Riobaldo:
Dá licença de eu me apresentar?
Pois então… minha graça é Riobaldo. Já sou avançado de idade e vivo com abastança.
Mas minha vida não foi nada fácil. Já contei pro dotô Rosa e não me custa prosear côceis
sobre minha travessia.
O senhor e a senhora me ouve, pensa e repensa e rediz… então me ajuda a entender
minhas lembranças.
Eu ainda era menino pequeno quando meu pai faleceu e meu padrinho me levou pra ser
criado numa fazenda. Por ser letrado e esperto, fui encarregado de ensinar as letras ao Zé
Bebelo, o dono da fazenda. E foi lá que conheci Joca Ramiro, um jagunço valente e já quis
me juntar ao bando dele.
Lá pelos 14 anos, tava catando pedra no rio e vi um menino diferente. Senti umas
estranheza e a vida seguiu. Anos depois, reencontrei esse menino, por nome Reinaldo, que
queria entrar pro bando. E aí que começou a complicação.
Nossa amizade se firmava em meio à batalha, amigo de verdade, sabe? E comecei a viver
um drama, eu era jagunço, cabra macho. Mas meu coração se esquentava por outro cabra:
Reinaldo. Nas horas que a gente tava só, ele me explicava seu nome verdadeiro:
Diadorim. Era nosso segredo de amor.
Mas pro bando ele era Reinaldo. Pra mim, Diadorim.
Diadorim era meu amor, mas como é que eu podia dizer aquilo?
Diadorim era minha neblina. Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento.
Mas a guerra da jagunçada continuava.
E Joca Ramiro foi covardemente morto por Hermógenes. Foi daí que eu fiz um pacto com o
diabo pra matar o desgraçado.
E na emboscada, Diadorim se embolou com Hermógenes, dando fim no peste, mas foi
atingido também e morreu.
Pense na minha dor!
E eu nem sabia que tinha muito mais dor pra doer…
Diadorim:
Então, agora é hora de eu começar a me explicar.
Joca Ramiro era meu pai. E eu já queria ser jagunço desde menino… mas não podia!
Já rapaz, consegui me juntar ao bando. Mas eu não sou um jagunço normal.
Se reparar bem na minha pele delicada, se puxar da memória que sempre tomava banho na
escuridão da madrugada… vai atinar que tem alguma estranheza.
Eu acabei me apaixonando por Riobaldo. Quis furar ele na faca quando ele se engraçou
com Otacilia. Mas jagunço não pode perder a macheza. E eu tinha uma missão: vingar a
morte do meu pai.
Mas se soubessem do meu segredo tava tudo acabado. Jagunço é coisa de homem. E até
o fim, fui Reinaldo para o bando.
E eu, defunto, Riobaldo, meu amor, descobriu meu segredo. Mas já era tarde demais.
Riobaldo:
O corpo morto de Diadorim era corpo de moça virgem.
Diadorim:
Meu nome de batismo era Maria Deadorina da Fé Bitancourt Marins.
Riobaldo:
Por isso que eu não canso de dizer: VIVER É MUITO PERIGOSO.
Diadorim:
Mas entre o medo e a coragem está a travessia.
As falas podem ser passadas, com sotaque de sertanejo nordestino.
Pode ter momento de carinho na revelação final.