanto mais verti- só uma tentativa bem sucedida que se resolveu em progresso no
cal e menos obliqua é a linha do erro e, com isso, menor o seu caminho de subida. Isto é lógico, porque a crescente inclinação
afastamento da linha da Lei, tanto mais diminui o comprimento da linha do erro para o alto, cada vez mais a aproxima da linha
da linha da dor e aumenta a linha do progresso em subida, isto da Lei, até anular todo afastamento e, com isso, a linha da dor,
é, o comprimento do trajeto percorrido em sentido evolutivo, que é a sua consequência, porque representa o caminho de volta
em favor do ser. Isto significa que: 1) Diminui sempre mais o à Lei. É lógico que, não havendo mais afastamento, não haja
caminho de volta para a Lei (dor); 2) O ser realizou um traba- também a linha da dor. Neste caso limite, o fenômeno chega
lho útil de progresso ao longo da linha da Lei, em seu proveito. então a uma posição na qual não há mais afastamento, nem dí-
Não esqueçamos a observação feita há pouco, de que estu- vida a pagar, nem dano e dor para o ser, nem valores negativos
damos aqui o fenômeno em função da vantagem ou do dano do a resgatar, mas somente a vantagem da evolução realizada. Este
ser, sendo estes, portanto, os nossos pontos de referência agora. é o caso de santos como Agostinho e Francisco de Assis, peca-
Na posição „a‟ do 2o caso, temos então que, se, para corrigir dores na sua juventude, que souberam tirar do erro a experiên-
o erro expresso pelo comprimento da linha NN2, é necessária a cia útil para realizar um progresso espiritual e, assim, alcança-
dor expressa pelo comprimento da linha N2N3 (dano), ao mesmo ram um nível de vida mais alto.
tempo o ser percorreu em sentido evolutivo o comprimento da ◘ ◘ ◘
linha NN3, em seu proveito. No 1o caso, NN1N, o ponto de che- Continuemos agora analisando este mesmo processo nas su-
gada é N, que coincide com o ponto de partida. Mas, no 2 o caso, as duas posições „a‟ e „b‟, mas no sentido oposto.
o ponto de partida é N, mas o ponto de chegada é N3, e isto sig- 3o caso: Poderíamos chamar este caso como desfavorável,
nifica que, embora errando pelo caminho do mal, o ser realizou porque, sendo o caminho das linhas positivas menor do que o
alguma coisa no caminho do bem. Isto não é absurdo nem im- das negativas, o balanço se fecha com prejuízo para o ser.
possível na realidade de nosso mundo, onde vemos que bem e Posição „a‟ do 3o caso. O cálculo, neste caso, baseia-se so-
mal muitas vezes se misturam no mesmo ser e na mesma obra. bre três linhas: 1) A verde negativa do erro, NN6; 2) A vermelha
Acontece, desse modo, que o pagamento por meio da linha da positiva da dor, N6N7; 3) A verde negativa da involução, percor-
dor não somente neutraliza a linha do erro, mas também, através rida em descida ao longo da linha da Lei, ou seja, a linha NN7,
desta experimentação, deixa, no fim, o ser numa posição mais que terá de ser corrigida em sentido oposto, positivo, evolutivo,
adiantada. Isto representa uma vantagem que compensa e anula com o esforço de subida N7N. Verifica-se então que, na balança
parte do dano produzido pelo erro. Este trecho que foi ganho entre os valores negativos e positivos, vencem os negativos, uma
como progresso constitui um tipo de abatimento na dívida que o vez que estes estão representados por duas linhas, contra apenas
ser tem de pagar para se resgatar do erro com a sua dor. Eis aí o uma positiva. Do lado da negatividade, temos as linhas [NN6(−)
significado da fórmula resolutiva da posição „a‟ do 2o caso. + NN7(−)]. Do lado da positividade, temos só a linha N6N7. En-
Na posição „b‟ deste 2o caso, as características do fenôme- tão à linha do erro (−) junta-se outra linha negativa, dada pela
no vão sempre aumentando em favor do ser. A linha da dor, ao descida involutiva. A diferença entre o caminho de destruição e
invés do comprimento NN 3, fica reduzida à linha N4N5, e a li- o de reconstrução de valores é no sentido negativo. Então o mo-
nha do progresso em subida, ao invés do comprimento NN 3, vimento todo, no seu conjunto, resolve-se em prejuízo do ser,
resulta aumentada a NN5. Desta vez, o ponto de chegada é N5, uma vez que a soma das duas linhas negativas é maior do que a
e isto significa que foi percorrido em subida um caminho ainda positiva. Se, no fim do processo da posição „a‟ do 2o caso, o ser
maior e que, por conseguinte, no fim, o ser se encontra numa se encontrava em N3, com a vantagem do caminho percorrido
posição ainda mais adiantada. Tal condição representa uma em subida como progresso, agora, no fim do processo da posi-
vantagem maior em favor do ser. Este trecho a mais que foi ção „a‟ do 3o caso, o ser se encontra em N7, com a desvantagem
ganho como progresso constitui um abatimento maior na dívi- do caminho percorrido em descida como involução, que é ne-
da que o ser tem de pagar com a sua dor, cuja linha teve seu cessário pagar depois, subindo de novo, com o próprio esforço.
comprimento diminuído. Eis aí o significado da fórmula reso- Então a fórmula desta posição „a‟ do 3o caso tem de expri-
lutiva da posição „b‟ no 2 o caso. mir esta desvantagem (−) em termos de valores negativos, com
Estas duas posições „a‟ e „b‟, como há pouco dizíamos, são dano para o ser, como acima mencionamos. Encontramo-nos,
apenas dois exemplos básicos para a nossa demonstração entre aqui, na posição oposta à correspondente „a‟ do 2o caso.
os muitos possíveis, que cada um pode escolher à vontade. Mas Expressemos com a letra D(−) o conceito deste dano. Ele
os dois, como se pode ver na figura, já bastam para nos mostrar significa tudo o que o ser perde em sentido de negatividade,
a tendência do fenômeno em deslocar os seus valores no senti- como descida do S para o AS, em termos de involução e do
do de fazer corresponder, às posições cada vez menos oblíquas correspondente prejuízo. Então a fórmula resolutiva da posição
e inclinadas da linha do erro, uma progressiva diminuição do „a‟ deste 3o caso é a seguinte:
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 93
o
enquanto, no 2 caso, a tendência é dirigida para um contínuo
D(−) = N6N7(+) − [NN6(−) + NN7(−)] aumento em favor do ser, ela se torna, no 3 o caso, um contínuo
Posição „b‟ do 3o caso: Nesta outra posição, repetem-se aumento em desfavor dele.
mais acentuadas e evidentes as mesmo condições da posição „a‟ Continuando por este caminho, chega-se, como vimos no 2o
do 3o caso. É lógico então que os valores negativos prevaleçam caso, à posição limite do fenômeno. Nesta posição, a linha do
ainda mais sobre os positivos, o que significa aumento de des- erro tanto se inclina para baixo, que acaba sobrepondo-se à li-
vantagem para o ser. A fórmula contém os mesmos elementos, nha da Lei, mas às avessas, isto é, em sentido emborcado, com-
porém ainda mais deslocados para os valores negativos, em pletamente negativo, em descida, e não em subida.
desfavor do ser. Aqui vigoram os mesmos princípios, mas com A esta condição podemos chamar de posição „c‟ do 3o caso.
resultados sempre piores, ao contrário da correspondente posi- Nesta posição, se a ausência de afastamento da linha do erro
ção „b‟ do 2o caso, onde iam sempre melhorando. em relação à linha da Lei, no 2o caso, implica na inexistência da
Aqui também, o cálculo se baseia sobre três linhas: 1) A linha da dor, resultando no fim em um trabalho somente positi-
verde negativa do erro, NN8; 2) A vermelha positiva da dor, vo, realizado em sentido evolutivo, esta mesma ausência do re-
N8N9; 3) A verde negativa da involução, percorrida em descida ferido afastamento, no 3o caso, implica na inexistência da linha
ao longo da linha da Lei, isto é, a linha NN9, que tem de ser da dor, porém com resultado contrário, somente negativo, reali-
corrigida em sentido oposto, positivo, evolutivo, com o esforço zado em sentido involutivo. Não há, portanto, outro meio de re-
do ser, pelo caminho inverso N9N. Aqui vencem sempre mais cuperação a não ser repetir, sozinho, o mesmo esforço de quem,
os valores negativos, representados pelas duas linhas deste involuindo, caiu no fundo de um abismo e tem de subir nova-
mesmo sinal, contra só uma positiva. Do lado da negatividade, mente, escalando à sua custa as íngremes paredes. Não se trata
temos as linhas [NN8(−)]+[NN9(−)]. Do lado da positividade, mais, então, de apenas uma penitência para neutralizar o peca-
temos só a linha N8N9(+). A diferença, aqui, também é em sen- do. Pela sua descida, o ser retrocedeu a um nível de vida mais
tido negativo, e o processo se resolve todo em desfavor do ser, baixo, repetindo e confirmando com vontade de revolta um tre-
uma vez que à linha do erro (−) junta-se outra linha negativa, de cho do mesmo caminho da primeira grande queda.
descida involutiva, e a soma das duas linhas negativas é maior Para o ser abismado nesta posição, até mesmo a linha ver-
do que a linha positiva. Se, no fim do processo da posição „a‟ melha da dor (+), com os seus poderes de reconstrução da posi-
do 3o caso, o ser havia descido até ao ponto N7 da escala evolu- tividade, ficou anulada. Com isso, desaparece a possibilidade
tiva, agora, no fim do processo da posição „b‟ deste mesmo ca- de resgate pelo caminho do arrependimento e da dor, que repre-
so, o ser desceu até ao ponto N9, o que exige depois um traba- sentam o meio pelo qual quem subiu ou ficou no mesmo nível
lho de recuperação muito maior. Então a fórmula resolutiva da de evolução pode corrigir o erro. Em tal condição, o ser se tor-
posição „b‟ deste 3o caso é a seguinte: nou fera, porque involuiu num trecho do caminho para o AS e,
D(−) = N8N9(+) − [NN8(−) + NN9(−)] com isso, adquiriu mais qualidades negativas, enquanto perdeu
as que tinha conquistado no S, em conhecimento, felicidade,
Algumas observações. Se, no 2 o caso, vai cada vez mais vida e liberdade, decaindo proporcionalmente para a ignorân-
aumentando a linha percorrida em subida evolutiva em favor cia, o sofrimento, a morte, o determinismo e o caos do inferno.
do ser, no 3 o caso o mesmo fenômeno se repete às avessas, Este é o justo galardão que recebe, porque merecido, quem
e, assim, vai cada vez mais aumentando a linha percorrida cumpre o crime da revolta absoluta contra Deus, não por erro,
em descida involutiva, em desfavor do ser. No 2 o caso, tudo mas, como mencionamos, por orgulho, por espírito de revolta,
está orientado em sentido positivo construtor. No 3 o caso, com conhecimento e vontade de praticar o mal. Este caso é
tudo está orientado em sentido negativo destruidor. Trata-se mais raro que o do erro comum, porque requer um impulso
de dois sistemas de forças opostas: um dirigido para o alto, e muito mais decidido para a negatividade, impulso de revolta
outro para baixo. No primeiro prevalecem os valores positi- que tem de ser tanto mais poderoso quanto mais for inclinada a
vos, e é lógico então que o resultado final seja positivo: linha do erro, até ao caso limite em que ela não é mais lateral,
V(+). No segundo prevalecem os valores negativos, e é lógi- mas só descida vertical, involução, posição de revolta absoluta,
co então que o resultado final seja negativo: D(−). Se, no 2 o para a vitória do AS, vontade do ser contra a da Lei. Não se tra-
caso, em subida, a linha verde (−) do erro resulta corrigida ta mais do pecado do homem, e sim, como dissemos, de Lúci-
só pela linha vermelha (+) da dor, acrescida, porém, da van- fer, que não se resolve só com o arrependimento, percorrendo a
tagem (+), por ter atingido um ponto mais adiantado no ca- linha da dor, mas apenas transformando-se e amadurecendo de
minho da evolução, no 3 o caso, em descida, a linha do erro novo pela profunda e dura fadiga redentora da evolução.
resulta corrigida pela linha vermelha (+) da dor, acrescida, Neste caso, não se trata de uma negatividade acidental, de
porém, da desvantagem (−), por ter retrocedido para um pon- superfície, fácil de corrigir, originada no erro, que, por si só,
to mais atrasado no caminho da evolução. não subverte fundamentalmente a natureza do ser. Trata-se, pe-
Para voltar ao ponto de partida N, recuperando o que foi lo contrário, de uma negatividade central e profunda, cujo endi-
perdido, é necessário reconstruir o que foi destruído, isto é, reitamento exige uma renovação igualmente central e profunda
cumprir de novo, com o próprio esforço, o trabalho de percorrer no sentido da positividade, porque, neste caso, em razão da re-
em subida o caminho que foi percorrido em descida. É por isso caída, acordam e voltam a se desencadear as forças obscuras do
que, no 3o caso, o trabalho necessário para chegar ao resgate do AS. Este é o caso oposto ao dos santos acima mencionados, que
erro é muito maior. Enquanto, no 2 o caso, a linha em sentido erraram na procura da verdade e do bem, para acabar santifi-
evolutivo representa um abatimento na dívida do ser, consti- cando-se. Neste 3o caso em descida, trata-se, pelo contrário, de
tuindo um crédito em seu favor, verifica-se que, no 3o caso, seres que quiseram fazer o mal pelo próprio mal, com pleno
além de não existir essa compensação, a linha percorrida em conhecimento, agindo não por erro, mas por uma vontade deci-
sentido involutivo também representa um acréscimo na dívida didamente resolvida a realizar o emborcamento do S no AS. Es-
do ser, porquanto gerou um novo débito a pagar, o qual será te não é só um pecado secundário, devido à ignorância e à fra-
acrescido ao outro, expresso pela linha do erro. queza do ser; não é apenas o afastamento lateral gerado pelo er-
Se olharmos para as posições „a‟ e „b‟ do 3 o caso, veremos ro, que a penitência da dor pode corrigir. Trata-se aqui do peca-
a mesma tendência para um sempre maior deslocamento de va- do fundamental, o primeiro e maior, devido ao espírito de re-
lores, que, se é em sentido positivo no 2 o caso, verifica-se, ao volta, que gerou o processo involutivo da queda e o desmoro-
contrário, em sentido negativo neste 3o caso. Em outros termos, namento de todo o nosso universo.
94 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
o o
Eis o significado das duas posições limites „c‟ do 2 e 3 ca- Marcamos em nossa figura, ao longo da linha YX da evo-
sos. A primeira é toda em subida, fato que neutraliza o erro e lução, os pontos A1, A2, A3, A4 e A5. Cada um expressa um ní-
acaba reabsorvendo a linha da dor. A segunda é toda em desci- vel evolutivo ou plano de vida diferente e o respectivo tipo de
da, fato que transforma o erro em crime, para o qual não há ar- ética que o rege. Na realidade, o número desses pontos é muito
rependimento nem sacrifício comuns que possam facilmente maior, preenchendo, na contínua transformação de uma para
apagá-lo. A progressiva inclinação da linha do erro para o alto outra no trajeto de subida, todas as posições intermediárias.
no 2o caso, até à referida posição limite, tende a transformar o Esta questão de evoluído e involuído representa um caso parti-
erro (−) cada vez mais em trabalho de evolução (+). Tal trans- cular dessa transformação de um tipo de existência e de sua
formação se realiza em cheio na posição limite „c‟ do fenôme- correlativa ética para outro.
no, na qual triunfa completamente a positividade. Por sua vez, a Se imaginarmos o homem atual situado num grau de evolu-
progressiva inclinação da linha do erro para baixo no 3 o caso, ção que esteja mais ou menos na metade do caminho ascensio-
até à sua posição limite, tende, ao contrário, a transformar o er- nal YX, poderíamos colocar o biótipo atual, chamado normal,
ro (−) cada vez mais em trabalho de involução (−). Tal trans- que constitui hoje a maioria na Terra, no ponto A3. Então o sel-
formação se realiza em cheio na posição limite „c‟ do fenôme- vagem estaria situado no ponto A2 e o mais evoluído, no ponto
no, na qual triunfa toda a negatividade. A4. Cada uma dessas posições relativas representa um dado ní-
Na primeira destas duas posições limites, o ser, seguindo a vel de existência, o qual, em função da posição ocupada, é re-
Lei com a obediência, ganha. Na segunda, o ser, desobedecen- gido por sua respectiva ética, donde se conclui que o melhor
do a Lei com a revolta, perde. Nestas duas posições limites, o para um dado biótipo não é melhor para outro, assim como o
movimento não se realiza lateralmente, mas todo ele dentro da que é justo e bom para o primeiro não o é para o segundo.
linha da Lei, adquirindo, por isso, um sentido resolutivo de Eis então o que significa evoluído e involuído. O ser de
progresso em direção à positividade, que é vida, ou de regresso nível A3 (hoje normal) é um evoluído em relação ao ser do
em direção à negatividade, que é morte. Nestes casos, o deslo- nível A2 (selvagem), enquanto o ser do nível A 2, ao contrário,
camento não é só um afastamento lateral, que deixa o ser no é um involuído em relação ao do nível A 3. Da mesma forma,
mesmo plano de vida, mas constitui um deslocamento de nível o biótipo de nível A4 (hoje super-homem) também é um evo-
biológico para o S ou para o AS, com todas as correspondentes luído, se comparado ao ser do nível A 3 (homem atual), en-
consequências. No 3o caso, trata-se do emborcamento dos valo- quanto o ser do nível A 3, ao contrário, é um involuído em re-
res fundamentais da existência, de um retrocesso, da gênese do lação ao biótipo do nível A 4.
mal, como no caso da primeira revolta. A inclinação da linha do Temos assim três posições que se julgam reciprocamente de
erro para o alto expressa a boa vontade, que é tanto maior quan- modo diferente, conforme o ponto de referência onde o ser está
to maior for a inclinação, até se tornar completa, quando as du- situado. Elas são: 1) A posição A2, nível do selvagem; 2) A po-
as linhas coincidem na posição limite. A inclinação da linha do sição A3, nível do homem normal; 3) A posição A4, nível do
erro para baixo expressa a má vontade, que é tanto maior quan- evoluído. Dentro de nossa sociedade, o homem do tipo A2 exis-
to maior for a inclinação, até se tornar completa, quando as du- te como subdesenvolvido nas camadas inferiores, como primi-
as linhas coincidem na posição limite. tivo ou como criminoso e rebelde à ordem constituída. O ho-
Tanto o erro como a boa ou má vontade são elementos que mem do tipo A3, que domina pela força do número, estabelece
todos conhecemos em nossa prática quotidiana e que, na práti- as leis e os métodos de vida, adaptando tudo ao seu nível, en-
ca, vemos misturados em cada ato nosso, em proporções dife- tendimento e utilidade. No outro lado, o homem do tipo A4 re-
rentes. Eis que este estudo geométrico de nossa figura, apesar presenta uma minoria sem direitos, que tem de se adaptar às
de poder parecer um trabalho abstrato, afastado da realidade, leis e hábitos, para ele selvagens, da maioria.
leva-nos a compreender o valor e as consequências de nossa Cada um dos três tipos concebe o outro sempre a partir do
conduta, permitindo-nos formular racionalmente as normas seu relativo e diverso ponto de vista, julgando-se a si mesmo o
dessa nova ética, cujos alicerces estamos aqui construindo, com tipo perfeito, o modelo para todos e, assim, aquele que tem mais
a enunciação dos seus princípios. direito à vida. Mas quem domina em nosso mundo é o tipo A3,
que, por isso, julga justo impor a sua ética a todos, tanto inferio-
VIII. EVOLUÍDO E INVOLUÍDO res como superiores. Observaremos agora a atuação da maioria,
que faz as leis para si, em dois casos: 1o) Dirigindo-se aos infe-
Agora que foi analisada e entendida a estrutura da nossa fi- riores involuídos; 2o) Dirigindo-se aos superiores evoluídos.
gura, podemos compreender melhor o significado exato do Escolhemos como ponto de referência o biótipo dominante
conceito de evoluído e de involuído, dos quais muitas vezes fa- porque é ele que, com a sua forma mental, dada pelo seu plano de
lamos neste livro, bem como nos precedentes. vida, estabelece as regras de conduta de nossa sociedade, as leis
Como explicamos no Cap. V, cada plano de evolução está civis e religiosas, ou seja, toda a ética, impondo-a aos outros.
regido por sua própria ética, relativa e particular a ele, a qual, ◘ ◘ ◘
partindo de um nível inferior, transforma-se gradativamente Como esse biótipo hoje dominante trata então os outros dois,
em uma ética de nível mais adiantado, que o ser vai atingindo que se encontram, em relação a ele, na posição de involuído e
com a sua evolução. Estamos no terreno do ser decaído, onde a evoluído? Observemos primeiro o caso do involuído. Quando
perfeição do absoluto desmoronou no transformismo do relati- este é representado por outros povos em terras coloniais, as rela-
vo, que percorre continuamente o caminho de regresso à per- ções estabelecidas pelo homem chamado civilizado, obedecendo
feição. Eis que, ao longo da linha da evolução YX, ou linha da à ética do seu plano, são em geral – pelo direito da força, da in-
lei de Deus, cada ponto representa uma diferente posição do teligência e dos recursos materiais – de exploração de quem é
ser e o respectivo tipo de ética relativa a seu nível, a qual esta- menos provido desses meios. Neste nível, pertence ao mais forte
belece a regra que dirige a vida do ser conforme o seu grau de estabelecer as leis, cabendo a ele todo o direito. Trata-se de uma
evolução. Assim, da duríssima lei determinística da matéria e ética de luta, pela qual tudo acaba nas mãos de quem sabe agar-
dos seres inferiores chega-se à lei sempre mais livre e feliz do rar as coisas. Como consequência lógica dessa ética, aqueles que
espírito e dos seres superiores. Todos esses diferentes tipos de não sabem defender-se e impor-se são esmagados. Esta é a rea-
ética, cada um relativo ao nível particular de evolução onde o lidade que de fato existe além das teorias políticas ou religiosas
ser se encontra, estão contidos na Lei, que, sendo o pensamen- pregadas. Neste plano vigora o método do vencedor e do venci-
to de Deus, abrange e dirige tudo o que existe. do, que vai das invasões bárbaras à exploração do trabalhador
Pietro Ubaldi QUEDA E SALVAÇÃO 95
analfabeto. É por isso que, no mundo de hoje, enquanto estão atingido. Mas aqui o mal-entendido reaparece, quando, com tal
pregando a paz, todos se preparam para a guerra. Esta é a única método, essa sociedade pretende tratar e curar a doença da cri-
ética deste nível de vida. Este é o método e a base da glória de minalidade. Perante este objetivo, que deveria ser a suprema fi-
todos os imperialismos. Esta é a moral em que concordam todas nalidade do poder judiciário, a atual conjuntura social é uma fa-
as raças e povos, de todos os tempos e países do mundo. lência. Mas, para que isto não acontecesse, seria necessário usar
Mas, em outra forma, o involuído também se encontra dentro a forma mental e a ética de um outro plano, onde a tarefa de
da sociedade dos assim chamados povos civilizados. Como trata quem domina não é defender contra todos a sua posição de do-
aquela maioria dominante esse biótipo subdesenvolvido? Refiro- mínio, mas sim levantar os inferiores, educar e remir os crimi-
me aos que não conseguiram encontrar, na ordem social, o seu nosos, eliminando a semeadura de tanto mal, a qual diariamente
lugar para viver e o procuraram fora daquela ordem, como re- se está realizando em nosso mundo, na mais completa inconsci-
beldes ou delinquentes. Estando fora da organização coletiva e ência das consequências. O atual método repressivo correspon-
representando eles apenas uma minoria, pelo menos nos perío- de à tentativa do cirurgião que procura curar o câncer cortando
dos normais, não revolucionários, gravita sobre eles o peso da o tumor. Assim, apesar de todas as providências da justiça hu-
maioria com a sua ética de domínio, que estabelece com as leis o mana, teoricamente perfeita, a doença da criminalidade, atra-
que é direito e justiça. Esta minoria então, quando não consegue vessando os séculos, ficou sempre de pé.
romper os diques com as revoluções, tem de se submeter às leis Infelizmente, a realidade é que todos possuem a mesma
civis e religiosas, que, constituindo a ordem, representam a de- forma mental e usam o mesmo método de luta. Quem julga
fesa dos interesses da classe dominante. Os fatos da realidade não está situado acima e fora da raça humana, para que lhe seja
biológica nos mostram que, neste nível, a vida se baseia na luta possível julgar. Todos seguem o mesmo caminho, não sendo
de todos contra todos, vigorando o método de ataque e defesa, possível chegar à ordem a não ser constringindo os rebeldes à
onde somente sobrevive o vencedor. Disto se segue que os con- obediência, porque o ponto de partida é o caos. Da mesma
ceitos de direito, justiça e punição em nome de princípios ideais forma, também não se pode chegar ao direito senão ordenando
ou até mesmo em nome de Deus, são apenas aparências exterio- a força nem se alcançar a justiça senão disciplinando a injusti-
res, enquanto a substância dos fatos é bem outra coisa. Não há ça. É seguindo este mesmo caminho que os diferentes grupos
ser humano que não deseje a ordem e a unidade, mas sempre vencedores se alternam no palco da história, obedecendo aos
subentendo que ele só admite uma unidade onde é ele quem mesmos instintos do seu nível biológico e usando as mesmas
manda e uma ordem na qual são os outros que obedecem. armas, para atingir as mesmas finalidades. Também na livre
Estamos apenas observando o fenômeno imparcialmente. É escolha democrática do pleito eleitoral, é sempre o poder da
claro que a coisa mais urgente para todos é, antes de tudo, de- posição, da inteligência e dos recursos que permite alguém
fender-se, e não há motivo para que a sociedade faça exceção a vencer os seus antagonistas políticos.
essa regra, tanto mais que os criminosos conhecem mais do que Eis qual é a luta recíproca entre o biótipo A 2 e o A3. Ambos
todos o método de ataque e defesa. Ninguém pode negar à soci- querem e têm o direito de viver. Mas o segundo não quer reco-
edade esse direito à legítima defesa. Mas isto quer dizer que es- nhecer esse direito ao primeiro, que tem então de conquistá-lo
tamos no terreno da luta, onde a vitória pertence ao mais forte. com a força. Para o tipo A2, não há lugar no castelo dos vence-
O mal-entendido está no fato de que esta luta e defesa ficam es- dores. Por isso ele tem de ficar fora, como rebelde. Claro que,
condidas sob o manto do direito e da justiça. Quando, nas revo- se os revoltosos encontrassem um abrigo dentro do castelo,
luções, são os rebeldes que estabelecem uma nova ordem para eles acabariam tornando-se homens da ordem. Para acabar com
si, eles armam tribunais para condenar, conforme a justiça, os os homens da desordem, seria necessário colocá-los dentro da
seus inimigos em nome da lei, como fazia antes contra eles a so- organização da ordem, porque, se viessem a se tornar inimigos
ciedade regularmente constituída. O espírito de luta, de agressi- dela, tornar-se-iam inimigos de si próprios. E, de fato, qual-
vidade e de defesa é legítimo neste plano de vida e faz parte da quer um deles, tão logo se enriqueça e consiga ocupar posições
lógica de sua ética. Estamos ainda na fase caótica do egocen- elevadas na sociedade, torna-se prontamente um defensor da
trismo separatista, na qual a defesa para a sobrevivência não po- ordem. É do interesse do mundo que não haja mais expulsos, e
de ser confiada senão ao indivíduo isolado ou, por instinto gre- ele deveria compreender isso. É absurdo um banquete a sós,
gário, unido em grupo com alguns semelhantes seus. O Estado, onde aqueles esfaimados que estão olhando não acabem fur-
com a sua autoridade em nossa sociedade dita civilizada, apesar tando alguma coisa. A nossa sociedade não consegue compre-
de democrático e representativo, é constituído por um desses ender isso, pois não pode ir além da forma mental dada pelo
grupos, formado pela classe dominante, que defende, contra to- seu nível biológico, com a qual não sabe conceber tudo senão
dos os demais, os seus interesses e sua vida. Tudo isto se pode em função do próprio eu e da sua vantagem imediata. É assim
considerar lógico e justo, se colocarmos a nossa sociedade no que a coletividade fica continuamente repleta de rebeldes cri-
nível biológico ao qual ela pertence, que é o da luta e da força. minosos. Por este caminho, o problema não se resolve, en-
O engano se revela quando, neste mundo, queremos falar de quanto não forem suprimidas as causas primeiras, situadas
verdadeira justiça, coisa que só aparece num mais alto nível de dentro do próprio corpo social dos vencedores, que, assim,
existência, ao qual o homem ainda não chegou. Não há dúvida continua sempre levando consigo a sua doença crônica.
que todos têm o direito de viver, em todos os planos de vida e Eis então o que acontece em nosso mundo. Justificando-se
em todas as relativas formas de ética. Mas, com a evolução, mo- com um castelo teórico de princípios e leis, a classe dirigente,
difica-se o método para atingir essa finalidade. Então não é mais que tem em mãos o poder, estabelece, com a sua forma mental,
o indivíduo que se defende, mesmo usando as leis como arma na uma ética cujos conceitos abstratos de bem e mal significam, na
sua luta contra o próximo, numa contínua peleja de ataque e de- realidade, só o bem ou o mal daquela classe. Na substância, tra-
fesa, onde só o mais astuto ou mais rico tem razão, mas é a cole- ta-se somente de justificar em nome de princípios superiores a
tividade, para a qual o indivíduo faz tudo, que faz tudo para ele e necessidade de constranger à obediência os rebeldes. O restante
o defende no seio de uma ordem imparcial e universal, não mais é problema longínquo, que é posto de lado. Este constrangi-
partidária. Isto, porém, somente poderá acontecer quando a hu- mento se baseia no princípio da satisfação ou do sofrimento,
manidade houver atingido o estado orgânico e o indivíduo tiver atuando por meio do prêmio ou da pena. Assim, aparece nas re-
adquirido a consciência necessária para saber viver nele. ligiões a ideia de paraíso e inferno, que, nas leis civis, corres-
Se a substância do método atualmente em vigor em nossa pondem às honras ou à cadeia. Mas isto, em vez de educar e
sociedade é o de sua defesa, pode-se dizer que esse objetivo foi melhorar o indivíduo, apenas o estimula à luta egoísta, para ga-
96 QUEDA E SALVAÇÃO Pietro Ubaldi
nhar a própria vantagem e evitar o próprio dano. E é lógico que mentira e também dessa hipocrisia da qual falávamos agora,
a ética do egocentrismo não possa gerar senão frutos da mesma como meio de defesa da vida. Quem não desenvolveu a inteli-
natureza. Acontece então que o biótipo A3, em vez de levantar gência até esse ínfimo grau de capacidade, ou quem a desen-
o ser do nível A2 para um mais alto plano evolutivo, fica abra- volveu a um tal ponto, que não lhe seja possível retroceder até
çado com ele no mesmo pântano. esse nível, será sempre julgado um deficiente, merecendo e de-
Se o criminoso furta ou mata, faz isso porque a experiência vendo, por isso, ser condenado.
adquirida por ele no ambiente onde nasceu e cresceu lhe ensi- A vida, nos seus níveis mais evoluídos, baseia-se sobre
nou que era mais provável conseguir vencer na vida pelos ata- princípios diferentes. Para quem vive em tais planos, não há
lhos da desordem e da revolta, do que pelo caminho direito e gente fora do castelo dos vencedores, porque todos se ajudam
longo do trabalho e da ordem. E, de fato, a vitória no caminho fraternalmente e sabem que são elementos da mesma unidade
da delinquência, assim como tudo na Terra, depende de inteli- orgânica. Só quando, superando o método atual de desconfi-
gência, poder e recursos. Assim, o criminoso funciona confor- ança, chegarmos à compreensão fraternal, os problemas que
me a ética vigente. Na realidade, quem cai na rede das leis é o hoje nos atormentam poderão ser resolvidos. O sistema da lu-
delinquente simplório, desarmado, isolado e sem recursos, des- ta em vigor é contraproducente. A severidade das penas de-
provido de inteligência ou mentalmente doente. A rede em ge- monstra a fraqueza dos dominadores, pois é fruto do temor de
ral pega somente os peixes fracos e pequenos. Os grandes tuba- que os rebeldes avancem contra o poder. Até há poucos anos,
rões lhe escapam. O lema é: “A lei é igual para todos”, ao qual a justiça dava, como exemplo educador, espetáculo público,
alguns acrescentam: “os simplórios”. punindo ou matando os criminosos. E o povo corria para ver.
E o que acontece, depois, com esse criminoso que a lei con- Mas o exemplo educador que se passava na realidade era o
segue agarrar? Com uma pública e solene demonstração de jus- escândalo, muito apreciado e procurado. E, quanto mais feroz
tiça nos tribunais, isolam-se esses sujeitos por um período de o espetáculo, tanto mais gente corria para gozar de tão sabore-
tempo arbitrário nas cadeias. Que faz o preso? Ele continua re- ado petisco. Claro que assim se realizava uma educação às
agindo ainda mais contra a sociedade, que, depois de haver ge- avessas, porque o povo, além de aprender a arte do crime,
rado os ambientes onde tudo isto pôde nascer, agora pune o fru- também aprendia que este se torna legítimo quando é cometi-
to deles com a prisão. O indivíduo vai morar num ambiente sa- do por quem tem o poder nas mãos. Assim, todos ficavam sa-
turado de criminalidade, onde mesmo quem nunca houvesse si- tisfeitos: 1) Os chefes, porque acreditavam dar um exemplo
do delinquente seria levado a tornar-se tal. Escola às avessas. E, de sua força, confirmando o seu domínio; 2) Os juízes, por-
quando ele terminar esse curso de mau exemplo e de revolta in- que, agradando ao seu senhor e mostrando o seu poder, forta-
terior, a sociedade o considera curado, aceitando de novo em leciam a sua posição, ao mesmo tempo em que a pública en-
seu seio aquele indivíduo, que se tornou pior, porque a pena cenação da justiça tranquilizava a sua consciência, porque tu-
não convence, mas atormenta e gera nova revolta. Isto, do pon- do se havia realizado com o consentimento de todos, endosso
to de vista educativo, revela uma grande ignorância. Explica-se, universal que as legitimava, deixando as condenações dentro
porém, porquanto é fruto do passado, quando os segredos da dos limites da lei e da ética; 3) O povo, porque podia estudar a
psicologia humana eram desconhecidos e vigorava uma ética arte de matar o próximo e vingar-se, além do que, com tão
atrasada, fruto descontrolado do subconsciente instintivo. apetitoso espetáculo de ferocidade, seguindo a sua ética de lu-
O resultado lógico de tudo isto é que a delinquência conti- ta, também podia satisfazer o seu instinto de agressividade e
nua como um câncer social permanente, o que revela a impo- destruição, qualidades do involuído. Deste modo, todos fica-
tência dos métodos atuais para a solução do problema. Quando vam satisfeitos juntos, chefes, juízes e povo, cada um encon-
uma doença não se cura, isto se atribui em geral à ignorância do trando a sua utilidade particular, podendo assim, unidos, liber-
médico. Temos assim a medicina repressiva. Mas a doença, em tarem-se de um inimigo comum, sem ter de enfrentar qualquer
vez de uma fera a ser domada com a força, é antes um processo perigo, porque se tratava de um fraco vencido.
lógico, que se penetra com a inteligência. A substância da pena- Eis qual é, brevemente resumido, o jogo das ações e reações
logia é constituída por uma luta armada entre ações e reações entre o tipo A3 e o A2 e vice-versa.
da mesma natureza. Isto não significa que defendemos o crimi- ◘ ◘ ◘
noso. Queremos apenas reconhecer que, enquanto esse método Observemos agora o 2o caso, isto é, quando a maioria, que
vigorar, nunca poderá acabar a luta recíproca entre o biótipo A3 faz a lei para si, dirige-se aos superiores evoluídos. Como o
e o A2. Seria necessário antes de tudo educar os educadores. O biótipo A3, hoje dono do planeta, trata o biótipo A4, que excep-
método da luta não pode gerar senão luta. Da guerra só pode cionalmente aparece na Terra? Estudemos agora o jogo de
nascer guerra. Seria necessá