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FLÁVIA CRISTINA SILVEIRA LEMOS - DOLORES GALINDO

or
PEDRO PAULO GASTALHO DE BICALHO
LEANDRO PASSARINHO REIS JÚNIOR

V
PAULO DE TARSO RIBEIRO DE OLIVEIRA

aut
JOSÉ DE ARIMATÉIA RODRIGUES REIS - VÁLBER LUIZ FARIAS SAMPAIO
MICHELLE RIBEIRO CORRÊA - MÁRCIA ROBERTA DE OLIVEIRA CARDOSO

CR Organizadores

do
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

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SUBJETIVIDADES
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E DEMOCRACIAS
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escritas transdisciplinares
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Flávia Cristina Silveira Lemos
Dolores Galindo
Pedro Paulo Gastalho de Bicalho
Leandro Passarinho Reis Júnior

or
Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira
José de Arimatéia Rodrigues Reis

V
Válber Luiz Farias Sampaio

aut
Michelle Ribeiro Corrêa
Márcia Roberta de Oliveira Cardoso

CR (Organizadores)

do
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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS:
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escritas transdisciplinares
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Coleção Transversalidade e Criação – Ética, Estética e


Política. Volume 9
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E

Editora CRV
Curitiba – Brasil
2019

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Copyright © da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe: Railson Moura
Diagramação e Capa: Editora CRV
Revisão: Os Autores

or
V
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
CATALOGAÇÃO NA FONTE

aut
Su941

CR
Subjetividade e democracias: escritas transdisciplinares / Flávia Cristina Silveira Lemos,
Dolores Galindo, Pedro Paulo G. de Bicalho, Leandro Passarinho Reis Júnior, Paulo de Tarso R.

do
de Oliveira, José de Arimatéia R. Reis, Valber Luiz F. Sampaio, Michele R. Corrêa, Marcia Roberta
de Oliveira Cardoso (organizadores) – Curitiba : CRV, 2019.
522 p. (Coleção: Transversalidade e Criação - Ética, Estética e Política. v. 9)

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Bibliografia
são
ISBN COLEÇÃO 978-85-444-1750-8
ISBN VOLUME 978-85-444-4048-3
ra
DOI 10.24824/978854444048.3
i
1. Psicologia 2. História 3. Filosofia e educação I. Lemos, Flávia Cristina S. org. II. Galindo,
rev

Dolores. org. III. Bicalho, Pedro Paulo Gastalho de. org. IV. Oliveira, Paulo de Tarso R. de org.
V. Reis, José de Arimatéia R. org. VI. Sampaio, Válber Luiz F. org. VII. Correa, Michele R. org.
to

VIII. Reis Junior, Leandro P. org. IX. Cardoso, Marcia Roberta de Oliveira. org. X. Título XI.
Transversalidade e Criação - Ética, Estética e Política. n. 9.
ara

CDU 15 CDD 150


Índice para catálogo sistemático
ver di

1. Psicologia 150
op

ESTA OBRA TAMBÉM ENCONTRA-SE DISPONÍVEL


EM FORMATO DIGITAL.
E

CONHEÇA E BAIXE NOSSO APLICATIVO!


2019
Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004
Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV
Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV
Tel.: (41) 3039-6418 - E-mail: sac@editoracrv.com.br
Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br

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Conselho Editorial: Comitê Científico:
Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Alexsandro Eleotério Pereira de Souza (UEL)
Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Luciene Alcinda de Medeiros (PUC-RJ)
Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Maria Regina de Avila Moreira (UFRN)
Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Patrícia Krieger Grossi (PUC-RS)

or
Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT) Regina Sueli de Sousa (UFG)
Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Solange Conceição Albuquerque

V
Carmen Tereza Velanga (UNIR) de Cristo (UNIFESSPA)

aut
Celso Conti (UFSCar) Thaísa Teixeira Closs (PUC-RS)
Cesar Gerónimo Tello (Univer .Nacional Vinícius Ferreira Baptista (UFRRJ)
Três de Febrero – Argentina)

CR
Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG)
Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL)
Elizeu Clementino de Souza (UNEB)

do
Élsio José Corá (UFFS)
Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB)
Francisco Carlos Duarte (PUC-PR)
Gloria Fariñas León (Universidade
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são de La Havana – Cuba)


Guillermo Arias Beatón (Universidade
de La Havana – Cuba)
ra
Helmuth Krüger (UCP)
Jailson Alves dos Santos (UFRJ)
i
João Adalberto Campato Junior (UNESP)
rev

Josania Portela (UFPI)


Leonel Severo Rocha (UNISINOS)
Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO)
to

Lourdes Helena da Silva (UFV)


Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US)
Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar)
ara

Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC)


Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA)
ver di

Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG)


Renato Francisco dos Santos Paula (UFG)
Rodrigo Pratte-Santos (UFES)
op

Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)


Simone Rodrigues Pinto (UNB)
E

Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA)


Sydione Santos (UEPG)

Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA)


Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)

Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc.

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A todos e todas que atuam em políticas públicas,


especialmente, psicólogas e psicólogos.

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AGRADECIMENTOS
Agradecemos a todos e todas que participaram desta coletânea e contri-
buíram para divulgação e produção de saberes, na universidade e em outras

or
políticas de trabalho. O cuidado pode ser a síntese desta coletânea que reúne

V
inúmeras universidades e pesquisadores.

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E

Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!


Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mário Quintana

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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO������������������������������������������������������������������������������������������ 17

or
REPENSANDO OS RACISMOS E A PSICOLOGIA NO BRASIL:
considerações sobre os efeitos da lógica colonial������������������������������������������ 23

V
Juan Telles

aut
Maria Helena Zamora
Camila Câmara

CR
POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA, RACIONALIDADES BIO-
NECROPOLÍTICO-ECONÔMICAS E PROCESSOS

do
DE SUBJETIVAÇÃO�������������������������������������������������������������������������������������� 43
Micael Jayme Casarin Castagna
Roberta Brasilino Barbosa
Pedro Paulo Gastalho de Bicalho
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são
PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS: experiências formativas
do Vieses-UFC������������������������������������������������������������������������������������������������ 61
ra
Clara Oliveira Barreto Cavalcante
João Paulo Pereira Barros
i
Ingrid Sampaio de Sousa
rev

Larissa Ferreira Nunes


Ivne Alencar Farias
to

Vanessa Amarante de Souza

EL PROYECTO DE CIUDAD CREATIVA Y EL ENTORNO SOCIAL


ara

DEL PARQUE MORELOS DE GUADALAJARA������������������������������������������ 77


Bernardo Jiménez-Domínguez
ver di

TENSÕES NO COTIDIANO DO BAIXO SÃO FRANCISCO: indicações


op

de análise da vida ribeirinha através do dispêndio����������������������������������������� 89


Beatriz Vilar Lessa
E

Marcelo de Almeida Ferreri


O TEMPO, A JUVENTUDE E O PRECÁRIO – REFLEXÕES SOBRE


AS (IM)POSSIBILIDADES DE UMA VIDA LIVRE, ÉTICA E BELA���������� 101
Iolete Ribeiro da Silva
Enio de Souza Tavares

TENDÊNCIAS PARA A ADESÃO AO AUTORITARISMO: um olhar


sobre a personalidade����������������������������������������������������������������������������������� 117
Louine Costa Lima Cruvinel
Cristiane Souza Borzuk
Andressa Cabral Domingues

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AUTORITARISMO E GUERRA ÀS DROGAS NO BRASIL���������������������� 127
José Araújo de Brito Neto
Flávia Cristina Silveira Lemos
Luanna Tomaz de Souza

or
TRAMAS DE UMA REDE: processo de desmonte dos serviços da rede
de atenção às pessoas que fazem uso de drogas���������������������������������������� 147

V
Morgana Moura

aut
Dolores Galindo
Ricardo Pimentel Méllo
Tatiana Bichara

CR
MEDICALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO E DA SOCIEDADE: repensando a

do
atuação em psicologia escolar���������������������������������������������������������������������� 165
Vânia Aparecida Calado
Marilene Proença Rebello de Souza

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PROCESSOS DE MEDICALIZAÇÃO E AS LACUNAS DA
são
EFETIVAÇÃO DA EQUIDADE NO SUS: alguns apontamentos���������������� 183
Flávia Cristina Silveira Lemos
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Dolores Galindo
Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira
i
Geise do Socorro Lima Gomes
rev

Renata Vilela Rodrigues

CURRÍCULO, FOUCAULT E A MEDICALIZAÇÃO DAS


to

SUBJETIVIDADES: resistências e campo de tensão���������������������������������� 199


Geise do Socorro Lima Gomes
ara

Flávia Cristina Silveira Lemos


Ataualpa Maciel Sampaio
ver di

POLÍTICAS PÚBLICAS E SAÚDE MENTAL: processo de trabalho no


op

cuidado psicossocial à crise�������������������������������������������������������������������������� 211


Herbert Tadeu Pereira de Matos Junior
Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira
E

Breno Ferreira Pena


O ESVAZIAMENTO DA FUNÇÃO DOCENTE NOS PROJETOS DE


CORREÇÃO DE FLUXO ESCOLAR���������������������������������������������������������� 231
Marli Lucia Tonatto Zibetti
Élida Furtado do Nascimento
Patrícia Guedes Nogueira

GÊNERO, DIREITOS HUMANOS E FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA:


há possibilidades de diálogo em tempos precários?������������������������������������� 251
Eliz Marine Wiggers

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PSICOLOGIA CLÍNICA, POLÍTICAS PÚBLICAS E VIOLÊNCIA
CONTRA A MULHER – UM DIÁLOGO A PARTIR DO
PLANTÃO PSICOLÓGICO������������������������������������������������������������������������� 263
Adriana Alcântara dos Reis
Emanuel Meireles Vieira

or
PERCEPÇÃO DE PROFISSIONAIS DA ATENÇÃO BÁSICA EM

V
SAÚDE DE UMA METRÓPOLE DA AMAZÔNIA BRASILEIRA SOBRE

aut
VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES�������������������������� 279
Milene Maria Xavier Veloso

CR
Celina Maria Colino Magalhães
Isabel Rosa Cabral

do
AS AÇÕES DE ENFRENTAMENTO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL
CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO MUNICÍPIO DE
JURUTI (PA) A PARTIR DA IMPLANTAÇÃO DO PROJETO ALCOA������ 301
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Marilene Maria Aquino Castro de Barros


são
Genylton Odilon Rêgo da Rocha
ra
“A CULPA DEVE SER DO SOL” – BIOPOLÍTICA DA EXCLUSÃO
DA JUVENTUDE E ESVAZIAMENTO ESCOLAR EM BELÉM-PA
i
(2000-2017)�������������������������������������������������������������������������������������������������� 319
rev

Carlos Jorge Paixão


Letícia Carneiro da Conceição
to

PSICOLOGIA E POLÍTICAS EDUCACIONAIS EM DISSERTAÇÕES


ara

E TESES NO BRASIL: uma revisão sistemática����������������������������������������� 335


Leilanir de Sousa Carvalho
Fauston Negreiros
ver di

CONTROVÉRSIAS HISTORIOGRÁFICAS EM TORNO DO


op

INSTITUTO DAS ELEIÇÕES DIRETAS NAS ESCOLAS������������������������� 355


Glaybe Antônio Sousa Pimentel
E

Luiz Miguel Galvão Queiroz


Paulo Sérgio de Almeida Corrêa

AS INTERFACES ENTRE AS POLÍTICAS PÚBLICAS E O CAMPO


DA SAÚDE DO TRABALHADOR: ressonâncias no presente�������������������� 371
Anaclan Pereira Lopes da Silva
Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira
Laura Soares Martins Nogueira
Ana Carolina Secco de Andrade Mélou

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ATENÇÃO À SAÚDE DO IDOSO (A) INSTITUCIONALIZADO: perdas,
ganhos e necessidades ocupacionais����������������������������������������������������������� 389
Mara Daniele de Sousa Sarmento
Karla Maria Siqueira Coelho
Airle Miranda de Souza

or
Victor Augusto Cavaleiro Corrêa

V
CARACTERÍSTICAS DEMOGRÁFICAS DE FAMÍLIAS POBRES DE

aut
UMA METRÓPOLE DA AMAZÔNIA����������������������������������������������������������� 409
Thamyris Maués dos Santos
Edson Marcos Leal Soares Ramos
Fernando Augusto Ramos Pontes
Simone Souza da Costa Silva

CR
do
RELAÇÕES DE GÊNERO E A POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL:
lutas feministas em debate���������������������������������������������������������������������������� 428
Rafaele Habib Souza Aquime

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Fernanda Teixeira de Barros Neta
Maria Lúcia Chaves Lima
são
ra
SEM MUROS E SEM BARREIRAS NA AMAZÔNIA: programa asas da
i
florestania infantil������������������������������������������������������������������������������������������ 441
rev

Kelly Cristina Costa Albuquerque


Maria Ivonete Barbosa Tamboril
to

A REVOLUÇÃO CABANA A PARTIR DOS CONCEITOS DA


ANÁLISE INSTITUCIONAL������������������������������������������������������������������������� 465
ara

Evelyn Tarcilda Almeida Ferreira


Lilian Lameira Silva
ver di

Luciano Imar Palheta Trindade


Merediane Barreto Gonçalves
Rafael Ventimiglia dos Santos
op

Yana Wanzeller Granhen


E

A LEI 10.639/03 E SEUS DESDOBRAMENTOS SOBRE A CULTURA E


IDEOLOGIA NO QUILOMBO DE NOVA JUTAI BREU BRANCO-PA��������� 481

Oberdan da Silva Medeiros

SOBRE OS AUTORES�������������������������������������������������������������������������������� 499

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APRESENTAÇÃO
Este livro é uma coletânea internacional e conta com a participação de
textos de pesquisadores e pesquisadores de muitas universidades e programas

or
de pós-graduação. Os capítulos trazem resultados de estudos consistentes,

V
fruto de trabalhos rigorosos e críticos, materializados nestas páginas de forma

aut
brilhante pelos autores e pelas autoras, cujos textos deram vida a este livro.
Neste livro, é possível identificar a participação das seguintes universi-
dades: UFPI, UFPA, UFC, UFG, PUC-SP, UFMT, UFRGS, UFAM, UNIR,

CR
PUC-RJ, UFF, UFS, UFMA, Escola Bahianas de Saúde Pública, UNAMA,
UNINASSAU, UNIFAMAZ, Fundacentro, IAEN-Equador e da Universidad

do
de Guadalajara-México.
O capítulo um, intitulado: “Repensando os racismos e a Psicologia no
Brasil: considerações sobre os efeitos da lógica colonial”, escrito por Juan
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são
Telles, Maria Helena Zamora e Camila Câmara propõe pensar o racismo
estrutural presente na sociedade brasileira e como ele produz subjetividades
ra
e atravessa as instituições, materializando efeitos coloniais ainda no presente.
O capítulo dois, cujo título é: “Políticas públicas de segurança, racionali-
i
dades bio-necropolítico-econômicas e processos de subjetivação”, cuja autoria
rev

é de Micael Jayme Casarin Castagna, Roberta Brasilino Barbosa e Pedro Paulo


Gastalho de Bicalho visa interrogar as práticas securitárias da atualidade, em
to

uma sociedade de governamentalidade neoliberal por meio de uma refinada


análise, ancorada nos conceitos de necropolítica, biopolítica e subjetivação.
ara

O capítulo três, intitulado: “Psicologia e Políticas Públicas – experiências


ver di

formativas do Vieses-UFC”, escrito por Clara Oliveira Barreto Cavalcante,


João Paulo Pereira Barros, Ingrid Sampaio de Sousa, Larissa Ferreira Nunes,
op

Ivne Alencar Farias e Vanessa Amarante de Souza aborda um relato de vivên-


cia do grupo de pesquisa, ensino e extensão Vieses, na Universidade Federal
E

do Ceará e a importância desta prática formativa na área de Psicologia quanto


ao campo das Políticas Públicas.

O capítulo quatro, cujo título é: “El projecto del ciudad creativa y el


entorno social del parque Morelos de Guadajara” aborda uma perspectiva
transdisciplinar da cidade, sobretudo com um olhar histórico-geográfico e
das ciências sociais face à dinâmica das relações sociais no espaço e diante
das disputas na economia política atual.
O capítulo cinco, intitulado: “Tensões no cotidiano do baixo São Fran-
cisco – indicações de análise da vida ribeirinha através do dispêndio” de
autoria de Beatriz Vilar Lessa e Marcelo de Almeida Ferreri ressalta que

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18

os modos de vida ribeirinho têm se materializado por meio das práticas de


resistência em meio às situações de violações de direitos vividas.
O capítulo seis, cujo título é: “O tempo, a juventude e o precário –
reflexões sobre as (im)possibilidades de uma vida livre, ética e bela”, escrito
por Iolete Ribeiro da Silva e Enio de Souza Tavares apresenta resultados de
pesquisa com destaca para a política voltada à juventude, no presente e os

or
efeitos da mesma.
O capítulo sete, intitulado de: “Tendências para a adesão ao autorita-

od V
rismo: um olha sobre a personalidade”, cuja a autoria é de Louine Costa Lima

aut
Cruvinel, Cristiane Souza Borzuk e Andressa Cabral Domingues aborda, a
partir da Teoria Crítica em Adorno uma problematização da produção da
subjetividade autoritária.
R
O capítulo oito, cujo título é: “Autoritarismo e guerra às drogas no Bra-

o
sil”, escrito por José Araújo de Brito Neto, Flávia Cristina Silveira Lemos
aC
e Luanna Tomaz de Souza assinala os efeitos de uma política denominada

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de combate às drogas, à qual produz extermínio de grupos vulneráveis, em
especial, de jovens negros pobres de baixa escolaridade. O texto também
aponta os mecanismos de seletividade penal em jogo na chamada guerra às
visã
drogas e como operam por meio das instituições.
O capítulo nono, intitulado: “Tramas de uma rede – processo de desmonte
dos serviços da rede de atenção às pessoas que fazem uso de drogas”, cuja
itor

autoria é de Morgana Moura, Dolores Galindo, Ricardo Pimentel Mello e


a re

Tatiana Bichara apresenta uma análise refinada e atenta, crítica e materialista


da construção complexa de um processo de precarização das políticas públicas
de desestruturação do Sistema Único de Saúde, sobretudo, de uma política
nacional de redução de danos no atendimento às pessoas usuárias de drogas.
par

O capítulo dez, cujo título é: “Medicalização da educação e da sociedade


– repensando a atuação em Psicologia escolar”, escrito por Vânia Aparecida
Ed

Calado e Marilene Proença Rebello de Souza salienta importantes resultados


de pesquisa sobre as práticas de patologização e medicalização dos processos
de escolarização, considerando especificamente as práticas da Psicologia
ão

Escolar e Educacional.
O capítulo onze, intitulado de: “Processos de medicalização e as lacunas
s

de efetivação da equidade no SUS – alguns apontamentos”, cuja autoria é de


Flávia Cristina Silveira Lemos, Dolores Galindo, Paulo de Tarso Ribeiro de
ver

Oliveira, Geise do Socorro Lima Gomes e Renata Vilela Rodrigues destaca


por meio de um ensaio o campo tenso de execução do princípio de equidade
no Sistema Único de Saúde (SUS), explicitando as dificuldades e resistências
a um trabalho de singularização e cuidado baseado na integralidade do SUS.

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 19

O capítulo doze, cujo título é: “Currículo, Foucault e a medicalização


das subjetividades – resistências e campos de tensão”, escrito por Geise do
Socorro Lima Gomes, Flávia Cristina Silveira Lemos e Ataualpa Maciel
Sampaio ressalta, a partir de resultados de pesquisa, os atravessamentos de
forças medicalizantes das existências face à formação por meio do currículo
no ensino superior.

or
O capítulo dez, intitulado: “Políticas públicas de saúde mental – processo
de trabalho no cuidado psicossocial à saúde”, Herbert Tadeu Pereira de Matos

od V
Júnior, Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira e Breno Ferreira Pena aborda a

aut
relevância da atenção em saúde mental de cunho psicossocial, a partir dos
resultados de uma pesquisa de mestrado em Psicologia.

R
O capítulo onze, cujo título é: “O esvaziamento da função docente nos
projetos de correção de fluxo escolar”, cujos autores são Marli Lucia Tonatto

o
Zibetti, Élida Furtado do Nascimento e Patrícia Guedes Nogueira apresenta
aC
uma descrição e cuidadosa analítica de uma empiria relativa à precarização
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

do trabalho docente na atuação escolar diante das práticas de correção dos


fluxos de ensino.
O capítulo doze, intitulado: “Gênero, direitos humanos e formação em
visã
Psicologia – há possibilidades diálogo em tempos precários?” de autoria de
Eliz Marine Wiggers destaca a importância do trabalho com a perspectiva
de gênero na formação em direitos humanos para o curso de Psicologia,
itor

sobretudo, na atualidade, ao ganhar extrema relevância diante dos alarmantes


a re

indicadores de violações dos direitos e do aumento expressivo da violência


de gênero e feminicídios.
O capítulo treze, cujo título: “Psicologia clínica, políticas públicas e
violência contra a mulher – um diálogo a partir do plantão psicológico”,
par

escrito por Adriana Alcântara dos Reis e Emanuel Meireles Vieira aborda os
fazeres cotidianos da Psicologia na atenção à saúde por meio do dispositivo
Ed

plantão psicológico, sobretudo, no que tange ao cuidado de mulheres, vítimas


de violência.
O capítulo quatorze, intitulado: “Percepção de profissionais da atenção
ão

básica em saúde de uma metrópole da Amazônia brasileira sobre violência


contra crianças e adolescentes, escrita Milene Maria Xavier Veloso, Celina
s

Maria Colino Magalhães e Isabel Rosa Cabral delineia uma instigante proble-
matização das práticas de profissionais de saúde, na atenção básica focadas
ver

no cuidado de crianças e adolescentes vítimas de violência, em estudo por-


menorizado e denso em uma cidade grande, no contexto amazônico.
O capítulo quinze, cujo título: “As ações de enfrentamento da exploração
sexual contra crianças e adolescentes no município de Juriti (PA) a partir da

Flávia Lemos - 21982.indd 19 28/02/2020 13:12:44


20

implantação da ALCOA, cujos autores são: Marilene Maria Castro de Barros


e Genylton Odilon Rêgo da Rocha traz uma intrigante e consistente interroga-
ção das ações de enfrentamento à exploração sexual, em uma pesquisa sobre
crianças e adolescentes, no Pará, após a implantação de uma mineradora.
O capítulo dezesseis, intitulado: “A culpa deve ser do sol – biopolítica
da exclusão da juventude e esvaziamento escolar em Belém-PA (2000-2017),

or
escrito por Carlos Jorge Paixão e Letícia Carneiro da Conceição salienta como
há processos de exclusão, desfiliação e bloqueio escolar articulados à gestão

od V
da vida de jovens, na capital paraense.

aut
O capítulo dezoito, cujo título é: “Psicologia e políticas educacionais
em dissertações e teses no Brasil – uma revisão sistemática”, cuja autoria é

R
de Leilanir Souza Carvalho e Fausto Negreiros aborda a literatura produzida
na pesquisa stricto sensu em educação a respeito das tramas entre Psicologia

o
e políticas públicas no campo da escolarização.
aC
O capítulo dezenove, intitulado: “Controvérsias historiográficas em torno

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


do instituto das eleições diretas nas escolas”, escrito por: Glaybe Antônio
Sousa Pimentel, Luiz Miguel Galvão Queiroz, Paulo Sérgio de Almeida Corrêa
apresenta uma empiria documental, analisada detalhadamente com profícuo
visã
estudo histórico a respeito da eleição para gestão escolar, na educação básica.
O capítulo vinte, cujo título é: “As interfaces entre as políticas públicas
e o campo da saúde do trabalhador – ressonâncias no presente”, de autoria de
itor

Anaclan Pereira Lopes da Silva, Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira, Laura


a re

Soares Martins Nogueira e Ana Carolina Secco de Andrade Mélou ressalta


a construção da política de saúde do trabalhador no presente, sobretudo, nas
conversações e diálogos intersetoriais da política.
O capítulo vinte e um, intitulado: “Atenção à saúde do idoso institucio-
par

nalizado – perdas, ganhos e necessidades ocupacionais”, escrito por Mara


Daniele de Sousa Sarmento, Karla Maria Siqueira Coelho, Airle Miranda de
Ed

Souza e Victor Augusto Cavaleiro Corrêa ressalta a preocupação com a saúde


do idoso em condições de institucionalização. O trabalho é fruto de pesquisa
em saúde mental e na atenção preventiva, buscando interrogar quais são os
ão

limites e desafios ocupacionais neste campo tenso de intervenção.


O capítulo vinte e dois, cujo título é: “Características demográficas de
s

famílias pobres de uma metrópole na Amazônia”, de autoria de Thamyris


Mauês dos Santos, Edson Marcos Leal Soares Ramos, Fernando Augusto
ver

Ramos Pontes e Simone Souza da Costa Silva delineia um relevante e atual


estudo de pós-graduação a respeito das famílias amazônidas, em uma grande
cidade, delimitando as características da mesma no que tange à dimensão
demográfica e os seus impactos.

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 21

O capítulo vinte e três, intitulado de: “Relações de gênero e as lutas de


assistência social – lutas feministas em debate”, escrito por Rafaele Habib
Souza Aquime e Fernanda Teixeira Barros Neta aponta como as questões de
gênero são importantes no trabalho da política nacional de assistência social,
em especial, a partir dos ganhos obtidos pelas lutas dos diversos movimen-
tos feministas.

or
O capítulo vinte e quatro, cujo título é: “Sem muros e sem barreiras
na Amazônia – programa Asas da florestania infantil”, de autoria de Kelly

od V
Cristina Costa Albuquerque e Maria Ivonete Barbosa Tamboril aborda o coti-

aut
diano de uma política de proteção das crianças, na Amazônia, em que foram
utilizados elementos da floresta no currículo de um programa voltado para o

R
público infantil em situação de vulnerabilidade.
O capítulo vinte e cinco, intitulado: “A revolução cabana a partir dos

o
conceitos da análise institucional”, escrito por: Evelyn Tarcilda Almeida Fer-
aC
reira, Lilian Lameira Silva, Luciano Imar Palheta Trindade, Merediane Barreto
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Gonçalves, Rafael Ventimiglia dos Santos e Yana Wanzeller Grahen sinaliza


aspectos da revolução cabana, tecendo intrigante interrogação materialista por
meio dos operadores analíticos do movimento institucionalista.
visã
itor
a re
par
Ed
s ão
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 21 28/02/2020 13:12:45


Flávia Lemos - 21982.indd 22
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Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

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REPENSANDO OS RACISMOS E A
PSICOLOGIA NO BRASIL: considerações
sobre os efeitos da lógica colonial

or
V
Juan Telles

aut
Maria Helena Zamora
Camila Câmara

1. Introdução
CR
do
A noção de raça, apesar de ser uma construção social sem base con-
creta (MUNANGA, 2004; MAIA; ZAMORA, 2018), ainda tem produ-
zido numerosos efeitos sobre a população negra, inclusive na produção
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

são
de subjetividade hegemônica. O racismo é o principal motor e catalisa-
dor das outras opressões e violências vivenciadas cotidianamente na rea-
ra
lidade brasileira (SAMPAIO, 2018; OLIVEIRA; NASCIMENTO; 2018;
NASCIMENTO, 2017; CARDOSO, 2014, SCHUCMAN, 2010; NASCI-
i
rev

MENTO, 2005; MUNANGA, 2004), de muitas maneiras ainda regida pela


lógica colonial (VEIGA, 2017; CESÁIRE, 2010; FANON, 2005).
O estudo do racismo e da ideia de raça é o foco central desta pesquisa teó-
to

rica, buscando demonstrar a permanência e os efeitos do pensamento colonial,


inclusive nas práticas psis. Compreendemos a necessidade de aprofundamento
ara

no tema, visto que a produção na área ainda é escassa (CFP, 2017). E, por
fim, apresentaremos brevemente a Psicologia Preta como uma ferramenta
ver di

possível de mudança social, política e psicológica da população negro-africana


em diáspora, para além da vigente como o “saber único” (ADICHIE, 2010).
op

Embora o impacto dos efeitos do racismo seja pouco perceptível, é


“sentido e percebido cotidianamente pela maioria da população afrodescen-
E

dente que vivencia, sente e sofre consequências psicológicas decorrentes


do racismo, que influencia, de modo desfavorável, a formação do aparelho


psíquico” (SANTOS, 2018, p. 150). Segundo a autora, reconhecer o racismo
como causador de adoecimento físico e mental é fundamental para produção
de práticas que contribuam para as reparações dos danos ocasionados, promo-
vendo saúde nos sujeitos negros e negras. Além disso, o estudo da temática
promove uma reflexão crítica sobre o silenciamento do racismo na Psicologia
e visibiliza o racismo estruturante das injustiças sociais que vivemos.
Sampaio (2018) assinala que diversos campos do conhecimento ainda
ignoram o assunto. Neste sentido, a Psicologia ainda não se integrou à luta da
população negra e muitos profissionais tampouco estão aptos para compreender

Flávia Lemos - 21982.indd 23 28/02/2020 13:12:45


24

a sofisticada capilaridade do racismo na sociedade, sua sistemática negação e


também de que maneira as subjetividades são (profundamente) impactadas.
A maioria das teorias ensinadas fornecem bases para uma atuação do
ponto de vista europeu, da episteme europeia, que sempre se reproduz, ou
seja, tende a propor uma universalização eurocêntrica do humano e exclui e/
ou desumaniza o legado cultural dos outros povos, sobretudo os povos africa-
nos, o que é ainda um padrão de dominação da colonização. Ressaltamos que

or
as formas de subjetivação da população negra foram vistas por essas teorias

od V
eurocêntricas como patológicas, perigosas, exóticas (no sentido do estranho,

aut
do bizarro) e as expressões e os comportamentos como erros e inadequações.
Santos (2018) destaca que basicamente é preciso que os profissionais

R
da Psicologia entendam que o racismo existe e afeta de forma decisiva nossa
forma de compreender o mundo. Portanto, é fundamental para o profissional

o
entender como o racismo também atravessa a sua compreensão de mundo,
assim como o racismo atravessa a subjetividade da pessoa atendida para uma
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


prática antirracista e não discriminatória. Arraes (2015) ressalta que ainda há
um grande desconhecimento por parte da categoria dos efeitos do racismo
operante enquanto vetor de sofrimento e, por conseguinte, temos a omissão (ou
visã
mesmo a expulsão) do tema do racismo das discussões psicológicas. Portanto,
enquanto produtores de saber, cabe problematizarmos, questionarmos e até
mesmo abolirmos esses pressupostos e lugares estabelecidos por esta lógica
itor

racista, que tem suas bases atualizadas nas universidades. Como insistimos,
a re

isso historicamente só tem servido para dar continuidade ao projeto coloni-


zador e estabelecer a suposta superioridade branca em relação ao povo negro.
Carone e Bento (2014) e Cardoso (2014) afirmam que os corpos bran-
cos continuam insensíveis diante deste quadro, em virtude dos privilégios e
vantagens que possuem devido a sua branquitude. Mas, como aponta Veiga
par

(2017), o processo de reparação e superação deste cenário passa pela res-


ponsabilização dos sujeitos brancos, que são direta e indiretamente benefi-
Ed

ciados pela lógica racial racista inventada e mantida por eles. No esforço de
promover uma compreensão não colonial, intelectuais e psicólogos negros
ão

inauguram nos anos 80, o que chamamos hoje de Psicologia Preta. Não se
trata de uma nova psicologia, mas partindo do referencial e da experiência
negro-africana, da proposta de possibilitar a libertação do povo negro frente à
s

hegemonia branca, promovendo um encontro com os valores africanos e saúde


ver

psíquica (MORAES; NASCIMENTO; ROSA, 2018). O estudo destas questões


é fundamental para abrimos espaços para outros saberes e criarmos outros
fundamentos teóricos. Mas é principalmente para destronarmos as teorias de
bases e origens racistas e seus ideais coloniais ainda vigentes na academia,
que ao longo da história, só produziu anomalias, patologias e deformidades.

Flávia Lemos - 21982.indd 24 28/02/2020 13:12:45


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 25

2. Dimensões históricas e conceituais da temática racial


Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) de 2014, o Brasil é um país com mais da metade da população autode-
clarada parda e preta, formando a categoria negra. Contudo os índices sociais
nos revelam que a população negra ainda está em condições muito inferiores
em relação à população branca. Vejamos o mais simples dos direitos: o direito

or
à vida. O Brasil é o país que mais mata gente no mundo, superando os países

od V
em guerra (ANISTIA INTERNACIONAL, 2015; ATLAS DA VIOLÊN-

aut
CIA, 2019). Contudo, a grande maioria das vítimas tem idade e cor. O Mapa
da Violência (2016) revelou que a principal vítima da violência homicida no
Brasil é a juventude entre 15 e 29 anos. Esse dado não é novidade, pois desde

R
o primeiro mapa divulgado em 1998; a cada 23 minutos um jovem negro é
assassinado (ANISTIA INTERNACIONAL, 2015).

o
Esses dados de morte matada não são estáveis. Aumentou a taxa de assas-
aC
sinato de homens e mulheres negras, com um declínio na taxa de homicídio
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

de homens e mulheres brancos e a diminuição também de sua vitimização


em outras violências (ATLAS DA VIOLÊNCIA, 2019). Os dados e as esta-
tísticas revelam que há uma linha de continuidade daquilo que Abdias do
visã
Nascimento, em seu livro, “O genocídio do negro brasileiro” (2017), escrito
em 1978, chamou de eliminação da “mancha negra”.
Ser negro em um país anti-negro como o Brasil, segundo Nascimento
itor

(2017), significa ter sua produção subjetiva forjada em processos e lógicas,


que subjugam, animalizam e exterminam essas vidas. Sobretudo, em um
a re

país marcado por um dos processos de escravização mais longos da história,


pela abolição formal tardia, pela importação de teorias europeias eugenistas
que fundaram políticas de governos, pelas políticas e lógicas de embran-
quecimento colocadas em lei, práticas e norma, criadas para embranquecer
par

a população e tão marcada pelo já mencionado mito da democracia racial


(SCHUCMAN, 2010).
Ed

A sociedade brasileira se constituiu a partir de uma hierarquia social


colorista, no qual as pessoas com fenótipos do grupo racial branco usufruem
de privilégios e vantagens em detrimento dos não brancos (CARDOSO, 2014;
ão

SCHUCMAN; MARTINS, 2017), principalmente pessoas negras. Assim, o


branco ocupa o lugar do modelo universal, do ideal, do humano, do normal, do
belo (CARONE; BENTO, 2014; CARDOSO, 2014). Portanto, aquele grupo
s

que vai definir os que são os diferentes, os que estão em falta. Configuram-
ver

se então como o grupo padrão de referência para todos e todas. Essa identi-
dade racial, marcada por privilégios e vantagens, chamamos de branquitude
(CARDOSO, 2014).
Desta forma, temos lugares sociais, espaciais, psicológicos e simbólicos
muito definidos e distanciados. Para que essa hierarquização seja reforçada e

Flávia Lemos - 21982.indd 25 28/02/2020 13:12:45


26

esses lugares permaneçam intactos, o racismo é quem opera engendrando e


estruturando essa lógica genocida, definindo quem continuará tendo o direito
de viver e quem merece morrer.
Segundo Nascimento (2005), a ideia de raça se deu por volta do século
XVI, mas sem a marca biológica. Era uma noção de raça utilizada pela fé
cristã, que separava os homens em fiéis e infiéis, sendo considerado inferior
àquele que não compartilhasse de tais ideias. E assim foi com o passar do

or
tempo, talvez como sendo a única maneira de agrupar pessoas segundo suas

od V
semelhanças e diferenças, embora os critérios tenham se modificado, chegando

aut
ao racismo de base “científica”.
Segundo Munanga (2004), podemos dizer que nos dias de hoje, as supos-
tas diferenças podem vir acompanhadas de um sentimento de desprezo pelo

R
grupo apontado como diferente do nosso. Neste sentido, percebemos que tais
concepções são manifestações bem antigas e tem a ver com a maneira que os

o
homens perceberam as suas diferenças; afinal eles sempre souberam que eram
aC
diferentes, mas no século XVIII, a cor da pele foi considerada um fator pri-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


mordial e um divisor de águas entre as chamadas raças. Mas, segundo Zamora
e Maia (2018) e Schucman (2010), só no século XIX, com as teorias raciais
baseadas na biologia, começaram a explicar e a qualificar essas diferenças,
visã
introduzindo o conceito de raça. Este conceito está vinculado à crença na
transmissão de caracteres físicos próprios a cada grupo humano combinados
com atributos morais. Com status científico, a Eugenia disseminava ideias
itor

distorcidas de que cada raça tinha características próprias, seriam portadoras


a re

de uma essência; uma natureza biológica permanente. A partir do século XIX,


passou-se a acreditar que as características dos diferentes grupos humanos
eram biologicamente determinadas (NASCIMENTO, 2005).
Munanga (2004) faz referência ao racismo vigente como uma doutrina
que se apoia na ciência, a qual, além de diferenciar os humanos, os hie-
par

rarquizou, justificando assim a dominação de um sobre os outros. Segundo


Ed

Schucman (2010), a supremacia do discurso biológico das raças na ciência


consubstanciou o racismo que vai ganhando corpo, ancorado em teorias racia-
listas. Para Nascimento (2005), os estudos de Darwin têm grande influência
ão

nas novas conceituações de raça. Darwin não estudou grupos e sociedades


humanos, mas suas ideias básicas foram atreladas ao pensamento evolucionista
anterior a ele, combinadas com as questões sociais da época, sob a égide do
s

imperialismo colonial, e com o paradigma biológico dominante, produzi-


ver

ram “verdades” sobre o domínio do mais forte sobre o mais fraco, do mais
adaptado ao menos adaptado. Para a mesma autora, tais teorizações foram
incorporadas pelas outras áreas emergentes do conhecimento, como a Socio-
logia e a Antropologia. A ciência engendrava e confirmava o colonialismo e
o imperialismo dos governos.

Flávia Lemos - 21982.indd 26 28/02/2020 13:12:45


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 27

Quando indivíduos são agrupados a partir de suas semelhanças (racia-


lismo), a noção de raça opera, pois explica-se as ações e supostas tendências
dos sujeitos a partir das características que lhes são atribuídas. O racismo
também agrupa indivíduos segundo as características em comum que lhes são
atribuídas, porém, conferindo supostos valores e categorizando esses grupos
em superiores e inferiores, configurando-se como uma forma de exclusão e
marginalização de um grupo em detrimento do outro. Nascimento (2005)

or
convoca a refletir sobre a utilização do constructo raça e a contínua operação

od V
do racismo nas relações, que ganha novas feições no mundo globalizado.

aut
Embora como categoria científica, a ideia de “raça” tenha sido abolida, vale
destacar que, enquanto categoria política, ela ainda é usada pelos movimentos
negros e é a partir dela que a luta antirracista se articula (SCHUCMAN, 2010).

R
Para ela, as teorias racialistas e o racismo que se seguiu foram se combinando
perfeitamente em um mundo que buscava o “progresso”. Com a anulação

o
na noção científica de raça, a lógica subjacente continua operando. Com o
aC
capitalismo, além de ganhar novas formas, o racismo contribuiu para sua
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

manutenção, já que “justificava”, em grande medida, a exploração.


Todo esse movimento continua produzindo realidade, ou seja, as pes-
soas continuam sendo racializadas, o que passa a ser naturalizado, pois desde
visã
o nascimento nos são atribuídos significados ligados à categoria racial que
pertencemos, como se isso não fosse uma conveniente invenção humana,
em um determinado momento da história. Segundo Maia e Zamora (2018),
itor

o debate inicial sobre a temática racial surge a partir de uma problemática


a re

instaurada no campo científico: o negro como objeto da ciência. Na literatura


sobre a questão racial brasileira, comumente aparece como início dos estudos
médicos-psicológicos sobre o tema a obra de Raimundo Nina Rodrigues. Seus
trabalhos tinham como principal questão compreender o papel da população
negra, africana ou afro-brasileira na constituição da sociedade.
par

Ainda segundo as autoras, estes trabalhos nomeavam e descreviam as


Ed

“deficiências” do negro brasileiro. O que logo provocou o reconhecimento das


consequências sociais perversas que o convívio com esta raça poderia trazer.
Esses pressupostos tiveram continuidade nos estudos de Ramos e Peixoto.
ão

Suas teorias definiram o sujeito negro como portador de patologias, o que


justificou fazê-lo, então, o objeto da ciência (Schucman e Martins, 2017).
Schucman e Martins (2017) e Maia e Zamora (2018) destacam a influência
s

direta dos estudos de Nina Rodrigues e de sua escola no desenvolvimento de


ver

diversas áreas do saber, como a Psiquiatria, a Medicina Legal, a Psicanálise e


a Antropologia – disciplinas fundamentais na constituição da academia. Além
de contribuírem para a disseminação de certas temáticas ligadas ao racismo
científico e de produção de verdades que definiram hierarquias sociais, insti-
tuições, códigos legais, políticas públicas.

Flávia Lemos - 21982.indd 27 28/02/2020 13:12:46


28

Rodrigues definia a priori um padrão normativo da sociedade, no caso,


o de manutenção das hierarquias. Em seguida, ele foi substituído pelo modelo
de mestiçagem, menos pessimista e mais possível para um país obviamente
mestiço e ainda em construção. Portanto, ocorreu uma passagem do modelo
racial para um modelo cultural, no qual Arthur Ramos, partindo do seu pro-
jeto culturalista, atualiza o discurso de Nina Rodrigues. Ainda conforme os
autores, a década de 1930 e as seguintes foram caracterizadas pela difusão

or
do modelo sociocultural freyriano (SCHUCMAN; MARTINS, 2017). Neste

od V
período também houve algumas tentativas de formalização da Psicologia

aut
como disciplina independente no ensino superior. Os intelectuais também
começaram a criticar o modelo do determinismo racial postulado e a propor
novas alternativas para pensar o Brasil e suas problemáticas.

R
A nova ordem republicana de Vargas, o período denominado de Estado
Novo, é profundamente racista sem, contudo, promover perseguições abertas

o
contra os negros. Contudo, nesta época em especial, a miscigenação, por pro-
aC
mover o branqueamento, é vista como sendo uma solução bastante positiva. A

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


discussão da identidade racial do povo de “nacionalidade morena”, atrelada
ao futuro da nação, são temas recorrentes. Na década de 50, surgem estudos
se contrapondo a ideia de democracia racial, imprimindo outra forma de
visã
compreensão das relações raciais, nomeando essa problemática de racismo à
brasileira ao invés de “democracia racial”, como apontava Freyre. Esta inicia-
tiva teve a participação de Virginia Leone Bicudo, a primeira mulher a fazer
itor

psicanálise na América Latina, a primeira a redigir uma tese sobre relações


a re

raciais no Brasil e também a primeira psicanalista não médica no Brasil. Por


ser uma mulher negra, teve sua história e estudos invisibilizados.
A década de 70 é marcada por grandes efervescências políticas em busca
da resistência à ditadura iniciada em 1964. Neste contexto, a partir de Hasen-
balg, os estudos de raça e racismo mudam radicalmente, desconstruindo enfim
par

a falácia de democracia racial e apontando as desigualdades como mecanismos


Ed

articulados de produção de uma sociedade racista e discriminatória para além


das noções de estruturas e privilégios de classe. Schucman e Martins (2017)
ressaltam que, sem sustentações teóricas consistentes, o conceito biológico
ão

de raça perde forças a partir dos estudos de Hasenbalg. Assim, a categoria


raça passar a ser compreendida como constructo social, excluindo postulações
biológicas e essencialistas das populações racializadas.
s

Sendo assim, os estudos no campo da Psicologia também passam a


ver

entender a raça como categoria política, social, que diferencia, hierarquiza


e localiza os sujeitos em nossa sociedade. Esta, segundo os autores acima,
foi uma mudança importante na Psicologia, pois passa a pensar o racismo do
ponto de vista psicossocial. Assim, não culpabiliza o sujeito que vivencia as
discriminações racistas cotidianas, mas as localizam nas relações de poder

Flávia Lemos - 21982.indd 28 28/02/2020 13:12:46


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 29

entre os diferentes grupos, evidenciando ainda a força dessa categoria na


diferenciação e hierarquização social.
Na década de 80, após tais mudanças, a Psicologia é convocada a dar
respostas ao problema do racismo e, principalmente, a romper o silenciamento
e a fechar as lacunas deixadas por ela mesma no que se refere à produção,
discussão e reflexão das questões raciais, do racismo e seus efeitos. Em 1983,
a psicóloga e psicanalista Neusa Santos Souza, mulher negra, professora e

or
escritora, com seu livro “Tornar-se negro: As Vicissitudes da Identidade do

od V
Negro Brasileiro em Ascensão social”, analisa a ideologia do embranqueci-

aut
mento e o racismo na construção das subjetividades dos negros. O racismo
passa a ser compreendido como uma violência não só na subjetividade, mas
também no corpo. No final desta década, surgem também instituições pionei-

R
ras, como o CEERT e o Instituto AMMA Psique e Negritude, que nos últimos
anos têm sido grandes interlocutores entre o movimento social e a categoria,

o
que trabalham para além da via política na desmantelação do racismo e na
aC
desconstrução de seus efeitos.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Ainda que passadas algumas décadas, em 2002 é lançado o livro “Psi-


cologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no
Brasil”, organizado pelas psicólogas Iray Carone e Maria Aparecida Silva
visã
Bento. Neste livro, o conceito de branquitude é trazido para compreensão das
desigualdades raciais e demonstra os privilégios simbólicos e materiais obtidos
pelas pessoas brancas na sociedade brasileira estruturada pelo racismo. A partir
itor

de então, os sistemas conselhos são pressionados a se posicionar politicamente


a re

com a luta antirracista dando origem, em 2002, às normas de atuação para


orientar os psicólogos em relação ao preconceito e a discriminação racial,
que em seguida se tornou na Resolução nº 018/2002. Cabe ressaltarmos que
juntamente com a participação e pressão dos movimentos negros, foi possível
todo esse reordenamento, fundamentais para a mudança, ainda que inicial, do
par

olhar da Psicologia sobre as relações raciais.


Ed

2.1 Raça e racismo à brasileira: do escravismo ao mito da


democracia racial
ão

Franz Fanon, nascido em 1925, na Ilha de Martinica, colônia francesa


desde o século XVII, povoada majoritariamente por descendentes de africa-
s

nos escravizados, foi um dos principais intelectuais e ativistas do século XX.


ver

Seus estudos versavam sobre as consequências psicológicas da colonização e


sobre o processo de descolonização, considerando os mais diferentes aspec-
tos. Inspirado nas lutas dos movimentos de libertação negra e anti-coloniais
de que fazia parte, lançou duas grandes obras, “Pele Negra, Máscaras Bran-
cas”, em 1952 – que escreveu inicialmente como tese para habilitar-se em

Flávia Lemos - 21982.indd 29 28/02/2020 13:12:46


30

Psiquiatria, mas foi recusado –, e “Os condenados da Terra” em 1961. Para


ele a superação do racismo se articula diretamente com o processo de desco-
lonização. Fanon (2008) inicia seus escritos, relatando como é ser objetificado
e desumanizado por ser negro. Descrevendo o sentimento de ser impossibi-
litado de ser no mundo, sem passar pela tutela normativa branca, que define,
regula, controla, domina o outro. Para ele, o olhar do branco aos não brancos,
sobretudo, aos negros, os “autorizou” a cometer as mais perversas atrocidades

or
ao longo de todo o processo de escravização até os dias de hoje, entretanto,

od V
de outras formas.

aut
Marimba Ani (1994), antropóloga norte americana, estudiosa dos estudos
negro-africanos e crítica da cultura e do pensamento europeu, mais conhe-

R
cida por sua obra “Yuguru”, que examina por uma perspectiva africana, a
supremacia da cultura europeia através do colonialismo e do imperialismo,

o
afirma que o pensamento europeu acredita em sua própria superioridade. Ela
traz a noção de asili para pensarmos os processos de desumanização, exter-
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


mínio e genocídio da população negra impetrados pelo branco colonizador.
Segundo ela, o asili é “o germe/semente de desenvolvimento de uma cultura.
É a essência cultural, o núcleo ideológico, a matriz de uma entidade cultural
visã
que deve ser identificada a fim de fazer sentido das criações coletivas de seus
membros” (p. 54).
Ani (1994) ainda afirma que o logos cultural do europeu é estruturado
itor

sobretudo na dominação dos outros povos e sua própria história denuncia isso.
a re

Por isso, todo o contato com os povos não europeus foi marcado por uma rela-
ção intensa de domínio e captura. Esses fenômenos impactavam diretamente
as subjetividades daquelas pessoas que eram submetidas a lógicas perversas
impostas pelos europeus. No Brasil, o encontro resultou no extermínio e
escravização de povos originários e africanos. Abdias do Nascimento (2017)
par

relata que com a chegada dos europeus em 1500, concomitantemente com a


exploração da nova terra, apareceu o que eles denominaram de “raça negra”,
Ed

que “fertilizaram o solo brasileiro com suas lágrimas, com seu sangue, seu
suor, seu martírio na escravidão” (p. 57). Trinta anos depois da chegada, os
ão

negros-africanos sequestrados e trazidos acorrentados, já estavam sendo usa-


dos como força de trabalho. Em apenas cinco anos, já tinha sido instaurado
e estruturado o comércio escravocrata.
s

Incontestavelmente, o sequestro, a travessia do Atlântico e as imensurá-


ver

veis violências sofridas, provocaram uma cisão psicológica, que devastaram


suas subjetividades, pois na condição de escravizados sofreram efeito de
desterro e de perda de referências tão fortes que suas identidades e consciên-
cia corporal se desintegraram, ficando, como diz Fanon (2008), na zona do
“não ser”.

Flávia Lemos - 21982.indd 30 28/02/2020 13:12:46


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 31

Porém, do início ao fim, os negro-africanos resistiram bravamente ao


regime escravocrata. Variadas foram as formas de enfrentamento e insurrei-
ções africanas espalhadas por todo o território, que permaneceram combati-
vas até as vésperas da “abolição” de 1888. Portanto destacamos que foram
as pessoas negras que sempre atuaram na luta pela liberdade de seu próprio
povo e sempre contestaram a versão hegemônica contada sobre esse período
(NASCIMENTO, 2017). Em 1888, após mais de 300 anos de martírio, muito

or
embate dos africanos livres e da massa escravizada, além da pressão política

od V
e social vinda do exterior e das organizações contrárias ao regime existentes,

aut
o Brasil – o único país das Américas que ainda escravizava – formaliza a
abolição da escravatura, com a assinatura da Lei Áurea.
Nascimento (2017) narra que nas últimas décadas de escravismo, a elite

R
nacional, atemorizada com o povo negro, começou a se organizar em outras
estratégias articuladas de controle e, novamente, de domínio desse contingente.

o
Com a importação e a adaptação de teorias eugenistas e a imigração maciça
aC
de brancos europeus como uma estratégia de branqueamento e com políticas
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

de embranquecimento sociocultural, constituiu-se “a sintomática que carac-


teriza a neurose cultural brasileira” (GONZALES, 1983, p. 224). E com a
“Abolição”, os negro-africanos foram jogados na rua, lutando como puderam
visã
para sobreviver, restando a eles a “lata de lixo da sociedade brasileira, pois
assim o determina a lógica da dominação” (GONZALES, 1983, p. 225), sem
nenhum tipo de apoio social.
itor

Segundo Maia e Zamora (2018) o Evolucionismo Social postulado por


a re

Herbert Spencer, a Eugenia apoiada por Francis Galton, a Teoria da Degeneres-


cência fervorosamente defendida por August Morel, a Craniologia de Cesare
Lombroso, entre outras teorias que surgiram ou dialogaram com estas, forma-
ram o pensamento social brasileiro e também foram utilizadas nas argumen-
tações de Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e Oliveira Viana. Tais pensadores
par

são os “responsáveis pela produção de conhecimento do racismo científico


Ed

e produtores de práticas, políticas e discursos raciais e discriminatórios.” (p.


272). De acordo com Nascimento (2017), ao perceberem que os negros não
tinham sido eliminados, apenas clareados, começaram a disseminar, a partir
ão

das estratégias de embranquecimento, a ideia de uma convivência harmoniosa


entre as “raças”, assegurando seus privilégios e vantagens (CARDOSO, 2014;
CARONE; BENTO, 2014). Logo os grupos brancos buscaram estratégias para
s

lidar com o terror de se afirmar como nação com uma população majoritaria-
ver

mente negra e mestiça, uma vez que, os intelectuais brasileiros e europeus já


tinham sinalizado como um grande problema a mistura das raças que aqui se
efetivava (MAIA; ZAMORA, 2018).
Como no Brasil não houve segregação espacial direta ou institucionali-
zada, como nos EUA e na África do Sul, a produção do discurso de que aqui

Flávia Lemos - 21982.indd 31 28/02/2020 13:12:47


32

indígenas, negros e brancos viviam harmoniosamente começou a ganhar força


e a mestiçagem a ser positivada, ocultando assim as desigualdades raciais e
os efeitos do racismo. Segundo Gonzales (1983), a questão da mestiçagem é
fundamentada na exploração sexual da mulher negra e utilizada para negação
do racismo e para camuflar a supremacia branca. Contudo, a imagem racial
projetada é outra. A elite branca disseminou a ideia de que fomos fundados a
partir da mistura de várias raças, mascarando assim a realidade racial. Entre-

or
tanto, a história contada foi somente a dos imperiosos dominadores, porém

od V
“a história não oficial do Brasil registra o longo e antigo genocídio que se

aut
vem perpetrando contra o afro-brasileiro” (NASCIMENTO, 2017, p. 111).
A partir desses artifícios políticos-ideológicos é que foi formulada a
ideia de “democracia racial brasileira” (GONZALES, 1983), exaltada pelos

R
intelectuais da época, principalmente por Gilberto Freyre. Esses termos sur-
giram durante o Estado Novo, período ditatorial de Getúlio Vargas. Assim,

o
a elite branca mais uma vez assegura a manutenção do privilégio branco
aC
(CARDOSO, 2014) e a submissão dos não brancos, principalmente evitando a

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utilização da raça enquanto identidade coletiva e política (SCHUCMAN, 2019;
NASCIMENTO, 2017; GONZALES, 1983) e estimulando o branqueamento.
Segundo Carone e Bento (2014), o branqueamento passa a atuar na ideologia
visã
racial dominante e a conduzir as relações sociais, impondo-se a toda popula-
ção através dos mecanismos mais sutis aos mais concretos de sua efetivação.
Por fim, a concepção do negro como inferior foi primordial para a manu-
itor

tenção do racismo estrutural e estruturante e como justificativa para a sua


a re

escravização. Ainda que o racismo não tenha ganhado forma de lei, nem
Estado, se enraizou no cotidiano, bem como as teorias raciais e continuam
produzindo efeitos na realidade, principalmente reforçando o lugar subalterno
das pessoas negras idealizado pela lógica colonial.
par

3. O pensamento colonial, a Psicologia e


Ed

o problema do racismo no Brasil

Segundo Veiga (2017), a colonização do pensamento e do inconsciente


ão

que os mais de 380 anos de escravização e colonialismo produziram foi um


dos principais motivos para a sustentação e permanência da lógica colonial nos
dias de hoje. O pensamento colonial é aquele forjado a imagem e semelhança
s

do próprio colonizador, que passa a produzir conhecimentos e “verdades”


ver

sobre as coisas. Portanto, fica identificado como bom, tudo o que é branco e
europeu. Assim, o que se assemelha a ele é valorizado, e o que não, tampouco
é reconhecido.
Segundo Césarie (2010), foi em nome de um suposto “processo de civi-
lização”, que levaria melhores condições de vida para os colonizados, que os

Flávia Lemos - 21982.indd 32 28/02/2020 13:12:47


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 33

colonizadores conseguiram todo esse domínio e justificaram toda a barbárie


perpetrada. Dado que, ninguém coloniza o outro ingenuamente, há sempre
um argumento para subjugar. Para o autor, isso é consequência das investidas
narcísicas do povo europeu, que são dogmaticamente conduzidos por seus
próprios ideais, convictos da ideia de civilização e progresso, difundindo o
“ethos” da colonização, que perpassa as práticas cotidianas até a produção
de epistemologias.

or
Compreendemos os currículos dos cursos de Psicologia das universida-

od V
des brasileiras como sendo impregnados de colonialismo. Os autores mais

aut
estudados nesse campo remontam à figura de poder do colonizador: são quase
sempre homens brancos europeus. Estes autores produziram conceituações
universalizantes para manejar subjetividades em sofrimento psíquico produzi-

R
das no cenário europeu. Assim, desconsiderando a singularidade dos processos
de subjetivação de pessoas não-brancas, principalmente negras, impondo uma

o
nosologia incompatível com o seu pertencimento social e racial. Mas tais
aC
saberes são quase que incontestáveis na história da psicologia como ciência.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Césaire (2010) relata que psicólogos e sociólogos, com base na concepção


“científica de primitivismo” forjada pela ciência ocidental, assistiu a muitos
povos serem dizimados, subjugados e seus saberes extirpados. Sendo assim, se
visã
os europeus aniquilaram subjetividades com a cooperação de psicólogos, havia
uma Psicologia colonial, comprometida com tal projeto. Atualmente, como
efeito dessa problemática, temos pacientes negros sendo vítimas de racismo
itor

ou não sendo compreendidos em seu sofrimento pelos próprios profissionais,


a re

que não escutam e não acolhem o paciente como pertencente a um povo que
conta apenas pouco mais de cem anos de “liberdade”, além de endossar, com
sua distância e incompreensão, a reprodução e produção de saberes distorcidos
acerca das destes povos, como temos visto (ARRAES, 2015) .
O termo subjetividade aqui se refere à “produção de modos de ser, estar,
par

sentir e perceber o mundo” (VEIGA, 2018, p. 79). Nas subjetividades negras,


Ed

o racismo é um vetor que incide diretamente, produzindo uma configura-


ção existencial específica. Assim, como o pensamento colonial produziu um
senso de humanidade à sua semelhança, ser negro, é não ser humano. Isso
ão

também chamamos de afeto-diáspora, que seria a sensação de não pertencer


ao ambiente onde se vive, além do não acolhimento e incorporação destes
corpos igualmente aos demais nas dinâmicas sociais (VEIGA, 2018).
s

Ainda segundo Veiga (2018) a experiência da negritude é marcada por


ver

forte aversão e repulsa que a branquitude projeta sobre as vidas negras desde a
escravização até hoje e esses sentimentos são projetados constantemente pelos
brancos na relação com tudo aquilo que não é espelho. Esse ódio é introje-
tado nas subjetividades negras revertendo-se em um processo extremamente
doloroso de auto-ódio (NOBLES, 2019). Esse mecanismo de introjeção do

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34

afeto do outro como sendo seu, ocorre nas mais diversas situações de violên-
cia, fazendo da pessoa vitimada, “réu”, ficando ela com o afeto de culpa, por
conta dos mecanismos de opressão, engendrados historicamente, quando este
deveria ficar com o autor da violência.
Segundo Fanon (2009) os inúmeros abusos do racismo sobre os corpos
e as subjetividades negras têm então como um de seus efeitos a culpa e o
auto-ódio. A culpa por sua condição precária, em que se encontra a maior

or
parcela da população negra, e o auto-ódio, por sentir-se inferior diante das

od V
vantagens e privilégios que as pessoas brancas têm e por toda raça negra, por

aut
assim como ele, carregarem o estigma da cor.
Munanga (2014) faz uso da metáfora do iceberg para explicitar ainda
mais o racismo. Para ele, o racismo tem uma parte visível, que diz respeito às

R
diversas violências direcionadas a população negra, e a parte invisível, aquela
que não reconhecemos com facilidade, mas que é a base de sustentação das

o
práticas coloniais vigentes. Segundo Fanon (2005), o racismo se configurou
aC
como uma das maiores estratégias de permanência da lógica e do pensamento

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


colonial. Os mundos colonizado e colonizador são antagônicos e ocupados
por espécies diferentes. O colonizador, além de delimitar o espaço do povo
colonizado, define-o como sendo sem importância, sem moral, sem inteligên-
visã
cia, para não permitir sua existência ou expansão.

4. Apresentando a Psicologia Preta


itor
a re

Segundo Nobles (2009) necessitamos resgatar o senso de ser africano,


pois o colonizador nos esvaziou desse sentido, porém, ainda não destruiu o
africano dentro de nós. Sua aposta está na busca coletiva da percepção e da
crença deste ser, que sofre diversos ataques ao longo da história. Para ele, a
par

“psicologia deveria funcionar como ferramenta fundamental em termos de


compreensão e utilidade” (p. 278). Mas como um instrumento ocidental, ela
Ed

possui limites de entendimento das experiências negro-africanas.


Segundo Veiga (2017) nos anos 80, inicialmente nos Estados Unidos,
com base nas produções dos psicólogos negros Wade Nobles e Naim Akbar,
ão

ganha destaque o que hoje chamamos de Psicologia Preta, um constructo


teórico-prático em psicologia clínica tendo como referência as subjetividades
negras, comprometida com as “consequências psicológicas negativas de ser
s

africano em uma realidade antiafricana” (NOBLES, 2009, p. 277).


ver

Para Moraes, Nascimento e Rosa (2018) foi em meio às lutas por direitos
civis da população negra nos Estados Unidos na década de 60, no auge do
grupo supremacista branco Ku Klux Klan, que nasce a Psicologia Preta ou
Psicologia Africana, pois se fez necessário à construção de uma psicologia
que compreendesse as dinâmicas sociais que causavam sérias consequências

Flávia Lemos - 21982.indd 34 28/02/2020 13:12:47


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 35

psicológicas nos sujeitos negros e negras, se configurando como pensamento,


prática e perspetiva que possui um olhar ampliado sobre os processos sub-
jetivos das pessoas negras, e principalmente, os consideram como sujeitos e
agentes de suas próprias histórias.
Salientamos que o desconhecimento destes pensadores é mais um ele-
mento operante da política de embranquecimento vigente, que endossa práticas
genocidas do Estado brasileiro e de seus tentáculos, que nas favelas e periferias

or
abatem corpos e nas academias, por vezes, se dedicam a exterminar outras

od V
epistemologias e cosmovisões que não as eurocêntricas.

aut
Conforme Ani (1994), podemos reiterar que o saber europeu se instituiu
como saber dominante e ditou o modelo de ciência. Portanto, a psicologia
ocidental forjada nesse contexto, não dialoga com outras culturas. As teorias

R
e abordagens levam em conta apenas o modelo eurocêntrico e negam tudo o
que não o é, principalmente, o contexto brasileiro, que tem depois de África

o
o maior contingente de pessoas negras no mundo.
aC
Segundo Nobles “a razão de ser da psicologia ocidental como disciplina
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

se resume em grande medida a alimentar e a sancionar o regime imperialista e


racista que ela inventou” (2009, p. 278). Assim, além de estar a serviço dessa
lógica vigente, é despreocupada com a saúde mental da população negra e,
visã
por vezes, reforça os processos de desumanização e genocídio dela, engen-
drando um sistema industrial de saúde mental que não consegue promover
“explicações, fundamentos lógicos ou práticas preventivas e curativas para o
itor

próprio povo que ela se destina a oprimir” (2009, p. 279).


a re

O que Nobles (2009) propõe em seus estudos não é uma reformulação


do pensamento europeu ou um enegrecimento dele, mas a construção de
outro saber, de outra epistemologia que possibilite não só a compreensão do
ser africano, que seria compreendê-lo, sobretudo, como humano, em todas as
expressões históricas e desdobramentos no hoje, mas que também se instaurem
par

processos de cura dos afro-brasileiros com base em suas próprias origens.


Ed

Moraes, Nascimento e Rosa (2018) alegam que a Psicologia Africana está


alicerçada no paradigma da afrocentricidade, uma “escola de pensamento”
criada por Molefe Asante, que postula que os negros-africanos precisam ser
ão

protagonistas da sua própria história e em busca de seus interesses humanos.


Essa Psicologia se pauta nos valores dos povos africanos para seu fazer. e estar
comprometida com uma nova narrativa da história da África e com a defesa
s

dos elementos culturais africanos, que historicamente foram demonizados,


ver

expropriados, roubados, etc.


Ainda segundo as autoras, esta Psicologia se constrói a partir do referen-
cial e da experiência negro-africana, principalmente a diaspórica, em busca de
um novo marco civilizatório, de uma reordenação identitária para a libertação
do povo negro frente à hegemonia branca. Não se tratando de trazer grandes

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36

novidades, mas de um retorno às origens, a herança imaterial deixada pelos


negro-africanos, a fim de vislumbrarmos a liberdade no futuro.
Para Veiga (2017), a Psicologia Preta resgata valores e tradições africa-
nas, oferecendo uma dupla escuta – da singularidade do paciente e também
do povo ao qual ele pertence – objetivando fazer da terapia um espaço de
pertencimento e proteção, assim como eram os quilombos. Ele destaca que a
Psicologia Preta só é feita por psicólogos pretos. Isso não quer dizer que os

or
brancos não devam conhecer e se referenciarem para promoção de ações e

od V
práticas que ofereçam saúde para subjetividades negras, pelo contrário, mas

aut
há uma dimensão da subjetividade preta que só outro preto pode acolher. É
inegável que a escuta clínica de psicólogos brancos que tiveram contato com

R
esta teoria pode ser mais sensível e ampliada, porém, a clínica com pessoas
negras não é só de escuta, mas também de corpo, de marcas e de pele. Por-

o
tanto, a brancura e a branquitude trazem consigo uma série de simbolismos,
privilégios e vantagens (CARONE; BENTO, 2014; CARDOSO, 2014,) que
aC

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se tornam muitas vezes em um fator impeditivo dos psicólogos brancos aces-
sarem a fundo a singularidade da negritude.
Outra questão a ser problematizada, é a crença no princípio da neutrali-
visã
dade ou do distanciamento entre o paciente e o terapeuta como condição para
uma boa análise, o que para os autores da Psicologia preta é equivocado, pois
o psicólogo branco não tira a sua pele, nem suas marcas para realização do
itor

trabalho clínico, mas carrega consigo a brancura e tudo o que ela representa
a re

na sociedade em que o branco é o ideal (CARONE; BENTO, 2014).


Na Psicologia Preta não é o distanciamento que balizará o processo, mas
a aproximação, o vivenciar juntos, se dá na “possibilidade real de acessar,
sentir e compreender o afeto do outro que está em questão” (VEIGA, 2017,
pág.4). Quando isso ocorre, a experiência de ser acolhido naquilo que mais
par

fere, ao olhar para o espelho e se sentir pertencente, movimentos tão precio-


sos, mas pouco sentidos, produz atravessamentos reais que logo são sentidos
Ed

pelos pacientes e isto por si só promove saúde (VEIGA, 2018).


Ressaltamos que nem todo psicólogo preto faz Psicologia preta. Para
ão

tanto, é necessário que ele se conecte com a própria negritude e se aprofunde


na compreensão do processo de subjetivação negro. Clínica e política são
inseparáveis na Psicologia Preta, pois se entende que o sofrimento é produzido
s

e mantido social e historicamente através de inúmeros dispositivos políticos,


ver

criados desde os processos escravagistas para o genocídio da população negra,


principalmente após a abolição. A angústia dos pacientes deve ser entendida
para além de algo da ordem psíquica, mas sobretudo como um problema de
ordem política e social. Logo, o sofrimento não se caracteriza como uma
produção individual, da ordem da neurose e do privado.

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 37

Para Veiga (2017, 2018), em relação ao tratamento, umas das direções


para a cura dos afetos que deteriorizam a subjetividade negra está na devolução
deles para a branquitude, ou seja, responsabilizá-los pelas violências geradas
pelo racismo, saindo da posição de auto-ódio para a posição de empodera-
mento, passando pela experimentação da raiva. O “afeto de raiva como sendo
o trilho através do qual o que ficou represado e introjetado na subjetividade
negra culpando-a pela condição em que se encontra e fazendo-a sentir-se infe-

or
rior possa escoar por toda malha subjetiva do tecido social” (VEIGA, 2017,
p. 4). Esse movimento de libertação é extremamente importante para subje-

od V
tividade negra, pois ela abre espaço para outras possíveis relações consigo e

aut
com o mundo. Assim, aquilo que antes paralisava, torna-se em novas possi-
bilidades singulares de (re)criação de sua própria existência, ou seja, novos
modos de ser no mundo.
R
o
5. Conclusão
aC
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Constata-se a urgência de um aprofundamento na temática em questão


para compreensão das especificidades do racismo na realidade brasileira,
principalmente na área de Psicologia, considerando a influência deste fenô-
visã
meno na sua constituição enquanto ciência. Além da literatura recente na
área reconhecer que a produção é escassa e o fato do desconhecimento de
outras formas possíveis de se fazer psi, não coloniais e racistas. A Psicologia
itor

tem a oportunidade de contribuir para uma compreensão mais abrangente do


racismo e de seus efeitos, a fim de, desvelar este fenômeno, promovendo uma
a re

atuação comprometida com a superação desta e de outras causas de grandes


desigualdades no país.
A suposta inferioridade do negro, primeiro legitimada pela Igreja e depois
pela ciência do século XIX foi primordial para a manutenção do racismo
par

estrutural e estruturante das relações, das instituições e das práticas sociais,


e até mesmo serviu como justificativa para sua escravização. Reiteramos que
Ed

até os dias de hoje o racismo permanece operando e construindo realidades.


Ainda que não tenha ganhado forma de lei, nem Estado, o racismo se
enraizou e se capilarizou no cotidiano, assim como com a abolição da escra-
ão

vatura, a lógica escravagista não se findou. Desta maneira também, apesar


da noção de raça biológica ter sido anulada pela ciência e ter sido apropriada
como constructo político pela luta antirracista, o viés biologizante perma-
s

nece vivo, engendrando, a partir de novas configurações e lógicas, práticas


ver

racistas. O processo de colonização ainda produz efeitos significativos e seu


ethos permanece nas práticas sustentadas pela lógica racista em que estamos
inseridos, logo, podemos dizer que, psicólogos que nem se quer questionam
as origens ontológicas de suas concepções epistemológicas, estão promovendo
uma psicologia colonial.

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38

A Psicologia Preta apresenta-se como um resgate, como uma prática


indicada para uma possível cura aos danos causados pela diáspora. Atuando
como uma ferramenta de mudança social e de alteração de realidade de pes-
soas negro-africanas, uma vez que as demandas do negro-africano não são
vistas como fenômenos individuais, mas de natureza política, produzidos
socialmente. Desta forma, o enfrentamento precisa ser feito nessa esfera, pro-
duzindo atravessamentos concretos na realidade. Essa Psicologia esforça-se

or
em visibilizar o que foi ocultado pela ocidentalidade colonialista racista, ou

od V
seja, a humanidade dos povos negro-africanos espalhados pela diáspora. Este,

aut
por si só, não é um movimento novo, mas a possibilidade de tornar possível
essa realidade nos dias de hoje.
A superação das lógicas coloniais racistas deve ser uma responsabilidade

R
de todos, principalmente das pessoas brancas, pois estas são beneficiadas
direta e indiretamente por elas. Se não intervirem, são também responsáveis

o
pelas múltiplas violências a que as pessoas negras são submetidas todos os
aC

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dias. Portanto, devem se implicar na luta antirracista e promover políticas e
ações de reparações, e mudanças sociais para a população negra.
visã
itor
a re
par
Ed
ão s
ver

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s
ver

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Flávia Lemos - 21982.indd 42
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do
aut
or
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POLÍTICAS PÚBLICAS DE
SEGURANÇA, RACIONALIDADES
BIO-NECROPOLÍTICO-ECONÔMICAS

or
E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO

V
aut
Micael Jayme Casarin Castagna
Roberta Brasilino Barbosa

CR Pedro Paulo Gastalho de Bicalho

do
1. Introdução

Como surgem as regras, as leis? Como formam-se modos de subjetiva-


Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

são
ção? Como os governos nos governam? Como configuram-se as ideias de Lei
e Ordem que nos circundam? Como elas nos produzem? O que há de coletivo
ra
em práticas “individuais”? Como uma ordem é um limite? E como os limites
se mantêm atuais?
i
Através da análise das relações políticas ocidentais desde o século XIII,
rev

traça-se um panorama que articula o fortalecimento da burguesia, os surgi-


mentos das cidades e a acumulação de capital até o século XVIII ao efeito
to

de engendramento de uma massa de pessoas pobres a ser disciplinada para


a produção. Nos próximos dois séculos, contrários à arbitrariedade do poder
ara

penal absolutista, criam-se os discursos de igualdade e de contrato social, sob


os quais o poder sancionador do Estado é regulado pelo positivismo jurídico e
ver di

pelas proposições teóricas do Direito Penal. Tais discursos surgem na composi-


ção de eixos de racionalidades de um Estado que, em função da acumulação do
op

capital, organiza um regime de verdades apoiado em tecnologias de controle


(Batista, 2007). Pelo viés da criminologia positivista, nestas tecnologias está
E

pressuposta uma ordem instaurada como natural, individualizando os episó-


dios criminais em sujeitos desviantes (pertencentes quase exclusivamente


a uma massa pobre, negra e periférica que compõe uma classe à qual não é
participada a possibilidade da circulação do poder público).
É fundamental que percebamos este “desenvolvimento histórico ociden-
tal” como eurocentrado, segundo o qual o Brasil é apresentado histórica e
politicamente como colônia por quase quatro séculos, e que tal lógica colonial
pode ser ainda hoje percebida nos regimes de verdade do ocidente e mais além.
Mbembe (2016) diz da “ocupação colonial” como demarcação e afirmação de
um controle físico e geográfico, sob as quais se imprime um novo conjunto
de relações sociais e espaciais, fundamentais para o exercício da soberania.

Flávia Lemos - 21982.indd 43 28/02/2020 13:12:48


44

Um contexto no qual o colonizado ocupa uma terceira zona entre o status


de sujeito e objeto. Os vieses das tecnologias de controle e da criminologia
positivista se dão intimamente em composição com certo paradigma europeu
dominante de soberania; um paradigma no qual, para Mbembe (2016),

[...] a razão é a verdade do sujeito, e a política é o exercício da razão na


esfera pública. O exercício da razão equivale ao exercício da liberdade,

or
um elemento-chave para a autonomia individual. Nesse caso, o romance
da soberania baseia-se na crença de que o sujeito é o principal autor con-

od V
trolador do seu próprio significado ( p. 3).

aut
Tal concepção, ainda que se fundamente em um ser humano modelar

R
homem-cisgênero-branco-heterossexual e pertencente a uma elite, não se per-
cebe por estas mesmas limitações inerentes à sua lógica. De fato, tal produção

o
de verdade calcada em dominação é exposta quando Mbembe (2016) discorre
aC
sobre a condição do escravo, colocando-a como uma tripla perda: “perda de

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


um ‘lar’, perda de direitos sobre seu corpo e perda de status político” (p. 10).
O indivíduo escravo está apartado não só do que é entendido como sociedade,
mas mesmo pelo que se entende por humanidade ao percebermo-lo a partir de
visã
uma dominação absoluta, que envolve desde uma alienação em seu nascimento
à sua morte social. Analisando a fazenda como estrutura político-jurídica, o
autor evidencia a relação de posse do escravo pelo mestre, distanciando-a da
itor

noção comunitária por negar ao escravo o exercício do poder de expressão


e pensamento. O escravo, seja ele ou ela, é objetificado como ferramenta de
a re

produção à qual, se não lhe é possível cumprir sua função de produção, lhe é
negada a existência, simbólica e materialmente. Esta negação se faz atrelada
ao que faz dominantes as forças que ali se impõe enquanto promotoras da
pretensa “ordem natural” (Mbembe, 2016).
par

Torna-se potente articularmos tais leituras ao controle social, o qual opera


como estratégia estrutural que naturaliza certa ordem social construída por
Ed

forças dominantes.

[...] não se trata de uma classe social que seria dominante em relação à
ão

outra, mas relações de força, vetores de dominação política (que podem


estar localizados na diferentes classes sociais e por todo corpo social) que
buscam estratégias para manter e reproduzir relações sociais que desejam
s

impor como naturais e normais (Reishoffer & Bicalho, 2009, p. 4).


ver

Em olhar crítico à criminologia positivista, evidencia-se a gestão social


seletiva que impõe uma determinada noção de ‘ordem social desejável de
ser defendida’, a qual produz seus criminosos e seus crimes a partir de uma
perigosa “naturalização do conceito de controle social que se tornando

Flávia Lemos - 21982.indd 44 28/02/2020 13:12:48


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 45

aparentemente neutro, vem justificar como normal e natural a desigualdade


social, a limitação da liberdade e da autonomia, além da própria seletividade
do sistema” (Dornelles, 2003, p. 24). É importante que não localizemos a
dominação simplesmente num discurso ou conteúdo, como sob a forma de
uma determinada classe social, mas num movimento, em racionalidades que a
afirmam e reconstroem constantemente em uma articulação móvel e complexa.
Para entendermos então qual a ‘ordem social desejável’ que vige no Brasil

or
contemporâneo, mantida e reproduzida pelas lógicas atuais de controle social,

od V
precisamos analisar o contexto histórico global das últimas décadas. De acordo

aut
com Reishoffer & Bicalho (2009), a análise da proposta de uma determinada
ordem social [desejável] deve se dar intimamente ligada à análise histórica
dos saberes que se propuseram a gerir o controle social daquele contexto.

R
Sem nos articularmos a essa segunda análise, corremos o risco de fazer coro
à defesa de uma ordem social contra qualquer força que se lhe faça opositora,

o
colocando tal ordem como natural e qualquer insurgência de mecanismos de
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

contra-poder e resistência como desviantes/marginais e passíveis de legítimas


repreensão e neutralização.
Os autores recorrem, então, ao pensamento de Michel Foucault para
instrumentalizar essa segunda análise para além do exercício de poder estatal
visã
formalizado por leis. É preciso evidenciar outros exercícios de poder que, a
nível micropolítico, produzem e reproduzem objetividades e subjetividades
por todo o corpo social em determinados contextos históricos, constituídos
itor

na operação de estratégias específicas (Reishoffer & Bicalho, 2009). Foucault


a re

(2007) identifica na sociedade moderna a emergência de um conjunto de


estratégias de poder que se constituem num controle minucioso das operações
do corpo articulado a uma docilidade-utilidade: a sociedade disciplinar. Nesta
análise, a sujeição constante de forças dos corpos diminuiria inconvenientes
par

políticos, neutralizando resistências em confluência com o adestramento dos


corpos – o qual teria como finalidade o aumento de força econômica. O próprio
Ed

indivíduo não pode ser considerado como um elemento externo às práticas


de poder, mas sim como:
ão

[...] realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se


chama disciplina [...] Na verdade o poder produz; ele produz realidade, pro-
duz campos de objetos e rituais de verdade. O indivíduo e o conhecimento
s

que dele se poder ter se originam nessa produção (Foucault, 1997, p. 161).
ver

A noção de sociedade disciplinar, porém, ainda aponta para modelos de


encarceramento institucionais, algo que para se manter atual na contempo-
raneidade precisa articular-se à noção de sociedade de controle, que dirá de
um controle aberto e contínuo. A pulverização da disciplina, que já aparece

Flávia Lemos - 21982.indd 45 28/02/2020 13:12:49


46

na sociedade disciplinar, acentua-se na sociedade de controle a partir de


identidades sempre móveis e inacabadas, um controle invisível e nômade.
Tais tipos de controle articulam-se a partir de um mesmo plano de produção
de realidades, de relações de poder. Portanto, para analisar nossos crimes e
políticas criminais precisamos entendê-los como produzidos a partir de um
mesmo plano de imanência, no qual relações de poder/saber produzem modos
de entender o que é crime, quais são os criminosos e que ordem social deverá

or
ser produzida/defendida no contexto brasileiro (Reishoffer & Bicalho, 2009).

od V
Entre as disciplinas e o controle sob os quais vivemos, quais vetores

aut
podemos identificar na composição da “ordem social desejável” brasileira?
Quais delineamentos entre o que se dá como ordem e como desordem no
Brasil podemos elencar para análise? E como escolher os vetores para que

R
esta análise se faça de maneira crítica, pragmática e pertinente?

o
2. (In)segurança pública, racismo e necropolítica
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Desde a década de 1980 o Brasil vem se constituindo num processo de
redemocratização, tendo esse processo dois marcos exponenciais: o fim da
ditadura civil-militar e a promulgação da Constituição Brasileira de 1988.
visã
Porém, podemos acompanhar no trabalho de Reishoffer & Bicalho (2009)
análises de que tais avanços na elaboração das políticas públicas pouco muda-
ram as práticas de Segurança Pública herdadas do governo ditatorial. Foram
itor

mantidas práticas de controle social e da lógica do “inimigo interno” – per-


a re

sonagem cuja produção no momento atual está diretamente relacionada às


políticas proibicionistas sobre drogas, conforme apontado por Coimbra (2001)
–, algo que pode ser percebido, por exemplo, pela manutenção do desenho do
regime militar acerca do quadro institucional das polícias e das suas divisões
par

de competências, além da localização desses setores ter permanecido no pacto


federativo (Muniz & Zacchi, 2004). De acordo com o Instituto Brasileiro
Ed

de Geografia e Estatística (IBGE, 2015), em 2013, o Brasil tinha 425,2 mil


policiais militares e 117,6 mil policiais civis. Havia um policial militar para
cada 473 habitantes e um policial civil para cada 1.790. A polícia ostensiva,
ão

militar, possui um número de integrantes quase quatro vezes maior do que a


nossa polícia responsável pela investigação, a civil.
É importante ressaltar que as cartas constitucionais anteriores a de 1988
s

não incorporavam o adjetivo “pública” quando traziam definições acerca da


ver

“ordem”, pois esta era uma ordem que se misturava com os interesses das for-
ças sociais dominantes daquele contexto, especificamente do Estado e das oli-
garquias que se mantinham no poder desde o século anterior; uma ordem que
deveria ser defendida e mantida pelas polícias (Reishoffer & Bicalho, 2009).
A ideia da defesa e manutenção de uma determinada ordem que seja pública

Flávia Lemos - 21982.indd 46 28/02/2020 13:12:49


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 47

– que garanta direitos individuais e participação política de todas as cidadãs


e cidadãos de sua sociedade – surge com o estabelecimento do Estado demo-
crático no Brasil, ou seja, só pode se dar num projeto estatal que articule
normativas legais e políticas públicas nessa mesma direção. Entretanto, as
práticas institucionais que então deveriam garantir e apoiar o desenvolvimento
de um Estado democrático de direito não sofreram nenhum tipo de mudança
em relação à manutenção da ordem pública. De fato, Muniz (2001) discorre

or
sobre a função das polícias militares instituídas em lei, evidenciando que

od V
salvaguardar a “Segurança Nacional” e se mobilizar pela “segurança interna

aut
e manutenção da ordem”, sem atualizações e formulações de políticas críticas
à organização e manutenção do poder do regime anterior, simplesmente cum-
prem a mesma função de uma concepção autoritária da ordem pública, que

R
percebe uma parcela de suas cidadãs e cidadãos como ameaça a esta ordem,
como “inimigos internos do regime”, e não como produtores e indivíduos

o
de direito dessa mesma ordem, ainda que constitucionalmente a segurança
aC
pública esteja descrita entre os direitos de todas e todas.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Em um sentido paralelo, articula-se a proposta de Mbembe (2016) que


r uielaciona o conceito foucaultiano de biopoder com as noções de estado de
exceção e estado de sítio, evidenciando instâncias sociais em que o poder (e
visã
não apenas o poder estatal) está continuamente referenciado a situações de
emergência e exceção, condicionando seu exercício a uma noção de inimigo
ficcional. O autor analisa “essas trajetórias pelas quais o estado de exceção
itor

e a relação de inimizade tornaram-se a base normativa do direito de matar”


a re

(p. 7), questionando sobre as relações de política e morte que se afirmam em


um estado de emergência. Mbembe (2016) examina as espacializações do
Estado soberano na ordem global recentemente imposta trazendo uma leitura
do imaginário europeu e de uma determinada ordem jurídica europeia. A
lógica desta ordem propõe que uma “guerra legítima” seria entre dois Estados
par

“civilizados”, entendendo o Estado como “modelo de unidade política, um


Ed

princípio de organização racional, a personificação da ideia universal e um


símbolo de moralidade” (p. 12). Nesse contexto, as colônias não são “orga-
nizadas de forma estatal e não criaram um mundo humano” (Ibidem), são
ão

zonas de guerra e desordem e que, por esses motivos, tornam-se “o local por
excelência em que os controles e as garantias de ordem judicial podem ser
suspensos – a zona em que a violência do estado de exceção supostamente
s

opera a serviço da ‘civilização’” (Ibidem).


ver

Propomos aqui um paralelo entre o “inimigo interno” trabalhado por


Reishoffer & Bicalho (2009) e o “inimigo ficcional” de Mbembe (2016),
guardadas suas devidas pertinências, para analisar, sob a ótica da necropo-
lítica, o Brasil colonial, moderno e contemporâneo, entendendo que estes
Estados se sobrepõem. Partimos de uma leitura de um governo de Estado

Flávia Lemos - 21982.indd 47 28/02/2020 13:12:50


48

brasileiro que é majoritariamente composto pelos descendentes dos europeus


que colonizaram o Brasil, dentre os quais alguns compõem posições de poder
governamental desde a Oligarquia Velha até os partidos que se revezam na
ocupação massiva dos cargos governamentais mais importantes ou mesmo
das grandes empresas que contém a maior parte da riqueza brasileira. Mesmo
aqueles que não são diretamente descendentes de colonizadores ou de gran-
des famílias no poder desde o Brasil colônia, são majoritariamente homens

or
cisgêneros brancos pertencentes a uma elite financeira. Segundo dados do

od V
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012), 72% dos brasilei-

aut
ros ganhavam até 2 salários mínimos em 2010 (pesquisa cujo salário mínimo
utilizado era de R$510,00). Em dados mais recentes, o IBGE (2017a) apontou
que aproximadamente 25,4% da população brasileira em 2016 viveu com

R
menos de R$ 387 por mês. Além disso, homens e brancos têm salários maiores,
em média, que mulheres e pessoas pretas e pardas: em 2016, o rendimento

o
médio mensal real de todos os trabalhos das mulheres foi 23% inferior ao do
aC
homem (IBGE, 2017b). Com relação à cor, os rendimentos médios mensais

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


do trabalho de brancos eram 84% superiores aos dos pardos e 82% maior que
dos pretos (IBGE, 2017b). Ao mesmo tempo, homens cisgêneros brancos
representaram 80% da bancada federal na legislatura que se encerrou em 2018
visã
no Brasil. Questiona-se: quem é o inimigo interno-ficcional desse Estado? E
onde ele está, geograficamente?
De acordo com Mbembe (2016), as noções do biopoder não são suficien-
itor

tes para explicar as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da


a re

morte, de forma que para isso ele desenvolve o conceito de necropolítica. O


autor argumenta que Foucault formula o biopoder como operação de divisão
entre aqueles que devem viver e aqueles que devem morrer, a qual se faz em
relação a um campo biológico de controle, distribuindo a espécie humana
em grupos e subgrupos, operação denominada por Foucault como “racismo”.
par

Mbembe prevê o lugar expoente ocupado pelo racismo na racionalidade pró-


Ed

pria do biopoder, fazendo alusão ao lugar subrepresentativo ao qual sempre foi


designado no pensamento e práticas políticas ocidentais. Ainda em referência a
Foucault, o autor refere-se ao racismo como tecnologia que permite o exercício
ão

do biopoder, regulando a distribuição da morte na economia do biopoder e


tornando possíveis as funções assassinas do Estado. Apresentaremos, então,
as especificidades do conceito de necropolítica a partir das leituras propostas
s

por Mbembe (2016) acerca das ocupações coloniais tardo-modernas e das


ver

guerras contemporâneas.
Podemos entender que a “ocupação colonial tardia difere em muitos
aspectos da primeira ocupação moderna, particularmente em sua combinação
disciplinar, biopolítica e necropolítica” (Mbembe, 2016, p. 14-15). O autor
toma de exemplo como caso mais bem sucedido de necropoder a situação

Flávia Lemos - 21982.indd 48 28/02/2020 13:12:51


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 49

palestina. A combinação desses três é o que torna possível dominação [quase]


absoluta sobre a população do território ocupado, no qual um estado de sítio
(uma instituição militar) permite certa modalidade de crime que não difere ini-
migo interno e externo. As vilas e cidades são isoladas do mundo, a população
sitiada privada de seus meios de obtenção de renda; a mobilidade geográfica
requer autorizações formais e as instituições civis locais são sistematicamente
destruídas; o cotidiano é militarizado, sob o qual os comandantes militares

or
locais possuem uma liberdade outorgada de decidir quando e em quem atirar

od V
por seus próprios critérios.

aut
Ao trabalhar sobre as guerras contemporâneas, Mbembe (2016) faz refe-
rência a Bauman para identificar que as guerras da era da globalização não
têm como objetivo a conquista e gerência de um território, mas visam forçar

R
o inimigo à submissão, tendo como característica própria julgar irrelevantes
certas consequências imediatas e secundárias das ações militares. A superio-

o
ridade destes em relação às populações sedentárias surgia da velocidade de
aC
seu próprio movimento, da fluidez de seu aparecimento e desaparecimento,
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

de sua capacidade de viajar com pertences adequados à sua maneira, enquanto


os sedentários tinham limitados sua mobilidade e potencial de manobra. Tais
alusões permitem que nos aproximemos de como se dá esse novo momento,
visã
o da mobilidade global. Nele,

[...] as operações militares e o exercício do direito de matar já não consti-


itor

tuem o único monopólio dos Estados, e o ‘exército regular’ já não é o único


meio de executar essas funções. A afirmação de uma autoridade suprema
a re

em um determinado espaço político não se dá facilmente. Em vez disso,


emerge um mosaico de direitos de governar incompletos e sobrepostos,
disfarçados e emaranhados, nos quais sobejam diferentes instâncias jurí-
dicas de facto geograficamente entrelaçadas, e nas quais abundam fideli-
par

dades plurais, suseranias assimétricas e enclaves (Mbembe, 2016, p. 18).


Ed

O autor descreve essa organização de direitos territoriais e reivindica-


ções como heterônoma, e questiona a demarcação explícita entre “interno”
e “externo” nos campos políticos. Junto a esse contexto, podemos perceber
ão

a emergência do que Deleuze e Guattari (1997) chamaram de máquinas de


guerra, “organizações polimorfas e difusas, as máquinas de guerra se caracte-
rizam por sua capacidade de metamorfose” (Mbembe, 2016, p. 19). O próprio
s

Estado pode se tornar máquinas de guerra, se apropriar de uma ou mesmo aju-


ver

dar uma a ser criada. São constituídas por homens [e mulheres] armados[as],
que se organizam em divisões e uniões de acordo com cada contexto. Estas
podem funcionar com o empréstimo de exércitos regulares ao mesmo tempo
em que estes podem se apropriar de suas características. As máquinas de guerra
possuem tanto característica de organização política quanto de uma empresa

Flávia Lemos - 21982.indd 49 28/02/2020 13:12:51


50

mercantil, podendo até mesmo forjar ligações diretas com redes transnacionais
(Mbembe, 2016). No contexto brasileiro, pudemos identificar anteriormente
o tal inimigo ficcional-interno, cujas características descritas acima são a ele
pertinentes também, como veremos a frente.
Diante de tal conjuntura e de seu extremismo, podemos perceber algu-
mas diferenças entre o comando colonial e essa forma de governabilidade.
Nesta, a escolha entre a vida e a morte se dá a partir de tecnologias mais

or
táteis, mais anatômicas e sensoriais, sob as quais o controle dos corpos em

od V
aparatos disciplinares é menos importante do que sua inscrição na ordem

aut
da economia máxima – figurada como “massacre”. Uma generalização da
insegurança aumenta a distinção social de possuir armas, e as guerras não se
dão apenas entre exércitos de dois Estados soberanos, mas são travadas entre

R
grupos armados: os que agem através do Estado e os que não têm Estado, mas
que possuem o controle de territórios bastante específicos (Mbembe, 2016).

o
O Brasil é um país extenso e diverso, no qual coexistem práticas de con-
aC
trole também diversas, com similaridades e distanciamentos. De que maneira,

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


em composição com os desenvolvimentos apresentados, podemos analisar as
racionalidades da Segurança Pública brasileira presente nas últimas décadas?
Estas fazem parte de todo um sistema penal, uma rede de articulações que pode
visã
ser abordada a partir variadas instâncias. Segundo Batista (2007), as institui-
ções do Sistema Penal constituem-se das instituições policiais como política
de segurança pública, das instituições judiciárias como política judiciária e
itor

das instituições penitenciárias como política penal. Tal Sistema se coloca


a re

junto a um conjunto de normas jurídicas que ditam os crimes, suas sanções


e a execução destas junto a normativas legais como a lei de execução penal,
os regulamentos penitenciários e a organização do judiciário.
Analisemos alguns dados que fazem emergir a construção da segurança
pública no Brasil, como política. Tomando como referência a taxa de homicí-
par

dios, a cada três assassinatos, dois são de pessoas negras (Waiselfisz, 2016).
Ed

Segundo o Atlas da Violência 20181, em 2016, o Brasil alcançou a marca his-


tórica de 62.517 homicídios, ou seja, o país atingiu uma taxa de 30, 3 mortes
para cada 100 mil habitantes. Nos últimos dez anos, observa-se que a taxa de
ão

homicídios de não negros diminuiu 6,8%, ao passo que a taxa de população


negra aumentou 23,1%. Em 2016, constatou-se uma taxa de homicídio para
a população negra de 40,2, o mesmo indicador para o resto da população foi
s

de 16 (IPEA & FBSP, 2018), o que permite inferir que, 71,5% das pessoas que
ver

são vítimas de homicídio a cada ano no país são pretas ou pardas. Podemos
perceber uma grande desigualdade entre pessoas brancas e negras no que se
1 Os dados analisados provêm de informações publicadas em 2016 no Sistema de Informação sobre
Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS) e dos registros publicados no 10º Anuário Brasileiro de
Segurança Pública.

Flávia Lemos - 21982.indd 50 28/02/2020 13:12:51


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 51

refere à distribuição da segurança, o que nos levaria pensar que a população


negra brasileira demandaria maior atenção para ter sua segurança garantida
pelo Estado, acompanhando que o contexto racista do qual participa o Brasil
é em opressão à população negra. Apesar de não existirem indícios de que
negros cometam mais crimes do que brancos, há a tendência de sofrerem maior
coerção por parte do sistema de justiça criminal, seja por uma vigilância mais
incisiva por parte da polícia, seja por uma probabilidade maior de sofrerem

or
punição (Oliveira Junior & Lima, 2011).

od V
Fica evidente que, para analisar questões de raça no Brasil precisamos

aut
perceber seu recorte estrutural de opressão relacionada à população negra.
Para isso, é importante entendermos que essa realidade é composta também
a partir da noção de racismo institucional, que “pode ser definido como o

R
fracasso coletivo das instituições em promover um serviço profissional e
adequado às pessoas por causa da sua cor” (Oliveira Junior & Lima, 2011, p.

o
22). É uma modalidade do racismo que não se dá sob atos de discriminação
aC
manifestos, explícitos ou declarados, mas por um funcionamento diferenciado
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do ponto de vista racial de diversas organizações e instituições na distribuição


de serviços, benefícios e oportunidades aos diversos segmentos da população
(Oliveira Junior & Lima, 2011).
visã
O processo de produção e distribuição da segurança pública consiste em
atividades de controle da criminalidade e da violência pelo sistema de justiça
criminal, o qual é composto de instituições ligadas ao Poder Executivo e ao
itor

Judiciário, que atuam em etapas concatenadas e sucessivas de controle social


a re

que definem o papel do Estado na consecução da ordem pública (Oliveira


Junior & Lima, 2011). A instituição policial, então, atua como representante
do Estado nas ruas, a qual opera através de racionalidades que se propõe neu-
tras e em busca d’A ordem social desejável. Dessa forma, é uma instituição
que se afirma e se reafirma, também, atravessada pelo racismo em diferentes
par

instâncias. De acordo com o infográfico do Fórum Brasileiro de Segurança


Ed

Pública, pessoas mortas em intervenções policiais são majoritariamente negras:


entre 2015 e 2016, 76% das vítimas de intervenções policiais eram homens
negros (FBSP, 2017). Nesse mesmo sentido, como expõe a Pesquisa Nacional
ão

de Vitimização, segundo dados de 2010, 6,5% dos negros que sofreram uma
agressão no ano anterior tiveram como agressores policiais ou seguranças
privados (que muitas vezes são policiais trabalhando nos horários de folga),
s

contra 3,7% dos brancos” (IBGE, 2012). Ao mesmo tempo, policiais negros
ver

representam a maioria das vítimas nas corporações: entre 2015 e 2016, 56%
dos policiais vítimas de homicídio eram homens negros (FBSP, 2017). Isso
demonstra que o racismo atravessa a instituição policial não apenas enquanto
agentes, mas também enquanto vítimas de um racismo institucional que se
manifesta em nossas próprias organizações policiais.

Flávia Lemos - 21982.indd 51 28/02/2020 13:12:51


52

3. Neoliberalismo e racionalidades econômicas

A partir da conjuntura apresentada seguimos na articulação das raciona-


lidades que agem por via das políticas de segurança pública brasileiras e de
certas operações capitalísticas2 do mundo ocidental e mais além em composi-
ção com aglutinações dessas linhas de força que se apresentam sob a forma das
políticas econômicas. De acordo com Reishoffer & Bicalho (2009), na década

or
de 1980, com a redemocratização brasileira em curso, as principais mídias

od V
começaram a denunciar um grande aumento na violência urbana e, associada

aut
a esse aumento a necessidade de se intensificar “políticas de segurança nas
principais metrópoles brasileiras que, paradoxalmente, haviam elegido gover-
nos de oposição em plena transição democrática, baseados em princípios

R
condizentes à garantia dos direitos humanos” (Reishoffer & Bicalho, 2009, p.
7). Como já vimos anteriormente, tais políticas não foram redesenhadas para

o
a Constituição de 1988, o que compõe aquilo que Dornelles (2003) aponta
aC
como um revezamento entre dois modelos de segurança pública: o modelo do

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


eficientismo penal, marcado pelo discurso de “lei e ordem”, ações repressivas
e até mesmo práticas de terror, e o modelo da garantismo constitucional, fun-
damentado no discurso da cidadania, que visa combater a criminalidade com
visã
estratégias não-repressivas e com os princípios democráticos como diretriz.
O aumento da criminalidade foi então associado ao segundo modelo, orga-
nizando uma concepção de guerra civil, herança da ditadura, que pedia por
itor

militarização das forças de segurança. Fortalece-se uma ideia de limitações a


a re

um governo democrático no que se refere a práticas de segurança e controle,


sem levar em conta as variáveis da transição do período ditatorial ao início
de desenvolvimento de uma democracia, além dos outros diversos vetores
sociais, históricos, econômicos e capitalísticos em questão.
Analisemos, então, a partir de alguns vieses econômicos para além da
par

segurança pública, inferindo os caminhos que as políticas de seguridade social


(saúde, educação, previdência) nos estados de bem-estar social contempo-
Ed

râneos a fim de nos aproximarmos do desenvolvimento do Estado demo-


crático brasileiro. Mertens (2017) analisa as transformações nas políticas
ão

sociais nas últimas quatro décadas, evidenciando as rupturas em economias


capitalistas avançadas e suas relações com as lacunas em seus esquemas
se seguridade social, em especial no decorrer da Grande Crise Financeira
s

internacional desde 2007. O autor coloca que, durante a crise financeira,


ver

o aumento precedente de endividamento privado correlaciona-se com os


empréstimos às famílias como componente central dos estados de bem estar
social contemporâneos.
2 Termo cunhado por Guattari e Rolnik (2007) para designar uma economia que age para além da economia
estatal e financeira; diz dos regimes de uma economia das subjetividades.

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 53

Desde então, as execuções hipotecárias e o superendividamento afeta-


ram vidas pessoais, ainda mais em países onde a austeridade restringia
os orçamentos sociais para funcionar como estabilizadores automáticos
(Mertens, 2017, p. 2).

Temos, no Brasil, justamente essa situação, na qual um dos pés do tripé


macro-econômico brasileiro é a austeridade. Por austeridade fiscal, entende-se

or
aqui o estado prever sua diminuição de gastos, comum nas economias capita-
listas. Nesse sentido, o primeiro corte dos Estados é nos gastos sociais, como

od V
no Brasil são, especialmente, saúde, educação e previdência, conjuntura que

aut
compõe mais endividamentos à população pela falta de provisão pública. Mer-
tens (2017) expõe que o patrocínio do Estado a produtos financeiros torna-se

R
um substituto às tradicionais políticas sociais, resultando num novo esquema
que vem sendo denominado financeirização da vida cotidiana.

o
Através dessas políticas sociais baseadas em créditos, há a operação de
aC
um paradigma de política que enfatiza a promoção pública de ativos privados
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

como um meio de seguridade social – o bem-estar social baseado em ativos.


Esse paradigma:
visã
Abrange a noção de que a propriedade de ações e propriedades, e até
mesmo o investimento no ensino superior, equipa indivíduos e famílias
com seus próprios amortecedores lidando com a volatilidade durante o
ciclo de vida, particularmente durante doenças, desemprego e aposenta-
itor

doria. A tarefa da política pública é, assim, incentivar o comportamento


a re

econômico que facilita a propriedade e o investimento, os quais, por sua


vez, impedem as dificuldades sociais por meio de seu caráter de seguro
privado (Mertens, 2017, p. 3).

Segundo o autor, há indícios de que processos de privatização e mudança


par

de riscos sugeririam que o bem-estar social baseado em ativos se propõe


Ed

a substituir gradualmente a provisão tradicional de fluxos de renda, como


pensões e benefícios de desemprego. É evidente, no entanto, que as políticas
públicas de diferentes estados de bem-estar social baseados em ativos têm pro-
ão

movido a poupança ou o financiamento da dívida de ativos (Mertens, 2017).


Temos, no Brasil, alguns exemplos de tal movimento, sendo o mais popular
entre eles o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), programa do Minis-
s

tério da Educação destinado a financiar a graduação na educação superior


ver

de estudantes matriculados em cursos superiores não gratuitos, segundo a


Lei 10.260/2001.
O que tais práticas de financiamento e privatização compõe nos vetores
de segurança pública no Brasil? De acordo com Castel (1995), os efeitos
sociopolíticos da privatização das práticas de segurança produzem um modo

Flávia Lemos - 21982.indd 53 28/02/2020 13:12:52


54

de subjetivação denominado “descoletivização do indivíduo”. Um dos prin-


cipais vetores de análise da insegurança no “mundo capitalista” é a produção
de uma massa de indivíduos que se entendem “soltos” na sociedade, devendo
garantir sua proteção social em meio a uma organização social que nunca
garantiu a igualdade de direitos. O autor nos mostra que alguns poucos que
possuem condições financeiras para tal recorrem a seguros privados – que se
multiplicam numa sociedade de incertezas (Castel, 1995) – que sobrevivem

or
em uma economia subjetiva e financeira da própria insegurança que dizem

od V
evitar. Em meio à multiplicação de riscos, cabe ao indivíduo privado/pri-

aut
vatizado garantir sua própria segurança, de forma que tal responsabilidade
social deixa de ser um empreendimento coletivo para tornar-se uma estratégia
individual (Castel, 1995).

R
Tais movimentos individualizantes identificados intensificam-se com
a lógica de “financeirização da vida” apresentada anteriormente. Produz-se

o
uma determinada ordem social que não se efetiva pela garantia de condições
aC
de cidadania para todas e todos, mas pelo direito de consumo de alguns e

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


algumas. Segundo Wacquant (2001), é

[...] a remediação de um ‘mais Estado’ policial e penal a um ‘menos


visã
Estado’ econômico e social”, e ainda completou que tal penalidade neo-
liberal é ainda mais funesta em países atingidos por fortes desigualdades
de condições de vida e desprovidos de tradição democrática. É quando as
itor

questões sociais se tornam questões de polícia. Os ‘inimigos’ da ordem


são estes que ousam transpor as barreiras do consumo e estão continuada-
a re

mente expostos à violência policial. Tal violência é inserida numa tradição


nacional secular de controle dos miseráveis pela força, tradição oriunda da
escravidão e dos conflitos agrários, que foram fortalecidos por duas déca-
das durante a ditadura militar, na qual a luta contra a ‘subversão interna’
par

era disfarçada em repressão aos opositores do regime (p. 21).


Ed

Nicholas Barr (1998), no livro The Economics of the Welfare State, arti-
cula três linhas intelectuais de estudos sobre o tema do bem-estar social: o
problema da maximização do bem-estar social, questões de justiça social e
ão

problemas de definição e mensuração. Debruçando-se sobre políticas públi-


cas de saúde e educação (mas mais especificamente de saúde), o livro age
na direção de complexificar debates sobre a medição de custos e benefícios
s

privados e sociais para esses âmbitos. Escolhe-se trazer a visão do autor


ver

entendendo-a como potente para agenciar e fundamentar a multiplicidade


das questões em âmbitos econômicos, entretanto com a atenção de que seus
estudos não contemplam questões críticas das relações de poder evidenciadas
por conceitos da bio-necropolítica, nem são especificamente pensadas para
estas situações em países colonizados.

Flávia Lemos - 21982.indd 54 28/02/2020 13:12:52


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 55

Segundo Barr (1998), os maus argumentos econômicos sobre interven-


ções estatais são geralmente de dois tipos: ou eles não entendem a natureza
e as limitações da alocação de mercado; ou confundem objetivos e métodos.
Entende-se como uma posição libertária frequente a concepção da saúde como
mercadoria “comum” como qualquer outra, o que significaria que deve ser
distribuída de acordo com a renda, os gostos e os preços a ela referentes; ou

or
seja, se a distribuição de cuidados de saúde ou educação não está atingindo
bons resultados, dever-se-ia modificar a distribuição de renda. O autor argu-

od V
menta que este é um erro do primeiro tipo.

aut
A visão de que “cuidados de saúde / educação / habitação são direitos

R
básicos e, portanto, devem ser fornecidos pelo Estado” é ilógica, porque
as palavras “e, portanto,” simplesmente não seguem a premissa inicial. Se

o
os cuidados de saúde, etc., são direitos básicos, então também a comida,
que é bem fornecida pelo setor privado. Pela mesma razão, o argumento
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

de que “os cuidados de saúde, etc. devem ser fornecidos publicamente


porque, de outra forma, os pobres não poderiam pagar por eles” não se
sustenta. A pobreza pode justificar transferências em dinheiro, mas não
é, sem uma qualificação considerável, uma justificativa para a provisão
visã
pública (Barr, 1998, p. 278).

O entendimento do autor sobre pobreza não acompanha discussões críti-


itor

cas e complexas sobre o tema, porém ressalta-se aqui a exposição da dificul-


a re

dade em mensurar investimentos em políticas públicas. Barr (1998) pontua que


o bem-estar social é maximizado pela busca conjunta de eficiência e justiça
social, mas que tal entendimento sobre equidade é elusivo, impreciso. Ao
explorar essas discussões no setor da saúde, propõe-se explicitar a distinção
par

entre a saúde e a assistência médica. O principal objetivo da política de saúde,


é argumentado, é melhorar a saúde das pessoas.
Ed

Saúde, no entanto, deriva de muitas fontes, incluindo (a) padrões gerais de


vida, incluindo o nível de renda e sua distribuição, (b) escolha individual,
ão

por exemplo sobre dieta (abundância de frutas e vegetais) e estilo de vida


(exercício, evitando tabagismo, etc.), (c) o ambiente externo geral (por
exemplo, poluição), (d) o ambiente individual, como o tipo de trabalho (ou
s

ter um emprego), (e) a qualidade e disponibilidade dos cuidados de saúde,


ver

e (/) a herança de uma pessoa (por exemplo, força física e emocional). O


tratamento médico é, portanto, apenas parte da história. A política de saúde
deve olhar para todos os (fl) – (e), não apenas para os cuidados de saúde
definidos de forma restrita; a política, por exemplo, deve incluir ações
sobre a qualidade dos alimentos e educação pública sobre os benefícios

Flávia Lemos - 21982.indd 55 28/02/2020 13:12:52


56

para a saúde da dieta e decisões sobre estilo de vida, bem como a mobi-
lização de recursos e o gerenciamento do NHS (National Health Service)
(Barr, 1998, p. 279).

Barr (1998) ilustra a situação afirmando que, se não gastássemos nada


com a saúde, algumas pessoas morreriam desnecessariamente de queixas
triviais; se gastássemos toda a renda nacional em saúde, não haveria comida

or
e todos morreriam de fome. A saúde, então, é apenas uma entrada; o inves-

od V
timento é na melhoria da saúde. Porém é algo dificílimo de mensurar, uma

aut
vez que não pode ser pensado a partir de entendimentos causais simplórios.
O autor elenca: entre mortalidade infantil, expectativa de vida e estimativas

R
de carga de doença, até que ponto alguma melhoria na saúde é causada por
cuidados médicos?

o
A recuperação completa de um paciente pode ser devida inteiramente ao
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


tratamento que ele recebeu; ou poderia ser devido, no todo ou em parte,
aos seus poderes naturais de recuperação. A influência de fatores intangí-
veis (a vontade de viver) é crucial, mas impossível de medir. Da mesma
forma, melhorias nos resultados de saúde (por exemplo, expectativa de
visã
vida) podem ser devidas à melhoria da dieta, redução do tabagismo, ar mais
limpo e afins. Se esses fatores forem ignorados, tendemos a superestimar
os benefícios dos cuidados de saúde (Barr, 1998, p. 281).
itor
a re

Teorizar sobre investimentos em políticas públicas não é uma tarefa fácil,


e necessariamente deve passar por discussões de valores e direitos humanos,
como indicado por Barr (1998), que só podem ser bem feitas se entendidas
de maneira complexa. Para tanto, aqui aposta-se no entendimento bio-necro-
par

político de nosso governo brasileiro, entendendo-o como possibilidade mais


pragmática para o entendimento da multiplicidade de fatores presente em
Ed

nossas políticas de segurança pública. De forma ilustrativa, para retomada


direta da discussão acerca do tema, trazemos um trecho do debate travado
por Marcelo Freixo com o então deputado estadual Flávio Bolsonaro para o
ão

Jornal Extra. Segundo Freixo:

A ideia do papel do prefeito. [...] O que que cabe à cidade ajudar na con-
s

tribuição da segurança pública?! O prefeito não tem poder de polícia. [...]


ver

O prefeito pode fazer uma série de coisas. O prefeito pode investir numa
guarda municipal mais próxima, pode trabalhar junto com o governo do
estado em mapas da violência... [...] Onde que a violência foi reduzida,
onde que melhorou os índices de segurança pública?! [...] Investiram,
por exemplo, em iluminação pública. [...] É óbvio que só iluminação não

Flávia Lemos - 21982.indd 56 28/02/2020 13:12:52


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 57

vai garantir segurança pública, [...] mas é claro que o prefeito tem que
ser chamado!3

O trecho retirado do debate fornece a possibilidade de que se vislumbre


minimamente a complexidade de um projeto de segurança pública no Brasil.
Usando um exemplo de funções de um cargo executivo a nível municipal,
Freixo não apenas propõe a articulação entre as dimensões estadual e munici-

or
pal, como aponta um fator de segurança pública pensado em diversos países e

od V
ignorado no Rio de Janeiro: a iluminação pública. Tal fator não é comumente

aut
pensado para a garantia de segurança no Brasil, o que evidencia direciona-
mentos de nossas políticas nesse âmbito: em que se investe pela segurança?

R
Onde há segurança? De que maneira nosso Estado investe na melhoria da
segurança? E quem fica realmente mais seguro com tais políticas? Mais uma

o
vez, torna-se nítido que a segurança pública no Brasil é pensada para regiões
geográficas, classes e raças bastante específicas.
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

4. Conclusão
visã
Percebe-se que as discussões críticas acerca da garantia de direitos tor-
nam-se a ferramenta mais fundamental e pragmática a fim de elaborar dire-
trizes para políticas nacionais. Analisando certas racionalidades presentes no
itor

Estado brasileiro, prevê-se um determinado projeto social que se articula com


a re

as leis e se afasta delas de acordo com as formas de subjetivação e produções


de desejo imprimidas em cada contexto, podendo-se muitas vezes visualizar
uma produção de desejo por uma “ordem” ideal. Tal maquinário desejante
emerge atravessado por uma lógica colonial e linearizada, como uma ideia do
par

recorte de uma peça e sua substituição. Forma-se o entendimento de um “bem


social universal” e uma ilusão de neutralidade possível, a partir de um regime
Ed

de verdades capitalístico, individual e intimista. Assim se articula também a


ideia de ressocialização, que segue essa lógica, mas numa conjuntura em que
não se contesta sua inefetividade (projeto social).
ão

Apontar um novo estatuto de leis ou reduzir as problemáticas a novas


políticas públicas progressistas apenas evidencia como ignoramos o que existe
s

por aquilo que “deveria existir”, o que pode nos levar a lógicas simplórias
ver

de investimento e diretrizes políticas. Cada pessoa segue determinadas leis


e regras de maneiras que podem ser muito mais fiéis e estritas do que as
maneiras com as quais se relacionam às leis da sociedade; pensar sobre lógicas

3 <https://extra.globo.com/casos-de-policia/veja-como-foi-debate-de-flavio-bolsonaro-marcelo-freixo-sobre-
-seguranca-publica-20907174.html>.

Flávia Lemos - 21982.indd 57 28/02/2020 13:12:52


58

de aprisionamento deve ser um aproximar-se das normativas colocadas em


questão, dos regimes se sentido e desejo que ali se operam, fazendo evidenciar
o caráter transversal colocado em uma política pública. Flávia Lisboa (2018)
expõe a lógica criminal a partir de conflitos com as leis vigentes, visibilizando
racionalidades de um projeto político brasileiro de controle que esquadrinha,
encarcera e extermina uma determinada parcela da população brasileira.
Certos aspectos do que podemos entender como desenvolvimento de um

or
Estado acoplado ao neoliberalismo como modelo econômico caminham para

od V
privatizações dos direitos, como saúde e educação, promovendo um Estado

aut
cuja ocupação final é a da segurança pública. E a segurança pública, para
um cidadão modelar, em tal contexto, visa à garantia da propriedade privada

R
deste. Como pensar políticas públicas de segurança diante da exposição de
tais racionalidades? Entendemos que tal contexto produz urgência em uma

o
abordagem pragmática e humana do tema, cuja instrumentalização mais per-
tinente, no momento, se encontra nos estudos bio-necropolíticos.
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


visã
itor
a re
par
Ed
ão s
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 58 28/02/2020 13:12:52


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 59

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PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS:
experiências formativas do Vieses-UFC

or
Clara Oliveira Barreto Cavalcante
João Paulo Pereira Barros

V
Ingrid Sampaio de Sousa

aut
Larissa Ferreira Nunes
Ivne Alencar Farias
Vanessa Amarante de Souza

CR
do
1. Introdução

As conexões entre os campos da Psicologia e das campo das políticas


públicas têm crescido suscitado inúmeros debates nas últimas décadas. Do
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

são
ponto de vista acadêmico, reformas curriculares a partir das Diretrizes Cur-
riculares para os cursos de graduação em Psicologia têm buscado incluir
ra
disciplinas com essa temática na formação de estudantes. Já sob a perspectiva
da profissão, a criação do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Polí-
i
rev

ticas Públicas (CREPOP), em 2006, pelo Sistema Conselhos de Psicologia


exemplifica como essas conexões se tratam de um assunto também premente
(FERREIRA NETO, 2017).
to

Diversas produções acadêmicas destacam que as políticas públicas se


converteram em um dos principais campos de atuação de psicólogos, a partir
ara

do final da década de 80 do século XX (FERREIRA NETO, 2017; DIMENS-


TEIN; MACEDO, 2012; SILVA; CARVALHAES, 2016). Yamamoto (2004)
ver di

e Ferreira Neto (2017) pontuam que marcos importantes disso foram o fim
do regime militar, o processo de redemocratização e a constituição de 1988.
op

As áreas da saúde, com a criação do Sistema Único de Saúde e a Reforma


Psiquiátrica, e da Assistência Social, com a criação do Sistema Único da
E

Assistência Social, são exemplos desse fenômeno que possibilita a psicólogos


e psicólogas assumirem a condição de trabalhadores e trabalhadoras sociais,


o que pode se considerar uma tendência emergente, e não só de profissionais
liberais (FERREIRA NETO, 2010, 2017; FERRAZZA, 2016). Dessa forma,
é instigante problematizar a seguinte questão: que ressonâncias na formação e
atuação em psicologia são produzidas por sua crescente inserção em diversas
políticas públicas?
Por um lado, estudos como o de Brigagão, Nascimento e Spink (2011,
p. 199), por meio de análise de documentos do CREPOP, apontam como essa
inserção pode possibilitar à psicologia a “reinvenção da prática a partir da
interpretação das políticas”, mediante criação de técnicas e estratégias novas,

Flávia Lemos - 21982.indd 61 28/02/2020 13:12:53


62

e às políticas públicas mais diálogos entre diferentes disciplinas para a busca


por soluções a problemas sociais. Por outro, produções como as de Ferreira
Neto (2017) e Ferrazza (2016), inspiradas no projeto foucaultiano de realiza-
ção de um “diagnóstico do presente”, advertem-nos para o fato de que essa
inserção no campo das políticas públicas não necessariamente transparece
um compromisso ético-político da profissão com uma atuação progressista
ou transformadora de discursos e práticas. Em direção semelhante, Hunning

or
et al. (2014) frisam que processos de normalização e ajustamento, caros à

od V
constituição histórica das práticas psicológicas em suas relações com o que,

aut
sob a ótica foucaultiana, conhecemos como instituições de sequestro, podem
adquirir roupagens distintas nesses contextos de atuação emergentes.
Frente a tais práticas e situações acadêmico-profissionais, a partir das

R
ferramentas de autores como Foucault e Deleuze, cabe-nos cartografar as
forças em jogo, as singularidades dos acontecimentos, os estados mistos,

o
os agenciamentos e dispositivos, enfim, as dimensões macro e micropolí-
aC
ticas que envolvem essa atuação. Isso significa pensar as políticas públicas

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


sendo compostas por elementos heterogêneos e marcadas por embates, rela-
ções agonísticas de poder e saber entre diferentes atores sociais, nem todos
ligados ao Estado, a fim de “construir um aparato jurídico-institucional que
visã
oriente a resolução de conflitos em relação aos bens públicos” (FERREIRA
NETO, 2017, p. 33)
Por sua vez, também é relevante problematizar que experiências formati-
itor

vas no âmbito da graduação têm sido propiciadas em decorrência da sua apro-


a re

ximação com tais políticas públicas, já que uma das principais preocupações
advindas da crescente inserção da psicologia nas políticas públicas é garantir
uma formação condizente com a atuação nesses âmbitos e ao mesmo tempo
problematizadora desses âmbitos, ao invés de tomar psicologia, políticas
públicas e seus agenciamentos como auto-evidentes (FERRAZZA, 2016).
par

Ferreira Neto (2017) aponta que uma das ressonâncias possíveis é a realização
Ed

de novas perguntas: ao invés de se restringir à pergunta sobre qual o melhor


conhecimento a ser transmitido, privilegiando disputas entre saberes eurocên-
tricos e em suas aplicações locais, passam a ter lugar indagações como: “Que
ão

profissional desejamos formar? E para qual sociedade? Qual a profissão que


nossa sociedade necessita?” (FERREIRA NETO, 2017, p. 43)
Isso posto, o objetivo deste capítulo é discutir como atividades de for-
s

mação acadêmica do “VIESES: Grupo de Pesquisas e Intervenções sobre


ver

Violência, Exclusão Social e Subjetivação” têm contribuído para problema-


tizar condições, efeitos, desafios e possibilidades acerca das conexões entre
Psicologia e Políticas Públicas. Essas atividades têm se respaldado em aportes
teóricos da Psicologia Social que debatem violência, exclusão social e modos
de subjetivação, em suas articulações transdisciplinares tanto com referências

Flávia Lemos - 21982.indd 62 28/02/2020 13:12:53


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 63

pós-estruturalistas, a exemplo de Foucault, Deleuze, Guattari e Butler, quanto


pós/decoloniais, como Mbembe e Sayak Valencia, dentre outros/as.
Na produção deste texto, partimos da premissa de que tanto as atividades
formativas desenvolvidas pelo VIESES dentro da Universidade, tais como
grupos de estudo, seminários temáticos, ciclos de debate e eventos diversos,
quanto as extensões realizadas em diferentes territórios da cidade de Fortaleza-
Ce, contribuem para aprimorar processos formativos críticos e inventivos no

or
âmbito da psicologia frente a vicissitudes e horizontes concernentes às suas

od V
incursões no multifacetado campo das políticas.

aut
O texto está dividido em mais duas seções. Em uma delas, relatamos as
ações de um projeto voltado ao desenvolvimento de atividades acadêmicas
para estudantes do curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, no

R
tocante às conexões entre Psicologia, Políticas Públicas e Direitos Humanos.
Na outra seção, apresentaremos as atividades de um dos projetos de extensão

o
desenvolvidos também pelo VIESES, que enfoca o campo da socioeducação.
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

2. Projeto “Políticas Públicas e Direitos Humanos:


Potencializando a formação em Psicologia”
visã
São complexos os impasses e as possibilidades de atuação da Psicologia
em políticas públicas. Isso porque devem ser ressaltados, neste bojo, a hetero-
geneidade dessas políticas, a multiplicidade de perspectivas teóricas e episte-
itor

mológicas que orientam as práticas psi neste campo, bem como os diferentes
a re

caminhos que podem tomar tais práticas, movimentando-se desde a norma-


lização social à composição de resistência (SILVA; CARVALHAES, 2016).
Considerando a necessidade de pautar isso, o VIESES propôs, junto
à Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal do Ceará (UFC), o
par

projeto “Políticas Públicas e Direitos Humanos: potencializando a formação


em Psicologia”, contemplado pelo Programa de Bolsa de Apoio a Projetos da
Ed

Graduação dessa universidade, que visa ampliar estratégias de acolhimento a


estudantes na Universidade e no Curso e reduzir os índices de reprovações e
evasões. Esse projeto dirige-se a estudantes de psicologia da UFC, mas recebe
ão

em suas atividades estudantes de Psicologia de outras instituições de ensino


superior do estado e também de áreas afins. O objetivo do projeto é propiciar
o contato de discentes com discussões e vivências acerca das relações entre
s

os campos das políticas públicas, dos direitos humanos e seus desafios e pos-
ver

sibilidades para a Psicologia, a partir de metodologias grupais diversificadas,


como grupos de estudo, cinedebates, saraus, rodas de conversa, oficinas, rela-
tos de experiência, seminários temáticos, ciclos de debate e eventos diversos.
Nesse sentido, desde 2016 até o primeiro semestre de 2018, uma série de
atividades, voltadas ao âmbito da graduação e da formação dos estudantes de

Flávia Lemos - 21982.indd 63 28/02/2020 13:12:53


64

psicologia, vem sendo realizadas pelo VIESES. Esse conjunto de atividades


têm contribuído também para a problematização da formação, instigando
(re)pensarmos a relação entre teoria e prática e a segmentação entre distintos
campos da própria psicologia presentes na organização dos currículos. Ainda
nos é útil a noção de áreas de atuação para pensarmos o campo de trabalho
em psicologia? (FERREIRA NETO, 2011).
Tais ações têm nos auxiliado a refletir sobre as diversas possibilidades da

or
psicologia no campo das políticas públicas, mas também sobre alguns perigos
imanentes a esse contexto de inserção crescente. Um deles é o de investir

od V
numa formação excessivamente operativa e pragmática, em resposta ao viés

aut
conteudista de outrora. O perigo que aí se encontra é abdicar do devido aden-
samento conceitual e reiterar dicotomias entre teoria e prática. Concordamos

R
com Ferreira Neto (2011, p. 45) que “uma formação que tem na teoria seu
fundamento e na prática sua aplicação está longe de ser de fato uma formação

o
crítica”. Nesse sentido, uma pista interessante pode ser encontrada no diálogo
aC
entre Foucault e Deleuze sobre o papel do intelectual: “a prática é um conjunto

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma
prática a outra” (FOUCAULT, 1979, p. 70)
Feitas essas observações, a seguir apresentaremos algumas ações for-
visã
mativas que foram realizadas pelo projeto até o semestre 2018.1. Juntamente
ao relato das ações, traremos algumas problematizações que as amalgamam.
itor

2.1 Grupos de Estudo do VIESES


a re

Aconteceram seis grupos de estudos abertos a estudantes de graduação de


psicologia e áreas afins: três deles em 2017.1, um em 2017.2 e dois em 2018.1.
No primeiro semestre de 2017, foram criados espaços de discussão sobre “O
pensamento de Michel Foucault e suas contribuições ao debate sobre poder,
par

normalização e violência”, além de outro espaço formativo sobre “Pesquisa-


-intervenção com juventudes em contextos de violência”. Esses dois grupos
Ed

tiveram em comum o tema da violência. O primeiro grupo tinha uma proposta


de aprimoramento teórico, a fim de colocar em análise a violência como um
dispositivo. O segundo grupo, por seu turno, tinha um enfoque na discussão
ão

metodológica sobre perspectivas e estratégias de pesquisa participativa que


investissem na pesquisa COM juventudes, e não SOBRE juventudes, em
contextos marcados por violência.
s

Em 2017, também foi inaugurado o grupo de estudos sobre “Psicologia,


ver

Políticas Públicas e Direitos Humanos”. A proposta desse grupo é trabalhar


as conexões entre esses três elementos a partir de temáticas específicas, de
modo a refletir não só como a psicologia maquina intervenções no campo das
políticas públicas, mas também vem produzindo conhecimentos e pesquisas
nesse campo (GUARESCHI, 2017)

Flávia Lemos - 21982.indd 64 28/02/2020 13:12:53


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 65

Durante os encontros, em cada semestre, diversos temas foram debati-


dos: A noção de Direitos humanos e seus (des)encontros com a Psicologia e
as Políticas Públicas; O campo da saúde mental e a inserção da psicologia;
adolescentes “em conflito com a lei”, políticas sobre drogas e a perpetua-
ção de práticas manicomiais; Práticas de encarceramento e a fabricação da
delinquência: apostas ético-políticas da psicologia em tempos de volúpia
punitivo-penal; Políticas públicas e direitos humanos nos campos do gênero

or
e da sexualidade; Direitos humanos, Políticas públicas e Juventudes marcadas

od V
pela violência: implicações da (à) Psicologia; Impasses e reinvenções das

aut
políticas públicas no Brasil; Mídia e Produção de Subjetividades: violações
de direitos humanos e formas de resistência em debate; Políticas Públicas

R
de Assistência Social e a inserção da psicologia; Violência contra a mulher:
interseccionalidade entre gênero, classe e raça e desafios à aspectos éticos
para a atuação em Psicologia; Políticas Públicas de Saúde Mental e Políticas

o
Públicas no campo da Justiça: impasses e interfaces com a Psicologia. Esses
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

espaços foram sendo construídos conjuntamente e de modo horizontal entre


facilitadores e participantes (estudantes e profissionais convidados) em cada
edição do grupo.
visã
A partir de textos, relatos de experiências com a presença de convidados,
visitas a políticas públicas e exibição de documentários, no grupo foi possível
pautar possibilidades de atuação, levantar reflexões sobre questões ético-polí-
ticas pertinentes à formação e também sobre a psicologia como área de saber
itor

capaz de contribuir com planejamento, execução e avaliação de políticas públi-


a re

cas (REIS et al, 2014). Não obstante, a fim de exercitar movimentos críticos
e produção de novos horizontes, também pusemos em análise dilemas dessa
inserção em políticas públicas nos últimos anos, tais como as precarizações
das condições e dos processos de trabalho de profissionais de psicologia em
par

diferentes políticas públicas (CASTRO, 2011). Também discutimos aspectos


que remetem à seguinte ponderação de Guareschi (2017, p. 254),
Ed

[...] ainda temos que produzir práticas que engendrem problematizações


sobre determinadas concepções de subjetividade ou que priorizem visões
ão

individualistas [...] e que possam trabalhar para uma despolitização das


políticas públicas. [...] podemos buscar realizar práticas coletivas e demo-
cráticas para que os profissionais da Psicologia possam contribuir cada vez
s

mais para o reconhecimento dos cidadãos enquanto sujeitos de direitos.


ver

No primeiro semestre de 2018, deu-se início ao grupo de estudos “Bio/


Necropolítica: diálogos entre Mbembe, Foucault e Agamben”, o qual teve por
seu objetivo estudar a relação entre a noção de necropolítica, a questão da vio-
lência e das políticas de inimizade na contemporaneidade e suas implicações

Flávia Lemos - 21982.indd 65 28/02/2020 13:12:54


66

nos modos de subjetivação. Tal assunto foi escolhido mediante os interesses


das extensões e pesquisas do VIESES. Discutindo aspectos abordados pelo
pensador camaronês Achille Mbembe, como democracia, neoliberalismo,
sociedade da inimizade, necropolítica e violência colonial, foi proposta uma
(re)leitura das noções de biopolítica e estado de exceção, vitalizando a crítica
social a partir das periferias do capitalismo (HILÁRIO, 2016)

or
2.2 Seminários Temáticos do VIESES

od V
aut
Atividade iniciada em 2017, os seminários temáticos são momentos
formativos organizados pelo VIESES e abertos a estudantes e profissionais
da Psicologia e áreas afins, com intuito de propiciar o contato com o que

R
vinha-se pensando e observando, no fazer cotidiano das práticas sociais, em
torno do fenômeno da violência urbana, no que diz respeito às juventudes

o
marginalizadas de territórios com altos índices de homicídios (Bom Jardim,
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


Barra do Ceará, Jangurussu e Mondubim) nos quais o grupo esteve inserido
durante o ano.
Em 2017, foram realizados quatro Seminários Temáticos, com os seguin-
tes temas: “Juventudes e modos de habitar a cidade”; “Políticas de pesquisa
visã
em Psicologia”; “Análise epidemiológica e espacial dos homicídios na ado-
lescência em Fortaleza” e “Conflitos territoriais em Fortaleza”. Já no primeiro
semestre de 2018, ocorreram quatro: “Processos de subjetivação e esquizoa-
itor

nálise”; “Psicologia Social da violência”; “Gênero e Necropolítica morte de


a re

mulheres no CE” e “Gênero, masculinidade e violência”.

2.3 Ciclos de Debates do VIESES


par

Outra ação desenvolvida foram os Ciclos de Debates do VIESES, evento


de maior alcance que faz ressoar a um público mais amplo questões atuais,
Ed

relacionadas à problemática da violência e seus tensionamentos ao campo das


políticas públicas. Organizado no modelo de mesa-redonda, com convidados
e convidadas de filiações institucionais diversas e diferentes lugares de fala,
ão

como universidades, movimentos sociais, equipamentos das políticas públicas,


entre outros. Promoveu-se, ao total, seis Ciclos de Debates. O primeiro ciclo
foi sobre Extermínio de adolescentes e jovens no Brasil, o segundo acerca das
s

Políticas sobre drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental, o terceiro sobre


ver

Juventudes, Violências e Mídias e o quarto sobre Juventudes, Gênero e Práticas


de Resistência, todos esses no ano de 2016. Em outubro de 2017, tivemos o
V Ciclo de Debates, com o tema Violência institucional contra adolescentes,
que contou com a composição de duas mesas e a presença de cinco convida-
dos no total para debater o sistema socioeducativo cearense e a problemática

Flávia Lemos - 21982.indd 66 28/02/2020 13:12:54


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 67

dos homicídios na adolescência. No primeiro semestre de 2018, ocorreu o VI


Ciclo de Debates, abordando o tema Racismo e Violência.

2.4 Rodas de Conversa sobre ações de pesquisa, ensino e extensão


em Psicologia no campo dos Direitos Humanos

Com o objetivo de facilitar a ambientação de estudantes do início do

or
curso, houve, em 2016 e 2017, a participação do VIESES durante a semana

od V
de recepção dos alunos recém-ingressos e, também, na disciplina “Introdução

aut
à Universidade e ao Curso”, momentos em que ações de pesquisa, ensino
e extensão do núcleo sobre violência, juventude e direitos humanos foram
apresentadas. No início do primeiro semestre de 2018, tivemos a apresen-

R
tação das atividades desenvolvidas pelo VIESES na recepção dos alunos
recém-ingressos na Universidade e no processo seletivo realizado para se

o
vincular ao núcleo.
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

2.5 Participação na organização e realização de eventos envolvendo


Direitos Humanos, Políticas Públicas, Juventude e Psicologia
visã
Em maio de 2017, durante a programação que marcou o Dia da Luta
Antimanicomial, houve apoio do VIESES na organização e na divulgação do
evento “O enclausuramento da loucura e da pobreza: uma discussão a partir
itor

de práticas de encarceramento”, promovido em conjunto com o projeto de


a re

extensão Pasárgada.
Em agosto do mesmo ano, ocorreu o VII Simpósio Internacional sobre
a Juventude Brasileira – JUBRA, evento bianual ocorrido em Fortaleza e
que recebeu participantes de todo o país, o qual, também, contou com nossa
par

participação na comissão organizadora e mobilizou estudantes de Psicologia


para a organização. Já em novembro, ocorreu o I Seminário sobre Segurança,
Ed

Direitos Humanos e Convivialidade do Centro de Humanidades da UFC, cujas


programação e divulgação também contaram com nossa participação; e lugar
onde discutiu-se a situação atual da violência no campus, em seu entorno e
ão

na cidade.
Desde fevereiro de 2018, o VIESES participa do “Movimento Cada Vida
Importa”, mobilização de docentes e estudantes de dezenas de instituições de
s

ensino superior do Ceará para sensibilizar a comunidade acadêmica e geral


ver

quanto à violência nas periferias do Ceará, atentando-se principalmente à


juventude. Em abril de 2018, participamos da organização do Segundo Semi-
nário do Movimento Cada Vida Importa, abordando impactos da desigualdade
social no crescimento da violência no Ceará. (NEGREIROS; QUIXADÁ;
BARROS, 2018)

Flávia Lemos - 21982.indd 67 28/02/2020 13:12:54


68

Em maio de 2018, em função do mês alusivo à Luta Antimanicomial,


realizou-se novamente, em parceria com o projeto de extensão Promoção de
Arte, Saúde e Garantia de Direitos (Pasárgada – UFC), a mesa “Enclausura-
mento da Pobreza e da Loucura: diálogos entre saúde mental e justiça”, sendo
apoiado também o II Sarau Antimanicomial. Essas atividades compuseram
a programação da II Semana da Luta Antimanicomial, organizado pelo Cen-
tro Acadêmico de Psicologia Fátima Sena da UFC com o apoio do Fórum

or
Cearense da Luta Antimanicomial (FCLA). Em junho, houve participação
e organização na exibição do filme “Cidade de Deus”, em parceria com o

od V
Núcleo Cearense de Estudos e Pesquisas sobre a Criança (Nucepec), da UFC,

aut
e o Movimento Cada Vida Importa, para discutir o tema do extermínio de
adolescentes e jovens no Brasil.

R
3. Projeto Histórias Desmedidas: trajetórias

o
juvenis em outros riscos
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


O Projeto “Histórias Desmedidas: Trajetórias Juvenis em Outros Riscos”
teve início em 2016 e tem como foco o acompanhamento de adolescentes
a quem se atribui o cometimento de ato infracional e que se encontram em
visã
cumprimento de medida socioeducativa. Trabalhando em duas frentes, possui
dois propósitos principais: 1) Contribuir com o monitoramento do sistema
socioeducativo local realizado por entidades da sociedade civil ou pelo sistema
itor

de justiça, incidindo técnica e politicamente no campo da defesa de direitos de


juventudes na cidade de Fortaleza, com foco na atuação da psicologia nesse
a re

campo. 2) Construir espaços coletivos de problematização com adolescentes


a quem se atribui o cometimento de ato infracional e que cumprem medida
socioeducativa acerca de suas trajetórias e perspectivas de vida, por meio da
discussão de temas ligados à condição juvenil na contemporaneidade e ao
par

campo dos direitos humanos.


As ações têm como intuito desnaturalizar processos de violação de direi-
Ed

tos e assujeitamentos juvenis e potencializar o compartilhamento de histórias,


por vezes, invisíveis e inaudíveis socialmente. Busca, também, potenciali-
zar dispositivos de intervenção voltados para o monitoramento de unidades
ão

socioeducativas, bem como instituições governamentais e de terceiro setor


que lutam pelos direitos da infância e juventudes. A realidade cearense vem
sendo denunciada nos monitoramentos produzidos pelos Fórum DCA, o qual
s

essa frente atua. O 4º Monitoramento do sistema socioeducativo, por exem-


ver

plo, apresentou inúmeras violações de direitos, violências, insalubridades


nas dependências dos centros e casos de violência institucional, os quais
culminaram em uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Huma-
nos (CIDH), resultando uma medida cautelar contra o governo brasileiro em
decorrência dessa realidade nas instituições de privação de liberdade.

Flávia Lemos - 21982.indd 68 28/02/2020 13:12:54


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 69

Temos percebido que as discussões propostas nas atividades com os/


as jovens em cumprimento de medida socioeducativa, com profissionais e
com grupos de defesa de direitos da infância e juventude subverte a lógica
que acaba por essencializar a associação entre jovens negros, pobres, risco
social e violência (LEMOS; SCHEINVAR; NASCIMENTO, 2014), tal lógica
opera por três funções: culpabilização, segregação e silenciamento. Essas três
funções são apontadas por Guattarri e Rolnik (2005) como parte da economia

or
subjetiva capitalística.

od V
Nesse sentido, consideramos que as forças capitalísticas, as quais têm

aut
incidido de forma mais violenta na produção da infância, adolescências e
juventudes desiguais, afirmam-se por modos de dominação no plano econô-
mico e social, assim como na produção de subjetividade. Essa produção de

R
subjetividade, no contexto do Capitalismo Mundial Integrado, é serializada,
normalizada e centralizada em torno de uma imagem e consenso, sendo esse

o
seu enquadramento, o que permite a sua propagação na forma de produção e
aC
consumo das relações sociais. (GUATTARI; ROLNIK, 2005). Constitui-se,
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

dessa forma, um desafio para a psicologia produzir em meio a essas perversas


lógicas, bem como a ampliar sensibilidades, de forma a reconhecer os pontos
de rupturas e os focos de resistência ético-estético-político.
visã

3.2.1 Colaboração com monitoramento do sistema socioeducativo


local, com produção de relatório e recomendações
itor
a re

Em relação ao primeiro objetivo do projeto, contribuímos com a reali-


zação do monitoramento do sistema socioeducativo do Ceará realizado pelo
Fórum DCA. Em 2016, as atividades se deram a partir da colaboração com o
monitoramento do sistema socioeducativo por meio de uma parceria com o
par

Fórum-DCA, os monitoramentos foram nos Centros de Referência em Assis-


tência Social (CREAS) e nas unidades socioeducativas. Em 2017, ampliamos
Ed

nossa colaboração por meio de visitas, em conjunto com membros do Fórum,


a 10 centros educacionais de Fortaleza, também auxiliando a equipe do Fórum
DCA. Essas ações resultaram no quarto relatório de monitoramento do sis-
ão

tema socioeducativo do Ceará do Fórum DCA-CE. Nesse monitoramento, ao


todo, foram escutadas 200 pessoas, das quais 115 são adolescentes socioe-
ducandos, considerados os principais beneficiários da socioeducação, o que
s

atesta o impacto social dessa frente de ação de nosso projeto de extensão e a


ver

importância desse tipo de colaboração, da universidade junto à sociedade civil


organizada. Ademais, foi realizada, na sede do CEDECA-CE, uma oficina de
elaboração de um conjunto de recomendações ao poder público e ao sistema
de justiça acerca do sistema socioeducativo local, da qual integrantes do nosso
projeto também participaram. Esses produtos técnicos tiveram seu lançamento

Flávia Lemos - 21982.indd 69 28/02/2020 13:12:54


70

na Universidade Federal do Ceará, no V Ciclo de Debates do VIESES- UFC,


ocorrido no segundo semestre de 2017, que contou com a presença de 100
participantes, entre representantes do legislativo, do UNICEF, de coletivos
juvenis, do CEDECA e do sistema socioeducativo, além de estudantes da
psicologia e de áreas afins, da UFC e de outras IFES.
No semestre 2018.1, as atividades foram deslocadas para a contribuição
do Plano Decenal do Socioeducativo do Ceará, o qual consiste em um docu-

or
mento de metas, destinado a cumprir durante uma década (2018-2028), para a

od V
melhoria do sistema socioeducativo no Estado. Os próximos monitoramentos

aut
no sistema socioeducativo se darão a partir desse plano, por isso sua impor-
tância. A principal atividade consistiu em compor a Comissão Socioeducativo
composta, também, pelo Fórum-DCA, Cedeca, Comdica, Cress-Ce e CRP-11.

R
Outra atividade se trata da Comissão Intersetorial de Elaboração do Plano
Decenal, a qual definirá, até o fim do ano de 2018, o Plano Decenal final. Nas

o
reuniões, foi possível identificar algumas denúncias de familiares e socioe-
aC
ducandos/as, a partir das organizações não governamentais presentes, como:

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


dificuldade de atendimento de saúde, perseguições de profissionais por parte
de direções devido às denúncias que estes fazem da violência institucional
contra adolescentes nas unidades de internação, novas rebeliões, cuja uma
visã
delas culminou na morte de uma jovem em cumprimento de medida socioe-
ducativa no Centro Cardeal Aloísio Lorscheider no mês de junho de 2018.
Ajudamos ainda a promover, em conjunto com o Centro de Referência
itor

Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP) do CRP-11, uma oficina


a re

sobre a atuação do psicólogo em medidas de internação. Como produto dessa


oficina, colaboramos na atualização do documento de Referências Técnicas
para a atuação do psicólogo nas medidas de internação, o qual tem por obje-
tivo balizar a atuação de psicólogos, em todo o Brasil, inseridos em medida
de meio fechado.
par
Ed

3.2.2 Oficinas com Jovens em Cumprimento de Medida


Socioeducativa de Prestação de Serviço à Comunidade (PSC) no Cuca
da Barra do Ceará.
ão

Concernente à segunda frente do projeto, Em 2016, foram realizadas ati-


vidades grupais em formato de oficinas em um grupo composto 10 adolescen-
s

tes, de 15 a 17 anos, em cumprimento de medida socioeducativa de prestação


ver

de serviço à comunidade (PSC) no Cuca da Barra do Ceará, totalizando 5


encontros. Em 2017, essas atividades resultaram em 8 oficinas com outros 10
adolescentes na mesma condição as quais tiveram frequência quinzenal. Os
temas das oficinas são escolhidos pelos participantes, tais como: trajetórias
juvenis em territórios das periferias urbanas; racismo; ECA; profissionalização

Flávia Lemos - 21982.indd 70 28/02/2020 13:12:54


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 71

e acesso ao mercado de trabalho; relações com a violência e medidas socioe-


ducativas; injustiças sociais e perspectivas de futuro. Nessa mesma edição,
foi proposto que o grupo participante criasse, a cada encontro, um produto a
ser compartilhado com o equipamento e à comunidade, a partir das temáticas
discutidas, tais como murais informativos sobre direitos de crianças e adoles-
centes, letras de rap, grafite, fanzine, fotografias que pudessem estampar as
dependências do equipamento, etc. No tocante a esses produtos, destacou-se,

or
ao final do semestre, a produção de um vídeo com ajuda dos adolescentes sobre
o Cuca Barra, com o intuito de que fosse apresentado a novos adolescentes

od V
jovens que chegassem ao equipamento, para que estes pudessem conhecê-lo

aut
sob a perspectiva daqueles que o frequentam e que nem sempre adquirem
visibilidade e dizibilidade.

R
3.2.3 Campanha de discussão sobre a Redução da Maioridade Penal

o
com Jovens em parceria com a Rádio Cuca
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Em meados de 2017, expandimos as ações ligadas ao segundo objetivo


do Projeto para o Cuca do Mondubim. Naquela época, mais uma vez estava
em vigor a discussão em torno de propostas de redução da maioridade penal.
visã
Assim, propusemos uma campanha de discussão sobre essa questão com
jovens que participam da equipe de comunicação da Rede Cuca, a fim de
que novas narrativas sobre a violência urbana e responsabilização juvenil
itor

pudessem ser construídas e pudessem circular no equipamento. Essa atividade


surge em contraponto a produção de sentidos vinculados no cotidiano de
a re

grandes mídias que perpetuam a naturalização da violência e criminalização


da infância e juventude negra e periférica.
Assim, nossa intervenção problematizou questões como o recrudesci-
mento da lógica penal-punitiva, sua seletividade racial, bem como a gestão
par

da pobreza por meio do encarceramento em massa, o perfil dos jovens encar-


cerados e privados de liberdade e a ineficiência do sistema penal brasileiro, a
Ed

exemplo do estadunidense, na redução dos índices de violência e da sensação


de insegurança social. A campanha se iniciou com uma oficina sobre redução
da maioridade penal com 15 jovens da equipe de comunicação dos Cuca
ão

Barra, Jangurussu e Mondubim, responsáveis por produzir conteúdo acessível


a jovens que frequentavam os três Cucas. Na oficina, foram discutidas 18
razões divulgadas pelo Conselho Federal de Psicologia contrárias à Redução
s

da Maioridade Penal. Foram debatidos também os modos como os oligopólios


ver

midiáticos abordam essa questão e como é possível usar o dispositivo da mídia


para produzir outras leituras sobre o assunto que contemplem as perspectivas
das juventudes periféricas, principais alvos da volúpia punitivo-penal. Foram
produzidos 18 conteúdos resultantes dessa oficina, na forma de spots, a serem
veiculados pela Rádio Cuca das três instituições durante o mês de novembro.

Flávia Lemos - 21982.indd 71 28/02/2020 13:12:55


72

3.2.4 Acompanhamento de grupo de adolescentes em cumprimento


de medida socioeducativa de Liberdade Assistida (L.A) e
acompanhamento das acolhidas de adolescentes em cumprimento de
PSC e L.A no CREAS da Regional V.

Outra atividade do ano de 2018, relativa à segunda frente, foi a inserção,

or
por meio de observações participantes, em cinco encontros de um grupo de
adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de Liberdade Assis-

od V
tida, no CREAS da Secretaria Executiva Regional V, que que atende pessoas

aut
do Grande Bom Jardim e Mondubim, contextos onde o VIESES já atuava. Em
média participaram do grupo 15 adolescentes, em sua grande maioria do sexo

R
masculino. Acompanhamos discussões relacionadas a temas como racismo,
hip hop/cultura negra e capoeira como expressão cultural, conduzidas por

o
educadores sociais contratados pelo Governo do Estado do Ceará. Ao término
aC
do grupo, a atividade de inserção foi o acompanhamento de três acolhidas a

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


novos adolescentes e jovens, responsabilizados com medida socioeducativa
de PSC e LA no referido CREAS. Estas consistem em momentos de recepção
por parte da equipe do equipamento, que expõe ao adolescente e ao seu parente
visã
responsável, que o acompanha, como funciona o cumprimento da medida.
Em 2018.2, está previsto o desenvolvimento de outro grupo de discussão,
a partir de oficinas semanais sobre experiências juvenis e direitos humanos,
itor

em um formato semelhante aos que já realizamos na Barra do Ceará, conforme


a re

mencionado acima. Nesta oportunidade, porém, pactuamos a execução con-


junta do grupo com o Projeto Traficando Saberes, do Laboratório de Estudos
da Violência (LEV), ligado ao Departamento de Ciências Sociais da UFC,
que já vinha realizando ações no referido CREAS desde 2017.
par

4. Considerações finais
Ed

Por meio de suas ações de formação acadêmica dentro da universidade


e de extensão universitária, o VIESES busca contribuir com a formação de
ão

estudantes que problematizem o campo das políticas públicas, a inserção da


psicologia nesse contexto, ao mesmo tempo em que criam possibilidades de
ação inventiva nesse campo.
s

Com o projeto de extensão “Histórias Desmedidas: Trajetórias Juvenis e


ver

Outros Riscos”, buscamos desenvolver nos estudantes envolvidos os seguintes


aspectos: maior conhecimento das possibilidades de inserção da Psicologia no
enfrentamento de violências e no sistema socioeducativo; autonomia e proa-
tividade no desenvolvimento de atividades de campo; capacidade de trabalho

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 73

em equipe e de co-engendramento de aspectos teóricos e práticos; capacidade


de diálogo com atores sociais da cidade; competência para operar crítica e
criativamente com dispositivos grupais, na perspectiva de potencialização de
processos de singularização; desenvolvimento de competências na elaboração
de relatórios técnicos.
Almejamos ainda que sejam criadas, em conexão com o ensino e a prática

or
de pesquisa, ações que oportunizem aos estudantes e ao público envolvido
tanto a potencialização de reflexões e deslocamentos atinentes à efetivação

od V
da cidadania de juventudes que habitam as margens urbanas, quanto o desen-

aut
volvimento de ferramentas de intervenção que problematizam a escalada de
violências contra esses segmentos sociais, numa perspectiva micropolítica,

R
e as respostas tradicionais ao problema da violência urbana, as quais têm
passado pelo recrudescimento de lógicas punitivo-penais.

o
aC
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visã
itor
a re
par
Ed
s ão
ver

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EL PROYECTO DE CIUDAD CREATIVA
Y EL ENTORNO SOCIAL DEL PARQUE
MORELOS DE GUADALAJARA4

or
V
Bernardo Jiménez-Domínguez

aut
1. Introducción

CR
do
Las ciudades latinoamericanas, como afirma Borja (2003), han confun-
dido la urbanización con la sub-urbanización, de ahí la enorme fragmentación
político-administrativa, social y de usos con la consecuente privatización,
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disminución y/o abandono del espacio público.


são
Por el contrario, la ciudad integrada se caracteriza por el espacio público
que se ejerce tradicionalmente en plazas, parques y calles (en sus esquinas y
ra
aceras), cuyo acceso universal, calidad y desarrollo garantizan la identidad
i
colectiva y el ejercicio de la ciudadanía. El espacio público supone pues,
rev

dominio público, uso social colectivo y multifuncionalidad.


En ese sentido, la negación de la ciudad es el estrechamiento del espacio
to

público, el aislamiento, la exclusión de la vida en común y de la diversidad


urbana, la segregación de la ciudad fragmentada que funciona asimétrica-
ara

mente alrededor del automóvil y de centralidades cerradas sobre sí mismas,


como los centros comerciales.
ver di

Por todo lo anterior se ha planteado la ciudad sostenible, el modelo


local de la ciudad compacta, inteligente y creativa que permite regenerarla
op

y la incorporación simultánea a nivel de la gestión urbana de la participa-


ción ciudadana. Es decir, en el trasfondo del asunto aparece la democracia
E

participativa como marco de los proyectos viables de regeneración urbana


(Jiménez & López, 2000).

2. El modelo de Ciudad Compacta

El modelo de ciudad compacta se relaciona de forma estrecha con el


objetivo vigente de la ciudad sostenible porque busca disminuir el consumo
per cápita de energía, implica aire y agua más limpios, menor congestión

4 Esta es una versión resumida de un texto previo presentado en la Mesa “Gentrificación y el Proyecto de la
Ciudad Creativa Digital, en el Museo Regional de Guadalajara, el 19 de julio de 2018.

Flávia Lemos - 21982.indd 77 28/02/2020 13:12:55


78

de tráfico y espacios públicos abiertos e interconectados dado que la ciudad


sostenible es por definición una ciudad caminable. La ciudad compacta
según Rogers (2006), es una ciudad densa y socialmente diversa en la que se
sobreponen las actividades económicas y sociales y en la que las comunidades
están concentradas en torno a barrios.

3. Críticas al modelo de Ciudad Compacta (CC)

or
od V
La CC se ubica en lo que se ha denominado la paradoja entre deseabilidad

aut
urbana y habitabilidad suburbana, presente en conceptos actuales tales como
el de la misma ciudad compacta, pero también en otros relacionados como los
de ciudad creativa, ciudad digital, crecimiento inteligente, comunidad sana,

R
nuevo urbanismo y en conjunto, desarrollo urbano sostenible (DUS). Las
Ciudades Compactas son llamadas también, ciudades inteligentes, creativas,

o
desarrollos orientados al tránsito o pueblos neotradicionales como parte del
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


movimiento de crecimiento inteligente. Sin embargo, según Neuman (2005),
la evidencia empírica sobre la relación entre la revitalización de la CC y la
sostenibilidad urbana es de una correlación negativa, débilmente relacionada
o correlacionada solo en términos limitados y los estudios empíricos no son
visã
conclusivos sobre el vínculo entre mayor densidad y la reducción de viajes
en auto, que es una de sus metas.
itor

4. El Desarrollo Urbano Sostenible (DUS)


a re

La problemática urbana señalada y la discusión de modelos alternativos


es un reconocimiento implícito de la insostenibilidad del modelo actual de
desarrollo en todo el planeta y a todos los niveles. A partir de ello se abre
par

un espectro amplio, ambiguo y contradictorio de posiciones. Los debates y


aplicaciones van desde aquellos que piensan que el modelo actual todavía
Ed

aguanta un tiempo adicional de maltrato ambiental, asimetría social y ausencia


de participación política de la ciudadanía a nivel local y a nivel global, hasta
los que luchan por cambios inmediatos y urgentes. Por eso se habla de una
ão

sostenibilidad débil y una fuerte y ello se hace también desde diferentes


posiciones de poder e intereses que mueven la geopolítica Norte/Sur. Fer-
nández (2000) ha planteado que la sostenibilidad debe darse no solo a nivel
s

ecológico y ambiental, sino también a nivel social y político.


ver

Pero tal vez la mejor respuesta al tema de la sostenibilidad urbana ha


sido la Agenda Copenhagen para las ciudades sostenibles: 10 principios para
la gobernanza sostenible de la ciudad (2007). Esta agenda replantea la rela-
ción de competencia entre la ciudad y la naturaleza para redefinir a la ciudad
como un organismo autosostenible que se basa en el sentido de ciudadanía y

Flávia Lemos - 21982.indd 78 28/02/2020 13:12:55


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 79

responsabilidad individual. Las ciudades sostenibles son ciudades participa-


tivas en las que la planeación urbana es multidisciplinaria y cooperativa
y su eje es la gente más que el diseño aislado. En ellas las empresas forman
parte de la planeación participativa y asumen su responsabilidad en la soste-
nibilidad urbana. La cooperación global se considera esencial para resolver
los problemas de las ciudades en desarrollo. La gobernanza flexible y una
mentalidad abierta a los cambios inesperados e impredecibles es vital para

or
afrontar las situaciones de crisis. Los líderes urbanos deben estar capacitados

od V
para lidiar con las interconexiones complejas de las nuevas instituciones y

aut
sus asociados. Dicha agenda se extendió a las 17 Metas para el desarrollo
sostenible en 2018 que abarcan el contexto propiciatorio realista para ir mas
allá del discurso tradicional sobre el tema: en primer lugar, acabar con la

R
pobreza en todas sus formas y en todas partes. Luego sigue acabar con el
hambre, lograr la seguridad alimentaria, mejorar la nutrición y promover la

o
agricultura sostenible. En tercer lugar, asegurar vidas saludables y promover
aC
el bienestar para todos y para todas las edades. De ahí se sigue con la inclu-
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

sividad y educación de calidad para promover oportunidades educativas para


todos y para toda la vida. Mas adelante se enfatiza la igualdad de género para
empoderar a todas las mujeres y niñas. Y en séptimo lugar se plantea energía
visã
sostenible, confiable y al alcance de todos. Mas adelante que el crecimiento
económico sostenido, inclusivo con empleo productivo y trabajo decente
para todas las personas. Para ello se debe promover infraestructura resiliente
itor

y una industrialización innovadora y sostenible. Es indispensable reducir la


a re

desigualdad entre y dentro de los países. Hacer que los asentamientos sean
humanos y las ciudades sean incluyentes, seguros, resilientes y sostenibles.
Asegurar los patrones de producción y consumo sostenibles. Hay que impul-
sar acciones urgentes para combatir el cambio climático y su impacto. La
conservación y uso sostenible de los océanos, mares y recursos marinos para
par

el desarrollo sostenible. Proteger, restaurar y promover el uso sostenible de


Ed

los ecosistemas terrestres, manejo sostenible de bosques, la lucha contra la


desertificación y detener y revertir la degradación de la tierra y la pérdida de
la biodiversidad. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para el desarrollo
ão

sostenible proveyendo el acceso a la justicia para todos construyendo institu-


ciones transparentes e inclusivas a todos los niveles. Finalmente, fortalecer
los medios para la implementación y revitalización de la colaboración global
s

para poder lograr un auténtico desarrollo sostenible.


ver

El modelo de ciudad compacta, creativa y sostenible como alternativa


vigente busca a través de una gestión municipal consecuente la preservación
de su patrimonio y el buen funcionamiento económico a partir de proyectos de
revitalización urbana que hacen competitiva las ciudades de forma sostenible
y equitativa. Pero cuando las oportunidades de regeneración urbana se dan

Flávia Lemos - 21982.indd 79 28/02/2020 13:12:55


80

prioritariamente como negocios a costa de los habitantes de los centros


históricos o patrimoniales con la consecuente corrupción, tenemos como una
posible consecuencia oculta, el fenómeno denominado gentrification en la
literatura de los estudios urbanos, que significa literalmente aburguesamiento,
a partir del cual con la excusa del embellecimiento y la revalorización eco-
nómica, los habitantes originales son gradualmente sustituidos por otros de
mayor capacidad adquisitiva, dejando de lado la perspectiva social, cultural

or
e histórica de un enfoque simétrico, integral y sostenible. En ese sentido, la

od V
sostenibilidad urbana es multidimensional y asume una ética de las ciudades

aut
que solo es posible a partir de las personas en su entorno local. Tal como se
planteó en el Fórum Barcelona en 2004, son los residentes los verdaderos

R
activos a ser incluidos en los procesos de revitalización urbana. Por eso
es preciso proteger la identidad cultural y controlar a los agentes inmo-
biliarios para que se adapten a ella y no que pasen por encima con justi-

o
ficaciones puramente especulativas, inmediatistas y unilaterales. O como
aC

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lo plantea la Agenda Copenhagen, el diseño y la arquitectura deben partir de
los valores de los ciudadanos y el respeto del ambiente, de su inclusión como
ventaja y enriquecimiento de los proyectos urbanos, porque es la gente la
visã
que hace la ciudad, no los edificios. Son ellos los verdaderos expertos de
la ciudad, no los burócratas.

5. El Parque Morelos: De la oferta de la ciudad


itor

compacta a la ilusión de la ciudad digital


a re

Aprovechando la oportunidad de los Juegos Panamericanos 2011, el


Ayuntamiento de Guadalajara definió en 2008 un proyecto de vivienda para
las 8 mil personas de las delegaciones nacionales asistentes a los Juegos en
par

los alrededores del Parque Morelos, que impulsara a la vez la revitalización


del Centro Histórico. Las autoridades de planeación urbana lo conceptualiza-
Ed

ron como un proyecto sostenible para la re-densificación del centro según el


concepto de ciudad compacta, la generación de espacios públicos conectados
ão

por corredores peatonales, la revitalización del patrimonio construido y la


creación de un sistema de BRT en la aledaña Calzada Independencia.
El Ayuntamiento contaba ya con la propiedad del 70% del suelo pro-
s

yectado y compró 54 propiedades que se ubican dentro del espacio de lo que


ver

se conoció como el proyecto oficial para la Villa Olímpica (que es ahora el


núcleo de lo que pretende ser la CCD). Tanto los vecinos afectados, como
la ciudadanía, e incluso los colegios profesionales, centros de investigación
y universidades, desconocían el proyecto. Lo cual supone que no fueron

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 81

convocados ni incluidos en su definición. De ahí vendrían buena parte de


los problemas.
El diseño se resolvió a través de una definición unilateral al asignar
edificios a arquitectos de renombre internacional y nacional, y a nivel local
se hizo un concurso en el que se adjudicaron 6 edificios de un total de 13.
Igualmente se asignó el proyecto de renovación del Parque Morelos y de la
Plaza de la Acequia y se encargó un plan maestro a un especialista. Se creyó

or
de forma unilateral que los vecinos estarían conformes con el precio por

od V
encima del mercado vigente que les ofrecía el Ayuntamiento por sus viviendas

aut
o con el plan de convertirse en inversionistas. Pero no fue así, en este lugar
hay ciudadanos que han sido vecinos por más de tres generaciones y se sien-

R
ten satisfechos y orgullosos de vivir ahí. Son conscientes de su patrimonio,
cultura y relaciones de cercanía entre vecinos y con el centro histórico de la

o
ciudad. Priorizan todo lo anterior pese al deterioro creciente de la zona y en
aC
especial del abandono del Parque Morelos. Es decir, a su manera los vecinos
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ya vivían la ciudad compacta en pleno centro histórico de la ciudad. Su


exclusión inicial se tornó en rechazo al proyecto y generó un movimiento de
oposición ante la actitud cerrada del Ayuntamiento con respecto a los recla-
visã
mos de los vecinos a quienes se les prometió aclarar la situación, incluirlos y
darles mayor información sobre el proyecto, lo mismo que sucede ahora solo
en el discurso. Pero como es sabido, el proyecto fracasó y fue dejado de lado.
itor

A inicios de 2012 se anunció públicamente −y lo hizo en Guadalajara


a re

nada menos que el presidente Calderón− que el nuevo proyecto para la rege-
neración del parque, su entorno demolido y el centro histórico como tal, era
la creación de la Ciudad Creativa Digital con base en un estudio realizado
por el MIT en el que se seleccionó a la ciudad como el espacio más adecuado
par

para una iniciativa de negocios digitales. Se promocionó como un modelo


para posicionar a México en un lugar de liderazgo creativo a nivel global, a
Ed

la vez que impulse el desarrollo urbano sustentable. En dicho medio la CCD


promete ser tanto un laboratorio para probar innovaciones, como un mag-
neto para impulsar la industria digital. Se pretende que alrededor del Parque
ão

Morelos se construyan hoteles, restaurantes, centros comerciales y hospitales


de clase mundial interconectados con el centro histórico a partir de espacios
públicos, puentes y senderos peatonales para facilitar un espacio de trabajo.
s

Es decir, el parque visto como una escenografía ajardinada, interco-


ver

nectada y con arcos coloniales para ubicar la nueva ciudad creativa digital.
En una entrevista, Carlo Ratti director del SENSEable City Lab del MIT y
diseñador en jefe del proyecto de la CCD, reconoció que tiene que ser un
proyecto efectivo de regeneración urbana, que tiene que estar relacionado

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82

con el resto de la ciudad y que debe incluir a las comunidades vecinas en


el sitio para poder tener éxito. Sin embargo, en la promoción del proyecto
ésto parece convertirse más bien en algo aleatorio frente a los problemas de
financiamiento y se prioriza la promoción empresarial.

6. De los planes a los problemas de la CCD

or
Pasemos del concepto, la promoción empresarial y los planes de desarro-

od V
llo de la CCD vista desde el MIT, a los problemas situados una vez el proyecto

aut
fue presentado por el presidente en turno el 30 de enero de 2012. El primer
problema es que el presidente mismo señaló que se impulsaría a partir de pro-
gramas de dependencias federales como el programa para el desarrollo de la

R
industria del software, programa de promoción de innovación tecnológica, el
CONACYT, BANOBRAS, CONACULTA, Secretaría de Educación Pública,

o
pero a la hora del cabildeo para gestionar los recursos indispensables para
aC
dar inicio a las obras, argumentó que se le cruzó el cambio de gobierno. Se

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estableció que de inicio se esperaba una inversión de 10 mil millones de
dólares, pero pasó un año y el gobierno del Estado solo asignó 100 millones
de pesos del presupuesto de egresos 2013 y la federación no aportó recursos.
visã
La primera etapa del proyecto tiene como objetivo la rehabilitación del
Parque Morelos, la promoción y socialización del plan y la construcción de
un instituto digital de las artes. Pero el tiempo para consolidar la CCD está
itor

calculado en un mínimo de 15 años contando con fondos públicos y priva-


a re

dos. La CCD enfrenta no solo la falta de recursos necesarios, sino también


la indefinición en la propiedad de terrenos para llevar a cabo su edificación
porque se ha denunciado que de acuerdo a la auditoría de Pricewaterhouse
Coopers, hay una afectación al erario público de 330 millones de pesos
debido a la mala gestión del gobierno derechista del Partido de Acción
par

Nacional. Solo se tienen terrenos baldíos abandonados, muchos en litigio,


casas pequeñas ocupadas o abandonadas porque no han sido adquiridas. Algu-
Ed

nos de esos predios enfrentan juicios porque los dueños exigieron mayor
pago. Muchas viviendas fueron derrumbadas, adquiridas a bajos precios por
agencias inmobiliarias y revendidas al ayuntamiento de Guadalajara a un
ão

precio más elevado. La zona luce en consecuencia abandonada y hay muchas


quejas al respecto de los vecinos por la inseguridad y contaminación que han
s

generado. El Ayuntamiento respondió provisionalmente maquillando la zona


con algunos arbolitos, bardas y pintura en el exterior.
ver

La secretaría de economía entregó 50 millones para los estudios, pero


se ha calculado que por el enorme retraso en la infraestructura hidráulica que
tiene la metrópoli, pero en particular el centro histórico y los alrededores del
Parque Morelos, se necesitarán por lo menos 17 mil millones de pesos para

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 83

colectores, redes de agua y drenaje sanitario que de no hacerse pone en


grave riesgo la certificación de sustentabilidad del proyecto y de la urbe.
La definición de DUIS plantea que las áreas de desarrollo deben estar inte-
gralmente planeadas y contribuir al ordenamiento territorial de los estados
y municipios para poder promover un desarrollo urbano justo y sustentable,
que es sabido no es el caso del AMG.
Hay que aclarar que el término ciudades inteligentes nace hace unas

or
pocas décadas con el propósito de generar ambientes sustentables a tra-

od V
vés de la eficiencia energética a lo que se han sumado las tecnologías de

aut
la información como directriz de su desarrollo. La CCD de Guadalajara se
propone integrar según sus metas, infraestructura y sistemas de conectividad,
sensores, recolección y análisis de datos para comprender su funcionamiento

R
y así poder brindar una mejor calidad de vida a sus habitantes. Dichas deci-
siones informadas están a la base de las metas de la reducción de costos, la

o
eficiencia energética y el mejoramiento en las condiciones de vida urbana.
aC
Por ello, la misma IBM ha definido la ciudad inteligente como aquella en
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la que interactúan entre si los sistemas de transporte, agua y energía de


tal forma que se logre optimizar el funcionamiento individual y en su con-
junto. El diseño de estas estrategias complejas e incompatibles con el modo
visã
de vida dominante actual implican, como se ha venido mencionando, que se
involucren los sistemas a nivel de economía, ambiente, vivienda, movilidad,
gobierno, pero sobre todo, la dinámica de la vida cotidiana de los ciudada-
itor

nos. Si el proyecto de CCD está desfasado y con los problemas concretos


a re

ya mencionados, el mayor atraso lo tenemos justamente alrededor de la


población y en particular de la población del contexto del Parque More-
los, que no aparece como parte de la Fundación de la CCD. Lo que no se
ha mencionado, más que eventualmente, es lo que ha pasado con el entorno
social del proyecto y en especial, con los vecinos que ya viven en el núcleo
par

central de lo que será la ubicación de la CCD, en caso de concretarse en la


Ed

próxima década.

7. La aparición de las personas, los vecinos,


ão

los especialistas en la CCD

Una vez definido el proyecto desde arriba, diseñado por el MIT, plan-
s

teado con un eje fundamentalmente empresarial, en el que el mando está en la


ver

alianza del sector público con el privado, y el centro histórico y en particular


el Parque Morelos es tan solo una locación escenográfica sobre la cual se
construirá la CCD para convertirla en un paisaje inspirador para los creativos
que trabajarán en ella, la dirección del proyecto presionada por las críticas y
la falta de información suficiente, convocó a una serie de Mesas de Análisis

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84

con especialistas sobre una serie amplia y variada de temas relacionados con
la CCD, tales como espacio público, ambiente, equipamiento, infraestructura,
movilidad, vivienda, patrimonio y diseño arquitectónico, que se llevaron a
cabo del 21 de agosto al 2 de octubre de 2012. Los aportes fueron registrados
y se sintetizaron en recomendaciones generales, las cuales resultan en buena
parte difíciles de integrar en el proyecto tal cual, pero además no trascendie-
ron o se fue más allá de hacer la consulta y colgar la síntesis. Es decir, los

or
especialistas y la ciudadanía y vecinos convocados no fueron integrados al

od V
proyecto, difícilmente se puede decir que se integrarán sus aportes, y el pro-

aut
yecto continúa su marcha tal como aparece definido en el sitio. Veamos las
recomendaciones generales que surgieron de las mesas y veremos que hay un
eje común que gira alrededor de lo local y la población afectada:

1. R
Mejorar la calidad de vida de vecinos y usuarios del centro histórico.

o
2. Repoblar sin desplazar a las poblaciones actuales.
aC
3. Integrar a las personas en situación de calle.

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4. Se deben generar oportunidades para sectores formales e informales.
5. Atender a la diversidad de población real y dotarlos de equipa-
miento acorde.
visã
6. Destacar los rasgos identitarios, culturales, patrimoniales y sociales
del Centro Histórico.
7. El polígono de renovación debe ampliarse.
itor

8. La movilidad debe permitir la accesibilidad universal y


a re

ser sustentable.
9. Los espacios públicos deben ser regenerados y la calle generar
encuentros y expresiones.
10. El uso del espacio debe ser democrático y garantizar la conectividad
par

en la zona.
11. Mejorar la calidad ambiental de la zona.
Ed

12. La vivienda como eje implica apoyos para renovación, construc-


ción, redensinficación.
13. Las edificaciones elevadas no son deseables.
ão

14. Diseñar un perfil de necesidades de equipamiento.


15. El patrimonio debe ser potenciado y respetado.
16. Refuncionalización de espacios subutilizados.
s

17. Fases y plazos de acuerdo a la escala del proyecto.


ver

18. Comunicar mejor y de forma más extensa y detallada la iniciativa.


19. La sociedad civil y la iniciativa privada deben coordinarse.

Salta a la vista en este listado la diversidad de sectores que habitan y


usan el entorno del Parque Morelos y que no aparecen en el diseño o las

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 85

imágenes del proyecto, aparecen sus prioridades, necesidades y expectativas,


pero también las necesidades de un espacio carente de lo más básico en tér-
minos de la infraestructura necesaria para construir ahí la CCD tal como ha
sido diseñada a distancia desde el MIT. Veamos una síntesis de lo planteado
por la representante de los vecinos que más continuidad tuvo en las mesas y
que confirma lo anterior, la maestra Ma. Patricia González:

or
1. No entiendo cómo no hablan de la comunidad que está en

od V
los alrededores….

aut
2. Mi casa no se las doy… nuestras casas no aparecen en los planos
del proyecto…
3. Los drenajes no están bien y son muy antiguos…

R
4. En la zona hay deficiencias fuertes… Las tomas de agua en las casas
tienen problemas…

o
aC
La gente que tiene toda una vida en la zona y que ahí mismo trabaja o
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tiene algún negocio, no quiere irse, tienen miedo de perder a su clientela, su


forma de vida anterior, de quedarse solos. No quieren que les vuelva a pasar lo
mismo del proyecto de las Villas y que quede todo abandonado. No se imagi-
visã
nan en qué pueden trabajar en la CCD. La mayoría son mayores, tienen de 60
años para arriba y no se imaginan cómo serán incluidos. Seis años después,
los avances de la CCD son mínimos o inexistentes, las críticas de expertos
itor

son muchas por su retórica puramente publicitaria, por su inoperancia y la


a re

prensa ha informado sobre los malos manejos que se resumen en los siguientes
datos oficiales en julio de 2018 conforme a lo publicado por #44Lab: En las
revisiones de la Auditoría Superior de la Federación, Auditoria Superior del
Estado y Contraloría del Estado se encontraron presuntos pagos por obras
inexistentes, contratación simulada de personal, adjudicaciones directas ile-
par

gales, duplicidad de pagos y empresas fantasmas. Las observaciones hechas


Ed

a la Ciudad Creativa Digital por diferentes instancias suman más de 134


millones de pesos.
ão

8. El aburguesamiento del espacio como trasfondo real

Como hemos visto hasta aquí, se ve diferente desde arriba, por afuera
s

y en un render el espacio y el entorno del Parque Morelos y sus funciones.


ver

Visto desde el MIT el Parque es un escenario que adornaría la Ciudad Creativa


Digital, y la vida de barrio se reduce a los flujos caminables e interconectados
que conducen a los diferentes edificios e instalaciones de las empresas y ofi-
cinas de la industria digital como parte de lo que denominan entorno creativo
para mejorar la conectividad social y física. En los renders y maquetas es

Flávia Lemos - 21982.indd 85 28/02/2020 13:12:56


86

visible la homogeneización e higienización de un entorno que se pretende


seguro, limpio y sustentable, cuyo fin explícito es regenerar el Centro Histó-
rico y generar un mejoramiento en la calidad de vida, pero no está claro en
la vida de quiénes, porque los habitantes actuales desaparecen al igual que
sus casas y solo vemos a jóvenes creativos a los que se les abre un futuro de
empleabilidad. A ellos se los emplea para que, en este contexto sofisticado y
bien equipado, creen imágenes que otros en otros países del Sur empobrecido

or
maquilarán por sueldos miserables para convertirlas en productos altamente

od V
cotizados. La diversidad y los contrastes en los diversos ritmos y modos de

aut
vida entre las dos ciudades, la digital y la barrial, parecen desaparecer. Una
evidencia preocupante son los testimonios de las vecinas que encuentran sus
domicilios reemplazados por instalaciones de la CCD en las maquetas que

R
les presentan, lo cual pone en duda el discurso inclusivo de la información
promocional y puramente propagandístico del proyecto, pero más grave aún

o
es que no les puedan dar una explicación lógica al respecto. Tampoco les han
aC
ofrecido comprar sus propiedades, como se hizo en el pasado proyecto de

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


ciudad compacta. Ahora son más cautelosos, pero tampoco pueden justificar la
desaparición por ahora virtual de sus hogares. Tampoco el tipo de intervención
para mejorar el Parque ha sido consultado y los elementos que lo componen
visã
ya estaban presentes en el proyecto anterior, con la diferencia de que en éste,
los arquitectos ganadores decidieron consultar a los vecinos, dialogar sobre
el proyecto e incorporar sus aportes. Como lo dice una vecina, qué pueden
itor

hacer si todo está ya prediseñado. Una de las preocupaciones en el proyecto


a re

anterior a la CCD, era que el parque actualizado y bien equipado se convirtiera


en el jardín de quienes compraran los apartamentos en los edificios de diseño
en su entorno. En el proyecto de la CCD el Parque es definido como el eje
del proyecto y se lo ve casi como un patio interior del mismo, en el contexto
ampliado e interconectado del centro histórico de Guadalajara.
par

Hay que reconocer que en la perspectiva descrita al inicio sobre la con-


Ed

veniencia de la ciudad compacta y ésta como condición de la sostenibilidad


urbana, el proyecto de ciudad inteligente de la CCD, cumple su cometido en
el diseño, pero es claro también que olvida que ocupa un lugar con historia,
ão

identidad, diversidad y ciudadanos activos y reales que contrastan con el pro-


yecto, sus objetivos y la población a la que define como actores principales
de la CCD, jóvenes creativos altamente cualificados. Es en ese momento en
s

que emerge el aspecto de la homogeneización social como resultado de la


ver

seguridad implícita en las ciudades digitales, que excluye a los extraños y


que facilita el acceso solo a los que acceden a la tecnología y tienen tarjetas
que permiten el ingreso y dominan las claves de acceso, los que no, quedan
atrás, afuera, se convierten en rezagados tecnológicamente. Cómo y en dónde

Flávia Lemos - 21982.indd 86 28/02/2020 13:12:56


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 87

se resuelve, solo participativamente como ha sido el caso allí donde la demo-


cracia es real y no solamente formal.
La CCD no puede resolver la asimetría social a punta de diseño e inver-
sión multinacional. Por el contrario, la contraparte es que al excluir y desplazar
a la población real y abrir las puertas a una población cliente, priorizando los
negocios multinacionales e inmobiliarios, lo que ha sucedido históricamente
es un proceso de gentrificación, de aburguesamiento del espacio. Este término

or
fue acuñado por Ruth Glass (1964) en la introducción de un libro por el Centro

od V
de Estudios Urbanos de UCL al describir lo que llamaba la invasión de los

aut
barrios populares por parte de la clase media y media alta en Londres, lo cual
lleva rápidamente al desplazamiento de la mayoría de pobladores originales.
Dicha segregación del espacio urbano incluye también cambios en el espacio

R
público y el comercio. Como bien lo plantea Clerval (2012), se trata de una
imitación de la ecología urbana de la Escuela de Chicago, la vuelta al centro

o
en lugar de la salida al suburbio vinculada con la reinversión del capital en el
aC
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centro urbano por parte del sector inmobiliario en alianza con el sector público,
como lo ha explicado Smith (1996), para los inversionistas es una clara opor-
tunidad de ganancias rápidas. Es lo que se ha denominado, acumulación por
expoliación, que a partir del año 2000 se extendió a muchas ciudades en el
visã
mundo como sinónimo de regeneración urbana, ya vimos antes el concepto
de ciudad compacta y sostenibilidad urbana que les sirven de soporte.
De nuevo hay que recordar la Agenda Copenhagen para la que las ciu-
itor

dades sostenibles viables deben ser ciudades participativas en las que la pla-
a re

neación urbana es multidisciplinaria y cooperativa y su eje es la gente más


que los negocios y el diseño aislado. En ella las empresas forman parte de
la planeación participativa y asumen su responsabilidad en la sostenibilidad
urbana. Esta es la alternativa para la viabilidad sustentable de la CCD y son los
par

vecinos quienes lo están recordando a partir de su experiencia, conocimiento


y resistencia ciudadana, a pesar de que ni forman parte de la Fundación CCD
Ed

que dirige el proyecto asesorada por el MIT, ahora ya instalado en el terreno,


ni aparecen contemplados más que en la propaganda externa del proyecto.
Lo otro, es la imposición de un proceso de gentrificación excluyente que se
ão

opone y enfrenta a la población afectada.


s
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 87 28/02/2020 13:12:56


88

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o
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aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


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y sostenibilidad posible. Revista Universidad de Guadalajara. 19, 54-60
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tavo Gili.
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Smith, N. (1996) The new urban frontier: gentrification and the revanchist
Ed

city. New York: Routledge.

Sustainable Development Goals. (2018) The Capital of Sustainable Develop-


ão

ment. The City of Copenhagen Actions Plan for the Sustainable Development
Goals. The City of Copenhagen Department of Finance.
s
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 88 28/02/2020 13:12:56


TENSÕES NO COTIDIANO DO BAIXO
SÃO FRANCISCO: indicações de análise
da vida ribeirinha através do dispêndio

or
V
Beatriz Vilar Lessa

aut
Marcelo de Almeida Ferreri

CR
1. Linhas de acesso a um cotidiano como objeto

do
Este texto5 se volta para tensões produzidas historicamente por trans-
formações socioculturais vividas no cotidiano em diversos povoamentos do
território do Baixo São Francisco sergipano, a partir de uma leitura conceitual
pouco usual para esse assunto: a do dispêndio.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

são
Os lugares foram percorridos em função da demanda de produção de
laudo pericial – concluído em 2016 – em um caso de apreciação de impacto
ra
socioambiental, pela construção e funcionamento da barragem de Xingó no
i
município de Canindé do São Francisco / SE. As referidas transformações
rev

socioculturais que incidem sobre a região sergipana seriam provenientes de


amplos processos de desenvolvimento econômico e social que redundam em
to

modificações na vida daquele lugar, tendo a política de geração de energia


como marcador de amplas mudanças históricas.
Este texto tem como principal intuito apontar uma conjuntura de trans-
ara

formações dos modos de vida dos ribeirinhos, desencadeadas pelo desenvol-


ver di

vimentismo na região, indicando a noção de dispêndio de Georges Bataille,


articulada a alguns aportes da concepção de cotidiano de Michel de Certeau,
op

como caminho de análise. A aposta dessa reflexão é que tal análise permite
acesso a elementos importantes da vida comum do lugar e seus respectivos
E

conflitos, para o conhecimento efetivo da vida ribeirinha no contemporâneo.


Antes, porém, cabe sinalizar a vinculação da temática e do ponto de vista

teórico no âmbito de sua área de discussão. Reconhecendo que nem tema,


nem recursos conceituais dizem respeito ao campo estrito da psicologia, pouco
chegada a temáticas da vida do campo e às contribuições dos referidos autores,
é no apelo a uma espécie praticamente exótica de psicologia social que se
situa o exercício proposto. Psicologia social fora de seu escopo propriamente
conhecido, de seu terreno, trata-se de um olhar que aciona toda sensibilidade

5 Este texto foi produzido com base na pesquisa Tensões nos modos de vida do Baixo São Francisco e dis-
pêndio: Um estudo sobre o cotidiano ribeirinho, vinculada ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação
Científica da Universidade Federal de Sergipe, 2018/2019.

Flávia Lemos - 21982.indd 89 28/02/2020 13:12:56


90

histórico-antropológica possível para refletir sobre assunto que tem morada


mais convencional no campo da geografia, da economia ou da sociologia rural.
É a evocação de uma psicologia social cujo foco se encontra na constituição
histórica, política e antropológica da relação indivíduo e sociedade, e menos
na naturalização desse tipo relação, de interação.
Assim, tudo parecerá, como já dito, fora de seu campo: a análise do
desenvolvimentismo longe do saber da economia, o tratamento do tema dos

or
modos de vida sem o apoio categórico da antropologia, o acionamento da

od V
noção de dispêndio fora da filosofia da história que o próprio Bataille a ins-

aut
creveu. É, sobretudo, a circulação do interesse em psicologia social longe dos
domínios teóricos e habituais de sua consagrada trajetória, para marcar um
lugar próprio de análise. Uma psicologia que deixou a própria casa e seguiu

R
pela margem do rio, com estranhas companhias. Para mostrar isso primeiro
aparece a região do rio, depois o arranjo conceitual. Ao fim as indicações

o
do caminho.
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


2. O rio São Francisco como produtor de
análise do cotidiano de um lugar
visã
O rio São Francisco era o caminho natural para o reconhecimento das
vastidões interiores da terra que desafiava seus ditos colonizadores. O Velho
Chico tem, portanto, uma longa história de usos colonizadores e (há muito)
itor

desenvolvimentistas. Possui extensão de 2.700 kms e corta 4 (quatro) estados


a re

na faixa litorânea intramediana do território brasileiro. Seu nome indígena


é Opará, cujo significado aproximado seria “rio-mar”. Foi alcançado pelos
portugueses em 1501, um ano após sua chegada às terras brasileiras. Conflitos
entre portugueses e povos indígenas marcaram as investidas colonizadoras
par

pelas margens interioranas do rio. No Brasil-Colônia foi chamado rio dos cur-
rais pelo uso deles como estratégia para povoamento das margens e circulação
Ed

de mercadorias. Nessa estratégia se encontra a base dos conflitos fundiários


que as regiões próximas ao rio conheceram ao longo de sua história: expro-
priação de nativos e exploração econômica. No século XIX, essa exploração
ão

passou a ser subsidiada pela ciência com o levantamento da calha navegável.


Além dessa, outras missões históricas, de cunho econômico mais acen-
tuado, incorreram em torno do rio, como a política desenvolvimentista de
s

meados do século passado que instalou complexos hidroelétricos (hoje são


ver

quatro) em seu curso e programas de desenvolvimento pelo poder público


– com marcos na criação da Companhia Hidrelétrica do São Franscisco
(CHESF) em 1945 e da Companhia de Desenvolvimento do São Francisco
(CODEVASF) em 1974. O rio-mar já foi designado rio da unidade nacional,

Flávia Lemos - 21982.indd 90 28/02/2020 13:12:56


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 91

pela diversidade cultural que habita suas proximidades, e rio da integração


nacional, pela “incumbência” de desenvolvimento agroeconômico, energético
e social a que foi submetido.
Na margem sergipana, o Território Baixo São Francisco abrange uma
área de 1.967,10 Km² e é composto por 14 municípios: Muribeca, Amparo de
São Francisco, Brejo Grande, Canhoba, Cedro de São João, Ilha das Flores,
Japoatã, Malhada dos Bois, Neópolis, Pacatuba, Propriá, Santana do São

or
Francisco, São Francisco e Telha. A população total do território é de 125.193

od V
habitantes, dos quais 52.536 vivem na área rural, o que corresponde a 41,96%

aut
do total. Possui 6.900 agricultores familiares, 907 famílias assentadas e 4
comunidades quilombolas. Seu IDH médio é 0,61 na escala de 1.

R
Ainda através de dados sociodemográficos, a maior parte produzidos
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região apre-

o
senta o menor IDH do estado de Sergipe, abriga apenas pequena parte da
população, tem Produto Interno Bruto (PIB) bastante pequeno, além do que,
aC
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devido à proximidade com o rio, essa região foi considerada região para
desenvolvimento em meados do século passado. A região como um todo
abriga sete comunidades quilombolas e pelo menos treze assentamentos de
visã
reforma agrária, que demandam políticas públicas diferenciadas. Um programa
governamental chamado Territórios da Cidadania do anterior Ministério do
Desenvolvimento Agrário, hoje Ministério da Agricultura, Pecuária e Abaste-
itor

cimento, que tinha como objetivos promover o desenvolvimento econômico


a re

e universalizar programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia


de desenvolvimento territorial sustentável, informava investimentos de 98,7
(noventa e oito, vírgula sete) milhões de reais em ações que tratam de apoio
à produção agrária, à cidadania e infraestrutura no período de 2009 à 2015
(PORTAL TERRITÓRIOS DA CIDADANIA, 2014).
par

O Baixo São Francisco se tornou objeto de estudo desde a ocorrên-


cia de uma perícia socioambiental realizada nesta região. Advinda de uma
Ed

encomenda do Judiciário, um dos professores integrantes Grupo de Estudo


e Pesquisa sobre Exclusão, Cidadania e Direitos Humanos (GEPEC) foi
ão

nomeado como perito dos processos 0002809-27.2002.4.05.8500 e 0000420-


35.2003.4.05.8500 da Segunda Vara de Justiça Federal de Sergipe. A razão
que motivou estes processos judiciários é argumentada pelo fato de que a
s

instalação e o funcionamento da Usina Hidrelétrica de Xingó haveriam pro-


ver

duzido grandes danos socioambientais na vida dos moradores do povoado


Cabeço, no município de Brejo Grande/SE, seja pela inundação completa do
povoado, seja pela restrição das condições de pesca na região, em uma lide
iniciada em 2002.

Flávia Lemos - 21982.indd 91 28/02/2020 13:12:57


92

Para a confecção do laudo pericial demandado, a perícia socioambien-


tal, em parte equipe dessa pesquisa, realizou, dentre outras ações, um estudo
que totalizou 45 (quarenta e cinco) viagens a campo, passando por 25 (vinte
e cinco) localidades da região, realizadas entre junho de 2012 e dezembro
de 2014. Essas visitas tiveram como função a produção de registros que
descrevessem o cotidiano da vida local. A inspiração do olhar nesses regis-
tros voltados para o cotidiano buscava preparar o terreno para a análise das

or
práticas, crenças e valores que perpassam as relações entre órgãos estatais,

od V
empresas e grupos comunitários, possível via para conhecer as tensões vividas

aut
na região (MENDONÇA FILHO; ANDRADE, 2016).
Os registros, em seu conjunto, apresentam as idas e vindas de uma
região programada para cumprimento da missão desenvolvimentista histori-

R
camente incumbida. Impressões de organização, ajuste e preparo no trato das
transformações sócio-culturais da região, especialmente das que provêm da

o
intervenção do desenvolvimento regional, emergem como elemento analítico
aC
privilegiado para caracterizar a relação entre Estado, corporações e modo de

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


vida local.
O trabalho na produção agrária desempenha papel fundamental na dis-
cussão das sociabilidades na contemporaneidade e pode ser tomado como
visã
via de reflexão acerca das transformações nos modos de vida do Baixo São
Francisco. As particularidades das atividades produtivas são um importante
elemento neste estudo, para melhor caracterização das tensões e cotidiano
itor

dos ribeirinhos.
a re

De acordo com Mendonça Filho e Andrade (2016), há dois modos dife-


rentes de produção coexistindo e atravessando as relações no Baixo São
Francisco desde o século XVII até a atualidade. O primeiro modo é o de
subsistência enquanto “produção voltada ao consumo do próprio produtor
e daqueles com quem ele vive”. Já o outro modo é o comercial, que atende
par

aos anseios do mercado. Contudo, tais formas de produção e suas dinâmicas


Ed

sociais vêm passando por diversas transformações com a intensificação do


desenvolvimentismo, em especial com a implantação da Usina Hidrelétrica
Xingó. A partir do crescimento do projeto de desenvolvimento nacional nas
ão

comunidades que circundam o “Velho Chico”, o Baixo São Francisco tem


vivido um gradual desarranjo dos modos de subsistência, com uma “perda de
sustentabilidade por tornar as pessoas dependentes do fluxo (em geral limitado
s

e instável) de dinheiro” (MENDONÇA FILHO; ANDRADE, 2016). Assim,


ver

assiste-se a uma mudança das sociabilidades dos ribeirinhos em decorrência


das modificações nos modos de produção.
Uma das alterações nas formas de trabalho que vem se processando
no Baixo São Francisco refere-se à modernização da produção agrícola.
Nesse sentido, Sousa (2011) aponta uma territorialização do capitalismo no

Flávia Lemos - 21982.indd 92 28/02/2020 13:12:57


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 93

meio rural, com o incremento de tecnologias modernas a fim de aumentar


a produtividade. Para a autora, reside nesse processo uma das contradições
do capitalismo, pois este sistema não aceita o “ser camponês”, e ao levar a
modernização para o campo tenta alçar o campesinato ao status de agricultura
familiar; todavia, ela aponta que ao adquirir maquinário moderno, o pequeno
produtor se endivida e acaba correndo o risco de perder sua terra. Dessa forma,
Sousa ressalta que a modernização da agricultura revela outro lado do desen-

or
volvimentismo na medida em que as famílias camponesas ficam “na luta acir-

od V
rada pela manutenção da vida” e a miséria é estabelecida, enquanto o capital se

aut
beneficia com grandes rendimentos, atendendo ao mercado (SOUSA, 2011).
Na esteira das alterações acima, Shimada (2011) ressalta que em Ser-
gipe, a economia açucareira, cuja modernização conta ainda com emprego

R
(temporariamente) de grande número de trabalhadores na sua produção, tem
grande destaque. Segundo a autora, a cana-de-açúcar está incorporada na

o
ordenação do agronegócio, se adequando às imposições do mercado, com o
aC
aumento da produção do açúcar e de álcool etílico para agrocombustível. Uma
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

das consequências da produção e exportação da cana leva a uma crescente


concentração de terras entre os grandes empresários, além da exploração do
trabalhador de corte de cana, submetido a condições precarizadas de trabalho
visã
(SHIMADA, 2011).
O trabalho precarizado das relações de produção atuais se distancia do
modo de vida camponês, que marcava as formas de vida mais tradicionais
itor

da região. Nos deslocamentos das formas de vida ligadas à agricultura que


a re

podem ser delineados entre a produção de subsistência, camponesa pro-


priamente dita, ao trabalho voltado à economia de mercado fica marcado
o incremento à dependência das ações do Estado e das corporações como
saldo principal do desenvolvimentismo regional. Contratualidades cada vez
mais voláteis, vinculação necessária a programas de benefícios assistenciais,
par

processos variados de endividamento econômico preenchem o cotidiano da


Ed

região, instaurando tensões que marcam o trabalhador ribeirinho no dia a dia


de sua busca por sustento.
Por essa razão, tais transformações socioculturais requerem um aporte
ão

teórico que respeite as sutilezas desse processo de modificação do modo de


vida na região, um olhar sensível para repercussões de tudo isso no cotidiano
dos povoamentos da beira do rio. É nesse ponto que os conceitos do dispêndio
s

e do cotidiano são acionados.


ver

3. Dispêndio improdutivo nas atividades humanas

A ideia do dispêndio tem como animação fundamental a destruição, o


desperdício sem propósito, a improdutividade. Foi inicialmente desenvolvida

Flávia Lemos - 21982.indd 93 28/02/2020 13:12:57


94

por Georges Bataille em seu artigo “A noção do dispêndio”, de 1933, e em


seguida no livro “A parte maldita”, de 1949. Ora, não haveria noção mais
estranha para tratar do cotidiano da vida ribeirinha de qualquer lugar, ainda
mais depois de situar aspectos da vida produtiva (justamente isso) do Baixo
São Francisco sergipano, quando assinalado o quadro geral da situação do
trabalho nas atividades agrícolas. Eis porque no início fora dito que as coisas
estariam fora do lugar.

or
Seguindo Bataille, não se discute de forma plena o valor fundamental

od V
da lógica da utilidade, e suas repercussões filosóficas e econômicas para a

aut
ideia do produtivo, da produção, havendo um falseamento do debate e o
questionamento inicial sendo evitado. Para o autor, a discussão da utilidade

R
presente no tipo de pensamento corrente camufla o dispêndio, a perda que
há nas relações produtivas e prestações, elemento fundamental das relações

o
econômicas. De acordo com Bataille, o consumo da atividade humana pode
ser decomposto em dois momentos diferentes. O primeiro diz respeito ao
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


“uso do mínimo necessário”, enquanto o segundo se refere a práticas que têm
seu fim em si mesmas, não se regulando pela produtividade, racionalidade,
pelo acúmulo, pela utilidade; a esta forma improdutiva de consumo o autor
visã
designou dispêndio. Para ele, a segunda se sobrepõe à primeira.
Bataille declara que sua concepção de dispêndio advém do dispêndio do
Potlatch, tratado por Marcel Mauss, com a ressalva de que nessa condição
a destruição pode levar à multiplicação das riquezas. A obra “Ensaio sobre
itor

a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”, publicada inicial-


a re

mente em 1925, guarda pistas para a reflexão sobre o dispêndio.


O sistema de prestações econômicas das sociedades arcaicas se insere,
para Mauss, no campo dos fenômenos sociais “totais”, em que se pode obser-
var aspectos religiosos, jurídicos, morais, econômicos e de outras instituições
par

daquela sociedade. Entretanto, esses fatos sociais são “totais” não porque
abrangem toda a organização social, mas pela força e reverberações dessas
Ed

práticas nas relações do grupo. Concernente a esse “sistema de prestações


totais”, o autor se utilizou do Potlatch para investigar os modos como essas
sociedades primitivas se estruturam e normatizam. Dessa forma, Mauss reser-
ão

vou para seu estudo, dentre os vários sentidos de Potlatch, as noções de


“nutrir” e “consumir” para as práticas de prestações e contraprestações por
s

ele observadas.
ver

Marcel Mauss caracteriza, ainda, o Potlatch como uma instituição de


“prestações totais de tipo agonístico”; ou seja, uma relação em que através
das obrigações de dar, receber e retribuir as dádivas se instaura um modelo de
rivalidade entre chefes de tribos e clãs, podendo essa prática levar à falência
pela via da destruição mútua.

Flávia Lemos - 21982.indd 94 28/02/2020 13:12:57


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 95

Estabelecidos os locais e estruturados os sistemas que servem para inves-


tigar como se dão essas prestações totais, Mauss faz algumas observações.
Uma delas diz respeito ao “presente dado aos deuses”, pois no Potlatch as
relações são, a todo instante, mediadas pelo mito e pelos deuses; portanto,
o sacrifício é o auge da qualidade do objeto trocado. Nesse sentido, o autor
destaca que:

or
não é somente para manifestar poder, riqueza e desprendimento que escra-
vos são mortos, que óleos preciosos são queimados, que o cobre é lançado

od V
ao mar e até mesmo casas suntuosas são incendiadas. É também para

aut
sacrificar aos espíritos e aos deuses, em verdade confundidos com suas
encarnações vivas, os portadores de seus títulos, seus aliados iniciados

R
(MAUSS, 2003, p. 206).

o
Mauss ainda atenta para o que ele denominou teoria da esmola, a qual
tem suas bases na concepção moral da dádiva e da fortuna, mas também na
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

ideia do sacrifício, dando início à “doutrina da caridade e da esmola”, ampla-


mente difundida através do cristianismo e islã. A passagem para a esmola,
citada no Ensaio sobre a dádiva, servirá de base para a discussão que Bataille
visã
trata em sua “noção do dispêndio” acerca das implicações de tal prática na
cultura ocidental.
Analisados os sistemas de prestações em seus devidos locais, Mauss
chega a alguns entendimentos, sendo o primeiro a “conclusão de moral”
itor

e avisando que se podem prolongar tais notas às sociedades de sua época,


a re

início do século XX. Isso porque, como apontado no Ensaio sobre a dádiva,
observa-se valores semelhantes aos do potlatch, em que objetos têm, além
do valor venal, valores afetivos; do mesmo modo que se deve retribuir mais
do que se ganhou. É comum, também que as famílias despendam mais do
par

que podem em festas de casamento, aniversários etc, para mostrar que se é


um “grande senhor” (MAUSS, 2003), aspectos ainda percebidos atualmente.
Ed

O segundo resultado de Mauss sobre o sistema de prestações agonísticos


envolve “conclusões de sociologia econômica e de economia política”. Nesta
parte do estudo, o autor destaca que tais estudos podem auxiliar a distinguir
ão

melhores formas de gestão nas sociedades modernas. Tal nota se deve aos, de
acordo com Mauss, resquícios da noção de valor das economias de sociedades
arcaicas (impregnadas de elementos religiosos e com fortes relações de poder)
s

que podem ainda ser encontrados hodiernamente no mercado. Para Mauss, as


ver

sociedades ocidentais criaram o homo oeconomicus, porém ainda se encontra


nas diversas classes sociais características de dispêndio puro e irracional,
prática originada no Potlatch e entendido como destruição, além de outros
indícios das relações e prestações econômicas primitivas. Esse entendimento
estrutura a concepção de dispêndio para Georges Bataille.

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96

Por conseguinte, é assinalado que a economia, em sua dimensão das


relações cotidianas, não repele práticas destinadas apenas para os dispêndios
de tipo agonístico. As relações que constituem a vida produtiva comportam
medidas de força, iniciativas que largam o critério racional em ações que
caracterizam, para Bataille, o dispêndio improdutivo com função de manter
uma posição, porém sem provocar o aniquilamento do outro.
Concomitante ao processo de modificação do dispêndio nas sociedades

or
modernas, o dispêndio pagão e os grandes sacrifícios em cultos deram espaço,

od V
com a disseminação do cristianismo, a práticas menos exuberantes, menos

aut
chamativas, mais comedidas em seu acionamento como a esmola livre (a qual
não provoca grandes perdas materiais). Se classicamente era doada pelos ricos
aos mosteiros e igrejas, essa prática encontra lugar no cotidiano, entretanto,

R
estendida para além de sua comunidade religiosa muitas vezes. Desse modo,
se percebe proximidades que o dispêndio vai adquirindo na vida comum.

o
Bataille levou adiante essa inscrição do dispêndio no cotidiano; nomeou
aC
situações e coisas que teriam poder de perda improdutiva na vida de hoje das

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


pessoas. Nesse sentido, possuem lugar fundamental na vida das sociedades
humanas as práticas do sacrifício (com valor de), o valor de ostentação das
jóias, o espetáculo, a combatividade que se esgota nos jogos de competição,
visã
cultos, atividade sexual desviada da finalidade reprodutiva, a produção da arte,
das novidades luxuosas da moda, a riqueza dos monumentos e a extrapolação
do sentido na poesia (BATAILLE, 2013). Mesmo nessas formas de dispêndio,
itor

que se apresentam cotidianamente no vivido, Bataille vê o entrecruzamento


a re

amalgamado de fenômenos sociais, políticos, econômicos e estéticos e aponta


para a insuficiência da análise social que não considere a vida em seu conjunto,
a vida na quebra dos limites, no excesso, na perda das medidas do cálculo,
tipo de recusa que acontece a partir do princípio da utilidade e da acumula-
ção. Por esse aspecto a produção é subordinada ao dispêndio, seu consumo
par

arrebatador que faz com que toda a atividade produtiva caminhe na direção
Ed

de sua culminância.
Porém, é necessário estabelecer com que linhas se vê o cotidiano para
amparar esse componente intempestivo do dispêndio. Nesse ponto, Certeau
ão

apresenta possibilidades irrecusáveis para sua concepção. Ao se afastar da


tradição vigente que entendia cotidiano como rotinização, repetição, estag-
nação para analisar o cotidiano a partir dos elementos conflitantes, Certeau
s

se aproxima da imagem de movimento para pensa-lo; desse modo prepara o


ver

terreno para entender a vida comum como prenhe de tensões.


Para operar tal ruptura, Certeau vincula sua caracterização de cotidiano
às ideias de “estratégia” e “tática”. A primeira Certeau elabora como um
manejo das forças em cena viabilizado quando uma parte de “querer e poder”
tem potencial para ser destacado. Já a segunda se refere à “arte do fraco” e

Flávia Lemos - 21982.indd 96 28/02/2020 13:12:58


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 97

se liga à astúcia, que “opera golpe por golpe”. A trama das estratégias e táti-
cas configura com primor o âmbito no qual o olhar dirigido ao cotidiano se
concentra: o das práticas.
Para Certeau, no que tange ao cotidiano, “a questão tratada se refere a
modos de operação ou esquemas de ação e não diretamente ao sujeito que
é seu autor e veículo” (CERTEAU, 1994, p. 38). No lance em que retira o
sujeito da centralidade do olhar, o olhar naturalizante da psicologia fica des-

or
locado; no ato seguinte ele vai assinalar o lugar das astúcias como o ponto

od V
privilegiado da pesquisa: “esse trabalho tem, portanto, por objetivo explicitar

aut
as combinatórias de operações (dos consumidores). O cotidiano se inventa
com mil maneiras de caça não autorizada” (CERTEAU, 1994, p. 38). Desse
modo fica caracterizado a maneira como o cotidiano vira terreno de conflitos,

R
longe da paz de uma duradoura mesmice.
A aproximação entre dispêndio e cotidiano traçados dessa forma é pro-

o
missora e, ao mesmo tempo, perigosa. Não há encaixe mecânico e harmônico
aC
entre os termos, já que esses aportes conceituais se mexem em registros, ao
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menos na aparência, irrevogavelmente separados: Bataille quer exuberância,


Certeau quer discrição tática; o dispêndio aponta destruição, o cotidiano se
volta para a produtividade das operações; um o extraordinário, o outro o
visã
ordinário. Mas é em meio a essas indisposições de partida que as costuras são
indicadas para assim conhecer as tensões da vida ribeirinha.
itor

4. Indicações de reflexões sobre o cotidiano


a re

no Baixo São Francisco

Afinal, como pode funcionar o tratamento de um objeto complexo como o


das transformações na vida ribeirinha do Baixo São Francisco a partir de uma
par

combinação conceitual tão arisca? Qual ajuste de termos possível para isso?
Não se trata, portanto, de meras aplicações conceituais; algum artesanato se
Ed

faz necessário. Seguem indicações, pistas, rastros, ajustes na base de martelo.


O primeiro diz respeito a livrar o dispêndio de seu compromisso com uma
história universal, como apontado por Jean Piel (2013); não se pretende com
ão

ele a verdade última do desenvolvimentismo na beira do rio. Desfeito isso,


põe-se o dispêndio improdutivo na direção daquilo que Certeau ressalta do
cotidiano enquanto campo de tensões: as práticas. Um e outro aporte con-
s

ceitual favorece que apareça o plano de ações como âmbito por excelência
ver

da reflexão. E nesse ponto, pondo crédito na iniciativa, as aproximações são


mais permitidas.
Trata-se, por um autor e outro, de rever a lógica que rege o tratamento
da ideia de produção, do que se julga como produtividade. Se de um lado se
preconiza a destruição e de outro o cabedal de apropriação tática pela forma

Flávia Lemos - 21982.indd 97 28/02/2020 13:12:58


98

de produzir, em ambos fica marcado o valor do aspecto afetivo sobrepujando


o aspecto venal das relações. A produção é arrancada do seu lugar clássico
da racionalidade geral do mundo moderno.
Outra convergência possível, decorrente já do ponto anterior, diz respeito
ao fato de que o dispêndio e o cotidiano certeauano afrontam a lógica hege-
mônica da acumulação econômica, seja porque um autor refere o consumo
como terminado nele mesmo (comportando sua dimensão de perda suntuá-

or
ria), destrutivo nesse ponto, seja porque outro autor referenda práticas não

od V
autorizadas de consumo, pela artimanha de subverter o modo pré-concebido

aut
de uso das coisas. Por uma via ou outra é a dominação que se vê alijada de
suas possibilidades expansionistas.
Mas, indicadas essas linhas, como se chega ao que se vê da região ribei-

R
rinha? Como ver o Baixo São Francisco nessa pequena engenhoca conceitual?
Nesse ponto, algumas apostas que seriam, então, irresistíveis: que o lugar

o
não seja propriamente passivo em relação às encomendas desenvolvimen-
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


tistas que se acumularam em sua história; que, talvez, agonisticamente e/ou
astuciosamente na discrição do cotidiano, se encontre um campo de batalhas
que constitua o modo de ser de habitantes e forças político-econômicas que
agem na região.
visã
No que tange as atividades agrícolas, os palpites seguem na direção de
olhar para práticas de dispêndio e táticas cotidianas que se inserem no processo
de modernização do cultivo e em seus efeitos. Nesse sentido, o aporte concei-
itor

tual tornaria visível uma gama de ações inscritas no próprio âmbito da vida
a re

precarizada das relações de trabalho, para mostrar algo mais que a produção
massiva de dependência. Dessa forma, apontar para uma parte do cotidiano
em que atividades deixadas de lado pela visão econômica dominante, porque
improdutivas ou impróprias, assumem protagonismo para conhecer a vida do
par

lugar, a habitação da beira do rio. Indicações, não mais que apostas... fazer o
(im)possível ganhar pernas e andar pelas margens do São Francisco sergipano.
Ed
ão s
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 98 28/02/2020 13:12:58


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 99

REFERÊNCIAS
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2. ed. rev. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes do fazer. Petrópolis,

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RJ: Vozes, 1994. v. 1.

od V
LEITE, Rogério P. A Inversão do Cotidiano: Práticas Sociais e Rupturas na

aut
Vida Urbana Contemporânea. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro,
v. 53, n. 3, p. 737-756, 2010.

R
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas socieda-

o
des arcaicas. In: Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
aC
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MENDONÇA FILHO, Manoel. C. C.; CARVALHO, Clarisse. A. Laudo de


Perícia Socioambiental. Aracaju: 2ª Vara de Justiça Federal, 2016.
visã
PIEL, Jean. Introdução. In: A parte maldita: precedida de ‘a noção de dis-
pêndio’. 2. ed. rev. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
itor

PORTAL DA CIDADANIA. Territórios da cidadania. Brasília: Governo


Federal, 2010. Disponível em: <www.mda.gov.br/sitemda/tags/territórios-da-
a re

cidadania>. Acesso em: 27 jul. 2014.

SHIMADA, Shiziele O. A relação capital-trabalho no corte da cana e as novas


formas de travestimento do trabalho escravo-precarizado. In: CONCEIÇÃO,
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A. L. (Org.). Trabalho e trabalhadores: as novas configurações espaciais da


reestruturação produtiva no espaço rural. São Cristóvão/SE: Editora UFS,2011.
Ed

SOUSA, Raimunda A. D. Trabalho e trabalhadores no campo: desvendando


a realidade no Vale do São Francisco. In: CONCEIÇÃO, A. L. (Org.). Tra-
ão

balho e trabalhadores: as novas configurações espaciais da reestruturação


produtiva no espaço rural. São Cristóvão/SE: Editora UFS,2011.
s
ver

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O TEMPO, A JUVENTUDE E O
PRECÁRIO – REFLEXÕES SOBRE
AS (IM)POSSIBILIDADES DE UMA

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VIDA LIVRE, ÉTICA E BELA

V
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Iolete Ribeiro da Silva
Enio de Souza Tavares

CR
do
1. Introdução

Um texto que se propõe a falar de tempo recai sobre uma questão ampla
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são
e complexa. Muito embora a provocação não seja de se pensar o tempo como
categoria, mas o tempo em que estamos vivendo, e pensá-lo como precário. No
ra
entanto, entendemos que uma boa reflexão sobre o tempo se liga diretamente
ao nosso tema e, em especial, ao tempo do ponto de vista psicológico que é
i
o campo de onde queremos falar inicialmente. Para tanto, começamos por
rev

pensar uma metáfora do tempo psicológico dentro do escopo do pensamento


kleiniano, tomando-o realmente como metáfora, posto que em certa medida
to

o modelo de pensamento seguido por Melanie Klein (1882-1960) pode ser


amplamente criticado por nós. Seguindo a linha de raciocínio que queremos
ara

traçar aqui, continuamos a pensar em que consiste a precariedade do nosso


tempo para a juventude do nosso país, escolhendo como ponto de discussão, a
ver di

produção teórica sobre a juventude, notadamente aquela que descontextualiza


o jovem e o explica como um entidade isolada do campo social, de forma que
op

cada indivíduo se explica em si mesmo.


É a lógica seguida também pelos estudiosos da personalidade de base
E

psicodinâmica. Seus exemplares fortes são Kernerberg, Gabbard, McWil-


liams, entre outros. Não citaremos uma publicação específica desses autores
por sua posição a esse respeito ser algo que acompanhas suas respectivas
obras. Estes autores, inclusive, sendo bastante influenciados pela teoria das
relações objetais, na qual Melanie Klein tem papel fundamental. Outra forma
de olhar a conjuntura do nosso tempo será a tentativa rápida de refletir sobre
a reforma do ensino médio a ser instaurada em nosso país, neste tempo.
Nossa hipótese é de que a subjetividade forjada na escolarização proposta
pela reforma do ensino médio retira do sujeito estudante, que é o sujeito
cidadão e o sujeito psicológico ao mesmo tempo, recursos importantes para
lidar com a vida e com a precariedade próprias desse tempo, e, de forma geral,

Flávia Lemos - 21982.indd 101 28/02/2020 13:12:59


102

com os descompassos da vida. Encerramos nossa reflexão dentro do campo


da promoção da saúde, tomando como articulador as reflexões realizadas
por Foucault a respeito da liberdade e de uma vida bela, pensando o campo
da educação e até mesmo o território da escola, como um campo onde essas
vivências podem ter alguma potência.

2. Tempo, “História e o surgimento do sujeito psicológico

or
od V
Iniciamos nosso caminho falando da subjetividade por intermédio da

aut
teoria psicanalítica kleiniana. A psicanálise foi a primeira no campo psi a
resgatar a subjetividade como objeto importante (PRADO FILHO; MAR-

R
TINS, 2007), na contramão de outras teorias, as quais, no afã de contribuir
para a cientificidade de psicologia, de-subjetivava e expurgava a experiência

o
psi de tudo o que era sinônimo de erro, paixões, vícios, ou seja, a própria
subjetividade (FIGUEIREDO, 1997; GONZÁLEZ REY, 2007, 2002), prin-
aC

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cipalmente quando se pensa a subjetividade como uma representação da psi-
que constituída de contradição (GONZÁLEZ REY, 2007) ou constituído de
ambivalências e conflitos como é o caso da visão psicanalítica.
visã
Foucault (1996) aponta que a psicanálise funciona como um questionador
da noção de sujeito epistêmico coerente, integrado, e dominador de si e de seus
afetos. Esse questionamento funciona como uma ferida narcísica ao projeto
itor

da ciência moderna e do homem moderno. A moral civilizada funcionava para


organizar estruturas de censura no indivíduo que impediriam o sujeito de se
a re

conhecer. Assim, parafraseando Foucault em “A hermenêutica do sujeito”


(2010) o homem moderno era um completo desconhecedor de si, por não
conceber uma espécie de lógica por trás que atuava sobre o que ele escolhia,
falava, desejava, dizia querer e dizia não querer. Apenas parafraseando posto
par

que o “homem” a quem o filósofo se refere não seria o moderno.


Evidentemente que Foucault não fala do homem moderno, mas nesse
Ed

momento de sua obra (Em A hermenêutica do sujeito) ele fala do homem grego
antigo e da necessidade que se propagava de o cidadão grego cuidar-se de si
ão

mesmo, voltar-se para si. Estava implícito neste apelo o conhecimento de si


como primordial. O grego muitas vezes era tomado como “um ignorante das
coisas que ignorava”.
s

Pensamos que, em certo ponto, dada a distância entre os tempos antigo


ver

e o contemporâneo, e apesar dela, essa ignorância pode ser vislumbrada nos


modos de subjetivação atuais. Pelo menos em termos de uma análise mais
rápida, pensamos ter algo dessa premissa que se encaixa em nossos tempos.
Especialmente no que se confere em um certo narcisismo constituinte das
subjetividades contemporâneas. O narcisista é um grande desconhecedor de si

Flávia Lemos - 21982.indd 102 28/02/2020 13:12:59


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 103

mesmo. Não está voltado para si, mas para uma imagem que criou de si com
uma qualidade de beleza e inteligência que são incapazes de tocar a realidade
multifacetada de qualquer experiência subjetiva.
Iniciamos enfatizando como que essa “defesa da psicanálise” ou seu
elogio por acharmos que o projeto da reforma do ensino médio atual como
um cenário que estamos tentando analisar aqui, muito próximo do modelo de
homem mecânico, sem desejo, e coincidente consigo mesmo que é subjeti-

or
vado no auge da modernidade cientifica (FIGUEIREDO, 2004). Entendemos

od V
que a lógica por trás da reforma do ensino médio se coaduna com aqueles

aut
pressupostos modernos, sem deixar de conter especificidades e interesses
específicos deste tempo. Assim seguimos a desenvolver a metáfora sugerida
por Melanie Klein.

R
A psicanálise kleiniana, diferente da produção freudiana, vai pensar o
desenvolvimento do psiquismo em termos de duas posições. Essas “posições

o
psíquicas” descrevem o tipo de funcionamento ou estado de funcionamento no
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

qual a pessoa se encontra de forma dominante em um determinado momento.


Sendo essas posições chamadas por Klein de posição esquizoparanóide e
posição depressiva (OGDEN, 2017).
visã
Na posição esquizoparanóide que é a primeira forma da criança se rela-
cionar com o mundo, as formas de percepção são drásticas, no sentido de que
o mundo é vivenciado de forma polarizada. Ou os objetos são totalmente bons
e idealizados (como é o caso da mãe boa, o seio bom), ou os objetos são total-
itor

mente maus e persecutórios (a mãe má, seio mau). Disso já podemos pensar
a re

como deva ser difícil alguém que encena psiquicamente esse funcionamento
na vida adulta, tomando o mundo como dividido em bom ou ruim, sem ter
condições de olhá-lo com maior riqueza.
Dizemos que na posição esquizoparanóide o sujeito não tem recurso para
par

viver o mundo além da percepção de que este “ou é 8 ou é 80”, da mesma


maneira que um objeto é visto como totalmente mau, em outro momento é tido
Ed

como totalmente bom. Há uma precariedade no tempo aqui, mas no sentido


de uma relação específica de recriação de história; uma recriação defensiva
que impossibilita a criança de se relacionar com os objetos inteiros, com suas
ão

pluralidades de expressões. A recriação de histórias é a incapacidade que o


indivíduo tem de lidar com vida que é feita de conquistas, vitórias, prazeres
e também de decepções, insucessos, frustrações e tristezas.
s

Essas são as formas mais infantis 6 que temos de lidar com a vida. Se
ver

tomarmos essas ideias e a colocarmos rapidamente para o contexto de uma

6 O termo infantil aqui é apenas utilizado segundo a visão kleiniana e entendemos que é carregado de valor
adultocêntrico, posição do qual somos críticos. Decidimos manter o termo pela coerência teórica e também
pela possibilidade de refletirmos sobre o mal-estar que este termo pode eventualmente produzir no leitor

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produção sociocultural, identificamos que de modo geral a sociedade e suas


instituições, são dispositivos de infantilização. Poucos são os espaços no
meio social que nos possibilitam fazer uma reflexão autêntica sobre a vida e
o viver que nos dê um repertório mais rico de significados para enfrentarmos
a vida. Então, pensamos que esse tempo precário que afirmamos, é precário
subjetivamente, é pobre de outras condições para que as pessoas de modo
geral se situem como produtores de sentidos novos.

or
A história corre no tempo e é em uma posição mais amadurecida como é

od V
o caso da posição depressiva que, ao lamentar a realidade, inventa-se um jeito

aut
mais rico de lidar com ela. A recriação da história é recurso mais primitivo.
Na posição depressiva há um sujeito intérprete, produtor de sentidos, sujeito
que decide também sobre o insalubre e sobre os dissabores. Esse sujeito que

R
é uma conquista da posição depressiva também é o sujeito que é capaz de
decidir com relativa autonomia, capaz de tolerar em si também uma certa

o
negatividade, o que consideramos ser algo importante na conquista da liber-
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


dade, segundo a concebemos aqui e a qual desenvolveremos mais adiante, a
partir das ideias de Foucault.
Esses recursos mais maduros não estão presentes na posição esquizo-
paranoide, como já mencionamos. Aliás, é importante de se mencionar um
visã
registro sobre essa posição: o fato de que a criança não se sente produtora
de novo, os fenômenos só lhe acontecem. As fantasias, as ideias, os medos
e os desejos são experienciados como acontecimentos à revelia do querer da
itor

criança. Um exemplo disso é a experiência adulta que algumas pessoas com


a re

ansiedade patológica sentem com os chamados “pensamentos intrusivos”. É


como se a pessoa, igual à criança kleiniana fosse apenas um objeto onde os
fenômenos psíquicos acontecem. A experiência pessoal nesse momento é a
de “isso-dade”, diferente da “eu-dade” experimentada na posição depressiva
par

(OGDEN, 2017)
Ed

[...] para Klein ainda não existe uma pessoa intérprete da própria expe-
riência. Também ainda não existe um “eu”. A posição esquizoparanoide
é o domínio do “isso”, apesar de não ser exclusivamente o domínio do
ão

Id (isto é, pressões instituais). Em outras palavras, o ego primitivo (o


componente organizador adaptativo da personalidade) é também impes-
soal por ser praticamente desprovido de subjetividade, de um sentido de
s

“eu-dade”. O bebê, quando defrontado pelo perigo gerado pelo processa-


ver

mento (ainda não interpretação) da experiência de acordo com o instinto de


morte, utiliza a clivagem. A clivagem é uma tentativa de obter segurança

como produziu nos autores. O mesmo se aplica ao termo primitivo, específico teoricamente por significar
algo que se instaurou mais precocemente no desenvolvimento de um indivíduo.

Flávia Lemos - 21982.indd 104 28/02/2020 13:12:59


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 105

através do distanciamento entre os aspectos ameaçadores e ameaçados


dos indivíduos e seus objetos.
Os objetos são valiosos, porém ainda não existe um “eu” para amá-los ou
valorizá-los. O self existente é um self-objeto, em contraposição a um self
subjetivo. O self subjetivo pode ser pensado como representado pela cons-
ciência autorreflexiva do “eu estou” na frase “eu estou sendo atacado”. O
“eu estou” é uma condensação de “eu estou ciente de que que a experiencia

or
que tenho de mim mesmo é...”. O self na posição esquizoparanoide é uma
self-objeto, não um self criador e intérprete de pensamentos, sentimentos,

od V
percepções e análogos. o self-objeto corresponde ao self não falado e não

aut
reflexivo na frase “Está quente” (em oposição a “Estou ciente de que me
parece quente), ou “Ele é perigoso” (em vez de “Estou ciente de que o

R
vejo como perigoso”) (OGDEN, 2009, p. 57-58).

Estas premissas kleinianas nos fizeram pensar no processo de escola-

o
rização e de institucionalização, de modo geral, como esse processo de for-
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

mação de pessoas não reflexivas, não intérprete das suas próprias realidades.
Embora estejamos fazendo uma conceitualização dentro do escopo de uma
teoria que se funda mais no determinismo psíquico e a teoria se reafirme na
visã
clínica individual (que é por excelência o campo da psicanálise) como uma
verdade, ela pode ser cartografada no corpo social de produção da subjetivi-
dade e seus agenciamentos, até mesmo se tomarmos emprestado o conceito
de inconsciente maquínico de Guattari (1988), como esse inconsciente não
itor

natural, fabricado, produzidos pelos agenciadores coletivos.


a re

O protótipo da mudança qualitativa para um outro estado de experiencia


psíquica é a de a criança encontrar, no percurso do seu desenvolvimento, uma
mãe adequadamente tolerante, onde a lei e a proibição precisam acontecer sem
ameaças. A função materna (termo teórico) pode ser exercida e pensada de
par

forma ampla, não exatamente pela mãe biológica. E na linha de pensamento


que aqui queremos fazer a mãe pode ser tomada a partir de uma esfera das
Ed

instituições. Daí já começamos a pensar no tipo de sociedade que nós temos.


Uma sociedade que vende tudo em grandes pacotes, não respeitando os tempos
e os processos individuais. Uma sociedade da intolerância. Não toleramos
ão

loucos, gays, travestis, transexuais, indígenas, negros, crianças, jovens.


Os exemplos seriam diversos e o leitor pode pensar tantos outros exem-
s

plos que me fogem agora. Mas somente pra pensarmos nos processo educa-
tivos, mesmo depois de conhecermos as ideias de Wallon (GALVÃO, 2013)
ver

que afirma que a agitação das crianças em sala de aula muitas vezes é o pré-
-requisito para que a aprendizagem aconteça com sucesso, não somos capazes
de em nossas escolas destinadas à infância incorporar esses fenômenos como
parte de um processo saudável e inerente ao aprender.

Flávia Lemos - 21982.indd 105 28/02/2020 13:12:59


106

Nossas crianças e jovens são convocados à docilidade comportamental,


alunos quietos são o protótipo de uma sala boa. Quietude muitas vezes alcan-
çada a peso de ameaça institucional. Quietude não adquirida por meio de uma
reflexão importante como aquela que lucidamente propõe que não tenhamos
tantos estímulos que irão competir com a atenção dos alunos e realmente colo-
car o processo de aprendizagem em cheque. Mas, em vez disso, adquirida por
estratégias de coerção, punição e vigilância como bem nos explicou Foucault

or
(2009) sobre os dispositivos de adestramentos e a formação dos corpos dóceis

od V
e ainda tão atual e aplicáveis às nossas instituições de ensino.

aut
3. Denunciando o mundo: o que significa ensinar? Como

R
ensinamos? O que ensinamos? Por que ensinamos?

o
O significado de ensinar descolado do processo de aprender, leva a sig-
nificações muito específicas que organizam essa prática. Ensinar tem sido
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


pensado como processo de transmissão. O a-luno (sem luz) ainda é tomado
como aquele que não tem nada a dizer no percurso e em um percurso que
também é seu. É comum se que se utilize o termo “absorver o conteúdo” no
visã
que diz respeito ao processo de aprendizagem. Entendemos que para além de
um jeito de conceber tais processos, esse formato, que é essencialmente um
formato relacional, institui um modo de produção da subjetividade.
Freire (2011) aponta o diálogo como uma ferramenta potente de ensino-
itor

-aprendizagem, mas de um ensino-aprendizagem seguindo os pressupostos


a re

da liberdade. Nesses pressupostos o diálogo é muito mais que enunciados


alternados, implica uma forma relacional especifica com os atores do diálogo
que se posicionam mais horizontalmente. Todos constroem e são responsáveis
pelas informações partilhadas. Assim se expressa Paulo Freire a esse respeito:
par

O diálogo como encontro dos homens para a tarefa comum de saber agir,
Ed

se rompe, se seus polos, (ou um deles) perdem a humildade.


Como dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro,
nunca em mim?
ão

Como posso dialogar, se me admiro como um homem diferente, virtuoso


por herança, diante dos outros, meros “isto”, em quem não reconheço
outros “eu”?
s

Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto de homens


ver

puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora
são “essa gente”, ou são “nativos inferiores”?
Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de
homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua
deterioração que devo evitar?

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 107

Como posso dialogar se me fecho a contribuição dos outros, que jamais


reconheço, e até me sinto ofendido com ela?
Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro
e definho? (FREIRE, 2011, p. 111-112).

Pronunciar o mundo e denunciá-lo tem algo a ver com o uso da palavra


em Freire. A palavra pronunciada como legítima, mas também como inven-

or
tiva, interventora, que quebra, desfaz e refaz a realidade. Quem não pode usar
(pronunciar, denunciar, problematizar, etc) se encontra em estado de opressão.

od V
Pensamos que Freire usa o termo pronúncia do mundo de modo parecido com

aut
a poética. Pronunciar é criar. Se alguém acredita não poder inventar uma outra
vida além da que já conhece e sabe, deste lugar não poderão sair facilmente

R
mudanças em níveis individuais e nem alcançaram o nível do coletivo.

o
Se alguém não é capaz de sentir-se ou saber-se tão homem quanto os outros,
aC
é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro
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com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios
absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais [...].
A fé nos homens é um dado a priori do diálogo. Por isto existe antes mesmo
visã
de que ele se instale. O homem dialógico tem fé nos homens antes de
encontrar-se frente a frente com eles (FREIRE, 2011, p. 112).

Desta forma, à esteira de Freire pensamos ser difícil (para sermos genero-
itor

sos com as palavras) um outro modo de subjetivação onde os jovens sejam par-
a re

ticipantes da vida social e coletiva e possam apontar novas e boas estratégias


de resistência tendo o modelo de educação dominante que temos. A não ser
que esses jovens tenham contato com outras formas de relação educativa mais
emancipadoras. O que em geral acontece em contextos educativos não formais.
Refletimos nessa direção por estar no imaginário social e até na literatura
par

cientifica uma negação dos saberes da juventude. Os jovens não têm o que
Ed

dizer, não são vistos como capazes de exercer sua liberdade, de modo geral
são vistos como naturalmente rebeldes e tais características podendo ser expli-
cáveis em termos de uma certa normalidade. Como se fossem características
ão

normais da juventude ou da adolescência essas performances. Muitas vezes


adolescentes e jovens são encapsulados em discursos científicos como produto
de sínteses hormonais, em uma leitura biologizante por um lado, mas também
s

por outro como um determinismo psíquico que vislumbra como natural esse
ver

processo de imaturidade e crise juvenil, beirando a irresponsabilidade. Várias


dessas características estão presentes nas ideias da Aberastury e Knobel (1990)
sobre a adolescência normal. É um grande exemplo desse viés.
Para usarmos um termo da Teoria das Representações Sociais, podemos
dizer que essas ideias construídas no campo do universo reificado que seria

Flávia Lemos - 21982.indd 107 28/02/2020 13:13:00


108

o campo acadêmico-científico chega no universo consensual (senso comum)


de modo mundo aleatório como teorias do cotidiano. Essa teoria, nas práticas
diárias dentro da sala de aula, fazem a mediação dos processos educativos e
suas consequências são vistas na paisagem atual do nosso sistema de ensino
pouco emancipador e, altamente intolerante e disciplinador.
Neste cenário só há espaço para um tipo de formação subjetiva: aquela
que pressupõe o aluno como objeto, como coisa, como “isso”. O estudante

or
não tem lugar de intérprete. Ele é depósito, não é reconhecido como um outro

od V
“eu” que ressignifica e faz operações sobre o que é dito ou lido. Esse não

aut
reconhecimento sugere o tipo de conteúdo a ser que deve ser transmitido: o
conteúdo duro da matemática e da gramática normativa. Pegando carona neste
gancho, podemos pensar nas consequências subjetivas da atual reforma do

R
ensino médio, como produto da medida 746 de 2016, que torna facultativo
os componentes curriculares ligado às humanidades. Tal reforma já pode ser

o
criticada pelas concepções que adotamos aqui pela própria falta de diálogo
aC
que houve na sua proposição. A sociedade não foi amplamente convocada

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para sua construção.
Além do mais, nos termos que estamos discutindo, criticamos também
pela sua própria incompatibilidade com as diretrizes presentes na LDB em
visã
seu artigo 35, o qual preconiza em seu inciso III que haja o “o aprimoramento
do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desen-
volvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico”. O que nos
itor

parece é que a reforma apresenta uma aparente abertura para que o estudante
a re

possa escolher, mas no final das contas essa escolha será sempre pressionada
pelas possibilidades de construção de itinerários composto por disciplinas que
puderem ser oferecidos nas diferentes escolas e planejadas pelos diferentes
sistemas de ensino nos estados. Além do mais a própria lógica de acesso ao
ensino superior, força os estudantes a optarem por determinadas disciplinas
par

que possibilitarão mais facilmente este ingresso ao mundo da universidade,


Ed

abrindo-se mão dos componentes curriculares tomados como optativos.


Nossa questão aqui se dá pela premissa de que a vida e a realidade con-
creta não respondem às lógicas gramaticais e matemáticas. Os descompassos
ão

da vida exigem outras equações, rigidez das lógicas gramaticais e matemáti-


cas e suas universalizações nos faz pensar que se pode haver um reforço na
lógica esquizoparanoide que ver as coisas todas “preto no branco”. Na vida
s

subjetiva, no mundo das relações, nos tempos precários, nos tempos de crise
ver

que chegam em qualquer vida, outras racionalidades operam. Aliás, sempre


e em todo tempo há heterogeneidade de racionalidades.
Morin (2007) e os demais autores da complexidade nos ajudam a pensar
que a causa e o efeito são apenas uma parte da vida complexa que é tecido
junta de várias racionalidades. Problematizar isso é via para pensarmos outras

Flávia Lemos - 21982.indd 108 28/02/2020 13:13:00


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 109

formas de vida, abrir as portas para as outros discursos que expliquem a vida
no seu devir e no que ela tem de indeterminado. Como pensamos do ponto
de vista da psicologia, pensamos que aí se assentam os fundamentos do que
podemos chamar de saúde psíquica: a possibilidade de um repertório rico
para explicar a vida e nos tornarmos intérpretes com mais recursos internos.
Pensamos nisso do que lugar que falamos porque nos diversos espaços
por onde temos contato com a juventude desde a socioeducação, nas escolas

or
públicas e no espaço da clínica psicológica, vimos crescer o índice de ado-

od V
lescentes e jovens de modo geral com uma certa incompetência interna de

aut
negociar com a vida, chegando frequentemente à automutilação e à ideações
suicidas ou, infelizmente à tentativas de suicídio e ao próprio suicídio. Esta
realidade não é novidade pra ninguém e não é notícia apenas para os profis-
sionais da saúde.
R
Nossa denúncia do mundo, para usar o termo freiriano, se localiza com

o
indagação sobre as relações entre a atual escolarização e a falta de recursos
aC
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que todos nós, não só a juventude, temos pra negociar com a vida. Em uma
sociedade escolarizada, qual o papel da sociedade nesse processo? E quais as
potencias de transformação do cenário social que a própria escola pode ter?
Entendemos que o enfretamento de tempos difíceis, social ou individual-
visã
mente, exige uma capacidade de construir novos caminhos na produção da
subjetividade, tomando essa produção não como algo somente do indivíduo,
mas que tem a ver com a sociedade e seus agenciadores. Motivado por isso
itor

queremos refletir vias de experiências subjetivas ricas seguindo as provocações


a re

realizadas pelo campo da promoção da saúde e seguindo as provocações de


Foucault que ao ler os gregos e os romanos antigos reflete e sobre o conceito
de liberdade e de ética, pressuposto de uma vida bela.
par

4. Negociando com a vida ou a liberdade como uma agonística


Ed

Problematizar os modos de constituição da subjetividade no âmbito peda-


gógico, indagar a formação para permitir que outras propostas habitem e
atravessem o educativo sem conduzir a um pensar e um agir corretamente,
ão

ou pelo menos sem determinar como ser e conhecer o saber exige o retorno
de cada um a si mesmo e o trabalho de construção de um modo diferente
de perceber-se ou de ser percebido pelo outro.
s

O que se apresenta aqui é um exercício de trabalhar com o pensamento


ver

de modo que ele se torne mais potente para introduzir o cuidado de si


(epiméleia heautoú) como condição de reconfiguração da relação peda-
gógica que se afirma no trabalho cuidadoso e permanente em torno de
si mesmo, de modo que se restaure a relação de aprendizagem ao longo
da vida comprometida com o cuidado de si; isto é, uma relação capaz

Flávia Lemos - 21982.indd 109 28/02/2020 13:13:00


110

de estabelecer com o saber uma aprendizagem na qual o ser se faz ou se


revela. Tarefa que exige curiosidade e, ao mesmo tempo, a instauração
de um sentido outro em nossas maneiras de pensar e de agir em nosso
trabalho pedagógico (CARVALHO, 2014, p. 17).

A citação acima refere ao contexto das reflexões levantadas por Foucault


a respeito do cuidado de si, seus estudos sobre o período helenístico e romano,

or
em que o modo de produção da subjetividade se caracterizava por outros
patamares e a relação que o sujeito estabelecia consigo tinha uma convoca-

od V
ção muito especifica: voltar-se para si. O convite do grego arcaico presente

aut
na religião grega e depois na filosofia, passando pela cultura romana era de
um cuidado para consigo mesmo (cura sui). Ao fazer sua história, Foucault

R
reflete sobre como os antigos tinham uma relação muito diferenciada daquela
que hoje temos em um mundo cristianizado e ocidental, onde o apelo mais

o
forte é o da renúncia de si.
aC
Já pensando na relação que isso pode ser estabelecida com as práticas

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


cotidianas de ensino, podemos comentar sobre a própria noção que subjaz
à pedagogia moderna se funda em uma modelo de ascese como presente no
cristianismo, ou em um certo tipo de cristianismo. Basta pensarmos no quanto
visã
os alunos devem se submeter a regras de controle do corpo, no tempo e no
espaço e nos rituais presentes nas instituições escolares. Ao analisar a obra
de Foucault sobre o cuidado de si e as práticas de liberdade, Duarte (2016)
menciona que o filósofo afirma que a relação que a relação estabelecida entre
itor

o diretor ou mestre e o dirigido ou discípulo entre os estoicos não era de


a re

obediência e sujeição ilimitadas. Nas palavras de Foucault:

De fato, a direção, vida filosófica antiga e na pedagogia antiga, tem três


características. Primeiro, ela é limitada e instrumental. Quero dizer que
par

essa obediência tem um fim bem definido, um fim que é exterior a ela
[...] Segundo a direção antiga supõe, de parte do mestre, certa forma de
Ed

competência. Essa competência não é necessariamente um saber ou um


saber técnico [...] É aquele que é capaz de nos guiar [...] É necessário
portanto uma espécie de diferença de natureza entre quem dirige e quem é
dirigido. Enfim, terceiro, sempre na direção antiga, não cristã, não monás-
ão

tica, a direção é provisória, quer dizer que o essencial da sua finalidade


é levar a um estado em que não necessitaremos mais de um diretor e em
que poderemos nos conduzir nós mesmos e sermos nós mesmos nosso
s

soberano diretor (FOUCAULT, 2014, p. 242).


ver

Certamente que estamos longe desse tipo de pedagogia, também porque


nossas estruturas sociais são outras. No entanto, olhar para modos diferentes de
relações pedagógicas nos faz pensar que em algum momento nós socialmente
fomos construindo um tipo de vida e a naturalizamos. Pensar que outras formas

Flávia Lemos - 21982.indd 110 28/02/2020 13:13:00


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 111

de existência foram possíveis em outros tempos, nos faz pensar no nosso


tempo e possibilitar a construção de outros modelos. E aqui queremos lançar
luz sobre as experiencias libertárias na educação. Nas palavras de Foucault
vimos que as propostas pedagógicas antigas se pautavam por um outro cami-
nho e visavam outros fins. Hoje em dia os estudantes são tutelados até o nível
de doutorado, subjugados a relações de poder perversas que muitos de nós
conhecemos. Apesar de anacrônico, pensar nos antigos nos faz questionar o

or
nosso próprio projeto de sociedade ou pelo seria bom que assim o fizéssemos.

od V
Bion ao longo de sua obra aponta que grande parte da construção do

aut
sujeito psíquico (tomado em Bion não como assujeitado), aquele que é intér-
prete e que se dá da passagem da posição esquizoparanoide para a posição
depressiva, se deve às capacidades da mãe de conter as vivências da criança

R
(GROTSTEIN, 2017). Um paralelo se dá na prática clínica em que o terapeuta
ou analista funciona como esse continente-mãe ou mãe-continente. Me parece

o
que o que Bion narra serve como metáfora para as relações estabelecidas entre
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

discípulo e mestre na antiguidade.


Evidentemente que estamos tentando articular dois sistemas explicativos
em grande parte distintos, mas se nos dermos essa autorização de articulá-los
visã
podemos fazer grandes avanços, segundo nosso julgamento. Por exemplo, o
jovem Alcibíades teve várias relações amorosas quando novo. Sócrates se
interessou por ele quando Alcibíades já estava em idade mais madura. Fou-
cault (2010) indica Sócrates estava interessado nas questões de Alcibíades,
itor

na sua vida, não o tomava apenas como objeto de seus interesses sexuais, era
a re

interesse genuíno na pessoa de Alcibíades. Segundo o filósofo francês isto


era parte da relação que configurava a epiméleia heautoú.
Em termos kleinianos/bionianos o sujeito faz a passagem da “isso-dade”
para a “eu-dade” também pelo olhar de seu cuidador. O que importa afirmar
par

aqui é que seja em termos de psicanalise ou em outro sistema explicativo,


nossa cultura atual produz conhecimento que reafirmam práticas diferencia-
Ed

das e que acreditam em outras configurações relacionais que fazem emergir


o sujeito como seu soberano e capaz de decidir sobre a sua própria vida e
ão

de construir uma vida que seja bela para si pela conquista da sua liberdade.
Por vida bela gregos tomam aquela vida feita produzida por cada um, por
que cada um saberia o que é melhor para si, por estar sempre voltado para si,
s

atravessado pelos outros. As artes do viver constituídos pela submissão livre


ver

das práticas de si por meio das quais “[...]os homens não apenas se fixam em
regras de conduta, mas buscam a transformar-se a si próprios em seu ser sin-
gular e fazer de sua vida uma obra de arte que possui certos valores estéticos
e que responde a certos critérios de estilo” (DUARTE, 2016, p. 39)

Flávia Lemos - 21982.indd 111 28/02/2020 13:13:00


112

Em suma, ao analisar o modo de sujeição do indivíduo ao código moral,


Foucault passou a considerar a atividade do sujeito que livremente se
assujeita a um código e assim se distingue dos demais, reconhecendo-se
então como sujeito ético. Se há morais que privilegiam a codificação
em sua “sistematicidade e riqueza”, também há morais em que a tônica
não se encontra no quadro das prescrições, mas no modo como cada um
indivíduo se submete às regras, visando transformar a própria existência

or
em obra de arte (p. 39).

od V
Por esta razão, Foucault aponta que o sujeito ético, aquele que conse-

aut
gue fazer escolhas, é também o sujeito livre. Segundo Foucault “A liberdade
é a condição ontológica da ética. Mas a ética é a forma refletida assumida

R
pela liberdade (2006, p. 267)”. Na sua visão, a liberdade corresponde a uma
agonística, ou seja, conquistada por meio de um esforço, de uma luta entre as

o
forças do querer e as práticas da liberdade (CANDIOTTO, 2016)
aC
Nesse sentido que retomamos também a ideia de capacidade negativa

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


da mente retirada de Bion essa condição de ser tolerante à certas frustrações
(GROTSTEIN, 2017). Acreditamos que tal capacidade é aprendida de tam-
bém como um outro posicionamento diante do mundo. A vida moderna faz
visã
um apelo constante à euforia, ao “sem limites para o prazer”, os apelos da
publicidade vão na direção de um narcisismo onde o slogan principal é que
“você merece”, construindo um circuito pobre entre trabalho e merecimento
itor

de toda forma de prazer, onde não cabe afetos diversos como a tristeza. E de
a re

forma significativa exatamente nessa sociedade aumentam os números de


depressivos (KHEL, 2009). A liberdade aqui é tomada como parte de um pro-
cesso em que eu não me torno escravo de nada, de nem uma forma de prazer,
sentimento ou pessoa. Onde, por exemplo, um prazer não se torna um vício.
par

5. Imaginando o cenário possível para


uma vida ética, livre e bela
Ed

Na sua “A hermenêutica do sujeito” Foucault apresenta um caminho de


ão

convocação e de possibilidades para a experiencia do cuidado de si. Desde


a convocação mais propriamente presente na história da religião grega, até
a presença desse apelo dentro dos grupos filosóficos diversos. As várias ver-
s

sões dessa convocação e quem poderia viver o cuidado de si nos faz pensar
ver

primeiro na dimensão histórica e sempre mutante do convite. Posterior-


mente podemos pensar na dimensão social em que tal apelo pode surgir, e
em como nos múltiplos contextos da organização da vida, ele pode ser mais
ou menos incorporado.

Flávia Lemos - 21982.indd 112 28/02/2020 13:13:00


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 113

Assim o cuidado de si, o retorno para si era algo para ser vivenciado
desde muito jovem ou para ser pensado por quem queria governar os outros,
sendo também algo que se deveria tomar como premissa quando se estivesse
chegado à vida adulta, como foi o caso de Alcibíades. No seu encontro com
Sócrates. Também alguns grupos entendiam que o retorno a si só poderia ser
vivido por quem tinha privilégios e não precisava trabalhar ou ter outra ocupa-
ção, sendo um apelo que, embora direcionado à todos, poucos realmente teriam

or
condições de vivenciar. Depois o apelo era voltado para quem já era ancião,

od V
voltando, posteriormente, o apelo a todo mundo e em qualquer condição.

aut
Estimulado por essa característica histórica é que pensamos em que
sentido podemos pensar uma vida bela e artista, nos termos gregos, uma vida
estética, e livre. Pesamos que olhar apenas para o indivíduo seria a reprodução

R
dos ideais da filosofia liberal e capitalística. Não achamos que a aposta de
Foucault, tenha esse viés, apesar de muitas vezes ele o seja assim pensado.

o
Evidentemente que tal crítica desconhece às duras palavras do filósofo a
aC
respeito do sistema e do capital.
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Pensamos, então, numa via que seja compatível com nosso tempo, com
os recursos que temos construído neste momento histórico e optamos por
pensar em uma reflexão que leva em conta as ideias em torno do conceito
visã
da promoção da saúde. Pensando que as reflexões e iniciativas em torno
da temática da promoção da saúde compõe um cenário pensado nos nossos
tempos como forma de enfretamento da precariedade da vida e das aborda-
itor

gens em saúde. Algumas ideias podemos destacara respeito da promoção


a re

da saúde. Primeiramente a ênfase na própria ideia de saúde e não na doença


como costumeiramente se dá ao se discutir saúde. Ou seja, há um caminho
de potencialização nas experiências bem sucedidas e não no patológico. Em
outras palavras, o foco recai sobre o que deu certo, ou no que pode dar e não
em consertar os problemas. É mais do que simplesmente a prevenção que
par

ainda carrega forte ênfase no adoecimento, de certo modo, pois se caracteriza


Ed

em evitar a doença. A promoção da saúde pensa muito mais do que evitar a


doença em produzir estilo de vida que sejam saudáveis em si.
Evidentemente que aqui estamos pensando saúde perto do que podemos
ão

chamar de vida bela, tomando o conceito amplo de saúde, o qual leva em conta
o ser humano como um todo: como um ser biológico, psíquico, social, histó-
rico, cultural e espiritual. Desta maneira, segundo o paradigma da promoção
s

da saúde preconiza que não basta o indivíduo fazer escolher saudáveis, ele
ver

precisa ter a opção de fazer essa escolha. Por esta razão o fazer e o pensar
da promoção da saúde sempre implica um comprometimento intersetorial.
Pensar em saúde é pensar em engenharia de trânsito, em educação, arquitetura
urbana, economia, entretenimento e lazer, segurança pública, administração
sanitária e demais setores.

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114

Pensamos isso por acharmos que o sujeito escolhe dentro dos limites e
das possibilidades dadas pelo contexto. Nossos contextos precisam possibilitar
a experiencia da liberdade e da construção de uma vida ética. No entanto, não
conseguimos pensar na construção desse sujeito ético sem considerar que pre-
cisamos construir como sociedade um ethos mais solidário. Alguns filósofos,
inclusive Foucault, chama atenção para a amizade como um caminho possível.
A amizade é espaço de experimentação, caminho para ética. Evidente-

or
mente que o filósofo fala da amizade tendo como pano de fundo a experiência

od V
homossexual como protótipo de um tipo de vinculação que seria ao mesmo

aut
tempo não fusional como o amor e vinculação que permite vários arranjos
relacionais, para além dos já sabidos. Um território de novas possibilidades.
Acreditamos seriamente que a criação de experiencia de amizade não só entre

R
jovens, mas entre gerações diferentes pode ser um contexto favorável para a
produção de novas formas de subjetivação que sejam também formas de resis-

o
tências frente aos tempos precários. Locais (não necessariamente físicos) onde
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


também haja espaço para escuta e onde o jovem possa ser considerado agente
de sua vida em relações solidárias que o ajudem nesse percurso. Não porque
os jovens não tem competência, ou porque precisem de tutela em um sentido
amplo e não jurídico, ou seja, não porque precisem de um adulto guiando.
visã
Talvez seja importante a construção de espaços de amizade e de solidarie-
dade, porque a vida é assim mesmo. Nas palavras de Guimarães Rosa: “A vida
é mutirão de todos. Por todos remexida e temperada”. Que cada jovem decida
itor

nisso o melhor sabor, seu melhor tempero, nos diversos arranjos e gostos que
a re

podem ter. mas não isolados, abraçados por uma comunidade aberta para
experiências de liberdade. Talvez, um devaneio, mas o que Foucault tem nos
ensinado na sua obra tem sido muito isso: não devemos apenas ficar tentando
entender o que somos, mas essencialmente nos tornamos sempre outra coisa.
par

E neste processo, imaginar tem uma função crucial, função inventiva, criadora
e produtora de uma nova forma de viver, de existir e de produzir sentidos.
Ed
ão s
ver

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 115

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visã
itor
a re
par
Ed
ão s
ver

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TENDÊNCIAS PARA A ADESÃO
AO AUTORITARISMO: um
olhar sobre a personalidade

or
V
Louine Costa Lima Cruvinel

aut
Cristiane Souza Borzuk
Andressa Cabral Domingues

1. Introdução
CR
do
No atual cenário político é possível perceber a ascensão de líderes nos
países ocidentais que defendem governos autoritários. Podemos afirmar que
esses líderes representam parte da população que, de forma democrática, lhes
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

são
deram poder. Segundo Carone (2012), a ascendência de líderes com estas
características tende a se fortalecer em momentos de instabilidade política e
ra
econômica, como uma alternativa para mudança. Neste cenário de instabili-
dade política, econômica e de valores sociais, podemos perceber a disposição
i
dos indivíduos para aderir e concordar com princípios autoritários.
rev

Um dos acontecimentos marcantes em 2017 sobre a ascensão de movi-


mentos totalitários foi a marcha nazista em Charlottesville, EUA, no dia 12
to

de agosto de 2017, onde homens e mulheres caminharam com tochas, fizeram


saudações nazista e gritaram palavras de ordens contra imigrantes, negros e
ara

homossexuais. Segundo a BBC Brasil em sua página online (2017), muitos


integrantes deram entrevistas afirmando serem nazistas. Disseram que preci-
ver di

savam defender a supremacia branca na América do Norte e que os imigrantes


não podem substituí-los.
op

As evidências sobre as movimentações de grupos com ideais antidemo-


cráticos são crescentes na atualidade. No Brasil, policiais civis de Porto Alegre
E

e de São Paulo identificaram uma movimentação de grupos neonazistas que


estavam trocando experiências com grupos similares nos Estados Unidos,

Europa e Argentina, criando uma rede. Existem hoje, no Brasil, departamentos


policiais específicos para controle de informações sobre estes grupos, pela
grande preocupação existente na sociedade em que grupos com características
fascistas disseminem ódio.7
Que o fascismo deixou profundas marcas na história da humanidade é
fato. A ascensão de um líder totalitário, a extinção da oposição, a eugenia
levada a níveis práticos e extremos desaguando no holocausto (como no caso
7 Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/brasil/policia/policia-de-sp-ve-aumento-de-movimentacao-
-neonazista-e-identifica-grupos,93cb6a3bc57f1c80532f94bfbd208854tw6z4umz.html>.

Flávia Lemos - 21982.indd 117 28/02/2020 13:13:01


118

do nazismo); todos aspectos relacionados às práticas fascistas que vistos à


distância intrigam e chocam. Estudiosos das mais diversas áreas já se debru-
çaram sobre o estudo de elementos que compõem o quadro propicio para o
desenvolvimento de políticas antidemocráticas, a fim de compreendê-lo em
seus termos sociais, econômicos, políticos e psicológicos.
Theodor W. Adorno, teórico crítico Frankfurtiano, é importante refe-
rência para esse movimento dedicando parte do seu trabalho para o estudo

or
da propaganda antidemocrática e da personalidade autoritária, na busca por
mecanismos psicológicos e sociais envolvidos neste processo. Por meio de

od V
suas contribuições, é possível uma compreensão abrangente da relação estabe-

aut
lecida entre líderes e seguidores, principalmente pela descrição de uma série
de elementos com o caráter de manipulação inconsciente predominante na

R
propaganda antidemocrática. Considerando o quadro político instável carac-
terístico da ascensão e consolidação de movimentos antidemocráticos, e a

o
delicada situação em que o Brasil atravessa atualmente, a intenção deste texto
aC
é contribuir, do ponto de vista da psicologia social, para a compreensão dos

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


fatores determinantes da ascensão e manutenção de movimentos totalitários.

6. O lugar da Psicologia na compreensão


visã
de contextos antidemocráticos
Segundo Rouanet (1983), as primeiras tentativas de aproximar o pen-
itor

samento de Marx e Freud ocorreram a partir de dois marcos importantes: a


Revolução Bolchevista, em 1917, e a chegada de Hitler ao poder, em 1933.
a re

Estes dois marcos tiveram em comum o fato de que ambos contrariaram as


expectativas objetivas postas pelas condições econômicas e políticas da época.
De um lado, a Revolução Socialista foi possível mesmo a par do considerável
atraso econômico da Rússia e da inexpressividade de seu proletariado. Vale
par

lembrar que a Rússia era um país essencialmente agrário, e as análises da II


Internacional indicavam a impossibilidade da Revolução sem a hegemonia
Ed

burguesa. De outro lado, na Alemanha, ainda que as condições objetivas


indicassem certa maturidade do processo político e condições favoráveis à
revolução social (alto nível de industrialização, com um proletariado expres-
ão

sivo e uma conjuntura econômica que levava a pauperização crescente da


população), havia uma acentuação de forças contrarrevolucionárias, com a
defesa cada vez maior de posições conservadoras, culminando, em 1925, na
s

vitória de Hindenburg como presidente do Reich e, em 1934, a ascensão de


ver

Hitler ao poder. O que está em questão, nestes dois fatos, é o descompasso


entre os fatores objetivos e os subjetivos, revelando a importância estratégica
dos fatores subjetivos (Rouanet, 1983, p. 14).
Neste contexto, se anunciaram as possibilidades de aproximação entre o
pensamento de Marx e a psicologia. Em 1919 Emil Lorenz anunciava:

Flávia Lemos - 21982.indd 118 28/02/2020 13:13:01


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 119

A dominação e a exploração não precisam de nenhuma explicação psi-


cológica. Somente quando perguntamos quais os mecanismos psíquicos,
independentes de qualquer instância externa de poder, que levam a maioria
oprimida a sujeitar-se à sua situação, a comprazer-se nela, a esquecer a
origem da sua escravidão, a ignorar seu protagonismo histórico, a tornar-
se patriótica – somente então precisamos da psicologia8

or
A partir desse ano, surgiu toda uma literatura que tinha como propósito
a resposta à pergunta: “quais os mecanismos psicanalíticos que explicam a

od V
onipotência da ideologia burguesa?” (Rouanet, p. 15). No movimento psi-

aut
canalítico, Siegfried Bernfeld, Otto Fenichel e Paul Federn demonstraram
interesse nesta articulação, mas foi Reich o seu “proponente mais vociferante”
(Jay, 2008, p. 133).
R
Neste mesmo movimento, pode-se localizar o trabalho desenvolvido

o
pelos membros do Instituto para Pesquisa Social, da Universidade de Frank-
aC
furt, no período compreendido sob a direção de Horkheimer. Segundo Jay
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

(1978), apesar de que o tema da relação entre a psicologia e o marxismo fosse


um tema recorrente nos círculos intelectuais de Frankfurt naquele período, a
introdução da psicanálise nas análises do Instituto representou a intenção de
visã
romper com o marxismo economicista que vigorava sob a direção de Grün-
berg. Isso indicou uma mudança importante nas pesquisas desenvolvidas a
partir de então. A questão que orientará os trabalhos aparecerá na aula inau-
itor

gural de Horkheimer, em 1929:


a re

Que ligações podem ser estabelecidas num grupo social específico, numa
época específica, em países específicos, entre o papel econômico desse
grupo, as mudanças na estrutura psíquica de seus membros e os pensa-
mentos e instituições que são um produto dessa sociedade e que têm, como
par

um todo, um efeito formativo sobre o grupo em questão?9


Ed

Esta nova orientação se deu pela incorporação da psicanálise aos tra-


balhos do Instituto, inicialmente sob a batuta de Erich Fromm. Os estudos
realizados na Teoria Crítica chegaram a um ponto importante quando perce-
ão

beram que a classe operária não foi capaz de cumprir seu papel como Marx
concluía em seus estudos. De acordo com Jay (2008), Marx considerava que
s

a revolução poderia partir apenas da classe operária. Como esse papel não
ver

foi feito, os pesquisadores do Instituto começaram a fazer um esforço para


entender o desaparecimento das forças críticas do mundo.

8 Trecho da conferência intitulada Sobre a Psicologia da Política (Zur Psychologie der Politik). Citado por
Rouanet, p. 15.
9 Citado por Slater, p. 28.

Flávia Lemos - 21982.indd 119 28/02/2020 13:13:01


120

O Institut concentrou as energias no que os marxistas tradicionais


haviam relegado a uma posição secundária - a superestrutura da socie-
dade moderna. Isso significou concentrar-se primordialmente em dois
problemas: a estrutura e o desenvolvimento da autoridade, e a emergência
e a proliferação da cultura de massa. Todavia, para que essas análises
pudessem ser satisfatoriamente concluídas, era preciso preencher uma
lacuna no modelo marxista clássico da subestrutura e da superestrutura

or
(Jay, 2008, p. 1310).

od V
Os pesquisadores perceberam a falta de um elo psicológico para com-

aut
preensão da disposição da classe operária em continuar sendo oprimida, o
que pôde ser suprida pela inserção da psicanálise nas pesquisas posteriores.

R
7. A pesquisa sobre A Personalidade Autoritária

o
aC
Realizada no final da Segunda Guerra, a pesquisa intitulada La Perso-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


nalidad Autoritaria foi realizada por Theodor Adorno, Else Frenkel, Daniel
Levinson e R. Nevitt Sanford, nos Estados Unidos. Teve, como sua hipótese
principal, a seguinte questão: “as convicções políticas, econômicas e sociais
visã
de um indivíduo estão ligadas às tendências da personalidade?” (1965, p. 27).
Segundo Adorno, a principal preocupação dos autores foi estudar o indivíduo
potencialmente fascista e sua estrutura de personalidade, que o deixa suscetível
itor

a aceitação da propaganda antidemocrática (1965, p. 27). Consideraram que


a re

conhecer as forças da personalidade que favorecem a aceitação do fascismo


seria útil contra a adesão a sistemas totalitários. Uma questão importante
descoberta na pesquisa foi que os indivíduos que mostram suscetibilidade
para aceitar a propaganda fascista, possuíam características comuns.
par

Segundo Adorno, et al. (1965), os pesquisadores levantaram as seguin-


tes questões sobre os indivíduos potencialmente fascistas: “Como eles são?
Ed

Como é formado o pensamento antidemocrático? Quais são as forças orga-


nizadoras dentro do indivíduo? Se existem pessoas potencialmente fascistas,
qual a quantidade delas na sociedade? Quais os fatores determinantes em seu
ão

desenvolvimento?” (p. 28).


As tendências ideológicas de mesma natureza podem existir a partir de
s

muitas origens, assim como as mesmas necessidades pessoais podem estar


ver

presentes em ideologias diferentes. De acordo com essa ideia, os autores da


pesquisa definiram ideologia como uma organização de opiniões, atitudes
e valores. Existe independente de um indivíduo isolado e tem efeito nos
processos históricos do momento em que se expressa e atua no indivíduo
dependendo de como atende suas mais profundas necessidades.

Flávia Lemos - 21982.indd 120 28/02/2020 13:13:02


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 121

Empleamos aquí el término ideología en la acepción que se le da común-


mente em la literatura actual, vale decir que con él designamos una orga-
nización de opiniones, actitudes y la sociedad. Podemos hablar de la
ideología total de un individuo o de su ideología con respecto a diferentes
aspectos de la vida social: política, economía, religíon, grupos minorita-
rios, etc. Las ideologías tienen una existencia independiente de cualquier
individuo aislado, y las que se dan en determinados peródos resultan tanto

or
de procesos históricos como de acontecimientos sociales del momento.
Dichas ideologías ejercen sobre cada indivíduo diferente grado de atrac-

od V
cíon, lo cual depende de sus necesidades y de la medida en que éstas son

aut
satisfechas or frustradas (Adorno, t. et al., 1965, p. 28)

R
Logo na introdução, Adorno et al. (1965) afirmam que os indivíduos
não expressam as tendências antidemocráticas do mesmo modo. Alguns acei-
tam a propaganda antidemocrática de imediato, outros esperam para aceitar

o
depois que se torna um movimento forte e outras pessoas não aceitam (p.
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

30). Portanto, existem fatores que se estabelecem entre a identificação com


os movimentos totalitários e a participação ativa neles, entre a aceitação da
ideologia e a ação. Existem pessoas que aderem à ideologia, fazem assumi-
visã
damente a propaganda antidemocrática, ataques contra grupos minoritários,
e outras que se identificam com a ideologia, mas não agem. Portanto, para
os autores da pesquisa, existem graus de variância referentes aos momentos
em que os indivíduos vivem e a potencialidade das ações. Os pesquisadores
itor

perceberam que era necessário entender os elementos que conduzem à ação


a re

e também os que inibem a ação fascista.


Deste modo, para compreender os motivos que favorecem a adesão a uma
ideologia antidemocrática, é preciso compreender a estrutura e a dinâmica
de personalidade dos indivíduos. Ainda que tendências antidemocráticas não
par

sejam de natureza psicológica, há uma correspondência psicológica na manu-


tenção ou recusa de tais tendências. Na pesquisa, os autores conceituaram a
Ed

personalidade como uma organização das forças internas do indivíduo. Estas


forças contribuem para a predisposição de respostas emitidas pelos indivíduos
diante de situações específicas, atribuindo constância aos comportamentos
ão

físicos e verbais. As forças possíveis de inibir um comportamento antidemo-


crático estão em um nível mais profundo do que as forças que se expressam
imediatamente em comportamentos. Os autores da pesquisa se basearam na
s

teoria freudiana sobre a personalidade:


ver

Sólo una teoría de la personalidad total puede explicar tales estructuras. Y


la adoptada en la presente investigacíon afirma que la personalidad es una
organización más o menos permanente de las fuerzas internas del indiví-
duo. Estas fuerzas persistentes de la personalidad contribuyen a determinar

Flávia Lemos - 21982.indd 121 28/02/2020 13:13:02


122

la respuesta del sujeito ante distintas situaciones, y, por lo tanto, es a ellas


que se debe atribuir en buena parte la constancia del comportamiento, sea
verbal o físico. Pero, aunque constante, el comportamiento no es lo mismo
que la personalidad; ésta se encuentra detrás de la conducta y dentro del
individuo. Cada fuerza de la personalidad no es una respuesta sino una
predisposición a la respuesta; el que una predisposición llegue a expre-
sarse manifiestamente no depende sólo de la situación del momento sino

or
también de las predisposiciones que se le opongan. Las fuerzas inhibidas
de la personalidad se encuentran en niveles más profundos que aquellas

od V
que se expresan inmediata y constantemente en un comportamiento franco

aut
(Adorno, et al., 1965, p. 30).

R
Se é verdade, como afirmam Adorno et al. (1965, p. 30), que a perso-
nalidade é uma organização mais ou menos permanente das forças internas
do indivíduo, e que estas forças contribuem para determinar a resposta deste

o
indivíduo diante das diversas situações com que se defronta, ela é, por sua
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


própria natureza, “producto do medio social” (p. 31). De acordo com os
autores, as forças da personalidade são essencialmente necessidades, e, como
tais, só existem como referência e a partir do outro, sendo, desde o princípio,
visã
social. De outro lado, se a partir do conceito de estrutura, consideramos a
personalidade como razoavelmente estável, há que se considerar também,
que ela não é invariável: “lejos de estar formada desde un principio, de ser
algo invariable que actúa sobre el mundo que la rodea, la personalidad evolu-
itor

ciona a impulsos del ambiente social y no puede aislarse jamás de la totalidad


a re

social dentro de la que se desenvuelve” (Adorno et al., 1965, p. 31). Talvez, a


proposição mais correta seja aquela que reconheça a “interdependência entre
personalidade e sociedade” (Adorno et al., 1965, p. 31).
par

8. A formação da personalidade do indivíduo autoritário


Ed

O presente tópico tem por objetivo apresentar dados sobre a formação da


personalidade de indivíduos suscetíveis à adesão a movimentos totalitários.
Para isso, recorreremos, em particular, à pesquisa sobre a personalidade auto-
ão

ritária, de Adorno et al. (1965) e A Personalidade narcisista segundo a Escola


de Frankfurt e a ideologia da racionalidade tecnológica, de Crochik (1990).
No capítulo Tipos y Síndromes, de La personalidad autoritaria, os autores
s

citam síndromes e características da personalidade que exercem influência


ver

sobre a adesão dos indivíduos a movimentos totalitários (p. 696). De acordo


com os autores, essa definição e categorização das síndromes é a primeira
aproximação feita entre a teoria e os dados empíricos. Dividiram as síndro-
mes em Síndromes que se encontram em pessoas com altas pontuações, que
estariam mais dispostas a aderir a uma ideologia totalitária, e Síndromes que

Flávia Lemos - 21982.indd 122 28/02/2020 13:13:02


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 123

se encontram em pessoas com baixas pontuações, que tenderiam a recusar


ideologias totalitárias.
Dentre as várias síndromes descritas, a Síndrome Autoritária é a que
possui mais pontos significativos para a compreensão da adesão a pautas
autoritárias (p. 708). Segundo Adorno et al. (1965), o indivíduo autoritário
só encontra sua adaptação social sentindo prazer na obediência e na subor-
dinação, já que há o reconhecimento tácito da hierarquia social como algo

or
natural e necessário. Além disso, em nossa organização social, as tendências

od V
sádicas e masoquistas encontram gratificações. Essas gratificações possuem

aut
uma relação com as resoluções de conflitos no complexo de Édipo. De uma
forma simplificada, o amor que a criança sente pela mãe se torna um tabu,
geralmente barrado pela figura do pai. A criança passa a odiar o pai, esse ódio

R
se transforma em amor por meio de formações reativas. Essa transformação
leva a um tipo particular de superego.

o
Na Síndrome Autoritária, a conversão de ódio em amor é uma tarefa
aC
difícil e não possui bom êxito. Parte da agressividade sentida é absorvida
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

e convertida em masoquismo e outra parte é convertida em sadismo, esse


sadismo é descarregado naqueles indivíduos ou grupos com os quais ele não
se identifica. Foi observado, no momento em que a pesquisa foi realizada,
visã
que esses indivíduos convertiam ao judeu o substituto do odiado pai, que em
um nível de fantasia vê-se os mesmos atributos paternos que revoltam o filho,
como a frieza, a dominação e a rivalidade sexual. A ambivalência o invade,
itor

esse indivíduo pode se tornar capaz de atacar quem considera fraco e se presta
a re

socialmente como vítima.


Na Europa, no momento da realização da pesquisa, a Síndrome Auto-
ritária era muito característica da classe média, onde existia a má aceitação
da própria situação social. Outra característica da síndrome é a negação da
gratificação material, que indica a existência de um superego restritivo. O
par

indivíduo autoritário expressa sua mobilidade social ascendente, se identifica


Ed

com aqueles indivíduos ou grupos que estão em um grau a mais na hierarquia


da autoridade. Outra característica citada por Adorno et al (1965), é o fato de
que os indivíduos com a síndrome autoritária possuem compulsões em suas
ão

crenças religiosas e entendem a religião de maneira muito punitiva. Existe,


nas relações familiares do indivíduo autoritário, um pai punitivo, que usa da
brutalidade, e o indivíduo passa a admirar essa força bruta. A identificação
s

familiar e com o grupo, se converte em disciplina autoritária.


ver

Toda a construção teórica realizada pelos pesquisadores corresponde às


características de uma época, que possuía um tipo de política, de economia e
cultura, fatores determinantes da formação da personalidade dos indivíduos,
o que implica em seu caráter sócio histórico. Com a passagem do capita-
lismo concorrencial para o capitalismo monopolista, pode-se dizer que novos

Flávia Lemos - 21982.indd 123 28/02/2020 13:13:02


124

elementos são colocados em marcha na constituição subjetiva dos indivíduos.


Segundo Crochík (1990), com a passagem do capitalismo livre para o organi-
zado, o indivíduo que antes precisava controlar seus instintos, pois não havia
um sistema muito organizado a ponto de exercer controle sobre a consciência,
passa a liberar seus instintos em um sistema de monopólios, desde que esses
instintos estivessem associados à conformidade social. O pai deixa de ser uma
figura forte para a identificação dos filhos e, de acordo com Crochík, os meios

or
de comunicação de massa passam a influenciar decisivamente as crianças e

od V
jovens com ideais e valores que beiram a perfeição, assim a família não possui

aut
condições de competir com a indústria cultural (1990, p. 151).
Para o autor, a influência direta de valores externos torna os superegos

R
mais frágeis. O ódio que, antes, na constituição da personalidade autoritária,
era dirigida ao pai, passa a não ter um objeto específico, podendo direcioná-
-lo a tudo. Com os diversos modelos de identificação que a criança passa a

o
ter, o ego é construído de forma frágil, possui dificuldades na formação do
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


superego e responde com deficiência diante das exigências do id, formando
o que foi chamado de Personalidade Narcisista (Crochik, p. 151). Segundo
Crochík (1990), na atualidade, a cultura se caracteriza mais pela liberação
visã
do que pela repressão, a formação da personalidade está ligada ao consumo,
e não mais se dá pelo trabalho. Com a fragilidade do superego, os indivíduos
possuem maior facilidade para ser corruptíveis. Algumas das características
da Personalidade Narcisista são: medo de dependência, sensação de vazio
itor

interior, ódio reprimido sem limites, desejos orais não satisfeitos, dependência
a re

de calor advindo de outras pessoas, apego a valores externos, pouca diferen-


ciação entre o indivíduo e o meio:

Assim, no pós-guerra a personalidade autoritária baseava-se na ambigui-


par

dade de afetos, ou melhor, na cisão de afetos relativos a autoridade, que


levava a uma alternância de submissão-rebeldia calcada em objetos dis-
Ed

tintos: a submissão orientada para as autoridades constituídas e a rebeldia


contra os exogrupos. A personalidade narcisista, sucedânea da autoritária,
não se baseia mais no conflito de afetos e sim na desconexão ente eles e
ão

deles com o conteúdo da experiência (Crochík, p. 12).

Portanto, para Crochík (1990), a Personalidade Autoritária se constrói


s

de acordo com os problemas relacionados com a figura de autoridade, já a


ver

Personalidade Narcisista se constrói a partir da desconexão com as figuras de


autoridade. A Personalidade Autoritária é construída em momentos históricos
diferentes da Personalidade Narcisista. A Personalidade Autoritária se cons-
tituiu a partir de uma educação repressora, o que era muito característico de
quando a pesquisa foi realizada. Já a Personalidade Narcisista se constitui a

Flávia Lemos - 21982.indd 124 28/02/2020 13:13:03


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 125

partir da falta de identificação das crianças com o modelo familiar e o modelo


almejado é o imposto pela indústria cultural.

9. Considerações finais

Percebendo as variantes existentes entre a adesão e a não adesão aos


movimentos totalitários, este trabalho se dispôs a refletir sobre as tendências da

or
personalidade que favorecem a adesão a tendências antidemocráticas. É notá-

od V
vel que o surgimento de movimentos do tipo totalitário emerja em momentos

aut
conturbados da sociedade, em que a política, a economia e a cultura estejam
passando por mudanças, mas são fatores subjetivos, como as características

R
de personalidade dos indivíduos, que favorecem a adesão ou não a estes
movimentos. Características da personalidade que contribuem para a adesão
a movimentos antidemocráticos foram encontradas nos sujeitos da pesquisa

o
sobre a personalidade autoritária, entre elas estão a falta de motivações racio-
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

nais no ataque a alguns grupos considerados minorias. Indivíduos com essas


características possuem, em geral, uma explicação dos motivos que justificam
o preconceito contra alguém ou algum grupo. Entretanto, tais explicações não
visã
passam pela reflexão racional, sendo, sobretudo, resultado dos mecanismos
de defesa construídos durante seu desenvolvimento psicológico.
A aceitação de ideias preconceituosas sobre alguém ou algum grupo como
sendo naturalmente verdadeiras, também é uma característica de indivíduos
itor

que possuem tendências a aceitar movimentos totalitários. Pessoas com esta


a re

característica aceitam “falácias” como verdade, sem passar por uma análise
crítica e ponderar se as informações recebidas correspondem à realidade. A
intenção deste trabalho, ao apresentar os elementos constituintes da existência
subjetiva dos indivíduos que possuem disposições para aderirem a tendências
par

antidemocráticas, não é justificar quaisquer formas de organização social


a partir da mônada psicológica. Não se trata de reduzir às características
Ed

individuais a existência de totalitarismos ou a quaisquer outras formas de


governo. São questões políticas e econômicas. Compreende-se, no entanto,
que é necessária a compreensão dos fatores subjetivos que possibilitam às
ão

pessoas aderirem ou não a tais formas de ideologia.


s
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 125 28/02/2020 13:13:03


126

REFERÊNCIAS
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od V
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R
Jay, M. (2008). A imaginação Dialética: História da escola de Frankfurt e

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do instituto de pesquisas sociais 1923-1950. Rio de Janeiro. Contraponto.
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contra negros, imigrantes, gays e judeus. BBC Brasil, Charlottesville, Encon-
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trado em: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40910927

Slater, P. (1976). Origem e significado da escola de Frankfurt. Rio de Janeiro.


Zahar Editores.
par
Ed
ão s
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 126 28/02/2020 13:13:03


AUTORITARISMO E GUERRA
ÀS DROGAS NO BRASIL

or
José Araújo de Brito Neto
Flávia Cristina Silveira Lemos

V
Luanna Tomaz de Souza

aut
1. Introdução

CR
O presente artigo visa analisar a política de drogas no Brasil e as per-

do
manências de uma racionalidade autoritária de justiça penal. Para tanto, será
apresentada uma análise dialética e histórica que destaca os conflitos que
se delinearam a partir da expansão da política contra as drogas, no Brasil,
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

são
tomando como base pesquisa bibliográfica e documental. O tema da proi-
bição das drogas é de extrema relevância na medida em que o tráfico de
drogas é o crime que mais encarcera no país, aumentando 339% desde a
ra
Lei 11.343/200610. Torna-se fundamental, nesse contexto, compreender a atual
i
política de drogas implementada no Brasil. A chamada “guerra às drogas”
rev

reflete uma política internacional e um contexto histórico autoritário e que


foi voltada principalmente à contenção de determinados grupos e que precisa
to

ser analisada pois se dissemina na política criminal do país.


A política de drogas brasileira insere-sem um modelo de “política cri-
ara

minal autoritária”. Ferrajoli (2002) compreende assim políticas criminais


que desvalorizam, em maior ou menor intensidade, o princípio da legalidade
ver di

estrita ou um de seus corolários, buscando dar uma eficácia absoluta ao Direito


Penal. Pleiteia-se a máxima efetividade do controle social. As políticas crimi-
op

nais autoritárias constroem também a prisão como a única alternativa para a


solução de conflitos, ignorando a complexidade com que estes ocorrem e as
E

inúmeras possibilidades de enfrentamento.


Para Zaffaroni (2007), os componentes autoritários acompanham o direito

penal ao longo de sua história e permanecem mesmo sob a construção de


novos Estados, pautados em um modelo democrático. Esse ranço autoritário
se revela em diversos elementos, como a permanente construção de inimigos.
No âmbito da política de drogas, o mundo, sob influência dos EUA começa, a
partir, da década de 1980, a estruturar uma legislação penal claramente auto-
ritária elegendo o traficante como inimigo a ser exterminado, com a violação
de vários princípios estabelecidos pelas novas constituições. Segundo Batista
10 G1. Um em cada três presos do país responde por tráfico de drogas. Disponível em: <ponde-por-trafico-
-de-drogas.ghtml>. Acesso em: 16 jul. 2018.

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128

(1998, p. 123): “[...] sejam eles jovens negros e pobres das favelas do Rio de
Janeiro, sejam camponeses colombianos, sejam imigrantes indesejáveis no
Hemisfério Norte”.
Esse autoritarismo penal não contribuiu para inibir o consumo, pelo
contrário, e ainda ampliou o encarceramento e construiu uma lógica que
aperfeiçoou o viés punitivo do sistema penal. No Brasil, a transição demo-
crática brasileira esbarrou em enorme dificuldade de inserir a justiça penal

or
(PASTANA, 2009). Observa-se, na prática, uma forte resistência do campo

od V
jurídico penal em assumir a sua responsabilidade política na consolidação

aut
democrática o que ajusta-se ao projeto neoliberal também em curso no país
de suprimir ao máximo direitos previstos em lei reafirmando um discurso
que amplia o controle do Estado sobre os indivíduos para suposto controle
da criminalidade.
R
o
2. A guerra as drogas e o proibicionismo no Brasil
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


O processo de proibição do uso de substâncias no Brasil é farto no que
se refere a criminalização do usuário e na construção de estigmas. Segundo
visã
Maurício Fiore (2005), o proibicionismo do uso de drogas, no Brasil, encontra
sua emergência no século XIX. Em 1830, houve a proibição do uso da canna-
bis, associada, à época, ao consumo das classes mais baixas e discriminadas
da sociedade11.
itor

Adiante verifica-se que uma parte da elite brasileira tinha acesso ao


a re

uso de substâncias proibidas, o que não comprometia o acordo social entre


medicina e Estado. Conforme ressalta Fausto (2009), nesse período, conside-
rando o primeiro recenseamento, em 1872, a população brasileira foi estimada
em 9,93 milhões de pessoas: os mulatos eram 42% da população, 20% eram
par

negros e 38 % eram brancos, enquanto o índice de analfabetismo da popu-


lação escrava era de 99,9% e, entre a população livre, era de 80%, havendo
Ed

assim um enorme “poço” que separava as elites letradas das camadas mais
baixas da população. Já na República, em 1890, com a aprovação do primeiro
Código Penal Republicano, foi tornado crime contra saúde pública a venda
ão

de substâncias venenosas e não autorizadas, sendo apenado esse ato através


de multa. Carvalho (2013, p. 58-59) ilustra:
s

Com a edição do Código de 1890, passou-se a regulamentar os crimes


ver

contra a saúde pública, previsão que encontrou guarida no Título III da

11 Em 1830, foi instituída pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a Lei do Pito do Pango, na qual prelecionava
que: "É proibida a venda e o uso do pito do pango, bem como a conservação dele em casas públicas. Os
contraventores serão multados, a saber: o vendedor em 20$000, e os escravos e mais pessoas, que dele
usarem, em três dias de cadeia. "

Flávia Lemos - 21982.indd 128 28/02/2020 13:13:03


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 129

Parte Especial (Dos crimes contra a Tranquilidade Pública). Juntamente


com a incriminação do exercício irregular da medicina (art. 156); da prá-
tica da magia e do espiritismo (ar. 157); do curandeirismo (art. 158); do
emprego de medicamentos alterados (art. 160); do envenenamento das
fontes públicas (art. 161); da corrupção da água potável (art.162), da alte-
ração de substâncias destinadas à alimentação (art.163); e da exposição
de alimentos alterados ou falsificados (art. 164), o art. 159 previa como

or
delito “expor à venda, ou ministrar, substâncias venenosas sem legítima
autorização e sem as formalidades prescriptas nos regulamentos sanitá-

od V
rios”. Submetendo o infrator à pena de multa.

aut
Esse período do começo da República foi caracterizado por grandes

R
transformações socioeconômico-político-culturais, de maneira que o país,
que antes era sustentado pelo sistema escravocrata, naquele momento passa

o
a adequar-se ao sistema assalariado. As pessoas escravizadas passam a ser
consideradas “libertas”, porém, sem nenhuma assistência, vindo a contribuir
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

com o aumento dos conflitos urbanos. Assevera Maestri (2011, p. 129):

Esse descaso com o negro gerou problemas sociais sérios. Os poucos que
visã
tinham alguma profissão faziam biscates (bicos), comiam e dormiam onde
fosse possível. Outros iam sendo forçados à marginalidade, vivendo do
roubo ou da caridade pública, embriagando-se. Alguns foram vitimados
pela tuberculose ou por outras doenças, favorecendo, dessa forma, a orga-
itor

nização de instituições tais como as Santas Casas de Misericórdia, o Hos-


a re

pital Psiquiátrico D. Pedro II, os asilos São Vicente de Paula, entre outros.

No início do século XX, é importante ressaltar que as legislações brasi-


leiras eram também construídas sob a lógica da proibição do uso e da crimina-
lização do comércio das drogas, levando os usuários às prisões ou sanatórios
par

(RAMOS, 2012). Era o chamado higienismo, que, desde 1900, estava na pauta
principal da condução do Estado. Nesse mesmo período, é importante frisar
Ed

que houve, no mundo, um aumento do consumo de ópio e haxixe, sobretudo


por grupos intelectuais e aristocráticos, incentivando novas regulamentações
ão

(CARVALHO, 2013). Por conseguinte, em 1921, por meio do Decreto n.


4.294, houve, no país, a criminalização da venda da cocaína, do ópio e seus
derivados. Em seguida, com o advento do Decreto n. 14.969, surgiu a figura
s

do toxicômano, nomeado como o indivíduo dependente de tóxicos, podendo


ver

inclusive ocorrer, por meio desse documento, sua internação, requerida pelo
mesmo, por sua família ou pelo próprio judiciário (FIORE, 2005).
No Brasil, se assistia a emergência de um contexto de higienização social.
O Código Sanitário da República de 1890 disciplinava o uso do espaço urbano
segundo padrões europeus, condenando o uso público de drogas. Na década

Flávia Lemos - 21982.indd 129 28/02/2020 13:13:03


130

de 20, contudo, a situação se modificou, com a Convenção de Haia (1912)12


se fortalece o controle sobre opiáceos e cocaína, surgindo a primeira lei de
controle. Estes vícios, que eram das classes mais altas, passam a ser proibidos
ao alcançar as classes mais perigosas, como negros e a plebe urbana nacional.
Ao assumir uma postura proibicionista (com proibição total à livre produção,
circulação e consumo de substâncias psicoativas e repressão aos segmentos
sociais associados segundo o discurso governamental) significava estar ali-

or
nhado aos Estados Unidos.

od V
Adiante, observa-se que paulatinamente a legislação brasileira assume

aut
um papel de seletividade com relação ao consumo de drogas com foco na
população negra. Faz-se constatar que, mesmo com o advento do higienismo
e da influência das legislações mundiais, a elite consumidora será excluída,

R
de fato, desse processo de proibição do consumo.
Sobre o aspecto da legislação, houve a Consolidação das Leis Penais,

o
em 1932, sendo alterado o caput do artigo 159 do Código de 1890, acrescendo-
aC
lhe doze parágrafos e a previsão de prisão celular. Ocorreu então a substituição

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


do termo substâncias venenosas para o termo substâncias entorpecentes (o
qual perdurou até a revogação da Lei n. 6.368/76), bem como a previsão de
pena de prisão (CARVALHO, 2013).
visã
Nos EUA, a guerra contra às drogas tem como pano de fundo uma
marcha das medidas de controle social com base no controle sobre hábitos
e disciplinarização de condutas (RODRIGUES, 2002). Através de reuniões
itor

internacionais, o país começa a disseminar o terror causado pela dissemina-


a re

ção do uso de substâncias associadas aos negros, mexicanos e às populações


mais pobres. As resistências liberais internas vão sendo minadas através da
mobilização dos diversos países.
Quando surge a Lei Seca proibindo a produção, transporte, importação
e exportação de bebidas alcoólicas em todos os Estados da federação cria-se
par

um gigantesco mercado ilegal de álcool e a disseminação do uso de outras


drogas proibidas, como a maconha e a cocaína, utilizadas pelas populações
Ed

negras e imigrantes. Para os representantes da política de drogas do período,


como Harry Anslinger, “acabar com as drogas” significava inibir a influência
moral destas populações (RODRIGUES, 2002).
ão

Em 1936, foi criada a Comissão Permanente de Fiscalização de Entor-


pecentes, com a finalidade de controlar a produção e circulação de drogas,
s

inclusive por meio de pesquisas que objetivassem auxiliar na repressão e


ver

punição ao uso. Essas medidas tinham um entrelaçamento com o autoritarismo


do Estado Novo de Getúlio Vargas, baseado na normalização de condutas
através da moral e do militarismo. Vivia-se o Estado Novo, marcado pelo

12 A Convenção Internacional do Ópio, assinada em Haia em 23 de janeiro de 1912, durante a Primeira Con-
ferência Internacional do Ópio, foi o primeiro tratado internacional de controle de drogas.

Flávia Lemos - 21982.indd 130 28/02/2020 13:13:04


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 131

controle da opinião pública, censura aos meios de comunicação, tortura e


perseguição aos opositores ao regime varguista, sobretudo os partidos de
esquerda (FAUSTO, 2009).
O Brasil participava ativamente das reuniões internacionais e incorporava
a política externa. O Decreto-Lei n. 891/1938 serviu para incorporar as Con-
venções de Genebra de 1931 e 1936, a Convenção Única sobre Entorpecentes
de 1961, o que fundamentou a reforma da Lei de Tóxicos de 1967 (RODRI-

or
GUES, 2002). A ditadura varguista, entre 1937 e 1945, teve também forte
influência moral na construção do imaginário sobre a droga e a marginalidade

od V
da população pobre. Com a “dignificação” do trabalho, o adestramento dos

aut
corpos pelos padrões de normalidades sociais, as parcelas marginalizadas da
população foram facilmente estigmatizadas, originando o exemplo do “crime”

R
de vadiagem, sempre previsto no ordenamento jurídico brasileiro, entretanto,
ganhando força nesse período, com sua alocação na lei de contravenções

o
penais, em 1940.13 Nesse mesmo sentido, é publicado o Código Penal, atra-
aC
vés do Decreto-Lei n.2.848/40, sendo previsto na epígrafe do seu artigo 281
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

o “[...] comércio clandestino ou facilitação do uso de entorpecentes”. Para


Carvalho (2013, p. 59):
Assim, é lícito afirmar que, embora sejam encontrados resquícios de cri-
visã
minalização das drogas ao longo da história legislativa brasileira, somente
a partir da década de 40 é que se pode verificar o surgimento de política
proibicionista sistematizada. Diferentemente da criminalização esparsa,
itor

a qual apenas indica preocupação episódica com determinada situação,


nota-se que as políticas de controle (das drogas) são estruturadas com a
a re

criação de sistemas punitivos autônomos que apresentam relativa coerên-


cia discursiva, isto é, modelos objetivando demandas específicas e com
processos de seleção (criminalização primária) e incidência de aparatos
repressivos (criminalização secundária) regulados com independência de
par

outros tipos de delito.

A partir de 1964, bem como o posterior período de redemocratização do


Ed

país, inaugurou um período demarcador quanto às políticas sobre drogas. A


partir deste momento, os discursos da violência, da criminalização do usuário,
do aumento das penas bem como de práticas de cuidado e de atenção à saúde
ão

emergem e propiciam o desenvolvimento de novos modos de pensar e agir


das políticas públicas.
s

3. A ditadura militar e o acirramento do autoritarismo


ver

Em 1964, o país presenciava um dos períodos políticos mais autoritá-


rios de sua história, a ditadura militar, com a cassação de direitos políticos, a

13 Artigo 59 do Decreto-Lei n. 3.688, de 03 de outubro de 1941.

Flávia Lemos - 21982.indd 131 28/02/2020 13:13:04


132

redução das liberdades individuais e um enrijecimento da legislação, alinhando


o Brasil ao contexto internacional. A doutrina de segurança nacional (DSN)
assegurava ao Estado o combate ao inimigo interno, ao opositor ao sistema
recém instalado no país. Não somente tratava-se de opositor ideológico, mas
do diferente, daquele que desafiasse a moralidade e a normalização imposta
pelo Estado naquele período.
E neste contexto que surgem legislações mais rígidas que irão sedimentar

or
um discurso autoritário e estigmatizador do usuário de drogas. A Lei n. 4.451
de 04 de novembro de 1964 alterou a redação do artigo 281 do Código Penal

od V
Brasileiro incriminando o plantio de substâncias entorpecentes e confirmando

aut
o proibicionismo no que se relaciona ao porte, instigação e comércio de subs-
tância entorpecente em desacordo com a determinação legal ou regulamentar.

R
Por conseguinte, foi editado o Decreto-Lei n. 159/67 igualando os
entorpecentes às substâncias capazes de determinar a dependência física e/

o
ou psíquica. Em 1968, foi publicado o Decreto-Lei n. 385, que, contrariando
aC
a orientação internacional, rompeu com o discurso da diferenciação e crimi-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


nalizou o usuário através do acréscimo de novo parágrafo ao artigo 281 do
código penal brasileiro (CARVALHO, 2013). Aliado a este aspecto, a postura
proibicionista dos Estados Unidos da América foi fortemente intensificada
visã
a partir da Declaração de Guerra às Drogas do presidente Richard Nixon,
em 1973. As drogas assim passaram a substituir o anticomunismo como grande
inimigo público.
Com esse esforço proibicionista, passou-se então a criminalização do
itor

usuário. Não somente a patologização de suas condutas foi suficiente, as


a re

forças envoltas pela ditadura militar instalada no país, conduziram o ato de


porte para uso próprio como crime.
Neste período, emergiu a Convenção de Viena de 1971. Este documento
reafirma as bases da Convenção de 1961 e versou sobre o controle no que se
par

relaciona a preparação, comércio e uso das substâncias psicotrópicas. O Brasil


apenas ratificou esta Convenção anos depois, através do Decreto n.79.388,
Ed

de 14 de março de 1977, do então presidente Ernesto Geisel. Na exposição de


motivos do documento ratificado pelo Brasil observa-se juízos morais como
a “preocupação para com a saúde e o bem-estar da humanidade”, alerta que
ão

“medidas rigorosas são necessárias para restringir o uso de tais substâncias


para fins legítimos”, bem como defende a “preocupação com os problemas
sociais e de saúde pública”.
s

No Brasil, imediatamente teve emergência a Lei n. 5.726, de 29 de outu-


ver

bro de 1971. Tal legislação preservou o discurso médico, reforçando assim


mais do que nunca, o estereótipo do usuário como dependente:
Da recuperação dos Infratores Viciados
Art. 9º Os viciados em substâncias entorpecentes ou que determinem
dependência física ou psíquica, que praticarem os crimes previstos no art.

Flávia Lemos - 21982.indd 132 28/02/2020 13:13:04


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 133

281 e seus §§ do Código Penal, ficarão sujeitos às medidas de recuperação


estabelecidas por esta lei.

Paralelo a este modelo médico-jurídico, o movimento da reforma psi-


quiátrica ganhava força em muitos países do mundo, principalmente na Itália,
onde nos anos 60 começou a influenciar os estudos pelo fim das instituições
psiquiátricas. Este movimento, baseado nos pressupostos de Franco Baságlia14,

or
visou à extinção das instituições psiquiátricas, nas quais as práticas eram
baseadas na exclusão social. Tendo amplo apoio dos usuários e familiares,

od V
tal movimento de reforma contribuiu para a formulação de novas práticas de

aut
cuidado na saúde mental, sendo referência até hoje, além de ser reconheci-
damente apoiado pela Organização Mundial da Saúde (AMARANTE, 2005

R
apud RAMOS, 2012). No dizer de Baságlia (1980, p. 52):

o
[...] . O hospital em si é doente. Todos afirmam que a organização não está
bem. É difícil sair dessa gaiola porque a organização da medicina é feita
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

assim. Seria preciso mudar a lógica da medicina para sair desse drama.
Não estamos satisfeitos nem com os médicos, nem com os hospitais, nem
com a medicina, nem com a maneira pela qual se organizam os serviços
visã
de saúde pública. Na verdade, não estamos satisfeitos com nada.

Este contexto brasileiro, alinhado às convenções da ONU (Organização


das Nações Unidas), ao ideário proibicionista instalado pelos Estados Unidos
itor

da América, bem como a doutrina de segurança nacional levantada pela dita-


a re

dura militar corroboraram com o enrijecimento das legislações nos anos 70.
As instituições paulatinamente passaram a adotar posturas criminalizadoras e
patologizantes, assim o debate se estendeu a nível político e centrado também
na lógica de salvação nacional.
De outro aspecto, é importante frisar que dois crimes ocorridos no Bra-
par

sil, em 1973, tiveram também importância para a emergência da legislação


Ed

subsequente: Trata-se do assassinato da criança Araceli Cabrera Crespo, de 09


anos de idade, em 27 de maio de 1973. Esta foi sequestrada em Vitória (ES)
por três empresários, sendo que o laudo pericial do crime concluiu que antes
ão

da morte, a menina havia sido drogada e posteriormente abusada sexualmente.


Outro crime marcante foi o assassinato da menina Ana Lídia Braga, de 07
anos, ocorrido em 11 de setembro de 1973, tendo sido seu corpo encontrado
s

com evidências de abuso sexual. Tal crime, por envolver jovens de famí-
ver

lias conhecidas do Distrito Federal e envolvidos com o uso de drogas teve


as investigações realizadas secretamente a mando de autoridades militares
(AMUY, 2005).
14 Médico psiquiatra precursor do movimento de reforma psiquiátrica italiano conhecido como Psi-
quiatria Democrática.

Flávia Lemos - 21982.indd 133 28/02/2020 13:13:04


134

Em 22 de outubro de 1973, o então deputado Peixoto Filho encaminhou a


Câmara dos Deputados o Requerimento nº 47, com 104 assinaturas, solicitando
a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI (AMUY, 2005).
Em 1974, foi instituída, em nível da Câmara de Deputados, uma CPI que tinha
como finalidade a investigação das causas do uso e do tráfico de substâncias
alucinógenas. A citada comissão parlamentar apontou em seu relatório final
a necessidade de criação de mecanismos mais eficientes quanto à prevenção

or
e a repressão às drogas no país, o que desencadeou a emergência da Lei n.

od V
6.368/76 (RODRIGUES, 2004).

aut
A Lei n. 6.368, de 21 de outubro de 1976, promulgada pelo então pre-
sidente Ernesto Geisel, representou mais um enrijecimento proibicionista no
que tange ao controle do Estado sobre o uso, produção e tráfico de substân-

R
cias entorpecentes. O regime militar buscou reforçar seu controle através da
criminalização ou patologização das condutas. Para Karam (1997, p. 344):

o
aC
Neste ponto, é significativo, em nossa legislação, a utilização de lingua-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


gem característica da antiga doutrina de segurança nacional, que, neste
tema das drogas qualificadas de ilícitas, insiste em sobreviver, aparecendo
no estabelecimento de um dever legal de colaboração, que expresso no
visã
artigo 10 da Lei n. 6368/76, ressurge no substitutivo adotado pela Comis-
são Especial constituída pelo presidente da Câmara de Deputados para
apreciar os diversos projetos de lei que dispõe ser “dever de todas as pes-
soas, nacionais e estrangeiras, com domicílio ou sede no País, colaborar na
itor

prevenção do tráfico ilícito, do uso indevido e da produção de substâncias


a re

entorpecente e drogas afins”.

Segundo Carvalho (2013, p. 75): “O discurso do tipo penal militarizado


de repressão às drogas ilícitas no Brasil aparece como pano de fundo na
par

construção normativa da Lei 6.368/76[...]”. Estas evidências foram acom-


panhadas pela nova realidade que o país atravessava. No início dos anos 70
Ed

vivia-se o “Milagre Econômico Brasileiro”. As políticas desenvolvimentistas


do regime militar, através dos grandes projetos, como a construção da rodovia
transamazônica e a expansão da malha viária, favoreceram uma concepção
ão

de ordem e desenvolvimento social.


De outro aspecto, a desproporcionalidade entre o avanço econômico
s

e o retardo e abandono de programas sociais foi uma das características do


ver

“Milagre Brasileiro”. O país teria destaque mundial no que se relaciona ao


crescimento, notadamente o industrial, entretanto seria marcado por baixís-
simos indicadores de qualidade de vida da população, como os de saúde, de
educação e de habitação (FAUSTO, 2009).

Flávia Lemos - 21982.indd 134 28/02/2020 13:13:04


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 135

Neste contexto, a Lei 6.368/76 ainda alargou a repressão principalmente


as camadas mais estigmatizadas da sociedade. O binômio dependência-trata-
mento, tráfico e repressão transitaram por toda a citada legislação e a junção
da dependência-delito desencadeou um agravamento da criminalização da
adicção, estabelecendo uma intervenção do Estado com a finalidade de impedir
o crime (CARVALHO, 2013).
No que tange ao tratamento, a Lei não utilizou mais a nomenclatura

or
do viciado, sim a de dependente, demonstrando certo avanço com relação à

od V
legislação anterior, porém ratificando o modelo hospitalar para a internação

aut
e prevendo, quando necessário, o modelo extra-hospitalar com a assistência
do serviço social competente. Essa política repressiva e patologizante retor-

R
nou por quase três décadas com um emaranhado de fórmulas proibicionistas,
conectadas a uma postura não somente repressiva, mas também vinculada a

o
condução de um governo militarizado e alinhado a postura dos Estados Unidos
da América, bem como às Convenções da ONU.
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

Neste período, entre 1984/1985, há de se ressaltar que emerge o crack


como droga consumida por populações marginalizadas, particularmente negros
e hispânicos nos bairros pobres de Los Angeles, Miami e Nova Iorque. A
visã
referida droga era obtida por um processo de fabricação de baixo custo e foi
responsabilizada pela explosão da violência nas periferias americanas naquele
período; o que acarretou também a superlotação das cadeias por porte de crack
(RIBEIRO; ARAÚJO, 2006).
itor

Assim essas ações, diante das políticas repressivas, irão se reproduzir


a re

por longos períodos nos Estados Unidos no decorrer das décadas seguintes e
também influenciarão parte da América Latina nesta condução da repressão
ao tráfico e ao usuário de drogas. Neste mesmo período, o Brasil vivia os anos
de abertura política. No final dos anos 70, a Lei de Anistia (Lei nº 6.683, de 28
par

de agosto de 1979.) sinalizava os bons ares da redemocratização que ocorreria


na década seguinte. Os anos 80, no Brasil, foram marcados pela ebulição por
Ed

democracia. Do ponto de vista econômico, vivia-se anos de recessão. Segundo


Fausto (2009, p. 502):
ão

A recessão de 1981-1983 teve pesadas consequências. Pela primeira vez


desde 1947, quando os indicadores do PIB começaram a ser estabelecidos,
o resultado em 1981 foi negativo, assinalando queda de 3,1%. Nos três
s

anos, o PIB teve um declínio médio de 1,6%. Os setores mais atingidos


ver

foram as indústrias de consumo durável, como, por exemplo, os eletrodo-


mésticos e de bens de capital, concentradas nas áreas mais urbanizadas do
país. O desemprego nessas áreas tornou-se um problema sério. Calcula-se
que o declínio da renda foi mais grave do que o corrido nos anos seguintes
à crise de 1929.

Flávia Lemos - 21982.indd 135 28/02/2020 13:13:04


136

Esta realidade de crise agravou os problemas sociais. Os investimentos,


que já eram parcos naquele período, foram reduzidos. Os centros urbanos
brasileiros cresciam desordenadamente e com essa perspectiva de crise polí-
tica/econômica emergiu graves questões sociais, como a falta de habitação,
saneamento e emprego.

4. O processo de redemocratização no

or
país e a política de drogas

od V
aut
A “devolução” do poder político aos civis, todavia, não foi marcada por
debates sociais sobre o modelo de democracia. Isso ocorreu porque, segundo

R
parte dos militares, o país que deveria emergir com a abertura era um Estado
comandado pela elite beneficiada pelo militarismo.

o
O processo de transição para o regime democrático, contudo, teve forte
influência por outros setores como os partidos políticos bem como organiza-
aC

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


ções não partidárias (SILVA, 2014). O movimento das diretas, dentre os vários
fatores, teve influência da crise de Estado marcado pela redução da capacidade
da gestão econômica, bem como da crise do regime ocasionado também pela
visã
mudança nas relações de poder. Isso ocorreu pelo enfraquecimento do poder
executivo federal, com a fragmentação da base política do governo perante o
Senado, bem como perante a Câmara Federal (BERTONCELO, 2009).
itor

Mesmo sendo rejeitadas as eleições diretas para presidente, a proposta


teve grande apoio popular. Tancredo Neves e José Sarney mesmo sendo elei-
a re

tos de forma indireta representaram uma transição política caracterizada pela


oposição no poder. Com a morte do primeiro, em 1985, assume seu vice.
A crise econômica, a alta inflação e a carestia foram marcas do governo de
José Sarney, entretanto, foi neste mesmo governo, que se firmaram as bases
par

democráticas estabelecidas até hoje como a Assembleia Nacional Consti-


tuinte, iniciada em 01 de fevereiro de 1987, a qual culminou na promulgação
Ed

da atual Constituição Federal em 05 de outubro de 1988. Este documento,


contou com ampla participação popular de setores sociais como sindicatos,
ão

associações e movimentos sociais, os quais contribuíram com milhares de


sugestões encaminhadas à Constituinte.
Esses novos ares da democracia concediam ao cidadão novas garantias
s

sob o aspecto constitucional. Para termos uma ideia, as garantias constitucio-


ver

nais da carta magna anterior eram localizadas no final do texto constitucional,


na Constituição de 1988 ganhava a posição de início no artigo 5o com a maior
quantidade de garantias nunca dantes imaginadas, como também garantidas
em outros artigos, como aqueles que garantem os direitos sociais: o direito
à saúde, à educação, à assistência social. A dignidade da pessoa humana

Flávia Lemos - 21982.indd 136 28/02/2020 13:13:05


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 137

tornou-se um fundamental do Estado, colocada no artigo 1º da Constituição.


Segundo Ribeiro e Araújo (2005, p. 470):

A partir do restabelecimento do Estado Democrático de Direito, notada-


mente após o advento da Constituição da República de 1988, experimen-
tamos uma breve fase que se apresentava com ares liberalizantes. Isso se
deu a reboque das reformas institucionais e legislativas que, à época, a

or
imprensa se referiu como “entulho autoritário”. O debate acerca de outros
modelos alternativos à repressão ganha as ruas também em função de que

od V
estavam evidentemente revogados os dispositivos legais que impunham a

aut
censura prévia a respeito do tema drogas, sendo certo que, até então, sequer
era possível a realização de uma conferência sem prévia autorização [...].

R
Em 15 de novembro de 1989 e, em 17 de dezembro do mesmo ano,

o
conforme previsto na nova Constituição Federal de 1988, no Ato das Dis-
posições Constitucionais Transitórias, em seu artigo 4o, parágrafo primeiro,
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

foram realizadas as eleições diretas para Presidente da República, no Brasil. A


partir deste período, o país viveria também mudanças profundas no que tange
a sociedade brasileira. No plano internacional, neste período, no que se rela-
visã
ciona a “marcha proibicionista” às drogas, a ONU aprovou outro importante
documento: A Convenção de Viena de 1988, também chamada de Convenção
contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas. Segundo
Ribeiro e Araújo (2005, p. 461/462):
itor
a re

A terceira e última das chamadas Convenções-Irmãs da ONU foi a Con-


venção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e
Substâncias Psicotrópicas (Viena - 1988). Além de ratificar as resoluções
aprovadas pelos encontros anteriores, a terceira convenção preocupou-
par

se com o crescimento do crime organizado. Neste sentido, a convenção


chamou os países-signatários a adotarem medidas de combate ao tráfico
Ed

de drogas e à lavagem de dinheiro. Além disso, os produtos químicos


utilizados na obtenção dos princípios ativos das plantas psicoativas (pre-
cursores) passaram a sofrer forte controle por parte das nações. A terceira
convenção marca também um novo acirramento da repressão ao usuário de
ão

drogas, recomendando aos países-signatários a adoção da criminalização


do porte e uso de drogas.
s

A referida convenção foi ratificada pelo Brasil através do Decreto n. 154


ver

de 26 de junho de 1991, assinado pelo então presidente Fernando Collor de


Mello. O citado documento é composto de 34 artigos versando, em suma,
sobre o enrijecimento das legislações a nível internacional com relação à
produção, o tráfico e consumo de drogas, bem como medidas de combate ao

Flávia Lemos - 21982.indd 137 28/02/2020 13:13:05


138

tráfico internacional. Percebe-se então que a conjuntura político e internacio-


nal paulatinamente influenciou a repressão às drogas no Brasil. Esta relação
tendeu ao agravamento do modo como a questão passou a ser vislumbrada
pela população brasileira, pois a partir dos anos 80 vários fatores se articu-
larão para esta postura proibicionista e entre eles, também o crescimento
da violência, a qual será redimensionada através das forças proibicionistas.
Segundo Batista (1998, p. 122):

or
od V
Na transição da ditadura para a “democracia” (1978-1988), com o desloca-

aut
mento do inimigo interno para o criminoso comum, com o auxílio luxuoso
da mídia, permitiu-se que se mantivesse intacta a estrutura de controle
social, com mais e mais investimentos na “luta contra o crime”. E, o que é

R
pior, com as campanhas maciças de pânico social, permitiu-se um avanço
sem precedentes na internalização do autoritarismo. Podemos afirmar sem

o
medo de errar que a ideologia do extermínio é hoje muito mais massiva e
aC
introjetada do que nos anos imediatamente posteriores ao fim da ditadura.

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


É relevante perceber que nos anos 70 eram raros os trabalhos que aborda-
vam o tema da violência sobre o prisma da criminalização, não havendo grande
visã
repercussão popular e a massificação do tema, o que de fato se intensificou
a partir da década de 80 (ZALUAR, 1999). Para Wieviorka (2006, p. 223):

Seria absurdo só pensar a violência com referência ao sujeito, quer se trate


itor

do ator ou da vítima. As condutas humanas, com efeito, não se desen-


a re

volvem no vazio ou apenas no choque de subjetividades, mas no seio


de sistemas sociais, políticos, culturais. Porém, ao sair de uma época em
que a reflexão em geral, ou relacionada à violência em particular, teve
tendência a desinteressar-se do sujeito, a ponto que alguns proclamavam
nada menos que sua morte, e quando, manifestamente, assistimos por toda
par

a parte a um retorno do sujeito, parece-me que, ao pensar a violência na


Ed

perspectiva do sujeito, damo-nos condições para melhor refletir sobre os


meios de enfrentá-la.

Este enfoque da violência no sujeito é de suma importância para se


ão

investigar a criminalização do mesmo neste final de século. Diferente da


interpretação do autor passou-se paulatinamente a analisar este autor como
s

inimigo, como indivíduo a ser extirpado da sociedade. Melhor seria interrogar


ver

o mesmo do ponto de vista do enfrentamento, porém a criminalização passou


também a ser conduzida pelos discursos proibicionistas. Houve assim um
deslocamento na transição da ditadura, emergindo assim o “mito da droga”,
com forte apelo legal, criminalizador e emocional conduzidas pela mídia e
fortemente subjetivizada pelo imaginário popular (BATISTA, 1998).

Flávia Lemos - 21982.indd 138 28/02/2020 13:13:05


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 139

Desta criminalização, emerge também a relação entre a violência e as


drogas, que tomou conta dos debates fortemente a partir deste período e teve
como aspecto importante a atuação da imprensa no processo de criminaliza-
ção do usuário e do traficante de drogas. Este ponto de vista será latente se
vislumbrarmos a reprodução da violência através principalmente das mídias
também no final do século XX. Logo, a mídia representaria uma dessas forças
criminalizadoras, responsáveis pela “condenação antecipatória” do usuário

or
de drogas o que se coaduna também perfeitamente com o entendimento de

od V
Zaluar (1999, p.14) quando diz que: “A violência, como qualquer outro ins-

aut
trumento, pode, portanto, ser empregada racional ou irracionalmente, pode
ser considerada boa ou má, justificada ou abominada [...]”.
Sobre outro aspecto, no Brasil, em 11 de janeiro de 2002 foi sancionada

R
pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, a Lei n.10.409/02, a chamada
nova Lei de Drogas. Esta Lei não representou avanços significativos no que

o
atine a descriminalização. De acordo com Carvalho (2013), ocorreu a revoga-
aC
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ção parcial da Lei nº.10.409/02. No projeto dessa nova Lei, o caráter delitivo
do porte de drogas para uso pessoal se manteve, no entanto, foi adotado como
medida uma política criminal não encarceradora, com o advento das penas
alternativas. A criminalização do comércio de drogas ilícitas também persis-
visã
tiu, o que demonstrou o caráter proibicionista do legislador, inclusive com a
mesma espécie e quantidade de pena prevista na lei anterior. Todavia, após
a sua aprovação pelo congresso, alguns artigos dessa nova lei foram vetados
itor

pelo presidente da república, passando a vigorar somente a parte processual.


a re

Consequentemente, as penas continuaram a ser regidas pela Lei n. 6.368/76,


o que não caracterizou grandes modificações.
A visão seletiva do direito penal assim reafirmou a exclusão de jovens
pobres e alimentou a diferenciação entre jovens pobres e jovens ricos. Aos
par

jovens ricos o consumo de drogas é tolerado e, aos jovens pobres é negada a


sua cidadania (BATISTA, 1998). O que a prevenção ao crime vem a amealhar
Ed

é também, além da exclusão, o estigma da marginalização. Segundo Passetti


(2012, p. 21): “A prevenção geral é sempre seletiva. Os perigos são tidos como
anormais, subversivos, assaltantes, pobres, etnias diversas, pessoas, grupos
ão

ou classes, definidos como intoleráveis [...]”.

5. A Lei 11.343/2006 e o acirramento punitivo


s
ver

É neste apogeu criminalizador que em 23 de agosto de 2006, foi sancio-


nada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a atual Lei de Drogas. A Lei
n. 11.343/2006, apesar de ser antecedida por uma construção de uma política

Flávia Lemos - 21982.indd 139 28/02/2020 13:13:05


140

pública de governo sobre drogas, veio reafirmar a postura proibicionista sem-


pre adotada pelo país. Sobre este aspecto, Karam (2008, p. 105) observa que:

A Lei 11.343/06 é apenas mais uma dentre as legislações dos mais diversos
países que reproduzindo os dispositivos criminalizadores das proibicionis-
tas convenções da ONU, conformam a globalizada intervenção do sistema
penal sobre produtores, distribuidores e consumidores das selecionadas

or
substâncias psicoativas e matérias-primas para sua produção, que, em
razão da proibição são qualificadas de drogas ilícitas.

od V
aut
Com o advento da Lei 11.343/2006 cresce a repressão e o número de
presos por tráfico de drogas, principalmente os jovens negros. Assiste-se um

R
processo de estigmatização de drogas associadas a essa população, como o
crack. De acordo com a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, este delito

o
era responsável por 7,5% dos adolescentes presos em 2002. Em 2011, pas-
sou para 26,6%, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH)15.
aC

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No âmbito penal, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional
(DEPEN), com a nova Lei de Drogas houve um aumento de 339% do número
de presos, figurando o tráfico de drogas como o principal crime no país16. No
visã
âmbito do encarceramento feminino, 68% das mulheres estão presas por tráfico
de drogas, sendo que de 2000 a 2014 a população de mulheres em situação
de cárcere cresceu 567%. Percentual chocante se comparado ao crescimento
de apenas 17% da população feminina no país17.
itor

É relevante observar que da população carcerária brasileira, cerca


a re

de 622.202 presos/as, 61,6% são negros/as (pretos/as e pardos/as), conforme


o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), sendo que
no conjunto da população, a representatividade dos negros é menor: 53,6%,
de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad) divul-
par

gada em 201418. Percebe-se claramente que o endurecimento da política de


drogas serviu para o aumento da população presa, em especial a população de
Ed

mulheres e a população negra. Isso contradiz um discurso de que a Lei teria


sido benevolente ao introduzir um tratamento diferenciado para o usuário de
drogas em seu artigo 28:
ão

15 FOLHA. Triplica parcela de jovens internados por tráfico de drogas. Disponível em: <http://www1.folha.
uol.com.br/cotidiano/2013/08/1324683-triplica-parcela-de-jovens-internados-por-trafico.shtml>. Acesso em:
s

16 jul. 2018.
ver

16 G1. Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/06/com-lei-de-drogas-presos-por-trafico-


-passam-de-31-mil-para-138-mil-no-pais.html>. Acesso em: 20 set. 2016.
17 CONSULTOR JURÍDICO. Número de mulheres presas cresce sete vezes em menos de 15 anos. Dis-
ponível em: <http://www.conjur.com.br/2015-nov-05/numero-mulheres-presas-cresce-sete-vezes-15-anos>.
Acesso em: 16 jul. 2018.
18 CARTA CAPITAL. Mais de 60% dos presos no Brasil são negros. Disponível em: <ital.com.br/sociedade/
mais-de-60-dos-presos-no-brasil-sao-negros>. Acesso em: 16 jul. 2018.

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SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 141

Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou


trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às
seguintes penas:
I – advertência sobre os efeitos das drogas;
II – prestação de serviços à comunidade;
III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.

or
§1º Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal,
semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena

od V
quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física

aut
ou psíquica.
§2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz

R
atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e
às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e
pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.

o
§3º As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão
aC
aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses.
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§4º Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do


caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses.
§ 5º A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas
visã
comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabe-
lecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se
ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação
de usuários e dependentes de drogas.
itor

§ 6º Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere


a re

o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente,


poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a:
I – admoestação verbal;
II – multa.
par

§7º O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do


infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambu-
Ed

latorial, para tratamento especializado.

Avança o artigo ao não fazer menção diretamente ao uso de drogas,


ão

somente ao porte e ao plantio ao prever medidas de cunho educativo e adminis-


trativo como sanção. A Lei poderia, contudo, ter descriminalizado tal conduta,
ao invés disso cria uma sistemática arbitrária de diferenciação entre o usuário
s

e o traficante. Nos termos do artigo 28,§2º:


ver

§ 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz


atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e
às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e
pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.

Flávia Lemos - 21982.indd 141 28/02/2020 13:13:05


142

Alguns autores defendem que a Lei 11.343/2006 representou um avanço


para a questão do usuário com a descriminalização do uso e do porte de
drogas. Para Luiz Flávio Gomes (2006), na medida em que o artigo 1º da
Lei de Introdução ao Código Penal descreve crime como a infração penal
a que a lei comine pena de reclusão ou de detenção e a Lei 11.343/2006
retira essas formas de punição dos crimes de porte de drogas, entende-se que
foram descriminalizados.

or
Contudo, a partir dos estudos da criminologia crítica se observa que con-

od V
tinuou atuando como um mecanismo de controle social sobre determinados

aut
grupos como a população negras e as classes mais pobres. A Lei 11.343/2006
sustenta uma lógica de repressão policial e segurança pública para as dro-
gas, segregando parte da população que utiliza dessas substâncias. Vende-se

R
pela mídia e pelo discurso oficial um discurso estereotipado de um traficante
perigoso, que comanda grandes quartéis de drogas e estruturas, aliciando a

o
população, o que justifica a intervenção penal. Todavia, segundo dados do
aC
Instituto Sou da Paz, mais de 67,7% dos encarcerados por tráfico de maco-

Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão


nha nas prisões do País foram flagrados com posse de menos de 100 gramas
da droga, sendo 14% deles com quantidade inferior a 10 gramas. Quanto ao
tráfico de cocaína, 77,6% foram presos com menos de 100 gramas. 62,17%
visã
dos traficantes presos no País exerciam atividade remunerada na ocasião do
flagrante, 94,3% não pertenciam a organizações criminosas e 97% nem sequer
portava algum tipo de arma19.
itor

Percebe-se assim, um sistema seletivo que prende o microtraficante ou


a re

usuário como traficante a depender de sua cor da pele, bairro em que reside,
roupas, dentre outras características arbitrárias conferidas pelo juiz a partir
do art. 28, §2º da Lei 11.343/2006. Segundo Machado (2010, p.1098): “em
nome de um combate contra um “traficante” de drogas que foi estereotipado,
apoiado por uma legislação penal comprovadamente seletiva, o Estado brasi-
par

leiro, além de criminalizar a miséria, viola, despreocupadamente, os direitos


Ed

humanos das classes sociais mais vulneráveis”.

6. Considerações finais
ão

A política contra as drogas no Brasil desenvolveu-se de forma autori-


tária e racista. Todo o seu desenvolvimento culminou em um processo de
s

criminalização do outro, levando ao crescimento do tráfico de drogas ilegais


ver

e também a um investimento maciço no encarceramento e na violação de


direitos humanos em face dos negros e das classes sociais vulneráveis.
19 IG. 67,7% dos presos por tráfico de maconha tinham menos de 100 gramas das drogas. Disponível
em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/2014-09-23/677-dos-presos-por-trafico-de-maconha-tinham-menos-de-
100-gramas-da-droga.html>. Acesso em: 20 set. 2016.

Flávia Lemos - 21982.indd 142 28/02/2020 13:13:05


SUBJETIVIDADES E DEMOCRACIAS: escritas transdisciplinares v. 9 143

Todo o processo histórico levou a um recrudescimento legal com a


Lei 11.343/2006 que: a) a quantidade de pena para o crime de tráfico foi
aumentada de 03 anos de pena mínima para cinco anos de reclusão; b) equi-
parou o fornecimento gratuito da droga ao tráfico; c) manteve a criminalização
do porte para uso pessoal de drogas, estabelecendo penas de advertência,
prestação de serviços à comunidade, comparecimento a programas ou curso
educativo; ocorrendo descumprimento, admoestação e multa.

or
Percebe-se assim que as políticas de drogas no Brasil ainda transitam por

od V
vertentes proibicionistas, mescladas por perspectivas patologizantes. Em que

aut
pese para alguns autores a lei ter trazido avanços, essa ilusão é desconstruída
diante da realidade em que o usuário jovem, pobre e negro continuou com
o estigma do criminoso e mesmo que sua pena seja considerada em tese, de

R
menor intensidade, passará pelo crivo dos controles formais. Segundo Car-
valho (2013b, p. 43): “Embora o dispositivo seja destinado ao juiz, sabe-se

o
que a primeira agência de controle que é habilitada ao exercício criminalizar
aC
Editora CRV - versão para revisão do autor - Proibida a impressão

é a policial”.
Ao final, podemos destacar a importância de repensarmos a política de
drogas no país, rompendo com seu contexto autoritário de implementação.
A atual lógica proibicionista tem levado milhares de pessoas a prisão e tem
visã
intensificado o viés punitivo do sistema penal em especial contra a popula-
ção negra e jovem do Brasil. A permanência autoritária na guerra contra as
drogas pode ser compreendida se percebermos como serviu para garantir a
itor

permanência do aparato repressivo, aprofundando seu caráter autoritário e


a re

assegurando investimentos crescentes para o controle social e a segurança


pública. A construção, principalmente com o regime militar do traficante como
inimigo propiciou a renovação dos argumentos exterminadores, o aumento
explosivo das execuções policiais e a naturalização da tortura. Essa racionali-
par

dade que precisa ser descortinada e essas permanências precisam ser rompidas
para a construção de um direito penal que realmente se adeque a um Estado
Ed

Democrático de Direito.
s ão
ver

Flávia Lemos - 21982.indd 143 28/02/2020 13:13:06


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