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CLASSIFICAÇÃO DAS VOZES

ORIGEM DOS NOMES DAS VOZES


AS VOZES E SUAS ORIGENS

O cuidado com a voz e o desenvolvimento de


diferentes nuanças quanto à capacidade técnica e
expressiva dos cantores leva a uma subdivisão
interna em cada voz, de acordo com suas
características peculiares, como a extensão vocal, o
timbre e o peso ou potência da voz.
Os nomes das vozes vêm de termos que se usavam
de determinada época. Alguns vocábulos (como
baixo, tenor, alto, soprano) remontam à Idade Média.
ORIGEM DOS NOMES DAS VOZES
Na Idade Média, a polifonia sacra era composta a
partir de um canto gregoriano, cuja melodia usada
como base era denominada cantus firmus.

TENOR
No séc. XII, os músicos da Escola de Notre Dame
passaram a chamar a voz que conduz o cantus firmus
de tenor, cujo termo vem do verbo latino tenere
(sustentar). Assim, em sua origem, o tenor é a voz
que sustenta ou carrega o cantus firmus.
CONTRATENOR
Em 1322, surge o movimento Ars Nova, na França.
Em grande parte, suas músicas eram escritas a três
vozes, o tenor e outras duas em contraponto.
Os músicos desta época passam a chamar as vozes
escritas em contraponto ao tenor de contratenor.
A voz escrita como contraponto acima do tenor,
chama-se contratenor altus, nome que deu origem a
contralto ou alto.
A voz escrita abaixo do tenor chama-se contratenor
basso, expressão que originou contrabaixo ou baixo.
Atualmente, o termo contratenor denomina uma voz
masculina que alcança notas características do
registro feminino.
SUPERIUS
Alguns motetos da Ars Nova eram escritos em quatro
vozes,com uma voz acima do contratenor altus.
Como estava escrita na parte superior da partitura,
esta voz era chamada de superius ou sopranus,
termos que significam ‘superior’, em latim. O termo
sopranus acabou predominando e deu origem à voz
mais alta da classificação geral das vozes.
Surgiu, assim, a seguinte classificação vocal:
Soprano – voz feminina aguda
Contralto – voz feminina grave
Tenor – voz masculina aguda
Baixo – voz masculina grave
HISTÓRIA DAS VOZES EM MÚSICA
Leoninus (séc. XII): Alleluia Pascha Nostrum

Anônimo (séc. XIII): Salve salus, hominum


G. de Machaut (1300-1377): Rose, liz, printemps

Machaut: Messe de Notre Dame


G. du Fay (1397-1474): Missa Se la face ay pale

J. Ockeghem (1420-1497): Missa De plus em plus


J. des Prez (1450-1621): De Profundis
G. P. da Palestrina (1535-1594): Missa Papae Marcellus
William Byrd (1543-1623): Sing joyfully unto God
C. Monteverdi (1567-1643): Cruda Amarilli
J. S. Bach (1685-1750): Paixão Segundo São João
VOZES INTERMEDIÁRIAS
Com a expansão da polifonia em diversas partes e a
especialização das vozes, surge a necessidade de
subdividir a classificação vocal com o uso de vozes
intermediárias.

Em finais do séc. XVIII, aparece a seguinte


classificação das vozes intermediárias:
Meio-Soprano – voz feminina de altura média, entre
o soprano e o contralto
Barítono – voz masculina de registro médio, entre o
tenor e o baixo
BARITONANS
O termo baritonans surgiu na música sacra francesa
do séc. XV, pela composição dos vocábulos gregos
barús (pesado, grave) e tónos (tom, som), para indicar
uma voz masculina muito grave e profunda.
No tratado Musicae Activae Micrologus (1517) fala-se
de uma “voz profunda, chamada baritonus”.
Em uma carta de 1627, Monteverdi refere-se a um de
seus cantores, dizendo “ele é um barítono, não um
baixo”. No Musicalisches Lexicon (1732), Walther diz
que o barítono “deve ter a extensão aguda do tenor,
assim como alguma profundidade do baixo”.
Desde então, o termo barítono é empregado para
designar a voz masculina intermediária, entre o tenor
e o baixo.
MEZZO-SOPRANO
Até meados do séc. XVIII não era comum a distinção
entre soprano e meio-soprano. Foi J.-J. Quantz, em
sua autobiografia de 1754, quem pela primeira vez fez
a distinção das vozes femininas em três categorias.
Ao falar do castrato Senesino, Quantz diz que ele tem
“uma voz penetrante, clara, suave e agradavelmente
profunda de soprano, ou seja, mezzo-soprano”.
A classificação de Quantz somente foi aceita após o
desaparecimento dos castrati e a ampliação das
partes de soprano para o registro extremo agudo.
No início do séc. XIX, surgiram papéis específicos
para cantoras que desenvolviam suas vozes no
registro médio, chamadas de meio-soprano ou,
simplesmente, mezzo.
CLASSIFICAÇÃO GERAL DAS VOZES

Atualmente, tem-se a seguinte classificação vocal:

Vozes Femininas
Soprano – voz feminina aguda
Mezzo-Soprano – voz feminina intermediária
Contralto – voz feminina grave

Vozes Masculinas
Tenor – voz masculina aguda
Barítono – voz masculina intermediária
Baixo – voz masculina grave
Umberto Giordano (1867-1948)
Fedora (1898)
Amor ti vieta
***
José Carreras, tenor
Mirella Freni, soprano
Classificações Específicas
Com o desenvolvimento do bel canto, a classificação
das vozes tornou-se insuficiente, dando origem a
subdivisões internas, em cada umas das vozes.
As subdivisões mais aceitas são as seguintes:
Leggero (Ligeiro) – voz leve e suave, geralmente
com pouco volume e muita agilidade
Lírico – timbre típico da voz, com bastante volume,
corpo de som e homogeneidade em todo o registro
Spinto (Dramático) – timbre mais encorpado e
brilhante, com som pesado e pouca homogeneidade
Coloratura – são as vozes propícias a passagens
rápidas e grandes ornamentações
COLORATURA
Esta expressão é acrescentada ao nome de uma voz
para indicar que tem grande agilidade e flexibilidade
nos ornamentos, escalas, notas rápidas, etc. Assim,
pode haver Soprano Lírico de Coloratura, Soprano
Dramático de Coloratura, etc.
O termo tem sua origem na música alemã do séc.
XVI, em que as passagens ornamentadas, chamadas
diminuições, eram escritas com notas coloridas.
Leonhard Kleber (1490-1556) distingue duas
categorias de música, conforme a ornamentação:
colloratum – com diminuições
non colloratum – sem diminuições
Gaetano Donizetti
Lucia di Lammermoor (1839)
Spargi d'amaro pianto
***
Mariella Devia, soprano
CLASSIFICAÇÕES DE SOPRANO
Cada tipo de voz é adequada a papéis diferentes e se
dedica a um tipo específico de repertório. Em alguns
casos, certos tipos de vozes estão associados até
mesmo a determinados compositores.
As classificações da voz de soprano são estas:
(fonte: Wikipédia)
Soprano Ligeiro – “é o timbre feminino mais leve
dos sopranos, cuja emissão se apóia principalmente
na ressonância craniana e nas cores claras do som. A
voz em geral é doce, leve e de pouco volume, ideal
para personagens jovens, alegres e/ou angelicais.
Quase sempre está associada aos papéis de
coloratura. Sua tessitura usual é do Mi3 ao Lá5”.
Vincenzo Bellini
La Sonnambula (1831)
Ah! non credea mirarti
***
Natalie Dessay, soprano
Soprano Lírico – “é o timbre típico do soprano: é
sonoro, aveludado, redondo, com uma
homogeneidade ao longo dos registros. Possui uma
aptidão natural ao legato expressivo e rico em matizes
e harmônicos. Sua maior riqueza de cores e tessitura
mais centrada no registro médio ou central levam
esse tipo de voz a ser muito utilizado em papéis de
heroínas, como a famosa Mimi, de La Bohemè.
Alguns sopranos líricos, possuindo um timbre mais
escuro e maior extensão grave, podem passar a
cantar, na fase madura de suas carreiras, papéis para
soprano lírico-spinto, mas isso não ocorre com todas
elas. Sua tessitura usual é do Dó3 ao Ré5”.
Giacomo Puccini
La Bohème (1896)
Si mi chiamano Mimi
***
Mirella Freni, soprano
Soprano Dramático ou Spinto – “é o timbre mais
pesado dos sopranos e é relativamente raro. Possui
muita intensidade e brilho. A grande extensão
prejudica a homogeneidade dos registros, mas cria
efeitos impressionantes de grande impacto dramático.
O timbre é geralmente encorpado, volumoso e amplo,
podendo ter uma coloração mais ou menos metálica.
Por ser um tipo de voz com grande riqueza de cores e
matizes, pode apresentar diferentes padrões de
vozes, desde um timbre aveludado e redondo, como o
de Kirsten Flagstad, até um metálico e agudo, como o
de Birgit Nilsson, ou um pesado e escuro, como Astrid
Varnay. Sua tessitura usual é do Sol2 ao Dó5”.
Gaetano Donizetti
Lucia di Lammermoor (1839)
Spargi d'amaro pianto
***
Maria Callas, soprano
Algumas vozes não se classificam com precisão em
nenhuma das categorias anteriores. Por isso,
surgiram classificações intermediárias, como

Soprano Lírico Ligeiro – “é o timbre intermediário


entre o Leggero e o Lírico, com uma menor igualdade
de registros, um registro central mais rico e
arredondado, mas, com menor corpo de som maior
facilidade de emissão do registro agudo e menor
aptidão ao legato expressivo. Alguns sopranos lírico-
leggero podem amadurecer a voz e interpretar com
sucesso papéis de sopranos líricos. Sua tessitura
usual é do Dó3 ao Fá5”.
Gaetano Donizetti
Lucia di Lammermoor (1839)
Cena da Loucura
***
Sumi Jo, soprano
Soprano Lírico Dramático ou Lírico-Spinto – “é o
tipo de voz lírica caracterizada pela capacidade de se
fazer spinto (do italiano spingere, ‘empurrar’). Possui
cor e peso vocais para cantar passagens dramáticas
sem desgaste, não-obstante não tenha as
características típicas da soprano dramático, e é
associada normalmente ao tenor lírico spinto. O termo
define, essencialmente, a soprano lírica que canta
com mais potência nos clímax dramáticos. Sua
tessitura aproximada é do Dó3 ao Ré5”.
As outras vozes classificam-se a partir da mesma
concepção geral, porém com algumas características
peculiares a cada voz.

CLASSIFICAÇÕES DE MEZZO-SOPRANO
As meio-sopranos classificam-se da mesma forma
que as sopranos, com as três vozes principais,
Mezzo-Soprano Ligeiro, Lírico e Dramático, e suas
combinações, Mezzo-Soprano Lírico Ligeiro e Mezzo-
Soprano Lírico-Spinto.
Característica é a voz de meio-soprano dramático.
Giuseppe Verdi
Don Carlos (1867)
O Don Fatale
***
Tatiana Troyanos, mezzo-soprano
CLASSIFICAÇÕES DE CONTRALTO
As vozes de contralto são apropriadas a diferentes
papéis líricos e dramáticos.
“O Contralto é o timbre feminino mais pesado, e
soa quase com a plenitude de uma voz masculina.
É um timbre robusto e vigoroso, chamado também
de contralto profundo. Sua extensão aguda é curta
e compensada no registro grave. Não tem divisão
interna por timbre, e tem poucos papéis em óperas.
Sua extensão usual é do Fá2 ao Fá4”.
“O timbre de contralto é muito flexível e, em óperas
de Donizetti e Rossini, muitos contraltos tinham que
exceder sua extensão normal para fazer papéis de
extrema agilidade”.
Gioachino Rossini
Demetrio e Polibio (1806)
Pien di contento

***
Sara Mingardo, contralto
CLASSIFICAÇÕES DE CONTRALTO
As vozes de contralto são apropriadas a diferentes
papéis líricos e dramáticos. Um tipo especial é o
Contralto Virago – “timbre de contralto com uma
extensão muito grande; trata-se de uma anomalia
vocal rara que possui um registro vocal extremamente
amplo. O timbre natural é na tessitura do contralto,
com graves de cores baritonais e uma extensão
generosa. A tessitura do Contralto Virago estende
desde a tessitura do Tenor (às vezes do Barítono), até
o soprano leggero. Sua extensão usual é do Lá1 ao
Dó6”.
Dentre as contraltos virago, destacam-se Yma Sumac,
Maria Pia Kupeczik e Pauline Viardot.
Diretor: Jerry Hopper
O Segredo dos Incas (1954)
Canção: Pachamama
***
Yma Sumac, contralto
CLASSIFICAÇÕES DE TENOR
As vozes de tenor classificam-se como os sopranos,
em Tenor Ligeiro, Tenor Lírico e Tenor Dramático e
suas combinações, como Tenor Lírico Ligeiro e Tenor
Lírico Spinto.

A voz característica de tenor é o


Tenor Lírico – “é timbre típico do tenor; é
apaixonado, expressivo e sensual, aveludado e
redondo que lembra o timbre do violoncelo. Possui
uma notável igualdade de registros e uma beleza
extraordinária nos legati, cuja emissão se torna
espontânea. Sua extensão usual é do Dó2 ao Dó4”.
Tenor Absoluto – “é um tipo de tenor que possui
grande extensão e facilidade de interpretação de todo
repertório para tenor. Na maioria das vezes os tenores
que se arriscam nessa categoria são tenores líricos e
lírico-spintos maduros, com anos de experiência em
palco. Este tipo de tenor deve ter a sensibilidade para
interpretar papéis tão complexos e de diferentes
caracteres”.
Giacomo Puccini
Turandot (1926)
Nessun Dorma
***
Placido Domingo, tenor
CLASSIFICAÇÕES DE BARÍTONO
Os diferentes tipos de barítono geralmente são
classificados em: Leggero, Lírico, Alto e Dramático.
O barítono que não aparece nas outras vozes é o
Barítono Alto – “O Barítono Alto ou de Caráter é o
um tipo de Barítono dramático mais intenso e com um
registro agudo seguro, é expressivo, muito metálico
de grande amplidão sonora, é o barítono típico do
repertorio de Verdi, cheio de dramatismo e vigor. Sua
extensão usual é do Sol1 ao Lá3”.
Dietrich Fischer-Dieskau é um dos barítonos altos
mais conhecidos.
Franz Schubert
Die Winterreise (1827)
Einsamkeit
***
Dietrich Fischer-Dieskau, barítono
CLASSIFICAÇÕES DE BAIXO
Devido às peculiaridades e às características
desenvolvidas pelos cantores de voz extremamente
grave, classificam-se os baixos de forma diferenciada
das outras vozes.
Normalmente, são aceitas as seguintes categorias:
Baixo Leggero
Baixo Cantante
Baixo Profundo
Baixo Super-profundo
Baixo Leggero – “O Basso Leggero é o timbre mais
leve entre os baixos é mais raro e muito brilhante
usado bastante em papéis bufos ou de coloratura em
operetas francesas. O timbre é semelhante ao baixo-
barítono, mas é mais leve, de dicção clara, muito ágil
e com agudos mais leves e brilhantes. Sua extensão
usual é do Fá1 ao Solb3”.
Giacomo Puccini
Tosca (1900)
Va, Tosca
***
Ruggero Raimondi, baixo
Baixo Cantante – “O Basso Cantante é o timbre
típico do baixo. Igualmente timbrado em toda sua
gama, rico em harmônicos, notavelmente expressivo e
capaz de maior vocalização que o Barítono. Sua
extensão usual é do Mib1 ao Fá3”.
Gioachino Rossini
Il Barbiere di Seviglia (1816)
La Calunnia
***
Carlo Colombara, baixo
Baixo Profundo – “O Basso Profondo é o timbre
mais grave e mais pesado entre todas as vozes. Muito
intenso e, conseqüentemente, menos igual, que
atinge no registro grave uma sonoridade cavernosa e
no registro agudo uma qualidade enérgica e um
pouco áspera. Sua extensão usual é do Sib-1 ao Mi3”.

 Baixo Super-Profundo – “O Basso Superprofondo


é o timbre mais grave masculino, com um registro
raríssimo, que abarca cerca de duas oitavas abaixo
da média, alcançando notas muito graves, o timbre
é uma continuação do baixo profundo com um
registro grave muito extenso. Sua extensão usual é
do Dó-1 ao Dó3”.
Gaetano Donizetti
La Favorita (1840)
Splendon più belle in ciel le stelle
***
Giulio Neri, baixo