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Dr.

Jorge (Georg) Krichbaum


(1856 – 1921)

Georg Ludwig Krichbaum nasceu em 12 de junho de 1856, na cidade


de Darmstadt, grão-ducado de Hessen und bei Rhein, Alemanha, filho
de George Krichbaum, guarda-floresta provincial. A família seguia a
confissão evangélica luterana. Em 1879 formou-se em Engenharia pela
Großherzögliche Technische Hochschule Darmstadt (hoje Technische Uni-
versität Darmstadt), fundada em 1877 como sucessora da Polytechnische
Schule, de 1869.
Em 3 de maio de 18801 viajou para Porto Alegre (talvez contratado
por um representante da Inspetoria Geral de Terras e Colonização
do Brasil, que recrutava engenheiros, agrimensores, topógrafos, etc.,
na Europa, uma vez que havia poucas escolas politécnicas no país),
dirigindo-se ao Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, onde novas
colônias encontravam-se em formação, exigindo trabalhos de medição
e abertura de estradas. Trabalhou para os governos provinciais do Rio
Grande do Sul e de Santa Catarina, onde teria participado da construção
de uma colônia e da organização de uma feira, respectivamente.
Em 1883 viajou para a Alemanha, onde se casou com Karolina Schütz
(a data é desconhecida), retornando ao Brasil, com sua jovem esposa,
no dia seguinte ao enlace. Instalaram-se numa casa às margens do Rio
Taquari, nas proximidades de Santa Cruz, RS. A primeira filha do casal,
Erica, nasceu em 1886, em Porto Alegre.
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http://www.hadis.hessen.de/scripts/HADIS.DLL/home?SID=
2062-2C183B3-BC549&PID=3AD5

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Em 1890, um ano após a queda do Império, a família Krichbaum
transferiu sua residência para São Paulo, onde se ofereciam melhores
perspectivas profissionais. Instalaram-se em uma confortável casa, no
meio de um grande parque, na rua Monte Alegre, 81, onde hoje é o bairro
de Perdizes, com viveiros de pássaros exóticos e outros animais, que Dr.
Jorge (como passou a ser chamado) trazia de suas viagens ao interior.
O parque era aberto à visitação pública. Em São Paulo nasceram suas
filhas Käthe, Paula, Felicitas e Lúcia. Dr. Jorge também criou um
menino negro, que mais tarde formou-se advogado, e um índio da etnia
bororo.
Dr. Jorge Krichbaum naturalizou-se brasileiro, provavelmente nesse
ano, quando a Lei da Grande Naturalização de 1890 declarava cidadãos
brasileiros todos os estrangeiros que em seis meses não manifestassem
expresso desejo de manter sua cidadania original.
Em 1892 Dr. Jorge Krichbaum foi nomeado Engenheiro da Repar-
tição de Terras e Colonização. Em 1893 prestou serviços à causa do
Governo Legal, por ocasião da Revolta da Armada de 6 de setembro (a
Marinha rebelou-se contra o presidente Mal. Floriano Peixoto).
Em 9 de dezembro de 1895 foi contratado pela Escola Politécnica de
São Paulo, criada em 1893, para ministrar aulas de desenho no primeiro
ano do Curso de Mecânicos e Maquinistas. Em 1896 assumiu também
as aulas do segundo ano de Mecânicos e Maquinistas, bem como as aulas
do primeiro ano de Desenho de Elementos de Máquinas e do segundo
ano de Desenho de Máquinas.
Em 20 de julho de 1898 foi aceito como membro do “Instituto His-
torico e Geographico de S. Paulo”, como sócio correspondente2 . Foi
também sócio efetivo da “Sociedade Scientifica de São Paulo”3 .
Em 1901 acompanhou o botânico austríaco Richard von Wettstein
em excursão ao interior do estado de São Paulo, parte da expedição da
2
Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo, vol. III, p. 552, 1898;
http://www.archive.org/details/revistadoinstitu03instuoft.
3
Revista da Sociedade Scientifica de São Paulo, 1: p. 231, 1905; http://www.
archive.org/details/revista16paulgoog; seu nome aparece errado: “José
Krichbaum. Engenheiro-Civil, Lente da Escola Polytechnica”.

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Academia Vienense de Ciências ao Brasil.
Foi também funcionário da Secretaria de Agricultura. Nessa condição,
foi responsável por um estudo sobre a lavoura canavieira em São Paulo,
publicado em 19024 .
Dr. Jorge Krichbaum era engajado e benquisto em todos os setores
da sociedade paulistana. Em seu necrológio de 3 de março de 1921 no
Jornal Alemão lemos:

“Com seu trabalho incansável, Dr. Jorge Krichbaum am-


pliou de tal forma seu campo de atividades, que praticamente
não existe em São Paulo uma colônia (dos mais variados
países) que não tenha estreitas ligações com seu nome (. . . )
O imigrante recém chegado, necessitando de informações ou
conselhos, dirigia-se ao Dr. Jorge. De lá saia com impor-
tantes e impagáveis esclarecimentos. Quem, nas muitas e
distantes colônias, ler a notícia de seu falecimento, lembrar-
se-á do sempre amigável e prestativo homem, que lhe ajudou
a encontrar os primeiros caminhos no Brasil.”

Apesar de evangélico luterano praticante, mantinha relação de estreita


amizade com o conhecido e muito querido abade do Mosteiro de São
Bento, Dom Miguel Kruse.
Em 1911 Dr. Jorge Krichbaum foi contratado pela Escola Politécnica
para as aulas do 1º e 2º ano do Curso Geral. Em 1918 assumiu também
as aulas reunidas: Desenho Topográfico e Cartográfico.
Trecho do livro “A Escola Politécnica de São Paulo, Histórias de sua
História” de Alexandre D’Alessandro, um aluno do Dr. Jorge Krichbaum:

“. . . O professor Jorge Krichbaum foi, a meu ver, no que


estou de acordo com a totalidade dos seus alunos, um pro-
fessor completo. Reunia em si qualidades excepcionais, que
lhe permitiam ensinar dando ao aluno a impressão de estar
entregue a um leve passatempo: ensinava cheio de entusi-
asmo e animando a todos. Lembro-me de que nunca o vi,
4
Boletim da Agricultura, 3ª série, n. 5, 1902.

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por instantes que fôsse, amuado ou de cara amarrada e, pelo
que tenho ouvido, nunca se deu entre ele e os seus alunos o
mais ligeiro atrito. A todos, o Krichbaum ensinava e a todos
ajudava, sem distinção de cara ou de caretas. Corrigia os
nossos erros sempre alegre, rindo, mas sem menosprezo e
sem deboche, fazendo pilhérias ligeiras para disfarçar o nosso
desapontamento, quanto ele passava a borracha, como uma
vassoura, sobre a nossa “obra prima”. . . . Foi depois da “gripe
espanhola” que o velho professor teve ocasião de nos mostrar
a plenitude das suas qualidades de coração, ao tempo em que
punha todo o vigor da sua inteligência privilegiada ao serviço
dos seus alunos. Esses, em grande maioria, alquebrados
pelo surto insidioso da moléstia traiçoeira, tinham ainda por
acabar os seus trabalhos escolares e tudo no curto prazo que
a Escola lhes marcara, na repulsa que mantivera pelo célebre
decreto de promoção sem exame. Quase todos os professores
tiveram, então, o seu coeficiente de humanidade, pelo qual se
multiplicariam as notas futuras. Mas, Krichbaum se excedeu:
deu aulas extraordinárias, ajudou a todos, cujas dificuldades
removia com palavras de animação e até na sua própria casa
recebeu alguém que, pela premência do tempo, não pudera
terminar na Escola a tarefa que lhe competia!. . . ”

Dr. Jorge Krichbaum faleceu em 2 de março de 1921, em pleno exercício


de suas funções acadêmicas. O necrológio de 3 de março, no Jornal
Alemão, descreve o cortejo:

“Sobre o falecido, gostaríamos de ressaltar que ele se man-


teve integralmente como alemão. Mesmo sendo funcionário
público com soldo brasileiro, não perdeu seu espírito ger-
mânico. Obviamente estava politicamente muito ligado à
sua segunda pátria, mas principalmente em seu trabalho
continuava alemão no seu modo de pensar e sentir. Seu es-
critório era uma pequena jóia de dedicação alemã ao trabalho,

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à ordem e à retidão. Não foi, portanto, milagre, que o cortejo
fúnebre de ontem se transformou em uma verdadeira Marcha
triunfal. O Dr. Jorge, que em vida nunca procurou pompa ou
honraria, foi acompanhado ao cemitério por toda a colônia
alemã, pelos funcionários do Ministério da Agricultura e por
muitos membros da alta sociedade brasileira.”