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do que podemos imaginar
D
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Editora: Thaise Rodrigues
Subeditora: Carolina Botelho por gente”, alguns episódios de uma forma ou de outra,
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Paulo José Andrade (revisão) e da história nos chamam a atenção marcaram a história. Seja por
Luiz Gustavo Bueno (ilustrações)
pela fama, pela importância, atitudes positivas, atos tirânicos,
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Luciana Lemes Rodrigues,
Antônio Demésio, Célia Candido, as esferas, é resultado direto governantes, cada um deles foi

Jussara Baldini, Márcia Figueira,
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destes grandiosos acontecimentos bastante interessantes à sua maneira.
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Fabiana Gomes de Lima e
Kelly Cristina Fereira
ou períodos históricos. Nesta edição de Grandes Líderes da
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O Império Romano foi um dos História, reunimos os mais importantes
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Surpervisora de Marketing: Bianca Grasseschi maiores do mundo e influenciou toda a imperadores romanos, tendo em vista
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Eduardo G. Aguiar, Ronie Emerson ainda é, uma das principais bases em a viajar um pouco no tempo e descobrir
Miquelino, Marli Gomes de Brito,
Leila Cristina Lopes que estão apoiadas as leis de boa parte detalhes sobre estes líderes que fizeram
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do planeta. Já o latim, a língua falada parte de um dos mais destacados
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Linha do tempo...................... 06 Dinastia Nerva-Antonina...... 31
Pela internet: www.revistaonline.com.br Lista dos imperadores e as datas de seus De Nerva a Commodus, seis imperadores
A Arte Antiga Editora tem a revista que você procura! Confira períodos no poder
algumas das nossas publicações e boa leitura.
ARTESANATO LEVE: • Arte em EVA • Arte em Fuxico Dinastia Severana................. 34
ARTESANATO LINHA: • Ponto Russo
INTERESSE GERAL: • Conhecer Fantástico • Grandes Líderes Ascensão..................................... 08 Os imperadores estrangeiros
da História
DECORAÇÃO: • Paisagismo & Decoração
Quando o mundo viu nascer um dos
FEMININA TEEN: • Top Girl Especial Testes impérios mais influentes da história Crise............................................... 36
GAMES: • Detonando • Play Games • Pro Games
ESPORTE: • Guia de Fórmula 1 A instauração e o fim de uma tetrarquia
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aqui anunciados.
Os homens fortes de Roma O governo de Theodosius e a divisão do
Império Romano
Os quatro loucos................ 20
Tibério, Calígula, Claudio e Nero Queda do Império................. 42
O fim da hegemonia romana
Ano dos quatro..................... 26
No período de um ano, Roma foi Guia................................................ 48
Nossa capa: governada por vários imperadores
Ilustração de
Livros e filmes sobre o assunto
Luiz Gustavo Bueno
Luiz Gustavo Bueno (arte) e Ricardo Giassetti (textos)

4 Grandes Líderes da História


Imperadores Romanos
Grandes Líderes da História 5
Linha do t
DINASTIA SEVERANA
Pertinax: 01/01/193 – 28/03/193
Didius Julianus:
28/03/193 – 01/06/193
Septimius Severus: IMPERADORES ILIRIANOS
09/04/193 – 04/02/211 Claudius II, o Gótico (268–270)
Caracalla: 198 – 04/02/211 Quintillus (270)
DINASTIA JÚLIO–CLAUDIANA Geta: 209 – 04/02/211 Aureliano (270–275)
Augustus: 16/01/27 a.C – Macrinus: 11/04/217 – 06/218 Tacitus (275–276)
19/08/14 Diadumenianus: Florianus (276)
Tiberius: 19/08/14 – 16/03/37 DINASTIA FLAVIANA 05/217 – 06/218 Probus (276–282)
Calígula: 18/03/37 – 24/01/41 Vespasiano: 22/12/69 – 24/06/79 Heliogabalus: 06/218 – 222 Carus (282–283)
Claudius: 24/01/41 – 13/10/54 Titus Flavius: 24/06/79 – Alexandre Severus: Carinus (283–285)
Nero: 10/54 – 11/06/68 13/09/81 13/05/222 – 03/235 Numeriano (283–284)
27 a.C.
Domiciano: 14/09/81 – 18/09/96

27 a.C. – 68 68 – 69 69 – 96 96 – 192 193 – 235 235 – 268 268 – 284 260 – 274

ANO DOS QUATRO DINASTIA NERVANO– CRISE DO SÉCULO 3/ IMPÉRIO GAÉLICO


IMPERADORES ANTONIANA ANARQUIA MILITAR Postumus (260–268)
Galba: 09/06/68 – 15/01/69 Nerva: 18/09/96 – 27/01/98 Maximinus Trácio (235–238) Laelianus (269–269)
Otho: 15/01/69 – 16/04/69 Trajano: 28/01/98 – 07/08/117 Gordiano I (238) Marius (269–269)
Vitellius: 17/04/69 – 22/12/69 Adriano: 11/08/117 – 10/07/138 Gordiano II (238) Victorinus (269–271)
Antoninus Pius: 10/07/138 – Pupienus Maximus (238) Domitianus (270–271)
07/03/161 Balbinus (238) Tetricus I (271–274)
Marcus Aurelius: 07/03/161 Gordiano III (238–244)
– 17/03/180 Felipe, o Árabe (244–249)
Lucius Verus: 01/03/161 – 03/169 Décio (249–252)
(usurpador, regeu o Egito e a Síria) Herennius Etruscus (251)
Commodus: 180 – 31/12/192 Gallus (251–253)
(filho de Aurelius, foi Volusianus (251–253)
co–Imperador ao lado do Emiliano (253)
pai a partir de 177) Valeriano I (253)
Gallienus (253–268)

Imperadores Romanos
6 Grandes Líderes da História
empo A lista completa dos imperadores e
as datas de seus períodos no poder

IMPÉRIO DO OCIDENTE
Honorius: 395 – 15/08/423
Constantius III: 421
Valentiniano III: 425 – 16/03/455
Petronius Maximus:
17/03/455 – 31/05/455
Avitus: 06/455 – 17/10/456
IMPÉRIO DO ORIENTE Majoriano: 457 – 02/08/461
CASA DE CONSTANTINO Valentiniano I: Libius Severus: 461 – 465
Contantius II: 337 – 361 26/02/364 – 17/11/375 Anthemius:
Constâncio I: 337 – 350 Valens: 28/03/365 – 09/08/366 12/04/467 – 11/07/472
Magnentius: Procopius: 09/365 – 27/05/366 Olybrius: 07/473 – 02/11/472
01/350 – 11/08/353 Gratianus: 24/08/367 – 383 Glycerius: 05/03/473 – 06/474
IMPÉRIO BRITÂNICO Juliano, o Apóstata: Theodosius I, o Grande: Julius Nepos: 06/474 – 08/475
Carausius (286–293) 11/361 – 06/363 19/01/379 – 17/01/395 Romulus Augustus:
Allectus (293–297) Joviano: 363 – 17/02/364 Arcadius 383 – 395 31/10/475 – 08/476

286 – 297 284 – 340 337 – 364 364 – 388 364 – 395 388 – 395 395 – 476 395 – 476

TETRARQUIA IMPERIAL: DINASTIA VALENTINIANA DINASTIA TEODOSIANA IMPÉRIO BIZANTINO


DINASTIA CONSTANTINA
Diocleciano:
20/11/284 – 01/05/305
Constantius I Clorus:
01/05/305 – 25/07/306
Galerius: 01/05/305 – 05/311
Maximiano:
01/04/286 – 01/05/305
Severus II: 08/306 – 16/09/307
Maximiano: 307–308
Valentiniano I:
26/02/364 – 17/11/375
Graciano: 24/08/367 – 383
Valentiniano II: 375 – 385
Magnus Maximus: 383 – 388
Flavius Victor: 386 – 388
Theodosius I, o Grande:
388 – 17/01/395
Honorius: 23/01/393 – 395
476 (ORIENTE)
Arcadius: 395 – 408
Theodosius II: 408 – 450
Marciano: 450 – 457
Leão I: 457 – 474
Leão II: 474 – 474
Zeno: 474 – 491
Basiliscus: 475 – 476

Maxentius:
28/10/306 – 28/10/312
Constantino I, o Grande:
307–22/05/337
Licinius:
11/11/308 – 19/12/324
Maximinus Daia:
01/05/310 – 08/313
Constantino II: 337 – 340

Grandes Líderes da História 7


AS CEN SÃO

E nasce o Imp
Em cinco séculos, uma pequena comunidade às
margens do Rio Tibre tornou-se a maior potência
do mundo mediterrâneo. O império, que moldou
a cultura e a política ocidental, tem seus reflexos
sentidos até hoje, 2 mil anos depois
Por Ricardo Giassetti

Q
uando se fala da fundação de Roma, a primei-
ra coisa que nos vem à mente é a lenda dos
gêmeos Rômulo e Remo. A imagem dos dois
garotos mamando em uma loba gigante é o
símbolo maior da fundação da cidade-estado.
Os detalhes dessa história insólita foram escritos pelo historiador
Tito Lívio (Titus Livius) sob ordem de Augusto, o primeiro impera-
dor romano. Lívio criou um épico romântico e trágico situado no
século 8º a.C. para contar a saga dos primeiros passos de Roma.
A obra completa de Lívio tinha originalmente 142 livros, con-
tando desde a versão mítica da fundação (753 a.C.) até os ­primeiros
anos do Império (27 a.C.). Apenas 35 desses livros sobreviveram.

RÔMULO E REMO
Réa Silvia, filha do rei de Alba Longa, Numitor, foi estupra-
da pelo deus da guerra Marte. Réa era uma virgem que vivia
nos templos sagrados e não podia ficar com os gêmeos que nas-
ceram dessa união pagã. Com muitas similaridades a histórias
da Bíblia, as crianças foram deixadas à beira do Tibre em uma
cesta de vime. Ao contrário de Moisés, Rômulo e Remo não fo-
ram e­ ncontrados por uma princesa, mas por uma grande loba,
que os amamentou. Depois de algum tempo, os gêmeos foram
­recolhidos por um pastor.
Ainda jovens, Rômulo e Remo decidiram fundar sua própria
aldeia e partiram rio acima. Para escolher o local do novo lar, espe-
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

raram por um sinal dos deuses. Remo ficou sobre o Monte Aven-
tino e Rômulo sobre o Palatino, ambos esperando pela indicação
divina. Seis abutres voaram sobre Remo. Em seguida, outros 12
voaram sobre Rômulo e o Monte Palatino. A discórdia pairou so-
bre os gêmeos, seus acólitos se desentenderam e, em um acesso
de fúria, Rômulo assassinou seu irmão. Mais uma vez, assim como
na história de Caim e Abel, um irmão matou o outro.

Imperadores Romanos
8 Grandes Líderes da História
ério Romano

Servius promoveu a
organização da população
romana com censos periódicos
e mudanças sociais, reformando
a estrutura de classes. Cada
camada social tinha direitos e
deveres em Roma: os
ricos deviam servir e armar a
cavalaria, enquanto os pobres
sem posses não tinham obrigações
Rômulo e Remo:
os gêmeos militares, mas não gozavam
de benefícios
amamentados
por uma loba

Grandes Líderes da História 9


AS CEN SÃO

As primeiras conquistas de Roma não tratavam de território.


Enquanto a cidade se formava e suas muralhas eram construídas,
um item importantíssimo para o futuro do povoado estava em
falta: as mulheres. Humildemente, Rômulo pediu que os povos
vizinhos enviassem suas filhas para desposar os romanos, mas as
respostas não foram convidativas.
Rômulo, então, promoveu um festival e convidou todos os vi-
zinhos para as comemorações em homenagem ao deus Netuno.
A tribo dos sabinos compareceu em peso. Durante as festivida-
des, os homens de Roma raptaram as mulheres convidadas e as
fizeram suas esposas. O ato não poderia passar em branco pelos
sabinos, que arquitetaram um contra-ataque. Dentro das mura-
lhas de Roma, porém, as sabinas eram tratadas com dignidade e
pareciam felizes.
A guerra irrompeu entre romanos e sabinos com as esposas
e filhas no centro da disputa. Para essas mulheres, tomar partido
nessa batalha era impossível. De um lado, seus esposos. Do ou-
tro, seus pais e irmãos. Em uma súplica profunda, elas forçaram a
conciliação, resultando na união da tribo das montanhas do norte Ilustração: Luiz Gustavo Bueno
com os romanos.
O poder de Roma avançou rapidamente nos anos seguintes.
Os romanos anexaram as tribos da região e suas terras chegaram
ao mar, a oeste, e aos Apeninos, ao leste. Ao norte, ficava o temi-
do Império Etrusco. Ao sul, as terras dos Volsci.
A expansão continuou até a morte de Rômulo em uma
­situação intrigante. Lívio escreveu que o rei romano passava em
revista pelas tropas durante uma tem- de Vesta, as famosas virgens vestais. Es-
pestade, quando uma nuvem baixou so- sencialmente pacífico, Numa firmou acor-
bre ele e o levou para o céu. Essa pas­
sagem também encontra uma similar no Roma declarou dos com os povoados vizinhos e regeu um
tempo de paz.
Velho Testamento, na história de Elias e Seu sucessor, Túlio Hostílio (Tulius
sua carruagem de fogo.
guerra a Cartago, uma Hostilius), renomado guerreiro, regeu
O próprio Lívio considera a hipóte-
se de que algum dos membros do Sena-
superpotência militar, por 32 anos e não seguiu o exemplo de
Numa. Ancus Marcius, neto de Numa,
do tenha assassinado Rômulo e escondi- pelo domínio da Sicília. As uniu o melhor dos dois mundos. Ao mes-
do seu corpo. Essa prática seria revivida
dezenas de vezes em Roma, até o final do
duas guerras travadas mo tempo em que tinha alta estima ­pelos
rituais religiosos, buscava a paz quando
Império, mais de um milênio depois. contra Cartago foram possível e a guerra quando necessário.

OS PRIMEIROS REIS devastadoras para Nesses primeiros tempos, a representati-


vidade do povo era quase nula nas ques-
Após um ano de debates, o Senado tões de Estado. Os fétios eram o único elo
elegeu o sabino Numa Pompílio (Numa
ambos os lados. A primeira entre o governo e a plebe, formados por
Pompilius) como rei de Roma. Numa im- durou 20 anos, até sacerdotes que deliberavam sobre nego-
plementou uma série de contribuições ciações de guerra e paz.
para o emergente Estado Romano. Entre 241 a.C. A segunda, sob A maioria dos historiadores acadêmi-
as mais importantes, estavam a estipula- cos coloca Numa, Túlio e Ancus exclusi-
ção de dias de descanso obrigatórios do
comando do exímio general vamente no plano mítico, mas seus pró-
serviço público, a divisão do ano em 12 cartaginês Aníbal, levou ximos três sucessores foram mais bem-
meses lunares e a indicação de um pontí- documentados. Lucius Tarquinius Priscus
fice máximo, o sumo-sacerdote romano. outros 15 anos para ser chegou a Roma vindo da Etrúria, ao nor-
O sabino observava com cuidado es- te, ainda jovem. O sucesso de Lucius na
pecial os rituais religiosos, introduzindo
decidida a favor de Roma cidade foi tão grande que, quando An-
as virgens a serviço da chama sagrada cus morreu, ele foi o primeiro estrangeiro

Imperadores Romanos
10 Grandes Líderes da História
O império romano foi uma das
hegemonias mais importantes
da história da humanidade

e­ leito rei. O primeiro de três reis etruscos a reger Roma antes do A REPÚBLICA E A LEI
­começo da República. Em 494 a.C. a revolta plebéia culminou na criação do Códi-
Lucius foi assassinado em 579 a.C. a mando dos filhos de go das Doze Tábuas. Essas lâminas eram a consolidação em for-
Ancus que queriam reaver o trono. A esposa de Lucius, em ma de lei dos costumes da sociedade romana da época. Foram o
uma manobra hábil, escondeu a morte do marido até colocar primeiro documento real do Direito Romano e o símbolo do po-
seu afilhado Servius Tullius como regente temporário e ­depois der do povo, representado no estandarte das legiões romanas,
rei. Servius promoveu a organização da população r­ omana com como S.P.Q.R (Senatus Populesque Romanus – “O Senado e o
censos periódicos e mudanças sociais, reformando a e­ strutura Povo de Roma”).
de classes. Cada camada social tinha direitos e d ­ everes em Muito parecido com o que ainda vemos nas repúblicas ­atuais,
Roma: os ricos deviam servir e armar a cavalaria, enquanto os o povo não teve muitos benefícios palpáveis. Os poderes adqui-
pobres sem posses não tinham obrigações mili­tares, mas não ridos pelos cidadãos não podiam ser usados no dia-a-dia, e os
gozavam de benefícios. lugares do Senado continuavam exclusivamente nas mãos das
Servius distribuiu terras, ampliou o território e acabou assassi- famílias ricas.
nado a mando de Tarquinius, o Soberbo, filho de Lucius Tarquinius A partir dessa época, a República Romana começou a en-
Priscus, morto anos antes. À custa de estratégias desonestas, os veredar por caminhos complexos de funcionamento. O gabine-
reis se sucediam, mas cada um deles dava sua contribuição para o te mais alto era o dos dois cônsules. Em 421 a.C., foram insti-
engrandecimento de Roma. tuídos os questores, responsáveis pela administração financeira.
Tarquinius implementou uma nova política de serviços públi- Os censores cuidavam das responsabilidades dos cidadãos em
cos para os desempregados, organizou novas campanhas milita- pagar suas taxas e cumprir seus deveres militares. Os pretores
res, construiu templos em homenagem aos deuses e instituiu os presidiam as cortes de julgamento e a aplicação das leis. Os edis
jogos públicos, apresentando lutadores vindos do norte. Ele foi o zelavam pela construção e pela manutenção dos bens públicos,
soberano de Roma até seu filho Sextus estuprar Lucrécia, esposa como ruas e esgotos.
de Collatinus. Por conta dessa arbitrariedade, uma revolta popu- Nesse período, o cargo de ditador só existia em tempos de
lar expulsou os etruscos do solo romano. Collatinus e Brutus, so- guerra ou crise profunda. Mesmo sendo soberano, era proibido
brinho de Tarquinius, foram eleitos cônsules em 507 a.C. e a Re- ao ditador andar a cavalo dentro da cidade, para evitar a t­ entação
pública Romana foi fundada em meio a revoltas populares, crises da realeza.
internas e ameaças de invasão de exércitos inimigos. Mesmo cedendo em alguns pontos, os patrícios continua-

Grandes Líderes da História 11


AS CEN SÃO

vam a dominar o Senado, que contro­lava o A adoração a Baco e as aquisições das


governo. As vitórias plebéias, como o casa- r­iquezas vindas das conquistas da Sicília, da
mento e­ ntre classes e a certeza de que um dos
­cônsules fosse plebeu não se provaram sufi­
A batalha final Córsega e da Sardenha colocaram Roma em
uma posição confortável. Uma fase de os-
cientes para uma representatividade efetiva. entre Pompeu e César tentação e desperdício tomou conta das a­ ltas

aconteceu no Egito.
classes, ameaçando consumir tudo o que fora
COBIÇA E AVANÇO conseguido nos séculos anteriores. Roma ha-
No final do século 4º a.C., Roma foi toma- via ­ficado tão rica que, em alguns meses do
da de assalto pelos exércitos gaélicos. A inva- César, vitorioso, ano, todos os moradores da cidade ficavam
são foi levada adiante por conta do crescen-
te domínio romano sobre a Península Itálica e
subjugou também isentos de impostos, ou distribuía-se pão
­
­gratuitamente pelas ruas.
das riquezas acumuladas dentro das muralhas o exército egípcio e Enquanto Roma parecia cada vez mais
da cidade. A cidade foi queimada, as muralhas com a tão procurada Arcádia dos gregos, o
destruídas senadores, cidadãos ricos e plebeus transformou a terra dos restante dos povos da Itália se achava in-
foram mortos. O armistício só veio quando os
invasores foram atacados por doenças e pela
faraós em um Estado justiçado. Aliados aos romanos desde mui-
to tempo, os italianos não tinham direito de
fome. Roma, humilhada, acertou um paga- submisso a Roma. Às ser reconhecidos como cidadãos romanos. Os
mento para que os soldados inimigos voltas- passes-livres para jogos e benefícios como
sem a seu território de origem. margens do Nilo, César comida mais barata, eram exclusividade dos
Novas muralhas foram construídas, abran-
gendo uma área ainda maior. Roma declarou
e Cleópatra se romanos natos.
No Senado decadente, mas sempre trucu-
guerra a Cartago, uma superpotência mili- envolveram e tiveram lento, novas vertentes políticas tentaram flo-
tar, pelo domínio da Sicília. As duas batalhas rescer. De um lado, os Optimates, a extrema-
­travadas contra Cartago foram devasta­doras um filho. A volta de direita. Do outro, os Populares, apoiados pela
para ambos os lados. A primeira durou 20 anos,
até 241 a.C. A segunda, sob comando do exí-
Júlio César classe comerciante, que de populares não ti-
nham nada e buscavam uma reforma para
mio general cartaginês Aníbal, levou outros 15 para Roma traria aumentar seus lucros. As lideranças de Tibe-
anos para ser decidida a favor de Roma. A ca- rius e Caius Gracus junto aos Populares foram
pital de Cartago foi completa­mente destruída um novo horizonte eliminadas a pauladas. Mais de 600 correli-
e sua população, massacrada em 146 a.C. para
evitar novos confrontos.
para os romanos. A gionários foram mortos por espancamento e

A vitória sobre Cartago anexou novos esperança de um jogados ao Tibre.

homem como ele no REVOLTAS POPULARES


territórios e fortaleceu o exército. Em pouco
tempo, Roma dominava o norte da África, a O general Caius Marius julgou-se injustiça-
­Espanha, a Macedônia e a Grécia.
comando dos territórios do por sua posição social e conquistou a leal­
dade do exército com seu discurso. Em verda-
CULTURA GRECO- prometia um célebre de, os soldados deviam fidelidade ao Senado,
ROMANA, PÃO E CIRCO
O ideal de beleza estética grega já fascina-
tempo de vitórias euma um golpe de Estado dessas proporções teria
relevância muito maior se a situação fosse
va os romanos há muito tempo. A construção outra. O Senado estava muito mais preocupado
das muralhas de rocha vulcânica após a invasão em conter as rebeliões locais entre os aliados de
gaélica foi conduzida por engenheiros gregos. Com a abertura do Roma e evitar uma guerra civil. Mas já era tarde demais.
intercâmbio, professores, filósofos e escritores gregos passaram a O conflito ficou conhecido como “A Guerra dos Aliados” (ou
ser parte da formação dos jovens romanos. Em todas as áreas, a in- A Guerra Social), em que 300 mil jovens romanos morreram nos
fluência grega podia ser sentida com maior ou menor intensidade. combates e motins, até que o Senado começasse a fazer conces-
Casas e edifícios eram desenhados segundo instruções de sões. Ao fim da guerra, em 87 a.C., Marius havia deixado Roma
­arquitetos gregos. A língua grega passou a ser ensinada pelos por divergências e, em seu lugar, apareceu Lucius Cornelius Sulla,
tutores como exemplo de literatura superior. As artes e os artesa­ um patrício. Marius perdera a chance de sua vida. Caso a desordem
natos gregos passaram a ser importados ou falsificados em Roma. civil não tivesse acontecido, ele certamente teria tomadoRoma.
Até mesmo os deuses gregos foram assimilados pelos romanos, Marius voltou a Roma e viu em Sulla seu maior inimigo. Por
que tinham deuses para todas as ocasiões e atividades. Dentre as meio de manobras políticas, Marius conseguiu manter Sulla lon-
­divindades assimiladas no panteão romano estava Dionísio, reba- ge de Roma por algum tempo, lutando na Grécia. Quando Sulla
tizado como Baco, o deus do vinho. ­retornou, cinco anos depois, foi barrado na entrada da cidade por

Imperadores Romanos
12 Grandes Líderes da História
ordem de Marius e do Senado, dominado pelos Populares. fim, um golpe de Estado que foi descoberto antes de ser posto em
Sem pestanejar, Sulla simplesmente avançou sobre a cidade andamento. No Senado, os apoiadores de Catilina foram conde-
com seu exército pessoal, tomou o Senado e restaurou os Patrí- nados à morte. Para Cícero, o único rival à altura era um jovem e
cios no poder. Essa fase ditatorial implementada por Sulla durou enérgico rapaz chamado Caius Julius Caesar, ou seja, Júlio César.
apenas o tempo em que ele permaneceu vivo. Logo após sua
morte, outra rebelião popular tomou conta de Roma, quando o O DITADOR VITALÍCIO
guerreiro trácio Spartacus liderou gladiadores e escravos rumo Júlio César era da classe patrícia e sua esposa era a filha de
à liberdade. Cinna, o grande aliado de Marius. Marius era casado com a tia de
O erro dos rebeldes foi a empolgação. Depois de vencerem César, que foi mantido longe de Roma por algum tempo, tanto
quatro exércitos, Spartacus e seus aliados não fugiram de Roma para não exaltar os ânimos do Senado com seus discursos contun-
e foram sumariamente derrotados. Os mentores do abafamento dentes quanto para estudar outras culturas.
da revolta de Spartacus foram Marcus Licinius Crassus e Cnaeus Seus princípios e caráter ficaram claros quando a caminho
Pompeius. Pelo feito e por influência, ambos foram eleitos côn- de Rodes foi raptado por piratas e libertado após pagamento de
sules em 70 a.C. resgate. César reuniu uma legião e caçou os mercenários, sen-
Crassus permaneceu em Roma, aumentando sua fortuna. Pom- do piedoso ao cortar suas gargantas enquanto estavam cruci-
peius caiu no mundo e voltou trazendo conquistas sobre piratas do ficados. Seus passos em direção ao poder foram meticulosos e
Mediterrâneo, tesouros e a expansão do território romano até a Lí- perfeitos, escolhendo como segunda esposa a herdeira de uma
bia, a primeira possessão situada no continente asiático. grande fortuna e, como terceira, Calpurnia, filha de um pode-
Dentro do Senado, os ânimos se exaltavam. Entre o povo, o roso senador. Talvez seu único erro tenha sido a relação homos­
temor mais imediato era a subida de um novo ditador como Sulla sexual que manteve com o rei da Bitínia, fato relembrado à
por meio de um golpe de Estado. O personagem perfeito para exaustão por seus opositores.
essa façanha já estava instalado na casa dos nobres políticos: Lu- A disputa de César para tirar Pompeu do consulado o levou
cius Sergius Catilina. Corrupto e charmoso, Catilina só encontra- a uma manobra delicada: a travessia do Rubicão, uma pequena
ria um rival a altura em Murcus Tullius Cícero, que, aos 29 anos, ponte que, se cruzada pelas tropas de César, significaria traição
já tinha sido eleito questor e, aos 44, já era cônsul. Catilina ten- capital. César e seus aliados, incluindo Marco Antônio, invadi-
tou impedir a eleição de Cícero com manobras desonestas e, por ram Roma e tomaram a cidade enquanto Pompeu fugia para o
Egito. A idéia de César era ser eleito cônsul, mas o Senado não
estava a seu favor.
O IMPÉRIO ROMANO A batalha final entre Pompeu e César aconteceu no Egito.
­César, vitorioso, subjugou também o exército egípcio e transfor-
mou a terra dos faraós em um Estado submisso a Roma. Às mar-
gens do Nilo, César e Cleópatra se envolveram e tiveram um filho.
A volta de Júlio César para Roma traria um novo horizonte para os
romanos. A esperança de um homem como ele no comando dos
territórios prometia um célebre tempo de vitórias.

Grandes Líderes da História 13


A D I NA STIA D E AU GU S T U S

Júlio César :

roma
o homem-forte de

Q
Vindo de uma família patrícia, uando César tinha apenas 15 anos, seu pai
morreu e lhe deixou suas posses. Caius Marius
César não nasceu rico nem com também privilegiou César em seu testamento,
tornando-o, finalmente, um homem rico. Sulla
influência política. Seu pai teve colocou-se como ditador de Roma e inimigo
algum sucesso ao angariar fortuna, ­declarado da família. Em 82 a.C., César estava casado com Cornélia
Cinnilla, filha de Lucius Cornelius Cinna, o braço-direito de Marius.
mas foi sua tia, com um casamento César desafiou a autoridade de Sulla quando negou-se a
arranjado com o general reformador ­divorciar-se de Cornélia e fugiu de Roma. Para Sulla, “em César há
muitos Marius.” Ele sabia do perigo em deixá-lo vivo.
Caio (Caius Marius), quem trouxe Mas Júlio César preferiu servir nas campanhas na Ásia e,
­durante o cerco a Mileto, tornou-se herói de guerra salvando a vida
riqueza e influência política para de ­legionários e centuriões. Ironicamente, recebeu a conde­coração
a casa dos Julii. Por algum tempo máxima concedida a um não-comandante, a Corona Civica. O
agraciado devia ser aplaudido em pé até mesmo no Senado, caso
essa associação foi boa, mas quando vestisse a condecoração.
os embates entre Caio e Cornélio Mesmo assim, por segurança, ele só voltou a Roma em 78
a.C., após a morte de Sulla. Na busca de uma carreira política bem
(Cornelius Sulla) culminaram na ­alicerçada, passou a atuar no Fórum e ficou conhecido por seus
guerra civil, Roma tornou-se um ­talentos como orador. Para aprimorar ainda mais suas habilidades,
foi e­ studar em Rodes.
lugar perigoso para eles No retorno para Roma, a rebelião capitaneada por Spartacus
havia tomado a cidade. Perante a incompetência do Senado, César
foi eleito Tribuno Militar, seu primeiro cargo político. A luta contra
Spartacus sedimentou uma grande amizade entre César e Mar-
cus Crassus. Em seguida, vieram as perdas dolorosas da ­esposa
­Cornélia e da tia Júlia, que morreram em um ano. Seu próximo
passo era a ­eleição para questor.

Imperadores Romanos
14 Grandes Líderes da História
Glórias nunca antes
prestadas a pessoas
vivas foram entregues
a César. Seu nome
foi colocado ao lado
dos reis antigos e
até comparado com
os deuses. Jogos
e festivais magníficos
foram organizados para
Júlio César homenagear
suas conquistas. A efígie
dele foi estampada
nas moedas e
templos foram
construídos em seu
louvor. O mês de seu
aniversário teve o
nome mudado para
Julius e o calendário
foi reformado para
365 dias e batizado
de Juliano
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

Grandes Líderes da História 15


A D I NA STIA D E AU GU S T U S

CÉSAR: SENADOR, PONTÍFICE-MÁXIMO


E GOVERNADOR
A estada na Lusitânia como questor não atraía os planos de do-
mínio de Júlio César. Em pouco tempo, conseguiu voltar a Roma e
casou-se por interesse com a neta de Sulla e filha de Quintus Pom-

Com a elevação
pey, Pompéia Sulla. César passou a atuar como senador e foi alça-
do a curador da Via Ápia, um posto invejado e bastante lucrativo.
­Rapidamente galgando postos, em 65 a.C., foi eleito Curule Aedile,
o homem que cuidava das obras públicas, templos e, acima de tudo, póstuma de César
adorado pela população como grande provedor dos espetáculos ao posto de Deus,
dos jogos públicos, o Circus Maximus. Sua imagem perante o povo
era inatacável, mas os excessos o levaram à falência financeira. a linhagem de
Dois anos depois, foi eleito Pontifex Maximus, o todo-­poderoso
dos negócios religiosos. Esse cargo, além de vitalício, dava amplo Otaviano parecia
acesso ao Senado e às leis, bem como oportunidades lucrativas para estar assegurada no
equilibrar suas finanças. Por conta de uma tentativa de macular a
­figura de César, sua esposa foi incriminada por irresponsabilidade no comando de Roma.
festival Bona Dea. Imediatamente, Júlio César divorciou-se dela.
As manobras políticas de César e seus débitos milionários Mas César, sempre
passaram por maus bocados até sua indicação como Propraetor cheio de surpresas,
­Governator da Lusitânia. Nesse território, pôde mostrar suas habi-
lidades militares como nunca, vencendo as tribos locais da Gália e havia deixado outro
da ­Lusitânia. Essas vitórias eram seu passaporte para concorrer ao
­consulado em 59 a.C. herdeiro no mundo:

Ilustração: Luiz Gustavo Bueno


Caesarion, filho de
ENFIM, O PODER E AS CONQUISTAS
Para chegar ao poder, Júlio César não podia contar apenas Cleópatra.
com sua popularidade. Dentro do Senado, uniu secretamente
as forças antagônicas de Marcus Crassus e Pompeu, o Grande,
no que ­ficaria conhecido posteriormente como o “Primeiro Triun­
virato”. Essa aliança trazia da parte de Crassus o apoio dos eques­
trianos, for­­­ tuna e reputação. Da parte de Pompeu, a quem César
deu sua filha em casamento, vinham uma fortuna equivalente e
reputação no ­Senado e no exército. De César, vinham sua habi-
lidade de oratória e o apoio incondicional do povo romano. A César já sabia naqueles tempos que “a propaganda é a alma do
­eleição foi f­ acilmente vencida. negócio”. Em uma campanha contra os germânicos, sua crueldade
Aos 40 anos, Júlio César parecia invencível. A ele foi ­cedido foi exemplar. Além de jogar dezenas de milhares de pessoas ainda
o Procunsulado na Gália, o que lhe deu a oportunidade de vivas no Reno, construiu uma ponte sobre o rio em 10 dias, tornan-
­movimentos políticos e militares ao mesmo tempo. Nas terras onde do-se o primeiro romano a adentrar o território germânico. Essa de-
hoje e­ stão a França, a Bélgica e a Suíça, as legiões de César enfren­ monstração de superioridade rendeu frutos, com inúmeras aldeias
taram exér­citos e migrações dos helvéticos e belgas, fazendo alian- se rendendo sem oferecer resistência.
ças com ­povos germânicos. Fosse massacrando tribos ou anexando O domínio da Bretanha foi o próximo passo e, até a invasão
ter­ritórios por artimanhas políticas, César transformou-se em um da Normandia na Segunda Guerra Mundial, figurava como a maior
rolo-compressor no comando de suas oito legiões. ­façanha naval de todos os tempos.
Suas vitórias lhe davam respaldo para seguir cada vez mais ao
norte. Enfrentamentos com os celtas, dificuldades navais no Canal TRAVESSIA DO RUBICÃO E CLEÓPATRA
da Mancha e sublevações dos gauleses e germânicos atrasaram a Mesmo com tudo a seu favor, o destino ainda guardava surpre-
completa dominação romana sobre os novos territórios. No ano 55 sas a César. Sua filha, esposa de Pompeu, morreu no parto e o côn-
a.C., César teve de reestruturar seu poder sobre Roma, convocando sul afastou-se do Triunvirato. César ficou sozinho quando Crassus
Pompeu e Crassus para uma conferência em Lucca, onde traçaram morreu em campanha.
os planos futuros. A esta conferência compareceram 200 senado- Mais uma vez, ele teve que provar seu valor a Roma em ba-
res. Os dois aliados seriam eleitos cônsules enquanto César conti­ talha. As tribos da Gália, reunidas pelo Rei Arverno Vercingetorix,
nuava com sua campanha de expansão. No futuro, Pompeu herda- foram completamente aniquiladas por um plano estratégico per-
ria a Espanha e Crassus, a Síria. feito. Mesmo em minoria de seis para um, os romanos venceram

Imperadores Romanos
16 Grandes Líderes da História
a ­batalha de Alesia. Enquanto isso, os cinco anos de mandato de ­rebeldes e as 8 legiões de César enfrentaram-se na Batalha de Munda.
­César chegavam no fim. Nos escritos de Livius e do próprio César, essa guerra foi a
Ao ficar sabendo das manobras contra ele no Senado, César mais árdua de todas. O posicionamento estratégico da 10ª l­egião
não teve outra escolha além de invadir sua própria terra e tomar de ­César foi essencial para a vitória, pois era comandada pelo
Roma. Essa foi a famosa “Travessia do Rubicão”, quando o fu­turo sobrinho e pelo filho adotivo de Júlio César, Otaviano, o ­futuro
ditador teria forjado a famosa frase “Alea jacta est”. Anos de ­guerra ­Augustus Caesar.
civil seguiram-se com César reconquistando os territórios sob o A Batalha de Munda foi a última grande luta de Júlio César. Em
­comando de Pompeu e indo à Grécia para uma vitória final ­contra outubro de 45 a.C., ele retornou a Roma e, durante a g ­ uerra, Ota-
seu ex-aliado. viano assegurou seu posto como herdeiro único do ditador. César,
Pompeu fugiu para o Egito, mas foi assassinado a mando de em sinal de gratidão e afeto, passou a chamar Otaviano de “­filho”.
Ptolomeu 13. O rei do Egito acreditou que essa atitude agra­daria Com a situação aparentemente sob controle, César permitiu-se
César, garantindo-lhe a preferência do ditador ao invés de sua ­ostentar pelo povo e pelo Senado.
prima Cleópatra. Ptolomeu não podia estar mais errado. Além de Glórias nunca antes prestadas a pessoas vivas foram entregues a
não querer Pompeu morto, César apaixonou-se por Cleó­patra, César. Seu nome foi colocado ao lado dos reis antigos e até mesmo
declarou a bela princesa regente do Egito e, juntos, tiveram um comparado com os deuses. Jogos e festivais magníficos foram orga-
filho, ­Caesarion. nizados para homenagear suas conquistas. Sua efígie foi e­ stampada
César deixou o Egito para resolver problemas com anti- nas moedas e templos foram construídos em seu louvor. Além
gos ­aliados de Pompeu na Judéia, na Síria e em outros pontos da ­disso, o mês de seu aniversário teve o nome mudado para J­ ulius e o
­África. ­Novos inimigos do Senado foram derrotados em 45 a.C., ­calendário foi reformado para 365 dias e bati­zado de ­Juliano. Politica-
na ­Espanha. ­Liderados por Gnaeus e Sextus Pompeius, as forças mente, César tinha poder total como cônsul ­vitalício e liberdade para

Grandes Líderes da História 17


A D I NA STIA D E AU GU S T U S

ocupar ou indicar qualquer posto em todo o império.


As reformas implementadas por César eram tão justas e neces­
sárias quanto contrárias aos bolsos da aristocracia. Outros títulos foram
inventados pelo Senado e pelo povo para ostentar ainda mais o nome
do soberano em atos que beiravam a indulgência. Pater Patriae (Pai ambos iriam partir em
da Pátria), Dictator Perpetuus (Ditador Perpétuo) e Rex foram apenas campanha contra o Im-
­alguns desses. Para os romanos, o título de rei era quase uma afronta pério Persa. Mesmo nunca
ao sistema secular do Senado e da Lex Romana. O próprio César recu- tendo ocupado nenhum car-
sava o título quando o chamavam de Rex nas ruas. Mas, como a pró- go público e ainda com menos de
pria democracia diz, “a voz do povo é a voz de Deus”. Percebendo 20 anos, Otaviano já tinha assegurado
que, em pouco tempo, César seria aclamado rei de Roma, dissidên- a segunda maior posição em Roma.
cias do Senado tramaram o fim do grande ditador. Com a morte de Júlio César em março de 44 a.C., Ota-
viano voltou da Macedônia para garantir sua herança: três
CONSPIRAÇÃO CONTRA JÚLIO CÉSAR quartos das posses de César. Mas haveria mais, caso ele c­ onseguisse
Em março de 44 a.C., Júlio César fez público seu desejo de ­partir a simpatia do povo e das legiões. O processo de aproximação ao po-
em outra campanha, desta vez contra os persas. Para o S­ enado, a der foi tenso, com Marco Antônio tentando ignorar a presença de
­situação era perigosa. César havia nomeado seus representantes Otaviano em Roma. A partir de abril, Otaviano passou a usar o
em Roma com plenos poderes e novas conquistas territoriais não nome Gaius Julius Caesar. No mesmo ano, ele ainda descobriu que
mais deixariam dúvidas ao povo de que o “Pai da Pátria” devia ser sua amada, Livia Drusilla, havia se casado com Tiberius Nero, com
­coroado rei. No dia 15 do mesmo mês, ele dirigiu-se à Curia Pom- quem teria um filho, Tiberius.
péia, onde havia convocado o Senado. Dias antes, um adivinho o O Senado pendeu para o lado de Otaviano, acreditando
havia prevenido que ficasse atento aos Idos de Março, o local onde que o jovem seria facilmente manipulado. Para os sena­dores,
ficava o Theatrum Pompeium, anexo à Curia. o ­verdadeiro perigo para a República era Marco Antônio e,
Um homem na multidão do lado de fora tentou avisá-lo da ­embora Marco Antônio e Lepidus estivessem reunindo l­egiões
conspiração, entregando-lhe um bilhete, mas César não o leu. A na ­Espanha enquanto Agrippa e Maecenas, amigos de Ota-
seu lado, estava Marco Antônio, então cônsul, que teve sua aten- viano, reuniam tropas na Macedônia, a guerra não era de
ção desviada por um senador com uma desculpa qualquer. ­interesse de ninguém.
Júlio César entrou sozinho em direção à sua cadeira. Longinus, O Segundo Triunvirato dividiu os territórios romanos entre
Tullius Cimber, Casca, Brutus e outros senadores perdoados por Otaviano, Marco Antônio e Lepidus, dando aos três o status de
César em traições passadas, descobriram as adagas que traziam ditadores e poder para sobrepujar o Senado a qualquer tempo.
sob seus mantos e assassinaram Júlio César. A morte de ­César, a Como prova de poder, o trio promoveu um expurgo, votan-
princípio, pareceu a solução ideal para todos os problemas ime- do pela volta das temidas proscrições, assinando a sentença de
diatos. Ao mesmo tempo em que o Senado manteve todas as morte de 300 senadores e milhares de outros cidadãos por motivos
­decisões prévias do ditador, laureou seus assassinos e os manteve que iam de oposição política a simples confisco das posses dos con-
em seus postos. denados. O golpe final foi a morte de Brutus e Cassius, assassinos
Durante o funeral, a população rebelou-se e queimou as c­ asas de César, nas batalhas de Philipi. A derrota deles foi o último s­ uspiro
dos senadores assassinos. Marco Antônio, Otaviano e Marcus da República Romana.
­Aemilius Lepidus venceram Brutus e Cassius na Batalha de P ­ hilipi.
Cícero suicidou-se.
Com a elevação póstuma de César ao posto de deus, a linha- Otaviano declarou estar disposto a se
aposentar da vida pública e o povo
gem de Otaviano parecia estar assegurada no comando de Roma.
Mas César, sempre cheio de surpresas, havia deixado outro herdeiro
no mundo: Caesarion, filho de Cleópatra.
e o Senado em coro pediram que
O PODER DE OTAVIANO reconsiderasse. Sua saída poderia causar
Gaius Octavianus nasceu em 23 de setembro de 63 a.C., f­ ilho
do pretor Gaiuus Octavius e de Átia, sobrinha de Júlio César.
distúrbios e guerras civis. Com isso,
Aos 18 anos, acompanhou César na campanha contra os filhos novos poderes e um outro título foram
concedidos: Augustus. Otaviano
de Pompeu na Espanha. Em seu posto como comandante da 10ª
­Cavalaria, o jovem teve papel decisivo na vitória, o que lhe valeu
a atenção do tio-avô.
Na volta para Roma, César ensinou-lhe os caminhos da política e
passou a ser chamado de Imperator
do populismo. Em pouco tempo, Otaviano foi enviado à Macedônia César Augusto (Caesar Augustus)
para continuar seus estudos. César adotou oficialmente o jovem e

Imperadores Romanos
18 Grandes Líderes da História
Em Roma, Lepidus usou seu cargo como Pontifex Maximus
para declarar Júlio César um deus, o que levou Otaviano a se auto-
­intitular “O Filho de Deus”. Os ânimos entre Marco Antônio e
­Otaviano eram apaziguados por Lepidus.
Mesmo em meio a disputas entre os membros do Triunvirato e
elementos externos, como Sextus Pompeu, e a preparação da cam-
panha contra os persas, a reputação de Otaviano era cada vez maior.
Seu primeiro golpe contra o Triunvirato foi no elo mais fraco.
Após a vitória sobre as forças navais de Sextus e a tomada da
Sicília, Lepidus tentou assimilar as forças vencidas. Para Otaviano,
essa foi a deixa para destituí-lo do poder e tomar suas 18 legiões.
Em 36 a.C., vários fatores levavam a uma iminente guerra entre
Marco Antônio e Otaviano. O primeiro, ainda casado com a irmã
do segundo, teve um filho com Cleópatra e passou a dominar o
­leste romano. A idéia era colocar os herdeiros no poder, mas Ota-
viano consolidou sua popularidade no resto dos territórios criando
uma imagem anti-romana de Marco Antônio.
Sabiamente, Otaviano declarou guerra contra Cleópatra, espe-
rando que Antônio fosse ao auxílio da amada. Ao mesmo tempo
em que a guerra se anunciava e os exércitos se posicionavam, Ota-
viano atrasava seu início manobrando a armada naval e ganhando
mais apoio do Senado. Encurralado, Marco Antônio tentou furar o
bloqueio marítimo, mas foi derrotado sumariamente na Batalha de
­Actium. Em terra, seus exércitos se renderam. Após 20 anos de guer-
ra civil, Otaviano, finalmente, era o único soberano político de Roma.

OTAVIANO: O ÚNICO SOBERANO


Otaviano percebeu que a República Romana estava no fim, mas
não se deixou levar imediatamente pelas honrarias da vitória. Em
um trabalho contínuo de reconstrução e confiança, serviu como
cônsul de 31 a 23 a.C. No campo militar, os laços de lealdade foram
reformados, com o Estado mantendo 28 legiões próprias.
Em 27 a.C., ele usou uma estratégia inédita. Declarando es-
tar disposto a se aposentar da vida pública, o povo e o Senado em
coro pediram que ele reconsiderasse. Sua saída poderia causar sé-
rios distúrbios e guerras civis. Com isso, novos poderes e um outro
título foram concedidos: Augustus. Otaviano passou a ser chamado
de Imperator Caesar Augustus. É bom lembrar que o título “Impe-
rator” não é o mesmo que “Imperador”. O primeiro era um título
mais similar a “Comandante”.
Outras honrarias sucederam-se, como Princeps, que o coloca-
va acima de todos os cidadãos romanos e, com a morte de Lepidus,
Pontifex Maximus. O poder de Augustus era supremo, com direito
a veto em qualquer matéria. Em 2 a.C., Augustus também foi no-
meado Pater Patriae, o Pai da Pátria, como César.
Augustus promoveu a duradoura Pax Romana por meio de
um misto de prudência e audácia. O exército não era de pro-
priedade privada ou sujeito a reveses políticos. O sistema tribu-
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

tário foi reajustado e Roma foi praticamente reformada. As ar-


tes foram privilegiadas, a moral foi resgatada e a ­t ranqüilidade
civil restaurada.
O casamento de Augustus com Livia durou 52 anos e seu
­sucessor seria Tiberius. Ele regeu Roma e o Império por mais de 40
anos e, apesar de alguns tropeços econômicos, elevou a prosperi-
dade e manteve a paz como nenhum outro antes ou depois dele.

Grandes Líderes da História 19


DI NA S TIA JÚ L IO- CL AU D I A NA

Os Quatro

Loucos Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Eles não seriam o primeiro nem
o último caso em que os sucessores provaram não ter a mesma força
moral que os pais que construíram grandes impérios

A
ugustus e Livia não tiveram filhos. Do p ­rimeiro As campanhas de Tibério ao lado de seu irmão Nero Claudius
casamento, trouxe Tibério, que foi adotado por
­ Drusus nos Alpes foram bem-sucedidas. Entre 12 e 6 a.C., Tibé-
Augustus. O rapaz, então, unia duas das mais
­ rio comandou as forças de expansão, principalmente na Germâ-
tradicionais famílias patrícias: Júlia e Cláudia. Os
­ nia. Apesar de vitoriosas, as campanhas dele tinham um ranso
suces­sores imediatos de Tibério teriam o nome dos de tristeza.
dois clãs, com Calígula (37-41) e Nero (54-68) filhos do primeiro Os eventos levavam Tibério cada vez mais ao centro do poder.
­casamento de Julia Caesaris com Nero Claudius Drusus, irmão de Se antes da morte de Agrippa, o jovem já era cotado como sucessor
­Tibério; e Claudius (41-54), filho de Octavia, irmã de Augustus. A de Augustus, naquele momento, casado com Julia, a sucessão era
­dinastia ­Júlio-Claudiana regeu o Império Romano de 27 a.C. a 68. certa. Para surpresa geral, Tibério retirou-se para a ilha de Rodes em
6 a.C., quase como um auto-exílio. Essa atitude colocou-o em des-
TIBÉRIO (14-37) graça perante Augustus, que, após isso, nunca mais teve o mesmo
Tiberius Claudius Nero nasceu em 16 de novembro de 42 a.C., carinho pelo enteado. É possível que Tibério só tenha escapado de
filho de Tibério Nero e Livia Drusilla. De família tradicional e rica, o uma execução sumária por conta de sua mãe.
futuro de Tibério já estava aliado à vida pública. Quando o garoto Mesmo aceitando-o novamente em Roma, Augustus não
tinha apenas 3 anos, sua mãe se divorciou e casou-se com Augus- plane­
­ java mais que Tibério fosse seu sucessor, confiando mui-
tus, uma paixão antiga. Tibério foi adotado e tornou-se herdeiro do to mais nos filhos de Agrippa, Lucius e Gaius Caesar. Mas Lucius
Império Romano. Desde cedo, Augustus impeliu o jovem a posicio- ­morreu em Massilia e, logo em seguida, Gaius Caesar foi ferido
namentos e cargos públicos de importância, como na Batalha de mortalmente em combate. Tibério voltou a ser o único nome dis-
Actium, na campanha contra os persas; o questorado aos 17 anos; ponível, mas Augustus não queria dar chance ao destino e adotou
e o consulado 5 anos antes da idade permitida. também Postumus ­Agrippa, o último filho de Agrippa, e forçou
Ao retornar do Oriente, foi eleito cônsul, em 13 a.C. e casou-se ­Tibério a adotar Germanicus. Assim, o Principado estaria assegura-
com Vipsania Agrippina, filha de Marcus Vipsanius Agrippa, aliado do e, talvez, novas tragédias não destruíssem toda a linha suces-
de longa data de Augustus. O casamento, assim como o de sua mãe sória de Augustus.
com Augustus, era baseado em afeto e não só em interesses futu- Por dez anos, Tibério foi o braço direito de Augustus. A morte
ros. Mas, quando Marcus Agrippa morreu, em 12 a.C., Tibério foi do soberano em 19 de agosto do ano 14 não foi surpresa e a posse
obrigado por Augustus a tomar a viúva Julia Caesaris como esposa, de Tibério, apenas uma conseqüência prevista. O engajamento do
em uma união sem amor. novo governante de Roma não podia ser mais insólito. Sendo esta a

Imperadores Romanos
20 Grandes Líderes da História
Tibério

Por dez anos, Tibério foi o braço direito de


Augustus. A morte do soberano em 19 de agosto do
ano 14 não foi surpresa e a posse de Tibério, apenas
uma conseqüência prevista. O engajamento do
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

novo governante ao posto supremo de Roma não podia


ser mais insólito. Sendo esta a primeira sucessão após
a queda da República, ninguém parecia ter muita
certeza de como proceder

Grandes Líderes da História 21


DI NA S TIA JÚ L IO- CL AU D I A NA

primeira sucessão após a queda da República, ninguém parecia ter


muita certeza de como proceder.
Tibério atendeu às solenidades de deificação de Augustus e ou-
tras, onde o Senado lhe ofereceu as honrarias devidas a um suces-
sor de Augustus. Não se sabe se Tibério tentou imitar o padrasto,
mas o fato é que o novo soberano refutou algumas das honrarias,
como a Pater Patriae e as responsabilidades do principado.
O Senado, sem saber como proceder, tentou contornar a
­situação enquanto em outros rincões, como as legiões em Panno-
nia e Germânia, levantavam-se revoltas. Tibério enviou seus dois
­filhos, Drusus e Germanicus, para resolver os problemas. As legiões
­pediam a queda de Tibério e a posse de Germanicus, que precisou
de muita dissuasão política para contornar a situação.
Em um plano mais geral, os primeiros anos de Tibério como re-
gente foram pacíficos. O novo imperador seguiu os passos de Au-
gustus, assegurando os poderes de Roma, expandindo o Império e
atendendo aos desígnios do povo e do Senado. Para a população,
Germanicus era o melhor sucessor possível, e Tibério parecia con-
cordar, dando glórias e novos postos de comando para o sobrinho
em detrimento do filho, Drusus. Mesmo com o apoio explícito a
Germanicus, Tibério foi acusado da morte do jovem. Porém os ­fatos
nunca foram provados.
A partir daí, Tibério desenvolveu uma paranóia constante que o
levou à reclusão. Em muito, o mentor desse afastamento foi Lucius
Aelius Sejanus, chefe da Guarda Pretoriana, que alimentou Tibério
com teorias conspiratórias cada vez mais complexas. É provável que
Sejanus tenha planejado a morte de Drusus em 23 e que isso tenha
sido o começo do fim da linhagem Julio-Claudiana. O soberano,
bastante manipulado por Sejanus, permitiu que o amigo ganhasse
cada vez mais terreno na política.
Tibério, que nunca havia demonstrado sede pelo poder, pre-
feriu retirar-se da vida pública em 26, isolando-se na Ilha de Ca-
pri e deixando o posto temporariamente nas mãos gananciosas de
­Sejanus. Enquanto isso, Agrippina, viúva de Germanicus e neta de
Augustus, tentava fortalecer seus filhos (Calígula, Nero e Drusus)
como sucessores e fazer frente ao usurpador Sejanus.
A ausência de Tibério quase determinou o fim da linhagem
­Júlio-claudiana. Drusus, Agrippina e Nero Caesar morreram coa-
gidos ao suicídio ou de fome, exilados. Sejanus controlava o aces-
so do Senado a Tibério em Capri, onde o jovem Calígula lhe fazia
companhia. Tibério promovia uma caça às bruxas por toda a cida-
de de Roma, compelido apenas pelas acusações de Sejanus. O po-
der de Sejanus e sua manipulação política quase fizeram Tibério
nomeá-lo tribuno e co-imperador, mas Antonia Minor, a cunhada
­viúva de Tibério, despertou o Imperador sonolento em 31, com
uma carta denunciando Sejanus. O impostor foi executado a­ ntes
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

do final daquele ano. Um expurgo seguiu-se, amplificado pela


­paranóia de Tibério.
Nos anos finais do reinado de Tibério foram eliminados vários
traidores, fossem eles culpados ou não. Tibério nunca mais pisaria
em Roma nos últimos 23 anos de regência, e muitos de seus atos
seriam descritos depois por historiadores como pífios. Ultimamente,
Tibério tem sido resgatado como um regente satisfatório que deu

Imperadores Romanos
22 Grandes Líderes da História
Os curtos quatro anos de Calígula no poder mostram, principalmente,
caprichos e sandices que o fizeram conhecido como um completo
déspota. Cruel e indigno de confiança, colocou Roma em um período
de promiscuidade e desmando, mantendo casos amorosos
com suas próprias irmãs e deixando as legiões em maus lençóis

prosseguimento aos desígnios de Augustus, entre eles a não-ex-


pansão e a continuidade da Pax Romana. Ele deixou clara sua von-
tade de que o Império fosse regido em conjunto por seu sobrinho
Calígula e seu neto Gemellus.
Calígula
CALÍGULA (37-41)
Nascido em 31 de agosto de 12, Gaius Julius Caesar ­Germanicus,
ou Calígula, o ápice do desleixo com o Império Romano. Enquanto
para Augustus era importante manter uma ilusão de que a Repú-
blica ainda tinha certo poder, Tibério, ao deixar Sejanus subir tan-
to, foi obrigado a mostrar que seu poder era absoluto para abafar
as conspirações.
Outro ponto negativo de Tibério, que despontou explicitamen-
te em Calígula, foi a falta de preparo dos sucessores. O principado,
cuidadosamente elaborado por Augustus, preparando os próximos
soberanos de Roma, foi relegado ao segundo plano na regência de
Tibério, trazendo péssimas conseqüências futuras.
POR QUE CALÍGULA
A falta de habilidade para governar ficou evidente já nos pri-
ERA TÃO CRUEL? meiros anos de Calígula como regente. Ainda garoto, era chama-
Calígula foi o mais estimado general de do de “botinhas” pelos legionários acampados na Germânia, que
Roma. Filho dos respeitadíssimos Germanicus o tinham como mascote. O apelido vinha de seu costume de andar
e Agrippina, neta de Augustus, o garoto cres- fantasiado de legionário desde criança. Calígula, em latim, significa
ceu entre um torvelinho de traições e matan- “pequenas botas do soldado”.
ças, entre Roma e Capri, a ilha onde seu avô Os curtos quatro anos de Calígula no poder foram documen­
Tibério se auto-exilou. Além disso, a vida de tados e mostram, principalmente, caprichos e sandices que o fi-
Calígula esteve em perigo diversas vezes, anos zeram conhecido como um completo déspota. Cruel e indigno de
a fio, sob os augúrios da perseguição imple- confiança, colocou Roma em um período de promiscuidade e des-
mentada por Sejanus. Sua própria mãe morreu mando, mantendo casos amorosos com suas próprias irmãs e dei-
xando as legiões romanas em maus lençóis. Em uma invasão à Bre-
de fome, a
­ ssim como seus dois irmãos.
tanha, mudou de idéia na última hora e ordenou que seus legioná-
Os fatos ocorridos em Capri são obscu-
rios “atacassem o mar” e colhessem conchas nas praias da França.
ros e grande parte dos escritos foi queimada
As conchas foram levadas para Roma como saques de guerra.
pelo próprio Calígula após sua posse como
Imperador.
­ Historiadores como Suetonius O CONTURBADO PODER DE CALÍGULA
e Tacitus escrevem que a ilha era um parque Após a morte de Tibério, Calígula começou a praticar cada
de diversões para as perversidades sexuais de vez mais loucuras. Um de seus primeiros atos foi ordenar a mor-
­Ti­bério, mas não há provas disso. É possível que te do primo Tibério Gemellus, seu co-regente. Aos olhos do públi-
­Tibério tenha infligido torturas a Calígula, que, co, ­Calígula era um bom imperador, cancelando os exílios e proces-
poste­riormente, desenvolveu um incontrolável sos de traição instaurados por seu avô, ajudando endividados pelas
­desejo cruel c­ ontra outros seres humanos. ­taxas e sendo um sucessor direto de Augustus e Julius Caesar, filho
do bem-amado Germanicus.

Grandes Líderes da História 23


DI NA S TIA JÚ L IO- CL AU D I A NA

As fontes históricas divergem sobre os motivos da loucura de Esperava-se uma performance pífia e bondosa de Cláudio, mas
Calígula, colocando em pauta um sem-número de incongruências sua passagem pelo poder teve grandes vitórias. A mais expressiva
autocráticas promovidas por ele. A mais conhecida talvez seja a foi a tomada final da Bretanha em 47, após décadas de combate. O
idéia de fazer seu cavalo um membro do Senado e, depois, cônsul. domínio romano na ilha duraria mais 350 anos.
Assim como Tibério, as fontes históricas são escassas, e todas são Cláudio foi o primeiro imperador romano a receber o título de
unânimes em evidenciar a inteligência ímpar do jovem imperador. Caesar. Como o título “Imperador” é uma invenção prática de tem-
Para historiadores modernos, Calígula pode não ter enlouque- pos mais contemporâneos, até a ocasião o soberano de Roma era
cido, mas perdido o controle sobre seus atos de forma sarcástica. chamado pelo nome ou por um de seus títulos (Pater Patriae, por
Como um jovem com todo o poder disponível em suas mãos, talvez exemplo). César transformou-se em um título pelo qual os mais
tenha deixado seu bom humor reger, clamando para que as classes altos comandantes da nação romana passaram a ser chamados
­
abaixo dele percebessem a loucura de se depositar tanto poder em ­desde então. Cláudio morreu de causas naturais aos 64 anos.
apenas uma pessoa.
Os atos incontroláveis dele revelaram a verdade que ainda es- NERO (54-69)
tava escondida sob o reinado de Tibério: Augusto havia instaurado Lucius Domitius Ahenobarbus nasceu em 15 de dezembro de 37,
uma monarquia autocrática, em que o soberano do Império tinha filho de Agrippina, a Jovem, irmã de Calígula, e Gnaeus Domitius
plenos poderes. Para a aristocracia, esse tipo de atitude era imper- Ahenobarbus. Agrippina casaria-se depois com seu tio Cláudio.
doável e extremamente perigosa. A única forma de parar os abu- Adotando o nome de Nero Claudius Caesar Augustus Germani-
sos de um imperador romano seria seu assassinato, coisa que se cus e mais conhecido como Nero, foi o último membro da dinastia
­tornaria praxe depois de Calígula. Júlio-claudiana. Sua subida ao poder foi uma sucessão de desen-
A vida pregressa de Calígula pode tê-lo ensinado a ver além dos contros e mortes prematuras.
padrões normais, e não foi por acaso que ele foi o único da linha- Quando nasceu, seu tio Calígula regia o Império aos 25 anos e
gem a sobreviver. Por isso, sua visão para conspirações era um misto não se esperava que o jovem regente morresse tão cedo, uma vez
de paranóia e esperteza. O comandante das legiões na Germânia, que seus antecessores haviam chegado perto dos 80 anos.
Gnaeus Lentulus Gaetilicus foi descoberto quando ainda esboçava Segundo historiadores, como Suetonius e Tacitus, as relações ínti-
um motim das legiões contra o imperador. Até então, ninguém sa- mas entre Calígula e suas irmãs Drusilla, Agrippina e Julia Livilla, asse-
bia ao certo porque o governante fez questão de se deslocar pes­ gurariam a sucessão de seus próprios filhos. Os outros concorrentes
soalmente para o norte. ao posto de Augusto eram seus tios por parte de mãe. Com Calígula
Calígula morreu aos 28 anos, assassinado por Cassius Chaerea, morrendo sem deixar filhos e expurgando suas irmãs traidoras e ou-
um antigo oficial que servira Germanicus. As razões são obscuras, tros próximos ao trono, o caminho para Lucius estava aberto. Cláudio
mas parecem puramente pessoais. A esposa Caesonia e a filha Ju- trouxe Agrippina e Livilla de volta do exílio, casou-se com a primeira
lia Drusilla também foram assassinadas. Ainda há suspeitas de que e adotou Lucius sob o nome de Nero Claudius Caesar Drusus.
Cláudio, o sucessor, tenha desempenhado algum papel na morte do Aos 17 anos, com a morte de Cláudio, Nero tornou-se o mais
sobrinho. Fato é que Chaerea era oficial da Guarda Pretoriana e que jovem imperador de Roma. Os primeiros anos de regência foram
Claudius foi nomeado imperador pela própria Guarda. expressivos, com o rapaz tendo ao seu lado a mãe e dois tutores,
Sêneca e Burrus. Mas problemas pessoais acabaram por influenciar
CLÁUDIO (41-54) nos negócios de Estado. Sexo, violência e conspirações seguiram-
Nascido Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus, C ­ láudio se. Britannicus foi envenenado, Agrippina foi assassinada, Poppaea
mudou seu nome para Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus tornou-se uma amante influente e Tigellinus voltou do exílio para
quando assumiu o posto de quarto imperador de Roma. Era um ser o braço direito de Nero.
figura ímpar. Gago e coxo desde a infância, a família tentava ao Sem herdeiros, Nero teve de armar uma fraude para divorciar-
máximo deixá-lo à margem da vida pública. Mas ele foi alçado ao se de Octavia e assumir o filho de Poppaea. Em julho de 64, com
posto de cônsul por Calígula em 37, talvez em mais um sinal de sua reputação em frangalhos, Nero foi acusado pelo incêndio que
­deboche ao Império. consumiu Roma em uma semana.
A reclusão favoreceu o lado intelectual de Cláudio, que se tornou No ano seguinte, uma conspiração armada por velhos amigos,
um grande historiador. Escreveu 43 livros sobre o Império Romano, 20 entre eles o próprio Sêneca, foi descoberta e os envolvidos obri-
sobre o Império Etrusco e outros 8 sobre os cartagineses. O valor real gados a cometer suicídio. Outras execuções sumárias seguiram-se,
desse esforço nunca poderá ser medido, pois as obras foram perdidas. contribuindo para o dissabor do povo, dos militares e dos senado-
A falta de sucessores e o torvelinho em que se encontrava a res. A cada ano, a situação de Nero tornava-se menos sustentável,
nobreza romana à época levaram Cláudio ao poder. Com a morte até que revoltas e motins em territórios, como o Egito, levaram o
de Calígula, assassinado por um membro da Guarda Pretoriana, o Senado a depor Nero, que cometeu suicídio em 9 de junho de 68.
Senado ficou de mãos atadas quando a própria Guarda proclamou A balbúrdia iniciada por Nero e a falta de sucessores levaram Roma
Cláudio imperador. Essa entrada, por assim dizer, forçada, fez com a outra guerra civil, quando em um período de menos de um ano
que o novo imperador não fosse visto com bons olhos por todos. sucederam-se quatro imperadores.

Imperadores Romanos
24 Grandes Líderes da História
Aos 17 anos, com
a morte de Claudio,
Nero tornou-se
o mais jovem
Imperador
de Roma. Os
primeiros anos
de regência foram
expressivos,
com o rapaz tendo
ao seu lado a mãe e
os dois tutores,
Sêneca e
Burrus. Mas
problemas
pessoais acabaram
por influenciar
nos negócios
de Estado.
Sexo, violência e
conspirações
seguiram-se

Nero
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

Grandes Líderes da História 25


QUAT RO EM UM A NO

69
Quatro :
o ano dos

imperadores
Servius Sulpicus Galba:

O
novo sistema de go-
9 de junho de 68 a 15 janeiro de 69 Roma, Galba saiu em desespe-
verno romano já de- Marcus Salvius Otho: ro pelas ruas convocando a po-
monstrava sinais de pulação para ficar a seu lado.
fragilidade desde a
15 de janeiro a 16 de abril de 69 AD O erro foi ter iniciado precipi-
subida de ­Tibério ao Aulus Vitellius Germanicus: tadamente sua linha sucessória,
poder. A negligência com o Principado e nomeando Lucius Calpurnius
outros preparativos para a ­sucessão ape- 17 de abril a 22 de dezembro de 69 Piso Licianus. Com isso, Marcus
nas aceleraram o fim da d ­ inastia ­Júlio- Salvius Otho aliou-se à Guar-
claudiana e, em 68, com o suicídio de Nero, seguiu-se uma guerra civil. da Pretoriana. Galba foi assassinado no Fórum e, no mesmo dia,
A transição da dinastia anterior para a Flaviana foi confusa e Otho foi proclamado imperador pelos senadores.
teve 3 imperadores nesse hiato, até a posse de Vespasiano. Entre ju- Pouco mais de três meses depois, Otho cometeu suicídio. Seu
nho de 68 e dezembro de 69, Roma viu três imperadores ambicio- reinado foi curto porque Vitellius e as legiões da Germânia se di-
sos ­subirem ao poder para serem depostos ou assassinados logo em rigiam para Roma. Não eram apenas legiões romanas, mas as me-
­seguida. ­Galba, Otho e Vitellius tentaram assumir o posto máximo, lhores e mais respeitadas de todas, com bastante poder político,
mas o f­ uturo estava nas mãos dos bondosos imperadores flavianos. desde os tempos de Tibério. O máximo que Otho pôde fazer foi
Os reais problemas começaram enquanto Nero ainda estava oferecer-se como pai adotivo de Vitellius. Otho não teve escolha a
vivo. Suas atitudes favoreceram a ambição de Caius Julius Vindex não ser acabar com a própria vida e deixar o caminho livre para o
a liderar uma rebelião para colocar o governador da Hispânia Tar- novo imperador.
raconensis, Servius Sulpicius Galba, no lugar de Nero. Embora tro- Em pouquíssimo tempo, Vitellius mostrou-se um completo dés-
pas f­ iéis a Nero na Germânia tenham enfrentado, vencido e matado pota. Esbanjando as riquezas de Roma com banquetes e comemo-
Vindex, o destino do imperador déspota já estava selado pelo Sena- rações em sua própria homenagem, passou a perseguir qualquer
do. Galba foi aclamado imperador. um que cobrasse as despesas e, com as finanças em crise e o juízo
O revés colocou em cheque os comandos dos territórios germâ- claramente afetado, ordenou a morte de credores, de rivais poten-
nicos que, de uma hora para outra, tornaram-se traidores. Rufus, o ciais ao trono e até mesmo pessoas que haviam colocado o nome
comandante da legião germânica, foi retirado do cargo. A situação do imperador em seus testamentos.
na Germânia tornou-se insustentável em pouco tempo e mesmo o Com tanto desmando em um tempo de delicado equilíbrio
novo governador Aulus Vitellius, aliado de Galba, não pôde conter ­político, não demorou para que revoltas se consumassem, princi-
a rebelião na Batávia. palmente na Judéia, onde Vespasiano foi declarado imperador pelas
Em Roma, Galba provou ser tão instável emocionalmente quan- legiões do Oriente Médio.
to Nero. Seus primeiros atos como soberano foram contra várias As legiões do Danúbio tomaram o partido de Vespasiano e mar-
benfeitorias anteriores. Promessas não-cumpridas e extorsões rapi- charam em direção à Itália, cercando a cidade. Vespasiano tomou
damente fizeram de Galba um imperador malvisto. a Síria e trouxe o Egito para o seu lado. Vitellius foi assassinado e
A rebelião das legiões germânicas culminou na aclamação Vespasiano nomeado Imperador pelo Senado no dia seguinte, 21
de Vitellius como imperador. Quando os rumores chegaram a de dezembro de 69.

Imperadores Romanos
26 Grandes Líderes da História
PRINCIPADO
O amargo sabor deixado pelos antigos
reis de Roma e a amada República Romana
impediam que se falasse em um regime au-
tocrático com reis e soberanos de qualquer
tipo desde a ditadura de Júlio César. O intrin-
cado sistema de governo desenvolvido pelos
romanos já contava com o Senado e cônsules
séculos antes do Império. Mesmo o ditador vi-
talício Júlio César recusou-se a receber a coroa
das mãos de Marco Antônio, como sinal de hu-
mildade e respeito à República.
De qualquer forma, Roma e seus territórios
sempre crescentes precisavam de uma força
centralizadora e Augusto foi quem conseguiu
conciliar o melhor dos dois mundos. Sem ins-
tituir uma monarquia, o que poderia abalar a
ordem social, ele aceitou o título Princeps Se-
natus e Princeps Civitatis, significando “aci-
ma do Senado” e “acima dos cidadãos”. O
principado romano era uma dinastia camu-
flada de democracia, onde o sucessor era
aquele mais bem-posicionado perante o
povo, o Senado e todos os outros instru-
mentos de controle e alianças necessárias.
Princeps em latim significa “principal”,
“mais importante”, “primeiro”. Portanto,
a palavra imperador nunca foi realmente
usada pelos romanos.
Os cinco primeiros regentes auto-
cráticos de Roma mantiveram sua li-
nhagem no poder, mas a dinastia Júlio-
Ilustração Luiz Gustavo Bueno

claudiana foi substituída pela Flaviana


Otho após as desordens civis de 69. Do prin-
cipado participavam em segundo pla-
no todos os propensos sucessores do
regente, fazendo alianças e manipu-
lando eventos para se tornar o mais
“elegível” ao posto.
O período chamado Principado
Entre junho de 68 e dezembro de 69, Roma é delimitado pelos historiadores en-

viu três imperadores ambiciosos subirem


tre 27 a.C. e 476, quando da Que-
da do Império Romano do Ociden-
ao poder para serem depostos ou te. Até essa data o imperador ainda

assassinados logo em seguida. Galba, Otho usava meios para acobertar seu total
domínio sobre os assuntos do Estado.
e Vitellius tentaram assumir o posto máximo Após a cisão entre Roma e Constanti-
nopla, o princeps Bizantino tornou-se
de Roma, mas o futuro estava nas mãos dos dominus, ou “dominador”, “mestre”.

bondosos imperadores flavianos Nesse regime e, o imperador tinha sobe­


rania constitucional sobre os súditos.

Grandes Líderes da História 27


DI NA S TIA F L AVI A NA

Vespasiano, Tito
e Domiciano
A
Depois de déspotas Dinastia Flaviana, essencialmente militar, restaurou o Império Romano
após anos de despotismo, abuso, conflitos civis e desmandos. Apesar da
inconseqüentes, a curta duração, a Dinastia de Vespasiano e seus filhos consolidou as bases
que manteriam os romanos à frente do mundo ocidental até o século 3º.
Dinastia Flaviana As mudanças promovidas na forma de governo tiraram em muito o po-
consolidou o Império der do Senado, centralizando o comando aos Princeps.
Enquanto Vespasiano e Tito regeram quase como um só, Domiciano agiu como dés-
pota, segundo a maioria dos historiadores. Muitas dúvidas pairam, porém, sobre a verda-
deira conduta dos flavianos. Domiciano, por exemplo, às vezes, aparece como um perse-
guidor de cristãos. Em outras, é tido como um apoiador da religião. De qualquer forma,
foi nessa época que João escreveu o Apocalipse, em uma tentativa de manter os fiéis cris-
tãos alinhados com a doutrina. E ele usou inúmeras referências e simbologias diretamente
ligadas ao Império Romano para reforçar a necessidade de perseverança cristã em tempos
de perseguição. Aqueles que abandonassem a fé seriam punidos no juízo final.

VESPASIANO (69-79)
General de carreira militar brilhante, Titus Flavius Vespasianus tinha certa au-
tonomia nos territórios do leste do Império. Leal a Nero e, depois, a Galba, ele
passou a ser um potencial candidato após a morte de Otho, não fosse a interfe-
rência temporária de Vitellius.
Para derrubar o oponente, Vespasiano boicotou as remessas de grãos do
Egito para Roma, aumentando a instabilidade do governo. Em 20 de dezembro
de 69, Vitellius foi assassinado e Vespasiano, eleito Caesar Vespasianus Augustus
pelo Senado no dia 22.
A história de Vespasiano nas conquistas romanas já vinha de longa data. Com
papel fundamental na Germânia sob o jugo de Cláudio e, depois, na invasão à
Bretanha em 43, comandou com sucesso a respeitada 2ª Legião Augusta, vencen-
do 30 batalhas. Em 51, serviu como cônsul e, em 63, após um período de aposen-
tadoria, voltou à vida pública como governador da África. Em 66, o general foi des-
tacado para comandar três legiões na Guerra da Judéia.
A fundação da Dinastia Flaviana levou a um enfraquecimento ainda maior do Se-
nado. Vespasiano, por exemplo, ignorou o dia de sua eleição no Senado, contando sua
regência a partir de 1º de julho de 69, quando foi declarado imperador por suas próprias
Divulgação

legiões. O seu perfil militar rígido delineou o método de governo. O novo soberano preci-
sou assegurar maioria política no Senado para implementar as reformas necessárias, uma
vez que os anos anteriores de desmando e guerra civil haviam deixado as finanças do Im-
pério em frangalhos.
Entre outras medidas impopulares, Vespasiano aumentou o número de senadores de
200 para 1 000, atuando sobre eles com total autonomia. As taxas e cobranças de impostos
foram reestruturadas e a arrecadação cresceu. Finalmente, Roma estava segura outra vez,

Imperadores Romanos
28 Grandes Líderes da História
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

Vespasiano

As medidas de Vespasiano podem ser divididas entre Roma,


regiões da Europa e territórios do leste. Em Roma, os planos para a
construção do Coliseu e o mecenato às artes foram acolhidos com
entusiasmo pela população. No resto da Europa, principalmente
na Espanha, o Império deu status maior a várias províncias, permitindo
educação e crescimento econômico
apesar dos malefícios que uma autocracia militar podia causar. te. Quase todas as fronteiras foram avançadas durante sua
As medidas de Vespasiano aconteceram em Roma, ter­ regência, embora não somente para aumentar o ter­
­ ritório,
ritórios da Europa e localidades do leste. Em Roma, os planos mas para buscar limites mais favoráveis à defesa. Dentro das
para a construção do Coliseu e o mecenato às artes foram aco- ­legiões, práticas como o recrutamento local de legionários fo-
lhidos com entusiasmo pela população. No resto da Europa, ram canceladas. As legiões passaram a se estender por áreas
principalmente na Espanha, o Império deu status maior a várias maiores, subdivididas e, portanto, reduzindo seu poder político.
províncias, permitindo a educação e o crescimento econômico. Outra atitude que visava tanto a integração do Império quanto
O mesmo aconteceu com cidades italianas, que aumentaram a melhora na qualidade dos soldados foi a proibição do recru-
sua representatividade com a reforma do Senado. Essas novas tamento fora da Itália, Espanha e Gália.
decisões tinham em vista o fortalecimento e uma maior união Vespasiano já estava com 60 anos quando foi declarado
dentro do Império. ­imperador. Seus dois filhos com Flavia Domitilla eram Titus Fla-
Do ponto de vista militar, grande homem das armas que vius Vespasianus e Titus Flavius Domitianus, com 30 e 18 anos
era, Vespasiano reformou a estrutura de defesa profundamen- respectivamente, em 79.

Grandes Líderes da História 29


DI NA S TIA F L AVI A NA

TITO (79-81) Império sofreu muito sob o jugo dele, pois a economia rapi-
Titus Flavius Vespasianus era o escolhido como sucessor de damente entrou em colapso, enquanto as prioridades do novo
Vespasiano, mesmo antes de seu pai tornar-se Imperador. Servin- governo pareciam estar mais voltadas às artes e aos jogos.
do de tribuno na Bretanha e depois acompanhando seu pai con- Com o Coliseu finalmente inaugurado, Roma viu a perfor-
tra as revoltas na Judéia em 67, valeram a Tito o honroso Arco de mance de gladiadores e artistas de todos os cantos do Império
Tito, em uma das entradas do Fórum. Com Vespasiano tendo que ao custo de enormes somas de dinheiro.
se dirigir a assuntos mais urgentes durante a guerra civil de 69, Ti- Mais uma vez, a maldição da sucessão repetia-se, como
tus ficou responsável pela contenção dos judeus, o que conseguiu havia acontecido na Dinastia Júlio-claudiana, fundada por ge-
em 70 com a ajuda de 4 legiões. nerais competentes e continuada por jovens incapazes. A fal-
O posicionamento de Tito como apoiador de seu pai foi per- ta de preparo de Domiciano acabou por derrotá-lo. Como
feito. Cumprindo vários mandatos como cônsul e prefeito da acontece na maioria das vezes, a falta de jeito para lidar com
Guarda Pretoriana, ajudou na reconstrução e na fortificação do ­assuntos públicos gerou descontentamento. Do descontenta-
Império, tornando-se o sucessor natural. mento para a conspiração o caminho foi curto, mas Domiciano
Apesar de certa oposição do Senado, Tito tinha a completa preferiu caçar adversários potenciais ao invés de melhorar sua
aprovação do povo. Durante seu exercício, o Coliseu foi comple- ­performance como soberano.
tado e outras expressivas obras públicas foram executadas. Um Domitia Longina, a esposa devassa que acompanhava
novo incêndio em Roma e a erupção do Vesúvio em 79 serviram ­Domiciano em suas orgias, foi exilada após ser flagrada publi-
para mostrar o caráter altruísta de Tito, que gastou muito dinheiro camente traindo o imperador em 83. Na década de 90, Longi-
para ajudar e indenizar as vítimas. Dos jogos promovidos por Tito, na foi chamada de volta e empossada como imperatriz. Gran-
o mais memorável foi a comemoração do ano 80, com 100 dias de erro de Domiciano, que na verdade trouxe a serpente para
de lutas entre gladiadores no Coliseu. dentro de sua própria casa. Toda a conspiração para assassiná-
Seu tempo no poder foi curto, finalizado por uma doença -lo foi arquitetada por Longina, que reuniu membros da Guar-
fatal. Historiadores acusariam seu irmão Domiciano pela morte da e do Senado. Stephanus, senador e procurador da falecia
prematura do imperador, aos 41 anos. Júlia Flávia, matou Domiciano com 8 facadas.

DOMICIANO (81-96)
Tito tinha a completa aprovação
Aos 30 anos, Titus Flavius Domitia-
nus subiu ao poder após a morte do ir-
mão Tito. Ao contrário do irmão, Do-
miciano experimentou outro tipo de
do povo. Durante seu exercício, o
educação. Seu pai, Vespasiano, nun-
ca o tratou como sucessor potencial,
Coliseu foi completado e outras
o que levou o rapaz a se dedicar à li- expressivas obras públicas foram
teratura, ao direito e à retórica. A apa- executadas. Um novo incêndio
rente rejeição do pai marcaria as atitu-
des futuras de Domiciano. Nas campa- em Roma e a erupção do Vesúvio
nhas da África e da Judéia, somente Tito
em 79 serviram para
Fotos: Divulgação

acompanhou as l­e­giões do pai.


Antes da posse de Vespasiano, mostrar o caráter
Domiciano tinha funções discre-
tas no Senado. Logo após a entrada altruísta
da família no poder, pôde agir de forma de Tito, que
mais ousada, mas, geralmente, em seu pró-
prio benefício. Entre outros mimos, forçou o divórcio de Do- gastou muito
mitia Longina e casou-se com ela.
Seu papel público durante os períodos de regência de seu
dinheiro para
pai e do irmão mais velho foi extremamente tranqüilo, com ajudar a população
funções honorárias na maior parte do tempo. Com a morte
de Tito, Domiciano rapidamente agiu para conseguir o apoio
prejudicada
da Guarda Pretoriana e ser eleito sucessor imediatamente. O Tito

Imperadores Romanos
30 Grandes Líderes da História
DE N E RVA A C O M MO D US

A dinastia
Nerva -
antonina
Nerva, Trajano, Adriano,
Antoninus Pius, Marcus Aurelius e
Commodus. Cinco bons e um mau

M
esmo com o final quase desastroso dos flavianos, gerenciado por
Domiciano, o Império ainda contava com boas reservas monetárias.
Durante o reinado do último flaviano, o sestércio (unidade monetá-
ria de prata) havia sido desvalorizado e enormes quantias de dinhei-
ro foram gastas em obras públicas, monumentos e jogos. Mesmo
assim, a ganância de Domiciano em deserdar e confiscar bens de cidadãos romanos havia
mantido o tesouro bastante recheado.
Os cinco primeiros imperadores da Dinastia Nerva-antonina são conhecidos como
os “cinco bons imperadores”. Suas administrações foram marcadas por decisões s­ ábias
e consensuais. As sucessões foram as mais bem-planejadas e, por isso mesmo, respei-
tadas e duradouras. O dilatado período da dinastia d ­ urante o s­ éculo 2º estendeu a Pax
Romana e privilegiou a liberdade de expressão, i­ncluindo o c­ ulto cristão.

NERVA (96-98)
Marcus Cocceius Nerva foi uma indicação consciente dos conspiradores da morte de
Domiciano. Vindo de família nobre do norte da Itália, já havia servido como cônsul para
Vespasiano em 71 e para Domiciano em 90. Já de idade avançada e sem filhos, Nerva ini-
ciou uma tradição inteligente, adotando Trajano, general das fronteiras com a Germânia,
como filho-herdeiro. Seus primeiros passos como imperador desfizeram alguns dos erros
cometidos por Domiciano, reaproximando o principado ao Senado e dando anistia a cen-
tenas de prisioneiros acusados de traição. Ele também anulou os confiscos de proprieda-
de implementados por Domiciano, garantindo, assim, aliados na elite e na n ­ obreza, que
fariam a diferença no futuro.
De 18 de setembro de 96 a 27 de janeiro de 98, Nerva precisou de muito esforço
político para contentar a todos em Roma. Tanto o Senado quanto a Guarda Pretoriana
demandavam regalias para manterem o apoio ao imperador. Um pequeno motim acon-
teceu em 97, quando a Guarda raptou Nerva e o obrigou a ir a público agradecer os
conspiradores pela morte de Domiciano.

Grandes Líderes da História 31


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DE N ERVA A C OMMODUS

TRAJANO (98-117)
Aos 45 anos, Marcus Ulpius Nerva Traianus subiu ao poder
de Roma após a morte de Nerva. Respeitado general das frontei-
ras germânicas, Trajano vinha de família de tradição militar da re-
gião da Espanha. As vitórias dele nas margens do Reno durante o
pe­ríodo de Domiciano já haviam elevado seu nome aos mais altos
estandartes de Roma. A escolha de Nerva em adotar Trajano veio
de sua popularidade entre o exército, garantindo ao imperador um
certo controle sobre as legiões. A indicação da adoção veio por
meio de Adriano, que, no futuro, teria seu favor retribuído da mes-
ma forma, sendo adotado por Trajano como sucessor.
A reputação de Trajano o antecedia e a sucessão deu-se sem
maiores problemas. No campo administrativo, ele continuou o
processo de restauração de posses e anistias iniciado por Nerva,
garantindo-lhe posteriormente uma colocação entre os “Bons
Imperadores”.
Revoltas às margens do Danúbio chamaram a atenção do
exército e Trajano, um general em primeira instância, deslocou-
se pessoalmente para enfrentar os rebeldes. Suas conquistas mili-
tares acabaram expandindo o Império Romano ao seu perímetro ADRIANO (117-138)
máximo. As primeiras, além do Danúbio e outros territórios e rei- Terceiro dos cinco bons imperadores, Publius Aelius Traianus
nos ­foram feitas de forma pacífica no Oriente Médio. Em 113, en- ­ adrianus tinha uma grande paixão pela cultura grega. Assumiu
H
frentou os persas, anexou a Armênia, cidades da Babilônia e, ainda seu papel na história romana por meio de comissionamentos mi-
mais ao Sul, a Mesopotâmia. litares e boas relações com Nerva, Trajano e sua esposa Plotina.
Os primeiros sinais de fraqueza física do imperador apresenta- Ao que parece, enquanto estava doente na Sicília, Trajano não
ram-se em 116, durante o cerco de Hatra, ainda na Mesopotâmia. chegou a adotar ou mesmo a indicar Adriano como sucessor,
Dali, já reconhecido como um dos maiores imperadores que Roma mas suas relações com o imperador e a família eram tão for-
já tivera, retirou-se para a Sicília. O senso de justiça e os valores de tes que, aparentemente, tudo foi resolvido em segredo.
Trajano seriam celebrados tanto em vida quanto após sua morte. Adriano apresentou papéis ao Senado, prova-
O Senado, entre outras honrarias, concedeu-lhe o título de Opti- velmente falsificados, confirmando sua adoção
mus e, a cada novo César, desejavam que fosse “mais bem-aven- por Trajano. Em todo caso, ele parecia mes-
turado que Augusto, melhor que Trajano”. mo ser o herdeiro natural, endossado tanto
O imperador também é lembrado por sua correspondência pelo S­ enado quanto pelas legiões, ao mesmo
com Plínio sobre o problema dos cristãos. A atitude dele em rela- tempo em que era pública a dívida de Traja-
ção ao assunto foi de condescendência, permitindo os cultos con- no para com ele.
tanto que permanecessem discretos. Nos séculos seguintes, foi re- Adriano preferiu uma política pacífica para resolver conflitos
lembrado pela Igreja Católica por seus atos. internos do Império. Sem planos de expansão, fortificou as defesas
com muralhas e postos de observação, assegurando-se para não
ser pego de surpresa por novas rebeliões e invasões.

Revoltas às margens do Danúbio A aproximação dele com a cultura o levou a patrocinar inú-
meros artistas da época. No campo amoroso, o romance entre

chamaram a atenção do exército o impe­rador e um jovem grego de nome Antinous ficou ampla­
mente c­ onhecido. Pouco antes de morrer, Adriano apontou ou-
e Trajano, um general em primeira tro sucessor, Antonius Pius, após a morte de seu primeiro escolhi-
do, ­Aelius Verus. O mausoléu onde foi enterrado acabou transfor­
instância, deslocou-se pessoalmente mado, d ­ epois, no famoso Castelo de Sant’Angelo, em Roma.

para enfrentar os rebeldes. Suas ANTONINUS PIUS (138-161)


conquistas militares acabaram Talvez o mais indicado a ser chamado de “bom imperador” na
dinastia Nerva-antonina seja Titus Aurelius Fulvius Boionius Arrius
expandindo o Império Romano ao Antoninus Pius. Com grande experiência administrativa e vários

seu perímetro máximo mandatos como questor, pretor e cônsul, ele já vinha de uma fa-
mília de políticos. As condições de adoção dele por Adriano con-
tinham um trato de proteção aos jovens Marcus Aurelius e Lucius

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32 Grandes Líderes da História Imperadores Romanos
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Em relação à sucessão, Aurelius


não deixou pontas soltas. Casado com
Faustina, a Jovem, de 145 até sua morte,
teve 13 filhos, entre os quais o próximo
Imperador, Commodus. Mais uma
vez, a linhagem sangüínea das dinastias se
provaria equivocada. Commodus
reviveria em Roma os anos de loucura
Nerva
e abuso de poder de Nero e Calígula

Aelius Verus. Não somente Pius honrou suas promessas e deveres


como levou Marcus Aurelius ao posto de sucessor.
Um homem de princípios, honra e temperamento invejável,
com profundo conhecimento da política e da economia, só po-
deria prolongar ainda mais a Pax Romana. Seu modo de inter-
venção nas conspirações contra seu poder foram exemplares em
todos os sentidos, percebendo-as a tempo de sugerir impesso-
almente que não teriam sucesso. O povo romano, acostumado
a disputas internas e campanhas militares, começou a entender
a importância de tempos de paz. Para alguns acadêmicos, esses
elementos aparentam passividade e contribuíram para os pro-
blemas posteriores da crise do século 3º. Ao morrer em 7 de
março de 161, aos 75 anos, deixou apenas uma filha, casada
com seu sucessor Marcus Aurelius.

MARCUS AURELIUS (161-180)


Último dos “cinco bons imperadores”, Caesar Marcus
Aurelius Antoninus Augustus chegou ao poder aos 40 anos,
abrindo lugar para Lucius Verus reger ao seu lado em assun-
tos específicos. A idéia, provavelmente originada por Adriano,
provou-se bastante útil quando povos germânicos e o Impé-
rio Persa voltaram a representar problemas nas fronteiras do
Reno e da Ásia. Verus foi destacado para resolver o assunto
com destreza no Oriente enquanto Aurelius comandou a fren-
te no leste europeu.
Mesmo quase todo tempo em guerra, o Império regido por
Aurelius permaneceu em grande parte estável. Verus morreu em
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

campanha em 169, fazendo de Aurelius o supremo em comando.


Essa divisão de poder assinalava ao mesmo tempo um ponto de
retorno à República e um avanço político que seria seguido mais
tarde por futuros sucessores.
Em relação à sucessão, Aurelius não deixou pontas soltas.
­Ficando casado com Faustina, a Jovem, de 145 até sua morte, teve
13 filhos, entre os quais o próximo Imperador, Commodus. Mais
uma vez a linhagem sangüínea das dinastias provariao erro. Com-
modus reviveria em Roma os anos de loucura e abuso de poder
dos então distantes Nero e Calígula.

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Grandes Líderes da História 33
DI NA STIA S EV ER A NA

Depois de
Commodus,
uma sucessão de

Os
governantes fez
o poder sobre
Roma passar de
mãos em mãos

imperadores
estrangeiros
O
último representante da Dinastia Nerva-antoni- no poder, até março de 193. Seu assassinato foi organizado pela
na foi Commodus, filho natural de Marcus Au- Guarda Pretoriana – novamente uma instituição fortalecida – sob a
relius. Foi co-imperador ao lado do pai a partir alegação de não-pagamento do soldo combinado.
de 177 e regeu sozinho de 180 a 31 de dezem-
bro de 192. A administração do jovem de 19 SEVERUS E OUTROS
anos e seus hábitos reprováveis fizeram dele um dos piores impera- A corrupção e a falta de sucessores dignos levaram a leilão o posto
dores que Roma já teve. Assim como Calígula e Nero, Commodus máximo romano. Didius Julianus, irmão adotivo de Marcus Aurelius,
entrou em uma espiral de decadência, mantendo haréns com cen- comprou o trono de Roma por centenas de milhares de sestércios.
tenas de mulheres e rapazes, exigindo honrarias divinas e relegando A medida chegou aos ouvidos do povo, o que permitiu que o
o ­comando do Império a seus comparsas corruptos. general Septimius Severus comandasse uma revolta, invadisse Roma
Commodus ficou conhecido pela sua paixão por jogos com e depusesse Julianus sumariamente. Assim como Severus foi eleito
gladiadores. Ele mesmo entrava na arena do recém-inaugurado imperador por suas próprias tropas, outras legiões também escolhe-
Coliseu para se divertir matando adversários indefesos. O reino ram seus próprios imperadores. Na Síria, o usurpador foi Pescennius
dele teve um final previsível, com seu assassinato aos 31 anos. Niger. No oeste da Europa, Decimus Clodius Albinus. ­Somente em
A esse ponto, Commodus e sua loucura já haviam mudado o 197 as disputas terminaram, logicamente com sangue.
nome da própria cidade de Roma para “Cidade Commodiana”. O Revivendo a tradição militar, destituindo a Guarda Pretoriana e
­Senado e o Exército tiveram alterações similares, canceladas de- regendo com mão-de-ferro, Severus colocou o Império nos trilhos
pois de sua morte. Não há consenso acadêmico sobre a morte de novamente. Após sua morte em 211, mais uma vez, a linha suces-
­Commodus, mas existem evidências de que tenha sido estrangula- sória teve tropeços nas figuras de seus dois filhos: Caracalla (Marcus
do por um gladiador enquanto dormia ou de que tenha sido morto Aurelius Antoninus) e Geta (Publius Septimius Antoninus Geta).
em ­combate no Coliseu. A idéia de co-regência entre os dois filhos de Severus não durou
A ingerência dele abriu caminho para uma nova guerra civil em muito. Após a morte do pai, Caracalla matou seu próprio irmão e
Roma. Pertinax, notório disciplinador das legiões ficou três meses perseguiu seus colaboradores durante os seis anos de poder. Assim

Imperadores Romanos
34 Grandes Líderes da História
Severana

Notoriamente homossexual,
andrógino e afetado, Heliogabalus
teve uma vida sexual promíscua,
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

fundindo sexo e religião para


dissabor do povo e de seus
próprios apoiadores

como Calígula, Caracalla era um apelido, o nome da túnica usada foram assassinados e Heliogabalus assumiu o poder. De 218 a 222, ele
pelos cidadãos de Lugdunum, atual Lyon. derrubou tabus sexuais e religiosos e colocou-se à frente dos rituais
A popularidade de Caracalla ficou restrita ao exército. Essencial- ao novo deus que agora substituía Júpiter: o deus Sol. Uma sucessão
mente militar, seu regime de governo privilegiava os legionários e de deidificações e títulos de Augustus foi concedida pelo Senado para
taxava a população civil demasiadamente. familiares de Heliogabalus. Notoriamente homossexual, andrógino e
Geta era tido como um descendente direto dos místicos reis da afetado, ele teve uma vida sexual promíscua, fundindo sexo e religião
Bretanha e muitos cidadãos acreditavam que Caracalla o havia as- para o dissabor do povo e de seus próprios apoiadores.
sassinado por conta disso. O reinado terminou em 8 de abril de 217, O herdeiro indicado para a sucessão de Heliogabalus era Ale-
com o imperador assassinado enquanto urinava na beira da estrada. xandre Severus, filho de Julia Avita Mamaea, sua irmã. Mas o dés-
Um dos únicos confidentes de Caracalla assumiu o posto máxi- pota preferiu ordenar a execução do garoto de 13 anos. Antes
mo após sua morte. Marcus Opellius Macrinus, nascido na Mauritâ- que a determinação fosse cumprida, Heliogabalus e sua mãe, Julia
nia, subiu da classe média equestriana para ser braço direito de Se- ­Soaemias, foram assassinados pela Guarda Pretoriana, arrastados
verus e de seus filhos. Durante a morte de Caracalla, Macrinus era por toda Roma e jogados no Rio Tibre.
o prefeito da Guarda Pretoriana e prontamente assumiu o comando O adolescente Alexandre Severus subiu ao poder, completa-
do regime militarizado por seu antecessor. Imediatamente nomeou mente manipulado por sua mãe, Mamaea. A falta de preparo de
seu filho Diadumenianus co-regente. ambos em assuntos militares levou o Império Romano a uma série
Em apenas 3 meses, Macrinus deixou o controle escapar de de problemas civis, motins e guerras perdidas. Regente de 222 a
suas mãos. A classe militar esperava atitudes mais firmes e ele era o 235, período relativamente longo para a época, Alexandre procu-
primeiro imperador a não pertencer à classe dos Senadores e sequer rou reformar o espírito e a moral romanos. Último da linhagem Sí-
foi à Roma após sua posse. Um plano desenvolvido pelos Severa- ria de imperadores, foi morto em um motim da 12ª legião, quando
nos sobreviventes tentou fazer a população acreditar que Caracalla tribos bárbaras da Germânia tentavam invadir a Gália. Para alguns
­tinha um herdeiro legítimo, Heliogabalus. historiadores, Alexandre promoveu o culto cristão em Roma, che-
Em pouco tempo, tanto Macrinus quanto seu filho Diadumenianus gando a ter um busto de Jesus Cristo em seu santuário pessoal.

Grandes Líderes da História 35


CRI S E

A crise
do século 3º
e as tetrarquias

A
A pior fase do sucessão de imperadores despreparados e a falta de um senso co-
mum levaram o Império Romano a uma crise sem precedentes.
Império Romano Durante 50 anos, de 235 a 284, problemas econômicos, guerras
civis e tentativas de invasões levaram a sociedade romana à beira
culminou em uma do caos. A chamada “Crise do Século 3º” tem impor­tância vital na
reforma quase história ocidental, marcando profundamente o status quo europeu e abrindo cami-
nho para a fragmentação de Roma e o início da Idade Média.
completa dos A morte de Alexandre Severus e a derrota da campanha romana na Pérsia ini-
mecanismos de ciaram uma corrida ao poder. Principalmente os generais das legiões contribuíram
para o declínio, dando mais importância à luta pelo poder e menos às fronteiras.
governo. Desde a Essa inversão de papéis deu aos inimigos e vassalos o elemento necessário para a
revolta e a libertação. Externamente, godos, alanos, vândalos e cáspios passaram
queda da República, a invadir as fronteiras.
o Império não se via Dentro do Império, grandes províncias destacaram-se do poder central. O
Gaélico foi formado pela união da Gália, da Hispânia e da Bretanha, enquanto o
em tamanho caos. Palmieno reuniu Síria, Palestina e Egito. Este seria o fim da primeira fase do Império
A crise sinalizou Romano e também o término do conceito inicial do principado.
Durante esse período de turbulência, os imperadores que se sucederam eram,
o início da Idade na maioria, soldados, que ficaram conhecidos como “Os Imperadores das Barra-
Média e a queda cas”. Essa mudança radical na formação dos dirigentes foi desastrosa. Os próximos
governantes seriam incultos e despreparados para lidar com assuntos econômicos e
do Império políticos. A sucessão rápida desses imperadores, com média de dois anos no poder,
demonstrou claramente a falta de visão deles para a solução de problemas.

ANARQUIA MILITAR
Outro nome pelo qual essa fase é conhecida é “Anarquia Militar”. O termo é
bem-explicado no começo da crise. O primeiro desses imperadores foi Maximinus,
notório soldado de classe baixa que chegou a comandante de ­legião. Suas tropas
o aclamaram imperador, embora ele nunca tenha ido à Roma depois disso.
Maximinus regeu durante três anos e derrotou os também usurpadores
­Gordiano I e II (pai e filho, co-regentes). Em Roma, no mesmo ano de 238, o
­Senado nomeou simultaneamente dois outros regentes: Pupienus e Balbinus, mor-

Imperadores Romanos
36 Grandes Líderes da História
O Império Gaélico foi formado pela união da
Gália, Hispânia e Bretanha, enquanto o Império
Ilustração: Luis Gustavo Bueno

Palmieno reuniu Síria, Palestina e Egito. Este seria


o fim da primeira fase do Império Romano

Grandes Líderes da História 37


CRI S E

tos também simultaneamente após 99 dias de regência, pelas


mãos da Guarda Pretoriana. Maximinus foi morto por seus pró-
prios homens.
A onda de usurpadores continuou enquanto os anos se
passavam. Gordiano III insistiu em uma nova tentativa de criar
uma dinastia a partir da malfadada aventura de seu avô e tio.
O soldado sírio e prefeito pretoriano conhecido como Felipe,
o Árabe, assumiu o poder por algum tempo entre 244 e 249.
Co-imperadores, usurpadores e proto-dinastias se formavam
e eram destruídas, muitas vezes por seus próprios aliados, em
questão de dias.
Entre revoltas e tentativas políticas de restabelecer a ­ordem,
principalmente no Oriente, o Senado empossou Valeriano I.
Outras dinastias, como a dos Ilirianos apareceram. No Império
Gaélico, Postumus tomou para si o cargo de imperador. Após
sua morte em 268, outra sucessão inconseqüente de herdei-
ros seguiu-se.
Na década de 270, a morte de Gallienus representou o
­ápice da crise, com seu comandante Claudius II, conhecido
como “o gótico”, fundando a Dinastia Iliriana. Na tentativa
de reunificar, Claudius II conseguiu apoio temporário de Ze- Períodos curtos de poucos meses
nóbia, viúva de Septimius Odenathus. A aliança durou pou-
co e Lucius Aurelianus, imperador de 270 a 275, recuperou
eram uma vitória para qualquer
alguns dos territórios do Império Romano perdidos para os um que sobrevivesse ao
­palmienos e gaélicos.
cargo de imperador, não sendo
O CAOS
As informações dessa fase crítica são nubladas em alguns
assassinado ou cometendo
pontos. Homens praticamente sem passado ou ascendência fo-
ram eleitos ou usurparam o poder romano. O Senado criava
suicídio pela pressão
títulos especiais para incentivar seus escolhidos a promover a imposta pelo cargo
reunificação. A Guarda Pretoriana e seus prefeitos apareciam
como censores autônomos, aprovando ou assassinando novos
imperadores à vontade.
Períodos curtos de poucos meses eram uma vitória para Trazendo do Oriente uma forma de adoração diferente, ele
qualquer um que sobrevivesse ao cargo de imperador, não abandonou a clássica toga púrpura dos imperadores romanos
sendo assassinado ou cometendo suicídio pela pressão im- e se cobriu de jóias e mantos incrustados. Exigia adoração por
posta pelo cargo. Quintillus, irmão de Claudius II, suicidou-se. parte dos “súditos”, tornando-se praticamente um rei nos anti-
­Aurelianus foi morto pela Guarda. Tácito, após apenas seis me- gos moldes da monarquia. A idéia do principado foi substituída
ses de poder, foi assassinado. Florianus durou menos de três pela do Dominato.
meses. Probus, um grande general, conseguiu algum período Diocleciano instaurou também um sistema dividido de po-
de estabilidade até ser morto por Carus, fundador da ridicula- der, compartilhando a regência com Maximiano entre 285 e
mente breve Dinastia Cariana (282-285). 293. Essa diarquia provou-se eficiente e levou Diocleciano a
promover Maximiano de Caesar (uma espécie de “imperador
DIOCLECIANO júnior”) para Augustus (“pleno”). O Império, então, foi divi-
Os 50 anos de crise mostraram de forma cabal o quanto as dido entre leste, para Diocleciano, e oeste, para Maximiano.
bases de governo romano precisavam de reformas. O final da Em 293, os dois Augustus elegeram outros dois Césares para
fase problemática só começou a se delinear com a subida de tratar com mais atenção os assuntos militares e civis: Galerius
Diocleciano, comandante das cavalarias de Carus e Numeria- e Constantinus Chlorus.
no. De qualquer forma, a solução de Diocleciano durou apenas
20 anos. Para o novo imperador, vindo de classes baixas e com A TETRARQUIA
pretensões de extrema grandeza, o cargo de imperador devia Com o advento da tetrarquia, o Império foi dividido nova-
ser ostentado. mente e as capitais tetrárquicas ficaram espalhadas principal-

Imperadores Romanos
38 Grandes Líderes da História
isso, Diocleciano, Maximiano, Galerius e Constantius tomaram
cuidados extremos. Qualquer turbulência ou demonstração de
fraqueza podia incendiar novamente o Império com levantes
civis e invasões estrangeiras.
Nas moedas e nos monumentos públicos, os quatro mo-
narcas eram gravados com rostos idênticos. Táticas desse tipo
asseguravam o respeito igualitário entre os quatro, permitindo
maior segurança na manutenção do regime.
Enquanto em tempos anteriores o papel do imperador pa-
recia sempre em xeque, naquele momento os três pilares man-
teriam a estrutura caso um deles ruísse. Antes, quando um im-
perador era requisitado em batalha, deixava Roma para trás e
não sabia quais conspirações encontraria na volta. Ou, caso
ficasse em Roma e enviasse um general, corria o risco de ver
esse general ser aclamado imperador por suas tropas logo após
uma vitória.
A tetrarquia, além de permitir melhores resultados de de-
fesa e conquista militares, também previa um celeiro maior
de sucessores. Foi assim que guerras e revoltas foram venci-
das com relativa facilidade. Entre elas, a retomada da Breta-
nha sob o comando de Constantius, em 297. Durante a crise,
a Bretanha havia se separado do Império Gaélico, continuan-
do assim por 10 anos sob a regência de Carausius (286-293)
e Allectus (293-297).

O FIM DO GOVERNO DOS QUATRO


Ilustração: Luis Gustavo Bueno

A queda da tetrarquia, apesar de todos os cuidados, acon-


teceu por obra de seus próprios criadores. Em 305, Dioclecia-
no recuperava-se de uma grave doença e preferiu se afastar
do poder voluntariamente. Maximiano fez o mesmo, obrigan-
do Galerius e Constantius a escolherem novos Césares: Fla-
vius Valerius Severus e Maximinus. A luta pelo poder voltou,
capitaneada por Maxentius, filho de Maximiano, buscando
seu direito ao poder.
mente em áreas fronteiriças de maior tensão. A cidade de Roma, Os esforços para um acordo foram grandes, com encontros
apesar de continuar sendo a capital, perdeu o status político. suntuosos e demorados, nos quais tentava-se contentar todos.
As capitais tetrárquicas ficavam em pontos estratégicos e Mas o cobertor era curto demais para abrigar a ambição de tan-
contavam com os regentes em pessoa. Diocleciano ocupava tos pretendentes. Ao final da querela, em 309, três outros foram
Nicomedia, onde hoje é a Turquia, um ponto privilegiado para eleitos Augustus, além de Galerius: Constantino (filho de Cons-
antever movimentos de bárbaros dos Balcãs. Maximiano bati- tantius), Maximinus (filho de Maximiano) e Licinius.
zou a região de Milão, perto dos Alpes, de Mediolanum, ele- Nos cinco anos seguintes, quatro regentes morreram ou se
vando-a a capital. Galerius situou-se às margens do Rio Danú- mataram, entre si ou com a ajuda do usurpador Maxentius. Em
bio, onde hoje está a Sérvia. Nas proximidades sempre vulne- 313, a tetrarquia chegava a um fim prematuro após meras duas
ráveis do Rio Reno, Constantius Chlorus chamou sua capital de décadas de existência. Os sobreviventes se embrenharam em
Augusta Treverorum. uma disputa que levaria outros 10 anos para ser resolvida. Em
Mesmo com quatro soberanos regendo em cidades dife- 324, Constantino finalmente venceu Licinius e unificou mais
rentes, os territórios não foram completamente delimitados ou uma vez o Império.
divididos. Os quatro monarcas governavam juntos, partilhando As sementes plantadas pela tetrarquia de Diocleciano e
algumas áreas de seus domínios com outros, ao mesmo tem- a divisão entre Ocidente e Oriente continuaram crescendo.
po em que contavam com mecanismos de equilíbrio dentro da ­Enquanto a divisão quadripartida do Império continuou por
política do Império. meio de prefeitos pretorianos nas capitais tetrárquicas, no futu-
Aos olhos do povo, era preciso que nenhum dos imperado- ro a cisão entre Roma e Constantinopla aconteceria por conta
res parecesse mais influente ou poderoso que os outros. Para do crescente distanciamento entre o leste e o oeste.

Grandes Líderes da História 39


ÚLT I M OS IMPERA D O R E S

Antes da
Queda
O fim do Império Romano foi marcado pela nova política
religiosa de Theodosius I, pela divisão entre o Ocidente e o
Oriente e, finalmente, pelo desaparecimento do Império

T
heodosius I é lembrado por duas façanhas memo- crifício de animais crimes graves. Igrejas e templos foram destruí-
ráveis, mas nem sempre louváveis: foi o último im- dos, fechados ou transformados em prédios de serviços públicos.
perador romano a reger o território unificado e foi A mesma violência experimentada pelos cristãos agora havia mu-
quem decretou o cristianismo a religião oficial de dado de lado. Cultos pacíficos foram completamente aniquilados
Roma. Após sua morte e a deplorável regência de por não serem cristãos, por terem outra visão ou por razões ain-
seus dois filhos, o Império tornou-se um repositório de tribos bár- da menores. Entre eles, estava o grande Serapeum, na Alexandria,
baras e os futuros imperadores seriam nada mais que peças deco- um templo que guardava documentos preciosos remanescentes da
rativas em um cenário de completa decadência. destruição da famosa biblioteca.
Nascido em Cauca, atual Espanha, em 346, Theodosius cres- Em uma revolta liderada pelo bispo Theophilus e endossada
ceu em um ambiente militar. Seu pai, Theodosius, o Velho, era um por Theodosius por volta de 392, o templo dedicado a Serapis foi
oficial de alta patente nas frentes do império regido por Valentinia- destruído. A aniquilação aos templos pagãos espalhou-se, princi-
no I. O jovem Theodosius acompanhou as campanhas do pai pela palmente no Egito, comprometendo de forma incalculável os re-
Bretanha em 368. Theodosius, o Velho, foi executado após perder gistros históricos da região. Tudo em nome da religião cristã.
duas legiões em uma batalha em 374. Feriados pagãos foram abolidos e transformados em dias úteis.
Theodosius foi alçado ao posto de co-imperador no Orien- Por todo o Império, o perfil religioso foi profundamente alterado,
te por Graciano, em 378. Sua performance nos anos seguintes e incluindo o corte de verbas para cultos greco-romanos remanes-
a eficácia com que eliminou usurpadores durante a regência de centes. O Fogo Eterno que queimou por séculos sob a responsa-
­Valentiniano II levaram-no ao posto máximo de Augustus. bilidade das Virgens Vestais foi apagado. Uma das últimas vítimas
da inveterada reforma cristã foram os Jogos Olímpicos, que louva-
O CRISTIANISMO vam os antigos deuses gregos. A última edição aconteceu em 393.
A definição de cristianismo na época era bastante controversa. Theodosius falhou até mesmo em diferenciar o esporte da religião.
Facções divergiam e se destruíam quanto à natureza de ­Cristo, de
Deus e do Espírito Santo. Theodosius já vinha debatendo o assun- A DIVISÃO DO IMPÉRIO
to com seus antecessores e havia sido batizado durante uma doen- Antes de morrer, Theodosius dividiu o Império entre seus dois
ça grave. Após séculos de perseguição e obscurantismo, os cristãos filhos, Flavius Arcadius e Flavius Augustus Honorius. Enquanto o
estavam dando a volta por cima. As diferenças entre um culto e pai demonstrava pulso forte, seus filhos acabavam por destruir
outro eram levadas a ferro e fogo, principalmente quando o impe- todo seu esforço. Honorius regeu o Império Romano do Ocidente
rador resolveu apoiar os ritos cristãos e nicênicos. por 28 anos como um fantoche nas mãos do conselheiro vânda-
Proibições foram promulgadas, tornando atividades como sa- lo Stilicho. Foi durante sua regência, com a capital situada em Ra-

Imperadores Romanos
40 Grandes Líderes da História
Constantinopla
Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

Antes de morrer, Theodosius dividiu o Império entre seus dois filhos,


Flavius Arcadius e Flavius Augustus Honorius. Enquanto o pai demonstrava
pulso forte, seus filhos acabavam por destruir todo seu esforço. Honorius
regeu o Império Romano do Ocidente por 28 anos como um fantoche nas mãos
do conselheiro vândalo Stilicho. Do outro lado, Arcadius também não tinha
grandes habilidades políticas ou intelectuais

vena, que Roma foi invadida, coincidentemente pelos vândalos, e e Basiliscus, não reconheceram Romulus como imperador. Diante
­destruída em 410. de tanta instabilidade política e ameaças de invasões germânicas,
Do outro lado, Arcadius também não tinha grandes habilidades a vida de Orestes não podia durar muito. Ele foi assassinado exa-
políticas ou intelectuais. Foi manipulado pela esposa Aelia Eudóxia, tamente um ano após o golpe, por mercenários de Odoarco. Os
pelos conselheiros Rufinus e Eutropius e pelo prefeito pretoriano mercenários tomaram Ravena e depuseram o jovem Romulus em
Anthemius, que era o verdadeiro regente enquanto Arcadius escon- 4 de setembro de 476. Embora emblemática, essa data não deve-
dia sua fraqueza sob o manto imaculado da fidelidade religiosa. ria ser registrada como o fim do Império Romano do Ocidente. A
A derrocada lenta do Império do Ocidente continuou com suces- autoridade de Roma sobre os territórios já estava completamente
sivas invasões e regentes cada vez menos capazes de reverter o qua- extinta há décadas.
dro de calamidade. Flavius Romulus Augustus foi o último imperador Romulus Augustus foi poupado por Odoarco, vivendo o resto
ocidental. Seu pai, Flavius Orestes, derrubou Julius Nepos por meio de sua vida com um estipêndio anual provido pelo mercenário e,
de um golpe de Estado em 28 de agosto de 475. Flavius Romulus, depois, por Teodorico o Grande, que conquistou a Itália em 507. A
ainda um adolescente, foi guindado ao posto de imperador para que Itália só voltaria a ser livre em 536. Odoarco serviu como vice-rei
seu pai pudesse reger. Orestes havia sido considerado inelegível. da Itália por meio de concessão de Zeno e com consentimento de
Nepos, foragido na Dalmácia, continuou agindo como sobe- Julius Nepos. A cidade e o Império fundados por Rômulo, mil anos
rano até sua morte em 480. Os co-imperadores do Oriente, Zeno atrás, não existiam mais.

Grandes Líderes da História 41


O FI M

A derrocada
Império
A
queda de um império gigantesco, como o romano, o Edward Gibbon foi o primeiro historiador moderno em vários
britânico ou o mongol, não acontece da noite para o aspectos. Foi idéia sua o uso dos rodapés e anotações bibliográfi-
dia. Não se proclama pelos quatro cantos: “O Impé- cas. E, especificamente nesse trabalho, foi o primeiro a buscar uma
rio caiu ontem!”. A decadência se instala de forma teoria para a causa da queda do Império. Talvez influenciado ­pelas
crônica e, paulatinamente, vai consumindo os alicer- idéias iluministas, ele tendeu a romper com a Igreja e acusou o
ces que sustentavam a estrutura. Para os historiadores, a contenda catoli­cismo por alguns danos importantes.
é secular. De um lado, estão as evidências e os escritos históricos, Segundo Gibbon, o processo de adoção e, finalmente, a insti-
maculados pela opinião pessoal dos escribas que viveram a época. tuição obrigatória do cristianismo por Theodosius minou as institui-
Do outro, novas teorias contemporâneas tentam encontrar os fatores ções romanas. A crença em uma continuação da vida após a mor-
parcamente registrados, reconstruindo um quebra-cabeça no qual te poderia ter causado o esmorecimento da população perante os
muitas peças foram destruídas pelo tempo ou pelo próprio homem. problemas internos e externos. O império dos céus pareceu mais
Teorias não faltam para explicar o declínio e a queda do Império atraente aos cristãos do que o Império terreno. O pacifismo prega-
Romano. Essa questão tem ocupado acadêmicos por séculos e ain- do pela Igreja e pelos ensinamentos de Jesus teria também lavado
da promete continuar assim por muitos outros. O termo “declínio a ânsia militar tão arraigada no início do império. A teoria do histo-
e queda” é usado para descrever o período de deterioração sócio- riador inglês abrange outros tópicos relevantes, como a corrupção e
política e a queda do último remanescente do título de Augustus as falhas nos procedimentos sucessórios.
no Ocidente. O primeiro a usar essa frase foi o historiador inglês Essas observações de Gibbon causaram estranheza na socieda-
Edward Gibbon, no título de seu trabalho em três volumes “The de do século 18, levantando críticas ferrenhas contra seu trabalho.
Decline and Fall of the Roman Empire” (“Declínio e Queda do Im- Rotulado como um escritor pagão, pagou caro por ter relegado a
pério Romano”, 1776-1788). história oficial a um segundo plano, privilegiando os textos origi-
Gibbon tentou reconstruir o cenário a partir de Marcus Aurelius, nais. Um de seus maiores feitos foi provar que a Igreja havia altera-
em 180, passando pela cisão entre Roma e Constantinopla com a do fatos inerentes à perseguição cristã durante os primeiros séculos
morte de Theodosius e cobrindo os próximos mil anos com a his- do Império. No texto, o autor explica que, na verdade, os vilões de
tória do Império Romano do Oriente, o Bizantino. Seu trabalho de fato foram os próprios cristãos enquanto disputavam qual seria a
reconstrução histórica é admirado até hoje. Gibbon foi o precursor doutrina a ser seguida entre suas facções diferentes. Ao final, ­ficava
dos historiadores modernos, quebrando dogmas e criando meios claro que o cristianismo atual havia sido forjado a ferro e fogo, e
objetivos de pesquisa. não por meio de corações iluminados e inspiração divina.
Em primeira instância, o livro é de suma importância por con-
testar a “história oficial” contada pelas Igrejas Católica e Ortodo- TEORIAS
xa. Gibbon foi diretamente às fontes originais, resgatando textos de Apesar de baseada em documentos confiáveis, a visão de
historiadores conhecidos e anônimos da época. Seu discernimento, ­ ibbon reflete sua época. Durante o Iluminismo, a necessida-
G
ajudado pela febre do Iluminismo, resultaram em uma nova verda- de dos intelectuais de se livrar dos grilhões culturais da Igreja era
de sobre o Império Romano e a Igreja Católica. urgente. O atraso intelectual causado pelas instituições religiosas

Imperadores Romanos
42 Grandes Líderes da História
do
Tão difícil como explicar o surgimento da hegemonia
é explicar sua queda, pois não foi um evento, mas um

Romano
processo que durou três séculos... Ou mais

Há correntes
acadêmicas
que acreditam que
o Império Romano
já estava fadado
ao fracasso
desde seus
primórdios. Com
a imposição
do novo governo
em substituição
à República,
instituições como o
Senado passaram
a sofrer uma
deterioração
constante até
desaparecerem

Grandes Líderes da História 43


O FI M

não podia mais ser tolerado. Somente com atitudes similares à de


Edward ­Gibbon, o homem entrou em uma era de desenvolvimento
­tecnológico e prático. A sucessão de
Para outros que vieram depois de Gibbon, as causas pareciam
assassinatos e
desmandos dos
diferentes. Nos anos de 1920, dois historiadores se debruçaram so-
bre o assunto e desenvolveram percepções diversas. Mais uma vez,
a situação atual refletiu-se nas considerações sobre o passado. A cé-
lebre e ainda influente “Teoria de Pirenne” alega que o Império não imperadores foi o
terminou com a rendição de Romulus Augustus em 476, mas que
melhor exemplo da
terra sem lei
continou de outras formas até o século 7º. Para Pirenne, somente o
domínio árabe do Mediterrâneo e a perda das rotas comerciais de-
terminaram o final dos romanos.
Em 1926, o russo M. I. Rostovtzeff deu seu parecer com a pu- que cobriu Roma após
blicação de “A História Social e Econômica do Império Romano”. Ao
o fim da República.
A contradição
lado de Gibbon e Pirenne, Rostovtzeff coloca-se como um dos mais
respeitados teóricos sobre o assunto. Ao mesmo tempo, sua posi-
ção marxista o leva a considerações de natureza social e econômica
em detrimento das causas morais e culturais sugeridas por Gibbon. fica por conta de
Todos concordam que a decadência seguiu um caminho inexorável
que o Direito
Romano é o
até a extinção total, sem deixar uma data específica para a tão pro-
curada “queda”.
Autores mais contemporâneos procuram evitar periodizações e
datas absolutas para eventos dessa natureza. A. H. M. Jones, em baluarte das teorias
“The Later Roman Empire” (O Final do Império Romano, de 1964)
e Peter Brown com “The World of Late Antiquity” (O Mundo do
jurídicas até hoje
­Final da Antiguidade, de 1971) preferem se aproximar do tema pela
ótica da transformação e do desenvolvimento em outros setores.
Para Brown, os romanos já estavam experimentando as sementes
que germinariam no sistema feudal. OUTRAS VISÕES
Para Arther Ferrill, professor de História da Universidade de Wa- A falta de um motivo claro para a que-
shington, EUA, as constantes invasões bárbaras levaram a um retro- da dos romanos levou historiadores e lei- Ilustração: Luiz Gustavo Bueno

cesso cultural entre a população e, principalmente, entre os soldados gos às mais absurdas teorias. Explicações
das fronteiras. Ao mesmo tempo, os chamados bárbaros, tão facil- de ordem econômica, moral, política, cul-
mente rechaçados no final da República, equipararam-se belicamen- tural, psicológica e até de higiênica e ge-
te com os romanos. Decadência, complacência e falta de disciplina nética são levantadas. Uma das mais in-
abriram as portas do Império para tribos germânicas e eslavas. teressantes é a de que a utilização de en-
O professor alemão Alexander Demandt publicou, em 1984, canamentos de chumbo dos aquedutos
uma coleção com 210 possíveis motivos que levaram ao fim do Im- mataram muitos da aristocracia e deixaram
pério. Há correntes acadêmicas que acreditam que ele já es­tava fa- outros estéreis. De fato, a elite romana pa-
dado ao fracasso desde seus primórdios. Com a imposição do novo recia ter uma grande dificuldade no campo
governo em substituição à República, instituições como o Senado da procriação, o que sempre acarretava em disputas sucessórias.
passaram a sofrer uma deterioração constante até desaparecerem. Em outras teorias, o sistema de governo é açoitado cruelmente.
Essa falta de estrutura aparece também nos mecanismos ad- A ineficiência dos romanos em criar uma Constituição e um com-
ministrativos, principalmente orçamentários, que dependiam uni- plicado sistema jurídico podem ter cooperado no crescente desin-
camente de impostos e saques. Os impostos e taxas se tornaram teresse da população por seus direitos, ignorando seus governantes
cada vez mais abusivos contra os pequenos produtores enquanto como resultado final. O peso da burocracia crescente para acomo-
as elites permaneciam isentas. Os saques chegaram ao fim quan- dar favorecidos fazia com que o direito do cidadão fosse cada vez
do o Império atingiu sua maior extensão territorial. O déficit criado menos atendido. O aumento contínuo das taxações levou um nú-
através dos gastos militares e dos excessos de luxo no Senado e no mero gigantesco de cidadãos à margem da sociedade.
principado só aumentou com o passar do tempo, culminando em Esses períodos intermitentes de desemprego e ócio culminaram
inflação e desemprego. na política do “Pane et circensis” (Pão e circo). O governo promo-

Imperadores Romanos
44 Grandes Líderes da História
via jogos caríssimos com gladiadores e animais selvagens para dis- a­ cobertadas, pois não havia outro instrumento de interferência
trair a população. O povo só sorria com a barriga cheia, portan- além de uma adaga nas costas. Os senadores e aristocratas roma-
to o governo também providenciava comida grátis. É preciso lem- nos, portanto, brincavam no poder como crianças em um acam-
brar que essa política populista era centralizada na cidade de Roma, pamento de férias. Honra e fidelidade eram apenas palavras
onde os cidadãos tinham direitos muito maiores que os do resto do ­usadas nos discursos dos eloqüentes senadores, mas raramente
Império. Mas era também Roma o celeiro intelectual e político do colocadas na prática.
governo e talvez essa falta de objetivos a serem alcançados tenha A sucessão de assassinatos e desmandos dos imperadores foi
minado a força de vontade de seus habitantes. o melhor exemplo da terra sem lei que cobriu Roma após o fim da
Assim como vemos hoje em governos por todo o mundo, os República. A contradição fica por conta de que o Direito Romano
romanos tinham seu sistema de propinas e corrupção bastante é o baluarte das teorias jurídicas até hoje. A arbitrariedade com
afiado. Além disso, as falcatruas não precisavam ser tão bem- que a Guarda Pretoriana dispunha da vida dos governantes é ab-

Grandes Líderes da História 45


O FI M

surda, sendo apenas um dos exemplos da fragili- a primeira invasão gótica a Roma, em 410, seguida
dade do sistema. pela comandada por Odoarco, em 476, que
Após a divisão final promovida por resultou na rendição de Romulus.
Theodosius entre seus filhos Hono- Nesse período final do século
rius e Arcadius, as duas metades 5o, a decadência de Roma já era
do Império sofreram. Em pri- tão notória que os comentaris-
meiro lugar, pela regência ma- tas da época sequer percebe-
nipulada de imperadores-mi- ram a chamada “queda”.
rins; em segundo, pela pró- Somente algumas décadas
pria sucessão de outros depois, algum historiador
infantes no trono. Mas o empregado em Constan-
lado leste do Império pa- tinopla lembrou de regis-
receu suportar melhor os trar que “o Império inicia-
augúrios, livre de hordas do por Augustus em 27
bárbaras e constantes de- a.C. havia se encerrado
sarranjos civis que leva- em 476.” Mas, aparente-
ram a população à fome e mente, esse fato não mu-
aos saques. dou muito o que já estava
Ao passo que a popula- estabelecido. A influência do
ção em geral se desesperava imperador já não era mais a
com cada vez menos trabalho e mesma e, quando Romulus saiu
proteção, os senhores da elite se de cena, o curso dos eventos não
fechavam cada vez mais em suas vilas mudou. Nem mesmo as moedas e
auto-suficientes. Para se proteger tanto taxas. Aparentemente as ­administrações
dos bárbaros quanto do próprio povo, os ricos locais continuaram funcionando.
fortificaram suas propriedades e contrataram exérci- Há outras tentativas de comparação entre as
tos particulares. Essa fase de poucos registros históricos seria o início duas metades do Império que buscam entender a morte de um e
da Idade Média, onde o Feudalismo tomaria de assalto a maior par- a sobrevivência de outro por mais de mil anos. No oeste, as pes­
te da Europa. soas não estavam acostumadas à urbanização implementada pe-
los ­romanos. Na Ásia e no Oriente Médio, as civilizações eram
O OUTRO IMPÉRIO muito mais antigas e organizadas. As fronteiras do leste da Eu­ropa
Em alguns momentos surge uma ponta de dúvida se o Impé- eram extensas e a população era pequena para sustentar legiões
rio Romano do Oriente não teve um papel indireto na destruição do de defesa. No Oriente, as fronteiras eram mais estratégicas e a
Império Ocidental. Melhor armado e organizado, o exército oriental população era bem maior que a européia. A produção de grãos
não era muito atrativo para as tribos bárbaras, que preferiram atacar do Egito, por exemplo, era maior que de toda a Europa. Do ou-
em peso as fronteiras ocidentais. O golpe final parece ter sido mesmo tro lado, Roma era um exemplo de cidade totalmente dependen-

Em alguns momentos surge uma ponta de dúvida se o Império Romano do


Oriente não teve um papel indireto na destruição do Império ocidental.
Melhor armado e organizado, o exército oriental não era
muito atrativo para as tribos bárbaras, que preferiram atacar
em peso as fronteiras ocidentais. O golpe final parece ter sido mesmo a
primeira invasão gótica a Roma, em 410, seguida pela comandada por
Odoarco, em 476, que resultou na rendição de Romulus
Imperadores Romanos
46 Grandes Líderes da História
te. Assim, quando aconteceu a cisão entre Roma e Constantinopla,
as remessas de produtos e impostos cessaram. Os grãos vindos da
África e do Oriente desapareceram e promoveram um êxodo urba-
no nas províncias italianas, gaulesas, hispânicas e britânicas.
Se o sistema político entrou em colapso, outros elementos per-
maneceram inalterados. Roma já não providenciava segurança às
cidades já há algum tempo, incapaz de combater as invasões das
tribos além do Reno e do Danúbio. Portanto, a vida no campo não
foi alterada substancialmente. As leis continuaram as mesmas, as-
sim como a moeda corrente, a língua e a religião cristã. Com o pas-
sar dos séculos, as influências greco-romanas convergiram para as
margens do Mediterrâneo enquanto no continente as tradições lo-
cais se fundiram com o que havia restado do Império. Línguas como
o espanhol, o francês, o português e o catalão surgiram da fusão de
dialetos ancestrais com o latim.
O Império Romano e sua influência ficaram adormecidos até a
Alta Idade Média, quando o Renascimento italiano trouxe de vol-
ta os ideais de beleza greco-romanos. Michelângelo, Leonardo Da
Vinci e Rafael reviveram a escultura e a pintura ao lado das gran-
des construções dos domos romanos e colunas dóricas. Na filosofia,
Aristóteles permaneceu em voga e na literatura William Shakespea-
re revisitou as comédias romanas.
As conquistas de Napoleão nos séculos 17 e 18 foram calcadas
em ideais romanos. A invasão do Egito e a redescoberta das pirâmi-
des trouxeram de volta o ar, mesmo que ranço, das histórias de Júlio
César, Marco Antônio, Cleópatra e Augustus. De uma forma ou de

Ilustrações: Luiz Gustavo Bueno


outra, a cultura romana, inspirada na grega, ainda alimenta ativa ou
subjetivamente a literatura, a política e outras áreas do c­ onhecimento
humano do século 21. Se o Império Romano realmente terminou na
data exata de 476, ninguém pode afirmar com certeza, mas pode-
mos sentir que seu legado continua vivo até hoje.

O IMPÉRIO BIZANTIN
O (330-1453)
O Império Romano do
Oriente sobreviveu
mil anos a mais que mas em pouco mais de
sua metade ocidental 10 anos essa vitória foi
. Bi- destruída pelos lomba
zantino é um termo rdos. A perda da Sicília
usado para diferenciar ,
Império Romano com o do Egito e quase de tod
capital em Constatino a a costa norte da Áfr
pla ca aconteceu no século o i-
– fundada por Constant 7 . Cada vez menos in-
ino em 330 – e com
grego como língua ofi o fluente e com disputas
cial. Constatino promo religiosas com a Santa
veu uma maciça promo - Sé de Roma, a Igreja
ção dos ideais helenísti- de Constantinopla se
parou da Católica em se-
cos aliado à completa 1054, criando-se assim
cristianização do povo. a
O termo “bizantino” Igreja Ortodoxa.
vem de Bizâncio, anti-
go nome da cidade de Derrotas sucessivas,
Constantinopla. O Impé como a perda das
rio não sobreviveu com - ­últimas posses na Itália
louros ou grandes asp para os normandos e
i- conquista de Constant a
rações após a separa inopla pelos Cruzados
ção de Roma. Na me em
tade 1204 minaram o Império
do século 6o, o impera até seu derradeiro des
dor Justiniano promo -
veu tino em 1453, com a
a retomada da Itália, invasão dos Turco-Oto
invadida pelos vândal ma-
os, nos e a tomada definit
iva de Constantinopla
.

Grandes Líderes da História 47


GU I A

QUA D RINHOS E F ILME S


Reviva os dias conturbados deste período da história
em obras literárias e cinematográficas

História de verdade
em quadrinhos
Asterix, um dos personagens mais famosos dos
quadrinhos, traz um retrato fiel da invasão de
Júlio César na Gália. Em 50 a.C., uma aldeia
povoada por irredutíveis gauleses...

ainda insiste em lutar contra o domínio dos romanos. Além do


­orgulho de seus moradores, a aldeia conta também com uma
arma secreta contra o inimigo: uma poção mágica que lhes dá

A série de álbuns de Asterix foi criada em 1959 por René


Goscinny e Albert Uderzo para a revista francesa Pilote.
Rapidamente, o sucesso do pequeno gaulês conquistou o mun-
força sobre-humana.
Um dos pivôs do sucesso de Asterix é o cuidado histórico
com que os autores construíram os roteiros. Cursinhos pré-vesti-
do e o tornou-se um dos personagens mais famosos do planeta. bulares incentivam os alunos a lerem Asterix para entender a po-
As histórias foram traduzidas para dezenas de idiomas, venden- lítica, a geografia e a organização do Império Romano. As histó-
do milhões de exemplares nesses quase 50 anos de existência. rias atendem tanto o gosto dos adultos quanto o das crianças.
­Asterix virou desenho animado, filme co-estrelado por Gerard O roteirista Goscinny criou um universo em vários níveis,
Depardieu, e até um parque temático gigantesco perto de Paris. permitindo cenas engraçadas e trabalhando com uma metáfo-
Com mais de 30 álbuns publicados, as histórias de Aste- ra interessante para os anos de 1960 que perdura até hoje. A
rix são localizadas em uma pequena aldeia gaulesa no ano 50 ­pequena aldeia gaulesa é o espírito francês enfrentando a colo-
a.C., totalmente cercada pelas forças romanas de Júlio César. nização do império norte-americano do pós-guerra.
A Gália toda já está conquistada, mas essa pequena aldeia Asterix é o guerreiro mais respeitado da aldeia e preferi-

Imperadores Romanos
48 Grandes Líderes da História
Divulgação
do do druida Panoramix. Seu melhor amigo é o obeso Obelix, dos Simpsons, de Matt Groening.
que caiu no caldeirão da poção mágica quando criança. Perso­ Ingleses são mostrados como um povo extremamente edu-
nagens carismáticos não faltam, com o chefe Abracurcix e o cado que bebe cerveja quente e uma água sem gosto (chá). Os
bardo insuportável Chatotorix. A aldeia funciona como uma godos se parecem com os alemães, sempre envolvidos com seus
grande família, com brigas constantes entre seus moradores, aliados em ações militares em alusão à Primeira e à ­Segunda
mas que param tudo para dar uma boa surra em qualquer le- Guerra. A Hispânia (Espanha) é mostrada como a colônia de fé-
gião romana que esteja por perto. rias dos gauleses (franceses), por ter um custo de vida mais bai-
A presença dos exércitos romanos na série é hilária e, even- xo. Dentro da própria França, as diferenças de uma região para
tualmente Asterix e Obelix têm de cumprir missões em outros outra são exploradas, colocando os marselheses, por exemplo,
cantos do Império. Aventuras acontecem na Bretanha (Inglater- como decoradores incorrigíveis, e os habitantes de Reims como
ra), Roma e Egito. Os nomes são fiéis aos da época, como Lug- beberrões insaciáveis. Obviamente os romanos são explorados
dunum para Lyon e Lutécia para Paris. Alguns enredos mostram como senhores da guerra que não conseguem controlar seus
planos arquitetados pelos romanos para conquistar a aldeia, se próprios legionários.
não pela força, pela ganância ou pela inveja. Em uma das his- Com a morte de Goscinny em 1977, Uderzo continuou o
tórias, “Obelix & Cia”, Goscinny e Uderzo dão uma verdadeira trabalho sozinho, escrevendo e desenhando as histórias. En-
aula de economia. quanto os primeiros álbuns traziam um humor típico francês,
Quando visitam as diferentes províncias do Império, os he- os mais novos buscam uma linguagem mais universal. É im-
róis encontram estereótipos e caricaturas da cultura do século possível calcular quantos álbuns de Asterix foram vendidos.
20. Quando o gladiador Spartacus apareceu nos quadrinhos, Centenas de milhões de exemplares e mais alguns bilhões de
por exemplo, Uderzo se preocupou em desenhá-lo parecido gargalhadas foram espalhados pelo planeta por esses carismá-
com Kirk Douglas, que fez o papel do rebelde no cinema. Mui- ticos personagens.
tos outros aparecem da mesma forma, como Stan Laurel e Oli- No Brasil, os livros foram lançados na década de 1970 pela
ver Hardy (O Gordo e o Magro) ou até o presidente francês Cedibra e, atualmente, são editados pela Editora Record, à
­Jacques Chirac. Essa idéia foi explorada depois nos episódios ­venda em todas as livrarias.

Grandes Líderes da História 49


GU I A

Filmes
A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (1964) (John Gavin), Varínia (Jean Simmons) e Sempronius
Direção: Anthony Mann Gracchus (Charles Laughton)
Personagens: Marcus Aurelius (Alec Guinness), Lucilla Duração: 198 minutos
(Sophia Loren), Livius (Stephen Boyd), Commodus
(Christopher Plummer) e outros A produção de Spartacus, ba-
Duração: 188 minutos seado no livro de Howard Fast de
mesmo nome, não foi tarefa fácil.
Com a iminente morte do Guerras de ego, ­caprichos mesqui-
imperador Marcus Aurelius, o nhos e excesso de genialidade cau-
general Livius e o herdeiro Com- saram muitos problemas durante a
modus acabam disputando o realização do filme. Kubrick e Dou-
trono do Império Romano e a glas, que produziu o filme, não
atenção de Lucilla, filha de Au- eram as únicas estrelas do time.
relius. A produção desse épico é Problemas com Olivier e Laughton
absurdamente gigantesca, com sobre detalhes e linhas de fala qua-
milhares de figurantes atuan- se acabaram nos tribunais.
do nas batalhas e no funeral do O filme em si é espetacular, com Kubrick desfilando sua
imperador morto. As atuações e perfeição em cada detalhe e atuações clássicas de grandes
a história seguem o padrão dos nomes de Hollywood. A história não poderia ser mais apelati-
épicos dos anos de 1960, com va, contando a vitória de um simples escravo trácio, compra-
cacoetes teatrais e enredo fraco. Mas o verdadeiro chamariz do como gladiador, que lidera uma revolta da plebe e toma da
são a fotografia e a produção, que reconstruíram prédios in- cidade de Roma. As cenas de batalhas entre a guarda ­romana
teiros que acabaram por servir até aos historiadores. e as hordas chefiadas por Spartacus são memoráveis.
A acuidade histórica do longa chega a ser notável, mas Spartacus e seus aliados planejam fugir de Roma, mas as
não perfeita. As relações entre Commodus e sua irmã, por investidas do exército não lhes deixam outra alternativa além
exemplo, são retratadas com muito mais intensidade nos de lutar e lutar. Os escravos não sabem, mas não passam de
documentos históricos. A base que serviu para a constru- peões no jogo de poder entre o grande senador Gracchus e o
ção do filme foram os livros do inglês Edward Gibbon, de homem que almeja ser o ditador da República Romana, Cras-
onde o nome do filme foi tirado. Os roteiristas, entre eles Ben sus. Na história real, acredita-se que os homens de Spartacus
­Barzman, tiveram a consultoria do historiador Will Durant. A tomaram gosto pela batalha e acreditaram que seriam mes-
falta de fidelidade histórica da versão final do filme colocou o mo capazes de tomar Roma. A empolgação dos escravos não
acadêmico em maus lençóis perante seus colegas. durou muito quando duas legiões arrasaram sumariamente
De qualquer maneira, em uma coisa o filme acerta: a rebelião.
Commodus é colocado na posição de pivô do início da que- Mesmo sendo um dos mais aclamados épicos de
da do Império. O filme de Mann é louvado pelos fãs do ci- Hollywood, Stanley Kubrick nunca reconheceu “Spartacus”.
nema por ser um dos maiores épicos de todos os tempos. Para ele, as imposições feitas pela produção e pelos próprios
Recentemente, a produção recuperou um pouco da aten- atores tolheram sua liberdade. Ele renegou o filme e pediu
ção desgastada através das décadas com o lançamento de que seu nome fosse retirado dos créditos. Uma atitude típi-
“Gladiador”, de Ridley Scott. No papel de Commodus, Jo- ca de Kubrick, ainda mais se lembrarmos que o incomparável
aquin Phoenix enfrenta a ira de Maximus (Russell Crowe). diretor foi chamado às pressas para dirigir o filme já em pro-
Mesmo sendo fictício, o personagem de Crowe tem um fun- dução. Kubrick era apenas um diretor estreante de 31 anos,
do real.Commodus provavelmente foi assassinado por um entrando em uma arena com as maiores feras da Hollywood
gladiador enfurecido. dos anos de 1950. Do outro lado, Douglas também quebrou
barreiras tanto como ator quanto como produtor. Uma de
SPARTACUS (1960) suas maiores ousadias foi contratar o proscrito roteirista Dal-
Direção: Stanley Kubrick ton Trumbo, um dos nomes da lista negra de Hollywood após
Personagens: Spartacus (Kirk Douglas), a hipócrita caça às bruxas promovida pelo Comitê de Ativida-
Marcus Licinius Crassus (Laurence Olivier), Julius Caesar des Anti-Americanas na década anterior.

Imperadores Romanos
50 Grandes Líderes da História