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“UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA”: GOTA D’ÁGUA E AS

INTERFACES DO TEXTO TEATRAL

DOLORES PUGA ALVES DE SOUSA1


ROSANGELA PATRIOTA RAMOS2

RESUMO: A pesquisa dialoga com estudos sobre a obra de arte e a História. Nesse sentido –
a partir das considerações de Roger Chartier sobre o conceito de representação – explora-se a
peça teatral Gota D’água de Chico Buarque e Paulo Pontes (1975) e as determinações do seu
contexto histórico, para a consignação dos significados construídos por seus dramaturgos. As
reflexões de Carlos Vesentini acerca das várias formas que um fato pode se apresentar
auxiliaram a análise das personagens. Foram observadas como integrantes de um processo
conflituoso, em que as particularidades dos interesses compõem uma gama heterogênea de
pensamentos e condutas; seja na busca por uma resistência democrática contra a repressão
militar, seja centrando-se de acordo com o ideal do “milagre econômico”.

ABSTRACT: The research dialogues with studies about work of art and History. In this way
– to depart from Roger Chartier’s considerations about the representation’s concept – explores
Chico Buarque and Paulo Pontes’ play Gota D’água (1975) and the determinations of this
history’s context for the consignment of meanings constructed by the dramatists. Carlos
Vesentini’s reflections about the many ways that one fact can be shown helped to analyze the
characters. They were observed like members of a conflict process, that particularities of
interests compose a heterogeneous’ gamut of thoughts and behaviors; be it in a search for a
democratic resistance against the military’s repression, or centering by the way of the
“economics’ miracle” ideal.

PALAVRAS-CHAVES: Gota D’água; “povo”; Chico Buarque; Paulo Pontes.

KEY-WORDS: Gota D’água; “popular”; Chico Buarque; Paulo Pontes.

1
Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Avenida Jerônimo Maia Santos, 107, apt.
202, Bairro Santa Maria – Uberlândia-MG. CEP: 38408-014. E-mail: dolorespuga@gmail.com
2
Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Rua dos Antúrios, 11. Bairro Cidade
Jardim – Uberlândia-MG. CEP: 38412-100. E-mail: rpatriota@triang.com.br
INTRODUÇÃO daqueles que se aventuram a analisar o
texto teatral; de maneira a compreendê-lo
Para trabalhar com o texto teatral
como uma particularidade produzida
como objeto de pesquisa por excelência, há
dentro de um contexto histórico cujo
que se considerar a maneira peculiar em
processo é dinâmico e passível de novas
que foi construída sua estrutura dramática,
explicitações.
principalmente a análise da função da
rubrica, das personagens e das músicas
DESENVOLVIMENTO
para o desenrolar das temáticas abordadas.
Determinadas considerações de Chico Gota D’água pode ser dividida em
Buarque e Paulo Pontes – autores de Gota dois atos e em cada um deles observa-se a
D’água (1975) – são observadas e existência de cinco sets onde acontecem as
examinadas dentro do contexto ficcional da cenas: o set das vizinhas lavando roupa; do
obra, fornecendo-nos possibilidades de botequim; da oficina da personagem Egeu;
investigação acerca das questões que estes da casa de Joana – que quando surge toma
dramaturgos elencaram como relevantes o lugar neutro não ocupado pelos outros
para a discussão da trama. sets – e, finalmente, da casa de Creonte (o
Para esta empreitada, não é possível dono de um conjunto habitacional no Rio
partir das primeiras leituras da peça, uma de Janeiro denominado Vila do Meio-Dia,
vez que as idéias iniciais da obra podem lugar onde mora Joana). O primeiro ato
estabelecer confusas interpretações. reforça, a todo o momento, a traição de
Segundo João das Neves: Jasão para se casar com Alma, filha de
Realizar a passagem da intuição para a Creonte, bem como o sofrimento de Joana
consciência é, pois, o objetivo da análise
do texto. Para que esta passagem possa
e a situação de dívida, pobreza, alegrias e
ser feita é necessário conhecer todas as amarguras dos habitantes da vila. O
características do texto teatral, sua
estrutura, seus ritmos internos, etc. segundo ato ressalta da altivez até o fim
Quanto mais aprofundada for a análise
trágico da rica cerimônia de casamento do
do texto, maior a liberdade criadora de
seus intérpretes e não o inverso. protagonista.
(NEVES, 1987, p.11)
A maneira como o texto foi
Ao interpretar a peça Gota D’água, desenvolvido demonstra a preocupação
dos autores pela valorização da palavra,
situo minha conduta como um possível uma vez que sua estrutura se determinou
por versos, com intuito de reforçar a
apontamento na organização proposta presença popular. Segundo Paulo
pelos autores. É justamente desse modo Pontes: “o verso [...] é capaz de
aprofundar o personagem social e de dar
que se fundamenta a “liberdade criadora” uma dignidade, uma força teatral, que
substitui o diálogo em prosa, naturalista
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[...], a tradição da rima pertence às de Joana. Ela representa o encontro da


camadas populares”. (PONTES, 1976, p.
283) protagonista com as outras mulheres do
conjunto habitacional. Corina é
As rubricas pertencentes à peça, responsável por relatar o estado em que se
além de desvendar a ação das personagens, encontra a casa e os filhos de Joana:
nos revelam a entrada e saída da orquestra. Corina – Minha filha, só vendo
Mas funcionam, sobretudo, como um norte Tem resto de comida
nas paredes fedendo
para a organização das cenas, de modo a a bosta, tem bebida
com talco, vaselina,
explicar o leitor em qual set se situa a barata, escova, pente
história e a demonstrar que cada um deles sem dente. E ali, menina,
brincando calmamente
aparece paralela e alternadamente, co’os cacos dos espelhos,
estão os dois fedelhos...
indicando que as ações ocorrem ao mesmo
É ver sobra de feira,
tempo. ramo de arruda, espada-
de-são-jorge, bandeira
Em cada parte da peça surgem os do Flamengo, rasgada
diversos comentários dos vizinhos de por cima da cadeira
E ali, se lambuzando,
Joana, que servem de base para o não entendendo nada,
um pouco se espantando
encaminhamento do drama. Seja co’o espanto dos vizinhos,
pertencente ao grupo feminino – Corina, estão os dois anjinhos...
É ver um terremoto
Zaíra, Estela, Maria e Nenê, que se que só deixa aprumado
no lugar certo a foto
preocupam, primeiramente, com as dores daquele desgraçado
amorosas de Joana – ou masculino – posando pro futuro
e pra posteridade
Cacetão, Galego, Xulé, Boca Pequena e E ali, num canto escuro,
na foto da verdade,
Amorim, que ainda ao início já avaliam
brincando com os esgotos,
como positiva ou negativa a atitude de estão os dois garotos...
Os dois abortos...
Jasão em relação às situações de dívidas (BUARQUE; PONTES, 1998, p. 26-27)
para com Creonte pelo pagamento do
Em meio à bagunça descrita por
“sonho da casa própria” –, os vizinhos
Corina, a fala nos mostra a ligação de
representam o coro, cuja função era
Joana à simplicidade e à pobreza, ela é,
semelhante à tragédia grega: narrar os
pois, a personagem que mais representa o
acontecimentos (mas agora em forma de
povo da Vila do Meio-Dia. Esta feição se
diálogos) e julgar os protagonistas.
destaca especialmente por meio de alguns
Logo na primeira cena, quando as
elementos da casa, com os quais
vizinhas conversam, o leitor se depara com
conseguimos observar a rotina, os
a presença de Corina, a amiga conselheira
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costumes e a crença da protagonista. Em outro set, no botequim, Cacetão


Dentre eles a feira, demonstrando o caráter aparece e, ao ler as notícias de um jornal,
singelo; o ramo de arruda e a espada-de- dialoga com o dono do recinto, chamado
são-jorge, revelando a prática de umbanda; pelos amigos de Galego.
e a bandeira do flamengo, relacionando o Cacetão – Essa não! Jóia! Filigrana!
Galego, essa é a manchete da semana:
lugar da protagonista com um hábito fulana, mulher de João de tal
caracteristicamente popular: o futebol. tinha um ciúme que não é normal
Vai daí cortou o pau do infeliz
Além disso, a fala de Corina Ferido, o marido foi pro hospital
Ficou cotó... Vem e lasca o jornal:
apresenta o conflito dramático central de ciumenta corta o mal pela raiz.
Gota D’água. Trata-se do declínio de (BUARQUE; PONTES, 1998, p. 26-27)

Joana e do total abandono dos filhos – e, A fala de Cacetão vem argumentar


consequentemente de todo o povo –, bem a possível atitude de uma mulher em meio
como a ascensão de Jasão na riqueza e no a uma traição. Destarte, fundamenta-se a
poder simbolizada pela “foto posando para tragédia da mulher abandonada pelo
o futuro e para a posteridade”. amante. Logo, Cacetão mostra a todos que
A continuação do diálogo aponta os aparecem no botequim, a reportagem de
primeiros comentários das vizinhas em Jasão e seu rico casamento. Os homens
relação ao casamento de Jasão. comemoram a esperteza de Jasão.
Apresentam-se, dessa forma, as outras Nesta perspectiva, cada um com
personagens principais da trama: Creonte e seus interesses, as conversas estabelecidas
Alma. Além disso, por meio da fala de pelos vizinhos e vizinhas até então foram o
Nenê, consegue-se perceber que as meio de expor o atrito dramático entre
vizinhas defendem Joana, ao chamar de Joana e as personagens Jasão, Creonte e
“puxa-sacos” e “puxa-sacanas” todos Alma. As personalidades da mulher traída
aqueles que festejavam a idéia da e do traidor, bem como suas possíveis
cerimônia. Mais adiante na peça, as ações no decorrer da trama são, assim,
vizinhas combinam com Corina de que anteriormente descritas por uma variedade
irão auxiliar Joana com os deveres da casa; de discussões e boatos das outras
cozinhando, limpando e arrumando. Este personagens, que ao fim do primeiro ato
se torna o posicionamento das mulheres avaliam estas atitudes juntamente ao
durante todo o primeiro ato: amigas de casamento e à figura de Creonte: “Tira o
Joana que confabulam as atitudes possíveis coco e raspa o coco / Do coco faz a cocada
para “diminuir seu desespero”. / Se quiser contar me conte / Que eu ouço e
não conto nada”. (BUARQUE; PONTES,
5

1998, p. 92) Para Adriano de Paula Rabelo, Fica provado que é demais a prestação
Então o seu Creonte não tem solução
“[...] quando os protagonistas surgem em Ou fica quieto ou manda embora toda a
cena, sabe-se bem quem eles são e que gente
Cachorro, papagaio, velho, viúva, filha...
conflitos vivenciam”. (RABELO, 1998, p. Creonte vai dizer que é tudo vagabundo?
E vai escorraçar, sozinho, todo mundo?
101)
Pra isso precisava ter outra virilha
Porém, em meio às primeiras Não é?...
Amorim – Tem boa lógica...
discussões dos vizinhos, surge, no set da Egeu – Falei?...
oficina, a personagem Egeu. Ele é um dos Amorim – Sei não.
Amorim sai do set da oficina; mestre
principais responsáveis por transformar o Egeu volta ao seu rádio [...].
(BUARQUE; PONTES, 1998, p. 35-36)
argumento da trama de Gota D’água de
tragédia amorosa a, igualmente, tragédia O papel de Egeu na trama de Gota
social; uma vez que além de ser traída por D’água fica ainda mais destacado quando,
Jasão, Joana também deve algumas com o intuito de defender a idéia de que os
prestações de sua casa a Creonte. Vizinho habitantes da Vila do Meio-Dia não
de Joana que sobrevive do trabalho de deveriam pagar a prestação como protesto,
consertar eletrônicos, Egeu – segundo busca convencer a personagem Boca
Paulo Vieira (1989) – é o mentor do Pequena a entrar no movimento. Este,
conflito ideológico da Vila do Meio-Dia. diferentemente da maioria da população,
Deste modo, esta personagem servirá de sempre consegue pagar suas contas em dia.
apoio aos dois grupos de vizinhos, uma vez Egeu – Pois é, Boca Pequena
Tá todo mundo pendurado. Uma centena
que compartilha da dor de Joana e, ao de famílias sem poder pagar. Mas você
é um dos poucos que se arranja, não sei
mesmo tempo, divide o sentimento de por que...
injustiça social pelas imposições de Boca – Eu sou esparro de boate de
turista,
Creonte à cota de altos juros nas habitações carregador de uísque de contrabandista,
vice-camelô, testemunha de punguista,
do vilarejo. Egeu seria, então, a
sou informante de polícia, chantagista,
representação do intelectual lutando pela mas vigarista nenhum diz que eu não
presto
resistência democrática. desde que, como todo cidadão honesto,
Os dois grupos [de vizinhos] param um no fim do mês pago as minhas contas à
tempo e meditam; depois retomam suas vista
atividades, enquanto o primeiro plano Egeu – Já pagou a casa esta vez?...
passa para a oficina. Boca – Já separei
Egeu – Pois eu vou te dizer: se só você porque é sagrado. Como santo em
não paga procissão
você é um marginal, definitivamente, Não precisa pedir pra fazer o que sei
Mas imagine só se, um dia, de repente que é meu dever...
ninguém pagar a casa, o apartamento, a Egeu – Pelo contrário: pague não
vaga Boca – Que é isso, mestre, eu sou
Como é que fica a coisa? Fica diferente madeira de lei
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Egeu – Pois ouça, Boca, não pague nem da Vila do Meio-Dia, ele é a mais ousada
um tostão
Se ninguém paga, é que não tem de onde representação das pessoas que buscam
tirar sobreviver a qualquer custo. Seu caráter e
Se você paga, vai tirar toda a razão
de quem tem todas as razões pra não suas atitudes dificultam a construção de
pagar
Boca – Que merda, mestre... uma idéia definida de dever e honestidade,
Egeu – Merda sim ou merda não? uma vez que, embora pague suas contas à
Boca Pequena fica um tempo coçando a
cabeça; depois de hesitar um pouco, vista – e por isso se encaixa no discurso e
aperta a mão de Egeu e parte para o set
do botequim; mestre Egeu retoma seu
na lei do sistema de Creonte para o
trabalho, consertando o rádio [...] “cidadão honesto” – pratica muitas ações
(BUARQUE; PONTES, 1998, p. 37)
ilegais para conseguir dinheiro suficiente e
A personagem Boca Pequena foi em dia. O próprio nome Boca Pequena já
apontada de maneira a enfatizar a idéia indica a fama da personagem: trata-se de
plural que os autores da peça possuíam de um “fofoqueiro” que age sob os seus
“povo”. Há que se levar em conta que os interesses; seja ao lado das idéias de Egeu,
dramaturgos buscaram mostrar a seja em favor de Creonte, contando-lhe
heterogeneidade existente dentro do tudo o que ocorre no conjunto
próprio conceito, permitindo-nos enxergar, habitacional; inclusive os planos do
pela riqueza do texto teatral, a variedade de primeiro para unir a população contra o
condutas, pensamentos, angústias e dono da vila.
contradições das personagens, Outra figura que se destaca em
representantes da multiplicidade popular. Gota D’água, pelo problema que
Todos sabiam do sofrimento de encontramos em buscar estabelecer uma
Joana. Durante a trama, muitos diziam idéia estável de “povo”, é Cacetão. Sem
estar ao seu lado, afinal viviam na pobreza agir sob atitudes tão ilícitas como Boca
como ela. Outros comemoravam o feito de Pequena, Cacetão é uma personagem
Jasão, afirmando que, ao se articular com social igualmente complexa, porque se
Creonte, ele havia escolhido, para ele, a trata de um gigolô que sobrevive do
opção correta. Outros ainda tinham receio dinheiro de uma viúva.
de que, se conciliando com Creonte, Jasão Primeiro plano para botequim, onde já
iria se esquecer de ajudar a população da se ouvem os primeiros acordes e o ritmo
de uma embolada
vila. Cacetão – (Cantando)
Depois de tanto confete
Entretanto, o caso de Boca Pequena Um reparo me compete
é ainda mais instigante. Apesar de sofrer as Pois Jasão faltou a ética
Da nossa profissão
mesmas injustiças que os outros habitantes Gigolô se compromete
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Pelo código de ética de ações morais podem ser diferenciados e


A manter a forma atlética
A saber dar mais de sete justificáveis.
A nunca virar gilete Ao refletirmos sobre o papel da
A não rir enquanto mete
Nem jamais mascar chiclete personagem Jasão, compreenderemos que,
Durante sua função
Mas a falta mais violenta como sambista, ainda era capaz de
Sujeita à pena cruenta representar o lugar social da população do
É largar quem te alimenta
Do jeito que fez Jasão vilarejo, mas suas ações se voltaram em
Veja a minha ficha isenta
Tenho alguém que me sustenta
prol de interesses e “tentações”,
Que já passou dos sessenta responsáveis por rendê-lo às facilidades
Que mais de uma não agüenta
Que desmonta quando senta que a modernização brasileira trazia aos de
Que é careca quando venta maior poder aquisitivo: o consumo
E este amigo se apresenta
Domingo sim, outro não exagerado de eletrodomésticos e uma vida
Não é virtude nem vício
É um pequeno sacrifício com determinados luxos. Desse modo,
É um músculo do ofício Jasão se encantou com as promessas de
Em constante prontidão
Fecho os olhos e, viril crescimento econômico e com a
Tomo ar, conto até mil
Penso na miss Brasil oportunidade de se enriquecer facilmente,
E cumpro co’a obrigação embora ainda mantivesse remorsos de
Gargalhadas gerais no final da
embolada [...]. (BUARQUE; PONTES, perder o que viveu com o povo da Vila do
1998, p. 42-43)
Meio-Dia.
Essas idéias remetem à discussão Alma – Sabe, hoje estive lá no nosso
apartamento [...]
de que Chico Buarque e Paulo Pontes Você está me ouvindo?...
buscaram construir a tragédia de todo um Jasão – Sei...
Alma – Sala de jantar,
povo, que embora estivesse na penúria e living e a nossa suíte dão vista pro mar
Dos outros quartos dá pra ver o
sonhando com um lugar próprio para Redentor
morar, não eram vítimas ingênuas dentro Mas Jasão, você inda não sabe da maior
surpresa que papai me aprontou.
de um estereotipo de boa gente que luta Adivinha
quando eu abri a porta, sabe o que é que
contra os “vilões da história”. Em verdade,
tinha?
Gota D’água busca demonstrar os vários Tudo o que é eletrodoméstico: gravador
e aspirador, e enceradeira, e geladeira,
olhares que podemos ter sobre esse povo, televisão em cores, ar-condicionado,
bem como as diversas maneiras você precisa ver, tudo isso já comprado
tudo isso já instalado pela casa inteira...
encontradas pelas personagens de Desta vez papai deu uma boa caprichada
Jasão – E precisa disso tudo só pra nós
sobressair de um momento de crise, e, dois?
nesse sentido, até mesmo os significados [...]
Alma – Você fica tão calado,
como se estivesse se sentindo culpado
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Parece até que nossa casa foi roubada... como água para o pessoal da vila. Enfim,
[...]
Jasão – Eu só não gosto planta-se a idéia de que a comunidade
de deixar este fim de mundo sem levar “anda sempre para frente” na esfera
tudo o que sempre foi pra mim a vida
inteira econômica, e isso significaria,
Uma alegria ou outra, um pouco de
saudade, conseqüentemente, avanços no setor social.
meus filhos, minha carteira de A partir do discurso de Creonte,
identidade,
cada bagulho, meu calção, minha comparando o prestígio e a importância de
chuteira,
a mesa do boteco, o time de botão,
um homem que domina no campo
tanto amigo, tanto fumo, tanta birita econômico – o que representa
que dava pra botar na sala de visita
mas ia atrapalhar toda a decoração... perfeitamente também uma autoridade
(BUARQUE; PONTES, 1998, p. 45; 46; política – ao símbolo da cadeira,
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demonstra-se, por meio de um simples
Durante sua conversa com Alma,
objeto, todas as funções que Jasão deverá
Jasão se vê diante de um impasse: escolher
aprender se quiser se regozijar das
se conservar com os costumes populares e
riquezas.
com seu samba, ou se estabelecer
Creonte – Escute, rapaz,
definitivamente a favor dos dominantes. A você já parou pra pensar direito
o que é uma cadeira? A cadeira faz
personagem que simboliza o o homem. A cadeira molda o sujeito
convencimento de Jasão pelo lado dos pela bunda, desde o banco escolar
até a cátedra do magistério
poderosos é justamente Creonte. Este é a Existe algum mistério no sentar
que o homem, mesmo rindo, fica sério
representação do poder, de todas as Você já viu um palhaço sentado?
formas. Como dono do conjunto Pois o banqueiro senta a vida inteira,
o congressista senta no Senado
habitacional, Creonte é o símbolo da e a autoridade fala de cadeira
[...] Sentado está Deus-Pai,
riqueza e, por isso mesmo, do controle do o presidente da nação, o dono
povo. Como tal, esta é a personagem que do mundo e o chefe da repartição
O imperador só senta no seu trono
impõe o que é certo e o que é errado; o que que é uma cadeira co’imaginação [...]
(Tempo) Pois bem, esta cadeira é a
deve ser feito, o que não deve. Ele se
minha vida
coloca como representante da população e Veio do meu pai, foi por mim honrada
e eu só passo pra bunda merecida [...].
preocupado com o social e com seus (BUARQUE; PONTES, 1998, p. 49;50)
avanços – um bicheiro; espécie de
Esta fala destaca com clareza que,
“protetor” e “amigo” da comunidade que
apesar de ser comum àquele momento o
sofre com a miséria: auxilia o time de
desejo de todos pela possibilidade do
futebol com uniformes, doa as fantasias da
“milagre” de um enriquecimento fácil, pela
Escola de Samba para o carnaval, bem
garantia de uma boa moradia própria, de
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muitos bens e de uma vida de confortos – e, por isso restaria, para ela, seu
idéia construída por Creonte justamente posicionamento de repressão.3
por meio de seu discurso –, o domínio e o Nesse ínterim, Creonte deixa bem
direito à “sentar-se na cadeira do poder” (o claro que é necessário impor a ordem para
verdadeiro “trono”) era uma realidade de que ocorressem as melhorias almejadas
poucos. Creonte, a partir de sua eloqüência pela população da vila. As pessoas deviam
buscava se mostrar prestativo às obedecer a suas regras, sobretudo
necessidades da população do vilarejo, aceitando a expulsão de Joana do conjunto
aproveitando-se de suas carências e habitacional, tida como “arruaceira”, ao
sonhos. Com isso, persuadiu a todos a ameaçar com vingança e morte aqueles que
comprar, a prazo, as moradias do conjunto concebiam o poder. Há referência a uma
habitacional, “vendendo”, juntamente das principais características do período da
àquelas residências, a idéia da ditadura militar, isto é, a ordem acabou por
confraternização do “povo”, com o se tornar justificativa em nome do
carnaval, o futebol, as festas. progresso, investindo em uma combinação
Com intenções de manter-se no de autoritarismo e crescimento econômico.
controle, Creonte discute com Jasão que Enquanto isso, no momento em que
não concorda com aquilo que Egeu estava surge Joana, ela embala um longo diálogo
fazendo. Para o dono da Vila do Meio-Dia, com as vizinhas, divulgando seus planos de
sonegar as dívidas das casas não era se vingar de Jasão, Creonte e Alma.
correto. Dessa forma, manda Jasão Durante a revelação da tragédia, as
convencer o mentor do movimento de mulheres ficam espantadas e buscam
protesto a desistir da ação, e afirma que, convencê-la a não prosseguir com suas
para aqueles que estão no poder, às vezes é idéias. Logo, Joana desabafa o que pensa
preciso ter hora para ser amigo e hora para sobre seus próprios filhos. Eles, por receio
ser o autoritário. Dizendo isso, revela seus das vizinhas, passam a se tornar um dos
planos de expulsar Joana, uma vez que, principais alvos do ódio da protagonista.
pelas pragas rogadas com seus hábitos de Joana – (Falando com ritmo ao fundo)
Ah, os falsos inocentes!
umbanda e seu atraso com seis prestações, Ajudaram a traição
Creonte a considerava perigosa. Na São dois brotos das sementes

realidade, para o poderoso, Joana era a 3


Sobre a questão dos discursos e ações do poder de
maior representação da rebeldia do povo, Creonte, consultar: ROCHA, Elizabete Sanches. A
gota que se fez oceano: o espetáculo da palavra em
Gota D’água. 224f. Dissertação (Mestrado em
Letras) – Universidade Estadual Paulista,
Araraquara, 1998.
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traiçoeiras de Jasão mirradinho, contado, pingado...


E me encheram, e me incharam, Nisso aparece um cara sabido
e me abriram, me mamaram, com um plano meio complicado
me torceram, me estragaram, pra confundir o pobre fodido:
me partiram, me secaram, casa própria pela bagatela [...]
me deixaram pele e osso parcela por parcela [...]
Jasão não, a cada dia o trouxa fica fascinado... [...]
parecia estar mais moço, O tempo vai passando
enquanto eu me consumia e lá vem taxas, caralhadas
Joana – Pra não ser trapo nem lixo, de juros, correção monetária [...]
nem sombra, objeto, nada, o jumento é teimoso, ele bate
eu prefiro ser um bicho, co’a cabeça pra ver se a titica
ser esta besta danada do salário aumenta, faz biscate,
Me arrasto, berro, me xingo, come vidro, se aperta, se estica,
me mordo, babo, me bato, se contorce, morde o pé, se esfola,
me mato, mato e me vingo, se mata, põe a mulher na vida,
me vingo, me mato e mato rouba, dá a bunda, pede esmola
Vizinhas – (Com força) e vai pagando a cota exigida... [...]
Comadre Joana O jumento diz: não pode ser!
Bota panos quentes Já fiz metade dos pagamentos
Corina – Comadre, fala mais nada! Paguei cinco, devo cinco. Vê
(BUARQUE; PONTES, 1998, p. 62-63) aí, faz as contas, vê se pode,
inventa outra lógica, você...
Em meio a esses acontecimentos, Pois pode, amigo, o cara se fode
morrendo um bocadinho por mês...
Jasão aparece no set da oficina para Quem ia ficar pagando até
mil novecentos e oitenta e seis
conversar com Egeu, que continua a só pára no ano dois mil, isto é,
consertar o rádio. Existe, nesse momento, se parar. Enfim, o desgraçado,
depois de tanta batalha inglória,
um constante debate entre o mentor – dono o corpo já fechado de pecado,
inda leva promissória
de sua própria consciência – e o homem
pro juízo final... (BUARQUE; PONTES,
que se rende cada vez mais à quimera do 1998, p. 69; 70; 71)
discurso do poder. Egeu reconhece o A lucidez de Egeu nos demonstra
sucesso da música “Gota D’água” – autoria suas preocupações, sobretudo neste diálogo
de Jasão – nas rádios, mas compara a com Jasão. Importava menos as dores
produção de um samba a um feriado, no afetivas de Joana. Seu desespero com as
qual não se pode iludir, afinal: “a vida se crianças, sem lugar, sem ter até mesmo o
ganha é no batente”. Defendendo, a todo o que comer era uma característica em
momento, a idéia do trabalho digno, Egeu comum com todos aqueles que moravam
possui a contestação exata contra aquilo naquela vila. Era necessário provar à
que Jasão veio lhe convencer: desistir de população de que estavam sendo iludidos
construir um movimento para o não por Creonte e que, somente unidos contra o
pagamento das habitações. autoritarismo – ao defender a
Egeu – Todos dando duro no batente inadimplência e a disposição das pessoas
a fim de ganhar um ordenado
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do vilarejo na luta pela sobrevivência Não tem amiga...


Corina – Eu trouxe um. Quem quer ver?
digna – é que suas intricadas situações de Estela – Hein?...
vida se transformariam. Zaíra – Quê?
Maria – Mostra...
Aproveitando-se do sucesso do Nenê – O que diz...
Corina – (tira um jornal debaixo da
samba de Jasão e sabendo de seu domínio saia) Pra quem quiser
sob os meios de comunicação da Vila do achei mesmo que alguém ia querer
As vizinhas abrem e disputam o jornal
Meio-Dia, como a rádio e a imprensa, avidamente [...]. (BUARQUE;
PONTES, 1998, p. 38; 39-40)
Creonte se mostrou interessado em erguer
a fama do protagonista. Nesse sentido, a Neste caso, o jornal desperta toda a
música popular é um instrumento de curiosidade do povo. Até mesmo daqueles
manipulação da indústria cultural, que receavam o fato de Joana saber do
buscando a confiança e o apreço das matrimônio de seu amante com outra
pessoas. Fica clara a imagem de beleza, de mulher e diziam-se ao lado de seu
sonho e celebração, quando, no jornal, é sofrimento, mostrando-se, por isso mesmo,
retratada a cerimônia de casamento de como um tipo de oposição ao controle
Jasão e a filha de Creonte, em todo o seu imposto.
glamour. Assim começam a ser colocar as A própria utilização do samba
vizinhas de Joana: “Gota D’água” nas rádios do Rio de
Estela – Se eu pego quem contou a Janeiro, era uma maneira de Creonte fazer
safadeza
pra Joana... comigo era um cara morto com que seu autoritarismo continuasse a
Enfiava-lhe a fuça no meio-fio, valer, bem como seu poder por sobre a
abria-lhe as pernas com chave inglesa,
afundava-lhe uma vela no lorto, população da Vila do Meio-Dia. Contudo,
depois tocava fogo no pavio
Corina – Tem mais: agora vieram me
é preciso perceber o que há por trás da letra
mostrar da música. Compreender os motivos do
Jasão saiu co’a cara no jornal
Dizendo: ficou noivo e vai casar [...] uso das canções na peça auxilia na também
O jornal esgotou nem bem saiu...
compreensão de sua estrutura como um
Deviam ter pudor e nem olhar
a cara do descarado estampada todo; afinal, as músicas possuem uma
deste tamanho, assim, mandando brasa,
enquanto ela... não é certo, coitada função dramática que muitas vezes
Maria - Eu não quero nem ver. E na condizem com os diálogos para a
minha casa
esse jornal não entra... explicação da temática da obra.
Zaíra – Eu digo mais:
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
uma amiga de Joana, na batata,
Já estanquei meu sangue quando fervia
que puser as mãos num desses jornais,
Olha a voz que me resta
eu quero que lhe dê uma catarata,
Olha a veia que salta
gota serena nos olhos...
Olha a gota que falta
Nenê – Mulher
Pro desfecho da festa
12

Por favor Gisela Ortriwano, “[...] o objetivo principal

Deixa em paz meu coração dessa nova tendência está ligado


Que ele é um pote até aqui de mágoa unicamente a fatores econômicos:
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água fortalecer o rádio como alternativa
(BUARQUE, 2004, p. 112)
publicitária”. (ORTRIWANO, 2001, p. 133) Na
Nesse sentido, a música “Gota peça, assim se desenvolvem os novos
D’água” representa, sobretudo, as dores sentidos da canção:
passionais de Joana. Mas também é capaz Orquestra sobe com Gota D’água; ouve-
se uma voz na coxia
de nos fornecer subsídios acerca dos Voz off – Escuta! É o samba do Jasão!
costumes, o desgaste e a luta do povo pela Luz no set das vizinhas; uma lava roupa,
que entrega pra outra que atende e que
sobrevivência. Esta significação se torna entrega pra outra que passa etc...
evidente quando Jasão busca explicá-la Seguindo o grito, um coro começa a
cantar o samba, na coxia
para Alma. [...]
Nenê – O sujeito é um grande safado
Jasão – [...] (Vai nascendo uma mas fez um sambinha arretado
introdução em ritmo de samba; Jasão Nenê começa a cantar; em seguida, uma
segue) a uma, todas cantam o samba; vão
Sabe, Alma, um samba como Gota cantando e realizando o trabalho num
D’água é feito esboço coreográfico; estão no centro do
dos carnavais e das quartas-feiras, das palco, dominando toda a área neutra
tralhas, não ocupada pelos sets; no fundo do
das xepas, dos pileques, todas as palco vai aparecendo Joana, vestida de
migalhas negro, em silêncio, lentamente, os
que fazem um chocalho dentro do meu ombros caídos, deprimida, mas com o
peito [...]. (BUARQUE; PONTES, 1998, rosto altivo e os olhos faiscando; Nenê
p. 47) percebe primeiro a entrada de Joana e
cutuca a vizinha ao lado pra parar de
Todavia, nas mãos de Creonte, o cantar; uma vai advertindo a outra até
samba se transforma em uma máquina de que aos poucos ficam todas em silêncio,
permanecendo apenas a orquestra
manipulação e banalização. Nesta desenhando no fundo
Corina – Desliga esse rádio!...[...]
perspectiva, todos os significados (BUARQUE; PONTES, 1998, p. 57;58)
anteriormente descritos desaparecem. A
O ritmo do samba envolve cada vez
música se esvazia do sentido primordial
mais as vizinhas, de maneira que o
para ser re-apropriada4 por Creonte.
fundamental não são mais os significados
Segundo a estudiosa em radiojornalismo
da entrega e da mágoa de uma mulher ou
de um povo, bem como a desatenção de
4
Apropriação: termo utilizado pelo historiador
Roger Chartier para designar uma reconstrução dos um homem ou de um sistema. O
sentidos. Isto se dará de maneira a identificar
interesses e práticas específicas que irão compor a importante se estabelece simplesmente
acepção a ser estabelecida. CHARTIER, Roger. A
História Cultural: entre práticas e representações.
Lisboa/Rio de Janeiro: DIFEL/B. Brasil, 1990.
13

pelo sucesso da música que toca a todo Carlos amava Dora que amava Lia que
amava Léa que
tempo na rádio. amava Paulo que amava Juca que amava
Ainda no primeiro ato da peça, Dora que amava...
Carlos amava Dora que amava Rita que
duas outras canções se apresentam dentro amava Dito que
amava Rita que amava Dito que amava
do contexto temático: “Flor da Idade” e Rita que amava...
“Bem-querer”. Por meio da primeira Carlos amava Dora que amava tanto que
amava Pedro que
música em questão, os vizinhos, que se amava a filha que amava Carlos que
amava Dora que
encontram no botequim, descrevem a Jasão amava toda a quadrilha...
como se encontra a Vila do Meio-Dia amava toda a quadrilha...
amava toda a quadrilha...
desde o momento em que ele partiu para se (BUARQUE, 2004, p. 112)
casar com Alma. O protagonista, após a
Ao aprofundarmos nos sentidos de
conversa com Egeu, vai visitar seus antigos
“Flor da Idade” podemos perceber, ao
companheiros.
início da música, a representação dos
A gente faz hora, faz fila na Vila do
Meio-Dia hábitos mais comuns do povo do vilarejo.
Pra ver Maria As festas no botequim, as bebidas, os
A gente almoça e só se coça e se roça e
só se vicia namoros com as “Marias”, a característica
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia bucólica das casas, das comidas e dos
Nem desconfia cheiros. Posteriormente, os vizinhos de
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o
primeiro amor Jasão lhe apontam o que ocorre com as

Na hora certa, a casa aberta, o pijama


pessoas da vila. O sucesso da música de
aberto, a família Jasão nas rádios, que embala a todos, bem
A armadilha
A mesa posta de peixe deixe um como o trabalho, representado pelo
cheirinho da sua filha movimento que nunca pára da gente que
Ela vive parada no sucesso do rádio de
pilha “dança, balança, avança e recua” nos
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o demonstrando, ao mesmo tempo, uma
primeiro amor “gente sua”; que na linguagem poética do
Vê passar ela, como dança, balança, texto pode simbolizar o povo do Jasão ou a
avança e recua
A gente sua gente que sua para garantir o sustento.
A roupa suja da cuja se lava no meio da Logo, os vizinhos descrevem
rua
Despudorada, dada, à danada agrada sutilmente os atos de Joana. Ao afirmarem
andar seminua
E continua
que “a roupa suja da cuja de lava no meio
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, da rua”, os amigos de Jasão apontam a
o primeiro amor
tragédia amorosa de Joana se confundindo
14

à realidade de todo o povo. Eis a dama e Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
seu drama que envolvem Jasão e todos os A calma, a calma, a calma dos casais
outros moradores do conjunto habitacional.
E quando o meu bem-querer ouvir
A última parte da canção se refere O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
aos amores mal resolvidos que fazem parte A fúria, a fúria, a fúria assim dos
da tragédia de Chico Buarque e Paulo animais

Pontes como um todo. Não apenas pela E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
traição de Jasão, mas também pelo amor Como alguém que lhe apagasse a luz
não correspondido de Cacetão por Joana, Vedasse a porta e abrisse o gás
(BUARQUE, 2004, p. 111)
que se declara no momento em que ela se
encontra mais sozinha para lutar contra a A música esboça a figura de Jasão.

força de Creonte. Ele se encontra entre um amor que viveu

Após a conversa com Egeu, Jasão com Joana em meio à pobreza, à cobrança

ficou ainda mais confuso em se manter e à exigência de um trabalho árduo –

como “povo” ou aproveitar a oportunidade representação que Joana afirma estar

que teve com Creonte. Essa ambigüidade presente na ansiedade da vida de toda a

da personagem se destaca principalmente a população do vilarejo; capaz de “matar por

partir da conversa que tem com Joana, um maço de cigarro”, pelo cansaço e por

momento em que aparece no set da casa da tantos problemas – e a tranqüilidade, o

protagonista. A música “Bem querer”, conforto e o luxo do poder, simbolizados

cantada por Joana, representa o amor que pela personagem Alma. Esse conflito se

é, ao mesmo tempo raiva e incompreensão conjugará durante os diálogos com a

da complexidade da mulher traída frente a protagonista, quando esta o cobrará mais

um homem igualmente complexo. uma vez por tudo o que dedicou na

Quando meu bem-querer me vir construção pessoal e profissional do


Estou certa que há de vir atrás sambista.
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais Durante uma das conversas com

E quando o seu bem-querer mentir Jasão, os sentidos do relacionamento de


Que não vai haver adeus jamais Joana com seus filhos se modificam. Com
Há que responder com juras
Juras, juras, juras imorais o interesse do pai em vê-los, ela declara

E quando o meu bem-querer sentir


aquilo que pensa: de culpados pela traição,
Que o amor é coisa tão fugaz como fora o sambista, os filhos agora se
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais tornam vítimas.

E quando o seu bem-querer pedir


15

Joana – Meus filhos! Eles não são filhos das “camadas populares”. Nestas
de Jasão!
Não têm pai, sobrenome, não têm circunstâncias, segundo eles, o povo ficaria
importância “no ora veja” e suas problemáticas
Filhos do vento, filhos de masturbação
de pobre, da imprevidência e da permaneceriam. Essas considerações
ignorância
São filhos dum meio-fio dum beco podem nos fornecer um olhar por sobre o
escuro período de criação de Gota D’água.
São filhos dum subúrbio imundo do país
São filhos da miséria, filhos do monturo O inconformismo e a disponibilidade
que se acumulou no ventre duma ideológica de setores da pequena
infeliz... burguesia foram, em muitos momentos
São filhos da puta mas não são filhos de nossa história, instrumentos de
teus, expressão das necessidades das classes
Seu gigolô!... (BUARQUE; PONTES, subalternas. Amortecendo-os, as classes
1998, p. 91-92) dominantes produziram o corte que
seccionou a base dos segmentos
A fala de Joana norteia, por meio superiores da hierarquia social. Isoladas,
às classes subalternas restou a
da figura dos filhos, aquilo que se torna marginalidade abafada, contida, sem
saída. Individualmente, ou em grupo,
referência para o povo brasileiro. Enquanto um homem capaz, ou uma elite das
apenas uma minoria é escolhida para camadas inferiores pode ascender e
entrar na ciranda. (BUARQUE;
construir o “progresso” do país, a maioria PONTES, 1998, p. 13)
se vê diante da exclusão. Os privilegiados
Porém, dentro do contexto da peça,
são simbolizados na escolha da
antes que Jasão se sentisse totalmente
personagem Jasão – feita por Creonte –,
integrado na “ciranda” de Creonte, discute
caso obedecesse às ordens do poderoso.
com este a respeito das definições que cada
Foi, por isso, considerado digno de sentar-
uma dessas personagens possuía acerca do
se no “trono” e, como afirmou Egeu na
que é ser povo brasileiro. Apesar da
peça, seria chamado de um dos “mais
traição, o protagonista também enfrenta as
capacitados” para a manutenção do sistema
contradições de ser povo, de ter sido criado
capitalista.
por ele e que, aos poucos, nesta
No prefácio do livro (realizado
coletividade não mais se identificará. No
também em 1975), onde foi produzida a
diálogo com Jasão, Creonte defende o
peça, Chico Buarque e Paulo Pontes
sistema imposto como um sacrifício válido
declaram que esta referência entre minoria
para conquistar o almejado “progresso”:
privilegiada e maioria excluída,
Creonte – [...] Muito bem. Na Segunda
responsáveis por permear a temática Guerra,
só russo, morreram vinte milhões [...]
central da obra, se dá pela capacidade do Na Inglaterra, uma pobre criatura
sistema de desarticular os intelectuais, bem de oito anos, há dois séculos atrás
já trabalhava na manufatura
como a considerada “pequena burguesia” o dia inteiro, até não poder mais,
16

quatorze, quinze horas... a música popular de Jasão –, no qual a


[...] Foi assim
que os povos todos construíram tantos esperança é um produto de venda.
bens, indústria, estrada, progresso, enfim Jasão – Seu Creonte, eu venho do cú
Mas brasileiro não quer cooperar do mundo, esse é que é o meu maior
com nada, é anárquico, é negligente tesouro
E uma nação não pode prosperar Do povo eu conheço cada expressão,
enquanto um povo fica impaciente cada rosto, carne e osso, o sangue, o
só porque uma merda de trem atrasa couro...
[...]
Jasão – Não fique pensando que o povo
Creonte – [...]
é nada,
Vou lhe dizer o que é que é o brasileiro
carneiro, boiada, débil mental,
alma de marginal, fora da lei,
pra lhe entregar tudo de mão beijada
à beira-mar deitado, biscateiro,
Quer o quê? Tirar doce de criança?
malandro incurável, folgado paca
Não. Tem que produzir uma esperança
vê uma placa assim: “não cuspa no
de vez em quando pra a coisa acalmar
chão”,
e poder começar tudo de novo
brasileiro pega e cospe na placa
Então, é como planta, o povo,
Isso é que é ser brasileiro, seu Jasão...
pra poder colher, tem que semear,
Jasão – Não, ele não é isso, seu Creonte
Chegou a hora de regar um pouco
O que tem aí de pedra e cimento,
Ele já não lhe deu tanto? Em ações,
estrada de asfalto, automóvel, ponte,
prédios, garagens, carros, caminhões,
viaduto, prédio de apartamentos,
até usinas, negócios de louco...
foi ele quem fez, ficando co’a sobra
Pois então? Precisa saber dosar
E enquanto fazia, estava calado,
os limites exatos da energia
paciente. Agora, quando ele cobra
Porque sem amanhã, sem alegria,
é porque já está mais do que esfolado
um dia a pimenteira vai secar
de tanto esperar o trem. Que não vem...
Em vez de defrontar Egeu no peito,
Brasileiro... (BUARQUE; PONTES,
baixe os lucros um pouco e vá com jeito,
1998, p. 106;107)
bote um telefone, arrume uns espaços
pras crianças poderem tomar sol
No entanto, a segunda perspectiva Construa um estádio de futebol,
de Jasão sobre a população do vilarejo se pinte o prédio, está caindo aos pedaços
Não fique esperando que o desgraçado
modificou justamente pela falta de que chega morto em casa do trabalho,
morto, sim, vá ficar preocupado
identificação com a coletividade, embora
em fazer benfeitoria, caralho!
tenha sido criado em meio dela; ou melhor, Com seus ganhos, o senhor é que tem
que separar uma parte e fazer
daquilo que imagina ser essa coletividade. melhorias [..] Ao terminar,
Seus anseios e ambições são individuais e reúna com todos, sem exceção
e diga: ninguém tem mais prestação
desvinculados de um “bem social”. As atrasada. Vamos arredondar
as contas e começar a contar
incoerências de Jasão em sua referência só a partir de agora... (BUARQUE;
como “povo”, se encontram justamente PONTES, 1998, p. 112; 113-114.)

nesse ponto, uma vez que faz de seu


A ironia na fala de Jasão demonstra
conhecimento sobre os pobres da Vila do
que a busca pelos anseios da coletividade
Meio-Dia uma mercadoria cultural – da
começava a se dificultar com o início do
mesma maneira em que Creonte fazia com
desenvolvimento de um individualismo
17

específico; aquele concernente ao te despejar na rua – e ele pode –


não vai poder porque vai dar um bode,
deslumbramento da indústria cultural, do todo mundo vai ficar do seu lado,
dinheiro fácil, da propaganda; enfim, das Creonte vai ficar paralisado
na proporção da força que dispõe
maravilhas do consumo oferecidas pelo Mas em vez disso, não, você se põe
A agredir, xingar, abrir o berreiro
“milagre econômico brasileiro”. É em tudo que é esquina, bar e terreiro,
justamente com esse espírito que, agora, você se isola, perde a aprovação
dos seus vizinhos, fica sem razão [...]
Jasão possui plenos direitos de se sentar na A gente avança só quando é mais forte
do que o nosso inimigo. A sua sorte
cadeira de Creonte. O protagonista lhe é ligada à sorte de todo mundo
oferece todas as armas para desvincular o na vila. Trabalhador, vagabundo,
humilhado, ofendido, devedor
movimento de Egeu de unir a população atrasado, quem paga com suor
pobre contra as dívidas impostas. as prestações da vida é seu amigo
Quem leva na cabeça está contigo,
Enquanto Jasão persuadia Creonte a está naturalmente do teu lado
Então, cada passo tem que ser dado
fazer o mais sensato para que o dono da por todos. Se você avançar só,
Vila do Meio-Dia pudesse manter-se no Creonte te esmaga sem dor, nem dó
Compreendeu, comadre Joana?
domínio, Egeu dialogava com Joana, (Silêncio) [...]. (BUARQUE; PONTES,
1998, p. 120;121)
preocupado com suas promessas de
vingança desesperada. Como mentor O receio do vizinho de Joana era
ideológico dos problemas da população, que ela agisse sozinha, pois, como
Egeu buscou convencê-la a agir representante maior do povo, seria mais
prudentemente e com o auxílio de todos um resultado da “marginalidade abafada”
contra Creonte. do sistema, como apontam os dramaturgos.
Egeu – Vai me prometer, tem que me A partir desse diálogo, Egeu aponta
jurar
que de hoje em diante vai ficar
claramente seu discurso: o desespero
quietinha, bico calado... vivido por Joana é o ponto de partida para
Joana – Essa não...
[...] se reunir um problema afetivo a um
Egeu – Então, não conte mais comigo,
problema social.
Joana
Joana – Mas, mestre, Creonte rouba, me Após a conversa com Creonte, que
engana,
me destrói, me carrega até meu macho está disposto a expulsar Joana da Vila do
e eu fico de bico calado? Baixo Meio-Dia a qualquer custo, Jasão explica à
a cabeça? [...]
Egeu – Se quer brigar, perfeito, protagonista as novas determinações, mas
Só vim lhe pedir pra brigar direito
[...] tenta convencê-la a aceitar uma pensão,
Então, se você fica prevenida, vinda do dinheiro do poderoso. A negativa
fingindo que esqueceu, levando a vida
como se nada fosse, sem qualquer de Joana ao acordo e seu desespero por não
provocação, então se ele quiser
saber mais aonde iria morar foi o estopim
18

para que os vizinhos ouvissem o traiçoeira, [...] não há mal que nunca se
argumento de Egeu a respeito da injustiça e acabe nem festa que dure a vida inteira”.
do autoritarismo de Creonte. (BUARQUE; PONTES, p. 75) Mas é
Todos se dirigem à casa do dono do justamente por meio daquilo que Creonte
conjunto habitacional. Por receio a uma havia prometido para a Vila do Meio-Dia e
possível rebeldia da população, Creonte a realização da grande festa de casamento é
resolve colocar em prática os planos de que ele esvazia os sentidos da relação que
Jasão. Para isso, quita todos os débitos dos Egeu buscava construir entre o problema
habitantes, manda construir campo de de Joana e as dificuldades de toda a
futebol, orelhões e outras facilidades no população. Dentro desse novo contexto, os
vilarejo. vizinhos e as vizinhas mudam de atitude
O controle de Creonte fica ainda em relação ao sofrimento pessoal de Joana.
mais evidente no momento em que propõe Agora, seus interesses econômicos “falam
a participação de todos do subúrbio na mais alto”. Isso pode ser observado por
festa do casamento de sua filha, dando-lhes meio de um diálogo entre as mulheres:
serviços, “comes e bebes”. Constrói-se, Corina – Não
acho que é certo, não...
dessa maneira, o significado de sua Nenê – Por quê? Bobagem...
manipulação pela harmonia do ato de se Estela – Eu não sei, não...
Zaíra – Também não...
confraternizar e se esquecer – por meio da Maria – É um serviço
como outro qualquer...
alegria temporária – as dificuldades da [...]
vida e da pobreza. Corina – Precisa ter um colhão
pra pegar esse biscate... (ficam todas em
Creonte – [...] eu gostaria silêncio)
que vocês viessem à festa com calor, Nenê – Corina, vê,
prazer e – por que não? – co’a prestação eu vivo de fazer doce pra fora
em dia e já cansei de fazer serviço
E pra garantir à festa o melhor sabor, pra ela outras vezes...
comunico desde já que as mulheres Corina – Está louca? Ora,
todas Nenê…
estão requisitadas para trabalhar […]
na nova indústria que abri: a indústria Corina – Olha, essa menina
das bodas roubou o marido duma amiga nossa
Conto com a mão-de-obra do lugar e a gente inda faz docinho?...
Vamos preparar doces, salgados, bebida, Nenê – Ah, Corina,
pra lotar dois Maracanãs. [...]. isso não quer dizer que a gente endossa
(BUARQUE; PONTES, 1998, p. 147) o que ela fez...
Estela – Só tem u’a solução
No entanto, Egeu sabia o que
Ir lá explicar direitinho a ela
estava por trás do discurso de Creonte. Sem falar com ela eu não topo não...
Ela entende
Segundo o vizinho de Joana, “[...] a festa é Zaíra – Quem vai falar, Estela?
Eu não vou...
19

Nenê – (Gritando) O que eu pedia


Pois eu vou. O que tenho que falar, Um dia pra aplacar
falo na cara. Se Joana e Jasão Minha agonia
resolveram brigar, eu vou ficar Toda a sangria
sem trabalho por causa disso? Ah, não! Todo o veneno
(Sai). (BUARQUE; PONTES, 1998, p. De um pequeno dia
149; 150; 151; 152)
Só um
Em meio à atitude das vizinhas, Santo dia
Pois se beija, se maltrata
ocorre o que Egeu mais temia. Joana está Se come e se mata
sozinha contra Creonte; uma vez que este, Se arremata, se acata e se trata
A dor
apesar de afirmar que irá fazer as Na orgia
Da luz do dia
“benfeitorias” aos habitantes da vila, não É só
abre mão de expulsar Joana com o domínio O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
do poder e da lei. Para isso, possui pleno Minha agonia
Toda a sangria
controle sob a força policial. Todo o veneno
Durante a discussão com o dono do De um pequeno dia
(BUARQUE, 2004, p. 111)
conjunto habitacional, Joana não vê saída e
lhe pede ao menos mais um dia para ficar, É através da música “Basta um

afirmando necessitar de tempo para dia”, que Joana representará a dor maior do

conseguir um lugar para que ela e seus povo que não vê nenhuma solução contra o

filhos pudessem morar e se estabelecer poder que o exclui. Neste ponto, a trama se

com dignidade. Mesmo com receio, desenvolve de maneira a apontar os

Creonte aceita a proposta de Joana. A caminhos que os dramaturgos enxergavam

protagonista tem a oportunidade que para a camada mais pobre do país: a

precisava para construir sua vingança. compleição da tragédia brasileira. Isolada,

Pra mim Joana concilia desespero e ações radicais.


Basta um dia Seu pensamento se constitui da idéia de
Não mais que um dia
Um meio dia que em um dia bastaria para destruir o que
Me dá
Só um dia em séculos se construiu. Nesta fala,
E eu faço desatar juntamente à canção, ela revela o desejo de
A minha fantasia
Só um acabar com um sistema que se
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
fundamentou durante tempo suficiente para
Se ama e se tortura lhe dar o controle total sob o povo.
Se tritura, se atura e se cura
A dor A partir desse momento em diante,
Na orgia
Joana arquiteta seus planos. Chama Jasão
Da luz do dia
É só para sua casa, fingindo estar arrependida
20

por tudo o que tinha feito e deixando que E a gente fica lá tomando sol
Tem sempre um cheirinho de éter no ar,
ele visse seus filhos. O carinho de Jasão a infância perpetuada em formol
com as crianças remete à Joana a idéia de (Dá um bolinho [envenenado] e põe
guaraná na boca dos filhos)
que o traidor iria ser vingado apenas se a A Creonte, à filha, a Jasão e companhia
vou deixar esse presente de casamento
revanche se dirigisse diretamente aos Eu transfiro pra vocês a nossa agonia
filhos. porque, meu Pai, eu compreendi que o
sofrimento
Porém, ao início prefere manter a de conviver com a tragédia todo dia
é pior que a morte por envenenamento.
vingança a Creonte e a Alma. Prepara um Joana come um bolo; agarra-se aos
bolo envenenado com ervas daninhas e filhos; cai com eles no chão [...].
(BUARQUE; PONTES, 1998, p. 173)
entrega aos filhos, para que estes o
levassem aos noivos durante a cerimônia O ato passional da protagonista,

como “sinal de paz”. que busca não somente a morte de seus

Mas os planos de Joana não saem filhos, mas também o suicídio demonstra a

como ela esperava. Creonte nega a busca desesperada por justiça. Entretanto,

presença de seus filhos na festa e manda essa justiça não é a dos homens, afinal,

devolverem o “presente”. A protagonista Creonte a expulsou e ela perdeu o amante e

encontra-se, então, no ápice de sua um lugar para morar. É uma personagem

tragédia. Não enxerga saída, senão matar que possui fé e esperança de que será

suas próprias crianças, embora tivesse vingada espiritualmente tanto como

temor dessa atitude. mulher, quanto como cidadã que sofre pela

Joana – [...] (Abraça os filhos pobreza. Representando um povo que


profundamente um tempo) batalha todos os dias – seja de maneiras
Meus filhos, mamãe queria dizer
uma coisa a vocês. Chegou a hora lícitas ou ilícitas –, Joana enxerga, na sua
de descansar. Fiquem perto de mim
que nós três, juntinhos, vamos embora morte e no assassinato de seus filhos, uma
prum lugar que parece que é assim: chance de alcançar o paraíso e uma vida
é um campo muito macio e suave,
tem jogo de bola e confeitaria eterna digna, melhor do que a vivida na
Tem circo, música, tem muita ave
e tem aniversário todo dia
terra, longe da escassez e da paixão
Lá ninguém briga, lá ninguém espera, avassaladora que a dominou e a destruiu.5
ninguém empurra ninguém, meus
amores
Não chove nunca, é sempre primavera
A gente deita em beliche de flores
mas não dorme, fica olhando as estrelas
5
Ninguém fica sozinho. Lá não dói, Sobre a avaliação dos atos de Joana em Gota
Lá ninguém nunca vai embora. As D’água, consultar: ROCHA, Elizabete Sanches. A
janelas gota que se fez oceano: o espetáculo da palavra em
vivem cheias de gente dizendo oi Gota D’água. 224f. Dissertação (Mestrado em
Não tem susto, é tudo bem devagar Letras) – Universidade Estadual Paulista,
Araraquara, 1998.
21

CONSIDERAÇÕES FINAIS visão dos dramaturgos de Gota D’água ou


de qualquer outro sujeito, e se, na peça, a
Por meio da análise do texto de
concepção de Creonte define e impõe
Gota D’água, foi possível avaliar as
aquilo que deveria ser considerado como o
noções que Chico Buarque e Paulo Pontes
ser brasileiro, o historiador deve enxergar
construíram de povo brasileiro. A
as outras possibilidades dentro de um
multiplicidade deste conceito na peça
processo que se encontra aberto à visões
revelou uma população que se posicionava
plurais. Seguindo afirmações de Carlos
de maneiras diversas. Algumas vezes,
Vesentini, podemos, então, refletir sobre a
condizente com o processo de
questão do “povo”: “[...] para os vencidos,
industrialização do Brasil – crente nas
sejam agentes, sejam possibilidades
facilidades proporcionadas pelo ideal de
históricas, surge como grande desafio
“milagre econômico” dos dominantes –
saber localizar onde refletir e repensar
outras possuindo consciência de sua
problemas e lutas já colocadas, o momento
miséria por meio da resistência contra a
em que efetivamente existiram e tentaram
repressão dos mais poderosos; e outras
definir o movimento da história”.
ainda, na dúvida em qual caminho seguir,
(VESENTINI, 1997, p. 19)
por se identificar com os problemas da
Gota D’água demonstra, assim, o
miséria, mas com o sonho de ter, um dia,
quão complexo é se debruçar sobre a
uma vida melhor.
temática popular. Para personagens como
Por isso, é preciso salientar que
Egeu e Joana, em que o discurso desse
essas várias visões coexistem em meio a
“milagre” não fazia sentido, restava a
um campo de debates representacionais. A
coerção de Creonte. A vitória do
própria interpretação de Joana como um
dominante ao final da peça revela a
argumento ideal de povo, que resiste e luta
preocupação dos dramaturgos em apontar,
contra aquilo que a oprime pode ser
no texto teatral, os questionamentos que
discutido se levarmos em consideração
possuem a respeito do futuro do povo
aquilo que os autores buscaram nos
brasileiro no contexto de meados da
mostrar: o povo e a diferença com que
década de 1970; não apenas com a
administram suas condutas, suas
problemática da habitação popular, mas
dificuldades, seu imaginário, seus medos.
com a preocupação em colocar a camada
Dentro daquele contexto histórico
excluída do sistema como protagonista do
específico, as disputas interpretativas
espetáculo.
fazem a construção dos significados, seja a
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