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Este tempo da vida de Jesus que os Evangelhos não narram sempre despertou em nós muita

curiosidade. Deste período nos Evangelhos encontramos apenas a passagem de Jesus no


Templo aos 12 anos de idade, discutindo com os doutores da lei. Depois disto um grande
silêncio que vai até o início da vida pública de Jesus.

Se buscarmos explicações os proprios evangelhos nos fornecem. Inicialmente constatamos que


os 4 evangelhos oficiais, escritos pelos evangelistas, em locais diferentes do Império Romano
confirmam Comunidades de origem heterogêneas e com dificuldades próprias. Os evangelistas
colocaram por escrito aquilo que oralmente as comuniddes lembravam a respeito da vida de
Jesus e que serviam de testemunho e força para a comunidade vencer as adversidades. É de se
considerar que os fatos a respeito da vida de Jesus que marcavam as comunidades eram os
acontecimentos da vida pública de Jesus e pouco importância foi dada para a sua vida privada
no recanto da casa de Nazaré com Maria e José.

Mas por outro lado os textos que aparecem sobre Jesus deste período poderão nos ajudar a
reconstruir elementos da sua vida oculta em Nazaré.

Os anos esquecidos de Jesus em Nazaré com Maria e José

Um episódio único deste período encontramos nos evangelhos. Jesus contava com 12 anos e
numa Festa da Páscoa como era tradição Judaica, festa de preceito com peregrinação a
Jerusalém, ele com sua familia foram para a cidade de Jerusalém segundo a narrativa de Lucas.
Jesus se perdeu em Jerusalém durante a festa da Páscoa e como Maria e José o encontram no
Templo, sentado em meio aos doutores, ouvindo-os e interrogando-os e todos os que o ouviam
ficavam extasiados com sua inteligência e com suas respostas (Lc 2,46-47), A narrativa de Lucas
nos conta que a sagrada família retornou para Nazaré e nada mais encontramos por escrito da
vida de Jesus até os 30 anos.

A ausência de textos nos evangelhos para nos contar da vida de Jesus neste período alimentou
a imaginação dos escritores que passaram a contar fatos inusitados da vida de Jesus. As
afirmações são desde que Jesus esteve, na India com os Budas que o ensinaram a ler e a
escrever, que esteve no Egito, conhecendo os segredos dos Faraós, que esteve na Inglaterra
com José de Arimatéia e entrou em contato com a religião dos Celtas. Alguns escritores
andaram dizendo que esteve na América onde entrou em contato com a sabedoria dos antigos
peles vermelhas.

A leitura atenta dos Evangelhos como primeira fonte

O leitor desatento dos evangelhos poderá chegar a conclusão que existe um grande vazio de
conhecimento dos 12 anos de Jesus até os 30 anos. Mas será isto verdade. No evangelho de
Lucas encontramos pistas importantes para esclarecer os fatos. Lucas no início do Evangelho
narra que Jesus uma vez apresentado no Templo segundo a prescrição judaica e as ofertas
rituais segundo a Lei, “voltou para Galiléia, para Nazaré, sua cidade. E o menino crescia,
tornava-se robusto, enchia-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com êle” (Lc,39-40).
Assim podemos dizer que Jesus passou dos 12 anos até os 30 anos na cidade de Nazaré. Ele era
um adolescente comum, de sua época, crescendo fisicamente e intelectualmente e ajudava seu
pai adotivo José na carpintaria e na vida agrícola, pois a cidade não comportava o trabalho
único e exclusivo da profissão de carpinteiro durante todo o tempo.

Encontramos nos evangelhos um segundo texto: Lucas 2,51-52. Este texto confirma o
pensamento do primeiro narrando a perda de Jesus em Jerusalém com 12 anos de idade.

Jesus era um jovem como qualquer outro de sua terra

O evangelista Lucas simplesmente narra que depois do acontecimento da perda no Templo


Jesus voltou para Nazaré. Podemos então concluir que Jesus permaneceu em seu círculo
familiar, era submisso a José e Maria. Jesus estudou e trabalhou como qualquer Jovem Judeu
de sua época.

Marcos confirma este dado, quando descreve que Jesus pregou pela primeira vez na sinagoga
de Nazaré e todos os presente neste acontecimento se assombraram e disseram: “De onde lhe
vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada ? E como se fazem tais milagres por sua
mãos? Não é este o filho do carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão?”
(Mc 6,2–3). A vida de Jesus transcorreu, no pacato vilarejo de Nazaré e no dia que se
apresentou na sinagoga de Nazaré causou surpresa a todos os conterrâneos. Mas afinal como
conseguiu Jesus toda esta sabedoria, se êle é filho de pessoas conhecidas, José o carpinteiro e
Maria. Se Jesus tivesse a oportunidade de estudar em Jerusalém ou ter viajado conforme os
fatos que citamos anteriormente, este espanto não teria acontecido.

Entretanto, as indagações continuam, como poderemos encontrar fatos a respeito de Jesus


durante este período? Como podemos ter informações a respeito de Jesus além de sua idas a
Jerusalém nos períodos de peregrinações da religião Judaica a Jerusalém, ou de alguma viagem
as cidades vizinhas de Nazaré. Hoje contamos com as narrativas literárias da época e das
descobertas arqueológicas que muito nos ajudam.

Jesus um nome muito comum da época?

Conforme ordenava o livro do Genesis 17,12, os pais escolhiam o nome da criança e


apresentavam ao sacerdote do templo fazendo uma oferta de sacrifício conforme a prescrição
da lei judaica. Assim o nome escolhido por José e Maria foi foi Yehoshua, que em hebraico
significa Josué, na região da Galileia, onde se falava de um modo diferente do resto do país,
abreviava-se o nome e pronunciava-se Yeshu. Os primeiros cristãos de origem grega traduziram
por Jesus.

O nome de Yeshua, era dos nomes mais comuns e ordinários da época, muitas familias davam
este nome aos filhos. O escritor Flávio Josefo, que descreveu a história Judaica de sua época
menciona mais de 20 pessoas que se chamavam Jesus das quais, pelo menos 10 são do tempo
de Jesus de Nazaré.

Em hebraico, Jesus (ou Josué) significa “Deus salva”. E segundo o evangelista Mateus, um anjo
disse a José: “dar-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados”(Mt
1,21).

Jesus sabia ler e escrever?


Podemos citar três episódios que afirmam esta verdade:

O primeiro é aquele da mulher surprendida em adultério. Jesus responde a pergunta dos


fareiseus escrevendo na areia “Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo
na terra” (Jo 8,6).

O segundo acontecido na sinagoga de Nazaré em que foi retirado pelos fariseus e era para ser
jogado no principício, “segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e
levantou-se para ler e lhe entregaram o livro do profeta Isaías…” (Lc 4,16-17).

O terceiro é aquele em que os judeus, ao ouvi-lo pregar em Jerusalém, se perguntaram


maravilhados: “Como é que este é letrado, se não estudou?” (Jo 7,15).

Embora estes três textos podem ser contestados, pois o primeiro pode mos dizer que Jesus só
traçou riscos na areia, no segundo são textos salteados de Isaías (isto é: Is 61,1; 58,6; e 61,2) e o
terceiro se pode dizer que Jesus sabia os textos de cor, como era comum na época. Apesar de
todas estas considerações olhando o contexto da época podemos acreditar que Jesus era um
menino comum, vivendo em Nazaré e percorreu os caminhos das crianças da época, aprendeu
a ler e a escrever.

A necessidade de aprender a ler e a escrever de toda a criança judaica

Olhando a literatura Judaica da época de Jesus vemos que toda a criança judaica, por motivos
religiosos necessitava aprender ler e a escrever. Jesus não fugiu esta regra do judaísmo.
Percorreu todos os caminhos que uma criança deveria percorrer.

Não temos, pois, nos Evangelhos provas seguras de que Jesus soubesse ler e escrever.
Entretanto podemos saber por outras vias.
Durante o tempo de infância de Jesus existia em Nazaré, uma pequena escola, aonde se
reuniam os meninos a partir dos 5 anos. O local por motivos religiosos estava anexo à sinagoga,
e o programa escolar constava de dois ciclos básicos fundamentais.

O primeiro ciclo durava cinco anos. Se iniciava com o alfabeto hebraico, logo que se dominava a
leitura se estudava a Bíblia ao ponto de decorar textos e junto com isto se ampliava os
conhecimentos em outras areas como geografia, história e gramatica hebraica.

Terminada esta primeira etapa, os meninos passavam para o segundo ciclo, que durava dois
anos. Neles, aplicavam-se ao conhecimento da “Lei Oral” judaica (chamada Mishná), isto é, às
interpretações e complementos que os doutores da Lei faziam das leis bíblicas.

Ao chegar aos 12 anos, os meninos terminavam os seus estudos. Se algum era particularmente
brilhante, então podia cursar estudos mais avançados; para isso tinha de ir para Jerusalém ou
outra cidade importante do país, e inscrever-se nas escolas dirigidas pelos mais célebres
doutores da Lei. Mas isso era privilégio de uns poucos; a maioria dos jovens reintegrava-se na
sua família, onde começava a aprender com seu pai uma profissão para ganhar a vida.

Sem dúvida, Jesus, durante a sua infância, assistiu como todos os meninos da sua época nos
dois ciclos básicos escolares na sinagoga de Nazaré, onde aprendeu a ler e a escrever. Mas não
parece ter recebido o ensino superior próprio dos centros urbanos como Jerusalém. O
comentário que dele faziam os judeus dizendo: “Como é que este é letrado, se não estudou?” –
confirma-o.

Jesus era carpinteiro?

Qual foi a profissão que Jesus praticou na casa de seus pais? Pela literatura Judaica sabemos
que era uma obrigação do Pai encontrar um profissão para o filho. Como vimos, São Marcos diz
que quando Jesus pregou na sinagoga de Nazaré, os seus conterrâneos comentaram: “Não é
este o carpinteiro?” (Mc 6,3). Daí se ter pensado sempre que ele foi carpinteiro.
Com o tempo alguns estudiosos colocaram duvidas sobre esta profissão de Jesus: Afirmam que
outros evangelhos como Marcos e Lucas preferem ocultar esta profissão alegando ser ela não
bem vista na sociedade. Outros alegam que a Galiléia por ser uma região fertil todos se
dedicavam a agricultura. As Parábolas de Jesus sempre se utilizava de elementos vindos do
campo (o semeador, a semente, a cizânia, a vinha, a figueira, o grão de mostarda, etc.), e não
do ambiente da carpintaria…

O aludir tanto à agricultura nas suas Parábolas, em especial as do Reino de Deus, deve-se ao
fato do auditório estar formado, por agricultores e que Jesus trabalhou tambem como
agricultor, pois José não sobreviveria so da carpintaria, assim Jesus usou muito bem um recurso
do discurso da literatura Judaica as Parábolas e procurou adaptar sua linguagem aos ouvintes.
Podemos, pois, concluir que Jesus, durante os 30 anos da sua vida oculta, trabalhou como
carpinteiro.

Como rezava Jesus?

Jesus aprendeu a rezar, pois qualquer criança israelita, depois dos 13 anos, deveria rezar três
vezes por dia: de manhã, ao meio-dia e à noite segundo instruções dos livros biblicos (Sl 55,18;
Dn 6,11; Act 10,9).

Um judeu devia recitar por dia duas orações a partir da adolescência. A primeira chamava-se
“Shemá” (em hebraico, “Escuta”). E a segunda era a chamada “Shemoné Esre” (em hebraico,
“Dezoito”)

Foi neste clima de oração que Jesus cresceu e que o marcou profundamente seu tempo de vida
oculta.

A sinagoga de Nazaré nos sábados?


Desde a infância, aos sábados Jesus frequentava à sinagoga de Nazaré acompanhado pelos seus
pais José e Maria. Com o andar dos anos, ele foi aprendendo todas as orações e os ritos, até se
lhe tornarem fáceis e familiares.

Além da frequência na sinagoga, Jesus aprendeu que no sábado devia práticar o descanso total.
Assim, desde Sexta-feira à tarde ajudava a mãe nos preparativos do sábado, participava dos
rituais de abertura do sábado na família e da refeição no sábado na volta do serviço religioso na
sinagoga.

Concluindo

A vida oculta de Jesus, como podemos constatar não teve nada de extraordinário , como a
pintam as absurdas histórias e lendas sobre este período da vida de Jesus. Foi nesta atmosfera
simples e familiar, própria das aldeias da Galileia, que o menino Jesus cresceu, amadureceu e
descobriu a vida em uma familia simples, igual a tanta outras das aldeias da Galileia. Fazia parte
do coro dos meninos na escola, que recitavam textos da Biblia, ouvia o monótono golpear do
martelo de seu Pai José na carpintaria, ou o grito repetido da mãe, Maria chamando-o para casa
tirando-o da rua. Este foi o clima que Jesus viveu e assimilou durante 30 anos.

E quando chegou o tempo previsto em que o Pai do céu lhe pediu que deixasse tudo e fosse
anunciar a mensagem de salvação aos seus irmãos humanos, nunca se arrependeu dos anos
passados na pequena vila de Nazaré, na Galiléia, na sua casa, dos seus anos ocultos e
silenciosos; do seu trabalho na oficina de carpintaria. Nunca considerou esse tempo como
“perdido”, pois viveu cada dia e cada época como a melhor que tinha.

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