0% acharam este documento útil (0 voto)
43 visualizações10 páginas

Consequências do Rompimento da Barragem

O documento contém várias edições de um jornal produzido por moradores atingidos pelo rompimento de barragens em Mariana e outros municípios mineiros em 2015. O jornal discute os impactos humanos e ambientais da tragédia, as reivindicações dos atingidos e os esforços de reconstrução das comunidades.

Enviado por

Leandro
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
43 visualizações10 páginas

Consequências do Rompimento da Barragem

O documento contém várias edições de um jornal produzido por moradores atingidos pelo rompimento de barragens em Mariana e outros municípios mineiros em 2015. O jornal discute os impactos humanos e ambientais da tragédia, as reivindicações dos atingidos e os esforços de reconstrução das comunidades.

Enviado por

Leandro
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Editorial, ed.

0: rompimento “deixou várias consequências, entre elas a pulverização das


famílias dos atingidos pelos diferentes bairros da sede municipal. Essa dispersão apresentou-
se, desde o princípio, como um desafio para essas pessoas, que precisam restabelecer suas
relações a partir de um novo lugar e uma nova realidade”. /// A gente explica, ed. 0:
“notícia/imprensa: distorção e manipulação; informação, aproveitando da situação para elevar o
nível de audiência sem pensar em quem foi atingido 3. algumas verdades, algumas mentiras, porém,
foi de muita validade e está sendo, não deixando que a gente fique no esquecimento, nós achamos
de muita importância 4 algumas manipuladoras e oportunistas e outras a favor da verdade e da
realidade’’.

ed. 2: contatos úteis; o direito de entender (promotor dá entrevista); agenda de reuniões;


reivindicações de moradores; diálogo dos atingidos; dia a dia na nova escola; adoção de cães
sem donos do bento; Papo di cumadre: “Concebida: Esse povo não se deve amufi ná. Somos
tantos, que devia se ajuntá, prá cabá cum estas duença, prá elas com a gente não acabá.
Clemilda: É duença du corpo e da cabeça, que mata o povo e faz o povo se matá.
Concebida: A cumadi qué mi contá que tem gente querendo se suicidá?
Clemilda: É isso que eu quis falá. Tem coisa neste barro que faz a gente indoidá. Tem fi o bateno ni
mãe, sem depois s'alembrá.
Concebida: Será que tá fartano é rezá?
Clemilda: Cumadi, nois pricisa di rezá: mas é prus hôme que ganha dinheiro sem se preucupá se a
gente vai se daná”

“esta tragédia transformou o nosso cotidiano em apenas pedaços, fragmentos; alguns


recuperáveis, outros mutilados para sempre”
“estes fragmentos, por mais danificados que estejam, estabelecem um elo entre o presente e a
vida que levávamos”
setembro 2016, ed. 6, antonio alves, cristiano sales, filomeno silva, lucimar muniz. ///
Acompanhamento do andamento das assembleias e negociações; explicação e transparência
sobre o destino das doações (que custearam o jornal)

ed. 8, nov 2016, aniversário da tragédia – crônica de Angélica Peixoto, professora de paracatu
de baixo: Andar descalço na grama, cavucar a terra com as mãos, encontrar uma goiaba madura
fora de época escondida no meio das folhas, seguir uma galinha e encontrar sua ninhada com vários
pintinhos. De realidade passou a sonho num piscar de olhos. Reportagem “o que ficou com você”,
sobre coisas salvas. Atingidos, com apoio de Silvany. “Sem sequer sermos avisados, não tivemos
a oportunidade de pegar uma mínima lembrança de toda a nossa história de vida. Porém, pelo
acaso, instinto ou sorte, alguns moradores conseguiram salvar uma memória daquilo que levaram a
vida inteira para conquistar”. D. Irene Rainha da música e do som, recuperou o seu pandeiro;
Sandra voltou ao Bento e recuperou suas panelas [gigantes, de fazer doce]; Keila conseguiu
reencontrar suas cachorrinhas, Nina e Belinha; Seu Zezinho c o n s e g u i u encontrar todas as
camisas do time São Bento; Elisete recuperou seu álbum de formatura.
Sobre outras ameaças de rompimento na região. Texto de Lucimar Diniz. O que mais nos
revolta é o desleixo de empresas tão grandes como a Vale, Samarco e BHP, quando o tema é
segurança. Foi necessária a devastação de uma comunidade inteira para que o assunto viesse à tona.
Lama até Linhares. Matéria sobre impactos no ES em 1 a pessoa (Eliana Balke, Joice Lopes,
Maria do Carmo Oliveira Possi e Rejane Soares Rosa Com o apoio de Elaine Dal Gobbo).
Numa manhã eu chegava a pescar cerca de 30 dúzias de siri açu, o que me rendia uma média de R$
3200,00 por mês. Dava para eu ter uma vida normal, tranquila. Hoje, não tem mais siri (…) Eu, que
morava de aluguel antes do rompimento da Barragem de Fundão, fiquei com a renda comprometida
e não consegui mais pagar. O proprietário do imóvel pediu que eu me retirasse. Hoje moro numa
barraca no quintal da casa de uma amiga, em Barra Sec (...) Apesar de sofrer as consequências do
crime ambiental, não recebo nenhum tipo de assistência por parte da Samarco (…) Para mudar essa
situação, nós moradores das regiões que não são consideradas atingidas pela empresa, criamos o
Fórum do Norte da Foz.
Após o crime ambiental, abracei uma nova atividade: a militância. Isso foi possível por meio da
atuação do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB). Os integrantes do movimento fizeram
um trabalho de conscientização e mobilização. A partir daí conseguimos fazer algumas
manifestações. A cada ato conseguíamos aumentar o número de pessoas reconhecidas como
atingidas pela empresa.
Passei a integrar o Fórum SOS Rio Doce, o MAB e o Fórum Capixaba do Rio Doce. Minha rotina
passou a ser mais intensa. Sempre recebo demandas de pessoas atingidas que querem saber como
reivindicar seus direitos, além de checar informações divulgadas pela imprensa a respeito do caso.
Causos do rompimento: “É a luz do Santíssimo”. Foi a única luz que permaneceu acesa dentro da
capela de Ponte do Gama, mesmo sem poste, padrão de energia e tudo mais que a lama conseguiu
levar. Assim que as primeiras pessoas entraram e retiraram o santíssimo, a luz se apagou sozinha,
imediatamente. Charge rimada sobre Zoom, o papagaio fotógrafo que sobrevoou Bento;
relatos em 1a pessoa da última noite em Bento e Paracatu – eles contam o que os jornalistas
sempre perguntam – e editam: A última noite terminou com um amanhecer triste. Tudo
arrasado. E já não se ouvia mais os pássaros cantando, as crianças se aprontando para ir à
escola, o cheiro do café, a naturalidade de sempre. Só se ouviam as lamentações das pessoas
inertes a toda aquela situação (antonio geraldo – de Bento, apoio de Miriã Bonifácio); casas de
Paracatu ainda não foram reconstruídas. Paracatu – texto de Angélica Peixoto Com Apoio de
Fernanda Tropia. Guarda Municipal chegou. Todos foram retirados e subiram o morro.
Espera. Preocupação. Ônibus da escola não tinha chegado. Mães desesperaram. Medo de não
dar tempo. Confiaram em Deus. Seus filhos chegaram. Um pouco de alívio. O tempo passou.
A lama chegou à ponte. Veio arrebentando tudo. Fome. Sede. Medo. Angústia. Sofrimento.
Desesperança. Dura realidade. Noite escura. A luz foi embora. Barulho de madeira
quebrando. A destruição chegou à comunidade. Cheiro horrível invadiu as narinas. Sensação
de sufocamento. Tudo foi destruído. Casas. Igreja. Escola. Choradeira. Angústia. Impotência.
Todos sem casa. Sons de destruição.
Explicações sobre a assessoria técnica independente contratada pelos atingidos (para fazer frente ao
que dizia a Samarco sobre a toxicidade da lama & outros assuntos).
Coluna “direito de entender”, com explicações do MP (promotor Guilherme Sá Meneghin)
sobre assuntos diversos – ex.: cartão de vale compras destinado aos atingidos. Sobre a
continuidade das festas religiosas periódicas – preparação e percurso rumo à cidade fantasma
atingida. Luzia Queiroz, moradora, com apoio de Wandeir Campos: “Nossa entrada na comunidade
foi silenciosa e lenta, sem fogos e buzinas, como uma forma de demonstrar o respeito a toda tristeza
contida em nossos corações”.
Coluna Papagaio: o sonho dos atingidos. “Na noite passada eu tive um sonho: era uma pintura.
Na tela, o artista dava vida à lama que saia de Regência e subia, voltando pra Mariana”. “A louca
lama subia na tela do Rio Doce, sob a regência do pincel, do artista misterioso”. “Depois de
concluída a obra e a natureza reconstituída, não vi mais o pintor, só um facho de luz e, no rodapé da
tela não assinada, tinha o desenho de uma cruz”.

Ed. 16, julho 2017. “Atenção: não assine nada”; Rosária Ferreira Duarte Frade, de Paracatu:
“Nós estávamos na expectativa de sermos reassentados em 2019, de acordo com o cronograma da
própria Renova, mas nós vemos que isso não vai ser possível. Até este momento, a Fundação não
concretizou a compra dos imóveis. A situação dos atingidos é como se nós tivéssemos dado um
pause nas nossas vidas e não conseguíssemos mais dar o play”. Marino D´Ângelo Júnior,
morador de Paracatu de Cima: “Vivia a 300 metros do meu sogro e da minha sogra. Meus filhos
eram criados junto com eles e com a gente, praticamente criados a meia, e a vida da gente foi toda
modificada. Isso trouxe discórdia na família. Então, a gente não perdeu só parede e tijolo,
entendeu?”; acompanhamento das ações dos Loucos pelo Bento: Temos, desde o início, o intuito
de lutar pela manutenção de nossas tradições e pela recuperação de nossas memórias, que, mesmo
soterradas pela lama, são nossas. E também queremos mostrar para o mundo o quanto amamos
aquele lugar, onde nascemos e passamos a maior parte das nossas vidas, e que não estamos
dispostos a abrir mão dele - Maria Quintão, moradora de Bento Rodrigues. Reportagem com
conversas de wpp dos antigos moradores das vilas cortadas pelo rio Gualaxo do Norte, onde
“revivem o sentido de suas comunidades de origem” - fotos, documentos históricos e comentários
afetivos acerca de casos do passado de Paracatu: Essas descobertas nos dão a percepção e a
convicção de que Paracatu está inserido em um processo histórico. Indicam possibilidades para o
entendimento de quais foram as bases de construção do nosso presente e nos permitirá compreender
melhor quem somos e por que somos.
Nossa identidade é carregada de vínculos com as gerações anteriores e nos proporciona um
sentimento de pertencimento muito forte.
Recusamos deixar Paracatu perecer. (Angélica Peixoto, moradora de Paracatu, editorialista
convidada)
Reportagens construídas a partir de diálogos inteiros, sem cortes, com poucas edições. ex.:
Nié, 52 anos, que resolveu ficar em Paracatu após o rompimento: - Eu vou cair e morrer aqui e ficar
por aqui mesmo, não quero Mariana. - Aqui trato dos porco, das galinha, tiro leite, cuido dos boi,
das vaca. João Banana, festeiro local, 64 anos. - Acredito que quando a pessoa nasce no lugar é
igual um ramo de uma árvore que se fixa ali, e a barragem fez essa separação, arrancou os ramo da
terra. - Eu quero continuar aqui, mesmo quando “Paracatu Novo” sair, quero ficar aqui. Nós éramos
tudo junto e agora estamos que nem folha no vento, fica voando pelo campo afora. Reportagem de
Genival, e Daniela Felix, sobre ida a comunidade atingida. Você saberá que chegou “na
Campina” quando, provavelmente, topar com Lelego: - Ei! Qual o seu nome? De que empresa você
é? É que o menino fica curioso com os carros que, desde o rompimento da barragem, não param de
passar por aqui. É cada Hilux, Duster…
Em alguns momentos, a impressão é de que Guimarães Rosa edita o jornal… : Se despedindo da
família da Maria, você pode seguir rua abaixo em direção ao rio. Talvez, enquanto caminha, o Jair
passe à procura da sua mula fujona.
O Jair, você já deve ter imaginado, tem muito carinho pelos animais. Quando avisado que a
barragem tinha rompido, só pegou os documentos que tinha e tocou sua criação pro alto.
- Parecia que aquela lama vinha arrastando o mundo. Um vendaval, cheiro ruim. Dois bezerros
meus ingeriram água da lama suja. A barriga deles inchou demais, não conseguiam urinar. Dei
remédio, mas não adiantou nada. Ficaram duas semanas agonizando até morrer.
Apesar da lama não ter chegado na casa de Seu Jair, a Defesa Civil também tentou tirá-lo de lá,
mas ele não quis se separar de seus animais. Para onde eles iriam?
Envelhecer – matéria sobre impacto nos idosos. Por idosos atingidos, Conceição dos Santos,
Dona Doca, Efigênia dos Santos, José Felipe dos Santos, João Roberto Oliveira. Com o apoio de
Carlos Paranhos, Estela Saléh, Miriã Bonifácio e Rafael Drumond. Calendário anuncia também
festas típicas das comunidades atingidas.

Abril 2018, ed. 25. Todas as edições vem com o “não assine nada”. Matéria: de atingido me fiz
repórter. Genival: “Quando me chamaram para fazer parte do A SIRENE, fiquei pensando: ‘Como
vou participar do jornal sem ter nenhum conhecimento na área?’ Por eu ser da roça, cheguei na
redação me sentindo em outro mundo, com aquele tanto de computadores estranhos. No começo,
fiquei meio sem graça com aquela galera toda, mas fui pegando a prática aos poucos, entendendo e
aplicando um pouco de outros conhecimentos que eu tinha. Fiquei muito agraciado com o carinho
da equipe comigo e com os demais atingidos. Hoje, sou membro do Conselho Editorial e quero
agradecer a todos os meus amigos e professores que me ensinaram a ser jornalista. Agradeço
também a equipe que está com a gente agora, por fazer acontecer. O Jornal A SIRENE é para nunca
esquecermos que tínhamos uma vida, uma história e que a ganância das empresas destruiu.”
por: Todo mês, os(as) atingidos(as) pautam o que deve ser contado e indicam/ participam do
processo de apuração e produção das matérias. Nosso primeiro público-alvo são os próprios
moradores das comunidades atingidas, que têm o projeto como um espaço de fala, registro,
denúncia, luta e de preservação das memórias. Desse modo, para nós, a matéria é sempre de autoria
de quem conta - e viveu - a história, e também, de forma simbólica, de todo(a) atingido(a) que
ajudou a construí-la.
COM O APOIO DE: Nossa equipe fixa é formada por atingidos(as), profissionais e estudantes de
Jornalismo da UFOP. Para a realização do jornal também contamos com o auxílio de outros
parceiros, como de pesquisadores e de movimentos sociais. Caso não seja possível que o(a)
atingido(a) construa o próprio texto, esses colaboradores o fazem, preservando a essência de suas
falas e os consultando sobre o que é mais importante dizer. Nada é publicado sem o consentimento
dos(das) atingidos(as) participantes das matérias.
Além de agenda, resumo das reuniões. “Abrir caminho, guiar a água até o rio”, relato sobre os
moradores de Paracatu que, por conta própria, por meio da “engenharia popular”, retiraram a água
enlameada da praça da igreja de Paracatu de Baixo. Texto de Maria Geralda, moradora, c/ apoio de
Silmara Filgueras. “O povo da nossa comunidade trabalha com boa vontade. É assim: - Vamos? -
Vamos!”. Reportagem de duas páginas sobre “As contradições da Renova”. Conta a história da
fundação, fruto de um acordo das empresas com os estados e a união, e cujo conselho é formado
majoritariamente por indicados das mineradoras. “Os atingidos não consideram a Renova uma
instituição legítima para a garantia da reparação dos danos”. Texto sobre viver com o dinheiro
da empresa que causou a desgraça (Genival, um dos colaboradores). Lá, eu tinha a minha
renda, tratores e uma chácara produzindo. Costumo brincar que eu era rico e não sabia. Hoje, o
meu cartão pouco dá pra abastecer o carro - Paulo César, morador de Bento Rodrigues. Editorial
sobre a demora do reassentamento de Paracatu (zero casas construídas até hoje): As
incertezas sobre as condições dos terrenos e o vai e vem dos “estudos” que mal entendemos, entre
outros detalhes, estão consumindo o nosso tempo e deixando as nossas comunidades desconfiadas e
insatisfeitas // Enquanto isso, através de investimentos em publicidade, a Fundação
Renova/Samarco vende uma ideia de que tudo está acontecendo conforme o planejado, de tal forma
que, “lá fora”, as pessoas possam ver que a extensão da tragédia não foi tão grande e que está tudo
bem (…) O tempo vai passando e nos sentimos “cobertos” por processos que “se perdem de vista”.
Quando voltamos para casa, após uma reunião, e juntamos todos os detalhes que estão soltos pelo
caminho, mais dias são acrescentados em nossas vidas provisórias.

ed. 27, junho 18 (primeira de Papagaio chefe). Papo de cumadri: Consebida e Clemilda estão
admiradas com os laudos das casas dani - ficadas pelo crime da Barragem de Fundão feitos pelos
próprios crimi - nosos, sem a sua participação. - Cumadre Clemilda, eu tô mui percupada. - Apostu
que sua percupação tem menção com o crime da barra - ge de Fundão. - Pois então, a fundação fez
us laudu das casa que sofreram trepi - dação, disseram que as trinca, argumas delas cabe até a
minha mão, que num é culpa dês não. Sobre a contaminação por metais pesados em Barra
Longa. Somam 15 o número de pacientes examinados e, desse total, todos tiveram os laudos
positivos para contaminação por metais pesados, como, por exemplo, níquel e arsênio. A maior
parte desses moradores (os 10 do início) passou pelo exame duas vezes, primeiro em março de 2017
e depois em março deste ano. No segundo resultado, em alguns casos, cresceu o nível de algumas
substâncias. Andrea Domingos, moradora de Barra Longa: “Moro na parte alta e eu e o menino
estamos contaminados, e eles acham que quem mora no morro não foi atingido. Eu acho que quem
mora no morro foi atingido sim. A lama estava lá sim, e a poeira que nós recebemos?”. Ensaio
fotográfico de Lia Mol Carneiro, moradora de Paracatu de Baixo, sobre a contaminação do
Rio Gualaxo do Norte, o condutor da lama. A minha ideia foi mostrar o contraste entre o antes e
o depois, o passado e o presente, a vegetação e a lama. A luta da natureza em sobreviver em um
ambiente poluído por re - jeitos, e que em meio a isso, uma vida em volta do rio tenta aparecer.
Com ela, a espe - rança representada pelo verde.

ed. 40, julho de 2019. “Aconteceu na reunião” - seção fixa. Jornal em risco de acabar, pelo fim
do acordo do MP / arquidiocese e Comissão dos atingidos. “Mais do que nunca, precisamos nos
reerguer para que o discurso continue sendo construído pelos(as) atingidos(as), protagonistas das
histórias, e não pelas empresas causadoras dos danos (…) O objetivo do nosso jornal é - e sempre
será - representar a luta por direitos das comunidades atingidas pela mineração”. Marcos Muniz
(Marquinhos), morador de Bento Rodrigues: “Sempre digo: “temos que contar mesmo, não
pedimos para entrar na história, mas já que entramos, temos que contar para as pessoas saberem”.
Daqui a 50, 100 anos, isso vai estar escrito, não estaremos aqui, mas as pessoas vão saber”. Miriã
Bonifácio, colaboradora do Jornal A Sirene: É impossível passar por esse jornal e não aprender
mais, se criticar mais, pensar mais profundamente nas diferentes maneiras de se contar histórias,
sofrer junto, se emocionar com a luta dos(as) atingidos(as) pela reparação de seus modos de vida.
De uma maneira ou outra, repensar os formatos tradicionais de comunicação (…) . Sobretudo, é
uma atividade jornalística que ensinou a todos nós o que o jornalismo pode ser em momentos em
que o mundo estiver desabando e só resta a voz das pessoas. Agradeço ao Jornal A Sirene por me
ensinar a ouvir.

Abril de 2020, ed. 48. reuniões e assessoriais técnicas suspensas por conta da pandemia; trabalhos
todos remotos; suspensos os encontros presenciais com o MP; sobre o novo adiamento da entrega
das casas em Bento Rodrigues. Simária Quintão, moradora: “Eles adiaram para fevereiro de 2021
e eu acho que eles não dão conta de entregar. Eu acho que vai ser mais uns dois ou três anos pra
frente. Eu espero realmente que eles entreguem até fevereiro de 2021. Eu tô com a esperança de que
eles entreguem, mas, do jeito que estão andando as obras lá, acho que não entregam não, está muito
devagar. Eu vejo que as empresas estão fazendo o que elas querem”. Mirella Lino, moradora de
Ponte do Gama: “E isso também é um dano muito grande, essa tomada do direito de traçar planos,
porque a gente tá preso àquela data de 2015. Parece que o tempo anda, mas, pra nós, não, porque
a gente não consegue fazer nada mais, porque o jeito como a Renova e as empresas levam isso
toma tudo da gente. Toma saúde, toma conquistas e vai tomando, tomando… A gente tá tão preso
nisso que a gente não consegue nem traçar planos de vida mais, não ter nenhum projeto de vida,
porque a gente depende disso pra qualquer outra coisa”.

d. 59, março 21 (Kaé na capa). Acompanhamento das indenizações em Brumadinho; crítica ao


acordo sem a participação de atingidos. Entrevista com Fernanda Perdigão, moradora de Piedade do
Paraopeba. Cadê a chave da minha casa? Reportagem questiona, novamente, os atrasos na entrega
das casas do “Novo” Bento e Paracatu de Baixo. Ana Paula Ferreira, moradora de Bento
Rodrigues: A Fundação Renova faz do jeito que ela quer, no tempo que ela quer. A justiça
estabelece um prazo e eles simplesmente descumprem esse prazo. Eles vão destruindo as pessoas
aos poucos, porque tem muita gente ficando doente, né? Sobre o risco de rompimento e a angústia
em Barão de Cocais (comunidades de Socorro, Tabuleiro, Piteira e Vila do Gongo Soco): dois anos
depois, cerca de 500 moradores não voltaram para casa – lá a sirene tocou. A expectativa (da Vale)
é de que só em 2029 os moradores poderão voltar.
Entrevista Papagaio

1- O que fazia antes do rompimento, profissionalmente?


Um monte de coisa; vendedor ambulante (derivados de carne; comprava e revendia) na area do rio
da lama; eletricista da prefeitura desde 2007; foi garimpeiro (tirava ouro a mão); tirava areia, lenha
do rio;

2 – Fale sobre a sua relação com a escrita e o jornalismo.


Preguiçoso assíduo; não é de ler livro inteiro; a biblia; não gosta de textos extensos. Quando tem
inspiração, nem que seja as duas da manhã, escreve. Para o carro para escrever. Fez magistério.
Teve uma professora muito boa de literatura. Castro Alves, Fernando Pessoa.

2.1 - Quando começou no jornal?


Foi pro jornal na edição número dois (a primeira foi a zero). Foi sugerir uma pauta (o papo de
comadres, e no papo, a denúncia quanto a Samarco – Consebida e Clemilda conversam sobre os
ocorridos). Fez essa matéria. Publicou poemas. E na quinta edição a coluna “Papo de comadre” se
tornou fixa. Rodava muito pela região como vendedor, e coletava pautas. Passou a ler o jornal para
os que não sabiam ler. Jornal leva e traz informação (com as comunidades). Não entrevista –
conversa normal com as pessoas. Não anota – tem memória de elefante. Checa as informações com
as fontes. O outro editor chefe é um pedreiro.
Editor chefe a partir do início de 2018 – numa eleição por aclamação.

3 – Como está Barra Longa e o Rio Doce hoje?

3.1 – sempre se engajou em associações?


Foi aprendendo “a ser atingido”. Num espaço muito curto de tempo. Uma transformação de
magnitude inexplicável. Deu muitas entrevistas, foi a protestos na assembleia, reuniões com
advogados da samarco. Quase não dormiu por muitos meses.
Já era uma espécie de líder comunitário antes. Trabalhou na pastoral rural, distribuindo
comida. Mas ele descobriu que o ser humano tem outras fomes – e se engajou na comunicação.

4 – Em que pé está a indenização?


Vitimas ou réus? A Renova quer virar a mesa, coloca-los como aproveitadores. E eles como
coitados. “A samarco levando a lama aonde a tragedia não chegou”. Ele é cheio dos slogans.
Rompen-se 365 barragens por ano sobre as nossas cabeças.

5 - “Quem foi a sua sirene”?


Estava numa venda, zona rural. Tres portinhas onde você acha de tudo. Lá ficou sabendo, ficaram
conversando. Achavam que não ia afetar a cidade. Prefeito o ligou a noite, preocupado. Duas da
madrugada a lama chegou. Não lembra de barulho e do cheiro muito fortes, estava anestesiado com
a situação. Gastou 10 horas para chegar em Barra Longa. Foram pegos de surpresa. Foram tirando
as coisas das escolas, estabelecimentos e casas. A lama não chegou na casa dele – fica a 800 metros
do rio, a lama foi até 300.

6 – Qual as principais funções do jornal?


Reconstruir o humano a partir de si mesmo – e das memórias.

7 – Como é a rotina de editor-chefe?


Faz foto, entrega o jornal, escreve matéria, participa de reuniões de pauta, todas as decisões do
jornal passam por ele. Tem uma sede física. Ia uma, duas ou tres vezes por semana, para reuniões e
revisão do jornal. 52 anos, mais novo de nove filhos, família agricola. O jornal não tem carro –
aliás, tem, o do Papagaio. Correspondente no espírito santo também.

8 – Os editores / repórteres recebem algum treinamento?


Jogo todo mundo no mar. Quem conseguiu nadar e agarrar num bote, sobreviveu.

9 – Como ocorre a distribuição dos jornais durante a pandemia?

10 – Como coletam as pautas nas localidades mais afastadas/

11 – Fale sobre o vínculo afetivo que se cria com os entrevistados / fontes.

12 – Fale sobre a reação à Brumadinho / Vale, e a história do “mar de lama nunca mais”.
13 – Como está a redação do jornal durante a pandemia.
Rebelde, descumpre a determinação do conselho de não encontrar pessoas – ele é presidente do
conselho. Banco de dados dos atingidos. Estão se virando. Conversa olho a olho, a 3 metros de
distância.
Imprimiam 12 caixas de jornal. Durante a pandemia, ficou online. Não seria possível
distribuir. Mas vão imprimir quando voltar “ao normal”.

Você também pode gostar