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"...

a vida não lhe trouxera nenhum proveito, nenhum gozo,


fora desperdiçada inteiramente, já não tinha nada pela
frente e, quando olhava para o passado, não via nada além
de prejuízos, e tais, que até sentia calafrios. Por que uma
pessoa não consegue viver de um modo que exclua a
possibilidade dessas perdas, desses prejuízos? Por que
cortaram o bosque de bétulas e o pinhal? Por que não
plantavam nada no pasto? Por que as pessoas sempre
fazem exatamente aquilo que não é necessário? Por que
Iákov a vida inteiramente injuriara, gritara, arrojara-se de
punhos cerrados, ofendera a esposa, e- por fim- que
necessidade tivera pouco antes de insultar e pôr a correr
aquele judeu? Por que, de modo geral, as pessoas dificultam
a vida uma das outras? Pois que prejuízos isso gera! Que
imensos prejuízos! Se não existissem o ódio e a maldade, a
vida de cada um seria de imenso proveito para os outros."
Anton Tchekhov

O Violino de Rothschild
ePub r1.0
I.S. 01.02.2020
Título original: Скрипка Ротшильда
Anton Tchekhov, 1894
Tradução: Noé Silva
 
Editor digital: I.S.
ePub base r1.0
O Violino de Rothschild

A cidade era pequena, pior que aldeia, e habitada quase só


por velhos que morriam tão raro que isso até causava
desgosto. Poucas eram também as encomendas de caixão
do hospital e da cadeia. Em suma, os negócios iam
pessimamente. Se Iákov Ivanov exercesse seu ofício em
uma capital de província, por certo teria casa própria e seria
chamado por Iákov Matviêitch; na cidadezinha tratavam-no
apenas por Iákov ou, por alguma razão, Bronze, o seu apodo
de rua; vivia tão pobremente como um simples mujique, em
uma pequena e velha isbá de um só compartimento, com
Marfa, o forno, a cama de casal, os caixões, o banco de
carpinteiro e todos os utensílios domésticos.
Iákov fabricava ataúdes bons, resistentes. Para mujiques
ou burgueses baseava-se no seu próprio tamanho, e nisso
nunca tivera dissabores, pois, embora já contasse setenta
anos, em nenhum lugar, inclusive na cadeia, havia alguém
mais alto e robusto que ele. Para nobres e mulheres, fazia
os caixões sob medida, tirada com uma régua de ferro.
Recebia as encomendas de barquinha de muito mau grado,
aprontando-as sem medir as crianças, com desprezo, e ao
receber o pagamento, dizia sempre:
― Para ser franco, não gosto de perder tempo com tais
ninharias.
Conseguia um pequeno rendimento adicional com o seu
violino. Nas festas de casamento da cidade, era presença
quase obrigatória da orquestra de judeus, dirigida pelo
estanhador Moissiêi Ilitch Cháckhkies, que ficava com mais
da metade da renda. Como Iákov tocava muito bem,
principalmente canções russas, às vezes Cháckhkies
convidava-o a juntar-se a eles, por cinquenta copeques por
dia, fora as gorjetas dos convidados. Quando Bronze se
sentava na orquestra, seu rosto logo se avermelhava e
começava a suar; em meio ao calor e ao cheiro sufocante
de alho o violino rangia, enquanto na sua orelha direita
rouquejava o contrabaixo e na esquerda plangia a flauta de
um judeu ruivo e magricela, com uma verdadeira rede de
veias rubras e azuis no rosto e o sobrenome do conhecido
milionário: Rothschild. E esse maldito judeu dava um jeito
de tocar até a música mais alegre em tom queixoso. Sem
qualquer razão aparente, pouco a pouco Iákov foi tomando
ódio e desprezo pelos judeus e, em particular, por
Rothschild; começou a implicar com ele, a xingá-lo e, certa
vez, até quis bater-lhe; Rothschild ofendeu-se e disse,
encarando-o com ferocidade:
― Se não o respeitasse pelo seu talento, há muito já o
teria atirado pela janela.
Dito isso, começou a chorar. Assim, Bronze era convidado
apenas às vezes, nos casos de extrema necessidade,
quando faltava um dos judeus.
Iákov nunca estava de bom humor, pois sofria
constantemente de imensos prejuízos. Por exemplo, aos
domingos e feriados era proibido trabalhar; segunda-feira
era dia de aziago, e desse modo, em um ano contavam-se
uns duzentos dias que ele, a contragosto, precisava passar
de braços cruzados. Que prejuízo não tinha com isso! O
simples fato de alguém realizar uma boda sem música ou
de Cháckhkies não convidar Iákov também significava
prejuízo. Durante dois anos o inspetor de polícia esteve
doente, definhando, e Iákov esperou impaciente pela sua
morte, mas ele foi tratar-se na capital da província e morreu
lá. Isso representou um prejuízo de uns dez rublos no
mínimo, pois a encomenda haveria sido de um caixão caro,
com brocado. Era à noite principalmente que a ideia dos
prejuízos atormentava Iákov; ele deitava o violino ao seu
lado no leito e, pensando em uma infinidade de tolices,
tocava-lhe as cordas; o instrumento soava no escuro,
trazendo-lhe certo conforto.
Em seis de maio do ano passado repentinamente Marfa
ficou doente. A velha ofegava, bebia muita água e
cambaleava mas, apesar de tudo, de manhã acendeu o
forno e foi buscar água. À tarde, porém, arriou-se no leito.
Iákov tocou violino o dia inteiro; ao cair da noite pegou o
livro em que diariamente assentava os seus prejuízos; de
tédio, pôs-se a fazer o balanço do ano. Resultado: os
prejuízos ultrapassavam mil rublos. Isso deixou-o tão
acabrunhado que ele lançou o ábaco ao chão e pisoteou-o.
Depois, pegou-o novamente e realizou cálculos demorados,
com suspiros profundos e tensos. Seu rosto estava rubro e
molhado de suor. Ele pensava naqueles mil rublos perdidos,
calculando que, se estivessem no barco, só de juros
renderiam quarenta rublos por ano, no mínimo. Portanto
esses quarenta rublos também são prejuízos. Em suma, era
prejuízo por todo lado.
― Iákov! ― chamou-o Marfa inesperadamente. ― Eu
estou morrendo!
Ele voltou-se para a esposa. Seu rosto róseo de febre
estava extraordinariamente límpido e feliz. Bronze,
acostumado a vê-la sempre pálida, temerosa e triste, ficou
desconcertado. Parecia que a mulher estava mesmo a
morrer, e contente por enfim ir-se para sempre daquela
isbá, dos caixões, de Iákov... Ela olhava para o teto e movia
os lábios com o semblante feliz, como se visse a morte, sua
redentora, e cochichasse com ela.
Já raiava o dia, e o crepúsculo resplandecia pela janela.
Enquanto olhava para a velha, Iákov por alguma razão
lembrou-se de que provavelmente jamais lhe fizera um
carinho ou se compadecera dela, nunca tivera o impulso de
comprar-lhe um lencinho que fosse ou de trazer-lhe uma
guloseima de alguma festa, mas apenas lhe falava aos
gritos, injuriava-a pelos prejuízos e arrojava-se a ela de
punhos cerrados; nunca lhe batera, é verdade, mas, apesar
de tudo, assustava-a, e ela todas as vezes ficava transida
de medo. Sim, ele a proibiu até mesmo de beber chá, pois já
sem isso os gastos eram grandes, e ela bebia apenas água
quente. Iákov compreendeu então por que Marfa tinha
aquele rosto tão estranho, tão feliz, e encheu-se de um
pavor gélido.
Esperou o amanhecer, depois pediu um cavalo
emprestado a um vizinho e levou Marfa ao hospital. Ali
encontrou pouca gente na fila e assim não teve de esperar
muito, só umas três horas. Para sua imensa satisfação
seriam atendidos não pelo médico, doente, e sim pelo
enfermeiro Maxim Nikolaitch, um velho que, embora ébrio e
brigão, para o povo da cidade entendia mais das coisas que
seu superior.
― Desejamos-lhe saúde ― disse Iákov, introduzindo a
velha no consultório. ― Perdão, Maxim Nikolaitch, sempre o
incomodamos com alguma coisinha de nada. Como pode
ver, a minha mulherzinha ficou doente. A companheira de
minha vida, como se diz, com o perdão da expressão...
De cenho encrespado, cofiando as suíças, o enfermeiro
pôs-se a examinar a velha, arqueada no banco; magra, com
o seu nariz pontudo e a boca aberta, lembrava de perfil uma
ave com sede.
― Hum... Pois é... ― disse o enfermeiro devagar e
suspirou. ― Gripe ou, quem sabe, febre tifoide. Há um
andaço de tifo na cidade. Que posso dizer? A velhinha viveu
a sua vida, com a graça de Deus... Quantos anos tem?
― Vai fazer setenta no ano que vem, Maxim Nikolaitch.
― Pois então? A velhinha viveu a sua vida. Agora chegou
a sua hora.
― Muito bem, o senhor está certo, Maxim Nikolaitch ―
disse-lhe Iákov por delicadeza ―, e nós lhe somos
imensamente gratos pela gentileza, mas permita-me dizer-
lhe: até um inseto deseja viver.
― É claro, é claro ― disse o enfermeiro com um tom tal
que dava a impressão de que a vida e a morte da velha
dependiam dele. ― Pois bem, meu caro, tu lhe aplicarás
uma compressa fria e darás estes polvilhos duas vezes ao
dia. E agora, até logo, bonjour.
Pela expressão do seu rosto, Iákov viu que o caso era
grave e que polvilho algum ajudaria; compreendeu que
Marfa morreria logo, de uma hora para outra. Tocou o
enfermeiro levemente pelo cotovelo, piscou-lhe um olho e
disse a meia voz:
― Aplique-lhe ventosas, Maxim Nikolaitch.
― Não tenho tempo, não tenho tempo, meu caro. Pega a
tua cara-metade e vai-te com Deus. Até à vista.
― Faça essa grande caridade ― implorou Iákov. ― O
senhor próprio sabe que se fosse, digamos, alguma dor na
barriga ou no peito, então aí sim, polvilhos e gotas, mas ela
está constipada! E, em caso de constipação, primeiro se faz
uma sangria, Maxim Nikolaitch.
Mas o enfermeiro já chamara o próximo, e no consultório
entrou uma camponesa com um menino.
― Vai-te, vai-te... ― disse ele a Iákov, encrespando o
sobrolho. ― Não tens por que vir com caraminholas.
― Nesse caso, aplique-lhe então pelo menos
sanguessugas! Eu lhe serei grato até o fim da vida!
O enfermeiro irritou-se e gritou:
― Cala essa boca! C-cabeça-dura...
Iákov também se irritou e ficou todo vermelho, porém
não disse uma palavra; segurou Marfa pelo braço e levou-a
embora. Da carroça olhou para o hospital com raiva e
desprezo, e disse:
― Belas figuras, hem? Em um rico por certo ele haveria
aplicado ventosas, mas teve dó de gastar sanguessugas em
um pobre. Carrascos!
Ao entrar em casa, Marfa ficou de pé uns dez minutos,
amparada no forno. Achava que, se deitasse, Iákov
começaria a falar dos prejuízos e a bradar que ela passava o
tempo todo deitada e não queria trabalhar. Enquanto isso,
Iákov olhava-a com desgosto e lembrava-se de que o dia
seguinte seria de João, o Teólogo, e o outro, de Nicolau, o
Milagroso; em seguida viria um domingo, e depois uma
segunda-feira, dia aziago. Durante quatro dias não poderia
trabalhar e Marfa provavelmente morreria em um deles;
assim, tinha de fazer o caixão ainda naquele dia. Ele tomou
a régua de ferro, acercou-se da velha e mediu-a.
Depois ela deitou-se; ele benzeu-se e iniciou o trabalho.
Quando o caixão ficou pronto, Bronze pôs os óculos e
assentou no livro:
“Marfa Ivánovna, um caixão ― dois rublos e quarenta
copeques. ”
E suspirou. A valha jazia o tempo todo em silêncio, os
olhos fechados. Porém, quando caiu a noite, ela de repente
chamou o marido.
― Tu te lembras, Iákov? ― perguntou, olhando-o feliz. ―
Tu te lembras, cinquenta anos atrás Deus concedeu-nos
uma menininha loira. Nós dois então passávamos muito
tempo à margem do rio e cantávamos... Debaixo de um
salgueiro. ― E após um sorriso de amargura, acrescentou:
― Pois nossa menina morreu.
Iákov forçou a memória mas não conseguiu lembrar-se
nem da criança nem da árvore:
― Estás delirando ― respondeu-lhe.
Depois veio o sacerdote para dar-lhe a comunhão e os
santos óleos. Mais tarde Marfa começou a balbuciar coisas
ininteligíveis e pouco antes do amanhecer expirou.
As velhas da vizinhança banharam-na, vestiram-na e
colocaram no caixão.
Depois veio o sacerdote para dar-lhe a comunhão e os
santos óleos. Mais tarde Marfa começou a balbuciar coisas
ininteligíveis e pouco antes do amanhecer expirou.
As velhas da vizinhança banharam-na, vestiram-na e a
colocaram no caixão. Iákov, para não ter despesas com o
sacristão, leu ele próprio o Livro dos Salmos; a sepultura
saiu-lhe de graça, pois o vigia do cemitério era seu
compadre. Quatro homens carregaram o caixão até a cova,
não por dinheiro, apenas por respeito. Velhas, mendigos e
dois iuródivie* formavam o préstito fúnebre, à cuja
passagem as pessoas persignavam-se piedosamente... E
Iákov ficou muito satisfeito por tudo haver saído tão digno,
decente e barato, a contento de todos. Ao despedir-se de
Mafra, ele tocou o ataúde e pensou: "Bom trabalho!"
Porém, no retorno do campo-santo foi tomado por
profunda amargura. Sentiu-se indisposto: tinha a respiração
febril e difícil, as pernas bambas e muita sede. Ainda por
cima, vinham-lhe aqueles pensamentos todos. Recordou-se
novamente de que em sua vida inteira jamais se
compadecera de Marfa, nem lhe fizera um carinho sequer.
Aqueles cinquenta e dois anos passados por eles sob o
mesmo teto arrastaram-se, esticaram-se no seu decurso,
luas ele nem uma única vez pensou nela ou prestou-lhe
atenção, como se ela fosse um cão ou um gato. Ela, que
todos os dias acendia o forno, fazia comida, ia buscar água,
rachava lenha, dormia ao seu lado e, quando ele voltava
bêbado das festas, pendurava o violino à parede sempre
com veneração e punha a ele na cama; e tudo isso sem
dizer nada, tímida e solícita.
Rothschild vinha agora ao encontro de Iákov, com
sorrisos e reverências.
― Pois eu o procurava, titio! disse. Moissiêi Ilitch manda-
lhe saudações e pede que vá vê-lo agora mesmo.
Iákov não queria saber de nada. Sentia vontade de
chorar.
― Deixa-me em paz! ― disse, e prosseguiu o caminho.
― Mas como é que pode? inquietou-se Rothschild,
cortando-lhe a frente. -- Moissiêi Ilitch se ofenderá. Ele o
chama agora mesmo!
Iákov achou repugnante que o judeu arquejasse, piscasse
os olhos e tivesse tantas sardas ruivas. Olhava com asco o
seu casaco verde com remendos escuros e toda a sua figura
frágil e magricela.
― Por que me aborreces, cheiro de alho? ― gritou Iákov.
― Deixa-me em paz! O judeu zangou-se e também gritou:
― Por favor, mais baixo, senão o senhor voará por cima
daquela cerca!
― Some da minha frente! ― pôs-se Iákov a gritar e
arrojou-se a ele, de punhos cerrados. ― Esses porcos não
dão sossego a ninguém.
Rothschild ficou aterrorizado, agachou-se e começou a
brandir as mãos sobre a cabeça, como se estivesse
defendendo-se de golpes; depois, ergueu-se de um pulo e
pôs-se a correr. Na carreira ele saltava, levantava os braços,
e era possível ver os tremidos do seu tórax comprido e
magro. Alguns meninos alegraram-se do ensejo e atiraram-
se no seu encalço, gritando: "Judeu! Judeu!" Cães seguiram-
nos, ladrando. Alguém deu uma gargalhada, assobiou, e
eles pegaram a latir mais alto e mais em uníssono... Por
certo, um deles mordera Rothschild, porque se ouviu, em
seguida, um grito lancinante, desesperado.
Iákov vagou pelo pasto, caminhou pela raia da cidade a
esmo, e os meninos gritavam: "Lá vem o Bronze! Lá vem o
Bronze!" Chegou por fim ao rio. Velozes frangos-d ‘água
piando chapinhavam a superfície; patos grasnavam. O sol
queimava e a tremulina na água era tal que até molestava
os olhos. Iákov seguiu por uma vereda ao longo da margem
e viu uma mulher gorda e rubicunda à saída de uma casa de
banhos; pensou: "Puah, que lontra!" Não longe dela, alguns
meninos apanhavam caranguejos para os petiscos; assim
que o avistaram começaram a gritar com maldade: "Bronze!
Bronze!" Mais adiante viu um velho salgueiro copado e com
uma grande caverna no tronco e ninhos de corvo entre os
galhos... Então de repente veio viva à lembrança de Iákov a
criancinha loira e também a árvore de que Marfa falara.
Sim, aquele era o tal salgueiro ― verdejante, silencioso,
triste... Como envelheceu, o pobre!
Sentou-se à sua sombra e mergulhou nas recordações.
Na outra margem, prado que as águas da cheia
costumavam inundar, houvera em outros tempos um vasto
bosque de bétulas, e sobre a colina nua do horizonte então
azulejava um pinhal velho e revelho. Pelo rio, circulavam
barcas. Agora estava deserto; na outra margem erguia-se
uma única bétula, novinha e esbelta como uma moça,
enquanto no rio havia tão somente patos e gansos e nem
parecia que um dia ele fora singrado por barcas. A
impressão era de que, comparado com antes, havia até
menos gansos. Iákov cerrou os olhos; bandos imensos deles,
voando um de encontro a outro, branquejaram na sua
imaginação.
Ele estava perplexo: como é que não fora uma vez
sequer ao rio naqueles quarenta, cinquenta anos, e, se
alguma vez ali estivera, como pôde não haver-lhe prestado
atenção? Pois aquele era um rio considerável, nada
desprezível; poderia pescar ali regularmente, vender o
pescado a comerciantes, funcionários públicos e ao copeiro
da estação e depois depositar o dinheiro no banco; assim
como tocar violino em algum barco que navegasse de uma
herdade a outra, e os passageiros de todas as camadas
pagariam pela música; outra possibilidade era pôr de novo
barcas no rio, coisa melhor que fazer caixões; por fim,
poderia criar gansos, abatê-los e, no inverno, enviá-los para
Moscou; só com a penugem, certamente ganharia uns dez
Rublos por ano. Mas ele deixara escapar a oportunidade,
não fizera nada daquilo. Que prejuízo! Ah, que prejuízo! E,
se pescasse, tocasse violino e criasse gansos, tudo junto,
que capital não teria juntado! Aquilo porém não acontecera
nem em sonhos; a vida não lhe trouxera nenhum proveito,
nenhum gozo, fora desperdiçada inteiramente; já não tinha
nada pela frente e, quando olhava para o passado, não via
nada além de prejuízos, e tais, que até sentia calafrios. Por
que uma pessoa não consegue viver de um modo que
exclua a possibilidade dessas perdas, desses prejuízos? Por
que cortaram o bosque de bétulas e o pinhal? Por que não
plantavam nada no pasto? por que as pessoas sempre
fazem exatamente aquilo que não é necessário? Por que
Iákov a vida inteira injuriara, gritara, arrojara-se de punhos
cerrados, ofendera a esposa, e ― por fim ― que
necessidade tivera pouco antes de insultar e pôr a correr
aquele judeu? Por que, de modo geral, as pessoas dificultam
a vida uma das outras? Pois que prejuízos isso gera! Que
imensos prejuízos! Se não existissem o ódio e a maldade, a
vida de cada um seria de imenso proveito para os outros.
À tardinha e à noite, parecia-lhe ver uma criancinha, um
salgueiro, peixes, gansos abatidos, Marfa com o seu perfil
de ave sedenta, o rosto pálido e lastimoso de Rothschild e
algumas caras, que vinham de todas as direções e
resmungavam algo sobre prejuízos. Virou-se e revirou-se no
leito, levantando-se umas cinco vezes para tocar violino.
De manhã, ergueu-se a custo e foi ao hospital. O mesmo
Maxim Nikolaitch ordenou-lhe aplicar compressas frias à
cabeça, deu-lhe alguns polvilhos; pela expressão do rosto e
por seu tom, Iákov compreendeu que o caso era grave e
que polvilho nenhum o ajudaria. A caminho de casa, achou
que a morte só lhe traria proveito: não é preciso comer,
beber, pagar impostos, nem ofender a ninguém, e, como as
pessoas passam na sepultura não um ano, mas centenas,
milhares, no fim das contas, o proveito é enorme. Portanto,
para as pessoas a vida representa um prejuízo e a morte ―
um proveito. Esse raciocínio, sem dúvida é justo, mas ainda
assim, não deixa de causar lástima e amargura a estranha
organização do mundo, pela qual da vida, dada a nós uma
única vez, não se logra nenhum proveito. Iákov não sentia
pena de morrer, mas ao ver o violino em casa foi invadido
por um aperto no coração. Não Podia levar o violino consigo
para a sepultura; ele ficaria abandonado e teria o mesmo
fim do bosque de bétulas e do pinhal. Tudo se acaba neste
mundo! Iákov saiu da isbá e sentou-se ao pé da porta,
apertando o violino ao peito. Pensou na sua vida tão cheia
de perdas, começou a tocar sem saber o quê; era uma
música lamentosa e comovente, e as lágrimas lhe corriam
pelas faces. E quanto mais fundo ele pensava, tanto mais
triste soava o violino.
O ferrolho do portão rangeu e surgiu Rothschild.
Percorreu metade do terreiro com passo decidido, mas ao
ver Iákov estacou, encolheu-se todo e, provavelmente de
medo, pôs-se a fazer-lhe alguns sinais com os dedos, como
se quisesse indicar-lhe as horas.
― Aproxima-te, não temas ― disse Iákov amavelmente,
acenando-lhe. ― Aproxima-te.
Olhando com desconfiança e medo, Rothschild foi
chegando e deteve-se a poucos passos dele.
― Mas, por favor, não me bata! ― disse ele, acocorando-
se. ― Foi Moissiêi Ilitch de novo. Mandou não ter medo e vir
dizer que não podemos ir sem o senhor. Quarta-feira, um
casamento... Sim! Da filha do senhor Chapoválov com uma
pessoa muito boa. Festa pomposa, u-u! — acrescentou o
judeu e entrefechou um olho.
― Não posso ir... disse Iákov, respirando com dificuldade.
― Estou muito doente, irmão.
Recomeçou a tocar; suas lágrimas caíram sobre o violino.
Rothschild deixou-se ficar a escutá-lo atentamente,
sentado de perfil para ele, com os braços cruzados sobre o
peito. A expressão temerosa e atónita do seu rosto aos
poucos tornou-se triste e dorida; ele revirou os olhos, como
se experimentasse um enlevo pungente, e disse: "A-a-a-
h!..." Pelas suas faces correram lágrimas, goteando na
sobrecasaca verde.
Depois Iákov deitou-se e passou o dia todo no leito,
amargurado. À noite, quando o pope, confessando-o,
perguntou-lhe se desejava desobrigar-se de algum pecado
mais grave, ele, num esforço da sua obscurecente memória,
recordou novamente o rosto infeliz de Marfa e o grito
desesperado do judeu mordido pelo cão, e disse num
murmúrio quase inaudível:
― Dê o violino a Rothschild.
― Muito bem respondeu o padre.
E agora, todos na cidadezinha perguntam: onde
Rothschild conseguiu um violino tão bom? Tê-lo-ia adquirido
ou roubado? Ou, quem sabe, tomado como penhor?
Abandonou há muito a flauta e agora tange só o violino.
Com o arco tira-lhe sons tão lamentosos como da flauta
antigamente, e quando, ao pé da porta, tenta repetir a
música tocada por Iákov, consegue algo tão triste e cheio de
mágoa, que os ouvintes choram; ele próprio, nas notas
finais revira os olhos e diz: "A-a-a-h...” Essa nova melodia
caiu tão ao gosto da cidade, que comerciantes e
funcionários públicos disputam aos gritos a honra de ter
Rothschild em casa, e lá obrigam-no a executá-la umas dez
vezes seguidas.

1894
O VIOLINO DE ROTHSCHILD

Tchekhov (tradução de Noé Silva)

A cidade era pequena, pior que aldeia, e habitada quase só


por velhos que morriam tão raro que isso até causava
desgosto. Poucas eram também as encomendas de caixão
do hospital e da cadeia. Em suma, os negócios iam
pessimamente. Se Iákov Ivanov exercesse seu ofício em
uma capital de província, por certo teria casa própria e seria
chamado por Iákov Matviêitch; na cidadezinha tratavam-no
apenas por Iákov ou, por alguma razão, Bronze, o seu apodo
de rua; vivia tão pobremente como um simples mujique, em
uma pequena e velha isbá de um só compartimento, com
Marfa, o forno, a cama de casal, os caixões, o banco de
carpinteiro e todos os utensílios domésticos.

Iákov fabricava ataúdes bons, resistentes. Para mujiques ou


burgueses baseava-se no seu próprio tamanho, e nisso
nunca tivera dissabores, pois, embora já contasse setenta
anos, em nenhum lugar, inclusive na cadeia, havia alguém
mais alto e robusto que ele. Para nobres e mulheres, fazia
os caixões sob medida, tirada com uma régua de ferro.
Recebia as encomendas de barquinha de muito mau grado,
aprontando-as sem medir as crianças, com desprezo, e ao
receber o pagamento, dizia sempre:

― Para ser franco, não gosto de perder tempo com tais


ninharias.

Conseguia um pequeno rendimento adicional com o seu


violino. Nas festas de casamento da cidade, era presença
quase obrigatória da orquestra de judeus, dirigida pelo
estanhador Moissiêi Ilitch Cháckhkies, que ficava com mais
da metade da renda. Como Iákov tocava muito bem,
principalmente canções russas, às vezes Cháckhkies
convidava-o a juntar-se a eles, por cinquenta copeques por
dia, fora as gorjetas dos convidados. Quando Bronze se
sentava na orquestra, seu rosto logo se avermelhava e
começava a suar; em meio ao calor e ao cheiro sufocante
de alho o violino rangia, enquanto na sua orelha direita
rouquejava o contrabaixo e na esquerda plangia a flauta de
um judeu ruivo e magricela, com uma verdadeira rede de
veias rubras e azuis no rosto e o sobrenome do conhecido
milionário: Rothschild. E esse maldito judeu dava um jeito
de tocar até a música mais alegre em tom queixoso. Sem
qualquer razão aparente, pouco a pouco Iákov foi tomando
ódio e desprezo pelos judeus e, em particular, por
Rothschild; começou a implicar com ele, a xingá-lo e, certa
vez, até quis bater-lhe; Rothschild ofendeu-se e disse,
encarando-o com ferocidade:

― Se não o respeitasse pelo seu talento, há muito já o teria


atirado pela janela.

Dito isso, começou a chorar. Assim, Bronze era convidado


apenas às vezes, nos casos de extrema necessidade,
quando faltava um dos judeus.

Iákov nunca estava de bom humor, pois sofria


constantemente de imensos prejuízos. Por exemplo, aos
domingos e feriados era proibido trabalhar; segunda-feira
era dia de aziago, e desse modo, em um ano contavam-se
uns duzentos dias que ele, a contragosto, precisava passar
de braços cruzados. Que prejuízo não tinha com isso! O
simples fato de alguém realizar uma boda sem música ou
de Cháckhkies não convidar Iákov também significava
prejuízo. Durante dois anos o inspetor de polícia esteve
doente, definhando, e Iákov esperou impaciente pela sua
morte, mas ele foi tratar-se na capital da província e morreu
lá. Isso representou um prejuízo de uns dez rublos no
mínimo, pois a encomenda haveria sido de um caixão caro,
com brocado. Era à noite principalmente que a ideia dos
prejuízos atormentava Iákov; ele deitava o violino ao seu
lado no leito e, pensando em uma infinidade de tolices,
tocava-lhe as cordas; o instrumento soava no escuro,
trazendo-lhe certo conforto.

Em seis de maio do ano passado repentinamente Marfa


ficou doente. A velha ofegava, bebia muita água e
cambaleava mas, apesar de tudo, de manhã acendeu o
forno e foi buscar água. À tarde, porém, arriou-se no leito.
Iákov tocou violino o dia inteiro; ao cair da noite pegou o
livro em que diariamente assentava os seus prejuízos; de
tédio, pôs-se a fazer o balanço do ano. Resultado: os
prejuízos ultrapassavam mil rublos. Isso deixou-o tão
acabrunhado que ele lançou o ábaco ao chão e pisoteou-o.
Depois, pegou-o novamente e realizou cálculos demorados,
com suspiros profundos e tensos. Seu rosto estava rubro e
molhado de suor. Ele pensava naqueles mil rublos perdidos,
calculando que, se estivessem no barco, só de juros
renderiam quarenta rublos por ano, no mínimo. Portanto
esses quarenta rublos também são prejuízos. Em suma, era
prejuízo por todo lado.

― Iákov! ― chamou-o Marfa inesperadamente. ― Eu estou


morrendo!

Ele voltou-se para a esposa. Seu rosto róseo de febre estava


extraordinariamente límpido e feliz. Bronze, acostumado a
vê-la sempre pálida, temerosa e triste, ficou desconcertado.
Parecia que a mulher estava mesmo a morrer, e contente
por enfim ir-se para sempre daquela isbá, dos caixões, de
Iákov... Ela olhava para o teto e movia os lábios com o
semblante feliz, como se visse a morte, sua redentora, e
cochichasse com ela.

Já raiava o dia, e o crepúsculo resplandecia pela janela.

Enquanto olhava para a velha, Iákov por alguma razão


lembrou-se de que provavelmente jamais lhe fizera um
carinho ou se compadecera dela, nunca tivera o impulso de
comprar-lhe um lencinho que fosse ou de trazer-lhe uma
guloseima de alguma festa, mas apenas lhe falava aos
gritos, injuriava-a pelos prejuízos e arrojava-se a ela de
punhos cerrados; nunca lhe batera, é verdade, mas, apesar
de tudo, assustava-a, e ela todas as vezes ficava transida
de medo. Sim, ele a proibiu até mesmo de beber chá, pois já
sem isso os gastos eram grandes, e ela bebia apenas água
quente. Iákov compreendeu então por que Marfa tinha
aquele rosto tão estranho, tão feliz, e encheu-se de um
pavor gélido.

Esperou o amanhecer, depois pediu um cavalo emprestado


a um vizinho e levou Marfa ao hospital. Ali encontrou pouca
gente na fila e assim não teve de esperar muito, só umas
três horas. Para sua imensa satisfação seriam atendidos não
pelo médico, doente, e sim pelo enfermeiro Maxim
Nikolaitch, um velho que, embora ébrio e brigão, para o
povo da cidade entendia mais das coisas que seu superior.
― Desejamos-lhe saúde ― disse Iákov, introduzindo a velha
no consultório. ― Perdão, Maxim Nikolaitch, sempre o
incomodamos com alguma coisinha de nada. Como pode
ver, a minha mulherzinha ficou doente. A companheira de
minha vida, como se diz, com o perdão da expressão...

De cenho encrespado, cofiando as suíças, o enfermeiro pôs-


se a examinar a velha, arqueada no banco; magra, com o
seu nariz pontudo e a boca aberta, lembrava de perfil uma
ave com sede.

― Hum... Pois é... ― disse o enfermeiro devagar e suspirou.


― Gripe ou, quem sabe, febre tifoide. Há um andaço de tifo
na cidade. Que posso dizer? A velhinha viveu a sua vida,
com a graça de Deus... Quantos anos tem?

• Vai fazer setenta no ano que vem, Maxim Nikolaitch.

• Pois então? A velhinha viveu a sua vida. Agora chegou a


sua hora.

• Muito bem, o senhor está certo, Maxim Nikolaitch ― disse-


lhe Iákov por delicadeza ―, e nós lhe somos imensamente
gratos pela gentileza, mas permita-me dizer-lhe: até um
inseto deseja viver.
• É claro, é claro ― disse o enfermeiro com um tom tal que
dava a impressão de que a vida e a morte da velha
dependiam dele. ― Pois bem, meu caro, tu lhe aplicarás
uma compressa fria e darás estes polvilhos duas vezes ao
dia. E agora, até logo, bonjour.

Pela expressão do seu rosto, Iákov viu que o caso era grave
e que polvilho algum ajudaria; compreendeu que Marfa
morreria logo, de uma hora para outra. Tocou o enfermeiro
levemente pelo cotovelo, piscou-lhe um olho e disse a meia
voz:

• Aplique-lhe ventosas, Maxim Nikolaitch.

• Não tenho tempo, não tenho tempo, meu caro. Pega a tua
cara-metade e vai-te com Deus. Até à vista.

• Faça essa grande caridade ― implorou Iákov. ― O senhor


próprio sabe que

se fosse, digamos, alguma dor na barriga ou no peito, então


aí sim, polvilhos e gotas, mas ela está constipada! E, em
caso de constipação, primeiro se faz uma sangria, Maxim
Nikolaitch.
Mas o enfermeiro já chamara o próximo, e no consultório
entrou uma camponesa com um menino.

― Vai-te, vai-te... ― disse ele a Iákov, encrespando o


sobrolho. ― Não tens por que vir com caraminholas.

• Nesse caso, aplique-lhe então pelo menos sanguessugas!


Eu lhe serei grato até o fim da vida!

O enfermeiro irritou-se e gritou:

• Cala essa boca! C-cabeça-dura...

Iákov também se irritou e ficou todo vermelho, porém não


disse uma palavra; segurou Marfa pelo braço e levou-a
embora. Da carroça olhou para o hospital com raiva e
desprezo, e disse:

― Belas figuras, hem? Em um rico por certo ele haveria


aplicado ventosas, mas teve dó de gastar sanguessugas em
um pobre. Carrascos!

Ao entrar em casa, Marfa ficou de pé uns dez minutos,


amparada no forno. Achava que, se deitasse, Iákov
começaria a falar dos prejuízos e a bradar que ela passava o
tempo todo deitada e não queria trabalhar. Enquanto isso,
Iákov olhava-a com desgosto e lembrava-se de que o dia
seguinte seria de João, o Teólogo, e o outro, de Nicolau, o
Milagroso; em seguida viria um domingo, e depois uma
segunda-feira, dia aziago. Durante quatro dias não poderia
trabalhar e Marfa provavelmente morreria em um deles;
assim, tinha de fazer o caixão ainda naquele dia. Ele tomou
a régua de ferro, acercou-se da velha e mediu-a.

Depois ela deitou-se; ele benzeu-se e iniciou o trabalho.


Quando o caixão ficou pronto, Bronze pôs os óculos e
assentou no livro:

“Marfa Ivánovna, um caixão ― dois rublos e quarenta


copeques. ”

E suspirou. A valha jazia o tempo todo em silêncio, os olhos


fechados. Porém, quando caiu a noite, ela de repente
chamou o marido.

― Tu te lembras, Iákov? ― perguntou, olhando-o feliz. ― Tu


te lembras, cinquenta anos atrás Deus concedeu-nos uma
menininha loira. Nós dois então passávamos muito tempo à
margem do rio e cantávamos... Debaixo de um salgueiro. ―
E após um sorriso de amargura, acrescentou: ― Pois nossa
menina morreu.
Iákov forçou a memória mas não conseguiu lembrar-se nem
da criança nem da

árvore:

― Estás delirando ― respondeu-lhe.

Depois veio o sacerdote para dar-lhe a comunhão e os


santos óleos. Mais tarde Marfa começou a balbuciar coisas
ininteligíveis e pouco antes do amanhecer expirou.

As velhas da vizinhança banharam-na, vestiram-na e


colocaram no caixão.

Depois veio o sacerdote para dar-lhe a comunhão e os


santos óleos. Mais tarde Marfa começou a balbuciar coisas
ininteligíveis e pouco antes do amanhecer expirou.

As velhas da vizinhança banharam-na, vestiram-na e a


colocaram no caixão. Iákov, para não ter despesas com o
sacristão, leu ele próprio o Livro dos Salmos; a sepultura
saiu-lhe de graça, pois o vigia do cemitério era seu
compadre. Quatro homens carregaram o caixão até a cova,
não por dinheiro, apenas por respeito. Velhas, mendigos e
dois iuródivie* formavam o préstito fúnebre, à cuja
passagem as pessoas persignavam-se piedosamente... E
Iákov ficou muito satisfeito por tudo haver saído tão digno,
decente e barato, a contento de todos. Ao despedir-se de
Mafra, ele tocou o ataúde e pensou: "Bom trabalho!"

Porém, no retorno do campo-santo foi tomado por profunda


amargura. Sentiu-se indisposto: tinha a respiração febril e
difícil, as pernas bambas e muita sede. Ainda por cima,
vinham-lhe aqueles pensamentos todos. Recordou-se
novamente de que em sua vida inteira jamais se
compadecera de Marfa, nem lhe fizera um carinho sequer.
Aqueles cinquenta e dois anos passados por eles sob o
mesmo teto arrastaram-se, esticaram-se no seu decurso,
luas ele nem uma única vez pensou nela ou prestou-lhe
atenção, como se ela fosse um cão ou um gato. Ela, que
todos os dias acendia o forno, fazia comida, ia buscar água,
rachava lenha, dormia ao seu lado e, quando ele voltava
bêbado das festas, pendurava o violino à parede sempre
com veneração e punha a ele na cama; e tudo isso sem
dizer nada, tímida e solícita.

Rothschild vinha agora ao encontro de Iákov, com sorrisos e


reverências.

• Pois eu o procurava, titio! disse. Moissiêi Ilitch manda-lhe


saudações e pede que vá vê-lo agora mesmo.

Iákov não queria saber de nada. Sentia vontade de chorar.

• Deixa-me em paz! ― disse, e prosseguiu o caminho.


• Mas como é que pode? inquietou-se Rothschild, cortando-
lhe a frente. -- Moissiêi Ilitch se ofenderá. Ele o chama agora
mesmo!

Iákov achou repugnante que o judeu arquejasse, piscasse os


olhos e tivesse tantas sardas ruivas. Olhava com asco o seu
casaco verde com remendos escuros e toda a sua figura
frágil e magricela.

• Por que me aborreces, cheiro de alho? ― gritou Iákov. ―


Deixa-me em paz! O judeu zangou-se e também gritou:

• Por favor, mais baixo, senão o senhor voará por cima


daquela cerca!

• Some da minha frente! ― pôs-se Iákov a gritar e arrojou-


se a ele, de punhos cerrados. ― Esses porcos não dão
sossego a ninguém.

Rothschild ficou aterrorizado, agachou-se e começou a


brandir as mãos sobre a cabeça, como se estivesse
defendendo-se de golpes; depois, ergueu-se de um pulo e
pôs-se a correr. Na carreira ele saltava, levantava os braços,
e era possível ver os tremidos do seu tórax comprido e
magro. Alguns meninos alegraram-se do ensejo e atiraram-
se no seu encalço, gritando: "Judeu! Judeu!" Cães seguiram-
nos, ladrando. Alguém deu uma gargalhada, assobiou, e
eles pegaram a latir mais alto e mais em uníssono... Por
certo, um deles mordera Rothschild, porque se ouviu, em
seguida, um grito lancinante, desesperado.

Iákov vagou pelo pasto, caminhou pela raia da cidade a


esmo, e os meninos gritavam: "Lá vem o Bronze! Lá vem o
Bronze!" Chegou por fim ao rio. Velozes frangos-d ‘água
piando chapinhavam a superfície; patos grasnavam. O sol
queimava e a tremulina na água era tal que até molestava
os olhos. Iákov seguiu por uma vereda ao longo da margem
e viu uma mulher gorda e rubicunda à saída de uma casa de
banhos; pensou: "Puah, que lontra!" Não longe dela, alguns
meninos apanhavam caranguejos para os petiscos; assim
que o avistaram começaram a gritar com maldade: "Bronze!
Bronze!" Mais adiante viu um velho salgueiro copado e com
uma grande caverna no tronco e ninhos de corvo entre os
galhos... Então de repente veio viva à lembrança de Iákov a
criancinha loira e também a árvore de que Marfa falara.
Sim, aquele era o tal salgueiro ― verdejante, silencioso,
triste... Como envelheceu, o pobre!

Sentou-se à sua sombra e mergulhou nas recordações. Na


outra margem, prado que as águas da cheia costumavam
inundar, houvera em outros tempos um vasto bosque de
bétulas, e sobre a colina nua do horizonte então azulejava
um pinhal velho e revelho. Pelo rio, circulavam barcas.
Agora estava deserto; na outra margem erguia-se uma
única bétula, novinha e esbelta como uma moça, enquanto
no rio havia tão somente patos e gansos e nem parecia que
um dia ele fora singrado por barcas. A impressão era de
que, comparado com antes, havia até menos gansos. Iákov
cerrou os olhos; bandos imensos deles, voando um de
encontro a outro, branquejaram na sua imaginação.

Ele estava perplexo: como é que não fora uma vez sequer
ao rio naqueles quarenta, cinquenta anos, e, se alguma vez
ali estivera, como pôde não haver-lhe prestado atenção?
Pois aquele era um rio considerável, nada desprezível;
poderia pescar ali regularmente, vender o pescado a
comerciantes, funcionários públicos e ao copeiro da estação
e depois depositar o dinheiro no banco; assim como tocar
violino em algum barco que navegasse de uma herdade a
outra, e os passageiros de todas as camadas pagariam pela
música; outra possibilidade era pôr de novo barcas no rio,
coisa melhor que fazer caixões; por fim, poderia criar
gansos, abatê-los e, no inverno, enviá-los para Moscou; só
com a penugem, certamente ganharia uns dez Rublos por
ano. Mas ele deixara escapar a oportunidade, não fizera
nada daquilo. Que prejuízo! Ah, que prejuízo! E, se
pescasse, tocasse violino e criasse gansos, tudo junto, que
capital não teria juntado! Aquilo porém não acontecera nem
em sonhos; a vida não lhe trouxera nenhum proveito,
nenhum gozo, fora desperdiçada inteiramente; já não tinha
nada pela frente e, quando olhava para o passado, não via
nada além de prejuízos, e tais, que até sentia calafrios. Por
que uma pessoa não consegue viver de um modo que
exclua a possibilidade dessas perdas, desses prejuízos? Por
que cortaram o bosque de bétulas e o pinhal? Por que não
plantavam nada no pasto? por que as pessoas sempre
fazem exatamente aquilo que não é necessário? Por que
Iákov a vida inteira injuriara, gritara, arrojara-se de punhos
cerrados, ofendera a esposa, e ― por fim ― que
necessidade tivera pouco antes de insultar e pôr a correr
aquele judeu? Por que, de modo geral, as pessoas dificultam
a vida uma das outras? Pois que prejuízos isso gera! Que
imensos prejuízos! Se não existissem o ódio e a maldade, a
vida de cada um seria de imenso proveito para os outros.

• tardinha e à noite, parecia-lhe ver uma criancinha, um


salgueiro, peixes, gansos abatidos, Marfa com o seu perfil
de ave sedenta, o rosto pálido e lastimoso de Rothschild e
algumas caras, que vinham de todas as direções e
resmungavam algo sobre prejuízos. Virou-se e revirou-se no
leito, levantando-se umas cinco vezes para tocar violino.

De manhã, ergueu-se a custo e foi ao hospital. O mesmo


Maxim Nikolaitch ordenou-lhe aplicar compressas frias à
cabeça, deu-lhe alguns polvilhos; pela expressão do rosto e
por seu tom, Iákov compreendeu que o caso era grave e
que polvilho nenhum o ajudaria. A caminho de casa, achou
que a morte só lhe traria proveito: não é preciso comer,
beber, pagar impostos, nem ofender a ninguém, e, como as
pessoas passam na sepultura não um ano, mas centenas,
milhares, no fim das contas, o proveito é enorme. Portanto,
para as pessoas a vida representa um prejuízo e a morte ―
um proveito. Esse raciocínio, sem dúvida é justo, mas ainda
assim, não deixa de causar lástima e amargura a estranha
organização do mundo, pela qual da vida, dada a nós uma
única vez, não se logra nenhum proveito. Iákov não sentia
pena de morrer, mas ao ver o violino em casa foi invadido
por um aperto no coração. Não Podia levar o violino consigo
para a sepultura; ele ficaria abandonado e teria o mesmo
fim do bosque de bétulas e do pinhal. Tudo se acaba neste
mundo! Iákov saiu da isbá e sentou-se ao pé da porta,
apertando o violino ao peito. Pensou na sua vida tão cheia
de perdas, começou a tocar sem saber o quê; era uma
música lamentosa e comovente, e as lágrimas lhe corriam
pelas faces. E quanto mais fundo ele pensava, tanto mais
triste soava o violino.

O ferrolho do portão rangeu e surgiu Rothschild. Percorreu


metade do terreiro com passo decidido, mas ao ver Iákov
estacou, encolheu-se todo e, provavelmente de medo, pôs-
se a fazer-lhe alguns sinais com os dedos, como se quisesse
indicar-lhe as horas.

― Aproxima-te, não temas ― disse Iákov amavelmente,


acenando-lhe. ― Aproxima-te.

Olhando com desconfiança e medo, Rothschild foi chegando


e deteve-se a poucos passos dele.

― Mas, por favor, não me bata! ― disse ele, acocorando-se.


― Foi Moissiêi Ilitch de novo. Mandou não ter medo e vir
dizer que não podemos ir sem o senhor. Quarta-feira, um
casamento... Sim! Da filha do senhor Chapoválov com uma
pessoa muito boa. Festa pomposa, u-u! — acrescentou o
judeu e entrefechou um olho.

― Não posso ir... disse Iákov, respirando com dificuldade. ―


Estou muito doente, irmão.

Recomeçou a tocar; suas lágrimas caíram sobre o violino.


Rothschild deixou-se ficar a escutá-lo atentamente, sentado
de perfil para ele, com os braços cruzados sobre o peito. A
expressão temerosa e atónita do seu rosto aos poucos
tornou-se triste e dorida; ele revirou os olhos, como se
experimentasse um enlevo pungente, e disse: "A-a-a-h!..."
Pelas suas faces correram lágrimas, goteando na
sobrecasaca verde.

Depois Iákov deitou-se e passou o dia todo no leito,


amargurado. À noite, quando o pope, confessando-o,
perguntou-lhe se desejava desobrigar-se de algum pecado
mais grave, ele, num esforço da sua obscurecente memória,
recordou novamente o rosto infeliz de Marfa e o grito
desesperado do judeu mordido pelo cão, e disse num
murmúrio quase inaudível:

◦ Dê o violino a Rothschild.

◦ Muito bem respondeu o padre.

E agora, todos na cidadezinha perguntam: onde Rothschild


conseguiu um violino tão bom? Tê-lo-ia adquirido ou
roubado? Ou, quem sabe, tomado como penhor? Abandonou
há muito a flauta e agora tange só o violino. Com o arco
tira-lhe sons tão lamentosos como da flauta antigamente, e
quando, ao pé da porta, tenta repetir a música tocada por
Iákov, consegue algo tão triste e cheio de mágoa, que os
ouvintes choram; ele próprio, nas notas finais revira os
olhos e diz: "A-a-a-h...” Essa nova melodia caiu tão ao gosto
da cidade, que comerciantes e funcionários públicos
disputam aos gritos a honra de ter Rothschild em casa, e lá
obrigam-no a executá-la umas dez vezes seguidas.

1894
ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV (Tapanrog, Rússia, 1860 -
Hadenweilcr, Alemanha, 1904) Neto de camponeses,
recebeu uma formação escolar precária, na província. Para
prover às necessidades econômicas da família e custear os
seus estudos de Medicina, em Moscou, Tchekhov escreve
contos humorísticos e crônicas, que publica em jornais. Em
1884 é editada a sua primeira recolha de contos. Datam
também dessa altura as primeiras peças de teatro: Os
Malefícios do Tabaco (1886), Ivanov (1887, a mais
importante das obras deste período), O Urso (1888), O
Pedido de Casamento (1888) e O Casamento (1889). É com
a publicação de uma novela, Â lístepc (1888), que Tchekhov
vê consolidada a sua posição de escritor. Dos jornais
humorísticos em que colaborava, passa a escrever para
revistas literárias; e o conto, até então considerado gênero
menor na Rússia, assume nova importância. Em 1890 viaja
pela ilha de Sacalina, lugar de deportação dos condenados a
trabalhos forçados, e descreve-a num livro objetivo e
comovente (1893). Viaja pelo estrangeiro em 1891, e
compra uma propriedade nos arredores de Moscou.
Preocupado com a sorte dos camponeses, manda construir
escolas e estradas. Os anos de 1891 a 1897 são bastante
férteis para a sua obra: desta época data A Enfermaria nº 6,
uma das suas novelas mais notáveis. Toda a dramaturgia
tchekjhoviana é caracterizada por uma aversão aos
acontecimentos espectaculares ou "teatrais".
Entretanto, o encontro com a arte de Stanislavski e o Teatro
de Arte de Moscovo é decisivo para o desenvolvimento da
concepção cênica de Tchecov. A Gaivota (1896) fracassa
aquando da sua estreia em Moscou, que coincide com o
agravamento da tuberculose de que Tchekhov padecia há
anos. Passa o Inverno de 1897-1898 em Nice, e em 1899
compra uma propriedade em Yalta, na Crimeia. Só após o
seu casamento com Olga Knipper (1898), primeira atriz do
Teatro de Arte, de Stanislavski, têm início os seus triunfos
dramáticos. É nos últimos anos de vida que Tchecov escreve
as melhores peças da sua produção: O Tio Vânia (l 899), As
Três Irmãs (1901) e O Pomar das Cerejeiras, a sua obra-
prima (1904). Ao lado de Gogol e Gorki, Tchekhov é dos
maiores contistas da literatura russa. Debruçando-se
piedosamente sobre os diversos tipos sociais da época,
Anton Tchecov não revela nas suas obras quaisquer
tendências políticas ou religiosas, ao contrário de tantos
escritores russos. Não obstante a sua irreligiosidade,
confere às coisas mais insignificantes um conteúdo
densamente filosófico e uma tonalidade estranhamente
mística.