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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2021.0000604544

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº


1003438-44.2020.8.26.0704, da Comarca de São Paulo, em que é apelante BV
FINANCEIRA S/A - CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO, é apelado
DIOGO SALES PALMEIRA.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 15ª Câmara de Direito Privado


do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram parcial
provimento ao recurso, com determinação, de ofício. V.U.", de conformidade com o
voto do relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores ACHILE ALESINA


(Presidente sem voto), JAIRO BRAZIL FONTES OLIVEIRA E VICENTINI BARROSO.

São Paulo, 30 de julho de 2021.

ELÓI ESTEVÃO TROLY


Relator
Assinatura Eletrônica
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

15ª Câmara de Direito Privado

Apelação Cível nº 1003438-44.2020.8.26.0704

Apelante: Bv Financeira S/A - Crédito, Financiamento e Investimento


Apelado: Diogo Sales Palmeira
Comarca: São Paulo
Juiz(a): Luciene Cristina Silva Tavares
Voto nº 8364

Apelação. Ação revisional de contrato bancário.


Financiamento de veículo. Sentença de parcial procedência.
Recurso da parte ré.
1. Tarifa de avaliação do bem. Prestação do serviço não
comprovada. Precedente do STJ (REsp nº 1.578.553).
2. Seguro prestamista. Instituição financeira que não demonstrou
ter oportunizado à parte autora a livre escolha de seguradora de
sua preferência. Venda casada (art. 39, inc. I, do CDC). Ilegalidade
da cobrança. Precedente do STJ (REsp nºs 1.639.259/SP e
1.639.320/SP).
3. Capitalização de Parcela Premiável. Contrato que não prevê
justificativa para cobrança do encargo. Ausência de demonstração
de interesse da parte autora em contratar o título, que não guarda
qualquer relação com a operação de financiamento de veículo
automotor. Venda casada (art. 39, inc. I, do CDC). Ilegalidade da
cobrança.
4. Indébito. Restituição. Compensação com saldo devedor.
Cabimento. Incidência do princípio que veda o enriquecimento
sem causa. Aplicação, por interpretação extensiva, da Súmula 322
do STJ.
5. Indébito. Restituição. Correção monetária. Data da assinatura
do contrato. Descabimento. Termo inicial na data dos efetivos
desembolsos, pena de se caracterizar enriquecimento ilícito.
6. Sentença reformada. Recurso parcialmente provido, para
facultar à ré a compensação entre o indébito a restituir e o
saldo devedor do contrato, determinando-se, de ofício, a
incidência da correção monetária, sobre o indébito, a partir
dos efetivos desembolsos.

Apelação Cível nº 1003438-44.2020.8.26.0704 - São Paulo - Voto nº 8364 - R 2


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Trata-se de apelação interposta contra a r. sentença que julgou


parcialmente procedente ação revisional de financiamento de veículo, para: (a) declarar a
nulidade da tarifa de avaliação do bem, do seguro prestamista e do título de capitalização
parcela premiável; (b) condenar a parte ré a restituir à parte autora respectivos valores
cobrados, com correção monetária a contar da assinatura do contrato, e juros de mora de
1% ao mês a partir da citação; (c) estabelecer que, no período de inadimplência, poderão
ser cobrados do autor juros remuneratórios limitados às taxas previstas contratualmente
para o período de normalidade, bem como juros moratórios limitados a 1% ao mês ou 12%
ao ano; (d) diante da sucumbência recíproca, condenar cada parte a arcar com as
respectivas custas, cabendo ao autor o pagamento de honorários advocatícios ao patrono da
ré fixados em 10% sobre valor da causa subtraindo-se o valor da condenação, e à ré os
honorários do patrono do autor fixados em 10% sobre o valor da condenação (252/273).

A parte ré, ora apelante, aduz a legalidade da tarifa de


avaliação do bem, do seguro, e do título de capitalização, bem como a falta de interesse do
autor em razão da inadimplência, motivo por que pleiteia a improcedência do pedido ou,
subsidiariamente, a possibilidade da compensação de valores (fls. 111/121).

Vieram aos autos contrarrazões (fls. 309/312)

Recurso tempestivo, preparado e regularmente processado.

Sem oposição ao julgamento virtual.

É o relatório.

O recurso comporta parcial provimento.

1. O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento acerca


da cobrança das tarifas de registro do contrato, avaliação do bem e serviços de terceiros no
julgamento do Recurso Especial nº 1.578.553/SP, relativo ao Tema 958/STJ:

1. DELIMITAÇÃO DA CONTROVÉRSIA:
Apelação Cível nº 1003438-44.2020.8.26.0704 - São Paulo - Voto nº 8364 - R 3
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Contratos bancários celebrados a partir de 30/04/2008, com instituições


financeiras ou equiparadas, seja diretamente, seja por intermédio de
correspondente bancário, no âmbito das relações de consumo.
2. TESES FIXADAS PARA OS FINS DO ART. 1.040 DO CPC/2015:
2.1. Abusividade da cláusula que prevê a cobrança de ressarcimento de
serviços prestados por terceiros, sem a especificação do serviço a ser
efetivamente prestado;
2.2. Abusividade da cláusula que prevê o ressarcimento pelo consumidor da
comissão do correspondente bancário, em contratos celebrados a partir de
25/02/2011, data de entrada em vigor da Res.-CMN 3.954/2011, sendo
válida a cláusula no período anterior a essa resolução, ressalvado o controle
da onerosidade excessiva;
2.3. Validade da tarifa de avaliação do bem dado em garantia, bem como da
cláusula que prevê o ressarcimento de despesa com o registro do contrato,
ressalvadas a:
2.3.1. abusividade da cobrança por serviço não efetivamente prestado; e a
2.3.2. possibilidade de controle da onerosidade excessiva, em cada caso
concreto.[...] (STJ RESp nº 1.578.553, Relator Ministro Paulo De Tarso
Sanseverino, Julgado em 28/11/2018, Publicado em 06/12/2018).

Quanto à tarifa de avaliação do bem, exige-se da instituição


financeira, a quem incumbe o ônus da prova, a demonstração de efetiva prestação de um
serviço de avaliação de um veículo automotor.

Na hipótese dos autos, a parte ré trouxe apenas um


documento por ela elaborado que, embora denominado “Termo de avaliação de veículo”
(fls. 119/121), consubstancia-se em mero formulário padrão, por ela elaborado -- e não por
terceiro especializado em avaliações --, o qual, além disso, não especifica o nome do
pretenso "avaliador", não contém assinatura, e nem demonstra a efetiva vistoria no veículo,
pois afirma apenas a existência de buzina, chave de roda, encosto de cabeça, freio de mão e
de outros acessórios aparentes, anotações que podem ser procedidas por qualquer leigo,
sem que fossem verificados itens essenciais à aferição do estado do bem -- assim, o estado
do motor, pastilhas de freio, suspensão e outros --, motivo porque a respectiva tarifa (R$
435,00 fl. 113) deve ser devolvida à parte autora.

Em caso parelho, o voto do Ministro Moura Ribeiro, no


REsp nº. 1.578.553, esclareceu que "No âmbito do Direito do Consumidor as cláusulas
Apelação Cível nº 1003438-44.2020.8.26.0704 - São Paulo - Voto nº 8364 - R 4
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contratuais amparadas em normas da regulação bancária submetem-se ao controle


jurisdicional visando coibir práticas abusivas, em especial a onerosidade excessiva e, no
caso específico dos serviços prestados, como é o caso da tarifa de avaliação do bem, deve
ser comprovada nos autos a efetiva prestação do serviço”, e que, naquele caso concreto, tal
como na presente hipótese, “O documento elaborado pela instituição financeira para
comprovar a prestação do serviço de avaliação do bem consiste em um formulário padrão,
visando mais a justificação da cobrança da tarifa do que a efetiva prestação de um serviço
de avaliação de um veículo automotor."

2. No que se refere ao seguro de proteção financeira, o


Superior Tribunal de Justiça, fixou entendimento que aproveita ao presente caso pela
essência de seu fundamento: “A inclusão desse seguro nos contratos bancários não é
vedada pela regulação bancária, até porque não se trata de um serviço financeiro,
conforme manifestou o BCB em seu parecer, litteris: (...) No caso da presente afetação, os
contratos celebrados nos dois recursos representativos encaminhados a esta Corte
Superior dispõem sobre o seguro de proteção financeira como uma cláusula optativa. (...)
Apesar dessa liberdade de contratar, inicialmente assegurada, a referida cláusula
contratual não assegura liberdade na escolha do outro contratante (a seguradora). Ou
seja, uma vez optando o consumidor pela contratação da seguradora integrante do mesmo
grupo econômico da instituição financeira, não havendo ressalva quanto à possibilidade
de contratação de outra seguradora, à escolha do consumidor [...]” (STJ, 2ª Seção,
Recursos Especiais nºs 1.639.259/SP e 1.639.320/SP, Rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, j. em 12/12/2018).

Na hipótese dos autos, - apesar da celebração por instrumento


em apartado (fl. 118), o seguro foi celebrado pela Seguradora BNP PARIBAS CARDIF,
por intermediação da Corretora de Seguros VOTORANTIM, empresa integrante do mesmo
grupo econômico da ré, o que caracteriza, por si só, o abuso da oferta (art. 39, inc. I, do
CDC), diante da concreta e manifesta impossibilidade de opção por outro seguro na mesma
ocasião, o que justifica a restituição do respetivo valor (R$ 979,00 - fl. 113) à parte

Apelação Cível nº 1003438-44.2020.8.26.0704 - São Paulo - Voto nº 8364 - R 5


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autora.

3. Quanto à “Capitalização de Parcela Premiável”, apesar


da celebração em instrumento apartado (fl. 117) a parte ré não demonstrou qual a relação
existente entre o encargo e a operação de financiamento de veículo automotor, do que se
infere a venda casada e abusividade, sendo de rigor a devolução de seu valor (R$ 188,80
- fl. 113) à parte autora, tal como determinado na sentença.

Nesse sentido:

REVISÃO DE CONTRATO. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. SEGURO.


Cobrança abusiva. Aplicação dos paradigmas firmados nos Recursos
Especiais Repetitivos nºs 1.639.259/SP e 1.639.320/SP pelo C. Superior
Tribunal de Justiça. Consumidor que foi compelido a contratar com a
instituição financeira ou com seguradora por ela indicada. TÍTULO DE
CAPITALIZAÇÃO. Exigência ilícita. Contrato de financiamento que não
contém nenhuma disposição que justifique a exigência do encargo.
Contratação imposta ao autor. Venda casada configurada. Cobrança que
deve ser suportada pela instituição financeira à falta de justificativa plausível
para a sua exigência. Sentença mantida. Apelação não provida. (TJSP;
Apelação Cível 1006115-56.2018.8.26.0271; Relator (a): JAIRO
BRAZIL FONTES OLIVEIRA; Órgão Julgador: 15ª Câmara de
Direito Privado; Foro de Itapevi - 1ª Vara Cível; Data do Julgamento:
02/03/2020; Data de Registro: 02/03/2020).

4. Inexiste qualquer vedação legal à propositura de ação


revisional de contrato quando o devedor está inadimplente, todavia, razão assiste à ré
quanto à possibilidade de se compensar os valores devidos pela restituição do indébito
com o saldo devedor do contrato, diante do princípio que veda o enriquecimento ilícito,
aplicando-se, por interpretação extensiva, o disposto na Súmula 322 do STJ: “Para a
repetição de indébito, nos contratos de abertura de crédito em conta-corrente, não se
exige a prova do erro”.

Os valores cobrados a maior devem ser restituídos com


reflexo no custo efetivo total, facultada a compensação (do indébito devidamente
corrigidos e acrescido de juros moratórios) com o eventual saldo devedor do contrato.

Apelação Cível nº 1003438-44.2020.8.26.0704 - São Paulo - Voto nº 8364 - R 6


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5. Portanto, dá-se parcial provimento ao recurso, para


facultar à ré a compensação entre o indébito a ser restituído e o saldo devedor do
contrato, com determinação, de ofício, para que a correção monetária fixada na
sentença matéria de ordem pública cognoscível de ofício por força do art. 404 do
Código Civil incida a partir dos efetivos desembolsos, e não da data da assinatura
do contrato, sob pena de enriquecimento ilícito do mutuário.

Diante do ínfimo provimento do recurso da parte autora,


mantém-se os ônus sucumbenciais tais como fixados na sentença, inclusive honorários
advocatícios, já considerado o trabalho advocatício nesta fase recursal.

Destaca-se que a eventual oposição de embargos de


declaração manifestamente protelatórios pode motivar condenação do embargante ao
pagamento de multa sobre o valor atualizado da causa, não isenta pelo benefício de justiça
gratuita, nos termos do artigo 1.026, § 2º do Código de Processo Civil.

Para o fim de interposição de recursos aos Tribunais


Superiores, consideram-se prequestionadas as matérias alegadas pelas partes, sendo
desnecessária a menção do preceito legal ou constitucional, conforme já decidiu o Superior
Tribunal de Justiça (REsp nº 88.365/SP, 4ª T., rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, j. em
14.5.1996).

Ante o exposto, dá-se parcial provimento ao recurso, com


determinação, de ofício.

Elói Estevão Troly


Relator

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