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ORDENAÇÕES

AFONSINAS
LIVRO I

SERVIÇO DE EDUCAÇÃO

FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN


ORDENAÇÕES
AFONSINAS
LIVRO I
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e
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1
Reprodução (reduzida) da primeira pagina do Livro 11 das Ordenações Afonsinas
(Torre do Tombo, Núclep Antigo- Códice 13.fol. Ido Livro li).
ORDENAÇÕES
AFONSINAS
LIVRO I
Nota de Apresentação
MÁRIO JÚLIO DE ALMEIDA COSTA

Nota Textológica
EDUARDO BORGES NUNES

2. ª Edição

SERV IÇO DE EDUCAÇÃO

FUNDAÇÃO CALOU STE GULBE N KIAN


© Esta edição é uma reprodução «fac-sinrile » da
edição feita na Real Imprensa da Universidade de
Coimbra , no ano de 1792 .

Reservados todos os direitos de harmonia com a lei


Edição da Fundação Calouste Gulbenkian
Av. de Berna / LISBOA
1998

ISB N 972-31 -0274-9


NOTA DE APRESENTAÇÃO

Decidiu a Fundação Calouste Gulbenkian promover a


edição de textos histórico-jurídicos. Trata-se de uma iniciativa
de precípuo interesse para a história do direito, assim como
relevante em outros sectores historiográficos, designadamente
o social, o político, ó cultural, o económico e mesmo o
militar.
Pensamos que se começa pela fonte exacta: as Orde-
nações Afonsinas. Estas não foram dadas à estampa na sua
vigência, que terminou com a publicação das Ordenações
Manuelinas de 1521. Apenas em fins do século XVIII,
mercê do ambiente de verdadeira exaltação dos estudos históri-
cos, de que a Academia Real das Ciências também se fez
eco, e da especial atenção que começara a prestar-se ao direito
pátrio, a Universidade de Coimbra promoveu a primeira edi-
ção impressa das "Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso
V" ( 1). Corria o ano de 1792.
Sabe-se que a codificação afonsina teve como ponto de
partida os insistentes pedidos formulados em Cortes no sen-
tido de ser elabQrada uma colectânea do direito vigente, com
que se evitassem as incertezas derivadas da sua grande disper-
são, que muito prejudicavam a vida jurídica e a administração

( 1) Integraram-se na Collecção da Legislação Antiga e


Moderna do Reino de Portugal. Parte I. Da Legislação Antiga, baseada
em Resolução Régia de 2 de Setembro de 1786. O exclusivo da
impressão das Ordenações, que pertencera .ao Mosteiro de S.
Vicente .de Fora , dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho,
passou à Universidade de Coimbra pelo Alvará de 16 de
Dezembro de 1773.
6
da justiça. Os trabalhos preparatórios decorreram do reinado
de D. João I ao de D A j;>nso V, durante a regência do
Infante D. Pedro. Há notícia da participação sucessiva de
João Mendes e de Rui Fernandes . Também não se ignora que
o último concluiu o projecto em 28 de Julho de 1446, na
«Vil/a da Arruda» ( 2), depois do que foi revisto por uma
comissão de juristas cujos nomes igualmente se conhecem.
Todos os referidos elementos, a par da indicação das fontes
que os compiladores utilizaram, da análise da sistematização
dos cinco livros da obra, subdivididos em títulos e parágrafos,
da forma e do estilo de redacção, encontram-se desenvolvidos
no proémio do livro I e na "Prefação "(3) do texto editado
pela Real Imprensa da Universidade, agora reproduzido. Para
aí se remete o leitor ( 4).
Observe-se, entretanto, que o aparecimento das Ordena-
ções Afonsinas se prende ao fenómeno geral da luta pela cen-
tralização. Traduz essa colectânea jurídica uma espécie de
equilíbrio das várias tendências ao tempo não perfeitamente
definidas, ou seja, uma área intermédia em que ainda se
podiam encontrar.
Melindroso se apresenta o problema do começo e exten-
são da vigência das Ordenações Afonsinas. Ignora-se a dura-
ção exacta dos trabalhos de revisão do projecto. Parece de
admitir, todavia, que a aprovação das Ordenações tenha ocor-

(2) Cfr . o liv . V, tít. CXIX, § 31. A «Villa da Arruda»


que se refere no texto é a actual Arruda dos Vinhos.
(3) Embora não se encontre assinada, sabe-se que esta
"Prefação" é da autoria do Doutor Luís Joaquim Correia da
Silva, lente substituto da Faculdade de Leis, que teve a seu
cuidado a fixação e revisão do texto impresso.
(4) Cfr . a nossa exposição sobre as Ordenações, no Dicioná-
rio de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, vol. III, Lis-
boa, 1968, págs. 205 e segs., e em Temas de História do Direito,
Coimbra , 1970, págs. 61 e segs.
7
rido em 1447 e, portanto, antes de D . Pedro abandonar a
regência, nos começos do ano seguinte. Mas tal não sig,:ztfica
uma aplicação imediata e generalizada.
Afigura-se muito provável que esta se haja produzido
algum tempo após a aprovação definitiva, vindo a alargar-se
de modo progressivo às várias regiões do País . Com efeito,
por um lado, demorariam a tirar as necessárias cópias manus-
critas do extenso texto, sem dúvida laboriosas e dispendiosas;
por outro lado, verificavam-se, como é bem conhecido, mani-
festos desníveis de preparação técnica entre os magistrados e
demais intervenientes na vida jurídica dos centros urbanos e
os das localidades deles afastadas. Talvez deva ainda tomar-
-se em linha de conta a hostilidade manifestada, após Alfar-
rubeira ( 1449 ), a tudo o que se ligava ao Infante D Pedro .
Ora, o Duque de Coimbra teve a posição de um denodado
impulsionador da obra.
É certo que as Ordenações Afonsinas, ao contrário das
codificações dos tempos modernos, não se propunham tanto
objectivos inovadores como a sistematização actualizada do
direito aplicável. Representavam, basicamente, um registo,
garantido pela autoridade pública, de normas jurídicas de
várias proveniências, fixadas ao longo de sucessivos reinados.
À excepção do primeiro, que, via de regra, oferece preceitos
originais, os seus restantes livros reproduzem na íntegra dis-
posições anteriores, identificando-as e declarando a medida da
sua aplicabilidade. Esta característica propiciava uma utiliza-
ção efectiva.
De qualquer modo, cremos inexacta a tese esporádica que
põe em causa a própria vigência das Ordenações Afonsinas.
A ampla difusão que alcançaram encontra-se indiciada pelos
exemplares, embora truncados ou parciais, que chegaram a
·nossos dias .
Significaram as Ordenações Afonsinas um passo valioso
na evolução do direito português. Vistas em seu tempo, são
uma obra que sustenta vitorioso confronto com as codificações
semelhantes de outros países. Constituem, de resto, a síntese
s
do processo que, desde a fundação da nacionalidade, ou, mais
aceleradamente, a partir de Afonso III, afirmou e consolidou
a autonomia ·do sistema jurídico nacional no conjunto penin-
sular. A investigação histórica encontra aí instituições que,
sem esse texto, se tornaria difícil conhecer, pelo menos de
maneira tão completa e em aspectos que escapam, frequente-
mente, nos documentos avulsos da prática.
Além disso, as Ordenações Afonsinas representam o
suporte da subsequente evolução do direito português. A bem
dizer, as Ordenações Manuelinas e as Ordenações Filipinas
pouco mais fizeram, em momentos sucessivos, do que a
actualização da colectânea afonsina. Muitos dos respectivos
preceitos, por conseguinte, encontrariam aplicação até à
segunda metade do século XIX, quando da feitura dos Códi-
gos modernos . E, pelo que toca ao Brasil, essa vigência,
através das Ordenações Filipinas, apenas cessou completa-
mente em 1916, ano da publicação do seu Código Civil.
Na referida "Prefacção ", o editor setecentista informa
acerca do método seguido para a fixação do texto publicado.
Não se encontrou um único exemplar que reproduzisse os
cinco livros . Entre os manuscritos conhecidos não estava o
original autêntico, revelando as várias cópias omissões e erros
consideráveis, alguns dos quais comuns a todas elas. Houve,
porém, a possibilidade de reconstituir com certa segurança o
texto integral das Ordenações Afonsinas. Trabalhou-se sobre
o manuscrito da Câmara Municipal do Porto, que oferece os
livros I, II, IV e V, enquanto, para o livro III, foi utilizado,
como base, o manuscrito existente na Torre do Tombo ( 5).

(5) O aludido manuscrito da Câmara Municipal do Porto


encontra-se também no Arquivo Nacional da Torre do Tombo,
desde 1784. Aliás, outros manuscritos utilizados pelo editor de
1792, quer dizer, os descobertos na Câmara Municipal de San-
tarém (livros 1,11,IV e V) e no Convento de Santo António da
Merceana (livros I e 111), foram igualmente incorporados nesse
9

Procuraram-se suprir as deficiênciás desses textos através do


cotejo com os restantes e do recurso a fontes diversas . O
editor teve o cuidado de deixar assinaladas as variantes mais
expressivas.
Nunca se pôs em dúvida a probidade da edição de 1792.
Pode afirmar-se que o seu responsável realizou trabalho muito
valioso. As dificuldades, hesitações e deficiências, escrupulo-
samente evidenciadas, inculca vam, no entanto, a cautela com
que se devia utilizar esse texto . Mas, que saibamos, nunca
mais se voltou às cópias conservadas na Torre do Tombo,
nem se deu conhecimento da existência de outros manuscritos
do tempo .
Sendo assim, colocado agora o problema de uma republi-
cação das Ordenações Afonsinas, levantou-se a alternativa de
uma nova edição crítica ou de pura reprodução fac-similada do
texto de 1792. Logo se entendeu, naturalmente, que a opção
dependeria dos resultados de uma indispensável pesquisa sis-
temática nos vários fundo s arqui vísticos do País, acompa-
nhada de um exame e cotejo, à luz dos actuais critérios
diplomáticos e paleográficos, de todos os manuscritos disponí-
veis, em confronto com a reconstituição do século X V III. E
a que conclusões se chegou? Repensemo-las ( 6).
N enhum vestígio resta do original que deve ter estado
depositado na Chancelaria Régia, presumindo-se, como suce-
deu a outros códices, que haja sido eliminado e substituído por
um apógrafo da " leitura no va" dos começos do século X VI.
In ventariaram-se, contudo, quer várias cópias directas e con-
temporâneas do original, executadas, segundo se crê, no ter-
ceito quartel do século X V, quer cópias directas, embora não

( 6) Enca rregou-se da pes qui sa e da análi se dipl o má tica e


pa leográfic a o Pro f. Do uto r Edua rd o Bo rges Nunes. Limita-
m o-nos a sintetiza r as conclusões que o distinto es peciali sta
alcançou no estudo , a seguir incluído, sob a epígrafe Os Ma n11s-
critos das Ordenações A f onsinas e a Edição de 1792.
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suas contemporâneas, por conseguinte já com sistema ortográ-


fico diferente (7). Também se detectaram algumas cópias
modernas, dos finais do século X VIII, feitas a partir de
manu~critos ainda conservados ( 8) .
Pouco se ultrapassaram, deste modo, as fontes utilizadas
pelo editor setecentista. Excluindo as cópias modernas, para o
efeito de importância secundária, apenas se obtiveram dois
novos códices pouco significativos ( 9). Portanto, não resta
prejudicada a ilação de que aquele editor tomou como base da
obra, em especial quanto aos livros I, II, I V e V, o manus-
crito do copista que, provavelmente, soubera fazer a leitura e
a reprodução mais cuidadas do original.
Apurou-se, de outra parte, que o texto impresso não con-
tém substanciais diferenças de conteúdo que possam ser recti-
ficadas, mediante os antigos e os novos manuscritos conheci~
dos . As deficiências são mais de forma do que de fundo .
Realizou-se uma edição em que os desvios respeitam a consi-
derações caracterizadamenie de técnica paleográfica e textoló-
gica . Podem apontar-se imperfeições ortográficas, defeituoso

(7) T ra ta- se d e m anusc ritos e xi ste ntes no Arqu ivo


Nac ional da T o rre do T ombo, incluindo os que pa ra aí transi-
ta ra m de dive rsas pro veni ênci as, e aind a de um que se conse rva
na Biblio teca Nacio nal de Li sboa (Códices Alcobacenses), de
o ut ro que se manté m na Biblio teca da Ajud a e de um terceiro
gua rdado no Arquivo Munici pa l de Li sboa.
( 8) Có pi as pe rtencentes à Bibli o teca Ge ral da Unive rsi-
dade de Co imbra , à Biblioteca Nacional de Lisboa e à Bibli o-
teca da Aj ud a.
( 9) O conse rva do na Bibli o te ca da Ajud a, que só co nté m
a introdução ao liv ro 1, seg uid a do tex to integral do Regi-
m en to da Guerra, e o pe rtencente ao Arquiv o Municipal de
Li sboa, que re produ z o liv ro IV de modo incompl e to e co m
fr equente s e r ros. O m anuscrito da Ajud a o fe rece o inte resse de
tr aze r algum eve ntu al reforço à inclusão do Regim ento da
Gue rra no li vro Id as Orden ações (títul'os LI e se gs.) (cfr ., infra ,
págs. X IV e segs . d a " Prefaçã o " ).
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desenvolvimento de abreviaturas e incoerências modernizado-
ras. Eis os aspectos que prejudicam uma impecável utilização
do texto sob o ângulo filológico ou linguístico .
Claro que a solução cientificamente mais rigorosa consis-
tiria em efectuar uma nova edição crítica que superasse as
mencionadas incorrecções. Facilitava-a, inclusive, o respeito
pelo esquema da publicação de 1792, embora houvesse que
proceder à leitura dos textos de base e de todas as variantes,
utilizando as regras modernas. Seria então preferível que o
livro III assentasse no manuscrito do Convento dos Capu-
chos da Merceana.
Essa edição crítica tornava-se consideravelmente morosa
na sua preparação. E parece que as deficiências apontadas,
porventura relevantes do prisma filológico, não se apresentam
de molde a desincentivar uma acessível reprodução fac-
-similada. Com ela beneficiam os interessados pelos estudos
históricos.

MARIO JúLI O DE ALMEIDA COSTA

Professor Catedrático da Faculdade de Direito de Coimbra


OS MANUSCRITOS
DAS ORDENAÇÕES AFONSINAS
E A EDIÇÃO DE 1792
A definição do critério a seguir em nova edição das
Ordenações Afonsinas pressupõe duas análises prévias: a da
«tradição» manuscrita dessa colectânea legislativa e a da
qualidade textológica da edição de 1792.

I- OS MANUSCRITOS EXISTENTES

A-LISBOA

1) Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Aos


manuscritos originários do próprio arquivo vieram «incorpo-
rar-se», por ordem régia, no último quartel do século XVIII,
os até aí guardados na Câmara do Porto, na Câmara de
Santarém e no· Convento de Santo António da Merceana .
Actualmente encontram-se todos reunidos no Núcleo
Antigo, sob os números 4 a 14:
a) Códice 4. Contém os Livros I e III das Ordenações
Afonsinas, encadernados no mesmo volume, sem o L. º II.
Papel, 363x265 mm (mancha de 255x 165 a 175 no I, e
265x190 no III). Cada livro foi copiado por sua mão, em
letra cursiva comum do 3. º quartel do séc. XV. Recolhido de
Santo António da Merceana em 1777. Textos com omissões
e pequenos erros de desatenção . Designemo-lo por TT /MC.
14
b) Códices 5, 6 e 7, c-om, respectivamente, os livros II,
III e IV. Papel, 345x245 mm (mancha cc. 240x150) .
Encadernados. Originários do próprio arquivo régio. Todos
executados em letra caligrájica comum (de raiz meio
«bastarda» meio manuelina) da 1. ª metade (provavelmente
1. quartel) do séc. X VI, em estilo de Leitura Nova, com
0

rubricas a vermelho e capitulares filigranadas (letra a


vermelho, filigrana a preto) de execução cuidada no cód. 5,
descuidada e incompleta em 6 e 7. Cópia com bastantes erros
e omissões, e transferida para a ortografia quinhentista.
Chamemos-lhes TT /LN .
e) Cód. 8, com o L.º II. Papel, 297x215 mm
(mancha c. 230x155). Protegido por uma simples folha de
pergaminho (com texto francês do séc. XVII). Encontrado
«debaixo de lixo nas tasas de baixo» da Torre do Tombo e
salvo por Jorge da Cunha em 10 qe Janeiro de 1631, segundo
nota do próprio salvador (foi. 2)'. Letra cursiva comum do
3.º quartel do séc. XV. Do último título tem só a rubrica,
sem o texto, apesar de restarem fólios em branco: trabalho
abandonado? No último fólio, um Afonso de Bairros (que
assina) copiou sentenças de Séneca, Aristóteles, Júlio César e
Boécio. Texto com variantes de redacção e erros de pormenor.
Chame-se TT /LX.
d) Códs . 9, 10, 11 e 12. Livros I, II, IV e V. Papel,
c. 290x210 mm (mancha 150 a 155x115 a 120).
Encadernado. Trazidos em 1784 da Câmara do Porto .
Cópias executadas para essa Câmara no 3.0 quartel do séc.
XV (a julgar pelo tipo de letra, pela ortografia e pelas
filigranas do papel) por mão /atinada, cuidadosa e talvez
culta: mancha bem demarcada entre largas margens em
branco, cursivo miúdo, elegan"te e invulgar, invulgar
ortografia (rr abundantes mesmo em posição fraca, «lejx»,
«rrejx», <<eixcellente», «princepy», etc.) e finais beneficiados
com explicit latino («Laus tibi ssit christe quoniam liber
expijcit iste et cetera») e anotação de posse («Este 1/iuro he
15
do conçelho da çidade do porto»). De todos os copiadom, este
afigura-se ter sido o que mais inteligentemente soube ler e
transmitir o texto original. Designemos o conjunto por
TT/CP .
e) Códs. 13 e 14. Livros !+II e IV+V. Remetidos da
Câmara de Santarém para a Torre do Tombo em 1776.
Papel, c. 405x285 mm (mancha c. 280x170) no 13, e
403x280 (c. 280x180 a 190) no 14. Encadernados . Cópia
em cursivo comum do 3. 0 quartel do séc. X V (data
confirmada pelas marcas de água do papel), mas executada
com certo aparato (iniciais coloridas e filigranadas, e rubricas
e numeração dos fólios a vermelho, por mão diferente da do
texto) e, apesar de alguns lapsos, bastante fielmente.
Nomeemo-la TT /CS .

2- Biblioteca da Ajuda

a) A cota 44-XIIl-37 assinala um códice cartáceo, c.


330x215 mm, com o incipit «Aquy se começa o primeiro
Liuro da rrefformaçom jfeyto per El rrey -dam affonsso o vº
de purtugall E do alguarue E Senhor de çeptà que foy feyto
E scripto na era de mjll iiij< Vª b annos», seguido da
introdução ao Livro I, e esta do Regimento da Guerra
(completo, correspondente aos títulos 51- 72 da edição de
1792, acrescentado com uma carta do Infante D. Duarte e
outta de D. João I tiradas «do liuro pequeno de papel das
uereaçoões da camara de btj_a») sem mais. A tinta era
corrosiva: grande número de jólios lêem-se com dificuldade, e
bastantes já caem aos bocados. Certamente por isso, os fólios
4 e 5 aparecem substituídos por dois fólios novos recopiados
em letra de começos do séc. X VI. Em letra da mesma época
foi lançada, na última página do códice, a prosa seguinte:
«este liuro he de [. ... (nome, riscadíssimo para o tornar
ilegível)] quem lho furtar ho pe da forqua va o comfeçar
16

porque he mujto boom liuro» ..... «o mjlhor que elle aquy tem
que lhe costou mjll e dozemtos na feyra da froll da Rosa»
(assinatura riscadíssima). Ladeiam a nota dois belos desenhos
à pena, versões de figura humana com indumentária
contemporânea do texto. Há mais desenhos análo3os nas
margens de algumas páginas iniciais. A cópia ajigura-se
razoavelmente correcta. Etiquetemo-lo, pela biblioteca e pela
feira: AJ/FR .
b) Sob a cota 44-XIII-35, uma cópia do Livro 1. 0 das
Ordenações Afonsinas feita na 2. ª metade do séc. XVIII a
partir do manuscrito da Câmara do Porto.

3) Arquivo Municipal

a) Chancelaria Régia, cód. 23: L. 0 IV. Papel,


2:;73x200 mm (mancha de 185 a 195x145), filigrana datável
de 1450-1460. Letra cursiva comum (de jÚrista?) do 3. 0
quartel do séc. XV. Sem os três fólios iniciais. Com muitos
erros de cópia. Seja: LXI AM.

4) Biblioteca Nacional. Três conjuntos de códices


(séc. XVIII) nos Reservados, e um códice avulso (séc . XV)
nos Alcobacenses:
a) Res . 1751, 1752, 1753, 1754, 1755, com os cinco
livros das Ordenaçf5es A fonsinas copiados, entre 1783 e
1786, no Porto e na Torre do Tombo, pelo P. António
Joaquim de Azevedo: os Livros I, II, IV e V sobre os
quatro códices da Câmara do Porto, ' e o L. º III sobre o
códice da Merceana; todos enriquecidos, em notas, com
variantes dos outrçs códices recolhidos na Torre. O critério da
cópia é de rigor paleográfico, conservando a ortografia, o
sistema numérico e as abreviaturas do original.
b) Res. 1791 e 1792; Livros I e II, copiados em 1777
por ordem de João Pereira de Anvedo Coutinho.
17
c) Res. 9559, 956Q e 9561: Livros II, III e V, em
cópias do séc. XVIII, que pertenceram ao Colégio de
Campo/ide.
d) Alcob. 222: L. 0 II, . com adições várias . Papel,
295x220 mm (mancha entre 250x170 e 240x145). Cópia
apressada e desatenta no texto e despretenciosa no aparato,
em letra cursiva rápida do 3.0 quartel do séc. X V ( data
confirmada pela filigrana e pelas adições). Um António
Rodrigues Mata, de Lamego, comprou o códice em Lisboa
em 1566. Designação: BNI AL.

B- COIMBRA

1) Biblioteca Geral da Universidade

a) Manuscritos 679 e 680: livros I+II e III+I V. Sem


autor, nem data de cópia, mas em letra de finais do séc.
XVIII.
b ) Ms . 682, 683, 684, 685 e 686: livros I, II, III, I V
e V, acabados de copiar em 1784. Obra de copistd
profissional, com intervenção pessoal de João Pedro Ribeiro,
de cuja mão são os rostos dos volumes, as Introduçõe,s, as
notas com as variantes críticas, e todo o texto do L. º V.
Bases da cópia: o manuscrito da Câmara do Porto nos livros
I, II e V, e, nos livros III e I V, o manuscrito da Torre do
Tombo do séc. XVI (TTI LN). Variantes tiradas dos
manuscritos de Santarém , Merceana e Torre do Tombo
(TTILX).
e) Ms. 687, 688, 689 , 690 e 691: os 5 livros das
Ordenações, em cópia cuidada, semi-caligráfica, dos manuscri-
tos supra (682-686), executada não muito tempo dep?is.
d) Ms. 1127: livro V, mandado copiar, em 1789, pelo
Guarda-Mor da Torre do Tombo João Pereira de Azevedo
Coutinho para a Universidade de Coimbra.
18
C-ÉVORA , PORTO e BRAGA : pesquisas de códices das
Ordenações Afonsinas nas Bibliotecas Públicas destas cidades
deram resultado negativo.

RECAPITULAND O:

1) Do original, depositado na chancelaria regia para


servir de exemplar, nenhum indício. Deteriorado pelo uso,
substituído com vantagens estéticas e práticas pela «Leitura
Nova» caligráfica de começos de séc. XVI, deve ter sido
eliminado voluntariamente por «inútil»; assim procederam (e
candidamente o confessaram) os arquivistas manuelinos, com
outros códices bem mais antigos .
2) Cópias directas e contemporâneas do original,
executadas provavelmente todas no 3. º quartel do séc. X V
logo a seguir à «promulgação» das Ordenações A fonsinas e
com o fim de as pôr em prática. Original e cópias integram-
-se, portanto, no mesmo sistema ortográfico. São :

a) TTICP (L º' I, II, IV e V): a melhor e mais


completa.
b) TT/CS (Lo•I, II, IV e V, com lacunas): a 2.ªem
qualidade.
c) TTI MC (L º' I e III): defeituosa, mas a única deste
conjunto a ter o L. 0 III.
d) AJIFR (só o Regimento da Guerra): importante
para esclarecer as relações do Regimento
com o resto do L. 0 I.
e) BNIAL (L° II): livro já constante de a) e b).
f) TTILX (L.º II): idem e e).
g) LXIAM ( L. º IV) : muito descuidada.
3) Cópias directas, mas não contemporâneas (e por
isso já com sistema ortográfico diferente) :
19
a) TT/LN (Lo' II, III e IV): ortografia de começos
do séc. XVI, e erros de cópia, mas a unica
alternativa a TT/MC para o L. 0 III.
4) Cópias modernas (último quartel do séc. X VIII),
indirectas em relação ao original (cópias de cópias) e feitas
sobre arquétipos ainda conservados. Portanto sem
aproveitamento, a não ser marginal, para uma nova edição.
São:
a) as da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,
b) as da Biblioteca Nacional de Lisboa,
e) a da Biblioteca da Ajuda.
Em termos de manuscritos utilizáveis para uma edição
das Ordenações Afonsinas, o panorama de 1792 não se
alterou, praticamente: todos os códices então conhecidos se
conservam, e os dois novos (AJIFR e LXIAM) não
implicam mudança significativa na «tradição» do texto.

ll-A EDIÇÃO DE 1792

Os critérios da edição vêm explanados na Prefação av


livro I, pgs. !-XXX. Para texto de base, foi escolhido
TT/CP, por ser o mais correcto e menos incompleto.
Escolha certa; aliás feita por quase todos os outros copiade>res
desses finais do séc. XVIII. No livro III, o editor usou como
base TT/LN, relegando para mero fornecedor de variantes
TTIMC, apesar de o julgar tão correcto como TT/CP; foi
um erro, na verdade mais paleográfico e filológico do que
estritamente textual, igualmente cometido por João Pedro
Ribeiro, mas evitado pelo P. António Joaquim de Azevedo.
À leitura de base fez correcções, por crítica interna e por
cotejo com os outros manuscritos das Ordenações Afonsinas e
com diplomas avulsos. Em rodapé anotou quer o estado
original dos passos corrigidos, quer as variantes fornecidas
pelos outros manuscritos; passos e variantes não todos, mas
só os considerados mais importantes.
20
Assim, a edição apresenta-se como um compromisso,
bastante equilibrado e com o seu quê de moderno, entre uma
parte de «edição diplomática», outra de crítica interna e outra
de «edição crítica».
Onde claudicou, e muito, foi no aspecto que poderá
globalmente chamar-se paleográfico. Aí afastou-se do sentido
de fidelidade aos manuscritos, que tão admirável aparece não
só na cópia dirigida por João Pedro Ribeiro, como também, e
quase «ipsis verbis», na do P. António Joaquim de Azevedo,
os quais proclamam não querer arredar-se da estrita ortografia
original, do seu sistema numérico, das próprias abreviaturas,
só as desenvolvendo quando o manuscrito fornece a forma
extensa. Esta prática tinha, sem dúvida, os seus
inconvenientes em edição impressa. Mas o editor de 1792, ao
optar por transcendê-la, embrenhou-se em terreno mal
dominado, e transviou-se.
O mais intrigante é que a sua teoria é boa: «quanto á
ortografia, ainda que a do MS. antigo seja muito differente
por nelle se acharem as consoantes dobradas no princípio das
-palavras, muito poucas letras grandes, muitas abreviaturas,
nenhuma pontuaçaõ; &c. conservou-se com tudo a da copia,
tal e qual veio, por se ter desde o principio tomado o plano de
em nada tocar, ou alterar nella, se naõ quanto fosse preciso
para se entender e fazer commoda a liçaõ.» (pg. XXVIII!).
Na prática, ou o copiador da Torre do Tombo o
enganou, mandando-lhe uma leitura não criteriosa, ou mão
estranha se insinuou ao nível da composição tipográfica, ou,
mais verosimilmente, o próprio editor, na execução concreta,
acabou por transformar em norma geral aquilo que em
abstrato encarara ·como excepções a abrir só «quanto fosse
preciso». De facto, as consoantes duplas iniciais são
sistematicamente reduzidas a simples, as maiúsculas
abundam e a pontuação é variada, lógica e numerosa, numa
obediência quase total à gramática dos finais de Setecentos e
em pleno contraste com a volúvel ortografia quatrocentista.
21
No livro III, os emes nasalizantes no interior das palavras,
tão abundantes no manuscrito quinhentista, foram sistematica-
mente transformados em enes; assim como, nos outros livros,
os enes antes de p ou b, normais no séc. XV, vão todos
mudados para emes. O pior é que, fora destas modernizações,
a fidelidade às ortografias originais é tão aleatória e enganosa,
que i.nibe qualquer uso rigoroso do texto sob o prisma
paleográfico ou linguístico.
Na resolução das abreviaturas pululam os anacronismos
ortográficos (DEOS, JEZU, CHRISTO, Direito, Vaas-
ques, Fernandes, algumas, e - em vez de: deus, Jesu, crista,
dereito, Vaasquez, Fernandez, alguas, E) de mistura com
algumas rarezas ( Chrisptaõs - em vez de cristãos), etc.
Convém, contudo, não exagerar nem perder a visão de
conjunto. Para além destes aspectos negativos, parte dos
quais se podem considerar mais de forma e de apresentação
que de fundo, o conteúdo do texto parece ter saído, na edição,
não só preservado, mas melhorado em relação aos
manuscritos. Mas disso julgarão melhor os especialistas da
ciência jurídica e da sua história.
Para maior clareza, termino com dois exemplos de
confrontação entre a leitura paleográfica dum passo e a sua
versão editorial.

No tenpo que o muy alto E o o e


N
TEMPO QUE MUI ilL T O,
Muj eixçellente princepy E/ Mui Eixcellente Princepy
Rej dom Joham de gloriosa E/Rey Dom Joham da Gloriosa
memorja pella graça de deu s memoria pela graça de DEOS
rregnou em estes rregnos foy regnou em estes Regnos, foi
rrequirjdo alguas uezes em requerido algumas vezes em
cortes pellos fidalgos E po- Cortes pelos Fidalgos, e Po-
uoos dos diet as rregn os que voas dos ditos Regnos, que
por boo Regimento delles por boõ regimento delles
mandasse pro_ueer as lejx E mandasse proveer as Leyx, e
hordenaçoões fectas pellos Hordenaçoões feitas pelos
rrejx que ante elle foram . Reyx, que ante elle foram.
(TTICP, foi. 1) (Edição, L° I, pg. 1)
:22
A TE. Q VI: No segumdo liuro
A
TE Q l'/ 1\ '0 S/:G l '.\'D O UI 'RO
a11emos tratado dalg_uuas horde- ha11emos tratado d'alguuãs
11açõees do Reg110 Jfeitas per I Orde11açoes do Regno feitas
os Reis que amte 110s foram E per os Reys, que a11te Nós Jo-
per 110s E porque toda 11ertude raõ, e per Nós. E porque a
das Leis esta 11a execucam dei/as pri11cipal 11irtude das Leys
A qual/ sem pratica de horde- está 11a execuçaõ dei/as, aqual
nado Juizo 11am pode ser trazida sem pratica de hordenado Juizo,
a boa perfeiçam porem emtemde- 11aõ pode ser trazida á boa per-
mos ao diamte em este terceiro feiçaõ, porem e11te11demos ao di-
Liuro tratar dos autos Judiçi- ante em este terceiro Li11ro
aees E ordem que acerqua delles tratar dos Autos Judiciaes, e
se deue ter. ordem, que ácerqua delles se
(TTI LN, f 1) de11e ter.
(Edição, L.º III, pg. 1)

III - QUE EDIÇÃO EM 1984?

É óbvio que os aperfeiçoamentos textuais obtidos na


edição de 1792 devem ser preservados. Para além disso, tudo
entra em relatividade: com os custos, o tempo, os recursos
humanos, os destinatários previstos, o tipo de edição, o
plano editorial englobante.
Cientificamente, a solução óptima seria a edição crítica.
Mas é também a mais onerosa e demorada, pelo número de
especialistas requerido e pela complexidade dos trabalhos
preparatórios, aliás aqui bastante menos pesados que de
costume, dada a série relativamente pequena de códices de
base (os do séc. XVIII não contam) e a simplicidade do
stemma.
Um a solução de compromisso, cientificamente justificável
e muito mais acessível em termos de custo e de tempo, seria a
de respeitar o esquema da edição de 1792 (substituindo
apenas, como exemplar de base do L° III, TT /LN por
TTIMC), mas rejazendo toda a leitura (a dos textos de
base e a das variantes) segundo os preceitos actuais da
paleografia e da textologia.
23

A solução escolhida foi, porém, a da edição anastática,


por ser a mais rápida, exequível e económica, e por se inserir
num plano geral de reedições análogas dos grandes textos
jurídicos portugueses. Os investigadores e os amantes da
cultura agradecerão a iniciativa, benemérita e há muito
esperada. Convinha, em contrapartida, que fossem avisados
das qualidades e limites da obra que se lhes oferece. Não é
outra a finalidade de_stas páginas introdutórias.

EDUARDO BOR G ES NUNES


Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa
COLLECÇAÕ
DA

LEGISLAÇAÔ
ANTIGA E MODERNA
DO

REINO DE PORTUGAL.
PARTE I.
DA L E G IS LAÇA Õ ANTIGA.
ORDENAGOENS
DO

SENHOR REY
D. AFFONSO V.
LIVRO I.

COIMBRA.
NA REAL IMPRENSA DA UNIVERSIDADE.
ANNO DE MDCCLXXXXII.

Por Refoluçaõ de S. MAGESrADE de 2 de


Setembro de 1786.
TAVOA
D O P R I M E I R O L I V R O.

TITULO I. Do Regedor, e Governador da


Cafa da Juftiça em a Corte d'ElRey. 8
TIT. II. Do Chanceller Moor. I 5
TIT. III. Dos Veedores da Fazenda. 23
TIT. IIII. Dos Defembargadores do Paaço. 26
TrT. V. Do Corregedor da Corte. 37
TrT. VI. Do Juiz dos noffos Feitos. 57
TIT. VII. Dos Ouvidores. 60
TIT. VIII. Do Ouvidor das terras da Rainha. 68
TIT. VIIII. Do Procurador dos noffos Fei-
tos. 7r
TIT. X. Do Efcripvaõ da Chancellaria. 74
TIT. XI. Do Meirinho, que anda na Corte
em Ioguo do Meirinho Moor. 77
TIT. XII. Do Meirinho das Cadêas, e coufas
que a feu Officio pertencem. 82
TIT. XIII. Dos Procuradores, e dos que nom
podem fazer Procuradores. 84
TIT. XIIIJ. Do Scripvaõ dos Feitos d'EIRey. 95
TIT. XV. Do Efcripvaõ das Malfeitorias. 97
TIT. XVI. Dos Eícripvaaés dante os Defem-
bargadores do Paço, e dos Aggravos,
e do Corregedor da Corte , e dos ou -
tros Deíembargadores da Rollaçom. 99
TIT. XVII. Do Porteiro da Chancellaria. 107
T1T. XVlll. Do Porteiro da Rollaçom. 109
Liv. I. • TIT.
11 TA V o A.

TIT. XVIIII. Do Porteiro d'ante o Correge-


dor da Corte. r ro
T1T. XX. Do Pregoeiro da Corte. 113
T1T. XXI. Do Porteiro dante os Ouvidores
noffos, e do Porteiro dante ho Ouvi-
dor da Rainha. r r4
T1T. XXII. Do que perteence aos Carcerei-
ros da Cadêa do Corregedor da Noffa
Corte, e da Cadêa dos Ouvidores. I 14
TIT. XXIII. Dos Corregedores das Comar-
cas, e coufas que a feus Officios per
teencem. 116
TIT. XXIIII. Em que modo haõ de enque-
rer fobre o Corregedor da Comarca ,
quando acabar ho tempo de feu Of-
ficio. r 50
TIT. XXV. Da maneira, que ham de teer
os Juízes, que EIRey manda a algu-
mas Villas per feu fcrviço, e do poder
que ham de levar. 155
TIT. XXVI. Dos Juízes Hordenairos, e cou-
fas que a feus Officios perteencem. r 64
TIT. XXVII. Dos Vereadores das Cidades,
e Villas , e coufas que a feu Officio
perreencem. r 73
TIT. XXVIII. Dos Almotacees, e coufas que
a feus Officios perteencem. 179
T1T. XXVIIII. Do Procurador do Concelho,
e
T A V o A. Ill

e coufas que a feu Officio perteen-


cem.
T1T. XXX. Do Alquaide Pequeno das Ci-
dades , e Villas , e coufas que a feu
Officio perteencem. r 90
Tn. XXXI. Das Armas como fe ham de fi-
lhar.
TrT. XXXII. Dos Carcereiros da Corte, e do
que a feus Officios pcrteence. 206
TrT. XXXIII. Das carcerageens da Corte,
e como fe haõ de levar. 209
TrT. XXXIII!. Das carcerageens das Cida-
des , e Villas , e como fe ham de re-
cada~ 2rr
TIT. XXXV. Dos Taballiaaens, e Efcripvaa-
ens , do que ham de levar de feu fo-
lairo. 2r 5
TIT. XXXVI. Do que ham de levar os Ta-
balliaaens , e Scripvaaens das Cartas,
e das Sentenças, e Alvaraaes, que fe-
zerem. 220
TIT. XXXVII. Do que ham de levar os Ta-
balliaaens do Paaço das Efcripturas,
que fezerem. 2 24
TrT. XXXVIII. Do que ham de levar os Ta-
balliaaens, e Efcripvaaens das vríl:as
dos feitos. 2 25
TIT. XXXVIIII. Do que ham de levar das
*z buf-
II II T A V o A.

bufcas dos feitos, e das efcripturas. 227


Tir. XXXX. Do que ham de levar polos
carretos dos feitos. 232
TIT. XXXXI. Do que ham de levar os En-
queredores. 233
TIT. XXXXII. Do que levarom os Taballi-
aaens, e Efcripvaaens, e Enqueredo-
res por feu trabalho , quando forem
fora do Lugar fazer alguma efcriptu-
ra. 234
TIT. XXXXIII. Do que ham de levar os
Porteiros, e Pregoeiros, das penhoras,
e remataçooens, e citaçooens. 235
TIT. XXXXIIII. Do Contador das cufias, e
de como as ha de contar. 238
TIT. XXXXV. De como fe ha de contar o
folairo aos Procuradores. 2 so
TIT. XXXXVI. Do que ha de levar o Con-
tador das cuftas palas contar. 2 59
TIT. xxxxvn. Do que perteence aoOfficio
dos Taballiaaens, e artigos, que ham
de levar com as Cartas dos Officios. 261
TIT. XXXXVIII. Da declaraçom feita antre
os Taballiaaens do Paço, e os Tabal-
liaaens das audiencias fobre as eícri-
pturas , que a cada huum delles per-
ceence fazer. 269
Tn. XXXXVIIII. Das roupas, que ham de
tra-
T A V o A. V

trazer os Taballiaaens, pera ferem da


jurdiçom d'EIRey. 280
TIT. L. Das citaçooens , pergooens , procu-
raçooens , e inquiriçooens, de que a
EIRey perteence haver direito. 282
TIT. LI. Do Regimento da Guerra. 2 85
TIT. LII. Do Conde-eftabre, e do que per-
teence a feu officio. 306
Trr. LIII. Do Marichal, e coufas que a feu
officio perteencem. 3I 5
TIT. LIIII. Do Almirante, e do que perteen-
ce a feu officio. 319
Trr. LV. Do Capitam Moor do mar. 328
TIT. LVI. Do Alferes Moor d'ElRey. 333
TIT. LVII. Do Moordomo Moor noífo. 335
TIT. LVIII. Do Camareiro Moor. 337
Trr. L VIIII. Dos Confelheiros de ElRey. 340
TIT. LX. Do Meirinho Moor. 346
TIT. LXI. Do Apoufentador Moor. 348
TrT. LXII. Dos Alquaides Moores dos Caf-
tellos. 350
TIT. LXIII. Dos Cavalleiros, como, e per
quem devem feer feitos , e desfeitos. 360
TIT. LXIIIf. Dos Retos, e em que cafos de-
vem feer outorguados. 377
TIT. LXV. ~aees devem feer os Adays, e
como devem feer efcolheitos , e per
quem.J
TIT.
VI T A V o A.

TIT. LXVI. Dos Almocadeens, como ham


de jurar quando forem feitos. 394
T1T. LXVII. Do Monteiro Moor, e coufas
que a feu officio perteencem. 398
T1T. LXVIII. Do Anadal Moor, e coufas
que a feu officio perteencem. 405
T1T. LXVIII!. Das duvidas, que Vafco Fer-
nandes , e Joham de Baflo moverem
a E!Rey Dom Joham fobre a apura-
çom dos beefteiros, e guaJliotes. 422
TIT. LXX. Do que perteence á apuraçom
dos gualliotes. 466
TIT. LXXI. Dos Coudees, e Regimentos
que a feus Officios perteencem. 4 73
TIT. LXXII. Do Regimento do Chanceller,
Meirinho , e Porteiro das Correiçoo-
cns das Comarcas. 521
P R E F A e; Ã O.

A UNIVERSIDADE de Coimbra dezejando promover o


adiantamento de feus Alumnos, e coníidcrando de quanta
importancia feria aos que [e applicaó ao eíludo da Jurifpru-
dencia Patria facilitar-lhes a liçaó do Codigo do Senhor
Rey D. Affonfo V. o pública pela primeira vez impreffo na
fua Officina. Informar pois o Publico da forma e ordem ,
que na Ediçaó fe guardou , he o objeélo principal deíla Pre-
façaó ; mas como , para fe fazer conceito do que ácerca
diffo fe houver de dizer , feja precifo ter algum conheci-
mento da obra, parcceo conveniente dar della em primeiro
lugar uma breve noticia para fubíidio dos Leitores , que
ainda o naó tiverem: tanto mais, quanto por ter íido muito
tempo defconhecida, e a fua aquifiça6 difpendiofa, eíle co-
nhecimento fe naó tem ainda tanto derramado , como cum-
pria , parando em poucos particulares , que ajuntavaó á cu~
riofidade de noffas coizas os meios de a fatisfazer.
QUANDO logo Portugal fe defmembrou do Reino de
Leaõ , e fe erigio em Monarquia propria , he confiante te-
rem noffos Maiores , que viera6 a conflituir o novo Impc-
rio,
n
rio, continuado a governar-fe pelas leis do Codigo Gothi-
co , que era entaõ a legislaçaó geral de todas as Hefpanhas.
Nolios primeiros Príncipes cheios do projeélo de defapo!Tar
do paiz os Saracenos , e occnpados dos contínuos cuidados
da guerra , tinhaõ pouco vagar de fer Legisladores ; masco-
mo , á proporçaõ que iaõ ganhando as terras , achavaó os
campos deva(bdos, e as povoaçoens defpejadas de feus anti-
gos habitantes , que, como era natural , as abandonavaó •
por efcapar á furia dos vencedores , vinhaó eftes a fer dois
objeélos , que pela fua importancia pediaó efficaz e pronta
providencia , a faber , Povoaçaó , e Agricultura. Elles a de-
raó pois defde logo , quanto á Povoaçaó , convidando novos
moradores , e attrahindo-os por meio de certos foros , pri-
vilegias , e izençoens, que lhes concediaó; e quanto á Agri-
cultura , refervando para fi das terras conquifladas as me-
lhores empolas para feu patrimonio , que ainda hoje chama-
mos Reguengos , e dillribuindo as mais pelos feus folda-
dos , e pelos novos povoadores , prefcrevendo aos cultiva-
dores de umas e outras os direitos, que em razaó de feu al-
to Senhorio lhes deviaó pagar , á proporçaó do terreno que
cultivaffem , ou dos fruélos que colheffem. Tudo iíl:o fe
continha em uma Carta , que davaó a cada Povo , a que
chamaraõ Foral, onde alem diífo fc determinava6 certos ou-
tros direitos , que fe deviaó pagar por occaziaó do feu trato
e
III

e comercio , fe eíl-abeleciaõ penas , quaíi fempre pccunía-


rias, pelos delitos que cometteffem, e fe prefcreviaõ alguns
regulamentos a refpeito da fua particular policia , e gover•
no municipal. Mas he bem de entender , e he o que facil-
mente fe convence da Iiçaõ dos antigos Foraes, que fendo
o feu fundo principalmente relativo á economia política de
cada povo , e ao eflabelecimento do patrimonio , e fazenda
Real , mui poucos regulamentos ahi teriaõ lugar a refpeito
da Jufliça.
NAS Cortes de Lamego, celebradas no anno de u43,
alem das leis Cobre a fucceffaó da Coroa , e Cobre os modos
de ganhar e perder a nobreza , achamos algumas Cobre a
J uf1iça , mas poucas , e todas criminaes. Reílavaó certos
Coíl:umes , ou direitos introduzidos na republica , e que he
provavel ao principio fe obfervaffem e guardaffem por nof.
fos Maiores fó pela memoria e ufo, ainda que muitos fof.
fem depois julgados, tomados em affento , e mandados ef-
crever nos livros da Chancellaria , principalmente no tem•
podo Senhor Rey o; Affonfo III. dos quaes Coíl:umes de-
rivaraó depois artigos mui íingulares das noffas aéluaes Or.
denaçoens.
Ers AQyr pois a Legislaçaó , por que fe governaraó
noffos Maiores por mais de um feculo ; athé que o Senhor
Rey D. Affonfo II. nas Cortes congregadas em Coimbra
*2 no
lIII

no anno de 1211 primeiro do feu Reinado publicou as pri-


meiras Leis geraes , depois das que fe fizeraó nas Cortes de
Lamego , tambem poucas em numero, mas cheas de hu-
manidade , e fabedoria. Continuara6 os Senhores Reis feus
Succe!Tores athé o Senhor D. Joaó I. a eílabelecer leis, mas
ja taó varias e tantas , que veio a crefrer prodigiofamente
o numero dellas. Alem diffo fendo muito frequente por ef-
íes tempos a celebração de Cortes geraes , haviaó muitas
Refpoílas , e Decifoens dadas pelos Senhores Reis a arti-
gos , que nellas por parte dos povos lhes eraó requeridos ;
as quaes refpoflas , e decifoens ficavaó tendo por fi. me[mas
a força de Leis geraes, naõ fendo ainda entaó ordinaria a
praél:ica , que nos tempos poíleriores fc veio a fixar , de fe
conceberem em forma de Leis, quando nellas os Senhores
Reis havia6 por bem deferir aos povos na conformidade de
feus requerimentos.
ABRANGENDO pois o período de[de o principio do
Reinado do Senhor D. Affonfo 11. athé o do Senhor D.
Joaõ I. o efpaço de quaíi dois feculos , naõ podia deixar de
ter acon1eci<lo, que muitas detcrminaçoens dos antigos Fo-
raes efüve!Tem reformadas, muitos Collumes mudados , e
muitas das primeiras Leis , e Capitulas de Cortes, altera-
das , e dellas inteiramente revogadas por novas Leis , e de-
cifoens de Cortes poíleüores. Vi nha6 por tanto a fer diffo

uma
V

uma coníequencia inevitavel os inconvenientes ponderados


na Introducçaó defla obra, de pela multiplicidade e contra-
riedade de tantas Leis recrefcercm continuadamente duvi-
das e contendas , e fe verem os Julgadores poíl:os em em..
baraço de as decidir ; o que deu cauza aos repetidos reque-
rimentos, que os povos juntos em Cortes fizeraõ ao Senhor
D. J oaó I. que as mandaffe examinar e reformar , e fazer
àellas uma geral Compilaçaõ, para que fendo juntas e cer-
tas vieffem a ceffar os males, que de o aílim naõ ferem fe

lhes feguiaó.
ESTE magnanimo e generofo Príncipe, taó invencível
na guerra , como applicado na paz a promover a felicidade
de feus povos , entendendo quanto era juíl:o femelhante re-
querimento , houve por bem deferir-lhe , mandando con-
certar a primeira Compilaçaó , que tivemos de noffas Leis.
Da mefma Introducçaó confia ter ella fido encarregada pri-
meiramente pelo dito Senhor D. Joaõ I. a Joaõ Mendes,
Cavalleiro , e Corregedor em fua Corte, e depois pelo Se-
nhor D. Duarte feu Filho ao Doutor Ruy Fernandes do
feu Confelho, e ahi fe conta o progrello della, athé fer aca-
bada no tempo do Senhor D. Affonfo V. de quem veio a
tomar o nome , fendo Regente do Reino na fua minorida-
de o Senhor Infante D. Pedro feu Tio, o qual nomeou
certos Jurifconfultos , tambem ahi referidos , para a reve-
rem
VI

rem e examinarem • o que elles fizera6 reformando-a em


algumas partes , athé a darem por perfeita no eílado, em que
agora fe publica.
p AR E e E que os dois Compiladores fe propuseraó por
modelo do feu Codigo a Collecçaó das Decretaes de Gre-
gorio VII II. ao menos em grande parte a ella fe confor-
maraó, tanto na divifaó da obra , como no fyíl:ema e dií-
tribuiçaó das materias. Dividiraõ-a pois em 5. livros : no
I. fe contém os Regimentos dos Officiaes maiores , e fub-
alternos da J uíl:iça : no II. fe trata de materias relativas
á jurifdiçaó, peffoas, e bens dos Ecclefiafl:icos, dos Direi-
tos Reaes , e fua arrecadaçaó , da jurifdiçaó dos Donata-
rios, e ultimamente do modo da tolerancia dos J udeos , e
Mouros: no III. livro fe trata da Ordem Judiciaria: no
JIII. dos Contratos, Succe!foens, e Tutorias: no V. dos
Delitos , e Penas. Ha com tudo pelo corpo da obra alguns
títulos fugitivos, e outros repetidos, e tambem fe lhe achaó
juntas algumas Leis , que parece foraó feitas depois de ella
fer acabada : o que tudo ferá notado em lugar mais com-
petente.
Qu A NTO á legislaçaó , que nelle fizeraó entrar , ella
he de mui varia natureza. O fundo principal faõ I. as Leis
promulgadas defde o Reinado do Senhor D. Affonfo II.
athé o do Senhor D. Affonfo V. fem que ahi fe ache d'an-
tes
VJI

tes defia data mais que a notavel Carta de Foro dada pelo
Senhor Rey D. Affonfo Henriques aos Mouros forros de
Lisboa, Almada, Palmela, e Alcacer, que vem no liv. 2.
tit. 99. II. os Capitulos das Cortes celebradas defde o
tempo do Senhor D. Affonfo 1111. por diante. III. o Di-
reito Romano interpretado pelos Gloífadores antigos , e
adoptado pelos Compiladores em muitos titulos , que fi-
zera6 de novo , para completar o feu fyíl:ema , e fuprir a
falta de legislaça6 propria em materias, a refpeito das quaes
he provavel a na6 houvelfe. Fazem tambem urna parte
confideravcl da obra li II. as Concordatas dos Senhores
Reis D. Diniz, D. Pedro 1. e D. Joaô 1. com os Sum.
mos Pontífices, e Ecclefiallicos do Reino, das quaes fa6 for.
mados os primeiros fete titulos do liv. 2. Além defias
quatro fontes, que concorrera6 com mais cabedal, fubmi.
niflraraó tambem materia V. o Direito Canonico igual-
mente interpretado pelos Gloíladores. VI. as Leis das Par-
tidas de Hefpanha. VII. os antigos Coíl:umes, ou Affentos
da Chancellaria. Ultimamente encontraõ-fe tambem na
obra como fontes della VIII. algumas determinaçoens, que
viera6 ahi a ter força de leis geraes , tendo fido particulares
na fua origem : taes faó por exemplo o Eíl:ilo , de que fe
faz mença6 no liv. 3. tit. 7 I. §. 36. fobre o purgar das re-
velias na iníl:ancia da appcllaçaó: os Coíl:umes da Camara
de
VIII

de Lisboa fobre os alugueres das cazas , de que fe trata no


liv. 4. tit. 73: a Carta de fretamento dos Navios da Ca-
mara do Porto, que vem no meímo liv. 4. tit. 5, &c.
PELO que pertence á forma, em que conceberaó a le-
gislaçaó , a que prevalece he eíla. Aquclles titulos , cuja
fonte hc lei anterior , capitulo de Cortes, collume, &c.
começaó por uma breve prefaçaó hillorica, em que fe refe-
re o Principc , que fez a Lei , ou convocou as Cortes, o
lugar cm que fe celcbraraó, &c. : vem depois a fonte nos-
proprios termos, em que foi originariamente concebida.
Se faó mais leis , ou capitulos , achaó-fe difpollas por or-
dem chronologica , fazendo-fe na paífagem de umas para
outras a declaraçaó hillorica rcípeéliva. Tranícripta a fon-
te íegue-fe a confirmaçaõ abfoluta do Senhor D. Affon-
fo V. fe íimplesmente fe manda guardar, ou as fuas dccla-
raçoens, reformas, ampliaçoens, e limitaçoens , fe em al-
guma coiza fe altera. Os titulos porem , em que em nome
do dito Senhor fe propoem legislaçaó novamente concebi-
da, qual he por exemplo a que os Compiladores adoptaraó
do Direito Romano, ne[es fe acha ella em eftilo legislato-
rio na forma , em que depois paífou para os Codigos pof-
teriores , ainda que muitas vezes venha6 tambem com feus
prologos. Mas dizemos que eíla he a forma, que preva-
lece, porque he a que ordinariamente fc guarda nos quatro
ui-
vnn
ultimos livros. Naó hc porem affim a do livro primeiro , o
qual he quafr todo concebido em eflilo legislatorio: da qual
differença fó fe póde affinar a razaó por conjeéluras, fendo
as mais prova veis , ou que os Regimentos , que nelle fe con-
tem , faó de novo dados pelo Senhor D. Affonfo V. , ou
que o primeiro livro he obra de differente mão , acabando
ahi talvez o trabalho de Joaó Mendes , e começando dahi
em diante o de Ruy Fernandes , mais em forma de Collec-
ção ; o qual rnethodo affim como a elle feria mais facil , af-
fim para o ufo, que hoje fe póde fazer da obra, nos vem
a fer a nós mais importante e proveitofo.
PASSANDO agora a confiderar a obfervancia e duraçaó
deíle Codigo , aindaque elle depois de fer revifio fe deu
por acabado e perfeito , como confia da fua Introducçaó ,
naó tem com tudo faltado q11em duvide da fua folernne pu-
blicaçaó por motivos , que naó deixaó de parecer efpecio-
fos. Mas deixando a decifaó de!fa duvida para o tempo, em
que appareçaó monumentos taes , de que fe tirem provas,
que fejaó para i!fo baílantes , entre tanto he fem controver-
fia que os povos tiveraó conhecimento , e fizeraó ufo delle.
Alem de certidoens de varios títulos , que a feu pedimento
confia foraó extrahidas do exemplar , que delle fc achava na
Chancellaria do Senhor D. Affonfo V. dá evidente tefiernu-
nho diífo vermos como nas Cortes do Senhor D. Joaó II·
co-
**
X

começadas em Evora em 1481, e acabadas em Viana d'apár


d'Alvito em 1482 o citaõ por livros, e títulos. Ahi no ca-
pitulo 11 , queixando-fe ao dito Senhor Rey do muito que
padeciaó os que viviaó fugeitos a jurifdiçoens defmembra-
das da fua Real Coroa , fe referem a inquiriçoens ja fobre
iffo tiradas , e requerem que fe tirem onde naó eraó come-
çadas , e que umas e outras fe cumpraó por Sua Alteza fe-
gundo forma e determinaçom da lei d ' EIRey D. Fernando poj-
/a no fegundo livro no Tito/lo de como devem hufor das jurdi-
çooens os Fidalgos , confirmada e approvada por EIRey vojfo
Padre, que Deos tum, &c. E no capitulo 125 das mefmas
Cortes requerendo ao dito Senhor que tiraffc o tributo das
Cizas, e affinando a origem clellas no tempo do Senhor Rey
D. Joaó I. cm teílemunho do contrario fe refere o dito Se-
nhor ao mefmo C'odigo, dizendo que já antes d 'EIRey D.
Joaõ de immortal e gloriofa memoria feu Bifavo EIRey D • .Af-
fo11Jo o llll. e EIRey D. Pedro, e EIRey D. Fernando lan-
çaronz , e levaram cizas , ans vezes geeraus , outras oras em
rerias couzas , para o que lhes cumpria , fegu11do mais crara-
mente f e contem 110 fegundo livro das Orrlenaçoens no Tito!!~
dos Artigos, que forom requeridos p/Jr parte dos Fidalgos o El-
Rey D. Joham, &e. os qu:1cs títulos com as matcri.as cor-
refpondentes fe achaó com effeito neílc Codigo no livro ci-
tado,

NAó
XI

N AÓ foi porem de longa duraçaó a fua obfervancia ,


pois vemos que o Senhor Rcy D. Manuel mandou fazer no-
va Compilaça6 polo achar conf:ifo, que he a raza6, que de

a affim mandar fazer dá o Chroniíl:a Ruy de Pina na Chro-

nica do Senhor D. Duarte cap. 7. E mefmo antes di{fo ha


noticia que o Senhor D. Joa6 II. o mandara abreviar pelo
Licenciado Lourenço da Fonfeca, que fora algum tempo
feu Corregedor da Corte. Mas quando a fua obfervancia fe
extendelfe athé o tempo da publicapó do Codigo do Se-
nhor D. Manoel, dado que a primeira ediçaó delle Codigo
folfe do anno de I 513 , pois que na de Joaõ Pedro de Bo-
nhomini , que he do anno de 1514, exprelfamente fede-
clara fer a fegunda , coníl:ando do mefmo Codigo do Se-
nhor D. Affonfo V. liv. 5. tit. II9. §. 31. que foi acabado
no anno de 1446, ve-fe bem que naó podia exceder o efpa-
c;:o de feífenta e fete annos. O que talvez com:orreria muito
para que, naó obllante fer elle o Codigo geral da Naça6,
fe propagalfe ta6 pouco, e vielfe ta6 facilmente a fer defco-
nhecido. Com effeito apenas entre os Interpretes das nolfas
Leis fe acha um ou outro , que delle faça mença6 , fendo
taó notavel o efquecimento, em que cahio , que os mefmos
Compiladores do Codigo Filippino , de que ufamos , por
ventura nem noticia delle tivera6 : ao menos parece fe pó-
** 2 de
XII

ele affirmar [em temeridade , q11e nenhum ufo fizeraó dcllc


para a Compilaçaó , que ordenara6.
A T H E' que rcnafcendo entre os Portugnezes o bom
gofio cm toda a forte de Litteratura, fomentado na regene-
raçaó della Univerfidade com a Paternal e Auguíla Protcc-
çaó do Senhor Rey D. Jozé , cuja memoria ferá immortal
para ella em reconhecimento dos ampliffimos beneficios ,
que de fua Real Mao recebeo , e derramando-fe tambem
eíle goílo pelos eíludos da Jurifprudencia Palria, fe veio fa-
cilmente a conhecer, que os noífos antigos Jurifconfultos ,
menos por negligencia , do que por vicio de in!lituição , íe
tinhaó pouco dado a cultivar eíla parte a mais importante
da noífa Litteratura , e os que a trataraó , defacertara6 os
meios de o fazer com proveito, naó conhecendo a neceffida-
de para i{fo indifpenfavel de combinar o eíludo della com o
da noífa bifloria e antiguidades, e eílreitando-fe dentro dos
curtos limites , que lhes prcfcrevia a arida efcola Bartholi-
na, em que foraó criados. Defde entaó inculcando-fe nos
:novos Eílatutos deíla Univer/idade a importancia de feme-
lhante combinaça6, e refcrindo-fe entre os monumentos da
noffa Legislaça6 antiga o Codigo do Senhor D. Affonfo V.
foi facil entender quanta utilidade fc poderia tirar de o con-
fultar, e fc fizeraó as poffiveis diligencias polo bem conhe-
cer. ERA
XIII

ERA no Real Arquivo da Torre do Tombo onde pri-


meiro devia lembrar que appareceria elle illufire monumen-
to. Mas procurando-fe ahi, naó fe acharaó no anno de I 773
mais que tres livros, o II. III. e Ili!. os quaes com tudo
rnoftravaõ ter feito parte de Collecçaõ inteira , fendo todos
da mefma letra, forma , e encadernaça6. Alem delles appa-
receo outro exemplar avulfo do livro II. Fazendo-fe pois
diligencia por inteirar a obra pelos outros Arquivos do Rei-
no, fe defcobriraó na Camara de Santarem os livros J. II.
III I. e V. : no Convento de S. Antonio da Merceana o I.
e III. : e ultimamente na Camara do Porto o I. II. III I.
e V. os quaes todos fe mandaraó recolher ao dito Real Ar-
quivo, para onde paffara6 os de'Santarem em 1776, da
Merceana em I 777, e do Porto em 1784. Fora deíles exem-
plares antigos naõ ha noticia de outro, fe naõ de um do li-
vro II. que fe acha na Bibliotheca do Molleiro de Alcoba-
ça.
EXAMINANDO-SE eíles exemplares, que apenas be
precifo advertir faó manufcritos , em todos fe deflinguem
caraéleres claros de fua grande antiguidade , mas em ne-
nhum fe defcobre final de autenticidade. Em todos fc achaó
muitas faltas , e erros de Copiflas ; mas deíles defeitos uns
fa6 particulares a cada MS. , outros faõ communs a todos:
donde parece poder inferir-fe que derivara6 uns e outros do
mef-
:Xlfft

mefmo exemplar , provavelmente o original , que íe acha-


va na Chancellaria do Senhor D. Affonfo V. e que he ve•
rofimil ferviffe aos Compiladores do Codigo do Senhor D.
Manoel , no qual tempo talvez fe perderia. De todos os
menos defeituofos fe reputaó os do Porto, e Merceana, mas
tambem eíles tem erros e faltas confideraveis. A liça6, que
fe conferva em todos, he quafi fempre a mefma, mas a lin-
goagem he as vezes differente , achando-fe vocabulos mais
antigos em uns do que em outros ; o que talvez procederia
de os Copiíl:as poíleriores na mefma occazia6 de os tranf-
crever irem fobíl:ituindo os que em feu tempo fe ufava6 á
aquelles, que lhes pareciaó antiquados. Poucas vezes fe en-
contra variante , que traga mudança de fentido , mas nos
nomes proprios , e numeras muito , e muitas vezes diffe-
rem , pela bem conhecida raza6 das abreviaturas , e irregu-
laridade das notas, de que os antigos para iffo fe coíl:uma-
raó fervir. Ainda fe acha6 em alguns mais titulas do que
em outros, e ás vezes collocados em differente ordem. Naó
pode ter lugar nefta Prefaçaó individuar cada uma deíl:as dif-
ferenças , as quaes fera6 notadas em outro lugar com mais
oportunidade.
DE uma com tudo • pOt' qua6 notavel he , na6 pode-
mos deixar de fazer mençaó , qual he a de fe achar no li-
vro I. do MS. do Porto o Regimento da Guerra , e pri11-
c1-
XV

cipaes Cabos della de mar , e terra , com outros titules á


guerra pertencentes, como tambem os Regimentos dos Of.
ficiaes Maiores da Caza Real , os quaes fe naó achaó nos
outros dois MSS. do dito livro , a faber, de Santarem , e
da Merceana. Mas efta Collecçaó de títulos he provavel naó
folfe obra dos Compiladores do Codigo , para ter ahi lugar
. como parte delle. 1. porque fendo a fua incumbencia fazer
um Codigo Civil , he incomprehenfivel como taó fóra de
propofito fizeílem nelle entrar regulamentos de guerra , e
outros que naó tem relaçaó alguma com a adminifhaçaó da
juíliça. II. porque a legisla~aó, que houvelfe de entrar no
Codigo nos termos da fua commiffaó, e para fe verificar o
fim propoíl:o, devia fer certa e determinada, e naó da natu-
reza de muitos defies títulos, cuja obfervancia fica incer-
ta , pois no fim do titulo 70 do mefmo livro declara o Se-
nhor D. Affonfo V. que os naó ha de todo por approvados.
III. porque efies Regimentos confia que andavaó juntos em
livro difiinto com o titulo Dos Regimentos d'EIRey D. Diniz
para os Ojficiaes de Guerra , e Gaza; e Jorge de Cabedo ,
que parece naó ter tido conhecimento do Codigo Affonfi-
no , fez ufo deíle livro na fegunda parte das fuas Deci-
foens , dec. 98: outro fim he certo que delle fe extrahiraó
copias , qual foi a de que fe fervio D. Antonio Caetano de
Souza , para a fazer imprimir entre as Provas do liv. 4. da
fua
XVI

fua Hiíl:oria Genealogica n. 0 161 , e outra, que ha not ici 3


exiílir na Bibliotheca do Moíl:eiro de Alcobaça , com o ti-
tulo O R egimento d'EIRey D. Diniz dos Soldados t Familia-
res de Jua Caza.
MAs ainda que os Regimentos , que no dito livro fe
contem , fe digaó do Senhor D. Diniz , por ahi entrarem
talvez muitos títulos, tirados das Partidas, que confia o di-
to Senhor' mandara trasladar em lingoagem , he com tudo
fem controver!ia que foraó mandados colligir pelo Senhor
D. Affonfo V. como alem de outros argumentos fe conven-
ce de quantas vezes falia no Senhor Rey D. Joaó I. feu
Av.ô , e no Senhor D. Duarte feu Pai. He pois veroíimil ,
que tratando-fe no livro I. do Codigo de Regimentos , -fe
lhe vielfe depois a ajuntar o outro livro , fem outra raza6
mais que a de fer tambem de Regimentos , a fim de que ef-
tivelfem todos juntos , aindaque depois fe tornalfem a Íepa-
rar. E de que algum tempo affim anda!fem j1.111tos ha toda a
probabilidade ; porque fuppoíl:o dos tres MSS. antigos,
que exiíl:em do livro I. fó no do Porto venha o titulo do
Regimento da Guerra , e os feguintes , achamos com tudo
no da Merceana o mefmo titulo começado , ainda que naó
acabado de copiar com a rubrica Do Regimento da Guerra ,
que Je faz por terra ; donde parece poder inferir-fe que o
Copiíla do MS. do Porto trasladou tudo o que achou no
cxcm-
XVII

exemplar; o da Merceana começou a trasladar, mas conhe-


cendo logo que aquellas materias naó pertenciaó ao Codi-
go naó continuou ; o de Santarem ou defde o principio as
houve por eflranhas, e como taes as deixou, ou tirou a fua
copia quando ainda naó eraó juntos , ou depois que deixa-
ra6 de o fer.
APENAS no Real Arquivo fe inteirou a Collecçaó de
todos os cinco livros defie Codigo , algumas peífoas parti-
culares fizeraó extrahir fuas copias , pela liçaó das quaes fe
veio a defcobrir, que naó fó elle foi o modelo dos dois Co-
digos pofieriores , mas que nelle fe encerra o fundo da le-
gislaçaó de um e de outro , fem que os Compiladores fe-
guintes fizelfem outra coiza mais do que omittir a legisla-
çaó , que acharaó fora de ufo, alterar apenas em lingoagem
a que confervaraó, e accrefcentar nos lugares competentes
as providencias da nova legislaçaó. Pela cornparaçaó , que
fe faz de todos os tres, fe acha, que affim como os Com-
piladores do Codigo Filippino tranfcreveraó a legislaçaó ,
que confervaraó do Codigo do Senhor D. Manoel, affim
os defie Codigo naó fizeraó outra coiza mais do que tranf-
crever do Codigo do Senhor D. Affonfo V. os títulos, que
ahi acharaó concebidos em efülo legislatorio , e dos outros
as declaraçoens , ampliaçoens , e limitaçoens do dito Se-
nhor, que he o que lhes pareceo propriamente Iegislaçaó,
*** dei-
XVIII

llcixando de fora as Leis , capitulos de Cortes, e outros ar-


tigos originaes, que eraó como o texto, que o dito Senhor
declarava. Como pois nas Leis, de-que prefcindi1aó, por
fc acharem em fua integridade , venhaó ordinariamente os
feus prologos, nos quaes com toda a boa fé, que convinha
á fimplicidade daquelles tempos, fe expoem as verdadeiras
cauzas , e motivos de fe eílabclecerem: da mefma forte nos
capitules das Cortes fe contenhaó os requerimentos dos po-
vos , em que allegaó as razoens de os fazerem , os males ,
que tratavaó de evitar, e os bens, que fe propunha6 confe-
guir pela legislaçaó , que requeriaó , foi facil conhecer-fe
quantas luzes fe podiaó tirar deíle Codigo para illuílrar mui-
tos lugares das afl:uaes Ordenaçoens , naó havendo ja quem
naó perceba , quanto para a verdadeira intelligencia e ge-
nuina interpretaçaõ de uma lei importa faber a cauza e
motivos della , e a mente e intençaó do feu Legislador.
EsT A , e muitas outras utilidades , que fe podem tirar
da liçaó do Codigo do Senhor D. Affonfo V. fizeraõ ha
muito dezejar a todos os que procuraó aproveitar no eíludo
da Jurifprudencia Patri-a que ella fe fizeffe vulgar. Ajunta-
vaó-fe iguaes dezejos de muitas outras peffoas, que tinhaó
femelhante intere!fe , ainda fem ter o eíludo das Leis de pro-
fi!Taõ. E com effeito comprehendendo-fe neíle Codigo a le-
gislaçaó de mais de dois feculos , e eífes dos de que temos
me-
XVIIU

menor e menos circunílanciada noticia , e naó havendo


meio mais feguro de fazer jullo conceito da hiíl:oria civil de
um povo , do que examinar a fua legislaça6 , pela contem-
placaõ de tantos e taõ ricos monumentos , como nelle fe
contem , naõ fó fe facilita o acompanhar os progreífos da
Sabedoria , e Prudencia legislatoria de noílos antigos Reis ,
mas ainda a alteraça6 gradual dos coíl:umes Nacionaes, que
fe iaõ defcnvolvendo, e de dia em dia exigindo as novas
providencias ; vindo por iffo a fer a fua liçaõ mui deleitofa
e intereífante a todas as peffoas eíl:udiofas de noffa hilloria
e antiguidades : athé mefmo aos curiofos da lingoagem , de
que elle he um ineílimavel thefoiro.
DEzEJ ANDO pois a U niverfidade fatisfazer ao voto uni-
verfal , tendo fobre iffo dirigido as fuas fupplicas á Real
Prezença da RAINHA NossA SENHORA , e tendo SuA
MAGESTADE havido por bem continuar-lhe a Sua Real
Benevolencia , com que a coíl:umou fempre honrar , defe-
rindo-lhe na conformidade dellas , e concedendo-lhe gra-
cioziilimamente licença de publicar uma Collecçaõ com-
pleta da noffa legislaçaõ , naó fó da aél:ual e viva , mas de
todos os antigos monumentos, que faõ havidos por fontes
della, pelo que a elles pertence deliberou começar pelos in-
editos, e dar entre elles o primeiro lugar pela fua maior im-
portancia ao Codigo do Senhor D. Affonfo V, que fahe pe-

*** ::z la
XX

la primeira vez á luz publica trezentos e quarenta e feis an.


nos depois de fer ordenado.
SERIA para dezejar que a Ediçaó fe deffe á viíl:a dos
antigos MSS. que delle exillem ; mas na fua falta fe procu-
rou dar a poffivel authoridade á obra , follicitando-fe uma
Copia affinadamente para iífo do Real Arquivo da Torre do
Tombo. Por fe reputar o MS. <lo Porto o menos imperfei.
to em comparaçaó dos outros , fe declara nefta copia ter íi-
do tirada por elle , excepto a do Livro II 1. que , por nelle
o naó haver, fe diz tirada pelo MS. do Arquivo; mas vie-
raó juntamente apontadas as faltas , e variantes, q11e nelles
fe acharaó a refpeito dos outros MSS. Ainda que eflas fal.
tas , e variantes parece na6 foraó notadas com tanta exac-
çaó, que algumas naó efcapaffem, q11anto fe pôde obfervar
pela comparaçaó da copia com outras tiradas tambem no
mefmo Real Arquivo dos differentes MSS. foraó ellas com
ttido de mui grande fubíidio para fe reíl:ituir a liçaõ em in.
numeraveis lugares , porque a melhoria do MS. do Porto
cm comparaçaó dos outros na6 tira que deixe de fer taro.
bem elle muito errado e defeituofo.
Exs AQYI pois a ordem, com que pareceo convenien•
te proceder na Ediçaó , e que com effeito fe guardou. Co.
mo nenhum deíl:es MSS. feja autentico , nem tenha mais
authoridade extrinfeca que qualquer outro, fendo todos co.

pias,
XXI

pias • e copias depravadas , e naó fe tratando de publicar o


Codigo do Senhor D. Affonfo V. fegundo a liçaó deite ou
daquelle MS. mas com a mais inteira e correéta, que foffe
poffivel fem offender as regras da boa critica , pareceo ra-
zoado que fe confideraffcm todos eíles MSS. como fubfidia-
rios uns dos outros, viílo acontecer felizmente acharem-fe
muitos lugares , faltas e errados em um , inteiros e certos
em outro. Em quanto pois a liçaó fegundo a copia do MS.
do Porto fe achou corrente , effa ordinariamente fe confer-
vou ; mas onde era errada e defeituofa , fe fuprio pela de
qualquer outro , onde pareci-a certa.
QyANDO eíles erros ou defeitos eraó communs a to-
dos os MSS. e naó havia focorro que efperar de nenhum
delles , fe fe podiaó fuprir por outros monumentos antigos,
onde os mefmos lugares fe achaffem tranfcriptos e inteiros,
naó houve duvida de fe fazer, e fe fez. Affim faltando em
todos os MSS. do Livro II. os artigos 17 , e 38 da primei-
ra Concordata do Senhor D. Diniz dos 40 artigos de Ro-
ma, naó houve duvida de fe reílituirem pela copia, que
della fe acha no livro das Leis Antigas, e q_ue correfpon-
dem ao exemplar latino , donde a tranfcreyeo Gabriel Pe-
reira de Caílro. Pelo mefmo livro fe reflituio a liçaó de
muitas Leis dos Senhores Reis D. Affonfo II. e III. D.
Diniz, e D. Affonfo !III. que nelle fe achaó colligidas .
Igual-
XXII

Igualmente fe refiituio a de muitos lugares dos titulos do


Regimento da Guerra por diante pela copia , que fe acha
impreffa entre as Provas da Hifioria Genealogica, de que
acima fallamos , porque fuppofio efia copia feja fobre todo
o encarecimento depravada , por fortuna fe achou certa cm
alguns lugares, que no MS. eraó errados e defeituofos. Da
mefma fórma fe confultou , quando pareceo neceffario , a
copia das Concordatas , que vem em Gabriel Pereira de
Cafiro , pois que os exemplares, de que fe elle fervio, quan-
do menos teriaó taó pouca authoridade extrinfeca, como
qualquer dos MSS. do Codigo , e aflim naó havia raza6
para fe deixar de fazer ufo d.ella , quando a tiveffe intrinfc-
ca nos lugares, em que fe acha1le certa a liçaó, que nelles
o naó era.
MAs efia liberdade , que fe tomou a refpeito dos tres
monumentos referidos , pareceo fe naó devia tomar indif-
tintamente, nem de feito fe tomou, a refpeito dos outros ,
que fe confultaraó , quaes foraó as Leis das Partidas , e o
Codigo do Senhor D. Manoel. Das Partidas he evidente
que grande parte de alguns títulos , principalmente do Re-
gimento da Guerra por diante, foi inteiramente tirada , com
a unica differença de fer trasladada em lingoagem. E O Co-
digo do Senhor D. Manoel , por ter derivado immediata-
mente defie , e de exemplar fem duvida mais inteiro , na6
dei-
XXIIl

deixou de fervir para o illuílrar em alguns lugares , onde a


legislaçaõ para elle paílou naó em fubílancia , mas em fua
integridade. Deíles ultimos fubfidios pois fe fez ufo com a
mais efcrupulofa moderaça6 , e fó em circunílancias taes ,
que confervando-fe a liçaõ do MS. ou naõ tinha fentido ,
ou o tinha inintelligivel e abfurdo. Affim pela Part. 2. tit. 9.
lei 4. fe reíl:ituio no liv. I. tit. 2. pr. a palavra andança, que
nos MSS. do Porto e Merceana fe lê audácia, e no de San-
tarem audaça: affim no mefmo liv. 1. tit. 63. §. 21. fe in...
teirou pela Part. 2. tit. 21. lei 14. o periodo há de cinger-
lhe a ejpada Johre o hrial, que tanto no MS. como nas Pro-
vas fe lê com notavel defeito ha de cinger ]obre o briol. E
por dar-mos tambem um exemplo de emenda feita pelo Co-
digo do Senhor D. Manoel, pela liçaõ delle no liv. 4. tit.
3 t. §. 5 , e 6 fe refütuio neíle a do liv. 4. tit. 46. §. 7. on-
de cm todos os MSS. fe lê gajlada em lugar de guajlada ,
e no fim do §. ataa que o dito vendedor gajlaffe , em lugar de
comprador guajlaffe, de que refultava por todo o §. um fen-
tido abfurdo , como fe mofirará em lugar competente,
tranfcrevendo-o nos termos, em que fe achava concebido.
MA s fe as emendas e refütuiçoens , de que athé qui fe
tem fallado , fe fizeraõ com alguma authoridade , importa
informar o Publico que alem deíl:as fe fizeraõ outras fem
mais authoridade que a da razaó nos lugares, em que ha-
viaõ
XXIIII

viaõ erros manifeílos e grolfeiros, que com tudo fe podiaó


remediar com a fimples uniaõ, feparaçaó , ou troca de al-
gumas letras. Affim fe emendou muitas vezes de fi pordes i,
irmmçom por invençom , ajfentam por a Jentam , tomar por
tornar , molher por melhor, Jeus por Je os, mandojfem por
emenda.lfem , &c. dos quaes erros fe achaõ fem conto, quan-
do naó nos MSS. antigos, ao menos na copia, que fervio
para a Ediçaõ. Da mefma fórma fe procurou dar fentido a
alguns lugares , que o naó tinhaó , trocando alguma pala-
vra , ou accrefcentando -a, para fuprir a falta , que abíolu-
tamente havia della, ou de femelhante. Affim no liv. 2.

tit. 8 r. §. '.2, no fim lcndo-fe no MS. o livramento e jura-


mento, que o Arraby ha d'aver, fe fubíl:ituio jurdiçom a ju-
ramento, que era erro, e abfurdo manifeíl:o. Da mefma fór-
ma fe accrefcentou no liv. x. tit. ult. §. x. a palana comar-
ca , onde fó fe lia Contadores da dito : no mefmo tit. §. 3.
a palavra ofirvo , onde fó havia , que com melhor diligencia:

no liv. 5. tit. 118. §. I 6. a palavra beens , onde fó fc acha-


va, pelos dos ditos querelojos , &c.
DE um de dois modos fe havia de proceder a rcfpeito
de erros femelhantes, ou confervando-os na obra, e notan-
do-os depois com fuas emendas e reíl:ituiçoens, pelo mui-
to que ilfo importava ao Publico , ou fazendo logo na Edi-
çaó as emendas , e dando depois conta e razaõ dellas. Con-

ful-
XXV

fultadas fobre iífo as peífoas, que por fua intelligencia o de-


viaó fer, uniformemente pareceo convir mais, por livrar o
Leitor de continuas embaraífos , propor a liça6 correéla ,
quanto foífe poffivel nos termos da moderaçaõ referida ,
ufando-fe da difcreta liberdade , de que ufaraõ os Editores
antigos de obras efcritas em lingoas mortas , quanto mais
em uma lingoa viva, e taõ pouco alterada como a noffa, da
qual liberdade vemos efiarem aélualmcnte ufando de um
modo naó fó irreprehenlivel, mas antes muito louvavel os
fabios Editores dos antigos monumentos de Hefpanha : e
que era de efperar o naó levaífem a mal os Críticos mais Íe•
veros, e mais zelofos do refpeito pela veneranda antiguida-
de , principalmente a refpeito de um eícrito , já copia de
copias , cuja fortuna cofiuma fer tanto mais fe depravarem ,
por quanto maior numero de mãos vaó paífando. Mas por
eíle partido, que fe tomou, affim como procuramos a maior
limpeza da obra, e a maior commodidade dos Leitores, aí-
fim nos confideramos de alguma forte empenhados a dar a
mais fiel e exaéla conta das alteraçoens , que fizemos , em
notas e obfervaçoens criticas , que fobre a obra parece ain-
da indifpenfavel fazer á viíl:a dos antigos MSS. as quaes fe
publicaráó fendo acabadas.
ISTO pelo que pertence ás faltas, que fe fupriraó , e
erros , que fe cmendaraó. Mas ha ahi d'uns e d'outros de
**** tal
XXVI

tal natureza, que a fua reflituiça6 era impoffivel, ao menos


mui difficil. A refpeito deíl:es naó houve outra coiza que fa-
zer, fenaó deixalos no mefmo eíl:ado. Affim ficou no liv. 3.
o tit. 64. onde entre os§§. 17, e 18 manifeflamente fe vê,
que falta a ultima parte da lei do Senhor D. Fernando fo-
bre as provas , que fe devem fazer por efcrituras publicas ,
e o principio da declaraçaó do Senhor D. Joaó I. á mefma
lei. Affim ficou no liv. 1. tit. ult. o§. 13 , que por mui
depravado fe naó pode refiituir. E affim ficaraó muitos er-
ros de chronologia , e de outras quantidades determinadas
por numeros, de que talvez os mefmos MSS. eíl:ejaó cheios ,
pela razaó ja referida das notas taó varias e irregulares , de
que os Antigos fe ferviaó para os affinar. Reflituir taes fal-
tas era impoffivel , e emendar taes erros pouco menos , de-
pendendo uma e outra coiza do exame , comparaçaó , e
combinaçaó de muitos monumentos, que naó eíl:avaó á mâo.
Pois entrar no empenho de o fazer fem femelhante foccor-
ro feria um projeélo quimerico, quando ainda havendo-o fó
fe poderia confeguir algum acerto depois de trabalhos e di-
ligencias taes , que embargariaó muito tempo a publicaçaó
da obra , o que de nenhuma forte convinha. Como porem
muito importe para a fua perfeiçaó que fe trabalhe pola ref-
tituir á fua integridade , far-fe-haó por ilfo as diligencias
poffiveis , e fe communicará ao Publico algum proveito ,
que dellas polfa refultar. Q.uAN-
XXVII

Qy A NTO he ás liçoens variantes , que vieraó notadas


na copia , confervara6-fe todas as que pertencem aos nomes
proprios , á chronologia , e differença de numeres , como
tambem as que fazem alguma mudança no fentido , que
fa6 mui raras. Das que o faó fó em vocabulos , por ferem
uns mais antigos que outros , ficaraó notadas algumas , on-
de pareceo convir , mas nas que fe omittiraó confervou-fe
fempre a lingoagem mais antiga , e mais propria da i<lade,
em que a obra foi feita. As outras porem , que naó diffe-
rem em fentido , nem confideravelmente em lingoagem ,
ainda que o primeiro projeB:o foi confervalas todas , ven-
do-fe depois que naó foraó notadas com exacçaó , e que
alias fó apontavaó lugares errados e defeituofos dos outros
MSS. que ao Publico nada intere(fa faber, ou eraó frívolas
e infignificantes, como os que por aquelles que, tifo por ello,
e femelhantes , pareceo melhor prefcindir dellas, do que

encher o texto de notas remiilivas, que fó ferviriaõ de de-


minuir a belleza da obra , interromper [em cauza a atten-
çaó do Leitor, e prevenilo de lugar fufpeito onde o naó ha-
via : e por algumas , que ainda fe confervaraó nos primei-
ros ti tu los do livro I. e II. fe poderá bem julgar o pouco
que fe perdeo nas que fe omittiraó.
As notas , por onde fe indicaó os MSS. onde a liça6
he variante , faó as letras iniciaes dos lugares , onde foraó
**** 2 acha•
XXVIII

achados, a faber, A. do Arquivo, S. de Santarcm, M. da


Merceana : no livro II. fe acharáó mais algumas notadas
com um T. que faó do MS. avulfo deíle livro, que, como
acima àiffemos, fe achou demais na Torre do Tombo. As
que fe acharem fem letra , he porque concordaó nos outros
MSS. e fó differem do do Porto , pelo qual fe tirou a copia
do texto. Nos livros III. e V. naõ foi precifo nota, por-
que deíles livros naó ha fenaó dois exemplare!i, e affim no
livro Il I. a liçaó do texto he do MS. do Arquivo, e as va-
riantes do da Merceana, e no V. a do texto he do do Por-
to, e as variantes do de Santarem. Os lugares do texto, em
que hí a variante , faõ fechados entre dois aílerifcos com
a fua letra remiiliva , e onde ha falta, he notada fó com a
letra.
A COLLOCAÇAÕ dos títulos differe mui pouco em to-
dos os MSS. mas fendo precifo a refpeito deffa mefma pe-
quena differença tomar algum partido certo por conta da
fua numeraçaõ , feguio-fe a que pareceo mais regular. Pe-
lo que pertence porem á <livifaó dos §§. he de advertir que
no MS. em muitos titulos. , e ainda dos mais extenfos , a
naó havia, e em outros naó eílavaó na ~eílribuiçaó que co~-
vinha. Sendo pois eíl:a clivifaó arbitraria em obra , que pela
primeira vez fe publica, e introduzida para commodidade
da liçaó , e facilidade das citaçoens, procurou-fe que fof-
fem
XXVII II

fcm deíl:ribuidos com o methodo , que podiaó admittir, fe-


parando-fe as differentes efpecies em cada um , e evitando-
fc quanto foífe poílivel a fadiga do Leitor nas divifoens mui-
to extenfas, aindaque para iílo foífe precifo deixar algumas
vezes o fentido fem remate , e continuando nos §§. feguin-
tes , principalmente em alguns prologos mui difufos das
Leis dos Senhores D. Affonfo III!. D. Fernando , e D.
Joaõ I. A numeraça6 foi feita com analogia ás Ordena-
c;oens aél:uaes , confcrvando-fe porem debaixo de um fó nu-
mero cada artigo de Cortes com fua refpofla, e aflim as
duvidas e confultas com fuas decifoens: a qual ordem fó fe
naó guardou no liv. 2. tit. 58, e no liv. 4. tit. 29. por pa-
recer tambem ahi conveniente dividir as rcfpoflas, por qua6
longas faó , e pelas differentcs efpecies, que contem.
ULTIMAMENTE quanto á ortografia, ainda que a do
MS. antigo feja muito diíferente por nelle fe acharem as
confoantes dobradas no principio das palavras, muito pou-
cas letras grandes, muitas abreviaturas , nenhuma pontua-
çaõ, &c. confervou-fe com tudo a da copia, tal e qual
veio, por fe ter defde o principio tomado o plano de em
nada tocar , ou alterar nella , fe naó quanto foffe precifo
para fe entender e fazer commoda a li ça6. E porque em
confequencia vai chea de irregularidades, feja6 difTo aviza-
dos os Leitores, que o na6 julguem erros de impreílaõ, a
ref-
XXX

refpeito da qual houve todo o cuidado e attençaó poffivel


para que os ahi naó houvelfe, e correfpondeffc a correcçaõ
da obra ao feu aceio , e elegancia typografica.

TA-
(

ORDENAÇOENS
DO SENHOR REY
DOM AFFONSO V.
==========-
L I V R O I.

N
O TEMPO QYE O MUI ALTO.
e Mui Eixcellente Princepy EIRey Dom
Joham da Gloriofa memoria pela graça
de DEOS regnou cm cíl:es Regnos , foi
requerido algumas vezes cm Cortes pelos Fidalgos •
e Povoos dos ditos Regnos , que por boõ regimento
dellcs mandam: provccr as Lc:yx , e Hordenaçooéi.
feitas pelos Reyx, que ante cllc forom , e acharia ,
que pela multiplicaçom dellas fe recreciaõ continua-
damente muitas duvidas, e contendas cm tal guifa ,
que os Julgadores dos feitos eraõ poílos em taõ gran-
de trabalho, que gravemente, e com gram dificul-
dade os podiaõ direitamente dcfembargar , e que as
mandaífe reformar em tal maneira , que ceífaífem as
ditas duvidas, e contrariadades, e os Defembargado-
rcs da Jufiiça pudeífcm per ellas livremente fazer di-
reito aas partes ; o dito Senhor Rey movido a ello per
feu requerimento, e zelo de juíl:iça, confirando prin-
Li'rJ, I. A ci-
2.

cipalmente o Serviço de DEOS, e des i bem de feus


Regrios, per avifamento, e acordo dos do feu Confe-
lho, porque achou feu requerimento feer juíl:o , co-
rnetteo a reformaçom , e compilaçom dellas a Johã-
ne Meendes Cavalleiro, e Corregedor em a fua Cor-
te, e nom forõ acabadas em feus dias por alguús em-
pac hos, que fe feguirom.
r E DESPors de feu falecimento regnou o Mui
Alto, e Mui Virtuofo Princcpy E!Rey Dom Eduarte
feu filho de femelhante memoria, o qual encomendou
a dita Obra ao dito Corregedor, que continuaífe em
ella, afii como fazia em tempo d'ElRey feu Padre ,
fentindo-o por ferviço de DEOS , e feu , e bem de
feus Regnos ; e porque fe o dito Corregedor logo fi-
nou a poucos dias , nom as pôde acabar , e por tanto
o dito Senhor Rey as encomendou ao Doutor Ruy Fer-
nandes do feu Confelho, teendo gram defejo, que em
feus dias foífem acabadas ; e porque a DEOS prou-
ve regnar pouco, o mui Eixcellente, e Poderofo Prin-
cepy E!Rey Dom Affonfo feu filho feendo ao tempo,
que começou de regnar, moço de idade de fetc an-
nos, o Reigno todo juntamente em Cortes Geracs
ewegeo , e confirmou por feu T etor, e Curador, Re-
gedor, e Defenfor por ellc em feus Regnos o Famo-
fo , e Virtuofo Princepy Infante Dom Pedro Duque
de Coimbra, e Senhor de Montemoor feu muito a-
mado, e prezado Tio, o qual logo em começo de feu
Regimento mandou ao dito Doutor, que profeguiífe
3
3
a dita obra quanto bem podeffe , e nom alçaífe dei-
la maa.õ por nenhuú cafo , ataa que com a graça de
DEOS a pofeffe em boa perfeiçom, e o dito Doutor
per fcu mandado aceptou a dita obra, e a compilou
em efia forma, que fe fegue; e defpois que polo dito
Doutor foi compilada ,ordenou o dito Senhor Regen-
te , que as ditas Hordenaçooés, e Compilaçom fof_
fem reviftas, e examinadas per ellc dito Doutor, e
per o Doutor Lopo Vaafques Corregedor da Cidade
de Lixboa, e per Luiz Marri1is, e Fernaõ Rodrigues
do Defembargo do dito Senhor Rey, as quaees , per
clles forom viílas, e examinadas , e em algumas par-
tes reformadas pelo modo , que fe fegue.
2 Tono o poderio, e confervaçom da Republica
procede principalmente da raiz , e virtude de duas
coufas , a faber, Armas, e Leyx ; e per vigor dellas
ambas juntamente o lmperio Romaano foi nos tem ..
pos paífados antre todalas Naçooés triunfante, e ferá
com a graça de DEOS ao diante fempre antepofto ;
e pero que eíl:as coufas ambas juntamente fejam em íi
muito virtuofas , e de grande valor , feendo porem
ambas apartadas húa da outra , nom podem autoal ...
mente durar per longo tempo, pala grande , e cafi in-
dividua afeiçom , que antre ellas he ; a qual per ne-
ceílidade de grande indigencia he taô conjunta antre
ellas , que neceífariamente faz huma confeguir a ou-
tra , e eíl:o fe vee claramente per evidente efperien-
cia: ca o eftado Millitar per bem da jufiiça he collo-
A 2 ca-
4

cado em boom aífcfTego, e a juíl:iça per defendimen-


to das Armas he confervada em fru verdadeiro feer ,
e trazida a fim de boa eixecuçom : e por tanto coníi-
rando os Emperadores o grande louvor, que o Efia-
do Real confegue per bem da juftiça , diíferom nas
fuas Imperiaaes compilaçooés, que nom hc achada
antre todalas virtudes alguma taõ louvada, nem de
taõ grande preço como a jufüça ; porque clla foo he
a. que tolhe todo peccado , e maldade , e a.inda con-
ferva cada huú em feu verdadeiro feer , dando-lhe o
que feu hc direitamente ; e conhecida coufa fiá , que
o principal bem , que fe requere pera miniíl:rar jufii-
ça, aili he fabedoria, porque fcripto he, que per ella
regnam os Rcyx, e fom Poderofos pera ou fadamente
com louvor , e eixalçamento do feu Real Eíl:ado re-
ger, e miniílrar Juíliça; e por efto fe diz, que fe po-
de com juíla razom dizer, que bem aventurada he a
Terra , onde ha Rey Sabedor , porque a Sabedoria
o enfina como fojugue os apetitos rnentaaes, e car-
naaes defejos a jugo da razom , pera direitamente re-
ger feu Regno , e Senhorio, e manteer feu Povoo em
direito, e juftiça; em a qual Sabedoria fe requere ne-
ceffariamente pera boo regimento do Regno aver co-
nhecimento das Lcyx Políticas, e pofitivas, que ai
gentes fundadas em razom natural antre fi ftabelece-
rom pera boa, e direita difpofiçom dos negocios uma-
nos , e cafos emergentes em cada huú dia ; e por effo
diífcrorn os Sabedores , que as Lcyx certai fundadas
cm
5
cm jul1:a rafom enformaõ o Rey, como direitamente
poífa julgar , e comprir gceralmente jufiiça; e quan-
do pela graça do Noíio Senhor DEOS , na Peífoa do
Rey taacs virtudes concorrem, el!e he feito aquelle
Rey juíl:o, e virtuofo, de que fallarom os Saibas anti-
gos, e diffrrorn, que fc: o Rcy juílo eftever affeentado
em feu Alto Trono pera fazer juíl:iça , nom lhe po-
derá empececr nenhúa coufa contraira ; e cíl:o fe pro-
va ainda pela diílinçom , que os Doutores fezerom á
Ley , a qual nos cnfina, que a ella convem todollos
horncés obedeecer por muitas de[vairadas razooés , e
efpccialmente , porque coda a Ley he huma inven-
~om , e dom de DEOS , he cnfinança de todollos fa-
bedores, correiçom de todolos malfeitores volumpta-
riofos com afpeito, e rcguardamcnto cõmunal do Reg-
110, ou Cidade, onde he ílabelecida , fegundo a qual,
todos* aquclles (a)*, que cm aquelle * lugar (b) *,
Regno, ou Cidade fom, convem de viver. E pero
que o Rey tenha principalmente o Regimento da
Maaõ de DEOS , e affi como feu Vigairo , e Logo-
rcente , feja abfolto da obfervancia de toda Ley uma-
na, e eílo nõ embargante , por ícer creatura raciona-
vel , e fobjuguada aa razom natural, fe oneíla , e fo-
rnece fob govcrnança , e mandamento della, aíTi co-
mo coufa fama, que manda, e hordena as coufas juf-
tas , e defende as coufas contrairas. Ainda fe prova
dl:o per auchoridade de Ley Imperial, hondc fe lec,
que
---------- ---------
6
que no começo da povoraçom dos Romaaõs come-
çou o Povoo a fe reger fem nenhúa certa Ley, e def-
pois per tempo lhe conveeo pera boo regimento da
terra, eílabelecerem algúas Leyx, as quaes forom ro-
tas , e quebrantadas quando Rey Turquino foi depof-
to do Regimento da Cidade de Roma , e per bem do
falecimento dellas o Povoo Romaão viveo longo tem-
po fem certa Ley, honde per grande indigencia della
foi-lhe neceffaria coufa a ver outras de novo, as quaees
mandou requerer aos Gregos fentindo, que fem dias
fe nom podia direitamente reger, ca nom menos pa-
rece poder bem regido feer ho Povoo fem Ley , que
o corpo fem alma.
3 PoR TANTO Nos Dom Affonfo Rey de Portugal,
e do Algarve , e Senhor de Ccpta confirando , como
os vertuofos Reyx, que foram deíl:es Regnos , de que
Nos defcendemos , cujas almas DEOS haja em fua
fanca Gloria, fiabeleceraõ, e hordenarom muitas Leyx
por boõ Regimento de feu Povoo, as quaees pare-
cem feer muito defufas , em algúa parte duvidozas •
e cm outra contrairas húas aas outras ; e porque Nof-
fa teençom, e defejo he com a Graça do Mui Alto
Senhor DEOS , em quanto bem podérmos , tolher
fempre todallas duvidas, e occaziooés, per que as de-
mandas nom poffam feer perlonguadas , e ainda dar
certa forma, e doutrina, per que ligeiramente poffam
feer trazidas a boõ jui'l.O, e breve terminaçom o mais
fem cuíl:a das partes , que rafoadamente feer poffa.
Acor-
7
Acordamos per acordo dos do Noífo Confelho fazer
huma geeral compilaçom dellas , tirando algumas ,
que nos pareceo fobejas, e fem proveito , e outras de-
clarando , e accrefcentando , e interpretando , fcgun-
do per direito , e bôa razom achamos, que o deviaõ
fcer, emmcndando, e fazendo outras de novo, feg-un-
º
do nos bem pareceo, que a uzança da terra, e pratica
das gentes defeja; E porque obra bôa, e bem feira fe
nom pode fazer fcm efpecial Graça do Noffo Senhor
DEOS, humildofamente pedimos aa fua Clemencia,
e Piedade , que nola outorgue , pera trazermos cíla
obra a devida fim por íerviço íeu , e bôo regimento
de no1Tos fobditos , e todallas outras pe1Toas , que per
No1Ta .Authoridade hajam de fcer julgadas ; e porque
antre todallas creaturas, que DEOS fez, íl:remou por
mais nobre, e digna de bem a pe1Toa do homem, fa_
zcndo-a foomente aa fua fimildoõ, e fobjugando aos
fcus pees todalas outras creaturas , e obras de fuas
maãos; convinhavel coufa nos pareceo, que cm co-
meço de No1Ta <;>bra ajamos primeiramente de formar
alguns títulos apropriados á fua pe1Toa , efpecialmen-
te daquelles , que primeiramente reem caneguo de
reger, e miniíl:rar jufiiça em No1Ta Corte , fem as
q uaees as Ley x feitas pouco *aprovei tariaõ (a)*, por-
que coufa conhecida he, que toda a principal virtu-
de das Leyx eílá na boa pratica, e cixecuçom dei las ;
por tanto acoH:umarom iempre os Reyx , e Princepes
da
(a) aproveiurom_ M •.
------·---
8 LIVRO PRIMEIRO TITULO PRIMEIRO

da terra fazer feus Officiaaes da Juíliça, homeés Le-


tcrados , Sabedores, e Virtuofos, por tal , que per feu
boõ , e virtuofo entender as poífam ligeiramente era..
zer a boa pratica , e real eixecuçom cm todo cafo
que lhes feja requerido.

TITULO I.

Do Regedor, e Governador da Cafa da Juf-


1iça em a Corte d' E!Rey.

O MAIOR, e mais principal Officio da Jufüça


em a Noffa Corte he teer o Regimento , e Go..
vernança da Cafa , honde fe ella governa ; e aquel ,
que o dito Officio tever , antre as outras coufas , lhe
convem efpecialmente faber per continuada enforma-
çom de como os Noífos Officiaaes , que pera aminif-
traçom della fom deputados , vivem , e de fi uzam ,
aíli em receberem das partes alguus dinheiros, como
em ferem negrigentes, e remiffos em feus defembar-
guos , e quaeefquer outros falecimentos , perque feus
Officios aíli ácerca do Noffo Senhor DEOS, como de
Nós non fejam bem fervidos ; e quando elle for em
conhecimento de tal coufa per enformaçom, que dcl-
lo aja, ou per fama, que ouça, Mandamos, que cha-
me eífe Official, de que cal enformaçom ouve, e a par..
tadamente entre fi > e elle o amoefie I que fe guarde
da-
Do REGEDOR, t GovtRNADOR, ETC. 9

daquelle maáo viver, de que affi he enfamado, e con-


fire como per bem de noífo Officio he honrado, e pre-
zado antre os boõs, e aalem de todo ha de Nos rafoa-
do mantimento continuadamente , per que mantem
maior fiado, do que clle poderia manteer, a vendo de
viver per fcu patrimonio, e outras alguãs razooés,
que lhe pera eflo bem parecerem : e nom fe queren-
do caíliguar por aquella primeira vez, deve-lho adi-
zer outra vez em prcfcnça dos outros Officiaaes de fe-
melhante Officio, porque receba ainda maior vcrgon-
ça , e empacho de fuas minguas , e fallecimentos : e
continuando d 'hi em diente em feu rnaao propoíito ,
entom o deve de dizer a Nos , pera com feu bõo Con-
felho o dcpocrmos do Officio , que dcfmereceo , por
feu maao viver, e pocrrnos outro cm fcu loguo, que
melhor ferva por Nos ao diante, ou lhe darmos outra
pena , fegundo a culpa , em que for ; e femelhante
maneira deve teer com aqucllc, a que fcntir que bem
vive, e ufa de feu Officio, louvando-o, e honrando-o
muito antre os outros a miude , e ainda o deve noti-
ficar a Nós , pera lhe fazermos femelhante honra , e
accrefccntamento antre os outros de feu fiado , e por
tal , que a merece , e aa vantagem , que affi fizermos
ao boõ por fuas virtudes , e bondades, e desfazimen-
to ao nom bôo por fuas culpas, feja eixcrnplo aos ou-
tros pera fc encaminharem a bem viver, e fc quita-
rem de feus mááos co.íl:umes ; e o que affi for Rege-
Liv. l. B dor ,
IO LIVRO PRIMEIRO TITULO PRIMEIRO

dor, e Governador da dita Cafa repartirá todollos Def-


embargadores , que em ella andaõ, ou ao diante an-
darem em duas Mêfas , as quaees mandará poer em
duas Cafas , que elle pera efto ailignar ; a fabcr , em
huma mais principal dellas eíl:ara elle com os Douto-
res, e os Defcmbargadores do Paaço, e o Juiz dos
noffos Feitos, e o noffo Procurador , e eíl:es Defcm-
bargadores todos juntos defembarguarom cm cada
hum dia per efta guifa, a faber, o Juiz dos nolTos
Feitos defembargará áa fegunda, e áa terça, e áa quar-
ta todollos Feitos, e Eftromentos, e petiçoens, que a
feu Officio perceencé ; e áa quinta feira defernbarga-
rom os Defembargadores do Paaço todalas petiçooés,
que a feu Officio perteencé, aili direitas, corno gra-
ciofas per os rooles, e Inquiriçooés devaffas, que per
noífas Cartas vierem aa Corte fobre as mortes, ou ou-
tros cafos , de que alguus omiíiados per fupricaçom
peçam perdom , e defembargo ; e aa feíla feira man-
dará defembargar em a dita Mêfa , em que elle eíle ...
ver, os feitos crimes, que obrigaó a morte, que fom
pera condapnaçom, os çiuaaes hordenarnos feerem de-
fembargados per todos os Defembargadores em a dita
Mêfa ; e ao fabbado defembargarom os ditos Defem ...
bargadores todollos feitos dos aggravos , que a elles
vierem do Corregedor da Corte, ou dos fobre-juizes
ou de quaeefquer outros Officiaaes , que a elles ve...
nhaõ per via de Supricaçom, ou Cõmiífom , que lhes
per
Do REGEDOR, E GovERNADOR, ETC. 11

per Nos feja feita (a), ajam ele fe~r trazidos, e defem-
bargados em Rolaçom; por que feendo ambos em a-
cordo, devem feguir as Hordenaçooês fobre c.ílo fei-
tas, fegundo que fe ao diante rnoíl:rará.
I ITEM. Na outra Mêfa fe apartaram o Correge-
dor da Corte, e os Ouvidores, e algúa outra peífoa
d'autoridade, que deputaremos pera com elles eíl:a-
rem na dita Mêfa, os quaees todos feis averam de def-
embargar todollos feitos crimes , affi os que perteen-
cerem ao Officio da Correiçom , como os que vierem
per appellaçom aos ditos Ouvidores; e ainda ha d'ef-
tar com elles o Procurador da J uftiça aquelles dias ,
cm que o Juiz dos noffos Feitos (b) ha de defembar-
gar ; e efl:es Defembarguadores teraõ certos dias re-
partidos, em que cada huú a verá de defcmbargar to-
dallas coufas, que a fcu Officio perteencem, a faber,
o Corregedor defcmbargará todallas coufas de feu Of-
ficio, affi feitos crimes, como petiçooés, e eftormen-
tos áa quarta feira, e áa fe.íla, e os outros Ouvidores,
e Defembarguadores aa fegunda, e aa terça, e aa quin-
ta , e o que tever carrego de defcmbarguar os feitos
dos Refüloos, dcfcmbargará todollos feitos dos Refi-
doos, que a clle vierem per appellaçom , ou per Nof-
fa Comiífom ao fabbado; e feitos Civys nom defcm-
.hargarom em Rolaçom, falvo per Noffo mandado ef-
pecial, por fe nom tolher aggravo delles pera os Def-
B2 cm-

(a) quando o< feitos forem cm ui difpofiçom , fc,undo a Hordena~om per nói
fobre 11!0 feita S. (/,) nom
I 2 LIVRO PRIMEIRO TITULO PRTMETRO

embargadores, que pera cllo fom deputados. Os fei-


tos Crimes , que cm Rolaçom forem defembargua-
dos, feraõ relatados, preíente as partes, ou feus Pro-
curadores, e lcudas todallas inquiriçooés, e Cartas, e
Stormentos , e Scripturas , que aos feitos pcrteence-
rcm , e per as ditas partes forem allegadas , e fejam
leudas todas , prefentc os ditos Officiaaes , que pera
taaes defem bargos fom deputados, como dito he, por
tal que nenhuú dos ditos Defembargadores nom pof-
fam defpois allegar ignorancia á cerca do contheudo
nos ditos proceífos ; e fe as teílemunhas forem mui-
tas , leam-fe aquellas, que forem neceffarias pera bôa
enformaçom do feito. ,
2 E sE algúa das partes ouver fufpeiçom a alguú
dos Officiaaes ao tempo que fe os feitos ouverem de
defembarguar na Rolaçom, fe fentir aggravo de cada
huú delles , fará dello enformaçom a elle , como Re-
gedor Noífo, e elle com acordo dos dicas Defembar-
gadores, que fom affinados pera com elle eílar, a ve-
rá , e defembargará como achar per direito, e fegun-
do que per elle com a maior parte dos ditos Defcmbar-
gadores for acordado , affi o mandará cumprir; e per
femelhante modo fará quando fe alguú aggravar do
Chance Iler d'alguú defembarguo, que per fi foo dér,
aíli fobre fufpeiçom , como qualquer outro defem-
bargo , que per eHe foo for defembarguado, e elle fa-
rá vir em cada huú dia todollos ditos Defembargua-
dores, e Officiaaes aas Mêfas , pera que faõ deputa-
dos,
Do REGEDOR , E GoVERNADOR, ETC. 1 i

dos, pera a verem de hufar, e continuar feus de[em-


bargos , fegundo a maneira fufodita.
3 E SE os ditos Defembarguadores aili de huúa
Mêfa , como da outra , forem defacordados , ou em
defvairadas Teençooés em os feitos, que fe perante el-
les trautarem , aquella Tcnçom , em que for a maior
parte delles na dita Mêfa, feja cumprida ; e fe acon-
tecer , que f~jarn tantos d 'h úa parte , como da outra ,
cm tal cafo fará juntar todollos Defembarguadores
das Mêfas ambas, e aquella Teençom, que eiceder a
outra em vozes, feja cumprida, e eixecutada, e feen-
do as vozes iguaaes , cntorn aquella parte , a que fe
acoíl:ar , ou efcolher o Prefidente , prevaleça naquel-
las coufas, e cafos, que com elle fem Nós podem feer
defembarguados : e nos outros cafos, que fem nós
nom podem fer defembargados, quer fejam as vozes
iguaaes, quer excedam huas ás outras , o faça faber a
Nós, para veermos a caufa, quejanda he , e darmos hi
dcfcmbargo como acharmos, que he direito, e Noffa
mercee for; e fe clle vir em cada húa das ditas Mêfas
alguús feitos grandes, e arduus, e graves,* e de gra-
ves (a) * maleficios , ou fenta que ha em elles taaes
duvidas , que lhe pareça, que deve juntar todollos
Defembarguadores d'ambalas Mêfas , ou parte del-
les, (6) que elle entender que fom pera os ditos feitos
mais fem fufpeita, faça-os juntar, e com elles defem-
bargue os ditos feitos , e eíl:o faça affi nos feitos Noí-
fos,
(.,) ou de grandes S, (b) aqucllç, S.
..----......---
14 LIVRO PRIMEIRO TITULO PRIMEIRO

fos , como nos feitos Crimes, ou em alguús outros fei-


tos Ci vys, que perante elles andarem , ou lhes forem
cometidos per Nós, que fe livrem em Relaçam; e fc
acontecer , que alguús dos ditos Defembarguadores
nom tenhaõ que defembargar de feu Officio aos dias,
que lhes fom ailinados , fegundo a hordcnança fufo-
dita, mandará a cada hum dos ditos Officiaaes, e Dcf-
embarguadorcs, que defembarguem cm feus Officios,
poHo que o dia nom feja feu cm tal guifa,que os Def-
cmbarguadores nom fejam vagos , nem ouc10fos , e
os ditos defembargos nom fcjam mais pcrlongados.
4 E sE alguú dos Defembargadores , e Officiaes
principaes for aufcntc , ou negociado em tal guifa,
que nom vaa aa Rolaçom , pera que he deputado ,
mandará hi poer em feu loguo huú da outra Mêfa ,
que pera ello feja mais auto, e pcrteencente cm cal
guifa , que as Mêfas fejam fempre fornecidas , e per
mingoa dos principaaes Defcmbarguadorcs os defem-
bargos nom fejam dctheudos; e acontecendo que doi
principaacs Defcmbarguadores faleçam tantos, que as
Mêfas ambas ra!oadamcnte delles naõ poifam feer
fornecidas , em tal cafo mandará , que todollos De-
fembargadorcs aili d'húa Mcfa, como da outra, fe
juntem com elle em húa Mefa pera todos juntamente
defcmbarguarcm , aili como antes deíl:a repartiçom
defembarguavam; e porem (a) lhe Mandamos, que
faça todo cíl:o cumprir, e guardar, como per Nós he
or-
(a) Nó, S.
Do CHANCELLER MooR.

ordenado , por quanto affi he Noífa mercee de fe fa_

_,____________________
zer , polo entendermos affi por fcrviço de DEOS , e
bem de Noffa Juíliça.

TI T U LO II.

Do Chanceller Moor.

O CHANCELLER he o fegundo Officio de Noffa Ca-


fa daquelles, que teem Officio de Puridade; ca
bem affi como o Cape liam hé medianeiro antre DEOS,
e Nós em feito de Noffa alma, bem affi ho he o Chan-
celler antre Nós, e os homeés, quanto he em as cou-
fas temporaacs, e eíl:o he, porque todalas coufas, que
Nós livramos per cartas em qualquer maneira, que
ajam de fer feitas , confirando elle as deve a veer ante
que as feélle, por guardar que nom fejam dadas con-
tra direito de maneira , que çlle receba dapno , nem
vergonha ; e fc achar , que hi ha alguma , que nom
foffe feita , como devia, deve-a* derifcar (a) * com
pena, que dizem cm latim canre!!are , e deíl:a pala-
vra tomou nome o Chançaller , e eíl:o deve affi fazer,
quando as Cartas forem affignadas pelos Defembarga-
dores, que quando as Cartas forem affinadas per Nós,
nom as deve grofar , nê cancellar, mais deve-as de
trazer a Nós pera nos dizer as duvidas, que em ellas
tem.
--------------
(") refacar S,
16 LIVRO PRIMEIRO TITULO SEGUNDO

tem. E Nós devemos catar tal homem pera eíle Offi-


cio, que feja de boa linhagem , e haja bôo íifo natu-
ral , e que feja bem razoado , e de boõs coíl:umes , e
de bôa memoria , e faiba bem leer, e efcrepver tam-
bem cm latim, como em lingoagé, e fobrc todo eíl:o
feja homem , que ame a Nós, e faiba conhecer ho er-
ro, [e o fczer, per que merece d'aver pena ; ca fe
for de boa linhagem , a vera fempre vergonça de fazer
coufa, que lhe eftê mal , e fe ouver bôo fifo, faberá
bem guardar as Noffas Puridades, e fofrer boa andan-
ça ; e bem razoado ha meíl:er que fcja , ca pois que ha
de feer medianeiro antre Nós , e a Noffa gente , mui-
to convero, que per fua palavra gaanhe amigos, mof-
trando-lhes como faibam agradecer o bem, que lhes
Nós fezérmos ; e quando lhes alguma Carta der, de-
ve de poer razom de juíl:iça , que lhes faça entender,
que o fazemos com direito , e de boa maneira ; e ha
meíl:er, que feja de boa memoria, por fe acordar das
Cartas , que tever em guarda. Outro-fi das que man-
dar fazer , que notn fejam huãs contra as outras , e fe
acorde das palavras , que lhe mandarmos dizer aos
homeés, e das que lhe tornaré a dizer: e de boos cof-
tumes, e apóftos deve fcer , por que faiba bem re-
ceber os que vierem pera ellc, e honrar aquclle lugar,
que tem , affi que as Cartas , que mandar fazer , fe_
jam ditadas, e efcritas bem , e apoftadamente ; e ou-
tro fi as que nos enviarem , que as faiba bem enten-
der; e amar deve naturalmente a Nós, e a Noffo Ef-
ta-
Do CHANCELLER MooR.

tado, ca fe o affi nom fizeffe, nom poderia bem fer-


vir, e aguardar nas coufas, que ditas fom ; e fe for
tal, a que Nós poffamos dar pena, quando fezer por-
que , guardar-fe-a de fazer coufa, perque haj~ de ca-
hir em ella : e quando Nós ouvermos tal homem pe-
ra eíl:e Officio, amaloe-mos muito, e fiarnos-emos em
elle, e farlhe-emos muito bem , e honra, e quando o
em erro de feu Officio acharmos, dar-lhe-emos pena
fegundo o erro , que fczer.
1 O CHANCELLER Moor veerá todalias Cartas ,
que ou ver de feellar, com boa diligencia, aíli as de
graça , como as direitas , e fe achar algúa de graça,
que feja contra Noffos direitos , ou contra o Povoo ,
ou contra a CJcrefia , ou contra algúa peffoa , que lhe
tolha, ou faça perder feu direito, nom a deve dafeel-
lar, ataa que falle com nofco, ou com aquelles , que
Nós ordenarmos pera femelhantes duvidas determi-
nar, quando formos aufente; e as Cartas, perque Nós
damos do Noffo, nom as feelle, falvo fe primeira-
mente forem regiíl:adas na Fazenda pelo Efcripvaõ,
que pera ello he aílinado, e as Nós livrarmos perem-
menta: e eíl:o nó fe entenda nas Cartas * das Moradias
(a)~ , veíl:ires , e mantimentos dos Officios , as quaes
nom devem de vir a emrnenta; e nom afieelle as Car-
tas da Juíl:iça, falvo fe forem em forma direita, a fa-
ber, prefentes partes , e com falva, ou forem dadas
per íl:romento, que foffe tomado na terra, perante os
Liv.. I. C Jui-
(A-) dos marAVtdis
18 LIVRO PRIMEIRO TITULO SEGUNDO
Juizes, de que fe a parte differ aggravada , cõ foa re-
poíl:a, fegundo per Nós hc ordenado de fe darem fc-
melhantes Cartas; e fe for duvida antre o Chance Iler,
e os Defembargua dores fobre alguma Carta , leve-a o
Defcmbargad or, perque paffou , áa Rolaçom , onde
cíl:everem os Defembarguad ores , e perante o Chan-
celler com acordo dos Defembargad ore~, que em effa
Mefa eíleverem , ou a maior parte dellcs , ferá de-
fembarguada ; e fc pela ventura effes Defembargua -
dores forem em defvairadas tcençooés , e tantos a hu-
rna parte , como aa outra, entom faça o Regedor da
Cafa juntar todollos Defembargua dores affim d'uma
Mêfa, corno da outra, e aquello, que pela maior par..
te delles for acordado, faça pafiar , e affeellar.
2 E TANTO que as Cartas forem feelladas, e pof-
tas no Saco, çarre-o mui bem , e aíleelle, e affi bem
ferrado, e affellado leve-o o Porteiro ao Efcripvaõ, e
Recebedor: quando fe ou verem de dar as ditas Cartas.
3 O CHANCELLER Moor cometerá os feitos , cm
que os Defembargua dorcs, e Officiaaes da Corte fo_
rem fofpeitos, quando as fufpeiçooés a elle vierem ,
e os elle ou ver fufpeitos , mande fazer a comiffom a
taaes peffoas , que frjam fcm fufpeita , fabendo pri-
meiramente das partes fe ham por fufpeitos aquelles,
a que os feitos per elle cõmetidos forem , fazendo-o
fempre o mais a prazer das partes , que bem poder
fazer, e efi:o fará affi, quando ou ver de fazer comiffom
por bem da fufpeiçom poíl:a ao Defembargad or, qm:
no
Do CHANCELLER MooR.

no cafo, onde fe houver de fazer a cõmiiTom de no-


vo, nom procedendo a fufpeiçom , ou onde he poíla
fufpeiçom na Rolaçom do feito prefente o Prefiden-
te, ou Corregedor , deve cometer taaes feitos a quem
lhe bem parecer, que fofpeito nom feja.
4 O CHANCELLER dará eíl:es defembargos ,e Car-
tas , que fe feguem ; primeiramente as Cartas das a-
prcfentaçooes das Igrejas a aquelles, que per Nós a
ellas forem aprefentados.
5 ITEM. As Cartas dos Taballiaães aíli geeraaes,
como cfpeciaaes das Cidades, e Villas notavees, a fa-
ber, Santarem, Beja,Elvas, Tavilla, Lcireea, Gui-
maraaés, que ou verem primeiramente NoiTa dada,
que das outras Villas, e terras Chaãs poderá o Chan-
celler dar por fi.
6 ITEM. As dos Efcripvaães, que fom dados aos
Taballiaães per mercee que Nós queremos fazer.
7 ITEM. As dos Efcripvaães aíli na Corte , como
na Cafa do Civil, e de todos os Chancelleres , e Ef-
cripvaaés das Correi'çooés , e fe alguús taaes ham
mantimentos com os ditos Officios, dar-lhes-haõ os
Veedores da Fazenda as Cartas dos mantimentos, e
as dos Officios lhes dará o Chãceller.
8 ITEM. As Ca.rtas , perque fe daõ Efcripvaães
aos Chancelleres , e Efcripvaães das Correições por
rnercees , que Nós queremos fazer.
9 ITEM. Ha de dar todas as Cartas de Efcripva-
ninhas de todo o Regno , de que Nós fazemos mer-
C 2 cee,
20 LIVRO PRIMEIRO TITULO SEGUNDO

cee , com que os Eícripvaães nom ham noílo manti-


mento, ca onde os E!cripvães ham mantimento nof-
fo, em tal cafo as Cartas devem paífar pelos Veedo-
res da Fazenda.
10 hF.M. Os Tabelliaães, e Eícripvaães todos

haõ de feer examinados pelo Chanceller , fazendo-os


efcrepver perante fi, e fe vir que efcrepvem bem, e
fom perteencentes pera os Officios , devem-lhes dar
fuas Cartas, e d'outra guifa nom.
1I ITEM. Se alguú Taballiaõ renunciar o Tabal-
liado , ou Efcripvaõ Efcripvaninha , com condiçom
que Nós o demos a outra certa peíloa, ou clle meef-
mo Taballiaõ, ou Efcripvaõ ponha fcu Officio em
certa peífoa, nom dará o Chanccller Carta em tal ca-
fo a aguelle, cm que o Officio fcja poílo primeira-
mente, ou reguere, que lho dem; e quando tal Offi-
cio for fcmprcsmente renunciado, e a Nós aprouver,
Nós o daremos a quem Noífa merece for, e affy dará
o Chanccllcr dello Carta.
12 O CHANCELLER nom dará Carta * a nenhuú
de Taballiadcgo (a)*, falvo fe eífe, a que de tal Of-
ficio fezermos merece , lhe primeiramente fezer cer-
to, como he caíado; e ante que lhe a Carta dê, man-
dar-lhe-a da noffa parte que tragua fempre roupas
farpadas , ou de coares * de (b) * deferéças devi fadas,
porque fcendo achados fem taaes roupas, logo per
eífe meefrno feito perderaõ os Officios, que aíli reve-
rem,
(u) nen huã de T aballiado S. (b) com S.
Do CHANCELLER MooR. ll

rem , e Nós os daremos a outrem , como for No/fa


mercee ; péro fe acontecer, que a cada huú delles fa_
leça a molher per morte, averá d'efpaço pera poder
cafar huú anno; e nom cafando atá o dito tempo,
perderá o dito Offü:io ; e em durando o dito anno ,
que lhe affi he dado pera poder cafar, poderá trazer
quaefquer roupas que lhe prouver, fem perder o di-
to Oflicio : as quaaes coufas todas fará efpecificar na
Carta do Officio, quando lhe for dado.
13 ITEM. Ha de dar as Cartas pera publicar as
Leteras , que veem de Corte de Roma , ou de qual-
quer outra parte de fora do Regno , chamando pri-
meiramente alguús , fe eíl:aõ em poffe dos beneficias,
ou beés, fobre que as Cartas fom gaanhadas, ou ou-
tras peílàas , contra que as d itas Leteras forem gaa-
nhadas , ou emperradas, pera dizerem fe ham em-
bargos a nom ferem as ditas Leteras publicadas ; e
quando a parte he chamada, e com ella proceílo or-
denado , embarguando a dita pubricaçom , tal feito
deve feer defembarguado em Rolaçom , e o Chan-
celler nom o deve per fi defembargar foo.
14 lnM. Ha de dar Cartas com o trelado dos
Artigos, ou d'outras quaeefquer coufas, que fejam
regiíl:adas quando fe pedem fob fello NofTo.
15 !TEM. Dará Cartas , per que os Taballiaães
dem firomentos per as Notas ,. prefentes partes , e
com falva.
16 ITEM. Dará mais Cartas , per que alguús Ef-
cn-
22 Lrvn.o PRIMEIRO TrTULO SEGUNDO

cripvaães poífam poer fignaees publicos , e dar fe,


como Taballiaães, em feus Officios, e cíl:o faça com
Noffa authoridade , &e.
17 hEM. Dará Cartas de frgurança aos Tabal-
liaães, e Efcripvaães perante íi , quando fom accufa-
dos por razom de erros, que façaõ cm feus Officios,
e d'outra guifa nom.
1 8 ITEM. Dará Cartas de Encomenda , e guar-
da, que Nós mandamos dar a alguãs peffoas honef-
tas (a) .
19 ITEM. Dará Cartas d'Officios de Procuradores
das Audiencias Noílas, e d'ante os Corregedores das
Comarcç1s, e d'ante os Juízes da Terra, de que per
Nós for feita merece primeiramente, fegundo o mo-
do e declaraçom per Nós feita nos Taballiaães , os
quaecs primeiramente per ellc fcrom examinados, fc
fom autos pera taaes Officios.
20 ITEM. Dará Cartas , que perteencem ao Eíl:u-
do, e aos Lentes.
21 ITEM. Dará Cartas dos Officios dos Contado-
res das cuíl:as , e Inqueredores nos Lugares das Co-
marcas, onde per Nós ham de feer poílos.
n ITEM. Dará Cartas dos Officios dos Porteiros,
aíli da Chancellaria, como da Rolaçom, como d'anrc
o Corregedor da Corte, e Corregedores das Comar-
cas , e nom tomará o Chanceller conhecimento d'ou-
rros nenhuús defembargos per aggravo, nem per fim-

---·------------ pres
Dos VEEDORES DA FAZENDA. 23

pres petiçom, e querendo-fe alguú aggravar d'alguús


aggravos, que lhe fejam feitos , devc-fe d'aggravar
aos Defembargadores , e Officiaaes , a que de taaes
aggravos pertencer o conhecimento.

-------------- T I T U L O III.

Dos Ycedores da Fazenda.

O S V EEDORES da Noffa Fazenda devem feer bem


diligentes> e avifados em requerer, e arrecadar
os Noífos Direitos, e rendas do Regno, e tirar as Ju-
gadas , e Foros, e fazer boõs emprazamentos , e ar-
rendamentos das Herdades, e Caías , e Foros, que a
Nós perteencem, mandando recado aos Almoxarifes,
e Contadores , e outros , que No{fos Officiaacs pera
efto fom , como ajam de fazer.
r ÜuTRo sr Mandamos a eíTes Almoxarife11 , e
Contadores , que faibam per inquiriçom certa fc al-
guús direitos , ou herdades NofTas teem enalheadas ,
ou de que nos neguem Noffos foros, e direitos, e que
lhes enviem de todo certo recado, pera o elles vee-
rem , e fazerem o que acharem por Noífo ferviço ; e
quando acharem coufa fobnegada, ou mal * em para-
da (a ) * ou corregida, fazela-haõ correger, ou dar as
enforrnaçooés, que dello ou verem, ao No!fo Procu-
ra-
t ,, ) parada S,
24 LIVRO PRIMEIRO Trnno TERCEIRO

rador, e ao Juiz dos Noíl'os Feitos, pera haverem de


proceder em ello , íegundo entenderem por Noffo
ferviço, e acharem por direito.
2 ITEM. Poderão conhecer dos feitos das Noffas
Sifas em todo cazo, ainda que feja antre partes , e fe
de taaes feitos em alguú tempo fe pofi:-i feguir alguú
prejuízo a Nós , ou a Noíios Direitos ; e eíl:o per au-
çaõ nova, onde Nós eíl:ivermos, e onde Nós nom
eíl:ivermos, conhecerom os Juízes das Sifas, que per
Nós fom deputados nas Villas , e Lugares de No!Tos
Regnos , pera de taaes feitos conhecerem , e delles
vyrarn as appellaçoões aos No!Tos Veedores.
3 E AINDA os ditos Veedores devem feer bem
diligentes em de[embarguar ~s petiçoões , e as outras
coufas, que a feu Officio perteencE: , que elles fem
Nos podem defembargar ; e as outras coufas , que fo-
rem de merece , ponhaõ-nas em rool , e levem-nas a
Nós, pera as com nofco defembarguar, como for Nof-
fa mercee.
4 ITEM. Os ditos Veedores da Fazenda darom
eílas Cartas, e defembargos, que fc fcguem ; primei-
ramente darom, e livraram todas as Cartas, per que
Nós Mandamos fazer mercee a alguú de qualquer
coufa, que fcja do No!To aver, ou a elle for devido,
ou lhe perteencer geeralmente per qualquer guifa
que feja.
5 I Tl':M. Todas as Cartas dos officios , que naõ
fom da Juíl:iça, e haõ d'aver mantimento dos Noffos
Direitos. 6 lnM.
Dos VEEDOREs DA FAZENDA. 25
6 ITEM. As Cartas pera recadar, ou defpender os
fruitos, e rendas dos Regueengos, e Jugadas, e Her-
dades , e Caras , e todos os outros Direitos Reaaes , e
Rendas Noffas.
7 ITEM. Cartas de repoíl:as, e Mandados, e qual-
quer aminiftraçom de beés, e aver Noffo.
8 ITEM. Cartas pera baíl:ecer Almazees , e baíl:i-
mentos dos No!fos Caíl:ellos.
9 ITEM. Cartas pera quitar Dizimas , e Porta-
geês , ou qualquer outro tributo , que perteença ao
aver Noífo.
10 ITEM. Cartas pera fazer obras, e lavores Nof-
fos.
11 ITEM. Cartas , que perteençaó aas rendas , e
Rendeiros dos No!fos Direitos.
12 ITEM. Cartas d'efpaço das Noffas dividas.
13 ITEM. Cartas de licença aos Mouros, que que-
rem ir pera alem mar , dando fiadores , como hc de
coftume.
14 ITEM. Geeralmente todas as Cartas , que tan-
ge a dinheiros , ou a beés, ou a coufas , que aos beés
No(fos perteencem.
1 5 ITEM. Cartas de Aforamentos , e Empraza-
mentos das Cafas , e Herdades Noífas.

Liv. J. D TI-
26 LIVRO PRIMEIRO TITULO 0EARTO

--------------------
TITUL O IIII.
Dos Dejembargadores do Paaço.

M ANDAMOS, que dous Defembarg adores deíle


Officio , que em a Noffa Corte andarem , li-
vrem todas as petiçoões , affi de graça , como direi-
tas, e os feitos, e aggravos, que a elles vierem per
fupricaçom , ou per comiffom efpccial, pera os quaees
lhes daremos huú terceiro, que os ajude a livrar, pe-
ra fc com elles concordar, quando ambos forem def-
acordados ; nos quaees feitos , e aggravos darom li-
vramento per eíla guifa , a faber , fc o feito for fen-
tenciado per os fobre-juizes da Cafa do Civel, ou Ou-
vidores, ou Corregedor da Corte, ou per qualquer
outro Julgador~ de que fc poífa , ou deva aggravar
pera a Noífa Corte, e de tal fentença aggravarern pa-
ra os da fupricaçom ; e íe eíl:es dous Dcfembarg ado-
res principaaes da Supricaçom fe acordarem com a
fentença affim pelos fobrcditos dada , e a confirma-
rem , logo eíle feito affi per eftcs dous concordados
com a fentença ja dada feja findo, e determinad o; e
fe eífes dous Deíembarga dores acordarem ambos em
revogar a fentença dos fobre-juize s, ou Ouvidores ,
Corregedor da Corte, ou cõmiffairo , como dito he ,
veja eífe feito outro Defembarg ador, que lhes ferá da-
do por terceiro, e fe acordar com os outros dous em
Dos DESEMBARGADORES Do PAAÇO, 27
revogar, dê Ioguo todos tres no dito feito final livra-
mento ; e fe effe terceiro for defvairado dos outros
dous , e rever com a tençom dos Ouvidores , ou fo_
bre-juizes, ou Corregedor da Corte outra nova ten-
çom, em tal cafo feja o feito trazido aa Rolaçom pe-
rante o Regedor da Cafa, e outros Deíembargadores
pera a Mêfa principal, e fegundo per elles todos, ou
a maior parte delles for acordado, feja loguo defem-
barguado finalmente.
1 ITEM. Eftes dous veeraõ os Eíl:romentos d'ag-
gravos, que das Comarcas a elles vierem, que a fei-
tos civis perteencerem, e as petiçoões, que forem da
Juíl:iça, e nom tenhaõ em fi graça, e mercee; e quan-
do forem ambos acordados, daraõ hi deíembarguo
fegundo feu acordo; e no cafo, que defacordarcm,
veja dfes aggravos, e petiçoões efie terceiro, que lhes
ferá dado, e fegundo o terceiro acordar , affi paire o
defembargo cõ aquelle , com que fe acordar; e fe cffe
terceiro nom acordar com cada hum dos ditos Def-
embargadores principaaes , e tiver outra nova ten-
çom, entaõ levem tal aggravo, ou petiçom aa Rola ...
çom , e como hi for acordado, affi paffe o feu defem ...
barguo. E porque a eíl:es Defembarguadores perteen-
ce defembargar as Cartas dos Perdoõcs , que fe daõ
aos omifiados do Regno, veendo primeiramente as
inquiriçoões devaffas , que forom tiradas fobre effcs
maleficios, de que pedem os perdões, citando as par-
tes , a que taaes accufaçoõcs perteencem ; e ainda os
D 2 di-
28 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARTO
ditos Defembargadores ácerca deffes defembargos de-
vem a-uardar certa fórma , que per Nós fobre ello hc
o
ordenada fea-undo que todas eíl:as coufas mais com-
' b
pridamente fom contheudas em duas Ordenaçoões ,
que fobre ello havemos feitas , mandamollas aqui
poer, por tal que eíl::es Defembargadores poffam per
ellas feer informados como os ditos perdoões , e Car-
tas, ou defcmbargos ajam de dar nos cafos, em que
forem requeridos, em tal guifa, que nom poffam com
razom paffar o que per Nós he ordenado ; das quaaes
o theor he efte , que fe fegue.
2 Nos EL-REI Mandamos, e Ordenamos , que
daqui em diante em os perdoões das mortes dos ho-
mens fe tenha eíl:a maneira, affi nos que foro pedidos
pelos omifiados no tempo das Endoenças , como fora
dellas, a faber, que fe as morres forem feitas de pro-
pofito , e os homiziados pedirem perdom de taaes
mortes em fuas informaçoões, naõ feendo ainda paf-
fados fete annos dees o tempo , que as ditas mortes
forem feitas, atá o tempo, que pedem dellas perdom,
que lhes, feja pofio defembarguo nos rooles , e peti-
çoões, livrem-fe per feu direito , ou aguardem atáa
os fete annos ferem paffados , e nom lhes feja dado
outro liv-ramento , nem fobre taaes petiçoões, viíl:as
as devaffas inquiriçoões, atáa que os fete annos fejam
acabados, e paffados, como dito he.
3 E SE as mortes dos homeés forem feitas em rei-
xa nova, anteque os ditos fete annos fejam paífados,
com
Dos DEsEMBARG ADOR!S oo PAAço. :19
com tanto que feja huú anno pairado do tempo da
morte , que em tal caía façaõ vir as devaífas, e fejam
viíl:as, e provando-fe claramente ferem em reixa no-
va , que entom poffam os omifiados fecr perdoados •
com tanto que vaaõ eíl:ar a Cepta per peífoa cinco
annos cumpridos contiouadarnente, fem lhes feer da-
da licença pera d'hi fairem pera outra part.e ; e nom
lhes feja mudado eíl:e degredo pera outros Coutos,
nem minguado o dito tempo em parte, nem em ro-
do ; e fe as ditas mortes (a) forem a cafo , ou por ca-
jom, ou em maneira de defendimento, que mandem
trazer as inquirições , que fobre ello forem tiradas , e
fejam viílas, e examinadas, e fegundo as provas del-
las , aíTi lhes fejam dados perdoões , ou de todo fim-
presmente perdoados, e livres, ou com alguua pena,
fegundo as culpas , em que os ditos matadores forem
achados per as ditas Inquiriçoões.
4 ÜUTRo-s1 fe os ditos omiíiados fc fizerem fem
culpa de todo das ditas mortes, em tal cafo fcjam
viílas as inquirições, nom embarguante, que as ditas
mortes fejam feitas de prepofüo , ainda que os fere
annos nom lcjam paífados ; e feendo achados de rodo
por fem culpa , feja-lhes logo dado livramento, feen-
do as partes primeiramente citadas , como dito he; e
feendo achados em manifeíl:a culpa, em tal cafo nom
lhes feja dado livramento nenhum ataá primeiramen-
te ferem paffados os ditos fcte annos , como dito he.

-------- -------- ~-~


(a) de home ns
SE
JO LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARTO

5 E PORQyE nas dicas inquiriçoões devaffas , que


affi fom tiradas fobre as mortes dos homeés , aas ve-
zes fe nom provã claramente , ante fe moílra per cl-
las , que ha hi alguús indícios , e prefumpçooés fuffi-
ciences pera ferem metidos a tormento, fe prefos fof-
fem os que aili foro culpados ; e alguús indicios nom
fom fufficientes pera tormentos ; que em taaes caíos
poffam os ditos omifiados fcer perdoados com algúas
penas de degredos por certos tempos pera Cepta, ou
pera outros Coutos, fegundo a cu! pa, em que fe mof-
trarem, com tanto que os que fom culpados em mor-
tes de prepofüo , nom lhes feja dado tal defcmbar-
guo , falvo paíTados os fcte annos, ou huu anno , fe
for morte de reixa, e eflas inquiriçooés * vierem (a) *,
fc as partes lh es * perdoarem (b) * , ou todas diffc-
rem, que nom qu erem demandar, e que remetem o
feito aa Juíliça; porque honde as partes diíferem, que
os demandariaõ , fe os viífem prefos , nom fe vejam
as inquiriçoões , nem [e livrem cm eíla forma , mais
ajam livramento per Cartas de feguro em eftillo da-
das, ou na prifom.
6 Nos EL-REr Mandamos, que eíl:a maneira fe
tenha em fe fazerem, e defembarguarem os rooles das
petiçoões , que perteencem ao Officio do Paaço. Pri-
meiramente os Efcripvaães, que eíl.es rooles ou verem
de fazer, teeraõ eíl.a maneira. Viram as partes a el-
les, e dar-lhes-ham as petiçooés; e como a parte lha

- (• ) vccrcm S. (ó) pcrdoarom


der,
Dos DESEMBARGADORES DO PAAço. 31

der, o Eícripvaõ a veja loguo ; e fe for de feito , que


peçaõ perdom , a faber , de feridas , paancadas , rou-
bos , força de molher, o Eícripvaõ pergunte á parte,
que a ha de dar , quanto hé aas feridas, e paancadas,
fe forom dadas em reixa, fe de propofito , e affi o de-
clare na petiçom, e o tempo , em que forom dadas ;
e fe nom trouver cíl:romento de contentamento da
parte querellofa, em todo caía diga- lhe o Eícripvaõ,
que vaa por elle, e nom ponha a petiçom em roo! ataa
que o tragua; e quando o trouver faça-lhe o Eícripvaõ
pergunta, [e deu já outra tal petiçom , como aquclla,
e quantas vezes, e que deíembargo ouve della cada
vez que a deu, e affi o ponha no roo!, e eíl:as pergun-
tas fe façam em todollos caíos fuío eícriptos.
7 ITEM. Se for de morte , o Eícripvaõ a veja, e
fc cm ella nom for declarado em que tempo foi , e
como, fede propofito , fe de reixa , o Efcripvaõ a
nom filhe, e digua aa parte , que o declare , como
dito he.
8 ITEM. Se for de furtos, o Eícripvaõ a veja , e
faça declarar os furtos quaees e quantos fom, e fe a
parte nom trouver eíl:romento de contentamento das
partes, a que os furtos foram feitos, nom ponha a pe-
tiçom no roo! , e fe o trouver, faça-lhe as perguntas
íuío ditas.
9 ITEM. Se for petiçom de fogo , que fizefie da-
pno a alguem , o Efcripvam a veja, e faça declarar ,
e lhe faça trazer cíl:romento de contentamento , fa_
zen-
32 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARTO

zendo-lhe as perguntas , que fazem aos (a) fufo di-


tos , e fe o fogo per' cajom fezer alguú mal , em tal
cafo ponha-fe a petiçom no rool, poíl:o que nom tra-
ga eíl:romento de contentamento.
IO ITEM. Se fôr de adulterio, veja-a o Efcripvaõ,
e faça declarar em que tempo foi o* mal feito (h) *,
e como , e faça pergunta ao que traz a petiçom , fe
lhe perdoa o marido, e [e diífer, que fi, tragua eílro-
mento dello, e fc diífer, que nom quer perdoar o que-
relofo , faça deíl:o mençom , e o Efcripvam o ponha
no roo! pera Nós todo veermos direitamente.
Ir ITEM. Se for petiçom de virgindade, declare
* cm que tempo foi (e)*; e fe nom trouver eíl:romen-
to de perdom da parte , ou partes , nom a filhe o Ef-
cri pvaõ, e fe o trouver, faça-lhe as perguntas fufo
ditas.
12 ITEM.Se for d'alguús, a que fugiram prefos,
d eclarem quantos eram, e porque maleficios cada hú
jazia prefo, e declaré fe fom Carcereiros, ou Meiri-
nhos, ou homeés, que os levavam pera alguús Lu-
gares , ou fe os guardavam per coíl:rangimento , e fa-
ça-lhes as perguntas fufo dicas.
13 ITEM. Se forem outras petiçooés d'alçamen-
tos de degredos, declare porque maleficios foi degra-
dado, e quanto ha que mamem o degredo, fazendo-
lhe as perguntas , como iufo dito he.
14 ITEM. Se for petiçom de manceba de Cleri-
go,
(u) furtos S . (b) m•lcficio S. (e) como foi, cm 'luc tempo S.
Dos DESEMBARGADORES DO PAAÇO. 33
go, digua de que idade he, e que tempo ha que man-
tem o degredo , fazendo-lhe as perguntas.
I 5 ITEM. Se forem outras alguúas, que fom d'ag-
gra vos, que alguús fczerom nos Lugares, _h u vi vem ,
de que devem fazer requerimento ao Juiz, ou Corre-
gedor, nom feja pofto em rool ataa que tragua eftro-
mento de requerimento com a repoíl:a do Juiz, ou
Corregedor, e quando o trouver, veja todo o Efcrip-
vaõ , e entom o ponha no rool , fe for coufa , que fe
per direito nom livre fem Nos feendo prefente.
16 ITEM. Os rooles fe façam, e livrem per efta
guifa. O Efcripvaõ, que os ouver de fazer, tome huã
dobra de papel, e através della ponha o dia, e mez,
e era, e lugar, em que fe livra, e defembargua, e lo..
go a fundo dous dedos comece de poer as petiçoões ,
como fufo hc declarado, com fuas perguntas, e anrre
petiçom, e petiçom leixe efpaço de dous dedos pera
poerem hi defernbarguo ao pee.
17 ITEM. Como eíl:es rooles forem acabados , fe-
jam loguo entregues ao Defembargador, que tiver
carrego de as fazer livrar, e leve-as aa Rolaçom pe..
rante aquelle, que de Nós tiver carreguo de o defem ..
bargar, ao qual Mandamos , que com o Chanceller,
fe hi for , e dous , ou tres Defembarguadores , os ou-
çam , e ponham ao pee de cada huma petiçom aquel-
le livramento, que acordarem; e como os rooles fo.
rem livres , traguã-nos a Nós, e leaõ todas as peti-
çooés dellcs, cada huma fobre fi, pera veermos o li-
Liv. I. E vra--
34 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARTO

vramento, que em* elles (a) * he dado; e quando


Noífa mercee for de relevarmos alguã pena, ou min-
guar, da que per elles for acordada, Nós ho efcrepve-
remos per Noífa maão, e quando a mandarmos acref-
ccntar, efcrepvelo-ha o que a ili aprcfcnrar os rooles,
e todos viíl:os, e corregidos per Nós, affinaremos per
Noífa Maão em fundo de cada rool; e d'hi em dian-
te as partes averaõ feu livramento, porque as Cartas
fc farom per elles; e quando fr ouverem de ailinar, o
Defembarguador as veja, e o Chanceller as aífeelle
concertando-as com os ditos rooles. E qualquer Ef-
cripvaõ, que rooles fizer, e nom fizer as perguntas
fu(o-dicas, e pofer petiçom fem as fazendo, ou poen-
do petiçom duas vezes, fem fazendo mençom do pri-
meiro livramento, como dito he, por cada huma pe-
tiçom Mandamos, que pague cem reaes brancos pe-
ra os prefos.
18 E POR quanto muitas vezes por cafo das an-
dadas dos caminhos , e d'outras coufas femelhantes,
eíl-as petiçooés naõ podem feer defembargadas per os
rooles, como em efie Regimento fufo fcripto he con-
theudo , Mãdamos, que fe defembarguem em eíl:a
guifa ; a faber, ellas fejam entregues a aquelle , ou a
aquclles , a que a elfe tempo tal carrego per Nós for
* dado (b) * , o qual as veerá , e defembargará com
aquelles , que per Nós pera ello forem afünados ; e
qualquer defembarguo, que ácerca de cada huma pe-
ti-
------------ ----
(a) dias S. (6) cometido S,
Dos DESEMBARGADORES DO PAAÇO, 35
tiçom acordarem, fazelo-ha efcrepver ao peé, ou
nas cofias della , o qual aílinarom todos por fuas
maãos, e aili aílinado, ferá moílrado a Nós pera o veer-
mos com aquelle, que o dito carregue rever, e defem-
bargaremos , como acharmos que he direito , e nos
bem parecer ; e o que affi per Nós acordarmos , affi-
naremos per Noífa Maaõ, pera defpois hi nom cahir
outra duvida.
19 ÜUTRo-sr nos dias , que fom aílinados pera
averem de defembargar, levaram aa Rolaçom as in-
quiriçoés dos que pedem perdem, e outras quaaefquer
coufas, que reverem pera defembargar, em que per
1i nom poífaõ dar livramento , fenom em Rolaçom ,
fegundo per Nós he ordenado de fe fazer; e como em
a dita Rolaçom for acordado, aíli paffarom os defem-
bargos, feendo primeiramente per Nós viílos, e exa-
minados aquelles, que fem Nós nom poderem feer
defembargados , como dito he no outro Capitulo.
20 ITEM. Darom geeralmente todallas Cartas de
todas as petiçooês de graças , ou direitas , que nom
fom d'aver Noffo, nem perteencem aa Noífa Fazen-
da, ou a Noífas rendas, ou tributos , nem a feitos cri-
mes , e a obras , e contas dos Concelhos.
2r ITEM. As Cartas das Confirmaçooés das enli-
çooês dos Juizes, e das Alquaidarias dos Mouros, e
dos Arrabis dos Judeus, e dos J uizes , que Nós der-
mos a alguús de graça, ou per cõmiífom fobre feitos
Civys.
22
36 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARTO

22 ITEM. As Cartas , perque Nós pofermos Jui-


zcs efpcciaaes em alguús lugares, ou Juizes dos Refi-
doos, ou dos Orfoõs , ou d'outros quaefquer Juízes ,
que Nós dermos em feitos Civys , que nom pcrtecn-
cem aa Fazenda Noífa, ou a Noífos Direitos.
23 ITEM. Cartas de Mancebos pera os haver, e
pera os nom haver.
24 !TEM. Cartas de guias aos -:; Caminheiros (a)*.
25 ITEM. Cartas de Privilegios,e liberdades,que
nom fejom , nem tangam aos Direitos , e rendas , e
Tributos Noífos.
26 ITEM. Cartas de legitimaçooés , e confirma-
çooés de perfilhamentos , e doaçooés , que alguús fi-
zerem a outros.
27 ITEM. Cartas de manteerem em poíle os ap-
pellances , ou tornarem a ella, fe depois da appella-
çom forem esbulhados ; e cífo meefmo de quaefquer
poffuintes , e- esbulhados , poíl:o que appellantes naõ
fejam.
2 8 ITEM. Darom Cartas de reíl:ituiçom de fama,
e qualquer outra habilitaçom , e perdom , emancipa-
çom , e Sefmarias, e quaeefquer outras femelhantes.
29 ITEM. Darom Cartas , perque Nós damos por
Juiz o Noífo Corregedor da Corte a alguúa viuva ,
orfom, e miferavel peífoa geeralmente em todos feus
feitos , que ouveré, aíli Autores , como Reeos ; as
quaees Cartas lhes ferorn dadas com as claufulas , e
li-
(a) Clminhantc, S.
Do CoRREGEDOR DA CoRTE. 37
limitaçooês declaradas no Regimento, que he dado
ao Corregedor, das. coufas, que a feu Officio perteen-

--
cem.

TITULO V.
----
Do Corregedor da Corte.

M ANDAMOS ao Corregedor da noífa Corte , que


tome conhecimento dos feitos, e defembargos
onde quer que Nós formos, ou onde a Cafa da Juíl:i-
ça, que cõnofco anda, eíliver, aili e pela guifa ,que
he mandado aos Corregedores das Comarcas , que
ajam de tomar em fuas Correiçooés, fegundo he con-
theudo no Regimento de feus Officios , que a cada
huü he dado ,em quanto nom contradiffer ao que em
eíl:e Regimento a elle dado efpecialmente for cõtheu-
do.
i: ITEM. Tomará conhecimento nos lugares, on ..
de Nós formos , dos feitos das viuvas , e Orfoõs , e
pcffoas miferavees, que o efcolherem por Juiz, por-
que teem privilegio de perante elle demandarem, ou
fe defenderem quando perante elle quizerem letigar;
pero quando taaes peífoas miferavees, ou Vi uvas, ou
Orfoõs quizerem demandar alguãs outras peffoas pri-
vilegiadas de privilegias femelhantes aos feus, em tal
cafo os Reeos poderaõ efcolher por Juiz o dito Corre-
ge-
J8 L1 VRO PRIMEIRO TITULO ~INTO

gedor, ou os Juizes Ordinairos da terra, onde forem


moradores , ou os fobre-juizes da Noffa Cafa do Ci-
vil, fegundo he contheudo nas Ordenaçooés , fobre
e!lo feitas; e nom ferom cofüangidos a refponder fe-
nom perante aquelles , que affi efcolheré por Juiz.
2 ITEM. ~ando as ditas pelfoas privilegiadas,
ou cada huã dellas forem demandadas per outras pef-
foas nom privilegiadas, ou privilegiadas fobre feito
de Almotacerias, ou de jornaaes, ou de foldadas , ou
força nova , e guarda, e condefilho, em tal cafo nom
tomará o Corregedor conhecimento de taaes feiros
contra voontadc dos Autores , mais Ietiguarom as
partes perante os Juizes da terra , ou perante os Al-
motacees, a que o conhecimento de direito perteen-
ce; falvo feendo Nós no lugar, onde ambalas partes
forem moradores, porque em quanto Nós hi formos,
poderá de taaes feitos tomar conhecimento, e aa Nof-
fa partida leixa-los-ha aos Juizes da Terra , cujo fôr
o conheciméto; e feendo o dito Corregedor requeri ..
do por parte d'alguã viuva, ou Orfom , ou miferavel
pe!foa pera citar alguem fora da Corte , que venha
perante elle refponder em algú cafo efpecial, poderá
dar Carta* efpecial (a) * de citaçom, com tanto q'ue
nom feja citada outra peífoa privilegiada de feme-
lhante privilegio, e com tanto que anteque de tal Car-

________________
ta, haja informaçom per fumario conhecimento, que
a peífoa, que tal Carta requerer, he aíli viuva, or-
.__ fom,
(a) F'1ta
Do CORREGEDOR DA CoR TE. 39

fom, ou peffoa miferavel , que deve haver tal privi-


legio, e Orfom nom paffe de idade de quatorze an-
nos , fe for varom, ou de doze, fe for molher ; por-
que eíl:es per direito ham tal privilegio, e os maiores
nom ; nem mandará trazer perante fi nenhús feitos ,
que a cada huma das ditas partes privilegiadas per-
teençaõ, onde cada liúa dellas for demandada por fei-
to d 'almotaceria , jornaaes , foldadas , força nova,
guarda , e condeíilho , porque em taaes cafos nom
teem privilegio, como dito he.
3 E SE eíl.-a viuva, Orfom, ou miferavel peffoa,
por cuja parte tal Carta he requerida , for morador
em * terra d 'alguú (a) * dos lfantes meos Tios, e quer
haver Carta pera citar , e trazer aa Corte algúa pef-
foa , ou p~ffoas per femelhante moradores em a dita
terra , o Corregedor lhe nõ dará tal Carta , mais ella
pode efcolher, e demandar, ou perante os Juízes Or-
dinarios da terra , onde ella he morador, ou o Ouvi-
dor do Infante, cuja a terra he ; ou fe de todo quer
ante vir letigar aa Corte , deve de demandar perante
os Defernbarguadores, que na Corte andam, que fom
Defembarguadores das Terras daquelles Jfantes, on-
de as ditas * peffoas (b) fom moradores, e clles lhe
devem mandar dar taaes Cartas ; e ef!:o quando os
Reeos nom forem viuvas , ou privilegiados de feme-
. lhantes privilegias , ca entom tal efrolha ferá em el-
les em os cafos, onde deve a ver privilegio.

(n) term de cnda huú (6) partes S,


----
4E.
40 Lrv&.o P.B.IMEIRO T1ru10 ~INTo

4 E SE per ventura outra algúa peffoa privilegia-


da, que tenha privilegio pera trazer feu Contentor aa
Corte, quifer citar algiía peílàa, ou peífoas morado-
res nas ditas terras , deve-as de demandar perante
aquelles Defembargadores, que na Corte andam, da-
quelle lfante , cuja a terra he , honde os Reeos fom
moradores , e elles lhe devem mandar dar as ditas
Cartas Citatorias; e eíl:o fe nom entenda nos Defem-
barguadores, Ouvidores, Juiz ,e Procurador dos Nof-
fos Feitos , que na Corte andam , ca a e!ks deve o
Corregedor dar Carta pera citar os feus Contentores
perante elle, honde quer que fejam moradores, e afli
fe coíl:umou fempre.
5 ÜuTRO-sY o Corregedor * dará (a)* tal Carta
aa viuva, Orfom, ou peífoa miferavel, ou outra qual-
quer peífoa, que femelhante privilegio tever, poíl:o
que nas terras dos ditos lfantes feja morador, quando
quer que demandar outras, que nom fejam morado-
res nas terras dos ditos Ifantes, e efcoíherem elle Cor-
regedor por feu Juiz; e fe alguã Viuva, Orfom , ou
miferavel peífoa quizer a ver noífa Carta, per que gee-
ralmente poffa demandar , e feer demandado perante
o Corregedor da noífa Corte, efcolhendo-o por Juiz,
e pedindo , que lhe feja dado geeralmente por Juiz
em todos feus feitos, fer-lhe.a da.da com as claufu-
las, e limitaçooés no Capitulo fofo efcripto contheu-
das ; e taaes Cartas devem pafiar per os Defembar..
gua-
/n) deve dar S,
Do CoRREGEDO R DA CoR.TE. 4t:

guadores do Paaço, fegundo o Regimento a elles da-


do , e em feu Officio he contheudo.
6 ITEM. Tomará gceralmcnte conhecimen to nos
Jugares, honde Nós formos , de todos os feitos, que
fe logo pofiam defembargar fé delongua , nem outro
nenhuu proceffo, e fe taaes nom forem, remeta-os
aos Juizes Ordinairos , que os defernbarguern com
direito , como na Ordcnaçom he contheudo ; pero fe
os ditos feitos forem antre taaes peffoas, de que razoa-
damente os Juizes Ordinairos nom poffaõ fazer di-
reito , em tal cafo conheça delles em quanto Nós hi
formos, e quando Nos partir-mos do lugar, faça dcl-
les emmenta a Nós, ou ao dito Regedor por Nós em
Rolaçorn, pera Nós, ou elle mandarmos commetter ,
e dcfembarga r onde , e a quem entendermos per di-
reito, e bem das partes ; e per femelhante guifa fará
em quaefquer outros feitos, que lhe per Nos, ou pelo
dito Regedor forem efpecialrnente commettidos.
7 ÜuTRO sv tomará conhecimento per auçom
nova, e defcmbarga rá em a Noffa Corte, e lugar,
onde formos , todos os feitos , e penas , jogos de da-
dos, e d'outros quaefquer joguos , e de uforas , e de
beíl:as por capar , e meores de marca , e de efcõn;mn-
gados, que pelo& Noffos Meirinhos forem prefos, e
d'outras quaeefqu.er coufas defefas antre quaeeíquer
peífoas , que ícjam , affi como os que trazem ouro, ou
penas, ou roupas defcfas, ou barrcgueeir os, ou d'ar-
mas , que pelos Meirinhos , ou Alcaides da Villa, on-
Liv. J. F de
42 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~INTO

de Nós formos , forem tomadas , porque eíl:o em ef-


pecial perteence ao Offici.o da Correiçom ; e nom fe
devem fazer ácerca dellas outros proceífos , mas bre-
ve, e fúmariamente ferem defcmbarguados ; e feme-
lhante deve fazer em quaeefquer outras penas , que
per Noífas Ordenaçoés, ou pergoo~s de Jufüça forem
poíl:os.
8 ÜllTRO sY tomará, e mandará tomar as contas
de todos os beés, e rendas dos Concelhos , e Alber-
guarias, e Efpritaaes, e Orfoõs , e mandará recadar ,
e faberá, que rendas ham, e os carregos, que teem ;
e poerá Contadores, e Requeredores pera ello nos lu-
gares , onde vir, que compre ; e os que lhes forem de-
vedores coníl:rangerá, e mandará cofiranger per fi, e
per feus mandados , e Cartas, que paguem o que de-
vem , e fará eixecuçom em feus beés , e corpos , fe
cumprir, e fegundo achar per direito ; e tomará co-
nhecimento dos aggravos, ou petiçooés fobre as cou-
fas , que fõ defefas no * contrauto de paz (a) *, que
fe nom pa!Iem de huú Regno a outro ; e porque na
Ordenaçom antigua he comheudo , qul! elle dará as
Cartas , que forem de feu defembarguo que perteen-
çaõ a feu Officio , nom declarando as que a feu Offi ..
cio perteencé, e fobre eíl:o recreciaõ em cada huú dia
duvidas, quaces eraõ aquellas, que a feu Officio per-
teenciaõ ,. acordamos de fazer aqui declaraçom dellas
em eíl:a. forma , que fc fegue.
9 ITEM.

(a) trauto de pam S,


Do CoRREGE:DOR DA CoR TE. 43
9 ITEM. Dará todas as Cartas , per que prendaô
alguús malfeitores, de que lhe for querelado , ou del-
les tiverem eíl:ados , ou forem achados por culpados
em alguús feitos, de que elle haja certa informaçom;
e mandará vír aa Noífa Corte aquelles , de que lhe
for querelado , ou elle ouver per certa informaçom ,
que na Corte fizerom os maleficios , porque os affi
manda prender, ou forem culpados em treiçom , ou
em moeda falfa , ou em peccado de fodomia , ainda
que na Corte nom fejam commetidos taaes malefi-
cios; e nos outros cafos * Mandamos (a) *, que fejam
defembargado s nas terras , e lugares, onde ouverem
commetidos Outros maleficios ; pero fe elle ouver
* per (b) * informaçom, que os ditos malfeitores fom
taaes peífoas, ou acoíl:ados a taaes peífoas , que rafoa-
damente os J uizes Ordinairos nom poflam delles fa-
zer cumprimento de direito , e juíl:iça , em tal cafo
manda-los-há commeter aos Corregedores das Co-
marcas , que façam delles direito em tal guifa, que
nom pereça jufüça.
10 ITEM. Dará Cartas, per que damos Officios de
Corregedores , e Meirinhos das Comarcas.
11 ÜuTRO SY dará Cartas, per que mandem cor-
reger os be€s dos Concelhos, e Orfoõs, e Efpritaaes,
e Albergarias, fe achar, ou fouber ., que andam dap-
nificados , como vir , que feja mais feu proveito.
12 ÜuTRO sv dará Cartas pera os Corregedores
F 2 das
(a) mandará S. (b Falta,
44 Liv Ro PRIMEIRO TnuLO ~TNTo

das Comarcas, e Juizes, que vejam os Noífos Caílel-


los corno eíl:a.õ açaalmados , e corregidos , e o que
lhes mingua , pera o dizerem a Nos.
13 ÜuTRO SY dará Cartas de mandados pera
adúas , pera fe lançar dinheiros , e pera fe fazerem
e
-• alguãs obras, que Nos mandarmos fazer.
14 ÜuTRo ·sy Cartas, per que enqueiraô, e cor-
regam maleficios , forças , e malfeitorias , que forem
feitas per peffoas poderofas.
I 5 ÜuTRO SY Cartas de livramentos em todas as
petiçoões, e aggravos, que perteecem a feitos crimes,
e alguús trouxerem aa Corte de fora parte, e (a) co-
nhecerá de quaeefquer aggravos , que a elle vierem
dante os Juízes Ordinairos aílim em feitos. Civys, co-
mo em Crimes ataa cinco legoas; e os aggravos dos
Ci vys , que a elle vierem- de fora da Corte per firo-
mentos, perteencem aos Defembarguadores do Paa-
ço , e nom ao Corregedor : e dará Cartas de feguran-
ça, per. que dé Juizes em feitos crimes.
16 ÜUTRO SY dará Cartas, per que levem os pre-
fos d'huú lugar a outro, e os mandará ouvir, e def-
embargar.
17 ÜuTRO sv Cartas, per que enqueiraõ fobre os
J uizes , e Corregedores.
18 ÜuTRo sv Cartas , per que fedem Correge-
dores , e Meirinhos das Correiçooés , e Meirinho da
Ca-
(a) na Corte S.
Do CORREGEDOR DA CoR n:. 45
Cadea , e Carcereiros aíli cm a Noífa Corte , como
nos outros lugares , onde os Nos avemos de poer.
19 ÜuTRo sv Cartas de quitaçooés aos Procura-
dores dos. Concelhos das Contas, que lhes elle per fi,
ou a outré mandar tomar , aífy aos Moordomos dos
Efpritaaes , e Albergarias, e Tirarias dos rneores.
20 ÜuTRO sv Cartas de Aggravos , qu e veem
d'ante os Corregedores , e Juizes fobre eftas coufas
fofo ditas, que a feu conhecimento perteencem, e as
obras, e beés, e Contas deífes Concelhos.
21 ÜuTRO sv todallas Cartas dos feitos, que fe
perante elle trautarem-, e fobre as Sentenças , e eixe-
cuçoóes, e defembargos, que por elle forem dados.
22 O CORREGEDOR nom dará Carta, per que ve-
nham prefos fora da Corte fem Noífo mandado efpe-
cial, ou acôrdo da Rolaçom, falvo fe for o maleficio
feito na Corte , ou o prefo for daquelles, que ham de
feer trazidos. aa Corte , fegundo dito he em efie Re-
gimento , e per Nos he ordenado.
23 ÜuTRO SY nom tornará nenhum querela em a
Noífa Corte , nem prenderá per querela fe nom o
Corregedor, ou o Ouvidor da Rainha-nos maleficios,
e peífoas. , que forem da fua jurdiçom ; pero poderá
cada huú dos Noífos Ouvidores tomar querella d'al-
guú.conjunto, ou acoíl:ado ao Corregedor em tal gui-
fa, que fe .pofia delle a ver alguã-rafoada fufpeiçom, e
fegundo a dita querella , poderá mandar prender em
aquelle cafo , que lhe for querelado; e Mandamos,
que
.+6 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~INTO

que os feitos Civys, qne elle defembargar como Cor-


regedor, ou lhe per Nos , ou Noffo Regedor forem
cometidos, que os poffa defembargar fem Rolaçom ,
e da Sentença definitiva , que elle per fi der , a par-
te, que fe aggravada femir, poderá aggravar da dita
Sentença , e feja-lhe recebido o aggravo , fe paífar a
quamia de dcs efcudos d'ouro pera cima; e fe algúa
anrerluquitorea per elle for dada, e fe a parte Íe fen-
tir aggravada, poderá dello fazer informaçom ao Nof-
fo Regcdor,o qual fe vir,que o aggravo he tanto ur-
gente , ou prejudicial , que fe nom poífa repairar no
aggravo da definitiva, ouça o Corregedor com a dita
parte em Rolaçom , e fegundo o que em ella for acor-
dado, aili o faça determinar; e fe vir, que o aggravo
he leve, e de pouca fublhncia, nom fe embargue del-
le e leixe o Corregedor profeguir per feu feito em
diante , e fazer direito aas partes.
24 ÜuTRo sY Mandamos, que todos os feitoii
Crimes, de que o Corregedor conhecer, e defembar-
guar, quer fejam da Cadea, de que lhe he dado car-
reguo, ou a elle vieré per Correiçom , ou Cõmiífom •
ou fimpres querella, ou per aggravo , ou per outra
qualquer guifa , que os tragua todos aa Rolaçom , e
d'hi os defembargue com aquelle, que dermos per
Regedor aa Mêfa , onde elle for deputado , e com os
Noílos Ouvidores, aos quaees mandamos , que em
cada hum dia bem cedo fejuntem em huã Mêfa, que
lhes pera eíl:o ferá ailinada ., onde Nos formos , pera
li-
Do CoRREGEDOR DA CoRTE. 47
livrarem eíles feitos, e os outros, que eífes Ouvidores
teverem , e prefente todos • faça o Corregedor rola_
çom deífes feitos , íeendo preíentes as partes, ou feu.s
Procuradores, fe os hi ou ver, e revees nom forem ; e
dlo fe faça affi nas Sentenças definitivas , como nas
interluquitoreas , falvo fe for alguã anterluquitorea,
que nom traga aa parte prejuizo, e nom haja duvida
febre a pronunciaçom della , ca tal como eíl:a, pode-
rá per fi fóo defembargar ; e fo alguã parte differ em
algúu feito Crime, que he aggravada deífe Correge ..
dor fobre algúa interluquitorea , o Corregedor nom
leixe por tanto d'hir pelo feito em diante, e a parte,
que fe aggravar, vaa dizer feu aggravo aa Rolaçom ;
e fe for prefo, vaa hi feu Procurador; e fe o prefo nom
tiver Procurador, Mandamos ao Efcripvaõ , que ti-
ver feu feito , que fob pena do Officio, feendo pela
parte requerido, leve o dito feito aa Rolaçom, e diga
aos Defembarguadores della como, e de que fe ag-
grava o dito prefo , ou parte fofo dita , e o Regedor
da Rolaçom com os ditos Defembargadores faiba do
Corregedor o feito como anda , e o fundamento, que
ouve a fazer ho de que fe a dita parte , ou prefo ag-
grava, e ouvida fua rafem com o dito Efcripvaõ, fe
achar , que a parte be aggravada, defaggrave-a.
2 5 E SE alguú malfeitor de grave feito vier peran-

te o Corregedor, de que elle aja tal enfom1açom, per


evidentes indicias, • e (a) ;t prefumpçooés, perque
lhe
48 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~INTO

lhe pareça , que deve logo feer metido a tormento,


porque feendo efpêçado o tormento, fe poderia per-
ceber o dito prefo em tal guifa, que ao defpois a ver-
dade nom poderia feer tambem fabida, em tal cafo
fe o a tormento quizer meter , falle primeiramente
çom o dito Noífo Regedor da Rolaçom com dous
principaaes Defembargadores della, e com acordo
dos fobreditos o poderá fazer, e d'outra guifa nom.
26 E o Nosso Corregedor terá eíl:a maneira com
os Regataaés , e Regateiras , e Carniceiros , e * Paa-
teiras (a) * , e com todollos outros, q uc compram ., e
vendem, e encreguam , e recebem por pefo, e medi-
da nas Cidades, e Villas, e Lugares, por onde Nós
andarmos. Tanto que chegarmos ao lugar, vaa aa
Camara do Concelho, e falle com os Juizes, e V crca-
dores, Almotacees , e Homeés boõs, que fe hi pode-
rem acertar, e requeira-os, que façam proveer, e af-
finar todollos pefos de todallas coufas , que fe ouve-
r.ém de .medir, ou pefar de guifa , que a terra eíl:ê em
boa regimento, dando-lhes pera ello termo de quinze
dias , a que o affi façam cumprir; o qual termo paf-
fado, fe o dito Corregedor ouvcr informaçom , que
fe nom faz corno deve, elle per íi (b) com o Meiri-
nho da Corte poderá provcer todos os pefos , e medi-
das do dito lugar , fegundo no Regimento , que lhe
he dado de feu Officio, he éontheudo; e eíl:o fará pre-
fente hum Tabelliaõ do dito lugar, ou Efc.ripvaõ da
Cor-
(a) paadciras (b) 011
Do CoRREGEDOR DA CoRTE. 49
Corte , o qual efcrepverá os erros, e minguas dos di-
tos pefos , e medidas , e a pena, em que o dito Cor-
regedor apenar o culpado, prefente duas teíl:emunhas
dignas de fe , por tal , que fe ao defpois o que affi fi-
zer o díto Corregedor vier em alguã duvida, poffa
frer conhecido , e verdadeiramen te fabudo , fe o dito
Corregedor obrou , e fez o que devia ; e a pç>na, em
que o dito culpado affi for a penado, nom paffará de
duzentos reis pera cima , da qual pena a terça parte
ferá pera aquelle , que eíl:o accufar, e a outra terça
parte pera o Concelho, e a outra terça parte íerá pera
as obras da Rolaçom; e fentindo-fe aggravado alguú
dos que affi forem apenados pelo dito Corregedor, re-
corra-fc aos Officiaaes da Camara do dito lugar , os
quaces com o dito Corregedor veeram a razom do
apenado, e fe acharem que he aggravado, defaggra-
vem-no affi como acharé per razom • e (a) * direito;
e nom fe acordando os ditos Officiaaes com o dito
Corregedor, vaaõ-fe perante o Regedor da Rolaçom,
e com acordo dos Defembarguad ores elle proveerá a
dita duvida, como for direito.
27 E TANTO que Nós chegarmos a alguú luguar,
o Corregedor da Noífa Corte a verá enformaçom dos
Officiaaes , e Almotacees do dito lugar , que Regi-
mento, e Hordenaçooés teem feitas acerca das eíl:er-
queiras, e çugidades lançadas nas ruas pruvicas,e em
outros lugares , honde honeíl:amête fe nom devem de

------ ------ ------


Liv. I.
(a) de
G lan-
50 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~INTO

lançar, e requeira-lhes* perante (a)* huú Taballiaõ,


ou Efcripvaõ com duas teílemunhas , que ataa quin-
ze dias primeiros feguintcs as façam cumprir, affi
acerca dos fazedores das ditas eíl:erqueiras , e çugida-
des, como dos Rendeiros das Cooimas, fe em alguas
penas devem de encorrer por nom fazerem cumprir
o dito Regimento, e Hordenaçoões em tal guifa, que
ellas íejam em todo cumpridas , e o lugar limpo das
ditas çugidades , íegundo a feu boõ Regimento , e ef-
tado convem; o qual termo pafiàdo, o dito Almotace
mandará cumprir, e eixecutar o dito Regimento. e
Hordenaçooês em todos aquelks, que per ellas em
alguãs penas encorrerem, das quaaes penas a metade
ferá pera aquelles, que tal coufa acufarem , e a outra
meetade pera o Concelho do dito Iuguar ; e no cafo.
honde o Corregedor dlo per fy requerer fem outro
acufador, fera a meetade pera as ditas obras da Ro-
laçom , e a outra meetade pera o Concelho. e o dito
Corregedor em tal cafo poderá apenar os Almotacees
do lugar em cem reis cada huú por a negrigencia :,
em que alli forem de nom cumprirem fuas Hordena-
çooés.
2 8 E SE no luguar, honde Nós chegarmos, nom
ouver feito nenhuú provimento per os Officiaaes do
Concelho ácerca das ditas eíl:erqueiras, e çugidades
em tal cafo o dito Corregedor com os ditos Officiaaes
devem acordar , e logo terminar aquello , que lhes
bem
(a) prcfcotc
Do CoRRE.GEDOR DA CoRTE. 51
bem parecer por boõ Regimento , e governança da
terra fob aquellas penas, que razoadamente fe coftu-
maõ poer em femelhante cato, dando carrego aos Al-
motacees do lugar, que o façam logo affi cumprir; os
quaees logo farom todo affi apregoar, fegundo o cof-
tume da terra ; e feendo os ditos Almotacees negri-
gentes * em o (a) * affi * fazer (b) * comprir, o Cor-
regedor deve de tornar a ello comprindo as ditas
Hordenaçoões , e apenando os ditos Almotacees, fe-
gundo he contheudo no Capitulo fofo efcripto; e fe-
rnelhante maneira deve teer nos poços , e fontes , xa-
farizes , e canos.
29 ITEM. Fomos enformado• que os Corregedo-
res, que ante* Nos (r) * forom , alguãs vezes leva-
vaõ • dinheiros (d) • dos Alvaraaes, que davam
aaquellcs, que vinhaõ fervir com fuas bêftas , levan-
do as carregas ao tempo da partida Noffa , quando fe
tornavaõ peras fuas cafas: o que naõ avemos por bem,
e Mandamos, que fe tenha ácerca dello a maneira ,
que antiguamente foi coílumada, a faber; o Efcripvaô
das Malfeitorias, que tem em fcu poder os rooles das
Vintenas dos que forem emprazados , e lhe forem da-
dos pelos Vinraneiros , que os emprazarom, deve de
rifcar em cada hum roo! aquelles , que parecerem , e
vierem fervir , e os que forem revees , deve-os de lei-
xar por rifcar, affinando-os por revees, os quaees o
Corregedor deve de mandar penhorar , fegundo pelo
G 2 rool
--------
M. (6J Falta M.
(a) ao
--------
Falta. (d) dinheiro.
(e)
---~--
52 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~INTO

roo! do Efcripvaõ achar por revees, mandãdo recado


aos Vintaneiros, que os penhorem por aquellas pe-
nas, que per Nós he ordenado, que fe ajam de pagar
cm tal cafo ; os quaees mandados pera os ditos Vin-
taneiros devem de levar os homeés do Meirinho , e
averem por feu trabalho o que fempre acoíl:umarom
d'aver em tal cafo; e aili fom efcufados os ditos Al-
varaaes pera aquelles, que vierem fervir, pois que foo-
rnentc ham de feer penhorados aquelles , que forem
achados por revees polos roolles do dito Efcripvaõ •
como dito he.
30 ÜuTRO sY Mandamos, que todos os Lavra-
dores do Termo de Lixboa , Cintra, Alanquer, Obi ..
dos, Torres Vedras, Santarem , Torres Novas, Co-
ruche, Salvaterra, Benavente, l\1onte moor o Novo,
Evora , Arraiolos , Eíl:remôs , Evora Monte, o Vi-
rnieiro, e de quaecfquer outros lugares, a que efpc-
cialmentc for recado de Noífo Corregedor, que Nós
havemos lá d'hir invernar, façaõ feos palheiros em
cada huú anno continuadamente de toda a- palha, que
ouverem, ainda que fe norn entendaõ d'aproveitar
d'algúa parte della, em tal guifa, que indo Nós a ca-
da húa das ditas Comarcas , nos poífamos della fer-
vir, fem grande dapno dos ditos Lavradores; e qual-
quer Lavrador, que a leixar perder, nom a poendo
toda em palheiro bem guardada em tal guifa, que fc
nom perca , pague de pena per cada huú anno que
o aili fezer, duzentos reis, dos quaces fejam a meeta-
dc
Do CORREGEDOR DA CoRTE. 53

de pera aquellc , que o accufar, e a outra meetade


pera a Arca da Piedade; e eíl:a pena de duzentos reis
fc entenda nos Lavradores , que lavraré com fcnhas
Charruas, ou d'hi pera cima, ou com fenhos arados ,
ou com dous , fegundo o coíl:ume d'Alcmtejo ; e os
outros Lavradores , que lavrarem com trilhoada, ou
com huú ftngel de bois , paguem cem reis.
3 r E MANDAMOS que onde Nós eíl:evcrmos nom
feja ncnhuã palha tomada , falvo per Alvaraaes do
Corregedor, ou do que feu logo te ver, o qual nos Al-
varaaes, que affi der , mandará pagar a cada huú la-
vrador por cada huã carregua de palha de beíla muar,
ou cavallar cinco reaes brancos; e qualquer Azemel,
que for achado com a dita palha fem o dito Alvará,
ou fcm pagar o dito preço de cinco reis , pague da
Cadea cem reis , da qual pena a meetade frja pera
aquel , que o accufar, e a outra meetade pera o La-
vrador • a que affi foi tomada.
32 ITEM. Ordenamos, que nas Cidades, e Vil-
las , e quaefquer outros Lugares , onde pefos , e ba,..
lanças ouver que fe péfe 1 carne dos Carniceiros na
balança do Concelho ,affi como foi antiguamente ufa-
do , e coílumado; e quando for achada a carne mal
pefad1 ajam os Carniceiros aquella pena, que em ca-
da huã Cidade , Villa , ou Lugar for ordenada , ou
cofiumada d'antiguarncn te ; a qual ufança fe tenha,
e guarde com os Carniceiros da Cone , eílando con-
tinuadamente com as ditas balanças huú homem do
Mei-
54 LIVRO PRIMEIRO TrTULO ~INTO

Meirinho, que requeira , e faça pefar toda a carne,


que fahir dos Carniceiros da Corte, para fe haver de
veer fe he bem pefada , ou nom , feendo preícnte ao
pefar da carne , que fahir do Carniceiro da Corte ,
huií outro homem , que a dita Cidade , Villa , ou Lu-
gar pera e!lo poderá ailinar, pera íc todo fazer direi-
tamente, como deve; e quando achado for, que o
Carniceiro da Corte mal pefou, aja aquella pena ,que
no luguar, onde eílevermos , for poíl:a ao Carniceiro
da Vilh, da qual a meetade feja para a Arca da Pie-
dade , e a outra mcetade pera quem tal acufar; e nos
Lugares , onde taaes pefos nom ouver , ponhaõ-fe a-
quelles, que ordenado he, que comfiguo tragua o
Corregedor, e em todo cafo o conhecimento dos Car-
niceiros da Corte pertencerá ao dito Corregedor.
33 OuTRO sY Ordenamos, que cada vez que fe-
zermos mudança de hum lugar pera outro, aja o Cor-
regedor huã bcíl:a d'albarda para trazer os pefos , e
medidas , que ordenadas fom , que com figo aja de
trazer, a qual * feja (a) • paguada dos dinheiros das
penas , que fom ( b) pera Nós , e fe pera Nós reca-
dam.
34 OuTRO sv Ordenamos , que porque acerqua
dos pefos , e medidas fom achados muitos erros cm
dcfvairadas maneiras, que quando alguú pefo, ou me-
dida nom for marcada da marca do Concelho , ainda
que feja juíl:a, e concertada com o padrom do Con.
ce-
Do CoRREGEDOR DA CoRTE. 5;
celho, pague aquelle, em cujo poder for achada, cin-
coenta mil libras de pena, affi como fe ataaqui fem-
pre levou.
35 E SE o pefo , ou medida for achado em poder
d'alguem fem marca, e nom juíla, nem concordante
com o padrom, em tal cafo aquelle, em cujo poder
for achada , aja a pena, que hc ordenado d'aver no
Regimento do dito Corregedor , a faber , duzentos
reis , a qual pague da Cadea ; nom tolhendo porem
aalem feer ponido no corpo, fegundo o direito, e o
cafo, e culpa, em que for, requerer; e eílo fe enten-
da affi em aquellc pcfo, e medida, que for maior que
o padraõ, como na que for mais pequena, porque af-
fy fe pode fazer erro , e falfidadc • por feer maior ,
como por feer mais pequena.
36 E Nos pefos , e medidas , que forem achados
com marcas , e nom forem juftamente concordados.
com os padrooés , tenha-fe eíla maneira I que adian-
te ferá declarada , a fabcr ; o almude do vinho , em
que for achado erro de canada , pague de pena du-
zentos reis , e por erro de meia canada pague cem
reis , e por erro de quartilho pague cincoenta reis , e
d'hi pera fundo nom pague nada. Ca per bem da ver-
tedura , que fe faz em medir , • lhe convem de cair
(a) • hi alguã mingua.
37 ITEM. A arrova I em que for achado erro d'ar-
ratel , pague de pena duzentos reis , e por erro de
meo
(4) ncwfarjimcnlc çonvcm de .11-cr.
56 LrvRo PRIMEIRO TrTuLo ~rNTo

meo arratel pague cento , e por erro de quarta p:1gue


cincoenta reis, e d'hi para fundo nada, por que per
bem da uíança continuada neceffariamcnte convem
que a balança defconcerte do feu j ufl:o pefo.
38 E QYANTO he aos pefos, e medidas meúdas,
que forem marcadas das marcas dos Concelhos , que
nom forem quebradas, nem * efcadeadas ( a)*, guar-
de-fe a ufança antigua, e a ordenança da Cidade, Vil-
Ia, ou Lugar, onde Nos formos , fem haver hi outra
pena maior, q ue a que he pofl:a dos pefos, e medidas
groíTas, porque parece fcer dcfigual razom dos pefos,
e medidas groffas aos pefos , e medidas meC,das ; e na
parte dos co vodos , e varas , em que for achado erro
de dous dedos , pag ue aquelle , em cuj o poder for
achado tal erro , duzentos reis, e por erro d'huú de-
do (b) cem reis, e por erro de mco dedo ( e) eincoen-
ta reis.
39 E parte da prata, e pefo de marco, em que
NA
for achado erro de mea onça , pague por pena quatro
centos reis, e por erro de quarto d'onça pague duzen-
tos reis, e por erro d'oitava d'onça pague cem reis.
40 ITE M. Pefo de nobre, em que for achado ( d)
erro d'huií grafo, pague cem reis, e por erro de dous
graaõs pague duzentos (e) , e aíTy d'hi pera cima, e
no pefo de dob1a , ou coroa , ou (f) qualquer outra
peça d 'ouro, em que for achado erro de huú graaõ ,
pa-

(tr) cfcacdad a1 S. cfcadada1 /t-f. (b) pague S. (e) pague S. (JJ pcfo uc
,.,) rci5 .S. (/) cm M.
Do CoR~EGEDOR DA CoRTE. 57
pague * cem (a) * reis, e por erro de dous graaôs pa-
gue * duzentos (b) -r.- , e affi d'hi pera cima , fegundo
for a mingua, e de graão pera fundo nom deve d'a-
ver pena affi no pcfo de nobre , como da dobra, e co-
roa , &c. porque as balanças de tal pefo fom tam fo_
tis , que fe nom podé tanto afinar , perque fempre
efiem na fieira (e) •

TI TU LO VI.
Do Juiz dos Neffos Feitos.

M ANDAMOS, que o que for Juiz dos Noffos fei-


tos faça Audiencia, e ouça os feitos em cada
hum dia , e defpois que forem conclufos , faça Rola-
çom delles na Mêfa principal, honde eíl:ever o Rege-
dor da Cafa , prcfente elle , e os Doutores , e Defem-
barguadorcs do Paaço , os quaees todos deputamos
pera a dica Mêfa, e feita a dita rolaçom, dará em el-
les Sentenças, e defembargos, fegundo que por todos
os fobre ditos , ou maior parte delles for acordado,
fem havendo hi outro aggravo pera outra nenhuã par-
te ; e * effe (d) * Juiz conhecerá de todos os feitos, e
demandas , que pertencé a Nos , affi per razom de
Regueengos, como de Juguadas , vinhas , e figuei-
raaes , e olivaaes , e cafas, e todos os outros direitos,
que perteécem a Nos.
Liv. I. H I ITEM.

(.a ) cincornti S. (b) ~em reis (e ) direita S. (d ) efte S.


58 LIVRO PRIMEIRO TITULO SEXTO

r Dará Cartas de mandados, e rcpoíl.as aos


lTE:,1.
Almoxarifes pera veerem enformaçooés fobrc lnqui-
riçooés dos beés , e direitos Noffos.
2 OuTRO sv Cartas , que perteécem aas aberta,,
e valladores Noffos , e conhecerá dos feitos , que aas
ditas abertas, e valias peneécem.
3 ITEM. Dará Cartas, que perteéccm aas Noffas
Jurdiçooés, e conhecerá de quaaefqucr feitos, e con-
tendas , que a ellcs pcrteéçam.
4 ITEM. Conhecerá de todolos feitos , que Nos
ouvermos cõ algúas peffoas , ou cllas com Nofco ío-
bre as noffas rendas, e direitos, falvo fc forem (a) de
fifas , porque eíl:es a vemos cometidos aos Noffos Vcc-
dores da Fazenda, fegundo que cm o Regimento àe
fcu Officio hc contheudo.
5 OuTRo sv conhecerá de todollos feitos ·, e de-
mandas Noffas, am
como de rendas, dizimas, e por-
tageés, e outros quaeefqucr direitos Noffos, ainda
que fcjam antre partes, fe direitamente a clfe tempo,
ou ao defpois tangerem a Noffos Direitos , e a ellcs
poffam trazer algum proveito , ou alguíÍ dapno ao
diante ; e pode-fc poer eixemplo, quando antre as
partes he debate , e contenda fubrc coufas , que * ef-
tã ('7)* em direito, porque em tal cafo, fcendo huma
vez dada fentença contra Noffos Direitos, ainda que
foffc dada antre partes~ fazer-nos-hia prcjuizo ao
diante ; e quando antre as partes n.om fo!Tc contenda
fo-
(a) feito, S. {b) cflcm
Do Jurz oos Nossos FEITOS. 59
fobre ponto de direito , mais foomente fobre o feito
fobre o qual Sentença dada , a Nos , ou a Nofios Di-'
reitos nõ poderia fazer alguú prejuizo ao diante , em
tal cafo nom deve pertecnccr o conhecimento ao dito
Juiz dos Noífos feitos, mais devem feer trautados pe-
rante os Noífos Juizes Ordenairos ; e as appellaçoés,
que dante elles em taaes feitos fahirem , dev-é d'hir
aos fobre- Jui-zes , ou Ouvidores da Noffa Corte , fe-
gundo que vaaõ os outros feitos , que fom ancre par-
tes , que a Nos nom perteécem.
6 ÜUTRO sy conhecerá de todollos feitos , poílo
que fejã antre partes, que fe ordenarem per razaõ de
Doaçooés per No') feitas , aíli de beés d'abinteílado ,
ou outros quaeefquer vaguos, ou outras coufas a Nos
devolutas per quaecfquer coufas , de que fizeffemos
merece , ou doaçom a alguãs peífoas ; e eílo meefmo
das luitofas, de que fezermos merece.
7 E MANDAMOS, que efte Juiz fe junte bem cedo
cada dia pola manhaã com o dito Regedor em huã
Mêfa , que lhe per elle ferá affinada , e com elle os
outros Defembarguadores, que deputamos pera eíl:a-
rem em aquella M êfa , e faça rolaçom de todos os
feitos , que a elle perteéccm , e com feu acordo os
defernbargue , como dito he ; e affi defembargue to-
dallas petiçooés , e Inquiriçooés , e enformaçooés, que
tever, e a feu officio perteencer, e nom dará nenhu1
defembarguo fem acordo dos fobreditos.
8 ÜUTRO sy o dito Juiz defcmbarguará com os
H2 fo-
60 LIVRO PRIMEIRO TITULO SEXTO

fobreditos em a dita Mêfa aa fegunda feira, e aa ter-


ça , e aa quarta , e em eíl:es dias nom confentirá o
dito Regedor, que outro nenhuú Defembarguador
defembargue nenhúa coufa, porque aos outros fom
outros certos dias ailinados, em que hajam de defem-
bargar ; e em efpecial Mandamos ao dito Regedor,
que o faça aíli cumprir, e guardar continuadamente,
porque fomos certo, que d 'outra guifa fe feguirá gran-
de empacho aos Defembargadores.
9 E MANDAMOS, que e!fe Juiz nom mande citar
nenhuãs partes aa Corte de fora parte , ataa que pri-
meiramente nom fejam viíl:as em Rolaçom as enfor-
maçooés , ou Inquiriçooés , perque entendam que
devam feer citados , e quando affi fór acordado por
todos, ou a maior parte delles, enrom d ê carta s , per-
que os citem , fegundo for acordado antre elles.

TI T U LO VII.

D os Ou·vidores.

M ANDAMOS, que tres Ouvidnres ., que em a Nof-


fa Corte andarem , tomem conhecimento de
todolos feitos crimes, que aa dita Noffa Corte vierem
per appellaçom de todo o Regno, falvo de Lixboa,
e feu Termo, por quanto havemos ordenado, que as
appellaçooés dos feitos crimes da dita Cidade , e ter-
mo
Dos o u V I D o R E s. 6r
rno vaaõ aa Cafa do Civil , que efiá em a dita Cida-
de.
1 ÜUTRO sY tornaram conhecimento dos feitos
dos prefos , que em fua Cadea andarem , e dos ou-
. tros , que lhes por Nos , e pelo Regedor da Rolaçom
forem cometidos : outro fy das appellaçooés dos fei-
tos civys, que vierem do lugar, donde eíl:ever a Nof-
fa Corte, e darredor cinco legoas ; e daalem das di-
tas cinco legoas nom tomaram conhecimento , falvo
por Noífo efpecial mãdado, por quanto havemos or-
denado as ditas appellaçooés de feitos Civees daalem
das ditas cinco lcgoas da Corte , hirem todas aa dita
Cafa do Civil. E Mandamos , que afü fe guarde , e
Mandamos, que efies tres Ouvidores repartâ as Au-
diencias , e cada huú ouça eífes feitos per Somanas ,
a qual Audiencia faça defpois que fahir da Rolaçom.
2 OuTRO.SY os ditos Ouvidores vejam os ditos
feitos por efia guifa ; repartam as Efcripturas , e fa_
çam diílribuiçom entre fy , que tantos feitos veja huú
per primeiro, como ho outro ; e defpois que por huú
for vi fio, vaa a outro; e effe , que o vir por fegundo >
faça deffc feito rolaçom ; e eíl:o fe entenda nos feitos
crimes; e nos feitos Civys, que lhe (a) cometidos>
ou remetidos forem , ou lhe per appelaçaõ vierem •
veja-os por primeiro, e defpois os veja o outro, e fe
fe ambos acordarem ,dem livramento como acharem
por direito ; e fe forem em defvairo, veja-os o outro
Ou-
(a) fom S.
6.2 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETIMO

Ouvidor por terceiro, e com o que acordar fe dê li-


vramento; e fc caJa huú dclles for doente , ou occu-
pado d'outra * maneira , e neceffidade (a) *, honde
. aja • de veer (h) * o terceiro , veja e!fe feito, ou feitos
o Noffo Procurador por terceiro.
3 E PORQ.!!E muitas vezes aconteceo andarem os
feitos de huú Ouvidor em outro em tal guifa, que ou
per mingua d'alguú dcllcs, ou dos Efcripvaaés , que
os davaõ ,{e perdiam os feitos, e que as partes os nom
podiaõ achar, e o Efcripvam ficava em prigoo, e a
parte perdia fcu direito: outro fy fe o Ouvidor, que
via o feito por primeiro , poinha fua tençom , e dava
o feito a outrem, que o leva!fe ao outro Ouvidor, e
e!fe, que o levava a omro, a que elle o feito moíha-
va , fabia a tençom fua , e feguiaõ-fe deíl:o arroidos ,
e inconvenientes ; por tirarmos aazo de fc e!l:as cou-
fas nom fazerem , Mandamos, que o Efcripvaõ , que
o feito rever , deípois que o feito for conclufo, que o
leve ao Ouvidor , que o ha de vecr por primeiro, e o
nom entregue a outrem , falvo a clle ; e quando lho
entregar, mofüe-lhe o Efcripvaõ o feito , [e he cm
elle feita algúa antrelinha , ou borradura , ou outro
alguú vicio, e fe hi for, logo ho efcrepva cm huú li-
vro, que o Efcripvaõ tenha, e quantas folhas forn, e
como ho entregua ao Ouvidor , tantos dias do mez ,
e o Ouvidor affine eíl:e livro; e nom ho querendo af-
finar , nom lhe de o feito, e vaa cm outro dia aa Ro..

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la-
(•) necellid•de, ou de c•jom S, (L,) d'avcr
Dos o l] VI D o R E s.
laçam , honde eífe Ouvidor ouver de livrar os feitos,
e digua-o pera o repreenderem, e paguar logo as cuf-
tas aas partes , as quaees lhes logo fejam pagadas.
4 E DESPOIS que o feito for viílo , cfcrepva eífe
primeiro fua tençom largamente no feito, afi'oman-
do-o ,e decidindo-o fegundo elle entender;e em outro
dia elle de fua maaõ o dê ao outro Ouvidor ,que o ha
de veer por fegundo, prefente o Efcripvaõ ,que o tire
de fobre elle logo do livro , e ponha-o fobre o outro,
e nom lho envie por outrem; e pera fe bem fazer , e
ferem guardados os feitos , Mandamos aos ditos Ou-
vidores, que cada huú Ouvidor tragua feu faco de li-
nho , ou de coiro, em que tragua os ditos feitos. Bem
enfinados devem feer os Ouvidores, fegundo a regra,
que lhes atáa ora foi dada, como ajam de veer, e af-
fomar os feitos, pero por fe nom alleguar ignorancia,
tenhã eíl:a maneira : o primeiro Ouvidor , que o feito
vir , comece o feito, e dês o c_o meço delle ataa -fim
nom leixe dclle termo, nem couía, que nom veja , e
em_o veendo , vaa cotãdo cada huú ponto, pera def-
pois quando o affomar ,_ ou fezcr Rolaçom , poder hir
mais de ligeiro ao moftrar, e achar : affy como onde
foi dada a querella , poer em direito do começo del-
Ja querella , e fe for jurada, poer em direito deffe lu-
guar jura._da:,.e fe forem nomeadas teftemunhas , poer
cm direito dellas tejiemunhas 1 e em fim poer no cota-
mento perfeita.
5 E SE FOR d.enunciaçaõ fem Juramento, e fem
tef-
64 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETIMO

teílemunhai, ou com teíl:emunhas , e fé juramento,


affi o ponha na cotafallece tal coufa, fegundo o feito
for; e d'hi hir cotãdo per o Iibello , e conclufom, e
çontcílaçom , fegundo for, e artigos, fe dados forem ,
poendo a cada* hú a nota (a)* hum, dous, Ires, qua-
tro, &c. E fe hi ou ver artigos contrairas, ou de repri-
caçom, aíli o poer; e fe hi ou ver confiffooés, ou de-
poimento da parte, affi o poer, e veer a confiífom ,
ou depofiçom com o artigo; e febre o que confeílado
for nem dar aa parte encarregue da prova , e pocllo
de fora quando vir o feito, poendo em huã folha de
papel , tal artigo fe prova por conftjfom , e fobre os que
negados forem veja a inquiriçom , e em ha veendo ,
vaa * cotando (b) * as teíl:emunhas, a faber, huá. duas,
ires, &e. E honde a teíl:emunha diífer, ponha-lhe fi-
11al , porque quando fezer Rolaçom, poífa logo hir a
ella; e em a folha de fora ponha, tal artigo /e prova
per tal teflem:mha, &e. E quando vir o feito ,e inqui-
riçom , veja os nomes das teíl:emunhas, que forem
nomeadas na querella, ou no feito, fc o feito he cri-
me ; e veja fc fom todas perguntadas, e quantas fo_
rom nomeadas , e fe algúas minguarem, folie com ho
outro fcu companhom, e vejam fe fazem mingua aa
prova, e fe mingua fezerem, mandem-nas pergun-
tar; ou fe per as teíl:emunhas virem , que forem per-
guntadas como nom deviaõ , ou cm lugar que nom
deviam por o feito tal feer, ou antre taaes pcffoas

-(a)-hu.;-na-cota-S,- - ------- -----


(b) conundo
man-
Dos ouV I D o R E s.

mandem Cartas , que fe pergunte outra vez em ou-


tro lugar mais convinhavel , bonde poífam dizer a
verdade. E fc o feito for no lugar, h·ondc Nos formos,
ou ará cinco legoas , perguntem-nas elles , ou cada
hum delles; e fe mais alonguado for, e elles entende-
rem, que compre de virem dar feus teíl:emunhos aa
Corte, moíl:rern eíl:o na Rolaçom, e com acordo dos
da Rolaçom façã o que entenderem por direito ; e
quando aili vir as teilemunhas, e inquiriçom, fe per
dia achar, que alguã coufa prova de feito, veja loguo
fe tem contraditas , e fe procede, ou nom , ou poílo
que proceda , fe hé provada , e fegundo o que achar ..
aili o ponha na margem , e de fora na folha , bonde
poocm , tal tejlemunha diz tal coefa em tal arllgo , po-
nha, tem contradita, que procede, e he provada, ou nom,
ou que nom procede , ou que procede , e nom he provada,
frgundo for, e aili vaa cotando o proceífo, e affoman-
do de fora; e fe achar que a teíl:emunha nom diz cou-
fa , que ao feito tangua, ponha no começo della, ni-
hil ; e acabado a ili o feito de vccr , e cotado , guarde
a folha , que tem em memorial de fora, e ponha em
foma o feito, e fua teençom no proccífo, e de o feito
com fua tecnçom .a feu companhom ; e eíl:a regra te-
nhaõ todos os Defembargadares, * e os (a)* que ham
de veer feitos por primeiro _, e defpois ho outro por
fegundo, crimes, ou civys; e defpois que a ili for vif-
to por primeiro, e fegundo, o que por frgundo vir o
Liv. I. I fri-
[aJ F:,Jta S,
66 LIVRO PRIMEiltO TITULO SETIMO

feiro , leve-o aa Rolaçom , e ne-nhú feito crime nom


livraram fem Rolaçom, poíl:o que ambos os Ouvido-
res , ou todos tres fejam acordados ; e eífe, que a Ro-
laçom ouver de fazer , faça-a prefente as partes , ou
feus Procuradores , fe os hi ouver , e revees nom fo-
rem; e efto fe faça affi nas Sentenças definitivas corno
intcrluquitoreas, fe (a) forem taaes, que fe norn pof-
fam correger, e repairar na definitiva.
6 E sE algúa parte diífer cm feito crime, que he
aggravada deífes Ouvidores fobre algúa antreluqui-
torea, os Ouvidores nom leixem d 'hir pelo feito en-
diante , e a parte, que fe aggravar , va dizer efto aa
Rolaçom , ( b) como, e de que fe aggrava tal prefo •
ou parte, e os da Rolaçom faibaõ dos Ouvidores o
feito, e ouçaõ fua razaõ; e fe for acordado que o pre-
[p , ou parte he aggra vada , defaggra vem-na. E da
Sentença~. que per elles for dada em feito civil, que
lhes for remetido , ou cõmetido , ou a ellcs vier per
appelaçom, como fufo dito he, fe a parte quizer ag-
gra var, e pagar o aggravo, recebam-lho, fe for de
conthia de dés éfcudos douro, como he contheudo na
Ordenaçom, e affinem-lhe tempo a que o figua, fe-
gundo per Nós he ordenado ; e fe o feito for tal, que
deva vyr por a Jufüça aa Rolaçom , ou antre taacs
peffoas, que per razom de injuria , ou corregimento•
os Ouvidores devem de conhecer per appellaçom, li-
vrem eífe foi to da injuria, ou corregimento na Rola-
çom,
(R) .as interlocutorias (6/ e
Do s o u V I D o R E s.
çom, affi como livrarem na parte da Juftiça ; e efto
he, porque defpois nom pofia cada húa das partes
aggravar fobre a injuria, ou corregimento, ca fe ag-
gravar podeífe, duraria muito effe aggravo ,e as par-
tes * embargariaõ (a)* os Defembargadorcs dos ag-
gravos.
7 E os Ouvidores farom livros , em que ponhaõ
cada hum quando vir os feitos , e Inquiriçooés , os
malfeitores, que acharem culpados, e dallos-ham em
efcripto ao Corregedor da Corte , pera os mandar
prender, e trazer , [e taaes peífoas , e feitos forem ,
que fe hi ajam de livrar, ou nas terras, bonde os ma~
leficios forem feitos; e* façam (b) • fazer hum livro
ao Diftribuidor de todo-los feitos, que fe perante elle
trautarem, aífy civys, como crimes, e efte livro ferá
bem guardado, e limpo, poendo em elle o dia, em
que fe começar o feito perante el!e , ou que veeo aa
Corte, e qual he o Efcripvaõ que o tem, pera defpois
fe faber quem ho tem , e o tempo que anda por def-
embargar.
8 ITEM. Todolos livramentos , que derem per
Sentenças definiri vas, aífy Civys, como Crimes , ef-:
crepvam no livro, em que os livramentos ham de
efcrepver, e efto façam ante que faiam da Rolaçom ,
e que o defembatgo feja publicado; ·e per eíla guifa
efcrepvaõ os livramentos da interluquitorea , quando
for acordado que metam alguú a tormento. E Man-
12 da-
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(a) emp•chariom S. (b) farom S.
6S LIVRO PRIMEIRO TITULO SETIMO

damos, que os ditos Ouvidores todos tres em cadu


huu dia bem cedo vaaõ aa Rollaçom, e nom fe ef-
cufem , e e(lem hi com aquelle, que for Prezidente 1
e o Corregedor da Corte , ataa que livrem os feitos
todos, que tiverem, ou ataa que fejã oras de todos
fahirem da Rolaçom ; e tenhaõ fuas Audiencias bem
honeftamente ordenadas, e façaõ que fcjam bem ou-
vidas; e faibam fe os Efcripvães , que ante elles ef-
crepvem, guardam as Ordenações, que lhes fom da-
das, ou fedam livramento fem delongua aas partes 1
ou fe lho dam tarde , e com maas refpoíl:as , ou !e~
vam mais do que devem, e fe acharem alguús culpa~
dos, procedaõ contra elles, ou diguaõ na Rolaçom,
para lhes feer dada pena , e efcarmento, fegundo me~
recerem.

T I T U L O VIII.

Do Ou·vidor das terras da Rainha.

O
~E for Ouvidor das terras da Rainha deve
d'andar continuadamente na Noífa Corte, e
defembargar na Noífa Rolaçom os feitos Crimes, que
a elle vierem per appellaçõ , affy como cada huú dos
No!fos Ouvidores ; e defembargará os feitos Civys per
fi, e das fentenças, que elle d er nos feitos Civys, po-
derom aggravar as partes , q ue fr dellas fcntirem ag-
gra-
Do OuvrooR DAS TERRAS DA RAINHA. 69
gravadas, chegando áquella conthia , de que he or-
denado, que pofiaõ aggravar das fentenças dadas pe-
lo Corregedor da Noffa Corte.
I ITEM. Fará continuadamente fua Audiencia aa
fahida da Rollaçom , ou em alguú outro lugar , hon-
de honeílamente poffaó os Procuradores das partes
eílar em tal guifa, que nom rccebaõ aggravo.
2 ITEM. Conhecerá de todollos aggravos affy Ci-
vys, como Crimes, que fahirem d'antc os Juizes das
terras da dita Senhora Rainha , ou dante o Correge-
dor da Comarca, que per fua authoridade faz correi-
çom cm ellas ; pero fe os ditos aggravos perteencerem
a feitos Crimes , defembarguallos-ha em Rollaçom
com o Noffo Corregedor da Corte , e com os Noffos
Ouvidores ; e os feitos Civys defembarguará per fi ,
como dito he nos feitos, que vierem a elle per appel-
laçõ.
3 ITEM, ~ando fe acertar , que elle paffe , ou
atraveffc por cada huma das terras da dita Senhora,
poderá fazer correiçom per auçom nova , ou per ag-
gra vo dos ditos Juizes, ou do dito Corregedor, e po-
derá fazer todalas outras coufas, que pertencerem fa_
zer ao Corregedor da Noffa Corte nas Noífas terras,
quando em ellas eftá , ou per ellas paífa, e fegundo
anticruamente
b cofiumarom de fazer. os Ouvidores das
Rainhas em efles Regnos ; com tanto que o dito Ou-
vidor nom eílé em cada huú lugar mais de dous dias,
e querendo hi mais eftar , nom poífa hi mais fazer a
di-
70 . LIVRO PRIMEIRO TITULO ÜITAVO

dita Correíçom , nem ufar do dito Officio per nenhúa


guifa.
4 ITEM. Nom paífará nenhuú defembar guo per
Alvará, fe nom foomentc per Carta feellada com o
Noffo feello, ou da dita Senhora , e fazendo d'outra
guiía, Mandamo s aas Jufüças da terra , que nom
cornpraõ , nem façam obra per nenhuús feus Alva-
raaes.
5 !TEM. Andando o dito Ouvidor na Corte, dará
Cartas de fegurança , e paífará quaeefque r defembar -
gos affi Civys, como Crimes, que a elle vierem das
ditas terras, que fejam de Juíl:iça , em que nom haja
efpecial graça, ou mercée ,caos que forem d'efpecial
graça, ou mercee devem paífar pelos Defemba rgado-
res do Paço, a que dello pertence o conhecim ento.
6 ITEM. O dito Ouvidor nom tomará conheci-
mento de nenhúa coufa , que pertença aos direitos
Reaes , a faber , Portagem , Sifa , Jugada , ou qual-
quer outra coufa, que pertença ao haver Noífo, ou da
dita Senhora Rainha, porque tal conhecim ento per-
teence aos Veedores da Fazenda, ou a quem ho elles
* encomend arem (a) *.
7 !TEM. Qgando acontece r, que a Rainha eíl:ê
em cada huú lugar de fuas terras fem Nós , e o dito
feu Ouvidor eílever com clla , poderá tomar conhe-
cimento per auçom nova, e per aggravo antre quaaef-
quer peffoas, e fobre quaaefque r contendas , como
di-
(4) ciuercm cncomendu
Do OuvmoR DAS TERRAS DA RAINHA. 71

dito he; e feendo Nós hi, nom tomará conhecimen-


to de nenhuú feito, -porque honde Nós geeralmente
eftamos, o conhecimento de todolos feitos pertence
ao Corregedor da Noffa Corte, que principalmente
reprefenta a Noífa peífoa; e quando elle he fofpeito,
o Chançaller dará hi outro Juiz fem fofpeita, que ou-
ça as partes , e faça direito , e J uíl:iça em Nofio No-
me , ca honde elle eftá ceffam as outras Juíl:iças to-
das, e Jurdiçooês , que delle pendem.

T I T U L O VIIII.

Do Procurador dos Nojfos Feitos.

M A_NDAMOS que o Procurador _dos Noffos Feitos


feJa Leterado, e bem entendido, pera faber ef-
pertar, e allegar as coufas , e razooés , que a Noffos
Direitos perteencem, porque muitas vezes acontece ,
que por feu bom avifamento os Noífos Defembar-
guadores fom bem enformados, e ainda Noffos Di-
reitos Reaaes acrecentados. Ao qual Mandamos, que
com grande diligencia, e muito amiude requeira aos
Veedores da Fazenda, e Contadores, e Ju1zes que lhe
dem as enforrnaçoôes , qJ.Je óuverem dos Noffos Di-
reitos nos feitos , que fc trautam , ou trautarem pe-
rante os Noffos Juizes , ou que compre de fe ordena-
rem per razom de No!fos beés , e direitos, fegundo a
en-
72 LIVRO PRIMEIRO T1Tu10 NoNo
enformaçom, que lhe dada for. E razoe os feitos, fe-
gundo melhor entender por Noffo ferviço, e nom
com outra malícia ; e requeira os Efcripvaães dos
Noffos feitos , que lhe dem em rool todos os feitos ,
que teem, e que andam perante o Juiz dos Noffos
feitos , affy fobre Jurdiçooés , corno dos Noffos Re-
guengos, e Juguadas, e de todollos outros Noffos Di-
reitos. E faber o tempo, em que foram começados•
e porque nom deram a -elles livramento , e dizêlo a
Nós, ou aos do Noffo Confelho , aa Sefta feira, e ao
Sabado, que* iam dias ailinados (a) *·pera o virem
dizer.
1 E SEJA bem dilligente em feu Officio a fazer ti-
rar as lnquiriçooés, que forem dadas da Noffa par-
te, a faber, dos Veedores da Fazenda, e dos Conta-
dores , e Juízes, e Alrnoxarifes, e por onde melhor
poder , os nomes das teftemunhas , perque fe po1fa
provar o direito, que a Nós perteence; e afü pera a
contrariedade, ou contraditas, ou repróvas aas provas
dadas contra nós. E quando alguú dos Ouvidores for
occupado per dôor , ou por outra guifa qualquer , ou
for fofpeito, ou dous Ouvidores em defvairo , e nam
ouver hi outro Ouvidor, que o veja, Mandamos ,
que o Noffo Procurador o veja como terceiro; falvo
fe for em feito , que elle ajudar , ou vogar por No!fa
parte , ou da Juftiça; que em outros feitos, que nom
pertençam a Nós principalmente, ou confecutive, ou
a
(,,) lhe hc dia aílin.ulo
Do PROCURADOR Dos Nossos FEITOS!. 73

a bem da Juftiça, nom deve de procurar , porque fe


fe ernbarguaífe de procurar , ou vogar os feitos das
partes , nom poderia requerer bem Noílos feitos, nê
fazer as coifas fufo ditas, nem efio rneefmo feria def-
pachado para veer os feitos por terceiro por bem da
fofpeiçorn , ou dôor, ou outra occupaçom dos Ouvi-
dores.
2 E VEJA , e procure bem todos os feitos da Juf-
tiça, e das Viuvas, e dos Orfoõs, e miferavees pef-
foas, que aa Noffa Corte vierem , fem levando delles
dinheiro , nem outra coufa de folairo , fem vogarido,
nem procurando outros nenhuüs feitos , que a Nos
nom perteéçam fem Noílo efpecial Mandado, como
dito he; e porem nom lhe enbarguamos que poífa
procurar , ou vogar nos feitos dos Fidalgos , que tra-
zem Noífas terras, rendas, ou direitos, e doutras pef-
foas , que trazem algúas coufas Noffas , ou da Coroa
dos Regnos Noífos, ajudand0-as contra outras priva-
das peíloas, que queiraõ tirar , ou embargar, ou me-
nos pagar de Noffos Direitos , ou fazer alguú dãpno,
ou minguamento em elles ; porque poderia tal feito
em alguú tempo , fe mal requerido foffe, fazer a Nos
prejuizo , pofto que eíl:o feja antre taaes peffoas ; e
nom deve de procurar, falvo por Noffa parte, e nom
contra Nos , e quando fe taaes feitos ouverem de def-
embargar em Rolaçom) elle feja aa Rolaçam delles,
e razoe , e allegue qualquer razom , ou direito , que
por parte dos ditos Fidalgos , ou peífoas fobreditas
Liv. L K me-
74 LIVRO PRIMEIRO TITULO NoNo

melhor entender; e ao tempo que os Defembargado...


res ouverem de dar fuas vozes , fe faia da Rolaçom
fora, e leixe aos Defembargadores ddembargar taaes
feitos, como per direito entenderem, fem eílando el-
le prefente, porque íua eíl:ada a tal tempo feria aos
Defembargadores empachofa; e aos feitos, que Nós
avemos contra outras peffoas, ou elles contra Nós,
feja o dito Procurador ao defembargo dos feitos.

TITULO X.

Do Ejcripvaõ da Chancellaria.

M ANDAMOS ao Efcripvaõ da Noffa Chancellaria,


que faça eílas coufas , que perteencem a feu Of-
ficio : primeiramente elle dê as Cartas cada dia , co-
mo forem affeelladas, perante o Recebedor , e ponha
em ellas a pagua per fua maaõ; e fe duvidar elle, ou
a parte fe aggravar , livre-a com o Chanceller em
Rolaçom , e regiíl:e toda-las Cartas , que pera regif-
tar forem, em huú livro de bõos purguaminhos, que
para eíl-o tenha ordenado, em mui boa letra, e bem
ordenadamente efcripta; e deve de teer todolos regif-
tos em feu poder , e ponha em elles bôa guarda de
guifa , que fe nom faça em elles algúa falfura; e fe
alguem demandar algnú regiíl:o , e o quizer bufcar ,
feja bufcado per elle dito Efcripvaõ, e per outro ne-
nhuú
Do EscRrPVAÕ DA CHANCELL ARIA. 75
nhuú nom; e quando der trelado d'alguú regifio, nun-
ca perca o livro dante fy.
1 E NENHUM nom feja taõ oufado, que regiíl:e ,
nem faça regiíl:ar, nem leixe regiíl:ar a]gúa Carta a
outrem , mais todalas Cartas , que forem para regif-
tar, regifte-as o Efcripvaõ , ou outro feu Efcrivam,
que feja conhecido no Officio , e que efcrepva bem,
e nom per as partes , nem per outro nenhuú , como
ataaqui * forom {a) * ; e defque a Carta per elle , ou
per outro Efcrivaõ for regiílada, concerte-a o Efcri-
pvaõ da Chancellar ia, e affine a fundo com fua maaô
o regifto de cada hüa Carta ; e fe no regiíl:o houver
algúa antrclinha , ou refpançam ento, ou borradura ,
faça-o affi efcrepver * a fo (b) * e fie regiíl:o , e affine
per fua maaõ de guifa, que fe nom potra com elle fa-
zer falfura , e fe fe fezer , (e) logo pareça ; e todalas
Cartas , que forem de graça , ponha em húa émenta,
e mo{rre-as cada dia a Nos , e ponha em cffa ~menta
todalas forças das Cartas, e per quem paffarn , e com
a émenta leve todalas Cartas, fe Nós duvidarmo s em
algiías , e as quifermos veer; e as que Nós mandar-
mos que paffem , ou nom , fegundo o defembarguo
for, efcrepva-o affy no rool logo, o qual rool Nos af-
finarernos, e guarde-o eíle Efcripvaõ ; e porque a
ementa he a maior fiança , que no dito Officio ha , fe
o (d) Efcripvaõ for doente, ou occupado em outras
coufas, que per íy nom a poder livrar, nom dará car-
K2 re-
(a) foy (ó) a fob S. C.c) 'luc (d) dito S,
76 LIVRO PRIMEIRO TITULO DECIMO

rego a nenhuú, que a livre, falvo fe for homem a Nó.'3


bem conhecido , e por Noffo mandado ; e aquellc,
que affi ouver de livrar eífa émenta , dê as Cartas, e
ponha a pagua, e outro nenhuú nom.
2 E QYANDO acontecer que aa dada das Cartas al-
gúa das partes nom vier requerer fuas Cartas, e fica-
rem por dar, Mandamos a eífe Efcripvaõ, que as que
ficarem, que as ponha todas em húa arca, de que el-
1e tenha a chave, e o Recebedor outra chave; e quan-
do em outro dia ouver de dar as Cartas , que nova-
mente feellarem, entom dê as outras, que ficaram; e
as que ficarem por dar, fempre fiquem em fua guar-
da fechadas na dita arca em tal guifa , que fe nom
poffam furtar, nem fazer em ellas outra maldade.
3 E NOM dará as Cartas, falvo prefente o NolTo
Recebedor, e quando as affi der , ponha a pagua na
Carta, e* ponha-a (a)* no livro, perque eíTe Rece-
bedor ha de dar conto do que receber , e guarde bem
o livro, porque a fora eíla recadaçom, fe podem mui-
tos livramentos dar por elle.
4 E ESSE Efcripvaõ ha de fazer todalas Cartas dos
defembargos, que pertencem ao Chanceller, e ekrep-
ver os proceífos, que forem ordenados perante o Chan-
ce Iler, que a feu Officio perteencerem , fegundo he
contheudo na Ordenaçom dos defembargos, que ham
de paífar per elle , e a feu Officio perteencem ; e faça
cm tal guifa, que feja bem dilligence, e mandado nas
COU-
(a) efcrcva S.
Do MEIRINHO, QyE ANDA NA CoRTE, ETC. 77

coufas, que a feu Officio perteencem; e que requeira


ao Chanceller por feus deíembargos , e folie com elle
cada vez que comprir fobre as duvidas, que tever, ou
quando as partes fe aggra varem das pagas, como di-
to he.

TITULO XI.

Do Meirinho , que anda na Corte em loguo dfJ


Meirinho Moor.

O Efor Meirinho Moor , per ufança antigua


deve poer de fua maaõ hum Meirinho, que an-
de continuadamente na Corte para levantar as forças,
e fem~razooés , que em dia forem feitas , e prender
os malfeitores , e fazer outras coufas , que fom con-
theudas no Regimento feito das coufas, que a feu of-
ficio perteécem; e eíl:e deve feer Efcudciro de bôo li-
nhagem, e conhecido por bôo, e pofto por Noffa Au-
toridade, que delle ajamos conhecimento para o a-
provar , que em tal officio aja de fervir; o qual averá
em quanto fervir todalas próes , e direitos acuftuma-
dos, que devem de levar de antiguamente os Meiri-
nhos da Corte, fegundo he contheudo em o dito Re-
gimento a elle dado das coufas , que lhe perteécem
fazer, e a ver com o dito Officio, o qual he eíl:e, que
fe fegue.
.í o
78 LIVRO PRIMEIRO TITULO ÜNZE

z O MErn.INHO Moor , ou aquelle, que na Corte


andar por elle, levará de todos os regataaés, que na
Corte andarem , das pefcadas , que áa Corte trouve-
rem a vender ataa quatro carregas , de cada carrega
húa pefcada ; e fe mais carregas * forem (a) * de pef-
cadas, ou d'outro pefcado , por effa vez nom levará
mais.
2 ITEM. Da carregua de congros , e toninhas , e
d'outro pefcado grande, aíli como evos, e chernas, e
outro femclhante, leve húa poíl:a do lombo de huú
palmo; e fe nom for carrega affi como de huú , dous,
ataa tres , nom levará nehúa coufa , e leve feu. direito
d'ourro pefcado, fe o com elle rrouverem ataa quatro
carregas , corno dito he.
3 ITEM. Da carrega de vefuguos, ou de mugeés,
e de outro pefcado qualquer meudo, fe for pequeno,
levará ataa quatro carregas , como dito he ; a fabcr
húa duzia da carrega, e fe for grande , meia <luzia.
4 ITEM. De carregua dos fabees huú, ataa quatro
carregas, como dito he.
5 ITEM. Se trouver hiía carregua de canegas , e
arraias , e cações pequenos , e grandes , levará como
dos congros , e outros pefcados groílos , atáa quatro
carregas, como dito he.
6 ITEM, Se trouverem huú folho, e o venderem
a poíl:as, húa pofta ; e fe o levarem junto pera Nós,.
ou pera outro Senhor, nom leve nehúa coufa; e poíl:o
que
-----------
DoMEIRINHO , Q.17E ANDA NA CORTE, ETC, 79
que traga mais folhos , nom leve rnais de húa pofia
da carregua ataa quatro, como dito he.
7 ITEM. De linguados, e fermonetes, e peixe ef-
colar, e lampreas, nom leve nenhúa coufa.
8 ITEM. Da carregua do vinho leve húa canada
ataa quatro carreguas , como dito he.
9 ITEM. Da carregua da cevada, levará húa quar-
ta.
1o ITEM. De frui tas , ou calçados , ou panos , ou
trigo, ou outros quaefqucr mantimentos , que trouxe-
rem , nom levará nenhúa coufa.
I 1 !TEM. Dos que vierem de fora da Cidade, ou
Villa, ou lugar, e termo delle , donde Nós formos,
fe per coníl:rangimento vierem, e trouverem cevada,
levará de cada húa carregua húa quarta ataa quatro
carregas, como fufo dito he ; e doutros mantimentos
nom leve nenhúa coufa ; e efio meefmo nom leve
coufa algúa dos que vierem de fora per fua vontade,
e dos que vierem da Cidade, ou Villa, ou Termo a
dentro, poíl:o que venham per coíl:rangimento nom
levará nada.
12 ITEM. Dos Reguataaés, e Carniceiros, que na

Corte andarem, a fora o Carniceiro Noífo, ou do


lfante, levará de cada boy huú lombo.
13 ITEM. Da vaca huú lombo.
14 ITEM. Do porco hum lombo dos pequenos.
I 5 ITEM. Do carneiro as tuberas.
16 !TEM.. Dos da Villa, e termo, honde Nós for-
mos,
80 LrvRo PR1MnRo Trrvw ONzt

mos, affi de todos os que aa Corte trouxerem de fuas


vontades pam a vender, e vinho , carnes , e pefcados,
e outros quaefquer mantimentos, nom levé delles ne-
nhúa coufa.
17 ITEM. Em quanto Nós eftevermos na Cidade
de Lixboa, ou em feu termo , o Meirinho nom leva-
rá nenhiÍa coufa , porque ataa ora nom o levárom ,
falvo dos Regataaés da Corte, fe hi quiícrem eíl:ar, e
vender.
18 !TEM. O Meirinho da Corte levará as penas
dos efcumungados, e dos barregueiros, que prender,
·e acufar, e as cooimas das befias, que achar em dap-
no. E das muas , e íendeiros meores de marca quan-
do forem defefos , e toda.lias outras penas , que ham
de levar , fegundo as Ordenaçoões , em que expreífa-
mente rnandaõ que fejam para o Meirinho , fegundo
for na Ordenaçom contheudo ; e aífy as armas, que o
Meirinho da Corte tomar na Corte, e em todo o Reg-
no, por honde andar, as quaees armas , e cooimas, e
muas fofo ditas fe partirom por cíla guifa : o Meiri-
nho levará a meetade, e os fcus homeés, que com el-
lc forem , ou as acharem , a outra meetade.
1 9 ITEM. Prenderá os que achar nos rnalcficios,
e arruidos , ou lhe for requerido ; e ante que os leve
aa Cadea , levalos-ha perante o Corregedor; e gecral-
mente prenderá todos aquelles, que lhe pelo Corre.
gedor for mandado , e por cfio fe nom tolha a outro
Meirinho das Cadeas de prender , e ufar de feu Offi-
c10,
Do MEIRINHO, QyE ANDA NA CORTE, ETC. 8r

cio, quando lhe for mandado , como fempre ufaraõ


os que forõ ante delle.
20 hEM. Honde quer que Nós formos fejam da-
das poufadas ao Meirinho pera elle , e pera fcus ho-
meés, e pera os ditos Reguataaés, e Carniceiros, que
na Corte andarem , e elle lhes dê as poufadas , corno
vir que compre.
2r ITEM O Meirinho he theudo de defender os
Reguataaés, e aili todos aquelles , que á Corte trou-
verem os mantimentos , que os nom forcem , nem
lhes tomem o feu contra fua voontade ; e fe os al-
guem forçar, fazer-lhes alçar a força, e nom o fazen-
do elle aili , que o pague per feus beés, fal vo fe o que
a força fezer for tal peffoa, de que elle nom poffa al-
çar força, e fe tal for , digua-o ao Corregedor , e faça
o que elle mandar.
22 E POREM Mandamos, e defendemos ao díto
Meirinho, que nom leve mais do que aqui he .c on-
theudo , e faça as coufas como lhe he mandado , fob-
pena de perder ho Officio.

Liv. L L TI-
82 LIVRO PRIMEIRO T1Tu10 DozE

TITULO XII.
Do Meírinho das Cadêas , e coujas , que a Jeu O.ffi-
cio pertencem.

O MEIRINHO das Cadêas ha d'efiar na Rolaçom


áa ~arta feira, e á Sefta feira, que fe hã de li-
vrar os feitos dos prefos , pera elle fer preíl:es com feu
Officio, fe comprir fazer juíl:iça , e veer em que pon-
to eftom os feitos; e ha de requerer ao Corregedor da .
Corte, e Ouvidores quaees feitos entendem de defem-
bargar aos dias , que fom deputados pera defembar-
gar os prefos , e fe fazer delles J u íl:iça , pera levar ef-
fes prefos aa Rolaçom , e eftar hi prefies com o offi_
cio da Juíl:iça e fazer o que lhe for mandado pelo
Corregedor, e pelos outros Officiaaes.
1 ITEM. Haverá cuidado de em cada hum dia le-

var per fi , ou feus homeés duas vezes todolos prefos


aífy da Cadea do Corregedor da Corte, como dos Ou-
vidores a folgar, e fazer fua neceílidade aos lugares ,
que per elle pera ello forem ailinados ; e elle, e feus
homeés ham de lev~r os prefos aas Audiencias do
Corregedor, e aífy perante os Ouvidores, que feze-
rem Audiencia, ou lhe for por cada huú delles man-
dado ; e ha de requerer os Carcereiros , que ponhaõ
boa guarda nos prefos , e fe o fazer nom quizerem,
requeira ao Corregedor , que os coíl:rangua , e ponha
hi
Do MEIRINHO DAS CADEAS, E cousAs, ETC. 83
hi tal provifom como fejam bem guardados, e d'ou-
tra guifa tornar-nos-emos Nós aaquelles, por cuja
negrigencia fe feguir alguú dapno aa juftiça ; · e * de-
ve (a)* prender ,quando lhe for mandado, ou achan-
do os homeés , ou mulheres no maleficio defefo pela
Ordenaçom; e ha de coílranger, e feer Juiz das man-
cebas folteiras • que andam, e devem andar na Cor-
te, a faber, d'arroidos, que ajam huãs com as ou-
tras , que foomente fejam de palavra , e levar dellas
em cada huú Sabado dous reaes brancos, porque elle
ha de mandar varrer as Audiencias do Corregedor .•
que ellas aviaõ de varrer, e efto foi am ufado d'anti-
guamente.
2 ITEM. Ha d'aver dos homeés , que mandam
degolar, ou enforcar ,ou morrer per Juíliça do* mon-
te (b) * moor húa carceragem por cada huú, que aífy
for juíliçado, e os feos homeés da Jufiiça ham dele-
var todas fuas roupas , e toda.s as outras coufas , que
rever na Cadea, quando aíli for julguado, e pera ef-
to, que fobredito he, elle ha d'a ver mantimento pera
fy, e pera oito homcés ; a faber, tres pera fazer Juf-
tiça , e os outros pera com elle andarem , pera com-
prir todo o que pcrteence a feu Officio ; e das Carce-
ragens ham de fazer dous quinhooés , e o Meirinho
Moor ha de levar a mcetade , e da outra meetade fe
ham de fazer treze quinhooés, e o Meirinho das Ca-
L 2 deas
(a) ha de S. (b) monc M.
84 LIVRO PRIMEIRO TITULO TREZE

deas ha de levar dez, e o Carcereiro huú, e o Mei-


rinho da Corte (a) dous.

T I T U L O XIII.

Dos Procuradores , e dos que nom podem fazer


Procuradores.

P RIMEIRO que acerca dos Procuradores ouvc!Te-


mos hordenado, Mandámos perante Nós vir as
Ordenaçooés fobre eíl:o fritas pelos Reyx Dom Doniz,
e Dom Affonfo, e Dom Pedro mcos Vifavoos, e
Dom Joaõ meu Avoo,ed'EIRey meu Senhor,e Pa-
dre , cuja alma DEOS aja cm a fua Santa Gloria ; e
pero que nos pareceífem antre fy em algúa parte di-
verfas , e contrairas , Acordámos de as trazer a boa
concordia de curta , e breve conclufom em efia fór-
ma, que fe fegue.
I Muno proveitofa coufa nos parece haver hi
Procuradores Letrados , e entendidos , que procurem
os feitos, que alguus ouverem affi em a Noífa Corre,
como na Noffa. Cafa do Civil , e nas Cidades , Villas,
e Lugares dos. Noffos Regnos ; e porém Ordenamos,
e Mandamos, que aquelles ,que ouverem de fecr Pro-
curadores em a Noffa Corte , e Cafa , fejam exami-
na-
(•) 1,var.í M.
Dos PROCURADORES, ETC.

nados pelo Noífo Chanceller Moor, e os das Cida-


des , Vil las, e Lugares fejam enlegidos pelos Officiaes
deífes Lugares , e com eífa enliçom venhaõ ao Noílo
Chanceller Moor pera os examinar, e os que achar
perteencentes pera ello, dê-lhes fuas Cartas feclladas
com o feello da Noífa Chancellaria , fazendo-os hi
jurar, que bem, e direitamente, e fem malícia trau-
tem os feitos , e d 'outra guifa nenhuú nom vogue ,
nem procure ; e nom embargando taaes enliçooés ,
que os Concelhos ham de fazer, fique lugar a Nós ,
e aos outros Reys, que depois Nós forem, de dar-
mos taaes Officios a quem Noífa mercee for, fem ou-
tra nenhuúa enliçom ; * e nom (a) * fc entenda efl-o
em alguús lugares, a que aprouve nom haver hi Pro-
curadores do numero, mais quantos quízeífem (b)
procurar, falvante aquelles, que foífem achados, que
nom eram perteencentes , e lhes. fofle defezo, que
nom podcífem procurar , ou teveífem taees Officios ,
que per as Ordenaçooés lhes feja defefo que nóm pof-
faõ procurar.
2 ITEM· Mandamos a eífes Procuradores , que fe

trabalhem de ve.erem as pofturas, e Leys, e Ordena-


çooés, e as guardem , e ufem bem da vogaria, e nom
façam perlonguas nos preitos ,. nem os trautem, e per-
longuem maleciofamente.
3 ITEM. Mandamos aos ditos Procuradores, que
nom tomem carrego pera procurar , nem vogar (e)
ataa
(n) nem S. (b) pud,!fem todQ S. k) per nenhum S.
86 LIVRO PRIMEIRO TITULO TREZE

ataa que lhe derri (a) enformaçom de todo feito per


fcripto, affinada per fua maaó , e guarde-a bem ; e
defpois que o feito for acabado, moftre-a ao Juiz do
feito , fe para ello for requerido, pera ha veer fe foi
em culpa de allegar, ou moíl:rar o direito, que a par-
te por fy havia ; e fe o acharem cm algüa culpa, de-
vem de fazer todo aa parte emmendar, e correger
per feus beés , e lhe dar pena qual em tal feito cou-
ber. E fe trautar, ou mover preito contra as poíl:uras,
e Ordenaçooés , façaõ-lhe pagar as cuílas per feus
beés.
4 ITEM. ~ando tomarem eífas informaçooés, fe-
jam avifados de as averem compridamente, aífy fo-
bre o principal , como fobre todalas outras exceP-
çooés , e razoões, que fe no feito requerem , e nomes
de teíl:emunhas, perque fe pode provar, porque pera
eíl:o nom fe lhe dará tempo pera fe aconfelhar com a
parte , fe aufente for , nem deliberar fobre as ditas
razooés : e per efi.o nom tolhemos, nem revoguamos
ao e!lillo, e cofiume, que fe traz nos feitos; a faber,
que fe o Procurador trauta o fei'to no luguar , onde a
parte nom he, e ou ver de dar algúas Inquiriçooés, e
nomear teíl:emunhas , que o Procurador poífa nomear
duas , ou tres, e que a parte nomee as outras na terra
do dia, que fe ou ver de começar a lnquiriçom a dous
dias , e nom as nomeando , que entom lhas nom re..
cebaõ mais, e Mandamos que aífy fe guarde.

------------------
(a) tod• S.
5 ITEM.
Dos PROCURADORES , ETC.

5 ITEM. Mandamos, que fe dous Procuradores


mais a vantejados forem em a Noífa Corte , e pero
que outros meores hi fejam, fe húa das partes filhar
ambos, que lhe nom feja confentido , mais efcolha
huú delles qual ante quizer, e o outro leixe a feu aver-
fairo. E aqueíl:o fazemos geeralmente em todollos
feitos , aífy grandes , como pequenos por cada húa
das partes nom perder feu direito , por defigualança
dos Procuradores.
6 ITEM. Mandamos , que a procuraçom , perque
alguú faz Procurador, feja feita per Taballiaõ, ou per
Carta feellada de tal feello , que faça fé , e d'outra
guifa naõ valha ; pero fe for fcripta_, e affinada per
maõ de Cavalleiro, ou Doutor, Mandamos, que fa-
ça fé , como fe foífe feita per Taballiom ; e eíl:o fe
nom entenda nas procuraçoés que foro feitas apud
aéla, porque taaes , como efias, fe podem fazer pelo
fcripvaõ que no feito fcrepver.
7 !TEM. Seraõ avifados efies Procuradores, que
nom defemparem os preitos, nem fe vaaõ da Corte,
ou dos outros lugares , onde os trautarem , fem li-
cença do Prefidcnte, ou do Juiz, que do feiro conhe-
cer; e fazendo o contrairo, paguem as cuílas aaquel-
les, cujos preitos reverem ; e fe as partes tomarem
outro Procurador, ou Voguado por dinheiro per cul-
pa delles, paguem-lhes quanto derem aos Voguados,
e Procuradores , que aífy filharem ; e fe os Procura-
dores, que fe forem, receberem alguús dinheiros da-
quel-
88 LIVRO PRIMEIRO TITULO TREZE

quelles , cujos preitos Ieixarem, que lhos tornem em


dobro. E fe per mingua deffe Procurador derem Sen-
tença definitiva , ou outra qualquer contra a parte,
per que fe lhe figa perda , ou dapno , o Procurador ,
que o feito havia de demandar, ou defender, lhe cor-
regua todo de fua cafa ; e fe nom ouver per que cor-
regua os dapnos , e perdas, e cufl:as , carrega-as pelo
corpo ; e eíl:o fe nom entenda em alguú cafo de ne-
ceílidade taõ grande , e taõ manifeíl:a , per que elle
deva feer relevado defia pena, poílo que em ella en-
corra.
8 ITEM. Se a parte nom vem aa Corte por [y , e
manda Procurador, contra o qual he poíl:o alguú em-
barguo, que tolha a dita Procuraçom aaver efeito per
qualquer guifa, que feja , coufa , que o Procurador
faça, ou digua no feito, nom valha ataá que feja jul..
guado por Procurador, ou a parte retefique expecifi-
cadamente o que aíli for feito.
9 ITEM. Se a parte, que cita, vem per Procura-
dor, e a outra parte poocm contra aa procuraçaõ , ou
contra a peffoa do Procurador, ou outra rafam, per-
que tolha a procuraçom, o Juiz abfolva o Citado, e
fe o elle mais citar, pague as cuftas ante que refpon-
da aa fegunda citaçom ; e aíly per o contrairo , fe o
citado vem por Procurador, e o autor tolhe a procu-
raçom, julgua-Io-aõ por revel , e á fua revelia proce-
deraõ no feito, como fofo diffemos no começo deíl:e
trautado ; e eíl:o fe nom entenda fe o Julgador clara-
rnen-
Dos PROCURADORES , ETC.

mente conhece, que a inabilidade do Procurador fe-


ja tal , que nom podia fer conhecida aa parte , que o
confütuhia por feu Procurador.
10 ITEM, Se ambas as partes veem per Procura-
dores, e fom fofficientes, hiraõ pelo feito em diante,
e feguilo-haõ.
11 ITEM. Se a parte appellante, ou appellada
mandar procuraçom aa Corte tal , que faça fé , e con-
tra ella feja poíta alguma eixeiçom , perque fe digua
feer infufficicnte , ou o Procurador inabil , ou outro
qualquer embargo, nom leixe por tanto o Juiz d' Al-
çada d'hir pelo feito em diante, e affine ao dito Pro-
curador termo rafoado a que o faça faber aa parte pe-
ra proveer a ello; e nom proveendo a ello , como de-
ve, fe achado for, que a dita exeiçom he fufficiente
pera embarguar a dita procuraçom , nom feja mais
recebido o dito Procurador, e procedaõ pelo feito em
diante , como for achado per direito.
J2 ITEM, Todo o homem pode feer Procurador,
e procurar por outro em a Noífa Corte , e Cafa do
Civil , e perante outros quaefquer Juízes , com tanto
que tcnhaõ poder das partes , e Noífas Cartas pera
procurar, falvo aos que he defefo ; e aos que he
defefo affy por direito , como per coíl:ume , fom cf-
tes.
13 ITEM. Todo hornem,que ha mantimento, ou
raçom noffa , nom pode fecr Procurador em nenhuú
feito, falvo fe o for por outro, que haja mantimen-
L~ L M to,
90 LIVRO PRIMEIRO TITULO TREZE

to, ou raçom como elle , e fe o que ha raçom for el-


tabelecido por Procurador antes que lhe feja poíl:a
exeiçom , pode foíl:etuir outro, que feja tal , que o
poífa feer, e valerá.
14 !TEM. Todo o homem, que feja meor (a) de
quatorze annos.
1 5 ITEM. Mouro, ou Judeu em feito de Chrif-
ptaõ.
16 ITEM. Homem, que feja dado por fiel antre
partes, que deve de dar teíl:emunho por huúa parte,
e por outra , aífy como he o Corretor ; e eíl:o cm a-
quelle feito , em que deve fcer fiel.
I 7 ITEM• O Tabeliom fe fez procuraçom per fua
maaõ, nom ferá Procurador em nenhum lugar.
18 !TEM, O Taballiom no luguar > honde he Ta-
balliom, nom ferá Procurador.
I 9 ITEM. Homem, que for condapnado per Sen-
tença em falfidade.
20 ITEM. Nenhuú Procurador, que tenha já fol-
lairo ,ou parte delle d'alguú pera teer feu preito, nom
pode feer Voguado por a outra parte , fal vo fe eíl:e >
de que elle tem o follairo, ou parte delle , tem outro
Voguado ,e a outra parte nom pode haver Voguado,
que tenha feu preito, ca entom como quer .que faiba
•os fegredos da caufa , e follairo delle recebeffe , con-
verá, que o dem por Voguado aa outra parte, que
nom pode a ver Vogado, fe nom fe eíl:e, de que elle
re-
\~) de idade S.
Dos PRoCURADOtus, ETC. 9r

recebeo o fallaíro, ou parte delle, quer ante ficar com


eíl:e Voguado , e leixar aa outra parte o outro, que te-
nha com ella pera ajuda de feu * feito (a)*; caem
fua efcolheita he defie que dous Voguados tem, ou
mais , de filhar qual antes quizer , e o outro leixar a
feu contentor ; e fe aquelle Voguado, que elle leixar
a feu averfairo , ouver o follairo delle recebido, ou
parte delle, deve-lho de tornar, pois por Voguado da
outra parte fica.
21 ITEM. O meor d'hidade, falvo fe for per feu
Totor.
22 ITEM. O acufado de feito crime naquelle fei-
to, de que he acufado , fe hi cabe pena aalem de de-
gredo temporal , nom pode fazer Procurador, mais
litigar per fi , falvo fe for prefo.
23 ITEM. O que acufa, nom pode acufar per pro-
curador, mais per peffoa.
24 ITEM. O que he citado, que peffoalmente pa-
reça, nom deve fazer Procurador.
2 5 1TEM. He coíl:ume em Noífa Cafa , que def-
pois que alguú ha idade de quatorze annos , pode fa-
zer Procurador , havendo pera ello Noffa authorida-
de, e d'outra guifa nom.
26 ITEM. Se alguú faz Procurador em feito , de-
ve-o fazer efpecial fobre aquelle artigo , porque he
citado , e faça aífy mençom na procuraçom , e aalem

__________,_
daquelle artigo , pode fazer procuraçom geeral , fe
qmzer.
(") prcito
M 2 27 ITEM.
91 LIVRO PRIMEIRO TITULO TREZE

2 7 ITEM. Cada huú pode fazer feu Procurador no


feito per d'ante o Juiz, nom feendo prcfente feu a ver..
fairo, com tanto que o faça perante o Efcripvaõ, que
o efcrepva affy na Carta do feito, que nom diga o
Juiz que fe nom acorda.
28 ITEM. Nennuú Scripvaõ d' Audiencia nom fe-
ja Procurador, nem Vogado , falvo fe for o feito feu
proprio , ou per Noífo mandado.
29 ITEM. Porque achaõ os Procuradores em mui-
tas bulras, e fazem perda aas gentes, Mandamos que
fe for provado, que fazem alguúa perda aas partes , a
que ouverem de procurar o* feito (a)•, que lho fa_
çaõ todo correger , e pagar pelos corpos ,. e a veres ; e
fe appellar , ou fopricar contra as Ordenações , a fa-
ber, que declarem hi nom caber appellaçom, paguem
as cuíl:as aa parte de fua cafa.
30 l TEM, Mandamos que nom faça nenhuú Pro-
curador aveença com a parte ,que aja certa coufa ven-
cendo-lhe a demanda ; e aquelle que o contrairo fe-
zer , feja privado de procurar por huú anno , e pague
mais duzentos reaes pera a Arca da Piedade, e nun..
ca lhe fejam quites.
31 1TEM. Mandamos que o follairo , que haõ de
levar dos feitos, feja a quarentena da conthia , que
for demandada ; e eílo fe entenda cm quanto a dita
quarentena nom chegar ataa vinte libras de moeda.
antigua , que fom per a Ordenaçom ora novamente
fei-
(aJ preito
Dos PROCURADORES, ETC. 93
feita Cobre as moedas com acrefcentamento, quatro-
centos reaes, e fe mais montar, nom leve mais ; e nos
feitos crimes de morte poffaõ levar ataa a dita con-
thia de vinte libras de moeda antigua ; e nos outros
feitos , onde caiba emmenda , e corregimento, levem
affi como nos outros feitos, ao* meos (a) *, haven-
do refpeito ao que he demandado por emmenda , e
corregimento ; e os ditos Procuradores naõ façam
companhia antre fy fobre o fallairo, e fe a fezerem ,
fejam privados dos Officios.
3 2 A Nós he dito , que na Noffa terra , e em os
noffos Regnos fe faziaõ muitas * perlongas , e mui-
tas (b) * malicias nos feitos , porque os Procuradores
levaõ das partes muitas doas, e grandes ferviços de
pam, e vinho, e carnes, e d'outras coufas, e que nom
leixaõ porém de levar todos feus follairos ; e veendo
Nós, e confirando per razom das coufas, que affy re-
cebiaõ , que era muito mais do que nos feus follairos
montava, e faziaõ as ditas perlonguas por razom de
ferem aífy fervidos, e querendo Nós efquivar todas
eílas malicias , e perlonguas , e catando Nós como
taes coufas nom fezeífem , e que os feitos foffem cedo
defembarguados com direito , e como deviaõ , e que
as gentes fe nom andaffem ftragando , e veendo co-
mo eíl:o já fora defefo por EIRey Dom Domz per hua
Ley, que fobre eíl:o fez. Teemos por bem, e Man-
damos , e poemos por Ley pera fempre, que nenhuú
Pro-
-----------------------·
('•) menos M. (b) pcrlongadas S.
94 LIVRO PRIMEIRO TITULO TREZE

Procurador nom tome paõ, nem vinho, nem car-


nes , nem outras coufas daquelles, cujos feitos teve-
rem , de que ham d'aver feu follairo, em quanto ef-
fes feitos durarem . Outro fy que os follairos, que ou-
verem d'aver deífes feitos , que teverem , ajam per
eíl:a guifa , a faber ; o terço do follairo no começo do
feito, e o outro terço , abertas, e pobricadas as Inqui-
.riçoões, e outro terço, acabado o feito; e os Procura-
dores , que contra eílo forem , Mandamos que por
cada huúa vez , que aífy receberem , e lhes for pro-
vado, pola primeira vez fejaõ fofpenfos do Officio por
dous mezes; e por a fegunda vez quatro mezes; e por
a terceira percaõ o Officio; e eílo fe entenda fe aquel-
lo , que affy receberem , paífar valia de cem reaes
brancos ; e fe os ditos Procuradores receberem da-
quelks , contra que os feitos teverem , algúas doas,,
ou quaeéfquer outras coufas em qualquer conthia
que feja , que loguo percaõ os Officios , e aalcm dei-
lo , ajam aquella pena corporal , que fegundo direito
merecerem em tal cafo , e que os poffa acufar qual-
quer do Povoo; e Mandamos ao Corregedor da Noffa
Corte, e aos Juizes dos Regnos fob pena da Noffa
merece , que fe lhes for certificado, que alguns Pro-
curadores taaes coufas fazem, que prendaõ aquelles,,
que as fazem , e façaõ em elles jufüça , como dito
he; e eílo fe entenda affy nos Procuradores da Noffa
Corte, como em todo-los dos Noffos Regnos.
33 ÜuTRO SY Mandamos, que os fobre Juizes,
e
Dos PROCURADORES, ETC.
95
e Ouvidores, e Corregedores, e quaefquer outros De-
fembargadores, Juizes, e Contadores, Thezoureiros,
Veedores, Almuxarifes, Sacadores, Enqueredores,
que filharem pam , vinho, carne, ou outras quaeef-
quer coufas daquelles, que perante elles ouveffem fei-
tos, ou que ou veffem de fazer em feus Officios algu-
mas coufas, que ajam a pena poíl:a em efia Ley con-
tra os Procuradores , ou na primeira parte; a faber,
por a primeira vez fufpenfõ por dous mezes, e pela
fegunda quatro, e pola terceira percaõ o Officio, e
nunca o mais ajaõ em alguú tempo : e eíla pena Man-
damos, que ajam os Taballiaés, e Scripvaaés, que fi-
lharem as dicas coufas daquclles , cujos feitos reve-
rem , ou daquelles , que com elles ouverem de fazer
algúas coufas em feus Officios; e eíl:o fe entenda tam-
bem nos Efcripvaães das Audiencias, como nos Ef- .
cripvaães dos Noífos Officios, quaefquer que fejaõ, e
outro fy nos Efcripvaães dos Concelhos.

T I T U L O XIIII.
Do Scripvaõ dos Feitos d' E!Rey.

M ANDAMOS ao ~:crip~aõ dos Noffos feitos, ~ue


ponha bõa d1ligenc1a em guardar os Feitos
Noffos, e pera efto tragua húa arca fechada , em que
tragua os feitos, e faça delles rool, e dalo-ha ao Nof-
fo
96 LJVRO PRIMEIRO TITULO ~ATORZE

fo Procurador; e fe vir que o Juiz, ou Procurador


nom fom bem diligentes aos defembargar , e reque-
rer, faça outro tal rool dello, poendo o dia, em que
forem começados ,fe per appellaçom vierem, e o dia,
que aa Corte chegarem , e dê eífe rool a Nós , ou ao
( a) Regedor da No!fa Rollaçom pera o veer , e fazer
defembargar aquelles, que entender que compre, e
reprehender aquelles, per cuja (/J) ncgrigencia fom
detheudos.
1 E coMo o feito for dcfembargado por Senten-
ça definitiva, e a fentença for dada , e feita , e aílina-
da, e affellada, fe a Sentença for dada por Nós , fcja
logo tresladada em huú livro de pergaminho em boa
letra , e defpois que for trcsladada, e concertada,
dê-a ao Noífo Requeredor, ou aos Noffos Veedores
da Fazenda, aos quaaes Nós mandamos que façam
fazer eixecuçom , e defpois que for feita , torne-a a
effe Efcripvaõ, que a guarde bem na dita Arca; e pe-
ra fe milhor guardarem effas Efcripturas, e Feitos, e
Sentenças, Mandamos a effe Efcripvaõ, que defpois
que os feitos forem defcmbarguados per Sentenças, e
as Sentenças eixecutadas, que as guarde bem, e quan-
do for em Lixboa, dê-as aaquelle, que rever a chave
da Torre, em que jazem as Noffas Efcripturas, ao
qual Mandamos , que lhe tome os ditos feitos, e Sen-
tenças , e as ponha em huú almario apartado pera ef-
to-; e defpois que o livro, em que as Sentenças forem
re-
ta) nolfo (b) cul,P.t, e
Do ScRJPVAÕ nos FEITOS o'ELREY. 97

regiftadas, como dito he, for acabado, ponha-o na


dita Torre no dito almario; e as Sentenças, que def-
pois forem dadas , treladem-nas em outro livro de
pergaminho feito em tal marca, como o outro, e def-
pois que for acabado , façaõ-no encadernar , e juntar
com o outro , e ponhaõ-no na Torre ; e aífy fe faça
fempre cada vez que o livro, que trouxer o Efcripvaõ
deífes Regiíl:os, for acabado; o qual livro, e Senten-
ças em elle contheudas , Mandamos que faça fé , e
Mandamos ao dito Efcripvaõ, que fcja bem deli gen-
te em eíl:as coufas em tal guifa, que por fua culpa fe
nom percaõ nenhuús feitos, ou Efcripturas, e que fe-
jaõ regiíl:os em elles feitos , e guarda em elles poíl:a,

_,_________________
como dito he, fob pena do Officio, e de lho Nós ef-
tranhar-mos gravemente, corno for Noífa mercê.

TITULO XV.

Do Ejcripvaõ das Malfeitorias.

A O EsrnIPVAÔ das Malfeitorias perteence fcrep-


ver todalas malfeitorias da Corte, e o Correge-
dor ha de ordenar como fejam pagadas d'Arca das
malfeitorias , e defpois que forem pagadas entom o
Efcripvam as ha de tirar em rool , o qual ha de dar
ao Porteiro dante o Corregedor, que vaa fazer as eix-
Li-v. L N ecu-
98 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~INZE

ecuçoés per mandado do diro Corregedor nos beés


daquelks , que as malfeitorias fezerem.
1 ITEM. O Efcripvaõ das malfeitorias ha de fcrep-

ver, e poer em recadaçom cicaçooés, e recadaçooés,


pregooés, e procuraçooés, e* requifi.çooés (a)*, e
dizimas d'Alvaraaes, que fe perante o Corregedor
paílarn, pera Nós havermos boa recadaçom do Noífo.
2 ITEM. Ha d'efcrepver, e poer em recadaçaõ
todollos dinheiros , que fom julgados pera a arca da
Piedade.
3 ITEM. Ha de fcrepver todalas pen:is das ar-
mas , que na Corte fe tirarem contra alguús , e tirar
fobre ello as lnquiriçooés pola Noífa parte fem di-
nheiro, por bem do mantimento, que por todo eíl:o
ha.
4 ITEM. Ha de trazer todolos Regataães , e as
mancebas do mundo cortezaãs em huú livro, e aos
Regataaés ha de fazer feus privilegias, aíli como fem-
pre foi.
5 ITEM. Todalas Inquiriçoões , e Capitu los > e
coufas de malfeitorias, que do Regno vem aa Corte,
todas hã de fer dadas ao Efcripvaõ das malfeitorias,
e elle as ha de teer, e fazer * dello (b) * os livramen-
tos, que o Corregedor fobre • ello (e)* der.
6 hEM. Se na Corte fom prefos barregueiros, ou
barregueiras , Nós levamos delles certas penfoés , as
quaees o Efcripvaõ das malfeitorias tcerá carrego de
as
(a) requercçooés (ó) dellas S, (e) eito
Do EscRIPVAÕ DAS MALFEITORIAS. 99
as poer em recadaçom ; e pera eílo o que fobre ello
ordenar o Corregedor , ho Efcripvam das malfeito-
rias o efcrcpva.
7 ITEM . Todalas Tnquiriçooês dcvaffas de mortes,
que os Juízes devem mandar aa Corte , fegundo he
ordenado, haõ d'hir ao Efcripvaõ das malfeitorias , e
elle as ha de trazer, e outro Efc'ripvaõ as nom deve
tomar; pero fc tal Inquiriçom vem aa Corte per carta
pera alguús omiziados averem livramento per via de
perdõ , deve vír aos Defembargadores, e os Efcrip-

_________________
vaaés do Defembargo devem fcrepver os livramen-
tos, que fe em elles derem.
,

TITULO XVI.

Dos Efcripvaaés dante os Dejemharguadores do Paço, e


dos Aggravos , e do Corregedor da Corte, e dos ou-
h·os De.fembarguadores da Rollarom.

E ScRIPVAÕ tanto quer dizer corno homem , que


he fabedor de fcrepver , e de notar , e a prol ,
que delks nafce, he mui grande, e proveitofa, quan-
do fazem feu Officio, corno devem , lealmente, ca
per elles fe acabaõ , e vem a perfeiçom as coufas , e
negocios , que fe no Rcgno trautam, e fica rencm-
brança dos que fom paffados em longa memoria , e
quafi pera fernpre. Leaaes, e entendidos devem feer
N 2 os
IOO LIVRO PRIMEIRO TITULO DEZASEtS

os Efcripvaaés da Noífa Corte, que faibam bem ef.


crepver , e notar, de maneira que as Cartas , e autos ,
que elles fezerem , que da Noífa Corte faaem , mof-
trem que as fazem homeés de boo fifo, e de boo en-
tendimento.
1 Porn Efcripvaõ a Nós pertence affignadamen-
te, e he huú dos ramos do Noífo Senhorio, porque
em elle he pofta guarda, e grande lealdade das Car 4

tas , e autos , que fe fàzem na Noífa Corte. E porém


o lugar de tam grande guarda, e lealdade, como eíl:a
Noífa nom he aguifado , que nenhuú aja puderio pera
o outorguar , fe nom Nós , ou outro finadamente > a
que Nós outorgarmos de o poder fazer.
2 E ESTES Efcripvaa~s devem de jurar na Chan-
cellaria, que façam feu Officio lealmente, e fem per-
longua , e nom catem hi amôr , nem defamor , nem
medo , nem vergonça , nem roguo , nem dom , que
lhes promctaõ, nem dem , e fobre todo que guardem
bem a Nofia puridade , e todalas outras coufas , que
a Nós perteencem , fegundo aquello, que e!les hã de
fazer em feus Officios.
3 Os Efcripvaaés da Corte devem feer examina-
dos pelo Chanceller Moor , tanto que ouver Noffo
mandado , perquc lhes fazemos mercee dos Officios ,
ante que ajam as Cartas delles , fe fabern efcrepver, e
ditar em tal maneira , que fejam pera os ditos Offi.
cios perteencentes; ou fe fom infamados de tal infa-
m1a , ou fofpeiçom, que honeíl:amente nom caibam
em
Dos EscRIPV. DANTE os D.ESEMBARG. ETC. 101

em elles ; e fegundo o que achar peio exame , aífy


lhes deve mandar fazer as Cartas dos Officios, ou no-
tificar a Nós fcos defectos, e desfalecimento pera hi
fazermos como Noífa merece for.
4 ITEM. Deve cada huú Scripvaõ feer bem avifa-
do, que foomente fcrepva as coufas, que a feu Offi-
cio perteenccm , e nom u!urpe o Officio alheo per
nenhúa guifa, falvo feendo-lhe eípecialmente man-
dado pelo Defembargador principal, a que o defem-
bargo perteença , e conheça do feito aa mingua, e au-
fencia do Efcripvaõ, cujo principalm ente for o dito
Officio, e em outra guifa nom lho devem mandar fa_
zer; e quando clle em outra guifa fezer, o Preíidente
da Rollaçom , ou Chanceller proveerá hi com direi-
to, e juíliça ; e fazendo alguú Scripvaõ o contrairo do
que dito he, pola primeira vez pague aaquelle , cujo
officio ufurpar, em dobro todo aaquello, que aífy ou-
ver, e pola fegunda vez pague o trcsdobro, e pola
terceira vez feja fófpenfo do Officio por hum anno.
5 ITEM. Todo-los Efcripvaaés da Corte aífy dan-
te os Defcmbargadores do Paço, e Aggravos , como
dante o Corregedo r, e Juizes dos Noífos feitos , e
Ouvidores devem fazer, e efcolher antre fy cada huú
em feu cabo hú Eíl:rebuido r, que aja de defirebuir
todolos feitos , Cartas, e defernbarg os, que faiam
dante os Defembarg adores, e Officiaaes, ante que ef-
crepverem em tal guifa , que todos fejam igualados
nas Efcriptura s, que fezerem , e efia deílribuiçom
fc-
102 LIVRO PRIMEIRO TITULO DEZASETS

feja feita per tal maneira, que ande per giro em cada
huú mez antrc elles; e nom ferá oufado nenhum Scrip-
vaõ de filhar alguú feito , ou fazer Carta , ou qual ..
quer outro defembargo, falvo quando, e como lhe
for dito, e encaminhado pelo dito Deíl:ribuidor ; e
fazendo alguú delles o contrairo, pague pola primei-
ra vez duzentos reaes brancos , e pola fegunda feja
fo[penfo do Officio por feis mezes , e pola terceira fe-
ja privado do Officio, e os dinheiros fejaõ pera a Ar-
ca da Piedade.
6 ÜuTRo sY Mandamos, que todolos fobreditos
Scripvaaés ponhaõ as pagas per fuas maaõs , affy nas
Cartas, como nos proceffos , e renembranças, e Al-
varaaes , e em todalas outras Efcripturas, de que de-
vem de levar dinheiro ; e nas Cartas de que nom de-
vem de levar dinheiro , ou poíl:o que o ajam de le-
var , o nom levarem, ponhaõ nihil; e na Carta nem
ponhaõ pagua de pubricaçom, nem de proceffo, mais
tam folamente o que levarem pola feitura da Carta; e
fe o contraira dello fezerem , non poendo pagua , co-
mo fufo dito he, ou levando mais do que fufo he de-
vi fado, que pola primeira vez torne todo o que levar
aa parte , e pague para os prefos o dobro , e pola fe-
gunda vez aja a dita pena, e feja fofpcnfo do Officio,
e punido de falfo.
7 ITEM. Mandamos , que as Cartas, que aquel-
les , cujo he o defcmbargo , mandarem fazer a cffes
Efcripvaaés, que as façam logo em effe dia , ou ataa
ma-
Dos EscRIPV. DANTE os DEsEMBARG., ETC, 103

manhaã, fe as nom poderem fazer em eífe dia, e dfo


rnefmo o continuamento dos proceífos , efcrepver os
trelados , que ouverem d'aver as partes; pero fe a-
quelle , cujo o defembargo he, vir que fe nom pode
fazer no fobredito tempo, affine o tempo a que o eífe
Scripvaõ poífa fazer fem rnalicia; e fe o nom fezer,
faça paguar aas partes as cuftas daquelles dias do que
aífy forem detheudos por a dita rawm, e demais pro-
ceda contra elle corno aquelle , que nom guarda Nof-
fo mandado, nem juramento, que ha feito, fegundo
alvidro daquelle, cujo for o defembargo.
8 !TEM. Mandamos, que os Efcripvães, que
fcrepverem os termos dos feitos , ou publicações das
Sentenças , affi definitivas , como anterluquitoreas ,
que as façam efie dia affinar aaquelle, cujo he o def-
ernbargo, e perante quem paílou ; e nom o fazendo
affy, qualquer perda e dapno , que fe feguir aas par-
tes per mingua da dita pobricaçom, ou termo, que o
paguem aas ditas partes , e demais fejam fofpenfos
dos Officios por hum rnez.
9 ÜuTRO sY Mandamos , e defendemos aos fo-
breditos Scripvaães fob pena dos Officios , que nom
peçam aas partes papel , nem pergaminho > nem lho
façam paguar em nenhúa guffa , ca da Chancellaria
hã d 'a ver papel ) e pergaminho pera as Cartas , que
per ella paffam ; e quanto he ao papel pera os procef-
fos , devem-no elles a comprar , e nom as partes ; e
fe o contrairo fezerern , fejam fofpenfos dos Officios
por huú anno. 10 Ou-
ro4 LivRo PRIMEIRO T1Tu10 DEZASEis

10 OvTRO SY Mandamos, e defendemos a effes


Efcripvaaés , que nom façam Cartas nenhiías fem
mandado daquelles, cujo he o defembargo, falvo a-
quellas , que forem de curfo, nem ponhaõ em emen-
ta nenhúa coufa, fe nom o que lhes for mandado per
effes, cujo he o defembarguo.
r I OuTRo SY Mandamos , que nom voguem ,
nem procurem nenhuús feitos , falvo fe for per Noffo
mandado; e Mandamos , que dem aas partes defem-
bargo beninarnentc fem nenhúa deteença, e nom os
doefkm, nem os viltem, nem lhes dem maa refpof-
ta ; e fe o contrairo fezerem , e for provado foomence
per húa teftemunha fem fofpeita, que fejam fof pen-
fos dos Officios por huú mez, ou mais, fegundo o
exceffo for nas palavras; e que feja logo feito corrigi-
mento fem outra fegura de Juízo aaquclles, que affy
doeíl:arem , ou vil tarem , ou derem maa refpoíla, em
dobro do que feria corregido, fe lho outra peffoa dif-
feffe ; e fe o a parte non quizer, que o ajamos Nós ;
e fe hi ouver acufador , aja o terço, e ajamos Nós as
duas partes.
r 2 OvTRo sY Mandamos, que nenhuú Efcripvaõ
nom fe parta da Corte fem mandado daquelles, pe-
rante que efcrepverem, e aquelle, que (e d'hi partir,
feja fofpenfo do Officio por huú anno, e o que fe d'hi
partir per mandado dos (a) Defembargadores , ou
ouver neceffidade , que leixe feus feitos todos a cada

--------- -------
hum
(a) fobrcditos S,
Dos EscRIPV. DANTE os DrsEM.BARG., ETC. 105

hum dos outros Scripvaaés , e enformaçom em tal


guifa, que nom fejam as partes detheudas por eíl:a ra-
zom; e fe o affy nom fezerem, que paguem aas par-
tes todas as cuíl:as, e perdas , e dapnos , e mafcabos,
que pela dita razom fezerem.
13 E POR nom feer duvida no numero dos Ef-
cripvaaês quantos devem feer, Mandamos que no Of-
:ficio do Paaço dos Aggravos, que aa Noífa Corte vie-
rem da Caía do Civel, que nom aja hi mais que huú
Efcripvaõ ; e os outros aggravos, que vierem d'ante
o Corregedor da Corte, e Noffos Ouvidores , e o da
Rainha, que taaes aggravos fejam deíl:ribuidos pelos
Efcrípvaaés do Officio do Paaço; e que no Officio do
Paaço nom aja hi mais de cinquo Efcripvaaés, con-
tando hi aquelle Scripvaõ , que ha de fcrepver os ag-
gravos, que veem d'ante os Sobre-Juizes, como di-
to he.
14 ITEM, No Officio do Juiz dos Noífos feitos 1
que aja hi dous Scrípvaaés, e que em Officio do Cor-
regedor da Corte nom aja mais de quatro Scripvaaés.
15 ITEM. ~e no Officio d•ante o Ouvidor da
Rainha nom aja hi mais de huú.
16 ITEM. ~e no Officio dos Noffos Ouvidores
aom aja hi mais de tres Efcripvaaês.
I 7 ITEM, ~e em todalas correiçooés de Purtu-
gual, e do Algarve nom aja hy mais em cada húa
correiçom de quatro Efcripvaaés.
18 OUTRO SY Mandamos , que nenhú dos ditos
Lw. L O Scri-
J 06 LIVRO PRIMEIRO TITULO DEZASEIS

Scripvaaés nom levem mais das Efcripturas, que


fcrepverem, daquello , que for taufado nas Ordena-
çooés, e fazendo o contraira, pola primeira vez per..
ca a deíl:ribuiçom de huú mez , e pola fegunda feja
prefo outro mez, e por a terceira feja privado do Qf..
ficio, e nunca* o mais aja (a) *.
19 Tooows Scripvaaés da Corte de cada huú
Officío devem feer * prefentes (l,) *, e deligentes em
cada hum dia aas Audiencias dos Defernbarguado-
res , e Officíaes , perante quem fcrepverem em tal
guifa , que nom errem as ditas Audiencias ; e non a
fazendo aífy os ditos Defembarguadores, e Officiaaes
cometaõ feus feitos, e defembargos , em que aífy fo ..
rem negrigentes a alguú outro Efcripvaõ dos que pe-
rante elles fcrepverem ; e aquelles , que affy forem
negrigentes, nom ajam mais proveito daquelle feito,
ou Deíembarguo , em que aífy cometerem a dita ne-
grigencia , como dito he.
20 ITEM. Mandamos que todolos Eícripvaaés da
Corte fejam bem diligentes pera efcrepverem conti-
nuadamente per fy meefmos perante aquelles Defem-
bargadores, e Officiaes, a que fo1:n ordenados, e nom
poíl'am por fy poer outros Efcripvaaés em feu loguo
por alguíÍ cafo; e fe Nós fezermos graça a alguú Ef-
cripvaõ , que poffa per outrem fervir feu Officio , de-
ve o dito Efcripvaõ poer em feu loguo tal, que o fai-
ba, e poífa fervir bem , aífy como elle meefmo ; o
qual
(,r) mais a cl rdl:ituido S. (Ó) prcftcs S.
Dos EscRIPV. DANTE os DESEMBARG., ETC. 107

qual forrogado deve fer viíl:o , e examinado polo dito


Defembargador, e Official perante quem fcrepver, e
feendo per elle aprovado , poderá bem fervir em lo-
guo do dito Efcripvaõ aquelle tempo , pera que ou-
ver a dita licença e graça , como dito he , e d'outra
guifa nom.

T I T U L O X VII.

Do Porteiro da Chancellaria.

O PoRTEIRO da Chancellaria hirá em cada huú


dia á Cafa do Chanceller pela rnanhaã , ou aa
tarde, fegundo·lhe for per elle avifado, que quer feel-
lar, e prefente elle , feellará as Cartas, o qual Chan-
celler finará per efta guifa ; a faber, na Carta do feel-
lo redondo em fundo, honde ha de feer o dito fecllo.
e nas Cartas do feello pendente em cima da fita , em
que hade pender o dito feello ; e corno forem feella-
das, mete-las-há em hú faco çarrado , e aífeellado, e
leva-las-ha a cafa do Efcripvaõ da Chancellaria fem
• defvairando (a) * pera outra parte ; e affy as teerá
fem abrindo o dito faco ataá que o dito Scripvaõ, e
Recebedor da Chancellaria fe aíleentem pera as dar ,
e • perante (b) * elles abrirá o faco, e tirará huúa , e
huúa Carta, entregando-a ao Efcripvaõ ; e depois
O2 que
(o ) dtfviillldll S. (b) prcfcctc
108 LIVRO PRIMEIRO TITULO DEZASETE

que lhe pofer a pagua , e o Recebedor for entregue ,


dalla-ha á parte, a que perteencer; e tire outra, e af-
fy todalas outras, teendo o faco fem tomando outrem
Cartas, e feendo em ello bem diligente , chamando
as partes , que lhe o Efcripvaõ diífer ; e defpois que
as Cartas do faco forem todas dadas , o dito Porteiro
ponha ante fy as Cartas velhas da Arca da Chancella-
ria, que ficaram por dar dos outros dias, e as dê ao
dito Scripvaõ pela guifa fufo dita , e as que ficarem
torne-as aa dita Arca.
I E EM durando as ditas Cartas, fe algucm qui-
zer atteíl-ar alguúa, poffa-o fazer, e pague o direito aa
Chancellaria, e o Efcripvaõ entregue tal Carta com
os embargos, que pola parte do embargante forem
dados a nom paífar , ao Porteiro, que a leve aaquel-
le , que a aílinou, pera a defpachar em Rollaçom, fe
tal Defembarguo for dado em Rollaçom, e ao Portei-
ro feja paguado feu trabalho de tal hida.
2. E A.ALEM deíl:o, ferá theudo de fazer qualquer
coufa , que lhe for mandado pelo Chanceller , e Of-
ficiaaes da Chancellaria por ferviço Noífo, que aa di-
ta Chancellaria perteença.

TI-
Do PoRTEIRO DA RoLLAÇOM. 109

T I T U L O XVIII.
Do Porteiro da Rollaçom.

O PoR TEIRO da Rollaçom haverá cuidado cada


vez que a Cafa da Juíl:iça chegar novamente a
alguú lugar, de aver logo de bufcar duas Mêfas com
feus bancos, em que ajaõ de feer os Defembarguado-
res da J uíl:iça , e defembargar feus feitos , e quando
as nom podér avcr, requeira fobre ello ó Vccdor da
Noffa Cafa, e mandar-lhas-ha fazer ; e deve feer bem
diligente, • e (a)* em cada huú dia bem cedo pola
manhaã vaa correger as ditas Mefas, e bancos de feus
bancaaes , e campainha , e buceta de poo , e tinta ,
como he de coftume , em tal guifa , que quando os
ditos Dcfembarguadores chegarem , fe poífam logo
aff'eentar a defernbarguar, e nom ajam rafom de fe
deteerern por mingua dello.
1 E TEERA' cuidado de guardar os pãnos d'ar-
mar , e bancaaes , e campainha, e boceta de poo em
tal guifa , que de todo dê boo conto , quando lhe for
requerido ; e todo eíl:o lhe feerá entregue per manda-
do do Prefidente, e efcripto pelo Efcripvaõ dos Nof-
fos feitos, pera defpois vír á boa recadaçom.
2 E GUARDARA' a Porta da Rollaçom continua-
damente em cada huú dia, fem partindo d'hi em
quan-
I IO LIVRO PRIMEIRO TirllLO DEZANOVE

quanto a Rollaçom durar, nom hindo a outra nenhúa


parte (em mandado do Prefidente ; e nom leixará en,.
trar nenhuú na Rollaçom fem feu mandado, falvo fe
for do Confelho, ou do Defembarguo ; e fazendo o
conrrairo, que o Prefidente o cafiigue como vir que
he bem.

-----·-----------
T I T U L O XVIIII.

Do Porteiro * d' ante o (a) * Corregedor da Corte.

A O Officio do Porteiro * d'ante o (b) • Correge-


dor da Corte perteence feer bem diligente , e
em cada huú dia pela manhaã deve hir a cafa do Cor-
regedor, ante que fe elle parta pera a Rollaçom; e os
feitos, que o dito Corregedor tever viftos , deve-os de
levar aa Rollaçom dentro em huú faco , que elle pe-
ra eíl:o deve teer ordenado ; e fe hir com o dito Cor-
regedor, e eftar aa Porta da Rollaçom aífy pera guar-
dar a porta da cafa, honde eftever o Corregedor com
os Ouvidores, e Defembarguadores defembarguando
os feitos crimes, como pera fe o ou verem meíl:er, pe-
ra o mandar a alguã parte , que o achem preftes ; e
nom fe deve partir pera nenhuã parte em quanto aífy
eíl:everem em Róllaçom , fem licença do Prefidente
naquella Mêfa : e per femelhante modo deve fazer
de-
(a ) do (b) do
Do PoRTEIRO D'ANTE o CoRREGEDOR, ETC. 111

depois de comer nos dias,que o Corregedor ha de fa_


zer Audiencia, e lhe levar os feitos, que hi deve pu-
blicar, e levará o pano pera a feeda , e deve hy feer
prefente pera citar os que lhe o Corregedor mandar
citar , e fazer outra qualquer coufa , que lhe o Corre-
gedor mande por bem de Juíl:iça.
1 ITEM. Citará aquelles, que o Corregedor man-
dar citar, e outros nom , falvo fe alguns efteverem
pera fe partir , que feria perigo requererem o Corre-
gedor , poífa citar per fy ; e fe alguma parte quizer
citar per palha , e nom per Porteiro , deve requerer
ao Corregedor, e elle lhe dará palha pera citar (a) •
2 I n:M. Se o dito Porteiro citar na Audiencia
huúa peífoa , levará huú foldo ; pero fe citar no dito
loguo marido com mulher, ou Priol e Convento, que
fom reputados por huú corpo , levará huu foldo ; e fe
citar no dito Ioguo herdeiros, e teíl:amenteiros, leva-
rá dous foldos ; e fe eíl:es forem apregoados no dito
loguo , o Porteiro leve do pregom huú foldo, como
da citaçõ ; e fe eíl:as peífoas forem citadas na Villa
fora da Audiencia , leve o Porteiro de cada peífoa
dous foldos, falvo fe forem herdeiros , e teíl:amentei-
ros, que levará quatro , porque fom duas peífoas ; e
fe o Porteiro for a alguü lugar citar alguãs peffoas aa
petiçom dalguem, per mandado do que he Juiz, ou
Corregedor, fora da Villa, e for no Termo, léve de
cada legoa quatro* reaes (b) * pola hida, e dous por
a
l" J atee ª'iucl termo, que hordcn.ado he que po<ra citar por palha S. (b) foldos
II2 LIVRO PRIMEIRO TITULO DEZANOVE

a vinda, e dous foldos por a citaçom de cada pefioa,


tirando fe for marido e mulher, e Priol e Convento,
e herdeiros , e teftamenteiros , que paguarom da hi-
da , e vinda, como dito he; e dos hereeos, e teíl:a-
rnenteiros levará quatro foldos, porque fom duas pef-
foas , e áífy do mais, fe mais forem, que dous, e nom
morarem em huma cafa , qua fe todos morarem em
huuã cafa , nom levará mais que dous.
3 ITEM. Todalas Sentenças, que forem dadas pe-
lo Corregedor de pequena contia, a faber, de trezen-
tos reaes a fundo , devem logo fecr feitas as eixecu-
çooés per o dito Porteiro ; e fc forem de maior con-
tia, devem feer feitas Cartas feelladas, e per Alvará,
nem Portaria nom deve fazer eixecuçom ; e quando
affy for fazer as ditas cixecuçooés , deve levar Scrip-
vaõ, e devem de recadar a dizima, e qualquer outro
direito, que a Nós pertcença da ver; e fe affy nom re-
cadarem, o Porteiro, e Scripvaõ paguem a dizima
pola primeira vez em tresdobro ,e pola fcgunda ano-
veada, e pola terceira percaõ os Officios.

TI-
Do PREGoErno DA CoRTE. 113

TITULO XX.

Do Pregoeiro da Corte.

O PREGOEIRO da Corte per Direito , e per cufiu-


me ha d'eíl:ar nas Audiencias preftes pera apre-
goar qualquer , que mandarem * degradar com pre-
gom, e fazer (a)* outras coufas, que lhe forem man-
dadas pelo Corregedor fobre alguuã eixecuçom , que
feja neceffaria, ou compridoura per bem de Juftiça; e
elle ha d'eftar fempre preíl:es pera chamar os outros
Pregoeiros cada vez que fe ouver de fazer juftiça, ef-
tando aa porta da Rollaçom continuadamente aa.
quarta, e aa feíl:a feira , que fom dias efpecialmente
deputados pera fe fazer juftiça , por tal que aa fua
mingua a juíl:iça norn feja retardada.
1 ITEM. Hade fazer todalas remataçooés das eix-
ecuçooês das fontenças do Corregedor da Corte , e
dos Ouvidores , e quaeefquer outras, que lhe fejam
encomendadas per cada huú dos Defembarguadores
da Corte ; e fe norn fezer feu Officio corno deve , o
Corregedor ha delle de fazer Dereito , e Juftiça , ou
o Regedor da Cafa por Nós..
2 ITEM· Ha d'aver de feu Officio palas eixecu-
çooés, que fezer , fegundo he contheudo no titulo das
Liv. L P cou-
(a) apregoar i,cr degredo, e pera S.
114 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E Doe ;;

coufas, que perteecem ao Officio do Contador das


cuftas.

TITULO XXI.

Do Porteiro * dante os (a) * 011vidores Nojfos , e do


Porleiro * dante ho (b) • Ouvidor da Rainha.

A O 0FFICIO dos Porteiros dos Ouvidores, aífy


Noífos , corno o da Rainha , pcrteence fazer
aquellas coufas perante os ditos Ouvidores, e fuas Sen-
tenças , que perteence fazer ao Porteiro do Correge-
dor perante o dito Corregedor , e fuas Sentenças , fe-
gundo he contheudo no titulo de feu Officio.

T I T U L O XXII.

Do que perleenre aos Carcereiros da Cadia do Corregedor


da Nojfa Corte , e da Cadêa dos Ouvido't'es.

O CARCEREIRO do Corregedor ha de trazer quatro


homeés, e o Carcereiro dos Ouvidores dous ho-
rneés ; e eílo pera encadear, e defencadear os prefos,
e guardar as Cadêas. E o Carcereiro do Corregedor
ha de dar huúa Cadêa de monte, e dous homcés, que

(4) ----~----------------
dos (6) d0
an-
Do QYE PERTENCE AOS CARCEREIROS, ETC. 115

andem pelos caminhos, per bonde quer que Nós an-


darmos , pera os que prenderem , e com elles ha d'hir
huú homem do Meirinho das Cadêas.
I ITEM. Ha de guardar mui bem fuas prifoões ,
e os prefos, e apriíoa-los , e requerer cada dia duas
vezes os prefos das prifoões pera veer fe fom prefos ,
e recadados, e fe tem feita alguúa malícia pera fe ha-
verem de faltar; e quando achar algúa coufa mal fei-
ta , notificala-a loguo a gram pre!fa ao Corregedor, e
ao Meirinho das Cadêas, para hi tornarem, e provee-
rem com Juíl:iça; e levalos-ham a verter augua o Car-
cereiro , e o Meirinho com feus homeês duas vezes
no dia , e hã de fazer toda-las coufas , que lhes ho
Meirinho das Cadcas mandar fazer por Noífo Ser-
v1ç:o.
2 E QYANDO os prefos andarem caminho, ham
de feer entregues aos Concelhos , honde cheguarem ,
e aífy de Concelho em Concelho; e o Carcereiro nom
ha de teer outro carrego delles , quando andarem ca-
minho , falvo aprifoa-los aa noute honde quer que
chegarem, ataa ferem entregues honde a Cadea ouver
de feer d'afeífego; e nom ha de confenrir, que ne-
nhuú prefo tragua ferros de beíl:a, que fe feichem, e
que fe desfeichem com chave; e qualquer, a que os
mandar trazer, ou confentir , que os tragua, ham de
feer do Meirinho das Cadeas, que lhos ha loguo de
mandar filhar (a) •
3 o
(a) os dilos ferros , fe os mais tcver S,
r 16 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E Tlt'ES

3 O MErRINHo das Cadêas nom ha de partir do


lugar, honde a Cadêa eftever afeffeguada, ataa que
nom partam as Cadêas a primeira jornada ; e efio
quando fe abalarem de huu lugar pera outro; e quan-
do o Carcereiro vir que alguú prefo he fobervo, def-
onefio, e volteiro em tal guifa, que por feu aafo a Ca-
dea receba alguú perigo , deve-o de notificar ao dito
Meirinho das Cadêas , ou ao Corregedor pera lhe fe-
rem lançadas grandes prifoés em tal guifa , que por
caufa delle ie naõ po!fa feguir outro dapno a ella.

T I T U L O XXIII.

Dos Corregedores das Comarcas , e coefas , que a Jeus


Olficios perleencem.

E Srn he o que deve fazer o Corregedor da Comar-


ca em aquella terra , em que ha de correger >
tambem no feito da Juíl:iça, como no* ufamento (a)*
da cerra. Primeiramente desque for em f ua correiçom,
deve mandar aos Taballiaães do luguar, per onde en-
tender d'hir, que lhe enviem os Srados, e que lhos
enviem per tal guifa, que per elles poffa feer certo
tambem dos maaos feitos , que fe hi fezerem , como
do vereamento da terra. E eífe Corregedor veja loguo
effes Srados, e fe achar, que alguús merecem de feer
pre-
(a) Vereamento S.
Dos CORREGEDORES DAS CoMARCAS , ETC. 117

prefos , mande loguo fua Carta çarrada ao Alcaide,


ou aas Jufüças deffe lugar, de que lhe foram dados
os Stados , e mande-lhes , que os prendaõ de guifa ,
que os ache prefos quando por hi for. E diga a effes
Taballiães, que façam os Stados , per efla guifa ; que
fcrepvaõ todas as querellas, que forem dadas tam-
bem a elles , corno aos J uizes , onde elles prefentes
nom eíleverem , fiando hi fempre tefternunhas cha-
madas pera efto, que ouçaõ em como lhes daõ a que-
rella jurada, e tefiernunhas nomeadas.
1 E DEVE mandar o Corregedor aos Juizes , que
fe lhes algúa querella de crime for dada honde nom
eíliver Taballiom , e o poderem Ioguo haver, que
mandem logo por elle , antes que fe delles parta o
querelofo, e façaõ-lhe fcrepver a querella aífy como
a parte a der; e fe pola _v entura ao Juiz for dada que-
rella em tal lugar , que nom pofia hy logo aver Ta-
balliaõ , que a fcrepva , faça-a depois efcrepver ao
Taballiam , aífy como lhe for dada , e o Taballiam
fcrepva-a ao dito do Juiz, e chame hy teftemunhas.,
bem affy como fe lha deífe a parte.
2 E TAMBEM os Taballiaaés, como os Juízes.,
quando lhes querellas forem dadas, façaõ loguo jurar
o querellofo, que nom da maliciofamente a querella,
mais porque he verdade, e que aífy o entende a pro-
var, e façaõ fcrepver os nomes dellas, e fe jurar nom
quizer , nom lhe recebaõ a querella ; e étfo mefmo
façam., fe nom quizer nomear as teftemunhas, falvo
fe
1r 8 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

fe differ per juramento, que lhe nom lembra quaees


hi eílavaõ, ou os nomes dellas. E quando affy jurar,
ponhaõ-lhe tempo a que venha dizer os nomes del-
las , e encom efcrepvaõ , e digaõ , que lcaõ húa vez
na domaã aos Juizes as querellas, que reverem efcrip-
tas, e digaõ-lhes fe entendem, que fom fem fofpei-
ta , e que as façam correger , e emmendar , e as def-
embarguem com direito, e jufüça; e de como os
Juizes o fezerem, fcrepvaõ-no os Taballiaaés no fia-
do, e dem-no ao Corregedor ; e fe entenderem que
os Juizes fom fofpeitos , emviem-no dizer ao Corre-
gedor , ou a Nós.
3 E SE o Corregedor achar, que nom prendem
alguú malfeitor , ou nom defembargam eífes feitos
per fua culpa, ou per fua negrigencía , ou por outra
má maneira, de-lhes pena nos corpos, ou no a ver,
qual o feito demandar, e faça-lhes correger pelos Jui-
zes , pois que nom fom de[embarguados por fua cul-
pa, o dampno, e perda, que [e lhes feguir por a dita
razom ; e fe achar, que os Taballiaaés forom em cul-
pa, porque nom moftrarom as querellas aos Juízes,
ou os Juizes, porque os nom prenderom, ftranhe-lho
como no feito couber ; e ouça eíles feitos deffes pre-
fos, como por Nós he mandado, e ordenado no deci-
rno artigo dos geraaes , que fezerom em Lixboa em
aquello , que fe aqui adiante fegue.
4 ITEM. Defpois que for em alguú lugar de fa
correiçom , deve mandar apregoar , que venhaõ pe-
rante
Dos CoRREGEDORES DAS CoMARCAS , ETC. r r 9

rante elle todos aquelles , que ouverem querellas de


Alquaides, e de Juizes, ou Taballiaaês , ou de pode-
rofos, ou d'outros quaeefquer, e que lhas fará corre-
ger; e que outro fy venhaõ perante elle todos os que
ouverem demandas, e que lhas fará defembargar ; e
o pregom affy dado, deve chamar os Juizes daquelle
lugar, e poe-los a par de fy, e fazer-lhes pergunta ,
quando veerem as partes , que feitos teem perante os
Juizes, porque os norn deípacham, mandando-lhes,
que loguo defembarguem feos feitos.
5 E ELLE norn deve tomar em fy preito criminal,
nem civil, falvo d'Alquaidc, ou de Juiz ,ou dos que
forem Vogados , ou Procuradores , ou Taballiaaés,
ou doutros quaeefquer poderofos , e os preitos defies
poderofos filhem cm fy quando os Juízes diíferem,
que nom podem por algúa direita razom fazer direi-
to, nem jufüça delles, ou forem fofpeitos, e entom
ouça eífes feitos em quanto hi efiever, e defembar-
gue-os, fe poder; e fe os hi nom poder dcfembargar,
cometa effes feitos aos Juízes, que forom ante elles,
que forem fem fofpeita, ou a alguú homem boõ deffa
Villa, fe eífes outros Juizes forem fofpeitos, como
por Nós he mandado; e todo-los outros feitos faça ou-
vir, e defembargar pelos Juízes, tambem em quanto
hy for, como deípois ; e fe defpois quando hi tor-
nar , achar que alguús daquelles feitos nom fom def-
embargados per culpa daquelles Juízes, ou por ou-
tra maneira, como dito he, deve-lho d'eíl:ranhar,
affy
120 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

a<ry como vir, que compre, fegundo no feito cou ..


ber.
6 E NOM deve o Corregedor tomar conhecimen-
to per appellaçom , nem per fimpres querella , dos
feitos das injurias , nem dos mancebos das foldadas ,
em que defendemos , que nom recebam appellaçom ,
nem aggravo; nem recebam Eíl:romento de Tabal-
liam de aggravo dos ditos feitos, que lhes fobre eíl:o
feja moíl:rado , mas brite-o logo , e efiranhe-o com
pena ao Taballiaõ, que eífe Eíl:romcnto fezer; e faça
de guifa, que fe guarde o que per EIRey Dom Pedro
foi ordenado , e outorguado nos Artigos Geraes das
rnerceês, que fez aos Concelhos de fua terra nas Cor..
tes, que fez em Elvas, efpicialmente nos vinte e
dous, e vinte e tres artigos, que faliam cm eíl:a rafam.
7 OurRo sy o Corregedor nom conhecerá de
nenhuús feitos, que a elle, ou perante elle venhaô per
maneira d'aggravo de quaeefquer fentenças definiti-
vas, que pelos Juízes das terras forem dadas, como
he dito, que conhecem , nom a vendo poder pera eíl:o;
nem dê Sentenças , nem faça nenhuú defembarguo
fobre efies aggra vos antre as partes ; nem receba Eíl:or-
mentos , nem Scripturas , que lhe !obre eíl.o fejam
mofiradas , mais envie-os logo , e d igua aas partes ,
que as levem perante os Defembargadores, ou Sobre-
Juizes, a que he dado poder pera conhecer delles; e
feja certo, que fe eíl.o pa<rar, ou * eras (a) • ello for ,
que
(") contra .S.
Dos CORREGEDORES DAS COMARCAS, ETC. I 2I

que Nós lho íl:ranharemos como aaquelle , que def-


preza Noffo mandado. Pero o Corregedor deve filhar
em fy, e livrar com direito os feitos dos Fidalgos, e
dos Abades , e Priores de fua Correiçom , que antre
fy ouverem , ou elles demandarem a outras quaeef-
quer peífoas , ou eífas peífoas a elles , poíl:o que lhe os
J uizes diguã , que farom direito delles ; e eíl:o nos ca-
zos, que a Jurifdiçom pertence a Nós.
8 AQyELLEs, que entender, que devem feer pre-
fos per Srados , que lhe derem , deve-os elle de man-
dar prender aquelles , que poderem achar ; e todos
aquelles, que forem prefos, deve-os dar aos Juizes
com as querellas , denunciaçooés , e enformaçooés, e
diga-lhes , que os defembargem com feu direito , fal-
vo fe forem das peffoas fobreditas , de que hã d 'a ver
conhecimento , como dito he ; e dê-lhos per fcripto
quantos , e quaees fom , e porque razom , pera faber
como os defembargam, e pera veer fe os Juizes fom
diligentes; e os outros , que nom prender, em quan-
to hi for , deve-os de dar em fcripto aos J uizes da-
quelle lugar perante hum ou dous Taballiaaés , e
mande-lhes , que os prendam , e ouçam , e defembar-
guem com feu direito; e mande aos Taballiaaés , que
1e ~s Juizes defpois os nom quizerem prender , ou
nom quizerem trabalhar pera os colher aa maaõ, fa_
bendo honde fom , que o fcrepvaõ em feus livros de
guifa , que per elles feja elle, ou Nós , quando per
hy chegarmos·, certos da obra, que os Juizes fobre
Liv. I. Q_ el-
122 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

ello fezerom , pera lho íl:ranharmos , aífy como en-


tendermos que cumpre.
9 ITEM. Deve mandar apregoar em cada huú lu-
gar de fa Comarca, que nenhuú nom encobra, nem
colha degradado , nem ladrom , nem outro malfei-
tor, nem receba furto nenhuú em fua Cafa, ca aquel-
le, que o fezer , dar-lhe-am pena, íegundo merecer
aquelle malfeitor; e defpois que o affy em cada huú
lugar apregoar fezer, faça-o guardar, como for di-
reito.
10 !TEM. Mandamos aos Juízes das terras, que
fe alguú homem matarem , ou for feito alguú grande
furto, ou roubo, ou outro maao feito firanho na Vil-
la, ou no termo , que loguo vaõ enquerer com huú
Taballiaõ fem fofpeita, e que a nom mandem filhar
aos Taballiaãcs, mais per fy a filhem , ou cada huú
per fy a filhe; e fe ambos forem embargados , que a
nem poffam filhar per doença, ou por outra razom
femelhavel, [colham huú homem boõ deffa Villa fem
fofpeita, que a filhe com huú Taballiaõ ; e tanto que
a Inquiriçom for tirada, enviem a Nós o trelado çar-
rado, e feellado dos Seellos dos Concelhos, e com fi-
nal de Taballiaõ ; e os Juizes lhes certifiquem, que
fe o affy nom fezerem, que haverã a pena, que em
eíl:e cazo he ordenada d'averem.
II E AJA cada huú Concelho húa Arca, em que
fejam pofias effas Inquiriçooés, e aja duas chaves, e
huúa ténha huú dos Juízes, e a outra huú Taballiaõ,
qual
Dos CoRREGEDORES DAS CoMARCAS, ETC. 123

qual o Corregedor entender, que he mais convinha-


vel pera ell"o ; e mandem logo os nomes deíl:es, qu~
achaõ que culpados fom, ª<?Corregedor, pera o Cor-
regedor faber quem fom , ca pela ventura pola Co-
marca , por onde andar, poderá achar, e poer em re-
cado.
I2 ITEM. Deve mandar aos Juizes, que faibaõ,
fe os Taballiaaés guardaõ os artigos, e taufaçom, que
juraraõ na Chancellaria, e fe achar que os norn guar-
dam , que lhes dem a pena , que lhes fobre eíl:o he
poíl:a ; e fe os Juizes em fabendo deíl:o parte forem
negrigentes, o Corregedor o eíl:ranhe aos Juízes, e
dê-lhes por effo pena (a) qual vir, que compre. Ou-
tro fy dê aos Taballiaaés a pena , em que cahirem. E
por haverem razom os Juízes de faberem o que he
contheudo em effes artigos , e taufaçom , que façam
leer eífcs artigos, e taufaçom perante os Taballiaaés,
e ao Povo cada fegunda feira primeira de cada mez
no lugar, onde fazem o Concelho , pera faberem to-
do , o que em elles for contheudo.
13 ITEM. Deve de faber fe ha hi bandos em cada
huú daquelles lugares, em que ha de correger, e
quaees fom os principaaes delles, e fe fe íeguem def-
fes bandos pelejas , ou voltas , ou mortes , ou outro
mal, ou dapno; e fe os em effes lugares ouver, fe-
gundo achar, que fom dapnofos aa terra, affy o deve
d'eílranhar aos que achar , que hy foro culpados , a
Q__2 fa-
(·a ) cm que cahircm S,
J 24 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINT~ E TRES

faber , a delles per palavra, e a delles per obra-, ou a


todos por obra ; e fe fe nom quizerem caftiguar , de-
grade-os da terra , fe vir que compre, ou dando-lhes
outra pena , fegundo o feito demandar ; e fe achar ,
que o Alcaide, ou Juizes, que entom forem, ou ou-
tros quaefquer, que ajam de fazer direito, e Juftiça,
ham parte em effes bandos , e que por effo leixarom
de fazer direito e Juíl:iça , e aquello que devem, de-
vem-lhe dar muito maior pena , que a cada huú dos
outros , ca quanto elles fom maiores em honra, e em
eíl:ado , quanta maior pena merecem , confentindo ,
e havendo parte nos maaos feitos, e defafefeguo da
terra hu elles honra , e íl:ado reverem.
14 ITEM. Deve a faber fe os daquelle lugar, em
que ha de correger, recebem aggravamentos dos Al-
moxarifes, e Scripvaaés , ou dos Porteiros , e Saca-
dores, ou d'outros quaefquer Olliciaaes, que ajam de
tirar, e procurar noffos direitos , aggravando o Povo
como nom devem ; e fe for per razom de feu Officio
dcífcs Officiaaes, diga-lhes , que o nom façam ; e fe
o fazer norn quizerem, faça-lho correger , e de como
o fezer correger, faça- o faber a Nós; e efio fe enten-
da quando no lugar onde eíl:o acontecer, nom for
Veedor da Fazenda , ou Contador, a que eíl:o per-
teence correger, ca fc hi ou ver, deve-lhe de notificar
eíl:o, que fe aífy faz, que provejam a ello, como
feja emmendado.
IS OuTRo SY deve de faber fe alguús poderozos ,
ou
Dos CoRREGEDOREs DAS COMARCAS, ETC. 125

ou maliciofos embargam os Noffos direitos, ou os re-


teem fem razom , e fazer loguo , que os cobremos , e
aJamos.
16 ITEM. Trabalhe por todos os lugares de fa
Corrciçom , que as herdades fejam lavradas, e as vi-
nhas adubadas , como achar, que he prol da terra,
fazendo teer boys aaquellcs , que os deverem, e po-
dérem tecr, e que morem com amos aquelles , que
fom pera fervir, e que nom teem tanto de feu , que
devam feer dello efcufados. E para os fervidores ave-
r.em razom de fervir, e os beés de cada huú luo-ar
o
fe_
rem aproveitados , e os moradores defies lugares nom
andarem com elles em demandas dapnando o que
haõ, mande aos Juizes quedem igualmente os man-
cebos ,como per Nós he mandado; e de como os de-
rem , e cofirangerem, e das penas, que lhes pera ello
derem , fe nom fervirem, como devem , aífy o façam
efcrepver por Taballiaô em huú livro íl:remado pera
efio, pera quando Nós, ou Noífo Corregedor hi che-
garmos , veermos como comprirom o que dito he,
ou fe em ello fezerom o que nom deviam , pera lhes
feer eíl:ranhado , e correger aas partes o dapno, que
por ello receberam.
17 ITEM. Deve de faber em cada huú lugar das
terras , per onde andar , dos feus J ulguados , porque
fe defpovoram , e per que guifa fe milhor podem po-
vorar, e fazello aífy fazer ; e fe for terra Noífa, falle
effo com o Noífo Almoxarife , e Scripvaõ deífa Ca-
ma-
126 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

mara , e fe poderem acordar fobre ello , façaõ-no affy


fazer, fe nom façaõ-no faber a Nós , pera fazermos
fobre ello o que for mais Noffo ferviço.
18 ITEM. Deve faber quaees fom Reguataés, que
compraõ o pam , e as outras coufas , per que a terra
fe ha de manteer, e deve de mandar, que aaquefies
façam primeirament e vender o pam, e as outras cou-
fas , que affy compraõ, quando meíl:er fezer de fe
venderem ; e faça-o poer aguifadamente , fegundo o
pam , que for , dando-lhes gaanho ; e deve-lhes de
leixar do pam, e das outras coufas aguifadamence pa-
ra feu mantimento ; e efio fe deve fazer tambem aos
Fidalgos, e Clerigos, como a outros quaeefquer, que
o affy comprarem.
19 E SE alguús Concelhos ham demandas , ou
contendas entre fy , deve trabalhar quanto poder de
os partir, e de os avir; e fe o fazer nom poçler, faça-o
faber a Nós, e envie-nos contar o feito todo como
he , e a rafom donde nafce, e o dapno , que em eíl:o
fe pode recrecer, e aquello que entender, que he bem
de fazermos , e a razom, ou razooés, que o movem a
eífo entender.
20 ITEM. Deve d'entrar em os Cafiellos, que
teem os Alquaides , e veer como fiam bafticidos ,
tambem d'armas, como d'outras couzas,que lhes fe-
zerem meíl:er a eífas Torres, ou aos andaimos, e fe
haõ meíl:er de fe corregerem , e adubarem ; e de co-
rno todo eíl:o achar , aífy o deve fazer faber a Nps ; e
eífo
Dos CoRREGEDOREs DAS CoMARCAs, ETC. 12 7

effo meefrno deve faber das cercas das Villas , e fa_


ça-o loguo correger ; e eíl:o deve fazer faber, como
dito he, tambem dos Caíl:ellos das Ordeés, como dos
Noflos Caíl:ellos.
2I ITEM. Deve mandar, cada vez que for no lu-
gar, aos Taballiaães, e Juízes, que lhe moíl:rem as
Inquiriçooés devaífas , que hi ouver , e deve-as de
veer logo , e fe alguús daquelles , que hi forem con-
theudos nas lnquiriçooés , forem livres pelo Juiz do
lugar , deve faber como hos defembargou ; e fe
achar, que forom livres per conluyo, ou per algúa ou-
tra guifa como nom deviaõ , deve-o logo fazer corre-
ger de guifa , que fe faça loguo direito, e que nom
defpereça Juíl:iça ; e fe achar, que os Juízes, ou ou-
tros alguús fom culpados em eíl:e conluio, perque af-
fy a Sentença foi dada por algo , ou por outra guifa
a fabendas , deve-o d'eíl:ranhar a cada huú , como
couber no feito. E diga aos Juízes, que quando os
feitos forem graves , que ainda que algúa das partes
nom appelle, que elles appellem pola Juíl:iça pera a
Noffa Corte naquelles feitos, e cafos, em que lhes per
Nós he mandado, que appellem pola Juíl:iça; e amof-
trem-lhes a Noífa Hordenaçom que he feita em eH:a
razom.
22 ITEM. Deve faber as prifooés de cada huú lu-
gar em que guardam os prezas, fe fom * quaees (a)*
compre de guifa, que os prefos poífam hy feer bem
guar-
(a) taacs como
I 28 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

guardados ; e fc taes norn forem , deve-as de mandar


fazer a aquelles, que as houverem de fazer, tambem
aos Noffos Officiaaes, como a outros quaefquer. E
devem fazer, que os homeés, que ou verem de guar-
dar as prifooés, que fejarn boõs , e de boa fama , e
arreigados na terra, e de boõs cuíl:umes, e deve-os
caíligar que guardem mui bem os prefos , que lhes
derem , e que fejam certos , que fe lhes fogirem, que
lhes darom por ello grave pena ; e os que o affi nom
fizerem, dem-lhes a pena, que o direito manda.
23 E SE alguús quizerem citar o Juiz fobre feu
Officio , citem-no perante o Corregedor, o qual Cor-
regedor hos ouça quando hi for ou perto d 'hi ; e affy
nom feraõ os Juizes embarguados de fazer feu Offi-
cio per malícia daquelles, que os mandarem citar.
24 OuTRO SY deve feer percebido o Corregedor
de veer os foros de cada huú lugar, para ver fe filhaõ
a Nos alguú direito, que a Nos perteença d'aver per
elks, ou fc lhes himos Nós contra feu foro. Outro fy
deve faber o que nos filham dos Noffos direitos, que
Nos havemos d'aver tambem das Cidades, como das
Jurdiçooés, e correger o que per fy podér correger,
e o al, que correger nom poder, envie-no-lo dizer;
e effo mcefmo faça, fe lhes Nos filhar-mos alguma
coufa do fcu fcm razom.
2 5 ÜuTRO sY deve dar o Corregedor a aquelles,
que lhe pedirem, todas as Cartas de fegurança ; falvo
cm feitos de mortes d 'homeês , ou de molheres , ou
d'alei-
Dos CoRREGEDORES D.AS COMARCAS, ETC. 129

d'aleive, ou treiçom, fodomia, moeda falça, ou ere-


fia. Pero deve dar as feguranças de guifa , que nom
nafça dellas efcandalo ; e fe for feito de feridas , ou
paancadas, nom as dê , falvo paífados os trinta dias ;
e mande ouvir os feitos delles aos Juizes das terras ,
falvo das peífoas fofo ditas, de que ha de tornar co-
nhecimento eífe Corregedor , ca entom as deve elle
ouvir, e nom os Juizes. E pera faber fe eífes Juizes
defernbarguam eífes feitos das feguranças como de-
vem, deve cada hum Corregedor a ver huú livro, em
que ponha todas as feguranças que der, pera os Juí-
zes de cada huú lugar ; e o dia que harn de parecer
perante eífes Juizes os que as feguranças gaanharaõ
ao dia , que lhes foi pofio ; e que obra fizerõ eífes
Juizes em eífes feitos.
26 ÜUTRO sY deve faber os Taballia-aés , que em
cada húa Villa ou Cidade ha, e em cada Julgado, e
fe achar, que alguiís nom fabem feu Officio, ou nom
fom de boa fama, entom deve de faber fe ha hi taacs,
que fejam pera ello perteencentes , e enviar loguo a
Nos aquelles , que entender, que hi fom compridou-
ros, e Nos daremos os que hi comprirem, e ouverem
mefier em effes lugares ; e eíl:o fe faça tambem nas
Noífas terras, como nas das Hordeés , e d'outros,
que ham Taballiados, e Jurdiçoões ; e digua, ou
mande dizer a effes Meefl:res, e aos outros, que taees
Jurdiçooés teverem, que ham d'aprefentar os Tabal-
liaães a Nós, e Nos confirma-los; que e nlegam taaes,
Liv. L R que
130 LrvRo PRIMEIRO Tnu10 Vrnn E TRES

que fejaõ pera eífes Officios, e que Nos os confirma-


remos.
27 ÜUTRO sv o Corregedor nom deve poer Ou-
vidor nenhuú em feu loguo fem forçada neceflidade •
e fe a neceílidade for tal, poífa-o pocr per efpaço ataa
huú mez ; e feja peífoa perteencente pera ello ; e fe
por mais for , nom o ponha fem autoridade Noffa.
28 !TEM. Nos avemos por bem, que os No!fos
Corregedores , e Meirinhos nom levem Chancellaria
pera f y , nem Portaria , nem Carceragem ; e polla
primeira vez, que a levarem , pagué o trefdobro, e
aa fegunda anoveado, e aa terceira ajaõ aquella pe-
na , que Nofia mercê for.
29 ITEM. O Corregedor nas Villas , e Lugares ,
honde cheguar, deve faber dos Frades, e Cõmenda-
dorcs como fom guifados, e que vivenda fazem e
como teem as * fuas cazas (a) w, vinhas , e herdades ,
e moinhos, e afenhas , e outras coufas apofiadas ; e
faça de guifa, que íe compra , e guarde aquello , que
per Nos he ordenado no primeiro , e fegundo artigo
dos artigos geraaes, que foram feitos nas Cortes, que
fe fezerom em Elvas.
30 E PARA o Corregedor fazer comprir todas ef-
tas· coufas , e as outras , que peneêcem a feu Officio,
e para outro fy faber fe os Juízes, e os outros da ter-
ra comprem, e guardam aquello, que lhes* he man-
dado (b) *: primeiramente deve a andar per cada huú
lu-
(• ) ~s cou íos íu~s (Ó) cllc mandou S.
Dos CoRR!iGEDORES DAS COMARCAS, ETC. 131

lugar de feu Julgado duas , e tres vezes no anno, ou


huã ao menos ; e nom deve fazer morada grande nas
Villas boas, nem morar hi, falvo fe acontecer hi * al-
guma (a)* coufa, que compra de chegar hi, e eíl:ar
hi algum tanto tempo , aalem do que he hordenado,
fegundo fe a jufo declarará, e per Noífo efpecial man-
dado.
3 r ITEM. Deve fazer fcrepver a algum Tabal-
liaõ , ou Efcripvaõ todallas Sentenças que der, e to-
dallas outras coufas , que mandar fazer, també do
feito da Jufiiça, como do veriamento da terra , pera
dar a Nós recado do que fez , e de como o fez , ou
aaquelles, que Nós hi mandarmos; ao qual Taballião,
ou Efcripvaõ, que com elle andar, Mandamos que
o efcrepva, e que outro fy efcrepva quando entrar e.m
cada huma Villa, ou Lugar , e quantos dias hi effr_
ver, e quantos feitos hi defembarguar.
32 ÜuTRO sY deve requerer o que fezerom os
Vereadores * em (b) * cada hum lugar, e aquello,
que hã de fazer , e fe achar, que nom fezerom o que
deviaõ, íl:ranhe-lho, como no feito couber; e fe achar,
que em alguú luguar nom foram poíl:os Vereadores,
faça-os poer quaees , e quantos entender que com-
pre.
33 ÜuTRo SY devem os Corregedores feer bem
dilligentes , e proveer como nas Villas, e Lugares de
fua Correiçaõ os Juizes, Vereadores , e Almotacees ,
R2 e
132 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TR.ES

e outros quaeefqucr Officiaaes dos Concelhos com-


prem , e guardam , e dam á eixecuçom o que a cada
hum perteence de fazer , fegundo he contheudo no
artigo de feus Officios ; e fe o affy nom fezerem ,
dem-lhes pena fegundo o cafo requerer; e pera efio
bem proveer, Mandamos que quando o Corregedor
for pela Correiçom, leve o trelado do que ham de fa-
zer os Vereadores, Juizes, e Almotacees dos Con-
celhos.
34 OuTRO SY deve veer fe a Hordenaçom per
Nos feita em rafom dos Lavradores, e mancebos fer-
viçaaes, e outras coufas pera veriamento da terra li,

fom guardadas na Comarca , honde devem frer guar-


dadas , e fe as nom forem , faça-as guardar , e fira-
nhar a aquelles, que as nom guardarom , ou nom
guardarem , como no feito couber de guifa , que fe
cumpra, e guarde aquello, que per Nos hc mandado ..
àa qual Hordenaçom deve levar o trelado quando for
pera a Correiçom , a qual he fcripta no quarto Livro
defias, que ora Mandamos cornpillar, cm tal Titu ..
Jo.
35 ÔuTROsY deve veer fe os Juízes, que fom
poíl:os pelos Concelhos, e confirmados per Nos, ou-
vem os feitos civys , e crimes, e os defembargaõ fem
deteença, como per Nos he mandado; e como os ou-
viram, e defembargarom os Juizes, que per Nos fo-
rom poflos em effas Villas , e Lugares ; e fe achar,
que nom foro dilligentes, íl:ranhe-o a effes Juizes , e
di-
Dos CoRREGEDOREs DAS CoMARCAs, ETC. 133

digua-lhes , e moíl:re todo como façam de guifa, que


fe faça como deve . .
36 OuTRO sy faiba o Corregedor em qual con-
thia leixarom eífes Juizes , que per Nos forõ poftos,
as rendas dos Concelhos, e quanto valiã ora ; e fe va-
lem* meios (a) *, faiba qual hc a razom; e fe achar,
que os Juízes, ou Vereadores fom em culpa, ftra-
nhe-lho, como no feito couber.
37 ÜuTRO SY deve trazer o Corregedor taaes ho-
rneés , que nom façam dapno , nem * efpeitamen-
to (l,) * na terra , e fe fouber que taaes fom, deite-os
de fa companhia, e eíl:ranhe-lhes, fe mal fezerem.
3 8 ÜuTRO sY Mandamos, que os Corregedores
em cada huú Julguado de fa Comarca vejã a Horde-
naçom , que fezemos em razom dos Beefl:eiros do
Conto, e faibã fe fe guarda como em ella he contheu-
do; e fe acharem, que fe nom guarda, façaõ-na guar-
dar, e ílranhé-no a aquelles, por cuja culpa nom he
guardada , como entenderem , que o devem fazer de
direito.
39 ÜUTRO sv os Corregedores devem faber fe os
apoufentados per hidade , ou per doença , ou per al-
leijom fe fom feitos fem mallicia, e fem enguano pela
guifa , que he mandado na Hordenaçom ora nova-
mente feita, e fe acharem, que nom fom feitos, co-
mo devem , façaõ-no logo correger , como no feito
couber.
40 Ou-
(a) . mcos S. (b) dcfpeilamcnto S.
134 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

40 ÜUTRO sY vejam os foros de cada huú luguar


pera veerem, que honra devem d'aver os que forem
poufados, e fegundo em o foro for contheudo , aífy o
façã guardar de guifa,que fe faça em todo Nofio fer-
.
vico como deve .
41 ÜuTRO sY porque fomos certo, que Clerigos
d'Oordeés Meores, e alguús d'Oordeés Sagras por
esforço , que haõ em eflas Hordeés , fazem alguús
maaos feitos, furtando, e fazendo outros maaos fei-
tos, e feendo confentidores em elles, e encobridores
delks, e que lhes nom he eftranhado per feus maio-
res, a faber, Arcebifpo, e Bifpo , e feus Vigairos , co-
mo o direito quer, e corno he vontade dos Santos Pa-
dres , fpicialmente do Papa Cremente o quinto , co-
rno he contheudo em huma fua Degratal Cremencia,
que he no titulo do Officio do Juiz Hordenairo no
Capitulo primeiro , pola qual razom rccrece grande
efcandalo.
42 MANDAMOS aos Corregedores, que frontem ao
Arcebifpo, e Bifpos, e a feus Vigairos, que caíhguem
eífes Clerigos, e lhes dem as penas contheudas no di-
reito, e que os metaõ a tormento, quando ouverem
prefunçom contra elles , ou fama, ou outro alguú
aminiculo, affy como o direito manda, afiy que fai-
baõ delles a verdade pera haverem de fecr firanhados
os maaos feitos, e os outros filharem enxemplo ; e
que outro fy amoeftcm os Clerigos , que tragaõ as
coroas abertas, e Tonfuras, como devem; e que ufé
dos
Dos CORREGEDORES DAS COMARCAS, ETC. 135
dos Officios, que perteencem aos Clerigos como o di-
reito quer , porque nom o fazendo aíly , os outros
Clerigos fom por ello menos prezados , e grande dãp-
no fe fegue ao Povoo; e Mandamos ,que fejam amoef-
tados per tres amoeíl:açooés, e fe defpois dello forem
achados nos ditos maleficios, que as Jufiiças Sagraaes
façaõ delles direito; e que fejam certos, que fe o elles
affy nom fizerem, que Nos, e Noílas Juíl:iças faremos
fobrc ello o que entendermos, que he mais ferviço de
DEOS , e affeffeguo da terra ; e da fronta , que lhes
fezcrem , e da refpoíl:a, .que elles hi derem , affy fi-
lhem eíl:ormentos ; e fe effes Corregedores em effas
Correiçooés acharê algús Clerigos malfeitores, e effes
malleficios lhes naõ forem íl:ranhados, como o direi-
to quer , feitas as ditas frontas a feus maiores , en-
viem-nos dizer toda a verdade do. feito , pera lhes
mandarmos como façam.
43 OuTRO sY Mandamos, que como os Corre-
gedores cheguarem a cada huú lugar, façaó chamar
aa Camara , ou aa Caía do Concelho os Juizes, Ve-
readores, Procurador, e Hoomees boõs do luguar , e
elles juntos com acordo delles, fe acharé , que faz
meíl:er , tomarom feis homeés boos do luguar , e elles
juntos, com acordo delles farom apartar dous a cada
huma parte , e mandé-lhes , que lhe dem cada huú
deíies dous homeés em efcripto apartado fobre fy
quaees lhes * parecem (a) i t , que fom perteencences

--------·- -----
pera
(P) parecerem S.
136 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TR'ES

pera Juizes, affim Fidalgos, como Cidadaaõs; e em


outro titulo dem quaees fom perteecentes pera Ve-
readores, e em outro titulo lhe dem quaees fom per-
teencentes pera ferem Procuradores ; e em outro (a)
lhe dem os Taba:liaaés todos, e os Hoomeés boõs to-
dos deffe Lugar, que forem perteécentes pera ferem
Efcripvaaés da Camara, e beés deffes Lugares, e affy
dos Horfoõs .; e affy em outro titulo lhe dem os que
fom perteecentes pera Juizes d'Efpritaaes nos Luga-
res , bonde fe acofl:uma, que o nõ fom os Juizes Hor-
denairos , e he Juiz apartado ,... per (b) * fy ; e cftes
rooles farom , e fe apartaram a fazer cada dous Ho-
meés boõs deffes feis em tal guifa , que fejam tres
rooles.
44 Locuo tanto que o juramento for dado, fem
falando mais huús com os outros, falvo os dous, que
forem apartados huú com ho outro , nom alçaróm
delles maaõ, nem fe partiróm d'hi ataa que fejam
acabados ; e como forem acabados , dem-nos c1. elle
dito Corregedor , e como lhe forem entregues , ve-
ja-os, e.concerte huús com os outros, prefente os Of-
ficiaaes , que ora fom , e que fique bem declarado
quaaes ficaõ ,e fom perteécentes pera Juizes, e quaees
pera Vereadores, e quaees pera Procuradores; e elles
affy apartados farom efcrepver em huú livro do Con-
celho affinado per fua maão, e outro fique em elle
dito Corregedor, poendo em effe livro cada huú em
feus
(a} titulo S, (b) fobrc S.
Dos CoRR!GEDORES DAS CoMARCAS, ETC. 137
feus ti tu los pera qual Officio fom; e defpois que aca-
bar todollos lugares, envie a Nós eífe livro para nos
ficar.
45 E FEITO tal repartimento, e inliçom affy con-
cordada , faróm pelouros per efta guifa pera Juizes.
Se de foro , ou de coftume do lugar he que huú dos
Juizes feja Fidalgo , e outro Cidadaaõ , apartará efles
Fidalgos, que forem perteencentes pera ferem Juízes
• em outros pelouros, e em outro (a)* faco apartado
fobre fy; e os Cidadaaõs, que forem perteécentes pe-
ra ferem Juízes em outros pelouros, e em outro faco
apartado fobre fy; e nos lugares huu tal coftume, ou
foro nom ouver, aífy os Fidalgos, como os Cidadaaõs
todollos que pera J uizes forem perteencentes , e ef-
colheitos , fejam lançados em huú fac o ; e outro fy os
que forem perteencentes pera Vereadores , íejam pof-
tos em outros pelouros , e em outro faco apartado ; e
affy os Procuradores em outro faco; e em cada huú
faco de fora poeram huú efcripto, que digua pera que
foro os pelouros , que dentro jazem ; e eftes facos to-
dos farom poer dentro em huma arca bem fechada
de duas fechaduras , e de duas chaves, e huma das
chaves teerá hum dos Juízes , e a outra teera hum
dos Vereadorçs. E com eftes facos , e Officiaaes , e
pelouros, que dentro jouverem , nom bullam , nem
mudem em elles huús por outros os Officiaaes , que
pelo tempo forem.
Liv. I. S 46 E
(e) cada hum cm fcu pelouro I e lanfallo-ham. cm bum S,
138 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

46 E AO tempo que ouverem de fazer os Offi-


ciaaes , fegundo feu foro , ou coíl:ume , rnandarom
apregoar o Concelho, e prefente todos, meterá huú
moço de idade ataa fete annos a rnaaõ , revolvendo
bem effes pelouros em cada faco, e d'hi tirará de ca-
da huú os pelouros, que cumprir pera os Officiaaes;
e aquelles , que affy fairem nos pelouros , fejam Offi-
ciaaes effe anno , e outros nom.
4 7 E os Juizes rnandarom requerer as Cartas pe-
ra ufarem do Officio do julguado ao Corregedor, ou
ao Senhorio, que lhas ou ver de dar, e ataa que hajam
as ditas Cartas , nom ufarom do dito Officio, e os que
o contrairo fezerem , ha verom por ello aquella pena ,
que Noffa mercee for de lhes dar.
48 E A 1::ssts Juízes~ que fom, ou ora entrarem
per os ditos pelouros 1 mandem os ditos Corregedo-
res, que tirem logo Inquiriçom fobre os Juízes, que
fairom (a) o anno paffado, e comecem logo de tirar
a Inquiriçom , e acabem-na do dia, que elles entra-
rem no dito Officio ataa huú rnez ; e enviem-na a.
Nós do dia , que for acabada ataa quinze dias farra-
da , e affeellada com o feelo defie Concelho , bonde
tirada for ; e eíl:o fob pena de pagarem os das Villas
Cercadas tnil reis cada huú, e os das terras Chaãs tre-
zentos. cada huü,
49 E AOS Juizes, e Coudees, que ora forn, e fo-
rem daqui em diante, e affi aos Meirinhos, e Alquai-

-------------
des
(•/ toraã S.
Dos CORREGEDORES DAS CoMA.ltCAS' ETC. 139
des defenderom da Noífa parte, que nom levem pei-
tas, nem ferviços , nem teenças de nenhuãs pefioas
que fejam , poíl:o que naõ hajaõ feitos perante clles ,
nem hajam conthias pera terem cavallos, e Armas ,
ou mereçaõ fer prefos por alguús erros , falvo fe for
de feus Padres , e Madres, ou afcendentes , ou filhos,
ou feus defcendentes , ou feus Irmaaõs , dos quaees
poífam tomar quaeefquer coufas , que lhes derem, ou
de feus Senhores, com que viverem: o~tro fy poffam
tomar íerviços de feus parentes aaquem do quarto
graao, e de feus Cafeeiros , e familliares , com tanto
que o ferviço nom paífe de húa marraã, ou d'huum
carneiro, e mais nom ; e [e lhes algúa pefioa quizer
fazer doaçom de beés , ou d'outro ferviço qualquer ,
enviem-no-lo dizer, pera Nós veermos, fe he bem
de lhes darmos pera ello licença. E eíl:as coufas fofo
ditas guardarom cm fy os Corregedores , e farom
guardar aos outros; e fe o contrairo fizerem, e vier
àa Noífa * Vedoria (a)*, dar-lhes-emos por ello gra-
ve pena.
50 E PORQ.Y'E por Nós he hordenado que hi nom
haja Alquaides pequenos, falvo de tres em tres an-
nos , nos lugares , bonde he foro , ou coíl:ume , que
os Alquaides maiores ponhaõ os Alquaides pequenos ,
defenderom os Corregedores a feus Alquaides peque-
nos, que ora fom, que nom uzem mais dos Officios,
que os ditos tres annos, falvo fe teverem os ditos Of-
S2 fi-
(n) fabcdoria S.
140 LrvRo PRIMEIRO TITULO VINTE F TRES

fiei os per Noífa Carta efpecial; e os que tal graça nom


teverem, os tres annos acabados , requeiraó aos Al-
quaides maiores, que a apraziment o dos Horneés
boõs dos lugares ponhaõ Alquaide pequeno; e como
for poíl:o, feja loguo efcripto no livro do Concelho, e
dern-lhe juramento fobre os Evangelho s, que bem, e
direitamen te ufe do dito Officio: e nos lugares, hondc
os Nós a vemos de fazer, vejam eífes Horneés boõs al-
guú, que pera ello feja pertécente fem outro roguo,
nem afeiçom, e emviem-no a Nós com fua Carta,
pera o confirmarm os, ou poermos outro, qual virmos
que compre; e nos lugares honde fe de foro, ou cof-
tume fempre pôs per os Concelhos , ufem de feu fo-
ro, ou coíl:ume. E tanto que effes.Alquaides fahirem,
e os outros forem póíl:os, tirem logo os Juizes fobre
elles Inquiriçom , e feja * tirada (a)* ataa huú mez, e
enveada a Nós ataa quinze dias. , como fuío dito he
nos outros officiaaes..
51 E ESTES Alquaides em durando o tempo de
feus Officios, nom fejam rendeiros de nenhúas ren-
das, nem* tenhaó (b) * companhia com os rendei-
ros , fob pena de ferem privados. dos Officios.
52 ÜuTRO sy porque os Alquaides nom querem
prender as barregaãs dos Clerigos , e por fua (e) nc-
grigencia efiaõ com elles em eífe peccado , Manda-
mos a effes Corregedor es, que fe acharem, que ellas
affy vivem, e nom fom prefas, que compram a Hor-
de-
(a) açabáda (b) tomem S, k) mingua I e S,
Dos CoRRE GEDOR ts DAS CoMAR CAS, ETC. 14r
denaçom nos ditos Alquaides , e levem delles as pe-
nas contheudas na dita Horde naçom ; e nom o fa-
zendo affim , fejam certos , que lhas faremos pagua r
em trefdo bro pera a Noífa Chancellaria.
53 E PORQY E, pofto que pelos Reyx, que ante
Nós forom , foífe defefo , que nom trouxeífern armas ,
fc nom certas peífoas , avemos por certa inform a-
çom , que fe nom guard ava, nem guarda agora em
aquell es, a que defend emos, que as nom traguam , e
efto por aazo dos Alquaidcs maior es, que mandavaõ
a todos os feus , que as trouxe ífem, e davam licença
a outros que as trouxeffem , e o Alquaide pequeno
nom as tornav a, nem coutav a a aquell es, que as tra-
ziaõ , e por efto nom lhes era dado efcarm ento, nem
poíla pena a eífes Alquaides ; e porque elles fazem
mui mal defpenfarern com a Ley, e fazem todo con-
tra Noífo manda do, nom a vendo tal poder ; com acor-
do dos do No(fo Confelho poemos por Ley , e Man-
damos , que nenhu ú Alquaide maior nom dê licenç a,
nem mande trazer armas nenhuãs a nenhuús , que
com elle vivaõ , nem a outras nenhuãs peffoas da-
quellas , a que per Nós he , ou for defefo.
54 OuTRO sy o Alquaide pequeno quand o quer
que as vir trazer a alguús , fe nom forem das pefioas,
que as per Ley , ou por NolTas Cartas ouverem de
trazer , que as tome, e coute , como lhe he manda ...
do ; e nom o fazendo elle affy, e fazendo o contra iro,
Manda mos a eífe Alquaide moor por qualquer , que
rnan-
LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

mandar trazer arma, ou der licença, que a tragua


contra Noffa defefa, que pague dous mil reis bran-
cos; e o Alquaide pequeno , que nom tomar, ou cou-
tar arma, ou confentir a alguú, que a tragua, pague
mil reis por cada huma vez pera a Nofià Chancel-
laria.
5 5 E PORQ17E em vaaõ foro poíl:as as Leyx , fe
nom ouver quem acufe os que as* britaõ (a)*, e
a verem (b) * eixecutor, e manteedor dellas , Manda-
mos a todollos Tabaliaaés, que fcrepvaõ em feus Ef-
tados todallas peffoas , que virem, e fouberem , que
trazem armas contra Noffa defeza per mandado , e
confentimento deífes Alquaides, que as veem, e lhas
nom querem tornar , e coutar; e os dem em efcripto
ao Corregedor quando a effe luguar, e Comarca vier,
pera os penhorarem por effas penas , e os dinheiros
dellas mandarem entregar ao Recebedor da N oíla
Chancellaria , foh pena de as pagar o Corregedor em
dobro ; e fe effcs Taballiaés eíl:o affy nom fezerem , e
lhes for provado que o fabem , Mandamos que fe-
jam por ello prefos, e paguem a pena anoveada da
Cadêa.
56 ÜuTRO sY Mandamos, e defendemos que os
Carcereiros nom levem peitas, nem ferviços dos prc-
fos, que reverem em fuas Cadêas , nem doutrem por
elles , fob pena de * as pagarem anoveadas (e) * da
Cadêa, e a verem pena nos corpos, qual No!fa mercê
for.
----------------------
('2) britarem S. (b) avcr (cJ pagarem anoveado S.
Dos CoRREGEDORES DAS CoMARCAs, ETC. 143

for. Porém Mandamos aos Corregedores, e aos Jui-


zes , cada huú em fua Comarca , que faibam em ca-
da huú mez fobre eíl:o a verdade per Inquiriçom , af-
fy per os prefos , como per outros , fe as levaõ ; e fe
acharem alguús culpados , façam-nos prender, e fa-
zer delles direito.
57 ÜuTRo sy porque alguús malfeitores, que fom
culpados notoriamente em muitos graves exce!fos ,
andaõ per partes do Regno, e porque fom chegados
a alguús poderofos, as Juíl:iças os nom podem pren-
der , pera fe delles fazer cumprimento de direito ,
Mandamos, que os ditos Corregedores fejaõ bem di-
ligentes pera taaes malfeitores haverem de feer pre-
fos ; e fe acharem pelas Inquiriçoões, que fobre el-
les , ou cada huú delles forem tiradas , que fom cul-
pados em graves rnaleficios , e eiceífos , a!fy como
ferem treedores , e aleivofos , ereges, e fodomitas,
falfairos. de moedas , teedores de caminhos, ou rou-
badores d'eftradas, ou Iadroões publicos, ou forçado-
res de mulheres , ou matadores de homeés fem por-
que ,. ou fcalladores de caías , ou outros cafos feme-
lhantcs , e por taes fejam avudos, e defamados em
effa Comarca, bonde affy fezerem os maleficios , fa-
çam elles, e os Juízes per tal guifa , que os prendaõ.
58 E SE alguús Fidalgos, ou Bifpos, ou Meef-
tres, ou Abbades, ou outras peffoas poderofas os trou-
xerem comfigo , e forem os Corregedores certos per
tefternunhas, que os trazem comfigo , ou os teem em
fuas
144 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

fuas cafas, requeiraõ-nos , que os entreguem , ou lan.


cem fóra ; e nom os querendo entregar , ou lançar
fóra, provando-fe , que os trazem comfigo, ou os
* confcntem (a)* , depois que o negarem, e fóra de
fua cafa, e companhia nom lançarem, que pareçam
per peJToa perante Nos a certo tempo a fe efcuzar
dello.
59 E SE pela ventura os maleficios , em que os
malfeitores fom culpados, forem leves , em que nom
averiaõ de morrer, poíl:o que lhes provado foife, e
defpois que lhes affy for requerido , os nom deitarem
fora, como dito he, paguem por cada vez que os
nom entregarem , ou lançarem fora, cem coroas pera
a Noífa Chancellaria ; e teeraõ avifamento, que lhes
façam os requerimentos tantas vezes, que a elles con-
venha de os entreguar , ou lançar fora ; e levarom
comfigo Tabaliaães , ou Tabaliaõ fe hi mais d'huú
nom ouver, ao qual farom efcrepver os requerimen-
tos, que lhes affy fezerem, e eifo medês aos Efcrip-
vaaés, que perante cUes fcrepverem; e nos enviarom
todo o auto, que aífy fezerem, pera o veermos, e
com fua defobediencia ., pera em feus beés , ou ren-
das Mandarmos fazer logo eixecuçom pola dita pe-
na; e aalem dello, procederemos contra elles, fegun-
do per direito acharmos. E para feermos certo quaes
eifes malfeitores fom, Mandamos aos ditos Correae o
..
dores , que nos enviem todallas querelas, e denuncia..
çoões,
Dos CORREGEDORES DAS CoMARCAS, ETC. 145
çoões , eíl:ados , e informaçoões, que dos ditos malfei-
tores , e cada hum delles teverem , pera as veermos ,
e procedermos contra elles , e os * baniremos (a) * .
60 E CONTRA eíl:es , que affy acharem culpados
nos graves maleficios, farom poer Edictos nas Pra-
ças dos lugares , onde faõ moradores , e teem feus
beés , e parentes , que do dia, que for poíl:o o dito
Edicto a dous mezes, fe venhaõ livrar, e moftrar por
fem culpa dos ditos exceífos, em que fom culpados,
perante Nós ; do qual termo, corno for poíl:o a cada
huú , nos enviaram fazer certo por Efcri ptura publi-
ca, porque norn viindo, nem parecendo ao tempo ,
que lhes affy for affinado, procederemos aa fua reve-
ria contra elle., e faberemos a verdade; e fe o achar-
mos culpado, daremos a Sentença contra elle, e con-
dapnaremo-lo á morte; e Mandamos aos Corregedo-
res, Juizes, e Juíl:iças, que os hajam por banidos, e
que apelidem fobre elles toda a terra , pera os have-
rem de prender , e como forem prefos , que fejam
logo enforcados , e mortos fem mais alçada , feendo
cerras as Juíl:iças , que aquelle, que aífy for prefo,
he aquella peffoa , que affy for banida, e nom outra.
61 OuTRO sv qualquer , que o matar, o poffa
matar fem pena ; e fe for fabudo , que algúa peffoa ,
de qualquer eíl:ado e condiçom que feja, o .encubrio,
ou trouxe em fua cafa , ou trouver comfigo , e nom
o differ aas Juftiças defpois que affy for julgado, fe
Liv. 1. T for
[R] bannirmoa M. punirmos S.
146 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

for Fidalgo, ou Vaffallo, ou peífoa honrada, porca-


da vez pague cem Coroas d'ouro para a Nofia Chan-
cellaria ; e fe for de mais pequena condiçom , feja
açoutado publicamente pola Villa , e feja degradado
ataa Noffa mercee ; e em effes procedam os Correge-
dores , e effes Juízes affy contra elles, julgando-os
por Sentença , e dem appellaçom pera Nós , tcen-
do-os em tanto bem prefos , pera fe em elles poder
cumprir direito, e Juíl:iça; e fe as fobreditas peíloas
fabendo honde efravaõ taaes malfeitores afly julga-
dos os nom defcobrirem aas Juftiças , pofto que os
nom encobriffem em fuas cafas , ou comfigo trouxef-
fem , paguem cinquoenta Coroas.
62 E ESTO , que fofo dito he na primeira parte >
a faber, do que encobria, ou trouxe comfigo, nom
fe entenda nos parentes do banido ataa o quarto
graao, porque efles Mandamos, que nom • paguem
(a) * mais de trinta Coroas ; e fe os nom culparem
em outra coufa , falvo em o nom noteficarem aas
Jufliças , fabendo onde eíl:avaõ , que nom ajam por
ello pena algúa.
63 ÜUTRO sY efto , que fofo dito he, de paguar
a dita pena , haja lugar em aquellas peffoas , que en-
cobriram, ou comfigo trouxeram ,ejá nom teem fa-
culdade de o entregar aas J uftiças ; ca fe o ainda te-
veffem em fua cafa, ou comfigo trouxeffem , feendo
requeridos, e o nom entregando, Manda.mos que af-
fy
(R) dcm S,
Dos CORREGEDORES DAS COMARCAS> ETC. I4 7

fy dentro em fuas caías, como fora per qualquer via,


e modo, que o poílam prender, e haver aa maão, que
o prendaõ. E fc taaes peífoas , ou Senhores forem, os
que os aífy ocultarem , ou comfigo trouxerem , que
por fua grande potencia os nom pofi:,m prender os
ditos malfeitores, que tanto que os requererem, que
os entreguem ; e nom os querendo entregar , que o
emprazem que venha per peífoa perante Nós refpon-
der por ello ; e fe fe nom efcufar de tal culpa , feja
fufpenfo de fua j urdiçom , a qual tomem , e tenhaõ
em Noffo nome ,ataa que fobre ello vejaõ Noffo man-
dado.
64 ÜUTRo sY Mandamos, que faibaõ nos Luga-
res , onde ha pe!foas , que ufem àe hir a Moeíl:eiros ,
ou fom enfamados com alguãs Donas delles , e def-
fendaõ .a elles, que nom vaaõ mais a effes Moeíl:eiros
de noute, nem de dia ; e os que acharem que a elles
mais vaaõ depois da d :.ta defefa, fejam logo degra-
dados deffa Correiçaõ ataa Noífa merece ; e fe forem
outros d~ mais pequena condiçom , prendaõ-nos , e
enviem-nos a defefa, que lhes fezerom , e as Inquiri-
çooés, que reverem contra elles, pera lhes dar-mos
pena , qual Noffa merceê for: e tal recado leixem aos
Juizes dos lugares, que affy o façam.
6 5 ÜuTRo sy Mandamos, que requeiraõ aos Bif-
pos de fas Correições, que lhes enviem huú homé
boõ de boa fama , e com effe .homem tirem Inquiri-
çom , e faibarn em cada huú lugar, aili por teíl:emu-
T2 nhas,
148 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

nhas, como por efcriptura , como o melhor poderem


faber , cujo he o Padroado das Igrejas deífcs lugares,
e fe os Bifpos , ou outrem aífy da Bordem , como
Fidalgos , e Leigos fe chamarem Padrociros deffas
Igrejas, ou de cada huma dellas, requeiraõ-nos, que
lhes deem as provas, e os façam dello certos por ef-
cripturas, ou per teftemunhas, e tirem fobre * todo
(a)* lnquiriçoões, e acabem-nas fem delongua, e
emviem-nas logo a Nós ; e quando aífy ouverem de
tirar eífas Inquiriçoões , logo requeiraõ a eífes , que
fom Padroeiros, que lhes moftrem per efcripturas ,
ou provem per te!lemunhas ataa tempo certo como o
Padroado a elles perteence , pera todo mandarem a
Nós ; e que fejam certos , que fe o aífy nom mofira-
rem, ou provarem, que nom ferom mais ouvidos.
66 E PORQlJE os Concelhos fe aggravaõ dos Cor-
regedores, e dos Officiaaes, que com elles andaõ, que
os coftranguam , que lhes tragaõ os mantimentos aos
lugares , honde :fiam , e lhos fazem vender a menos
preço: Outro fy lhes tomaõ palha, e lenha, que tem
em fuas cafas fem dinheiros, o que Nós avemos por
mal feito: Porém Mandamos, e defendemos, que da-
qui em diante os nom conftrangam que lhes levem
d'huú lugar a outro mantimentos nenhuús, nem lhos
tomem , nem mandem tomar por menos preço ., do
que vallem , nem lhes feja tornada palha , nem le-
nha de fuas cafas contra fuas voontades , e o que ou-

-----·------------
(a) cllo S,
ve-
Dos CoRREGEDOREs DAS CoMARCAs, ETC. 149

verem mefter, comprem-lhe per os feus dinheiros aa


fua voontade.
67 E ASSY Mandamos, e defendemos, que nom
tornem beíl:as d'albarda pera fuas carregas, nem def-
fes Officiaes, nem pera outras nenhuãs peffoas; e os
que as rnefter ouverem , bufquem-nas aas vontades
de feos donos por feu aluguer.
68 E FAÇAM pobricar eftas Hordenaçooés em as
Cidades, e Villas, e Luguares maiores , honde forem
Corregedores; e o Efcripvaõ, que for da Camara nos
Lugares , honde aífy pobricarern , trelade-as no livro
do Concelho , e lea-as cada rnez aos Juizes, e Verea-
dores na Carnara, e quando eíl:everem na Audiencia >
fob pena de pagar por cada vez que as nom poblicar,
mil reis pera as obras do Concelho; e eftas Hordena-
çooés aífy poblicadas ponhaõ-nas na Arca da Chan-
cellaria de cada húa Correiçom.
69 ÜuTRO sY tanto que o Corregedor novamen-
te chegar á fua Correiçorn , tirará Inquiriçom fobre o
Corregedor , que ante elle foi , em cada huú lugar,
perguntando fegundo modo, e fórma contheuda no
titulo feguinte, fe per outra peífoa norn for primeira-
mente tirada per Noífo fpecial mandado.
70 E TANTO que começar a ufar do Officio, e
tirar Inquiriçom , dirá da Noífa parte ao que ante el-
le foi Corregedor, fe ainda for na Comarca , que fe
vaa loguo d'hi , e nom fie, nem entre hi mais ataa
que as Inquiriçooés fejarn acabadas , e enviadas a
Nós,
I 50 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E TRES

Nós, como dito he, falvo fe forem moradores na di-


ta Correiçom; e a e(le dirom, que nom entre no lu-
gar, onde !e tirar a Inquiriçom.
7 r ÜuTRO sY Mandamos , que andem per toda
a Correiçom, e ufem do Officio, como lhes he man-
dado, e façam em tal guifa, que nom ftem nos luga-
res grandes , e cercados mais de quinze dias , e nos
lugares chaãos ataa oito dias, falvo fe pera ello ouve-
rem NolTo efpecial mandado; e fazendo o contraira,
fejam certos , que lho eíl:ranharemos gravemente, e
os penaremos , fegundo for No!fa mercee, e virmos

-
que o cafo * requere (a)¾!-.

------ T I T U L O XXIIII

Em que modo haõ de enquerer fabre o Corregedor da lo-


marca , quando acabar ho tempo de Jeu Ojficio.

E STE he o Regimento , que (b) Mandamos , que


tenhaaes em tirardes Inquiriçom fobre o Corre-
gedor de tal Comarca , pera fermos em conhecimen-
to de como ufa em feu Officio, pera lhe gualardoar-
mos feus boõs mericimentos , ou lhe darmos pena, fe
o mal fez pera todos haverem eixemplo. Primeira..
mente começareis no primeiro Julgado da dita Cor-
reiçom , que pafiar de cem fogos pera riba, e tanto
que
(a) o rcq_ucira (l) vos S, Nós M.
EM Q!JE MODO HAÕ DE ENQ!JERE·R , ETC. I 5I
que hi fordes , chamarees os Juizes, e Officiaaes, que
forom o anno paífado, e os Taballiaaés e quatro, ou
cinquo dos mais principaaes homeés do dito lugar, e
perguntalos-ees per eíl:es Capítulos a jufo efcriptos ,
declarando a cada huú delles, que o dito Corregedor
nom ha de tornar aa dica Correiçom ; e d'hi vos hirees
continuando voffo caminho per todollos Julgados da
dita correiçom, que paffarem dos ditos cem fogos pe-
ra riba, ataa onde fieverem os Officiaaes da dica Cor-
reiçom , e defpois que no dito lugar fordes , pergun-
tarees aos ditos Officiaaes polas coufas em efies Capi-
tulas a jufo efcriptos contheudas , e o que fobre ello
differem, aífy * do mal , como do bem ( a) * , efcrep-
velo-ees pera de todo avermos certidom.
I PRIMEIRAMENTE fe enquererá fe em cada huú
anno fazia Correiçom por todollos Lugares , que aa
dita fua Correiçom perceence; e fe em alguús, ou em
alguu dos ditos Lugares leixava d'entrar pera ufar de
feu Officio por rogo , ou temor dos Senhores dos Lu-
gares, bonde aíli efcufava d'hir; e fe efieve mais tem-
po em cada huu dos ditos Lugares do que lhe na
Hordenaçom he mandado ; e fe teve maneira , que a
jurdiçom Noffa foífe bem guardada , ou fe per feu
querer leixava aa Clerezia, ou a alguús outros Senho-
res obrar em perjuizo da Noffa jurdiçom.
2 ITEM. Se tomou aa Clerezia , ou a Fidalgos ,
ou a Concelhos das J urdiçooés , que a elles perceen-
ce,
(a) --------- --
de bem , como do concrairo,
J 52 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E QlJATRO

ce , conhecendo das coufas , de que norn devia de co-


nhecer.
3 ITEM, Se fazia Audicncia aas partes aos tem-
pos, que hordenadamente lhas devia fazer, e fe def-
embargava feus feitos defpachadamente, guardando
a cada huú feu direito, afiy como devia.
4 ITEM. Se recebia peitas d'alguús de fua Co-
marca, e quejandas eram, e fe recebia dadivas d'al-
guús Senhores, ou Fidalgos por lhes feer favoravel
em alguús fcus feitos, ou dalguús feus.
5 ITEM. Se por poder de feu Officio tomava al-
guus mantimentos fem paguar por elles dinheiro, ou
por menos preço do que valliam , ou fe fe fazia fervir
por alguús homcés da dita fua Comarca por feus cór-
pos, ou carros , ou bêíl:as , ou outras ferventias, nom
lhe pagando aquello, que lhe direitamente he horde-
nado de pagar , ou fazia a algúas peífoas outras fem-
razooês.
6 ITEM, Se fe trabalhava de faber parte em a dita
fua Comarca , fe havia hi alguús malfeitores , e fa-
bendo-o os nom prendia , ou fazia prender pera fe
delles fazer cumprimento de Juíl:iça; e fe aos mal fei-
tores, de que certidooem ouve , deu favor de anda-
rem na dita fua Comarca , prefente elle , ou per ella,
ou lhes deu luguar, que a feu falvo fe foífem.
7 ITEM. Se fez paguar algumas malfeitorias , ou
tornadias , que em a dita fua Comarca fejam feitas
per alguús Fidalgos, e Abbades, ou outras peífoas
po-
EM QlTE MODO HAÕ DE 'ENQ..UERER, ETC. I 53
poderofas, ou alguús roubos , que alguús homeês dos
fobreditos eífo mefmo fezeífem em ella de guifa , que
os querelofos foffem conten tes, e fatisfeitos.
8 !TEM. Se pelos Lugare s* de (a)* fua Comar -
ca, per onde andava , fazia correger os muros das
Villas , que dapnificados foífem, e as pontes , e fon-
tes , e caminhos , e proveer as prizooés das Cadêas ,
fegundo em o Regim ento , que teem , lhes he man-
dado.
9 ITEM. Se fazia aos Taballiaaés , e Scripva aés
da dita fua Comar ca guarda r, e mantee r os Artigo s,
que jurarom na Noffa Chancellaria , e defpachar as
Efcripturas aas partes , e lhes nom levarem por ellas
maior preço do que lhes he taufado d'avere m.
10 ITEM. Se achou, que em a dita fua Comar ca
eraõ alguús bandos antre alguús Fidalgos , ou aiguús
Concelhos com outros, e fc trabalhou de os ditos ban-
dos tirar, e arredar de guifa, que foífem todos em
boa concor dia.
11 ITEM. Se achou, que alguús Lugare s, ou Vil-
las da dita fua Comarca eraõ defpov orados , e fe tra-
balhou faber a caufa, porque defpovoraçom fe fazia,
e encami nhando como fe tornaífem a povorar , e as
herdad es, e vinhas aproveitar.
12 ITEM. Se confentia aos feos Efcripv aaés, que
levaífem das Efcrip turas, que fizeífem mais do que
lhes he taufado , e fe davam as ditas Efcript uras per
Liv. I. V boõ
(a) da dita
154 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E Q.YATRO

boõ ·:t defembarguo (a)* aas partes, e fe confentia a


alguús, que com elle andaífem, fazer alguús mallefi-
cios, ou dapnos na terra.
13 ITEM, Se executou o dito Corregedor em tem-
po as Hordenaçoões do Regno em as mancebas dos
Clerigos , ou fe lhes levou as penas d'ellas , leixan-
do-as eftar no dito peccado 1 por cobiça dos ditos di-
nheiros.
14 lnM. Perguntaróm aas ditas tefiemunhas, fe
fabem ellas outras algumas coufas, aalem defias , que
aqui fom contheudas, e que as diguam per o jura-
mento, que aili ham feito, e fe affeente pelo Enque-
redor, e Efcripvaõ.
15 ITEM. Se diíferom alguãs defias coufas , que
fejam perguntadas, como o fabiam, e per quem, e
quaees eraõ as peífoas culpadas em ello com o dito
Corregedor, ou que dello fabem parte, e affy fejam
declaradas, e fegundo a declaraçom, que fezerem ,
referendo-fe a alguãs outras peífo:is , affy fejam logo
perguntadas aquellas, a que fe affy * refererem (b) *
as ditas teíl:emunhas em tal guifa, que a verdade feja
compridamente fabuda.

TI-
(u) defp~cho S, dcfcmpacho M . (t) referem S,
DA MAN.EIRA,QyEHA Õ DETEERosJuIZE s,nc. 155

TITULO XXV.

Da maneira , que ham de teer os Juizes, que ElRey


manda a alguás Vi/las per feu fervir;o , e do poder,
que ham de levar.

E LREY Dom Joham Meu Avô fez húa * Hor-


denaçom ( a) * ácerca do modo , e regimento ,
que haviaõ de teer os Juízes, que por elle eram man-
dados a algúas Comarcas ; e poíto que quando ora
mandamos alguús Juízes por Nós a alguãs Cidades,
ou Villas , ou per requerimento dos moradores dei-
las , ou por entendermos aífy por ferviço de DEOS,
e Noífo, e prol da terra, os Juízes Hordenairos cef-
fam, e nom deve hi aver outro , falvo aquelle, que
por Nós he enviado, e elle deve tomar conhecimen-
to de todallas coufas , e feitos, de que tomavam co-
nhecimento os hordenairos ; pero por fervir a dita
Hordenaçom em algu ús cafos quando ocorrerem , a
Mandamos poer aqui : a qual he efia, que fe adiante
fegue.
1 DoM JoHAM pela graça de DEOS Rey de Por-
tugal, e do Algarve. A quantos eíl:a Carta virem fa-
zemos faber, que por fatisfazermos (b) ao que (e) fo-
mos theudo pelo eíl:ado, que nos* DEOS (d) *deu,
de* regermos (e)* em eíl:es Regnos , palas coufas,
V 2 que
{a) Lcy S. (l>) a DEOS S, (e) lhe S, (d) Falta S, (,) rcgnarmos S,
156 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E CINCO

que nos forom ditas , que fe faziam nas Correiçooés


da Beira como nom deviam , e per fabermos os mal-
leficios , que nos eram dictos , que na dieta terra fa-
ziaõ, e poinham em obra como a Nós era denuncia-
do, e fama (a) fahia grande pola terra ; e pera poer-
mos fcarmento aaquelles, que acharmos culpados de
guifa, que fofTe eixernplo aos outros, que taaes coufas
nom cometeffem ; outro fy pera poermos a[efeguo na
dita Comarca, e darmos regra aos noffos fobjeitos co-
rno daqui endiante viveffem em paz, e em verdadei-
ra Jufiiça ; porque por vezes Mandámos aa dita Co-
marca Corregedores , e outros No!fos Officiaes , que
pugniffem os malfeitores, e fizefTem correger, e guar-
dar as malfeitorias , que fe hi faziam , e perque por
elles nom fe corregeo, corno cumpria a Nofio fervi-
ço , e a bem do cõmum ; por tanto nos movemos hir
aa dita Comarca correger, e emmendar as ditas cou-
fas per Nós , e pera reformar a dita Comarca, e tor-
nar ao eftado, que eíl:ava em tempo de Noffo Avoo,
e de No(fo Padre, cujas almas DEOS perdoe. E por-
que achámos , que na dita Comarca fe faziam mui-
tos malleficios , e malfeitorias pelos Cavalleiros , e
Efcudeiros, e Homeés d'Armas, e pelos feus, e ou..
tro fy pelos Tabaliaaés, e por outros (b) Saiooés; e
porque Nos demos as terras aos Cavalleiros, e Efcu-
dciros , e aos outros grandes da dita Comarca com
fuas Jurdiçooés, e em effas terras nom fe fazia direi-
to,
(a) defto S. (h) muitos S,
DA MANEIRA, QYE HAÔ DE TEER OS JuIZES, ETC, I 57
to, nem Jufiiça, como devia, e effes, a que Nos de-
mos as terras , e os feus Juízes , e Meirinhos, e Ou-
vidores confentiam em effas terras, que fe fezeffem
as malfeitorias , e malleficios ; e querendo Nós com
a ajuda de DEOS poer remedia a eíl:o, qual compre
a Noifo ferviço , e aa prol cúmunal da terra, Acor-
damos com os do Noffo Confelho por ferviço de
DEOS, e Noffo, que pozeífernos Juízes por Nós em
Lamego, e em Vizeu, e em na Guarda, e em Tran-
cofo, e em Pinhel, e em* Coimbra (a)*, e em Caf-
telbranco ; e aalem dos termos deífas Cidades, e Vil-
las, lhes demos Jurdiçom nos oucros Julguados das
terras Chãas, e Villas caíl:elladas da dita Comarca ,
repartindo eifes Julguados a effes J uizes , fegundo hc
contheudo nas Cartas, que lhes demos deffes Officios;
e pera elles faberem o que ham de fazer nos ditos J ul-
guados das outras cerras , que lhes repartimos , lhes
fezemos huma I-Iordenaçom, que fe adiante fegue,
pera os ditos Juízes tomarem conhecimento de to-
dollos maleficios, que fe hi fezerem, ou te verem fei-
tos d'ante os Fidalgos, e os feus , e prendelos , e pu-
nilos , fe commeterom , ou cometerem taaes malefi-
cios nos ditos Julguados, perque mereçaõ feer pre-
fos, ou a verem pena de Juíl:iça; e eífes Juízes devem
d'ouvir os ditos Fidalgos, e os feus, e dar livramento
nos ditos feitos crimes , recebendo appellaçooês , e
aggravos nos cafos, que per direito , ou Hordena-
çooés
(a) Covilhaã S,
1 ç8 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E CINCO

çooés do Regno as devem de receber ; e poíl:o qu~ as


partes nom queiraõ appellar , appellem eífes Jurzes
pola Juíl:iça nos cafos, em que devem d'apellar fe-
gundo as Hordenaçooés dos Regnos.
2 OuTRO sY tomem conhecimento de todallas

forças, e injurias, e roubos, que os ditos Fidalgos fe-


zerom , ou tezerem nos ditos Julguados, e ouçam os
ditos feitos das ditas injurias, e forças, e roubos, pof-
to que fejam civelmente demandados, e dem em cl-
les livramento , como dito he dos crimes : e eíl:o fe
entenda quando lhes for denunciado, e as partes que-
rem demandar effes Fidalgos, ou os feus perante el-
les , e d 'outra guifa nom.
3 ÜuTRO sY tornem conhecimento de todallas
malfeitorias , que os Fidalgos, e os feus fezerom , ou
fezerem nos ditos Julgados , e o façam correger , e
pagar por feus bens quando pera eíl:o forem requeri-
dos , fegundo he contheudo nas Hordenaçooés Nof-
fas , e dos Noffos Anteceífores.
4 ÜuTRO sy tomem conhecimento de todollos
aggravos , e dapnos , que os lavradores receberam ,
ou receberem dcífes Fidalgos , e dos fcus fobre as pa-
lhas , e lenhas , e hcrvas , e prados, e pacigoos , e la-
voiras, e tapageés; e fe lhes levam maiores fóros, ou
rendas , ou direitos , ou direicturas , ou rendas dos
Cafaes , e herdades, e doutras coufas que aquello,
que lhes per direito , ou foro , ou coíl:ume anticro de-
º
vem de levar: e eíl:o fe entenda quando fe lhes aggra-
va-
DA MANEIRA,Q YE 1-IAÕ DE TEER OS juJZES,ETC , 159

varem os lavradores dos ditos Fidalgos, e dos feus das


coufas fobreditas. E fe fe deíl:o nom aggravarem os
lavradores, nom tomem deíl:o conhecimen to os ditos
Juizes, e leixem effcs feitos aos J uizes das terras, em
quanto os lavradores * allo (a ) * quifercm demandar
effes Fidalgos; e nos contrautos , que effes lavrado-
res de feus tallentes fezerem com e!fes Fidalgos fo-
bre coufas movees, effes Juizes nom tomem conhe-
cimento, e livrem-fe perante os Juízes* deffes luga-
res (b) *, ou perante o Corregedor da Comarca, q uan-
do per effcs Julgados for.
5 ÜuTRo SY cm todos os ditos feitos, de que os
ditos Juizes ham de tomar conhecimen to dos Fidal-
gos, e dos feus, ajam poder de coíl:rangcr as partes,
que venhaõ perante elles , e outro fy as outras teíl:e-
munhas, e Porteiros, Tabelliaaés , e Jurados, e Vin-
taneiros, que façaõ o que lhes effes Juízes mandarem
no que perteencer aos ditos feitos , fem os quaaes ef-
fes feitos nom poderiaõ fer findos.
6 (e) ÜuTrw sY ajam poder de coíl:ranger os Juí-
zes dos ditos Julguados , e os Meirinhos , que com-
praõ as Sentenças , que elles derem nos ditos feitos ,
de que lhes he dado conhecimen to , e façam per feus
mandados remataçooés dos beés movees , e raizes ,
que per fuas fentenças forem tomados , andando em
pregom os tempos, que as Hordenaço oés do Regno
rnaridaõ. 7 Ou-
(a) a ello (b) de fcus Julgados S . deífes Julg.dos M. (e) F.lt• cíl.c ~. not
Codigos de Santarcm , e Mercçana,
I 60 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E CINCO

OuTRO sY Mandamos a eífes Juizes, que fai-


7
bam fc effes Fidalgos * per fy , ou per outrem ( a) •
fazem novamente tomadas, ou malladias , ou come-
dorias, ou outras honras, ou tomam jurdiçooés em
todos effes Julgados , ou coutaõ rios, e fe eílendern
mais os coutos antigos do que foyam d'aver no tem-
po de Noffo Avoo, e faibaõ bem a verdade de como
fe faz , e no-lo envie dizer todo pelo meu do efpecifi-
cadamente, e Nós mandaremos fobre ello fazer aquel-
lo , que Noffa mercee for.
8 OuTRO SY Mandamos aos Juízes, Meirinhos,
Jurados, e Vintaneiros dos ditos Julguados, a que he
dado o encarrego fofo efcripto aos Juizes , que por
Nós fom poHos nos ditos Julgados, que fe virem,
que cm eífes Julguados fe fazem alguús maleficios,
ou dãpnos, ou malfeitorias per eífes Fidalgos, ou por
feus homeés, que os prendaõ , fe os poderem pren-
der nos cafos , que de direito, ou Hordenaçom do
Regno devem feer prefos , ou penhorar nos cafos ,
em que devem fcer penhorados; e que loguo enviem
eífes prefos , e penhores aos ditos J uizes , e enviem-
lhes toda a verdade, e enformaçom, e qucrellas def-
fes , que affi prenderem , ou penhorarem. E [e taaes
forem , que os nom poffam prender, ou penhorar,
mandem loguo aa preífa a effes Juizes os nomes del-
les, ou os íinaaes, e os dãpnos, que fezerom , e quan-
tos fom , e per que terra vaaõ, pera eífes Juizes fabe-
rem
(,1) e os Meirinhos que compram
DA MANEIRA, Q!JE HAÓ DE TEER OS JUIZES, ETC, I 6I
rem como os podem prender , ou penhorar: e fe o af-
fy nom fezerem, eífes No!fos Juízes ho eíl:ranhcm
gravemente a eífes Juizes da terra, e Meirinhos , ou
Jurados , e Vintaneiros pera effes Juizes , e Meiri-
nhos, e Vintaneiros, e Jurados poderem penhorar ef-
fes, que o dãpno fezerom.
9 E MANDAMOS a todos os Moradores de!fes Jul-
guados, que fayam com efies Juizes , Meirinhos, Ju-
rados, e Vintaneiros com fuas armas , e lhes ajudem
a prender, ou penhorar e!fes , que os maleficios fe-
zerem; e aquelles, que o norn fezerem aguçofamen-
te, paguem o dãpno, que for feito nos ditos Julga-
dos, e demais fejam prefos, e enviados aos (a) No!fos
Juízes, e Mandamos que lhes dem efcarmento, qual
elles com direito devem haver, e* fejam em (b) *
conhecimento de taaes feitos, poíl:o que fejam lavra-
dores os que neífa culpa cahirem.
10 ÜUTRO sY os ditos Juizes como ouverem re-
cado dos outros J uizes das terras, e Meirinhos , e J u-
rados , e Vintaneiros , logo aguçofamente vaaõ com
campanhas de feus Julgados apôs e!fes, que o dãpno
fezerom , e os prendaõ , ou penhorem fe merecerem
feer prefos , ou penhorados , e façam delles compri-
mento de direito; e fe os nom poderem percalçar nos
Julgados, em que ham jurdiçom, mandem recado
aos Juizes dos outros Julgados , que os prendaõ, ou
penhorem , e os enviem prefos aos Julgados , hu fe-

----------·-----------
(a)
L~ L
ditOi $, (ó) ajam $,
X
162 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E CINCO

zerom os rnaleficios , ou enviem os penhores , pera fe


pagarem per elles os dãpnos, e malfeitorias, que aífy
fezerem.
II E SE o Juiz a eíl:o nom for diligente, e per fua
culpa alguií nom for prefo nos calos, em que o deve
feer, ou penhorado nos cafos , em que penhorado de-
ve feer, Mandamos que elles per íeus beés corregaõ,
e paguem eíles dapnos, e malfeitorias , e de mais lhes
feja eíl:ranhado nos corpos , como em tal feito cou-
ber.
12 E MANDAMOS aos Corregedores das Comar-
cas, que quando per eífes julgados vierem , que fai-
bam como eífes J uizes obraram em eíl:o, e fe os acha-
rem em culpa, façaõ delles cumprimento de direito.
E por eíl:o , que per aqui em diante Mandamos fazer
aos ditos J uizes, nom tiramos aos ditos Corregedores
das Comarcas a jurd içom, que ham , e de direito, e
Hordenaçooés de Noffos Regnos devem d'aver fobre
os ditos Juizes , e Mandamos que hajam em elles , e
fobre elles a dita jurdiçom, e poder, como a ham fo-
bre os outros J uizcs das Comarcas , que nom fom
póíl:os per Nós.
13 E ouTRo sY nom tiramos aos ditos Correge-
dores o poder, que haõ, e devem d'aver fobre os di-
tos Fidalgos, e fobre os feus , ante Mandamos que o
hajam , e conheçam de feus feitos, como he contheu-
do na dita Hordenaçom, que fobre cíl:o tragem. Pe-
ro Mandamos, que fe os ditos Juízes primeiro toma-
rem
DA MANEIRA, QyE HAÕ Dt TEER OS] VIZES, ETC, I 63

rem conhecimento dos feitos dos Fidalgos , e dos feus


nos cafos fofo efcriptos, que os ditos Correg-edores
lhes nom tomem os <..'onhecimentos delles, e que lhes
leixem livrar os ditos feitos , como per Nós he man-
dado ; e faibaõ fe o fazem como devem , e fe o alfy
nom fezerem , que lho eftranhem, como com direito
o devem fazer , e he contheudo na Hordenaçom do
Regno.
14 E PORQyE poderia vir em duvida a effes, a
que foram dadas as terras da dita Comarca per Nós ,
e por Noffo lrmaaõ, a que DEOS perdoe ; e outro fy
a aquclles , que na dita Comarca teem Coutos , e
Honras, e Jurdiçooés, que ouverom de fuas heran-
ças , ou compras , ou Doaçooés, ou Efcaimbos, ou
outros alguús contrautos, que effes Juizes nom po-
diam, ou nom deviam ufar da dita Jurdiçom , nem
fe cumprir efta Noífa Hordenaçom em efias terras,
Coutos, e Honras ; por remover-mos todallas duvi-
das, que deíl:o podiaõ recrecer , Mandamos que os
ditos Noífos Juízes ufem da dita Jurdiçom em toda-
las terras, e Coutos , e Honras , que lhes fom repar-
tidas nas terras que de Nós levam, fegundo fe con-
tem em eíl:a Noífa Hordenaçom nos cafos em ella
contheudos, e em as peífoas em efta Hordenaçom ex-
preffas: nó embargante quaefquer privilegias , liber-
dades, e doaçooés , que os Senhores deffas terras , e
Coutos , e Honras tenham , e lhes fejam dadas taci-
tas, ou expreffas por Nós, ~u por Noffos Anteceílo-
X 2 res,
164 LI VRO PRIMEIRO TITULO VINTE E CINCO

res , as quaes ora a vemos por revogadas, quanto tan-


ge á dita Noffa Hordenaçom, em quanto os ditos Jui-
zes durarem em feus Officios nas ditas Cidades , e
Villas por Noffo mandado : e por e.íl:o nom entende-
mos de fazer perjuizo pera o diante aos ditos Senho-
res deífes Coutos , e Honras em fuas jurdiçoões, pri-
vileg ias, e liberdades , que em elles ham.

T I T U L O XXVI.

D os Juízes Hordenairos, e coefas , que a Jeus


Ojficios perteecem.

O S J u1zEs devem feer cuidofos , e trabalhar,


que na Cidade , ou Vilia, honde for Juiz, e em
feos termos fe nom façom malleficios, nem malfeito-
rias, e fe forem feitas, ou outros alguús dãpnos, tor-
narem aos que os fazem com grande diligencia , e
fem tardança.
1 E POREM Mandamos aos Juizcs, que fom, e
pelo tempo forem, que em cada huú anno húa vez
vaa huú delles por os termos da Cidade, ou Villa fa-
ber, e enquerer, e fazer geeral Correiçom fobre ef-
tas coufas.
2 ITEM. Se acontencerem hi mortes d'homeés,
ou de molheres, ou furtos , ou roubos , ou forças de
molheres cafadas , ou virgeés , folteiras, ou viuvas,
f
Dos JuIZES HORDENAIROS, ETC. 165
e fe cada húa deftas coufas acharem , faber quem as
fez, e em que tempo , e como, ou porque , enque-
rendo fobre cada huú em geeral , e decendendo ao
efpicial , honde virem que compre.
3 ITEM. Saber fe ha hi taffuues , e homeés que
vivaõ mal.
4 ITEM. Se ha hi adevinhos , ou feiticeiros , ou
alcovetas.
5 ITEM. Se ha hi alguãs molheres, que fejam
barregãas de homeés cafados , ou de Clerigos , ou
Frades, ou d'outros Relligiofos.
6 ITEM. Se ha hi alguús , que fejam dãpninhos
com feos guados , e beíl:as , e os lancem aífabendas de
dia, ou de noute nos agros dos paaés, vinhas , e hor-
tas , e pumares , e nos outros lugares, que dam fruito.
7 ITEM. Se ha hi alguús, que furtem, ou cortem
as arv-ores , e olivaaes alheos , quedem fruito.
8 !TEM. Se ha hi alguús -,. que tomem , ou for ..
cem, e per algúa guifa embarguem as jurdiçooés do
Concelho , e lhe vaã c_ontra feus foros , e privilegios.
9 ITEM. Se ha hi alguús , que tomem , ou em-
barguem os bens , e poffifioões , e reffios, e caminhos,
e fervidooés do Concelho.
10 1TEM. Se ha hi fontes , ou chafarizes , ou ca-
minhos, e calçadas do Concelho, que fejam mal * a-
poíl:adas (a) •
II ITEM. Se o Alcaide maior, ou meor poem Al-
quat-
(n) po~ M,
166 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SErS

quaide de fob fua maaõ em alguús lugares , honde


fe nom deve de poer.
12 ITEM. Se fazem pedidas de pam , e vinho , e
guados, e d'outras coufas.
13 ITEM. Se prendem, ou foltam alguús fem
mandado da Juíl:iça, ou fe os leixam de prender por
peitas, que recebam.
14 ITEM. Se allugam geiras, ou ferviços.
15 ITEM. Se os Juízes do anno paífado ufarom
de feus Officios como deviaõ , ou fe fezerom aggra-
vos alguús.
r 6 ITEM. Se leixarom de fazer direito, e J uíl:iça
per medo, ou temor, ou por peita , ou por amor, ou
por negngencia .
17 ITEM. Se levaram ferviços, ou geiras, e de
quem.
r 8 lT~M. Se ha hi alguús Saiooés, ou alguãs pef-
foas poderofas , que façam fobervas > ou coftrangi-
mentos na terra , ou que enduzam os horneés a an-
darem em arroidos, e contendas ,* e (a) * em feitos.
I 9 E DAS coufas , que achar , que elle per fy logo
pode correger , prenda, e carrega dando appellaçorn ,
e aggravo nos cafos, que deve; e fe taaes coufas fo_
rem, que per íy nom poder correger, faça-o faber
aaquelles , a que perteence ; a faber , dos crimes , e
malfeitorias a Nós, e ao Corregedo r, e das outras,
que
(a) Falta.
Dos JuIZES HORDENAIROS, ETC. 167

que ao Concelho perteécem, aps Regedores, e Of-


ficiaaes do Concelho.
20 E OUTRA tal Inquiriçom deve tirar dentro na
Cidade, ou Villa per as Freguezias, e fazer fobre to-
do guardar as Leyx, e Hordenaçooés do Regno, e as
pofturas , e Hordenaçooés do Concelho.
2r hEM. Em todos os feitos de mortes d'ho-
meés , e molheres, e forças, e roubos deve tomar per
fy as Inquiriçoés ,nom as cometendo a outro nenhuú,
e como forem acabadas, * enviar nos (a) * feitos das
mortes (b) ho trellado a Nós, e* outro ficar (e)* na
Arca do Concelho.
22 !TEM, Trabalhem-fede faber parte dos mal-
feitores , e os prender ; e fe na terra nom forem , fa_
berám honde fom , e enviar recado aos Juizes , e Juf-
tiças, que os prendam, e lhos enviem.
23 ITEM. Fazer fuas Audiencias bem ouvintes, e
aíleffegadas, e* ouvindo (d) * as partes bem, leixan-
do-lhes dizer de feu direito o que quifcrem , nom lhes
dizendo rnaas palia vras , nom os doeftando , nem fa-
zendo outro mal por referrarem o feu direito.
24 ITEM. Trabalhem-fe, que façam ambos as
Audiencias aos tempos, que devem ; e quando algum
delles for doente, ou aufente de jufta caufa, nom lei-
xe , nem ponha por fy Ouvidor ; e faça-o faber aos
Vereadores , e Regedores , e elles darom carrego a
al-

(<1) cnviar0 nos os S. (b) a fabcr S. {<) e outro ficará S. ( i) ouvir S.


168 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SEIS

alguú dos Vereadores, qual virem, que mais pcrteen-


cence for, que o dito carrego tenha.
25 ITEM. Saibam fe os Almotacees ufam de feus
Officios , como devem , e fe o contrairo fezerem do
que lhes he mandado , ou forem negrigentes, tor-
nem-fe a elles, e coíl:rangã-nos pera ello, affy por os
corpos, como pelos beés, fegundo he contheudo nas
coufas, que devem fazer fob as penas hi contheudas.
26 !TEM. Nom lhes confentirom que dos feitos
d' Amotaceria ufem de hordenar proceffos, nem gran-
des Efcri pturas , e brevemente os livrem ; e affy li-
vrem os Juízes os aggravos, e appellaçoões, que pe-
rante elles vierem, fazendo-lhes logo o Almotace por
palavra rollaçom ataa conthia de dez mil libras , e
d'hi pera cima livrem-nos com os Vereadores na Rol-
laçom.
27 !TEM. Os Juízes façaõ em tal guifa, que nos
feitos das injurias os Vereadores ponhaõ aguça em
ferem concluzos , e como ho forem a primeira quar-
ta feira depois da conclufom os levem logo aa Rolla-
çom , e os defembarguem com os Vereadores, fe fof-
peicos nom forem ; e fe alguú for , tornem dos outros
homeés boõs da Cidade, ou Villa, que fofpeitos nom
forem , em feu loguo ; e a Rollaçorn feja perante as
partes , ou aa fua revellia , fe pera ello forem chama-
das ao dia affinado ; e o livramento, que derem, fa-
çam-no cumprir, e dará enxecuçom, e norn recebaõ
apellaçom, nem aggravo, falvo fe effes feitos forem
de
Dos JuIZES HORDENAIROS, ETC. 169

de Fidalgos , ou Vaífallos, ou aconthiados em cavai-


lo, e armas, porque em efl:es deífas peífoas as devem
dar.
28 ITEM. Feitos defortos ataa conthia de cinquo
livras da moeda antigua , ou cinquo (a) defta , ou
bonde o ladrom nom for enfamado d 'ante , ou en-
tom , ou em outros furtos, livrem-no com os Verea-
dores fem appellaçom , falvo fe for feito em Igreja.,
ou em feira , ou em caminho publico.
29 ITEM. Porque os Juizes hordenairos com os
homeés boõs teem o regimento da Cidade, ou Villa,
elles ambos quando poderem, ao menos huú, hiraõ
aa quarta feira, e ao fabado fempre aa Rellaçom da
Camara , pera com os outros hordenarem o que en-
tenderem por prol cúmunal, e por direito , e juíl:iça.
30 ITEM, Sem delonga farom cada dia Audien-
cia aos feitos dos prefos , e lhes darom livramento.
31 ITEM. Coíl:rangerom o Alquaide , e feus ho-
meés , que os tragam a Audiencia, e prendaõ os que
lhes elles mandarem, e foltarom per feu mandado.
3 2 ITEM. Coíl:rangerom o Aiquaide , que ferva,
e guarde a Cidade , ou Villa de noite , e de dia com
os homeés jurados , que lhe forem dados na Camara,
fegundo que lhe be hordenado em cada huma Cida-
de; e façam-lhe pagar o que ham d'aver por o Alquai-
de , e nom os pagando , tomem-lhe tanto das fuas
rendas, porque os paguem do que aífy ham d'aver.

---------- ------
Liv. I. Y 33
(a) mil S.
170 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SEIS

33 ITEM, Porque os beés dos horfoõs andam em


maa recadaçom, trabalhem-fe os Juizes , a que dello
he dado carreguo em efpecial , ou os hordenairos ,
honde Juizes efpeciaaes defto nom ouver , de fabe-
rem logo todos os meores, e horfoõs, que ha na Ci-
dade , e termos ; e aos que retores nom fom dados ,
que lhos dem logo ; e façam fazer partiçooés de feos
beés , e os entregar aos retores per conto , e recado, e
Inventairo feiro per Efcripvaõ de feu Officio : e pera
fe norn poderem feos beés enalhear, façam logo huú
livro, e ponha-fenos almarios na* Arca (a)* da Ci-
dade , ou Villa, em que efcrepvaõ o teror, que he
dado ao meor, * e quando he treladado (b) *, o In-
ventairo de todollos beés , que aos meores * aconte-
cem (e)*.
34 !TEM. Saibaõ logo como os beés deífes meo-
res fom aproveitados , e fe o nom forem , façaõ-nos
logo aproveitar; e os que dapnificados forem faibaõ
loguo por cuja culpa o fom, e por feus bens lhos fa-
çom logo correger , e pagar , e tornar a feu eftado
com os fruitos, e rendas , que delles poderaõ a ver,
* fe aproveitados foram (d) *.
35 !TEM. Os que forem pera arrendar façaõ-nos
meter em pregom , e rematem-fe como entenderem
por fua prol ; e os que forem pera adubar, rn_a ndar,
e coíl:ranger feos Tutores que os adubem, e aprovei-
tem;
(a) Camara S. (b) que treladem S, (e) acontecerem ~'. acontr.cetfcm M .
ídJ feendo aproveitadoi S,
Dos J UIZES HORDENAIROS , ETC. r 7r

tem ; e os fruitos , e rendas recebam por conto, e re-


cado, e fe efcrepvaõ por o dito Efcripvaõ.
36 ITEM. * Farom (a) * logo tomar , e tomem
conta, e affi cada huú anno aos Tetores, e Curado-
res, e aquello , porque ficarem em conta , coíl:rangã-
nos , que o entreguem logo; e os que acharem fofpei-
tos, rernovaõ-nos de tal cura, e lhe dem loguo ou-
tros ; e a eíl:o norn ponhaõ delongua , nem fejaõ ne-
grigentes, em tal guifa, que feos corpos , e feos beés
fejam bem * requeridos (b) * , e aproveitados , e ve-
nha todo a boa recadaçom , como compre , fob pena
de pagarem eífes Juizes todo por feos beés.
37 ITEM. Vejam bem quaecs fomos horfoõs, e
de que condiçom , e fegundo forem , aífy os façam
guardar, e criar , poendo-os a leer, ou a rneíleres, ou
a foldadas, fegundo feos linhagees , e fuíl:ancias de
feos beés devem aver, e vida, que ao diante devem
fazer.
38 ITEM. Mandamos ao Efcripvaõ, que do dia,
que o Inventario dos beés , e partiçom for feita , e
acabada ataa o dito dia a mais tardar, ponhaõ o trel-
lado do dito Inventairo no dito livro, e Armaria do
Concelho, com o nome do Tetor, e Curador affinado
per fua maaõ fob pena do O.fficio, e per feos beés lhe
pagar a perda , que lhe por ello vier, e do Officio fe
faça o que Nós Mandarmos.
39 E ESTO, que fufo dito he dos meores, e feos
Y 2 beés.
(a) Fa_çam (h) recadados M'.
--------
172 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SEIS

beés , aja lugar nas outras peífoas, que per velhice ,


ou por doores, ou per mingua de fifo devem d 'aver
Curadores.
40 ITEM. Como os Juízes fairem , e entrarem
outros , eífes , que entrarem , faibam logo per Inqui-
riçom corno ufaram de feos Officios * os que foram
ante (a)*, e fe comprirorn, e fizeram as coufas fofo
ditas, e cada húa dellas , e fe fizeram em feos Offi-
cios , ou com poderio dellcs o que nom deviam ; e
eíl:a lnquiriçom enviem logo a Nós do dia que come-
çarem a obrar dos Officios ataa trez mezes.
41 E coM todas eíl:as coufas fejam avifados, que
nom coníentam a Bifpo, nem a Arcebifpo, nem a
feus Vigairos, que tomem Noífa jurdiçom, nem vaaõ
contra Noffos direitos , fazendo os leigos perante fi
refponder nos cafos , que nom devem ; que confen-
tindo o contraira, e nom No-lo fazendo faber, Nós
nos tornaremos a elles, e lho íl:ranharemos gravemen-
te nos corpos , e beés.
42 ITEM. Se algu üs vierem perante elles á Au-
diencia, . que fejam Cavalleiros, ou Efcudeiros, ou
outras peffoas poderofas , ouçam logo feos feitos , e
os enviem logo d'ante fy, e nom lhes confentam que
hi mais ftem , e fe quizerem levantar palavras, de-
fendã-lhe , que non venhaõ hi mais.

TI-
----·- ----·-----·------
(a) a fabc.r os 'iue ufarom d'ante S,
Dos VEREADORES DAS CIDADES, E VruAS,ETc. 173

T I T U L O XXVII.

Dos Vereadores das Cidades, e Vi/las, e cou/as, que

o
ajeu Qfficio perteencem.

S VEREADORES ham de feer feitos, fegundo he


contheudo no titulo dos Corregedores das Co-
marcas.
I ITEM. Os Vereadores ham de veer, e faber, e
requerer todollos beês do Concelho , aífy proprieda-
des , e herdades , cazas , foros , fe fom aproveitados,
como devem , e os que acharem mal aproveitados ,
* fazellos (a) *·adubar, e correger.
2 ITEM. Fazer meter todallas rendas do Concelho
em pregom , e as que virem , que he bem de fe re-
matarem , fazellas rematar , e fazer os contrautos
com os Rendeiros , e receber as fianças ; e as que vi-
rem, que nom he prol do Concelho de fe rematarem,
rnandallas correger, e colher para o Concelho , e poer
em ellas boõs requeredores, e recadadores , e fazellas
viir a boa arrecadaçaõ.
3 ITEM. Saber fe algúas poífeífooés , ou cami-
nhos , ou reffios, ou fervidooés do Concelho andaõ
enalheadas , e tiradas pera o Concelho.
4 ITEM. Saber fe tornam, ou trazem algúas jur-

----
di-
(a.) façaõ-nos
174 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SETE

diçoés do Concelho , ou as embargam como nom de-


vem , ou as forçam , ou querem forçar.
5 ITEM. Saber fe os Noílos Officiaes , e Alquai-
des , e os outros , que per Foral , ou cuíl:ume , ou ou-
tro direito ham d'aver alguus foros, e direitos, os ti-
raõ , como devem , e fe lhe fazem de novo o que nom
devem; e nom o confentir requeren do-os, que o nom
façam , e fe o fezerem, demandallos.
6 !TEM. Saber corno os caminho s, fontes, e cha-
farizes , pontes, e calçadas , e muros, e barreiras fom
repairado s; e os que cumprir de fe fazer, e adubar, e
correger, mandallas fazer, e repairar ; e abrir os ca ...
minhos ,e teíl.adas em tal guifa, que poffam bem fer-
vir per elles, per que Nós tomamos encarrego das
obras dos muros, e barreiras : e quanto á defpeza dos
mefteiraaes bonde virem, que compre adubio, oure-
pairamen to , façaõ-no-lo faber pera mandarm os co-
mo fe faça.
7 lT EM. Proveer as Hordenaç ooés, e vereaçoo és,
e cuíl:umes da Cidade, ou Villa antigas , e as que vi-
rem que nom fom boas fegundo o tempo , façaõ-nas
correger, e outras fazer de novo, fe cumprir á prol,
e a boõ regiment o da terra.
8 ITEM. Confirando em todalas coufas, * que
cumprem (a) * .aa prol cúmunal , e defpois que affy
coníirare m, ante que façaõ as poíl:uras, e vereaçoo és,
e as outras coufas , chamem os homeés boõs, que

~--- ---- ---- --


pe-
(a) o que compre S.
Dos VEREADORES DAS CIDADES, t V ILLAS, ETC. 17 5

pera a Rolaçom , e Regimento da Cidade fom apar-


tados, e digam-lhes aquello, que virom, e confira-
raõ , e o que com elles acordarem , fe coufa leve , e
boa for, façam-na logo poer em efcripto, e guardar;
e em nas coufas grandes , e graves, defpois que per
todos for acordado, ou per a maior parte delles , fa-
çam chamar o Concelho, e diguam-lhe as coufas
quaees íom , e o proveito, ou dãpno , que fe lhes po-
de recrecer, affy como fe ouveífem demanda fobre
fua jurdiçom, ou fe lhes filham, ou lhes vaaõ contra
feos foros, e cuíl:umes de guifa, que a nom poífaõ ef-
cufar; e o que por todos , ou a maior parte delles for
acordado , affy o façam logo poer em efcripto no li-
vro da vereaçom, e dem feu acôrdo á execuçom. E as
poíl:uras , e vereaçooés , que affy forem feitas, e ou-
torguadas , o Corregedor da Comarca nom lhas poíla
revogar, ante as faça comprir, e guardar , e faber fe
dam a boa eixecuçom quando polla Cidade, ou Villa
vier.
9 ITEM. Como entrarem, tomaram a conta aos
Procuradores , e Thefoureiros do Concelho, que fo_
rom o anno pafiado, e affy dos outros annos, fe lhes
tomadas nom forem.
1o ITEM. Poerom * vereaçooés (a) * fobre os mef-
teiraaes , e jornaleiros , e mancebos, e mancebas de
foldadas, e fobre todalas outras coufas, que fe com-
praõ , e vendem ; e eíl:o nos lugares, bonde hc horde-

-------------------~-..-
na-
r 76 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SETE

nado, que aja hi Almotaçaria a fora pam, e vinho, <:;


guaados, que os lavradores ham de fua colheita , e
criança, que cada hum pode vender aa fua voõtade; e
em fellas , e frêos , e armas , e çapatos esfrolados , ou
de pontas, e em tapetes, e embrolamentos, e vidros.
1I ITEM. Farom recadar todalas dividas que fo-
rem devidas ao Concelho.
12 ITEM. Saberam fe ha hi armas de corpos d'ho-
meés, ou* trooés, ou (a)* engenhos, e * fullarne (b) •
dclles, e façaõ-nos todos correger, e guardar, e poer
em boa recadaçom fobre o Procurador; e fe acharem ,
que fe alguús perderam per culpa dos Officiaes , que
ataa ora forom , façaõ-nos logo demandar por ello ,
e coíl:ranger.
13 ITEM. Eífes Vereadores com os Juízes julgua-
ram todollos feitos das injurias verbaaes ,que nom fo-
rem antre Vaffallos, e Fidalgos, ou homeés de con-
thia de cavallo; e do livramento, que derem , nom
darom pera Nós appellaçom, nem aggravo: e affy li-
vraram todollos feitos dos furtos, que alguús fezerem
ataa conthia de cinquo libras de moeda antigua , ou
de cinquo ( e) deíl:a, que ora corre; falvo fe for nos
cafos éxceptuados na ordenaçom fobre eíl:o feita: e li-
vraram com os Juízes os feitos da Almotaceria, que
per apcllaçorri vierem , como chegarem a conthia de
dez mil libras, e os outros, onde for mais pequena
conthia, livraram os Juízes per fy.
14
(11) outros S. (6) fallcmc S, (e) mil S,
Dos VEREADORES DAS CIDADES, 'E VnLAS, nc. 177
14 ITEM. Sera5 avifados de faber, e enquerer fe
a terra , e fruitos della fom guardados , como com-
pre, e [e fe guardam as Hordenaçooés , e Poíl:ura.s
. ,
e Vereaçoões do Concelho ; e fe acharem que fe nom
guardam , coíl:rangam os Rendeiros, e os Jurados, e
os outros , que dello teverem encarrego , que as fa-
çam guardar fegundo lhe fom poíl:as, fob pena de as
pagarem elles per feos beés : e per efl:o nom fejam
efcufo.dos pagar o dãpno , que fe defto recrecer.
15 ITEM. Seram bem avifados dar aos Rendei-
ros , ou ao Procurador , em quanto as rendas nom
forem arrendadas , jurados, que avondem , qué bem
guardem a terra, e íe nom façaõ em ella nenhuús
dãpnos, fob a pena contheuda na Hordenaçom.
16 ITEM. Nom confentirom a nenhúa peffoa, por
poderofa que feja , que contra as Hordenaçooés , e
Poíl:uras faça nenhúa coufa , e fe o fizer logo requei-
raõ aos Juizes, que tornem hi; e fe o fazer nom qui-
ferem , ou nom poderem , façaõ-no faber ao Corre-
gedor, ou a Nos pera o corregermos.
17 !TEM. Os Vereadores viraõ todos tres aa Rel-
Iaçom aa quarta feira, e ao fabado , e nom fe efcufa-
rom por nenhiía coufa ; e o que hi nom vier , pague
pera as obras do Concelho por dia cem reis brancos,
os quaees loguo o Efcripvam fcrepva em recepta fe-
bre o Procurador , fob pena de os pagar ano.veados :
pero fe for doente , ou ouver tal negocio , que nom
Lt·v. I. Z pof-
178 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E SETE

poffa vir, feja efcufado, fazendo-o* fabente (a);; an-


te a feus parceiros.
18. ITEM, Os Vereadores fe virem, que o Noífo
Coudel faz alguãs coufas , que nom deve , em dãpno
da Cidade, e moradores , e feos termos contra Noffo
ferviço, mandem-no logo chamar, e digam-lhe o
que faz , e que fe corregua, e [e o fazer nom quizer,
façaõ-no-lo * fabente (b) *
19 !TEM. Os Vereadores tecm carreguo de todo
o regimento da terra , e das obras do Concel.ho , e
qualquer coufa, que poderem faber, e entender, por-
que a terra , e moradores della poffam bem viver, e
em eílo ham de trabalhar ; e fe fouberem , que fe fa-
zem na terra malfeitorias , ou que nom he guardada
per jufiiça, como deve, requeiraõ os Juizes que tor-
nem hi, e fe o fazer nom quizcrem,,. fazello (e)• fa-
ber ao Corregedor da Comarca, e a Nós.
20 ITEM. Carta nenhúa norn deve feer feellada

do feello do Concelho, ou Julguado, e os que o feel-


lo reverem, nom as affeellem acaa que fejam affina-
das pelos Vereadores , e Procurador , e aquelles Offi-
ciaaes , que fe cuftuma de fempre affynarem , falvo
fe forem Cartas em feito de apellaçom, ou outras de-
mandas, que as nom leixem d'aífeellar, pera nom fe-
rem as ditas apellaçoões , e outras femelhantes de-
theudas, nem as demandas perlongadas.

·------ ------
2I

(a) úibcr S. (é) faber M. ( e) façaó-no S.


Dos VEREADORES DAS CIDADES, E VILLAS) ETC. 179

21 ITEM• Os Vereadores haõ de fazer aveenças


polos jornaaes , e empreitadas com os que fezerem as
obras, e as outras coufas , que comprem ao Conce-
Jho, e talhar foldadas com os Porteiros, e com os ou-
tros, que ham de fervir o Concelho, e por feus man-
dados ham de feer pagados, e d'outra guifa nom.
22 ITEM. Ham de dar Carniceiros , e* paatei-
ras (a) *, e Almocreves, quedem os mantimentos,
e mandar talhar aos Carniceiros, e amaífar aas paa-
teiras , e lhes dar e talhar guaanhos aguifados , e
co(hanger que fervaõ , e ufem de íeus mefieres, e
aífy os outros meíl:eiraaes.
23 ITEM. Ham de dar os horneés ao Anadel pe-
ra Beíl:eiros do Conto _,fazendo-os primeiramente viir
perante fy , ouvindo fuas efcufaçooés, fe as reverem,
frgundo he conteudo na Hordenaçom.

T I T U L O XXVIII.

Dos Almotacees, e coufas, que afeus O.fficios


perteencem.

I TEM. Os Almotacees fe façam logo no começo do


anno por eíl:a guifa: a faber, o primeiro mez ham
de feer Almotacees os Juizes do anno paífado.
1 ITEM. O fegundo mez dous Vereadores , e o
Z2 ter-
180 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E OITO

terceiro hum Vereador, e o Procurador do anno paf-


fado, e efies fairom per pelouros como ouverem ven-
tura de fer.
2 ITEM. Pera os nove mezes que ficaõ , ho AI-
quaide , honde de foro ou coílume o Alquaide ha
de feer ao fazer dos Almotacees, e os Officiaaes dos
Concelhos enlegerom nove pares d'homeés boõs, que
fejam perteêcentes pera o ferem, e ferom em pellou-
ros , e como forem feitos, os rirarom perante o Al-
quaide, e fcripto no livro da vereaçom cada mez
dous,_ como fairem, fern outra afeiçom; e tanto que o
mez. vier, coílrangã.nos, que venhaõ jurar, como ef-
teverem fcripros: e quando lhes ouverem de dar ju-
ramento, feja chamado o Alquaide, que venha, ou
envie alguú, pera veer como juram; e fe viir ou en-
viar nom quizer, dem.Jhes juramento na Camara. E
por efta guifa fe faça quando ouverem d'enleger, e
e[colher os Alrnotacees; a faber, chamem hoA!quai-
de que venha, ou envie pera com os Officiaaes do
Concelho os enleger, e fe viir ou enviar nom quizer,
enleja-os o Concelho, e efl:es o fejam, e d'outra gui-
fa nom os façam fem elle; e fe alguú de!les , que en-
ligidos forem , fallecer per morte , ou per outra ra-
zom , que nom poffa fervir feu mez, o Concelho, e o
Alquaide enlejam outro , que o feja em feu loguo.
Pero fe filho d'alguú boõ cafar novamente, ou outro
na Cidade, que feja honrado, e tal que deva d'aver
os Officios do Concelho efie feja Alrnotacee com
huú
Dos ALMOTACEES; E cousAs , ETC. 181

huú dos outros , que fom fcriptos ; e fe alguú quifer


leixar de íua vontad e per lhe fazer honra, em feu lo-
guo entre o que aífy novam ente cafar , e fe o leixar
nom quifer > entom lancem antrãbo s forte, qual fica-
rá , e com elle o feja.
3 !TEM. Os Almota cees fejam bem avifado s,
que o primeir o ataa o fegund o dia, como entrare m ,
a mais tardar , mande m logo aprego ar , que os car-
niceiro s , e paateir as, e regateiras , e almocreves , al-
fayates , e çapatei ros, e outros Meíleir aaes todos ufem
cada huú de feus meílere s , e dem os mantim entos a
avondo , guarda ndo as vereaço ões, e poíl:uras do Con-
celho.
4 ÜuTRO SY todollo s que teem rnedid.is de
pam , e de vinho, e d'azeit e, que as moíl:rem pera
as veerem íe foro direitas , fob a pena, que lhes he
poíl:a na pofiura do Concel ho.
5 ITEM. Dado eíl:e pregam , enquere rom , e fa_
berorn aíly elles , como o Efcripv aõ , fe eíles Mefie-
riaaes , e Officiaaes guarda m as poíl:uras do Concel ho ;
e fe as nom guarda m , fe as deman dam o Rendei ro ,
e Jurado s ; e fe as nom deman dam, digam- no ao Pro-
curado r do Concel ho que as demand e para o Conce-
lho, e elles julguem as coimas ao Concel ho, pagan-
do-as os que achai:em em culpa, e o Rendei ro outro
tanto.
6 ITEM. Trabal hem-fe de faber cada huiís em
feu mez , fe effes Rendei ros fazem aveenças com as
par-
182 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E OITO

partes , e com os dapnadores ; e fe acharem que as


fazem , prendam-nos logo pera fe delles fazer direito.
7 ITEM• Como entrarem , dem it pefa aas paatei-
ras (a),* e aas candieiras , e depois faibam fe ven-
dem per * eífa pefa (b) *, que lhes foi * dada ( e) * , e
fe acharem menos, pola primeira vez pague trinta
reis, e pola fegunda cincoenta , e pola terceira feja
pofta na picota; e eíl:a meefma pena aja a candieira,
fe menos fezer as candeas do pefo , que lhe for dado;
e o carniceiro fe pefar mal a carne, e a regateira, que
nom guardar a Almotaçaria , que lhe for po(h , e os
que mal pefarem, ou medirem. E fe o carniceiro pe-
far per falfo pêfo, ou a medideira , ou medidor me-
dir por falfa medida, fejam prefos, e faça-fe delles
direito , e juíl:iça, e aalem dello ajam as penas , que
fom contheudas no·titulo de Corregedor da Corte.
8 ÜuTRO sY os çapateiros, alfayates, e ferreiros,
e ferradores , e todollos outros Meíl:eiraaes, a que he
pofta caixa fobre feus lavores , e obras , fe as poíl:uras
nom guardarem , pola primeira vez paguem trinta
reis brancos, e pola fegunda cincoenta, e pola tercei-
ra cento; e fe mais forem achados em culpa , feja ..
lhes defefo, que nom ufe mais deífe mefter, e fe mais
ufar, feja prefo , e nom feja folto ataa Noíla merece.
9 1TEM. Os Almotacees fejam bem avifados, e
diligentes em feus Officios , e os dias , que o pefcado
vier, cheguem logo aa praça, e ponhaõ em elle Al-

-------
mo-
(aJ pefo aas paadeiras S. (b) clfe pcfo S. (e) dado S,
Dos ALMOTACEES , E cousAs, ETC. 183

motaçaria, fegundo feu coíl:ume, poendo o maior, e


meaão, e mais pequeno, fegundo fua valia, poendo
as mofiras em luguar, bonde as vejam os que com-
prarem : e fe o pefcado for pouco , eílem hi ambos,
ou huú delles, que o reparta pelos maiores , e meno-
res, cada hum como o merecer, e fegundo o pefcado
for , em tal guifa, que os ricos, e os proves ajam to-
dos mantimentos , e nom fe parta d'hi ataa que todo
feja dado, e repartido, como dito he ; e nom vindo
hy , ou fe partindo ante d'hy, pague pera as obras da
Cidade, ou Villa cem brancos por cada vez, e o Ef-
cripvaõ da Almotaçaria fcrepva-0 logo, e dê o fcripto
ao Efcripvaõ da Camara, que o ponha em recepta
fobre o Procurador fob pena dos Officios, e de os pa-
garem em dobro : e fe o pefcado for muito, depois
que almotaçado for, e poíl:as fuas moílras, nom feja.
theudo d'hi mais ftar.
1o ITEM. Farom , e coíl:rangerom os carniceiros,
que dem carneiros , e vaca, e porco, e as outras car-
nes, e afTy as enxerqueiras , fegundo lhes he manda-
do na vereaçom do Concelho : e eíl:arom como for
manhaã no açougue ataa ora de terça , nom fe par-
tindo d'hi, e fazendo dar as carnes , e repartir pelos
ricos , e pobres a avoodo , como o merecerem ; e fa_
zendo o contrairo que pague o gentar aaquelle , que
fem carne ficar , e nom vindo , ou fe partindo ante
defTe tempo, paguem as penas fufo ditas , e os Ef-
cripvaaés as efcrepvam fob as penas fofo ditas.
11
184 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E OITO

11 ITEM• Pera faberern fe os carniceiros pefam


bem a carne, ponha-fe a balança, e pefos do Conce-
lho, em que fe pefe , e veja fe he bem pefada, e os
pefos direitos, e o pefador íl:ê hi fempre refidente fob
pena de vinte reis brancos cada dia, que nom ílever.
12 ITEM. Para os Almotacees faberem fe as paa-
teiras dam o pam por pefo , e as candieiras as can-
deas, elles per fy o façam algúas vezes; e quando vi-
rem , que compre pefar, pefem-lho; e fe lho acharem
minguado do pefo coíl:rangam-nas que paguem a
pena ao Concelho , e lancem maaõ pollo Rendeiro ,
e faibam porque lho confente; e fe o acharem em cul-
pa, ou que o ouvio , e o leixou affy paffar por malí-
cia , ou por aveença, que tenha feita com ellas , por-
que em tal cafo deve aver pena corporal d•açoutes ,
remetam-n o aos Juízes que o comdapne m, dando
apellaçom , &c. , e fe for por negregencia , pague a
cooima em dobro pera o Concelho, e o Efcripvaô
efcrepva-o logo fob a pena fofo dit:1.
13 ITEM. Os Almotacees quando nom teverem
carniceiros , e paateiras, e regateiras, e eixerqueiras ,
e candieiras , e moíl:ardeiras, e almocreves que ajam
de fervir o Concelho, requeiraõ aos Vereadores , que
lhos dem : e affy requeiraõ , que lhes dem jurados
quando virem , que os hi nom ha, ou que haõ reca-
do, que fe a terra dãpna per mingua de guarda.
14 ITEM. Requeiram , que andem pela Cidaqe,
ou Villa em tal guifa , que fe norn faça em ella fier-
que1-
Dos ALMOTACEES, E cousAs , ETC. 18 s
queira, nem lancem a redor de muro fierco, nem
outro lixo , nem fe atupam os canos da Cidade, ou
Villa , nem as fervidooés das augas.
I 5 ITEM. Cada mez farom alimpar a Cidade ,
cada huú ante a fua porta da rua , dos efiercos, e
maa-0s cheiros ; e farom em cada Freiguezia tirar ca-
da mez hiía eíl:erqueira , e lançar fora o eíl:erco nos
lugares, honde fe ha de lançar.
16 ITEM. Nom confentirom que lancem beíl:as,
nem caães, nem outras coufas çujas, e fedegofas na
Cidade, ou Villa ; e os que as lançarem, façam-lhas
tirar, poendo-lhes penas fe as nom tirarem; e aos ne-
gri gentes dallas logo aa eixecuçom.
17 lTEM. Mandarom apregoar em cada huú mez ,
que alimpem cada huú fuas tefiadas de fuas vinhas,
e herdades fob certa pena, e os que as nom alimpa-
rem , fe as os Rendeiros nom tirarem , façaõ-nas re-
cadar, e poer fobre o Procurador.
I 8 ITEM. Farom Audiencia nos dias , que he de
coíl:ume de fe fazerem , e na Audiencia poíl:urneira
de feu mez farom ante dar pregam , que todollos
que tem feitas coimas, ou fom penhorados, que vaaõ
livrar feus penhores , e feitos cm aquelle dia , e os
que alla nom forem, aa fua reveria julguem as cooi-
mas, e dem livramento a todo.
19 ITEM. Todollos feitos livraram bem, e direi-
tamente, e brevemente fem proceffos , e grandes ef-
cripturas ; e de qualquer livramento, que derem , fe
Liv. I. Aa a
186 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E OITO

a parte apellar, ou agravar , elles lhe dem apellaçom,


e agravo pera os Juízes , fazendo-lhe rolaçom do fei-
to por palavra ; e logo hi feja por elles viíl:a a apella-
çom, e agravo, e julguado, íegundo entenderem por
direito, que forem ataa conthia de dez mil libras ; e
de hi acima defembarguem os Juizes effes aggravos,
e apellaçooés com os Vereadores da Camara.
20 !TEM. Se os Almotacees forem negrigentes, e
nom fezerem as coufas fufo ditas, e cada huã dellas,
per cada huma vez paguem as coimas, e penas, que
pagariam os que as ham de fazer, e as nom fazem ;
e os Juizes coíl:rangam-nos pelos beés , e pelos cor-
pos, quando, e cada vez que virem , que compre ; e
fe os Jui zes a ello nom * forem bem deligentes (a) *,
paguem-nas elles : e o Efcripvaõ da Almotaçaria ef-
crepva todo, e o dê ao Efcripvaõ da Camara, que as
efcrepva fobre o Procurador , fob as penas fufo ditas.
2r !TEM. No feito da Almotaçaria os carniceiros,

e paateiras defpois que fe obrigarem ao Concelho pe-


ra fazer feu Officio, aquelle, que fe delle quizer fa-
hir , e nom fervir ataa huú anno, que o coíl:ranguam
pelo corpo , e pelo haver , que o faça ataa que effe
anno feja comprido.
22 ITEM- O Efcripvaõ da Almotaçaria efcrepve-

rá todallas cooimas achadas, affy de gaados, e bef-


tas , como dos Meíl:eiraaes , e carniceiros , e paarei-
ras , e regateiras, e enxerqueiras , que pelos Jurados
fo-
.(a) tornarem S.
Dos ALMOTACEES , E cousAs, ETC. I 87
forem acooimados , e os que elle poder faber , que
vaaõ contra as poíl:uras, e cada mez as moíl:re aos
Almotacees ; e fe os Almotacees nom tornarem a ef-
to , moíl:re-as aos J UÍ'z.es , e aos homeés boõs da Ca-
rnara, para íaberem quaes fom os dapninhos , e fazer
cm elles cumprir as poíl:uras, e Hordenaço oês.
23 ITEM. Se trabalhe quanto poder de faber fe os
Rendeiros, ou Jurados nom coíl:rangem os Cooimei-
ros , e fe reem com elles aveença feita, ou fe a fazem
defpois das Sentenças , ou porque razaõ nom levam
as cooimas , e aífy o digua na Camara ; e fazendo o
contrario, feja logo privado deífe Officio , e dem-no
a outro, que faça verdade, e ame a prol cúmunal.

T I T U L O XX VIIII.

Do Procurador do Concelho , e coufas , que a feu


Ojficio perteencem.

I TEM. Tanto que o Procurador entrar no Officio


em aquelles luguares, honde o Procurador recebe ,
e defpende , fará o Efcripvam huú livro da recepta
em titulo apartado fobre fy, poendo ; e entitulando
cada huã renda fobre fy , e a quem he arrendada , e
por quanto preço, e os tempos, a que lhe ha de feer
pagada, e quaees fom fiadores , e affy em outros ti-
tulas as rendas outras,
Aa 2 I
188 LIVRO PRIMEIRO TITULO VINTE E NOVE

1 ITEM. Em outra parte em eífe livro fará feu ti-


tulo das defpezas, que fezer, as quaees fará por efta
guifa.
2 ITEM. Todallas defpezas, que ouver de fazer
por mandado dos Juizes, e Vereadores , a ver feu man-
dado efcripto no livro em eífe titulo ailinado por el-
les, e d'outra guifa nom pagará, porque os Alvaraaes
de fóra [e perdem, e nom podem tambem vir em ar-
recadaçom.
3 ITEM. Todallas defpezas meudas, que fe feze-
rem, faça-as perante o Efcripvaõ da Camara, poen-
do as defpezas como fe fazem, e porque, e per cujo
mandado; e ao dia da vereaçom fejam moftradas aos
Vereadores, e as que virem que fom boas, e neceffa_
rias , e verdadeiras ailinem-as em eífe livro per fuas
maaõs : e o Efcripvaõ teerá tal hordem em fcrepver
as defpezas , que fempre as fcrepva em tal guifa , que
poífaõ em fim do tempo bem veer , e entender quan-
to he o que defpende em cada húa coufa, aífy como
as foldadas poerá todas em huú titulo, e as obras, ca-
da obra, e a defpeza, que fobre ello fezer em feu ti-
tulo.
4 ITEM. Todolos Mandados, e Acôrdos, perque
fe ajam de fazer algúas coufas, fcrepva no livro da
Vereaçom ailinado per aquelles , que o acordarem.
5 ITEM, Seja bem avifado o dito Procurador, que
nom receba, nem defpenda nenhúa coufa, falvo pe-
rante o Efcripvaõ, que o logo fcrepva cm o dito li-
vro,
Do PRocuRADOR DO CoNCELHo, ETC. 189

vro, e fazendo o contraira, nom lhe feja recebido em


defpeza (a) •
6 ITEM. Eíl:e Procurador em quanto as rendas
nom forem arrendadas , recade-as em tal guifa , que
fe nom percaõ , fob pena de as pagar com o dãpno ,
que o Concelho receber, por feos beés.
7 ITEM. Defpois que arrendadas forem , faberá
do Efcripvaõ da Almotaçaria, e aíly dos outros Offi-
ciaaes , e Meíl:eiraaes fe cairom alguús em cooimas,
ou penas , e demandallas-ha pera o Concelho , como
lhe em cada huú titulo forem poíl:as , fob pena de as
pagarem de feos beés.
8 ITEM. Requererá bem todollos adubios , que
comprir , nas cafas , e bens do Concelho , e feus fei-
tos em tal guifa , que fe nom percaõ per fua mingua ;
e o que mal apoftado for, requeiraõ aos Vereadores ;
e o Efcripvaõ ho efcrepva affy pera fe veer quem foy
em culpa , e o paguar.
9 ITEM. ~ando acabar feu Officio perante o
Efcripvaõ entregará todallas coufas , e affy as obras ,
e beés , e eíle Efcripvam efcrepva como as entregua,
e aífy em cada huú anno.
1o ITEM. Nas Cidades , e Villas, honde ha The-

foureiro per fy apartado, e Procurador do Concelho,


porque ao Thefoureiro perteence fazer a moor parte
deíl:as coufas , o Procurador tenha efpicial carreguo
de requerer , e procurar todos os feitos , e coufas da

-----------------------
Ci-
(a) uem aífentada,
LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA

Cidade, e Villa, honde affy he Procurador, e eíl:ar


cada dia prefks, e diligente na Camara, ou lugua-
res , honde fe fezer vereaçom , pera fazer, e requerer
todallas coufas, que lhe for mandado pelos Vereado-
res da Cidade.

TITULO XXX.

Do Alquaide Pequeno das Cidades, e Vi/las, e coufas,


que a Jeu Oiflcio perteencem.

I TEM. Porque achamos , que nos tempos paffados


fe fazia muito mal affy de noite, como de dia, e
muitos furtos, e mortes d'homees per aafo de as Ci-
dades , e Villas dos Noffos Regnos nom ferem bem
guardadas per o Alquaide, e feus homeés, Manda-
mos ao Alquaide , que faça em tal guifa , que aíly de
noute, como de dia guardem bem as Cidades, e Vil-
las com os homeés jurados, que lhes ferom dados pe-
los Officiaaes dos Concelhos naturaes , ou moradores ,
e reiguados na terra ; e quando de noute andarem ,
tragam fempre huú Tabelliaõ , honde nom ouver
fcripvam deputado pera eíl:o, o qual dará fe, e tefte-
munho das coufas, que os Alquaides fezerem, e acha-
rem em tal guifa, que par fua mingua , ou negrigen-
cia fe nom faça mal , nem furto , nem roubo nas Ci-
dades , e Villas , ca fazendo-fe o contrairo, pagualo-
ham por feus beés. 1 E
Do AL<UJAIDE PEQYENo DAS CIDADES, ETC. 191

1 E ESPECIALMENTE em cada húa noite fejam to-


dos juntos , quando tangerem aa oraçoõ, em cafa do
Alquaide pequeno, e elfe Alquaide, e Efc ripvaõ lhes
enfiné como ham de guardar a dita Cidade , ou Vil-
la ; e eífo medês os noffos homees guardem bem a
dita Cidade , fegundo for acordado pelo Alquaide
pequeno , e Efcripvaõ ; e nom fe apartem os noílos
homeés a andar de noite, ataa que cheguem a cafa
do dito Alquaide , e que lhes per elle , e per o dito
Efcripvaõ feja devifado pela guifa que ajam de fazer;
e os prêfos , que prenderem , digaõ ao Porteiro por-
que cada huú he prezo, pera o guardar o dito Por-
teiro, e faber a quem ho ha d'enviar pera o livrar. E
Mandamos , que o que cada húa das fobreditas cou ..
fas nom fezer , e for negrigente por a primeira vez
perca o mantimento de oiro dias, e por a fegunda de
quinze dias,e por a terceira d'huú mez,e pala quar-
ta feja prezo , e nom feja folto fem Nolfo mandado ,
falvo moftrando tal razom, porque a eíl:o nom feja
theudo , da qual deve conhecer o dito Alquaide , e
Scripvaõ.
2 E MANDAMOS, que o dito Alquaide, e os Nof-
fo s homeés ajam fuas armas, pera guardarem a Vil-
la, de dous em dous annos no almazem Noífo da di-
ta Cidade , a faber , fenhos * canbafes (a) *, e fenhos
bacinetes , e as outras velhas entreguem-nas elles no
dito almazem; e outro fy aja armas o dito Efcripvaõ ,
[e

(a) corpos de folhas S,


192 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA

fe quizer pera o aguardar com ellas alguú feu homem:


e eíl:o fe entenda quando fe a Alqua1daria correr por
Nós ; e fe for rendada, dem os Rendeiros as ditas ar-
mas aos fobreditos, falvo fe o enbarguarem as condi-
çooés da renda.
3 ITEM. A eíl:es homees dará, e pagará o Alquai-
de Moor feos mantimentos nos lugares , honde he
hordenado que os Alquaides Moores os devam pa-
gar; e nom o fazendo aífy, os Juizes tomem tantas
de fuas rendas, per que logo fejam paguados.
4 ITEM. Os Alquaides nom poeraõ em effes Offi-
cios, nem trazerom outros homeés com figo, falvo
efl:es , que jurados forem, efcriptos no livro do Con-
celho; e fe outros trouxerem, por fe delles fervirem,
ou ajudarem ao dito Officio , trabalhem-fe que nom
façam mal , nem dãpno, e fe o fezerem , elles fejam
theudos a pagar por elles , ou os entreguar a J uíl:iça.
5 ITEM. Todo Alquaide ferá deligente per fy, e
per feus homeés guardar as Audiencias, e trazer os
prezos perante os Juízes, quando lhe mandarem ; e
prenderá per feu mandado, e d 'outra guifa nom , fal-
vo em aquelles cafos, que deve ; e os que elle per fy
prender, leve-os perante o Juiz, ante que vaaõ ao
Caíl:ello : pero fe for de noute , ou a: taaes oras , que
nom poífa achar Juiz, ou naõ for na Cidade, ou for
tal peffoa o prefo, que feria coufa prigofa de o trazer
pola Villa, leve-o aa prifom, que tiver em fua caía,
ou a alguma outra, que pera dlo !eja finada pelo Al-
qua1-
Do ALQ!T AIDE PEQYENO DAS Cm ADES, ETC'. 193
quaide Moor, e venha logo pola manhaã ao Juiz, [e
o aa noite prender; e fe merecer feer prefo , feja-o, e
fe o nom merecer , foltem-no fem carceragem.
6 hEM. Seja ainda bem deligente em guardar os
Almotacees, e açougues, e praças em tal guifa, que
nom entrem nos açougues , nem tomem a carne , e
pefcado, e as outras coufas , que aa praça vierem ,
per força, e fem dinheiro, fob pena de as pagar a feus
donos, e nom aver o que delles ha de levar por o
Foral da Cidade.
7 ITEM. O Alquaide nom deve fazer pedida per
fy , nem per outrem , de pam , nem cevada , nem
d'outras coufas na Cidade, e feu termo , honde he
Alquaide , e fe o fezer , e algúa coufa levar , torne-o
em dobro aaquelles, a que o levar.
8 ITEM. Nom prendera por achaque, nem por
outra coufa apoíl:a a nenhuú, nem leve por ello delle
nenhuúa coufa , e fe o levar , torne-o em dobro.
9 !TEM. O Alquaide nom penhore, nem cof-
trangua nenhuú per nenhúa divida, nem por outra
coufa, falvo fe lhe for mandado per Juízes , ou por
Almoxarifes , ou por alguú outro, que pera ello aja
Noffa authoridade.
10 ITEM. O Alquaide norn folte prefo fem man-

dado dos Juízes, e fe o faltar, e fe perder juíliça, ou


corregimento alguú, o Alquaide , ou aquelle que o
foltar, feja theudo por ello , e lho façam logo os Jui-
zes emmendar , e correger , fe for feito de corregi-
Liv. L Bb men-
LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA

mento ; e fe for feito de crime, e nom for o Alcaide


do Caíl:ello, prendaõ-no logo, e façam logo delle di-
reito, e juíl:iça ; e íe for o Alquaide do Caíl:ello nom
o prendaõ , e enviem-no-lo dizer pera Mandarmos o
que for Noíla mercee.
I 1 !TEM. Se o Alquaide nom trouxer os prefos á

Audiencia perante os Juizes , ou os nom faltar per leu


mandado, os Juizes lhe façam todo pagar , e corre-
ger pelos beés deffe Alquaide.
12 ITEM. O Alquaide Moor, ou pequeno nom
poerá por fy outro Alquaide na Cidade , ou Villa , e
feu termo , fem Noffa authoridade ; e o Alquaide pe-
queno, que o contraira fezer , por effe feito perca lo-
go ho Officio , e nom refpondam a effes, que affy po-
zer com nenhúa coufa, nem façam por elles, nem os
ajam por Alquaides; e ie algúa coufa levarem, tor-
nem-o em dobro aaqu elles, de que o levaram; e fe o
Alquaide do Caíl:ello o pofer, façam-no faber a Nós,
pera lho íl:ranharmos como Noíla mercé for. Pero fe
o Alquaide pequeno tever neceílidade de infirmida-
de , ou outra femelhante , que por fy nom pofia fer-
vir, o notefique , ou mande noteficar aos Juizes , e
Vereadores, e Officiaaes daquella Cidade, ou Villa,
ou Lugar , honde for, e com feu acordo, e prazimen-
to ponha outro pera ello perteécente , que feu lugar
tenha , ataa que fora feja da dita neceílidade, e mais
nom.
I 3 ITEM. Os homeés, que forem dados ao Al-
qua1-
Do ALQ.lTAIDE PEQ.lTENo DAS CIDADES, nc. 19 5

quaide, fejam aprefentados perante os Juizes, e Of-


ficiaes, e dem-lhes juramento na Camara, e fcriptos
no livro da Vereaçom pera ferem conhecidos, e os
temerem como homeés de Juíl:iça.
14 ITEM. O Alquaide nom leixe trazer armas a
nenhuú no tempo, que forem defefas, e as tome, e as
coute aos que as trouxerem , falvo fe forem Cavallei-
ros, e Cidadaaõs honrados de Lisboa, e homeés, que
vaaõ, ou venham de caminho, ou que vaaõ veer fuas
herdades, ou aquellcs, a que Nós mandarmos , que
as tragam per Noífas Cartas, ou Al varaaes ; nem dem
licença, nem lugar a n~nhuú, pofto que do Alquaide
Moor feja, e viva com elle; nem faça com alguú
avença por as cooimas, e penas que hã d'aver daquel-
les, a que fom defefas, antes da Sentença; e fe def-
pois da Sentença as quitarem a alguús, poífam-no fa-
zer húa vez ,e mais nom; e fe a mais quitarem aaquel-
la pe!foa, paguem a pena em dobro ; e fe o contrairo
fczer, fe for Alquaide Moor, pague dous mil brancos
pera a arca das malfeitorias, e fe for Alquaide peque-
no, pague mil brancos por cada huú.
15 E MANDAMOS aos Taballiaaés fob pena dos
Officios, e de ferem dados aos que os accufarem , fe
taaes forem , que os mereçam, que fcrepvam, e dem
em eftado aos Juízes quaees fom os que as affy tra-
zem por fua licença, ou a fabendas deífe Alquaide,
ou as elle vio, e as nom quiz coutar, e tomar; e effes
Juizes façam-lhe logo pagar a pena fofo dita fob pe-
Bb 2 na
196 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA

na de a pagarem por feos beês: e da obra, que os Jui-


zes fezerem, aífy o dem ao Corregedor da Comarca,
pera veer como fe deu aa eixecuçom , ou a fazer elle
eixecutar fob pena de a pagar em dobro. E efto todo
fe entenda no tempo, em que as armas forem defe-
fas ; e acontecendo , que a defefa das armas feja le-
vantada , como he ao prefente, entom as nom filhe a
ninguem , falvo trazendo-as de noute aas deshoras,
ou de dia , fazendo com ellas o que nom devem, ca
entom as perderam , e ferom demandadas fobre as
penas, e claufulas fofo ditas.
16 ITEM. Se o Alquaide for requerido, que po-
nha fegurança antre alguús , que andarem em alguú
arroido, ou lhe for mandado pelo Juiz, logo fem tar-
dança a ponha , e nom leve por ello , nem peça coufa
algúa , e nom ponha outra delongua , que logo -;. alio
(a).,, nom vaa, ou envie tal, que a ponha; e fe o aífy
nom fezer, e fe por ello feguir morte, ou outro mal,
feja por ello ho Alquaide theudo.
17 !TEM. O Alquaide nem feus homeés nom vaaõ
de noite, nem de dia a cafa d'homé boõ, nem de
boa molher , por dizerem , que lhe bufcam hi gar-
çooés, e molheres, de que ajam d'a ver prol , nem lhe
britem fuas cafas , nem entrem em ellas ; ca nom he
de creer, que os boõs, nem as boas em fuas cafas taaes
coufas ajam de confentir ; e fe o contrairo fezerem ,
carregam o mal , e dãpno, e defamamento aaquelle,

-----------·---------
(11) a ello S,
a
Do AtQ.lTALDE PEQ.17ENo DAS CIDADES, ETC. r97
a que a deshonra fezerem; e fe nom tiverem per que
o corregam, prendam-nos , e eftranhem-lho , como
* o feito demandar ( a) •
I 8 E ESTO fe nom entenda nos barreaueiros ca-
º
fados, e nos Clerigos , porque fabendo , e feendo cer-
to o Alquaide per prova cerca , que elles ceem fuas
barregãas em fuas cafas , podem entrar em ellas , e
as prender , e fe as hi nom acharem , encom provan-
do , que ellas eram dentro, que fogirom , ou as pofe-
rom per outra parte em falvo, nom feja o Alquaide
por ello cheudo.
19 hE.M. Se trabalhe o Alquaide , e feos ho-
meês , que os barregueiros cafados, e fuas barregaãs ,
e as barregaãs dos Clerigos , e Frades, e Religiofos fe-
jam prefas , feendo achadas , e fe as achar nom pode-
rem , que as citem , e demandem , e façam com prir
as No!fas Hordenaçoões fobre eíl:o feitas.
20 ITEM. Faça em tal gu~fa o Alquaide, que os
direitos , que ham d'aver dos Carniceiros, e d'outras
peffoas, que os requeira cada dia, e nom o fazendo
aíly, que os nom poífa defpois demandar, e fe os de-
mandar, que os Juízes o nom recebam a tal demanda.
2.1 !TEM. O Alquaide, e Carcereiros nom levem
maior carceragem, que a que ham de levar, fegundo
he contheudo na Hordenaçom fobre ello feita , e o
que mais levar aja a pena, que he contheudo no titu-
lo das carcerageés: e outro fy nom levem carcerageés
dos
(•) llD- ÍCÍtQ CQllbcr S,
198 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA

dos que forem foltos , ante que vaaó aa prifom , ou


que levarem aa cadea fem mandado dos J uizes , ante
que os levem perante elles, fe os Juízes os manda-
rem foltar, por nom merecerem de fer prefos.
22 ITEM. O Alquaide, e feos homeés nom fejaõ
oufados de levar dinheiros , nem outra coufa d'alguú
prefo polo levar honde o hã d'ouvir; e qualquer, que
o contrairo fezer , pola primeira vez pague-o em
tresdobro , e pola fegunda anoveado, e pola terceira
feja logo açoutado pela Villa, fe for homé do Alquai-
de, e fe for Alquaide , perca o Officio.
23 ITEM. 00 Alquaide Moor , e pequeno compre
pouco trazer com figo homeés d<\pninhos. E porque
he dito , que feus homeés foltamente fe vaaõ por os
pumares , e vinhas , e ortas , e tomaõ as fruiras , e
uvas , e as trazem contra voontade de feus donos ,
Mandamos aos Juizes, que fe trabalhem ,que faibam
parte quaees efto fazem , e mandem logo requerer o
Alquaide, que corregua o dãpno , e pague a cooima
em dobro por os feos homeés , ou lhos entreguem ; e
fe lhos entregarem, façam delles direito ; e nom lhos
entregando, pelos beés deffe Alquaide façam logo pa.
gar o dápno aa parte , e a cooima ao Concelho , ou
Rendeiro em dobro, fob pena de a pagarem por feos
beés. ·
24 ITEM. Porque alguús Alquaides Moores, fe ..
gundo he provado , mandaõ cortar lenha das olivei-
ras verdes, ou fecas, e quando lhes defto nom praz ,
man-
Do ALQlJAIDE PEQlJENO DAS CIDADES J ETC. 199
mandam aos olivaaes alhêos por os cepos, que hi
efiã, e dizem que nom fom já pera prefrar, Manda-
mos ao dito Alquaide , que tal coufa norn mande fa_
zer ; e fazendo o contrairo , Mandamos aos Juizes ,
que por feos beés lhe façam correger o dapno a feu
dono, e pena dos dinheiros pera o Concelho, fegun-
do he contheudo na Hordenaçom do que talha, ou
traz lenha d'oliveira.
25 !TEM. Todallas cooimas, ou penas, que o Al-
quaide ou ver d'aver daquelles, que achar em cooima,
aífy como os que trazem armas, ou fazem forças , ou
lançã de noure augas , ou outras femelhantes coufas,
demandem-nas do dia, que as coutarem , e fouberem
a tres dias , e nom as demándando ataa effe tempo,
que as nom poífaõ mais demandar.

T I T U L O XXXI.

Das Armas como Je ham de fi!har.

N Os achamos, que ElRey Dom Joham Meu


Avoo defpois que ouve aífeífegados eftes Reg-
nos, e cdfou a guerra antre elle, e ElRey de Caíl:el-
la , ftabdleceo, e pofe por Lei geeral em todos os di-
tos Regnos, que nom trouxeífe nenhuú armas algúas,
falvo fe foífe Cavalleiro d•Efpora dourada, ou C1da-
daõ de Lisboa ; e qualquer, que o contrairo fezeffe,
per-
200 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E HU?.[

perdeífe a arma , que trouxeffe , e mais pagaffe qui,.


nhentas libras, fegundo mais cumpridamente he con-
theudo na dita Hordenaçom ,e Artigos fobre ello fei-
tos.
1 E DESPOIS que com a graça de DEOS viemos
ao Eftado Real , fentindo por Noífo ferviço, o Infan-
te Dom Pedro Nofl'o muito amado , e prezado Tio,
e Padre, Noífo Tetor, Curador, Regedor, e Defenfor
por Nos em No!fos Regnos, (a) acordou com os do
Noífo Concelho de levantar a dita defefa, e mandou,
e pôfe por Ley, que qualquer Noílo natural, de qual-
quer condiçom que foífe, nom feendo Clcrigo d'Oor-
deés Sagras, ou Beneficiado , ou Judeu , ou Mouro ..
podeífe em Noífos Regnos trazer livremente quaeef-
quer armas offenfivas, que lhe prouveífe fem pena
algua , com tanto , que as nom trouxeífem de noute
aas desoras , ou de dia , fazendo com ellas o que nom
deveífem , e em cada huií deftes cafos as deveífem
perder.
2 PERO aquelle , que foffe d'Oordeés Sagras , ou
Beneficiado, as podeffe livremente trazer quando
foífe aas Matinas, ou vieífe dellas pera fua cafa di-
reitamente ; e tambem nos outros cafos, cm que a11
cada huú poderia trazer no tempo, em que as armas
erom defefas, em os quaees cafos as poderã trazer os
ditos Mouros, e Judeos, e Eíl:rangeiros, fem pena.
E efto * fe nom entenda (b) * quanto aos Eíl:rangei-
ros,
(a) e .SeuboriQ S, (6) nom cntcndc11101
DAS ARMAS COMO SE HAM DE FILHAlt. 20I

ros , que trouverem facas defpontadas , porque t;aais


facas poderom em todo o tempo livremente trazer
fem algúa pena.
3 A Q.11AL Ley affy feita pelo dito Ifante, Man-
damos que fe guarde em quanto Noífa mcrcee for•
affy como por elle em Noífo Nome foi hordenado. E
porque poderá acontecer, que defpois que com a gra-
ça de DEOS viermos a tal hidade, que bem poffamos
a ver o Regimento de Noffos Regnos, acordemos por
Noífo Serviço de confirmar a dita Hordenaçom feita
per o dito Rey Noffo Avoo, mandamola encorporar
em efta nova reforrnaçom das Hordenaçooés por tal•
que a todo o tempo fe poffa veer, e aver fern outra
defeculdade, da qual o theor he eíl:e, que fe adiante
fegue.
4 Nos ElRey Dom Joham achámos, que ElRey
Dom Fernando em feu tempo fez huma • Hordena-
çom (a) * ácerca das armas como hã de feer filha ..
das, e recadadas em cíl:a forma , que fe fegue.
5 As armas devem fer filhadas aífy nas Cidades•
e Villas, como nos termos dellas pelos Alquaides, Oll
pelos Noffos horneés, ou por cada hum delles, ou
por alguõ outro, que aja poder de as tornar, corno
as de direito devem tomar.
6 TANTO que as tomarem nas ditas Cidades, ou
Villas, logo vaaõ bufcar ho Efcripvaõ da Alquaida-
ria, aquelle, que a tomar, e aqueile, a que a toma-
Liv. I.
----- ----- ----- --
Cc rem ,
(4) s.
Lcy
202 LIVRO PRlMURO TITULO TRlNTA E HUM

1 em , fe alto quifer hir, e for tempo; e fe fôr tarde,


que norn poffam hir hu elle for , façã-lho faber em
outro dia; e fe effe, a que a tomarem, moftrar titulo
tal, porque a deva trazer, effe Efcripvaõ regifte em
feu livro o titulo, porque a ha de trazer aacufta do
Senhor da arma, e fatisfaça-lhe com dous foldos o
dito regifto, e ao Noffo homem huú foldo, e entre..
gue-lhe logo a arma. E fe d'hi en diante lhe for toma-
da , nom pague nehúa das ditas couzas, e feja-lhe lo-
go entregue, nom avendo outra razom algúa, porque
a* tomar (a)*; e nom entregando logo o dito Noífo
homem a dita arma aa dita parte, a que a tomou, fe-
gundo for julgado per aquelle, que o pode ouvir, ve-
ja eífe Efcripvaõ a valia da dita efpada, e pague-a ho
Noffo homem a feu dono em dobro, * e a Nos (b) •
pague outro tanto, como valer a dita efpada, fal vo fe
pofer boa razom conhecida, porque fe moftre, que
nom he em culpa da deteença da dita arma: e eílo
medes fe entenda nas outras penhoras, que cada huú
Noffo homé fezer.
7 E si:: allo a dita parte nom quifer hir., o dito
Noífo homé lhe deve affinar , que logo em outro dia.
feguinte, que feja d' Audiencia, vaa perante o Juiz
a defembargar a dita arma, e efto lhe affine prefente
tefiemunhas.
8 E o DITO Noífo homem vaa logo, como dito
he, com a dita arma, que tomar, bufcar o dito Ef-
cn-
(aJ torne (ó) cJnais
DAS ARMAS COMO SE HAM DE P'ILHAR. 20]

cripvaõ, e lhe digua como tomou a dita arma, e o no-


me daquelle. a que a tomou, e outro fy o nome da-
quelle, com que vive, e o lugar, hondc a tomou, e
a que oras, e os finaaes de!fa arma , e affi efcrepva
em feu livro o Efcripvaõ as ditas coufas. E fe a dita
arma for tomada em fua prefença , a dita arma fej a.
loguo defernbargada per Sentença ao dia feguinte da
tomada per o Juiz Hordenairo,ou feu loguo teente, fe
o logo fazer poder o Juiz, fe nõ no mais breve tem-
po, que poder, pera fe as armas nom dapnarem , e
as partes nõ ferem detheuda.s ; e feendo ho Efcripvaõ
prefente, que fcrepva como o feito paífar em feu livro.
9 E o ESCRIPVAÕ va recontar ao Juiz da* Alça-
da ( a) * a Sentença, que o Juiz Hordenairo der em
razom das ditas armas cõ toda a razom da dita Sen-
tença, e* prova (b) • della. E Mandamos que o fei-
to feja trautado perante cada huu dos fobreditos, pre-
fente o Noífo Procurador, por dizer hi pola Noffa
parte o que perteence ao Noffo direito, correndo-fe
a Alquaidaria por Nos.
ro E MANDAMOS, que tanto que a dita arma for
julguada a Nos, que logo feja entregue pelo Noffo
homem, que a tomar, ao Porteiro do Caíl:ello deffa
Cidade , pera dar della recado com as outras coufas ,
que a feu Officio perteencé, e eífe Porteiro dê ao di-
to homé No(fo huu foldo, porque a tornou, e feja-
lhe efcripto em defpeza pelo dito fcripvaõ, fegundo
Cc 2
------------ ----------
he de cuftume. 1I

(a) Akaidãria (ó) pciu


204 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E HUM

11 E SE o dito homé Noffo mais detever em fy a


dita arma, pague por ella o dobro do que valler, e fe_
ja prefo ataa Noffa mercee , fal vo fe moíl:rar algúa
razom lidima, porque fe mofüe , que nom he culpa
delle. E eílo fe entenda afi'y correndo-fe a Alquaida-
ria por Nos. como feendo arrendada, e feendo a dita
arma defembargada na primeira Audiencia : e fe nõ
for em efi'a Audiencia defembarguada, que o Nofi'o
homem ha entregue ao dito Porteiro, prefente o di-
to Efcripvaõ , affy que o dito Nofi'o homem a nom
tenha mais em feu poder, que a primeira Audiencia,
fob a dita pena. E Mandamos, que o dito Efcripvaõ
efcrepva em feu livro como o dito Noífo homem en-
tregou a dica arma ao dito Porteiro.
12 ITEM. Mandamos, que as dicas armas fejam

todas vendidas de rnez em mez, perame o dito Ef-


cripvaõ, e Porteiro do Caftello, o qual Porteiro de-
ve receber os ditos dinheiros, porque forem vendi-
das, e o dito Efcripvaõ as efcrepva em feu livro quan-
tas iom, e porque forom vendidas, e o dia em que
as receber o dito Porreiro : e eíl:o haja luguar, ven-
dendo-as em almoeda , e nas feiras per pregam , ou
per alguns dias ao tempo que o dito Porteiro, e Scri-
pvzi.õ virem que fe milhar poderaõ vender, e avendo
ante febre ello acordo com o Veedor da Noffa Fa-
zenda ., ou cõ os Noffos Contadores.
13 E. DESP01s defio hordenou ElRey Dom Joham
Meu Avoo de Gloriofa Memoria ácerca da tomada
das
DAS ARMAS COMO SE HAM DE FtLHAR 205

das armas, que nom feja nenhuú taõ oufado de qual-


quer efiado, e condiçom que feja, que tragua arma
algúa grande, ou pequena, falvo fe forem Cavallei-
ros , e Cidadaãos honrados da Cidade de Lisboa; e o
que o contraira fezer , perca as armas , que trouver ,
e fejam pera o Alquaide da Cidade, ou Villa, onde
efio acontecer, ou feus homcés , que lhas coutarem ,
ou tomarem, ou os Noffos Meirinhos, ou das Correi-
çooés , porque aquellas armas, que cada huú delles
coutar , ou tomar, ferom fuas ; pero eíl:o fe norn en-
tenda em aquelles , que andarem caminho, quando
per elle forem , nem aquelles , que forem veer f uas
lavras , e herdades , porque taaes, corno eftes, as po-
deraõ levar, e trazer livremente, em quanto pera el-
las forem, e dellas vieré.
14 ITEM. Hordenou mais, que todo aquelle, que
for achado trazendo arma, perca a dita arma, e mais
pague quinhentas libras da Cadea, fe for piam , e fe
for Vaffallo, ou aconthiado em Cavallo, ou Meeíl:re
de Naao , ou de femelhante condiçom , a tal, como
efte, feja-lhe coutada a dita arma,. e pague a dita pe-
na fern indo por ello aa Cadea ; a qual arma , e pena
ferá dos Alquaides , ou Meirinhos , ou feos homeés ,
que lha coutarem, ou tomarem , como fofo dito he i
e fe lha outrem coutar, que nom feja dos fobreditos.,
cífe, que a aífy coutar, a verá a meetade da dica arma
e pena, e a outra meetade fcrá do Alquaidc da Cida-
de> ou Villa, honde efto acomecer.
206 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E HUM

15 !TEM. Hordenou mais ElRey Meu Senhor, e


Padre de femelhante memoria, que todollos natu-
raaes, e moradores deftes Regnos poffaõ livremente
trazer facas , ou punhaaes, com tanto que nom fejam
maiores em ferro , que huú palmo, e fejam defpon-
tadas em tal guifa, que cõ ellas nom poffam ferir de
ponta per nehuúa guifa.
16 As quaees Hordenaçooés Mandamos , que fe
guardem , e cumpraõ cm todallas Cidades , e Villas
dos Noffos Regnos no tempo, que as armas por Nos
forem defefas.

T I T U L O XXXII.
Dos Carcereiros da Corte , e do que a feu.r O.ffici'os
perteence.

P quatro homeés. o Carcereiro da Corte ha de teer


RIMEIRAMRNTE

1 O Carcereiro dos Ouvidores dous homeés


ITEM.
pera encadear , e defencadear os prefos , e os guar-
dar; e o Carcereiro do Corregedor ha de dar huã ca-
dea de monte, e dous homees * pera (a) • os cami-
nhos , per honde quer que Nos andarmos, pera os
que prenderem, e com elles ha d'hir huú homem do
Meirinho das Cadêas.
2 ITEM. Haõ de guardar mui bem fuas prifooés,

-------~-~-------
e
(a) que andem per S,
Dos CARCEREIROS DA CoRTE, !Te. 207

e os prefos, e aprifoallos fegundo os malleficios , em


que o prefo he culpado, e a qualidade das pe!foas : e
requereraõ cada dia duas vezes os prefos das prifooés
pera veer fe fom bem preíos , e recadados , e fe tem
feita algua malicia pera fe haverem de folrar; e quan-
do achar algua coufa mal feita, notificallo-a logo a
gram prefia ao Corregedor, e ao Meirinho das Ca-
deas, pera hi logo tornarem , e proveerem com jufti-
ça : e levallos-haõ a verter augua o Carcereiro, e o
Meirinho com os feus homeés duas vezes no dia.
3 ITEM. * Ha (a)* de fazer todalas coufas , que
lhe o Meirinho das Cadêas mandar fazer por Noífo
ferviço.
4 ITEM. ~ando os prefos andarem caminho, ha5
de feer entregues aos Concelhos , honde chegarem, e
aífy de Concelho em Concelho.
5 ITEM. O Carcereiro nom ha de reer outro carre-
guo delles, quando forem per caminho, falvo apri-
foallos aa noute hu quer que cheguaré, e teer carre-
guo, e guarda delles em cada hua noite com os ho-
mees do Concelho, que os* levem (b) *, a que forem
encomendados, ataa ferem entregues honde a cadea
ouver d• eftar d• aífeífeguo.
6 ITEM. Nom ha de confentir, que nenhuú prr-
fo cragua ferros de beíl:a, que fe feichem * e (e)* def-
fechem com chave; e fe os elle mandar a alguem tra-
zer. ou confentir que os reagua, ham de feer do Mei-
rinho
208 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E DOIS

rinho das Cadeas, que lhos ha logo de mandar filhar.


7 !TEM. O Meirinho das Cadeas nom ha de par-
tir do lugar , honde a Cadea ftever aífeffeguada , ataa
que nom partam as Cadeas a primeira jornada; e eíl:o
quando fe aballarern d' huú luguar pera outro.
8 In:M. ~ando o Carcereiro vir que alguú pre-
fo he foberbo, e deshonef.lo, ou * volteiro (a) * em tal
guifa, que por feu aazo a Cadea receba alguú pcri-
goo, deve-o de notificar ao dito Meirinho das Cadeas,
ou ao Corregedor, pera lhe ferem lançadas grandei
Cadeas, e prifooés em tal guifa, que por caufa delle
fe nom poffa feguir outro dãpno a ello.
9 ITEM. Nom confentirom os ditos Carcereiros
aos ditos prefos, que cometaõ em a dita priíom al-
guús maleficios, affy como juguar dados, ou cartas a
dinheiro , ou arrenegar : nem confentir effo meefmo
que os ditos prefos, nem outros alguús homees de fo_
ra dormam em a dita prifom com as molheres hi pre-
fas; e dormindo o dito Carcereiro com alguã molher,
que affy tever prefa , ou confentindo a alguú outro ,
que com ella dorma, Mandamos que moira por ello.
IO ITEM. O dito Carcereiro nom levará peita
d'algum prelo por lhe deitar menor prifom, da que o
íeu deliél:o merecer , porque eíl:o he caufa de os ditos
prefos averem luguar de fugir : e fazendo o contrai-
ro , perca ho Officio , e mais feja punido fegundo a
peita, que levar, a qual pena fique em alvidro do
Julgador. 11

(i1) voluntario
Dos CARCEREIROS DA CoR TE , ETC. 20~

II OuTRosy feendo achado! alguús arteficios •


ou armas em a dita prifom, pera romper as ditas Ca..
deas, e foltar os ditos prefos , Mandamos que as per..
cam f eos donos, e fejam dos Carcereiros , ficando o-
briguados os que taaes arteficios, ou armas trouverem
a lhes demandarmos , fe forem, ou poderem feer pie..
fos, as penas , que entendermos que merecerem.

T I T U L O XXXIII.
Das carcerageeas da Corte , e como fe haõ de levar.

T Ooo homem , que for prefo na cadeado Cor..


regedor da Corte , ou dos Ouvidores , pague de
carccragem trinta reaes brancos, e dous reacs de mal
entrada, pera aquelle, que o desferrar quando o ouve..
rem de foltar : e por eíl:es dous reaes de mal entrada
ha o prefo d' a ver candeas, com que • fe veja (a)* de
noite, e mais augua pera beber de dia ; pero fe o pre-
fo quifer paaço, ou andar em ferros pela cafa da pri-
fom , que antigamente fe * chamou (h) * andar em
paaço, fem jazer aprifoado na cadea , e o feito, por
que el for prêfo, for tal , que o Carcereiro razoada-
mente lho deva , e poífa aífy fazer , tal, como eíl:e ,
pagará da carceragem tres libras da moeda ant1gua ,
que fom feífenta reaes brancos.
1 J TEM. Nom leve carceragem de nenhuú , que
Liv. I. Dd for
(.:,) ospreíoi fevejam (ó) acho~
210 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E TRES

for falto , ante que feja aprifoado, ainda que chegue


aa cafa da priíom por prefo, fe o mandarem foltar
ante que feja aprifoado: nem leve carceragem do que
for prefo fem mandado do Corregedor, ou Juiz , fe
elie achar que he mal prefo, e o mandar foltar, por
achar que foi mal prefo, e fem feu mandado , ou
d'outra algua Jufiiça.
2 !TEM. Todo prefo, que for levado pera outra
prifom , pague a meetade de toda carceragem , que
pagaria , fc de todo foffe livre.
3 !TEM. Em todolos Alvaraaes, per que os prefos
fejam foltos, fejam fcriptas as pagas das carcerageês
per maaõ do Efcripvam , que tever o feito do dito
prefo, pera vi irem todos a boa rccadaçom ; e o dito
Efcripvam leve por fazer o dito Alvará quatro reaes
brancos, e mais nom.
4 ITEM. Das carcerageês fe ham de fazer dous
quinhoõcs, e o Meirinho Moor ha de levar a rneeta-
dc, e da outra meetade fe harn de fazer treze quinhoo-
és, dos quaaes o Meirinho das cadeas ha de levar dez
quinhooês , e o Meirinho da Corte dous , e o Carce-
reiro huú, fegundo he concheudo no titulo em cima
pofio do Regimento, que perteence ao Meirinho das
cadeas.
5 ITEM. Mandamos , que fe per fugida d'alguús
prefos ficarem em a prifom algúas roupas, ou outras
quaaesquer coufas , nom as levem , nem ajam os AI-
quaides , nem Meirinhos, nem Carcereiros, nem ho-
.,
rnees
DAS CA'RCERAGEENS DA CORTE, ETC. 211

meés feus, mais paguem.fe, e corregan-fe per as di.


tas coufas as prifooés, e ferros , e quaaefquer outros
dãpnos , que os ditos prefos fezerem , na dita prifõ ,
fe elles todo efto per fy , ou per outrem nom paga ..
rem.

T I T U L O XXXIIII.
Das carcerageens das Cidades, t Vil/as, e como /e ham
de recadar.

J TEM. Todo homem, que for prefo por feito, que


nom feja crime, pague de carceragem cinquo fol-
dos da moeda antigua , e dous foldos de mal entrada:
e eíl:es dous foldos * pagará (a)*, poíl:o que na ca-
dea nom eíl:ê mais que húa ora; e ainda que jaça mui-
to tempo na prifom , nom pagará mais que os ditos
cinquo foldos; e efl:es dous foldos de mal entrada fom
dos carcereiros, e guardadores dos prefos.
1 ITEM. Porque ácerca deíl:as carcerageés fe re-

creciarn muitas duvidas, espicialmente qual fe deve


entender prefo por feito crime, e qual por feito civil,
a qual duvida declaramos em eíl:a guifa. Se for qtie-
rellado d'alguem per querelµt perfeita, e jurada, e tef-
temunhas nomeadas , fegundo a forma da Hordena-
çom , e elle por a dita querella for prefo , tal , como
eíl:e, fe entenda feer prefo por feito crime. E bem

-------------------·-
Dd 2 aífy
(u) pague
'.JI 2 LIVJlO PRIMEIRO TITULO TRINTA E ~ ATRO

affy dizemos, que fe pelas inquiriçooés geraaes, que


fe tiram cm cada huum anno pelas Cidades, e Villas,
pera ferem punidos os malfeitores, forem achados
alguús culpados , e alguús prefos, e bem affy feendo
alguum achado em alguum malefic-io, e por ello pre-
fo, ou em outro qualquer cafo femelhante, taaes, co-
mo eíl:es, entendam-fe ferem prefos por feito crime.
2 ITEM. Nom levem carceragem dos que forem
foltos ante que vaaõ aa prifom , ou fe prenderem al-
guem por a verem tal enforrnaçorn, que merece feer
prefo, tal 1 como efle , levem-no perante o Juiz , ou
perante o Corregedor, e fe o mandarem faltar , por
emederem, que nom merece feer prefo, nom leve
delle carceragem.
3 ITEM. Outrofy fe o prefo for aconthiado em
cavallo. ou Vaffallo, ou Meefire de Naao de Caíl:ello
d'avante, ou barcha, que feja de carregua de oiteen-
ta tonees , ou outro homem d e iemelhante fiado, ou
condiçom, e quifeer paaço, que fe agora chama Cafa
da adova, fem jazer mais a prifoado na cadea, e o feu
feito for taõ leve, que razoadamente o deva d'aver,
e for livre per fentença fem pena, pague de carcera-
gem tres libras.
4 ITEM. Mandamos,. que todolos Alvaraaes , per
que os prefos fejam foltos, fejam efcriptos pelo Efcri-
pvam da Alcaidaria, e leve por fazer cada huú Alva.
rá quatro reis, e mais nom; e em fim de cada huum
delles ponha a pagua, que o prefo ouver de paguar
de
DAS CARCERAGEENS DAS CIDADES , 'ETC, 2 J3

de carceragem, por tal, que pela dita pagua venham


as ditas carcerageés a boa recadaçom.
5 ITEM. O dito Efcripvam da Alquaidaria fará
huum livro apartado, em que ponha todalas carce-
rageés , que os ditos prefos pagarem , fegundo as pa-
gas, que elle pofer nos ditos Alvaraaes, per que os
prefos forem foltos ; e concertará efie livro cada fo-
rnana húa vez com ho outro, que tever o Carcereiro,
em que fom contheudos os ditos Alvaraaes com as
ditas paguas , porque per eíl:e livro ferá tomada con-
ta das ditas carcerageés a aquel, que as receber.
6 ITEM. Mandamos que quando alguú for prefo
pelo Alquaide > ou per cada huum de feus bom e és de
noite a taaes oras .. que o nom poffarn levar ao Caílel-
lo , ou aa prifom , levem-no a caía do Alquaide pe-
queno , ou a algúa outra cafa, que pera ello feja hor-
denada , e dorma hi effa noite, feendo bem guardado
em tal guifa , que em outro dia dê delle boo recado
ao Juiz o dito Alquaide, ou aquel, que rever carre-
go , ou cuidado da cafa, em que affy jouver; e fe for
de dia , levem-no ao Caíl:ello, ou aa prifom.
7 ITEM. Mandamos, que aquelle, que aífy for
prefo de noite, feja levado em outro dia pela manhaã
perante o Juiz, e fe o feito for de tal qualidade, que
deva feer folto, foltem-no fem hir ao Cafiello , ou aa
prifom , e pague por carceragem cinquo foldos da
moeda antigua ; e hindo ao Caftello,. ou aa prifom •
pague de carceragem , fegundo a condiçom , de que
for,
214 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E ~ATRO

for, e a qualidade de feu feito, como dito he.


8 ITEM. Mandamos, que fe per fugida d'alguít
prefos ficarem na priíom algúas roupas , ou quaaef-
quer outras couías nom as tomem os Alquaides, Mei-
rinhos, ou Carcereiros , nem homeés feus , mais pa-
guern-fe , e corregam-fe pelas ditas coufas as prifoo ..
€S , e ferros , que os ditos prefos quebrantarem , e
quaaesquer outros dãpnos, que fezerom na dita pri-
fom, fe elles per fy , ou per outrem todo nom corre-
gerem.
9 lT!!M. Todo prefo , tanto que for na prifom,
paguará dous reaes de mal entrada, pelos quaaes ha
d'aver candea de noite, com que geeralrnente os pre..
fos fe * veem ( a) •, e mais augua pera beber de dia
mais pagará quando o foltarem dous reaes para
aqudle , que o desferrar.
10 ITEM. Nom leve carceragem de nenhum pre-
fo, que for folto , ante que entre na cafa da prifom,
e fe o Carcereiro dê por entregue delle ; nem do que
for prefo, fem mandado do Corregedor, ou Juiz, fe
o el mandar foltar , achando que he mal prefo, e fem
feu mandado, ou d'outra alguã Juíl:iça.
Ir E MANDAMOS , que nom feja nenhuú Carce-
reiro oufado de mais levar de cada huú prefo, que o
que fufo dito , e declarado he; e fe o contrairo fezer,
per eífe meefmo feito perca o Officio, e feja prefo a-
taa Noífa rnercee.

TI-
(a) vejam
_______________
Dos TABALIAAENS, E EscRIPVAAENS ETC.
,
215

T I T U L O XXXV.

Dos 'l'abaliaaês, e Ejcripvaaês, do que ham de levar


de jeu joiairo.

P RrMEIRAMENTE em todalas Efcripturas, que fe


ham de contar per regras, affy como inquiriçoo-
és , apellaçooês , trelados , termos de proceffos , em
eftes aja defferença antre o Taballiam , e Efcripvam;
a faber , que o Taballiam leve de nove regras huum
real branco , e o Efcripvam le ve de dez regras huú
branco; e eíl:a maioria aja o Taballiam do Efc ripvam
per bem da penfom , que pagua a N ós em cada huú
anno.
r E POSTO que alguú Efcripvam feja pruvico em
alguús luguares, que poífa fazer Efcriptura pruvica,
corno· Taballiam, tal, como eíl:e, fe nom pagar a Nos
penfom, como pruvico Taballiam, nõ leve, falvo de
dez regras huú (a) branco, como outro Efcripvam.
Pero fe alguú Taballiaõ for privilegiado per Nos, que
nom pague penfom , nom leixe porem de levar de
nove regras huú branco , porque fern razom icna
feu privilegio fazer a elle prejuízo. E em rodolos ou-
tros autos , que ao Officio d' Efcripvam, ou Taballi-
am perteence, nom aja outra algúa deferença.
2 ITEM. D'húa cõmiffom fcripta no proceffo,
per que Nos , ou aquel, que noífo lugar rever, come-
ta
216 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E CINCO

ta o feito a alguú Juiz; ou alguú Julguador, que pe-


ra ello aja luguar, ho cometa a outro Juiz, que co-
nheça de tal feito; de tal cõmiffom levará o Taballi-
am, ou Efcripvam dous brancos da parte, em cu-
jo favor a cõmiífom he feita ; e fe for aprazimento
d'ambos , ou em feu favor, de cada huú levará feu
real branco, e mais nom.
3 ITEM. Das procuraçooés feitas em proceffo
opud a[la levará ho Efcripvam, ou Taballiam da par-
te, por que fezer efià proc uraçom, dous brancos; e
affy por cada húa procuraçom, ainda que faça mui-
tos Procuradores: e fe na procuraçom forem duas,
ou mais peffoas, que façam eífe Procurador, ou Pro-
curadores, de cada hua pelfoa levará dous reaes bran-
cos, fal vo fe forem mol her, e marido , ou Irmaãos
em húa herança, ou Cabidoo, ou Univerüdadc, ou
Concelho, que nom pagarom, fenom d 'húa peífoa.
4 ITEM. Da querella, ou fiadoria, ou aveença,
ou outro qualquer termo femelhante, que o Taballi-
am, ou Efcripvam efcrepver perante alguú Julgador,
ou per feu mandado for fazer em alguum lugar den-
tro na Villa , ou arra valde , donde o Julgador íl:ever,
levará elfe Taballiam, ou Efcripvam deífa querella,
ou fiadoria , ou aveença quatro brancos , alfy como
* levará(a)* de húa affeentada de teíl:emunhas, e mais
aja quanto montar em eífa efcriptura, que* fezer (b), •
contando-a aas regras, como fufo dito he.
5
(a) levar (6) fc.
Dos TABALIAAENS, E EscRIPVAAENS ETC. '217

5 !TEM. De qualquer termo, em que for efcripta


revellia, e fezer meençom de corno a parte foi apre ..
goada, levará o Taballiam, ou Efcripvaõ defTe ter-
mo da parte, em cujo favor he o termo, dous bran..
cos.
6 E DAS poblicaçoões das Sentenças, a faber, das
definitivas, levará eífe Taballiam , ou Efcripvam
quatro brancos , e das interluquitorias dous brancos
da parte, em cujo favor he a fentença: e fe a fenten-
ça fezer per ambalas partes , pagarom de per rneo •
ou cada huum, fegundo que a fentença for em feu fa ..
vor.
7 E DAS conclufoões dos feitos , affy c-0mo da
conclufom íobre o libello, ou fobre artigos, ou fobre
outra qualquer coufa , ou fobre a definitiva, de cada
húa conclufom levará eífe Taballiam , ou Efcripvam
huum branquo d'arnbalas partes, a faber, meo brãco
de cada húa parte: e fetal conclufom for aa revelia
d'húa das partes, levará a revelia, e a conclufom da
parte, em cujo favor he tal conclufom, e revelia. Pe..
ro fe for conclufom ante o Juiz da appellaçom, e for
íobre a definitiva, e fe eífe Efr:ripvam.nom ouve defie
feito vifta, ou outro proveito d'efcripturas, falvo adi-
ta conclufom , como muitas vezes acontece , aífy em
feitos crimes, como civis, levará o Efcripvam de tal
conclufom dez brancos, como fe ufou gram tempo
ha, d'ambalas partes, a faber, cinquo brancos de ca ..
da parte; e fe nom parecer , fcnom húa parte , e for
Li11. L Ee con..
218 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E CINCO

conclufo aa reyelia da outra, levará cinquo reaes bran-


cos de!fa parte, que parecer, e mais a revelia daquel,
em cujo favor he.
8 ITEM. Dos mandados, que o Julgador manda>
affy como quando affina o termo a algua das partes ,
a que venha razoar, ou venha com algúa efcriptura,
ou lhe manda dar o tralado d'alguas razoês, ou o lan-
ça da prova, ou razoado, ou d'outra coufa, ou d'ou-
tros taaes femelhances mandados , levará o Taballi-
am, ou Efcripvam da parte, em cujo favor for tal
mandado, huum real branco.
9 ITEM. Nas inquiriçoões, que tomar o Efcri-
pvaõ , ou Taballiaõ aalem daquello, que lhe a elle
montar de fua ekriptura contada aas regras , levará
as affeentadas das teíl:emunhas per eíla guifa; a faber,
de cada affeentada quatro brancos, e do dito das tef-
temunhas nom leve algúa coufa, falvo fua efcriptu-
ra, como Já dito he; e eíl:as aífeentadas fejam taaes >
que em cada húa aja tres dicos de teílemunhas , e fe
menos forem,nom lhe contem affeentada, falvo h11um
real branco do dito da teíl:emunha , e fua efcriptura.
IO E o ESCRIPVAÓ, ou Taballiam fará duas af-
feentadas no dia ; a faber , húa des oras de terça ataa
rneyo dia, e a outra depois de comer ataa faida da
vefpera, e eílará diligente a receber quantas teíl:emu-
nhas poder em o dito tempo em cada affeentada.
11 E PORQUE acontece aas vezes que em hua af-
fcentada o Taballiam, ou Efcripvam toma quatro, ou
cm-
Dos TABALJAAENS, E EscRIPVAAENS ETC. :219
cinquo tefternunhas, e em outra norn mais de duas •
ou húa , e efto he ou per as teíl:emunhas dizerem
muito, ou pouco, ou por a parte por entom nom po-
der dar mais, e eíl:o nom he em culpa do Taballiam,
ou Efcripvam, em eíle cafo refaçarn-fe as teftemu-
nhas d'húa aífeentada pela outra, e affy que leve de
cada tres teíl:emunhas per húa affcentada : e eílo fe
entenda quanto he aas teftemunhas, que o Taballiam.
ou Efcripvaõ perguntar em lugar acuíl:umado.
I 2 E SE acontecer, que vaaõ pela Villa perguntar
algúas teíl:emunhas em fuas caíàs, porque fom peffo-
as honradas das que hi merecem feer perguntadas, ou
andar tirando algúas inquiriçoões devaffas pelas Frei-
gu ifias, levem de cada trcs teíl:emunhas por húa af-
feentada, affy como fe as perguntaffem em luguar a-
cuftumado ; porque tam grande trabalho he andar
perguntando as teftemunhas pelas cafas, como e.íl:ar
em lugar acufiumado refidente certos efpaços.
I3 ITEM. Das penhoras, que fezerem effe Tabal-
Iiam, ou Efcripvam, quando for com o Porteiro, le-
vará o dinheiro, que lhe montar na Efcriptura , que
hi efcrepver contada aas regras, como ja dito he, e
mais a verá da hida , que • foi (a) • a effa penhora;
quatro brancos ; e outro tanto leve quando eftever aa
venda dos penhores cada vez, que hi efiever; a faber.
cada dia duas vezes, hüa ataa o genta.r, e a outra de-

-
pois de comer ataa vefpera, fe tanto durarem eífes
penhores, que fe venderem.
---------·--- --..:.----
Ee 2 14
220 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E SEIS

14 E si a parte penhorada quifer pagar, e lhe fo_


rem tornados effes penhores , levará o Taballiam , ou
Efcripvam a efcriptura, que fobre ello efcrepver, con-
tada aas regras , e mais deffa entregua quatro reaes
brancos; e eíl:o fe entenda quando a penhora for fei-
ta na Villa, ou arravalde do Lugar, honde o Taballi-
am íl:ever, porque fe mais longe for, levará maior fo-
lairo , como fe adiante dirá.

TI TU LO XXXVI.
Do que ham de levar os CJ'aba!liaães, e Scripv aães das
Cartas , e das Sentenças, e Alvaraaes, quefezerem.

E SE effe Taballiam , ou Efcripvam fezer Carta


de Sentença tirada de proceífo , que feja · taõ
grande , que leve toda húa pelle de carneiro chea de
boa efcriptura, fem malícia efcripta, levará della cin-
f}Uoenta brancos ; e de mea pelle vinte e cinco ; e do
quarto da pelle quinze brancos.
r PERO fc tal Carta for teíl:emunhavel , ou for
Efiromento, que fe faz per trelado d'outras efcriptu-
ras, nom leve de tal pelle chea fenom quarenta (a)
brancos , e de mea pelle vinte brancos , e de quarto
de pelle dez brancos: e eíl:o com tanto, que efias pel-
les, ou meas pelles, ou quartos fejam enteiros, e bem
efcriptos de rodo, que lhes nom tirem, fenom os cer-
cilhos:
(a) rucaM,
Do QYE HAM DE LEVAR OS TABALLIAAES l!'l'C, 221

cilhos: e aquella maioria (a) levem da Sentença, ou


Carta tirada de proceffo , porque he de maior traba-
lho, que aquel, que rrelada huã coufa por outra.
2 E SE a Carta, ou Eítormento, for taõ pequena,
que nom leve quarto de pelle, leve della per effe ref-
peito , fegundo fua quantidade.
J E DA Carta , ou Eíl:ormento, que fezerem em
papel, fe for tirada de proceífo, ou d'Eíl:ormento
d'agravo, e for toda a folha do papel chea bem efcri-
pta, levaram della dezefeis brancos, e da meetade da
folha oito, e affy per effe refpeito, fegundo fua quan-
tidade; e fe for Carta teíl:emunha vel, ou Carta direi-
ta , aífy como Carta de fegurança , ou de pofie , ou de
:irniizade , ou Carta feita per petiçom , que nom fom
de trabalho, levem da folha bem efcripta doze bran-
cos, e da rnea folha feis brancos, e aífy fua quantida-
de per eífe respeito.
4 E PORQY E alguús Efcripvaães, e Taballiaães
quando fazem algúas apellaçoões, ou outras Cartas
teíl:emunhavees grandes, e Efiorrnentos d'agravo,..
por levarem mais dinheiro das partes, do que leva-
riam , fe foffem fcriptas em proceífo" fazem-nas, e
efcrepvem-nas em folhas enteiras de longo, e nom em
proceffo , e cofem huãs folhas com outras cm rollo ,
o que he dampno do povo? , por refrear eíl:e engano,
Mandamos, que quando alguú Scripvam, ou Tabal-
liam fezer algúa (b) Carta teílemunhavel em papel,

--------- -----
ou
---·-----
l~J ajam , e S. (b ) Efcriptw:a 1 ou S.
222 LIVRO PRIMEittO TITULO TRINTA E SEIS

ou Eflormento d'agravo , ou outra qualquer Carta,


que noílo feello levar, poífa fazer tal efcriptura em
papel ataa tres folhas de longo em rollo, e ataa as di-
tas tres folhas de longo lhe fejam contadas , e mais
nom ; e fe paífar das ditas tres folhas , façam as di-
tas Cartas , e Stormencos em proceffo; e fe as d'outra.
guifa fezerem , nom lhe fejam contadas, fenom aas
regras , como e[criptura de proceffo.
5 E Qy ANTo he aas apellaçooés, façam-nas todas
em proceffo, e nom em Eíl:ormentos de longo, ain-
da que fejam tam pequenas, que nom paílem húa fo-
lha ; e fazendo-o cm outra guifa I feja.:lhes contada a
dita efcriptura aas regras, como em proceffo, e o mais
dinhei1;0 , que for achado , que levou da parte , façã-
lho tornar em dobro : e eíla pena ajam pola primeira
vez, que eflo fezerem, e por a fegunda, e por a ter..
ceira vez tornem os dinheiros, que aíly levarem aas
partes em tresdobro, fem os ditos Taballiaães, e Scri-
pvaães levarem algúa coufa das ditas efcripturas.
6 E Q.UANDO taaes efcripturas vierem aa noffa
Corte, ou á Cafa do Civil, feja contado aquello, que
montar dellas, aos Taballiaães, e Scripvaães I que as
fezerom, aífy como dito he; e aquello, que for acha-
do , que mais levaram, façã-lho tornar aas partes em
dobro, ou em tresdobro como fofo he declarado , e
em efta guifa ; a faber, fe forem hi moradores , o
Contador das cuftas os faça logo chamar , e faça-lhes
logo todo paguar realmente com e.ffeito; e fe forem
mo-
Do QYE HAM DE LEVAR OS TABALI.AAENS ETC. 22J

moradores em outra parte , faça logo elle Carta , e


paíle pelos Deiembargad ores, que do feito conhece-
rem, porque todo affy feja realmente eixecutado.
7 ITEM. Alvaraaes pequenos , que nom enchem
meia folha de papel, aífy como Alvaraaes pera pren-
der, e pera foltar prefos, ou pera citar teíl:emunhas,
ou d'outros femelhantes , levem eífes Efcripvaaés, ou
Taballiaaés quatro reaes brancos de cada huú; pero
fe o Alvará for taõ grande, que encha mea folha de
papel, levem delle feis brancos ; e fe maior for , le-
vem per eífe respeito.
8 E MANDA Mos, que todolos Taballiaaés, e Scri-
pvaaés ponham as pagas per fuas maãos, affy nas
Cartas , como nos proceífos, e renembranças , e Al-
varaaes , e em todalas outras efcripturas , que feze-
rem, de que devem de levar dinheiros; e das Cartas,
de que nom devem de levar dinheiros , ou poíl:o que
os ajam de levar, nom os levarem, . ponhaõ nihil: e
todos aquelles, que o contrairo fezerem, ajam* a (a)*
pena, que per Nós he ordenada, fegundo he concheu-
do no titulo dos Efcripvaaés do Defembarguo , e Cor-
regedor da Corte , e Ouvidores.

------ ------ ------ --


(a) _aqucllaS.
TI-
224 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E SETE

--------------------
T I T U L O XXXVII.
Do que ham de levar os 'J'aballiaaés do Paaço das
Ejcripturas , que feze1·em.

I TEM. Os Tabafüaaés do Paaço,que *fazem (a)•


as Efcripturas pruvicas notadas em feus livros, le-
varam da Efcriptura, que efcrepverem notada em
leus livros, e dos Eíl:ormentos, e Cartas, que efcre-
pverem pelas notas , e das bufcas eíl:o , que [e fegue.
r ITEM. Se fezerem tal efcriptura tirada de nota,
que encha toda húa pelle de perguaminho bem efcri-
pta fem malicia, levaram de tal efcriptura quarenta
reaes, e da nota della, que hc poíla em feu livro, le-
varam felfenta brancos, que he mais a terça parte ; e
eíl:a maioria ajam, porque levam maior trabalho na
nota, que na efcriptura, que fe per ella tira, que nom
teem de fazer, fenom treladar. E fe for eícriptura ,
que nom encha, falvo mea pelle, levem vinte reaes
brancos , e da fua nota trinta ; e fe nom levar mais
que quarto de pelle , levem doze reaes , e da fua no..
ta dezefeis reaes, e affy d'hi a jufo per effe refpeito.
E eíl:o fe entenda quando o Taballiam nom for fora
do Paaço fazer tal efcriptura , porque fe for fora do
Paaço fazer tal ekriptura, que feja na Villa, ou arra-
valde, honde elle eíl:ever, levará o que dito he das
ditas
(a ) fezerem S.
Do Q!lE HAM DELEVAROSTABALLTJ\AENS ETC. 225

ditas efcripturas, e mais quatro brancos da hida.


2 ITEM. Das efcripturas, que effes Taballiaaés do
Paaço fezerem em papel, fe for tal efcriptura , que
• encha (a)* húa folha de papel, levarom della doze
brancos , e de fua nota dezefeis reaes, que he mais a.
terça parte ; e da mea folha levarom feís reaes , e da
fua nota oito reaes, e d'hi a jufo per eífe refpeito: e
fe for fora do Paaço fazer tal efcriptura , leve a hida
como dito he,
3 E SE os Taballiaaés fezerem outras efcripturas,
aífy como inventairos , ou outros autos femelhantes ,
* ferom-lhe (b) * contados aas regras; a faber, nove
regras por huum branco, aífy como levam os outros
Taballiaaés dos proceífos , como dito he , e mais da.
hida quatro reaes, fe for na Villa, e arravalde.

T I T U L O XXXVIII.
Do que ham de levar os CJ'abal!iaaés , e Ejcripvaaés
das vijlas dos feitos.

I TEM. O Taballiam, ou Efcripvam, que efcrepver


o feito do começo, eíl:e tal levará da v ifia deífe fei-
to o terço de quanto montar na efcriptura da inquiri-
çom deífe feito , atee honde a viíl:a foi pedida , con-
tando-a toda aas regras , aífy como dito he; e poíl:o
que a viíl:a feja pedida muitas vezes , nom leve effe
Liv. I.
(a) tenha
---~-_,_---- ---
(bJ fejam-lhc
Ff Ta-
226 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E OITO

Taballiam , ou Efcripvam vifia, fenom huã vez. Pe-


ro fe defpois que a vifta foi pedida huã vez , o feito
crecer mais per inquiriçom , ou per efcriptura qual-
quer , feja-lhe contada a viíl:a do que mais creceo,
aalem donde a outra vifta foi pedida; e eíl:o com tan-
to que lhe nom contem vifia donde lhe contarem o
trelado.
I ITEM. Perante o Juiz da apellaçom levará o
Efcripvam da vifta deífa apellaçom hum branco de
cada folha > e eíl:o porque antiguamente levárom o
quinto do que montava em a dita apellaçom. E por-
que a maior parte de todolos feitos em cada húa fo-
lha monta d'efcriptura quatro reaes, e quatro e meio,
e cinquo reaes, e dellas [eis reaes > e * tomando (a)•
deíl:o o meyo , que eram cinquo reaes, porem levem
de cada folha huu real ,. que he o quinto, como dito
he, e como ha grande tempo que levam. Em pero fe
acontecer, que o Juiz da apellaçom mande tirar al-
guãs Enquiriçooens em dfe feito, deípois que peran-
te elle pender,, ora [e tirem na Cone , ou em outra.
parte, e foi dellas pedida a vifla, leve ho Efcripvam
da viíla dellas o terço,, aífy como fe o feito foífe co-
meçado perante eífe Juiz da apcllaçom, como fuí<>
dito he no Capitulo proximo.
2 ITEM. Se acontecer que huu feito feja livre per
Sentença, e deípois for per alguma parte dado em
ajuda íua em outro feito , e for dei pedida a vifta per
algúa
'"} contando
Do Q.!TE HAM DE LEVAR. OS TABALLIAAENS ETC. 2 27

algua parte, de tal feito nó leve o Taballiarn, ou Ef-


cripvarn viíl:a , falvo a meetade do que levaria huú.
Efcripvam perante o Juiz da appellaçom : e eíl:o he ,
porque já do dito feito findo effe Efcripvam , que o
tinha, levou a viíla. Pero fe ainda delle nom ouve al-
gúa vifta, falvo que entom foi a primeira vez pedida,
entom leve fua viíl:a toda em cheo dcffe feito, affy
como da apellaçorn pela guifa, que fofo dito he; e
deíl:a conthia deíla vifta leve a meetade o Taballiam 1
ou Ekripvam, que tinha o feito, que he dado em
prova, e a outra meetade leve eífe Efcripvam, ou Ta-
balliam , que tem o feito, em que o dam em prova•
porque fempre foi tal o cuíl:ume antigo da Corte.

T I T U LO XXXVIIII.
Do que ham de levar das bufcas dos feitos , e das
efcripturas.

I TEM. Todo Efcripvam, ou :aballiam, _que fei-


to tever em feu poder, despé>IS que for fimdo per
fentença , ou ante que o feja, [e retardado he , e a el
nom fallam per culpa das partes, quando lhe for re-
quirido per algúa das partes, que o tragua a Juizo pe-
ra fallar a elle, ou pera tirar delle fentença , ou outra
cfcriptura, ou pera o dar em ajuda de fua prova em
outro feito, ou pera a ver per elle alguurn outro pro-
veito, e favoreza, levara effe Efcripvam, ou Taballi-
Ff 2 ara
228 LIVRO PRIMEIRO TITULO TRINTA E Non:

am da bu[ca de tal feito(a) de cada mez cinquo bran-


cos ; e eíl:o ataa o primeiro anno comprido , aífy que
fom por anno [dfenta reaes brancos : e [e for mais
tempo , que paífe o anno, levará no fegundo anno
cada mez dous brancos e meio, aífy que feram no fe-
gundo anno trinta reaes : e fe paífar de dous annos ,
leve pelo terceiro anno dez brancos : e fe paffar de
tres annos, d•hi en diante nom leve da bufca deffe
feito nenhuã coufa, falvo dos ditos tres annos, em que
lhe montam cem reaes. E eíl:a bufca lhe feja dada a
effe Taballiam , ou Efcripva m, nom tam foomente
polo trabalho, que leva em bufcar o feito, mais por-
que he theudo de o guardar ataa vinte annos os cri-
mes , e os civiis ataa trinta annos, como fe contem
nas Hordenaç ooés antiiguas.
r ITEM. Tal bufca, como eíl:a nõ aja lugar nas
efcripturas , que a parte deu cm Juízo pera provar
fua teençom , que fejam taaes, que em fim do feito
fe devam de tornar aa parte, como fempre acontece.
2 PERO fe aqueceffe , que defpois que o feito foi
fiindo, a parte nom requerer fuas efcripturas ao Ta-
balliam, que lhas de , e as leixar fiar em cafa deffe
Taballiam , ou Efcripvam levem dellas a bufca , affi
como d'outro feito, ou efcriptur as, que effe Taballi-
am, ou Efcripvam tem em fua guarda pela guifa, que
dito he ; falvo fe eífa parte norn for na cerra pera o
requerer. E efia bufca aja Iugar em todolos proceffos,

-----------·----------
e
ta) a fabcr
ÜO QYE. HAM DE LEVAR DAS BUSCAS; ETC. 229

e inquiriçooés, e efcripturas, que eífe Taballiam, ou


Efcripvam rever em fua guarda, como dito he. Pero
fe effe Taballiam, ou Efcripvam for requerido, que
as de, e maliciofamente por levar a bufca retever cf-
fa efcriptura , nom aja della bufca , ante pague aa
parte outro tanto, quanto demãda de bufca deífa ef-
criptura.
3 E QY ANTO he aos Taballiaaés do Paaço , que
ham de bufcar as notas per feus livros, ou qualquer
outro Efcripvam, que per livro bufcar tal efcriptu-
ra , ou nota , ou bufcar querella , ou dcnunciaçom ,
que tenha efcripta em feu livro, tal como eíle nom
leve bufca de tal efcriptura , que he bufcada em li-
vro, falvo a meetade do que levaria dos proceffos, e
das outras efcripturas fofo ditas, avendo refpeito,
corno fufo dito he: e outro tanto leve o dito Tabal-
liam por bufcar o efiormento, que tirou da nota, e
nom foi requerido pela parte a que perteencia de o
dar, e affy nom efteve per elle.
4 E PORQYE os Efcripvaaés dos Horfoõs fom the-
udos de fazer enventairos dos beés , que ficam per
morte d'alguãs peffoas , que filhos ou filhas teem,
pera os ditos Horfoõs averem a fua direita parte dos
ditos beés , que por morte de feus padres e madres
affy ficam , por lhe norn ferem fonegados, e ema-
lhiados em outras algúas peffoas , quãdo os fobredi tos
Efcripvaaés dos Horfoõs fezerem os ditos envencai-
ros, Mandamos que lhe feja contada a efcriptura del-
les
230 LIVRO PRIMEIR.O TITULO TRINTA E NOVE

les aas regras , afry e pela guifa que fe contaõ aos


outros Efcripvaaés, que* fazem (a)* efcripturas em
proce!fo ; a faber , nove regras por huú real.
5 E ESTO rneefmo lhe fejam contadas as hidas ,
que forem a alguús lugares fazer os ditos enventairos;
e outro fy alguús eílormentos, que fezerem das par-
tiçooês dos ditos beês , fegundo a forma da noffa
Hordenaçom, que fobre ello he feita, do que os Ta-
balliaaés, e Efcripvaaês ham de levar, e d'outra gui-
fa nom.
6 E PORQYE a todolos ditos Horfoõs e Horfaãs
fom dados Tetores e Curadores, que lhes feus beés
ajam de reger e meniílrar, e por cercos annos, ataa
que elles fejam em hidade de ferem mancipados, pera
lhes feus beés averem de fer entregues, porque taaes
ha hi, que per morte de feus padres e madres ficam
em taõ pequenas hidades, que acaa quinze , e vinte
annos lhe nom fom entregues os ditos beés , e fem-
pre tem Teco·res; e porque os ditos Tetores fom obri-
guados de continuadamente requerer os Efcripvaaés
dos ditos Horfoõs, pera lhe a verem d'e[crepvcr as re-
ceptas e as deípezas,que fe fazem em adubios de beés,
como em outras coufas , que aos ditos Horfoõs per-
teencem, per bem das contas que ham de dar, e nõ
feria juíla razom de os ditos Efcripvaaés por cada
húa vez , que ouveffem d'efcrepver em os enventai-
ros as ditas defpezas , e receptas aos ditos Tetores ,
ave-
{~) fczercrn
Do QYE HAM DE LEVAR DAS BUSCAS ETC, 23 I
averem de levar bufca dos ditos enventairos; porque
achamos, que feria grande perda dos ditos Horfoôs,
fe lhes affy continuadamente ouveffem de levar a di-
ta bufca, e em pouco tempo as rendas dos beés dos
Horfoõs feriam em poder dos ditos Efcripvaaés, por-
que muitos beés dos Horfoõs ha hi, que nom rendem
tanto em cada huu anno, quãto montaria na dita
bufca, fe lha ouveífem de pagar: e querendo Nos eíl:o
correger em boa, e razoada maneira, vifio como os
ditos Efcripvaaés dos Hortoõs ja levarom os dinhei-
ros da efcriptura, que lhe montava dos ditos enven-
tairos, e dos eíl:ormentos das partiçooés, e hidas, que
alá forom , e elles ditos Efcripvaaés fom theudos de
guardarem os ditos enventairos ataa que os ditos Hor-
foõs fejam em tal hidade. que lhe fejam entregues
todos feus beés, e dado boo conto, e recado pelos di-
tos enventairos de todalas coufas, que os ditos Teto-
res por elles receberom, e defpenderom.
7 PoREM Mandamos, que os ditos Efcripvaaés
dos Horfoõs nom levem outra nenhúa (a) bufca dos
ditos enventairos , falvo vinte reaes brancos polo an-
no, e eíl:o ata a tres annos compridos, e d 'hi em dian-
te nom levem mais bufca nenhiía: e ainda que os di-
tos Tetores por parte do ann.:> vaaõ efcrepver as ditai
rcceptas , e defpezas, os ditos Efcripvaaés lhes nom
levem de bufca de cada huum enventairo por cada
huum anno > mais que os ditos vinte reaes brancos,
que
23 2 LIVRO PRIMEillO TITULO TRINTA E Non
que fom por tres annos feffeenta reaes brancos , e le-
vem * da efcriptura , que fezerem contada (a) * aas
regras, como dito he ; e o que o contra iro fezer por
cada (b) vez, que mais levar, pague os dinheiros, que
affy mais levar anoveados aa parte, e feja fofpenfo do
officio ataa Noffa mercee ; e fe mais delle ufar, du-
rante a dita fofpenfom, p~rca-o de todo, e nunca o
mais aja.
8 ITEM. Em todos eíl:ei cafos fufoditos de buf-
cas, nom fe contem bufcas dos primeiros feis mezes,
fal vo dalli en diante , porque fegundo ho efüllo da
Corte, defpois que paffam os feis mezes, nom podé
fallar ao feito, ataa que a parte feja novamente cita-
da.

T I T U L O XXXX.

Do que ham de levar polos carretos dos feitos.

J Os Carretos dos feitos perteencem aos Ef-


TEM.
cripvaaés dante o Corregedor da Corte, e Defem-
barguadores , e dos Corregedores das Comarcas , e
dos Ouvidores dos Ifantes, e dos Meefl:res , e aos Ef-
cripvaaés dos Contadores das Comarcas, por quanto
efl:es taaes fe aballam d'huú lugar pera outro; e po-
rem quando acontece, que taaes Efcripvaaés fe abal-
lam com o Julguador , ou fem elle, pera feguir feu
offi-
(,11) as efcripturas contadai M, (b) huã
Do Q1TE HAM DI! LEVAR PELOS CARRETOS ETC. 2JJ

officio d'huum lugar pera outro, que feja tamanho


efpaço, que paffe de dez legoas, levará effe Efcripvam
de carreto de cada huum feito quatro reaes brancos
de cada parte; e fe nom for maior efpaço d'huum lu-
gar pera outro, que de dez legoas pera jufo, nom le-
ve effe Efcripvam de cada feito de carreto, falvo dous
reaes de cada parte; pero fc o efpaço for taõ peque-
no, que nom paífe de cinquo legoas acima, nom leve
o Efcripvam mais de carreto do feito, que huum real
de cada parte.

T I T U L O XXXXI.
Do que ham de levar os Enqueredores.

O S ENQ.!JEREDORES devem feer bem difcretos, e


diligentes em feus officios em modo, que com
boa difcripçom faibam perguntar, e enquerer as tef-
temunhas, pera que fom aduzidas , perguntando-as
polo cuíl:ume, e coufas a ello perteencentes, e fazen-
do-lhe todalas perguntas, que virem, que fô com-
pridoiras, e efguardar bem diligenteméte com que af-
peito , e com que confrancia as teílernunhas faliam,
e fe vacillam, ou variam, ou enrubecem em tal gui-
fa, que a elles pareça, que fom falsas: e quando tal
coufa virem, ou fentirem, devem-o noteficar ao Jul-
guador, pera fobre ello proveer, e enquerer, como o
cafo requerer.
Liv. I. Gg
234 LIVRO PRIMEIRO TITULO~ARENTA E HUM

1 Os Enqueredores levarom as a!feentadas


!TEM.

das teíl:emunhas affy, e pela guifa, que fom contadas


aos Eícripvaaés; a faber, de cada húa affeentada qua-
tro brancos, e mais levarom de cada dito de teíl:emu-
nha dous brancos, fegundo cuíl:ume , e Hordenança
antiigua; pero fe ella teílemunha differ tam pouco
em feu dito, que nom chegue a viinte regras, nom
lhes contem mais de huú real branco ; e fe paífar de
viintc regras , entom lhes contem dous reaes.

--------- -----
T I T U L O XXXXII.

Do que /evarom os CJ'aballiaoes, e Efcripv aaés , e En-


queredores por feu trabalho, quando forem fora do
Lugar fazer algua efcriptura.

Q U ANDO alguú Efcripvaõ , ou Taballiam,


Enqueredor for fora tirar inquiriçom, ou fazer
ou

outro auto, fe levar beíl:a fua, e moço, levará pera fy,


e pera mantiimento da befia, e moço quarenta bran-
cos por huú dia, e affy d'hi cm diante, [e mais dias
cm ello andar fora de fua cafa.
1 E AVERA' mais e!fe Taballiam, ou Efcripvam
de íua efcriptura, e affeentadas de tefkmunhas, ou
penhora, fc a fezer.
2 E o ENQ..UEREDOR levará as affeentadas do dito
das tefiemunhas, como dito he; e fe em tal auto nom
anda , fenorn a rneetade d'huú dia , levará a rneeta-
de,
Do Q.YE LEVAROM os TABALLIAAl!~S, nc. 235
de, e a ffy mais, ou menos , fegundo o efpaço do dia,
que allo eílever.
3 PERo fe a parte der befta fua a eífe Taballiam,
ou Efcripvam, ou Enqueredor, nom leve fenom vin-
te brancos pera fy , e pera mantiimento do moço.
4 E NOM coma effe Taballiam, ou Efcrípvam,
ou Enqueredor com a parte, ca por aazo do comer ,
e afeiçom poderá feer torvado em feu officio, fa!vo fe
no lugar, honde for fazer tal auto, nom achar a ven-
der outro mantiimento, falvo o que lhe a parte der;
e fe comer aa cufta da parte elle, e o moço, e a beíl:a,
nõ leve, falvo vinte reaes, e fe nom levar beíl:a, leve
foornente vinte e cinco reaes , e coyma delles ; e fe
comer com a parte, nom Jevando beíl:a, norn * aja (a)•
falvo quinze rcaes.

-~----- ------- --
T I T U L O XXXXIII.
Do que ham de levar os Porteiros , e Pregoeiros das
penhoras, t remataçooés, t citaçooês.

J TEM. Os Porteiros quando ·fezerern as penhoras


no Luguar, ou no arravalde. honde forem mora-
dores, levem deffa penhora cinquo brancos; e quan-
do vier arremataçom, fe os rematarem , levem de
quanto montar em effa venda dos ditos penhores , fe
fom beés moviis, a faber, de cinquoenta reaes huú,
e
(e) le,c
236 LIVRO PRIMEIROTITULO~ARENTA E TRES

e de cinquoenta libras húa : e efio leve ataa que poffa


aver de feu folairo cem brancos, e mais nom leve ,
ainda que a conthia feJa grande da remataçom , e
muito dure.
1 E SE effes penhores nom forem rematados , e a
parte logo pagar de feu grado, leve effe Porteiro da
entregua dos penhores cinquo reaes brancos, quando
os entregar aa parte, e outro tanto leve o Taballiam,
ou Efcripvam , que efcrepver eífa entregua deffa pe-
nhora, como ja dito he: pero fe os trouvercm em pre-
gam o tempo conthcudo na Hordenaçom, ou alguú
pouco menos , * e (a)* os nom rematarem , levem a
meetade do que levariam , fe rematados foffem , e o
Taballiam, ou Efcripvam leve outro tanto , quanto
levar eífe Porteiro.
2 E SE a penhora for feita pc1o Porteiro , e elle
nom vender os penhores, falvo o Pregoeiro, entom
leve o Porteiro a penhora , e o Pregoeiro íua remata-
çom da venda, como fufo he Ch) declarado. E fe a
penhora for feita em beés de raiz, leve de fua penhora
cinquo reaes , e da remataçom de cincoenta reaes
huum, ataa que chegue a duzentos brancos , e mais
nom , pero que os beés mais valham.
3 ITEM. Mandamos, que a taixa, e a Hordenan-
ça que os Porteiros, e Pregoeiros ham de teer naquel-
lo, que ham de levar dos ditos beés de raiz, e mo-
viis, queaífy rematarem, e dos que trouverem em
pre-•
(.o) fc (h} dito, e M.
Do QyE HAM DE LEVAR. os PoRTEIROS , ETC. :237
pregam o tempo contheudo na Hordenaço m , e os
nom rematarem , que eífa meefrna tenham os Saca-
dores, e per dfa guifa levem o feu follayro, e aífy lhe
feja contado, e d'outra guifa nom; e per eíl:a guifa
levaram as Adcellas dos penhores, e coufas , que lhes
dama vender; e qualquer Porteiro, ou Pregoeiro,
ou Sacador , ou Adeella , que mais levar da parte, do
que he conrheudo em eíl:a Hordenaço m, torne aa
parte , de que o aífy le var, em dobro o que mais le-
vou.
4 Aqueilo, que dito he , dos follayros dos
ITEM.
Porteiros , e Pregociros , Mandamos que aja lugar
• quando venderem (a) * alguus beês per mandado
dos Herdeiros, e Teíl:am éteiros, Tetores, e Curadores,
e Aminiílrad ores, ou d'outras quaaefqu er peífoas, que
os aífy mandarem vender.
5 E QYANDO eífes Porteiros forem fora do Luguar
fazer efiàs penhoras , levaram de cada dia * por feu
trabalho (b) *, e pera mantiimen to quinze brancos,
afora aquello, que lhes montar de fua penhora, ou
entregua; e fe mais dias andar fora (e) , cada dia leva-
rá quinze reaes brancos; e fe for tarn perto do Luguar,
que nom dure bida , e vinda, fenom meyo dia, leva-
rá por meyo dia fete brancos e meyo, e aífy fegundo
o tempo per eífe reípeito. E eíl:e meefmo follayro aja
quando for citar algúa peífoa fora do Luguar ; e fe
citar algúa peífoa no Luguar, aja por feu trabalho a-
quello •
C•J no 'luc vender (b) de feu foll oJro (<) lia Cidade,$,
238 LIVROPRIMEIR.OTITULO~AR.ENTA E QYATRO

qudlo, que he hordenado no titulo do Porteiro do


Corregedor da Corte.

T I T U L O XXXXIIII.
Do Contador das cuflas, e de como as ha de contar.

P ouverem de contar,
na conta das cuftas, quando fe
RrMEIRAMENTE
veja-fe fe a parte vencedor
he Cavalleiro, ou Vaífallo, ou aconthiado em caval-
lo , ou Beefteiro do conto, ou de ca vallo, ou Clerigo
de Miífa, ou Beneficiado; a taaes como eftes averam
cuftas de fua peífoa, a faber, oyto reaes por dia, e
e[l-o daquelles dias, que parecerem per fuas peífoas
cm Juízo, ou derem inquiriçom per fua parte, ou fo-
rem veer como juram as teftemunhas, que contra el-
les derem : e eíl:o com tanto, que eftes Vaffallos, e
aconthiados, e peífoas fufo ditas tenham em durando
efre preito, beftas fuas de fella , e venham em ellas aa
Corte, e as tenham hi continuadamente em quanto o
feito durar; e fe as hi nom teverem , nom averã cuf-
tas, fenom de piam.
I E os Beefteiros tragam á audiencia vira na
rnaaõ, ou cinto cingido, fegundo antiiguamente fem-
pre foi de coíl:ume.
2 E ESTAS meefmas cuíl:as contarom aas mo-
lheres de cada huú deífes Vaífallos , e aconthiados ,
quando em ellas forem veencedores, e per fy trau-
ta-
Do CONTADOR DAS CUSTAS, ETC, 239
tarem os preitos, e fe beíl:as trouverern , e as teverem
na Corte, corno dito he em os maridos ; e femelhan-
tes cuíl:as fe contarom aas molheres dos fobred i tos
Vaífallos, e aconthiados, que viuvas forem, e eíl:e-
verem em fuas (a) honras, e beíl:as trouverem á Cor-
te, e reverem como dito he; pero quanto he aos Vaf-
fallos, pofio que cavallos nom tenham , em quanto
lhes nom pagarem conthias, contem-lhe as cuíl:as ,
aífy como fe os teveffem, e per fernelhante aas mo-
lheres.
3 ITEM. Se alguús dos fobreditos forem apou-
fentados per hidade com feus privilegios, ou forem
aleijados, ou tolheitos que nom poífam cavalguar em
beíl:as de fella, e venham d'albarda , quando taaei
como eíl:es forem veencedores em cuíl:as, contê-lhes
cuíl:as de Vaffallos; a faber, oito reaes por dia, co-
mo dito he, trazendo, e teendo as beíl:as na Corte
continuadamente, como he contheudo no Capitulo
fofo dito.
4 ITEM. Se a parte vencedor em cuftas for mer-
cador, e fezer certo, que dizimou effe anno, que o
preito veenceo, pano em algúa das Alfandegas; ou
fe for Moedeiro, contem-lhe cuíl:as de Vaffallo; a ía-
ber, oyto reaes por dia: e eíl:as mefmas cuíl:as conta-
rom aas molheres de cada huú dos febre ditos, fe per
fy trautarem os feitos em vida dos maridos, com tan...
to que eílas peífoas em eíl:e capitulo contheudas te-
nham ,en durando os preitos, befias fuas de fella·, ou
d'al-
240 LIVRO PRIMEIRO TITULO~ARENTA E QYATRO

d'albarda, e venham em ellas aa Corte, e as tenham


hi continuadamente, em quanto os feitos durarem; e
fe as hi nom teverem, nom averam cuflas, fenom de
piam.
5 hEM. Se alguú, poíro que nõ feja Vaffallo, for
Efcudeiro bem criado , ou Cidadaõ honrado , ou
femelhante peffoa, e vier aa Corte em befta de fel-
la fua, e fezer certo como a trou ve aa Corte , e a te-
ver hi continuadamente, em quanto o preito durar ,
a taaes como eíl:es contar-lhe-am cuíl:as de Vaffallo;
e fe d' outra guifa vier, nom averá cuíl:as, fal vo de
piam.
6 ITEM. Ao piam, fe for veencedor em cuíl:as,
contar-lhe-am quatro reaes por dia, a faber, o dia,
que parecer em Juizo, ou der inquiriçom, ou for veer
como juram as teíremunhas, que contra elle derem; e
eíras meefmas cuíras contarom aa molher do piam ,
quando per fy trautar o feito, e em ellas for veencc-
dor.
7 ITEM. Se a parte veencedor for morador no lu-
gar, ou termo, honde fe trautar o feito, taaes como
eíl:es, conten-lhes foomente os dias, que parecerem
nas audiencias, ou derem inquiriçom, ou forem veer
como juraõ as teíl:emunhas, que contra elles derem;
a faber, quantos dias fe moíl:rarem pelos termos do
. proceffo, fegundo for a peffoa, como dito he.
8 ITEM. Porque aalem dos dias, que fe pelo pro-
ceffo moíl::ram, que as partes pareceram em Juizo,
ou em tirar as inquiriçooés aas partes, vaaõ outros
muitos
Do CoNTADOR DAS cusTAS, ETC. 24r

muitos dias feguir feus feitos em eíl:ando conclufos


em poder do Julguador, aguardando as audiencias
quando effes feitos harn de fair, os quaaes dias fe
nom efcrepvem; e porque taaes dias fom incertos,
o Contador dê juramento aa parte , quantos fom ef-
fes, que fe affy nó mofl:ram pelos termos; e eífes dias,
que jurar, [e vir que podem caber no tempo , que
effe proccífo durou, effes dias lhe contem, com tan-
to que por muito tempo que ellc jure, nom lhe con..
tem mais que ataa vinte dias em cada huú anno no
tempo , que o feito durar, e fallarem a elle , porque
eíl:o fe coíl:umou affy fempre antiigarnente , e cha-
mam-fe dias de cuíl:ume; os quaes dias de cuftume
foomente averam lugar naquclle, que for morador no
luguar, oonde fe trautar a demanda; e naquelk, que
hi nom for morador no luguar, honde fe trautar a
demanda , deve-fe guardar o que he contheudo no
capitulo feguinte.
9 ITEM. Se a parte veencedor nó for do luguar,
e termo, honde fe trauta a demanda e feito , e vier a
effe feito d'outro Julguado , a tal como eíl:e fe conta-
ram todolos dias, que hi for dethcudo per effe feito,
e os dias da viinda , e hida ataa que chegue a fua ca-
ía, contando oyto legoas por dia , e menos nom , e
mais tres dias pera fe fazer, e tirar a Sentença: e ef-
to fe entenda, fe clle hi nom veeo por outra coufa; e
fe por recadar outra coufa veeo mais, que por feguir
o feito , entom nõ a verá cuíl:as , fenorn dos dias , que
Liv. L Hh pa-
~42 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA EQj}ATRO

parecer em Juízo, ou der inquiriçom, ou vir ju~ar


as teílernunhas , corno dito he , e os dias de cuílume
como [e morador foffe no luguar,e d'outra guifa nom:
e efle conhecimento perteença ao Contador, e fe á-
cerca dello * acontecer (a) * algúa duvida , falle-o
com o Chanceller, ou na Rolaçõ.
1o E PORQY E acontece muitas vezes , que eftas
panes, que veem aa Corte d'outros Julguados, fom
Alfayates, Çapateiros, e Carpinteiros, e d'outros
Meíleres , dos quaaes ufam continuadamente em ef-
fes lugares, honde a Cone eílaa, e foomenre vaaõ aas
audiencias eífes dias , que as fazem , e as audiencias
acabadas , fe torn am loao
o
a feus trabalhos ; e fe de
taaes Mefteres nom ufaifem , poeriam maior agu<ra
em requerer feus feitos, e a veriam mais tt>íl:e livra-
mento : Porem a taaes corno eíl:es, que achado for,
que aífy ufam dos ditos Mcíl:eres continuadamente ,
e delles ham proveito, nom lhes contem , falvo os
dias, que fe moíl:rarem, que parecerom em Juizo, ou
derem inquiriçom , ou virem jurar as teíl:emunhas, e
os dias do cufiume, como dito he : e eíl:a medis Re-
gra tenham nas partes, que aa Corte vierem d'outro
Julguado, e em durando o preito viverem por folda-
das, ou andarem a jornaaes continuadamente.
II ITEM, Muitas vezes acontece alguãs panes

___ ______ __
viirem aa Corte a feguirem feus preitos, e fe cheguam
a alguús Fidalgos , ou Officiaaes de noífa Cafa , ou a
.,__, fe-
(a) lhe rccreccr S.
Do CoNTADO!l DAS CUSTAS, ETC. 243

femelhavees peífoas por divido, ou criaçom, ou ami-


zade , que com elles ham , e os acompanham, e fer-
vem , e lhes dam de comer, e gafalhado de poufada,
e cama, e por eíl:e guafalhado, que aíly ham, nom fe
* apricam (a) * muito de requererem feus feitos por
enfadarem a parte , e o fazerem guaíl:ar ; e porque
foomente os dias da peífoa forn dados aa parte polo
rnantiimento neceífario: Porem taaes como eíl:es, fe
veencedores forem em cuíl:as , contem-lhes foomen-
te os dias, que parecerem em Juizo, que fe moíl:ra-
rem pelos termos do proceífo, e os dias do caminho;
a faber, da hida, e viinda, e os do cufiume, como
dito he.
r2 In:M. Se alguú Vaffallo, ou aconthiado for
peffoa honrada, que tragua comfigo parceiro de bef-
ta, ou de pee, que com elle viva continuadamente,
a tal como eíl:e aja cullas pera fy, e pera o parceiro;
a faber, o da befia leve cuftas, como de befta, e o de
pee, como piam ; e eflas medês cu fias levtm as mo-
lheres de cada huú dos fobreditos, fe com figo trou-
verem os femelhantes parceiros, e companheiros, ou
companheiras : e e11o fe entenda, que e{l:es compa-
nheiros, que affy trouverem, fejam de hidade de dez-
oito annos a cima ; e nom lhe contem, falvo huú
companheiro, ou companheira, pollo que mais tra-
gua, falvo fe for Fidalgo, ou Cavalleiro, fegundo a-
diante mais compridamente ferá declarado.

----------------------
Hh 2 13
(0) aprcífaõ
244 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E QyATRO

r 3 ITEM, Porque muitas vezes acontece, que a


parte principal nom vem per fy feguir o preito, e
manda alguú feu, que com elle vive, ou outro alguü
feu pá.rente , ou cheguado, ou amigo ; quando tal
parte como eíl:a for vencedor em cuíl:as, feja o Con-
tador avifado, que fe a parte principal for piam, que
nom conte mais cuíl:as ao Solicitador, que aquello,
que contariam ao Senhor do preito, fe a elle per fua
peífoa andaífe, poíl:o que o Solicitador feja Vaífallo,
ou aconthiado, ou das peífoas , que per eíl:a Horde-
naçom devã d'aver cuíl:as de Vaffallo. E fe a parte
principal for Vaífallo, ou aconthiado, e mandar* So-
licitador ao (a)* preito, que feja femelhavel a elle,
a tal como eíl:e contem taaes cuíl:as peífoaaes, como
contariam ao Senhor do preito , fe prefente foífe; e
pofto que o Solicitador feja maior, e de maior condi-
çom, que o Senhor do preito, nom lhe contem maio-
res curtas da peffoa, que aquello, que a parte princi-
pal poderia levar, fe per fy prefente foffe; e fe o Vaf-
fallo, ou aconthiado, ou Clerigo, ou Viuva manda-
rem piam ao preito por Solicitador, nom lhe contem,
falvo cuíl:as de piam.
I4 ~ando achardes, que húa parte traz
ITEM.
àous, ou tres feitos na Corte, mais , ou menos polo
curfo , como fe muitas vezes acontece, quando tal
parte, como efla, for veencedor em cuíl:as, teer-fe-
á eíla maneira cm as contar. Se eíl:es feitos forem
hor-
(,iJ folicitar no S.
Do CoNT.ADOR DAS CUSTAS, ETC. 245
hordenados com húa parte, e juntamente forem def-
embargados , fará pergunta a eífa parte veertcedor,
que efcolha de qual deffes feitos quer levar as cuíl:as
de fua peffoa, e deffe feito, que efcolher , deffe lhe
fejam contadas. E fe effes feitos forem com defvaira-
das partes, e em huú tempo forem defembarguados,
fejaõ a effa parte vencedor repartidos eífes dias da
peffoa, fe alguú tempo vieram; e fc nom vieram jun-
tamente, do primeiro lhas contem em cheo, fe julga-
das forem, ataa que os outros feiras vieram, ou cada
huúm delles, e d' hi endiante os repartir como dito
he; por quanto poderia acontecer muitas vezes que
cada huú levaria cuílas de peífoa enteiramente feen-
do aífy defenbargados per partes, e affy levaria as cuf-
tas peffoaaes multiplicadas , o que nom feria coufa
rafoada : e o Contador nom feria avifado fe lhe con-
tara já outras cuftas , fe nom, por o trefpafTamento
dos tempos, ou por eífe Contador hir a alguma parte,
e elle requerer eífes feitos juntamente em húa audi-
encia, e levar de cada huú os dias da peífoa em cheo.
I 5 ITEM. Muitas vezes acontece molheres, que
noml fom de Va{fallos , nem das pefToas , que cuftas
àe Vaffallos devem de levar, e effo meefmo homées
velhos, mancos , e doentes, que nom podem viir de
pee, e trazem beíl:as allugadas, em que veem; quando
taaes peífoas forem veencedores em cuftas, contar-
lhe-am os alugueres, que fez eré certo, que derom a
efiàs beftas, em que aífy vierorn aa Corte: e eíla pro-
va
246 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA !QyATRO

va dem per teíl:emunhas, ou per efcriptura: e fe dif-


ferem, que nom teem teíl:emunhas, fique em feu ju-
ramento, com tanto que eífo, que aífy jurarem, nom
paífe de cem reaes a cima.
16 ITEM. Todo o homem, ou rnolher, que for
prefo, e veencedor for das cuíl:as, conten-lhe todolos
dias , que achado for, que foi prefo, e mais huú fer-
vidor por fimpres peffoa, que feja; a faber, [e for
eJfe prefo tal peffoa, que aja d'aver cuíl:as de Vaífallo,
conten-lhe as cuíl:as de fua peífoa, como de Vaffallo,
a faber, oyto reaes por dia, e o fervidor como de pi-
om, a faber quatro reaes por dia; e fe effe prefo for
piam, conten-lhe de fua peffoa quatro reaes, e qua-
tro ao fervidor; e fe effe prefo for rnoor pe(foa, que
cada huú dos fobreditos Vaífallos , ou aconthiados ,
conten-lhe mais fervidores, [e os tever, fegundo for
feu eíl:ado.
17 ITEM. Se o feito fe trautar na corte, e a parte
veencedor for Defernbargador, ou Procurador, ou Ef-
cripvam, ou tal Official, que per bem de feu Officio
deve eíl:ar cada dia nas audiencias , ou [e trauta pe-
rante o Juiz, e a parte he Taballiarn, ou Procura-
dor , ou Porteiro ; a tal parte , como eíl:a , nom fe
contem dias de peffoa, nem de cuíl:ume , porque
ainda que tal feito nom ouveffe, avia d'hir á audien-
cia per bem de feu officio.
I8 ITEM. Porque algúas vezes foro julgadas as
cuíl:as aas partes corno vencem, e forn veencidos ;
em
Do CoNTADOR DAS cusTAS, nc. :247
em tal • contar (a)• de cuílas ha meíl:er difcripçom,
porque poucos Contadores as fabem contar direi-
tamente. Porem * declarando Nos ( b) • o modo,
que devem teer cm as contar , por as partes di-
reitamente cada húa aver feu direito; primeiramen-
te o Contador deve veer a auçom do autor quan-
to he o que demanda , e entom veja a conthia, em
que condãpnaõ o reeo , ou affolvem ; e em aquel-
lo, em que o reco for condãpnado, em tanto he o
author veencedor; e em aquello , em que o reco for
abfolto, em tanto he o reeo veencedor; e vi fio todo,
fará duas contas de cuílas, afTomadas as cufias do
autor á fua parte, e as do reco à fua; e des que fo-
rem fornadas, proveja quantas partes veenceo o au-
tor daquello, que he contheudo na fua auçom , e
quanto nom veenceo ; e em quantas. partes achar ,
que veenceo, tantas partes lhe dem das cuftas da fua
foma do autor, e as mais cuílas lance * a (e) * fura;
porque nom deve aver mais cuíl:as da fua foma, fal-
vo quanto aa parte, que venceo daquello, que pedio
na auçom ; e defta meefma guifa faça foma das cuf-
tas do reco, e des que efi:o fezer, veja quanto fica a
cada huú direitamente de cu fias da fua ·foma, e fa-
ça defcompenfaçom de húas cuftas pelas outras > e
affy o declare no fim da conta.
19 ITEM. ~ando for achado na Sentença> que
as cufi:as fom julgadas aa parte vencedor foomente

-----
cufias
(a) contaS. (h) declaramos (e) FaltaS.
248 LrvRoPRrMEil\oTrTuLo ~ARl!NTA E QYATRO

cuíl:as do proceffo, conte todalas cuíl:as, que a parte


fezer no proceffo, e mais nom .
. 20 ITEM. ~ando acharem , que as cuílas fom
julgadas em dobro, ou em tresdobro, todalas cuíl:as,
que fe moíl:rarem, que a parte fez, fe contem em
dobro , ou em tresdobro, fal vo o falairo do Procura-
dor, e a fcntença, e feello, e a conta do Contador, e o
pendente, que leva o Chanceller: e eílo fegundo o
cuíl:ume antigo.
21 ITEM. Contarôm aas partes vencedores em
cuíl:as todalas barcas, que paffaré ao través em vi in-
do ao preito, e em tornando pera fua cafa, quantas
vezes as pa!Tar ; e nom lhe contem barcas de longo
do rio, poíl:o que o alleguem; foomente os dias da
peffoa, porque a!Ty fe cu(tumou d'antiguamente.
22 ITEM. Em eíl:a maneira averam de contar as
cuílas aos Prelados, e Fidalgos, quando em ellas fo-
rem vencedores em feus feitos, [e por e!Tes feitos aa
Corte vierem,. e por al hi nom andarem.
23 ITEM. A Condes , e a Arcebispos vinte ho-
rnées de beíl:as a cada huú, e d'hi a fundo quantos
trouver, que fejam feus proprios, e alheos nom : e fe
mais trouverem que vinte, nom lhes contem mais.
24 ITEM. Bifpos, Meíl:res, Priol do Efpital, e
Ricos homês doze beíl:as, e d'hi a fundo, como dito
he, e feus proprios, e alheos nom: e fe mais trouve-
rem que doze, nom contem mais.
25 ITEM, Ao Abade d' Alcobaça, e ao Priol de
Santa
Do CoNTADOR DAS CUSTAS, ETC. 249
Santa Cruz contarom nove homées de beftas, e d'hi
a fundo, fegundo de feito trouverem, e ainda que
mais tragam, nom lhes contaram mais: e per feme-
lhante contaram aos outros Abades Beentos quatro,
e d'hi pera fundo, e mais norn.
26 ITEM. A Ifançoões, Comendador- Moor, Fi-
dalguo, ou Cavalleiro de grande eftado, fernelhaa-
vees ao dito Commendador, e de femelhante fiado ,
ou maior, fete de beftas, e d'hi a fundo os que trou-
verem feus proprios , e alheos nom ; e fe mais trau-
verem, que os ditos fete, nom lhos contem.
27 ITEM. A outros Cavalleiros; e Efcudeiros
mais fomenos quatro de beíl:as, e d 'hi a fundo, co-
mo dito he; e fe mais trauverem, nom lhes contem
mais.
28 lTtM. Aas molheres de cada huú dos fobre-
ditos outros tantos homées, e molheres por todos,
corno aos maridos, fe os trauverem feus, e alheas
nom: e eílo fe entenda tambem em as molheres def-
tes fobreditos, fe Vi uvas forem; e fe mais trouverem,
nom lhes contem mais.
29 ITEM. Em todos eíl:es capitulas, que fallam
das encavalgaduras, que ham de feer contadas aos
Condes , e Arcebispos , Bispos , Meeftres, Priol do
Spital, Abade d Alcobaça, e ao Priol de Santa Cruz,
e Comendador Moor &e. nom fe entendã aas foas
peífoas principaaes, porque aallem das ditas caval'-
guaduras , lhes contaram as fuas peífoas.
Liv. L li T 1-
2JO LrvRo PRIMEIRO TrTu100EARENTA E CINCO

T I T U L O XXXXV.

De como Je ha de contar o fo!airo aos Procuradores.

A os Procuradores do numero contaram o folairo


dos feitos civis a quarentena do que veence-
rem, ou defenderem, ataa conthia de vinte libras da
moeda antiigua, que lhes eram taufadas nas Horde-
naçoés ante feitas do maior folairo, que fõ agora qua-
trocentos reaes , fegundo a declaraçom novamente
feita na Hordenaçom, que fe fez acerca da vallia das
moedas antiiguas : e porquanto em eftes folairos ha
algúas duvidas, declarando acerca dello , teer-fe-á
efta maneira quando fe ouver de contar.
I hEM. Porque muitas vezes acontece horde-
nar-fe huú feito de grande conthia fobre efcriptura
pru.vica , e pôíl:o que a parte, contra que fe dá tal
efcriptura peça o trelado, e venha com enbargos , e
nom lhe he delles conhecido , mais o Juiz fem en-•
bargo delles procede pelo feito, dando em elle final
terminaçaõ, em tal cafo a verá o Procurador o terço
do dito folairo.
2 hEM. Se effa auçom affi pofta per efcriptura
pruvica he julguada, que procede, e a parte pede o
trela do della, allegando a lgiía razom , de que lhe he
conhicido, e dá em prova outra efcriptura, e fe ra-
zoa fobre eUo, e o feito he fobre taaes efcripturas
logo
0? COMO ~E HA DE CONTAR O SOLATRO l!TC. 25r
logo determinado, fem outra prova de teftemunhas ,
entom aja eífe Procurador as duas partes do dito fo-
lairo.
3 ITEM. Se eífa parte de tal efcriptura pede o
trelado, e vem a ella com enbargos, e os enbargos
fom taaes, que procedem, e for fobre ello filhada
prova de teíl:emunhas , e fobre effa prova for dada
Sentença , entom aja o Procurador, que vencer, ou
defender, o folairo enteiro, fe chegar effe vencimen-
to á conthia, perque o deva de levar, fegundo adi-
ante ferá declarado.
4 ITEM. Eífo meefmo aquecce per vezes horde-

nar-fe huú feito fobre muito pequena conthia, aífy


fobre herança, como fobre couía movei, e dura per
longo tempo, e o Procurador leva em elle grande
trabalho aas vezes, per fer em ponto de direito, e
lhe convem fiudar fobre ello, ou por ferem muitas
efcripturas, que haja de proveer, e fe aqueece de tal
feito nom montar a eífe Procurador de quarentena
de feu folairo de dez ataa vinte reaes, fem razom
feria nom aver gualardom de feu trabalho. Porem
quando femelhantes feitos contarem, teerom a regra
fupra proxima, alvidrando-lhe efie folairo, que lhe
parecer, que razoada mente merece, com tanto, que
nom chegue ao folairo enteiro : e fe duvidarem, fal-
lem-no com o Chance Iler, como dito he: e eíles fo-
lairos fe entendam nos feitos , que elles Procurado-
res novamente criam, e procuram ataa difinitiva.
li 2 5
252 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E CINCO

5 ITEM. Nos feitos civiis, que veem per apella-


çom, ou per agravo aos fobre Juizes, ou Ouvidores,
aífy da Corte, como dos Ifantes, ou outros Defem.-
barguadores; de taaes feitos , como eíles contarom
aos Procuradores a quarentena do que vencerem, ou
defenderem, como dito he, ataa conthia de duzen-
tos reaes, e mais nom, por quanto nom levam tanto
trabalho, como aquelle, que cria o feito de novo.
6 E PORQ!!E muitas vezes aqueece de hirem fei.
tos aa Corte per apellaçom, ou agravo foomente fo-
bre o libello, e ficam logo na Corte, e defpois crecem
tanto em leiéêura, que leva o Procurador em elles
grande trabalho ; em tal cafo como eíl:e contaram ao
Procurador de folairo trezentos reaes , que fom as
tres partes da maior quarentena, fe for de conthia,
de que o deva levar; e nos outros feitos, em que ja
veem tiradas as inquiriçõoes, e defpois crecem na
Corte per efcripturas, que em elles dam, ou por in-
terluquitoreas , de que recrecem inquiriçoões , ou-
tro tanto, como aquello, que vem da terra, ou pou-
co mais , ou menos : em taaes, como eítes contaram
a effe Procurador a quarentena do que vencer, ou
defender ataa conthia de duzentos feffenta e feis·reis,
que he as duas partes da maior quarentena,
7 ITEM. Nos feitos das inquiriçoões verbaaes,
cm que nom cabe pena de juftiça, contarom aos Pro-
curadores a quorentena do que vencerem, ou defen-
derem 1 affy como nos feitos civiis, pois que a parte
nom
DE COMO SE HA DE CONTAR O SOLAIRO ETC, 253

nom leva gualardom, foomente pena de dinheiro, e


terom em ello a regra, fegundo fe contem em eíl:a
Hordenaçom.
8 ITEM. Per muitas vezes fe aqueece víirem aa
Corte eíl:ormentos d'agravos, e eíl:orrnentos , e car-
tas teftemunhavees do dia do aparecer , e as partes
fazem em elles Procuradores ; ou fem procuraçom
lhos dam as partes que razoem, que os trazem aber-
tos , e foomente pooem nas coíl:as huú razoado, e o
levam aífy ao Julgador, e fe he dia d'aparecer, fa-
zem apregoar a parte, e ficam logo conclufos, fem
em elles mais efcrepver: em tal cafo como eílc nom
contaram aos Procuradores quarentena deífo, que a
parte vencer, foomente lhe contaram dez , ou vinte
reis, fegundo for o trabalho, e crecirnento deífc ef-
tormento, em que aífy razoou.
9 ITEM. Se a parte manda da terra alguú Procu~
radar, que folicite, e procure feu feito, e eíl:a parte
per fy razoou fem tomando Procurador; fe tal parte
como efia for veencedor em cufias , farom pergunta
a eífe Procurador, fe quer ante levar a quarentena do
que veenceo, ou defendeo, aífy como he tauífado aos
Procuradores do numero, fe ante os dias da peífoa,
fegundo a declaraçom feita em eíl:a Hordenaçorn ; e
qual defias efcolher, eífa lhe contem de tal guifa,
que honde levar dia da peíloa, nom leve folairo; e
fe levar folairo, nom leve dias da peífoa, falvo os di-
as, que pofer no caminho da hida, e viinda.
IO
254 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E CINCO

10 ITEM.Se e{fa parte principal, ou folicitador,


ou requeredor nom quer tomar Procurador , nem
elle per fi nom * o fabe procurar , e bufcar (a) "' fora
alguú Leterado, que lhe faça as razoões, fem veendo
o feito, e eífa parte aprefenta as razõoes nas audien-
cias ; quando tal parte como eíl:a for veenccdor em
cuíl:as, dar-lhe-am juramento quanto deo a eífe Le-
terado por eífas razoões, que lhe fez, e tanto lhe con-
tem , fe virem que fom feitas per Leterado ; com
tanto, que eífo, que contarem, nom paíle de cem
reis, fe taaes razoados fom em que fe mereçam, pof-
to que a conthia do que vencer feja grande; porque
de razom íe moftra nom aver em ello grande traba-
lho eíre Leterado , pois faz razoões ao dito da parte,
e nom vee o proceífo.
1I heM. Seraõ avifados, que nó contem folairo
ao Procurador do numero, fe lhe procuraçom nom
acharem feita no proceífo, porque aífy fe acuíl:u-
mou fempre d'antiiguamente ; e fe lho contarem ,
paguem-no de fua cafa aa parte condapnada; falvo
nos feitos crimes dos proceífos, que per cuíl:ume an-
tiigo os Procuradores podem procurar pollos prefos,
como ajudadores , poíl:o que nom tenham procura-
çoóes ; em eíl:e cafo lhe contaram feus folairos , fe-
gundo fe adiante declarará.
12 ITEM. Por fe milhor declarar, e entender co-
mo fe ham de contar efl:es folairos, quanto perteence
ao
(a) ufa de Procurador, e bufca S,
DE COMO SE H.A DE CONTAR O SOLAIRO, [TC. 255
ao veencer, e defender, averaõ de veer aquello, que
ao autor he julgado do principal da fentença , fem
efguardar aquello, que he pedido ; e deffo , que for
julgado, contaram a feu Procurador a quorentena
ataa dita conthia , como dito he ; e ao defender vee-
ram o que pedio no libello, e daquello, de que o reeo
vai abfoluto , contarom ao feu Procurador a quoren-
tena ataa conthia de quatrocentos reis, como he con_
theudo , e declarado no primeiro capitulo ; e fe todo
o que o autor pedio em feu libello lhe for julgado.
de todo efso feu Procurador ha d'aver a quarentena ;
e fe o reeo for abíolto de todo o que contra ellc he
pedido, de todo effo , que he abfolto , contarõ a feu
Procurador a quarentena ataa a dita conthia , como
he declarado.
I3 lTEM. Nos feitos crimes de grandes malefi-
cios , affy como de morte d'homé, ou treiçom , ou
alei ve, ou ladroíce , ou moeda falfa, ou outro male-
ficio femelhante, o qual , feendo provado contra o
acufado, que morreria porem ; em taaes crimes co-
mo dres contarom ao Procurador, que vencer, e de-
fender , quinhentos reaes brancos : e efto fe entenda,
fe o Procurador começar effe feito, e o feguir, e pro-
curar ataa difinitiva.
1 4 1 TEM. Se for feito crime, em que nom caiba
pena de morte, poílo que lhe provado foffe o male-
ficio , e deva feer degradado , ou açoutado , ou dece-
pado de maaõ, ou pee, ou outra pena femelhavel ;
cm
256 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E CINCO

em tal caío como efie contaram ao Procurador, que


vencer, ou defender, trezentos reaes brancos , fe o
feito começar de novo, e o trautar ataa difinitiva •
como dito he no capitulo fofo dito.
15 ITEM. ~ando taaes crimes graves contheu ..
dos no fegundo capitulo mais cheguado vierem per
apellaçom aa Corte , ou aos Ouviidores dos Ifantes ,
contaram ao Procurador, que vencer, ou defender,
duzentos e cincoenta reaes brancos, e mais nom; e
porque aas vezes acontece crecerem no cafo da apel..
laçom outro tanto e mais , que aquello que vem da
terra , quando tal feito for per elles viílo , contaram
a effe Procurador trezentos reaes brancos , fe virem
q ue o feito he tal, que com juíla razom os merece.
16 hE M. Nos outros crimes mais pequenos, que
iercm per apellaçorn , contarem ao Procurador, que-
venc er , ou defender , cento e cincoenta reaes bran-1
cos , fe virem que o feito he tal, que com jufl:a ra..
zom os deva de levar.
1 7 h EM . Porque acontece per vezes, que eíl:es fei-

tos , que aíly veem per apellaçom, fom tam pequenos,


e de ta m pequeno volume, poíl:o que fejam de grandes
malefici os, que o Procurador nom pooem em os veer
foomente húa ora , e fe he com a jl.líliça nom faz em
elle fenom huú foo razoado, e fem razom feria le var
ta m g rande folairo, como nos outros feitos grandes,
em q ue trabalham mais tempo: Porem quando taaes
fr itos contarem , contaróm a eífe Procurador , que
veen-
DE COMO SE HA DE CONTAR O SOLAIRO ETC. 257
veencer, ou defender aquello, que com conciencia ,
e juíl:amente merecer, fem nenhua afeiçom, e fe du-
vidarem, fallem-no ao Chanceller.
18 ITEM. Seraõ avifados no contar dos feitos,
. que faibam das partes per juramento quanto he o
que lhes eífes Procuradores, e Taballiaaés, e Efcri-
pvaães, e Porteiros Jevarom; e fe acharem , que mais
levarom , que aquello, que per eíl:a taixa lhe per Nos
he taufado, que faça logo tornar a e{fa parte eífo ,
que mais levou, fegundo que a feu officio perteence,
e fe d'antiiguamente cuftumou; e efte carrego Man-
damos, que feja feu, e per feu mandado feja feita a
execuçom.
19 ITEM. Os folairos dos Procuradores hã de feer
repartidos em eíl:a guifa: a terça p:ute ham d'haver
quando o libello for julgado, que procede ; e outra
parte quando as inquiriçoões foré abertas, e pobli-
cadas; e a outra terça quando o feito for fiindo per
fentença difinitiva; ca per efia guifa fom departi-
dos na Hordenaçom d'ElRei Dom Pedro.
20 E MANDAMOS, que a dita quarentena, que
o dito Procurador aífy ha de levar de feu folairo, fe
entenda de toda a dita condapnaçom, ou auífoluçom,
de que o reeo feja condapnado, ou abfolto, affy do
principal, como de qualquer acefforio, affy de pe-
nas, como de intereífes, fruitos, ou dapnificamentos,
ou qualquer outra coufa femelhante em tal guifa, que
a dita quarentena nom feja contada per refpeito foo-
Liv. L Kk men-
258 LIVROPRIMEIROTITULO~ARENTA E CINCO

mente da condapnaçom principal , mais de toda a


dita condapnaçom, affy principal, como aceíforio,
como dito he; e fe em toda a dita quarentena mon-
tar mais que as ditas vinte libras da moeda antiigua,
que fom quatrocentos reaes brancos deíl:a moeda ora
corrente, nom ferá mais contado ao Procurador, que
os ditos quatrocentos reaes, nem levará mais como
fofo he declarado.
2r PERO mandamos, que fe nom entenda em a
dita quarentena a condapnaçom das cuíl:as, porque as
cuíl:as fe julguam tanto , e mais per al vidro do Jul-
guador, que per rigor de juíl:iça; e por tanto nom he
razom, que per refpeito deltas fe conte a dita quaren-
tena do Procurador, falvo fe as ditas cuíl:as forem jul-
guadas per virtude d'algua obrigaçom, em que al-
guern prometa, que nom comprindo o principal, que
pague todalas cuíl:as , que fobre ello forem feitas ; ca
em tal caío ferá contada a quorentena ao dito Procu-
rador, aífy per refpeito das cuíl:as , como do princi-
pal, fegundo em cima dito he da condapnaçom * ac-
cefforia (a) * dos fruitos, e penas.

TI-

(a ) e acclrorio
Do Q1JE HA DE LEVAR O CONTADOR ETC. 259

T I T U L O XXXXVI.
Do que ha de levar o Contador das cujlas polas contar.

M ANDAMOS, que os Cont~~ores das cuíl:as da


Corte , e da Cafa do C1 vil , honde os feitos
veem per apellaçom , levem por contar as cuíl:as em
cada huú feito , que dante os J uizes vierem , em que
a húa parte foo fejam julguadas as cuíl:as na Corte ,
dez reaes brancos. E fe em os ditos feitos , que aífy
vierem dante os ditos Juizes, foremjulguadas as cuf-
tas na Corte a amballas partes, como veencem , e fõ
vencidos , porque íe em cada huú feito hã de fazer
duas contas de cuftas , a faber , ao autor húa, e ao
reeo outra , deíl:as contas levará o dito Contador de
feu trabalho dez reis de cada húa parte, que foro vin-
te reaes brancos d'ambalas ditas contas; e per eíl:a
guifa levaram os Contadores das cuíl:as das Cidades ,
e Villas do Regno de contarem as ditas cuílas dos
originaaes dos feitos, que ficam na terra , e nos fei-
tos, que fazem fim perante os ditos Juízes, e nom
veem per apellaçom.
1 ITEM. Se os feitos , que aífy veem per-apella-
çom aa Cafa, e Corte vierem dante·alguús Correge-
dores , ou fe começarem na Cafa , ou Corte per nova
auçom, porque de taaes feitos, como eíl:es, fe con-
tam todalas cuíl:as delles na Cafa, e Corte~ porque fe
Kk 2 pa-
260 LIVRO PRIMEIRO TITULO QUARENTA E SEIS

pagua delles dizima , e nom fe conta na terra dellas


nenhúa coufa; quando taaes cuílas forem julguadas
na Corte, ou Cafa, de taaes feitos levará o Contador
de contar as ditas cuílas a húa parte foo em cada huú
feito vinte reaes brancos; porque no contar das cuf-
tas dos feitos d'ante os Corregedores, e nos feitos ,
que fom começados na Corte, he o trabalho dobrado.
2 E SE em os feitos , que affy veem per apellaç6
dante os ditos Corregedores, forem julguadas as cuf-
tas na Corte, ou Caía a ambas as ditas partes, como
veencem, e fom veencidas , porque fe ham de fazer
a cada húa das partes em cada huum feito duas con-
tas de cuílas , húa das cuílas da Corte, e outra das
cuílas dante o Corregedor a cada húa das partes fobre
fy , que fom affy quatro c;ontas a ambas as partes em
cada huú feito, a faber , duas do autor, e outras duas
do reeo, de taaes cuíl:as, como efhs , porque he tra-
balho de proveer bem todo o feito , levará o dito
Contador de as contar de cada húa das partes em ca-
da huum feito, que affy vier dante o Corregedor, vin-
te reaes brancos, que monta a ambalas ditas partes
'autor , e reco, quarenta reaes brancos em cada huú
d.os ditos fe itos: que he tamanho trabalho como tirar
hua fentença d'huú proceffo , que leve húa pelle de
perguaminho , e he affy em igual íl:imaçom , porque
como quer que alguús fritos fejam grandes, e tomaô
grande trabalho em ell es, outros o nom fom tanto,
em que fe pode compcnfar huú trabalho polo outro.
3
Do QYE PERTEENCE AO OFFICIO DOS TAB. ETC. '.l6I

3 E PORQJJE muitas vezes acontece, que quando


fe ham de contar as ditas cufias aas partes ambas ,
aíTy como vencem, e fom vencidas, as ditas partes
nom foro ambas de prefente pera averem de pagar ao
Contador feu trabalho, quando tal coufa for, ponha-
fe a pagua das ditas contas fobre a p~rte, que for pre-
fente , e elle as pague; e na cornpeníaçõ, e cabeça
das cuílas carregue o Contador na foma aa outra par-
te o que lhe montar de pagar da meetade das ditas
contas , e da guifa que as pagou , ho leve em a dita
fua foma, pera lhe aver de pagar a parte, que nom foi
de prefente á dita conta , como dito he.

T I T U L O XXXXVII.
Do que pertemce ao Officio dos CJ'aballiaaés, e artigos,
que ham de levar com as cartas dos Ojficios.

P Regnos achamos,
ÜRQYE que os Taballiaaés dos noífos
quando de Nos ham os ditos officios
fom acerca delles muito ignorantes, do que fe a Nos
podia feguir, e* fegueria (a) * defferviço, e ao po-
voo dampno, e perda, fe nom proveeffemos a ello em
algúa maneira: porem confiramos de lhes fazer Re-
gimento, e Hordenança, per que fe ajaõ de reger em
tal guifa, que querendo elles feer bem diligentes em
feus officios, ligeiramente os poffam bem fervir fem
feu
(") feguia
262 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E SETE

feu prigoo, e dampno do povoo: e por elles nom al-


legarem ignorancia deíl:e noífo Regimento , Manda-
mos ao noffo Chançaller que nas cartas de feus offi-
cios mande a cada huum efcrepver como elle leva o
dito Regimento da nofià Chançallaria, e que as nof-
fas Juíl:iças lho façaõ poblicar em Concelho na pri-
meira domaã de cada huum mez: o qual Regimento
he efie, que fe adiante fegue.
1 PRIMEIRAMEN TE, que os ditos Taballiaaés ef-
crepvam todalas notas dos contrautos em livro de
portacollo, e como forem efcriptas, que logo as leam
• perante ( a) * as partes , e tefiemunhas ; e fe as par-
tes as outroguarem , logo fo-affinem de feus nomes as
notas; e fe affinar nom fouberem, aíline por elles hu-
ma das ditas tefiemunhas, ou alguú Taballiaã, e norn
o que a nota fezer, fazendo mençom como fob-affi-
na pola parte, ou partes, por quanto ellas norn fabem
aílinar: e fe em leendo a dita nota, em ella for adi-
do, ou minguado per antre linha,ou * rifcadura, (b) •
o dito Taballiam faça de tudo mençom na fim da di-
ta nota ante da affinaçom das ditas partes, e tefiemu-
nhas em guifa, que ao defpois nom poífa fobre ello
vir duvida algúa.
2 ITEM. Mandamos, e defendemos aos ditos Ta-
balliaaés, que quando quer que forem requeridos de
fazer alguãs efcripturas de ferrnidom , que as nom
efcrepvam em canhenhos, nem em tavoas, nem per
e-
(a) prefente ( 6) refgadwra M.
Do Q.YE PERTEENCE Ao oFFicro oos TAB. ETC. 263

ementas, mais que as notem logo em effes livros de


portacollo pela guifa que dito he; e fe os ditos livros
hi nom tcverem, que vaaõ por elles, ou fiquem de as
efcrepver, e notar em feus livros em fuas cafas onde
os tcem ; e ellas notadas, que as nom dem fob feu fi-
nal ataa ferem prefente as partes leudas, e affinadas,
como dito he.
3 ITEM. Se acontecer que os Taballiaaés nom
conheçam algúa das partes, que os ditos contrautos
querem firmar , elles nom farom taaes efcripturas ,
falvo fe as ditas partes trouverem algua teíl:emunha ,
que digua, que as conhece; e em fim da nota os Ta-
balliaaés façam mençom como a dita teíl:emunha, ou
teflemunhas conhecem a dita parte , ou partes.
4 ITEM. Os ditos Taballiaaés nas ditas efcriptu-
ras, que aífy fezerem , ponhaõ fempre o dia, e mez,
e era, e a Cidade , ou Villa , ou Luguar , bonde as
houverem de fazer.
5 ITEM. Os ditos Taballiaaés darom as efcriptu-
ras, que houverem de fazer, a feus donos do dia, que
as notarem ataa tres dias , e fe lhas elles nom pedi-
rem, nom fejam culpados; e quanto he aas efcriptu-
ras grandes, porque as nom poderom em taro peque-
no efpaço dar, que as dem do dia, que lhas as par-
tes p-e direm ataa oito dias. .
6 ln:M. Se alguem pedir eíl:romento ao Tabalh-
aam por algúa razom perante o Juiz, que _lhe _nom
quer fazer comprimento de direito, fe o Juiz diff~r,
daat-
264 L1v1to PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E SETr.

daai-lho com minha repo.fla, digua logo o Juiz a repof-


ta, e fe a logo nom der, o Taballiam nom leixe de dar
o eflromento ao que lho pedir : e defta guifa o faça
antre as outras partes, que pedirem eílormento, e lhe
algua das outras partes nom quifer dar logo a repof-
ta, ca he certo que fe o Juiz, ou parte, com que ha
a contenda, nom da a repofta, e lha delongua, que o
nom fazem, fal vo por lhe perlonguarem fua deman-
da, e por nom • percalçar ( a) * direito.
7 ITEM. Os Taballiaaés levarom das efcripturas,
que notarem, a meetade do dinheiro, que em ellas
montar, aos vizmhos do luguar , honde morarem •
tanto que notadas forem, e a outra meetade lhe pa-
garom, feitas as efcripturas; e fe as partes hi nom fo-
rem moradores , que lhe paguem logo todo o que em
ellas montar, ou lhes dem penhor por ellas: e os Ta-
balliaaés dern as ditas efcripturas ao tempo fufo dito,
fegundo lhes he devifado.
8 ITEM. Os ditos Taballiaaés feram mui dilligen-
tes, e avifados de bem guardar os ditos livros de por-
tacollo, em guifa que quando forem requiridos pera
moftrar as notas , que as moftrem faãs , e limpas : e
por feu trabalho de bufcar, haveram aquello,que lhes
per Nos he taixado fem pedindo, nem levando por
ello outras peitas ; e fejam certos, que fe as ditas no-
tas nom moftrarem boas , e faãs fem duvida algúa,
que todo dampno, ou perda , que fe aas partes dello
fe-
(P) pe-rcalçarem
Do Q!TE PERTEENCE AO OFFICIO DOS TAB. ETC. 26 5
feguir, eiles ferom theudos de a pagar por feus beés :
e nom tolhendo porem de elks haverem as outras pe-
nas, que per direito , e Leix do noífo Regno em tal
cafo devem d'haver.
9 ITEM. Mandamos aos ditos Taballiaaés, que
alguas efcripturas, ou appellaçooés, ou trellados, que
houverem de dar, que primeiramente as concertem ,
prefente as pa1tes, em guifa que ao defpois nom pof-
fam dizer, onde taaes efcripturas mofirarem, que fom
minguadas, ou enadidas.
1o ITEM. Os Taballiaaês das audiencias nom ef-
crepverôm algúas efcripturas, que perteencem aos
Taballiaaé.s do Paaço, e bem affy os Taballiaaés do
Paaço nom efcrepverôm algúas efcripturas, que per-
teençam aos Taballiaaés das audiençias: e quem quer
que o contrairo fezer, haja aquella pena, que per
Nos he hordenada no titulo da repartiçom dos Ta-
balliaaés4
11 ITEM~ Todolos Taballiaaés , que fezerem
cfcripturas per cedullas, que lhes dem as partes, fe-
jam avifados que tanto que as ditas cedullas forem
notadas , que perante as ditas partes fejam leudas,
pera fe loguo veer fe fom concertadas com as ditas
cedullas, e em outra guifa nom dem os eíl:ormentos
aas partes per nenhúa maneira.
12 ITEM. Tanto que em cada húa Villa, ou Lu-
guar os Taballiaaés do Paaço forem dous, ou dhi
Liv. L LI pera
266 LIVRO PRIMEIRÓ TITULO ~ARENTA E SETE.

pera citna, façam em guifa como fempre (a) fiem


em cafa apartada , que lhe pera e!Io for hordenada
pelo Concelho, por tal que as partes , que os mefier
houverem, pera fazer algúas efcripturas , os poífam
ligeiramente achar em a dita cafa , que lhes affy for
affinada.
13 ITEM. ~ando notarem algúas efcripturas »
que perteençam, e devam feer dadas a am balas par-
tes, fe cada húa dellas pedir fua efcriptura , feja-lhe
dada , ainda que a outra parte nom peça a fua.
14 ITEM. ~e nom fejam Juizes em nenhuum
tempo, que forem Tabàlliaaés, nem voguem em Juí-
zo por algúa peffoa, falvo por feus feitos, .ou daquel-
Ies, que vivem com elles continuadamente em fuas
caías.
15 ITEM. ~e nom arrendem os moordomados »
nem outras algúas rendas do Concelho , de que ha-
jam de fahir contendas, que devam feer defembar-
guadas pelos Juízes, perante que elles e[crepverem.
16 ITEM. ~e fejam bem dilligentes cada vez
que forem chamados pera hirem fazer alguús con-
trautos, ou • eíl:ormentos (b) * a algúas peffoas hon-
radas, ou enfermas, que arrazoadamente nom pof-
fam, ou devam vir ao dito Paaço, que vaaõ logo a
fuas cafas, ou moradas daquelles, a cujo requeri-
mento forem chamados.
17 ITEM. Sejam avifados quando houverem de

------·----------------
fazer
(") confra.uadamente ( b ) tcílamcntos S.
Do Q.Y'E PERTEENCE AO OFFICIO DOS TAB. ETC. 267
fazer alguum contrauto antre Chriíl:aaô, e Judeu,
que primeiramente vaaõ perante o Juiz dos Orfoõs,
ou perante o Juiz Ordenairo, e per fua authoridade,
onde nom houver Juiz dos Orfoõs apartado, e per o
dito Juiz feja dado juramento ao Chriíl:aõ , e ao Ju-
deo em fua Ley, polo qual diguam verdadeiramente
fe antre elle.s em o dito contrauto, que fazer querem,
ha algúa efpecia d'onzena, ou conluyo, ou alguum
outro engano, aífy acerca dos no{fos, como de ente-
reífe de cada húa das partes; e fe jurarem que tal cou-
fa hi nom ha antre elles, netn efpera de feer, entom
façam o contrauto. E eíl:o haja lugar em todolos lu-
guares do noífo Regno, fal vo na Cidade de Lixboa,
porque teemos dado privilegio aa Cu muna de lia, que
fe poífam fazer contrautos antre Chriíl:aaõ, e Judeu
fem outra authoridade de Juftiça, feendo foomente
dado juramento aas partes per huum Taballiaam do
Paaço, fegundo mais compridamente he contheudo
na carta de feu privilegio : o qual contrauto fe fa.
rá corno dito he, moíl:rando primeiramente o Judeu
noífa carta, per que poífa contrautar, fegundo he
contheudo em a noífa Hqrdenaçom.
18 ITEM. Nom devemJevar bufca, nem outra
nenhúa peita das partes por lhe catarem as efcriptu-
ras, que lhes haõ de dar feitas, falvo foomente aquel-
Io, que per Nos he hordenado no titulo do que ham
de levar das bufcas &c.; e o que o contrairo fezer,
haverá a pena fofo declarada.
Ll 2 19
268 LrvRoPRIMHRO TITULO ~ARENTA E SETE

I 9 ITEM. Mandamos, que em todolos contrau-


tos d'obrigaçooés, e afforamentos , e arrendamen-
tos ,e compras , e vendas, e apenhamentos, e ou-
tros quaeesquer femelhantes, em que algúa parte fe
obrigue aa outra a fazer, ou dar algúa coufa , def..
pois que o Taballiaaõ der húa vez ho eftromento pe-
la nota aa parte, a que perteence, nom lhe dará mais
outro eftormento alguum por nenhúa coufa, ou ra-
zom, que pera ello ,tllegue, falvo havendo primeira-
mente noífa carta pera ello, perque füe feja dada ; a
qual carta lhe * mandaremos (a) * dar, prefente par-
tes, e com falva, fegundo a forma acuílumada.
20 ITEM. Mandamos a todolos Taballiaaés dos
noífos Regnos, que compram, e guardem todos ef-
tes artigos, e cada huum delles, como em elles he
contheudo , os quaees levaram da noffa Chancellaria
por feu avifamento, quando novamente houverem as
cartas dos Officios: e todo aquelle, que o contrairo
fezer, per eífe meefmo feito perca ho Officio, e nun-
ca o mais haja; e aalem deíl:o per feus beés pague
toda perda, e dampno, que algúa parte por ello re-
ceber; e fe beés nom tever pera ello abaíl:antes, ba..
ja pena de falfairo, ou qual em o feito couber.

(a ) mandamos ----- T l-
DA DECLARAÇOM FEITA ANTRE OS TAB, ETC, 269

T I T U L O XXXXVIII.
Da declaraçom feita antre os 'l'abal!iaaês do Paaço,
e os 'l'aballiaaés das audiencias Jobre as efcriptu-
ras, que a cada huum deites perteence f az er.

N Osso Avoo EIRey Dom Joham, cuja Alma


DEOS haja, fez húa Hordenaçom das efcri-
pturas , que devem de fazer os Taballiaaés do Paaço,
e as que devem de fazer os Taballiaaés das audien-
cias, a qual Nos havemos por boa, e Mandamos que
fe guarde : e porem a fazemos efcrepver em efte li-
vro, a qual he eíl:a, que fc adiante fegue.
I DoM Joham pe.la graça de DEOS Rey de Pur-
tugual, e do Algarve. A vós Fulano Corregedor por
Nos em tal Luguar , e a outros quaee[quer, que def-
pois vos vierem por Corregedores, e eíl:o houverem
de vecr, faude. Sabede, que os noffos Taballiaaés dos
noffos Regnos, que fom poíl:os, e apartados nos Paa-
ços pera fazerem as efcripturas publicas, fegundo fe
contem em a no!fa Hordenaçom, que fobre eíl:o he
feita, nos enviaram dizer, que antre os outros Tabal-
liaaés, que efcrepvem perante os J uizes nas audien-
cias, e Efcripvaaés dos horfoõs havia, e era briga, e
contenda fobre algúas efcripturas, que cada huús del-
les dizem que perteencem a elles de as ha verem de
fazer : e pala briga , e contenda , que aífy he antrc
elks
270 LrvRoPRIMEIRoTITuLO~ARENTA E0ITo

elles ditos Taballiaa~s , que ftaõ poflos , e aparta-


dos nos Paaços, pera fazerem as ditas efcripturas pu-
blicas , nos efcrepvcram fobre ello cenos capítulos,
e nos enviarem pedir por mercee, que lhes declaraf-
femos as efcripturas contheudas em os ditos capítu-
los, que cada huús houveífem de fazer, pera antre
elles nom haver fobre ellas brigua, nem contenda,
e pera as partes faberem os Taballiaaés, e Efcripvaa-
és, que lhas hajam de fazer. Os quaees capítulos vif-
tos per Nos , demos ao pee de cada huum noífa re-
poíl.a com acordo dos do noífo Defembarguo, fegun-
do adiante he efcripto: dos quaees capitulos com a
repofla , que a elles demos, o theor he que fe adian-
te fegue.
2 PRIMEIRAMENTE nos enviaram dizer, que os
ditos Taballiaaés, que cfcrepvem nas audiencias pe-
rante os Juízes, fazem os eíl:ormenros, e codicillos,
que quaaefquer homeés, ou molheres mandam fazer:
e pediram-nos por mercee , que lhes declaraffemos
quaaes Taballiaaés os houveífem de fazer. E Nos ,
viflo feu dizer, e pedir, acordamos que os ditos Ta...
balliaaés do Paaço façam todolos * teíl:amentos (a) *,
e codicillos, e quaeefquer outras poflumeiras voon-
tades , que quaaefquer peffoas mandarem fazer, de-
clarando fuas voontades do que mandam fazer def-
pois de fuas mortes.
3 OuTRo SY nos enviaram dizer, que os ditos

------------------
Tabal-
(a) elhomentos S.
DA DECLARAÇOM FEITA ANTRE os TAB. ETC. 271

Taballiaaés fazem os inventairos dos ditos finados ,


que feus teíl:amenteiros, e herdeiros , e outras peífoas
requerem aos Juizes, que lhes dem Taballiaaés, que
lhos efcrepvam , e ponham em enventairos por feos
beés nom_ feerern obriguados em maior conthia ,
que o que rcceberom, e polos nom enalhearern, e os
Juízes mandam a qualquer Taballiaaõ das audiencias,
que vai per dante elles , que lhe vaaõ fazer os ditos
inventairos, fem havendo hi outro Juizo: e pedirom-
nos que lhe declaraífemos quaees Taballiaaés os hou-
veífem de fazer. E Nos , viíl:o feu dizer, e pedir, a-
cordamos que os Taballiaaés do Paaço façam todo-
Jos inventa iras , que os herdeiros, e tefiamenteiros
dos finados, e outras quaeefquer peífoas mandem fa-
zer per qualquer guifa , falvo os enventairos , que os
Juizes de feu officio mandam fazer d'alguãs peffoas,
que fom , ou forem aufentes, ou morrerem fem her-
deiros, ou per qualquer guifa , que feja per officio de
direito , que perteença mandarem fazer inventairos
fem requerimento de partes: e eíl:es taaes façam os
Taballiaaés das audiencias, que perante elles efcre-
pvercm.
4 OuTRO sy nos enviaram dizer, que os ditos Ta-
balliaaés das audiencia~ fazem eíl:ormentos de poffes
e
de herdades, d'outras poffiffooés, quando as algúas
peífoas querem tomar per poder das vendas, e ef-
caimbos, afforamentos, e emprazamentos, e per noífas
fentenças, quando lhe fom julguadas herdades, e ou-
tras
272 LrvRoPRIMEIRoTITULO~ ARENTA E OITO

tras poffiífooés, fem indo perante os Juizes, nem fe


fazendo outro Juizo antre partes: pediram-nos que
lhe declaraffemos os Taballiaaés , que os houveffem
de fazer. E Nos, vifto feu dizer, e pedir, acordamos
que os ditos Taballiaaés do Paaço façam todolos ef-
tormentos de poffes, que forem dadas, ou tomadas
r;er poder, e virtude das efcripruras, e contrautos fu_
fo ditos, e quanto he na parte das poffes, que fe to-
marem per fentenças, e mandados dos J uizes, façam-
nas os Taballiaaés das audiencias, que efcrepvern pe-
rante elles.
5 ÜuTRO sv nos enviaram dizer, que os ditos Ta-
balliaaés das audiencias fazem eftormentos de ven-
das, e compras, e afforamentos, e emprazamentos,
e obriguaçooés , e arrendamentos , e outros muitos
contrautos de firmidooem antre Chrifl:aaõs, e Ju-
deus, quando fe os Chriílaaõs obrigam aos Judeus;
e efto fazem por quanto os Chriftaaõs, e Judeus vaaõ
perante os Juízes pera lhes darem juramento , fe ha
hi antre elles onzena , ou outro alguum conluyo, ou
engano : pediram-nos que lhe declaraífemos quem
houveífe de fazer os ditos contrautos. E Nos , vifio
feu dizer, e pedir, Mandamos que os ditos Taballi-
aaés do Paaço façam todolos ditos contrautos, poílo
que vaaõ perante os Juízes, por quanto efto nom ef-
crepvem, falvo por ferem os ditos contrautos fem
onzena, e fem outra malicia.
6 ÜUTRO sY nos enviaram dizer , que os ditos
Tabal-
DA D'ECLARAÇOM PEfTA ANTRE OS TAB. FTC. 273
Taballiaaés das audiencias efcrepvem as receptas , e
defpefas, e fazem as cartas das vendas, e remataçoo-
és dos beês dos finados , que fe fazem per mandado
dos feus teftarnenteiros, pera os darem , e diílribui-
rem por fuas almas , fegundo pelos teftadores he
mandado ; e efto fazem , porque os teftamenteiros
vaaõ aos Juízes, que lhes dem pera elles Taballiaa-
~s, que lhes efto façam: e pediram-nos , que lhes de-
claraífemos quem lhes efto houveífe de fazer. E Nos,
vifto feu dizer, e pedir, acordamos que os ditos Ta-
balliaaês do Paaço efcrepvam as ditas receptas, e def-
pefas honde nos teílamentos polos finados nom forem
dados certos Efcripvaaés a feus teftamenteiros ; e ha-
vendo hi Efcrlpvaaés, façam as ditas receptas, e def-
pezas; e façam as ditas cartas das vendas, e remata-
çooés, que dos ditos beês forem feitas, os ditos Ta-
halliaaés do Paaço.
7 ÜuTRO sv nos enviarem dizer, que os ditos
Taballiaaés fazem outras cartas de vendas , e com-
pras, e * remataçooés (a)*, e obriguaçooês , e outroi
muitos contrautos de firmidom , aífy como quando
alguãs peífoas jazem prefas , e querem vender, ou
enalhear, ou arrendar parte de feos beês per mandado
dos Juizes , pera feguimento de feos feitos , e man-
timento de feos corpos, Cem havendo hi outro Juízo,
que dam os Juizes pera ello fua autoridade: pedindo-
nos, que lhes declaraífemos quem houveffe de fazer
Liv. I. Mm as
( 11 ) arrendamentos S.
274 LIVRO PRIME IRO TITUL O 0EARE NTA E OITO

as ditas cartas , e contrautos. E Nos, viíl:o feu dizer•


e pedir, acordamos que fe as houverem de fazer per
razom de conhic imento dos J uizes, fe os prefos ven-
derom , ou enalhe arom, e os manda dos, que os Juí-
zes fobre elles derem , que taaes efcripturas façam os
Tãball iaaés, que nas audiencias efcrepveré perante
elles; e que as cartas das venda s, e arrendamentos •
e obriguaçooés , e outros contrautos façam os ditos
Taball iaaés do Paaço , que pelos ditos prefos a algúas
peffoas forem feitas , moíl:rando-lhe as autoridades
dos Juízes.
8 ÜuTRO sY nos enviaram dizer, que os Taball i-
aaés fazem empra zamen tos, e arrend ament os, e o-
brigua çooés, e alugueres de cafas, e outros muitos
contrautos de vinhas , e herdad es, e de dinheiros de
merca dores, e d'ourras muitas coufas, que algiías pef-
foas fazem a outras , e feitos os ditos contrautos anrre
as partes de feos prazeres, e voontades, vaaõ perante
os Juízes, e lhes dizem, que lhes Julguem per fenten-
ça os ditos contrautos pela guifa, que fom feitos, e os
ditos Juízes , viíl:o feu dizer, e pedir, affy lho julgam
per fentença ,fem havendo hi outro Juízo:. e pediro m-
nos, que lhes declaraífemos quem as houveífe de fa-
zer. E Nos, viíl:o feu dizer, e pedir, acordamos que
todolos ditos contrautos façam os ditos Taballiaaés
do Paaço per fua deíl:ribuiçom , por quanto as fen-
tenças , que em elles fom poíl:as, nom fom, falvo de
prazim ento de partes , e por os contrautos haverem
maior autoridade, e firmeza. 9
DA DECLAR.AÇOM FEITA ANTRE OS TAB. ETC. 275
9 ÜuTRO sv nos enviarom dizer, que os Efcri-
pvaaés dos Horfoõs fazem cartas de vendas, e com-
pras, e fcaimbos, e eft:ormentos d'arrendamentos, e
d'afforamentos, e d'obriguaçooés dos beés dos ditos
horfoõs, e outros muitos contrautos, e efcripturas
publicas de finnidom: pedindo-nos que lhes decla-
raífemos quem as houvdfe de fazer. E Nos, vifto feu
dizer, e pedir, acordamos que na parte dos efiormen-
tos dos conhicimentos, que alguús tetores dos ditos
horfoõs derem a outros, ou áquelles, que os beés dos
ditos orphoõs trouverem arrendados, que os façam os
Efcripvaaés dos horfoõs, porque os ham de pocr em
feus livros, que pera ello ham de teer feitos, em re-
cepta fobre os tetores, ou curadores dos ditos horfoõs;
e em a parte dos contrautos das cartas das vendas , e
compras, e efcaimbos, e d'outras efcripturas publi-
cas, que as façam os Taballiaaés do Paaço , que pera
ello fom apartados.
10 OuTRO sv nos enviaram dizer, que os Tabal-

liaaés das audiencias fazem efiormentos de frontas, e


proteíl:açooés, que algúas peífoas fazem a outras, que
lhes frontam, e requerem, que tomem , e recebam
algúas coufas, ou que lhes paguem alguús dinheiros.
ou façam outras cou fas , nom fe fazendo taaes fron-
tas, e proteíl:açooés em Juizo perante os Juízes: pe-
dindo-nos, que lhe declaraífemos quem houveffe de
fazer os ditos eftormentos. E Nos, viíl:o feu dizer, e
pedir, e porque paderia acontecer , que quando_, ai-
Mm 2 guas
276 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E OITO

gúas partes quiferem fazer taaes frontas , e proteíl:a-


çooés a algúas peífoas, em vindo bufcar os Taballi-
aaés ao Paaço, pera a ello darem eíl:ormentos, e por
nom poderem~ a ( a) * ello tam aginha hir(h), hiam-
fe as partes, a que quiíerom fazer taaes frontas, e por
aazo dello perderam feu direito, Acordamos que
quaaefquer Taballiaaés, que as partes mais prefles a-
charem, poífam fazer os ditos eíl:ormentos de taae.s
frontas , (e) e protefiaçooés.
11 ÜuTRo sY nos enviaram dizer, que os ditos
Taballiaaés fazem eíl:ormentos de citaçooés per po-
der das noífas cartas , e das no!fas Juíl:iças, e d'outras
peífoas, e as cartas vaaõ a qualquer Taballiaaõ , que
as vir, que as empraze, e que o envie dizer per ef-
cripturas publicas : e pedirom-nos que lhe declaraffe-
mos quem houveffe de fazer os ditos. eíl:ormentos. E
Nos, viíl:o feu dizer, e pedir, acordamos que quaa-
efquer Taballiaaés, que primeiro pola parte forem
requiridos , poífam fazer os ditos eíl:orrnentos.
12 ÜuTRO sY nos enviarom dizer, que os ditos
Taballiaaés (a) fazem eílormentos, affy como quando
alguús homeés trazem alguús prefos, ou levam de
Concelho em Concelho , e os entreguam a Alquai-
des , e aaquelles , a que os devem d'entreguar, e el-
les fe dam por entregues delles. E outro fy fazem ou-
tros eíl:orrnentos, aíly como quando as noífas Jufüças,
e outras peífoas mandam lançar alguús empreílidoi
per
(a) pera S. ( b ) allinar S. (e ) e requerimentos S. ( d ) do fu;;;-;,:--
DA DECLARAÇOM FEITA ANTRE OS TAB, ETC, 2 77

per noífas cartas, e al varaaes, e mandado, ou os man-


daõ lançar ás Juíl:iças per razom d'alguãs coufas, que
mandam fazer: Outro fy fazem outros eíl:ormentos ,
aífy como quando os Bifpos, e feos Viga rios mandam
poer cartas, ou ai varaaes nas portas principaaes das
Igrejas, em que mandam, que vaaó acufar, e deman-
dar alguús Clerigos, que fom prefos em f uas prifoo-
ês por eiceffos, e maleficios , em que fam culpados :
pedindo-nos, que lhe declaraífemos quem houveffe
de fazer os ditos eílormentos. E Nos, vifto feu dizer,
e pedir, acordamos que quaaefquer Taballiaaés , que
as partes mais preíles acharem, aífy do Paaço, como
das audiencias, poffam fazer taaes eílorrnentos.
13 ÜuTRO sY nos enviaram dizer, que os ditos
Taballiaaés fazem eíl:ormentos quando alguas peífoas
vaaõ perante os Juízes, e teem noflas cartas, e alguús
eíl:ormentos de teíl:amentos, ou doutras coufas, e di-
zem aos Juízes, que fe temem de as perder per al-
gúa guifa, ou per fogo, ou per algúa maneira; e que
porem lhes pedem , que lhe mandem dar o rrelado
dello em publica forma: e pedirem-nos, que lhe de-
claraffemos quem as houveffe de fazer. E Nos, viílo
feu dizer, e pedir, acordamos. que taaes efcripturas
façam os Taballiaaês, que efcrepverem nas audien-
cias perante elles, quando lhe forem demandadas em
Juizo perante os ditos Juizes.
14 ÜuTRo sY nos enviaram diz"er, que os Tabal-
lia.aés fobreditos fazem eíl:ormentos, aífy corno quan-
do
278 LIVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E OITO

do alguús Clerigos fiam em poífe de feus Benefici-


os, e fe temem de os forçarem delles algúas peíloas
contra direito, e fazem fobre ello cedullas, e publi-
cam-nas aos Bifpos, ou a feus Vigarios, e pedem-
lhes os Apoíl:olos, e appellam pera Roma, e de co-
mo eíl:o fazem, pedem eíl:ormentos publicas de como
appellam , e pedem fuas appellaçooés : e pedirom-
nos , que lhe declaraífemos quem houveífe de fazer
os ditos eílormcntos. E Nos, vi fio feu dizer, e pe..
dir, acordamos que façam os ditos eíl:ormentos os
Taballiaaés dante os Juízes, por quanto as appella-
çooés ham de feer intimadas a cada huum daquelles,
ante que fom antrepoíl:as, e pedidas as repoíl:as a el-
las, e per elles ham de feer dadas as repoíl:as dando
Apoíl:olos refutatorios, ou reverenciaaes.
15 ÜuTRO SY nos enviarom dizer, que fazem car-
tas de vendas,(a) e de remataçooés de beés, aífy mo-
veis, como de raiz ; aífy como quando algúas peífoas
ham demanda com outras, e vence huma das partes,
e leva fobre ello noífas fentenças definitivas, e por
poder dellas efcrepvem , e rematam os ditos beés : e
pedirom-nos , que lhe declaraffemos quem as houvcf-
fe de fazer. E Nos, viíl:o feu dizer, acordamos que
os Taballiaaês, que efcrepvem nas audiencias pe-
rante os Juizes , façam as ditas cartas de vendas , e
remataçooés , que forem feitas per fua autoridade , e
virtude das fentenças per elles dadas , ou dadas per
Nos
(a) e arrendamentos S.
DA DECC.ARAÇOM FEITA ANTRI! OS TAB, ETC. '279
Nos, e todalas outras cartas de venda, e remataçooés,
que per feu mandado forem feitas per virtude de fuas
fentenças, como dito he, ou per outras quaeefquer
Jufüças.
16 E PORQyE noffa teençom foi, e he de a dita
noffa Hordenaçom, que fobrc efto he feita, feer bem
comprida, e guardada, e as declaraçooês aqui cm
dla noíia carta ora per Nos novamente feitas: Teemos
por bem, e Mandamos-vos, que em effa Cidade , ou
Villa , nem em feus termos nom confentaaes a nen-
huum dos ditos Taballiaaês das audiencias, nem do
Paaço, nem Efcripvaaês dos horfoõs que façam ne-
nhuãs efcripturas, falvo aqoellas, que lhes a cada huús
na noffa Hordenaçom, e em efta noffa declaraçom he
mandado que faça; e fazendo alguum ddles o con-
trairo, vós defendee-lhe da noffa parte, que nom ufem
mais dos officios; e as efcripturas, que afiy fezerem
contra noffa defefa, e Mandado, que fejam nenhúas;
e mais mandamos, que paguem aas partes · codolos
dampnos, e perdas, e intereffes, que fe lhe, per ra-
zom dos ditos contrautos a!fy feitos nom valerem,
recrecerem , ou vierem ; e mais fejam prefos. e nom
foltos ataa noffa mercee : he al nom façadcs.

TI..
280 LrVRO PRIMEIRO TITULO ~ARENTA E NOVE

T I T U L O XXXXVIIII.

Das roupas , que ham de trazer os 'l'aballiaaés, pera


ferem da jurdiçom d' ElRey.

E STA Hordenaçom , que fe fegue , fez E!Rey


Duarte meu Senhor, e Padre de louvada me-
moria, fobre as roupas, que ham de trazer os Tabal-
liaaés, a qual aprovamos, e havemos por boa,e Man-
damos que fe guarde, como em ella he contheudo.
I MANDOU E!Rey em feendo Ifante com acordo

dos Ifantes Dom Anrique ·, e Dom Fernando feus Ir-


maaõs, e dos Condes de Arraiolos, e de Viana, e dos
outros do feu Confelho, que todolos Taballiaaês da-
qui en diante em todos feus Regnos fe dem com eítas
claufulas, que fe adiãte feguem.
2 PRIMEIRAMENTE, que o dam por Taballiam
em todolos autos affy civis, como crimes, que fe em
aquelle julguado, honde o dam por Taballiaam, trau-
tem per qualquer guifa que feja , e que tanto que a-
prefentar a carta do officio em J uizo, comece logo
d'efcrepver nos feitos crimes perante os Juizes do cri-
me, e ufe continuadamente a efcrepver-nos ditos fei-
tos crimes, ao menos por efpaço de hum mez, e d'hi
en diante ufe, fegundo que ufava aquelle, em cujo
luguar elle focedeo, o dito officio, ou foi ao defpois
repartido por mandado do dito Senhor, ou daquelle,
que feu loguo tever. 3
DAS ROUPAS (UJEHAM D!TRAZER OS TAB. ETC. 28r
3 ITEM. ~e elle tragua continuadamente roupas
farpadas, e devifadas de colores defvairadas com de-
ferenças partidas bem devifadas, fern nunca trazen-
do em nenhum tempo coroa aberta ocrrande , nem
pequena; e nom comprindo elle dito Taballiam to-
dalas coufas , e cada hiía dellas perfeitamente em to-
do tempo, que logo per elfe meefmo feito perca de
todo o dito Taballiado , fem feendo pera ello mais
citado, nem chamado: e nom feja efcufado de perder
o dito officio , pofro que algúas das ditas claufullas
compra, fe as perfeitamente nom comprir, como fo-
fo dito he.
4 ITEM. ~anto tange aos Taballiaaés , que ja
agora Com, o dito Senhor hordenou, que aquelles, que
nom ufarom d'efcrepver em feitos crimes, que vaaõ
logo efcrepver, e ufar continuadamente em os ditos
feitos crimes, como dito he, e d'hi em diante tornem
a fervir, aífy como antes eílavam, trazendo fempre as
ditas roupas leigaaes, e farpadas, e de colores devifadas
fem trazendo nunca coroa, como dito he, fob aquel-
la pena, que pofta he aos que novamente vem por
Taballiaaés, aífy como em cima he declarado. Foi
publicada em Sintra a vinte e tres dias de Julho Era
de mil quatrocentos e trinta e tres annos.
5 ITEM. Declarou o dito Senhor acerca da dita
Hordenaçom, que acontecendo que alguum Tabal-
liaam queira trazer doo por alguum feu parenre, ou
fenhor, ou por outra qualquer peífoa , que tragua,
L~ L Nn oo
282 LrvRo PRTMEJRo TrTuLo ~ARENTA E Novt

ou feja theudo a trazer effas roupas , que affy de doo


trouver, farpadas, como dito he, ou tragua em ci-
ma das roupas, que ante do dito doo trazia, fita de
burel. ou de linhas, ou de laã de femelhante manei-
ra em tal guiía, que fempre ande em avitos leigaaes.
e em todo feculares, porque tal he a teençom do di-
to Senhor.
6 ITEM. Declarou mais o dito Senhor, que affy
os Taballiaaés , que ja fom feitos, como aquelles >
qttc daqui en diante forem, hajam huum mez d'ef-
paço pera cornprirem eíl:a condiçom i o qual termo
fe conte aos que ja fom feitos do dia, que for pu-
blicada na correiçorn, honde forem moradores , e aos
que ainda nom fom feitos , do dia , que o forem a
huum mez, que fom trinta clias compridos.

TITULO L.
Das citaçooês, pergooés, procuraçooés, e inqurriçooés >
de que a E/ Rey perteence haver direito.

N Os ElRey Mandamos aos noffos Defernbargua-


dores, e Efcripvaaés da naifa Corte > que daqui
c:n diante tenhaõ efte Regimento, que [e adiante fe-
gue.
1 PRIMEIRAMENTE mandamos ao Ekripvam dos
noífos Feitos, e das Malfeitorias,. que efcrepvam to-
dalas
DAS CITAÇOOENS, PERGOOtNS, ETC. 2 83

dalas citaçooés, pergooés, procuraçooês, e inquiri-


çooés, de que havemos d'aver os noífos direitos, fa_
zendo defto livro em cada huum anno, e façam com-
pridamente efto receber aos Porteiros, que ftam pe-
rante os noífos Juizes dos ditos feitos , e perante o
Corregedor da noífa Corte, que de Nos ham manü-
méto , aos quaees Porteiros defendemos, que nom
recebam couza algúa dos ditos noífos direitos, falvo
perante os ditos Efcripvaaés.
2 ÜuTRO sY Mandamos, que efta meefrna regra
fe tenha perante os do noffo Defembarguo, e Ouvi-
dores , e efcrepvendo todo efto aquelles Efcripvaaés,
a que dermos carreguo; e Mandamos, e defendemos
a todolos outros Efcripvaaés , que filharem inquiri-
çooés, que ante que as levem aos Defembarguadores
façam poer as paguas em ellas pelos ditos noffos Ef-
cripvaaês, que deíl:o reverem carreguo, daquello, que
a Nos perteence d'aver de cada dito de teftemunha...
e os ditos Porteiros, prefente elles, recebam os ditos
direitos, e os Efcripvaaés, que o contrairo defto fe-
zerem, hajam a pena adiante efcripta.
3 OuTttO SY defendemos aos ditos Defembargua-
dores , que feendo-lhe levadas taaes inquiriçooés fem
pagas, que nom dem em ellas livramento ataa lhes
mandarem poer as ditas paguas.
4 E PORQyE muitas vezes acontece, que os Def-
erübarguadores , efpecialmente o dito Corregedor ,
manda penhorar algiías peffoas per feos alvaraaes, de
Nn 2 que
'2 S4 LrvRo PRIMEIRO TITULO CJNCOENTA

que a noffa Chancellaria levaria a dizima, fe per car-


ta pa!Ta!Tem, a qual dizima fe nom arrecada por aífy
pa!Tar per alvaraa: Porem Mandamos , e defende-
mos, que os ditos Defembarguadores, e Corregedor
nom paffem taaes al varaaes, fal vo em aquelles cafos,
e em aquella conthia , que he hordenado: que em tal
cafo os Efcri pvaaés, que taaes alvaraaes efcrepverem,
que os nom entreguem aa parte, a que pertencer ,
nem ao Porteiro , nem a outra algúa peífoa, que per
elles haja de fazer a eixecuçom , que primeiramente
os nom mofirem aos ditos noífos Efcripvaaés , que
defto teverem carreguo, prefente os ditos Porteiros,
pera fe delles recadar, e levar todo noífo direito: e
os Efcripvaaés, que o contrairo defto fezerem, e nof-
fo mandado nom comprirem, fejam fofpenfos dos of-
ficios ataa noífa mercee; honde ai nom façades. Fei-
ta em a Cidade de Coimbra puflumeiro dia de Se-
tembro: per autoridade do Senhor Ifante Dom Pedro
T etor, e Curador do dito Senhor Rey, e Regedor, e
com a ajuda de DEOS Defenfor por elle de feus Re-
gnos, e Senhorio. Diego Alvares a fez anno do Naf-
cimento de noífo Senhor JEzus CHRISTO de mil e
quatrocentos e quarenta e dous annos.

T 1-
Do REGIMENTO DA GuERRA. 285

TITULO LI.
Do R egimento da Guerra.

G UeRRA he coufa, que ha em fy duas qualida-


des , a húa de mal, e a outra de bem; e como
quer que cada húa deíl:as feja partida em fy, fegundo
feus fritos , pero quanto he ao nome, e a maneira de
como fe fazem, tanto he como húa coufa ; ca o guer-
rear, nom embarguantc, que haja em fy maneira de
deíl:ruir, e matar, pero com todo eíl:o quando he fei-
ta como deve, aduz defpois paz, de que vem aileíle-
gamento , e fulgura, e amizade.
I E os Saibas diílerom , que guerra he guiamen-
to d'amizadc, e movimento de paz, e embarguamen-
to das coufas por fazer, e he coufa, de que fe levan-
ta morte, e cativeiro, e aos homens perda, e dam-
pno, e deíl:ruimento, e he movimento das coufas que-
das, e deíl:ruiçom das compoílas.
2 !TEM. Som tres maneiras de guerra. A primei-
ra he chamada em latim jujia, que quer dizer direi-.
ta, e eíl:a he quando homem faz por cobrar o feu dos
ínmigos, ou por em parar a fy meefmo delles, e füas
coufas. A fegunda chamam injufla, que quer dizer
tanto como guerra, que fe move com foberva , e co-
biça., e fem direito. A terceira chamam civ ilis, que
fe levanta antre os moradores do lugar em maneira
lk
2 86 LrvRo PRIMEIRO TITULO SrncoENTA E HUM

de bandos, ou em o Regno por defacordo, que ha a


gente antre fy.
3 ITEM. Mover guerra he coufa, que devem pa-
rar muito mentes os que a quiferem fazer, ante que
a comecem, que a façam com razom, e com direito ;
ca defro veem , e procedem grandes tres beés : o pri-
meiro, que ajuda DEOS mais os que a aífy fazem: o
fegundo, porque elles fe esforçam mais em fy meef-
mos por feus feitos profperarem polo direito que tem:
o terceiro, porque aquelles, que os ouvirem, os aju-
dem de melhor voontade, e os inmigos os recearem
mais, e os temerem.
4 ITEM. ~ando Nós, ou outro alguum Capitam
do noífo Regno com a graça de DEOS começarmos
algúa guerra, pera noífa tençom, e propofito vir a boa
fim, antre todalas outras coufas , que lhe compre de
fazer, pera boo Regimento, e governança della, aífy
he que primeiramente devemos d'encomendar-nos,
e no1Tos feitos a DEOS, e des y poer efperança em d,
porque fem fua graça, e ajuda nom fe pode coufa
boa fazer: e des y , ante que abalemos com noífa hoíl:e
pera algua parte , devemos de fallar com nolfo con-
feffor, e com aquelles, que teverem carrego das Al-
mas de confeffar, que fallem com todolos cavallei-
ros, e fidalgos I que façam meenfeíl:ar toda noífa gen-
te; e fe fouberem alguus , que fe nom faliam, e eíl:am
em odio, fazellos reconciliar, e preíl:ar, e perdoar; e
fe alguús forem negrigentes , de poer aquella pena,
de
Do REGIMENTO DA GuERRA. 287

d.e que cada huum for merecedor, ataa feer feito, e


comprido todo noífo mandado.
5 E TANTO que Nós teverrnos junta toda noffa
gente, ou a maior parte della, com que bem poífa-
rnos aballar noífa hoíl:e, devemos o dia da partida
mandar dizer huma Miffa folepnizada em lugar cer-
to per Nós affinado, e mandaremos hi levar noífc, ban-
deira metida na funda , e recolheremos hi noífa gen-
te : e acabada a dita Miífa, e recolhida a gente , par-
tiremos com a graça de DEOS.
6 ITEM. Devemos d'encomendar noffo corpo
efpecialmente a vinte ca va!leiros , ou cfcudeiros, que
fejam bem fieeis, e da criaçom noífa·, os quaees te-
ram efpecial guarda do noílo corpo guardando-o, e
feguindo-o fempre continuadamente aífy de noite,
como de dia, fem teendo outro alguum cuidado, fe-
nom eíl:e, em tal gui(a, que como Nós abalarmos
d'huum cabo pera outro , elles nos figuam fempre,
e andem armados de cotas , e barretas , e braçaaes, e
lanças , e efpadas, pera poderem bem prover em ro-
do tempo a qualquer cafo, que aconteça ; e ferá da-
da a governança delles a hum fidalguo, ou caval-
1eiro d'autoridade, em que tenhamos efpecial fiança,
pera lhes hordenar o dito aguardamento per giros,
em tal guifa que Nós fejamos fempre bem aguar-
dado.
7 ITEM. Mandaremos chamar aa noífa tenda o
Conde-eftabre I e o Marichal, e o Ouvidor, e Meiri-
nho
288 L1vRo P.tuMEIRO TITULO CrncoENTA E HUM

nho da hofte, e faremos hi vír todolos fidalgos , e


cavalleiros, e Capitaaés, e encomendar-lh'emos per
mandamento muito fingularmente que elles, e todos
os que com elles forem, e de que carreguo teverem,
que obedeçam em todo o cafo ao Conde-eílabre , e
Marichal, e ao dito Ouvidor, e Meirinho, prome-
tendo grande efcarmento aos que o contrairo feze-
rem : e nom fe trabalhe nenhuum de fazer uniom,
nem defenfar alguum que mereça haver efcarmento
per juíl:iça, nem o colha em fua tenda; e tanto que
lhe for requerido que o entregue, e1 per fy o cate
com boa diligencia, e o entregue logo; e aquelle ,
que o contrairo fezer, ferá efcarmentado aífy no cor-
po , como na honra.
8 ITEM. Devemos de hordenar bem nofia avan-
guarda, e reguarda , e allas, e poer na avanguarda,
e nas allas taaes homeês, e fidalgos , que dellas te-
nham governança, quaees Nós virmos, que fom ho-
meés d'autoridade pera tal feito reger, e. governar: e
eíl:o fem affeiçom, que com elles tenhamos, dando-
lhe, e repartindo taaes , e tantas gentes , como en-
tendermos, que lhe fom neceflarias, e fegundo a gen-
te, que houver em toda a hofte, e arraial.
9 ITEM. Devemos de poer na reguarda com
nofco toda a outra gente, porque toda he naifa, aífy
da a vanguarda , como da reguarda.
r o ITEM. Devemos encarreguar ao Conde-fta-
bre, e Marichal, e feus Meirinhos que andem con-
ti-
Do REGIMENTO DA GuERRA. 289
tinuadamente polo arraial com certos homeés , que
lhe pera ello feram dados, e que acudam aos arruidos,
e voltas, que fe fezerem, e levantarem em elle, e a
quaaefquer outras coufas, em que feja meíl:er provi-
mento de juíl:iça, e proveerem logo aaquellas , que
bem poderem per fy com boa aguça, e diligencia; e
as outras, a que per fy nom poderem proveer, no-
tificallas com grande triguança ao Conde-eíl:abre ,
ou ao Marichal, fegundo o cafo for, pera fe a todos
proveer com juftiça.
II ITEM. Devemos nós, ou o capitam da guerra ,
faber que gente levamos em noífa hofte, aífy de ca-
valleiros, como de homeés d'armas, como de beef-
teiros , e aífy dos homeés de pee ; e faber o conto
certo de todos, pera nos podermos delles bem fervir
ao tempo que for meíl:er; porque os cavalleiros, e
homeés d'armas tomam os beeíl:eiros, e homeês de
pee, e fe fervem delles, e quando os havemos meíl:er
pera alguús feitos , nom os achamos tam aginha co ..
mo he comprídoiro.
12 ITEM. Devemos d ;! levar meeíl:eiraaes de to-
dolos meíleres, e dar carrego delles a algúa peífoa
fiel , que os haja de requerer, e encaminhar, pera
quando os houverem meíler por ferviço da hoíl:e, que
poífam haver ligeiramente, e mandar fazer as coufas
neceífarias.
13 ITEM. Devemos de encomendar noífos artifi-
cios a homeés de noífa cafa, que tenham encarreguo
Liv. L Oo de
290 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E HUM

de os guardar, e dar delles boo conto, e recado ca..


da vez que requeridos forem.
14 ITEM. O arraial deve íeer aífeentado em lu ..
guar forte, e defenfavel , como fe dirá ao diante, e
o affcntamento delle deve fcer encomendado a algúa
peffoa de bem, qu e pera ello feja perteencente; o qual
tomará, e affinará o luguar , onde haja de feer aífen-
tado, em cada hum a jornada, e levará com figo ataa
oito, ou dez pendooés pequenos, pera com elles ba-
lizar, e devifa~ o luguar, onde houver de feer aífeen-
tado o arraial, fegundo lhe for mandado pelo Conde-
eíl:abre, cujo principalmente deve feer o carreguo; e
nom ferá oufado alguum de poufar, nem de poer ten-
da algúa aalem dos ditos pendooés, fob aquella pe-
na, que lhe ferá poíl:a.
I5 htM. Porque na hofie fempre andam peça
d'efcudeiros, e d'homeés d'armas, que nom tem ca-
pitaaés, que andam per fy, devemos d'eícolher pe-
ra taaes, como dles, huum capitam, a que feja da-
do carreguo delles; o qual os repartirá per coudees,
a faber, antre trinta huum, que terá cuidado delles :
e efto pera quando os pedir o Conde-eíl:abre ao dito
capitaõ, e coudees pera fervirem na guarda da her-
va, ou do arraial, ou d'outra qualquer neceilidade,
haverem razom de todos fervirem, e nenhuum fe ef-
cufar.
16 hEM. Aquelle, a que for dado carreguo de
finar, e aífeentar o arraial, trabalhará fernpre como
feja
Do REGIMl':NTO DA GuERRA.

feja affeentado em lugar forte, e a cerca da auga , e


de mantimentos das beíl:as, e no mais fraco lugar do
arraial devemos ficar com a maior parte da gente, e
poer hi noffas guardas em noffa tenda , pera de noi-
te feer bem guardado , e bem affy toda a hoíl:e em
aquella guifa, e maneira, que he mais neceffario, e
compridoiro pera boa guarda, e defenfom della.
17 ITEM. No arraial deve d'aver guias, que da
terra hajam conhecimento, as quaees devem feer en-
tregues a homeés fiees, que dem dellas boõ conto
e recado em cada huum dia ; e effes fiees devem de
chamar as guias em cada húa noite, e fallar com el-
las fecretamente o luguar , pera onde tevermos pro-
pofito d'hir; e encomendar-lhes que encaminhem a
hoíl:e pera tal terra, e caminho_, onde poffam melhor
achar paíl:os, e auguas pera as beíl:as: e deve feer hi
chamadoaquelle, que houver carreguo d'affinar o ar-
raial, e o affeentar com os peendooés, como dito he >
pera haver de faber a que parte o poerá.
1 8 ITEM. Tanto que o arraial for affeentado, em
cada húa noite devem continuadamente feer poíl:as
cfcutas de cada parte do arraial, affy ao longe como
ao perto, pelas quaees poffamos feer em conheci-
mento dos inmigos; as quaees devemos de encomen ..
dar a homem fiel, que as haja d'encaminhar em ca-
da huum dia, e em cada húa noite, e dar dellas boo
conto, e recado em tal guifa, que per fua mingua
nom receba o arraial alguum perigoo.
Oo 2 19
292 LI VRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E HUM

19 ITEM. Devemos no tempo da guerra feer


avifado de qual parte do arraial pode razoadamente
recrecer gente de inmigos, por tal que da outra par-
te faça poer a carriagem , por eíl:ar mais fegura , e
Nós ficarmos na parte mais prigofa, e poer hi as gen-
tes d'armas, que pera ello compre, as quaees poifam
defpachadamente pelejar fem torva da carriagem , fe
tal caufo avier.
20 !TEM. ~ando aballar a hoíl:e nom deve a

avanguarda hir mais afaíl:ada da reguarda, que huum


tiro de beeíl:a, em tal guifa, que fempre feja húa em
vifta da outra, e fe poílam ambas ajudar, e confer-
var em todo o cafo que aconteça.
21 ITEM. Os que forem na avanguarda, e bem
aify na reguarda por coufa que vejam , nem ouçam ,
norn fahirom a escaramuçar, nem fora do Regimen-
to, e governança que levarem per nenhúa guifa do
mundo; nem correrom a cervo, nem a rapofo, nem
a lebre, nem a coelho, nem a outra coufa geeralmen-
te, porque muitas vezes aconteceo ja per aazo deíl:o
a hoíl:e receber grande perigoo: e devemos de levar
aalem da gente hordenada na a vanguarda, e reguarda,
outra gente de fora, pera escaramuçar, e quacefquer
outras coufas femelhantes, que acontecer poífam.
22 lTEM. As bandeiras dos fidalgos aify na avan-
guarda, como na reguarda, nofu devem feer tiradas
das fundas, fal vo quando for tirada , e eftendida a
no!fa e efta nom deve feer tirada, e ftendida, falvo
ao
Do RECIMENTO DA GuERitA. 293

ao tempo de peleijar: e quanto aos balfooés, eíl:es po-


dem fempre hir eíl:endidos, porque tal foi fempre a
ufança da guerra.
23 hEM. Norn fe deve tanger trombeta no arrai-
al, falvo quando a nós mandarmos tanger, porque o
foom da trombeta fignifica novidade , e logo traz
comfigo alvoroço no arraial.
24 ITEM. Devem feer defefos no arraial dados, e
apelidos, e molheres pera cama, porque fom coufas
que trazem com figo geeralmente arroidos, e revoltas,
e grandes perigoos em todo ajuntamento de gentes;
e ja aconteceo muitas vezes por aazo das ditas cou-
fas, e cada húa dellas o arraial receber grande peri-
goo, e dampno , e fe nom podia defpois remediar
fem grande trabalho.
25 ITEM. ~ando houvermos d'aballar com nof-
fo arraial d'huú lugar pera outro, devemos de man-
dar, que dem aas trombetas cedo ai ta manhaã por ta 1,
que as gentes hajam razom de fe levantarem cedo, e
tenham tempo pera abater fuas tendas, e carregar fua
frasca, e hir com tempo ao luguar, onde o arraial
houver de feer aífeentado.
26 ITEM. Todolos fidalgos , que forem hordena-
dos pera eíl:arem na reguarda comnosco , nom fe hi-
ram a outra parte fem noífo efpecial mandado, fal vo
onde virem eíl:ar a nofià bandeira; e hindo-fe a outra
parte, nom lhe deve feer contado por bem , e aalem
deíl:o devem haver efcarmento , fegundo a qualidade
de
294 L1vRoPRIMEIR0TrTuto CrNcoENTA JI! HUM

de fua peffoa : e efia medês regra devem teer os que


forem hordenados d'eílarem na avanguarda, porque
devem de ftar honde eíl:ever a bandeira daquel , que
for governador della.
27 ITEM. Nenhuú fidalguo,cavallciro , ou efcu-
deiro, nem homem d'armas, que feja enfermo, nom
deve d'hir na carriagem, mais deve hir atras da re-
guarda, que he lugar mais feguro, onde mais honef-
tamente pode hir todo homem; porque muitas vezes
acontece alguús fe fazerem enfermos nom por fra-
queza de feos coraçooés, mais por affeiçom que ham
a alguas coufas, que levam, e por effe aazo fe lançam
na carriagern polas guardarem melhor, o que lhes
nom deve feer confentido.
28 ITEM. Deve feer dado carrego no tempo da
guerra a alguum fidalguo, ou cavalleiro pera ello per-
teencente, que tenha em cada huum dia preíl:es ataa
vinte efcudeiros bem encavalguados, que lhe ferom
hordenados pera ello, os quaees em cada huum dia
alta manhaã tenham cuidado de hirem a descobrir
terra, aífy valles , como outeiros , ante que o arraial
aballe; e fe virem muita gente, deve loguo huum del-
les vir correndo a grande preffa por fignal de muita
gente; e fe pouca gente virem , corno acontece per
muitas vezes alguus lançarem cilladas, e outros por
veerem, e devifarem o arraial, em tal cafo deve vir
o efcudeiro feu paílo por ftgnal de pouca gente : e
eíl:o fe acuíl:umou de fazer aily por boo avifamento
do arraiaL 29
Do REGIMENTO DA GuERRA. 295

29 ITEM. Devemos-nos de enformar fe ha no ar-


raial alguús fidalgos, ou cavalleiros, ou alguãs outras
peffoas de femelhante eíl:ado, que fe aggravem de
Nós, por lhe nom darmos tam compridamente focor-
ro a fuas neceffidades, ou lhe haver feita algúa outra
frm-razom; e quando tal coufa foubermos, o deve-
mos chamar , ou lho mandar dizer per algúa peffoa
d'autoridade, fegundo for o querellozo, e teer com
elle algüa maneira honeíl:a como faya de queixume
aa milhor parte , que bem poder, em tal guifa , que
abrande os coraçooés dos querellofos com doces pala-
vras, ou real fatisfaçom, fegundo o cafo for.
30 ITEM. Acuíl:umarom fempre os Reix, e Prin-
cipes das hoíl:es faber fe andam em ellas alguús, que,
por hi andarem contra fuas voontades, diguam algúas
coufas deshoneílas, que fejam contra feu ferviço, ou
abatimento de feos Eftados, por quebrantarem os co-
raçooés dos boõs , que os ouvirem, e fazer-lhes per-
der vontade de bem fervir; e quando de taacs homeés
ham enformaçom , chamam-nos , ou lho enviam di-
zer per outrem, fegundo a qualidade dos maldizen-
tes, e docemente, e com palavras honeíl:as os conten-
tam : e ainda acoftumarom de lhes fazer mercees,
poíl:o que dello nom fejam merecedores , e eíl:o por
lhes quebrantar fuas maas tençooés, e os trazer a boo
propofüo.
31 ITEM. No tempo da guerra devemos de teer
maneira como fejamos fernpre geeralmente aguafa-
lha-
296 LrvRo PRIMEIRO TITULO CrNCOENTA E HUM

lhador dos boõs, moílrando-lhe íempre íembrante le-


do , e voontade graciofa por tal, que honde nom po-
dermos com mercees abranger a fatisfaçom do feu
ferviço, ao menos fejam alguú tanto contentes de
noffo bom gafalhado, e moílra nça de boa voontade:
nem devemos de feer cobiçofo , fenom de honra , e
ainda leixar a miude os noffos direítos , fegundo o
merecimento das peffoas, ca fe todo noífo direito le-
varmos, nom fera contado por bem.
3 2 ITEM. Por novas, que hajamos no arraial , que
vem muita gente de inmigos, nom devemos por tan-
to feer triíle, nem fazer moíl:rança de torvaçom per
fenbrante, ou palavra, ante devemos moftrar de feer
por ello muito ledo com grande esforço, e leda voon..
tade, porque fegundo o fenbrante, que moílrarmos,
taaes coraçooés faremos aas no{fas gentes.
33 ITEM. Devemos no tempo da guerra mandar
apregoar, que nom feja nenhuum tam oufado de
qualquer eílado , e condiçom que feja , que durante
algúa peleja, roube , nem fe aparte da hordenança ,
em que for pofio no começo da peleja, mais fempre
continuadamente peleje com a graça de DEOS, ataa
que a peleja de todo faça fim ; porque muitas vezes
aconteceo 1 que durando a peleja, alguús por fentirem
a vantagem da fua parte, fe lançavam a roubar, e
por aazo deíl:o receberom grande darnpno, porque de
veencedores tornavam a feer veécidos.
34 1TEM. ~ando houvermos de poer cerco fobre
al--
Do REGIMENTO DA GUERRA. 297
algúa Villa, ou Caíl:ello, devemos teer eíl:a maneira,
que fe adiante fegue; a faber, devemos chegar em
batalha hordenada á cerca do luguar, que cercarmos
o mais perto delle, que bem podermos; porque quan-
to mais perto do lugar o cerco íl:á, quanto maior co-
raçom faz aos combatentes, e enfraquecem c;is que
fom cercados: e a carriagem da hofte deve eíl:ar que-
da em luguar, que fie fegura.
35 hEM, Ante que fe a dita Villa, ou C-aíl:ello
cerque, Nós biremos fobre elle em batalha hordena-
da, como dito he, e devemos primeiramente hir veer
a dita Villa , ou Caíl:ello da redor, e catar lugar mais
forte, que tever <la redor, e alli devemos affeentar
noifo arraial ; e devemos efguardar o luguar, porque
Nós fencamos que mais ligeiramente poifa feer dado
foccorro aa dita Villa, ou Caftello pelos inmigos , e
fazermollo ocupar, e afortelezar com gentes d'armas,
e artelharias per tal guifa, que norn lhe poífa feer da-
do o dito focorro.
36 ITEM. Se a Villa for tamanha, que fe nom
poffa razoadarnente poer o arraial todo em redor ,
ponha-fe junto, e nom fe ponha to<lo em redor, fal-
vo o dia do combate ; e eíl:o por aazo de fe a gente
nom espalhar em defcumunalleza : e o dia que fe a
Villa, ou Caftello houver de combater, ferá poíl:a to-
da a gente a redor do luguar em partes ; e eíl:o polos
do lugar acudirem a todalas partes, e fe espalharem:
e no luguar mais fraco, per onde fe houver de. entrar,
Liv. I. Pp alli
2.98 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E HUM

alli eftará a força da gente, e combaterá mais riga-


mente que com a ajuda de DEOS podér.
37 ITEM. Será logo feita a redor do arraial por
fegurança delle grande cova a redor com feus taipaa-
es, e no lugar mais fraco ferá feita mais forte, e mais
alta, e no mais forte defenfavel razoadamente , e os
portaaes do arraial fejam no mais forte luguar delle :
e quando o arraial for aífeentado, e forem meíl:er ar-
teficios , faremos poer os arteficios logo em aquelle
lugar, onde houverem de feer armados. Eíl:es artefi-
cios fejam bem guardados do fogo, e dos outros ca ..
jooês, de que.fe lhes pode feguir dampno.
38 ITEM. Faremos trazer a todo homem fua co-
ta, e braçaaes, e efpada continuadamente, e de noite
dormiram veíl:idos, e calçados por muitas coufas >
que fe de noite feguem : e dlo nom hajam por tra_
balho, porque deíl:o fe fegue prol, e honra,. pois que
eílo vaaõ bufcar, prol pera as almas, e honra pera os
corpos.
39 !TEM. Por quanto no arraial cortam carnes, e
morrem beíl:as, e as bandounas das carnes, e o fedor
das beftas trazem fempre grande avorricimento, e
nojo, e ainda fe caufa por ello peíl:elencia, e outras
coufas de cajooés, mandaremos hordenar huú par de
carretas com fenhas tinas em cima, que levem toda
eíla çugidade fora do arraial mui longe: e ainda de fe
foterrarem ferá mui bem hordenado.
40 !TEM. Nom ferá alguum tam oufado de rou ...
bar
Do REGIMENTO DA GUERRA, 299
bar Igreja , nem deftroir nenhuum Religiofo , nem
della dentro tomar prefo, fe elle nom trouver armas,
nem de forçar nenhuúa molher, nem rouballa, fob
pena de morrer porem.
41 ITEM. ~e nom feja alguum tam oufado de
hir diante, falvo em fua batalha , com o pendam de
íeu fenhor, ou capitam, fal voos pofentadores dos ca-
pitaaés, fenhorcs, e fidalgos, os nomes dos quaes fe_
ram dados per feus fenhores, e capitaaés ao Conde-
eftabre, e ao Marichal, fob pena de perderem feus
cavallos.
42 ITEM. Cada huum feja obediente ao fcu capi-
tam de fazer vela, e guarda, e forragem, e toda cou-
fa, que perteence de fazer a foldadeiro, fob pena de
perder o cavallo, e armas, e o corpo embarguado por
parte do Conde-eftabre, ou Marichal , ataa que haja
feita a voontade de feu fenhor, fegundo a hordenan-
ça do arraial.
43 ITEM. ~e nom feja alguum tam oufado de
roubar, nem filhar bitalhas, nem outras coufas , que
primeiro per outrem forem filhadas, fob pena de lhe
cortarem a cabeça ; nem outro fy nenhúas outras
mercadarias, ou coufas quaeefquer que venham pe-
ra refrescamento da hoíle, fob a pena fufo dita : e
aquelle , que o fezer faber ao Conde-eíl:abre, ou ao
Marichal de taaes roubadores, ou fithadores, haverá
mil reis por feu trabalho.
44 ITEM. Por nenhúa contenda de alojamentos,
Pp 2 nem
300 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E HU M

nem de nenhúa outra qualquer coufa nom faça ne-


nhuú volta, nem arroido na hoíl:e , nem ajuntamen-
to de gente; e efto tambem dos principaaes, como
dos meores, fob pena de perder feos cavallos, e ar-
mas, e o corpo aa noífa mercee ; e fe for page , ou
outro moço, perderá a orelha efquerda ; e ante que
fe em elle faça eixecuçom poderá moflrar feu agravo
ao Conde-eftabre, ou ao Marichal, e feer-lhe ha fei-
to comprimento de direito.
45 ITEM. ~e nom feja nenhuú tam oufado de
fazer volta , ou arruido em na hofte por malqueren-
ça de tempo paffado ; e fe alguú for morto por tal
contenda , ou em occaziom della forem , morrerom
por ende : e fe aconteceífe que alguú braadaífe o no-
me de fi meefmo, ou de feu fenhor, ou capitam por
fazer levantar as gentes , porque o arruido poífa feer
na hoíl:e, aquel, que o fezer, moira porem.
46 ITEM. ~e nom feja alguum tam oufado de
braadar, ou apellidar por alguú fenhor, ou capitam,
falvo foomente aaqui d' E!Rey, fob pena de lhe corta-
rem a cabeça; e aquelles, que forem começadores dos
ditos braados, haveram a dita pena, e mais o corpo
enforcado pelos braços, fe taaes peífoas forem.
47 !TEM. Que nenhuú nom braade armas, armas
em na hoíl:e , por o grande priguo, que poderá acon-
tecer, o que DEOS defenda; e eíl:o fob pena de per-
der o melhor cavallo, que tever, fe for homem d'ar--
mas, ou beeíl:eiro de cavallo; e fe for beeíl:eiro a pee,
ou
Do REGI MENTo DA GuERRA. 301

ou page perderá a orelha direita ; e fe for fidalgo, ou


cavalleiro, feja eícarmentado fegundo o cafo for, e
a calidade de feu eíl:ado.
48 ITEM. Se alguú feito d'armas fe fezer, no
qual alguú -inmigo feja derribado em terra, e aquel,
que o derribar , for adiante no alcance , e outro vier
de tras, e o tomar por prifoneiro , eíl:e, que o aili to-
mar, haverá a meetade delle, e aquel, que o houver
derribado , a outra meetade : mas o que o tomou ,
haverá a guarda delle fazendo fegurança a feu par-
ceiro.
49 ITEM. Se alguú tomar prifoneiro, e outro vi-
er fobre elle demandando parte, ameaçando-o que
fe lhe parte nom der, matará o prifoneiro, ainda
que parte lhe feja prometida, elle nom a haverá; e
fe lha nom prometer, e elle matar o prifoneiro, ha-
verá por pena feer prefo ataa que contente a parte ,
e mais perderá feus cavallos, e armas pera o Conde-
eíl:abre.
50 ITEM. Qie nenhuú nom faça cavalguada de
dia, nem de noite, fenom per licença noffa, ou do
Conde-eflabre, ou Marichal por tal , que elles faibaõ
parte dhu for, pera lhes dar foccorro, e ajuda fe mef-
ter fezer, fob pena de perderem os cavallos, e armas
pera o Conde-eíl:abre.
51 ITEM. ~e per nenhúas novas, nem arruidos,
que a efto poderem vír, nenhuú nom fe mova fora
das batalhas , feendo a cavallo, ou em feus aloja-
men-
302 LrvRoPRIMURO TITULO C1NCOENTA E HUM

mentos, fenom per affinamentos dos capitaaês das


batalhas , fob pena de perderem os cavallos, e armas
pera o Conde-eíl:abre.
52 ITEM. Cada huú pague o terço a feu Senhor,
ou ao Capitam de toda maneira de guaanho d'armas,
e tambem aquelles, que nom fom a foldo, mas tam
folamente fom cheguados, e apuíentados de fo a ban-
deira, ou pendom d'alguum Cpitam.
5'3 ITEM. ~e nom íeja nenhuú tam oufado de
levantar bandeira , ou pendom de Sam Jorge , nem.
outro alguú pera tirar as gentes fora da hofie, pera
hir a nenhuma parte que feja, fob pena de morrer ;
e ao Capitam, que o fezer, e a todos aquelles, que
o feguirem, lhes cortarem as cabeças , e todos feus
beés, e herdades perdidas ferem pera Nós.
54 ITEM. Cada huú de qualquer eítado, e condi.
çom , ou naçom que íeja, que da noff.:1. parte for,
tragua huum fignal d'armas de Sam Jorge largo,
hum diante, e outro de tras ; e íe per mingua delle
for ferido, ou morto, aquelle, que o ferir, ou ma.
tar nom havera porem pena; e que nenhuú inmiguo
nom tragua o dito fignal de Sam Jorge, ainda que
feja priíoneiro, ou doutra maneira em na hofie, íob
pena de feer morto.
55 ITEM. ~e fe alguú tomar priíoneiro, que
como for vindo aa hoíl:e, que o tragua a feu Senhor,
ou Capitam, fob pena de perder fua parte pera o di-
to feu Senhor, ou Capitam ; e o Capitam o tragua
a
Do REGIMENTO DA GUERRA. 303
a Nós, ou ao Conde-eftabre, ou ao Marichal, a quem
mais aginha o podér levar, fem o levar a outra par-
te, honde o podeffem examinar das novas dos inmi-
gos, fob pena de perder o feu terço pera aquelle, que
primeiramente o fezer faber ao Conde-eftabre, ou ao
Marichal.
56 ITEM. G.!!e cada huú guarde, ou faça guar-
dar feu prifoneiro , que nom cavalgue ao larguo,
nem vaa longamente fem haver guarda [obre elle,
p01 nom enculcar, e avifar os fegredos da hofie aos
inmigos ; fob pena de perder o dito prifoneiro , re-
fervando ao dito feu fenhor, ou capitam a terça par-
te del1e, falvo fe o dito capitam, ou fenhor for cul-
pado na fugida do dito prifoneiro , e a outra parte
haverá aquelle, que o prime-ira mente, e a outra par~
te o Conde-efiabre; e o dito capitam do dito prifo-
neiro haverá mais de pena feer embarguado aa naifa
mercee.
57 ITEM. ~e nom leixe ninguem hir o feu pri-
foneiro fora da cafa por fua rendiçom , nem por ne-
nhüa outra coufa fem licença noffa, ou do Conde-ef-
tabre , ou do Marichal , ou do capitam , em cuja
companhia for; e aquelle, que o contra iro fezer, fe-
ja embarguado ataa noffa mercee, e haja mais ef-
carmento, fegundo o cafo for.
58 ITEM, Cada huú faça bem, e compridamente
fua vela na hofte, com ho numero das gentes d~ar-
rnas l e bcefteiros l e outra gente, que lhe for affina-
da
304 LIVRO PRIMElllO TITULO CINCOENTA E HUM

da , e hi eíl:ar a termo hordenado, fem fe mover pe-


ra nenhiía parte fenom per mandado, e licença da.
que!, cujo for o principal carreguo da vela, fob pe-
na de lhe cortarem a cabeça.
59 ITEM. ~e nenhuú nom dê falvo-conduto a
prifoneiro alguú, nem outro fy licença a nenhuú in-
migo de v1r aa hofle fob noffa pena , e perder feos
beés pera Nós , e feu corpo eílar aa noífa mercee ,
falvo Nós, ou Conde-eHabre, ou o Marichal; e que
nom feja nenhú taro oufado de quebrantar o noifo
falvo-conduto, fob pena de morrer porem , e feos
beés , e herdades ferem perdidos pera Nós ; nem
eífo meefmo os falvos-condutos do Conde-eíl:abre ,
nem os do Marichal, fob pena de lhe cortarem a ca-
beça.
60 ITEM. Se alguú tomar prifoneiro, deve-lhe de
tomar fua fé, e o bacinete, ou o guante direito em
guaje, e em final que he feu prifoneíro , ou o deve
leixar em guarda a alguu feu; e fe ante que efto haja
feito, alguú outro vier de tras, e o tomar ante das ce-
rimonias paifadas , elle o haverá aífy corno fe de pri-
meiro tomara fua fé.
61 ITEM. ~e norn feja alguurn tam oufado de
receber fervidor d 'outrem, que haja prometido feguir
a menagem, aífy como homem d'armas, como beef-
teiro, ou outro qualquer homem de foldo, ou page,
ou outro moço , despois que for afiuzado com feu
amo; fob pena de feer feu corpo enbarguado ataa que
haja
Do REGIMENTO O.A GuERRA. 305
haja feita reftetuiçom aa parte querellante pala Hor-
denaçom da Corte, e feus cavallos, e arm;,ts ferem
pera o Conde-eflabre.
62 ITEM. ~e nom feja alguum tam ou fado d'hir
em forragem diãte dos fenhores , ou doutros quaecf-
quer, que houverem ho encarrego principal da forra-
gem , fob pena de perder, fe for homem d •armas >
feos ca vallos , e armas pera o Conde-efiabre , e feu
corpo feer embarguado polo Marichal; e fe for beef-
teiro, ou barlete, ou homem de pee, ou page, cortar-
lhe-ham a orelha direita.
63 ITEM. ~e nom feja alguum tam oufado de
fe alojar falvo per affinamento dos apoufentadores, os
quaees ferom affinados per o Conde-eíl:abre pera dar
as poufadas, fob pena de lhe cortarem a orelha direi-
ta, fe for varlete, ou page; e fe for homem d'armas
de perder feos cavallos, e armas pera o Conde-efta-
bre: e defpois que o dito alojamento for defembar- .
guado, nom feja nenhuú tam oufado de fe mover•
nem al~nguar por coufa , que poíla vir, fob a pena
fulo dita.
64 ITEM. ~e qualquer fenhor, que feja, dê o
nome do feu apoufentador ao Conde-eíl:abre, e ao
Marichal, fob pena que fe alguú for a diante , e to-
mar poufada, e o feu nome nom for dado ao Conde-
eftabre, e ao Marichal, qualquer que !eja, perca feos
cavallos, e armas.
65 NoM enbargante que em eíl:e Regimento de
Ljv. L Qq guerra
3o6 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E DOIS

guerra em muitos luguares, e por muitas couras po-


nhamos penas de morte, e de talhamento de nenbros,
eíl:as penas rezervarnos pera Nós, pera as mandarmos
comprir, ou minguar, ou acrecentar como virmos
que os tempos requerem, e os erros forem.

TITULO LII.

Do Conde-eflabre, e do que perteêce aJeu ojficio.

O CoNDE-ESTABRE he o maior officio, e de maior


eílado, e honra , que ha na hoíl:e, tirando a
fora aguei, que he fenhor della, ~arque fegundo ge-
ral , e amigua ufança da guerra a elle perteence hir
na a vanguarda , e teer o Regimento della , fe outro
fenhorde maior efiado hi nom for; e ainda a elfeper-
teence a governança nas maiores , e mais affinadas
coufas , que na hoíl:e hajam de feer feitas.
I hEM. ElRey, ou qualquer outro fenhor da hof.
te deve continuadamente teer confelho em cada húa
noite com o Conde-eíl:abre, e com o Marichal, e
-com os outros de feu Confelho, e com elles hordenar
as cou!as pezadas , que fe em outro dia houverem de
fazer, as quaees devem feer encomendadas ao Conde-
eíl:abre, e elle deve d'encarregar o Marichal daquel-
las , que per fy fazer nçrn poder; e quando taaes cou ..
[as
Do CoNDE-ESTABRE, ETC.

fas forem, que fejam de pequena fuíl:ancia ) pode-as


encomendar ao feu Ouvidor: e ao Conde-eflabre fica
fempre cuidado pera demandar a cada huú conto ,ou
recado daquello, que lhe mandar fazer.
2 1TEM. O Conde-eftabre terá principalmente
cuidado d'ordenar, e encaminhar em cada huú dia
com confrlho do Marichal todalas outras coufas , que
a ellc perteencer de fazer , fegundo he contheudo no
titulo da governança, e Regimento da guerra.
3 ITEM. O Conde-eíl:abre no começada guerra
deve fazer Coudees aquelles, que elle entender, qu~
fom pera ello perteencentes, que tenham encarrego
dos beefteiros , e homeés de pee, a faber, antre trin-
ta , huum coudel ; e eíl:e terá carrego de os aguafa-
lhar , e apoufentar, e requerer feu foldo, pera quan-
do o Conde-eíl:abre houver mefier alguús delles pera.
fervir, ou hir a algúa parte, aos ditos coudees os de-
ve de requerer, e elles devem teer cuidado pera lhos
logo dar : e eíl:o fe coíl:umou de fazer fempre aífy,
porque todos hajam razom de fervir igualmente.
4 ITEM. O Conde-eíl:abre com acordo d'ElRey,
ou do íenhor da hoíl:e ha d'affinar certos quadrilhei.
ros, que fejam pera ello perteencentes, que ao ven-
círnento d'alg ua hlltdha, ou entramento de Villa re-
partam todo o csbulho, que hi for achado, antre todo.
los fenhores, e capitaaés da hoíl:e, fegundo fua fenho-
ria, e capitania, pera elles outro fy repartirem aquel-
Jo, que lhes acontecer antre aquelles, que forem de
Qg 1 fua
308 LrvRo PRIMEIRO Tnu10 CrNCOENTA E 001s

fua capitania, e fenhoria; porque dando-fe luguar


ao esbulho, feguir -fya ende grande prigoo aa hoíl:e ,
porque, como ja diífemos no titulo do Regimento da
guerra, por aazo do dito esbulho feer permitido re-
ceberiam as hoíl:es grandes perigoos.
5 ITEM. A elle perteence cada vez que o arraial
partir d'huú lugar pera outro , mandar certas gentes
diante, que pera ello ferom affinados , pera descobrir a
terra dos inmigos por fegurança da hofte; aos quaees
dará huú capitam, que pera ello feja perteencente, e
mandará com elles alguus almocadeés de cavallo;
que faibam bem a terra, pera os haverem d'encami-
nhar a ferviço d'E!Rey.
6 ITEM. A elle perteence ordenar as guias , que
haveram d'hir na avanguarda pera encaminhar, fe-
gundo he contheudo no titulo da Hordenança da
guerra, e bem affy em quacefqt1er cavalguadas, que
houverem de fazer.
7 ITEM. A elle perteence dar carreguo a huma
peíToa de bem, que pera ello feja perteencente , pera
affinar o luguar, onde o arraial houver de feer aífeen-
tado , o qual levará certos pendooens pera balifar, e
<levizar o dito lugar ; e despois que for affinado, o
Marichal dará apoufentador, que haja d'alojar os fe-
nhores, e fidalgos, e os capitaaés da hoíl:e , fegundo
no titulo do Marichal mais compridamente he con-
theudo.
8 IT.EM. A elle perteence hordenar as guarda$, e
cfcui-
Do CoNDE-ESTABRE, nc. 309
efcuitas , que hajam de guardar o arraial despois que
for aífeentado, fegundo elle entender por noífo fervi-
ço, e fegurança da hoíl:e, e mais compridamente he
contheudo no titulo do Regimento da guerra: e nom
feja nenhuum tam oufado, que fem feu mandado ef-
pecial faya fora do arraial , fegundo for balifado ; e
aquel, que o contrairo fezer , feja prezo, e efcarmen-
tado, fegundo juízo do Conde-eíl:abre.
9 ITEM. Acontecendo, que feja neceífario de poer
palanque no arraial em qualquer tempo por guarda.
e defenfom delle , ao Conde-eíl:abre perteence de o
mandar eixecutar~
10 ITEM. ~ando vier cafo, que o arraial feja á
viíl:a d'algúa Villa com propofito de feer cercada ,
aquel, que da parte do Conde-eíl:abre fooe d'hir di-
ante veer os lugares, onde o arraial ha de feer aífen-
tado, eífe meefmo vaa entom tam a cerca do arraial,
que ligeiramente poífa haver focorro delle, em tal
guifa , que nom receba prigo , e tenha tal maneira ,
que poífa devifar a terra em lugar, onde o arraial feja
melhor aífeentado, e venha-o fallar com o Conde-
eíl:abre, e recontar-lhe-ha a difpofiçom dos luguares,
que vio, e achou, pera elle com noílo acordo horde-
nar, e affinar o lugar , onde ho arraial haja de feer
aífeentado.
II hEM .Ao Conde-eílabre perteençe, quando o
arraial abalar de huum lugar pera outro, dar carre-
go a alguii fidalguo J ou cavalleiro pera ello perteen-
cente 1
3 ro LivRo PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E oois
cente, que tenha em cada huú dia preíles ataa vinte
efcudeiros bem encavalgados, com os quaees em ca-
da huú dia alta manhaã hirá defcobrir a terra, ante
que o dito arraial aballe, por fegurança delle, fegun-
do mais compridamente he contheudo no titulo do
Regimento da guerra; e bem aífy fará defpois que o
arraial for aífeentado em feu lugar.
12 ITEM. Ao Conde-eíl:abre perteence haver con-
to das gentes d 'armas, e beefieiros, e homeés de pee,
e bem affy das batalhas, e companhias, que houver
em toda a hoíl:e, pera fe de lias poder fervir igualmen-
te ao tempo do meíl:er: e elle hordenará a maneira ,
que haveram de teer aquelles, que houverem de ve-
lar: e elle per fy as roldará, ou mandará roldar per
peffoa fiel, e lhes dará o nome , que hajam de teer ,
e qualquer outra couía, que hajam de fazer : e eíl:o
fará em todo o arraial, affy da Villa, e Caíl:ello, co...
mo do campo.
13 ITEM. Ao Conde-eíl:abre perteence ho maior,
e mais principal carrego da juíl:iça, efpecialmente
nos feitos pefados de grandes peffoas; e por tanto lhe
convem de levar comfigo huú Leterado bem enten-
dido por feu Ouvidor, e outro homem de bem por
Meirinho; e elle deve a levar cadea, e carcereiro, e ho-
meés pera fazer juftiça, em tal guifa qpoífa feer bem
comprida, e eixecutada pelos ditos officiaaes della.
14 ITEM. O Ouvidor do Conde-eíl:abre poderá
tomar conhecimento de quaaesquer feitos, affy cri-
mes
Do CoNDE-ESTABRE, nc. JII
mes como civis, que a elle vierem , principalmente
per auçom nova , ou per appellaçom , ou aggravo
dante o Marichal, ou feu Ouvidor; e qualquer def-
embarguo, que o Conde-cíl:abre, ou [eu Ouvidor com
authoridade delle der em alguú feito , logo poderá
mandar compridamente eixecutar ; pero fe elle vfr
que alguú feito he tam pefado per razom da peífoa,
ou per bem da coufa feer em fy muito grave , deve
fallar comnofco , e com noífo acordo dar em elle de-
terminaçom, como for achado per direito: e deve fi-
car em fua difcripçom á cerca do feito feer leve, ou
pefado, como dito he.
I5 ITEM. Se o Marichal per fy , ou per feu Ou-
vidor defembarguar alguú feito crime, em que haja
pena de fangue, nom mandará eixecutar feu defem-
bargo a menos de fallar com o Conde-efiabre; falvo
fe o defembarguo for defembarguado com acordo, e
autoridade do Conde-eftabre.
I6 ITEM. Todolos feitos civis, que ao Conde-
eftabre, ou a feu Ouvidor vierem per auçom nova,
ou appellaçom, ou aggravo, ou qualquer outra ma-
neira, e per elle, ou per feu Ouvidor com fua auto--
ridadc forem defembarguados, farom em elle fim em
tal guifa, que de feu defembarguo nom haverá hi
appellaçom, nem aggravo ,nem fupricaçom pera ou-
tra nenhúa parte.
I 7 ITEM. Todos aquelles, que quiferem mover
alguãs demandas em todo cafo civil J ou crime, po-
derom
312 Lrn.o PRIMEIRO TrTuto CrncoENTA E oors

derom efcolher por feu Juiz ho Ouvidor do Conde-


efiabre, ou o Ouvidor do Marichal, e qualquer del-
les, que primeiramente tomar conhecimento da cou-
fa, per qualquer guifa que começar d'ouvir as partes,
elle procederá em ella ataa fim.
1 8 ITEM. O Conde-eíl:abre haverá de cada mer-
cador , ou regatam, que vender, ou comprar na hof-
te cada fomana doze reaes brancos , e de cada huú
feu fervidor tres reaes brancos; e haverá de cada huã
molher folteira da mancebia em cada fomana doze
reaes brancos ; e haverá mais as penas do dinheiro, ou
beés, ou qualquer outra coufa , em que alguú feja
condapnado na hofte por coufa, que faça como nom
deva; e haverá mais todas as carcerageés daquelles,
que forem prefos na priíom do feu Ouvidor; e bem
aífy as armas, que lhe forem achadas, fe com ellas
fez o que nom devia.
19 ITEM. ~ando fezerem algúas cavalguadas ,
devem os capitaaés dellas requerer ao Conde-eftabre,
que lhes dê huú cavalleiro, ou efcudeiro, que em feu
nome lhes affine o luguar, onde hajam d'affeentar fua
gente em cada huú dia, fegundo pelos ditos capitaa-
ês ferá hordenado.
20 ITEM. ~ando o Conde-eíl:abre, e Marichal
cavalguarem, das prefas, que forem tomadas per el-
les, haverá o Conde-eíl:abre todas as beíl:as fem cor..
nos, a faber, cavallos, e eguoas, mullos, e mullas,
afnos, e afnas , que andarem pelo campo em mana-
das,
Do CoNDE-ESTABRE ETC. 313
das, ou per outra guifa desferradas , e os porcos. E
o Marichal haverá todas as beílas mazelladas, e ca-
padas de pouco valor. E todas as befias ferradas fom
daquelles, que as gaançarem. E quanto he aos bois, e
vacas, carneiros, e ovelhas, cabrooens, e cabras, e as
porcas, todas ellas animalias ham de feer repartidas
per todos aquelles, que forem na cavalguada; a qual
repartiçom farom o Conde-eíl:abre , e o Marichal
ambos juntamente , ou quem elles pera ello em feus
nomes finarem. E ainda que os ditos Conde-eftabre,
e Marichal nom forem na cavalguada , fe elles efte-
verem no arraial, haveram fua parte das fobreditas
coufas, que ham d'havcr, em falido, affy corno fe na
cavalguada foífem ; pois que ficam no arraial por fer-
viço d'ElRey , e por fua hordenança haõ de feer fei-
tas as ca valguadas.
21 ITEM. Se huú prifoneiro for prefo em tempo
de guerra, e elle efcapar da guarda daquelle, que o
filhou , e for reprefo pola guarda da vela , deve feer
levado ao Marichal; e fe achar que o dito prifoneiro
fogio ante de feer acabada huma noite, e huú dia,
que o tinha aquelle que o prendeo, em tal cafo deve-
lho de mandar tornar, fem por cllo haver alguã avan-
tagem; e achando que havia mais de noite, e dia, que
o fenhor do prifoneiro ho tinha em feu poder, quan-
do lhe fogio , em tal cafo ferá o prifoneiro daquelle
que o achar, e haverá o Marichal por avantagem a
dizima delle.
liv. I. Rr 22
31 4 L1vRoPRIMEIRoT1TuLo CrNCOENTA E 001s

22 !TEM. Se alguú prifoneiro fogir do arraial, e

paífar as guardas do arraial , e ante que chegue aos


inmigos deffe arraial, feja tomado per outra gente do
arraial, e fe affy andar fogindo ante que tomado feja
per huú dia, e noite, ferá daquelles, que o tomarom,
e o Marichal haverá fua a vantagem, e fe per ventura
for tomado ante que paífe dia, e noite, ferá tornado
a feu dono per juizo do Marichal fem outra avanta-
gem : e efto fe entenda quando a noífa hoíl:e for em
terra de noífos inmigos.
23 !TEM. Se alguãs coufas forem levadas pelos
inmigos do arraial, e os ditos inmigos as teverem fob
feu poder dia, e noite, ante que com ellas cheguem
em fal vo á fua terra , e forem recobradas pelas gentes
do arraial, fejam daquelles, que as tomarem; e fe an-
te do dia, e noite forem recobradas , fejam tornadas
aos primeiros fenhores; e fe per ventura as ditas cou-
fas ja eram poíl:as em falvo pelos inmigos , e defpois
foram recobradas, em todo cafo feram daquelles, que
as novamente cobrarem.

TI-
Do MARICHAL, E COUSAS, ETC, 3I 5

T I T U L O LIII.

Do Marichal, e coefas, que aJeu ojjicio perteencem,

D EsPors do Conde-eílabre, o maior, e mais hon-


rado officio da hoíl:e parece feer o do Marichal,
porque a elle perteence fazer muitas coufas, que tan-
gem aa governança da jufiiça; porque todo querello-
fo fe pode querellar a elle em feito de juíl.iça , affy
como ao Conde-eílabre, e elle lhe poderá dar, ou
mandar a fcu Ouvidor que lhe dê provimento com
direito, fegundo ao diante ferá declarado.
I ITEM. A elle perteence repartir os alojamen-
tos da hoíl:e em todo lugar , onde houver de feer af-
fentado o arraial, ca defpois que pelo Conde-eftabre,
e pello feu deputado for ailinado onde o arraial haja
de feer aífeentado, deve feer repartido o alojamento
pelo Marichal, ou feu apoufentador, que elle pera
ello hordenar, aos fenhores, e fidalgos, e capitaaés da
hoíl:e, fegundo a condiçom, e qualidade de cada huú,
e gentes que rever.
2 ITEM, Ao Marichal perteence de concertar as
velas , e teer a guarda dellas aa ora de comer , aífy
gentar, como cea; e em todo outro tempo deve teer
a guarda dellas o Conde-eíl:abre , fegundo no titulo
do [eu officio he contheudo.
Rr2 3
316 L1vRo PRIMEIRO TITULO CrNCOENTA E TRES

3 ITEM. Todalas preías, que forem tomadas pe-


los da hoíl:e, o Marichal haverá todas as beíl:as ma-
zeladas, e capadas, e de pouco valor. E mais haverá
em cada femana doze reaes brancos de todo aquelle,
que tever loja , ou tenda armada pera vender algúa
couía de qualquer condiçom, e qualidade que feja. E
haverá mais todos os amerceamentos da hoík, a fa_
ber, todo aquello, que Nós per via, e graça, e mercee
mandarmos paguar a alguú por mal que haja feito>
perdoando-lhe a pena, que principalment e merecia.
E mais haverá todas as carcerageés daquelles, que fo-
rem prefos na prifom do feu Ouvidor ; e bem aífy as
armas, que lhes forem achadas, fe com ellas fezerom
o que nom deviam.
4 ITEM. O Marichal haverá de cada mercador,
que feguir a hoíl:e, e armeiro, e çacalador, e barbeiro,
e reguatom, e de cada húa molher da mancebia ca-
da fabbado doze reaes brancos ; e outro tanto haverá
de cada huú dos fobreditos, que fe moverem da hof-
te pera outra parte, defpois que houverem eftado em
ella per efpaço de tres dias.
5 ITEM. ~ando fe fazem alguãs cavalguadas,
devem os capitaães dellas requerer ao Marichal, que
lhes dê huú cavalleiro , ou efcudeiro pera ello per-
teencente, que em feu logo os haja d'alojar em cada
huú luguar, que fe houverem d'aífeentar.
6 l TEM. Se huú prifoneiro for prcfo per alguú da
hoílc, e elle efcapar daquelle, que o tomou, e for def-
po1s
Do MARICHAL, E cousAs, ETC. 317

pois prefo pela guarda da véla, deve-o de levar ao


Marichal , e o Marichal haverá a vantagem de fua
rendiçom , porque he affy como efiranho.
7 ITEM. O Marichal deve a levar comfigo huú
Leterado na hoíl:e perteencente pera ello, que feja feu
Ouvidor , pera conhecer de todolos feitos crimes, e
civis, que perante elle vierem; e bem affy huú Mei-
rinho pera haver de prender aquelles, que pelo dito
Marichal. ou feu Ouvidor for mandado, ou que elle
achar no arraial fazendo o que nom devem; e em efie
cafo deve logo d'hir ao dito Ouvidor, e recontar-lhe
a razom , porque prendeo o dito prefo, e fazer o que
lhe per el for mandado; e bem affy deve de levar ca-
deas pera aprifoar os malfeitores, e Carcereiros , que
os hajam d'aprifoar, e guardar, e algozes para fazer
juftiça quando meíl-er fezer.
8 ITEM. O Ouvidor do Marichal poderá tornar
conhicimento de todolos feitos affy civis, como cri-
mes, que perante elle forem, e nos feitos civis dará
appellaçom aaquelles, que da fua fentença appella-
rem, fe a fua condapnaçom paffar a conthia, ou va-
lia de tres mil reaes brancos; e d'hi pera fundo nom
receberá appellaçom algúa, fe a fua fentença for dada
per acordo do Marichal, mas logo mandará por ella
fazer eixecuçom , fem lhe receber outra appellaçom ,
nem aggravo.
9 ITEM. Nos feitos crimes, que o dito Ouvidor
defembarguar, ainda que feja per acordo do Mari-
chal,
318 LIVRO PttIMEIRO TITULO CJNCOENTA E TRRS

chal , em que haja pena de fangue, ou açoutes, nom


fará eixecuçom per tal fentença, falvo recebendo pri-
meiramente appellaçom aa parte aggravada pera o
Conde-eíl:abre, ou feu Ouvidor.
10 E NOM appellando a parte aggravada da fua
fentença, appelle o dito Ouvidor pola parte da júíl:i-
ça; e fe na dita fentença nom houver pena de fangue,
ou açoutes, e for dada per_acordo do Marichal, logo
a poderá mandar eixecutar, fem mais lhe receber ap-
pellaçom ou aggravo.
11 ITEM . ~e todas as eixecuçooés da jufiiça,
devem feer encomendadas ao Marichal , e a feus of-
ficiaaes, e por tanto fe acoíl:umou fempre, que os pre
gooés da juíliça fejam dados em nome do Conde-ef.
tabre, e Marichal juntamente : porem nom tolhemos
per aqui ao Conde-eíl:abre, que em alguús cafos de
rrigança , onde a tardança trageria prigo, que poífa
fazer eixecuçom per feus officiaaes, quando lhe bem
parecer.

T 1-
Do ALMIRANTE'., E oo QYE PERTEENCE ETC. 3 19

T I T U L O LII II.

Do Almirante, e do que perteence a feu ojficio.

M ARAVILHOSAS coufas fom os feitos do mar, e


ailinadamente aquelles, que fazem os homeés
em maneira d'andar fobre el per meefiria e arte, aífy
como nas naaos , e gallees, e em todolos outros na-
vios mais pequenos. E porem antiguamente os Em-
peradores, e os Reyx, que haviam guerra per o mar,
quando armavam naaos pera guerrearem feos inmi-
gos, poinham Cabdelles fobre ellas, a que chamam
em efte tempo Almirante , o qual he aífy chamado,
porque elle he, e deve feer Cabedel, ou guiador de to-
dos aquelles, que vaaõ em guallees, ou navios por fa_
zerem guerra fobre mar , e ham tam grande poder
em na frota, como fe ElRey hi de prefente foífe.
1 E TODOS aquelks • que fob feu poderio forem ,
devem-fe trabalhar de quatro coufas : a primeira , que
fejam fabedores de conhecer o mar, e os ventos: e a
fegunda, que tenham navios tantos, e taaes, e affy
guifados, e encaminhados d' homeés, e armas, e ou-
tras coufas, que houverem me.!ler, fegundo convem
ao feito, que querem fazer: a terceira he, que fe nom
dem a tardança, nem a priguiça aas coufas, que de-
vem i ca bem affy como o mar nom he vaguarofo em
feos
320 L1vRo PRrMEIRO TITULO CrncoENTA E QJJATRo

feos feitos, mas faze-os aginha, e depreffa, bem affy


os que em elle querem andar devem feer aguçofos, e
apreíl:ados nas coufas, que houverem de fazer por
tal, que em quanto boo tempo houverem, nom o per-
cam, mais ajudem-fe delle em feu proveito: a quar-
ta he , que fejam muito bem mandados aaquelles, que
teverem carrego de os mandar ; ca fe os da terra em
fua hoíl:e affy o devem a fazer, que bem podem vir
per íeos pees, ou em fuas beíl:as a qual parte lhes a_
prouver, e quando quiferem, quanto mais o devem
affy fazer os do mar, cujo hir ou eílar nom he em feu
poder, ou querer , como aquelles , que teem por ca-
valguaduras os navios, que fom de madeira. e os ven-
tos por freos , os quaees nom podem mandar, nem
teer cada vez que quiíerem, poíl:o que fejam em pri-
goo de morte. E por todas eílas razooés deve de feer
o aguiamento do Almirante , e feu avifamento em tal
maneira, que cada huú daqueles, que com elle forem,
faiba o que ha de fazer ao tempo do meíl:er, e nom
efpere, que lho hajam de dizer, ou requerer per mui-
tas vezes.
2 ITEM. O Almirante deve feer em eíl:es Regnos
do linhagem dccendente de Mice Manuel, que em
elles foi primeiro Almirante, fegundo a forma da doa-
çom a elle feita per ElRey Dom Donis; e nom feen-
do achado hi tal do feu linhagem, que fegundo direi-
to, e forma da dita doaçom deva feer Almirante, en-
tom deve clle feer per nos efcolheito tal, que haja em
fy eftas coufas, que fe feguem. 3
Do ALMIRANTE, E no Q!!E PERTEENCE ETC. 321

3 PRIMEIRAMEN TE, que feja de bom linhagem


pera haver vergonça de fazer o que nom deve: des y,
que feja fabedor dos feitos do mar, e da terra em tal
guifa, que faiba o que houver de fazer em cada húa
parte: e ainda lhe convem, que feja de grande esfor-
ço, ca eíla coufa lhe he muito neceffaria pera comet-
ter os feitos de grande pefo, e fazer dampno a feus in-
migos, e apoderar-fe da gente, que trouver; porque
ainda que os que forem com elle fejam boos, fempre
haverám meíler correiçom : outro fy deve fer muito
graado, e liberal, porque faiba bem partir o que hou-
ver com aquelles, que o houverem d'ajudar, e fervir:
e fobre todalas outras coufas lhe convem princ;ipal-
mente feer leal de guifa, que faiba guardar noffo fer-
viço, e fy meefmo de nom fazer coufa, que lhe mal
e.íl:e.
4 E Q!!ANDO elle per Nós for efcolheito pera feer
Almirante, deve de teer vigillia na Igreja , bem co-
mo fe houveffe de feer cavalleiro; e em outro dia de-
ve de vir a Nós veíl:ido de ricos panos, e em prefença·
de boõs, e principaes da noffa Corte, lhe devemos
poer huu anel na maão direita por final de honra, que
lhe fazemos, e outro-fy hiía efpada nua em a dita
maão por o poder, que lhe damos; e em a maão feef-
tra hum efiendarte das noffas armas em fignal de feu
caudilhament o. E eíl:ando elle affy em noíl'a prefen-
ça, deve-nos prometter com juramento, que nom te-
merá morte por em parar a fé, e creença, e noffa hon-
Liv. L Ss ra,
322 LIVRO PRIMEIRoT1nr10 CrncoENTA E QYATRO

ra, e ferviço, e bem affy por prol cumunal da noífa


terra, e que guardará, e fará bem fiel, leal, e verda-
deiramente todas as coufas, que houver de fazer por
feer Almirante. E todo eíl:o acabado d'hi em diante
ha poder de feer Almirante, e fazer todas as coufas,
que a feu officio perteencer.
5 E o sw officio defte he mui grande, ca el ha de
feer Caudilho de todos os navios, que fom pera guer-
rear, tambem quando fom muitos ajuntados em huú,
a que chamam Frota, como quando faõ mais poucos,
a que dizem Armada: e elle há poderio na Frota, des
que mover ataa que torne ao lugar, donde moveo; e
ha de ouvir as alçadas dos Jui zes , que os Alquaides
houveffem dados, e fazer juíl:iça daquelles, que a
merecerem , fegundo adiante ferá declarado.
6 ÜuTRO sv a feu officio perteence de fazer re-
cadar todalas coufas, que gaanharem per mar, ou
per terra, e fazello efcrepver, eíl:ando diante todolos
Alquaides, ou a maior parte delles, porque lhas nom
poífa.nenhuú furtar, nem encobrir, e nos poffa dar
conta, e recado dellas de maneira, que hajamos nof~
fo direito, e cada huum dos outros o feu.
7 E A feu officio perteence ainda quando a frota
tornar, que faça dar por efcripto ao noffo Almuxari-
fe rodalas armas da fahida das naaos, que houveífem
levadas, a fora fe aconteceífe , que hou veffe perdida
algúa coufa dellas em lidando com os inmigos, ou
per tormenta no mar; e deve mandar a cada huú dos
Al-
Do ALMIRANTE, E DO QYE PERTEENCE ETC, 323

Alquaides das gallees que tenham cuidado dellas ,


des que forem na Ribeira do porto, e as façam guar-
dar de maneira, que fe nom percam nem dapnem
per fua culpa.
8 ÜuTRO SY elle ha poder , que em todolos por-
tos façam por el , e obedeeçam a feu mandado em as
coufas , que perteençam a feito do mar , aífy como
fariam por o noffo corpo.
9 ÜUTRO SY devem obedecer a íeu mandado os
Alquaides, e todos os outros , que forem com el na
frota, ou na armada , e caudelarem-fe per elle aífy
como fariam por Nós, fe prefente foffemos. Onde,
pois que o officio do Almirante he tam poderozo, e
tam honrrado, ha mefter que haja elle em fy todas
aquellas bondades, que ao homé poílo em femelhan-
te eíl:ado, e dignidade convem d'aver em tal manei-
ra, que Nós hajamos razom de fiar delle , e fazer-
lhe grande honra, e merece; e quando eílo nom fe-
zeffe, deve feer efcarmentado per Nós, fegundo a
culpa, em que for. E ainda perteence mais ao offi-
cio do Almirantado em eíl:es Regnos todo o que fe
adiante fegue, per bem da conveença feita antre El-
Rey Dom Donis da gloriofa memoria, e Mice Ma-
nuel Peçanha, que foi primeiro Almirante em efl:es
Regnos.
10 EsTE Almirante deve feer, como dito he,
da linha direita lidima de Mice Manuel Peçanha ,
que foi primeiro Almirante em eíl.es Regnos , com
Ss 2 tan-
3 24 L1vRo PRrM.nRo Tnu10 CrncoENTA E QYATRO

tanto que feja leigo, e tal que nos polfa fervir, fegun-
do mais compridamente he contheudo na doaçom 1
e conveença feita antre o dito Rey Dom Don is, e o
dito Mice Manuel; o qual deve jurar quando lhe for
outorguado o Almirantado per Nós, que nos ferva
bem , e lealmente per mar , ou nas noíTas guallees,
quando comprir a nolfo ferviço, que nom fejam me-
nos de tres guallees; e que frrva contra todolos homeés
do mundo de qualquer eílado, e condiçom que fe-
jam, aífy Chriílaaõs como Mouros ; e que aguarde, e
chegue fempre noífo ferviço, e prol, e honra noífa, e
do noífo Senhorio per todolos lugares, que elle po-
der, e fouber; e que defvie todo noífo dampno, e
deíferviço em todo tempo a todo feu leal , e verda-
deiro poder; e que nos dê boa confelho cada vez que
lho demandar-mos , e guarde noífos fegredos, que
lhe diífermos, ou mandarmos dizer; e que nos feja
fempre em todalas coufas leal, e verdadeiro vaífallo,
e bem aífy a todolos no!fos foceífores , que defpos
nós vierem.
Ir ITEM. Se Nós, ou noífos foceífores, quedes-
pas nós vierem, formos em hoíl:e per terra, ague! ,
que for Almirante em eftes Regnos, nos hade fervir
em ella, atTy como homé de feu efiado, [e lhe Nós
mandarmos , e doutra guifa nom deve de fervir a
Nós per terra; e fe pela ventura o que for Almirante
adoecer, ou houver alguú outro embargo lidimo tal,
que nos nom poífa fervir per feu corpo, em cal cafo
elle
Do ALMIRANTE E oo QyE PERTEENCE ETC. 3~5
elle deve feer efcufado do dito frrviço, nem perderá
por ello nada do que lhe havemos dado.
I2 ITEM. Deve teer fempre vinte homeés de Ge-
noa fabedores do mar taaes, que fejam convinhavees
pera Alquaides de guallees, e pera arraezes, que fai-
bam bem fervir per mar em as noffas guallees, e
fejam preíl:es pera nos fervir quando meiler for; e
quando nom houvermos meíl:er ho ferviço dos ditos
homeês, que elle dito Almirante fe poffa fervir del-
les em fuas merchandias, e en viallos a Frandes, ou
a Genoa , ou a algúas outras partes com elias; e fc
per ventura aconteceffe, que mandando o dito Al-
mirante a alguma parte, em tanto compriffe ho noifo
ferviço delles, que logo o dito Almirante envie por
elles hu quer que fejam, que venham pera nos fervi-
rem.
13 ITEM. Q!.ando forem em noffo ferviço, lhe
havemos de dar de foldada ao Alquaide dou libras
e meia polo mez, e por governo pam, e biícoito, e
auga, como derem aos outros; e ao que for arraes de
guallee oito libras por mez de foldada, e effo meesmo
pam, e bifcoito, e augua, como dito he.
14 E sE acontecer, que alguús fugirem, ou fe
amoorarem , que o dito Almirante feja theudo de
mandará fua cuíla por outros homeés fabedores do
mar , que nos fervam em guifa, que fempre fejam
comprimento dos vinte homeés, como dito he; e haja
efpaço o dito Almirante pera enviar por aquelles ª
que
326 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E QgATR.O

que minguarem , e pera os trazer aos nolTos Regnos


de Purtugual oito mezes: pero fe alguú dos ditos ho-
meés adoecer, ou envelhecer em noffo ferviço, que
nom poffa fervir, que o dito Almirante nom feja
theudo de mandar por outros em lugar delles, em
quanto efles homeés forem vivos, e nom poderem fer-
vir; e o dito Almirante pera fempre deve de manteer
os ditos vinte homeés de Genoa pera noffo ferviço.
15 ITEM. Ha d'haver o Almirante de todalas
coufas , que gaanhar, e filhar per mar nas guallees
dos inmigos da fe, ou dos inmigos dos noffos Regnos,
a quinta parte: e efio fe nom entenda nos cafcos das
guallees , nem doutros navios , nem d'armas , nem
aparelhos dellas, nem de Mouro de mercee, porque
e!las fobreditas coufas fom livremente noffas: pero
quando o Mouro de mercee Nós quifermos tomar>
devemollo tomar polo cuíl:o, que he ufado no noffo
fenhorio, que fom cem libras de Portuguezes ; e do
preço, que Nós dermos polo ditÓ Mouro, haverá o
Almirante a quinta parte.
16 ITEM. O Almirante tem jurdiçom, e poder
fobre todolos homeés, que com elle forem nas nof-
:fàs guallees tambem em frota, como em armada
em todolos lugares, per hu andar per mar; e nos
portos da terra, onde fairem fora , lhe ham de feer
obedientes , e bem mandados , como a feu Almiran-
te , e affi corno fariam polo noffo corpo meefmo , fe
hi prefente foffemos ; e os que lhe nom forem bem
man-
Do ALMIRANTE, E oo QYE PERTEENCE ETC. 327

mandados , íl:ranhe-lho nos corpos com direito , e


juíl:iça, fegundo o merecerem, aili como Nós , fe hi
prefente foffemos.
17 ITEM. ~e todolos que em effas guallees fo_
rem, fejam bem obedientes, e mandados aos Alquai-
des, que pelo Almirante forem poíl:os em todalas
coufas, como a feus Alquaides, aíly como fempre
foi ufa, e cuíl:ume ; e eíl:o fe entenda do dia, que as
guallees forem armadas, ou navios ataa poíl:umeiro
dia, que forem deformadas. E os noffos Efcripvaaés,
que forem nas ditas guallees, jurem a Nós, que bem,
e direitamente efcrepvam em feus livros as coufas,
que no mar gaanharem , pera Nós compridamente
havermos noffo direito, e cada huú o feu.
18 ITEM. Se per falicimento de cada huú dos Al-
mirantes, que forem em eíles Regnos, e o dito Al-
mirantado herdarem, acontecer nom ficar delle filho
barom lidimo, e leigo, que decenda do dito Mice
Manuel per linha direita lidimamente nado, entom
o dito Almirantado com todalas coufas , e direitos a
elle anexados, deve feer tornado li vremenre aa Coroa
dos noffos Regnos fem outra nenhúa contenda.
J9 ITEM. Ao feu officio perteence de teer cadea,
e Ouvidores , e Alquaides , e Meirinhos ., Porteiros,
e Efcripvaaés, e feus officiaaes em todolos lugares
dos noífos Rcgnos, onde houver homeés de Vintenas
do mar, que os Ouvidores, e Alquaides do dito Al-
mirante ouçam, e livrem todos os _feitos dos fobrcdi-
tos,
328 LIVRO PRIMEIRO TITULO Crnco.ENTA E Q!TATRO

tos , e que as alçadas venham ao dito Almirante 1 e


do dito Almirante a Nós: e fe os Ouvidores, ou Al-
quaides do dito Almirante, ou feus officiaaes houve..
rem alguús feitos, que nom tome delles nenhuú co-
nhicimento , mais fejam remetidos ao Almirante ,
que os defembargue com direito &c. fegundo em a
carta da mercee do dito Rey Dom Donis, e conveen-
ça feita antre elle, e Mice Manuel , he contheudo.
20 E ESTE capitulo mandamos , que fe guarde
em aquella maneira, que fe guardou em vida d'El-
Rey Dom Joham meu A voo, cuja Alma DEOS ha-
ja, e que por feer aqui efcripto, nom acrecente mais
no direito do Almirante.

TITULO LV.

Do Capitam Moor do mar.

p ERA Nos feermos em verdadeiro conhecimento


do poderio , que antiguamente foi dado per os
Reyx noffos anteceffores aos Capitaaés Maiores do
mar em eíl:es Regnos, mandamos perante Nós vir a
carta do officio da Capitania, que per ElRey Dom
Joham meu Avoo foi dada a Alvaro Vaasques d'Al-
rnadaa, Rico-homem , e do noffo Confelho, que ago-
ra he em os ditos Regnos noffo Capitam Moor , e
bem affy a carta da confirrnaçom de ElRey meu Se-
nhor,
Do CAPITAM MooR no MAR.

nhor, e Padre , cujas Almas DEOS haja, das quaees


o theor fe adiante fegue.
1 DoM Eduarte per graça de DEOS Rey de Pur-
tugual, e do Algarve , e Senhor de Cepta. A quan-
tos eíl:a carta virem fazemos faber, que Alvaro Vaaf-
ques d' Almadaa noffo Capitam Moor, e do noffo
Confelho nos moíl:rou húa carta do muito virtuofo ,
e de grandes virtudes EIRey Dom Joham meu Se-
nhor, e Padre da mui gloriofa memoria , cuja Alma
DEOS haja , da qual o theor tal he.
2 DoM Joham pela graça de DEOS Rey de Pur-
tugual, e do Algarve , Senhor de Cepta. A quantos
efta carta virem fazemos faber, que Nós querendo fa_
zer graça, e mercee a AI varo Vaafques d 'Almadaa
Cavalleiro noífo Vaffallo por ferviço, que dei recebe-
mos, e entendemos de receber ao diante , teemos
por bem, e damollo por noífo Capitam Moor da nof-
fa Frota pela guifa , que o era Gonçalo Tenreiro em
tempo d 'E!Rey Dom Fernando noífo lrmaaõ, a que
Deos perdoe, e per a guifa, que o foi Affonfo Furta-
do em noffo tempo.
3 E POREM mandamos aos patrooés, alquaides , e
arraezes , e petintaes, e comitres, beeíl:eiros, gualli-
otes, mareantes , e marinheiros , e a todolos outros ,
a que eíl:a carta for mofüada, que o hajam por noífo
Capitam Moor, como dito he, e lhe obedeeçam, e
façam todalas coufas, que lhes elle mandar fazer por
noffo ferviço, aífy como fariaõ a Nós,fe Nós per peí-
Liv. J. Tt íoa
330 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E CINCO

foa prefente efiiveífemos. Outro fy lhe damos com-


prido poder, que prenda, e poflà. prender todos a-
quelles, que lhe mal mandados forem, e nom quife-
rem fazer o que lhes mandar por noífo ferviço, fe_
gundo a feu officio perteence, e que pofra em e!les
fazer juíl-iça, ou em cada huu delles, aífy como Nós
faríamos , fe outro fy prefente efüveífemos.
4 E MANDAMOS a todalas noífas juíl:iças, que
compram fuas cartas, e mandados, e lhe ajudem a.
fazer, e comprir direito, e juíl:iça em todalas coufas,
que lhe aífy diífer , e mãdar da noífa parte, quanto
perteence a feu oflicio ; fenom fejam certos quaeef-
quer, que o contrairo deíl:o fezerem, que Nós lho ef-
tranharemos gravemente nos corpos,. e haveres, co-
mo aquelle.,, que nom comprem mandado de feu
Rey, e Senhor•.E em teíl:emunho_ deíl:o lhe mandamos
dar eíl:a noífa carta. Dante em Sintra vinte e tres dias
de Julho. ElRey o mandou. Martim Vaafques a fez.
Era do Nacimento de noífo Senhor J Esus CttRISTO
de mil quatrocentos vinte e tres annos.
5 E PEDTo-Nos por mercee o dito Alvaro Vaaf-
ques, que lhe confirmaffemos a dita carta. E viíl:o
per Nos feu requerimento, e razom de feus boos me-
recimentos, querendo-lhe fazer graça e mercee, con-
firmamos-lhe a dita carta com todalas claufullas, e
condiçooês aífy , e pela guifa , que em ella fom con-
theudas. E porem mandamos a todalas ~uíl:iças , e a
outros quaeefquer, a que eíl:o perteencer , que lha
com-
Do CAPITAM MooR no MAR. 33r

compram , e guardem, e façam comprir, e guardar ,


fegundo em ella faz meençom ; e lhe nom vades ,
nem confentades hir contra ella , ante lha comprie,
e guardaae , como dito he : unde al nom façades.
Dante em Almeirim a cinquo dias de Julho. ElRey
o mandou. Rui Galvam a fez. Era do Nacimento de
noffo Senhor JEsus CHRrsTo de mil e quatrocentos
trinta e quatro annos. E fe vos nom moflrar eíla car-
ta aífeellada, vós nom lha guardees, nem compraaes.
6 A Q.YAL carta d'ElRey meu Senhor, e Padre,
e bem aíly de ElRey meu Avoo mandamos que lhe
fejam compridas, e guardadas , como em ellas he
contheudo, e per Nos ferá declarado ao diante.
7 E PORQ!l E poderia feer duvida fe o poder dado
ao dito Alvaro Vaafques na dita carta, e bem aífy aos
outros Capitaaés, que pelos tempos ao diante forem,
deve feer entend~do affy no tempo que o dito Capi-
tam eíl-ever daffecego na terra , como no tempo que
andar em Frota, ou Armada fobre o mar ; por tO•
lher a dita duvida declaramos, e dizemos que o di-
to poder deve feer entendido no tempo , que el por
noffo ferviço andar em Frota , ou Armada fobre o
mar, porque achamos, que os Capitaaés, que ataa ora
forom em eftes Regnos , eílãdo na terra daffeceguo,
ufavam do dito poderio em algumas partes , quãdo
compria mandar fazer algumas coufas por noífo fer-
viço aos ditos marinheiros ; o que nos parece , que
devia feer declarado , e limitado no dito tempo daf-
fecego. Tt 2 8
332 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E CINCO

8 PoREM mandamos , que eílando elle aíiy na


terra daffeceguo, fe for meíler que alguús navios,
caravellas, barcas, ou batees, ou geeralmente quaeef-
quer navios , aíly grandes , como pequenos , hajam
de ir a alguma parte por noffo ferviço , elle os poífa
coníl:ranger pera ello, e bem aífy quaeefquer mare-
antes, de qualquer eíl:ado, e condiçom que fejã, pera
irem, virem, eílarem em os ditos navios, caravellas,
barcas , batees , e fazer o que lhes por noffo ferviço
mandar; e fe alguús forem revees, ou negrigentes a
fazerem feu mandado , como dito he, mandamos,
que elle os poífa mandar prender, e apenar, fegundo
a culpa, e defobediencia, que cada huú delles co ..
metter.
9 PERO fe elle apenar alguú em pena de corpo
pola dita razom, nom faça eixecuçom per fua fenten-
ça, ou mandado , fem dando appellaçom, e aggravo
pera Nós; pero fe o el apenar em pena de dinheiro,
em tal cafo poderá eixecutar feus mandados , e fen-
tenças fem outra appellaçom ataa conthia de dez co-
roas d'ouro ,_ e d'hi pera cima dará appellaçom e ag-
gravo aa parte, que dclle quifer appellar, ou aggra-
var : e em outra guifa nom fará eixecuçom por fuas
fentenças, e mandados.

T 1-
Do ALFERES MooR o'E1REY. 333

TITULO LVI.

o
Do Alferes Moor d'E/Rey.

S GREGos, e Romaaõs foram homeês, que ufa-


rom muito de guerrear , e em quanto o feze-
rom com fifo, e entendimento , venceram , e aca-
baram o que quiferom ; e elles foram os primeiros,
que feze'.om em como foífem conhicidos os grandes
fenhores nas Cortes dos Principes , e nas batalhas, e
nos outros feitos de grande façanha.
I E c0Ns1 RAND0 elles como em femelhantes fei-
tos as gentes, e povoas fe cabdellaífem bem , por
guardarem principalmente o ferviço dos feus fenho-
res , teendo o muito por honra affinada , chamaram
os que traziam as finas principaaes dos Emperadores,
e dos Reyx Signifer, que quer tanto dizer como Of-
ficial, que leva a primeira figna do principal fenhor
da hofie.
2 ITEM. Chamaram ainda Prepofito, que quer
tanto dizer como Adiantado fobre as outras campa-
nhas da hofie, e eílo porque em aquel tempo elle
julgava os grandes feitos , que aconteciam em ella.
Eíles nomes ufarom em Efpanha, ata a que fe per-
deo a terra , e a guaanharom os Mouros , e defpois
que a percalçarom os Chriílaaõs , chamarem a efie
officio Alferes , e alfy ha hoje nome. 3
334 LTVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E StnS

3 ITEM. Antiguamente havia elle de mandar


jufliçar na hoíl:e os homeés per noífo mandado, quan-
do fezeffem porque, o que aguora perteence fazer ao
Conde-eíl:abre, e Marichal, fegundo havemos falia-
do nos titulas que a feus officios perteencem.
4 ITEM. Ao Alferes no{fo perteence levar a noífa
principal figna , quando formos em hofie, e nom a
deve d'eíl:ender, falvo per noífo mandado efpecial,
quando formos em viíla de noffos inmigos efperando
de peleijar com elles. E tanto que a figna for tendida,
todalas outras dos fenhores, e capitaaés fe devem logo
tender, e todalas gentes da hoíl:e devem d'aguardar a
noíla figna per onde quer que ella for, e amparalla, e
defendella , que nom receba alguú prigoo ; porque
abatimento da figna principal da hoíle fignifica, e de-
moílra , que a batalha por fua parte he vencida, e
desbaratada, e todalas gentes della logo perdem co-
raçooés , e vontades de mais pelejarem.
5 E POR tanto aquel, que Alferes houver ae feer,
convem em todas as guifas que feja homé de nobre
linhagem, porque haja vergonça de fazer coufas, que
lhe mal fiem, e as gentes da hoíl:e hajam razom de
o teerem em grande conta ; e deve feer leal , porque
ame a noffa prol , e a do Regno ; e ainda ha meíler,
que feja de boo fifo, e muito esforçado por tal, que
por feu boo fifo, e grande esforço poffa, e faiba fof-
frer , e governar a dita figna a ferviço noífo, e a prol
da hoíle.
6
Do Moo Roo Mo MooR Nosso. 33 5

6 E o Alferes tal for, Nós o devemos


Ql.l ANDO

muito d'amar, e teer em dle grande fiança de leal-


dade , e fazer-lhe muito bem, e mercee, e ainda
honrallo antre todolos outros de fernelhante eíl:ado.
e condiçom , porque as gentes da hoíl:e ho tenhaõ
por ello em grande efüma, e reputaçom.

TITULO LVII.

Do Moordomo Moor nef!o.

M ÜORDOMO Moor noffo quer tanto dizer como


maior horné da Caía d'ElRey, pera hordenar,
quanto he em feu mantimento: e em algúas terras
lhe chamaõ Senefcal, que quer tanto di'ler como Of-
ficial , fem o qual fe nom deve fazer defpefa em Cafa
d'EIRey: e ainda o chamarom os Sabedores antigos
affy como Senex, que quer tanto dizer em latim co-
mo velho, por razom que tem officio honrado: e Cal-
culus, que fignifica pedra, com que os antigos faziaõ
fuas contas , e porende tanto fe moíl:ra por eíle no-
me como Official honrado fobre as contas ; ca ao
Moordomo Moor perteence de tomar coma de todos
os Officiaaes da noffa Corte , e todos geeralmente
lhe devem feer obedientes, e fazer-lhe feu mandado,
e feendo-lhe alguú defobediente , deve-o efcarmen-
tar
336 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E SETE

tar fegundo fua culpa , e merecimento : pero feendo


peífoa d 'eíl:ado, deve-o fallar com nofco, e com nof-
fo acordo, e autoridade efcarrnentallo, fegundo o ca-
fo for.
1 ITEM. Todolos Officiaaes da noífa Corte, e
moradores devem feer paguados de fuas moradias
per feus Alvaraaes; e quando elle for auzente da nof-
fa Corte , devem paífar os al varaaes pelo Veedor de
noffa Cafa , e cozinha, que em feu logo tever Regi-
mento della.
2 ITEM. Deve teer maneira como quando alguús
Officiaaes de noífa Corte , ou moradores forem au-
zences della, nom lhe mandar pagar feu mantimen-
to, ou moradias, falvo per noffo efpecial mandado,
ainda que parta da noífa Corte per noífa ficença ,
falvo fe Nós mandarmos a algúa parte per noífo fer-
v1ço.
3 E PORQ!JE feu officio he grande, e tange a mui-
tas coufas , ha meíl:er que feja de boa linhagem, e
aguçofo, e fabedor, e leal ; ca fe for de boa linha-
gem, guardar-fe-ha de fazer coufa, que lhe ílê mal,
per que receba perda el, nem os que dei vierem : ou-
tro fy aguçofo deve feer, porque el ha de faber to-
das as defpefas, que em noífa Cafa houverem de feer
feitas, e teer acerca dellas tal maneira, que fe façam
como devem , e nom fe mafcabem : e fabedor con-
vem que feja , pera faber tomar as contas bem, e
certamente, e pera dar outro fy recado ddlas de ma-
neira ,
Do MooRDOMO MooR Nosso. 337
neira, que faiba guardar noífo ferviço, e a boa an..
dança de fi meefmo : e fobre todo convem que feja
leal em maneira, que ame noffa prol,e faiba guanhar
os homeés por amigos, e defveallos de feu dam pno; e
eíl:o pode fazer milhor que outro Official alguu, por--
que todo o haver paíl'a per fua maaõ, que he coufa,
que move muito os coraçooés dos homeés; e feendo
el a todo eíl:o leal , conhecerá o bem , que lhe fezer-
mos, e fabello-ha guardar, e fervir. E quando o nof-
fo Moordomo tal for, N ós o devemos d'amar gran-
demente, e fiar delle muito, e fazer-lhe muito bem,
e mercee por tal, que elle tenha razom pera nos fem-
pre lealmente fervir em o dito officio; e quando
doutra guifa fezer , deve haver tal pena como aquel,
que erra a feu fenhor fiando-fe em el, teendo tam
honrado officio, como de fofo dito he; e a pena def-
te deve feer fegundo o erro, que fezer contra Nós.

T I T U L O LVIII.

Do Camareiro Moor.

e AMAREIRo Moor noffo fignifica maioria fobre


todolos outros Camareiros , que fom hordena-
dos pera fervir na noffa Camara, pero que todos de-
vem feer a feu mandamento; e aquel que a feu man-
Liv. I. Uu dado
338 LIVRO PRIME[RO TITULO CINCOENTA t · OITO

dado nom fezeífe na Camara o que lhe bem nom ef-


teveffe , deveria per elle feer caíl.igado per palavra ,
ou per outro cafügo de maaõ , fegundo o erro , em
que cahiífe, com tanto que nom foffe pena de fan.
gue; porque tal pena perteence fomente a Nós.
1 E AO Camareiro Moor perteence veílir , e cal..
çar, e descalçar continuadamente, e fervir-nos com
toda boa dilligencia em todalas coufas , que a fervi-
ço da Camara perteencer, e efpecialmente naquellas,
que conveem aa deitada , e levantada do leito; e por
tanto a feu officio perteence dormir fempre na Cama-
ra, onde nós dormirmos , ou junto com a porta da
Camara , onde nós dormirmos da parte de fora , fe-
gundo o cafo requerer em tal maneira, que cada ve'L
que o Nós demandarmos, o achemos preftes a no[o
ferviço.
2 1TEM. O Camareiro Moor noífo deve teer gee,.
ralmente em todo o cafo toda hordenança da no[a
Camara, e guarda efpecial do noílo corpo continuada.
mente despois que Nós ao feraaõ dermos boas noites,
e mandar, que todos leixem a Camara ataa outro dia,
que nos acabemos de veflir; e durando o dito tem-
po, nom entrará alguú na Camara, ainda que feja
de grande eíl:ado, fem noífo efpecial mandado, ou do
noílo Camareiro Moor, ou claque! , que feu logo te-
ver, e paífado o dito tempo, deve feer a governança
da Camara do noífo Camareiro Moor.
J !TEM. O nolfo Camareiro Moor deve affinar
húa
Do CAMAREIRO MooR. 339
húa pefloa , que feja homem de bem , que com au-
thoridade noffa tenha carrego da noífa guarda roupa;
e eíl:e guardará bem , e fielmente todas as nofias vef-
tid uras, e joyas, e quaeesquer outras coufas, que aa
guarda-roupa forem levadas , e nom fará dellas algúa
coufa fem efpicial mandado noffo , ou do noffo Ca..
mareiro Moor ; e efl:e , que tever carrego da guarda-
roupa, como dito he, deve fempre teer lugar do Ca-
mareiro Moor em todo tempo que elle for aufente da
Camara.
4 E PORQYE continuadamente vaaõ em cada huú
dia aa noffa guarda-roupa, e faahem della per nofío
mãdado muitas coufas, que fom de grãde valia, man-
damos, que de feis em feis mezes feja feito enventai-
rode todalas coufas, que na guarda-roupa eíl:everem,
per maaõ de huum Efcripvam, que nós pera ello af-
finármos , o qual efcrepverá fielméte todalas coufas,
que em ella forem achadas, bem affy as que falece-
rem do enventairo ante feito , declarando em cada
húa razom , porque as ditas coufas falecidas aífy fa-
leceram por tal, que todo venha a boa recadaçom.
5 ITEM. O Camareiro Moor deve feer de boa li-
nhagem , e de boo fifo por tal. que nós hajamos ra-
zom de o amarmos , e prezarmos muito ; e tal deve
ainda feer, que nos tenha fegredos , que lhe fallar..
mos, ca pois que com elle havemos de converfar aos
tempos folitarios, convinhavel coufa parece feer que
algumas vezes lhe descobriremos , e fallarc:rnos noífos
Uu 2 fegre-
340 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E OITO

fegredos , em que penfarmos ao tempo, que foo fie-


vermos , os quaees lhe fallaremos , e descobriremos
mais oufadamente quando elle for de boo linhagem,
e de boo fifo.
6 E QYANDO nós acharmos, que elle affy he fiel,
e leal a Nós , e a noffo ferviço, devemollo d'amar
muito, e avantejallo antre os outros de femelhante
fiado , e condiçom com graças, e mercees , por tal
que as mercecs, que lhe aífy fezermos , lhe façam
crecer a vontade de bem fervir em melhor , e ainda
os outros hajam mais razom de o por ello honrar, e
teer em maior reputaçom , e feja ainda mais temido
daquelles, que houverem de fazer feu mandado por
noífo ferviço.

T I T U L O LVII II.

Dos Coefelheiros de E!Rey.

EM CoRDOV A houve huú grande Phylofopho


chamado Seneca, o qual fallou de todalas cou-
fas mui bem, e com razom, e moíl:rou como os ho-
meés ham de fcer percebidos nas coufas, que ham de
fazer, acordando-fe , e avifando-fe fobre ellas antes
que as façam , e diífe affy: que huú dos fifos , que o
homem deve de haver,. he. confelhar-fe fobre todolos
fei-
Dos CoNSELHEIRos DE ELREY. 341

feitos , que quifer fazer, e obrar ante que os comece;


e eíl:e confelho deve tomar com homeês , que fejaõ
fcus amigos, e que fejam de boo fifo , e de boo en-
tendimento , ca fe taaes nom foffem, poder-lhia ende
vir prigoo , ca os que os defamam nom os podem
bem confelhar, e lealmente.
I E POREM diffe ElRey Salamom, que no mun-
do nom ha maior defaventura, que haver homem feu
inmigo por confelheiro, ou privado, ca fe o Confe-
lheiro foffe muito feu amigo, fe nom houveffe em fi
boo fifo, ou boo entendimento, nom poderia bem
confelhar, nem reer puridade das coufas, que lhe dif-
feffem ; e porem rodo homem fe deve de trabalhar
de haver taaes Confelheiros, fe os haver poder: muito
mais os devemos Nós d'haver, porque do confelho,
que a elle dam, fe he boo, vem ende prol, e grande
encaminhamento aa fua terra, e fe he maao, ven-lhe
grande eíl:orvo, e a feu Regno grande dampno.
2 E POREM diffe Ariftoteles a Aleixandre como
em maneira de ca!ligo, que fe confelhaffe com ho-
mem , que amaffe fua boa andança , e que foffe en-
tendido de boo fifo natural ; e poz femelhança em
efl:o aos olhos quando oolham por trcs razoens: A
primeira , porque os olhos veem de longe as coufas,
e fe as ante nom catam, nem esguardam bem , nom
as conhecem : A fegunda, que choram com os peía-
res, e rim com os prazeres : A terceira ., que fe çar-
rom quando a}gua coufa f-e quer chegar a elles, pera
tanger o que eíl:á dentro. 3
342 LIVRO PRIMEIRO TITULO CINCOENTA E NOVE

3 A TAAES devem feer os Confelheiros d'ElRey,


que de mui longe faibam catar, e examinar as cou ..
fas , e conhecellas ante que dem confelho : e outro fy
devem feer multo noffos amigos de guifa , que lhes
praza muito com noffa boa andança, e profperidade,
e que fejam ende alegres, e fe doam outro fy de Nós,
e de noffo dampno, e averfidade, e hajaõ ende pe-
far: e quando alguns fe quiferem acoíl:ar a elles por
faberem as puridades noffas, que as faibaõ mui bem
ençarrar, e guardar, que as naõ descubram, nem re-
velem, ca o que descobre a puridade d'outré, he cou-
fa , que nom deve alguú fazer , e merece pena por
duas razooês , a húa por fi meefmo , porque fe de-
rnoílra por de maao fifo , e por falso ; a outra pelo
dampno, que fe ende pode feguir.
4 E MUITO mais cabe eíl:o nos no(fos Confelhei-
ros, que nos ham de confelhar em nos grandes feitos,
e coufas ', de que poderia vir grande dampno aa nof-
fa terra; e fe nos mal confelhaífem , ou descobrirem
noffas puridades , em tal cafo mereceriam pena de
morte ; onde em todas guifas ha meíl:er , que haja-
mos boos Confelheiros, que fejaó de boo fifo , e bem
noffos amigos , e que nos tenham grãde puridade , e
lealdade.
5 ITEM. Differom os Sabedores antigos , que os
Confelheiros do Rey ham de haver muitas virtudes ,
e boas coíl:umes : e primeiramente lhes convem que
tenham membros autos, e perfeitos, que convenham
aas
Dos CoNSELHEIROS DE E1REY. 343

aas obras, e feitos, a que prefentes forem, aos quaees


fom escolheitos , e pera ello eftremados.
6 ITEM. Lhesconvem haverem boa capacidade,e
ligeiro entendimento pera entender todo o que feno
confelho differ: e que fejam de boa memoria, e bem
lembrados daquello, que aífy filharem, e ouvirem : e
fejam bem callados quando eíl:evercm na prefença do
Rey: e que faibam com boo avifamento todo reteer,
que lhes nom efqueeça nada do que aíly ouvirem.
7 ITEM. ~e confirem , e entendaõ o mal , e a
graveza , que do confelho fe pode feguir : e ham de
feer cortezes, e bem fallantes , e doces de fuas pala-
vras per tal maneira , que a lingua conresponda ao
coraçom, e ao penfamento, e eífo meefmo que fua
falla feja graciofa, e clara fem outro alguu empedi-
mento.
8 ITEM. ~e fejam fotis, e penetrativos em toda
moralidade, e fciencia affy Civel, como Canonica, e
em Aresmetica , que he arte verdadeira demoíl:rati-
va, pola qual fe conhecem muitas coufas : e ham de
feer verdadeiros em fuas palavras, e amar a verdade,
e arredar-feda falfidade.
9 lTrM. Ham de feer bem acuílumados , e de
boa compreixom , a faber, manfos, e de boa conver-
façom , e effo meefmo , que poífam os homeés com
elles bem trautar fem outra afpereza affy de palavra,
como de obra: e que fejam fem magoa de muito co-
mer, e de muito beber , e fem repreenfom de forni-
210,
344 LIVRO PRIME.IRO TITULO CINCOENTA E NOVE

zio, e arredados dos jogos , e deleitaçooés, que nom


trazem proveito, nem honra.
10 ITEM. Ham de feer de grande coraçom em
feu propofito , e amadores da honra do Rey : e que o
ouro , e prata , e todalas outras coufas femelhantes
deíl:e mundo fejaõ desprezavees acerca delles : e que
os feus propofitos , e entençooés nom fejam fenom
em aquellas coufas, que conveem aa fua dignidade,
e regimento, pera que fom enleitos, e deputados.
1r ITEM. ~e amem os de que nom tem conhi-
cirnento como os fcus chegados: e que amem os juf-
tos , e ajufliça entejando ho adio, e culpa, dando a
cada huu o que feu he , focorrendo aos primeiros , e
aos que padecem injuria fem merecimento, tirando
toda a injuíl:iça, e coufas nom bem feitas, nom fa-
zendo deferença entre humas peífoas, e outras, nem
efguardar ferem huús de maior graao, e honra que
outros, os quaees Deos creou iguaaes.
12 ITEM. Ham de feer fortes, e perfeverantes em

feu propoíito boo , e em aquellas coufas , que lhes


parecerem boas, e honeílas pera fazer: e fejam ou-
fados fem temor, e fem fraqueza de coraçom, pe ..
ra no noífo confelho dizerem todas aquellas coufas ,
que fentirem por íerviço de Deos, e noífa honra, e
bem, e proveito do Regno: e ham de faber todalas
rendas, e defpefas , e nom fe lhes efconda o provei-
to, que perteence a feu regin:iento, e da Repruvica.
13 hEM. Nom ham de feer verbofos, nem de
muita
Dos CoNSELHEIRos DE ELREY. 345
muita palavra. n:~ muito rideiros , ca a temperan-
ça he virtude• e muito aplaz em todas as coufas: e
trautarem beninamente todo o que de fazer houve-
rem com reguardo do ferviço do Rey com honeíl:o
affeffego, e temperamento , que pareça a todos os
que os virem, que teem cuidado, e fentimento de
bem obrarem , affy acerca dos feitos do Rey • como
da Repruvica.
14 E PORQVE ao Confelheiro de ElRey perteen-
ce principalmente haver boo fifo, neceffariamente
lhe convem que haja idade comprida, porque quan-
to homem falece da idade, tanto lhe falece o com-
primento do fifo ; e por tanto eíl:abelecerom os Di-
reitos, que durante o dito tempo, nom fe regeffe al-
guú per fy, mais foffe regido per outrem, nem podef-
fe haver dignidade de Preladia, a menos d'haver ida-
de comprida de trinta annos. E porque feer Confe-
lheiro d'ElRey he reputado por grãde dignidade ,
que trefpaffa, e defcende a toda fua geeraçom , bem
parece feer coufa razoada, que pera ello nom feja
alguem efcolheito a menos de haver a dita idade, ca
em outra gui fa per mingua de boo fifo, ligeiramen-
te poderia dar tal confelho a ElRey , de que fe lhe
feguiria grande defferviço, e d-ampno ao Regno: pe-
ro feendo alguú muito conjunto a ElRey em fangue,
ainda que nom fofie da dita idade , honeíl:amente o
poderia fazer do feu confelho , por lhe fazer honra
mais. que por fcer confelhado per el.
Liv. L Xx T 1-
346 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA.

TITULO LX.

Do Meirinho Moor.

M ErnINHO Moor he antigo nome , que quer


dizer tanto, como homem , que ha maioría
pera fazer juíl:iça. E eíl:e he em duas maneiras: hú fe
chama quando o ElRey pooem de fua maão em al-
gúa terra, ou Villa , ou Lugar com poder de fazer
juftiça, fegundo a forma do poderio, que lhe per o
dito Senhor Rey he declarado ; e tal como eíle cha.
rnaõ em Caflella Adiantado, e algumas vezes fe acof.
tumarom de fazer em eíl:es Regnos alguús em feme-
lhante maneira por feu s grandes ferviços, e mereci-
mentos: outro he quando EIRey faz Meirinho Moor
em todo feu Regno , e tal , como eíl:e , ha de feer
homem poderofo, que poffa fazer razoada mente as
coufas notavees, e de grande pefo, quando lhe pelo
dito Senhor forem encomendadas.
I E perteence a feu officio pren-
ESP ECIALMENT E
der algús fidalgos, e homeés de grande dlado, ou a-
levantar forças , e defaguiíados feitos per homeés de
feme]hante maneira , quando lhe pelo dito Senhor•
ou feu Confelho efpecialrnente he mandado, ou for
requerido per alguú official de jufüça nos cafos, on-
de el per fy nom for poderofo pera o fazer : e ainda
a [eu
Do MEIRINHO MooR. 347
a feu officio perteence mandar prender quaeefquer
peífoas, que aos outros Meirinhos , e Alquaides pe-
quenos convem de fazer, fegundo em as Hordcna-
çooés do Regno he contheudo.
2 ITEM. O que for Meirinho Moor per ufança an-
tigua deve de poer de fua maaõ huú Meirinho, que
ande continuadamente na Corte pera levantar as for-
ças, e fem razooés, que em ella forem feitas, e pren-
der os malfeitores, e fazer as outras coufas, que fom
conthrudas em o Regimento feito das coufas, que a
feu officio perteencem. E eíl:e tal deve de feer Efcu-
deiro de boo linhagem, e conhecido por boo, e pof-
to por authoridade noífa, que hajamos delle conhici-
mento , pera o aprovar por perteencente pera fervir
no dito officio ; o qual haverá em quanto o fervir to-
dalas proees, e direitos acuíl:umados de levar antiga-
mente o Meirinho da Corte, fegundo he contheudo
no titulo do feu officio.

Xx 2 TI-
348 LrvRoPRIMEIR0Tnu10SissENTA E HUM

TITULO LXI.

Do Apoujentador Moor.

P OusENTADOR he chamado aquelle, que dá as po~-


fadas ás noílas campanhas , o qual deve partir
do lugar, donde eíl:evermos ante por efpaço d'huú
dia , ou mais , fegundo a diflancia do lugar , pera.
onde houvermos d 'ir, for, pera os homeés faberem,
e ferem certos daquelle luguar, onde havemos de ef...
tar. E antre as bondades , que ha d 'haver, aífy he
que feja bem entendido, e de boa fifo, e difcripçom,
porque faiba conhecer os que ha de apoufentar, e
dar-lhe as poufadas a cada huú , fegundo for, e o
lugar , que á cerca de Nós rever.
I E ESTE Poufentador deve dar as poufadas com
o Procurador do Concelho nos lugares notavees , em
que per Nós he ordenado, que com el haja d'apou-
fentar , pera lhe declarar, e ailignar as poufadas dos
privilegiados, e honrados do luguar, de que razoa-
damente deve d'haver conhicimento: e deve a dar as
poufadas per tal guiía, que nom recebam dampno,
nem grande aggravo aquelles, cujas forem: e a elle
perteence de partir as contendas , que forem fobre a
poufadia, e terminar as ditas contendas , como lhe
bem parecer.
2
Do APousENTADOR MooR. 349

2 ITEM. Nom darom as poufadas dos Vaífallos,


nem das viuvas, que forom molheres dos Vaífallos ,
que íl:am em fuas honras , nem outro fy daquelles ,
que moíl:rarem privilegias noífos; e fe o lugar he
tam pequeno, que guardando-fe os ditos privilegias,
Nós com a noífa campanha nom po:ft'lmos feer bem
apoufentado, em tal cazo façanollo faber o dito Apou-
f.entador, pera fobre ello proveermos como for noífa
mercee : e eífo medês faça , poíl:o que o luguar feja
grande, [e a gente for tanta por cafo alguu que acor-
ra, que convenha de poufar com alguus privilegia-
dos.
3 !TEM. Nom daram poufadas d'adeguas de vi-
nhos , nem d'azeites , nem de celleiros de pam , e
nem de lojas de pannos, nem doutras mercadorias ,
nem Efpritaaes, nem albarguarias, que fejam mo-
radas , e povoradas : nem tiraram o Senhor da cafa
da fua camara, em que dormir, falvo feendo-lhe da-
do por hoípede alguu Prelado, ou Cavalleiro de gran-
de eíl:ado, ou qualquer outro de femelhante condi-
çom , e nom houver em effas cafas outra camara ,
em que razoadamente poffa feer apoufentado, ca por
taaes peífoas , como as fobreditas, honeftarnente po-
derá o Senhor da caía leixar íua camara, e alojar-fe
em cada hua das outras cafas, onde lhe mais aprou-
ver: e todo eíl:o deve fempre ficar em al vidro do Pou-
fentador, que fegundo as caías forem, e a condiçom
do Senhor dellas , e bem aífy do que lhe for dado
por
350 LIVRO PRIMEIROTITULOSESSENTA E DOIS

por hofpede, confirando todo com boo efguardo, dê


aquella determinaçom, que mais fem agravamento
das partes bem podér.
4. !TEM. O noffo morador nom roubará, nem
tornará algúa coufa ao hofpede, com que poufar, con-
tra fua voontade , e fazendo ho contraira, o Corre-
gedor da noffa Corte deve proveer triguofamente fo-
bre ello em tal guifa, que lhe norn feja feito defagui-
fado : e fe for contenda antre o nofTo morador , e o
hofpede fobre a poufada, ou coufas, que a ello per-
teencem, deíl:o perteencerá ho conhicimento ao Pou-
fentador, pera o determinar, como melhor entender
a noffo ferviço.
5 ITEM. Defpois que a poufada for dada per el-
le, nom a deve tirar a aquelle, a que a deo, pola dai
a outrem por rogo, nem peita , nem por outro offe-
ricimento, ou por outra algúa razom, falvo haven-
do pera ello noffo efpecial mandado.

T I T U L O LXII.

Dos Alquaides Moores dos Cajlellos.

T EER Caíl:ello de Senhor fegundo foro antigo


d'E[panha, he coufa em que jaz mui grande pri-
goo, ca pois ha de cahir em pena de treiçom o que
o tevefTe, fe o perdeífe per fua culpa, muito devem
to-
Dos ALQYAIDES MooRES Dos CASTELLOS. 351

todos os que o teverem feer percebidos de os guardar


de maneira, que nom caiaõ em ella. E pera eíl:a guar-
da feer feita compridamente, devem feer efguarda-
das cinquo coufas : a primeira, que fejam os Alquai-
des taaes , como convem pera guardarem os Caílel-
los : a fegunda, que os Alquaides rneefmos façam o
que devem : a terceira, que tenham hi comprimen-
to de homeês: a quarta, de mantimento: e a quinta,
d'armas.
1 E POREM todo Alquaide, que tever Caíl:ello de
Senhor, deve feer de boa linhagem de padre, e ma-
dre, ca fe o for fempre haverá vergonça de fazer
coufa, que lhe fte mal , nem per que feja doeílado,
nem os que delle defcenderem. Outro fy deve feer
leal, porque ElRey, nem o Reigno, nom fejam de-
ferdados do Caftello, que ellc te.ver.
2 ITEM. Ainda ha meíl:er que feja esforçado, por-
que nom duvide de foportar os prigoos, que ao Caf-
tello vierem; e fabedor convem que feja, porque fai -
ba fazer, e aguifar as coufas, que conveem aa guar-
da , e defendimento delle. Outro fy nom deve feer
muito escaffo, porque hajam fabor os homeês de fi-
carem com elle de melhor mente ; ca affy feria mal
feer muito guaílador das coufas , que foffem rneíler
pera a guarda do Caíl:ello, outro fy deve feer difere-
to pera faber partir o que tevcr com os home~s, quan-
do lhe meíl.er foffe .
3 ITEM. Nom deve feer muito pobre, porque
nom
352 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E DOUS

nom haja cobiça de enriquecer daquello, que lhe de..


rem pera teença do Caíl:ello. E muito aguçofo deve
feer em guardar bem o Caíl:ello, que tever , e nom
fe partir delle no tempo do prigoo ; e fe aqueeceffe
que lho cercafTem, e o embarguaífem , deve-o d'em-
parar ataa morte ; e por veer atormentar , ou ferir,
ou matar os filhos , ou molher , ou outros homeés
quaeefquer, que amaífe, nem por feer elle prefo, ou
atormentado , ou ferido de morte , ou ameaçado de
matar , nem por outra razom , que feer podeífe de
mal, ou de bem, que lhe fezeffem , ou prometteífem
de fazer , nom deve dar o Caíl:ello , nem mandar
que o dem, ca fe o fezeffe cahiria em cafo de trei-
çom, como aquelle que traae Caíl:ello de feu Senhor.
4 ITEM. Efcufar nom pode o Alquaide, que nom
vaa alguãs vezes do Caíl:ello , que tem, a outra par-
te por coufas, que lhe aqueeceffem ; pero eíl:o nom
deve fazer em tempo , que entendeífe, que o Caíl:el-
lo fe poderia perder per fua hida. Mas quando deíl:a
guifa, que dito he, houveífe d'hir a alguú lugar, de-
ve fegundo foro d'Efpanha , leixar hi outro em feu
lugar por Alquaide, que feja fidalgo direitamente de
padre, e madre, e que nom haja feita treiçom, nem
aleive, nem venha d'homeés, que a houveífem feita,
e que feja homem , com que haja divido de paren-
teíco, e de amor grande de guifa, que haja razom de
fiar del o Caíl:ello , affy como de fy meefmo. E tal ,
como eíl:e, deve de lcixar em feu lugar, e dar-lhe as
cha-
Dos ALQYAIDES Moous Dos CAsTEttos. 353

chaves do Caftello, e fazer que lhe façam menagem


quantos hi forem, affy corno a elle meefmo haviam
feita pera guardar o Caíl:ello bem , e lealmente em
todalas coufas ataa que elle venha.
5 ITEM. Eíl:ando o Alquaide no Caíl:ello, fe a-
queeceífe, que morreífe fem falia, de guifa que nom
podeífe leixar outro de fua rnaaõ , deve de ficar o
mais propinco parente , que tever, em o Caíl:ello, fe
for de idade , e tal homem , que feja pera eíl:o ; e fe
tal homem hi nom acharem, devem fazer os que hi
eíl:everem no Caíl:ello Alquaide o melhor homem ,
que no Caíl:ello for, pera o teer ; e devem logo d'ef-
crepver a ElRey fobre ello , que proveja d' Alquaide
como for fua mercee: pero toda via devem catar mui
leal, e amigo do Senhor do Caíl:ello. E tal Alquaide,
como eíl:e, he theudo de fazer, e guardar, e comprir
todalas coufas em guarda do Caílello, affy como di-
tas fom de fufo , e fe erraífe em alguã dellas , cahiria
no cafo fobredito.
6 E ESTE Alquaide ha de fazer duas couías nos
Cafiellos; a huma defendellos com ardimento, e com
esforço, e a outra com fabedoria, e cordura. E a que
ha de feer com ardimento , e com esforço , he que
devem defender o Caíl:ello mui ardidamente ferindo,
e matando os inmigos, e o mais de rijo que poder de
maneira , que os nom leixe chegar a elle, ca em eíl:o
nom deve poupar padre , nem filho, nem Senhor,
que ante houveífe, nem outro homem alguú do mun-
Liv. L Yy do,
3 54 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E DOUS

do, que doutra parte foífe, que o Caíl:ello lhe quifef-


fern fazer perder, porque muito feria coufa fem ra-
zom , e contra direito de guardar homem aquelles ,
que o quifeffem fazer treedor.
7 ÜuTRO sY devem haver grande esforço em fof-
frer todo medo , e todo trabalho , que lhes venha
tambern em velar, como em foffrendo fede, e fome,
e frio, e todo outro trabalho, que hi prender; ca pois
que o Caílello norn ham de dar, fenom a feu Senhor,
meíler ha que tomem esforço em fy , per que o pof-
fam fazer , e nom cayam per fua culpa em erro de
treiçom. E porem morte, nem perigoo, que he paífa-
do, nom no devem tanto temer , corno a rnaa fama,
que he coufa, que ficará pera fcmpre a clles, e a feu
linhagem, fenom fezeífem o que deveífem em guar-
da do dito Caílello.
8 E ACHAMOS per Hordenaçooés antiguas, que
aos Alquaides Maiores perteence haver eíles direitos~
e coufas, que fe adiante fegucm. Primeiramente di-
zemos, que ao Alquaide Moor perteence haver toda-
las carcerageês dos prefos , e todalas armas, que fo_
rem julguadas aa dita Alquaidaria, e as penas dellas,
que fom cinquo mil libras deíl:a moeda; da pena das
quaees cinquo mil libras a meetade he pera o Alquai-
de Moor, e a outra meetade pera quem as acufar.
9 ITEM. Ha d'aver o Alquaide Moor pera fito-
dalas penas dos barregueiros cafados , e das fuas bar-
regaãs) as quaaes penas fom por cada quarenta mil
li-
Dos ALQ!JAIDEs MooRES nos CASTEL10s. 35 ç
libras , que tever, pague mil libras, e a dita fua bar-
rtgaã pague a meetade de quanto a el montar de pa-
gar: e haja a barregaã aquella pena no corpo, que a
noffa Hordenaçom manda.
10 ITEM. O Alquaide Moor ha d'aver as duas

partes das penas , que ham de pagar as barregaãs dos


Clcrigos, e Frades, e Religiofos, que fom cinquo
mil libras defta moeda, que ora corre, por a primei-
ra vez ; e outro tanto pola fegunda ; e a terça parte
ha d'aver qualquer do povoo, que as accufar: e ellas
hajam nos corpos aquellas penas , que a Hordena-
çom manda.
II ITEM. O Alquaide ha d'aver pera fy a terça
parte da pena , que ham de pagar quaeefquer, que
forem escõmungados. os quaees ham de feer prefos,
e ham de pagar da cadea; e he de pena por cada no-
ve dias feffenta foldos da moeda antigua, e affy polo
tempo que em a dita escõmunhom encorrerem, atee
que fejam foltos : e defies dinheiros , que eíl:es escõ-
mungados affy pagarem, a terça parte feja pera a fa-
brica da Igreja, e a terça parte pera o Efpital dos me-
ninos , e a outra terça parte pera o Alquaide Moor,
fegundo he conthcudo na Hordenaçom.
12 ITEM. Mais ha d'aver o Alquaide todalas for-
ças , que julguadas forem, e ha d'aver por cada hu-
ma força fefienta foldos da moeda antigua • fegundo
manda a noíla Hordenaçom : e mais ha d'aver todo
ouro t ou prata, que for achado no joguo dos tafuues,
Yy 2 e
356 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E DOUS

e mais as cooimas das tavernas, que forem achadas


abertas defpois do fino de colher ataa manhaã clara.
13 ITEM. Ha d'aver todalas cooymas, que ha de
pagar todo Judeu , ou Mouro, que for achado fora da
Judaria , ou Mouraria despois do fino d'Ooraçom ,
que fe tange , acabadas as tres badaladas , a qual pe-
na he dez libras da moeda antigua por cada vez que
for achado : e haverá mais o dito Alquaide todalas
cooimas, que os homeés da Alquaidaria poferem aas
molheres, que fom ufeiras de braadar , e he de pena
por cada vez, que a aífy poferem, tres libras da moe-
da antigua.
14 ITEM. Ha d'aver. mais o Alquaide Moor as
cooimas, que fom poíl:as aas barcas , e batees, que
fom achados tomando augua, ou laího em tempo da
guarda da Vilia de noite de-fpois do fino de correr, que
he o derradeiro fino, que fe tange despois do fino da
Ooraçom , que fom por cada vez, que affy forem
achados, tres libras da moeda antigua :e mais que per-
ca toda a louça, que trouver, por tomar a dita augua:
e ha d'aver mais todalas armas, que forem achadas
levando-as alguú Mouro em alguú navio , que vaa
pera aalem mar , a fora huma, que levará pera defen-
fom de f eu corpo; e fc obrigue aa tom ar a dita ar-
ma, e de a ello fiadores ; e nom tornando a dita ar-
ma, que aífy levar, que pague por ella tres armas ,
ou tres vezes aquello, que valer.
1 5 !TEM. O Alquaide ha da ver todo o pefcado 1
que
Dos ALQYAID!is MooRES Dos CASTEL 10s. 35 7
que fe matar aos Domingos, e feíl:a.s de JEzus CHRIS-
To, e de Santa MARIA, e dos Apoíl:olos, e nas noi-
tes dos ditos dias ; a faber, as noites antre as vefpe-
ras, e os dias dos fobreditos Santos.
16 ITEM. ~e todo Mouro forro, que fe livrar
pera hir fora da terra, e pagar a dizima na Alfande-
gua, que pague a redizima aa dita Alquaidaria, e ha-
ja-a o dito Alquaide Moor.
17 ITEM. Ha da ver de todo Judeu, ou Mouro•
que beber na taverna de Chriíl:aaõs , vinte cinco li-
bras da moeda antigua.
18 ITEM. Ha d'aver de todolos navios , que fo_
rem carreguados pera aalem do mar, por cada húa
tonelada doos foldos da moeda antigua; e mais qual-
quer navio, que for achado aas oras da guarda da Ci-
dade, filhãdo carrega , ou descarregua , ou metendo
homeés , ou rnolheres , ou pefcado , ou outra qual-
quer coufa, por cada vez, que aífy for achado , que
pague tres libras da moeda antigua.
19 hEM. O Alquaide Moor poderá poer huú
bom efcudeiro , que continuadamente ande com o
Alquaide pequeno aíly de noite, corno de dia, quan-
do houverem d'andar; e que o efcudeiro requeira ao
dito Alquaide pequeno , que feja bem deligente em
requerer todolos direitos, que perteencem aa dita Al-
quaidaria , e que fe alguús direitos fe perderem per
fua rningoa, ou negrigencia , que elle feja theudo, e
obóguado ao pagar per feus beés ao dito Alquaide
Moor;
3 ss LrvRo PR1ME1Ro T1TtJto SEssENTA E oous

Moor: e que o dito Alquaide Moor poffa por doos


Efcripvaaés per fuas cartas, huú na Alquaidaria da
Villa, e outro na Alquaidaria dos montes, que andem
continuadamente com os ditos Alquaides da Villa, e
montes : e mais que o dito Alquaide Moor , que for
na Cidade de Lixboa, poífa poer huú homem dos
da dica Alquaidaria, que com outros tres, ou quatro
homeés da dica Alquaidaria poffa guardar a parte da
Alfama: e mais que fe o dito Alquaide Moor achar,
que os homeés da dita Alquaidaria, ou cada huú del-
les nom fom taaes quaees compre pera fervir a dica
Alquaidaria, que elle os pofla tirar, e poer hi outros,
que fejam perteencentes pera ello , feendo os ditos
homeés prefentados pelos Officiaaes da Cidade , ou
Villa , fegundo he de cuíl:ume.
20 ITEM. Nom ferá confentido a nenhuú, que
vogue , nem procure contra a dita Alquaidaria , fe-
nom tever autoridade noífa p~ra procurar em juízo,
e procuraçom da parte, a que perteencer ; e qual-
quer, que o contraira fezer , pague cincoenta libras
da moeda antigua pera a dita Alquaidaria.
21 ITEM. O Alquaide Moor ha de mandar apre..
goar da noíla parte, que todolos meeíl:res dos navios,
que vierem de fo_ra dos noffos Regnos ao lugar, onde
for Alquaide , como chegarem requeiram o Alquaide
pequeno, e o Eícripvam do officio, que vejam toda-
las armas defenfavees, que trouverem, e elles mof-
trem-lhas pera as haverem logo d'efcrepver; e bem
affy
Dos ALQYAIDES MooRES nos CASTELLOs. 359
affy as efctepvam outra vez ao tempo da fua partida
pera fe veer fe levam mais das que trouveram, o que
lhes nom deve feer confentido.
22 ÜuTRO sv quaeefquer, que houverem de par-
tir pera fora do Regno novaméte , ante que partam.
dante o porto do dito lugar, moíl:rem as armas, que
affy levarem , pera quando tornarem vecrem fe as tra-
gem ; e aqueftes , que efto nom fezerem, percam as
armas , que lhes forem achadas , e fejam pera o Al-
quaide Moor.
23 ITEM. O Alquaide Moor levará a meetade das
armas, que forem tomadas , ou coutadas pela Hor-
denaçom pelos Meirinhos da noífa Corte , e das Co-
marcas, e per os feus homeés, quando Nos nom for-
mos no lugar , onde as aífy filharem , e bem aífy das
penas , que fe houverem de pagar com as ditas ar-
mas; e a outra rneetade das ditas armas, e penas, fe_
rá dos ditos Meirinhos , e feus horneés , que aífy as
filharem : e fe os Meirinhos da noífa Corte , ou deHa
Comarca, onde Nos formos , filharem alguãs armas.
ou coutarem, como devem, em noífa Corte , as ar-
mas, e as pena"' devem feer deífes Meirinhos, ou ho-
meés, que as filharem.
24 E MANDAMOS , que todo efto , que he con-
theudo em eíle titulo dos Alquaides Maiores, fe cum-
pra, e guarde daqui en diante , aífy como em eíl:es
capirulos fufo dito~ he declarado; falvo fe per alguãs
cartas, ou privilegias dos Reix, que ante nos foram>
Oll
360 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E TRES

ou noífos , ie moíl:rar o contrairo feer outorgado, ou


per antigua ufança feer acuíl:umado; porque manda-
mos que fe guardem as ditas cartas , ou privilegios,
ou ufança antiguamente em contrairo acuíl:umada.

T I T U L O LXIII.

Dos Cavalleiros, como, e per quem devem feer f eitos,


e desfeitos.

D EFENSORES fom huús dos tres. eílados, que


DEOS quis , per que fe manteveífe o Mundo,
ca bem aífy como os que rogam polo povoo chamam
oradores , e aos que lavram a terra , per que os ho-
rneés ham de viver, e fe manteem, fom ditos man-
teedores , e os que ham de defender fom chamados
defenfores.
1 PóREM os homeés, que tal obra ham de fazer,
teverom por bem os antiguos • que foífem efcolhei-
tos , e efto foi porque o defender íl:a em tres cou-
fas , a faber , esforfo , honra , e poderio. E porque
aquelles, a que mais principalmente pe.rteence a de-
fenfom , fom os Cavalleiros, a que os antigos cha-
maram defenfores por algúas razooés , a faber, por-
que fom honrados , e porque fom affinadamente ef-
tabelicidos, e hordenados , pera defender a terra, e
accref-
Dos CAVALLEIROS, COMO, E PER Q!JFM ETC. 361

accrefcentalla ; porem queremos aqui fallar delles,


e moíl:rar porque fom aífy chamados, e como de-
vem de .feer feitos, e quaees devem feer, e perque
maneira fe devem de manteer, e quaees coufas fom
theudos de guardar , e que he o que devem fazer, e
como devem feer honrados defpois que fom Caval-
leiros, e por quaees razooés podem perder a Caval..
laria, e honra, que teem.
2 CAVALL-ARIA foi chamada antiguamente com-
panhia de nobres homeés, que forom hordenados
pera defender as terras, e por eífo lhe poferom nome
Milícia, que quer dizer, companhia de hom eés du-
ros , e fortes, e efcolheitos pera foffrer grandes me-
dos, e trabalhos, e lazeiras por prol de bem cõmuú;
e por tanto houve eíle nome Milicia , que quer di-
zer conto de mil, ca de mil homeés efcolhiam huú
pera fazer Cavalleiro. Mais em Efpanha chamam-lhe
Cavallaria nom por razom, que andem cavalguados
em cavallos, mais bem aífy corno elles em cavallo
vaaõ mais honradamente, que em outra beíla, aíly
os que fom efcolheitos pera Cavalleiros fom mais
honrados , que todolos outros defenfores ; onde aífy
como o nome de ca vallaria foi tomado do nome da
companhia dos homeés efcolheitos pera defender•
aífy foi tomado o nome de Cavalleiro da cavallaria.
3 MIL he o mais honrado conto, que pode feer,
ca bem aífy corno dez he o mais honrado conto dês
que fe começa em huú, affy antre os cent:anairos hc
Li7,1, I. Zr. o
362 LIVRO PRIMHRO TITULO SESSENTA E TRI!S

o mais honrado mil, porque todolos outros fe ençar-


rom em elle, e dalli em diante nom pode haver ou-
tro conto ailinado per fy , e por eíl:a razom efcolhi-
am antiguamente de mil homeés huu pera fazello
Cavalleiro. E em efcolhendo, catavam homeés , que
houveffem em fy tres coufas: a primeira, que fof_
fem ufados a trabalho pera faber foffrer a fome , e
grande lazeira, que nas guerras, e nas lides lhes avi-
effem : a fegunda , que foffem ufados em armas pera
ferir, porque foubeffem melhor, e mais aginha ma-
tar feus inmigos, e que nom cançaffem ligeiramente:
a terceira , que foffem crueeis pera nom haverem
piedade de roubar os inmigoos, nem de ferir , nem
matar, nem outro [y , que nom defmaiaffem afrnha
por golpes, que elles recebeffem, nem deffem a ou-
tros.
4 E POR eftas razooés antiguamente tinham por
bem de fazerem Cavalleiros dos monteiros, que foro
homeés , que foifrem Iazeira, e carpinteiros, e fer-
reiros, e pedreiros , porque ufam muito de ferir, e
fom fortes de maaõs. Outro fy dos carniceiros, por-
que ufam a matar as coufas vivas, e efparger o fan-
gue dellas ; e ainda tomavam homeés, que foffem
compridos de nembros pera ferem fortes, e Iigei...
ros.
5 E ESTA maneira d'efcolher ufarom os antigos
mui gram tempo ; mais porque efies taaes vieram
defpois muitas vezes a erro, nom havendo vergonça
ef-
Dos CAVALLEIROS, COMO, E PER Q.!YEM ETC. 363
efqueecendo todas efl:as coufas fobreditas, e em lugar
de veencer feus inmigoos, venciam-fe elles, teverom
por bem os Sabedores deíl:as coufas, que cataífem
homeés, que em fy naturalmente houveífem ver-
gonça. E fobre eíl:o diffe huu fabedor antiguoo , que
fallou da Hordem da Cavallaria, que a vergonha ,
que defende ao Cavalleiro fogir da batalha, o faz feer
veencedor, ca muitos teverom que era homem fra-
co , e nom foífredor o que he forte, e ligeiro pera
fugir.
6 E POR eíl:o catarom os antigos, que pera Ca-
valleiros foífem efcolheitos homeés de boa linhagem,
que fe guardaffem de fazer coufa , perque podeífem
cair em vergonça, e que eíl:es foífem efcolheitos de
boos lugares , e algo , que quer tanto dizer, fegundo
linguagem d'Efpanha , como homem de bem, e por
eíl:o os chamarom filhos-dalgo, que quer tanto dizer
como filhos de bem, e em alguús outros lugares lhes
chamaõ gentys, e toma eíl:e nome de gentileza, que
moíl:ra tanto como nobreza , e bondade , porque os
gentys forom homeés nobres , e boos , e viverom
mais honradamente , que as outras g:::ntes.
7 E ESTA gentileza vem em tres maneiras: a húa
per linhagem : a fegunda per faber: a terceira per
bondade, e cuíl:umes, e manhas ; e como quer que
efies, que a ganham per fabedoria, ou bondade, fom
per direito chamados nobres, e gentys, muito mais
ho fam aquelles, que a ham per linhagem antiga-
Zz 2 mente,
364 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E TRES

mente , e fazem boa vida , porque lhes vem de lon-


ge , affy como per herança , e por ende fom mais
theudos de fazer bem, e guardar-fe de erro , e de
maa eftança ; ca nom foomente quando recebem
dampno, e vergonça elles meefmos fom enfamados,
mais ainda aquelles, donde elles veem, e decendem.
8 E POREM os filhos-dalgo devem feer efcolhei-
tos que vt:nham de direita linha de padre, e de ma-
dre, e d'avoo ataa quarto graao, a que chamam vi-
favoo s : e eíl:o teverom por bem os antigos, porque
daquelle tempo endiante nom fe podem acordar as
gentes; pero quanto dhi en diãte mais de longe veem,
tanto acrecentam mais em fua honra, e em fua fi-
dalguia.
9 FEITOS nom podem feer os Cavalkiros per
maaõ d'homem, que nom feja Cavalleiro, caos Sai-
bas antigos, que todalas coufas hordenarom com ra-
zom, nom teverom que era direito, nem coufa agui ..
fada, que podeffe fer dar huú ao outro, o que nom
houveífe ; e bem affy as Hordeés dos Oradores nom
as pode alguú dar fenom o que as ha, e affy nom
pode alguú fazer Cavalleiro, fe o el nom he. Pero
alguús hi houve , que teverom , que E!Rey, ou feu
filho herdeiro, pero que Cavalleiros nom foiTem, que
o poderiam bem fazer per razom do Regno, que hã,
por que elles fom cabeças da Cavallaria, e todo o
poder della fe ençarra em o feu mandamento , e por
eifo o uzarom em algúas terras. Mais fegundo razom
ver-
Dos CAVALLErnos, coMo, E PER QYEM ETC. 365
verdadeira, e direita nenhuú pode feer Cavalleiro da
maaõ do que o nom foffe.
10 E TANTO encareceram os antigos a Hordem
da Cavallaria, que teverom , que os Emperadores ,
nem os R eix nom devem feer confagrados , nem
coroados ataa que Cavalleiros nom fejam; e ainda
differom mais , que nenhuú nom pode fazer Ca val-
leiro a fy meefmo por honra que houveífe, ca digni-
dade, nem honra, nem regra nom pode homem to-
rnar per íi, fem outrem lha dar.
II E PO R EM a Cavallaria ha meíl:er que haja duas
peffoas, a faber, o que a dá, e o que a recebe ; e pe-
ro foffem Emperadores per enliçom, ou Reix per he-
rança , nom fe .poderiam fazer Cavalleiros per fuas
maaõs, como quer que mandar poderiam a alguús
Cavalleiros do feu fenhorio, que os fezeffem. Pero
a ufança geeral de toda a terra guarda, que os Em-
peradores tanto que fom enleitos, e bem affy os Reix
tanto que fom levantados em feu Real Eftado, per-
fy meefmos fazem outros Cavalleiros, fem receben-
do outra ordem de cavallaria , entendendo que a Im-
perial, ou Real dignidade he tam excelente , e hon-
rada, que per bem, e virtude de fua preheminen-
cia enclude em fy naturalmente a honra , e hordem
da Ca vallaria: e affy tanto que he feito Emperador,
ou R ey, logo he feito Cavalle'1ro, e per confeguinte
tem poderio pera fazer Ca valleiro; ca pois pode fa-
z.er Duque, e Conde, e Meeíl:re da Cavallaria, muito
mais
366 LrvRo PRIMErtto TrTu10 SESSENTA E TRES

mais ligeiramente poderá fazer Cavalleiro, que he


mais pequeno graao de dignidade.
12 E ESTO que dito he no Rey dizemos haver lu-
gar no feu filho pri mogenito, e herdeiro em frus Re-
gnos: e eíl:a uíança foi fempre ufada em toda Efpa-
nha efpecialmente em eíl:es Regnos.
13 E DISSEROM que homem , que foíle defme-
moriado, nem o que foffe meor de idade de quator-
ze annos, que nom deve alguú delles eíl:o fazer, por-
que a Cavallaria he tam nobre, e tam honrada, que
deve entender o que a dá, que he o que faz em dal-
la; o que eíl:es nom poderiam fazer, porque feria
mui fem razom de tremeter-fe de feito de cavallaria
aquelles, que nom houverem , nem ham poder de
meter y as maaõs pera obrar della. Bem affy homem
d' Oordem , e Religiom nom deve fazer Cavalleiro
por a razom fufo dita.
14 Prno fe alguú foffe Cavalleiro primeiramen.
te , e despois lhe aqueeceffe , que houveffe de feer
Meeíl:re da Hordem da Cavallaria, que manteveífe
feito d'armas, nom foi a tal como eíl:e defendido de
os fazer. E teverom outro fy por bem, que nenhuú
homem nom fezeffe Cavalleiros aquelles, que per
direito, nem per razom o nom podem , nem devem
feer; fegundo ao diante fe moíl:rará.
I 5 FALICI MENTO pera nom poder fazer leaaes
coufas he em duas maneiras; a huma per feito; a ou-
tra per direito, E a de feito he quando os homens
nom
Dos CAVALLEIROS, COMO, E PER Q!.JEM ETC. 367

nom ham comprimento de feito pera fazellas ; e a


outra, que vem per direito , he quãdo nom ham ra-
zom, porque as devam fazer. E como quer que eílo
avenha em todas coufas, ailinadamente caae muito
em feito de Ca vallaria. Porem bem affy a razom to-
lhe, que Dona nom pode fazer Cavalleiro, nem ho-
mem de Religiom, porque nom ha de meter as maaõs
em nas lides; nem outro fy o que he louco , nem o
fem hida-de , porque nom ham comprimento de fifo
pera entender o que fezerem: outro fy tolhe , que
nom feja Cavalleiro homem mui pobre, fe lhe nom
der primeiramente o que o faz perque poffa bem vi-
ver, ca nom teverom os antigos , que era coufa di-
reita, nem aguifada, que a honra da Cavallaria, que
he eftabelecida pera dar, e fazer bem, foffe poíla em
homem , que houvefie de pedir com ella, nem fazer
vida deshonrada; nem outro fy que houveffe de fur-
tar, nem fazer coufa, perque mereceffe a receber pe-
na, que he pofia contra os vilaaõs malfeitores. Ou-
tro fy nom deve feer Cavalleiro o que for minguado
de fua peffoa, ou de feus nembros , que fe nom po-
deffe em guerra ajudar de fuas maõs.
16 E AINDA dizemos, que nom pode feer Ca-
valleiro homem , que per fua peffoa andaífe fazendo
merchandias. E nom deve outro fy feer Cavalleiro o
que foffe conhicidamente treedor, ou aleivofo, ou da-
do em Juizo por tal; nem o que foffe julgado a pena
de morte por erro , q,ue houveffe feito > fe primeira-
men-
368 LTVllO PRIMEIRO TITULO SESS!NTA t TRES

mente lhe nom foífe perdoado nom taro foomente a


pena, mais ainda a culpa.
q ln:M. Nom deve feer Cavalleiro o que húa
vez houveífe recebida Cavallaria doutro por efcar-
nho. E eíl:o poderia feer em tres maneiras: a primei-
ra , quando o que o fezeífe Cavalleiro nom houveffe
poderio de o fazer : a fegunda, quando o que a rece-
beífe nom foífe pera ella por alguãs razooês, que dif-
femos : a terceira, quando alguií, que houveffe direi-
to de feer Cavalleiro, recebeffe aífabendas a Cavalla-
ria por efcarnho ; ca pero aquelle , que lha deffe ,
houveffe poder de o fazer, nom o poderia feer o que
a affy recebeífe , porque a receberia como nom de-
via.
1 8 E POREM foi eíl:abelecido dantiguamente per
direito, que o que quifeífe efcarnecer tam nobre cou-
fa como a Cavallaria , que ficaffe efcarnido della de
maneira, que nunca a podeffe haver. E poferom, que
nenhuú nom recebeífe Hordem de Cavallaria por
preço d'haver, nem de coufa, que deífe por ella,que
foffe como maneira de compra; cabem affy como a
linhagem fe nom pode comprar, outro fy a honra,
que veem per nobreza , nom a pode a peífoa haver,
fe ella nom for tal , que a mereça por linhagem , ou
por fifo, ou bondade algiía, que haja em fy.
19 LIMPEZA faz bem parecer as coufas aos que
as veem , bem affy como a poíl:ura as faz feer apof-
tadamente cada húa 1 fegundo fua razom. E porem
teve-
Dos CAVALLEIItOS, COMO, E PER Q.!TEM ETC. 369

teverom por bem os antigos , que os Cavalleiros fof-


fem feitos limpamente ; ca bem affy <:orno limpi-
dooem devem haver em fy meefmos, e em fuas voon-
tades, e em feus cuftumes em maneira , que have-
mos dito, bem affy a devem d'haver de fora em fuas
veíl:iduras, e em as armas, que trouverem ; ca pero o
feu mefter he forte I e cruu , affy como de ferir, e
matar, com todo efto as fuas voontades norn podem
efqueecer , que norn fe paguem naturalmente das
coufas fremofas, e apoíladas, maiormente quando as
eUes trouverem, porque d'húa parte lhe darp alegria,
e conforto , e da outra lhes fazem cometter ouíada-
mente feitos d'armas, porque fabem que porem fe-
ram mais conhicidos, e que lhes teram todos mais
mentes ao que fezerem : onde por efta razom nom
lhes embargua a limpidooem, e a poíl:ura , a fortale-
za, nem a crueldade, que devem haver.
20 E POREM mandaarom os antigos , que Efcu-
dei ro, que foffe de nobre linhagem, huú dia ante que
recebeffe Ca vallaria, deve teer vigília; e em effe dia,
que a tever , des o meo dia en diante ham-no os Eí-
cudeiros de banhar , e lavar com fuas maaõs, e dei-
tallo no mais apofto leito que poderem haver ; e alli
o ham de veftir os Cavalleiros dos melhores panos,
que teverem , e calçar. E des que efte alimpamento
houverem feito ao corpo , harn-lhe de fazer outro
tanto a Alma , levando-o aa Igreja , em que ha de
começar a receber trabalho de voontade , pedindo a
Liv. J. Aaa DE-
LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E TRES

DEOS mercee, que lhe perdoe feus peccados, e que


o guie , perque faça o melhor em aquella Hordern ,
que quer receber em maneira , que poffa defender
fua Ley , e fazer as outras coufas , fegundo lhe con-
vem; e que el lhe (eja guardador e defenfor aos pe-
rigoos, e aos embargos, e aas outras coufas, que lhe
feriam contrairas. E deve-lhe fempre vir em mente
que como quer que DEOS he poderofo fobre todalas,
coufas, e pode moílrar feu poder em ellas quando, e
como quiíer, que aílinadamente ho he em feitos d'ar-
mas, ca ~m fua M-aão he a vida, e a morte pera dal-
la , e tolhella, e fazer que o fraco feja forte , e o forte
feja fraco. E em quanto efta Oraçom fezer, ha d'ef-
tar em giolhos ficados , e todo al em pee em mentre
o foffrer poder, ca a vigilia dos Cavalleiros novos
nom foi eíl:abelecida pera jogos , nem pera outras
coufa s , fenom pera rogar a DEOS, e os outros, que
hi forem , que os enderecem como homeés, que en-
tram em carreira de morte.
21 A EsTo ha de feer feito em tal maneira , que
paffada a vigilia , tanto que for dia deve primeira-
mente ouvir Miffa, e rogar a DEOS, que o guie em
feus feitos pera o feu fanto ferviço : e despois ha de
v1r o que o ha de fazer Cavalleiro,e perguntar-lhe fe
quer receber Hordem de Cavallaría ; e fe diífer que
fim , ha-o de perguntar fe a manterá affi como deve
rnanteer; e defpois que lho outorguar , deve-lhe de
calçar, e poer as efporas, ou mandar a alguú Caval-
lciro,
Dos CAVALLEIRos, coMo, E PER QYEM ETC. 37 r

leiro, que lhas calce : e efto ha de fcer fegundo qual


homem for, ou o lugar, que tever. E fazem-no de(l-a
guifa por moftrar, que aífy como ao cavallo pooem
as efporas de deeílro , e de feeHro pera fazello correr
direito , que aífy o deve elle fazer em feus feitos en-
derençadamente em guifa , que nom torça a nenhúa
parte : e des i ha de cinger-lhe a efpada fobre o
brial, que veíl:ir, affy que a cinta nom feja muito fu_
xa, mas que fe chegue ao corpo.
22 PERO antiguamente eíl:abelecerom que os no-

bres homeês os fezeífem Cavalleiros feendo armados


de todas fuas armas, bem aífy como quando houvef-
fem de lidar, mas as cabeças nom teverom por bem
que as teveífem cubertas ; porque os que as .aífy tra-
zem, fazem-no por algúa de duas razoens: a primei-
ra , por cobrir algúa coufa , que em ellas houveffe ,
que lhes pareceffe mal , e por tal coufa bem as po-
dem cobrir: a outra razom, porque cobrem a cabe-
ça , he quando homem faz alguma coufa defaguifa-
da , de que ha vergonça , e eíl:o nom convem em.
nenhuma maneira aos novees, ca pois que elles ham
de receber tam nobre , e tam honrada coufa , como
a Caval!aria , nom he direito que entrem em ella
com maa vergonça , nem com medo.
23 E DES que lhe a efpada houver cingida, deve-
lha de facar da bainha, e meter-lha na maaõ deeíl:ra,
e fazer-lhe jurar efl:as tres couías: a primeira , que
nom recee morte por fua Ley • fe meíl:er for : a fe-
Aaa 2 gun-
372 LIVRO PRIMEIRoTITULoSEsSENTA E TRES

gunda, por o feu fenhor natural : a terceira, por fua


terra. E quando eílo houver jurado, deve-lhe dar hu-
ma pescoçada, porque eíl:as coufas fobreditas lhe ve-
nham em mentes, dizendo que DEOS ho guie a feu
Santo frrviço, e lhe leixe comprir o que alli promet-
teo. E de[pois deíl:o o hade beijar em fignal de fe, e
de paz , e de irmandade , que deve feer guardada an-
tre os Cavalleiros : e eílo meefmo ham de fazer todo-
los outros Cavalleiros, que forem em aquelle luguar,
nom tam foomente em aquella fazom , mais ainda
em todo aquelle anno hu quer que elle venha nova-
mente ; e por eíl:a razom nom fe ham de bufcar mal
os Cavalleiros huús aos outros a menos de deitar em
terra a fê, que a el prometerom , e defaffiando-fe pri-
meirament e.
24 DECING ER a efpada he a primeira coufa, que
devem a fazer despois que o Cavalleiro novel for fei-
to: e porem ha de feer mui catado qual he o que lha
ha de defcinger. Eíl:o nom deve feer feito fenom per
maaõ d'homem, que haja alguma deílas duas coufas;
ou que feja feu natural , que lho faça polo divido,
que ham de fuum; ou que feja homem muito hon-
rado, que o faça per fua bondade. E a eíle, que lhe
decinge a efpada , chamam-lh e padrinho , cabem
aífy como os padrinhos ao bautizado ajudam a con-
firmar feu afilhado, como feja chriíl:am , bem aífy o
que he padrinho do Cavalleiro descingind o-lhe a ef-
pada confirma, e outorgua a Cavallaria , que ha re-
cebida. 25
Dos CAVALLEIRos, coMo, E PER QYEM ETC. 373

2 5 Assrn ADAS coufas fizeram os Saibos antigos>


que guardaífem os Cavalleiros de maneira, que nom
erraffem em ellas , nem em as que ditas havemos >
que devem jurar quando recebem Hordem de Caval-
laria ; aífy como nom fe efcufar de tomar morte por
fa Ley , fe rneíler for , nem feer em confelho per .
nenhuã maneira em rningualla, mas accrefcentalla o
mais que poder: outro fy que nom duvidarom mor-
rer por feu fenhor natural, nem tam foomente deze-
jando feu mal, ou feu dampno, mais accrefcenrando
fua terra, e fua honra quãto mais poderem , e foube-
rem : e effo meefmo farom por prol cúmunal de fá.
terra.
26 E PORQYE el1es foffem theudos de guardar ef-
to, e nom errar hi em nenhúa maneira , faziam-lhe
antiguaméte duas coufas; a uma, que os affinavam
em o braço deeího com ferro queente de fignal , que
nenhuú outro homem nom havia de trazer fenom el-
les; e a outra, que efcripviam feus nomes, e a linha-
gem , donde vinham , e os luguares , donde eram ,
em no Livro , em que eíl:avam todos os nomes dos
outros Cavalleiros: e faziam-no aífy, porque quando
erraffem em eílas coufas fobreditas, foífem conheci-
dos, e nom fe podeffem efcufar de receber a pena,
que mereceffem, fegundo o erro, que houveffem fei-
to : e deílo fe haviam de guardar em tal maneira,
que nom foffem contra el em dito , nem em palavra,
que diífeífem , nem em confelho, que deífem a ou-
trem. 27
LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E TRES
374
27 OuTRO sY acofiumarom muito de guardar
preito, ou menagem, que fezefiem, ou palavra fir-
mada, que pofefiem com outrem de guifa, que nom
mentiífem, nem fofiem contra ella. E guardavam ain-
da al, que Cavalleiro, ou Dona , que viífem em coy-
ta de proveza , ou de torto , que houveífem recebi-
do, de que nom podeífem haver direito ,que pugnaf-
fem a todo feu poder em ajudallos, que fahiífem da-
quella coyta , e por eíl:a razom lidavam muitas vezes
por defender direito defies. E mais haviam de guar-
dar todas aquellas coufas, que direitamente lhes eram
dadas, e encomendadas , aífy como o feu.
28 E AAL EM de todo efio guarda varn , que ca-
vallos , nem armas , que fom coufas , que convem
muito aos Cavalleiros de as trazer fempre comfigo ,
que as nom apenhaífem, nem as mal mettefiem fem
mandado de feus fenhores, por grande coyta que hou-
veífem, ainda que nenhú outro acorro nom podef-
fem haver; e ainda que as nom juguaffem per nenhúa
maneira. E tinham ainda que deviam feer guardados
de fazerem per fy furtos, nem enganos, nem confen-
tir a outrem , que o fezeífe ; e antre todolos outros
furtos, affinadamente que nom furtaffem cavallos
nem armas de fuas campanhas , quando efieveffem
cm oíl:e.
29 PERDER podem os Cavalleiros per fua culpa
honra de Cavallaria, que he a maior viltança, que po-
dem receber. Pero, fegundo os antigos acharam per
di-
Dos CAVALLEIROS, coMo, E PER Q.UEM ETC. 375

direito, eílo poderia acontecer em duas maneiras; a


huma , quando lhes tolheffem Hordem de Cavallaria
tam falamente, e nom lhes dam outra pena em os
corpos ; e a outra, quando fazem taaes erros , perque
merecem morte, ca entom ante lhes ham de tolher a
Hordem da Cavallaria, que os matem.
30 E AS razooés, perque lhes tolher podem a Ca-
vallaria fom ellas :. affy como quando o Cavalleiro ef-
teveffe per mandado de feu fenhor em hoíl:e , ou em
frontaria , e vendeffe, ou mal meteffe o cavallo, ou
as armas , ou as perdefle aos dados , ou as deffe aas
rnaas molheres, ou as apenhaffe nas tavernas, ou fur-
taffe, ou fezeffe furtar a feus companheiros as fuas;
ou fe acinte fezeffe Cavalleiro homem , que o nom
deveffe feer; ou fe elle uzaffe publicamente de mer-
chandia, ou obraffe de alguú vil meíl:er de maaõs pe-
ra gaanhar dinheiros, nom feendo cativo.
31 E AS outras razooés , por que ham de perder
a honra da Cavallaria ante que os matem, fom eílas:
quando o Cavalleiro foge da batalha , ou defempara
feu fenhor, ou Caftello , ou outro alguú lugar , que
teveffe per feu mandado ; ou ho viffe prender, ou
matar , e nom lhe acorreífe; ou nom lhe deffe ho ca-
vallo , fe lhe o feu matafiem ; ou nom o facando da
prifom, podendo-o fazer, por quantas maneiras podef-
fe: ca pero a juftiça ho prendeffe por efias razooés,
ou por outras quaeefquer que foffem aleive , ou trei-
çom, porque o houveffem de mattar , pero ante o de-
vem desfazer de Cavalleiro, que o matem. 32
376 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E TRES

32 E A maneira de como lhe devem tolher a Ca-


vallaria he eíl:a : que devemos mandar a hum efcu-
deiro, que lhe calce as efporas , e lhe cingua ha ef-
pada, e lhe corte com huú cuitello as cintas delta da
parte das efpadoas ; e outro fy que lhe corte a correa
das efporas per detras teendoas elle calçadas; e def-
pois que lhe eílo houverem feito, nom deve feer cha-
mado Cavalleiro ·, e perde a honra da Cavallaria, e
os privilegias; e de mais nom deve feer recebido em
nenhuú officio noffo , nem do Confelho , nem pode
accufar , nem feer recebido feu teflemunho.
33 E PERO que pelo que fofo dito he pareça, que
huú Cavalleiro poderá fazer outro , eílo entendemos
haver lugar no tempo da guerra, a faber, em tempo
de batalha, ou d' efcaramuça, ou cerco dalgúa Vil-
la, ou Caíl:ello, ou qualquer outro auto de guerra.
onde Nós , ou noífo filho primogenito herdeiro nos
noffos Regnos prefentes nom foffemos; ca feendo Nós
ou elle prefente, a Nós, ou a elle tam foomente per-
tenceria de fazer Cavalleiro, ou a quem Nós pera el-
lo deffemos noífa authoridade fpicial: e no tempo de
paz nom poderá outrem fazer Cavalleiro em alguií.
cafo, falvo Nós, ou o dito noífo filho primogenito, ou
quem para ello te ver de Nós efpicial authoridade. E
feendo alguú feito Cavalleiro em outra maneira da co-
mo fufo dito he, nom haverá honra, nem privilegio de
Ca valleiro, porque achamos, que affy foi antiguamen-
rc hordenado, e ufado ataa o prefente.
TI-
Dos RETOS, E EM Q!.JE CASOS DEVEM SEER ETC. 377

T I T U L O LXIIII.

D0s Reios, e em que cefos devem .Jeer outorguados.

R Em he huú acufamento , que fazem os filhos-


dalguo , e Ca valleiros huú ao outro per corte
acufando-o de treiçom, que fez contra ElRey , ou
contra feu Real Eílado. E tomou eíle nome de Re-
to d'huma palavra do latim, que dizem referre, que
quer tanto dizer como recontar a coufa outra vez di-
zendo a maneira corno a fez. E efie reto tem prol a.
aquelles , que o fazem , porque he carreira para fe
alcançar direito da maldade cornettida contra a noífa
peífoa , ou noífo Real Eíl:ado ; e ainda traz prol aos
outros, que o virem, ou delle ouvirem fama, pera fe
guardarem de fazer femelhante erro, perque fejarrt
affrontados de tal affronta.
r E DIZ E Mos, que fe alguú quer retar outro
por creiçom , ou maldade, que haja feita contra
Nós, ou noífo Real Eíl:ado, deve-o fazer em eíl:a ma-
neira; a faber, catando primeiramente, fe aquella
razom, porque o quer retar, he tal , que haja erro de
tal treiçom , porque poífa feer retado: outro fy deve
feer certo fe aquelle, com que quer entrar em reto,
he verdadeiramente culpado em o dito erro , e mal-
dade.
Liv. I. Bbb 2
378 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E Q_UATRO

2 E DESPOIS que elle for certo defias duas coufas ,


deve fallar comnosco fecretamente, e dizemos em
eíl:a guifa. Senhor, . tal Cavalleiro , ou fida lgo fez, ou
trautou tal erro, ou maldade contra vós ; e porque a mim
perteence de o acooimar por Jeer veffo vqjfal!o natural,
peço-vos por mercee, que me outroguees, que o po/fa re-
tar po!a dita razom perante a Vi!.IJa Senhoria. E entom
Nàs o devemos aconfelhar, que efguarde bem aquel-
Ia coufa, que cometer quer, fe he tal , que a poífa
bem levar ao diante; e pero que e! refponda, e con-
firme , que tal he , devemos-lho outra vez a dizer,
que confire bem a dita coufa , pois que affy parece
feer muito pefada, dando-lhe prazo de tres dias pe-
ra em ello penfar, e haver bom confelho; e fe em o
dito tempo fe acordar de em toda guifa levar feu
propofito en diante, entom com noffa authoridade
ho deve d'enprazar que a certo dia convinhavel, per
Nós aífynado pera ello , pareça per peffoa perante
Nós.
3 E EN TOM parecendo o retado, pode-o retar o
retador perante Nós publicamente, efiando hi dian-
te ao menos doze Cavalleiros , ou fidalgos de linha-
gem , dizendo em eíl:a maneira. Senhor ,fulano Ca-
valleiro, oufidalguo, que aqui Jla ante a Vojfa Mercee,
f ez, ou trautou tal maldade, ou treiçom contra a vo.fla Pef-
Joa, ou vq/fo Real Ej}ado, dizendo, e declarando logo
ho erro , ou maldade qual foi, e como a fez , e porem
dir;o contra elle que he trecdor; eJe o negar, ef,(, lho que-
ro
Dos RETOS, E EM Q!JE CA'lOS DEVEM SHR ETC. 379

ro ptovar perante a l7o!fa Merree; e Je lhe mais prou-


ver lidar comigofabre el!o em campo, eu lho/arei conhe-
cer, e dizer em el!e, ou o matarei, ou o lançarei fora
dei/e por vencido : e o retado deve responder ao reta-
dor cada vez que lhe chamar treedor, que mente~
ca pois o docíl:a de pior, e mais feo nome do mundo,
maiormente perante Nós, honeíl:amente, e com agui-
fada razom lhe pode, e deve refponder cada vez que
mente.
4 E ATEE efte tempo poderá o retado efcolher o
juizo da Corte, ou a lide do campo, ca elle nom de-
ve ataa efie tempo fcet coíl.rangido pera lidar. E
pera refponder ao dito retamento deve haver tres
dias, em que haverá d'efcolher cada húa daquellas
coufas , que lhe mais prouver ; e fe mais tempo de-
mandar, podemos-lho dar ataa nove dias, contados
hi os primeiros tres dias; e paífado o dito tempo de
tres dias, ou nove dias, como dito he , deve o reta-
do hir perante Nós, e noífa Corte como dito he, e
feendo outro fy prefente ho retador; e fe lhe prouver
mais de lidar, que eíl:ar a juízo da Corte, deve di-
zer. Senhor,fulano Cavalleiro, que prejente jiaJ me ha
culpado prefente a 17ojfa Mercee de treedor, retando-me
por e/lo, que mo faria conhecer na lide &c.; e porque em
todo o que contra mim dilfe mentia, porem eu lhe digo e
rejpondo , que em todo mentia, e mente falfamente; e
porque em tal coefa nom fom culpado, prazeme de lidar
com eJJe, e defender minha fama , e lealdade; a./fine a
Bbb 2 Vi?ffa
3 80 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E o.y A TRO

Vojfa Mercee o lugar , e o dia, bonde , e quando haja de


/ eer, ea eu prejles Jom pera o campo.
5 E sE per ventura ao retado prouver mais de-
fender-fe per juifo da Corte, poderá dizer , que o
retador mentio falfarnente em todo aquello, que con-
tra elle diífe ; e pero que elle em todo feja fem cul-
pa de tal maldade, porque muitas vezes aconteceo os
jnnocentes , e fem culpa perecerem na lide injufh-
mente, fegundo que a todos he claramente conheci-
do; porem nom quer tentar a DEOS que por el ha-
ja d'obrar em eíl:e feito miracolofarnente, praze-lhe
d'eíl:ar por eíl:a razom em Noífa Corte a direito , e
fazer del comprimento de juíl:iça; offerecendo-fe lo-
go a fazer menagem pera eftar a qualquer juízo, que
a Corte fobre ello der, fem jndo pera outra alguma
parte em feus pees, nem em alheas, fob pena de feer
havudo por treedor; e em eíl:e cafo o devemos man-
dar ou vir per noífa Corte , fegundo forma , e íl:illo
della, e fazer-lhe comprimento de juíl:iça : e porque
he feito , que tange aa peífoa, e fiado noífo , deve
elle eftar peífoalmente ao defembarguo final, porque
per fua prefença nom feja a juíl:iça falecida em algúa
maneua.
6 E NO cafo, onde o retado efcolher a lide do
campo , devemos-lhe per acordo do noífo Confelho
affinar o lugar, onde haja de feer , e o dia pera ello
convinhavel, fegundo as peífoas forem, e o cafo, de
que cada huú honeíl:amente requerer.
Dos RETos, E EM Q.yE CASOS DEVEM SEER ETC. 38r

7 E o QYE nom pareceífe peffoalmente ao dia


per Nós aílinádo, nem mandaífe por fi efcufador, que
allegaífe por elle o embarguo, e neceili<lade, que hou-
ve a nom vi'.r , devemo-lo mandar emprazar outra
vez perante Nós, recontando-lhe na carta do em-
prazamemo toda a coufa como fe paífou ; e nom vin-
do o retado ao prazo, que lhe for ailinado , devemos
dar contra el fentença á fua revelia em eíl:a forma.
8 BEM.fabees, que fulano Cava/feiro foi citado pe-
rante nós por treedor, e foi-lhe per nos ajfinado tenpo a
que houveife de lidar 110 Campo; e ao tempo que lhe per nos
ajfi foi ajfinado, Iam grande foi a .fua maa ventura , que
110m curou de vir, nem mandar para ello efcufador, po-
rem qtie o bem podera fazer, nom avendo dello vergonha
de.fy mce.fmo, nem de fua linhagem, nem da dejhonra da
Jua terra: E nós por maior avondamento mandamo-lo outra
vez emprazar, que a certo tempo vi1fe per ante nos a Je
efcefar da dita maldade, e menos curou dei/o, que da pri-
meira: E nom embarga 11 do que nos de/lo peze grandemen-
te, por havermos de dar contra elle Jentença em Iam gra-
ve cafo , por Jeer natural da nef!a terra , pero polo lugar,
que teemos pela graça de DEOS pera cumprir jufiiça em
todo ceifo por tal, que os homeés Je receem de fazer taô
grande erro , e maldade , como ejla: Porem damo-lo por
treedor, e mandamos que daqui en diante hu quer que
achado for lhe dem morte de treedor, pois que a tal me-
rece pela maldade, e treiçom, que fez.
9 PERo vindo defpois em alguú tempo pe-
ran-
38 2 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E QyATRO

rante Nós, e a1legando por fy algúa efcufa tal, que


pareça razoada , e offerecendo-fe a lidar, devemos-
lhe de conhecer de fua razom, e fazer-lhe direito
com acordo da noífa Corte.
10 E TODO eíto, que dito havemos em eíl:e ca-
pitulo. mandamos, que haja tamanho lugar no re-
tador, que fe aufentar. e nom vier aos ditos termos.
falvo que nom haja nome de treedor, mas além def-
to per feus beés feer fatisfeito ao retado de toda in-
juria, e infamia, que lhe foi poíl:a.
11 E VINDO a cada huú dos ditos termos alguú
efcu!ador, que por parte do recado allegue alguã ra-
zom d'efcuza, porque nom veeo ao prazo, que lhe
per Nós foi aílinado, e moíl:rando feu poder compri-
do pera tal coufa dizer , ou feendo feu parente certo
pera com razom tal efcufa por elle allegar, devemos
rambem eíguardar, e com acordo de noífa Corte ,
fe he tal a dita efcufa, que releve o dito recado. E
achando que he tal , devemos-lo de relevar da vin-
da, que nom veeo , e aílinar-lhe outro termo convi-
nhavel, fegundo a qualidade da efcufa, e diíl:ancia
do lugar , onde for, e mandar ao efcufador , que lho
faça aífy fabente em tal guifa, que de todo feja com-
pridamente enformado. E nom vindo ao dito termo.
nem feendo Nós em certo conhecimento , que o re-
cado he em tal diípofiçom que vfr nom pode, deve-
mos-lo guardar mais trinta dias, e aíli defpois dez
em tal guiza , que fejam por todos quarenta. E nom
vm-
Dos RETOS, E EM QYE CASOS DEVEM SEER ETC. 383
vindo a nenhuú dos ditos termos , nem moílrando
por fua parte efcufaçom certa, e foffici.ente per feu
procurador ,. ou parente , como fufo dito he , entom
o devemos julgar por treedor, aífy como dito he no
outro capitulo.
12 E DIZEMos,.que norn ferá nenhuu taro oufado
de qualquer eíl:ado , e condiçom que feja , que rete
outro fem noffo mandado efpecial, ou de quem pera
ello haja noífa efpecial authoridade : e aquel ,. que o
contraira fezer, perca todos os feus beé s pera a Coroa
do Regno per effo meefmo, fem havendo meíl.er ou-
tra fentença.
13 NEM deve feer outorguado per Nós a alguú ,
que poífa retar outro , fenom em cafo de treiçom ,
que foomente feja cometida contra a noífa peifoa, ou
de cada huú noífo decendente , ou acendente per li-
nha direita ; ou contra noífo Irrnaaõ , ou lrmaaõ de
noífo Padre, ou Madre, ou noífo Primo Com Irmaaõ,
ou no!Io Sobrinho Filho de noífo lrmaaõ, maginan-
do , ou trautando da morte de cada huíi delles, ou
contra noífo Real Eíl:ado, e dignidade ; e feendo ain-
da Nos enformado primeiramente per húa teíl:emu-
nha digna de fé , ou per confiífom do retado, pro-
vada per duas teíl:emunhas de fé , ou per carta,
que fe affirme, e prove feita, e firmada de fua maaõ
per tefiemunhas , ou per comparaçom doutra fua le-
tera, em que nom haja algúa duvida : e nom feendo
Nós prjmeiramente informado da dita treiçom , co-
mo
3 84 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E QYATRO

mo dito he, nom devemos em nenhúa guifa outor-


gar o reto, ca em outra guifa ligeirament e fe pode-
ria hi fazer muitas artes. e enganos em grande pre-
juizo, e dampno de muitos boõs , o que nom feria
ferviço de DEOS , nem noífo , nem bem de noífos
Regnos.
14 N EM ferá oufado alguú de qualquer fiado, e
preheminen cia que f eja, que de lugar a alguú pera
retar outro, nem que faça per dante elle reto , falvo
Nós foomente, ou aquelle, a que Nós dermos pera
ello noífa efpecial authoridad e; e o que fezer o con-
traira, deve perder quanto de Nós rever, porque jul-
guar alguem por treedor a Nós pertence foomente,
e nom a outro alguú em noífo Regno.
I 5 NEM deve feer outorguado a alguú pera retar
outro, falvo feendo Cavalleiro d'efpora dourada, ou
fidalgo de linhagem , ou de cota d'armas , e por tal
conhecido per Nós, e noffa Corte: e retando el alguú
vilaaõ, norn fera o retado theudo a dar por fy outro,
que feja Cavalleiro , ou fidalgo, mais deve o Caval-
Jeiro, ou fidalgo de lidar com o villaaõ , pois que o
retou, fabendo que tal era.
16 hEM. Nom deve alguú recado feer coíl:ran-
gido pera lidar ante que acepte a lide, porque ao tem-
po que for retado deve haver tres dias pera haverfeu
confelho, fe lidará, ou fiará ao juízo da Corte, como
ja dito he; e defpois que hua vez efcolher a lide ,
nom fe poderá ja mais mudar pera dizer, que quer
eíl:ar a direito. 17
Dos RETOS, E EM Q!JE CASOS DEVEM SEER ETC. 3 s5

I7 ITEM. Se o retador nom for igual ao retado


em eíl:ado, e dignidade, pode-fe poer eixemplo: fe
o retado foffe Conde, ou MeeU:re de Cavallaria, ou
de fangue Real aaquem do quarto graao per linha
traveffa, ou de/igual a el em força per grande defigua-
lança : em cada huú deíl:es cafos poderá o retado dar
por fi outro de feu linhagem, ou criaçom, que feja i-
gual ao retador per julguamento noffo, affy em ef-
tado, como em linhagem , e força; e feendolhe tal
affy dado , nom o poderá recufar o retador.
1 8 ITEM. Se foffe o retado alguu velho, que paf-
fe feffenta annos, ou moço, que nom chegue a vin-
te cinco annos, ou alguú Clerigo Beneficiado, ou
d' Oordeés Sagras, o retado efcolhendo ante lidar,
que eíl:ar a juizo da Corte, poderia em tal cafo elle
dar por fy outro de fua linhagem, ou criaçom igual
ao retador, como dito he no outro capitulo ante def-
te.
19 E SEENDO alguu enfermo retado de tal enfer-
midade, que lidar a effe ter:npo nom poífa razoada-
mente per julgamento noífo, querendo elle logo an-
te lidar, que fiar a juizo da Corte, poderia dar por
fi outro de fua cria~om, ou linhagem igual ao re-
tador, como dito he em outro capitulo, ou efpe-
rará o retador ataa que o retado feja em tal pon-
to de faude, que razoadamente poffa lidar no cam-
po, &c.
20 E DIZEMOS, que fe o retado rnorreífe durante
Liv. L Ccc o
386 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E QYATRO

o prazo, que lhe foffe dado per Nós pera entrar na


lide, fica toda fua fama livre, e quite de toda a trei-
çom, que lhe foi pofta, e bem affi toda fua linhagem,
affy como fe lhe nunca algúa coufa foffe poíta ; ca
pois elle preíl:es era pera lidar, o cafo da morte, que
lhe despois aveeo, nom deve d'enpeecer a fua fama,
ou linhagem. E bem afiy dizemos em qualquer ou-
tro cafo de neceilidade, que lhe aviefü: fem fua cul-
pa, per que foffe de tal guifa embarguado , que per
nenhuma maneira lidar podcffe rawadamente.
2r E ACONTECENDO que alguú retaífe outro cha-
mando-lhe treedor, e o retado o defmentiffe per an-
te Nós por ello, e defpois foffe achado, que o feito,,
fobre que era retado, nom era tal em que cahiífe
aquella treiçom, fobre que hordenamos , que deva
outorguar o reto, em tal cafo nom deve d 'hir pelo
preiro em diante, e Nós devemos mandar ao reta-
dor, que peça perdom ao recado, e lhe faça emmen..
da da injuria, que lhe fez em lhe chamar treedor.
22 E DIZEMOS, que nom deve feer alguú recebi-
do a retar outro, aquel que ja foffe _julguado por tree..
dor; ou defdito em Corte d'alguú reto, que houvef-
fe cometido, e defpois fe houveffe por decido delle,,
conhecendo que o havia feito como nom devia; nem
aaquel , que houveffe primeiramente retado alguú,
ante que deífe cabo a eífe primeiro reto.

TI-
~AEES DEVEM SE!R OS ADAYS, E COMO :ETC, 387

TITULO LXV.

fi?..,uaees devem Jeer os Ada_ys, e como devem Jeer efco-


lheitos , e per quem.

Q UATRo coufas diíferom os antigos, que de-


vem haver em fy os Adays: a primeira, fabe-
doria : a fegunda , esfo1'ço : a terceira, fifo natural : a
quarta, lealdade.
I E SABEDORES devem feer pera guardar as hof-
tes dos maaos paífos, e perigoos: e outro fy ham de
feer fabedores de guiar as hoíl:es, e as cavalguadas
tambem as que forem efcondidas, como as que fe-
zerem abertamente , chegando a taaes lugares que
achem erva, e augua , e lenha , que poffam todos
paífar de fuú.
2 ÜuTRo sv devem de faber os lugares, hu fom
boos pera deitar ciladas tambem piooes, como de
cavallo, e como devem eftar em elles callados, ou
pera· fahir delles quando fezer meíl:er.
3 Ourno sv lhes convem que faibam mui bem
a terra, que ham de correr, e onde ham d'enviar as
efcuitas, e eíl:o porque poffam mais aginha, e melhor
fahir em falvo com o que roubarem.
4 ÜuTRO sv como faibam poer attallaias , e ef-
cuitas tambern as manifeíl:as , como as outras , que
Ccc 2 cha-
388 L1vRo PRIMEIRO TrTuLo SESSENTA E crnco

chamam efcondidas , e trazellas contra feus inmi-


gos pera haverem fempre fabedoria delles; e quando
deíl:a guifa o nom podeffem faber, devern-fe de tra-
balhar corno faibam tomar alguús daquelle Iuguar,
a que querem fazer guerra, porque por elles ho po-
dem faber certamente , e corno fiam feus inmigos, e
em que maneira os devem guerrear.
5 E HVMA das coufas, que muito devem de ca-
tar, he que faibam , que vianda ham de levar os que
forem em as hofies, e cm as cavalguada s, e per quan..
tos dias, e que a faibam fazer alongar , fe meíl:er fov.
E porende os antigos que eram muito fabedores de
guerra , tam grande era o iabor, que haviam de fa-
zer guerra a feus inmigos, que levavam fuas viandas
entrouxada s em argaãs, e em taleigua-s, e nom que..
riaõ levar outras beíl:as : e efio faziam por hirem
mais aginha, e encubertam ente; e quanto mais hon•
rados er~m, tanto fe mais prezavam, e fe tínhaõ por
melhores em faber foffrer afan , e paffar com pouco
em tempo de guerra: e eílo por veencer feus inmi-
gos, femelhando-lhes que preço , nem fabor deíle
mundo nom era melhor que eíle; e porque fua vian-
da levavam affy, corno dito he, chamarom -a fem-
pre defpois taleiguas.
6 ÜNDE em todas eílas coufas, que em efta Ley
diffemos , devem feer mui fabedores os Adays pera
íàbellas elles rnoíl:rar aos outros, como as faibam. E
porque em aquello, que a elles convem de fazer,
de-
QEAEES DEV:EM SEER OS ADAYS, E COMO ETC. 389
devem feer bem creudos tambem per Emperadores,
como per Reix , e todolos outros, que nas guerras
forem , e per elles fe houverem de guiar ; e porende
o feu encaminhamento he mui grande, e os que
nom quiferem feer mandados, deviam haver tal pe-
na, qual nos achaífemos, que merecdfem, fegundo
o dampno, que recebeffem os da cavalguada, por
nom comprir o que lhes mandavam.
7 E ESFORÇADOS, e de boõ coraçom ha mefter
que fejaõ de maneira , que fe nom efparjam , nem
defmanchem polos perigos, quando lhes aqueecerem;
affy como por errar o Iuguar, hu cuidavam hir, e fa_
hir em outro mais perigofo, ou como quando lhes
faltaõ com grande poder de inmigos de fobrevença,
e elles teveffem pouca gente comfigo , ou quando
lhes aqueeceffe outras coufas femelhantes deíl:as ; an-
te devem haver bõos coraçooês, e fortes pera esfor-
çarern, e confortarem a fy meefmos, e aos outros 1
e meter hi as maaõs , e ajudar bem os Cavalleiros ,
quando lhes meíter for; ca nom he direito, que elles
poupem 1eus corpos,. pois que os Cavalleiros aven ...
turam os feus hindo em feu gmamento. E nom tam
folamente devem haver esforço de coraçom ,. mas
ainda de palavra de maneira,. que fe faibam os ou-
tros esforçar, e confortar com elles; ca palavra he
verdadeira dos antigos, que muitas vezes vence o ef...
forço a maa andança.
8 E Boo fifo natural deve haver perque faiba
obrar
LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E CINCO

obrar deíl:as coufas todas , que diífemos tambern da


fabedoria, como do esforço, cada huú em feu lu-
guar: e que faiba av1r os homeés quando eíl.iverem
dcfavindos, e honrar, e fervir os homeeés boõs, que
efhverem nas hofies, ou nas cavalguadas, que elles
guiaílem.
9 MAs fobre as outras coufas convem que fejam
leaaes de maneira, que faibam amar feu linhagem ,
e feu fcnhor natural , e a campanha , que guiã; e
que por amor, nem por malquerença, nem cobi-
ça nom os mova a fazer coufa, que contra eíl:o fe-
ja , ca pois elles fe fiam da fua lealdade , e por cífo
rneefmo fe metem cm poder de feus inmigos , e cm
lugares, onde nunqua entraram, fe elles leaacs nom
foffem, maior feria fua treiçom, e mais dapnofa, que
doutro homem, porque todo mal, que quifeífem fa-
zer, poderiam fazer em elles: e porem antiguamen-
tc foram catadas todas eíl:as quatro coufas, que as
houveífe em fy cada Adayl, e por cífo os chamam
Adays , que quer tanto dizer , como guiadores,
que devem haver todas eíl:as coufas fobreditas, pera
faber bem guiar as hofies, e as cavalguadas em tem ..
po de guerra.
10 ANTICUAMENTE poferom os Sabedores da
guerra certa maneira como foífem feitos os Adays, e
em que guifa os honraífem os fenhores , e fobre que
coufas lhes deífcm poder; e Nós querema-lho moíl-rar
em eítas Leix, porque he coufa, que convem muito
a
~AEES DEVEM SEER OS AoAYS, E COMO ETC. J9I
a feito de guerra. Onde dizemos, que quando Nós
quifermos fazer Adayl, devemos mandar, que fe ar-
mem doze Adays os mais fabedores , que poderem
achar, e eftes jurem, que diram a verdade, fe aqucl-
le , que querem alçar Adail, ha em fi as quatro
coufas , que diífemos em o capitulo ante deíl:e ; e fe
elles fobre juramento diíferem , que fy, devemo-lo
fazer Adayl; e fe tantos Adays nom poderem achar,
que digam eíl:e teftemunho, devemos tomar os que
minguarem dos doze, dos outros homeés, que fejam
fabedores de guerra , e da fazenda delle ; e eíles tef-
temunhos com os outros valem tanto como fe foffrm
Adays.
11 E DESTA guifa devem feer feitos, e nom dou-
tra; nem el nom fe pode fazer per fy meefmo, co-
mo quer que foífe pera ello perteencente: e outro al-
guú de qualquer eíl:ado , e condiçom que fcja, nom
o deve a fazer ; e fazendo alguú o contraira, deve
morrer por ello, e tambem aquelle, que aíly foffe
feito, ou fe fezeífe, e chamando-fe Adayl, non o
feendo, pois fe atrevera ao que lhe nom compria,
nem convinha: e fe per ventura nom poderem feer
achados pera lhes feer dada a dita pena , àevcm de
perder todo o que reverem pera Nós.
12 ALÇAR querendo Nós alguú como Adayl,
devemo-lo fazer, e honrar per eíl:a guifa : havemos-
lhe de dar que viíl:a, e húa efpada , e cavallo, e ar-
mas de fuíl:e, e de ferro, fegundo o coíl:ume da terra,
e
392 LivRo PRIMEIRO TrTuLo SESSENTA E crnco

e devemos mandar a huú rico homem fenhor de ca-


valleiros, ou a outra algúa honrada peffoa , que lhe
cingua a efpada, pero pefcoçada non lha deve de dar;
e defpois que lha houver cinta, ham de poer huú ef-
cudo em terra chaaõ, o que he da parte de dentro
contra cima, e deve poer os pees em cima delle o
que houver de feer Adayl; e devemos-lhe de tirar a
efpada da bainha, e poer lha nua na maaõ; e devem
entom alçar o efcudo ho mais que poderem os doze
que derem o teílemunho por elle, ou quaeesquer ou-
tros, que Nós pera ello hordenarmos; e tendo-o elles
affy alçado, devem-no de tornar de rofto contra ho
Oriente, e ha de fazer com a efpada duas maneiras
de talhar alçando o braço a riba , e tirando contra
fundo, e a outra de traveífo em maneira de cruz>
dizendo affy, Eu fulano defafio em nome de DEOS os
inmigos da Fé , e de meu Jenhor E!Rey, e de fua terra; e
effo meefmo deve fazer, e dizer tornando-fe aas ou ..
tras tres partes do mundo; e defpois deíl:o ha de me..
ter elle meefmo a efpada na bainha: e Nos lhe poere ...
mos húa figna na maaô, e entom lhe diremos: Outor..
guamos-te que Jejas Ada_yl daqui em diante; e fe ou ..
trem o fezer em noffo nome, a que pera ello der..
mos poder, deve-lhe poer a figna na maaõ, e dizer..
lhe affy ; Eu te outorgo em nome d' E!Rey que Jejas Ada..
yl. E dhi em diante pode teer armas, e cavallo, e fi ...
gna; e affeentar-fe com os cavalleiros a comer quan-
do aqueecer; e quem o deshonrar ha d'haver pena
co-
Quus DEVEM SEER. os ADAYS E COMO 'ETC. 393
como aquel, que deshonra cavalleiro delRey. E def-
pois que for feito Adayl honradamente, fegundo dito
he , ha poder de acaudelar os Almocadeés, e Almo-
guavares, e quaeesquer outros aífy de cavallo, como
de pee, que lhe forem aílinados pera o feguir, e fa_
zer feu mandado : e aquelles, que feu mandado nom
comprirem, elle os pode coníl:ranger, fegundo a cul-
pa, em que cada huú for, ou o cafo requerer.
r 3 EsTABEL ECEROM os antigos, que foífem feitos
Adays honradamente , fegundo em o capitulo ante
deíl:e diífemos, e eíl:o fezerom por muitas razooés: a
huma polos grandes feitos , que faziam os cavallei-
ros; a outra polos grandes perigoos , a que fe me-
tem; outro fy polo poderio, que ham em julgar mui-
tas coufas , o que outros homeés nom poderiam fa_
zer, ca elles julguam os das cavalguadas fobre as ccm-
fas , que aqueecem em ellas ; e ham de íeer antre a-
quelles , que partirem ho esbulho dellas; e elles ham
poder de fazer os Alrnocadeés , e os Almoguavares,
f-egundo diz na Ley , que falla fobre eíl:a razom. E
porem devem feer entendidos, e de boo fifo pera ef-
colherem quaees homeés conveem pera todas eíl:as
coufas fobrediras ; e fe deíl:a guifa o nom fezeífem ,
devem receber pena nos corpos, e nos haveres fegun-
do o mal, que hi vier, polo erro, que houveífem fei-
to. Pero fe elles efcolhefiem pera ello taaes peífoas,
que razoadamente pareceífem perteencentes , e elles
despois fezeífem o que nom deviam, e lhes bem nom
Liv. L Ddd eíl:c-
LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E SEIS
394
efleveffe, em tal cafo a culpa, e a pena do que bem
feito nom foíle , perteenceria aos ditos Almocadeés.
e Almoguavares, e nom aos Adays.

T I T U L O LXVI.

Dos Almocadeés , como ham de jurar quandoforem


feit os.

A LMOCADENschamam agora aosque foyamcha-


mar antiguamente Coudees das pioadas, e eíl:es
fom mui proveicofos nas guerras, ca em lugar podem
entrar os piaaés, e coufas cometter, que as nom po ..
deram fazer os de cavallo.
1 E PORENDE quando alguum piam quer feer Al-
mocadem, ha de fazer defla guifa. Ha de vir primei-
ramente aos Adays , e moflrar-lhes quaees razooés
teem, perque o mereça de feer, e eflonce devem cha-
mar doze Almocadeés , e fazellos jurar , que digam
a verdade, fe aquel, que quer feer Almocadem, he
homem, que haja em fy eíl:as quatro coufas : a pri-
meira, que feja fabedor de guerra , e de guiar os que
com elle forem: a fegunda , que feja esforçado pera
cometer os feitos, e esforçar os feus : a terceira , que
feja ligeiro, ca eíl:a coufa convem muito ao piam pe-
ra poder alcançar o que de tomar houveffe, e outro
fy
Dos ALMOCADENS, COMO HAM nn JURAR ETC. 395
fy pera faber guarecer quando foffe meíl:er : a quar-
ta he, que deve feer amigo de feu fenhor, e das cam-
panhas, que com elle andarem; ca eíl:o convem, que
haja em todas guifas o que for coudcl de piooés. E
dando elles teílemunho , que ha em fy eftas quatro
coufas , devem-no de levar a Nós, ou ao outro capi-
tam , que for na hofle , ou na ca valguada. dizendo
como he boo pera feer Almocadem ; e des que o ou-
troguarem, ham-lhe de dar que viíla de novo fegun-
do coílume da terra, e hã-lhe de dar hua lança com
pendom pequeno : e cíle pendem ha de feer daquel
fignal, que elle quifer, porque feja per el conhicido,
e melhor aguardado de feus companhooés : outro fy
pera faberem quando faz bem, ou mal.
2 JuR ADo havendo os doze Almocadeés , quan-
do houverem de fazer alguú Almocadem, affy como
fe contem na Ley ante deíl:a , ham elles meefmos
de tomar duas lanças, e fazello fobir em ellas de pee
fobre as aíles , tomando-as de maneira, que fe nom
quebrem, nem caya e!, e alçalo quatro vezes alto da
terra aas quatro partes do mundo, e ha de dizer a
cada húa dellas aquellas palavras fufo ditas, que de-
ve dizer o Adayl ; e cm mentre que as differ, ha de
teer fua lança com feu pendem na maaõ fempre , e
enderençando o ferro della. contra a parte, donde te-
ver o refiro. E pero alguú foffe tal , que mereceffe
feer Adayl , nom o deve feer em nenhuú tempo , fe
primeiro nom for Almoguavare de cavallo , ca fe-
Ddd 2 gundo
396 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA r SEIS

gundo diílerom os antigoos , as coufas , que ham de


hir a bem, fempre ham de fubir d'huú graao a ou-
tro melhor, affy como fazem de boo piam boõ Al-
mocadem , e de boõ Almocadem boõ Almoguavare
de cavallo, e daquelle, boõ Adayl.
3 E DESTA maneira deve feer feito o Almoca-
dem, e quem doutra maneira o fezer, deve perder o
1uguar, que tever foomente por atrever-fe a fazello;
e aalem deílo ha outra pena , que fe alguú dampno
vie!Te per culpa daquel Almocadem mal feito , que
deve haver pena o que o fezer, fegundo que foíle o
dampno. E fe for feito em a maneira , que fufo dito
he, em que fe devem a fazer, nom haverá culpa
nenhúa o que o feze!Ie Almocadem , ainda que erro
fezeffe, mas el meefmo deve lazarar por ello fegundo
feu feito. E effo meefrno dizemos que fe íe lhe de-
íencaminhaffem fuas companhas, que devem haver
pena, fegundo o darnpno, que lhe vie!Te polo feu def-
encaminhamento, fe eíle Almocadem lho nom po-
de!Te vedar; ca el podendo-o vedar, a culpa, e a pe-
na fua deve feer.
4 A FRONTARIA d'Efpanha he de tal maneira,
que he queente, e as coufas, que nacem em ella, fom
mais gro!Tas, e de mais forte compreixom, que as da
t erra velha ; e porende os piaaés, que andam com os
Adays, e com os Almocadeés em feito de guerra,
ham meíler que f ej am feitos , e acoíl:umados , e gui-
fados ao ar, e aos trabalhos da terra ; e fe taaes nom
fof_
Dos ALMOCADENS, COMO HAM DE JURAR ETC. 397

foífem, nom poderiam longo tempo viver faaõs, pe-


ro foífem ardidos , e valentes. E porem os Adays, e
os Almocadeés devem muito catar, que levem com-
figo piaaens nas cavalguadas , e em outros feitos de
guerra taaes, que fejam ufados da terra, e deíl:as cou-
fas que fufo dito havemos ; e mais que fejam ligei-
ros , e ardidos , e bem feitos de feus nembros, pera
foflrer a affom da guerra ; e que andem fempre bem
guifados de boas lanças , e dardos, e cuitellos , e pu-
nhaaes; e outro fy devem comfigo trazer piaaés, que
faibam bem tirar com beeíl:as , e que tragam os gui-
famentos , que perteencem a feito de beeíl:aria, ca ef-
tes homeés taaes comprem muito a feito de guerra.
E quando taaes forem , devem-nos muito os Adays ,
e Almocadeés de amar, e honrar de dito, e de feito,
partindo bem com elles as gaanças , que fezerem de
confuú, aífy como fe ao diante moíl:rará. E fe pela
ventura taaes piaaes , como dito he , nom poderem
haver, ante elles devem entrar em terra dos inmigos
com poucos piaaés boõs, que com muitos, e maaos.

T 1-
398 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E SETE

T I T U L O LXVII.

Do Monteiro Moor, e coujas, qtte afeu ojficio


perteencem.

E LRn meu Senhor, e Padre de louvada memo-


ria em feu tempo fez certas Hordenaço oés acer-
ca do Monteiro Moor , e do que a feu officio per-
teence , fegundo fe contem em certos Alvaraaes fir-
mados per elle, e per huú depoimento feito per feu
mandado per Vicente Eíl:eves, a effe tempo Monteiro
Moor da montaria de San tarem, o qual foi efpecial-
mente perguntado fobre os foros, que ha d'aver o
Monteiro Moor, e os Monteiros de cavallo, e os mo-
ços do monte , e os noffos efcudeiros , que teverem
caaés, e fobre a coutada velha , per onde partia: os
quaees Alvaraaes, e depoimento affy feito per o dito
Vicente Eíl:eves, fom eíl:es, que fe adiante feguem.
1 Nos ElRey fazemos faber aos que eíl:e Alvara
virem , que Nós achamos desvairo nas cartas , que
eram dadas aos noffos Monteiros no tempo do mui
virtuofo , e de grandes virtudes E!Rey meu Senhor,
e Padre, cuja Alma DEOS haja , por quanto em as
mais antiguas era contheudo , que os que mataffem
porcos , e bacoros nas coutadas, ou pofeffem fogo nas
matas , ou a redor dellas , ou lançaffem arrnadil has
al-
Do MoNTEIRO MooR , ETC. 399

alguãs pera as ditas veaçooÉs , que pagaffem vinte


cinco libras da moeda antigua, e foffem pera os mon-
teiros; e nas mais novas faz rneençom , que paguem
quinhentas libras da dita moeda , e que fejam pera
Nós, as quaees leva Lopo Vaafques Monteiro Moor
noffo.
2 E QYERENDO Nós temperar eíl:as penas, por as
matas ferem razoadamente guardadas , e os que ca-
hirem na dita cooima nom receberem tam grande
dampno , mandamos que quaees quer, que cahirem
nos lugares coutados em cada huú dos falimentos fo-
fo ditos, que paguem por cada húa cooima doo<; mil
reis deíl:a moeda corrente, dos quaees fejam mil pe-
ra o dito Lopo Vaafques, e quinhentos pera o Mon-
teiro Moor da montaria, e os outros quinhentos pera
os monteiros da terra, dando por doos aaquelle, que
os defcobrir.
3 E AO dito monteiro da montaria fique carrego
de demandar as ditas cooimas perante o Almoxarife
da quella Comarca, ao qual Nós mandamos, que lhe
faça comprimento de direito; e fe o cafo for d'appel-
laçom , o dito Monteiro Moor da dita montaria a
mande aa noffa Corte perante os noffos Veedores da
Fazenda , onde fique carreguo ao noffo Monteiro
Moor , ou a quem feu loguo rever, de demandar, e
feguir a demanda ataa finalmente a defernbargar.
4 ITEM. Se forem em alguma montaria os cervos
coutados, paguem por cada cervo , ou cervato , que
ma~
400 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E SETE

matarem, a meetade deíl:a pena, a qual feja reparti-


da per a guifa fufo fcripta.
5 PoRQYE em as ditas matas de coutamento he
defefo, que nom corté madeira, nem lenha. nem ef-
cafquem , e nom fe declara a pena , que manda dar
aos que em ello cahirem, Nós mandamos que de ca-
da carrada , ou outra alguma madeira groífa, que fe
a jorro tire com bois , paguem quatrocentos reis , e
por carregua de lenha de cafa paguem duzentos reis;
os quaees mandamos, que fejam repartidos pela gui-
fa fufo efcripta.
6 ITEM. Por quanto achamos, que as cartas no-
vas vaaõ em outro füllo desvairado do que as antigas
foyam de feer, mandamos, que as que fe fizerem da-
qui em diante, fejam feitas cm aquclle fiillo, que fe
faziam ataa Era de Cefar de quatrocentos e quarenta
annos; .e as outras, que feitas fom, fe guardem per a
maneira das que eraõ feitas ata aquelle tempo: falvo
no tragimento das armas, que ora novamente man-
damos dar lugar a aquelles monteiros, que no-las re-
querem , aos quaees mandamos , que lhe guardem
fuas cartas, fe dello expreífarnente fezer rneençom. E
mandamos, que eíl:e noífo Alvará feja regiíl:ado em
a noífa Chancellaria. Feito em Sintra a doos dias de
Setembro. Johane Eíl:eves o fez Era do Nacimento
de noífo Senhor JEsus CmusTo de mil e quatrocen-
os e trinta e cinco annos. Nós mandamos dar efte
Alvará ao noífo Monteiro Moor da montaria de San-
tarem. 7
Do MoNTUR.o Moon. > ETC. 401

7 Nós ElRey fazemos faber a vós Vicente Efte-


ves noffo Monteiro Moor das matas noífas do termo
da Villa de Santarem, que fobre o que nos efcrepvef-
tes, que Nós declaraffemos a maneira , que haviees
de teer em guarda dellas, por quanto agora derarnos
ao Concelho da dita Villa noffo Alvará, porque lhe
devaífamos algúas matas pera lenha· , e eífo meefmo
algiías veaçooés nos paaés, e vinhas, noífa mercee he
que todas as noffas matas da aquem Tejo fejam defe-
fas, coutadas per a guifa ) que o forom ataa ora ; e
da parte aalem a do Freixeal foomente ; e das outras
logrem, como he contheudo no noífo AI vará, que ao
dito Concelho temos dado; do qual vós requeree aos
horneés boõs , que vos dem o trelado , e per elle vos
regerees do que em ellas haverees de guardar , e de-
fender por o noífo ferviço; e per eíl:e Alvará lhe man-
damos ,que vos dem, e façam dar o dito trelado fem
outro embargo nenhuú. Feito em Avix dezafeis dias
de Junho. Ruy Peres Godinho a fez. Anno do Naci-
rnento de noffo Senhor Ji;zus CmusTo de mil e qua-
trocentos e trinta e oito annos.
EsTE he o depoimento , que Vicente Efteves fez
per mandado d'ElRey Dom Eduarte , que faz men-
çom em cima no começo defte titulo.
8 ITEM. O Monteiro Moor, e os moços do mon-
te, e os Monteiros de Cavallo, e os Efcudeiros d'El-
Rey , e os Moços da Camara do dito Senhor , que te-
veífem caaés do dito Senhor, houvcífem fernpre dos
L-iv. I. Eee Mou-
402 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E SETE

Mouros de Lixboa efta louça, que fe fegue, a faber,


huum pote com huum cobertor, e huum pucaro, e
hum alguidar, que leve huum pote d'augua , e húa
panella com feu tefto, e húa tigella com huum cober-
tor, e húa enfufa com húa almotalia, e huú candiei-
ro, dado ao Monteiro Moor todo eíl:o dobrado , e a
cada huum dos fobreditos fingello : e eíl-o cada vez
que ElRey foife aa Cidade, teendo elle Vicente Eíl-e-
ves carrego de lhe eílo fazer dar como fempre ouve-
rom, e eO-o em tempo d'ElRey Dom Joham , cuja
Alma DEOS aja.
9 DEsPoISque E!Rey Dom Duarte, a que DEOS
de o feu fanto Paraifo , regnou , mandou , que poíl:o
que foífe aa dita Cidade quatro, ou cinquo vezes no
anno, ou mais , que nom deffem a dita louça mais
que húa vez ; e nom hindo aa dita Cídade , em huu
anno, que nom deífem nenhúa das ditas coufas.
10 ITEM . Qye o Monteiro Moor d á as montarias
das Comarcas per fua carta affinada per elle, e paífa-
da per ementa d'E!Rey , e feellada do feello do dito
Senhor, avendo o dito Monteiro Moor de cada huú
dos ditos Monteiros que affi fazia , huú marco de
prata.
1J E SE alguú Monteiro das Comarcas era velho,
e em hidade de fettenra annos, o Monteiro Moor ho
apoufentava, e lhe dava húa fobre carta, perque lhe
guardaífem fuas honras contheudas cm feu privile-
gio ; e defio norn pagava, fenom Chancellaria ao di-
to Senhor. EsTA
Do MoNTETRO MooR nc. 403
EsTA he a divifom da coutada velha fegundo o
depoimento de Vicente Eíl:eves.
12 ITEM. A foz de Marateca pola ribeira acima

ataa Cabrella ; e des y pelo termo de ~'\fonte-moor


ataa ribeira de Canha; e des y ataa ponte de Lavar;
e dhi a Amora; e da Amora a Monte-argil pola au-
gua do Soar; e dhi aJs becouças ; e dhi ao val d' Al-
colula ; e dhi a Abrantes , refalvãdo o Tarnargual,
que he acima da eílrada , que he coutada, e per Rio
de moinhos pola eílrada como fe vai direito aa foz
da ribeira de Tornar , que entra no Zezer ; e dhi a
Tomar hindo pola eíl:rada coirnbraã atee o Porto. E
deftas divifooés fofo ditas contra o mar todo he cou-
tado de porcos , e porcas, e bacoros , e bacoras mon-
tefes, e tinha de pena quem quer que o mataíle, que
pagaífe por cada cabeça quinhentas libras de boa
moeda: e eíl:o em tempo d'E!Rey Dom Joham.
13 ITEM. Ivfais a mata de Botam , que he acima
da eíl:rada, que he coutada.
14 !TEM. Todo o termo de Monte moor o No-
vo , que he todo coutado, o qual coutou ElRey Dom
Duarte em feendo lfante, a faber , de porcos, e por-
cas , bacoros , e bacoras.
1 s ITEM. Antre Evora, e Monfaras, e o Redon-
do , e Portel eílas matas , que fe feguem. Primeira-
mente des o peego do lobo aa rnouta de perichalvo;
e des y aa ribeira do allemo; e dhi aa cabeça das fas-
quias; e dhi ao paaço da pedra alçada ; e dhi hindo
Eee 2 per
404 LIVRO PRIMEIROTITULOSESSENTA E SETE

per a ribeira da aroeira aa ribeira do freixio , e pela


ribeira de bem cafadi aa mouta da cegua ; e des y ao
peego do lobo. Todos eíl:es montes deíl:e couto a
dentro fom coutados de porcos , e porcas, bacoros ,
e bacoras montezes , e de fogos , e armadilhas ; e
qualquer, que erraífe em cada húa deíl:as coufas, que
pagaífe quinhentas libras da moeda antigua: e eflo
em tempo d'ElRey Dom Joham.
16 ITEM. Diífe mais o dito Vicente Eíl:eves, que
o Monteiro Moor tinha jurdiçom, como tem, fobre
os Monteiros da Camara , e Monteiros de Cavallo ,
e os Moços do monte, que erraffem em feus officios,
ou fezeífem o que nom deviam, de os privar dos of-
ficios, e poer outros em feos loguos , e mandallos aa
cadea, e dar-lhes pena, qual entendeífe que mereci-
am com direito , fegundo eflo mais compridamente
fe contem em hüa carta, que o dito Lopo Vaafquez
dello tem; e eífo meefmo mandava per feos Al varaa-
es aas jufliças , que lhes deífem a pena , que elle
mandava, e os que prefos eram , per feos Alvaraaes
os foltavam.
17 hEM. ~alquer , que mataífe uffo per todo o
Regno fem mandado d'EIRey, pagava mil libras de
boa moeda.
18 As quaees Hordenaçooés a ili feitas per o dito
meu Senhor , e Padre , e depoimento affi feito per
feu mandado, e viftas per Nós, e examinadas , man-
damos , que fe guardem por Ley daqui en diante,
por-
Do ANADAL MooR, ETC. 405

porque achamos, que antiguamente foi affi ufado em


eíl:es Regnos.

T I T U L O LXVIII.

Do Anadal Moor , e coefas , que a feu officio perleencem•

N A CHANCELLARIA d'ElRey Dom Joham meu


A voo de gloriofa memoria forom achadas cer-
tas Cartas, e Alvaraaes, e Hordenaçooés fuas acerca
da apuraçom dos beefteiros, e gualiotes, que perteen-
cem ao officio da Anadaria Moor, das quaees o theor
he eíl:e, que fe adiante fegue.
I Nos ElRey mandamos a vós Pedre Anes Ef-
cripvam da noffa Chancellaria, ou a outro qualquer,
que voffo loguo tever, que regifiees nos livros da nof-
fa Chancellaria duas Hordenaçooés, que ora per Nós
forom feitas , e affinadas a faber, hiía dos beefieiros
do conto, e outra dos homeés da vintena do mar, as
quaees vos mofirará Joham de Bailo; e como as re-
giíl:ardes , entreguade-as logo ao dito Joham de Baf-
to : unde al nom façades. Feito em Aldea guallegua
a vinte feis dias de Novembro. E!Rey o mandou Era
de mil e quatrocentos quarenta e tres annos.
2 DoM Joham per graça de DEOS Rey de Pur-
tugual, e do Algarve. A todolos Corregedores, Juí-
zes
406 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E OITO

zes, e Juíliças , e peffoas de todalas Cidades , e Vil-


las, e luguares , e julguados , e honras, e terras de
meos filhos , e do Conde-fiabre , e das Hordeés , e
Meeíl:res , e de todalas outras jurdiçooés , e terras
chaãs dos noffos Regnos, e a outros quaeesqucr ,que
eílo ouverem de veer per qualquer guifa que feja , a
que eíl:a Carta for moíl:rada, faude. Sabede que Nós
entendemos por noffo ferviço e bem da noffa terra
darmos encarrego a Vaíco Fernandes de Tavoranof-
fo vaífallo, e fobrinho d'Affonfo Furtado noffo Ca-
pitam , e Anadel Moor, e a Joham de Baíl:o feu Ef-
cripvam, e dos noffos contos, e lhes mandamos, que
elles vejam, e apurem todolos beeíl:eiros do conto de
todo no{fo fenhorio , como fiam apofiados , e ade-
rençados, e façam outros de novo; e eífo meefmo ve-
jam, e apurem todolos homeés das vintenas do mar,
e ponham em ellas de novo homeés, que fejam per-
teencentes pera ello , e façam vintaneiros ; e offici-
aaes , fegundo virem que compre a noffo ferviço ; e
façam todalas outras couías, que perteençam ao dito
officio d'apuraçom , e coufas fufo ditas , fegundo fe
contem em duas Hordenaçooês noffas, que pera ello
levam finadas per noffa maaõ, a faber, húa dos beef-
teiros, e outra dos gualliotes, e homeês do mar.
3 E POREM Nós mandamos, que lhe Ieixees affi
fazer, e os ajades por Apurador , e Efcripvam dos
beeíl:eiros do conto, e homeés do mar, e coufas, que
a ello perteencem , e os ajudees a ello, e cumprades
fo-
Do ANADAL MooR, ETc.

fobre ello todalas Cartas , e Alvaraaees finados per


elles, e feellados do feello do nofio Capitarn, e Anadal
Moor por noffo ferviço fem outro nenhuú embar-
guo ; e que veendo fobre ello feos recados, façades
vir perante clles todolos homeés ceeiros de mefieres,
que ou ver em effes luguares, e em cada huú delles,
pera elles delles fazerem, e escolherem os que acha-
rem que fom perteencentes pera os fazerem noffos
beefieiros do conto pera nofio fcrviço; e effo meefmo
façades vir perante elles todolos vintaneiros dos ho-
meés do mar com todolos homeés de fuas vintenas,
e todolos outros , que em ellas devem feer pofios,
pera os elles veerem, e apurarem , e poerem em v in-
tenas de novo , fegundo nas ditas noffas Hordena-
çooés he contheudo : e feede a efio bem dilligentes ,
e mandados , ca he coufa , que perteence muito a
noffo ferviço.
4 ÜuTRO SY mandamos , que o dito noffo Capi-
taó, e Anadal Moor aja, e leve do dito officio toda-
las proees , e direitos ; outro fy todalas beeílas das
luitofas dos beefieiros do conto , que fe morreram ,
ou morrerem, e de todalas outras coufas, que ao di-
to officio perteencem , affy , e pela guifa, que o elle
fempre levou , e levaram os Anadees Moores, que
ante elle foram : e nem lhe ponhades febre ello ou-
tro nenhuum embargue em nenhua guifa ; e fazee
dar e entreguar as ditas beeíl.as ao dito noffo Capi-
tam, e Anadal Moer , ou a quem vos elle mandar,
fem
408 LIVRO PRTMETRO TITULO SESSENTA E OITO

fem outra nenhúa duvida , nem embarguo , que lhe


fobre ello feja pofto : onde al nom façades. Dada em
Aldea guallegua oito dias de Novembro. ElRey o
mandou. Diogo Gil a fez. Era de mil e quatrocen-
tos e quarenta e oito annos.
s VAASQ.YO Fernandes , e Joham de Baílo. Nós
ElRey vos fazemos faber, que eíl:a he a maneira, que
avees de teer em aver d'apurar , e efcolher , e fazer
de novo os beeíl:eiros do conto em todalas Cidades ,
e Villas, julgua~os, e coutos , e honras , e terras das
Hordeés, e terras chaãs, e em todolos outros lugares
do noífo fenhorio , em que vos ora mandamos apu-
rar os ditos beeíleiros , e fazer de novo.
6 PRIMEIRAMENTE cheguarees aas Cidades , e
Villas , e luguarcs , e quando cheguardes ao lugar ,
rnoílraredes o poder noffo , que !evades aos noffos
Juizes , e Vereadores , Procurador , e homeés boos,
e faberedes certa, e verdadeira enformaçom do Ana-
dal, e beeíl:eiros do conto em todalas Cidades, e Vil-
Ias mais antigos , que hi ouver , e per outros quaeef-
quer , que o milhor poderdes faber, quantos beeílei-
ros do conto foya d'aver no dito lugar no tempo dos
Reix, que ante Nós forom.
7 E SABEREDES os beeíleiros do conto , que ora
hi ha feitos , e fazede-os vir perante vós com fuas
beeílas, e delles efcolhede os milhores , e mais per-
teencentes , que virdes que comprem pera noffo fer-
viço, e poende-os em titulo apartado em voffo livro,
que
Do ANADAL MooR, ETC.

que pera ello faredes , declarando feus nomes , e os


rnefieres, que ou verem.
8 E SE alguús beeíl:eiros do conto vierem a vós
requerer, que os façades poufados, faberedes quando
forom beefieiros do conto , e quando aífy forom beef-
teiros , fe eram de grandes hidades , aífy como de
cincoenta annos, e elles despois que aífy foram beef-
teiros nom fervirom em nenhiía armada, nem em
nenhúa guerra, e eíl:es a taaes, que virdes , que nom
podem fervir no dito officio da beeíl:aria , tirade-os
della , e leixade-os ao Concelho , e o Concelho faça
delles como dos outros feos vizinhos , e demandaae
outros em feu luguar.
9 E SE acontecer , que alguús deíles beeíl:eiros
vos demandem cartas de poufados, e achardes, que
des fua mancebia ataa ora que provarem fettenta an-
nos , fempre eíl:everom poíl:os por beeíleiros , a efies
dade-lhes fuas cartas de poufados , perque lhes guar-
dem feos privillegios, e nom fervam o Concelho em
nenhüa coufa , que feja de fervir do corpo , e entom
demandaae ao Concelho , que vos dê outros em feu
loguo.
10 ITEM. Se alguús beeíl:eiros forem taaes, que
per fua neceilidade, ante que ajam hidade de fette n-
ta annos, por algúas doares , ou feridas, ou negoci-
os, que ouveífem, fom taaes, que nom podem a Nós
fervir por beeíl:eiros do conto , e vos pedirem cartas
de poufados, certificando-vos bem de fuas necelfida-
Liv. I. Fff des,
410 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E OITO

des, e fe fouberdes que elles forom feridos em algúa


coufa, que foffe nolfo ferviço; entom dade-lhes car-
ta de poufados , e fazede-lhes guardar feos priville-
gios, aífy como aaquelles , que fempre fervirom , e
chegaram a hidade de fettenta annos.
1r E sE achardes, que affy alguús forom feridos,
ou que ouverom cajooés em feos corpos, e nunca fer-
virom, eftes taaes tiraae de beefteiros do conto, e lei-
xade-os ao Concelho per a guifa, que dito he, e vós
pedide outros em feos logos delles ao Concelho , e
poende-os por beefteiros.
I 2 E AQ.YELLES , que achardes , que nom fom
pera apoufentar, e que nom fom pera fervir , e que
fom anegociados , ou velhos , ou adoorados , ou tam
proves, ou tam pequenos de corpos , que nom com-
prem pera fervir por beefteiros do conto , vós leixa-
de-os ao Concelho , e que o dito Concelho faça del-
les , como dito he , e vos dê outros em feu loguo,
que fejam perteencentes pera ello.
13 E v1sTos affy todos eftes , fe achardes que
minguam ainda alguús beefteiros do conto , aalem
dos que ja hi teendes escolheitos dos que ante avia
no dito lugar , pera o comprimento do numero , que
achardes, que hi foya d'aver nos tempos antigos>
nom contando hi os anadees, e porteiros, e vintanei-
ros, e officiaaes , que os ham de reger , que fe nom
devem contar no conto do dito numero, porque man-
damos, que nom fejam hi contados ; que o nwnero
dos
Do ANADAL MooR, ETC. 41 r

dos beeíl:eiros feja certo , e comprido em cada huú


luguar, e aalem dos ditos anadees , e porteiros , e of-
ficiaaes que os ham de reger.
14 E REQYEREREDES aos Juizes, e vereadores, e
Officiaaes deíl'e lugar, que vos dem eífes, que achar-
des que aífy falecem, dos homeés mancebos, e mef-
teiraaes ceeiros, que ouverem no dito luguar, e em
feu termo, que fejam boõs, e perteencentes, e man-
theudos, que poffam manteer as beeíl:as , e nos fer-
vir com ellas , o comprimento do dito numero, que
hi foya d'aver pera noífo ferviço, e os façaaes logo
vír ante vós pera os vós veerdes, e delles efcolher-
des os que mais perteencentes forem pera beeíl:eiros,
nom nos efcufando, nem fonegando nenhuús dos di-
tos meíl:eiraaes, que no dito loguo ouver, e per-
teencentes forem pera noílo ferviço.
I5 ITEM. Faredes os ditos beefteiros do conto
dos homeés do meíl:er, a faber çapateiros, alfayates,
ferreiros , carpinteiros , almocreves , tonoeiros , rega-
taaés, e outros quaeesquer mefteiraaes , que achar-
des , com tanto que fejam cafados, e nom fejam la-
vradores , que continuadamente lavrem com junta
de bois, nom embarguando, que alguús deftes alle-
guem, que fom criados d'alguús noífos capitaaês, e
vaffallos , ou fervirom com elles na guerra ; e fe fo-
rem meíl:eiraaes, que nom tenham tenda per fy, e
lavrem com outrem, e viverem per fy em fuas caías
de morada, feendo cafados , nom os efcufedes porem
Fff 2 de
412 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E OITO

de ferem noffos beeíl:eiros do conto, fe virdes, que pe-


ra ello fom perteencentes, feendo-vos dados por beef-
teiros pelos Juizes, Vereadores, e Officiaaes do Con-
celho de cada huü lugar; pero que como fom cafa-
dos, e viverem per fy em fuas cafas de morada, lo-
go fom theudos de nos fervirem naquello, que lhes
per Nós for mandado.
16 E SE ja alguús deíl::a condiçom forem, e fom
beefteiros do conto, e virdes, que fom pera ello per-
teencentes, vós avede-os por beeíl:eiros do conto, e os
nom tiredes de beeíl:eiros.
17 E QYANDO pela ventura virdes, ou fouberdes,
que os Juízes, e Officiaaes do luguar vos nom dam
em eícripto aquelles , que perteencentes fom pera
noffo ferviço , ou que vo-los foneguam , ou vo-los
nom querem dar, vós a vede enformaçom per o nof-
fo coudel, que ouver no luguar , e pelo anadal dos
beeíl:eiros , e dizede-lhes , que vos dem em efcripto
os meíl:eiraaes, e homeés de rnefter, que em elle fou-
berem , que vos os ditos Juízes , e Officiaaes nom
dam, e que elles entendem, que fom perteencentes
pera beefteiros do conto; aos quaaes Nós mandamos,
que volos dem em efcripto, e- vos ajudem a ello, fe-
gundo lhes per vós da noffa parte for requerido ; e
entom diredes aos ditos Juizes, e Officiaaes, que vos
dem aquelles, que vos affy foram dados em fcripto
pelo coudel , e anadal do luguar por beeíl:eiros do
conto > e os façam logo vír ante vós pera vós delles,
e
Do ANADAL MooR ETC. 413

e dos outros, que vos ja deram, efcolherdes aquelles,


que conprem pera comprimento do dito numero, e
dos beeíleiros do conto, que vós achardes, que em
effe luguar devia d'aver.
I 8 E Q1JANoo virdes, que os Juizes, e Officiaaes
o fazem maliciofamente , e os nom quiferem dar ,
ou nom fazem aquello, que lhis per vós <la noífa
parte for requirido , e mandado, e achardes , que
fom a ello negrigentes, e mal mandados, e vos que-
rem dcteer, e poer perlongua a os nom dar, recorree
vós a huú Tabeliaõ da noífa parte, que os cite, que
do dia, que citados forem a dia certo convinhavel
pareçam per peífoa perante Nós a dizer qual he a ra-
zom, porque vos nom dam logo comprimento dos
ditos beeíleiros, e aquelles, que milhares, e mais
perteencentes fom pera noífo ferviço. E mandamos
aos noífos Taballiaaês, e a cada huú dellcs , a que o
vós requererdes, e lhes noíl'a Hordenaçom for mof-
trada, que citem os ditos Juizes, eüfficiaaes do Con-
celho, feendo-lhe per vós requerido, e vos dem ef-
tormentos do dia do parecer fem dinheiro, e cnvia-
de-o a Nós pera o Nós veermos, e vos mandarmos
como fobre ello façades; e em tanto hiredes a ou-
tros lugares , e tornaredes per hi quando virdes nof-
fo recado.
19 E ESTA maneira avees affy de teer em a Ci-
dade de Lixboa, e Coinbra, e d'Evora, e na Villa de
Santarem , e na Cidade do Porto, e nos outros lu-
ga-
414 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA EOJTO

gares que achardes , que os Concelhos , que a Nós


fom obriguados a darem certos beeíl:eiros do conto,
como em todalas outras Cidades , Villas, e luguares,
que a Nós fom obriguados a darem certos beefiei-
ros; e o noífo Anadal Moor ho ha de fazer, porque
o entendemos affy por noffo fcrviço
20 E TEENDO affy feitos, e apurados os ditos
beeíleiros do conto em cada huú lugar , e feito , e
comprido o numero dos que achardes, que hi foya
d'aver, aífy dos que feitos eram, como dos que de
novo fezer-des , e vos aífy forom dados pelos ditos
Juizes , e Officiaaes , moíl:ralloedcs ao noífo Almu-
xarife, e Efcripvam dos luguares, honde os ou ver,
pera elles veerem fe foram feitos alguús beeíl:eiros ,
que a Nós ajam de pagar jugada, e oitavo, pera o
logo refretarem : e eílo fe entenda nos luguares , e
terras, e Comarcas, em que a Nos paguam juguada,
e oitavo.
21 E sE vos allegarem, que hi vaa poíl:o alguií,
que a Nós feja theudo de pagar a dita juguada, e
fordes dello certo, tirade-os de beeíl:eiros nas Cidades,
e Villas, e lugares, honGe achardes, que pelos Foraaes
antigos, ou privilegias noífos, ou dos ,Reix, que an-
te Nós forom , os beeíleiros do conto devem feer ef-
cufados de pagarem juguada; e logo os ditos Juizes,
e Officiaaes vos dem outros em feu loguo boõs, e per-
teencentes, como dito he: e nos outros luguares, hon-
de achardes, que polos ditos Foraaes, e privilegi os
nom
Do ANADAL MooR ETC. 415

nom forn efcufados de pagar juguada, vos nom lei-


xedes por tanto de os poer por beefieiros ; e fe os
achardes poíl:os leixade-os affi eílar , nem fejaõ por
tanto efcufados de pagar juguada.
22 E VENHAM affinados os ditos beefieiros, que
aífy forem per vós feitos , e efcolheitos , e apurados ,
e vos affy forem dados polos ditos Juizes , e Verea-
dores, e Procurador, e Officiaaes de cada huú lugar,
e poede-os vós em o dito livro, que pera ello fare-
des, pera defpois nom ferem tirados, nem mudados
por rogos de nenhúas peffoas, nem por outra cou-
fa, que feja, porque noffa mercee he de fe mais nom
tirarem, nem mudarem ; dando-lhes logo fuas cartas
de como os fazedes noffos beeíl:eiros do conto, e
dardellos em numero, e cm rool ao feu anadal de
cada huú lugar, e Hordenaçom perque os ajam de
veer, e reger como fe fenpre acuílurnou de fazer.
23 ITEM. Mandamos, que os ditos beefieiros do
como , aífy os que feitos fom , como os que de novo
fezerdes , tenhaõ boas beefias recebondas , e fortes,
que nom poffam armar ao cinto, falvo com folgua,
e com pollee, affy corno ora mandamos ufar ; e vós
affinade-lhe tempo convinhavel a que pareçam com
ellas perante o feu anadal, a faber ataa feis fornanas
logo feguintes, fegundo que virdes , que he a peffoa,
e a pode teer. E mandamos ao anadal, que os cof-
trangua, que as tenham, e que nom parecendo com
dlas ao dito termo perante feu anadal , mandamos
ao
416 LrvRo P.RIMEIRO TITULO SESSENTA E OITO

ao dito anadal, que conpre as ditas beeíl:as pelos bees


daquelles, que as nom reverem , nem com ellas pa-
recerem ao tempo , que lhes affy foi affinado, e lhas
façam teer: e nom o fazendo affy o dito anadal, man-
damos, que feja privado do dito officio, e façades
vós conprar as ditas beeíl:as aa cuíl:a dos ditos ana-
dees, e as d.ees a os ditos beeíl:eiros, por quanto noffa
rnercee he de os ditos beeíl:eiros do conto do noffo
fenhorio teerem mui boas beefras fortes, e que fe nom
armem, fenom com folgua , e com pollee pera com
ellas armarem maior beeíl:a, e mais folguadamente.
24 E MANDAMOS, que os ditos beeíl:eiros do con-
to nom fejam theudos de parecerem em allardo com
as ditas beeíl:as perante nenhú coudel, falvo perante
feus anadees, ou perante feu Anadal Moor, ou da-
quel , que noffo poder, e feu ou ver , porque affy fe
cuíl:umou fempre.
25 ITEM. Mandamos, que aquelles, que achar-
des que tem conthia pera teerem cavallos, ou beef-
tas de guarrucha com armas, fegundo per Nós he
mandado , e dado em regimento aos coudees , taaes
como efies nom façaaes beefreiros do conto ; e das
ditas conthias pera fundo vos fazede-os, feendo-vos
dados pelos officiaaes do Concelho, como dito he.
26 ITEM. Faredes em cada huú luguar os ditos
beefteiros do conto, que hi fempre ouve nos tempos
dos Reis, que ante Nós foram, e mais nom; e que
eftes fejam bem mancebos, e perteencentes, e os
rn1-
Do ANADAL MooR ETC. 417
milhor mantheudos, que hi ouver, que taaes vo-los
dem os ditos officiaaes pera noffo ferviço, fern efcu-
fando elles nem vós os que mais perteencentes forem
pera ello.
27 ITEM. Nos luguares, em que vos forem mof-
tradas algúas noffas cartas , perque mandamos, que
nom haja hi mais que certos beefteiros do conto,
pofto que em outro tempo hi ouveffe mais , manda-
mos-vos, que façades hi tantos beefteiros do conto ,
quantos hi foya d'aver nos tempos antigos, nom em-
bargando as ditas cartas , que affy de Nós ouverern :
com tanto que achedes hi tantas gentes , per que fe
poífam fazer boõs, e mancebos , e perteencentes pera
ello ataa o numero antiguo ; e nom achando hi tan-
tos, fazede aquelles , que mais poderdes fazer.
28 E Q.YANDO acontecer, que em alguús Iugua-
res nom achardes tantos mefteiraaes , ou íerviçaaes
pera fazerdes comprimento dos beeíl:eiros, que ou-
ver d'aver no luguar, e achardes alguús outros ho-
rneés mancebos, que ufem de tirar com beeílas, ou
que foro perteencentes pera ferem noffos beefteiros
do conto, pofto que nom ajam mefter, fazede-os
beefteiros de guifa , que em cada huú lugar façades
comprimento dos ditos beefteiros do numero, fe os hi
poder a ver, e mais nom: com tanto que tenham ca-
fas mantheudas com fuas molheres, e mancebas theu-
das, e nom fejam lavradores, nem homeés, que nos
ajam de paguar juguada, nem oitavo, como dito he.
Liv. I. Ggg 29
418 LIVRO PRIMEIRO TITULO S!!SSENTA E OITO

29 ITEM. Aquelles , que achardes, que eram


beefteiros do conto, e ora foro aconthiados em con•
thias de cavallos, e fezerem certo per Alvaraaes dos
no(fos coudees, que tem cavallos, ou os ham de teer,
mandamos-vos, que os tirees de beeíl:eiros, e os nom
ajades por beeíl:eiros do conto , e poende outros em
feu !aguo.
30 E Q!TANTO perteence aos que forem aconthia ...
dos em beeíl:a de guarrucha, e achardes, que antes
eram beeíl:eiros do conto , vos avede-os por beeíl:ei-
ros do conto, fe perteencentes pera ello forem, nom
embargando, que ajam conthia; e nom fejam cof-
trangidos pera teerem outras beeíl:as , nem outras
armas, falvo aquellas, que teverem em feendo beef-
teiros do conto, poíl:o que ajam conthia pera ello:
com tanto que tenham as ditas beeílas recebondas,
e que fe nom armem, fenom com folgua, e pollee,
como dito he.
3 I ITEM. Vos mandamos, que fe alguús beef-
teiros do conto dos que ataa ora foro feitos, allegua-
rem que fom lavradores , e lavrarem com junta de
bois , pofto que fejam meíl:eiraaes , ou ajam meíl:er,
ou lavram , e moram em noífos regueenguos , e forn
reguengueiros, e fazem certo que mais ufam da la-
voira, que do meíl:er que ouverem , vós tirade-os de
beeíl:eii:os, poíl:o que fejam meíl:eiraaes, e leixade-os
aos Concelhos, e poende outros.
3 2 E Esso meefmo nom os faredes de novo beef...
tei-
Do ANADAL MooR E.Te. 419
teiros, fe vos alleguarem que fom lavradores, ou que
moram , e lavram em nos ditos regueengos , pofto
que ajam meíl:er; e feendo achado, que ufam mais
por o mefter, que pela lavoira, que lavram, vós fa-
zede-os beeíl:eiros , como fe nom foffem lavradores,
porque fomos certo, que fe fazem lavradores de pou-
ca lavoira, por nom ferem beeíl:eiros do conto, ufan-
do mais do mefter que ou verem, que da lavoira.
33 ITEM. Vos mandamos, que façaaes os ditos
beeíl:eiros do conto em todalas Cidades, e Villas, e
lugares, julguados, e terras de meos filhos, e do
Conde-eílabrc, MeeH:res , e Hordeés, e em todalas
outras jurdiçooés, e coutos, e honras , e terras chaâs,
e em todolos outros luguares de noffo fenhorio , affi
nos luguares, em que ja forem feitos, como em quaa-
esquer outros luguares, em que ainda nom foffem fei-
tos, fegundo vós entenderdes, que compre por noífo
ferviço, nom embargando quaeefquer enbargos, que
vos fobre ello ponham, porque noífa mercee he de os
haver em cada hum lugar, nom fazendo mais defe ..
rença nas terras das Hordeés, que nos outros luguares.
34 ITEM. Tomarees por beefteiros do conto
quaeefquer homeés mancebos, que fe de feu tallan-
te fezerem noffos beefteiros do conto , fe forem ca-
fados ataa comprimento dos beeíl:eiros , que ha d'a-
ver no luguar, bonde moram : com tanto que nom
fejam lavradores, nem acontiados em cavallos, nem
guarrucha, nem que já fo{fem poíl:os em vintenas do
mar por gualliotes. Ggg l 35
420 LrvRo PRIMEIRO TITULO SESSENTA E OITO

35 ITEM. ~ando acontecer, que fe alguús beef..


teiros do conto mudarem dos lugares, donde moram,
e eram já beeíl.eiros e fe forem morar a outras par-
tes, mandamos , que nos luguares, que affi forem
morar, fejam coftrangidos, e avudos por beefteiros,
e poíl.os em o numero aalem do conto, e numero dos
que hi ha d'aver, pofto que o numero feja compri-
do; e nos luguares, honde ante moravam, faredes
outros em feu loguo, pera comprimento dos que hi
ha d'aver no luguar, honde affy moravam.
36 ITEM. Porque a Nós he dito, que aiguús da-
quelles, que Nós mandamos fazer beefteiros do con-
to, por nom ferem beefteiros, fe vaaõ obriguar nos
livros das Camaras dos Concelhos das noffas Cida-
des, Villas, e luguares, e dizem que querem teer ar-
nezes, e pooem-fe por homeés d'armas, nom haven-
do pera ello conthia, nem as teem , nem as moftram
aos tempos que lhes pellos Concelhos he mandado,
fazendo eíl:o maliciofamente , por fe efcufarern de
nom ferem poílos por noffos beeíleiros do conto :
mandamos-vos que o nom confentaaes a nenhuús que
fe façam homeés d•armas, porque fe efcufam de nom
ferem noffos beeíreiros do conto: falvo na Cidade de
Lixboa , e na Cidade do Porto , a que mandamos,.
que eíla coufa fe fezeffe, dando-nos as ditas Cidades
o comprimento dos beeíleiros do conto, que a Nós
fom theudos, e obriguados aos darem preftes, e boõs,.
e mancebos , e perteencentes , e mantheudos pera
noífo ferv1ço. 37
Do ANAOAL MooR ETC. 421

37 OuTRo sv mandamos aos ditos beefteiros do


conto, que affy forem feítos, e de novo fezerdes , fe-
jam aguardados, e compridos bem, e compridamen-
te feos privilegias, que lhes per Nós fom dados per
a guífa, que em elles he contheudo: com tanto que
elles, e cada huú delles dem as maaõs das aguias em
cada huú anno ao noffo Almuxarife, ou aas noffas
Juftiças, como per Nós he mandado; e aquelles, que
as nom derem , que lhe nom fejam guardados feus
privilegias, e que fejam porem avudos, e coftrangi-
dos. e fervam por beeíl:eiros do conto. pofto que
lhes o dito privilegio nom aguardem, ca noífa mer-
cee he de manteerern as ditas aguias, e as darem ca~
da huú anno. como dito he.
38 !TEM. Vos mandamos, que aquelles, que
achardes , que foram poftos por noífos beeíl:eiros do
conto, e ora achardes, que fom efcufados per noffas
cartas, e do noffo Anadal Moor , que pera ello tem
noífo poder, que os ponhaaes em titulo apartado, e
os lugares, bonde fom moradores, e a razom, porque
os efcufam, regiílando as forças das cartas em voífo
livro, guardand0-lhes porem as ditas cartas para as
Nós veermos, e fabermos a razom, porque foram ef
cufados; e nam os coftranguades, que fejam beeíl:ei-
ros do conto, ficando aos Concelho'>. Dante em Al-
dêa Guallegua primeiro dia de Novembro. ElRey o
mandou. Era de mil e quatrocentos e quarcmta e oi..
to annos.
T 1-
422 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

T I T U L O LXVIIII.

Das duvidas, que Vefco Fernandes, e Joham de Baj}o


moverom a E!Rey Dom J oham Jobre a apuraçom
dos beejleiros, e gualliotes.

S ENHOR. Vafco Fernandes, e Joham de Bafl-o,


que per voffo mandado andamos apurando os
beeíleiros do conto, e gualliotes dos voífos Regnos,
fazemos faber aa Voífa Mercee, que em as ditas apu-
raçooés, que vós affy mandaíl:es fazer, achamos al-
guas duvidas contheudas em efl-e caderno, as quaees
por voífo ferviço compre ferem declaradas , por fa_
bermas a maneira, que em ello a vemos de teer: fe-
ja voífa mercee de no-lo declarardes. As quaees du-
vidas fom eíl:as, que fe feguem.
1 ITEM. Alguús eram poíl:os por gualliotes
nas vintenas, e deípois fe forom fazer beefl-eiros de
cavallo,e em as ditas cartas de privillegios, nom faz
mençom que os tirem da vintena: he aNós duvida
fe ham de ficar por gualliotes , fe por beefteiros de
cavallo. Seja voíla mercee de o declarardes.
Diz E!Rey, que porque no privillegio nom faz
mençom , que os tirem da vintena do mar, fe em
ella fom poíl:os, que manda, que fiquem poíl:os em a
dita vintena , fe e~ ella primeiro forom efcriptos,
que ouveffern os ditos privillegios. z
DAS DUVIDAS' Q.YE V .ASCO FERNANDES, ETC. 423

2 ln:M. Alguús eram outro fy poílos por gual-


liotes na vintena do mar, e fezeram-fe defpois mon-
teiros , e homeés da adiça , e moedeiros , e vallado-
res. e paífareiros. Compre por voífo ferviço de man-
dardes, fe taaes como efies ferom tirados da dita
vintena.
Drz E!Rey, que os nom tirem da vintena, nom
enbargando os meíl:eres, e officios que aífy tomarem,
pois primeiro forom poíl:os.
3 ITEM. Alguiís moflram voífas cartas, per que
allegam feos negocios, e os provam per teílemunhas,
e mandades, que os tirem das vintenas, e ponham
outros em feu logo ; e porque outros em feu loguo hi
nom ha, que fejam poíl:os , duvidamos de os tirar.
Diz E!Rcy, que os tirem, ainda que outros hi
norn haja, que ponham em feu loguo.
4 ITEM. Em alguiís luguares da cofia do mar, e dos
rios, gualliotes fom cofirangidos pelos Concelhos pe-
ra correrem os lobos cada fabado , nom enbargando,
que fom efcufados dos encarreguos do Concelho.
Mandade fe ferom dello efcufados.
Drz ElRey , que fejam efcufados de correr os
lobos, falvo fe teverem guaados, que entam os vaaõ
correr com os outros.
5 ITEM. Alguús eram poíl:os na vintena do mar,
e allegam , que por teerem doos arneífes per con-
thia, que lhes foi achada, que devem feer tirados da
vintena , como fe teveffem cavallos.
Diz
424 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

Drz E!Rey, que os tirem da vintena.


6 ITEM. Alguús vintaneiros por malquerença, e
maa enformaçom nomeam , e dam em efcripto al-
guús homeés, e os pooem nas vintenas do mar, nom
ufando de mar, nem de rio, nem íom daquellas pef-
foas , que a voffa Hordenaçom manda poer nas vin-
tenas, os quaees fe agravam, que fom poílos mallici-
ofamente. Mandade fe averam por ello efcarmento.
Diz E!Rey , que o que pofer homem na vinte-
na malliciofamente, que aja efrarmento, fabendo-fe
a verdade como foi poílo, a íaber, que o dito vinta-
neiro feja poíl:o por gualliote na dita vintena; e vós
fazedc outro vintaneiro em feu loguo.
7 ITEM. Alguús fom poílos, e nomeados pelos
vintaneiros na vintena do mar, dizendo que uíam
das couías contheudas em a voffa Hordenaçom, e em
parte dellas , e elles como fe fentem poflos, agra-
van-fe perante as voffas juíl:iças, e veem-fe aos do
voffo Defembargo, e lhes contam as coufas, de que
elles nom ufam , e leixam aquellas , porque forom
pofios, e lhes dam cartas ,/e ajfy he, pera as juíliças,
que os tirem , e ponham outros em feu loguo , nom
feendo a eíl:o chamados os vintaneiros pera allega-
rem a razom , porque os poferom em as ditas vinte-
nas. Conpre que mandedes, que quando alguús eíl:o
alleguarem, que os vintaneiros eftem prefentes pera
darem fua defefa, e que o Anadal Moor aja defio
conhicimento, e enforrnaçom como forom poíl:os.
MAN-
DAS DUVIDAS J Q17E V ASCO FERNANDES J ETC. 425

MANDA EIRey, que nenhuú do feu Defembar-


guo nom dê carta a nenhuú defies taaes, perque aja
deíl:o conhecimento nenhuü Corregedor, nem Juiz,
nem Jufiiça da terra, mas que lhas dem pera o Ca-
pitam , e que elle os ouça, e livre com feu direito,
fegundo as Hordenaçooés, que fobre efio fom feitas.
8 ITEM. Alguús fom pofios nas vintenas do mar,
e allegam, que ferviram na guerra em campanha de
Johaõ Guallego, e foram regataaés da Corte, e por-
que ufaram do mar, e rio a pefcar, foram pofios pe-
los vintaneiros nas vintenas, e elles mofiram voífas
cartas, per que os a vedes por cfcufados dos encarre-
guos dos Concelhos, e agravan-fe de ferem pofios
por gualliotes. Mandade como fobre ello façamos.
Diz EIRey, que os nom tirem da vintena, e os
leixern fiar aífy quedos.
9 ITEM. AJguús vintaneiros dos homees do mar
de Lixboa, e de Setuval , e dos outros luguarcs da
cofia do mar dantes feitos fezeram fuas vintenas de
vinte , fegundo em a voífa Hordenaçom he con-
theudo; e porque defies horneés parte delles fom
mortos, e fogidos da terra, as vintenas ficam min-
guadas. Seja voífa mercee de rnandar-des fe o refa-
rorn de vinte homeés , húas polas outras, [e os vin-
taneiros cada huú per fy nom poder fazer conprida
de vinte horneés conhecidos.
Diz ElRei, que nom aja hi vintaneiras, falvo
de vinte homeés , e norn menos, e fe menos tever •
Liv. L Hhh nom
4 i6 LIVRO PRIMEIRO T1 TULO SESSENTA E NOVE

nom feja vintaneiro, fegundo em noiTa Hordenaçom


he contheudo.
10 lrEM. Alguús beeíl:eiros do conto moíl:ram
as beeílas , que nom fom fuas; e outros moíl:ram as
beeílas, que nom fom de receber) e com perfia nom
querem hir ao terreiro, nem querem jugar, nem ti-
rar com as beeíl:as; e outros teem beeíl:as tam fortts,
que as nom podem armar; e outros as nom podem
aver com pobreza. Seja voffa mercee, que mandees,
em todo eíl:o como for voífa mercee.
Diz ElRey, que o Anadal Moor faça fobre ef-
tas coufas como entender por mais feu ferviço, e que
a elles requeirades fobre ello.
1I ITEM. Alguús beeíleiros feitos, e aílinador
per maaõ dos Concelhos fe veem agravar aos do vof-
fo Defembarguo, nom lhe recontando a verdade , e
levam carta, .fe qlfy he, pera as juíl:iças dos lugares,
donde fom moradores, pera tirarem inquiriçooés ,
fem feendo as ditas cartas moílradas ao Anadal, nem
fendo chamados pera a inquiriçom os Anadees dos
ditos lugares, donde fom moradores, pera poerem
contra ellas ha razom, porque foram poílos por beef-
teiros, pera ferem pofios outros cm feu loguo. Se-
ja voífa mercee mandardes como fe faça.
MANDA E!Rey, que nenhuú do feu Defembar-
guo nom dê carta á nenhuú deíl:es , perque aja deílo
conhicimento nenhum Corregedor, nem Juiz, nem
jufüça da. terra, mas que lhas deml pera o Anadal
Moor
DAS DUVIDAS, Q.yE VASCO FERNANDES, ETC. 427

Moor, que elle os ouça, e livre com feu direiro, fe_


gundo as Hordenaçooés, que fobre eíl:o fom feitas.
12 ITEM. Alguús fom gualliotes, e poíl:os em
vintenas, e por averem aazo de fairem das vintenas,
fe fazem grumetes, e marinheiros, e provam por teí-
temunhas que o fom.
Drz ElRcy, que lhe guardem feu coíl:ume, e os
ajam por marinheiros, fe forem feitos marinheiros
como devem , fegundo he contheudo nas Hordena-
çooés per elle feitas.
I3 ITEM. Alguús marinheiros defpois que affy
fom tirados das vintenas, fe lançaõ a pefcar, e nom
paffam o mar em cada huum anno, fegundo ante fa_
ziaõ, quando eram gualliotes. ~e mandaífemos fe
taaes, como eíl:es, fe os tornariam aas vintenas, por•
que nom ufam a paffar o mar.
Diz E!Rey, que os ajam por marinheiros.
14 VAASQYO Fernandes, e Joham de Baíl:o. Nós
E!Rey vos mandamos muito faudar. Fazemos-vos
faber, que vimos as cartas, que nos enviaíl:es per ra-
zom d 'alguãs duvidas, que fe vos recrecerom, affy
em feito dos Beeíl:eiros do conto, como dos guallio-
tes, e homeés d 'armas, que per noífo mandado an-
dades apurando na Comarca de Antre Tejo e Odia-
na , e no Regno do Algarve, em que nos pedis por
mercee, que vos mandaffemos a maneira, que fobre
ello teveifces, e entendemos bem todo.
15 E AO que nos enviafies dizer que algutís eram
Hhh 2 beef-
4 28 LrvRo PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

beeíleiros do conto, e eram pera ello perteencentes,


e fom ora aconthiados em beeílas de guarrucha ; e
que em a noífa Hordenaçom he contheudo, que pof-
to que alguús beefteiros do como fejam beefteiros de
guarrucha, e ajam pera ello conthia, que fejam to-
davia beefteiros do conto , e nom fejam coftran-
gidos para ferem beeíl:eiros de guarrucha; e que al-
guús deftes taaes allegam , que lhes feja guardada a
dita Hordenaçom, ca elles querem ante feer beefreL
ros do conto, que da guarrucha ; e que vós teendes
efta maneira quando achades ho conto e numero an-
tiguo per outros, que nom fejam de conthia de beef-
ta de guarrucha, que deftes taaes comprides o nu-
mero. E que por quanto fe elles agravam defto, que
Nós mandaífemos como fariades.
A ESTO mandamos, que fe defpois que eíles forem
poílos por beeíl:eiros do conto, fervirom como beef-
teiros , e lhes defpois foi achada conthia pera teerem
beeflas de guarrucha , nom feJam coílrangidos pera
ferem beefteiros de guarrucha, pofto que para ello
ajam conthia, e fiquem por beefieiros do conto, e
fervam como beefteiros do conto; e pofl:o que vos
faleçam alguús beefteiros do conto pera encher o nu-
mero antiguo, vós nom tomedes em nenhúa guifa
dos beeíleiros de guarrucha, mas a vede-os doutros,
que ficarem em cada huú lugar, e feu termo.
16 E AO que dizedes, que em alguús luguares
alguús horneés fom dados por becficiros do conto pe-
los
DAS DUVIDAS J (UJE V ASCO FERNANDES J ETC. 429
los Concelhos, e pelos Coudees em feendo piooés; e
que defpois que affy fom beeíleiros, allegam que fom
pobres, e trabalham- fe ferem dello efcufados; e quan-
do veem que o nom podem feer, alleguam que que-
rem teer beeíl:a de guarrucha, e delles cavallo fcm
armas , nom havendo conthias ; e que muitos deíles
taaes nom teem cavallos, nem beeftas de guarrucha,
e ficam efcufados de todo.
E <ur ANTO he dos que fe affy fezerom beeíl:eiros de
guarrucha feendo beeíl:eiros do conto, Nós ja no ca-
pitulo ante defle o declaramos como avedes de fazer;
e quanto he dos que vos novamente fom dados por
beeíl:eiros, que querem antes teer per fuas vontades
beeíl:as de guarrucha, ou cavallos fem armas, poíl:o
que nom ajam pera ello conthias, vós fazede como vos
juntedes com o Coudel, e Efcripvam do luguar, hon-
de eílo foi, e prefente elles digam fe querem teer de
fuas voontades as ditas beeíl:as de guarrucha, ou ca-
vallos, pofto que nom ajam pera ello as conthias; e
fe differem, que fy, efcrepvam- no aífy no livro da
coudellaria pera os coílrangere m, que as tenham dhi
en diante; e efto meefmo ho cfcrepvede vós em vof-
fo livro, e affyne-o o dito Coudel , e Efcripvam pe-
ra no-lo vós moílrardes , e Nós podermos defpois fa-
ber fe eftes taaes teem as ditas beeftas de guarrucha
com fuas armas, ou cavallos fem armas , aífy como
fe obriguarom ; e feendo achado, que reem a dita
beefia de guarrucha com armas, ou cavallos fem ar-
mas ,
430 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

mas , vós nom os coíl:ranguades por beefteiros do


como.
17 ITEM. Ao que dizees que em effa Comarca
d' Antre Tejo e Odiana, e no Alguarve nom foma-
chados lavradores , falvo os que lavram continuada ..
mente com duas , e tres, e quatro juntas de bois , e
nom ufam em outra coufa; e que os que fom lavra-
dores de uma junta de bois nom lavram continuada-
mente; e que em alguús luguares , porque nom po-
de feer comprido o numero dos beeíl:eiros, que hi ha
d'aver, d'homeés fem lavra, que por eíl:o, e porque
os Concelhos davam por beeíl:eiros taaes como eíl:es >
aa mingua doutros, que vos os poendes por beeíl:ei-
ros, porque nom lavram continuadamente, nem fom
a vudos por lavradores; e que elles fe agravam deíl:o,
e dizem, que porque fom lavradores , e teem bois~
que os devees de tirar do livro. E que por quanto
eíl:a coufa a vós era duvidofa , que vos mandaffemos
como fariades.
Nós A taaes , como eíl:es , que affy teverem húa
junta de bois, e lavrarem com elles, todos os a vemos
por lavradores; e porem vos mandamos, que os nom
ponhaaes por beeíl:eiros ; e os que ja poftos fom, que
os tirees, e ponhaaes outros em feu loguo, que fejam
perteencentes, fe os no lugar ouver.
18 E AO que nos dizer enviaftes, que alguús eram
beefieiros do conto , e que ora porque fom velhos , e
mancos, e cegos, e alleijados , a taaes, que nom fom
per-
DAS DUVIDAS> QgE V Asco FERNANDES , IT c. 431
perteencentes pera beefieiros, e que per quanto nom
ham a hidade de fetenta annos , ficam aos Conce-
lhos; e que elles fe agravam deflo muito, e dizem,
que ante querem feer beeficiros de fuas voontades,
que ficarem aos Concelhos , pois nom ham guallar-
dom do tempo, que fervirom por beeíleiros. E que
mandaffemos a maneira, que fe teria em taaes como
efi:es.
Nós MANDAMOS, que faibaaes certamente fe fer-
virom por feos corpos em guerra , ou em armada a
Nós, ou aos Reix, que ante Nós forom ; e fe per ra-
zom de fervirem em as ditas guerras, ou armadas ou-
verom os ditos alleijarnentos, que ham, que a aquel-
les, que em taaes coufas fervirom, e ouverom os di-
tos alleijamentos, ou cajooés fem outra duvida fejam
guardados feos privillegios , e aos outros nom , e fi-
quem aos Concelhos.
19 ITEM. Ao que dizees , que alguús ditos beef-
teiros do conto dam as maaõs das aguias aos Almu-
xarifes, e aas jufüças em cada huú anno , e que por
quanto as nom dam no mez de Mayo, ou por Sam
Joham , nem aos tempos, que per Nós he mandado,
que as jufüças > e os noífos Almuxarifes lhas nom
querem tomar; e que por efio lhes nom querem guar-
dar, nem fom guardados feos privillegios, e fervem
com os Concelhos aquelle anno, e que os ditos beef-
teiros nos pediam por mercee , que lhes ou v.effemos
fobre ello rem.edio.
E
432 Lrv.Ro PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

E Nos mandamos , que em qualquer tempo do


anno, que elles derem as ditas maaõs d'aguias , que
lhes fejam recebidas , e lhes fejam guardados feos
privillegios, pofto que as nom dem aaquelles tem-
pos, que per nós fom affinados : e outro fy manda-
mos, que os beefieiros, que forem fritos novamente.
que do dia, que aífy forem poílos por beeíl:eiros ataa
huú anno dem as ditas maaõs d'aguias , e que ante
d'huú anno nom fejam por ellas coníl:rangidos.
20 E AO que nos dizer enviaíl:es, que os ditos
beeíl:eiros fe agravam contra os Concelhos, porque
-quando vaõ fervir com prefos , ou com dinheiros,
lhes nom querem dar por feu mantimento por dia a
-cada huú mais de trinta foldos, que fom contheudos
em feos privillegios, que lhes furom dados na era de
mil e quatrocentos e trinta e cinco annos, da moe-
da , que cntom corria. E que fo!fe noífa mercee, que
<leclaraífemos quanto agora aviam d'aver.
Nós MANDAMOS, e declaramos que elles ajam
cada huú dez libras por dia.
21 lnM. Ao que dizees, que os ditos beeíl:eiros
fe agravam, porque os Concelhos mandam com os
dinheiros , ou com os prefos tres , ou quatro delles ,
e outros tantos de piooés, e que deíl:a guifa eram cf-
cufados os piaaês, e ferviam elles. E que nos pediam
por mercee, que déc!araífemos a quantos piaaés ferá
dado huú beeíl:eiro, quando afiy ouveífern de fervir.
Nós MANDA Mos que a tres piaaés dem huú beef-
teiro, e aífy multiplicando~ 22
DAS DUVIDAS, Q.YE VASCO FERNANDES, ETC. 433
22 ITEM. Ao que dizees, que em eífas Comarcas
forom feitos alguús beefteiros do conto em tempo ,
que nom eram lavradores , e que ora porque fom ja
lavradores, e lavram continuadamente com duas , e
tres , e quatro juntas de bois , e a11egam que devem
feer efcufados de beefteiros; e que os Concelhos, por-
que nom acham outros mais perteencentes, que nom
lavrem, e vós outro fi nom achades outros pera com-
prir o numero antigo, duvidades de os efcufar. E
que porem no-lo faúades a faber pera Nós mandar-
mos como fobre ello fariades.
Nós MANDAMos-vos, que aquelles, que aífy forem
lavradores, que os ti redes de beefteiros; e ponhades
outros em feu loguo, que fejam perteencentes , fe os
hi ou ver; e em cafo que nom, vós toda via tirade do
livro os que forem lavradores, como dito he.
23 E AO que nos efcrepveíl:es, que alguús la-
vradores, porque fabem tirar com beefi:as , e as tem
de feu , querem feer beefteiros do conto per fuas
voontades, e outros, que o ja eram, vos requerem
que os nom tiredes.
Nós MANDAMos-vos que taaes, como eftes, que
aífy forem lavradores, e quiferem feer beefteiros de
fuas vontades , que os tomedes, e ponhades em vof-
fos livros ; e os que ja forom poftos , que os nom ti-
redes; e poende nos livros como elles de fuas vonta-
des o querem feer, e affynem-no per fuas maaõs por
defpois ho nom poderem contr~dizer. Outro fy fezef-
Liv. L Iu tes
434 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

tes bem por nos enviardes os beefteiros do conto, e


os homeés d'armas, que achafies em eífa Comarca
d 'Antre Tejo e Odiana, e do Regno do Algarve. Dan•
te em Santarem dezafeis dias d' Abril. EIRey o man-
dou. Joham Affonfo a fez.
24 E AO que nos mandaftes dizer , que em al-
guus Julguados, e Comarcas forom feitos beefteiros
na Era de quatrocentos e trinta e feis annos, e que
deftes forom ora por vós efcolheitos alguús , porque
achaftes, que eram mefteiraaes, e eram pera ello per-
teencentes , como quer que lavram com junta de
bois; e que de novo nom achaíl:es-nenhuús, que po-
deífedes fazer beefteiros em loguo dos que tiraíl:es
por velhos, e nom perteecentes, porque fom todos
lavradores, e nom ufam de meíl:er; e poíl:o que dos
meíl:eres ufam, que logo provam , que ufam mais
da lavoira, que dos mefieres ; e que por eíl:o nom
fezeíl:es nos ditos J ulguados , e Comarcas beeíl:eiros
de novo; e que aquelles, que aífy ficam, vos reque-
rem que os tirees, dizendo que fom lavradores; e
que por os ditos Julguados nom ficarem fern bec:f-
teiros, que duvidades de o fazer. E que foífe noífa
mercee de vos mandarmos como fobre ello faredes.
Vós FEZESTES bem em leixar no livro eífes, que
achaftes que eram perteencentes pera beeíl:eiros, e
mandamos-vos, que aquelles beefi:eiros, que fallece-
remem cada huií Julguado, ou luguar do numero
antiguo, que o façades daquelles, que forem mais
per-
DAS DUVIDAS, Q!!E VASCO FERNANDES, ETC. 435
perteencentes , e ouverem mefteres , pofto que ufem
da lavoira ; e efia meefma maneira teende vos nos
outros Julguados, e luguares, ca nom ferá noffo fer-
viço ficarem fem beefteiros nenhuús. Dante em Lix-
boa a vinte dous dias de Dezembro. ElRey o man-
dou. Rodrigo Affonço a fez.
25 Os Q.!JAAES Alvaraaes, e Cartas, e Hordena-
çooés per Nós viftas, achamos, que eraõ bem bor-
denadas, e por tanto mandamos que fe compram, e
guardem , affy como em ellas he contheudo.
26 Nos o IFANTE fazemos faber a vós Juízes,
Vereadores, e Procurador, e homeés boos de todas as
Cidades Villas , e luguares do Regno d'ElRey meu
Senhor, que Nós a vemos per certa enformaçom, que
em muitos deíl:es luguares dos beefteiros do conto,
que em cada huú delles ha d'aver, fegundo o nume-
ro antiguo, nom fom dados, nem compridos por min-
gua dos officiaaes , que foram , e ora fom , e quando
lhos requerem , fe fazem em ello muitas fayorias , e
outras coufas deshordenadas, de que fe o povoo mui-
to agrava, do que a Nós nom praz. E veendo, e con-
firando eíl:as coufas por os povoas ferem relevados
deíl:e encarreguo, e o milhor poderem foportar, com
acordo d'ElRey meu Senhor, e feu mandado horde-
namos de fazer ora novamente huú nu mero de todos
os beefteiros, que ha da ver em cada húa Cidade, Vil-
la, e lugar dos ditos Regnos.
27 E PARA cílo fe milhar poder fazer mandamos
Iii 2 per
436 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

per ante Nós vir Vaaíco Fernandes de Tavora , que


ora tem carreguo defia coufa por Affonfo Furtado
Anadal Moor , e Armom Botim Escripvam do dito
officio , e vimos, e proveemos com elles os livros ,
em que fom efcriptos, e contheudos todos os beef-
teiros do conto dos Regnos , e em algúas Cidades , e
Villas achamos os numeros antigos dos beeíl:eiros,
que aviam de dar , minguados grande parte delles;
efcufando-fe deíl:o o dito Vaafco Fernandes , e Ar-
mom Botim, que leixavaõ de feer os ditos numeros
conpridos per mingua dos officiaaes , que entom e-
ram, a que os elles requeriam, e nom lhos davam; e
que eíl:o entendiã porem, que era mais polos na ter-
ra nom aver, que por lhes os ditos officiaaes ferem
negrigentes; e lhos nom darem , fe os hi ouveffe.
28 E Nos veendo, e confirando todas eíl:as cou-
fas, poíl:o que o numero d'ElRey meu Senhor, e
d' EIRey Dom Fernando meu Tyo , e d'EIRey Dom
Pedro meu A voo , cujas Almas DEOS aja , muito
maior feja em algúas Cidades , e Villas, e luguares ,
mandamos , que daqui en diante hi n-0m aja mais
beeíl:eiros, nem fejam aífeentados de novo, que aquel-
les , que fom contheudos, e aífeentados nos livros,
que traz o dito Vaafco Fernandes, e Armam Botim,
que lhe forom dados por officiaaes, que forom, e ora
fom ; e que eíl:es , que affy íom dados , ajaaes antre
vós cada huús em fcus luguares per numero, fegun-
do ao diante vaaom declarados quantos fom em cada
huú.
DAS DUVIDAS, QYE VASCO FERNANDES ETC. 437
huú luguar , feitos fegundo forom dados pelos ditos
officiaaes , e ailinados per elles.
29 E SEENDE avifados vós ditos officiaaes, ou ou-
tros quaeesquer , que eíl:o ouverem de veer , que co-
mo alguú deíl:es beefieiros fallecer, que logo lhes dees
outro, que ponha em feu nome, e feja daquellas pef-
foas, que fe devem de dar; a faber, d'homeés man-
cebos, e de meíleres, affy como çapateiros , alfaya-
tes , carpinteiros , pedreiros, almocreves, e reguataa-
~s , e tonoeiros, e de quaeefquer outros meíl:eres , e
fejam e a fados, e per fy caías manteverem , poílo que
cafados nom fejam, e com tanto que nom fejam la-
vradores , que continuadamente lavrem com huma
junta de bois : em tal guifa, que fenpre continuada-
mente em cada húa das ditas Cidades, Villas , e lu-
guares aja os beefieiros , e os nu meros delles nom de-
fallecendo, ante fejam bem preíl:es, e aparelhados pe-
ra ferviço d'E!Rey meu Senhor, e pera defenfom de
feus Regnos.
30 E PERA fe concordarem, e aprovarem os di-
tos numeros , mandamos ao dito Vaafco Fernandes,
e Armom Botim , que fe vaão per todas as Comar-
cas, pera fazerem comprir os que minguarem , fe--
gundo fom efcriptos em feus livros , e pera fazerem
tirar alguús , que- per velhice , ou neceilidades nom
poderrm fervir, e lhes dardes ou"tros em feus nomes,
fegundo efto mais compridamente he contheudo em
outro Regimento, que levam. E o numero dos beef-
tei-
438 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

teiros, que em cada huúa das ditas Cidades, Villas, e


luguares ha d'aver, fom eíles, que fe feguem.

Ejles Jom os Luguares da Comarca d'Antre 7'ejo e


Odiana, em que ha d' aver ejles beejleiros do conto,
Jegundo he hordenado.

ITEM. Setuval ha Verde . . . . 12


d'aver ....•. 65 ITEM. En Alvallade . 12
ITEM. Alcacer. .... 30 ITEM. Em Aljuíl:re . 10
ITEM. Santiago de ITEM. Em Guar. . . 18
Cacem.. • . . 20 ITEM. EnAlmoda ver. 1 I
!TEM. Sines. . . • . . 1o ITEM. Beja de numero 80
ITEM. Odomira. . . . I2 ITEM. Serpa . . . 30
!TEM. Aljazur. . . . . 10 ITEM. Em Moura • 10
ITEM. Lagos . . . . . 25 ITEM. Mourom. . . 10
ln:M. Silves ....•. 30 ITEM. Olivença . . . 40
ITEM. A Albofeira .. 10 ITEM. Em Elvas . . 80
ITEM. Em Loulé . 20 !TEM. Campo Maior 20
ITEM. Em Faarom . 30 ITEM. Em Ougella . . 2
ITEM. Tavira . . . . 30 ITEM. Em Arronches 2s
!TEM. Claíl:o Marim. 16 ITEM. En Allegrete . 8
ITEM. Alcoutim . . 20 ITEM. Em Portalegre 30
ITEM. Mertolla . . . 40 ITEM. Em Marvom . 25
hEM. Em Ourique . 18 ITEM. Caíl:el da Vide 20
ITEM. Em Meífejana ITEM. Em Niía . .
12 25
ITEM. Em Ferreira 12 ITEM. Na Vimieira • 6
ITEM. Em Craíl:o ITEM. No Crato
DAS DUVIDAS , Q.!TE VASCO FERNANDES ETC. 439
ITEM. Alter do Chaaõ. 8 ITEM.As Alcaçovas • 10
ITEM. Em Avis ••• 30 ITEM. Viana de par
ITEM. O Cano • . • 12 d'Evora • . . 12
I n:.M. Soufel • • . • 2 5 ITEM. Arrayolos . . 15
ITEM. Em Fronteira . 20 ITEM. O Torrom . . 1 8
ITEM. Cabeça da Vide. 1 8 ITEM. Ai viro . . • • 12
ITEM. Monforte . • 25 ITEM. A Cidade de
ITEM. Em Vieiros .• 16 Evora . . . 100
!TEM. Villa Viçoza • 30 ITEM. Monte Moor . 30
ITEM. No Landroal . 1 2 ITEM. Almadaã 60
ITEM. Borba . . . • 20 ITEM. Zezimbra • . 20
ITEM. Eíl:remoz . . 40 ITEM. Palmella . . . 25
lTEM. O Vimieiro . 15 ITEM. Couna • . . • 13
ITEM. Evora Monte . 24 ITEM. O Lavradio . 28
ITEM. O Redondo .. 12 ITEM. Alhos Vedros 16
hEM. Monfaraz ... 30 ITEM. Aldea Guale-
ITEM. Em Portel . . 25 gua . . . . • 12
ITEM. Na Vidigueira. 10 ITEM. A Povoa do

ITEM. Vi lia Ruiva . • 8 Montigo. . 8


ITEM. Vilia Nova • • 12 ITEM. Alcouchete 26

Dos beefleiros do conto da Stremadura.

ITEM. Lixboa . . . 300 ITEM. A Arruda 26


1T EM. Cafcaaes 20 lTE M. Villa Franca
ITEM. Sintra . • . 20 e Caíl:ínheira
ITEM. Collares . . 10 e Povoas . . 15
ITEM. Chilheiros . • 7 lTE.M. A Azambuja. ro
ITEM-
440 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

lrEM. Allanquer •. 25 ITEM. Parcos . • • . 1


!TEM. Aldêa Gualle- ITEM. Alvaiazer . . 5
gua de Mar- ITEM. O Julguado de
ciana . . . . I 5 Maçaãs • • . . 3
ITEM. Torres Vedras 50 ITEM. O Anel . • 1

ITEM. A Lourinhaã . 10 ITEM. A Regoa 51


hEM. A Atouguia 15 ITEM. Penella .
hE M. Obidos . . . 23 ITEM. O Rabaçal . ·. 13
ITEM. O Cadaval . . 7 ITEM. Miranda do
hEM. O Couto d' Al- numero • . • 8
cobaça .••• 28 ITEM. Podentes . . • 2
ITEM. Porto de Moos 15 ITEM. Pena Cova . • 7
ITEM. Leirea . . . • 40 ITEM. Coimbra . . IOO
ITEM. Villa Nova h~M. Monte Moor
d'anços 2 o Velho . 30
ITEM. Soure . . • . 20 ITEM. Buarcos . • . • 5
ITEM. A Egua . . . 4 ITEM. A Aveiro . • 13
ITEM. A Radinha 5 ITEM. Cantanhede • I o
ITEM. Pômbal de ITEM. A vellaãs de
numero . . . I 2 Caminha . • I I
ITEM. Torres Vedras ITEM. Agueda, e
numero • • . 30 Vougua .••• 2
ITEM. Alcanede, e ITEM. A Arrifana de
Pernes . . • . 15 Santa Maria . I 3
ITEM. Santarem . 100 ITEM. Villa Nova de
ITEM. Abrantes e Gaya de nu-
Punhete . 30 mero • • • • 15
ITEM. Tomar . 40
Dos
DAS DUVIDAS, Q.YE VASCO FERNANDES ETC. 441

Dos beejieiros d' Antre Doiro e Minho.

!TEM. A Cidade do ITEM. Ponte de Li-


Porto . . . . 40 ma . . . • . . 30
hEM. O Julguado de lrEM, O Julguado de
Bouças • . . 12 Nouregua, e
ITEM. O Julguado de Ponte da Barca. 9
Zurara . . . . 5 Monçom. • • 14
ITEM. O Julguado da ITEM. Melguaço. • 3
Maya . . . . 7 ITEM. Vallença de
ITEM. O Julguado de numero . . 16
Rafoyos . . . 2 ITEM. O Julguado de
ITEM. O Julguado Villa Nova , e
d'Aguia, e de de Cerveira . . 6
Soufa . . . . 9 ITEM. Caminha . 9
ITEM. O Julguado de ITEM. Viana . . 8
Penafiel . . . 24 ITEM. Barcellos . . 19
ITEM. Guimaraaês . 1 oo ITEM. Penafiel de

hEM. A Louíada . 14 Baíl:o . • . 5


lTE M. Montelongo . 6 ITEM. O Julguado de
!TEM. Lanhofo . • • 3 Neiva . . . . 7
ITEM. Vieira . . . . 4 ITEM. O Julguado de
ITEM. O Julguado de Faria e Rates • 33
Soajo. . . . 3 ITEM. O Julguado de
!TEM. A Cidade de Vermoim e Vil-
Bragaa. . . 50 la Nova de Fa-
}TEM. O Julguado do millicom . • 2 I
Porto. 12 ITEM. O Julguado de
Liv. L Kkk Bar-
442 LIVRO PRIMIJRO TITULO SESSENTA E NOVE

Barremoe ••• 6 ITEM. O Julguado de


ITEM. Villa de Conde Santa Cruz • • +
e a Povoa . • II ITEM. Canavefes . • 19
hE M. Amarante • . 1 5 ITEM. Cerollico de
1T EM. Porto Carreiro I 5 Baíl:o . • . . 17
ITEM. A Honra ln:M. Cabeceiras de
d•Unhom 8 Ba!l:o • . . . II
hE M. Felgueiras IJ

Dos beejieiros do Conto da Comarca de 'Trai/os


Montes.

ITEM. O Couto de Loordello • • 3


Çooes . . • • 4 !TEM. O Couto de Pa-
hE M. O Julguado de rada de Pinhõ . 2
Sulhaaés . . • 4 ITEM. O Julguado de
ITEM. O Julguado de Favayos . • • 5
Gouvea . . . 5 ITEM. Villa Real . . 30
In:.M. O Julguado do !TEM. O Julguado de
Pefo . . . . . 6 Pena • . . • • 5
hEM. Canellas • • . 7 ITEM. O Julguado de
ITEM. O Julguado de Grãde Pena • I 3
Geeíl:ado . . • 8 ITEM. Monte Alegre,
ITEM. O Julguado da e Barrofo 20
Teixeira . . . 2 ITEM. Terra de
ITEM. Mondim . . . 4 Chaves . . • . 30
ITEM. Pena Guaiã • I 2 hE.M. Monforte e Rio
ITEM, O Couto de livre • . • . . 10
ITEM.
DAS DUVIDAS, Q.YE VASCO FERNANDES ETC. 443
lTE M. O Julguado de boo pofto . . • 2
Murça . . . . 10 ITEM Freixo d'Eípa-
ITEM. Lamas d' Ori- dacinta . • . 10
lhom . • . . . 2 !TEM. Caíl:el de Mooés 2
ITEM. Mirandella .• 7 lTE M. A Torre de
ITEM. O Couto de Meécorvo . . 20
Breuro . . . . 2 !TEM. O Julguado de
}TEM. O Julguado de Chacim . . . . 1
Sefulfe . • . • 3 ITEM. O Julguado do
ITEM. O Julguado de Moguadoiro . 2 5
Val de Paços 3 ITEM. O Julguado da
ITEM. A Terra de Alfandega .• 10
Loba . . . . 4 ITEM. V1lla frol . . . 20
ITEM. O Julguado de !TEM. O Julguado de
Val Paaços . . 3 Villarinho . . 20
ITEM. Bragança de ITEM. O Julguado de
numero . . . 30 Freixinal e
1TEM. O J ulguado de Villa boa de
Caíl:el Vi- numero . . . 2
nhaaes . . . . 25 ITEM. O J ulguado
ITEM, De Muniofo .. 4 d'Anciaaés .. 25
!TEM. O Julguado de

Dos bce.fleiros do conto da Comarca da Beira.

hE M. O Julguado de ITEM. O Julguado. da


Nomon de nu- Povoa. • 4
mero • . • • 12
Kkk 2 !TEM,
444 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

ITEM, O Julguado de ITEM. O Julguado de


Paredes. .. 1 Tranquofo .. 18
ITEM. O Julguado de ITEM. O Julguado de
Caduy. . • • 2 Moreira .•• 5
ITEM. O Julguado de ITEM. Ennacho, e do
Panade de nu- Guargual. . IJ
mero. . . . 3 ITEM, O Couto de Leo-
ITEM. Rio d' Adaaés. 3 myl com feus
!TEM. O J ulguado de Julguados . . 40
Travaços .•. 4 ITEM. O Couto de
!TEM. Sam Joham da Lançares ... 8
Pefqueira. .15 ITEM. O Julguado
ITEM. Ranhades ..• 3 d'Aguiar da
!TEM. MariaAalva. 14 Beira. . . . 15
!TEM. Naclofo. . . 3 ITEM. O J ulguado de
ITEM. O Julguado da Figueiró ..• 3
Méda. . . . 10 ITEM, O J ulguado de
JTEM, O J ulguado de Fornos da cabo
Mexegata . . 10 d'Algozes.• 3
!TEM. O J ulguado de !TEM. O Julguado
Lagovino. . 3 d'Algozes .• 4
hEM. Caíl:el Rodrigo lrEM. O Julguado de
de numero .. 20 Caíl:el de Li-
ITEM. Caíl:el Melhor, nháaes nu-
e Almedra .. 8 mero .••• 30
ITEM. O Julguado de ITEM. A Cidade da
Pinhel ••.• 30 Guarda ••• 50

ITEM
DAS DUVIDAS, QYE VASCO FERNANDES ETC. 445
ITEM, O Julguado de ITEM. O Julguado do
Belmonte. . 20 Ladaairo . . . 2
ITEM. O J ulguado de ITEM. O Julguado de
Vallelhas. 39 Merool. . . . 4
}TEM. Penna Maior. 32 ITEM, O J ulguado de
ITEM. OSabugual. 25 Felgofinho .. 3
ITEM. O Julguado ITEM, Taavares ..• 3
d' Alfayates .. 4 !TEM . Rio de Moi-
ITEM. Covilhaã de nu- nhos . . . . . 3
mero. . . . 30 ITEM. O Julguado de
ITEM, O Julguado de Çatom . • . . 4
Manteiguas .. 6 IT E M. Gulfar. . . . 5
ITEM. O J ulguado de ITEM. A Honra do
Santa Cruz . . I Silvaaõ . . . . I
ITEM. Mortaaugua. 6 !TEM. O J ulguado de
ITEM. O Couto de Carapito ..• I

Guardam .• 4 ITEM, O Julguado de


h.EM. Terra de Beef- Ferreira •• . 10
teiros . . .. 10 !TEM. Lafooés. . . 30
ITEM. A Cidade de ITEM. O Julguado
Vifeu de nu- d'Ulveira ... 7
mero. ... 30 ITEM. O J ulguado de
JTEM, O Julguado de Canes de
Rainhados.• 12 Vifco. . . . . 3
!TEM, Santa Ovaya. 3 ITEM. O J ulguado da
ITEM, Povoa de •.. 3 Gurra . • . . I

ITEM. Zurara •..• 10 ITEM. O J ulguado de


!TEM, Penalva de nu- Sirriaõ .• 3
mero ...•• IO !TEM
446 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

ITEM. Craíl:o-dairo. 6 ITEM. O Julguado de


ITEM. A Cidade de Sam Fyz.. . 8
Lamego. . . 26 !TEM. O Julguado de
ITEM. Mondim. . . 8 Tavora . . .
1-i-EM. Tarouca. . . 16 ITEM. O Couto do
ITEM. O Couto de Moíl:eiro de
Sande. . . 4 Cerzeda . . . 5
ITEM. Valdigem·. ITEM. O Moíl:eiro de
4
ITEM. Fontallo . . • 4 Sam Pedro das
ITEM. Teonomar . . 10 Aguias . . . . 2
ITEM. Villa Seca . . 2 ITEM. O J ulguado de
lnM. O Julguado de Paradella. . I
Nengos. . . 12 ITEM. O Julguado de
ITEM. O Julguado de Caria. . . . 12
Cantaaés ... 4 ITEM. O J ulguado de
O J ulguado de Fonte Arca-
Ferreiros ... 4 da . . . . . 1'2
}TEM. A Honra de O J ulguado de
Voças . . . 2 Mcedello. . 3
ITEM. O Couto de ITEM. O Moíl:eiro
Rcefende ... 4 d'Arouca. . 1 I
ITEM. O Julguado de hE M. O JuJguado de
Cinfaaês . . . 4 Bargo. . . 14
ITEM. O Julguado de ITEM. A Loufaã. 12
Sam Martinho ITEM. A Pavia,
de Mouros. 3 e Sobrado. . 6
hEM. O Julguado hEM. Figueira. 10
d'Al varen-
gua. . . . . 2 ITEM.
DAS DUVIDAS, QyE VASCO FERNANDES ETC. 447
ITEM. O Pedrogom. d'Oleiro . . • 4
de numero.. 16 JTEM. O J ulguado da
ITEM. Breteande. . 5 Sartaã .. . . 10
ITEM. .
Arguanil. . 9 ITEM, As Cerze-
ITEM. Cirpins. . . 4 das . . . . • • 10
ITEM. Poonbeiro. . 2 ITEM. Caftel-branco. JO
ITEM. Pampillofa .• 6 ITEM. Sam Vicente
ITEM. O Julguado da Beira .. . 18
d' Aveiro .•• 6 ITEM. Cazal novo .• 10
ITEM. O Julguado ITEM. A Cortiçada. 10

31 Nos o IFANTE fazemos faber a vós Vaa[co


Fernandes de Tavora , que ora teendes carreguo. da
A nadaria Moor por Affonfo Furtado Anadel Moor,
e Armam Botim Efcripvam do dito officio, que Nos
a vemos por certa enformaçom , que os beefteiros ,
que nos fom dados pelos Officiaaes das Cidades , e
Villas, e Luguares,que alguús delles fom mortos, e
outros fogidos , e outros adoorados de taaes neceili-
dades, que nom poderam fervir quãdo forem requi-
ridos, palas quaaes razooés muitos dos que vos fom
dados, e efcriptos em vo{fos livros, foro fallecidos ,
e os nom ha hi : e veendo Nós , e confirando eíl-a
coufa, hordenamos que fe corregeffe, e enmendaffe
em outra guifa , como compre a ferviço d'EIRey
meu Senhor; e por bem, e defenfom <le feus Regnos
acordamos de vos mandarmos per todo feu Senhor o
aos Luguares, honde beefteiros de conto ha , e Ana-
da-
448 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

darias, pera as proveerdes todas como fiam com os


Officiaaes dos Concelhos, e fazer acrecentar os que
minguarem, e tirar os que perteencentes nom forem,
e poer outros em feu lugar , fegundo ao diante em
eíl:e Regimento vos ferá declarado mais comprida-
mente. Porem vos mãdamos, que ao tempo, que vos
per Nós he aífynado, vós trabalhaae, que partaaes lo-
go, e vaades fazer , e conprir o que per eíl:e Regi-
mento mandamos , que fe faça fem outro embargo,
que fobre ello ponhaaes.
32 CoMo cheguardes a cada húa das Cidades, e
Villas , e Luguares , ante que façaaes requirimento
aos Juízes, averees cnformaçom comprida pelo Ana-
dal, que for na dita Cidade, Vilia, ou Luguar, em
que ponto tem fua Anadaria; e fe a tem comprida
dos beeíl:eiros, que deve aver em ella; e fe alguús fal-
lecem , íe he por mortes , ou por fogirem , ou por fe.
rem adoorados , e averem tantas neceílidades, per
que devam de feer fóra de taaes encarregas, e póíl:os
outros em feu nome: e eífo meefmo faberedes deli e ,
que a fóra eítes, que lhe aífy fallecem, os mais, que
lhe fiquem como eíl:aõ preíl:es, e corrigidos pera fer-
viço d'ElRey meu Senhor. E avuda compridamente
eíl:a enformaçom, logo em eífe dia , ou em outro fe-
guinte farees faber aos Juizes, e Officiaaes como
fooes hi cheguados per noílo mandado pera lhes di-
zerdes, e requererdes algúas coufas por ferviço do di-
to Senhor , e noífo ; e por bem ·, e defenfom deífa
Ci-
DAS DUVIDAS, Q.YE V ASCO FERNANI>ES tTC. 449
Cidade, Villa , ou Luguar ; e que lhes pra'la de fe
ajuntarem na Camara do Concelho de1fa Cidade,
Villa, ou Luguar , hu lhes ajaaes de dizer eílas cou-
fas , e fazer os ditos requirimentos : e elles ditos Of-
ficiaaes aífy juntos , e o Efcripvaõ da Anadaria com
elles, e outro nenhum nom , entom lhes direes o que
fe fegue.
33 HoMENs boas, o lfante nojfo Senhor avendo enfor-
mar;om, e noticia certa , que muitos dos beejieiros , que em
efia Cidade , Villa , ou Luguar ha , e ajJy per todas as
outras Comarcas dejies Regnos , fom fa!Lidos, e minguados
dos que vós, e os outros Concelhos leem dados , declaran-
do-lhes mais compridamente as razooês fofo efcri-
ptas, porque aífy fallecem, e entendendo-o por fervir;o
d' ElRey.feu Padre, e por bem, e definfom de .feus Regnot,
acordou de ferem perviJÚs todas as Anadarias do Regno
como de novo, e nos mandou aaquelle luguar, e ajfy geeral-
menle a todo/os outros, pera preveer-des, e faberdes os di-
tos beejieiros, que minguam dos que vos teem dados : e fe
aiguns fallecerem por qualquer guifa que Jeja, pera em feu
nome poerdes outros tantos, ante que dhiparlaaes, e vos com-
prirem aquelle numero dos que vos leem dados, e mais nom.
34 D1cT AS eftas razooés, entom lhe darees a en-
formaçom , que teendes do Anadal do dito luguar,
defpois que chegaftes , de quantos fom mortos , e
quaees fogidos , e os outros , que teem algúa neceffi-
dade pera os averem de tirar. Porem que vós avees de
fazer allardo com elles todos , por mais verdadeira-
Liv. L Lll men-
450 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

mente faberdes fe he aífy, como vos he dito pelo A-


nadai; e des y por faberdes como fom prefies, e cor-
regidos de fuas beefias, e cintos, e pollees: e por elles
faberem fe he aífy como vos he dito mais verdadei-
Iamence, lhe requeree da noffa parte, que elles ditos
Officiaaes fiem de prefente aos allardos, oo qual al-
lardo ailinaai o dia razoado, a que fe poífam juntar os
beefieiros.
3 5 E QYANDO allardo fezerdes, em elle fe faça lo-
go per vós huú roo!, e pelos Officiaaes outro daquel-
les, que fallecem, declarando os mortos, e os fogidos,
e os que teem neceilidades, perque devam feer efcu-
fados de tal encarreguo, e poer outros em feu nome:
e acabado eíl:o, vos ailinem dia certo, a que vos ha-
jam de dar, e moíl:rar, os que vos affy em nome dos
beeíl:eiros, que tirarom, e minguarom ham de dar: e
eíle efpaço, que vos poferem, o que maior for feja
ataa tres dias; e eílo feja nos luguares principaaes, e
nos outros, que mais pequenos forem, ataa hum dia
ou dous dias.
36 ITEM. No dito allardo verees logo os beeíl:ei-
ros , que ficam , como fom preíl:es , e corregidos ; e
fe achardes, que alguus delles nom teern taaes beef-
tas, que fejam de receber, faberees de feu Anadal fe
lho requereo, e lhe ailinou termo a que ·vieífem com
e lias ; e fe lhe deu termo de íeis foma nas , que elles
ham d a ver pera as bufcarem , e parecerem com el-
las em allardo, e elle he já pafiàdo, e muito mais , e
nom
DAS DUVIDAS, Q.Y! VASCO FERNANDES ETC. 45 I
nom ouve beeíl:a nem a quiz teer, mandade logo ao
dito feu Anadal , que preferite vós , tome logo tantos
de feus beês, e os venda, perque fe poffa a ver hua
beeíla, que feja boa, razoada , e recebonda , fegundo
a elle deve teer, e lha lançaae em cafa.
37 ITEM. Se ouverdes enformaçom que o dito
Anadal fabj_a que alguús dos ditos beeíl:eiros nom ti-
nhaõ as ditas beeíl:as, e cintos , e polees, e os nom
coíl:rangiam, nem requeriam que as bufcaífem, e te-
veffem, e por rogos, ou peitas, ou amizades lhe eram
favoravees, e os leixavam aífy eftar, mandamo-vos •
que tal Anadal como efte tirees logo, e o privees do
dito Officio, e que per feus beês fe comprem beeílas •
que fejam boas, e recebondas, e fe dem aaquelles
beeíleiros , que as per fuas favorezas nom tinham, e
leixavam de teer aos tempos , que deviam.
3 8 ITEM. ~ando fordes aa Camara ao tempo•
que vos for affinado pelos Officiaaes, a que vos aviam
de dar os beeíl:eiros polos mortos , e fogidos , e os ou-
tros, que fe devam de tirar por fuas neceffidades, fe-
rees avifados de os fazer vir perante vós , e veerdes
feus corpos, e hidades ; e fe vos taaes parecerem , e
que fom perteencentes aquelles , que vos affy derem•
tomallos-edes , com tanto que fejam çapateiros , e
ferreiros, alfayates, e pedreiros, e carpinteiros, e ou-
tros quaefquer rneíl:eiraaes , que fejam cafados ; e fe
deíl:es nom poderem aver, dcrn-vollos de braceiros
que fejam cafados, e arreiguados; e quando deíl:es
Lll .2 taaes
452 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E N0Vi

taaes nom achardes , e hi ouver alguús mancebos na


terra , que faibam tirar com beeíl:a , ou geitofos pera
ello, poíl:o que nom ajam mefler, requeree aos Juizes
que vo-los dem , com tanto que nom feja lavrador ,
que continuadamente lavre com junta de bois, e a
E!Rey meu Senhor pagua juguada, ou oitavo: e ef-
tes, que vos affy derem, e aprefentarem os ditos Of-
ficiaaes , farees aíleentar em o voífo livro novo, que
farees em cada hum Iuguar.
39 ITEM. Direes aos ditos Officiaaes que aquellas
peffoas, que vos pera eíl:o derem , fejam boos, ido-
neos, e perteencentes, e taaes, que quando os E!Rey
meu Senhor ouver meíl:er pera [eu ferviço, que fejam
preftes; e fe naõ movaõ a dar outras pefioas, que taa-
es nom fejam por mal querença, e maa voontade,
que lhes tenham , e por lhes fazer em ello erro, e
maas obras ; e que fejam certos, que quando o aífy
fezerem , e lhes provado for, que lho paguarom per
feus beés em tal guifa, que elles o fentam bem em
fuas-fazendas.
40 E ESTES requerimentos farees em todalas Ci-
dades, Villas, e L1.1g uares do Senhorio d'EIRey meu
Senhor, e nas terras dos Ifantes , e Conde Dom Af-
fonfo meus Irmaãos , e Conde-eflabre, e aífy geeral-
mente em todas as outras; e fe per aviamento em al-
guús Luguares fe nom poder comprir o numero da-
quelles, que vos agora teem dados, demandar-lhos-ees
quando noifo recado ouverdes , em nas terras das
Hor-
DAS DUVIDAS, QYE VASCO FERNANDES ETC. 453
Hordeés, e primeiro nos farees faber quantos forn os
que minguam em cada huum Luguar.
41 ITEM. Direes aos Officiaaes da noífa parte,
que os que elles mandarem chamar aas Camaras pe-
ra vo-los moíl:rarem , e darem por beeíl:eiros , e elles
nom quiferem vír ao tempo, que lhes for affinado, e
fe fezerem revees, que elles vo-los podem dar por
beeíl:eiros, fe os elles antre fy ham por taaes , que fom
pera ello idoneos, e perteencentes; e fe vo-los derem,
affinem-vo-lo aíly per fuas maaõs em voífos livros, e
elles, nem vós nom os tirees por recados , que vejaa-
es d'EIRey meu Senhor, ou noífo, falvo fe vos logo
com elles fezer mcéçom, que os tirees, poíl:o que fof-
fem revees quando forom chamados.
42 ÜuTRo sY porque avemos per certa informa-
çom, que quando os Juizes, e Officiaaes ham de apu-
rar eíl:es beeíl:eiros, e os dar, que os Ca valleiros, e Ef-
cudeiros, e outros poderofos fe vaaõ pera elles pera
os torvar, e fazer efcufar aquelles, de que elles teem
carreguo, fazendo-lhes poer outros, que nom deveni
feer poíl:os, por efcufarem os feus, o que a Nós nom
praz, é o a vemos por mal feito; porem mandamos,
que daqui en diante quando fe ouverem de dar os
diél:os beeíl:eiros, e fazer de novo, que nom íl:em a
ello prefentes , fal vo os diél:os Officiaaes , a que eíl:o
perteence, e vós Vaafquo Fernandes, e Armom Bo-
tim : e fe alguús dos fohreditos vierem , e quiferem
fiar hi, requeiram-lhe os Juizes da noífa parte, que
[e
454 LrvRo PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

fe fa yam fora; e fe o fazer nom quiferem, vos peran-


te ellcs nom façades nada, e leixaay de poer em ello
por entom maaõ, como dito he; e os ditos Juizes
mandem penhorar aquelle, per cujo aazo eíl:o leixam
de fazer, e lhe tomem tantos de feus beés , e os fa_
çam vender , e rematar, perque fe ajam logo feiscen-
tos brancos , e os dem, e entreguem ao dito Vaafquo
Fernandes, e Armam Botim pera ajuda de fuas def.
pezas , pois que elles per feu aazo fom retheudos, e
torvados de fazer aginha o que lhes per Nós he man-
dado.
43 ÜUTRo sv vos mandamos, que fe achardes
alg uús beeíl:eiros do conto, dos que vós trazees affeen-
tados em voffos livros , que fe mudaram de b eeíl:ei-
ros do conto em beeíl:eiros de ca vallo deipois da to-
rnada de Cepta pera aca, nom embarguando, que
elles privileg ias tenhaõ de como fom avudos por
beeíl:eiros de cavallo, nom lhes conheçaaes dello, an-
te os coíl:rangee que fervaõ como beeíl:eiros do con-
to, poíl:o que em feus privilegias faça expreffa men-
çom, que eram beeíl:eiros do conto; porque a tençom
d'ElRey meu Senhor nom foi, nem era que os beef-
teiros do conto fe ouveffem de fazer beeíkiros de ca-
vallo.
44 E POR quanto taaes como eíl:es paguarom
a AI vare Armes alg uas coufas de feus direitos, noífa
mcrcee he feer tornado, pois nom gouvem dos pri-
vilegias, e liberdades, que lhes foram dados : porem
man-
D.As DUVIDAS, QYE V.Asco FERNANDES ETC. 455
mandamos a vos Vaafquo Fernandes , e Arm om Bo-
tim, que ponhaaes em huú caderno todos eíl:es , que
fe fezerem beeíl:eiros de ca vallo, declarando-lhe os
nomes, e as alcunhas de cada huú delles, e os lugua-
res donde fom moradores , e o que cada huú pagou ,
pera ao defpois todo veermos, e mandarmos ao dito
Alvare Annes, que o torne a feus donos.
45 ITEM. Mandamos a vos Vaafquo Fernandes,
e Armom Botim, e a todolos Juizes, e Officiaaes das
Cidades, Villas, e Luguares, honde cheguardes, que
cada huum pela fua parte vos trabalhees de com-
prirdes, e fazerdes comprir as coufas contheudas em
eíl:e Regimento o milhar, e mais toíl:e que o fazer
poderdes, por quanto aífy compre a ferviço de ElRey
meu Senhor, fem outro nenhuú embarguo, que huús,
e outros a ello ponhaaes.
46 E MANDAMOS a vós ditos Juizes das Cida-
des, ou Villas , e Luguares, honde chcguarem os
ditos Vaafquo Fernandes, e Armom Botim, que lhes
dees, e façaaes dar poufadas, e camas pera elles, e
pera os feus, em quanto hi eíl:everem, fem dinheiros,
e os mantimentos, que ou verem meíl:er, por feus di-
nh~ros: e teende tal maneira em os defembarguar,
que os nom detenhaaes hi mais do que devees aalem
do ordenado; fenom feede certos que quando o aífy
fezerdes, e vos nom efcufardes dello com lidima ra-
zom, que os dias, que mais efteverem aalem do que
for razoado, que per voífos beés lhes mandees pa-
guar as derpezas, que em elles fezerem. 47
456 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

47 OuTR0 sv mandamos a vós Vaafquo Fernan-·


des , e Arrnom Botim , que corno cada húa ddfas
Comarcas teverdes acabada , e feita apuraçom em
ella, que logo no_s enviees o caderno dos beeíl:eiros >
que ficaram feitos em cada Comarca, declarando-
nos polo miudo os nomes, e as alcunhas delles, e as
idades , fegundo que vos razoadamente parecer; e fc
algu ús delles fcrvirom em Cepta , ou fom amos
acoílados a alguús grandes, affy o <leclaraae no dito
caderno ao pé de cada huú: e huús, e outros ai nom
façades . Feito em Evora a tres dias de Fevereiro.
Affonfo Peres o fez. Era de mil e quatrocentos e cin-
coéta e nove annos.
48 ÜuTRo sY nos he dito, que quando vós dito
Vaafquo Fernandes, e Armom Botim paffaaes polas
Com1rcas , e fallecem alguns beeíleiros dos que vos
cada hum Conce-lho ha de dar, que leixaaes encarreguo
aos Anadees, que os requeiram aos Juízes, e Officiaa-
es ; e que poíl:o que lhes per ellcs kja requerido, que
lhos norn dam, e lhes poocm em elles embarguo>
por a qual razom os ditos beeíl:eiros nom fom com-
pridamente feitos.
49 E PORQ!!E eíl:o he mal feito, e nom deve affy
de paffar, e ao diante fc fazer melhor, mandamos-
vos , que vós trabalhecs de faber parte dos ditos
Anadees , fe requereram por alguas vezes -aos ditos
Juizes, e Officiacs, que lhos ouveffem de dar, e o
cmblrguo, qt.:e poinham a lhos nom darem, ou que
ref-
DAS DUVI DAS, QYE VASCO FERN ANDE S
ETC, 457

reípo fta lhes davam , e fe teem affy eftormentos ; e


fe
os
eftormentos teem , fazer-nollos-ees mand ar pera
veermos , e tornarmos a ello como for noífa merc ee,
y
em tal guifa que os que paffam mandado de E!Re
meu Senhor ajam efcarrnento, e aos outros feja eix-
empl o de nom cairem em outra tal.
50 ITEM . Mandamos, que fe alguús beeíl:eiros do
conto dos que a vós forem dado s, e trazees affeenta-
dos em voffos livro s, fe quiferem obrig uar a teer ca-
vallo s, e os tever em, e reem , e fom efcriptos nos
Íi-
e
vros dos Coudees, de taaes como eíl:es nom curee s,
leixay-os com o Coud el, e demandaay outros aos Jui-
zes, e Officiaaes, que em feu nome fejam poftos, com
ue
tanto que eíles beefteiros tenha m taaes beés , perq
poífam mant eer os ditos cavallos.
5 I VAAS QYO Fern ande s, e Arm am Botim. Nós
o lfant e vos fazemos faber que a Nós foram moft ra-
o,
das algúas duvidas em feito dos beefteiros do cont
de que teendes carre guo, as quaaes comp riam a ver
declaraçom. As quaaes viftas per Nós, démos a ellas
os
determinaçom aliem da hord enan ça, que vos teem
dada : pore m vos mand amos , que a comp raaes pola
guifa , que fe ao diant e vai declarando.
52 PRIM EIRA MENT E porque Nós avemos enfo r-
maço m, que alguús beeíl eiros , que dante eram fei-
tos, quer em teer cavallos por fuas voontades, por
fe
o,
efcufarem de nom fervirem por beeíteiros do cont
e-
fe -vaaom aos Coudees, e aos Officiaaes dos Conc
Liv. 1. M mm lhos ,
458 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA t NOVE

lhos, e dizem que querem teer cavallos por a conthia,


que em cada húa Comarca he hordenado, que os te-
nham ; e os Coudees , e Officiaaes dos Luguares lhe
mandam, que lhe dem em efcripto os beés, que ham;
os quaees lhos dam aífy alguús, que elles ham, e com
elles juntam os beês de feus padres, e madres, aífy
beés de raiz, como moviis, e ouro, e prata, e dizem
que fom feus, nom lhe feendo porem dados , falvo
fazendo eíl:o por conluyo , e ajuntamento de empref-
tidoo por tal, que lhe feja achada a dita conthia; e
os ditos Coudees, e Officiaaes quando eíl:o veem, dei-
taõ conta aos beés, e fern feendo avaliados pelos ava-
liadores, nem fabendo fe fom feus, lhes dam Alva-
raaes como os ja teem affeentados no livro por caval-
leiros; e per eíl:a guifa faaem , nom avendo pera ello
conthia; e o que peor he, defpoís que os coíl:rangem
polos cavallos, dizem que nom teem a conthia, e que
os avaliem , em tal guifa que norn fervem por beef-
teiros, nem por cavalleiros: o que Nós nom havemo~
por bem feito.
53 E POR fe tirar a malícia, mandamos a vós, e
aos Juizes, e Officiaa.es dos Concelhos das Cidades ,
Villas, e Luguares do Regno, que quando taaes co-
mo eí1:es quiferem teer os ditos cavallos per as con-
tias da hordenaçom da dita Comar_c a, que fe faça per
eíl:a guífa; a faber, que o Coudel do luguar, e os Juí-
zes, e Officiaaes com os Vereadores prefente vós apu-
rador, e o Efcripvarn da Anadaria, ou Anadal dos
beef-
DAS DUVIDAS' Q.!TE VASCO FERNANDES I ETC. 459

beeíleiros do conto de cada huú luguar, honde o di-


to apurador, e Eícriva.m nom efieverem, fejam viíl:os
os beés, que lhe forem dados em efcripto , que elles
teverem ante do avaliamento, que fejam feus propri-
os, fem juntando outros d'outrem nenhuum com el.•
les; e viíl:os aíly , lhe façam pergunta fe fom feus; e
fe difierem, que fy, entom lhe fejam avaliados ; e
achando-lhe por elles a conthia, que per ElRey meu
Senhor, e Nos he mandado, entom fejam dello ef-
cufados, e tirados de beefteiros, e doutra guifa nom.
54 E SEENDO fabudo , que elles juntarom outros
beés alheas, e diíferem , que eraô feus por fazerem
malicia, mandamos, que aquelles beés, que aífy jun-
tarem mais, fejam pera Nós; e o Efcripvam da A na-
daria, ou outro, que o defcobrir, aja a terça parte del-
les; e efi:o por feer efcarmento, e caminho de fe ti-
rarem as malicias : e eíl:a maneira terees em os que
de novo vos forem dados por beefi:eiros.
55 E MANDA Mos aos ditos Coudees, e Officiaaes,
e aos Vereadores , e A nada l dos beeíl:eiros, que eíl:o
façam fem outro embarguo , e malicia , nem afei-
çom, nem amizade , ca fejam certos, que fe o con-
trairo fezerem, que lhes ferá bem eíl:ranhado ; e o
Anadal , que em cafo, que os outros o queiram fazer,
que nom feja em ello confentidor, ante no-lo digua,
ou envie dizer: e porem vos mandamos, que aífy o fa-
çaaes fem outro embarguo, porque noífa mercee he
de fe aífy fazer, por fe tirarem as malicias: e farees
Mmm 2 pocr
4 60 LrvRoPRIMEIRoTITuLOSESSENTA E NOVE

poer outros em feus Ioguos pera comprimento do nu-


mero de cada huú luguar, e conto que hi ha d'aver.
56 ITEM. Porque na Hordenaçom, que vos per
Nós he dada, vos mandamos, que os beeíl:eiros do
conto, que fe fezerom beeíl:eiros de cavallo des da to-
rnada de Cepta pera cá, poílo que privilegios tevef-
fem, que lhos nom guardafiedes ; e porque defpois
que o dito Senhor acordou, e determinou que lhe fof-
fem guardados, e de que tempo, a fabér, os que fo-
rom feitos beeíl:eiros de cavallo ataa Janeiro de qua-
trocentos cincoenta e outo annos , que lhes fejam
guardados aos que teem privilegias ailignados, e af-
feellados per o dito Senhor; e porem vos mandamos,
que os que achardes, que teem os ditos privilegias,
e forom dados antes do dito tempo, que lhes guar-
dees, e os que defpois forom dados pera cá, poíl:o que
privilegios tenham, nom lhos guardees, ante os ave-
de por beeíl:eiros do conto, e nom de cavallo; e efio
meefmo aos que nom teverem os ditos privilegios, ca
aífy he mercee do dito Senhor, e noífa, de fe aili fa_
zer, e lhes ferem guardados os ditos privilegias , que
affy teverem affinados pelo dito Senhor, que forom
dados ante do mez de Janeiro da fobredita Era de
quatrocentos e cincoema e outo annos; e aos outros,
como dito he.
57 ITEM. Porque Nós fomos certo, que alguús
ouveram, e ham; e teem d'ElRey meu Senhor, e nof-
fas Cartas, e Al varaaes affy de graças, e mercees, que
lhes
DAS DUVIDAS , Q!JE V ASCO FERNANDES , ETC. 461
lhes fom feitas por alguús taaes, e outros per privile-
gios, e outros per cavallos, e outros per beeíl:eiros
de ca vallo, aguardando-lhe feu privilegio, e outros
per negocios, e neceilidades, e direitas razooés, que
lhe foram conhecidas, e per outras coufas, pelas quaa-
es mandamos, que fejam efcuíados de beeíl:eiros de
conto, e fejam poíl:os outros em feu loguo; e elles
defpois que afiy teem as ditas Cartas, e Alvaraaes,
nom curam de as moíl:rar, nem fe vaaorn tirar do li-
vro d'E!Rey, que tem o Anadal Moor, nem querem
que ponham outros em feus luguares, nem querem,
obedec~r ao Anadal do luguar, e quando os requere o
dito Anadal, dizem, que fom efcufados polo que di-
to he.
58 E PORQ!JE Nós fabemos, que elles fazem efio
com malícia, a faber , em quanto efiam na terra,
gouvem do privilegio, aífy como beeíl:eiros do con-
to, e fom privilegiados, e allegam, que nom fom fo_
ra de beeíl:eiros; e quando os coíl:rangem pera alguãs
fervidooés affy pera Cepta, como pera algúas Arma-
das, allegam, que nom ham porque fervir, que fom
efcufados, e mofiram logo as Cartas, e Alvaraaes,
que teem, e nom fe rnoíha pelo livro, que fejam del-
le tirados , nem outros pofios em feu luguar; aífy que
efies fom privilegiados, e mais das fervidooés fom
efcufados, e nom outros poíl:os por elles, e quando
os a vemos meíl:er, nom fom achados polo que dito
he, e fom minguados; a qual coufa he muito noífo
defferviço. 59
462 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA i:: NOVE

5g E POREM vos mandamos, que todas as Car-


tas, e Alvaraaes , que vos moíl:rarem, e per ellas
achardes, que do dia, que foram dadas, a tres mezes
vos nom foram mofiradas, e o tempo he ja pa{fado ,
e os teverom femprc, e outros nom forom poíl:os per
elles, nem fe quiferom hir livrar, nem tirar do livro.,
vós nom lhas guardedes, ante os havede, e coíl:ran-
gede por beeíl:eiros do conto fem embarguo das di-
tas Cartas, e Alvaraaes, que aífy teem, fem outro ne~
nhuú embarguo; que noffa mercee he de fe aífy fa-
zer , por fe affy tirar a malicia , e elles averem efto
por efcarmento, e pena do que fazem.
6o !TEM. Porque Nós avemos per enformaçom.,
que affy paífam outras Cartas, e Alvaraaes, per que
alguús ajam de feer efcufados aífy a roguo d'alguús,
como por razooés, que alleguarorn, como por Nós
veermos alguús eftrornentos, ou cartas teíl:emunha-
vees com a refpoíl:a dos horneés boõs, e Officiaaes
das Cidades, Villas, e Luguares, pelos quaaes man-
damos , que fejam efcufados de beefteiros os quaaes
fom pera ello livres: e porquanto os que os a Nós pe-
dem, nos dam enformaçom contraira, e os Offici-
aaes, que os dam por beefteiros, e os affynam , def-
pois que os dados teem, por amizades, e affeiçooés,
e delles por medo dam aos ditos eftormentos, e car-
tas taaes refpoftas, que fom em contraira do que he
efcripto no Livro d'ElRey, que tem o Anadal Moor
aílignado per elles Officiaaes, vós Apurador, e Efcri-
pvam;
DAS DUVIDAS I QlJE VASCO FERNANDE S' ETC. 4G3

pvam; as quaaes Cartas, e Alvaraaes lhes vós guar-


dades por nom hirdes contra noífo mandado, porque
nos podiamas por ello aqueixar.
61 PoREM mandamos a vós Vaafquo Fernan-
des, e Armam Botim, que norn embargand o noffas
Cartas , e Alvaraaes, e mandados, que vejades dados
aos que per razorn nom devam feer efcufados , vós
nom lhos guardedes, nem façades guardar quando o
entenderde s por ferviço d'E!Rey meu Senhor, e noífo,
poíl:o que fejam per Nós aílinados, porque Nós man-
damos-vos , que o façaaes afly; ca Nós o avemos por
beem feito per vós Officiaaes fabermos a verdade do
contraira do que nos os outros dizem , e da refpoíl:a
dos Officiaaes, que as aífy dam, em defvairo do que
ante fezerom.
62 ÜuTRO fy por quanto ElRey meu Senhor, e
Nós mandámos apurar certos bceíleiros do conto de
certos luguares, pera hirem fervir a Cepta, e pera al-
gúas Armadas. que mandámos fazer, os quaaes beef-
teiros fom chamados, e requeridos que venham aas
ditas fervidoeés; os quaaes fe fazem revees, e nom
querem parecer; e outros, que parecem fom reparti-
dos como cada huú aja d'hir , e em quaaes navios, e
affy lhe he dito; e quando os veem veer aos navios, e
fazer o cerco com elles per o Efcripvam da àpuraçom,
fegundo cuíl:ume, nom fom achados, aíly como fom
repartidos ; e minguam em tal guifa que os navios
vaam delles minguados ; os quaaes tornam pera fuas
caías , e fom ufeiros a eíl:o fazer; e por defio nom
ave-
464 LIVRO PRIMEIRO TITULO SESSENTA E NOVE

averem pena, fom os outros oufados de eíl:o fazer ; e


ainda nom fom igualados a fazer as fervidooês.
63 E PORQYE Nós nom queremos, que efto afiy
paffe: mandamos, que todos os beefteiros, que fo.
rom apurados pera Cepta, ou pera Armadas, que
revees forom pela guifa que dito he, ajam por pe-
na o que avia de fervir em Cepta huú anno, que
vaa allo fervir dous; e o que avia de fervir na Arma-
da feis mezes, vaa alla fervir huú anno; e aíTy o tem-
po, que a viam de fervir , vaaom fervir á dita Cidade
dobrado ; e por logo no prefente aja pena de revel,
que pague duzentos reaes brancos, os quaaes manda-
mos fejam pera Armom Botim Efcripvam d_o dito
Officio , ou pera outro, que o acufar, e mandamos
que lhe fejam levados, pois forom revees a nom vi-
rem parecer, nem fervir.
64 E ESTO feja efcripto per o dito Efcripvam, e
fejam os ditos beefteiros per fianças, e o tempo, que
ham de fervir, e poíl:os em recadaçom , e de quaaes
luguares, que ao tempo, que lhe foi affignado, per
fy , ou per os fiadores fejam preíl:es a hir fervir, e fe-
rem julguados ao ferviço do dito Senhor: e aíly f~-
rees daqui endiante em todalas apuraçooées, e Arma-
das, que fe fezerem, como dito he, teendo efta me-
des maneira com os fiadores dos que tomaram as de-
mafias , fe elles nom forem achados, feendo por el-
lo prefos, e penhorados.
65 ITEM. Porque Nos foi dito, que alguus beef-
teiros
DAS DUVIDAS, QYE V ASCO FERNANDES, ETC. 46 5
teiros do conto, que dante fom feitos, e outros, que
vos forom dados pelos Concelhos , veem receber o
foldo, e pãno, que ElRey meu Senhor manda dar a
aquelles, que o ajam de fervir por remeiros; e que
Gonçalo Affonfo, que per mandado do dito Senhor
pagua o dito foldo, nom embargando que aífy beef-
teiros fejam, lhes dá o dito foldo; e quando os vós
coíl:rangedes, que vaaom fervir a alguús luguares ,
vos alleguam, que tem o foldo de remeiros, e que
per eíl:a guifa fallecem do conto, que mandamos á
Armada ; e por quanto os beeíl:eiros do conto, qu~
aífy fom dados, e ailinados no livro do dito Senhor,
fom obriguados a fervir corno beefteiros, e pois obri-
guados fom, nom he razom de fe mais obriguarem
em outro cabo: porem vós requerede da noífa parte
ao dito Gonçalo Affonfo, que elle a nenhuú beeftei-
ro, que feja aífeentado no livro do dito Senhor, nom
dê foldo nem huú, nem panno, ca afiy he mercee
do dito Senhor, e aífy foi já defefo ao dito Gonçalo
Affonfo; e por tanto vos mandamos, que lho requei-
raaes ; e fe alguús dos ditos beeíl:eiros allegarem, que
teern o dito foldo, e forem coílrangidos pera alguúa
fervidooem, vós nom lhes conheçades dcllo, ante os
coíl:rangede como beeíl:eiros.
66 ITEM. Porque nos foi dito, que os homeés
boos, e Officiaaes vos dam alguús por beefteiros do
conto daquelles, que gualiotes eram, e andavam nas
vintenas, porque delles pagavam o quinto, e delles
Liv. 1. Nnn nom ,
466 LIVRO PRIMEIRO T1TULO SESSENTA "E NOVE

nom, e que os nom toma vades ataa veerdes noffo re-


cado; porem vos mandamos , que os comedes por
bedl:eiros , fe vos pelos do Concelho forem dados , íe
pera ello perteencentes forem. Efcripto em Obidos
doze dias d' Agoíl:o. O lfante ho mandou. Armom
Botim o fez. Era de mil e quatrocentos e feffenta
annos.

TITULO LXX.

Do que perteence á apuraçom dos gualioles.

v AASQYO Fernandes, e Joham de Baíl:o. Nós EI-


Rey vos fazemos faber, que eíl:a he a maneira,
que havedes de teer em veer, e apurar, e poer de no-
vo nas vintenas do mar todos os homeés , que a ellas
perteencer, e em ellas devem feer pofios nas Cida-
des, e Villas, e Cofia do mar, e do rio, e em todo-
los outros luguares, em que os ouver, e fernpre a-
cuftumarom de poer em vintenas, honde vos Nós
ora mandamos apurar os ditos beefieiros.
1 PRIMEIRAMENTE cheguarees, e faberedes po-
los vintaneiros dos homeés do mar, que hi ou ver,
quantas vintenas hi eram feitas; e veredes os horneés,
que em ellas andam pofl:os per peffoa, e efcrepvede os
mancebos por mancebos, e os que forem de mea hi-
dade por meantes , e os velhos por velhos , e os mo-
ços
Do Q!JE PERTEEN'CE A APURAÇOM nos GUAL. 467

ços por moços , de guifa que cada huús flem apar-


tados fobre fy cm voffos livros, que pera ello faredes,
pero íl:e cada húa vintena junta.
2 ITEM. Vos mandamo s, que ponhaaes nas ditas
vintenas todolos homeés do mar, e do rio, e todolos
Outros, que andarem em barcas de carreto , e de paf-
fagem, e andarem na enxavegu a, e aa fardinhei ra, e
fempre acuílmna rom de poer em vintena em tempo
dos outros Reix que ante Nós forom; fazendo a dita
declaraço m aaquellcs , que de novo poferdes, e o
dia, e era em que fc poferem na vintena do vintanei-
ro, que o pooem : e mandamo s aos outros que os po-
ferem, que os conheçaõ bem, e hondc moram, e em
que luguar, pera quando comprire m pera noffo fer-
viço, os teerem preíl:es, e bem conhecidos; aos quaes
vintaneiros Nos mandamos , que vo-los dem , e no..
meem, e os ponham em vintenas bem, e direitame n-
te fem nenhuum engano, que antre elles aja, fenorn,
fe achado for, que os nom dam, e efcuíam alguú
pera nom feer poíl:o em vintena, que lho eftranhar e-
mos , como noífa merece for.
3 ITEM • .Vos mandamo s que façaaes as ditas apu-
raçoões cm todas as Cidades, Villas, e Luguares , e
Portos do mar, e rios, e em todolos outros luguares
do noffo Senhorio , em que os ouver d'aver, nom
embargan do embargos , nem privilegias , nem cartas
que vos fobre ello moílrem; porque noífa merece he
de fc aífy fazer, e ferem poíl:os em vintenas aquel-
Nnn 2 les,
468 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA

les, que de fempre cuflumarom de poer em ella,s por


gualiotes.
4 ITEM. Vos mandamos, quedes que os ditos
homeés affy forem poíl:os , e nomeados nas ditas vin-
tenas pelos ditos vintaneiros dellas, a que manda-
mos que fejam theudos de poer em el\as, que os
nom tiredes dellas, poíl:o que alleguem dores, nem
hidades, nem que fe foram morar a terra feca, e fa-
zer lavradores, nem outros nenhuús negocios, que
por fy alleguern, nem poífam allegar perante vós ;
porque noffa mercee he de nom ferem dellas tirados ,
nem efcufados , feendo aífy poíl:os na vintena ataa
qui, ou daqui em diante, ca achamos, que era em
cufi:urne dos Reix antiguos, que quaaefquer homeés,
que eram poíl:os em vintenas, nom eram mais dellas
tirados , nem mudados.
5 ITEM. Mandamos, que fe alguús beeíleiros do
conto andarem ao mar a pefcar, ou em barcas de
carreto, ou de paífagem , e fezerem certo, que ante
que do dito meíl:er ufaffem, eram beeíleiros do con-
to, e fervirom a Nós por beeíl:ei.ros, que fe nom po-
nham nas vintenas, pofto que dello ufem, e os tire-
des dellas, fe poíl:os forem, fe vos eíl:o allegarem, e
provarem, que ante eram beeíl:eiros do conto, que
fe meteífem ao meíl:er do mar, ou do rio.
6 ITEM. Vos mandamos, que fe alguús mari-
nheiros, que ufam a pefcar o mar, que forem pajes,
e grumetes , e marinheiros armados per maaom de
meef-
Do QYE PERTEENCE A APURAÇOM DOS GUAJ,. 469

rneeftre, e paffam o mar d'Efpanha, que os nom po-


nhades novamente em vintenas; e fe ja poíl:os forem,
e eíl:o alleguarem , e o provarem per teíl:emunhas,
tirade-os dellas, e poende-os por marinheiros em ti-
tulo apartado em voífo livro; e poeredes outros em
feu luguar n;i.s vintenas.
7 E ESTO fe nom entenda nos moradores de Le-
ça , e de Matoúnhos, e dos outros luguares do re-
dor, que fazem marinheiros quando vaaom com
feus pefcados a Aragom, que vos mandamos , que
os nom tiredes dei las, pofto que ai leguem, que fo_
rom , ou fom marinheiros; porque fomos certo, que
jouverom em vintenas do mar, e fe nom tiraram
dellas nos tempos antiguos, e nom fom armados por
marinheiros, aíly como fom aquelles, que as horde-
naçoões antiguas efcufam.
8 ITEM. Mandamos, que nom ponhaaes em vin-
tenas aquelles, que achardes, que fervirom na guer-
ra por nolfos vaífallos, e homeés d'armas , e ora fom
apoufentados per noffas Cartas , poíl:o que alguuns
ufem o mar, ou em barcas , ou reverem barcas ou
redes ; e fe já alguuns eram poftos em ellas, vós ti-
rade-os, fazendo elles certo todo o que dito he.
9 ITEM. Porque a Nós he dito, que alguús que
forn poftos em as ditas vintenas , allegam que fervi-
rom com nofco na guerra , ou com alguuns noífos
capitaaés, e vaffallos como quer que ufaffem do mar,
ou do rio, e teem nofTos privilegias, ou Cartas, que
nom
LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA.
47o
nom frjam poíl:os em ellas, mandamos-vos que os
nom tiredes dellas, fazendo-lhes dcclaraçom em vof-
fo livro.
10 !TEM. Se alguuns deíl:a condiçom nom fom
ataa ora poíl:os nas vintenas, e ufarem no mar, ou em
barcas de carreto , e de paffagem, e do rio a pcfcar,
e vos allcgarem, que fervirom na guerra com nofco,
ou com os fobredicos , e que teem de Nós as ditas
Cartas , nom os ponhades nas ditas vintenas nova-
mente , e fazede numero delles apartado cm vo(fo
livro, declarando fcus nomes, e as Cartas , e privile-
gios, que de Nós ouverom, perque os affy efcufa-
rnos , e com quem fervirom na guerra, pera o Nós
veermos , e mandarmos como fobre ello façaaes.
11 ITEM. Vos mandamos, que aquelles, que

achardes, que forom aconthiados em conthia pera


teerem cavallos, e eram poíl:os em vintenas, e fe-
zerom certo per Alvaraaes dos nolfos Coudees, como
ham de tcer cavallos, tirade-os de gualiotes , e nom
os ponhades em vintenas ataa qui , nem daqui em
diante, poílo que ufem do mar, ou do rio a pefcar.
12 ITEM. Vos mandamos, que ponhades em

vintenas todos os moços de hidade de doze annos pe-


ra cima, feendo filhos de pefcadores, ou viverem
com elles por foldadas , e ufarem do mar , ou do rio
em barcas de carreto, e de pefcar, pera crecerem , e
nos fervirem quando forem perteencentcs pera nolfo
ferviço : e mandamos aos vintaneiros , que os po-
nham,
Do QYE PERTE'ENCE A APURAÇOM DOS GUAL, 471

nham , e vo-los dem fem efcufando nenhuum que


feja , que pera ello perteença.
13 ITEM.Vos mandamos, que ponhaaes em vinte-
nas todolos marinheiros, e apartem-nos dos homeés do
mar, que fom , ou forem pela Comarca da coíl:a do
mar, porque mandamos, que nom aja hi taaes ma-
rinheiros, falvo os Alquaides certos pera as noffas
gualees.
14 ITEM. Vos mandamos, que ponhaaes em vin-
tenas todolos mariantes d' Aaveiro, e dos outros Iu-
guares de riba mar, e do rio, que andaõ em bar-
cas a acarretar pera as marinhas , e pera fy area , e
junco, e vaam , e veem em barcas, poíl:o que algu-
mas vezes ufam de lavrar; porque fomos certo, que
fempre fe acufrumarom de poer em vintenas.
15 E Essa meefmo os moradores de Vaagos, e
de Ilhava, e de Villa de Minho, e d 'outros luguares
de riba de Douro, que ufam a andar em barcas, lan-
çar covoos a pee , e matar fibas , e outro pefcado ,
poílo que algumas vezes lavram, ou fejam lavrado-
res ; porque fe acuíl:umarom fempre a poer em vin-
tenas , como dito he.
16 ITEM, Vos mandamos, que ponhades nas
vintenas todolos gualeguos, e eílrangeiros, poíl:o que
nom fejam nacuraaes do luguar , e andarem ao mar,
e ao rio a pefcar, e em barcas de carreto , e de paf-
far, poíl:o que nom fejam arreiguados, declarando
loao em voífos livros como foom vaadios : e manda-
º mos
472 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA.

mos aos ditos vintaneiros, que os ponham em fuas


vintenas pera os averem pera noffo ferviço, quando
os meíl:er ouvermos, fe os achar poderem ao dito
tempo ; e quando fe achar nom poderem , manda-
mos que os ditos vintaneiros nom fejam por elles
theudos, declarando elles logo como nom eram ar-
reiguados , e eram vaadios.
17 ITEM. Vos mandamos, que aquelks gualiotes,
que fezerem cerco, que fom noffos gualiotes, e an-
dam , e fom fcriptos em vintenas dos homeés do
mar, e fervirom a Nós, ou outrem por elles, e íl:am
preíl:es pera nos fervir, que nom fejam coíl:rangidos
pera fervir per terra em nenhuuns encarregos dos
Concelhos, nem fejam poíl:os em vintenas da terra,
nem fejarn theudos a fervir com prcfos, nem com
dinheiros, nem em outros ferviços dos Concelhos,
fcnom per mar, como fom theudos a nos fervir.
Dante em Lixboa dous dias de Novembro. E!Rey o
mandou. Diego Gil a fez. Era de mil e quatrocentos
e quarenta e tres annos.

Os REGIMENTOS, que em eíle Livro fom efcri-


ptos da Guerra, do Conde-fiabre, e do Marechal
e do Almirante, e do Capitam da Frota, e do Alfe-
res, e do Moordomo Moor, e dos Confelheiros, e
do Meirinho, e do Apoufentador Moor, e dos Ca-
valleiros, e dos Retos, Nós, por aqui ferem fcriptos,
nom a vemos de todo por aprovados , nem lhe damos
por
Dos CouDEES, E REGIMENTOS, ETc. 473
por ello maior autoridade daquello , que teem per
Cartas dos Reix, que ante Nós forom, ou por cuf-
tumes, que continuadamente ata ora ufaífem: e pra-
zendo a DEOS Nos entendemos ainda mandar poer
os ditos Regimentos na forma, que devem feer.

T I T U L O LXXI.

Dos Coudees, e Regimentos, que aJeus Olficios perteencem.

E STE Regimento dos Coudees feito em nome


d'E!Rey meu Senhor, e meu Padre, cuja Alma
DEOS aja, mandamos que fe guarde em nofios Re-
gnos.
GRANDE cuidado teverom os virtuofos Reix que
furom de Purtugal , e do Algarve , como defenderi-
am os ditos regnos de feus fortes avedairos, e como
paderiam empeeceer a feus inimigos quando foífe
compridoiro; e para efto fezerom muitos, e grandes
percebimentos, aífy pelo mar, como pela terra. E an-
tre os outros foi huú geeral, e muito proveitofo dos
cavallos, e das armas, que mandarom teer per todos
feus Regnos; e pera faberem como fe ajam de lançar
os ditos cavallos, e armas, fezerom dello Regimentos,
e Hordenaçoões. E por quanto forom muitos defvai-
rados ataa o noífo tempo, Nos Dom Eduarte pela
Liv. L Ooo graça
474 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E HUM

graça de DEOS Rey de Purtugual, e do Algarve, e


Senhor de Cepta, mandamos fazer eíl:e Regimento ,.
em o qual juntamos alguas coufas dos outros antigua-
rnente feitos, que nos bem parecerom, e acrecenta-
rnos outros, que entendemos, que eram compridoi..
ros.
e A p r Tu Lo 1.

Das conthias , perque ham de .feer lançados cavalos, e


armas em todos no/fos Regnos.

N A Cidade de Lixboa, e em toda a Efüemadura


os que teverem beés, que valham quarenta mar-
cos de prata avaliados fegundo Nós mandamos, ou
mandarmos que valha, teerom cavallos recebondos,
e eíl:as armas, que fe feguem, a faber, bacinete de
carnal, ou de baveira, e cota, e loudel, ou pratas, ou
folhas, e a vambraços, e fe teverem loudel, feja da-
quelle panno, e inchimento, que prouver a feo dono:
e poíl:o que lhe do dito avaliamento falleça huú mar-
co de prata de guifa, que nom fejam mais de trinta
e nove, nom lhes leixem de lançar o dito cavallo, e
armas.
I E os Q.YE teverem valor de trinta e dous mar-
cos de prata, teeram cavallos, e nom armas, e poflo
que lhes falleça meio marco da dita conthia , nom
leixem de lho lançar.
2 E os Q.!J E teverem vinte e quatro marcos de
pra-
Dos CouDE ES, E REGIM ENTO S, ETC. 475
prata , tceram beefia de guarr ucha com fua guarr u-
cha , e folhas , e bacinete de carnal , ou de baveira ,
qual ante quifer , e hum cento de viratooés : e poílo
que defta conth ia lhe falleçam duas onças , nom lei-
xarom de lhe lançar as ditas armas . E fe aqucl , que
aíly for aconrhiado em beeíl:a de guarr ucha , diífer ,.
que quer antes teer hum cavallo rafo, que a dita
beefia , e arma s, nom lho façam.
3 E o QyE ouver conth ia de dezafeis marcos de
prata , coftra nguam -no, que tenha becfta de pollee
com fua pollee , e com cinco enta viratooês , fcm ou-
tras armas.
4 E os Qye: forem de mais peque na conth ia def-
to, e mante verem per fy caía , feram coníl: rangid os,
que tenha m lança , e dardo .
5 E No Regno do Algar ve, e Antre Tejo, e Odi-
ana reeram cavallo , e armas da meeta de das con-
thias , de que he efcrip to, que (e tenha na Eíl:rerna-
dura : affy honde declara , que na Efüem adura te-
nham cavallos, e armas de valor de quare nta marco s
de prata , e teello s-ham nas ditas Comarcas de vin-
te; e affy nos outros avaliamentos. E eíl:o mand amos
aífy, por quant o as ditas terras fiam mais ácerca do
firem o , e he comp ridoir o ferem as gentes milho r
perce bidas .d'arm as, e cavaHos.
6 E NA Comarca da Beira fe teerá efta mane ira
do Algar ve, e Antre Tejo, e Odian a: falvo em La-
mego , e em todo feu termo , em que ham de lançar
Ooo 2 ca-
4 76 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E HUM

cavallos , e armas de conthias de vinte fette marcos


de prata ; e os que ouverem conthia de vinte dous
marcos, tenham cavallos fern armas; e os que ouve-
rem conthia de dezafette marcos , teeram beeíl:a de
guarrucha, e armas ; e os que teverem doze marcos,
teeram beeíla de pollee ; e os que teverem menos
defio, teerarn lança , e dardo.
7 E NA Comarca de Trallos Montes teram a ma-
neira da Stremadura.
8 E NA Comarca d' Antre Doiro, e Minho te-
ram a maneira, que fe tem na Stremadura: falvo no
Porto, que nam feram coíl:rangidos pera teerem ca-
vallos, mais teram cada huurn em [eu loguo dous ar-
nefes compridos.
9 E POSTO que eíl:a noífa Hor.denaçom affy feja
geeral, fe per ventura algumas Cidades, ou Vil las dos
noífos Regnos teverem alguús privilegies noífos, ou
dos Reix, que forom ante Nós, confirmados per Nós,
porque em outra maneira devam feer avaliados , a
Nós praz, que lhe fejam guardados os ditos privile-
g1os.
10 E POSTO que a alguús em as ditas Comarcas
feja achada maior conthia per feus beés, do que aqui
declaramos, de que tenham ca vallos , e armas , nom
fejam por mais cofüangidos do que dito he.
Ir E SE alguús homeés velhos forem de hidade
de fetenta annos, ou mais, pofio que fejam poufados
per noffas Cartas, ou verem as comhias dobradas , do
que
Dos CouDEES, E REGIMENTOS, ETC. 4 77

que em cima faz mençom, que tenham cavalos, nom


fejam decidos delles , poílo que a dita hidade ajam.

e A p I T u L º n.
Das pdfoas, que ham de Jeer aconthiadas.

OS MORADORES dos noffos Regnos, que per fy rnan-


teverem cafa, a1Ty os cafados, como os folteiros ,
ou clerigos de Ordeés Meores, a fora clerigos bene-
ficiados, de Ordeés Sagras , ou relligiofos , cavallei-
ros , escudeiros noffos vaffallos , ou outros escudei-
ros , que poílo que nom fejam vaffallos , fejam ho-
meés fidalgos de padre, e madre, que per noffas Car-
tas fejam avudos por fidalgos, ta aes como eíles man-
damos que nom fejam avaliados.
1 E MANDAMOS que nom fejam feitos beeíl:eiros
de cavallo os que reverem beés, per que p offam teer
beeftas de guarrucha, nem dalli pera riba: e os beef-
teiros do conto, que tambem nom feja m feitos das
ditas conthias: e fe alguús beeíl:eiros de cavallo teem
ja feus privilegias , poílo que ajam as ditas quantias,
mandamos que lhos guardem ; mas fe os ouverem
daqui em diante , teendo as ditas conthias primei-
ro que os ouveffem , nom queremos que lhe fejam
guardados.
2 E SE os Coudees acharem que em fuas coude-
larias ha alguús beefteiros do conto, que teem beés,
per-
4 78 Lrv~o PRIMEH\o TITULO SETENTA E HUM

pcrque mereçam de teer beefias de guarrucha, e dalli


pera diante, requeiram aos Juízes que ponham outros
beefieiros do conto em feu loguo, e eíl:es conftrange-
rom , que tenham beeftas de guarrucha, ou o que per
feus beés merecerem de teer.
3 E AALEM defto, os pefcadores , e mareantes ,
que nom teverem conthias pera teerem beeftas de
guarrucha, nom fejam coftrangidos pera teerem ou-
tras armas, nem pareçam em alardo ; e os que teve-
rem conthias pera teerem as ditas beeftas, ou cavai-
los fingellos, coíl:rangellos-ham que tenham beeftas
de guarrucha com fuas armas; e os que teverem con-
thias pera teerem cavallos, e armas, coftrangam-nos,
que tenham dous arnefes compridos : pero fe efl:es
pefcadores, ou mareantes teverem beés de raiz, que
fejam de tam grande conthia, que mereçam de terem
cavallos, coílrangam-nos que os tenham.
4 E TODO Los outros, que aífy manteverem cafas,
teram cavallos, e armas per as conthias, que fom de-
claradas no capitulo ante deíl:e ; e defto nom feram
efcufados os noífos Contadores , nem Efcripvaaé s,
nem moradores , nem outros officiaaes , nem peífoas
a fora o que em começo defl:e capitulo faz mençom:
falvo fe teverem alguús privilegios geeraaes, ou efpi-
ciaaes noffos, ou dos Reix, que ante Nós forom , e
confirmados per Nós, porque os a vemos por efcufa-
dos. Pero quando ouverem de fazer alardos aos nof-
fos Moedeiras , fazello-am faber ao Thefoureiro , e
AI-
Dos CouDEEs, E REGIMENTOS, ETC. 4 79

Alquaide da moeda, que fejam de prefente, e fazer-


lhe-am o dito alardo apartadamente , e nom meftu-
rados com outra gente.

e A p I T u L o 111.

Como bam de fter Jiremados os avaliadores, que ham


d'avaliar os bees aaquelles, que ouverem de jeer
aconthiados.

Q DANDO novamente chegar aa Cidade, ou Villa ,


ou Comarca o que for Coudel della, fabera fe ha
hi avaliadores, que fejam boos, e ufem bem de feu
officio; e fe os hi taaes ou ver nom os tirem dos offi-
cios ; e fe os hi nom ou ver, ou aquelles , que hi achar,
que nom ufem bem de fy , fazendo em feus avalia-
mentos agravo aos do povoo , ou lhe feendo favora-
. vees aalem da razom , e contra noffos Regimentos ,
poeram hi avaliadores , os quaaes ferom dous poíl:os
pelo Coudel, e hum pelo Concelho : e trabalhem-fe
de bufcar, que fejam entendidos , e de boas concien-
c1as.
1 E QY ANDO lhes ouverem de dar o dito carrego,
dar-lhes-am juramento na Audiencia , prefente o
Coudel, e os Juizes , e Officiaaes do Concelho , que
bem , e verdadeiramente façaõ os avaliamentos , que
Jhe mandarem fazer, nom apreçando as coufas mais,
nem menos do que valerem, fegundo feu entender.
2
4-80 LIVRO PRIMEIR.O TITULO SETENTA E HUM

2 E os oous avaliadores , que ham de feer poflos


por parte do Coudel , nom fejam feus parentes, nem
cunhados , nem outros homeés de fua liança , por hi
nom a ver fospeita, que elles avaliem, fegundo o que
lhes clle ouver ordenado.
3 E Q!!ANDO alguú dos avaliadores fe for dos que
fom pofl:os per o Coudel, o Coudel lhe dará outro,
dando-lhe primeiramente juramento, como dito he:
e fe for o que he po.íl:o por parte do Concelho , o
Concelho lhe dará outro.
4 E sE huú homem for Coudel de muitos J ul-
guados, naquelles, em que ou ver feífenta homeés, ou
dalli pera cima, em cada huú averá eíl:es tres avalia-
dores pela guifa , que ja he declarado: e nos que fo-
rem de mais pouca gente, fe forem huús acerca dos
outros por espaço de húa legoa, juntará dous, ou tres
delles , e poerá hi os tres avaliadores, fegundo fom
hordenados: e po.íl:o que o Julguado feja pequeno, [e
for arredado dos outros mais de húa legoa , logo lhe
poerá feus avaliadores.
5 E ESTES avaliadores, por bem que ufem de feus
officios, nom durarom em elles mais que huú anno,
nem tornaram a elles ataa que paífem tres annos.
Dos CouoEEs, E REGIMENTO S, !Te. 48r

e A p I T u L o nn.

Das coujas, que ham de feer avaliadas aos que ham


de teer cava/los , e armas.

T Ooos os beês aífy movys, corno de raiz, que te.


verem aquclles, que forem peífoas , a que per-
teença de tcerem ca vallos , ou armas, lhe feram ava-
liados ailim os que teverern nos luguares, honde vi-
vem , ou em quaaefquer outras partes do Regno, ou
ainda fora delle, tirando os que adiante feram decla-
rados.
1 SE alguús trouverem vinhas, ou caías , ou ou-

tros beés afforados, ou emprazado s d'algúas outras


peífoas , ou per outra guifa , de que aja pera fy ho
ufo fruito, fcja vifio, e avaliado quanto lhe darom de
compra por eífes beés, paguados os encarregas , que
por elles ham de pagar , e quanto lhe afiy for acha-
do , lhe feja contado em feu avaliament o.
2 E os MESTEIRAAE S, e officiaaes, que forem pef-
foas, a que devam feer lançados cavallos , e armas ,
ferlhe ha efiimado o gaanço , que podem aver per
feus mefteres , e ferá pofto em feu ·avaliament o. E
em eíl:a eftimaçom feja esguardado o luguar, em que
0 meíl:eiral viver, e a
maneira , em que ufa de feu
officio, porque grande deferença ha no gaanço d'huús
luguares a outros, e dos faberes d'huús homeés a
outros em officios, de que ufem. Pero por mui ren-
liu. L Ppp da-
482 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E HUM

davel , que o officio, ou mefter feja , nom lho poe-


ram em maior valia que oito marcos de prata na Stre-
rnadura, e nas outras Comarcas, em que lançam ca-
vallos I e armas de quarenta marcos; e honde lançam
cavallos de vinte marcos , poerom os officios , ou
rneíl:eres da maior renda em preço de quatro marcos;
e do mais fomenos em mais pequeno preço, fegundo
entenderem que he raiom.
3 E SE alguús ouverem fruito d'alguús beés , de
que tenham feita doaçom a alguãs peífoas, fejam-lhe
avaliados, affy como fe a dita doaçom nom teveffem
feita.
4 E PORQYE alguiís horneés•trazem feus cabe-
daaes tam efcondidos , que os Coudees nom podem
faber quanta he a foma delles, mandamos aos Cou-
dees, que havendo deíl:o enformaçom per os vizi-
nhos, honde viverem, ou per quaaefquer outras pef-
foas, que faibam parte de fuas riquezas, e do que cada
huú pode teer, que viíl:o o feu teíl:emunho, e a fazen-
da, que mantem, e eífo meefmo a maneira, que reem
em fuas vidas, que íegundoaqu ello, que achar, que
bem podem a ver, façam o avaliament o: pero por que
a fama daque\les , que algúa riqueza teem , fempre
foa mais do que -he , nos avaliament os, que lhes ou-
verem de fazer, feram avifados de fe teerem ante ao
menos, que ao mais daquello , que a fama for, e as
teíl:emunhas diíferem.
5 E ESTES avaliamentos dos cabedaaes, nom fe
fa-
Dos Couons, E REGIMENTOS, ETC. 483
façam , fenom por averem de teer cavallos , ca por
tal teíl:emunho, como aqueíle , nom nos praz, que
lhes fejam lançadas outras armas.
6 SE alguús filhos cafados viverem com feus pa-
dres, ou madres , ou irmaaõs juntamente antre fy ,
veerom os beés, que todos poífuiam , e faberam ca-
rnanha parte vem a cada hum; e fegundo aquella par-
te, que a cada hum pertecncer , lhe lançaram os ca-
vallos, ou armas, fe per feus beés merecerem de as
teer : e nom encarreguarom os beés dos padres aos
dos filhos , nem os dos filhos aos dos padres , ou de
hum irmaaõ a outro.
7 E QYANDO lhe aífy forem avaliados íeus beés 9
nom feram avaliadas fuas cafas de morada , de que
nom ou verem renda, falvo fe as caías forem de valia
de vinte e quatro marcos de prata na Eíl:rernadura >
e nas Comarcas , em que fe lançaó cavallos de con-
thia de quarenta marcos , e elles ouverem outros
beés, que valham outros vinte e quatro marcos de
prata em tal guifa, que fobegem oito marcos da con-
thia , de que he ordenado teerem cavallos , que os
coníl:ranguarn que os tenham; e falkcendo.]he algu-
ma parte de nom a verem per feus beés , aalem das
cafas, os ditos vinte e quatro marcos de prata, nom
fejam coíl:rangidos pera teerem os ditos cavallos;
nem as ditas cafas nom lhes fejam poflas em ava-
liamento pera averem de teer beeíl.as, ou outras ar-
mas.
Ppp 2 8
48 4 LrvRo PRIMEIRO T1TuLo SETENTA E HUM

8 NAS Comarcas, honde lançam cavallos de con-


thia de vinte marcos, nom avaliarom as cafas, falvo
fe forem de valia de doze marcos, e que os aconthi-
ados tenham beés , que fejam pera avaliar, de valor
doutros doze marcos : ne-m lhe ferom avaliadas as
roupas de vefiir fuas, nem de fua molher , nem fe-
nhas camas de roupa , que fejam arrazoadas pera a
peffoa , a que for feito o dito avaliamento.
9 SE alguús mouros forem aconthiofos pera tee-
rem cavallos, ou beeíl:as de guarrucha, e teverem al-
gúas roupas de feda , como elles acufi-umam trazer,
aos de cavallo nom avaliarom duas roupas de feda
[uas, e duas de fuas molheres; e aos de beeíl:as de
guarrucha fenhas pera elles, e fenhas para as mulhe-
res; e fe mais reverem, fejam-lhe avaliadas ; e as ou-
tras roupas de panno de laã, ou de linho, nom lhe fe-
ram avaliadas.
e A p I Tu L º v.
Da maneira, que fe ha de teer no avaliar dos beés.

Q Ufaberá parte
o Coudel novamente vier a feu officio
ANDO
de todo-los homeés , que ha nos lu-
>

guares de fua coudelaria, que ainda nom fejam a-


conthiados, e effo meefmo d'alguús, que o ja forom»
e cobrarom mais beés, perque mereçam de lhes feer
lançada maior conthia; e chegará com ho Efcripvam
de feu officio, e com os avaliadores todos tres aaquel-
Jes, que ou verem enformaçom, que teem beés, per-
que
Dos Couotns 1 E RE.GIMENTOS, ETC. 485

que mereçam de teer cavallos , ou beeíl:as , e reque-


rer-lhe-á , que lhe moíl:rem todos os beés , que tem
dentro em fua cafa; e des que os afiy rnoíl:rar, fejam
efcriptos pelo Efcripvam.
1 E REQYEIRAM áquelle, que aífy aconthiam, fe
tem alguus beés de raiz , ou movis mais dos que
rnoílra , que os dig ua fob pena de os p erd er pera
N ós , fe lhe despois forem achados : e mand amos aos
noffos Almuxarifes do luguar, ou da Com arca , que
fe acharem , que os foneguam, que os recebam pera
Nós.
2 E QlTANDo aífy fezcrem o dito avaliamento, e
alguús lhe diífcrem, que fem ferem mais avali ados fe
querem a ver por aconthiados em cavallos, e armas 1
façam-no aífy cfcrep ver, e aífeentar no livro da cou-
d elaria , e nom fe embarguem de lhe veer mais feus
beés : e poíl:o que diguam, que fe ham por aconthi-
ados em cavallos rafos, ou em beeftas de guarrucha,
ou de pollee, nom fe enpachem dello, e avaliem-lhe
feus beés , e aquello, que per elles for achado, que
merecem de teer, lhes lancem.
3 SE alguús differem , que teem alguús beés fora
da Comarca , honde viverem , ou poíl:o que o nom
digam , e os Coudees ho fouberem , efcrepvam ao
Coudel , ou Coudees das Comarcas , honde os reve-
rem, que lhos enviem eícriptos quantos , e quejan'..
dos fom, e o qu e poderam valer, pera veer fe con-
certa a fua efcriptura com a informaçom , que feus
do-
486 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E I-l u ,\ f

donos derom; e fe nom concertar com ella, faberam


dello o certo; e fe em alguma couía falleceo de di-
zer verdade, íe muito for, aja a pena , que atras he
efcripta.
4 E PERA fe eíl:o milhor fazer , e mais fem tar-
dança, mandamos aos Coudees, que forem Comar-
caaõs ataa dez legoas , que poíl:o que lhes nom feja
feito a tal requerimento, fe elles fouberem, que nas
Comarcas de fuas Coudelarias ha beés d'alguus, que
della fora fejam moradores , que o façam faber aos
Coudees da Comarca, honde os fobreditos vi verem ,
quaaes , e quejandos os beés fom , e o que poders.m
valer.
5 E ESTA maneira , que efcrepvemos , que os
Coudees ajam de teer quando primeiro vierem a feus
officios, effa meefma teeram com aquelles, que fou-
berem que despois ouverom beés per herança , ou
d'algúa outra maneira ouverom officios, ou aprende-
rom rneíl:eres , perque feus beés fejam acrecentados
em valia ; e eífo meefmo com outros quaaesquer,
que novamente cafarern , dandolhes efpaço d'huú
anno , em o qual tempo nom queremos , que fejam
aconthiados , por teerem aazo de em o dito tempo
poderem correger fuas fazendas, e faberem parte de
feus beés ; e acabado o dito anno, fe tenha com ellc s
a maneira, que devifamos, que o Coudel aja de teer
quando primeiramente vier a feu officio.
6 E Q,yAAESQ,yER, que aífy forem aconthiados >

que
Dos Couous, E REGIMENTOS, ETC. 48 7
que tenham cavallos , e armas, fejam confirangidos ,
que do dia, que lhe os ditos aconthiamentos fezerern,
a quatro mezes tenhaõ o que lhe for mandado.
7 E SE alguús differem, que forom mal avaliados
pelos Coudees, que ante forom, ou per aquelles, que
novamente vierem, e mofirarem taaes razooés , que
fejam de receber, e ainda fezerem certo, que no tem-
po, que lhes foi feito o avaliamento, elles aggrava-
rom dello , e nom lhes foi conhecido do aggravo, a
taaes, como eíl:es, avaliem novamente feus beés; e fe
acharem, que o avaliamento foi feito mal, corregam-
lho; e fe acharem, que foram bem avaliados , pelo
trabalho , que deram ao Coudel, e aos avaliadores ,
paguem duas dobras d'ouro ao Coudel, e aos avalia-
dores fenhas.
8 E ESSES , que requererem , que lhes tornem a
fazer avaliamento, ca nunca foram avaliados, foo-
mente os Coudees lhes lançaram cavallos , e armas,
nom confentindo elles em ello, mandamos, que pof-
to que pelos avaliamentos lhe achem a conthia, per-
que mereçam teer o que for lançado , que lhe nom
lev,em as penas contheudas na Hordenaçom; porque
no!fa mercee he a nenhuus contra fua vontade nom
ferem lançados cavallos , e armas, a menos de ferem
primeiramente avaliados.
9 E QYANDO os Coudees , e Efcripvaaés forem
aos avaliamentos fora dos luguares , honde viverem
tam alongados, que compra eíl:arem alá dous dias,
ou
488 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E HUM

ou tres, nom levarom por ello dinheiro dos Conce-


lhos, nem daquelles, que aconthiarem, mas defpen-
derom dos dinheiros das revelias : e fe os ditos lugua-
res forem taaes , que nom aja em elles, ou á cerca
delles avaliadores , e lhes feja neceífario levallos da
Comarca arredada , dar-lhes-amos Coudees gouver-
nança dos dinheiros das revelías , e averá o Coudel
por dia vinte reaes, e o Efcripvam quinze , e cada
huú <los avalia-dores, fe forem homeés pera hirem de
beíla quinze , e fe forem de pee dez brancos a cada
huú.
c A p I T u L o v1.
Do e/paço , que ham de dar aos aconthiados pera
teerem cava/los, e armas.

U ANDO os Coudees , e os avaliadores


Q conthiamentos a algúas peífoas , o fezerem a-
Efcrípvam
do dito officio ferá prefente, e efcrepverá os ditos a-
conthiamentos , e o dia, em que fe fezerem ; e os a-
conthiados feram conílrangidos per o Coudel , que
deffe dia a quatro mezes tenham, e pareçam com os
ca vallos , e armas , fegundo o que lhes for lançado
per feus beés.
1 E AQ1JELLES, a que forem lançados cavallos,
tenham licença, despois que os reverem, pera os ven-
der, fe lhe aprouver: e feer-lhes-ha dado efpaço d'ou-
tros quatro mezes a que ajam de teer outros.
Dos Counns , E REGIMENTOS, uc. 489
2 E SE lhe morrerem feus cavallos , ou lhe en-
manquecerem de tal manqueira , ou door , que nom
fejam pera fervir, nem acharem por elles preço, ain-
da que os queiram vender, taaes como eíl:es ave-
ram espaço d'huum anno pera comprarem outros.
3 E SE forem mancos de tal manqueira, ou doar,
que os Coudees lhe mandem , que tenham outros ,
pero fe os venderem , e acharem por elles preço , fai-
bam os Coudees, porque preço aífy forem vendidos,
e fegundo que o preço for , affy lhe encurtêm do ef-
paço do anno, que lhes he hordenado : aífy como, fe
em a Comarca valerem os cavallos recebondos a tres
marcos de prata, e o aconthiado vender o feu cavai-
lo manco por huú marco, encurtar-lhe-aro do dito
anno quatro mezes, e os oito lhe dem d'espaço a que
aja de comprar outro : e aífy de mais, e menos, fe-
gundo que o vender.
4 E s.-: a alguús aconthiados forem filhados feus
cavallos , ou armas, e aquelles , a que os filharern ,
rooftrarem Alvaraaes noífos, per que lhes damos ef..
paço , guardar-lhe-ham o Alvará, ou Alvaraaes em
forma , em que forem feitos ; e acabado o efpaço em
elles contheudo, coftranguam-nos, que pareçam com
os cavallos.
5 E SE aquelles , que os filharem, nom teverem
noífa authoridade, os Coudees cofiranguam os acon-
thiados , que tenham cavallos , e elles demandem
aquelles , que lhes filharorn perante os Coudees : e
Liv. I. Qqq man-
490 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E H U 'v1

mandamos , que qualquer , que lhos aífy filhar de


qualquer condiçom, e eíl:ado que feja, que venha ref-
ponder per fy , ou per feu procurador perante os fo-
breditos.
6 E MANDAMOS ao Corregedor da noífa Corte, e
aos Corregedores das Comarcas , e a todalas outras
noífas juíl:iças, que compram as fentenças , que os
Coudees derem em eíl:es feitos , e que nas fentenças
nom aja appellaçom , nem alçada , falvo fe alguús
quiferem delles aggravar , que aggra vem pera Nós:
e efl:es aggravos figuam a forma acuíl:umada, que fe
tem nos outros aggravos.
7 E SE o Coudel vir , que o aconthiado pooem
boa diligencia em demandar o dito cavallo, ou ar-
mas, que lhe aífy forem filhadas , em quanto andar
em demanda, e nom ouver comprimento de juíliça,
nom o coíl:rangerá, que tenha ca vallo, ou armas, que
lhe forom tomadas, ataa aver livramento; e fe vir.
que fe leixa dar a vagar, por nom teer encarreguo de
cavallo, ou armas, coílrangua-o, que toda via o te-
nha, e em efte cafo foomente tenham os Coudees au-
toridade de julguar.
8 E Aos que novamente lançarem armas , ou
beeíl:as, e lanças , e dardos, ou efcudos , dar-lhes-
ham efpaço de quatro mezes a que os ajam de teer, e
parecer com elles ; e fe defpois que as teverem, as
perderem fem fua culpa, dar-lhe-ham efpaço de huú
anno pera averem de comprar outrasi e nom averam
auto-
Dos Counns, E REGIMENTOS, ETC. 491

autoridade pera poderem dar, nem vender as armas,


que lhes for mandado que tenhaõ , falvo fe nom fo-
- rcm boas , e quiferem comprar outras milhores, fa-
çam-no com authoridade, e licença do Coudel, o qual
lhe pode dar licença pera as vender, e efpaço de dous
mezes a que tenham outras.

eA p I T u L º vn.
Dos cava/los , e armas , que ham de receber aos
aconthiados, e quaaes nom.

Q UANDo os Coudees lançarem cavallos, ou armas


a alguús , a que acharem beés , per que os me-
reçam de teer, e os aconthiados parecerem primei-
ramente perante elles com os ditos cavallos, ou ar-
mas, efguardarom bem quejandas fom ; e fe o ca val-
lo for, que paífe de tres annos, nom lho recebam ,
iàlvo fe for de dous cavados , e quarta de medir pa-
no em alto ; e fe for potro de dous annos, feja de
razoada altura: e parem bem mentes aífy aos caval-
los, como aos potros, que fejam bem faaõs de toda
door, e mangueira, ca fe forem mancos, ou doen-
tes , nom os receberam , poíl:o que fejam da dita
altura: e nom receberá potro que feja menos de dous
annos.
1 MAIS despois que o cavallo novamente forre-
cebido em aquella hidade, que dita a vemos, d'hi en-
Qqq 2 di-
492 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E HUM

diante, poíl:o que venha a feer muito velho, e em


difpofiçom pera poder fervir, fempre o receba em
alardo: e poíl:o que alguús tenham a conthia dobra-
da, ou muito mais, nom fejaõ coílrangidos , que te-
nham maior cavallo daquelle , que he hordenado,
que geeralmente tenham.
2 E AS armas lhe receberá em aquella maneira,
que fom devifadas no primeiro capitulo; e que fejam
limpas, e novas, ou poílo que novas nom fejam, que
naõ fejam tam velhas , que per velhice percam fua
forteleza, e fremufura ; e as beeíl:as de guarrucha fe_
jam de tal forteleza, fegundo fe requere pera fe armar
com guarrucha ; e os viratooés fejam de boas afias, e
de boas pennas , e os ferros foldados ; e as beeíl:as de
pollee da fortaleza , que requere a pollee ; e tenham
com ellas fuas guarruchas , e pollees, fegundo forem
compridoiras.
3 E SEJAM bem avifados os Coudees, que quan...
do receberem os ditos cavallos, ou armas , que os
recebam taaes, como aqui he devifado, porque def-
pois que os húa vez receberem, mandamos que d'hi
endiante fempre lhos recebam: falvo fe defpois que
os cavallos forem recebidos, lhes vier door, ou man-
gueira tal , que nom fejã pera fervir, ou fe as armas
per rnaa guarda, ou per alguú outro cajom recebe-
rem tal dampno, que nom fejam pera prcíl:ar.
4 E SE Nós acharmos, que os Coudees nom teem
boo avifamento em o recebimento deftes cavallos, e
ar..
Dos CounEES, E REGIMENTOS, ETC. 493
armas, fejam bem certos, que lhes daremos por cl-
lo tal efcarmento, qual merecem aquelles que nom
fervem bem os officios , que lhes fom encarregados.
5 E SE o aconthiado tever mal penfado feu ca-
vallo, ou lhe adoecer de alguma door, delhe o Cou-
dcl tempo razoado a que o poffa penfar da door que
tever; e fe aaquelle tempo nom for penfado como
deve, ou guarido, d 'hi endiante lho nom recebam,
e coftrangam-no, que tenha outro, dando-lhe efpa-
ço, fcgundo arras he declarado.
6 E SE alguum tever cavallo de cavallagem, que
fcja fremofo, e bem penfado, e feu dono fczer cer-
to, que em cada huum anno cavalgua, e fegura vin-
te eguas, tal como efie, poílo que feja manco, man-
damos que lho recebam em alardo.
7 E ESTA Hordenaçom, que agora aífy fazemos
das armas, e dos cavallos, e da maneira, que ham
de feer recebidos, nom fe entenda em os que já fom
lançados pelos Coudees, mais em os que lançarem
novamente.
LIVRO PRJMEIR.O TITULO SETENTA E HUM
494
eApI T u 1 o vur.
Da maneira , que ./e ha de teer com alguus acon-
thiados , que vaaõ viver fora da Comarca, bonde
moram, e com alguus outros, que gaãçam Car-
tas , ou Alvaraaes de poujados como nom
devem.

p oR quanto alguús aconthiados , a que fom lança-


dos cavallos , e armas, fe partem da terra , don-
de vivem, e fe vaaom pera outra parte, por aazo de
nom terem o que lhe foi lançado, fobre taaes como
efres, mandamos, que fe tenha efta maneira.
1 ~ANDO os Coudees das :Comarcas, donde os

fobreditos viverem, fouberem, que fom partidos por


eíl:a razom , faberom parte honde fe foram viver, e
efcrepverom ao Coudel da terra, como fe alguum,
ou alguús partiram por eíl:e aazo a viverem em aquel-
la Comarca, de que elle teem carreguo de Coudel;
e que porem elle lhe faça allá teer o cavallo, ou ar-
mas, que lhe forom lançadas honde primeiramente
viveo, pera noffo ferviço.
2 E SE alguús gaançarom Cartas, ou Alvaraaes
noffos, ou daquelle, que tever pera eíl:o noífa auto-
ridade, per que fejam efcufados de teerem cavallos,
ou armas, ou beeíl:a, ou outras armas, por allegarem
que fom de hidade de fettenta annos , ou perque os
avaliem outra vez , ou por dizerem que nom teem
beés ,
Dos CouoEEs, E REGIMENTOS, ETC. 495
beés, porque eíl:o poífam foportar; mandamos aos
Coudees, que novamente vierem a feu officio, que
faibam parte dos que aífy forem efcufados; e aquel-
les, que acharem, que direitamente guaançarom fua
Carta por ferem de hidade, e nom averem a conthia
dobrada, fegundo he contheudo em noifa Hordena-
çom , por nom teerem beés , fom efcufados; taaes co-
rno eíl:es nom coftranguam, e os ajam por efcufados;
e os que acharem, que forom efcufados, como nom
deviam, coíl:rangam-nos, que tenham aquello, em que
eram aconthiados ante da excufaçom : e fejam os di-
tos Coudees bem avifados , que nom façam mudan-
ça com efl:es, que aífy forom efcufados ante de fuas
vindas aos officios, fal vo a vendo primeiro muito cla-
ra razom, perque o devam fazer.

eA p 1 T uL o vnu.
Como os aconthiados ham de teer peefadosfeus cavallos.

Ü s ACONTHIAoos em cavallo fe trabalharom fem-


pre de os teerem fempre bem penfados; e nom os
lançarom a pacer, falvo em efl:es mezes do anno, a
faber, Março, Abril, Maio, e Junho; e todo o ou-
tro tempo os terom na eftada de dia, e de noite.
1 E sE em eíl:e tempo , que aífy defendemos
que os nom lançem a pacer , a alguú vier a adoecer
feu cavallo em tal maneira, que per necdlidade lhe
con-
496 LIVRO PRIMEIRO TITULO SETENTA E HUM

convenha lançallo fora a pacer , mandamos que aja


pera ello luguar, ataa que feja faaõ ; e eífo meefmo
quando for veer fuas vinhas , e herdades, que de dia
o poífa trazer a pacer, e de noite o ponha na eílada,
como dito he.
2 E SE alguú lançar a pacer feu cavallo no tem-
po, em que o aífy defendemos , cada vez que paífar
noffa defeza, pague trinta reaes defta noífa moeda
de trinta e cinquo libras o real , que ora corre, ou a
fua valia direita; e deftas penas as duas partes fejam
pera o Coudel, e húa pera o Efcripvam da coudela-
ria, e fejam demandados perante os Juizes da terra ;
e mandamos aos ditos Juízes, que livrem eílo, fedei-
lo ou verem certa noticia, fem fe paffar outra efcri-
prnra.
eA p I Tu Lo x.
Das rnzooes, porque os aconlhiados devem feer efcufados
defuas ronthias.

A QYELLES, que forem húa vez aconthiados, nom


ferom decidas daquello, que lhes for lançado,
falvo fe for per noffas Cartas, e Alvaraaes, ou porca-
da húa das razooés, que fe adiante feguem.
I SE forem de hidade de fettenta annos, pofto
que fejam faaõs, e rigos , mandamos que nom fejam
coíl:rangidos pera tecrem cavallos , nem aparecerem
em alardos, falvo fe teverem as conthias dobradas,
man-
Dos CouDIES, E REGIMENTOS , 'ETC. 497
mandamos, que tenham dous arnefes, e os enviem
per feus homeés, ou moços ao alardo quando fe fe-
zer: e pofto que affy fejam deíl:a hidade , fe forem
acontiados em beefias, ou em outras armas, nom fe-
jam decidos dellas, mais fejam coíl:rangidos