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Ricardo Mamede

Notas de Análise Complexa III

(Mestrado integrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores)

Departamento de Matemática - Universidade de Coimbra


2008/2009
Conteúdo
1. Sucessões Numéricas 3
2. Séries Numéricas 7
2.1. Séries de termos positivos 11
2.2. Séries com termos de sinal não definido 13
2.3. Convergência absoluta 14
2.4. Rearranjos 15
2.5. Produto de Cauchy 16
3. Séries de funções 17
3.1. Sucessões de funções 17
3.2. Séries de funções 18
3.3. Propriedades da convergência uniforme 19
3.4. Séries de Potências 20
3.5. Continuidade e convergência uniforme de uma série de potências 22
3.6. Série de Taylor 24
3.7. Fórmula de Taylor. Critérios de analiticidade 26
4. Séries de Fourier 28
4.1. Séries de Fourier de funções pares e ı́mpares 32
4.2. Séries de Fourier de funções com perı́odo 2L 32
5. Números Complexos 35
5.1. Subconjuntos de C 37
6. Funções complexas 39
6.1. Limites e continuidade 40
6.2. Diferenciabilidade 42
6.3. Condições de Cauchy-Riemann 44
6.4. Sucessões e séries de números complexos 47
7. Séries de potências 53
8. Integração de funções complexas de variável real 55
9. Integração de funções complexas de variável complexa 56
9.1. O Teorema de Cauchy 62
9.2. Fórmula integral de Cauchy 64
9.3. Série de Laurent e teorema dos resı́duos 66
9.4. Classificação das singularidades isoladas 68
Referências 74
1. Sucessões Numéricas
Definição 1.1. Uma sucessão numérica é uma lista de números reais
{a1 , a2 , . . . , an , . . .}
indexada pelos números inteiros n ≥ 1 (também consideramos sucessões que começam
num inteiro k ≥ 1). Ao termo an chamamos termo geral da sucessão. Formalmente, uma
sucessão é uma função do conjunto dos números naturais nos números reais
a:N→R
n 7→ an .
Usaremos várias formas para denotar uma sucessão: pelo seu termo geral (an ), ou
{a1 , a2 , . . . , an , . . .} ou (an )∞n=1 ou (an )n∈N .
n n

Exemplo 1.1. (1) ( n+1 ), n+1 n∈N
, { 21 , 23 , 43 , . . . , n+1
n
, . . .}.
√ √ ∞ √ √ √
(2) ( n − 3), n ≥ 3, n − 3 n=3 , {0, 1, 2, 3, . . . , n − 3, . . .}.

 nπ
 √
3 1 nπ

(3) cos 6
, cos 6 n∈N
, {1, , , 0, . . . , cos
2 2 6
, . . .}.
Definição 1.2. Uma sucessão (an ) diz-se limitada se existirem a, b ∈ R tais que
a ≤ an ≤ b, ∀n ∈ N.
Ou, equivalentemente, se existir c > 0 tal que
|an | < c, ∀n ∈ N.
Exemplo 1.2. A sucessão de termo geral n1 é limitada uma vez que 0 ≤ n1 ≤ 1,para n ≥ 1.
Também a sucessão de termo geral cos nπ 6
é limitada, pois −1 ≤ cos nπ
6
≤ 1, para
n ≥ 1.
Definição 1.3. Uma sucessão (an ) tem limite ℓ, ou converge para ℓ, e escrevemos
lim an = ℓ ou lim an = ℓ ou an → ℓ,
n→∞

se pudermos tornar os termos an tão perto de ℓ quanto quisermos ao fazermos n suficien-


temente grande. Simbolicamente, escrevemos
∀ε > 0∃n0 ∈ N : n ≥ n0 ⇒ |an − ℓ| < ε.
⇔ an ∈ (ℓ − ε, ℓ + ε)
Se existir um ℓ nestas condições dizemos que a sucessão converge. Caso contrário diremos
que a sucessão diverge.
É claro que toda a sucessão convergente é limitada, mas uma sucessão pode ser limitada
e não ter limite. Por exemplo, as sucessões (−1)n , cos(n), sin(n) não têm limite mas são
limitadas. É também fácil constatar que a convergência e o limite de uma sucessão não
se alteram se a ela retirarmos ou acrescentarmos um número finito de termos.
Notemos ainda que a partir da definição é imediato verificar que lim |an | = 0 se e só se
lim an = 0.
Recordando que para uma função real de variável real f se tem
lim f (x) = ℓ ⇔ ∀ε > 0∃M > 0 : x ∈ Df e x ≥ M ⇒ |f (x) − ℓ| < ε,
x→+∞
podemos concluir que a diferença entre estas duas definições de limite está unicamente no
domı́nio onde as funções estão definidas. Como N está contido em R podemos facilmente
estabelecer o seguinte resultado:
Teorema 1.1. Se lim f (x) = ℓ então lim f (n) = ℓ.
x→+∞ n→∞

Este resultado pode ser usado para calcular limites de sucessões efectuando a sua ex-
tensão a uma função de R em R onde temos outros instrumentos para calcular limites.
Exemplo 1.3. Se quisermos calcular o limite da sucessão lnnn , podemos considerar a função
f (x) = ln(x)
x
definida em R+ e calcular o seu limite quando x tende para +∞. Como se
trata de um limite indeterminado, podemos utilizar a regra de L’Hôpital para mostrar
que
ln(x)
lim = 0.
x
x→+∞

Pelo teorema anterior, segue que lim lnnn = 0.


Os resultados para limites de funções reais de variável real quando x → +∞ permitem-
nos obter a chamada álgebra dos limites para sucessões:
Teorema 1.2. Sejam (an ) e (bn ) duas sucessões convergentes para a e b, respectivamente,
e seja c ∈ R. Então:
(1) lim(an ± bn ) = a ± b,
(2) lim(an bn ) = ab,
(3) lim(ca
 n ) = ca,
(4) lim abnn = ab se b 6= 0.

Notemos que na alı́nea (4) do teorema anterior, se lim bn 6= 0 então existe uma ordem
a partir da qual bn 6= 0, pelo que a sucessão abnn está bem definida para n ≥ n0 .
Definição 1.4. Dizemos que lim an = +∞ se para cada número positivo M existe um
inteiro n0 tal que an > M sempre que n ≥ n0 . Simbolicamente, escrevemos
∀M > 0∃n0 ∈ N : n ≥ n0 ⇒ an > M.
Equivalentemente, lim an = −∞ se e só se
∀M > 0∃n0 ∈ N : n ≥ n0 ⇒ an < −M.
Exercı́cio 1.1. Calcule os limites das seguintes sucessões:
3+5n2 2n
(a) un = n+n2
, (b) un = 3n+1
, (c) un = sin( n1 )

ln(n3 )
(d) un = √ 2n , (e) un = (−1)n sin n1 , (f ) un =
n2 +1 2n

√ √
n−1 n n+(−1)n n− n+1
(g) un = n
− n−1
, n ≥ 2, (h) un = n−(−1)n
, (i) un = √
n
,
1
en +e−n ln n 1+ n
(j) un = e2n −1
, (k) un = ln 2n
(l) un = 2+e−n
,

1+(−1)n n3 np
(m) un = n
, (n) un = 2n2 +1
, (o) un = en
, p > 0.
Teorema 1.3. Uma subsucessão de uma sucessão {a1 , a2 , a3 , . . .} é qualquer lista in-
finita de termos daquela. Temos, por exemplo, a subsucessão dos termos pares (a2n ) =
{a2 , a4 , a6 , . . .)}, ou a subsucessão dos termos ı́mpares (a2n−1 ) = {a1 , a3 , a5 , . . .}, ou a
subsucessão dos termos cuja ordem é um número primo {a2 , a3 , a5 , a7 , a11 , a13 , . . .}.
Exemplo 1.4. Se considerarmos a sucessão (−1)n , a sua subsucessão dos termos pares é
{1, 1, 1, . . .},
e a dos termos ı́mpares é
{−1, −1, −1, . . .}.
É consequência da definição que toda a subsucessão de uma sucessão convergente para
ℓ é também convergente para ℓ. Portanto, se uma sucessão possuir duas subsucessões
convergentes para limites diferentes então a sucessão original é divergente.
Se a subsucessão dos termos pares e a dos termos ı́mpares tiverem o mesmo limite,
então a sucessão original é também convergente para o mesmo limite.
Teorema 1.4 (Sucessões enquadradas). Sejam (an )n∈N , (bn )n∈N e (an )n∈N sucessões numéricas
tais que
(1) an ≤ bn ≤ cn , para todo o n ≥ n0 ;
(2) an e cn são convergentes com igual limite ℓ.
Então bn é convergente e lim bn = ℓ.
Exemplo 1.5. Utilizando o teorema das sucessões enquadradas é fácil verificar que
n!
lim = 0.
nn
De facto, temos  
n! 1 · 2···n 1 23 n 1
0≤ n = = ··· ≤ .
n n · n···n n nn n n
Como lim 0 = lim n1 = 0 temos o resultado.
Exercı́cio 1.2. Use o teorema das sucessões enquadradas para calcular os limites das
seguintes sucessões:
(a) un = (−1)n n!1 , (b) un = − cos(n) e−n , (c) un = √ 1
n n−4 +2n−2 +7
,

1 1·3·5·...·(2n−1) 1+(−1)n
(d) un = n+1
, (e) un = (2n)n
, (f ) un = n
.

Teorema 1.5. Se (an )n∈N é uma sucessão limitada e (bn )n∈N é uma sucessão convergente
para zero, então lim an bn = 0.
Exemplo 1.6. Uma vez que  
5 + e−n 1 1
= 5+ n
n2 e n2
e se verifica
1 1
0≤5+ ≤6 e lim =0
en n2
−n
podemos concluir que lim 5+e
n2
= 0.
Definição 1.5. Seja (an )n∈N uma sucessão.
• Se an ≤ an+1 para todo o n ∈ N, isto é, se
a1 ≤ a2 ≤ a3 ≤ · · · ≤ an ≤ · · ·
então (an )n∈N diz-se crescente.
• Se an ≥ an+1 para todo o n ∈ N, isto é, se
a1 ≥ a2 ≥ a3 ≥ · · · ≥ an ≥ · · ·
então (an )n∈N diz-se decrescente.
Uma sucessão que seja decrescente ou crescente diz-se monótona.
Exemplo 1.7. As sucessões ( n1 ) e (2n − (−1)n ) são monótonas enquanto que a sucessão
(−1)n não é monótona.
Como vimos atrás, nem toda a sucessão limitada á convergente. No entanto, temos o
seguinte resultado:
Teorema 1.6. Toda a sucessão monótona e limitada é convergente.
Exemplo 1.8. Vamos utilizar o resultado anterior para estudar o comportamento da
sucessão (r n )n∈N , com r um número real fixado.
Quando r > 1, temos r n+1 − r n = r n (r − 1) > 0, pelo que (r n )n∈N é crescente. Além
disso, escrevendo r = 1 + h e utilizando o binómio de Newton, podemos escrever
n(n − 1) 2
r n = (1 + h)n = 1 + nh + h +···
2
e, como todas as parcelas são positivas,
r n > 1 + nh.
Uma vez que lim 1 + nh = +∞, também lim r n = +∞.
Quando r = 1 obtemos a sucessão constante r n = 1n = 1 convergente para 1.
Se 0 < r < 1, temos r n+1 − r n = r n (r − 1) < 0 pelo que (r n )n∈N é decrescente. Além
disso, Fazendo r = h1 , então h > 1 e
1
0 < rn = < 1.
hn
Ou seja (r n )n∈N é monótona e limitada, logo convergente. Como lim bn = +∞, temos
lim r n = 0.
Quando r = 0 obtemos a sucessão constante r n = 0n = 0 convergente para 0.
Finalmente, se r < 0, temos r1 < 0, r2 > 0, r3 < 0, . . ., pelo que (r n )n∈N não é monótona.
Além disso, podemos escrever
r n = (−1)n (−r)n .
Se −1 < r < 0, lim(−r)n = 0, donde lim r n = 0. Se r = 1 obtemos a sucessão divergente
(−1)n e se r < −1, de (r n )n∈N podemos extrair duas subsucessões
a1 , a3 , a5 , . . . → −∞
e
a2 , a4 , a6 , . . . → +∞,
pelo que (r n )n∈N é divergente.
Temos, portanto,


 +∞, se r>1

1, se r=1
lim r n = .

 0, se −1<r <1


não existe, se r ≤ −1
Dado um número real a 6= 0, facilmente obtemos


 +∞, se r > 1

a, se r = 1
lim ar n = .

 0, se − 1 < r < 1


não existe, se r ≤ −1
Uma sucessão da forma (ar n )n∈N diz-se uma progressão geométrica de razão r. Cada
termo é obtido do anterior por multiplicação pelo número r, chamado razão.
Exemplo 1.9. Consideremos a sucessão (bn )n∈N , onde para cada n ∈ N,
bn = a + ar + ar 2 + · · · ar n .
É imediato verificar que esta sucessão diverge para r = 1. Quando r 6= 1, como rbn =
ar + ar 2 + · · · ar n + ar n+1 , subtraindo estas relações obtemos
a − ar n+1 1 − r n+1
bn = =a .
1−r 1−r
Do exemplo anterior, concluı́mos então que
a
lim bn = , se |r| < 1
1−r
e que (bn )n∈N diverge para |r| ≥ 1.
Exemplo 1.10. A sucessão (an )n∈N , onde para cada n ∈ N,
 n
1
an = 1 + ,
n
é convergente. De facto, pode provar-se que esta sucessão é monótona e limitada. Ao seu
limite chamamos e (número de Neper):
 n
1
lim 1 + = e ≈ 2, 718 · · ·
n

2. Séries Numéricas
Se tentarmos adicionar os termos de uma sucessão infinita (an )n∈N obtemos uma ex-
pressão da forma
a1 + a2 + a3 + · · · + an + · · ·
a que chamamos soma infinita de números reais ou série numérica e representaremos por
P∞
an . A sucessão (an )n∈N diz-se o termo geral da série.
n=1
Mas faz sentido falar numa soma com um número infinito de parcelas? É impossı́vel
obter um número real como soma dos termos da sucessão (n)n∈N ,
1+2+3+···
A soma dos n primeiros termos é n(n+1)
n
que se torna muito grande quando
  n aumenta.
1 n
Mas se começarmos a adicionar os n primeiros termos da sucessão 2 n∈N , progressão
geométrica de razão 12 , obtemos
 2  n 1 1
1 1 1 2
+ 2n+1 1
+ +···+ = 1 = 1 − n.
2 2 2 1− 2 2

À medida que n aumenta as somas parciais estão cada vez mais próximas de 1. Assim,
parece razoável que
X∞  n
1
= 1.
n=1
2

P

Definição 2.1. Dada uma série an , denotamos por (sn )n∈N a sua n-ésima soma parcial
n=1

n
X
sn = a1 + · · · + an = ak .
k=1

A sucessão (sn )n∈N dada por

s1 = a1
s2 = a1 + a2
s3 = a1 + a2 + a3
..
.

P

é dita a sucessão das somas parciais da série an . Se a sucessão (sn )n∈N for convergente
n=1
P

e lim sn = s ∈ R, então a série an é dita convergente e escrevemos
n=1


X
an = r.
n=1

O número s diz-se a soma da série. Caso contrário, a série é dita divergente.


P
∞ P
∞ 
1 n
Exemplo 2.1. Como vimos em cima, a série n é divergente e a série 2
é conver-
n=1 n=1
gente com soma 1.

Exemplo 2.2. A série de Mengoli



X 1
n=1
n(n + 1)
1
converge e a sua soma é 1. Com efeito, n(n+1) = n1 − n+1
1
, pelo que a sua n-ésima soma
parcial pode ser escrita como
1 1 1
sn = + +···+
1·2 2·3 n(n + 1)
1 1 1 1 1 1
= − + − +···+ −
1 2 2 3 n n+1
1
=1−
n+1
P

1
Assim lim sn = 1 e, portanto, n(n+1)
= 1.
n=1

Exemplo 2.3. A série harmónica



X 1
n=1
n
é divergente. De facto, consideremos a subsucessão (s2n )n∈N da sucessão das somas parciais
(sn )n∈N e notemos que
1
s21 = 1 +
2    
1 1 1 1 1 1 2
s22 = 1 + + + >1+ + + =1+
2 3 4 2 4 4 2
   
1 1 1 1 1 1 1
s23 = 1 + + + + + + +
2 3 4 5 6 7 8
   
1 1 1 1 1 1 1
>1+ + + + + + +
2 4 4 8 8 8 8
3
=1+
2
..
.
n
s2n > 1 +
2
Portanto, (sn )n∈N possui uma subsucessão ilimitada, pelo que (sn )n∈N não é convergente.
Concluı́-se então que a série harmónica é divergente.
P

Definição 2.2. Uma série an diz-se geométrica se o seu termo geral for o termo geral
n=1
de uma progressão geométrica ar n−1 , onde a, r ∈ R. Ou seja, é uma série da forma

X
ar n−1 = a + ar + ar 2 + ar 3 + · · ·
n=1

Pelo exposto no exemplo 1.9, obtemos o seguinte resultado.


P

Teorema 2.1. Seja ar n−1 uma série geométrica. Se a = 0 então a série converge e a
n=1
sua soma é zero. Se a 6= 0 então:
(1) a série diverge para |r| ≥ 1;
a
(2) a série converge para 1−r se |r| < 1.
Por outras palavras, a soma de uma série geométrica convergente é
1◦ termo
.
1 − razão
Exercı́cio 2.1. Averigúe se as seguintes séries são convergentes ou divergentes.
8 16 32 5 25 125
(a) 4 + + + +··· , (b) − 1 + − + −···
5 25 125 2 8 32
Exercı́cio 2.2. Determine a natureza das seguintes séries, indicando a sua soma no caso
da série ser convergente:
X∞ X∞ n−1 X∞  n−1 X∞  n X∞
2 3 1 1
(a) n−1
, (b) n+3
, (c) , (d) , (e) 22n 31−n .
n=1
3 n=1
2 n=1
2 n=1
2 n=1
P

Teorema 2.2. Se a série an convergente, então lim an = 0.
n=1

Demonstração. Seja (sn )n∈N a sucessão das somas parciais associada à série. Considerando
tn = sn+1 , podemos considerar a sucessão (tn )n∈N como uma subsucessão de (sn )n∈N e
como tal convergente para o mesmo limite. Assim,
lim an = lim sn − tn−1 = 0.

Nota 2.1. A uma série associamos duas sucessões: a sucessão (sn )n∈N das somas parciais
P

associada à série e a sucessão (an )n∈N dos seus termos. Se an for convergente, a sua
n=1
soma é s = lim sn e lim an = 0.
P

O recı́proco deste teorema é falso: se lim an = 0 não podemos concluir que a série an
n=1
P

1
converge. De facto, a série n
diverge e lim n1 = 0.
n=1
P

Corolário 2.3 (Teste para a divergência). Se lim an 6= 0, então a série an é divergente.
n=1
P
∞ P
∞ P

n
Exemplo 2.4. As séries (−1)n , ne n+1
são divergentes, pois os seus termos gerais
n=1 n=1 n=1
não convergem para zero.
P
∞ P

Nota 2.2. Seja k ∈ N e a série que se obtém de an omitindo os seus primeiros k − 1
n=k n=1
termos. Então
P
∞ P

(1) a natureza das séries e an coincide mas;
n=k n=1
P

(2) no caso convergente as suas somas podem não coincidir. De facto, se an = s
n=1
P

tem-se = s − (a1 + . . . + ak−1 ).
n=k
P

Exercı́cio 2.3. Mostre que a série xn , onde
n=1
(
1 + en , se n < 106
xn = 2 6
,
3n−1 , se n ≥ 10
é convergente.
P
∞ P

Teorema 2.4 (Álgebra das séries). Sejam an e bn duas séries convergentes com
n=1 n=1
somas s e t, respectivamente. Então, dado c ∈ R,
P
∞ P

(1) (an + bn ) e can são ambas convergentes;
n=1 n=1
P
∞ P

(2) a soma de (an + bn ) é s + t e a soma de can é cs.
n=1 n=1

P
∞ P
∞ P

Corolário 2.5. Se an é convergente e bn é divergente, então a série (an + bn ) é
n=1 n=1 n=1
divergente.
P

Demonstração. Se (an + bn ) fosse convergente, então pelo teorema anterior também a
n=1
série

X ∞
X ∞
X
bn = (an + bn ) − bn
n=1 n=1 n=1
seria convergente, o que é um absurdo. 
P∞
1+2n
Exemplo 2.5. A série 3n
é convergente, pois é a soma das séries geométricas conver-
n=1
P

1 3
P
∞ 
2 n 3
P

1+4n
gentes 3n
= 2
e 3
= 3. A sua soma é, pois, igual a 2
+ 3. Já a série 3n
n=1 n=1 n=1
diverge pois é a soma de uma série convergente com uma divergente.
Exercı́cio 2.4. Determine a natureza das séries de termo geral indicado:
2n + 3n+1 2 1 1 1
(a) , (b) + n, (c) + .
6n n(n + 1) 2 n(n + 1) n
2.1. Séries de termos positivos. Em geral é difı́cil encontrar a soma exacta de uma
série. Conseguimos fazê-lo nos casos anteriores porque foi fácil encontrar uma fórmula
simples para a n-ésima soma parcial sn . Mas geralmente não é simples calcular lim sn .
Iremos pois desenvolver vários testes que nos permitirão concluir se uma série de termos
positivos é convergente ou divergente sem calcular a sua soma explicitamente.
P
∞ P

Teorema 2.6. Sejam an e bn duas séries. Suponhamos que 0 ≤ an ≤ bn , para todo
n=1 n=1
o n ≥ n0 . Então,
P
∞ P

(1) se bn é convergente, então an é também convergente;
n=1 n=1
P∞ P

(2) se an é divergente, então bn é também divergente.
n=1 n=1

P

1
Exemplo 2.6. A série 2n +1
é convergente, uma vez que
n=1
1 1
0≤ ≤
2n + 1 2n
P

1 1
e a série 2n
converge pois é uma série geométrica de razão 2
< 1.
n=1
P

1
Definição 2.3. Seja p ∈ R. A série-p, ou de Dirichlet, correspondente é np
.
n=1

1
P

Se 0 < p ≤ 1, temos np
> n1 . Uma vez que a série harmónica 1
n
é divergente, pelo
n=1
teste de comparação concluı́mos que a série-p é divergente para 0 < p ≤ 1. Em geral,
temos o seguinte resultado:

P

1
Teorema 2.7. A série-p np
é divergente se p ≤ 1 e convergente se p > 1.
n=1

P
∞ P

Teorema 2.8 (Teste de comparação do limite). Sejam an e bn duas séries de
n=1 n=1
termos positivos. Se lim abnn ∈ R+ , isto é, não é zero nem +∞, então as séries têm a
mesma natureza.
P

1
Exemplo 2.7. A série 2n −1
é convergente. De facto,
n=1

1
2n −1 2n
lim 1 = lim = 1 ∈ R+
2n
2n − 1

P

1 1
e a série 2n
é geométrica de razão 2
< 1, logo convergente. Pelo teste de comparação
n=1
do limite, obtemos o resultado.

P

Teorema 2.9 (Critério da razão ou d’Alembert). Seja an uma série de termos posi-
n=1
tivos.
P

(1) Se lim an+1
an
= L < 1 a série an é convergente.
n=1
P

(2) Se lim an+1
an
= L > 1 ou lim an+1
an
= +∞ a série an é divergente.
n=1
(3) Se lim an+1
an
= 1 nenhuma conclusão pode ser retirada sobre a convergência ou
P

divergência da série an .
n=1

P

Teorema 2.10 (Critério da raiz ou de Cauchy). Seja an uma série de termos positivos.
n=1

√ P

(1) Se lim n
an = L < 1 a série an é convergente.
n=1
√ √ P∞
(2) Se lim an = L > 1 ou lim n an = +∞ a série
n
an é divergente.
√ n=1
(3) Se lim n an = 1 nenhuma conclusão pode ser retirada sobre a convergência ou
P

divergência da série an .
n=1
Exercı́cio 2.5. Determine a natureza das séries de termo geral indicado:
n! 8n n! n!
(a) 2n+1
, (b) nn
, (c) (2n)!
, (d) n−n ,

n n  2n sin( n
π π n2 −4
1
)
(e) n sin 3n , (f ) n4 tan4 ( 3n ) , (g) n2
, (h) 2n
,

  n2
1 n3 +3n+7 π 5
(i) sin n
, (j) n4 −2n3 +5
, (k) 1− n+3
, (l) 2+3n
,

2 3
(m) 2n
√ +3n ,
5+n5
(n) n3n , (o) 2·4·6·...·(2n)
n!
, (p) 2n1−1 .

Exercı́cio 2.6. Mostre que lim en!n = +∞.


2.2. Séries com termos de sinal não definido. Até ao momento só analisamos testes
para séries com termos de sinal positivo. Vamos de seguida aprender a lidar com séries
cujos termos não são necessariamente positivos. Designaremos estas séries por séries de
termos de sinal não definido. De entre estas, existem umas especiais chamadas séries
alternadas.
Definição 2.4. Uma série alternada é aquela cujos termos são alternadamente positivos
e negativos.
Exemplo 2.8. As seguintes séries são alternadas:

X 1 1 1 1 1 1
(−1)n−1 = 1− + − + − +···
n=1
n 2 3 4 5 6


X n 1 2 3 4 5
(−1)n−1 = − + − + − +···
n=1
n+1 2 3 4 5 6

Teorema 2.11 (Critério de Leibniz). Se (bn ) é uma sucessão decrescente tal que lim bn =
P

0, então a série alternada (−1)n bn é convergente.
n=1

P

Exemplo 2.9. A série alternada (−1)n−1 n1 é convergente pois (bn ) = ( n1 ) é uma sucessão
n=1
decrescente, isto é, bn ≤ bn+1 para todo o n ≥ 1 e lim bn = 0. Esta série designa-se por
série harmónica alternada.
P

2n
Exemplo 2.10. O critério de Leibniz não pode ser aplicado à série alternada (−1)n−1 3n−1
n=1
2n
pois o limite lim 3n−1 = 32 6= 0. No entanto, é fácil verificar que as subsucessões dos termos
pares e dos termos ı́mpares têm limites diferentes, donde se conclui que não existe o limite
2n
do termo geral (−1)n−1 3n−1 . Assim, pelo teste da divergência, a série dada é divergente.
Exercı́cio 2.7. Determine a natureza das séries de termo geral indicado:
(−1)n n (−1)n+1 (−1)n 1 1
(a) n2 −2
,n ≥ 2, (b) ln n
,n ≥ 2, (c) n2n
, (d) (−1)n n+3 − n2 +3
,

(−1)n 3n 2 cos(nπ) n
(e) 4n−1
, (f ) (−1)n+1 n3n+1 , (g) n3/4
, (h) (−1)n nn! .
P

2.3. Convergência absoluta. Dada uma série an podemos considerar a série
n=1

X
|an | = |a1 | + |a2 | + · · · + |an | + · · ·
n=1

cujos termos são os valores absolutos dos termos da série original.


P

Definição 2.5. Uma série an é dita absolutamente convergente se a série dos valores
n=1
P

absolutos |an | for convergente.
n=1

Para determinarmos se uma série é absolutamente convergente basta aplicar os testes


P

que estudamos para séries de termos positivos. Notemos que se a série original an tiver
n=1
todos os termos positivos, então ela coincide com a série dos valores absolutos. Neste caso
a noção de convergência absoluta coincide com a noção de convergência. Nos exemplos
seguintes veremos que nem sempre é este o caso.
P

Exemplo 2.11. Vimos no exemplo 2.9 que a série harmónica alternada (−1)n−1 n1 é
n=1
convergente, mas esta série não é absolutamente convergente uma vez que a série dos
valores absolutos
X∞ ∞
1 X 1
(−1)n−1 =
n n
n=1 n=1
é divergente.
P

(−1)n
Exemplo 2.12. Usando o critério de Leibniz é fácil verificar que a série alternada n2
n=1
é convergente. Além disso esta série é também absolutamente convergente uma vez que a
série dos valores absolutos
X∞ ∞
(−1)n X 1
=
n2 n2
n=1 n=1
é uma série-p com p = 2 > 1, logo convergente.
Definição 2.6. Uma série é dita simplesmente convergente se for convergente mas não
absolutamente convergente.
Como vimos, a série harmónica é simplesmente convergente.
P
∞ P

Teorema 2.12. Se a série an é absolutamente convergente, então a série an é
n=1 n=1
convergente e ∞
X X ∞

an ≤ an .
n=1 n=1

Demonstração. Observemos que 0 ≤ an + |an | ≤ 2|an |, para todo o n ≥ 1. Como por


P
∞ P

hipótese |an | converge, também a série 2|an | converge e, pelo teste de comparação
n=1 n=1
P

para série de termos positivos, podemos concluir que a série an +|an | também converge.
n=1
P

Mas então an converge, pois podemos expressar esta série como a soma de duas séries
n=1
convergentes

X ∞
X ∞
X
an = an + |an | − an .
n=1 n=1 n=1
P
∞ P

Designemos por (sn ) e por (s′n ) as sucessões das somas parciais das séries an e |an |.
n=1 n=1
Pela desigualdade triangular podemos escrever
|sn | := |a1 + a2 + · · · + an | ≤ |a1 | + |a2 | + · · · + |an | = s′n .

P
∞ P ∞
Assim, obtemos lim |sn | ≤ lim s′n , ou seja, an ≤ an . 
n=1 n=1
P

cos n
Exemplo 2.13. A série n2
é absolutamente convergente. Com efeito, se considerarmos
n=1

P P

cos2n = | cos n| | cos n| 1
a série n n2
, notamos que n2
≤ n2
, uma vez que | cos n| ≤ 1. Como
n=1 n=1
P
∞ ∞
P
1
converge, pelo teste de comparação, a série cos2n é convergente.
n2 n
n=1 n=1

Exercı́cio 2.8. Averigúe se as seguintes séries são absolutamente convergentes:


X∞ X∞ X∞
sin n (−1)n nn
3
(a) , (b) , (c) (−1) n .
n=1
n2 n=1
n n=1
3
Exercı́cio 2.9. Mostre que se a série de termo geral an é absolutamente convergente, o
mesmo se passa com a série de termo geral bn = n+2
n
an .
2.4. Rearranjos. Se arranjarmos a ordem dos termos numa soma finita, então é claro
que o valor da soma permanecerá inalterado. Mas esse nem sempre é o caso para uma
série.
P

Definição 2.7. Por rearranjo de uma série an queremos designar uma série obtida
n=1
desta mudando a ordem dos seus termos.
P

Exemplo 2.14. A série a1 + a2 + a5 + a3 + a8 + a4 + · · · é um rearranjo da série an .
n=1
P

Teorema 2.13. Se an for uma série absolutamente convergente com soma s, então
n=1
P

qualquer rearranjo de an tem a mesma soma s.
n=1

Mostraremos de seguida que o teorema anterior não é válido se a série não for absolu-
tamente convergente.
P

Exemplo 2.15. Já vimos que a série harmónica alternada (−1)n−1 n1 = 1 − 12 + 13 − 14 +
n=1
1
P

5
− · · · é simplesmente convergente. Além disso, pode provar-se que (−1)n−1 n1 = ln 2.
n=1
Daqui segue que

1X 1 1 1 1 1 ln 2
(−1)n−1 = − + − + · · · = .
2 n=1 n 2 4 6 8 2
Podemos adicionar zeros à série anterior sem alterar a sua soma
1 1 1 1 ln 2
(2.1) 0+ +0− +0+ +0− +··· = ,
2 4 6 8 2
pois embora cada termo na sucessão das somas parciais da nova série seja repetido, o seu
limite não se altera. Somando a série harmónica alternada com a série (2.1), obtemos a
série
1 1 1 1 1 ln 2 3
1 + − + + − + · · · = ln 2 + = ln 2.
3 2 5 7 4 2 2
1 1 1 1 1
Ou seja, a série 1 + 3 − 2 + 5 + 7 − 4 + · · · , que é um rearranjo da série harmónica
alternada, tem soma diferente da soma da série harmónica alternada.
Sobre o comportamento das séries simplesmente convergentes, temos o seguinte resul-
tado obtido por Riemann:
P

Teorema 2.14. Se an for simplesmente convergente e r for um número real qualquer,
n=1
P

então existe um rearranjo de an que tem soma igual a r.
n=1

2.5. Produto de Cauchy.


Definição 2.8. Sejam (an ) e (bn ) duas sucessões. A convolução de an por bn é a sucessão
(un ) dada por
u0 =a0 b0
u1 =a0 b1 + a1 b0
u2 =a0 b2 + a1 b1 + a2 b0
..
.
Xn
un = ak bn−k
k=0
..
.
P
∞ P

Teorema 2.15. Sejam an e bn duas séries absolutamente convergentes. Então
n=0 n=0
P

a série un , cujo termo geral é a convolução dos termos gerais das séries dadas, é
n=0
absolutamente convergente e
∞ ∞
! ∞
!
X X X
un = an bn .
n=0 n=0 n=0

P

1
Exemplo 2.16. A série 7n
é absolutamente convergente, pois é geométrica de razão
n=0
1 1
7
< 1 e tem soma 1− 17
= 76 . A convolução de ( 71n ) por si própria dá origem à sucessão

Xn
1 1 1 1 1 1 1 1 n+1
un = k 7n−k
= 0 7n−0
+ 1 7n−1
+ · · · + n 7n−n
= n
.
k=0
7 7 7 7 7
Portanto, ! !

X X∞ X∞  2
n+1 1 1 7
= = .
n=0
7n n=0
7n n=0
7n 6
P
∞ P

Pode acontecer que an e bn sejam ambas convergentes, não absolutamente, e o
n=0 n=0
P

produto de Cauchy un seja divergente.
n=0

P

Exemplo 2.17. A série (−1)n−1 √1n é simplesmente convergente e a convolução do seu
n=1
termo geral an = (−1)n−1 √1n por si próprio é
 
n−1 1 1 1 1 1 1
un = (−1) √ √ +√ √ +···+ √ √ .
1 n 2 n−1 n 1
Tem-se, portanto,
1 1 1 1 1 1 n
|un | ≥ √ √ + √ √ + · · · + √ √ = + + · · · + = = 1.
n n n n n n n n n n
P

Daqui conclui-se que lim un 6= 0 e, portanto, a série un diverge.
n=1

3. Séries de funções
3.1. Sucessões de funções.
Definição 3.1. Uma sucessão de funções (fn )n∈N é uma lista infinita de funções reais
fn : D → R com o mesmo domı́nio D ⊆ R. Tal como nas sucessões reais podemos
escrevê-las por extenso:
(f1 , f2 , . . . , fn , . . .).
Exemplo 3.1. Para cada n ≥ 1, as funções
fn : [0, 1] → R
x 7→ xn = fn (x)
definem a sucessão de funções (fn )n∈N . Notemos que a função limite é descontı́nua em
x = 1.
Definição 3.2. Dada uma sucessão de funções (fn )n∈N e uma função f : D → R, dizemos
que (fn )n∈N converge pontualmente para f , e escrevemos fn → f ou lim fn = f se para
todo o x ∈ D a sucessão numérica (fn (x))n∈N converge para f (x). Simbolicamente, fn → f
se fixado x ∈ D,
∀ε > 0∃n0 ∈ N : n ≥ n0 ⇒ |fn (x) − f (x)| < ε.
A função f diz-se a função limite pontual da sucessão (fn )n∈N em D.
Notemos que na convergência pontual a ordem n0 não depende apenas de ε mas também
do ponto x ∈ D considerado.
Exemplo 3.2. Consideremos novamente a sucessão de funções (fn )n∈N definida no exemplo
4.6. Fixado x ∈ [0, 1],
(
0, se 0 ≤ x < 1
lim fn (x) = lim xn =
1, se x = 1.
Considerando a função f : [0, 1] → R, definida por f (x) = 0 se 0 ≤ x < 1, e f (1) = 1,
concluı́mos que lim fn (x) = f (x), para todo o x ∈ D, isto é, fn → f pontualmente.
2
Exemplo 3.3. A sucessão de funções fn (x) = nxn+x definidas em R converge pontualmente
para a função f (x) = x2 , pois lim fn (x) = lim x2 + nx = x2 para cada x ∈ R.
Se, na definição 3.2 a ordem n0 for independente de x, diremos que temos convergência
uniforme. Isto é, quando for possı́vel, para qualquer ε > 0 dado, obter um n0 ∈ N que
sirva para todos os pontos x ∈ D, diremos que fn → f uniformemente em D.
Definição 3.3. A sucessão de funções (fn )n∈N converge uniformemente para a função f
se
∀ε > 0∃n0 ∈ N : n ≥ n0 ⇒ |fn (x) − f (x)| < ε, para todo o x ∈ D.
Notemos que se fn → f uniformemente em D, então também fn → f pontualmente
em D.
A importância do conceito de convergência uniforme resulta do facto de haver resultados
que são válidos quando temos convergência uniforme e que não se verificam quando temos
apenas convergência pontual.
Teorema 3.1. Se fn → f uniformemente em D e fn são funções contı́nuas, então f é
também contı́nua em D.
O corolário seguinte é particularmente útil quando pretendemos mostrar que não temos
convergência uniforme.
Corolário 3.2. Se fn são funções contı́nuas em D, fn → f pontualmente e f não é
contı́nua, então a convergência não é uniforme.
Exemplo 3.4. Vimos no exemplo 3.2 que a sucessão de funções (xn )n∈N converge pontual-
mente para a função f . Uma vez que as funções xn são contı́nuas e que f é descontı́nua
em x = 1, podemos concluir que a convergência xn → f não é uniforme.
Exercı́cio 3.1. Analise a convergência pontual e uniforme das seguintes sucessões de
funções nos intervalos indicados:
(1) fn (x) = e−nx em [0, 1].
nx2
(2) fn (x) = 1+nx2
em R.
(3) fn (x) = nxe−nx em R.
3.2. Séries de funções.
Definição 3.4. Uma série de funções reais definidas em D ⊆ R é uma expressão da forma
X∞
fn ou f1 + f2 + · · · + fn + · · · ,
n=1

onde (fn )n∈N é uma sucessão de funções. O termo geral dessa sucessão é o termo geral da
série.
Dada uma sucessão de funções (fn )n∈N definidas em D ⊆ R, consideremos a sucessão
de funções (sn )n∈N definidas por
sn : D → R
x 7→ sn (x) = f1 (x) + · · · + fn (x)
e chamada a sucessão das somas parciais. Se a sucessão (sn )n∈N for convergente, dizemos
P

que a série fn é convergente e ao seu limite chamamos soma da série. Caso contrário
n=1
a série diz-se divergente.
P

Definição 3.5. Dizemos que a série de funções fn converge uniformemente em D se
n=1
a sucessão das somas parciais (sn )n∈N for uniformemente convergente em D para uma
função s.
P

Teorema 3.3. Se as funções fn : D ⊆ R → R forem contı́nuas em D e a série fn
n=1
P

converge uniformemente em D, então a função soma f = fn é contı́nua em D.
n=1

Demonstração. Por hipótese, sucessão das somas parciais sn = f1 + · · · + fn → f uni-


formemente em D. Além disso, a continuidade das funções fn implicam a continuidade
de sn . Assim, pelo teorema 3.1, f é contı́nua em D. 
Teorema 3.4 (Critério de Weierstrass). Se existir uma sucessão numérica (an )n∈N tal
que
(1) ∀n ∈ N, ∀x ∈ D, |fn (x)| ≤ an ,
P∞
(2) an converge,
n=1
P
∞ P

então as séries |fn | e fn são uniformemente convergentes em D.
n=1 n=1

P

sin(nx)
Exemplo 3.5. A série n2
é uniformemente convergente em R pois
n=1

sin(nx) | sin(nx)| 1 X 1
= ≤ 2 , ∀x ∈ R, ∀n ∈ N e a série converge.
n2 n2 n n2
n=1

P

(−1)n 1
Também a série n2 1+x2
é uniformemente convergente em R pois
n=1

(−1)n 1 X
≤ 1 , ∀x ∈ R, ∀n ∈ N e a série 1
converge.
n2 1 + x2 n2 n2
n=1

P

sin(nx) P

(−1)n 1
Portanto, pelo teorema 3.3 as séries n2
e n2 1+x2
definem funções contı́nuas
n=1 n=1
em R, pois estas convergem uniformemente e os seus termos gerais são funções contı́nuas.
3.3. Propriedades da convergência uniforme.
Teorema 3.5. Seja (fn )n∈N uma sucessão de funções onde, para cada n ∈ N, fn : [a, b] →
P

R é contı́nua. Se a série fn converge uniformemente em [a, b], então a soma da série
n=1
é uma função contı́nua e
Z bX
∞ ∞ Z
X b
fn (x)dx = fn (x)dx.
a n=1 n=1 a
P

1 1
Exemplo 3.6. Pelo critério de Weierstrass, é fácil mostrar que a série 2n 1+x2
é uni-
n=1
1
formemente convergente. Como as funções 21n 1+x 2 são contı́nuas em R, temos

Z 1 X ∞
! ∞ Z 1 ∞ Z 1
1 1 X 1 1 X 1 1
n 2
dx = n 2
dx = dx
0 n=1
2 1+x n=1 0
2 1+x n=1
2 0 1 + x2
n

X∞  1 X ∞
1 1 π
= arctg(x) =
n=1
2n 0 n=1
2n 4
∞  n
πX 1 π 12 π
= = 1 = .
4 n=1 2 41− 2 4
Exercı́cio 3.2. Calcule:
Z π ∞
!
2 X (−1)n
sin(x) dx.
0 n=1
3n
Teorema 3.6. Seja (fn )n∈N uma sucessão de funções onde, para cada n ∈ N, fn : [a, b] →
P

R é derivável. Suponhamos que para um certo ponto c ∈ [a, b], a série numérica fn (c)
n=1
P

é convergente. Se a série fn′ converge uniformemente em [a, b] para uma função T (x),
n=1
P

então a série fn converge uniformemente para uma função S(x) que satisfaz S ′ (x) =
n=1
T (x), isto é, !′

X ∞
X
fn (x) = fn′ (x).
n=1 n=1

P

(−1)n
Exemplo 3.7. Consideremos a série 3n
sin(x). Aplicando o critério de Weierstrass,
n=1
P

(−1)n
concluı́mos que a série das derivadas 3n
cos(x) converge uniformemente no inter-
n=1
P

(−1)n
valo [0, π]. Além disso, fazendo x = 0 obtemos a série 3n
que é absolutamente
n=1
convergente. Assim, temos

!′ ∞  ′ ∞
X (−1)n X (−1)n X (−1)n
sin(x) = sin(x) = cos(x).
n=1
3n n=1
3n n=1
3n
3.4. Séries de Potências.
Definição 3.6. Uma série de potências é uma série de funções da forma
X∞
an (x − x0 )n ,
n=0

com x0 ∈ R, fixo, chamado o centro da potência e (an )n∈N uma sucessão numérica. Esta
série é também designada por série de potências em x − x0 , série de potências centrada
em x0 ou série de potências em torno de x0 .
Nota 3.1. No termo correspondente a n = 0 convencionamos (x−x0 )0 = 1, mesmo quando
x = x0 .
P

Para cada x ∈ R podemos considerar a série numérica an (x − x0 )n que se obtém
n=0
substituindo no termo geral a variável x pelo número x. Coloca-se então a questão de
determinar para que valores de x converge a série. Claro que para x = x0 só o primeiro
termo é não nulo, igual a 1, sendo todos os restantes iguais a zero. Portanto, para x = x0
a série é sempre convergente. É assim natural perguntar se a série de potências converge
para algum ponto diferente de x0 , e em caso afirmativo indagar qual o conjunto de todos
os tais números, conjunto esse que designaremos por intervalo de convergência.
Exemplo 3.8. A série

X
n!xn
n=0
converge apenas para x = 0. De facto, para x 6= 0, fazendo an = n!xn e aplicando o teste
da razão à série dos valores absolutos obtemos
|an+1 |
lim = lim(n + 1)|x| = +∞.
|an |
Isto significa que existe uma ordem n0 a partir da qual todos os termos verificam |a|an+1
n|
|
> 1,
ou equivalentemente, |an+1 | > |an | para todo o n ≥ n0 , pelo que lim |an | =6 0. Claro que
P

isto implica lim an 6= 0 e, pelo teste da divergência, a série n!xn diverge.
n=1

Exemplo 3.9. Mostremos que a série



X xn
n=1
n!
xn
converge para todos os valores de x ∈ R. Com x 6= 0 e an = n!
, temos
|an+1 | |x|
lim = lim = 0, para todo o x ∈ R.
|an | n
Pelo teste da razão a série dos valores absolutos é convergente, pelo que a série original é
absolutamente convergente, e portanto convergente, para todo o x ∈ R.
Exemplo 3.10. Consideremos agora a série

X (x − 3)n
n=0
n
e notemos que para x 6= 0,
|x − 3|n+1 n n
lim n
= lim |x − 3| = |x − 3|.
n + 1 |x − 3| n+1
Pelo critério da razão a série é absolutamente convergente para |x − 3| < 1. Além disso,
o argumento usado no exemplo 3.8 permite concluir que a série diverge para |x − 3| > 1.
Resta averiguar o que acontece quando |x − 3| = 1, ou seja, quando x = 2 e x = 4. No
P∞
(−1)n
primeiro caso obtemos a série harmónica alternada n
, que é convergente, enquanto
n=1
P

1
que no segundo caso obtemos a série harmónica n
, que diverge. Portanto, a série dada
n=1
converge para todo o x ∈ [2, 4[.
P

Teorema 3.7. Seja an (x − x0 )n . Então, existem apenas três possibilidades:
n=0
(1) a série converge somente para x = x0 ;
(2) a série converge absolutamente para todo o x ∈ R;
(3) existe um número positivo R > 0 tal que a série converge absolutamente se
|x − x0 | < R e diverge se |x − x0 | > R.
Convenciona-se R = 0 no primeiro caso e R = ∞ no segundo. Ao número R chama-se
raio de convergência
No terceiro caso, a convergência nos extremos do intervalo ]x0 − R, x = x0 + R[ tem de
ser verificada directamente. Além disso, no caso da série convergir nalgum dos extremos
essa convergência pode ser absoluta ou apenas simples.
Definição 3.7. O intervalo de convergência de uma série de potências é o intervalo
formado por todos os valores de x para os quais a série converge. No primeiro caso do
teorema do raio de convergência temos apenas {x0 }, no segundo R =] − ∞, +∞[ e no
terceiro caso, existem quatro possibilidades:
]x0 − R, x0 + R[, [x0 − R, x0 + R[, ]x0 − R, x0 + R], [x0 − R, x0 + R].
Exercı́cio 3.3. Determine o raio e o intervalo de convergência das seguintes séries de
potências:
X∞ ∞
X ∞
X
xn n n (−1)n xn
(a) , (b) 3 x , (c) ,
n=0
n+1 n=0 n=0
n!

X∞ ∞
X X∞
n! n 5n n xn
(d) x , (e) x , (f ) ,
n=0
2n n=1
n2 n=2
ln n


X ∞
X ∞
X
(−2)n xn+1 n−1 xn (−1)n x2n
(g) , (h) (−1) √ , (i) ,
n=0
n+1 n=1
n n=0
(2n)!


X ∞
X X∞  n
(x − 3)n (−1)n+1 (x + 1)n 3
(j) , (k) , (l) (x + 5)n .
n=0
2n n=1
n n=0
4

3.5. Continuidade e convergência uniforme de uma série de potências.


P

Teorema 3.8. Seja an (x − x0 )n uma série de potências com raio de convergência
n=0
R > 0. Se a série converge absolutamente no ponto c > x0 , então a série converge
uniformemente no intervalo [−c, c] ⊆]x0 − R, x0 + R[.
Demonstração. Dado x ∈ [−c, c], temos |x − x0 | ≤ |c − x0 |. Portanto, podemos escrever
|an (x − x0 )n | ≤ |an |(c − x0 )n .
P

Como a série |an |(c − x0 )n é, por hipótese, convergente, concluı́mos pelo critério de
n=0
P

Weierstrass que a série an (x − x0 )n converge uniformemente em [−c, c]. 
n=0
Como corolário do teorema anterior concluı́mos que uma série de potências
X∞
an (x − x0 )n
n=0

com raio de convergência R > 0 (ou R = ∞) converge uniformemente em qualquer


intervalo fechado contido no seu intervalo de convergência ]x0 − R, x0 + R[. A série
de potências é assim uma função contı́nua em qualquer intervalo fechado contido em
]x0 − R, x0 + R[. Pode provar-se mais, isto é, uma série de potências é sempre uma função
contı́nua em todo o domı́nio de convergência pontual.
Atendendo aos teoremas 3.5 e 3.6, é agora fácil concluir as propriedades de derivação e
integração de uma série de potências.
P

Teorema 3.9. Seja an (x − x0 )n uma série de potências. Seja f :]x0 − R, x0 + R[→ R
n=0
a respectiva função soma, onde R 6= 0 é o raio de convergência da série de potências.
P

(1) A série nan (x − x0 )n−1 que se obtém derivando termo a termo, tem o mesmo
n=1
raio de convergência, R, e a sua função soma é f ′ .
P

an
(2) A série n+1
(x−x0 )n+1 que se obtém primitivando termo a termo, tem o mesmo
n=0
raio de convergência, R, e a sua função soma é uma primitiva de f .
Nota 3.2. Uma série de potências de x − x0 com raio de convergência R > 0 possui
derivadas de todas as ordens em qualquer ponto do intervalo ]x0 − R, x0 + R[.
Nota 3.3. Embora o teorema anterior diga que o raio de convergência permanece o mesmo
quando uma série de potências é diferenciada ou integrada, isso não significa que o inter-
valo de convergência permanece o mesmo. Pode acontecer a série original convergir num
extremo enquanto que a série diferenciada diverge nesse ponto.
P∞ n
x
Exemplo 3.11. O intervalo de convergência da série de potências n2
é [−1, 1], mas o
n=1
intervalo de convergência da sua derivada

!′ ∞  n ′ ∞
X xn X x X xn−1
= =
n=1
n2 n=1
n2 n=1
n
é [−1, 1[.
A partir do conhecimento do desenvolvimento em série de potências de algumas funções
é possı́vel, usando o teorema anterior, definir desenvolvimentos em série de potências de
outras funções.
Exemplo 3.12. Vejamos como determinar o desenvolvimento em série de potências de
algumas funções a partir da igualdade
X∞
1
xn = , |x| < 1.
n=0
1 − x
1 1
Escrevendo 1+x
= 1−(−x)
, obtemos
X ∞ X ∞
1 1
= = (−x)n = (−1)n xn ,
1+x 1 − (−x) n=0 n=0
válido para | − x| < 1, ou seja, |x| < 1. Usando o mesmo raciocı́nio temos
X ∞
1 1
= = (−1)n x2n ,
1 + x2 1 − (−x2 ) n=0

para | − x2 | < 1, ou seja, para |x| < 1. Integrando termo a termo esta última igualdade,
obtemos
Z X ∞
! ∞ Z ∞
X X x2n+1
n 2n n 2n
arctg(x) = (−1) x dx = (−1) x dx = (−1)n ,
n=0 n=0 n=0
2n + 1
válido para |x| < 1.
1
Exemplo 3.13. Consideremos agora a função (1+x)2
. Derivando a expressão
X ∞
1
= xn
1 − x n=0
obtemos !′

X ∞
X ∞
X ∞
X
1
= xn = (xn )′ = nxn−1 = (n + 1)xn ,
(1 − x)2 n=0 n=0 n=1 n=0
válido para |x| < 1.
Exercı́cio 3.4. Desenvolva em série de potências de x as funções a seguir indicadas, e
determine os respectivos intervalos de convergência:

1 x2 1
(a) , (b) , (c) ,
(1 + x)2 (1 + x)2 1 − x2

1 x
(d) (e) ln(1 − x), (f ) .
3+x x2 − 4x + 3
3.6. Série de Taylor.
P

Teorema 3.10. Seja f a função soma da série de potências an (x − x0 )n definida no
n=0
interior do intervalo de convergência D =]x0 − R, x0 + R[, com R > 0. Então a função f
admite derivadas de qualquer ordem em D e
f (n) (x0 )
an = .
n!
Demonstração. Temos f (x0 ) = a0 , pois convencionámos (x − x0 )0 = 1 para todo o x ∈ R.
Derivando a série, obtemos

X
f ′ (x) = nan (x − x0 )n−1 ,
n=1

donde f (x0 ) = a1 . Derivando sucessivamente e fazendo x = x0 obtemos
f ′′ (x0 ) = 2a2 , . . . , f (n) (x0 ) = n!an ,
como pretendı́amos provar. 
Deste teorema concluı́-se que uma função f (x) não pode ser a soma de duas séries de
potências de x − x0 diferentes com raio de convergência não nulo, pois da igualdade

X ∞
X
n
f (x) = an (x − x0 ) = bn (x − x0 )n
n=0 n=0

obtemos
f (n) (x0 )
an = bn = , para todo o n ≥ 0.
n!
Definição 3.8 (Série de Taylor). Sejaf :]a, b[→ R uma função que admite derivadas de
qualquer ordem nos pontos de ]a, b[. Seja x0 ∈]a, b[. A série de Taylor de f em torno de
x0 é a série de potências de centro em x0 dada por

X f (n) (x0 )
(x − x0 )n .
n=0
n!

O termo geral da sucessão das somas parciais


n
X f (k) (x0 )
sn (x) = (x − x0 )k
k=0
k!

chama-se polinómio de Taylor de grau n de f no ponto x0 .


Dada uma qualquer função com derivadas de qualquer ordem em x0 , podemos sempre
construir a sua série de Taylor. Coloca-se então a questão de saber qual a relação entre a
função f e a sua série de Taylor. Como veremos no exemplo seguinte, nem sempre a série
de Taylor de uma uma função converge para essa função.
( −2
e−x , x 6= 0
Exemplo 3.14. A função f (x) = admite derivadas de qualquer ordem
0, x=0
numa vizinhança do ponto 0, tendo-se f (n) (0) = 0, para n ≥ 0. Assim, a sua série de
Taylor em torno do ponto 0, dada por

X ∞
X
n
0x = 0 = 0,
n=0 n=0

converge em todo o R para a função nula, e portanto não converge para a função f em
nenhuma vizinhança da origem.
Definição 3.9. Uma função f :]a, b[→ R diz-se analı́tica em x0 ∈]a, b[ se existe uma série
P∞
de potências an (x − x0 )n tal que f (x) seja a soma dessa série para todo o x numa
n=0
vizinhança de x0 , isto é para todo o x ∈]x0 − ǫ, x0 + ǫ[⊆]a, b[, com ǫ > 0.

Nota 3.4. Se f :]a, b[→ R for analı́tica em x0 ∈]a, b[ então f é soma da sua série de Taylor
P
∞ (n)
f (x0 )
numa vizinhança de x0 , ou seja f (x) = n!
(x − x0 )n para todo o x ∈]x0 − ǫ, x0 + ǫ[.
n=0

Nota 3.5. Se f é analı́tica em x0 , f tem derivadas de qualquer ordem numa vizinhança


desse ponto e todas as suas derivadas são funções analı́ticas.
1
Exemplo 3.15. A função f :] − 1, 1[→ R definida por 1−x
é analı́tica em 0, pois
X ∞
1
= xn
1 − x n=0
para todo o x ∈] − 1, 1[.
Quando pretendemos representar funções por séries de Taylor temos necessidade de
identificar quais as funções analı́ticas num certo ponto. Para tal, na próxima secção
vamos apresentar critérios de analiticidade.

3.7. Fórmula de Taylor. Critérios de analiticidade.


Teorema 3.11 (Fórmula de Taylor com resto de Lagrange). Seja f :]a, b[→ R uma função
que admite derivadas contı́nuas em ]a, b[ até à ordem n + 1 e seja x0 ∈]a, b[. Então para
qualquer x ∈]a, b[, existe c estritamente entre x e x0 tal que
f ′′ (x0 ) f (n) (x0 )
f (x) = f (x0 ) + f ′ (x0 )(x − x0 ) + (x − x0 )2 + · · · + (x − x0 )n + rn (x),
2! n!
onde
f (n+1) (c)
rn (x) = (x − x0 )n+1 .
(n + 1)!
A rn (x) chama-se resto de Lagrange da Fórmula de Taylor de ordem n.
Exemplo 3.16. Vamos usar a fórmula de Taylor para mostrar que sin(x) ≤ x para x ≥ 0.
Fazendo n = 0 e x0 = 0, obtemos
sin(x) = sin(0) + r0 (x),
onde rn (x) = (cos(c))x, para algum 0 < c < x. Como x ≥ 0 e −1 ≤ cos(c) ≤ 1, segue que
sin(x) ≤ x.
A fórmula de Taylor definida em cima permite-nos obter um primeiro critério de analiti-
cidade.
Teorema 3.12 (Primeiro critério de analiticidade). Seja f uma função indefinidamente
diferenciável numa vizinhança de x0 . Então f é analı́tica em x0 se e só se o resto de
Lagrange de f de ordem n é convergente para zero.
Demonstração. Denotando por sn o termo geral da sucessão das somas parciais associada
à série de Taylor de f em torno de x0 , podemos escrever, pela fórmula de Taylor,
f (x) = sn (x) + rn (x), ou ainda rn (x) = sn (x) − f (x).
Portanto, a série de Taylor de f em torno de x0 converge para f numa vizinhança de x0
se e só se
lim sn (x) = f (x) se e só se lim rn (x) = 0.

Exemplo 3.17. Notando que todas as derivadas de ex em torno do ponto 0 são iguais a 1,
a série de Taylor desta função em torno da origem é dada por

X xn
.
n=0
n!
Mostremos que esta série converge para a função ex em todo R. Da fórmula de Taylor de
grau n, temos para cada x ∈ R,
x x2 xn
e =1+x+ +···+ + rn (x),
x n!
ec
onde rn (x) = (n+1)! xn+1 para algum |c| < |x|. Então, para cada x ∈ R fixo, temos que
ec
lim rn (x) = lim xn+1 = 0,
(n + 1)!
P

xn+1
pois como a série numérica (n+1)!
é convergente, o seu termo geral tende para zero.
n=1
Assim, pelo primeiro critério de analiticidade, podemos escrever
X∞
x xn
(3.1) e = , para todo o x ∈ R.
n=0
n!
Notemos ainda que desta igualdade podemos retirar várias propriedades da exponencial.
Por exemplo, derivando termo a termo obtemos
X∞  n ′ X∞ ∞
x ′ x nxn−1 X xn−1
(e ) = = = = ex .
n=0
n! n=1
n! n=1
(n − 1)!
Fazendo x = 0 em (3.1), obtemos a célebre igualdade
X ∞
1
e= .
n=0
n!
Podemos ainda justificar, através da fórmula anterior, o conhecido limite
ex − 1
lim = 1.
x→0 x
2 3 2
de facto, de (3.1) podemos escrever ex − 1 = x + x2! + x3! + · · · = x(1 + 2!x + x3! + · · · ).
Logo, para x 6= 0 tem-se
ex − 1 x x2
=1+ + +···
x 2! 3!
que é uma série de potências convergente em R e, como tal, contı́nua para qualquer x ∈ R.
2
Assim, pondo h(x) = 1 + 2!x + x3! + · · · , temos
ex − 1
lim = lim h(x) = h(0) = 1.
x→0 x x→0

Teorema 3.13 (Segundo critério de analiticidade). Seja f uma função indefinidamente


diferenciável numa vizinhança de x0 . Se existirem um número real M > 0 e uma vizi-
nhança de x0 tais que nessa vizinhança se tenha
|f (n) (x)| ≤ M
para todo o n ≥ 0, então nessa vizinhança, f coincide com a sua série de Taylor em torno
do ponto x0 .
Exemplo 3.18. As funções sin(x) e cos(x) são indefinidamente diferenciáveis e as suas
derivadas são sempre sin(x), cos(x), − sin(x) e − cos(x). Como
| ± sin(x)|, | ± cos(x)| ≤ 1
para todo o x ∈ R, as séries de Taylor de sin(x) e de cos(x) em torno da origem coincidem
com estas funções em R:

X x2n+1
sin(x) = (−1)n
n=0
(2n + 1)!
e

X x2n n
cos(x) = (−1) .
n=0
(2n)!
Exercı́cio 3.5. Determine as séries de Taylor das seguintes funções em torno da origem,
indicando os respectivos raios de convergência.
2
(a) ex , (b) sin(x), (c) cos(x), (d) e−x , (e) e−x/2 ,

(f ) sin(x4 ), (g)x2 e−x , (h) sin(x2 ), (i) x cos(x).

4. Séries de Fourier
Quando tentava solucionar um problema relacionado com a condução do calor, o
matemático Joseph Fourier necessitou de expressar uma função f como uma série tri-
gonométrica da forma
X∞
(4.1) a0 + (an cos(nx) + bn sin(nx)).
n=1

Esta série, chamada trigonométrica ou de Fourier, tem perı́odo 2π, e a sua utilização no
estudo de fenómenos periódicos, como por exemplo ondas de som, movimento da Terra ou
batimento cardı́aco, é por vezes mais vantajosa do que a utilização das séries de potências.
Definição 4.1. Uma função f : R → R é dita periódica de de perı́odo T ∈ R se
f (x + T ) = f (T ), para todo o x ∈ R.
Claro que se T é um perı́odo da função f , então também kT é um perı́odo de f , para
todo o k ∈ Z, uma vez que
f (x + kT ) = f (x + (k − 1)T + T ) = f (x + (k − 1)T ) = · · · = f (x), se k ∈ Z+
e
f (x − T ) = f (x − T + T ) = f (x).
Portanto, sem perda de generalidade podemos considerar apenas perı́odos positivos. O
intervalo de regularidade de f é qualquer intervalo de comprimento T . Na maior parte
dos casos, vamos considerar os intervalos de regularidade [0, T ] ou [− T2 , T2 ].
Definição 4.2. Chamamos perı́odo fundamental de uma função periódica ao menor dos
perı́odos positivos. Vamos, no entanto, daqui em diante chamar apenas perı́odo ao perı́odo
fundamental.
Exemplo 4.1. As funções sin(x) e cos(x) são periódicas com perı́odo 2π, pois
sin(x + 2π) = sin(x) e cos(x) = cos(x + 2π), para todo o x ∈ R.
Exemplo 4.2. A função f : R → R definida por f (x) = x − [x], onde [x] representa o
maior inteiro que não excede x é periódica com perı́odo 1. O gráfico desta função está
representado em baixo.
bc bc bc bc bc bc
1

b b b b b b

−3 −2 −1 1 2 3
−1

Exemplo 4.3. Para cada n ∈ N e cada L ∈ R \ {0}, fixos, as funções definidas por
f (x) = sin L e g(x) = cos nπx
nπx
L
são periódicas com perı́odo T = 2L
n
, pois
    nπx   nπx 
nπ 2L
f (x + T ) = sin x+ = sin + 2π = sin = f (x)
L n L L
e analogamente g(x + T ) = g(x).
Definição 4.3. Uma função f diz-se seccionalmente contı́nua no intervalo [−L, L] se tiver
neste intervalo apenas um número finito de descontinuidades, todas de primeira espécie.
Isto é, se f tem um número finito de descontinuidade em a1 , a2 , . . . , an , para algum n ≥ 0,
com
−L = a0 < a1 < a2 < · · · < an < an+1 = L,
é contı́nua em ]ai , ai+1 [, i = 0, 1, . . . , n, e existem os limites laterais
f (a+
i ) = lim+ f (x) e f (a−
i ) = lim− f (x).
x→ai x→ai

Nota 4.1. Se f é contı́nua em xi então f (x+ −


i ) = f (xi ).

Nota 4.2. Uma função seccionalmente contı́nua em [−L, L] é integrável neste intervalo.
Exemplo 4.4. A função f cujo gráfico está representado em baixo, não é seccionalmente
contı́nua em [−1, 1], pois embora só tenha um ponto de descontinuidade neste intervalo e
f (0− ) = 0, verifica
lim+ f (x) = −∞.
x→0

−2 −1 1 2
−1

−2

Exemplo 4.5. A função f : R → R definida por f (x) = x − [x] é seccionalmente contı́nua


em R.
Voltemos então à série (4.1) e suponhamos que esta é uniformemente convergente para
a função contı́nua f (x) no intervalo [−π, π], isto é,
X∞
(4.2) f (x) = a0 + (an cos(nx) + bn sin(nx)), −π ≤ x ≤ π.
n=1

Vamos determinar qual a relação entre os coeficientes an e bn e a função f .


Integrando termo a termo, obtemos
Z π Z π ∞ 
X Z π Z π 
f (x)dx = a0 dx + an cos(nx)dx + bn sin(nx)dx .
−π −π n=1 −π −π

Uma vez que Z Z


π π
cos(nx)dx = sin(nx)dx = 0,
−π −π
segue que Z π
1
a0 = f (x)dx.
2π −π
Multiplicando a equação (4.2) por cos(mx), m ≥ 1, obtemos
Z π
f (x) cos(mx)dx =
−π
Z π ∞
X Z π Z π
= a0 cos(mx)dx + (an cos(nx) cos(mx)dx + bn sin(nx) cos(mx)dx).
−π −π −π
| {z } n=1 | {z }
=0 =0
Atendendo a que (
Z π
π, n = m
cos(nx) cos(mx)dx = ,
−π 0, n =
6 m
obtemos então Z
1 π
am = f (x) cos(mx)dx, m ≥ 1.
π −π
Analogamente, multiplicando a equação (4.2) por sin(mx), m ≥ 1, obtemos
Z
1 π
bm = f (x) sin(mx)dx, m ≥ 1.
π −π

Definição 4.4. Seja f uma função seccionalmente contı́nua no intervalo [−π, π]. Então
a série de Fourier de f é a série de funções
X∞
a0 + (an cos(nx) + bn sin(nx)),
n=1

onde os coeficientes an e bn definem-se por


Z π
1
a0 = f (x)dx,
2π −π
Z Z
1 π 1 π
an = f (x) cos(nx)dx e bn = f (x) sin(nx)dx
π −π π −π
e designam-se por coeficientes de Fourier.
Nota 4.3. Nesta definição não é dito que f (x) é a soma da sua série de Fourier. Apenas se
diz que associada a uma qualquer função f seccionalmente contı́nua no intervalo [−π, π],
existe uma certa série chamada série de Fourier. Coloca-se então a questão de saber qual
a relação entre f e a sua série de Fourier. A resposta a esta questão é dada no próximo
teorema.
Exemplo 4.6. Consideremos a função definida em [−π, π] por
(
0, −π ≤ x < 0
f (x) = .
1, 0 ≤ x < π
Os coeficientes de Fourier de f são dados por
Z π Z π
1 1 1
a0 = f (x)dx = 1dx = ,
2π −π 2π 0 2
Z Z  π
1 π 1 π 1 sin(nx)
an = f (x) cos(nx)dx = cos(nx)dx = = 0, para n ≥ 1,
π −π π 0 π n 0
e
Z Z  π (
1 π 1 π 1 − cos(nx) 0, n par
bn = f (x) sin(nx)dx = sin(nx)dx = = 2 .
π −π π 0 π n 0 nπ
, n ı́mpar
A série de Fourier de f é, então
a0 + a1 cos(x) + a2 cos(2x) + · · · + b1 sin(x) + b2 sin(2x) + b3 sin(3x) + · · ·

1 X 2
= + sin(2k − 1)x.
2 n=1 π(2k − 1)

Teorema 4.1 (Convergência da série de Fourier). Seja f uma função periódica de perı́odo
2π. Se f e f ′ forem seccionalmente contı́nuas no intervalo [−π, π], então a série de
Fourier de f é convergente em R e a sua soma, em cada ponto x, é igual à média aritmética
dos limites laterais de f ,
f (x+ ) + f (x− )
.
2
+ −
Nota 4.4. Se f é contı́nua em x, então f (x+ ) = f (x− ) e f (x )+f
2
(x )
= f (x), ou seja, a
série de Fourier converge para f (x) nos pontos de continuidade da função f .
Exemplo 4.7. Seja f a função periódica de perı́odo 2π definida no intervalo [−π, π] por
(
0, −π ≤ x < 0
f (x) = .
1, 0 ≤ x < π

É fácil verificar que tanto f como a sua derivada são seccionalmente contı́nuas no intervalo
[−π, π]. A função f é contı́nua no ponto x = 1 e descontı́nua em x = 0. Assim, a sua
série de Fourier, que vimos no exemplo 4.6 ser dada por

1 X 2
+ sin(2k − 1)x,
2 n=1 π(2k − 1)
f (0+ )+f (0− ) 0+1 1
converge para f (1) = 1 no ponto x = 1, e converge para 2
= 2
= 2
no ponto
x = 0.
4.1. Séries de Fourier de funções pares e ı́mpares. Se f é uma função par em
[−L, L], isto é, se f (−x) = f (x) para todo o x ∈ [−L, L], então
Z L Z L
f (x)dx = 2 f (x)dx.
−L 0

Se f é uma função ı́mpar em [−L, L], isto é, se f (−x) = −f (x) para todo o x ∈ [−L, L],
então Z L
f (x)dx = 0.
−L
Além disso, o produto de duas funções pares ou de duas funções ı́mpares é uma função
par, enquanto que o produto de uma função par por uma função ı́mpar é uma função
ı́mpar. Daqui segue que se f é uma função par no intervalo [−π, π], então os coeficientes
de Fourier bn = 0, n ≥ 1, enquanto que se f é uma função ı́mpar em [−π, π], então os
coeficientes de Fourier an = 0, n ≥ 0. Ou seja, as séries de Fourier de funções pares são
séries de cossenos
X∞
a0 + an cos(nx),
n=1
com Z Z
1 π 2 π
a0 = f (x)dx e an = f (x) cos(nx)dx,
π 0 π 0
enquanto que as séries de Fourier de funções ı́mpares são séries de senos

X
bn sin(nx),
n=1
com Z π
2
bn = f (x) sin(nx)dx.
π 0

4.2. Séries de Fourier de funções com perı́odo 2L. Se a função f tem perı́odo
diferente de 2π, podemos obter a sua série de Fourier fazendo uma mudança de variável.
Suponhamos então que f é uma função seccionalmente contı́nua em [−L, L] com perı́odo
2L, isto é, f (x + 2L) = f (x) para todo o x. Fazendo t = πx
L
e
 
Lt
g(t) = f (x) = f ,
π
então a função g é seccionalmente contı́nua, tem perı́odo 2π e x = ±L corresponde a
t = ±π.
A série de Fourier de g é então

X
a0 + (an cos(nt) + bn sin(nt)) ,
n=1

onde Z π
1
a0 = g(t)dt,
2π −π
Z Z
1 π 1 π
an = g(t) cos(nt)dt, bn = g(t) sin(nt)dt.
π −π π −π
Substituindo a variável t = πx
L
, obtemos então:
Definição 4.5. Seja f uma função seccionalmente contı́nua no intervalo [−L, L]. Então
a série de Fourier de f é a série de funções
X∞   nπx   nπx 
a0 + an cos + bn sin ,
n=1
L L
onde os coeficientes de Fourier são dados por
Z L
1
a0 = f (x)dx,
2L −L
Z  nπx  Z  nπx 
1 L 1 L
an = f (x) cos dx e bn = f (x) sin dx.
L −L L L −L L
Nota 4.5. O teorema da convergência da série de Fourier é, naturalmente, válido para
funções com perı́odo 2L.
Exemplo 4.8. Determinemos a série de Fourier da função definida por f (x) = |x|, para
−1 ≤ x ≤ 1, e f (x + 2) = f (x) para todo o x. O gráfico desta função está indicado em
baixo.

−2 −1 1 2

Tanto a função f como a sua derivada são seccionalmente contı́nuas no intervalo [−1, 1].
Além disso, notemos que f é uma função par. Determinemos então os coeficientes an de
Fourier de f , pondo L = 1 na definição anterior:
Z Z Z
1 1 1 0 1 1 1
a0 = f (x)dx = (−x)dx + xdx = ,
2 −1 2 −1 2 0 2
e para n ≥ 1, temos
Z 1 (
2 0, se n é par
an = f (x) cos(nπx)dx = (cos(nπ) − 1) = −4
.
−1 n π2
2
n2 π 2
, se n é ı́mpar
Assim, a série de Fourier de f é dada por

1 X 4
− cos((2k − 1)πx).
2 n=1 (2k − 1)2 π 2
Por fim, e uma vez que a função f é contı́nua, podemos escrever

1 X 4
f (x) = − cos((2k − 1)πx), para todo o x.
2 n=1 (2k − 1)2 π 2

As séries de Fourier podem ser usadas para determinar a soma de algumas séries
numéricas. Por exemplo, no caso anterior, para x = 0 a série de Fourier vale f (0) = 0.
Assim,

1 X 4
0= − cos(0),
2 n=1 (2k − 1)2 π 2
ou seja,

π2 X 1
= 2π2
.
8 n=1
(2k − 1)
Exercı́cio 4.1. Para cada uma das seguintes funções, periódicas de perı́odo 2π, definidas
no intervalo [−π, π] pela expressão correspondente, determine:
(1) os coeficientes de Fourier de f ;
(2) a série de Fourier de f ;
(3) os valores de x ∈ R para os quais a função coincide com a soma da sua série de
Fourier. (
1, −π ≤ x < 0
(a) f (x) = ;
−1, 0 ≤ x < π
(b) f (x) = x;
(
0, −π ≤ x < 0
(c) f (x) = ;
cos(x), 0 ≤ x < π
(d) f (x) = x2 .
5. Números Complexos
O conjunto dos números complexos é o conjunto {(a, b) : a, b ∈ R} dos pares ordenados,
munido das seguintes operações:
(a, b) + (c, d) = (a + c, b + d)
(a, b)(c, d) = (ac − bd, ad + bc)
Estas operações são comutativas, associativas e a multiplicação é distributiva relativa-
mente à adição. Os pares (0, 0) e (1, 0) são os elementos neutros da adição e multiplicação,
respectivamente.
O subconjunto {(a, 0) : a ∈ R} de C identifica-se com o conjunto dos reais R através
da bijecção (a, 0) → a. Denotando então o par (a, 0) com o real a e o par (0, 1) com a
letra i, obtemos a fórmula algébrica dos números complexos
(a, b) = (a, 0) + (0, 1)(b, 0) = a + bi.
Notemos que i2 = −1. Se z = a + bi ∈ C, chamamos a a a parte real de z e escrevemos
a = Re(z). Chamamos a b parte imaginária de z e escrevemos b = Im(z). Quando
Re(z) = 0 o número complexo z diz-se um imaginário puro.
Em C não existe qualquer relação de ordem compatı́vel com as operações. De facto,
notemos que

i > 0 conduz a i2 = −1 > 0!!!


enquanto que
−i > 0 conduz a (−i)2 = −1 > 0!!!
Portanto, não faz sentido usar os sı́mbolos < ou ≤ entre números complexos a menos que
se trate de números reais. √
O módulo do número z = a + bi é o número real não negativo |z| = a2 + b2 , e o
conjugado de z é z = a − bi.
Proposição 5.1. Sejam z, z1 e z2 números complexos. Então:
(1) z = z se e só se Im(z) = 0 se e só se z ∈ R.
(2) z = z.
(3) z1 ± z2 = z1 ± z2 e z1 z2 = z1 z2 .
(4) zz = |z|2 .
(5) |z| = 0 se e só se z = 0.
(6) Se z 6= 0, z −1 = |z|z 2 .

1|
(7) |z1 z2 | = |z1 ||z2 | e zz12 |z
|z2 |
se z2 6= 0.
(8) ||z1 | − |z2 || ≤ |z1 ± z2 | ≤ |z1 | + |z2 |.
Dado n ∈ N, a sua divisão por 4 permite-nos escrever n = 4k + r, com 0 ≤ r < 4 e
k ∈ N. Assim, as potências de i são dadas por


 1, r =0

i, r =1
in = i4k+r = (i4 )k ir = ir = .

 −1, r =2


−i, r =3
O número complexo z = a+bi pode ser visto como um vector no plano com ponto √ inicial
(0, 0) e final (a, b). O comprimento de z é a distância de z à origem, i.e., é |z| = a2 + b2 .
z = a + bi
b

Nesta representação, o módulo |z1 − z2 | representa a distância de z1 a z2 .


Seja z ∈ C \ {0}. À medida do ângulo que a semi-recta com origem em O e que contêm
z, faz com a parte positiva do eixo Ox, chamamos argumento de z (arg(z)). Portanto,
cada número complexo z 6= 0 tem uma infinidade de argumentos diferindo um dos outros
por múltiplos de 2π. Ao argumento de z pertencente ao intervalo ] − π, π], chamamos
argumento principal de z e representamo-lo por Arg(z).

z = (a, b) ≡ (|z|, θ)
b
θ
a

Designando por θ um valor de arg(z), obtemos a = |z| cos(θ) e b = |z| sin(θ). Um


argumento θ de z 6= 0 satisfaz as equações
Re(z) Im(z)
cos(θ) = e sin(θ) = .
|z| |z|
O número complexo z 6= 0 pode então ser escrito na forma
z = |z|(cos(θ) + i sin(θ)),
chamada forma polar ou trigonométrica dum complexo. Para cos(θ) + i sin(θ) usa-se por
vezes a abreviatura cis(θ).
Exemplo 5.1. O argumento do número complexo z = i é o conjunto
π
arg(i) = {2kπ + , k ∈ Z},
2
π
e o seu argumento principal é Arg(i) = 2 .
Proposição 5.2 (Multiplicação e divisão de complexos na forma polar). Sejam |z|cis(θ)
e |zi |cis(θi ), i = 1, 2, números complexos. Então:
(1) |z1 |cis(θ1 )|z2 |cis(θ2 ) = |z1 ||z2 |cis(θ1 + θ2 ).
(2) |z|cis(θ) = |z|cis(−θ).
1 1
(3) |z|cis(θ)
= |z|
cis(−θ).
|z1 |cis(θ1 ) |z1 |
(4) |z2 |cis(θ2 )
= |z2 |
cis(θ1 − θ2 ).
(5) (|z|cis(θ))n = |z|n cis(nθ), n ∈ Z - Fórmula de De Moivre.
Notemos que pela alı́nea (1), arg(z1 z2 ) = arg(z1 ) + arg(z2 ). No entanto, em geral
Arg(z1 z2 ) 6= Arg(z1 ) + Arg(z2),
como se pode comprovar fazendo z1 = −1 = cis(π) e z2 = 5i = 5cis( π2 ). O argumento
principal de z1 z2 = 5cis(− π2 ) é Arg(z1 z2 ) = − π2 , mas Arg(z1 ) + Arg(z2 ) = π + π2 .
Definição 5.1. Dizemos que w é a n-ésima raiz de z 6= 0 se w n = z, onde n é um inteiro
positivo.
√ √ √ √
Exercı́cio 5.1. Mostre que 12 2 + 12 2i e − 12 2 − 12 2i são raı́zes ı́ndice 2 do número
z = i.
Sejam w = |w|cis(φ) e z = |z|cis(θ) tais que w n = z. Dois números complexos escritos
na forma polar são iguais se e só se têm o mesmo módulo e os argumentos diferem entre
si num múltiplo de 2π. Assim,
(
|w|n = |z|
w n = z se e só se
nφ = θ + 2kπ, com k ∈ Z
( p
|w| = n |z|
se e só se .
φ = θ+2kπ
n
, k = 0, 1, . . . , n − 1
Para
p cada k = 0, 1, . . . , n − 1, obtemos n raı́zes distintas, todas com o mesmo módulo
n
|z| mas com diferentes argumentos. Devido à periodicidade do seno e do cosseno, para
k ≥ n obtemos as mesmas raı́zes, visto que se k = n + m, com m = 0, 1, . . . , n, obtemos
θ + 2(n + m)π θ + 2mπ
φ= = + 2π
n n
e    
θ + 2mπ θ + 2mπ
sin(φ) = sin , cos(φ) = cos .
n n
Recapitulando, as raı́zes de ı́ndice n de z 6= 0 são
 
pn θ + 2kπ
wk = |z|cis , k = 0, 1, . . . , n − 1,
n
e √
n
z = {w0 , w1 , . . . , wn−1}.
As raı́zes de ı́ndice n de ump número complexo z 6= 0 estão situadas sobre a circunferência
n
de centro na origem e raio |z|. Além disso, a diferença entre os argumentos de duas
raı́zes consecutivas é 2πn
.
Exercı́cio 5.2. Determine as raı́zes de ı́ndice 3 dos números z = i e z = 1+i e represente-
as geometricamente.
p
5.1. Subconjuntos de C. Seja z0 = x0 +y0 i ∈ C. Como |z−z0 | = (x − x0 )2 + (y − y0 )2
é a distância entre z = x + yi e z0 , os números complexos z que satisfazem a equação
|z − z0 | = ρ, ρ > 0,
pertencem à circunferência de centro z0 e raio ρ.
Exemplo 5.2. (1) |z| = 1 representa a circunferência de centro 0 e raio 1.
(2) |z − 1 + 3i| = 5 ⇔ |z − (1 − 3i)| = 5 representa a circunferência de centro (1, −3)
e raio 5.
Em coordenadas polares, a circunferência de centro na origem e raio ρ > 0 pode ser
escrita como
{ρcis(θ), 0 ≤ θ ≤ 2π} = {z : |z| = ρ}.
Adicionando o número z0 à expressão anterior, obtemos uma expressão para a circun-
ferência de centro z0 e raio ρ:
{z0 + ρcis(θ), 0 ≤ θ ≤ 2π}.
Definição 5.2. Seja z0 ∈ C e r > 0. A bola aberta de centro z0 e raio r é o conjunto
B(z0 , r) = {z : |z − z0 | < r}.
Também se chama vizinhança de z0 à bola aberta B(z0 , r).
A bola fechada de centro z0 e raio r é o conjunto
B(z0 , r) = {z : |z − z0 | ≤ r}.
Definição 5.3. Seja S ⊆ C. Dizemos que S é um subconjunto aberto se qualquer ponto
z ∈ S possui uma vizinhança contida em S, ou seja,
∀z ∈ S∃r > 0 : B(z, r) ⊆ A.

Exemplo 5.3. O conjunto S = {z ∈ C : Re(z) > 1} é aberto. De facto, dado z = a+bi ∈ S


com a > 1, tomemos r = a − 1 e notemos que B(z, r) ⊆ S. Ou seja, qualquer ponto de S
possui uma vizinhança contida em S, logo S é aberto:

z
b

1 a
S

Exemplo 5.4. O conjunto S = {z ∈ C : Re(z) ≥ 1} não é aberto, pois qualquer vizinhança


de z = 1 possui pontos que não estão em S:

Exemplo 5.5. A bola aberta B(z0 , r) é um conjunto aberto, mas a bola fechada B(z0 , r)
não é um conjunto aberto. Já o conjunto C \ B(z0 , r) é aberto.

Definição 5.4. Sejam z, w ∈ C. O segmento de recta de z para w é o conjunto


[z, w] = {(1 − t)z + tw : 0 ≤ t ≤ 1}.

Definição 5.5. Um conjunto S ⊆ C diz-se conexo se, quaisquer que sejam z, w ∈ S,


existir uma curva contı́nua totalmente contida em S, que une z a w.

Exemplo 5.6. A bola aberta B(z0 , r) (bem como a bola fechada B(z0 , r)) é um conjunto
conexo.
z
z0
w
Nota 5.1. Se S ⊆ C é aberto e conexo, então quaisquer que sejam z, w ∈ S, existe uma
linha poligonal composta por segmentos horizontais e verticais, totalmente contida em S,
que une z a w.

Definição 5.6. Um conjunto S ⊆ C diz-se limitado se existir r > 0 tal que


S ⊆ {z : |z| < r} = B(0, r).

6. Funções complexas
Uma função complexa é uma correspondência
f : A −→ C,
onde A ⊆ R ou A ⊆ C. No primeiro caso, dizemos que se trata de uma função complexa
de variável real, no segundo trata-se de uma função complexa de variável complexa.
Uma função real de variável real é uma função com valores reais e cujo domı́nio é um
subconjunto de R. Como R ⊆ C, toda a função real é também uma função complexa. O
maior conjunto de números complexos onde a função f está definida chama-se domı́nio
de f .
Exemplo 6.1. A expressão z + z1 pode ser determinada para qualquer z ∈ C \ {0}, pelo
que define uma função complexa de domı́nio Df = C \ {0}.
Toda a função complexa pode ser expressa em termos da sua parte real e imaginária
f (z) = Ref (z) + iImf (f ), x ∈ Df .
Por exemplo, pondo z = x + yi, podemos escrever a função f (z) = z 2 na forma
f (x + yi) = (x + yi)2 = (x2 − y 2) +i (2xy) = Ref (z) + iImf (z),
| {z } | {z }
Ref (z) Imf (z)

onde Ref (z) e Imf (z) são definidas por


Ref : C → R
x + iy 7→ x2 − y 2
e
Imf : C → R
x + iy 7→ 2xy
As funções Ref e Imf podem também ser vistas como funções reais de duas variáveis
reais
Ref : R → R
(x, y) 7→ x − y 2
2

e
Imf : R → R
(x, y) 7→ 2xy
Toda a função complexa é completamente determinada pela sua parte real e imaginária.
Portanto, uma função complexa w = f (z) pode ser definida por duas funções reais de duas
variáveis reais
u(x, y) = Ref (z) e v(x, y) = Imf (z).
6.1. Limites e continuidade.
Definição 6.1. Seja f : A ⊆ C → C uma função complexa. Admitamos que f está
definida numa vizinhança de z0 (não necessariamente em z0 ):
B(z0 , δ) \ {z0 } = {z : 0 < |z − z0 | < δ} ⊆ A.
Dizemos que
lim f (z) = w
z→z0
se a distância de f (z) a w puder ser tornada tão pequena quanto se queira desde que se
tome z suficientemente próximo de z0 , isto é,
∀ǫ > 0∃δ > 0 : z ∈ A ∩ (B(z0 , δ) \ {z0 }) ⇒ f (z) ∈ B(w, ǫ).
Ou ainda,
∀ǫ > 0∃δ > 0 : z ∈ A, 0 < |z − z0 | < δ ⇒ |f (z) − w| < ǫ.

Nota 6.1. É fácil de verificar que o limite lim f (z), quando existe, é único.
z→z0

Exemplo 6.2. Mostremos que


lim |z| = |w|.
z→w
Para tal, fixemos ǫ > 0. Pretendemos mostrar a existência de δ > 0 tal que se z ∈
B(w, δ) = {z : |z − w| < δ}, então ||z| − |w|| < ǫ. Ora uma vez que ||z| − |w|| ≤ |z − w|,
basta tomar δ := ǫ, pois
|z − w| < ǫ ⇒ ||z| − |w|| ≤ |z − w| ≤ δ = ǫ.
Exercı́cio 6.1. Mostre que:
(1) lim z = w.
z→w
(2) lim Re(z) = Re(w).
z→w
(3) lim Im(z) = Im(w).
z→w

Podemos passar o cálculo dos limites duma função complexa para o cálculo de limites
de funções reais de duas variável reais. Se
f (z) = Ref (z) + iImf (z),
temos 
 lim Ref (z) = Re(w)
z→z0
lim f (z) = w se e só se .
z→z0  lim Imf (z) = Im(w)
z→z0

Exemplo 6.3. Seja f (z) = z 2 + i. Fazendo z = x + yi, temos f (z) = u(x, y) + v(x, y)i,
com u(x, y) = x2 − y 2 e v(x, y) = 2xy + 1. Uma vez que
lim u(x, y) = 0
(x,y)→(1,1)
e
lim v(x, y) = 3
(x,y)→(1,1)
obtemos lim f (z) = 3i.
z→1+i

Obtemos ainda as seguintes propriedades.


Proposição 6.1. Sejam f e g funções complexas e seja c ∈ C. Se lim f (z) = L e
z→z0
lim g(z) = M, então:
z→z0

(1) lim cf (z) = cL.


z→z0
(2) lim f (z) ± g(z) = L ± M.
z→z0
(3) lim f (z)g(z) = LM.
z→z0
(4) lim fg(z)
(z)
= L
M
, desde que m 6= 0.
z→z0

Exemplo 6.4. Consideremos novamente a função f (z) = z 2 + i. Então,


lim f (z) = (1 + i)2 + i = 3i.
z→1+i

Exercı́cio 6.2. Dados números complexos a0 , a1 , aldots, an , com an 6= 0, dizemos que a


função
p(z) = an z n + · · · + a1 z + a0
é um polinómio de grau n. Se p(z) e q(z) são dois polinómios, chamamos função racional
a
p(z)
r(z) = .
q(z)
Mostre que:
(1) se p(z) é um polinómio e w ∈ C, então lim p(z) = p(w).
z→w
(2) se r(z) é uma função racional e w pertence ao domı́nio de r(z), então lim r(z) =
z→w
r(w).
É notória a semelhança entre as definições de limite de funções complexas e de funções
reais. Existe, no entanto, uma diferença importante: enquanto que no caso das funções
reais temos lim f (x) = L se e só se lim− f (x) = L e lim+ f (x) = L, no caso das funções
x→x0 x→x0 x→x0
complexas não há direcções privilegiadas. Portanto, devemos ter lim f (z) = w indepen-
z→z0
dentemente da forma como z se aproxima de z0 . Este facto pode ser utilizado como um
critério para a não existência de um limite.

Proposição 6.2. Se lim f (z) = L1 , quando z se aproxima de z0 segundo uma curva, e


z→z0
lim f (z) = L2 , L1 6= L2 , quando z se aproxima de z0 segundo uma outra curva, então
z→z0
não existe lim f (z) = L1 , lim f (z).
z→z0 z→z0

Exemplo 6.5. Utilizemos o critério anterior para mostrar que não existe o limite
z
lim .
z→0 z

Para tal, façamos z tender para a origem ao longo do eixo real, isto é, z = x + 0i → 0.
Para estes pontos temos
z x + yi x
lim = lim = lim = 1.
z→0 z y=0,x→0 x − yi x→0 x
Fazendo agora z tender para a origem ao longo do eixo imaginário, isto é, z = 0 + yi → 0,
obtemos
z x + yi yi
lim = lim = lim = −1.
z→0 z x=0,y→0 x − yi y→0 −yi
Concluı́mos assim que lim zz não existe.
z→0

Definição 6.2. A função complexa f : A → C é contı́nua em z0 ∈ C se z0 ∈ A e


lim f (z) = f (z0 ).
z→z0

Portanto, para falarmos de continuidade de f em z0 ∈ C temos de ter


(1) f definida em z0 ;
(2) existência do limite lim f (z), e
z→z0
(3) lim f (z) = f (z0 ).
z→z0
Se alguma destas condições não se verificar, dizemos que f é descontı́nua em z0 .

As propriedades algébricas dos limites de funções complexas permitem-nos obter a


seguinte proposição.
Proposição 6.3. Sejam f e g duas funções complexas contı́nuas em z0 ∈ C. Então:
(1) cf é contı́nua em z0 , para qualquer c ∈ C.
(2) f ± g é contı́nua em z0 .
(3) f g é contı́nua em z0 .
(4) fg é contı́nua em z0 desde que g(z0 ) 6= 0.
Exemplo 6.6. Um polinómio é uma função contı́nua em C. Uma função racional é contı́nua
em todos os pontos do seu domı́nio.
Uma vez que o limite, quando z tende para z0 , de uma função f (z) é w se e só se o
limite das suas partes reais e imaginárias é Re(w) e Im(w), respectivamente, obtemos o
seguinte resultado.
Proposição 6.4. Suponhamos que f (x + yi) = u(x, y) + iv(x, y). Então f é contı́nua em
x + iy se e só se u e v são contı́nuas em (x, y).
6.2. Diferenciabilidade.
Definição 6.3. Seja f : A → C uma função complexa, com A aberto. Dizemos que f é
diferenciável em z0 ∈ A se existir o limite
f (z0 + h) − f (z0 )
lim , (h ∈ C).
h→0 h
A este limite chamamos a derivada de f em z0 , que se denota por f ′ (z0 ).
Dizemos que f é diferenciável em A se for diferenciável em todos os pontos de A.
Nota 6.2. Fazendo h = z − z0 na definição de derivada de f em z0 , obtemos
f (z0 + h) − f (z0 ) f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim = lim .
h→0 h z→z0 z − z0
As regras familiares da derivação de funções reais de variável real são também válidas
no caso complexo.
Proposição 6.5. Sejam f e g funções complexas e c ∈ C. Então:
(1) (c)′ = 0.
(2) (cf (z))′ = cf ′ (z).
(3) (f (z) ± g(z))′ = f ′ (z) ± g ′ (z).
(4) (f (z)g(z))′ = f ′ (z)g(z) + f (z)g ′ (z).

(5) (f (g(z)))
  = f ′ (g(z))g ′ (z).

f (z) f ′ (z)g(z)−f (z)g ′ (z)
(6) g(z)
= (g(t))2
.
n ′ n−1
(7) (z ) = nz , para n ∈ N.

Nota 6.3. Há funções que embora tendo derivada, ela não pode ser calculada usando estas
regras.
Proposição 6.6. Se f é diferenciável em z0 ∈ C, então f é contı́nua em z0 .
Demonstração. Por hipótese, os limites lim f (z)−f
z−z0
(z0 )
e lim (z − z0 ) existem e são f ′ (z0 ) e
z→z0 z→z0
0, respectivamente. Portanto,
f (z) − f (z0 )
lim (f (z) − f (z0 )) = lim (z − z0 ) = f ′ (z0 )0 = 0,
z→z0 z→z0 z − z0
ou seja, lim f (z) = f (z0 ) e f é contı́nua em z0 . 
z→z0

O recı́proco deste resultado é falso, como se pode verificar com a função f (z) = Re(z).
Já vimos que esta função é contı́nua em C, mas não possui derivada em nenhum ponto,
pois dado z ∈ C, temos
f (z + h) − f (z)
lim = 1,
h→0 h
quando h tende para a origem ao longo do eixo real, e
f (z + h) − f (z)
lim
= 0,
h→0 h
quando h tende para a origem ao longo do eixo imaginário.

No caso particular das funções complexas de variável real


f : A ⊆ R → C,
temos
f (x + h) − f (x)
f ′ (x) = lim (h ∈ R)
h→0 h
Ref (x + h) − Ref (x) Imf (x + h) − Imf (x)
= lim +i
h→0 h h
′ ′
= (Ref ) (x) + i(Imf ) (x).

Teorema 6.7 (Regra de L’Hôpital). Sejam f e g funções complexas diferenciáveis numa


vizinhança de z0 tais que f (z0 ) = g(z0 ) = 0 e g ′ (z0 ) 6= 0. Então,
f (z) f ′ (z0 )
lim = ′ .
z→z0 g(z) g (z0 )
Demonstração. Uma vez que f (z0 ) = g(z0 ) = 0 podemos escrever
f (z)−f (z0 )
f (z) z−z0 f ′ (z0 )
lim = lim g(z)−g(z 0)
= ,
z→z0 g(z) z→z0 g ′ (z0 )
z−z0

pois g(z0 ) 6= 0. 
2 −3z+2
Como aplicação da regra de L’Hôpital, calculemos o limite lim z 2z−1
. Fazendo f (z) =
z→0
z 2 − 3z e g(z) = 2z, temos f (0) = g(0) = 0 e g ′ (0) = 2 6= 0. Portanto,
z 2 − 3z + 2 f ′ (0) 3
lim = ′ = .
z→0 2z − 1 g (0) 2

6.3. Condições de Cauchy-Riemann.


Teorema 6.8. Seja f (z) = u(x, y) + iv(x, y) uma função complexa diferenciável em
z = x + yi. Então, existem as derivadas parciais de u e v em (x, y) e satisfazem as
condições de Cauchy-Riemann
δu δv δu δv
= e =− .
δx δy δy δx
Demonstração. Se f é diferenciável em z = x + yi, então existe o limite
f (z + h) − f (z)
(6.1) lim = f ′ (z).
h→0 h
Escrevendo h = h1 + ih2 , temos
u(x + h1 , y + h2 ) + iv(x + h1 , y + h2 ) − u(x, y) − iv(x, y)
(6.1) = lim .
h1 +ih2 →0 h1 + ih2
Este limite é independente da forma como h se aproxima da origem. Façamos então h
tender para a origem ao longo eixo real, ou seja, com h2 = 0. Obtemos assim
u(x + h1 , y) + iv(x + h1 , y) − u(x, y) − iv(x, y)
f ′ (z) = lim
h1 →0 h1
u(x + h1 , y) − u(x, y) v(x + h1 , y) − v(x, y)
= lim + i lim
h1 →0 h1 h1 →0 h1
δu δv
(6.2) = (x, y) + i (x, y).
δx δx
Fazendo agora h tender para a origem ao longo do eixo imaginário, ou seja, com h1 = 0,
obtemos
u(x, y + h2 ) + iv(x, y + h2 ) − u(x, y) − iv(x, y)
f ′ (z) = lim
h2 →0 ih2
u(x, y + h2 ) − u(x, y) v(x, y + h2 ) − v(x, y)
= lim + i lim
h2 →0 ih2 h2 →0 ih2
1 δu δv
= (x, y) + (x, y)
i δy δy
δv δu
(6.3) = (x, y) − i (x, y).
δy δy
De (6.1) e (6.2) vem
δu δv δv δu
f ′ (z) = (x, y) + i (x, y) = (x, y) − i (x, y),
δx δx δy δy
pelo que
δu δv δu δv
= e =− .
δx δy δy δx

O facto de as condições de Cauchy-Riemann se verificarem num ponto z não significa
que a função seja diferenciável nesse ponto. No entanto, se f não satisfaz estas condições
num certo ponto, podemos concluir que f não é diferenciável nesse ponto. As condições de
Cauchy-Riemann constituem, portanto, uma condição necessária mas não suficiente para
f ser diferenciável num ponto. Quando a função é diferenciável estas condições dão-nos
um método de derivar funções em que não é possı́vel usar as regras de derivação.
Exemplo 6.7. Seja f (z) = x + 4yi. Apesar de contı́nua, esta função não é diferenciável
em nenhum ponto uma vez que com u(x, y) = x e v(x, y) = 4y, temos
δu δv
= 1 6= =4
δx δy
Exemplo 6.8. Seja f (z) = 2x2 +y+i(y 2 −x) e definamos u(x, y) = 2x2 +y e v(x, y) = y 2 −x.
Então
δu δv
= 4x = −1
δx δx
δu δv
=1 = 2y,
δy δy
e as condições de Cauchy-Riemann são satisfeitas apenas na recta 4x = 2y, ou seja, na
recta y = 2x. Fora desta recta a função não é diferenciável.

Pode acontecer que uma função satisfaça as condições de Cauchy-Riemann em z mas não
seja diferenciável em z. No entanto, acrescentando mais algumas condições às condições
de Cauchy-Riemann podemos garantir a diferenciabilidade da função em z.
Teorema 6.9 (Condição suficiente de diferenciabilidade). Seja f (z) = u(x, y) + iv(x, y)
uma função complexa. Se as quatro derivadas parciais de u e v forem contı́nuas numa
vizinhança de (x, y) e satisfazem as condições de Cauchy-Riemann em (x, y), então f é
diferenciável em (x, y) e
δu δv δv δu
f ′ (z) = (x, y) + i (x, y) = (x, y) − i (x, y).
δx δx δy δy
Exemplo 6.9. Consideremos novamente a função f (z) = 2x2 + y + i(y 2 − x) analisada no
exemplo 6.8. Vimos que esta função satisfaz as condições de Cauchy-Riemann sobre a
recta {(x, 2x) : x ∈ R}. Além disso, as derivadas parciais de u e v são funções contı́nuas
em qualquer ponto de C. Portanto, f é diferenciável nesta recta e
δu δv
f ′ (z) = (x, 2x) + i (x, 2x) = 4x − i.
δx δx
Vamos de seguida descrever algumas consequências do teorema anterior. Antes, porém,
relembremos alguns resultados de Análise Real. Seja f : I → R uma função real de
variável real diferenciável em I ⊆ R. Se I é um intervalo e f ′ (x) = 0 em I, então f é
constante em I. No entanto, se I não for um intervalo não podemos concluir que f seja
constante em I, como se pode comprovar com a função
(
2, x ∈ (0, 1)
f (x) = .
3, x ∈ (3, 4)

Temos f ′ (x) = 0 para todo o x ∈ (0, 1) ∪ (3, 4), mas f não é constante. A função f é
apenas constante nos intervalos (0, 1) e (3, 4).
Para funções f : I ⊆ R2 → R reais de duas variáveis reais, pode provar-se que se as
derivadas parciais se anulam
δf δf
(x, y) = (x, y) = 0
δx δy
para todos os pontos de I, então f é constante em todo o segmento de recta vertical e
horizontal contido em I.
Teorema 6.10. Seja f : A ⊆ C → C uma função complexa com A aberto e conexo. Se
f ′ (z) = 0 em A então f é uma função constante em A.
Demonstração. Sendo f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y), temos
δu δv
f ′ (z) = (x, y) + (x, y)i = 0 + 0i
δx δx
δv δu
= (x, y) − (x, y)i = 0 − 0i.
δy δy
Portanto, as derivadas de u e v anulam-se em A, pelo que podemos concluir que u e v
são funções constantes em todo o segmento de recta vertical e horizontal contido em A.
Como f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y), também f é constante em todo o segmento de recta
vertical e horizontal contido em A.
Sejam então z e w elementos de A. Como A é aberto e conexo, existe um caminho
composto por segmentos horizontais e verticais, totalmente contido em A, que une z a w.
Denotemos esses segmentos por
[z, z1 ], [z1 , z2 ], . . . , [zn , w].
Temos então f (z) = f (z1 ) = f (z2 ) = · · · = f (zn ) = f (w), ou seja, f é constante no
conjunto A. 

Teorema 6.11. Seja f : A ⊆ C → C uma função complexa com A aberto e conexo. Se


f é diferenciável e Ref (z) é constante em A, então f é constante em A.
Demonstração. Sendo f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y), temos u(x, y) = k para todo o
x + yi ∈ A. Assim, as derivadas parciais de u anulam-se em A. Pelas condições de
Cauchy-Riemann, também as derivadas parciais de v se anulam em A. Assim, podemos
concluir que f ′ (z) = 0 e, pelo teorema anterior, f é constante em A. 
6.4. Sucessões e séries de números complexos.
Definição 6.4. Uma sucessão em C é uma lista {z1 , z2 , . . . , zn , . . .} de números complexos.
Ou seja, é uma função do conjunto dos números naturais N no conjunto dos números
complexos
z:N→C
n 7→ zn
Dizemos que a sucessão (zn ) de números complexos converge para w ∈ C, ou tem limite
w, e escreve-se
zn → w ou lim zn = w,
se
∀ǫ > 0∃ nn ∈ N : n ≥ n0 ⇒ |zn − w| < ǫ.
Ou seja, zn → w se e só se |zn − w| → 0.

É válida para as sucessões complexas a chamada álgebra dos limites conhecida para
funções reais. Além disso, temos as seguintes propriedades.
Proposição 6.12. Seja (zn ) uma sucessão de números complexos.
(1) lim zn = w se e só se lim Re(zn ) = Re(w) e lim Im(zn ) = Im(w).
(2) zn → 0 se e só se |zn | → 0.
(3) Se zn → w então |zn | → |w|.
Demonstração. (1) Notemos que
|zn −w| = |(Re(zn ) −Re(w)) + i(Im(zn ) −Im(w))| ≥ |Re(zn ) −Re(w)|, |Im(zn ) −Im(w)|.
Assim, se |zn − w| → 0, também |Re(zn ) − Re(w)| → 0 e |Im(zn ) − Im(w)| → 0.
Reciprocamente, suponhamos que |Re(zn ) − Re(w)| → 0 e |Im(zn ) − Im(w)| → 0. Pela
desigualdade triangular podemos escrever
0 ≤ |zn − w| ≤ |Re(zn ) − Re(w)| + |Im(zn ) − Im(w)| ≤ 0,
isto é, |zn − w| → 0.
(2) é consequência da definição.
(3) Temos zn → w se e só se |zn − w| → 0. Como
0 ≤ ||zn | − |w|| ≤ |zn − w|,
concluı́mos que também ||zn | − |w|| → 0, ou seja, |zn | → |w|. 
in
Exemplo 6.10. A sucessão zn = n
converge para 0 uma vez que
n
i 1
= → 0.
n n
3+ni 2
Exemplo 6.11. Mostremos que a sucessão zn = n+2ni
converge para 5
+ 15 i. Para tal,
comecemos por escrever zn na forma algébrica
2n2 + 3n −6n + n2
zn = +i .
5n2 5n2
O resultado é consequência dos limites
2n2 + 3n 2 −6n + n2 1
lim 2
= e lim 2
= .
5n 5 5n 5
Exemplo 6.12. Seja z ∈ C, fixo, e consideremos a sucessão (z n ). É caro que se |z| < 1,
então z n → 0 visto que |z n | = |z|n → 0. É fácil verificar que 1n → 1 e que se |z| = 1,
z 6= 1, z n não tem limite. Além disso, como a sucessão de números reais |z|n é divergente
para |z| > 1, pela alı́nea (3) da proposição anterior concluı́mos que z n é divergente. Ou
seja,
z n é convergente se e só se |z| < 1 ou z = 1.

Definição 6.5. Uma série de números complexos é uma expressão da forma


X ∞
zn ou z1 + z2 + · · · + zn + · · · ,
n=1

onde (zn ) é uma sucessão de números complexos. A série diz-se convergente se a sucessão
Pn
das somas parciais sn = zk for convergente. Neste caso, dizemos que s = lim sn é a
k=1
P

soma da série e escrevemos zn = s.
n=1
Uma série que não seja convergente diz-se divergente.

Valem para séries complexas as seguintes propriedades satisfeitas pelas séries numéricas.
P

Proposição 6.13. (1) Se a série zn converge, então lim zn = 0.
n=0
(2) Acrescentar ou suprimir um número finito de parcelas a uma série não afecta a
sua natureza. Mas no caso de ser convergente, afecta a sua soma.
P∞ P∞
(3) Se a série zn converge com limite s e c ∈ C, então czn é também convergente
n=0 n=0
com soma cs.∞
P P∞
(4) Se as séries zn e un convergem e têm somas S e T , respectivamente, então
n=0 n=0
P

a série (zn + un ) converge e tem soma S + T .
n=0

P

1
A divergência da série n
mostra que o recı́proca da condição exibida na alı́nea (1) é
n=1
falsa. Tal como no caso real, esta alı́nea dá-nos o chamado teste para a divergência: se o
termo geral de uma série não converge para 0, então essa série diverge.
P
∞ P

É fácil verificar que a série zn converge se e só se as séries numéricas Re(zn ) e
n=0 n=0
P

Im(zn ) convergem e, nesse caso,
n=0

X ∞
X ∞
X
zn = Re(zn ) + i Im(zn ).
n=0 n=0 n=0

Exemplo 6.13. Consideremos a série geométrica de razão z ∈ C :


X∞
z n = z 0 + z 1 + · · · + z n−1 + · · ·
n=0
n
Uma vez que sn = z 0 + z 1 + · · · + z n−1 = 1−z
1−z
, pelo exemplo 6.12 e pela alı́nea (1) da
proposição 6.13 concluı́mos que a sucessão sn converge se e só se |z| < 1 e, neste caso,
1
lim sn = 1−z .
P∞
(1+2i)n P∞ 
1+2i n 1+2i
Exemplo 6.14. A série 5n = 5
é geométrica de razão 5
. Uma vez que
1+2i √5 n=0 n=0
= < 1 a série é convergente e
5 5

X∞  n
1 + 2i 1
= .
n=0
5 1 − 1+2i
5

P

Definição 6.6. A série zn diz-se absolutamente convergente se a série numérica de
n=0
P

termos não negativos |zn | for convergente.
n=0

P

Proposição 6.14. Toda a série zn absolutamente convergente é convergente e, neste
n=0
P∞ P ∞
caso, temos zn ≤
|zn |.
n=0 n=0

Demonstração. Suponhamos que zn = xn + iyn e que a série



X ∞
X p
|zn | = x2n + yn2
n=0 n=0
p p
converge. Uma vez que |xn | ≤ x2n + yn2 e |yn | ≤ x2n + yn2 , podemos invocar o critério
de comparação para concluir que as séries

X ∞
X
|xn | e |yn |
n=0 n=0

P
∞ P

são convergentes. Portanto as séries xn e
yn são convergentes, pelo que também a
n=0
n=0
P
∞ P∞ P

série zn converge. A prova da desigualdade zn ≤
|zn | é igual à efectuada para
n=0 n=0 n=0
o caso real. 
P
∞ P

Definimos igualmente o produto de Cauchy de duas séries zn e vn absolutamente
n=0 n=0
convergentes com somas S e T , respectivamente, como sendo a série
∞ X
X n
zk vn−k ,
n=0 k=0

a qual é convergente e tem soma ST .

6.4.1. A função exponencial complexa. A série


∞ n
X z z2 z3
= 1+z+ + +···
n=0
n! 2! 3!
converge absolutamente para todo o z ∈ C, uma vez que o mesmo acontece com a sua
série dos módulos. Designamos por função exponencial complexa, e denotamos por ez , a
soma desta série, isto é,
X∞ n
z
ez = .
n=0
n!
Notemos que quando z = x + 0i ∈ R, obtemos
X∞
x xn
e = .
n=0
n!
Ou seja, a função exponencial complexa coincide com a função exponencial real sobre o
eixo real.
De igual modo definimos as funções trigonométricas complexas sin(z) e cos(z) como a
soma das séries absolutamente convergentes em C

X z 2n+1 z3 z5
sin(z) = (−1)n =z− + −···
n=0
(2n + 1)! 3! 5!
e

X z 2n z2 z4
cos(z) = (−1)n =1− + −···
n=0
(2n)! 2! 4!
Também estas funções estendem no plano complexo as funções sin(x) e cos(x) definidas
para a variável real.

Exercı́cio 6.3. Mostre que cos(−z) = cos(z) e sin(−z) = − sin(z).

Somando de forma apropriada cos(z) com i sin(z) obtemos a famosa fórmula de Euler
(6.4) eiz = cos(z) + i sin(z),
válida para todo o número complexo z ∈ C. Em particular, também vale
(6.5) e−iz = cos(−z) + i sin(−z) = cos(z) − i sin(z).
Somando as equações 6.4 e 6.5, vem
eiz + e−iz
eiz + e−iz = 2 cos(z) ⇔ cos(z) = .
2
Subtraindo as equações 6.4 e 6.5, vem
eiz − e−iz
eiz − e−iz = 2i sin(z) ⇔ sin(z) = .
2i
Nota 6.4. Pela fórmula de Euler, se y ∈ R podemos escrever eiy = cis(y).
Listamos de seguida algumas propriedades da função exponencial complexa.
Proposição 6.15. Sejam z e w números complexos. Então:
(1) ez+w = ez ew .
z
(2) ez 6= 0, (ez )−1 = e−z e eew = ez−w .
(3) Se z = x + iy então ex eiy = ex cis(y) é a forma polar de ez .
(4) ez = ez .
(5) |ez | = eRe(z) .
(6) arg(ez ) = {Im(z) + 2kπ, k ∈ Z}.
(7) A exponencial complexa ez é uma função periódica de perı́odo 2πi.
(8) O contradomı́nio da exponencial complexa é C \ {0}.
(9) A exponencial complexa é diferenciável e (ez )′ = ez .
P
∞ n
z
Demonstração. (1) Uma vez que a série n!
é absolutamente contı́nua em C, podemos
n=0
calcular o produto de Cauchy
X∞ X n
z w z n−k w k
ee =
n=0 k=0
(n − k)! k!
Por outro lado, usando o binómio de Newton podemos escrever
Pn 
n n−k k
X∞ n X∞ k
z w X∞ X n
z+w (z + w) k=0 n!
e = = = z n−k w k = ez ew .
n=0
n! n=0
n! n=0 k=0
k!n!(n − k)!

(2) Temos ez e−z = e0 = cos(0) + i sin(0) = 1, pelo que ez 6= 0 e (ez )−1 = e−z . Daqui
z
vem eew = ez−w .
(3) é consequência de (1) e (6) é consequência da forma polar de ez .
(4) Pondo z = x + iy, temos
eiy = cos(y) + i sin(y) = cos(y) − i sin(y) = cos(−y) + i sin(−y) = e−iy .
Assim, podemos escrever
ez = ex eiy = ex eiy = ex e−iy = ex−iy = ez .

(5) Com z = x + iy, temos |ez | = |ex eiy | = ex = eRe(z) .


(7) Com z = x + iy, obtemos ez+2kπi = ex e(y+2kπ)i = ex eyi = ez .
(8) Fixemos a ∈ R. Então, ea+iy = ea eiy , com y a variar em R, representa a circun-
ferência de centro na origem e raio ea . Ou seja, a exponencial complexa transforma as
rectas verticais x = a, a ∈ R em circunferências centradas na origem e raio ea > 0. Como
a exponencial complexa é periódica de perı́odo 2πi, ela transforma a banda
{z ∈ C : −π < Im(z) ≤ π} = {z = x + iθ ∈ C : −π < θ ≤ π, x ∈ R},
chamada região fundamental, no conjunto
{ex eiθ , −π < θ ≤ π, x ∈ R} = C \ {0}.

(9) Podemos escrever ez = ex eiy = ex cos(y) +i ex sin(y). As derivadas parciais de u e v


| {z } | {z }
u(x,y) v(x,y)
são contı́nuas em todo o plano e
δu δv
(x, y) = ex cos(y) = (x, y)
δx δy
δu δv
(x, y) = −ex sin(y) = − (x, y)
δy δx
z
Portanto, e é diferenciável em C e
δu δv
(ez )′ = (x, y) + i (x, y) = ez .
δx δx

Exercı́cio 6.4. Calcule as derivadas das seguintes funções:
(1) z 2 ez+1 .
(2) ieiz .
(3) sin(z).
(4) cos(z).

6.4.2. O logaritmo complexo. Fixemos um complexo z 6= 0. Se ew = z, então


|ew | = eRe(w) = |z| e arg(ew ) = Im(w) = arg(z).
Ou seja,
ew = z ⇒ w = ln|z| + iarg(z),
com ln|z| o logaritmo real de |z|.
Definição 6.7. Seja z ∈ C \ {0}. Então
log(z) = ln|z| + iarg(z)
é chamado logaritmo complexo de z.
Notemos que cada número complexo z 6= 0 tem uma infinidade de logaritmos, todos
com parte real ln|z|, e diferindo uns dos outros por 2πi. Quando naquela expressão se
toma o argumento principal de z obtém-se o chamado logaritmo principal de z

Log(z) = ln|z| + iArg(z).


Além disso, segue imediatamente da definição que
elog(z) = z.
Exercı́cio 6.5. Calcule os seguintes logaritmos:
(1) log(i) e Log(i).
(2) log(e) e Log(e).
(3) log(1 + i) e Log(1 + i).
(4) log(−2) e Log(−2).

As seguintes propriedades do logaritmo complexo seguem da definição e das propriedades


análogas satisfeitas pelo logaritmo real.
Proposição 6.16. Sejam z1 , z2 números complexos não nulos e n ∈ N.
(1) log(z1 z2 ) = log(z1 ) + log(z2 ).
(2) log( zz21 ) = log(z1 ) − log(z2 ).
(3) log(z1n ) = nlog(z1 ).

Proposição 6.17. O logaritmo principal é a função inversa da exponencial complexa


quando restrita ao seu domı́nio fundamental.
Demonstração. Já sabemos que eLog(z) = z, para todo o z 6= 0. Seja então z = x + iy,
com −π < y ≤ π. Temos
|ez | = ex e arg(ez ) = y + 2kπ, k ∈ Z.
Portanto, Arg(ez ) = y e
Log(ez ) = ln(ex ) + iy = x + iy = z,
ou seja, Log(ez ) = z se −π < Re(z) ≤ π. 
A igualdade eLog(z) = z verifica-se para todo o número complexo não nulo, mas já a
igualdade Log(ez ) = z só se verifica se z pertence à região fundamental da exponencial.
Por exemplo, 1 + 23 πi não está nesta região e
3
 3  π 3
Loge1+ 2 πi = lne + iArg e 2 πi = 1 − i 6= 1 + πi.
2 2

Analisemos de seguida a diferenciabilidade do logaritmo principal. É claro que Log(z)


não é contı́nua em z = 0 pois não está definida neste ponto. É também descontı́nua no
semi-eixo negativo real, pois se −x ∈ R− , o limite lim Log(z) não existe:
z→−x

lim Log(z) = lim ln|z| + iArg(z) = ln|z| + iπ,


z→−x y→0
z=x+yi,y>0 z=x+yi,y>0

enquanto que
lim Log(z) = lim ln|z| + iArg(z) = ln|z| − iπ.
z→−x y→0
z=x+yi,y<0 z=x+yi,y<0

Portanto, Log(z) é descontı́nua em R−


0 . Consideremos então z0 um elemento de {z : |z| >
0 e − π < arg(z) < π} e calculemos o limite
Log(z) − Log(z0 )
(6.6) lim .
z→z0 z − z0
Para tal façamos a mudança de variável Log(z) = w, notando que quando z → z0 , temos
w → w0 = Log(z0 ). Usando a regra de L’Hôpital, obtemos
1
w − w0 1 1
(6.6) = lim w w
= lim w
= w
= ,
w→w0 e − e 0 w→w0 e e 0 z0
ou seja,
1
(Log(z))′ = para todo o z ∈ {z : |z| > 0 e − π < arg(z) < π}.
z
Em particular, Log(z) é contı́nua neste intervalo.
Exercı́cio 6.6. Determine a derivada das seguintes funções, indicando o respectivo domı́nio
de diferenciabilidade:
(1) f (z) = Log(2z−i)
z 2 +1
.
(2) f (z) = Log(2 + iz).
Exercı́cio 6.7. Determine todos os complexos z que satisfazem
eiz − e−iz
= i.
eiz + e−iz
7. Séries de potências
Seja z0 ∈ C. Uma série de potências de z − z0 é uma série do tipo

X
an (z − z0 )n = a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 )2 + · · ·
n=0

onde os coeficientes a0 , a1 , a2 . . . formam uma sucessão de números complexos.

Tal como no caso das séries de potências reais, temos o seguinte resultado:
P

Teorema 7.1. Dada uma série de potências an (z − z0 )n , três situações podem ocorrer:
n=0
(1) A série converge apenas para z = z0 .
(2) A série converge para qualquer z ∈ C.
(3) Existe um R > 0 tal que a série converge absolutamente se |z − z0 | < R e diverge
se |z − z0 | > R.
Ao número real R chama-se raio de convergência da série e estende-se a definição dizendo
que R = 0 na situação (1) e R = ∞ na situação (2). No caso R > 0, nada se pode dizer
em geral sobre a natureza da série sobre os pontos da circunferência |z − z0 | = R.
P
∞ n
z
Exemplo 7.1. Consideremos a série n
. Aplicando o teste da razão à série dos módulos
n=1
obtemos
|z|n+1 n |z|n
lim n
= lim = |z|.
n + 1 |z| n+1
Portanto, a série converge absolutamente se |z| < 1 e diverge se |z| > 1. Consideremos
então os pontos z = 1 e z = −1 pertencentes à circunferência |z| = 1. No primeiro caso,
obtemos a série divergente
X∞ n X∞
1 1
= ,
n=1
n n=1
n
enquanto que no segundo caso obtemos a série convergente
X∞
(−1)n
.
n=1
n

P
∞ P
∞ P

an
Proposição 7.2. As séries an (z − z0 )n , nan (z − z0 )n−1 e n+1
(z − z0 )n+1 têm
n=0 n=0 n=0
P

todas o mesmo raio de convergência. Além disso, a série f (z) = an (z − z0 )n pode ser
n=0
derivada termo a termo na bola aberta B(z0 , R) e

X

f (z) = nan (z − z0 )n−1 .
n=1

Notemos que em particular, a soma de uma série de potências é uma função contı́nua
na bola B(z0 , R).
P

Corolário 7.3. A série f (z) = an (z − z0 )n tem derivadas de todas as ordens na bola
n=0
B(z0 , R) e
f (n) (z0 )
an = .
n!
Definição 7.1. Dada uma função f com derivadas de todas as ordens no ponto z0 ,
chamamos série de Taylor de f em torno de z0 à série
X∞
f (n) (z0 )
(z − z0 )n .
n=0
n!
Definição 7.2. Dizemos que a função F (z) é uma primitiva de f (z) se F ′ (z) = f (z),
para todo o ponto pertencente ao domı́nio de f , e escrevemos
Z
F (z) = f (z)dz.

O teorema seguinte afirma que podemos integrar termo a termo uma série de potências
com raio de convergência R > 0.
P∞
Teorema 7.4. Se f (z) = an (z − z0 )n , para todo o z ∈ B(z0 , R), então
n=0
Z ∞ Z
X X∞
n an
f (z)dz = an (z − z0 ) dz = (z − z0 )n+1
n=0 n=0
n + 1
para z ∈ B(z0 , R).
Exercı́cio 7.1. Determine os raios de convergência das seguintes séries:
X∞ X∞ n X∞ X∞ X∞
z n
(a) zn (b) 2
(c) n
(z + 2i) n
(d) z n n
n (e) n!z n .
n=0 n=1
n n=0
2 n=0 n=0
Exercı́cio 7.2. Determine um desenvolvimento em série de potências de z − 2i da função
3+i
f (z) = z+i−1 , indicando o respectivo o raio de convergência.
Exercı́cio 7.3. Determine o raio de convergência e a soma da série de potências
X∞
(n + 1)z n .
n=0

(Sugestão: primitive termo a termo).


8. Integração de funções complexas de variável real
Definição 8.1. Consideremos uma função complexa de variável real
f : [a, b] ⊆ R → C
,
x 7→ Re (f (x)) + iImf (x)
Rb
contı́nua no intervalo [a, b]. Chama-se integral de f em [a, b], e representa-se por a
f (t)dt,
ao número complexo
Z b Z b Z b
f (x)dx := Ref (x)dx + i Imf (x)dx.
a a a

Nota 8.1. Como estamos a supor a continuidade de f no intervalo [a, b], o mesmo se passa
com as funções reais de variável real Ref (x) e Imf (x), pelo que o integral de f em [a, b]
existe e é finito. Notemos ainda que
Z b  Z b Z b  Z b
Re f (x)dx = Ref (x)dx e Im f (x)dx = Imf (x)dx.
a a a a

Por exemplo, o integral da função f (x) = 2 + ix em [0, 1] é dado pelo número


Z 1 Z 1 Z 1  2 1
1 x i
2 + ixdx := 2dx + i xdx = [2x]0 + i =2+ .
0 0 0 2 0 2

Listamos de seguida algumas consequências da definição anterior.


Proposição 8.1. Sejam f, g : [a, b] → C funções complexas de variável real contı́nuas em
[a, b]. Então:
Rb Rb Rb
(1) a f (x) + g(x)dx = a f (x)dx + a g(x)dx.
Rb Rb
(2) a kf (x)dx = k a f (x)dx, para qualquer k ∈ R.
Ra Ra Rb
(3) a f (x)dx = 0 e b f (x)dx = − a f (x)dx.
Rb Rc Rb
(4) Se
R a ≤ c ≤ b,
R então a
f (x)dx = a
f (x)dx + c
f (x)dx.
b b
(5) a f (x)dx ≤ a |f (x)| dx.
Rb
(6) Se F for uma primitiva de f , então a f (x)dx = F (b) − F (a).
(7) Se φ : [c, d] → [a, b] for uma bijecção crescente, com derivada contı́nua, em [c, d],
então Z Z
b d
f (x)dx = f (φ(s))φ′(s)ds.
a c
(8) Se φ : [c, d] → [a, b] for uma bijecção decrescente, com derivada contı́nua, em [c, d],
então Z Z
b d
f (x)dx = − f (φ(s))φ′(s)ds.
a c

Demonstração. Faremos apenas a prova de (5). As restantes propriedades são con-


sequências da definição e das respectivas propriedades para funções reais de variável real.
A desigualdade é claramente válida se
Z b
f (x)dx = 0.
a
Suponhamos então que
Z b
f (x)dx = reiθ
a
com r > 0. Então Z b

f (x)dx =r

a
e podemos escrever
Z b Z b
1
r = iθ e−iθ f (x)dx
f (x)dx =
e a a
Z b  Z b
−iθ

= Re e f (x)dx = Re e−iθ f (x) dx
a a
Z b Z b
−iθ −iθ
≤ e f (x) dx = e |f (x)| dx
a a
Z b
= |f (x)| dx.
a


9. Integração de funções complexas de variável complexa


Definição 9.1. Seja A um subconjunto de C. Um caminho em A é uma função contı́nua
γ : [a, b] ⊆ R → A
.
t 7→ γ(t)
A γ(a) chamamos origem e a γ(b) extremidade do caminho. Se γ(a) = γ(b), dizemos que
o caminho é fechado. Ao conjunto {γ} := {γ(t) : t ∈ [a, b]} chamamos a imagem de γ.

Exemplo 9.1. O caminho definido por γ(t) = u(1 − t) + vt, para 0 ≤ t ≤ 1, tem origem
γ(0) = u, extremidade γ(1) = v e a sua imagem é o segmento {γ} = [uv].

Exemplo 9.2. A imagem do caminho γ(t) = reit , 0 ≤ t ≤ 2π é a circunferência de centro


0 e raio r. É um caminho fechado pois γ(0) = γ(2π) = r. A circunferência é percorrida
no sentido contrario ao do ponteiro dos relógios. Notemos que o caminho γ(t) = re2it ,
0 ≤ t ≤ 2π, tem igualmente por imagem a circunferência de centro 0 e raio r, mas neste
caso a circunferência é percorrida duas vezes.
Já γ(t) = u + reit , 0 ≤ t ≤ 2π, representa a circunferência de centro u e raio r.

Nota 9.1. É claro que diferentes caminhos podem ter a mesma imagem. Por exemplo, os
caminhos γ1 (t) = 2(t + it), 0 ≤ t ≤ 21 , e γ2 (t) = t2 + it2 , 0 ≤ t ≤ 1 têm ambos por imagem
o segmento de recta [0, 1 + i].
Dado um caminho γ : [a, b] → C, definimos o caminho oposto de γ como sendo o
caminho definido por
←γ− : [a, b] → C
t 7→ γ(a + b − t).
A imagem de ← γ− é igual à imagem de γ e temos ←γ−(a) = b e ←
γ−(b) = a.
Dado um caminho γ : [a, b] → A consideremos uma bijecção crescente ψ : [c, d] → [a, b].
Então γ ◦ ψ : [c, d] → A é um caminho em A com a mesma origem, extremidade e imagem
que γ. Dizemos que γ ◦ ψ é obtido de γ por mudança de parâmetro.
Nota 9.2. Sendo [a, b] um qualquer intervalo, a função ψ : [0, 1] → [a, b] definida por
ψ(t) = (1 − t)a + bt é uma bijecção crescente. Através desta bijecção podemos considerar
qualquer caminho, por mudança de parâmetro, definido no intervalo [0, 1], ou em qualquer
outro intervalo.

Se γ1 e γ2 são dois caminhos tais que a extremidade de γ1 é a origem de γ2 , definimos


o caminho γ1 ∪ γ2 cuja origem é a origem de γ1 , a extremidade é a extremidade de γ2 e
{γ1 ∪ γ2 } = {γ1} ∪ {γ2 }.
Exemplo 9.3. A imagem de γ1 (t) = t, −1 ≤ t ≤ 1, é o segmento [−1, 1], enquanto que a
imagem de γ2 (t) = eit , 0 ≤ t ≤ π, é a parte da circunferência de centro 0 e raio 1 situada
nos dois primeiros quadrantes. Como γ1 (1) = γ2 (0) = 1, podemos construir o caminho
γ1 ∪ γ2 , cuja imagem é representada em baixo.
γ2

γ1 1
Consideremos um caminho γ : [a, b] → C e suponhamos que γ ′ existe e é contı́nua. O
comprimento de γ, denotado comp(γ), é dado pelo integral
Z b
comp(γ) = |γ ′ (t)| dt.
a
it
Exemplo 9.4. Se γ(t) = re , 0 ≤ t ≤ 2π, então comp(γ) = 2πr é o perı́metro da circun-
ferência de centro 0 e raio r. De facto,
Z 2π Z 2π
it
comp(γ) = rie dt = rdt = 2πr.
0 0

Exemplo 9.5. Já o caminho γ(t) = re2it , 0 ≤ t ≤ 2π, tem comprimento comp(γ) = 4πr,
pois
Z 2π Z 2π

comp(γ) = 2it
2rie dt = 2rdt = 4πr.
0 0

Seja γ : [a, b] → C um caminho com derivada contı́nua e suponhamos que ψ : [c, d] →


[a, b] é uma bijecção crescente. Então, γ ◦ ψ : [c, d] → C é um caminho com a mesma
imagem que γ. O comprimento de γ é dado por
Z b
comp(γ) = |γ ′ (t)| dt.
a

Efectuando a mudança de variável t = ψ(s), obtemos dt = ψ ′ (s)ds e então


Z d Z d

comp(γ) = ′ ′
|γ (ψ(s))| ψ (s)ds = (γ ◦ ψ)′ (s) ds.
c c

Ou seja, o comprimento de uma curva não depende da parametrização usada.

Definição 9.2. Seja f : A → C uma função contı́nua, com A ⊆ C, e seja γ : [a, b] → A


um caminho com derivada contı́nua. Define-se o integral de f ao longo de γ como sendo
o número complexo
Z Z b
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt.
γ a

Nota 9.3. (1) Para o integral existir, a função f tem de estar definida na imagem de γ e,
para o cálculo desse integral, só interessam os valores de f nessa imagem.
(2) Ambas as funções f ◦ γ e γ ′ são contı́nuas no intervalo [a, b].
(3) Quando num integral se indicar a circunferência C(u, r) de centro u e raio r > 0
está-se a considerar a parametrização u + reit , 0 ≤ t ≤ 2π.

Exemplo 9.6. Calculemos o integral


Z
z 2 dz,
γ
onde γ(t) = eit , com 0 ≤ t ≤ π. Como f (z) = z 2 é contı́nua em C e γ ′ (t) = ieit é contı́nua
em [0, π] podemos escrever
Z Z π
2
z dz = (eit )2 ieit dt
γ 0
Z π
= ie3it dt
0 3it π
e
=i
3i 0
1 2
= (−1 − 1) = − .
3 3

Analisemos algumas das propriedades deste integral.


Proposição 9.1. O integral não depende do parâmetro usado no caminho, i.e., se γ ◦ ψ
for uma caminho obtido de γ por mudança de parâmetro, tem-se
Z Z
f (z)dz = f (z)dz.
γ◦ψ γ

Demonstração. Seja γ : [a, b] → C um caminho com derivada contı́nua e ψ : [c, d] → [a, b]


é uma bijecção crescente. Efectuando a mudança de variável t = ψ(s) temos dt = ψ ′ (s)ds
e, portanto
Z Z b Z d

f (z)dz = f (γ(t))γ (t)dt = f (γ(ψ(s)))γ ′ (ψ(s))ψ ′ (s)ds
γ a c
Z d Z

= f (γ ◦ ψ(s))(γ ◦ ψ) (s)ds = f (z)dz.
c γ◦ψ

O integral de uma função complexa ao longo de caminhos generaliza o integral de


funções de uma variável real em intervalos:
Proposição 9.2. Se o caminho γ : [a, b] → [a, b] for definido por γ(t) = t, então
Z Z b
f (z)dz = f (t)dt.
γ a

As seguintes propriedades seguem directamente da definição.


Proposição 9.3. Sejam f e g funções complexas contı́nuas no conjunto A ⊆ C, k ∈ C e
γ, γ1 dois caminhos em A com derivadas contı́nuas. Então:
R
(1) Se γ é um caminho constante γ(t) = k, então γ f (z)dz = 0.
R R R
(2) γ
f (z) + g(z)dz = γ
f (z)dz + γ
g(z)dz.
R R
(3) γ
kf (z)dz = k γ
f (z)dz.

(4) RSe a extremidade


R de γ coincide
R com a origem de γ1 , então
γ∪γ1
f (z)dz = γ f (z)dz + γ1 f (z)dz.
Exemplo 9.7. Seja f (z) = z3 e consideremos os caminhos γ1 (t) = 3t, 0 ≤ t ≤ 1, γ2 (t) = 3eit ,
0 ≤ t ≤ π2 e γ3 (t) = (1−t)3i, 0 ≤ t ≤ 1. As imagens dos três caminhos estão representadas
em baixo.
3i γ2

γ3
γ1 3

Uma vez que γ1 (1) = γ2 (0) = 3 e γ2 (π/2) = γ3 (0) = 3i, podemos calcular o integral de
f (z) ao longo do caminho γ1 ∪ γ2 ∪ γ3 :
Z Z Z Z
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz + f (z)dz
γ1 ∪γ2 ∪γ3 γ1 γ2 γ3
Z 1 Z π Z 1
1 1 2
it 1
it
= 3t3dt + 3e 3ie dt + (1 − t)3i(−3i)dt
3 0 3 0 3 0
3 3
= −3+ .
2 2

Proposição 9.4. Se f é uma função complexa contı́nua definida em A ⊆ C e γ é um


caminho contido em A com derivada contı́nua, então
Z Z
f (z)dz = − f (z)dz.


γ γ

Demonstração. Seja γ : [a, b] → A. Então ← γ−(s) = γ(a+b−s) = γ◦ξ, onde ξ : [a, b] → [a, b]
é definida por ξ(s) = a + b − s. Assim,
Z Z b Z b

f (z)dz = f (γ ◦ ξ(s)) (γ ◦ ξ) (s)ds = f (γ ◦ ξ(s)) γ ′ (ξ(s))ξ ′(s)ds.


γ a a

Efectuado a mudança de variável t = ξ(s), temos dt = ξ ′ (s)ds e então


Z Z a
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt


γ b
Z b
=− f (γ(t))γ ′ (t)dt
Z a
= f (z)dz.
γ

Vamos de seguida obter um majorante para o integral de f ao longo de um caminho.


Proposição 9.5. Sejam f uma função contı́nua definida em A ⊆ C e γ : [a, b] → A um
caminho com derivada contı́nua. Então
Z

f (z)dz ≤ comp(γ)M,

γ

onde M = max{|f (z)| : z ∈ {γ}}.


Demonstração. Uma vez que
Z Z b
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt,
γ a

podemos usar a alı́nea (5) da proposição 8.1 para escrever


Z Z b

f (z)dz ≤ |f (γ(t))γ ′(t)|dt

γ a
Z b
≤ M|γ ′ (t)|dt
a
Z b
=M |γ ′ (t)|dt
a
= comp(γ)M.

Nota 9.4. Notemos que o número real M definido na proposição anterior existe pois
estamos a assumir que f (γ(t)) é uma função contı́nua no intervalo fechado [a, b].

Proposição 9.6. Sejam f uma função contı́nua definida em A ⊆ C e γ : [a, b] → A um


caminho com derivada contı́nua. Se F é uma primitiva de f em A, então
Z
f (z)dz = F (γ(b)) − F (γ(a)).
γ

Demonstração. Comecemos por notar que se F é uma primitiva de f em A, então a função


F ◦ γ é uma primitiva de (f ◦ γ)γ ′ em A. Assim,
Z Z b
f (z)dz = f (γ(t))γ ′ (t)dt = [F ◦ γ(t)]ba = F (γ(b)) − F (γ(a)).
γ a

Exemplo 9.8. O integral


Z
1
dz = 0, k ≥ 2,
C(u,r) (z − u)k
pois C(u, r) é um caminho fechado e
Z
1 (z − u)−k+1
dz = .
(z − u)k −k + 1
Notemos no entanto que
Z Z 2π Z 2π
1 1 it
dz = ie dt = idt = 2πi.
C(u,r) z − u 0 u + eit − u 0
9.1. O Teorema de Cauchy. Deste ponto em diante consideraremos apenas caminhos
fechados. Dado um caminho fechado supor-se-á, salvo indicação em contrário, que ele é
percorrido uma só vez e deixando a parte de dentro do lado esquerdo.
Definição 9.3. Uma singularidade de uma função f é um ponto onde não existe derivada.

Teorema 9.7 (Teorema de Cauchy). Seja f : A → C uma função diferenciável no


conjunto aberto A ⊆ C, e seja γ um caminho fechado contido em A. Se f não tiver
singularidades dentro de γ, então
Z
f (z)dz = 0.
γ

Nota 9.5. O teorema de Cauchy dá apenas uma condição suficiente para o anulamento
do integral de uma função ao longo de um certo caminho fechado. Por exemplo,
Z
1
2
dz = 0
C(2,2) (z − 2)
1
R
e (z−2)2 tem uma singularidade dentro de C(2, 2). Portanto, para o integral γ
f (z)dz se
anular não é necessário que f tenha todas as singularidades fora de γ.

Como consequência do teorema de Cauchy podemos concluir que o integral


Z
f (z)dz
γ

de uma função que seja diferenciaável em todo o plano complexo se anula qualquer que
seja o caminho fechado γ. Em particular,
Z Z Z Z
z
e dz = sin(z)dz = cos(z)dz = p(z)dz = 0,
γ γ γ γ

onde p(z) é um qualquer polinómio.


5
Exemplo 9.9. A função racional f (z) = zz 2 +2z+3
−2z+2
é diferenciável em C \ {1 − i, 1 + i}, pois
estes números anulam o denominador de f (z). Assim,
Z
f (z)dz = 0,
C(0,1)

pois |1 − i| = |1 + i| = 2 > 1.

Teorema 9.8 (Teorema da deformação do caminho). Seja f uma função diferenciável


num conjunto aberto A ⊆ C e sejam γ1 e γ2 caminhos fechados em A, com γ1 dentro de
γ2 . Se f não tiver singularidades entre γ1 e γ2 , tem-se
Z Z
f (z)dz = f (z)dz.
γ1 γ2

Demonstração. Sejam a e b a origem (e extremidade) de γ1 e γ2 , respectivamente. Consid-


eremos um caminho γ com derivada contı́nua unindo o ponto a ao ponto b, e totalmente
contido entre γ1 e γ2 :
γ2


γ
γ1
×
b

Consideremos então o caminho fechado


γe = γ2 ∪ ←
γ− ∪ ←
γ−1 ∪ γ.
Como f (z) não tem singularidades no interior de e γ , temos
Z Z Z Z Z
0 = f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz + f (z)dz + f (z)dz
γ
e γ2 ←

γ ←
γ− γ
1
Z Z Z Z
= f (z)dz − f (z)dz − f (z)dz + f (z)dz
γ2 γ γ1 γ
Z Z
= f (z)dz − f (z)dz.
γ2 γ1

Ou seja, Z Z
f (z)dz = f (z)dz.
γ1 γ2

Notemos que se f não tem singularidades dentro de γ então o caminho γ pode ser
deformado até ao caminho constante e, nesse caso, o integral anula-se.
Exemplo 9.10. Seja γ um caminho fechado cuja imagem é o quadrado com vértices ±3±3i.
1
Como a função z−i tem apenas uma singularidade no ponto i, podemos escrever
Z Z
1 1
dz = dz = 2πi,
γ z −i C(i,1) z − i
1
pois z−i
não possui singularidades entre γ e C(i, 1):

γ
i
2

O próximo resultado permite-nos calcular integrais ao longo de caminhos fechados den-


tro dos quais a função integranda possui um número finito de singularidades.
Teorema 9.9. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja γ
um caminho fechado contido em A. Se as singularidades de f dentro de γ são z1 , . . . , zp ,
então Z p Z
X
f (z)dz = f (z)dz,
γ k=1 C(zk ,rk )

onde os raios rk são suficientemente pequenos para que as p circunferências estejam dentro
de γ e dentro de cada uma exista apenas uma singularidade de f .

Exemplo 9.11. Calculemos o valor do integral


Z
1
2
dz.
C(0,4) z + 1

Uma vez que z 2 + 1 = (z + i)(z − i), a função f (z) = z 21+1 dz tem singularidades nos pontos
±i, os quais se encontram dentro da circunferência C(0, 4). Assim, podemos escrever
Z Z Z
1 1 1
2
dz = 2
dz + 2
dz.
C(0,4) z + 1 C(i,1) z + 1 C(−i,1) z + 1

Relativamente ao primeiro integral do segundo membro da igualdade anterior, temos


Z Z Z
1 1 −i/2 i/2
2
dz = dz = + dz
C(i,1) z + 1 C(i,1) (z − i)(z + i) C(i,1) z − i z+i
Z Z
−i 1 i 1
= dz + dz
2 C(i,1) z − i 2 C(i,1) z + i
−i
= 2πi + 0,
2
1
visto que a função z+i não tem singularidades dentro da circunferência C(i, 1). Analoga-
mente se conclui que Z
1 i
2
dz = 2πi,
C(−i,1) z + 1 2
pelo que Z
1
2
dz = 0.
C(0,4) z + 1

9.2. Fórmula integral de Cauchy.


Teorema 9.10 (Fórmula integral de Cauchy). Seja f uma função diferenciável num
conjunto aberto A ⊆ C. Seja uma circunferência C(z0 , r) contida em A e suponhamos
que f não tem singularidades dentro de C(z0 , r). Então, para todo o u ∈ B(z0 , r),
Z
1 f (z)
f (u) = dz.
2πi C(z0 ,r) z − u

Nota 9.6. Este resultado estabelece o valor da função f num ponto z em função dum
integral ao longo de um caminho. Este resultado pode também ser usado para calcular o
valor de um integral ao longo de um caminho, pois para todo o u ∈ B(z0 , r),
Z
f (z)
dz = 2πif (u),
C(z0 ,r) z − u

desde que f não tenha singularidades dentro de B(z0 , r), como se pode verificar no exemplo
seguinte.
Exemplo 9.12. Consideremos o integral
Z
ez
dz.
C(0,1) z
Uma vez que a exponencial complexa não tem singularidades dentro de C(0, 1), temos
Z
ez
dz = e0 2πi = 2πi.
C(0,1) z

Teorema 9.11 (Fórmula integral de Cauchy para derivadas). Seja f uma função difer-
enciável num conjunto aberto A ⊆ C. Seja uma circunferência C(z0 , r) contida em
A e suponhamos que f não tem singularidades dentro de C(z0 , r). Então, para todo o
u ∈ B(z0 , r), Z
(n) n! f (z)
f (u) = dz.
2πi C(z0 ,r) (z − u)n+1

Exemplo 9.13. Consideremos o integral


Z
z+1
dz.
C(0,1) z4
+ 2iz 3
A função integranda tem singularidades nos pontos 0 e −2i, pois z 4 − 2iz 3 = z 3 (z + 2i),
mas apenas o ponto 0 se situa no interior da circunferência C(0, 1). Assim, podemos
escrever Z Z z+1
z+1 z+2i
4 3
dz = 3
dz,
C(0,1) z + 2iz C(0,1) z
z+1
onde a função g(z) = z+2i não tem singularidades no interior de C(0, 1). Uma vez que
′′ 2−4i
g (0) = (2i)3 , obtemos então
Z
z+1 2πi ′′ 2 − 4i
4 3
dz = g (0) = πi .
C(0,1) z + 2iz 2! (2i)3

Sabemos que podemos derivar e integrar termo a termo uma série de potências dentro
da maior bola aberta B(z0 , r) onde a série convirja. Podemos agora colocar a questão ao
contrário: dada uma função diferenciável numa bola aberta B(z0 , r) é possı́vel representá-
la por meio de uma série de potências de z − z0 ? A resposta a esta questão é dada pelo
teorema de Taylor, cuja prova se obtém como consequência da fórmula integral de Cauchy.

Teorema 9.12 (Teorema de Taylor). Seja f uma função diferenciável num conjunto
aberto A ⊆ C e seja B(z0 , r) ⊆ A. Então, nessa bola,

X
f (z) = an (z − z0 )n ,
n=0
onde Z
f (n) (z0 ) 1 f (z)
an = = dz
n! 2πi C(z0 ,r) (z − z0 )n+1
para n ≥ 0.
P

Nota 9.7. (1) A representação f (z) = an (z−z0 )n é válida na maior bola aberta centrada
n=0
em z0 inteiramente contida em A.
(2) Em C, toda a função diferenciável numa bola aberta é analı́tica.
(3) Notemos que de acordo com o teorema de Taylor, temos
Z
(n) n! f (z)
f (z0 ) = dz,
2πi C(z0 ,r) (z − z0 )n+1
para n ≥ 0. Ou seja, uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C admite
derivadas de todas as ordens nos pontos de A.

1
Exercı́cio 9.1. Represente a função f (z) = 1−i+z como soma de uma série de potências
de z − (4 − 2i), indicando o raio da maior bola aberta centrada em 4 − 2i onde tal
desenvolvimento é válido.

9.3. Série de Laurent e teorema dos resı́duos. Consideremos o problema de desen-


volver a função
1
z + z4
2

em série de potências de z. Pondo o termo z 2 em evidência no denominador obtemos


1 1 1 1 1 1
2 4
= 2 2
= 2 2
= 2
z +z z (1 + z ) z 1+z z 1 − (−z 2 )

1X 1
= 2 (−z 2 )n = 2 (1 − z 2 + z 4 − z 6 + z 8 + · · · )
z n=0 z
1
= − 1 + z2 − z4 + z6 · · ·
z2
para todo o 0 < |z| < 1. Esta representação não é uma série de Taylor mas sim um
exemplo de uma série de Laurent, que analisaremos de seguida.

Definição 9.4. Dizemos que z0 é uma singularidade isolada de f se existir 4m número


real r > 0 tal que f é diferenciável em B(z0 , r) \ {z0 }.
O ponto 0 é uma singularidade isolada da função f considerada em cima, pois os únicos
zeros de z 2 + z 4 são 0, i e −i. Assim, f é diferenciável em C \ {0, ±i}. Em particular, f
é diferenciável em B(0, 1) \ {0}.
Teorema 9.13. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja
{z : R1 < |z − z0 | < R2 } uma coroa circular contida em A. Então, nessa coroa circular
tem-se ∞ ∞
X 1 X
f (z) = a−n n
+ an (z − z0 )n ,
n=1
(z − z0 ) n=0
onde Z
1 f (z)
an = dz
2πi C(z0 ,r) (z − z0 )n+1
para n = 0, ±1, ±2, . . . e R1 < r < R2 .
A esta série chama-se série de Laurent ou desenvolvimento em série de Laurent de f . A
primeira parte desta série é designada por parte principal e a segunda por parte analı́tica.
Nota 9.8. (1) Notemos que os coeficientes da série de Laurent, e portanto a própria série
de Laurent, são univocamente determinados por f e z0 .
(2) Se f é diferenc¡iável em todo o disco |z − z0 | < R2 , então a−n = 0, para n ≥ 1 e
f (n) (z0 )
an = ,
n!
para n = 0, 1, 2, . . . , ou seja, neste caso a série de Laurent reduz-se à série de Taylor.
1
(2) O coeficiente de a−1 de z−z 0
satisfaz
Z
1 f (z)
a−1 = dz
2πi C(z0 ,r) (z − z0 )0
ou seja,
Z
2πia−1 = f (z)dz.
C(z0 ,r)

Exemplo 9.14. Uma vez que


∞ n
X
z z
e =
n=0
n!
para todo o z ∈ C, obtemos o desenvolvimento em série de Laurent
X∞
1 1
e =
z
n
n=0
z n!

para todo o |z| > 0.

Exercı́cio 9.2. Ache as séries de Laurent das seguintes funções nas coroas circulares
indicadas:
z+1 ez
(a) , 0 < |z| < ∞ (b) 2 , 0 < |z| < ∞
z z
1 1
(c) 5
, 0 < |z − 3| < ∞ (d) sin( ), 0 < |z| < ∞
(z − 3) z
1 1
(e) 2 , 0 < |z + i| < 2 (f ) , 0 < |z| < 1 e em 0 < |z − 1| < 1.
z +1 z(1 − z)

Definição 9.5. Na situação do teorema de Laurent, se R1 = 0, isto é, se z0 é uma


1
singularidade isolada de f , o coeficiente a−1 de z−z 0
na série de Laurent de f chama-se
resı́duo de f em z0 e denota-se por Res(f, z0 ). Temos assim,
Z
2πiRes(f, z0 ) = f (z)dz.
C(z0 ,r)

O próximo resultado, conhecido como teorema dos resı́duos, é consequência do teorema


9.9.
Teorema 9.14. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja γ
um caminho fechado contido em A. Se as singularidades de f dentro de γ são z1 , . . . , zp ,
então Z p
X
f (z)dz = 2πi Res(f, zk )
γ k=1

Exemplo 9.15. Usemos o teorema dos resı́duos para calcular o integral


Z
1
dz.
C(0,2) z(1 − z)
1
Comecemos por notar que a função f (z) = z(1−z) tem singularidades nos pontos z = 0 e
z = 1, ambos dentro da circunferência C(0, 2). Calculemos então os resı́duos Res(f, 0) e
Res(f, 1). Temos
∞ ∞
1 1 1 X n X n−1 1
f (z) = z = z = + 1 + z + z2 + · · ·
z 1 − z z n=0 n=0
z
para todo o 0 < |z| < 1, pelo que Res(f, 0) = 1. Relativamente ao ponto 1, temos

1 1 1 1 1 X
f (z) = = = (−(z − 1))n
1−zz+1−1 1 − z 1 − (−(z − 1)) 1 − z n=0

X −1
= (−1)n (z − 1)n−1 = + 1 − (z − 1) + (z − 1)2 + · · ·
n=0
z−1
para 0 < |z − 1| < 1, pelo que Res(f, 1) = −1. Assim,
Z
1
dz = 2πi (Res(f, 0) + Res(f, 1)) = 0.
C(0,2) z(1 − z)

1
Exercı́cio 9.3. Considere a função g definida por g(z) = (z−1)(z−2) . Determine um
desenvolvimento em série de Laurent de g válido em 0 < |z − 1| < 1.
9.4. Classificação das singularidades isoladas.
Definição 9.6. Seja z0 uma singularidade isolada de f . Se na série de Laurent de f
X∞ X∞
1
a−n n
+ an (z − z0 )n
n=1
(z − z0 ) n=0
houver apenas um número finito de coeficientes a−n não nulos, z0 diz-se um pólo de f .
Se
a−m a−1
f (z) = m
+···+ + a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 ) + · · · ,
(z − z0 ) z − z0
com a−m 6= 0, diz-se que z0 é um pólo de ordem m. Um pólo de ordem 1 chama-se pólo
simples.

z
Exemplo 9.16. O número 0 é um pólo simples de z2
, pois
z 1
= ,
z2 z
para 0 < |z|.
ez
Exemplo 9.17. O número 0 é um pólo de ordem 2 de z2
, pois

ez 1 X zn 1 1 1 z
2
= = 2 + + + +··· ,
z z n=0 n! z z 2! 3!
para 0 < |z|.
sin(z)
Exemplo 9.18. O número 0 não é um pólo de z
, pois
∞ ∞
sin(z) 1X n z
2n+1 X
n z 2n z2 z4
= (−1) = (−1) =1− + −··· ,
z2 z n=0 (2n + 1)! n=0 (2n + 1)! 3! 5!
para 0 < |z|.

O próximo resultado estabelece um critério para uma singularidade isolada de f ser um


pólo de ordem m.
Proposição 9.15. O número z0 é um pólo de ordem m de f se e só se for possı́vel
escrever
g(z)
f (z) =
(z − z0 )m
com g uma função diferenciável numa vizinhança B(z0 , r) de z0 tal que g(z0 ) 6= 0.
Demonstração. Se z0 é um pólo de ordem m de f , podemos escrever
a−m a−1
f (z) = n
+···+ + a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 ) + · · ·
(z − z0 ) z − z0
para todo o z ∈ B(z − 0, r) \ {z0 } com a−m 6= 0. Multiplicando ambos os membros desta
expressão por (z − z0 )m , obtemos

X
m m−1
(z − z0 ) f (z) = a−m + · · · + a−1 (z − z0 ) + an (z − z0 )n+m ,
n=0
| {z }
g(z)

com g diferenciável em B(z0 , r) e tal que g(z0 ) = a−m 6= 0.


g(z)
Reciprocamente, se f (z) = (z−z 0)
m com g diferenciável em B(z0 , r), podemos escrever


X
g(z) = an (z − z0 )n ,
n=0

com a0 = g(z0 ) 6= 0, pelo que


X∞
1
f (z) = an (z − z0 )n
(z − z0 )m n=0
tem um pólo de ordem m no ponto z0 . 

Definição 9.7. Seja h uma função diferenciável em B(z0 , r). Dizemos que h tem um zero
de ordem m em z0 se
h(z0 ) = h′ (z0 ) = · · · = h(m−1) (z0 ) = 0 e h(m) (z0 ) 6= 0.
Um zero de ordem 1 diz-se um zero simples.
O próximo resultado segue de forma simples da definição de zero de ordem m de uma
função.
Proposição 9.16. Seja h uma função diferenciável em B(z0 , r). Então, h tem um zero
de ordem m se e só se for possı́vel escrever
h(z) = (z − z0 )m φ(z),
onde φ é diferenciável em B(z0 , r) e φ(z0 ) 6= 0.
Como consequência deste resultado obtemos o seguinte
Corolário 9.17. Sejam g e h duas funções diferenciáveis numa vizinhança de z0 tais que
h tem um zero de ordem m em z0 e g(z0 ) 6= 0. Então,
g(z)
f (z) =
h(z)
tem um pólo de ordem m em z0 .
Demonstração. Basta notar que podemos escrever h(z) = (z − z0 )m φ(z), com φ difer-
enciável numa vizinhança de z0 e φ(z0 ) 6= 0. Assim,
g(z)
g(z) g(z) φ(z)
f (z) = = = ,
h(z) (z − z0 )m φ(z) (z − z0 )m
g(z) g(z0 )
com φ(z)
diferenciável numa vizinhança de z0 e φ(z0 )
6= 0. 

Exemplo 9.19. Seja


1
f (z) = .
sin(z)
A função sin(z) tem zeros nos pontos kπ, k ∈ Z. Se z0 é um destes pontos, temos
sin(z0 ) = 0 e cos(z0 ) 6= 0. Portanto, a função sin(z) tem um zero simples no ponto z0 .
Pelo corolário anterior, f tem um pólo simples em z0 .

Exemplo 9.20. Consideremos agora a função


ez − 1
f (z) = .
z3
O ponto 0 é zero simples de ez − 1, pelo que podemos escrever ez − 1 = zφ(z), com
φ(0) 6= 0. Portanto,
zφ(z) φ(z)
f (z) = = ,
z3 z2
com φ(0) 6= 0. Pelo corolário anterior, 0 é um pólo de ordem 2 de f .

Teorema 9.18. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja z0
uma singularidade isolada de f . Se f tem um pólo simples em z0 , então
Res(f, z0 ) = lim (z − z0 )f (z).
z→z0
Demonstração. Se z0 é pólo simples de f podemos escrever
a−1
f (z) = + a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 )2 + · · · ,
z − z0
com a−1 6= 0. Daqui segue que
lim (z − z0 )f (z) = a−1 .
z→z0

De forma alternativa, podemos calcular o resı́duo num pólo simples da seguinte forma:
Corolário 9.19. Sejam g e h funções diferenciáveis numa vizinhança de z0 tais que h
g(z)
tem um zero simples em z0 e g(z0 )neq0. Então, a função f (z) = h(z) tem um pólo simples
em z0 e
g(z0 )
Res(f (z), z0 ) = ′ .
h (z0 )
Demonstração. Pelo teorema anterior, temos
g(z) g(z) g(z0 )
Res(f (z), z0 ) = lim (z − z0 ) = lim h(z) = ′ .
z→z0 h(z) z→z0 h (z0 )
z−z0

Relativamente a pólos de ordem m > 1 temos o seguinte critério:

Teorema 9.20. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja z0
uma singularidade isolada de f . Se f tem um pólo de ordem m em z0 , então
1 dm−1
Res(f, z0 ) = lim m−1 (z − z0 )m f (z).
(m − 1)! z→z0 dz
Demonstração. Se z0 é pólo de ordem m de f podemos escrever
a−m a−1
f (z) = m
+···+ + a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 )2 + · · · ,
(z − z0 ) z − z0
com a−m 6= 0, ou ainda,
(z−z0 )m f (z) = a−m +· · ·+a−1 (z−z0 )m−1 +a0 (z−z0 )m +a1 (z−z0 )m+1 +a2 (z−z0 )m+2 +· · ·
Derivando esta igualdade m − 1 vezes vem:
dm−1
(z − z0 )m f (z) = (m − 1)!a−1 + m!(z − z0 )a0 + · · ·
dz m−1
Tomando limites obtemos
dm−1
lim (z − z0 )m f (z) = (m − 1)!a−1 .
z→z0 dz m−1


Exemplo 9.21. A função
ez
f (z) =
z(z − 1)3
z
tem um pólo de ordem 3 no ponto 1 pois ez não se anula em 1. Neste ponto, temos
1 d2 1 d2 ez e
Res(f, 1) = lim 2 (z − z0 )3 f (z) = lim 2 = .
2! z→1 dz 2! z→1 dz z 2
Assim, Z
f (z)dz = 2πiRes(f, 1) = πie
C(1,1/2)
pois o ponto 1 é a única singularidade de f dentro da circunferência C(1, 1/2).

Exemplo 9.22. Calculemos o integral


Z
1
dz.
C(0,5) sin(z)
1
Como vimos no exemplo 9.19, a função sin(z) tem pólos simples nos pontos kπ, k ∈ Z.
Destes, apenas os pontos −π, 0, π estão dentro da circunferência C(0, 5). Temos
 
1 1 1
Res ,0 = ′
= = 1,
sin(z) (sin(z)) |z=0 cos(0)
 
1 1 1
Res ,π = = = −1,
sin(z) (sin(z))′ |z=π cos(π)
 
1 1 1
Res , −π = = = −1,
sin(z) (sin(z))′ |z=−π cos(−π)
pelo que Z
1
dz = 2πi(1 − 1 − 1) = −2πi.
C(0,5) sin(z)

Analisemos por fim as singularidades que não são pólos.


Definição 9.8. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja z0
uma singularidade isolada de f . Se na série de Laurent de f
X∞
an (z − z0 )n
n=−∞

todos os coeficientes an com n < 0 forem iguais a zero, o ponto z0 diz-se uma singularidade
aparente de f . Neste caso,
Ref (f, z0 ) = 0
e a singularidade pode ser removida definindo f em z0 por f (z0 ) = a0 : de facto, se

X
f (z) = an (z − z0 )n , para todo z ∈ B(z0 , r) \ {z0 },
n=0
definimos a função (
e = a0 ,
f(z)
z = z0
.
f (z), z =
6 z0
Esta função é diferenciável em B(z0 , r) e
X∞
e
f(z) = an (z − z0 )n , para todo z ∈ B(z0 , r).
n=0

Exemplo 9.23. Uma vez que o ponto 0 é um zero simples de sin(z), podemos escrever
sin(z) = zφ(z), com φ diferenciável em C e φ(0) 6= 0. Podemos então concluir que a
função
sin(z) zφ(z)
= = φ(z)
z z
tem uma singularidade aparente no ponto 0.

Definição 9.9. Seja f uma função diferenciável num conjunto aberto A ⊆ C e seja z0
uma singularidade isolada de f . Se na série de Laurent de f
X∞
an (z − z0 )n
n=−∞

houver uma infinidade de coeficientes an , com n < ∞, diferentes de zero, então z0 diz-se
uma singularidade essencial de f .

1
Exemplo 9.24. A função e z tem uma singularidade essencial no ponto 0, pois
X ∞
1 1 1 1 1
ez = n
= ···+ 3
+ 2
+ + 1.
n=0
z n! 3!z 2!z z

Exercı́cio 9.4. Cada uma das seguintes funções tem uma singularidade isolada em z0 = 0.
Para cada caso, classifique a singularidade indicando, no caso de se tratar de um pólo, a
sua ordem.
z cos(z) sin(z) cos(z)
(a) 2 , (d) , (g) 4 , (j) 2 ,
z z z z
1 1 − cos(z) 1 1
(b) 2 , (e) , (h) z , (k)z 7 sin( ).
z z e −1 z

Exercı́cio 9.5. Usando o teorema dos resı́duos calcule os seguintes integrais:


Z Z
z3 + 1 1
(a) 3
, (e) ,
C(1,3) (z + 1)(z − 1) C(0,5) sin(z)
Z Z
sin(z) 1
(b) 2
, (f ) 3
,
C(0,2) z (z − 1) C(−1,1/2) (1 − z)
Z Z
z z
(c) 2
, (g) 2
,
C(i,1) z + 1 C(0,1) z + 2z + 5
Z Z
1 1
(d) 3
, (h) (1 + z)e z , com r > 0.
C(−1,1) (z + 1)(z − 1) C(0,r)
Referências
[1] Dennis Zill, A first Course in Complex Analysis with Applications, Jones and Bartlett Mathematics
Publ., 2003.
[2] Glyn James Pearson, Advanced Modern Engineering Mathematics ( capı́tulo 4 Séries de Fourier,
secções 4.1, 4.2), Prentice Hall, Third edition, 2004.
[3] João Filipe Queiró, Análise Complexa Aplicada (Seccções 1-13).
[4] Carlos Sarrico, Análise Matemática Leituras e Exercı́cios (Sucessões e séries de funções. Convergência
pontual e uniforme.), Gradiva, Colecção Trajectos Ciência, 1997.
[5] James Stewart, Cálculo (volume II, Capı́tulo 11 Sucessões e séries), Editora Thomson, 5 edição, 2006.