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CADEIA PRODUTIVA E PROSPECÇÃO TECNOLÓGICA COMO FERRAMENTAS

PARA A FORMULAÇÃO DE ESTRATÉGIA

Antônio Maria Gomes de Castro – Embrapa


Suzana Maria Valle Lima – Embrapa

Resumo
Os estudos prospectivos são importante ferramenta para a formulação de estratégia. O
conceito de cadeia produtiva é de natureza holística, e foi desenvolvido como instrumento de
visão sistêmica. A análise prospectiva se apóia na premissa da complexidade e na necessidade
de explorar e entender esta teia de relações complexas, para se estabelecer possíveis
alternativas de futuro. Ocorre que as técnicas empregadas em geral não distinguem graus de
hierarquias entre as variáveis, setores e eventos, ou seja, não consideram o caráter sistêmico
das relações entre esses elementos, tornando difícil a criação de um marco lógico sobre o
passado e o presente, que possa apoiar a formulação de hipóteses de futuros plausíveis. Neste
trabalho, propõe-se que a adoção do enfoque sistêmico, traduzido no conceito de cadeias
produtivas, pode constituir-se em um marco lógico importante, para complementar as técnicas
prospectivas mais empregadas. Apresentam-se e discutem-se as vantagens da adoção deste
marco conceitual como facilitador de estudos prospectivos, tomando-se como exemplo
trabalhos desenvolvidos pelos autores. Apontam-se e discutem-se as técnicas analíticas
associadas ao conceito de cadeias produtivas e como estas podem auxiliar e facilitar a
realização de estudos prospectivos, como base para a formulação de estratégia.

1 – Introdução

Os estudos prospectivos são importante ferramenta para a gestão de competitividade de


negócios e de C&T, entre outros. Entre muitos possíveis usos, a prospecção tecnológica pode
indicar oportunidades e ameaças ao desenvolvimento tecnológico, setorial e regional,
apontando gargalos, limitações, oportunidades e demandas por tecnologias. Todavia, a
questão deve ser enfocada em termos de desempenhos de sistemas sociais e econômicos, onde
a tecnologia, ou outros fatores de desenvolvimento vão operar, o que implica na necessidade
de se adotar a visão holística, para apoiar prospecção tecnológica.
O conceito de cadeia produtiva foi desenvolvido como instrumento de visão sistêmica. Parte
da premissa que a produção de bens pode ser representada como um sistema, onde os diversos
atores estão interconectados por fluxos de materiais, de capital e de informação, objetivando
suprir um mercado consumidor final com os produtos do sistema.
Embora na sua gênese o conceito tenha sido inicialmente desenvolvido tendo a produção
agropecuária e florestal como foco, tem se verificado que o mesmo possui grande potencial de
extrapolação para outras áreas produtivas além da agricultura. Essa extrapolação tornaria o
conceito universal e permitiria utilizar as suas capacidades e ferramentas analíticas, para a
formulação de estratégias e políticas de desenvolvimento em uma ampla gama de processos
produtivos.
A análise prospectiva em geral se apóia na premissa da complexidade e na necessidade de
explorar e entender esta teia de relações complexas, para se estabelecer possíveis alternativas
de futuro. Ocorre que, em muitos casos, as técnicas empregadas em geral não distinguem
graus de hierarquias entre as variáveis, setores e eventos, ou seja, não consideram o caráter
sistêmico das relações entre esses elementos, tornando difícil a criação de um marco lógico
sobre o passado e o presente, que possa apoiar a formulação de hipóteses de futuros
plausíveis.
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Neste trabalho, propõe-se que a adoção do enfoque sistêmico, traduzido no conceito de


cadeias produtivas, pode constituir-se em um marco lógico importante, para complementar as
técnicas prospectivas mais comumente empregadas. Juntos, o enfoque sistêmico e as técnicas
prospectivas são uma importante ferramenta auxiliar para a gestão de negócios e formulação
de estratégias de competitividade. Os produtos de estudos sistêmicos e prospectivos são a
base de informação para a formação de inteligência de negócios e competitividade, com
possíveis aplicações na iniciativa privada e no ambiente governamental.
Os objetivos deste trabalho são: a) descrever os marcos conceituais e metodológicos, de
cadeias produtivas e análise prospectiva, como instrumentos para a estratégia e a gestão de
negócios e de tecnologia; b) apresentar e discutir as vantagens da adoção destes marcos
conceituais, como facilitador de estudos prospectivos, tomando-se como exemplo trabalhos
desenvolvidos pelos autores; c) apontar e discutir as técnicas analíticas associadas ao conceito
de cadeias produtivas; d) indicar como essas podem auxiliar e facilitar a realização de estudos
prospectivos, suas vantagens e desvantagens; e) apresentar alguns possíveis usos desses
marcos conceituais na gestão e na formulação de estratégia.

2 – O conceito de cadeia produtiva como instrumento de visão sistêmica.

2.1 – Enfoque sistêmico como ferramenta para a compreensão da complexidade

Muito se fala sobre enfoque sistêmico, teoria de sistemas, holismo, enfoque holístico, nos
mais variados campos do conhecimento e de atividades sociais. Tais abordagens, entretanto,
nem sempre carregam um significado preciso, claro e de utilidade. Para esclarecer esta
questão, é preciso se reportar às duas grandes escolas do método cientifico, Estas escolas são a
reducionista ou reducionismo e a holística ou holismo, cada uma delas com os seus
procedimentos, conceitos e instrumentos específicos, mas ambas com o mesmo objetivo, o
avanço do conhecimento (Castro et al., 1998).
Como o reducionismo e o holismo possuem finalidade semelhante - a compreensão dos
fenômenos interativos da natureza e do homem - por princípio estas escolas são
complementares. Tal proposição é evidente, embora possa parecer que haja competição entre
holistas e reducionistas e seus processos de aquisição de conhecimento. Em princípio, o
objetivo do método científico seria a compreensão da complexidade.
O reducionismo não é suficiente para explicar todos os fenômenos, notadamente aqueles que
envolvem a atuação concomitante de mais de uma causa, que são explicáveis pela atuação
conjunta de variáveis. A existência de interações entre múltiplos fatores causais tem sido uma
das dificuldades enfrentadas pela escola reducionista na busca do conhecimento dos
fenômenos. Tal situação impede que determinados fenômenos mais abrangentes, como os que
envolvem conhecimentos interativos de ciências humanas, biológicas e exatas, possam ser
compreendidos na sua plenitude.
Foi dessa insatisfação com as limitações do reducionismo que nasceu a motivação para o
enfoque sistêmico, a aplicação do conceito de sistemas e das suas ferramentas ana líticas na
ciência. As leis mecanicistas do reducionismo não eram consideradas adequadas para explicar
as relações entre as entidades econômicas, ou as complicadas interações de variáveis
biológicas ocorrendo dentro dos seres vivos.
Foi o biólogo alemão Ludwig von Bertalanffy quem inicialmente estabeleceu a Teoria Geral
dos Sistemas (Bertalanffy, 1951; 1968; 1977) e posteriormente, em diversos artigos e foros
científicos, ajudou a consolidar esta nova metodologia científica. A motivação principal era a
busca de novas leis, que fossem mais aplicáveis ao estudo dos seres vivos, menos
contaminadas pela rigidez das leis da física clássica newtoniana e, portanto, mais favoráveis
ao conhecimento da suas complexas relações e interações.
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De início, notou-se a existência de interfaces entre as ciências sociais, a física e a biologia,


que não eram consideradas pelo reducionismo. Por outro lado, os campos não-físicos do
conhecimento não estavam suficientemente cobertos pelos conceitos e ferramentas do
reducionismo. Notou-se que havia entidades cujo comportamento geral não era um simples
somatório das suas partes componentes, mas o resultado de complexas interações de um todo
indivisível. Esta última constatação deu origem ao conceito de sistema, um conjunto de partes
inter-relacionadas.

Os pressupostos básicos da Teoria Geral dos Sistemas são:


a) existe uma tendência para a integração das varias ciências naturais e sociais;
b) esta integração orienta-se em direção à teoria dos sistemas;
c) esta teoria dos sistemas pode ser uma maneira mais abrangente de estudar os campos não
físicos do conhecimento científico, especialmente as ciências sociais;
d) ao desenvolver princípios unificadores que perpassam os universos particulares das diversas
ciências, a teoria dos sistemas aproxima-se dos objetivos da unidade da ciência (Bertalanffy,
1951).

Pela teoria dos sistemas, o todo (ou o sistema) é o produto de partes interativas, cujo
conhecimento e estudo deve acontecer sempre relacionando o funcionamento dessas partes
em relação ao todo. Pode-se esboçar uma definição para o que seja um sistema :

Um sistema é um conjunto de partes (ou componentes) interativos, no qual o


investigador está interessado (Milsun, citado por Jones, 1970).

Um colorário dessa definição é a noção de limite de sistema, ou seja, uma abstração que é
aplicada pelos estudiosos para separar um determinado sistema de seu particular interesse, de
todos os demais que compõem o universo. Como a natureza é em geral um enorme complexo
de componentes interativos, e esta abrangência nem sempre é de interesse de um determinado
estudioso, a idéia de estabelecer limites permite a apreciação de conjuntos menores de
componentes interativos, facilitando o entendimento do seu funcionamento.
Do conceito de limite deriva-se um outro muito importante para o estudo dos sistemas, o de
hierarquia. Enquanto o conceito de limite está relacionado com os objetivos a alcançar, o
conceito de hierarquia decorre do fato de existirem na natureza sistemas dentro de sistemas,
numa ordem decrescente, onde um determinado sistema passa a ser componente, um subsistema
numa escala hierárquica mais alta e contém outro subsistema numa escala mais baixa. Em termos
didáticos, poder-se-ia imaginar sistemas em camadas hierárquicas, conforme expressa a Figura1.
Figura 1 – O conceito de hierarquia de sistemas

Comunidade

População

Organismo
Tecido

Célula
4

A noção de hierarquia tem aplicação na análise de sistemas. Em geral, a explicação do


funcionamento do sistema é encontrada a um ou dois níveis hierárquicos inferiores aos do
sistema em análise (ou superiores, no caso das ciências sociais). A análise de sistemas apresenta
neste ponto interface com o reducionismo, caracterizando a complementaridade dos dois
enfoques.
A representação de um sistema em qualquer outra forma que não a da própria entidade é
denominada de modelo. Os modelos podem assumir diversas formas, desde os modelos físicos e
os diagramas, até aos modelos conceituais, dos quais os modelos matemáticos (ou quantitativos)
são a expressão mais útil para o cientista.
O conceito de modelo é comum a toda a metodologia científica. De fato, em qualquer enfoque
aplicado, é através de modelos que a ciência tem se expressado para compreender a natureza dos
fenômenos. Os modelos matemáticos, portanto, têm cumprido com a função de universalizar o
conhecimento, de forma inequívoca. Não é por acaso que o enfoque sistêmico tem se apoiado
principalmente nestes tipos de modelos. A complexidade dos sistemas é simplificada nos
modelos que os representam, como forma de facilitar o entendimento do seu funcionamento.
Embora se possa elaborar modelos sem a concepção sistêmica, os modelos de sistemas são os
mais efetivos para aumentar a compreensão dos fenômenos. Assim, o enfoque sistêmico pode ser
aplicado na metodologia de pesquisa de muitas formas, algumas delas descritas a seguir.
Os conceitos de sistema, limite, hierarquia e modelo são os que podem oferecer melhores
oportunidades de aplicação, como base conceitual para os estudos prospectivos. O conceito de
cadeia produtiva é uma derivação dessa base conceitual e será examinado nas próximas seções.

2.2 - O conceito de cadeias produtivas e sua evolução

O enfoque sistêmico foi utilizado no processo de planejamento estratégico da Embrapa no início


da década de 90, quando se buscava um marco conceitual capaz de lidar com a análise do
ambiente externo e a determinação de estratégias que pudessem orientar a mudança institucional.
Buscava-se alinhar a instituição com o seu ambiente externo relevante, em processo de mudança
acelerada, conseqüentemente de alta turbulência (Johnson et al., 1994).
A idéia central é que a visão de cliente da Empresa deveria ser revista, para incluir novos e
importantes atores que participavam do desenvolvimento da agricultura e tinham relevância para
a instituição. De início, estes atores foram caracterizados como os atores fora-da-porteira da
fazenda (antes e depois da porteira): os fornecedores de insumos, as agroindústrias, as estruturas
de comercialização, os consumidores finais e as estruturas de apoio à produção.
Durante o processo, recuperou-se o trabalho onde se apresentava uma visão sistêmica da
agricultura, proposta nos anos 50 pelos professores Davis & Goldberg (1957), quando
desenvolveram o conceito de agribusiness. Este conceito foi, nos anos seguintes, introduzido no
Brasil com a denominação de complexo agroindustrial, negócio agrícola ou agronegócio e é
definido, não apenas em relação ao que ocorre dentro dos limites das propriedades rurais, mas
a todos os processos interligados que propiciam a oferta dos produtos da agricultura aos seus
consumidores.
O conceito de agronegócio é muito amplo e nem sempre adequado para a formulação de
estratégias setoriais, principalmente quando se trata de promover a gestão tecnológica ou de
P&D. Por isso, o conceito foi desenvolvido adicionalmente, para criar modelos de sistemas
dedicados a produção, que incorporassem os atores antes e depois da porteira. Daí nasceu o
conceito de cadeia produtiva, como subsistema (ou sistemas dentro de sistemas) do
agronegócio (Figura 2). Este é composto por muitas cadeias produtivas, ou subsistemas do
agronegócio. As cadeias produtivas, por sua vez, possuem entre os seus componentes ou
subsistemas os diversos sistemas produtivos agropecuários e agroflorestais, nos quais ocorre a
produção agrícola (Castro et al., 1995 e 2000).
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Os primeiros trabalhos aplicando este conceito surgiram na década de 80, tendo sido
amplamente expandidos na década de 90. Contribuiu para esta expansão o desenvolvimento
de ferramentas analíticas consistentes (Castro et al., 1995 e 1998; Zylbersztajn, 1994; Batalha,
1995). Estas contribuições ampliaram o uso do enfoque sistêmico e de cadeias produtivas em
estudos e projetos de desenvolvimento, para ampliar a compreensão, a intervenção e a gestão
no desempenho da agricultura.
O enfoque de cadeia produtiva provou sua utilidade, para organizar a análise e aumentar a
compreensão dos complexos macroprocessos de produção da agricultura e para se examinar
desempenho desses sistemas, determinar gargalos ao desempenho, oportunidades não
exploradas, processos produtivos, gerenciais e tecnológicos. Ao incorporar na metodologia
alternativas para análise de diferentes dimensões de desempenho das cadeias produtivas ou de
seus componentes individualmente, como a eficiência, qualidade, competitividade,
sustentabilidade e a equidade, esta tornou-se capaz de abranger campos sociais, econômicos,
biológicos, gerenciais, tecnológicos, o que ampliou possíveis aplicações desse enfoque para
um grande número profissionais e de instituições. Entre estas aplicações, aquelas relacionadas
com a prospecção tecnológica e não tecnológica.

AMBIENTE ORGANIZACIONAL

PROPRIE -
FORNECE - COMÉRCIO COMÉRCIO
CP1 DORES DE
DADE
S IR
AG STÍCOLA
AGRO -
INDÚSTRIA ATACADISTA VAREJISTA
CONSUMIDOR
FINAL
INSUMOS PROD,1,
T5 2,3... n T4 T3 T2 T1

PROPRIE-
FORNECE- DADE AGRO- COMÉRCIO COMÉRCIO CONSUMIDOR
DORES DE S IR
ST ATACADISTA VAREJISTA
CP2 INSUMOS
AG ÍCOLA
PROD,1,
INDÚSTRIA FINAL

T5 2,3... n T4 T3 T2 T1

PROPRIE -
FORNECE - DADE AGRO - COMÉRCIO COMÉRCIO CONSUMIDOR
CP3 DORES DE S IRS ÍTC O L A
AG INDÚSTRIA ATACADISTA VAREJISTA FINAL
INSUMOS PROD,1,
T5 2,3... n T4 T3 T2 T1

NOVOS
PROPRIE - MERCADOS
FORNECE - DADE AGRO - COMÉRCIO COMÉRCIO CONSUMIDOR
CPn DORES DE S IR
AG STÍCOLA INDÚSTRIA ATACADISTA VAREJISTA FINAL
INSUMOS PROD,1,
T5 2,3... n T4 T3 T2 T1

AMBIENTE INSTITUCIONAL

CP1, CP2,.... CPn = Cadeias produtivas


Figura 2 – Representação do agronegócio e suas cadeias produtivas componentes.

Pode-se mencionar aplicações na gestão estratégica das cadeias produtivas (gestão de negócios),
no desenvolvimento setorial, na formulação de políticas publicas e na gestão estratégica de
tecnologia e de P&D. São exemplos dessas aplicações as seguintes:

• Gestão da eficiência (produtividade e custos) – estas são as aplicações mais usuais do


conceito. A partir do exame de entradas e saídas do sistema ou das organizações
componentes, e de seus processos produtivos, determinam-se fatores limitantes à
produtividade e aos custos, gerando-se a informação pertinente para a melhoria do
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desempenho da cadeia produtiva. Exemplos dessas aplicações são encontrados nos


estudos sobre a competitividade das cadeias produtivas da soja (Castro et al., 2000) e
do dendê (Lima et al. 2000).
• Gestão tecnológica e de P&D – ao determinar gargalos e demandas tecnológicas, a
análise cria a informação necessária para que as instituições de P&D possam gerenciar
seus programas de geração e difusão de P&D, ajustando suas ofertas de inovações às
demandas do mercado de tecnologia (ver Wright & Johnson, 1992; Pessoa & Leite,
1998).
• Gestão da qualidade (diferenciação) – os requisitos de qualidade dos produtos e
processos dos clientes intermediários e finais de uma cadeia produtiva podem ser
determinados, a importância e nível de cumprimento desses requisitos objetivamente
avaliados e a partir desses produtos, é possível se definir políticas para a gestão da
qualidade e da diferenciação de produtos de uma cadeia produtiva (ver Pessoa &
Leite, 1998).
• Gestão da competitividade – competitividade é em geral determinada por vantagem
comparativa em custos, o que indica maior eficiência produtiva, ou por diferenciação
de produtos. O estudo comparativo de cadeias produtivas competidoras é um ótimo
instrumento para indicar fatores críticos de competitividade de natureza tecnológica,
gerencial ou estrutural, uma vez que permite uma visão sistêmica sobre o desempenho
de sistemas e processos produtivos.
• Gestão da sustentabilidade ambiental – a análise dos processos produtivos da cadeia
produtiva (segmentos agrícola e industrial) e de suas interfaces com o meio ambiente
podem ser avaliadas, estimando-se possíveis impactos sobre a sustentabilidade
ambiental (ver Nogueira et al., 1998).
• Gestão dos mercados e oportunidades (foco) – ao analisar o comportamento de
consumidores intermediários e finais de produtos e sub-produtos da cadeia, os estudos
prospectivos geram informação para a decisão sobre ênfases de produtos e mercados
consumidores.
• Gestão de contratos – os estudos dos contratos formais e informais de transações ao
longo da cadeia produtiva podem revelar fatores limitantes desses contratos e a
influência destes no desempenho dos atores e na competitividade dos produtos da
cadeia produtiva.
• Gestão da comunicação e da informação – cadeias produtivas são compostas de
agrupamentos sociais com funções distintas e geograficamente dispersos. Para
desempenhar suas funções, necessitam informação tecnológica, gerencial e de
mercados de fatores e de produtos, geradas interna e externamente à cadeia produtiva.
A forma como a informação é produzida, flui e é apropriada pelos diversos
componentes da cadeia produtiva é um fator preponderante no seu desempenho. Este
conhecimento é essencial para desenvolver estratégias de gestão de informação na
cadeia. Um estudo dessa natureza está em andamento, cobrindo a cadeia da soja no
Centro Oeste brasileiro (Jorge Duarte & Antônio Maria G. de Castro, em execução)
• Conscientização de lideranças – o desempenho de cadeias produtivas é dependente de
coordenação, da forma como os elos e seus componentes se orga nizam para elaborar e
entregar aos consumidores finais produtos de qualidade e custos baixos. Lideranças
formais e informais, reconhecidas pelos diversos componentes, são importantes para
essa coordenação. Os resultados sistêmicos, produzidos pelos estudos prospectivos de
desempenho das cadeias, podem ser um fator de criação e conscientização dessas
lideranças, para exercer com competência este papel.
• Melhoria da base de informações (bibliografia, “sites”, bases de dados) – boas
decisões demandam informação de qualidade. Os estudos prospectivos de cadeias
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geram informação dessa natureza, que pode ser democratizada em processos


alternativos de gestão de informação, accessível aos diversos extratos sociais
componentes da cadeia produtiva.
• Melhoria da imagem e sustentabilidade institucional – estudos de desempenho de
cadeias produtivas, por órgãos governamentais e não governamentais, geram uma
importante contribuição aos atores da cadeia, contribuindo para realçar a imagem
institucional positiva das organizações patrocinadoras desses estudos, perante a sua
clientela.
• Gestão da distribuição de benefícios (equidade) – o exame dos fluxos de capital de
uma determinada cadeia pode indicar aos gestores de políticas públicas as
discrepâncias na apropriação dos benefícios produzidos pela cadeia e a necessidade de
intervenções localizadas, para garantir um acesso mais equânime ás oportunidades e
benefícios gerados pela atividade produtiva.
• Geração e gestão de políticas públicas (fábrica do agricultor, defesa sanitária,
capacitação, apoio à agroindústria, desenvolvimento regional) – a implantação de
políticas específicas orientadas para determinado setor ou região podem ser
acompanhadas e terem os seus impactos avaliados, principalmente no que tange à
competitividade das cadeias produtivas afetadas. Ao revelar com maior precisão a
natureza dos gargalos tecnológicos e não tecnológicos, e as oportunidades e ameaças
futuras ao desempenho da cadeia produtiva, os estudos prospectivos contribuem para
orientar a formulação de nova s políticas publicas de apoio ao desempenho da cadeia.
Estas políticas podem ter maior eficácia, por serem propostas com orientação mais
precisa. Um exemplo desse tipo de uso é o trabalho de Yamaoka & Watanabe (1998),
sobre a cadeia produtiva da seda no Paraná.
• Fóruns e câmaras de negociação entre elos das cadeias produtivas – cadeias
produtivas são palco de eclosão de conflitos entre seus atores. O desempenho, todavia,
necessita ação coordenada e cooperativa. Conseqüentemente, a melhoria de
desempenho de uma cadeia produtiva passa por processos de negociação de conflitos
internos entre seus atores. Os estudos prospectivos podem gerar a base lógica e
racional para orientar o trabalho de fóruns e câmaras de negociação, que funcionem
em modalidades negociação tipo ganha-ganha.

2.3 - A especificidade e a universalidade do conceito: do agronegócio para a atividade


industrial e de serviços.

Como visto anteriormente, o conceito de cadeia produtiva originou-se no setor agrícola, a


partir da necessidade de ampliação da visão de dentro da porteira para antes e depois da
porteira da fazenda. Nesta concepção, uma cadeia produtiva agropecuária seria composta por
elos que englobariam as organizações supridoras de insumos básicos para a produção agrícola
ou agroindustrial, as fazendas e agroindústrias com seus processos produtivos, as unidades de
comercialização atacadista e varejista e os consumidores finais, todo conectados por fluxos de
capital, materiais e de informação. Na Figura 3, o modelo geral de uma cadeia produtiva é
apresentado.
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AMBIENTE ORGANIZACIONAL

PROPRIE-
F O R N E C E- COMÉRCIO COMÉRCIO CONSUMIDOR
DADE AGRO-
DORES DE AGRÍCOLA INDÚSTRIA ATACADISTA VAREJISTA FINAL
INSUMOS
SIST
PROD,1,
2,3... n

T5 T4 T3 T2 T1

AMBIENTE INSTITUCIONAL

Fluxo de material Fluxo de capital

T=Transações Fluxo de informação E los

Figura 3 – Modelo geral de uma cadeia produtiva

Examinando-se o modelo geral da cadeia produtiva, identificam-se alguns elementos que são
característicos de sistemas, como os componentes interconectados, neste caso organizações
dedicadas a alguma função produtiva direta ou a processo conexo à produção, como a
comercialização; os fluxos de materiais (setas brancas) de capital (setas negras) ou de informação
(setas ponteadas). Os componentes que determinam a especificidade da cadeia produtiva para a
agricultura são a propriedade agrícola e a agroindústria. Nestes, os produtos que serão
comercializados e consumidos são especificados (por exemplo, soja em grãos, café em pó, carne
enlatada).
Todavia, a aplicação do conceito, e o conseqüente desenvolvimento conceitual e metodológico
no tema (Castro et al. 1995; 1999), revelaram que este modelo pode ser aplicado para atividades
produtivas de outra natureza que não a agrícola, como a produção de produtos industriais.
Tomando-se como referência o modelo geral da Figura 3, para representar a atividade produtiva
de produtos oriundos da indústria, sem relação direta com a agricultura, basta eliminar o elo
propriedade agrícola. Os demais componentes da cadeia produtiva serão de mesma natureza que
os de uma cadeia produtiva agrícola, ou seja, fornecedores de insumos para a indústria,
comercialização atacadista e varejista, consumidores finais. Também se identificam nesse caso
um fluxo de materiais, capital e informação, transações na cadeia, processos produtivos e fatores
de desempenho, como eficiência produtiva, qualidade de produtos e processos, competitividade,
equidade como expressão de apropriação de benefícios ao longo da cadeia produtiva.
As semelhanças apontadas não ocorrem por acaso, uma vez que estes elementos são comuns ao
enfoque sistêmico. Apenas reforçam a idéia central da teoria geral de sistemas, de que os
fenômenos sociais, econômicos, físicos, biológicos são sistêmicos e que o enfoque sistêmico é
uma das boas ferramentas disponíveis no método científico, para aumentar a compreensão
isolada e interativa desses fenômenos.
Talvez por esta compreensão ampliada que a visão sistêmica oferece aos seus praticantes, o que
iniciou como uma abordagem setorial, o enfoque de cadeias produtivas agrícolas, passou a ser
adotado por outros setores da economia, como o setor industrial, gerando o enfoque em cadeias
produtivas industriais. Esta evolução aponta na direção da universalização do conceito, para
representar e compreender, orientar a intervenção e realizar a gestão de macro-processos
produtivos.
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Esta generalidade do enfoque permite que se possa referir, de uma maneira geral, a um enfoque
sistêmico em cadeias produtivas. Na seqüência, apresenta-se uma discussão da importância desse
enfoque para a realização de estudos prospectivos e exemplos dessa natureza.

3 - Aplicação do enfoque sistêmico em cadeias produtivas nos estudos prospectivos

O conceito de futuro tem relação com algumas dimensões fundamentais (Marinho & Quirino,
1995): a primeira delas é o tempo, cuja percepção e medida estão, em algumas sociedades,
relacionadas com os ciclos da natureza. Esta percepção do tempo (e de seus indicadores)
como ligada a fenômenos naturais que se repetem, leva a um conceito de futuro como uma
seqüência natural do passado e do presente. Outra dimensão importante diz respeito ao
progresso tecnológico: esta dimensão traz uma perspectiva de evolução e mudança, para as
sociedades industriais, o que rompe com a idéia anterior de futuro como continuação do
passado. Implica em um ambiente turbulento, em constante mutação, no qual os estudos de
futuro se tornam, ao mesmo tempo, mais difíceis e necessários.
As noções de incerteza e de ambiente turbulento se combinam para originar o conceito de
futuro adotado neste texto. Por este conceito, o futuro é visto como o resultado da interação
entre tendências históricas e a ocorrência de eventos hipotéticos (Castro et al., 1999, citando
Johnson, B.B.). Este conceito de futuro está fortemente vinculado a chamada “visão
prospectiva”, em estudos de futuro. Por outro lado, incorpora também elementos da escola
americana de estudos de futuro (forecasting ou estudos tendenciais) ao considerar as
tendências históricas para desenvolver sua análise.
As duas abordagens de estudos de futuro – a clássica e a prospectiva (ou foresigth) – não são
excludentes, e na verdade apresentam complementaridade. Quer utilizem princípios do estudo
tendencial clássico ou de prospecção, os estudos do futuro não podem prescindir de: a)
identificar padrões no comportamento das variáveis presentes no sistema sob estudo; b)
identificar relações entre estas variáveis.
Diversas abordagens metodológicas estão disponíveis nas duas escolas. Na escola
prospectiva, estes métodos e técnicas tem sido descritos por muitos autores, entre eles Castro
et al. (2001). As mais utilizadas internacionalmente são as técnicas de elaboração de cenários
e a técnica Delphi. Todavia, nenhuma dessas técnicas oferece ferramentas simples e
poderosas para organizar a complexidade inerente aos diversos ambientes internos e externos
dos temas dos estudos, e os seus diversos contextos (social, econômico, tecnológico,
gerencial, biológico, ambiental) que podem se inter-relacionar para compor diferentes
possibilidades de futuro.
Neste ponto reside um fator crítico de qualidade dos estudos prospectivos. Sem um bom
mapeamento das forças e eventos importantes que determinaram o passado e moldam o
presente, é impossível traçar boas visões de futuros plausíveis, com robustez suficiente para
orientar a formulação de estratégias. Visão de futuro sem conhecimento das ocorrências e
decorrências passadas e presentes é exercício de adivinhação e ficção, é conhecimento
mágico. Pode até se confirmar, mas a forma de se chegar a esta visão dificilmente poderá ser
incorporada na metodologia científica e gerencial.
O enfoque sistêmico pode agregar as ferramentas necessárias para solucionar esta dificuldade
metodológica. Quando se trata de produção de bens de consumo, as cadeias produtivas são o
tipo adequado de enfoque sistêmico a adotar. Na Figura 4, ilustra-se a complexidade inerente
a este processo de análise e como o enfoque sistêmico pode ser utilizado como ferramenta
analítica.
Utilizando os princípios da análise de sistemas e cadeias produtivas, propõe-se (Castro et al.,
1995; 2000) que um sistema pode ser caracterizado por seu desempenho, ou sua capacidade
de transformar insumos em produtos. Este desempenho pode ser representado por fatores
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críticos de desempenho, conforme representado pelas setas na Figura 4. Por sua vez, estes
podem ser afetados por forças propulsoras e restritivas. Uma força propulsora ou restritiva é
qualquer variável (ou grupo de variáveis, ou estrutura) que afeta fortemente o desempenho de
um sistema, de um modo positivo ou negativo. As forças propulsoras, portanto, mantêm uma
correlação positiva com o fator crítico, enquanto as forças restritivas apresentam uma
correlação negativa com aquele fator.

CONTEXTO NACIONAL E INTERNACIONAL)


INTERNACIONAL)
FORÇAS
RESTRITIVAS
RESTRITIVAS
CENÁRIOS
CENÁRIOS DO
DO AGRONEGÓCIO
AGRONEGÓCIO

FORÇAS
RESTRITIVAS
RESTRITIVAS SN
DESEMPENHO
CP
FATOR FUTURO
CRITICO
DO
FATOR SP
CRITICO SISTEMA

FORÇAS
PROPULSORAS
PROPULSORAS

FORÇAS
PROPULSORAS
PROPULSORAS

SN=SISTEMA
SN=SISTEMA NATURAL
NATURAL CP=CADEIA PRODUTIVA SP=SISTEMA PRODUTIVO
PR ODUTIVO

Figura 4 – Aplicação do enfoque sistêmico à análise prospectiva

Ao utilizar a abordagem descrita na Figura 4, se estará aplicando uma das ferramentas mais
poderosas do enfoque sistêmico, a análise de sistemas. Um sistema está analisado quando se
definem os seus objetivos, razão pela qual ele opera; os seus insumos, ele mentos entrando no
sistema; os seus produtos, elementos saindo do sistema; os seus limites; os seus componentes,
elementos internos que transformam insumos em produtos; os fluxos, movimento de elementos
entre os seus componentes, definindo as variáveis de estado e as taxas de fluxo, que podem ser
utilizadas para se medir o comportamento dinâmico e o desempenho do sistema (Saravia, 1986).
Além destes elementos, se estará decompondo a complexidade do sistema estudado em
hierarquias, com limites bem definidos e utilizando-se as técnicas de modelagem de sistemas.
Estas ferramentas ajudam na identificação e descrição das relações entre fatores críticos e suas
forças propulsoras e restritivas, na construção de uma rede de relações de causa e efeito que
terá um impacto sobre o desempenho do sistema que está sob análise. Determinar esta rede é
um passo essencial para a análise diagnóstica de um sistema, mas especialmente, para sua
análise prospectiva.

4 – Metodologia de análise prospectiva de cadeias produtivas


4.1. Metodologias existentes

Este trabalho apresenta uma proposta metodológica desenvolvida para a prospecção de


demandas de P&D, desenvolvida pelo autor e colaboradores (Castro et al. 1995; 1998).
Existem, entretanto, outras metodologias, utilizando base conceitual semelhante, por exemplo,
o conceito de cadeias produtivas, porém com finalidades diversas.
Assim, cita-se a abordagem do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial
(PENSA) da Universidade de São Paulo, com estudos e projetos voltados ao agribusiness.
Essa abordagem objetiva a realização de estudos e projetos relacionados à formação de
capacidade gerencial e acadêmica aplicados ao negócio agrícola. Seus fundamentos se
11

baseiam no conceito de economia de transações e visão sistêmica do negócio agrícola.


Realiza estudos de casos de cadeias produtivas para a melhoria de seu desempenho,
geralmente sob a ótica da competitividade (Zilbersztajn, 1994; Farina et al., 1994).
Também aplicada ao estudo de cadeias produtivas, foi desenvolvida uma metodologia sob
auspícios do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA, 1994). Adota
enfoque sistêmico, pressupõe o envolvimento participativo dos atores da cadeia para garantir
a implementação das decisões tomadas. Entretanto, não são enfatizados nos estudos os
aspectos prospectivos de mais longo prazo, nem a questão de segmentação de mercado.
O enfoque analítico desenvolvido por Busch (1990) é mais direcionado a aspectos
sociológicos associados à denominada cadeia do conhecimento. As perguntas básicas que
esses autores colocam é a de saber como a tecnologia afeta e é afetada pela sociedade, e como
são escolhidos os problemas de pesquisa. Estabelecem um modelo onde se assume que os
problemas de pesquisa são escolhidos através da negociação, persuasão e coerção, envolvendo
todos os atores - clientela (demanda) e os pesquisadores (oferta).
A proposta metodológica elaborada por Leite & Pessoa (1996) propõe onze etapas para
identificação de demandas de P&D dos componentes da cadeia produtiva. Concentram-se em
aspectos de coordenação e competitividade da cadeia nos moldes adotados pelo PENSA. Tem
sua utilidade mais direcionada à prospecção de demandas de cadeias produtivas, não
enfocando outros sistemas pertinentes.

4.2 - Metodologia pa ra a análise prospectiva de demandas


4.2.1 – Etapas da metodologia
A metodologia para análise prospectiva de cadeias produtivas proposta neste trabalho vem
sendo sistematicamente desenvolvida, inicialmente com a finalidade principal de levantar e
caracterizar demandas tecnológicas e posteriormente para a análise de competitividade de
cadeias produtivas. A prospecção foi desenvolvida em etapas, às quais são associados os
conceitos, métodos e técnicas para executar a prospecção. Algumas técnicas indicadas estão
contidas no trabalho de Castro et al. (1995; 2000); Lima et al. (2001). São também oferecidos
alguns instrumentos de análise e de síntese, como auxiliar para a coleta de informações, na
maioria das etapas.
As principais etapas para análise de cadeia produtiva estão contidas, de forma resumida, na
Tabela 1. A análise se inicia pela caracterização dos consumidores da cadeia produtiva e pela
definição das necessidades e aspirações desse mercado consumidor em relação ao(s)
produto(s) da cadeia produtiva (CP). A posição relativa da cadeia produtiva no negócio
agrícola é examinada, e os limites e relações com o ambiente externo da cadeia são definidos.
As cadeias produtivas têm seu desempenho orientado por um conjunto de objetivos de
desempenho. Para se proceder à análise prospectiva de demandas, é necessário explicitar
esses objetivos de desempenho e se adotar formas de aferição dos mesmos.
4.2.2 – Critérios de desempenho
De uma forma geral, os principais objetivos de desempenho que podem ser perseguidos pelas
cadeias produtivas, ou pelos seus componentes individualmente, são a eficiência, qualidade,
competitividade, sustentabilidade e a equidade. A metodologia de análise das cadeias
produtivas, para efeito de prospecção tecnológica, deve responder quais desses objetivos são
mais apropriados para a situação em análise, quais os padrões a atingir e respectivos
instrumentos e mecanismos de mensuração.
Na sua formulação mais geral, eficiência de um sistema é mensurada pela relação entre
insumos (I) necessários à formação do produto do sistema e este produto ou output (O).
Insumos e produtos devem ser mensurados num mesmo elemento de fluxo (capital, energia,
materiais, informações), sendo por isso a eficiência uma medida sem dimensão (Spedding,
1975). Para a análise de uma cadeia produtiva (ou de seus respectivos sistemas produtivos), o
12

elemento de fluxo mais apropriado para a mensuração é o de capital, traduzido em uma


determinada moeda (dólares americanos, reais etc.).

Tabela 1: Principais etapas (resumo) pa ra a prospecção de cadeias produtivas

ETAPAS CADEIA PRODUTIVA SISTEMA PRODUTIVO

DIAGNÓSTICO Definição de objetivos Definição de objetivos


Hierarquia e relações com o Hierarquia e relações com a cadeia produtiva
agronegócio
Modelagem, limites e segmentação. Limites e segmentação (tipologia)
Análise quantitativa dos processos Análise quantitativa do processo produtivo
produtivos (eficiência, qualidade, (eficiência, qualidade, competitividade,
competitividade, equidade). sustentabilidade).
Definição de fatores críticos Definição de fatores críticos
PROGNÓSTICO Análise prospectiva (cenários, técnica Análise prospectiva (cenários, técnica
Delphi). Delphi).
Demandas atuais, potenciais e futuras. Demandas atuais, potenciais e futuras.

A sustentabilidade é a capacidade de um sistema produtivo (SP) agropecuário ou agro-


florestal, em manter-se produzindo com determinados padrões de eficiência e de qualidade no
tempo. A influência do homem (ou influência antrópica) no ecossistema, quebrando o seu
equilíbrio original em favor da exploração econômica do mesmo, é neutralizada por
tecnologias que evitam a degeneração do ecossistema onde a produção ocorre.
Qualidade é a totalidade das propriedades e características de um produto, serviço ou
processo, que contribuem para satisfazer necessidades explícitas ou implícitas dos clientes
intermediários e finais de uma cadeia produtiva e de seus componentes. Usualmente,
qualidade é traduzida por um conjunto de normas e padrões a serem atingidos por produtos e
serviços, ofertados pelas cadeias e sistemas produtivos. O conceito abrange, também, as
entradas e saídas de processos administrativos no contexto das cadeias produtivas.
Equidade é definida como relativo equilíbrio na apropriação dos benefícios econômicos
gerados ao longo da cadeia produtiva pelos seus componentes ou, internamente, entre os
indivíduos e organizações de um segmento da cadeia produtiva. Pode ser analisada,
avaliando-se o fluxo de capital, iniciando-se no consumidor final e verificando-se a
acumulação entre os demais componentes. Historicamente, as organizações de
comercialização têm acumulado a maior parte dos capitais circulantes na cadeia, como foi
demonstrado no trabalho de Leite & Pessoa (1994), sobre a cadeia produtiva do caju.
Nos anos 80, foi desenvolvido um novo conceito para a competitividade das empresas, o
conceito de vantagem competitiva (Porter, 1997). Por este conceito, seriam duas as formas
principais de as empresas se distinguirem de suas concorrentes: a diferenciação ou os baixos
custos. Uma terceira forma a ser considerada, afetando a diferenciação ou os baixos custos é o
escopo, ou seja, o conjunto de segmentos de mercado visados pela empresa.
Juntamente com o conceito de competitividade industrial, Porter desenvolveu o conceito de
cadeia de valor na Empresa, um modelo de análise competitiva e um conjunto de estratégias
genéricas, capazes de orientar a formulação de estratégias específicas de competitividade. Isto
se constituiu numa base teórica para o planejamento de competitividade industrial, tornando-
se uma referencia para o planejamento da competitividade nos meios acadêmicos e
empresariais (Mintzberg et al., 2000).
No caso de cadeias produtivas agropecuárias, o conceito de competitividade pode ser
considerado similar ao estabelecido por Porter, considerando os produtos ou subprodutos da
cadeia competindo no mercado consumidor de produtos agropecuários. Há que se distinguir
13

produtos com valor agregado ou diferenciados por algum tipo de característica distintiva e
produtos do tipo commodities. O estabelecimento de vantagem competitiva será diferente em
cada caso.
Em cadeias produtivas produtoras de commodities a competitividade é principalmente
estabelecida por baixos custos, que permite lucratividade para os segmentos da cadeia
produtiva, mesmo quando os preços dos produtos são baixos. Isto significa uma eficiência
produtiva maior, ao longo de toda a cadeia produtiva. Notar que a análise da cadeia produtiva
neste caso é comparativa, abrangendo as cadeias produtivas concorrentes.
Uma outra situação específica de competitividade é a que envolve produtos com valor
agregado, ou produtos diferenciados, onde a vantagem competitiva será estabelecida a partir
de um desempenho maior em qualidade de produtos, ou seja, no estabelecimento de uma
imagem de diferenciação, produtos que são reconhecidos pelos seus consumidores como
possuindo características diferenciadas. Esta diferenciação está relacionada com a emergência
de oportunidades e constitui-se num dos elementos importantes, para a formulação de
estratégias de gestão das cadeias produtivas.
4.2.3 – Processo de análise
A partir do modelo geral, os componentes da cadeia produtiva são qualificados e
quantificados, bem como as suas relações, sob a forma de transações. Definem-se os critérios
de mensuração de desempenho da cadeia produtiva entre os de eficiência produtiva,
qualidade, competitividade, sustentabilidade ou equidade. O desempenho será analisado em
relação a um ou a múltiplos critérios. A análise é conduzida considerando-se um fluxo de
capital, que se inicia no consumidor final e se desenvolve na direção do elo final da cadeia, os
fornecedores de insumos. As entradas e saídas de capital em cada componente são
quantificadas, para estudo individual da eficiência, qualidade e competitividade e da
distribuição de benefícios na cadeia.
Definido o desempenho dos componentes, o passo seguinte é explicar o seu comportamento.
O desempenho da cadeia produtiva será estudado, examinando-se os processos produtivos de
cada componente. Neste exame, identificam-se as variáveis críticas, denominadas fatores
críticos de desempenho, aquelas de maior impacto no(s) critério(s) de desempenho eleito(s), e
que explicam o funcionamento atual e passado da cadeia. Identificadas tais variáveis procede-
se à análise prospectiva, construindo-se as projeções futuras de desempenho da cadeia
produtiva e sobre o comportamento das variáveis críticas, sob o ponto de vista da eficiência,
qualidade, competitividade e equidade.
Os sistemas produtivos primários são, do ponto de vista da pesquisa agropecuária, um dos
elos mais importantes das cadeias produtivas. Por isso, a análise deste componente merece
maior atenção por parte do centro de P&D em agropecuária e deve ser realizada de forma
mais aprofundada, conforme expresso na Tabela 1.
Uma vez classificados, a partir da segmentação baseada em características tecnológicas,
ambientais e sócio-econômicas, os sistemas produtivos são analisados, considerando as
operações de manejo efetuadas, as entradas (ou custos) destas e a contribuição para formação
das saídas do sistema (receitas). A análise deve estimar qual a produtividade potencial e
econômica daquele sistema e quais as variáveis que se constituem em fatores críticos (atuais e
futuros) para se atingir tais parâmetros.
As demandas serão a síntese dos fatores críticos de maior impacto, atual e futuro, sobre o
desempenho do sistema produtivo, representado como eficiência, qualidade, competitividade
ou sustentabilidade.
Para facilitar a coleta de dados sobre desempenho das cadeias e sistemas produtivos, foram
desenvolvidos alguns instrumentos auxiliares para a busca de informação. Há também um
grande número de técnicas de pesquisa que podem ser empregadas. Para uma visão mais
14

aprofundada sobre a metodologia de análise de cadeias produtivas e das técnicas a empregar,


consultar Castro et. al. (2000); Lima et al. (2001).

5 - Descrição resumida de casos de aplicação do enfoque de cadeias na análise


prospectiva

São muitos os casos de aplicação com resultados, do enfoque de cadeias produtivas na


agricultura, seja com finalidades diagnósticas, ou prospectivas. Wright et al. (1992) aplicaram
este enfoque para estudar a competitividade atual e futura da cadeia produtiva do vinho no
Brasil. Castro et al. (1998) organizaram uma coletânea de 18 estudos, sobre desempenho de
diversas cadeias produtivas brasileiras. Mais recentemente, estas ferramentas sistêmicas estão
sendo empregadas em complemento às técnicas prospectivas (cenários, técnica Delphi) para
estudar o futuro do sistema nacional de produção de cultivares e sementes (Castro et al. 2002).
Recentemente instituições de outros segmentos da economia, passaram a adotar o enfoque
sistêmico associado à prospectiva, para gerar base de informação para a formulação de
estratégias institucio nais e de políticas setoriais. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio Exterior (MDIC) incluiu o enfoque de cadeias produtivas como uma das
ferramentas da sua ação institucional. A partir daí, diversas ações foram implementadas, entre
as quais o Programa Brasileiro de Prospectiva Tecnológica Industrial, componente de um
programa mais amplo, o Technology Foresight for Latin America, patrocinado pela ONUDI
(Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial).
Tomando-se como exemplo um dos estudos patrocinados pelo Programa, o da construção
civil, realizado pelo Departamento de Engenharia Civil da Escola Politécnica da USP, o setor
brasileiro de construção civil foi modelado como uma cadeia produtiva de unidades
habitacionais. O estudo teve os seguintes objetivos (Escola Politécnica, 2002):
a) identificar demandas tecnológicas e como conseqüência, orientação para a busca de
inovações;
b) identificar demandas não tecnológicas, tais como oportunidades, ameaças e ações possíveis
na cadeia e no seu ambiente institucional e organizacional, visando à melhoria de seu
desempenho para o futuro;
c) realizar a modelagem da cadeia enquanto sistema industrial, composto de elos sucessivos e
interligados e a segmentação de cada elo;
d) realizar a análise do ambiente institucional e organizacional que envolve a cadeia
produtiva;
e) identificar necessidades e aspirações, de cada segmento, e da cadeia como um todo;
f) analisar o desempenho da cadeia produtiva e a identificação de fatores críticos à melhoria
do desempenho;
g) realizar o prognóstico do comportamento futuro dos fatores críticos e, portanto, do
desempenho futuro da cadeia.
A metodologia empregada utilizou, com muito sucesso, os conceitos de limite, hierarquia,
fluxo quantificado de capital, fluxo de informação, modelagem da cadeia produtiva, análise
processos produtivos e análise de desempenho (eficiência e qualidade). Como produto, gerou
fatores críticos de desempenho, que serão a base para a realização do Painel Delphi.
Vale ressaltar que a equipes multidisciplinares formadas para a realização destes estudos
prospectivos foram capacitadas pelo Programa. O marco conceitual de cadeias produtivas foi
um bom instrumento para preparação dessas equipes. A visão sistêmica, proporcionada pelo
enfoque de cadeias produtivas, permitiu a estas equipes um melhor tratamento da
complexidade dos sistemas estudados, graças à determinação de hierarquias, com limites bem
15

definidos, e a utilização das técnicas de modelagem de sistemas. O uso dessas ferramentas


contribuiu no estabelecimento das relações entre fatores críticos e suas forças propulsoras e
restritivas, e na melhor caracterização do desempenho dos sistemas analisados.
Na sua avaliação da execução do Programa, realizada por consultores internacionais, a
ONUDI ressaltou a importância do enfoque de cadeias, utilizado nos estudos prospectivos do
Programa Brasileiro, e decidiu utilizar este enfoque nos demais programas nacionais de outros
países, patrocinados pela entidade.

6 – Conclusão

A prospecção tecnológica é uma importante ferramenta para a gestão estratégica. Todavia, o seu
uso tem sido restrito a umas poucas áreas de excelência no País, em função das dificuldades
conceituais e metodológicas enfrentadas pelas equipes executoras de estudos prospectivos, em
organizar e compreender a complexidade dos sistemas.
O enfoque sistêmico e suas ferramentas analíticas oferecem uma importante contribuição para a
realização desses estudos. Ao decompor a complexidade do sistema estudado em hierarquias,
com limites bem definidos, utilizando-se as técnicas de modelagem de sistemas, estas
ferramentas ajudam na identificação e descrição das relações entre fatores críticos e suas forças
propulsoras e restritivas, na construção de uma rede de relações de causa e efeito que terá um
impacto sobre o desempenho do sistema. Tal abordagem representa uma vantagem, que pode
contribuir para melhorar a capacidade analítica das equipes e difundir a realização e o uso
desses estudos.
O enfoque sistêmico, traduzido na abordagem de cadeias produtivas, é aplicável em macro-
processos produtivos de qualquer natureza. Esta abordagem, inicialmente mais difundida no
setor agrícola e nas suas organizações de P&D, já foi utilizada, com sucesso, em outros setores
produtivos, como o setor industrial. Tal constatação aponta para a emergência de um enfoque
metodológico de grande capacidade de extrapolação e de ampla aplicação.

7 – Referências bibliográficas

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