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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA POLÍTICA

THULIO CÍCERO GUIMARÃES PEREIRA

BANCOS E BANQUEIROS, SOCIEDADE E POLÍTICA:

O BAMERINDUS E JOSÉ EDUARDO DE ANDRADE VIEIRA

(1981 a 1994).

VOLUME 1-3

TESE DE DOUTORADO

Florianópolis - SC

2006
THULIO CÍCERO GUIMARÃES PEREIRA

BANCOS E BANQUEIROS, SOCIEDADE E POLÍTICA:

O BAMERINDUS E JOSÉ EDUARDO DE ANDRADE VIEIRA

(1981 a 1994).

VOLUME 1-3

Tese na Linha de Pesquisa: Estado, mercado,


empresariado e sistema financeiro, apresentado ao
Programa de Pós-graduação em Sociologia Política,
do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, da
Universidade Federal de Santa Catarina, como
requisito parcial para obtenção do título de Doutor
em Sociologia Política.

Orientador: Prof. Dr. Ary César Minella.

Florianópolis

2006
P436b Pereira, Thulio Cícero Guimarães
Bancos e banqueiros, sociedade e política : o Bamerindus e José
Eduardo de Andrade Vieira (1981 a 1994) / Thulio Cícero Guimarães
Pereira ; orientador Ary César Minella. – Florianópolis, 2006.
3 v. (721 f.)

Tese – (Doutorado) – Universidade Federal de Santa Catarina,


Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política, 2006.

Inclui bibliografia

1. Sociologia Política. 2. Finanças – Brasil – 1981-1994 – História.


3. Banqueiros. 4. Hegemonia financeira. 5. Política econômica – Brasil.
6. Corporativismo. I. Minella, Ary César. II. Universidade Federal de
Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política.
III. Título.
CDU: 32:301

E-Mail:
thuliocicero@yahoo.com
thuliocp@cefetpr.br
thulio.pereira@copel.com
Luthio, gratia um orum per tuti la eternita

Em memória de meus pais Egydio Pereira e Aurora

Guimarães Pereira cujos exemplos me serviram nas

horas mais difíceis. Também dedico este trabalho

para Zita e Bebelinha; e em especial para minha

querida Nenza.
AGRADECIMENTOS

A complexidade e o tamanho deste trabalho envolveram a colaboração de muitas pessoas,

às quais devo meus sinceros agradecimentos.

Inicialmente agradeço ao professor Ary Minella pelas horas inestimáveis de orientação ao

longo de todo o trabalho. Seu conhecimento, experiência e paciência foram fundamentais para o

desenvolvimento e conclusão desta tese. Também agradeço ao professor Dennison de Oliveira

pelas orientações na construção da primeira proposta do projeto de pesquisa.

Para o desenvolvimento do trabalho foi de grande importância o apoio recebido da

Companhia Paranaense de Energia – Copel, através de Edílson Antonio Catapan, Jones de Castro

Julim Júnior, Ruth Helena Riboski e Vera Lúcia Baron.

Com relação às fontes de pesquisa, agradeço a Sérgio Prates, Ranoel de Souza Ribeiro e

Luiz Francisco Zanotto, pelo acesso aos arquivos do Banco Bamerindus do Brasil S.A.; à Maria

Christina de Andrade Vieira, pelas cópias do importante material sobre a história do grupo; e ao

professor Sérgio Soares Braga que espontaneamente forneceu seu arquivo e anotações sobre o

Bamerindus e José Eduardo de Andrade Vieira.

Finalmente agradeço às dezenas de pessoas que contribuíram com relatos e histórias que de

alguma forma fazem parte deste trabalho, aos meus alunos, amigos e familiares pela paciência que

tiveram para ouvir as muitas histórias do Bamerindus nestes últimos sete anos.
Epigramma XLII

Que la Naturaleza te guíe, y tú


síguela en tu arte, porque errarás
si no es la compañera de tu
camino. Que la Razón te sirva de
cayado, y la Experiencia te
asegure las luces para que con
ella puedas ver las cosas lejanas.
Sea la Lectura la lámpara que
despeje las tinieblas para que te
guardes, prudente, del
amontonamiento de cosas y
palabras. (MAIER, 1618)1

“(…) O vecchio está certo”.2

1
Fonte: MAIER, Michaele. Atalanta fugiens, hoc est, Emblemata nova de secretis naturae chymica. OPPENHEIM, Ex
typographia Hieronymi Galleri, for Johann Theodor de Bry, 1618. Disponível em: <http://hdelboy.club.fr/
atalanta_fugiens.html>. Acesso em 6 jan. 2006.
2
Fonte: CONRAD, Joseph. (1904). Nostromo. São Paulo: Cia Letras, 1991, p. 343.
RESUMO

Este trabalho analisa o fenômeno das articulações formais e informais que ocorrem entre bancos,
Estado, banqueiros e política, através de um amplo estudo do Grupo Bamerindus durante a gestão
do banqueiro / político José Eduardo de Andrade Vieira, no período 1981-1994. O caso foi
escolhido por ser emblemático dos vínculos estabelecidos entre bancos e política tanto na esfera
local como nacional, pois o Bamerindus foi o quinto maior grupo privado nacional e o terceiro
maior banco privado brasileiro em ativos e, entre seus principais sócio-controladores, executivos e
diretores, estiveram Governadores e Secretários de Estado, Ministros e líderes partidários, como
por exemplo, José Eduardo, que foi presidente nacional do PTB, Senador, Ministro, candidato a
Presidente da República e um dos principais coordenadores e tesoureiro da campanha presidencial
de Fernando Henrique Cardoso em 1994.
Utilizando o conceito e metodologia de redes sociais, este trabalho analisa como essa “elite
Bamerindus” articulou o capital financeiro, o grupo econômico e associações de classe na luta
política pela hegemonia. Demonstra a tese que o Bamerindus formava uma complexa equação
social integrando interesses e atividades que ultrapassavam o campo econômico e financeiro,
incorporando amplos setores da sociedade civil, política e partes do aparelho do Estado,
influenciando de forma significativa a história do Paraná e a brasileira. Também conclui que,
naquele contexto histórico, o fenômeno das conexões do sistema financeiro com a política era parte
integrante e inseparável de um organismo social complexo, e sua centralidade no Bamerindus
estava vinculada à posição estratégica que as instituições bancárias ocupavam na estrutura de
produção capitalista. Esta tese também demonstra que não é possível entender o jogo político sem
conhecer suas conexões com o mundo econômico, bem como não é possível entender o
desempenho econômico dos grupos sem conhecer suas conexões com a sociedade civil, política e o
aparelho do Estado.
Este estudo utiliza (capítulo I) os conceitos gramscianos de Estado, Sociedade, Política e
Hegemonia; e as proposições de alguns autores para capital financeiro, hegemonia financeira,
grupos econômicos, elites orgânicas e associações corporativas. Inicialmente (capítulo II)
contextualiza o estudo no âmbito das transformações ocorridas no sistema financeiro nacional e
internacional e, (capítulo III) a história da formação do Bamerindus e da família Vieira até o ano de
1981. Na seqüência (capítulo IV) identifica e analisa a rede corporativa Bamerindus, sua estrutura
institucional, econômica e de poder no período 1981-1994; (capítulo V) a rede política Bamerindus,
seus principais personagens e sua influência na história política paranaense e brasileira recente. Este
trabalho termina apresentando a análise da trajetória política de José Eduardo (capítulo VI), e um
breve resumo dos principais acontecimentos ocorridos de 1995 até a intervenção do Banco Central
do Brasil no grupo, em março de 1997.

Palavras-chave: Banqueiros. Redes Sociais. Hegemonia Financeira. Grupo Econômico. Capital


Financeiro. Sistema Financeiro. Rede Corporativa. Rede Política. Elite Orgânica.
ABSTRACT

This thesis analyze the phenomenon of formal and informal connections among banks, state,
bankers and politics through a broad study on “Bamerindus group” during José Eduardo de
Andrade Vieira period – from 1981 to 1994. This case was chosen due to its emblematic links
among banks and politics in the local and national helms, as Bamerindus was the 5th greatest
private group and the 3rd biggest Brazilian private bank and amongst its main partners, CEO’s and
managers there were governors, state secretaries, ministers and party leaders, as José Eduardo who
was PTB party president, senator, minister, presidential candidate and one of the coordinators and
treasurer of FHC presidential campaign in 1994.
Using social networks concept and methodology, this paper analyze how “Bamerindus elite”
articulated the financial capital, economic group and work unions in its political struggle for
hegemony; demonstrate the thesis in which “Bamerindus” formed a complex social equation
bringing together interests and activities which overcame financial and economical levels,
involving wide sectors from the civil society, politics and state apparatus, influencing meaningfully
Paraná and Brazilian histories. Also conclude that in that historical context the connection between
financial and political systems were inseparable part of a complex social organism, and its
centralization in Bamerindus was linked to the strategic position which this bank had in the capital
production structure. This thesis also shows that it is not possible to understand the political game
without knowing its connections with the economic world as well as understanding the groups
economical performance without knowing its connections with the civil society, politics and state
apparatus.
This study use (chapter I) gramscians concepts of state, society, politics and hegemony; and some
authors propositions of financial capital, financial hegemony, economical groups, organic elites and
corporative associations. In the beginning (chapter II), contextualize the study in the scope of the
transformations occurred in the national and international financial systems and, (chapter III) the
Bamerindus story and Vieira family until 1981. Then (chapter IV), identify and analyze
Bamerindus corporative network, its economic, institutional and power structure from 1981 to
1994; (chapter V) Bamerindus political network, its main characters and its influence in Brazil and
Paraná recent history. Finally, analyze José Eduardo political path (chapter VI), and a brief
summary of the main events from 1995 until Banco Central do Brasil intervention in March 1997.
Key words: Bankers. Social Networks. Financial Hegemony. Economic Group. Financial Capital.
Financial System. Corporative Network. Political Network. Organic Elite.
RESUMEN

En este trabajo analizamos el tema de las relaciones formales e informales que ocurren entre los
bancos, el Estado los banqueros y la política, a través de un amplio estudio del Grupo Bamerindus,
durante la gerencia del banquero/político José Eduardo de Andrade Vieira, en el período 1981 –
1994. El caso fue elegido por ser emblemático de los vínculos establecidos entre los bancos y la
política, tanto en el ámbito local como nacional, ya que el Bamerindus fue el quinto mayor grupo
nacional y el tercer mayor banco privado brasileño en activos. En sus principales socios-
controladores, ejecutivos y directores estuvieron gobernadores, secretarios de estado, ministros y
líderes partidarios, como por ejemplo José Eduardo que fue presidente nacional del PTB, senador,
ministro, candidato a presidente de la república y uno de los principales coordinadores y tesorero da
la campaña presidencial en 1994 de Fernando Henrique Cardoso.
Utilizando el concepto y metodología de redes sociales, analizamos cómo esa “élite Bamerindus”
condujo el capital financiero, el grupo económico y asociaciones de clase en la lucha política por la
hegemonía; demostramos la tesis de cómo el Bamerindus formaba una compleja ecuación social,
integrando intereses y actividades que ultrapasaban el campo económico y financiero, incorporando
amplios sectores de la sociedad civil, política y partes del organismo estadual, contribuyendo de
forma significativa en la historia paranaense y brasileña. También concluimos que en aquel
contexto histórico el tema de las conexiones del sistema financiero con la política era parte
integrante e inseparable de un organismo social complejo y su centralidad en el Bamerindus estaba
vinculada a la posición estratégica que las instituciones bancarias ocupaban en la estructura de la
producción capitalista. Esta tesis también demuestra que no es posible entender el juego político sin
conocer sus conexiones con el mundo económico, así como no es posible entender el desempeño
económico de los grupos sin conocer sus conexiones con la sociedad civil, política y el órgano
estadual.
En este estudio utilizamos (capitulo I) los conceptos gramscianos de estado, sociedad,
política y hegemonía; y las proposiciones de algunos autores para capital financiero, hegemonía
financiera, grupos económicos, élites orgánicas y asociaciones corporativas. Inicialmente (capítulo
II) contextualizamos el estudio en el ámbito de las transformaciones ocurridas en el sistema
financiero nacional e internacional y (capítulo III) la historia de la formación del Bamerindus y de
la familia Vieira hasta el año 1981. En la secuencia (capítulo IV) identificamos y analizamos la red
corporativa Bamerindus, su estructura institucional, económica y de poder en el período 1981-1994;
(capítulo V) la red política Bamerindus, sus principales personajes y su influencia en la historia
política paranaense y brasileña reciente. Encerramos este trabajo con el análisis de la trayectoria
política de José Eduardo (capítulo VI), y un breve resumen de los principales hechos ocurridos
desde 1995 hasta la intervención del Banco Central do Brasil en marzo de 1997.

Palabras-claves Banqueros. Redes Sociales. Hegemonía Financiera. Grupo Económico. Capital


Financiero. Sistema Financiero. Red Corporativa. Red Política. Élite Orgánica..
RÉSUMÉ

D’abord, nous analysons dans ce travail, le phénomène des articulations formelles et informelles
réalisées entre les banques, l´État, les banquiers et la politique, en étudiant de façon approfondie,
l´expérience du Groupe Bamerindus pendant la gestion du banquier et politique de José Eduardo
Andrade Vieira, entre 1981-1994. Le cas a été choisi puisqu´il est emblématique dans les liens
établis entre les banques et la politique à la sphère locale et nationale. Alors, le groupe Bamerindus
a été le cinquième des plus grands des groupes privés nationaux et la troisième plus grande banque
Brésilienne en actifs et, parmi ses principaux associés-fondateurs, des cadres et employés bien
placés, on trouvait des personnalités comme des Gouverneurs, des Secrétaires d´État, Ministres et
leaders de partis, comme par exemple José Eduardo, qui a été le président national du PTB (Parti
des Travailleurs Brésiliens), Sénateur, Ministre, canditat à la Présidence de la République et l´un
des principaux coordinateurs et trésorier de la campagne présidentielle de Fernando Henrique
Cardoso, en 1994.
Et, à partir d’un approche théorique et méthodologique des réseaux sociaux, nous analysons la
manière dont cette “élite Bamerindus” a réussi à faire mouvementer le capital financier du groupe
économique et des associations de classes dans la lutte politique pour une hégémonie ; nous
démontrons aussi, la thèse selon laquelle le Bamerindus formait une équation sociale complexe qui
rassemblait des intérêts et des activités qui dépassaient les domaines économique et financier, tout
en englobant les secteurs représentatifs de la société civile, politique et une partie de l´appareil
d´État, et encore qui influenciait de manière importante, l´histoire Paranaense et Brésilienne.
Ensuite, nous trouvons que, dans ce contexte historique, le phénomène des connexions du système
financier avec la politique intégraient, de façon très étroite, un système social complexe, et que son
centralisme chez Bamerindus était très lié à la la position stratégique où les institutions bancaires se
plaçaient dans la structure de production capitaliste. Ce travail démontre, encore, qu´il n´est pas
possible de comprendre le jeu politique sans connaître ses connexions avec le monde économique,
aussi comme n´est pas possible de comprendre la performance économique des groupes sans
connaître leurs connexions avec la société civile, politique et l´appareil d´État.
Nous avons utilisé dans cet étude, dans le Chapitre I de ce travail, les apports théoriques
Gramsciens d´État, de Société, de Politique et d’Hégémonie; et aussi les propositions d´autres
auteurs sur le capital financier, l´hégémonie financière, les groupes économiques, les élites
organiques et les associations corporatives. Dans le Chapitre II, nous avons encadré notre étude
dans les transformations apparues dans le système financier national et international. Dans le
Chapitre III, nous présentons l´histoire de la famille Vieira et le processus de création et formation
du groupe Bamerindus jusqu´en 1981. Ensuite, dans le Chapitre IV, nous avons identifié et analysé
le réseau de la corporation Bamerindus, sa structure institutionnelle, économique et de pouvoir
entre 1981-1994. L´objet du Chapitre V a été le réseau politique du Bamerindus avec ses principaux
personnages et son influence dans l´histoire politique Paranaense et Brésilienne. Finalement, nous
concluons ce travail (Chapitre VI) par l´analyse du parcours politique de José Eduardo, et nous
présentons auusi, un résumé des principaux événements de 1995 à mars 1997, date à laquelle la
Banque Centrale Brésilienne a declenché les procédures d´intervention chez Bamerindus.

Mots clés: Banquiers, réseaux sociaux, hégémonie financière, groupe économique, capital
financier, système financier, réseaux corporatifs, réseau politique, élite organique.
LISTA DE GRÁFICOS, ILUSTRAÇÕES, QUADROS E TABELAS

LISTA DE GRÁFICOS

Volume I
Gráfico 1-1 Sociograma da rede de conexões do Citigroup. ........................................................... 14
Gráfico 1-2 Artigos com palavra-chave: “Network”...................................................................... 15
Gráfico 1-3 Rede Social Bamerindus .............................................................................................. 16
Gráfico 1-4 Representação gráfica do efeito de um corpo na geometria do espaço / tempo........... 19
Gráfico 1-5 Representação gráfica de uma função de onda. ........................................................... 19
Gráfico 1-6 Fontes jornalísticas utilizadas na pesquisa. .................................................................. 21
Gráfico 2-1 Esfera de influência em Levine (1972) ........................................................................ 33
Gráfico 2-2 Rede de relações intercorporativas em Scott (1988).................................................... 34
Gráfico 2-3 Relação Patrimônio Líquido e o Total dos Ativos dos bancos brasileiros (média
dos percentuais de 1976 a 1994 – base em US$ milhões) ........................................... 41
Gráfico 3-1 Evolução dos ativos financeiros no mercado internacional por tipo de investidor
de 1980-1994 (em US$ bilhões) .................................................................................. 83
Gráfico 3-2 Ativos dos investidores institucionais dos principais países da OCDE (em US$
bilhões)......................................................................................................................... 83
Gráfico 3-3 Ativos dos investidores institucionais dos principais países da OCDE. (em US$
bilhões acumulados)..................................................................................................... 84
Gráfico 3-4 Crescimento do estoque de ativos financeiros de 1980 a 1992 (em US$ bilhões
US$) ............................................................................................................................. 85
Gráfico 3-5 O crescimento do estoque de ativos financeiros de 1980 a 1992 (em %) .................... 85
Gráfico 3-6 Formação bruta de capital fixo do setor privado e o crescimento do estoque de
ativos financeiros (1980-1992). (taxas médias de crescimento anuais) ....................... 85
Gráfico 3-7 Participação no mercado internacional (em %)............................................................ 87
Gráfico 3-8 Evolução de Financiamentos e Empréstimos líquidos no mercado internacional
(1982 - 1997)................................................................................................................ 87
Gráfico 3-9 O crescimento do estoque de ativos financeiros de 1980 a 1992 (em US$
bilhões)......................................................................................................................... 88
Gráfico 3-10 Nº de agências por bancos em 1950........................................................................... 100
Gráfico 3-11 Variação do IGP (DI) entre 1976 a 1985 (em %) ...................................................... 108
Gráfico 3-12 Variação do IGP (DI) entre 1970 e 1997 (em %) ...................................................... 120
Gráfico 3-13 Participação das Instituições Financeiras no PIB (em %).......................................... 122
Gráfico 3-14 Receita inflacionária / PIB (em %) ............................................................................ 122
Gráfico 3-15 Receita Inflacionária 1993-1994. (Médias Mensais em R$ milhões) ........................ 123
Gráfico 3-16 Receita Inflacionária x Valor da Produção das Instituições Bancárias (em %) ......... 124
Gráfico 3-17 Empréstimos em atraso e em liquidação no sistema financeiro (jan. 1994 - fev.
1997) .......................................................................................................................... 133
Gráfico 3-18 Intervenções do Bacen (1970 a 1997) ........................................................................ 134
Gráfico 4-1 Rede política dos avós de José Eduardo .................................................................... 144
Gráfico 4-2 Conexões entre os sócios do BPANP e a política (1926 a 1942)............................... 147
Gráfico 4-3 Conexões políticas do Grupo Atalaia (1938-1940).................................................... 148
Gráfico 4-4 Rede Política do Bancial (1944 – 1950) .................................................................... 156
Gráfico 4-5 Número de agências por banco. (1950)...................................................................... 157
Gráfico 4-6 Conexões políticas do grupos de sócios do BMIP (1951 – 1955).............................. 167
Gráfico 4-7 Produção de Café por Estado (em %) ........................................................................ 169
Gráfico 4-8 Conexões políticas do Bamerindus no período Othon Mäder (1952 a 1967) ............ 180
Gráfico 4-9 Conexões políticas do Grupo Bancial (1952 - 1960) ................................................. 181
Gráfico 4-10 Intervenções do Bacen (1970 - 1981) ........................................................................ 190
Gráfico 4-11 Conexões políticas do Bamerindus após a fusão com o grupo Bancial (1974 -
1980) .......................................................................................................................... 197
Gráfico 4-12 Evolução do Total dos Ativos (em US$ milhões)...................................................... 198
Gráfico 4-13 Participação dos bancos no Total dos Ativos dos bancos brasileiros (em %)............ 199
Gráfico 4-14 Evolução do número de agências no período 1972 a 1981. (em %) .......................... 200
Volume II
Gráfico 5-1 Bamerindus distribuição do PL por área de negócio entre 31 dez. 1981 e 30 jun.
1992 (em %)............................................................................................................... 213
Gráfico 5-2 Maiores empresas do Grupo Bamerindus em 31 dez. 1981 e 30 jun. 1992. .............. 213
Gráfico 5-3 Rede de participações do Grupo Bamerindus em 31 dez. 1993................................. 220
Gráfico 5-4 Classificação do Grupo Bamerindus pelo valor do Patrimônio Líquido (1981 a
1992) .......................................................................................................................... 221
Gráfico 5-5 Número de funcionários das empresas do Grupo Bamerindus – 1986 a 1994
(sem considerar o BBB) ............................................................................................. 222
Gráfico 5-6 Bamerindus Cia de Seguros - Retorno sobre o Patrimônio Líquido - 1990 / 1994
(em US$ mil).............................................................................................................. 227
Gráfico 5-7 Rentabilidade da Inpacel (1988 a 1994)..................................................................... 232
Gráfico 5-8 Rentabilidade da Inpacel em 1993 e 1994 (em R$ milhões)...................................... 233
Gráfico 5-9 Composição da amostra de bancos - valores médios do Total dos Ativos dos
bancos brasileiros no período 1976 a 1994 (em US$ milhões e %)........................... 262
Gráfico 5-10 Rentabilidade sobre o Patrimônio Líquido e evolução do Total dos Ativos da
amostra de bancos no período 1977 a 1994 (em %) .................................................. 268
Gráfico 5-11 Rentabilidade sobre o Patrimônio Líquido da amostra de bancos e evolução do
IGP (DI) no período 1977 a 1994 (em %).................................................................. 268
Gráfico 5-12 Participação dos bancos no Total dos Ativos da amostra de bancos brasileiros
(1981 a 19994) ........................................................................................................... 269
Gráfico 5-13 Correlação entre a participação dos bancos no Total dos Ativos da amostra e a
taxa de inflação (1982 a 1994) ................................................................................... 269
Gráfico 5-14 Crescimento da participação dos bancos (1994 x 1981) - em %................................ 269
Gráfico 5-15 Crescimento do Total dos Ativos em relação ao PIB de 1980 a 1994 (em US$
bilhões)....................................................................................................................... 270
Gráfico 5-16 Diferença entre o crescimento do Total dos Ativos em relação ao PIB de 1980 a
1994 (em %)............................................................................................................... 270
Gráfico 5-17 Planos Econômicos e variações do IGP (DI) e PIB – 1981 a 1994. (em %).............. 271
Gráfico 5-18 Bamerindus: valor do Total dos Ativos (em US$ milhões) ....................................... 275
Gráfico 5-19 Bamerindus: variação anual no Total dos Ativos (em %).......................................... 275
Gráfico 5-20 Participação sobre o Total dos Ativos da amostra (em %). ....................................... 275
Gráfico 5-21 Evolução do Total dos Ativos em 1989 (em %) ........................................................ 276
Gráfico 5-22 Evolução do Total dos Ativos em 1990. (em %) ....................................................... 276
Gráfico 5-23 Evolução do Total dos Ativos em 1987 (em %) ........................................................ 276
Gráfico 5-24 Evolução do Total dos Ativos dos bancos de 1981 a 1994. (em %) .......................... 277
Gráfico 5-25 Evolução da participação do Bamerindus no Total dos Ativos da amostra e a
variação do IGP (DI) ( 1981 a 1994) ......................................................................... 277
Gráfico 5-26 Correlação entre a participação do Bamerindus no Total dos Ativos da amostra e
a variação do IGP (DI) ............................................................................................... 277
Gráfico 5-27 Títulos da dívida pública federal em dezembro de 1989 (em Cr$ milhões) .............. 278
Gráfico 5-28 Operações de crédito dos bancos comerciais privados. Principais tomadores (em
%). .............................................................................................................................. 278
Gráfico 5-29 Bamerindus: Empréstimos e Financiamentos - 1981 a 1994. (em US$ milhões) ...... 281
Gráfico 5-30 Participação dos Empréstimos e Financiamentos no Total dos Ativos do BBB
no período 1981 a 1994. (em %) ................................................................................ 281
Gráfico 5-31 Participação dos bancos no total de Empréstimos e Financiamentos da amostra -
1981 a 1994 (em %) ................................................................................................... 281
Gráfico 5-32 Relação dos depósitos sobre empréstimos e financiamentos - 1981 a 1994. (em
%) ............................................................................................................................... 282
Gráfico 5-33 Número de intervenções do Bacen (1979 a 1987) ..................................................... 282
Gráfico 5-34 Estrutura de Capital do Banco Bamerindus - 1981 a 1994 (em US$ milhões) .......... 290
Gráfico 5-35 Estrutura de Capital do Banco Bamerindus - 1981 a 1997 (em %) ........................... 290
Gráfico 5-36 Depósitos do Banco Bamerindus - 1981 a 1994 – (em US$ milhões) ....................... 291
Gráfico 5-37 Participação do Depósitos na estrutura de Capital (em %) ........................................ 291
Gráfico 5-38 Participação dos Depósitos por banco no total da amostra (em %) ........................... 292
Gráfico 5-39 Capital de Terceiros (K3) do Banco Bamerindus (1981 a 1994) ............................... 297
Gráfico 5-40 Participação do K3 na estrutura de capital do Bamerindus no período 1981 a
1994. (em %).............................................................................................................. 297
Gráfico 5-41 Participação do Capital de Terceiros no total da amostra no período 1981 a 1994
(em %)........................................................................................................................ 297
Gráfico 5-42 Capital Próprio (Kp) ou Patrimônio Líquido do Bamerindus (1981 a 1994)............. 297
Gráfico 5-43 Participação do Capital Próprio (Kp) na estrutura de capital do Bamerindus no
período 1981 a 1994 (em %)...................................................................................... 298
Gráfico 5-44 Percentual do Patrimônio Líquido por banco (1981 a 1994) (em %). ....................... 299
Gráfico 5-45 Lucro Líquido do BBB no período 1981 a 1994 (em US$ milhões). ........................ 301
Gráfico 5-46 Rentabilidade do Patrimônio Líquido no período 1976 a 1994 (em %) .................... 302
Gráfico 5-47 Correlação da rentabilidade do Bamerindus com a taxa de inflação no período
1977 a 1994 (em %). .................................................................................................. 302
Gráfico 5-48 Rentabilidade do Patrimônio Líquido no período 1976 a 1994 (em %) .................... 303
Gráfico 5-49 Participação do BBB no Lucro Líquido da amostra no período 1981 a 1994 (em
%) ............................................................................................................................... 303
Gráfico 5-50 Número de agências do Banco Bamerindus. (1981 a 1994) ...................................... 303
Gráfico 5-51 Evolução no número de agências do Banco Bamerindus no período de 1972 a
1994. (em %).............................................................................................................. 304
Gráfico 5-52 Número médio de agências por Região - 1983 a 1994 (em %).................................. 305
Gráfico 5-53 Participação média das agências por Estado (1983 a 1988)....................................... 305
Gráfico 5-54 Evolução e participação médias das agências do Bamerindus por Região (em %) ... 306
Gráfico 5-55 Total dos Ativos e Lucro Líquido por agência - 1981 a 1994. (em US$ mil)............ 307
Gráfico 5-56 Número de funcionários do Grupo Bamerindus (1981 a 1994) ................................. 308
Gráfico 5-57 Variação percentual no número de funcionários do Banco Bamerindus. .................. 309
Gráfico 5-58 Relação entre o número de funcionários e a quantidade de agências do
Bamerindus - 1981 a 1994. (base agências)............................................................... 309
Gráfico 5-59 Relação entre o número de funcionários e a quantidade de agências do
Bamerindus - 1981 a 1994 (base empregados) .......................................................... 309
Gráfico 5-60 Investimentos e Lucro Líquido por empregado - 1981 a 1994. (em US$ mil) .......... 310
Gráfico 5-61 Desempenho do Banco Bamerindus - 1991 A 1993 (em US$ mil). .......................... 312
Gráfico 5-62 AEAT - Relação entre o Total dos Ativos no exterior e o Total dos Ativos do
Bamerindus (US$ milhões). ....................................................................................... 323
Gráfico 5-63 Desvio médio total dos indicadores em relação à amostra - 1981 a 1994 (em %)..... 335
Gráfico 5-64 Classificação dos Bancos por indicadores de desempenho (1981 a 1994). ............... 335
Gráfico 5-65 Desempenho do Bradesco, Itaú e Bamerindus (1981 a 1994) ................................... 336
Gráfico 5-66 Distribuição do poder no Grupo Bamerindus, classificado por sobrenome. (1981
a 1997)........................................................................................................................ 351
Gráfico 5-67 Distribuição do poder no Bamerindus por pessoa (1991 a 1997) .............................. 352
Gráfico 6-1 Partidos que atuaram na Assembléia Nacional Constituinte em 1987. (em %) ......... 372
Gráfico 6-2 Resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 1989 no Paraná (em
%). .............................................................................................................................. 375
Gráfico 6-3 Resultado das eleições presidenciais no primeiro turno em 1989 no Paraná (em
%) ............................................................................................................................... 375
Gráfico 6-4 Inflação mensal entre mar. 1989 e abr. 1990 (em %) ................................................ 376
Gráfico 6-5 Inflação mensal no período abr. 1990 a out. 1992 (em %) ........................................ 377
Gráfico 6-6 Variação mensal do IGP (DI) em 1994 (em %) ......................................................... 383
Gráfico 6-7 Rede Política Bamerindus .......................................................................................... 384
Gráfico 6-8 Rede Política Bamerindus (1981 a 1987)................................................................... 388
Gráfico 6-9 Rede Política e Corporativa Bamerindus (1988 a 1994)............................................ 389
Gráfico 6-10 Rede Política Bamerindus: Instituições ..................................................................... 390
Gráfico 6-11 Rede Política Bamerindus: Partidos........................................................................... 390
Gráfico 6-12 Rede Política Bamerindus: PTB (1987-1994)............................................................ 394
Gráfico 6-13 Bancadas por partidos e Ano na Assembléia Legislativa do Paraná (1987-1997)
(em %)........................................................................................................................ 397
Gráfico 6-14 Rede Política Bamerindus: IL-PR (1987-1994) ......................................................... 399
Gráfico 6-15 Rede Política Bamerindus: ACP GEC (1987-1994) .................................................. 401
Gráfico 6-16 Rede Política Bamerindus: Mario Andreazza (1980-1985) ....................................... 408
Gráfico 6-17 Rede Política Bamerindus: Affonso Camargo (1981 a 1994).................................... 410
Gráfico 6-18 Rede Política Bamerindus: José Eduardo de Andrade Vieira (1990-1994) ............... 413
Gráfico 6-19 Rede Política Bamerindus: Jayme Canet Jr (1981 a 1995) ........................................ 421
Gráfico 6-20 Rede Política Bamerindus: Ney Braga (1988) ........................................................... 424
Gráfico 6-21 Rede Política Bamerindus: José Richa (1981 a 1989) ............................................... 425
Gráfico 6-22 Rede Política Bamerindus: João Elísio Ferraz de Campos (1981 a 1989)................. 428
Gráfico 6-23 Rede Política Bamerindus: Belmiro Valverde (1981 a 1994).................................... 430
Gráfico 6-24 Rede Política Bamerindus: Roberto Requião (1981-1989)........................................ 431
Gráfico 6-25 Rede Política Bamerindus: Álvaro Dias (1981 a 1989) ............................................. 433
Gráfico 6-26 Rede Política Bamerindus: Ary Queiroz (1981 a 1989) ............................................ 436
Gráfico 6-27 Rede Política Bamerindus: José Carlos Gomes de Carvalho (1990 a 1997).............. 436
Gráfico 6-28 Rede Política Bamerindus: Jaime Lerner (1988 a 1993)............................................ 440
Gráfico 6-29 Rede Política Bamerindus: José Carlos Martinez (1985 a 1995)............................... 442
Gráfico 6-30 Rede Política Bamerindus: Basílio Villani (1981 a 1994) ......................................... 443
Volume III
Gráfico 7-1 Variação mensal do IGP (DI) em 1994...................................................................... 537
Gráfico 7-2 Percentual de cadeiras ocupadas pelo PTB na Assembléia Legislativa do Paraná.
(1990-1994)................................................................................................................ 540
Gráfico 7-3 Intervenções de JE no Senado no período 1991 - 1994. (em %)................................ 551

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Volume I
Ilustração 2-1 Elite do Poder............................................................................................................... 31
Ilustração 3-1 Planos Econômicos e Moedas brasileiras................................................................... 121
Ilustração 4-1 Família de Avelino Vieira.......................................................................................... 141
Ilustração 4-2 A família de Maria José de Andrade Vieira............................................................... 142
Ilustração 4-3 Família de José Eduardo ............................................................................................ 143
Ilustração 4-4 Mapa do Paraná com as principais cidades em 2000 ................................................. 150
Ilustração 4-5 Carta de Amador Aguiar em 7 jan. 1951 ................................................................... 161
Ilustração 4-6 Carta de Amador Aguiar em 4 set. 1951.................................................................... 164
Ilustração 4-7 Ata da 1º reunião do Banco Mercantil Industrial do Paraná ...................................... 165
Ilustração 4-8 Balancete do BMIP em 30 de novembro de 1952...................................................... 165
Ilustração 4-9 Carta Patente do Bamerindus ..................................................................................... 166
Ilustração 4-10 Bamerindus – Paraná ................................................................................................. 182
Ilustração 4-11 Bamerindus – São Paulo ............................................................................................ 183
Ilustração 4-12 Bamerindus – Rio de Janeiro ..................................................................................... 183
Ilustração 4-13 Bamerindus – Nordeste .............................................................................................. 184
Ilustração 4-14 Bamerindus – Investimento e Financeira ................................................................... 184
Ilustração 4-15 Bamerindus – Crédito Imobiliário ............................................................................. 185
Ilustração 4-16 Bamerindus – Seguradora .......................................................................................... 185
Ilustração 4-17 Bamerindus – Outros ................................................................................................. 186
Ilustração 4-18 Incorporação do Bancial ............................................................................................ 193
Ilustração 4-19 Mapa de localização do acidente aéreo. ..................................................................... 203
Ilustração 4-20 Seqüência da queda do avião. .................................................................................... 204
Volume II
Ilustração 5-1 Composição do Grupo Bamerindus em 1981 ............................................................ 218
Ilustração 5-2 Composição do Grupo Bamerindus em 31 dez. 1993................................................ 219
Ilustração 5-3 Instituições incorporadas pelo BBB (1981 a 1994) ................................................... 258
Ilustração 5-4 Midland Bank no Brasil (1991).................................................................................. 327
Ilustração 5-5 Organograma organizacional do Grupo Bamerindus em 1982. ................................. 341
Volume III
Ilustração 7-1 José Eduardo como candidato “Zé do Chapéu” ......................................................... 463
Ilustração 7-2 Caricatura “Zé Dinheirindus” .................................................................................... 476
Ilustração 7-3 Fotografias de JE publicadas pelo jornais. ................................................................. 512
Ilustração 7-4 Gazeta Mercantil anuncia a intervenção do Bacen no Bamerindus. .......................... 557
Ilustração 7-5 José Eduardo de Andrade Vieira................................................................................ 566
Ilustração Anexo 1: Genealogia do Grupo Bamerindus - I ................................................................... 675
Ilustração Anexo 2: Genealogia do Grupo Bamerindus - II.................................................................. 676

LISTA DE QUADROS

Volume I
Quadro 2-1 Rede de relações intercorporativas - “Network of intercorporate relations”
(SCOTT, 1988). ........................................................................................................... 34
Quadro 2-2 Linha da história (síntese). ........................................................................................... 73
Quadro 3-1 Formato institucional de bancos e instituições financeiras não bancárias (1989-
1992) ............................................................................................................................ 90
Quadro 3-2 Empresas privatizadas entre 1991 e 1997. ................................................................. 116
Quadro 4-1 Presidentes, Vice-Presidentes, Governadores e Vice-Governadores do Estado do
Paraná– 1912 a 1945. ................................................................................................. 151
Quadro 4-2 Inventário dos bens do Grupo Lupion (1947) ............................................................ 154
Quadro 4-3 Relação parcial de pessoas que ocuparam cargos públicos eletivos e que tiveram
ligações diretas com o Grupo Bamerindus (1933 a 1981). ........................................ 208
Volume II
Quadro 5-1 Composição do Grupo Bamerindus (1981 a 1994).................................................... 211
Quadro 5-2 Principais empresas do Grupo Bamerindus (controladas e minoritárias) e seus
sócios (30 jun. 1981 e 30 dez. 1993).......................................................................... 214
Quadro 5-3 Empresas nas quais o Bamerindus detinha participação acionário inferior a 50%
em 1983...................................................................................................................... 217
Quadro 5-4 Relação de empresas sob investigação nos EUA em 2002. ....................................... 265
Quadro 5-5 Composição do Grupo CCN em 1981. ...................................................................... 284
Quadro 5-6 Sócios estrangeiros do Grupo Bamerindus em diversos empreendimentos (1981
a 1994)........................................................................................................................ 324
Quadro 5-7 Líderes Empresariais brasileiros - 1989 A 1992. ....................................................... 345
Quadro 6-1 Candidatos aos cargos de governadores pelo PP (1981)............................................ 366
Quadro 6-2 Relação parcial de pessoas que ocuparam cargos públicos e integravam a Rede
Política Bamerindus. .................................................................................................. 385
Quadro 6-3 Relação parcial dos principais integrantes da Rede Política Bamerindus no
Paraná (1933-1997).................................................................................................... 386
Quadro 6-4 Empresários e empresas participantes do Instituto Liberal do Paraná (1987-
2000) .......................................................................................................................... 400
Quadro 6-5 Empresários integrantes do GEC - Grupo de empresários de Curitiba. (1990 a
1994) .......................................................................................................................... 402
Quadro 6-6 Empresas do Grupo José Carlos Gomes de Carvalho em 1984 e Grupo Corujão
em 1990...................................................................................................................... 437
Quadro 6-7 Cargos ocupados por José Carlos Gomes de Carvalho. ............................................. 439
Volume III
Quadro 7-1 Candidatos a governador do Paraná em 1990 ............................................................ 470
Quadro 7-2 Candidatos ao Senado pelo Paraná em 1990.............................................................. 470
Quadro 7-3 Ministros da Agricultura, Abastecimento e Reforma Agrária do Brasil do
governo Itamar Franco (1993 e 1994)........................................................................ 503
Quadro 7-4 Candidatos a governador e senador no Paraná em 1994. ........................................... 533
Quadro 7-5 Novos banqueiros brasileiros ..................................................................................... 562
Quadro Apêndice 1: Bamerindus: cronologia dos eventos históricos................................................... 636
Quadro Apêndice 2: Relação parcial das atividades do Senador José Eduardo no Senado (1991-
1994). ......................................................................................................................... 658
Quadro Apêndice 3: Código de empresas. ............................................................................................ 662
Quadro Apêndice 4: Expansão do Grupo HSBC - 1865 a 1999. .......................................................... 665
Quadro Anexo 1: As três etapas da emergência das finanças de mercado mundializadas.................... 674
Quadro Anexo 2: Relação dos partidos políticos brasileiros – (1945-2003)......................................... 677

LISTA DE TABELAS

Volume I
Tabela 1-1 Relação de fontes jornalísticas utilizadas na pesquisa. ................................................ 21
Tabela 3-1 Número de bancos por país (1883 a 1932)................................................................... 80
Tabela 3-2 Centros Financeiros Globais (em US$ bilhões) ........................................................... 86
Tabela 4-1 Relatório financeiro do BPANP em 1940 e 1942 (em Cr$)....................................... 146
Tabela 4-2 Relação parcial dos acionistas do Bancial ................................................................. 162
Tabela 4-3 Valor do Total dos Ativos dos bancos (em US$ milhões) ......................................... 198
Tabela 4-4 Participação dos bancos no Total dos Ativos dos bancos brasileiros (em %)............ 199
Tabela 4-5 Empresas do Grupo Bamerindus em 1981................................................................. 200
Volume II
Tabela 5-1 Maiores grupos empresariais privados do Brasil - classificação pelo valor do
Patrimônio Líquido em dezembro de cada ano.......................................................... 221
Tabela 5-2 Maiores grupos privados brasileiros por Patrimônio Líquido em 1989 e
1992.(US$ milhões) ................................................................................................... 221
Tabela 5-3 Posição dos maiores grupos nacionais por Receita Operacional Líquida. Brasil -
1992............................................................................................................................ 222
Tabela 5-4 Produção de Papéis Revestidos no Brasil em 1996 (em mil t)................................... 232
Tabela 5-5 Participações do Bamerindus em empresas privatizadas em 1993. ........................... 244
Tabela 5-6 Média do Total dos Ativos da amostra de bancos brasileiros de 1976 a 1994.
(em US$ milhões) ...................................................................................................... 262
Tabela 5-7 Acionista do BBB e do Grupo Bamerindus (1982 a 1994)........................................ 301
Tabela 5-8 Localização das agências do Bamerindus por Estados e Regiões.............................. 304
Tabela 5-9 Imóveis utilizados pelo Bamerindus (1990 a 1992)................................................... 306
Tabela 5-10 Retorno sobre o Capital Próprio. Lucro Líquido sobre o Patrimônio Líquido -
1991 e 1992 (em %) ................................................................................................... 324
Tabela 5-11 Classificação do BBB por tamanho (1981 a 1994). ................................................... 333
Tabela 5-12 Classificação do BBB por indicadores (1981 a 1994) ............................................... 334
Tabela 5-13 Cargos ocupados por José Eduardo no Grupo Bamerindus (1981 a 1994)................ 345
Tabela 5-14 Participações acionárias da Fundação Bamerindus de Assistência Social (FBAS)
em 31 dez. 1993. ........................................................................................................ 347
Tabela 5-15 Principais membros da Diretoria e Conselho de Curadores da FBAS (1989 a
1996). ......................................................................................................................... 348
Tabela 5-16 Relação dos principais Diretores, Acionistas e Controladores do Grupo
Bamerindus (1981 a 1997) ......................................................................................... 349
Tabela 5-17 Cargos ocupados por José Márcio Peixoto no Grupo Bamerindus (1981 a 1994)..... 353
Tabela 5-18 Cargos ocupados por Jair Jacob Mocelin no Grupo Bamerindus (1981 a 1994) ....... 354
Tabela 5-19 Cargos ocupados por Ottorino Marini no Grupo Bamerindus (1981 a 1994)............ 354
Tabela 5-20 Cargos ocupados por Hamílcar Pizzatto no Grupo Bamerindus (1981 a 1994)......... 356
Tabela 5-21 Cargos ocupados por Maurício Schulman no Grupo Bamerindus (1981 a 1994)...... 358
Tabela 5-22 Cargos ocupados por João Elísio Ferraz de Campos no Grupo Bamerindus
(1981 a 1994) ............................................................................................................. 359
Tabela 5-23 Cargos ocupados por Maria Christina de Andrade Vieira no Grupo Bamerindus
(1981 a 1994) ............................................................................................................. 360
Tabela 6-1 Número de vezes que cada Deputado mudou de partido na Assembléia
Legislativa do Paraná (1987-1997). ........................................................................... 391
Tabela 6-2 Resultados eleitorais do Paraná – 1982...................................................................... 393
Tabela 6-3 Deputados eleitos pelo PTB em 03 out. 1990 ............................................................ 397
Tabela 6-4 Número de deputados federais e estaduais por partido, eleitos em 03 out. 1990....... 398
Volume III
Tabela 7-1 Cargos ocupados por Sérgio Sibel Soares no Grupo Bamerindus (1981 a 1994)...... 468
Tabela 7-2 Resultado da eleição para o Senado em 03 out. 1990 ................................................ 481
Tabela 7-3 Temas explorados na campanha eleitoral “Zé do Chapéu”........................................ 482
Tabela 7-4 Investimento publicitário por grupo em 1993. (em US$ milhões)............................. 525
Tabela 7-5 Resultado das eleições para o Senado no Paraná em 1994. ....................................... 538
Tabela 7-6 Resultado da votação para governador do Paraná em 1994....................................... 539
Tabela 7-7 Candidatos do PTB para os cargos de deputado federal e estadual, eleitos em
1994............................................................................................................................ 539
Tabela 7-8 Resultado das eleições para deputado federal e estadual em 1994 (em %)................ 540
Tabela 7-9 Intervenções de JE no Senado (1991 – 1994) ............................................................ 550
Tabela Apêndice 1: Banco de dados econômico-financeiros da amostra de bancos brasileiros -
1976 a 1994 (em US$ milhões).................................................................................. 656
Tabela Apêndice 2: Cargos de comando no Bamerindus...................................................................... 661
Tabela Apêndice 3: Intervenções do Bacen ( 1974-1980) .................................................................... 663
Tabela Apêndice 4: Quantidade de intervenções do Bacen (1950 a 1999)........................................... 664
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Sigla Descrição

Abcip Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança


Aberje Associação Brasileira de Comunicação Empresarial
ACP Associação Comercial do Paraná
ACSP Associação Comercial de São Paulo
AE Agência Estado
AGNA Applied Graph & Network Analysis
APPC Associação dos Países Produtores de Café
Arena Aliança Renovadora Nacional
Atalaia Atalaia Companhia de Seguros
Bacen Banco Central do Brasil (ver BC e BCB)
Badep Banco de Desenvolvimento do Estado do Paraná
Bancial Banco Comercial do Paraná S.A.
Banespa Banco do Estado de São Paulo S.A.
Banestado Banco do Estado do Paraná S.A.
BB Banco do Brasil S.A.
BBB Banco Bamerindus do Brasil S.A.
BC Banco Central do Brasil (ver Bacen e BCB)
BCB Banco Central do Brasil (ver Bacen e BC)
BCS Bamerindus Cia de Seguros
BIS Bank for International Settlements
BMIP Banco Mercantil e Industrial do Paraná
BMP Banco Meridional da Produção
BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
BNDESPAR BNDES Participações S.A.
BNH Banco Nacional da Habitação.
Bovespa Bolsa de Valores de São Paulo
BPANP Banco Popular e Agrícola do Norte do Paraná
Bradesco Banco Brasileiro de Desconto S.A.
BRDE Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul
BVRJ Bolsa de Valores do Rio de Janeiro
CCN Companhia de Comércio e Navegação
CDE Conselho de Desenvolvimento Econômico
Cedes Câmara de Estudos e Debates Sócio-Econômicos
CEF Caixa Econômica Federal
Cefet Pr Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná
Cemig Companhia Mineradora de Minas Gerais
Cendi Centro de Desenvolvimento Industrial do Paraná
Chesf Companhia Hidro Elétrica do São Francisco
Cia. Companhia
CIC Cidade Industrial de Curitiba
CMN Conselho Monetário Nacional
CNF Confederação Nacional das Instituições Financeiras
CNI Confederação Nacional das Indústrias
CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
“National Counsel of Technological and Scientific Development”
CNT Central Nacional de Televisão
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Sigla Descrição

CNTP Companhia de Terras Norte do Paraná


Codepar Companhia de Desenvolvimento do Paraná.
Copel Companhia Paranaense de Energia
Copesul Companhia Petroquímica do Sul
CP Certificados de Privatização
CPDOC O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
CPI Comissão Parlamentar de Inquérito
CPMI Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
CRB Conta Remunerada Bamerindus
CSN Companhia Siderúrgica Nacional
CUT Central Única dos Trabalhadores
CVM Comissão de Valores Mobiliários
CVRD Companhia Vale do Rio Doce
DHBB Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós 1930
DIAP Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar
DCN2 Diário do Congresso Nacional. Seção II.
DSF Diário do Senado Federal
Dinor Diretoria da Área de Normas e Organização do Sistema Financeiro do Bacen
Dirad Diretoria da Área de Administração do Bacen
Docenave Navegação Vale do Rio Doce S.A.
ECONÔMICO Banco Econômico S.A.
EUA Estados Unidos da América
Famepar Fundação de Assistência dos Municípios de Estado do Paraná
FCESP Federação do Comércio do Estado de São Paulo
FCVS Fundo de Compensação de Variações Salariais.
Febraban Federação Brasileira de Bancos e Federação Brasileira das Associações de
Bancos.
Fenaban Federação Nacional dos Bancos
FGC Fundo Garantidor de Crédito
FGDLI Fundo de Garantia dos Depósitos e Letras Imobiliárias
FGV Fundação Getúlio Vargas
FHC Fernando Henrique Cardoso
FIEP Federação das Indústrias do Estado do Paraná
FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
Finame Administração da Agência Especial de Financiamento
Firjan Federação das Indústrias do Rio de Janeiro
FMI Fundo Monetário Internacional (ver IMF)
Fosfértil Fertilizantes Fosfatados S.A.
FSE Fundo Social de Emergência
FSP Jornal Folha de São Paulo
GEC Grupo de Empresários de Curitiba
GM Gazeta Mercantil
HSBC The Hongkong and Shanghai Banking Corporation Limited
Iapas Instituto de Administração da Previdência Social
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
IEMP Rede: Ideológica, Econômica, Militar e Política.
IGP (DI) Índice Geral de Preços (Disponibilidade Interna)
II PND Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Sigla Descrição

IL-PR Instituto Liberal do Paraná


IL Instituto Liberal
IMF International Monetary Fund (ver FMI)
Inpacel Indústria de Papel e Celulose Arapoti S.A.
INPS Instituto Nacional de Previdência Social
INSNA International Network for Social Network Analysis
INSS Instituto Nacional de Seguridade Social
IPMF Imposto sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos
de Natureza Financeira
Ippuc Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Curitiba
Itaú Banco Itaú S.A.
ITF Imposto sobre Transações Financeiras
JB Jornal do Brasil
JE José Eduardo de Andrade Vieira
Jucepar Junta Comercial do Paraná
MDB Movimento Democrático Brasileiro
MDS Multidimensional Scale
MICT Ministério da Indústria, Comércio e Turismo
MP Medida Provisória
NACIONAL Banco Nacional S.A.
Nesfi Núcleo de Estudos Sociopolíticos do Sistema Financeiro
NPEFT Núcleo de Pesquisa em Energia: Finanças e Tecnologia
OCDE Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ver OECD)
OECD Organization for Economic Co-operation and Development (ver OCDE)
OESP Jornal O Estado de São Paulo
OM Organizações Martinez
PDC Partido Democrático Cristão (Fusão com PDS e Criação do PPR)
PDS Partido Democrático Social (Fusão com PDS e Criação do PPR)
PDT Partido Democrático Trabalhista
Petrofértil Petrobrás Fertilizantes S.A.
PFL Partido da Frente Liberal
PL Partido Liberal
PLC Public Limited Company
PMDB Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PND Programa Nacional de Desestatização
PP Partido Popular
PP Partido Progressista (Antigo PPB)
PPB Partido Progressista Brasileiro
PPGSP Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política
PPR Partido Progressista Reformador (Fusão com PP e formação do PPB)
PR Estado do Paraná
PR Partido Republicano
PRN Partido da Reconstrução Nacional
Proer Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema
Financeiro Nacional
PS Partido Social Democrático
PSB Partido Socialista Brasileiro
PSC Partido Social Cristão
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Sigla Descrição

PSD Partido Social Democrático


PSDB Partido da Social Democracia Brasileira
PT Partido dos Trabalhadores
PTB Partido Trabalhista Brasileiro
RAET Regime de Administração Especial Temporária
RCB Rede Corporativa Bamerindus
RGA Relação Geral de Acionistas
RPB Rede Política Bamerindus
RSFN Rede do Sistema Financeiro Nacional
S. A. Sociedade Anônima
Sanepar Companhia de Saneamento do Paraná
SCFI Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento.
SCICP Sociedade de Crédito Imobiliário e Caderneta de Poupança
SFI Sistema Financeiro Internacional
SFN Sistema Financeiro Nacional
Sindiseg-Pr Sindicato das Empresas de Seguros Privados e Capitalização no Estado do Paraná
Sudam Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia.
Sudene Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste.
Sunamam Superintendência da Marinha Mercante
TP Jornal Tribuna do Paraná
TR Taxa Referencial de Juros
TRD Taxa de Referencia Diária
UDN União Democrática Nacional
UFPR Universidade Federal do Paraná
UFSC Universidade Federal de Santa Catarina
Unibanco União de Bancos Brasileiros S.A.
Unicamp Universidade Estadual de Campinas
URBS URBS - Urbanização de Curitiba S.A.
URV Unidade Real de Valor
Usiminas Usina Siderúrgica de Minas Gerais
USP Universidade de São Paulo
UTFPR Universidade Tecnológica Federal do Paraná (antigo Cefet Pr)
SUMÁRIO

VOLUME I

1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................1

1.1 A TESE ................................................................................................................................ 4


1.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ................................................................................ 11
1.2.1 Redes sociais, políticas e corporativas.................................................................... 12
1.2.2 Aplicando a metodologia de redes sociais .............................................................. 16
1.2.3 Fontes de pesquisa .................................................................................................. 20

2 CAPÍTULO I: INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS E O PODER NO


CAPITALISMO FUNDAMENTOS TEÓRICOS .....................................................23

2.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 23


2.2 GRAMSCI E AS REDES SOCIAIS .......................................................................................... 23
2.2.1 Redes Políticas ........................................................................................................ 24
2.2.2 Rede corporativa, intercorporativas ou transcorporativas....................................... 32
2.3 CAPITAL FINANCEIRO....................................................................................................... 36
2.4 HEGEMONIA FINANCEIRA ................................................................................................. 45
2.4.1 O mundo político e a hegemonia financeira ........................................................... 51
2.4.2 Discurso ideológico e a hegemonia financeira ....................................................... 52
2.5 GRUPOS ECONÔMICOS ...................................................................................................... 54
2.5.1 O Grupo Bamerindus .............................................................................................. 60
2.6 ELITES ORGÂNICAS .......................................................................................................... 62
2.7 ORGANIZAÇÃO CORPORATIVA ......................................................................................... 68
2.8 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES.................................................................................... 72

3 CAPÍTULO II: O SISTEMA FINANCEIRO ................................................................75

3.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 75


3.2 O SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL ....................................................................... 75
3.2.1 A hegemonia inglesa (1816-1914).......................................................................... 76
3.2.2 O interguerras (1918 – 1943).................................................................................. 80
3.2.3 Bretton Woods (1944-1970) ................................................................................... 81
3.2.4 A mundialização financeira (1971 – 1994)............................................................. 82
3.2.5 Dívida pública......................................................................................................... 88
3.2.6 Bancos..................................................................................................................... 89
3.3 ANÁLISES E INTERPRETAÇÕES ......................................................................................... 91
3.4 PARTE II: O SISTEMA FINANCEIRO BRASILEIRO .............................................................. 95
3.4.1 Período: 1808 a 1979 .............................................................................................. 95
3.4.2 Período 1980 - 1994.............................................................................................. 104
3.4.3 Uma breve revisão dos anos 1995 a 1997............................................................. 132
3.5 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES .................................................................................. 135

4 CAPÍTULO III: A FAMÍLIA VIEIRA E O BAMERINDUS ....................................137


4.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 137
4.2 A FAMÍLIA VIEIRA E AS CONEXÕES POLÍTICAS DO BAMERINDUS (DAS ORIGENS
ATÉ 1981)........................................................................................................................ 138
4.2.1 Os avós de José Eduardo de Andrade vieira ......................................................... 138
4.2.2 Avelino Antônio Vieira e sua Família .................................................................. 140
4.3 O BANCO POPULAR E AGRÍCOLA DO NORTE DO PARANÁ (BPANP)............................ 145
4.3.1 Atalaia Cia de Seguros.......................................................................................... 148
4.3.2 O processo político paranaense............................................................................. 149
4.4 O BANCO COMERCIAL DO PARANÁ ............................................................................... 152
4.4.1 O Lupionismo – Parte I......................................................................................... 154
4.4.2 A saída do grupo de Avelino Vieira do Bancial ................................................... 160
4.5 O BANCO MERCANTIL E INDUSTRIAL DO PARANÁ ........................................................ 164
4.5.1 O café do Paraná ................................................................................................... 168
4.5.2 A formação do Grupo Bamerindus (1952-1981) .................................................. 170
4.6 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES .................................................................................. 206

VOLUME II

5 Capítulo IV - O GRUPO BAMERINDUS (1981 – 1994) ............................................210

5.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 210


5.2 O GRUPO BAMERINDUS (1981 – 1994)........................................................................... 210
5.2.1 A Composição do Grupo Bamerindus .................................................................. 211
5.2.2 As Seguradoras do Bamerindus (1981 a 1994)..................................................... 222
5.2.3 Indústria de Papel e Celulose Arapoti S.A. (Inpacel) ........................................... 227
5.2.4 Empresas de comunicação .................................................................................... 238
5.2.5 O Bamerindus e as privatizações .......................................................................... 243
5.2.6 Agronegócios e o Bamerindus .............................................................................. 252
5.3 O BANCO BAMERINDUS (1981 – 1994)........................................................................... 258
5.3.1 Introdução ............................................................................................................. 258
5.3.2 Incorporações de bancos ....................................................................................... 258
5.3.3 Análise econômico-financeira .............................................................................. 261
5.3.4 A Internacionalização do Bamerindus .................................................................. 317
5.3.5 Síntese do desempenho geral do Banco Bamerindus............................................ 332
5.4 O PODER NO GRUPO BAMERINDUS (1981 - 1994).......................................................... 338
5.4.1 Introdução ............................................................................................................. 338
5.4.2 A estrutura de poder.............................................................................................. 339
5.5 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES.................................................................................. 360

6 Capítulo V: A REDE POLÍTICA BAMERINDUS (1981 – 1994) .............................364

6.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 364


6.2 A HISTÓRIA POLÍTICA BRASILEIRA DO PERÍODO 1981 A 1994...................................... 364
6.2.1 O Partido Popular (PP).......................................................................................... 365
6.2.2 A sucessão de João Figueiredo ............................................................................. 368
6.2.3 A Nova República................................................................................................. 370
6.2.4 A Assembléia Nacional Constituinte .................................................................... 372
6.2.5 A campanha presidencial de 1989 ........................................................................ 373
6.2.6 A sucessão de Fernando Collor de Mello ............................................................. 376
6.2.7 A campanha presidencial de 1994 ........................................................................ 380
6.3 A REDE POLÍTICA BAMERINDUS (RPB) (1981 A 1994) ................................................ 384
6.3.1 Instituições que integraram a Rede Política Bamerindus...................................... 390
6.3.2 Pessoas que integraram a Rede Política Bamerindus............................................ 407
6.4 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES. ............................................................................... 452

VOLUME III

7 Capítulo VI: O BANQUEIRO E POLÍTICO JOSÉ EDUARDO DE


ANDRADE VIEIRA. (1990 A 1994) .........................................................................457

7.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 457


7.2 A AÇÃO POLÍTICA DO BANQUEIRO JOSÉ EDUARDO DE ANDRADE VIEIRA .................... 458
7.2.1 Campanha Eleitoral para o Senado de 1990 ......................................................... 458
7.2.2 Senador e Ministro (1991-1993)........................................................................... 485
7.2.3 Sucessão Presidencial de 1994.............................................................................. 515
7.3 OS ÚLTIMOS ANOS DO BAMERINDUS (1995 A 1997) ...................................................... 551
7.3.1 O HSBC ................................................................................................................ 562
7.4 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES.................................................................................. 563

8 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES FINAIS .......................................................567

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................584

FONTES: PERIÓDICOS .............................................................................................................. 610


FONTE: DOCUMENTOS ITERNOS DO BAMERINDUS ................................................................... 633

GLOSSÁRIO .......................................................................................................................635

APÊNDICES ........................................................................................................................636

APÊNDICE A - LINHA DO TEMPO ............................................................................................. 636


APÊNDICE B - BANCO DE DADOS ECONÔMICO-FINANCEIROS DA AMOSTRA DE BANCOS
BRASILEIROS ................................................................................................. 656
APÊNDICE C - RELAÇÃO DAS ATIVIDADES NO SENADO FEDERAL............................................ 658
APÊNDICE D - TABELA DE CARGOS ......................................................................................... 661
APÊNDICE E - CÓDIGOS DE EMPRESAS .................................................................................... 662
APÊNDICE F - INTERVENÇÕES DO BACEN ................................................................................ 663
APÊNDICE G - QUANTIDADE DE INTERVENÇÕES DO BACEN .................................................... 664
APÊNDICE H - HISTÓRIA DO HSBC - THE HONGKONG AND SHANGHAI BANKING
CORPORATION LIMITED ................................................................................ 665
Principais membros do Grupo HSBC ...................................................... 665
Os interesses do grupo na Ásia ................................................................ 666
O HSBC na Europa.................................................................................. 667
Os interesses no Oriente Médio ............................................................... 668
O Grupo HSBC nas Américas ................................................................. 669
APÊNDICE I - CAPA DO PROJETO DE PESQUISA EM 2002.......................................................... 672
APÊNDICE J - CAPA DO PROJETO DE PESQUISA EM 2003 ......................................................... 673
ANEXOS ..............................................................................................................................674

ANEXO A - ETAPAS DA EMERGÊNCIA DAS FINANÇAS DE MERCADO MUNDIALIZADAS .............. 674


ANEXO B - FORMAÇÃO DO GRUPO BAMERINDUS ................................................................... 675
ANEXO C - GENEALOGIA DO GRUPO BAMERINDUS ................................................................. 676
ANEXO D - RELAÇÃO DOS PARTIDOS POLÍTICOS BRASILEIROS – (1945-2003) ......................... 677

ÍNDICE ANALÍTICO.........................................................................................................678
1 INTRODUÇÃO

“Solve et Coagula”
Altus, Mutus Líber1.

1
Logo após o Banco Central do Brasil decretar a intervenção no Grupo Bamerindus em
março de 1997, Maria Christina de Andrade Vieira2, em entrevista à revista Carta Capital, expôs a
sua opinião sobre as causas da segunda grande tragédia que atingia sua família:
1
[...] política e banco, instituição financeira, não se misturam. Meu pai já dizia isso,
meu pai foi deputado e se afastou, abriu mão da vida política e sempre nos alertou
para essa coisa. Banco trabalha com uma palavra que é credibilidade. Na política essa
palavra não é a mais relevante, fica incompatível. [...] o Olavo Setúbal teve a sua
experiência e retroagiu, abriu mão.3 [...] Sempre fui contra [a entrada de José Eduardo
na política] e ele sabe disso. (LETAIF, 1997, p. 41)4.

2
Mas, logo em seguida ponderou dizendo:
2
Eu entendo como questões de poder, de lideranças de poder. Em muitos momentos, no
meu entendimento da crise do banco, não poderia acontecer a solução porque não era
o momento político adequado para a Presidência da República. [...] o político sempre
predominando sobre o financeiro. (LETAIF, 1997, p. 41. Grifo nosso).

3
Nas diversas conversas que tivemos com profissionais do setor financeiro, foi possível
constatar que esta opinião é mais ou menos senso comum na área e que aparece sintetizada numa
das inúmeras frases colhidas nos depoimentos: – “Bancos e política não deveriam misturar-se, mas
os banqueiros e os políticos sempre foram casados de aliança e papel passado” 5. Segundo a
opinião de um auditor que trabalhou no Bamerindus antes e depois da intervenção, “o problema do
banco foi essencialmente político”, e explicou que:
3
[...] enquanto o Bamerindus negociava as diferenças diárias de caixa com o Banco do
Brasil, ainda eram observados alguns critérios técnicos, mas quando teve que recorrer
à Caixa Econômica Federal, acabou caindo nas mãos dos políticos de Brasília.
(Depoimento verbal).

1
Fonte: ALTUS. Mutus Liber. Rochelle, França, 1677. Disponível em: <http://www.lescheminsdhermes.org/
rubrique36.html>. Acesso em: 6 jan. 2006.
2
Maria Christina de Andrade Vieira é irmã de José Eduardo de Andrade Vieira. Como uma das herdeiras da família Vieira,
era sócia do Grupo Bamerindus e ocupou cargos na administração do grupo.
3
As análises dos acontecimentos que levaram Olavo Egydio Setúbal a desistir de concorrer a cargos eletivos, apontam muito
mais para diagnósticos objetivos de suas chances de derrotar concorrentes mais populares, do que propriamente por algum
tipo de restrição ao exercício da atividade política na condição de banqueiro. Vale observar que seu amigo e também sócio
do Banco Itaú, Herbert Victor Levy, além de banqueiro, jornalista e proprietário do jornal Gazeta Mercantil, atuou na
política desde 1945 tendo sido um dos fundadores da UDN.
4
Fonte: LETAIF, Nelson. Entrevista: Maria Christina de Andrade Vieira. O rugido da leoa ferida. Para irmã do senador
Andrade Vieira, o Bamerindus quebrou por ele não comandar nem delegar poderes. Carta Capital, São Paulo, 16 abr. 1997,
nº 46, p. 36-42.
5
Fonte: Depoimento verbal prestado sob a condição de não ser identificado.
2

4
Nesse sentido, a história do capitalismo demonstra que os bancos e o Estado, banqueiros e
políticos, há muito tempo têm coexistido de forma entrelaçada, sendo difícil, em muitos momentos,
distinguir diferenças entre eles. Ao que parece, pelo menos no setor bancário, a margem que separa
o público do privado tem sido tênue e confusa, e em permanente movimento. Se no Brasil, casos
recentes como os de Ângelo Calmon de Sá, do Banco Econômico, e José Eduardo de Andrade
Vieira (JE), do Bamerindus, são normalmente citados como exemplos do “fracasso” da fusão
bancos / política, não podemos deixar de notar alguns exemplos de “sucesso” tais como: Laudo
Natel / Bradesco; Herbert Levy e Olavo Setúbal / Banco Itaú; Walther Moreira Salles / Unibanco;
José de Magalhães Pinto enquanto esteve no comando do Banco Nacional; ou mesmo as casas
Baring Brothers e Rothschild na Europa durante os séculos XIX e XX; ou os Rockefellers e o
Chase Manhattan Bank dos EUA e outras dezenas ou centenas de casos. Tanto no Brasil como nos
grandes centros capitalistas, a história demonstra que os banqueiros e seus bancos, atuando nos
bastidores ou no centro do palco, participaram ativamente das grandes transformações econômicas,
políticas e sociais. Decididamente, os casos brasileiros apenas reproduzem um modelo tão velho
quanto a prática de emitir e negociar títulos da dívida pública6. Neste contexto, a quantidade de
exemplos parece demonstrar que, em muitas situações, o fenômeno da combinação e sobreposição
do mundo político com o financeiro seria mais do que uma simples coincidência, uma prática
comum nas sociedades capitalistas.
5
Tal fenômeno teria origem no fato de os bancos terem ocupado um lugar estratégico na
estrutura capitalista que permitia aos banqueiros concentrarem uma grande capacidade
discricionária sobre o fluxo de recursos financeiros nas principais operações econômicas; essa
capacidade lhes possibilitava, em boa medida, promover ou constranger transformações no sistema
econômico com reflexos condicionantes sobre o Estado e a sociedade. O sistema bancário estaria
entre as mais importantes instituições de mediação dos conflitos alocativos e distributivos do
capitalismo, exigindo que, se quisermos estudar as instituições bancárias, temos que ampliar o
horizonte de análise para além das fronteiras do mundo financeiro, abrindo espaço de observação
para uma lógica muito mais ampla e complexa, incorporando variáveis políticas e sociais.
6
Neste trabalho apresentamos o resultado deste esforço de análise através do estudo de um
grupo econômico e financeiro que chegou a ser o quinto maior grupo privado brasileiro nos anos
1980. Entre suas empresas estava o Banco Bamerindus do Brasil S.A., que durante vários anos foi o
terceiro maior banco privado brasileiro em ativos e, em determinado momento, o segundo maior em
depósitos. Vários de seus sócios e diretores ocuparam cargos públicos importantes, inclusive o
governo do Estado do Paraná. Seu personagem mais notório e popular, José Eduardo de Andrade
Vieira (JE), foi senador da República, Ministro de Estado, presidente nacional do Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) e tesoureiro da campanha presidencial vitoriosa de Fernando Henrique

6
Para mais detalhes sobre a ação política de banqueiros e políticos na Inglaterra, EUA e Brasil, ver PEREIRA, T. C. G.
Histórias de bancos e banqueiros: uma breve análise sociológica e política do sistema bancário. Ciências Sociais Unisinos:
Centro de Ciências Humanas, São Leopoldo, vol. 39, nº 163, p. 109-135, jul. / dez. 2003.
3

Cardoso (FHC), em 1994. Ao longo desta tese vamos identificar e analisar as principais conexões
do Grupo Bamerindus com o mundo político, o Estado e a sociedade, buscamos focalizar e
relacionar fatos e ações diretas e indiretas, promovidas pelos seus banqueiros e que foram
importantes, senão decisivas, em muitos momentos da história do Paraná e do Brasil.
7
Este tipo de análise sociopolítica do sistema financeiro não é novo na sociologia e, apesar
de não haver uma produção teórica muito grande, Richard Swedberg (1989)7 observou haver uma
retomada de “interesse na área específica da sociologia econômica”, resgatando uma tradição
iniciada com Marx, Weber, Pareto e Schumpeter, e que mais tarde, nos anos 1950, teve
continuidade com autores como Smelser, Parsons e Polanyi. Na área da sociologia política os
bancos são especialmente relevantes em razão do lugar estratégico que ocupam no topo do sistema
econômico – “haute finance” – que em muitos momentos da história confundiu com o mundo
político. Financiando Estados, grupos econômicos, políticos, partidos, projetos de desenvolvimento,
guerras, revoluções, controlando ou gerando crises financeiras, historicamente os bancos estiveram
na linha de frente dos grandes acontecimentos sociais, sendo um dos principais instrumentos das
transformações capitalistas. Muitos autores clássicos da sociologia abordaram esta questão, como
por exemplo, Simmel, em Philosophy of Money, que identificou as conexões entre banqueiros e o
nacionalismo com sendo fundamentais para algumas correntes do pensamento político. Também
Pareto em seu livro Tratado de sociologia geral abordou as relações entre banqueiros, políticos e
jornalistas, ou Schumpeter que destacou o papel dos bancos no processo de inovação capitalista.
8
Swedberg também observou que, entre os clássicos, os textos que trazem as abordagens
mais significativas sobre o tema na Sociologia seriam as obras: O capital (1867-1894) de Marx,
História geral da economia (1919-1920)8 e Economia e Sociedade (1920)9, de Weber e Der
moderne Kapitalismus und Gesellschaft (1902-1916) e Hochkapitalismus (1927) de Sombart. Nos
trabalhos de Max Weber a atividade bancária aparece classificada como um tipo especial de
comércio e, os bancos identificados com modos de dominação a partir da sua posição monopolista
diante do mercado. Para Weber tais atributos capacitam os banqueiros ao exercício do poder por
meio da autoridade conferida pelos cargos que ocupam nos Conselhos de Administração10 e
Diretorias das grandes empresas-cliente ou associadas. Estes autores basicamente identificaram a
posição estratégica dos banqueiros e seus bancos com o poder nas sociedades capitalistas, e
buscaram conhecer as bases sociais desse tipo de instituição considerando que, para entender as
relações econômicas, também era necessário levar em conta a estrutura social do ambiente em que

7
Fonte: SWEDBERG, Richard. Banks from a Sociological Perspective. In: AHRNE, G. (ed.) Sociology in the World:
Essays in Honor of Ulf Himmelstrand on his 65th Birthday. Uppsala: Uppsala University, 1989. p. 157-188.
8
Fonte: WEBER, M. História Geral da Economia. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1968.
9
Fonte: WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Vol 1 e 2. Brasília: Ed. UNB, 1991.
10
O termo Conselho de Administração será bastante utilizado nesta tese, e se refere à instância máxima de poder das
organizações empresariais, sendo normalmente integrado pelos maiores acionistas ou por seus representantes. Na literatura
vamos encontrar várias denominações diferentes para esta instância, como por exemplo, Conselho Administrativo, Conselho
de Acionistas, Conselho Diretor ou Diretivo, “Board of Directors”, “Council of Directors”, “Council or Board of
Shareholders or Stockholder”. (Nota do autor).
4

se realizavam. É neste contexto da teoria sociológica que nossa pesquisa se insere, buscando
contribuir para a compreensão do papel político e social dos banqueiros e seus bancos na sociedade
brasileira.

1.1 A TESE

9
Neste trabalho apresentamos os resultados dessa pesquisa que, iniciada em junho de 1999,
teve como objetivo principal, identificar e analisar de forma sistemática o fenômeno das conexões
entre o capital financeiro, a política e a sociedade, através do estudo dos vínculos diretos e indiretos
do Grupo Bamerindus com a sociedade civil e a política, e da ação empresarial e política de José
Eduardo de Andrade Vieira e do grupo de capitalistas reunido em torno da instituição; buscamos
comprovar a tese que, durante o período 1981-1994 o Grupo Bamerindus manteve uma rede
econômica, financeira, política e empresarial que atuou de forma sistemática e contínua sobre
mercados, governos, Estado e sociedade, caracterizando-se como um complexo conglomerado de
interesses econômicos, financeiros, políticos e empresariais, controlado por uma elite específica
formada por banqueiros, empresários, burocratas, intelectuais e políticos.
10
Durante nossa pesquisa, analisamos a história da instituição e de suas interações nos
campos empresarial, político e estatal, identificando seus vínculos de natureza econômica, política,
familiares e sociais com empresas, associações de classe, órgãos públicos, cargos no governo,
partidos políticos, instituições sociais, familiares, sócios, conselheiros, diretores, funcionários,
clientes, fornecedores e demais pessoas e organizações que de alguma forma mantiveram conexões
significativas e consistentes com a instituição, e que davam forma e complexidade à equação social
Bamerindus.
11
A imagem empresarial dos banqueiros é bastante conhecida e estudada, e muito já se falou
e escreveu sobre as conexões dos bancos com a política e a sociedade, mas são poucos os trabalhos
que se propuseram a estudar de forma sistemática este fenômeno. A imprensa e a literatura estão
cheias de referências parciais e dispersas sobre esses vínculos e a proposta básica desta pesquisa foi
identificar e reunir esses fragmentos espalhados e desconexos, para formar uma espécie de mosaico
que revelasse ou chegasse mais próximo do que seria a face inteira dos banqueiros11 e de seus
bancos, como protagonistas de importantes processos econômicos, políticos e sociais. Nesta tese
buscamos identificar os principais momentos nos quais os interesses econômicos do grupo
condicionaram processos sociopolíticos e as situações em que os interesses políticos e sociais
influíram nas operações econômicas. Seguindo a sugestão de Dreifuss (1986)12, identificamos e

11
É interessante observar que a assessoria de propaganda de José Eduardo definiu que a face esquerda do seu rosto era a que
apresentava as melhores qualidades fotogênicas, e determinou este ângulo como padrão para todo o material publicitário.
Sabendo desta decisão, os jornais de seus adversários procuravam publicar apenas fotografias da face direita do banqueiro.
(Nota do Autor).
12
Fonte: DREIFUSS, René. A. A internacional Capitalista: estratégias e táticas do empresariado transnacional 1918 – 1988.
2º ed. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1986.
5

analisamos a ação do Bamerindus na atividade diária da política, no cotidiano do exercício dos


cargos públicos, nas campanhas eleitorais e nos acordos e alianças voltadas para o exercício do
poder político, buscando identificar as conexões com as atividades e interesses econômicos,
financeiros e empresariais do grupo; entendendo a ação política como:
4
[...] o esforço de intervenção abrangente ao nível de campanha, através do qual se
deflagram um número de operações e manobras táticas projetadas para apoiar-se e
complementar-se umas às outras, obtendo um efeito cumulativamente significativo,
espelhando e constituindo o poder de uma classe. A ação política é realizada por meio
de mecanismos repressivos, coercitivos e recursos ideológico-propagandísticos de
pressão política e coação econômica além de mobilização ou do uso de força.
(DREIFUSS, 1967, p. 260, 281, apud DREIFUSS, 1986, p. 29).

12
No plano geral procuramos respostas para algumas questões básicas da sociologia política,
como, por exemplo, saber como as elites articulavam a associação do capital financeiro, grupos
econômicos, associações de classe e demais instituições sociais na luta pela hegemonia e o
exercício do poder, num ambiente marcado pela crescente socialização da política; qual foi o papel
das organizações empresariais e grupos econômicos e financeiros no processo político; como
indivíduos da classe dominante se organizavam para travar a luta pelo poder político e econômico;
como o poder econômico se transforma em poder político e / ou como o poder político se converte
em poder econômico; como uma classe, segmentos de classe ou grupos sociais mobilizavam
recursos materiais, humanos, culturais para o exercício do poder e a luta política.
13
No caso específico do Bamerindus, buscamos saber como a instituição participou do
processo de concentração do poder econômico e político verificado na história recente, e qual foi o
seu papel no processo de construção e consolidação da hegemonia do capital financeiro sobre as
demais instituições no Brasil. Também procuramos respostas para questões relacionadas ao papel
da instituição nas relações de poder, buscando inicialmente identificar a rede de conexões
econômicas, para em seguida rastrear e mapear a rede de relações políticas e sociais, sua
constituição, a forma como se inseria no processo político e o seu papel na história do Paraná e do
Brasil, no período 1981-1994. Em seguida, verificamos a intensidade do envolvimento e
comprometimento das relações dessas redes com a sociedade civil e a política e buscamos
identificar se esses vínculos tinham densidade, consistência e perenidade ou se eram superficiais e
esporádicos, limitando-se à defesa de interesses pontuais e apoios a algumas campanhas eleitorais;
ou ainda, a forma como estas conexões influenciavam os resultados econômicos do Grupo
Bamerindus. Para tanto, buscamos identificar quem eram os banqueiros e diretores que exerciam
atividades políticas, e a real extensão desses poderes nessa área. O passo seguinte foi verificar:
quais motivos e razões os levaram a se envolver diretamente nesta atividade e a forma como
utilizaram a instituição no processo político e nas disputas pelo poder e hegemonia?
14
Como objetivos específicos definimos as seguintes proposições:
1. Identificar a história e a composição do Grupo Bamerindus, suas principais
conexões com redes corporativas, políticas, sociais e o aparelho do Estado.
2. Identificar os principais capitalistas reunidos em torno do Bamerindus e suas
6

conexões com outras redes econômicas, políticas e sociais.


3. Verificar se o grupo organizado a partir e em torno do Bamerindus, se constituiu
como uma “elite orgânica” capaz de alavancar um projeto de poder político
regional e ser influente na vida nacional.
4. Identificar os principais interesses econômicos e políticos dessas elites e a
natureza das suas conexões com o Bamerindus.
5. Verificar os principais tipos de intervenções que o Grupo Bamerindus realizou
no conjunto da sociedade local e brasileira, com o objetivo de promover o projeto
social da classe ou segmentos de classe que o controlava.
6. Identificar quais eram as ambições políticas pessoais de José Eduardo de
Andrade Vieira.
7. Verificar como José Eduardo utilizou o Grupo Bamerindus para promover o seu
projeto político.
8. Identificar os grupos da elite local e nacional que se opunham às pretensões de
José Eduardo no campo empresarial e político.
15
Escolhemos estudar o Bamerindus por ser emblemático dos vínculos estabelecidos entre a
política e os bancos, pois além do tamanho do Bamerindus, entre seus principais sócios e diretores
estiveram Governadores, Secretários de Estado, Ministros e líderes partidários; e José Eduardo, era
um político bastante popular e importante no Paraná e no mundo político brasileiro em razão da sua
atuação no Senado e no Governo em Brasília a partir de 1991. Também consideramos que a
intervenção do Banco Central do Brasil (Bacen) no Bamerindus em 1997, tornou pública uma
grande quantidade de informações sobre o banco e suas transações, cuja divulgação normalmente é
impedida por lei – enquanto a instituição estiver operando. Assim o caso Bamerindus é uma das
raras janelas aberta para estudar uma parte significativa do fechado mundo das organizações
bancárias. Também foi determinante para a escolha desta instituição como objeto de pesquisa o fato
que, até 1997, muitos alunos que lotavam os cursos superiores de Administração, Contabilidade e
Economia em Curitiba eram funcionários ou dependiam de forma direta ou indireta, do
Bamerindus, e muitos “causos” do “seo Avelino” e do “Zé Eduarrrdo” ainda hoje fazem parte do
repertório de estórias de empresários e políticos paranaenses. A intervenção no Bamerindus e sua
transferência para o controle estrangeiro é uma forte evidência que naquele momento, houve uma
ruptura histórica na estrutura de dominação da região.
16
O tamanho do Grupo Bamerindus e a amplitude e complexidade de sua rede corporativa e
política exigiram estabelecer limites precisos para a pesquisa. Portanto, nosso trabalho restringiu-se
a estudar a ação política e empresarial de alguns dos principais empresários que tinham ligações
diretas com o grupo e com a política, procurando centralizar o estudo em torno de José Eduardo e a
família Vieira. Com relação ao tempo, buscamos concentrar a pesquisa na gestão de José Eduardo,
que teve início em 31 de julho de 1981, quando ele assumiu a Presidência do grupo, e encerramos o
estudo em 31 de dezembro de 1994, último exercício em que a “elite Bamerindus” manteve ainda
um considerável controle sobre os destinos da organização. Assumimos essa divisão com um certo
grau de arbitrariedade, visto que a história do Bamerindus começou em 1943, quando o Grupo
7

Lupion criou o Banco Meridional da Produção, e seria muito difícil precisar o momento em que
Grupo Bamerindus entrou na mais grave crise financeira de sua história, mas podemos afirmar com
segurança que foi na administração de José Eduardo que o Bamerindus tornou-se o terceiro maior
banco privado brasileiro; e a partir de janeiro de 1995, quando ele assumiu o cargo de Ministro da
Agricultura, do Abastecimento e da Reforma Agrária, do Governo FHC, teve início um período de
grande instabilidade e conflitos na sua vida pública com reflexos significativos sobre o Grupo
Bamerindus e sua rede política, culminando na intervenção do Bacen, no dia 26 de março de 1997,
e na transferência de parte do patrimônio do banco e da seguradora para o Grupo HSBC. Sendo
assim, concentramos nossa pesquisa no período (1981-1994) mais importante e próspero da história
do Bamerindus, visto ser nosso interesse estudar um período em que fosse possível observar e
analisar as ações políticas “[...] no decorrer da ‘normalidade’, no dia a dia da intervenção ‘fria’ e
persistente no conflito de classes, na ação diária, constante, sistemática, nos campos ‘frios’ da
política”. (DREIFUSS, 1986, p. 22), tanto no plano regional como nacional.
17
Entendemos que os dramáticos dois últimos anos do Grupo Bamerindus (1995-1997), pela
sua complexidade e importância, exigem uma pesquisa específica e exclusiva. Neste trabalho
limitamo-nos a apresentar apenas um sumário dos principais acontecimentos desse período,
procurando manter as referências mais importantes que encontramos e que poderiam servir de
subsídios para futuros estudos que pretendam abordar os anos finais da organização.
18
O Bamerindus não foi o único banco na história brasileira a constituir e manter uma
complexa rede de conexões econômicas e políticas; outros também o fizeram ou ainda mantêm
redes com igual ou maior tamanho e importância essas redes, sendo assim, este trabalho é mais uma
contribuição para o estudo dos processos de concentração de poder econômico e político no Brasil.
Através da história da rede corporativa e política Bamerindus é possível identificar como as
instituições bancárias podem ser utilizadas em projetos de dominação, ou mais precisamente, como
organizações empresariais podem ser transformadas em poderosos instrumentos do jogo político.
Também esperamos com este trabalho contribuir para ampliar o atual acervo de estudos sobre
empresários brasileiros; contribuir com análises sobre a história política do Paraná dos anos 1980 e
1990, principalmente aquelas voltadas para o estudo da ação política de empresários, e histórias de
bancos e de banqueiros brasileiros13.
19
Parte integrante do projeto América Latina: análise sociopolítica das transformações e
das perspectivas do sistema financeiro (III etapa) promovido pelo Núcleo de Estudos
Sociopolíticos do Sistema Financeiro (NESFI) – com apoio do CNPq, esta tese foi desenvolvida

13
Vale observar que, apesar da importância que Amador Aguiar teve para a história brasileira desde os anos 1950, não
conseguimos encontrar nem mesmo no Bradesco, uma biografia sua cujo conteúdo relevante fosse maior do que alguns
parágrafos. Lacuna esta que começou a ser preenchida com os trabalhos de COSTA, Fernando N. O caso RUBI: origem do
capital bancário no Brasil. Texto para Discussão. IE / UNICAMP nº 106, mar. 2002b. Disponível em:
<http://www.eco.unicamp.br/publicacoes/textos/download/texto106.pdf>. Acesso em: 18 mar. 2005, e MARKOWITZ, M.
A. Bancos e Banqueiros, empresas e famílias no Brasil. Rio de Janeiro, 2004. Dissertação (Mestrado). Antropologia
Social. Rio de Janeiro: Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 14 dez. 2004.
8

sob a Linha de Pesquisa: Estado, mercado, empresariado e sistema financeiro do Programa de


Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP)14 da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Apesar de todas as limitações, esperamos que este trabalho possa contribuir para o debate
de questões relacionadas a temas relacionados à busca e construção de mecanismos financeiros
alternativos, que sirvam de contrapeso para processos de concentração econômica e política; e a
criação e transformação de mecanismos de controle social sobre o capital financeiro nas suas
diversas manifestações.
20
Esta tese está organizada em seis capítulos e, além desta introdução, finaliza com uma
síntese das análises e conclusões apresentadas ao longo do texto. No capítulo I, o leitor encontrará
uma revisão dos elementos teóricos e conceituais que elegemos como ferramentas básicas de
análise e interpretação, e estão reunidos sob os seguintes títulos: Capital Financeiro, Hegemonia
Financeira, Grupos Econômicos, Elites Orgânicas e Organização Corporativa. Inicialmente
procuramos caracterizar o capital financeiro, para em seguida verificar suas conexões com o poder
dos banqueiros, o processo de hegemonia financeira e a formação dos grupos econômicos. Na
seqüência examinamos o conceito de elites orgânicas e suas conexões com os grupos econômicos,
as organizações corporativas de representação dos interesses de classe, e o poder econômico e
político.
21
No capítulo II, apresentamos um resumo da história do sistema financeiro internacional e
brasileiro, buscando subsídios para analisar as principais transformações que influenciaram a
história do Bamerindus. Para tanto dividimos o texto em duas partes: na primeira fazemos um
histórico do sistema e analisamos o processo de mundialização do capital financeiro e suas
conseqüências para o sistema financeiro brasileiro e o Bamerindus; na segunda parte realizamos
uma revisão da história do sistema financeiro brasileiro, abordando questões como: (1) a crise da
dívida externa brasileira, o estrangulamento financeiro do Estado e seus reflexos sobre a estrutura
econômica, política e social do país; (2) reforma do sistema financeiro e as várias crises que
ocorreram no período, os planos de estabilização econômica e seus efeitos no sistema bancário; (3)
as várias tentativas de reforma da dívida pública e controle do orçamento público; (4) as
negociações da dívida externa brasileira e seus efeitos sobre a integração do sistema financeiro
brasileiro ao internacional, o processo de privatização e a transferência de grandes instituições para
o controle estrangeiro; e (5) a constituição e ampliação de grandes grupos financeiros no Brasil.
22
Com estes subsídios básicos entramos de fato no caso Bamerindus no capítulo III, quando
examinamos a história da família Vieira e da formação do Grupo Bamerindus até 1981, buscando
identificar as conexões econômicas e políticas do grupo e suas relações com os eventos históricos
mais importantes do período, no plano local e nacional. Iniciamos assim a jornada pela intrincada
rede de relações econômicas, sociais e políticas, pela qual a instituição bancária assumiu boa parte

14
Para mais detalhes ver Linhas de Pesquisa em Sociologia Política. Sociologia Política On Line. Florianópolis: UFSC, dez.
2006. Disponível em: <http://www.sociologia.ufsc.br/>. Acesso em: 5 jan. 2006.
9

do papel de coordenadora do fluxo de recursos, catalisadora de conflitos e instância de


constrangimento, ou facilitadora da ação dos diversos grupos econômicos e sociais. Vamos
acompanhar o processo de expansão do Bamerindus através das associações e incorporações de
grupos influentes locais e nacionais, ocupando assim a posição de um dos principais atores do
processo de integração e expansão econômica da sociedade brasileira. Se imaginarmos estas
conexões como uma grande rede de pesca, como sugeriu Barnes (1987, p. 161)15, teremos uma
malha cobrindo boa parte do território nacional, cujo tamanho torna impossível a tarefa de
descrevê-la no seu todo. Neste estudo buscamos pelas regiões de maior densidade de conexões e
que concentraram a maior parte do poder de decisão. Nessas constelações encontramos ligações
com grandes grupos econômicos, partidos políticos, instituições públicas, políticos importantes,
famílias tradicionais, grupos de interesses e sindicatos patronais e de trabalhadores. No centro desse
agrupamento de interesses encontramos um grupo de empresários e políticos importantes, como por
exemplo, Moysés Lupion de Troya, Bento Munhoz da Rocha Netto, Ney Aminthas de Barros
Braga, Othon Mäder e a família Vieira. Neste capítulo ainda procuramos identificar suas biografias,
e principais contribuições para a formação do Bamerindus, suas participações na história
econômica e política do Paraná e suas conexões com a história brasileira.
23
No capítulo IV examinamos o Grupo Bamerindus, no período 1981 a 1994, cujo tamanho e
complexidade nos levaram a dividir o texto em três partes. Na primeira, identificamos e analisamos
as principais instituições que formavam o grupo, com destaque para as empresas como a
Bamerindus Cia de Seguros (BCS), a Indústria de Papel e Celulose Arapoti S.A. (Inpacel) e as
participações adquiridas nos leilões de privatização. Também analisamos os investimentos do grupo
no setor agropecuário, reflorestamento e em empresas de comunicação, algumas delas envolvendo
políticos importantes tanto na esfera regional como nacional. Na segunda parte, identificamos as
principais aquisições e incorporações de outros bancos neste período, para em seguida analisar a
instituição sob o prisma econômico-financeiro e operacional. Nessa análise procuramos extrair
indicadores da qualidade e da gestão dos investimentos, sua rentabilidade e estrutura de capital.
Também examinamos a crise de liquidez que o banco enfrentou em 1985, suas conexões com o
Estado, bem como os motivos que o levaram a ocupar logo em seguida a terceira posição entre os
maiores bancos privados brasileiros. Avaliamos sua rede de agências, os investimentos em
automação bancária, seu quadro de funcionários e ações voltadas para a reestruturação da
instituição nos anos 1990. Nessa parte analisamos as estratégias e ações para a expansão das
atividades em direção ao mercado internacional, suas principais parcerias com grupos estrangeiros
no Brasil, entre elas a sociedade com o Midland Bank, que no início dos anos 1990 foi incorporado
pelo The Hongkong and Shanghai Banking Corporation Limited (HSBC). Neste capítulo vamos
conhecer um pouco da história do Midland e do HSBC, e suas políticas de expansão no mercado

15
Fonte: BARNES, J. A. Redes sociais e processo político. In: FELDMAN-BIANCO, Bela (Org.) A Antropologia das
sociedades contemporâneas. São Paulo: Global, 1987, p. 159-193.
10

internacional. Finalmente, na terceira parte, examinamos a estrutura de poder do Grupo


Bamerindus, estudando inicialmente a trajetória de José Eduardo no comando da instituição para,
em seguida, analisar a composição do alto comando estratégico e suas conexões com grandes
empresários, famílias tradicionais, políticos e órgãos de representação de classe. Certamente que o
retrato traçado é parcial, pois não pretendemos esgotar neste trabalho toda a complexidade da
estrutura de poder da instituição, mas identificar os elementos mais importantes que oferecem
subsídios para o próximo capítulo (V), quando analisamos as conexões do grupo com o mundo
político, formando o que denominamos de rede política Bamerindus (RPB).
24
O capítulo V está dividido em duas partes; na primeira, apresentamos uma síntese da
história política brasileira e paranaense do período; na segunda parte examinamos a composição da
RPB no plano federal e no Paraná, e os papéis desempenhados pelos seus principais membros nas
casas legislativas e nos Executivos. Também analisamos a participação da rede nos processos
políticos das sucessões presidenciais e de governadores, suas múltiplas conexões cruzadas com
outras redes políticas formadas por inúmeras empresas públicas e grupos privados, associações de
classe, empresas de comunicação como rádios, televisões e jornais, e com redes familiares, sociais e
religiosas. Neste capítulo da tese vamos verificar a extensão, complexidade e poder da rede política
do Bamerindus e sua importância como instrumento de agregação, planejamento e coordenação das
ações das elites locais no plano político, estatal, econômico e social. A análise focaliza
principalmente Jayme Canet Júnior16, Affonso Alves de Camargo Netto17, João Elísio Ferraz de
Campos e José Eduardo de Andrade Vieira, buscando identificar suas participações nos principais
eventos da história brasileira e paranaense, tais como o regime militar, a Nova República, os
trabalhos da Constituinte, o pluripartidarismo e as eleições para governadores e presidentes da
República e, seus conflitos com outras redes políticas.
25
Para consolidar a análise das conexões do mundo político com o financeiro, no VI e último
capítulo abordamos alguns dos principais episódios da história política de José Eduardo de Andrade
Vieira ocorridos no período 1990-1994. Vamos acompanhar e analisar o crescimento do seu poder
sobre a rede política Bamerindus, a sua campanha eleitoral para o Senado em 1990, quando entrou
em cena o seu personagem “Zé do Chapéu” 18; sua atuação no Senado, mais tarde, como Ministro
da Indústria, Comércio e Turismo, e sua rápida passagem pelo Ministério da Agricultura, do
Abastecimento e da Reforma Agrária no governo Itamar Franco. O objetivo básico desse capítulo é
verificar como um banqueiro / político articulava seus interesses e da sua classe no Congresso
Nacional, no Executivo, em Brasília, buscando transformar o poder econômico em poder político,

16
A grafia do nome de Jayme Canet Júnior aparece em muitas publicações como Jaime Canet ou Jayme Cannet. Optamos pela
grafia utilizada na página da Internet: CASA CIVIL do Governo do Estado do Paraná. Governantes do Paraná. Período
Republicano. Curitiba, [2002]. Disponível em: <http://www.pr.gov.br/casacivil/republicano.shtml>. Acesso em: 26 abr.
2004. Nas citações mantivemos a grafia utilizada pelos autores.
17
A grafia do nome de Affonso Alves de Camargo Netto aparece em muitas publicações como Afonso Camargo ou Afonso
Camargo Neto. Optamos pela grafia utilizada em Casa Civil (2002). Nas citações mantivemos a grafia utilizada pelos
autores.
18
Personagem desenvolvido pela assessoria de comunicação para a campanha de José Eduardo para o Senado em 1990.
11

ou poder político em poder econômico. Também vamos analisar as dificuldades que JE e a rede
política Bamerindus enfrentaram no ambiente pluripartidário, suas reações diante da crescente
pulverização da representação partidária e a elevação do custo de manutenção da rede política;
vamos acompanhar a participação de José Eduardo no processo de sucessão do presidente Itamar
Franco em 1994, buscando analisar suas ações na definição dos candidatos e sua participação nas
campanhas eleitorais para presidente da República e governadores estaduais. Nesse capítulo, ainda,
JE chegou a ser candidato a presidente, e mais tarde apoiou e integrou o Comando de Campanha do
“amigo” e candidato Fernando Henrique Cardoso. Finalmente na terceira e última parte do capítulo
VI, apresentamos os principais acontecimentos que se seguiram a partir de janeiro de 1995 e que
formaram a história da agonia da instituição que durou até 26 de março de 1997, quando o Bacen
decretou a intervenção no grupo.
26
Encerramos a tese com uma síntese da história do Grupo Bamerindus e das análises e
conclusões que apresentamos ao longo dos capítulos.

1.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

27
Para a pesquisa escolhemos a metodologia de estudo de casos por ser uma técnica que
permite uma boa aproximação da complexidade e subjetividade inerentes ao cenário político e
empresarial, realidade marcada pela transitoriedade dos conflitos e carregada de ambigüidades e
subjetividade. Lugar comum dos jogos de aparências, esse é o cenário das posições dissimuladas, o
que exige do método a possibilidade de trabalhar com a complexidade e a subjetividade, concentrar
o foco de observação e aprofundar a pesquisa, buscando apreender múltiplas perspectivas do objeto
estudado.
28
Também utilizamos parte da técnica de história de vida19 cujo suporte teórico encontramos
no mestre Florestan Fernandes (1976)20, para quem esta técnica encontra larga aplicação no campo
da investigação sociológica. Através da história de personagens como José Eduardo, temos a
oportunidade de conhecer os limites e os elementos condicionantes do sistema social, precisamente
porque JE ocupou uma posição que oferecia perspectivas suficientemente amplas e plásticas para
uma investigação sociológica de boa parte do universo das relações sociais em que eles estavam
inseridos. Um aspecto importante revelado pela pesquisa foi que sua personalidade se afastava, em
boa medida, dos padrões esperados e reconhecidos culturalmente pelo seu meio. Dessa forma, foi
possível verificar como um determinado grupo social definia uma personalidade como divergente e
como esses grupos trabalharam com as dificuldades geradas pelo conflito com aquele que é ao
mesmo tempo igual (do seu meio), mas muito diferente (no seu comportamento). Também permitiu

19
Referência inspirada nas observações de Martins (1998) comentando a obra de Florestan Fernandes. Fonte: MARTINS, José
de S. Vida e história na sociologia de Florestan Fernandes. Reflexões sobre o método da história de vida. In: MARTINS
José de Souza. Florestan: Sociologia e Consciência Social no Brasil. São Paulo: Editora da USP, 1998, p. 87-96.
20
Fonte: FERNANDES, Florestan. Ensaios de sociologia geral e aplicada. 3º ed. São Paulo: Pioneira, 1976, c. 7, p. 251-269.
12

verificar como essa personalidade interagia com os grupos predispostos a defenderem determinados
padrões de comportamento e valores sociais consagrados.
29
Durante nossa pesquisa, pudemos constatar que, para alguns sócios e ex-funcionários do
Bamerindus e do Bacen, José Eduardo era uma pessoa estranha ao banco, pois o consideravam
como um “político” ou simplesmente como “não” sendo um “banqueiro”. Para algumas pessoas
do mundo político, JE era um “banqueiro metido na política” ou simplesmente “não era do
ramo”. Alguns dos seus colaboradores mais próximos, bem como antigos sócios e funcionários que
participaram da gestão do grupo ainda no tempo do “seo Avelino e do Edison” 21, consideravam
“Zé Eduardo” muito diferente, pois seus irmãos “jamais se meteram na política”; algumas matérias
de jornais classificavam JE como um “Banqueiro Rebelde”, outros o destacavam como um
“Banqueiro Caipira” e era visto “com uma certa reserva” pelos seus pares. Também foi possível
identificar que normalmente tais divergências emergiam publicamente quando as disputas pelo
poder tornavam-se mais acirradas, e que estas características eram utilizadas como argumentos para
interditar as pretensões de José Eduardo. Ao longo deste estudo vamos ter a oportunidade de
verificar que, em muitos momentos, JE soube explorar tais características divergentes como
vantagens competitivas, tanto no mundo empresarial como na política.

1.2.1 REDES SOCIAIS, POLÍTICAS E CORPORATIVAS.

30
O estudo do caso Bamerindus exigiu ampliar o foco de análise do banco para o Grupo
Bamerindus, o que nos obrigou a buscar o conceito de grupos econômicos e financeiros, ampliando
a perspectiva da firma como lócus econômico para algo mais complexo, que incorporasse diversas
empresas e atividades a uma unidade de comando. Mas tal conceito não foi suficiente, pois tinha
que incorporar também as conexões do Bamerindus com outros grupos econômicos, bem como os
vínculos com vários outros setores da sociedade, como as associações de classe, sindicatos,
institutos, fundações, partidos políticos, o Estado e o governo.
31
Diante desse quadro, tivemos que buscar conceitos e metodologia que nos permitissem
trabalhar com o espectro ampliado das atividades e conexões da instituição, já que o objetivo
principal de nosso estudo foi analisar as conexões do sistema financeiro com a política. Nesse
sentido Gramsci nos ajudou bastante com o conceito de “Estado Ampliado” que serviu de
ferramenta teórica básica para analisar a equação social formada em torno da instituição. Para este
quadro foi necessário buscar um referencial metodológico que permitisse articular a análise do
particular com o geral e que tivesse flexibilidade suficiente para incorporar, no mesmo modelo,
conexões econômicas, políticas e sociais. Escolhemos então as redes sociais, tanto como conceito

21
Avelino Antônio Vieira era o patriarca da família Vieira e durante muito tempo foi o principal executivo da instituição e um
dos maiores acionistas. Muitos o consideram como o principal artífice do Grupo Bamerindus. Tomaz Edison de Andrade
Vieira – filho de Avelino e irmão de José Eduardo, assumiu a Presidência do Bamerindus após a morte do seu pai em 1974.
José Eduardo substituiu Tomaz Edison após a morte deste em acidente aéreo em 1981. (Nota do autor)
13

como método, pela sua capacidade de atender tais requisitos, buscando suporte teórico e
metodológico na obra The power structure of American business de Mintz & Schwartz (1985)22 e
nos estudos de outros autores como, por exemplo, Scott (198823 e 200024), Domhoff (200225 e
2005b26), Knoke (199027 e 200428). Além do que, o conceito de redes sociais mostrou-se flexível o
bastante para, no caso Bamerindus, abordar três questões específicas que envolvem (1) o capital
financeiro, (2) as redes financeiras e (3) a linguagem simbólica do setor.
32
Com relação ao (1) capital financeiro, nosso estudo envolveu considerações sobre os
fundamentos do capital produtor de juros. Para esta questão específica, Marx (1991, p. 450-453)29
definiu o campo financeiro como o lugar onde “[...] a relação capitalista atinge a forma mais
reificada, mais fetichista”, na qual o “Capital aparece como fonte misteriosa, autogeradora do
juro, aumentando a si mesmo [...] – o fetiche autônomo perfeito”. Empiricamente observamos que
tais argumentos formam um poderoso discurso, uma espécie de “discurso financeiro” 30, no qual o
dinheiro gera juros da mesma forma que o trabalho gera produto – assim como “dar pêras é
propriedade de uma pereira”, encobrindo uma realidade na qual o lucro é produto das relações
sociais e não de relações entre coisas. Marx chama a atenção para o fato que esta lógica dissimula o
juro como parte da mais-valia, descarta as relações sociais e apresenta o dinheiro como capaz de se
auto-reproduzir – “a perversão no mais alto grau, das relações de produção – de aumentar o valor
sem depender da produção – a mistificação do capital na sua forma mais contundente”. Como
estamos estudando um grupo financeiro e num contexto econômico, político e social marcado pela
hegemonia dessa “pecunia perpetuum mobile”, o conceito e o método de redes sociais oferecem
um caminho consideravelmente mais seguro para o trabalho de pesquisa e análise, já que as redes
sociais têm por principal fundamento as relações sociais, identificando-as e analisando-as como
linhas que conectam os indivíduos e instituições formando uma intrincada malha – uma estrutura
entrelaçada de um longo tecido (SCOTT, 2000 e 1988, p. 53). Nessa rede é possível representar os
diversos tipos de relações sociais, como as familiares, econômicas e políticas, permitindo
identificar e analisar as disputas de poder entre classes e seus diversos segmentos, as constelações

22
Fonte: MINTZ, Beth & SCHWARTZ, Michael. The Power structure of American Business. Chicago: University of
Chicago Press, 1985.
23
Fonte: SCOTT, J. Social Network Analysis and Intercorporate Relations. Hitotsubashi Journal of Business and
Commerce, 23, 1, 1988, p. 53-68.
24
Fonte: SCOTT, J. Social Network Analysis: A Handbook. 2. ed. Thousand Oaks, California: Sage Publications, 2000.
Disponível em: <http://www.analytictech.com/mb119/tableof.htm>. Acesso em: 08 abr. 2005.
25
Fonte: DOMHOFF, G. W.. Who Rules America? Power: Politics, & Social Change, 4 Ed. New York: McGraw-Hill., 2002.
26
Fonte: DOMHOFF, G. W. Theories of Power. The Four Networks Theory of Power: A Theoretical Home for Power
Structure Research. Department of Sociology. University of California. Santa Cruz: Univ. California, Apr. 2005b.
Disponível em: <http://sociology.ucsc.edu/whorulesamerica/theory/four_networks. html>. Acesso em: 24 nov. 2005.
27
Fonte: KNOKE, David. Political network. The structural perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
28
Fonte: KNOKE, David. Introduction to network analysis. David Knoke's Home Page. Dep. of Sociology. Minneapolis:
University of Minnesota, Aug. 2004. Disponível em: <http://www.soc.umn.edu/~knoke/>. Acesso em: 20 nov. 2005.
29
Fonte: MARX, Karl. (1894). O capital: crítica da economia política. Livro 3. O processo global da produção capitalista.
Vol. V. 5ª ed. Tradução Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.
30
Na seqüência da tese vamos analisar mais de perto este “discurso financeiro” e sua função no processo de dominação e
acumulação capitalista.
14

formadas pelas diferentes elites e as conexões com o Estado e o governo. Nesse contexto, o próprio
poder passa a ser resultado de interações entre extensas e complexas conexões, arranjos e
constelações de interesses.
33
Na questão (2) rede financeira, nós temos que considerar que o mundo financeiro é
caracterizado por extensas ramificações de relações de investimento, financiamento, distribuição de
risco etc, construídas ao longo do tempo e que tendem a manterem-se relativamente estáveis. A
estrutura em rede possui, entre suas principais características, plasticidade e flexibilidade
suficientes para enfrentar as contradições e transformações típicas do capitalismo31. A história
demonstra que tais redes têm a capacidade de se manterem por longos períodos, apesar de
enfrentarem mudanças significativas nos seus arranjos internos e externos. Vamos ver ao longo
deste trabalho que o Bamerindus foi formado pela incorporação e integração de várias redes
financeiras locais e nacionais e, certamente, a transferência do banco e da seguradora para o HSBC
fez parte de um longo e complexo processo de adaptação das redes financeiras às transformações
capitalistas. O próprio HSBC simboliza a história de como redes financeiras criadas ainda nos
primórdios da Revolução Industrial continuam atuando sob diferentes configuração e aparências.
34
Quanto à (3) linguagem simbólica, é importante Gráfico 1-1: Sociograma da rede de conexões
do Citigroup.
considerar que a idéia de “rede” faz parte do mundo
financeiro como metáfora habitual para representar grande
parte de suas estruturas, como por exemplo, “rede
bancária”, “rede de agências”, “Rede do Sistema
Financeiro Nacional (RSFN)”, “rede financeira”, “rede de
caixas eletrônicos” etc. Dessa forma, entendemos que ao
utilizarmos o conceito e o método de redes, estamos
incorporando um tipo de representação que faz parte do
universo simbólico dos indivíduos e organizações que
integram o sistema financeiro, o que facilitou a
aproximação e leitura do nosso objeto de estudo.
35
O conceito de redes sociais está baseado na imagem
de indivíduos e instituições vinculados uns aos outros
através de relações sociais formais e informais, constituindo
uma malha de conexões (ver Gráfico 1-1) – uma sofisticada
metáfora do tecido social baseada no fato que “[...] a
natureza humana é o conjunto das relações sociais Fonte: Gráfico gerado em tempo real pelo
programa interativo de processamento e dados
historicamente determinadas, isto é, um fato histórico 32
disponível em: Josh On (2004) , com base em
premissas escolhidas pelo autor da tese.

31
Para mais detalhes sobre redes financeiras ver SWEDBERG (1990).
32
Fonte: JOSH ON. They rule: <http://www.theyrule.net> USA, Futurefarmers, 2004. Disponível em:
<http://www.theyrule.net/2004/tr2.php>. Acesso em: 26 nov. 2005.
15

comprovável, dentro de certos limites através da filologia e da crítica [...]”. (GRAMSCI, 1984, p.
9)33. Uma grande quantidade de análises no campo das ciências sociais tem abordado
sistematicamente esta metáfora e desenvolvido suas bases teóricas e técnicas alcançando níveis
bastante sofisticados tanto no uso da matemática como na computação gráfica, (ver Gráfico 1-2). A
análise de redes sociais oferece uma nova forma para analisar velhos problemas34.
36
O conjunto formado pelos pontos e suas Gráfico 1-2: Artigos com palavra-chave: “Network”.
linhas de conexões permitem o uso do conceito 8.000

7.000

EconLit
matemático de gráfico – formando os
6.000

sociogramas, e possibilita o uso de um conjunto 5.000

4.000
de procedimentos para analisar a presença,

SocAbs
3.000
direção e força das linhas que conectam os 2.000

1.000
pontos, permitindo representar algumas das suas
-
principais características, (SCOTT, 2000 e 1988, 1965-70 1970-75 1975-80 1980-84 1985-89 1990-94 1995-99 2000-04

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados


p. 54-59). O método oferece uma perspectiva extraídos de Sociological Abstracts, EconLit, apud KNOKE
interdisciplinar com enfoque nos (2004).

relacionamentos estruturais como chave explanatória para conceitos e princípios. As propriedades


estruturais das formações sociais são o contexto que dá forma às percepções, opinião, atitudes e às
ações dos indivíduos e da coletividade. Neste cenário, a influência social e a ação coletiva podem
ser facilitadas ou constrangidas pelas transações diretas e indiretas entre atores sociais; e o método
permite analisar as posições dentro do contexto como um processo dinâmico. (KNOKE, 2004).
37
As redes podem ser utilizadas como uma metáfora da estruturação das entidades na
sociedade, como também, com base na sociologia relacional, pode servir como método35 para a
descrição e análise dos padrões das relações nela presentes. A análise de redes sociais permite
construir estudos precisos sem impor estruturas à priori; e abre para a investigação vários níveis da
estrutura social, permitindo focalizar o particular sem perder a visão do geral. Vale destacar que o
método se apresenta como uma importante ferramenta para o estudo das regiões onde ocorrem as
interações entre Estado e sociedade, pois permite analisar, sem a necessidade de se considerar um
padrão de relações, abrindo espaço para observar como estes dois campos interagem, aproximando
o observador de maneira mais precisa da realidade social (MARQUES, 2000)36.
38
O método tem sido aplicado nos mais variados tipos de estudos nas ciências sociais,
abordando desde questões étnicas e culturais até estudos de relações econômicas, elites, poder e

33
Fonte: GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. 5ª ed. Tradução de Luiz Mário Gazzaneo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
34
Para detalhes sobre a história do uso das redes sociais ver SCOTT (1988 e 2000), KNOKE (1990) e MARQUES (2000).
35
Fonte: LAZEGA (1996). Apresenta uma interessante e detalhada discussão sobre a utilização das redes como método.
LAZEGA, Emmanuel. Arrangements contractuels et structures relationnelles. Revue Française de Sociologie, Paris, v. 37,
nº 3, p. 439-456, 1996.
36
Fonte: MARQUES, Eduardo C. Estado e redes sociais: permeabilidade e coesão nas políticas urbanas no Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: Ed. Revan; São Paulo: FAPESP, 2000.
16

política, desenvolvendo assim múltiplas variações do conceito para ajustá-lo ao objeto de estudo,
(KNOKE, 1990). Atualmente, tanto o conceito como o método estão bastante desenvolvidos e
contam com suporte da International Network for Social Network Analysis (INSNA)37, existindo um
acervo considerável de trabalhos (ver Gráfico 1-2), programas de computador38 e bancos de dados
voltados para esse tipo de pesquisa; alguns disponíveis para uso em tempo real, como por exemplo
a página da Internet “They Rule” de Josh On (2004), disponível no endereço
<http://www.theyrule.net/2004/tr2.php>39. Internacionalmente considerado como um dos maiores
especialistas nessa área, Knoke (2004) disponibiliza, em sua página na Internet, um total
aproximado de 2.600 referências bibliográficas para redes sociais e Jun Park & Richard Feiock
mantêm 600 referências na página Network Analysis40 publicada com suporte do Florida State
Institute for Science and Public Affairs da Universidade Estadual da Califórnia.

1.2.2 APLICANDO A METODOLOGIA DE REDES SOCIAIS

39
A aplicação do método neste nosso estudo Gráfico 1-3: Rede Social Bamerindus
nos levou a denominar de rede social Bamerindus
o conjunto formado pelas conexões de natureza
econômica, política e social reunidas em torno da
instituição que para facilitar as análises, foram
agrupadas em duas grandes redes que
denominamos de Rede Política Bamerindus e
Rede Corporativa Bamerindus (ver Gráfico
1-3). Na rede política estão concentradas as
conexões entre pessoas e instituições privadas e
públicas que atuam no campo da sociedade civil e
na sociedade política. Na rede corporativa
agrupamos as conexões de natureza econômica
Fonte: Gráfico elaborado pelo autor.
estabelecida entre grupos econômicos e financeiros
privados e públicos. Na seqüência buscamos identificar as áreas em que ocorriam conexões entre as
duas redes, ou seja, nas regiões onde o poder econômico buscava transformar-se em poder político,

37
Fonte: INSNA - International Network for Social Network Analysis. Página oficial. Disponível em:
<http://www.insna.org>. Acesso em: 23 nov. 2005.
38
Na página da INSNA: (2005) são indicados 53 programas de processamento específicos para redes sociais.
39
Uma interessante avaliação dos programas disponíveis para redes sociais pode ser encontrada em HUISMAN, Mark & VAN
DUIJN, Marijtje A. J. Software for Social Network Analysis. Heymans Institute/DPMG and ICS/Statistics & Measurement
Theory. University of Groningen. October 2003. Disponível em: <http://stat.gamma.rug.nl/Software%20for%20Social%
20Network%20Analysis%20CUP_ch13_Oct2003.pdf>. Acesso em: 15 jan. 2006. O texto também foi publicado em
CARRINGTON, P. J.; SCOTT, J. & WASSERMAN, S. (Eds.) Models and methods in social network analysis. New
York, NY: Cambridge University Press, 2005, p. 270-316.
40
Fonte: PARK, Jun; FEIOCK, Richard. Network Analysis. Florida State Institute for Science and Public Affairs.
Universidade Estadual da Califórnia. Disponível em: <http://www.fsu.edu/%7Espap/water/network/bibliography.htm>.
Acesso em: 23 nov. 2005..
17

ou onde o poder político procurava transformar-se em poder econômico. No capítulo I –


Fundamentos Teóricos, nós apresentamos uma breve revisão dos principais conceitos que
utilizamos para caracterizar as redes políticas e corporativas, bem como uma descrição do método
que utilizamos neste trabalho.
40
Vários problemas surgem na aplicação do método, o primeiro deles está na construção dos
sociogramas, pois não se pode simplesmente transpor a teoria dos gráficos desenvolvida no campo
da matemática para as ciências sociais e nem todas as conexões são passíveis de serem
identificadas. Outro problema é o elevado grau de arbitrariedade implícito na quantificação das
variáveis utilizadas. Tais valores devem ser considerados apenas como indicadores mais ou menos
relevantes, ou suportes temporários para a construção da equação geométrica. Porém tal
arbitrariedade não desqualifica o resultado, desde que seja considerado como mais um instrumento
que fornece, ao pesquisador, indicadores ou pistas de possíveis agrupamentos relevantes e conexões
estratégicas; servindo de ponto de partida para aprofundar a investigação ou como mais uma
evidência, entre outras, para uma proposição, principalmente num contexto em que é necessário
lidar com uma massa muito grande de dados. Também é um grande facilitador para a representação
e comunicação, através de gráficos, do prisma do contexto subjetivo das relações sociais que, em
última análise, não importando a técnica utilizada, tais representações jamais estarão isentas ou
desvinculadas do conjunto de valores subjetivos do pesquisador. Para minimizar o problema do
arbítrio na questão dos valores atribuídos às conexões, no caso Bamerindus, construímos a matriz
de dados utilizando uma variação da teoria dos gráficos, atribuindo o valor um (1) quando houvesse
indicadores objetivos da presença de uma conexão, e o valor Zero (0) para a sua ausência. O
resultado final deve ser ponderado pelo fato que nem todas as conexões foram passíveis de
identificação, principalmente as de parentesco e, em muitos casos, tais ligações tinham enorme peso
na distribuição das funções e do poder econômico e político. Em razão da complexidade, buscamos
concentrar a pesquisa das conexões de parentesco em torno da família Vieira. Para rastrear os
vínculos, utilizamos vários tipos de fontes, tendo como referência metodológica C. Wright Mills
(1975)41 que fornece um importante exemplo de trabalho sistemático de mapeamento das conexões
utilizando inclusive referências de colunas sociais de jornais e tablóides, nos quais “firulas e
fofocas” das notas diárias tornam-se importantes para rastrear principalmente as conexões
informais.
41
Desta forma, apresentamos o resultado do mapeamento das conexões que foram passíveis
de rastreamento através de referências objetivas das relações do Grupo Bamerindus com outros
grupos econômicos, empresários, famílias, e a política, envolvendo de forma direta ou indireta José
Eduardo de Andrade Vieira, a família Vieira e alguns dos mais importantes sócios e políticos
ligados ao Bamerindus; buscamos identificar as regiões que apresentavam maior densidade ou
conexões entre blocos distintos, através de participações cruzadas em diretorias, conselhos de

41
Fonte: MILLS, C. Wright. (1956). A elite do poder. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
18

administração, partidos políticos, Congresso, governos e diferentes instituições públicas e privadas.


Para processar os dados e gerar os gráficos, utilizamos o programa AGNA - Applied Graph &
Network Analysis42, versão 2.1.1. atualizada em 3 dez. 2003, concebido e elaborado por Marius I.
Benta (2003) do Departamento de Sociologia da University College Cork – Irlanda.
42
Com relação às limitações do método, Scott (1988, p. 65-67) observou que a teoria dos
gráficos ignora noções convencionais de distância e ordem espacial, e está restrita apenas a
representações bidimensionais de redes sociais multidimensionais. Levine tentou superar estas
dificuldades usando escala multidimensional – “Multidimensional Scale” (MDS), que deriva da
trigonometria e projeções técnicas usadas na produção de mapas. Nessa técnica, o número e o tipo
de relações sociais podem ser convertidas em medidas de distância reais, permitindo assim
identificar significados para os posicionamentos relativos dos atores e conexões. Porém Scott
considera que a MDS sofre as mesmas limitações da teoria dos gráficos, pois a imagem é impressa
em apenas duas dimensões e no máximo três dimensões podem ser representadas. Atualmente estão
disponíveis programas de computador bastante sofisticados que permitem a representação
tridimensional dos sociogramas, sendo possível ao pesquisador mover o objeto virtual para
observação em diferentes perspectivas.
5
O problema fundamental na aplicação da teoria gráfica nas ciências sociais,
entretanto, parece estar na raiz (origem) de seus conceitos em imagem de pessoas
como “ponto”. [...] pessoas e empresas são elas próprias estruturas complexas e são
intrinsecamente multidimensionais. Por esta razão, um número de analistas de rede
social tem se voltado para um ramo da matemática, a topologia algébrica (“algebraic
topology”) que parece oferecer uma solução para este problema (SCOTT, 1988, p. 67,
tradução MINELLA, 1999)43.

43
Ainda assim, entendemos que persistem duas outras grandes limitações no uso dos gráficos.
A primeira tem haver com a quarta dimensão dos sociogramas – a influência do tempo nas
transformações que ocorrem na estrutura das relações sociais, e que não são representadas de forma
eficiente nos gráficos impressos. Tais transformações são fundamentais para o estudo e não podem
ser desprezadas, pois o conjunto das relações sociais comporta-se “como um organismo em
desenvolvimento”. (GRAMSCI, 1984, p. 9). Atualmente, vários trabalhos abordando esse problema
estão sendo realizados e envolvem o uso de gráficos dinâmicos, como por exemplo, o projeto
“StOCNET”44 que pesquisa e desenvolve programas avançados de processamento para análise
estatística de redes sociais; apoiado pela Netherlands Organization for Scientific Research (NWO),
publicou uma primeira versão de um programa em abril de 200345.

42
Fonte: BENTA, I. Marius. AGNA - Applied Graph & Network Analysis, versão 2.1.1. atualizada em 3 dez. 2003.
Department of Sociology, University College Cork - Ireland. Disponível em: <http://www.geocities.com/imbenta/agna/>.
Acesso em: 13 set. 2004.
43
Fonte: MINELLA, Ary C. Fundamentos teóricos e metodológicos para análise do empresariado financeiro no atual
contexto de globalização financeira. (Versão Preliminar). Anexo 1 do Relatório Técnico de Pós-Doutorado apresentado ao
Departamento de Ciências Sociais, UFSC, nov. 1999.
44
StOCNET. Página oficial. Disponível em: <http://stat.gamma.rug.nl/stocnet/>. Acesso em: 23 dez. 2005.
45
Para mais detalhes ver BOER, P.; HUISMAN, M.; SNIJDERS, T & ZEGGELINK, E.: StOCNET: An open software
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
19

Gráfico 1-4:Representação gráfica do efeito de um corpo Gráfico 1-5: Representação gráfica de uma função de
na geometria do espaço / tempo onda.

Fonte: STROBEL (2001)46. Fonte IMPB RAS (2003)47.


Nota: Low mass star. Nota: Fig. 1ª. Non-spherical wave functions of “2p” (a)
and “3p” (b) polaron types.

44
A segunda limitação está relacionada à representação das distorções que o peso específico
do poder de algumas instituições e constelações de interesses provocam no tecido social, e que
poderiam ser demonstradas como no Gráfico 1-4, que representa a distorção provocada por um
corpo na geometria do espaço / tempo e foi obtido utilizando a Teoria dos Campos Gravitacionais
(“Gravitational Gravity”); ou a noção de movimento demonstrada no Gráfico 1-5, que representa
uma função de onda na Teoria de Campo (“Field Theory”), mas não encontramos estudos neste
sentido aplicado nas ciências sociais.
45
Inicialmente pode parecer que, ao utilizarmos a teoria dos gráficos, corremos o risco de
reduzir a complexidade das relações sociais a números, mas vamos ter a oportunidade de verificar,
ao longo deste trabalho, que toda essa lógica matemática também presente nos fundamentos da
atividade financeira, na contabilidade dos bancos e nos resultados das urnas – usando um sentido
figurado – podemos dizer que ela não resiste à primeira campanha eleitoral ou à dinâmica dos
acordos e alianças políticas. Certamente que uma das conclusões que extraímos desta tese, foi a
constatação simples e objetiva que no mundo político toda essa lógica matemática é processada e
transformada pelos imperativos das relações sociais.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
system for the advanced statistical analysis of social networks. Department of Sociology, University of Groningen, April 22,
2003. Disponível em: <http://stat.gamma.rug.nl/stocnet/>. Acesso em: 23 dez. 2005.
46
Fonte: STROBEL, Nick. Einstein's Relativity: Curved Spacetime. Bakersfield: Nick Strobel's Astronomy Notes web site.
28 May 2001. Disponível em: <http://www.astronomynotes.com/relativity/s3.htm>. Acesso em: 27 dez. 2005..
47
Fonte: IMPB RAS - The Institute of Mathematical Problems of Biology RAS. Investigations on the nonrelativistic
quantum field theory. 2001 – 2003. Sector of Quantum-Mechanical Systems. Pushchino - Moscow – Russia, [2003].
Disponível em: <http://skms.impb.psn.ru/index_e.php>. Acesso em: 24 nov. 2005..
20

1.2.3 FONTES DE PESQUISA

46
Nos trabalhos de pesquisa utilizamos várias fontes de informações, como jornais, revistas,
relatórios financeiros, livros, fitas de vídeo, programas de televisão, propagandas, entrevistas,
gravações, processos judiciais, publicações na Internet etc. Dentre as mais importantes, destacamos
os Relatórios dos Encontros Semestrais dos Conselhos e Diretorias e os Relatórios Anuais dos
Acionistas do Grupo Bamerindus emitidos no período 1975 a 1994, contendo, além das peças
contábeis e financeiras, várias análises de cada exercício fiscal. Também utilizamos peças
publicitárias, livros, publicações diversas e a propaganda eleitoral da campanha de José Eduardo
para o Senado, disponíveis no acervo do grupo. É importante registrar o apoio que recebemos do
Banco Bamerindus do Brasil S.A. através do atual liquidante, Sérgio Rodrigues Prates que forneceu
todos os elementos solicitados. Outra fonte de importância fundamental foi o relatório “Projeto
Memória Bamerindus” fornecido por Maria Christina de Andrade Vieira. O relatório havia sido
produzido durante sua gestão à frente da Fundação Avelino Vieira, e tinha por objetivo elaborar e
publicar a história do Bamerindus.
47
Também foi de grande utilidade o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós-1930, da
Fundação Getúlio Vargas – CPDOC (DHBB, 2002), que serviu de fonte básica para a biografia de
vários personagens da rede política Bamerindus. Cabe destacar também a importante contribuição
espontânea de Sérgio Soares Braga, professor da área de Ciência Política do Departamento de
Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que forneceu uma grande quantidade
de fontes de informações que havia utilizado para redigir o verbete: VIEIRA, José Eduardo de
Andrade, para o DHBB (2002)48.
48
Outra importante fonte de pesquisa foi a imprensa que, segundo Dreifuss (1989), ganhou
mais importância no período inaugurado com a Nova República, quando as elites trocaram

6
[...] os bastidores pelo centro do palco, alguns até como estrelas do jogo político. Ao
leitor [...] cabia [...] persistência e observação [...] aprender a ler o jornal, cruzar as
informações e desenrolar o novelo. Lá estava a trajetória completa da elite brasileira
[...] são eles os [jornalistas] verdadeiros analistas do dia-a-dia, que fuçam, questionam
e servem, de bandeja - como verdadeiros assistentes de pesquisa - a matéria-prima aos
pensadores. [...] [A] imprensa diversificada e competitiva fornecia uma larga colcha
de notícias, suficientemente conflitivas para aguçar a nossa capacidade de tirar
conclusões. (DREIFUSS, 1989, p. 7).

49
Durante a pesquisa, chegamos a consultar aproximadamente 2.500 notícias, reportagens,
análises e peças publicitárias de diferentes jornais e revistas (ver Tabela 1-1 e Gráfico 1-6), para
não só extrair dados, como também cruzar ou confirmar as informações.

48
Fonte: BRAGA, S. S.; ARAGÃO, M de. Verbete: VIEIRA, José Eduardo de Andrade. In: Dicionário Histórico-Biográfico
Brasileiro: pós-1930 (DHBB). 1ª edição. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, CPDOC, 2002. CD-Rom.
21

Tabela 1-1: Relação de fontes jornalísticas utilizadas na pesquisa.

Denominação Sigla Qtd. Denominação Sigla Qtd.


Agência Estado - Diário do Passado AE DP 208 Informativo Bamerindus IB 50
Agência Estado - O Estado de São AE
610 Jornal de Londrina JL 3
Paulo OESP
Agência Estado - Jornal da Tarde AE JT 52
Jornal do Brasil JB 109
Agricultura de Hoje AH 1
Jornal do Estado JET 16
Balanço Financeiro BL 17
Jornal do Senado JS 3
Carta Capital CC 4
Jornal Indústria & Comércio JIC 20
Comunicação - UFPR CUFPR 2
Líderes / Leaders AUTO LLA 10
Correio de Notícias CN 15
O Estado do Paraná OEP 52
Curitiba Hoje CH O Globo 1 OG 118
Diário do Paraná DPR 2
Revista Exame RE 2
Diário Popular DP 10
Revista Istoé RIE 32
Revista Paranaense dos
Folha da Tarde FT 4 RPM 1
Municípios
Folha de Londrina FL 13 Revista Veja RV 48
Folha de São Paulo FSP 673 Tendência Paranaense TPR 1
Folha do Paraná FPR 2 Tribuna do Paraná TP 70
Gazeta do Povo GP 97 Valor Econômico JV 1
Gazeta Mercantil GM 222 Outros OT 1
Gazeta Mercantil - Balanço Anual GM BA 20 Total geral 2.490
Fonte: Tabela elaborada pelo autor, com base no banco de dados de notícias compiladas durante a
pesquisa.
Notas: Qtd. = quantidade. As abreviações foram utilizadas como base para o sistema de referências.
Gráfico 1-6: Fontes jornalísticas utilizadas na pesquisa (em %).

Agência Estado Folha de São Paulo


35% 28%

Correio de Notícias
1%

Jornal do Estado
1%
Balanço Financeiro
Gazeta Mercantil
1%
10%
Jornal Indústria &
Comércio
1% O Globo
Revista Istoé Revista Veja 5%
1% 2% Gazeta do Povo
4%
Informativo Bamerindus O Estado do Paraná Tribuna do Paraná Jornal do Brasil
2% 2% 3% 4%

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor.


22

50
Grande parte das fontes foi consultada através da Internet, cabendo destacar os bancos de
dados da Agência Estado na página “Diário do Passado” com notícias dos anos 1991 a 1994,
disponível em: <http://www.estadao.com.br/ext/diariodopassado/>, acesso em 2003-2005;
FOLHAONLINE - Arquivos Folha dos anos 1994 a 2006, em CD-ROM e disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/arquivos/>, acesso no período 1999 a 2006; e Exame:
Melhores e Maiores: As 500 maiores empresas do Brasil, da Editora Abril, informações financeiros
dos bancos, disponível em: <http://portalexame.abril.uol.com.br>, acesso em 2002.
51
Também foram importantes para a pesquisa e o desenvolvimento desta tese, as
participações nos debates promovidos pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos do Sistema
Financeiro (NESFI / UFSC) e o cesso às fontes do acervo do laboratório de pesquisa Estado,
Empresariado e Políticas Públicas do PPGSP / UFSC, todos coordenados pelo professor Minella.
Outro suporte importante para os trabalhos, particularmente no campo da teoria das elites e a
política paranaense, nós obtivemos participando dos encontros, debates e trabalhos promovidos
pelo Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política da UFPR / CNPq, coordenado pelos professores
Dr. Renato Monseff Perissinotto, Adriano Nervo Codato e Dr. Paulo Roberto Neves Costa.
Finalmente cabe destacar o apoio institucional que recebemos do Núcleo de Pesquisa em Energia:
Finanças e Tecnologia (NPEFT / CNPq) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
e da COPEL - Companhia Paranaense de Energia.
52
Cabe destacar que a apresentação final deste trabalho segue o formato previsto pela
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), norma NBR 14724: Apresentação de trabalhos
acadêmicos, 2º ed., 30 dez. 2005, com validade a partir de 30 jan. 2006. Também segue os formatos
previstos pelas normas: NBR 6023: 2002, 6024: 1989, 6027: 1989, 6028: 1990, 6034: 1989, 10520:
2002, 12225: 1992; o Código de Catalogação Anglo-Americano. 2. ed. São Paulo: FEBAP, 1983-
1985 e Normas de apresentação tabular. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993
53
Após essas considerações, convidamos o leitor a nos acompanhar na jornada de exploração
da rede corporativa e política do Grupo Bamerindus.
2 CAPÍTULO I: INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS E O PODER NO CAPITALISMO

FUNDAMENTOS TEÓRICOS

“Ledge, ledge, ledge, reledge, ora,


proba et invenies”.
Altus, Mutus Liber.

2.1 INTRODUÇÃO

54
A tradição de pesquisar o poder das instituições financeiras sob o prisma sociológico vem
de longa data, com destaque para os trabalhos de Marx (1894), Hobson (1905), Hilferding (1910),
Lenin (1917); Menshikov (1969), Fich & Oppenheimer (1970), Kotz (1978), Mintz & Schwartz
(1985 e 1990), Glasberg (1989) e, no Brasil, entre outros, Minella (1988, 1994, 1996, 1999 e 2005).
Neste capítulo vamos fazer uma breve revisão dos conceitos propostos por alguns desses autores, e
que serviram de base teórica para esta tese. Inicialmente abordamos a teoria gramsciana de Estado,
Sociedade, Política e Hegemonia; suas conexões com a teoria e o método de redes sociais, e o
suporte teórico que utilizamos para as definições de redes políticas e redes corporativas. Na
seqüência revisarmos alguns outros conceitos que utilizamos nesta tese, e que reunimos sob os
seguintes títulos: Capital Financeiro, Hegemonia Financeira, Grupos Econômicos, Elites
Orgânicas e Organização Corporativa.

2.2 GRAMSCI E AS REDES SOCIAIS

55
O conceito de redes sociais está baseado na imagem formada por indivíduos e instituições
vinculados uns aos outros através de relações sociais formais e informais, constituindo uma malha
de conexões, compondo uma sofisticada metáfora do tecido social baseada na proposição
gramsciana na qual “[...] a natureza humana é o conjunto das relações sociais historicamente
determinadas [...]” (GRAMSCI, 1984, p. 9). Para o estudo da grande rede social Bamerindus, nós
agrupamos suas conexões em duas redes menores que denominamos de Rede Política Bamerindus
(RPB) e Rede Corporativa Bamerindus (RCB). Na rede política concentramos as conexões entre
pessoas e instituições privadas e públicas que atuavam no campo da sociedade civil e na sociedade
política. Na rede corporativa agrupamos as conexões de natureza econômica estabelecida entre
grupos econômicos e financeiros privados e públicos, através de diretorias cruzadas e relações
contratuais. Na seqüência, apresentamos uma breve revisão dos principais conceitos e o método que
utilizamos para caracterizar as redes políticas e corporativas.
24

2.2.1 REDES POLÍTICAS

56
Para identificar e analisar as redes políticas, é necessário considerar que o mundo político
tem por característica a complexidade e multiplicidade de arranjos das conexões sociais,
incorporando múltiplos setores e interesses econômicos, religiosos, culturais e étnicos, entre outros.
Neste contexto, segundo Thompson (2003)1, a teoria tradicional de organização política para as
sociedades democráticas liberais tem por fundamento a junção dos conceitos de representação com
a soberania, e considera a representação política como um jogo de hierarquias disputado num
ambiente estruturado pela superposição de instituições públicas e privadas numa forma mais ou
menos parecida com uma pirâmide. No topo, encontra-se um comando soberano, por exemplo, o
parlamento, e na base as estruturas de governos locais e o povo. O poder é descrito como tendo dois
fluxos, um que flui do topo para a base através da complexa estrutura burocrática do Estado, e
outro, em sentido contrário e paralelo, flui da base para o alto conferindo a legitimidade necessária
para o exercício do poder pelos representantes eleitos. Nesse contexto, a população é dividida em
células eleitorais que elegem, através dos partidos políticos, seus representantes que deveriam fazer
a mediação entre os interesses dos eleitores e as instâncias legislativas e executivas.
57
O que está faltando nessa estrutura descritiva são os mecanismos sociais “paralelos” que
se organizam para interferir na estrutura do Estado, influenciar o governo e participar do processo
decisório. Tais mecanismos se expressam através de uma série de organizações formais e informais,
estruturadas em complexos arranjos de interesses que envolvem conceitos como elites,
corporativismo, associativismo e ONGS. As políticas freqüentemente são produzidas através de
intrincadas negociações e acordos, envolvendo comissões parlamentares, agências públicas, estatais
ou não, muitas delas burocratizadas e integradas por especialistas em políticas públicas específicas.
Grande parte destas negociações envolve o poder público, as associações de representantes de
empresários e trabalhadores, e uma infinidade de outras organizações de interesses específicos.
(THOMPSON, 2003, p. 151-153)
58
O quadro final aponta para uma organização social, pela qual o Estado ganha novas
dimensões e torna-se parte integrante de uma complexa equação social cuja imagem ganha
contornos de uma grande rede. Nessa equação, o Estado continua sendo um dos mais importantes
atores, principalmente porque mantém a capacidade formal de coerção, mas seu poder passa a ser
relativizado por um complexo jogo político que determina a correlação de forças que terão
hegemonia sobre os demais atores por um certo período. Tal complexidade é resultante de
transformações econômicas e sociais que promovem a crescente socialização da política nas
sociedades contemporâneas. Para entender essa realidade, Gramsci propôs a ampliação do conceito
até então tradicional de Estado, ao considerá-lo como formado pelo “conjunto de atividades

1
Fonte: THOMPSON, Grahame F. Between markets and hierarchy. The Logic and Limits of Network Forms of
Organization. New York: Oxford University Press, 2003, p. 149-152. Disponível em: <http://www.open.ac.uk/
socialsciences/staff/gthompson/Thom-06.pdf>. Acesso em: 14 nov. 2005.
25

teóricas e práticas com as quais a classe dirigente justifica e mantém não somente a sua
dominação, mas também consegue obter o consenso ativo dos governados” (GRAMSCI, 1984, p.
89). Com isso, o Estado adquiriu novas formações que ampliaram seus limites para incorporar uma
nova esfera do ser social – a sociedade civil; dessa forma deixou de ser apenas o “poder de
opressão” de uma classe sobre outra, sendo necessário incorporar outros recursos de poder como,
por exemplo, a construção do consenso, legitimidade e a direção intelectual e moral – recursos que
Gramsci chamou de hegemonia. Mas, observa Coutinho (2003), o Estado nacional “ampliado”
busca obter hegemonia e não renuncia ao poder da coerção – quando necessário “não hesita em
recorrer à força”; nesse momento histórico, ele pode ser representado pela fórmula: “Estado =
sociedade política (núcleo governamental) + sociedade civil (aparelhos privados de hegemonia),
isto é, hegemonia revestida de coerção” (GRAMSCI, 1984, p. 149). Com esta proposição, Gramsci
resgatou o conceito de sociedade civil e forneceu instrumentos que permitissem entender como se
formam os mecanismos paralelos à estrutura burocrática do Estado, e sua importância social,
política e econômica:
7
[...] a sociedade civil é um espaço da luta política, da luta de classes [...]. Se o Estado
for conquistado pelas forças progressistas, ele se torna progressista. E, mesmo que
ainda sob controle da classe dominante, é possível introduzir mudanças importantes
no Estado, que não é instrumento direto de uma classe, mas resultado da correlação de
forças, ainda que com predomínio de uma classe. Sociedade civil é Estado, é política.
Em Gramsci, a sociedade civil é o espaço mais importante da luta de classe.
(COUTINHO apud JOSÉ & LEITE, 2002).

59
Ao ampliar a teoria de Estado para além da noção de comitê executivo da burguesia,
podemos interpretar o período analisado neste trabalho (1981 a 1994) como um momento de
ampliação da sociedade civil brasileira. Neste período acelerou-se o processo de socialização da
política através do desmonte de grande parte das estruturas de controle e coerção da ditadura
militar, como por exemplo, a implantação do pluripartidarismo, extinção dos cargos de senadores
“biônicos”, eleições diretas para governadores, prefeitos das capitais e o Presidente da República, a
implantação da nova Constituição e a ampliação da liberdade sindical. Nesse ambiente tanto o
Grupo Bamerindus, como outros grupos econômicos e financeiros, investiram pesadamente na
ocupação do espaço ampliado da sociedade civil, pois com o fim do regime, este espaço público
tornou-se estratégico para manter o poder ou, pelo menos, para continuar controlando posições
estratégicas do Estado e do Governo.
60
O conceito de sociedade civil é bastante antigo, remontando à polis grega, tendo sido
resgatado e inovado na segunda metade do século XVIII, quando foi rompida a equação histórica
com a qual o termo Sociedade Civil era empregado muitas vezes como sinônimo de Estado. Nos
trabalhos de John Locke e Tom Paine, Adam Smith e Adam Ferguson, nós encontramos a idéia de
uma esfera da sociedade distinta do Estado e dotada de formas e princípios próprios.
8
A maioria desses autores continuou usando a expressão ‘sociedade civil’ em seu
sentido clássico, como no Essay on the History of Civil Society (1767) de Adam
Ferguson; mas o que eles estavam efetivamente fazendo era estabelecer a distinção
analítica que não tardaria a transformar o significado do conceito. (KUMAR, 2002).
26

61
Mas foi em Hegel que o conceito de sociedade civil adquiriu seu significado moderno,
como esfera da vida ética interposta entre a família e o Estado e determinada pelo livre jogo de
forças econômicas e indivíduos.
9
Mas a sociedade civil também inclui instituições sociais e cívicas que inibem e
regulam a vida econômica, levando por um processo inevitável de educação à vida
racional do estado. Assim, a particularidade da sociedade civil transfere-se para a
universalidade do estado. (KUMAR, 2002).

62
Mais tarde, Marx estreitou o conceito para torná-lo equivalente ao domínio autônomo da
propriedade privada e das relações de mercado: “A anatomia da sociedade civil [...] deve ser
procurada na economia política”. Essa restrição ameaçou sua utilidade, pois “Que necessidade
havia do conceito de sociedade civil quando a economia ou, simplesmente, a ‘sociedade’ — vista
como o conteúdo efetivo do estado e da vida política em geral — fornecia os seus principais
termos?” (KUMAR, 2002). Na segunda metade do século XIX, o conceito acabou caindo em
desuso e só foi resgatado quando Gramsci revitalizou o conceito numa dimensão que ultrapassou
Hegel, desligando a sociedade civil do econômico e enquadrando-a no Estado.
10
A sociedade civil é a parte do estado que se preocupa com a elaboração do
consentimento, não com a coerção ou o domínio formal. É a esfera da “política
cultural”. As instituições da sociedade civil são igreja, escolas, sindicatos e outras
organizações através das quais a classe dominante exerce sua “hegemonia” sobre a
sociedade. Também é, pela mesma ordem de idéias, a arena onde essa hegemonia é
passível de contestação. (KUMAR, 2002).

63
Mas é importante destacar que, para evitar o “economicismo” e o “estatismo”, Gramsci
defendeu uma relação dialética de “identidade-distinção entre sociedade civil e sociedade política”
(GRAMSCI, 1975, Q. 8, 1028, apud SEMERARO, 1997), formando assim duas esferas distintas e
relativamente autônomas, mas inseparáveis na prática. A primeira, composta de organismos
privados e voluntários, indicando a “direção”, e a segunda, estruturada sobre aparelhos públicos, se
caracteriza mais pelo exercício do “domínio”. A sociedade civil é a esfera “[...] onde se manifesta
a livre iniciativa dos cidadãos, seus interesses, suas organizações, sua cultura e valores, e onde,
praticamente, se estabelecem as bases do consenso e da hegemonia”. (SEMERARO, 1997). Nesse
contexto, o mais importante não é tanto a consistência do aparelho do Estado ou o vigor econômico
de grupos privados, mas a ação criativa e a articulação entre as diversas associações da sociedade
civil buscando influir na política e no desenho do Estado. Esta concepção não foi pensada como
queria Hegel, em função do Estado, em direção ao qual tudo deve ser orientado, e também não se
reduz ao mundo exclusivo das relações econômico-burguesas. A sociedade civil gramsciana é “[...]
o extenso e complexo espaço público não-estatal onde se estabelecem as iniciativas dos sujeitos
modernos que, com sua cultura, com seus valores éticos-políticos e suas dinâmicas associativas,
chegam a formar as variáveis das identidades coletivas” (SEMERARO, 1997). Ela é o território da
subjetividade e das múltiplas expressões e carrega o potencial para transformar-se na arena
privilegiada onde as classes se organizam, articulam alianças, confrontam os seus projetos éticos-
políticos e disputam a hegemonia. “Gramsci desloca o eixo principal da ação política do âmbito
27

das instituições burocrático-administrativas para o terreno criativo das diversas organizações


sociais dos setores populares e rompe o horizonte que se quer apresentar como ‘fim da história”.
(SEMERARO, 1997).
64
Também é importante ressaltar que essa concepção não se contrapõe2 ao Estado, como
acontece com algumas outras estruturas teóricas, mas é parte integrante deste. É nesse contexto que
a ação do Grupo Bamerindus estendeu-se para além da esfera econômica e do aparelho burocrático
do Estado, incorporando amplos setores da sociedade civil, buscando garantir e promover seus
interesses na arena da sociedade civil, tendo sido um dos principais atores no processo de
manutenção da hegemonia burguesa na Nova República.
65
Para analisar este contexto, a metodologia de redes sociais mostra-se com uma poderosa
ferramenta, pois permite trabalhar com a complexidade e multiplicidade de organizações que
integram a sociedade civil, bem como suas conexões com o aparato do Estado e o sistema
econômico, pois é no campo da sociedade civil que é travada a batalha pela hegemonia de uma
classe, ou segmentos ou grupos, sobre as demais classes sociais.
66
Segundo Moraes (2002), o termo hegemonia tem origem na palavra grega “eghestai”, que
significa “conduzir”, “ser guia”, “ser chefe”, bem como o verbo “eghemoneuo”, quer dizer
“conduzir”, “chefiar”, “comandar”, “dominar”. No grego antigo, a palavra utilizada para
designar o comando supremo das Forças Armadas era “Eghemonia”. O comandante do exército, o
guia ou “condottiere” era designado como “eghemon”. Em Gramsci o conceito de hegemonia teria
sido...
11
[...] construído a partir de Marx, [e] possui uma relação dialética com o conceito de
dominação, na medida em que a função de liderança econômica, social, intelectual e
moral da(s) classe(s) (ou frações de classe) hegemônicas (dominantes) forma ou
constitui um consenso (a partir dos valores dessas classes), que é, na visão de
Gramsci, um modo de dominação mais eficaz que a coerção [...] (CASTRO, 2005).

67
Nesse sentido, o termo refere-se à direção cultural e política exercida por uma determinada
classe social e sendo a hegemonia “[...] ético-política também é econômica; não pode deixar de se
fundamentar na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade
econômica [...]” (GRAMSCI, 1984, p. 33). Tal conceito se contrapõe à idéia de “dominação”, pois
a hegemonia se estabelece através de um complexo sistema de relações e de mediações, exigindo
uma completa capacidade de direção, pois somente o uso da força não garante o poder em
sociedades capitalistas complexas (TORTORELLA, 2005)3. Segundo Gramsci, o mérito de Lenin
foi ter ultrapassado as interpretações economicistas e deterministas e compreendido o valor da
cultura e da ideologia como instrumentos da luta de classe. A idéia da hegemonia em Lenin não

2
Fonte: Eventos. Seminário Internacional “Gramsci, 60 anos depois”. Núcleo de Estudos Sociais do Conhecimento e da
Educação. Faculdade de Educação da Universidade Federal. Juiz de Fora: UFJF, nov. 1997. Disponível em:
<http://www.artnet.com.br/gramsci/arquiv1.htm>. Acesso em: 21 nov. 2005..
3
Fonte: TORTORELLA, Aldo. Verbete: Hegemonia. Vocabulário gramsciano. Texto especial para Gramsci e o Brasil.
[2005]. Disponível em: <http://www.artnet.com.br/gramsci/arquiv52.htm#hegemonia>. Acesso em: 31 out. 2005.
28

deve ser entendida como afirmação de uma dominação, mas como afirmação de uma superior
capacidade de interpretação da história e de solução dos problemas que ela coloca. Coutinho (JOSÉ
& LEITE, 2002) enfatiza que em Gramsci o conceito está ligado à cultura, pois uma classe obtém
hegemonia na medida em que promove um tipo de cultura e valores específicos para um conjunto
de pessoas, e é aceita como a cultura nacional-popular pelo conjunto da Nação. Nesse sentido a
cultura torna-se o momento constitutivo da hegemonia, e busca o consentimento espontâneo da
população para a direção imposta à sociedade pelo grupo dominante de uma classe, fração de classe
ou conjunto de classes no poder. Os setores dominantes da sociedade buscam incessantemente
construir e manter a hegemonia que garanta e justifique o seu domínio. “Desta forma, os valores e
crenças hegemônicos – que se manifestam na Cultura Política – são simultaneamente uma
apreensão e uma construção dinâmica da realidade, a partir de determinada concepção de
mundo” (CASTRO, 2005).
68
Por outro lado, a socialização crescente da política desafia a manutenção e ampliação do
processo de acumulação capitalista que passa a ter que enfrentar a crescente organização política
dos trabalhadores que disputam o controle sobre amplos e importantes setores do aparelho do
Estado. Como uma das reações possíveis, a burguesia passa a reivindicar o esvaziamento
estratégico do aparelho do Estado e novos instrumentos de coerção emergem da estrutura
capitalista. Um desses instrumentos se materializa na financeirização do capital que, através de
múltiplos mecanismos financeiros, passa a constranger e condicionar o Estado, as demais classes e
a sociedade como um todo. Nesse sentido, podemos observar que, durante o período analisado
(1981 a 1994), à medida que o regime militar era desmontado, cresciam os problemas com a dívida
pública que acabou lançando o Estado e a sociedade brasileira numa grave crise financeira. Ao
longo deste trabalho vamos poder verificar que o Bamerindus desempenhou um importante papel
nesse processo, tendo atuado em várias frentes. Como um dos maiores bancos privados do Brasil,
operou maciçamente com títulos públicos, promoveu e participou de várias ações objetivas no
campo da privatização das empresas estatais e no processo de redução do poder e da estrutura do
Estado brasileiro.
69
Vale destacar que na estrutura de poder, Gramsci identifica as áreas cinzentas existentes
entre o consentimento e a coerção como a região da “corrupção” e da “fraude” – “que é
característica de certas situações em que é difícil exercer a função hegemônica e em que o uso da
força é arriscado demais” (GRAMSCI, 1971, p. 80. Apud ARRIGHI, 1996).
70
Nas disputas pela hegemonia, os partidos políticos desempenham um papel fundamental e,
Gramsci considerava-os como o “moderno príncipe, o mito-príncipe” que não era “uma pessoa
real, um indivíduo concreto”, mas “um organismo muito complexo de sociedade no qual já tenha
se iniciado a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e fundamentada parcialmente na
ação”. Tal organismo era “determinado pelo desenvolvimento histórico [...] a primeira célula na
qual se aglomeram germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais”
(GRAMSCI, 1984, p. 6). O autor reconhecia o partido como uma função necessária da luta social –
29

a instância que transfere o particular para o universal; na sua ausência, impedimento ou


ineficiência, ele acaba sendo substituído pelo movimento social. Observou que outros atores sociais
poderiam assumir a função de partido, como por exemplo, os intelectuais, um jornal, um grupo
guerrilheiro. “Num momento em que há uma crise da forma partido é não só possível como, às
vezes, é necessário que movimentos sociais que tinham uma dimensão particular funcionem como
partido” (COUTINHO apud JOSÉ & LEITE, 2002).
71
Vamos ver ao longo deste trabalho que a equação social Bamerindus chegou a incorporar
complexas conexões com partidos políticos e, em muitos momentos, parte do grupo atuou como
uma verdadeira agremiação política, reunindo não só uma grande quantidade de importantes
personagens políticos, como sua estrutura organizacional foi colocada a serviço de campanhas
eleitorais, incluindo funcionários destacados para trabalharem como cabos eleitorais.
72
Neste contexto de crescente complexidade, a atividade política exige um tipo de trabalho
cada vez mais especializado a ser desempenhado por atores também especializados. Neste campo o
“político em ação é um criador, um suscitador; mas não cria do nada, nem se move no vazio
túrbido dos seus desejos e sonhos. Baseia-se na realidade factual” (GRAMSCI, 1984, p. 9). Ele
tem que lidar com uma realidade na qual as relações de forças estão em contínuo movimento em
busca de um equilíbrio relativamente precário. Neste contexto cabe ao político a tarefa de “[...]
Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes,
baseando-se numa determinada força que se considera progressista, fortalecendo-a para levá-la
ao triunfo [...]” (GRAMSCI, 1984, p. 9).
73
Os conceitos de Estado Ampliado, Sociedade Civil, Hegemonia e Partido Político de
Gramsci permitem compreender porque em muitos momentos o Bamerindus, ou parte dele,
comportou-se como partido político; em outros, como agência pública de fomento obtendo
resultados econômicos incompatíveis com as atividades privadas e muito similares aos do Banco do
Brasil; em outras situações, vamos encontrar a organização atuando como uma autêntica empresa
privada, buscando lucro e rentabilidade; em outros momentos, como um conjunto impreciso de
interesses públicos e privados, em muitos casos contraditórios. Ao longo deste trabalho vamos
constatar que, em muitas ocasiões, o Bamerindus chegou a reunir na mesma instituição, funções
típicas da empresa privada, do Estado, e da sociedade civil, promovendo uma fusão totalizante do
público com o privado Certamente que esse quadro tem relação com o problema dos limites
imprecisos entre essas esferas da sociedade e que, no caso brasileiro foi potencializado pela grande
presença do Estado na vida da sociedade. Seguramente o Bamerindus foi um exemplo de adaptação
a essa realidade, sendo ele uma espécie de híbrido, ou utilizando um termo muito popular durante o
regime militar, uma espécie de anfíbio que reunia a capacidade de se mover com facilidade tanto na
esfera pública como na privada.
74
Para analisar tal complexidade, Thompson (2003, p. 150) observa que o campo político
muitas vezes é caracterizado como uma rede e está relacionado com a idéia na qual parcelas
importantes do poder político estão sob o controle de elites e atores especializados, e que são eles
30

quem de fato determinam as políticas públicas. Também considera que a noção de rede corresponde
geralmente aos meios utilizados para mobilizar os interesses sociais, ou os “parceiros sociais”, nas
estruturas que de fato administram as questões públicas, de tal forma que conseguem agir
independente, ou paralelamente, controlando assim as instâncias políticas mais importantes. O autor
também considera que o campo da política é povoado por várias associações públicas e privadas
que nitidamente assumem a forma de rede no modo como são conectadas entre si. Além dessas
associações cujas estruturas internas normalmente são hierarquizadas, existem também a
organizações não-governamentais (ONGS) cuja principal característica é serem organizadas
essencialmente (“quintessentially”) na forma de rede.
75
Entre os trabalhos que analisam as redes políticas, destacam-se aqueles voltados para o
estudo da intermediação dos interesses na formação das políticas públicas. Segundo Paez (2004),
tais trabalhos normalmente são chamados de “policy networks”, mas assim também são chamados
outros tipos de estudos que analisam questões mais amplas e relacionadas a conexões entre
organizações públicas e privadas. Segundo Marques (2000), a “policy network” é uma linha de
investigação bastante desenvolvida que analisa a produção das políticas públicas de um
determinado setor, envolvendo a interação entre entidades públicas, privadas, indivíduos e grupos.
Em muitos casos, tais pesquisas são denominadas como redes políticas; muitos trabalhos
denominados como “policy network” se referem a estudos que ultrapassam o campo específico das
políticas públicas. Sendo assim, é importante destacarmos que neste nosso estudo, quando nos
referimos a redes políticas, estamos utilizando o termo “política” no seu sentido amplo e geral, em
que as redes de políticas públicas (“policy networks”) são apenas uma parte de um todo maior.
76
Os estudos das redes políticas formam uma linha de pesquisa muito importante e
tradicional nos EUA, que procuram identificar as conexões existentes entre o mundo político,
econômico e o Estado. Tais pesquisas ganharam relevância após serem publicados os trabalho
Community Power Structure de Floyd Hunter, em 1953, e Elites do Poder (The Power Elite) de C.
Wright Mills em 1956. Desde então se produziu uma grande quantidade de pesquisas voltadas para
o estudo da concentração de poder nos EUA, e uma linha específica se desenvolveu utilizando o
conceito e o método de redes sociais. Entre essas pesquisas, ganharam destaque os trabalhos
publicados por Domhoff (1967, 1975, 1978, 1979, 1983, 2002 e 2005a); Useem (1983) e Zeitlin
(1978), Dye (1976 e 1986). Tais estudos buscaram rastrear as conexões existentes entre vários
setores econômicos, políticos, e sociais, através das organizações mais importantes e seus principais
dirigentes. Em seguida, aplicaram análises de rede às matrizes formadas pelas relações entre
pessoas e organizações, buscando caracterizar as posições centrais e periféricas, agrupamentos,
subgrupos e constelações de interesses. Após terem identificado as relações estruturais mais
relevantes, os autores concluíram que as pessoas e organizações que ocupavam os núcleos dessas
redes possuíam maior poder de domínio e influência sobre as políticas do Estado do que os atores
que ocupam posições periféricas, ou aqueles que não participavam das redes. (KNOKE, 1990)
31

77
Nos seus trinta anos de pesquisa, G. William Domhoff (2002) identificou nos EUA o que
ele chamou de “elite do poder”, que governa em razão de seu papel dominante nas redes que
controlam a economia e o governo. Esse domínio não significa controle total, mas a possibilidade
de determinar, condicionar ou constranger as regras sob as quais os demais grupos e classes irão
operar. No seu estudo, o autor identificou e denominou três grandes redes sociais como fontes
básicas do poder desta elite (ver Ilustração 2-1): (1) a classe social superior (“The upper social
class”), formada pela metade superior do conjunto de pessoas mais ricas dos EUA e que, como
instituição social real, mantêm uma consciência de classe e coesão através do uso e manutenção de
escolas, universidades, clubes sociais e outras organizações sociais específicas; (2) a comunidade
corporativa (“The corporate community”), integrada pelos principais acionistas e executivos das
maiores corporações e instituições financeiras e que formam uma complexa rede de diretorias
cruzadas; (3) a rede de planejamento de políticas públicas (“The policy-planning network”)
constituída pelas organizações não-partidárias, fundações, institutos de pesquisa, acadêmicos,
especialistas, líderes empresariais e políticos que, juntos, discutem problemas gerais e propõem
soluções. Domhoff identificou as conexões pessoais e institucionais entre as três redes, e as relações
estruturais descobertas indicaram a existência dos pré-requisitos necessários para atingir o consenso
na política e a ação concentrada de uma elite do poder. Em outro texto, Domhoff (2005b) aborda a
teoria do poder utilizando como referência o trabalho de Michel Mann (1986); nessa análise, o
poder tem suas raízes nas
Ilustração 2-1: Elite do Poder
organizações cuja diversidade
pode ser agrupada em quatro
redes básicas de poder:
ideológica, econômica, militar e
política (IEMP). Tais redes
controlam recursos e informações
estratégicas e estabelecem
conexões múltiplas entre elas e a
sociedade. A importância e o
poder de cada uma variam ao
longo do tempo, sobrepondo-se
ou diferenciando-se conforme as
Representação de Domhoff (2002, p. 96) para as três redes sociais
necessidades sociais de cada especializadas, cuja intersecção forma a Elite do Poder.
momento histórico.
78
Além de Domhoff, vários outros pesquisadores têm estudado essa área utilizando redes
sociais e valendo-se de vários tipos de fontes de dados, tais como o Registro Civil, anuários,
registros de cargos públicos, relatórios anuais das corporações, listas de membros de clubes sociais,
jornais; buscam identificar e analisar o que seria a elite do poder nos EUA. O retrato que emerge
dessas análises empíricas é o de recursos enormes controlados por um número relativamente
32

pequeno de atores que, por sua vez, estão conectados a várias redes. Por exemplo, em 1980 e em
1981, Thomas Dye encontrou 5.778 pessoas ocupando 7.314 posições de comando em algumas das
400 organizações que controlavam coletivamente a maior parte dos ativos financeiros públicos e
privados dos EUA. Menos que um terço destas posições estava interligado com uma ou mais de
uma, através de uma única pessoa; ao passo que 15 por cento de todas as pessoas mantinham mais
de uma posição (DYE, 1986, p. 12-13. Apud KNOKE, 1990, p. 157). O autor constatou que
pessoas com origens nas classes superiores ocupavam os principais cargos de liderança das
corporações. Tais conexões estão bem documentadas em vários outros trabalhos como, por
exemplo, em Zeitlin (1978), e muitos estudos rastrearam as conexões de tais lideranças com setores
políticos institucionais importantes, tendo alguns pesquisadores buscado examinar as conexões
entre secretários dos gabinetes presidenciais dos EUA e suas origens no mundo econômico, em
períodos históricos e contemporâneos. (FREITAG, 1975; MINTZ, 1975; PREWITT &
MCALLISTER, 1976; USEEM, HOOPS, & MOORE, 1976; BURCH, 1980 – Apud KNOKE,
1990)
79
No caso do Bamerindus, a rede política era parte da grande rede política brasileira, sendo
ela o resultado histórico de um conjunto de relações sociais e políticas estabelecidas em torno da
instituição e promovidas por ela. No auge de sua história, envolveram complexos e importantes
vínculos políticos, sociais e familiares; pelo tamanho da organização, a esfera de abrangência
ultrapassou o âmbito local, chegando a agregar conexões nacionais e, em alguns casos,
internacionais. É este conjunto de relações sociais que denominamos de rede política Bamerindus
(RPB), deixando as relações de caráter econômico concentradas no que chamamos de rede
corporativa Bamerindus (RCB).

2.2.2 REDE CORPORATIVA, INTERCORPORATIVAS OU TRANSCORPORATIVAS

80
As redes corporativas são formadas pelas conexões entre empresas através das diretorias,
conselhos de administração, acionistas, clientes, fornecedores e associações, todas subordinadas a
um comando estratégico unificado, formando assim uma corporação ou grupo econômico-
financeiro específico. A rede transcorporativa ou intercorporativa é formada pela ampliação dessas
conexões para um conjunto de corporações ou grupos econômicos financeiros.
81
Segundo Scott (1988), as pesquisas nessa área foram estimuladas pelo debate marxistas
sobre a concentração do poder econômico centrado no conceito de “capital financeiro”, e pela
preocupação dos liberais norte-americanos com a ameaça dos cartéis do dinheiro (“Money Trust”).
A questão dos entrelaçamentos de diretorias e grupos econômicos já estava presente em pesquisas
no inicio do século XX, mas é somente no começo dos anos 1970 que o conceito de rede social se
tornou uma ferramenta sistemática de pesquisa nessa área. Considerado como pioneiro, Joel H
Levine publicou, em 1972, um estudo sobre diretorias cruzadas; ele focalizou uma rede formada
por 84 nós e 150 conexões entre as diretorias de grandes bancos norte-americanos, como o Chase
33

82
Manhattan Bank, o Morgan Guarantee Gráfico 2-1: Esfera de influência em Levine (1972)
Trust, e as diretorias de grandes indústrias como a
General Motors e a Ford Co. (ver Gráfico 2-1).
Scott (1988, p. 61) observa que nesse trabalho, o
autor não utilizou a teoria dos gráficos, mas uma
abordagem que se aproxima da escala
multidimensional (“Multidimensional scaling”).
83
Nos anos seguintes, vários estudos
publicados buscaram revelar as redes formadas
pelas conexões entre corporações e bancos. Ainda
segundo Scott, o estudo mais influente nesse
período foi realizado pelo grupo de Stony Brook4
que examinou as maiores empresas americanas no
período de 1962-1973 e que apontou para a
existência de entrelaçamentos centrados em
bancos. Entre os trabalhos que analisaram as redes
corporativas nos EUA, Marques (2000) destaca os
seguintes estudos: Mintz & Schwartz (1981),
Schwartz (1987), Galaskiewicz & Burt (1991),
Burt (1992); Mizruchi & Galaskiewicz (1993) e
Mizruchi (1992 e 1996), e os trabalhos que
focalizaram as redes do Canadá – Berkowitz &
Fitzgerald, (1995) e do Japão – Taira & Wada
(1987). Fonte: LEVINE (1972, p. 15).

84
Para estudar o caso Bamerindus utilizamos como referencial o livro The Power structure of
American Business de Mintz & Schwartz (1985), que apresentam um extenso estudo sobre as redes
econômicas e financeiras nos EUA. Partindo do conceito gramsciano de hegemonia com ênfase no
seu sentido estrutural, os autores rastrearam uma grande quantidade de conexões entre bancos e
empresas, buscando identificar evidências para o conceito de hegemonia financeira. Para tanto,
partiram para a busca de referências concretas de conexões intercorporativas, coletando dados de
diversas fontes para, em seguida, realizarem uma cuidadosa revisão desses dados na imprensa
especializada ou através de outras obras científicas. Na seqüência deste capítulo vamos analisar
com mais detalhes este trabalho e o conceito de hegemonia financeira.

4
Fonte: BEARDEN, James; ATWOOD, William; FREITAG, Peter; HENDRICKS, Carol; MINTZ, Beth & SCHWARTZ,
Michael. The Nature and Extent of Bank Centrality in Corporate Networks. Annual Meeting of the American
Sociological Association, San Francisco, CA, ago. l975.
34

85
Buscando sistematizar a aplicação do método Quadro 2-1: Rede de relações
intercorporativas - “Network of
de redes sociais, Scott (1988 e 2000) propôs dividi-las intercorporate relations” (SCOTT, 1988).
em três menores, buscando agregar os tipos diferentes 1.1) Diretorias
cruzadas –
de relações sociais nos seguintes grupos: (1) as 1) Rede de relações “Interlocking
pessoais directorship”
pessoais, (2) de capital e (3) comerciais, (ver Quadro “Network of personal 1.2) Relações de
2-1 e Gráfico 2-2). As redes de relações pessoais relations” parentesco
“Interconnections
concentram as conexões entre empresas estabelecidas through kinship”
através de pessoas, sendo a mais importante delas 2) Rede de relações 2.1) Relações
de capital acionárias
denominada de (1.1) diretorias cruzadas, formada “Network of capital 2.2) Relações de
relations” crédito
através de indivíduos que ocupam cargos de diretores
3) Rede de relações comerciais – “Network
e / ou membros de Conselhos de Administração e of commercial relations”
Fonte: Quadro e gráfico elaborado pelo autor
Consultivos de duas ou mais empresas. Referências às com base em SCOTT (1988, p. 59-61).
diretorias cruzadas vamos encontrar nos trabalhos de Marx (1991) e Hilferding (1985), eles
identificaram pessoas que participavam de dois ou mais conselhos diretores nas grandes sociedades
anônimas, o que lhes conferiam posições privilegiadas no cenário econômico e político. A segunda
seria formada pelas interconexões através das (1.2) relações de parentesco. Os vínculos resultam
da presença de membros de uma mesma família em diferentes Diretorias e Conselhos de
Administração que, diferentemente das diretorias cruzadas, que normalmente possuem indicação
formal, as conexões de parentesco são difíceis de serem identificadas, e alguns autores as
classificam como relações pessoais de negócios e as consideram como indicadores para as
conexões comerciais e de capital.
86 Gráfico 2-2: Rede de relações intercorporativas
No caso Bamerindus, nós utilizamos como
em Scott (1988)
referencial para este tipo de conexão, a obra de Pinçon
& Pinçon-Charlot (1998)5 que apresenta um estudo
detalhado da família Rothschild, abordando a
importância econômica e política das conexões
familiares e étnicas no mundo financeiro. Também
constatamos que mesmo as Diretorias e Conselhos de
Administração também eram compostos por membros
informais que muitas vezes acumularam grande poder de
decisão e, em alguns casos, a informalidade fazia parte
da estratégia para o exercício do poder, ou servia para
contornar restrições legais, como foi o caso de Peter Fonte: Quadro e gráfico elaborado pelo autor com
Negols que, segundo depoimento de José Eduardo, na base em SCOTT (1988, p. 59-61).

CPI dos Bancos6, havia sido indicado pelo HSBC para o Conselho de Administração do

5
Fonte: PINÇON, M.; PINÇON-CHARLOT, M. Les Rothschild: une famille bien ordonnée. Paris: La Dispute, 1998.
6
Fonte: VIEIRA, José Eduardo de A. Depoimento na CPI dos Bancos. Notas da Comissão Parlamentar de Inquérito
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
35

Bamerindus, mas que jamais assumiu formalmente o cargo, apesar de ter amplo acesso às
informações estratégicas da organização7.
87
As (2) redes de relações de capital são formadas pelas conexões entre empresas através de
ações ou crédito – quando uma empresa participa no capital acionário de outra ou atua como sua
credora. Nesse tipo de conexão vamos encontrar empresas e pessoas participando de uma ou mais
instituições ou, no caso dos bancos e investidores institucionais, atuando em amplos setores
econômicos. Rastrear esse tipo de conexão apresenta uma série de dificuldades, entre elas, as
participações cruzadas dentro do mesmo grupo ou os cruzamentos de ações com outras empresas,
que normalmente são extremamente complexas. O caso Bamerindus apresentou situações de grande
complexidade quando estudamos a composição das participações cruzadas entre empresas do grupo
e a Fundação Bamerindus, que por sua vez era controlada por um grupo de empresários, cujos
poderes eram determinados pelo estatuto social. Também foi difícil rastrear as conexões de crédito,
já que são protegidas pelo sigilo bancário, mesmo assim foi possível identificar algumas das
conexões mais importantes. As (3) redes de conexões comerciais reúnem as relações comerciais
entre fornecedores e clientes, e também apresentam uma série de dificuldades para serem
identificadas, pois o sigilo normalmente faz parte da estratégia comercial e logística das empresas.
88
A classificação por tipo de conexão tem que considerar sobreposições complexas que
ocorrem segundo a conjuntura econômica, política e institucional, como por exemplo, ao longo do
trabalho vamos analisar o caso da companhia Siderúrgica Nacional (CSN) que, durante sua história,
constituiu e manteve participações acionárias cruzadas com fornecedores, como a Cia Vale do Rio
Doce (CVRD), prestadores de serviços e grandes clientes. Seus investimentos nestas empresas eram
considerados estratégicos para a formação do mercado de suprimentos e consumidor. Com a
privatização, essa estrutura foi em grande parte desmontada ou transformada, e o processo legal de
separação das participações cruzadas entre a CSN e a CVRD, consumiram mais de um ano de
trabalho de especialistas.
89
O peso relativo do Estado e das empresas estatais na economia brasileira recomenda uma
atenção especial para um grupo de conexões de caráter econômico e financeiro estabelecidas entre
as organizações privadas e a administração pública direta e indireta. Tais vínculos têm
características diferenciadas, normalmente submetidas a uma complexa legislação que disciplina o
ritual das licitações públicas e sofrem grande influência da conjuntura político-partidária. Grande
parte dessas conexões é pública e forma uma ampla e importante rede de relações econômicas. No

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
referente a 22 a Reunião Ordinária de 09 jun. 1999 da CPI dos Bancos (1999). Brasília: Senado Federal. Secretaria-Geral da
Mesa Subsecretaria de Taquigrafia, Serviço de Comissões. Brasília: 09 jun. 1999. Disponível. em
<http://webthes.senado.gov.br/sil/Comissoes/CPI/Comissoes/BANCOS/Notas/19990609RO022.rtf >. Acesso em: 05 abr.
2003. Publicado no Diário do Senado FederaL (DSF). Brasília: 23 jun. 1999, p. 16065-16119. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/web/cegraf/diario/>. Acesso em: 22 ago. 2005.
7
Em seu depoimento na mesma CPI, o presidente do HSBC no Brasil, Michael Francis Geoghegan negou que Negols tivesse
exercido tal função. Assumir publicamente sua participação no Conselho significaria a possibilidade de ser incluído na
relação de dirigentes legalmente responsabilizados no processo de falência do Bamerindus, ou reconhecer a presença de
representantes estrangeiros na direção do banco sem a autorização legal. (VIEIRA, 1999 e GEOGHEGAN, 1999)
36

caso do Bamerindus, as conexões do banco com a administração pública direta e empresas estatais
em vários níveis da federação, envolveram uma grande variedade de operações, desde a
intermediação e o financiamento da dívida pública até operações de caixa bancário do Estado, sem
contar as múltiplas operações que envolviam as demais empresas do grupo no fornecimento de
produtos e serviços ao setor público. Também encontramos conexões de diretores e acionistas do
Bamerindus em Conselhos e Diretorias de empresas estatais, bancos públicos, órgãos da
administração pública direta, e cargos de governo.
90
No contexto econômico e social contemporâneo, a dinâmica da formação e atuação das
redes políticas e corporativas está relacionada com a capacidade da classe dominante de constituir
elites específicas para articular o capital financeiro, grupos econômicos e organizações
corporativas, buscando estabelecer e manter a hegemonia sobre o mundo econômico, o aparelho do
Estado, a sociedade civil e a política.

2.3 CAPITAL FINANCEIRO

91
A questão do capital financeiro recebia já em 1776 um capítulo especial no livro A Riqueza
das Nações de Adam Smith e, em 1894, Marx (1991) dedicou um volume inteiro ao assunto, no
qual definiu o capital financeiro como uma parte do capital industrial e comercial que se destaca na
forma de dinheiro e “[...] efetua movimentos puramente técnicos no processo de circulação do
capital [...] Esses movimentos transformam este capital em capital financeiro” (MARX, 1991, p.
363). Esta parte do capital torna-se autônoma em seu movimento especializado e, pela sua
importância e especificidade, sua gestão destaca-se dos processos industriais e comerciais e passa a
ser executada por especialistas, que atuam para toda a classe capitalista. Cria-se assim um tipo
específico de atividade que segrega as operações financeiras em uma categoria própria e diferente,
cujas
12
[...] funções tornam-se negócio especializado, e porque se efetuam como negócio
especializado concernente ao mecanismo financeiro de toda a classe, concentram-se,
são exercidas em grande escala; ocorre então nova divisão do trabalho Nesse negócio
especializado, por se repartir em diversos ramos independentes entre si e por se
aperfeiçoarem as condições de trabalho desses ramos [...] (Marx, 1991, p. 365).

92
Essas operações dão origem a um tipo de comércio, a mercadoria passa a ser o dinheiro e
os títulos em operações de crédito e câmbio. Tal atividade é gerenciada por um tipo especial de
capitalista – os empresários financeiros cuja principal função é intermediar as operações
financeiras, gerindo o fluxo de recursos e as operações financeiras com o objetivo de maximizar o
processo de acumulação capitalista; a remuneração desses empresários seria parte da mais-valia
extraída no processo de produção.
93
A importância dessa atividade está no fato que o dinheiro, para tornar-se capital e dessa
formar crescer e se expandir produzindo lucro, isto é, extraindo mais-valia, necessita ser aplicado
no sistema de produção, “[...] para exercerem essa função de capital, é indispensável que sejam
37

desembolsadas como capital, empregando-se o dinheiro na compra de meios de produção [...] ou


na de mercadoria [...]” (MARX, 1991, p. 393). É necessário que o proprietário ceda o dinheiro
para terceiros, lançando-o na circulação e assim se tornando uma mercadoria, ou seja, “capital
produtor de juros”. Seu valor agora é o valor-de-uso para obter mais-valia, valor que se conserva e
volta para seu antigo proprietário, adicionado com parte da mais-valia extraída no processo de
produção.
94
Refinando essa análise, Marx propõe que ao assumir essa forma, de “produtor de juros”,
faz com que as relações capitalistas se tornem fetichistas, D - D’, dinheiro gerando dinheiro,
encobrindo a realidade do lucro como “produto de uma relação social e não como produto de uma
simples coisa” (MARX, 1991, p. 450). O capital produtor de juros transforma-se em “fetiche
autônomo perfeito”, valorizando a si mesmo e apagando as marcas de sua origem. Nesse contexto
mistificado, o dinheiro torna-se um corpo vivo que cresce e se reproduz, dinheiro gerando mais
dinheiro:
13
[...] torna-se assim propriedade do dinheiro gerar valor, proporcionar juros [...] [o que]
levou Dr. Price a fabulosas idéias que deixam para trás as fantasias dos alquimistas
[...] [em que] “Um xelim desembolsado no dia do nascimento de Jesus Cristo
(provavelmente no templo de Jerusalém) ‘a juros compostos de 6% teria se tornado
uma massa de ouro maior que a que se poderia conter em todo o sistema solar [...]”
(MARX, 1991, p. 451-455)8.

95
Desenvolvendo o conceito de capital financeiro, Hilferding (1985) publicou, em 1910, um
livro específico sobre o assunto, no qual apresenta a análise das diferentes formas que esse tipo de
capital assumia na época, propondo que:
14
Os traços mais característicos do capitalismo “moderno” são constituídos pelos
processos de concentração que aparecem, por um lado, na “abolição da livre
concorrência”, mediante a formação de cartéis e trustes, e, por outro lado, numa
relação cada vez mais intrínseca entre o capital bancário e o capital industrial. É
através dessa relação que o capital vai assumir a forma de capital financeiro, sua
forma mais elevada e abstrata [...] (HILFERDING, 1985, p. 27, grifo nosso).

96
O autor propôs o termo “capital financeiro” para designar a forma de capital que se
constituiu quando os grandes bancos entraram no capital da indústria alemã; ele analisou os efeitos
da concentração de poder9 sobre a estrutura econômica social e política, aspecto este que foi um dos
fundamentos da teoria do imperialismo.
97
Atualmente não podemos falar apenas em capital bancário, sendo necessário expandir esse
conceito incluindo as diversas instituições que operam no mercado financeiro e de capitais, mas o

8
Fonte: Richard Price. Observations on reversionary payments etc. London, 1772, p. XIII, XIV. Apud: Marx (1991, p.
455).
9
“Poder significa, [...] a capacidade de exercer [...] ação política de forma ininterrupta ou com descontinuidades menores,
num movimento de pinças, envolvente, político-ideológico, sempre reproduzindo e ampliando as bases de atuação para
conquistar, salvaguardar e consolidar posições. Isto, obviamente, implica em desarticular, conter e esvaziar o adversário,
utilizando para tais mecanismos de autoridade e de força, por meios legais e legítimos ou mesmo pela ruptura institucional,
isto é, dentro das regras do jogo, ou até quebrando todas as normas, se for indispensável e possível”. (DREIFUSS, 1986, p.
22).
38

essencial é que o capital financeiro será aquela parte do capital que se expressa na forma monetária
e que, para manter-se como capital e desta forma ter valor de uso, ele necessita manter-se conectado
ao processo de produção capitalista. Nesse sentido, Arrighi (1996, p. 5) reafirma a atualidade da
questão, buscando a fórmula geral de Marx para o capital: DMD’. Nessa equação, o capital-
dinheiro (D) representa intrinsecamente liquidez (flexibilidade e liberdade de escolha), e o capital-
mercadoria (M) uma combinação de insumos e produto, imobilizado na espera da realização de
lucros. Como (D’) novamente o capital recuperar sua liquidez, agora acrescido de um bônus
extraído do processo da produção, como prêmio pela imobilização. Arrighi observa que a fórmula
de Marx implica no entendimento que os agentes capitalistas investem o dinheiro esperando lucro
futuro e mais flexibilidade e liberdade. Também é possível deduzir que a ausência de expectativa de
lucro e aumento na liberdade de escolha ou, quando estes fatores forem sistematicamente
frustrados, o capital tende a retornar à forma de dinheiro para manter a liquidez. Arrighi interpreta
essa fórmula como retratando não apenas a lógica dos investimentos capitalistas individuais, mas
também como um padrão para o sistema capitalista, identificado com fases de expansão material
(DM) seguidas de expansão financeira (MD’).
15
Nas fases de expansão material, o capital monetário ‘coloca em movimento’ uma
massa crescente de produtos (que inclui a força de trabalho e dádivas da natureza,
tudo transformado em mercadoria); nas fases de expansão financeira, uma massa
crescente de capital monetário ‘liberta-se’ de sua forma mercadoria, e a acumulação
prossegue através de acordos financeiros [...]. Juntas, essas duas épocas, ou fases,
constituem um completo ciclo sistêmico de acumulação (DMD’). (ARRIGHI, 1996, p.
6).

98
Segundo Jameson (2001, p. 150-151), ao encerrar o ciclo produtivo, o capital inicia um
processo de flutuação livre na forma financeira, separando-se do “‘contexto concreto’ de sua
geografia produtiva”, tornando-se abstrato e “[...] como a borboleta se mexendo no interior da
crisálida, ele se separa de seu criadeiro concreto e se prepara para alçar vôo. Sabemos muito bem
[...] que este vôo é literal” – na forma de fuga de capitais e desinvestimento, em brusca de “[...]
prados mais verdes e para taxas maiores de retorno de investimentos, e para uma força de
trabalho mais barata”. Nessa busca por rentabilidade, o capital troca de contexto abandonando o
chão das fábricas, fazendas e lojas e se instalando nas bolsas de valores – instituição esta que
atualmente também trocou o piso dos pregões pelo espaço virtual das redes financeiras digitais.
Nessa arena, vai buscar manter seu valor original e, se possível, rentabilidade, na espera por um
novo ciclo de acumulação capitalista. Avança assim na esfera da especulação como “[...] espectros
de valor, como poderia dizer Derrida, competindo entre si em uma fantasmagoria mundial
desencarnada”, sendo este estágio o mais avançado e “tardio” do capital.
99
Funcionando como “uma economia monetária de produção” (SERFATI, 1998, p. 144), a
valorização do capital assume uma forma universal expressa no dinheiro e direitos de propriedade e
de crédito, desliga-se dos ativos reais e assume a forma jurídico-burocrática que garante direitos aos
seus proprietários. O capital financeiro adquire o caráter do “capital fictício” dos processos
especulativos e da criação contábil, tornando necessário um enorme e complexo aparato financeiro.
39

(BELLUZZO, 2005, p. 8). Como capital portador de juros, sua função passa a ser a de “fazer
dinheiro” através de juros sobre empréstimos, ágio em operações de câmbio, dividendos,
bonificações, taxas de intermediação, ou simplesmente lucros na especulação com títulos nos
mercados financeiros:
16
Solidárias no mister de comandar a força de trabalho “livre”, as formas particulares do
capital — capital produtivo, capital mercadorias e capital monetário — se
“autonomizam” umas em relação às outras, no metabolismo da acumulação e da
reprodução capitalistas. A autonomização do capital-dinheiro sob a forma de capital a
juros e a correspondente expansão do sistema de crédito são os elementos que
impulsionam a centralização do capital e promovem a fusão de interesses entre a alta
finança e a indústria. A modalidade de organização capitalista que concretiza essa
fusão de interesses é a sociedade anônima cujo caráter “coletivista” se sobrepõe aos
capitais dispersos e, ao mesmo tempo, reforça sua rivalidade. (BELLUZZO, 2005, p.
7-8).

100
Chesnais (2005, p. 35)10 observa que, no mundo contemporâneo, o capital portador de
juros, “[...] também designado ‘capital financeiro’ ou simplesmente ‘finança”, assumiu o centro das
relações econômicas e sociais, apesar do poder das grandes corporações capitalistas que atuam em
múltiplos países, encarregadas de “organizar a produção de bens e serviços, captar o valor e
organizar de maneira direta a dominação política e social do capital em face dos assalariados”.
Junto com elas estão as instituições financeiras bancárias e não bancárias que operam em amplos
mercados, negociando com múltiplos tipos de produtos financeiros baseados em complexas cadeias
de créditos e de dívidas, especialmente nas operações interbancárias e com a dívida pública. Tais
instituições têm, por função, atuar na acumulação financeira, aqui entendida como “a centralização
em instituições especializadas de lucros industriais não reinvestidos e de rendas não consumidas”,
buscando valorizar o capital através das operações com ativos financeiros.
101
Marx (1991) observava que, na época, uma das principais instituições criadas para gerir
esse processo seria o banco a instituição para a qual fluiria todo o dinheiro circulante na economia,
assumindo assim a função de caixas não só dos capitalistas, mas de toda a sociedade. Nos bancos
seriam armazenados os fundos de reserva e a poupança de todas as classes, desde pequenas somas a
grandes volumes – todo o dinheiro é reunido em uma grande massa, formando assim o poder
financeiro, e sua dinâmica confere aos bancos o “privilégio de fabricar dinheiro”. (Marx, 1991, p.
466).
102
Ao negociarem com a moeda e o crédito, os bancos, além de fornecerem os meios de
pagamento necessários para as atividades econômicas, também financiavam as atividades do
Estado. Operando com os recursos do orçamento, os bancos, na prática, acabavam assumindo a
privilegiada função de caixas do governo, o que permitia alavancar consideravelmente o poder e a
influência dessas organizações e seus controladores. Marx entendia o sistema bancário como, pela
sua forma de organização e pela centralização, o resultado mais engenhoso e refinado a que chegou

10
Fonte: CHESNAIS, François. (Org.) A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, conseqüências.
Tradução de Rosa Maria Marques e Paulo Nakatani. - São Paulo: Boitempo, 2005.
40

o modo capitalista de produção.


103
Também na obra desse autor, encontramos análises sobre as funções do Banco da
Inglaterra11 e do efeito da legislação disciplinadora sobre os bancos e o mercado financeiro;
abordou a importância de instituições reguladoras que, em última análise, avalizavam as operações
para evitar ou contornar crises. Chamou a atenção para a complexidade de tais intervenções, pois,
apesar das intenções, nem sempre os resultados seriam aqueles esperados pelo poder normativo.
Excesso de controles poderia levar à fuga de capitais e crises de liquidez, assim como a ausência de
princípios normativos poderia gerar crises de confianças e caos ao sistema como um todo. Cada
nova lei ou norma deveria gerar novas formas de ação buscando neutralizar a ação do poder
disciplinador. A ausência de regras formais promoveria o surgimento de práticas informais, não
menos rígidas, que em momento de crise seriam de difícil gestão e, normalmente enveredariam para
soluções radicais de eliminação das distorções a qualquer custo, correndo o risco dos efeitos
extravasassem os muros do sistema financeiro, atingindo todo o sistema econômico cujas
conseqüências normalmente são imprevisíveis.
104
Esse caráter ambíguo e delicado da intervenção reguladora encontra-se presente em boa
parte da literatura científica na área, sendo um dos pontos mais delicados e polêmicos que expõe a
fragilidade do poder normativo e do sistema diante das crises financeiras que, não raramente,
acabavam flexionando os limites legais e institucionais, colocando em cheque o poder do Estado.
Com o desenvolvimento capitalista, essa função tornou-se mais sofisticada e poderosa, chegando a
situações em que o poder regulador passou a interferir e direcionar os investimentos dos bancos. Ao
longo deste trabalho vamos ter a oportunidade de conferir que, boa parte do “liberalismo” que
encontramos nos discursos de José Eduardo Andrade, tinha entre outros objetivos, conter a
“excessiva” intervenção do Bacen na definição e direcionamento dos investimentos dos bancos
brasileiros.
105
Marx considerava o banqueiro como um tipo de comerciante especializado na manipulação
de todo capital-dinheiro em circulação e, sendo os juros uma parte da mais-valia extraída pelo
capitalista industrial ou comerciante, era função do banqueiro direcionar o fluxo de capitais para as
atividades nas quais a taxa de extração da mais-valia fosse superior à taxa de juros. Dessa forma, o
banqueiro desempenhava um papel particularmente importante no sistema capitalista, pois além da
capacidade de administrar o fluxo do capital financeiro, facilitando ou constrangendo processos
produtivos, era ele o guardião final da lógica capitalista. Seria dele a controvertida e não muito
agradável tarefa de lembrar aos demais capitalistas que seus negócios estão a serviço do processo
de acumulação capitalista, ou seja – devem eles gerar mais-valia suficiente para, no mínimo, pagar
os juros sobre os empréstimos devidos. Nesse contexto, o banqueiro é destacado do conjunto dos
capitalistas, tornando-se aparentemente externo à produção. Mesmo quando todas as atividades

11
Na época o Banco da Inglaterra também acumulava a responsabilidade de atuar como banco dos bancos, o que mais tarde
serviu de modelo para a criação de Bancos Centrais em diversos países.
41

estiverem reunidas num mesmo grupo, sob uma única administração, o setor financeiro tende a
mover-se de forma autônoma e destacada das demais atividades, assumindo geralmente a função de
controlador “inquestionável” e “implacável” da performance dos demais.
106
Sendo assim, é possível ao empresário Gráfico 2-3: Relação Patrimônio Líquido e o Total dos Ativos
dos bancos brasileiros (média dos percentuais de 1976 a 1994
não-financeiro assumir as feições de – base em US$ milhões)
“trabalhador” visto que sua função agora se
Kp100%
contrapõe aos juros cobrados pelos capitalistas 90% 15,3 14,9 10,5 10,1 10,0 10,0 7,8 7,4 6,4 10,4
financeiros, “não mais a extração de mais- 80%

B A M E R IN D U S
70%
valia”. O lucro do empresário seria, na

B anco E C O N Ô M IC O
60%

Total dos B ancos


B anco do B R A S IL
consciência do capitalista industrial ou

B anco N A C IO N A L
50%

BRADESCO

B anco ITA Ú

B anco R E A L
U N IB A N C O
comerciante, salário pela direção do trabalho e 40%

BANESPA
30%

gestão do negócio, que “[...] confrontado com 20%

o capitalista financeiro, o capitalista 10%

0%

industrial é trabalhador, mas um trabalhador K3


12
capitalista”, (MARX, 1991, p. 445) , o que o Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nas informações
torna socialmente mais aceitável. Como extraídas de Melhores e Maiores (2002).
Nota: Kp (Capital Próprio) = PL (Patrimônio Líquido) / AT
veremos nos próximos capítulos, na campanha (Ativo Total) x 100, K3 = 100 - Kp.

eleitoral de José Eduardo para o Senado em 1990, seus assessores tinham o cuidado de apresentá-lo
como empresário trabalhador, e seus adversários faziam questão de chamá-lo de banqueiro13.
107
Com o desenvolvimento do capitalismo e o crescimento das sociedades anônimas, a
separação entre o capitalista financeiro e o administrador da empresa ficou radicalizada:
17
[...] o próprio capital-dinheiro assume o caráter social, concentra-se nos bancos que
emprestam, substituindo os proprietários imediatos dele; além disso, o simples
dirigente que não possui o capital a título algum, nem por empréstimo nem por
qualquer outro motivo, exerce todas as funções que cabem ao capitalista ativo como
tal. Nessas condições, fica existindo apenas o funcionário e o capitalista desaparece do
processo de produção como figura supérflua. (MARX, 1991, p. 446).

108
O desenvolvimento da sociedade anônima permitiu “alavancar” a capacidade do acionista-
controlador que, dependendo da estrutura do patrimônio líquido, pode ele, com uma participação
relativamente pequena em relação ao total das ações, controlar um patrimônio muitas vezes
superior ao seu capital investido. No Gráfico 2-3, podemos ver que o Patrimônio Líquido médio do
Banco Bamerindus representava 7,8% (US$ 417 milhões) do total dos ativos do banco. Estimando
que a família Vieira deteve, ao longo do período, uma média aproximada de 30% das ações14,

12
No século XX o capitalista trabalhador acabou sendo substituído por executivos especializados contratados para a gestão das
grandes corporações, constituindo oligarquias burocráticas bastante organizadas e poderosas, a ponto de muitos
pesquisadores como Miliband (1982) e Galbraith (1983), questionarem se eles não formam uma nova classe social, distinta e
específica. Para mais detalhes sobre esse tema ver Poulantzas & Miliband (1975).
13
É interessante observar que, no currículo de José Eduardo, disponível na página do Senado na Internet, consta “bancário”
como a sua profissão. Disponível em: <http://www.senado.gov.br>. Acesso em: 18 mar. 2005.
14
Por falta de informações confiáveis e a intrincada equação de participações cruzadas entre as diversas empresas do Grupo
Bamerindus, tornou-se muito difícil identificar o valor total da participação acionária da família Vieira e de José Eduardo.
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
42

significa que, com apenas US$ 125 milhões ou 2,3% do total dos investimentos, a família
controlava um patrimônio total médio 43 vezes maior, ou US$ 5.364 milhões. Tal quadro, apesar de
juridicamente perfeito, aproxima-se em demasia do conceito de privilégio e traduz claramente a
assimetria das relações do capital financeiro com o restante da sociedade. Também vamos ver nos
próximos capítulos que o Bamerindus adquiriu 9,11% do capital da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN) e, através de acordos com outros acionistas, elegeu Maurício Schulman presidente
da empresa. Entre a CSN e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) havia na época um
cruzamento de ações, que colocava os controladores da CSN em uma posição estratégica no leilão
de privatização da CVRD.
109
Ao analisar as relações entre a concentração econômica e o capital financeiro, Hilferding,
(1985) chamou a atenção para esse tipo de organização do capital (S. A.), observando que essas
relações criam um tipo especial de relação de propriedade através das ações, que permite constituir
conexões cruzadas entre diferentes empresas, bancos e grupos de capitalistas, formando assim:
18
[...] um círculo de pessoas que, em virtude do poder do capital próprio ou na condição
de representantes do poder reunido do capital alheio (como diretores de banco), fazem
parte dos conselhos [...] de um grande número de sociedades anônimas. Surge assim
um tipo de união pessoal, de um lado, entre diversas sociedades anônimas e, a seguir,
entre estas e os bancos, circunstância que deve ser da maior influência para a política
da sociedade, por formar-se entre as diversas sociedades um interesse comum de
proprietários. (HILFERDING, 1985, p. 123-124).

110
Assim forma-se o processo de concentração de poder não só no setor financeiro, como nos
demais setores econômicos. No setor financeiro, essa concentração não ocorre apenas de maneira
formal, tanto Chernow (1999) como Cassis (1994)15 entre outros, observam que há uma certa
tendência “natural” dos banqueiros para a formação de “Trustes” informais, que agem de maneira
pontual mais ou menos coordenada, sob um conjunto de normas e regras também informais. Como
exemplo, podemos citar o chamado “Money Trust” que, segundo Cassis, comandou a praça de
Londres no final do século XIX e início do século XX, ou o truste de banqueiros que, segundo
Chernow, teria existido em Nova York, mais ou menos na mesma época. Enquanto as demais
empresas precisam transformar seu estoque de capital em dinheiro, os bancos trabalham com
capital líquido e, em geral, é a superioridade da força do capital disponível, especialmente o
monetário, que determina a dependência econômica no âmbito das relações de débito.
111
Para Hilferding (1985), a expansão econômica exige a concentração progressiva do capital
bancário, possibilitando aos maiores bancos acesso aos melhores e maiores negócios. Também
possuem maior capacidade para impulsionar seus clientes, oferecendo, assim, vantagens
competitivas e possibilidades de crescimento. O grande banco pode, em muitos casos, escolher o

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Observamos também que uma boa parte das ações estava sob controle da Fundação Bamerindus de Assistência Social
(FBAS), na qual JE tinha a função de presidente “nato”. Atualmente as empresas de capital aberto são obrigadas a
identificar os acionistas controladores bem como o desdobramento das participações cruzadas. Para mais detalhes ver
declarações de Maria Christina de Andrade Vieira em Letaif (1997, p. 41).
15
Fonte: CASSIS, Y. City Bankers, 1890-1914. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
43

momento de entrar ou sair de um negócio, bem como favorecer um ou outro cliente em detrimento
dos demais, gerando uma tendência que resulta na concentração tanto bancária como das atividades
econômicas. A influência dessas instituições não estaria restrita apenas às operações financeiras,
mas na participação em conselhos de administração de seus clientes e associados, influindo na
administração, ou tirando vantagem de informações sobre as políticas das empresas, o que lhes
concede vantagem competitiva para lucrar em outras transações comerciais. Com isso acentua-se a
tendência de, por um lado, suprimir-se cada vez mais a concorrência entre os bancos e, por outro
lado, concentrar o capital na forma monetária e colocá-lo à disposição dos produtores através da
mediação bancária. Essa tendência pode levar bancos ou grupos de bancos a deter poder suficiente
para rivalizar, neutralizar, constranger ou condicionar a ação do poder público. Tal poder abriria
portas para o controle sobre toda a cadeia produtiva de um determinado setor, impondo restrições,
acelerando ou constrangendo as inovações tecnológicas, novos produtos, processos e matérias-
primas, através da distribuição dos custos na cadeia produtiva bem como, a administração de
mercados produtores e consumidores; podem competir com o Estado na capacidade de coordenação
do sistema de produção, com a vantagem de decidir, no âmbito privado, questões do poder público.
Essa concentração tem conseqüências para todo o sistema produtivo, principalmente porque
promove a dissociação entre a função social da produção e a remuneração do capital financeiro.
Marx já observava que:
19
O sistema de crédito, que tem seu fulcro nos bancos [...] em torno dos quais giram
grandes prestamistas e usurários, constitui centralização enorme e dá a essa classe [...]
imenso poder para dizimar periodicamente os capitalistas industriais e ainda intervir
de maneira perigosa na produção real - e [o capitalista financeiro] [...] nada entende de
produção e nada tem que ver com ela. (MARX, 1991, p. 626).

112
A dependência crescente do sistema produtivo em relação ao capital financeiro desencadeia
uma tendência que, em última análise, pode induzir os atores econômicos a trocarem os
investimentos na produção real e socialmente necessária, por títulos negociados no mercado
financeiro. O capitalista financeiro, pela sua posição destacada e alienada da produção real, teria
uma tendência para buscar substituir a fonte de sua remuneração, deslocando-se da complexa e
“incompreensível” atividade produtiva do chão de fábrica ou do barro das fazendas, pela
sofisticação “inteligível” dos mercados financeiros e de capitais.
113
No caso Bamerindus podemos comparar os tempos em que Avelino Antônio Vieira abria o
seu pequeno primeiro banco no interior do Paraná nos anos 1930, e a atuação de seu filho José
Eduardo nos anos 1990, como segue:
20
Naqueles tempos, os prazos para empréstimos eram [...] em 30, 60 ou 90 dias. Eram
feitos por safra. [...] Avelino, conhecedor de tudo o que se passava a sua volta,
orientava [...] “Faça negócio com fulano, cuidado com beltrano”. Sabia onde havia
porcos, ele mesmo ia buscá-los, era intermediário na compra e venda. “Miguel,
Avelino e um filho de João Batista Nascimento iam ao campo e tocavam a porcada até
a cidade. Atrás dos porcos, com uma vara, Avelino e o filho João Batista; na frente, o
44

Miguel debulhando espigas de milho para chamar os bichos. Era preciso saber
conduzir, para que a porcada não estourasse”. (BRANDÃO, 1993, p. 82)16.

114
Esse contato com a realidade da produção e sua importância para a atividade bancária, pode
ser observado também em outra passagem bastante emblemática:
21
Certo dia, uma mulher muito simples entrou na agência, pediu dinheiro para plantar
milho. [...] não sabia o que era empréstimo, prazos, juros, nada. Precisava de dinheiro
e tinham dito a ela que o banco dava. Avelino procurou explicar a operação, ela tiraria
tanto, mas teria que pagar tanto, na hora que o milho produzisse. Em seguida,
entregou o dinheiro. – Como, Avelino? Que garantia ela deu? – Nenhuma. Vai
trabalhar. – E como sabe que pode pagar? – Vi nos olhos dela. Miguel observou o
documento de empréstimo, Avelino tinha assinado por ele e pela mulher.
(BRANDÃO, 1993, p. 82-83).

115
Se no século XIX, liberais norte-americanos mais radicais queriam trocar o lastro da moeda
– do ouro para porcos17 e, nos anos 1930, Avelino Vieira emprestava dinheiro para pequenos
colonos tendo como aval “os olhos dos clientes”; em 3 de junho de 1992 seu filho18 foi buscar no
outro lado do mundo um exemplo de micro-crédito. Nesse dia ocupou a tribuna do Senado Federal
para destacar uma reportagem publicada no jornal Le Figaro que, para ele, descrevia uma:
22
[...] experiência original adotada por um banqueiro num país do terceiro Mundo,
Bangladesh. A reportagem, intitulada “o capitalismo socorre a miséria”, descreve a
experiência do professor de economia Mohammed Yunus [...] dono do Banco
Grameen, segunda instituição financeira do Bangladesh, com 350 milhões de dólares
em negócios. Essa quantia não impressiona, em termos brasileiros, mas isso não
invalida a experiência [...] o Grameen oferece empréstimos a mais de um milhão de
camponeses sem terra, espalhados em 25 mil aldeias. Essa não é uma obra de
caridade, pois os camponeses pagam 16 a 20 por cento de juros reais por ano e a
operação dá lucro ao banco e aos tomadores dos empréstimos, sendo, portanto, um
bom negócio para os dois lados e, também, para o país. (VIEIRA, 04 jun. 1992, p.
4301).

116
No Brasil, o distanciamento entre bancos e a realidade da produção aumentou muito nos
anos 1980 e 1990, quando não só o Bamerindus, como grande parte dos bancos brasileiros, investiu
milhões de dólares na automação bancária buscando eliminar custos através da redução das
operações que envolviam o contato pessoal com os clientes. O resultado foi o crescimento
sistemático do que Arrighi (1996) chama de “financeirização do capital”, definindo como o
crescimento desproporcional da especulação financeira provocada pela migração do capital alocado
no sistema de produção para o mercado financeiro, buscando a manutenção das taxas de lucros
necessárias para a reprodução capitalista. Talvez a baixa lucratividade seja o preço a ser pago pela

16
Fonte: BRANDÃO, I. de L. Olhos de banco: Avelino Vieira. DBA Artes Gráficas. 1993.
17
“Basing the currency on gold was too restrictive; it might better be based on pork. Better still; let it be based on everything.
Let money be cheap and abundant. That was what the factory-owner wanted, the railway-builder the inventor, the merchant,
and last of all the farmer himself...” (HAMMOND, 1991, p. viii). Basear a moeda em ouro era muito restritivo, seria melhor
que ela estivesse baseada em porcos. Melhor ainda se tivesse como base todas as coisas. Tornando assim o dinheiro barato e
abundante. Era o que queriam os industriais, construtores de ferrovias, os inventores, comerciantes, e por último, os próprios
fazendeiros [...]. (Nossa tradução)
18
Fonte: VIEIRA, José Eduardo de A. Discursos. Diário do Congresso Nacional. Seção II. Anais do Senado. Subsecretaria de
Anais. Brasília: 4 jun. 1992, p. 4301-4302. Disponível em: <http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/anais>. Acesso em: 18
jan. 2005.
45

elevada concentração da atividade financeira em grandes instituições bancárias – estruturadas em


gigantescas e complexas burocracias.
117
No próximo capítulo vamos abordar com mais detalhes a história e estrutura do sistema
financeiro, bem como dedicaremos uma especial atenção para o problema da especulação
financeira e suas conseqüências para o processo de acumulação capitalista. Neste momento do
trabalho, vamos direcionar a análise para o processo de concentração do poder econômico nas
instituições financeiras, e suas ramificações no processo político.

2.4 HEGEMONIA FINANCEIRA

118
Alguns estudos sobre a influência do capital financeiro na concentração do poder
econômico tratam a questão como de hegemonia financeira, e os trabalhos de Mintz & Schwartz
(1985 e 1990), Glasberg (1989), e Minella (1999) abordam essa questão.
119
Inicialmente é importante ressaltar que, apesar do estudo de Mintz & Schwartz (1985) se
referir ao “American Business”, o ambiente econômico estudado limitou-se apenas aos Estados
Unidos da América do Norte (EUA)19 onde, tradicionalmente, predomina o setor privado, muito
diferente do ambiente brasileiro, marcado pela presença acentuada do Estado na economia. Se nos
EUA os financiamentos de longo prazo são quase que exclusividade dos grandes bancos privados,
no Brasil esse papel é dominado pelo setor público através do BNDES, BB e CEF entre outros, que
conferem ao Estado um papel importante no processo de hegemonia financeira.
120
Os autores partiram da premissa que, na época, as relações de poder no universo
corporativo dos EUA estavam relacionadas às conexões intercorporativas20, formadas por ligações
entrelaçadas ou cruzadas entre diferentes empresas e corporações. Nesse universo, a análise dos
autores apontava que os bancos e companhias financeiras ocupavam um papel importante na
coordenação das corporações e que não encontraram evidências que comprovassem a efetividade da
versão moderna da teoria do controle bancário21.
121
Com base nos resultados obtidos com as redes cruzadas (“interlock network”), os autores
entenderam que era necessário formular uma nova concepção para o poder intercorporativo, que
centrasse o enfoque nas instituições financeiras e incluísse conceitos de dominação hierárquica e
influência, mas observando que essas relações não eram absolutas nem deterministas. A pesquisa

19
Vale observar o interessante trabalho “They Rule” criado e publicado por Josh On na Internet, que permite verificar as redes
corporativas formadas pelos membros dos Conselhos de Administração e Diretorias de grandes bancos, corporações,
universidades e o governo dos EUA, Disponível em: <http://www.theyrule.net/2004/tr2.php>.
20
“[...] the untangling of power relations in the modem industrial world rests on an understanding of intercorporate relations
and intercorporate power wielding” (MINTZ & SCHWARTZ, 1985, p. viii) – (Nossa tradução).
21
“Nevertheless, the evidence also indicated that modern version of bank control theory, which assert ongoing intervention by
financial corporations into the daily working of non-financial firms, were both misleading and inaccurate (see especially
Fich and Oppenheimer, 1970a-c; Menshikov, 1969, Pelton, 1970). A teoria do controle bancário afirma existir uma
intervenção contínua das corporações financeiras no cotidiano das empresas não financeiras. (MINTZ & SCHWARTZ,
1985, p. xi). – (Nossa tradução)
46

demonstrou que nos EUA as instituições financeiras tinham um papel ativo de coordenadoras das
atividades empresariais, configurando uma espécie de hegemonia – a hegemonia financeira. Mintz
& Schwartz (1985) partiram do conceito gramsciano de hegemonia, mas explorando uma variante
que chamaram de “hegemonia estrutural”:
23
A hegemonia estrutural opera-se quando as ações de uma instituição social (ou grupo
coordenado de instituições) determinam as opções viáveis disponíveis a outras
instituições e indivíduos. Se tal constrangimento ocorrer regularmente em um sistema
social, a liderança da estrutura dominante exercita uma liderança não intervencionista
que permite a coordenação das várias formações sociais contidas sem coerção
explícita ou manipulação ideológica sistemática.22 (MINTZ & SCHWARTZ, 1985, p.
12).

122
É importante destacar que Glasberg (1989) alertava em seu texto que o termo hegemonia
não pode ser utilizado com conotação de
24
[…] poder monolítico ou absoluto. Certamente, porque os estudos de caso [...]
[mostram que os] bancos às vezes falham ao tentarem alcançar seus objetivos [...] ou
perdem grandes somas de dinheiro [...] Às vezes as circunstâncias ou o processo de
crise podem forçar os bancos a aceitarem acordos não desejados [...] enfrentar
ameaças reais aos seus investimentos [...] [e] há épocas em que os grandes bancos
quebram acordos e traem uns aos outros. [...] Mas quando a crise termina, as
instituições financeiras tendem a emergir com mais objetivos alcançados do que
qualquer outro tipo de organização, porque agem coletivamente sobre o controle dos
fluxos de capitais e têm mais poder sobre os recursos que as corporações e o Estado
necessitam. (GLASBERG, 1989, p. 23-24)23.

123
Mintz & Schwartz (1985) partem da proposição empírica que a centralização do setor
financeiro (bancos, companhias de seguro, e companhias de investimento) permite a tomada de
decisão coordenada sobre a disposição dos investimentos de capital. Devido à importância dos
fundos externos para financiar a expansão econômica e enfrentar crises econômico-financeiras, tal
centralização confere às lideranças financeiras, a capacidade intermitente para coordenar uma larga
escala de atores econômicos. O fenômeno entendido como hegemonia financeira surge quando as
lideranças do setor financeiro adquirem a capacidade de planejar e de executar políticas econômicas
e sociais que dependem, sobretudo, da aceitação de outras corporações, instituições e dos governos,
mesmo quando tais ações não beneficiam diretamente todos os participantes institucionais24. Ao

22
“Structural hegemony operates when the actions of one social institution (or coordinated group of institutions) determine the
viable options available to other institutions and individuals. If such constraint regularly occurs in a social system, the
leadership of the dominant structure exercises a noninterventionist leadership that allows for coordination of the various
contained social formations without either overt coercion or systematic ideological manipulation”. (MINTZ &
SCHWARTZ, 1985, p. 12). – (Nossa tradução)
23
“[…] do not use the term hegemony to denote monolithic, absolute power. [...] Indeed, as the case studies here will show,
banks sometimes fail to attain their ultimate goals [...] or lose large sums of money [...]. Sometimes circumstances or the
process of struggle may force banks to accept unwanted compromises [...] In other instances banks face real threats to their
investments, [...] And there are times when the large banks break ranks and betray one another [...] But when the struggle is
over, financial institutions tend to merge with more of their goals met than any other because they act collectively control
capital flows and wield more of the resources needed by both corporations and the state.” (GLASBERG, 1989, p. 23-24).
(Nossa tradução)
24
“Crucial to this view is the empirical proposition that the centralization of the financial sector (banks, insurance companies,
and investment companies) allows for coordinated decision-making over the disposition of investment capital. Because of
the importance of outside funding in fueling economic expansion and weathering ongoing economic crisis, such centralized
decision-making over capital flows confers upon financial leadership the intermittent capacity to coordinate activity among a
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
47

combinarem informações encontradas na imprensa especializada com o dados quantitativos das


redes corporativas e suas conexões cruzadas, os autores encontraram evidências consistentes de
uma realidade na qual as instituições financeiras ocupavam uma posição hegemônica sobre o
universo empresarial do EUA25 mas observam que essa relação de hegemonia variava ao longo do
tempo, existindo períodos de coordenação e autonomia:
25
O padrão encontrado indica que as instituições financeiras exercem uma forma de
liderança estrutural de ampla extensão sobre as corporações não financeiras.
Liderança esta episódica e problemática, mas, no entanto contínua e altamente
significativa em termos globais do processo de decisão corporativo.26 (MINTZ &
SCHWARTZ, 1985, p. xviii).

124
A pesquisa desses autores indicou que todas as ações corporativas se desenvolviam a partir
de processos entrelaçados de decisões discricionárias e de constrangimentos institucionais. As
relações intercorporativas estariam submetidas a quatro tipos de influências: (1) gerenciamento
operacional: quando o controlador coordenava as atividades intercorporativas através do controle
administrativo sobre duas ou mais companhias; (2) controle estratégico: quando os controladores
externos desenvolviam o planejamento estratégico e implantavam através de diretrizes ou pela
indicação de executivos (diretorias cruzadas) para execução e monitoramento dos seus planos; (3)
dissuasão mútua: quando cada empresa respeitava a habilidade das outras em afetarem de forma
adversa o ambiente corporativo, havendo um conjunto de normas tacitamente respeitadas,
especialmente aquelas que restringiam a competição destrutiva e; finalmente, (4) hegemonia:
quando a coordenação ocorria em relações de dependência assimétricas.
125
Nesse trabalho, os autores elaboraram um diálogo entre o seu conceito de hegemonia
financeira e a “teoria do controle bancário” (“theory of bank control”) citando textos nos quais
Fitch & Oppenheimer (1970)27 postulavam que o ponto central da teoria era que as relações de
empréstimos são em geral assimétricas e criam mais dependência sobre os devedores do que sobre
os credores e, portanto, os banqueiros desenvolvem uma influência estrutural sobre as demais
empresas não-financeiras28. Na época, os críticos alegaram que a assimetria era clara nos casos

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
wide range of economic actors. They, thus, achieve the capability of planning and executing economic and social policies
that depend upon the compliance of other corporations (and even governments), even when such actions do not directly
benefit all institutional participants. We have argued elsewhere that this phenomenon is properly understood as financial
hegemony, using hegemony in the structural sense developed by Gramsci.” (MINTZ & SCHWARTZ, 1990, p. 205). (Nossa
tradução e versão)
25
“In our view the combination of evidence from the business press and the quantitative analysis of interlock patterns produce
a viable case for the existence of financial hegemony in the American business world.” (MINTZ & SCHWARTZ., 1985, p.
xix). (Nossa tradução)
26
“The patterns found in the interlock network indicate that financial institutions exercise a form of structural leadership over a
wide range of non-financial corporations. This form of leadership is, in our opinion, episodic and problematic; but it is
nevertheless ongoing and highly significant in terms of the overall shape of corporate decision making”. (MINTZ &
SCHWARTZ, 1985, p. xviii). (Nossa tradução).
27
Fonte: FITCH, Robert & OPPENHEIMER, Mary. Who Rules the Corporations? Part 1, Socialist Revolution, vol. 1, nº 4:
p. 73-108, Jul. – Ago. 1970, Part 2, Socialist Revolution, vol. 1, nº 5: p. 61-114, Sep. - Oct. 1970, Part 3, Socialist
Revolution, vol. 1, nº 6: p. 33-94., Nov. – Dec. 1970. Apud MINTZ & SCHWARTZ (1985).
28
“The crucial point of contention in this debate was bank control theory’s assumption that lending relationships are in general
asymmetrical; that, [...] they create more dependence among borrowers than among lenders; and therefore that bankers
develop structural leverage over industrial firms.” (MINTZ & SCHWARTZ, 985, p. 30)
48

estudados, mas que isso poderia não ser verdadeiro como regra geral e que a relação devedor /
credor era de dependência recíproca. A necessidade contínua de capital das corporações nos
momentos de crise ou de expansão criava a dependência de fundos externos, e esse poder seria
usado pelos bancos para: (a) desenvolver controle estratégico sobre as empresas tomadoras de
empréstimo – Lenin e Hilferding; (b) ditar políticas que, no longo prazo, são consistentes com as
necessidades das instituições financeiras – Fitch & Oppenheimer. Sendo assim, para os teóricos do
controle bancário, os bancos intervêm regularmente nos negócios dos clientes na tentativa de
manter a dependência constante de capital, produzindo assim o controle de longo prazo. Nessa
lógica, haveria a segregação econômica dentro de grupos financeiros e as empresas atuariam para
maximizar o lucro de longo prazo do grupo, deslocando assim a unidade básica de decisão da
empresa individual ou firma, para o grupo. A teoria também acentuava o papel dos bancos como
acionista na criação de relações de controle, observando que uma instituição financeira ao possuir
uma quantidade significativa de ações — mesmo que não seja ela proprietária — poderia usá-las
como fonte de poder29. No caso Bamerindus, por exemplo, o anúncio feito pelo HSBC no início de
1997, que estava lançando como perdas suas ações do banco (aproximadamente 6,7% do capital do
BBB no valor de US$ 60 milhões), contribuiu para precipitar a crise e a intervenção do Bacen.
126
Mintz & Schwartz (1985) observaram que a interdependência devedor / credor não
eliminava a possibilidade de assimetria, pois as situações de escassez de capital ou crise de liquidez
colocavam os credores na posição mais forte. Para eles, a assimetria presente no relacionamento
entre as organizações financeiras e não financeiras, teriam origem em quatro fontes: (1) o capital
financeiro tem natureza fluida e está presente em todos os negócios, podendo ser usado para
constranger qualquer setor econômico; (2) o capital financeiro é uma mercadoria universal; (3) nas
operações de crédito envolvendo grandes valores, numa ponta estará a empresa e, na outra, um
pequeno número de grandes bancos, agindo de forma mais ou menos coordenada em suas
atividades; (4) as crises de liquidez colocam as empresas em regime de urgência para tomar
empréstimo. As combinações desses fatores produzem relações assimétricas, contribuindo para que
ocorra a intervenção financeira no processo de decisão das demais organizações, mas, observam
que a maioria dos exemplos encontrados foi de intervenções no curto prazo, sendo relativamente
raros os casos de controle estratégico ou de longo prazo.
127
Os autores verificaram que: (a) a intervenção dos bancos no processo de decisão dos
clientes acontecia com freqüência; (b) a participação dos acionistas institucionais era uma fonte de
poder; e que, (c) a intervenção bancária e a participação acionária institucional faziam parte de um
amplo contexto de hegemonia financeira; (c) raramente a intervenção e a participação acionária

29
“When a financial institution is the holder of record of a large block of corporations stock-even if the financial institution is
not the beneficial owner of the stock-this may be a source of power for two reasons. First . . . it can vote against management
proposal and it can initiate or join a proxy fight to replace the existing hoard. Second [...] an institution can sell its holding
suddenly, which would depress the price of the stock and hence harm the interests of management and other stockholders: or
it could sell its holdings to a group attempting a takeover”. (MINTZ & SCHWARTZ (1985, p. 19)
49

institucional transferiam o controle estratégico de longo prazo, mas contribuíam para a formatação
de um modelo global menos rígido de hegemonia financeira (apesar de não serem freqüentes, após
a intervenção a empresa não retomava a autonomia, mas se tornava parte de um amplo sistema de
relações hegemônicas); (d) As relações intercorporativas não se processavam a partir de situações
claramente definidas e estáticas de constrangimento e de autonomia relativa, mas através de
situações entrelaçadas que faziam parte de um processo maior de longo prazo. Concluíram, então
que o processo de hegemonia financeira procurava garantir que mudanças estruturais não
reduzissem, mas reforçassem a lógica da dependência assimétrica, impondo um conjunto de regras
de conduta para as corporações. Tais regras conformavam uma estrutura voltada para a
maximização do lucro e restrições à competição destrutiva e que, apesar das relações assimétricas,
as corporações gozavam de uma considerável autonomia em seus negócios.
128
Segundo os autores, ao serem combinadas as análises dos grupos de capitalistas que
ocupavam posições em diretorias cruzadas com a teoria do capital financeiro, eles concluíram que
essas lideranças, além de ocuparem posições importantes nos conselhos e diretorias dos bancos,
formavam também um tipo de grupo social especial, unido pela herança social, redes de amizades e
interesses econômicos comuns30. Para autores,
26
[...] os bancos são os mecanismos primários para a tomada de decisão coletiva no
mundo dos negócios (…), entretanto, (…) devemos perguntar se a classe capitalista
expressa os interesses dos bancos ou, (…) os bancos são controlados pelas redes de
classe daqueles indivíduos que os conduzem. (MINTZ & SCHWARTZ, 1985, p.
254)31.

129
Pesquisas anteriores realizadas por Ratcliff e Gallagher sugerem que as decisões de
alocação de capital são afetadas pelas necessidades desses grupos de capitalistas financeiros, e
Mintz & Schwartz (1985) alegam ter encontrado evidências dessa proposição, mas observam que
esse poder discricionário é apenas mais um componente do processo, pois a decisão depende das
opiniões dos demais capitalistas financeiros e está condicionada pelas redes de classe formadas por
eles32. Também observam que os “(…) constrangimentos estruturais sob os quais os bancos operam,
determinam as opções disponíveis para aqueles que são responsáveis pelas decisões” 33 e concluem
que:

30
“By combining the conclusions of inner-group analysis with the theory of finance capital, we conclude that business
leadership accrues to a special social type: a cohesive group of multiple directors tied together by shared background,
friendship networks, and economic interests, who sit on bank boards as representatives of capital in general.” (MINTZ &
SCHWARTZ, 1985, p. 254). (Nossa tradução).
31
“We have argued throughout this book that banks are the primary mechanisms for collective decision making within the
business sector. In the final analysis, however, we must ask whether the capitalist class expresses the interest of banks or, as
Zeitlin (1974, 1976), Zeitlin, Newman, and Ratcliff (1976) and Ratcliff (1980 a, b) suggest, banks are controlled by the class
networks of those individuals who lead them.” (MINTZ & SCHWARTZ, 1985, p. 254). (Nossa tradução)
32
“Findings by Ratcliff (1979—80, 1980 a, b) and Ratcliff, Gallagher, and Ratcliff (1979) suggest that decisions on capital
allocation are affected by the needs of this inner group of finance capitalists. We find this evidence compelling.” (MINTZ &
SCHWARTZ, 1985, p. 254). (Nossa tradução).
33
“The structural constraints under which banks operate determine the options available to those decision makers.” (MINTZ &
SCHWARTZ, 1985, p. 254). (Nossa tradução).
50

27
Neste contexto, os bancos ocupam um lugar de importância estrutural no setor
econômico; sua posição os coloca no centro das decisões de alocação do capital, sendo
que estas, em boa parte, estão condicionadas aos imperativos do processo da
acumulação. Sendo assim, os interesses dos bancos como organizações, em boa parte,
determinam e constrangem os interesses do capital em geral, pois são eles os veículos
para o controle de classe sobre a economia. Como segmento de classe, os capitalistas
financeiros assumem o papel de agentes desta compulsão estrutural, mas também
devem fazer escolhas reais sobre que opções de investimento devem perseguir. A
importância da sua participação não pode ser subestimada, pois sem ela o capital seria
alocado em diferentes maneiras e em resposta às diferentes pressões. Como todo
mundo, a classe capitalista toma decisões, mas tem que observar os constrangimentos
do processo de acumulação capitalista. (MINTZ & SCHWARTZ, 1985, p. 254)34.

130
Com relação às diretorias cruzadas e relações intercorporativas, Minella (1999) observa
que, apesar de existir nos Estados Unidos e na Europa uma grande quantidade de pesquisas, no
Brasil ainda faltam trabalhos sistemáticos nessa área. Entre as pesquisas mais recentes, destaca um
trabalho preliminar de Cruz (1994)35 que poderia evoluir para uma análise mais ampla das diretorias
entrelaçadas no mundo corporativo brasileiro.
131
Nessa pesquisa, Cruz compilou dados de um conjunto de duzentas empresas de capital
privado e misto, com cerca de três mil registros de membros de diretorias e conselhos
administrativos. O resultado aponta para um cenário brasileiro (diretorias cruzadas) muito diferente
dos EUA, “devido a características do mercado acionário (fragilidade e estreiteza), a forte
presença da empresa familiar e o peso das empresas multinacionais”. (CRUZ, 1994). Na opinião
de Minella (1999), esta estrutura de diretorias cruzadas estaria sendo transformada pelas mudanças
no mundo empresarial brasileiro, impulsionada pelos seguintes fatores:
28
[...] (a) [o] processo de privatização das empresas estatais, que tem levado a uma
reestruturação patrimonial que envolve a participação conjunta de capitais de diversas
origens; (b) crescimento da importância e presença dos investidores institucionais,
especialmente fundos de pensão no capital acionário de empresas em diversos setores;
(c) expansão do processo de profissionalização das diretorias executivas das empresas
familiares; (d) crescente necessidade de realizar articulações e alianças estratégicas
para sobreviver no mercado com maior abertura econômica: (e) crescente participação
direta de algumas instituições financeiras no capital acionário das empresas não
financeiras. (MINELLA, 1999, p. 62).

132
Nas relações entre o Estado e a hegemonia financeira, Minella (1999) chama a atenção para
a necessidade de considerarmos as seguintes questões:
133
(1) O Estado participa ativamente na oferta de crédito, através de suas instituições

34
“We argue, then, that banks occupy a position of structural importance in the economic sector; that their location places
them in the center of capital allocation; and that allocation decisions are, in good part, constrained by the imperatives of the
accumulation process. The interests of banks as organizations, therefore, in good part determine and constrain the interests
of capital in general. They are, in this sense, vehicles for the class control of the economy. Finance capitalists — as a class
— become agents of this structural compulsion, but they also must make real choices about which investment options to
pursue. Their participation is in no way trivial. Without their input, capital would be allocated in different ways and in
response to different pressures. Like everyone else, the capitalist class makes decisions but not under conditions of its own
choosing.” (MINTZ & SCHWARTZ, 1985, p. 254). (Nossa tradução e versão).
35
Fonte: CRUZ, Sebastião V. e. Relatório Parcial de Atividades. Projeto Reestruturação Econômica e Empresariado. O caso
brasileiro. Campinas. 1994. mimeo. Apud MINELLA, A. C. Fundamentos teóricos e metodológicos para análise do
empresariado financeiro no atual contexto de globalização financeira. (Versão Preliminar). Anexo 1 do Relatório Técnico de
Pós-Doutorado apresentado ao Departamento de Ciências Sociais. UFSC: nov. 1999, p. 62-63.
51

financeiras, podendo assim estabelecer níveis e esferas diferenciadas de hegemonia financeira. As


privatizações de bancos estatais podem significar um contexto mais favorável para a hegemonia
financeira de grupos privados.
134
(2) As decisões das autoridades monetárias interferem no processo de hegemonia
financeira, e, no caso brasileiro, “constata-se que tais decisões tendem a criar um ambiente mais
favorável à hegemonia financeira, na medida que tendem a restringir a oferta de crédito e manter
taxas de juros elevadas”. (MINELLA, 1999, p. 63).
135
(3) O processo de hegemonia financeira é afetado pelo grau de intervenção reguladora no
sistema financeiro definido no âmbito político pelos poderes executivo e legislativo, influenciando
tanto na direção como no volume dos fluxos financeiros.
136
(4) Finalmente, o estudo da hegemonia financeira tem que incluir a questão do fluxo de
capitais para financiamento da dívida pública, e sua influência condicionante no processo de
decisões políticas tanto no âmbito econômico como para reforçar ou manter o ambiente social sob a
hegemonia financeira.
137
Nesse contexto, para o estudo do caso Bamerindus, nós necessitamos ampliar o conceito de
hegemonia financeira com algumas considerações adicionais sobre a política e o discurso
ideológico, que abordamos a seguir.

2.4.1 O MUNDO POLÍTICO E A HEGEMONIA FINANCEIRA

138
No caso Bamerindus foi possível constatar que o processo de hegemonia financeira incluiu
conexões entrelaçadas entre o mundo político, o aparelho do Estado e grupos econômicos,
formando uma ampla e sofisticada rede de vínculos com organizações de representação de classe,
clubes sociais, empresas estatais, casas legislativas, executivos e o judiciário, em vários níveis do
aparelho de Estado e da estrutura federativa. Nesse contexto, as conexões entre as organizações
financeiras e a política adquirem uma especial relevância pelos seguintes fatores:
139
1) Campanhas eleitorais: o financiamento direto de campanhas36, o uso da rede de agências
espalhadas pelo território, bem como a disponibilidade da estrutura organizacional (funcionários,
telefones, telex, fax, computadores, imóveis, gráfica, etc.) e a quantidade de potenciais eleitores /
funcionários.37
140
2) Quadro de lideranças: as instituições financeiras forneceram quadros qualificados para o
exercício da política, sendo historicamente notória a habilidade política de banqueiros como José de
Magalhães Pinto, Laudo Natel, Herbert Levy, Walther Moreira Salles, Othon Mäder, entre outros.

36
Ao sugerir que “o melhor cabo eleitoral é a agência bancária”, o velho ditado popular mineiro citado por COSTA (2002a)
parece sintetizar de forma precisa a constelação de interesses que une o mundo político e financeiro. Fonte: COSTA,
Fernando N. Bancarrota da banca nacional. FSP, 1º fev. 2002a. In: Campinas: IE Instituto de Economia. Disponível em:
<http://www.eco.unicamp.br/artigos/artigo234.htm>. Acesso em: 27 ago. 2004.
37
Para mais detalhes sobre o uso de recursos de suas empresas pelos empresários, ver Lindblom (1980)
52

141
3) Capacidade de ação dos partidos, como foi o caso da UDN, que durante muitos anos
concentrou em seus quadros boa parte dos representantes do empresariado financeiro38. Vamos ver
ao longo deste trabalho que, durante um bom tempo, o PTB do Paraná foi controlado por um grupo
de políticos vinculados ao Bamerindus, o que teria sido fundamental para a estruturação do partido
em mais de 300 municípios paranaenses entre 1990 e 1994.
142
4) Importância política e influência dos gerentes das agências bancárias nas pequenas
comunidades do interior.
143
5) Financiamento direto de lideranças políticas durante o exercício de seus mandatos.39

2.4.2 DISCURSO IDEOLÓGICO E A HEGEMONIA FINANCEIRA

144
Se Mintz & Schwartz (1985, p. 12) excluem a questão ideológica da formação da
hegemonia financeira, no caso Bamerindus o fenômeno do discurso ideológico como um
importante recurso desse processo adquire um lugar de destaque, como parte do processo para
legitimar, constranger e transformar os interesses específicos de uma classe ou segmento, em
prioridade para toda a sociedade. É necessário considerar o conceito de hegemonia no seu sentido
mais amplo, como proposto por Gramsci. Neste sentido, foi possível identificar um discurso
específico que se propõe a divulgar uma espécie de “lógica financeira” – um discurso financeiro
– e que opera em vários níveis e segmentos da sociedade, tais como:
145
1) No segmento econômico-empresarial: o uso generalizado e pouco criterioso de (a)
análises econômico-financeiras para investimentos, cuja proposta básica busca reduzir a complexa
realidade produtiva a fluxos de caixas financeiros, e que pretende vincular as decisões a uma “taxa
de corte” atrelada às taxas de juros praticadas no mercado; (b) a avaliação da performance
gerencial através de indicadores extraídos de relatórios financeiros de qualidade duvidosa, tais
como: taxa de retorno sobre o Patrimônio Líquido, retorno sobre os Ativos etc; (c) uso da cotação
das ações da bolsa de valores como indicador da qualidade da gestão das organizações e seus
administradores e, (d) agências de avaliação de risco etc. Tais “análises financeiras” normalmente
estão sujeitas a inúmeros fatores, manipulações, e critérios muitos deles arbitrários, cujas variações
nem sempre estão relacionadas com a atividade econômica da empresa ou do mercado. Forma-se
assim um discurso que é amplificado através da “imprensa especializada” retratando mistificações,
opiniões e manipulações grosseiras. Esse discurso financeiro normalmente é utilizado para
justificar o deslocamento do lócus de poder das demais áreas para o setor financeiro, tanto no
âmbito interno como externo das empresas. Ao longo deste nosso estudo vamos ter a oportunidade
de analisar com mais detalhes a qualidade dos relatórios financeiros que sevem de base para a
construção desse discurso.

38
Para mais detalhes, ver Minella (1988).
39
Para mais detalhes, ver Heller; Novaes & Lala. (2000).
53

146
2) No segmento social, a popularização do discurso financeiro promove sua lógica para
todas as classes sociais através de diversas formas, tais como: (a) a popularização das cadernetas de
poupança para pequenos valores; (b) as poupanças compulsórias, como por exemplo, o Fundo de
Garantia por Tempo de Serviço (FGTS); (c) a disseminação do crédito ao consumidor através de
carnês de prestação e cartões de crédito; (d) programas de televisão promovendo títulos de
capitalização e compras programadas do tipo “Baú da Felicidade”; (e) as agências bancárias
transformadas em postos de arrecadação do Estado; (f) o pagamento de aposentadorias e benefícios
da seguridade social através das agências e cartões bancários etc; (g) a transformação das agências
bancárias em casas de jogos, ou vice-versa; (h) a propaganda diária intensiva promovendo produtos
e instituições financeiras, como por exemplos as propagandas da Poupança Bamerindus40 e do Natal
do Banco Nacional; finalmente, (f) a freqüente e raramente criteriosa vinculação dos fatos políticos
com acontecimentos no mercado financeiro e de capitais, através de análises grosseiras nos meios
de comunicação. Ainda estão por serem realizados estudos sobre o tempo de televisão dedicado à
divulgação do discurso financeiro e sua influência sobre a cultura popular.
147
No período focalizado neste trabalho (1981 a 1994), o discurso financeiro tornou-se
onipresente em boa parte das atividades sociais através de instrumentos como as aplicações
financeiras, fundos de investimentos, cheques especiais, cartões de crédito, etc, mas a inflação
seguramente foi o principal instrumento de promoção do processo de hegemonia financeira no
campo ideológico, pois envolveu vários setores importantes da sociedade. Nesse período o país
viveu uma espécie de “febre” das aplicações financeiras, quando era comum encontrar sindicatos
patronais e de trabalhadores, igrejas, escolas, indivíduos e os próprios Estados, aplicando recursos
na “poupança”, “open”, “over” ou na “Conta Remunerada do Bamerindus”, entre outros. Nessa
época muitos trabalhadores recebiam, em determinados momentos, mais crédito de correção
monetária na conta do FGTS ou da poupança, do que em salário; e corriam muitas histórias de
pessoas que vendiam seus bens de uso para aplicar o dinheiro no mercado financeiro. Um bom
indicador da mistificação promovida pela inflação eram as freqüentes análises veiculadas nos meios
de comunicação que classificavam tais ganhos como “ilusórios” – sendo acompanhadas de
complexas explicações e justificativas. Como veremos na seqüência deste trabalho, a chamada
“receita inflacionária” ocupava uma importante posição na estrutura “real” das receitas dos
bancos.
148
Também nessa época fazia muito sucesso no jornal Folha de S.Paulo e mais tarde em O
Estado de São Paulo e na Rede Globo, a coluna diária do sociólogo e ex-comentarista de futebol,
Joelmir Beting, transformado em analista econômico-financeiro pela sua habilidade em traduzir
para a linguagem popular as regras do mundo econômico-financeiro. Essa lógica também
contaminou o discurso político, crescendo a importância política de economistas, empresários e

40
“Poupança Bamerindus: O tempo passa. O tempo voa. E a Poupança Bamerindus continua numa boa. É a Poupança
Bamerindus”. Fonte: ALZER, Luiz A. B. F. & CLAUDINO, Mariana C. Almanaque anos 80. Rio de Janeiro: Ediouro,
2004, p. 39.
54

operadores do setor financeiro.


149
Como a realidade do processo de produção costuma não acompanhar o discurso, o retorno
inferior ao esperado pela “lógica financeira”, em muitos casos acabou sendo identificado como
prejuízo a ser coberto pela sociedade. Em vários momentos, o Estado foi induzido a assumir o papel
de última instância garantidora da remuneração do capital financeiro, através de intervenções,
subsídios, aportes do orçamento – sob a justificativa de evitar uma crise financeira maior. Nosso
trabalho vai mostrar que, ao longo dos anos, o Bamerindus acumulou investimentos cujo retorno
nem sempre satisfizeram os parâmetros do discurso financeiro, sendo obrigado, em vários
momentos, a buscar soluções junto ao Estado; observando não ser o Bamerindus uma exceção.
Concluímos, então, que, pelo menos para este nosso estudo de caso, a teoria da hegemonia
financeira deve abranger não só os aspectos estruturais do campo econômico e empresarial, mas
também o campo político e ideológico. Também consideramos que as questões que envolvem o
processo de hegemonia financeira e o poder das instituições financeiras necessitam incorporar uma
análise mais precisa do fenômeno dos grupos econômicos, que muitos estudos indicam ser o
modelo básico da estrutura empresarial capitalista contemporânea. Para estudar o Bamerindus não é
possível focalizar apenas o banco, mas todo o conjunto de empresas que formava o grupo. Ao
dirigirmos a atenção para esse fenômeno, surgem várias questões, como por exemplo, qual
parâmetro poderia ser utilizado para definir a composição, os limites e as áreas de influência de um
grupo econômico?

2.5 GRUPOS ECONÔMICOS

150
Como estrutura econômica complexa, o “Grupo Econômico” (“Business Group”),
segundo Gonçalves (1991), Granovetter (1994) e Portugal Jr. (1994), não tem sido objeto de muita
atenção, apesar da sua importância para compreender a dinâmica capitalista contemporânea, e ainda
espera por uma conceituação mais precisa e consolidada.
151
Em sua forma e conteúdo, o grupo econômico (GE) deve ser identificado como uma
organização empresarial distinta da empresa individual ou firma41, pois tem sua origem na ruptura
institucional e organizacional da empresa, causada pelo seu crescimento e cujas mudanças
qualitativas impedem que sejam eles, os grupos, caracterizados apenas como um prolongamento
natural da firma.
152
Segundo Portugal (1994), existiriam três grandes eixos de análise para essa questão. O
primeiro eixo, denominado por ele como convencional, é formado por estudos que têm por base a
Teoria dos Custos de Transação (TCT), que parte do pressuposto neoclássico que a eficiência

41
Os termos “empresa individual” e “firma”, são aqui utilizados para designar uma entidade empresarial independente, uma
unidade institucional indivisível e não subordinada ao controle externo direto. Os termos não se confundem com as
diferentes definições legais normalmente utilizadas. (Nota do autor)
55

econômica é a principal determinante das mudanças organizacionais. O problema é que tais


trabalhos investem pouca ou nenhuma atenção às questões relacionados com a estrutura
institucional da sociedade, as relações de poder e a política. O segundo eixo seria formado por
estudos e análises que partem de algumas das idéias de Marx e Hilferding, que identificam o
movimento de concentração da propriedade e a dinâmica do capital financeiro como fator
determinante das mudanças na estruturação empresarial:
29
O grupo econômico [...] é uma categoria econômica que expressa relações sociais
específicas, segundo as quais cada agente individual define seu comportamento
levando em conta o comportamento dos outros indivíduos, as relações que com eles
mantém e seu posto na hierarquia social, ao contrário do que ocorre naquele mundo
dominado pelo individualismo metodológico. Assim, o grupo econômico expressa
relações de força e de poder, em torno das quais se movimentam indivíduos, classes,
grupos sociais de um modo geral, formando redes de solidariedade e campos de
conflito. Em seu interior, está expressa uma diversidade de interesses — de acionistas,
gerentes e trabalhadores — frente aos recursos que precisam ser organizados e
hierarquizados. (PORTUGAL, 1994, p. 16-17).

153
Finalmente, o terceiro eixo de análise seria formado por trabalhos que buscam uma
compreensão mais sofisticada e complexa para o fenômeno dos grupos econômicos, utilizando
inclusive os dois enfoques acima mencionados; e avança na medida que relacionam o fenômeno
com o contexto das transformações capitalistas contemporâneas. Tais trabalhos “[...] consideram
que o crescimento contratual entre empresas de diversos países, setores e tamanhos, define uma
nova dimensão, a estruturação empresarial”. (PORTUGAL, 1994, p. 7).
154
Este nosso estudo parte do conceito proposto por Gonçalves (1994), fazendo algumas
adaptações e concessões para que possamos utilizá-lo como ferramenta de análise do caso
Bamerindus:
30
O grupo econômico é definido como o conjunto de empresas que, ainda que
juridicamente independentes entre si, estão interligadas, seja por relações contratuais,
seja pelo capital, e cuja propriedade (de ativos específicos e, principalmente, do
capital) pertence a indivíduos ou instituições, que exercem o controle efetivo sobre
este conjunto de empresas. (GONÇALVES, 1991, p. 494).

155
Para esse conceito a condição básica que define um grupo é a existência de um núcleo que
controla um conjunto de empresas, e alguns autores defendem que apenas o controle do capital
não é suficiente, admitindo que as associações e parcerias – de importância crescente na economia
mundial, tais como acordos, alianças, “joint-ventures”, franquias etc., determinam relações de
domínio (controle e dependência) bem como conferem uma certa coesão comercial e tecnológica.
Nesse caso, a ampliação do conceito de grupo econômico permite abranger a multiplicidade de
formas e arranjos institucionais e tecnológicos impostos pelas transformações capitalistas cujas
diferentes relações patrimoniais, jurídicas ou financeiras, fazem com que um conjunto de empresas
tenha sua ação voltada para um projeto comum. Alguns trabalhos consideram que, para muitos
grupos econômicos, a propriedade deixou de ser o elemento principal para determinar a sua coesão
interna e de subordinação do conjunto. Também admitem que outros tipos de conexões como
tecnológicos, pessoais e familiares, também fazem parte do conjunto de instrumentos de controle.
56

156
Apesar de a crítica considerar que desse modo rompe-se com a idéia que a subordinação se
estabelece somente em hierarquias institucionalmente constituídas, admitimos neste trabalho que o
núcleo de poder do grupo econômico dispõe de vários outros instrumentos de coerção e cooptação
do conjunto de empresas sob sua esfera de domínio. A dimensão patrimonial e financeira continua
tendo um papel importante na organização da hierarquia e estrutura empresarial, mas temos que
levar em consideração outras questões como, por exemplo, as restrições ou incentivos legais, que
em muitos casos irão determinar a natureza das conexões internas do grupo.
157
A principal crítica a essa ampliação do conceito considera que esse prisma dilui os limites
visíveis dos grupos econômicos e dificulta o mapeamento das fronteiras e áreas de influência, bem
como das zonas de intersecção e aproximação com outros grupos. Para lidar com essa questão,
consideramos que os grupos ou partes dos grupos se constituem formal e informalmente,
dependendo do conjunto de normas legais de um determinado ambiente institucional. Também é
necessário considerar que o controle se realiza através de dois modos institucionais básicos: direto
ou “literal” e indireto ou “limitativo”, como segue:
31
[...] “literal” quando ele envolve o poder de tomar as decisões estratégicas e
fundamentais ao grupo; ou pode ser “limitativo” quando se refere à capacidade de
restringir as decisões daqueles (administradores profissionais) que detêm posições
estratégicas dentro do grupo. (GONÇALVES, 1994, p. 494).

158
Sendo assim, independentemente do modo como se organiza, a identidade do grupo se
estabelece pela capacidade de o núcleo de poder controlar as decisões estratégicas, ou seja,
definindo ou vetando decisões de investimento e financiamento de longo prazo, para um conjunto
de entidades, condicionando as principais relações de autoridade, fluxo de informações, ativos reais
e financeiros, recursos humanos e capacitação tecnológica.
159
Também consideramos que normalmente as empresas individualmente se estruturam em
dois níveis básicos: nível (1) operacional ou executivo e nível (2) deliberativo ou estratégico. O
nível (1) operacional tem por função controlar os processos diários na execução dos objetivos de
curto prazo, previamente estabelecidos pelo nível (2). Este, o nível deliberativo, tem por função o
controle geral da organização, tomar as decisões estratégicas e determinar os rumos de longo prazo
dos empreendimentos. Quando a empresa individual ou firma passa a integrar um grupo, o nível (2)
deliberativo ou estratégico é deslocado de sua estrutura para o núcleo de poder do grupo
econômico, mantendo mais ou menos intacto o nível (1) operacional, que dessa forma, como
unidade mantém seu valor potencial de mercadoria em futuras negociações com outros grupos.
Nesse contexto, são vários os instrumentos de coerção explícitos e implícitos utilizados para
controle do nível (1) operacional, como por exemplo, o controle do caixa e do crédito, suprimento
de matérias-primas e insumos básicos, a legislação, ou a condição de cliente único.
160
No caso do Bamerindus, podemos dizer que o centro de poder do grupo também era
dividido em dois níveis, o primeiro era formado pela diretoria do grupo e das demais empresas, e
estava nitidamente subordinado a um segundo nível (2), formado pelos grandes acionistas. Em
57

vários momentos de sua história, foi possível constatar que eram os integrantes desse nível (2) que
detinham o poder real sobre a organização. O nível (1), subordinado, era constituído por pessoas de
confiança dos principais acionistas, tendo alguns integrado a chamada “turma do Ney Braga” 42,
como, por exemplo, Maurício Schulman, ou eram oriundos de famílias tradicionais da região.
161
Em síntese, o grupo econômico é dominado por um centro de poder que controla tanto
internamente os recursos materiais e financeiros e a força de trabalho que emprega, como
externamente, por sua capacidade de interferir nos mercados de produtos, serviços, financeiros e de
capitais, bem como nas relações políticas e no Estado.
162
Para um melhor entendimento da estrutura do núcleo de poder instalado no topo dos grupos
econômicos, utilizamos por analogia e com algumas restrições, as seguintes noções propostas por
Dreifuss (1986)43:
32
[...] córtex político, um órgão capaz de visualizar objetivos estratégicos e táticos em
cenários modificáveis [...] estado-maior [...] um órgão capaz de operacionalizá-los,
modificando com sua ação as relações de forças. Trata-se, por conseguinte, de um
núcleo de vanguarda político-intelectual e de um braço operacional,
organicamente vinculado a uma classe, bloco ou fração. (DREIFUSS, 1986, p. 24,
grifo nosso).

163
Os grupos econômicos, como resultado da concentração de poder, desenvolvem-se
basicamente através de dois mecanismos: (1) o crédito financeiro e (2) as sociedades anônimas, que
permitem à organização captar e centralizar em grande escala o capital financeiro de terceiros, para
aplicar nos seus negócios. Tal concentração e centralização do capital passaram a ser determinante
no capitalismo, pois alteraram a natureza da concorrência pelos mercados, colocando os grupos no
topo da hierarquia do capital, sendo eles, em boa medida, os principais veículos de reprodução e
concentração capitalista, o que determina um conjunto de relações privilegiadas com o mercado, o
Estado, os trabalhadores e a sociedade como um todo:
33
Os grupos econômicos são lócus de controle e de acumulação de capital com
possibilidades de alavancagem financeira, por mecanismos acionários e / ou
creditícios muitos superiores aos das demais unidades empresariais. Por isso,
incorporam um cálculo empresarial específico, dominado, desde o alto e em seu
conjunto, por uma lógica financeira de acumulação. (PORTUGAL, 1994, p. 43).

164
Nesse contexto, a acumulação financeira tornou-se o objetivo estratégico central dos grupos
econômicos, conferindo à função financeira uma importância superior aos demais processos de
acumulação, condicionando assim grande parte da estrutura capitalista de produção. Nesse
ambiente, as decisões estratégicas de crescimento e investimento ganharam nova dimensão,
exigindo a coordenação e a centralização do planejamento estratégico para atuar com processos em
vários mercados. Nesse contexto, diminuíram as diferenças entre os grupos industriais, comerciais e

42
Nome atribuído à equipe formada pelos assessores de confiança de Ney Braga, e que controlaram posições importantes em
empresas privadas e no aparelho do Estado – tanto no Paraná como no país, entre os anos 1960 e 1980.
43
Fizemos questão de incluir essas noções que Dreifuss utiliza na conceituação de “elites orgânicas”, para que o leitor
pudesse observar a proximidade conceitual entre grupos econômicos e elites.
58

os financeiros, formando complexos conjuntos de empresas das mais variadas atividades,


comandados pela lógica do capital financeiro. O resultado criou tensões entre as lógicas da
produção e a financeira, com forte tendência para o deslocamento dos recursos para a especulação
financeira, dissociando-os ainda mais da realidade da produção.
165
Também temos que considerar que as características dos grupos serão diferentes conforme
o país observado, e alguns trabalhos identificam que, nos países latino-americanos, asiáticos ou
africanos onde o capitalismo tende a assumir características “oligárquicas”, as relações pessoais
têm grande importância e reforçam a estrutura de poder. Nessas regiões, os grupos econômicos
teriam duas características básicas:
34
Primeiro, o grupo capta seu capital e seus gestores de alto escalão de fontes que
transcendem uma simples família. O capital e os gestores podem vir de um número de
famílias ricas, mas se mantém dentro do grupo como uma unidade econômica simples.
Os gestores-dono do grupo, tipicamente, incluem (não todos) membros da família
dentro da qual a atividade do grupo origina-se. Contudo, o que distingue essa
instituição de uma firma familiar, e o que lhe dá recursos de maior abrangência, é o
fato de gestores-dono de outras famílias também participarem. Os participantes são
pessoas ligadas por relações de confiança interpessoal, nas bases de pessoas similares,
étnica, ou com um background comum. (LEFF, 1978, p. 663, apud PORTUGAL,
1994, p. 25).

166
Gonçalves (1994) destaca que no “capitalismo institucional”, cuja estrutura é composta
por diferentes organizações sociais, existiria uma específica e muito importante, a rede
transcorporativa, que reúne diretores e altos executivos de grandes corporações, e que participam
das diferentes diretorias e dos conselhos de administração dos diferentes grupos econômicos. Essa
rede teria coesão social e convergência ideológica suficientes para defender e promover os diversos
interesses de diferentes grupos. Sendo assim, a ação organizada dessa rede ultrapassa os interesses
de famílias ou de empresas individuais, entrando na esfera dos interesses de toda uma classe social.
167
A rede transcorporativa atua sobre os interesses de longo prazo dos grupos econômicos e se
organiza para dispor de todos os recursos necessários para influenciar as políticas do Estado e a
opinião pública:
35
Os seus membros fazem parte da “elite do poder” e caracterizam-se por ocupar cargos
importantes dentro dos grupos econômicos e ter algum tipo de liderança junto à classe
empresarial, inclusive os controles das associações patronais. Ademais, os membros
deste “inner circle” têm uma coesão social importante e estão próximos (ou são
membros natos) das classes sociais mais poderosas e ricas da sociedade, os que lhes
garante uma capacidade significativa de mobilização de recursos para promover os
interesses sistêmicos do “grand capital”. (GONÇALVES, 1994, p. 513).

168
Nas relações dos grupos econômicos com o Estado, temos que destacar que o poder desses
agentes depende tanto da origem dos controladores, se locais ou externos, e do tipo de
conformação, se familiar, societário, estatal etc, bem como das formas de governo, das sociedades
nas quais estão instalados:
36
Não há dúvida de que os grupos estrangeiros possuem fontes externas de poder, que
está fora do controle das autoridades do país hospedeiro. Por outro lado, o poder de
grupos econômicos do tipo familiar tende, ceteris paribus, a ser maior num regime
59

oligárquico (ou numa plutocracia) do que num Governo democrático. (GONÇALVES,


1994, p. 512).

169
Também é visível a posição privilegiada dos grupos econômicos na imposição dos seus
interesses ao Estado ou através do Estado, quando seus objetivos são transformados em prioridades
públicas, de interesse de toda a sociedade. Seu poder muitas vezes se confunde com o poder
político, pois além de influenciarem pelo seu peso econômico específico, também atuam direta ou
indiretamente, tanto na representação política como nos órgão do Estado. Vale destacar que, entre
os instrumentos mais importantes para influenciar o Estado, está a geração e intermediação na
arrecadação dos impostos e a de operador financeiro do Estado. Normalmente, esses grupos estão
posicionados estrategicamente para influir tanto na estrutura e qualidade da arrecadação e gasto,
como no fluxo dos recursos do orçamento públicos. Também o tamanho e escala das operações
dessas organizações podem concentrar poder suficiente para vetar ou promover decisões de
governo e relativizar o poder do Estado. Portugal (1994) observa que o aumento da complexidade
das conexões patrimoniais e dos fluxos cambiais e financeiros internacionais conferiram aos
grandes grupos econômicos poder suficiente para influírem sobre os fluxos de capitais e as políticas
econômicas das grandes economias capitalistas.
170
Nesse contexto, os estados nacionais cresceram em importância para as estratégias do
grande capital, pois a ampliação do raio de ação do Estado influencia diretamente as atividades dos
grupos econômicos, bem como as decisões estratégicas desses grupos passaram a ter enorme
importância para a realidade econômica dos países. Como expressões do capital financeiro, para os
grupos econômicos, os bancos centrais adquiriram maior importância para sua dinâmica
econômica, pois decisões sobre taxa de juros, inflação e câmbio tornam-se cruciais para suas
decisões estratégicas, bem como as questões que envolvem a fiscalização e regulação do sistema
financeiro. Em última análise, Nesse cenário financeirizado cresceu a importância dos mecanismos
de proteção dos bancos centrais para situações de crise financeira.
171
Outro aspecto importante que devemos destacar é uma certa tendência para uma dinâmica
econômica e institucional totalizante, que seria um dos motores propulsores da constituição dos
grupos econômicos. No caso Bamerindus, verificamos que em determinados momentos, o banco
não só concentrava o caixa de suas diversas empresas, como também de seus fornecedores, clientes,
funcionários e do próprio Estado do Paraná e do Mato Grosso do Sul. Nesse cenário, por exemplo,
o pagamento dos impostos gerados pelas suas empresas, fornecedores, clientes e funcionários, bem
como boa parte dos gastos do setor público, resumiam-se apenas a operações contábeis entre contas
correntes do próprio banco. Com isso, a estrutura do grupo tinha poder suficiente para comprimir o
tempo operacional do fluxo de caixa e eliminar várias etapas do processo de extração da mais-valia.
Era possível o controle direto e instantâneo de boa parte dos atores envolvidos nas transações, bem
como transformar a grande maioria dessas transações em ativos financeiros sob seu controle e
passíveis de comercialização no mercado.
172
O conjunto de leis e regulamentos, aqui incluindo aqueles que regulam relações societárias,
60

trabalhistas, tributárias, representações de classes (patronal e trabalhadores), ambientais, sanitárias,


a legislação que regula o sistema financeiro etc., formam o ambiente institucional no qual surgem
ou se instalam os grupos econômicos. E a conformação desse ambiente desempenha um papel
fundamental na determinação da face e estrutura de poder do grupo econômico. Esse conjunto de
regulamentos forma um importante elemento de poder nas disputas intracapitalistas, servindo, entre
outras coisas, como instrumento de concorrência, delimitador de mercados e manutenção das
estruturas de poder. Os grupos existirão independente da regulação, mas é esta que irá determinar
as áreas ou porções do grupo que estarão sob o controle formal ou informal. Também a regulação
estatal irá definir os incentivos e os limites de acesso aos grandes fundos públicos ou privados de
capitalização e financiamento. Os grupos econômicos são uma das expressões da luta de classes,
configurando-se num dos mais poderosos instrumentos à disposição de uma classe ou segmento de
classe, para influir na divisão da produção social.
173
O poder dos grupos econômicos na sociedade necessita de estudos sobre a forma e os meios
de exercício desse poder, sendo este uma de suas atividades mais importantes que interage com as
forças políticas da sociedade, principalmente com relação à integração dos grupos com as estruturas
gerais de poder, como o Estado e o Governo. Sua ação não se limita apenas a garantir decisões
favoráveis aos seus interesses econômicos junto a governos e instituições públicas, também abrange
uma grande variedade de questões sociais que pertencem ao jogo amplo da política, sem que a
teoria dos grupos alcance a dimensão de teoria política.
174
O sucesso ou não de um grupo está diretamente relacionado à sua representatividade e
pelos recursos à sua disposição. A representatividade depende dos objetivos do grupo, do seu grau
de conflito com os valores sociais dominantes, bem como da sua “legitimidade” perante os poderes
constituídos. O poder econômico e a capacidade de mobilizar de forma eficaz os recursos são
importantes, mas “[...] parece que as probabilidades de sucesso dos grupos são maiores quando os
associados e os líderes da organização provêm de estratos sociais superiores” (PORTUGAL,
1994, p. 57). O poder e a atividade dos grupos estão antes de tudo, condicionados pelo processo
decisório do sistema político, e em estruturas federativas os grupos tenderiam a se organizar de
forma descentralizada; nos sistemas autoritários buscariam controlar diretamente os centros
decisórios do Estado, como por exemplo, os Ministérios; e nos regimes democráticos concentrariam
mais suas atividades políticas no Parlamento. (PORTUGAL, 1994, p. 58).

2.5.1 O GRUPO BAMERINDUS

175
No caso do Grupo Bamerindus, encontramos basicamente três modelos de organização
institucional, todos condicionados pelo conjunto de leis e regulamentos do sistema financeiro. O
primeiro deles ocorreu no período 1952–1971, quando era formado pelo conjunto de diversos
bancos regionais e as demais atividades não-financeiras eram conectadas através de relação direta
entre sócios. Todas essas empresas estavam formalmente desvinculadas do grupo, mas certamente
61

conectadas ao banco através de operações financeiras, em muitos casos privilegiadas, sob a


proteção da instituição do sigilo bancário. Como a subordinação ao grupo era informal ou sigilosa,
conseguimos identificar apenas algumas das empresas através de referências indiretas. Em 1971,
como conseqüência das mudanças na legislação, ocorreu a unificação de todos os bancos regionais
formando o Banco Bamerindus do Brasil S.A. (BBB), mas mantendo ainda várias atividades não-
financeiras fora do conjunto formal. Os mecanismos de incentivos fiscais permitiram incorporar
formalmente as atividades como o reflorestamento e a agricultura. Continuaram conectadas
informalmente outras atividades como rádios, jornais, televisões, indústrias, fazendas produtoras de
soja e álcool, gado, transporte, revenda de veículos novos, hotéis etc.
176
Finalmente, a criação da figura jurídica do banco múltiplo em 1988 permitiu incorporar
formalmente grande parte das atividades do grupo, inclusive as participações adquiridas nos leilões
de privatização. Essa ampliação e integração formal de atividades reduziram as fronteiras entre o
banco e as demais empresas, criando uma situação pela qual o Bacen perdeu parte do poder de
controle sobre as operações bancárias. Na seqüência deste trabalho, vamos analisar com mais
detalhes essa situação e suas conseqüências para o sistema financeiro. Nesse contexto, tornou-se
difícil estabelecer os limites reais do que seria o Grupo Bamerindus. Um dos maiores problemas
surgiu quando nos deparamos com alguns grandes clientes do banco, cujo volume de recursos eram
significativos o suficiente para terem peso nas decisões estratégicas da organização. Como, por
exemplo, a General Motors (GM) que, além de ter sido sócia do Bamerindus e do Midland Bank44
no Bamerindus Midland Arrendamento Mercantil S. A, nos anos de 1995 e 1996 decidiu transferir
suas operações para outro banco. Tal decisão contribuiu muito para aumentar os boatos de
problemas no Bamerindus e inviabilizar soluções que estavam sendo negociadas na época. Assim
como a GM, o Bamerindus tinha outros grandes clientes importantes para a configuração do grupo,
mas de difícil identificação por estarem protegidos pelo sigilo bancário. A solução que encontramos
foi considerar muitas dessas conexões como partes de uma rede transcorporativa que integrava
vários grupos econômicos. Dessa forma, preservamos os limites que conferiam identidade ao
grupo, ao mesmo tempo em que consideramos as conexões mais amplas existente no mundo
econômico.
177
A complexidade e o tamanho real do Grupo Bamerindus tornaram difícil a tarefa de
identificar todas as suas partes e componentes. Temos consciência que o nosso esforço de
catalogação não foi suficiente para conhecê-lo no seu todo, e, segundo declarações de ex-
funcionários do grupo, nem mesmo a administração conhecia toda a extensão da organização. Para
entendermos o Grupo Bamerindus “real”, temos que considerá-lo como um conjunto de
organizações sob diferentes níveis de influência de um núcleo de poder mais ou menos coeso, visto
que, mesmo o centro de poder era composto por vários grupos de sócios, com interesses mais ou

44
Em 1992 o Midland Bank possuía 41% das ações do Bamerindus Midland Arrendamento Mercantil S.A. em sociedade com
o Bamerindus (51%) e a General Motors (GM) com 8%. Nessa época, a GM controlava as empresas Hughes que atuavam
em diversas áreas, entre elas a de telecomunicações e satélites. Em 1992, o Midland Bank foi incorporado pelo HSBC.
62

menos coerentes. Uma boa imagem do grupo seria a de uma rede de pessoas e organizações
consteladas em torno do Banco Bamerindus, em constante transformação ao longo do tempo, e que
teve, sob sua influência, em determinados momentos, unidades empresariais privadas, fundações,
órgãos de representação de classes e partes do próprio aparelho do Estado, como por exemplo, o
BADEP, o Banestado e a Secretaria de Finanças do Estado do Paraná durante alguns governos e o
próprio cargo de governador do Estado. A identidade do grupo era determinada pela subordinação
(direta e / ou indireta, formal e / ou informal) dessas partes a um núcleo de comando estratégico
cujas ações planejadas eram direcionadas para a manutenção e ampliação do poder e influência
sobre partes da estrutura econômica, social e política brasileira. Tal grupo econômico tinha
conexões cruzadas com outras grandes organizações nacionais e estrangeiras, integrando assim
amplas redes transcorporativas45. Sendo assim, o conceito de grupo econômico utilizado no caso
Bamerindus deve ser entendido num sentido ampliado que incorpora instituições econômicas,
políticas e partes da estrutura do Estado e do Governo.
178
A intervenção do Bacen, em março de 1997, dissolveu o grupo Bamerindus “real”,
algumas partes desapareceram, outras foram incorporadas ao Estado ou por grupos diferentes, e os
pedaços mais importantes e visíveis, o banco e a seguradora, ficaram com o HSBC.
179
Finalmente, acreditamos que a dinâmica da formação, estruturação e manutenção de grupos
econômicos e das redes corporativas estão diretamente relacionadas aos arranjos de poder das
“elites”, cuja configuração é determinada pelos problemas objetivos encontrados no exercício do
poder pela classe dominante.

2.6 ELITES ORGÂNICAS

180
A questão das elites ocupa um lugar tradicional de destaque entre as grandes linhas de
pesquisas da área das ciências humanas. Apesar de perder-se no tempo a percepção que na
organização social em geral existe uma certa tendência para concentrar o poder nas mãos de alguns
grupos de indivíduos, formando “elites”, ao que parece a tradição de eleger esse fenômeno como
objeto de estudos sistemáticos nas ciências sociais teve início com os trabalhos Elementi di scienza
politica (1896) de Gaetano Mosca e Système sociales (1902) de Vilfredo Pareto, seguidos pelos
trabalhos de Robert Michels. Com o tempo, outros estudos de diversos autores acabaram formando
diferentes correntes analíticas, que se agrupam basicamente em duas grandes vertentes. A primeira,
conhecida como “teoria elitista”, parte da contraposição entre elites e massa como elemento

45
Como sugestão a ser desenvolvida em futuros trabalhos, também poderíamos utilizar a “teoria de campos” (ver Introdução),
onde diversas organizações teriam diferentes órbitas em torno de Banco Bamerindus, aumentando não só o potencial
econômico de cada uma delas, mas também do banco e do conjunto em relação a outros sistemas concorrentes. Cada uma
dessas organizações ocuparia órbitas diferentes, mais ou menos próximas do centro gravitacional, e essas órbitas seriam
definidas pelas conjunturas econômicas, sociais e políticas do momento observado. Nesse contexto, o ordenamento legal
daria maior ou menor visibilidade para a composição do grupo, facilitando ou dificultando a percepção de suas conexões
pelo observador externo.
63

passivo da sociedade e limita o conflito a disputas entre diferentes grupos. A segunda, de tradição
marxista, relaciona o fenômeno das elites com a dinâmica social da luta de classes, sendo elas, as
elites, identificadas como vanguarda na luta pelos interesses da sua classe de origem.
181
Para este nosso estudo, partimos da noção que o conflito de classes promove no interior
destas, o surgimento e consolidação de grupos mais ou menos coesos, as elites, cujas ações estarão
voltadas para a promoção dos seus interesses específicos, que acabam abrangendo a defesa dos
interesses da classe como um todo, mesmo quando em conflito com alguns dos seus segmentos. A
configuração e composição dessas elites passam pela organização do aparelho do Estado,
entendendo ser ele um conjunto complexo de instituições com uma considerável tendência para agir
de forma integrada, na defesa dos interesses das classes que compõem o bloco no poder. Nesse
contexto, os grupos formados pelas elites se organizam e disputam o controle direto ou indireto do
aparelho do Estado e das instituições da sociedade política e civil, consideradas estratégicas para o
exercício do poder como, por exemplo, o banco central, forças armadas, tribunais, partidos políticos
e instituições privadas, desde que elas controlem determinados fluxos de recursos ou informações
estratégicas, e aí incluímos meios de comunicação de massa, institutos, associações de classe,
clubes sociais etc. No mundo econômico, tais elites se organizam para controlar instituições
também estratégicas como as financeiras, notadamente as bancárias e grandes grupos econômicos
que de alguma forma monopolizam ou concentram recursos que, de forma direta ou indireta,
possam promover ou constranger a ação das autoridades, de partes do aparelho do Estado ou
demais classes ou segmentos de classe.
182
Como não é objetivo desta tese entrar na discussão sobre elites, nos contentamos em buscar
entre os diferentes trabalhos na área, contribuições que nos auxiliassem na pesquisa e análise do
caso Bamerindus. Nesse sentido, encontramos um poderoso instrumento de análise no conceito de
46
“Elites Orgânicas” de Dreifuss (1986)47, sendo necessário fazer algumas adaptações para
adequá-lo ao estudo de caso, já que a proposta original do autor é para análises da grande estrutura
social. Esse conceito mostrou-se útil para nossa pesquisa porque articula a teoria das elites com o
conceito de Estado ampliado de Gramsci, permitindo analisar a ação de grupos organizados num
contexto marcado pelos avanços no processo de socialização da política e ampliação da sociedade
civil. Segundo Dreifuss, o conceito de elites orgânicas utiliza as noções de córtex político e estado
maior, que formariam um “[...] núcleo de vanguarda político-intelectual e de um braço
operacional, organicamente vinculado a uma classe, bloco ou fração”. (DREIFUSS, 1986, p. 24)
Esse núcleo seria formado por um conjunto de lideranças recrutadas entre “[...] empresários, tecno-

46
A palavra “orgânica” é empregada para caracterizar a íntima conexão dessa elite com a classe social de origem.
47
Segundo o autor, o conceito apareceu inicialmente em 1974 na sua dissertação de Mestrado Notes on the State and a
Brazilian Case Study, sendo mais tarde desenvolvido e utilizado na sua tese de doutorado, State, Class and the Organic
Elites: The Formation of an Entrepreneurial Order in Brazil — 1961/65, de 1980; e que deu origem ao livro 1964: A
conquista do Estado — Ação Política, Poder e Golpe de Classe. Em 1982 o conceito foi consolidado no trabalho “Notas
sobre o Conceito de Elite Orgânica”, em co-autoria com William C. Smith e apresentado na reunião da Anpocs daquele
ano.
64

empresários, intelectuais, burocratas e militares [...]” capacitados para “[...] articular e organizar
os seus interesses num projeto de Estado para si e para a sociedade [...]”. A luta política dessas
elites será pautada pelos interesses gerais da classe e transcendem os limites puramente
econômicos; bem como, fará parte da sua ação, transformar seus interesses em objetivos do
conjunto social:
37
Estas elites são as que denominamos de elites orgânicas: agentes coletivos políticos-
ideológicos especializados no planejamento estratégico e na implementação da ação
política de classe, através de cuja ação se exerce o poder de classe. (DREIFUSS, 1986,
p. 24).

183
Este nosso trabalho é um esforço de pesquisa sistemática para saber como o grupo de
capitalistas reunido em torno do Bamerindus, “a elite Bamerindus”, exercia o poder, suas alianças
e conflitos com outras elites e os interesses gerais da classe bem como suas relações com as demais
classes e a sociedade, e identificar em que medida a elite Bamerindus integrava o conjunto das
elites orgânicas locais e brasileiras. Nosso interesse é conhecer como essa elite agia para defender
seus interesses - “Enfim, a velha questão de uma classe em ação contra outras”.
184
O que caracteriza a elite orgânica é uma diferenciação em relação ao “conjunto das classes
dominantes e mesmo dos interesses representados no bloco de poder do qual faz parte, lidera e
viabiliza”; é sua função operar como “fator de poder” na promoção de seus interesses e de seus
aliados, no campo político. Essa diferenciação é estratégica para a ação política, visto que:
38
[...] a classe dominante é una na sua diversidade de unidades de acumulação
competitivas — seja no nível da composição de capital, no plano da produção setorial
ou no universo dos grupos econômicos —, às quais correspondem essencialmente
percepções e atitudes corporativas ou de solidariedade (e não atitudes ‘políticas’),
expressas em associações, sindicatos ou federações de classe. (DREIFUSS, 1986, p.
24).

185
Sendo assim, a principal função das elites orgânicas é mediar a “formação de blocos de
poder ou de frentes móveis de ação” promovendo e organizando a classe dominante para a ação
política coordenada tornando-se assim no agente que irá conferir “unidade real da classe (em si) —
na imagem gramsciana”, dando expressão política aos interesses de classe diante do Estado na
busca pela sua intervenção no conflito social traduzindo assim as necessidades econômicas em ação
política:
39
Essa mediação não se dá segundo uma tal de “lógica do capital”, já que o capital não é
nem lógico nem ilógico, muito menos um sujeito da ação política. A “articulação”
entre produção e instituição, entre economia e estado (ou no linguajar abstracionista,
entre estrutura e superestrutura) se dá pela luta política dos interessados. (DREIFUSS,
1986, p. 24-25).

186
Assim não podemos considerar o fenômeno da elite orgânica como apenas um reflexo
político da estrutura econômica, pois a política é uma ação permanente e produz organizações que
tendem a existir por longo tempo por estarem atreladas às questões econômicas, mas elas “se
distinguem entre si, o que permite falar separadamente de Economia e Política”.
187
Vamos ter a oportunidade de verificar essa separação acontecendo na prática diária da
65

política, durante a trajetória de José Eduardo no Senado e nos Ministérios, ou mesmo durante a sua
campanha para o Senado, quando a sua vida é transformada pela dinâmica do mundo político e seus
valores, sendo possível acompanhar sua trajetória de adaptação a esse novo universo. Nesse novo
contexto, sua identidade de poderoso banqueiro passou a ser não só relativizada pelos aliados, como
muitas vezes tornou-se um fardo explorado pelos adversários nas disputas pelos votos e o apoio da
opinião pública. No Ministério, a rígida e relativamente previsível hierarquia do banco privado é
substituída pelo relativismo da hierarquia estatal, subordinada à realidade transitória e movediça do
mundo político.
188
Dreifuss observa que essa arena é diferente, pois muitas vezes é dominada pela “paixão
política” que, apesar de nascer no “terreno orgânico e permanente da vida econômica”, acaba
despertando e incorporando “emoções e aspirações em cuja atmosfera incandescente, mesmo as
maquinações que envolvem a vida humana individual obedecem a leis diferentes daquelas de
ganância individual”. Nesse terreno, o banqueiro que queria tornar-se político vai enfrentar
articulações habilidosas de “velhas raposas do baixo clero do PMDB gaúcho”, contra sua
nomeação para o Ministério da Agricultura, ou ver suas pretensões pessoais na política serem
confrontadas dentro do próprio partido, por personagens como Hélio Garcia48, que nunca foi
banqueiro.
189
Como “córtex político”, a elite orgânica tem por função promover intervenções no interior
das classes dominantes, buscando articular a coesão através da regulação de conflitos e alianças,
para produzir uma organização mínima adequada para a luta pelos seus interesses. Nesse caso, o
grupo econômico e o banco tornam-se instrumentos fundamentais para promover ou constranger
conflitos e alianças entre capitalistas. Como estratégia, a elite promove a construção e divulgação
do discurso hegemônico, articulados e coerentes com seus interesses e divulgados através de todos
os meios disponíveis e necessários. Ela “[...] se responsabiliza pela formulação e desenvolvimento
de um discurso político-ideológico para o conjunto das classes dominantes, apresentado não só
como de interesse coletivo do capital, mas até da própria Nação”, (DREIFUSS, 1986, p. 26).
Nesse sentido conseguimos rastrear conexões do Grupo Bamerindus com a imprensa local e
nacional que, em determinados momentos, incluía os jornais Gazeta Mercantil e Folha de São
Paulo:
40
Funciona assim, como central de informações, como laboratório de idéias e como foro
para os grandes conglomerados empresariais, em questões relacionadas à propaganda
ideológica e política; desenvolvimentos de mobilização popular e assegurar a
consecução da hegemonia ideológica da estrutura de poder capitalista, através da
legitimação da ordem empresarial, definindo os parâmetros do permissível e do

48
“Último de uma linhagem em extinção, que já teve Benedito Valadares, Magalhães Pinto, Milton Campos, José Maria
Alkmim e Tancredo Neves, [...] na sala de sua casa, [...] Hélio Garcia, de paletó de uma cor (azul marinho) e calça de outra
(creme), conversa com o repórter do Correio Braziliense. - Doutor Hélio, o senhor é a última raposa mineira? - Isso é ocê
que tá falando [...] - Mas o senhor concorda? - Com o quê? - Que o senhor é a última raposa? - Uai, depende. O quê que
ocê chama de raposa? - Aquele político que tem a sabedoria, a esperteza [...] - Eu nunca gostei de esperteza. - E a
sabedoria? - Olha, ocê sabe: tem o sabido e tem o sábio [...] (E a prosa vai por aí afora)”. Fonte: REZENDE JR, J. Hélio
Garcia. 20 ago. 1998. Disponível em: <http://www.joserezendejr.jor.br/reportag/heliogarcia.htm>. Acesso em: 19 fev. 2005.
66

rejeitável e os pontos de referência do debate público, carimbando e separando


“realismo” de “utopia”. (DREIFUSS, 1986, p. 26).

190
O grupo Bamerindus foi um dos grandes promotores do Instituto Liberal do Paraná (IL-
PR), aparecendo José Eduardo entre os diversos empresários fundadores da instituição, tendo o
Bamerindus patrocinado encontros, seminários, palestras e publicações promovidas pelo IL-PR.
José Eduardo e Maria Christina também aparecem liderando articulações promovidas pela
Associação Comercial do Paraná que produziu encontros, cartas e manifestações públicas de
empresários, trabalhadores e políticos:
41
A elite orgânica é a pensadora de uma classe — a “parcela esclarecida da burguesia”
— funcionando como “autoconsciência cultural e política” e núcleo de autocrítica da
classe dominante. Através desta função ideológica, “a elite orgânica contribui para a
homogeneidade requerida, procurando transformar as contradições e antagonismos em
simples diferenças”, passíveis de (re) conciliação, assim como estabelecer a unicidade
organizacional e política na diversidade ideológica classista interna, incorporada e
interiorizada em seu programa de ação e em seu projeto de Estado. (DREIFUSS,
1986, p. 26).

191
Como “estado-maior” da classe dominante, a elite orgânica tem por função preparar o
planejamento estratégico de classe e formular as principais linhas de ação e dirigir a ação da classe
no enfrentamento político:
42
Cabe ao estado-maior estabelecer a estratégia, à luz da razão fria, organizando a
paixão social e classista em forma de reflexão deliberada e de racionalidade política.
[...] A tarefa política da elite orgânica no conflito de classes, frente às classes
subalternas, inclui o combate ideológico em nome do “interesse geral nacional” ou da
manutenção dos parâmetros “naturais” da sociedade, através dos mais diversos canais
e mecanismos, dos vários recursos e áreas táticas (da pressão à coerção, do cooptação
ao aliciamento, do confronto de idéias ao exercício da autoridade). (DREIFUSS, 1986,
p. 27).

192
Nesse contexto, os grupos econômicos, como o Bamerindus, são expressões econômicas
das elites orgânicas, pois além de reunirem grandes capitalistas como sócios, constituem centros de
comando estratégico com recursos e pessoal especializado. Cada grupo tem seu “estado maior” na
empresa controladora “holding”, cuja função é planejar e promover as ações estratégicas que
entendem como necessárias para a manutenção ou expansão do poder da organização. Nesse núcleo
estarão os grandes capitalistas cuja liderança necessita do reconhecimento dos demais capitalistas e
da sociedade para conseguir manter o fluxo necessário de recursos captados tanto no mercado
financeiro como no de capitais. Em boa parte, a cotação nas bolsas de valores dos títulos emitidos
pelo grupo, representará o maior ou menor grau de confiança dos demais capitalistas na capacidade
e compromisso dessa elite de promover os interesses da classe. Essa capacidade inclui o acesso aos
fundos públicos e aos processos decisórios do Estado. Os anos 1990 foram marcados pela
valorização de indicadores da capacidade de liderança e comprometimento dessas elites, entre elas
as agências de avaliação de risco, cujas opiniões passaram a ter grande influência sobre o mercado
financeiro e de capitais no Brasil. O Bamerindus, por exemplo, teve seus problemas agravados com
67

a notícia, em outubro de 1995, que a Agência Moody’s49 estava revendo a classificação do banco.
193
Normalmente o capitalista prefere delegar o poder para representantes de confiança e
capacitados para as complexas atividades gerenciais e políticas inerentes às funções de comando
dos grupos econômicos. Ele somente assume diretamente a função, e temporariamente, quando
objetivamente percebe que o engajamento é fundamental para manter ou ampliar seus negócios, o
que talvez explique a atuação política direta de José Eduardo. Miliband, por exemplo, constatou
que:
43
De qualquer modo, a idéia de que os homens de negócios estão afastados dos
problemas políticos de maneira direta e pessoal, exagera enormemente a sua relutância
em buscar o poder político, ao mesmo tempo subestima o fato de que tal busca foi
muitas vezes bem sucedida. Nos Estados Unidos, eram os empresários que
constituíam o maior grupo ocupacional singular dos gabinetes, entre 1889 e 1949; e do
número total de membros do gabinete entre tais datas, mais de 60% eram empresários
de um tipo ou outro. Nem mesmo durante o governo de Eisenhower (1953 a 1961)50
foi a presença dos empresários nos gabinetes dos Estados Unidos menos marcante.
Quanto aos membros dos gabinetes britânicos, entre 1886 e 1950, cerca de um terço
correspondia a empresários, inclusive três primeiros-ministros - Bonar Law, Baldwin
e Chamberlain51. Os empresários também não estiveram mal representados nos
gabinetes conservadores que estiveram no poder entre 1951 e 1964. E mesmo se os
empresários tiveram menos êxito Nesse sentido, em alguns outros países capitalistas
avançados sua representação jamais foi insignificante. (MILIBAND, 1982, p. 76).

194
Nessa discussão temos também que incorporar a questão da burocracia que, estatal ou
privada, assume um papel importante no exercício do poder. Mills (1975), Miliband (1982) e
Galbraith (1983)52, entre outros, abordaram a importância dos cargos de comando das burocracias
pelos quais, sem serem proprietários, grupos de elite da burocracia acabavam acumulando um
poder muitas vezes superior ao dos proprietários; esses estudos mostram que o recrutamento para
tais cargos normalmente era realizado dentro da classe dominante ou mesmo entre os próprios
empresários.
195
No caso Bamerindus vamos poder constatar que o poder real estava concentrado nas mãos
dos principais sócios-proprietários e que, apesar da notoriedade de alguns personagens que
integraram a diretoria do grupo, como por exemplo, Maurício Schulman ou Belmiro Castor
Valverde, esse “escalão” de administradores profissionais, os “tecnocratas”, estavam nitidamente
subordinados ao poder dos grandes sócios do grupo. Em nossa pesquisa não encontramos
53
evidências no caso Bamerindus que corroborassem as idéias do “gerencialismo”

49
Em 1900 John Moody criou a empresa John Moody & Companhia que passou a publicar o Moody's Manual of Industrial
and Miscellaneous Securities nos EUA, e em 1909 passou a publicar avaliações de empresas para o público formado por
analistas e investidores do mercado financeiro e de capitais daquela cidade. Nos anos 1980 passou a expandir suas atividade
para a Europa e Japão, bem como a publicar avaliações de empresas estrangeiras com ações na Bolsa de Nova York. Fonte:
MOODY´S Investors Service. Quem somos? São Paulo, [2002]. Disponível em: <http://www.moodys.com.br/brasil/quem_
somos.htm>. Acesso em: 02 dez. 2005..
50
Cf., p. ex., Mills, Elite do Poder, ps. 232 e seg, apud Miliband (1982).
51
Fonte: LASSWELL et al. The Comparative Study of Elites, p. 30. Cf. e Guttsman, The British Political Elite, p. 92 e seg.
Apud MILIBAND, R. O Estado na sociedade capitalista. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
52
Fonte: GALBRAITH, J. K. A era da incerteza. 5º ed. São Paulo: Pioneira, 1983.
53
Fonte: H. D. Lasswell et al. The Comparative Study of Elites. 1952, p. 30. Apud Miliband (1982).
68

(“managerialism”)54.
196
O recrutamento para esses postos de comando está relacionado ao domínio de
competências específicas para o exercício do poder, o que nem sempre é possível encontrar dentro
da própria classe ou segmento de classe. Daí a importância da criação e manutenção de escolas
especiais com o objetivo de formar mão-de-obra para os postos de comando da burocracia. Boa
parte das elites ligadas ao Bamerindus, além de terem origem social nas famílias mais ricas da
região e relações de parentesco, também estudaram nas mesmas escolas e freqüentavam os mesmos
clubes. Nesse contexto, a ação de controle se processa na forma de delegação de poder para tarefas
que exigem competências específicas. Marx já observava que, para esse recrutamento, serão
escolhidos os mais capacitados não importando a origem social. Mas, como as escolas
especializadas exigem alto investimento, normalmente as classes com maior poder aquisitivo é que
terão acesso ao treinamento necessário, sendo assim os principais fornecedores de quadros. Em
determinado momento, o Bamerindus iniciou investimentos consideráveis para formação de
quadros mais preparados para o exercício do poder nos postos do grupo, chegando a criar cursos
internos regulares e, durante muito tempo, seus funcionários lotavam os cursos superiores de
Administração, Ciências Contábeis e Economia em Curitiba.

2.7 ORGANIZAÇÃO CORPORATIVA

197
Um dos instrumentos mais importantes para o exercício do poder pelas elites orgânicas são
as organizações de representação corporativa, que agregam empresários do setor na luta por seus
interesses. Alguns importantes estudos sobre estas organizações nos EUA encontramos em Moran
(1984), Lindblom (1980), Coleman (1994a e 1994b) e, no Brasil, entre outros, Minella (1988 e
1996) – que concentram seus estudos sobre o empresariado financeiro, com destaque para os
banqueiros.
198
Moran (1984) observa que poder econômico não necessariamente se traduz em poder
político e, apesar de todo o poder discricionário dos bancos, estes estão submetidos ao poder
público através de leis, regulamentos e intervenções. O exemplo norte-americano deixa claro que o
conjunto de regulamentos contribui muito para a formatação do sistema financeiro e limitação do
poder das suas instituições. Partindo da proposição de Lindblom (1980), que aponta para a posição
privilegiada dos empresários na estrutura de poder, por disporem de vantagens comparativas em
relação às outras classes sociais, tais como, organização, capital e influência política Moran

54
Segundo Poulantzas, para os autores gerencialistas, “[...] a atual separação entre propriedade privada e o controle, transferiu
o poder econômico dos empresários para os 'managers'. Estes últimos não obtêm benefícios como proprietários em sentido
estrito e, conseqüentemente, a prossecução do lucro não é seu objetivo [...] o lucro não constitui motivação para o seu
comportamento, mas sim o crescimento ou o desenvolvimento. Já que a classe dominante se define aqui pela prossecução do
lucro e esta prossecução já não é característica dos gestores da economia, então a própria classe dominante já não existe:
estamos atualmente confrontados com uma ‘pluralidade de elites’ uma das quais é a dos managers”. (POULANTZAS &
MILIBAND, 1975, p. 15).
69

relativiza esse poder, diante da capacidade de regulação pública imposta pelas outras classes sociais
através do Estado e a necessidade do próprio sistema financeiro de estabelecer regras e controles
para minimizar os riscos de crises de confiança. Observa, porém, que o poder público também é
condicionado pela realidade do mercado, quando são comuns resultados inesperados emergirem da
estrutura de regulamentos e normas. A regulação pública faz mais do que ratificar as decisões dos
banqueiros, elas permeiam o mercado, direcionam a estrutura, permitindo tanto desenvolvê-la como
constranger o seu desenvolvimento.
199
Nesse contexto, as organizações políticas e corporativas dos empresários financeiros
assumem uma dimensão que extrapola a função exclusiva de defesa dos seus interesses. O seu
poder não estaria somente na capacidade de mudar leis e normas, mas também no que podem fazer
para impedir sua aprovação ou contorná-las. Para o autor, o poder dos banqueiros estaria na
capacidade de coalizão do poder público com os interesses privados para enfrentar a oposição de
outros setores bem como na capacidade de ultrapassar o controle público utilizando a estrutura do
sistema, inovações e a organização interna dos bancos. Esse poder manifesta-se em determinados
momentos e geram transformações na estrutura de controle público, como exemplo, a criação e
implantação dos caixas eletrônicos que, no caso brasileiro, formaram um poderoso instrumento para
ultrapassar o controle público sobre as horas de funcionamento dos bancos, permitindo estender
suas atividades de 8 para 24 horas de atendimento. Também permitiram neutralizar boa parte do
poder de pressão dos sindicatos dos bancários.
200
Coleman (1994a)55 também aborda a questão do poder dos banqueiros, iniciando com uma
análise sobre o conceito de poder weberiano, quando identifica duas categorias: a primeira, como o
poder relacionado com a capacidade do exercício de comando e a probabilidade de ser obedecido, a
chave para o exercício desse poder estaria na capacidade de os atores sociais definirem e realizarem
seus interesses específicos, o que torna crucial a construção de associações para a realização dessa
tarefa. A segunda categoria seria o poder de constrangimento, ou a capacidade de inibir a ação de
outros grupos, sem a necessidade de comandar a ação destes. Como já vimos, essa segunda
categoria assume uma importância muito grande no processo de hegemonia financeira. Tais
conceitos nos remetem para a importância das associações de classe como fonte de poder político, e
para a aferição da capacidade dessas associações transformarem poder econômico em político. Para
tanto Coleman (1994a) sugere quatro passos, a saber:
201
(1) Grau de competição dos seus membros: a densidade da representação dependerá da
concorrência entre as diversas associações. Quanto maior for a concentração, maior será a
capacidade de articulação para definir e realizar os interesses da classe.
202
(2) Recursos internos das associações: esses recursos irão determinar a capacidade de
mobilização da classe na defesa de seus interesses, constituindo quadros de intelectuais orgânicos e

55
Fonte: COLEMAN, William Donald. Policy convergence in banking: a comparative study. Political Studies, vol. 42, nº 2,
1994a, p. 274-292.
70

estruturas burocráticas permanentemente mobilizados. Para análise Coleman identifica três fatores
básicos: (a) Tamanho do quadro de pessoal: a densidade de representação, quando os integrantes
representam os interesses das maiores organizações; (b) Status político: quando o Estado define
recursos, domínio, representação e regulamentos.
203
(3) Conexões com outras organizações: a competição pela atenção das autoridades políticas
irá estabelecer um quadro competitivo entre as associações, mas como o autor observa, o poder
político irá depender da ação coordenada. O estabelecimento de conexões entre as diversas
representações irá determinar a possibilidade de ações conjuntas, acordos pontuais, ou estabelecer
regras de convivência. Em sua análise, o autor classifica as conexões como altamente
institucionalizadas, institucionalizadas, institucionalizadas informalmente e não institucionalizadas.
Dos países analisados, Coleman observa que os EUA possuem o sistema mais competitivo e com
menor número de conexões horizontais.
204
(4) Nível de integração vertical: a existência ou não de associações de cúpula do sistema,
abrangendo o domínio sobre grande número de outras associações especializadas, buscando a
integração vertical através de uma estrutura hierárquica corporativa. Quanto mais vertical for esta
estrutura maior será o poder das organizações para definir e realizar seus interesses sobre o Estado e
o restante da sociedade.
205
O autor observa que, tanto o Canadá quanto os Estados Unidos, não contam com
organizações de cúpula para o setor financeiro, o que já não acontece com a Alemanha e França
onde o sistema encontra status público; ou na Inglaterra onde, apesar de ser limitado, busca
coalizões pontuais diante de interesses comuns.
206
No livro Banqueiros: organização e poder político no Brasil, Minella (1988) apresenta
uma extensa análise sobre a organização corporativa dos banqueiros brasileiros entre 1960 e 1980,
comparando o avanço da organização com o processo de concentração bancária, bem como a
atuação dos representantes junto ao Estado, tanto no legislativo como no executivo, buscando
promover ou constranger as ações do poder público sobre a atividade financeira. Nesse período, as
grandes batalhas que mobilizaram o setor foram a criação de entidades de representação de classe, a
regulação do Sistema Financeiro Nacional, que acabou acontecendo em 1964, e a crescente
mobilização e organização da categoria dos bancários. Nesse cenário, o autor identifica o então
presidente do Banco Mercantil Industrial do Paraná (Bamerindus), Othon Mäder, na época
deputado federal pela UDN, como uma das principais lideranças a atuar tanto na organização
corporativa como na defesa do projeto de reforma bancária elaborada pelos banqueiros e
apresentada por ele em agosto de 1962, no Congresso Nacional.
207
Em Empresariado financeiro no Brasil: grupos financeiros e o novo contexto sócio-
econômico, Minella (1996) analisa a relação entre os grupos financeiros e a direção dos principais
órgãos de representação no período de 1989 a 1995. O autor identifica uma mudança importante no
quadro da representação dos interesses do empresariado financeiro na última década, com
71

tendências para a diversificação ao lado da expansão e consolidação dos grupos financeiros. Sugere
que devemos considerar a hipótese que esses órgãos estão vinculados a uma extensa e complexa
rede de relações nacional e internacional, de caráter político-ideológico, o que lhes garante um
enorme potencial de influência sobre as políticas que afetam o setor. Como pano de fundo,
apresenta um conjunto de tendências e acontecimentos relevantes para o sistema financeiro: (a)
expansão dos grandes grupos financeiros para outros setores; (b) informatização e terceirização
com impacto sobre a estrutura de empregos; (c) manutenção da rentabilidade apesar dos planos
econômicos, através de ajustes estruturais tanto na receita como nos custos; (d) reforma do sistema
com apoio do Estado através do PROER; (e) batalhas políticas em torno da CPI dos Bancos; (f)
batalha política em torno do art. 192 que trata do sistema financeiro; (g) exposição pública na
campanha política para o Congresso e Presidência da República em 1994 e, (h) a manutenção de
um conjunto de órgãos de representação de classe. Em seguida, Minella aponta para a necessidade
de considerarmos o conceito de grupos financeiros pela sua importância tanto como agentes
privilegiados na esfera global – pela sua influência ou potencial de influência nas políticas públicas,
como pela sua atuação no campo cultural, constituindo-se, os grupos, em grandes artífices no final
do século XX. Nesse ponto, observa que, em 1994, mais da metade dos 40 maiores grupos privados
nacionais integravam empresas financeiras, incluindo os 10 maiores bancos. Também sugere que,
diante da possibilidade de redes trans-associativas, seria necessário identificarmos as conexões
desses grupos com os demais, para verificar a possibilidade de ações de coordenação informal.
Aponta também que a expansão do sistema financeiro, inovações tecnológicas quanto aos produtos
e a participação relativa no mercado que, além de se constituírem como novas oportunidades,
também apresentam novos problemas que sobrecarregam a agenda reguladora do sistema.
Basicamente, Minella considera que o estudo do poder do empresariado financeiro na sociedade
contemporânea passa pelas questões relativas ao processo de hegemonia financeira, formação e
atuação dos grupos econômicos, participação no processo político e atuação das associações de
classe.
208
Na seqüência deste nosso trabalho, vamos ter a oportunidade de verificar que o Bamerindus
desenvolveu uma forte atuação em várias associações de classe, tendo participado da criação, em
1953, do Sindicato das Empresas de Seguros Privados e Capitalização no Estado do Paraná
(Sindiseg-Pr)56 e atuado em todas as suas diretorias até os anos 1990. Também participava da
Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), da Associação Comercial do Paraná (ACP) e, entre
outros, da Febraban, conseguindo indicar Maurício Schulman para a Presidência da instituição, em
1994.

56
Fonte: SINDISEG PR - Sindicato das Empresas de Seguros Privados e Capitalização no Estado do Paraná. História.
Curitiba, [2003]. Disponível em: <http://www.sindisegpr.com.br/hist.htm>. Acesso em: 23 abr. 2005.
72

2.8 SÍNTESE ANÁLISE E CONCLUSÕES.

209
Neste capítulo apresentamos uma breve revisão de alguns dos principais conceitos que
utilizamos como ferramentas básicas para análise e interpretação da tese. Inicialmente analisamos o
conceito de capital financeiro proposto por Marx e mais tarde desenvolvido por Hilferding, cuja
atualidade constatamos nos trabalhos de Arrighi (1996), Jameson (2001) e Chesnais (2005). O
conceito identifica e separa o fenômeno financeiro do conjunto maior formado pelo capital. Com o
tempo, esse tipo de capital se desloca da estrutura de produção e adquire dinâmica própria,
movendo-se de forma bastante independente do restante das atividades econômicas. Esse processo
tende a concentrar o poder econômico na área financeira, que passa a ter relações assimétricas com
os demais setores da economia, configurando o que muitos autores caracterizaram como de
hegemonia financeira sobre a produção. Tal processo ganhou importância no sistema capitalista e
constituiu-se num dos principais mecanismos de reação burguesa ao avanço da socialização da
política, tornando-se um poderoso instrumento de constrangimento do Estado e da sociedade, no
sentido de preservar o modo de produção capitalista. Outra característica importante desse tipo de
capital é a formação de grandes mercados financeiros com uma forte tendência para descolar-se do
processo de produção socialmente necessário, e concentrar-se em movimentos de espirais
especulativas.
210
O capital financeiro também desloca o centro decisório da firma, aqui entendida como
unidade empresarial, para os grupos econômicos, formando núcleos de poder econômico que
controlam várias empresas de setores diferentes. Com o tempo, tais grupos podem condicionar,
constranger ou neutralizar o poder do Estado. No caso Bamerindus, tivemos que ampliar o conceito
de hegemonia financeira e de grupos econômicos para incorporar aspectos políticos, ideológicos e
as conexões com partes do Estado, governo e sociedade civil. O núcleo de poder do grupo
econômico é dominado por uma elite cuja principal característica é ser organicamente vinculada
aos interesses de sua classe ou segmento de classe. Tais “elites orgânicas” controlam o
planejamento estratégico da organização, e suas ações ultrapassam as fronteiras do mundo
econômico e empresarial, abrangendo também a sociedade política e a civil, participando e
controlando cargos e instituições públicas ou privadas, consideradas estratégicas para o exercício
do poder de classe. Além dos partidos e cargos de governo e de Estado, as “elites orgânicas”
controlam e influenciam organizações corporativas de representação de classe, criadas para
fortalecer o seu poder político. Nessas organizações se reúnem as demais elites concorrentes,
buscando criar mecanismos de intermediação dos conflitos internos e desenvolver ações
coordenadas de defesa de interesses comuns. Tais ações têm como objetivo influenciar o mercado,
o Estado, a política e a sociedade em geral, buscando transformar os interesses corporativos em
objetivos da sociedade como um todo – processo este que Gramsci chamou de hegemonia.
211
Munidos com esses conceitos, convidamos o leitor a nos acompanhar agora na jornada de
estudo e análise da complexa rede econômica, social e política que durante muito tempo esteve
73

reunida em torno do Bamerindus, começando pelo Quadro 2-2 no qual relacionamos


cronologicamente os principais eventos de sua história.

Quadro 2-2: Linha da história (síntese).


Ano Descrição
1865 Capitalistas ingleses e chineses criam o HSBC em Hong-Kong – China.
1926 A família Vieira abre uma seção bancária na sua casa comercial em Tomazina (PR).
1929 A família Vieira e um grupo de capitalistas criam o Banco Popular e Agrícola do Norte do
Paraná (BPANP) em Tomazina.
1938 Moysés Lupion de Troya compra ações do Banco Alemão Transatlântico (Deutsche
Überseeische Bank)
1942 Grupo de empresários paranaenses funda o Banco Comercial do Paraná (Bancial)
1943 Lupion cria o Banco Meridional da Produção (BMP) na antiga sede do Banco Alemão
Transatlântico em Curitiba, que havia sido fechado pelo governo Federal em 1942, pelas
suas ligações com o Partido Nazista.
1944 O Bancial incorpora o BPANP e Avelino A. Vieira assume uma Diretoria do banco.
1951 Um grupo de empresários liderado por Avelino Vieira sai do Bancial e adquire o controle do
Banco Meridional de Lupion (PSD) e mudam o seu nome para Banco Mercantil e Industrial
e
do Paraná (Bamerindus). O senador Othon Mäder (UDN) é mantido na Presidência e
1952 Avelino Vieira assume o cargo de Diretor Superintendente.
1969 Avelino Vieira substitui Othon Mäder que deixou a Presidência do banco em 1968.
1971 José Eduardo coordena os trabalhos de criação do Banco Bamerindus do Brasil S.A. através
da incorporação das diversas filiais regionais do grupo.
1974 Morre Avelino Vieira; Tomaz Edison de A. Vieira assume a Presidência e José Eduardo a
Vice-Presidência. O Bamerindus era o 5º maior banco privado do Brasil e incorpora o
Bancial. Jayme Canet Júnior, então sócio do Bamerindus, foi indicado para o cargo de
Governador do Paraná.
Morre em janeiro Luís Antônio de Andrade Vieira, diretor de várias empresas do Grupo
Bamerindus e presidente da Caixa Econômica do Estado de São Paulo – irmão de José
Eduardo.
1981 Morrem em acidente aéreo no mês de julho, Tomas Edison e Cláudio Enoch de Andrade
Vieira, presidente e vice-presidente do Grupo Bamerindus – irmãos de José Eduardo.
José Eduardo de Andrade Vieira assume a Presidência do grupo Bamerindus no final
de julho de 1981.
1983 Início do governo José Richa no Paraná, tendo como vice-governador João Elísio Ferraz de
Campos, na época, sócio e diretor do Bamerindus.
1985 Bamerindus enfrenta boatos e forte crise de liquidez após a intervenção do Bacen nos
bancos Sul Brasileiro, Habitasul, Brasilinvest, Maisonnave, Auxiliar e Comind.
1986 Início do governo João Elísio no Paraná.
1987 O Bamerindus lança a Conta Remunerada (CRB) e conquista a posição de 3º maior banco
privado em volume de ativos.
1989 José Eduardo apoiou a candidatura presidencial vitoriosa de Fernando Collor de Mello.
74

Quadro 2-2: Linha da história (síntese).


Ano Descrição
1989 Bamerindus inaugura a 1.001ª agência em São Paulo – 2º maior rede bancária privada
1990 José Eduardo é eleito senador e Maurício Schulman assume a Presidência do Bamerindus
1992 JE assume o MICT e entra em conflito com a equipe econômica do governo Itamar Franco
1993 O Bamerindus adquire ações da CSN e M. Schulman é eleito presidente da empresa
1994 JE e o PTB apóiam FHC, que é eleito Presidente da República ainda no 1º turno.
1994 Bamerindus vende ao HSBC 6,7% de participação no banco.
1995 JE assume o Ministério da Agricultura no governo FHC.
1997 Bacen intervém no Bamerindus e transfere parte do grupo para o HSBC.
Observações: Uma versão ampliada deste quadro encontra-se disponível como Apêndice no final da
tese. Nela buscamos correlacionar os principais eventos históricos que marcaram a política, a
economia, o sistema financeiro, o sistema bancário e o Bamerindus, bem como a produção do
referencial teórico utilizado neste trabalho.
Fonte: Quadro elaborado pelo autor com base nas informações disponíveis na tese.
3 CAPÍTULO II: O SISTEMA FINANCEIRO

– É por puro milagre que estas pedras


se mantém juntas...
(SCHUITEN &PEETERS, 1987)1

3.1 INTRODUÇÃO

212
Neste capítulo, apresentamos uma breve revisão da história do Sistema Financeiro
internacional e brasileiro, concentrando a análise no período entre 1980 e 1994, com o objetivo de
contextualizar a pesquisa nas grandes transformações que aconteceram no sistema e seus efeitos
sobre o Bamerindus. Para tanto, inicialmente analisamos o Sistema Financeiro Internacional (SFI)
para, na seqüência, focalizar o Sistema Financeiro Nacional (SFN).

3.2 O SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL

213
Desde o início dos anos 1970, o Sistema Financeiro Internacional (SFI) vem passando por
transformações profundas que resultaram, nos anos 1990, na consolidação da hegemonia financeira
sobre a economia e a sociedade internacional, com poder suficiente para constranger Estados e
políticas públicas de diversos países, mesmo aqueles situados nos grandes centros do capitalismo,
como os EUA, Alemanha e Japão. A história de José Eduardo e do Bamerindus está intimamente
relacionada com esse processo, visto que, no período que estudamos (1981-1994), o sistema
financeiro brasileiro (SFB) esteve sob forte pressão para modificar suas conexões com o SFI, para
aumentar a interpenetração e a conseqüente subordinação aos grupos de capitalistas que
predominavam no sistema financeiro internacional. Para um melhor entendimento desse processo
histórico, dividimo-lo em quatro grandes períodos: 1) hegemonia inglesa (1816-1914), 2)
Interguerras (1918-1943), 3) Bretton Woods (1944-1971) e 4) mundialização financeira (1972-
1994).
214
O primeiro período, entre 1816 e 1914, foi marcado pela hegemonia financeira inglesa
sobre o SFI e o mundo econômico internacional. Suas principais características eram a arquitetura
liberal, o padrão-ouro que lastreava a libra esterlina e a casa bancária como principal instituição
financeira. O conflito básico nesse período era entre o comércio internacional livre de barreiras e a
independência das nações, pois o poderio econômico e militar britânico mantinha o mapa

1
Fonte: SCHUITEN & PEETERS. A torre. Tradução de Manuela Barreto. Lisboa: Edições 70, 1987.
76

geopolítico favorável ao liberalismo inglês.


215
No segundo período, entre 1918 e 1943, o padrão-ouro havia sido abandonado durante a I
Guerra Mundial em razão do esforço para financiar a guerra. Desse conflito, a Inglaterra emergiu
enfraquecida e, apesar das tentativas de recuperar sua hegemonia durante os anos 1920, suas
pretensões foram abandonadas de vez na crise de 1929.
216
No terceiro período, entre 1944 e 1971, o SFI esteve estruturado sob o acordo de Bretton
Woods, ratificado no final da II Guerra Mundial, que basicamente estabeleceu o dólar como moeda
padrão para as transações internacionais, criou organismos como o FMI e o Banco Mundial, e
institucionalizou um sistema fracionado e confinado às fronteiras nacionais que, além de servir de
barreira de contensão para crises financeiras, também possibilitava financiar projetos nacional-
desenvolvimentistas locais.
217
O quarto período, 1971 a 1994, tem suas raízes lançadas durante os anos 1960, quando a
arquitetura do sistema começou a enfrentar pressões geradas dos excedentes produzidos na Europa,
pelo lucro das corporações norte-americanas obtido nos empreendimentos multinacionais e o
crescimento dos chamados investidores institucionais. Essa massa de recursos encontrou, no setor
2
“off-shore” de Londres, abrigo para operar livre do intrincado emaranhado legal do continente
europeu, do americano e do Japão, além de servir de proteção contra o dólar comprometido com o
déficit dos EUA.
218
A ameaça de deslocamento do centro financeiro para Londres provocou reações dos EUA,
que abandonaram o padrão-ouro para o dólar e iniciando assim o processo de desmonte da estrutura
de Bretton Woods e transição do regime de finanças administradas para o de finanças de mercado.

3.2.1 A HEGEMONIA INGLESA (1816-1914)

219
Entre 1816 e 1914, o SFI tinha a moeda inglesa como parâmetro para o câmbio
internacional, com base no padrão-ouro oficialmente adotado pela Grã-Bretanha em 1816. Na
época, tinha por paridade a razão de 123,27 grãos3 de ouro por libra esterlina, possibilitando que ela
servisse para o câmbio e reserva dos países que operavam no SFI até o início da I Guerra Mundial.
Esse papel não poderia ser desempenhado sem se considerar a estabilidade política e econômica da
Grã-Bretanha, bem como o poder e prestígio internacional da Marinha Real e do Banco da
Inglaterra.
220
No final do século XIX, os excedentes gerados, tanto na Europa como no restante do

2
Zonas privilegiadas existentes em várias partes do globo, também conhecidas como “tax havens” ou “paraísos fiscais” ou
“zonas livres” convencionou-se dar o nome inglês de “off-shore”. Assim, uma “off-shore” é região situada no exterior,
sujeita a um regime legal diferente, “extraterritorial” em relação ao país de domicílio dos investidores. A expressão é
aplicada mais especificamente para os “paraísos fiscais”, onde os investidores gozam de privilégios tributários (impostos
reduzidos ou até mesmo isenção de impostos). E isso só se tornou possível quando alguns países adotaram a política da
isenção fiscal, para atrair investimentos e capitais estrangeiros.
3
Grão: unidade de medida equivalente a 49,8 miligramas, ou 1/4 do quilate.
77

mundo, encontravam, no setor financeiro de Londres, um abrigo seguro para o conturbado ambiente
continental de guerras, revoluções e transformações capitalistas. As constantes crises financeiras
levaram à concentração da atividade bancária, bem como, nesse período, ocorreu grande
desenvolvimento do sistema, quando surgiram novos tipos de sofisticadas operações que buscavam
atender à demanda por mecanismos que financiassem o comércio internacional e os novos Estados
que se constituíam nas regiões de fronteira capitalista – na América e Ásia.
221
Nesse período, os bancos ingleses estruturavam-se em cinco grandes grupos: 1) sociedades
anônimas (“joint-stock banks”)4; 2) bancos privados (“private banks”)5; 3) bancos coloniais6; 4)
bancos de investimento (“Merchant bank”)7 e os 5) bancos de descontos (“discount houses”).
Também ocorreu um grande movimento de fusões e incorporações, quando pequenos e médios
bancos privados foram absorvidos pelas grandes instituições organizadas na forma de sociedades
anônimas. As organizações bancárias resultantes distinguiam-se dos demais bancos europeus, pois,
segundo (CASSIS, 1994, p. 313), essas instituições não podiam ser consideradas no sentido usual
dado às corporações, mas sim como conglomerados de banqueiros em um empreendimento com
objetivos e interesses mais ou menos comuns.
222
Organizados em uma ampla e complexa rede de relações sociais e econômicas, esses
banqueiros participavam dos conselhos diretores de outras instituições bancárias, empresas, órgãos
reguladores, agências governamentais, associações de classe, entre outros, garantindo seus
interesses ou de seus bancos na condução dos negócios. Formando uma elite específica dentro do
tecido social inglês, esses senhores tinham sua origem nas antigas famílias de banqueiros ou na
aristocracia, cursavam as mesmas escolas e clubes e na maioria das vezes os casamentos
realizavam-se entre pares para garantir a continuidade do grupo. Eles formavam o embrião do que
viria a ser o “establishment” britânico no interguerras. Neste contexto, o mundo das finanças e da
política, bem como o Estado, se confundiam com freqüência. Outra característica desse período era
o modo informal como o sistema era estruturado e controlado, havendo uma grande aversão pela
interferência externa e legislativa. Segundo Cassis (1994), a maioria das regras não eram escritas e
funcionava na base do “acordo de cavalheiros”.

4
Joint-stock banks: A form of business organization, probably originating in England in the 16th Century, characterized by
the division of capital into shares. The shares became readily transferable only in the 17th Century. Fonte: GASTINEAU,
Gary L.; KRITZMAN, Mark P. Verbete: Joint-stock banks. Dictionary of Financial Risk Management. 1º ed. Swiss Bank
Corporation, 1992 & American Stock Exchange, 2002. Probus, 1996. Disponível em: <http://www.amex.com/>. Acesso em:
10 mar. 2004..
5
“Private banking: The providing of banking services to very wealthy individuals and families. Many financial services firms
require a person or family to have a certain minimum net worth to qualify for private banking services”. Fonte:
(GASTINEAU &KRITZMAN,1996).
6
O autor identifica que, na época, era classificado como banco colonial o HSBC – The Hongkong and Shanghai Banking
Corporation Limited, sucessor do Banco Bamerindus S.A. (CASSIS, 1994:9).
7
“Merchant Bank: In the UK denotes one of a group of institutions that carry on a varied range of financial or finance-related
activities. These activities include financing trade, financing foreign governments and foreign enterprises, arranging
securities issuance, mergers and acquisitions, money management and dealing in currencies”. (GASTINEAU &
KRITZMAN, 1992).
78

223 8
Se no século dezenove a “City” era considerada liberal, no final do período, o Partido
Conservador tornou-se a expressão do mundo dos negócios, apesar de encontrarmos banqueiros
também filiados a outros partidos. Mas devemos observar que as diferenças partidárias na
comunidade dos banqueiros eram secundárias pelo prisma da defesa dos seus interesses no campo
da política. Essa ação realizava-se por meio de diversos canais, como o Parlamento e instituições
como o Committee of the London Clearing Bankers, a Central Association of Bankers, o Institute of
Bankers ou, ainda, por meio de consultas que políticos ou o governo faziam aos banqueiros mais
influentes.
224
Não podemos considerar o Parlamento como o principal cenário de intervenção dos
banqueiros, ou mesmo que o número de banqueiros / parlamentares tenha sido significativo para a
ação corporativa, mas sim, como uma importante fonte de prestígio social em razão da disputada
condição de membro do Parlamento, que significava mais poder e influência no jogo político e
econômico. Como exemplo de banqueiros / políticos temos a família Smith, que chegou a ter quatro
membros no Parlamento entre 1863 e 1868, todos sócios do banco Smith, Payne of Lombard Street,
tendo computado uma participação total de 11 parlamentares entre 1832 e 1918 – sendo seguida por
outras famílias: Baring, 12 parlamentares; Rothschild, 6; Praed, 5; Hoare, 5; Glyn, 4; Grenfell, 4;
Mills, 4, etc.
225
A ação desses banqueiros no Parlamento era mais que discreta, como por exemplo, a de
Eric Hambro, de quem não foram encontrados registro de qualquer tipo de intervenção durante seu
mandato, no período entre 1900 e 1906 (CASSIS, 1994, p. 267-272), o que é bastante diferente da
atuação de José Eduardo que, como veremos na seqüência deste trabalho, chegou a realizar uma
média de 2,2 intervenções mensais no Senado durante os anos de 1991, 1992 e 1994. Como grupo
de interesse organizado, os banqueiros também contavam com as instituições: English Country
Bankers’ Association – fundado em 1865 e que congregava os chamados bancos provinciais, o
British Bankers’ Association, e a mais importante de todas, a Central Association of Bankers.
226
Basicamente as relações entre o mundo político e o financeiro realizavam-se por meio de
diversos canais, em que a localização geográfica da City garantia a facilidade de contato com
governo: o cargo de Chancellors of the Exchequer normalmente era ocupado por alguém escolhido
entre os mais importantes dos banqueiros.

3.2.1.1 ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE (EUA)

227
Nesse período crescia, no outro lado do Atlântico, o sistema financeiro que viria a substituir
a Inglaterra no domínio sobre a comunidade internacional a partir da segunda metade do século

8
“From 1890 to 1914, the City of London was the financial centre of the world. The banks at the heat of the City were the
cornerstones of whole edifice and at their head were the bankers, agents and beneficiaries of the system”. (CASSIS, 1994, p.
5) A cidade de Londres era considerada o centro financeiro internacional entre os anos de 1890 e 1914, sendo chamada nos
meios especializados de “The City”. (Nota do autor).
79

XX.
228
A história da formação do sistema financeiro dos EUA é caracterizada pela grande
preocupação da sociedade em estabelecer limites para o poder dos banqueiros e seus bancos,
inquietação refletida nos discursos políticos da época, quando a preservação da liberdade passava
pelo controle social do sistema financeiro.
229
De maneira bastante peculiar, o projeto de construção dos EUA foi marcado pelo
federalismo, implicando na manutenção de um poder central relativamente fraco diante do poder
das unidades da federação. Nesse contexto, Hammond (1991) observa que o século dezenove foi
palco de intensas batalhas pela autonomia dos Estados diante da União, conflito potencializado
pelas lutas entre capitalistas emergentes (“business entrepreneurs”) e os tradicionais, normalmente
ligados à atividade agrícola (“agrarians”). Em vários momentos os combates foram travados em
torno dos bancos, considerados pelos primeiros como fonte estratégica do crédito indispensável
para a expansão dos negócios. Com relação aos bancos, o debate tinha como referências Hamilton,
Jefferson, Biddle e Jackson. Se para Hamilton os bancos eram indispensáveis para tornar os Estados
Unidos uma nação poderosa, seus opositores – como Thomas Jefferson, Emerson, Hawthorne e
Thoreau – consideravam “os bancos um instrumento indesejável da industrialização, do
materialismo e por si só uma grande imoralidade”. (HAMMOND, 1991). Partindo de uma
economia essencialmente agrária no período da Guerra de Independência, os Estados Unidos
chegaram à Guerra Civil com uma estrutura econômica comandada pelo mundo dos negócios
baseada no comércio, indústria e, em uma grande população urbana, todos reivindicando crédito
barato e fácil. Esse mundo não foi construído pelos descendentes da estrutura agrária, mas pelos
novos atores sociais chamados de empreendedores (“self-made men”) que, nascidos nas fazendas e
criados no espírito liberal, conquistaram espaço político e impuseram o “laisser-faire” como
ideologia dominante. A chamada revolução jacksoniana combateu a centralização do poder e tinha
entre seus alvos o Bank of The United States que, segundo os rebeldes liberais, impunha restrições à
ação do sistema bancário, dificultava o crédito e travava a expansão dos negócios. Aproveitando a
tradicional aversão do mundo agrário aos bancos, os rebeldes atacaram o que chamavam de
“monopólio e tirania do banco federal”, conseguindo não só fechar o banco como também
neutralizar a responsabilidade constitucional da União sobre a moeda.
230
Livre dos controles, o sistema se expandiu por grande parte do país, financiando o projeto
liberal e gerando uma estrutura fragmentada e pulverizada pela qual cada Estado tinha liberdade de
promover a regulação independente de seu sistema financeiro. O resultado foi um caleidoscópio
rico de experiências estaduais que variavam entre a liberdade total, como em Nova York, e a
proibição constitucional em estados como Texas, entre 1845 e 1904; Arkansas, entre 1846 e 1864 e
a Califórnia, entre 1849 e 1879 (HAMMOND, 1991, p. 617)9. Tal cenário começou a alterar-se no

9
Até 1964, a arquitetura do sistema financeiro brasileiro inspirava-se no federalismo do modelo dos EUA.
80

final da Guerra Civil, quando a administração Lincoln, buscando financiar a dívida pública
resultante do esforço de guerra, iniciou o processo de restauração do poder disciplinador da União
sobre o sistema financeiro e o controle federal da moeda, reforma que em 1879 instituiu o padrão-
ouro para o dólar.
231
Mesmo assim, a configuração institucional permaneceu marcada pelo modelo liberal e
federalista, com um sistema financeiro regionalizado. De 1.000 bancos em 1850, encontramos
12.000 em 1900, chegando a computar 30.000 instituições nos anos 1920. Estabilizou-se em mais
ou menos 14.000 bancos entre 1930 e 1960 – “[...] literalmente qualquer um podia abrir um banco”
(MORAN, 1984, p. 175). Na Tabela 3-1, podemos verificar as diferenças entre o sistema bancário
dos EUA, Inglaterra e Alemanha, e que o sistema bancário dos EUA era bastante diferente quanto
ao número de instituições atuantes.

Tabela 3-1: Número de bancos por país (1883 a 1932)

País /
1850 1883 1890 1895 1900 1910 1912 1913 1921 1928 1932
Ano
Inglaterra - - 123 - - - 62 - - - 24
Alemanha - 71 - 94 - - - 160 - - 72
EUA 1.000 - - - 12.000 23.000 - - 31.600 26.000 18.007
Fonte: Sobrinho (1966, p. 26), apud KRETZER (1996)10 e Moran (1984, p. 175).

232
Os principais estimuladores de tal sistema seriam de ordem cultural e política, conformando
uma estrutura jurídica extremamente complexa e restritiva, impedindo a formação de bancos com
abrangência nacional.

3.2.2 O INTERGUERRAS (1918 – 1943)

233
No período 1918 – 1939 houve tentativas de retorno ao padrão ouro para as principais
moedas européias entre elas, a libra esterlina em 1925, que acabou ficando sobre-valorizada. Esse
esforço continuou até a grande depressão dos anos 30, quando a Inglaterra e a Alemanha
abandonaram o padrão ouro em 1931 e os EUA em 1933. Apesar da Suíça e França o manterem,
parece que havia chegado ao fim a era das taxas de câmbio fixas. Nos anos 30 ocorre o colapso do
comércio internacional e dos fluxos financeiros internacionais à medida que os países levantavam
barreiras tarifárias e determinavam restrições aos fluxos de capital. O início da II Guerra Mundial,
em 1939, exacerbou o colapso da economia internacional.

10
Fonte: SOBRINHO, J. M. Fusão de bancos: suas vantagens e inconvenientes. Revista Bancária Brasileira, São Paulo, p. 25-
28, 30 jun. 1966. Apud: KRETZER, Jucélio. Os efeitos das fusões e incorporações na estrutura do mercado bancário
brasileiro: 1964-1984. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. Florianópolis:
UFSC, 1996. Disponível em: <http://www.eps.ufsc.br/disserta96/kretzer/index/index.htm#sum>. Acesso em: 24 mar.
2004.Sobrinho (1966).
81

3.2.3 BRETTON WOODS (1944-1970)

234
O final da II Guerra Mundial marca o início do período sob hegemonia norte-americana,
promovendo o tratado de Bretton Woods11 pelo qual, sob a influência de Harry Dexter White,
secretário-adjunto para Assuntos Internacionais do Tesouro dos EUA, e de John Maynard Keynes
representando a Inglaterra, os países signatários adotavam o sistema de N-1 taxas de câmbio12,
baseado no dólar como moeda padrão:
44
[...] os Estados Unidos eram, incontestavelmente, a economia predominante no
mundo, detendo 70% das reservas mundiais de ouro. O dólar americano tinha papel de
pivô nos novos arranjos — o dólar foi ancorado ao ouro e as autoridades dos EUA
incumbiram-se de sustentar a conversibilidade do dólar [...] [ao] preço [...] fixado em
US$ 35 por onça de ouro. (ROBERTS, 2000, p. 16)13

235
O tratado delegava aos descendentes dos revolucionários do Sr. Andrew Jackson, a
importante missão de garantir o padrão monetário e a estabilidade financeira internacional.
236
Nesse momento também foram criados organismos internacionais para monitorar o sistema
financeiro, tais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, entre outros. O objetivo
era evitar a ocorrência de outra depressão como a dos anos 30 e promover o crescimento
econômico. O SFI resultante do acordo foi uma intrincada estrutura, bastante fragmentada e
confinada às fronteiras dos países e sob forte regulação estatal; esse período ficou marcado pelo
regime de finanças administradas. O Estado foi municiado com diversos instrumentos de controle,
entre eles o banco central que, de certa forma, disciplinaram o sistema. A necessidade de regular e
controlar o sistema financeiro, e com ele a moeda e o crédito, surgiu no bojo de um projeto mais
amplo de intervenção do Estado na economia, que contava com o apoio da Teoria geral do
emprego, do juro e do dinheiro, de John M. Keynes (1936), e o Esboço de uma teoria do ciclo
econômico e comércio internacional e “exportações internas”, de Michael Kalecki (1933).
237
O sistema Bretton Woods passou a enfrentar grande pressão a partir nos anos 1960, quando
o setor “off-shore” do sistema financeiro inglês tornou-se uma praça atrativa para investir os
excedentes produzidos na Europa, bem como para os lucros auferidos pelas corporações norte-
americanas e japonesas nos empreendimentos internacionais.

11
O sistema de Bretton Woods é assim chamado em decorrência do local de uma conferência realizada entre os dias 1º e 22 de
Julho de 1944, no Hotel Mount Washington, em Bretton Woods, New Hampshire, nos EUA, na qual participaram 730
delegados de 44 países, e que resultou num acordo sobre o arranjo financeiro internacional para o pós-guerra. Fonte:
(ROBERTS, 2000)
12
“Sistema com (N-1) taxas de câmbio: um país — o enésimo membro de um sistema com N países — fixa seu câmbio em
termos de uma mercadoria — ouro, por exemplo — ao passo que os demais países fixam seu câmbio em termos da moeda
do enésimo país. Nesse sistema, há N-1 taxas de câmbio..., variante do sistema de mercadoria-padrão, [onde]... não há
conexão automática entre a oferta de moeda... e a mercadoria que lastreia a enésima moeda”. (ROBERTS, 2000, p. 13)
13
Fonte: ROBERTS, R. Por dentro das finanças internacionais: guia prático dos mercados e instituições financeiras. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2000.
82

3.2.4 A MUNDIALIZAÇÃO FINANCEIRA (1971 – 1994)

238
Além da expansão do euromercado, o déficit norte-americano fragilizou o dólar que,
submetido a ataques especulativos, levou a administração Richard Nixon a abandonar a
239
conversibilidade em ouro, em agosto de 1971. Apesar da tentativa do Grupo dos Dez (G-
10),14 em dezembro de 1971, de tentar salvar o sistema aumentando de US$ 35 para US$ 38 o preço
da onça de ouro e alargar as bandas de flutuação de 1% para 2,5%, o sistema não conseguiu
sustentar-se. Em junho de 1972, o Reino Unido permitiu a flutuação da libra esterlina, e em
fevereiro de 1973 uma nova onda especulativa contra o dólar forçou a desvalorização de 11%,
sendo seguido pelo iene e o franco suíço. Com a flutuação das demais moedas da Comunidade
Econômica Européia, o sistema de câmbio fixo de “Bretton Woods” foi sendo substituído pelo
câmbio variável.
240
Atraídos pelo “paraíso fiscal” londrino, grandes bancos norte-americanos abriram agências
naquela praça, passando a operar com vantagens em relação aos bancos ingleses controlados pelo
“Money Truste”.15 A liberdade e o crescimento da concorrência forçaram os ingleses ao
rompimento histórico com a política de auto-regulação, e a buscarem novas formas de controle
público das atividades no setor. O poder público, por um lado, era limitado pela possibilidade real
dos bancos estrangeiros abandonarem a Inglaterra – em diante dos excessos de controles – e, por
outro lado, era encorajado pela própria dinâmica do setor para prevenir crises de confiança.
241
Os EUA passaram a enfrentar a pressão do euromercado que, além de operar com os
excedentes europeus, passou a receber também os petrodólares oriundos do aumento do preço do
petróleo imposto pela Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP). Diante da
possibilidade de perder a hegemonia financeira, a reação dos EUA foi a de iniciar um amplo
processo de liberalização do setor, quebrando parte do monopólio dos bancos, flexibilizando a
legislação para novos produtos e tecnologia bancária, admitindo também empresas não-financeiras,
o que ampliou o número de instituições atuando no mercado. Um dos marcos nesse processo foi o
dia 1º de maio de 1975, quando aconteceu o chamado “Mayday”, momento em que a Bolsa de
Valores de Nova York aboliu a cobrança de comissões mínimas fixas e removeu diversas restrições
às atividades financeiras.
242
As ações liberalizantes dos EUA e Inglaterra geraram uma reação em cadeia em toda a
comunidade internacional, colocando sob pressão grande parte dos setores financeiros até então
protegidos pelas fronteiras nacionais. A sobrevivência econômica passou a depender de políticas

14
O Grupo dos Dez (G10) foi criado em 1962 numa reunião convocada pelos EUA para aumentar os recursos disponíveis do
FMI por meio do Acordo Geral sobre Empréstimos (General Arrangements to Borrow - GAB). Formado pelos principais
países industrializados, inicialmente reunia a Alemanha, Bélgica, Canadá, EUA, França, Holanda, Itália, Reino Unido e
Suécia. Em 1964 o grupo passou a incluir o Japão e, em 1983, a Suíça tornou-se o último país a entrar no G10, mas o nome
continuou inalterado. Em 1974 o G10 criou o Comitê de Basiléia para Supervisão Bancária. Fonte: Roberts (2000) e MFI /
IMF (2005).
15
O termo “Money Truste” é utilizado normalmente pela literatura especializada para referir-se a grupos informais de agentes
financeiros, que agem de forma pontual mais ou menos conjunta, sob normas e regras informas e aceitas por todos.
83

liberais, bem como da integração acelerada a um sistema internacional relativamente livre do


controle centralizado. A este quadro temos que acrescentar também o crescimento dos chamados
investidores institucionais, formados pelos fundos de pensão e de investimentos, que passaram a
concorrer com os grandes bancos de investimento como fornecedores atacadistas de capital,
243
conforme pode ser constatado nos Gráfico 3-1, Gráfico 3-1, Gráfico 3-1:
45
Com isso, muda a natureza econômica dos fundos, e já não se pode escamotear o
alcance e as conseqüências dessa mudança. Os fundos deixam de ser a expressão de
uma poupança modesta [...] passam a ser instituições centrais do capital financeiro, e
encabeçam as “finanças especulativas”. (CHESNAIS, 1998, p. 29).

Gráfico 3-1: Evolução dos ativos financeiros no mercado Gráfico 3-2: Ativos dos investidores institucionais dos
16
internacional por tipo de investidor de 1980-1994 (em US$ principais países da OCDE (em US$ bilhões)
bilhões)
5.000 Companhias de seguro Fundos Mútuos
4.570 Companhias de seguro de vida Fundos de pensão
4.500
1980 1990 3 trim 1994 5.000 Total em % do PIB 100

4.000 89 88 89
4.500 90

3.500 4.000 80
3.116
72

4.451
3.000 3.500 70

4.143
3.227
2.500 3.000 60

3.887
2'.710
1.800 1.750 2.500 50

3.580
2.000
46

3.168
2.000 40
1.500 1.328
1.180

2.258
2.525

1.986
859 967 1.500 30

1.679
1.000 759
519 1.000
1.438 20
342
397
294

1.131
500
200

1.047
118 48 143

958
904
860

793

500 10
-

- -
Fundos de Fundos Seguros Bancos Fundações
Pensão Mútuos 1980 1988 1990 1991 1992

Fonte: Mérieux et Marchand (1996, p. 269). Apud Chesnais Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados
18
(1998, p. 29)17. extraídos de FMI (1995, p. 166), apud Farnetti (1998, p. 189) .

244
Após o choque do petróleo em fins de 1973, o acúmulo dos petrodólares contribuiu para
aumentar a liquidez do mercado internacional, que foi direcionada para financiar os déficits e
investimentos nos países da periferia capitalista. Com novas fronteiras, tais investimentos abriram
espaço para a modernização e ampliação da produção principalmente de matérias-primas. A
expectativa dos investidores era de obter retorno dos investimentos com a ampliação da produção,
principalmente de matérias-primas para os centros capitalistas. O aumento da oferta encontrou um
mercado em recessão provocada pelos programas de ajustamento econômico dos países
consumidores, o que derrubou os preços das matérias-primas no mercado internacional,
estrangulando a capacidade de geração de excedentes para remunerar os investidores.

16
OCDE: Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico / OECD: Organization for Economic Co-operation
and Development: Criada em dezembro de 1960 por 20 países, atualmente é formada por um grupo de 30 países membros.
17
Fonte: MÉRIEUX, A.; MARCHAND, C. Les marchés financiers américains. Revue d´Économie Financière. Coleção La
Bibliothéque. Paris, 1996. Apud CHESNAIS, François. (Coord.) A mundialização financeira: gênese, Custos e riscos. São
Paulo: Xamã, 1998..
18
Fonte: FARNETTI, Richard. O papel dos fundos de pensão e de investimentos coletivos anglo-saxônicos no
desenvolvimento das finanças globalizadas. In: CHESNAIS, François. (Org.). A mundialização financeira: gênese, custos
e riscos. São Paulo: Xamã, 1998, p. 183-210.
84

245 Gráfico 3-3: Ativos dos investidores institucionais dos


Na falta de estruturas institucionais
principais países da OCDE. (em US$ bilhões acumulados)
preparadas para enfrentar o problema da dívida
12.000

dos países periféricos, ocorreu a grande crise Canadá


Alemanha
Canadá
Reino Unido
internacional da dívida externa, que levou 10.000 Alemanha
1.432
Reino Unido
Canadá 1.354
praticamente dez anos para ser equacionada, e, Alemanha Japão
8.000
Reino Unido Japão 1.972
1.208
em muitos casos, continua sem solução até hoje. Alemanha
Reino Unido
1.835
Japão
6.000 992
O problema só começa a ser resolvido quando a Japão 1.650
1.459
crise passou a ameaçar contaminar o SFI. Nesse 4.000
EUA EUA
EUA 6.516 7.183
momento, o problema migrou da esfera 2.000
EUA
5.221
4.316
econômica para a política, obrigando os EUA
-
1.607
governos dos EUA, Inglaterra, França, 1980 1988 1990 1991 1992

Alemanha e Japão a se engajarem na construção Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados
extraídos de FMI (1995, p. 166), apud Farnetti (1998, p. 189).
de meios institucionais como, entre outros, o
Plano Baker19 e depois o Plano Brady20. A relutância dos governos era proporcional ao montante de
21
recursos necessários para “securitizar” as operações. Os EUA, por exemplo, somente
embarcaram na solução da crise do México em 1982, após sentirem que Essa poderia contaminar o
seu próprio sistema financeiro. Diante do quadro de crescimento acelerado do SFI e a ameaça de
instabilidade, os governos das grandes economias capitalistas passaram gradativamente a fortalecer
o papel institucional de organizações públicas internacionais como o FMI, Banco Mundial e o
BIS22. O FMI passou a assumir um papel cada vez mais importante de instância coordenadora para
evitar que crises financeiras localizadas contaminassem o SFI bem como teve início o processo de
fortalecimento do papel do BIS como organismo internacional aglutinador dos bancos centrais.
Nesse contexto, o BIS já havia promovido um passo importante em 1975, ao constituir o Comitê da
Basiléia para a Supervisão da Atividade Bancária, determinado pelos chefes dos bancos centrais do
Grupo dos Dez (G-10), e que elaborou os “Princípios Fundamentais para a Supervisão Eficaz da
Atividade Bancária”, além de um compêndio de recomendações, diretrizes e padrões.

19
Plano Baker: plano de reestruturação da dívida dos países periféricos promovido pelo secretário do Tesouro dos EUA, James
Baker. A proposta básica do plano previa renovações coordenadas de empréstimos com base em negociações envolvendo
instituições multilaterais, comitês representantes dos bancos privados e governos credores.
20
Plano Brady: plano de iniciativa do sucessor de Baker, Nicholas Brady, substituía a proposta do plano anterior por um
conjunto de opções que basicamente, permitiam tanto a oportunidade para a retirada com deságio dos credores que assim o
desejassem, como incentivos a novos empréstimos, todos com títulos securitizados, bem como a adesão compulsória dos
países devedores a uma agenda de reformas econômicas e institucionais.
21
Securitizar: A palavra securitização provém do termo “securities”, que em inglês se refere a valores mobiliários e títulos de
crédito. Dessa forma, securitizar tem o significado de converter determinados créditos em lastro para títulos ou valores
mobiliários a serem emitidos posteriormente. A securitização serve, portanto, como suporte para a emissão de títulos ou
valores mobiliários. “A securitização é, em sentido amplo, o processo pelo qual empresas produtivas, bancos, demais
empresas financeiras, e governos emitem títulos de dívida, com inúmeras finalidades, envolvendo e interligando, dessa
forma, os chamados mercados creditícios, de capitais, de derivativos (swaps, opções e futuros). Ela é uma modalidade
financeira que torna os títulos negociáveis, flexibiliza prazos e taxas de rendimento, adaptável a múltiplos agentes,
funcional à administração de riscos, substituta dos empréstimos bancários e, ao mesmo tempo, propícia aos bancos na
captação de fundos”.(BRAGA, 1997, p. 198, nota nº 3).
22
Bank for International Settlements (BIS) foi criado em 20 de out. 1930, durante a Conferência de Haia, Holanda, quando se
encontrava em debate o denominado Young Plan, concebido com o propósito de favorecer a liquidação dos ônus de guerra
imputados à Alemanha em decorrência de seu envolvimento na Primeira Guerra Mundial.
85

246 Gráfico 3-4: Crescimento do estoque de ativos financeiros


Nos anos 1980, o processo de
de 1980 a 1992 (em US$ bilhões US$)
liberalização dos sistemas financeiros avança 1,856
Títulos
1,465
internacionais

nos grandes centros capitalistas, passando a 30,000


1,844
Títulos
bancários

pressionar toda a comunidade internacional com 25,000


8,707
Títulos não
bancários

uma agenda de reformas liberais. Tais reformas 20,000 Títulos


públicos
10,323
haviam sido iniciadas na Inglaterra pelo 15,000
Ações

Gabinete de Margaret Thatcher, e nos EUA por 10,000


1,934 Divisas
2,750 11,288
Paul A. Volcker ao assumir a liderança do 5,000

4,839
-

Federal Reserve em 1979. Essas reformas faziam 1980* 1991/1992

parte de um plano mais abrangente que ficou Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados
23
extraídos de Mckinsey (1994) apud Chesnais (1998, p. 27) .
conhecido como agenda neoliberal e foram Nota: Montantes nominais atualizados pelas taxas de câmbio
de 1992.
implementadas por Thatcher, na Inglaterra, e
pela administração Ronald Reagan, nos EUA. Gráfico 3-5: O crescimento do estoque de ativos
financeiros de 1980 a 1992 (em %)
Na seqüência, essas reformas chegaram ao
600%
continente europeu e ao Japão e, como pode ser
verificado no Gráfico 3-4 e no Gráfico 3-4, 500%

internacionais; 608%
resultaram no crescimento acelerado do mercado 400%

Títulos
Divisas: 133%

financeiro internacional, que mudou grande

Títulos públicos
300%

Títulos bancários
bancários: 277%
Ações: 275%

350%
parte do arranjo das correlações econômicas
Títulos não
Total: 231%

200%

281%
entre os países no cenário capitalista 100%

internacional. O crescimento das transações


0%

financeiras superou o crescimento dos Fonte: T = Títulos. Gráfico elaborado pelo autor com base nos
dados extraídos de Mckinsey (1994), apud Chesnais (1998, p.
investimentos, do PIB e do comércio exterior. A 27).
taxa média de crescimento anual do estoque de
Gráfico 3-6: Formação bruta de capital fixo do setor
ativos financeiros entre 1980 e 1992, superou em privado e o crescimento do estoque de ativos financeiros
(1980-1992). (taxas médias de crescimento anuais)
2,6 vezes a da formação bruta de capital fixo do
setor privado dos países da OCDE, conforme 6,0%

pode ser visto no Gráfico 3-4. Segundo Chesnais 5,0%

4,0%

(1998, p. 14), o crescimento do mercado 6,0%


3,0%

financeiro acontece junto com o processo de 2,0%

transição do regime de finanças administradas 2,3%


1,0%

para o regime de finanças de mercado, resultado 0,0%

Formação bruta de Estoque de ativos


da liberalização e desregulamentação dos capital fixo nos países da financeiros
OCDE
sistemas financeiros nacionais. Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nas
informações: OCDE, contas nacionais diversos anos, apud
Chesnais (1998, p. 14).

23
Fonte: MCKINSEY Financial Institution Group. The global capital market: supply, demand, pricing and allocation.
Washington DC, 1994. Apud CHESNAIS (1998).
86

247
Em 1986 a Inglaterra promoveu o que ficou conhecido como o “Big Bang na City”,
quando removeu várias restrições às atividades financeiras, repetindo o processo realizado pela
Bolsa de Nova York (1975). Aboliu a cobrança de comissões mínimas fixas, bem como reviu as
regras quanto à propriedade de empresas de corretagem de forma a permitir a combinação de
negócios de corretagem, de títulos e ações. Ao ampliar a liberalização do sistema financeiro, forçou
todas as outras praças a acelerarem seus processos de desregulamentação e integração ao mercado
internacional. Na Tabela 3-2 e no Tabela 3-2 podemos constatar que, no final do século XX, Londres
reconquista a condição de maior centro financeiro internacional, seguido de perto por Nova York
que lidera o maior mercado de ações, todos diariamente ameaçados pelos mercados de Tóquio,
Frankfurt, Paris, Hong-Kong e Cingapura.

Tabela 3-2: Centros Financeiros Globais (em US$ bilhões)

Nova Hong-
Descrição Ano Londres Tóquio Frankfurt Paris Cingapura
York Kong
Negócios bancários internacionais
Empréstimos externos (a) 1996 1.459 821 1.123 606 683 608 439
Bancos estrangeiros presentes,
nº sucursais, subsidiárias,
1995 536 326 153 277 114 357 185
escritórios de representação etc.
(b)
Mercado de capitais
Capitalização do mercado de
1998 1.996 11.308 2.216 *825 674 413 106
ações (c)
Giro de ações estrangeiras (d) 1997 1.191 680 2.000 46 **10 0,2 **Desp.
Gestão de ativos
Ações de propriedade de
1997 1.807 1.553 1.105 252 338 Desp. Desp.
investimentos institucionais (d)
Mercado monetário
Transações cambiais,
1998 637 350 *148 94 71 79 139
movimento. Líquido Diário (e)
Pessoal ocupado em serviços financeiros (em milhares)
Número de empregados (f) – em ñ
310 443 512 ñ disp. ñ disp. ñ disp.
milhares disp.
Nota: (*) 1997 (**) 1996. (Desp.) = Desprezível (ñ disp.) = Não disponível.
Fontes: Dados coletados em ROBERTS (2000). (a) FMI, International Financial Statistics (Washington DC, ago. 1997).
(b) Jao, Y. C., Hong Kong International Financial Center (Hong Kong: City University of Hong Kong Press, 1997). (c)
Emerging Stock Markets Factook 1998 (Washington DC, International Finance Corporation, 1998). (d) British invisible,
International Financial Markets in the UK (London, Dec. 1998). (e) Banco para Compensações Internacionais. Central
Bank Survey of Foreign Exchange (Basiléia: BIS, 1999). (f), apud Roberts (2000, p. 128).

248
Como podemos ver no Gráfico 3-8, o resultado dessas transformações foi o crescimento
acelerado do mercado financeiro, que acabou atraindo capitais alocados na produção, que buscavam
manter a liquidez até encontrarem aplicações com rendimentos compatíveis com a taxa de
reprodução capitalista. Esse processo foi chamado por ARRIGHI (1996) de “financeirização do
capital”. Esse fenômeno seria um tipo de reação do capitalismo para uma tendência de queda na
taxa de acumulação, que já havia sido observada por Marx:
46
[...] em determinadas circunstâncias, a taxa de lucro diminui na proporção em que
aumenta a acumulação de capital e cresce a correspondente produtividade do trabalho
87

social, a qual se expressa no decréscimo relativo cada vez mais acentuado da parte
variável do capital, comparada com a constante. Para produzir a mesma taxa de lucro,
se o trabalhador passa a movimentar um capital constante dez vezes maior, é mister
que decuplique também o tempo de trabalho excedente, e logo nem o tempo todo de
trabalho daria para isso, mesmo que o capital se apoderasse das 24 horas do dia.
(MARX, 1991, p. 458).

Gráfico 3-7: Participação no mercado internacional (em %)


Reino Unido EUA Japão França Alemanha

Movimento de derivativos
36 19 9 10 7
em balcão

Títulos internacionais,
75
mercado secundário.

Títulos internacionais,
60
mercado primário.

Renda de prêmios de
27 27 4 17 3
seguros de aviação

Renda de prêmios de
22 11 13 6 10
seguros marítimos

Movimento de derivativos
11 42 5 4 17
em bolsa

Transações cambiais 32 18 8 4 5

Movimento de ações
59 33 11 2
estrangeiras

Empréstimos externos 19 9 12 8 7

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados obtidos em: British Invisible, International Financial Markets in the
UK (1998), apud Roberts (2000, p. 131).
249
Diante dessa limitação, o capital
Gráfico 3-8: Evolução de Financiamentos e Empréstimos
buscaria, na forma financeira, manter sua líquidos no mercado internacional (1982 - 1997)
600%
integridade até encontrar novos processos de 30%
30%
% Var. Acumul. % Var. Anual
produção que garantissem taxas de lucro 24%
500%

25%
22%
compatíveis com a reprodução do capital. O 21%
400%
20%

problema é que os lugares que oferecem o 17% 17%


300%
15%
retorno necessário estão nas fronteiras do 12% 12% 12%
9% 9% 200%
capitalismo. É na África, América Latina e Ásia 10% 8% 8%
5%
que o capital encontra demanda reprimida, 5% 100%

2%
matérias-primas e mão-de-obra barata, mas junto 0% 0%

1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997
com esse pacote de benefícios estão agregados
Nota: Dados demonstrados em eixos e escalas diferenciadas.
altas taxas de riscos, característica e resultado Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base dos dados
obtidos em: BIS: Annual Report, (1983-98), apud Roberts
social das condições institucionais tão favoráveis (2000, p. 35).
ao capital. Para o investidor, tem sido preferível
88

manter a liquidez até que condições mais favoráveis24 possam garantir taxas de risco compatíveis
com suas expectativas, ou encontrar avalistas confiáveis, como foi, por exemplo, J. P. Morgan no
final do século XIX, que garantia os investimentos de capitalistas ingleses nos EUA. Também a
crise da dívida externa mostrou aos investidores que os Estados periféricos estavam organizados
suficientemente para reagirem aos interesses dos capitalistas financeiros, se não conseguiam anular
as dívidas, pelo menos conseguiam impor moratórias ou responder às pressões políticas, com mais
pressões indesejáveis.

3.2.5 DÍVIDA PÚBLICA

250
Além dos capitais privados, o crescimento do mercado financeiro internacional foi
acelerado pelo processo de “securitização” da dívida pública dos países que buscaram no mercado
formas alternativas de financiamento. Nesse processo certamente foram os EUA que mais
contribuíram com a explosão da dívida federal que, nos anos 1980, cresceu de forma ainda mais
rápida que nas décadas anteriores, mesmo sob o discurso monetarista e fiscalista da administração
Reagan. Segundo Chesnais (1998, p. 27), a corrida armamentista e o programa “Guerra nas
Estrelas” foram financiados às custas do crescimento da dívida pública, que passou de US$ 322
bilhões em 1970, para US$ 906 bilhões em 1980 e US$ 4.061 bilhões em 1992. Nesse cenário, o
serviço da dívida saltou de 12,7% do orçamento de 1980, para 20,1% em 1990. A grande maioria
dos países tomou igual rumo em direção aos mercados de bônus públicos que se tornou, segundo o
FMI, a “espinha dorsal” dos mercados de bônus internacionais. No Gráfico 3-9 podemos verificar
esse movimento com mais detalhes.

Gráfico 3-9: O crescimento do estoque de ativos financeiros de 1980 a 1992 (em US$ bilhões)
Divisas: 4,839

Divisas: 11,288
Ações: 10,323
T. internacionais: 1,465

T. ñ bancários: 1,844
T. públicos: 1,934

T. bancários: 1,856
Ações: 2,750
T. internacionais: 0,207

T. públicos: 8,707
T. ñ bancários: 0,489
T. bancários: 0,487

1980* 1991/1992

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados da obtidos em: Mckinsey (1994), apud Chesnais (1998, p. 27).
Nota: T. = Títulos. Montantes nominais atualizados pelas taxas de câmbio de 1992.

24
No século XIX, tais condições eram oferecidas pela “Royal Navy of United Kingdom”.
89

3.2.6 BANCOS

251
No Gráfico 3-1, podemos avaliar o impacto sofrido pelos bancos, com a entrada de novos
investidores no mercado financeiro. Para sobreviverem, os bancos tiveram que buscar um novo
desenho institucional bem como passaram a enfrentar um acelerado processo de fusões e
incorporações ditado pela nova dinâmica internacional que passou a exigir instituições com
capacidade para operar de forma integrada em escala global. Nesse período, teve início o
desenvolvimento e incorporação de novos tipos de operações financeiras, bem como de novas
tecnologias de comunicação e processamento de dados. Operações com cartões de crédito,
informatização de bancos, transmissão de dados em tempo real, caixas eletrônicos; nos EUA o
número de 5.000 caixas existentes em 1976, aumentou para 36.000 em 1984, o que na prática vinha
demolindo as fronteiras estaduais do sistema financeiro (MORAN, 1984), aumentando a pressão
sobre o poder público na direção de aprofundar a liberalização do sistema.
252
Como grandes operadores, os bancos passaram a atuar também como administradores das
carteiras dos fundos de pensão e de investimentos, buscando minimizar os riscos do mercado
financeiro internacional. Tais riscos estão relacionados à fragilidade dos controles e supervisão
institucional desse mercado que sofreu diversos abalos durante o período estudado. A própria
instituição bancária – o Banco – está longe de possuir uma estrutura padrão nos diversos países da
comunidade internacional, antes disso, seu arranjo institucional é resultado de condicionamentos
econômicos, sociais e culturais históricos de cada comunidade. Desde 1975, o BIS tem
desenvolvido esforços para estabelecer alguns padrões básicos para o setor, mas a homogeneidade
ainda está longe de ser alcançada, como podemos constatar no estudo de Ferreira, Freitas &
Schwartz (1998).
253
Esses autores desenvolveram uma extensa pesquisa entre 1989 e 1992, (ver Gráfico 3-1)
procurando analisar comparativamente a evolução do sistema financeiro internacional, com a
proposta de subsidiar o debate sobre o reordenamento institucional do sistema financeiro brasileiro.
Os autores constataram que, em 1989, a média de transações diárias com moedas estrangeiras nos
mercados do Japão, Inglaterra e EUA, era aproximadamente seis vezes maior que o volume de
1979, e cinqüenta vezes maior que a média de transações diárias de bens e “commodities” nos
mercados internacionais. Nesse cenário, constataram que, na amostra formada pelos onze países
estudados (EUA, Japão, Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Coréia do Sul, Formosa, México,
Chile e Argentina), a atividade bancária era altamente controlada e regulada e que, apesar de haver
controles específicos resultantes de particularidades históricas, havia alguns aspectos que
apontavam para uma racionalidade comum no conjunto de regulamentos desses países. Um dos
aspectos que os distinguiam era o grau de autonomia das instituições para influenciar o nível de
liquidez da economia e da regulamentação preventiva para crises de confiança.
90

Quadro 3-1: Formato institucional de bancos e instituições financeiras não bancárias (1989-1992)

Descrição EUA Alemanha França Itália Reino Unido Japão Argentina Chile México Coréia Taiwan
BANCO CENTRAL
Data de
1913 1875 1800 1893 1694 1882 1935 1925 1925 1950 ND
Criação
Propriedade do
privada pública pública pública pública mista pública pública pública pública pública
Capital
Grau de autonomia do Banco Central
Administrativa forte forte fraca moderada moderada moderada fraca forte fraca fraca ND
Técnica forte forte fraca fraca fraca fraca fraca forte fraca fraca ND
Financeira forte forte fraca forte forte forte fraca forte forte fraca ND
INSTITUIÇÕES BANCÁRIAS
Importância
dos bancos
comerciais no grande predominante predominante predominante grande predominante predominante predominante predominante predominante predominante
sistema
financeiro
Forma jurídica Pública, mas Pública, mas
predominante Exclusivamente Exclusivamente Exclusivamente em processo em processo
privada (a) pública privada Privada (*) privada (b) pública
(público x privada privada (*) privada de de
privado) privatização. privatização.
Presença de
bancos
não sim sim não não (c) não sim sim sim sim sim
“universais”
ou múltiplos
Existência de não sim sim sim sim sim não não não sim não
outras
Instituições de Bancos de
instituições Bancos
Instituições Cooperativas poupança; longo prazo,
que compõem Discount house públicos
especializadas de crédito cooperativas de cooperativas
o sistema especializados
crédito. de crédito.
bancário

Fonte: Quadro elaborado pelo autor com base nas informações extraídas do Quadro 1 e 5 de Ferreira, Freitas & Schwartz (1998, p. 90-91 e 103-104).
Notas: (a) Embora inferiores em termos numéricos, os bancos públicos dominam o mercado bancário francês; (b) no Chile, há apenas um banco público: o Banco Del Estado; (c) embora não exista uma
segmentação legal da atividade financeira, os bancos britânicos não estão organizados sob a forma de banco universal ou múltiplo, atuando através de subsidiárias. (*) Informações não confirmadas.
91

254
Segundo os autores, foi possível constatar que, acompanhando a integração internacional
dos mercados financeiros, houve uma tendência para uma maior concentração nos sistemas
financeiros domésticos que produziram conglomerados financeiros para aproveitar as vantagens da
economia de escala e ampliar a participação nos mercados. Tais conglomerados seguiram diferentes
tendências, tais como: no Japão e EUA ocorreu a fusão de bancos de um mesmo país, e Alemanha,
Itália, França e Reino Unido houve fusões de bancos de diferentes países. Mas os autores também
destacam em suas conclusões que, para compreender esses diferentes sistemas, é necessário
conhecer em detalhes importantes, como por exemplo:
47
[...] as práticas e costumes negociais, tradições contratuais e institucionais, assim
como traços mais amplos que caracterizam as histórias particulares das várias nações,
geralmente sem paralelo mesmo dentro de sistemas aparentados (como os do Reino
Unido e Estados Unidos, por exemplo.) (FERREIRA, FREITAS & SCHWARTZ,
1998, p. 85).

255
No Quadro 3-1 podemos constatar algumas dessas diferenças, lembrando que o sistema
continua em transformação, e, nos anos 1990, passou a caminhar na direção dos ajustes
preconizados pelo Acordo da Basiléia, que teve impacto significativo no caso Bamerindus.

3.3 ANÁLISES E INTERPRETAÇÕES

256
Segundo Arrighi (1996), o crescimento desproporcional das operações financeiras seria
parte do ciclo econômico sob hegemonia norte-americana cujos sinais de esgotamento apareceram
na crise econômica da década de 1970 e assumiram definitivamente, nos anos 1980, as
características típicas da “financeirização” do capital. Essa massa de recursos buscaria a liquidez
por cauda do esgotamento das possibilidades de se manter taxas históricas de acumulação
necessária à reprodução capitalista. Comparado com outros momentos históricos, esse processo
terminaria no esgotamento da hegemonia norte-americana cujas conseqüências estender-se-iam
para todo o sistema capitalista internacional, provocando transformações nas estruturas econômicas
e sociais nas regiões sob sua influência.
257
Chesnais (2003) e Duménil & Lévy (2003)1 consideram que desde, meados dos anos 1980,
o capital continuou obtendo altas taxas de produtividade2, insistindo que houve elevação da taxa de
lucro principalmente em razão do desempenho da economia estadunidense. Para Chesnais, as
transformações desse período indicariam que a sociedade entrou numa nova fase do capitalismo,
que ele denomina de “regime de acumulação com dominância financeira”, resultado do processo
de liberalização do sistema financeiro, promovido pelos EUA e Inglaterra. Estaríamos vivendo uma
nova forma de dominação social das finanças, fruto de um verdadeiro “golpe de Estado” que teria
acontecido quando a taxa de juros subiu nos EUA em 1979 – o “golpe de 1979” segundo Chesnais

1
Nos Anexos apresentamos uma síntese das três etapas da mundialização financeira segundo CHESNAIS (1998).
2
Relação entre a produção e o estoque de capital fixo.
92

– teria sido o ato fundador da dominação financeira. Para o autor, estaria ocorrendo um novo
regime de acumulação, capaz de assegurar a acumulação real num longo período, como teria sido o
fordismo. Esse regime seria resultado de um conjunto de mudanças técnicas e da demanda, que
colocaram em jogo a determinação das rendas. Esse novo regime de acumulação, ao menos nos
Estados Unidos, significa que deve permanecer por algum tempo, mas ele teria relações intrínsecas
com a formação de uma “bolha financeira” criada pela especulação predatória presente nos
grandes mercados financeiros e de capitais, que teria surgido pela ausência ou fragilidade das
instituições reguladoras. Nesse contexto, o autor chama a atenção para o caráter potencialmente
explosivo dessa situação e se interroga sobre o tempo de duração de tal regime sujeito a crises
recorrentes.
258
Duménil & Lévy (2003) chamam a atenção para o que denominam como “processo de
socialização da produção”, quando a dialética das forças produtivas e as relações de produção
geraram metamorfoses na propriedade capitalista, transformando suas diversas formas jurídicas e
promovendo a delegação da gestão e da organização aos administradores profissionais assalariados.
Para os autores, o neoliberalismo seria uma forma de prosseguir com essas transformações, ao
promover a transferência da propriedade para grandes instituições financeiras administradas por
especialistas. Sob esse prisma, a luta de classes e suas relações com o Estado produziriam grandes
conjunturas históricas, determinadas pelos arranjos de poder das classes ou segmentos de classe no
poder – a hegemonia financeira liberal do início do século XX teria sido sucedida pelo modelo
keynesiano, que resistiu até os anos 1970, sendo progressivamente substituído por um novo período
sob a hegemonia financeira neoliberal. Para Duménil & Lévy tais transformações estariam
relacionadas tanto com as grandes crises estruturais como com a dinâmica da mudança técnica e da
distribuição, que produziram flutuações na taxa geral de lucro. Segundo ele, desde o início dos anos
1980 estaria havendo uma recuperação da taxa de lucro que seria expressão de tendências e
contratendências inerentes ao capitalismo.
259
Mas diferente de Chesnais, Duménil & Lévy reconhecem que ainda sobrevivem
instituições keynesianas no plano nacional e que, em caso de crise financeira, podem produzir
respostas políticas diferentes daquela dos anos 1930, e, no plano internacional, a hegemonia
financeira é a parte mais frágil se confrontada com o poder nacional em momentos de crise.
260
Já Wallerstein (2003) entende que a economia dos principais países capitalistas estaria
passando pela fase descendente de um ciclo de Kondratiev3 iniciado no pós-Segunda Guerra
Mundial, e relaciona esse processo financeiro como a contrapartida da queda da rentabilidade do
capital real. O declínio das oportunidades de lucro na esfera produtiva induziria os capitalistas a

3
“Os ciclos de Kondratiev são ciclos relativamente longos que reúnem uma fase de expansão e uma fase de contração da
economia (fases A e B). A duração aproximada de cada fase é de 25-30 anos. [...] As fases distinguem-se principalmente
pela prevalência do pleno emprego ou do desemprego, pela preponderância da produção ou de investimentos financeiros
como fonte principal de lucro, pela prioridade dada à minimização dos custos de transação ou à minimização do custo da
força de trabalho, pelo aperfeiçoamento das técnicas existentes ou pela inovação na produção”. (WALLERSTEIN, 2003, p.
72)
93

transferirem seus capitais para investimentos financeiros especulativos; sendo esta uma
característica geral da fase descendente de um ciclo de Kondratiev. O autor identifica que a
“revolução mundial de 1968” e a crise do dólar no início dos anos 1970 seriam indícios de uma
crise estrutural que indicariam uma diminuição da hegemonia militar e política dos EUA — cujo
poder estaria relacionado com a prosperidade econômica no pós-guerra.
261
O autor enfoca esse período dentro de tendências seculares e ondas longas, quando o
capitalismo enfrentaria três grandes tendências: (1) a desruralização / urbanização, (2) o
esgotamento ecológico e (3) a democratização. Essas tendências aumentariam o custo do trabalho,
dos fatores de produção e dos impostos. Para enfrentar os custos salariais crescentes, os capitalistas
tenderiam a deslocar a produção para zonas rurais com menores salários. Esse movimento
encontraria limites, na medida em que essas populações se urbanizam e aprendem a desenvolver
mecanismos de proteção e ação política na defesa de seus interesses. A atividade capitalista
também provoca o esgotamento e poluição do meio ambiente cujos limites são atingidos com o
tempo, pelo crescimento dos movimentos de oposição. Tais lutas produzem uma democratização
das relações sociais que geram custos crescentes para suportar investimentos sociais. Nesse cenário,
tais tendências pressionam os lucros em direção aos limites do processo de acumulação capitalista.
Esses movimentos fariam parte de uma dinâmica histórica, que poderia ser dividida em períodos de
grandes flutuações – os ciclos de Kondratiev – caracterizados por sucessivas fases ascendentes e
descendentes, em busca do equilíbrio. Para o autor, o período em estudo poderia ser identificado
como final de uma fase descendente de uma etapa muito avançada de tendências seculares.
262
Tanto Chesnais como Duménil & Lévy reconhecem uma certa similaridade entre o período
da hegemonia inglesa e o atual, principalmente com relação ao processo financeiro que parece ter
invadido todas as instâncias sociais. No capítulo anterior, havíamos identificado esse processo de
hegemonia financeira no âmbito dos grupos econômicos, e podemos verificar agora que esse
fenômeno está relacionado com um movimento maior, na esfera macroeconômica e das relações
internacionais. O processo de acumulação capitalista estaria passando por uma transformação no
seu arranjo institucional, como resposta para os desafios impostos pelas lutas entre as classes e
intraclasse.
263
Não podemos deixar de notar que, apesar do discurso monetarista e neoliberal, as ações do
governo dos EUA, nesse período, lembram muito os velhos rebeldes dos Sr. Andrew Jackson – que
clamavam por dinheiro fácil e barato bem como liberdade financeira. A fragilização das instituições
reguladoras, o déficit orçamentário dos EUA, a abundância da oferta de dólares e a facilidade do
crédito parece invocar outros momentos históricos similares como, guardadas as devidas
proporções, o “encilhamento” do Sr. Ruy Barbosa em 1889, analisado por Furtado (1999) e que
veremos na seqüência deste trabalho; ou as idéias de John Law, observada por Adam Smith em
94

1776 (SMITH, 1985, p. 275)4 e suas experiências na Paris de 1719, descrita em Galbraith (1983, p.
166-172).
264
Ao que parece, a arena financeira estaria sendo desobstruída nos moldes do que fizeram os
rebeldes norte-americanos no século XIX, buscando, através do liberalismo, abrir espaço para um
novo ciclo revolucionário capitalista. O regime financeiro administrado junto com o modo de
produção fordista, entre outros, formavam a base da estrutura keynesiana, que teria se esgotado
como modo de acumulação capitalista. De certa forma, a rigidez dessa estrutura e seus mecanismos
de proteção estariam bloqueando ou atrapalhando a expansão capitalista na direção de novas
fronteiras de acumulação e, nesse processo, a liberdade financeira seria um dos principais
instrumentos para romper barreiras e resistências organizadas.
265
Outro aspecto que consideramos importante é o peso específico que os fundos de pensão
assumiram no sistema financeiro. Como massa de recursos é propriedade dos trabalhadores; esse
tipo de instituição internaliza a contradição capital / trabalho e compete com a burguesia capitalista
pela propriedade dos meios de produção. Em tese, esse arranjo institucional privado deveria
transferir para os próprios trabalhadores a responsabilidade pela extração da mais-valia, assumindo
assim o papel do capitalista. Resta saber por quanto tempo a instituição conseguiria conviver com
tal paradoxo interno, e desempenhar um papel tão esquizofrênico.
266
Empiricamente, o que se observa é que a transferência dos fundos de pensão para a esfera
privada, além de ter retirado do Estado o controle direto de uma importante fonte histórica de
recursos, delegou grande parte da gestão para organizações financeiras especializadas que, em
última análise estão sob o controle da burguesia capitalista. Se antes o trabalhador podia reivindicar
seu direito de aposentadoria ao Estado, hoje esse direito estaria sujeito às regras do sistema
financeiro e à “competência técnica” das organizações que fazem a gestão das carteiras de
investimentos. Ao que parece, a futura aposentadoria estaria assegurada pela lógica matemática do
Doutor Price, mencionada por Marx (1991, p. 451-455).
267
Vamos ver na seqüência deste trabalho, que José Eduardo atuou no Senado engajado na
reforma da previdência, propondo a criação de um novo desenho institucional privado para os
fundos de pensão, tendo também apresentado um projeto de lei sobre o assunto. Também veremos
que os fundos “privados” brasileiros tiveram um papel fundamental no processo de privatização das
empresas estatais, no qual o Bamerindus foi um ativo e importante ator; ou então no socorro de
empresas privadas. Apesar da grande importância dos fundos, o reduzido espaço desta tese nos
impede de aprofundar a análise sociológica desse tipo de instituição, mas deixamos algumas
questões que acreditamos serem fundamentais para futuras pesquisas sobre o seu papel histórico
nas transformações sociais contemporâneas, tais como:
268
1) Verificar se existem relações entre a privatização desses fundos nos grandes centros

4
Fonte: SMITH, Adam. (1776) A riqueza das nações. Sobre sua natureza e suas causas. Vol. 1, 2 ed. São Paulo: Nova
Cultural, 1985.
95

capitalistas e o aumento da dívida pública, e seus efeitos multiplicadores e indutores da especulação


financeira.
269
2) Verificar a hipótese que, a privatização desses fundos possa ter transformado a
contribuição para aposentadoria em mais um mecanismo disfarçado de extração da mais-valia.
270
3) Identificar quais são as organizações especializadas contratadas para gerir os principais
fundos de pensão, bem como conhecer a rede de conexões intercorporativa dos dirigentes dessas
empresas e seus acionistas controladores.
271
Finalmente, não poderíamos deixar de observar que, num contexto mais amplo, a
financeirização das relações sociais, em contraposição ao determinismo do planejamento estatal,
coloca na base da organização social a realidade probabilística dos mercados financeiros. O futuro
não depende mais de equações compostas por variáveis de natureza determinada, mas aleatórias.
272
Acreditamos que neste reduzido espaço conseguimos apenas esboçar o cenário das
transformações do sistema financeiro internacional, tendo sido possível identificar algumas das
principais questões que irão auxiliar nossa jornada rumo ao caso José Eduardo e o Bamerindus.
Seguimos agora para conhecer com mais detalhes as transformações que ocorreram no sistema
financeiro brasileiro e suas conexões com o cenário internacional. Neste momento é importante
destacar que, no Brasil, as características mais marcantes desse período foram: o crescimento
desmedido da especulação financeira e da inflação, descontrole monetário, planos de estabilização
e, nos últimos anos, a histórica transferência do controle de grandes grupos econômicos e
financeiros estatais e privados para o controle de outros grupos tanto nacionais como estrangeiros.

3.4 PARTE II: O SISTEMA FINANCEIRO BRASILEIRO

3.4.1 PERÍODO: 1808 A 1979

273
Oficialmente o sistema financeiro começou no Brasil com a criação do Banco do Brasil
(BB) em 12 de outubro de 1808 por determinação de D. João VI. O banco tinha como objetivo
facilitar “[...] os meios e os recursos de que as rendas reais e as públicas necessitarem para ocorrer
às despesas do Estado”. Quando iniciou suas atividades, em 11 de novembro de 1809, tinha como
principais operações: desconto de letras de câmbio, depositário de prata, ouro, diamante, ou
dinheiro; emissão de letras ou bilhetes pagáveis ao portador à vista e, o monopólio na comissão da
venda de diamantes, pau-brasil, marfim e urzela5. Quando Dom João VI voltou para Portugal em
1821, levou consigo as reservas metálicas do banco, deixando um déficit maior que seu capital e
um lastro metálico que cobria apenas 20% do valor nominal de suas notas; além do que, o BB teve
que financiar a Guerra da Independência. Mais tarde, em 1829, sob forte pressão da oposição

5
Fonte: SENADO FEDERAL. História do Banco do Brasil. Brasília: Congresso Nacional, [1999]. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/web/historia/bb.htm>. Acesso em: 11 mar. 2004..
96

política, o banco foi fechado e seu déficit coberto pelo Tesouro.


274
Em 1831, foi criada a primeira caixa econômica, no Rio de Janeiro, que acabou não tendo
sucesso e, em 1833 ocorreu uma tentativa para recriar o segundo Banco do Brasil que também
fracassou, pois não conseguiu integralizar o capital necessário6. No ano seguinte, comerciantes da
Bahia, liderados por Miguel Calmon Du Pin e Almeida – bisavô de Ângelo Calmon de Sá, criaram
a Caixa Econômica da Cidade da Bahia, que funcionou irregularmente por 25 anos. Em 1838, foi
criado o Banco Comercial do Rio de Janeiro e, mais tarde, em 1851, Irineu Evangelista de Souza –
Visconde de Mauá, fundou no Rio de Janeiro um banco privado de depósitos e descontos com o
nome de Banco do Brasil (considerado como o terceiro BB), cujo valor do capital era o maior entre
as instituições bancárias da América Latina7. A sua fusão em 18538 com o Banco Comercial do Rio
de Janeiro consolidou o empreendimento e possibilitou sua expansão para vários Estados. Em 1863
os primeiros bancos estrangeiros chegaram ao Brasil, o London & Brazilian Bank e o The Brazilian
and Portuguese Bank, que se instalaram no Rio de Janeiro.
275
Segundo Furtado (1999), em 1890 aconteceu uma das mais interessantes experiências
financeiras da história brasileira, quando Marechal Deodoro da Fonseca assumiu o governo
provisório e nomeou Rui Barbosa para o primeiro Ministério da Fazenda, cargo que ocupou durante
14 meses. Ao assumir, Rui decretou o que seria o “primeiro pacote econômico” da República. Seu
objetivo era promover a industrialização e incentivar o crescimento econômico através da liberação
do crédito e emissão da moeda. Pretendia superar a escassez de moeda, que havia sido agravada
pelo crescimento do trabalho assalariado, resultante do fim da escravidão e da maciça chegada de
imigrantes. O debate político girava entre os “metalistas” que defendiam o padrão ouro e os
“papelistas” que reclamavam pela liberdade na emissão da moeda.
276
No dia 17 de janeiro de 1890 foi decretada a reforma bancária que estabelecia as emissões
de moeda por três instituições bancárias regionais, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul,
lastreadas em títulos da dívida pública. Também se criou o Banco dos Estados Unidos do Brasil
(BEUB), e determinou-se que cada região bancária deveria expandir o crédito e estimular a criação
de novas empresas. A oposição logo tratou de chamar a política pelo nome de “Encilhamento”,
vinculando sua imagem às apostas que aconteciam no hipódromo. O resultado foi uma grande
euforia industrial-financeira e inflação, que levou o Brasil a passar por uma das
48
[...] maiores transformações sócio-econômicas que conheceu a história de nosso país.
Tivemos o rápido avanço do sistema de trabalho assalariado que, combinado com o
declínio do regime escravista, modificou, profundamente, o perfil social do Brasil.
(FURTADO, 1999).

277
Com a República teve início o processo de descentralização do poder estatal, abrindo

6
Lei nº 59, de 08 out. 1833.
7
Fonte: BANCO DO BRASIL S.A. Relações com Investidores. Retrato da Empresa. História do BB. Linha do tempo, 1851.
Brasília, [2002]. Disponível em: <http://www.bb.com.br/appbb/portal/ri/ret/HistoriaBB.jsp#1851>. Acesso em: 18 mar.
2005..
8
Lei nº 683, de 05 jul. 1853.
97

espaço para aumentar a influência política das novas regiões incorporadas ao capitalismo brasileiro
como São Paulo, rompendo o domínio das classes que governavam as regiões mais antigas,
particularmente do Nordeste. Apesar de, no seu tempo de oposição, Rui defender o padrão-ouro, no
Governo fez exatamente o contrário, abrindo espaço para o processo de “modernização” do país.
Rui dizia, em 15 de novembro de 1889, no dia da proclamação da República que:
49
Em vez de organizar solidamente o crédito agrícola, proporcionando nele, à indústria
do solo, os meios naturais de sua reconstituição, a monarquia, incuravelmente
corruptora, preferiu constituir um mecanismo passageiro, de fins notoriamente
eleitorais, destinado a estimular os apetites da indigência, explorando a situação
aflitiva da classe empobrecida, mediante um regime de empréstimos, que vinham
dessangrar, inutilmente, o crédito público, satisfazendo, quando muito, os credores da
lavoura, sem fomentar o desenvolvimento da produção. (FURTADO 1999).

278
Dois meses após assumir o ministério, Rui decretou exatamente o que o gabinete Ouro
Preto pretendia fazer, só que de forma um pouco mais radical, pois o Decreto de reforma bancária
permitiu também que os bancos pudessem ter oficinas próprias para a impressão de seus bilhetes,
regionalizando e privatizando o controle da emissão do papel moeda. No mesmo ano o Governo
aprovou a Lei do Similar Nacional, dando início à política de substituição de importações, que,
quarenta anos depois, levou o Brasil a engajar-se na industrialização, “[...] concebendo assim um
novo projeto para o Brasil”. (FURTADO 1999).
279
Diante da hegemonia financeira inglesa baseada no padrão-ouro, já que a Inglaterra
dispunha de reservas em ouro que correspondiam a quase 100% do papel-moeda emitido, o Brasil
tomou a mesma direção que os liberais norte-americanos haviam trilhado no início do século, ao
combaterem o controle bancário centralizado e restrições à emissão de moeda:
50
O modelo que era o gold Standard implicava um custo considerável para as
Economias que dependiam da exportação de alguns poucos produtos primários. Isso
aqui merece explicação. Quando você tinha um controle tão completo da liquidez, isto
é, da emissão de papel moeda ou de uma política monetária ortodoxa do gold
Standard, por exemplo, você precisava ter lastro. Todavia, decorre de você ter
flexibilidade na sua Economia, nas suas exportações. Ora, uma Economia, que exporta
um produto só, tem uma grande rigidez, como era o caso do Brasil. Portanto, você não
poderia ter o comportamento exigido pelo gold Standard. Você teria que adotar uma
política de flexibilidade, e não ter tanto medo da emissão de papel moeda, como
tinham aqueles que estavam ligados ao gold Standard. (FURTADO 1999)

280
Com a expansão do crédito, a República promoveu o surgimento de novos
empreendimentos em todo o país. Segundo Furtado:
51
[...] o que fez Rui foi certo, embora este não soubesse o que estava fazendo [...] A
brusca expansão da renda monetária pressionou a balança de pagamentos, provocando
depreciação cambial. O preço médio das exportações em moeda local dobrou,
incentivando os investimentos nas novas áreas de colonização e estimulando a
produção de borracha na Amazônia, entre outras coisas. Essa ampla redistribuição de
renda rompeu as amarras do imobilismo da época e permitiu superar a obsessão com a
conversibilidade cambial. (FURTADO 1999)9.

9
Em Botelho (2002) encontramos uma análise crítica da interpretação de Celso Furtado para a crise cambial do encilhamento.
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
98

281
Mas a inflação que se seguiu levou o governo a determinar o bloqueio de emissões de
moeda, o que gerou uma grave crise econômica e a demissão de Rui, em 20 de janeiro de 1891.
Deodoro teve que renunciar em 23 de novembro ameaçado de deposição pelo vice-presidente
Marechal Floriano Peixoto que, assumindo a presidência, iniciou a contra-reforma em 1892,
tentando estabilizar a moeda, mas acabou provocando uma grande recessão.
282
O quinto Banco do Brasil foi criado em 1906, produto de nova fusão: o Banco do Brasil de
1853 com o Banco da República do Brasil10, constituindo o que seria o atual Banco do Brasil. Três
anos depois, em 1909, foi criado o Banco de Crédito Hipotecário e Agrícola de São Paulo, voltado
para o financiamento da atividade cafeeira no Estado. Controlado pela casa bancária francesa
Joseph Loste & Cie, sua criação decorreu da iniciativa do então secretário da Fazenda do Estado,
Olavo Egydio de Souza Aranha – que mais tarde criaria o Banco Itaú – o novo banco tinha como
segundo maior acionista o Banco do Comércio e Indústria de São Paulo e o terceiro, o governo
estadual.
283
O crescimento do sistema bancário, durante a República Velha, levou o Governo Federal a
criar, em 1920, a Inspetoria Geral dos Bancos11 e, em 1921, o regulamento para a fiscalização dos
bancos e das casas bancárias. Também nesse ano começou a funcionar o sistema de compensação
de cheques, quando foi criada a Câmara de Compensação do Rio de Janeiro. No ano de 1924,
surgiu a Seção Bancária Moreira Salles e Cia., em Poços de Caldas (MG), que mais tarde viria a
tornar-se o Unibanco e, no ano seguinte, Clemente Soares Faria criou uma Cooperativa de Crédito,
instituição que daria origem ao poderoso Banco da Lavoura de Minas Gerais (BLMG)12. Nessa
época, o Banco de Crédito Hipotecário e Agrícola de São Paulo teve sua denominação alterada para
Banco do Estado de São Paulo (Banespa), bem como passou a financiar também a indústria e o
comércio e, em 1926, foi nacionalizado quando o governo do Estado de São Paulo comprou o
controle acionário da instituição. Enquanto isso, no Paraná, em 1926, Miguel Vieira e seu filho
Avelino Antônio Vieira abriam uma seção bancária na casa comercial da família em Tomazina
(PR). Tal experiência possibilitou que três anos depois, em 1929, o empreendimento reunisse um
grupo local de capitalistas e criassem o Banco Popular e Agrícola do Norte do Paraná (BPANP).
284
O crescimento do sistema financeiro no período pode ser avaliado pela criação da Câmara
de Compensação de São Paulo, em 1932, as Caixas Econômicas Federais, em 1934, o Banco de
Crédito da Borracha – que em 1966 recebeu o nome de Banco da Amazônia S.A. (Basa) – o Banco
Mineiro da Produção, em 1937, cuja fusão com o Banco Hipotecário e Agrícola, em 1967, resultou
no Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge).

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Segundo o autor, a interpretação de Furtado é equivocada e conclui ser o comportamento adverso da conta capital o
responsável pela deterioração do balanço de pagamentos, com impactos diretos sobre o câmbio.
10
Decreto nº 1.455, de 30 dez. 1905.
11
Artigo 5º do Decreto nº 4.182, de 13 nov. 1920, artigo 2º da Lei nº 4.230, de 31 dez. 1920, e o Decreto nº 14.728, de 16 mar.
1921.
12
Em 1971 os herdeiros de Clemente Faria transformaram o BLMG em dois bancos: Banco Real e o Banco Bandeirante.
99

285
Em 1942, o governo federal fechava o Banco Alemão Transatlântico por seu envolvimento
com o partido nazista e, no ano seguinte, a família Lupion fundava na sede do Transatlântico em
Curitiba, o Banco Meridional da Produção (BMP) – futuro Bamerindus. Nesse mesmo ano, em
Marília (SP), um grupo de capitalistas transformava a Casa Bancária Almeida no Banco Brasileiro
de Descontos (Bradesco). Convidado para liderar a empreitada, Amador Aguiar logo no início
estabeleceu como estratégia atrair pequenos comerciantes, funcionários públicos, pequenos
poupadores, que não recebiam a atenção dos grandes bancos da época. Também nesse ano, Herbert
Victor Levy fundou e assumiu o cargo de diretor-superintendente do Banco da América e, o então
jovem José de Magalhães Pinto, que ocupava o cargo de diretor do Banco da Lavoura de Minas
Gerais e presidente da Associação Comercial, foi demitido por ter assinado o Manifesto dos
Mineiros contra a ditadura Vargas. Em resposta, no ano seguinte, ele e um grupo de amigos criaram
o Banco Nacional, reunindo como sócios importantes empresários e políticos dissidentes. Também
em 1944, o Banco Comercial do Paraná (BANCIAL) incorporava o BPANP e a família Vieira e seu
grupo assumiam algumas Diretorias do banco.
286
Apesar de ser considerada como data oficial de sua criação o ano de 1945, o Banco Itaú
teve sua origem na Itaú Seguros, fundada em 1921, por um grupo de empresários italianos, com o
nome de Companhia Brasileira de Seguros Geraes. Em 1936 o controle acionário da Seguradora foi
transferido para um grupo de empresários brasileiros, coordenado por Alfredo Egydio de Souza
Aranha, e o nome da instituição foi alterado para Seguradora Brasileira. Alfredo Egydio fundou, em
1945, o Banco Central de Crédito com capital social de US$ 513 mil (10 milhões de Cruzeiros, na
época), com uma agência, seis caixas, 12 funcionários e dois telefones. Mais tarde, Alfredo Egydio
convidou seu sobrinho, Olavo Egydio Setúbal, para reestruturar o então Banco Federal de Crédito,
sucessor do Central de Crédito.13
287
Também em 1945 foi criada a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc)14, com a
função de exercer o “controle do mercado monetário”, recebendo do Banco do Brasil as atribuições
da Carteira de Redesconto15 e da Carteira de Mobilização e Fiscalização Bancária.16 Dirigida por
um Conselho presidido pelo Ministro da Fazenda, a Sumoc ficou responsável pela política
monetária, mas na prática não tinha controle sobre sua execução. Vários órgãos executavam a
política de forma descentralizada e, entre eles, o BB que concentrava a maior parcela de
responsabilidade através da Carteira de Redesconto (Cared) e Câmbio e Comércio Exterior
(Cacex). Já a Caixa de Mobilização Bancária (Camob) era uma instituição administrada pelo diretor
da Cared; e a Caixa de Amortização era subordinada ao Ministério da Fazenda. A Caixa de
Amortização emitia moeda quando solicitada pela CARED ou pela CAMOB, após autorização da

13
Fonte: BANCO ITAÚ S.A. Conheça o Itaú. História do Banco Itaú Holding Financeira S.A. São Paulo, [2004]. Disponível
em: <http://ww2.itau.com.br/carreira/geral/conheca.asp>. Acesso em: 04 abr. 2004..
14
Decreto-Lei nº 7.293, de fevereiro de 1945.
15
Criada pela Lei nº 4.182, de 15 nov. 1920, alterada pela Lei nº 4.230, de 31 dez. 1920, e pelo Decreto nº 19.525, de 24 dez.
1930.
16
Criada pelo Decreto nº 21.499, de 09 jun. 1932, alterado pelo Decreto-lei nº 6.419, de 13 abr. 1944.
100

Sumoc.
288
Em 1946, a matriz do Bradesco era Gráfico 3-10: Nº de agências por bancos em 1950.
transferida para o centro da capital paulista e, 300 277
suas agências passaram a receber pagamento
250

de contas de luz, o que na época foi


considerada como inovação.17 Segundo Costa 200

138
(2002b), após a Segunda Guerra, o número 150

de bancos foi reduzido de 663 em 1944 para 75


100 66 62 60
328 em 1964. Nesse mesmo período, cresceu
o número de filiais e agências que passaram 50

de 1.796 para 6.389. Também observa o 0

Banco do Lavoura Mercantil Bradesco Banespa Agrícola


autor que, em 1950, somente 13 bancos Brasil SP Mercantil
brasileiros contavam com mais de 50 Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados obtidos
em COSTA (2002b, p. 5).
agências e filiais (ver Gráfico 3-10).
289
No ano de 1952, era criado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE)18,
com o objetivo de suprir a demanda por financiamentos de longo prazo para empreendimentos
voltados para o desenvolvimento do país. Também nesse ano, Avelino A. Vieira e um grupo de
capitalistas que haviam saído do Bancial no ano anterior, adquiriram, da família Lupion, o controle
do Banco Meridional da Produção S.A. e mudaram o seu nome para Banco Mercantil e Industrial
do Paraná (Bamerindus).
290
O grande marco da história bancária brasileira ocorreu logo após o golpe militar, com
novas leis que reformaram o sistema financeiro. A Lei nº 4.595, de 31 de dezembro de 196419
regulamentou o Sistema Financeiro Nacional (SFN), criou o Conselho Monetário Nacional (CMN),
o Banco Central da República do Brasil (BCRB) e estabeleceu novas atribuições para outras
instituições financeiras. Nesse mesmo ano, também foi criado o Sistema Financeiro da Habitação
(SFH) que passou a contar com uma estrutura formada pelo Banco Nacional da Habitação (BNH)20,
o Instituto da Correção Monetária para Contratos Imobiliários, as Sociedades de Crédito
Imobiliário, as Letras Imobiliárias e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo. Para financiar o
SFH, a Lei nº 5.107, de 13 de setembro de 1966, criou o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS), substituindo a instituição da estabilidade no emprego – promovendo assim a flexibilização
e financeirização de uma parte importante das relações de trabalho.
291
O BCRB começou a operar em abril de 1965, sucedendo a Sumoc e tirando muitas das

17
Fonte: BANCO BRADESCO S.A. Relações com Investidores. História. Osasco, São Paulo, [2002]. Disponível em:
<http://www.bradesco.com.br>. Acesso em: 04 abr. 2005.
18
Lei nº 1.628, de 20 jun. 1952.
19
Grande parte da legislação que disciplina o Sistema Financeiro Nacional foi extraída de: BACEN - Banco Central do Brasil.
Legislação e normas. Brasília, [2003]. Disponível em: <http://www5.bcb.gov.br/?LEGISLACAO>. Acesso no período
2000-2006.
20
Lei nº 4.380, de 21 ago. 1964.
101

funções que estavam concentradas no Banco do Brasil. A reforma, além de extinguir a Caixa de
Amortização, a CARED e a CAMOB, transferiu do BB para o BCRB a fiscalização bancária, a
política cambial e a administração das reservas internacionais. Em 14 de julho desse mesmo ano,
foi promulgada a Lei nº 4.728 que regulamentava o mercado de capitais. Na esteira das reformas do
sistema financeiro, em 1966, foi criada a figura do banco de investimento21 e, em 1967, o CMN,
através da Resolução nº 63, de 23 de agosto, autorizou os bancos a captarem empréstimos no
exterior para serem repassados às empresas no país. Também nesse ano, o Decreto-Lei nº 278
alterou a denominação do BCRB para Banco Central do Brasil (Bacen) que, ao longo do tempo,
acabou agregando diferentes funções, como as de fomento, subsídio a setores da economia ou
regiões do país e, fiscalização de consórcios de automóveis. Mas entre suas atribuições mais
importantes estavam, as competências para conceder autorização para a abertura de novas
instituições financeiras, fiscalizar estas instituições e aplicar penalidades. Originalmente a criação
do Bacen visava conferir autonomia às Autoridades Monetárias em relação ao Governo Federal,
sendo sua diretoria composta por quatro membros escolhidos entre os seis membros do Conselho
Monetário Nacional que tinham mandatos fixos de seis anos. Mais tarde, o AI 522 suspendeu as
garantias legais dos membros com mandato fixo.
292
Em 1969, o Banco da América, de Herbert Levy se fundia ao Banco Federal Itaú Sul
Americano, surgindo assim o Banco Itaú América, que mais tarde foi transformado no Banco Itaú.
No ano seguinte, foi criada a Caixa Econômica Federal (CEF) como empresa pública e ocorreu a
cisão do Banco da Lavoura de Minas Gerais cujo patrimônio foi dividido entre os dois filhos de
Clemente de Faria, surgindo assim o Banco Real e o Banco Bandeirante. O Banco da Lavoura de
Minas Gerais era, até 1964, o maior banco privado em funcionamento no Brasil e na América
Latina. Em 1957 tinha 376 agências distribuídas por todo o país, do Amapá ao Rio Grande do Sul.
Tendo sido o primeiro banco privado brasileiro a abrir, em 1958, escritórios em Nova York e Paris.
293
Quanto ao Bacen, no mês de maio de 1974, era promulgada a Lei nº 6045 que permitia ao
Presidente da República demitir seus diretores, e na época o banco dividia as funções de autoridade
monetária com o BB. Com essa lei, o governo federal reduzia consideravelmente a autonomia do
Bacen. Sobre esse tema Eduardo Lundberg23 observou que:
52
[...] o desenho original do Banco, na Lei 4.595, de 31/12/1964, previa a independência
do BC. O regime militar, porém, atropelou a separação das instâncias fiscal e
monetária. O resultado foi a transformação do BC num instrumento para gastos e
subsídios creditícios “à margem do que era aprovado nas leis orçamentárias anuais
aprovadas pelo Congresso Nacional”, nos termos de Lundberg. O Banco do Brasil foi
mantido como autoridade monetária, com mando automático sobre os recursos do BC
através da “conta movimento”. O orçamento do BC, por sua vez, passou a acolher
subsídios à agricultura, a exportações, a importações de trigo e petróleo etc. Tendo a

21
Resolução nº 18, de 18 fev. 1966, do CMN, à luz do artigo 29 da Lei nº 4.728, de 14 jul. 1965.
22
Ato Institucional nº 5 de 13 dez. 1968.
23
Palestra proferida em agosto de 2001 durante um fórum organizado pelo Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco
Central (SINAL). Eduardo Lundberg era funcionário do banco. Fonte: CANUTO, O. A dialética da dependência do BC:
autonomia operacional do banco central culminaria separação fiscal-monetária. IE - UNICAMP. In: OESP, 21 ago. 2001..
102

faculdade de emitir títulos públicos e adiantar recursos ao Tesouro, dissolveu-se no


lado fiscal do governo. (CANUTO, 2001).

294
Ao longo de sua existência, o Bacen realizou centenas de intervenções24 e, segundo a
revista Veja (21 fev. 1996)25, das aproximadamente 600 empresas financeiras que até 1996
sofreram intervenção do banco, 129 permaneciam num departamento especial do Banco Central
conhecido internamente como “cemitério”:
53
[...] faz parte do anedotário do BC a decisão do ex-presidente Emílio Garrastazu
Médici, que pagava para não ver banco quebrar. “No meu governo não quero
nenhuma liquidação de banco”, teria dito Médici, numa reunião com seu ministro da
Fazenda Delfim Netto [...] e o então presidente do BC, Ernane Galvêas. Naquela
reunião discutia-se a necessidade de uma intervenção no (grupo) Halles [...] VEJA (21
fev. 1996).

295
Segundo a reportagem, a família de Médici e alguns amigos haviam perdido dinheiro nos
anos 1960, com a Cooperativa de Crédito Mauá, de Bagé. O Bacen somente decretou a intervenção
no grupo Halles no início do governo Geisel. Também segundo VEJA, o Banco União Comercial
(BUC)26, criado por Roberto Campos, teria sido protegido por Médici durante algum tempo do seu
governo, tendo o Bacen dado suporte à instituição enquanto ela continuava operando e pagando
empréstimos que tinha com bancos internacionais. Em 1974, o novo governo decidiu intervir,
transferindo para o Itaú a parte “boa” do BUC, ficando o Bacen com a outra parte e que, segundo
consta, ainda em “[...] 1991 pagava a faxineira que uma vez por semana limpava a casa que serviu
para recreio dos diretores do União Comercial em Campos do Jordão [...]” (VEJA, 21 fev. 1996).
Em março do ano seguinte, o Bacen teve que intervir no Banco Ipiranga de Investimentos S.A. e na
Coenge S.A. Engenharia e Construções. Tais intervenções abalaram o mercado financeiro e ficaram
na história como grandes escândalos, com profundas conseqüências para todos o sistema. Nos
próximos capítulos veremos que, nessa época, o Bamerindus incorporou o Bancial.
296
Nesse quadro temos que incluir a questão da dívida externa; os déficits em conta corrente
acumulados com a primeira crise do petróleo em 1973 foram os principais fatores que contribuíram
para o crescimento da dívida externa brasileira nos anos 70. A oferta de crédito internacional,
abundante e de baixo custo, levou o governo Ernesto Geisel, a partir de 1975, a aproveitar o
momento para financiar o ajuste econômico ao novo cenário internacional. Denominado como o
segundo Programa Nacional de Desenvolvimento (II PND), o plano era voltado para o
financiamento de projetos para substituição de importações, buscando produzir o que fosse possível
para aliviar a pressão sobre as importações.
297
Também durante os anos 1970 ocorreu o apogeu do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA),

24
As informações sobre intervenções do Bacen estão disponíveis em: BACEN - Banco Central do Brasil. Relação de
intervenções do Banco Central do Brasil (1945-2000). Brasília, [2004]. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br>. Acesso
em: 15 mar. 2005.
25
Fonte: A fraude passou por baixo das pernas destes nove cavalheiros. VEJA , ed. 1433 de 21 fev. 1996, p. 82-8; A
quebradeira, desde dom João VI. O BC já interveio ou fechou quase 600 instituições. VEJA, ed. 1433, 21 fev. 1996, p. 82-8.
Disponível em: <http://veja.abril.com.br/idade/em_dia/nacional_capa1.html>. Acesso em: 04 abr. 2005.
26
Para conhecer mais detalhes sobre os casos: Banco Halles e o BUC, ver Assis (1983).
103

quando recursos do Fundo de Exportação e a política de crédito rural financiaram, com


empréstimos subsidiados, o parque industrial e a lavoura, beneficiando principalmente os grandes
produtores. O Fundo de Exportação tinha como origem de recursos o confisco cambial sobre as
exportações do produto, formado pela diferença entre o preço interno pago pelo IAA aos
produtores, e o preço que recebia do mercado internacional pelas exportações. O ciclo de grande
alta no mercado internacional do açúcar, em 1974/75, foi seguido por um período de declínio dos
preços levando ao esgotamento das linhas de crédito do IAA e lançando todo o setor numa grave
crise de liquidez e redução dos investimentos.
298
Entre as empresas do setor estava o Grupo Atalla, controlador da Copersucar que, na época,
produzia aproximadamente 40% do açúcar brasileiro e 58% do álcool. Segundo ASSIS (1983),
quando os preços começaram a declinar no mercado internacional, o Grupo estava engajado no
projeto da Usina Central do Paraná, uma das maiores do mundo, financiado com um empréstimo no
valor de Cr$ 500 milhões – aproximadamente US$ 80 milhões ao câmbio da época. Diante da crise,
o grupo decidiu reter os pagamentos dos empréstimos. Quando o novo ministro Mário H. Simonsen
assumiu e teve que enfrentar a grave crise de liquidez que atingia o setor bancário, decidiu não
facilitar novos créditos ao Grupo, o que levou Jorge Atalla (amigo de Delfin Neto) a perder o
controle da Copersucar27. A crise financeira atingiu vários bancos que operavam com o Grupo,
entre eles o Bamerindus que, como veremos na seqüência deste trabalho, em 1996 ainda tinha
títulos dessas operações em seu balanço patrimonial.
299
Buscando modernizar o sistema financeiro, o governo promoveu uma nova regulamentação
para o mercado de valores mobiliários, criando, em 1976, a Comissão de Valores Mobiliários
28
(CVM) e, em 1979, o Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) para facilitar a
negociação com títulos públicos como as Letras do Tesouro Nacional (LTN) e as Obrigações
Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN).
300
Entre os anos 1960 e 1970, aconteceu um grande processo de concentração de instituições
bancárias, revertendo parte da estrutura federalista do sistema financeiro. Das 323 instituições
privadas existentes no início de 1960, sobraram apenas 67 em 1980 (MINELLA, 1988, p. 135),
favorecendo nitidamente as elites de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em 1964, São
Paulo tinha 106 instituições e controlava 38,44% dos depósitos nacionais; em 1976, com 40 bancos,
controlava 56,86%. (MINELLA, 1988, p. 157).
301
Com a ajuda do Bacen, muitos Estados perderam seus bancos ou tiveram sua participação
reduzida drasticamente, e grandes grupos passaram a atuar em todos os segmentos do mercado
financeiro. Tal processo de centralização era resultado de políticas públicas que nitidamente
beneficiaram parte das elites que passaram a controlar posições-chave do sistema político e
econômico após o golpe de Estado de 1964. Minella (1988) observa que a política econômica de

27
Para mais detalhes sobre o caso Atalla / Copersucar, ver Assis (1983).
28
Lei nº 6.385, de 07 dez. 1976.
104

Castelo Branco acelerou a concentração de capitais, através da restrição radical ao crédito e o


controle salarial. Durante todo o período militar, diversos instrumentos legais, fiscais e econômicos
específicos para o setor bancário, induziam a concentração do sistema, oficialmente justificados
pelas supostas vantagens competitivas da economia de escala, quando tais conglomerados poderiam
maximizar a eficiência das operações bancárias, com menores custos para a sociedade. Pelo prisma
estratégico, as fusões possibilitariam o fortalecimento da empresa nacional para contrabalançar o
poder dos grandes bancos internacionais. Tal concentração facilitava o controle do Estado sobre a
economia, e servia aos interesses das elites que apoiavam o regime militar.
302
Como observa Minella (1988), a crescente organização da categoria dos bancários induziu
o empresariado financeiro a buscar o fortalecimento de sua própria representação. Se extrapolarmos
a análise para o conjunto da sociedade, vamos verificar que, perante a crescente organização e
fortalecimento das classes trabalhadoras, as elites foram induzidas a construírem novas formas de
organização e controle do capital que garantissem seu poder, e esse processo se insere no
movimento maior de consolidação da hegemonia do capital financeiro.
303
Análises mais detalhadas sobre a história do sistema financeiro e bancário brasileiro desse
período podem ser encontradas em Minella (1988), Bouzan (1972), Lévy (1972), Pontes, (1973),
Fontenla (1977), Ribeiro & Guimarães (1967). Como referência comentada das fontes primárias e
secundárias para pesquisa, indicamos o trabalho de Saes (1995).

3.4.2 PERÍODO 1980 - 1994

304
A economia brasileira enfrentou grandes dificuldades no campo externo durante os anos
1980. A liquidez do mercado financeiro internacional sofreu grande retração após o aumento das
taxas de juros nos EUA que, ao chegar ao mercado internacional, não só aumentou o serviço da
dívida, como também deu início à grande recessão mundial em 1981. Para agravar ainda mais a
situação brasileira, em 1982 o México decretou moratória, assustando os investidores que acabaram
transferindo seus recursos para mercados mais seguros, provocando o estrangulamento do crédito
internacional que financiava os déficits externos de países periféricos.
305
Essas crises agravaram ainda mais os problemas internos do sistema financeiro brasileiro,
acumulados durante os anos de ditadura militar. Durante a década de 1980, o país teve que realizar
um enorme esforço político, econômico e institucional para sanear e reestruturar todo o sistema
financeiro. Como parte importante desse esforço, o Bacen decretou intervenção ou liquidação
extrajudicial em 14 instituições financeiras em 1980, em mais 17 em 1981, 7 em 1982 e 41
empresas financeiras em 1983, entre elas, no grupo Delfin em janeiro e, em 27 de junho nas
empresas do grupo Coroa.
306
Em 21 janeiro de 1983, a Folha de São Paulo (FSP) publicava denúncia sobre a
renegociação da dívida do Grupo Delfin com o BNH, que tinha sido agravada em razão dos juros e
da correção monetária. A então maior empresa privada que operava com cadernetas de poupança,
105

vinha rolando uma dívida, de cerca de 70 bilhões de cruzeiros, há mais de nove anos. A
intervenção, cogitada desde a gestão de Maurício Schulman (1974-1979), foi decretada em 21 de
janeiro e atingia as empresas dirigidas na época por Ronald Guimarães Levinsohn. Segundo a FSP,
a dívida havia sido quitada em troca de alguns empreendimentos habitacionais da Delfin, avaliados
em cerca de nove bilhões de cruzeiros. Na época, o ministro do Interior e candidato à Presidência
da República, Mário Andreazza, teve que depor na Câmara dos Deputados para explicar essas
operações.
307
A intervenção no Grupo Coroa29, de Assis Paim Cunha, caso que ficou conhecido como
Coroa-Brastel, envolveu acusações contra o ministro do Planejamento, Antonio Delfim Netto, o
ministro da Fazenda, Ernane Galvêas e o presidente do Bacen, Carlos Geraldo Langoni, todos do
governo João Baptista Figueiredo (1979-1985). “O caso Coroa-Brastel é emblemático dos acordos
a portas fechadas, típicos dos governos militares, e da omissão em relação ao desvio de dinheiro
público.” (VASCONCELOS, 1º out. 1998, p. 2-12). No início dos anos 80, a Coroa S.A. Crédito,
Financiamento e Investimentos, financeira da qual Paim era um dos sócios, emitiu letras de câmbio
sem o necessário lastro em crédito ao consumidor da rede de varejo lojas Brastel, também de
propriedade de Paim. Além de ter emitido muito além do que era legalmente permitido, também
oferecia uma remuneração muito acima da média do mercado. Quando a financeira quebrou, os
proprietários desses títulos não puderam resgatá-los. “Paim esperava que todos acreditassem que
essa emissão sem cobertura era feita com aprovação implícita das autoridades, em reciprocidade a
favores prestados ao governo”. (VASCONCELOS, 1º out. 1998, p. 2-12).
308
Segundo a versão de Paim, os problemas surgiram quando Delfim, Galvêas e Langoni
solicitaram que a empresa absorvesse a corretora Laureano, para evitar a intervenção naquela
instituição, na qual na época trabalhava um filho do chefe do Gabinete Civil, o general Golbery do
Couto e Silva. Já a versão oficial dizia que a financeira de Paim era a principal credora da corretora
Laureano, mas Paim alegava que essa dívida tinha origem em empréstimo feito pela Coroa a
Laureano por solicitação das três autoridades:
54
Na noite de 9 de fevereiro, Paim foi chamado por Delfim a Brasília, quando foi
decidida a compra da corretora Laureano. Paim emitiu cheque em valor
correspondente, hoje, a R$ 1,5 milhão, para compra do título patrimonial da corretora,
e recebeu empréstimo em valor igual do BC para cobrir os compromissos vencidos da
Laureano. Quatro dias depois, o BC concedeu nova assistência financeira de Cr$ 30
milhões (R$ 884 mil) para a Coroa, que transferiu os recursos à corretora Laureano
(contrariando a legislação). Paim diz que não tinha idéia dos rombos que encontraria.
E emitiu letras de câmbio sem lastro, no total de Cr$ 600 milhões (ou R$ 13,9 milhões
em moeda atual). Ele diz que Delfim determinou que procurasse a CEF, para tentar
um empréstimo de Cr$ 2,5 bilhões (R$ 58 milhões, hoje), para reforço de capital de
giro. A CEF exigiu apresentação de um projeto para liberar o empréstimo e aprovou
em apenas 24 horas a operação milionária com Paim, como “projeto de interesse
governamental”. Os recursos foram liberados em oito dias. (VASCONCELOS, 1º out.
1998, p. 2-12 10/263).

29
Fonte: VASCONCELOS, F. Processo envolvia cúpula econômica. FSP, São Paulo, 1º out. 1998, p. 2-12 10/263.
106

309
Segundo a reportagem, parte do empréstimo serviu para quitar débitos da Laureano com o
Banco do Brasil e o Banespa; outra parte (R$ 17,9 milhões em valores de 1998) foi utilizada para
pagamentos imediatos pela Coroa.
310
Outro problema grave que atingiu o setor financeiro foi o caso da Superintendência da
Marinha Mercante (Sunamam). Criado em 1974 pelo governo Geisel, foi o maior programa de
financiamento à construção de navios da história do país. Tinha por objetivo fortalecer a indústria
naval, e previa a destinação de US$ 3,3 bilhões, do Fundo da Marinha Mercante, subordinado ao
Ministério dos Transportes. Os estaleiros foram autorizados pelo governo a buscarem
financiamento no exterior, com aval da Sunamam, para concluir a produção dos navios. Segundo
Aith (27 out. 1997, p. 1-11), na época, o Brasil chegou a ser um dos cinco maiores produtores de
navios do mundo e, em 1980 empregava aproximadamente 40 mil trabalhadores30. Quando o limite
de financiamento foi ultrapassado, o setor entrou em crise, e o programa acabou no chamado
“escândalo Sunamam” ainda no governo Figueiredo (1979-1985). Investigações na CPI do Senado,
em 1985, demonstraram que o setor estava endividado por conta do gigantismo das operações e de
gestões financeiras “temerárias”, bem como a Sunamam havia avalizado estaleiros em operações
de desconto de duplicatas na rede bancária para que continuassem construindo os navios
encomendados. Com a crise, em 1983 a Sunamam foi extinta e, em 1984 o governo decidiu não
reconhecer os avais da Sunamam e determinou a apuração das irregularidades. Uma das suspeitas
era que as empresas descontavam, com aval da Sunamam, duplicatas de obras não realizadas,
gerando a expressão “navios de papel”. Ainda segundo Aith, as perdas da Cacex somavam US$
554 milhões (valores de 1987). Na época, a maior empresa que operava no setor era a Companhia
Comércio e Navegação, do grupo CCN, controlado pela família de Paulo Ferraz, do Estaleiro
Mauá. A família possuía vários empreendimentos em sociedade com diversos grandes grupos, entre
eles o Bozano Simonsen e o Bamerindus. Vamos ver na seqüência deste trabalho que Mario
Andreazza tinha ligações com o Grupo CCN, e o Bamerindus esteve engajado na sua candidatura à
Presidência da República.
311
Em 1984 o Bacen voltou a decretar a intervenção em mais 34 empresas financeiras, entre
elas figuraram a APESP – Associação de Poupança e Empreendimentos de São Paulo, as empresas
do grupo Haspa, e do grupo Brascred. Nessa época, eram grandes as dificuldades do BNH, uma vez
que se tornava evidente que, grande parte dos mutuários dos contratos habitacionais do banco não
tinha recursos para pagar suas prestações. A caderneta de poupança, o FGTS e o retorno dos
empréstimos, o chamado tripé de sustentação do BNH, não mais conseguiam manter o sistema.
Além do caso Delfin, as dificuldades do BNH estavam relacionadas aos saques crescentes do FGTS
e, à maciça evasão dos depósitos nas cadernetas de poupança. Para o então ministro Mário
Andreazza, em declaração na Câmara dos Deputados, o problema era o estado crítico da economia,
com uma inflação crescente que havia se tornado não só o maior inimigo do SFH, como também o

30
Fonte: AITH, M. Setor naval leva R$ 577 mi. FSP, 27 out. 1997, p. 1-11.
107

maior problema social. Apontou alguns caminhos para tentar manter em funcionamento pelo menos
duas das pernas do sistema: tornar mais atrativa a caderneta de poupança e bloquear, na medida do
possível, as retiradas do FGTS. Os problemas do BNH se arrastaram até hoje e grande parte dos
bancos ainda carrega operações do SFH em sua estrutura de ativos.
312
Em 1985, pressionado pela rigidez do oligopólio financeiro, o governo, através do CMN,
liberou para o regime de mercado, as taxas de juros praticadas pelas instituições financeiras31,
buscando induzir a redução da taxa de juros. Mas o ano foi particularmente difícil para o sistema
financeiro, pois diante do cenário de crise financeira, o Bacen promoveu novas intervenções que
desta vez atingiram 56 instituições financeiras, entre elas estavam as empresas dos grupos Sul
Brasileiro, no dia 8 de fevereiro; Habitasul, em 11 de fevereiro; Brasilinvest, em 19 de março;
Jofran Distribuidora de Títulos e Valores. Mobiliários Ltda, em 5 de julho. As conexões entre essas
empresas e os demais integrantes do sistema financeiro abalaram grande parte do mercado
financeiro, obrigando o Bacen a intervir novamente, no dia 19 de novembro, nas empresas dos
grupos Auxiliar, Comind e Maisonnave.
313
Esses grupos tinham conexões com o caso da Coroa-Brastel e com o Montepio da Família
Militar (MFM) – controlador do Banco Sul Brasileiro – e que estava sob intervenção da
Superintendência de Seguros Privados (Susep) desde 13 de fevereiro de 1985. Também existiam
conexões com o Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC) que, segundo Oliveira (jan. 1985,
p. 47)32 na época estava envolvido em diversas fraudes, entre elas, nas operações de Adiantamentos
de Contratos de Câmbio (ACC) para empresas e cooperativas como a Centralsul33.
314
Tanto o BNCC como as instituições envolvidas tinham negócios com grande parte do
sistema financeiro e o montante dessas operações foi suficiente para abalar a liquidez do mercado,
bem como atingiu a credibilidade do sistema. Essas intervenções tornaram públicas as operações
que ocorriam entre essas empresas, resultando em vários escândalos financeiros e processos
judiciais34. Na época das intervenções no Auxiliar e Comind, correram fortes boatos que o
Bamerindus também seria atingido, e, na época, o banco enfrentava uma forte crise de liquidez.
Ao cenário de intervenções, temos que acrescentar a inflação crescente, com visível descontrole
por parte do governo (ver Gráfico 3-11). A inflação havia ultrapassado a marca dos 200% no
primeiro ano da Nova República, implicando em enorme desgaste político que levou o governo
a decretar, no dia 1º de março de 1986, um conjunto de medidas que ficou conhecido como
“Plano Cruzado I”. Sob o comando do ministro da Fazenda Dílson Funaro, o plano promoveu a

31
Resolução nº 1.064, de 05 dez . 1985, baseado no artigo 4º, inciso IX, da Lei nº 4.595/64.
32
Fonte: OLIVEIRA, F. O roubo é livre. Porto Alegre: Tchê! Editora Ltda., dez. 1985.
33
Segundo Oliveira (dez. 1985, p. 47) também estavam envolvidas com este tipo de fraude as seguintes empresas: André &
Cie., Ceval Agro-Industrial (maior complexo industrial brasileiro de processamento da soja e derivados), Victória Int’l,
Nidera Handelscompagnie, Intercontinental de Café (a maior exportadora brasileira de café), Acli Soya Company, Louis
Dreyfus, Continental Grain C. Itoh e Co., Coproban, Panchaud Freres, A.C. Toepfer, Tradax Export, Cie. Noga, Phibro
Grain, Richco, Bunge e Born (que opera no Brasil como Sanbra e Samrig), ADM Decatur, Cargill Agrícola, Sumitomo
Corp. of America, C.P. International, Finagrain, Socef, Mitsubishi Int’l, Agri Industries, Henry W. Peabody, Interice
London, Far-mar-co Export, Sesostrade e Continental Commodities.
34
Para mais detalhes sobre esses casos, ver Oliveira (jan. 1985) e OLIVEIRA, F. Viva a corrupção: o escândalo BNCC /
CENTRALSUL. 4 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto Editora e Propaganda, jan. 1985.
108

reforma monetária cortando três zeros e substituindo o “Cruzeiro” pelo “Cruzado”, seguido de
congelamento dos preços e salários por um ano.

Gráfico 3-11: Variação do IGP (DI)35 entre 1976 a 1985 (em %)

450
416
400

350

300
235
211 224 250

200

100
110 95 150
77
100
46 39 41
50
65
-

1984 1985 1986 1987


1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983

36
Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados extraídos de FGV (2005) .

315
Também foi criado o “gatilho salarial” de 20%, mais as diferenças negociadas nos dissídios
coletivos por categoria. A correção monetária foi extinta e em seu lugar foi criado o Índice de
Preços ao Consumidor (IPC), para correção da poupança e das aplicações financeiras superiores há
um ano. Contida a inflação, o poder aquisitivo cresceu com o aumento dos salários e o
congelamento dos preços, com isso também cresceu o consumo, provocando o desabastecimento.
Em quatro meses, o plano já mostrava a sua fragilidade. As mercadorias desapareceram dos
supermercados, os fornecedores cobravam ágio e a inflação voltou a subir. Sem saída política, o
governo manteve o congelamento até as eleições do final do ano. Nesse período, pressionados pela
queda da inflação, os bancos buscaram compensar a perda de receita com o aumento da carteira de
crédito. O mercado foi inundado pelo crédito fácil e barato para todo o tipo de empresas,
expandindo consideravelmente o número de novos empreendimentos. A mudança brusca no
sistema financeiro exigiu um esforço enorme das instituições bancárias para acompanhar as novas
regras, ditadas diariamente pelo Bacen e pelo Ministério da Fazenda. A complexidade de tais
mudanças envolvia desde a adequação operacional das agências, sistemas de processamento,
treinamento de funcionários, até aspectos legais cujo equacionamento necessitava muitas vezes de
mudanças na legislação.

35
IGP (DI): Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna, apurado pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da
Fundação Getúlio Vargas (FGV).
36
Fonte: FGV - Fundação Getúlio Vargas. Informação econômica online. Fgvdados. Rio de Janeiro, 2005. Disponível em:
<http://www.fgvdados.com.br/dsp_frs_pai_ferramentas.asp>. Acesso em: 13 jun. 2005.
109

316
Em 1986, o mercado de títulos privados recebeu regulação especial através da criação da
Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip) que permitia a introdução dos
Depósitos Interfinanceiros (DI ou CDI), eliminando o uso do cheque para a liquidação de operações
com títulos privados. Em janeiro desse ano, o Bacen assumiu integralmente as funções de
autoridade monetária quando foi extinta a chamada conta movimento do BB, e a administração da
dívida pública interna foi transferida para o Tesouro Nacional. Em 30 de janeiro, o CMN congelou
a conta-movimento que o Banco Central mantinha no BB e definiu que as novas operações teriam
então que ocorrer dentro da sistemática de prévio suprimento de recursos. O BB também perdeu os
recursos originários do fluxo de caixa do orçamento do Tesouro e, em contrapartida, foi autorizado
a praticar todas as operações permitidas às instituições financeiras, passando a competir no
mercado. Nesse ano, não foi possível ao Tesouro fornecer ao BB os recursos necessários para as
operações de crédito agrícola, sendo obrigado a cobrir cerca de 25% com recursos próprios, sob
promessa de receber o montante correspondente à equalização de juros, o que só veio a ocorrer no
ano seguinte.
317
Também nessa época, segundo Hoffmann & Valadares (2002)37, ao quadro de dificuldades
do BNH, vieram se somar os débitos oriundos das liquidações extrajudiciais no SFH, que chegaram
a cerca de 13 trilhões de cruzeiros. Diante de todos os problemas do banco, e do déficit estimado
para os 15 anos seguintes – aproximadamente 20 bilhões de cruzados – o governo concluiu que os
problemas não tinham solução. Administrando contratos com cerca de 3,5 milhões de mutuários,
foram oferecidos incentivos para quitação dos antigos contratos, e o Decreto-Lei nº 2.291, de 21 de
dezembro de 1986, extinguiu o BNH, e distribuiu suas atividades para a CEF, BNDES e para a
Secretaria de Habitação do Ministério de Desenvolvimento Urbano (MDU). Segundo o jornal
OESP (10 dez. 1986)38, a decisão final pela extinção do banco teria sido tomada em reunião
realizada no gabinete do presidente José Sarney, às vésperas do Plano Cruzado II, pegando a todos
de surpresa. Nem mesmo o presidente do BNH, José Maria Aragão, soube antecipadamente da
medida e, entre as hipóteses sobre os verdadeiros motivos da extinção do BNH, estavam a vontade
do governo em acabar com a conta individualizada do trabalhador e o conseqüente controle sobre
as aplicações dos recursos do FGTS que passariam a englobar um “fundão” único juntamente com
os recursos do PIS-Pasep, sob a gestão única da CEF.
318
Para Lucas Pirajá de Oliveira Rosa, na ocasião subchefe do departamento de Inspeção do
Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo do BNH e ex-liquidante da Sul-Brasileiro-SP
Crédito Imobiliário, o controlador do grupo Delfin, Ronald Levinsohn, teria sido “[...] um dos
mentores da extinção do BNH e certamente um dos maiores beneficiados pela medida... a pressão
dessas empresas (as 23 empresas liquidadas pelo governo), especialmente dos controladores dos

37
Fonte: HOFFMANN, Andréa R.; VALADARES, Lechia do P. Verbete: BANCO NACIONAL DA HABITAÇÃO (BNH).
In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: pós-1930 (DHBB). 1ª edição. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
CPDOC, 2002. CD-Rom.
38
Fonte: OESP, 10 dez. 1986, apud Hoffmann & Valadares (2002).
110

grupos Edel e Delfin, foi fundamental para a extinção do banco” (OESP, 2 dez. 1986). Josualdo
Medeiros, na ocasião superintendente de Controle e Fiscalização do BNH, entrevistado na mesma
matéria, declarou que “[...] não restam dúvidas de que o fim do banco interessa aos liquidados [já
que] o total de Cz$ 80 bilhões decorrente das 23 empresas liquidadas fica agora com o seu
recebimento indefinido” (OESP, 2 dez. 1986). Como não havia correção monetária dos passivos
das empresas liquidadas, a inflação no período em que se processava a liquidação extrajudicial
trazia vantagens aos devedores.
319
Grande parte dos problemas do SFH foi acumulada no Fundo de Compensação de
Variações Salariais (FCVS). Criado por intermédio da Resolução nº 25, de 16 jun. 1967, do
Conselho de Administração do BNH, o FCVS39 tinha por finalidade garantir a quitação, junto aos
agentes financeiros, dos saldos devedores remanescentes de contrato de financiamento habitacional.
A estagnação econômica, os altos índices inflacionários e as elevadas taxas de juros levaram o
Governo Federal a conceder sucessivos e cumulativos subsídios aos mutuários do SFH, ao permitir
que as prestações previstas nos contratos habitacionais não fossem majoradas com base nas
condições contratualmente pactuadas. O Decreto Lei nº 2.065, de 26 out. 1983, produziu impacto
direto nos saldos devedores dos financiamentos, na medida em que proporcionou a redução das
obrigações dos adquirentes de moradia própria e, conseqüentemente, imputou ao FCVS a
responsabilidade pelo pagamento desses benefícios. Essa conta cresceu ao longo do tempo sem a
cobertura de recursos orçamentários, gerando sucessivos adiamentos do pagamento das obrigações
do Fundo. Assim o FCVS passou a assumir responsabilidades crescentes incompatíveis com o seu
patrimônio e fluxo de caixa. A grande maioria dos bancos brasileiros operava com empréstimos
imobiliários do BNH, e administrava grandes carteiras de contratos de financiamento. A crise do
setor e a indefinição do governo quanto ao FCVS, formou, dentro do sistema bancário, um enorme
montante de ativos a receber, cuja perspectiva de liquidez passou a depender da capacidade
financeira do Estado.
320
Outro problema grave que atingiu o SFN e o Bamerindus foi o caso Siderbrás. Criada pela
Lei nº 5.919, de 17 de setembro de 1973, a Siderbrás – Siderurgia Brasileira S.A., tinha por função
controlar e coordenar a produção siderúrgica estatal, e foi constituída ao receber do BNDES a
transferência do controle acionário das empresas do setor. Segundo ABREU (2002), nos anos 1980,
a crise da dívida externa provocou o declínio da demanda interna por aço, resultando em excesso de
capacidade e exportações com menor retorno. Nesses anos, o cenário foi de queda nos lucros e
investimento, devido à menor disponibilidade de crédito externo e aos baixos preços, tanto externos
como internos – estes causados pelo controle de preços, fruto da política governamental de combate
à inflação. Essa situação lançou o setor siderúrgico numa profunda crise financeira, principalmente
a Siderbrás que chegou à situação de insolvência, bem como a maior parte de suas empresas.

39
Fonte: MINISTÉRIO DA FAZENDA. Dívida Pública: FCVS. Brasília: Governo Federal Disponível em:
<http://www.tesouro.fazenda.gov.br/divida_publica/downloads/fcvs.htm>. Acesso em: 1º jul. 2004.
111

321
Negociações para equalizar o problema da dívida crescente da Siderbrás com os bancos,
envolveram a Febraban e o governo federal, e resultou na emissão de debêntures em 1988, que
substituiriam os títulos vencidos, extinção da empresa, e aportes de recursos do Banco do Brasil.
Com a Resolução 1469 do Bacen, a Siderbrás, como empresa pública, ficou impedida de obter
financiamentos do BNDES, bem como também, nesse ano, foi iniciado o processo de privatização
das siderurgias brasileiras, através do Plano de Saneamento do Sistema Siderbrás, que começou
com as empresas de menor porte. Segundo Andrade & Cunha (2004)40, o BNDES teve créditos
securitizados por conta da sua exposição com o setor siderúrgico, no total aproximado de US$ 1,7
bilhão. Desse total, cerca de US$ 400 milhões decorreram de créditos contra a própria Siderbrás e o
restante, US$ 1,3 bilhão, por conta de recebíveis contra as empresas siderúrgicas. Mais tarde, esses
títulos seriam utilizados no programa de privatização, quando o Bamerindus teve uma importante
atuação, tanto no leilão da Usiminas, Usina Siderúrgica de Minas Gerais, como da CSN,
Companhia Siderúrgica Nacional.

3.4.2.1 PLANOS ECONÔMICOS

322
Terminadas as eleições, em 21 de novembro de 1986, o governo Sarney lançou o “Plano
Cruzado II” que liberava os preços de produtos, serviços e aluguéis, bem como alterou o cálculo da
inflação, que passou a ter como base os gastos das famílias com renda de até cinco salários
mínimos. Como resultado dessas medidas, as exportações caíram ao passo que as importações
aumentaram, esgotando as reservas cambiais e, persistente, a inflação voltou a subir. As empresas
que buscaram crédito durante o ano, se viram numa situação difícil com a retração brusca do
consumo e o aumento da taxa de juros, não conseguindo honrar os contratos. A inadimplência
cresceu tanto no segmento das pessoas físicas como das jurídicas, colocando os bancos em sérias
dificuldades de liquidez. Veremos na seqüência deste trabalho que, parte destes contratos, foram
arrastados pelos bancos durante muito tempo, sendo o Banco Nacional o caso mais notório, e só foi
tornado público quando houve a intervenção do Bacen, em 1995.
323
O ano de 1987 iniciou com o fracasso do “Plano Cruzado II” e a declaração de moratória
pelo governo, suspendendo o pagamento da dívida externa em 20 de janeiro desse ano. O ministro
da Fazenda, Dílson Funaro, foi substituído por Luiz Carlos Bresser Pereira e, em fevereiro, o
governo instituiu uma terceira instância de intervenção estatal, o Regime de Administração
Especial Temporária (RAET) 41., criando instrumentos para intervir nos bancos estaduais que
acumulavam graves problemas resultantes da grave crise econômica e financeira dos Estados. O
RAET era de caráter transitório e, tinha prazo previamente estabelecido para a intervenção nas
instituições financeiras privadas e públicas não federais. Nesse ano, o Bacen promove intervenções

40
Fonte: ANDRADE, M. L. A. de. CUNHA, L. M. da S. O setor siderúrgico. – BNDES, [2004]. Disponível em:
<http://www.bndes.gov.br/conhecimento/livro_setorial/setorial03.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2004
41
Decreto Lei nº 2.321, 25 fev. 1987.
112

em 56 instituições financeiras, e em 36 empresas utilizou o RAET; entre elas estavam instituições


públicas financeiras dos seguintes estados: BA, CE, MA, MG, MT, PA, RJ e SC. Em junho de
1987, o ministro da Fazenda anunciou o chamado “Plano Bresser”, decretando novo congelamento
de preços, de aluguéis e de salários por 60 dias. Também aumentou impostos e tributos, eliminou o
subsídio ao trigo e adiou a execução de obras, além de extinguir o gatilho salarial e retomar as
negociações com o FMI suspendendo a moratória. Apesar dessas medidas, o IGP (DI) ultrapassou a
marca de 400% em dezembro de 1987, o que levou Bresser a deixar o ministério em 6 de janeiro de
1988.
324
Maílson da Nóbrega assumiu a Fazenda propondo uma política econômica sem medidas
drásticas; o objetivo era reduzir a inflação fazendo ajustes localizados e graduais, o que a imprensa
logo denominou como a política do “Feijão com Arroz”. Mesmo assim, no final de 1988, o IGP
(DI) ultrapassou a marca de 1.000%. Também nesse ano as negociações entre o Brasil e o FMI
foram retomadas, resultando num acordo de US$ 1,4 bilhão, dos quais o país conseguiu sacar
apenas US$ 477 milhões. Ainda em 1988, mais 17 instituições financeiras sofreram intervenção do
Bacen, entre elas, no dia 16 de novembro, estava o Banco do Estado de Alagoas S.A.
325
Mas a grande transformação no SFN aconteceu com a promulgação da nova Constituição
cujo artigo 192 determinou que o “[...] sistema financeiro nacional, estruturado de forma a
promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, será
regulado em lei complementar”. O artigo também estabeleceu que as autorizações de
funcionamento para as instituições financeiras seriam inegociáveis e intransferíveis, mas permitia a
transmissão do controle de pessoa jurídica. Com isso extinguia a carta patente e removia a principal
barreira para a entrada de novas empresas no sistema financeiro. Logo em seguida, o CMN
regulamentou os bancos múltiplos42, permitindo agregar várias funções financeiras numa mesma
instituição. Assim, apesar do Bacen ganhar mais poderes, foi aberta uma importante brecha no
sistema financeiro, que ilustramos com o depoimento de Cláudio Ness Mauch43, na CPI do Proer,
em 02 de outubro de 2001:
55
[...] em 88, nós tivemos o advento da criação do Banco Múltiplo, e aquela
segmentação [do sistema bancário] que nós tínhamos no passado, ela modificou, ou
seja, aquilo que era separado, o banco comercial do banco de investimento de uma
financeira, pôde passar a serem feitas todas as operações dentro de uma única
instituição financeira. O que [...] de um lado [...] Melhorou extremamente [...] a
administração de caixa de um grupo financeiro. De outro lado colocou, dentro dessa
mesma instituição, a possibilidade de algumas participações acionárias fora do

42
Resolução nº 1.524, de 21 set. 1988, do CMN.
43
Cláudio Ness Mauch. Diretor do Banco Central do Brasil na Área de Fiscalização (DIFIS) no período 09 set. 1993 03 dez.
1993, e da DINOR - Área de Normas e Organização do Sistema Financeiro entre 06 abr. 1993 e 22 mar. 1996. Fonte:
BACEN - Banco Central do Brasil. Sobre a Instituição História. Galeria dos Presidentes. Presidentes do Banco Central do
Brasil: Relatório Circunstanciado - 1991 a 1996. Brasília, [2002]. Disponível em:
<http://www.bcb.gov.br/pre/Quemequem/port/presidentes/default-a.asp?idpai=historiapresi&id=historiapresi>. Acesso em:
15 dez. 2005.
113

Sistema Financeiro que não estavam cobertas, inclusive, pela supervisão do Banco
Central do Brasil. (MAUCH / CPI DO PROER, 2002, p. 14-15)44.

326
Outra mudança importante promovida pela Constituição foi a proibição para o
financiamento direto e indireto do Tesouro pelo Bacen.
327
Em 15 de janeiro de 1989, Maílson da Nóbrega decretava o “Plano Verão” que novamente
suprimia três zeros e trocava o nome da moeda para “Cruzado Novo”. Também os preços foram
congelados e extinguiu-se a correção monetária. O plano trouxe novas propostas de cortes no gasto
público, privatização de algumas empresas e exoneração de funcionários contratados nos últimos
cinco anos. A maioria das medidas ficou no papel e, em dezembro do mesmo ano, o IGPM (DI)
chegou a 1.782,85%. Também temos que observar que todas as tentativas de equacionar o
problema da dívida externa haviam fracassado, nem mesmo o chamado Plano Baker conseguiu
obter resultados satisfatórios. A solução começou a aparecer a partir de março de 1989 quando, sob
a égide do Plano Brady, foram iniciadas novas negociações. Nesse ano, o Bacen decretou a
intervenção em 24 instituições financeiras, e, sob o RAET ficaram os bancos dos Estados do Acre,
Piauí e Alagoas. Em 14 de março de 1990, um dia antes da posse do novo Presidente, o Bacen
decretava intervenção para liquidação extrajudicial no Banco Regional de Desenvolvimento do
Extremo Sul (BRDE).
328
Em 15 de março de 1990, Fernando Collor de Mello assumiu a Presidência da República e
anunciou o Plano Brasil Novo, também conhecido como “Plano Collor I”. Com o objetivo de
estancar a hiperinflação e ajustar a economia, determinou que o Cruzado Novo fosse substituído
pelo “Cruzeiro” e bloqueou por 18 meses os saldos das contas correntes, cadernetas de poupança e
demais investimentos superiores a Cr$ 50.000,00. Os preços foram tabelados e depois liberados
gradualmente. Os salários foram pré-fixados e depois também liberados, além de aumentar
impostos e tarifas, criou novos tributos e suspendeu incentivos fiscais. O plano incluiu o anúncio de
cortes nos gastos públicos, redução da máquina do Estado, demissão de funcionários e privatização
de empresas estatais. Também determinou a abertura do mercado interno com a redução gradativa
das alíquotas de importação.
329
As medidas provocaram um brutal estrangulamento financeiro e tumulto no mercado.
Depoimentos de ex-funcionários do Bamerindus descrevem os dias seguintes ao anúncio das
medidas, como os piores dias na vida dos bancários. As normas chegavam de Brasília
desencontradas, clientes desesperados chegaram a ameaçar gerentes e caixas dos bancos. As
agências mantinham televisores ligados para poderem acompanhar as sucessivas edições de normas
e procedimentos, pois as linhas telefônicas estavam congestionadas. A então ministra da Economia,
Zélia Cardoso de Mello, fazia liberações gradativas do dinheiro retido - “operação torneirinha” -

44
Fonte: MAUCH, Cláudio Ness. Depoimento na CPI – PROER. Câmara dos Deputados - Departamento de Taquigrafia,
Revisão e Redação, Núcleo de Revisão de Comissões. Texto com redação final. Número: 001035/01. Transcrição Ipsis
Verbis. Brasília: 02 out. 2001. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/Internet/comissao/index/cpi/proer_nt021001.
doc>. Acesso em: 29 jun. 2005.
114

para pagamento de taxas, impostos municipais e estaduais, folhas de pagamento e contribuições


previdenciárias. Com o tempo, o governo liberou os recursos das grandes empresas e deixou retido
o dinheiro dos poupadores individuais.
330
Instalou-se uma corrida ao mercado bancário para ajustar as operações às novas regras;
novamente os programas de processamento de dados e normas internas foram alterados;
treinamento de funcionários, além da necessidade de novos investimentos para recuperar a imagem
institucional depois do desgaste sofrido com o congelamento das contas correntes. Nos meses
subseqüentes, o Brasil entrou numa grande recessão econômica, com aumento no desemprego,
fechamento de empresas e redução da produção. Os bancos se viram numa situação extremamente
difícil, pois, além de perderem a receita inflacionária, tiveram seus custos operacionais elevados por
conta do ajuste da estrutura para atender às novas regras, bem como a recessão limitava a
possibilidade de compensar as perdas com o aumento nas operações de crédito:
56
A análise do ocorrido nos primeiros 60 dias do Plano Collor mostra uma clara
preponderância de fatores inerentes ao próprio bloqueio da liquidez, e não de
equívocos ou liberalidades na sua condução. O descontrole do ritmo de expansão da
liquidez era inevitável, devido à própria concepção do bloqueio, à natureza mesma das
medidas e às condições da economia brasileira. O descontrole da monetização
localizou-se basicamente no sistema bancário. Era inevitável a ocorrência de grande
tumulto na atividade dos bancos após o bloqueio, pela impossibilidade de
detalhamento das regras operacionais de um plano elaborado em sigilo máximo. Os
bancos passaram a operar às cegas, sem conhecer sua posição de caixa. Dado o receio
de pânico no caso de algum banco deixar de atender os saques do público, o BCB
optou por financiar os bancos na medida de sua demanda. [...] Um dos fundamentos
do Plano Collor era a convicção de que, com o bloqueio da liquidez, o BCB
recuperaria o controle da oferta de moeda e poderia ordenar a monetização, de forma a
separar a moeda demandada para transações e a moeda demandada para especulação.
A experiência do bloqueio demonstrou a impossibilidade de separar a demanda por
moeda para fins especulativos e para giro dos negócios, dentro do conjunto formado
pela moeda indexada e pela moeda convencional. O objetivo de controlar a
monetização falhou, no essencial, por este motivo. (CARVALHO, 2003b, p. 328-
329)45

331
Os problemas se acumularam e levaram o Bacen a decretar a Liquidação Extrajudicial de
14 instituições financeiras, entre elas estavam as empresas dos grupos: Banco do Estado da Paraíba,
Banco do Estado do Rio Grande do Norte, Caixa Econômica do Estado Goiás (Caixego). No ano
seguinte, mais 29 empresas são colocadas sob intervenção pelo Bacen, entre elas estavam: o Banco
de Desenvolvimento do Paraná S.A. (BADEP), a Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais, as
empresas do grupo Banco do Estado do Piauí e do Banco do Estado de Pernambuco.
332
Foi na administração Collor que teve início a implantação de políticas neoliberais no Brasil.
Com a justificativa de enfrentar o problema da dívida pública, foi criado, em 16 de agosto de 1990,
o Programa Nacional de Desestatização46, tendo sido a Usina Siderúrgica de Minas Gerais

45
Fonte: CARVALHO, C. E. O fracasso do Plano Collor: erros de execução ou de concepção? Economia. Vol. 4 n.2. Niterói:
ANPEC, jul. / dez. 2003b, p. 283-331. Disponível em: <http://www.anpec.org.br/revista/vol4/v4n2p283_331.pdf>. Acesso
em: 25 mar. 2005.
46
O programa estava baseado no seguinte raciocínio: “Como o capital da União investido nas empresas estatais rende 1,08%
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
115

(Usiminas) a primeira estatal a ser privatizada através de leilão, em 24 de outubro de 1991. Na


época, o Grupo Bamerindus adquiriu 2,3%47. do capital, e a Caixa de Previdência dos Funcionários
do Banco do Brasil (PREVI) arrematou 14,94% e a CVRD, 14,62%. O controle acionário ficou
com um grupo de investidores formado pelo Banco Bozzano Simonsen, Nippon Usiminas,
Associação dos Funcionários e quatro empresas distribuidoras de aço48. Depois disso, mais 25
estatais foram privatizadas até o final de 1993.
333
Para viabilizar o programa, foram criados os Certificados de Privatização (CP), que eram
títulos de emissão do Tesouro Nacional; eles conferiam aos seus detentores o direito de utilizá-los
como meio de pagamento na compra de ações de empresas do setor público que seriam
privatizadas. A emissão dos CP foi determinada pela Lei nº 8.018, de 11 de abril de 1990, e as
condições de aquisição desses títulos foram fixadas pelo CMN49. Como adquirentes, foram
definidos os seguintes participantes do SFN: a) instituições financeiras com o valor mínimo
equivalente a 3% do ativo circulante e realizável a longo prazo ou 18% do patrimônio líquido
ajustado, o que fosse menor; b) entidades fechadas de previdência privada, no valor mínimo de
25% em se tratando de entidades públicas, e 10%, no caso das demais entidades (privadas);
incidentes sobre os recursos garantidores de suas reservas; c) sociedades seguradoras, sociedades de
capitalização e as entidades abertas de previdência privada, no valor mínimo de 10% dos recursos
garantidores de suas reservas técnicas não comprometidas. Todos os cálculos seriam realizados
com base nas informações publicadas pelas instituições em 31 de dezembro de 1989.
Posteriormente, foi permitida a negociação dos CPs no mercado financeiro, bem como a aquisição
mediante cessão dos créditos oriundos da renegociação da dívida da Sunamam e das obrigações
financeiras do BNCC. A medida colocou os bancos entre os principais interessados na compra das
empresas estatais, bem como reduziu a disponibilidade de recursos para o crédito.
334
Com a inflação voltando ao centro dos problemas econômicos, pois o índice IGP (DI)
chegou a 1.476,71% acumulado no ano, o governo tomou novas medidas, decretando o “Plano
Collor II” em 31 de janeiro de 1991. O plano extinguiu as operações de overnight, criou o Fundo de
Aplicações Financeiras (FAF), eliminou o Bônus do Tesouro Nacional fiscal (BTNF), utilizado
como indexador, e criou a Taxa Referencial Diária (TRD) com juros prefixados. Também
aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e instalou uma política de juros altos;
promoveu a desindexação da economia, decretou mais um congelamento de salários e preços, e
adotou um deflator para os contratos com vencimento após 1º de fevereiro. Para aumentar a
concorrência no setor industrial e conter a inflação, foi criado um cronograma de redução das

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
a.a., a privatização pode ter um significativo impacto fiscal se esse patrimônio for vendido e usado para abater dívida
pública, sobre a qual o governo paga juros anuais na faixa de 20% a 25%. A cada R$ 10 bilhões de patrimônio alienado seria
possível obter uma economia líquida de R$ 1,9 bilhão a R$ 2,4 bilhões por ano”.(CAMPOS, 1995).
47
Fonte: Bamerindus: Relatório da Diretoria apresentado no Encontro Semestral dos Conselhos & Diretorias realizado em 31
jan. 1992.
48
Fonte: GALAZI J.; GUILHERMINO L. [Venda da Usiminas]. OESP, São Paulo 25 out. 1991.
49
Resolução CMN nº 1.721, de 27 jun. 1990. Fonte: Bacen (2003).
116

tarifas de importação. O resultado foi a redução da inflação, com o IGP (DI) acumulando a variação
de 480,23% em 1991.
335
A economia começou a se recuperar no final de 1992, após um grande processo de
reestruturação interna de boa parte dos setores produtivos. A inovação desse plano foi o início do
processo de abertura do mercado interno para produtos importados, obrigando as empresas a
modernizarem seus processos através de novos investimentos, programas de qualidade e novos
produtos. Nesse processo, os bancos foram induzidos a investirem pesado na automação,
modificarem suas estruturas internas e aumentarem a produtividade. Mas o sistema financeiro ainda
continuava carregando títulos públicos e privados de baixa liquidez, bem como agora estavam
envolvidos no processo de privatização.
336
A perspectiva das instituições financeiras era a de se transformarem em grandes
conglomerados financeiros, incorporando outras empresas principalmente participando das
privatizações, ou serem absorvidas pelos grupos que foram mais agressivos no processo. Sendo
assim, boa parte do setor se engajou na disputa pelo controle das grandes empresas estatais,
participando dos leilões de várias instituições. No Quadro 3-2, apresentamos a relação de empresas
privatizadas no período 1991 a 1997, destacando aquelas que o Bamerindus adquiriu participação
acionária.
Quadro 3-2: Empresas privatizadas entre 1991 e 1997.
Data da
Nº Sigla Nome da empresa
venda
1 Usiminas Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S.A. 24/10/1991
2 Usimec Usiminas Mecânica S.A. 24/10/1991
3 Celma Cia. Eletromecânica 01/11/1991
4 Mafersa Mafersa S.A. 11/11/1991
5 Cosinor Cia. Siderúrgica do Nordeste 14/11/1991
Cosinor
6 Cosinor Distribuidora S.A. 14/11/1991
Distribuidora
7 SNBP Serviço de Navegação da Bacia do Prata 14/01/1992
8 AFP Aços Finos Piratini S.A. 14/02/1992
9 Petroflex Petroflex Indústria e Comércio S.A. 10/04/1992
10 Copesul Cia. Petroquímica do Sul 15/05/1992
11 CNA Cia. Nacional de Álcalis 15/07/1992
12 Alcanorte Álcalis do Rio Grande do Norte 15/07/1992
13 CST Cia. Siderúrgica de Tubarão 23/07/1992
14 Fosfértil Fertilizantes Fosfatados S.A. 12/08/1992
15 Goiasfértil Goiás Fertilizantes S.A. 08/10/1992
16 Acesita Cia. Aços Especiais Itabira 23/10/1992
17 Energética Acesita Energética S.A. 23/10/1992
18 Fasa Forjas Acesita S.A. 23/10/1992
19 CSN Cia. Siderúrgica Nacional 02/04/1993
20 FEM Fábrica de Estruturas Metálicas S.A. 02/04/1993
21 Ultrafértil Ultrafértil S.A. Ind. e Com. de Fertilizantes 24/06/1993
22 Cosipa Cia. Siderúrgica Paulista 20/08/1993
23 Açominas Aço Minas Gerais S.A. 10/09/1993
24 PQU Petroquímica União S.A. 25/01/1994
25 Caraíba Mineração Caraíba Ltda. 28/07/1994
117

Quadro 3-2: Empresas privatizadas entre 1991 e 1997.


Data da
Nº Sigla Nome da empresa
venda
26 Embraer Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. 07/12/1994
27 EAC Embraer Aircraft Corporation 07/12/1994
28 EAI Embraer Aviation International 07/12/1994
29 Neiva Indústria Aeronáutica Neiva S.A. 07/12/1994
30 Escelsa Espírito Santo Centrais Elétricas S.A. 11/07/1995
31 RFFSA Rede Ferroviária Federal S.A. - Malha oeste. 05/03/1996
32 Light Light Serviços de Eletricidade S.A. 21/05/1996
33 RFFSA Rede Ferroviária Federal S.A. - Malha centro-leste. 14/06/1996
34 RFFSA Rede Ferroviária Federal S.A. - Malha sudeste. 20/09/1996
35 RFFSA Rede Ferroviária Federal S.A. - Tereza Cristina. 22/11/1996
36 RFFSA Rede Ferroviária Federal S.A. - Malha sul. 13/12/1996
37 CVRD Cia. Vale do Rio Doce (e 13 subsidiárias) 06/05/1997
38 RFFSA Rede Ferroviária Federal S.A. - Malha nordeste. 18/07/1997
39 Meridional Banco Meridional do Brasil S.A. (e cinco subsidiárias). 04/12/1997
50
Fonte: Quadro elaborado pelo autor, com base nos dados extraídos de BNDES (2002 ) e MINISTÉRIO
DO PLANEJAMENTO (2006)51

337
O que estava em disputa era a hegemonia sobre o sistema capitalista brasileiro, pois as
empresas estatais concentravam a maior parte das atividades econômicas estratégicas. Em última
análise, o processo de privatização significava o desenho de uma nova partilha da produção social
brasileira. A estrutura existente até então havia sido construída durante o regime militar, e os
mecanismos de mediação dos conflitos inter e intraclasses não tinham mais a mesma eficácia na
Nova República que, na falta de outros dispositivos, resolvia as disputas através da inflação ou do
endividamento público. Diante da hiperinflação e do esgotamento da capacidade financeira do
Estado, ameaçados pelo avanço da classe dos trabalhadores, representada na quase vitória do
Partido dos Trabalhadores nas eleições para presidente da República em 1989, a solução encontrada
pelas classes dominantes foi decidir as disputas internas na arena da Bolsa de Valores; nos leilões
venceriam os grupos economicamente mais fortes e politicamente mais organizados. Na seqüência
desse trabalho vamos analisar com detalhes a participação do Bamerindus na formação dos grupos
de investidores, a participação nos leilões e posteriormente nas disputas pelo poder sobre as
empresas nas quais tinha participação.
338
Em 1992 foi feito novo acordo de US$ 2 bilhões com o FMI, promovido pelo ministro
Marcílio Marques Moreira, tendo como negociador Pedro Malan. O acordo só não foi consumado
por causa do impedimento do presidente Fernando Collor. Pedro Sampaio Malan foi o principal
negociador com os banqueiros no Governo Collor52, tendo sido, no período de 09 set. 1993 a 31

50
Fonte: BNDES. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Área de Desestatização e Reestruturação (AD).
Privatizações no Brasil. 1990-1994. 1995-2002. Rio de Janeiro, julho de 2002. Última atualização em 26 ago. 2002.
Disponível em: <http://www.bndes.gov.br/conhecimento/publicacoes/catalogo/Priv_Gov.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2004..
51
Fonte: MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, Orçamento e Gestão. Empresas Privatizadas. Brasília, 03 abr. 2006
Disponível em: <http://www.planejamento.gov.br/controle_estatais/conteudo/perfil/empresas_privatizadas.htm >. Acesso
em: 15 fev. 2006.
52
Fonte: AE. Aedata, [São Paulo], 16 jul. 1992.
118

dez. 1994, o 19º presidente do Bacen. Nasceu em 19 de fevereiro de 1943, em Petrópolis (RJ), filho
de Elysio Souto Malan e Maria Regina Sampaio Malan53, neto do general Sampaio, que havia sido
uma figura de destaque nas guerras do Império, e sobrinho do general Alfredo Malan, que teve
muito poder durante o regime militar54. Economista, Pedro Malan acumulou as funções de diretor-
executivo no BID e de negociador da dívida externa. Indicado pelo ministro Marcílio Moreira, o
presidente Fernando Collor aceitou nomeá-lo depois que surgiram resistências ao nome do ex-
ministro da Infra-Estrutura João Santana. Segundo a AE (22 set. 1992)55, Fernando Collor aceitou a
recomendação de Marcílio Marques Moreira pelo nome de Pedro Malan, depois que notícias de
jornais diziam ser João Santana um dos alvos das investigações que a CPI e a Polícia Federal
realizavam sobre o Esquema PC Farias. Mais tarde, Pedro Malan tornou-se um dos principais
nomes da equipe de governo de FHC, tendo sido também cotado para sucedê-lo no cargo de
Presidente da República. Como ministro da Fazenda, teve vários atritos com José Eduardo, e sua
participação na transferência do Bamerindus para o HSBC até hoje não foi totalmente esclarecida.
A negociação da dívida externa brasileira continuou no governo Itamar Franco, e ganhou novo
impulso em 1993, quando Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumiu o Ministério da Fazenda.
Sob seu comando, as negociações avançaram e trouxeram consigo um amplo projeto de reformas
do Estado buscando atrair capitais estrangeiros:
57
Sob a égide do Plano Brady, o Brasil só veio a efetivar a troca de títulos no valor de
US$ 46 bilhões de sua dívida externa em 15 de abril de 1994, e sem o apoio de um
acordo formal com o FMI. [...] À época do acordo, os pagamentos de juros já tinham
sido reduzidos a 8,8% das receitas de exportações e a dívida bruta de US$ 136 bilhões
(US$ 119 bilhões descontadas as reservas) era de apenas 3,8 vezes as exportações e já
não representava uma limitação ao crescimento econômico brasileiro. [...] Com as
perspectivas favoráveis da estabilização econômica, o País entrou, em 1994, em um
novo ciclo de acumulação de dívida externa, na esteira do notável crescimento dos
fluxos de capitais para o terceiro mundo. (CARNEIRO, 1996)56

339
Nesse cenário, o capital privado se tornou a maior fonte de financiamento para os déficits
em conta corrente e, nos anos seguintes, financiaria o projeto de reestruturação institucional e
econômica do Brasil, sob a égide do neoliberalismo. Tal projeto incluía a reestruturação da dívida
pública, tanto interna como externa, controle da inflação (Plano Real) e a continuidade do processo
de privatização; esperava-se com isso abrir espaço para novos investimentos no país.
340
Basicamente as reformas do sistema financeiro desde 1985 vinham caminhando na direção
de desmontar os mecanismos criados pelos governos militares, que permitiam ao Executivo dispor
dos recursos públicos sem o controle do Congresso, o que acabou comprometendo o controle social

53
Fonte: Bacen (2004).
54
Fonte: PATATIVA de Itararé. Excelência? Fatos & Rumores. São Paulo: Brasilnews, Comunicação e Editora Ltda. 24 abr.
2000. Disponível em: <http://belo464.digiweb.psi.br/brasilnews/fatosrumores/noticias/fatos2404.htm>. Acesso em: 17 mar.
2003.
55
Fonte: AE. Aedata, [São Paulo], 22 set. 1992.
56
Fonte: CARNEIRO, Dionísio Dias. Dívida Externa: A Experiência Brasileira. CD-Rom. Brasil Em Foco. Projeto: É Tempo
de Brasil. Ministério das Relações Exteriores. Brasília: Ed. Terceiro Nome, Julho 1996. Disponível em:
<http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/economia/divext/apresent/apresent.htm>. Acesso em: 26 out. 2005.
119

sobre o orçamento público. Mas o desmonte do sistema significava reconhecer todo estoque da
dívida pública, mesmo aqueles relativos aos vários escândalos financeiros, estender o controle
público federal sobre os bancos estaduais e aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal, ou seja,
promover a transparência e fiscalização sobre o gasto público. O resultado esperado era uma nova
estrutura regulatória não só do sistema financeiro, mas de grande parte das atividades econômicas
brasileiras.
341
As reformas contavam com três grandes patrocinadores: o primeiro, era a Constituição de
1988, já que boa parte das reformas institucionais necessárias estava prevista na Carta, refletindo a
vontade dos constituintes, e esperando apenas a regulamentação pelo Congresso; o segundo
patrocinador importante era a insatisfação popular com a inflação e os planos econômicos; o
terceiro patrocinador era a necessidade de captar recursos externos para investimento, pois os
grandes investidores reclamavam da redução da taxa de risco através de reformas institucionais em
vários setores, entre eles o sistema financeiro e a dívida pública. No âmbito do sistema financeiro,
exigia-se a implementação do Acordo da Basiléia que estabelecia padrões mínimos de risco na
administração bancária. Na questão da dívida pública exigiam limites e controles legais para o
orçamento público da União, Estados e Municípios (previsto no artigo 163 da Constituição), bem
como a continuidade do programa de privatizações. O plano de reformas deveria enfrentar o grave
problema da reestruturação do sistema bancário, visto ser ele dependente da receita derivada da
inflação e estar com os cofres cheios de títulos públicos com baixa liquidez que esperavam pelo
processo de securitização, principalmente aqueles resultantes de casos como do Grupo Delfin,
Coroa-Brastel, BNCC, Sunamam, Siderbrás, BNH, etc.
342
Em 28 de fevereiro de 1994, entrou em vigor a URV – Unidade Real a dando início à
primeira etapa do “Plano Real”; visava preparar o país para o dia 1º de junho, quando seria adotada
uma série de medidas previamente determinadas e conhecidas, como a mudança da moeda e a
desindexação da economia. Sob o comando do ministro FHC, a partir de 28 de fevereiro, todos os
preços foram indexados à URV que corresponderia a US$ 1. O Cruzeiro Real, moeda então vigente,
era desvalorizado em relação a URV e o dólar, sendo gradativamente substituído pela URV, que
passou a ser referência para preços e contratos firmados desde o dia de sua criação. O Real, como
nova moeda, nascia sobre-valorizado em relação ao dólar, barateando as importações e
pressionando para baixo toda a estrutura interna de preços. Como podemos ver no Gráfico 3-12,
nos anos seguintes o plano conseguiu conter a inflação abaixo dos níveis registrados nos anos 1970.
Nesse mesmo ano de 1994, como parte das reformas estruturais, foi transferida a responsabilidade
da dívida externa (todos os passivos cambiais) do Bacen para o Tesouro Nacional, bem como, em
17 de agosto de 1994, o Bacen divulgava a Resolução 2.099 que tratava, dentre outras
determinações, da necessidade de adequação dos bancos às bases do Acordo da Basiléia.
120

Gráfico 3-12: Variação do IGP (DI) entre 1970 e 1997 (em %)


2.800 2.708

2.300

1.783
1.800

1.477

1.300
1.158
1.094
1.038

800

480
416
235
224
300 211
77 110 95 100 65
19 19 16 16 35 29 46 39 41 15 9 7
1970

1971

1972

1973

1974

1975

1976

1977

1978

1979

1980

1981

1982

1983

1984

1985

1986

1987

1988

1989

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997
(200)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados extraídos de FGV (2005).

343
Os problemas gerados pela baixa inflação não tardam a aparecer no sistema financeiro. Se
em 1993 o Bacen teve que intervir em 13 empresas financeiras, em 1994 foram 49 instituições,
entre elas estavam dois grandes grupos do Paraná, o Garavelo e o Consórcio Garibalddi, bem como
dois pesos-pesados do sistema financeiro, o Banespa e o Banerj, cujo anúncio foi realizado no dia
30 de dezembro de 1994 – dois dias antes da posse de FHC na Presidência da República e Mário
Covas no governo de São Paulo. A diferença agora era que, após o saneamento das instituições sob
intervenção, o Bacen admitia que o controle delas poderia ser transferido para investidores
privados, tanto nacionais como estrangeiros.
344
Na Ilustração 3-1 apresentamos um breve roteiro dos diversos planos econômicos e
mudanças de moeda no Brasil, como segue:
121

Ilustração 3-1: Planos Econômicos e Moedas brasileiras


Moeda: Mil-réis
Vigência: 1500- 30 out. 1942
Moeda do Brasil Colônia, do Império, foi mantida
vigente por 53 anos na República. Ela foi abandonada
devido à adoção do sistema centesimal, padrão no
mundo inteiro.
Moeda: Cruzeiro
Vigência: 1º nov. 1942 — 12 fev. 1967
Um mil-réis (escrevia-se 1$000) foi transformado em
um cruzeiro (Cr$ 1,00). A mudança ocorreu em meio à
Segunda Guerra Mundial, mas não sobreviveu à
instabilidade política e econômica dos anos 1960.
Moeda: Cruzeiro Novo
Vigência: 13 fev. 1967 e 14 maio 1970
Um cruzeiro novo equivalia a mil cruzeiros. Foi
definido como uma “unidade monetária transitória”, que
deixaria de existir quando a inflação fosse controlada.
Moeda: Cruzeiro
Vigência: 15 de maio 1970 — 27 fev. 1986
O governo militar achou que havia vencido a inflação e
restituiu o antigo nome da moeda, valendo um cruzeiro
novo.
Moeda: Cruzado
Vigência: 28 fev. 1986 — 15 jan. 1989
Plano Cruzado I: 28 fev. 1986
O governo civil de José Sarney registrou inflação de
225% em seu primeiro ano. O dinheiro desvalorizou-se
e houve corte de zeros e congelamento de preços.
Plano Cruzado II: 21 nov. 1986
Plano Bresser: 12 jun. 1987
Moeda: Cruzado Novo
Vigência: 16 jan. 1989 — 15 mar. 1990
Plano Verão: 15 jan. 1989
O plano previa ainda cortes de gastos e privatizações.
De prático mesmo, só um novo corte de zeros.
Moeda: Cruzeiro
Vigência: 16 mar. 1990 — 31 jul. 1993
Plano Collor I: 16 mar. 1990
Fernando Collor tomou posse com a promessa de
normalizar a economia. Seu plano econômico
ressuscitou pela segunda vez o cruzeiro.
Plano Collor II: 31 jan. 1991.
Plano Real: 1º ago. 1993
Moeda: Cruzeiro Real: 1º ago. 1993 — 30 jun. 1994
Com 11 meses de circulação, foi a moeda de vigência
mais efêmera no país. Sua função foi preparar o terreno
para o real. Implantada a URV: 28 fev. 1994 a 30 jun.
1994
Moeda: Real: 1º jul. 1994.

Fonte: Quadro elaborado pelo autor com base nos dados


de diversas referências. A imagem e alguns textos foram
extraídos de Gazeta do Povo (27 jun. 2004)57 e Bacen
(2001).

57
Fonte: Da hiperinflação ao hiperjuro. Em dez anos, o governo pagou 999,9% de juros contra uma inflação de 167%. Gazeta
do Povo, Curitiba, 27 jun. 2004. Caderno de Economia, 10 anos de Plano Real, p. 1. Ilustração.
122

3.4.2.2 O PLANO REAL E A REFORMA DO SISTEMA BANCÁRIO

3.4.2.2.1 RECEITAS INFLACIONÁRIAS

345 Gráfico 3-13: Participação das Instituições Financeiras no


O Plano Real teve grande efeito sobre os
PIB (em %)
bancos, como podemos observar no Gráfico 30
26,4

3-13; a participação das instituições financeiras 25

no PIB caiu de 15,6% em 1993 para 6,9% em 20 16,7


16,2 15,6
13,8 13,2
1995, o menor patamar desde 1980. Entre as 15
13,2 12,8 12,1 12,4
11,1

diversas causas dessa redução estaria a perda de 10 8,3 11,2


10,5 6,9
8,4
parte da chamada receita inflacionária (“float”), 5

aqui definida como o resultado da correção -

1980

1981

1982

1983

1984

1985

1986

1987

1988

1989

1990

1991

1992

1993

1994

1995
monetária obtido pelos bancos na aplicação do Fonte: 1980-1989, IBGE (1994); 1990-1995 IBGE (1997)
58
saldo dos passivos sem encargos, deduzido dos apud Tabela 5 (CARVALHO, 2003a, p. 13) e Andima /
IBGE. (1997), apud Tabela IV (BARROS & ALMEIDA
ativos financeiros não-remunerados. Essa receita JÚNIOR, 1997)59.
seria apropriada pelos bancos na intermediação de recursos em ambientes inflacionários, quando na
ponta da captação remunerava o investidor abaixo da taxa de correção monetária cobrada na ponta
da aplicação. Também conhecida como “transferência inflacionária” e “ganho inflacionário” tais
denominações “[...] para estes rendimentos se generalizou no Brasil [...] apesar de ser dúbia do
ponto de vista gramatical”. (CARVALHO,
Gráfico 3-14: Receita inflacionária / PIB (em %)
2003a, p. 5).
Projeto Aries (1980 - 1992) ANDIMA/IBGE (1990-1994)
346
Reconhecida como tendo sido muito
5
importante para os bancos durante o período 4 4,0 3,9 4,0
4,2
4
analisado, o cálculo dessa receita apresentava um 3,8
3 3,4 2,0
2,9 3,1
grau considerável de complexidade no momento 3
2,6 2,5
2,5 2,0
2
2,2 2,4
de estabelecer as variáveis que iriam compor a 2 1,9 1,9 1,9 2,1 1,9
1

equação, pois não seriam apenas os depósitos à 1

0
M édia
1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989

1990
1991
1992
1993
1994

vista que estariam expostos à inflação, mas


também inúmeras operações bancárias de
arrecadação e transferências não remuneradas. A Observações: Média = 1947 a 1990. Fonte: Gráficos
rigor, pelo prisma contábil, os ganhos elaborados pelo autor, com base nos dados de Andima / IBGE
(1997), apud Tabela I (BARROS & ALMEIDA JÚNIOR,
60
inflacionários seriam o resultado positivo obtido 1997) e FGV, Projeto Áries apud Cysne (1994) e Tabela 2
(CARVALHO, 2003a, p. 9).

58
Fonte: CARVALHO, C. E. Bancos e inflação no Brasil: da crise dos anos 1980 ao Plano Real. Anais do V Congresso
Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas. Caxambu: ABPHE, set. 2003a.
59
Fonte: ANDIMA / IBGE. Sistema Financeiro - Uma análise a partir das Contas Nacionais 1990-1995. Elaboração: SPE /
Coord. de Pol. Monetária. [1997]. Apud BARROS, J. R. M. de; ALMEIDA JÚNIOR, M. F. de. Análise do Ajuste do
Sistema Financeiro no Brasil. Brasília: Secretaria de Política Econômica. Ministério da Fazenda, maio 1997.
60
Fonte: CYSNE, Rubens P. Imposto inflacionário e transferências inflacionárias no Brasil. Revista de Economia Política,
v.14, n.3(55), jul. / set. – 1994, p. 121-128. São Paulo: FGV, 1994.
123

pelo método da correção integral do balanço, deduzido o saldo da correção monetária apropriada
nas operações remuneradas. O problema é que tal cálculo exigiria segregar todas as operações
remuneradas das não remuneradas, bem como separar a receita obtida com a correção monetária da
receita com juros, o que nos remete a uma complexidade operacional inconcebível. Estudos como o
Projeto Áries apud Cysne (1994) e Dieese (1995)61 que serviram de base para Carvalho (2003a), ou
da Andima / IBGE (1997) analisados em Barros & Almeida Júnior (1997) e utilizado como
referência no RELATÓRIO FINAL - CPI DO PROER (2002)62, bem como Cysne (2004),
apresentam estimativas do montante dessa receita, com metodologias e resultados bastante
diferentes63; mas como pode ser visto no Gráfico 3-14, os dois trabalhos demonstram a relevância
dos montantes envolvidos. Cabe destacar que Andima / IBGE (1997) demonstra a acentuada queda
na participação da receita inflacionária dos bancos no total do PIB, tendo sido reduzida de 4,2% em
1993 para 2% em 1994, patamar este bastante próximo da média histórica:
58
Estima-se que dos anos 40 até o início dos anos 90, as transferências do setor não
bancário para o setor bancário tenham representado, em termos anuais médio, quase
2% do PIB. Nos anos 90 [...] a receita inflacionária dos bancos cresceu para cerca de
4% do PIB (média de 1990 a 1993), voltando a se reduzir para 2% do PIB, em 1994,
para então ser reduzida a valores inexpressivos em 1995. Tomando como base a média
de 1990 a 1993, isto representa, a valores de 1994, algo próximo a R$ 19 bilhões de
perda para os bancos decorrente da estabilização de preços na economia. (BARROS &
ALMEIDA JÚNIOR, 1997).

347 Gráfico 3-15: Receita Inflacionária 1993-1994. (Médias


O impacto da perda dessa receita
Mensais em R$ milhões)
durante o ano de 1994 pode ser verificado no
500
Gráfico 3-15, principalmente no comparativo do 450
484
1º semestre com o 3º trimestre, quando a receita 400

350
409
média mensal caiu de R$ 484 milhões para R$ 300

299
100 milhões. Se agregarmos a esses dados o fato 250

200

que essa receita tinha uma participação 150

100

expressiva na formação do valor da produção 50 100


126

das instituições bancárias64, vamos verificar no 0

1993 1º sem. 3º trim. 4º trim. 1994

Gráfico 3-16 que o impacto foi bastante Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados
extraídos de Dieese (1995) apud Tabela 1 (CARVALHO,
significativo para todo o sistema bancário 2003a, p. 9).

61
Fonte: DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos. Desempenho dos Bancos Privados
em 1994. Estudos Setoriais, nº 6, set. 1995. Rio de Janeiro: DIEESE, 1995, apud CARVALHO, C. E. Bancos e inflação no
Brasil: da crise dos anos 1980 ao Plano Real. Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência
Internacional de História de Empresas. Caxambu: ABPHE, set. 2003a.
62
Fonte: RELATÓRIO FINAL - CPI DO PROER. Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar as relações do
Banco Central do Brasil com o sistema financeiro privado – CPI – PROER. Alberto Goldman. Brasília: Congresso Nacional,
Câmara dos Deputados, 16 abr. 2002. Disponível em: <http://www.camara.gov.br >. Acesso em: 16 mar. 2004.
63
Para o cálculo da receita inflacionária, o Projeto Áries considerou apenas os depósitos à vista e a Andima / IBGE (1997)
computou (i) pela perda do valor real dos depósitos a vista e / ou (ii) pela correção dos depósitos bancários em valores
abaixo da inflação. (Projeto Áries apud CYSNE, 1994).
64
Valor da produção dos bancos: receita da intermediação financeira (diferença entre os juros recebidos e pagos) e receita de
serviços. (BARROS & ALMEIDA JÚNIOR, 1997).
124

brasileiro. Sobre esse assunto, Gustavo Loyola65, em depoimento na CPI do Proer, declarou:
59
Para os senhores terem uma idéia, a receita inflacionária dos bancos correspondia a
cerca de 4,2% do PIB [...] isso em 93 [...] esse percentual, praticamente, caiu a zero, já
em 1995. Em 1993, as receitas inflacionárias corresponderam a um terço da receita
total do sistema bancário. Vejam bem, um terço de tudo que os bancos auferiam de
receita era devido à inflação e perderam isso da noite para o dia. Perdendo essa receita
da noite para o dia, a reação do sistema bancário foi buscar compensar essa perda
através de tarifação de serviços, em primeiro lugar, e também pela expansão do
crédito [...] (RELATÓRIO FINAL - CPI DO PROER, 2002, p. 4-5).

348
Em agosto de 1994,
Gráfico 3-16: Receita Inflacionária x Valor da Produção das
Sardenberg (28 ago. 1994, p. A-9)66 Instituições Bancárias (em %)
divulgou um estudo de Carlos Daniel 45

Coradi, da EFC - Engenheiros


40
41,3 41,9
Financeiros & Consultores, apontando
35
35,7 35,3
que, em 1993, os 40 maiores bancos
30

brasileiros tiveram uma receita de


25

US$ 35 bilhões e que o ganhos


20

inflacionários representaram 26% 20,4


15
desse total – algo em torno de US$ 9 1990 1991 1992 1993 1994
bilhões. Também indicava que as Fonte: Gráficos elaborados pelo autor, com base nos dados de Andima /
IBGE (1997), apud BARROS & ALMEIDA JÚNIOR (1997).
receitas com operações de crédito
contribuíram com 30% do total, ou US$ 10,5 bilhões. Se os ganhos com atividades próprias do
setor bancário permanecessem em ambiente de baixa inflação, ainda assim a perda da receita
auferida com a inflação teria impacto no resultado do setor, pois, segundo o autor, se não tivesse
ocorrido inflação em 1993, os 40 maiores bancos em vez de registrarem o lucro de US$ 2,1 bilhões,
teriam um provável prejuízo de US$ 1,7 bilhão.
349
O estudo também apontou que o segmento bancário que mais perderia seria o de varejo,
que possuía muitas agências, pois, parte dos ganhos inflacionários seria obtido com a capilaridade
das agências na captação de pagamentos de contas e carnês, que permaneciam nos bancos por
alguns dias antes de serem repassados. Também os bancos de varejo mantinham um grande número
de pequenas contas-correntes cujos titulares deixavam o dinheiro parado. Segundo a pesquisa, em
1993 o ganho inflacionário do Itaú representou 57% das receitas de intermediação financeira; do
Bradesco, 51% e do Bamerindus, 34%. Nos bancos estatais de varejo, a participação dos ganhos
inflacionários teria sido menor, no BB teria representado 32% das receitas e no Banespa, 33%.

65
Gustavo Jorge Laboissière Loyola foi o 17º e 21º presidente do Bacen nos períodos de 13 nov. 1992 a 29 mar. 1993 no
Governo Itamar Franco e de 13 jun. 1995 a 20 ago. 1997 no governo FHC. Também foi diretor do Bacen na DIRAD - Área
de Administração de 16 mar. 1990 a 23 abr. 1990 e do DINOR - Área de Normas e Organização do Sistema Financeiro de
16 mar. 1990 a 16 nov. 1992. Nasceu em 19 de dezembro de 1952, em Goiânia (GO), filho de Cleomar de Barros Loyola e
Maria Antonieta Laboissière Loyola. Em 2002 era Membro Efetivo do Conselho Fiscal do Banco Itaú S.A. Economista,
Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Fonte: BACEN (2002).
66
Fonte: SARDENBERG, C. A. Os bancos ganham US$ 9 bi. com inflação. FSP, 28 ago. 1994, Caderno Especial, p. Especial
A-9; SARDENBERG, C. A. Ganhos vieram da ciranda financeira. FSP, 28 ago. 1994, p. Especial A-9.
125

Mas, segundo o relatório, não se podia concluir que a situação dos bancos estatais fosse mais
confortável, mas que, provavelmente, os bancos de varejo privados foram mais eficientes em buscar
o lucro inflacionário, bem como estariam sendo eficientes também na preparação para o fim da
inflação. Desde o Plano Cruzado, quando sentiram o choque da inflação baixa, os bancos privados
vinham enxugando suas estruturas e melhorando sua produtividade, especialmente com a
automação.
350
Coradi apontava também que, em 1993, os 40 maiores bancos tiveram uma despesa global
de US$ 32,9 bilhões; as despesas com pessoal representaram 38% desse total, ou US$ 12,5 bilhões.
Também observava que os seis maiores bancos de varejo gastavam US$ 15.331 por funcionário e,
nos seis maiores estatais, esse gasto subia para US$ 28.403. O autor concluía que, para enfrentar a
perda do ganho inflacionário, os bancos precisariam aumentar as outras receitas como as de
operações de crédito e de prestação de serviços, e as operações de crédito dependeriam da retomada
do crescimento econômico e da existência de demanda pelos empréstimos. Já a prestação de
serviços certamente ficaria mais cara, como apontavam estudos sobre países que passaram pelo
processo de estabilização econômica, e os ganhos nessa área certamente seriam limitados. O
caminho mais provável a ser seguido pelo setor, seria a redução de despesas, com corte na despesa
de pessoal67 e redução no número de agências. Para o autor, os bancos estatais, por razões políticas
e legais, não conseguiriam demitir nem fechar agências, bem como seriam obrigados a fazer
empréstimos sem possibilidade de retorno. No final de 1993, tais bancos tinham créditos em atraso
ou de recebimento duvidoso que representavam 37,6% do patrimônio líquido, e no caso dos bancos
privados, essa participação era de apenas 3,3%.
351
Também Horita (9 jan. 1994)68 informava que os bancos estavam tentando promover
ajustes internos para mudar o quadro de sua dependência das receitas inflacionárias. Segundo ele,
os bancos de varejo chegaram a ter, em 1989, 60% dos seus ganhos vinculados à receita
inflacionária, quadro este que havia sido reduzido para 25%. Também destacava que os bancos
atacadistas ou de menor porte, também dependiam da inflação em pelo menos 10% de suas receitas.
Na época, Belmiro Castor Valverde, então presidente do Banco Bamerindus, declarou que os
bancos de varejo iriam sofrer mais que outros setores, com o processo de adaptação a um ambiente
de baixa inflação. Segundo ele, “Temos um custo fixo muito alto na comparação com um banco de
atacado [...] É por esta razão que investimos tanto em tecnologia. Queremos ficar menos
vulneráveis”. (HORITA, 9 jan. 1994).
352
A reportagem destacava que o sistema bancário chegou a empregar 900 mil funcionários,
quadro que em 1994 havia sido reduzido para aproximadamente 670 mil, baixando
consideravelmente os custos operacionais dos bancos. Observava também que a inflação elevada
criava efeitos curiosos, por exemplo: a sociedade para se defender da desvalorização constante,

67
Para mais detalhes consultar: SARDENBERG, C. A Demissão ameaça bancários. Folha de São Paulo, 26 ago. 1994, p. 1-6.
68
Fonte: HORITA, N. Bancos se preparam para a estabilidade. FSP, 9 jan. 1994, p. 2-3.
126

acabava deixando menos recursos parados nos bancos, o que reduzia a margem de manobra da
instituição com recursos não remunerados. Segundo ele, “[...] o volume de depósitos à vista caiu de
US$ 6 bilhões em 89 para US$ 4 bilhões em 93”. Como o governo extinguiu o “overnight”, as
empresas passaram negociar com o banco os ganhos inflacionários, tornando tal prática um
instrumento poderoso de barganha69. Segundo Álvaro de Souza, presidente do Citibank, no Brasil, a
redução da inflação poderia trazer vários impactos, como por exemplo, promoveria novos contratos
de longo prazo; quanto à receita, o efeito na época seria de apenas 10% do total.
60
[...] um número baixo e que não trará maiores problemas de adaptação [...] Aliás,
quero trabalhar num ambiente equilibrado, pois nosso objetivo é o de ampliar as
atividades no Brasil. ‘Acho que uma economia estável traz a perspectiva de negócios
de fusões e aquisições no setor bancário. (HORITA, 9 jan. 1994, p. 2-3).

353
Para Henrique Meirelles, então presidente do Banco de Boston, em uma situação de
estabilidade “[...] Vamos ganhar dinheiro com crédito pessoal [...] Foi assim na Argentina e se
repetirá no Brasil”. Segundo a reportagem, na época, o Boston também tinha apenas 10% de suas
receitas totais vinculadas à inflação, o que era muito diferente do Banco Nacional que, por operar
no varejo, 20% de suas receitas tinham origem na inflação, tendo chegado a 50% em 1989. Walter
Kuroda, então diretor financeiro do Banco Nacional, declarava na época que era “[...] uma falácia
afirmar que o banco quebra sem inflação. (e explicava) Não podemos negar que ganhamos com ela,
mas numa situação diferente vamos ganhar também, através das operações de crédito e mais
prestação de serviços”. (HORITA, 9 jan. 1994, p. 2-3.).
354
Tal estratégia acabou sendo aplicada com resultados relevantes para os grandes bancos,
como podemos constatar a seguir:
61
O fim da inflação elevada, com o Plano Real, 1994, reduziu substancialmente os
ganhos inflacionários apropriados pelos bancos [...] A perda destes recursos, contudo,
não impediu que bancos mantivessem lucros expressivos nos anos seguintes. Além do
forte aumento das receitas de serviços e dos ganhos com operações de câmbio na
passagem para a nova moeda, a surpreendente manutenção da lucratividade média dos
bancos já no segundo semestre de 1994 deveu-se no essencial ao rápido crescimento
das operações de crédito, com spreads muitos elevados, o que lhes permitiu
compensar com folga aqueles recursos perdidos. (CARVALHO, 2003a, p. 21)

355
Mas os ajustes necessários envolveriam transformações profundas nas instituições, bem
como ajustes nas estruturas de investimento e financiamento, que nem sempre foram possíveis no
curto prazo. Muitos desses ajustes envolveriam também a reestruturação da dívida pública em todas
as esferas do Estado, o que necessariamente teria que passar pelo campo político institucional. Esse
cenário colocou o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, no centro do poder e
transformava o apoio à sua candidatura em uma questão estratégica para a sobrevivência de muitas
organizações empresariais, principalmente os bancos, pois, segundo Belmiro Valverde, eram eles
que mais sofreriam para se adaptarem ao novo contexto econômico e institucional.

69
Ver na seqüência deste trabalho a Conta Remunerada Bamerindus.
127

356
As reformas promovidas pelo Plano Real nos levam a algumas reflexões sobre certas
questões básicas, como por exemplo, o fato que taxas de inflação elevadas como de 30%, 100% ou
de 1.000% ao ano, experimentadas no período 1981 a 1994, inviabilizaram a moeda oficial como
referencial de valor. Nesse cenário, os agentes econômicos acabam elegendo outros ativos como
moeda e, no caso brasileiro, a longa convivência com tais taxas levou à criação de inúmeras
“moedas” diferentes, havendo índices de preços para cada necessidade, quando também os Estados
e a União acabaram criando indexadores específicos para os impostos70. Nesse contexto de moedas
diferentes e inflação elevada, pelo prisma estatístico, o próprio cálculo do que seria o “índice de
inflação” torna-se bastante discutível, senão precário, e revela em boa medida um quadro
econômico-financeiro cujo controle federal sobre a moeda era bastante limitado. Guardadas as
devidas proporções e diferenças históricas, se excluirmos a aparência de unidade monetária,
teremos um cenário que nos parece remeter aos anos em que os rebeldes do Sr. Jackson
conseguiram eliminar o controle da União sobre o dólar nos EUA, ou mesmo, o “encilhamento” de
Ruy Barbosa. Sob este prisma, as reformas promovidas sob a égide do Plano Real sugerem um
processo de retomada do poder da União em detrimento das diversas forças políticas e econômicas
regionais, principalmente se considerarmos que, na seqüência das reformas, os bancos estaduais e
grandes grupos econômicos como o Bamerindus, o Nacional e o Econômico, todos com forte
sotaque regional, sofreram intervenção do Bacen; sem contar que no saldo final houve um nítido
fortalecimento dos grandes grupos paulistas.

3.4.2.2.2 ESTRUTURA DE AGÊNCIAS

357
A estrutura de agências, que até então era fundamental para os bancos de varejo, agora se
tornava um grande problema diante da queda da inflação. Segundo Blecher (2 maio 1994, p. 2-1)71,
na época o Itaú possuía uma rede com 981 agências instaladas em 450 cidades brasileiras, e
pretendia inaugurar mais 24 em 1994. Conforme Antonio Jacinto Matias, então diretor de
marketing do Itaú, o banco estava concentrando os investimentos no auto-atendimento, e no ano
anterior havia processado 95,6 milhões de documentos por dia, em comparação com as 140,6
milhões de transações informatizadas. O Bamerindus, que na época possuía 1.360 agências, das
quais 300 haviam sido abertas em 1990, estava limitando a expansão para casos específicos, pois
segundo Belmiro Castor, a “[...] introdução da nova moeda, o real, deverá frear a expansão das
redes”. O banco estimava que era necessário US$ 100 mil em média para abrir uma nova agência e
esperava que a estabilização econômica aliviasse a sobrecarga operacional e direcionasse as

70
A União, por exemplo, através da Lei 7.799 de 10 set. 1989 instituiu a BTNF – Bônus do Tesouro Nacional Fiscal como
referencial de indexação para tributos e contribuições de competência da União, tendo seu valor fixado diariamente pela
Secretaria da Receita Federal que projetava a evolução da taxa mensal de inflação. Foi substituída pela UFIR – Unidade
Fiscal de Referência através Lei 8.383 de 30 dez. 1991, que também era atualizada diariamente. Sua aplicação foi
interrompida entre jul. e dez. de 1994, passando a ser trimestral a partir de jan. de 1995, semestral em 1996, anual em 1997 e
finalmente extinta em outubro de 2000.
71
Fonte: BLECHER, N. Grandes redes armam estratégias. FSP, São Paulo, 2 maio 1994, p. 2-1.
128

instituições bancárias para reorganizar as atividades de crédito. A estratégia do banco estava sendo
montada com a perspectiva que não haveria expansão no número de agências, mas que também não
haveria o encolhimento da rede, pois a instituição considerava a rede como um “ativo estratégico”.
Belmiro também entendia que a expansão de serviços eletrônicos não resultaria no desaparecimento
das agências convencionais, mas que elas teriam menor porte, processos automatizados e menos
funcionários.
358
Segundo o diretor de patrimônio do Bradesco, Armando Trivellato, a instituição estava
investindo na desconcentração das redes regionais e instalação de novas agências em regiões pouco
assistidas no interior do país. O banco já tinha aberto 24 agências em 1994 e se preparava para
inaugurar outras 51 em Estados como Goiás e Pernambuco, que representavam apenas 6% das
redes. Em 1993, o Bradesco chegou a inaugurar mais de uma nova agência a cada semana. O
“redimensionamento” esperado nada tinha a ver com os serviços eletrônicos que registravam então
um forte crescimento, pois, segundo Blecher, só em 1993, a rede de quiosques do “Banco 24 horas”
havia crescido 20%, e o Bradesco, que investia US$ 150 milhões anuais em informática, pretendia
instalar mil novas máquinas na sua rede de auto-atendimento “Dia e Noite”. Mas, segundo Tadeu
Masano72, em declarações para a reportagem, “[...] o número de agências está superestimado, por
exemplo, na capital paulista [...]”, pois o centro da cidade concentrava 18,3% das 1.538 agências
paulistanas, e somente no triângulo formado pelas ruas Direita, Líbero Badaró e Boa Vista,
funcionavam 106 agências bancárias, o que superava em número as 95 distribuídas ao longo da
avenida Paulista. Nos Jardins estava a segunda maior concentração de agências, com 10,8% do
total, e na região residia apenas 1,5% dos paulistanos, muito diferente da zona leste onde ficavam
aproximadamente 9,9% das agências, e 29,4% da população.
359
Blecher (2 maio 1994, p. 2-1)73 também apontava para o fato que, conforme pesquisa
conduzida pela consultoria Estudos Empresariais, havia “[...] menos de duas padarias para cada
agência em operação na cidade de São Paulo [...]”. Na época, operavam em São Paulo 1.538
agências bancárias e 2.861 padarias. Ele também observava que 31% do faturamento total do
comércio varejista brasileiro e, 37% da receita gerada por empresas prestadoras de serviço,
ocorriam no Estado de São Paulo. Mas quando o setor era o bancário, a participação relativa do
Estado nos depósitos bancários saltava para 60,4%. E se São Paulo concentrava aproximadamente
50% da produção industrial brasileira, o volume de empréstimos bancários no Estado chegava a
61,2% do total. A região Sudoeste concentrava também a metade das 17.262 agências bancárias.
Blecher observava então que, seja “[...] qual for o indicador que se considere, nenhum setor do
mapa dos negócios exibe concentração geoeconômica tão elevada quanto o financeiro”.

72
Na época Tadeu Masano era presidente do portal Geografia de Mercado e diretor de consultoria e professor da FGV.
73
Fonte: BLECHER, N. Mapa revela concentração bancária. FSP, São Paulo, 2 maio 1994, p. 2-1.
129

3.4.2.2.3 TARIFAS

360
Em junho de 1994, o Bamerindus sinalizava que a concorrência não seria amenizada com o
Plano Real divulgando que, entre as medidas de adaptação, o banco74 analisava a possibilidade de
baixar as tarifas de serviços, como resposta para um possível movimento de reajuste pelos
concorrentes. A idéia era utilizar a tarifa como um dos ingredientes da estratégia de marketing que
orientaria o relacionamento do banco com seus clientes após a chegada do real. A meta era ampliar
o número de correntista de 2,5 milhões para 4 milhões. Belmiro Valverde também declarava que
era
62
[...] um grande equívoco achar que bancos precisam de inflação para sobreviver [...]
As instituições internacionais mais lucrativas operam em ambiente não inflacionário.
Estamos prontos a reassumir a função tradicional de um grande banco de varejo:
prestar serviços e estender o crédito. (BLECHER, 2 jun. 1994, p. 2-3).

361
A aposta do banco era que com a implantação do real, a partir de 1º de julho, uma boa parte
do mercado informal seria incorporada à rede bancária, em busca de crédito. O Bamerindus
pretendia cooptar clientes de pequenos bancos que voltariam a operar em mercados especializados,
tendo aumentado sua carteira de crédito de US$ 2,2 bilhões para US$ 4,8 bilhões em apenas um
ano e meio e, segundo Belmiro, a perspectiva de estabilidade econômica não pretendia provocar
novos cortes de pessoal, pois na época o banco tinha “[...] um quadro enxuto de 31 mil funcionários
em comparação ao contingente de 42 mil em 1985 e de 35 mil ao início desta década”. A instituição
esperava que a redução das atividades ligadas aos ganhos financeiros gerados pela inflação, fosse
compensada pelo aumento nas operações de crédito.

3.4.2.2.4 BANCÁRIOS

362
Nesse cenário, a categoria dos bancários estava enfrentando grandes transformações que,
segundo Bernardo (23 out. 1994, p. 7-1)75 passavam pela mudança no perfil profissional que estaria
incorporando novas habilidades como as de profissionais de vendas, marketing e engenharia
financeira. Mais do que qualquer outro setor, os bancos estariam em rota de colisão com o eventual
sucesso do Plano Real, pois a inflação baixa por longo período quebrava a ciranda do lucro
especulativo e diminuiria o afluxo de clientes e de dinheiro. Também o avanço tecnológico e a
“globalização” dos mercados estariam obrigando os bancos a reverem seus processos de trabalho e
a criarem novos produtos, devendo diminuir a quantidade de trabalhos ligados a controle e
processamento interno, conhecido como “retaguarda”, que estaria passando por um processo de
automação, assim como boa parte das funções exercidas hoje pelos caixas. Segundo ele, o
diferencial entre as instituições seria determinado pelo atendimento.

74
Fonte: BLECHER, N. Bamerindus estuda baixar as tarifas para atrair clientes. FSP, 2 jun. 1994, p. 2-3.
75
Fonte: BERNARDO, J. V. Perfil do bancário muda com Real. FSP, São Paulo, 23 out. 1994, 7-1.
130

363
Para Nelson Luiz Fanaya, então diretor de planejamento corporativo do grupo Bamerindus,
o “[...] número de pessoas na administração central – compensação de cheques, cobrança – deve
diminuir. O de profissionais ligados a empréstimos e aplicações vai aumentar”. Na época, Sílvio
Genesini, sócio-diretor da Andersen Consulting, que prestava serviços de consultoria em
planejamento estratégico aos bancos, declarava que, antes, “[...] os bancos tinham três pessoas na
retaguarda para uma em atendimento. A tendência é ficar um para um”. (BERNARDO, 23 out.
1994, p. 7-1) Segundo a reportagem, o atendimento diferenciado começava com a criação de
atrativos financeiros, elaborada por economistas e administradores especializados em engenharia
financeira; em seguida, levar os novos produtos ao conhecimento do público geral, o que exigia
profissionais especializados na área mercadológica; na seqüência, seria necessário personalizar as
relações cliente / banco. Nesse quadro, gerentes e caixas com perfil negociador seriam valorizados
e caberia a eles captarem as necessidades de cada cliente e apresentar soluções. Segundo Ricardo
Berzoini, então presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, a “[...] base
da pirâmide está ficando estreita. Uma grande rede que já teve 30 mil caixas hoje tem 14 mil”.
(BERNARDO, 23 out. 1994, p. 7-1).

3.4.2.2.5 FEBRABAN

364
No final do ano de 1994, a situação dos bancos estava se tornando bastante delicada, como
podemos constatar nas declarações de Maurício Schulman76, no dia 8 de dezembro77 daquele ano,
quando assumia a Presidência da Febraban.
365
Na ocasião ele declarava que as reformas fiscal e previdenciária seriam os dois assuntos
prioritários na sua agenda de trabalho para 1995, pois a reforma fiscal permitiria ao governo
equilibrar suas contas e aliviar o sistema financeiro da pressão da cunha fiscal representada pelos
tributos e compulsórios sobre depósitos a prazo e empréstimos. Entendia ele que a carga fiscal
reduzia o rendimento das aplicações feitas pelos investidores e aumentava o custo dos tomadores de
empréstimos, estimulando a desintermediação financeira, como indicava o crescimento dos cheques
pré-datados e outras operações que passam por fora do sistema bancário.
366
Ainda na entrevista a Miya & Vergill (12 dez. 1994)78, Schulman observou que o aumento
nos depósitos compulsórios determinados pelo Bacen, e que teriam resultado na liquidação de sete
bancos pequenos desde a implantação do Plano Real, tinham por objetivo inibir um surto de
consumo que, apesar de ser desejado por todos, estava sobrecarregando alguns setores e gerando
pressões inflacionárias. As medidas tomadas com relação ao compulsório sobre depósitos a prazo e
sobre as aplicações financeiras, conseguiram bloquear os efeitos indesejáveis de aumento da

76
Na época Maurício Schulman era presidente do Grupo Bamerindus, na seqüência deste trabalho vamos analisar com mais
detalhes a sua biografia e atuação no Bamerindus.
77
Reforma fiscal será prioridade da Febraban. FSP, 9 dez. 1994, p. 2-5.
78
Fonte: MIYA, Fideo. & VERGILI, Rodney. Compulsório gera efeitos danosos, diz Schulman. FSP, 12 dez. 1994, p. 1-4.
131

inflação.
63
O remédio efetivamente produziu efeito, só que, como qualquer remédio, tem efeitos
colaterais que são extremamente danosos para aqueles que não tinham os anticorpos
para se defender. Alguns até sucumbiram por causa desses efeitos colaterais.
Instituições financeiras que estavam descasadas, ou no tipo de moeda ou nos prazos
em que estavam aplicadas, com taxas de juros às vezes muito convenientes, dando
créditos a seis, oito, dez meses e tomando dinheiro no dia-a-dia. Com o estreitamento
da liquidez, ficaram sem o dinheiro do dia-a-dia e acabaram sucumbindo. Claro que
aqueles que estavam mais casados e que já faziam empréstimos a seus clientes em
prazos semelhantes aos créditos que tomavam de outros bancos ou do mercado não
têm problemas. (MIYA & VERGILL, 12 dez. 1994).

367
Sobre a situação dos bancos liquidados, Schulman entendia que:
64
[...] eles já tinham algum germe de desequilíbrio, que muitas vezes foi a razão deles
terem ganho muito dinheiro. Eles apostaram, por exemplo, em aplicar longo e captar
curto, enquanto muitos, ao contrário, aplicaram rios de dinheiro aplicando curto e
captando longo. O modo de atuação e a tendência dos juros acabam dando diferenças
muito grandes nessa alavancagem. O problema é quando se é pego no contrapé. [...]
Por exemplo, muitas instituições boas e idôneas perderam dinheiro no câmbio nesses
últimos meses. Não acreditaram que a política de câmbio fosse para manter um
diferencial grande entre a paridade original do plano, de um por um. O preço do
mercado livre situou-se na casa dos 85, 83 centavos de real por dólar. Muitos
apostaram que isso era muito passageiro e que em dois ou três meses iríamos voltar à
paridade de um por um. Estão perdendo a diferença. (MIYA & VERGILL, 12 dez.
1994).

368
Com relação à crise dos bancos estaduais, Maurício Schulman achava que o problema não
era generalizado, havendo alguns em boa situação e outros com problemas estruturais pela perda da
receita inflacionária. Para ele, os bancos estaduais tinham os mesmos problemas pelos quais
passavam os bancos pequenos, “estavam descasados”. Suas operações de crédito tinham prazos
maiores do que as operações de captação de recursos, bem como alguns estavam contaminados
pelas dificuldades dos caixas dos Tesouros estaduais. Outros, porém, passavam por dificuldade em
razão de as operações de crédito com devedor que já no início da operação pretendia refinanciar a
dívida no vencimento, fato este de interesses e conhecimento dos controladores do banco.
369
Quando questionado sobre sua opinião a respeito da autonomia do Bacen, Schulman não
respondeu a questão diretamente, preferindo avaliar a utilidade e o papel do Banco Central nos
momentos de crise. Ele era da opinião que cada banco, público ou privado, tinha que analisar sua
situação, e que era obrigação do Bacen, “[...] em entendimento com os acionistas controladores”,
buscar saídas para os problemas das instituições financeiras, evitando situações que pudessem
provocar traumas no mercado.
65
Agora, se um banco, tanto privado quanto público, tem dificuldades estruturais e o
acionista que o controla não tem condições de socorrê-lo e quer deixar do jeito que
está, o Banco Central fica sem alternativa, a não ser cumprir a sua obrigação. (MIYA
& VERGILL, 12 dez. 1994).

370
Com relação aos preparativos dos bancos para enfrentar o plano de estabilização
econômica, Maurício respondeu que os bancos vinham se preparando desde o primeiro plano
econômico em 1986, e citou que o Bamerindus vinha fazendo grandes investimentos na
132

informatização de suas agências, buscando reduzir custos através do auto-atendimento, ações


mercadológicas, e investimentos em direção ao mercado externo, e o Bamerindus era o principal
agente financeiro brasileiro na área das importações, bem como o primeiro banco latino-americano
a ter escritórios em Hong-Kong.
371
Alguns dias após a posse de Schulman na Febraban, José Eduardo era confirmado para o
cargo de ministro da Agricultura, Abastecimento e Reforma Agrária do governo FHC que tomaria
posse no início de janeiro de 1995. As perspectivas na época indicavam que Fernando Henrique
dispunha de várias alternativas com relação ao Plano Real, como por exemplo, poderia aprofundar
as reformas necessárias para manter o controle da inflação, enfrentando o custo político que
certamente envolveria aliados importantes dentro da base de sustentação do governo; ou
simplesmente seguiria o caminho trilhado pelos governos Sarney e Collor nos seis planos
anteriores, hipótese esta que provavelmente, faria a participação dos bancos no PIB voltar ao seu
patamar histórico. Ao tomar posse na 50º Legislatura da Câmara dos Deputados, em 16 de fevereiro
de 1995, o deputado José Mendonça Bezerra Filho (PFL-PE) apresentou a Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) número 001/1995 que dava nova redação ao § 5º do artigo 14 da Constituição
Federal, permitindo a reeleição de presidente da República, governadores de Estado e do Distrito
Federal, prefeitos e quem os houverem sucedido ou substituído nos seis meses anteriores ao pleito.

3.4.3 UMA BREVE REVISÃO DOS ANOS 1995 A 1997

372
Encerramos este capítulo com uma breve revisão dos acontecimentos ocorridos no período
1995-1997, lembrando que a importância das transformações ocorridas no sistema financeiro na
segunda metade da década de 1990 exige uma análise específica e aprofundada que ficará para uma
próxima oportunidade.
373
Nos anos seguintes, entre 1995 a 1997, a economia brasileira entrou num período de
grandes dificuldades, as políticas recessivas geradas pelas altas taxas de juros e o câmbio
sobrevalorizado, incentivaram as importações e aumentaram o desemprego. Com o crédito
estrangulado pelas taxas de juros e retração no consumo, todo o sistema financeiro entrou num
profundo processo de reestruturação. Nesse contexto, para compensar a perda da receita
inflacionária, os bancos buscaram expandir as operações de crédito, antes de partirem para ajustes
mais significativos em suas estruturas operacionais. O Plano Real havia provocado o crescimento
dos depósitos à vista em 165,4 % e os depósitos a prazo em aproximadamente 40% nos seis
primeiros meses após o anúncio do Plano Real. Tais recursos foram canalizados para as operações
de crédito, o que aumentou a vulnerabilidade das instituições, pois a expansão do crédito durante o
processo de ajuste econômico resultou no crescimento dos empréstimos de liquidação duvidosa,
como podemos ver no Gráfico 3-17.
133

Gráfico 3-17: Empréstimos em atraso e em liquidação no sistema financeiro (jan. 1994 - fev. 1997)

Nota: Foram excluídos os dados do Banespa, CEF e Banerj. Fonte: Bacen / SPE / Coord. de Política Monetária, apud Barros
& Almeida Júnior (1997)

374
Em 1995, o Bacen promoveu intervenções em 55 instituições financeiras e, entre elas
estavam os bancos dos Estados de Alagoas, Rondônia e do Mato Grosso. Em 11 de agosto decretou
intervenção no Banco Comercial de São Paulo, no Banco Mercantil e nas empresas do Grupo
Econômico, que na época era o sétimo maior banco do país e apresentava problemas financeiros
que somavam algo em torno de R$ 3 bilhões. O cenário instalado após a “quebra” do Banco
Econômico e as notícias que indicavam o Banco Nacional como o próximo da lista, era de
desequilíbrio e mais falências de grandes grupos. Os operadores e analistas financeiros sabiam que
a capacidade do Estado de socorrer o sistema estava limitada pelos problemas que o governo
enfrentava dentro de casa com a reestruturação do Banco do Brasil e Caixa Econômica.
375
No dia 31 de agosto, através da Resolução nº 2.197, o Conselho Monetário Nacional
autorizava a “[...] constituição de entidade privada, sem fins lucrativos, destinada a administrar
mecanismos de proteção a titulares de créditos contra instituições financeiras”, criava-se portanto, o
Fundo Garantidor de Créditos – FGC, que seria regulamentado através da Resolução n.o 2.211, em
16 de novembro de 1995. Dias antes, a Medida Provisória número 1.179, publicada no Diário
Oficial da União (DO), com data de 03 de novembro de 1995 instituiu o Programa de Estímulo à
Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro (PROER). Os principais objetivos do
Proer eram assegurar a liquidez e solvência do sistema financeiro nacional e resguardar os
interesses dos depositantes e investidores, cobrindo a aquisição ou a transferência de controle
acionário e, a assunção de direitos e / ou obrigações das instituições financeiras. Duas semanas
depois, em 17 de novembro, nova Medida Provisória - MP 1182 – aumentava os poderes do Bacen
que, entre outros, neutralizava a Lei das Sociedades Anônimas, com relação aos direitos dos
134

acionistas das instituições financeiras, bem como criava o conceito de responsabilidade solidária
dos controladores para as instituições financeiras submetidas aos regimes de intervenção ou
liquidação extrajudicial, e estendia a indisponibilidade aos acionistas controladores. Preservava,
porém, os bens considerados inalienáveis ou impenhoráveis, como as ações de governos estaduais,
dívidas trabalhistas ou saldos no FGTS.
376
No dia 18 de novembro, o Bacen tornava pública a informação que havia assumido a
administração do Banco Nacional para viabilizar a absorção da instituição pelo Unibanco. Pelo
acordo firmado, o Unibanco assumiria a parte “saudável” do Nacional, e o BC ficaria com a parte
“comprometida”. Procurando evitar a intervenção formal e a liquidação extrajudicial, o Bacen
colocou as agências do Nacional sob o regime do RAET. A intervenção foi cercada de intensos
boatos no mercado financeiro que identificavam o Bamerindus como o próximo banco a sofrer
intervenção do Bacen.
377
Em 1996, as intervenções do Bacen atingiram 23 instituições financeiras, entre elas as
empresas do grupo Banorte. Nesse ano, foi criado o Comitê de Política Monetária (Copom) 79 com o
objetivo de estabelecer diretrizes da política monetária, definir a meta da Taxa SELIC e seu
eventual viés e analisar o Relatório de Inflação, introduzindo a sistemática de “metas para a
inflação” como diretriz para a fixação do regime de política monetária de Inflação.

Gráfico 3-18: Intervenções do Bacen (1970 a 1997)


60 56

56 55
50
51 45
49

40 42
41

34
30

29
27
20 17 24 23

17 17 17
14 15
10 13

7
5 5
0
3 2 2 2
1970

1971

1972

1973

1974

1975

1976

1977

1978

1979

1980

1981

1982

1983

1984

1985

1986

1987

1988

1989

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados obtidos em Bacen (2004).

378
No ano seguinte, foi criada a Central de Risco de Crédito80 e, buscando atender cláusulas do
Acordo da Basiléia, o Bacen emitiu a Resolução 2.399 que modificou para 10% o percentual

79
Circular nº 2.698, de 20 jun. 1996 do Bacen.
80
Resolução nº 2.390, de 22 de maio de 1997. (BACEN, 2003).
135

exigido dos bancos para o patrimônio líquido. Em novembro, uma nova Circular 2.784 aumentou
esse percentual para 11% e estabeleceu o dia 31 de dezembro de 1998 como data limite para a
adequação das instituições. O Gráfico 3-18 demonstra que a quantidade de intervenções realizadas
pelo Bacen no período 1994 – 1997, indica que ocorreram profundas mudanças no sistema
financeiro, e que só no ano de 1997 foram realizadas intervenções em 45 instituições financeiras.
379
No gráfico também destacamos três momentos importantes para a histórica do Bamerindus:
o primeiro em 1974 quando, em meio à crise financeira do início do governo Geisel e as
intervenções do Bacen, o grupo incorpora o Bancial; o segundo momento, em 1985, quando o
banco enfrentou uma forte crise de liquidez e boatos de intervenção iminente; finalmente no dia 26
de março de 1997, quando o Bacen determinou a intervenção no Grupo Bamerindus do Brasil e
transferiu parte de seu patrimônio para o grupo inglês The Hongkong and Shanghai Banking
Corporation Limited. Esse momento deu início ao processo de transferência de vários grandes
bancos brasileiros para o controle estrangeiro, sendo importante observar que:
66
A quebra dos três grandes bancos [Econômico, Nacional e Bamerindus] está ligada ao
quadro econômico da primeira metade da década, e não apenas ao que ocorreu a partir
da queda da inflação. Os problemas de cada um deles devem ser analisados a partir de
sua situação específica e das estratégias que adotaram para enfrentar a concorrência,
tentar ganhar mercado e crescer. O esclarecimento sobre o que de fato ocorreu
depende do aprofundamento da pesquisa sobre a trajetória de cada um deles, a partir
de dados mais detalhados e confiáveis que os dos balanços e que permitam avaliar os
efeitos das estratégias adotadas, desde antes do Real, sobre sua situação patrimonial e
sobre os resultados. (CARVALHO & OLIVEIRA, 2002, p. 83)81

380
Como veremos na seqüência deste trabalho, além dessas questões observadas por Carvalho,
pelo menos no caso Bamerindus temos que, necessariamente, incluir variáveis do campo político na
complexa equação que resultou na intervenção do Bacen.
381
Nos anos seguintes, o sistema financeiro nacional enfrentou uma profunda reforma, que
reduziu o número de bancos, aumentou a participação estrangeira e privatizou a maior parte dos
bancos estaduais. Para mais detalhes sobre o período pós-1994 sugerimos consultar os trabalhos de
Vidotto (2002)82, Minella (2004)83 e Minella & Ferreira (2005)84.

3.5 SÍNTESE, ANÁLISE E CONCLUSÕES

382
Neste capítulo apresentamos uma breve revisão da história do sistema financeiro
internacional e brasileiro no período 1981 a 1994; verificamos que as profundas mudanças que

81
Fonte: CARVALHO, C. E.; OLIVEIRA, G. C. Fragilização de grandes bancos no início do Plano Real. Nova Economia.
Vol. 12 nº 1, p. 69-84. Belo Horizonte: UFMG, jan. Jun. 2002.
82
Fonte: VIDOTTO, Carlos A. O sistema financeiro brasileiro nos anos noventa. Um balanço das mudanças estruturais.
Tese de doutorado apresentado ao Instituto de Economia. São Paulo, UNICAMP, 2002.
83
Fonte: MINELLA, Ary C. Transformações do Sistema Financeiro e representação de classe no Brasil (1994-2004). In: IV
Workshop: Empresa, Empresários e Sociedade, nov. 2004, Anais. Juiz de Fora: UFJF, 2004.
84
Fonte: MINELLA, Ary C.; FERREIRA, Alceu C. Bancos no Brasil: muito mais que operações de crédito (poucas) no final
do Século XX. In: VI Congresso Brasileiro de Pesquisadores em História Econômica e 7ª. Conferência Internacional
de História de Empresas, set. 2005. Anais. Cidade de Conservatória: ABPHE, 2005.
136

ocorreram no sistema financeiro brasileiro estão intimamente relacionadas com o processo de


hegemonia financeira e mundialização do capital financeiro. Nesse período também ocorreram
profundas mudanças no sistema financeiro brasileiro, promovendo a aceleração e consolidação do
processo de hegemonia do capital financeiro e maior integração ao sistema financeiro internacional
(SFI). Tal processo, apesar de ter começado na Europa e EUA nos anos 1960 com a entrada e o
crescimento de novas operações e atores, entre eles os chamados investidores institucionais, ganhou
contornos significativos nos grandes centros capitalistas durante os anos 1970, por causa do
progressivo crescimento do mercado financeiro internacional e desmonte do acordo de Bretton
Woods; e foi acelerado nos anos 1980 quando vários países adotaram políticas mais liberais para os
seus sistemas financeiros, buscando facilitar sua integração ao mercado internacional. No Brasil, o
processo de liberação e maior integração ao SFI, teve início quando o país passou a enfrentar a
grave crise da dívida externa nos primórdios dos anos 1980. Essa crise interrompeu o fluxo de
capitais e estrangulou a capacidade financeira do Estado, com reflexos sobre a estrutura social,
política e econômica do país, dando início a um processo de reformas do sistema financeiro
nacional. Inicialmente, estas reformas tinham em vista enfrentar os graves problemas acumulados
no patrimônio das instituições financeiras durante os anos de regime militar, e promover alterações
na estrutura de subsídios e do gasto público em todas as esferas do Estado.
383
Na seqüência foram implantados vários planos de estabilização econômica, os quais
envolveram sucessivas alterações na moeda e na estrutura institucional do sistema econômico e
financeiro. Esse processo culminou com a implantação do Plano Real em 1994, que aprofundou a
reforma da dívida pública e o controle do orçamento da União, Estados, Municípios e empresas
estatais. Tais transformações foram condicionadas, em muitos momentos, pela agenda de
organismos financeiros internacionais através da pauta das negociações da dívida externa, tendo
resultado no aumento do grau de integração do sistema financeiro brasileiro ao mercado
internacional, bem como na privatização de grande parte de sua estrutura, transferência de
importantes instituições para o controle estrangeiro e a ampliação de grandes grupos econômicos e
financeiros com a participação dos bancos no programa de privatização. Esse redesenho da
estrutura econômica brasileira aumentou a concentração do poder econômico e produziu
significativas mudanças na correlação de forças políticas. Essas transformações fizeram parte de
um processo maior, que segundo Chesnais, constituiu-se numa nova fase do capitalismo,
caracterizada pela hegemonia do capital financeiro sobre o sistema econômico internacional.
384
Com este capítulo reunimos as informações básicas necessárias para prosseguir com este
estudo, e convidamos o leitor a nos acompanhar agora no esforço para identificar e analisar as
conexões entre o sistema financeiro e o mundo político através da história do Bamerindus.
4 CAPÍTULO III: A FAMÍLIA VIEIRA E O BAMERINDUS

– Lá vai o Coronel Ponciano Azevedo


Furtado em sua mulinha de desencantar
lobisomem. Vai a guerra do Demônio, que o
coronel não tem medo de nada..
(CARVALHO, 2000, p. 305).

4.1 INTRODUÇÃO

385
Neste capítulo apresentamos uma breve história da família Vieira e da formação do Grupo
Bamerindus até 1981. Buscamos focalizar os diversos aspectos sociais, políticos, econômicos e
financeiros deste período, procurando subsídios históricos para compreender a gestão de José
Eduardo à frente do Bamerindus na década de 1980 e parte dos anos 1990.
386
Inicialmente abordamos a formação da família Vieira, para em seguida entrarmos na
criação da sua primeira instituição financeira, o Banco Popular e Agrícola do Norte do Paraná
(BPANP) que, mais tarde, é incorporado pelo Banco Comercial do Paraná (Bancial). Na seqüência,
vamos investigar a aquisição do Banco Meridional da Produção e sua transformação em Banco
Bamerindus do Brasil (BBB), bem como o seu desenvolvimento até os anos 1981. Neste capítulo
vamos verificar as diversas conexões políticas desses bancos, bem como as relações com os eventos
históricos mais importantes no período. Assim iniciamos a jornada pela intrincada rede de relações
econômicas, sociais e políticas, na qual as instituições bancárias assumem boa parte do papel de
coordenadoras do fluxo de recursos, catalisadora de conflitos, e instância de constrangimento ou
facilitadora da ação dos diversos grupos econômicos e sociais. Vamos acompanhar o processo de
expansão do Bamerindus que aconteceu através da associação com grupos influentes tanto locais
como nacionais, pela da incorporação desses grupos aos quadros de acionistas, conselheiros,
diretorias ou como parceiros de negócios, possibilitando assim integrar grupos locais aos grandes
centros, servindo de ponte para o fortalecimento de ambos os lados.
387
Neste capítulo, acompanhamos a formação do Grupo Bamerindus cuja rede de relações
sociais, políticas e econômicas formava uma malha que cobria boa parte do território nacional e
cujo tamanho torna impossível a tarefa de descrevê-la no seu todo, exigindo a busca pelas regiões
de maior densidade de conexões nas quais se concentrou a maior parte do poder de decisão. Nessas
regiões, vamos encontrar ligações com grandes grupos econômicos, partidos políticos1, instituições

1
Nos anexos apresentamos um quadro com os principais partidos brasileiros no período 1945-2003.
138

públicas, políticos importantes, famílias tradicionais, grupos de interesses e sindicatos patronais e


de trabalhadores. No centro dessa constelação de interesses sociais, também vamos encontrar um
grupo de capitalistas organicamente reunidos em torno da família Vieira e, neste capítulo,
procuramos identificar esses personagens, suas biografias e principais contribuições para a
formação da rede Bamerindus.

4.2 A FAMÍLIA VIEIRA E AS CONEXÕES POLÍTICAS DO BAMERINDUS (DAS


ORIGENS ATÉ 1981)

4.2.1 OS AVÓS DE JOSÉ EDUARDO DE ANDRADE VIEIRA

4.2.1.1 MIGUEL ANTUN OU MIGUEL ANTÔNIO VIEIRA

388
Miguel Antun2 nasceu numa família humilde em Baabda3, Líbano em 1869 segundo
Andrada (1982, p. 11)4 e provavelmente em 2 de fevereiro de 1877 segundo Brandão (1993), teria
imigrado para o Brasil aos 17 anos, chegando em Santos provavelmente em 1894. Mas, observa o
autor, essas informações não são definitivas, visto que os registros na época não eram muito
precisos, normalmente baseados em declarações, havendo inconsistências entre os dados
registrados nos diversos documentos de Miguel, como certidões de óbito, casamento, naturalização
etc.
389
Após ter passado por Rio Preto em São Paulo; Guarapuava e São José da Boa Vista, no
Paraná; Araraquara e Campinas e ter trabalhado como mascate, acabou se fixando em Tomazina no
Norte do Paraná por volta do ano de 1897.
67
Tomazina foi fundada, em 1865, pelo mineiro de São João Del-Rei, Major Thomaz
Pereira da Silva, que adquirira duas posses de terras na margem direita do Rio das
Cinzas. Depois, em fins de 1867, o Major preparou e liderou grande comitiva,
composta da família, escravos e agregados, que partindo do Sul de Minas [...] Em
1878 [...] “o Major Thomaz e sua mulher fizeram doação de uma certa área de terras
para o patrimônio, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, cuja
povoação teve início com as primeiras casas construídas e arruadas em 1879”. A
freguesia foi criada em 1882, pela Lei n° 681, com a denominação de “Thomazina”
[...] em homenagem ao pioneiro [...] Foi elevada a Vila em 1888. Comarca em 1913.
Tomazina marca um símbolo na evolução sócio-econômica do Paraná, pois, “foi a
primeira grande tentativa da implantação do cafeeiro do Paraná, quando a liderança
do produto pertencia à província fluminense e imensas florestas cobriam as áreas
paulistas que viriam, depois, se transformar em cafezais” [...] (Informativo
Bamerindus, 13 out. 72, apud ANDRADA, 1982, p. 13).

2
Andrada (1982) e Nogueira (1986) grafam o nome como Antum e, Brandão (1993) grafa como Antun, provavelmente o uso
do “m” seja uma tradução do nome original.
3
A grafia do nome pode ser Bahabda ou Ba’abda. Segundo a Câmara de Comércio Brasil-Líbano, Baabda é capital da
província Monte Líbano. Fonte: Câmara de Comércio Brasil-Líbano. Baabda. São Paulo, [2004]. Disponível em:
<http://www.ccbl.com.br/index.htm >. Acesso em: 13 out. 2004.
4
Fonte: ANDRADA, F. C. de. Um comandante de bancos: vida e obra de Avelino Vieira. Curitiba: Banco Bamerindus do
Brasil S.A., 1982.
139

390
Nessa época, Miguel Antun aportuguesou seu nome para Miguel Antônio, seguindo uma
prática, comum na época, de adotar um nome em português para evitar ser identificado como
“turco”, termo que segundo Brandão (1993, p. 22) tinha conotação pejorativa na região. Em
Tomazina, ele abriu uma casa comercial de secos e molhados, atacado e armarinho, conhecida na
época como Armazém do “seu Miguel, o sírio” bem como, mais tarde, adquiriu a fazenda de café
Bela Vista com 300 alqueires de terra roxa e 100 mil pés de café. Miguel também teve um engenho
com 968 mil pés de cana produzindo rapadura e açúcar mascavo, “além de ter sido vereador
(camarista) em duas legislaturas, participava ativamente de todas as iniciativas que promovessem a
cidade. Era, de conseguinte, figura obrigatória na sociedade de Tomazina”. (ANDRADA, 1982, p.
14). Mais tarde, Miguel adotou o sobrenome Vieira, cuja origem, segundo Andrada (1982, p. 14),
seria da família de sua esposa, Cecília Bernardina – natural de Brazópolis (MG), o que é contestado
por Brandão (1993, p. 23), visto que o sobrenome de Cecília era Silva. O casal teve cinco filhos:
Faride, Ernesto, Avelino Antônio, Abílio, João e Ernestina. Após a morte de Cecília em 1914,
Miguel casou-se novamente com Maria Gertrudes em 1915, com quem teve mais filhos. Na
Ilustração 4-1 podemos visualizar a composição da família pelo lado paterno de José Eduardo,
destacando os personagens que tiveram conexões diretas com o Bamerindus.

4.2.1.2 JOAQUIM MARTINS DE ANDRADE

391
Joaquim Martins de Andrade era natural de Campanha da Princesa, Sul de Minas Gerais,
filho de Manoel Eustáquio Martins de Andrade e de Clara Xavier de Araújo Andrade. Manoel,
além de ter sido advogado formado na mesma turma de Ruy Barbosa, foi senador, deputado federal
duas vezes pelo Estado de Minas Gerais e constituinte da primeira Constituição estadual de 1891. A
sua família tinha laços de amizade com as famílias dos ex-presidentes da República Wenceslau
Brás e Afonso Pena. Joaquim casou-se com Maria Vilhena de Andrade que, segundo Andrada
(1982, p. 25), era filha do médico Mathias Antônio Moinhos de Vilhena, também de Minas Gerais,
e de Maria Carolina de Gouvêa Vilhena, filha de João Alves de Gouveia5, o Barão de Lavras6 –
abastado fazendeiro e chefe do partido conservador local durante a monarquia. O Barão exerceu
vários cargos de eleição popular e de nomeação do governo, tendo sido vereador da Câmara
Municipal de Lavras (MG), delegado de instrução, suplente de subdelegado de polícia e juiz de paz.
392
Joaquim Martins formou-se em Farmácia em 1907 e, após algumas mudanças de cidades,
fixou-se com a família em Cambuquira onde foi eleito vereador, cargo que ocupou por pouco
tempo. Mais tarde, mudou para São Paulo onde montou, com os irmãos, uma indústria de cerâmica.

5
Segundo Brandão (1993) Mathias e Maria Carolina eram os pais de Clara Xavier e não de Maria. Optamos pela versão de
Andrada (1982) por ter mais coerência com relação às datas dos eventos.
6
Fonte: CASCÃO, Regina. Barão de Lavras. In: BARATA, C. E.; BUENO, A. H C. Dicionário das Famílias Brasileiras.
Verbete: Lavras, Barão com grandeza de. Apud FREITAS, Sérgio de. A Nobreza Brasileira de A a Z. “Página transcrita do
Archivo Nobiliarchico Brasileiro dos barões Smith de Vasconcellos, com adendas e correções”. Itapira, nov. 1999.
Disponível em: <http://geocities.yahoo.com.br/Kajafreitas/Nobl.htm>. Acesso em: 21 set. 2004..
140

Com a falência da indústria em 1922, mudou com a família para Mogi das Cruzes onde ficou por
pouco tempo, voltando para São Paulo. Em 1924, aceitou a proposta da família do ex-presidente
Wenceslau Brás, para tomar conta de uma fazenda de dois mil alqueires que ela possuía em
Tomazina, para onde mudou com toda a família. É importante observar que na região de Tomazina
surgiu a cidade de Brazópolis, atual Wenceslau Brás. Na Ilustração 4-2 pode-se verificar a
constituição da família de Maria José Vilhena de Andrade – mãe de José Eduardo – e no Gráfico
4-1, uma síntese das conexões políticas da família Andrade Vieira, destacando que, pelo lado
materno, havia uma forte tradição de atuação política.

4.2.2 AVELINO ANTÔNIO VIEIRA E SUA FAMÍLIA

393
Avelino Antônio Vieira nasceu em 19057, em Tomazina, nesta mesma época também
nasceram Amador Aguiar, em 1904, José de Magalhães Pinto, em 1909, e Walther Moreira Salles
em 1912.
394
Avelino mais tarde foi estudar em Curitiba e, ao voltar, em 1919, foi trabalhar como
vendedor e escriturário numa casa comercial em “Patrimônio do Café”. Tempos depois foi para
Brazópolis, para atuar na seção bancária da casa comercial do Coronel Felippe M. de Carvalho, um
rico fazendeiro e importante político na região, que chegou a comandar o executivo municipal de
Tomazina. Na seção bancária do seu armazém, chegou a representar o “Banco Francês e Italiano,
Banco do Brasil, Banco de Curitiba e Noroeste do Estado de São Paulo” (ANDRADA, 1982, p.
19). Na época, os bancos constituíam correspondentes em pequenas cidades8 do interior,
normalmente escolhendo casas de comércio conhecidas na região, que passavam então a
intermediar operações de cobrança e pequenos financiamentos.
395
Em 1923, aos 18 anos, Avelino voltou a Curitiba para prestar o serviço militar e, ao mesmo
tempo, freqüentar o curso de contabilidade na Escola de Comércio Dr. Raul Gomes – escola onde
Moysés Lupion estudou em 19249 – onde recebeu a formação necessária para mais tarde
desenvolver atividades na área financeira. Ao voltar a Tomazina, seu pai abriu uma seção bancária
no armazém, aproveitando a experiência que Avelino adquiriu em Brazópolis, passando a ser
correspondente de diversos bancos, entre eles o Banco do Brasil. (ANDRADA, 1982, p. 20-21).
396
A Ilustração 4-3 apresenta a composição detalhada da família formada pelo casamento de
Avelino Vieira com Maria José Vilhena de Andrade, em 1926. O casal gerou oito filhos: Norma,
Cláudio Enoch, Tomaz Edison, Maria Lúcia, José Eduardo, Maria da Glória, Luiz Antônio e
Maria Christina. Também a ilustração destaca todos os nomes que, de alguma forma, tiveram
conexões diretas com o Bamerindus.

7
Brandão (1993, p. 29) observa que no registro de nascimento de Avelino Antônio Vieira consta o nome ERVELINO,
provavelmente o cartório teria feito a transcrição literal da forma como era pronunciada a palavra “Avelino” naquela região.
8
Para mais detalhes ver a história do Bradesco e Unibanco em Markowitz (2004).
9
Fonte: FUNDAÇÃO MOYSÉS LUPION (2005)
141

Ilustração 4-1: Família de Avelino Vieira

Miguel Antun ou
Cecília Bernardina Miled Antônio
Maria Gertrudes Miguel Antônio Vieira
(1877 – 1973) Vieira

Erotides
Faride Vieira Ernestina Vieira
Abílio Vieira
Adel

Brasílio
Ernesto Vieira
Joaquim Martins Maria Vilhena de
Natália de Andrade Andrade

Jayme

Maria Vitorina

Avelino Antônio Vieira Maria José de Andrade Vieira Clara Vilhena João Antônio
(1905 - 1974) (1908 - 1972) de Andrade Vieira
Maria José Santos
Buquera Vieira

João Antônio
José Eduardo de Andrade Vieira Vieira Filho

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados encontrados em ANDRADA (1982) e BRANDÃO (1993).
142

Ilustração 4-2: A família de Maria José de Andrade Vieira


João Alves de Gouveia
Barão de Lavras

Manoel Eustáquio Clara Xavier de Mathias Antônio Maria Carolina de


Martins de Andrade Araújo Andrade Moinhos de Vilhena Gouvêa Vilhena

Miguel Antun ou Cecília Bernardina


Miguel Antônio Vieira Vieira Joaquim Martins Maria Vilhena de
de Andrade Andrade

Yolanda José Diva Germano Mathias Vilhena Lia


João Jubery Leontina
Tamoyo de Andrade

Avelino Antônio Maria José de Andrade Clara Vilhena João Antônio


Vieira Vieira de Andrade Vieira
(1905 - 1974) (1908 - 1972)

João Antônio Vieira Filho


José Eduardo de Andrade Vieira

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados encontrados em ANDRADA (1982), e BRANDÃO (1993).
143

Ilustração 4-3: Família de José Eduardo

Miguel Antun ou
Miled Antônio Cecília Bernardina Vieira Joaquim Martins de Maria Vilhena de
Miguel Antônio Vieira
(... +1914) Andrade Andrade
(1877 – 1973)

Abílio Vieira
Mathias Vilhena de Andrade
Ernesto Vieira
Avelino Antônio Maria José de Clara Vilhena de João Antônio
Maria José Santos
Vieira Andrade Vieira Andrade Vieira
Buquera Vieira (1905 - 1974) (1908 - 1972)

Cláudio Maria Lúcia Maria da Glória João Antônio


Norma Vieira
Vieira Simões
Tomaz Édison Vieira Peixoto
Luiz Antonio Vieira Filho
Fritzsche Enoch (1944 – 1981)
(1937) (1931 – 1981) (1941)
(1930 – 1981)

José Richa Dinorá (Didi) Maria Christina Vieira (Dias)


Bernardi Vieira (1952)

Carlos Alberto Fernanda José Eduardo de Andrade Vieira Tânia Maria Vieira
(Beto) Richa Bernardi Vieira (1938)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados encontrados em ANDRADA (1982) e BRANDÃO (1993).
144

Gráfico 4-1: Rede política dos avós de José Eduardo

Fontes: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados extraídos de em Andrada (1982), Brandão (1993) e DHBB (2002).
145

4.3 O BANCO POPULAR E AGRÍCOLA DO NORTE DO PARANÁ (BPANP)

397
Em 1928, começaram os preparativos para transformar a seção bancária dos Vieiras em um
banco, culminando na fundação do Banco Popular e Agrícola do Norte Paraná (BPANP) no dia 17
de janeiro de 1929, sob a forma de Sociedade Cooperativa...
68
[...] segundo o sistema Luzzatti1, de Responsabilidade Limitada e forma anônima, de
acordo com o Decreto nº 1637, de 8 de janeiro de 1907 [...] onde a minuta de criação
da empresa definia que o banco [...] tem por fim geral combater a usura voraz,
mediante uma taxa módica de juros e de lucros em suas operações, aproximando,
numa colaboração direta, os que dispõem de economias e os que delas careçam para o
desenvolvimento, em modo particular, do pequeno trabalho [...] a Sociedade
empregará esforços para fomentar o crédito e propagar o cooperativismo, sob seus
diversos modos, entre as classes em geral. (ANDRADA, 1982, p. 21).

398
Entre os sócios fundadores estavam: o médico Djalma Ferreira Lopes, João Baptista do
Nascimento, Fedele de Franco, João Theotônio de Sampaio e João Baptista de Camargo. Também
estavam correligionários políticos liderados pelo Deputado governista Joaquim Thomaz Ribeiro da
Silva, filho do Major Thomaz Pereira da Silva – fundador da cidade – bem como por políticos da
oposição liderados por Moraes e Silva. Além deles, também faziam parte da sociedade pequenos
industriais, comerciantes, fazendeiros, profissionais liberais e funcionários públicos. Andrada
(1982, p. 22-23) conta que na primeira assembléia, realizada na platéia do cinema Nossa Senhora
do Carmo, foram aprovados os termos do estatuto da sociedade, bem como a ata que constituiu a
primeira diretoria formada por Miguel Antônio Vieira como presidente e Avelino Antônio Vieira
como gerente. A ata também estabelecia: Djalma Ferreira Lopes, como diretor-secretário e João
Batista Nascimento, como diretor tesoureiro (segundo maior acionista com 200 ações). Para o
Conselho Fiscal foram eleitos como membros efetivos: José Sebastião Ribeiro, agricultor (100
ações); Fidelis Franco, comerciante (100 ações); João Theotônio Sampaio, farmacêutico (100
ações). Como membros suplentes do Conselho Fiscal foram eleitos: Pedro Werner Filho, industrial
(50 ações); Hermínio Augusto de Oliveira, agricultor (50 ações); Alcides Moraes e Silva, agricultor
(20 ações). Para o Conselho Deliberativo foram escolhidos quatro diretores, três membros do
Conselho Fiscal e os vogais: Ozório Ferreira Gonçalves, agricultor (100 ações); Joaquim Thomaz
Ribeiro da Silva2, agricultor (50 ações) e Miled Antonio – irmão de Miguel Antun e tio de Avelino.
(BRANDÃO, 1993, p. 78).
399
A ata de instalação da sociedade registra ainda que:

1
“Inspirado nos pioneiros alemães [Friedrich Wilhelm Raiffeisen e Herman Schulze], o italiano Luigi Luzzatti organiza a
constituição, em 1865, na cidade de Milão, do primeiro banco cooperativo na Itália. As cooperativas do tipo luzzatti,
bastante populares no Brasil nas décadas de 40 a 60, tinham como características a não-exigência de vínculo para a
associação, exceto algum limite geográfico [...] quotas de capital de pequeno valor, concessão de crédito de pequeno valor
sem garantias reais, não remuneração dos dirigentes e responsabilidade limitada ao valor do capital subscrito [...] Em 1º de
março de 1906, no município de Lajeado (RS), foi constituída a primeira cooperativa de crédito do tipo luzzatti no Brasil,
denominada Caixa Econômica de Empréstimo de Lajeado [...]” (PINHEIRO, 2004, p. 8-10).
2
Joaquim Thomaz, além de filho do fundador de Tomazina, era sogro de Djalma Ferreira Lopes e presidente da Câmara, em
1928.
146

69
[...] passando-se à realização do capital, foi recolhida entre os presentes à importância
de noventa e quatro contos e quatrocentos mil réis (Rs 94:400$000) correspondente a
oitenta e uma ações integralizadas e a mil e setecentas e vinte e seis ações com 50%
do seu valor realizado [...] O total do capital subscrito foi de 233 contos e trezentos
mil réis, reunindo 155 subscritores. (ANDRADA, p. 23-24).
70
Entre os 155 primeiros acionistas, temos 25 com 5 ações, 1 com 4, 39 com 2 e 38 com
1. Os outros todos com mais de 20, sendo 8 com 100, 6 com 50 e o restante entre 10 e
20 ações. Entre estes acionistas 72 eram agricultores e 48, comerciantes. O restante se
dividia entre proprietários, 7; industriais, 5; e médicos, engenheiros, advogados,
lavradores, tabeliães, dentistas, funcionários públicos. Dos irmãos, Ernesto Antonio
Vieira possuía 110 ações, João e Abílio, 10 cada um e o tio Miled, 20. Somando as
100 de Avelino e as 280 do pai, os Vieira detinham 530 ações do total de 2.333 da
lista nominativa divulgada em 31 de dezembro de 1929. (BRANDÃO, 1993, p. 79).

400
O BPANP foi registrado em 9 de fevereiro de 1929 na Junta Comercial do Estado e, nesse
período, Tomazina tinha 1.200 habitantes3, 2 milhões e 200 mil pés de cafés em 106 fazendas e 31
milhões de pés de cana, bem como se produziam também milho e feijão, criavam-se cavalos, gado
e porcos. Integravam a jurisdição de Tomazina as localidades de Brazópolis, Pinhalão, Jabuti, Barra
Bonita, Cerradinho e Japira. (BRANDÃO, 1993, p. 79). Em setembro, o Banco enfrentou
dificuldades para sobreviver à quebra da bolsa de Nova York, cujas conseqüências atingiram de
forma considerável a economia do café. Sobrevivente, o BPANP conseguiu abrir agências nas
cidades vizinhas a Tomazina.
401
Brandão (1993, p. 86) comenta que, em 1932, Avelino era secretário da Câmara de
Tomazina tendo assumido em seguida o cargo de tesoureiro. Logo após Manoel4 Ribas ter sido
empossado interventor no Paraná, o ministro da Fazenda Osvaldo Aranha assinou a carta-patente
que transformava o banco agrícola em banco comercial. Nesse mesmo ano, Ribas também nomeou
Avelino prefeito de Tomazina, cargo no qual permaneceu por dez anos (1933-1942). No Gráfico 4-2
podemos verificar as relações políticas que envolviam a família Vieira e o BPANP.
402 Tabela 4-1 Relatório financeiro do BPANP em 1940 e 1942 (em
Em 1942, já como sociedade
Cr$).
anônima, tinha entre os maiores Descrição 1940 1942
Capital do banco 300.000,00 1.000.000,00
acionistas Miguel Antônio Vieira, João Depósitos 3.637.128,40 9.593.619,30
Baptista do Nascimento, Djalma Empréstimos concedidos pelo 15.270.000,00 34.046.860,00
Banco
Ferreira Lopes, Ozório Ferreira Lucro bruto, 407.783,30 773.504,30
Lucro bruto / Capital do Banco 136% 77%
Gonçalves, João Baptista de Camargo,
Dividendos 30.000,00 60.000,00
Ernesto Antônio Vieira, Avelino Vieira, Dividendos / Capital do Banco 10% 6%
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados obtidos em
João Theotônio de Sampaio, Josué ANDRADA (1982, p. 34).
Minotto e Valdomiro Proença.
(ANDRADA, 1982, p. 33-34).

3
É interessante observar que o número de acionistas representava aproximadamente 13% da população de Tomazina.
4
Apesar de Moreira, R. (2002) grafar o nome como Manuel, optamos pela grafia Manoel utilizada pela Casa Civil do
Governo do Estado do Paraná.
147
Gráfico 4-2: Conexões entre os sócios do BPANP e a política (1926 a 1942)

Fontes: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados extraídos de Andrada (1982) e Brandão (1993).
148

403
No relatório de janeiro de 1943 (ver Tabela 4-1), a diretoria apresentou a seguinte situação
do banco:
71
Foi efetivado com pleno êxito, no fim do ano, o aumento do capital de seiscentos mil
cruzeiros para um milhão de cruzeiros, e conquanto ainda pequeno, já é suficiente
para o volume das nossas operações atuais [...] Este aumento de capital corre os
trâmites ordinários para sua aprovação na Diretoria Geral da Fazenda Nacional.
Igualmente está pendente de solução naquela Diretoria, o nosso pedido para abertura
de uma agência na cidade de Bandeirantes e uma sucursal na capital do Estado. Estes
novos empreendimentos já aprovados pelos srs. (sic) acionistas, visam atender às
necessidades do nosso próprio movimento. (ANDRADA, 1982, p. 33-34).

4.3.1 ATALAIA CIA DE SEGUROS

404 Gráfico 4-3: Conexões políticas do Grupo Atalaia (1938-


Além do grupo de empresários do
1940)
BPANP, também foi importante para a história
do Bamerindus o grupo que se formou em torno
da Atalaia Cia. de Seguros, fundada em 24 de
outubro de 1938, em Curitiba. Segundo Sindiseg-
Pr (2003), a seguradora reunia, sob a liderança de
Othon Mäder, um grupo formado pelos
empresários: Altamirano Pereira, Paulo Lídio
Bettega, Asdrúbal Bellegard, Pedro N. Pizzatto e
Anacleto Theógenes Carli, tendo sido a primeira
empresa de seguros do Paraná. Inicialmente foi
denominada Atalaia Companhia de Seguros
contra Acidentes de Trabalho e, a primeira
apólice foi emitida em 1º de dezembro de 1938, Fonte: gráfico elaborado pelo autor com base nos dados
para Ivo Leão, na época um dos maiores disponível de Sindiseg-Pr (2003) e DHBB (2002).

empresários do Paraná. O grupo também criou a Atalaia Companhia de Seguros Gerais, em 1939,
para operar com seguros de incêndio, transportes e outros e, em 1940, o grupo abriu sua primeira
sucursal em São Paulo.
405
Segundo DHBB (2002g)5 e Codato (2002)6, Othon Mäder nasceu em Paranaguá em janeiro
de 1895, filho de Nicolau Mäder e de Francisca da Costa Mäder. Seu pai era industrial e
comerciante de erva-mate e foi deputado estadual entre 1908 e 1909. Othon formou-se engenheiro
civil e geógrafo em 1919 pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e iniciou sua carreira de
funcionário público como Delegado de Terras da Região Oeste (1920-24). Em 1926, tornou-se
agrimensor de terras, no Departamento de Terras e Colonização e, mais tarde, Delegado de Terras

5
Fonte: DHBB. Verbete: MADER, Othon. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: pós-1930 (DHBB). 1ª edição.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, CPDOC, 2002g. CD-Rom.
6
Fonte: CODATO, E. Personalismo político nos anos cinqüenta. Revista de História Regional, vol. 7 – nº 1, p. :9-45, Verão
2002. Ponta Grossa: Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (DEHIS), 2004.
149

no Sudoeste. Nos anos 1930, foi prefeito de Foz do Iguaçu7 e de Ponta Grossa8 e, entre 1934-36 foi
Secretário de Estado da Agricultura no governo Manoel Ribas.

4.3.2 O PROCESSO POLÍTICO PARANAENSE.

406
Neste momento precisamos fazer uma breve pausa para conhecer um pouco da história do
Paraná. Segundo Oliveira (1998, p. 35-39)9, o Estado até 1930 era dominado por oligarquias de
comerciantes e produtores de mate, bem como sua população estava concentrada em áreas
próximas a Curitiba e Paranaguá. A estrutura de dominação somente começou a ser modificada a
partir dos anos 1930, quando ocorreu a aceleração do processo de colonização da região Norte do
Estado, impulsionada pela expansão das culturas de café e algodão que, vindo de São Paulo, entrou
no Paraná pela região de Ourinhos já no início do século XX (ver Ilustração 4-4). O crescimento
demográfico e econômico da região passou a exigir investimentos crescentes em estradas e
transportes para o escoamento da produção, bem como para a estrutura urbana.
407
Nos anos 1920 teve início uma grande experiência de colonização ordenada da região,
quando a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP)10, subsidiária da empresa inglesa Brazil
Plantations Limited, comprou quinhentos e quinze mil alqueires de terras para mais tarde dividi-las
em lotes pequenos e médios, e vendê-los com financiamento e concessão do título de propriedade.
O projeto incluiu também a criação de centros urbanos e a ampliação da malha ferroviária.
Explorava uma região de terra roxa e fértil que vinha sendo colonizada de forma espontânea por
imigrantes de Minas Gerais e São Paulo.
408
A história da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) começou em 30 de dezembro
de 1923, quando chegou ao Brasil a chamada Missão Montagu. Desde o final da Primeira Guerra
Mundial, o Brasil enfrentava grave crise econômica e financeira e a necessidade de novos
financiamentos levou o então presidente Artur Bernardes a aceitar a vinda da missão que tinha
como objetivo verificar in loco a capacidade brasileira de honrar os compromissos financeiros com
a City. A comitiva era formada por diversos técnicos e empresários financeiros de Londres, entre os
quais destacavam-se os seguintes personagens:
72
Lorde Edwin S. Montagu, ex-secretário financeiro do Tesouro da Inglaterra; Charles
Addis, diretor do Banco da Inglaterra e presidente do Hong-Kong and Shanghai
Bank (sic); Hartley Withers, comentarista de assuntos financeiros e ex-diretor do The
Economist, de Londres; e Simon Joseph Fraser - Lorde Lovat - agrônomo e diretor da

7
Segundo Codato (2002, p. 12), Mäder foi prefeito de Foz do Iguaçu em 1932 e, segundo o DHBB (2002g) em 1931, e seu
nome não aprece na relação de ex-prefeitos de Foz do Iguaçu. Fonte: FOZ DO IGUAÇU (Cidade). Relação de ex-prefeitos
de Foz do Iguaçu. Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu, [2005]. Disponível em: <http://www.fozdoiguacu.pr.gov.br/
br/cidade/gov/exprefeitos.htm>. Acesso em: 23 abr. 2005.
8
Segundo Codato (2002, p. 12) Othon Mäder foi prefeito de Ponta Grossa em 1936 e, segundo o DHBB (2002g) em 1931.
9
Fonte: OLIVEIRA, L. H. H. de. Democratização e institucionalização partidária: o processo político-partidário no
Paraná, 1979-1990. Londrina: Ed. UEL, 1998.
10
Fonte: Borba (2000), Garcia (2000), Lopes (1989) e Londrina (2002) Disponível em: <http://www.londrina.pr.gov.br/cidade/
historia3.php3>. Acesso em: 22 abr. 2004.
150

Sudan Cotton Plantations Syndicate, assessor para assuntos de agricultura e


florestamento. (BORBA, 2000, p. s.n. e GARCIA, 2000, p. 33. Grifo nosso).

409
Além de integrar a missão, Lorde Lovat veio procurar oportunidades de investimentos na
produção de algodão no Brasil para a Sudan Plantations. Lovat visitou São Paulo, Ribeirão Preto,
Rio Claro e Americana, passando depois pelo Norte do Paraná (ver Ilustração 4-4), onde interessou-
se pela fertilidade das terras roxas e pelos resultados obtidos nas lavouras de algodão.
Acompanhado por Gastão de Mesquita Filho, engenheiro responsável pela construção da estrada de
ferro que ligaria Ourinhos a Cambará, Lovat foi convencido por Mesquita a investir na compra de
terras do Estado para aproveitar a rápida valorização com a construção da ferrovia. Voltando a
Londres, Lovat convenceu os sócios da Sudan a investirem no Brasil, sendo então organizada a
Brazil Plantations Syndicate Ltd, com um capital de 200 mil libras e cuja presidência coube a
Lovat. A empresa enviou para São Paulo Arthur Hugh Miller Thomas que, juntamente com João
Sampaio e Antonio de Moraes Barros, organizaram a CNTP como subsidiária da companhia
inglesa. A empresa com sede em São Paulo foi registrada em 24 de setembro de 1925, com um
capital inicial de 1.000 contos de réis, tendo como primeiro presidente Antônio Barros. Logo em
seguida foram compradas glebas de terras na região Norte do Paraná para instalar fazendas e
máquinas de beneficiamento de algodão, mas os preços baixos e a falta de sementes sadias no
mercado levaram o empreendimento ao fracasso.
Ilustração 4-4: Mapa do Paraná com as principais cidades em 2000

Observações: As linhas em destaque indicam a estradas mais importantes do Paraná em 2000. Fonte: Mapa elaborado pelo autor,
com base nas informações obtidas em Ipardes (2003).
151

410
Após entendimentos mantidos com o Governo do Estado do Paraná, em Londres foi
tomada a decisão de ampliar a atuação da CTNP, partindo para a colonização e venda de terras,
quando então foi decidida a liquidação da Brazil Plantation e a criação, em seu lugar, da Paraná
Plantations Syndicate11, que também passou a cuidar da construção de estradas de ferro e de
rodagem (LOPES, 1989). Os representantes do grupo inglês no Brasil, Arthur Thomas e João
Sampaio, negociaram diretamente com o então Presidente do Estado, Caetano Munhoz da Rocha, a
compra de áreas de terras no Norte do Estado. Após a aquisição, teve início o loteamento e venda; a
ocupação do território acabou ocorrendo de forma ordenada, estrategicamente não permitindo o
aparecimento de núcleos distantes e isolados entre si. Com o projeto apoiado por um eficiente
trabalho de divulgação, ocorreu um rápido crescimento das vendas, e a preocupação da CTNP foi
concentrada inicialmente na colonização da área rural, ficando os núcleos urbanos em segundo
plano, destinados a servirem de apoio ao campo.
411
O projeto resultou no crescimento da produção cafeeira, aumento da densidade
demográfica, formação de uma classe média rural e na expansão dos núcleos urbanos. A primeira
expedição instalou-se na localidade conhecida como Patrimônio Três Bocas, em agosto de 1929,
onde foi erguido o primeiro posto avançado da companhia. Nesse local, foi fundada a cidade de
Londrina, que cinco anos mais tarde, em dezembro de 1934, o interventor Manoel Ribas
reconheceu como Município. Este e outros projetos trouxeram imigrantes de todo o país, bem como
do exterior, principalmente paulistas, mineiros, nordestinos, japoneses e alemães, o que promoveu
um período de grande crescimento econômico que durou até o final dos anos 1960.
412 Quadro 4-1:Presidentes, Vice-Presidentes, Governadores e Vice-
Mas a colonização não
Governadores do Estado do Paraná– 1912 a 1945.
permaneceu sempre ordenada, DADOS Condição no Período de Governo
BIOGRÁFICOS Estado Início Término
aparecendo inúmeros conflitos de terras Affonso Alves de Vice- 25/02/1912 25/02/1916
que, em muitos casos, foram agravados Camargo Presidente
Affonso Alves de Presidente 25/02/1916 25/02/1920
pela política do governo do Estado. Camargo
Caetano Munhoz da Vice- 25/02/1916 25/02/1920
Este promovia alianças com grupos Rocha Presidente
Caetano Munhoz da Presidente 25/02/1920 25/02/1924
locais, colocando o poder do Estado à Rocha
disposição dos projetos desses grupos. Caetano Munhoz da Presidente 25/02/1924 25/02/1928
Rocha
No Oeste do Estado, desde os anos Marins Alves de Vice- 25/02/1924 25/02/1928
Camargo Presidente
1930, o governo vinha promovendo Affonso Alves de Presidente 25/02/1928 05/10/1930
Camargo
concessões às empresas interessadas na Mario Alves Monteiro Interventor 05/10/1930 29/12/1931
colonização. Mas esses projetos não Tourinho
Manoel Ribas Interventor 30/01/1932 03/11/1945
receberam apoio do Estado para Fonte: Casa Civil (2002).
integrá-los aos centros de consumo, resultando em graves conflitos sociais. Ao longo deste
trabalho, vamos poder verificar que as regiões Norte Pioneiro e Norte Central formaram lideranças
políticas e empresariais fortes, como a família Vieira e sócios, que disputaram o poder com as elites

11
Não podemos descartar a hipótese de que o HSBC fazia parte do grupo de sócio do empreendimento.
152

tradicionais de Curitiba e Paranaguá.


413
No Paraná, a Revolução de 1930 reduziu o poder das oligarquias tradicionais que
governaram o Estado durante a República Velha na qual, por exemplo, entre 1912 e 1930, as
famílias Munhoz da Rocha e Alves de Camargo alternaram-se na Presidência e Vice-Presidência do
Estado (ver Quadro 4-1). A revolução destituiu Affonso Camargo e colocou como interventor o
general Mário Alves Tourinho que, ao não conseguir resistir à oposição dos grupos políticos locais,
acabou sendo substituído em 1932 por Manoel Ribas. Manoel assumiu o Estado com graves
problemas econômicos e financeiros; as dívidas interna e externa estrangulavam o caixa do governo
que, segundo Moreira, R. (2002)12, chegou a ponto de atrasar o pagamento do funcionalismo
público por um ano. Preocupado em integrar as novas regiões ao mercado de consumo, seu governo
inicialmente procurou restaurar estradas para, em seguida, iniciar a construção de novas, bem como
ampliou o porto de Paranaguá. Na sua gestão foi construída a estrada do Cerne, ligando Curitiba ao
norte do estado, integrada com a Piraí do Sul-Londrina e a Piraí do Sul-Ribeirão Claro. Também
houve o fomento à produção de café, algodão e trigo, distribuição de sementes selecionadas,
melhoria do rebanho através da importação de reprodutores e feiras de animais. Com relação à
questão fundiária, Ribas recuperou para o Estado boa parte das terras devolutas que haviam sido
doadas a particulares antes da revolução, bem como organizou o cadastro territorial. Também nesse
período, a administração estadual reiniciou e estatizou vários projetos de colonização, e os únicos
empreendimentos privados que ficaram fora desse processo foram os projetos da Francisco
Gutierrez Beltrão e da Companhia de Terras Norte do Paraná. A economia do Estado se recuperou
rapidamente permitindo equilibrar o orçamento e implantar uma política de construção de escolas; é
na sua administração que teve início o projeto do Colégio Estadual do Paraná13, em Curitiba. A
partir de 1943, a oposição ao seu governo cresce, produzindo vários protestos junto ao ministro da
Justiça Osvaldo Aranha, denunciando violência e abusos de autoridade do governo nas questões
que envolviam terras no interior do Estado. Durante seu governo, Ribas teve vários negócios com o
Grupo Lupion. Com a deposição de Getúlio Vargas, Manoel Ribas é destituído no dia 29 de
outubro de 1945 (MOREIRA, R. 2002).

4.4 O BANCO COMERCIAL DO PARANÁ

414
Em 14 de setembro de 1942, um grupo de capitalistas da região de Ponta Grossa criou o
Banco Comercial do Paraná S.A. (Bancial) que, dois anos depois, na condição de maior banco
privado paranaense e sob a liderança de Rafael Papa, incorporou o Banco Popular e Agrícola do
Norte do Paraná (BPANP). No dia 5 de março de 194414, a Assembléia Geral Extraordinária dos

12
Fonte: MOREIRA, R. da L. Verbete: RIBAS, Manuel. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: pós-1930 (DHBB).
1ª edição. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, CPDOC, 2002. CD-Rom.
13
Grande parte das elites paranaenses estudou nessa instituição.
14
Ao longo deste trabalho vamos enfrentar a questão das datas das operações, que apresentam uma dificuldade especial, visto
–––––––––––– continua na próxima página ––––––––––––
153

Acionistas do Bancial aprovou a incorporação do BPANP com suas 6 agências: Tomazina, Siqueira
Campos, Santo Antônio da Platina, Ribeirão Claro, Bandeirantes e Cornélio Procópio e duas cartas-
patentes: Curitiba e Joaquim Távora. Miguel Antun, que na época era presidente do BPANP,
aprovou formalmente a incorporação em 29 de abril de 1944, em reunião com os acionistas do
Bancial e diretores do BPANP. Em 17 de janeiro de 1945, o acordo recebeu o parecer favorável da
Caixa de Mobilização e Fiscalização Bancária, quando o Ministro da Fazenda aprovou a operação e
o aumento de capital do Bancial que passou de 5 milhões de cruzeiros para 6 milhões, ao agregar o
capital social de 1 milhão de cruzeiros do BPANP. Com a incorporação, Avelino Vieira passou a
residir em Ponta Grossa (1944 a 1951) onde assumiu a função de diretor comercial do banco.
415
Uma outra versão sobre a incorporação do BPANP pelo Bancial aparece no livro de Raul
Vaz (1986)15 que, na época, era advogado e procurador de Moysés Lupion. O autor apresenta
declarações do irmão de Moysés, David Lupion, que, apesar da imprecisão vale a pena reproduzir,
pois sinaliza conexões do Bancial com o então poderoso Grupo Lupion e Othon Mäder:
73
[...] Avelino Vieira e Rafael Papa, em sociedade, abriram em Ponta Grossa a agência
Bancária “Vieira & Papa”. Amigos de coração, Avelino, Papa, (e os irmão) Moysés e
João Lupion viam seus empreendimentos crescerem. A firma “Vieira & Papa”
entendeu então de abrir uma filial em Curitiba, e para este novo investimento
necessitava de mais sete acionistas. Os amigos foram os primeiros convidados —
entraram como sócios da “Vieira & Papa”, além de Moysés e João Lupion, também
Othon Mäder — este, amigo de infância de João e que mais tarde se tornou o maior
inimigo político de Moysés [...] (VAZ, 1986, p. 89).

416
Na época, o presidente do Bancial era Albary Guimarães, cuja história política remontava o
ano de 1930, quando foi presidente da Câmara dos Vereadores de Ponta Grossa. Em 18 de agosto
de 1934, foi nomeado por Manoel Ribas, prefeito do Município, cargo que ocupou durante 12 anos,
renunciando em janeiro de 1945. Com a incorporação, o grupo de Avelino Vieira passou a ter
conexões com grandes grupos empresariais do Paraná. O Bancial cresceu nesse período e, em 1944,
contava com 15 agências, em 1945, abriu mais uma em Sertanópolis, em 1948 em Assaí e Santa
Mariana e em 1949, Rolândia, Ibiporã, Prudentópolis e Rebouças, computando um total de 22
agências.
417
Na campanha eleitoral de 1946, Moysés Lupion foi eleito governador do Paraná e Avelino
Vieira deputado estadual com a quarta maior votação do PSD – 1.912 votos. O partido fez 17
deputados, contra 6 da UDN, 6 do PTB, 4 do PR e 1 do Partido Comunista do Brasil. Segundo
Brandão (1993, p. 117), Avelino recebeu, em Tomazina, 601 votos; em Siqueira Campos, 404;
Joaquim Távora, 299; Wenceslau Braz, 203; Santo Antonio da Platina, 156; Congoinhas e Assaí,
131; Castro, 15; 1 em Londrina e em Curitiba 24. Em 12 de março de 1947, foram empossados os
deputados, João Chede – que na época também era diretor do Bancial e o principal aliado de

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
que muitas das negociações além de serem sigilosas durante um determinado período, também só terão o registro público
após cumprirem os prazos previstos em lei que, normalmente, demoravam alguns meses.
15
Fonte: VAZ, Raul. Moysés Lupion — a verdade. Curitiba: Paratodos, 1986.
154

Lupion no Legislativo, Alcides Pereira Júnior16 e Accioly Filho – que mais tarde se tornou amigo de
Avelino. Chede foi eleito presidente da Assembléia e, em julho, Avelino foi eleito para a Comissão
de Finanças e Orçamento.
418
A atuação de Avelino Vieira na Assembléia foi muito discreta, tendo quase abandonado o
cargo, e “[...] a partir de março de 1950 sua ausência da Assembléia é total. Não há um pedido
formal de renúncia, apenas faltas justificadas. A amigos, ele confidenciou: ‘Política e banco não
combinam”. (BRANDÃO, 1993, p. 120). No Gráfico 4-4 apresentamos as diversas conexões
políticas do grupo reunido em torno do Bancial, no período 1944 a 1950.

4.4.1 O LUPIONISMO – PARTE I

419
Outro personagem importante para a história do Bamerindus foi Moysés Wille Lupion de
Tróia. Empresário, entrou na vida pública com a deposição de Getúlio Vargas, tendo sido o
herdeiro político do interventor Manoel Ribas. O PSD foi criado por eles dois, e Lupion assumiu o
controle do partido quando o ex-Interventor morreu em janeiro de 1946. Moysés foi então lançando
candidato ao governo do Estado, sendo eleito em janeiro de 1947 com o apoio da UDN. Capitalista
de prestígio ligado à indústria madeireira, nasceu em 1908 em Jaguariaíva (PR); foi casado com
Hermínia Rolim Lupion, neta do sertanista Telêmaco Borba. Seus interesses estavam relacionados
ao processo de ocupação econômica do Estado. Ele e seus irmãos João, José, Pedro e David,
construíram um império econômico cujo faturamento, em 1945, representava aproximadamente um
quarto do orçamento do Estado do Paraná17. Segundo um Laudo de Avaliação do grupo realizado
para o Banco do Brasil pelo engenheiro civil Benjamin Mourão em 1947, e publicado pela
Fundação Moysés Lupion, a empresa havia sido fundada em 24 de julho de 1936 com o nome de
Possatto, Lupion & Cia., passando a denominar-se M. Lupion & Cia em 3 de novembro de 1941.
No Quadro 4-2, apresentamos o inventário dos bens do grupo em janeiro de 1947.
Quadro 4-2: Inventário dos bens do Grupo Lupion (1947)
Nº Descrição
1 Fábrica de Caixa Sant’Ana, em Ponta Grossa (PR).
2 Terreno em Ponta Grossa, junto à ferrovia, com 11.168 m².
3 Indústria de ferro em Castro (PR).
4 Terrenos em Castro, com 74.000 m².
5 Fábrica de papel e celulose de Arapoti (PR) – Futura Inpacel do Grupo Bamerindus.
6 Instalações em Arapoti: terrenos, oficinas, depósitos, residências, etc.
7 Fábrica de fósforos em Piraí do Sul (PR)
8 Serraria no Rio do Peixe, incluindo exploração de pastagens e área agrícola.
9 Entreposto de Morungava para fornecimento de madeira à indústria de papel e celulose de Arapoti,
Cachoeirinha.
10 Terreno em Paranaguá, junto à ferrovia.
11 Propriedade da Fazenda Morungava, com 38 mil alqueires.
12 Entreposto em Itararé (SP) com desvio ferroviário particular e instalações para beneficiamento de madeira,

16
Alcides Pereira mais tarde foi advogado do Banco Bamerindus e, em 1982, membro do Conselho Consultivo do grupo.
17
Fonte: TRIBUNAL DE CONTAS do Estado do Paraná. Memória. Arquivos. Moysés Lupion. Curitiba, [2001]. Disponível
em: <http://www.memoria.mc/archiv/lupionm.htm>. Acesso em: 27 ago. 2002..
155

Quadro 4-2: Inventário dos bens do Grupo Lupion (1947)


Nº Descrição
fábrica, oficinas, residências, garagens e 173 mil m² de terrenos.
13 Fazenda Andrada no oeste do Paraná, com 134 milhões de m².
14 Fazenda Piquiri, idem, com 150 milhões de m².
15 Fazenda La Paz, idem, com 25 mil m².
16 Fazenda São Domingos, no oeste do Paraná, com 320 milhões de m².
17 Fazendas Santa Helena e Barro Preto, todas no Extremo Oeste do Paraná com mais de um milhão e trezentos
mil pinheiros, adquiridas da empresa Argentina Barthe, além de ervais e um porto particular em Foz do
Iguaçu.
18 Fazendas São Francisco, Barro Preto, Diamante e Dois de Maio, idem, cada uma com 200 ha, na estrada
Catanduva - Porto Santa Helena.
19 Fazenda Santa Helena, idem, 2.174 milhões de m².
20 Fazenda Barro Preto, idem, com 7.182 milhões de m².
21 Serraria a 120 km de Foz do Iguaçu
22 Porto Lupion, no rio Paraná, Foz do Iguaçu.
23 200 mil pinheiros nas seguintes fazendas: Alecrim, em Araiporanga, 707 alqueires; Ribeirão do Café,
Jaguariaíva, 309 alqueires; Miguel José, Jaguariaíva, 1.729 alqueires; Jaboticabal e Marimbondo, 1.000
alqueires; Cuiabá, em Jaguariaíva, com 220 alqueires.
24 Pinhais em cinco fazendas, com um total de três mil alqueires.
25 Rebocadores Parapiti, 18 m; Dom Roberto, 21 m; chata Santa Maria, 35 m; Triunfo III, 28 m; lancha Emília,
para 6 t., chata Itália, todas no rio Paraná.
26 Navios Antonio Carlos - 398 t e Capixaba - 150 t., embarcações no Atlântico que faziam a rota Paranaguá -
Rio de Janeiro.
27 70 caminhões, 20 caminhonetes e 11 vagões próprios operados pela então Rede Viação Paraná - Santa
Catarina.
28 Áreas de terras e pinhais em diferentes regiões do Paraná, inclusive 4.000 alqueires no município de
Sertanópolis.
29 18 serrarias espalhadas no Paraná
30 Destilaria Corumbá, no Rio de Janeiro, para fabricar Guaraná Mauá.
31 Depósito de madeiras em Jaguaré, (SP).
32 Fábrica de compensados Mabraz, de grande porte, em Curitiba;
33 Agências Chevrolet, em Piraí do Sul (PR).
34 Banco Meridional da Produção - Futuro Bamerindus.
35 Banco Figueira Rocha.
36 Banco Nacional Paulista, com 32 agências.
37 Banco América do Sul, com 19 agências.
38 Mineração e industrialização de grafite, no Rio de Janeiro.
39 Metalúrgica Cacique, de porte nacional, Rio de Janeiro.
40 Fábrica de papelão, em Mogi das Cruzes (SP).
41 Duas barcaças de porte na linha Rio de Janeiro – Belém – Iquitos.
42 Indústria Vitamate (refrigerante) com filiais no Rio Grande do Sul e Santa Catarina;
43 Destilaria de xisto-betuminoso.
44 Jornal “O Dia”, de Curitiba.
45 Ações da “Gazeta do Povo”, representando 49% do capital social;
46 Sete emissoras de rádio lideradas pela Guairacá.
47 Rede de farmácias em Curitiba com oito estabelecimentos.
48 Casa de material elétrico, em Curitiba, em sociedade com Tércio Rolim de Moura e Miguel Baduy.
49 Frota de automóveis e caminhões da ordem de 1.200 veículos.
50 Organização Aérea BOA, com 12 aeronaves.
51 Postos de gasolina por todo o interior do Paraná, como representantes da Gulf Oil Company,
52 Exploração de petróleo em Rio Claro, SP, juntamente com a PAN, subsidiária da Standard Oil, que chegou a
abrir diversos poços.
53 Fábrica de escovas de dente Pentescova Ltda, com Vasco Taborda Ribas.
54 Exploração de urânio, em Figueira (PR).
Fonte: Quadro elaborado pelo autor com base nos dados extraídos de Vaz (1986, P. 71-80) e Fundação Moysés
Lupion (2005).
156

Gráfico 4-4: Rede Política do Bancial (1944 – 1950)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados extraídos de ANDRADA (1982) e BRANDÃO (1993) e DHBB
(2002).
157

420
Segundo Vaz (1986, p. 68-77) em 1945 os bens do Grupo Lupion foram avaliados em Cr$
67.332.652,18 e, Segundo a Fundação Moysés Lupion, em 200 milhões de cruzeiros – “Em dez
anos, o Grupo Lupion se tornou o maior do sul e o terceiro do Brasil”. Como empresário, Lupion
pode ser considerado bastante avançado para sua época, pois entre seus empreendimentos estava a
exploração de petróleo e urânio em Figueira (PR) já em 1947; quanto ao setor financeiro do grupo,
cabem algumas observações importantes.
421
Considerando as ligações do Bancial com Lupion, no Gráfico 4-5 é possível constatar que,
em 1947, os bancos ligados ao Grupo Lupion reuniam um número de agências superior ao
Bradesco em 1950.
Gráfico 4-5: Número de agências por banco. (1950)
35

300 32
Grupo Lupion (1947)
30

277
25
250
19
20

16
15
200

10

5
150
1 1

136 0

Nacional Paulista América do Sul Bancial Figueira Rocha Meridional da


Produção
100

67
75
50
66 62
60

0
Banco do Brasil Lavoura MG Mercantil São Paulo Grupo Lupion Bradesco Banespa Agrícola Mercantil
(1947)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos dados obtidos em Costa (2002b, p. 5), Brandão (1993, p. 122) e
FUNDAÇÃO MOYSÉS LUPION (2005).
Nota: Os dados do Grupo Lupion são de 1947 e dos demais bancos são de 1950. Por falta de informações, atribuímos uma
agência ao Banco Figueira Rocha e uma para o Banco Meridional da Produção.

422
Também é interessante considerar as histórias desses bancos, como segue:
74
[...] chama atenção também o negócio envolvendo o Banco Nacional Paulista, com
suas 21 agências e com sede em Pederneiras, São Paulo. Este Banco Moysés Lupion
comprou e “pagou na ficha”, “a dinheiro”, lembra David. No entanto, logo depois
viriam as perseguições políticas, e a Carta Patente do Nacional Paulista, bem como de
todos os outros empreendimentos bancários ligados a Moysés Lupion foram
abruptamente cassadas, “sem levantamento, sem nada”. Agentes do Banco do Brasil,
“por ordem superior militar”, um dia qualquer, apareceram nas agências e levaram
todos os livros de contabilidade e demais documentos, deixando a informação de que
158

as Cartas Patentes estavam todas cassadas. “Foi um ato arbitrário. Não trouxeram
nem ao menos um ofício. Mostravam a Carteira de autoridade, tomavam os livros e
lacravam as portas”, conta David Lupion. (VAZ, 1986, p. 92)18.

423
Quanto ao Banco América do Sul, as circunstâncias de sua aquisição são no mínimo
inusitadas, conforme conta Raul Vaz:
75
[...] o japonês Miazaka, detentor de todo o controle do Banco América do Sul, que
tinha a matriz na Praça da Sé em São Paulo, junto ao prédio do então Cine Santa
Helena, quando os japoneses bombardearam Pearl Harbour, pressentindo o pior,
procurou Moysés e entregou a ele todas as ações do Banco. Lembra David Lupion da
surpresa de Moysés que insistia junto ao Sr. Miazaka: “Então, por favor, faz um
preço: O senhor me paga como puder”, respondia Miazaka sem aceitar fechar o
negócio com valor estipulado. O Banco América do Sul ficou com Moysés Lupion
que nomeou para sua Presidência Raul Vaz, e como auxiliares, os diretores José
Ricardo de Oliveira Ratto e Sr. Junqueira. Logo que terminou a Guerra Mundial,
procurou novamente Miazaka e a ele devolveu o que lhe pertencia. Foi um negócio na
base da “honra” e da “confiança” envolvendo milhões. Em lugar de Raul Vaz, na
Presidência do Banco América do Sul, entrou Apolônio Sales, conhecida
personalidade nacional. (VAZ, 1986, p. 90-91).

424
Segundo declarações de um dos irmãos de Moysés Lupion, a história do Bamerindus
começou em 1º de setembro de 1938 quando:
76
É possível que a memória traia alguma informação, pede desculpas David Lupion
antes de começar a contar como tudo aconteceu. Relembra ele num dos aniversários
de Gil — uma das filhas mais queridas de Moysés, no dia primeiro de setembro de
1938, os donos do Banco Transatlântico19, que eram alemães e temiam perder a Carta
Patente, venderam grande lote de ações para Moysés, João e José Lupion. Os três
resolveram então criar o Banco Meridional da Produção S.A., em 06 de abril de 1943,
que logo depois ficou conhecido por Bamerindus. Bamerindus é a junção de sílabas e
letras do nome original, a saber — “BA” nco “MERI” dio “N” al da Pro “DU” ção
“S” A. (VAZ, 1986, p. 89) (Grifo nosso)20.

425
O Banco Meridional foi aberto em Curitiba “nas instalações do antigo Banco Alemão
Transatlântico, que havia sido fechado em face à guerra” (VAZ, 1986, p. 67)21.
426
Neste ponto podemos comparar dois momentos históricos da estrutura de acumulação
capitalista. Observando o Grupo Lupion de 1947, podemos constatar que suas principais atividades
eram a exploração da madeira, colonização, produção de café e empresas de comunicação. Os
bancos apareciam classificados como outros negócios. Quarenta anos depois, o Grupo Bamerindus

18
Vaz não especifica quando ocorreram os fatos, mas provavelmente tenha sido logo após o golpe militar de 1964, quando
Lupion foi cassado por acusações de corrupção.
19
O Banco Alemão Transatlântico (Deutsche Überseeische Bank) operava no Brasil, desde agosto de 1911. O banco fornecia
suporte financeiro à, também alemã, Companhia Internacional de Seguros (CIS). Com a entrada do Brasil na Segunda
Guerra Mundial, suspeitas de ligações com atividades nazistas levaram o banco a ser liquidado por força do Decreto-Lei nº
4.612, de 24 de agosto de 1942. Fonte: RIO DE JANEIRO (Estado) Secretaria de Estado de Finanças. Instituição.
Patrimônio arquitetônico. Edifício Sede - Seu histórico. Rio de Janeiro, [2002]. Disponível em:
<http://www.financas.rj.gov.br/instituicao/historia/index.shtml>. Acesso em: 14 abr. 2005. Segundo Cruz (2004) e Dietrich
(2001) várias evidências apontam conexões entre o partido nazista alemão, o Banco Alemão Transatlântico, o Banco
Germânico da América do Sul, e financiamentos ao movimento integralista no Brasil.
20
Não encontramos outras referências confirmando esta versão para o nome “Bamerindus”.
21
Nos chamou a atenção coincidências entre o rápido crescimento do Grupo Lupion, as conexões tanto com o Estado Novo
como com o Banco Alemão Transatlântico e o banco japonês América do Sul, nos anos que antecederam e no decorrer da II
Guerra Mundial.
159

ocupava uma posição na região que, guardadas as devidas proporções, era relativamente similar ao
Grupo Lupion, mas a atividade financeira ocupava o centro da organização, sendo as demais
consideradas periféricas. Tal diferença parece demonstrar a transformação do sistema capitalista de
um regime de acumulação centrado na produção para outro modelo ou tipo cujo centro seria a
atividade financeira.
427
Lupion entrou no cenário político em 1946, com uma grande campanha publicitária que o
apresentava como empresário progressista, senhor de múltiplas empresas, que traria o
desenvolvimento e empregos para a região22. Para sua candidatura, articulou a aliança com os três
maiores partidos – PSD, PTB e UDN, sendo também apoiado pelos comunistas e integralistas, além
do presidente Dutra. A vitória eleitoral de Lupion significava, nas palavras do então senador Flávio
Guimarães, o início da era PSD, projeto que repetiria a façanha do PR na República Velha,
governando o Paraná por no mínimo cinqüenta anos. Também conhecido como lupionismo, a
hegemonia do grupo sobre a região durou aproximadamente vinte anos (1946-1964), e Moysés
Lupion foi duas vezes governador (1947-1950 e 1956-1960), além de senador, deputado federal e
presidente do PSD regional.
428
No governo, Lupion deu seqüência aos projetos iniciados por Manoel Ribas,
principalmente consolidando a Rodovia do Cerne, ligando o Norte do Estado ao Porto de
Paranaguá; mas seu maior projeto foi a Estrada de Ferro Central do Paraná, continuada no governo
de seu sucessor Bento Munhoz da Rocha Netto. Na condição de governo, Lupion teve que enfrentar
a oposição política dentro do PSD:
77
[...] conduzidas pela bancada estadual do PSD (Partido Social Democrático). O
movimento que mais chamou atenção foi o dos quatro granadeiros. A “ala florista”,
comandada por Fernando Flores, era formada pelos deputados estaduais Lopes
Munhoz, Pedro Firman Neto (Secretário da Indústria e Agricultura), Pinheiro Júnior e
Accioly Filho. Eles defendiam, na discussão do projeto da Constituição do Estado, a
criação do cargo de vice-governador, a ser ocupado pelo próprio Fernando Flores, e a
eleição direta de Prefeito da Capital, então grande degrau para a governança do
Estado. O projeto não foi aprovado na Assembléia, e como retaliação Accioly Filho
apresentou um projeto de lei que definiria os crimes de responsabilidade do
governador do Estado, no qual previa os casos em que o chefe do Poder Executivo,
Moysés Lupion, incorreria nas sanções legais. O projeto de lei também não passou.
(FUNDAÇÃO MOYSÉS LUPION, 2005).

429
A instabilidade política brasileira no período mantinha Dutra ocupado com a coligação
PSD-UDN, construída para evitar o retorno de Getúlio Vargas ao poder. No Paraná, a coligação
tornou-se insustentável, a UDN, fora do poder há aproximadamente quinze anos, estava impaciente.
Perto do final do mandato de Lupion, a UDN, sob a liderança de Othon Mäder, no Paraná, foi para
a oposição e iniciou uma ruidosa campanha nacional para desmoralizar o governador e lança a
candidatura de Bento Munhoz da Rocha à sucessão estadual, com o apoio da UDN, PST, PPR e
parte do PTB.

22
Este mesmo arquétipo fora utilizado na campanha de Paulo Pimentel em 1965 e de José Eduardo em 1990.
160

430
Bento Munhoz era o herdeiro das oligarquias que dominaram o Paraná durante a República
Velha, pois além de ser filho de Caetano Munhoz da Rocha, era casado com Flora Camargo, filha
de Affonso Alves de Camargo; essas oligarquias tinham sido alijadas do poder durante o governo
Manoel Ribas – padrinho político e sócio de Lupion. Apesar de engenheiro civil, Bento foi
professor de psicologia e lógica no Curso Pré-Engenharia, mais tarde lecionou economia política,
estatística, finanças, geologia e mineralogia, tendo sido um dos fundadores, em 1938, da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná, na qual foi catedrático de história da América e professor
substituto da cadeira de sociologia. Segundo Pantoja (2002), Bento iniciou sua vida política ao ser
eleito em dezembro de 1945, como deputado da Assembléia Nacional Constituinte. O seu principal
projeto foi a emenda que suprimiu o território do Iguaçu, criado em 1943, que ao ser aprovada
reintegrou o território ao estado do Paraná em 1946. Nas eleições de outubro de 1950, ganhou do
candidato apoiado por Lupion, Ângelo Lopes, ao passo que os próprios pessedistas
“cristianizavam” seu candidato à presidência da República possibilitando, assim, a volta de Vargas
ao poder sob a legenda do PTB. Nessa eleição, as forças que apoiaram Bento também conseguiram
eleger Othon Mäder para o Senado pelo Paraná.

4.4.2 A SAÍDA DO GRUPO DE AVELINO VIEIRA DO BANCIAL

431
A convivência interna no Bancial dos grupos de Rafael Papa e Avelino Vieira foi marcada
por diversos problemas que culminaram com a saída de Avelino em 1951. A tensão dentro do
banco chegou ao máximo em 1950, quando então se iniciou o processo de separação. Esse
momento coincide com o final do governo Lupion, o término da aliança PSD / UDN e a campanha
comandada por Othon Mäder para desmoralizar Lupion. Algumas evidências apontam que na
época, Othon era presidente do Banco Meridional da Produção e sócio da família Lupion.
432
Segundo NOGUEIRA (1986)23, na disputa interna pelo poder no Bancial, o grupo de
acionistas liderado por Avelino, entre eles Terézio de Paula Xavier, Augusto Justus24 e Oscar
Diedrichs, dera sua opção de compra; porém, os acontecimentos não se desenrolaram da forma
prevista, pois, segundo o autor, eles não esperavam que o banqueiro Amador Aguiar, do Bradesco,
entrasse na negociação. Em 7 de janeiro de 1951, Aguiar supostamente escreveu de próprio punho
uma carta, em papel timbrado do Grande Hotel Moderno, onde estava hospedado em Curitiba, que
reproduzimos na Ilustração 4-5 a seguir:

23
Fonte: NOGUEIRA, M. R. Avelino Vieira: biografia dinâmica. 1ª ed. Curitiba: Ed. Biblioteca do Desenvolvimento
Econômico do Brasil. EDUCA — Editora Universitária Champagnat da Pontifícia. Universidade Católica do Paraná Tomo 1
— Livro 1, 1986.
24
Augusto Justus foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa (ACIPG) no período 1932 a 1934.
Fonte: ACIPG - Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa. Galeria de Ex-Presidentes da ACIPG. Ponta Grossa,
[2002] . Disponível em: <http://www.acipg.org.br/pg_historico_galeriadeexpresidentes.htm>. Acesso em: 17 maio 2004.
161

Ilustração 4-5: Carta de Amador Aguiar em 7 jan. 1951

Curitiba, 7 de janeiro de 1951.

Ilmos Srs.
Diretores do Banco Comercial do Paraná
Ponta Grossa

Venho declarar a VV. SS. que interessa-me a compra de 5.000 ações do Banco Comercial do Paraná,
ou até metade do capital e mais uma, nas seguintes condições:
Preço — Cr$ 3.000,00 (três mil cruzeiros) cada uma;
Prazo de pagamento: Cr$ 1.000,00 à vista e o restante em depósito no Banco Brasileiro de Descontos
ou no próprio Banco Comercial, aos prazos de seis e doze meses.
Garanto, dentro do prazo de 60 dias, manter a cotação de Cr$ 2.000,00 (dois mil cruzeiros) pelas
ações restantes que eventualmente forem oferecidas à venda.
Realizada a operação de compra das ações, a atual diretoria do Banco renunciará para que outra seja
composta com elementos de nossa indicação.
Serve de base a esta proposta o balanço encerrado no dia 20 do mês de dezembro último,
comprometendo-se VV. SS., até que a presente operação seja decidida, a não realizar transações de
vulto, ou de importância considerável, que venha afetar o ativo do Banco.
Esta proposta tem validade até o dia 20 do corrente.

Saudações.

Amador Aguiar
Fonte: Nogueira (1986, p. 176).

433
Nogueira reproduz e contesta a autenticidade do documento e a disposição de Aguiar de
realmente querer concretizar o negócio.
78
[O] exame da farta documentação existente e relacionada com a transação, não me
pareceu que Amador Aguiar tivesse interesse real no Banco Comercial do Paraná.
Acredito que ele nem sequer estivesse em Curitiba no dia em que fez a primeira
proposta. O Grande Hotel Moderno tem hoje, em seu lugar, o Grande Hotel Candeias
— este sem dados sobre o registro de hóspedes daquele. (NOGUEIRA, 1986, p. 177).
Também observa que o negócio acabou não se realizando. Uma outra versão para os
acontecimentos:
79
[...] confirmada por Ottorino Marini25, de que Avelino, por muitos anos, guardou
profunda mágoa, ferido por Amador Aguiar. Porque ele teria procurado, antes,
Amador, buscando apoio e financiamento para ficar com a parte de Rafael Papa.
Todavia, quando Amador preferiu Papa, o trauma foi grande e Avelino se abateu.
Marini foi categórico: Amador veio aqui, conversou com os dois e preferiu dar apoio
ao Papa. Mais tarde, acabei me relacionando com Amador, a quem sempre chamei de
Seu Aguiar, e este me confessou: “Errei. Errei em dar apoio ao Papa. Ele nem me
levou ao aeroporto, nem me agradeceu”. Ele sugeriu que eu levasse Avelino até ele,
para que tivessem uma conversa. A princípio, Avelino não queria, dizia: “Não, ele já
me aprontou uma, chega”. É curioso, porque Avelino tinha um sentimento no fundo
dele, algo como culpa, pois imaginava que quando do primeiro contato com Amador,
não tinha se apresentado tão bem quando deveria, de modo a influir na decisão do
outro. (BRANDÃO, 1993, p. 123).

25
Ottorino Marini foi diretor e presidente do Bamerindus durante muitos anos.
162

434
As negociações foram tensas e,
80
[na] saída do Bancial, Albary Guimarães que havia dado seu apoio ao grupo, numa
[...] das últimas reuniões, quando a fusão Avelino-Papa estava sendo desfeita, Albary
teria ficado em cima do muro [...] o que desagradou Avelino, provocando um bate-
boca exacerbado [...] Mais tarde se reconciliaram. (BRANDÃO, 1993, p. 130).

435
O negócio somente veio a concretizar-se em agosto, quando o grupo de Avelino Vieira
entregou a Adolpho de Oliveira Franco a opção para a compra das ações em caráter irrevogável,
assinada pelo bloco de acionista que somavam 11.537 ações e que representavam 57,7% do capital
social do Bancial, como demonstrado na Tabela 4-2, a seguir.
Tabela 4-2 Relação parcial dos acionistas do Bancial

Nome Ações %
Abílio A. Vieira 40 0,2%
Albary Guimarães 1.300 6,5%
Amália Justus Gomes 1.250 6,3%
Antônio Sad 558 2,8%
Augusto Justus 1.500 7,5%
Avelino Vieira 1.204 6,0%
Cristiano Justus Junior 190 1,0%
Djalma Ferreira Lopes 285 1,4%
Ernesto A. Vieira 800 4,0%
João Antônio Vieira 35 0,2%
João B. de Camargo 200 1,0%
João B. Nascimento. 200 1,0%
Miguel Antônio Vieira 1.225 6,1%
Miguel de Paula Xavier 560 2,8%
Olavo A. Carvalho. 150 0,8%
Olímpio de Paula Xavier 50 0,3%
Oscar Diedrichs 300 1,5%
Outros 435 2,2%
Terézio de Paula Xavier 1.155 5,8%
Waldomiro Proença 100 0,5%
Subtotal dos acionistas liderados por Avelino Vieira 11.537 57,7%
Outros acionistas 6.463 32,3%
Total das ações 18.000 90,0%
A integralizar 2.000 10,0%
Total das ações 20.000 100,0%
Fonte: Quadro elaborado pelo autor com base nos dados disponíveis em NOGUEIRA (1986, p. 178).

436
Após concretizado o negócio, Amador Aguiar enviou aos ex-acionistas, uma carta em papel
timbrado do Bancial (ver Ilustração 4-6), no qual assumia a responsabilidade por todo e qualquer
encargo (impostos e taxas) que viesse a incidir sobre os valores pagos pelas ações do Bancial.
Interessante observar que o Bradesco nunca incorporou o Bancial.
437
Mas uma outra versão também publicada na página da Fundação Moysés Lupion, e no livro
de Raul Vaz (1986), conta que:
81
Os negócios iam bem, a agência em Curitiba prosperava, mas Avelino Vieira e Rafael
Papa se desentenderam seriamente — e como se dizia na época — o atrito era tão
163

sério que até falavam “em se matarem”. João Lupion e Moysés lamentavam a
situação, vendo seus dois grandes amigos seriamente rompidos. Surgiu então de parte
de João Lupion, para resolver o caso, a idéia de vender para Avelino Vieira o Banco
Meridional da Produção, que então já começava a ser conhecido por “Bamerindus”.
82
A venda do Meridional, ou “Bamerindus” não era um bom negócio para os Lupion
que, afinal, estavam com um banco só seu e numa fase boa, abrindo agências inclusive
em outros Estados e com um plano de ação para se tornar em médio prazo o
empreendimento maior das organizações Lupion. Mesmo assim, Moysés não teve
dúvidas — se era para ajudar aos velhos amigos, venderia mesmo o seu banco.
83
Assim, a família Lupion vendeu a Avelino Vieira o Banco Bamerindus, e Avelino
pagou a aquisição com as ações do Banco que tinha em sociedade com seu, agora
inimigo, Rafael Papa. Os Lupion passaram, portanto, a ser sócios do Banco que a esta
época levava o nome de Comercial do Paraná e Avelino ficou sozinho com o
Bamerindus, resolvendo a questão. (VAZ, 1986, p. 90).

438
A intervenção aparentemente “externa” de Amador Aguiar na disputa pelo controle do
Bancial, ganha sentido com sua aparição em outros negócios que envolviam o Grupo Lupion e Raul
Vaz. Segundo Jamur Júnior (2001)26 e Costa (2004)27, em 1953 alguns empresários e políticos
paranaenses, entre eles Raul Vaz, Gastão Chaves, Alexandre Guttierez, Mário Hipólito César e
Nagib Chede, associaram-se e registram a Rádio e Televisão do Paraná S.A., tendo como sócio
majoritário o banqueiro Amador Aguiar. Raul Vaz participou de vários negócios com a família
Lupion, entre eles, a compra, em 1946, do Jornal “O Dia” 28 e também outra operação como segue:
84
A Fazenda Água do Bugre foi comprada por Raul Vaz junto a Companhia Agrícola
Barbosa Ferraz, de Aristides Barbosa Ferraz, em Cambará. Também um negócio
inquestionável, que reuniu seis sócios: Raul Vaz, Amador Aguiar, Rafael Papa,
Vicente Felício Andrez Castilho e Cesário Castilho. Raul Vaz relembra da Fazenda
Água do Bugre sempre como uma homenagem aos seus companheiros de negócio.
“Me sinto feliz em ter conhecido Amador Aguiar. Uma figura humana
impressionante. Um homem cuja amizade me orgulho em manter”, afirma Raul Vaz.
Água do Bugre, com cerca de 800 alqueires e 500 mil pés de café, foi depois
repassada a Moysés Lupion, em 1950. (VAZ, 1986, p. 92).

439
Essas versões bastante contraditórias demonstram que havia conexões entre o Grupo
Lupion e Amador Aguiar e acreditamos que as disputas entre o PSD e UDN contribuíram em boa
medida para a cisão do Bancial. A falta de estudos sistemáticos sobre o período indica ser
necessária pesquisa mais detalhada sobre a história política desse período, principalmente no que se
refere à família Lupion, sua ação política e os grupos que se reuniam em torno das empresas da
família.

26
Fonte: JAMUR JÚNIOR. Pequenas histórias de grandes talentos: os primeiros passos da televisão no Paraná. Curitiba,
2001.
27
Fonte: COSTA, R. M. C. D. A História da Televisão no Paraná: um jeito próprio de fazer parte da televisão brasileira.
Texto apresentado no II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho. GT História das Mídia Audiovisual. Florianópolis,
abril de 2004. Disponível em: <http://www.jornalismo.ufsc.br/redealcar/GT/historia%20da%20midia%20audiovisual/
trabalhos_selecionados/rosa_maria_costa.doc>. Acesso em: 06 set. 2004.
28
O jornal O Dia foi dirigido em 1951 pelo deputado Accioly Filho.
164

Ilustração 4-6: Carta de Amador Aguiar em 4 set. 1951

Fonte: Nogueira, 1986, p. 178.

4.5 O BANCO MERCANTIL E INDUSTRIAL DO PARANÁ

440
Em 1952, o grupo de Avelino Vieira, juntamente com o grupo Atalaia, assumiram o
controle acionário do Banco Meridional da Produção S.A., que contava com um capital de cinco
milhões de cruzeiros e com apenas quatro agências, das quais, duas – Caçador (SC) e Piraí do Sul
(PR), foram fechadas. (ANDRADA, 1982, p. 37).
441
Com a entrada do grupo de Avelino, segundo Brandão (1993), Othon Mäder foi mantido
como presidente do banco, Terézio de Paula Xavier assumiu a vice-presidência, e Avelino foi
escolhido como diretor-superintendente – cargo que ocupara até 1968, e, para as outras diretorias
foram empossados: Augusto Justus, Anacleto Theógenes Carli (Atalaia) e João Lupion Filho,
Dorcel Pizzatto (Atalaia), e Altamirano Pereira (Atalaia). A Assembléia Extraordinária dos
acionistas, realizada em 8 de março de 1952, deliberou a elevação do capital social para 25 milhões
de cruzeiros, reformou os estatutos sociais e mudou a razão social da instituição para BANCO
MERCANTIL E INDUSTRIAL DO PARANÁ S.A., cuja justificativa encontramos na cópia da ata
(ver Ilustração 4-7) na qual Avelino A. Viera escreveu:
85
[...] ou por meio de carta registrada aos senhores subscritores atendendo também ao
desejo manifestado por inúmeros acionistas e a conveniência de ser dada nova
denominação ao Banco capaz de melhor expressar sua finalidade em seu novo surto
de crescimento propomos a mudança do nome atual, para Banco Mercantil e Industrial
do Paraná S.A. nome esse melhor o define e que associa ainda o nome do Estado
brasileiro onde tem sua sede social [...] (ANDRADA, 1982, p. 40).
165

Ilustração 4-7: Ata da 1º reunião do Banco Mercantil Industrial do Paraná

Nota: O texto foi ampliado para facilitar a leitura. Fonte: Andrada (1982, p. 40).
442
Para João Gilberto Possiede29, na época funcionário da Atalaia, a
86
[...] palavra Bamerindus é uma sigla tirada de Banco Mercantil Industrial. Como,
naquela época, não tinha telex, nem fax, o endereço telegráfico adotado foi
“Bamerindus.” “Aonde você vai?” “Vou ao Bamerindus.” Foi o povo que patenteou
o nome Bamerindus, para não dizer “vou ao Banco Mercantil”, ou “vou ao
Industrial”. Até porque tivemos outros tantos Mercantil, como o Mercantil de São
Paulo, o Mercantil do Brasil, por aí afora. (POSSIEDE, 1997, p. 38).

443
Na Ilustração 4-8 apresentamos o primeiro balancete financeiro sob a nova administração,
no qual podemos verificar que em 1952 o banco possuía 1 matriz, 5 agências e 1 escritório; bem
como é possível identificar a composição da diretoria. A Ilustração 4-8 apresenta a Carta Patente na
qual se pode verificar a data de criação do banco, bem como a data da mudança do nome para
Banco Mercantil Industrial. No Ilustração 4-8 são apresentadas as conexões políticas do grupo de
empresários reunido em torno do agora Banco Mercantil Industrial S.A.
Ilustração 4-8: Balancete do BMIP em 30 de novembro de 1952.

Fonte: Andrada (1982, p. 39).

29
Fonte: POSSIEDE, João Gilberto. Depoimento, 1997. Rio de Janeiro, CPDOC, 1997, 34 p. dat. Disponível em:
<http://www.cpdoc.fgv.br/historal/htm/ho_download.htm>. Acesso em: 14 out. 2005..
166

Ilustração 4-9: Carta Patente do Bamerindus

Fonte: Andrada (1982, p. 41).


167

Gráfico 4-6: Conexões políticas do grupos de sócios do BMIP (1951 – 1955)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados extraídos de Andrada (1982), Brandão (1993) e DHBB (2002).
168

4.5.1 O CAFÉ DO PARANÁ

444
Neste momento precisamos de uma pausa para uma breve revisão da história da cultura do
café na região, pela importância que teve para o processo de acumulação capitalista no Paraná e a
formação do Bamerindus.
445
Segundo o Iapar (2005)30, no início do século XX, a cultura do café chegou ao Estado e
cresceu lentamente até 1945 por cauda duas guerras mundiais e à quebra da bolsa de Nova York em
1929 – quando a crise econômica mundial e a forte baixa nos preços do produto levaram à queima
de milhões de sacas de café. Nos anos 1950 e no início dos anos 1960, a cafeicultura passou por
uma fase de grande expansão no Paraná.
87
[...] a área chegou a quintuplicar, passando dos quase 300 mil hectares, em 1951, para
1,6 milhão de hectares em 1962. Devido à redução dos estoques mundiais, os preços
internacionais naquele período foram muito favoráveis, incentivando o aumento do
plantio de café no Estado. (IAPAR, 2005).

446
O apogeu da produção no Paraná aconteceu na safra 1961/62, quando foram colhidos
aproximadamente 21,3 milhões de sacas de 60 kg, ou 28% da safra mundial, que na época tinha
atingido 76 milhões de sacas. A expansão foi estimulada pela fertilidade das terras da região, apesar
das geadas ocasionais, e pela alta nos preços – em 1954 a saca chegou a ser cotada a US$ 600/60 kg
na Bolsa de Nova York:
88
Por um longo período, o café foi o principal gerador de riquezas para o Estado,
propiciando a fixação do trabalhador no meio rural, além de contribuir para coroar
com êxito o modelo de colonização, tornando as pequenas e médias propriedades
economicamente viáveis, numa época de poucas alternativas agrícolas. (IAPAR,
2005).

447
As três grandes safras no Paraná e no Brasil, ocorridas entre 1959 e 1962, levaram ao
excesso de oferta e elevação dos estoques motivando a queda dos preços. O governo brasileiro
então promoveu intervenções no mercado através de programas de erradicações de plantações
buscando reduzir a produção e manter os preços no mercado internacional. A geada que dizimou os
cafezais do Paraná, em 1975, fez com que a agricultura da região buscasse substituir a cultura do
café pelas culturas de soja e trigo. No Gráfico 4-7 podemos observar que nos anos de 1970, Minas
Gerais passou a se destacar na produção de café, sendo seguida pelos estados do Espírito Santo,
Bahia e Rondônia, enquanto isso o Paraná e São Paulo reduziram suas participações.
448
A densidade social promovida pela cultura do café produziu transformações profundas na
estrutura social do Paraná, incentivando a ocupação do interior do Estado e a formando de regiões
economicamente prósperas, constituindo grupos de políticos e capitalistas que passaram a disputar
o poder com as oligarquias tradicionais de Curitiba e de Paranaguá. A história do Bamerindus é

30
Fonte: IAPAR - Instituto Agronômico do Paraná. O café no Paraná: um pouco de história. Curitiba, Secretaria de Estado da
Agricultura e do Abastecimento. Estado do Paraná, [2005]. Disponível em: <http://www.pr.gov.br/iapar/cafe/p&m-
para.html>. Acesso em: 22 abril. 2005.
169

marcada pelas disputas entre os grupos emergentes e os interesses estabelecidos, sendo o próprio
banco, em boa medida, resultado direto da cultura do café.

Gráfico 4-7: Produção de Café por Estado (em %)

100

12 11
16 15 14 15
18 SP
90 19
22 22
24
29 27 28 27
30 30 32 32 30 30 31
33 35 35 35
80 40 40 38 42
39 40
44
49 47

Outr
70
os
9
6
60 10 8
8 9
11 5

50 14 17 ES
15
15
7
34
40
31
14 32
22 33 46 50
62 25 43 40 47
30 60 32 MG
55 27 37 20 29 55
54 53 52 53 30 40
49
43 25
20 41 41 40 41 38

29
23 25 23
10 19 18 PR
17 17 15
15 13 13
11 11
9 10 9 8 11 8
- - 1
2

4
4

6
/6

/6

/7

/7

/7

/9

/9
/6

/6

/7

/7

/8

/8

/8

/8

/8

/9

/9
61

67

71

75

81

83

87

91

93
63

65

69

73

77

79

85

89

95

Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados extraídos de Boletim do Café - Anuário 96 (até 1990:
IBC; 1991/95: Cecafé; a partir de 96: Embrapa/CONAB) In: Ministério da Agricultura (2004)31.

31
Fonte: MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, Pecuária e Abastecimento. Estatística. Histórico de Produção de Café nos
Estados. Produção Brasileira de Café. Boletim. Elaboração: Coordenação Geral de Apoio a Comercialização – Decaf /
SPC / Mapa. Brasília, [2004]. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/pls/portal/docs/PAGE/MAPA/
ESTATISTICAS/PRODUCAO/PRODUCAO_ESTADO_US.PDF/>. Acesso em: 11 jun. 2004.
170

4.5.2 A FORMAÇÃO DO GRUPO BAMERINDUS (1952-1981)

4.5.2.1 O PERÍODO OTHON MÄDER (1952-1968)

449
Othon Mäder ficou na Presidência do banco de 1952 até 1967, tendo sido senador entre
1951 e 1959 e deputado federal no período 1959-1963. Como já vimos, ele foi um dos fundadores e
líder do grupo segurador Atalaia que, já em 1952, criava junto com o Banco Mercantil Industrial a
Companhia Mercantil de Armazéns Gerais (para estocar café), num terreno de 10 mil metros
quadrados que Altamirano Pereira, sócio da Atalaia e do banco, tinha no porto de Paranaguá. Em
1954, o banco enfrentou o seu primeiro grande problema com a crise cambial que atingiu
diretamente a lavoura do café. Superada a crise, em 1955 foi criada a Ouro Verde Companhia de
Seguros, e em 1957 Augusto Justus assumiu o cargo de vice-presidente do banco.
450
A expansão do banco para fora do Estado do Paraná iniciou no ano de 1958, quando
assumiu o controle do Banco Tietê – antiga Casa Bancária Abelardo Queiróz S.A., de São Paulo,
continuando em 1959 quando adquiriu o controle do Banco Costa Monteiro no Rio de Janeiro. No
ano de 1960 foi criado o Banco Mercantil Industrial de Santa Catarina com alteração do nome do
Banco Excelsior Ltda., como também houve a alteração do nome do Banco Tietê para Banco
Mercantil Industrial de São Paulo e a inauguração do edifício sede em Curitiba. A informatização
das operações do banco começou em 1961, quando foi contratada a assessoria Remington / Univac,
que resultou na instalação de um equipamento Univac 100432 em 1963.
451
O grupo assim como grande parte do sistema financeiro recebeu grande impulso a partir da
reforma do SFN promovidas pelo governo militar em 1964, bem como pela criação nos anos
seguintes dos fundos compulsórios como o FGTS e o Fundo 15733. Neste ano foi adquirido o
controle Acionário do Banco Mercantil e Industrial do Mato Grosso e em 1965 a palavra
BAMERINDUS foi utilizada pela primeira como razão social, quando foi criada a Fundação
Bamerindus. No ano seguinte o banco incorporou o Banco de Crédito da Bahia S.A. e o Banco da
Administração S.A. Quando Othon Mäder deixou a Presidência do banco em 1968, a instituição já
era uma organização nacional, estando presente nas principais praças dos Estados mais importantes.

32
“O UNIVAC 1004 utilizava cartões perfurados, impressora, leitora de cartões, leitora de fita de papel perfurado, perfuradora
de cartões e fita magnética. Não existiam discos magnéticos, e a memória tinha 1024 bytes (1K) [ou 4k]. O programa era
montado em painéis com fios de ligação entre circuitos. Os painéis eram tabuleiros perfurados onde se ‘plugavam’ os fios,
especificando a operação e as coordenadas de memória de cada um dos operandos envolvidos no processo. Como estes
painéis eram muito caros não era raro um mesmo painel ter 8 a 10 programas montados uns sobre os outros.” (MULLER,
2003)
33
O Fundo 157 foi criado pelo Decreto-Lei nº 157, de 10 de fevereiro de 1967 e dava opção aos contribuintes para que
utilizassem parte do imposto de renda devido em aquisição de quotas de fundos administrados por instituições financeiras de
livre escolha do aplicador. Fonte: PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA Federativa do Brasil. Legislação. Brasília, [2002] <
https://www.planalto.gov.br/>. Acesso em: 11 jan. 2006.
171

4.5.2.1.1 O BANCIAL

452
Ao mesmo tempo, o Bancial também cresceu, mas não no mesmo ritmo do Bamerindus,
provavelmente porque o Grupo Lupion direcionou os esforços para os outros bancos da
organização, bem como os problemas políticos que Lupion enfrentou devem ter contribuído para o
desempenho do banco. Também temos que considerar que as conexões com o Bradesco podem ter
inibido investimentos maiores no Bancial.
453
Um evento importante foi a criação, em 1958, da Companhia Comercial de Seguros, que
reunia entre os principais acionistas: Adolpho de Oliveira Franco Júnior, Rafael Papa, Raul Vianna
de Azevedo, Aguinaldo Sampaio Ribas, Eugênio Rosário Leone, Edmundo Lemanski, Jayme Canet
e Jayme Canet Jr, Evilásio Augusto Bley, João Ferraz de Campos, Giácomo Clausi, Roberto Mário
Clausi e Olavo Rispoli34. Esse grupo de sócios reunia importantes conexões políticas, como pode
ser conferido no Gráfico 4-9. A seguradora operava em diversos ramos junto com o Bancial e, em
pouco tempo, expandiu suas atividade do Paraná para São Paulo, e em 1960 para o Rio de Janeiro e
Brasília. Mais tarde foi constituído o Grupo Segurador Comercial, com a participação das empresas
Nova América Cia de Seguros Gerais, fundada em 1854 por decreto do Imperador D. Pedro II, e a
União do Comércio e Indústria Cia de Seguros Gerais.

4.5.2.1.2 O BANCO E A POLÍTICA NO PERÍODO OTHON MÄDER (1952 A 1968)

OTHON MÄDER

454
No senado, pela UDN desde 1951, Mäder teve uma atuação importante no cenário político
local e nacional, e, em torno dele e do então governador Munhoz da Rocha se reuniram as forças
locais contrárias ao lupionismo, e no plano nacional fez parte do núcleo de oposição ao getulismo.
No Paraná, compunha as forças de sustentação política do governador e, no senado, com o apoio de
diversas associações comerciais do país, foi contra a instituição do monopólio estatal do petróleo
defendendo a participação dos grupos privados. A partir de maio de 1953, apresentou várias
emendas ao projeto de criação da Petrobrás buscando reduzir o poder do Executivo. Entre os
projetos estavam a ampliação da capacidade das refinarias privadas e a participação do Senado na
escolha dos presidentes do conselho administrativo e da diretoria executiva da empresa.
455
Na crise política de 1954, Mäder, junto com outros parlamentares da UDN, pediu a
renúncia do presidente e, após o suicídio de Vargas, em agosto de 1954, tomou posse o vice-
presidente João Café Filho, que tinha apoio dos udenistas e também fortes ligações com Munhoz da
Rocha. Othon também foi membro das comissões de Trabalho e Legislação Social e de Finanças do
Senado, quando combateu a criação da Eletrobrás e o monopólio dos transportes ferroviários e de

34
Fonte: Sindiseg-Pr (2003)
172

cabotagem marítima.35 “Revelou-se também favorável à reforma da Constituição ‘para expurgá-la


de certos incisos de cunho socialista’ e defendeu ‘alterações substanciais na Lei Eleitoral, para
fortalecer os partidos nacionais e proscrever as ideologias extremistas”. (DHBB, 2002g).
456
Em 1958, foi eleito deputado federal e, em janeiro de 1959, deixou o Senado para assumir o
mandato na Câmara, onde participou de trabalhos dos órgãos técnicos e se opôs às reformas de base
pedidas pelo então presidente João Goulart. Também participou do bloco interpartidário criado em
1961 – composto pela UDN (majoritária) e PSD, a Ação Democrática Parlamentar (ADP), que
tinha como objetivo principal “combater a penetração comunista na sociedade brasileira” (DHBB,
2002g). A ADP articulava a oposição ao governo de Goulart, tendo deixado de existir logo após o
golpe militar.
89
Mäder pronunciou-se na Câmara contra a penetração comunista no Brasil, o
reatamento das relações diplomáticas com a União Soviética – rompidas em 1947 e
reatadas em novembro de 1961 – e em defesa da fidelidade do Brasil aos
compromissos assumidos na esfera continental e do alinhamento com o bloco
ocidental. (DHBB, 2002g).

457
Segundo Minella (1988), em 1961 Mäder também era diretor das seguintes empresas: Ouro
Verde Cia de Seguros, Paraná Cia de Seguros, Atalaia Cia de Seguros, Aurora S.A. – Investimento,
Crédito e Financiamento36. Também destaca o autor que Othon teve importante atuação na defesa
dos interesses dos banqueiros, no Congresso, principalmente com relação aos trabalhos em torno da
Reforma Bancária. Mäder havia participado do I Congresso de Bancos em 1960 e apresentou no
parlamento, em agosto de 1962, um substitutivo para a Reforma Bancária que tramitava no
Congresso Nacional, buscando transformar em lei as resoluções aprovadas no Congresso dos
Bancos. Othon também estava entre os políticos que receberam apoio financeiro e assistência
técnica e administrativa do IPES / IBAD durante as eleições de 1962:
90
O banqueiro-deputado declarou que seu projeto tinha como base a “Declaração de
Belo Horizonte” cujas conclusões considerava “ajustadas à realidade brasileira” e
que, por “uma feliz coincidência”, eram quase totalmente iguais às conclusões do
Conselho Nacional de Economia, órgão que se considerava “dos mais capacitados e
mais conceituados em matéria financeira e de ordenamento bancário” [também] [...]
propôs uma composição do Conselho Monetário Nacional que seguia exatamente as
recomendações do Terceiro Congresso, ou seja, paritária entre os representantes do
governo e os representantes diretos da burguesia, porém favorável a esta. (MINELLA,
1988, p. 114-115).

458
Em janeiro de 1963 terminou o seu mandato na Câmara dos Deputados, quando então
passou a dedicar-se mais ao banco, e desde então não retornou mais à vida pública. Ao longo de sua
vida, Othon Mäder também foi presidente do diretório da UDN do Paraná, do Sindicato dos

35
Em 1995, no governo FHC, o Senado aprovou em 2º turno as emendas que acabavam com o monopólio da Petrobrás, das
telecomunicações, e com a reserva de mercado na navegação de cabotagem. Também mudou o conceito de empresa
nacional.
36
Fonte: RICHARD NETO, Gustavo. Bancos e banqueiros do Brasil. Rio de Janeiro, 1961; BANAS, Editora. Bancos e
companhias de investimento. São Paulo, 1961, p. 148, 151, 343, 509. e BANAS, Editora. Bancos, bolsas e investimentos.
São Paulo, 1964, p. 82. Apud MINELLA (1988, p. 124).
173

Engenheiros do Paraná, da Associação dos Funcionários Públicos e do Instituto de Engenharia.


Acionista do Bamerindus, após deixar a Presidência do banco em 1968, continuou na Diretoria e no
Conselho de Administração, vindo a falecer em 1974.

BENTO MUNHOZ DA ROCHA NETTO

459
Outro personagem político importante para o Bamerindus foi Bento Munhoz da Rocha que,
ao lado de Othon Mäder, liderou a oposição ao lupionismo no Paraná. Eleito em outubro de 1950,
no seu governo iniciou as obras de construção da sede do governo, criou a Companhia Paranaense
de Energia Elétrica (Copel), construiu parte da Rodovia do Café (Ponta Grossa – Paranavaí),
concluiu as obras do porto de Paranaguá. Também iniciou a construção da usina termelétrica de
Figueira, bem como promoveu o programa de asfaltamento das rodovias do Estado. Na questão
fundiária, desapropriou terras em diversos municípios e promoveu a regularização dos títulos de
propriedade. Para cuidar da explosiva questão fundiária, em 1952, Munhoz da Rocha nomeou seu
ex-cunhado Ney Braga para o cargo de chefe de polícia do Estado. Braga era viúvo de Maria José
Munhoz da Rocha, também filha do ex-presidente do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha.37 Na
época, Ney era militar e servia no 3º Regimento de Artilharia Montada, em Curitiba.
460
Em 1955, Munhoz da Rocha renunciou ao cargo de governador para candidatar-se à vice-
presidência da República, compondo a chapa de Juarez Távora apoiada pela UDN, PDC, PL e parte
do PSD. No governo do Paraná foi substituído provisoriamente por Antonio Annibelli que, em
maio de 1955 transmitiu o cargo ao novo governador eleito pela Assembléia Legislativa, Adolpho
de Oliveira Franco. Adolpho era notoriamente ligado ao setor financeiro, advogado, foi consultor
jurídico da Caixa Econômica Federal do Paraná por 30 anos, desde 1938, e, em 1954, diretor da
Carteira de Crédito Rural e Industrial do Banco do Brasil. Também foi presidente da Ordem dos
Advogados do Brasil, Seção do Paraná, diretor da Associação Paranaense dos Cafeicultores e
senador da República em 1962. Oliveira Franco, então diretor presidente do Bancial, foi eleito pela
Assembléia Legislativa do Estado para o período de 10 meses, completando assim o mandato de
Munhoz da Rocha. 38.
461
Na disputa pela Vice-Presidência da República, Bento acabou sendo preterido, mas foi
nomeado ministro da Agricultura pelo presidente Café Filho, tomando posse no cargo em maio de
1955. Segundo Pantoja (2002), em 1958, elegeu-se deputado federal pela Frente Democrática do
Paraná que congregava a UDN, o PR e o PSP. Candidato ao governo do Paraná nas eleições de
outubro de 1965, na legenda da coligação PR - PSP - PTB - PRP, perdeu para o candidato Paulo
Pimentel, apoiado pelo então governador Ney Braga. Derrotado, abandonou a militância partidária.
Segundo Andrada (1982), em 1974, Munhoz da Rocha era membro do Conselho de Administração

37
Segundo Kunhavalik (1999, p. 9), Ney Braga também era primo de Bento Munhoz da Rocha Netto.
38
Fonte: História biográfica da república no Paraná, de David Carneiro e Túlio Vargas, 1994. Disponível em:
<http://www.pr.gov.br/casacivil/gov_adolpho.shtml>. Acesso em: 10 abr. 2004.
174

do Grupo Bamerindus.

O LUPIONISMO – PARTE II

462
Após sua saída do governo em 1951, Lupion continuou controlando o PSD, sendo eleito
senador em 1954. Assumiu o cargo no Senado em fevereiro de 1955, onde permaneceu até 1956,
quando voltou ao governo do Estado no seu segundo mandato. Na época, o PSD havia conquistado
também a presidência da República, com Juscelino Kubitschek.
463
A segunda gestão de Lupion foi marcada pelo recrudescimento da questão da terra no
interior do Estado, envolvendo títulos de propriedades irregulares e conflitos entre colonos e
empresas concessionárias de áreas de domínio público. Lupion também era proprietário da
empresas de colonização e exploração de madeira – Companhia Imobiliária Clevelândia Industrial e
Territorial Ltda (Citla), e foi acusado pela imprensa e parlamentares de usar a Força Pública para
auxiliar várias empresas, inclusive a Citla, contra os posseiros. Os conflitos serviram para mobilizar
os colonos e formar novas lideranças que, na seqüência, levou uma boa parte deles a buscarem
abrigo da legenda do PTB. Moysés governou sob forte oposição da UDN liderada por Othon
Mäder.
464
Na sua sucessão, o PSD teve que enfrentar o populismo janista, que capitalizava o
saudosismo getulista e a antipatia popular pelos políticos tradicionais. Dessa vez, o candidato de
Lupion, Plínio Franco Ferreira da Costa foi derrotado por Ney Braga que era apoiado pela UDN e
Jânio Quadros. Segundo Lemos (2002b), Braga, logo após assumir o governo, iniciou o processo de
desmonte do lupionismo, articulando uma forte campanha contra sua administração, instaurando
investigações por corrupção que acabaram levando Lupion a buscar o exílio na Argentina. Eleito
em 1962 para uma cadeira na Câmara Federal pelo PDS – utilizando a estratégia da primeira
suplência, Lupion partiu para sua defesa na tribuna do Congresso Nacional. Com o golpe militar em
1964, que contou com o apoio de Ney Braga, Lupion foi cassado com base no Ato Institucional nº
1, e teve boa parte dos seus bens confiscada. Nos anos seguintes, enfrentou grandes batalhas
judiciais por conta dos inquéritos por corrupção39. Lupion não mais conseguiu retornar à política,
perdeu seu império econômico e, quando houve a anistia política,
91
[...] veio a público para protestar contra a inclusão de seu nome entre os beneficiados,
fazendo questão de esclarecer que seus direitos foram restaurados parcialmente em
1974 e, integralmente, com a revogação do art. 185 da Constituição de 1969,
lembrando ainda que as várias ações penais que lhe foram movidas na década de 60, o
inocentaram inteiramente ‘por falta de justa causa. (TRIBUNAL DE CONTAS, 2001
e VAZ, 1986, p. 463-465).

465
A história de Lupion e o que aconteceu com seu império parece terem sido, em boa parte,
eliminados da memória da comunidade paranaense. Tivemos muita dificuldade para encontrar
referencial biográfico a esse respeito, ao que parece sua terra foi salgada pelos inimigos políticos e

39
Fontes: Oliveira (1998), Lepre (2000) e Lemos (2002b).
175

seus antigos correligionários trataram de apagar da memória coletiva as ligações com o lupionismo.
No nosso entender, esse assunto ainda espera, da comunidade científica paranaense, estudos à altura
da sua importância histórica.
466
A fábrica de papel Arapoti foi confiscada pela União e, nos anos 1980, o Bamerindus a
adquiriu em leilão e, mais tarde, ampliou as instalações e mudou sua denominação para Inpacel
Indústria de Papel e Celulose Arapoti S.A.

O NEÍSMO - PARTE I (1952 – 1967)

467
Outro personagem importante para a história do Bamerindus foi Ney Braga, cuja
hegemonia política, conhecida como neísmo, teve grande influência sobre o Paraná por
aproximadamente vinte anos, tendo Ney Braga participado do golpe militar de 1964.
468
Filho de família tradicional do Paraná, seu avô materno, José Aminthas da Costa Barros,
combateu ao lado dos Legalistas (Pica-paus) em 1894, durante o cerco da Lapa realizado pelos
federalistas gaúchos. Segundo Kunhavalik (1999, p. 9)40, Ney era sobrinho de Caetano Munhoz da
Rocha, que era casado com uma irmã de seu pai Antônio de Lacerda Braga. Mais tarde, foi para o
Rio de Janeiro estudar na Escola Militar do Realengo, e depois na Escola do Estado-Maior, onde
fez amizade com vários militares que se tornariam importantes na vida política brasileira, dentre
eles, o então coronel Castelo Branco. Em 1950 foi promovido a major e assumiu, dois anos mais
tarde, o cargo de chefe de polícia do Estado, nomeado pelo então governador Munhoz da Rocha.
Durante sua gestão enfrentou vários conflitos no campo, conseguindo angariar muita popularidade.
Em 1954, o governador promoveu mudança na Constituição estadual, determinando que o prefeito
da capital fosse eleito. Lançado candidato pelo PSP / PR, com apoio do governo do Estado e
também da prefeitura (KUNHAVALIK, 1999, p. 26), e sendo Curitiba o reduto eleitoral de
Munhoz da Rocha, Ney acabou vencendo os sete concorrentes e assumiu o cargo de prefeito da
Capital.
469
Ao terminar seu mandato em 1958, concorreu à Câmara dos Deputados contra a vontade de
Munhoz da Rocha, com quem acabou rompendo relações políticas. Braga desenvolveu sua
campanha combatendo Lupion, conseguindo eleger-se deputado federal em outubro. No ano
seguinte, articulou sua candidatura ao governo do Estado conseguindo apoio de vários empresários,
como por exemplo, o então grande usineiro João Lunardelli. Eleito governador pela coligação PDC
/ PL, recebeu também o apoio de parte da UDN e de Jânio Quadros que, nesse pleito, também se
elegeu presidente da República.
470
Ney Braga assumiu o cargo em janeiro de 1961 com dois grandes problemas, as finanças
públicas e o conflito no campo e, logo após a posse, iniciou uma grande campanha para

40
Fonte: KUNHAVALIK, J. P. Ney Braga: trajetória política e bases do poder. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-
Graduação em Sociologia Política. Florianópolis: UFSC, dezembro, 1999.
176

desmantelar o poder político e econômico de Lupion:


92
Em 31 de janeiro de 1961, quando Ney Braga assumiu o governo, a campanha contra
os amigos, parentes e sócios de Lupion estava no auge nos meios de comunicação e
abalou a vida particular de Lupion. O governo de Ney Braga não se limitou a ataques
pessoais. A vida pública foi atingida por uma onda de apagamento de todos os
vestígios das realizações do seu governo, de 1956-61. [...] placas comemorativas de
obras da administração foram retiradas, e posteriormente, reinaugurados como obras
da gestão Ney Braga. (FUNDAÇÃO MOYSÉS LUPION, 2005).

471
Durante seu governo criou vários órgãos, entre eles, em 1962, a Companhia de
Desenvolvimento Econômico do Paraná (Codepar) que mais tarde seria transformada no Banco de
Desenvolvimento do Estado do Paraná (BADEP). Segundo Kunhavalik (1999, p. 73), integravam a
primeira Diretoria da Codepar as seguintes pessoas: presidente, Affonso Camargo Netto; diretor
Técnico, Maurício Schulman; e diretor financeiro, Francisco Clausi que, na época, era ligado ao
Bancial. Ney também concluiu a rodovia do Café (Ponta Grossa - Paranavaí), criou, em 1961, a
Companhia Agropecuária de Fomento Econômico do Paraná (Café do Paraná); em 1962, a
Fundação Educacional do Paraná (Fundepar); em 1963, a Companhia de Saneamento do Paraná
(Sanepar) e a Companhia de Telecomunicações do Paraná (Telepar); em 1964 o Centro Eletrônico
de Processamento de Dados (Celepar); em 1965 a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) e
a Crédito, Financiamento e Investimentos, subsidiária da Codepar.41
472
Também no seu governo iniciou a constituição de uma equipe de assessores que ficou
conhecida como a “turma do Ney Braga”, cujo poder e influência sobre a estrutura política e
econômica – tanto pública como privada na região, durou até o final dos anos 1990. Entre eles
vamos encontrar, Saul Raiz, Karlos Rischbieter, Jayme Canet Júnior, Maurício Schulman, Norton
Macedo, Véspero Mendes, José Richa e Jaime Lerner. Além de Castelo Branco, Braga também
estabeleceu laços de amizade com o então coronel Ernesto Geisel que, em janeiro de 1962, havia
assumido o comando da Artilharia Divisionária da 5ª Divisão de Infantaria em Curitiba e o
comando interino da 5ª Região Militar. Ao completar mais de oito anos afastado do serviço ativo,
em 1963 Braga foi transferido para a reserva do Exército, no posto de general-de-brigada, o que lhe
seria muito útil durante o regime militar, pois assumiu assim a posição conhecida na época como
“anfíbio” – oficiais reformados com atuação política.
473
Em 30 de março de 1964, Ney aderiu ao movimento dos governadores contra Goulart,
liderado por Magalhães Pinto, Carlos Lacerda e Ademar de Barros, que também contou com o
apoio de políticos / banqueiros como Herbert Victor Levy (Banco da América / Itaú) e Laudo Natel
(Bradesco). Após o golpe, Braga participou do processo que levou Castelo Branco ao cargo de
presidente, compondo, junto com Ernesto Geisel, o grupo que mais tarde viria a ser conhecido
como castelista. Segundo Braga (2002a)42, na sucessão de Ney, seu secretário da Agricultura, Paulo

41
Dados extraídos de Augusto (1978, p. 29-30), apud Kunhavalik (1999, p. 75).
42
Fonte: BRAGA, S. S. Verbete: BRAGA, Nei. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: pós-1930 (DHBB). 1ª
edição. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, CPDOC, 2002a. CD-Rom.
177

Pimentel com a ajuda de Aníbal Khury conseguiram impor sua candidatura pelo PTN ao PDC
obrigando assim Ney Braga a apoiar Pimentel, apesar de seu candidato preferido ser o vice-
governador e presidente do partido, Affonso Camargo Netto. Após sua derrota na convenção,
Camargo afastou-se politicamente de Ney Braga e renunciou ao cargo de vice-governador,
apoiando Munhoz da Rocha, que acabou sendo derrotado por Paulo Pimentel em outubro de 1965.
Pimentel, além do apoio da família de sua esposa, filha de João Lunardelli, contou com
financiamento de vários empresários, entre eles Jayme Canet Júnior, cuja família tinha negócios
com café e era ligada ao grupo financeiro Bancial.
474
Paulo Pimentel assumiu o governo do Paraná em janeiro de 1966 e Ney, o Ministério da
Agricultura de Castelo Branco, tendo sido várias vezes cogitado para suceder Castelo na
presidência. Nas eleições de 1966, Ney consegue vencer, com o apoio de Paulo Pimentel, os
candidatos ao Senado do MDB – Nélson Maculan e Affonso Camargo. Na época, Pimentel aspirava
independência do neísmo, para tanto se aproximou de Costa e Silva que disputava o poder com o
grupo castelista. Jayme Canet, que estava na presidência do Banco do Estado do Paraná
(Banestado), demitiu-se, rompendo relações com Paulo Pimentel e estreitando laços políticos com
Ney Braga; seus aliados foram demitidos sistematicamente pelo governador, reproduzindo no plano
local a luta política que marcou o regime militar.

JAYME CANET JÚNIOR

475
Grande empresário e político hábil, Jayme Canet Júnior vai influenciar de forma decisiva a
política paranaense e o Bamerindus entre os anos 1970 e 1990.
476
Natural de Ourinhos, fronteira de São Paulo com o Norte do Paraná, nasceu em janeiro de
1925, filho de Jayme Canet e de Anita Lopes Canet. Criado em Curitiba, em 1943 iniciou-se no
mundo dos negócios aos 18 anos de idade, vindo a se tornar mais, tarde, segundo DHBB (2002d)43,
num dos homens mais ricos do Paraná. Foi um dos fundadores de uma das mais modernas fazendas
de café do Norte do Estado, a Fazenda do Horizonte, em Bela Vista do Paraíso. Além disso,
estudou Engenharia na UFPR, junto com a “turma do Ney Braga”, mas não chegou a concluir o
curso. Ligado a Ney desde os anos 1950, que na época era prefeito da Capital, Jayme foi mais tarde
um dos principais coordenadores da campanha eleitoral que levou Ney ao governo do Estado em
1961. Canet Jr. foi nomeado para a Presidência da Café do Paraná, sendo também representante
oficial do Estado na junta administrativa do Instituto Brasileiro do Café (IBC).
477
Segundo Couto (1998, p. 110), em maio de 1960, Jayme criou, junto com outros sócios, a
empresa Horizonte Ltda - Administração e Participações, dedicada à compra, venda e
administração de bens móveis e imóveis. Ligado ao grupo Bancial, como já vimos, ele e seu pai
aparecem entre os fundadores da companhia de seguros do grupo, em 1958. Em 1965, foi um dos

43
Fonte: DHBB. Verbete: CANET JÚNIOR, Jaime. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: pós-1930 (DHBB). 1ª edição.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, CPDOC, 2002d. CD-Rom.
178

principais coordenadores da campanha de Paulo Pimentel para o governo do Paraná e em 1966


filiou-se à Arena, e assumiu a Presidência da comissão de instalação do diretório municipal em
Curitiba.
478
Após romper com Pimentel e deixar a Presidência do Banestado, voltou às atividades
privadas e assumiu cargo de diretor da Exportadora Canet e da Bley Canet de Comercialização de
Café, bem como, em 1968, a Presidência da construtora e incorporadora Habitação, na qual tinha
como sócio Affonso Camargo. Segundo DHBB (2002d) já em 1966 Canet integrava o Conselho de
Administração do Banco Mercantil Industrial.

AFFONSO ALVES DE CAMARGO NETTO

479
Outro personagem importante para a história do Bamerindus foi Affonso Alves de
Camargo Netto. Nascido em Curitiba em abril de 1929, era filho de Pedro Alípio Alves de Camargo
e de Ismênia Marçal de Camargo. Neto do ex-presidente do Paraná, Affonso Alves de Camargo é
sobrinho de Bento Munhoz da Rocha; sua família paterna era formada por pecuaristas e donos de
frigoríficos. Affonso também estudou no Ginásio Paranaense e, em 1952 formou-se engenheiro
civil pela Faculdade de Engenharia da atual UFPR, tendo integrado a “turma do Ney Braga”.
480
Exerceu a profissão de engenheiro por pouco tempo, tendo sido sócio-fundador da Empresa
Construtora, Imobiliária e Financiadora S.A. Em 1956 ingressou no PDC comandado por Ney
Braga, sendo eleito, logo após, presidente do diretório regional. Em 1960, coordenou as campanhas
locais de Jânio Quadros para a presidência da República e, junto com Canet Jr., a campanha de Ney
Braga para o governo estadual. Ao tomar posse em março de 1961, Ney Braga nomeou Affonso
Camargo – então vice-governador44, para o cargo de diretor do Departamento de Águas e Energia
Elétrica do Paraná, e um ano depois assumiu a primeira Presidência da Codepar. Em 1963, deixou o
cargo para ocupar a Secretaria do Interior e da Justiça do Paraná. Mais tarde, segundo a AE (30 set.
1992), Affonso renunciou ao cargo de vice-governador para não substituir Ney Braga, que estava
de mudança para o Ministério da Agricultura do governo Castelo Branco. Os militares não
aceitaram que Affonso assumisse o governo do Estado.
481
Quando em 1965 começaram as disputas dentro do PDC para a escolha do candidato à
sucessão de Ney, Affonso perdeu para Paulo Pimentel. Mesmo contando com o apoio da ala jovem
e progressista do partido, o apoio de Braga foi para Pimentel, considerado mais forte para enfrentar
Bento Munhoz da Rocha, apoiado pelo PTB. Camargo afastou-se de Ney Braga e apoiou Munhoz
da Rocha, que acabou sendo derrotado em outubro de 1965. Em outubro de 1965, Affonso
Camargo era secretário-geral do diretório nacional do PDC, então presidido por Franco Montoro e
optou por filiar-se ao MDB, ao passo que a “turma do Ney Braga” e Paulo Pimentel optaram pela
Arena. Em 1966 concorreu pelo MDB e perdeu a vaga no Senado para Ney Braga. Camargo

44
Segundo Braga (2002b) Affonso somente torna-se vice-governador em 1964, mas segundo a CASA CIVIL (2002), seu
mandato de vice-governador teve início em 31 jan. 1961.
179

retornou então às atividades empresariais e, em 1968, em sociedade com Jayme Canet Júnior, criou
a empresa Habitação S.A. que chegou a ser a maior construtora de prédios do Estado. Segundo
Andrada (1982), em 1974 Affonso Camargo fazia parte do Conselho de Administração do
Bamerindus.

ANÍBAL KHURY

482
Filho do ex-vereador Salomão Khury45, um comerciante e líder da colônia sírio-libanesa de
União da Vitória, Aníbal iniciou sua vida política também no cargo de vereador. Filiado à UDN por
influência de Algacir Guimarães, político que mais tarde viria compor a “turma do Ney Braga”,
Aníbal militou na oposição ao lupionismo. Em 1954, foi eleito para a Assembléia Legislativa do
Estado, onde permaneceu durante sucessivos mandatos. Segundo (ALMEIDA, 1999, p. 145)46
citando o jornalista Samuel Guimarães da Costa, nos anos seguintes Khury acumulou duas
presidências da Assembléia, e doze vezes a condição de primeiro secretário.
483
Aníbal sempre esteve envolvido nas grandes decisões políticas no Paraná, tendo sido o
principal articulador da candidatura de Paulo Pimentel ao governo do Estado em 1965.
Oficialmente sua influência política foi interrompida em 11 de março de 1969, ainda durante o
governo Paulo Pimentel, quando, enquanto jantava em sua residência com os empresários Cecílio
Rego Almeida e César Lacerda, a casa foi cercada pela Polícia Federal e homens do Exército que
lhe deram voz de prisão. Acusado por corrupção, teve seus direitos políticos cassados em 13 de
março. Considerado como “Guru” por muitos políticos, e apelidado de “Buda” pelos amigos,
segundo depoimentos, muitas decisões políticas importantes da Assembléia Legislativa foram
tomadas em reuniões promovidas na sua residência, mesmo durante o período em que esteve
cassado.
484
No Gráfico 4-8: Conexões políticas do Bamerindus no período Othon Mäder (1952 a
1967)Gráfico 4-8 apresentamos a rede de conexões políticas no período em que Othon Mäder esteve
na Presidência do Bamerindus e, no Gráfico 4-9, as principais conexões políticas do Grupo Bancial.

45
É interessante observar que, diferente de Miguel Antun, Salomão Khury não aportuguesou o nome de sua família.
46
Fonte: ALMEIDA, Pedro Washington de. Paraná político de cabo a rabo. Curitiba: Ed. Noé. 1999.
180

Gráfico 4-8: Conexões políticas do Bamerindus no período Othon Mäder (1952 a 1967)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados extraídos de Andrada (1982) e Brandão (1993) e DHBB (2002).
181

Gráfico 4-9: Conexões políticas do Grupo Bancial (1952 - 1960)

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor, com base nos dados extraídos de Andrada (1982) e Brandão (1993) e DHBB (2002).
182

4.5.2.2 O PERÍODO AVELINO ANTÔNIO VIEIRA (1969 – 1974)

485
Segundo os registros consultados, Avelino Vieira aparece como diretor presidente do
Bamerindus em 1969, e até então ocupara o cargo de diretor superintendente. Na sua gestão, o
Bamerindus consolidou sua estrutura nacional promovendo, a partir de 1970, o processo de fusão
das filiais estaduais buscando criar um único banco. Para tanto, Avelino Vieira designou José
Eduardo como encarregado da operação. Em 19 de fevereiro de 1971 foi alterada a razão social do
Banco Mercantil e Industrial do Paraná S.A. para BANCO BAMERINDUS DO BRASIL S. A
(BBB) que, em 15 de abril de 1971, incorporou o Banco Mercantil e Industrial de São Paulo e
Banco Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. Todo o processo levou alguns anos para se
completar, podendo ser acompanhado nas ilustrações a seguir47:
Ilustração 4-10: Bamerindus - Paraná
Alt. Den. Alt. Den. Incorp.
CASA BANCÁRIA BANCO MERCANTIL E
26.05.43 BANCO EXCELSIOR 27.12.60 11.12.70 CASA BANCÁRIA
EXCELSIOR LTDA. INDUSTRIAL DE SANTA
LTDA. LLOYD PORTUGUÊS
(26.05.43) CATARINA S.A. LTDA.
(01.01.43)

Alt. Den.
Alt. Den. BANCO MERCANTIL E Incorp.
CASA BANCÁRIA BANCO INDÚSTRIA E 20.06.62
COMÉRCIO DA 31.10.68 INDUSTRIAL DO RIO 11.12.70
GERMANO
GUANABARA S.A. GRANDE DO SUL S.A
(22.03.43)

BANCO BRASILEIRO DA
Alt. Den. Incorp.
BANCO NACIONAL DE INDÚSTRIA E COMÉRCIO
15.06.62 BANCO NACIONAL DE 26.08.65
CRÉDITO LTDA. S.A.
CRÉDITO S. A.
(22.03.43)
Incorp.
29.09.72

Alt. Den. Incorp.


CASA BANCÁRIA 18.01.52 BANCO FRANCISCO 14.10.69
FRANCISCO TELLES TELLES S.A.
(01.01.12)

CASA BANCÁRIA LOTHAR Alt. Den. Incorp.


BANCO MERIDIONAL DA
PRODUÇÃO S.A. STHENTHAL LTDA. 10.03.62 BANCO TIBAGI S.A. 31.08.70
06.04.43 (13.04.55)

Alt. Den.
23.09.52
BANCO MERCANTIL E
INDUSTRIAL DO
PARANÁ S.A.

Alt. Den.
BANCO BAMERINDUS DO BRASIL 19.02.71
Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94

47
Dados extraídos de BAMERINDUS / HSBC. Posição Acionária em 19 jan. 1998 - BPE - Administração Societária. Nível
de Qualidade 04/05. Atualizado em 24 out. 1994. Curitiba: Bamerindus, 1998. Nos Anexos reproduzimos duas sínteses
originais da genealogia do Banco Bamerindus extraídas de suas publicações.
183

Ilustração 4-11: Bamerindus - São Paulo

ROCHA MIRANDA, FILHOS Alt. Den. CASA BANCÁRIA ROCHA Alt. Den. Incorp. Incorp.
BANCO MERCANTIL E INDL.
04.04.55 27.09.61 BANCO DO POVO DE MATO 01.08.67 28.05.70
& CIA. LTDA. CASA MIRANDA, FILHOS & CIA. GROSSO S.A. DO MATO GROSSO S.A.
BANCÁRIA (16.09.43) LTDA. (02.01.68)

ABELARDO QUEIROZ & Alt. Den. Alt. Den. Alt. Den.


CIA. 08.09.52 CASA BANCÁRIA 12.02.54 CASA BANCÁRIA 09.06.54
BANCO TIETÊ S.A
(04.09.35) ABELARDO QUEIROZ S.A. DA LAPA S.A. (1958).
Alt. Den.
07.11.60

CASA BANCÁRIA Alt. Den.


15.09.54 BANCO REAL DO
CIRCULADORA DE CRÉDITO
PROGRESSO S.A.
(28.07.52)

Incorp.
19.12.68

Alt. Den. Incorp. Alt. Den.


BANCO AGRÍCOLA 11.06.64 BANCO AGRÍCOLA 13.10.67 BANCO MERCANTIL E
20.06.70 BANCO BAMERINDUS DE
NACIONAL COOPERATIVA NACIONAL S.A. INDUSTRIAL DE SÃO SÃO PAULO S.A.
(01.01.61) PAULO S.A. Incorp.
15.04.71

BANCO BAMERINDUS DO BRASIL


Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94

Ilustração 4-12: Bamerindus - Rio de Janeiro

COOPERATIVA BANCO Incorp. BANCO COMÉRCIO E


HIPOTECÁRIO DO INDUSTRIA DO BRASIL
BARRETO LTDA. S.A. (05.08.37)

Alt. Den. Alt. Den. Incorp.


BANCO COSTA BANCO MERCANTIL E 13.10.67 BANCO MERCANTIL E
BANCO COSTA MONTEIRO E 23.10.50 01.07.61
CIA. LTDA. MONTEIRO S.A. INDUSTRIAL DO RIO DE INDUSTRIAL DO
(15.04.32)3 (1959) JANEIRO S.A. BRASIL S.A.
Alt. Den.
09.03.67

BANCO COMERCIAL E Incorp.


HIPOTECÁRIO DE 24.08.70
CAMPOS S.A.
(09.10.1872)

Alt. Den. Alt. Den. Incorp.


CASA BANCÁRIA 30.04.59 BANCO NACIONAL DA 29.05.67 BANCO MERCANTIL E BANCO MERCANTIL E
27.02.70
LIBERAL S.A. INDÚSTRIA E INDUSTRIAL DO INDUSTRIAL DO RIO DE
(12.06.56) COMÉRCIO S.A. NORDESTE S. A. JANEIRO S.A.

Incorp.
Alt. Den. 15.04.71
Incorp.
CASA BANCÁRIA 17.08.66 22.11.69
BANCO VAZ S.A.
MARINHO (01.01.55)

BANCO BAMERINDUS DO BRASIL


Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94
184

Ilustração 4-13: Bamerindus – Nordeste

CIA. DE Alt. Den. Alt. Den.


08.01.38 BANCO DE 01.01.45 BANCO DA
ADMINISTRAÇÃO
ADMINISTRAÇÃO ADMINISTRAÇÃO S.A.
GARANTIDA BAHIANA
GARANTIDA - BAHIANA (1966)
(29.06.15)

CASA BANCÁRIA Fusão


Incorp.
THEMISTOCLES DA BANCO DO PAÍS 14.12.70 BANCO BAMERINDUS DO
04.12.67
ROCHA COSTA (01.01.43) NORDESTE S.A.

Incorp.
01.06.72
Alt. Den. Incorp.
BANCO DE CRÉDITO
URBÂNIA BANCÁRIA CASA BANCÁRIA 22.06.53 11.06.66 BANCO DE CRÉDITO DA
POPULAR DA BAHIA
LTDA. POPULAR LTDA. BAHIA S.A.
S.A. (01.01.56)
(1966)

Incorp.
CASA BANCÁRIA BANCO CIDADE DE BANCO COMÉRCIO E 08.08.66
CIDADE DE SALVADOR SALVADOR S.A. INDÚSTRIA DA BAHIA
S.A

Incorp.
01.01.69

CAIXA ECONÔMICA DA BANCO AGRO- BANCO AGRO-


CIDADE DE MACEIÓ CAIXA COMERCIAL S.A. MERCANTIL S.A. MERCANTIL DE
ALAGOAS S.A.

BANCO BAMERINDUS DO BRASIL


Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94

Ilustração 4-14: Bamerindus - Investimento e Financeira

Alt. Den. CAMPOS GERAIS S.A.


BAMERINDUS S.A.
25.10.69 FINANCIAMENTO, CRÉDITO
FINANCIAMENTO,
CRÉDITO E E INVESTIMENTOS
INVESTIMENTOS (24.03.65)

Incorp.
Incorp. Alt. Den.
28.04.89
01.04.75 BANCIAL S.A. CRÉDITO, 12.02.71 CREFIPAR S.A. CRÉDITO
FINANCIAMENTO E FINANCIAMENTO E
INVESTIMENTOS INVESTIMENTO (10.03.65)

Incorp.
FIPAR S.A. FINANCIADORA
09.02.74
DO PARANÁ - CRÉD. FINANC. CIA. FINANCEIRA DE
E INVESTIMENTOS INVESTIMENTOS-
(27.11.64) CONFINANCE -CREDITO E
Incorp. FINANC.(04.10.52)
28.04.89 Alt. Den. AURORA S.A.
BANCO BAMERINDUS DE 30.06.69 INVESTIMENTO, CRÉDITO
INVESTIMENTO S.A. E FINANCIAMENTO
(27.05.60) FINASA-PR-SC -
FINANCIAMENTO, CRÉDITO E
INVESTIMENTO (21.03.61)

Incorp. Fusão
03.04.75 BANCO BANCIAL DE 26.08.71
INVESTIMENTOS S.A. PARFISA S.A. CRÉDITO,
FINANCIAMENTO E
INVESTIMENTO
(19.05.65)

PARANACREDITO S.A.
FINANCIAMENTO, CRÉDITO E
BANCO BAMERINDUS DO BRASIL INVESTIMENTOS (02.08.65)
Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94
185

Ilustração 4-15: Bamerindus - Crédito Imobiliário

Incorp. Alt. Den. CREFISUL RIO S.A.


29.02.88 BAMERINDUS RIO CIA. DE 30.09.77 CRÉDITO IMOBILIÁRIO
CRÉDITO IMOBILIÁRIO
(22.08.67)

Incorp. Alt. Den.


BAMERINDUS S. PAULO CREFISUL SP S.A.
29.02.88 30.09.77
CIA. DE CRÉDITO CRÉDITO IMOBILIÁRIO
IMOBILIÁRIO (28.06.67)

Incorp. Alt. Den.


BAMERINDUS CENTRO- 30.04.79 SOMA CRÉDITO
BAMERINDUS S.A. 29.02.88 IMOBILIÁRIO S.A.
OESTE S.A. CRÉDITO
CRÉDITO IMOBILIÁRIO (16.01.78)
IMOBILIÁRIO
(29.01.69)

Incorp. Incorp. APEPAR-ASSOCIAÇÃO DE


28.04.89 19.06.86 POUPANÇA E
EMPRÉSTIMO
PARANAENSE (20.05.68)

BANCO BAMERINDUS DO BRASIL


Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94

Ilustração 4-16: Bamerindus – Seguradora

Incorp. Alt. Den. ATALAIA


1972 ATALAIA 29.03.52 CIA DE SEGUROS CONTRA
CIA DE SEGUROS
ACIDENTES DE TRABALHO
(24.10.38)

Incorp. Alt. Den.


1972 08.12.52 ATALAIA
PARANÁ
CIA DE SEGUROS GERAIS
CIA DE SEGUROS
(1939)

Incorp. OURO VERDE


BAMERINDUS 1972 CIA DE SEGUROS
CIA DE SEGUROS (Criado em 1955
Carta Patente 07.03.1956) CIA COMERCIAL DE SEGUROS
(07.04.1958)

Incorp.
1975 NOVA AMÉRICA CIA DE
GRUPO SEGURADOR
SEGUROS GERAIS
COMERCIAL
(1854)

UNIÃO DO COMÉRCIO E
INDÚSTRIA CIA DE SEGUROS
GERAIS.

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94
186

Ilustração 4-17: Bamerindus – Outros


Alt. Den. Alt. Den. Alt. Den.
CASA BANCÁRIA
06.10.74 BANCO FINANCIAL DE 30.03.51 CASA BANCÁRIA 19.06.41
BANCO FINANCIAL S.A. ALFREDO ZANLUTTI
MATO GROSSO S.A. FINANCIAL LTDA.
(31.01.38)

Incorp.
30.09.83
Incorp. Alt. Den.
BANCO NACIONAL DO CASA BANCÁRIA
31.10.74 10.09.36 CONDE E ALMEIDA
COMÉRCIO DE SÃO
PAULO S.A. (10.09.36)

Cisão Parcial Incorp.


30.11.88 BANCO F. BARRETTO OLIMAR S.A.
31.10.74 MERCANTIL E
S.A. (04.02.49)
AGRÍCOLA (22.04.60)

Incorp.
17.04.75 TABAJARA S.A.
ADMINISTRAÇÃO E
EMPREENDIMENTOS

Alt. Den.
Incorp. Incorp.
09.08.54 CASA BANCÁRIA
07.08.84 PABREU UNIÃO 07.08.84
BANCO DAS NAÇÕES S.A. TOCANTINS S.A.
EMPRESARIAL S.A.
(05.02.47)

Incorp.
28.02.74 BANCO DE CRÉDITO
ARIJU S.A. COMÉRCIO E
TERRITORIAL S.A
INDÚSTRIA
(08.11.28)

Incorp.
28.02.74

BANCO BAMERINDUS DO BRASIL


Sociedade Anônima

Fonte: Posição Acionária em 19.01.98 - BPE - Administração Societária Nível de Qualidade 04/05 Atualizado: 24/10/94

Nota: Não foi possível verificar se a empresa Tabajara é a mesma empresa Tabajara S.A. Crédito Imobiliário que em 20 de
junho de 1975 sofreu intervenção do Bacen.
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Muitas destas operaçõe