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PRODUÇÃO DA

DIFERENÇA,

or
SAÚDE COLETIVA

od V
aut
E FORMAÇÃO

R
dispositivos transdisciplinares
nas políticas públicas

o
aC
Coleção
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Transversalidade e Criação
visã
Ética, Estética e Política
Volume 12
itor
a re

F LÁVIA CRISTINA SILVEIRA LEMOS


DOLORES GALINDO
PEDRO PAULO GASTALHO DE BICALHO
ALUÍSIO FERREIRA DE LIMA
par

JOÃO PAULO PEREIRA BARROS


Ed

PATRÍCIA DO SOCORRO MAGALHÃES FRANCO DO ESPÍRITO SANTO


KARLA DALMASO DE SOUZA
LAUANY CÂMARA CHERMONT PINHEIRO
MARCELO MORAES MOREIRA
ão

BÁRBARA MORAES DE CARVALHO LEITE


ELEAZAR VENANCIO CARRIAS
s

RONILDA BORDÓ DE FREITAS GARCIA


ver

PAMELLA AUGUSTA PASSOS VENTURA PINA


MARCELO RIBEIRO DE MESQUITA
SHEYLA PEREIRA ROCHA
CRISTINA SIMONE DE SOUSA REIS
HELDER CÔRREA LUZ
DANIEL CASTRO SILVA
Organizadores
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Ed
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par aC
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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão
Flávia Cristina Silveira Lemos
Dolores Galindo
Pedro Paulo Gastalho de Bicalho
Aluísio Ferreira de Lima

or
João Paulo Pereira Barros
Patrícia do Socorro Magalhães Franco do Espírito Santo

od V
Karla Dalmaso de Souza

aut
Lauany Câmara Chermont Pinheiro
Marcelo Moraes Moreira

R
Bárbara Moraes de Carvalho Leite
Eleazar Venancio Carrias

o
Ronilda Bordó de Freitas Garcia
aC Pamella Augusta Passos Ventura Pina
Marcelo Ribeiro de Mesquita
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Sheyla Pereira Rocha


Cristina Simone de Sousa Reis
visã
Helder Côrrea Luz
Daniel Castro Silva
(Organizadores)
itor
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PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE


COLETIVA E FORMAÇÃO: dispositivos
transdisciplinares nas políticas públicas
par
Ed

Transversalidade e Criação - Ética, Estética e Política


Volume 12
s ão
ver

Editora CRV
Curitiba – Brasil
2021
Copyright © da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe: Railson Moura
Diagramação e Capa: Designers da Editora CRV
Imagem da Capa: Pixabay
Revisão: Analista de Escrita e Artes

or
od V
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

aut
CATALOGAÇÃO NA FONTE
Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506

R
P962

Produção da diferença, saúde coletiva e formação: dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas

o
/ Flávia Cristina Silveira Lemos, Dolores Galindo, Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, Aluísio Ferreira de Lima,
João Paulo Pereira Barros, Patrícia do Socorro Magalhães Franco do Espírito Santo, Karla Dalmaso de Souza,
aC
Lauany Câmara Chermont Pinheiro, Marcelo Moraes Moreira, Bárbara Moraes de Carvalho Leite, Eleazar
Venancio Carrias, Ronilda Bordó de Freitas Garcia, Pamella Augusta Passos Ventura Pina, Marcelo Ribeiro
de Mesquita, Sheyla Pereira Rocha, Cristina Simone de Sousa Reis, Helder Côrrea Luz, Daniel Castro Silva

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


(organizadores). – Curitiba : CRV, 2021.
720p. (Coleção: Transversalidade e Criação - Ética, Estética e Política. v. 12)
visã
Bibliografia
ISBN Coleção 978-85-444-1750-8
ISBN Volume Digital 978-65-5868-957-7
ISBN Volume Físico 978-65-5868-956-0
itor

DOI 10.24824/978655868956.0
a re

1. Educação 2. Formação de professores 3. Diversidade 4. Alfabetização 5. Abordagens didáticas I.


Lemos, Flávia C. S. org. II. Galindo, Dolores. org. III. Bicalho, Pedro P. G. de. org. IV. Lima, Aluísio F. de.
org. V. Barros, João P. P. org. VI. Santo, Patrícia do S. M. F. do E. org. VII. Souza, Karla D. de. org. VIII.
Pinheiro, Lauany C. C. org. IX. Moreira, Marcelo M. org. X. Leite, Bárbara M. de C. org. XI. Carrias, Eleazar
V. org. XII. Garcia, Ronilda B. de F. org. XIII. Pina, Pamella A. P. V. org. XIV. Mesquita, Marcelo R. de. org.
XV. Rocha, Sheyla P. org. XVI. Reis, Cristina S. de S. org. XVII. Luz, Helder C. org. XVIII. Silva, Daniel C.
par

org. XIX. Título XX. Transversalidade e Criação - Ética, Estética e Política. v. 12


Ed

CDU 37 CDD 370


Índice para catálogo sistemático
1. Educação 370
ão

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EM FORMATO DIGITAL.
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s
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2021
Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004
Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV
Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV
Tel.: (41) 3039-6418 - E-mail: sac@editoracrv.com.br
Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br
Conselho Editorial: Comitê Científico:
Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andrea Vieira Zanella (UFSC)
Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Christiane Carrijo Eckhardt Mouammar (UNESP)
Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Edna Lúcia Tinoco Ponciano (UERJ)
Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Edson Olivari de Castro (UNESP)

or
Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT) Érico Bruno Viana Campos (UNESP)
Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Fauston Negreiros (UFPI)

od V
Carmen Tereza Velanga (UNIR) Francisco Nilton Gomes Oliveira (UFSM)

aut
Celso Conti (UFSCar) Helmuth Krüger (UCP)
Cesar Gerónimo Tello (Univer .Nacional Ilana Mountian (Manchester Metropolitan
Três de Febrero – Argentina) University, MMU, Grã-Bretanha)

R
Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG) Jacqueline de Oliveira Moreira (PUC-SP)
Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Marcelo Porto (UEG)
Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Marcia Alves Tassinari (USU)

o
Élsio José Corá (UFFS) Maria Alves de Toledo Bruns (FFCLRP)
aC
Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB) Mariana Lopez Teixeira (UFSC)
Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) Monilly Ramos Araujo Melo (UFCG)
Gloria Fariñas León (Universidade Olga Ceciliato Mattioli (ASSIS/UNESP)
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

de La Havana – Cuba) Regina Célia Faria Amaro Giora (MACKENZIE)


Guillermo Arias Beatón (Universidade Virgínia Kastrup (UFRJ)
visã
de La Havana – Cuba)
Helmuth Krüger (UCP)
Jailson Alves dos Santos (UFRJ)
João Adalberto Campato Junior (UNESP)
itor

Josania Portela (UFPI)


Leonel Severo Rocha (UNISINOS)
a re

Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO)


Lourdes Helena da Silva (UFV)
Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US)
Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar)
Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC)
par

Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA)


Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG)
Renato Francisco dos Santos Paula (UFG)
Ed

Rodrigo Pratte-Santos (UFES)


Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)
Simone Rodrigues Pinto (UNB)
ão

Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA)


Sydione Santos (UEPG)
Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA)
Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)
s
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Este livro passou por avaliação e aprovação às cegas de dois ou mais pareceristas ad hoc.
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“Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí


onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga.”
Gilles Deleuze
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Dedicamos este livro à sociedade que busca pensar e criar,


mesmo sob o fio da navalha em tempos em que saberes
universitários e políticas públicas são duramente atacados
por práticas neoliberais de governo das condutas.
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AGRADECIMENTOS
Gratidão é algo cada vez mais raro, nos dias atuais. Compromissos,
vínculos, responsabilidades conjuntas, construções coletivas e redes de

or
amparo parecem se dissolver como efeitos de processos de individualização,

od V
competição, quebra de laços sociais e privatismos variados. Nesta coletânea

aut
internacional, temos capítulos forjados à moda da resistência de grupos e
intelectuais, trabalhadores(as) que ousam lutar com a escrita, docência, exten-
são e a pesquisa, em um crucial tripé da formação universitária. Temos aqui

R
reunidos textos das seguintes universidades: UFPA, CUCSH (México), CUCS
(México), UFRA, UFAM, UFC, UFRJ, UFAC, UFMA, UFMT, UFRGS,

o
UNESP, UFMG, UFRB, UFBA, UFDPar, IFPA, UNIP, UNIPAR, UNINAS-
aC
SAU, UNAMA, UNOESTE, FACAP, UNIMEP, Estácio de Sá e UNICEUB.
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APRESENTAÇÃO
Este livro é uma coletânea internacional, formada por capítulos consti-
tuídos em níveis e camadas de aberturas em correlações diagramáticas, esca-

or
pando às classificações rápidas e reducionistas dos saberes cristalizados em

od V
disciplinas, teorias, métodos e técnicas. Visa-se operar uma radical transmu-

aut
tação da ordem discursiva e embaralhar os regimes de verdade forjados pelos
diferentes modos de produção dos dispositivos institucionais.

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO........................................................................................... 13

or
A ESQUIZOANÁLISE COMO MÁQUINA DE GUERRA............................... 21

od V
Marcio José de Araújo Costa

aut
O RIZOMA COMO PERSPECTIVA PROBLEMATIZADORA NA

R
EPISTEMOLOGIA DA ARQUEOLOGIA........................................................ 31
Flávio Luiz de Castro Freitas
Arkley Marques Bandeira

o
aC
POR PROCESSO DE DESMEDICALIZAÇÃO ESCOLAR:
reflexões para novas possibilidades na sala de aula....................................... 43
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Fabiola Colombani
Alonso Bezerra de Carvalho
visã
Brunno C. Bonini Luengo

A PRODUÇÃO DAS SUBJETIVIDADES CONTEMPORÂNEAS PELA


VISIBILIDADE NA SOCIEDADE EMPRESARIAL........................................ 61
itor

Flávia Cristina Silveira Lemos


Hélio Rebello Cardoso Júnior
a re

Dolores Galindo
Franco Farias da Cruz
Daiane Gasparetto da Silva

O CONCEITO DE TRANSDISCIPLINARIDADE E SUA APLICAÇÃO


par

NA TRÍPLICE FRONTEIRA DA AMAZÔNIA SUL OCIDENTAL................... 73


Enock da Silva Pessoa
Ed

O USO DAS IMAGENS NAS NARRATIVAS EM TEMPOS DE


PANDEMIA DA COVID-19.............................................................................. 91
ão

Denise Machado Cardoso

DESDOBRAMENTOS E EXPERIÊNCIAS DO SEMINÁRIO


s

EDUCAÇÃO, ARTE E DIVERSIDADE........................................................ 123


ver

Renata Almeida
Carolline Septimio

CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA, RACISMOS E MÍDIAS


JORNALÍSTICAS PARAENSES.................................................................. 135
Lauany Câmara Chermont Pinheiro
Marlize Ruth Albuquerque Pacheco
André Benassuly Arruda
Maria Luiza Lemos Azevedo
PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA E USO DE SUBSTÂNCIAS
PSICOATIVAS: estratégias biopolíticas e formas de resistência.................. 175
José de Arimatéia Rodrigues Reis
Pedro Paulo Freire Piani
Alcindo Antônio Ferla

or
Ataualpa Maciel Sampaio

od V
FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA A PARTIR DOS ESTÁGIOS: desafios

aut
metodológicos e políticos para a instituição de trabalhadores....................... 223
Rodrigo Toledo

R
João Eduardo Coin de Carvalho

DESAFIOS NA FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL: debates entre a

o
psicologia e a educação................................................................................. 233
Rafaele Habib Souza Aquime
aC
Fernanda Cristine dos Santos Bengio
Fernanda Teixeira de Barros Neta

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visã
A PSICOLOGIA EM DIÁLOGO COM O SUS NA ASSISTÊNCIA E
PREVENÇÃO AO ACIDENTE DE MOTOR DE
BARCO COM ESCALPELAMENTO............................................................ 249
Crissia Roberta Pontes Cruz
itor

Ana Carolina Araújo de Almeida Lins


a re

CLINICAL INTERVENTION FOR EMBODIED SYMPTOMS


BY DEPRESSION......................................................................................... 265
Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel
Lorena Schalken de Andrade
par

Aide Esmeralda López Olivares


Lucivaldo da Silva Araújo
Ed

UM ESTUDO SOBRE A PSICOLOGIA NAS RESIDÊNCIAS


MULTIPROFISSIONAIS EM SAÚDE NO PARÁ:
ão

produções de sentido, resistências e transformações................................... 279


Gabriela Di Paula Dias Ribeiro
Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira
s

Márcio Mariath Belloc


ver

GRAVIDEZ DECORRENTE DE VIOLÊNCIA SEXUAL EM CRIANÇAS


E ADOLESCENTES: perfil dos casos notificados pelo setor saúde em
Belém, Pará.................................................................................................... 295
Milene Maria Xavier Veloso
Isabel Rosa Cabral
Beatriz Nayara Farias das Chagas
Maíra da Maria Pires Ferraz
QUEM SÃO AS CRIANÇAS INSTITUCIONALIZADAS? ESTUDO
SOBRE A POPULAÇÃO ACOLHIDA EM MARABÁ,
SUDESTE DO PARÁ.................................................................................... 315
Lúcia Cristina Cavalcante-da-Silva
Mayara Barbosa Sindeaux Lima

or
Normando José Queiroz Viana
Thuany Steffane Lima Martins

od V
Mariane Lopes da Paixão Costa

aut
ECOS NEOLIBERAIS E PUNITIVISMO JUVENIL..................................... 333

R
Valber Luiz Farias Sampaio
Cyntia Santos Rolim
Rafaele Habib Souza Aquime

o
aC
FORMAÇÃO PROFISSIONAL NO CÁRCERE: uma proposta em
educação de jovens e adultos privados de liberdade.................................... 345
Fernanda Nazaré da Luz Almeida
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Leandro Passarinho Reis Júnior


visã
Michele Torres dos Santos de Melo

JUVENTUDES E RESISTÊNCIAS: uma análise sobre conflitos


urbanos, políticas de morte e transdisciplinaridade....................................... 361
itor

Luizane Guedes Mateus


a re

Rovana Patrocinio Ribeiro

POLÍTICAS PÚBLICAS E PSICOLOGIA: considerações para uma


práxis comprometida com a realidade brasileira............................................ 375
Rodrigo Toledo
par

João Eduardo Coin de Carvalho


Ed

O VIÉS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS QUE DESCREDENCIALIZA


FAMÍLIAS DE CRIANÇAS INSTITUCIONALIZADAS................................ 385
Áurea Gianna Azevedo Nobre
ão

Pedro Romão dos Santos Júnior

LOS DE A PIE: la ciudad vivida como movilidad asimétrica......................... 403


s

Bernardo Jiménez-Domínguez
ver

Rosa Margarita López Aguilar

CENTRO DE ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO:


implementação da política de educação inclusiva junto à rede
intersetorial no município de Maracanã - PA.................................................. 419
Robenilson Moura Barreto
Zureide do Socorro Ferreira Alves
Álvaro Pinto Palha Junior
“EU NÃO TENHO FORMAÇÃO PARA TRABALHAR COM ALUNOS
DESSE TIPO”: discursos de professores e as contribuições da
transdisciplinaridade para uma educação inclusiva....................................... 433
Carolline Septimio
Letícia Carneiro da Conceição

or
Vanessa Goes Denardi

od V
SUBJETIVIDADE POLÍTICA:

aut
quando novos sujeitos políticos emergem na cena....................................... 449
Vinicius Furlan

R
Emanuel Messias Aguiar de Castro

A TELA QUE ME SEDUZ NÃO PRECISA DE INTERPRETAÇÃO........... 465

o
Diana Coeli Paes de Moraes
aC
Bárbara Moraes de Carvalho Leite

A MICROPOLÍTICA E SUA RELAÇÃO COM O DESEJO EM

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FÉLIX GUATTARI......................................................................................... 481
visã
Thiago Tenório Pereira
Cristina Simone de Sousa Reis
Bárbara Moraes de Carvalho Leite
Pamella Augusta Passos Ventura Pina
itor
a re

PEDAGOGIA E PSICOLOGIA ATRAVESSADAS PELA DIFERENÇA:


o problema da medicalização......................................................................... 503
Rafael Coelho Rodrigues
Silvio Ricardo Munari Machado
par

O ESTADO BRASILEIRO E AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO


CONTEXTO NEOLIBERAL: o currículo multi e intercultural e suas
Ed

perspectivas e desafios.................................................................................. 525


Oberdan da Silva Medeiros
ão

AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA INFANTIL: proposta de atuação


em um contexto clínico................................................................................... 543
Carla de Cassia Carvalho Casado
s

Ícaro dos Santos Ferreira


ver

CONSELHO TUTELAR E O ESTATUTO DA CRIANÇA


E DO ADOLESCENTE................................................................................. 561
Ronilda Bordó de Freitas Garcia
Helder Côrrea Luz
Helena Carollyne da Silva Souza
Antônio Soares Júnior
José Augusto Lopes da Silva
Edilene Silva Tenório
ESTATUTO DO IDOSO, SAÚDE COLETIVA E A DEFESA DOS
DIREITOS DA PESSOA IDOSA................................................................... 573
Ronilda Bordó de Freitas Garcia
Helder Corrêa Luz
Helena Carollyne da Silva Souza

or
Antônio Soares Júnior
Pamella Augusta Passos Ventura Pina

od V
Cristina Simone de Sousa Reis

aut
PANÓPTICO, BIOPOLÍTICA E A NECROPOLÍTICA NA PANDEMIA

R
DO NOVO CORONAVÍRUS: o enxame viral............................................... 583
Flávia Cristina Silveira Lemos

o
Felipe Sampaio de Freitas
Dolores Galindo
aC
Jéssica Modinne de Souza e Silva
Fabiana de Lima e Silva
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O CURRÍCULO SOB A PERSPECTIVA DOS DOCENTES EM


visã
FORMAÇÃO NO PARFOR NO MUNICÍPIO DE MUANÁ-PA.................... 599
Luiz Miguel Galvão Queiroz
Paulo Sérgio de Almeida Corrêa
itor

Rafael da Silva Queiroz


a re

Terezinha Sirlei Ribeiro de Souza

PRÁTICAS DE EXTERMÍNIO E NARRATIVAS DE FAMILIARES


ATINGIDOS PELA VIOLÊNCIA: um olhar para a formação e atuação
da psicologia frente à violência...................................................................... 619
par

Luizane Guedes Mateus


Ed

O TRABALHO DE PESQUISA COM DOCUMENTOS EM


PSICOLOGIAS: memória e produção da diferença...................................... 635
Flávia Cristina Silveira Lemos
ão

Daiane Gasparetto da Silva


Adriana Elisa de Alencar Macedo
Bruno Jáy Mercês Lima
s

Antonino Alves da Silva


ver

Luis Wagner Dias Caldeira

DAS VICISSITUDES, LIMITAÇÕES E POSSIBILIDADES DE UMA


PESQUISA TEÓRICO-BIBLIOGRÁFICA: a reconstrução enquanto
conceito operador crítico................................................................................ 643
Aluísio Ferreira de Lima
José Alves de Souza Filho
O MAPA IMPOSSÍVEL: sobre o rigor do decalque e a
arte da cartografia.......................................................................................... 655
Thiago Cardassi Sanches
Márcio Alessandro Neman do Nascimento

or
PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO EM TERRITORIALIDADES
URBANAS: deslocamentos decoloniais na pesquisa-inter(in)venção

od V
em psicologia................................................................................................. 665

aut
João Paulo Pereira Barros
Lara Brum de Calais

R
Dagualberto Barboza Silva
Carla Jéssica de Araújo Gomes

o
PSICOLOGIA SOCIAL CRÍTICA E MATERIALISMO HISTÓRICO-
aC
DIALÉTICO: alguns elementos para o debate.............................................. 681
Robert Damasceno Rodrigues

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SOBRE OS ORGANIZADORES E AUTORES........................................... 701
visã
itor
a re
par
Ed
s ão
ver
A ESQUIZOANÁLISE COMO
MÁQUINA DE GUERRA

or
Marcio José de Araújo Costa

od V
aut
Estamos há pouco mais de 50 anos dos eventos de maio de 1968, período
este tão curto quanto intenso, que deixou profundas marcas em nossa Cultura
e História. Esse movimento traçou novos rumos para a ação política, para o

R
comportamento, para o pensamento e talvez até mesmo para os nossos sonhos e
desejos. Uma das frases que os estudantes parisienses pintavam nos muros era:

o
“Sejamos realistas: tentemos o impossível!” Neste breve capítulo tentaremos, ins-
aC
pirados pelas efemérides dos 50 anos do mês que marcou o mundo, falar de uma
teoria e prática forjada tendo por inspiração aquele movimento: a esquizoanálise.
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A teoria e prática intitulada “esquizoanálise”, lançada pelo filósofo Gilles


visã
Deleuze e pelo psicanalista e militante Félix Guattari em 1972, na obra O Anti-
-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1, e desdobrada em Mil Platôs: capitalismo
e esquizofrenia 2, assim como em diversas outras obras conjuntas ou solitárias de
Deleuze e Guattari, tem por objetivo principal analisar os discursos e práticas de
itor

uma sociedade, para apontar, de um lado, as propostas revolucionárias, transfor-


a re

madoras e potencializadoras dos modos de vida e, de outro lado, os discursos e


práticas fascistas e conservadoras, que produzem fechamento e despotencialização.
Fazer tal análise do social implica táticas específicas. O inimigo que se
almeja destruir é o fascismo, melhor dizendo, todas as formas de microfas-
par

cismos cotidianos que nos fazem amar o poder, ficar do lado do poder (FOU-
CAULT, 1991). A pergunta que anima a esquizoanálise é: por que desejamos
Ed

o poder? Por que desejamos nossa própria subjugação? (DELEUZE; GUAT-


TARI, 2006, 2013) Numa época como a nossa, em que o aparelho judiciário
é cada vez mais solicitado, na qual o ressentimento e a sede de vingança esti-
ão

mulam nosso clamor para que o poder estatal controle cada vez mais nossas
vidas – clamor esse diretamente proporcional à nossa falta de alternativas
s

de pensamento, nossa própria impotência cidadã –, deixar-se atravessar por


ver

essa pergunta é tornar o pensamento de novo possível. E é justamente isso


que nos interessa agora, indicar de que forma o pensamento pode nascer e
como encontrar conceitos para compreender nossa maneira de pensar, isto é,
descobrir as imagens de pensamento que nos sobrecodificam. Frente a tantos
discursos e práticas, como encontrar um critério de avaliação que nos permita
escolher um pensamento adequado à vida? Como orientar-se no turbilhão de
discursos díspares que pululam na vitrine pós-moderna das ideias? Como
22

encontrar enunciados que promovam pequenas ilhas de liberdade no mercado


das teorias prontas e dos pré-conceitos dominantes?
Frente a essas questões, nascidas do problema da necessidade de orien-
tar-se no pensamento, usaremos o conceito deleuze-guattariano de máquina
de guerra (DELEUZE; GUATTARI, 2012a) para encontrar respostas possí-
veis, conectando-o a outros conceitos importantes da filosofia de Deleuze e
Guattari, pois, como eles mesmos afirmaram, não existe conceito simples,

or
todo conceito é uma multiplicidade de limites imprecisos, remetendo sempre

od V
a outros conceitos (DELEUZE; GUATTARI, 1992).

aut
É comum dizermos, ainda que de forma velada, que o pensamento possui
uma forma necessária e absoluta, lógica e universalmente válida, mediante a qual,
por meio de conteúdos os mais diversos, conseguiríamos alcançar um conheci-

R
mento verdadeiro. Este postulado anima o pensamento Ocidental há alguns sécu-
los, pelo menos desde Aristóteles. Quando afirmamos, do alto de nossa certeza

o
racional, que o psicótico delira e que a forma correta de pensar é a neurótica, forma
aC
em que o pensamento segue uma linha lógica e gramaticalmente correta, com

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significações sociais estabilizadas, estamos, subrepticiamente, reafirmando esse
axioma filosófico pouco problematizado. Mais do que por conteúdos, estamos
reafirmando que o pensamento se caracteriza, antes de tudo, pelas suas caracterís-
visã
ticas formais; que existe um modelo do que seja pensar, uma forma verdadeira do
pensamento. Tal forma invalida todas as demais e se arvora em juíza para julgá-las.
A forma deste tipo de pensamento, o seu modelo, se origina na forma
itor

Estado. O Estado é, para nós, o modelo de organização por excelência, tornan-


a re

do-se o próprio modelo do que significa pensar. Como todo modelo, é estático,
servindo como critério para toda construção mental. Segundo Deleuze e Guattari
(2012a), a forma Estado possui duas cabeças: o mito e o discurso racional. Estas
cabeças remetem aos dois polos da soberania: de um lado, um Império do pen-
sar verdadeiro, a verdade como o Sol, que funda toda pretensão à verdade; de
par

outro, o diálogo de todos os seres racionais, que, em seus embates e discussões,


Ed

são capazes de fundamentar a verdade. De um lado, um Império que funda a


verdade; de outro, uma república de espíritos livres capazes de encontrar essa
verdade, uma república cujo príncipe, ou o fundamento, seria a própria Verdade.
ão

Essa distinção de formas políticas que se complementam constitui uma


imagem que recobre o nosso pensamento. Costumamos acreditar, com efeito,
que ideias como a discussão e o consenso são maneiras pelas quais, na dis-
s

puta verbal, usando todos da razão e não da violência, encontraríamos nosso


ver

potencial intrínseco de descobrir a verdade presente em nós mesmos. Existiria


uma verdade e esta evidência seria demonstrada pela própria ideia de Verdade,
pois, ao negar que a verdade existe, ainda sim teríamos a pretensão de que tal
afirmação fosse verdadeira. É como o argumento da verdade como fundamento
em Sto. Agostinho (2002), que influenciou o cogito cartesiano: se eu erro ou
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 23

me engano, e sei que me engano ou erro, é porque tenho em mim uma ideia,
ainda que vaga, de que existe uma verdade que está em mim e me julga, que me
alerta sobre o que posso, ou não, saber, sobre os erros e acertos do meu pensar.
Acabamos, com isso, por fundamentar a própria soberania política. Esta
ideia, de matriz platônica, anima todo empreendimento de fundação e funda-
mentação racional da soberania política, do Estado. Porém, antes de Platão,
segundo afirmam etnólogos e historiadores, essa forma-Estado no pensa-

or
mento, essa imagem do pensamento, tem dois representantes originários: o

od V
imperador, deus ou representante do deus, e os sacerdotes ou escribas, que

aut
interpretam os sinais da natureza para nos dizer que tudo significa Deus ou
os deuses (CLASTRES, 1982; DELEUZE; GUATTARI, 2010). Trata- se do

R
mecanismo da interpretação dos escribas e sacerdotes, esboço do pensamento
dialógico ou racional, e da fundação da verdade por um déspota, que diz o que

o
é a verdade. Enquanto o Imperador funda a verdade, como o significante do
Um, os sacerdotes interpretam todos os significantes da Lei para fundamentar
aC
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o significante do Mestre. Mito e logos, portanto; fundação e fundamentação;


ereção do significante despótico e interpretação de todos os significantes que
significam o significante central e fundador.
visã
Deste modo, numa soberania, elege-se sempre o novo sacerdote, aquele que
nos desvelará o significado do todo, o que encontra o modelo de funcionamento
da sociedade, dando-nos a possibilidade de nos orientarmos no pensamento,
na vida e na política. Durante a Cristandade, esse intérprete era a santa madre
itor

Igreja. Nos séculos XVIII e XIX, esse sábio foi o filósofo, aquele que por meio
a re

de uma análise de nosso conhecimento pode nos indicar o procedimento correto


para pensar. No início do séc. XX foi o sociólogo que desempenhou esse papel.
Na segunda metade do séc. XX, de certa maneira, o psicanalista fez-se novo
sacerdote, o que tem a chave para o desejo e o inscreve à Lei. Na contempora-
par

neidade, os agentes do Mercado, com seus marqueteiros, publicitários, coachs,


digital influencers, dentre outros, são os novos sacerdotes, que nos motivam à
Ed

produção e ao controle, com um sorriso cínico em seus rostos padronizados.


Deleuze chama esse modelo de pensar de imagem do pensamento. Ela é
uma imagem moral, metafísica, ortodoxa e racional. É um pensamento hierár-
ão

quico e hierarquizador, criando degraus para o conhecimento absoluto. Por isso,


é um pensamento representativo, isto é, tem do próprio conceito de pensar uma
s

imagem que seria o representante por excelência daquilo de que deveríamos


ver

nos aproximar (DELEUZE, 2006). Todavia, Deleuze enxerga uma outra forma
de pensar, um pensamento sem modelo ou imagem, um pensar como processo,
como afetação, como construção e produção de modos de vida. Este pensa-
mento sem imagem seria, por outro lado, ético, ontológico, pluralista e trágico
(MACHADO, 2009). Mas como se encontra esse pensamento sem imagem?
24

Como podemos nos subtrair ao Estado que nos impõe suas formas corretas de
pensar e agir e seus representantes da Lei e da Ordem, seus policiais intelectuais?
O que efetivamente permite que se ligue a Lei ou Verdade à república
de espíritos livres é uma violência insidiosa e molecular, toda uma produção
descontínua, fragmentária e afetiva, que ata milhares de pensamentos des-
contínuos à forma da verdade. A Lei do verdadeiro não se faz sem batalhas,
sem uma apropriação desse nível molecular por uma ideia molar. Porém a

or
produção molecular no pensamento, feita de variações de afetos e marcas dos

od V
encontros, é independente do recobrimento molar, representativo e estatal que

aut
se possa fazer dela (DELEUZE, 2016). Essa usina fervilhante de pensamentos
nos indica o que seria o pensamento sem imagem. O pensador desse tipo é o

R
nômade ou o pensador privado. Ele se opõe ao pensador de Estado, o professor
público, o pedagogo do pensamento, o sacerdote funcionário do poder estatal.

o
Chamamo-lo de pensador privado não porque ele seria um burguês fechado
em seu quarto com suas elucubrações íntimas. O pensador privado é, acima
aC

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de tudo, um pensador do fora. Pensar o fora implica não se fechar a uma
forma de interioridade. A interioridade é produzida em nós pela imagem do
pensamento, pela forma Estatal que interiorizamos. O fora é a conquista dos
visã
nômades, o deserto ou a estepe. O nômade cria não um aparelho de Estado,
mas sim uma máquina de guerra contra o aparelho de Estado.
Quando falamos de máquina de guerra, no entanto, não sugerimos que
a guerra seja a finalidade. A guerra não é o objetivo; o objetivo seria liberar
itor

o pensamento de todas as potências ou poderes que oprimem o pensamento,


a re

que o impede de se exercer e que querem impor uma maneira única e cor-
reta de pensar (DELEUZE; GUATTARI, 2012a). A máquina de guerra faz o
pensamento nascer. Não pensamos em virtude de uma faculdade do sujeito.
O pensamento não é natural, mas nasce em virtude de um encontro, surge de
par

encontros, é genético. Por isso, o pensar é um afeto, nascido de afecções: nasce


de um encontro e de um choque que nos força a pensar (DELEUZE, 2006).
Ed

As faculdades nascem de encontros, e não dizem respeito a uma unidade, mas


a uma diversidade fundamental. A imaginação, o entendimento, a memória,
a linguagem etc. não são naturais, mas produzidas em função de encontros.
ão

Conectam-se não na interioridade de um “eu penso”, mas na violência que


cada faculdade, ao se elevar ao máximo do que pode, comunica a uma outra
s

faculdade. Conseguir comunicar-se é uma vitória nascida do esforço de se


ver

fazer entender por uma outra diferença por meio da exterioridade das relações.
A semelhança é um produto de uma luta, uma construção, nascida de uma
multiplicidade diferencial fundamental. Não são os semelhantes que diferem,
mas sim as diferenças que se assemelham (DELEUZE, 2003). Uma faculdade
não nasce pronta, ela se produz no esforço da criação.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 25

Todo pensamento, por mais solitário que seja, já é uma multiplicidade,


dado que nasce da pluralidade que constitui o real. O próprio real não possui
uma unidade em si mesmo, mas é uma pluralidade que se ordena nos pró-
prios encontros, a depender das forças que dão direção aos objetos parciais
que preenchem a vida (DELEUZE; GUATTARI, 2010). A interpretação, na
máquina de guerra do pensamento, não se reduz a uma análise dos significantes
que significam a Lei como ordenação transcendente de tudo, mas decorre dos

or
usos e apropriações dos mesmos, das forças que subjugam as ideias e valores

od V
para dar sentido à vida. A interpretação, segundo a esquizoanálise, seria mais

aut
próxima da ideia da interpretação na música: um problema de uso, de varia-
ções de intensidade, de ritmo, de espera e precipitação (GUATTARI; ROL-
NIK, 2010). A Máquina de guerra como processo de pensamento é pluralista

R
a avaliativa. Pluralista porque tem muitas perspectivas, tão diferenciais quanto
as expressões possíveis de vida; avaliativa porque avalia o sentido dos valores

o
(DELEUZE, 2018). Por isso, podemos dizer que um pensamento máquina de
aC
guerra é funcional, funcionalista. Não se preocupa com os significados das
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coisas, já que não há nada atrás das mesmas, como uma verdade única a ser
encontrada. Não se preocupa também com a definição, pois uma definição é
apenas uma força hegemônica que deu nome a uma coisa em uma determinada
visã
época (NIETZSCHE, 1991, 1998). A máquina de guerra esquizoanalítica
se preocupa com o funcionamento. Como funciona isso? Com que peças?
Conectada com o que? Produzindo o que? São estes os problemas de uma
itor

máquina de guerra. Não se perguntar pelo que é, mas pelo como.


a re

Em virtude deste caráter pluralista, a máquina de guerra também não se fia


num modelo de homem ou humanidade. O modelo de homem ou humanidade
provém do aparelho de Estado e do pensamento que lhe é correlato. O Estado
sempre propõe e promove um tipo de raça ideal, um indivíduo a ser buscado,
um povo a ser trabalhado. A máquina de guerra também tem um povo, um
par

coletivo, uma população, mas este povo sempre falta (DELEUZE, 2013). O
Ed

povo que cria a máquina de guerra é sempre um povo oprimido. Assim como o
pensamento só nasce de encontros, da violência do acaso, a máquina de guerra
é a criação de um povo oprimido pelo acaso das lutas históricas. Por isso a
ão

máquina de guerra não é um modelo, mas um novo modo de vida nascida de


um devir, um devir-minoritário. Todo devir é minoritário, pois sai ou foge de
uma forma, um modelo (DELEUZE; GUATTARI, 2012b). O modelo é, como
s

dissemos, uma forma molar que recobre a produção molecular. Logo, não é por
ver

meio de um modelo de homem, ou de uma raça dominante, que pensamos, mas


invocando um povo por vir e nos filiando a um devir minoritário presente em
cada coletivo, mesmo presente em um único indivíduo. Esta raça minoritária,
impura, é bastarda e mestiça em virtude da dominação que sofre por parte de
algum poder, que lhe impõem um modelo (DELEUZE; GUATTARI, 1995).
26

É nesse nível que a máquina de guerra promove a guerra, ainda que não seja
necessariamente violenta, contra o aparelho de Estado.
A essa altura, podemos encontrar os tipos personológicos ou personagens
conceituais que dizem respeito a cada uma das formas de pensar. O personagem
que a forma Estado impõe é, de um lado, o sacerdote ou escriba, aquele que
sabe a lei e nos a impõe, e o seu correlato, o indivíduo escravizado, o cidadão
disciplinado e docilizado, o sujeito uno e sintético, com seu senso comum e

or
bom senso, capaz de referir tudo a si, pois em si habita o Todo, o Imperador, o

od V
significante despótico, a Lei internalizada, a Verdade única. Por outro lado, o

aut
personagem conceitual da forma de pensamento máquina de guerra, que é um
pensamento sem imagem, é o nômade, o pensador privado, o experimentador,
o coletivo, mesmo quando se está absolutamente só, nunca fechado na forma

R
do eu, mas sim um revolucionário que busca criar formas de pensar e viver
que possam simular o desejo e o pensamento nascidos dos percursos que se

o
trilha. Quando Deleuze e Guattari falam do esquizofrênico, é preciso enten-
aC
der tal termo como a descrição de um personagem conceitual (DELEUZE;

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GUATTARI, 2010, 1992). Trata-se do esquizo, ou esquizo-revolucionário, que
promove uma máquina de guerra analítica e política a implodir toda “rede teó-
rico-comercial” – como dizia Foucault (2002, p. 14) a respeito da psicanálise.
visã
Os personagens conceituais remetem a um problema: os tipos de formas
de vida. Nietzsche, em Genealogia da moral, ao falar dos personagens nobres
e escravos, também remetia ao mesmo problema: os modos de vida. Talvez
itor

seja este, por sinal, o problema fundamental inerente a muitas questões de


a re

diversas filosofias, condicionando suas soluções, a tal ponto que Kant chegou
a afirmar que a questão central, que sintetizava todas as outras em sua filosofia,
era: o que é o homem?
A forma de vida presente nos sacerdotes ou escribas remete a uma forma
de vida de tipo paranoico. Paranoia, aqui, não é pensável como uma patolo-
par

gia, como se existisse uma forma normal de ser; a própria noção de normal
Ed

ou normalidade é do tipo estatal, pois é um conceito problemático, uma ideia


metafísica do tipo representativa. A paranoia, para a esquizoanálise, é um modo
de vida em que quer controlar a todo custo o devir, a mudança, a transformação.
ão

Frente ao imprevisto da vida, com seus jogos de força e inversão de valores,


se deseja fixar o real, que é produção incessante de desejo ou formas de vida,
a uma de suas expressões possíveis. Congelar o real é o que deseja o modo de
s

vida paranoico, pois teme-se que o novo possa despedaçá-lo. Por outro lado, o
ver

modo de vida esquizo-revolucionário remete a um desejo pelo novo, a um devir


minoritário, a um desejo pela criação. Criar quer o tipo revolucionário e que o
real se diferencie cada vez mais; liberar a vida deseja o seu devir-minoritário.
Existe, contudo, também um microfascismo presente nesse tipo esquizo-
-revolucionário, quando se vai rápido demais, desmanchando tudo, dissolvendo
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 27

formas de vida estratificadas que são suportes mínimos para o desejo. Quando
se dissolve tudo sem que nada se crie, ou quando a criação é absorvida somente
pelo movimento de destruição, corre-se o risco de cair numa linha de pura abo-
lição e morte (DELEUZE; GUATTARI, 2012c). O nazismo ou o fascismo não é
propriamente um desejo de conservação (este seria a paranoia e o totalitarismo),
mas um desejo de morte que quer abolir tudo, uma linha revolucionária de puro
vazio, um desejo maníaco pela destruição para supostamente criar tudo do nada.

or
Os microfascismos, nesse sentido, só produzem ainda mais endurecimento nos

od V
modos de vida, pois, depois do seu movimento de destruição, acaba por permitir

aut
que os estratos paranoicos se cristalizem ainda mais à nossa volta, fechando o
espaço para outros modos de vida mais potentes que querem se esboçar.

R
Em vista disso, podemos pensar sobre que critério temos para escolher
entre esses dois tipos de modos de vida, com suas respectivas formas de pen-

o
sar. Será que com esse pensamento pluralista não se recairia numa relativismo
de tipo pós-moderno, onde tudo é nada e nada é tudo, um niilismo tosco, uma
aC
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epistemologia frouxa e um pragmatismo cego? Deleuze não é um filósofo


pós-moderno nem a esquizoanálise navega nessa onda vazia de crítica e de
atitude política, de mera fragmentação teórica, ética e política. Existe nele
visã
um critério, que é tanto físico-ontológico quanto estético-lógico, bem como
ético-político. O critério para discernir os tipos de pensamento, permitindo
avaliar os tipos de modos de vida subjacentes, permitindo-nos uma escolha, é
um critério extramoral. A moral consiste nas expressões criadas em períodos e
itor

lugares para promover um tipo de vida dominante. Infelizmente, nem sempre


a re

o tipo de vida que se impõe é necessariamente o melhor, o mais potente, o que


faz a vida crescer por multiplicação e diferenciação. Como já dizia Nietzsche,
muitas vezes temos de proteger os fortes contra os fracos, pois o forte não
é o que tem o poder, mas o que se afirma, o que tem mais potência de agir e
par

pensar. O critério extramoral é justamente esse: que tipo de pensamento for-


talece a vida? O único critério que permite avaliar os modos de vida, sem que
Ed

ele mesmo seja avaliado por nada, é a própria vida (NIETZSCHE, 2005). A
vida que quer sempre mais vida, crescimento, multiplicação e diferenciação.
Um pensamento e modo de vida que nos enfraqueça, que destile a falta, o
ão

ressentimento, a culpa, deve ser descartado. Devemos, pois, privilegiar em


nosso pensamento, como disse Foucault (1991) a respeito da esquizoanálise,
s

os conceitos de alegria, produção, vida, conexão e não os conceitos negativos


ver

que tanto marcam o pensamento Ocidental, fortemente moldado pela forma


Estado, tais como a Lei, a falta, a castração, a morte etc. Encontrar um pen-
samento afirmativo e alegre, malgrado todos os adversários que nos querem
fracos, tristes e abatidos, é fazer do pensamento uma arma política, uma ins-
piração para a prática, e fazer da práxis um intensificador para o pensamento.
28

REFERÊNCIAS
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par
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s ão
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ver
Ed
s ão itor
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a re
visã R
od V
o aut
or
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O RIZOMA COMO PERSPECTIVA
PROBLEMATIZADORA NA
EPISTEMOLOGIA DA ARQUEOLOGIA

or
od V
Flávio Luiz de Castro Freitas

aut
Arkley Marques Bandeira

R
Breve estado da questão na epistemologia dos artefatos

o
A arqueologia se difere de outras áreas das ciências humanas por
aC
seus objetos de estudo, visto que a base da construção do conhecimento é
alicerçada na identificação e estudo dos sítios arqueológicos e dos materiais
neles presentes. Logo, a escavação dos sítios e a descoberta destes vestígios
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possuem importância crucial na práxis e na reflexão metodológica da


visã
disciplina (FUNARI, 2003).
Para a arqueologia, a cultura material evidenciada nos sítios arqueológicos
é categorizada como artefatos. O conceito de artefato, enquanto objeto de
itor

estudo, é parte essencial para a construção e interpretação do passado. James


Deetz (1977) concebe artefato como qualquer segmento do meio físico
a re

modificado por comportamentos culturalmente determinados, a exemplo da


transformação das matérias-primas em objetos por diferentes meios.
Os artefatos, portanto, constituem a base material do passado e
representam as produções humanas ao longo de suas existências. Por este
par

motivo, eles são essenciais para se compreender, inclusive, a história de


pensamento arqueológico, uma vez que a arqueologia vem se posicionando
Ed

teórica e metodologicamente a partir de seus diálogos internos e externos ao


seu campo disciplinar, como o fez e vem fazendo no estudo artefatual e as
interações daí advindas com a história, antropologia, sociologia e filosofia.
ão

Do ponto de vista da arqueologia os artefatos possuem diferentes


significados, que são atribuídos pelos próprios arqueólogos ou pelas pessoas que
s

os produziram. Logo, a agência dos artefatos deve ser buscada nas relações entre
ver

os componentes do sistema cultural ao qual ele está integrado e as diferentes


redes de interação. O artefato compreendido como cultura material foi ao longo
da construção da arqueologia um dos seus principais objetos de estudo, inclusive,
sendo determinante no seu amadurecimento teórico e metodológico.
A cultura material, enquanto objeto de estudo, é parte essencial da
ciência, no entanto, isso não implicou na sua inserção decisiva como fonte
de informação e conhecimento no discurso de diversas áreas do conhecimento,
32

Jean-Marie Pesez (1988) asseverou que uma das certidões de nascimento


do artefato compreendido como o segmento material dos povos advém da União
Soviética, quando Lênin criou em 1919, a Academia de História e Cultura Material.
Este fato denotou as principais características de sua gênese: uma emergência
tardia no campo das humanidades, a evidente associação com o materialismo
histórico e o marxismo e suas relações privilegiadas com a história e a arqueologia.
Nesta última, a cultura material encontrou seu terreno mais fértil, uma vez que

or
a virada epistemológica dada pela arqueologia nos primórdios do século XX,

od V
resultou, dentre outras coisas, da percepção de que os aspectos materiais das

aut
civilizações é um dos caminhos para a diferenciação e a diversidade cultural.
No entanto, apenas no Pós-Segunda Guerra Mundial surgiram os primeiros
marcos para o estudo dos artefatos, muitos deles advindos da historiografia

R
francesa influenciada pela escola dos Annales, criada por Marc Bloch e Lucien
Febvre. Ainda na década de 1960, uma influência marcante surgiu da abordagem

o
semiológica, que considerava o objeto como um signo e a cultura material
aC
como um sistema discursivo. Nas últimas duas décadas, um novo elemento foi

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introduzido, a exemplo das relações da cultura material e o corpo, as sensações,
a motricidade e o gesto técnico, alicerçados nos fundamentos de Marcel Mauss.
Destacam-se neste contexto algumas obras de referência, a exemplo de
visã
o Sistema dos objetos (1973), de Jean Baudrillard; Teoria dos objetos (1981),
de Abraham Moles; Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV
– XVIII (1995), de Fernand Braudel; bem como outros estudos, a exemplo
itor

de História da cultura material (1990), de Jean-Marie Pesez; Elementos para


a re

uma antropologia da tecnologia (1992), de Pierre Lemonnier e A inteligência


das técnicas (1994), de Lemonnier e Bruno Latour.
Estes autores situaram o estudo da cultura material em diversas
perspectivas, a exemplo do processo de apropriação do universo material
pelos grupos humanos; as relações sociais implicadas pela interação entre
par

os homens e o meio; as estruturas e os objetos físicos; as representações


Ed

coletivas que acompanham as práticas materiais e a cultura material como


um documento a ser atividade no estudo de um fenômeno social qualquer
(REDE, 2003), principalmente fortalecendo a perspectiva histórica e
ão

antropológica, descrevendo o papel das coisas materiais na sociedade moderna


e, sobretudo, valorizando a função da cultura material.
A este respeito, nenhuma área do conhecimento avançou tanto no estudo
s

dos artefatos como a arqueologia. O papel da disciplina foi fundamental para


ver

que os artefatos ganhassem o impulso necessário para se tornar uma das


principais fontes de compreensão do comportamento humano, em diferentes
escalas temporais. Esta forte identificação é explicada por Lima (2011), no
sentido de que a arqueologia, na maioria dos casos, não pode contar com
os atores sociais para construção do conhecimento. Neste sentido, ela é a
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 33

principal fonte de acesso ao passado da humanidade, quando não a única,


como ocorre no estudo da pré-história.
Shanks e Tilley (1987) defendem a visão de que os artefatos possuem uma
rede construída de significados. Como registro arqueológico, eles têm fronteiras
e limites, em se tratando de conteúdo e estrutura interna. Portanto, não é redutível
e nem deduzível a um código universal, visto que estão intimamente ligados a
práxis social e por meio desta, que ela surge como uma forma objetivada.

or
Conceitualmente, os artefatos são objetos móveis modificados pelos

od V
povos, como os utensílios líticos, artefatos cerâmicos, instrumentos de

aut
metal, objetos de vidro, além de uma infinidade de outras categorias. Alguns
arqueólogos ampliaram o significado do termo artefato, para incluir todos os
elementos de um assentamento ou da paisagem modificados pelo homem,

R
como furos, buracos de armazenagens, postes (RENFREW, BAHN, 1993).
No entanto, estes componentes são considerados mais como estruturas

o
arqueológicas, visto que, em essência, artefatos não portáteis.
aC
Para Lucia Van Velthem (2012), os artefatos e objetos podem ser únicos,
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podem ser feitos em série, agradar ou desagradar, ser guardados ou descartados.


Produzida, utilizada, trocada, emprestada, vendida, contemplada, desprezada,
transformada, a cultura material também é estudada. Podem estar em plena
visã
atividade ou não mais funcionar, tornando-se, assim, objetos usados, ultrapassados,
sujos, estragados, musealisados que se transformam em fragmentos, em traços.
Apesar disso, ao longo da história da arqueologia a cultura material sempre
itor

foi abordada de forma bastante limitada. Inicialmente, a ênfase era apenas na


a re

construção de seriações para datações relativas e classificação tipológica dos


artefatos. Com o surgimento da Arqueologia Processual, as variações espaço-
temporais dos artefatos foram compreendidas com uma evolução constante para
adaptação ao meio. Neste sentido, foram criados esquemas classificatórios nos
moldes da taxinomia das ciências biológicas, a partir da análise de recorrências
par

e especificidades de uma série de atributos. Atualmente, os artefatos carregam


Ed

consigo uma rede de significados e o próprio processo classificatório é subjetivo


e depende dos critérios do classificador (SHANKS; TILLEY, 1987).
Neste contexto, é papel da arqueologia compreender os processos
ão

de categorização humana para ascender as mudanças ocorridas conjuntos


artefatuais ao longo do tempo. Estes conjuntos, segundo Hodder (1982),
referem-se aos artefatos, sistemas de campo, arquitetura dos templos ou
s

qualquer outro registro arqueológico que podem ser interpretados como sendo
ver

o resultado de processos produtivos humanos.


Logo, se os artefatos compõem um destes processos produtivos,
eles estruturam-se em relação a uma totalidade social específica, sendo
historicamente e espacialmente constituída. No entanto, ascender aos processos
mentais e imateriais presentes na materialidade das coisas concretas ainda é
34

um desafio para a arqueologia, pois ao mesmo tempo que ela é um objeto


material, também é constituída de valores e significações que trazem uma
rede de referências cruzadas (SHANKS; TILLEY, 1987).
Cabe à arqueologia perceber a interrelação dos significados materiais em
meio a intersubjetividade das pessoas e das relações sociais. Lembrando que a
produção dos artefatos, em qualquer contexto não é um ato isolado, mas está
sempre associada a um contexto, ou conjunto ou a uma tradição.

or
Este novo olhar vem superando o tratamento funcionalista e determinista

od V
no estudo artefatual, considerando-os como texto passível de ser lido e

aut
interpretado. Além disso, as construções materiais trazem consigo princípios
organizacionais mentais que estruturam o modo de fazer essencialmente
humano e dão pistas sobre o passado.

R
Para Shanks e Tilley (1987), os artefatos devem ser considerados
como uma produção social, ao invés de uma criação individual. Eles

o
podem ser concebidos como uma forma de comunicação ou mesma uma
aC
forma de “escrita”, visto que estão estruturados por significações. Eles

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são polissêmicos, ou seja, tratam-se de sistemas abertos de significantes e
significados e metacríticos. Logo, os seus significantes e significados não
podem ser esgotados.
visã
Outro campo que vem avançando na arqueologia refere-se aos estudos da
técnica a de da tecnologia envolvidos na produção artefatual, especialmente
àqueles influenciados pela tradição etnológica e sociológica francesa,
itor

desenvolvida nos seus primórdios por pensadores que extrapolaram a barreira


a re

de suas áreas de atuação e influenciaram as ciências humanas e sociais, inclusive


a Arqueologia, como Emilé Durkheim, Marcel Mauss e Lévis-Strauss.
Sob esta perspectiva, entende-se que os artefatos estão impregnados de
significação, pois eles aparecem como o equivalente das escolhas que cada
sociedade parece fazer entre as opções possíveis. Dessa forma, as técnicas
par

mais simples de qualquer sociedade se revestem de um caráter de sistema,


Ed

um todo estruturado, analisável em termo de um sistema mais geral (LÉVIS-


STRAUSS, 1993, 2003). Sendo assim, todos os testemunhos arqueológicos
devem ser criteriosamente observados e descritos, devendo ser estudados em
ão

si mesmos e também em relação ao seu conjunto (LÉVIS-STRAUSS, 2003),


fornecendo dados empíricos para as inferências, com base em dados reais.
Tal abordagem auxilia no reconhecimento acerca dos aspectos
s

relacionados à técnica e à tecnologia, às inter-relações com a realidade social


ver

dos povos do passado, na compreensão da dimensão sistêmica e os diferentes


significados e na construção da noção de sistema tecnológico (SILVA, 2000).
Diante destas questões, a arqueologia vem apontando para uma séria de
reflexões sobre a epistemologia dos artefatos e a sua importância na construção
do conhecimento.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 35

O rizoma enquanto conceito e método

Naquilo que tange precisamente ao conceito de “rizoma”, ele está


localizado no projeto denominado de “capitalismo e esquizofrenia”, cujo
primeiro volume é o Anti-Édipo de 1972 e o segundo volume é Mil platôs de 1980.
A primeira parte do projeto capitalismo e esquizofrenia diz respeito à teoria do
desejo presente em O Anti-Édipo. A teoria do desejo busca investigar as possíveis

or
relações que existem entre o desejo e o social, bem como de que maneira o

od V
desejo é capaz de desejar sua própria repressão. A tese para desenvolver essa

aut
investigação propõe que o inconsciente é uma usina produtora de conexões.
A segunda parte desse projeto trata da teoria das multiplicidades, a qual está
publicada no texto de Mil platôs de 1980.

R
Naquilo que tange à aparição explicita e não apenas latente do conceito de
rizoma, ela aconteça mais precisamente num livro de 1975, cujo título é Kafka: por

o
uma literatura menor. Nesse trabalho de 1975, Deleuze e Guattari postulam que o
aC
desejo é processo e procedimento à medida em que constituí máquinas políticas
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e experimentais. Para tanto, o ponto de partida consiste em conceber a obra de


Kafka como um rizoma, cujo traço marcante é o princípio das entradas múltiplas,
o qual preconiza que incialmente é possível entrar por qualquer parte da obra,
visã
visto que nenhuma entrada exerce privilégio sobre a outra. O passo seguinte
busca estabelecer as conexões entre a entrada escolhida e os outros pontos
existentes, sem deixar de destacar os caminhos tomados para atingir às conexões,
itor

descrevendo o mapa do rizoma durante o efetivo exercício dessa busca.


a re

Semelhante concepção do rizoma, por meio do princípio das entradas


múltiplas, permite que em 1977 Deleuze e Guattari elaborem o texto intitulado
de Rizoma, o qual, em seguida será incorporado aos Mil platôs. Nesse texto, o
rizoma é imagem do pensamento e plano de consistência. Enquanto imagem do
pensamento o rizoma é o conjunto de coordenadas que orientam o pensamento
par

no sentido do exercício efetivo das multiplicidades. Já enquanto plano de


Ed

consistência, o rizoma atua como conjunto de movimentos capazes de construir


heterogeneidades por meio de princípios específicos.
Com isso, no contexto do trabalho de 1977, o rizoma surge condição para a
ão

construção e para o efetivo exercício da teoria das multiplicidades, ou seja, não


há transcendências (Deus, Estado, partido político, família, um “eu”) a serem
trazidas para o pensamento, ele funciona a partir de sua própria necessidade
s

de aumento de potência e de alegria, todas decorrentes do ato da criação.


ver

Nesse trabalho, o rizoma surge como terceira imagem-livro, em oposição


à imagem raiz e à imagem sistema radícula. Sendo assim, para Deleuze e
Guattari, o rizoma funciona de acordo com os seguintes princípios: 1 –
conexão; 2 – heterogeneidade; 3 – multiplicidade; 4 – princípio de ruptura
a-significante; 5 – cartografia; 6 – decalcomania.
36

Em relação aos princípios 1 e 2 (conexão e heterogeneidade), eles


preconizam que cada ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro e
deve sê-lo. O rizoma é composto pela conexão entre cadeias semióticas e modos
de codificação muito diversos, são cadeias biológicas, políticas e econômicas,
que colocam em jogo regimes de signos e estatutos de estados de coisas.
Um rizoma conecta cadeias semióticas, organizações de poder e ocorrências
que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais. Uma cadeia semiótica é como

or
um tubérculo que aglomera atos muito diversos, linguísticos, mas também

od V
perceptivos, mímicos, gestuais, cogitativos: não existe língua em si, nem

aut
universalidade da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias,
de línguas especiais. Um método de tipo rizoma é obrigado a analisar a linguagem
efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros.

R
O princípio da multiplicidade postula que o rizoma não possui nem
sujeito, nem objeto, mas apenas dimensões que à medida em que crescem

o
por conexão mudam de natureza, pois cada dimensão (cadeia semiótica e atos
aC
que compõe a cadeia semiótica) é diferente da outra em respeito ao princípio

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da conexão e da heterogeneidade.
Um agenciamento é precisamente este crescimento das dimensões numa
multiplicidade que muda necessariamente de natureza à medida que ela
visã
aumenta suas conexões. As multiplicidades se definem pelo fora: pela linha
abstrata, linha de fuga ou de desterritorialização segundo a qual elas mudam
de natureza ao se conectarem às outras.
itor

O plano de consistência é o fora de todas as multiplicidades. A linha de


a re

fuga marca, ao mesmo tempo: a realidade de um número de dimensões finitas


que a multiplicidade preenche efetivamente; a impossibilidade de toda dimensão
suplementar, sem que a multiplicidade se transforme segundo esta linha; a
possibilidade e a necessidade de achatar todas estas multiplicidades sobre um mesmo
plano de consistência ou de exterioridade, sejam quais forem suas dimensões.
par

Em se tratando do quarto princípio, ou da ruptura a-significante, estabelece


Ed

que há ruptura no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa
linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Estas linhas não
param de se remeter umas às outras. A linha de fuga compõe o rizoma, mas é
ão

resultado conexão que conduz à uma mudança de natureza do próprio rizoma.


Por sua vez, os princípios da cartografia e do decalque se propõe a fazer
o mapa e não o decalque, pois o mapa é uma experimentação inteiramente
s

ancorada no real. O mapa não produz nada, mas constrói tudo, inclusive
ver

o inconsciente. O mapa possui múltiplas entradas e o decalque é sempre


projetado sobre o mapa, o qual é construído por meio das conexões
(composições) estabelecidas pelas cadeias semióticas.
O mapa é aberto (princípio das múltiplas entradas), é conectável em
todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 37

modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a


montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo,
uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como obra
de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma meditação. Um mapa
sempre tem algo a ver com “performance” (agenciamentos maquínicos de
desejo e agenciamentos coletivos de enunciação) e não com a competência.
As pulsões e objetos parciais não são nem estágios sobre o eixo genético, nem

or
posições numa estrutura profunda, são opções políticas para problemas, entradas e

od V
saídas, impasses que a criança vive politicamente, quer dizer, com toda

aut
força de seu desejo, o qual se move por rizoma. O rizoma funciona por meio
de impulsões exteriores e produtivas. Na verdade, o rizoma se move por
impasses, pois dele decorrem linhas de fuga e novas conexões heterogêneas,

R
que terminam por modificar o próprio rizoma. Então, o pré-requisito para
que haja uma movimentação e transformação no rizoma, mediante uma nova

o
conexão, é o impasse.
aC
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Por uma rizomática dos artefatos

Uma problematização rizomática dos artefatos necessita voltar sua


visã
atenção para a imagem do pensamento que direciona a discussão acerca dos
mesmos e para as cadeias semióticas que estão detidas em representações que
abordem a discussão acerca dos artefatos desconsiderando as multiplicidades
itor

constitutivas dos mesmos.


a re

Nesse sentido, Lemonnier (1986) o complexo de técnicas usado em uma


sociedade também pode ser considerado um sistema, que ocupa muitos níveis
e toma muitas formas, conscientes e inconscientes. Os instrumentos incluem
conceitos, representações, símbolos e outros instrumentos intelectuais, como
par

também as organizações envolvidas. Mudanças nas técnicas muitas vezes


proporcionam ideias para as mudanças sociais em duas vias em constante simbiose
Ed

No processo tecnológico dos artefatos é ativada uma sequência de


comportamentos que resulta em escolhas técnicas. Em períodos de estabilidade
tecnológica os povos são inconscientes destas escolhas e, simplesmente,
ão

seguem as receitas. Ao passo que em períodos de experimentação as pessoas


tornam-se sensíveis para as ações que poderão ser tomadas e as consequências
destas no processo produtivo (SCHIFFER, SKIBO, 1987).
s

A investigação dos elementos de um sistema tecnológico para produção


ver

artefatual deve superar a dicotomia estilo-função, atestada pelos aspectos


utilitários (tecno-função), sociais (sócio função) e ideológicos (ideo-função)
para se buscar uma integração desses três aspectos, pois como afirmou
Lemonnier (1986) não é a natureza e sim a cultura que se constitui como a
principal refreadora da técnica.
38

Nesta perspectiva, a cadeia semiótica constituída por conceitos, repre-


sentações, símbolos e outros instrumentos intelectuais, nada mais é do que
um processo de heterogênese rizomática que funciona como a constituição
de um mapa e não propriamente uma cultura. Um mapa que é capaz de apre-
sentar e construir as desobstruções de ordem micropolítica que um grupo de
artesões esteja enfrentando.
Desse modo, o papel do artesão é crucial em conduzir todo o processo

or
produtivo rizomático, reunindo conhecimento tradicional, influências exte-

od V
riores, poder de decisão, experimentação, repetição, bem como as motivações

aut
relacionadas com as questões de para que fazer e como fazer, pois como ressal-
tou Van Der Leeuw (1993), as escolhas, mais que os materiais e instrumentos
são cruciais na determinação da natureza e forma dos produtos.

R
Técnicas não podem ser usadas isoladamente, pois devem ser encara-
das como uma arena de mediação entre o que é materialmente possível ou

o
impossível, em certos aspectos de organização social. Técnicas não podem
aC
ser estudadas em termos estáticos, mas como um lócus de transformação em

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


uma relação dinâmica entre as forças sociais de produção e suas representa-
ções coletivas e por outro lado, pelas leis da matéria e energia que formam
o pano de fundo para o comportamento social (VAN DER LEEUW, 1993).
visã
Isso nos conduz precisamente ao revezamento e transformação entre as
formas socias pelos artesãos. Tamanha micropolítica se move na direção da
solução de impasses e eventualmente na produção de um delírio-saúde de
itor

grupo expresso e exteriorizado não apenas nos objetos, mas na gestualidade


a re

técnica, acompanhada pelas intensidades próximas de uma arte bruta criadora.


Para Lemonnier (1992), a tecnologia para produção artefatual é uma
expressão material das atividades culturais de uma sociedade, o meio que
permite que os grupos sociais ajam sobre a matéria, com vistas a suprir
suas necessidades, portanto, um sistema tecnológico deve ser discutido em
par

três níveis distintos:


Ed

• Das técnicas em si, que são entendidas como uma ação humana
efetiva levada adiante a partir da inter-relação de elementos como
ão

matéria, gestos, energia, objetos e conhecimentos, ou seja, uma


cadeia semiótica rizomática;
• Das diversas técnicas ou conjuntos técnicos desenvolvidos por
s

uma sociedade, que podem se influenciar mutuamente e que cons-


ver

tituem o sistema tecnológico propriamente dito. O conjunto téc-


nico compreende a inter-relação de técnicas que compartilham os
mesmos comportamentos e modos de ação sobre a matéria e que
estão subordinadas aos mesmos princípios mecânicos, físicos ou
químicos gerais;
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 39

• Do sistema tecnológico em sua inter-relação com outros fenôme-


nos culturais.

Lemonnier (1986) também propõe olhar as técnicas em seus próprios


termos, a partir de uma abordagem efetivamente complementar e indica que
o conceito fundamental para essa abordagem é o de cadeia operatória. Nesta
perspectiva, a cadeia operatória é uma série de operações que transforma uma

or
substância, a exemplo da matéria-prima, em um produto manufaturado, que

od V
envolvem o próprio corpo.

aut
É importante destacar que em todas as sequências culturais escolhas
foram feitas em consonância com o contexto natural, social e simbólico de
grupos humanos. Para Schiffer e Skibo (1987) as escolhas técnicas determinam

R
as propriedades formais ou os atributos dos artefatos.
Por sua vez, as propriedades formais afetam as características das per-

o
formances e das próprias cadeias semióticas, ou seja, a capacidade compor-
aC
tamental que um artefato deve possuir com vistas a partilhar suas funções em
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uma atividade específica. Na ausência de rupturas no modo de conceber um


artefato, outras escolhas técnicas podem compensar para a característica do
desempenho, compondo, assim, uma verdadeira máquina desejante.
visã
Logo, as escolhas técnicas constituem-se das muitas opções, físicas e/ou
sociais, na qual a criatividade micropolítica dos artesãos deve operar. Essas
escolhas são feitas pelos grupos sociais de acordo com as estratégias sociais
itor

conscientes e inconscientes pelo revezamento a-significante presentes no corpo


a re

social. Em outros termos, se constrói para escapar de um impasse prático e


nunca para significar.
Neste contexto, a caracterização de um sistema tecnológico deve começar
pela descrição e análise das cadeias operatórias a partir das quais os objetos
são produzidos. As cadeias operatórias são compostas por um determinado
par

número de etapas sequencialmente ordenadas e constituídas por diferentes


Ed

elementos e ações que implicam em um determinado resultado (SILVA, 2000).


Em outras palavras, essas etapas também podem ser alcançadas pelo estudo da
sequência dos gestos técnicos e pelas escolhas técnicas feitas pelos artesãos,
ão

compondo mapas rizomáticos de suas existências.


Uma escolha técnica pode afetar as características de desempenho em
muitas atividades ao longo da cadeia operatória do artefato, vindo a apresen-
s

tar m exercício rizomático, efeito das escolhas técnicas nas características de


ver

desempenho, mediado pelas propriedades formais impõe restrições tecno-


lógicas. Os efeitos específicos das escolhas técnicas em relação às proprie-
dades formais e das propriedades formais em relação às características de
desempenho na cadeia operatória de um artefato são descritos pelo princípio
denominado de correlatos (SCHIFFER, SKIBO, 1997).
40

Considerações finais

É oportuno retomarmos nosso objetivo geral: apresentar a noção de


rizoma, tal qual foi concebida por Gilles Deleuze e Félix Guattari, enquanto
uma ferramenta problematizadora da epistemologia dos artefatos. Nosso
percurso tratou desde o estado da questão na epistemologia dos artefatos, até
explicitarmos um vetor para a problematização da epistemologia dos artefatos

or
por meio do conceito de rizoma.

od V
Semelhante vetor foi a posição de Lemonnier, a qual postulava a

aut
discussão do sistema tecnológico artefatual em três dimensões distintas e
complementares: técnicas, inter-relação entre as técnicas e a relação entre
as técnicas com outros fenômenos da ordem do artifício. Esse entendimento

R
permite a passagem do decalque para o mapa ao relacionar cadeias semióticas
heterogêneas com o fito de mostrar a dinâmica da produção de artefatos.

o
Essa dinâmica pode ser considerada o exercício da conexão entre cadeias
aC

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semióticas e modos de codificação muito diversos, são cadeias biológicas,
políticas e econômicas, que colocam em jogo regimes de signos e estatutos de
estados de coisas. Portanto, a concepção de rizoma pode de alguma maneira
contribuir para problematizar o conceito e a dinâmica da produção de artefatos
visã
na epistemologia da arqueologia.
itor
a re
par
Ed
s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 41

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POR PROCESSO DE
DESMEDICALIZAÇÃO
ESCOLAR: reflexões para novas

or
possibilidades na sala de aula

od V
aut
Fabiola Colombani
Alonso Bezerra de Carvalho

R
Brunno C. Bonini Luengo

o
Introdução
aC
A sociedade contemporânea está envolta por problemas e desafios cole-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

tivos, sociais, políticos, econômicos, educacionais que atingem e instigam as


instituições, entre elas a escola, a darem uma reposta, sobretudo diante das
visã
desigualdades e indiferenças que habitam o nosso cotidiano. No caso específico
do sistema capitalista, ao qual estamos submetidos, a necessidade de consumo
e produção, a normatização dos desejos e das atitudes desqualificam aquele
itor

que se comporta de maneira diferente diante do que está posto, instituído e


a re

pretendido. Nessa lógica invertida, o diferente, que inclui também aquele que
sofre os efeitos da desigualdade social, passa a ser individualizado, ou se pre-
ferirmos, desindividualizado e invisibilizado, tendo como consequência a sua
exclusão dos bens e direitos que deveriam ser comuns e usufruídos por todos.
par

Nesse aspecto, geralmente o que é considerado anormal e diferente é muitas


vezes explicado e reduzido a uma perspectiva que se centra no corpo biológico,
Ed

isto é, fundada em um saber que endossa ideias e práticas que legitimam os dita-
mes da ciência moderna. É como se houvesse genes que comandassem compor-
tamentos tão complexos e considerados desviantes como aqueles que conduzem
ão

à agressividade, à violência, à delinquência, ao desinteresse na aprendizagem,


etc. A consequência disso é um processo de naturalização dos diagnósticos e
das medidas que são tomadas para normatizar e controlar aquilo que está “fora”
s

da normalidade. Em outras palavras, aquelas pessoas que se diferenciam por


ver

seu posicionamento questionador ou por não seguirem as normas impostas


socialmente são segregadas ou olhadas com as lentes do preconceito devido ao
incômodo que causam. É, sobretudo, no início do século XX, com o processo
de higienização e eugenia social, que novas estratégias foram construídas e
cada vez mais se adotaram medidas simbólicas e concretas que pudessem con-
trolar aqueles que causavam algum tipo de desconforto e desordem, ou seja,
a atenção foi voltada aos que não se adaptavam às regras pré-estabelecidas e
44

impostas por diversas esferas sociais, entre elas: a educação e a saúde. Um dos
resultados dessas escolhas e práticas é a lógica medicalizante, que se estendeu
e se implantou na sociedade, com consequências profundas até os dias atuais,
merecendo, portanto, reflexões não apenas para compreender o fenômeno, mas,
sobretudo, para apontar alternativas que a enfrente e a supere. Deste modo, o
presente capítulo se organiza, em um primeiro momento, por expor a medicali-
zação, sobretudo, na escola; em seguida, apresentamos as críticas que a ele são

or
feitas por teóricos consagrados, tais como Foucault e Ivan Illich, entre outros;

od V
por fim, discorrermos acerca de possíveis saídas, no sentido de pensar o que

aut
seria uma educação em uma sociedade desmedicalizada.

A medicalização escolar: o que é?


R
É na escola onde, atualmente, o processo de medicalização se mostra

o
bastante forte, embora no setor da saúde ele se apresenta de maneira evi-
aC

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dente, especialmente pelos interesses econômicos e comerciais defendidos
pela indústria farmacêutica. Assim, educação e saúde parecem estar sempre
em proximidade quando trata-se dos “problemas” escolares ou dos escolares,
visã
sobretudo de comportamento e aprendizagem, a ponto de transformarem tais
questões em pautas de saúde pública, biologizando uma realidade que deveria
ser pedagógica. Na escola, esse processo de biologização e medicalização do
diferente foca as causas do fracasso escolar na criança, o que desvia, segundo
itor

Collares e Moysés (1985, p. 197), “[...] uma discussão político-pedagógica para


a re

causas e soluções pretensamente médicas, portanto inacessíveis à educação”.


Neste contexto, anfetaminas, como o Metilfenidato, que se apresentam
com os nomes comerciais de Ritalina® e Concerta®, têm sido prescritas como
medicamentos “auxiliadores” para potencializar a atenção e o desempenho
par

escolar. Como dizem Eidt e Tuleski (2007, p. 230),


Ed

as medicações muitas vezes são utilizadas como mais um instrumento


de modelação subjetiva, de formatação de padrões de normalidade; são
as tentativas de utilização das medicações para constituir um sujeito sem
ão

conflitos, sem angústias, sem limitações.

Ao haver esse deslocamento o caminho é sempre o mesmo, o aluno é


s

patologizado e sua manifestação vira alvo a ser “cuidado”, o que acarreta na


ver

medicalização; pois centra-se o problema no aluno que enquanto corpo bioló-


gico representa de forma reducionista, um organismo individual e orgânico. Isso
traz como uma das consequências, um crescente número de encaminhamentos
de crianças e adolescentes aos profissionais da saúde, preponderantemente
médicos, todos em busca de soluções rápidas e instantâneas fora da escola,
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 45

com a ajuda desses profissionais que não participam do ambiente escolar e que
nada conhecem sobre a realidade educacional em questão. Enfim,

a escola industrial é naturalizada e as crianças que não se adaptam a ela


são tratadas como doentes. Este processo de escolarização é inerente a um
processo de colonização, e agora, no limite, proponente a este processo de
medicalização da infância e da vida. Antes as crianças que reagiam apa-

or
nhavam, eram punidas com a palmatória, com puxão de orelha, tapinha,
ou até ajoelhando no milho. Agora, os “desobedientes”, “desatentos” ou

od V
“desconcentrados”, aqueles que insistem em resistir e rejeitar esta escola

aut
como a forma natural de aprender e viver o mundo, são envenenados com
o cloridrato de metilfenidato, substância presente em medicamentos como

R
Concerta e Ritalina (PLAPLER, 2020).

Travestido de prevenção e de um suposto cuidado adulto, esse modelo

o
médico aplicado à educação praticamente determina e prediz o destino, o existir
aC
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e a identidade subjetiva da criança, especialmente a partir de diagnósticos precoces


e de uma vigilância policialesca. Estigmatizando-a e tornando fixo o que é provi-
sório, desconsidera completamente que ela se transforma, evolui, modifica-se, ou
visã
seja, uma dificuldade passageira passa a ser a sua identificação para todo o sempre.
Esses profissionais outros, que não da educação, dão credibilidade cien-
tífica às queixas escolares dos professores, transformando-as em diagnóstico,
mesmo que no conteúdo desses relatos contenham causas sociais, culturais,
itor

ou dificuldades imediatas, superficiais, individualizadas e que ao decorrer do


a re

desenvolvimento poderiam se tornar superáveis com compreensão e apoio.


Quando essas queixas escolares chegam ao consultório médico de forma iso-
lada, elas têm grande chance de se tornarem uma justificativa para o uso de
psicotrópicos. Um médico com limites na formação tem um olhar limitante
par

que usa somente da tendência organicista de sua profissão e desconsidera o


entorno da criança ou do jovem que munido de uma queixa escolar aguarda um
Ed

veredito, pode em apenas uma avaliação interromper processos emocionais,


de desenvolvimento e expressões de criatividade. “Seria bom estudar o papel
dos médicos na medicalização, quer dizer, na naturalização das diferenças
ão

sociais, dos estigmas sociais [...]” (NUNES, 2019, p. 94). Como também,
do papel dos estudantes de medicina que precisam precocemente entrar em
contato com diversas situações a respeito da queixa escolar, para que em sua
s

formação eles compreendam que diagnósticos que trazem como “pano de


ver

fundo” questões sociais, necessitam impreterivelmente um olhar cuidadoso


que precisa estar apoiado no conhecimento interdisciplinar.
Essa é a única maneira de evitar o risco de que as queixas relatadas não se
tornem instrumentos de avaliação, de julgamento e, como dissemos, de sentença,
o que tragicamente contribui para um ambiente escolar hostilizador e violento
46

que rotula o aluno, quando na verdade poderia ser um ambiente para o cultivo de
parcerias altruístas, amigáveis, dialogais, pautadas pela cooperação e o respeito.

Num contexto escolar de consistente assimetria comunicacional, é alar-


mante o número de crianças diagnosticadas e submetidas ao tratamento
medicamentoso que se tornou uma norma reclamada pela escola, ela pró-
pria confrontada com alunos com quem não sabe o que fazer. Ignorando

or
que as crianças e os adolescentes diferem quanto à sua capacidade de
atenção, são mais ou menos agitados, e acolherem e integrarem esses dados

od V
na sua prática pedagógica, enriquecendo a resposta educativa, eles vão

aut
servir para legitimar a ausência dessa resposta, remetendo a escola para
fora de si essa sua responsabilidade primordial (NUNES, 219, p. 271).

R
Essa visão médica, biologizante e geneticista da e na educação deixa
nebuloso o verdadeiro motivo que leva o aluno a um baixo aproveitamento

o
escolar. O fracasso escolar deveria ser visto, segundo Collares e Moysés
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


(1985, p. 8) como “[...] resultado de complexo jogo de fatores educacionais,
sociais, culturais e econômicos, que refletem a política governamental para o
setor social”. Ao desconsiderar estes fatores, a criança passa pelo crivo pre-
visã
conceituoso da normalidade no qual, vítima de um aparelho social distorcido,
é apontada como deficiente intelectual ou portadora de algum transtorno. Isso
ocorre sob as lentes de uma pedagogia submissa à ciência médica e de uma
medicina guiada pela psiquiatria biológica, que macula a criança e retira a
itor

responsabilidade do sistema educacional.


a re

O fracasso escolar é alterado para o fracasso do escolar, isto é, do aluno, pois


se antes o aluno fracassado era aquele que demonstrava “desinteresse”, “indisci-
plina” e “falta de educação”, na atualidade medicalizante ele passa a ser aquele
que apresenta algum tipo de disfunção cerebral de origem genética, capaz de
par

causar deficiências e desordens no seu comportamento. A ciência médica invade


o âmbito escolar, transformando a escola em um dispositivo institucionalizado,
Ed

produzindo e sendo produto de relações de saber-poder, conforme afirma Fou-


cault, a serviço de interesses econômicos e comerciais. Educação e saúde, que
outrora se restringiam ao campo dos direitos do cidadão, agora se articulam e se
ão

reduzem a um recurso a ser explorado econômica e mercantilmente.


Como consequência, o cotidiano escolar passa a ser permeado por pre-
conceitos, julgamentos prévios sobre os alunos e suas famílias e por opiniões
s

discriminatórias a respeito da história de vida daqueles que demonstram esse


ver

suposto caráter desviante. As justificativas acabam permanecendo na superfi-


cialidade e o não aprender fica restrito às condições econômicas, raça, credo,
região onde mora ou no modo com que as famílias se organizam, como se o
sistema educacional fosse perfeito e os alunos se encontrassem completamente
inadequados para essa escola que foi pensada para todos.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 47

Esse conjunto de condutas e práticas aos poucos vai se naturalizando e se


revestindo de normalidade, muitas vezes tornando-se difíceis de serem mudadas.
De vítima, os alunos considerados anormais e diferentes, passam a ser réus e
culpados. Ou, em outras palavras, passam a ser considerados doentes, na lin-
guagem médico-educacional. Patto (2000), por exemplo, analisa como a visão
psicométrica sustentou e fundamentou esse processo, em que a inteligência, a
personalidade e a capacidade de atenção dos alunos é mensurada e reduzida

or
a critérios estritamente quantitativos, de maneira a favorecer a elaboração e o

od V
fortalecimento de práticas disciplinares e medicalizantes. A partir de padrões de

aut
comportamento dados a priori e da exigência de que os sujeitos neles se enqua-
drem, essas práticas tornam eficazes os modos de categorizar os indivíduos,
classificando-os, localizando-os e registrando-os nos parâmetros da norma,

R
como já compreendera Foucault, em seu livro Microfísica do Poder (1979).
Enfim, lugar de encontro com o Outro, o que vemos na escola é um pro-

o
cesso de banalização e secundarizarão dos problemas de ensino-aprendizagem,
aC
restringindo as “doenças comportamentais”, os seus diagnósticos e tratamen-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

tos à subjetividade de cada um. O que significa dizer que “a patologização e


a medicalização da educação e da sociedade em geral vem a contraciclo da
procura de sentido da vida, obstaculizando o direito a decidir o que dela e
visã
com ela fazer” (NUNES, 2019, p. 269). Como prognóstico e como forma de
enfrentar as diversidades e as dificuldades que surgem no cotidiano escolar
são receitadas drogas e remédios (ou veneno?), isto é, fármacos a serem
itor

consumidos e ingeridos pelo suposto paciente – crianças e jovens. Essa seria


a re

a ilusão plantada pelas indústrias farmacológicas e adotadas por pais e edu-


cadores. Fazem acreditar que não precisamos sofrer, pois as pílulas estão ao
nosso alcance e existem justamente para solucionar os problemas que surgem
diariamente em nossas vidas, inclusive no ambiente escolar.
Reduzindo o destino do sujeito a um determinismo genético, essa epi-
par

demia de diagnósticos em que, quem não se enquadra em rígidos padrões e


normas homogeneizadoras e de controle, passa a ter a condição de doente,
Ed

perdendo nesse processo a visão de devir da qual é constituído.

A patologização dos corpos e o processo disciplinador


ão

Os médicos se dirigem aos diretores dos estabelecimentos e aos professo-


s

res, também dão conselhos às famílias; os pedagogos fazem projetos e os


submetem às autoridades; os professores se voltam para os alunos [...] Toda
ver

uma literatura de preceitos, pareceres, observações, advertências médicas


[...] prolifera em torno do colegial [...] (FOUCAULT, 1988, p. 34-35).

É em Foucault que podemos compreender melhor essas questões, tendo


em vista que ele faz um percurso histórico-filosófico bastante aprofundado
48

e consistente acerca do tema. Em vários de seus textos, a sua preocupação é


discutir como ao longo da história da humanidade o corpo foi transformado
em mero objeto, tendo sido desprezado e desvalorizado, em que as pessoas
sofreram castrações, imposições, limitações, proibições, enfim, vários tipos de
coação. Em decorrência disso, métodos, técnicas e estratégias foram concebidos
com o objetivo de assujeitá-lo, mas com discursos e práticas que nos faziam
acreditar que essa sujeição constante seria uma demonstração de cuidado. Em

or
Vigiar e Punir, obra clássica de Foucault (2008, p. 118-119), o autor esclarece:

od V
aut
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo,
que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação
de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas” [...] O

R
momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do
corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades,

o
nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação
que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são
um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos,
de seus gestos, de seus comportamentos.
visã
Assim, a disciplina se torna uma tecnologia para atuar no domínio e na
docilização do corpo, que precisa ser adestrado e normatizado com o intuito de
modificar tanto a alma como o corpo físico e é nesse momento que as condutas
itor

policialescas desempenham bem o seu papel, pois escamoteiam a expressão


a re

da individualidade e homogenizam a forma de ser e agir. Especificamente no


caso da escola, isso é visível nas carteiras e cadeiras enfileiradas e individua-
lizadas, que impedem o contato visual com os colegas da sala e até mesmo
o “mapa de lugares” que muitas escolas ainda adotam para afastar os alunos
par

que mais se comunicam. Todos voltados para a figura do professor, o “único


detentor do saber”, que para combater a ociosidade, preenche todo o tempo
Ed

com atividades, passando de uma operação a outra a partir de uma utilização


exaustiva do corpo. O aluno “problema” passa a ser escolhido como auxiliar
de sala para maximizar a ação do tempo, desviando-o de sua tendência de cará-
ão

ter. Tudo em prol à retidão e a uma normalização das “condutas desviantes”.


O sonho de uma sociedade perfeita faz com que haja uma classificação do
normal e do patológico. Com a imposição da indisciplina, os que escapam da curva
s

da normalidade logo são enquadrados como sendo inadequados à regra, desvian-


ver

tes e “doentes”. A penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e controla


todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza,
homogeneíza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza (FOUCAULT, 2008, p. 153).
Em sua obra clássica O normal e o patológico, Canguilhem (2015, p.
189) descreve esse processo:
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 49

Uma norma, uma regra, é aquilo que serve para retificar, pôr de pé, endireitar.
“Normar”, normalizar, é impor uma exigência a uma existência, a um dado,
cuja variedade e disparidade se apresentam, em relação à exigência, como um
indeterminado hostil, mais ainda que estranho [...] Com efeito, uma norma só é
uma possibilidade de uma referência quando foi instituída ou escolhida como
expressão de uma preferência e como instrumento de uma vontade de substi-
tuir um estado de coisas insatisfatórias por um estado de coisas satisfatórias.

or
Ou seja, a aplicação da norma e do que se entende por normal não é

od V
natural, mas sim construído historicamente, revisado e aplicado até ser insti-

aut
tuído como regra, em que o patológico e o anormal passa a ser controlado e
vigiado por tecnologias de maneira a tornar o homem mais produtivo e fun-

R
cional. Uma dessas tecnologias ou meios é o olhar observador, o “olho que
tudo vê”. Descrito pela primeira vez por Jeremy Bentham (2008) no final do

o
século XVIII, esse sistema, chamado por ele de panóptico, seria uma forma de
aC
visibilidade isolada, reconhecida por Foucault como uma tecnologia do poder
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

para aumentar a eficiência do controle. Constituído por vários compartimen-


tos e em forma circular, essa construção é dotada de uma torre de vigilância
no centro e foi utilizada em prisões, hospitais, fábricas e... em escolas. Da
visã
torre todos poderiam ser observados ao mesmo tempo. Esse sistema, também
chamado de Casa de Inspeção por Bentham (2008, p. 76-79, grifo do autor),
itor

realmente garante toda a eficácia que possa ser dada à influência da puni-
ção ou do controle [...] Quem quer que seja que estabeleça uma escola de
a re

acordo com o máximo do princípio da inspeção tem que estar bem seguro
a respeito do mestre; pois, da mesma forma que o corpo do menino é o
fruto do corpo de seu pai, sua mente é o fruto da mente de seu mestre;
com nenhuma outra diferença que não aquela que existe entre o poder de
par

um lado e a sujeição do outro.


Ed

Como se vê, o panóptico funciona como uma espécie de laboratório de


poder, de controle e de disciplinamento, inclusive e sobretudo do próprio
corpo. Essa vigilância se apoia em um sistema de registro permanente que
ão

diz sobre o outro o que ele nem mesmo sabe: um exemplo disso atualmente
são as cadernetas dos professores e os boletins dos alunos abertos no dia de
conselho escolar e os laudos, que com sua Classificação Internacional de
s

Doenças (CID) e manifestações descritas nos diagnósticos médicos rotulam


ver

e estigmatizam os comportamentos, sem que o assujeitado nem mesmo saiba


o que na realidade a “equipe panóptica” pensa sobre ele. Ao burocratizar as
informações do outro, esse outro deixa de ser um indivíduo de corpo e alma,
de vivências, de experiências e passa a ser apenas um “caso” que comparado
a outros “casos”, perde sua individualidade e historicidade.
50

Todas essas técnicas disciplinares são utilizadas até hoje como recursos
para um “bom adestramento”, e com a adoção de novas tecnologias tem um
objetivo - o corpo dócil como única mira do poder. Todas aquelas investidu-
ras violentas foram gradativamente dando lugar a outras formas de punição,
menos ruidosas, menos visíveis e nas quais o sofrimento físico e a dor tendiam
a ser atenuados. Acerca dessa questão Gadelha (2009, p. 79) contribui dizendo:

or
É nessa perspectiva que devemos entender a psicologização e a psiquia-
trização da infância: de um lado, produção dos “sujeitos-alunos-normais”,

od V
de outra, produção dos “sujeitos-alunos-problema”, dos “deficientes”,

aut
dos “anormais”, dos “incorrigíveis”, dos “carentes”, etc. É mediante tais
mecanismos, além disso, que a escolarização afeta a família nuclear, regu-

R
lando-a e induzindo-a a agir em conformidade e em complementaridade
com os processos de normalização propriamente escolares, mas também
com os processos de normalização médicos, assistenciais, etc.

o
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


É nesse contexto que podemos melhor compreender o tema que estamos
tratando. Foi na década de 1970, mais precisamente em 1979 com sua obra
Microfísica do Poder, que Foucault fala pela primeira vez sobre o conceito de
medicalização. Nesta obra, ele discorre acerca de uma constituição e organização
visã
social que ao obedecer à lógica capitalista torna-se punitiva a partir de um regime
disciplinar velado, que oprime por meio de um poder que trabalha o corpo do
indivíduo, manipulando-o, modificando o seu comportamento, suas ideologias,
itor

enfim, “fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e manutenção da


a re

sociedade industrial, capitalista” (FOUCAULT, 1979, XVII). Porém, tal domi-


nação age sutilmente, pois se fosse na forma de repressão não perduraria; não
há uma imposição violenta, há um mecanismo de construção da necessidade,
uma promessa de aumento na força de trabalho, crescimento da produtividade,
uma neutralização dos efeitos de contrapoder, com o intuito de tornar os homens
par

dóceis politicamente e a serviço do capital. Ao medicalizar estabelece-se uma


Ed

força sobre o outro que o imobiliza, que gera uma pseudo paz, em uma relação
que na falta da reação do outro perpetua-se o poder e os mecanismos de controle.
Ao desejar a cura e soluções mágicas para problemas que envolvem a
ão

coletividade, é comum dar à medicina e à figura médica o poder de decisão,


havendo com isso uma “licença” para que o médico desde então penetre nas
diferentes instâncias do poder. Desta forma, ocorre o que diz Foucault (1979):
s
ver

O médico se torna o grande conselheiro e o grande perito, se não na arte de


governar, pelo menos na de observar, corrigir, melhorar o “corpo” social
e mantê-lo em um permanente estado de saúde. E é sua função de higie-
nista, mais que seus prestígios de terapeuta, que lhe assegura esta posição
politicamente privilegiada no século XVIII, antes de sê-la econômica e
socialmente no século XIX.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 51

O médico, por sua posição, representa uma classe que se encarrega de uma
série de preceitos de normalidade, bem como outros profissionais, tais como os
psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, biólogos, farmacêuticos,
nutricionistas, educadores, entre outros. Essa figura do saber-poder não é recente,
mas é um mecanismo político que gera tecnologia e é proveniente da disciplina
ainda da Idade Média e até mesmo da Antiguidade, que se solidificou no século
XVIII. A disciplina nada mais é que a inserção dos corpos em um espaço indi-

or
vidualizado, institucionalizado, classificatório e contínuo que se torna submisso

od V
e alvo de poder. E a medicalização escolar nada mais é do que o seu corolário

aut
contemporâneo, como podemos ver também no filósofo austríaco Ivan Illich.
Em sua obra mais conhecida, Sociedade sem Escolas (1985), Illich traz
uma crítica contundente a respeito da institucionalização e da mercantilização

R
da escola, de ter se tornado lugar legitimado para a normatização e para o
controle do outro bem como se colocar como o único meio para um futuro

o
profissional promissor. Neste sentido, ele considera como importante um
aC
processo de desescolarização da sociedade, por ser uma instituição que ao
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ditar ou inculcar verdades concentra o poder de forma hegemônica e traz na


figura do gestor e do professor elementos de superioridade e de redução da
autonomia. Assim, a escola funcionaria como ferramenta de uma sociedade
visã
hierarquizada e desigual. Para ele, na maioria das escolas, predominantemente
nas escolas tradicionais, o professor mesmo que obedeça a um plano político
pedagógico externo à instituição, ele ainda é detentor do saber e tem o total
itor

poder em decidir a forma com que o conteúdo será desenvolvido em sala de


a re

aula, ou seja, os alunos não participam dessa decisão e nem tampouco têm a
liberdade de expressar seus interesses.
Para Illich, a sociedade necessita reinventar outra forma de aprender,
pois a escola que temos não está preparada para ensinar. Um bom sistema
educacional seria composto por escolas que seriam capazes de
par

[...] dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em
Ed

qualquer época da sua vida; capacitar a todos os que queiram partilhar o


que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente,
dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto a
ão

que tenham possibilidade de que seu desafio seja conhecido. Tal sistema
requer a aplicação de garantias constitucionais à educação. Os aprendizes
não deveriam ser forçados a um currículo obrigatório ou à discriminação
s

baseada em terem um diploma ou certificado. (ILLICH, 1985, p. 128).


ver

Nesse novo projeto de escola e de educação, as práticas pedagógicas esta-


riam voltadas para a liberdade, para a autoaprendizagem e para a autonomia do
sujeito. A escola teria o compromisso de promover o desenvolvimento autônomo
do aluno, visto que ali é lugar de crescimento interior e não de estagnação.
52

Embora pessimista em relação à escola, por considerar que as coisas mais


importantes da vida não se aprendem nela, ele enfatiza que os educadores devem
promover um meio de enriquecer o tempo dos alunos na instituição.
Em que pese as contundentes críticas que faz à escola no livro Socie-
dade sem escolas, é em outra obra que Illich usa a expressão medicalização.
A expropriação da saúde: nêmesis da medicina (1975) ficou conhecida por
seu cunho crítico e político no campo da sociologia da saúde e traz como

or
principal discussão a ação médica e seu domínio sobre o corpo individual e

od V
coletivo, inclusive na instituição escolar. Segundo Moysés e Collares (2013,

aut
p. 13), ao usar o conceito de medicalização, Illich quer

alertar que a ampliação e extensão do poder médico minavam as possibili-

R
dades das pessoas de lidarem com os sofrimentos e perdas decorrentes da
própria vida e com a morte, transformando as dores da vida em doenças.

o
Segundo o autor, a vida estaria sendo medicalizada pelo sistema médico
aC
que pretendia ter autoridade sobre pessoas que ainda não estariam doentes

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Esse processo medicalizante estrutura-se na ideia e em uma prática que
ao estabelecer normas morais de conduta, prescrição e/ou proscrição de com-
visã
portamentos, pretende tornar os indivíduos dependentes dos saberes produ-
zidos pelos agentes educativo-terapêuticos (GUADENZI; ORTEGA, 2012).
No que concerne à escola, esse processo impede a autonomia e a liberdade
itor

do aluno, pois muitas vezes ela torna-se uma instituição tão dependente do
a re

saber de especialistas que, de fora, influenciam as condutas com suas inter-


venções estigmatizantes e preconceituosas. Illich considera que há na socie-
dade moderna um “imperialismo médico” e que a medicalização da vida
foi resultado da industrialização que trouxe consigo a profissionalização e a
burocratização da instituição médica.
par

Assim, tornou-se um hábito do homem moderno institucionalizar sua dor


e tudo aquilo que ele não sabe lidar ou compreender. Segundo Illich (1975),
Ed

todas as condutas medicalizantes se fortaleceram em torno da subjetividade


humana, da saúde que se materializou no corpo biológico e em doenças ine-
xistentes, que talvez poderiam afetar a sociedade de alguma forma. Aos deso-
ão

bedientes, o rótulo, o estigma da decadência, do corpo que merece cuidados e


que, portanto, precisa ser dominado e cuidado pela autoridade do saber-poder.
s
ver

A escola em uma sociedade desmedicalizada: em busca de novas


possibilidades

Diante do quadro que apresentamos, talvez pudéssemos conjectu-


rar possibilidades e alternativas a uma situação que tem tomando conta,
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 53

surpreendentemente, de reflexões e pesquisas, inclusive de colegas em uni-


versidades públicas, legitimando e defendendo o uso de medicamentos por
parte das crianças e dos jovens nas escolas. Simultâneo a isso, há relatos de
que a própria direção e a coordenação pedagógica assumem a responsabilidade
de ministrarem esses medicamentos àqueles alunos considerados “doentes”,
“transtornados”, de maneira que se enquadrem e se comportem de acordo com
os ditames impostos, exigidos pela escola e pela sociedade. No que se refere

or
aos professores, como já dissemos, eles já fizeram a sua parte anteriormente,

od V
relatando ou corroborando as queixas que os próprios pais apontam sobre

aut
seus filhos, facilitando a elaboração de laudos médicos que se tornam fontes
lucrativas para a indústria farmacológica.
Entretanto, nem tudo está perdido. Há experiências e ideias no Brasil e

R
no mundo que já estão superando aquilo que parece estar consolidado e aceite
pela comunidade escolar bem como pela comunidade científica, inclusive no

o
campo da educação. É na perspectiva de interpelar e problematizar a maneira
aC
medicalizante de conceber e praticar a educação que encontramos nas escolas
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

democráticas uma possibilidade e uma saída, de tal forma que o aluno mal
comportado, desinteressado e “bagunceiro”, em uma palavra, o diferente,
possa ser respeitado em sua alteridade. Dizemos alteridade, pois aí está uma
visã
questão ética a ser considerada pelas escolas e a sociedade, tendo em vista a
questão do Outro, aquele que é diferente de mim e que precisa ser respeitado
e não submetido a um diagnóstico que pretende apenas domesticá-lo e des-
itor

valorizar as suas vivências.


a re

Faz-se importante destacar que as escolas democráticas nem sempre


foram aceitas, ou melhor, até hoje são questionadas com olhares desconfia-
dos a respeito da real qualidade, da sua abrangência, do sucesso dos alunos
egressos e de como essas instituições são avaliadas em relação ao “fracasso”
e ainda, quais critérios são adotados para a escolha dos conteúdos. Claro que
par

tudo dentro de uma lógica capitalista, que deseja preparar o aluno para os
Ed

vestibulares e concursos desde a educação infantil.


Na escola democrática, chamada por José Pacheco de escola sem paredes,
os alunos criam as regras de convívio e escolhem por meio de projetos qual
ão

assunto desejam trabalhar. Crítico ao modelo tradicional de ensino, no qual se


insere a medicalização, e fundador da Escola da Ponte, em Portugal, Pacheco
considera que neste modelo de escola as propostas educacionais são pautadas
s

no ideal de liberdade e na gestão participativa, onde os estudantes definem suas


ver

trajetórias de aprendizagem, sem currículos compulsórios (SINGER, 2010).


Embora muitas escolas democráticas sejam reconhecidas mundialmente
- hoje há mais de quinhentas pelo mundo – há duas em especial que inclusive
continuam ativas e producentes. Uma delas é a escola de Summerhill e a outra
é a Escola da Ponte. Esta última assim se exprima em sua página na internet:
54

Era preciso repensar a escola, pô-la em causa. A que existia não funcio-
nava, os professores precisavam mais de interrogações do que de certezas.
Concluímos que só pode haver um projeto quando todos se conhecem entre
si e se reconhecem em objetivos comuns. Apercebemo-nos que um dos
maiores óbices ao desenvolvimento de projetos educativos consistia na
prática de uma monodocência redutora, que remetia os professores para
o isolamento de espaços e tempos justapostos, entregues a si próprios e

or
à crença numa especialização generalista. Percebemos que se há alunos
com dificuldades de aprendizagem, também os professores têm dificul-

od V
dades de ensino. Obrigar cada um a ser um outro igual a todos, é negar a

aut
possibilidade de existir como pessoa livre e consciente. Na nossa escola
todos trabalham com todos. Assim, nem um aluno é aluno de um professor

R
mas sim de todos os professores, nem um professor é professor de alguns
alunos, é professor de todos os alunos. Hoje, a nossa Escola assenta na
autonomia dos alunos (ESCOLA DA PONTE, 2020).

o
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Mesmo consolidadas pelo mundo, essas escolas ainda causam estranheza,
inclusive por educadores que emanam opiniões pessimistas, com dúvidas e
descrédito perguntando-se: como pode isso dar certo? Como pode deixar o
aluno tão livre se ele não tem maturidade para decidir nada e se não tem con-
visã
dições de discernir o que é melhor para ele? Bem, sem se despir do “velho”
é impossível acreditar em uma real democratização que contribua para a for-
mação de cidadãos autônomos. Aqueles cuja educação só é aceita no formato
itor

tradicional, operam por meio da coação e da individualização, pautados no


a re

preconceito, no professor centralizador, na vigilância, na classificação e na


punição, por isso se negam a aderir a uma educação para a liberdade.
Nessa perspectiva, o ensino pode ser pensado como:
par

[...] aquele em que as pessoas vão buscar espontaneamente nos museus,


bibliotecas, conferências, cursos públicos, etc. Não se exerce aí nenhuma
Ed

coação e aprende-se muito, devendo-se por isso mesmo ser estendida às


crianças esta mesma liberdade. Basta colocar à sua disposição o conheci-
mento que lhe pode ser útil, e se de fato o for, a criança se esforçará para
ão

adquiri-lo por si mesma (SINGER, 2010, p. 64).

Quando se decide fazer uma escola para a liberdade, deixando que seus
s

alunos operem conforme seus interesses e sejam o centro do processo educa-


ver

tivo, compreende-se que a criança precisa ser poupada do disciplinamento, da


submissão, da intromissão e deve ser estimulada a desejar, a criar, a sonhar,
imaginar, enfim, deve ser encorajada a ser ela mesma, a ser livre. Isso é edu-
car para a autonomia, para o alcance do self-government, ou do autogoverno
ou até mesmo do governo de si. Isto é, ser senhor da própria vida. Enfim, na
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 55

escola democrática o poder pertence a todos, as regras é que são examinadas


e reavaliadas quando necessário e não as condutas individuais.
Em projetos como esses, vividos pelas escolas democráticas, embora
não sejam fáceis de serem mantidos, sobretudo por desconfianças de pais,
professores e pesquisadores, o processo de medicalização não faz sentido,
mesmo porque a dinâmica da escola “oferece um ambiente onde as crianças
podem crescer felizes, livres de muitas das ansiedades e neuroses do mundo

or
exterior”, conforme aponta a proposta pedagógica da Escola de Summerhill.

od V
aut
A filosofia da escola é permitir a liberdade do indivíduo - cada criança é
capaz de seguir seu próprio caminho na vida e seguir seus próprios interes-
ses para se transformar na pessoa que ela pessoalmente sente que deve ser.

R
Isso leva a uma autoconfiança interior e uma aceitação real de si mesma
como indivíduo. Tudo isso é feito dentro da estrutura de autogoverno

o
[self-government] da escola, por meio de reuniões escolares que estão no
aC
centro da escola e enfatizam a distinção entre liberdade e licenciosidade
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(ESCOLA DE SUMMERHILL, 2020).

Portanto, para enfrentar e superar o processo de medicalização escolar,


visã
tanto em suas causas e em seus efeitos, o compromisso que os educadores
poderiam assumir, seja aqueles que estão no campo da pesquisa e da forma-
ção de professores ou no campo concreto da sala de aula, com suas práticas
docentes, seria inverter a lógica e considerar outras perspectivas. Entre essas
itor

está a dimensão ética, o que significa dizer que desde a formação dos futuros
a re

professores é necessário partir dos problemas reais vividos pela comunidade


escolar, isto é, a sua maneira de ser, de agir, de sentir e viver e de se organizar.
Não é possível pensar uma formação em que se discute problemas e desafios
no vazio, e apenas teoricamente.
par

O candidato a professor escuta alguém falando de algo, dos Piagets da vida,


Ed

mas é inútil encher a cabeça das pessoas antes da prática. O que importa é
partir dos problemas de ensino para, através da pesquisa, procurar a teoria
que os resolva. Está tudo invertido (PACHECO, 2020).
ão

Portanto, um processo de desmedicalização escolar pressupõe uma abertura


ao Outro, em suas singularidades existenciais, com seus dramas, esperanças,
s

desejos, alegrias, tristezas, etc. Ou seja, enfrentar a medicalização, que insiste


ver

em permanecer no seio da escola, é uma questão ética par excellence: primeiro,


porque é tarefa nossa denunciar os seus efeitos danosos, abusivos e desrespeitosos
para com as crianças e jovens; segundo, porque abre a oportunidade de incluir no
mundo da educação um conjunto de reflexões que ao ser reverberado no campo da
prática, especialmente na sala de aula, pode promover uma nova perspectiva para
56

a formação desse público e, ao mesmo tempo, dar sentido à profissão docente. O


professor não pode se tornar apenas um mero agente de inculcação de sentimentos
de culpabilização individual e autoculpabilização. Um modelo de educação assim
praticado exige e forma “um tipo de cidadão acrítico, conformado, amedrontado,
com um profundo sentimento de abandono”. (NUNES, 2019, p. 271)
A transposição para a educação do modelo de diagnóstico-tratamento
e a ação da indústria farmacêutica se opõem e se distanciam da proposta

or
de formação humana e esclarecida preconizada por Kant (1974). Se neste

od V
modelo de ação – a medicalização - a criança é menorizada, desconsiderada

aut
em sua autonomia, passando a ser tutelada e controlada, para Kant o sentido
e o objetivo da educação é justamente o contrário. Para ele, se formar, ou
melhor, esclarecer-se é justamente

R
a saída do homem de sua menoridade [...]. A menoridade é a incapaci-

o
dade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo
aC
[...]. É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a
criar amor a ela, sendo, por ora, realmente incapaz de utilizar seu próprio
entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim proce-
visã
der. Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional,
ou antes do abuso, de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua
menoridade. Quem deles se livrasse só seria capaz de dar um salto inse-
guro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este
itor

movimento livre. Por isso, são muito poucos aqueles que conseguiram,
a re

pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreen-


der então uma marcha segura (KANT, 1974, p. 100-102. Grifo do autor).

Inspirados nessas palavras de Kant, medicalizar é praticamente impedir


que esse processo de esclarecimento, de liberdade e de autonomia se realize.
par

O compromisso ético dos professores, desde a sua formação, é sacudir, desde


Ed

os começos, de si mesmos o jugo da menoridade e espalhar ao redor de si de


maneira lenta, mas contínua, o espírito de que cada um deve pensar e agir
por si mesmo. Enfim, denunciar, enfrentar e superar um processo em que as
ão

questões da vida social, sempre complexas, multifatoriais e marcadas pela cul-


tura e pelo tempo histórico, são reduzidas à lógica médica, vinculando aquilo
que não está adequado às normas sociais a uma suposta causalidade orgânica,
s

expressa no adoecimento do indivíduo. Em uma palavra: desmedicalizar.


ver

Considerações finais

Como conclusão dessas reflexões, partimos da ideia de que a história e os


modos de viver na modernidade estão sustentados por uma tecnologia do poder
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 57

disciplinar, por um modo biologizante de conceber a vida e que estão sempre


em busca de normatizar e homogeneizar o comportamento, ou seja, uma lógica
cruel que se encontra subjacente às atitudes sociais cotidianas. No caso especí-
fico da escola e da sala de aula, como lugares que deveria ser de encontro e de
respeito pela diversidade e pelo diferente, o que se vê é uma submissão à lógica
capitalista, que exclui, que mercantiliza e desvaloriza as singularidades, em
prol do lucro e do controle dos desejos, das emoções, da liberdade humana, etc.

or
Esse processo de empobrecimento da subjetividade humana por meio das

od V
condutas medicalizantes, que rotulam e deformam a verdadeira origem das

aut
manifestações estudantis, podem impedir o desenvolvimento moral do aluno,
uma vez que o mantém na heteronomia, sob a coação e o domínio policialesco,
que normatizando, modelando e punindo aqueles que não correspondem aos

R
desejos de uma sociedade de consumo, com foco em apenas, obter soluções
imediatistas e superficiais.

o
Assim, para combatermos essa ideologia biologizante quem vem car-
aC
regada de um julgamento psicométrico, é importante unirmos condições
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para tal, porém, para isso é preciso antes de qualquer coisa compreender
a maquinaria dos fatos, como também, libertar o pensamento das fórmulas
mágicas, que desde sempre serviram para apenas questionar, mas que em
visã
nada mudam as práticas de uma sociedade que tende à atomização e à uni-
formização das condutas.
E o que fazer diante de tais constatações? Mesmo que teórica, a discussão
itor

aqui feita não quer estar descolada da realidade escolar, mas sim contribuir
a re

para um diálogo efetivo e concreto com chão do pátio, da sala dos professores,
da carteira do aluno enfim, a todos os lugares dentro da escola que clamam
por respeito, pois o único diagnóstico que precisa ser feito é o institucional,
onde as diversas vozes gritam por socorro e pedem urgência no plano de ação.
Ao desejarmos uma sociedade mais justa, com menos desigualdades
par

sociais e respeito ao diferente, estamos buscando e pretendendo construir


Ed

uma educação que, prenhe de sentido, possibilite ao aluno um crescimento


interior consolidado em ideais de respeito mútuo e cooperação. Para tanto,
faz-se urgente à aniquilação de condutas que cultivam comportamentos hete-
ão

rônomos, de submissão e assujeitamento, lembrando-nos que a moralidade se


constrói socialmente, ela não é inata. Assim, a escola tem um papel fundamen-
tal no desenvolvimento moral do aluno e o professor é quem ao acompanhar
s

esse desenvolvimento, pode conduzi-lo à autonomia. Para que tais elementos


ver

tenham sucesso na rotina escolar, é preciso reconhecer que se trata de um


trabalho que só avançará se estiver em conformidade com o coletivo, o aluno
deve aprender, com a ajuda do professor, a posicionar-se diante dos valores
apresentados e a respeitar as regras que foram construídas coletivamente,
evitando com isso regras ambíguas e arbitrárias.
58

Lugar de encontro, a sala de aula deve ser o espaço da criatividade, das


manifestações genuínas, da autonomia e da liberdade, de maneira a não neces-
sitar de fármacos para direcionar, controlar e assegurar a formação de crianças
e jovens que nela circula. Na verdade, seria um contrassenso e a negação de
si mesma, termos uma educação em que a vida torna-se prisioneira e mani-
pulada por interesses que não sejam a formação para a felicidade, a alegria,
o respeito, o diálogo, o bem estar, etc. Se a medicina e a escola são gêmeas,

or
tendo em vista que ambas nasceram de uma concepção de mundo e de ciên-

od V
cia que é cartesiana, que segmenta o conhecimento e o ser, para controlá-lo,

aut
concluímos defendendo que é preciso desmedicalizar a vida como um todo
e a sala de aula como princípio, de tal maneira que aquilo que é visto como
indisciplina, desobediência ou dificuldade de concentração e aprendizagem,

R
seja na verdade reconhecido que, na maioria das vezes, é fruto da falta de
diálogo da instituição escolar com aquilo que tem mais significado para for-

o
mação da subjetividade dos alunos, seus interesses e desejos mais profundos.
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


visã
itor
a re
par
Ed
s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 59

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itor
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par
Ed
s ão
ver
A PRODUÇÃO DAS SUBJETIVIDADES
CONTEMPORÂNEAS PELA
VISIBILIDADE NA SOCIEDADE

or
EMPRESARIAL

od V
aut
Flávia Cristina Silveira Lemos
Hélio Rebello Cardoso Júnior

R
Dolores Galindo
Franco Farias da Cruz

o
Daiane Gasparetto da Silva
aC
Introdução
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Busca-se com este capítulo pensar a sociedade atual por meio de operadores
visã
de Deleuze e Foucault, ao realizarmos conversações entre o panoptismo e socie-
dade de controle em meio aberto pela égide de mecanismos de segurança empre-
sariais. O excesso de visibilidade produz vigilância generalizara e exacerbada,
itor

difundindo imagens rápidas, voláteis e dispositivos de controle social securitários,


a re

pautados em encomendas de lei e ordem. Estas práticas são materializadas em


acontecimentos tecno-sociais que ultrapassam análises causais deterministas a
respeito das mídias e modos de subjetivação, na história do presente.
Nas últimas décadas, a partir da reprodução de imagens de si e dos outros
como forma de governo das condutas, no cotidiano, impactando nas interven-
par

ções políticas, econômicas, sociais, culturais, familiares, trabalhistas, históricas


Ed

e na formação de subjetividades. O controle social e a vigilância passaram


a ser mais intensivos, na racionalidade imagética e o marketing ganhou um
estatuto de saber e poder diferenciado, juntamente com a economia política,
ão

nesse cenário. A circulação segura seria acompanhada de vigilância constante,


monitorada por filmadoras, celulares, censores, documentos de identificação,
senhas, satélites e avaliações permanentes (LÈVY, 2004).
s

A lógica imagética tem atravessado diferentes espaços e equipamentos,


ver

corpos e práticas contemporâneas, tais como: a educação e o trabalho, os quais


ganharam um lugar privilegiado no campo do capital imaterial, em termos de
criação de visibilidades e dizibilidades do empreendedorismo neoliberal. Emerge
uma sociedade passível de forjar pelo marketing a vida e tudo que lhe concerne,
culturalmente, socialmente, afetivamente e no âmbito político-econômico. A
venda permanente de imagens sucessivas, capitalizadas e colocadas no mercado
tem alimentado as campanhas políticas de candidatos aos cargos dos Poderes:
62

Executivo e Legislativo; tem expandido o setor de vendas de objetos pelas marcas


e embalagens; embase a construção dos perfis pessoais alvos a serem imitados
por serem classificados como marcadores de sucesso. Portanto, modelos copiados
e venerados supostamente são os efeitos da produção do mercado das imagens.
Assim, o marqueteiro ganhou um lugar privilegiado no chamado mercado
empreendedor, articulando corpos empresas como relações empresariais, em
cada mínimo ato cotidiano. As marcas se tornaram mais importantes que os

or
produtos vendidos, na disputa de mercados e na concorrência entre empresas.

od V
A contratação de funcionários e os estilos de vida dos trabalhadores e estudan-

aut
tes passaram a ser parte de uma produção de imagens a comercializar. Assim,
esse artigo tem o objetivo de interrogar as relações constituídas entre marke-

R
ting, subjetividade, educação e política, no presente. Busca-se nas ferramentas
analíticas de Deleuze, Guattari, Virílio, Arendt e Foucault um suporte para

o
questionar a produção histórica das subjetividades imagéticas, das empresas
como marcas a zelar e a construir, a educação empresarial como vetor de
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


ensino para a capitalização do ser e a política reduzida aos perfis construídos
pelo marketing, aplicado ao cotidiano das existências.
visã
Comunicação e produção do marketing empresarial de si e dos outros

Foucault (2008a) declara que fazer circular é um efeito das práticas neoli-
berais da fabricação de subjetividades capturadas pelos mecanismos produtivos
itor

das vigilâncias por meio do efeito de visibilidade contemporâneo, em contextos


a re

democráticos da participação, do reconhecimento social pela visibilidade e do


governo das condutas pelas imagens. Os bens, pessoas, saberes, alimentos,
valores precisariam circular com segurança e as barreiras seriam colocadas
entre os que podem circular para consumir e realizar investimentos e os que
par

não podem e comprometem a segurança dos empreendedores e consumidores.


Bauman (1999) e Foucault (1999) assinalam que os guetos e segrega-
Ed

ções são efeitos de um regime de separação dos que podem circular daqueles
impedidos de fazê-lo, classificados como perigosos e em risco de suposta-
mente, sendo internados, presos e/ou afastados, nas periferias distantes dos
ão

grandes centros urbanos. A segurança seria a possibilidade de funcionamento


da imagem dos que consomem e investem face aos que operam a imagem pela
s

insegurança e falta de acesso, portanto pela discriminação negativa sofrida,


ver

diariamente. A discriminação é analisada por Castel (2008), ao destacar o


quanto os autóctones da República foram fabricados pela imagem negativa
dos inseguros e dos que tornam a vida de uma população insegura também.
Assim, são definidos os grupos discriminados negativamente como supostos
portadores de imagens marcadas pelo estigma do risco e perigo.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 63

Em geral, os rótulos caracterizam os corpos e os lugares de moradia,


condições de vida, relações de parentesco e comunidade próxima como
potencialmente atravessada por fatores de risco, variando em intensidade
até à classificação de perigosa (CASTEL, 1987). As situações de violência,
desastre, crimes e adoecimentos, por exemplo, são mapeadas espacialmente,
em termos de cálculos de risco e perigo.
A Estatística de maior incidência probabilística de algum acontecimento

or
faz uma região ser demarcada como zona de risco, área vermelha e, até mesmo

od V
lugar visto enquanto perigoso. As avaliações dos especialistas e peritos para

aut
examinar a condição de vida de cada grupo, comunidade e espaço é reali-
zada por um conjunto de variáveis delimitadas pelo desvio de normas e leis.
Assim, vigiar e criar visibilidade, além de promover imagens empresariais

R
também define táticas de controle social, na política pública, justificado por
encomendas, tais como: realização de denúncias, proteção social pela detec-

o
ção precoce das doenças, prazer de visualizar a vida dos outros, prevenir as
aC
mais variadas formas de violência. Olhar o que se passa com alguém face às
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normas sociais é investigar com o olhar, é seguir pelas imagens e levantar


suspeitas da condição de autonomia dos pares (ROSE, 2011). Uma expansão
exorbitante dos mecanismos de vigilância se materializa e passa a mediar um
visã
modo de existência balizado pela sensação em que se está sendo olhado o
tempo todo. Por isso, seria supostamente relevante criar imagens, tais quais
kits de subjetividade, disponibilizados permanentemente (ROLNIK, 1997).
itor

Guattari e Rolnik (1996) salientam, nesse sentido, como a cultura tem


a re

funcionado enquanto dispositivo de equivalência de mais valia subjetiva, no


capitalismo mundial integrado, ao conectar todos os corpos e objetos pelo
signo do capital, agenciando vetores de captura do desejo e até mesmo das
resistências. Um exemplo é o comércio de roupas com imagens de líderes
de revoluções, pesquisadores, artistas, educadores, tais como: Che Guevara,
par

Nelson Mandela, Bob Marley etc.


Ed

No curso Nascimento da Biopolítica, Foucault (2008b) assinalou a


transformação da educação em empresa e investimento, calculado pelos cus-
tos e benefícios. O cálculo é permanente das compensações e prejuízos dos
ão

contratos realizados e a concretizar, seja no plano das relações trabalhistas


seja no campo da amizade e conjugalidade. Tudo é transformado em inves-
timento e empreendimento, até mesmo as emoções e os afetos mais intensos
s

se tornaram um negócio lucrativo ou não, dependendo das avaliações e dos


ver

contratos estabelecidos. Segundo Ilhouz (2012), o amor é capitalizado e o


cuidado das imagens de si delineadas pela saúde e normalidade, em prol da
vertente psicológica da política da informação instantânea e veloz de divulga-
ção do que se supõe ser sucesso, nessa sociedade individualista, competitiva e
hedonista. Uma tônica da economia neoliberal é mediada pela contabilidade,
64

atravessando a gestão de si e dos outros, efetuando os custos e os benefícios


de cada escolha realizada (FOUCAULT, 2008b).
Essas práticas ensejam uma maneira da sociabilidade ganhar aspectos
securitários pelo nível de transparência e controle dos acontecimentos aos olha-
res que tudo podem ver e gerir. Nesse âmbito, as práticas de vigilância passam
a ser comercializadas, trocadas e apropriadas pelos dispositivos de segurança,
empreendidos como politicamente relevantes para o neoliberalismo e eco-

or
nomicamente rentáveis, no mercado da seguridade social (CASTEL, 1987).

od V
Os sonhos, sentimentos, projetos e conhecimentos passam a ser comer-

aut
cializados pela propaganda e publicidade, no mercado das marcas, o qual forja
a ilusão de ter sucesso e ser aceito (FLUSSER, 2008). O produto vendido
incorpora a imagem da empresa e visa ofertar objetos tais quais kits a vestir

R
para agenciar prestígio e competência investimento. A flexibilidade das ima-
gens deve ser grande em termos da disponibilidade de deixar e construir novos

o
projetos, conforme as encomendas recebidas, no mercado das marcas. A ética
aC
da criação e resistência cede lugar ao desgaste da repetição e ressentimento

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


pelo que se foi e pelo que ainda não veio, dando lugar ao medo e à angústia
face ao esboço mínimo de qualquer movimento disruptivo (ROLNIK, 1997).
Por isso, Sodré (2010) destaca a formação de subjetividades, pautada pela
visã
imagem técnica; sobretudo quando é concretizada pelas denominadas elites
logotécnicas, às quais visam lucrar com as imagens difundidas e valorizadas
socialmente e politicamente. Por isso, a paisagem é uma maneira de olhar e
itor

enquadrar as imagens, fazendo-as ideais a serem imitados e vendidos como


a re

estilos de existências ditos de sucesso e mérito.


A paisagem é fabricada como caricatura e maquiagem de algo que seria
menos interessante ou nem tão almejado se não tivesse construído como
outdoor, fotos, cartão postal, perfil etc. Uma visão considerada bela para os
olhares é vendida como paisagem, no turismo e valorizada para o mercado
par

imobiliário, por exemplo. Um lugar também é bastante visitado e almejado,


Ed

quando é frequentado por pessoas classificadas como bonitas em certo este-


reótipo e bem vestidas, a partir de alguns critérios da indústria de massa do
consumo. (SENNETT, 2003).
ão

Assim, Garcia (2004, p. 45) ressalta o quanto “o produto perdeu importância


para a marca e, é ela que define na contemporaneidade, as estratégias de marke-
ting”. Aprender e ensinar entra em uma maquinaria do mercado e da competição
s

constantes, alimentando e sendo alimentados pela voracidade de ascender ao


ver

chamado lugar de sucesso. Esse lugar ganha dimensões de fetiche, obtido pela
construção de imagens rentáveis no mercado das informações e na capitalização
dos estilos de existência. Lazzarato e Negri (2013) denominaram essa prática de
trabalho imaterial, a qual se efetua como uma capitalização do estilo de viver,
no contemporâneo. Deleuze afirma que a filosofia sempre teve muitos rivais.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 65

Na atualidade, esses rivais são a informática, a comunicação e a promo-


ção do comércio. Ora, seria pela visibilidade dos investimentos em imagens
empresariais, disponibilizadas em formato de marketing como novo dispositivo
de controle social. “A empresa é uma alma, um gás” (DELEUZE, 1992, p.
221). Cada vez mais a empresa terceiriza a produção e investe na imagem da
marca para vender serviços pela valorização, baseada em técnicas de marketing.
Virílio (2008) ressalta o quanto as imagens ganharam um lugar de destaque

or
na sociedade atual, chegando a configurar um imperativo audiovisual a ser

od V
expandido ao nível do quase instante mesmo em que tenha ocorrida a fabricação

aut
do acontecimento. A velocidade da formação de espaços de visibilidades é a
disputa pelo tempo em que as imagens são divulgadas e veiculam serviços. A
vida é racionalizada pela égide dos investimentos feitos e os resultados destes,

R
em termos de agilidade na distribuição das imagens. A competição e a con-
corrência são termômetros da velocidade da difusão imagética, no formato da

o
veiculação massiva das marcas, atreladas aos estilos de existência classificados
aC
como de sucesso. Ser visível é funcionar como uma empresa ao ponto de efetuar
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investimentos sucessivos, sem perder qualquer oportunidade de negociar algo.


Na produção frequente das imagens, a informática entra em uma rela-
ção com a quase instantaneidade das informações, do compartilhamento, da
visã
interação e da capitalização empresarial dos estilos de vida (LAZZARATO;
NEGRI, 2013). Dessa forma, há uma captura das relações sociais, educativas,
políticas, econômicas, culturais e afetivas pelas máquinas de visibilidade e vigi-
itor

lância a todo o momento. Um novo capital social e cultural opera na distribuição


a re

e apropriação da rapidez, do fluxo e difusão das marcas e de seu agenciamento


com a racionalidade imagética fabricada, adquirida e vendida, no mercado das
subjetividades. A velocidade da política efetua-se por uma economia neoliberal
e por tecnologias de controle social e técnico das imagens (VIRÍLIO, 2008).
A imagem do: espaço, corpo, bairro, da vestimenta, comunidade, cidade,
par

região e do país se tornaram acopladas ao capital do conhecimento e ao


Ed

empreendedorismo cultural; entrando nas engrenagens neoliberais. Os estudos


o trabalho, sendo que os estudantes e trabalhadores são chamados a consti-
tuírem-se como empreendedores, nessa racionalidade empresarial, segundo
ão

Foucault (2008b). A formação das redes sociais, de relacionamentos afetivos


e de trabalho, de grupos para realizar trabalhos remunerados e nas práticas
educativas passou, assim, também a ser mediada pela racionalidade imagética,
s

informacional, da propaganda e do mercado das emoções e relacionamentos.


ver

Nenhuma amizade, nenhum casamento ou contrato de trabalho escapa


mais ao cálculo de custo e benefício do risco e perigo de estabelecer a relação
e da avaliação dos efeitos, de lucros e prejuízos trazidos aos que se expõem a
vivenciar experiências afetivas (ILHOUZ, 2011). O desafio cada vez mais difícil
e árduo, hoje é resistir a essa parafernália social, técnica e político-econômica.
66

Bauman (2004) ressalta, em O amor líquido, a expansão da fragilidade e pouca


consistência dos relacionamentos de amizade, famílias, entre casais e pais e
filhos, no presente. Superficiais e frágeis, sem compromisso e duração, os
laços sociais e afetivos perdem confiança, sustentação e presença nas vidas.
A insegurança cresce, em intensidade e se espraia como vetor de subjetivação
contemporânea. O desamparo advindo dessa experiência da restrição dos laços
sociais não é preenchido pela racionalidade imagética das redes sociais, na

or
internet e nem pelas imagens difundidas de sucesso empreendedor. A alienação

od V
e o vazio dessa situação só aumentam e o mercado das imagens, a venda de

aut
objetos com as insígnias das marcas e a frenética mutação do trabalho hoje não
dão suporte suficiente à construção das subjetividades e ao estabelecimento
das existências, no plano ético, político e estético (COSTA, 1997).

R
Ser clandestino e se esconder para resistir ao marketing

o
aC

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Fazer possíveis das impossibilidades é um ato importante em tempos de
captura imagética permanente, tentando escapar ao olho que tudo pretender
ver como um ato de coragem (VIRÍLIO, 2008). Por isso, “a criação se faz em
gargalos de estrangulamento [...] Se um criador não é agarrado pelo pescoço por
visã
um conjunto de impossibilidades, não é um criador” (DELEUZE, 1992, p. 167).
É relevante criar vacúolos e espaços escuros para não ceder à ordem da
sobrevivência em formato subjetividade empresa, a qual diminui a potência
itor

criativa. Conforme Caiafa (2000), o anonimato de um pseudônimo, por exem-


a re

plo, auxilia a forjar passagens em meio aos perigos das capturas que a vigilância
constante e a visibilidade contínua fabricam. Pensar e problematizar a veloci-
dade das imagens, a fabricação de subjetividades imagéticas, o engendramento
de marcas pela propaganda e o aprisionamento na posição de expectador é
par

importante para resistir à captura da sociedade de controle e aos mecanismos


de visibilidade permanente. A crítica é acionada como uma prática, uma ati-
Ed

tude de avaliação do que é feito com os outros e do que faz de si. Questionar
a massiva produção de processos de homogeneização e cooptação dos corpos
pela indústria cultural. Criar uma problemática da dramática da aceleração do
ão

tempo e das imagens, interrogar a empresa da educação instrumentalizada pelo


sujeito da informação acumulada e capitalizada é um desafio, hoje.
Assim, tal qual Adorno (2002) destaca, faz-se relevante colocar em sus-
s

pensão a publicidade, atrelada às artes, à educação, ao trabalho, às relações


ver

familiares e de amizade. Sair da esfera do entretenimento constante, do lazer


comércio do tempo livre e da cultura utilitária é parte das táticas do resistir à
captura atual das experimentações existenciais. Face às exigências de tudo ver e
mostrar resistir implica se transformar, transmutar-se, transfigurando-se, tal qual
o arlequim, em metamorfose e deslocamento. O arlequim é uma figura, a qual
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 67

se veste de fantasias, tramas, narrativas, cores, não apenas na mutação do plano


biológico de um se fazer outro, estranho a si e aos que o olham (SERRES, 1993).
A resistência ganha o estranhamento do enquadramento das imagens e
da problematização do que repeti e aprisiona, produzindo certo atordoamento
e náusea, dado o aspecto reprodutivo e tedioso da velocidade de imagens não
pensadas e da convocação ao comércio permanente da figura do investidor e
empreendedor incansável (VIRÍLIO, 2008). O empresário não perde oportuni-

or
dades de lucrar e ganhar com seus mínimos atos pontos na concorrência e com-

od V
petição, estabelecidas pelo estilo de vida neoliberal (Foucault, 2008b). Não

aut
desejar ser empresário e ganhar destaque é visto como anormalidade, hoje.
Estar fora desse diagrama é sair de campo e deixar de existir praticamente.
Entretanto, resistir ao ver sem parar e ao deixar ser visível o tempo todo

R
é possível, ao dissociar a imagem do tumulto da informação, conforme Caiafa
(2003) para realizar um deslocamento subjetivo e a criação de modo a superar

o
um consumo instantâneo e fazer ecoar a experimentação enquanto produção da
aC
diferença. Assim, para Deleuze (1992), resistir é tentar ser clandestino, decep-
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cionar e não ficar acuado, afinal, se alegrar é melhor do que aceitar a cooptação
política. Conceder às encomendas de aprisionar-se na lógica imagética é da ordem
da sobrevivência e causa diminuição da potência criativa, pois impede o inventar
visã
e reativa o ressentimento e medo. Ora, é nesse campo existencial que se colocar
a possibilidade de recusar-se a virar vedete, se esconder e resistir à visibilidade
em prol da problematização e efetuação das aberturas e passagens face às tenta-
itor

tivas de tudo dar notícia e de tudo mostrar para todos verem (DELEUZE, 1992).
a re

A banalização das imagens em velocidade promove uma impossibilidade


de criar e convida à passividade consumista (ARENDT, 2013). No máximo,
se traduz em investimento, capturado utilitariamente pela apropriação do
capital humano. O empreendedorismo da informação e do empresariamento
das imagens não cessa de tentar receptar e capturar o fôlego das resistên-
par

cias, tentando apagar a singularização dos acontecimentos. Nesse aspecto,


Ed

“a criação se faz em gargalos de estrangulamento [...] Se um criador não


é agarrado pelo pescoço por um conjunto de impossibilidades, não é um
criador” (DELEUZE, 1992, p. 167). Há de se colocar em xeque o modo de
ão

vida paisagem para conseguir criar lacunas e buracos por onde seja possível
respirar não se mostrando para não ceder à sedução das imagens transmitidas,
em seu fluxo interativo (VIRÍLIO, 2008).
s

A paisagem é o que vemos como turistas, como empresários e consumistas.


ver

Diferente é a experimentação, pois resiste à imagem chapada e utilitária da cidade


e dos corpos. A primeira tende à coisificação e, a segunda, à singularização das
existências. Finalizando, sair do estreitamento do encantamento imagético, tal
qual narciso, fascinado, ao ver sua imagem, no espelho, é conseguir instituir um
estranhamento a ponto de resistir ao poder e à sedução da visibilidade constante.
68

Assim, ativar a potência da vida ganhou o estatuto de não apenas reagir


como expectador à passividade tão comum ao tempo presente, sobrevivendo
à devastadora experiência da vigilância e da visibilidade de uma sociedade de
controle e marketing. A velocidade da política é um ingrediente para a urgência,
a qual, por sua vez, desemboca nos fascismos no tecnicismo sem possibilidade
para diferir e desobedecer. Desacelerar a velocidade das imagens, fazer algo
durar e ganhar espessura de laço social e afetivo, cultivar um relacionamento

or
sem fazê-lo limitar ao investimento econômico e funcional implicou em consti-

od V
tuir a criação sem perder o legado fabricado e sem abrir mão de tecer cuidados

aut
de si e dos outros. Um agenciamento do comum e do público é uma forma de
resistir à paixão avassaladora por si mesmo e à avidez por uma busca do sucesso
e da segurança técnica, impeditivas do experimentar e pensar (DIAS, 2011).

R
Deleuze (2002) alertava que nem tudo que é bom para um é também
bom para outrem. A experiência ética consiste na experimentação e não na

o
reprodução e cópia de um modelo de sucesso e supostamente de excelência a
aC
repetir. Os encontros são avaliados pela capacidade de ampliar e/ou reduzir a

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


alegria de viver. Um termômetro para avaliar a si e a relação com os outros é
a postura ética, possível, apenas pela atitude crítica face ao presente. Pensar
por perguntas, se colocar em deriva não é nada simples. Os controles atuais
visã
operam rapidamente, em ondulação, com forças centrífugas e centrípetas,
em rotação tão veloz quando as tentativas de esconder-se e, assim, fugir das
artimanhas dos mecanismos de controles contemporâneos (DELEUZE, 1992).
itor

Até mesmo os movimentos sociais pedem proteções e reivindicam os


a re

direitos no plano da busca de reconhecimento e visibilidade. A pauta de tudo


ver e do ser visto por todos, nas lutas do presente cedem a cooptação da vigi-
lância democrática e da sedução das imagens instantâneas, constitutivas dos
grupos sociais, das subjetividades e das relações.
par

Considerações finais
Ed

A velocidade técnica e social da produção e difusão das imagens, na atua-


lidade, induziu ao crescimento de um vazio do girar em torno de si sem ocupar
ão

a cidade para também cuidar do outro. Houve um empobrecimento significa-


tivo do campo existencial face à redução da esfera pública, dos laços afetivos
e sociais, paralelamente ao aumento exponencial do utilitarismo e à funcio-
s

nalidade da segurança, tanto nos investimentos quanto na lógica empresarial.


ver

O trabalho, a educação, a família, a amizade, o tempo livre, a visibilidade e


o olhar foram apropriados pelo empreendedorismo, via marketing e velocidade
das redes sociais, sendo que, frente aos convites de capitalização de tudo, os
relacionamentos foram esmagados pelo liberalismo utilitarista e por um mercado
ávido pelo comércio de tudo e de todos. O sofrimento, os temores, as perdas, os
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 69

prazeres, a iniciativa e a criação foram alvo de apropriação neoliberal, transfor-


mados em investimentos e lucro permanente. O marketing e as tecnologias de
controle social aumentam em importância, bem como as estratégias de vigilância
simultâneas ao mercado das imagens, das marcas e da cultura instrumentalizada.
Escapar a esses mecanismo e redes informacionais, lucrativas e securitárias se
tornou um grande e difícil desafio do presente em que se vive.
Em tempos de um capitalismo de serviços, baseado na propaganda, publi-

or
cidade e informação rápida implica em esvaziar as imagens, os controles finos

od V
e o mercado das relações é tecer um conjunto de práticas sociais, as quais

aut
podem auxiliar a criar linhas de fuga para forjar novos territórios de existência
(DELEUZE, 1992). Cultivar a vida pública e não sucumbir à privatização
de tudo passou a compor um esforço de problematizar os acontecimentos e

R
experiências do processo de singularização contemporâneo (SENNETT, 2003).
Criar tempo para abrir-se ao compromisso, restringir imagens e esconder-se

o
dos olhares que tudo querem saber e vigiar é importante para constituir vacúo-
aC
los e entremeios, os quais permitam tranversalizar as linhas duras e mover
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

o diagrama de forças da sociedade (DELEUZE, 2004). Compor um estilo


de existência como dispositivo afirmativo da vida é mais do que sucumbir à
sobrevivência, em seu aspecto tedioso e acomodado, conformado e submetido
visã
ao mercado e à propaganda. Coloca em xeque a vida gerida como empresa é
um contrapoder e uma contraconduta, hoje. A produção da liberdade passa por
esconder-se, por desacelerar o tempo e por esvaziar a condição de expectador
itor

e compartilhador de imagens rápidas.


a re

Foucault (2010) assinala o quanto é rico refugiar-se para pensar, afas-


tar-se da frenética existência um pouco e tomar ar para retornar às lutas com
a prudência de não ceder ao amor ao poder. A ética sucumbe ao fascismo
quando nos apaixonamos pelo poder. A visibilidade contínua está nesse lugar
de desejar ser venerado e reconhecido o tempo todo, estar em evidência cons-
par

tante. O intolerável da imagem instantânea e da visibilidade, transformada em


Ed

vigilância foi alçado à condição de barreira a romper e a deslocar para outras


composições na invenção das subjetividades. Para tanto, insistir em sacudir
os modelos, pensar por problemas e perguntas ao invés de buscar soluções
ão

para as mesmas perguntas pode ser uma maneira de criar fôlego e ganhar
força, coragem, alegria para agenciar uma política da vida e uma estética da
existência (DELEUZE, 2004). Nesse plano de composição, busca-se um tor-
s

nar-se estrangeiro, mesmo em terra natal e gaguejar na própria língua implica


ver

em fazer brotar a diferença, na quebra da opacidade imagética e mercantil da


propaganda. Poder esconder-se, desejar não ser vedete e fugir da vigilância
securitária, bem como não querer fazer do cotidiano um investimento contínuo
é da ordem da resistência, em uma sociedade que exige visibilidade, segurança
e imagens vigiadas (DELEUZE, 2013).
70

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ver
Ed
s ão itor
par aC
a re
visã R
od V
o aut
or
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão
O CONCEITO DE
TRANSDISCIPLINARIDADE E SUA
APLICAÇÃO NA TRÍPLICE FRONTEIRA

or
DA AMAZÔNIA SUL OCIDENTAL

od V
aut
Enock da Silva Pessoa

R
Introdução

o
O objetivo deste texto é expor o conceito de transdisciplinaridade, par-
aC
tindo das concepções de seu criador, Jean Piaget e de Edgar Morin, que tem
dado uma contribuição teórica significativa a esse conceito nos últimos 40
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

anos. Em seguida, abordamos as características dos povos habitantes na Ama-


visã
zônia Sul-Ocidental (indígenas e colonos) e, por fim, enfatizamos algumas
atividades de cooperação entre Instituições de Ensino Superior de três países
vizinhos localizados na tríplice fronteira da Amazônia Sul-ocidental, que tive-
ram como objeto ações transdisciplinares visando melhorias socioeconômicas
itor

e culturais dos povos habitantes dessa região.


a re

A origem do conceito de transdisciplinaridade

O conceito de transdisciplinaridade é uma criação do biólogo, filósofo


par

e psicólogo Jean Piaget, apresentado na Universidade de Nice, em 1970.


Percebe-se, pelos seus textos, que esse conceito resulta na culminância de
Ed

um processo em amadurecimento, considerando que, em alguns textos, a


exemplo de “Sabedoria e Ilusões da Filosofia” escrito em 1965, ele já bus-
cava demonstrar inconsistências na falta de comunicação entre as ciências
ão

existentes, as ciências em formação e a filosofia, que se caracterizava por uma


busca de aprofundamento das ciências que resultavam em isolamento umas
das outras e da própria Filosofia. Para ele, a epistemologia genética é um
s

exemplo típico de matéria interdisciplinar. Ao longo de sua vida acadêmica,


ver

Piaget transitou entre as ciências e a filosofia em busca de um eixo transdis-


ciplinar, tendo como foco o estudo do desenvolvimento das pessoas, a partir
da infância, do simples para o complexo. Ele procurava demonstrar sua tese
de que a construção do conhecimento é fruto das interações do indivíduo com
seu ambiente significativo, ou seja, o organismo responde e interage com o
meio, começando com o desenvolvimento da inteligência, da linguagem, das
noções de espaço/tempo, de causalidade, através dos estágios: pré-operatório,
74

das operações concretas e das operações formais, descrito em seus livros: A


Epistemologia Genética e Problemas de Psicologia Genética (PIAGET, 1983)
Em outro texto, “Ciências e Filosofia”, Piaget (1983) afirma que a Filo-
sofia se ocupa da busca explicativa da totalidade do real de modo raciocinado.
Assim, a compreensão do saber, de modo transdisciplinar, faria a aproxima-
ção entre o conhecimento filosófico e o conhecimento científico através da
“totalidade do real”. O conceito de “totalidade do real” é subdividido em

or
três componentes:

od V
aut
Em primeiro lugar, refere-se ao conjunto de atividades superiores do
homem e não exclusivamente ao conhecimento: moral, estética, fé (reli-
giosa ou humanista), etc. Em segundo lugar, implica a possibilidade, do

R
ponto de vista do conhecimento, de que, sob as aparências fenomênicas e
os conhecimentos particulares, existe uma última realidade, uma coisa em

o
si, um absoluto, etc. Em terceiro lugar, uma reflexão sobre a totalidade do
real pode naturalmente conduzir a uma abertura no conjunto dos possíveis
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


(LEIBNIZ; RENOUVIER, etc.; PIAGET, 1983, p. 95).

Pode-se notar no texto acima que, para Piaget, o conhecimento, aqui


visã
chamado de “totalidade do real”, é um atributo humano geral, cumulativo,
superior, que deve estar aberto ao diálogo e por isso, é transdisciplinar.
Piaget (1983) explica porque defende a transdisciplinaridade entre Filo-
sofia e as Ciências. Para ele pouco importa se é a filosofia ou se são as ciências
itor

que atuarão como variável independente ou dependente:


a re

A coordenação dos valores constitui a função permanente da filosofia e


que os termos desse problema variam relativamente pouco em relação
à evolução dos conhecimentos, a questão no que lhes concerne, é saber
se foi o progresso desse conhecimento integral visado pela filosofia que
par

ocasionou os conhecimentos particulares, podendo então destacar-se do


tronco comum, sob a forma de ciências especializadas, ou se, pelo contrá-
Ed

rio, foram os progressos de natureza científica (no interior ou no exterior


do domínio dito filosófico, pouco importa) que, impondo uma reflexão
renovada sobre o saber assim transformado, provocaram o desenvolvi-
ão

mento dos sistemas (PIAGET, 1983, p. 98- 99).

Essa relação transdisciplinar entre conhecimento científico e valores


s

da filosofia na contemporaneidade é visto como um conjunto pertencente à


ver

totalidade do real. Piaget propõe uma atitude positiva e de solidariedade entre


ciência e filosofia, semelhante à atitude simpática que os filósofos pré-socráti-
cos manifestavam com a ciência. Ele acreditava na educação como formação
para a autonomia e para a cidadania e que pelas relações de cooperação, as
pessoas poderiam ser educadas para uma vida harmoniosa socialmente
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 75

Edgar Morin e a transdisciplinaridade

O outro pensador que dá sequência ao conjunto de ideias transdiscipli-


nares é Edgar Morin. A sua teoria da complexidade tem como foco pontuar a
importância das trocas entre culturas e componentes curriculares de conheci-
mentos distintos para que as populações de uma determinada região consigam
maior sucesso no desenvolvimento harmônico entre si e com a natureza. Morin

or
(2000) parte do pressuposto de que os grupos humanos têm naturezas comuns

od V
e por isso podem dialogar, criar laços comuns, produzir interações mútuas,

aut
além de poderem ser estudados conjuntamente diante dos consensos e dis-
sensos. As culturas se parecem com organismos vivos porque estão mudando
constantemente no tempo e no espaço, alimentadas por suas estruturas de

R
crenças e costumes, e motivadas interna e externamente por grupos sociais
antagônicos, mas em relação constante com seu ambiente significativo. Este

o
tipo de fenômeno é aqui estudado como pensamento complexo, assim exposto:
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

O pensamento complexo tenta religar o que o pensamento disciplinar e


compartimentado disjuntou e parcelarizou. Ele religa não apenas domínios
separados do conhecimento, como também dialogicamente – conceitos anta-
visã
gônicos, como ordem e desordem, certeza e incerteza, a lógica e a transgres-
são da lógica. É um pensamento da solidariedade entre tudo o que constitui
nossa realidade; que tenta dar conta do que significa originariamente o termo
´complexus` o que tece em conjunto e responde ao apelo do verbo latino
itor

´complexere` abraçar. O pensamento complexo é um pensamento que pratica


a re

o abraço. Ele se prolonga na ética da solidariedade (MORIN, 1997a, p. 11).

As características estruturais da complexidade na teoria moriniana, seguem


a linha de Piaget, na medida em que elas traduzem a transdisciplinaridade como
par

aproximação entre o todo e suas partes: Para Morin (1997; 2001 b e c; 2002)
o pensamento complexo trabalha com a união das coisas pertinentes à vida
Ed

humana como um todo. Em geral, as pessoas têm dificuldades de compreender


um sistema de totalidade porque foram educadas para perceber as coisas de
modo separado e isolado. A cultura ocidental tende a criar atitudes e condutas
ão

que separam e isolam os conhecimentos, resultando em erros de avaliação dos


processos sociais e culturais. Em segundo lugar, o pensamento complexo é
contra determinismos, porque a lógica mecanicista conduz ao erro de achar que
s

todos os eventos estão previamente determinados, deixando de buscar novos


ver

caminhos inter-relacionais. Em terceiro lugar, é preciso lembrar que se vive


sempre num ambiente de incertezas, embora todos sempre busquemos alguma
ilha de certeza. Em quarto lugar, a realidade deve ser vista como multicausal.
A proposta é a da superação da causalidade linear, porque não explica convin-
centemente a realidade, por ser um sistema fechado, envolvendo causa e efeito
76

de modo simplista e maniqueísta. Este paradigma deve ser superado porque é


visto como disjuntor, simplificador e dualista entre razão e imaginação, sujeito
e objeto, liberdade e determinismo, sensível e inteligível, pensamento selvagem
e pensamento domesticado que ao separar e hierarquizar degenera o saber. A
transdisciplinaridade cria diálogo entre os diferentes e opostos.
A transdisciplinaridade valoriza as trocas de conhecimento com base em
princípios éticos norteadores das relações humanas. A auto ética, construída a

or
partir de seis ideias-guia, estas constituintes da restauração do sujeito respon-

od V
sável, a partir de suas interconexões sociais antropológicas e históricas. 1) a

aut
ética da realiança ou do religamento, englobando tudo o que contribui para a
comunicação, a associação, a solidariedade e a fraternidade e opõe-se ao que
fragmenta, desloca, rompe ou fecha a comunicação pela ignorância do outro. 2)

R
a ética do debate, própria da filosofia, da ciência e da democracia, que valoriza a
argumentação lógica e ao mesmo tempo rejeita os julgamentos autoritários e as

o
expressões de desprezo. 3) a ética da compreensão que valoriza o conhecimento
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


do sujeito como sujeito, de modo que as relações interpessoais sejam sempre
dignas e o conhecimento político humanizado. 4) A ética da magnanimidade se
opõe à vingança, à tortura, à punição e ao terrorismo. Essa ética busca quebrar
os ciclos de ódio impiedoso, às vezes vistos em grupos étnicos, religiosos e
visã
de classe social. Sua característica é manifestar atos soberanos de clemência,
de generosidade para com os outros. 5) o incitamento às boas vontades, cuja
orientação se dirige para a abertura do ser humano a todas as tendências e
itor

horizontes. Ela ajuda a visualizar e a compreender os mais diversos tipos


a re

humanos: os inquietos, os bastardos, os órfãos, os generosos etc. 6) a ética da


resistência permite e fornece a energia necessária para que se diga não a todas
as tentativas de imposição autoritária, dogmática e escravizadora de quem quer
que seja sobre o ser humano (PESSOA, 2007; CARVALHO, 1999).
par

As ideias transdisciplinares estão presentes nos instrumentos de formação


da complexidade porque nela subjaz a noção de sistema, onde o todo se insere
Ed

no que é parcial e a parte no todo, de modo que eles ajam sempre de modo
relacional e conjuntamente (MORIN, 2001b). Esta noção pode ser explicada
no entendimento contemporâneo de ecologia. Referindo-se a acontecimentos
ão

no século XX, Morin assim afirma:

Enquanto o início deste século é também o início das ciências da dia-


s

lógica ordem e desordem, a segunda metade é a do surgimento do que


ver

podemos chamar de ciências sistêmicas. Sobretudo a ecologia – porque a


ecologia como ciência tem seu núcleo, a partir dos anos 35, na noção de
ecossistema, isto é, as interações entre os diferentes seres vivos, vegetais,
animais, unicelulares... E esse fenômeno organizado tem, é claro, um certo
número de propriedades que não se encontram nos elementos concebidos
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 77

isoladamente [...]. È preciso pensar que isso também faz parte de uma
desordem aparente, porque a hipótese atualmente em voga é de que, em
sua origem, a Terra era uma lixeira cósmica espontânea – isto é, detritos
cósmicos se juntaram, se agregaram e, então um longo processo ocorre:
o que é mais denso vai para o centro, forma-se a calota, os continentes
etc. (MORIN, 1999, p. 24).

or
A noção de circularidade (looping) diz respeito ao caráter retroativo desse
sistema transdisciplinar, onde o próprio efeito se torna sua causa, rompendo

od V
com o determinismo. A compreensão do mundo através do pensamento em

aut
espiral nos leva à percepção que se pode aprender da observação integradora
e transdisciplinar do nossos mundos: interior e exterior.

R
Estamos num universo entregue ao ruído e num mundo que contém acon-

o
tecimentos que somos incapazes de decifrar. Graças à redundância, quer
dizer, a toda estrutura de conhecimentos adquiridos de antemão, podemos
aC
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extrair uma informação do barulho que nos chega. [...] A informação nasce
do nosso diálogo com o mundo, e nele sempre surgem acontecimentos que
a teoria não tinha previsto[...] Nós mesmos somos uma máquina térmica e
visã
quimicamente regulada [...] através do elo retroativo. Quando ocorre um
desvio em relação a uma norma, a máquina se dedica a corrigir o desvio
[...]. Às vezes o desvio não é corrigido, e então o feedback positivo pode
ir para a explosão ou para a transformação, a revolução etc. Portanto é
itor

absolutamente capital esse pensamento em espiral (MORIN, 1999, p. 28).


a re

Outro componente da complexidade transdisciplinar é o conceito de


circularidade que se autoproduz. O próprio ser humano pode ser um exemplo
desse tipo de circularidade porque num primeiro momento ele é produto bio-
logicamente gerado, que se torna produtor ou o gerador de outras vidas. Tal
par

conceito indica que o sentido da vida pode estar em muitos aspectos: biológico,
histórico-cultural, sociológico e ecológico (PESSOA, 2007).
Ed

A ideia de holograma passa a noção de que um ponto contém toda a


informação do objeto a se destacar. O ser humano possui talvez mais de cem
ão

bilhões de células, mas em cada uma delas existe a totalidade do patrimônio


genético de cada humano.
O princípio dialógico é transdisciplinar porque ele se relaciona com o ciclo
s

nutritivo da natureza, ao permitir a todos os seres vivos (animais e vegetais), se


ver

alimentem uns dos outros como forma de continuidade da própria vida. Assim
também nas relações dialógicas humanas, as trocas de saberes, sentimentos
e experiências e dos humanos com a ecologia. O ciclo da vida é, ao mesmo
tempo, o ciclo da morte. Do mesmo modo, a semente passa pelo processo de
morte ao ser plantada, para se tornar uma árvore que produzirá outras sementes.
78

O princípio da integração entre: sujeito e objeto de conhecimento é


transdisciplinar, porque o objeto em estudo pode ser observado e concomi-
tantemente ser observador. Por fim, o pensar complexo considera também a
possibilidade de verdades e conhecimentos estarem misturados com erros,
conteúdos irracionais e superstições. As crenças de quaisquer natureza, não
estão imunes a erros e visões distorcidas da realidade. Por isso é importante
que, baseados neste princípio, os diversos grupos estejam sempre fazendo a

or
autocrítica de seus princípios, crenças e valores (PESSOA, 2007).

od V
O outro fundamento transdisciplinar do pensamento moriniano refere-se à

aut
proposta de ética da compreensão, baseada no princípio da incerteza e da eco-
logia da ação tolerante. O princípio da incerteza gera insegurança e conflitos
dentro de cada ser humano. Ninguém se sente bem ou feliz por estar inseguro.

R
Não parece motivo de orgulho para nós, humanos, a constatação de que não
nos conhecemos o suficiente para vivermos com a melhor qualidade de vida

o
que poderíamos viver. Somos muito limitados pela nossa fragilidade biológica
aC
diante dos perigos do mundo físico. Temos enormes limitações sensoriais

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que impedem que tenhamos certezas cognitivas e comportamentais. Nossos
órgãos sensoriais em geral não nos dão a real dimensão do mundo externo. Os
olhos e os ouvidos, por exemplo, captam apenas uma pequena percentagem
visã
da realidade de luz e som existentes no mundo ao nosso redor. Isso torna o ser
humano bastante vulnerável na captação da realidade (PESSOA, 2007). Os
instrumentos tecnológicos que facilitam em muitos aspectos a vida humana
itor

criam riscos, às vezes, impossíveis de prever e evitar. A ética da compreensão


a re

é um instrumento da transdisciplinaridade. Ela se baseia em três princípios: O


princípio da livre expressão; O princípio da tolerância; O princípio do respeito
pela verdade dos outros em relação à nossa própria verdade. O contrário de
uma verdade não é um erro, mas uma verdade contrária (PASCAL, citado
por MORIN, 1997 b). O contrário de uma verdade profunda não é um erro,
par

mas uma outra verdade profunda (NIELS BOHR, citado por MORIN, 1997
Ed

b). O inimigo está dentro de nós mesmos e não nos que afirmamos serem
nossos inimigos, afirma Morin.
As teorias de consistência cognitiva, formuladas nas décadas de sessenta
ão

e setenta, procuram explicar o fenômeno humano da busca de equilíbrio em


face das incertezas da vida, entre suas próprias crenças e sentimentos de um
lado, e os acontecimentos físicos e sociais, de outro lado (HEIDER, 1970;
s

PESSOA, 1983; 2003).


ver

Cada pessoa se movimenta, ao longo da sua existência, entre certeza


e incerteza. Ainda que naturalmente se abomine a incerteza porque ela traz
instabilidades, não se pode negá-la. A transdisciplinaridade pode nos oferecer
novos caminhos para pensar, entender nossos limites, e quem sabe, transformar
certezas em incertezas e seu oposto. Enfim, dialogar com o mundo e a natureza.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 79

Os Saberes para a Educação do Futuro numa abordagem


transdisciplinar

Qual o rumo mais adequado para que a humanidade evolua na direção


de uma educação mais consciente de si, do mundo científico e sociocultural?
Como podemos alcançar uma maior percepção dos problemas que nos cercam
e que permitam vislumbrar soluções que tragam benefícios, não apenas para

or
nós mesmos, mas para o maior número possível de pessoas? Morin (2000)

od V
sugere em Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, que se dê uma

aut
guinada na direção gnosiológica através da busca da implantação de uma edu-
cação consciente, laica, democrática, livre e comprometida com o bem-estar de

R
todos os segmentos da sociedade. Essa educação laica penso eu, por ser livre,
consciente e democrática, não poderá cercear as liberdades de opinião e crença
de indivíduos e pequenos grupos de se manifestarem segundo os ditames de

o
sua consciência, respeitando sempre os limites legais (PESSOA, 2007).
aC
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1. Precisa-se ensinar que todo conhecimento está sujeito a erros e


ilusões, por isso é preciso “introduzir e desenvolver na educação o
estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhe-
visã
cimentos humanos” (MORIN, 2000, p. 14). A busca desse conhe-
cimento transdisciplinar vai aproximar pessoas com pensamentos
diferentes e antagônicos, que através da dialogia, muito provavel-
itor

mente colocarão em xeque os possíveis erros e ilusões.


a re

2. Precisa-se ensinar que o conhecimento transdisciplinar trabalha com


a noção de conjunto, que facilita a compreensão dos problemas uni-
versais em toda sua complexidade, inserindo nele os conhecimentos
parciais e locais, sem fragmentá-los. Partindo do fato de que vivemos
par

num ambiente cada vez mais global, todos precisam se conscientizar


de que estão submetidos aos mesmos problemas da vida e da morte
Ed

e que partilham do mesmo destino, por isso devem estar conscientes


que têm uma identidade terrena comum, e que precisam defendê-la.
3. Precisa-se ensinar que cada ser humano traz em si, concomitantemente,
ão

a condição de um ente físico, biológico, psíquico, cultural, social e


histórico. Tal compreensão evidencia o elo indissolúvel entre a unidade
e a diversidade das pessoas de todos os lugares e de todos os tempos.
s

4. Precisa-se ensinar que, baseados nos princípios científicos da Física,


ver

da biologia e da História, as pessoas deveriam ser educadas para


enfrentar possíveis incertezas e imprevistos da vida. É preciso
aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arqui-
pélagos de certeza. (MORIN, 2000, p. 16). A interdisciplinaridade
pode ajudar as pessoas muito focadas ideologicamente a praticar um
80

maior equilíbrio em suas relações ingroup (nós) e outgroup (eles),


a partir deste princípio (PESSOA, 2007).
5. Precisa-se ensinar que a compreensão mútua entre todos os seres
humanos é de vital importância para a superação de racismos, xeno-
fobia e atitudes beligerantes para, em lugar disso, se trabalhar a edu-
cação para a paz em todos os grupos sociais, comunitários, religiosos.
As diferenças de crenças, de atitudes, de rituais e de comportamentos

or
não deveriam ser causa de brigas e ressentimentos, mas, deveriam

od V
gerar oportunidades de aproximação entre os diferentes grupos.

aut
6. Precisa-se ensinar o caráter ternário da condição humana que leva
as pessoas a se perceberem, como indivíduo/sociedade/espécie.
Com base nessas premissas, defende-se uma ética antropológica,

R
de desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das par-
ticipações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie

o
humana (MORIN, 2000, p. 17).
aC
7. Precisa-se ensinar a antropoética (MORIN, 2000), como o sétimo

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saber necessário para se mudar a qualidade da educação. Existem
diversos aspectos a serem considerados: um individual, outro social
e outro genético (relativo à espécie). A antropoética trabalha a liga-
visã
ção entre: indivíduo, sociedade e espécie. Cabe a nós humanos
desenvolvermos, concomitantemente, a ética e a autonomia pessoal,
além de se trabalhar a participação nas responsabilidades sociais, já
itor

que partilhamos de destinos comuns locais e globais.


a re

A antropoética somente é aplicável onde há democracia, porque ela per-


mite a interação entre indivíduos e sociedade na abertura de caminhos de soli-
dariedade e responsabilidade cidadãs. Com o voto se elege os representantes
políticos, cujos mandatos são acompanhados pelo cidadão no exercício de
par

sua responsabilidade social e política. A democracia permite a circulação do


poder, a partir de regras preestabelecidas, onde os atores sociais controlam e
Ed

são controlados (PESSOA, 2007). A democracia está sempre em construção,


por isso ela não pode ser absoluta.
ão

A ética não pode reduzir-se ao político, o político não pode reduzir-se


à ética. Não podemos nem opor absolutamente, nem complementarizar
s

harmoniosamente estes dois termos. Estamos condenados à sua dialógica,


isto é, manter o seu elo indissociável e ao mesmo tempo o seu antagonismo
ver

irredutível. Só essa dialogia pode fazer da política a arte do incerto, uma


grande arte ao serviço dos humanos (MORIN, 1997c, p. 202).

As Ciências Econômicas e as novas tecnologias funcionam melhor


quando estão a serviço da cidadania e da justiça social através do controle
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 81

social, mediado pelas associações e representações sociais da totalidade dos


segmentos populacionais (PESSOA, 2007).
O sistema democrático, através de regras iguais para todos, facilita o estabe-
lecimento da liberdade. Morin (1999) divide a liberdade em interior ou subjetiva
(aquela mentalmente possível e liberdade exterior ou objetiva (aquela material-
mente possível, pela ação). Cada pessoa é livre quando pode tomar a decisão de
escolher entre duas ou mais alternativas. Se uma pessoa se sente livre ela pode

or
tentar agir e se dar conta de suas próprias limitações e restrições, sejam elas eco-

od V
lógicas, hereditárias etc. Liberdade para Morin significa “autonomia dependente”.

aut
O que produz autonomia produz dependência, que produz autonomia [...]
genos (organização genética) dá ao anthropos autonomia com relação ao

R
oikos (ambiente natural), mas colocando-o, ao mesmo tempo, em sua
dependência [...] a auto-organização viva associa, no indivíduo, de modo

o
indissociável e complementar, o genos (a espécie, o patrimônio heredi-
aC
tário, o processo de reprodução) e o phenon (o indivíduo hic et nunc) no
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mundo dos fenômenos. A existência social dá autonomia ao ser humano


através dos desenvolvimentos técnicos ligados a campos diversos, tais
como agricultura, transportes, indústria, comunicações, etc., que se tornam
visã
em efetiva dominação da natureza e que resultam na multiplicação das
dependências (MORIN, 1999, p. 14-15).

Somos sujeitados culturalmente através de normas, tabus, mitos e cren-


itor

ças internalizadas. A interface da liberdade com a dependência faz com que


a re

a sociedade se movimente em torno das relações sociais e costumes das cul-


turas locais e gerais, facilitando tanto as mudanças quanto a sua resistência.
O indivíduo não só é limitado por sua herança genética e sujeitado pela
sociedade e pela cultura, mas também pode ser dominado por suas ideias. Os
par

deuses socialmente constituídos e alimentados pelas comunidades (MOSCO-


VICI, 1990) submetem as pessoas a suas crenças valores e determinam o que
Ed

elas devem fazer. O poder da ideologia tem feito muitos estragos entre os seres
humanos ao longo dos séculos, seja via religião dogmática e autoritária, seja
via regimes políticos autoritários e outras formas de dominação.
ão

Quantos milhões de indivíduos não terão sido vítimas da ilusão ideológica,


acreditando trabalhar para a emancipação humana, mas trabalhando na
s

verdade para sua dominação? [...] A liberdade encontra-se numa relação


ver

dialógica com as ideias, que possuímos e que, simultaneamente, nos pos-


suem (MORIN, 1999, p. 21).

Os caminhos da liberdade não estão nas concepções deterministas e autori-


tárias, porque elas induzem as pessoas à ilusão advinda de crença na existência
82

de uma verdade única que deva ser imposta. Uma determinação autoritária
resultará em ideias reducionistas que certamente implicarão em políticas sociais
que privilegiarão apenas as elites da sociedade. A teoria da complexidade afirma
e discute a falência das explicações unilaterais e totalizadoras. Em vez disso,
propõe a criação da civilização das ideias e com ela superar a disciplinaridade
fechada, da especialização impotente, da arrogância da superioridade da cultura
científica sobre os saberes da tradição secular do ser humano. As concepções

or
puramente espiritualistas são rejeitadas porque defendem apenas o lado dos

od V
valores espirituais, esquecendo que os humanos precisam também de interação

aut
com as condições físicas, biológicas, histórico-culturais e sociológicas. A trans-
disciplinaridade se refere à troca de todos os saberes vividos pelos humanos
sem hierarquizá-los ou privilegiar uns sobre outros.

R
A autonomia humana e as possibilidades de liberdade se produzem, não

o
ex nihilo, mas pela e na dependência anterior (patrimônio hereditário), na
aC
dependência exterior (ecológica), na dependência superior (a cultura), que

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coproduzem esta autonomia, a permitem, a nutrem, ao mesmo tempo em
que a limitam, a subordinam, estando em permanente risco de dominá-la
e destruí-la (MORIN, 1999, p. 22).
visã

O sistema é visto como fator de religação ou conexão entre os mais diver-


sos saberes humanos. Um desses fatores em que a teoria busca demonstrar,
são os benefícios sociológicos de representações, funções e efeitos da religião
itor

ou da religiosidade entre os seres humanos. Morin & Kern (2001) se mostram


a re

interessados em evidenciar a eficácia da religião quanto à sua possibilidade de


produção dialógica de relacionamentos pessoa-pessoa, pessoa-comunidade,
pessoa-cultura, pessoa-ambiente. Para os que têm fé, a religião não se limita
ao aspecto sociológico do cultivo das boas relações entre os humanos. Além do
par

poder de ligar o humano ao intangível, ao sublime, a cultura religiosa se conecta


a outros aspectos das vidas das pessoas, desde o nascimento até a morte. Ela
Ed

também implica em relacionamentos ou em alguma forma de união entre pes-


soas e grupos humanos mais ou menos iguais, ou até mesmo diferentes entre si.
O sistema religioso faz parte dos sistemas sociais. Segundo Luhmann (2016, p.
ão

30), os sistemas sociais têm entre suas muitas características, a diferenciação


funcional e sistêmica, porque têm “a capacidade de produzir relações consigo
mesmos e de diferenciar essas relações perante as do seu ambiente”. Eles
s

diferenciam as pessoas, que são sistemas psíquicos ancorados na consciência,


ver

dos sistemas sociais, referenciados na comunicação, colocando ambos como


relevantes e complementares na compreensão do todo social.
Por que a complexidade pode servir de embasamento do fenômeno das
culturas religiosas e políticas? Porque ele permite ver estes fenômenos encar-
nados no ser humano biológico (indivíduo) com suas crenças ideológicas,
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 83

integradas e dependentes da cultura, da sociedade e da ecologia. As formas


culturais, religiosas e as relações de cidadania não são vistas como algo com-
partimentado ou isolado das outras atividades humanas, mas percebidas como
partes (não repartidas) e integrantes de uma totalidade, onde todas as áreas em
interdependência se complementam. As experiências humanas, na vida política
secular ou laica, são afetadas na mesma medida em que afetam as experiências
religiosas e vice-versa. Na prática, as pessoas raciocinam, sensibilizam-se e

or
tomam suas decisões e atitudes com base nas suas experiências totais. Circuns-

od V
tancialmente, determinados fatores pesam mais que outros, mas em função de

aut
valores socialmente postos, em oposição aos valores do indivíduo ou de seu
grupo mais próximo. Uma pessoa religiosa levará para seu ambiente laico de
cidadania suas esperanças, crenças e vivências e trará para o ambiente religioso

R
seus planos, objetivos, frustrações e as expectativas de todos os outros espaços
de sua vida. Na cultura ocidental, fortemente influenciada por valores religio-

o
sos cristãos, as pessoas não religiosas também tenderão a manifestar crenças,
aC
valores e atitudes próprios da cultura cristã. As vidas: política e religiosa for-
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mam um sistema complexo porque ambas acontecem em conjunto com outros


sistemas de pensamento, de sentimento, de atitude e de ação no ser humano.
visã
Extensão universitária transdisciplinar em comunidades da
tríplice fronteira Brasil/Peru/Bolívia
itor

A tríplice fronteira na Amazônia Sul-Ocidental é uma região ambiental-


a re

mente estratégica porque ainda é um santuário ecológico, quase totalmente


preservado, com cerca de 85% de florestas virgens. A Rodovia Transoceânica
une as capitais: Rio Branco (Brasil), Cobija (Bolívia) e Perto Maldonado (Peru)
e outras cidades dos três estados (Acre, Pando e Madre de Dios). Iñapari (Peru)
par

e San Pedro de Bolpebra (Bolívia). Saiba que na palavra bolpebra, que signi-
fica: Bolívia, Peru e Brasil, existe implicitamente uma ideia transdisciplinar.
Ed

Desde 1890 até a década de 1970, toda essa vasta região era totalmente ocu-
pada pelos trabalhadores da floresta na exploração da borracha da seringueira. No
caso brasileiro, os trabalhadores vieram do semiárido nordestino. Muitos serin-
ão

gueiros/caucheiros bolivianos e peruanos desceram a serra e ocuparam a Amazô-


nia. De 1970 para cá, a profissão de seringueiro acabou-se, e a região se tornou,
basicamente, uma fronteira de exploração madeireira e produção agropecuária.
s

Do ponto de vista geopolítico, no final do século XIX e início do século


ver

XX brasileiros e bolivianos entraram em confronto bélico. A “Guerra del Acre”


foi travada entre seringueiros brasileiros e o Exército boliviano, por causa da
borracha, o chamado “ouro negro” (PESSOA, 2007; 2014 a; 2014 b; 2016;
2020 a; 2020 b). Com a assinatura do Tratado de Petrópolis (1903) esse con-
flito foi totalmente superado. A História do desenvolvimento socioeconômico
84

e cultural dessa fronteira vem testemunhando a criação e ampliação de laços


de amizade e amor entre peruanos, bolivianos e brasileiros desde os tempos
da produção da “goma” da borracha. O convívio é de vizinhança, de trocas
educacionais, religiosas, comerciais, linguísticas, no campo do trabalho e até
casamentos são muito comuns ali, entre esses povos de diferentes nacionali-
dades e etnias, assim como outros tipos de relações fronteiriças que ocorrem
todos os dias (PESSOA, 2006; 2020 a).

or
Alguns fatores são fundamentais para se entender melhor a realidade da

od V
convivência social e as redes de comunicação entre os povos dessa região nos

aut
dias atuais. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que quase todos eles têm uma
origem comum: são filhos originários da floresta. Seus pais e avós foram serin-
gueiros e eles ainda mantêm alguma forma de relacionamento com o mundo

R
rural. As populações que vivem na Amazônia, em geral, são descendentes de
indígenas que habitavam na região e de nordestinos que vieram trabalhar no

o
extrativismo da borracha, formando o tipo caboclo. Em segundo lugar, preci-
aC
samos lembrar que não havia escola no seringal, por isso os seringueiros eram

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analfabetos, seus filhos também o eram e, por isso, até hoje o Acre é deficiente
em educação básica. Em terceiro lugar, quanto à estrutura viária, sempre foi o
rio que comandou a vida da região. Dos últimos trinta anos para cá, as cidades
visã
estão cada vez mais próximas umas das outras após a construção da rodovia.
As capitais dos três estados fronteiriços estão situadas num raio máximo de 575
quilômetros de distância (Rio Branco – Puerto Maldonado). Entre Rio Bran-
itor

co-Acre-Brasil e Cobija-Pando-Bolívia são 240 quilômetros; Entre Cobija e


a re

Puerto Maldonado, na Regional de Madre de Dios-Peru, são cerca de 340,


pela BR 317, a Rodovia Transoceânica. Mas, distante da rodovia, as cidades
menores ainda usam o sistema viário tradicional na região, o fluvial, que fun-
ciona através de pequenos barcos motorizados e canoas motorizadas e a remo.
As instituições de ensino superior dessa tríplice fronteira amazônica foram
par

criadas a partir dos anos 1970, justamente no momento em que os seringais


Ed

brasileiros entravam em falência e eram vendidos para os fazendeiros e peque-


nos produtores rurais do Sul e do Sudeste do Brasil, que transformaram parte
desses seringais em campos de gado. Com a falta de trabalho nos seringais as
ão

cidades foram invadidas pelas famílias seringueiras, que ocuparam as periferias,


criando as chamadas “invasões” de terra de antigas fazendas localizadas no
entorno das cidades (PESSOA, 2020 a, b). Assim, criou-se uma pressão para o
s

crescimento das cidades e consequentemente, a sua estratificação social, com


ver

a valorização dos lotes de terra localizados no centro das cidades.


A Universidade Federal do Acre – UFAC foi idealizada, logo após a
passagem do Território Federal do Acre à categoria de Estado, por uma elite
intelectual da cidade de Rio Branco ligada à Justiça Estadual. Seu início se
deu em 1964, com a criação do Curso de Direito e sua federalização ocorreu
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 85

em 1974 com a criação de mais cinco cursos. Hoje a UFAC tem quase cin-
quenta cursos de graduação. A Universidad Amazónica de Pando–UAP (Bolí-
via) foi criada em 1984 e a Universidad Nacional Amazónica de Madre de
Dios –UNAMAD (Peru) foi criada no ano 2000.
Entre 1999 e 2000 alguns intelectuais pertencentes a essas universidades
e líderes regionais organizaram a primeira iniciativa transdisciplinar para
discutir problemas e oportunidades regionais envolvendo: trabalhadores da

or
floresta e do campo, as diversas etnias de povos indígenas, estudantes etc.

od V
A Iniciativa e Fórum Madre de Dios, Acre e Pando (MAP) era um grupo de

aut
pessoas interessadas em discutir a região de modo transdisciplinar. Ao longo
desses anos até 2015, aconteceram cerca de dez fóruns MAP nas cidades de
Rio Branco, Brasiléia/Epitaciolândia, Cobija e Puerto Maldonado. As áreas

R
de convergência transdisciplinar eram Direitos humanos, Economia/ políticas
públicas e Meio ambiente. Nos intervalos entre os fóruns anuais, as áreas

o
específicas acima citadas se reuniam em algum local da região tri-nacional.
aC
Eu participei de quase todos esses Fóruns e de “mini-maps”, como um dos
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líderes da área de Direitos Humanos (PESSOA, 2014 a).


Uma outra ação transdisciplinar desenvolvida na tríplice fronteira
entre 2010 e 2014, da qual eu também tive a honra de participar de modo inte-
visã
gral e ativamente, foi o Projeto de Transferência de Tecnologia da Metodologia
Projeto Rondon para as Universidades Peruanas, patrocinado pela Agência
Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores com a
itor

participação da “Asamblea Nacional de Rectores” do Peru. Participaram direta-


a re

mente dessa ação uma equipe igualitária de Madre de Dios nas cidades de Assis
Brasil (Brasil), Iñapari, Ibéria (Peru) e San Pedro de Bolpebra (Bolívia). As
áreas trabalhadas de modo transdisciplinar foram: Cidadania e Cultura; Saúde
e Meio ambiente. O objetivo dessa ação foi despertar a consciência daquelas
comunidades para uma postura política e cidadã crítica. Metodologicamente,
par

enfatizávamos as ações de extensão como busca de diálogo entre academia e as


Ed

comunidades locais, concebidas como um tecido unido ao todo cultural/social/


ecológico. As ações se desenvolveram durante quatro anos consecutivos com:
palestras dialogadas nas escolas, nas associações comunitárias e outros locais
ão

públicos envolvendo os povos indígenas Yine (da Aldeia localizada no antigo


Seringal Bélgica), camponeses, moradores dos diversos bairros das cidades,
palestras educativas na emissora de rádio da cidade de Iñapari etc.
s

As principais atividades desenvolvidas foram: 1) Apresentação de filmes


ver

abordando temáticas sociais-familiares e comunitárias, seguidos de debates


e discussões sobre os temas apresentados a cada dia; 2) Aulas de danças fol-
clóricas dos três biomas peruanos: Costa, serra e selva; 3) Prática de canto
coral com pessoas das cidades interfronteiriças com ensaios e apresentações
em Português e Espanhol para as pessoas das comunidades; 4) Contações de
86

histórias para crianças da região; 5) Aulas dialogadas nas escolas públicas


sobre educação e cidadania, educação ambiental e boas práticas de saúde.
6) Constituição de grupos permanentes de voluntários ambientais locais; 7)
Visitas do grupo operativo às famílias das três cidades com orientação em
saúde, cidadania e meio ambiente, direitos humanos, nutrição, DSTs, hiper-
tensão arterial para idosos, mulheres, professores, funcionários, crianças,
adolescentes e todos os demais segmentos da comunidade. A interação foi

or
positivamente evidenciada pela resposta da comunidade: grande afluxo de

od V
pessoas participando de cada etapa e do enceramento das temporadas.

aut
Outra atividade transdisciplinar foi desenvolvida nessa região tri-nacional,
quando estive à frente da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Universidade
Federal do Acre (nov. 2012-nov. 2016 e em 2018). Iniciamos e buscamos man-

R
ter contatos permanentes com professores, técnicos e alunos da UNAMAD
(Peru) e da UAP (Bolívia) com o intuito de fortalecer os laços transdiscipli-

o
nares entre as nossas instituições de ensino superior da fronteira, inclusive
aC
com aqueles colegas da Unamad que já haviam trabalhado conosco no projeto

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citado anteriormente. Foi criado um projeto de extensão intitulado: “Seminário
Internacional de Extensão Universitária” (SIEU), com seis edições seguidas,
divulgando saberes científicos e culturais, protagonizados pelas Universidades
visã
Federais localizadas na fronteira dos três países. Para as diversas edições do
SIEU, além das universidades da nossa fronteira tri-nacional, participaram outras
Instituições de ensino Superior da Amazônia brasileira, tais como Universidade
itor

Federal do Pará, Universidade Federal de Rondônia, Universidade Federal de


a re

Roraima, Universidade Federal de Tocantins, além da Universidad Pablo Olavid,


da Espanha e Universidad Nacional San António Abad de Cusco entre outras.

Considerações finais
par

O desenvolvimento da humanidade, ao longo dos séculos e milênios tem se


Ed

mostrado como uma história de benefício para as elites, geralmente deixando as


massas populacionais sem acesso às oportunidades. A tendência das Ciências e
tecnologias têm sido direcionadas à especialização e à disciplinaridade fechada.
ão

Contrariando essas tendências de privilegiar as elites e focar unicamente nas


especializações, este trabalho destacou o que vem sendo feito com a transdiscipli-
naridade desenvolvida por Piaget e Morin aplicando-a no diálogo entre os povos
s

da Amazônia Sul-Ocidental, como forma de superação de suas dificuldades.


ver

Os povos da tríplice fronteira da Amazônia Sul-Ocidental são aprendizes e


praticantes das concepções transdisciplinares na vida comunitária, ao enfrentarem
os mais diversos obstáculos físicos, de saúde, sociais, culturais e espirituais oriun-
dos da própria cultura e acharem soluções com base na troca de saberes da natureza
da própria floresta, nos saberes sociais e culturais, usando sua criatividade.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 87

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or
od V
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Tradução: Natanael C. Caixeiro, São Paulo: Abril Cultural, 1983.

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2. ed. Tradução: Celia E. A. Di Piero, São Paulo: Abril Cultural, 1983.

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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

visã
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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão
O USO DAS IMAGENS NAS
NARRATIVAS EM TEMPOS DE
PANDEMIA DA COVID-19

or
od V
Denise Machado Cardoso

aut
Introdução

R
A situação de isolamento social imposta pela pandemia decorrente do

o
Vírus SARS-CoV-2 provocou alterações substanciais no cotidiano de dife-
aC
rentes grupos sociais em escala planetária. Houve modificações nas rotinas
de trabalho, lazer e nas práticas familiares, ocasionando impactos socioam-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

bientais ainda em processo, mas que pedem estudos e reflexões acerca desse
momento histórico. Nesse cenário se observa que a interconectividade está
visã
sendo mais intensa, fazendo com que a comunicação por meio virtual seja
bastante elevada. Notadamente, as mídias sociais (ou as redes sociais) que
se utilizam de mensagens rápidas e com vocabulário adequado às limitações
itor

por caracteres (como é o caso do Twitter), Giff1, ou aquelas com vídeos, com
a re

fotografias e com os memes2, passaram a ser relevante instrumento de infor-


mação e comunicação nesse período de confinamento.
Baseada na Antropologia Visual e tendo como estratégia de pesquisa
a etnografia no ciberespaço, ou etnografia virtual, observei diariamente
postagens de pessoas que tem perfil no Instagram e no Facebook e suas
par

manifestações intertextuais referentes a COVID-19. Parafraseando Etienne


Ed

Samain (2012), busco compreender como pensam as imagens? Como é


possível compreender as realidades sociais a partir das diferentes nar-
rativas audiovisuais? Nesse exercício etnográfico faço uma análise das
ão

narrativas relacionadas ao contexto atual brasileiro e, em parte, àquelas


próprias às realidades do Estado do Pará. Para tanto, busquei identificar e
agrupar como as pessoas se manifestam sobre os acontecimentos que ora
s

impactam em suas vidas.


ver

1 Paulo Korpys, e sua equipe de investigação, define Gif (Graphics Interchange Format ou formato de inter-
câmbio de gráficos) como “uma imagem em loop que não é bem um vídeo, que não tem botão de reprodu-
ção nem som, que se repete até desviar o olhar (KORPYS, 2019) ”. Gif pode ser considerada como uma
micronarrativa utilizada na Internet.
2 A palavra meme tem origem grega, significando imitação. No contexto da Internet passou a ser utilizado como
o processo de “viralização” de uma informação, imagem ou vídeo e, geralmente, apresenta teor humorístico
(DAMASCENO, 2017). Uma outra característica dos memes é a utilização de intertextualidade, ou seja, há
algum diálogo/texto que o precede.
92

Massimo Canevacci, ao discutir fenômenos abrangentes, utiliza-se da


ideia proposta por Ronald Robinson de que o Glocal é um conceito pertinente
nas explicações de várias situações do século XXI, posto que ocorre um mix
entre o Global e o Local desde a intensificação do processo de Globalização.
Para Canevacci (2013), a trama das redes comunicacionais é cada vez mais
complexa e caracterizada pela acentuada interatividade em termos da paisa-
gem do Glocal. Diante disso, a pandemia da COVID-19 se apresentou como

or
um desses fenômenos planetários que abrangem diversas culturas e que são

od V
interpretados e codificados em termos locais.

aut
A etnografia virtual me permitiu perceber que o Brasil vive um grande
desafio trazido pela pandemia. De um lado se tem os efeitos do próprio Vírus
SARS-CoV-2 e por outro há os embates decorrentes dos direcionamentos

R
políticos no âmbito federal e estadual. As narrativas apresentadas ao longo
desse período de estudo demonstram um imbrincado cenário onde constam

o
discussões nas quais destaco a saúde pública como um todo, as desigualdades
aC
sociais, os cuidados preventivos pela higiene e o isolamento social, as disputas

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


políticas e protagonismo em diferentes níveis da gestão pública, e os conflitos
provocados entre grupos que trazem percepções diferenciadas.
Se nos demais países o enfrentamento aos efeitos do Vírus SARS-CoV-2
visã
demandou esforços em várias frentes, no Brasil tem-se um outro elemento
que apresenta esse país com o diferencial de ter uma crise na saúde e política.
Esse embate duplamente perverso para a população veio marcado pela guerra
itor

contra os fatos em “tempos de Fake News”, pois a disputa entre narrativas


a re

acerca do que se enfrenta marca a negação do conhecimento científico, mesmo


que sustentado em evidências científicas, e as recomendações da Organização
Mundial de Saúde (OMS) e instituições de pesquisa.
As imagens trazidas neste estudo são uma amostra do que circulou no
período em que se iniciava o contágio pelo vírus e no momento em que houve
par

maior incidência da COVID-19. Várias foram as postagens que retratam em


Ed

charges, gravuras e memes os desafios que essa pandemia nos obrigou a


enfrentar. Na virtualidade, as práticas cotidianas foram reatualizadas em prol
da defesa da vida e nesse contexto são exemplares as expressões artísticas
ão

retrabalhadas em formato de lives para atender aos anseios de um público


recolhido em casa, a participação política e o debate sobre decisões governa-
mentais também apresentaram manifestações on line. Esses e outros aspectos
s

da vida em sociedade ganharam uma maneira própria e sem precedentes, posto


ver

que passaram a ocorrer via Internet.


A vida como um todo foi tema de reflexão e as mídias sociais se torna-
ram terreno fértil para as conversas e discussões dos mais variados temas.
As imagens postadas são apenas uma parte das narrativas que compuseram
a agenda de debates em tempos de pandemia.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 93

Antropologia visual e a etnografia virtual em tempos de pandemia

A campanha pelo isolamento social, precisamente aquela que incentiva


as pessoas a ficarem em casa, foi utilizada como uma forma de conter o
avanço da pandemia pois, segundo indicação da Organização Mundial da
Saúde (OMS) em declaração divulgada em janeiro de 20203, a diminuição
de aglomerações produz eficácia no ritmo da proliferação e na quantidade

or
de pessoas infectadas, e consequentemente, reduz o número de óbitos. No

od V
estado do Pará, a campanha favorável ao isolamento social teve início em

aut
meados do mês de fevereiro e contou com a adesão do governo do estado e
instituições educacionais em vários níveis de ensino. Como já mencionado,

R
esse isolamento intensificou o uso de mídias sociais para o desenvolvimento
de diferentes tarefas, provocando o aumento no acesso a diferentes sites e

o
plataformas, bem como na troca de mensagens por diversos aplicativos.
No estudo sobre a maneiras de narrar esse momento optei pelo uso de
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

imagens, pois na pesquisa antropológica, e em especial na Antropologia


Visual, a abordagem preza a investigação sobre a maneira como as pessoas
se expressam a partir de fotografias, gravuras, desenhos e outras artes visuais.
visã
Assim, a observação das imagens divulgadas em aplicativos e perfis passou a
ser feita desde meados de março de 2020, ocasião em que passei a trabalhar
em casa devido à suspensão de atividades presenciais na Universidade Federal
itor

do Pará4, instituição na qual atuo como docente.


A estratégia de pesquisa que utilizei foi baseada na etnografia no ciberes-
a re

paço, ou etnografia virtual, o que me levou a observar diariamente as postagens


de pessoas que tem perfil no Instagram e no Facebook, e suas manifestações
referentes ao atual contexto referente a COVID-195. Neste contexto, analiso as
postagens feitas em três momentos distintos, mas próximos em termos desse
par

evento. O primeiro abrange os dias de 20 a 30 de março de 2020, período em


houve intensificação da campanha para as pessoas aderirem ao isolamento
Ed

social, usualmente denominada como “Fica em casa”; o segundo se refere ao


ão

3 A OMS divulgou em seu site oficial um documento específico sobre a pandemia do SARS-CoV-2.
4 A partir da decisão colegiada pela interrupção de aulas, eventos acadêmicos e administrativos no molde
presencial, a maneira como passaram a ser exercidas as funções de docente e pesquisadora foi, predomi-
nantemente, via internet. A utilização do chamado home-office, ou trabalho em casa, provocou intensidade
s

na troca de mensagens e postagens por diferentes assuntos e motivações dentre aqueles profissionais
ver

que puderam permanecer em seus lares sem interrupção de seus afazeres. Esse cenário foi um fator
determinante para a realização dessa pesquisa, pois chamou minha atenção a intensidade e volume de
mensagens que passaram a ser trocadas nesse período.
5 Embora haja várias redes sociais como é o caso do Reddit e do LinkedIN, houve uma preferência para as
mídias/redes sociais que tenham ampla adesão e que possibilitem a participação de internautas. O Reddit
é um fórum de debate com reduzida adesão no Brasil e o do LinkedIN é voltado, predominantemente, para
a apresentação de perfil profissional.
94

período entre os dias 01 a 10 de abril, momento em que o debate se intensificou


devido as ações do governo federal brasileiro e a repercussão internacional que
isso acarretou; o terceiro período em que realizei a observação compreende
o intervalo que se inicia no dia 20 de abril e se estende até dia 30 desse mês,
momento em que o presidente Jair Bolsonaro se posicionou diante do aumento
expressivo do número de óbitos provocados pela COVID-19.
Na observação das postagens sobre a campanha “Fica em casa” e os

or
desdobramentos acerca do COVID-19 procurei enfatizar aquelas que traziam

od V
memes e charges relacionados a esses temas e outros correlatos. Destarte,

aut
realizei a classificação das imagens postadas de acordo com os assuntos abor-
dados no período indicado.

R
As reações expressas nas postagens em diferentes comunidades virtuais
indicam o debate sobre as políticas públicas de saúde, questões sobre trabalho e

o
renda, ações governamentais em diferentes instâncias, o embate entre manifes-
tantes favoráveis ou desfavoráveis ao atual Presidente da República, e a questão
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


geracional posta em destaque devido à maior periculosidade do vírus para certas
faixas etárias e portadores de doenças prévias, tidas como “grupos de risco”.
Em muitos casos, as pessoas compartilham e postam as mesmas coisas
visã
em diferentes mídias sociais, repetindo as imagens. Devido à particularidade
de cada uma dessas mídias, há reações e comentários de outras pessoas. Con-
tudo, o interesse desse trabalho é observar como se expressam os titulares dos
perfis a partir das imagens postadas e compartilhadas nas comunidades virtuais
itor

a quem pertencem. Assim, a etnografia no ciberespaço ou antropologia virtual


a re

mostrou-se como uma alternativa para conhecer diversas realidades sociais6.


Uma das discussões interessantes da Antropologia Visual diz respeito aos
usos das imagens nos trabalhos apresentados por quem se utiliza da etnografia
como uma estratégia de pesquisa. As imagens são algo que não se encerra em
par

mera ilustração dos textos escritos, pois trazem em si múltiplas possibilidades


de interpretação do fazer etnográfico, das pessoas envolvidas na pesquisa
Ed

e suas idiossincrasias, das técnicas de captura das imagens, das realidades


investigadas, dentre outras questões. A complexidade se dá, portanto, devido
à maneira como as diversas formas de expressão das realidades pela imagem
ão

(fotografia, cinema, gravuras, desenhos...) são divulgadas.


É importante trazer ao debate o predomínio da escrita nos trabalhos cien-
s

tíficos. No dizer de Etienne Samain (1995) há uma ênfase secular na escrita,


ver

o que nos impede a exercitar outras formas de narrativas na apresentação de


resultados de nossos trabalhos científicos. Deixamos de utilizar as imagens

6 Uma outra maneira de debater a etnografia nesses tempos de confinamento voluntário foi proposta nas
reflexões sobre o que defino como Etnografia da Janela, cujo texto foi publicado em 10 de abril de 2020 no
Blog “Cofinaria: etnografias em tempos de pandemia”: https://confinaria.hypotheses.org/category/textos
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 95

até mesmo de modo complementar ao texto escrito ou quando muito, elas


aparecem de maneira aquém de suas possibilidades interpretativas.
Inspiração para a maioria de pesquisadores que se utilizam da experiência
de trabalho de campo, a obra de Bronislaw Malinowski (1976 [1922]) apre-
senta a inclusão de imagens de tal modo que ainda nos dias atuais necessita
ser constantemente revisitada. Segundo Malinowski, o tratamento dado às
fotografias na escrita etnográfica desponta com protagonismo pois é a partir

or
delas que o texto será estruturado e não o contrário. A construção do texto é

od V
iniciada, portanto, pelas imagens e elas darão sentido à descrição e interpre-

aut
tação do que é trazido pela pesquisa de campo.
Postas próximas umas às outras é possível estabelecer uma comparação
entre as charges, memes e outras formas de expressões imagéticas, propi-

R
ciando inferências sobre “como pensam as imagens”. Como indica Jorge Coli
(2012, 45) “comparar é uma forma de compreensão silenciosa da relação entre

o
as imagens” e as informações que delas podemos extrair depende do modo
aC
como as observamos agregadas, separadas, classificadas e outros exercícios.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

A observação na seleção de que imagens são utilizadas neste estudo parte


de alguns critérios, conforme assinalado anteriormente. Diante disso, o assunto
que motivou a produção imagética está relacionado à pandemia. Segundo este
visã
critério, a inclusão ou exclusão das imagens postadas, no período estabelecido
para esta investigação, foi feita a opção por determinadas imagens e posterior
comparação entre elas. Nesse aspecto, reporto-me ao que Ronaldo Entler
itor

(2012, 133) propõe, pois “É preciso reconhecer na imagem a possibilidade


a re

de aproximar e justapor referências, mesmo que desprovidas a prioi de um


sentido comum”. Inspirada nessas ideias quanto aos procedimentos com as
imagens, apresento algumas que viralizaram, isto é, circularam intensamente
nas mídias sociais, locais onde ocorreu esta pesquisa etnográfica.
par

Ficar em casa: a imposição que provoca reflexão sobre ser


Ed

humano

A pandemia impôs uma série de alterações em escala global e pode ser


ão

sentida por todos os seres viventes. As mudanças foram percebidas em todos


os ecossistemas do planeta pois a estratégia do isolamento social modificou
hábitos de indivíduos de várias espécies.
s

As ruas, praças e parques supostamente território domesticado, de uso


ver

tido como exclusivo dos seres humanos, foram ocupadas por animais que
haviam sido empurrados e estavam restritos ao chamado ambiente natural.
Tais comportamentos provocaram uma inversão nos habituais locais de cir-
culação e motivaram reflexões sobre o quão prejudicial são as atividades dos
seres humanos para os das demais espécies.
96

Figura 01 – Pequeno Príncipe Figura 02 – Engaiolados

or
od V
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R
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aC

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Figura 03 – Família na gaiola Figura 04 – Vitrines e jaulas
visã
itor
a re
par
Ed

A inversão do que fora naturalizado nas relações de humanos com os não


ão

humanos foi retratada nas postagens referentes à “clausura” da humanidade


enquanto os outros animais estavam à solta. Afinal, e como evidenciado nas
s

figuras 01, 02, 03 e 04, a liberdade dos chamados seres civilizados estava
ver

sendo experimentada pelos animais, enquanto que humanos permaneciam


em “enjaulados” e “aprisionados” em suas próprias casas.
O confinamento nos espaços domésticos provocou reações adversas nos
seres humanos, tais como ansiedade, tristeza, medo e angústia. Somado a essa
situação, tem-se as manifestações de violência doméstica e outras mazelas
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 97

sociais. Contudo, há que se notar que a maneira como as pessoas passaram a


se comunicar pelas artes visuais foi um elemento que se destacou nas narra-
tivas sobre esse contexto.

Além do distanciamento social, os cuidados com a higiene pessoal

O afastamento físico e o não contato, principalmente com as mãos,

or
passou a ser quase obrigatório em diversos países e adotado como regra em

od V
vários estados do Brasil. O cálculo de distância entre corpos foi estabele-

aut
cido por critérios que surgiram pelas pesquisas de cientistas e profissionais
da área de saúde que vem investigando as manifestações da COVID-19 em
todos os continentes.

R
Novas posturas foram incorporadas às práticas sociais e nos modos de

o
interação nos espaços públicos. Quando nas ruas, tornou-se necessário manter
o distanciamento e, assim como os demais procedimentos, as mídias sociais
aC
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se tornaram espaço para as narrativas de tais acontecimentos a partir das


imagens, conforme se pode observar na intertextualidade dos memes a seguir:
visã
Figura 05 – Beatles e distanciamento
itor
a re
par
Ed
s ão
ver
98

Figura 06 – Beatles e máscaras

or
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visã

Na figura 05 e 06 os Beatles mantem o distanciamento recomendado,


itor

mas na imagem tal, em seguida eles retornam acompanhados de policiais. Pelo


a re

que os memes sugerem, várias são as recomendações para evitar o contágio,


e a força policial aparelhada pelo Estado pode ser acionada para fazer valer
as regras de confinamento (lockdown), inclusive impedindo a livre circulação
das pessoas, fazendo-os retornar às casas quando necessário.
par

Em outros memes (figuras 07, 08, 09 e 10) a temática do distanciamento


inclui aspectos que condizem com as recomendações da OMS sobre o espaço
Ed

mínimo entre as pessoas.

Figura 07 – Meme do meme


s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 99

Figura 08 – Distanciamento social nas artes plásticas

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visã

Figura 09 – Não humanos Figura 10 – Clássicos da Sociologia


itor
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par
Ed
s ão
ver

Além do distanciamento, os modos de higiene foram alterados e o reforço


a essas práticas relacionadas aos cuidados preventivos ganharam maior relevo
no dia a dia das pessoas e o ato de lavar as mãos revelou-se mais usual nas
práticas cotidianas (figuras 11 e 12). Denunciou, ainda, que devido às questões
100

da desigualdade social, uma parcela significativa da sociedade brasileira (e


de outros países de diferentes continentes) não teria condições materiais para
higienizar as mãos e outras partes do corpo.

Figura 11 – Nossa Senhora

or
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visã
Figura 12 – Krisna
itor
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ver

Embora se fizesse a campanha para lavar as mãos, nem todas as pessoas


poderiam adotar tais medidas pelo fato de não terem acesso à água potável
e saneamento básico. Se a recomendação de isolamento social trouxe junto
consigo as práticas de higiene, demonstrou-se que a proteção e o cuidado
pessoal implicavam a adoção de políticas públicas sociais e de infraestrutura.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 101

Então, mais do que um acréscimo nas ações a serem tomadas individualmente,


o que cabe ao poder público ficou aquém das expectativas.
A figura 13 retrata a situação de uma família brasileira composta por uma
mulher negra e seus filhos famintos, cuja casa não dispõe de água encanada.
Essa talvez seja a mais representativa figura da realidade do Brasil, pois
corrobora com dados apresentados pelas pesquisas do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).

or
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Figura 13 – Desigualdade de gênero, raça e classe

aut
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visã
itor
a re

Nas figuras 14 e 15 são apresentadas à essa narrativa da pandemia do


século XXI o uso das máscaras. Nelas há um sutil jogo de elementos sociais
que são incorporados ao tema da prevenção ao contágio.
par

Figura 14 – No convento Figura 15 – No Mundo do trabalho


Ed
s ão
ver
102

As figuras que se remetem ao uso de máscaras utilizadas quase restritas


ao ambiente hospitalar indicam que essa prática pouco usual se tornou comum
desde o início da pandemia. Leituras e releituras de obras de arte e algumas cenas
do cotidiano foram divulgadas e circularam amplamente pelas redes sociais. O
riso que elas provocam indicam de maneira jocosa as mudanças impostas nesses
tempos e, ao mesmo tempo, incentivam à reflexão sobre os riscos de contágio
pelo coronavírus. Além disso, a questão política emerge na maneira como o

or
presidente da república deixa de utilizar adequadamente sua máscara, revelando

od V
a desconsideração dos preceitos da OMS e das instituições de pesquisa.

aut
As desigualdades expressas em fotografias, memes e charges

R
Uma das principais constatações trazidas pela pandemia foi a existên-
cia da desigualdade social em diferentes países, embora haja o mito de que

o
as doenças contagiosas não conhecem classe ou outras barreiras e limites
aC

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sociais, pois os impactos e efeitos sociais apresentam uma história diferente
(HARVEY, 2020). Mike Davis (2020) indica que o legado da austeridade
das políticas ultraliberais enfraquece as instituições públicas que oferecem
serviço de saúde, educação e infraestrutura, privilegiando, portanto, o setor
visã
privado em detrimento do setor público. Esse legado é percebido quando há
falta de leitos nos hospitais e pela precária cobertura assistencial para suprir
os dias de ausência remunerada por doença. Os planos de saúde particulares
itor

não têm capacidade para atender os casos e, no entanto, recebem benefícios


a re

diretos ou indiretos dos governos que adotam políticas ultraliberais.


No caso do Brasil, esta desigualdade é evidenciada em vários aspectos e
foi reveladora no trato da COVID-19. Nesse cenário de pandemia, as relações
de trabalho, as políticas públicas de saúde, as relações sociais de gênero e a
par

diversidade etnicorracial são alguns exemplos de que há na estrutura social


brasileira desigualdades de longa duração que permanecem, como foi o fim
Ed

o fim da escravidão, a conquista e ampliação de direitos, cidadania e fortale-


cimento dos movimentos sociais.
As relações sociais no Brasil continuam marcadas pela negação do
ão

racismo em relação à população negra e aos povos indígenas, ao machismo


decorrente do modelo patriarcal ainda vigente nas relações sociais de gênero,
e às desigualdades de classe e exploração do trabalho.
s

Neste momento, sob o espectro de uma doença em escala planetária, o


ver

sistema capitalista se tornou um dos principais temas de debate porque ele é


apresentado como um dos causadores desta atual situação, tendo em vista que é
um sistema alicerçado na exploração insustentável dos chamados recursos natu-
rais. Além disso, a exploração marcada pela crescente precarização do trabalho
provoca a pauperização de grande parte da população humana em escala global.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 103

A partir dos efeitos da COVID-19, essas diferentes formas de exploração que


caracterizam o capitalismo foram evidenciadas, trazendo à baila temas socioam-
bientais e, portanto, a maneira como os seres humanos lidam com outros seres
viventes nesse planeta. Desse modo, a conjuntura atual é marcada por um debate
em escala global e local, permeando diferentes aspectos do sistema capitalista.
Uma das evidências desse cenário de desigualdade se refere tanto à
capacidade de consumo quanto ao modo como as pessoas se posicionaram nos

or
momentos em que antecedem o isolamento social (figuras 16 e 17). Mesmo

od V
quando houve recomendação para que as pessoas evitassem o estoque exage-

aut
rado de produto em suas casas, o que ocorreu em alguns países foi o contrário.
Além disso, a proteção para evitar o contágio também revelou desigualdades.
Adquirir os produtos necessários para impedir a doença ou o acesso aos hos-

R
pitais (e aparato para o tratamento) foram indícios de que a saúde está sendo
tomada como um bem a ser comercializado e consumido e pouco (ou nada)

o
se faz para tratá-la como um bem comum (embora conste em muitos países
aC
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como um dos principais direitos de cidadania).

Figura 16 – No convento Figura 17 – No Mundo do trabalho


visã
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Ed
s ão

No caso do Brasil, e embora não sustentado em evidências, o Sistema


ver

Único de Saúde (SUS) está sendo atacado constantemente sob à suposta ale-
gação de que causa males econômicos decorrente dos seus déficits e fraudes
neste sistema. Diante do cenário da COVID-19, percebem-se mudanças no
discurso até então em voga de que a privatização do sistema público de saúde
na medida em que a rede privada – planos, clínicas e hospitais - mostrou-se
104

claramente despreparada para o atendimento das crescentes demandas para o


atendimento de tratamento de doenças de média e alta complexidade.
Mesmo diante das consequências sociais e ambientais, o governo bra-
sileiro direcionou e direciona apoio ao setor financeiro, comercial e indus-
trial, propondo isolamento vertical, embora sem fundamentação científica
que embasasse esse modo de contenção da propagação do vírus, conforme
se observa nas figuras 18 e 19, a seguir.

or
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Figura 18 – Economia ou vida? Figura 19 – Tipos de isolamento

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Soma-se às desigualdades de classe nesse contexto da COVID-19, a desigual-


dade das relações sociais de gênero, pois em contexto de confinamento as tarefas
a re

domésticas geralmente continuam a ser desenvolvidas por mulheres, enquanto


que os homens as realizam em menor proporção, mesmo estando em casa. Os
cuidados com pessoas idosas, crianças e as doentes em geral, já eram exercidos
pelas mulheres, e provavelmente, assim se tem mantido (figuras 20 e 21).
par

Figura 20 – Questão de gênero


Ed
s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 105

Figura 21 – Quarentena e Donas de casa

or
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R
o
Embora não se retrate nas imagens a questão da violência doméstica,
aC
há registros do aumento da incidência de casos, o que dificulta ainda mais o
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isolamento social pelas mulheres.


O conflito que se estabelece é tratado em tom jocoso, pois os homens
teriam que permanecer presos em casa, o que ocasionaria revolta e descon-
visã
tentamento, impactando nas relações entre casais e causando reações vio-
lenta e até justificáveis (conforme pronunciamento do próprio Presidente da
República e de um vereador do Mato Grosso do Sul, amplamente noticiado).
itor

Um tema que se tornou assunto de intensos debates se refere ao provável


grupo de risco. Embora haja casos de óbito em pessoas jovens a maioria, em
a re

escala global, refere-se às pessoas com idade acima de sessenta anos. Nas
figuras 22 e 23 se nota a expressão de tristeza nas pessoas idosas diante dos
embates e direcionamentos das políticas (figuras 24 e 25).
par

Figura 22 – Vidas que importam Figura 23 – Pessoas idosas


Ed
s ão
ver
106

Figura 24 – Volta às aulas

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Figura 25 – Juventude
visã
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par
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s ão

Ao longo das semanas, e com o agravamento da COVID-19, efetivamente


ver

o número de óbitos cresceu entre pessoas com mais de sessenta anos de idade.
O que configura as diferenças tanto de classe/raça quanto de geração. Nesse
aspecto da sociedade brasileira, fica patente que a pandemia evidenciou as
inúmeras desigualdades conforme pode ser observado a partir de seus dife-
rentes marcadores sociais.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 107

O embate entre o conhecimento médico e as diretrizes políticas

Em que pese a participação da OMS no combate aos efeitos e até preven-


ção contra o Corona Vírus, nem todos os países seguiram as recomendações
amplamente divulgadas como protocolo a ser adotado. No Brasil, estabeleceu-se
um embate entre o conhecimento médico acerca da pandemia e o negacionismo7
veiculado pelo governo federal. A representação gráfica dos casos de contágio

or
e capacidade de suporte dos hospitais da rede pública e privada foi incluída nas

od V
mais diferentes frentes de prevenção à pandemia. Nas figuras 26, 27, 28 e 29,

aut
a seguir, tem-se a presença de profissionais de saúde enfrentando a resistência
governamental, apesar das evidências em outros países.

R Figura 26 – Gripezinha

o
aC
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visã
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par
Ed
s ão
ver

7 Negacionismo é um posicionamento marcado pela negação das evidências, sem apresentação de algum
fato que o permita fazê-lo (GOMES, 2020). Esse negacionismo é preconizado pelo Presidente da república
e por seu entorno ideológico que se choca com a postura dos ministros da Saúde, primeiro Mandetta que
se assumia postura alinhada à OMS e depois Teich, mais contido, mas que saiu também devido à tentativa
da imposição da cloroquina.
108

Figura 27 – Curva e luta pela vida

or
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visã

Figura 28 – Curva e morte Figura 29 – E daí?


itor
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ão

Em outra oportunidade, o próprio diretor da OMS foi confrontado pelo


s

presidente brasileiro, no qual questionou os dados apresentados. Além disso, o


ver

presidente do Brasil apontou como a si próprio como um exemplo de negacio-


nismo, pois bastaria ter “histórico de atleta” ou não estar no chamado “grupo
de risco” para enfrentar uma “gripezinha”.
As figuras 30 e 31 demonstram que tais atitudes desencadearam uma
série de manifestações contra os procedimentos defendidos pela OMS e pelos
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 109

profissionais de saúde8, e isso trouxe ao debate o grupo de apoiadores deno-


minados Bolsomínions. Esse grupo de pessoas que apoiam o presidente Jair
Bolsonaro desde a época das eleições de 2018, são apresentados nos memes
como um gado fiel devido ao modo como agem, pois, seguem-no conforme o
“efeito manada9”. Nas figuras 32 e 33, esses seguidores são retratados como
um grupo que não percebe as implicações que a negação dos efeitos do Corona
Vírus sobre as populações humanas.

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Figura 30 – Imunidade figura Figura 31 – Mentirinha

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visã
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Figura 32 – Ladeira à baixo Figura 33 - Mentirinha


par
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ver

8 Nota-se que, além das referências à suposta imunidade do presidente à doença, tem-se indicações a casos
de situações políticas, cujas denúncias não o atingem e nem aos membros de seu grupo de apoio.
9 “O efeito manada” é uma explicação elaborada pelo psicólogo Dan Ariely para o comportamento que leva
as pessoas a seguirem outras sem aplicarem raciocínio crítico em suas decisões. Segue-se o que a maioria
faz, copia-se o modo como a maioria se comporta, e assim por diante.
110

Figura 34 – Cegueira

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visã

No entendimento de Mattthew D’Ancona (2018), semear dúvidas passou


itor

a ser uma postura recorrente nas campanhas de desinformação. Uma estratégia


a re

política que põe em cheque as instituições que tradicionalmente atuam como


árbitros sociais, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e no Brasil. A
negação do que é apresentado pelas instituições de pesquisa também ocorre
em relação ao aquecimento global, eficácia de vacinas ou, mais recentemente,
par

o recurso ao distanciamento social para evitar a ampliação dos efeitos de


doenças infectocontagiosas.
Ed

Um dos meios facilitadores para essa semeadura de dúvidas foi o ter-


reno fértil trazido pelo fenômeno da “Web 2.0”, uma revolução digital sem
precedentes na comunicação humana.
ão

No entanto como todas as inovações transformativas, a web é um espelho


da humanidade. Junto com seus muitos méritos, também permitiu e acen-
s

tuou o pior dos instintos do gênero humano, funcionado como universidade


ver

para terroristas e refúgio para trapaceiros (D’ANCONA, 2018, 51).

Como ocorreu com outras informações obtidas a partir dos dados obtidos
em pesquisas científicas, nem sempre seu uso está voltado para a maioria das
pessoas e nem leva em consideração as relações socioambientais.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 111

Desde Manuel Castells (1999), as ressalvas sobre os usos dos aparatos


tecnológicos pela sociedade vem sendo tema de debates acadêmicos. As redes
sociais quando manifestas na cibercultura, ou ciberespaço, trazem efetiva-
mente o que ocorre em meio não virtual, ou seja, presencialmente. O virtual
não se opõe ao presencial, como se a virtualidade fosse algo irreal e nisso
Pierre Lévy (2009) indica de modo interessante a complementação e não a
oposição na comunicação que ocorre via Internet.

or
A postura que nega ou põe em dúvida as evidências dos conhecimentos

od V
científicos não ocorre ao acaso, e nem tampouco é decorrente da ignorância

aut
ou ingenuidade. Ao contrário, apresenta-se como uma eficaz estratégia política
que mina a confiança de possíveis opositores e faz com que o público em geral
seja levado a agir mais pela emoção do que por outras fontes.

R
Se há quem negue a pandemia, há quem a leve a sério e defendem os
procedimentos de prevenção, mesmo que o risco de problemas com a econo-

o
mia se anunciem. Uma maneira de demonstrar esse interesse em combater a
aC
pandemia e a negação de sua existência foi demonstrado em vários memes,
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conforme se observa nas figuras 35 e 36.

Figura 35 – Cala a boca Figura 36 – Como Zacarias


visã
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par
Ed
s ão
ver

Essas questões passaram a ser tratadas como uma questão de saúde


pública, mas a elas foram incorporadas aquelas do âmbito político-partidário
e de governança. Nas figuras 37, 38 e 39 esse cenário político foi apresentado
em termos de políticos de diferentes grupos partidários.
112

Figura 37– Oposição

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ão

A esse aspecto da política partidária, somou-se a dúvida que recaiu sobre


as limitações do poder de decisão do presidente. A partir do que fora noticiado
s

em diversos meios de comunicação sobre a ala militar do governo, alguns


ver

militares seriam contrários ao protagonismo do presidente e de alguns de seus


direcionamentos. Uma das situações emblemáticas do embate se deu a partir
dos conflitos oriundos dos pronunciamentos de Luiz Henrique Mandetta,
então ministro da Saúde, do Vice-Presidente Hamilton Mourão e do próprio
Presidente da República.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 113

Figura 38 – Quem manda?

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Figura 39 – Poderes ocultos


par
Ed
s ão
ver
114

Ao longo do período desta pesquisa etnográfica em ambiente virtual


raros foram os memes favoráveis ao posicionamento do Presidente da Repú-
blica. Embora tivesse sido feita a busca por tais imagens, evidenciei que os
grupos favoráveis às ações vindas do governo federal se utilizam de vídeos
produzidos, geralmente, por políticos da ala de apoio no Congresso Nacio-
nal e que são propagados em diferentes mídias sociais. Os memes e outras
produções imagéticas são mais usuais em grupos contrários às diretrizes que

or
partem da presidência.

od V
O tema da pandemia nas imagens encontradas nos perfis e contas de

aut
pessoas que apoiam o presidente diz respeito ao embate entre as emissoras de
televisão, conforme exemplificado na figura 40, e pouco tratam das discussões
sobre a OMS, profissionais de saúde e disputas partidárias. Contudo, cabe

R
mencionar que as ações contra profissionais de saúde e da comunicação, e
opositores políticos em geral, foram registradas em diversas manifestações

o
de rua ao longo do período de intensificação dos efeitos do Corona Vírus.
aC

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Figura 40 – Mídia e doença
visã
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a re
par
Ed
s ão
ver

Ao considerar os efeitos da pandemia no âmbito do Estado do Pará, a


situação foi de franca oposição entre o posicionamento do governador Helder
Barbalho diante das ideias defendidas pelo Presidente da República.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 115

Surge um novo “super-herói” no Estado do Pará

Quando houve o início da pandemia na Estado do Pará, e mesmo antes


do primeiro caso de COVID-19, os pronunciamentos e ações efetivas do
governador Helder Barbalho provocaram inúmeras manifestações nas mídias
sociais. O debate inicial se dava em torno da ampla defesa da prioridade
pela vida da população paraense, ao contrário do presidente da república que

or
discursava a favor de que se priorizasse a economia. Tal posicionamento fez

od V
crescer a popularidade do governador e mesmo os grupos políticos de oposição

aut
louvaram a iniciativa de priorizar a saúde e a vida.
Os memes foram surgindo com o diferencial de que incluía aspectos da
cultura local misturados a elementos de culturas outras. Diante disso, trago a

R
esse debate o aporte de Canevacci (2013) para explicar como se dá a elabo-
ração de narrativas em contexto local.

o
A pandemia do Corona Vírus evidenciou o caráter sistêmico das ques-
aC
tões socioambientais de um modo surpreendente e os meios de comunicação
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noticiavam a todo instante algo que estava ocorrendo em outros continentes e


que iria se propagar a tal ponto que nenhum local do planeta ficaria imune aos
seus efeitos. Portanto, além das notícias havia o próprio vírus se propagando
visã
pelos países em escala global.
Conforme indica Canevacci (2013, 45), “A comunicação não viaja numa
só direção – do emissor ao receptor –, mas é cada vez mais multidirecio-
itor

nal, tendencialmente interativa e interfaciável”. Essa interatividade se torna


a re

mais acentuada a cada dia, transformando as paisagens do local, ou seja, as


mediações das relações sociais pela internet possibilitam protagonismo em
termos locais de questões globais. E isso está em pauta porque há interferência
interpretativa das populações locais devido suas narrativas estarem marcadas
tanto por elementos do que ocorre em diferentes continentes desse planeta
par

quanto por aquilo que é próprio das paisagens culturais locais.


Ed

As explicações das causas e das práticas terapêuticas para combater a


COVID-19 foram reelaboradas localmente, juntando o que fora propagado
pelos meios de comunicação aos elementos da paisagem cultural de Belém,
ão

capital do estado, e outros municípios paraenses. Assim, os chás de ervas


e os tratamentos para profilaxia de gripes e outros males foram reforçados
para garantir a cura dessa doença que se anuncia com mais força que aquelas
s

conhecidas como “viroses”.


ver

Além dos tratamentos conhecidos ancestralmente e praticados ao longo


dos tempos pela população paraense, um outro aliado emergiu durante a crise
sanitária que se anunciava cada vez mais intensa. O temor diante do alastra-
mento da zona de contágio e possíveis danos à saúde da população, fez com
que o governador, até então criticado por seus posicionamentos diante das
116

manifestações populares e de determinadas categorias profissionais, passasse


a ser visto como aquele capaz de salvaguardar a segurança dos que habitam
no Pará. Nas figuras 41 e 42 observa-se que aos elementos da paisagem cul-
tural paraense foram somados aqueles que são conhecidos em escala global:

Figura 41 – Rei do Norte

or
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visã
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Figura 42 – Super-herói
a re
par
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s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 117

Além do fato de estar ocupando o cargo de governador, acrescentam-se


elementos do processo histórico do Pará e dos heróis da grande mídia. Helder
Barbalho passou a ser apresentado, por exemplo, como o grande líder, o “Rei
do Norte” e do Grão-Pará, o herói que junta características de vários outros
das séries e histórias em quadrinho, o chefe de “um país que se chama Pará10”.
Além de ser elevado ao posto de herói os memes apresentavam de
maneira irônica o modo como os bolsominions poderiam considerá-lo. Diante

or
disso, surgiram memes onde Helder Barbalho foi representado como um

od V
comunista e esquerdista (figuras 43 e 44), pois assim o fazem com quaisquer

aut
pessoas que não se alinham ao presidente.

R
Figura 43 e 44 – Helder: o ditador comunista

o
aC
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visã
itor
a re
par
Ed
ão

Para parte da população, os memes com a presença de Helder Barbalho


eram a apresentação de um governante atuante e favorável aos interesses
s

da maioria da população paraense. De modo jocoso, suas características


físicas e posicionamentos como gestor, passaram a dotá-lo de perfil de
ver

herói em tempos de pandemia. Em grande medida, esse posicionamento


do governador contribuiu para o seu fortalecimento político em vários

10 Esta é uma referência à canção intitulada Porto Caribe, de autoria dos paraenses Paulo André Barata e
Ruy Barata.
118

municípios. Por certo, essa postura do governador trará acréscimos ao seu


capital político num futuro próximo.

Notas conclusivas

O século XXI trouxe consequências de transformações socioambientais


vivenciadas ao longo do século XX. As doenças provocadas por vírus embora

or
não restritas a esse período, ganharam uma dimensão planetária até então sem

od V
precedentes. Desse modo, a globalização econômica passou a ser experimen-

aut
tada de modo imbricado junto a outros níveis, o que provocou reações locais
ao que está a ocorrer em 2020. O Glocal explicita de maneira mais adequada
aquilo que não se restringe apenas a um espaço geográfico, nem tampouco a

R
uma paisagem cultural, na medida em que há interpretações antropofágicas,
indicadas por Canevacci (2013). Consequentemente, a pandemia não é algo

o
que seja processado como algo traduzido em narrativa única, ao contrário,
aC

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ela é trabalhada de acordo com as especificidades de cada lugar.
Além das reflexões sobre a pandemia e suas narrativas feitas virtualmente
em diferentes contextos sociais, destaco o debate desenvolvido no que diz
respeito à pesquisa de cunho etnográfico, pois ela tem sido aperfeiçoada pela
visã
troca de experiências e discussões por quem vivencia a pesquisa de campo.
Desse modo, como a atenção recai de modo mais intenso sobre a inserção no
ambiente de investigação, tendo em vista que isso requer preparação prévia
itor

e refinamento das discussões nos textos onde são registradas as experiências


a re

nos mais diversas locais e temas de pesquisa, no momento atual, no qual o


isolamento social e o confinamento voluntário se apresentam como uma das
maneiras de evitar os impactos da COVID-19 há que se pensar e debater os
limites impostos às saídas a campo para fins de estudos antropológicos.
par

Além dos cuidados que são tomados nos momentos que antecipam a pes-
quisa de campo, tem-se as discussões acerca dos procedimentos éticos quando a
Ed

pesquisa se refere aos momentos em que ocorre a inserção e permanência junto


aos grupos sociais envolvidos na investigação. Nesse momento há o imperativo
de evitar ir ao local de pesquisa sob pena de pôr em risco a saúde e a vida das
ão

pessoas, o que nos impõe alternativas para a realização desse tipo de “imersão”.
A pesquisa etnográfica em ambiente virtual já era realizada devido à
expansão dos usos das chamadas novas Tecnologias de Informação e Comu-
s

nicação (TIC), trazendo debates sobre técnicas e estratégias de observação, e


ver

no momento atual ela se apresenta como um meio propício para explicações


e reflexões sobre as dinâmicas e permanências diante dessa pandemia.
Um outro elemento importante nesse estudo se refere ao fato de que
as artes em geral se tornaram grandes aliadas no enfrentamento da situação
trazida pela pandemia. As expressões artísticas foram maneiras de “digerir”
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 119

as realidades ora vividas e como um alento diante da impossibilidade de rea-


lizar coisas até então corriqueiras para as pessoas em geral e, principalmente,
para aquelas que habitam as áreas urbanas11. Nesse contexto, as narrativas
presentes a partir dos desenhos, fotografias, gravuras e colagens formam um
importante elemento na compreensão sobre a pandemia.
A relevância das produções artísticas presente nas imagens se dá porque
elas não se restringem a artistas renomados, pois a incidência da produção feita

or
por pessoas anônimas. Portanto, as inúmeras imagens postadas em formato

od V
de memes e charges revelam a produção visual desse momento e permitem

aut
explicar esse instante da humanidade a partir do olhar de grande parte dos
seres humanos conectados em tempos de isolamento social.
No século XX a rede de computadores (ou Web), aboliu as delimitações

R
de centro e periferia e de marginal e oficial, conforme afirma D’Ancona
(2018). Entretanto, se por um lado essas dicotomias contribuem para explicar

o
realidades que são vivenciadas via Internet, elas nem sempre dão conta do
aC
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processo de releitura das ideias veiculadas nessa rede. A trama que sustenta as
paisagens culturais está permite interpretações e reinterpretações das mensa-
gens permeadas por aspectos particulares e outros mais abrangentes. Assim, o
que ocorre na construção de narrativas vai além dos binarismos e dicotomias.
visã
Diante de uma situação complexa como o é a que estamos vivenciando
em 2020, o interesse em buscar as explicações sobre a pandemia instiga a
conhecê-la sob vários enfoques e narrativas. Nesse estudo sobre as imagens
itor

relativas à COVID-19, há muito a se compreender sobre as emoções, os con-


a re

flitos, os conhecimentos, as redes sociais e as reflexões sobre questões amplas


amalgamadas com aquelas próprias das paisagens culturais mais restritas e
locais. Por certo, e conforme se evidencia ao longo dos processos históricos,
a humanidade tem a oportunidade de ser, ou não, resiliente tal como é comum
par

a todos os seres viventes desse planeta.


Ed
s ão

11 As apresentações musicais nas varandas das janelas na Itália, os vídeos e as lives com apresentação de
ver

artistas em geral, ganharam repercussão devido à solidariedade e a constatação da importância das artes
na saúde das pessoas. Nesse período de quarentena foram liberados gratuitamente o acesso aos museus
virtuais e bibliotecas de universidades e de outras instituições. Vários cursos na modalidade à distância
foram oferecidos sem ônus para as pessoas interessadas em aprender a bordar, fotografar, representar e
desenhar. Os cursos também traziam a possibilidade de aprendizagem de línguas estrangeiras, falar em
público, e uma série de atividades de expressão artística (sem mencionar as inúmeras outras temáticas
para diferentes públicos)
120

REFERÊNCIAS
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ministério https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ministro-admite-
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https://catracalivre.com.br/cidadania/bolsonaro-usa-violencia-domestica-pa-

od V
ra-criticar-isolamento-social/

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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

internas_economia,836224/pacote-anunciado-pelo-governo-deve-liberar-r-
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VEREADOR do MS pede salões abertos: “Não tem marido que aguente”


https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/04/08/vereador-de-
a re

fende-saloes-de-beleza-abertos-nao-tem-marido-que-va-aguentar.htm
par
Ed
s ão
ver
ver
Ed
s ão itor
par aC
a re
visã R
od V
o aut
or
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão
DESDOBRAMENTOS E EXPERIÊNCIAS
DO SEMINÁRIO EDUCAÇÃO,
ARTE E DIVERSIDADE

or
od V
Renata Almeida

aut
Carolline Septimio

R
Introdução

o
Dialogar é uma das experiências mais substanciais do repertório humano.
aC
Se há alguma pretensão nesse trabalho talvez seja dar possibilidade de que
a experiência aqui exposta possa conversar com quem a lê, atravessar-nos,
quem sabe, a ponto de trazer incômodo. Este capítulo apresenta-se como um
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

desdobramento a partir de experiências vividas no II Seminário Educação,


visã
Arte e Diversidade, projeto contínuo em evento anual realizado pela Faculdade
Estácio Castanhal do Estado do Pará. O Seminário diz respeito a uma articu-
lação realizada pelo Curso de Pedagogia em alinhamentos com a psicologia,
itor

filosofia, história, arte, dentre outras áreas do conhecimento.


O objetivo do projeto tem sido promover espaço de discussão com temas
a re

como cultura e arte, proporcionando ao público acadêmico e externo o contato


direto com questões atinentes à educação pelo viés da transdisciplinaridade.
Neste texto, pretende-se esmiuçar algumas das discussões, interação e troca de
experiências vividas no Seminário, evidenciando a necessidade de debater ques-
par

tões como a diversidade e os elos entre arte e educação em diferentes âmbitos.


Ed

Convergências entre a arte e educação

O Seminário Educação, Arte e Diversidade conta até o presente momento


ão

com duas edições. Tal evento faz parte do planejamento da disciplina Arte
e educação: Fundamentos, metodologias e práticas, cujo ementário propor-
s

ciona dinâmicas dessa natureza. A primeira edição ocorreu no período de 04


ver

a 06 de junho de 2019 e a segunda, de 30 de junho a 03 de julho de 2020.


Cumulativamente os dois eventos contaram com mais de 2000 participações,
entre presenciais e virtuais, visto que no último ano o seminário foi realizado
em formato remoto em virtude do momento pandêmico vivido nesse período.
Todas as atividades foram realizadas com acesso em Língua Brasileira
de Sinais- (LIBRAS) e com presenças referenciais de convidados do campo
da educação e da arte. Compõem o projeto atividades como palestras, mesas
124

redondas, rodas de conversas, além de mostras, oficinas, exposição e apresen-


tações artísticas. Há também ampla participação dos estudantes como agentes
promotores da proposta, articulando questões de planejamento, cerimonial e
outras execuções necessárias, direcionados por docentes da instituição.
Em 2019 o Seminário foi realizado em formato presencial no espaço ins-
titucional. Foram três dias de atividades com temáticas sobre filosofia, história,
educação, gênero, sexualidade, sustentabilidade, religiosidade e diversidade.

or
Houve palestras e centros de discussão sobre temporalidade, empoderamento

od V
feminino, mulheres na gestão e violência de gênero, além de mesas sobre

aut
educação infantil, arte, sociedade e diversidade religiosa. Outros momentos
foram mediados diretamente pelos estudantes com realização de oficinas de
fotografia, reciclagem, dança, cinema e artes marciais. Em todos os dias havia

R
exposição de obras artísticas, fotografias e apresentações de dança e música
com convidados externos ou estudantes e professores da instituição.

o
Em 2020 o seminário ocorreu no canal do YouTube “Pedagogia Estácio
aC
Castanhal” em virtude do confinamento firmado pelo momento de pandemia.

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Houve participação da gestão local e nacional da instituição e de figuras públi-
cas do setor de educação da cidade. Todos os dias após as mesas ao público
eram oferecidas apresentações musicais de artistas locais. Os temas discutidos
visã
foram em torno da cultura, educação indígena, políticas públicas e sistema de
cotas, subjetividades, produção das diferenças, arte, ludoterapia, sustentabi-
lidade, desigualdade, diversidade, filosofia e temporalidade. Pesquisadores
itor

como Walter Kohan, Maura Corcini e Flávia Lemos marcaram presença, além
a re

de militantes e pesquisadores sobre os assuntos propostos.


Notamos que em muitos momentos os dizeres dos convidados aparen-
temente despertaram reações emocionadas nos comentários da live. Não
saberíamos dizer se nossa comunidade acadêmica teria acesso tão fácil aos
convidados não fosse o oportuno formato remoto. Os dados avaliativos coleta-
par

dos posteriormente ao segundo evento apontaram relatos que nos atravessaram


sobre a relevância da realização de práticas dessa natureza, que provavelmente
Ed

não temos como mensurar. Em um deles é possível compilar e demonstrar


como foram os retornos obtidos. Um participante mencionou:
ão

Os palestrantes foram incríveis! Ao chegar ao fim da palestra não queríamos


terminar. Estavam tão gostosos a conversa e os aprendizados que poderíamos
s

até mesmo passar a noite toda assistindo. Esse evento trouxe para minha vida
um significado enorme, me fez descobrir que estou no caminho certo, na
ver

profissão certa e que futuramente quero ser tão incrível quanto cada pales-
trante que estava presente no Seminário de Educação, Arte e Diversidade.

A realização dessa proposta nos leva a reflexões sobre possíveis reverbera-


ções existentes a partir do encontro entre a arte e a educação. O encontro desses
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 125

eixos vem em discussão acentuada no campo científico há pelo menos duas


décadas. Dentre os diversos caminhos nessa linha do tempo destacamos discur-
sos em Zanetti (2018), o qual explicita que historicamente há o entendimento
da arte como expressão e recurso pedagógico, expressão artística e recriação
a partir de aspectos individuais e como uma vivência de educação e de saúde.
Participantes do evento, em maioria estudantes, expuseram algum encan-
tamento e arrebatamento em meio às conversas transmitidas no último encon-

or
tro. Em uma mesa, por exemplo, foi possível reunir profissionais da psicologia,

od V
arte, pedagogia e esporte. Esses arranjos parecem ter formado construções

aut
diferenciadas e trazido uma beleza específica para o seminário. Poderíamos
comparar o momento a uma execução de peça artística com direito à certa
estética capaz de provocar seu público e evocar sentidos e sentimentos.

R
Nas práticas de fomento à formação humana nas diversas fases de desen-
volvimento o senso estético envolve uma dinâmica pedagógica, não em visão

o
unilateral do que seria o belo artístico, e sim em uma ampliação da sensibilidade
aC
humana mediada pela experimentação do sentir e pelo viés desse contato estético.
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Para Polster e Polster (1979) o contato é o sangue vital para o crescimento,


o meio pelo qual podemos tornar possível mudanças e crescimento. É importante
que todo indivíduo se lance a fundo no conhecimento de sua dinâmica psíquica
visã
e da intencionalidade de suas ações. O contato não envolve somente um senso
do eu, mas o conhecimento de qualquer coisa que infrinja sua fronteira.
O potencial artístico humano pode ser interpretado como razão exponen-
itor

cial de contato com a criatividade em termos de possíveis rearranjos comporta-


a re

mentais, assim como um recurso basal para a resolução de problemas. Ambos


os fatores são essenciais tanto aos processos educacionais formais quanto
para abertura de possibilidades de ser e estar no mundo de forma saudável.
Observa-se também que o fomento artístico parece propiciar ao indivíduo
contato consigo, com o outro e com o mundo (entre coisas e saberes), possi-
par

bilitando sentido à vida e ao processo de aprender. O indivíduo torna-se ávido


Ed

e ativo protagonista no processo de aprender a aprender (RHYME, 2000).


Um curioso momento exposto no evento em 2019 foi a oficina de turban-
tes. Ela teve como objetivo norteador a discussão sobre empoderamento em
ão

diferentes vertentes, enfatizando seu significado relacionado à cultura negra.


Tivemos a oportunidade de vivenciar todas as atividades oferecidas pelos
seminários e nessa oficina foi possível identificar a emoção latente nos olhos
s

de quem experimentava o respeitoso momento de sentir a representatividade


ver

negra ancestral conectada à discussão. O contato prático oferecido nessa e em


outras oficinas artísticas pareceu trazer um sentido ímpar aos temas propostos.
O recurso artístico é um caminho satisfatório de contato (RHYNE, 2000).
Trabalhar com caminhos criativos, portanto, é relevante para formas de pro-
moção de saúde e processos educativos para pessoas de diversas idades. Em
126

especial, o público jovem, adulto e idoso pode merecer um olhar peculiar por se
entender quão receptivos somos a experimentações na fase infantil e no decor-
rer da vida somos incentivados a suprimir emoções e possibilidades criativas.
Nesse sentido, Stevens (1975) afirma que nos impedimos a fechar processos
desde a infância, quando somos incentivados a suprimir emoções. Nossos fazeres
e ímpetos criativos também tendem a sofrer sanções por meio do enrijecimento.
Há expressões que são corriqueiras na educação de nossas crianças e que trazem

or
conotações pejorativas a termos que se relacionam ao mundo artístico. “Deixa

od V
de teatro” dizemos quando queremos que uma tolice seja cessada. “Dançou!”

aut
empregamos quando alguém não obteve sucesso em algo. “Para de fazer arte” não
é incomum fazer parte de falas relacionadas a crianças peraltas ou mais ativas.
Empiricamente notamos que essas práticas construídas ao longo das vidas

R
humanas desdobram-se no âmbito acadêmico pelos agentes envolvidos nesse
contexto. Professores que se cristalizam em práticas conteudistas e estudantes

o
que parecem sentir que aprenderam somente quando um assunto é exposto no
aC
quadro de sala de aula, apresentado em slide ou quando há métricas avaliativas

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em provas ao conhecido modelo de uma educação tradicional.
Fazer uma aula ao ar livre ou utilizar recursos artísticos podem ser cami-
nhos tortuosos para se afirmar que não se está ensinando ou que não se está
visã
aprendendo e de que não se está em alinhamento com a ciência e com a verdade.
Como nos lembra Deleuze (1992), as aulas exigem uma inspiração distinta
daquela esperada por muitos estudantes e elaborada no pensamento comum
itor
a re

Não são de modo algum como as conferências, porque implicam uma


longa duração, e um público relativamente constante, às vezes durante
vários anos. É como um laboratório de pesquisas: dá-se um curso sobre
aquilo que se busca e não sobre o que se sabe. É preciso muito tempo de
preparação para obter alguns minutos de inspiração. Fiquei satisfeito em
par

parar quando vi que precisava preparar mais e mais para ter uma inspiração
mais dolorosa (DELEUZE, 1992, p. 173).
Ed

Nesse pensamento, a aula como devir não se aprende com a imitação de


alguém, pela cópia do professor ou dos colegas. A aula é um encontro que
ão

pressupõe a junção de muitos em momentos diversos que vai além daquilo


que se deseja aprender. Nesse sentido, a aula tem um objetivo a ser alcançado,
um término a ser atingido. Ela não tem fim em si mesma, mas é movimento,
s

é mutação e não pretende o fim (DELEUZE, 2003).


ver

Como nos lembra Seibt (2015) seria mais nutridor pensar sobre nosso
pensamento, conhecer o que conhecemos e não tanto conhecer em si, liber-
tando-nos do conhecimento do saber. Poder-se-ia atribuir que um problema
sobre essa questão seria a própria maneira como compreendemos o processo
de ensinar e de aprender. Ao que complementamos com Deleuze (2008)
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 127

O que é o aprendizado? Começar, pouco a pouco, a selecionar. O que


é saber nadar? É saber que um corpo tem certos aspectos. Trata-se de
saber organizar um encontro. Aprender é sempre organizar um encon-
tro. [...]. Quando vocês alcançam esse saber-viver, podem dizer que pos-
suem a sua potência. Antes, só poderiam dizer que tendiam a aumentá-la
(DELEUZE, 2008, p. 308).

or
Na análise de fenômenos e enquanto construção de ciência, uma pers-
pectiva fenomenológica husserliana, por sua vez, possui uma preocupação

od V
singular com a “verdade”. Em um paradigma cartesiano a verdade é revelada

aut
a partir de um método positivista na relação funcional “causa e efeito”. A
legitimidade do que é científico, a partir do século XX, passou por uma ava-

R
liação baconiana de investigação experimental no campo das ciências huma-
nas. Quaisquer aspectos que proporcionassem inconsistência de uma verdade

o
passaram a invalidá-la. A preocupação de teorização de um fenômeno não
aC
poderia contrapor princípios filosóficos que antecederiam tal e qual ciência.
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Em sentido contrário seguimos um pouco do que nos ensina Rancière


(2015) com O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual.
Entre as (não) lições do mestre, temos a experiência da aventura intelectual
visã
trazida por Jacotot na qual o mestre ensinava aquilo que ele mesmo ignorava.
Ensinava, portanto, na ausência, no desconhecimento, no escuro ou, talvez,
na claridade de quem vê a si e ao outro como sujeitos do aprender, numa
itor

igualdade entre o mestre e seus alunos (RANCIÈRE, 2015).


a re

A questão é que a filosofia e a arte tendem a evocar reações contrárias a


padrões conhecidos e à zona de conforto de atuação de um indivíduo. Os formatos
de ensino conhecidos podem ser como ninhos quentinhos e confortáveis, abri-
gando professores e estudantes ao lugar preferido, com dispositivos prontos em
que nem o docente é demasiadamente demandado a zonas de não saber e nem dis-
par

centes precisam movimentar-se a deixar de ter uma atuação comumente passiva.


Repetições de padrões preferidos, padrões já conhecidos de comporta-
Ed

mento, podem ter a função de evitar ansiedade geradas pela experiência nova,
do vazio da mudança. Enrijecimentos nesse sentido apontam cristalizações
de um mecanismo neurótico e o empobrecimento de possibilidade e de expe-
ão

riências, portanto, boicotes ao crescimento em virtude do repertório limitado


que não oportuniza mudanças.
s

A verdade é que o conhecimento julgado como não científico passou


ver

a ganhar expurgo no campo da subjetividade ou da espiritualidade (NICO-


LERCU, 1999). Trazer ao campo acadêmico esses universos muitas vezes,
ainda hoje, é sofrer as repulsas advindas da trajetória pomposa do cientifi-
cismo, acolchoado nos pensamentos positivistas com postulados da física
trazidos, inclusive, para o campo do entendimento de homem.
128

Há um discurso recorrente de que falta aos professores conhecimento


para o exercício da docência, de que necessitam saber mais a fim de poder
lidar com os desafios contemporâneos da educação. Ao mesmo tempo
tenta-se domar a escola e o professor, neutralizá-los, retirando deles a
possibilidade de trazer os alunos para fora, descolá-los da sua realidade
no sentido de mostrar outras possibilidades que não as demandas sociais
(MASSCHELEIN; SIMONS, 2015).

or
Estamos com Larrosa (2015, p.12) quando nos diz “se a educação não

od V
quer estar a serviço do que existe, tem que se organizar em torno de uma

aut
categoria livre (…) tem a ver com o não-saber, com o não-poder, com o não-
-querer”. Portanto, educação tem a ver com o criar, com a força do desejo

R
do encontro entre os que não sabem, porém veem-se com algum resto de
amor-próprio para lutar em torno de um saber liberto.

o
A educação, dessa forma, constitui-se como a própria experiência, como
um acontecimento, um encontro que nos ocorre. Ainda pela voz de Larrosa,
aC

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“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o
que se passa […] Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada
vez mais rara” (LARROSA, 2015, p. 17-18).
visã
A complexidade existente nos fenômenos não replicáveis, os sociais prin-
cipalmente, parece ter obrigado os estudiosos a reverem as certezas universais
e a adotar a possibilidade de incertezas na compreensão dos fenômenos. O uni-
verso da previsão e do controle passou a ser conflitado com a contribuição da
itor

física moderna. O princípio da incontrolabilidade nos tornaria mais prudentes,


a re

humildes e modestos em nossas “verdades científicas”, ou ao menos deveria.


Percebendo o que consideramos ser um problema na mentalidade aca-
dêmica (ou até na mentalidade humana) foi que articulamos um projeto que
pudesse dar lugar a esse encontro da arte e educação.
par

Provocações da transdisciplinaridade
Ed

Não ousamos dizer que três ou quatro dias de evento são determinantes
para modificar pensamentos, comportamentos e sentimentos. Nosso intuito foi
ão

resgatarmos o viés da provocação sobre os assuntos discutidos, defendendo


que o ensino poderia ser essa contínua provocação articulada, mobilizada e
s

rica em compartilhamentos criativos de vivências e conhecimentos.


ver

Ciências, filosofias, espiritualidade e artes quando transpostas da zona


curricular podem configurar práticas transdisciplinares. A transdisciplinari-
dade refere-se a transcender o espaço limitado das disciplinas, atravessando a
mera produção do conhecimento. Nicolercu (1999) defende que para a com-
preensão da transdisciplinaridade é possível visitar sua própria composição
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 129

de escrita. O termo “trans” condiz a algo que é e está na disciplina ao mesmo


que atua através e além delas, firmando-se como objetivo a compreensão dos
fenômenos no aqui e agora.
O que seria estar entre as disciplinas? Pois em limitada analogia podemos
fazer empréstimos à matemática ao refletir que o “entre” disto de um ponto
a outro dos valores numéricos pode ser representado pelo infinito. Afinal,
qual a distância entre o número um e o número dois? Na música, por exem-

or
plo, quantas notas são de possível detecção entre um dó e um ré? Quantos

od V
sons há nesse hiato? Há hiato, aliás? Quais as possibilidades do “entre” nas

aut
relações? São mensuráveis e previsíveis? Seriam também infinitas? Seria o
vazio? Existe o vazio, principalmente em um mundo que vive o imperativo
de tudo ser alguma coisa?

R
Recorremos nessa inquietação a algumas leituras na compressão dos

o
fenômenos, do tempo e do espaço. Mas como conceber uma verdade em um
viés ontológico, holístico e fenomenológico? Pois, se de um lado o cartesia-
aC
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nismo reduz um fenômeno à situação causal newtoniana de uma concepção


clássica de verdades, de outro, um psicologismo conceberia a verdade em mim
e não a verdade em si (BELMINO, 2016). Como algo poderia ser considerado
visã
verdadeiro se não poderia ser sensível a replicações e constatações posterio-
res observáveis uma vez que estaria implicado em uma situação relacional e
única? Como admitir a ontologia de um fato sem cair no subjetivismo?
itor

O entendimento das leis da lógica pela consciência empírica seria um


a re

abandono à possibilidade de apontar algo como verdade. O próprio positivismo


não daria cabo à sustentação de uma verdade, visto que abandona seus pró-
prios preceitos na busca da teorização de um fenômeno (HUSSERL, 2008).
Etimologicamente a palavra teoria advém do grego theoria, que signi-
fica contemplação, reflexão. A vivência antecede qualquer postulado escrito.
par

Aliás, falar sobre o fenômeno já é sair dele e do estado contemplativo mais


real. Teorizar sobre algo parece ser então simplesmente introjetá-lo, senti-lo
Ed

e por vezes categorizá-lo a partir da contemplação.


Nessa busca pela verdade, Husserl (2008) propõe uma espécie de restau-
ão

ração de um “positivismo superior”, um novo método de busca pela verdade


a partir de uma dimensão transcendental. Se a consciência é consciência de
algo; se a atualização ocorre de forma constante no curso de uma vida; se,
s

assim, todo fenômeno é único e relativo; logo, um dado está intrinsicamente


ver

conectado a dados anteriores e intenciona no presente sua energia em um


futuro, sendo a consciência desdobramentos contínuos.
A ciência não pode jamais estar desconectada a outros saberes humanos.
Investigar uma verdade por meio da experimentação é tão importante quanto
envolver a intuição e a criatividade na comunhão do ensino. Chegamos no
130

momento em que seria importante não mais deixar a arte em zonas periféricas
da academia e fazer o mundo refletir sobre os impactos do que produzimos. É
preciso abrir lugares a pensamentos e práticas de ética, amor, respeito, espi-
ritualidade, admitindo a composição relacional que vivenciamos no cosmo.
É preciso conectar o aprendizado à vida e dar vida ao aprendizado.
Ansiamos por um ir além. Ir além do quê? Há mais de 300 anos temos
o paradigma cartesiano firmado pelo “penso, logo existo”. Contribuições

or
consideráveis tivemos no mundo desde então. A questão é que o “pensar” há

od V
três séculos era de um jeito, de uma forma. O pensar do século XXI inegavel-

aut
mente possui um outro viés. Se antes os postulados conteudistas disciplinares
tinham sua função contribuidora na formação humana, hoje essa herança não

R
tem como dar conta de nossa forma de existir. Pensar é mais que isso. Não é
apenas nas disciplinas e nos conteúdos que o aprendizado deve estar pautado.

o
Precisamos enquanto educadores resgatar e aproximar pessoas e fazê-las
interagir, incluir a compreensão de nossas inteligências, de nossas formas de
aC

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saber, de nossa intuição e de nossa criatividade. É urgente contemplar o que
se sente diante dos fenômenos e o que se pensa em suas múltiplas dimensões
e não mais misturar disciplinas sem conexão.
visã
Heidegger (1986) já apontava que em nenhuma época as informações
circularam tão rapidamente e tão facilmente como nos últimos séculos. Con-
traditoriamente é singular perceber que anos após o relato heideggeriano, ao
mesmo tempo, pouco a humanidade sabe sobre o homem e que em nenhuma
itor

época o homem se tornou tão questionável quanto na nossa (SEIBT, 2015).


a re

Multiplicamos as ciências de forma fragmentada e criamos os conhecimentos


específicos sobre a compressão dos indivíduos, inaugurando cisões angus-
tiantes da totalidade humana.
Não partilhamos de nenhum pressuposto que possa explicitar o como ou
par

a forma que devemos efetivamente viver para sermos integrais e até felizes.
Apenas apontamos que o atual modelo de metodologizar-se não opera na
Ed

investigação de nós mesmo de maneira holística, não nos fornece caminhos


para o sentido da vida. O homem passou a ser compreendido como um ente
entre outros entes, uma coisa entre as coisas. E essa coisificação da humani-
ão

dade respalda-se no acúmulo de informações, métodos e modos.


Nesse sentido, o conhecimento ao invés de libertar, como nos relatos
s

dos poetas e dos filósofos, nos aprisionaria. Dogmas unilaterais podem ser
ver

armadilhas problemáticas na compreensão do que seria essencial. Seria mais


interessante a qualidade ou a quantidade do que conhecemos? Esse conheci-
mento nos produz atritos? O fim é a certeza?
Não é inédito também sugerir que o entendimento de essência é mini-
mamente complexo. A originalidade do que é humano no campo dos saberes
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 131

ainda é uma busca de chegada ao horizonte e não se chega ao originário


do homem sem um certo acúmulo de conhecimentos, por outro lado. Uma
vez que se chega a um ponto o horizonte é refeito, pois nunca perde a sua
natureza de perspectiva do vir a ser. Um horizonte é sempre horizonte, é
um caminho contínuo. Mesmo assim a inteligência deveria deixar de apenas
pretender conhecer esforçadamente muito sobre os objetos e dar lugar à
sabedoria, a qual se abriria para a relatividade do sentido e do modo de se

or
acessar os fenômenos em interpretação relacional e temporal em passado,

od V
presente e futuro. Em Heidegger (2011) a vida precisa ser compreendida

aut
nesse sentido relacional, pois ela não ocorre em um vazio controlável, pre-
visto e a partir da objetividade. Carecemos de admitir a condição finita do

R
ser humano enquanto conhecedor.
Por fim, diante da maciça disponibilidade de informações presentes na

o
contemporaneidade a nossa maior buscar pode ser na capacidade de per-
guntar, na motivação da instigação sobre os fatos. A pergunta pode ser um
aC
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caminho para abertura e crescimento dessa visão total do indivíduo no mundo,


já que o que nos importa não é o acúmulo de dizeres e sim a desconstrução
da via da originalidade humana. Precisamos retirar a altiva propriedade do
visã
conhecimento como detentor de cientistas, especialistas e conhecedores e
devolvê-lo ao ser humano.
Morin (2000), contribuidor patrono da ideia da transdisciplinaridade,
indica que uma educação do futuro (que é hoje) deveria: enfrentar as cegueiras
itor

do conhecimento pragmático, contextualizar os saberes, ensinar a condição


a re

humana, ensinar os princípios da identidade terrena, enfrentar as incertezas,


ensinar a compreensão e discutir a ética do gênero humano.
Esperamos que, com sorte, nossos atravessamentos possam ter aberto
questões e questionamentos. O Seminário Educação, Arte e Diversidade é
par

apenas uma forma que encontramos para abraçar nossas convicções na busca
por uma educação de transformação. Mais ainda, é uma maneira de nos abas-
Ed

tecermos enquanto humanos, pois de fato são dias de trabalho, compartilha-


mento e de inúmeras aberturas internas.
ão

Algumas palavras finais


s

A educação não pode ignorar as concepções sistêmicas da compreensão


ver

de mundo. Todos partilhamos de um destino comum e nossos estudos precisam


estar pautados nas diversas fontes do conhecimento humano. A fragmentação
do conhecimento em disciplinas compromete o vínculo entre as partes que
tomam a totalidade de um fenômeno. Ele deve ser visto em sua complexidade,
reciprocidade e conjunto.
132

Este capítulo trouxe alguns desdobramentos a partir de experiências


vividas no II Seminário Educação, Arte e Diversidade, realizado na Faculdade
Estácio Castanhal do Estado do Pará. O Seminário foi marcado pela articula-
ção realizada pelo Curso de Pedagogia em alinhamentos com diversas áreas
do conhecimento e configurou-se como espaço de discussão da cultura e arte,
proporcionando aos participantes o contato direto com questões atinentes à
educação pelo viés da transdisciplinaridade.

or
Somos seres históricos, biológicos, físicos, sociais, psíquicos e culturais.

od V
Como entender o ser humano se o nosso ensino é fragmentado? Há um elo

aut
indissolúvel na unidade somos, em que a abertura para o crescimento tende a
acontecer no inesperado. A educação, portanto, deve englobar as incertezas,
o ensino delas, inspirando-se na incontrolabilidade evidenciada pelas ciên-

R
cias físicas modernas, na biologia e na história. Precisamos de compreensão
mútua entre os humanos e de desconstrução das mentalidades. A educação

o
do futuro é o presente.
aC

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visã
itor
a re
par
Ed
s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 133

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a re
par
Ed
s ão
ver
CRIMINALIZAÇÃO DA
POBREZA, RACISMOS E MÍDIAS
JORNALÍSTICAS PARAENSES

or
od V
Lauany Câmara Chermont Pinheiro

aut
Marlize Ruth Albuquerque Pacheco
André Benassuly Arruda
Maria Luiza Lemos Azevedo

Introdução

R
o
aC
No período da República Brasileira, mais especificamente a República
Velha (1889- 1930), o país foi governado pelas oligarquias dos Estados mais
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abastados, sendo eles São Paulo e Minas Gerais. O principal setor da economia
visã
na época era a cafeicultura, que concentrava significativo poder de decisão na
administração federal pelos fazendeiros paulistas. De forma parcial, os lucros
produzidos pelo café foram aplicados nas cidades, o que favoreceu o aumento da
população urbana, expandiu as atividades comerciais e a industrialização, tendo
itor

em vista que o século XIX trouxe muitos imigrantes. A república foi responsável
a re

pela modernização das cidades, reformando-as e buscando modernizar os portos


de maneira a facilitar o fluxo de homens e mercadorias, necessários à almejada
“ordem e progresso”. As oligarquias buscaram auxílio nas ciências da higiene,
objetivando examinar o ambiente físico e social da população urbana. O interesse
par

girava em torno de uma melhora nas condições sanitárias das áreas cruciais para
a economia do país – as cidades e os portos. “As novas perspectivas abertas
Ed

pela medicina europeia e o desejo de superar a ‘barbárie’ do passado colonial,


renovaram o Serviço Sanitário Paulista” (BERTIOLLI FILHO, 2008, p. 16).
Houve forte intervenção higienista no século XIX, época em que mais
ão

se investiu na saúde. O Serviço Sanitário possuía equipamentos, funcionários


especializados e livre acesso para fiscalizar ruas, casas, fábricas, hospitais,
cemitérios, bares, etc. Além disso, apenas os
s

médicos diplomados poderiam executar a tarefa de cuidar da saúde da


ver

população, havendo possibilidade de multa e prisão com auxílio da polícia


para curadores que atendiam aos enfermos mais pobres. Vários foram os insti-
tutos de pesquisa criados nesta época, e houve também a descoberta de várias
doenças por intelectuais da saúde. Muitos médicos atuavam como cientistas e
sanitaristas, empreendendo pesquisas laborais ao mesmo tempo que viajavam
pelo interior do Brasil, continuando seus estudos e dando soluções práticas
para os problemas sanitários das regiões que visitavam. No entanto, a ideia
136

do sanitarismo foi ruindo, tendo em vista que a maior parte da oligarquia não
estava disposta a gastar dinheiro com saúde pública.
As doenças que outrora assolaram o país, no século XIX vieram com
mais força e maiores dimensões no início do século XX, levando em consi-
deração o aumento populacional. Diante dessa situação, alguns intelectuais
acreditavam que a baixa produtividade da população e as endemias se deviam
à qualidade da “raça brasileira”. Apoiavam-se no conceito de eugenia, um

or
pensamento que favorece que os brancos representavam uma superioridade

od V
biológica, sendo os melhores representantes da espécie humana.

aut
É importante apontar que em 1857, surgiu a Teoria da Degenerescência
com Benedict Augustin Morel, teoria que reverberou em nosso país. A teoria
repousa sobre a ideia de transgeracionalidade não se restringindo ao plano

R
biológico, mas incluindo dimensões morais e de comportamentos, viciosos ou
virtuosos. A degenerescência é apontada como possuidora de diferentes causas

o
que incluem: “o abuso do álcool, alimentação deficiente, meio social miserá-
aC
vel, imoralidade dos costumes, conduta sexual desregrada, doenças da infância

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


e a própria herança de uma carga de degenerescência” (PEREIRA, 2008, p.
493), ou seja, esta pode ser herdada ou adquirida. Para Morel, uma linhagem
acometida pela degeneração tenderia a acumular desvios, acarretando em sua
visã
máxima, sua esterilidade e extinção. Estaríamos então, diante de uma forma
natural de eliminar vícios acumulados e desenvolvidos por uma geração.
itor

Uma das preocupações centrais de Benedict-Augustin Morel era a concep-


a re

ção terapêutica a ser deduzida dos pressupostos da teoria da degenerescên-


cia, em particular as ações sanitárias e higienistas a serem implementadas
pela autoridade pública com o objetivo de impedir a propagação das ten-
dências degeneradas entre a população. Em diversos países do mundo,
programas de saúde coletiva foram desenvolvidos e implementados em
par

torno de noções como “manutenção da pureza da raça” e “estímulo e


manutenção dos bons costumes”. No Brasil, no início do século XX, todo
Ed

um programa de combate à mestiçagem e de “arianização da raça brasi-


leira”, sustentado notadamente pela Liga Brasileira de Higiene Mental,
teve nas teses da degenerescência seu fundamento teórico e ideológico
ão

(PEREIRA, 2008, p. 494).

Concernente a isto, os eugenistas possuíam a ideia de que não havia muito


s

que ser feito pelos doentes, a não ser o “branqueamento” da população, de


ver

forma que as demais “raças híbridas” e as “biologicamente inferiores” (negros


e indígenas) desaparecessem. Os cortiços eram constantemente visitados pelos
“mata mosquitos” que na companhia de policiais, tinham como tarefa desin-
fetar casas, limpar ruas, exigir reformas e demolições, identificando doentes
e removendo-os. As visitas eram mal recebidas pelos moradores que sentiam
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 137

sua privacidade invadida e sua vida doméstica vigiada, além de correr o risco
de ficar sem casa por ordem médica. “Eram as teorias raciais ganhando ter-
reno entre os administradores e o preconceito racial moldando as políticas
públicas na maior cidade do país na época” (ALBUQUERQUE; FRAGA
FILHO, 2006, p. 214). No Rio de Janeiro, sob a presidência de Rodrigues
Alves (1902-1906) houve na cidade uma grande reforma urbanista e sanitária,
que fora comandada pelo prefeito da cidade Pereira Passos e por Oswaldo

or
Cruz, diretor geral de Saúde Pública.

od V
aut
Pereira Passos começou por determinar a expulsão de milhares de traba-
lhadores pobres que viviam nos prédios antigos e decadentes do centro da
cidade, transformados em cortiços [...] as autoridades sanitárias promove-

R
ram a derrubada desses prédios. Em seu lugar foram construídas amplas
avenidas, parques e edifícios afinados com a modernidade arquitetônica

o
[...] Em seguida Oswaldo Cruz iniciou os trabalhos de higienização da
capital, montando um esquema de fiscalização das ruas e das casas que
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

abrigavam a população do centro carioca [...] Paralelamente, os higienistas


voltaram-se para os morros que circundavam o centro do Rio de Janeiro que
já abrigavam inúmeras favelas. Alegando que alguns morros dificultavam a
visã
circulação dos ares e comprometia a saúde coletiva. Oswaldo Cruz ordenou
a retirada da população dessas áreas, a destruição das favelas e a terra-
planagem dos morros pela prefeitura (BERTIOLLI FILHO, 2006, p. 25).
itor

As mudanças urbanísticas e sanitárias ocorridas no país tiveram como


a re

resultado um efeito positivo na higiene pública, todavia, foram as elites eco-


nômicas as mais beneficiadas. Quanto à população pobre, estes continuaram
a ter condições de vida precárias. Ao beneficiar o bem-estar dos ricos, o res-
tante da população ficava em segundo plano, ficando praticamente imunes às
enfermidades que ainda assolavam com frequência as pessoas mais pobres,
par

que ainda continuavam a morar em cortiços.


Ed

Os jornais, também carregados de preconceitos, incansavelmente exigiam


que fossem tomadas providências contra o que denominavam de “antros
de imundície e desordem” [...] Ali estavam as “classes perigosas”, como
ão

se referiam na época os médicos aos pobres, em geral negros egressos da


escravidão ou descendentes de escravos [...] Diante desse quadro, pode-se
s

considerar que, se a missão dos higienistas era dar fim às frequentes epide-
mias, as maneiras e argumentos que conduziam a saúde pública tinham por
ver

alvo preferencial as denominadas “classes perigosas” (ALBUQUERQUE;


FRAGA FILHO, 2008, p. 214).

No século XIX, ocorreu a admissão da vida pelo poder, ou seja, um tipo


de estatização do biológico que coloca a tomada de poder sobre o homem
138

enquanto ser vivo. Há uma inversão no que se refere ao poder - se antes o


soberano estava pautado sob a égide de “fazer” viver e “deixar” morrer, agora
se têm um novo direito, o de fazer viver e deixar morrer (FOUCAULT, 1999).
O autor nos fala acerca do chamado biopoder, poder este imerso em discursos
cientificistas que possuem um objetivo velado de controle sobre as massas.
Longe do sustentáculo da morte ordenada pelo soberano, existe a “cura”, o
“fazer viver” para as doenças que assolam toda uma população, mas nem todos

or
podem obtê-la - aos ditos degenerados, cabe-os “deixar morrer”.

od V
aut
A República em Belém: uma Belle-Époque não tão Belle

R
A cidade de Belém do século XIX, imersa neste contexto higienista,
passou por um processo de urbanização que deveria ser feito de forma que

o
pudesse assumir a condição de uma Paris Tropical. Antônio Lemos era inten-
dente municipal, responsável juntamente com Augusto Montenegro por uma
aC

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gestão compartilhada da administração municipal e estadual. Estas funções
deram-lhe a possibilidade, a partir da expansão da economia da borracha, da
efetivação de expressivos projetos arquitetônicos em Belém, a realização de
visã
um embelezamento da cidade com o financiamento da Belém da borracha
(1870-1910) (DERENJI, 1984; SOARES, 2008). Houve desta forma negli-
gência por parte do poder público, que desenvolvia políticas de maneira desi-
gual no espaço urbano da cidade. Era possível notar as melhorias e serviços
itor

de infraestrutura apenas nos centros urbanos. Neste contexto, modernidade,


a re

civilização e progresso fora o lema utilizado para a construção da moderna


Belém, que havia sido reconfigurada aos moldes de um ideal importado de
grandes centros urbanos como Paris e Londres (SOARES, 2008).
Era vista como necessária não apenas a reconfiguração do espaço urbano
par

de Belém, como também exigia-se um novo padrão comportamento que com-


patibilizava-se com os modelos ditados pela elite, com o intuito de tornar os
Ed

espaços verdadeiramente civilizados e deleitosos. As demandas das elites da


borracha eram majoritariamente atendidas pelo poder público, que atuava
objetivando a civilização e modernização. “A Belém moderna era construída
ão

para todos – todos aqueles que residiam no núcleo central, onde haviam sido
realizadas novas melhorias e intervenções urbanas, como no caso da viação,
s

telefonia, água encanada, luz elétrica, etc.” (SOARES, 2008, p. 64). A cons-
ver

trução espacial da época, na verdade, resultou em segregar aqueles que não


participavam de forma direta das riquezas proporcionadas pela borracha, pois
não atendiam aos padrões esperados pela elite, muito menos contribuíam
para o embelezamento da cidade, pensamento este, que refletiu em algumas
medidas públicas tomadas por Lemos.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 139

A preocupação sanitária concentrou os maiores esforços da administração


de Lemos. Em 1898, para que Belém se mantivesse em ordem e limpa,
foi criada a Repartição Sanitária Municipal, destinada aos serviços de
fiscalização sanitária para prevenção de doenças e epidemias. Para isso,
foram contratados novos funcionários que fiscalizariam os mercados, mata-
douros, estábulos, hotéis, restaurantes, necrotérios, cemitérios, inclusive
domicílios particulares – enfim [...] A cidade deveria ter seu espaço público

or
higienizado, retirando todos os elementos que pudessem contrapor esse
princípio de higiene, o que, na prática, significava retirar as casas não

od V
condizentes com este preceito (SOARES, 2008, p. 56-87).

aut
As práticas higienistas assim como aplicadas no restante Brasil, também

R
foram efetivadas por Antônio Lemos em Belém, refletindo os mesmos ideais
que resultavam na segregação dos ditos populares. As casas de pessoas com

o
baixa renda eram consideradas pela elite e pelo poder público como locais
que possuíam estética desagradável, anti-higiênica e imoral, locais propícios
aC
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a doenças que significavam um risco à saúde da população em geral. As resi-


dências dos pobres não significavam apenas ausência de boa estética, como
também uma extensão da saúde do morador. Estas moradias eram vistas,
visã
devido a sua degradação, como responsáveis por adoecer o núcleo da cidade
e um empecilho à modernização da capital.

A ideia do meio como principal responsável pela formação do corpo físico


itor

e do estado moral do pobre conduziu à noção de que o combate à doença e


a re

aos comportamentos julgados antissociais deveria passar por uma modifi-


cação do meio. Pensava-se que, se a cidade é um meio corrupto, favorável
à perversão dos costumes e à difusão de doenças, ela poderia ser trans-
formada em um meio corretor; se a casa degrada o indivíduo, alterada de
acordo com os preceitos da higiene e da disciplina, ela poderia converter-se
par

em elemento que corrige, em meio gerador de pessoas saudáveis e regradas


(CORREIA, 2004, p. 21).
Ed

Neste momento de modernização que a capital estava enfrentando, com


grandes transformações urbanas e o processo de higienismo, tais medidas
ão

contribuíram para que jornais da época surgissem como ferramenta de suma


importância, como forma de representar a população menos favorecida que
s

enfrentava o afastamento para a periferia. Percebe-se que houve, outrossim,


ver

certa fiscalização da estética de Belém através da mídia, como nos traz o jornal
da época, A Vida Paraense (1883), que fez o uso da ilustração com a temática
mais recorrente neste periódico, a limpeza da capital. Em sua última edição foi
feita uma página dedicada a “ilustríssima Câmara”, representando a “Cidade
do Lixo”, trazendo vários aspectos negativos como o símbolo da morte em que
140

desponta na foice “febre amarela” estando em volta de uma senhora nobre ao


meio de vários urubus (FERNANDES e SEIXAS, 2011). É possível observar
que a mídia contribuiu para fomentar a ideia da cidade como símbolo de revés
à modernidade, acabando por denunciar situações que colocavam em perigo a
sociedade, como as grandes epidemias e a presença do lixo, sendo este trans-
missor de várias doenças marcadamente atribuídas aos populares.

or
A estratégia higienista procurou dirigir a luta contra o lixo ameaçador

od V
[...]. Isto leva-nos a perceber a importância do papel da imprensa que se

aut
achava porta-voz dos habitantes, ao denunciar o perigo que representava à
população as epidemias, associadas ao zelo pelo aspecto da cidade diante
da impressão que causaria aos visitantes (SARGES, 2000 apud FERNAN-

R
DES; SEIXAS, 2011, p.07).

o
O bairro do Guamá em contexto
aC

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Belém, estando inserida no contexto nacional, não se diferiu muito quanto
às questões de assujeitamento da população pobre, porém de forma peculiar.
visã
Voltamos nossa atenção ao bairro do Guamá e sua história que nos apresenta
um pouco da origem dessas visões e organizações objetivadoras. Conhecido
como um bairro bastante movimentado, o bairro do Guamá e seus moradores
itor

se articulam de diversas formas, criando uma identidade coletiva que surge


através de alguns indícios no processo de ocupação do bairro, que iniciou em
a re

dois momentos: o primeiro iniciado no século XX, como extensão do bairro


de São Brás, e o segunda na década de 1950, sendo intensificada e originada
do Rio Guamá (DIAS JUNIOR, 2009).
O atual bairro do Guamá, inicialmente visto como extensão do bairro de
par

São Brás, servia como ponto de entrada e saída da cidade. As primeiras áreas
de ocupação do bairro se deram pela aproximação de terrenos que facilitavam
Ed

a tramitação dos migrantes, principalmente nordestinos, que enxertavam a


cidade atraídos pela economia da borracha. Com isso, as famílias recém-che-
gadas se fixavam ocupando o espaço, desmatando o local e criando caminhos
ão

e passagens nas matas próximas. No processo de crescimento de Belém, a


ocupação dos bairros às margens do Rio Guamá, surgiu como forma recorrente
s

no momento de distribuição espacial da cidade desde o século XVIII, visto


ver

que a ocupação realizada se originou com a presença de pessoas advindas de


regiões como o Rio Guamá, Rio Acará e Baixo Tocantins, o que contribuiu
para que o bairro crescesse de frente para o rio. Após os anos 50, a população
se agrupou lentamente, na parte sul do bairro, desmatando o local, criando
passagens e ruas. Desta forma, verifica-se a existência de dois momentos que
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 141

originaram a ocupação do bairro (via terra e rio), sendo o crescimento popu-


lacional da cidade fator contributivo para que o bairro recebesse visibilidade
com o passar do tempo (DIAS JUNIOR, 2009).

O bairro do Guamá está localizado na extremidade sul da cidade de Belém,


as margens do rio Guamá, que faz fronteira com os bairros de São Braz,
Canudos, Terra Firme, Condor e Cremação. Apresenta uma área urbana

or
de 4.127,78 km² e é um dos onze bairros que compõe o Distrito admi-
nistrativo do Guamá (DAGUA). Sua população é de 102.124 habitantes

od V
segundo dados do Anuário Estatístico do Município de Belém de 2006

aut
(DIAS JUNIOR, 2009, p. 39).

R
No início do século XX, era defendida a construção de colônias de isola-
mento como uma saída pertinente e eficaz de combate à disseminação da lepra

o
no Estado (MIRANDA et al., 2015). Nesse contexto criou-se, sob a responsa-
bilidade da Santa Casa de Misericórdia, a Colônia de Lazáros, popularmente
aC
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conhecida como Leprosário do Tucunduba. Nela ficaram confinados, por


mais de 100 anos, os doentes do “mal de Lázaro”. O Leprosário do Tucun-
duba se localizava na atual rua Barão de Igarapé Miri, sendo inaugurado no
visã
ano de 1815 e desativado em 1938, devido ao processo de urbanização que
o local sofreu. A maioria das pessoas que sofriam do Mal de Lázaro eram
escravos, que eram submetidos a degradantes condições de vida no leprosário.
itor

Devido a estas questões, os administradores da Santa Casa não conseguiam


mantê-los presos no Tucunduba, como primavam as políticas higienistas. Por
a re

não haver um muro que cercasse o leprosário, muitos leprosos transitavam


pela capital, de forma a expander o pânico para médicos e demais moradores
(HENRIQUE, 2012 apud MIRANDA et al., 2015).
O espaço físico do leprosário possuía espaços separados de forma a segre-
par

gar os doentes, homens, mulheres, de moças virgens, de crianças, a adminis-


tração, a cadeia, e outros compartimentos pensados para evitar a propagação
Ed

da lepra. (BELTRÃO; MIRANDA; HENRIQUE, 2011 apud MIRANDA et


al., 2015). As más condições de saúde pública no século XIX corroboraram
para infectar a população menos favorecida, que crescia alarmando as autori-
ão

dades. Estas não mediam esforços para sanear a cidade por meio da reclusão
e isolamento, não apenas de pessoas com o “mal de Lázaro”, mas também de
s

doentes mentais e com outras doenças infecciosas. Com isso, o afastamento


ver

da população sadia se fazia necessário. Esse fenômeno excludente permeou o


universo mental do século XIX, visto que as políticas profiláticas procuravam
“limpar” os espaços urbanos das ameaças que a população pobre e doente
poderia ocasionar aos moradores da cidade (DIAS JUNIOR, 2009). Referente
aos projetos urbanos de Antônio Lemos para São Brás, a exemplo do Mercado
142

Municipal, depreende-se que estivessem secretamente agregados ao objetivo


de evitar a circulação de populares, moradores dessas áreas, no centro da
cidade, visto que os hábitos e valores de migrantes não eram compatíveis ao
padrão pensado pela administração da intendência (DIAS JUNIOR, 2009).
O período da República brasileira nos trouxe atravessamentos e reflexos
no contexto paraense. A exclusão e marginalização foram consequências aos
que não se encontravam aptos a atender os anseios de uma capital dominada

or
pela elite da borracha. O bairro do Guamá foi um dos bairros afetados por

od V
esta segregação, ocultado em sua cultura local e popular, escolhido para

aut
abrigar pessoas doentes no leprosário. O centro da cidade não era local para
os que representavam a degradação humana e o retrocesso da civilização e
modernização da Paris Tropical. Ainda hoje, o bairro do Guamá não deixou

R
de ser visto como um local em que impera a marginalidade, zona perifé-
rica de Belém, sendo-lhe atribuídas adjetivações que não diferem quanto

o
ao sentido de exclusão outrora historicamente posto. Zona vermelha, local
aC

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onde ocorrem crimes e onde habitam marginais, são alguns atributos atuais
pelos quais o Guamá é conhecido. Com o decorrer dos séculos, vemos que
não houve mudanças significativas quanto a lógica segregacionista daqueles
que não se adequam a uma moral imposta pela elite, não sendo percebido
visã
que este contexto que atravessa séculos fora produzido por aqueles que se
queixam de uma incivilidade.
itor

A criminalização da pobreza
a re

Faz-se necessário, diante deste contexto, falarmos acerca do conceito de


“dispositivo” de Michel Foucault. A definição diz respeito a práticas discursi-
vas e não discursivas que implicam em relações de poder, como leis, ciência,
par

monumentos arquitetônicos, etc. Os dispositivos se referem a práticas que se


retroalimentam, atuando como um aparelho, uma ferramenta que constitui
Ed

sujeitos e os organiza (DREYFUS; RABINOW, 1995, p. 135). É relevante


frisar que os dispositivos são uma série de mecanismos que produzem pro-
cessos de objetivação e subjetivação que segundo Fonseca:
ão

[...] constituem procedimentos que concorrem conjuntamente na constitui-


ção do indivíduo. Os primeiros a fazer parte dos estudos em que Foucault
s

se dedica a mostrar as “práticas que dentro de nossa cultura tendem a fazer


ver

do homem um objeto”, ou seja, os estudos que mostram como, a partir dos


mecanismos disciplinares, foi possível constituir o indivíduo moderno: um
objeto dócil e útil. Os segundos, por sua vez, localizam-se no âmbito dos
trabalhos em que Foucault procura compreender as práticas que, também
dentro da nossa cultura, fazem do homem um sujeito, ou seja, aquelas
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 143

que constituem o indivíduo moderno, sendo ele um sujeito preso a uma


identidade que lhe é atribuída como própria (2007, p. 25).

Segundo Benites (2006), pode-se observar que os processos de subje-


tivação e objetivação funcionam concomitantemente, ou seja, as práticas de
subjetivação propiciam ao homem se tornar sujeito e esse mesmo processo o
objetiva, tanto para cuidar e conhecer a si mesmo quanto para se apresentar

or
ao conhecimento e cuidado de outros. Apresenta-se, portanto, como um objeto
de intervenção. Assim sendo, todos os dispositivos que serão apresentados

od V
se tratam de uma série de mecanismos atuais de controle, estratégias que

aut
produzem modos de subjetivação e objetivam a pobreza, o crime, sob uma
racionalidade que possui como objetivo criar efeitos de subjetivação tanto

R
para as pessoas que são atingidas por esses dispositivos, quanto para aquelas
que por eles não são alcançadas diretamente. Cria-se formas de ser e de viver.

o
Nosso objetivo é que a partir dessa cartografia e destes elementos possamos
aC
problematizar as relações de poder no Guamá.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Ao longo da história, percebemos como o negro, o pobre e mora-


dor de periferia é de alguma forma, excluído, negligenciado, entendido
como inferior e não humano. A criminalização da pobreza perpassa por
visã
essa insensibilidade à figura majoritariamente dos jovens, negros, pobres, e
moradores de periferia, tendo como pressuposto a existência de criminosos
em potencial. Atribuem-se determinadas características à juventude como
itor

se estas fossem advindas de sua natureza, e são tidas como inquestionáveis.


a re

Desde o século XX em nosso país, tem-se definido o jovem pobre como


criminoso e não humano, o que resulta em efeitos forjados pelas práticas
que associam à situação da pobreza com condição sine qua non a periculo-
sidade e criminalidade. A partir desta conjuntura surge um grande receio em
relação ao futuro de crianças e jovens, pois estes poderão vir a compor as
par

“classes perigosas”. Entende-se que a infância e a juventude estão em emi-


nente “risco” e, portanto, deverão ter suas virtualidades permanentemente
Ed

controladas (COIMBRA; NASCIMENTO, 2005).

Para esses “jovens”, destinados de antemão a esse problema, fundidos com


ão

ele, o desastre é sem saída e sem limites [...] Marginais pela sua condição,
geograficamente definidos antes mesmo de nascer, reprovados de imediato,
eles são os “excluídos” por “excelência” (FORRESTER, 1997, p. 57-58).
s
ver

O estereótipo que transpassa o nosso imaginário ao pensar em um crimi-


noso, não é o descente europeu de olhos azuis. Isto expressa o quão atraves-
sados somos por esta visão preconceituosa - e as mídias, são cada vez mais
fomentadoras de uma perspectiva acrítica que não nos mobiliza a entender o
contexto político e social do país em que vivemos.
144

O Contexto neoliberal como potencializador da criminalização


da pobreza

Não podemos esquecer que o neoliberalismo é cooperador para uma reali-


dade social díspar. Constituinte de uma nova fase do capitalismo, que se fixou ao
início dos anos 80, este modelo econômico apresenta três características marcan-
tes: “uma dinâmica mais favorável da mudança tecnológica e da rentabilidade,

or
a criação de rendas a favor das classes mais abastadas, e a redução da taxa de

od V
acumulação” (DUMÉNIL; LÉVY, 2007, p. 1). Por trás desta lógica há a tentativa

aut
de equiparar valores de classes econômicas mais elevadas, modos de vida que
prosseguem em desigualdade e que tendem, no neoliberalismo, favorecer cada

R
vez mais esta distância, pois à medida que se constitui a riqueza e a acumulação
do capital produz, por outro lado, a miséria (COIMBRA; NASCIMENTO, 2005).
O capitalismo prima pela produtividade, criação de rendas. Possui a ideia

o
de que trabalhadores livres podem oferecer e vender sua força de trabalho no
aC

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mercado, mas a condição é que estes se mantenham nos lugares que lhes são
designados, mantendo-se dentro das normas, respeitando regras, não se agru-
pando com pessoas indesejáveis - ou seja, devem se comportar como lhes dita a
visã
sociedade de classes. O que vem avesso à produtividade é tido pelo capitalismo
como repugnante, e aqueles que se inserem no ócio e na inércia, estão sujeitos aos
vícios considerados intrínsecos aos pobres (COIMBRA; NASCIMENTO, 2005).
No entanto, compreende-se que os padrões colocados pela sociedade
itor

burguesa não podem abranger a todos e nem ser considerados como uma
a re

verdade global. Há na verdade uma liberdade ilusória, pois esta é permeada


pelas oportunidades desiguais e uma competitividade que é vista com bons
olhos, enquanto um existir mais humano e fraterno é um verdadeiro desco-
nhecido. Além disso, o neoliberalismo nos coloca ainda na presença de um
par

poder disciplinar, que vem se atualizando desde o século XVIII até dias atuais,
que segundo Foucault (2014) trata-se de um poder que possui como função
Ed

adestrar, no sentido em que busca ligar forças para multiplicá-las e utilizá-las


num todo; separa, analisa, diferencia, adestra as multidões dispersas, móveis
e sem utilidade de forma múltipla para uma forma individualizante.
ão

Neste poder disciplinar, encontra-se imerso um tipo específico de poder: a


disciplina. Esta tem o intuito de fabricar corpos úteis e dóceis, toma os indivíduos
como objetos e instrumentos que serão utilizados por ela. “As disciplinas carac-
s

terizam, classificam, especializam; distribuem ao longo de uma escala, repartem


ver

em torno de uma norma, hierarquizam os indivíduos em relação uns aos outros


e, levando ao limite, desqualificam e invalidam” (FOUCAULT, 2014, p. 215).
No pano de fundo dos dispositivos disciplinares, é possível notar um pavor em
relação às revoltas, crimes, vagabundagem, desordem, das pessoas que vivem
e morrem desordenadas, que aparecem e desaparecem (FOUCAULT, 2014).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 145

É preciso anular os efeitos das repartições indecisas, o desaparecimento


descontrolado dos indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inuti-
lizável e perigosa; tática de antideserção, de antivadiagem, de antiaglome-
ração. Importa estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como
encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis e interromper as
outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-
-lo, sanciona-lo, medir as qualidades ou os méritos. Procedimento, por-

or
tanto, para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço
analítico (FOUCAULT, 2014, p. 140).

od V
aut
Diante deste cenário, explicita-se um poder disciplinar que possui estra-
tégias de controle por meio das disciplinas, táticas estas que diante de nossa

R
sociedade capitalista, a população que não estiver inserida no mercado de
trabalho, deve ser criminalizada, são aqueles que não conseguiram se tor-
nar corpos úteis e dóceis para atender os anseios dos modos de produção

o
do capitalismo, como veremos nos próximos tópicos (COIMBRA; NAS-
aC
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CIMENTO, 2005). Este processo constituiria uma gestão da pobreza a céu


aberto. Complementar a isto, Coimbra e Nascimento (2005) nos colocam que
no Brasil, a partir de 1980, com a consolidação das medidas neoliberais e com
visã
o concomitante surgimento do Estado mínimo, da globalização, competitivi-
dade, livre comércio, privatização, desestatização da economia, colocou-nos
diante de uma produção em massa do medo, da insegurança, do terror, entre-
laçados ao aumento do desemprego, da exclusão, da miséria e da pobreza.
itor

Por conseguinte, as mesmas autoras nos revelam que se no capitalismo


a re

liberal os pobres foram enclausurados com o objetivo de serem disciplinados


e normatizados, de serem transformados em exemplares de pais de família e
cidadãos honestos, no neoliberalismo atual estes são considerados desneces-
sários ao mercado, e suas vidas nada valem.
par

O extermínio da juventude negra


Ed

Existe uma prática de extermínio de jovens, negros, pobres, com baixa


escolaridade e moradores de periferias, um massivo genocídio desse grupo.
ão

Essas práticas possuem o intuito de defender a sociedade do “mal”, e desti-


nam aqueles que atendem a esses critérios, à cadeia ou ao caixão. Mata-se
em nome da vida da população dita “de bem”, alicerçando-se em uma prática
s

biopolítica, do fazer viver e deixar morrer, como dito anteriormente (LEMOS


ver

et al., 2017). A biopolítica se refere a uma tecnologia que abarca a multiplici-


dade dos homens, de forma a afetá-los em massa por processos de conjunto
que são próprios da vida, como o nascer, o morrer, a produção, a doença, etc.
Trata-se de uma tomada de poder que não é individualizante, mas massifi-
cante, que não aponta para o homem-corpo e sim para o homem- espécie,
146

uma biopolítica da espécie humana. (FOUCAULT, 2014). Há desta forma um


controle sobre a vida e morte da população, atrelado a uma visão política de
defesa da sociedade, às práticas de encarceramento e de extermínio de pessoas
apontadas como as que possuem uma vida imerecida. É relevante pensar que
essas “vidas matáveis” são assoladas pela falta de oportunidades que mui-
tos insistem em afirmar serem iguais a todo cidadão brasileiro. Há falta de
acesso às políticas sociais, que muitas vezes não conseguem suprir a enorme

or
demanda que lhes chega. São oportunidades desiguais em estudo, em saúde,

od V
na própria existência, de forma que por vezes, nem sequer são reconhecidos

aut
e respeitados como cidadãos - merecem truculência e devem ser erradicados.

Nesse dantesco quadro, os jovens pobres, quando escapam do extermí-

R
nio, são os “excluídos por excelência”, pois sequer conseguem chegar ao
mercado de trabalho formal. Sua atuação em redes ilegais como o circuito

o
narcotráfico, do crime organizado, dos sequestros, dentre outros, vem
sendo tecida como única forma de sobrevivência e se prolifera, cada vez
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


mais, como práticas de trabalho à medida que aumenta a apartação social
(COIMBRA; NASCIMENTO, 2005, p. 8).

Frente a esta prática de extermínio, temos a ideia de uma “guerra contra


visã
a bandidagem” que se pauta também na justificativa dos chamados “autos de
resistência” ou “resistência seguida de morte” que concerne em atos admi-
nistrativos perpetrados por agentes do Estado. São inquéritos policiais de
itor

homicídios cometidos por policiais civis. No art. 121 do Código Penal, o


a re

homicídio deve ter ocorrido em legítima defesa em caso de confronto armado,


em período de trabalho. Todavia, o que acontece muitas vezes é que o policial
civil ou militar declara que houve legitima defesa, não havendo geralmente
apuração do crime e o caso sendo consequentemente arquivado (LEMOS
et al., 2017). Outra situação é que as fichas de inquérito identificadas como
par

autos de resistência apresentam apenas as versões dos policiais e quando


Ed

chamados outros depoentes, as perguntas são direcionadas com o objetivo


de identificar se a vítima possuía algum tipo de envolvimento com crimes.
Além disso, as investigações sobre os casos de homicídio normalmente só
ão

ganham visibilidade perante o Ministério Público após visibilidade midiática


ou pressão popular. Sem estes recursos, arquiva-se o caso.
s

Os autos de resistência são efeitos de uma política criminal orientada pela


ver

metáfora da guerra, cujos discursos de segurança pública produzem o ini-


migo interno da sociedade que deverá ser eliminado em nome da segurança.
Essa política criminal se materializa em práticas que vão desde a militariza-
ção de territórios considerados perigosos, do endurecimento das leis penais,
do crescimento da segurança privada até a formação de milícias para limpeza
urbana (PEDRINHA; PEREIRA, 2001 apud LEMOS, et al., 2017, p. 173).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 147

Nota-se que há um clamor por medidas punitivas, não apenas por agentes
do Estado, mas também pela população em geral, por considerar o jovem da
periferia um ser perigoso em potencial. Estas medidas reduzem a responsabili-
dade do Estado em relação aos deveres que devem ser exercidos para com este
jovem, como prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e outrossim,
alimenta a produção do medo em relação a figura deste adolescente (SANTOS;
OLIVEIRA; PAIVA; YAMAMOTO, 2012 apud LEMOS, et al., p. 173, 2017).

or
Diante deste cenário, nos é vendida a ideia de um perigo que nos cerca. Porém,

od V
será que a guerra é contra a “bandidagem”? Ou contra a violação de direitos

aut
exercida por aqueles que possuem um poder socioeconômico significativo e
que é contribuinte para criar este cenário de “guerra”? Pode ser até que sejamos
inconscientemente peça parte deste jogo de poder político que nos é omisso.

R
Segundo Verani (1996) a racionalização lógica das autoridades de ocuparem
uma posição austera contra o “crime” e contra os “criminosos”, reforça a ideia

o
de que os defensores dos direitos humanos são consequentemente protetores de
aC
“bandidos”. Diante disto, fundamentam-se as ações ilegais, os abusos policiais,
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

os extermínios. Lemos et al., (2017) expõem que a segregação e mortes dos


grupos de pessoas negras, pobres e em sua maioria jovens são naturalizados,
de maneira que não há uma preocupação para com os aprisionamentos e exter-
visã
mínios massivos que os acometem e que estas práticas precisam nos inquietar
e se tornarem alvos de pesquisas e resistências no âmbito da Psicologia. Ade-
mais, quando falamos em juventude, devemos lembrar que estes devem ser
itor

potencializados e reconhecidos em sociedade, tendo possibilidades reais de


a re

acessar políticas sociais, esportes, educação, cultura, lazer, a saúde, a cidade e


seus equipamentos públicos. Cano (1998) nos leva a refletir que “a prevenção e
repressão da criminalidade, não constituem uma guerra. Em segurança pública
não se lida com ‘inimigos’, mas com ‘suspeitos’, que devem ser colocados à
disposição da justiça e não ‘eliminados’” (p. 220).
par
Ed

Campos de concentração a céu aberto: a questão da gestão da


pobreza
ão

Não nos é novo falar em segregação. Historicamente, desde a escravidão,


notamos uma divisão de uma elite majoritariamente branca em detrimento de
negros e pobres habitantes de periferia. Lança-se mão até os dias atuais de
s

mecanismos para que não haja uma agregação – não apenas espacial, mas tam-
ver

bém de padrões morais e de existência. Desta forma, utilizamos o conceito de


“campos de concentração a céu aberto”. O conceito supramencionado se refere
a “um programa da sociedade de controle que inclui tudo e mais um pouco,
infratores ou não, perigosos ou não, sob o governo dos direitos de minorias
que não dispensa endurecimento das penas, leis cada vez mais restritivas das
148

condutas” (AUGUSTO, 2010, p. 265). As periferias são locais onde podemos


enxergar este campo de concentração a céu aberto, pois elas representam a
flexibilização de práticas disciplinares, como prisões fora do espaço físico.
Referimo-nos ao exercício de um controle implícito a um local aparen-
temente livre de contenção, onde encontramos os tidos como rebeldes, resis-
tentes, insurretos. Concentrá-los em um território específico facilita sufocá-los
em suas manifestações, e proporcioná-los o que precisam para não ocuparem

or
outros espaços mostra a eles uma prática política democrática em que podem

od V
participar ilusoriamente com a falsa ideia de autonomia. Mira-se assim em

aut
áreas consideradas de risco ou vulnerabilidade social. Augusto (2010) nos traz
que os guetos têm como uma de suas faces a função de conter um determi-
nado grupo da população, previamente selecionado, tendo em vista algumas

R
características de minorias atreladas a questões raciais, dos que não podem
ser deixados livres por serem potencialmente perigosos.

o
Em virtude destas concepções, criam-se modos de controle e punições
aC
para as pessoas indesejáveis que se encontram fora das prisões. São estratégias

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


difundidas consideradas como modalidades de cárcere que se efetivam tam-
bém fora das prisões. No que concerne à situação dos jovens no Brasil, não
nos é muito distante observar práticas de controle que funcionam de forma a
visã
delimitá-los em seu cotidiano nas periferias, havendo uma aproximação com a
prática prisional. Há, na verdade, a construção de estratégias para que se possa
manter este jovem na localidade onde mora, de maneira que ele se desloque
itor

o mínimo possível. Uma das táticas utilizadas para que isto ocorra é absorver
a re

parte destes jovens para trabalhar temporariamente em ONGs como aplica-


dores de questionários de pesquisas sobre a vida de adolescentes infratores
que se encontram cumprindo medida socioeducativa ou como monitores de
algum curso. Logo estes são, segundo Augusto, “campos de concentração a
céu aberto que disseminam práticas de contenção de liberdade” (2010, p. 270).
par

Assim, atualiza-se o termo política pública como sinônimo de polícia


Ed

e como prática que não se restringe à ação do Estado, mas que associa
e aproxima ações de Estado com sociedade civil, por meio de cidadãos
empresas, que realizam a prática policial como expressão e exercício de
ão

assujeitamentos (AUGUSTO, 2010, p. 272).

Destarte, temos dispositivos que dilatam as modalidades de encarcera-


s

mento, atingindo as relações que são estabelecidas por pessoas que habitam
ver

em zonas periféricas, regidas pelos mesmos códigos de conduta, de modo a


obedecer acriticamente, tendo como consequência práticas de subjetivação que
as paralisam e as mantém em uma posição de assujeitados, pois aprenderam
a venerar o seu espaço de enclausuramento a céu aberto. Conseguiu-se logo,
efetivar a manutenção de uma parte da população “quieta, feliz e policiada”
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 149

(AUGUSTO, 2010, p. 270-272). Os campos de concentração a céu aberto estão


diretamente ligados à gestão da pobreza, pois após reunir determinados grupos,
são-lhes colocadas normatizações sobre as formas de existir consideradas cor-
retas. Fabricam-se subjetividades sobre o que é a pobreza e o que é ser pobre,
expõe-se e decreta-se o que deverão ser (COIMBRA; NASCIMENTO, 2005).
Coimbra (2001) nos apresenta o mal-estar vivido por parte dos poderosos
e ascendentes da classe média que possuem interesse e estão dispostos a pagar

or
pela promessa de tranquilidade que os coloca em segurança em seus condo-

od V
mínios exclusivos, distante da “classe perigosa”, hoje não moradora apenas

aut
das favelas e periferias, mas também ruas do centro da cidade. A ocorrência
de chacinas se correlaciona ao temor dos “marginais” invadirem os centros.
Rememorando as chacinas de 2014 e 2017 em Belém, não houve aulas em

R
muitas escolas e universidades, e o medo imperou não apenas nos locais onde
ocorreram os crimes acoplados a genocídios e extermínios, mas também nos

o
refúgios ocupados pela classe alta, pelo receio e medo de terem seus refúgios
aC
ocupados, quando na verdade o real perigo fazia-se presente para aqueles que
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de perto vivenciaram uma grande violência.

Mesmo continuando a existir o crime lá fora, se os outros e, sobretudo, os


visã
pobres estiverem isolados e distanciados, será possível sentir-se seguro
socialmente [...] O interessante nisso tudo é que o Estado parece estar sendo
deixado relativamente de fora desse processo. Pede-se seja duro, por via das
itor

dúvidas vai se criando uma ordem paralela, pelo menos para a vida cotidiana.
Levado ao limite, esse mecanismo deixará a polícia e a segurança pública
a re

tendo os pobres como clientela ‘exclusiva’ (CALDEIRA, 1991, p. 173).

A ocorrência da violência e do crime parecem não importar, visto que o


relevante é manter distância social daqueles que são potencialmente crimi-
par

nosos - as elites estando longe desses grupos, está tudo bem. Para mantê-los
distantes usam-se mecanismos de gestão que os impeçam o alcance das classes
Ed

mais abastadas. Dessa maneira, gerir o pobre é se apropriar de dispositivos de


controle, é governá-lo, monitorá-lo, dizer a forma “certa” de se portar, pois,
sua presença é demasiada “nociva”.
ão

Mídia: ferramenta construtora de objetivações e subjetivações


s

Sabe-se que a mídia não exerce apenas o papel comunicativo ao seu recep-
ver

tor, mas também constrói opiniões e captura subjetividades de acordo com a


perspectiva trazida pela dita “neutra” informação. Nosso interesse é explicitar
como a mídia exerce demasiada influência sobre aqueles que a acessam, de
maneira espontânea ou não, mas que independente disto são atravessadas pelos
discursos midiáticos. Mais especificamente, trazemos a mídia impressa local,
150

exposta pelo jornal Diário do Pará, de forma a mostrar em seu discurso velado
e “politicamente correto”, a criminalização do jovem, negro, pobre e morador
de periferia. Foucault (2014) expõe que no século XVIII, eram colocados em
circulação folhetins que traziam “fábulas verídicas da pequena história” (p.
68). Nestes escritos havia um tipo de frente de luta em relação ao crime, de
sua lembrança e punição, concluindo haver uma expectativa por parte dos que
expuseram os folhetins à publicação, efeitos de controle ideológico.

or
Deleuze (1992) nos coloca que no período pós-moderno, os meios de

od V
comunicação de massa exercem a função de mecanismos de controle social,

aut
marcadamente pela produção de como se deve existir. Um controle disseminado
em curto espaço de tempo e de veloz rotação, ilimitado e contínuo, tendo em
vista que a disciplina era de longa duração, descontínua e infinita. Nesse sen-

R
tido, adequando-nos a realidade local, percebemos a rapidez de propagação da
“neutra” informação pelos jornais impressos, sendo comercializados de forma

o
contínua e ininterrupta. Em se tratando do jornal Diário do Pará, vemos em suas
aC
manchetes uma ideia formada sobre o sujeito que está sendo exposto em suas

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


páginas, o que nos faz retornar às “fábulas verídicas de pequena história” expres-
sas por Foucault, tendo em vista que muitas vezes coloca-se este sujeito, sobre
o qual se fala, envolto em uma construção de discursos laterais, considerando
visã
o crime como inerente a ele, de forma que a verdade do sujeito não é expressa
e nem levada em consideração – objetivamo-lo e anulamos sua subjetividade.
A mídia antidemocrática que nos é apresentada está imersa em uma
itor

cultura do controle, e a produção da figura do criminoso nos implanta este-


a re

reótipos não apenas físicos, mas também comportamentais, no sentido em


que vemos essas pessoas como “más”. São tidos como marginais, meliantes
e vagabundos. Expõe-se, por meio da mídia, “uma mediação da produção da
vítima como coitada e injustiçada e o algoz, criminoso a ser punido e casti-
gado. Cria-se uma legitimidade e justificativa para o extermínio, baseadas em
par

meritocracia e na prática de uma guerra civil não declarada, mas altamente


letal” (GALARD, 2008 apud LEMOS et al., 2017, p. 171).
Ed

A literatura policial transpõe para outra classe social aquele brilho de


que o criminoso fora cercado. São os jornais que trarão à luz nas colunas
ão

dos crimes e ocorrências diárias a mornidão sem epopeia dos delitos e


punições. Está feita a divisão: que o povo se despoje do antigo orgulho
de seus crimes: os grandes assassinatos se tornaram o jogo silencioso dos
s

sábios (FOUCAULT, 2014, p. 69).


ver

A mídia é composta por práticas econômicas, políticas e sociais, sendo


capaz de produzir subjetividades, estando intrínsecas a este agrupamento
relações de poder. Nos jornais podemos observar discursos que são expressos
muitas vezes dependendo do status social da vítima, pois é possível perceber
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 151

o afastamento de uma pluralidade de vozes, “sendo possibilitado a poucas


empresas a exibição e a produção de conteúdo audiovisual e impresso, além
de o direito de todo o cidadão de ser informado ser negligenciado, em muitos
casos” (LEMOS et al., 2015b, p. 67; LEMOS et al., 2017). Neste sentido,
a mídia produz modos de ser e de agir, estando correlata aos mecanismos
democráticos e não muito distante de dispositivos que criam medo e terror
na sociedade. Os saberes veiculados por meio dos discursos presentes nas

or
notícias exercem formas de controle, seleciona-se que manchetes terão ou não

od V
visibilidade e o que será ou não publicado. Hoje, tem-se uma mídia autoritá-

aut
ria, a favor de “interesses políticos profissionais, coorporativos, aos aspectos
conservadores e de consumo do entretenimento, no Brasil, historicamente”
(FOUCAULT, 2004; SILVA, 2012 apud LEMOS et al., 2015b, p. 63).

R
Criminalização da pobreza no Guamá

o
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Atualmente a exclusão da população pobre ainda emerge, e vem sendo


atravessando séculos. Se olharmos em diferentes épocas os noticiários, per-
ceberemos que o bairro do Guamá ainda recebe adjetivos como “popular”,
“festeiro”, “violento”, “pobre” e outras classificações. A imprensa acabara
visã
por ser porta-voz do discurso que reproduz ainda hoje a representatividade
do teor violento do local, que se cristalizou no imaginário belenense. Os
moradores do bairro do Guamá possuem uma cultura de lazer. Não é difícil
itor

ver crianças brincando nas ruas, pessoas jogando baralho ou dominó, práticas
a re

que contrapõem a lógica de produção capitalista, e favorecem as estratégias


de sobrevivência no espaço, visto que historicamente a população deste bairro
se instalava de forma a construir sua própria casa com o que tinha disponível,
plantando e colhendo para se alimentar. Sendo assim, procuram ressignificar
par

a vida, tendo como uma das práticas o lazer (DIAS JUNIOR, 2009).
Cria-se assim uma ambiguidade – a de bairro violento, identificado como
Ed

o mundo do crime e pessoas com baixa escolaridade, e ao mesmo tempo,


uma imagem positiva do bairro, de maneira a expor lugares com manifesta-
ções culturais e espaços prazerosos de viver (DIAS JUNIOR, 2009). Fazendo
ão

levantamentos bibliográficos, percebemos através da história como essa marca


excludente e simbólica se instala em pessoas que fogem aos padrões sociais
esperados, em determinado tempo eram escravos, vadios, e hoje criminosos
s

e bandidos. Em Belém, que de sua forma peculiar, fora atravessada por este
ver

marco histórico – a lógica excludente na qual no centro da cidade apenas se


instalaria a elite, e nas margens, a população pobre – encontramos o bairro do
Guamá. Assim como mostrado pela história, é confuso distinguir o passado e
o presente, visto que essas práticas de assujeitamento são muito vivas. Desta
forma, contextualizamos a criminalização da pobreza no bairro proposto em
152

nosso estudo. Nos anos de 2014 e 2017, ocorreram chacinas. A primeira delas
iniciada no bairro do Guamá, onde foram feitas várias vítimas e a segunda
englobando, entre outros, o referido bairro. Estas situações reverberaram em
toda a cidade, causando medo na população. Todavia é interessante perceber
a conjuntura deste cenário para que possamos contextualizar o que concei-
tuamos como criminalização da pobreza.

or
Por enquanto, nove jovens confirmados na chacina que aconteceu em Belém

od V
do Pará, no último dia 4 de novembro, já entraram para as estatísticas. Mas,

aut
há suspeitas de mais de 35 mortes até o momento, segundo notícias vindas
dos movimentos sociais do Pará. Todos jovens negros, do sexo masculino.
Todos por arma de fogo. Todos ocorridos no Guamá, bairro da periferia de

R
Belém/PA (UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES, 2014).

o
Segundo a União Nacional dos Estudantes (2014) estatísticas podem mos-
aC
trar que a cada 25 minutos em nosso país morre um jovem negro e pobre, vítima

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


da violência, totalizando aproximadamente dois jovens negros mortos a cada
hora, 48 mortos por dia, 336 mortos por semana, 1344 mortos por mês. Equi-
para-se a isto um número igual ou maior ao de muitas guerras que acontecem
visã
pelo mundo. Referente à chacina de janeiro de 2017, o secretário de segurança
adjunto do Pará, Coronel Hilton Benigno, em entrevista, alegou à Folha de
São Paulo: “o número de mortes foi quase dez vezes superior à média diária
itor

de homicídios em Belém, que é de três casos”, acrescenta: “Normalmente,


os homicídios acontecem à noite, concentram-se nos bairros mais violentos”
a re

(FOLHA DE SÃO PAULO, 2017), o que nos explicita a convergência com


a lógica trazida pelas estatísticas de 2014, a conotação de guerra permanece.
Diante desses dados, é perceptível que o bairro do Guamá é popularmente mar-
cado pela violência - não apenas visível, mas também pela violência simbólica,
par

aquela que entremeia as frases, gestos e discursos, muitas vezes invisibilizando


a cultura local que foge destas objetivações. É interessante perceber que esta-
Ed

belecemos relações de poder em nosso cotidiano. Muitas vezes sem perceber,


expressamos discursos de verdade que produzem modos de subjetivação que
segundo Foucault (1995): “se trata da história dos diferentes modos pelos quais,
ão

em nossa cultura, os seres humanos tornam-se sujeitos” (p. 231).


Desta forma, nossos modos de subjetivar por muitas vezes nos tornam
s

capazes de recortar a realidade, ou mesmo criar uma realidade mais hostil, no


ver

qual a pobreza se correlaciona à criminalidade e bairros periféricos são lugares


onde existem pessoas perigosas e ameaçadoras. A busca da verdade também
a profissionaliza, o que nos faz pensar por quantas vezes estabelecemos em
nossos discursos que somos detentores do saber sobre esse sujeito, o analisa-
mos e cristalizamos uma verdade sobre ele. Nesse contexto, a Associação de
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 153

Docentes da Universidade Federal do Pará (ADUFPA) (2014) protesta: “O


pronunciamento da Secretaria de Segurança Pública também omite as víti-
mas de baleamento, agressões físicas e todas as manifestações de violência
simbólica, como o toque de recolher imposto por policiais, que relembrou
os anos de chumbo da ditadura”.

Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do

or
poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo

od V
dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que
operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que

aut
se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados,
corpos “dóceis” (FOUCAULT, 2014, p. 135).

R
Diante das relações de poder estabelecidas atualmente, vemos um

o
cenário ainda de tentativa de docilização de corpos, busca por padrões de
aC
comportamento esperados. A fuga destes padrões, acarreta em punições e
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

exclusão. Busca-se ainda, por meio de uma disciplina acrítica, a fabricação


de corpos submissos. Correlaciona-se isso a reportagem que nos traz práticas
que rememoram a ditadura, que eliminam e omitem corpos não dóceis. Estas
visã
práticas ressonam muitas vezes em chacinas (visíveis ou invisíveis), uma
possibilidade de “limpeza” enxergada pela população como defesa à socie-
dade. A ideia de se “cortar a raiz do mal”, em frases como “bandido bom é
itor

bandido morto”, ou mesmo a própria naturalização da violência no bairro.


No Guamá, muitas vezes a visão do que há de perigoso é generalizada como
a re

a única que permeia o bairro, generalização esta sutilmente tendenciosa,


apontando este como um lugar de “criminosos em potencial”. Confirma-se
isto trazendo-se a matéria publicada pela ADUFPA que mostra as omissões
das vítimas, dentre as quais estão estudantes e trabalhadores que jamais
par

estiveram envolvidos com o crime ou passagem pela polícia.


Ed

Ao final da manifestação, uma comissão formada pelas entidades foi


recebida pelos deputados e exigiu a instalação de uma Comissão Par-
lamentar de Inquérito (CPI) na ALEPA para investigar o envolvimento
ão

de agentes de segurança pública com milícias e grupos de extermínio.


A ADUFPA se somou às organizações da sociedade civil paraense para
denunciar a ineficiência da política de segurança pública adotada no país,
s

que centra suas ações na criminalização da pobreza e do povo negro das


ver

periferias (ADUFPA, 2014).

A reportagem tratada pela ADUFPA nos mostra um contexto mais atual


acerca da criminalização da pobreza no bairro do Guamá. Escolhemos desta-
car este evento, visto que fora uma situação que muito reverberou em nossa
154

metrópole. Sabemos que os preconceitos e discriminações perpassam pelo con-


texto histórico de nossa cidade e de construção do próprio bairro. É importante
que reflitamos até que ponto contribuímos para as objetivações que assolam este
lugar, o porquê de muitas vezes o vermos como separado e sendo permeado de
apenas coisas negativas. É relevante lembrar que neste bairro vivem pessoas,
antes de seus rótulos, e nos debruçar de forma curiosa sobre sua dinâmica, sua
cultura. Neste contexto, podemos perceber que todos os elementos que foram

or
utilizados para realizar esta cartografia dos dispositivos de controle sobre o

od V
negro, pobre e morador de periferia são relevantes. Não obstante, daremos

aut
enfoque à questão da mídia, não de forma a ignorar os outros elementos men-
cionados, mas de forma a ressaltar que estes se encontram em outros lugares,
em outros níveis, em outras práticas e também atravessam a mídia, de forma

R
a mostrá-la como um lugar também privilegiado de análise desse dispositivo.

o
Cartografando as séries discursivas: O Jornal Diário do Pará
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


em questão
“O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas
visã
de dominação, mais aquilo, por que, pelo que se luta, poder do qual pode-
mos nos apoderar, permitir a transubstanciação e fazer do pão um corpo”
(FOUCAULT, 1996 p. 10-11).
itor

Diante da nossa realização de pesquisa cartográfica de algumas das


a re

relações de saber- poder atuais em nossa sociedade, buscamos identificar e


problematizar no jornal pesquisado, determinadas regularidades discursivas5
acerca de uma mesma temática, o que nos levou à construção de algumas séries
discursivas que consideramos importantes para a resolução do problema de
par

pesquisa que propusemos para a realização deste trabalho de conclusão de


curso. Estas problematizações possuem como ponto de partida as chacinas
Ed

ocorridas em 2014 e 2017, tendo como intuito expor os desdobramentos


destas, fazendo elo com o bairro em estudo e também com alguns bairros
pelo qual as mortes se alastraram, de forma a compreender os entremeios
ão

das práticas discursivas apresentadas pelo jornal Diário do Pará, o que con-
sequentemente é produzido e que efeitos de subjetivação são forjados pelos
discursos materializados neste jornal.
s

A partir da investigação dos discursos relacionados com as chacinas ocor-


ver

ridas no Bairro do Guamá produzimos algumas séries de análise que emergiram


dos problemas que nos acompanhavam durante a leitura do jornal: que efeitos
políticos estes escritos podem lançar sobre a sociedade que as lê? Que racionaliza-
ções possibilitam a produção destas escritas jornalísticas? Que objetivações estas
páginas jornalísticas querem construir nos processos subjetivos de seus leitores?
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 155

Vidas matáveis e menos matáveis

Nas páginas cartografadas referentes às chacinas dos anos supramen-


cionados, notamos uma divisão que classifica os mortos deste evento como
aqueles que possuem uma justificativa para morrer e os que não merecem este
trágico fim. Aquele que foi assassinado e trabalhava, não possui o mesmo
“merecimento” de morrer do que o que cometeu um crime. Consideram-se os

or
trabalhadores como cidadãos “de bem”, pobres, mas honestos, e os demais,

od V
“assassinos”, “bandidos”, “vagabundos”, possuem licença para terem suas

aut
vidas ceifadas por não se apresentarem produtivos para a sociedade. Franco
(2012) nos explicita que diante das notícias de morte trazidas pelo jornal,

R
o terror é amenizado, pois a morte exposta é denunciada como presumível
em razão da “vida desregrada” da vítima. Logo, seu trágico fim não provoca
inquietação. Diante do contexto apresentado, explicitamos como o discurso

o
do ser trabalhador é tido como prerrogativa para não ser morto, como se o
aC
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direito de viver precisasse ser justificado. E aqueles que subvertem a lógica


trabalhista são vagabundos, pessoas matáveis.
visã
“Ele foi de bicicleta buscar a esposa na escola quando foi surpreendido
pelo grupo que deu quatro tiros nele. Era uma pessoa do bem, traba-
lhador e nunca fez mal pra ninguém”, diz Dulcymere Barroso, tia de
Bruno Barros, 20 anos, que foi morto na rua São Domingos (AZEVEDO,
itor

Gabriela. Corpos são velados na igreja dos Capuchinhos: famílias das


a re

vítimas não se conformam com perdas. Diário do Pará, Caderno Polí-


cia, 06/11/2014, p. 11).

O trecho nos traz uma fala acerca de um jovem considerado pela tia
como: “pessoa do bem, trabalhador e que nunca fez mal pra ninguém” e foi
par

morto. Do entrelaçar deste discurso trazido pelo jornal, depreende-se que o não
trabalhador está com a morte justificada, diante de uma sociedade biopolítica
Ed

do fazer viver e deixar morrer. Além disso, o título da matéria apresentada


refere-se a uma não conformidade pela perda de familiares mortos na chacina,
ão

o que é esperado por qualquer pessoa que tenha perdido alguém que lhe é caro.
Não vemos esta forma de escrita se referindo a pessoas de grande prestígio
social, o que mais uma vez nos leva a concluir que são vidas que nada valem
s

socialmente, pois depreende-se que eram criminosos, que não serão lembrados,
ver

e para a felicidade de muitos, “menos um vagabundo no mundo”. “A morte


do outro não é simplesmente a minha vida, na medida em que seria minha
segurança pessoal; a morte do outro, a morte da raça ruim, da raça inferior
(ou do degenerado, ou do anormal), é que vai deixar a vida em geral mais
sadia; mais sadia e mais pura (FOUCAULT, 1999, p.305).
156

“Meu filho era um trabalhador, não era vagabundo”, repete Maria do Carmo
[...] Eduardo Chaves, 16 anos estudava e trabalhava na Ceasa três vezes
por semana. Na noite da terça-feira, teve a infelicidade de sair de casa. Ia
encontrar a namorada, mas mal saiu e foi alvejado. Novamente os mesmos
relatos de que motoqueiros encapuzados seriam os autores dos disparos.
“Ele era um rapaz bom. Perder alguém jovem assim. A família está abalada”
conta Lucas Rodrigues, tio de Eduardo (SOARES, Rita. Uma noite para

or
nunca mais esquecer. Diário do Pará, Caderno Belém, 09/11/2014, p. A10).

od V
Mãe de Deyferson Chagas, 19, assassinado em Belém em junho deste ano,

aut
Maria do Socorro Chagas afirma que o filho não tinha envolvimento com
o crime e foi assassinado por um policial militar da Rotam [...] “Queria
que houvesse justiça, porque meu filho não era bandido, ele trabalhava.

R
Tenho certeza absoluta que meu filho não tinha arma e não houve troca
de tiros”, assegura (DA REDAÇÃO. Polícia é cobrada em debate sobre

o
violência urbana. Diário do Pará, Caderno Polícia, 28/11/2014, p. 4).
aC

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Luciano Henrique Pantoja de Oliveira, de 22 anos, morreu na tarde da última
sexta-feira (20), em uma onda de assassinatos ocorridos na Grande Belém
desde a morte do policial militar Rafael da Silva Costa, 29, ocorrido na manhã
visã
do mesmo dia [...] “Ele nunca me deu trabalho. Não tinha envolvimento
com o crime, nem com drogas. Agora quero Justiça”, pede. Segundo a mãe,
Luciano trabalhava como ajudante de pedreiro e vendedor de tapioca no cen-
tro de Belém (SARGES, Wal. Familiares das vítimas descrevem execuções
itor

e clamam por justiça. Diário do Pará, Caderno Especial, 23/01/2017, p. A3).


a re

Encontramos no discurso jornalístico dispositivos de controle, subjeti-


vação e objetivação, que nos expressam formas de viver e de pensar, atraves-
sam-nos em nosso existir, induzem-nos a nutrir determinado posicionamento
que corrobore com o que está sendo dito e como pessoas “bem informadas”,
par

reproduzimos a notícia, majoritariamente de forma acrítica. É possível destacar


dos trechos mencionados: “Meu filho era trabalhador, não era vagabundo”,
Ed

“Queria que houvesse Justiça porque meu filho não era bandido, ele traba-
lhava”, “Ele nunca me deu trabalho. Não tinha envolvimento com o crime,
nem com drogas”. Diante destas falas, fazemos os seguintes questionamentos:
ão

então o bandido é matável? A justiça existe apenas para o não bandido?


s

Em nosso país, desde o início do século XX, diferentes dispositivos sociais


ver

vêm produzindo subjetividades onde o “emprego fixo” e uma “família


organizada” tornam-se padrões de reconhecimento, aceitação, legitima-
ção social e direito à vida. Ao fugir a esses territórios modelares entra-se
para a enorme legião dos “perigosos”, daqueles que são olhados com
desconfiança e, no mínimo, evitados, afastados, enclausurados e mesmo
exterminados (COIMBRA; NASCIMENTO, 2003, p. 7).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 157

Em situações extremas como a morte de um policial, as zonas de diferen-


ciação entre matáveis e não matáveis se tornam confusas e tanto “inocentes”
quanto “não inocentes” morrem, aparecendo um nível extremo de violência
que é propagado e têm como resultado as chacinas.

A construção do Guamá como bairro violento

or
Esta série se faz presente como forma de expor os pensamentos que

od V
a população possui acerca do bairro e como a mídia coopera para que essa

aut
perspectiva se alastre na capital. Quem mora em Belém sabe que o Guamá é
conhecido como um bairro violento que remete a crimes cotidianos, um local

R
visto como “moradia de bandidos”, “antro da bandidagem”, compreensão
esta que nos limita de ver o bairro sob outra perspectiva, histórica e cultural.
Diante disto, mostramos as séries discursivas referente ao conteúdo exposto:

o
aC
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Para os moradores da periferia o pânico foi real e cercado de motivos. O


cinco de novembro era uma noite difícil de esquecer e, para as famílias das
vítimas ficaram cicatrizes ainda mais profundas [...] Marilene encontrou
Jefferson ao lado da bicicleta que usava para encontrar a namorada da escola
visã
no Guamá até a Terra Firme. “Parecia um animal”, conta emocionada.
“Quando eu já estava pegando a bicicleta, vi um grupo de motoqueiros pas-
sar chutado. Eu e três rapazes que estavam lá, saímos correndo e entramos
itor

num beco. Só voltamos para ver o corpo depois que uma vizinha ligou e
chegou um carro da polícia”, relada Diana (SOARES, Rita. Uma noite para
a re

nunca mais esquecer. Diário do Pará, Caderno Belém, 09/11/2014, p. A10).

Neste texto, é expressiva a narrativa sobre uma noite difícil de esque-


cer permeada pelo pânico. O discurso trazido suscita no leitor uma possível
par

visualização do crime e do corpo que é referido como similar ao corpo de um


animal, sendo possível depreender que a morte tenha acontecido no ínterim
Ed

do trajeto entre os bairros do Guamá e Terra Firme, percurso este conhecido


popularmente pelos moradores da cidade como “Faixa de Gaza”, o que pro-
move estes bairros como lugares violentos.
ão

Após a madrugada sangrenta, um clima de insegurança pairou sobre a


cidade, principalmente no bairro do Guamá [...] o medo também tomou
s

conta da comunidade acadêmica da Universidade Federal do Pará (UFPA)


ver

que ficou pouco movimentada durante a tarde de ontem. Devido à ausência


de alunos e a sensação de insegurança, muitas faculdades da instituição
suspenderam as aulas. Mesmo não confirmando oficialmente a suspensão
das aulas, a assessoria da UFPA informou que os centros dos cursos tinham
liberdade para decidir sobre essa questão [...] Para Daniel, a incerteza do
158

que pode vir a acontecer gera sentimento de medo constante. “o medo é


diário, não tem um dia que a gente saia de casa tendo certeza se vai voltar.
Mas o que aconteceu ontem mostrou que a violência é algo muito mais
sério do que se imagina. E não deveria ser assim, pois a própria consti-
tuição diz que é dever do Estado garantir a segurança gerando a oportu-
nidade para os cidadãos se desenvolverem. Parece que a gente está num
faroeste. Aqui as pessoas não saíram de suas casas. A polícia deve mostrar

or
a sociedade o que de fato aconteceu e garantir segurança à população”,
afirma (SOARES, Pryscila. No Guamá, medo ditou as regras: movimento

od V
foi fraco no comércio e posto de saúde. Diário do Pará, Caderno Polí-

aut
cia, 06/11/2014, p. 8).

R
O taxista Francisco Santos, morador do bairro do Guamá, parou de tra-
balhar mais cedo ontem devido a pouca circulação de pessoas pelas ruas.
“o movimento está fraquíssimo desde de manhã. Trabalho rodando pelos

o
bairros do Guamá, Cremação e Cidade Velha, mas hoje fiz só duas cor-
aC
ridas, depois resolvi parar. Normalmente é muito movimentado, mas o

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que aconteceu ontem está causando insegurança em todo mundo. Moro
no Guamá e lá as farmácias, padarias, e postos de gasolina estão com a
proteção da PM”, explica. (SOARES, Pryscila. No Guamá, medo ditou
visã
as regras: movimento foi fraco no comércio e posto de saúde. Diário do
Pará, Caderno Polícia, 06/11/2014, p. 8).
itor

No Guamá, medo ditou as regras, título da reportagem da qual destaca-


mos os dois trechos mencionados e associado a eles, temos falas acerca de
a re

um clima de insegurança, medo constante, pouca movimentação nas ruas, um


“faroeste”, fruto da chacina ocorrida no bairro do Guamá. Complementar a
isto, foi verbalizado que “o medo é diário”, ou seja, é demonstrado que a vio-
lência no bairro citado é constante e amedrontadora, capaz de influenciar no ir
par

e vir das pessoas, o que reforça o mantra de violência que pesa sobre Guamá.
Ed

Por volta das 19h da última segunda-feira, na rua José Alves, no bairro do
Guamá, ocorreu mais um assassinato. O jovem de 18 anos Rafael Rocha
Ponte, conhecido como “Rafinha” foi perseguido por dois homens que se
ão

encontravam em motocicleta e que se encontravam encapuzados [...] o


autor dos disparos é um presidiário foragido da Colônia em Americano,
chamado Artur Cabral Ataíde, conhecido por “Arturzinho” ou “Neguinho”
s

[...] Ele teria uma animosidade com a vítima, que praticava pequenos deli-
ver

tos nas proximidades da área onde morava [...] Arturzinho, que já esteve
preso diversas vezes na Seccional do Guamá, antes de puxar cadeia, já
estava cadastrado e com fotos nas mãos dos policiais (SILVEIRA, Amaury.
Jovem é perseguido por dois homens e executado. Diário do Pará, Caderno
Polícia, 03/12/2014, p. 7) (Ver anexo 2, Figura 5).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 159

Nesta reportagem são trazidos elementos que fomentam objetivações


acerca do bairro e do sujeito sobre o qual se fala. Em relação ao bairro,
destacamos: “no bairro do Guamá, ocorreu mais um assassinato”, ou seja, o
assassinato no Guamá possui um teor corriqueiro e dá margem para pensarmos
em outros tipos de violências que possam ocorrer no local cotidianamente.
Em relação ao sujeito exposto na matéria, este é relacionado ao crime de
uma maneira intrínseca, como se o crime fosse parte dele, possuidor de uma

or
natureza criminosa: “é um presidiário foragido da Colônia em Americano”,

od V
“já esteve preso diversas vezes”, “antes de puxar cadeia já estava cadastrado

aut
na mão dos policiais”. “Estamos diante de uma concepção segundo a qual o
indivíduo é escravo absoluto dos fatos concretos de sua vida pregressa, não
lhe restando senão cumprir seu destino criminoso” (RAUTER, 2003, p. 90).

R
Diante disso, Santana (2014) explicita que é relevante pensar a violência como
um recorte do território, sendo este o palco das variáveis sociais (pobreza,

o
desigualdade social e etc.). Sendo assim, a violência precisa ser apontada como
aC
resultado das relações entre valores culturais, sociais, econômicos e políticos,
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e então a violência pode ser apontada como resultado dessa relação. Logo,
aplicar rotulações ao local e aos que de lá são partícipes sem um contexto
crítico e político, se torna no mínimo inviável.
visã

A produção das subjetividades bandidos x heróis


itor

[...] enquanto ladrões, assassinos e estupradores mandam e desmandam nas


a re

ruas, beneficiados pela impunidade, as pessoas de bem são obrigadas a viver


por detrás de grades e com medo dentro de suas próprias casas, a qualquer
hora do dia ou da noite (DA REDAÇÃO. Insegurança põe o cidadão atrás
das grades no Pará. Diário do Pará, Caderno Polícia, 09/11/2014, p. 1).
par

[...] “Não é mentira, passaram aqui algumas viaturas dizendo que era
melhor as pessoas ficarem em casa, recolhidas. Nós vivemos sobressal-
Ed

tados aqui. Ladrão tem aos montes, mas hoje estou me sentindo mais
prisioneiro do que quem está atrás das grades. Esperamos que todos sejam
presos” (PARAENSE, Roberta. População contesta órgãos de segurança:
ão

moradores vivem momentos de terror e se escondem. Diário do Pará,


Caderno Polícia, 06/11/2014 p. 4).
s

Percebemos nos trechos destacados que há uma fala de inversão de


ver

realidades na qual o dito “cidadão de bem” que deveria andar sem medo e
livremente pelas ruas é aprisionado atrás das grades de sua residência, e os
criminosos estão soltos quando deveriam estar na cadeia. Lê-se por meio
destas narrativas um clamor para que uma medida imediata seja tomada,
independente dos mecanismos que podem ser utilizados para sua garantia.
160

A seguinte sentença: “enquanto ladrões, assassinos e estupradores mandam


e desmandam nas ruas, beneficiados pela impunidade, as pessoas de bem
são obrigadas a viver por detrás das grades”, fomenta um cenário de guerra,
bipartido em mocinhos e bandidos, de maneira a subjetivar no sujeito esse
clamor por “justiça”. O jornal não se apropria de um discurso que potencialize
no receptor, uma concepção ampla e compreensiva de seu contexto político
e social, mas incute o medo e o desejo de serem arbitrariamente controlados

or
por aqueles que são legitimados como “heróis”.

od V
aut
Na capela, o sargento PM Silvano da Polícia Militar dedicou ao amigo um
momento de honras. “A população está dizendo que perdeu o seu herói.
Se o governo Simão Jatene diz que o cabo Figueiredo era um assassino,

R
nós dizemos que ele é um herói, que nunca nos abandonou”, afirmou
(AZEVEDO, Gabriela. Policiais reclamam de Jatene no enterro de cabo.

o
Diário do Pará, Caderno Polícia, 07/11/2014, p. 4).
aC

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Policiais querem penas duras para quem comete crimes contra agente
público [...] De acordo com o comandante, não chegou a ter contato ou
trabalhar com Antônio, mas soube, através de outros colegas, que o cabo
visã
“era um bom policial, profissional, sempre combatia a criminalidade”[...]
“passamos todo o ano cobrando o Estado para que agilize a situação do
crime contra o Estado, para que tome providências mais rígidas para quem
comete crime contra um agente público”[...] Para o tenente-coronel da
itor

Rotam, bairros como Terra Firme, Jurunas e Guamá, já foram bairros mais
a re

conflituosos que nos dias atuais, mas ainda possuem um elevado índice
de criminalidade (DANIEL, Michelle. Corpo do PM será sepultado hoje:
policiais cobram ação e estratégias do governo. Diário do Pará, Caderno
Polícia, 06/11/2014, p. 3).
par

Segundo Magalhães, Silva e Batista (2007) na literatura o herói apre-


senta-se aparentemente como um cidadão comum, comprometido com os
Ed

dogmas do bem e da moral convencionados pela sociedade. Neste sentido,


nota-se que a perspectiva trazida sobre o que é ser herói não difere muito ao
retratar o cabo Figueiredo, visto como “um bom policial, profissional” que
ão

“sempre combatia a criminalidade”. Nestas falas, encontra-se um teor de


valentia, destemor. Está presente a figura do que luta “em nome do bem”,
s

mas não nos fica claro de que forma esta criminalidade era combatida. Neste
ver

contexto, emerge a figura do justiceiro que é partícipe de uma categoria que


emerge frente ao vazio e a omissão do Estado, atribuindo a si a função de
eliminação dos sujeitos indesejáveis. Sua atuação está presente especialmente
em favelas e bairros populares, criando-se desta forma sua própria nominação,
embora esta figura seja nada além de “um criminoso com status de defensor”
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 161

(CRUZ-NETO; MINAYO, 1994, p. 209). Relevante ainda dizer que suas ações
atuam de forma articulada com outros autores interessados em uma “limpeza
social”. Sua origem está articulada às práticas de justiça fora e acima da lei,
e ao coronelismo. Há uma convivência mais ou menos pacífica por parte dos
populares em relação a figura do justiceiro, pois a ele é atribuída a função de
combater o crime que aprisiona “pessoas de bem” em suas casas. Esta aceita-
ção por sua figura vem ora pelo medo, ora pela aprovação no acometimento

or
de seus êxitos em eliminar os que causam problemas sociais (CRUZ-NETO;

od V
MINAYO, 1994). “A oposição é sempre a ameaça à população e, portanto,

aut
o bandido deve ser, à maneira do criminoso da narrativa trivial, derrotado”
(MAGALHÃES; SILVA; BATISTA, 2007, p.23).

R
“Vamos parar todos que levantarem algum tipo de suspeita, o que tem
sido propagado das redes sociais é uma própria tentativa de desmora-

o
lização da segurança pública dos bandidos. Eles querem amedrontar a
aC
sociedade, disse o major Mário Dias (PARAENSE, Roberta. População
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contesta órgãos de segurança: moradores vivem momentos de terror e se


escondem. Diário do Pará, Caderno Polícia, 06/11/2014 p. 4)
visã
Neste trecho, questionamos: que pessoas seriam essas a levantar algum
tipo de suspeita? O morador de periferia, negro e pobre? Aquele que possuí um
estereótipo de bandido e marginal? Segundo Durham (1987) apud Cruz-Neto
itor

e Minayo (1994), os moradores de bairros populares reivindicam a exclusão


e a eliminação dos ditos “bandidos”, pois mais do que outros grupos sociais,
a re

há a necessidade de provar que são “cidadãos de bem”.

O analisador sensacionalismo para produzir o medo


par

Foucault (2008b) em O Nascimento da Biopolítica, fala-nos acerca de uma


estratégia iniciada no liberalismo, mas que se estende atualmente ao neolibera-
Ed

lismo. Desde o século XIX com o liberalismo, há a presença de um mecanismo


que a cada instante age de forma arbitrária em relação à liberdade e segurança
dos indivíduos em torno da noção de perigo. Este se trata de uma arte de gover-
ão

nar que manipula interesses. Todavia, não o pode fazer sem concomitantemente
gerir os perigos e os mecanismos de segurança que formam o par segurança/
s

liberdade, estratégia esta que deve garantir que um indivíduo ou uma coleti-
ver

vidade fiquem minimamente expostos ao perigo. O autor nos coloca que por
todos os lugares somos incentivados a ter medo do perigo que se trata de certo
modo: “a indicação, o correlato psicológico e cultural interno do liberalismo.
Não há liberalismo sem cultura do perigo” (FOUCAULT, 2008b, p. 91). Isto se
estende ao neoliberalismo e ao sensacionalismo pelo qual somos atravessados
162

todos os dias, principalmente pelos discursos que as mídias nos colocam. Nesse
sentido, o medo é o elemento estruturante e psicológico da sociedade para que
esta possa funcionar em um nível neoliberal, então a possibilidade de liberdade
dada pelo neoliberalismo, e pelo afastamento do estado que intervém na vida dos
cidadãos, só pode se manter por meio de uma contrapartida que é a criação do
perigo eminente. Assim, podemos perceber a existência da complementaridade
de dois elementos que parecem paradoxais: a liberdade e o perigo.

or
Amaral (2006) expõe que o sensacionalismo abrange o exagero, a explo-

od V
ração do extraordinário, a valorização de conteúdos descontextualizados, a

aut
intensificação e a valorização da emoção. Este objetiva caracterizar estratégias
da mídia em um contexto mais geral, sobrepondo-se ao interesse público por
meio da deformação, da simplificação, da banalização da sexualidade, da

R
ridicularização de pessoas humildes. Atrelado ao sensacionalismo jornalístico,
há uma construção do pânico e medo, tendo em vista que um dos objetivos da

o
mídia sensacionalista é realçar os detalhes “sórdidos”, lançando sobre eles uma
aC
narrativa que irá torná-los os mais aberrantes e bizarros possíveis, difundindo

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uma ideia velada e apocalíptica de medo e pânico (GÓES, 2013). Diante do
exposto, apresentamos os seguintes fragmentos jornalísticos:
visã
Tanto faz o lugar, o dia e horário. No interior ou no centro da cidade.
Faça chuva ou faça sol. De manhã, tarde ou noite. É só colocar os pés
na rua para estar vulnerável as investidas dos meliantes (PAES, Renata.
itor

A cada hora oito pessoas são roubadas no Pará. Diário do Pará, Caderno
a re

Polícia, 28/11/2014, p. 8).

Na madrugada de ontem, o terror e o medo se alastraram pelas ruas e


bairros da capital. Tudo começou com a morte do cabo Antônio Marco
da Silva Figueiredo pertencente à Rotam (Ronda Tática Metropolitana),
par

morto a tiros em uma emboscada, momento em que retornava para sua


residência na passagem Monte Sinai, esquina com Augusto Corrêa, no
Ed

bairro do Guamá (DA REDAÇÃO. Morte de policial gera onda de vio-


lência. Diário do Pará, Caderno Política, 05/11/2014, p. A4).
ão

Matança da madrugada de quarta-feira é só reflexo da insegurança que aflige


todo o Pará [...] O Pará está de joelhos, encolhido e aterrorizado pela violên-
cia. Sair às ruas, seja de dia ou noite, é um risco permanente. O problema não
s

é sair de casa, mas saber se retorna sem ter sido admoestado por um mal-fei-
ver

tor. A insegurança está por toda a parte [...] o terror da noite passada, com a
matança promovida por agentes da lei que deveriam zelar pela segurança dos
que pagam seus salários – das autoridades responsáveis pela investigação das
mortes não admitem oficialmente o que já sabem - é o retrato de uma Belém
sitiada pela banalidade do crime (MENDES, Carlos. O Pará está de joelhos
diante da violência. Diário do Pará, Caderno Política, 06/11/2017, p. A3).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 163

Medo, terror, matança, “O Pará está de joelhos, encolhido e aterrorizado


pela violência”, “Sair às ruas, seja de dia ou noite, é um risco permanente”.
Essas palavras e frases mexem com as emoções dos leitores de maneira a ali-
mentar um imaginário de guerra civil, subjetivando nestes um medo constante
de sair de suas moradias, pois a quaisquer momentos podem ser “vítimas da
violência urbana”. Cria-se então, uma paranoia coletiva onde todos são sus-
peitos e a possibilidade de se voltar para casa não é certa. Obviamente a vio-

or
lência é um retrato político, econômico e social presente em várias sociedades,

od V
tendo em vista que todos os seres humanos podem vir a transgredir normas

aut
e regras, leis que compõem uma sociedade. Todavia, em nosso contexto, ao
falarmos de violência e transgressão, nos vem a figura do jovem negro, pobre
e delinquente e ao pensarmos em uma solução, presamos pelo imediatismo

R
que extermine o “mal”, ou seja, a “resolução” é a clamor por mais violência.
Apresenta-se então uma capacidade social irônica de excluir, segregar, vio-

o
lentar e achar que algo será resolvido. Não se pensa em seres humanos e sim
aC
em uma determinada camada social que possui um status de boa cidadania.
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Nosso interesse não é a defesa do crime e sim a responsabilização em rela-


ção a este, mas ao invés de responsabilizar, pune-se, esperando-se que o efeito
seja o “ajustamento” ou a dita “ressocialização”. Não compreendem que por trás
visã
do sujeito que comete crimes, há um sujeito com uma história e sentimentos que
lhe são próprios, nem há o pensamento de investir em políticas públicas que os
acolham como sujeito de direitos, porque sofremos uma turbulência de emoções
itor

em que a vingança está transvestida em justiça, e o jornal é bem eficaz em poten-


a re

cializar estes sentimentos, de forma que nosso discurso passa a ser irracional e
primitivo, na busca por mais violência de um povo que se diz civilizado e justo.

Belém, a capital do medo: dez assassinatos em três horas, sensação de


pânico, população descrente em dias melhores, e enquanto isso, autorida-
par

des garantindo que está “tudo tranquilo”. As horas seguintes ao assassinato


do cabo da PM Antônio Figueiredo, o “Pety”, foram de pavor para os
Ed

moradores de Belém, que ontem sintetizou a quantas anda a (in) segurança


pública no estado do Pará (DA REDAÇÃO, Belém, a capital do medo.
Diário do Pará, Caderno Polícia, 06/11/2014, p.1) (Ver anexo 2, Figura 6).
ão

Onda de mortes começou após o assassinato do cabo PM Antônio Figuei-


redo [...] Nove corpos em via pública, nove assassinatos a tiros e todos
s

com características semelhantes. O homicídio do cabo PM Antônio Figuei-


ver

redo, conhecido como “Pety”, da Ronda Ostensiva Tática Metropolitana


(Rotam) da Polícia Militar, na noite da última terça-feira (4) desencadeou
uma onda de crimes na região metropolitana de Belém (RMB) que durou
cerca de três horas, até o início da madrugada de ontem (5) (NUNES,
Fabrício. Massacre nas ruas de Belém: 10 pessoas são assassinadas em
três horas. Diário do Pará, Caderno Polícia, 06/11/2014, p. 6).
164

Os números são assustadores. Desde o assassinato do soldado Rafael da Silva


Costa, 29 anos, da Polícia Militar (PM), morto com um tiro na cabeça, na
manhã da última sexta-feira (20), até a noite de ontem, a Grande Belém regis-
trou 32 mortes com características de execução sumária. O episódio é similar
ao ocorrido em novembro de 2014, quando 11 pessoas foram mortas na capi-
tal, após o assassinato do cabo Pet (JR AVELAR. 32 Pessoas são executadas
após morte de soldado da PM: depois do assassinato do PM Rafael Costa, 29

or
anos, na manhã da última sexta-feira (20), a Grande Belém foi palco de uma
verdadeira chacina. Diário do Pará, Caderno Especial, 23/01/2017, p. A2).

od V
aut
É muito sangue [...] A confirmação da morte do militar foi divulgada no
final da manhã, quando já haviam sido registrados 3 homicídios na grande

R
Belém, desde os primeiros instantes da madrugada. E depois de sua morte,
uma verdadeira onda de execuções tomou conta de vários bairros da grande
Belém (D’ALMEIDA, Denilson. Violência sem limites: 16 assassinatos.

o
Diário do Pará, Caderno Polícia, 21/01/2017, p. 4).
aC

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Nestes trechos nos encontramos diante de números considerados alarman-
tes, após a morte de policiais nas chacinas que ocorreram em Belém em 2014
e 2017, e acompanhado desses números, lemos: “ondas de morte”, “a capital do
visã
medo”, “onda de crimes”, “é muito sangue”, mortes ocorridas em poucas horas e
com características de execução sumária, ou seja, execuções com evidências de
que os agressores realizaram o ato com o intuito de eliminar a vítima. Mais uma
itor

vez vemos a vingança como parâmetro de justiça, tendo na morte dos policiais
a re

uma justificativa para os supostos envolvidos nos assassinatos dos militares


terem o mesmo fim. Logo as vidas, mesmo de pessoas sem envolvimento, foram
ceifadas. “As mortes de pessoas não são compreendidas como ato de violência
imediatamente, pois parte-se do pressuposto de que a posição social do morto
tem implicação no seu destino” (PAIVA, 2015, p. 271). Aparece novamente o
par

contexto da luta do bem contra o mal, mas cabe a seguinte pergunta: Quão cida-
dão de bem eu sou, quando tiro a vida de alguém sem ser em legítima defesa?
Ed

Estamos diante de execução não “em nome da lei” como costumamos ouvir, mas
sim acima da lei, com legitimidade social e política. Nesse cenário, na verdade,
ão

apresentam-se “defensores da lei” que se sobrepõem a esta e fazem a sua própria.

A violência é um recurso para criação e gestão de uma ordem social desigual,


s

em que as diferenças podem ser harmonizadas pelo uso indiscriminado da


ver

força contra pessoas que ocupam posições subalternas na hierarquia social.


Os moradores dos bairros mais pobres são as principais vítimas de violências
que envolvem tanto a ação criminosa de pessoas que os vitimam em seus
locais de moradia quanto daqueles que, em tese, deveriam os proteger. Isso
ocorre justamente porque a violência é o meio escolhido para conter a vio-
lência, gerando apenas mais violência e vitimização (PAIVA, 2015, p. 275).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 165

Segundo Pezza (2015) os governos usufruem da cultura do medo e desta


forma, vão cerceando a nossa liberdade, nossa criatividade, nossos conhecimentos
e questionamentos. Expõe que fomos criados para temer a tudo, de maneira tal que
medo e sabedoria não podem coexistir. Na verdade, a maior parte dos medos desapa-
rece com o conhecimento, e sem medo, começamos a questionar muito do que nos
dizem. O autor cita ainda Maquiavel e seus príncipes espalhados pelo mundo que se
empenham para manter os medos e as ignorâncias instaladas. Rigon e França (2014)

or
afirmam que a ocorrência de chacinas, sugerem a existência de uma cultura homicida

od V
institucionalizada pelas corporações policiais e assentidas pela sociedade civil, mas

aut
que não conseguem contemplar a complexidade de uma dinâmica genocida que
ocorre cotidianamente no Brasil. Assim, “as mortes violentas e as chacinas começam
a se tornar toleráveis e não provocam mais indignação, e são até mesmo desejadas,

R
como forma de diminuição das ameaças pessoais” (KOURY, 2011, p. 276). Esse
discurso do medo se apresenta no meio jornalístico, mas também irá se mostrar de

o
outras formas, através dos meios de comunicação populares. Estando presente um
aC
dispositivo de subjetivação eficiente, posto que não se limita ao discurso oficial do
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estado ou jornalístico, pois é produzido e mostra sua eficácia em outros espaços


sociais como o Whatsapp e o Facebook. As redes sociais hoje se apresentam como
dispositivos que subjetivam e objetivam sujeitos, e correlato ao sensacionalismo,
visã
nossa realidade nos permite ter acesso a várias imagens que retratam a violência
em diversas facetas e em sua face mais cruel, a morte.
A imprensa possui atualmente várias ferramentas de propagação da infor-
itor

mação, sendo possível acessar imagens de corpos de pessoas pobres sendo


a re

arrastadas, baleadas, torturadas e espancadas por criminosos e policiais, de


forma que estas imagens venham a produzir indignação pelos grupos defen-
sores dos Direitos Humanos em nosso país. Paiva (2015) expressa que casos
como os mencionados tem dado vazão a expressões que legitimam esses atos
os dando visibilidade, incluindo discursos de políticos possíveis de serem
par

eleitos e que defendem ações punitivas perante a dita “guerra contra o crime”.
“Os pobres mortos por balas perdidas ou em função da violência policial são
Ed

classificados como contingências, acasos, um pequeno percentual em taxas


de uma sociedade violenta que deve implementar formas ainda mais violentas
para combater a violência” (2015, p. 276).
ão

Na última quinta-feira, 5, após a sequência de assassinatos, o pânico se dis-


s

seminou nos quatro cantos da cidade. Apesar da boataria gerada nas redes
ver

sociais durante a madrugada, a realidade, é que inocentes tiveram suas


vidas ceifadas nas localidades menos abastadas da capital. O comércio dos
bairros do Guamá e Terra Firme, um dos mais populosos da capital, ama-
nheceram soturnos e temerosos (PARAENSE, Roberta. Uma semana após
chacina, medo ainda domina. Diário do Pará, Caderno Polícia, 11/11/2014,
p. 14) (Ver anexo 2, Figura 7).
166

Poucos minutos depois de noticiada a morte do PM, uma onda de terror


se espalhou por diversos bairros em Belém. Guamá, Terra Firme, Crema-
ção, Jurunas e uma parte do Marco praticamente ficaram sitiados pelas
forças policiais. Segundo as primeiras informações, a polícia iniciara uma
espécie de toque de recolher pela cidade. Até por volta de 2h, de hoje,
pelo menos oito homicídios foram confirmados, depois da execução do
PM. Áudios de origem desconhecida circularam entre as redes sociais e

or
contribuíram para aumentar o pânico entre a população (DA REDAÇÃO.
Morte de policial gera onda de violência. Diário do Pará, Caderno Polí-

od V
tica, 05/11/2014, p. A4).

aut
Após as chacinas, vídeos, imagens e áudios transitaram pelas redes

R
sociais de forma a potencializar a sensação de medo, terror e guerra. Várias
pessoas receberam em seus celulares, uma série de fotos de pessoas mortas,
corpos ensanguentados espalhados pelo chão, áudios e vídeos onde supostos

o
bandidos desafiavam policiais e os ameaçavam de morte caso estes tentassem
aC

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encontrá-los. Isto posto, é relevante frisar as reverberações que a propagação
destas mídias provocou em Belém. A cidade ficou praticamente deserta, estu-
dantes não foram a escolas e universidades, muitos não foram trabalhar, ou
se recolheram mais cedo, comércios e ruas vazias eram a realidade dos dias
visã
das chacinas. Todavia, muitas das mídias propagadas nas redes sociais não
correspondiam aos eventos acontecidos. Isso mostra a grande influência que
a mídia detém sobre a subjetividade dos que a consomem e quão capaz de
itor

produzir o caos esta é. Góes (2013) nos traz que o jornalismo sensacionalista
a re

se perpetua por meio da ênfase em elementos narrativo/imagéticos exagerados


e desproporcionais. O objetivo central deste sensacionalismo, além de atuar
como elemento mercadológico, também é apresentar uma estratégia discursiva
relevante que resulta na construção e reafirmação de imaginários coletivos,
que difundem a cultura do medo - mecanismo este, que não muito se difere
par

ao ocorrido nas redes sociais. Diante das séries analisadas percebemos que
Ed

o esquadrinhamento do social, resultado característico do poder disciplinar,


não se efetivou no Brasil de maneira tão completa se comparado aos países
europeus. “O que ocorre é que convivem no nível das práticas sociais novas
ão

e velhas estratégias” (RAUTER, 2003, p. 23). Desta forma, estamos diante


de um misto da sociedade disciplinar, da biopolítica e de uma prática extra-
-judicial que nos expõe a um caráter primitivo e moralista.
s
ver

Conclusões provisórias

Percebe-se que a mídia sempre esteve secularmente presente de diversas


formas, com o intuito de atender aos interesses de uma camada e subjetivar
certos interesses e modos de existência. Atualmente, a lógica se sustenta
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 167

lançando mão de novos e antigos dispositivos que continuam a se perpetuar


também por meio de discursos e objetivações provenientes destes. O jornal
local Diário do Pará, exposto em nosso trabalho, é um exemplo da aplicação
destas estratégias de saber-poder que dão legitimidade para a criminalização
da pobreza. O Diário do Pará assume em suas reportagens uma perspectiva
sensacionalista que fomenta o imaginário da população, alimenta objeti-
vações quanto aos moradores, em sua maioria negros, pobres e moradores

or
de periferia, enfatizando os fatídicos acontecimentos que são justificados

od V
pela vida pregressa do sujeito, de maneira a defini-lo, e classificá-lo por sua

aut
conduta em determinado contexto.
Atrelado a isto, partimos de um pressuposto de que o local do crime
sempre se trata de uma periferia, de forma a abordarmos durante a construção

R
do trabalho, o bairro do Guamá como este local famigeradamente perigoso.
O Guamá é evidenciado como um dos bairros mais violentos e taxado de

o
“zona vermelha”. Todavia, é relevante ressaltar que a violência é uma reali-
aC
dade presente na cidade como um todo. Não obstante, o palco da violência
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é concedido às periferias, ainda imperando o pensamento propagado desde a


República como lugar vicioso, devasso e maculado a ser higienizado social-
mente. Referente às chacinas ocorridas, percebemos que estas resultam de
visã
uma “justiça com as próprias mãos” legitimada pela sociedade que atribui a
certas figuras heroicas a autoridade de exterminar os que são considerados
matáveis. Além disso, observou-se que alguns dados quando expostos em
itor

meio jornalístico, tornam-se exacerbados – ou seja, lança-se sobre um acon-


a re

tecimento trágico uma visão apocalítica.


Diante deste contexto, explicita-se o conceito de resistência em Michel
Foucault. O autor expressa que no entremeio das relações de poder, há uma
possibilidade de resistir, tendo em vista que não somos prisioneiros do poder,
há sempre uma chance de modificar sua dominação em determinadas situações
par

e lançando mão de uma estratégia necessária (FOUCAULT, 1979). Resistir


Ed

pauta-se em uma insubmissão, em liberdades persistentes, estratégias de luta


que se encontram nas relações de poder, posto que “não há relação de poder
sem resistência” (FOUCAULT, 1995, p. 248). Apesar da realidade excludente
ão

trazida pelos jornais que se conecta com a perspectiva da população local,


existem segmentos subalternos que lutam e resistem à lógica neoliberal posta.
“Eles teimam em continuar existindo”. (COIMBRA; NASCIMENTO, 2005,
s

p. 13). As autoras Coimbra e Nascimento (2005) nos colocam que as for-


ver

mas de resistir presentes nos grupos mencionados nem sempre se pautam


em maneiras organizadas, podendo estar presentes em condutas delituosas e
“perigosas”. Existem segmentos pobres e marginalizados que criam outros
modos de luta e sobrevivência, resistindo ao cenário que lhes é apresentado, de
maneira a escapar do destino imutável que sobre eles é posto. São resistências
168

moleculares, expostas por meio das artes, da música, de redes de solidariedade


e de micro organizações coletivas, que mudam gradativamente a realidade
- transformações estas que não são reconhecidas pelos intelectuais, negadas
pela história oficial e pelos meios de comunicação.
É importante que possamos enquanto profissionais de Psicologia, reco-
nhecer essas resistências, juntarmo-nos a elas, compreender o lugar de fala
de quem experiencia uma realidade muitas vezes diferente da nossa. Seria

or
falacioso dizer que não somos atravessados por essa lógica neoliberal, pela

od V
ideia da pessoa de bem e com bons valores. Somos colocados como peça

aut
partícipe da engrenagem que faz girar dispositivos que padronizam o que é
ser um cidadão de bem. Contribuímos para a normalização do sujeito - nem
sempre de maneira esclarecida, mas ainda assim, o fazemos. Contudo, é indis-

R
pensável que nos vejamos implicados a criticar este lugar que nos é posto, que
apliquemos também nossas resistências e que fujamos do lugar cientificista

o
daquele que tudo sabe.
aC

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visã
itor
a re
par
Ed
s ão
ver
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
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o aut
or
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PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA E
USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS:
estratégias biopolíticas e formas de resistência

or
od V
José de Arimatéia Rodrigues Reis

aut
Pedro Paulo Freire Piani
Alcindo Antônio Ferla
Ataualpa Maciel Sampaio

Introdução

R
o
aC
É bastante frequente, nos discursos e práticas sociais, certa associação
de pessoas pobres, em situação de rua, ou usuárias de substâncias psicoativas,
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

a uma condição de não-pertencimento sociocultural, a uma não-aceitação e


não filiação social desses sujeitos, assim como o não-acesso pleno na inserção
visã
ao trabalho, à moradia, à família, ao processo urbano ordenado, capitalista,
produtivo, normativo. A noção de estigma desenvolvida por Goffman (2013)
pode assim aparecer na ocorrência de preconceitos sociais, raciais, pessoais,
itor

religiosos, culturais, econômicos, morais e outros.


a re

Sousa e Almeida (2001) pontuam o aparecimento de pessoas em situação


de rua comumente atrelado às políticas insuficientes de distribuição de renda,
habitação/moradia, geração de empregos, educação formal, abuso de substân-
cias e problemas de saúde mental, afetando negativamente tais indivíduos, com-
prometendo o bem-estar de famílias e sujeitos, em particular os mais pobres.
par

Os autores denominam a essa população como “sem-abrigo”, termo


utilizado na Europa e outros países para denominar os que se encontram na
Ed

rua e necessitam de serviços ofertados pelos governos e sociedade civil, com


perfil bastante reconhecido, por se tratar demasiado de pessoas pobres, sem
emprego, sem domicílio, com baixa escolaridade, apresentando sofrimento
ão

psíquico e outros agravos, e com histórico no uso de drogas.


Jesus e Menezes (2010) afirmam o aumento do número de pessoas vivendo
em situação de rua no mundo, fato que parece ser o fundamento da preocupação
s

por parte das instituições e do Estado, em compreender causas e os fatores envol-


ver

vidos nesta situação, e promover estratégias adequadas para lidar com fenômeno.
O número de estudos científicos sobre pessoas em situação de rua vem
aumentando ao longo das últimas décadas, com várias definições propostas para
caracterizar esse público e as causas para viverem nas ruas apontadas como variá-
veis e potencializadas por diversos e diferentes fatores, sugerindo complexidade
nas interações entre o sujeito e a sua inserção nos contextos sociais, econômicos
e políticos (VALENCIO et al., 2008; JESUS; MENEZES, 2010).
176

Porém, apesar de pesquisas apontarem causas e resultados diferentes,


tais como a falta de moradia, os problemas familiares, sociais e econômicos,
de desemprego ou de doença mental, da crise de valores na atualidade e
das influências das políticas sociais (NASCIMENTO, 2016), certos autores
seguem afirmando o abuso de álcool e outras drogas como um dos princi-
pais responsáveis pela situação de rua na qual se encontram determinadas
pessoas (VALENCIO et al., 2008; JESUS; MENEZES, 2010; DANTAS

or
et al., 2012; ABREU, 2013; ANDRADE, COSTA; MARQUETTI, 2014;

od V
NASCIMENTO, 2016).

aut
Assim, é frequente na literatura o consumo problemático de álcool e
substâncias ilícitas associados a pessoas que estão ou vivem nas ruas, com
afirmações de que o uso em geral de drogas nas ruas é significativo, ainda

R
é crescente entre os mais jovens, e é um dos que mais leva os sujeitos às
situações de rua, e o fato deste fenômeno estar sendo bem documentado no

o
mundo inteiro por estudos e pesquisas corrobora fatores como a ocorrência
aC

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de percursos individuais com perdas irreparáveis nas áreas de vida, trabalho,
família, lar, e até mesmo expulsão de abrigos e serviços públicos, não restando
maiores opções e perspectivas sociais a esses sujeitos (NASCIMENTO, 2016).
Para Foucault (2007) todo dispositivo existente pode ser utilizado para
visã
a normalização e adaptação a mecanismos de controle nas práticas sociais,
a serviço da produção de verdades nas sociedades modernas, e assim contri-
buindo para uma governamentalidade possível, a qual nessa perspectiva poderá
itor

assujeitar, reprimir, regular e aprisionar os indivíduos ao tomá-los enquanto


a re

problemas de segurança. Ao mesmo tempo, os modos de subjetivação, as


narrativas e os discursos circulando num dado contexto cultural, podem esti-
mular dinâmicas pragmáticas e políticas normalizadoras das populações, assim
como formas de resistência na vida dos sujeitos, mesmo em condições sociais
par

desfavoráveis, sendo fundamental desvelar sempre o percurso sócio-histórico


e a singularidade de cada território.
Ed

Não obstante, Foucault (1999) ressaltou também o quanto as ações polí-


ticas governamentais na esfera pública tendem à biopolítica na gestão da vida
das populações, sendo refratárias aos direitos sociais, mesmo propondo em
ão

seu discurso gerir os interesses de cidadania e zelar pelos programas, projetos


e políticas de saúde. Ao invés disso, pela disciplina, a política ocupa-se do
modo de ser dos indivíduos, pelas avaliações, vigilâncias, controles no tempo
s

e no espaço social, e encaminhamento às práticas de sanção, todos bastante


ver

utilizados por meio dos mecanismos disciplinares.

[...] a proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde,


a duração da vida, a longevidade, com todas as condições que podem
fazê-los variar; tais processos são assumidos mediante toda uma série de
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 177

intervenções e controles reguladores: uma bio-política da população.


As disciplinas do corpo e as regulações da população constituem os dois
pólos em torno dos quais se desenvolveu a organização do poder sobre a
vida (FOULCAULT, 1999, p. 131).

Portanto, para Foucault, as instituições de um determinado contexto


social é que detém o poder na chamada sociedade disciplinar, por ele deno-

or
minado biopoder, o qual atua de duas formas principais. Uma delas é através
do eixo disciplinar, centrado no corpo como se fosse uma máquina, para ades-

od V
trá-lo e ampliar as suas aptidões, sua utilidade e docilidade. A outra forma de

aut
controle se dá pelo eixo biopolítico, também centrando-se nos corpos, porém
enquanto espécie, através dos processos de regulação na duração da vida e nas

R
condições de morte, nascimento, saúde-doença, e controle das epidemias, com
menos repressão e punição, e mais produção de verdades e normas incidindo

o
nas relações, no cotidiano e nos modos de subjetivação (Ibidem).
aC
No capítulo a seguir, serão discutidas algumas implicações da noção de
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biopolítica criada por Foucault para a temática das pessoas em situação de rua
que fazem uso de substâncias psicoativas, no intuito de clarificar as estraté-
gias de controle e regulação das subjetividades produzidas para este público,
visã
em seguida ampliando o diálogo para outros autores como Deleuze naquilo
que este denominou sociedade de controle, buscando caminhos teóricos e
resistências possíveis aos assujeitamentos e agenciamentos perpetrados pelos
itor

mecanismos de normalização da vida.


a re

Pessoas em situação de rua, uso de drogas e estratégias biopolíticas

Segundo Foucault (1999), a partir da segunda metade do século XVIII,


uma nova forma de poder passa a se desenvolver, a biopolítica. Diferente
par

das técnicas disciplinares que se centravam no corpo, essa nova forma de


intervenção focava também o corpo populacional, os nascimentos, a morta-
Ed

lidade, o nível de saúde, a longevidade e a duração da vida. Tais processos


são assumidos mediante uma série de intervenções e controles reguladores,
denominada biopolítica da população.
ão

Os processos biopolíticos estão intimamente interligados ao poder dis-


ciplinar. As normas sociais passam assim a atravessar duas formas de poder
s

diferentes, indo da disciplina à biopolítica, as quais mesmo tendo investimen-


ver

tos opostos, ainda assim são complementares, pois ambas investem na vida.
O poder disciplinar restringe, interdita e produz confinamento. A biopolítica
estimula o fluxo, o movimento e a mobilidade, logo o exercício do poder
acontece em meio à circulação de práticas sociais, pessoas e mercadorias no
sistema capitalista (FOUCAULT, 1999).
178

O autor localiza no século XIX a tomada de poder sobre o homem


enquanto ser vivo, constituindo-se ali o que ele denominou de estatização do
biológico, um processo que teve início no século XVIII quando surgiram as
novas técnicas de poder centradas no corpo individual (Ibidem).
Ao longo do tempo, todas as estratégias do poder foram sendo transfor-
madas, da ordem dos soberanos do fazer morrer, para o poder que ordena que
se viva. Chega-se dessa forma até a moderna criação de estratégias de cuidado

or
para o controle dos corpos e a gestão da vida. O Estado passa então a intervir

od V
na população através de políticas de cuidado com a saúde, pela imposição do

aut
fazer viver. As ações do Estado visam transformar as condições ambientais
tornando as cidades salubres, e as condições socioambientais passam a ser
consideradas como determinantes para a saúde (Ibid.).

R
O poder, agora como biopoder, passa a operar sobre a vida, moldando
os sujeitos. Sua ação é voltada não somente para adestrar corpos, mas tam-

o
bém para normalizar condutas. O biopoder está voltado ao mesmo tempo à
aC
dimensão individual e coletiva imposta sobre as populações e o movimento das

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pessoas nos seus territórios, investindo naquilo que é mais caro, a vida (Ibid.).
O conceito de biopoder traz à tona as estratégias de intervenção sobre as
características próprias da existência humana, o nascer, o crescer, o adoecer
visã
e o morrer. O biopoder é um polo da biopolítica que serve para empregar os
controles e as intervenções reguladoras, manejar a população e normalizar o
corpo social (Ibid.).
itor

O controle da sociedade sobre os indivíduos não opera mais simplesmente


a re

pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. É no


biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investe a sociedade
capitalista. Assim, a saúde das populações passa a ser foco do investimento
estatal a partir da modernidade, com o advento do capitalismo. O corpo é uma
realidade biopolítica. A medicina e a saúde são estratégias biopolíticas para
par

o controle político das populações (FOUCAULT, 2007).


Pode-se identificar nessa relação entre a medicina, o capitalismo e a polí-
Ed

tica um dos mecanismos de exercício do biopoder evidenciados por Foucault


em “A microfísica do poder”, com
ão

o surgimento da saúde e do bem−estar físico da população em geral como


um dos objetivos essenciais do poder político. Não se trata mais do apoio a
s

uma franja particularmente frágil − perturbada e perturbadora − da popula-


ção, mas da maneira como se pode elevar o nível de saúde do corpo social
ver

em seu conjunto. Os diversos aparelhos de poder devem se encarregar dos


“corpos” não simplesmente para exigir deles o serviço do sangue ou para
protegê−los contra os inimigos, não simplesmente para assegurar os castigos
ou extorquir as rendas, mas para ajudá−los a garantir sua saúde. O imperativo
da saúde: dever de cada um e objetivo geral (FOUCAULT, 2007, p. 149).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 179

A promoção da saúde das populações se utiliza então de técnicas invisíveis


de poder, fazendo esse poder invisível circular. Essa tecnologia que não é cen-
trada no corpo, mas na vida, é uma tecnologia que agrupa os efeitos de massas
próprios às populações, buscando controlar as séries de eventos fortuitos pos-
síveis de ocorrer numa massa viva, com uma tecnologia que procura controlar
e quem sabe modificar a probabilidade desses eventos (FOUCAULT, 1999).
Dessa forma, a produção dos modos de subjetivação alia-se às forças que

or
tornam o sujeito um resultado das estratégias de poder. O governo da conduta

od V
das pessoas demarca, cria critérios do que deve ser o modelo de sujeito, através

aut
das relações de poder-saber, por meio de técnicas, procedimentos e práticas.
O corpo se torna uma realidade biopolítica, e suas estratégias de biopoder se
tornam possíveis quando a medicina e o capitalismo se articulam ao Estado,

R
contribuindo nas formas de governar as populações e configurando as estra-
tégias biopolíticas de poder e controle (Ibidem).

o
Castro (2009) situa também na obra “História da sexualidade I” o
aC
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momento em que o biopoder foi tomado por Foucault como um elemento


indispensável para o desenvolvimento do capitalismo. Foi nessa fase que
Foucault passou a afirmar o biopoder como mecanismo principal para asse-
gurar a inserção controlada dos corpos no aparato produtivo, e para ajustar
visã
os fenômenos da população aos processos econômicos.
Para Danner (2009) deve-se entender o biopoder como estratégia de con-
trole aplicada aos corpos dos indivíduos naquilo que eles têm em comum: a vida,
itor

o pertencimento a uma espécie. Trata-se de uma biopolítica porque os novos


a re

objetos de saber criam “a serviço” do novo poder, o controle da própria espécie.


E a população é o novo conceito que se constrói para dar conta de uma dimensão
coletiva que até então não havia sido uma problemática no campo dos saberes.
par

Estabelecem-se, assim, dois conjuntos de mecanismos complementares e


articulados entre si, que ocupam esferas diferentes: na esfera do corpo, o
Ed

poder disciplinar; na esfera da população, o biopoder, atuando por meio


de mecanismos reguladores (DANNER, 2009, p. 793).
ão

O poder será investido no fazer viver, na maneira de viver, na qualidade


dessa vida, no controle e no adiamento da morte. Irá se considerar os processos
biológicos do homem-espécie e assegurar sobre eles não apenas a disciplina,
s

mas também a regulamentação. Por outro lado, Foucault também nos fala da
ver

necessidade de higienização do espaço público nos centros urbanos, acarre-


tando uma gama de preocupações político-sanitárias (FOUCAULT, 2005).
Começam a surgir os movimentos higienistas, com suas tecnologias de
disciplinarização dos corpos, que vão delimitar a alimentação, tipo de moradia,
condições de vida e demais condutas das populações, havendo necessidade
180

de mecanismos contínuos, reguladores e corretivos. Uma sociedade que nor-


maliza as pessoas é efeito histórico de uma tecnologia de poder centrada na
vida, com muitas estratégias possíveis para a atuação invisível de um poder
normalizador (Ibidem).
Por outro lado, a obra de Foucault ajuda a esclarecer, também dentro da
realidade brasileira, os vieses e as limitações das ações políticas no campo
de promoção da saúde da população em geral e, por exemplo, entre pessoas

or
em situação de rua e em uso de drogas. Segundo Neves (2009) as formas

od V
estratégicas de normalização no exercício do biopoder na realidade brasileira

aut
buscaram se sustentar em práticas voltadas à modificação de hábitos e estilos
de vida, escondendo objetivos maiores de controle político e higienista, não
contribuindo em nada para que os sujeitos pudessem exercer escolhas e cons-

R
truir projetos e modos de vida nos centros urbanos, incluindo as demandas
pessoais, necessidades e expectativas de saúde.

o
aC
Nesse sentido, a promoção da saúde pública brasileira estava sobre a

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


égide do biopoder e condicionada a uma demanda do sistema produtivo
capitalista. O biopoder opera através das instituições do corpo social per-
mitindo que os corpos e os indivíduos se ajustem as demandas dos meios
visã
de produção. Importante salientar que, as instituições do corpo social que
Foucault se refere dizem respeito à família, o exército, a administração
da coletividade e outros, desta forma, a biopolítica opera via o biopoder,
nos indivíduos e para os indivíduos através, também, das organizações
itor

políticas (NEVES, 2009, p. 5).


a re

Pergentino (2014) assinala os fenômenos de ocorrência das populações


em situação de rua e sua relação frequentemente associada ao uso de substân-
cias psicoativas realizados nos contextos de permanência em cenários urba-
par

nos, surgem também como derivados de um agravamento da questão social


no mundo, inseparável do modo de vida encontrado no capitalismo, o qual
Ed

exige apreensão das múltiplas expressões de formas concretas da existência


humana. Portanto, jamais podem ser considerados como processos naturais,
e necessitam de políticas públicas de enfrentamento da exclusão social, com
ão

maior conhecimento da subjetividade dos sujeitos em situação de rua que


fazem uso de drogas.
Para Snow e Anderson (1998) há bastante tempo o uso e/ou abuso de
s

álcool e outras drogas apareceram nos espaços das ruas nos centros urbanos,
ver

fazendo parte de uma dimensão cultural e compondo uma espécie de estilo de


vida das pessoas que vivem nas ruas, estando assim para além de um hábito
adquirido nas experiências e histórias de vida, parecendo ser anterior e, portanto,
necessitando de uma análise mais voltada para o aprofundamento das marcas
do consumo de substâncias na cultura das cidades e das sociedades modernas.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 181

Certos autores (ABREU, 2013; COSTA, 2005; CARNEIRO JUNIOR


et al., 1998) irão afirmar, então, que o consumo do álcool e outras drogas vai
estar presente na realidade de grande parte das sociedades no mundo, e com
utilização assídua encontrada também entre os sujeitos em situação de rua
na vida urbana contemporânea. O fenômeno deve ser olhado para além dos
números ou da quantidade de pessoas utilizando drogas nas ruas, mas atuando
principalmente como forma de socialização entre os sujeitos, ou ainda com-

or
pondo estratégias para minimizar fatores como fome e frio, contribuindo para

od V
o enfrentamento das dificuldades inerentes à vida nas ruas. Por fim, muitos

aut
desses sujeitos não foram para os espaços públicos com o propósito de usar
drogas, mas ao permanecer neste contexto, passaram a utilizar substâncias
psicoativas como meio de inserção nos grupos de rua.

R
Numa visão mais conservadora, Goulart, Sampaio e Guedes (2011) apon-
tam uma inter-relação entre a dependência do uso do crack e a população em

o
situação de rua, enquanto um assunto atual e de forte impacto na sociedade,
aC
tornando o uso de drogas ilícitas não mais somente uma questão de saúde
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pública, mas também uma questão social, exigindo o entendimento técnico,


médico e científico dos efeitos físicos, psicológicos, morais e sociais do uso
do crack nos espaços urbanos, de modo que as políticas públicas tenham
visã
uma coesão nas melhorias dos aspectos institucionais, sociais e individuais,
buscando a erradicação do uso de drogas e da população em situação de rua.
Jesus e Menezes (2010) por sua vez, sugerem as políticas de interven-
itor

ção com pessoas em situação de rua partindo de uma lógica de promoção


a re

do empoderamento individual, social e institucional, descartando o viés do


assistencialismo, pois afirmam que passar a viver numa condição de rua pode
contribuir para o desenvolvimento do empoderamento psicológico, e os indi-
víduos são capazes de se tornarem empoderados mesmo nos ambientes que
parecem menos favoráveis.
par

Para os autores, pessoas em situação de rua tornam-se empoderadas


Ed

psicologicamente ao realizar ações tais como perceber aspectos positivos nas


ruas para além apenas dos pontos negativos, demonstrar capacidade crítica ao
funcionamento das instituições assistenciais e ao meio social do qual saíram
ão

para viver na rua, mostrar percepção pessoal das próprias competências ao


manter controle sobre a própria vida, resolver problemas nas ruas e até mesmo
depender de si próprios para saírem da rua se motivados a este ato, e ainda ter
s

a capacidade de acessar os recursos existentes nos locais por onde transitam


ver

como albergues, abrigos e serviços de assistência social que ofertam quartos


em hotéis, serviços de saúde, locais de doação de roupas e comida, centros
de emprego e qualificação. Tudo isso apesar das dificuldades enfrentadas, e
do sentimento de injustiça social e discriminação pela condição de vida na
rua (JESUS; MENEZES, 2010).
182

Em relação aos usuários de drogas, Boiteux (2015) observa que o modelo


hegemônico adotado nas práticas sociais e políticas públicas no Brasil é o proibi-
cionismo, o qual se fundamenta no discurso punitivo das pessoas que usam drogas.
Essa concepção considera a proibição como a opção primordial para se lidar com
os malefícios atribuídos à utilização de substâncias psicoativas classificadas como
ilícitas, passando a considerar, por outro lado, os próprios usuários de drogas
como criminosos. “Trata-se de uma escolha que presume, sem base empírica, que

or
a interdição pela lei penal, sob ameaça de pena, fará as pessoas mudarem seus

od V
hábitos e deixarem de consumir determinadas substâncias, apenas pelo fato destas

aut
serem colocadas na categoria de ilícitas” (BOITEUX, 2015, p. 145).
Para Bokany (2015) a questão das drogas é tratada como “caso de polícia”
no Brasil, e essa complexidade envolve na realidade diversas contradições

R
e conflitos, gerando estigmas e preconceitos aos usuários, indicando uma
dupla penalização – a social e a legal. Abordar o problema das drogas como

o
crime dificulta vê-lo em sua dimensão real, advinda da exclusão social, de
aC
problemas raciais e de classe, ausência de justiça social e de oportunidades,

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todos relacionadas ao proibicionismo punitivo.

Outro ponto é que a criminalização oculta os processos de exclusão social e


visã
reproduz a dinâmica das discriminações de classe e raciais que estruturam
as relações de poder no Brasil. O aumento da violência e da criminalização
gerada pelo tráfico atinge principalmente jovens, negros e pobres. A crimi-
nalização das drogas não se dá desvinculada do contexto social mais amplo,
itor

ao contrário, é determinada por ele. Muitos dos conflitos atribuídos às drogas


a re

refletem problemas sociais de outra natureza, como a violência, desem-


prego, falta de educação, cultura, lazer e acesso a melhores oportunidades.
A política proibicionista reforça e potencializa os nefastos efeitos sociais,
a injustiça, o preconceito, a violência e a opressão (BOKANY, 2015, p. 8).
par

De Paula Souza (2013) afirma que o proibicionismo em relação às dro-


gas aliou interesses geopolíticos mundiais às possibilidades de aumento das
Ed

intervenções na vida das populações, permitindo criar novos eixos estratégicos


e estabelecer subdivisões, distinções, esquadrinhamentos e tecnologias de
normalização sofisticadas, tais como as estratégias de criminalização e racismo
ão

às pessoas que utilizam substâncias psicoativas, confirmando as análises de


Foucault sobre os dispositivos de biopoder aí envolvidos.
s
ver

No caso das drogas observamos esse processo micropolítico no processo


de criminalização que surge a partir de movimentos civil-religiosos organi-
zados. Ao mesmo tempo, ao se apoiar sobre o racismo, essa normalização
não deixa de reforçar as iniquidades entre classe sociais, já que negros e
imigrantes passam a ser o alvo predileto desta estratégia discursiva (DE
PAULA SOUZA, 2013, p. 96).
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 183

Para Ramos (2016) o contexto de marginalização e produção massiva


do “abandonado” urbano brasileiro gerou um tipo social típico, no qual a
condição de classe, complementada pela desassistência institucional e pela
carência de recursos materiais e simbólicos, marca central da exclusão na
periferia do capitalismo, tornou também os sujeitos habitantes dos centros
urbanos e muitas vezes em situação de rua, ainda mais suscetíveis aos perigos
do uso contínuo, abusivo e compulsivo de drogas psicoativas.

or
Tais sujeitos parecem possuir agenciamentos performáticos mais voltados

od V
ao presente nos contextos de vida, com claras implicações na subjetividade

aut
pelo histórico frequente de ausência de cuidados parentais, menos recursos
tanto materiais quanto socioemocionais para planejamento de ações futuras, e
baixo autocontrole disposicional em suas trajetórias pessoais, gerando grande

R
impedimento a uma nova ressocialização por conta das formas como refletem
sobre si mesmos e da sensação de fracasso na sua relação com o mundo.

o
aC
[...] evidenciamos uma larga penetração do crack nas frações de classe mais
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desassistidas em diversas esferas da vida. São tendencialmente habitantes


dos grandes centros urbanos que põem à prova os precários recursos mate-
riais e simbólicos acumulados em suas trajetórias. O encontro com o crack
visã
é sintomático, revelando inaptidões disposicionais a maneiras específicas
de agir que, quando presentes, imprimem no sujeito uma lógica de certa
previsibilidade sobre o futuro através do autocontrole em ações presentes.
Essas pessoas vivenciam no cotidiano uma prisão ao contexto em que
itor

vivem numa repetição circular de “presentes”, sendo fundamental inves-


a re

tigar quais são os componentes sociais fundantes de comportamentos que


perpetuam e ampliam esse desastre cíclico (RAMOS, 2016, p. 100-101).

Segundo o autor, torna-se necessário serem criados instrumentos de auxí-


par

lio permanente, além de sólido apoio institucional das políticas públicas a


pessoas que usam drogas e ocupam espaços urbanos, para que os problemas
Ed

existentes na socialização primária e secundária, decorrentes das ausências de


vínculos familiares, e as repetidas experiências de fracasso social e exclusão
do mundo do trabalho e da cultura em geral possam ser atenuados por espaços
ão

institucionais, nos quais as potencialidades presentes em todo ser humano


possam ser desenvolvidas, permitindo a reinserção social das pessoas com
uso problemático de substâncias psicoativas e em situação de rua.
s

De acordo com Souza (2016) a classe social por ele denominada como
ver

“ralé brasileira” começou a ser formada no Brasil moderno desde as suas


origens, na junção do contexto de urbanização e industrialização brasileiro ao
processo de libertação dos escravos, feito sem qualquer ajuda governamental,
quando os então ex-escravos ou mestiços empobrecidos passaram a formar,
já naquela época, a classe dos desclassificados e abandonados à própria sorte
184

(ou azar) nos centros urbanos do país. Ou seja, jamais houve no Brasil qual-
quer visão de igualdade de classes ou consciência da necessidade de resgatar
pessoas excluídas socialmente.
Para este autor, a humilhação social secular perpetrada no Brasil, junto à
marginalização praticada cotidianamente, incluindo ainda a discriminação pela
cor da pele ou pela “raça”, tais como forma exterior de perceber os sujeitos e
inferiorizá-los, faz emergir o dado fundamental de que tais sujeitos passaram

or
a se perceber e assim reproduzir práticas sociais de uma classe sem condições

od V
emocionais e morais de incorporar “conhecimento”, ou seja, sem conseguir

aut
adquirir o “capital cultural” que a sociedade moderna precisa em todas as suas
funções, ficando fora do mercado de trabalho competitivo.

R
Na verdade, ninguém “escolhe” ser pobre e diuturnamente humilhado.
Como somos constituídos por herança familiar – e, portanto, por herança

o
de classe, já que cada classe possui suas socializações familiares típicas
aC
– e por certos pressupostos emocionais e morais como capacidade de

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autodisciplina, de concentração, de pensamento e cálculo prospectivo etc.,
algumas classes são literalmente condenadas à marginalidade, enquanto
outras ao sucesso mundano. O usuário de crack, em sua esmagadora
visã
maioria, faz parte daquilo que chamamos de “ralé brasileira”, não para
insultar quem já é humilhado, mas, sim, para denunciar a iniquidade do
abandono social já secular que é o principal traço social singular brasileiro
(SOUZA, 2016, p. 35).
itor
a re

Em estudo empírico realizados com os assim chamados desclassificados


sociais brasileiros usuários de crack, o autor e sua equipe de pesquisadores
afirmam poder comprovar uma relação entre o impulso autodestrutivo visuali-
zado no uso de crack em centros urbanos e o mecanismo implícito da desclas-
par

sificação social verificado no discurso das pessoas que usam drogas (Ibidem).
Nos dois casos, a “desclassificação objetiva”, ou seja, que é “sentida”
Ed

pelo sujeito entrevistado na relação com sociedade que o rodeia, deriva do


fato deles serem julgados e avaliados como “indignos”, o que significa para
cada um, em sua realidade vivida nas ruas, serem considerados menos que
ão

humanos, e sentirem em seu íntimo, subjetivamente, que não são capazes de


mudar as próprias trajetórias, por ausência de recursos materiais, cognitivos
e emocionais (Ibid.).
s

A regra da igualdade social entre as pessoas não deriva, então, das Leis
ver

existentes, nem do discurso oficial ou da religião. A igualdade de direitos


emana, de fato, a partir de um sentimento de pertencimento, o qual só produz
efeitos se o consenso social implícito assim o referendar, coletivamente.
Caso contrário não haverá igualdade, e sim desigualdade social, religiosa,
política ou jurídica.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 185

Não é a malignidade da droga, portanto, que cria a prisão do vício, mas,


o abandono afetivo e social e a experiência silenciosa de uma humilhação
ubíqua e sem explicação palpável. A raiva e o ressentimento do aban-
dono e da humilhação cotidiana podem se transformar, por exemplo, em
“indignação” política e servir de motivação para uma vida com sentido de
missão ainda que pobre materialmente. Mas também essa transformação
exige pressupostos cognitivos e emocionais que são escassos nas classes

or
populares. Mais ainda entre os que estamos chamando de desclassificados.
Nesses casos, para muitos, a reação é dirigida contra si mesmo e o consumo

od V
da droga é uma tentativa desesperada de fugir de um cotidiano intragável

aut
ainda que o consumo progressivo apenas aumente o desprezo social e a
degradação subjetiva e objetiva (SOUZA, 2016, p. 37).

R
Para De Paula Souza (2013) o regime de biopoder em relação ao uso
de drogas é inserido a partir da emergência de um novo objeto de governo: a

o
população. Um regime de verdade sobre o corpo e a subjetividade serve de
aC
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moldura para que novas tecnologias de poder tornem as drogas um problema


político estratégico, assim consolidando a norma da abstinência. A política
proibicionista de drogas vai ser elaborada com o auxílio tanto dos dispositivos
da sexualidade quanto da delinquência, de tal modo que os usuários de drogas
visã
se encontram, de certa forma, entre o delinquente, o louco e o pervertido.

O usuário de drogas é, assim, um campo de investigação sobre a conexão


itor

entre prazer e razão, campo que ainda haveria de ser adensado, investigado
a re

e constituído. As drogas como geradoras de um prazer que enlouquece ou


geradoras de uma loucura prazerosa seriam, ao longo do século XX, toma-
das como uma categoria não só patológica, como ilegal. Os dispositivos
disciplinares: a prisão para o delinquente, o hospício para o louco, e as
ciências da sexualidade não visavam diretamente os usuários de drogas.
par

Seria necessário ainda que o tema das drogas fosse construído enquanto
um problema de ordem política, econômica e social. Assim, a construção
Ed

das drogas como um problema que permitiu a junção entre estas duas séries
(prazer e delinquência) começou agenciada ao nascimento da biopolítica,
por volta do século XVIII (DE PAULA SOUZA, 2013, p. 88).
ão

As proposições de Foucault sobre o biopoder possibilitam compreender


a maneira como as drogas se constituem em objeto de interesse geopolítico de
s

segurança interna e externa; adquire importância no mercado político-econômico;


ver

bem como se torna alvo das políticas sociais. As redes de controle e a expansão
das tecnologias de poder apoiam a política global sobre as drogas a partir do
tema da proteção e preservação da vida humana por ela ameaçada (Ibidem).
Uma das narrativas do século XX pode então ser sobre o processo de intensi-
ficação do poder do Estado sobre as drogas. Utilizando as bandeiras da abstinência
186

total e da necessidade de erradicação das drogas para proteger a vida, a humani-


dade viveu ao mesmo tempo a intensificação de uma ampla rede de repressão,
por um lado, e a intensificação do mercado e do consumo de drogas no mundo, de
outro lado, ambos igualmente nunca vistos. O processo político e governamental
de medicalização e criminalização dos usuários de substâncias psicoativas, anco-
rado na moral religiosa e na repressão policial, amplia significativamente as redes
de biopoder enquanto signo explícito da guerra às drogas (Ibid.).

or
Portanto, são bem explícitos os mecanismos de controle na gestão da

od V
população, nas políticas de uso de drogas em situação de rua, orquestrada

aut
em conjunto à política de individualização disciplinar dos sujeitos, visando
à docilidade e utilidade dos corpos. Para Foucault as duas práticas convivem
juntas lado a lado, com seus efeitos biopolíticos e seus paradoxos, os quais

R
são potencializados se incorporados aos mecanismos de segurança, na justiça
e na economia. A promessa de proteção do meio social pode ser desvirtuada

o
em uma política social e estatal racista, fascista, repressiva e excludente, facil-
aC
mente aliada às tecnociências na criminalização e atribuição de delinquências

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e psicopatologias às pessoas de rua usuárias de substâncias psicoativas.
Castel (1997) analisando as sociedades contemporâneas nos fenômenos
que estão por trás dos grupos “excluídos”, propõe algumas reflexões no modo
visã
de existir desses indivíduos, os chamados “indigentes”, aqueles sem domicílio
fixo, certos toxicômanos, aqueles jovens à deriva em subúrbios, considerados
como deserdados.
itor

Segundo o autor, a miséria econômica está na base da maior parte das


a re

situações de grande marginalidade, ou até mesmo de todas. O termo margi-


nalidade é assim abordado, já que

Trata-se de tentar tomar a marginalização como um processo e de compreender


a situação desses indivíduos como resultado de uma dinâmica de exclusão, que
par

se manifesta antes que ela produza efeitos completamente dessocializantes. A


grande marginalidade apresenta-se, assim, ao fim de um percurso. Esta zona de
Ed

exclusão ou de quase exclusão é alimentada tanto por marginais propriamente


ditos como por aqueles que estão ameaçados, instáveis, frágeis, correndo o
risco de cair na marginalidade (CASTEL, 1997, p. 20).
ão

Desta forma, o autor propõe uma contextualização da pobreza até a che-


gada das pessoas à desfiliação social (no caso deste artigo, a situação de rua e
s

o uso de drogas). Segundo ele, existe uma pobreza integrada, isto é, pessoas
ver

que vivem no patamar da pobreza, sem qualquer tipo de reserva econômica,


como os artesãos da Europa, os quais eram vistos como autônomos, não neces-
sitando de uma política social especial. Castel enfatiza também que existe,
por outro lado, para além da pobreza, uma indigência integrada, condição na
qual não há ainda a marginalidade.
PRODUÇÃO DA DIFERENÇA, SAÚDE COLETIVA E FORMAÇÃO:
dispositivos transdisciplinares nas políticas públicas v.12 187

Para além da pobreza integrada, composta pela classe trabalhadora, e


da indigência integrada, das pessoas que dependem das ações de socorro e
ainda possuem inserção comunitária, as formas de marginalidade que não se
encaixam nos sistemas de classificação social são aquelas compostas pela
indigência desfiliada, marginalizada ou excluída, que não encontra um lugar
nem na ordem do trabalho (pessoas aptas a trabalhar, mas sem emprego e
sem vínculos familiares), nem na ordem comunitária (indigentes inválidos

or
ao trabalho, sem família e moradia), os rejeitados sociais.

od V
Para Goffman (2013), o ser humano faz algumas exigências sociais no

aut
contato com um indivíduo, muito embora frequentemente não haja um reco-
nhecimento da existência dessa atitude. A partir dessas exigências pré-esta-

R
belecidas, há um questionamento: “essas exigências são preenchidas?”, de
acordo com o autor, é nesse ponto que “o caráter que imputamos ao indivíduo
poderia ser encarado mais como uma imputação feita por um retrospecto em

o
potencial – uma caracterização “efetiva”, uma identidade social virtual”, ou
aC
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seja, aquilo que se espera e se deseja encontrar, mas pode não ser encontrado.
Mais adiante, Goffman afirma que para um ser humano ser aceito “a categoria
e os atributos que ele, na realidade, prova possuir, serão chamados de sua
visã
identidade social real”, e ao haver discrepância entre o que é esperado e aquilo
de fato encontrado, surge o estigma. Desta forma, é possível afirmar que:

[...] deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma


itor

pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especial-


a re

mente quando o seu efeito de descrédito é muito grande – algumas vezes


ele também é considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem
– e constitui uma discrepância específica entre a identidade social virtual
e a identidade social real (GOFFMAN 2013, p. 12).
par

Segundo o autor, é possível falar em três tipos de estigma, nitidamente


Ed

diferentes. Em uma primeira dimensão, “há as abominações do corpo – as


várias deformidades físicas”. Em segundo lugar, “as culpas de caráter indi-
vidual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais,
ão

crenças falsas e rígidas, desonestidade”, sendo que essas afirmativas podem


ser exemplificadas a partir de “distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo,
homossexualismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento polí-
s

tico radical”. Por último, “há os estigmas tribais de raça, nação e religião, que
ver

podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os


membros de uma família” (GOFFMAN, 2013, p. 14).
No caso das pessoas em situação de rua e uso de drogas, o pensamento de
Goffman se encaixa nitidamente aos discursos presentes no cotidiano, quando o
autor se refere ao atributo negativo de distanciamento da noção de normalidade.
188

Em todos esses exemplos de es