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Olivia Fernanda K 2

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Copyright © 2023 Fernanda K.

Capa: Lilly Design

Diagramação: Fernanda Karolina, Gabriel Mello

Revisão: Amanda Lopes

É proibida a reprodução total e parcial desta obra, sem permissão de seu editor (Lei 9.610). Esta é
uma obra de ficção, nomes, personagens e acontecimentos descritos são produtos da imaginação do
autor, qualquer semelhança com acontecimentos reais é mera coincidência.

TEXTO REVISADO SEGUNDO O ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA


ÍNDICE
SINOPSE
NOTA DA AUTORA E GATILHOS:
Prólogo
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
AGRADECIMENTOS

Para quem já passou por um trauma e sobreviveu, e para quem ainda


luta contra ele todos os dias.
SINOPSE
Olivia Winston tinha seu emprego dos sonhos, atiradora de elite da principal equipe da
S.W.A.T. Porem tudo que ela lutou para conquistar é colocado em risco quando em uma missão
importante ela se vê sem escolhas e para salvar a vida de seu melhor amigo acaba matando o líder de
uma das maiores facções criminosas do pais.

Para tentar sair da mira da máfia, passa a trabalhar como guarda-costas para Diana
Montserrat, uma mulher ambiciosa de trinta e dois anos, com a vida perfeita que muitos cobiçam um
dia ter. Ela é CEO de uma das maiores empresas do país, extremamente rica e influente. Ela só não
contava que Diana roubaria todo o seu foco e se não tomasse cuidado, roubaria seu coração também.
NOTA DA AUTORA E
GATILHOS:
Olivia começou como uma ideia descontraída de quem queria ter algo para fazer durante os
primeiros meses de pandemia e acabou se tornando a minha grande paixão. Esse livro foi um refúgio
para mim desde seu primeiro capítulo e agora estou colocando-o no mundo para que ele seja para
mais alguém pelo menos um pouco do que ele foi para mim.
Leitor, essa obra possui gatilhos como: violência, tortura, sexo explícito, morte parental e
cena com o uso de drogas. Se um desses temas foi um assunto sensível para você, peço para priorizar
sua saúde mental.
Prólogo

Meu relógio marcava 5:23. Pelo visto, passar o dia todo com Luca não
era o suficiente. Quando ele me tirou da cama naquela manhã, o sol sequer
tinha nascido e, para o meu completo desgosto, a chuva fina da madrugada
ainda se fazia presente ao pisar fora de casa. Então, talvez eu seja especial
mesmo para ele me tirar da cama às cinco da manhã.
Ajeito meu casaco, fechando-o até o limite do zíper. Dou alguns
pulinhos contra o tatame gelado que tem na garagem da casa de Luca. Meu
amigo estava do meu lado fazendo o mesmo, mas com o dobro da minha
empolgação. Nem todo pré-treino do mundo seria capaz de me deixar
daquele jeito, não com o humor atípico que eu carregava naquela manhã.
Porém, eu fazia tudo por ele. Luca era meu melhor amigo, não era
qualquer amizade. Eu mataria por ele. É a pessoa que eu confio fielmente
acima de todas as outras, eu sempre cuidei dele e ele sempre cuidou de
mim. Meu parceiro de todas as horas.
Meu amigo tinha o cabelo raspado e olhos escuros, algumas tatuagens
aleatórias e a mesma altura que eu. A blusa de manga longa denunciava que
ele estava sentindo tanto frio quanto eu, mas parecia não se abalar com isso.
― Olha, Luca, se você queria me foder, era só me chamar ontem. Eu
aparecia de lingerie e vibrador na mão. Agora isso… ― Eu aponto para o
tatame, que mais parecia um campo de hóquei de tão gelado. ― Isso aqui já
é demais.
― Deixa de ser fresca, eu te fodi semana passada. Além do mais, a
Michelle não tá reclamando. ― Ele aponta para nossa amiga, que arrumava
o próprio cabelo a alguns metros de distância. Michelle era minha melhor
amiga há um bom tempo, mas eu só a apresentei ao Luca há alguns meses.
― Claro, ela não vai ter que trabalhar hoje o dia todo, né, mané! ―
Dou um tapa na nuca dele.
― Bom dia, meus amores. ― Mich finalmente nos alcança. Minha
amiga era uma mulher de 1,75 de altura e dona da bunda mais bonita do
grupo de acordo com o ranking imaginário da cabeça do homem que se
alongava ao meu lado. Ela usava um conjunto verde de rash guard e
legging, o cabelo estava preso em um rabo de cavalo bem alto.
― Oi, Mich. O Luca não me ama mais. ― Eu respondo, dando um
abraço nela. Logo em seguida, ela pega o celular e coloca alguma playlist
de rap para tocar.
― Bom dia, Michelle. Não liga para ela, isso é só drama. ― Luca dá
um abraço rápido na minha amiga também. ― Podemos, ou as duas ainda
querem me xingar?
― Vamos acabar logo com isso, eu preciso voltar para minha cama. ―
Mich se prepara no cantinho dela. Enquanto isso, eu começo a correr com
Luca para aquecer o corpo antes de lutar.
― Ridículo que sua chefe te deu folga em plena segunda-feira. ―
Digo.
― Eu não tenho horário fixo. Vantagens de trabalhar para uma
jornalista rica. Uma pena que o contrato está chegando ao fim, a polícia já
resolveu o problema dela.
― Eu não queria seu emprego. Ficar plantada o dia todo de terno,
seguindo gente rica de um lado pro outro… não mesmo, obrigada. Estou
feliz na polícia.
― Não é tão ruim. O salário é ótimo. ― Ela dá de ombros, levanta do
tatame e passa a correr atrás de Luca.
Continuamos a correr em volta do tatame para aquecer. Eu na frente,
Luca no meio e Mich atrás, seguindo a hierarquia das nossas faixas de jiu-
jitsu. Após aquecermos, enquanto uma dupla lutava, a pessoa que sobrava
opinava na luta. Daí, no final, fazíamos alguns treinos de drill. Simples e
bem prático.
Duas horas depois, nos arrumamos para trabalhar e deixamos Michelle
em casa. Luca aproveita o silêncio do carro para soltar um longo suspiro,
daqueles que sempre antecedem alguma conversa difícil. Eu espero o tempo
dele.
― Precisamos conversar. ― Ele começa. Eu conhecia aquele tom de
voz tão bem, era o mesmo que ele usava quando não queria magoar alguém.
― Nós temos 40 minutos dentro desse carro até chegarmos no quartel.
― É o que eu respondo. Não fazia ideia do assunto, então era difícil saber o
que dizer.
― Lembra que, há uns anos atrás, quando começamos a transar, nós
conversamos muito sobre o assunto, pois, como estávamos fazendo tudo
sem camisinha, éramos exclusivos um com o outro. ― Meu corpo se
arrepia e uma pequena onda de terror fica estampada no meu rosto. ― Meu
deus, calma, eu estou limpo. Não te passei nenhuma doença, não.
― Continue.
― Enfim, o que eu estou querendo dizer é que nós sempre
conversamos muito para isso dar certo… E eu acho que eu não consigo
continuar mais.
― Por quê? ― Pergunto sem saber ao certo o que sentir.
― Eu estou gostando de alguém e, durante essas últimas duas semanas,
toda vez que a gente transa, é ela quem eu imagino por mais que o corpo de
vocês duas seja completamente diferente. Enfim, não acho justo com você.
― Você sabe que eu não me importo com isso, não é? Não temos nada
e, se imaginar outra mulher é o que te excita, por mim, tá okay. ― Tento
acalmar o meu amigo.
― Me incomoda, sabe? Você merece mais do que isso e eu não estou
te dando.
― Tem certeza? ― Pergunto. Lógico que eu estava um pouco sentida,
porque iria sentir falta da minha rotina.
― Tenho. ― Ele acena com a cabeça e eu olho para ele por uns
segundos. Não gostava do rumo de despedida que aquela conversa estava
tomando, sempre achei que seria mais simples. Entretanto, como a nossa
amizade sempre se baseou, acima de tudo, em consentimento e, agora ele
estava falando que não queria mais, não tinha o que discutir.
― Vou sentir falta do seu pau. ― Tiro o relógio que estava em meu
pulso direito. Era um pequeno símbolo que representava o nosso acordo.
― Eu vou sentir falta da sua buceta. ― Nesse momento, nos
aproximamos de um sinal fechado e ele aproveita o tempo com as mãos
livres para soltar a alça de um sutiã meu que ele usava como pulseira. Ele
me devolve e, em troca, eu entrego o relógio a ele.
― E não vai rolar nenhuma despedida no carro, não? ― Tento quebrar
o silêncio levemente constrangedor que havia se formado no carro. Ele
revira os olhos, mas vejo que ri.
― Está tudo bem mesmo? ― Ele pergunta preocupado.
― Estou. ― Digo com sinceridade, um pouco triste por não ter uma
despedida, mas sabia que era melhor assim. Eu dou um soquinho em seu
ombro e ele retribui com um da mesma intensidade, voltando a dirigir.

***
Eu estava dentro do carro blindado com uma arma de precisão nas
mãos. Fazia parte da minha função como sniper ser uma das últimas a agir.
Conferi meu cartucho de munições uma última vez. Estou usando um
capacete e uma máscara de pano que cobria meu rosto quase por completo,
deixando apenas meus olhos à mostra. Sou tão alta quanto os homens à
minha volta e era fácil me confundir com um. Partes do ofício de ser uma
mulher com 1,90 de altura.
Podia sentir a adrenalina subir conforme chegamos próximo ao local.
No entanto, hoje eu tinha uma sensação um pouco diferente das outras
vezes, era como se uma pedra do tamanho de uma laranja estivesse presa na
minha garganta. Um sentimento ruim que eu não conseguia distinguir de
onde vinha.
Arrumo o comunicador e coloco os óculos de proteção no rosto. Logo
em seguida, o Major começa a dar os comandos. Iríamos invadir um
armazém que servia para fabricação e armazenamento de drogas. Nosso
objetivo é desativar o local. Era apenas um dos muitos pontos de tráfico que
estávamos investigando há bastante tempo. Olho meu parceiro de trabalho,
Luca, ele termina de arrumar o próprio óculo antes de dar um soquinho no
meu ombro, que significava algo bem simples: fique bem, tente não levar
um tiro.
Descemos do blindado em formação e seguimos para dentro do local.
Luca na minha frente, minha mão esquerda em seu ombro e a direita
empunhando a arma. Nos separamos dos outros policiais como o planejado,
seguimos para um corredor e começamos a escutar disparos de alguns
corredores à frente.
Eu vejo uma movimentação e me viro, focando em um dos traficantes
escondidos atrás da parede no final do corredor em que estávamos. Ele
usava uma camiseta amarrada no rosto e segurava um fuzil.
Começamos a perseguição atrás dele até que ele começa a atirar. Nos
agachamos, usando um pilar de concreto como escudo. Começo a atirar
com Luca atrás de mim, me dando cobertura. O traficante começa a correr e
seguimos atrás dele. Nós corremos também por uma sequência de
corredores e entramos na parte do armazém que não passava de um balcão
vazio à espera de mercadoria.
Luca para de repente na minha frente. Evitamos entrar em uma parte
tão aberta desprotegidos. Não movemos um músculo para dentro do local.
Nos abrigamos atrás de um contêiner quando os primeiros tiros são
disparados em nossa direção.
― Tem mais dois deles escondidos à nossa frente. Todos armados. ―
diz Luca. Trocamos de posição e ele passa a me dar cobertura.
Dou alguns disparos em direção aos tiros. Mais tiros são disparados,
um deles passando tão perto da minha bochecha que consigo sentir a
pressão. Um tiro meu acerta o ombro de um deles e o outro cai logo em
seguida com um tiro na perna.
― PRO CHÃO! ― Grito para o primeiro deles e nos aproximamos. ―
ANDA, CARALHO, TÔ MANDANDO! ― Ele deita relutante e eu o
algemo. Luca faz o mesmo com o que estava sangrando no chão.
É nesse momento que eu sinto uma arma sendo apontada para mim
pelas costas. Um golpe rápido: eu me viro, já segurando seu pulso e
torcendo até que ele largue a arma e desequilibre. Ele luta e quase não solta
o armamento. Me dou conta de que Luca também está lutando com alguém.
Ele tenta atingir meu rosto com um soco, mas eu o bloqueio, segurando seu
braço e usando a distância mais curta para acertar sua cabeça com uma
coronhada. Ele resiste e começa a se afastar, porém, um soco de direita
basta para ele cair desacordado no chão.
Nesse momento, eu escuto os tiros. Luca foi atingido e estava deitado
no chão. O traficante com quem lutava pronto para fazer um último disparo.
Por um segundo, o mundo pareceu parar, a arma estava apontada para sua
cabeça. Eu não pensei duas vezes, não tive misericórdia, mal tive tempo de
sentir o gatilho contra meu dedo.
Um tiro certeiro na cabeça da pessoa errada e eu não sabia que estaria
assinando minha passagem só de ida para o inferno.
― Código quatro, suspeito abatido. ― Percorro os metros à frente. A
têmpora do traficante estava completamente destruída, o tiro em sua cabeça
levou sua vida antes mesmo dele escutar o barulho do disparo.
Olho para o meu amigo, o seu sangue começando a lavar o chão. Pego
sua arma e prendo no meu uniforme. Rolo no chão, puxando seu corpo
inerte para cima dos meus ombros. Minha garganta estava seca como uma
lixa.
Olho rapidamente para outro homem no chão. A tatuagem de um corvo
segurando uma rosa da boca. Chefe de máfia.
― Luca, fala comigo, vamos! ― Digo enquanto sustento o corpo dele
nos meus ombros. Ele grita de dor e parecia completamente incapaz de
formar qualquer palavra.
Eu sinto o momento em que ele apaga e seu corpo pesa por completo
em cima de mim. Preciso fazer uma força do caralho para conseguir tirar a
gente de dentro daquela merda de lugar. Penso em checar seu pulso, no
entanto, uma parte de mim era covarde demais para fazer isso agora.
Começo a gritar ordens para o rádio, solicitando uma ambulância, e torço
para não aparecer ninguém na minha frente.
― Caralho, Luca, não faz isso comigo. Não morre, seu filho da puta!
O dia estava claro demais quando deixei o local. O sol refletia com
força no asfalto e parecia ser capaz de queimar meus olhos. Uma
ambulância já esperava do lado de fora. Paramédicos cercam Luca quase
morto na maca. Minha adrenalina está alta demais para esboçar qualquer
sentimento. Estou quase entrando na ambulância quando sou parada pela
ordem do Major responsável pela missão.
― Você tem ideia de quem acabou de matar? ― Ele questiona.
― Tenho. A vida do Tenente Shay estava em risco. ― Respondo.
― Se descobrirem que você fez o disparo, você não terá mais que uma
semana de vida. ― Ele continua.
― Eu não tive escolha, senhor.
A consequência da minha atitude foi ser afastada da S.W.A.T. por
tempo indeterminado. Infelizmente, Luca foi afastado também.
Tive sorte quando o próprio Major me recomendou para trabalhar para
a Diana, mais sorte ainda quando a semana terminou e eu não acabei com
uma bala na cabeça. Acredito que nunca descobriram a identidade do
atirador afinal.
CAPÍTULO 1
Olivia

― Senhorita Montserrat?
― Winston, pode entrar. ― A voz que me responde vem do closet. É
uma surpresa encontrar o quarto perfeitamente arrumado tão cedo.
Checo rapidamente minha aparência do espelho. Meus olhos castanhos
carregavam uma maquiagem discreta, o meu cabelo estava preso em um
rabo de cavalo baixo, a blusa social e o terno preto estavam perfeitamente
alinhados.
― Bom dia! Está tudo bem? O carro está aguardando na porta. ―
Digo.
― Bom dia! Eu já estou descendo. Não vou demorar muito, preciso
apenas terminar a maquiagem e pegar uma pasta de documentos. Brett já
chegou, eu imagino?
Minha chefe era uma mulher de estatura média. O cabelo ruivo estava
solto, mas contido atrás das orelhas, alcançando pouco antes da altura de
seus ombros e, em consequência, dando destaque aos brincos de ouro. Ela
era atualmente uma das mulheres mais ricas da Espanha, dona de diversas
indústrias e, principalmente, os vinhedos centenários da família.
― Ainda não, mas com certeza não irá demorar muito. Precisa de
algo?
― Na verdade, sim. Leve minha mala lá para baixo. Está perto da
porta. ― Gesticula com um pincel de maquiagem.
Ao alcançar as escadas algum tempo depois, o barulho vindo da
cozinha, da máquina de café expresso, denuncia que Brett havia chegado. O
seu cabelo estava preso em tranças de lã num tom parecido do cabelo
natural e usava roupas sociais na cor azul. Nós definitivamente não éramos
próximas, tudo que eu sabia sobre ela foi a pesquisa que eu fiz sobre as
pessoas que conviviam diariamente com a minha chefe para poder saber
com o que eu estava lidando. Mas a convivência era bem fácil.
Casualmente checo o relógio no meu pulso e imediatamente um
familiar bip ressoa no meu ouvido. Atendo a chamada e um dos outros
seguranças me avisa que eles já estão prontos, apenas aguardando para sair.
Pego a mala, levo até ao carro e vou até à sala de segurança para me
certificar que está tudo certo. Escuto uma risada vindo da garagem.
Encontro-me com Diana e Brett, me sento no banco do motorista enquanto
as duas se acomodam no banco de trás. Ligo o carro e, ao sairmos na rua,
ativo o sistema de segurança da mansão.
Algumas horas de voo depois, chegamos ao hotel. Diana tem mais dois
guarda-costas, Luca e Michelle. Nós, além de colegas de trabalho, somos
melhores amigos. Conheci o Luca no curso de formação para entrar na
polícia e, a Michelle, eu conheci poucos anos depois na academia, porque
treinávamos no mesmo horário. Desde então, esses dois são a coisa mais
importante na minha vida.
Michelle ficaria com Diana no hotel até o horário da noite, que era
quando eu assumira para levar minha chefe até um compromisso. Durante
esse tempo, eu e Luca fomos buscar os carros alugados. Eram duas BMW,
uma que ficaria a serviço da Srta. Montserrat e a outra com os dois
seguranças que não estivessem escoltando-a e Brett.
De noite, busco Diana no quarto. Andando pelos corredores, vejo o
quanto o hotel era bonito: bem decorado, luxuoso. Me dirijo até a suíte
presidencial em que Diana estava hospedada. Michelle estava em frente à
porta, já me esperando.
― Boa noite. Ela já está pronta? ― Pergunto.
― Acredito que sim.
― Luca já está esperando lá embaixo. Logo estaremos a caminho.
Pode ir.
Me posiciono ao lado da porta, no lugar que Michelle estava quando
cheguei. Ela acena com a cabeça, se despedindo.
Descemos o elevador do hotel. Ele era todo espelhado e bem
iluminado, com um carpete azul-marinho. Ajeito o comunicador no meu
ouvido. Luca e Michelle estavam nos esperando no carro, do lado de fora
do hotel. Aviso que estávamos a caminho. Olho para a minha chefe, ela está
deslumbrante. Usava um vestido preto de cetim, o cabelo preso atrás e um
cheiro bom, quase amadeirado, havia tomado conta do local. Era apenas um
jantar simples de boas-vindas na cidade, com o diretor da empresa que ela
iria comprar. Amanhã, teria um jantar mais festivo; hoje, seria apenas mera
formalidade.
Sua postura muda quando entramos no restaurante: cabeça erguida,
confiante, intimidadora, claramente superior a qualquer um ali. Eu olho ao
redor e tenho certeza que o prato mais modesto ali seria um mês inteiro do
meu salário. Apenas escutando o sobrenome Montserrat, o garçom muda de
conduta. Por um segundo pensei que iria beijar o chão para a minha chefe
passar. Após toda a bajulação, fomos em direção ao mezanino reservado
para o jantar. Caminhamos e, faltando dois passos de distância, percebo
que, na mesa, o diretor da empresa já estava nos esperando. Era um homem
que parecia poucos anos mais velho que eu, cabelo curto e penteado para
trás. Bonito.
― Se não me falham os olhos, senhorita Montserrat em pessoa! ― Ele
se levanta e se coloca na lateral da mesa para poder cumprimentá-la com
um aperto de mão. Estica-se para frente no intuito de beijar a mão de Diana,
mas ela a puxa de volta antes de acontecer. Aquilo foi mais que o suficiente
para me deixar alerta.
― Boa noite, Alencar. ― Diz, simples e formal.
― Boa noite. É um prazer recebê-la novamente na cidade. ― Ele
responde em um tom cordial e volta se sentar em sua cadeira. Eu afasto a
cadeira para minha chefe se sentar e me posicionei próximo à parede atrás
dela.
― O prazer é todo meu. Além disso, temos muitos assuntos para serem
tratados essa semana.
― Sim. Todos os membros do conselho ficaram muito felizes com a
sua colaboração. Me encanta que uma moça tão jovem possa ter um talento
tão grande para os negócios.
― Sim, sei o quanto é importante. Ainda mais a empresa entrando
nessa nova fase, a nossa parceria sem dúvidas será um sucesso. Confio
muito em seu trabalho para gerenciar as coisas enquanto meu sócio. ― Ela
diz calmamente, mas com o ar de superioridade sempre presente. Uma
alfinetada.
― Faremos desse novo projeto um sucesso milionário. Não será o
primeiro que comando, minha família é sócia de muitas empresas
igualmente grandes, como você mesmo sabe. Sem dúvidas, será um grande
negócio.
O prato de entrada logo é servido. Alencar começa a se gabar sobre a
fortuna de sua família, como se isso pudesse surpreender alguém ali. A
conversa dos dois é repleta de desconfianças, sempre numa linha tênue
entre assuntos formais e uma briga descarada.
Eu estava acostumada a passar horas em pé, mas o cansaço da viagem
queria começar a cobrar seu preço. Questiono-me se, para Diana, está sendo
tão ruim o falatório quanto está sendo para mim. Toda vez que o garçom
trocava de prato, uma parte de mim se alegrava em saber que aquele jantar
estava mais próximo do fim. Minha experiência em jantares refinados dizia
que seriam 7 pratos ao todo. O fato dele falar coisas óbvias sobre o trabalho
da Diana com um tom de superioridade me fazia querer interromper o
encontro ali mesmo. Mas, enquanto a segurança dela não estivesse
ameaçada, eu não poderia fazer nada a não ser ficar ali calada e fazendo
meu trabalho.
― … Levando em conta tudo que aconteceu, todo aquele escândalo
com o seu pai, eu acreditei que você iria recuar em aceitar essa proposta.
Supus que não estaria com disposição para lidar com tamanha
responsabilidade. ― Seu tom é de desdém.
― Eu me comprometi. Eu estou segura do que estou fazendo.
Independentemente do que aconteceu, qualquer dívida que as empresas
Montserrat pudessem ter, já foram pagas. Afinal, começamos a movimentar
a papelada para esse negócio em dezembro. Eu sinceramente não vejo
motivos para essa insegurança. De qualquer forma, eu ficarei mais do que
contente em responder qualquer uma de suas perguntas se isso for te tornar
menos inseguro. ― Ela não se deixa abalar, tem uma resposta ensaiada e
não deixa espaço para que ele contra-argumente.
Um garçom passa na mesa, retira a louça e logo serve um prato com
camarões. Conforme as minhas contas, era o quarto prato. O próximo era a
sobremesa, restando apenas o café e as frutas cristalizadas.
― Admiro a sua confiança e determinação. Depois do ocorrido, eu
mesmo achei necessário aumentar a minha segurança. ― Alencar tenta
replicar na mesma medida.
O jantar segue bem amistoso uma vez que ela, Montserrat, começou a
conduzir o diálogo, um ar mais descontraído mesmo que tudo falado ali
fosse relacionado a empresa, investimentos e momentaneamente algum
comentário sobre a gastronomia refinada dos restaurantes nova-iorquinos.
Os últimos pratos chegam e não demora para que eles finalmente se
levantem da mesa. Diana se despede com um aperto de mão firme e eu a
acompanho até a saída. Saio primeiro, olhando brevemente a rua, e então
ela desce os degraus da porta do restaurante.
CAPÍTULO 2
Diana

Era madrugada, algo perto das duas da manhã. Certamente, eu estava


acordada há mais tempo do que o necessário. Os pensamentos são mais
difíceis de controlar na hora de dormir. Já havia tomado todos os remédios
possíveis para enxaqueca. Apoio o rosto na mão enquanto contemplo o lado
de fora da janela. As luzes do quarto estavam apagadas e ficar na cama
estava me deixando estressada.
O motivo do meu estresse tinha nome e pelo menos 39 páginas: o
contrato de compra das empresas do Alencar. Grandes projetos assim me
deixavam ansiosa. Todo nervosismo que eu não me permitia demonstrar
durante o dia estavam me tirando o sono durante a noite.
Eu me levanto e ando pelo quarto, tentando me alongar e relaxar os pés
que passaram o dia inteiro em um par de saltos altos. Ficar ali estava me
sufocando. Massageio as têmporas e prendo o cabelo em um coque bem
alto. Me sento numa mesa no centro do quarto e ligo o abajur. Atenta a
todas as anotações e marcações que fiz na minha cópia, começo a folhear o
contrato que foi repassado na reunião do dia anterior com os advogados da
empresa. Tento rever com cuidado cada cláusula, mas minha cabeça estava
simplesmente acelerada demais para me deixar trabalhar.
Completamente frustrada, levanto da mesa, me questionando
seriamente como ainda tinha cabeça para esse trabalho. Queria
momentaneamente sumir. Deixo escapar um grunhido exasperado quando
me sento na cama.
Abro o meu celular, mas a luminosidade parecia simplesmente demais
para a minha dor de cabeça, então o largo na cama. Questiono se poderia
pedir algo da cozinha do hotel àquela hora. Passou pela minha cabeça sair
para comer qualquer coisa, mas Olivia provavelmente me daria uma bronca
se eu quisesse cruzar o batente da porta sem comunicar antes.
Olivia Winston… Uma mulher vários centímetros mais alta que eu, de
cabelos pretos e olhos castanhos escuros, com o currículo impecável.
Quando a conheci pessoalmente, o seu jeito de falar me passou confiança de
cara. Por isso, decidi contratar seus serviços. Ela selecionou a equipe e,
desde então, é a minha sombra na maior do tempo.
Winston era fácil de lidar e geralmente calada. Eu sei que faz parte do
protocolo, agir como se não estivesse ali, mas uma parte de mim tem
curiosidade em descobrir o que há debaixo de toda aquela carranca séria e
terno preto. Rio comigo mesma do duplo sentido não intencional que a frase
teve.
Por fim, resolvo levantar e procurar algo interessante no frigobar. Não
encontrei nada que me chamasse a atenção. Tinha uma máquina de café
expresso em algum lugar. Tantos dólares por noite… Eu esperava no
mínimo o próprio dono do hotel fazendo café para mim. Eu sei que um
telefonema seria o suficiente para conseguir um café, mas não quero
incomodar ninguém com a minha insônia. Queria alguém para conversar.
Não havia resquício de sono no meu corpo e ficar na cama era torturante.
Me pego refletindo sobre o jantar. Alencar se mostrou um excelente
sócio, mas um pouco ignorante para o meu gosto, ainda sim, nada que eu
não estivesse acostumada a lidar. Evidente, não era o primeiro acordo que
fechava com as empresas dele, no entanto, seria o maior até agora. O jantar
dessa semana seria apenas para oficializar os documentos. Fazer negócio
com ele foi uma recomendação do meu pai, que, por sua vez, fechou alguns
negócios com o pai do Alencar no passado, ou seja, eu conhecia Alencar
desde a adolescência, nós até chegamos a ir para algumas festas juntos.
Meu pai, aproveitando a aposentadoria bilionária, acabou deixando as
empresas da família sob minha responsabilidade. Pessoalmente, foi melhor
assim. Posso imaginar o inferno que viraria minha vida se tivesse que lidar
com o inventário dos meus pais. No entanto, vez ou outra ele aparecia na
empresa. Nós não tínhamos uma boa relação e ele não foi um pai muito
presente, inclusive achou loucura contratar uma mulher como segurança.
Mas não valia a pena a discussão.
No dia seguinte, acordo às seis com Brett entrando no quarto como um
furacão. Acabei não escutando o despertador hoje cedo, porém, ao checar o
celular, notei que ele tinha apenas descarregado mesmo. Peço desculpas à
Brett, tomo um banho e me arrumo rapidamente. Winston já me aguardava
do lado de fora do quarto
― Bom dia, senhorita Montserrat. ― Olivia diz formalmente.
Impecável como sempre, sequer um fio fora do lugar. Ela tinha um cheiro
bom, vestia um terno preto com uma blusa social azul escura fechada até o
último botão e o fio discreto do comunicador plugado em sua orelha
esquerda.
― Bom dia, Winston. ― Começo a andar.
Comemos um café da manhã rápido no restaurante do hotel e seguimos
para a empresa. Foi um dia com longas reuniões e, perto das quatro da
tarde, eu só conseguia desejar um jatinho de volta para casa. Discuti com no
mínimo seis pessoas e quis demitir outras cinco. Brett precisou me trazer
um almoço às duas da tarde, porque a reunião de onze e meia durou mais do
que o imaginado e acabou atrasando outros compromissos. A reunião com a
contabilidade e com o marketing sempre demorava mais e seria a última do
dia.
Alencar estava lá como segundo sócio, fazendo o trabalho dele com
um sorriso no rosto, assim como eu sabia que faria. Eu não gostava dele
como pessoa, mas, como profissional, ele era excelente. Poucas pessoas
lidavam com questões empresariais com tanta maestria e isso eu precisava
reconhecer. Era por isso, apenas isso, que eu o tinha como sócio. Olivia não
saiu do meu lado nenhum minuto. Observava tudo, tão discreta que às vezes
eu não me lembrava dela estando lá.
Estávamos saindo do prédio. Passava das nove da noite quando fui
parada por um senhor de quase 60 anos usando um terno marrom. Era o pai
de Alencar. Olivia, antes mesmo que ele pudesse se aproximar muito,
impediu-o, ficando entre mim e ele.
― Vejo que é verdade os rumores, então, Diana Montserrat está na
cidade. ― Seu cheiro é podre, uma mistura desgostosa de nicotina, álcool e
perfume importado.
Durante o pouco que fui obrigada a conviver com o pai de Alencar,
pude notar que o filho era superior ao pai em tudo. Desde o caráter (não que
o Alencar filho fosse um bom ser humano) até o autocontrole e a
inteligência para lidar com os negócios. Sabia também que ele tinha inveja
do próprio filho, pois tinha a ciência que jamais poderia ser o que Alencar
é. Se não fosse pelo filho, ele já teria declarado a falência da família há
muito tempo. Por isso, eles precisavam que eu fechasse esse negócio.
― Não exatamente um rumor, eu tive um jantar de negócios com o seu
filho ontem. ― Sou ríspida, apenas querendo acabar com aquela conversa o
quanto antes. Os bens dele foram bloqueados por envolvimento com drogas
e Alencar está no comando de todas as ações e sociedades do pai desde
então.
― Diga logo, não me faça perder meu tempo.
― Engraçado como uma fofoca pode acabar com a credibilidade de
um homem. ― Ele diz devagar demais para o meu gosto, era como ver uma
cobra sedenta pingando o próprio veneno. ― De uma mulher no caso.
Permita-me dizer que chegou ao meu conhecimento que decidiu mesmo
prosseguir com o projeto milionário de Alencar. Fiquei sabendo também
que só está fazendo isso a pedido de seu pai. A realidade é que você pensa
ser dona do mundo, no entanto, não passa de uma marionete nas mãos do
homem que te negligenciou a vida toda. A verdade é, e você sabe muito
bem, que você não passa de uma bunda bonita para convencer os
investidores.
Winston se move, mas toco em seu ombro.
― Terminou? Agora você vai me escutar. Quando você conseguir
manter suas empresas sem precisar de uma babá, procure a sala da
presidência e venha discutir comigo como um igual. Seu filho está sendo
generoso ao manter a sua mesada, mesmo sabendo que não irá fazer nada
útil com ela. Um pai dependendo do próprio filho? Você deveria se
envergonhar. ― O sorriso arrogante que ele carregava se desfaz e o meu
apenas cresce.
Vejo ele inclinar o corpo para frente para retrucar. Antes que pudesse
avançar qualquer centímetro a mais, Olivia se coloca à frente dele, o que o
faz mudar de ideia.
― Vamos, Winston, o máximo que esse aí pode fazer é vomitar em
você o gim que ele tomou no café da manhã.
CAPÍTULO 3
Olivia

O local escolhido para o jantar foi a empresa sede de Alencar, no salão


de conferências que ficava na cobertura. A decoração era simples, mas as
luzes coloridas deixavam tudo mais sofisticado. Uma fileira de fotógrafos
estava mais à frente. Luca estava perto de uma parede à direita e Michelle à
esquerda. Além deles, era possível ver mais alguns seguranças da própria
empresa. Todos os diretores de áreas já haviam falado algo e o plano de
marketing já havia sido apresentado, restava apenas oficializar tudo.
Diana estava fazendo um pequeno discurso a poucos metros de mim.
Iluminada pelos holofotes, usava um terno escuro da Prada, com saltos
altíssimos e seu cabelo preso pela metade, dando destaque aos brincos de
esmeralda.
― … E, como membro principal da área de diretoria executiva e CEO
da Montserrat Ltda., é com muita satisfação que anuncio que fechamos o
contrato de aquisição da empresa Alencar.
Ela assina o contrato com Alencar e todos os outros membros da mesa
diretora. Alencar e Diana dão um aperto de mão, tiram algumas fotos e dão
início ao coquetel.
Seguro a mão delicada e cheia de anéis da minha chefe para ajudá-la a
descer os degraus do palco. Ela sorri pra mim em agradecimento e logo
acompanha Alencar e as outras pessoas para mais fotos. Depois, se dirige a
um canto com algumas socialites conversando.
Brett surge do nosso lado e sussurra para Diana quem são e seus
respectivos nomes. Ela abre um sorriso cordial e se aproxima das mulheres.
Noto que existe uma sutil diferença no modo como ela se comporta perto de
mulheres e perto de homens. Eu consigo entender perfeitamente que o
motivo disso talvez seja seu ambiente de trabalho, que é dominado por
homens. Eu sempre lidei com isso.
― Foi um prazer inenarrável encontrá-las novamente, ainda mais
numa ocasião tão importante. Se me dão licença, eu preciso conversar com
aqueles senhores ali. ― Ela é muito polida ao falar.
Andamos calmamente pelo salão. O jantar, apesar da estrutura chique,
não deveria ter mais que 60 convidados. Diana conduziu uma conversa
amigável com todas as pessoas que encontrou, sempre algo rápido e
educado. Alencar ficou por perto a maior parte do tempo, com um sorriso
cortês nos lábios.
Eram quase duas da manhã quando voltamos para o hotel. Sou a
primeira a entrar no quarto, acendendo as luzes e conferindo brevemente se
era seguro. O lugar estava perfeitamente arrumado, as malas prontas já que
iríamos voltar para casa no primeiro voo da manhã. Aceno com a cabeça
para que ela entre.
― Meus pés estão doendo tanto que eu teria pedido sem remorso que
alguém me carregasse até o quarto do hotel. ― Resmunga, tirando os saltos
assim que passa pela porta. Ela prende o cabelo em um coque alto e começa
a se despir das joias.
― Eu poderia ter lhe ajudado com isso. ― Dou uma risada sutil.
― Ah, não poderia, seria maldade fazer você carregar esse saco de
batatas do carro até aqui. Muito longe. ― Sua voz estava leve depois de
algumas taças de vinho que se permitiu beber ao fim do jantar. Agora, ela
estava sentada na cama guardando as joias numa caixinha.
― Não seria problema algum. ― De fato, não era.
― Vou guardar essa informação para a próxima vez que precisar passar
6 horas em um salto agulha. Eu estou tão feliz que acabou, fechar esse
negócio sugou toda energia do meu corpo. Lidar com pessoas ricas é muito
estressante… Pessoas em geral, na verdade. Você dá seus termos, tenta
entender os delas, mas nada nunca está bom. Eu sabia que o Alencar era
orgulhoso, mas mesmo assim! Eu estava comprando a empresa dele,
literalmente salvando a vida financeira dele. Ele poderia ter facilitado mais
pro meu lado.
― Pelo pouco que conheço dele, imagino que ele simplesmente não
poderia suportar a ideia de uma mulher sendo superior a ele, mesmo que
seja a fortuna dele que esteja para jogo.
― O orgulho mata as pessoas mais que a ganância. Já vi, e não foram
poucas vezes, pessoas orgulhosas como o Alencar perderem tudo de mais
precioso que tinham por causa do orgulho. ― Eu concordo com a cabeça.
― De qualquer forma, imagino que esteja contente que finalmente
esteja tudo bem… ― Sou interrompida pelo barulho do vidro da janela
quebrando a centímetros da cabeça da Diana.
Meu corpo respondeu no mesmo segundo em uma descarga bruta de
adrenalina antes mesmo que eu pudesse me dar conta inteiramente do que
estava acontecendo. Corro até ela e a empurro, escuto seu grito quando
batemos com força no chão amadeirado do quarto. Coloco ela entre mim e a
cama, minha mão instintivamente na arma. Escuto a porta abrir e Luca e
Michelle, que estavam do lado de fora do quarto, entram. Mais disparos e
vejo que eles se protegem nos pilares do quarto.
― O que foi isso? Isso foi um tiro? ― Ela pergunta sobressaltada.
― Você está bem? Te acertou? ― Pergunto de volta, preocupada,
procurando qualquer ferimento.
― Nã-não, eu estou bem. O que...
Aponto o dedo para que ela para que fizesse silêncio. Espero outros
disparos, mas eles não vêm. Um braço meu estava em seus ombros,
mantendo-a perto de mim e usando meu corpo como escudo, enquanto a
mão dominante segurava a arma. Sinto meu coração bater na boca com o
pico de adrenalina.
― Me escuta, seja lá onde o atirador esteja, ele com certeza está
apenas esperando a oportunidade de ter um tiro limpo para fazer outro
disparo. Continue abaixada e na minha frente. Fica calma, vou tirar você
daqui, ok? ― Olho para seu rosto. Ela estava assustada, eu conseguia sentir
seu corpo tremer, mas não diz nada, só concorda com a cabeça. Mais um
tiro e eu a sinto se contrair contra mim.
Era a deixa para que eu puxasse Diana pelos braços, ficando entre ela e
a janela, e corresse com ela pra fora. Como esperado, escuto mais dois
disparos antes de alcançarmos o corredor. Seu corpo estava trêmulo contra
o meu, seguro-a mais firme, temendo que suas pernas falhem. Quando
chegamos no corredor, vejo alguns funcionários confusos. Eles devem ter
ouvido o barulho dos vidros quebrando.
― O que está acontecendo? ― Luca é o primeiro a falar.
― Alguém está tentando fazer disparos no quarto, está vindo do prédio
da frente. Foi muito rápido, depois explico. Normalmente, eu diria para
irmos atrás do atirador, mas, a essa altura, aposto que ele já está correndo
para fora do prédio. Vamos deixar isso para a polícia. Entendido? – Tomo
controle da situação
― Entendido. ― Os dois repetem em coro.
― Luca, por favor, lide com eles. Explique o que aconteceu ao pessoal
do hotel. ― Aponto para os funcionários. ― Michelle, busque Brett e peça
que providencie um checkout adiantado. Vou tirar ela daqui.
Estávamos no jatinho de volta. O caminho do hotel até o hangar foi
resumido em uma ligação exigindo segurança reforçada assim que
chegássemos em Chicago. A polícia precisou ser informada, mas, como não
havia o menor rastro do atirador, a polícia de Manhattan não pôde fazer
muito. Aquilo nos tomou horas até que finalmente conseguimos embarcar.
Eu estava sentada na cadeira ao lado de Diana. Conhecia muito bem a
expressão no rosto dela. Apesar de agora estar mais calma (depois de muita
insistência de Brett para que tomasse uns calmantes), o rosto estava
petrificado em uma expressão passiva de quem não queria demonstrar
emoções, mas o jeito que ela escondia suas mãos trêmulas nos bolsos
entregavam que ainda estava assustada.
O voo durou poucas horas. Abri minha mala e peguei dois coletes à
prova de balas sobresselentes. Pedi para Michelle entregar um para a Brett e
me dirigi até onde Diana estava sentada.
― Eu preciso que me acompanhe. ― Ela me segue até uma cabine. ―
Bom, eu acredito que vai estar segura e o pior que podia acontecer passou.
Mas, ainda assim, não quero correr risco nenhum. ― Entrego um dos
coletes. ― Esse você pode usar por baixo da blusa para ficar mais
confortável. ― Ela acena com a cabeça, se livrando do sobretudo pesado e
puxa a blusa social que usava. Vestia uma segunda pele marrom escuro por
baixo. Passo o colete por cima da cabeça e começo a ajeitá-lo em seu corpo.
― Não imaginava que pesava tanto. ― Ouço-a resmungar.
― Você se acostuma com o peso depois de um tempo, não se
preocupe. E esse ainda é leve e mais fino. Vai ver, quando colocar a blusa,
nem vai parecer que está usando. ― Tento deixar minha voz o mais leve
possível para que se sinta confortável.
― Com essa loucura toda, eu acabei nem te agradecendo por mais
cedo. Sabe, quando eu te contratei, eu imaginei, sim, que estava correndo
um risco, mas não passou pela minha cabeça que iriam tentar me matar do
jeito que tentaram há horas atrás. O que era apenas uma ameaça se tornou
real. ― Sua voz não passava de um sussurro, como se estivesse admitindo
mais para si mesma.
― Eu sei, assusta e há muitas perguntas na sua cabeça agora. ―
Suspiro e fico na sua frente com as mãos ainda no velcro do colete. ― Não
se preocupe, não agora, você está segura e eu não irei deixar nada acontecer
com você assim como não deixei antes. ― Digo com um sorriso e ela acena
com a cabeça. Mesmo ela não respondendo nada, noto que algo em minhas
palavras confortaram-na. ― Você deveria tentar dormir alguns minutos
antes de aterrissarmos, está há mais de 24 horas acordada.
― Obrigada, Winston, mas prefiro chegar em casa primeiro. Vou
pensar em algum jeito de tranquilizar meus pais antes que essa história caia
na mídia.
Mais um momento de silêncio e eu a ajudo com a blusa e o sobretudo.
Quando termino de vesti-la no colete, ajeito a gola do casaco.
― Bom, tudo pronto. ― Ela acena com a cabeça e saímos da cabine.
CAPÍTULO 4
Diana

Eu estava no escritório da mansão. Não era um cômodo muito grande,


mas eu me sentia especialmente claustrofóbica com aquela quantidade de
pessoas ali. Meu cansaço não me permitia ter paciência para lidar com os
dois detetives que estavam na minha frente há pelo menos quarenta
minutos.
― Senhorita Montserrat, tem alguma pessoa em potencial que tenha
algo contra você?
― Metade das pessoas com quem eu trabalho, eu diria. Eu não andaria
com a quantidade de seguranças que eu ando se eu não realmente
precisasse. Mas apontar uma pessoa específica é impossível.
― Bom, precisamos de algo. Olhamos as câmeras de segurança do
prédio vizinho. Não conseguimos visualizar nenhum suspeito saindo ou
entrando.
― Pode até ter sido um atentado à vida dela, mas, quem quer que tenha
feito isso, não estava tentando matar de verdade. ― Olivia, que até agora
estava em silêncio e encostada numa estante de livros perto de mim, diz. ―
Eu já trabalhei na S.W.A.T. por anos, um tiro como aquele dificilmente
requer mais de uma tentativa para eliminar um alvo e eu ouvi bem mais que
isso.
― Você está dizendo que o fato de terem atirado no quarto de hotel
que as duas estavam não foi uma tentativa de assassinato? ― Pergunta o
primeiro policial, loiro e de olhos castanhos, usando uma blusa marrom e
um olhar de desdém. Ela se aproxima, apoiando os dedos na mesa.
― O que eu estou querendo dizer é que eu mesma já fiz tiros de
execução à distância como aqueles. O tiro foi realizado de um prédio para
outro. Não estava tão longe assim. De duas, uma: ou o atirador não foi
minimamente treinado ou errou de propósito. Eu acredito mais na segunda
opção.
― Ela está certa. Fora que horas antes ela estava em um palco em uma
cobertura. Teria feito bem mais sentido tentar algo lá. ― Michelle continua.
― Sei que, com toda certeza, os senhores estão muito dispostos a
mostrar serviço, no entanto, acredito que já falamos tudo que sabíamos para
os senhores. Supondo que senhor Lopes e seu parceiro já tenham mais que
o suficiente, Winston, acompanhe-os até a porta.
Dispenso-os e eles se despedem antes de passarem pela porta.
― Ninguém entra mais nessa casa hoje a não ser que seja
extremamente necessário. Provavelmente deve aparecer algum repórter e
não estou a fim de falar com nenhum deles. ― Me dirijo a Luca e Michelle,
massageando as têmporas. Eles apenas concordam com a cabeça e deixam o
escritório. ― Brett, faça um comunicado explicando apenas o necessário ao
pessoal da empresa, nada muito grande, depois me traga para assinar. Se
alguém da imprensa chegar a falar com você, diga apenas o que todo
mundo a essa altura provavelmente já sabe e não entre muito em detalhes.
Me levanto e vou para o pequeno bar montado no escritório, tentando
me decidir entre um café ou um uísque.

***
Passava das oito da noite quando Winston bateu na porta do escritório.
Fazia algumas horas desde que Brett tinha ido para casa. Pedi para Luca
acompanhá-la até lá, pois não iria me perdoar se ela andasse sozinha depois
de tudo que aconteceu.
― Entre.
― Queria avisar que Luca acabou de chegar. Ele a esperou entrar em
casa e correu tudo bem.
― Muito obrigada, Olivia. Fico mais tranquila assim.
― Ainda trabalhando? ― Ela cerca a mesa. Hoje seu cabelo estava
preso em um rabo de cavalo alto e usava um terno preto por cima de uma
blusa social.
― Um império não fica de pé sozinho, não é mesmo?
― Você comeu hoje pelo menos? ― Ela se senta em uma das duas
cadeiras de couro que ficam na frente da minha mesa.
― Ainda não, talvez eu coma algo antes de dormir.
― Deveria. Se quiser, eu busco algo para você comer.
― Agradeço a boa vontade, Olivia, mas não estou com tanta fome
assim.
― Bom, tudo bem. ― Ela encosta um dos braços na mesa e aponta
para meu relógio ― Que relógio lindo, parece uma joia.
― Obrigada, minha mãe me deu de presente de aniversário de 15 anos.
― Estico meu braço para ela ver. Era um relógio banhado a ouro, delicado
e com pequenas pedras preciosas em volta. Herança de família.
― Você é próxima da sua mãe?
― Minha relação com os meus pais nunca foi algo perfeito. Os dois
nunca paravam em casa e eu passava bastante tempo sozinha. Sempre foi
algo que me afetou mais na infância, mas, quando cheguei a adolescência,
eu me acostumei e passei a gostar mais de quando eles estavam fora de
casa. Então, chegou a um ponto em que eu morava sozinha em uma mansão
cheia de empregados. Minha mãe sempre foi mais próxima, sempre cuidou
de mim; do jeito dela, mas cuidou. Quanto ao meu pai, por outro lado, ele
nunca quis ter filhos, só me teve porque precisava de uma herdeira. Um
negócio.
― Nossa, Diana, eu sinto muito.
― Não sinta. Mesmo não tendo a melhor família do mundo, eu tive
uma adolescência boa. E sua família? ― Vejo em seu rosto que ela não
esperava por uma pergunta tão pessoal.
― Com os meus pais foi bem diferente, eles foram presentes até
demais. Meus pais me ensinaram a lutar. São donos de uma academia de
luta, então boa parte da minha vida eu passei em um tatame de artes
marciais. Meu maior sonho por muitos anos foi lutar profissionalmente. ―
Ela responde de maneira simples.
― Fico feliz em saber disso. ― Meu tom é sincero. ― Mudando de
assunto… ― Tomo um longo gole do meu café. ― Você sabe que o fim do
ano está chegando e eu vou passar alguns dias do mês de dezembro com a
minha família em Madri na mansão dos meus pais. Estou avisando para que
você possa se planejar. Brett vai te enviar tudo o que precisa saber.
― Claro. Quantos seguranças?
― Apenas você será o suficiente. Minha família tem os próprios
seguranças, mas não quero ir sozinha.
― Como quiser.
Ela deixa o escritório e eu volto a encarar a planilha no computador.
Visitar a minha família era no mínimo complicado e eu evitava isso a todo
custo. Mas as festas de fim de ano eram importantes para minha mãe e eu
me via obrigada a ir.
CAPÍTULO 5
Diana

O relógio marcava quase onze horas da noite. A grande sala da


presidência parecia uma geladeira, me fazendo sentir dores nos braços de
frio. Eu andava de um lado para o outro com a planilha da contabilidade da
empresa do Alencar aberta no tablet em minhas mãos. Minha cabeça fervia
com cada cálculo que não batia naquela planilha. Eu estava cansada, de
mau humor e eu não fazia ideia da última vez que tinha tido tempo naquela
semana para qualquer coisa. As luzes daquele escritório pareciam querer
queimar minha retina. Eu fui muito ingênua em acreditar que isso não
poderia sair do controle e me amaldiçoava por isso.
Por fim, paro na frente da tela do computador. A planilha com a
logomarca das empresas de Alencar, assinada com o meu nome e com o
valor de 100 milhões que não deveriam estar ali. Meu estômago embrulha e
eu engulo seco, me esforçando para não vomitar na montanha de
documentos espalhados pelo tampo de vidro da mesa. Eu sentia meu sangue
gelar em minhas veias e meus pulsos queimarem em resposta.
Tento pegar o copo de uísque à minha direita, mas minha mão tremia
tanto que acabo deixando cair no chão sem querer. Seguro meu rosto nas
mãos, tentando voltar a respirar.
― Está tudo bem por aqui? ― Olivia aparece no batente da porta de
madeira escura. Eu tento responder, mas sua pergunta foi apenas o gatilho
para que eu começasse a chorar. Se é de raiva, desespero ou cansaço, eu não
consigo distinguir. ― Diana, olha para mim. O que foi? Você se
machucou? ― Ela corre até mim e me segura pelos ombros. Eu tento falar
alguma coisa, mas tudo que sai da minha boca é um soluço.
Ingênua, burra, irresponsável e incompetente. 100 milhões de erro na
contabilidade, 100 milhões.
Ela passa a mão pelos meus ombros e me conduz para fora do
escritório. Eu enterro meu rosto nas minhas mãos, com vergonha demais
para olhar para meu reflexo no elevador espelhado.
― Você precisa falar comigo para eu te ajudar, tudo bem? ― Seu tom
de voz era baixo e cuidadoso. Nego com a cabeça, me odiando por ser tão
fraca. Lágrimas escorriam pelas minhas bochechas e eu me negava a fazer
barulho algum. ― Então eu vou te levar pra casa. Você vai tomar um
banho, vai comer e vai dormir. Depois, eu preciso saber o que aconteceu.
Apenas a menção do ocorrido faz eu sentir todos meus músculos
contraírem e eu sinto minha visão vacilar, o pânico se agarrando no meu
pescoço como tentáculos. Ela continua me conduzindo e, eventualmente,
me coloca no banco de trás da BMW.
Vejo ela abrir o porta-malas rapidamente, pegar uma mochila e entrar
no carro na parte de trás também. Meu peito queimava e as lágrimas saíam
desenfreadas sem que eu tivesse controle delas. Sinto suas mãos no meu
rosto guiando-o em direção ao seu próprio, me fazendo encará-la.
― Vamos lá, você precisa respirar. ― Tudo que eu conseguia ver era
seus olhos castanhos atentos para os meus. ― Vamos lá, Diana, respire,
apenas respire. Não precisa falar nada, ok? Vai ficar tudo bem. Puxe pelo
nariz e solte pela boca. ― Eu aceno com a cabeça, tentando obedecer. Leva
alguns minutos até eu conseguir fazer o que pediu. Quanto mais fácil ficava
de respirar, mais eu queria chorar.
Ela me abraça e eu não consigo mais segurar o choro, suas mãos
descendo e subindo pelas minhas costas para tentar me consolar. Meu rosto
enterrado no seu ombro, com vergonha demais para falar alguma coisa. Não
sei quanto tempo fico assim, mas meu corpo começa a ficar pesado. Ela me
encosta no banco de couro.
― Você precisa beber água. ― Ela diz baixo, me entregando uma
garrafa que estava em sua mochila e eu dou alguns goles. ― Precisa comer
algo também, você não está com uma cara boa, vai acabar desmaiando. ―
Ela pega uma barrinha de cereais e algumas castanhas de um dos bolsos e
abre antes de me dar.
― Obrigada, Olivia. ― Seco minhas bochechas e arrumo meu cabelo.
Ela liga o aquecedor do carro e eu me aconchego no banco de trás,
aproveitando o silêncio para raciocinar. Minha empresa pagou 100 milhões
em algo que eu não autorizei e eu iria me certificar pessoalmente que, quem
quer que tenha feito isso, iria me pagar de volta.
Era o aniversário de 73 anos do meu pai. Estávamos todos reunidos na
mansão dele em Madri. Alencar e o pai dele também estavam lá, como
convidados desta vez. Quando estava faltando alguns minutos para
cortarem o bolo da festa, eu precisei voltar para o meu quarto para pegar o
presente. Porém, ao passar perto de uma varanda, eu acabei escutando a
voz do Alencar conversando com uma mulher. Foi nesse dia que descobri
que a história que ele havia contado para todos não passava de uma farsa.
Ele estava drogando o próprio pai para ficar com as empresas.
Eu poderia apenas ficar na minha ou eu poderia tirar proveito disso…
Esperei até que ele ficasse sozinho e me juntei a ele na varanda.
Alencar era um excelente ator, no entanto, eu sabia que ele não estava nem
um pouco feliz em me ver.
― Então quer dizer que mesmo com tanto dinheiro, você, um homem
feito, precisa manipular o próprio pai. Que coisa feia, Alencar. ―
Atravesso os batentes de ferro para a varanda.
― Escutando atrás da porta igual uma adolescente, Montserrat, você
não é melhor do que eu.― Ele encara o vestido vermelho que eu usava
como se ele pudesse fazer com que ele pegasse fogo e eu morresse
queimada.
― E você sequer se submete ao trabalho de negar. Drogar o próprio
pai para o fazer aposentar e pegar as empresas dele. Que golpe baixo. ―
Reforço.
― Eu não o droguei.
― Exceto que não faltou incentivo da sua parte para que seu pai se
afogasse na lama e chegasse a empresa dele próximo à falência.
― E agora eu não passo de um bom filho que seguiu o legado do
pai.― Ele diz como se saboreasse cada palavra que saia da boca.
― Arriscada e inacreditavelmente estúpida a sua estratégia. Teria sido
imensuravelmente mais barato pagar os advogados para salvarem a sua
pele caso te acusassem de homicídio do que jogar milhões de reais fora. ―
Comento.
― Está tentando me dizer alguma coisa, Montserrat? ― Ele brinca
com as abotoaduras do terno, entediado. Arrogante.
― Me diz você, o que te faz achar que eu compro sua postura calma?
Você agiu como uma criança mimada e imprudente. Você não tem a mínima
condição financeira para isso.
― Muito esperta, Montserrat. O que quer?
― Eu quero comprar as empresas.
Eu já tinha pensado naquilo há muitos dias antes. Assim que fiquei
sabendo do fiasco que tinha sido o último investimento de risco e que o
financeiro da empresa dele estava indo de mal a pior, eu comecei a pensar
que seria vantajoso pra mim essa compra.
― 500 milhões e você pode colocar até um sofá rosa na sala da
presidência. ― Ele é irônico, contudo, eu sei que ele não negaria. Estava
na cara.
― Tão desesperado assim, Alencar, a ponto de sequer pestanejar? Nós
dois sabemos que não vale nem um terço desse preço. Bom, minha proposta
ainda está de pé. Apareça pessoalmente no meu escritório se ainda estiver
disposto a não afundar na desgraça.
Acordo com a mão da Olivia no meu ombro. Eu me sentia mais fraca
do que achava que estava antes de dormir. Eu me levanto do carro, sentindo
minha cabeça girar tão violentamente que quase tropeço nos meus saltos. Se
não fosse pelas duas mãos da Olivia me segurando, teria beijado o chão.
― Você está bem? ― Ela tem que olhar para baixo para fazer a
pergunta olhando para mim. Naquele momento, notei o quanto ela era mais
alta que eu, ainda que estivesse de saltos.
― Tudo ótimo, eu devo ter levantado rápido demais. ― Me
recomponho, mesmo sabendo que não poderia fazer muito pelo meu ego
naquele momento.
Nós entramos na casa e subimos até meu quarto. Sua mão não
abandona minhas costas nem por um momento e eu não estava em posição
de poder me abster de algo. Eu deito na cama e ela me ajuda a tirar os
sapatos.
― Eu vou buscar algo melhor do que uma barrinha de cereal para você
comer. Faz dias que você não come nem dorme direito. Tem certeza que
não quer me falar o que aconteceu? ― ela estava na minha frente com as
mãos na cintura. Eu preferi negar com a cabeça e encarar a roupa de cama
ao invés de me explicar.
Ela volta alguns minutos depois segurando uma bandeja na mão.
― A senhora que trabalha na cozinha deixou comida pronta para você.
Por sorte, eu só precisei esquentar. Além disso, eu trouxe um calmante e
uma garrafa de água, porque, caso não tenha reparado, depois de quase
desmaiar duas vezes, não dá para viver de uísque e café. ― Carrega o tom
mais irônico que eu já a vi usar na minha presença.
― Obrigada, Olivia. ― Eu encaro a bandeja, lá provavelmente tinha
mais comida do que eu havia conseguido comer nos últimos dois dias. ―
Eu não lembrei de trazer a minha bolsa.
― Não se preocupe, Michelle já cuidou disso. Sua bolsa e o resto das
suas coisas estão já estão devidamente guardadas no seu escritório.
― Muito obrigada, Olivia. Mesmo que tenhamos planejado que eu iria
trabalhar até mais tarde, você já pode ir.
― Eu vou, mas só depois que você comer e tomar esse remédio. ― Ela
me entrega o garfo.
Eu como em silêncio. Ainda que estivesse mais calma, eu sentia como
se fosse mergulhar em pânico novamente se falasse. Foi mais fácil do que
eu imaginava comer a montanha de comida que a Olivia tinha colocado no
meu prato. Eu poderia inclusive repetir, mas não queria pedir para ela e eu
não sabia se teria forças para descer as escadas.
Reconheço o calmante, era o que eu costumava carregar comigo na
bolsa. Tomo dois e, como prometido, Olivia se despede, levando a bandeja
do quarto. Antes de ir, diz que, se precisasse dela de madrugada, ela viria.
Tomo um banho quente e deito na cama, apagando conforme o
remédio fazia seu efeito. A última coisa que passa pela minha cabeça é
como eu iria lidar com o prejuízo.
CAPÍTULO 6
Olivia / Diana

Passava pouco das seis da manhã e eu já estava ofegante, luca


apertando os antebraços sem dó no meu pescoço. Estávamos treinando há
quase duas horas enquanto alguma playlist de rap tocava em uma caixinha
de som presa na parede.
Giro meu quadril para o lado na tentativa de fugir da sua guarda, mas
ele me acompanha. Viro meu quadril na direção contrária, tentando o
colocar na minha guarda e acaba funcionando. Minhas pernas o impedem
de inverter as posições, seguro seu braço direito com força e o imobilizo
antes de partir para um triângulo. Porém, ele é mais rápido e segura meus
calcanhares, me girando no tatame e passando minha guarda. Fica nas
minhas costas, me prendendo em um mata-leão. Tento me livrar, mas sem
muito sucesso.
― Você precisa aceitar que tá perdendo e bater. ― Ele comenta rindo e
apertando ainda mais meu pescoço. Eu responderia se conseguisse juntar
oxigênio o suficiente. Dou dois tapinhas na coxa dele e ele me solta.
― Você sabe que eu sou melhor de kimono. Melhor de três? ― Me
ajoelho no tatame. Ele acena com a cabeça, sua língua passeando pelos
lábios. Arrogante.
Prendo meu cabelo novamente. A essa altura do treino, ele estava
molhado de suor e grudando na minha testa. Ficamos em pé, um de frente
para o outro. Luca tinha um olhar calmo, mas estava tão cansado quanto eu,
pois estávamos treinando há horas. Me coloco em posição de luta, joelhos
flexionados e mãos à frente, formando uma base firme. Eu gostava mais de
passar a guarda do que de fazer. O problema era que Luca tinha um jogo
muito parecido com o meu, o que levava o empate na maioria das nossas
lutas. Sendo assim, eu precisava quedá-lo. Ele tenta segurar minha nuca,
mas eu desvio e o abraço pela cintura, tentando o derrubar, no entanto, ele
consegue uma catada de perna e me derruba. Eu caio com força no tatame e
ele sorri em triunfo, mas logo o coloco para dentro da guarda De-La-Riva e
o puxo para uma chave de joelho que o desestabiliza, me fazendo conseguir
finalizar a posição. Ele me dá dois tapinhas, acabando a luta ali mesmo.
― Boa, garota. ― Nós trocamos um soquinho com as mãos e ele me
puxa para que eu fique de pé. ― Está quase na hora. ― Ele acena com a
cabeça para o relógio na parede e dá um longo gole na sua água. Meu
amigo, assim como eu, tinha um corpo atlético. Tantos anos de academia e
de luta eram evidentes em cada lugar do corpo.
― Hoje vai ser um longo dia, ainda mais depois de ontem. Imagino o
mau-humor que ela deve estar. ― Eu conhecia muito bem o sentimento de
uma crise de ansiedade, sabia muito bem como é tentar respirar e o
oxigênio não alcançar os pulmões como deveria. Seco o suor com a manga
da minha rash guard e começo a me alongar, me concentrando na minha
respiração, um velho hábito meu.
― O que foi aquilo afinal?
― Eu também não sei, deve ter sido algo relacionado ao trabalho. Não
é como se ela levasse a rotina mais saudável do mundo. Depois que
escutamos o barulho do copo quebrando, eu cheguei lá e ela estava tendo
uma crise. Ela ficou tão mal que, quando eu a levei pro carro, eu realmente
achei que a gente ia precisar levar ela no hospital.
― Você sabe o que foi que aconteceu para ela ficar assim?
― Ela não quis conversar, mas pelo menos deixou ser ajudada.
― Bom, eu vou fazer alguma coisa para gente comer antes de ir
enquanto você toma banho. ― Ele desliga o som e vai embora. O relógio
marcava 6:50.
Eu e Luca tínhamos o hábito de treinar de madrugada antes do
trabalho. Ele montou o tatame na garagem na casa dele, o que acabou sendo
muito útil no final das contas. Michelle, sempre que podia, treinava
conosco, mesmo jiu-jitsu não fazendo muito seu estilo. Dos três, eu era a
que tinha a graduação mais alta, com três graus na faixa preta. Luca tinha 2
graus e Michelle estava na marrom.
Tomo um banho rápido, seco meu cabelo com o secador e visto uma
roupa. Hoje, eu usaria uma calça preta e uma blusa social escura junto com
um sobretudo. Com o fim do ano chegando, estava começando a ficar muito
frio. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto e fiz uma maquiagem
leve. O café da manhã estava pronto e Luca já tinha deixado a cozinha.
Pego duas xícaras no armário de cima e passo geleia nas torradas que ele
havia feito. Começo a olhar as notícias. O ocorrido no hotel em Nova
Iorque com a Diana já não era mais relevante. No lugar, não paravam de
falar de uma socialite que se envolveu com um modelo 30 anos mais novo.
Ao olhar de relance, noto uma jaqueta marrom jogada no braço do sofá
e um par de óculos. Luca entra na cozinha com a toalha enrolada na cintura.
Como se lesse meus pensamentos, ele fala:
― Vejo que já notou a nova decoração da minha casa.
― Então vai me contar de quem é aquela jaqueta marrom ali? ― A
julgar pelo tamanho, a pessoa da vez tinha sido um homem. Luca é
pansexual e com um gosto muito variado, nunca se sabe com quem ele vai
aparecer.
― Jake. Imagino que você lembre dele, ele era um dos policiais
responsáveis pelo caso, um dos que estavam na mansão naquele dia. Mas eu
o conheço faz algum tempo antes daquilo. Não temos nada sério, só
dormimos juntos algumas vezes.
― Algumas vezes?! No plural?! Estou surpresa.
― Você fala como se eu dormisse com uma pessoa diferente a cada
noite. ― Ele coloca as mãos na cintura como se esperasse uma resposta.
― E não dorme? ― Eu gesticulo com a torrada.
Meu amigo era a pessoa mais fácil que eu conhecia, nos conhecemos
por causa disso. Cinco anos atrás, quando tínhamos acabado de nos
conhecer, fodemos tantas vezes que perdi a conta. Fizemos de tudo,
realizamos cada fetiche um do outro, e isso se alongou até pouco mais de
um ano atrás. Era apenas casual, tão casual que viramos amigos. Hoje em
dia chega a ser estranho pensar que um dia fizemos tantas coisas que
amigos não deveriam.
― Depende da pessoa, Jake parece ser um cara legal. Nos damos bem
e, mesmo sendo algo casual, ele não me trata como um pedaço de carne, o
que é importante… E nossos gostos combinam.
― Eu já ouvi esse discurso antes. O próximo passo é vocês virarem
melhores amigos e você fazer café da manhã para ele. ― Tomo um gole
simbólico da minha xícara. ― O que eu estou dizendo é que não seria uma
má ideia se envolver com alguém, você mesmo disse que ele era um cara
legal.
― Não acho que seja o momento certo, relacionamentos exigem um
comprometimento que eu não acho que eu esteja a fim de cumprir. Imagino
que você esteja falando isso porque, agora que eu saí da S.W.A.T., não
existe mais aquele risco iminente de levar um tiro e ser morto no trabalho.
Mas prometo pensar no assunto.
― Imagino que foi o dia mais feliz da vida da sua mãe, protetora do
jeito que ela é. Quanto a um relacionamento, acho válido você pensar no
caso. Bom, sugiro que você vista logo uma roupa se não quiser se atrasar.
Ao chegar na mansão, subo as escadas para o segundo andar e entro no
quarto. A porta estava aberta e o cômodo silencioso como sempre. O único
som que eu podia ouvir era de meus sapatos se chocando contra o piso
branco.
― Bom dia, Diana, você não respondeu minhas mensagens e eu fiquei
preocupada. Então, eu vi a porta aberta. Eu só vim me certificar que estava
tudo bem, ainda mais depois de ontem… ― Eu me viro rapidamente de
costas antes mesmo de me permitir processar por inteiro a imagem da
mulher de lingerie na minha frente. ― Ai, meu deus, desculpa! Eu não
achei que você ainda estava vestindo roupa, não foi minha intenção. ―
Encaro os cadarços dos meus sapatos, sentindo meu rosto quente. ― Eu...
quer dizer… ― Limpo a garganta, encarando o lado oposto do quarto, sem
jeito com a situação. ― Está tudo pronto para quando quiser sair. ― Tento
me recompor, saindo do quarto com o meu coração acelerado.
Eu podia jurar que escutei uma gargalhada antes de descer as escadas.
― Ela está pronta? ― Luca pergunta assim que o alcanço na garagem.
― Está tudo bem com você? Você está parecendo um pimentão.
― Ela ainda não está pronta. ― Não digo mais que isso e recebo um
olhar desconfiado.
Diana aparece na garagem uns minutos depois e a levamos para a
empresa. Ela estava calada, não havia nenhum sinal da noite passada em
seu rosto, nem do pequeno acontecimento no quarto dela. Fico mais
tranquila. Ela usava uma calça de alfaiataria clara com uma blusa social e
saltos vermelhos.
― Bom dia, Brett. Eu quero o diretor da contabilidade o quanto antes
na minha sala. As cópias das planilhas já estão na minha mesa, eu imagino?
― Ela anda até sua sala e Brett a segue, equilibrando um copo de café e
uma pasta.
As duas somem para dentro da sala da presidência e eu me posiciono
do lado de fora. Alguns minutos depois, Brett deixa a sala e volta à sua
mesa. Ela parecia triste, mas tentava não demonstrar muito.
― Está tudo bem? ― Pergunto.
― Não exatamente, hoje está fazendo um ano que meu marido faleceu.
Não estou muito disposta.
― Eu sinto muito. ― Tento fazer a empatia soar no meu tom de voz.
― Eu tenho minhas dúvidas... ― Escuto ela resmungar baixinho, ainda
carregada de tristeza, e ela percebe que ouvi. ― Quer dizer, você não ama
ninguém, não sabe como é o sentimento. ― Emenda.
Não levo seu comentário a sério, ela estava sofrendo. Apenas aceno a
cabeça e logo um homem deixa o elevador. Brett se levanta da cadeira,
apoiando os dedos no tampo de vidro da mesa, e o acompanha até a sala da
presidência, deixando-o entrar sozinho.

DIANA
― Eu posso saber que porra é essa?! ― Estou furiosa e ele olha
confuso para as folhas, mas logo a compreensão preenche seu rosto. Aponto
com uma caneta pro papel, esperando alguma justificativa.
― Eu sempre verifico o fluxo de caixa, não só da empresa como de
todos os projetos individualmente. Imagino que possa ter havido um
engano. ― Ele se justifica.
― Um engano que me custou 100 milhões. Eu não sei qual foi o
funcionário que fez isso ou quem é o responsável. Mas você é o diretor da
contabilidade e sua responsabilidade é de certificar pessoalmente que erros
como esse não ocorram. E, se você não tem a capacidade de cumprir com as
suas obrigações, me avisa que eu acho quem tem. É de conhecimento do
senhor, eu imagino, que isso que está à minha frente é um exemplo claro de
incompetência. Agora, você vai lá arrumar a merda que você fez, ou pode
pegar aquele elevador diretamente para o andar do RH. ― Vejo as cores
saírem do seu rosto.
― isso é um absurdo! Você está completamente louca! Não pode me
tratar assim.
― Você abaixa esse tom! Você sabe o que não pode? O prejuízo de 8
dígitos. O que não pode é você ser incompetente o bastante para me
aparecer com valor desse tamanho faltando na conta e pensar que eu não
notaria. ― Pego um marcador de texto vermelho e círculo todo que estava
de errado no documento. ― Tá vendo isso aqui? Vai custar seu emprego
por justa causa se não arrumar isso em 5 dias. Tenho minhas dúvidas que o
senhor irá conseguir um novo emprego de diretor de contabilidade em uma
empresa tão grande após uma demissão por justa causa nas costas. Uma
semana para achar pra onde esse dinheiro todo foi antes que eu mesma vá
atrás. Eu te garanto que eu sou a última pessoa que você vai querer
investigando esse problema.
― Eu vou te processar! Eu não fiz nada.
― Tenta a sorte. Você corrigindo o que fez, te garanto que não vai me
custar o tanto que isso me custou. ― Ele me olhava desacreditado
segurando as folhas de papel.
― Tudo bem por aqui? ― Escuto a voz da Olivia na porta.
― Está, sim. O senhor diretor de contabilidade está de saída já. ― Ele
levanta, me encarando com ódio, mas eu sei muito bem que iria fazer seu
trabalho devidamente dessa vez. ― Não esqueça os documentos. ― Ele
pega os papéis com má vontade e desaparece da minha sala.
As horas seguintes são monótonas, apesar da quantidade absurda de
trabalho e das reuniões que precisei marcar para o horário da manhã para
conseguir ter a tarde livre. Quando finalmente sento na minha mesa,
faltando pouco para o horário de almoço, uma mulher loira e alta atravessa
a porta. Cabelos soltos, roupas de grife e batom vermelho. Era linda,
daquele jeito elegante e perfeito que só as modelos são. Além disso, tinha
um perfume marcante que logo antes de chegar na minha mesa, pude senti-
lo. Levanto-me e a abraço.
Katie era a minha prima e a pessoa da família mais próxima de mim.
Era como uma irmã, mesmo que morássemos em cidades diferentes.
― Eu senti tanto a sua falta, prima. ― Ela diz animada, me abraçando.
― Katie, não te esperava tão cedo, achei que só te veria de noite! Você
podia ter avisado, eu poderia ter preparado algo... ― Me solto do abraço
para olhar melhor para ela.
― Desde quanto eu preciso avisar algo? Arrumei um jeito para
conseguir mais uma semana de férias e pensei em vir te fazer companhia. E
agora estou aqui para te arrastar para fora desse escritório para irmos
almoçar e colocar a conversa em dia.
Nós deixamos a empresa. Luca e Olivia no banco da frente do carro
enquanto Katie me contava sobre a nova bota prata que ela comprou no de
trás. Minha prima é modelo e herdeira milionária. Usou sua própria fortuna
para abrir a própria marca de roupas, rendendo ainda mais dinheiro…
Assim como qualquer outra Montserrat faria.
Katie era alegre, tagarela, sem o mínimo de vergonha na cara, e a única
pessoa capaz de me fazer relaxar. Me deixei levar por suas conversas fúteis
sobre reality shows e foi o momento mais leve que eu tive nos últimos
meses.
Escolhemos o restaurante favorito dela para almoçar, um natureba
especialista em saladas e poke.
― Ainda penso que você deveria ter me falado que chegaria mais
cedo. Eu poderia ter mandado um de meus seguranças te buscar no
aeroporto.
― Falando em seguranças, por acaso está tentando abrir um novo
negócio de agência de modelos e eu não estou sabendo? Diana, o que era
aquilo no carro? Tem mais seguranças trabalhando na mansão iguais àquele
moreno dos olhos castanhos que está no carro?
― Meus seguranças pessoais são apenas dois, Oliva e Luca. Michelle
também, mas, depois do que aconteceu, eu preferi que ela passasse mais
tempo com a Brett.
― Brett é outra que precisa de um aumento. Ela trabalha tão bem, é tão
organizada. Queria roubar ela para mim.
― Se o guarda-costas bonitão de olhos castanhos, Luca, vier junto, eu
pago o dobro do preço. ― Ela ri e eu não consigo evitar de rir junto.
― Só você mesmo para dar em cima do meu funcionário!
CAPÍTULO 7
Olivia

Com a minha viagem para Madri se aproximando, ganhei uns dias de folga. Eu e Michelle
estávamos sentadas na nossa mesa de costume do bar. Minha amiga era uma mulher latina, de longos
cabelos escuros e ondulados, que hoje estavam soltos. Ao contrário de mim, ela gostava mais de
ousar na paleta de cores na hora de se vestir. Essa noite, ela usava um vestido verde mais curto que a
minha paciência e uma jaqueta jeans.
No fim das batatas fritas e muito tempo depois de mim e Mich termos chegado, Luca finalmente
aparece. Porém, para minha surpresa, ele estava de mãos dadas com um homem loiro que acabei o
reconhecendo pela jaqueta. Jake. Eu e Luca trocamos um olhar, lembrando nossa conversa alguns
poucos dias atrás na cozinha de sua casa.
Pelo olhar de Michelle, ela também não esperava pela cena à nossa
frente. Eles se aproximam da mesa, Luca me abraça e me dá um beijo na
testa, faz o mesmo com Michelle.
― Boa noite, meninas. ― Nós o cumprimentamos e eu mudo de lugar,
sentando do lado da Michelle, para os dois sentarem juntos. ― Esse aqui é
o Jake, meu namorado.
Jake, como Luca havia dito dias atrás, era um cara legal. Fácil de
conversar, embora não fosse nem de longe tão extrovertido quanto Luca.
Conversa vai e vem e eu sinto alguém me olhando. Quando me viro, um par
de olhos verdes bem familiares me encaravam do balcão do bar. Me levanto
e vou até ela.
― Boa noite. Achei que não viria falar comigo.
― Imaginei que estivesse muito ocupada. ― Eu me sento em um dos
banquinhos do balcão do bar. Ally me beija na boca. Peço um drink para
mim e outro para Michelle.
― Para você, nós nunca estaremos ocupadas. ― Lena se aproxima da
gente. Ela também me dá um beijo, depois olho para o seu rosto, que estava
iluminado pela luz azul. Ela estava tão linda naquela noite.
Ally e Lena são duas conhecidas e a gente ficava, às vezes as 3 juntas,
às vezes duas de nós separadas. Elas eram bem mais próximas entre si, mas
não era algo que me deixava chateada, muito pelo contrário, eu gostava de
ter esse espaço. Ally começa a preparar o drink que a Michelle sempre
pede. Eu olho para a mesa em que eu estava e noto que os três conversavam
animadamente sobre algum assunto. O bar naquele dia estava cheio, os
sábados sempre eram assim.
― Aqui está. ― Ally desliza uma cerveja para mim. ― Soube que está
fazendo a segurança da Diana Montserrat.
― Estou sim, faz um bom tempo já. ―Eu levo a garrafa até a boca.
― Se deu bem, hein? Aquela mulher deve usar notas de 100 para
limpar o nariz de tão rica. ― Lena diz.
― Mas vocês já viram a minha chefe? Ela literalmente tem cheiro de
dinheiro e ainda é bonita. Ela não tem um poro na cara, aposto que a
skincare dela paga o meu salário de uns 3 meses. Você vê estampado na
cara dela: r-i-c-a.
― Que bom que está gostando do emprego novo. ― Ela encosta no
balcão. ― Pelo que a gente te conhece, se ela mandar você latir, você
aparece de coleira na frente dela.
― Assim você acaba com a minha moral, Ally. ― Coloco a mão no
peito, fingindo estar ofendida. ― Enfim, de certa forma, eu não posso negar
que até gosto do que eu faço. Se eu falasse isso para a Olivia do ano
passado, ela riria da minha cara.
― Nós também amamos o que você faz. ― Lena claramente não
estava se referindo ao meu trabalho. ― Hoje é sábado, sempre fechamos
tarde, mas, se você estiver disposta a esperar, estaremos livres depois das
duas.
― Acho que eu espero. ― Pego minha cerveja e o drink da minha
amiga, sorrio para as duas e vou para minha mesa. ― O que eu perdi? ―
Me sento do lado da minha amiga, entregando a bebida dela.
― Jake estava falando sobre como está a S.W.A.T. desde que saímos e
depois entramos no assunto da época da academia. ― Luca comenta.
― Eu não sinto falta de ser cadete. Gente, eu tenho 1,90 de altura, eu
sempre fui uma das primeiras pessoas escolhidas para fazer as coisas. Isso
já era um problema, mas ainda tem o fato de que eu sou mulher, né? Foi um
verdadeiro inferno. Por mais chocante que pareça, o curso de formação para
sniper foi muito mais tranquilo que o de soldado.
― Olha, eu não sinto a menor falta disso. ― Michelle comenta. ― Eu
fiquei 4 anos no exército. Me mandaram por meio do deserto um bom
tempo, foi horrível. Mas, como eu queria trabalhar com segurança privada,
eu precisei me estabelecer lá, porque, na minha área, você tem mais "moral"
com treinamento militar. E, por eu ser mulher, eu meio que não tive muito
para onde correr.
― Tem muita diferença de uma carreira para outra? ― Jake pergunta
― Basicamente, quando algo acontece, você corre na direção oposta.
Quando você escuta um tiro, no lugar de ir lá resolver como um militar
faria, um guarda-costas tem que pegar a pessoa que ele está protegendo e
sair dali o mais rápido possível.
Conversamos por um tempo e, no final da noite, depois de Jake e Luca
já terem ido embora, eu levo Michelle até o carro dela para pegar minhas
coisas de lá de dentro e ir para casa da Lena.
― Então, o que você achou? ― Pergunto, escondendo minhas mãos no
bolso da jaqueta.
Por um segundo, tudo que escuto são os saltos de Michelle a cada
passo. Ela parece pensar, então finalmente responde:
― Ele parece muito feliz. Acho que eles combinam. ― Ela diz sem
tirar os olhos do chão.
― Você também está surpresa? Porque é de Luca que estamos falando,
ele não é do tipo de pessoa que se prende a alguém. ― Pergunto
― De fato, quando você saiu para buscar mais cerveja, eles
comentaram que estavam em um relacionamento aberto. Menos mal, não é?
Quer dizer, Luca deve ter amado. ― Ela é irônica, amarga, e eu paro de
andar depois que percebo o que está acontecendo.
― Não acredito… Você gosta do Luca? Sério? ― Respondo quase que
alto demais.
― Não é isso que eu quis dizer, eu não estou com ciúmes. Eu só quis
falar que… ― Ela olha para os lados, tentando buscar as palavras, mas
parece desistir no meio do caminho. ― Ah, deixa pra lá, eu tive mojitos
demais por hoje para falar sobre isso.
― Não, Michelle, calma, não é assim que funciona. Você vai jogar
uma bomba dessa no meu colo e simplesmente sair andando?! ― Eu seguro
seu o braço e vejo que os olhos dela estão marejados. Eu vejo que ela para e
respira como se fosse me contar algo.
― Exatamente. ― Ela limpa as lágrimas na jaqueta e continua
andando. ― Nós deveríamos ir andando logo. Tá tarde demais para gente
ficar no meio da rua.
― Você fala como se proteger pessoas não fosse nosso trabalho. ― Eu
suavizo minha voz, respeitando a fuga de Michelle sobre o assunto. ―
Quando você quiser conversar, me avisa e eu apareço na sua casa com uma
garrafa de vodca. Mas, como eu sou uma ótima amiga, vou respeitar seu
espaço, mesmo que meu lado fofoqueiro esteja muito sentido. ― Ela ri da
minha cara, eu pego minha bolsa no carro, dou um abraço nela e volto para
dentro do bar.

***
Acordo em uma cama muito confortável que não era a minha. Demoro
alguns segundos antes de me situar onde estava. Quando abro os olhos, a
primeira coisa que eu vejo são as costas nuas de uma mulher. Sinto uma
respiração na nuca antes de me virar na cama. Olhos claros me encaravam
ainda sonolentos.
― Bom dia, Ally. ― Me viro para ela. ― Acordada há muito tempo?
― Não muito, na verdade, fiquei esperando vocês duas acordarem. ―
Sua voz está rouca. ― Ontem à noite foi ótimo, sabia? ― Suas mãos
alcançam minha cintura e me puxam para mais perto.
― Eu gostei também. ― Digo, a abraçando e depositando um beijo em
sua testa. ― Vocês duas quase não me deixaram respirar. ― Ela ri e se
acomoda, deitando a cabeça no meu braço, seu corpo nu em contato com o
meu.
― Estão indo para um segundo round e nem me acordaram? Eu vou
ficar com ciúmes. ― Lena se vira para nós. Sua voz entrega seu sono.
― Segundo? Acho que fizemos bem mais que isso noite passada. ―
Ally diz do meu lado, suas mãos passeando pela minha coxa. ― Acho que
mais uma vez não iria fazer mal. ― Eu olho para Lena, que parecia tão
interessada na proposta quanto eu. Seguro a cintura de Ally, virando-a e
colocando-a no meio da cama.
― Tem certeza, Ally? Você parece cansada. Aguentaria nós duas? ― É
um desafio. Ela sorriu, me puxando para um beijo. Sinto Lena do meu lado
beijando o pescoço dela. ― Eu não vejo a hora de tirar esse sorrisinho
cínico da sua boca. ― Digo entre beijos, minha mão subindo para seu
cabelo e o puxando para dar mais espaço para Lena.
Beijo-a sem a mínima pressa. Minha boca desceu para a sua garganta,
me demorando ali porque sabia que a fazia se sentir vulnerável. Lena toma
meu lugar, beijando-a na boca.
A cena na minha frente é linda. Lena segurava os pulsos de Ally sobre
sua cabeça, o beijo das duas era algo mais rápido, faminto. Lena troca
posição, senta na cama com Ally entre suas pernas, o torso contra as costas
dela. Ela beija suas escápulas, chupando seu pescoço, nuca, a língua
passando pelo lóbulo do ouvido. Ally, com os olhos fechados de prazer e a
boca entreaberta. Me coloco em frente as duas, minhas mãos passeiam por
sua cintura e suas costelas, sentindo sua pele arrepiar contra os toques dos
meus dedos. Minhas mãos alcançam seus joelhos, passando por suas coxas
e subindo novamente. Ela abre as pernas, um convite para ser tocada, mas
eu não cedo tão fácil.
― O que você disse mesmo ontem pra mim, sobre fazer a Ally
implorar? ― Meu rosto está próximo ao dela, seus lábios encontrando os
meus pela primeira vez naquele dia.
― Para o azar de vocês, eu não me submeteria a tal coisa. ―
Mentirosa. Com isso, Lana a prende em seus braços.
― Vamos ver o que podemos fazer em relação a isso. ― Ela desce
uma das mãos até Ally, que prende a respiração ao sentir os dedos delas em
seu íntimo. ― Nem começamos e você já está assim, molhada desse jeito
pra gente? ― Ela mostra os dedos para mim e eu os chupo.
Meus dedos substituem os de Lena, tocando seu ponto sensível. Seu
rosto muda na hora, se deixando levar, completamente relaxada. Meus
dedos deslizam facilmente para dentro dela enquanto a mão de Lena aperta
as laterais de seu pescoço.
― Olivia… ― Ela geme, um pedido para eu ir mais rápido, no
entanto, eu me movo apenas para tirar meus dedos e ela choraminga.
Me acomodo entre suas pernas, beijo e chupo o interior de suas coxas
até que minha boca fique a centímetros da onde Ally a queria. Ela tenta
mover o quadril em minha direção, mas eu seguro seus quadris contra a
cama com facilidade.
―Me diga, Lena, ela merece sofrer mais um pouquinho? ― Meu dedo
desliza de baixo para cima em seu clitóris, que está tão sensível da noite
passada que me faz ter certeza que esse pequeno movimento a faz sentir
dor. Sua respiração pesada me confirma isso. Ally ia falar algo, mas o
aperto de Lena em seu pescoço aumenta. Me demoro com meu toque até
sentir suas pernas tremerem contra meus ombros. Seu corpo se contrai e
pequenos espasmos me dizem o quanto estava perto.
― Lena, por favor. ― Ela tenta acabar com a própria agonia. Sentia
ela se contrair contra meus dedos, me apertando em seu canal. Tão
molhada… Eu não gostaria de estar no lugar dela, não teria tamanha
paciência. Seguro ainda mais firme suas pernas.
― Dê a ela o que quer. ― Lena manda e minha resposta é apenas
aumentar a pressão nos meus dedos. Ally choraminga gemendo meu nome,
é música para os meus ouvidos.
Não demora para ela chegar ao seu limite e eu chupo cada gota de seu
prazer, sentindo ela se contrair contra a minha boca, completamente
ofegante. Eu chupo até sentir seu corpo relaxar novamente. Elas deitam de
volta na cama, exaustas, a noite de ontem cobrando seu preço. Eu me
levanto e começo a procurar minhas roupas pelo quarto, começando a me
vestir.
― Você não quer ficar? ― Lena me pergunta, fazendo carinho nos
ombros de uma Ally quase adormecida em seus braços.
― Talvez na próxima. ― Deposito um beijo em sua testa e deixo o
apartamento.
As duas mulheres com quem passei a noite são donas do bar que eu,
Luca e Michelle frequentamos. Então, em uma noite, eu estava bebendo
uma cerveja e, quando me dei conta, já estava na cama das duas. Noites
como a de ontem já aconteceram várias vezes.
Chego no meu apartamento, tomo um banho e deito na minha cama
quentinha. Durmo o que parece ser horas.
Vejo meu reflexo no espelho grande do canto do quarto, meu cabelo
longo e castanho ainda úmido por causa do banho. Leva algum tempo antes
de tomar coragem para sair da cama, mas finalmente levanto. Prendo meu
cabelo em um coque antes de me arrastar pra cozinha.
Pego umas verduras e vegetais na geladeira e, quando fecho a porta,
olho para as fotos que Michelle havia colocado ali com ímã certa vez. A
primeira foto era nós três em uma festa, usando óculos coloridos e
cachecóis de plumas fluorescentes; Luca no meio abraçando nós duas e
segurando uma garrafa de cerveja. Ficamos tão bêbados nesse dia que
dormimos os três de conchinha no chão da cozinha da casa do Luca. A
próxima é uma polaroide minha com a Michelle na praia. Por fim, uma foto
minha com Luca na época da S.W.A.T. Nós estávamos sentados em cima de
uma mesa de concreto, apoiando os pés nos bancos; os dois uniformizados
da cabeça aos pés e sorrindo de alguma piada que ele havia feito.
Começo a lavar e descascar os vegetais, me vejo pensando na época
em que trabalhava na polícia. Atualmente, eu ganho quase o dobro do meu
antigo salário, mas às vezes sinto falta da adrenalina.
CAPÍTULO 8
Diana

Katie Montserrat é a luz da minha vida, por bem ou por mal. Não sei
quantas horas da manhã eram quando ela invadiu meu quarto, abrindo todas
as cortinas. Nós passamos o dia todo fazendo bobagens e aproveitando as
mordomias da minha casa, em outras palavras, ficamos à tarde toda na
piscina jogando conversa fora e comendo fondue.
― Como está em casa? ― Ela sabia que eu me referia à vida pessoal e
não à casa dela de fato.
― Bom, nada novo. Acordei com uma mensagem da minha mãe, ela
viu uma dieta nova no Instagram e me mandou.
Katie e a mãe nunca tiveram uma relação ótima. Tia Cassandra era um
amor, mas, quando se tratava da própria filha, o assunto se tornava
complicado. As duas se gostavam e eu até podia dizer que conviviam bem,
porém, a relação era melhor à distância. Quando estavam próximas, sempre
surgiam pequenas brigas. Não é à toa que Katie passou a morar sozinha
ainda na adolescência.
― Diana, não é justo essa implicância que ela tem com o meu corpo.
― E como você está se sentindo em relação a isso? ― Pergunto
preocupada.
― Eu sei por que você está perguntando isso, mas não se preocupe. Eu
estou há dois anos sem ter nenhuma recaída. Não vai ser uma mensagem da
minha mãe que vai mudar isso. ― Ela diz confiante.
― Eu não quero te ver doente de novo, só isso. ― Acrescento antes de
terminar a conversa, sabendo que, se eu continuasse, ela iria ficar de mau-
humor o resto do dia. ― O que está fazendo? ― Coloco mais vinho na
minha taça, o filme A proposta passava na tela.
― Nada produtivo, como tudo que fizemos o dia inteiro. ― Ela diz, o
celular por sua vez parecendo mais interessante que vovó Annie dançando
em volta da fogueira. ― Já viu o Instagram dos seus guarda-costas?
― Nunca tive curiosidade.
― Como que você os contratou sem sequer olhar as redes sociais
deles?
― Brett ficou encarregada disso.
― Te garanto que você perdeu a melhor parte do processo. ― Ela
espelha o celular na tela à nossa frente. A página está aberta no perfil de
Michelle.
― Esse foi o primeiro que eu achei. ― O Instagram de Michelle tinha
muitas fotos, um corgi caramelo ainda filhote estrelando a maioria delas.
Oliva também aparece em algumas fotos, sorrindo até.
― Que fofo! ― Ela comenta sobre o cachorrinho e continua descendo
o feed até clicar numa foto onde Michelle está sentada nos ombros de Luca.
― Será que eles namoram? Seria uma pena. ― Ela dá um longo gole
em sua taça
― Suponho que não. Teria mais fotos com ele se fossem um casal.
― Vamos descobrir. ― Ela clica na marcação de perfil dele na foto.
Logo, uma sequência de fotos do Luca sem camisa preenche a tela e Katie
solta um gritinho histérico. ― Nossa, ele se acha gostoso, né? Pois,
parabéns, eu também acho!
― Eu já entendi que você quer meu funcionário, não preciso de mais
detalhes.
Vários vídeos na academia e em festas preenchiam o feed. A única foto
que ele tinha com Michelle era de uma festa, ele usava uma jaqueta de
couro por cima de uma blusa branca e ela usava um vestido escuro com
estampa de estrelas, os dois sorriam para a foto. De acordo com a legenda,
era aniversário dela, mas não havia nenhum apelido carinhoso que poderia
indicar qualquer romance entre os dois. Vejo um sorrisinho de orelha a
orelha brotar no rosto de Katie ao notar isso.
― Podemos seguir para a Olivia agora? ― Aponto para a foto onde os
dois estão usando kimonos pretos em um tatame. O cabelo dela está preso
de qualquer jeito e tem esparadrapos enrolados nos dedos. Imponente,
gostosa, fazia eu me sentir intimidada de um jeito bom.
― Só um minutinho. ― Ela rola do feed até o início e segue o perfil.
Sorrio para ela, incrédula. ― Não me olhe assim, não estou fazendo nada
de errado. Eu quero só que ele venha me proteger na minha cama.
― Katie, você é impossível mesmo! ― Solto uma risada antes de
reforçar meu pedido anterior. ― Perfil da Olivia agora, vamos. ― Mando,
me ajeitando no lugar.
― Tudo bem, posso olhar o perfil dele com mais calma depois. ―
Suas unhas enormes e pintadas de laranja dançam sob a tela do celular e,
em um segundo, a página da Olivia brilha à minha frente.
As muitas tatuagens são a primeira coisa que eu noto. Todas ficavam
escondidas debaixo das roupas formais do dia a dia, mas seu corpo era
repleto delas. Na foto mais recente, ela estava usando um top de ginástica,
com a calça de kimono escura e a faixa preta amarrada na cintura. O cabelo
preso em um coque bagunçado e um rosto sério. Os músculos da sua
barriga eram bem definidos e enfeitados por duas carpas que abraçavam
suas costelas.
― Nossa, sem dúvidas eu entendo agora o porquê de ter contratado
ela. ― Momentaneamente, penso que Katie iria fazer um comentário sério,
mas seu tom logo muda. ― Eu não sou lésbica, sou pan no máximo. Mas
você é, então compreendo plenamente a sua decisão.
― Mas eu não... Eu não contratei a Olivia só porque ela é bonita! Ela
tem uma sequência vasta de qualidades muito importantes para o trabalho.
― Ah, então você admite que acha ela bonita!
― Claro que não! Espera, eu não quis dizer que acho ela feia. Quero
dizer que eu não sou cega. ― Sinto meu rosto queimar enquanto me enrolo
com as palavras para respondê-la.
― Você está vermelha. Não tem a mínima moral para negar nada!
Vamos, Diana, estamos só nós duas aqui, prometo que ninguém vai chutar
aquela porta e te acusar de algo. Apenas admita o que está desenhado no
seu rosto. Como que vocês falam mesmo? Gay panic?
― Eu estou sendo julgada por gostar de mulher dentro da minha casa.
― Eu rio. ― Mas está bem. Se vai fazer você dormir melhor à noite, eu
acho ela, sim, uma mulher muito bonita. ― Falo a verdade, mas meu
sentimento por ela vai muito mais do que apenas admirar sua beleza. O jeito
que vem cuidando de mim… As lembranças do hotel e de quando eu passei
mal na empresa passaram a ser visitantes frequentes na minha cabeça.
― Viu?! Não doeu. ― Ela continua a descer o feed.
A data da minha viagem para Madri finalmente chega. Olivia, Luca e
Michelle chegam quando estou tomando café. Parecia manhã de Natal para
Katie quando descobriu que iria no mesmo carro que Luca. Eles nos deixam
no aeroporto. O voo é tranquilo e sem muitos problemas. O motorista da
família já estava esperando por nós quando chegamos. Olivia o ajudou a
colocar as malas no carro. A casa dos meus pais era um pouco mais
afastada da cidade, uma mansão pelo menos 4 vezes maior que a minha e a
arquitetura antiga fazia a fazia parecer um pequeno castelo.
― Bem-vinda à casa dos meus pais, Olivia. ― Seus olhos atentos
passeiam por todo o perímetro da casa diante de si. Encontro minha mãe no
hall de entrada.
Minha mãe me dá um abraço. Nós tínhamos a mesma altura e éramos
muito parecidas. A única coisa que eu pareci herdar do meu pai, além de
uma montanha de dinheiro, foi o mesmo tom castanho-claro de olhos. Só
agora, abraçando-a, noto que realmente estava com saudades.
― Ainda acho que você deveria se mudar para mais perto ou, quem
sabe, voltar a morar aqui. Uma casa desse tamanho para apenas eu e seu pai
é muito solitário.
― Também senti muito a sua falta, mãe. ― Reviro os olhos
afetivamente antes de me virar para Olivia. ― Essa é a Olivia Winston,
minha guarda costas.
― Alma Montserrat, prazer.
― É um prazer conhecê-la, senhora Montserrat. ― Dá um passo à
frente.
― O prazer é todo meu. Eu já havia avisado minha filha, não tinha
necessidade nenhuma de tomar seu recesso de fim de ano. Que besteira,
Diana! Essa casa é completamente segura e temos nossos próprios
seguranças.
― Eu sei, mas eu e Katie temos nossos próprios planos. Eu não quero
depender de vocês.
― Bom, tudo bem. Vejo vocês na hora do jantar. Eu pedi para fazer
uma comida especial hoje. Eu mesma chamo vocês quando estiver pronta.
Nós começamos a andar em direção aos quartos. Olivia parecia
impressionada com o tamanho, mas não falou nada. Explico que a casa
possui 6 suítes, 18 quartos e 23 banheiros, duas piscinas, biblioteca, cinema,
pelo menos 3 salas de jantar, academia, duas áreas gourmet. Em outras
palavras, uma casa enorme que estava na família há no mínimo cinco
gerações. Então, todas as datas comemorativas desde que eu me entendo
por gente foram comemoradas aqui.
― Nós sempre passávamos as férias aqui. Eu e Diana faltávamos
derrubar a casa quando éramos pequenas. Tinha uma estátua de uma mulher
nua nesse corredor. Uma vez, eu e a minha prima resolvemos tentar vestir a
estátua, pois, nas nossas cabeças de oito anos de idade, era um horror ela
estar pelada. ― Escuto a risada da Olivia logo atrás de mim. ― A estátua
quebrou e a Diana ganhou cinco pontos no joelho.
― Eu lembro desse dia, era final das férias.
― Era emocionante brincar de pique-esconde aqui. ― Katie continua.
― Imagino. ― Ela gesticula se referindo ao tamanho da casa.
― Chegamos. ― Abro a porta dupla de madeira.
Meu quarto era quase tão grande quanto a suíte master e era lindo.
Janelas enormes com visão para as árvores da parte de trás da casa, as
paredes tinham um papel de parede discreto, a porta da lateral levava a um
escritório e a outra para um closet que estava praticamente vazio visto que
eu não morava mais aqui.
― Seu quarto é muito maior que meu apartamento, eu estou
impressionada. ― Olivia diz. Katie se joga na cama, abraçando um dos
travesseiros.
― Minha família é indiscutivelmente extravagante. ― Eu sento em
uma das poltronas perto das duas e Olivia se acomoda na outra à minha
frente. Ela usava uma roupa completamente preta e, dessa vez, uma bota
com um pequeno salto. Notei que ela não gostava muito de roupas
coloridas, ficando apenas no pretinho básico. ― Se você não se importar, eu
achei que seria mais prático você se acomodar no meu quarto. Caso você
não se sinta confortável, eu posso pedir para arrumarem um quarto para
você.
― Tudo bem, não precisa se preocupar comigo.
― Então, meninas, vamos sair hoje? ― Diz Katie empolgada.
― Ah, não, eu estou cansada. Além disso, eu já prometi que iria sair
com você no meu aniversário.
― Diana, você não pode apodrecer em casa. Precisa ir pra uma festa,
gastar uma grana em algo absolutamente banal, viver um pouco. ― Ela se
senta. ― Você anda com uma cara de flor murcha, precisa pegar alguém.
Olha só para a Olivia, a pele dela está brilhando. Olivia, qual foi a última
vez que você dormiu com alguém?
Olivia olha perplexa, não esperando uma pergunta tão pessoal. E, por
um momento, eu me vejo muito interessada na resposta. Vejo Olivia esperar
um pouco, na esperança de não precisar responder, mas eu abro um sorriso
desafiador, compelindo-a a revelar.
CAPÍTULO 9
Olivia

Pisco algumas vezes para afastar as ondas de incredulidade que me


atingem. O rosto da mulher sentada na poltrona perto de mim estava
banhado de interesse. Limpo a garganta e falo a verdade:
― Semana passada. ― Ignoro completamente a lembrança que surge
na minha mente das duas mulheres nuas me beijando. Olho para Katie,
mesmo ainda sentindo o olhar de Diana no meu pescoço.
― Homem? Mulher? ― Diana pergunta, seus olhos tão abertos que
posso jurar que seus cílios encostam em sua sobrancelha. Katie esperava
pela pergunta tanto quanto eu.
― Mulher. ― É o máximo de detalhe que dou, tentando ignorar um
pequeno senso de defesa no meu cérebro. Eu era da polícia, uma instituição
absolutamente preconceituosa e conservadora, então falar sobre algo tão
tabu como bissexualidade nunca fez parte da minha realidade.
― Interessada, Diana? ― Katie mexe as sobrancelhas, sorrindo, e me
dou conta de que sou o principal assunto de uma piada interna das duas.
― Não sei do que você está falando, foi mera curiosidade. ― Ela se
ajeita na poltrona e os anéis de seus dedos de repente se tornam muito
interessantes.
― Que eu me lembre, eu não era a principal pauta dessa conversa.
Quando foi a última vez que você tomou um chá? ― Minha vez de fazer
perguntas, usando um nível de intimidade que eu não tenho.
― Como você...?
― Você literalmente tem a bandeira do orgulho lésbico na sua mesa de
cabeceira. ― Aponto para o objeto em questão, que estava disposto perto
do abajur.
― Ah… ― A compreensão a atinge e, de repente, ela estava sem jeito.
― Faz uns meses, foi com uma dessas socialites desses jantares chiques de
CEO que eu costumo ir.
― E foi bom?― Katie mantém o assunto.
― Hum, não exatamente, eu nunca soube antes se ela gostava de
mulheres ou não, me senti parte de um experimento. Ela foi simpática pelo
menos.
― Isso é um jeitinho educado de dizer que você não gostou? ―
Questiono.
― Não achei ruim, mas não foi nada que me fez querer mais. Ela
parecia meio perdida.
Passamos o resto da tarde conversando. O jantar já havia sido servido
quando uma das tias da Diana chegou na casa. Eu quase me engasgo com o
vinho que tomava assim que a vejo, porque era a socialite do noticiário, que
estava com um homem 30 anos mais novo. Meu queixo quase cai quando o
próprio entra na sala de jantar logo atrás.
― Boa noite, família. Esse é o meu namorado, Vinícius. ― Ele acena
educadamente e se acomoda na mesa. ― Diana, minha querida, não vai me
apresentar a namorada?
― Olivia Winston é minha guarda-costas, mas também minha
convidada. ― Noto que usa o costumeiro tom formal para responder à
pergunta.
― E a minha filha desnaturada que não me deu um abraço ainda. ―
Ela se diz antes de um abraço apertado em Katie. De repente, começo a
compreender de onde veio a personalidade e a beleza da prima de Diana.
Mãe e filha sentam-se perto uma da outra, começando a conversar.
― Katie e a mãe dela são quase a mesma pessoa.― Murmuro para
Diana.
― Você acha? Eu pessoalmente penso que é só o jeito depravado de
conversar. Não parece, mas Katie e a mãe brigam muito. No entanto, às
vezes existem momentos como esse, que existe uma pequena trégua.
― Ah, sim. ― Concordo com a cabeça e passo a reparar no namorado
da tia. Deveria ter no máximo 24 anos, não tinha barba e era magro,
provavelmente mais baixo que eu. Pelo jeito que estava à vontade, não
deveria ser a primeira vez dele nessa mesa de jantar. ― Eles namoram há
muito tempo?
― Até onde eu sei, não mais que alguns meses. Foi o maior bafafá na
época. Isso só saiu na mídia agora porque fizeram fofoca. Na realidade, essa
história dos dois vem de outras estações. A minha tia meio que banca ele e
minha mãe acha isso um absurdo.― A esse ponto, nossa conversa era feita
de sussurros trocados.
― O que a Katie acha disso? ― Continuo no mesmo tom.
― Esse namoro é apenas mais uma pauta na briga das duas. ― Ela
comenta. ― Katie desaprova tanto esse relacionamento que ficou 3 meses
sem falar com a própria mãe.
Somos interrompidas quando notamos o pai de Diana entrar na sala. O
senhor Montserrat era muito alto, magro, com barba branca e extremamente
elegante. Ele usava um suéter verde e o cabelo estava penteado para trás.
Diana passou quase uma hora dentro do escritório com ele antes do jantar.
Ela parecia bem, então imagino que, mesmo a relação dos dois não sendo
de carinho, a convivência dos dois é amigável.
― Gostaria de dar boas-vindas a vocês. Imagino que o restante dos
parentes cheguem no decorrer dessa semana para o Natal. Desculpa a
demora para receber vocês, eu precisei resolver uns problemas...
***
― Como problemas, ele está se referindo a uma videoconferência com
um pessoal de uma empresa que ele é investidor. ― Ela reclama assim que
entramos no quarto depois do jantar. ― Descobri isso hoje. Ele queria
enfiar minha empresa no meio, mas eu não quis. Às vezes, ele esquece que
agora eu sou a dona e tenta tomar decisões por mim, por isso a demora mais
cedo. ― Ela chuta os saltos para fora dos pés e se dirige ao closet.
― Às vezes, ele só não gosta da ideia de não precisar trabalhar pelo
resto da vida. ― Tento contribuir ao assunto. ― Mas penso que você
deveria bater o pé mesmo.
― Me pego atormentada por dúvidas o tempo todo, não preciso do
meu pai para colocar mais dúvidas ainda na minha cabeça. ― Ela
desaparece para dentro do banheiro.
Enquanto isso, observo o quarto, é enorme. Ele é bem iluminado tanto
de dia como de noite e o chão de pedra escura deixa o ambiente
aconchegante. A cama da Diana caberia 3 pessoas facilmente de tão grande.
Já a casa, tinha uma estrutura com uma arquitetura mais antiga com muitos
arcos e detalhes artísticos que fazem realmente parecer um castelo, mas os
móveis eram modernos na medida certa para ficar confortável sem destoar
muito com o estilo.
Sento no sofá perto da lareira e tiro meus coturnos. Entro no closet e
separo uma muda de roupa para trocar. Tomo banho rápido assim que ela
sai do banheiro e visto meu pijama, era uma calça cinza de moletom e uma
blusa folgada de algodão. Quando volto para o quarto, descubro que o sofá
em que estava antes se tratava de um sofá-cama. Diana havia estendido um
lençol e agora colocava sobre o estofado uma coberta e dois travesseiros.
― Muito obrigada. ― Apareço atrás dela. Ela se vira e noto um cheiro
muito bom de xampu e hidratante.
― Ah, isso não é nada. ― Ela olha para cima.
Me dou conta que era a primeira vez que a vejo sem maquiagem
nenhuma. Ela tinha sardas sutis, possíveis de ver só de perto. Os pelos da
sobrancelha eram de um tom ruivo assim como o cabelo. Limpo a garganta,
dando uns dois passos para trás ao me dar conta que estava encarando há
tempo demais.
― Você vai se surpreender o quanto esse sofá é absolutamente
confortável. Só estou em dúvida agora porque eu acabei me dei conta que
você é alta e talvez seus pés fiquem de fora…
― Está perfeito. ― Corto-a gentilmente e ela aceita, caminhando então
até a cama e se livrando dos travesseiros que decoravam ali. Ela senta nos
pés da cama com um travesseiro no colo. ― Olha só você adolescente.―
Pego um pequeno porta-retrato da mesinha entre a lareira e o sofá.
― Essa foto é de uma época muito boa da minha vida. Eu estudei em
um colégio interno só para garotas, aqueles que o uniforme é uma saia
xadrez e blazer com gravata, sabe? Acredito que foram os melhores quatro
anos da minha vida. Eu ia para festas toda semana, sem falar que eu era
muito popular. Ou as meninas me amavam ou me odiavam, sem meio-
termo. Suponho que eu lido bem com esses milionários rabugentos porque
nada supera o bando de patricinhas extremamente ricas que eu tive que
conviver diariamente durante os anos que estive lá. ― Ela comenta rindo.―
E eu estou me incluindo nesse grupo, ok?
― Imagino, Regina George iria lamber o chão para você passar, não é?
― Brinco e volto a olhar o porta-retrato, imaginando uma mini Diana indo
para festas e reclamando que a sua mesada era de apenas 50 mil. ― E você
gostava de lá?
― Gostava tanto que quase fui expulsa. ― Ela sorri. ― Todas as
minhas primeiras vezes foram nessa época. Um belo dia eu estava dando
uns amassos na biblioteca com uma garota do último ano e a inspetora nos
achou.
― Diana Montserrat, não sabia que tinha um lado rebelde!
― Eu fui uma adolescente muito mimada, isso sim. A única coisa que
impediu que eu fosse convidada a me retirar da escola foi uma doação bem
generosa da minha querida mãe. Nada tira da minha cabeça que o carro
novo que a inspetora apareceu ostentando na semana seguinte veio desse
dinheiro.
― Sua mãe deve ter ficado muito brava. ― Imagino o cenário na
minha cabeça.
― Ela estava mais preocupada com o fato de eu beijar mulheres do que
com o dinheiro e a minha suspensão. Ela culpou meu pai por isso. Afinal de
contas, ele que me obrigou a estudar lá em uma escola cheia de meninas. ―
Ela diz.
― Eu imagino. Deve ter sido um baque saber que a filhinha dela não
vai poder dar netinhos de sangue azul. ― Ela não reclama dos meus
comentários levemente ácidos à classe que pertencia.
― Exatamente, mas eu não estou preocupada com isso agora, sabe?
Mas então… ― Ela se acomoda na cama. ― Eu acho que nós vamos
conviver por um tempo. Acho justo você me contar um pouco sobre a sua
vida.
― Bom, eu luto há mais de 18 anos, sou faixa preta de jiu-jitsu. Eu saí
da polícia quando estava no patente de terceiro Tenente. Minha comida
preferida é torta de aniversário… Acho que você precisa ser mais específica
na sua pergunta. ― Levanto para me escorar na parte de trás do sofá,
ficando próxima dela.
― Isso eu já sei, está tudo no seu currículo quando eu te contratei. Eu
não estou perguntando sobre a Tenente Winston, eu estou perguntando
sobre a Olivia, a que saiu correndo ao ver uma mulher de lingerie. ― Não
estranho a pergunta, mesmo sabendo que ela tinha se referido ao incidente
que havia ocorrido a algumas semanas atrás. Ainda assim, me questiono de
onde surgiu o interesse.
― Claro, mas te garanto que não é uma história tão interessante quanto
a sua. Eu, desde os meus 12 anos, soube que gostava de mulheres. A
surpresa foi descobrir que também gostava de homens aos 16 anos.
Geralmente pessoas bissexuais acabam se encontrando numa situação
contrária. ― Ela estava genuinamente prestando atenção e, de repente, me
vejo querendo contar sobre a minha vida inteira apenas para satisfazer a
curiosidade daqueles olhos castanhos me olhando tão atentamente. Porém,
decido por manter a história resumida. ― A minha adolescência foi muito
tranquila, no entanto, meus pais eram muito superprotetores. Eu sinto que
eu passei a viver de verdade quando comecei a morar sozinha.
― Sobre a pessoa com quem você comentou que esteve na semana
passada, ela é sua namorada? ― Ela pergunta no tom mais casual que
consegue. Eu sorrio, minha língua passando pelo interior da minha
bochecha, e me dou conta que estou fazendo a mesma cara de convencida
que Luca tem a mania de fazer.
―Não, Ally e Lena não são minhas namoradas. ― Vejo uma pequena
faísca de surpresa em seus olhos e me delicio com aquilo. ― Elas de fato se
namoram, claro. Eu sou apenas uma terceira pessoa que elas gostam de
convidar ocasionalmente.
CAPÍTULO 10
Olivia

Confiro a minha munição antes de travar a arma e guardar no lugar de


costume. Estou usando uma calça escura com um cinto, uma blusa justa de
mangas longas e gola alta, um casaco preto por cima. Meu cabelo estava
preso em um coque baixo. Hoje, eu estava usando um comunicador por
baixo da roupa, dado que mais dois seguranças da casa iriam conosco. Eles
ficariam do lado de fora e apenas eu seguiria para dentro do clube com elas.
Diana riu bastante quando mostrei para ela o endereço que Katie havia
mandado de onde iriam comemorar seu aniversário.
Estou dando os últimos retoques na minha maquiagem quando um
cheiro muito bom me chama atenção, como se dançasse na minha frente e
me seduzisse a tirar os olhos do espelho. Era Diana. Usava um vestido de
cetim tão vermelho quanto sangue e uma sandália de tiras que combinava
perfeitamente com a bolsa pequena que segurava. Seu cabelo estava solto,
mas colocado de lado e, consequentemente, exibia os brincos de diamantes.
― Então, como eu estou? ― Ela se aproxima finalmente e dá uma
voltinha, esperando um elogio.
― Como se você já não soubesse. ― Sorrio, não dando o que ela quer
por um segundo. Guardo o batom e o espelho na minha mochila. ―
Brincadeira. Está deslumbrante e imponente, como sempre.
― Me acha tão linda assim sempre? ― Ela diz antes de destrancar a
porta, devolvendo na mesma moeda a provocação anterior.
Felizmente, não demora muito e Katie entra no quarto, me livrando da
situação. Percebo que está usando um estonteante vestido azul quando dá
um abraço na prima. Em seguida, puxa Diana para fora do quarto e a leva à
garagem. O local se iluminou assim que passamos pela porta do elevador,
revelando vários carros. Andamos até uma Ferrari preta.
― Olivia! ― Escuto meu nome e, graças ao meu reflexo bom, consigo
pegar as chaves jogadas em minha direção. Diana sorri com a minha cara de
surpresa e eu quase não contenho minha empolgação. Entramos no carro,
que ainda cheirava a novo. Abro a garagem e dou partida no veículo, o
barulho do motor preenchendo o espaço.
― Eu amo meu emprego! ― Minha voz sai mais aguda do que o
planejado.
O local era escuro e com luzes led por todo lado, um tom de rosa. Um
homem usando uma roupa social guia as duas para uma área vip e eu
apenas as sigo, reparando em todas as saídas do local apenas por costume.
Uma música muito animada tocava no último volume, o lugar cheira a
cigarro eletrônico e perfume caro. Era uma boate stripper masculina e de
repente me passa pela cabeça que a minha chefe talvez não gostasse do
lugar que Katie havia escolhido. Como se tivesse lido meus pensamentos,
ela responde próximo ao meu ouvido devido ao barulho.
― Não se preocupe! Ela vai adorar! ― Me tranquiliza e puxa Diana
pela mão, levando-a para uma cadeira na frente do grande palco.
Havia um grande número de mulheres em mesas ao lado desse palco, a
maioria com bebidas coloridas. Katie logo entrega uma igual para Diana. A
música Set you free começa a tocar e a luz diminui, deixando o foco só no
palco. Oito homens começam a seduzir em cima do palco, dançando em
perfeita sincronia e fazendo vários movimentos no chão. Dois deles faziam
acrobacias em barras de pole dance nas extremidades do palco, tirando uma
peça de roupa a cada música que tocava. Na terceira música, eles passam a
dançar entre as mesas. Vejo Katie colocar uma quantia generosa na cueca de
um homem ruivo, dando um tapinha na bunda dele. Aparentemente eles se
conheciam. Um se aproxima de Diana, que também deposita um bolinho de
dinheiro na única peça de roupa que sobrou do homem. Katie parecia estar
certa, Diana sorria e batia palmas pros dançarinos ao seu redor.
― Um minuto de atenção, senhoritas. Temos uma aniversariante entre
nós! ― O ruivo diz no microfone e puxa Diana para o palco, conduzindo-a
para uma cadeira bem ao centro. Eu me aproximo do palco, apreciando o
show.
― Aí vem a melhor parte! ― Katie diz empolgada, batendo palminhas
logo atrás de mim.
Desperado da Rihanna começa a tocar e duas moças de lingerie
vermelha começam a dançar nas barras do palco e depois vão em direção à
Diana, dançando na frente dela. Seu rosto é invadido por um rubor e ela
cobre a boca com as mãos, sem saber como agir. A surpresa é clara em seu
rosto.
― Eu não disse que ela ia amar?! ― Katie diz triunfante.
Minha atenção volta para o palco. As duas mulheres continuavam
dançando e então uma delas se aproxima da cadeira, sensualizando no ritmo
da música. Ela se apoia nos braços da cadeira, exibindo os seios para Diana,
antes de se virar e inclinar o corpo para frente, rebolando e sensualizando.
O olhar de Diana não deixa o corpo dela por um segundo. Ela começa a se
movimentar no chão enquanto a outra mulher se aproxima por trás de
Diana, sussurrando alguma coisa em seu ouvido.
Ela gira em um movimento fluído, se apoiando nas plataformas dos
saltos, e senta sensualmente no colo de Diana. A mão da minha chefe
segura a cintura da mulher, deslizando pela lateral da coxa dela. Ela
continua rebolando e joga o pescoço para o lado, fazendo seu cabelo ser
uma cortina entre o rosto da mulher sentada na cadeira e o público. As mãos
da Diana seguram suas costas conforme ela continua a dançar e é nesse
momento que nossos olhares se encontram. Tinha fome ali. As mãos dela
subiram até o pescoço da stripper sem tirar os olhos de mim.
Completamente famintos.
A stripper levanta de seu colo, se juntando a outra, e elas começam a
dançar o refrão da música. Mas, a essa altura, eu só consigo prestar atenção
na mulher sentada na cadeira. A boca dela, pintada de um vermelho
vibrante, levemente entreaberta e os muitos anéis parecendo ter um brilho
ainda maior enquanto estava sentada ali.
Logo elas ficam uma de cada lado e dançam, a atenção de Diana
voltando para elas quando elas a puxam para ficar de pé. As mãos das duas
tocam seus ombros e suas costas, descendo por sua cintura. Distraio-me
imaginando minhas mãos ali, meu corpo ali. Queria poder tocá-la daquele
jeito e até mais. Tão linda naquele palco, tão imponente. O corpo dela
parecia ter saído de uma obra de arte renascentista de tão perfeito. A roupa
curta que usava subiu um pouco durante a performance, o vestido, apesar
das pequenas pregas, era bem justo e se moldava ao redor daquele corpo
perfeito. A música termina e ela desce do palco. Um gritinho empolgado de
Katie me traz de volta à realidade.
Pisco algumas vezes e sigo as duas até um canto onde havia algumas
mesas e sofás. Garçons aparecem com bebidas coloridas e petiscos. Sento-
me na ponta do sofá.
― Katie Montserrat, você é uma safada! Eu não estava esperando por
isso! ― Diana está igualmente empolgada após beber metade de sua bebida
de uma vez só.
― Achou mesmo que eu iria te trazer para uma boate stripper e iria
deixar você ficar na vontade? ― Ela ri e dá um abraço de lado na prima.
Então, as duas meninas aparecem novamente, segurando um bolo de
aniversário com velas que imitavam fogos de artifício, e todos em volta
começam a cantar parabéns para você em um coro. Nós comemos o bolo
enquanto Katie contava uma de suas histórias mirabolantes nas idas
anteriores a esse clube.
― Boa noite, garotas! ― O homem ruivo aparece novamente. Agora,
sem todas as luzes piscando, reparo que o cabelo dele estava preso em um
rabo de cavalo alto. Ele usava uma cueca branca que deixava praticamente
nada para a imaginação. Katie, assim que o vê, levanta do lugar e o abraça.
Ele permanece com a mão na cintura dela quando nos cumprimenta.
― Boa noite, Joe! ― Diana o cumprimenta e segue para o próximo
drinque.
― Se vocês duas me dão licença, eu estava morrendo de saudade. ―
Diz educadamente e a conduz para outro lugar.
― Eles se conhecem? ― Dou mais uma garfada no bolo e pergunto
para Diana.
― Ele é apenas mais um dos cachorrinhos da minha prima. Ela julga a
mãe por namorar alguém bem mais novo e gastar muito dinheiro com isso,
mas faz igualzinho.
― Não sabia que Katie gostava de recorrer a garotos de programa.
― Ela tem fetiche, acha absurdamente prazeroso poder pegar quem ela
quiser, ainda mais se estiver pagando por isso. Clube de strip tease é quase
um parque de diversões para ela.
― Sério? ― Pergunto ainda intrigada.
― É como eu vejo. Ela jamais admitiria em voz alta, mas imagino que
ela concorde comigo.
― Ela seria a cliente perfeita em qualquer festa BDSM então, ainda
mais como dominatrix.
― Então, quer dizer que a tão sistemática Tenente Winston tem
conhecimentos e gosto peculiares? ― Ela se vira, cruzando as pernas em
minha direção.
― Eu não colocaria com essas palavras, mas sim.
― Em que palavras você colocaria? ― Eu conheço esse tom de voz,
arrogante, é o mesmo que usa quando quer mostrar superioridade. Amava
aquilo. Questiono-me até que ponto ela conseguiria sustentar ele comigo.
― Eu sou mais o tipo de pessoa que faz isso casualmente, não faz o
meu tipo levar meus desejos como estilo de vida. ― Minha resposta é
simples, sem muitos detalhes. ― E você?
― Nunca tive curiosidade, mas quem sabe um dia. ― Ela leva o copo
até a boca e eu começo a me perguntar se esse interesse todo era realmente
apenas da bebida começando a fazer efeito no sangue.
Katie volta e carrega Diana para dançar, eu continuo no sofá de olho
nas duas. Pelo menos, dois homens me oferecem dança privativa, o que, se
eu não tivesse trabalhando provavelmente, aceitaria. Talvez eu chame
Michelle e Luca para irem comigo em uma boate assim algum dia, eles
iriam gostar.
O relógio no meu pulso apontava 3:40 da manhã. Vejo uma das moças
da dança de mais cedo levar minha chefe para dentro de uma das salas.
Espero as duas entrarem e vou até lá, esperando do lado de fora. A música
estava alta, mas, caso ela gritasse ou precisasse de algo, eu poderia escutar
dali.
Quando as duas saem da sala, eu vejo desenhado no rosto da Diana que
ela não esperava me ver ali.
― Estou apenas fazendo meu trabalho. ― Digo próximo ao ouvido
dela. Ela olha para cima, completamente desconcertada. Reparo que seu
batom não está mais ali e seu cabelo está diferente também. Na sua
clavícula, pequenos grãos de purpurina dançavam como se fossem
constelações e eles não estavam ali antes.
Permanecemos no clube até eu decidir que a aniversariante já havia
bebido demais. Ela fica relutante, mas Katie já estava a arrastando para fora
do clube antes que ela se desse conta. Elas gargalhavam da dificuldade de
descer as escadas nos saltos após tanta vodca. O repertório de piada de
Katie nunca foi tão extenso e eu só conseguia pensar que eu iria ter que
carregar uma das duas até o carro, porque eu estava vendo a hora de uma
delas virarem o pé e rolarem escada abaixo. Mas elas conseguem com
sucesso, alcançando a Ferrari.
― KATIE MONTSERRAT! Se você ousar sujar os bancos de couro da
minha Ferrari, eu vou limpar o vômito com o seu cabelo! ― Diana
esperneia com a voz aguda e volta a gargalhar, abraçando a prima.
Katie está segurando os saltos nas mãos quando finalmente alcançamos
o corredor dos quartos da mansão. Ela abraça a prima e usa isso de
vantagem para bagunçar o cabelo de Diana, logo após entrando no próprio
quarto.
Ajudei-a a atravessar o cômodo e fomos direto para o banheiro. Eu a
sentei num banco que havia ali, desabotoei as sandálias e tirei as joias,
colocando-as num pequeno porta-joias que tinha ao lado da pia de mármore
branco.
― Eu gosto muito das suas mãos. ― Ela comenta, quebrando o
silêncio.
― O quê? ― Pergunto confusa.
― Suas mãos. Elas são grandes e muito sexys. ― Ela pega minha mão,
colocando contra a sua como se comparasse o tamanho. A mão dela era
delicada e menor que a minha, as unhas curtas pintadas de vermelho-escuro
no mesmo tom do vestido. Meus dedos eram um pouco masculinos, com as
falanges mais grossas devido aos anos de jiu-jitsu, com as unhas curtas e
bem feitas, mas sem esmalte nenhum.
― Eu também gosto das suas mãos, Diana. ― Rio, achando bonitinho
o jeito que ela entrelaçou nossos dedos.
― Eu estou falando sério, está bem? Você dirigindo hoje vai entrar na
minha lista de top 5 coisas que eu acho mais sexy, ok? ― Ela larga minha
mão.
― Vou deixar você tomar seu banho em paz, ok? Qualquer coisa,
chama eu vou estar no quarto.― Não prolongo o assunto e saio assim que
ela começa a descer o zíper do vestido.
― Qualquer coisa mesmo? ― Ela usa um tom sugestivo.
― Talvez quando você estiver sóbria. ― Escuto sua risada ser abafada
pelo barulho do chuveiro.
Vou até uma pequena varanda que fica no final do corredor. Tinha duas
chamadas perdidas do Luca e três da Michelle e aproveito para retornar a
chamada de vídeo.
― O que vocês dois querem comigo? ―
― Bom dia, Olivinha! Nossa, que lugar chique você está! ― É a
primeira coisa que Luca diz assim que atende o telefone.
― Aqui é madrugada ainda e eu estou numa varanda qualquer da
mansão Montserrat.
― Nós ligamos mais cedo, mas você não atendeu. ― Vejo Michelle se
aproximar da câmera com o cachorro dela nos braços.
― Eu estava um pouco ocupada. O que vocês queriam? ― Vejo a
feição de Luca mudar na hora e fico um pouco preocupada. ― O que foi?
O que houve?
― Jake me mandou uma mensagem ontem. Ele disse que existe uma
chance de quem quer que seja que tenha atirado em vocês no hotel seja
alguém ligado ao crime organizado de Chicago. ― Luca diz e eu demoro
alguns segundos para me dar conta do que estava acontecendo.
― Isso não muda praticamente nada em relação ao caso da nossa
chefe, mas, no seu caso, muda. Eles podem ser da mesma máfia na qual
você foi responsável pela execução do capo deles. ― Michelle completa. ―
Olha, não é certeza, é apenas uma teoria. Mas você sabe como funcionam
as coisas. É bom ter cuidado.
― O que não bate nessa história é muito simples: vamos supor que seja
mesmo da mesma organização que interceptamos naquele balcão tempos
atrás. Por que eles estariam atrás da Diana? ― Tento raciocinar.
― Simplesmente pelo fato de que ela é podre de rica. Não seria a
primeira milionária a estar envolvida de alguma forma com o crime
organizado e politicagem. ― Michelle faz carinho no cachorro em seu colo.
― De qualquer forma, é apenas um palpite do Jake. Não vamos nos
precipitar.
― É claro que nós vamos nos precipitar, Luca! Se for isso mesmo
verdade e a Montserrat estiver envolvida de alguma forma com a máfia que
nossa amiga matou o capo… Se descobrirem que a Olivia está trabalhando
para ela, é a mesma coisa que desenhar um alvo na testa. Ela pode acordar
com uma arma apontada para cabeça dela amanhã!
― Eu não acho que seja isso. Não há motivo pra alarde, ainda mais
com as duas estando fora do país. ― Luca diz.
― Concordo com o Luca, mas eu prometo que vou tomar cuidado,
tudo bem?
― Manda notícias, ok? ― Luca diz antes de se despedir.
Eu volto para o quarto, sento no sofá e encosto a cabeça, descansando
meu antebraço em cima do meu rosto. Penso na conversa que acabara de
ter. Nada parecia fazer sentido e eu estava cansada demais para lidar com
isso agora.
― Você está realmente cansada, não está? ― Escuto a voz de Diana
alguns minutos depois, já de pijama.
― O fuso horário é complicado. São seis horas de diferença, não é?
Levanto e vou tomar um banho. Coloco a mesma calça de moletom
cinza e a blusa da noite anterior. Quando volto para o quarto, as luzes já
estão quase todas apagadas, com exceção dos abajures ao lado da cama.
Estou quase começando a me ajeitar para dormir quando noto que ela me
observa.
― Olivia, dorme aqui na cama comigo? ― Ela se senta na cama.
― Vai dormir, você está bêbada ainda.
― Eu prometo não tentar nada.― Ela sorri, apontando pro espaço
vazio na cama de forma exagerada.
Solto um suspiro longo e me levanto, deitando na cama. Ela sorri
empolgada e deita a cabeça para trás, esbarrando na cabeceira. Puxo seu
corpo para frente de volta e ela deita direito, se acomodando perto de mim.
Eu jogo o pesado cobertor em cima de nós duas, ela passa o braço pela
minha cintura e encosta a cabeça no meu peito. Instintivamente passo meu
braço em volta dela, minha mão em seu cabelo. Estico o braço apenas para
apagar o resto das luzes.
― Olivia, quando você começou a trabalhar, você também passou a ter
medo de ficar na frente de janelas ou eu que sou muito medrosa? ― Ela diz
depois de alguns minutos.
― Eu entendo bem o ressentimento de janelas depois do que aconteceu
com você no hotel. Assim que eu comecei meu treinamento como sniper, eu
também tive. Mas passa, sabe? Daqui há uns dias, vamos resolver isso tudo
e você vai ficar bem.
― Como foi para você começar a atirar? ― Ela me pergunta.
― Foi difícil no início, mas acredito que eu sempre tive talento para
atirar. Para mim, difícil mesmo foi quando eu precisei passar pelo curso de
formação para ser atiradora de elite. Era muita concorrência e é uma área
muito metódica, você precisa entender muito bem de física e saber fazer
muitos cálculos de cabeça. Sem falar no tanto que isso mexe com o
emocional… Afinal, você está treinando para aprender a tirar a vida de
alguém apenas por que alguém te disse para fazer isso. ― Minha voz estava
baixa ao notar o peso em minhas palavras. ― Existe aquele momento que
você está encarando o telescópio da arma, você já calculou as coordenadas
e está a segundo de executar alguém. E você precisa olhar para o rosto
daquela pessoa antes de atirar. Isso fica na sua cabeça por dias,
independente da pessoa, mesmo ela sendo uma pessoa ruim que matou
várias outras ou está com uma arma apontada para a cabeça de uma
inocente. Com o tempo, você aprende ser melhor em bloquear essas
emoções. Mas, não importa muito o quanto treino e preparo ou até mesmo
experiência você tenha, esse sentimento sempre vai existir, em porções
muito menores, mas vai.
― Imagino o quanto deve ser complicado. Não consigo nem pensar
quanta coisa que deve passar na sua cabeça.
― Não se preocupe, isso é só uma pequena porção do meu trabalho.
― Eu sei que eu estou um pouco bêbada, mas acho que eu vou usar
isso ao meu favor e aproveitar a oportunidade de ser muito sincera com
você. ― De repente, me vejo prendendo a respiração, receosa com as
próximas palavras que sairiam da sua boca. ― Olivia, você acha que,
quando isso tudo acabar e eu não estiver mais correndo o risco de ganhar
uma bala na cabeça toda vez que eu me aproximar de uma janela, eu tenho
alguma chance com você? Eu estou sendo muito sincera. Eu não sei de
onde surgiu esse sentimento. Eu sei que agora tudo que eu consigo pensar é
que você é absolutamente incrível e eu não consigo expressar a inveja que
eu senti daquelas duas mulheres quando você disse que tinha dormido com
elas. Eu queria ser uma delas, Olivia. Eu quero ser. Eu preciso saber pelo
menos uma vez como é ter sua boca na minha para eu conseguir dormir de
noite. ― No escuro daquele quarto parecia tão viável… Seu cabelo estava
contra o meu e eu podia sentir o quanto o coração dela estava acerelado
com o corpo dela encostado no meu. Parecia um passarinho se contorcendo,
desesperado para voar.
Meus dedos alcançam seu queixo, trazendo seu rosto em minha
direção. Eu não conseguia enxergar seu rosto, mas podia sentir a respiração
dela contra o meu rosto. Seguro sua nuca com as duas mãos, conduzindo
sua boca até a minha. Foi um beijo lento, tão gostoso e a sensação dos
lábios dela contra os meus era tão boa. Eu poderia ficar ali por uma
eternidade. Eu precisava que aquilo durasse mais. Me dei conta que
precisava daquele beijo tão desesperadamente quanto ela. Eu seguro a
cintura dela, trazendo-a para mais perto e devorando a sua boca com uma
fome que eu só agora havia me dado conta do tamanho dela.
Quando nossas bocas se separam, nós estávamos ofegantes. Meu
coração batia tão rápido que parecia que eu havia acabado de correr
quilômetros e, ainda assim, eu queria beijá-la de novo. Ela se inclina para
selar nossos lábios novamente e eu preciso segurar seu rosto.
― Olivia… ― Sua voz sai ofegante e isso quase me mata.
― Você precisa dormir. ― A realidade me puxa pelo cabelo e arrasta
meu rosto em um asfalto de bom senso. Eu estou deitada na cama da minha
chefe.
Ela limpa a garganta e resmunga que eu tenho razão. Mas, quando
ouso levantar da cama para ir pro sofá, ela diz:
― Você pode ficar se você quiser. O dia já está amanhecendo e você
teria que ter todo o trabalho de arrumar a sua cama, aqui vai ficar mais
simples pra você.
Eu teria negado, não sei por que não neguei. Não sei por que eu voltei
a deitar e me aconcheguei entre os cobertores.
Ela diz que amou o aniversário e pega no sono rapidamente.
Eu fico contemplando o breu do quarto, pensando no beijo.
CAPÍTULO 11
Olivia

Como explicar Elijah? Elijah é o estereótipo de protagonista de livro:


CEO, arrogante, frio e calculista. Aqueles em que a capa é ilustrada por um
tanquinho e tem um título vulgar em uma fonte horrorosa.
Era final da tarde quando Elijah e uma moça de cabelo escuro e
ondulado chegaram na casa. De acordo com Diana, Elijah era irmão mais
velho por parte de mãe e o contato que tinham era o menor possível. Eles
apenas se viam em ocasiões como esta, final de ano, apenas porque a mãe
dela fazia muita questão.
― Eu estou me sentindo em um livro em que, a cada três capítulos,
três deles são pegação. ― Diana comenta baixo sem tirar os olhos do casal
à nossa frente. ― Acredita que ela era secretária dele?
― Bom, isso de fato passou pela minha cabeça, mas achei que era só
impressão minha. Agora que você falou em voz alta, eu concordo com
você.
― Eles irão ficar no quarto do lado do meu. Se eu acordar escutando
gemido de madrugada, eu juro que eu cometo um crime de ódio. ― É a
última coisa que diz antes de se aproximar do grupo.
― Irmãzinha, quanto tempo! Essa aqui é Blaire, minha noiva.
― É um prazer conhecê-la. ― Eles conversam bastante no corredor e
logo o pequeno grupo vai para a sala de jantar.
A sala era bem iluminada com uma vista bem ampla para o jardim e
para a piscina, que essa noite estavam com as luzes acesas. Os pais da
Diana sentados um em cada ponta da mesa. Além deles, estavam presentes
a mãe de Katie e o namorado. Eu me sento entre Diana e Elijah. O jantar é
servido e todos começam uma conversa paralela entre si. Eu e Diana
permanecemos em silêncio.
― Então, vocês se conhecem há muito tempo? ― Katie está sentada na
minha frente e é a primeira a falar.
― Nós estamos juntos há 7 meses. ― Elijah responde, descansando os
pulsos sobre a mesa.
― Nossa, então não faz tanto tempo assim. ― Diz a mãe de Katie. ―
Estão noivando cedo por que decidiram esperar até o casamento para fazer
sexo por acaso? ― Escuto Diana segurar o riso ao meu lado.
― Cassandra! ― A mãe de Diana a repreende.
― Uma moça bonita dessa pra querer um casamento assim tão nova
com o seu filho, ou está endividada ou está se guardando para o casamento.
Olha, eu não estou julgando. Meu primeiro casamento foi cedo justamente
porque, na minha época, as famílias faziam questão das filhas se casarem
virgens. Eu obviamente morria de medo do meu pai. Casei com 17 anos.
― Eu agradeço o elogio, mas eu e Elijah estamos nos casando tão cedo
porque queremos mesmo. Sabemos que é o momento certo.
― Nem lésbica se casa rápido assim. Ela deve ter engravidado ou
Elijah a fez atingir níveis de loucura inimagináveis. ― Diana comenta
comigo baixinho comigo.
― O que você falou, Diana? ― Elijah se vira pra nós duas.
― Nada relevante. ― Ela sorri e leva a taça de vinho aos lábios.
― Claro, vindo de você, imagino que sim. Então, e você, Diana,
quando pretende se casar? ― Elija pergunta.
― Não tão cedo. Talvez daqui uns 13 anos ou talvez nunca. Vou torrar
minha fortuna com roupas de grife e comprar uma ilha para me isolar por
lá.
― Mas você sabe que precisa ter filhos, não sabe? Ter um herdeiro é
muito importante. E você é mulher, sabe que tem um relógio biológico.
Daqui a pouco você fica velha demais para ter filhos. Você tem 32 anos?
Precisa de um marido e formar uma família.― Ele gesticula com os dedos.
― Você está completamente enganado se por um segundo passou pela
sua cabeça que eu preciso de homem na minha vida. Imagino que me casar
com um não será possível e você tem que ser muito sonso para falar isso pra
mim. ― Diana encara o irmão da mesma forma que faz com os homens de
seu trabalho.
― Esqueci que nenhum homem te comeu direito o suficiente ainda. ―
A mesa se torna silenciosa de repente. Por muito menos, eu já agredi
alguém.
― Repete! ― Sua voz sai cortante.
― Por favor, né? Você já transou com algum homem para ter certeza
mesmo? ― Eu senti meu sangue esquentar. No rosto de Diana, tinha uma
revolta que eu conhecia muito bem. Eu olho para ele e ele sorri assim como
a namorada. Eu queria apenas tirar a Diana dali para não precisar ouvir
aquilo.
― Elijah, não seja idiota. Pare de se envergonhar na frente da sua
namorada. ― Katie interrompe.
― Você não tem o mínimo direito de me tratar assim dentro da minha
própria casa!
― Nem você tem o mínimo direito de julgar se está cedo demais para
eu me casar ou não. ― Elija retruca.
― Diana, ele está certo. ― A mãe de Diana finalmente diz algo.
― Tenha paciência. Ele me ofende na sua frente e você defende ele?
― Ela está possessa.
― Vocês estão se comportando como crianças, discutindo por um
assunto tão besta.
― Nós podemos por gentileza mudar de assunto? ― Ele responde.
― Claro, querido! Vamos falar de como você deveria comprar um
hotel nas Maldivas para eu ter desconto nas férias! ― A mãe de Katie
assume a conversa e o jantar segue tranquilo. ― Eu e o meu querido vamos
passar a primeira semana de janeiro lá. ― Ela segura a mão do namorado.
Pela primeira vez, olho direito para ela. A mãe de Katie, Cassandra, tinha
51 anos e era linda. Mordi a minha língua completamente quando pensei
que se tratava de uma mulher mais velha quando li a notícia na internet. Ela
era bonita, com o cabelo pintado de ruivo, sequer um sinal do cabelo loiro
da filha. Se vestia muito bem e gostava de usar colares extravagantes. ―
Quero levar ele naquele hotel maravilhoso que eu e a minha irmã fomos
uma vez.
― Você tem dinheiro para comprar um hotel daquele, Cassandra.
― Mas não tenho tempo de administrar, é muito cansativo. Eu tenho
51 anos, eu quero é aposentar.
―Eu topo. ― Diana diz do meu lado. Eu quase engasgo com a minha
comida com a naturalidade que a frase sai da boca dela. ― Evidente que eu
não estou disposta a pagar tudo sozinha. Mas se você quiser entrar com
70% do dinheiro, eu cuido da mão de obra e da logística, enfim, a parte
chata. Pensa nisso. Se você aceitar, eu posso ir atrás dos meus advogados e
fazer um contrato.
― Perfeito! Assim que eu voltar das férias com o meu amor, eu entro
em contato com você.
O bar não era nada comparado ao clube que fomos. Era muito mais
simples e bem menor. Meu relógio marcava 21 horas quando chegamos.
― Vai mesmo comprar um hotel nas Maldivas? ― Pergunto assim que
descemos da Range Rover.
―Eu até poderia, no entanto, não vou e minha tia sabe disso. Hotéis
não fazem meu tipo de investimento. É muito dinheiro em jogo para
começar grande assim. Eu falei aquilo apenas para implicar com o Elijah,
ele morre de inveja que eu sou mais rica que ele.
―Como você está? Você não tocou no assunto, mas eu vi que você
ficou chateada. ― Pergunto assim que sentamos em dois banquinhos
próximo ao balcão do bar.
― Eu estou acostumada, sabe? Fiquei furiosa. Mais chateada por
minha mãe e meu pai não terem me defendido. Não que eu precise da
defesa de algum deles, mas eu gostaria de sentir que pelo menos eles
estavam do meu lado. Enfim, besteira não é? 32 anos e ainda esperar isso
deles, é patético.
― Não é patético, eles são sua família. É compreensível pensar assim.
O telefone de Diana toca, é a Brett, então fico em silêncio. O rosto da
minha chefe toma uma expressão preocupada. As duas passam pelo menos
30 minutos na ligação.
― O que aconteceu?
― Brett disse que o erro dos 100 milhões perdidos não foi erro de
contabilidade. A quantia apenas sumiu do fluxo de caixa. Como é um
número que está sempre mudando, a falta de uma quantia assim demoraria
para ser notada, o que foi uma desculpa muito esfarrapada. Tenho uma
equipe só para cuidar disso. Como assim falta um número tão grande e
ninguém nota nada?
― O que isso significa?
― Alguém de dentro da empresa está me roubando e está fazendo isso
há muito tempo, em quantias pequenas. Isso poderia explicar o porquê de só
aparecer nas planilhas agora. ― Ela passa as mão pelo rosto, soltando uma
sequência de palavrões intermináveis e depois virando de uma vez a bebida
do copo.
― O que você vai fazer? ― Pergunto.
― Vou fazer a pessoa se arrepender de ter nascido. ― Ela gesticula
para a pessoa atrás do bar, pedindo mais uma dose. ― Eu me recuso a me
estressar com isso agora. Quando eu voltar para minha casa, vou ligar para
os meus advogados e só então eu vou atrás de seja lá quem fez isso.
― Aqui está, Diana. ― Um copo é depositado na mesa.― Não sabia
que estava na cidade. Faz tempo que você chegou?
― Sim, faz uns dias, sim. Mas vou embora no dia primeiro. ― Elas
começam uma pequena conversa casual.
― Eu preciso ir ao banheiro. ― Levanto do banco. ― Não vou
demorar. ― Ela acena com a cabeça e volta a conversar com a bartender.
Caminho até o fundo do bar. Entro no banheiro minúsculo, faço o que
preciso fazer, lavo as mãos e sinto meu celular vibrar com uma mensagem.
Mas, antes mesmo que eu pudesse checar, escuto os barulhos do lado de
fora mudar. Escuto a voz distorcida de um homem e saio do banheiro,
rapidamente atravessando o bar. Um cara bêbado estava sentado no meu
lugar.
― Eu sugiro que você se afaste. ― Apareço atrás dele e ele parece se
sobressaltar com a minha voz.
― E o que você vai fazer sobre isso, hein? Eu só estou batendo um
papinho com a sua amiga. ― Ele tinha cheiro de cachaça barata e a blusa
dele estava suja de comida.
― Escuta a moça, você não quer arranjar problemas pro seu lado,
Hank. ― Diz a bartender. Hank parecia ter 50 anos, era gordo e bem maior
que eu.
Eu ando cuidadosamente, ficando entre ele e Diana, tentando criar a
maior quantidade de espaço possível entre os dois.
― Eu só estava tendo uma breve conversa com a sua amiga, mas, já
que você está tão interessada, por que não se junta a nós na minha cama?!
Eu iria adorar lamber o peitinho de vocês! ―. Então se levanta do meu
lugar e vem em minha direção.
― Dá o fora e ninguém se machuca. Vamos fazer assim.― Reviro os
olhos e me aproximo dele, criando uma barreira ainda maior entre ele e
Diana.
― Ou o quê? Quando a sua amiga goza, ela revira os olhos assim
também?
Ele continua a falar, mas, no momento em que ele estica o braço na
direção da Diana, eu perco a paciência e acerto um soco na cara dele.
Ele tenta revidar o soco, mas eu desvio e seguro o braço dele. Antes
que eu pudesse dar outro golpe, ele me agarra, acertando meu rosto. Eu
sinto meu sangue gelar quando sua mão tenta pegar a minha arma, mas ele
não consegue soltá-la o coldre. Sem pensar muito, dou uma cotovelada no
seu nariz e chuto seu joelho, derrubando-o com o rosto no chão. Coloco o
joelho em suas costas, segurando o braço dele para trás.
― Eu juro que, da próxima vez que você desrespeitar qualquer mulher
na minha frente, eu vou fazer você se arrepender. ― Eu empurro o pulso
dele em direção à nuca.
― VADIA!
― Resposta errada. ― Giro o braço dele, quase quebrando-o, e ele
grita de dor.
Logo o dono do bar chega e eu o solto. Dois homens arrastam Hank
para fora do bar.
― Você está bem? ― Diana se aproxima, preocupada.
― Eu que deveria te perguntar! O que aconteceu? Eu não demorei
cinco minutos lá dentro. ― Eu olho para ela, mas, por sorte, não tinha um
fio de cabelo fora do lugar.
― Eu não sei, ele estava sentado num canto escondido do bar e veio
logo que você saiu.
― Está tudo bem agora. ― Digo enquanto meu estômago se revira em
agonia por não ter pensado direito e tê-la deixado sozinha.
― Está doendo? ― Ela segura meu rosto com cuidado.
― Que nada, eu estou acostumada. Acredite, não é a primeira vez que
eu ganho um soco na cara. ― Levo meus dedos até a sobrancelha, tocando
o sangue quente que saía do pequeno corte.
― Eu acho que você vai precisar de pontos. Está bem feio, Olivia. ―
Ela conclui.
― Não se preocupe comigo, ok? Vamos. Vou te levar para casa, está
ficando tarde de qualquer forma.
Nós entramos no quarto e eu pego minha mochila, levando-a para o
banheiro. Deposito ela em cima do mármore da pia e procuro minha
bolsinha de primeiros-socorros no fundo dela.
―Olha só, eu reconheço essa mochila. Você tirou uma barrinha de
cereal daí de dentro para mim uma vez! ― Diana aparece logo atrás de
mim.
― É muito importante ter uma mochila dessas, é um costume militar. É
basicamente uma mochila com um pouco de cada coisa importante no caso
de uma emergência. Aqui dentro tem documentos, munição, comida,
canivete, água e, claro, primeiros-socorros. ― Puxo uma bolsinha preta.
― Deixa eu te ajudar? É o mínimo que eu posso fazer depois de hoje.
― Não precisa, sério. Eu estou acostumada a fazer isso sozinha.
― Deixa de besteira. Vem cá, senta aqui. ― Ela aponta para o
banquinho ao lado dela. Eu fico relutante, mas aceito sua oferta. Ela lava as
mãos e pega a bolsinha.
― Sabe, eu nunca tinha visto você lutar antes.
Ela limpa meu rosto, depois o corte e coloca o esparadrapo. Diana
tinha mãos delicadas, mal senti o peso de seus dedos sobre meu rosto. Ela
fazia uma expressão bonitinha quando estava concentrada, era fofo. O seu
rosto estava tão próximo do meu que, pela primeira vez naquele dia, me
permito realmente parar para pensar no beijo da noite anterior. Eu estaria
mentindo se eu dissesse que aquilo não mexeu comigo, porque mexeu
muito.
Lembro da boca dela deslizando contra a minha e sinto meu rosto ficar
quente. De repente, fico morrendo de vergonha e tenho vontade de sair
correndo. Porém, respiro fundo e levo meus pensamentos a coisas broxantes
para conseguir me manter séria tão perto dela naquele banheiro. Se Diana
nota meu pequeno pânico, não diz nada e eu sou profundamente grata a
isso. Quando ela termina, nos arrumamos para dormir.

***

Acordo com o barulho de algo caindo no chão. Levanto a cabeça e


olho ao redor. Estava tudo calmo e vi Diana acordada, mexendo no celular.
― Que barulho foi esse? ― Me sento no sofá.
― Foram os pombinhos do quarto ao lado. ― Ela não tira os olhos da
tela.
― Que horas são? ― Minha mente tenta ter mais clareza das coisas.
Eu resolvi que seria melhor voltar a dormir no sofá depois da noite do
aniversário da Diana.
― Dez minutos pras duas da manhã. ― Ela desliga o celular e senta na
cama. ― Desculpa pela luz do celular, não queria ter te acordado. Eu perdi
o sono.
― Está pensando na briga com o seu irmão, sobre o louco do bar ou
em como eu fico muito sexy com a sobrancelha cortada?
― Um pouco dos três… ― Ela iria falar algo, mas é interrompida por
um gemido abafado vindo do quarto do lado. ― Eu não falei?! ― Ela se
revolta, acendendo a abajur do lado da cama dela.
― Eu acho que você está estressada demais. Suponho que eu sei o que
você precisa. ― Levando do sofá e caminho até o aparador da cama,
apoiando meu joelho ali.
― Está dizendo que nós deveríamos tentar competir com o barulho do
casal do lado? ― Ela sorri e pisca teatralmente para mim.
― Montserrat, você está brincando com fogo. ― Amarro meu cabelo.
― Se me lembro bem, no meu aniversário, tinha uma certa mulher de
terno no meu banheiro dizendo que quando eu estivesse sóbria… ― Ela
começa, mas não termina.
― Foi a loira do banheiro! ― Cruzo os braços.
― Winston, seu cabelo é preto. ― Ela aponta as unhas vermelhas para
a minha cabeça.
― É peruca, acredita? ― Continuo com a brincadeira. Eu adoraria
agarrá-la pelas coxas e fazê-la gozar tantas vezes, até sentir as pernas delas
tremendo nos meus ombros. Mas ela é minha chefe e isso passa por cima do
meu profissionalismo. Balanço minha cabeça, como se isso pudesse afastar
esses pensamentos e continuo. ― Eu acho que você precisa extravasar um
pouco. Tem alguma academia nessa casa?
― Você quer me convencer a fazer exercícios de madrugada? ― Ela
levanta a sobrancelha.
―Sim. Você vai ver, vai dormir feito uma princesa depois. Vamos.―
Puxo o pé dela para fora da cama. Ela tenta se segurar na cabeceira, mas eu
sou mais forte. ― Além do mais, quero te ensinar a se defender. ― Ela me
olhava emburrada, mas, a essa altura, já estava com o corpo todo para fora
da cama.
― É sério isso? Você tá me tirando da minha cama quentinha de
madrugada?! São duas da manhã! ― Ela desliza inteira para fora da cama
com o próximo puxão, atingindo o chão. Às vezes, eu esquecia que, dentro
da CEO poderosa, havia também uma patricinha muito dramática.
― Exatamente. Você não disse que estava sem sono? Coloca uma
roupa que cubra a sua bunda e um top de academia. Vai lá, eu espero. ―
Aponto com a cabeça para o closet.
― Eu sou a Tenente Olivia Winston e eu sou toda fitness. ― Ela faz
uma imitação aguda da minha voz antes de sumir para dentro do closet.
Ela não demora muito e volta usando um tênis e uma calça vermelha
escuro de moletom. Eu aproveitei apenas para calçar um tênis também e
vestir um top por baixo da blusa enorme que eu usava.
― Por que você está levando a sua arma? ― Ela pergunta enquanto me
guia pelos corredores da mansão.
― Faz parte do protocolo e eu não vou deixar ela por aí. Vai que sua
cunhada cai na real que casar com o seu irmão é um péssimo negócio e
tenta atirar nele usando a minha arma. Seria um problema, afinal, ela está
registrada no meu nome. ― Explico.
A academia da casa ficava perto da garagem. Era bem básica, mas
tinha um espaço bom.
―O que você vai me ensinar, como dar um soco em alguém? ― Ela
tenta demonstrar alguma empolgação.
― Não. ― Rio da cara dela. ― Física básica. Força é igual massa
vezes aceleração. Olha pra você, não tem massa muscular nenhuma. Mesmo
que você domine a técnica do soco, não vai ser muito útil para autodefesa.
Qualquer pessoa maior que você, mesmo não tendo técnica nenhuma, vai
fazer um estrago muito maior.
― Se fosse pra escutar desaforo, eu iria tentar uma conversa nada
amigável com o meu irmão, Olivia. ― Ela cruza os braços.
― Ok, vou te explicar assim: sabe nos livros quando o namorado da
mocinha é um soldado, precisa ensinar ela a se defender e a primeira coisa
que ele ensina é como socar alguém? Então, aquilo é uma piada e é
completamente injusto com a moça. Ele está ensinando ela a se defender
como se tivesse a força e o biotipo dele. E ainda tem a audácia de rir e achar
fofinho quando a moça dá um soco completamente desastroso. Ou seja,
músculo importa, força importa, tamanho importa.
― Aonde você quer chegar com isso?
― Para a sua sorte, eu não sou um homem com um tanquinho e eu vou
te ensinar a lutar como uma mulher, respeitando os limites do seu corpo.
Não vou te ensinar a dar um soco se você não tem o preparo físico pra fazer
isso. Só iria te frustrar.
― E, no lugar disso, você vai me ensinar a...? ― Ela tenta acompanhar
meu raciocínio.
― Vou ensinar que, no seu caso, rasgar a garganta de alguém é muito
mais eficaz do que dar um soco quando você não tem vantagem nenhuma
contra seu oponente. ― Sorrio.
― Agora você tem minha atenção.
― Vamos começar com o básico, está bem? Antes de comprar uma
briga, você tem que tentar fugir dela primeiro. Se alguém te segurar, você
precisa mirar em lugares específicos e sem a mínima dó. Afinal, seja lá
quem estiver te atacando, não vai ter dó de você. Para quem tá acostumado
a ganhar uma pancada, um soco no rosto não é nada. ― Aponto para o corte
na minha sobrancelha. ― Você vai mirar em lugares mais sensíveis. Olho,
tímpano, articulações, garganta... Porém, eu vou ensinar isso depois.
Primeiro, você precisa aprender a escapar e correr. Entendeu? Esse tem que
ser seu primeiro instinto. Correr primeiro, tentar lutar depois.
―Entendi. ― Ela escuta atentamente o que eu tenho pra dizer.
Eu coloco a minha arma e meu celular em um banquinho.
― Eu vou pegar seu pulso e você vai tentar se soltar. ― Fecho meus
dedos ao redor de seu pulso e ela puxa, mas sem o mínimo sucesso. ―
Quando alguém te agarrar assim… ― Coloco mais pressão no meu aperto.
― Você segura o seu pulso com a outra mão e faz força, puxando os dois
até seu corpo. O seu puxão precisa ser na direção em que meus dedos se
encontram, pois é o lado mais fraco da pegada.
Ela segura meu pulso e eu demonstro. Logo, é sua vez de repetir o
movimento e ela faz várias vezes, mesmo depois de conseguir.
― E se não adiantar?
― Se isso não resolver, você tem a vantagem de estar perto da pessoa,
ou seja, você pode atacar. ― Ela escutava atentamente como se a vida dela
dependesse daquilo e, de certa forma, nós duas sabíamos que dependia. ―
Você pode, por exemplo, enfiar seus dedos no pescoço da pessoa bem na
garganta. Vale tudo. Chutar o joelho da pessoa com força vai fazer ela cair
no chão e pode machucar muito e talvez a pessoa nem consiga correr atrás
de você. Mas você precisa entender que é preciso acabar a luta o mais
rápido possível e que precisa correr. Nada de tentar comprar briga. ― Nós
continuamos a fazer isso até o movimento ficar mais automático possível.
― Mantenha em mente que, se você torcer o pulso da pessoa, uma
hora ela solta. Ficar se debatendo vai dificultar o trabalho da pessoa, mas
não vai fazer ela te soltar.
― Você pode me ensinar aquilo que fez no bar? Como você jogou ele
no chão? Eu achei aquilo fantástico!
― Ah, claro. ― Pego alguns colchonetes e improviso um tatame. ―
Ele estava tão bêbado que eu apenas precisei desequilibrar e projetar o
corpo dele por cima do meu. No jiu-jitsu, você daria uma banda e jogaria
ele pra frente. Mas, como estamos falando de realidade... ― Peço pra ela
me abraçar por trás, igual o cara tinha feito no bar. Explico as posições do
pé e tudo que ela precisa fazer. Seguro o corpo dela bem firme e me abaixo
mais do que o necessário pra ela não cair com força. Eu a ajudo a fazer
igual e escuto muitas reclamações sobre eu estar facilitando para ela.
Quando voltamos para o quarto, Diana tinha um sorriso no rosto. Ela
estava toda empolgada e planejando a próxima vez que eu iria ensinar a ela
mais golpes. O barulho do quarto vizinho já tinha se acalmado.
Dividimos a cama de novo.
CAPÍTULO 12
Diana

Era manhã de véspera de Natal. Olivia dormia um sono tão pesado que
sequer notou quando eu saí da cama. Jogo meu cobertor em cima dela por
causa do frio antes de ir para o banheiro. Tomo um banho bem quente e
visto um conjunto de moletom. Caminho preguiçosamente até o meu
escritório e pego um café fervendo da máquina. Eu prometi a mim mesma
que só iria me estressar com questões da empresa quando voltasse para
casa. Mas aqui estava eu: encarando a tela do meu celular como se
esperasse a resposta surgir magicamente.
―Eu poderia dizer que eu estou surpresa em encontrar a sua guarda-
costas dormindo na sua cama, mas eu realmente não estou. ― Katie
atravessa a porta do escritório e senta na cadeira de couro logo à frente da
minha mesa. ― Preciso da sua ajuda.
― Não é meio cedo, não? ― Dou um longo gole no meu café.
― Eu nem dormi ainda, mas o ponto não é esse. O Vinícius está
traindo a minha mãe.
― Como você descobriu isso?
― Eu tinha acabado de chegar da casa do Joe e estava passando perto
de uma das varandas quando eu escutei o namorado da minha mãe no
telefone com uma mulher. Diana, você tinha que ver! Ele falou com todas
as letras que só estava com a minha mãe por interesse e que logo iria
depositar o dinheiro na conta dela para ela comprar roupas. Diana, ele é um
golpista nojento que está se aproveitando da minha mãe e eu nem tenho
como provar! Mas sabia que ele não era de confiança.
― Você não gravou áudio pelo celular nem nada? ― Pergunto, ainda
tentando processar a bomba que ela jogou no meu colo. Eu gosto da tia
Cassandra. Me preocupo por ela ter sofrido tanto em relacionamentos
anteriores e sei que ela não merece passar por isso de novo.
― Claro que não. Meu celular estava desligado por falta de bateria. ―
Ela revira os olhos, os saltos batendo freneticamente contra o piso.
― Você precisa contar para sua mãe.
― Ela jamais acreditaria em mim, justamente porque eu implico com o
relacionamento dos dois desde o início. E eu também não tenho provas. ―
As sobrancelhas dela estavam franzidas.
― Mesmo assim, você precisa avisar ela. Mas não hoje, vai acabar
com o Natal dela. ― Meu comentário parece fazer surgir uma ideia em sua
mente. Sua expressão muda e ela levanta subitamente da cadeira, apoiando
as mãos no tampo de madeira.
― Esse relacionamento acaba hoje! Ele não vai brincar com os
sentimentos da minha mãe na minha frente, eu não vou permitir isso. ―
Katie estava com um olhar que eu conhecia bem: pirraça. Katie Montserrat
tinha talento para isso. ― Eu vou para o meu quarto. Joe não deixou eu
sequer cochilar essa noite. Eu preciso de um banho e várias horas de sono.
Eu tenho um relacionamento para acabar essa noite. ― Ela não espera eu
responder antes de deixar o escritório.
Eu abro meu computador. Seguindo meu ritual matinal, eu abro minha
caixa de mensagens e então um e-mail desconhecido. Abro-o e rolo a
página para baixo. São fotos, mas não qualquer fotos. Uma sequência
inteira delas: eu e Olivia descendo do carro, nós duas sentadas no bar. As
fotos foram tiradas do outro lado da rua.
― Olivia! ― Minha voz sai mais alta do que o planejado. A primeira
coisa que eu penso em fazer é tirar print da tela. Parecia útil fazer isso.
Ela surge no batente da porta segurando a arma na mão e o rosto alerta.
― O que aconteceu? Eu escutei você gritando. ― Ela trava a arma e
vem até mim.
― Eu não... eu não sei explicar. Tiraram fotos nossas no dia em que
fomos ao bar e mandaram pro meu e-mail. ― Aponto para a tela do celular.
― Deixa eu ver. ― Ela começa a encarar a tela do computador. ―
Tem certeza que não pode ter sido algum paparazzi ou algo do tipo? Eu
sempre olho em volta toda vez que descemos do carro e não tinha nada
suspeito. ― Ela comenta. Vejo ela pegar um post-it e colar na câmera do
computador, confere também se o microfone está ligado. Não tinha assunto
e o corpo da mensagem eram apenas as fotos. O destinatário era uma
sequência aleatória de letras e números.
― Não faz sentido. Uma revista de fofoca não costuma mandar fotos.
Eu estou com um pressentimento ruim.
― Você chegou a clicar em algum link? ― Ela pergunta. ― É esse o
computador que você usa para trabalhar, certo? No bar, você mesmo disse
que alguém dentro da sua empresa está te roubando. Se essa pessoa tiver
acesso a esse computador, vai piorar tudo.
― Sim, é o que eu uso para trabalhar. Mas o que tem a ver as fotos
com hakearem meu computador? ― Estou genuinamente confusa.
― As fotos podem ser uma distração. Eu não posso afirmar isso, é
apenas uma teoria. ― Ela se levanta e fica de frente pra mim, uma mão
tocando de cada lado dos meus braços. ― Vou te falar o que vamos fazer.
Eu vou ligar para um policial de confiança, vou pedir para ele rastrear esse
e-mail. Se essas fotos foram tiradas mesmo tão longe da sua casa, isso pode
querer dizer que estamos sendo seguidas. Eu não quero arriscar sair com
você sozinha de novo.
― Eu sei que não é nada demais, mas eu estou com um sentimento
muito ruim. Um aperto no peito, sabe?
― Não precisa ter medo. Confia em mim, ok? ― Eu concordo com a
cabeça e ela me puxa pra um abraço. Ela encosta o queixo na minha cabeça,
sua mão subindo e descendo pelas minhas costas assim como no dia que
cuidou de mim dentro do carro.
Alguns dos convidados da minha mãe já haviam chegado quando eu e
Olivia entramos na sala. Olivia ficou muito tempo no telefone durante a
tarde, conversando com alguns policiais conhecidos dela. Passou tudo que
sabíamos até agora e eles prometeram voltar com notícias.
― Diana, querida, como você está bonita! ― Diz tia Cassandra, que
estava sentada ao lado do namorado. Minha garganta aperta ao lembrar da
minha conversa com Katie mais cedo.
― Tia, a senhora também está deslumbrante. ― Elogio e nos sentamos
no sofá à frente dos dois.
― Senhora está no céu! Você sabe que eu não gosto que me chamem
assim. ― Ela ajeita a saia do vestido antes de voltar a se sentar. ― Estava
aqui comentando com o meu amor que, mesmo que seu irmão esteja sendo
precipitado com a decisão dele, ele e Blaire formam um casal muito bonito.
Ele tem um olhar diferente pra ela, sabe? Ele a olha do mesmo jeitinho
apaixonado que o Vinicius me olha. ― Ela deposita um beijo carinhoso na
mão dele.
Não demora muito e Blaire logo se junta a nós no sofá. Ela pergunta se
eu realmente estava pensando em comprar um hotel e nós três entramos em
uma conversa sobre dinheiro, um assunto que eu gostava bastante.
O jantar de Natal logo é servido. Eu converso com alguns dos poucos
convidados da minha mãe durante a refeição principal. Depois, Elijah,
Vinicius, meu pai e mais alguns dois amigos da família saem para fumar em
alguma varanda da casa enquanto as mulheres ficam numa sala de estar. Eu
não fazia muita questão de eventos assim, mas ficava feliz em saber que
estava agradando a minha mãe. Logo a sobremesa é servida e, de acordo
com a Olivia, a melhor torta que ela já comeu na vida.
― Eu vou pegar mais um pedaço pra mim. Você quer que eu traga para
você?
―Por favor. ― Digo e ela sai da sala.
― Eu não sabia que você tratava tão bem suas funcionárias. ― Blaire
comenta do meu lado.
― Está falando isso por quê?
― Eu não estou vendo os outros seguranças da casa sentados no sofá
comendo bolo. ― Ela balança a taça de sobremesa simbolicamente.
― Muito simples: a Olivia é minha segurança, não da casa. A
obrigação dela é ficar o tempo todo do meu lado. Se ela quiser comer bolo,
ela vai comer o bolo. Ela está trabalhando e não de dieta.
― Diana, não precisa ser tão defensiva. Eu estou noiva do seu irmão,
mas eu não sou ele. Eu sei que vocês não se dão bem e eu sei bem que ele
não ajuda. Eu pensei muito sobre o almoço no dia que chegamos, ele não
deveria ter te tratado daquela forma.
De onde estávamos sentadas, conseguíamos ver meu pai e Elijah
conversando, Vinicius já não estava mais com eles. Minha mãe e tia
Cassandra bebiam vinho e falavam com as amigas do outro lado da sala.
― Eu estou acostumada, sabe? Mas entendo o que quer dizer. Eu não
deveria ter te dado uma resposta tão direta também.
― Não se preocupe com isso. Já notei que essa língua afiada é de
família.― Elijah chama Blaire e ela se despede de mim.
Olivia volta para a sala segurando duas taças de sobremesa e com o
choque claro em seu rosto.
― Diana, eu acho que você precisa saber que a Katie está se agarrando
com o namorado da sua tia no lavabo. ― Ela sussurra assim que se senta do
meu lado.
― O quê?! ― Me sinto igualmente chocada.
― Eu estava voltando para cá quando escutei um barulho, fui ver o que
era e vi os dois aos beijos enquanto entravam no pequeno banheiro. ― Ela
começa a comer a torta como se tivesse acabado de me contar a coisa mais
natural do mundo.
― Estou desacreditada que ela resolveu mesmo fazer isso!
― O que você vai fazer? ― Ela pergunta entre uma garfada e outra.
― Eu vou até lá! ― Saltei do sofá, meu salto ecoando pelo piso de
mármore ritmadamente.
―Diana, isso não é uma boa ideia. Vai acabar com o Natal da sua
tia.― Olivia está em meu encalço, tentando me convencer do contrário.
― Uma coisa é ela não apoiar o relacionamento da mãe, agora isso?!
Ultrapassa todos os limites, Olivia. ― Digo antes de tentar abrir a porta.
― Diana, eu não deveria ter te contado. ― Ela replica atrás de mim.
― Claro que deveria! ― Eu bato na porta freneticamente e logo ela é
destrancada. Me deparo com Katie, o batom completamente borrado e com
o cabelo desgrenhado. Atrás está Vinícius tentando desamarrotar a camisa.
― Diana, você por aqui. Está querendo se juntar a nós por acaso? ―
Ela tenta fazer uma piada enquanto prende o cabelo em um coque pra tentar
disfarçar a bagunça.
― Você está louca?! Perdeu o juízo! ― Bato com a minha bolsa no
braço dela. ― Tem noção o tanto que a sua mãe vai ficar magoada?
―AI! ― Ela massageia o próprio ombro antes de me responder. ― Por
favor, Diana, não haja como se importasse com os sentimentos daquela
víbora. ― Vinicius tenta sair de fininho do banheiro, mas eu gesticulo para
Olivia e ela o segura pelos ombros e o impede de sair.
― Fica aí que eu não acabei de falar! ― Ele me olha chocado, mas
obedece. ― Eu me importo sim, ela sempre foi como uma mãe pra mim, e
essa picuinha de vocês duas precisa acabar. E, quanto a você… ― Eu
gesticulo pro homem ao lado da minha segurança. ― Você é um canalha
desgraçado e completamente dissimulado para ter a audácia de trair a minha
tia debaixo do mesmo teto, na maior cara de pau! Eu deveria mandar a
Olivia quebrar todos os seus dentes pra você aprender a virar homem.
Aquela mulher faz de tudo por você!
― Posso saber o que está acontecendo aqui?! ― A voz da minha mãe
ecoa pelo corredor e tia Cassandra está ao lado dela segurando uma taça de
champanhe.
― Pergunte para o seu cunhado. ― Me afasto para que elas olhem a
cena.
― Calma, Cassandra, eu posso explicar! Essa louca me agarrou! Eu
estava… ― O rapaz tenta se justificar, mas é interrompido.
―Katie, minha filha, você teve coragem de fazer isso com a sua
própria mãe? ― Os olhos da minha tia se enchem de lágrimas. ― De todas
as pessoas, eu não esperava isso de você! ― A raiva toma conta de seu
rosto e ela vai em direção à filha. Olivia pula do meio, tentando proteger
Katie.
― Eu sei que as senhoritas estão muito chateadas, mas vamos tentar
nos acalmar? ― Olivia segura Katie atrás do próprio corpo, colocando uma
das mãos à frente.
― Winston está certa, Cassandra. Vamos resolver isso, mas não agora.
Os três estão de cabeça quente.
― Eu não quero me acalmar! Eu amava você e eu realmente acreditei
que fosse recíproco. Tem quanto tempo que você vem fazendo essa
covardia comigo, seu desgraçado nojento?! ― A mãe de Katie arremessa a
taça no homem. ― Eu quero você fora dessa casa! Pegue as suas malas,
volte para o seu país. Eu não quero mais te ver na minha frente. Se você
achou por um segundo que eu ia deixar isso passar, você está redondamente
enganado. Pode dar adeus a qualquer centavo meu! ― Minha mãe puxa
minha tia de volta para a sala de jantar antes que o pior aconteça.
― Você deveria se envergonhar por arranjar briga por causa de
homem, ainda mais um pedaço de merda igual a esse aí. ― Continuo meu
sermão para Katie.
― Achei que você estava do meu lado, Diana.
― Você sabe que eu sempre estou e que eu te amo muito, mas eu não
vou passar a mão na sua cabeça. Que ideia mirabolante e completamente
infantil foi essa?!
― O culpado dessa história aqui é ele! ― Ela responde igualmente
fervorosa e se vira para Vinicius. ― Você acha mesmo que eu não iria
descobrir que você estava traindo a minha mãe esse tempo todo? Eu só não
tinha como provar e ela jamais acreditaria em mim. Agora ela sabe. Você
jamais vai ver um centavo dessa família, seu aproveitador de merda! ―
Katie esboça um sorriso vitorioso.
― A senhorita acha mesmo que eu me importo? Aquela velha me deu
tanto dinheiro que eu estou com a vida feita. Ingênuo é você pensar por um
segundo que eu seria capaz de sentir algum prazer com uma velha daquela.
Uma pena não poder dizer o mesmo da filha, não é? ― O tapa de Katie em
seu rosto estala, os cinco dedos perfeitamente desenhados em sua bochecha.
Ele cresce o corpo para o lado de Katie.
― Eu não faria isso se eu fosse você. ― A voz de Olivia é cortante
enquanto olhava para ele com desprezo. ― Vou deixar as duas
conversarem. ― Ela segura o braço dele e caminha para fora da casa,
empurrando ele à sua frente.
Katie apenas encosta o corpo na parede. Vejo que ela segura o choro.
― Você sabe que foi algo muito idiota e que tinha maneiras melhores
pra resolver isso. ― Ela balança a cabeça loira, concordando. ― Eu só
queria que ela fosse feliz de novo. Desde que o marido dela morreu, ela
nunca mais foi realmente feliz, sabe? Eu sabia desde o início que não seria
um cara tão imaturo que iria dar isso a ela.
― Katie, sua mãe é adulta. Ela sabe se cuidar sozinha.
―Eu vou falar com ela.
Quando Katie vai até o quarto da mãe dela, eu ajudo meu pai e Elijah
com uma pequena porção de convidados. Não demora e todos vão embora.
CAPÍTULO 13
Diana

Depois da festa de Natal, Katie e a mãe tiveram uma briga feia. Katie
não quis me falar o que houve com detalhes, apenas disse que Cassandra
havia falado mais do que necessário. Eu conheço bem minha prima, ela é
alto-astral, otimista e dificilmente se magoava. Poucas pessoas podiam feri-
la, mas Cassandra Montserrat era uma delas.
―Como ela está? ― Olivia pergunta assim que eu volto para o quarto
naquela madrugada. Eu tinha acabado de sair do quarto de Katie.
― Ela vai ficar bem. Brigas assim acontecem o tempo todo, não se
preocupe. Nada novo sob o sol. ― Deito na minha cama. Apenas os dois
abajures de cada lado da minha cama estavam acesos, o resto do quarto
estava escuro. ― E quanto ao namorado da minha tia, o que aconteceu?
― Ele estava relutante, mas não deu trabalho levar ele para fora. Ele
pegou um táxi e foi dormir num hotel. Imagino que a sua tia mande as
coisas dele pela manhã. ― Ela estava no sofá de costume, ainda usando a
roupa da festa, porém tinha abandonado o blazer, subido a manga da blusa
social até a altura do antebraço e aberto alguns botões. Minha parte
preferida da roupa era a calça preta bem justa que usava, delineando
perfeitamente os músculos de suas pernas.
Passamos a dividir a cama todos os dias desde que nos beijamos.
Nenhuma das duas tocou mais no assunto e é como se não tivesse
acontecido. O único problema é que eu não consigo tirar da minha cabeça o
jeito firme que ela agarrou a minha nuca e o quão macios seus lábios eram.
― Você já quer dormir? ― Levanto da cama, tentando focar meu
pensamento em outra coisa. Tiro minhas joias e as coloco numa caixinha na
mesinha ao lado de um espelho grande que tinha no quarto.
― Eu posso te ajudar com o vestido? ― Ela vem até mim. ― Reparei
que Katie precisou te ajudar a fechar ele mais cedo. Como ela não está aqui,
eu pensei que talvez precisasse de ajuda.
Meu coração acelera e eu fico com medo de aceitar rápido demais. A
voz de Blaire volta à minha cabeça, me perguntando por que eu trato a
Olivia tão bem. Eu me dei conta de que fui grossa e que deveria tê-la
deixado falar, mas eu estava com medo dela me comparar a Elaijah se
suspeitasse do meu interesse na Olivia. Sei que ela não teria perguntado
aquilo se já não desconfiasse de algo. Balanço a cabeça para espantar esses
pensamentos, afinal, é só uma ajuda com um zíper e eu não sou o meu
irmão.
― Claro.― Digo e Olivia se aproxima de mim pelas costas. O cheiro
do perfume dela era tão bom que não foi difícil transformar qualquer
lembrança de Blaire e meu irmão em fumaça.
O vestido era bem justo ao corpo e tinha um zíper delicado atrás que ia
da minha nuca até minha bunda. Era lindo, feito sob medida por um estilista
francês. Os dedos dela roçam a parte de trás da minha orelha, passando pela
parte de trás do meu pescoço para tirar meu cabelo do caminho. Tento não
prender a respiração e agir com tranquilidade. Ela segura o pequeno zíper
entre os dedos e o desce devagar pelas minhas costas, puxando a ponta
inferior e fazendo o zíper deslizar facilmente. Eu podia ver o rosto dela pelo
espelho.
Ela estava tão concentrada, seu olhar nunca abandonando a minha pele.
O corte em sua sobrancelha estava começando a cicatrizar. Certa vez, ela
brincou que estava muito sexy com ele e eu concordo. Reparo também nas
tatuagens de seus antebraços, contudo, a luz baixa não me permitia ver os
desenhos com muito detalhes.
― Você tem quantas tatuagens?
― Quantas você acha que eu tenho? ― Ela sorri, cruzando os braços.
― Umas vinte?
― Quarenta e cinco. ― Ela responde orgulhosa.
― Todas com um significado?
― Mais da metade delas eu fiz apenas porque achei bonito, mas
algumas têm significado sim.
― Qual a maior delas?
― A das costas. Ela vai daqui… ― Olivia coloca os dedos no final do
meu pescoço, bem em cima da última vértebra cervical, e arrasta os dedos
devagar pelas minhas costas nuas, quase me desmontando com a
agressividade do arrepio que corre pelo meu corpo. ― Até aqui. ― Sua
mão para exatamente antes de tocar minha calcinha. ― É o desenho de uma
das filhas de Odin, deus da guerra, uma valquíria.
Seu rosto estava tão próximo da minha pele que eu podia sentir a
respiração dela em meu ombro e ela sabe que me afeta. O nosso beijo foi há
poucos dias, mas parecia que foi há tanto tempo. Sentir o corpo de Olivia
contra o meu foi sem dúvidas a melhor sensação que senti em meses. Sua
mão desliza para meu pescoço novamente, segurando bem firme e me
trazendo para mais perto.
― Eu posso te beijar aqui? ― Faço que sim com a cabeça. Com os
dedos exatamente em cima do meu pulso no meu pescoço, ela podia sentir o
quanto meu coração estava acelerado e eu não sabia que me sentir tão
vulnerável poderia fazer minha pele esquentar tanto.
A boca dela faz o caminho desejado. Primeiro, minha nuca e então a
lateral do meu pescoço. Sua mão se torna mais firme, me fazendo inclinar a
cabeça para dar mais espaço. Fecho os olhos e me deixo levar pela
sensação.
Olivia quase derruba o espelho quando me vira e me encosta contra a
parede. Eu a puxo para mim pelo cinto que ela usava. Os olhos castanhos-
escuro dela me encaravam do mesmo jeito que me olhou na boate. Começo
a achar que não tinha apreciado a sua beleza o suficiente. Ela tinha traços
bem marcados e um nariz delicado. Ela usava uma maquiagem discreta, os
olhos marcados por uma sombra marrom.
O beijo finalmente acontece e ele é desesperado, mas tão bom e
faminto quanto o de noites atrás. Sua mão passeava pelo meu corpo sem o
mínimo de pudor. Ela aperta a minha bunda com vontade. Deslizo a minha
mão sub a blusa dela, sentindo cada músculo de sua barriga.
Suas duas mãos agarram minhas coxas e ela me pega no colo. A
próxima coisa que eu sinto é meu corpo ser depositado sem muita
delicadeza na minha cama, ela em cima de mim. Beija a minha boca mais
devagar do que da primeira vez e eu correspondo, aproveitando cada
segundo daquela boca deliciosa. Seu joelho estava entre minhas pernas e eu
faço questão de empurrar meu quadril na direção, buscando um pouco mais
de atrito. Eu agarro os seus ombros, rebolando contra a perna dela. Ela sorri
contra o meu pescoço e deixa uma mordida ali.
Eu podia sentir o corpo dela todo contra o meu, cada músculo dos
ombros dela quando se movia e até mesmo os ossos de seus quadris contra
minha barriga. Levo minha mão até o cabelo dela, me livrando do rabo de
cavalo que usava. As madeixas de cabelo liso deslizaram como uma cortina
ao lado da minha cabeça. Me dei conta que era a primeira vez que a via de
cabelo solto. Afundo minha mão em sua nuca, passo a língua pelo seu
pescoço, me deliciando com cada pedacinho. O jeito que a respiração dela
muda, mais pesada, mexe comigo.
Minhas mãos descem pelas costas até a bunda, eu aperto e é suficiente
para me fazer odiar a quantidade de roupas entre nós duas.
A mão dela segura a lateral da minha cintura, ditando o ritmo e um
gemido baixo escapa da minha boca. Meu vestido tinha subido tanto que
sequer fazia o papel de cobrir o início das minhas coxas. Eram sua mão nos
meus seios, mas eu queria que fossem seus dentes ali ou a língua... Tudo
que pudesse me dar, tudo que quisesse me fazer sentir. Eu precisava de cada
centímetro do corpo dela.
Levo uma mão aos músculos da sua barriga, indo até o meio de suas
pernas e a tocando por cima da calça. Ela empurra o quadril contra a minha
mão e eu passo a massagear ali. O pequeno gemido que sai da boca de
Olivia causa um efeito absurdo no meio das minhas pernas e eu decidi ali
que precisava dela na minha boca, agora. Alcanço o cinto dela, tentando me
livrar dele, mas ela segura as minhas duas mãos com uma só, facilmente as
colocando por cima da minha cabeça e pressionando-as contra o colchão.
― Olivia… ― Eu choramingo.
― Você está redondamente enganada se acha que eu vou deixar você
me chupar primeiro. ― A mão livre de Olivia segura meu queixo, seu
polegar brincando com a minha boca. A mão dela desliza até o meu
pescoço e aperta, aquela pressão sendo o suficiente para eu me dar conta
que ela poderia fazer o que quisesse e eu estava tão desesperada que eu
deixaria de bom grado.
Meu peito subia e descia com a respiração ofegante e ela parecia estar
maravilhada com a visão. O olhar dela acompanha o toque de seus dedos do
meu pescoço até a clavícula, meus seios, minha barriga. Seus dedos param a
tão poucos pentimentos de onde eu estava louca para tê-los.
― Eu posso te tocar aqui? ― Sua voz era baixa e rouca, seus dedos
brincando com o início das minhas coxas, ansiosos por uma resposta.
― Por favor. ― Ela parecia se divertir com o meu desespero.
Eu queria poder tocá-la e fazer ela sentir tudo o que eu sentia, queria
escutar ela implorar do mesmo jeito que eu estava prestes a fazer se ela não
me fodesse agora.
― Tão molhada que eu sequer preciso tirar a sua calcinha para sentir
isso. ― Ela diz próximo ao meu ouvido. Eu vou ao céu e volto quando
começa brincando com o meu clitóris por cima do tecido. Ela nota isso, pois
repete o mesmo movimento com mais pressão e eu sinto meu canal se
contrair. ― Você deveria ver seu rosto agora. Vai entrar para minha lista de
top 5 coisas que eu acho mais sexy. ― Ela ri, lembrando da nossa conversa
no banheiro.
― Eu não estava errada sobre a sua mão.
Ela volta a beijar e chupar novamente meu pescoço. Afasta minha
calcinha para o lado e eu amo sentir seus dedos finalmente em mim. Ela
leva um pouco da minha umidade até meu clítoris e seus dedos começam a
fazer pequenos movimentos circulares ali.
Então, alguém bate na porta. O barulho me causa dor física ao pensar
que nós fomos interrompidas. Olivia limpa a garganta, se recompondo e
subindo de volta o meu vestido. Eu murmuro um "estou indo" furioso
enquanto Olivia me ajuda a fechar o vestido. Abaixo a barra da roupa que
havia subido indiscretamente.
―O que você quer? ― Sou ríspida quando me deparo com Elijah
assim que abro a porta. Eu nunca na minha vida o odiei tanto quanto agora.
― Blaire está aí dentro? Eu já procurei ela pela casa toda. ― Ele
pergunta. ― Ela disse que iria pro quarto mais cedo, mas ela não está em
lugar nenhum.
― A última vez que eu a vi, ela estava na varanda com você e meu pai.
― Respondo.
― Já tentou o celular dela? ― Olivia aparece atrás de mim.
―Eu estou com ele. Ela pediu para eu segurar a bolsa dela durante a
festa. ― Sua voz estava preocupada.
― Já olhou no quarto de vocês, no banheiro, na cozinha? Ela não está
com a nossa mãe? ― Pergunto.
― Diana, você não está entendendo, eu já procurei a casa inteira. Faz
quase uma hora que eu não vejo ela. ― Olivia olha pra mim e eu sabia que
ela pensava a mesma coisa que eu: as fotos que alguém estava seguindo a
gente.
― Eu e Olivia vamos atrás dela. Ela deve ter apenas se perdido na
casa, é a primeira vez dela aqui. ― Tento tranquilizá-lo.
― Eu vou ver se ela não está no jardim. ― Ele vai em direção às
escadas.
Eu olho pra Olivia.
― Existe a mais remota chance de alguém ter entrado aqui dentro?
―Não, claro que não! Tem seguranças por todo lado e do lado de fora,
sem falar dos alarmes. É mais fácil ela ter saído e não ter avisado ele. ―
Ela prende o cabelo de volta em um rabo de cavalo alto.
Nós atravessamos a casa e checamos a cozinha, a despensa e até
mesmo a adega. Nenhum sinal da minha cunhada.
― Não acha melhor acionar os outros seguranças?
― Vamos olhar na garagem e ver se o carro do seu irmão está lá. Ela
pode apenas ter saído.
Quando chegamos na garagem, as luzes estavam acesas. Meu irmão
era dono de um Audi azul-escuro e ele estava lá. Nos aproximamos do carro
e, de repente, nos deparamos com Blaire no chão. Corremos até ela. O
corpo dela se debatia contra o chão enquanto sua boca espumava.
Olivia vira o corpo dela de lado, apoiando a cabeça de Blaire. Olhos
dela estavam abertos, mas ela não estava consciente. Gradualmente os
espasmos diminuem.
―Elija mencionou alguma vez sobre epilepsia? ― Olivia pergunta.
Nego com a cabeça e mando uma mensagem para Elijah, avisando que
encontramos ela. Olivia segura minha cunhada desacordada no colo e
pegamos o elevador de volta para casa.
Elijah estava na sala com Katie. Ele deve ter pedido ajuda a ela.
― Encontramos ela tendo uma crise na garagem. ― Ela deposita o
corpo inerte da minha cunhada no sofá. ― Você sabia das convulsões?
― Sabia, mas ela estava melhorando. ― Ele faz carinho no cabelo da
noiva.
― Não é melhor levar ela no hospital? ― Katie pergunta.
― Daqui a pouco ela acorda, ela não fica apagada por muito tempo.
Não é a primeira vez que isso acontece. ― Elijah responde.
Blarie começa a acordar aos poucos e tenta se sentar, mas o noivo a
impede. Ela acorda confusa, mas ele a conforta. Katie busca um copo de
água para ela.
―O que você estava fazendo na garagem? ― Elijah pergunta.
― Quando eu fui para o quarto, eu estava começando a me sentir mal,
mas não achei meu remédio em lugar nenhum. Lembrei que tinha deixado
em uma bolsa no porta-luvas do carro, mas suponho que não consegui
chegar lá a tempo.
― Está tudo bem agora, meu amor. ― Elijah agradece Olivia antes de
retornar para o quarto com Blaire.
― Está ficando tarde. Eu vou comer algo na cozinha. Vejo vocês
amanhã. ― Katie nos deixa. Ela tinha o rosto vermelho de quem havia
acabado de chorar. Pelo visto, a briga com a mãe foi mais séria do que eu
esperava.
Eu e Olivia voltamos para o meu quarto. O meu sangue sobe para o
meu rosto como se fosse água quente quando me dou conta do que estava
prestes a fazer com a Olivia se não tivéssemos sido interrompidas.
― Nós precisamos conversar. ― Não era esse o tom que eu estava
esperando que saísse da sua boca.
―Claro. ― Aceno com a cabeça, não muito empolgada com a
conversa que estava prestes a acontecer.
― Você sabe que um carro blindado é muito mais pesado do que um
carro comum, ele demora para acelerar e para frear. Você precisa ter um
treino específico para dirigir um blindado, ainda mais se precisar usar ele
como um carro de fuga. Eu sei fazer isso porque eu estudei pra esse
emprego. Eu estudei para entrar na polícia, eu estudei para ser sniper,
estudei para ser guarda-costas. Eu fiz jiu-jitsu durante mais de 18 anos da
minha vida e eu estudei mais ainda para saber como manter viva pessoas
como você. ― Ela me olha. ― E, da mesma forma que você foi sincera
comigo quando me beijou pela primeira vez, eu me vejo na obrigação de ser
muito sincera com você. Isso entre a gente precisa acabar. Eu quase transei
com você nesse quarto há 40 minutos atrás. Eu não posso jogar anos de
preparo fora em uma viagem.
― Olivia, nós somos adultas e as duas queriam. O que tem de errado?
― Eu queria sair do quarto e brigar com Elijah.
― Eu sou uma profissional competente e dormir com a minha chefe
não faz parte do meu trabalho. Diana, você me distrai. Está tudo errado
nessa viagem. Existe um motivo para você ter três guarda-costas, é porque
eu não dou conta de tudo. Você tem noção que aquela mesma câmera que
tirou aquelas fotos poderia ter sido muito bem uma arma? Você tem
consciência que você poderia ter morrido? Eu não notei o cara do bar e eu
não notei o fotógrafo. Se eu não estivesse tão ocupada olhando para você,
eu teria notado.
― O que te fez mudar de opinião assim tão rápido? Por que, como
você mesmo disse, há 40 minutos atrás as coisas eram diferentes.
― Uma pessoa sumiu por horas e eu não notei, poderia muito bem ter
sido você. Entenda, se algo acontecer com você, eu nunca mais terei meu
emprego. Serão anos de esforço jogados no lixo. ― Eu estava chateada,
mas eu sabia bem o que o emprego representava para ela. Eu, como uma
mulher de negócios e CEO de uma empresa tão grande, entendia o que era
colocar o trabalho acima de tudo, também o ponto dela e que eu fui
irresponsável e sem o mínimo profissionalismo. Mas eu era humana e
estava chateada.
― Você tem razão. Eu te entendo. Eu não deveria ter feito isso com
você. Não vai acontecer de novo, eu prometo. Nós deveríamos ir dormir,
são quase 3 da manhã já.
CAPÍTULO 14
Olivia

Eu gostaria de estar em casa. Precisava sair para correr, precisava socar


algo, passar pelo menos duas horas levantando peso na academia ou
qualquer coisa que pudesse me acalmar de alguma forma. Eu me sentia
sufocada. Precisava de um tempo sozinha.
Uma boa parte do meu estresse se dava pela minha conversa há poucos
minutos no telefone com Luca e Jake. Eles não obtiveram respostas sobre
quem mandou o e-mail, mas concordamos que as fotos poderiam ser mais
um indício que as desconfianças de Luca estejam certas, uma vez que a
máfia na qual eu matei o capo tem o costume de mandar fotos para
determinadas vítimas como forma de aviso ou ameaça. De acordo com
Jake, pelo menos eles ainda não sabem que eu e o assassino do chefe deles
somos a mesma pessoa. Para minha segurança, vou omitir essa parte da
história para Diana. Eles queriam contar, mas eu preferi manter isso em
segredo.
Diana, o segundo motivo do meu estresse, dormia tranquilamente no
quarto ao lado. A semana que se passou após a noite de Natal foi monótona.
Diana não quis mais sair de casa depois das fotos. Ela está assustada, o que
é compreensível, porém, isso fere o meu ego, saber que ela não se sente
protegida, sendo que essa é a porra do meu trabalho. Talvez, se eu não
tivesse agido como uma cadela no cio, eu ainda teria um pouco de
credibilidade. Durante o dia, é como se nada estivesse acontecendo e, então,
de madrugada, as coisas mudam.
Um fato muito interessante é que ela fala enquanto dorme, às vezes até
grita e quase me mata do coração no processo. E isso me faz refletir sobre o
quanto ela era humana, uma coisa que eu não esperaria de uma
multimilionária que passa boa parte do tempo com velhos engravatados, em
reuniões chatas e tendo a autoridade posta a prova o tempo todo. Longe do
trabalho, ela é uma fofoqueira de primeira e uma grande leitora de
romances mirabolantes com machos sem camisa na capa. Eu notei ela lendo
pelo celular um dia desses e agora percebo que não foi à toa que ela teve o
mesmo pensamento que eu quando bateu o olho em Elijah e Blaire assim
que eles colocaram o pé na mansão.
Eu estava sentada no sofá de couro do escritório dela, um cômodo com
paredes bordô e mobília escura. Havia duas portas enormes quase do
mesmo tamanho do pé direito, uma estava aberta e dava para o luxuoso
quarto de Diana e a que estava fechada dava para o corredor.
Os seguranças da casa me mandaram a lista de convidados da festa de
hoje. Para a minha surpresa, Alencar e o pai estavam presentes.
A festa de ano novo seria um pouco maior do que o jantar simples do
Natal… Bom, não que eu pudesse chamar de simples um jantar feito por
um buffet em um castelo para uma porção de pessoas. No entanto, a lista de
convidados em minhas mãos contava com pelo menos 200 pessoas, fora as
pessoas que trabalhavam na festa.
Os preparativos começaram pouco antes das oito horas da manhã. Fui
informada que Alencar e a família dele chegariam em Madri por volta do
meio-dia, mas ficariam no hotel. Eu dei uma olhada no salão de festas, nas
portas e nos corredores caso acontecesse alguma emergência e eu precisasse
sair com Diana às pressas do salão.
Diana queria que eu fosse apenas como convidada e deixasse a arma, o
terno e o rabo de cavalo só por uma noite. Eu tropecei tanto nas palavras
que quase desisti de formular a frase no meio dela. Eu neguei. Se Luca e
Michelle estivessem aqui, talvez. Eu estava sozinha e estaríamos em uma
festa com mais de 200 pessoas que eu nunca vi na vida. Me partiu o coração
ver que ela ficou desapontada com a minha resposta, mas eu simplesmente
não podia jogar pela janela tudo que falei para ela no Natal.
Não importa minha linha de pensamento, eu sempre vou acabar
naquela noite de Natal idiota. O corpo dela no meu, os gemidos dela, o
quanto estava molhada, aquelas coxas perfeitas, aquele pescoço delicioso,
sem falar no quanto era revoltante o quanto a bunda dela era gostosa. Não
havia um centímetro do corpo daquela mulher que não fosse capaz de me
tirar do sério.
― Se você continuar encarando a mesinha de centro assim, é capaz
que você consiga fazer um buraco nela com a mente. Sabe quando você é
criança e se vê convencida de que tem algum super poder e fica tentando
mover as coisas com a mente? Você está fazendo igualzinho. ― Pisco
algumas vezes, a voz rouca de Diana me trazendo de volta para a realidade.
― Uma das empregadas veio te chamar para tomar café da manhã, mas
você estava dormindo e eu não quis te acordar.
― Que horas são? ― Ela se joga no sofá ao meu lado, ainda estava de
pijamas.
― 11:47. ― Checo o relógio do meu pulso.
― Eu voltaria para aquela cama e dormiria tranquilamente por pelo
menos mais 12 horas. ― Ela afunda a cabeça nas mãos.
― Eu imagino. Katie ainda não levantou também se te conforta. ― As
duas e Blaire ficaram até mais tarde dividindo algumas garrafas de vinho
caríssimas da adega do pai de Diana.
― Quem são todas essas pessoas? ― Pergunto apontando para o
tablet. Diana responde que a maioria são conhecidos, amigos da família e,
se brincar, até as antigas amigas dela do ensino médio. Tinha até gente
famosa com mais de milhões de seguidores que eu nunca tinha ouvido falar.
As luzes do jardim se acendem e os convidados começam a chegar.
Sabia disso pelas movimentações de vozes no comunicador que eu usava
preso ao ouvido.
Katie estava ajudando a Diana com a maquiagem e as duas
conversavam sobre a mãe de Katie. Depois da briga, elas estavam sem se
falar direito e qualquer coisinha as duas começavam a gritar e discutir. Isso
estava de fato afetando Katie e qualquer um podia ver isso. Cassandra disse
na frente de todo mundo que preferia que Katie sequer tivesse nascido.
Katie apenas se virou e saiu da casa, voltando apenas dois dias depois; e só
voltou porque Diana ligou para ela ameaçando que iria me mandar buscá-la
pelos cabelos se necessário.
Agora Cassandra era o principal assunto das duas. Diana tenta ajudar
Katie, mas gosta demais da tia para conseguir concordar com as coisas que
Katie diz sobre a mãe. A minha opinião era que tanto Katie como
Cassandra precisavam gastar a fortuna delas em um psicólogo. Cassandra
gostava de brincar com os sentimentos da filha, mas, de acordo com Diana,
ela não era uma mãe ruim. Ao meu ver, o que estava fazendo com a filha
era claramente um joguinho emocional para fazer Katie se sentir culpada
por tudo que não deu certo na vida dela.
Eu fui a primeira a ficar pronta, não tinha muito o que me arrumar de
qualquer jeito. Estava ajeitando as minhas coisas. Iríamos voltar para casa
às onze da manhã do dia seguinte.
O celular de Diana, que estava jogado na cama, vibra e eu entrego para
ela. Ela usava um robe de cetim vermelho-escuro e Katie já tinha
praticamente acabado de ajudar a prima a se arrumar. O closet tinha um
cheiro muito bom de perfume caro e finalizador de maquiagem.
O rosto dela muda quando abre a mensagem, um misto de confusão e
medo.
― O que foi? ― Pergunto.
―Olha isso, que estranho. ― Ela me entrega o celular. Era uma foto
da fachada da mansão, estava de noite e bem iluminada. A foto foi tirada
agora.
Era só o que faltava.
― Não deve ser nada. ― Tento tranquilizá-la. ― Vou averiguar isso.
Só um momento, não sai daqui até eu voltar. ― Saí do closet e caminho
para fora do quarto.
― Miller? ― Chamo o chefe de segurança da mansão pelo
comunicador. ― Onde você está? ― Começo a andar rápido pelo corredor.
― Algum problema? ― Ele responde.
― Alguém está fotografando a propriedade e mandando pro e-mail da
senhorita Montserrat. ― O codinome da Diana usado pelos seguranças da
casa. Encaminho a foto para ele.
Um breve silêncio e ele manda um dos seguranças que estavam ali
perto para conferir. A essa altura, eu cheguei em uma das varandas que
davam para a onde as fotos foram tiradas. Por um momento, desejo ter meu
rifle comigo. Com uma arma de precisão daquela, o scope seria perfeito pra
me fazer conseguir ver alguma coisa já que estava um breu além dos muros
da mansão. Eu não conseguia ver nada além de árvores e carros de luxo
estacionados.
― Não encontramos nenhum movimento suspeito. ― Escuto o
comunicador no meu ouvido.
― Me avisem se virem algo. Ninguém que não esteja nessa lista entra
nessa mansão sem passar por mim antes e isso também vale para
empregados, motoristas e qualquer outra pessoa que esteja trabalhando na
festa. ― Miller fala pelo comunicador e eu volto para o quarto.
― Está tudo certo? ― Diana estava de pé assim que voltei para o
quarto. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo grande e deixava à
mostra os brincos de diamantes. O vestido era bem justo ao corpo e tinha
uma fenda indecente que deixava a perna direita completamente exposta. A
esse ponto, eu tinha me arrependido completamente do meu discurso sobre
profissionalismo da semana passada.
― Tudo certo. Não tem ninguém lá fora. ― Respondo. Claro que tem
alguém lá fora, o maldito do fotógrafo só conseguiu fugir a tempo. Mas o
trabalho da segurança não é ir atrás da ameaça, mas sim impedir que ela
chegue no cliente.
Tinha uma pista de dança enorme, um DJ, dois bares onde vários
barmen faziam malabarismos com as bebidas, e uma quantidade que eu não
estava esperando de pessoas jovens. Em algum lugar obscuro da minha
cabeça, eu esperava um monte de gente rica e velha. Estava enganada. Me
sentia em uma festa da faculdade, a diferença é que, se juntar o dinheiro de
todo mundo ali, daria um PIB de um país.
Tinha uns dançarinos com bastões de fogo e, se a Beyoncé aparecesse
cantando formation, a essa altura, eu não me surpreenderia.
― O tanto que essa festa está desproporcional ao Natal diz muito sobre
a personalidade da minha mãe.
― Ela que planejou isso tudo? ― Pergunto incrédula.
― Sim. Meu pai deve estar morrendo de raiva inclusive. Ele acha que
festa assim é jogar dinheiro fora. ― Diana ri e começa a cumprimentar todo
mundo que vê pela frente com um sorrisão no rosto. Eu fico próxima à
parede e fica impossível escutar o comunicador com a música tão alta.
Vejo Diana cumprimentar Alencar, que estava com o pai e uma mulher
que eu não conhecia. Eles conversam e riem bastante e Katie a puxa de lá.
Elas começam uma conversa animada com um grupo de mulheres. Uma
delas abraça Diana pela cintura e a vontade súbita de me dar um tiro por ter
recusado a proposta de Diana surge como mágica. Porém, eu nem trouxe
um vestido, não teria o que usar além do usual. Tento me confortar quando
a boca de uma delas chega próximo da de Diana.
― Eu preciso de 5 minutos sozinho com a sua chefe. ― Alencar diz do
meu lado. Ele estava impecavelmente arrumado e tinha um cheiro
amadeirado. Noto que ele é bem alto, eu tinha um metro e noventa e ainda
assim ele era mais alto que eu. Em qualquer outro cenário, eu poderia
considerar Alencar até atraente.
― Por que mesmo que você quer isso?
― Porque eu não vou ter tempo de falar com ela depois e eu preciso
dela sóbria. Se eu for lá, Katie vai me atrapalhar. Estou sendo prático. Peça
para ela me encontrar no escritório da biblioteca em 5 minutos. ― Volto
meu olhar para Diana. O grupo de mulheres haviam se sentado em um sofá
branco perto dali a loira agora ria com a mão na coxa dela. Droga.
Toco o ombro de Diana e dou o recado de forma baixa para que só ela
escute. Ela arruma uma desculpa para se livrar delas e eu a sigo até o
escritório. Ela entra e eu fico esperando do lado de fora.
Estava tudo calmo, mas em questão de poucos minutos começo a
escutar as vozes dos dois, alterados, e eu passo a prestar atenção.
– Mas você sabe que meu pai não mentiu.
― A fortuna dessa família foi feita em cima de um cartel sujo e
absolutamente corrupto e você só assumiu a presidência com o seu pai em
vida pra tentar disfarçar toda a lama que suja o nome da família
Montserrat.
― E então, vai pagar de santo agora também?! Quem me garante que
não é você quem roubou aqueles 10 milhões da minha empresa? Porque,
até onde eu sei, eu só passei a ter esse problema depois que você entrou.
― Não se faça de vítima, Montserrat. Em primeiro lugar, você foi a
primeira a se propor a comprar as empresas. Agora, uma quantidade
significativa de dinheiro simplesmente some e eu tenho que cobrar alguma
explicação. Quem me garante que esses 10 milhões não estão sendo
jogados por baixo dos panos pro cartel? Seu pai mesmo já fez isso várias
vezes.
― Você sabe que uma quantia de 10 milhões é troco de padaria
naquela porra de cartel. Desde que eu assumi a merda da presidência, eu
tô fazendo de tudo para não recorrer a esses fins e você ainda tem coragem
de me comparar ao meu pai?
― Você sabe que não são só 10 milhões, seu pai faturou 100 milhões
em um estalar de dedos. Você não tem a competência de saber o porquê e
como te roubaram uma quantia dessa e ainda teve a capacidade de chamar
o diretor da contabilidade de incompetente. Não seja hipócrita.
― Você deve estar muito desocupado pra ter o trabalho de pegar um
avião, atravessar o oceano, para vir aqui encher o meu saco e tentar me
ensinar a fazer o meu trabalho. Se fosse algo tão simples quanto você diz,
você não acha que eu já tinha descoberto? Aliás, por que você mesmo não
vai atrás da pessoa pra mim? Afinal, você está muito preocupado com um
dinheiro que nem é seu. Me economiza, Alencar, vai procurar uma bunda
pra comer e para de show. 10 milhões não é proporcional à birra que você
está dando gratuitamente na minha frente. Se fosse uma quantia tão
desesperadora comparado ao que eu ganho normalmente, você acha
mesmo que eu não estaria naquele escritório matando todo mundo na unha
pra descobrir quem foi? ― Silêncio se sucede depois da fala de Diana e eu
me dou conta que eu estou sorrindo, completamente entretida com a
discussão dos dois.
― Quanto você quer pra matar alguém? ― Diana sai da sala e eu viro
a minha cabeça devagar, cogitando por um segundo o valor antes mesmo de
me dar conta que era uma pergunta retórica.
― O Alencar? 10 milhões. ― Rio, alfinetando o assunto anterior.
― Que homem insuportável. ― Ela pega uma taça de champanhe de
um garçom que passou por ali.
Diana volta para o sofá com as outras mulheres e eu volto para o meu
lugar. Dessa vez, Joe, o ruivo da boate stripper, estava lá e Katie estava
sentada no colo dele. De repente, me ocorreu que talvez ela tenha ido para a
casa dele quando brigou com a mãe.
A conversa segue, o barulho e meu espanhol mediano não me permite
entender muita coisa da conversa, mas vejo que a mão da mesma mulher
loira de mais cedo acaricia o pescoço da Diana e me dou conta que talvez
eu não devesse voltar para o quarto dela essa noite e que seria melhor dar a
ela alguma privacidade.
Meia-noite se aproxima e todos vão em direção ao jardim para aquele
momento mágico em que todos estão felizes e esperançosos com o novo
ano que se inicia. Por algum motivo, tudo que eu sentia era um aperto no
coração, uma sensação ruim e uma vontade de chorar estranha.
O DJ começa a juntar o pessoal para a contagem regressiva. Em um
canto, vejo Elijah abraçar a noiva por trás e dar um beijo em sua bochecha.
Os pais de Diana estão juntos, segurando taças idênticas de champanhe.
O salão é grande e tinha uma área externa maior ainda. Um garçom se
aproxima de mim e entrega uma pequena taça de sobremesa e diz que foi
Montserrat que pediu que entregasse para mim. Eu fico meio sem graça de
aceitar, mas pego a taça e então o gosto maravilhoso do morango com
abacaxi invade a minha boca. Era a mesma tortinha do Natal que comentei
que havia gostado. Eu sinto meu coração se aquecer pelo fato dela ter se
lembrado de mim, acalmando a sensação ruim de antes.
A contagem regressiva começa e todos vibram a cada número. No
zero, um show de fogos de artifícios é lançado dos céus, enormes, coloridos
e absolutamente maravilhosos. Uma chuva de papéis dourados cai por cima
dos convidados, as pessoas se abraçam e se beijam.
― Feliz ano novo, pessoal! ― Escuto a voz de Miller no meu ouvido.
Olho em volta e todos estavam tão felizes. Até Alencar, que abraçava o
próprio pai, parecia feliz.
O DJ começa a tocar músicas mais animadas e praticamente a festa
inteira começa a dançar e eu perco Diana na multidão de pessoas por um
momento. Eu começo a andar pelos convidados e nada de achá-la. Acho o
grupo de amigas dela, mas ela não está no meio. Ando pelo salão inteiro e,
por 40 minutos, eu fico a procurando. Eu estava a um passo de acionar os
outros seguranças quando passo por um vaso de flores esvoaçantes que
faziam parte da decoração da festa em um lugar bem mais afastado e vejo
Diana Montserrat lá, a loira com a mão entre suas pernas.
Os olhos da minha chefe arregalam como se eu tivesse pegado ela
fazendo algo errado.
― Olivia, eu… ― Ela começa a falar algo, a loira tirando os dedos
molhados dela e tentando se recompor como pode.
― Estou apenas fazendo meu trabalho e me certificando de que você
está bem. Eu estou de saída. ― Eu me viro e saio andando.
Montserrat fica para trás e escuto a mulher do seu lado falar com uma
voz educada:
― Você estava certa, nós deveríamos ter ido para um dos quartos.
Meio sem saber pra onde ir uma vez que nunca tinha vindo a essa parte
da mansão antes, começo a me achar ridícula e me recuso a acreditar que a
cena tinha me abalado. Eu me sinto absolutamente envergonhada quando
meu nariz começa a arder e meu olho umedece. Era como se eu estivesse
chorando por uma emoção que eu claramente não estava sentindo… ou pelo
menos negava que sentia.
CAPÍTULO 15
Olivia

Eu estava desesperada por um banho e eu sentia que não iria me


aguentar em pé por muito tempo se não tomasse um remédio para cólica.
Dormir 12 horas seguidas estava nos meus planos no momento em que
Michelle e Luca nos buscaram no aeroporto.
Coloco minha mala e minha mochila no chão para conseguir abrir a
porta. Dou o primeiro passo para dentro do apartamento e piso num papel.
Era um envelope. Sinto como se todos meus órgãos caíssem no chão. No
envelope, tinha um símbolo que eu conhecia muito bem, era o mesmo
brasão que o líder da máfia tinha na mão quando o matei.
Saco a minha arma da cintura e começo a olhar dentro de todos os
cômodos do apartamento. Olho na cozinha, nos quartos, na lavanderia, até
mesmo na varanda. Não tinha ninguém.
Abro o envelope, ignorando o fato que meus dedos estavam tremendo.
Dentro, haviam fotos, eu estava nelas todas: saindo de casa, entrando na
casa do Luca, no bar com Lena e Ally, no hotel em Nova York, no bar em
Madri. Pego meu celular e ligo para o Luca.
― Alô?
― Luca… ― Limpo minha garganta, tentando segurar o choro. ―
Vem pra cá, por favor.
― O que foi o que aconteceu? ― Sua voz sai preocupada e escuto
barulhos confusos do outro lado da linha como se ele estivesse vestindo
roupa. Eu tento evitar as lágrimas e pensar com clareza, mas eu sabia o que
aquilo significava e eu não conseguia responder. ― Olivia! Fala comigo,
você está me assustando.
― Eles me acharam. Eles sabem que fui eu quem matei o líder deles.
Eles estão me seguindo há dias. ― Enxugo o rosto com as costas da mão.
― Sabe as fotos que mandaram para a Diana na semana passada? Foram
eles também, como a gente suspeitava.
― Como você sabe disso?
― Só vem para cá, tudo bem?
― Eu estou entrando no carro. Fica calma, ok? Nós vamos dar um
jeito nisso. ― Ele diz antes de desligar.
Eu estava tão desconcertada que me dei conta que deixei todas as
minhas coisas para fora do apartamento. Pego-as rapidamente e coloco
dentro do meu quarto. Confiro todas as trancas de cada porta e janela. Não
havia sinais de arrombamento, aparentemente, eles apenas jogaram o
envelope por baixo da porta.
Me sento no sofá, encarando meus próprios sapatos. Eu fui muito
ingênua ao pensar que eles iriam simplesmente esquecer de mim. Me
sobressalto com o barulho da porta sendo aberta. É automático o
movimento de ficar em pé, destravar a arma e apontar em direção à porta.
― Epa! É só a gente! ― Luca põe as duas mãos em frente ao corpo.
Respiro fundo, travando a arma e a devolvendo para a cintura, e só aí noto
que Michelle entra logo atrás dele.
―Oh, minha amiga! Luca me contou tudo. ― Ela me abraça bem forte
e eu quase começo a chorar de novo.
― Então? ― Luca pergunta e eu solto Michelle para entregar a ele o
envelope com as fotos. Ele fica sério analisando todas e entrega para ela
quando termina de ver.
― Como eles descobriram que foi você? ― Luca está igualmente
surpreso.
― Meu antigo uniforme da S.W.A.T. tem o meu sobrenome. Eles
devem ter hackeado o sistema e puxado a lista de tenentes.
― O que você pretende fazer?
― Não faço ideia.
― Eu vou mandar isso pro Jake. Vou pedir a opinião dele, talvez ele te
encaminhe para um programa de proteção.
― Ótimo, realmente uma maravilha! A guarda-costas precisa de um
guarda-costas agora. ― Seria cômico se não fosse tão trágico.
― Péssimo momento para esse tipo de comentário, Olivia.
― Você não quer passar um tempo na minha casa? É perigoso você
ficar aqui sozinha. ― Michelle diz do meu lado.
― Eu fui pro outro lado do oceano e eles estavam lá. Não vai adiantar
nada. ― Minha boca tinha um gosto horrível e eu me sentia inquieta, era
como se eu fosse vomitar.
― Olivia tem razão. Eu vou falar com Jake e ver o que ele acha. De
qualquer forma, não tem muito o que fazer agora pelo menos.
***
Michelle estava deitada na minha cama. Eu conferi todas as trancas da
casa várias vezes até eu sentir a falsa sensação de segurança. Me junto a ela,
me acomodando embaixo de muitas camadas de cobertores. Eu tento
dormir, mas o sono não vem. Eu me viro incontáveis vezes na cama. Meu
corpo estava extremamente cansado, mas minha cabeça estava tão acelerada
que nenhuma posição parecia confortável.
― Eu tenho um calmante na bolsa e uma arma. Você pode escolher,
porque um dos dois eu vou usar contra você se não ficar quieta. ― Ela
senta na cama e liga o abajur.
― Desculpa. ― Chuto os cobertores para longe de mim, saio da cama
e começo a andar pelo quarto.
― Isso é ainda pior. Ok, vem cá, vamos falar sobre outra coisa, que
tal? Tirar a sua cabeça disso vai ser ótimo. ― Ela tem um tom otimista e
estica as mãos para mim. Eu volto a deitar, dessa vez com a cabeça apoiada
na barriga dela e ela começa a correr os dedos pelo meu cabelo.
― Eu quase transei com a nossa chefe. ― Digo o primeiro assunto que
vem à mente.
― Luca me contou.
― Eu não contei para ele. Como você sabe? ― Eu pergunto.
― Ele apenas disse que estava desconfiado, pelo jeito que você estava
agindo quando fomos buscar vocês duas.
― O que você acha disso?
― Acho que a iniciativa foi dela. Você é certinha demais para fazer
isso por livre e espontânea vontade. ― Nós rimos, porque sabíamos que ela
tinha razão.
― Eu não acho que a iniciativa foi dela. ― Começo, mas ela me
interrompe.
― Preciso te contar uma coisa.
― O quê?
― Eu dormi com o Luca. ― Levanto minha cabeça bruscamente,
encarando-a.
― Quando foi isso? ― Questiono como quem tropeça na calçada.
― Foram apenas duas vezes. Na mesma noite do aniversário da Diana
e a outra no ano novo, mas se você não tivesse ligado, ia rolar de novo. ―
Passado meu choque inicial, eu volto a deitar com a cabeça no colo dela.
― O que você achou?
― Eu descobri que homens pansexuais são melhores de cama.
― Então você gostou? ― Provoco-a. ― O meu sonho de um ménage
com vocês nunca esteve tão próximo de se tornar realidade.
― Bobona. ― Ela ri de volta.
― Mas, foi simplesinho ou algo mais? Sei lá, tipo algemas de couro,
plug anal de rabinho, floggers… ― pergunto empolgada.
― Que pergunta específica. Vocês dois já fizeram? ― Volto a me
sentar na cama rapidamente. ― Agora eu estou interessada. Quero detalhes.
― Faz muito tempo. Nós apenas satisfazemos os fetiches um do outro
várias vezes. Mas, me diz, como você foi parar com nosso excelentíssimo
amigo dentro de você?
― Nós marcamos de assistir uma luta na televisão. Uma brincadeira
dali, outra daqui, rimos bastante. Quando eu vi, estava gemendo o nome
dele. ― Não seguro a risada.
― Eu queria dizer que estou surpresa, mas eu mesma estive no seu
lugar. Bom, aqui vai meu conselho…
― Estou ouvindo, senhora especialista em fazer sexo com o Luca. ―
A esse ponto, nossas risadas ecoavam pelo apartamento.
― Eu estou te dando esse conselho porque eu não quero me ver em
meio a uma briga de casal de vocês dois, que fique bem claro. ― Seguro a
mão dela. ― Michelle, quando você sentir que está ficando demais, que um
dos dois está se envolvendo demais na história… se você sentir que está
chegando num ponto que algum dos dois vai se machucar, você pula fora.
Eu amo demais a nossa amizade, nós três trabalhamos bem juntos. Não
façam merda.
― Anotado. ― Ela volta a mexer no meu cabelo. ― Floggers, é?
― Ele me ensinou muita coisa sobre como foder alguém devidamente,
porém, eu ensinei bastante também, pode confiar.
― Meu deus, Olivia. Eu podia apostar que ele era um cara mais para o
lado dominador.
― A gente ficava alternando. Ele me dava trabalho quando ele me
deixava dominar. Mas, se for algo que você gosta, é só chegar nele e pedir.
Mesmo ele gostando de dominar, apanhar de mulher bonita nunca é demais.
― Dou uma piscadinha pra ela.
― Vocês dois são muito difíceis. ― Ela ri. ― Você não me falou o que
aconteceu entre você e a nossa chefe.
― Ah, é porque não tem nada de interessante pra contar. Nós nos
beijamos algumas vezes, eu acabei me empolgando e, se não fosse pelo
irmão dela, nós teríamos feito.
― Falando nisso, lembrei de algo pra comentar. Aquela secretária dela
é uma falsa, né?
― O que você está sabendo que eu não estou? ― Eu mudo de posição
para poder olhar para ela melhor.
― Ela não chegou a falar com todas as letras que não vai com a cara
da Montserrat, mas eu desconfio, sabe? Eu notei nesse tempo trabalhando
fazendo a segurança dela. Não comentei nada porque achei normal, não é
nenhum crime não ir com a cara da própria chefe.
― Que cretina! A Diana gosta tanto dela.
― Quando a Montserrat liga pra ela por telefone, ela faz umas caras e
bocas de deboche. É só a chefe se aproximar que ela muda de postura, é
engraçado, sabe?
― Hum, entendi. Acho que nós deveríamos trocar por uma semana.
Estou precisando mesmo ficar um pouco longe da Diana. ― Comento.
― Por quê? Você está desconfiando de algo? Olha, Olivia, a Brett pode
ser uma cobra, mas eu não acho que ela seria dissimulada a ponto de tentar
algo contra a Montserrat.
― Só vou tirar uns dias, sabe? Aposto que a Diana vai entender.
― Eu acho a sua ideia besta. Vai ficar muito na cara que você
desconfia de algo quando de repente a guarda-costas principal resolve fazer
a segurança de uma simples secretária. Além do mais, você não está mais
na polícia, tem que parar de tentar resolver problema que não é seu.
― É muito tarde pra escolher entre o calmante e o tiro? ― Afundo
meu rosto no travesseiro.
― Larga de drama, Winston. Vai dormir. ― Ela briga comigo e apaga
as luzes.
CAPÍTULO 16
Olivia

Eu estava no meu segundo copo de café do dia. Fazia uma semana que
Michelle e Foxy estavam dormindo no meu apartamento. Foxy, como
Michelle gostava de chamar, era uma máquina de destruição em forma de
cachorro. Eu quase expulsei os dois da minha casa quando ele resolveu
comer o meu sofá. A pior parte foi quando, na manhã seguinte da minha
chegada, eu fui acordada de um sonho maravilhoso com uma certa
milionária por lambidas de cachorro na minha cara.
― Bom dia, gente. ― Jake diz educadamente, entrando na sala e se
posicionando ao lado de Luca. Jake era ruivo, tinha uma pele clara e era
pelo menos quinze centímetros mais baixo que Luca.
― Bom dia. ― Luca é o primeiro a responder. Jake estava aqui para
ajudar a gente com o fato de que agora era oficial que as mesmas pessoas
que estavam atrás de mim também estavam atrás da minha chefe.
― Bom, vamos começar. Esse é Anthony Moore. ― Ele me entrega o
tablet aberto em uma ficha criminal. ― Esse homem ocupava um dos
lugares mais altos na hierarquia da Corvus Rosaceae. A morte dele levou ao
afastamento da tenente Winston. ― Ele gesticula com a caneta em minha
direção. ― E do tenente Shay. ― A vez de ele apontar para o Luca. ―
Atualmente, o irmão mais novo de Anthony, Robert Moore, está ocupando
o lugar do irmão como capo.
― Agora, Robert Moore colocou paparazzi atrás de mim e da minha
chefe para se vingar pelo irmão morto? ― Eu olho as duas fichas, os dois
tinham quase o código penal inteiro de acusações.
― Bom, eu imagino que eles estejam atrás de Diana Montserrat por
outro motivo. Matteo Montserrat construiu grande parte de sua fortuna
graças a acordos bilionários com o cartel espanhol. Não precisa ser um
gênio para presumir que esse cartel tem ligações diretas com a Rosaceae.
Atualmente, essa fortuna, assim como a diretoria das empresas Montserrat,
pertencem à filha, Diana Montserrat, uma vez que o pai passou a fortuna
para ela em vida a fim de tentar limpar o nome da família. Não temos como
provar nada, mas a família com certeza deve possuir alguma dívida com
eles e eles estão indo atrás.
― Isso explica ela não ter entrado em detalhes no depoimento que ela
deu depois do atentado no hotel. ― Michelle responde.
― Ela descobriu a falta de 100 milhões no caixa das empresas
justamente no mesmo mês que começaram a fotografar ela. Não é estranho?
― Questiono. Ela disse que não sabe quem foi, mas ela está tranquila
demais, talvez ela saiba quem está roubando.
― Talvez ela mesmo tenha pegado esse dinheiro para pagar as dívidas
do pai. ― Jake diz.
― Eu poderia tentar descobrir. ― Respondo.
― Isso não é problema seu. ― Luca balança a cabeça, discordando. ―
E você precisa fazer de tudo pra não se envolver ainda mais nisso. Olha,
Olivia, você está metida no meio de briga de cachorros grandes, você não
precisa e não deve se meter nisso. Procure outra pessoa para fazer a
segurança e peça demissão por agora, ok? Eles só estão ameaçando, mas e
depois? E se eles resolverem ir atrás de você e te atacar? Você quer isso?
― Se eles quisessem me matar, eles já teriam feito isso. Eu não vou
largar outro emprego só por causa de um bando de engravatados que não
sabem cuidar da própria vida.
―Ele tá certo, Olivia. Não é seguro. ― Jake concorda com Luca. O
celular dele vibra, ele olha a mensagem e guarda o aparelho. ― Eu preciso
ir, tenho um problema pra resolver no trabalho, mas qualquer coisa me
ligue, tudo bem? ― Ele pega as coisas e meu amigo o acompanha até o
carro.
Como de costume, Luca me dá carona até o nosso trabalho. Minha
cabeça estava tão afogada em preocupação, senti como se a voz dele me
puxasse pelo colarinho, me trazendo de volta para a superfície quando ele
começa a falar.
―Ei, eu estava com saudades, sabia? ― Lucas diz sem tirar o olho do
volante.
― Eu imagino o porquê. Eu saio de casa rapidinho e vocês dois
aprontam.
― Então ela te falou? Bom, eu já deveria ter imaginado.
― Ela também comentou que você fode muito bem. ― Dou um
soquinho no ombro dele.
― Ela também é muito boa no que faz. ― Luca diz e, pelo seu rosto,
sei bem que está relembrando o acontecido. ― Mas eu estou preocupado.
― O que houve? ― Olho pra ele.
― Nós conversamos muito, sabe? Jake e eu. Escutei o que você disse
naquele dia na cozinha e não foi à toa que passei a namorar ele dias depois.
Desde o início, foi preciso encontrar algo que funcionasse para nós dois e
abrir o relacionamento foi um meio durante muito tempo, mas agora… com
o que aconteceu entre mim e a Michelle, eu fiquei muito pensativo sobre o
assunto, se é isso mesmo que eu quero. Bom, já faz bastante tempo que eu
estou namorando o Jake e, mesmo tendo funcionado muito bem durante
todo esse tempo e ambos já termos ficado com outras pessoas nesse meio
tempo, eu sinto que ele quer algo mais sério e, no fundo, depois daquela
conversa que tivemos na cozinha da minha casa, eu acho que eu também
quero.
― Onde você quer chegar com isso?
― Eu estou sentindo que eu vou magoar ele e a Michelle no processo.
Mesmo eu tendo ficado duas vezes com a Michelle, mexeu muito comigo.
Agora estou com a consciência pesada, a gente não deveria ter dormido
juntos. Eu sinto como se eu tivesse enganado ele e ela, sabe?
― É isso? Ah, por favor, Luca, Michelle é uma mulher adulta. Ela
sabe que foi algo casual.
― Eu amo demais vocês duas, eu estou com medo de ter pisado na
bola.
― Nós fodemos muito mais que duas vezes e hoje somos amigos. ―
Tento consolá-lo.
― Mas é diferente, Olivia. Era outro contexto, nosso relacionamento,
além de uma grande amizade, era entre dominador e submissa. Tínhamos
nossos acordos, nossas regras e tudo funcionava muito bem, não havia
sentimentos envolvidos. Dessa vez, tem muitos.
― Bom, faz o que você tem que fazer com essa sua crise repentina. Se
a Michelle reclamar comigo, eu te aviso, mas ela não vai fazer isso, não tem
nem motivo. Além do mais, isso não é sobre a Michelle, é entre você e suas
questões. Eu não posso te dizer o que fazer. O que eu posso te aconselhar é
que você precisa sair do muro logo para não magoar ninguém.
― Você não vai falar sobre a Diana mesmo? ― Ele olha pra mim de
relance.
― Não tem o que falar. Eu prefiro esquecer o que aconteceu.
― Michelle disse que vocês duas dormiram na mesma cama.
― Começou… ― Às vezes eu esqueço que existe um canal de
comunicação entre nós três que, não importa a fofoca, em pouquíssimo
tempo os três já vão saber.
― Eu só estou falando que era uma mansão enorme, com muitos
quartos, inúmeras opções e ainda assim você dormiu na cama dela.
― Tudo bem, pode dar o sermão, eu mereço. ― Cruzo os braços.
― Eu não vou dar sermão nenhum. Você é minha superior e sabe
muito bem o que fazer ou não. Só estou dizendo que, se ela fez você dividir
a cama com ela, acho que não foi à toa.
Entro no estúdio e fico parada no canto próximo à porta enquanto
Diana começa a ser arrumada. Um homem mexia no cabelo dela enquanto
uma mulher retocava sua maquiagem e outra mulher fazia suas unhas.
Fiquei impressionada pela paciência dela, eu já estaria agoniada com tanta
gente tocando em mim. O primeiro compromisso do dia seria uma sessão de
fotos para uma reportagem da Forbes, as fotos seriam ao ar livre em um
heliporto não muito longe dali. Brett estava aqui também. Eu passei a olhá-
la com outros olhos desde a minha conversa com Michelle.
No meio da arrumação, escuto uma movimentação no meu
comunicador.
― Está tudo bem? Você está pálida. ― Escuto a voz de Luca.
― Eu estou bem. Não se preocupe comigo. ― Escuto Michelle
respondendo. Os dois estavam esperando do lado de fora.
A equipe de fotógrafos logo chega, todos andamos em direção ao lugar
onde as fotos iam ser tiradas. Olho ao redor, estava fazendo muito frio e as
minhas camadas de roupas não pareciam fazer um bom trabalho para me
proteger do vento gelado da manhã. Fico plantada por duas horas até o fim
das fotos.

Logo após o final da sessão e de uma conversa descontraída com uma


das editoras da revista, Diana passa por mim com Brett em seu encalço.
Brett entrega o café para ela e Diana passa a dar um monte de ordens
relacionadas ao trabalho. Olho de relance para Michelle, ela de fato parecia
prestes a desabar se ficasse em pé por mais tempo. Olho para Luca, dando
um aceno para levá-la para o carro.
Eu abro a porta da BMW e as duas entram. Brett começa a falar sem
parar sobre problemas que a Diana precisava resolver ainda hoje. Um longo
silêncio e eu levanto os olhos para o retrovisor, encontro com o olhar sério
da minha chefe. Por um tempo, tento desvendar o que se passava em sua
cabeça, se estava pensando em mim. Eu queria que estivesse, nem que seja
só um pouco, pensando no nosso beijo em Madri ou em quando nós quase
fodemos escondidas no quarto. Faz dias que isso não sai da minha cabeça e
queria que ela sentisse isso também. Diana desvia o olhar do meu, como se
fugisse de mim, e eu vejo o quanto eu estou sendo hipócrita em desejar algo
que eu mesmo havia negado. Volto meu olhar para a rua, desconcertada
com tudo que estava sentindo.
Voltamos para a mansão. Era quase horário de almoço. Diana estava
resolvendo alguma coisa no escritório e eu fui para uma copa nos fundos da
casa para esquentar minha comida. Encontro Michelle sentada em uma das
cadeiras, ela parecia ainda pior do que antes.
― O que você tem? ― Coloco minha comida no micro-ondas.
― Só estou um pouco enjoada. ― Ela responde. Eu me aproximo e
pego na testa dela. Ela estava suando frio e o rosto estava pálido feito um
papel.
― Você não pode trabalhar assim. Olha pra você, mal se aguenta em
pé. Melhor você ir pra casa.
― Obrigada pela preocupação, Olivia, mas realmente não precisa. ―
Ela apoia os cotovelos na mesa e abaixa a cabeça.
― Você comeu hoje? ― Pego minha mochila automaticamente,
tirando um remédio e uma garrafa de água. Quando entrego os itens,
percebo que sua mão tremia.
― Tomei café só. Não consegui almoçar.
― Eu ainda acho melhor você ir pra casa.
―Não precisa, Olivia. ― Mas então ela subitamente levanta e corre
até um banheiro que tinha na copa. Ela se debruça sobre o vaso e vomita.
― Eu estou falando isso como sua superior. Pegue as suas coisas e
volte amanhã. Eu aproveitaria o resto do dia para procurar um médico. ―
Dou dois tapinhas nas costas dela.
― Ok, talvez você tenha razão. ― Ela diz assim que saímos do
banheiro.
― Sua menstruação está em dia, né? ― Pego meu almoço do micro-
ondas.
― Eu tomo remédios, então minha menstruação raramente vem. O fato
dela estar atrasada dois meses não quer dizer que eu esteja carregando um
mini Luca.
―Nossa, Michelle, isso foi muito específico. Ensaiou essa fala quanto
tempo em casa?
― Se eu tivesse forças, eu te daria um soco agora, Olivia.
― Mas é sério, se cuida, ok? ― Digo para ela enquanto ela começa a
juntar as coisas para ir embora.
CAPÍTULO 17
Olivia/Diana

DIANA
6 horas antes…

Respiro fundo, tentando afastar do meu pensamento a ansiedade que


estava crescente desde o momento que Brett sugeriu uma coletiva de
imprensa. Olivia caminha até o lado da minha porta, abrindo para mim, e
desço do carro. Meus guarda-costas formam um pequeno escudo para me
ajudar a passar pelos jornalistas.
Olivia estava ali, logo atrás, a menos de dois passos de distância.
Continuo minha caminhada até o prédio principal da empresa. Não presto
nenhum esclarecimento e agradeço mentalmente quando Luca impede que
um jornalista chegue com o microfone perto demais.
Os flashes ainda dançavam em minha visão quando finalmente entro e
me livro dos óculos escuros. Brett me esperava perto do elevador com Katie
para a minha surpresa. Ela disse que iria tentar chegar a tempo para me dar
uma força. Pelo visto, ela conseguiu.
Foco num ponto aleatório das costas de Olivia enquanto subimos para
um auditório. Um pequeno relevo no terno que estava vestida mostrava que
hoje ela usava um colete a prova de balas. Tinha policiais lá fora, porque ela
reforçou a segurança do prédio. Algo estava errado.
Ela disse que estava tudo sob controle, que estava apenas seguindo o
protocolo, mas por que eu sinto como se prédio fosse simplesmente
explodir se eu desse um passo em falso?
Logo que as portas do elevador se abrem, Katie e Brett seguem e eu
sou a última a entrar na sala, passando pelos engravatados e subindo um
pequeno degrau.
― Boa noite, senhores. Eu sou a presidente Diana Montserrat.
Uma pequena plateia de repórteres credenciados se agita, todos
sedentos por cada sílaba que saísse da minha boca. O meu discurso seria
simples e o mais sucinto possível. As empresas Montserrat não possuíam
nenhuma dívida e, tudo que estava sendo falado, era apenas calúnia da
mídia embora eu mesmo duvide disso. Mesmo com todo o cuidado que eu
tive, eu não posso controlar as ações atuais do meu pai. Ele não era mais
presidente, mas ainda era bastante influente no meio. Contudo, eu era mais,
tinha que ser.

OLIVIA
O cabelo de Diana parecia brilhar, o ruivo ainda mais vivo contra a luz
dos holofotes. Ela respondia a pergunta de cada um dos repórteres com
maestria, a voz sempre calma mas bem firme. Ela estava usando os mesmos
saltos que usou no Natal e uma roupa formal.
Transfiro meu peso de um pé para o outro, me lembrando que
especialmente hoje não era um bom dia para ficar babando pela minha
chefe. A empresa estava lotada de jornalistas e com mais convidados que o
habitual. Jake trouxe reforços para ajudar a controlar a quantidade de
pessoas entrando e saindo.
Eu estava de um lado do palco, Luca do outro e Michelle na porta que
Diana usaria para sair do auditório. O burburinho no meu ouvido dos
seguranças conversando entre si indicava que estava tudo seguro.
Katie estava sentada em um lugar reservado para ela, ao lado de Brett.
Depois da minha conversa com Michelle, eu passei a ter os dois pés atrás
com essa secretária. O fato dela ter sugerido uma coletiva de empresa
sabendo que a chefe dela tem um alvo nas costas não ajuda. Eu fui contra
desde o início e toda a minha paciência se esgotou quando Brett disse que
"Ela precisa dessa coletiva. Se você não consegue fazer o seu trabalho
enquanto a senhorita Montserrat faz o dela, talvez ela precise trocar a
segurança." Eu vi a cara que Michelle fez, ela também não concordou com
uma vírgula que Brett havia dito. Mesmo com os três guarda-costas dizendo
que não seria adequado, a palavra final ainda era da Diana e aqui estamos.

DIANA

A caneta em minhas mãos foi um presente. Meu pai me deu no dia da


coletiva de imprensa que contaria para o mundo que o mais novo líder de
uma empresa milionária era agora, pela primeira vez, uma mulher.
Eu lembro do meu nervosismo naquele dia, passei o dia inteiro com
dores fortíssimas devido à ansiedade. Quando meu pai me entregou a caixa
de veludo que continha essa caneta, a vida dele estava uma bagunça. Ele
mal saiu de casa por medo de ser morto. É o que costuma acontecer quando
você tenta passar a perna em outros velhos ricos e milionários. As empresas
Montserrat tiveram o prejuízo de 380 milhões de dólares, então, com a
dívida paga, mas uma crise pesada por vir, foi conveniente passar o trabalho
de corrigir os erros dele para a filha e eu fiz isso muito bem. Em três anos,
era como se a dívida jamais tivesse existido.
E, agora, eu estava aqui descendo os degraus do palco após arrumar os
erros dele novamente. No mundo dos ricos, tudo é uma questão de
aparência, não importa o preço. A quantidade de zero à direita na sua conta
bancária sempre vai importar mais que seu caráter.
Olivia falava com o ponto no próprio ouvido enquanto andamos em
direção a minha sala. Ainda lembro do olhar dela quando me viu com a
amiga de Katie. Indecifrável e neutro, me senti indo contra uma parede de
gelo. Mas, no fundo, eu acho que tinha algo ali. A amiga de Katie era tudo:
simpática, inteligente, bonita, mas não era a Olivia. Eu quis descontar a
frustração na primeira mulher que apareceu na minha frente. Agora, eu
estava incomodada e queria consertar as coisas.
― Eu não estava te esperando aqui. ― Digo para Katie assim que
deixo o auditório. Ela estava usando uma blusa de cetim clara e uma saia
branca. O cabelo loiro estava solto, mas contido atrás da orelha e deixando
os brincos dourados à mostra.
― Peguei um jatinho pra cá de madrugada. Foi uma correria, mas deu
tudo certo.
― Você e sua mãe, como estão?
― Nós brigamos feio na noite de Natal, brigamos no ano novo. Ela
deixou bem claro que eu fui a pior coisa que aconteceu na vida dela e que
eu deveria ter morrido antes de nascer porque então eu não teria estragado o
corpo dela. Agora, ela está em Paris fazendo compras pra esquecer o ex-
namorado. Nada novo sob o sol.
― Claro, já imaginava. Ainda torço para que vocês se acertem.
― Diana, eu entendo que minha mãe foi uma excelente tia para você.
Quando você se assumiu lésbica, ela te defendeu com unhas e dentes, mas,
como mãe, não é uma boa pessoa. Ela foi capaz de me humilhar em
público, falando do quanto eu estava gorda quando eu tinha 16 anos apenas
porque eu pesava 68 quilos, e logo depois me levou para comer bolo de
chocolate como se nada tivesse acontecido. Enfim, não perca seu tempo
esperando qualquer melhora.
― Tudo bem, prometo não tocar mais no assunto. ― Eu olho para os
lados, Olivia estava mostrando algo no tablet para Michelle.― Você poderia
ir no carro com os outros seguranças? Eu queria conseguir conversar com a
Olivia sobre... Bem, aquela situação com a sua amiga. ― Digo a última
parte rapidamente.― Teria problema?
― E perder a oportunidade de ficar perto daquele deus grego que você
chama de segurança? Problema nenhum. ― Ela abre um sorriso. ― Mas
você sabe que não precisa disso tudo, não é? Puxa ela pelo rabo de cavalo
até seu escritório, faça amor com ela em cima da sua mesa. Aposto que ela
não vai resistir ao seu charme.
― Katie! Meu Deus, fala baixo! ― Torço para que Olivia não tenha
escutado. Ela estava a alguns metros de distância, mas ela continuava
atenta. ― Você acha que eu sou um homem hétero pra fazer esse tipo de
coisa? Mesmo se por algum milagre ela quisesse, eu iria no mínimo
planejar algo mais aconchegante que meu escritório, talvez até levar uma
daquelas tortas que ela gosta.
― Não é um cara gostosão, mas tem seu charme. Vai conversar com
ela, eu acredito no teu potencial. ― Ela dá um tapinha na minha bunda e
segue andando até Luca.
Algumas horas depois, Olivia abre a porta do carro para mim e senta
no banco do motorista. Foco em um ponto aleatório na nuca de Olivia,
observando os pequenos fios rebeldes que haviam escapado do rabo de
cavalo, enquanto tomava coragem para falar.
― Então, quando é seu aniversário? ― Pergunto algo simples para
puxar assunto.
― 10 de julho. ― Ela dá partida no carro.
― Não acredito! É sério isso? Quer dizer que a tenente Winston,
atiradora de elite, rainha das artes marciais e participante de menages, é
canceriana?
― Não sei o porquê do choque, eu choro assistindo filme de cachorro.
Inclusive, tenho um caranguejo tatuado no braço. ― Vejo ela sorrir pelo
retrovisor.
― Eu achava que você era de áries ou algo assim.
― Eu estou surpresa de você acreditar em signos.
― Eu não acredito, mas acho interessante.
― O que está passando pela sua cabeça? ― Ela pergunta de repente.
― Quero dizer, foi um dia longo, sua cabeça deve estar a mil por hora.
― Sobre a viagem para a casa dos meus pais. ― Não minto, mas
também não abro o jogo. Minha mente então vai para a tatuagem em suas
costas e, como um pensamento leva ao outro, se fechasse os olhos e me
concentrasse, eu poderia sentir os dedos dela abrindo meu vestido naquela
noite.
― É, aquela viagem de fato é algo a se pensar. ― Ela suspira, girando
o volante. Sei que também tinha lembrado da mesma coisa, pois seu rosto
fica vermelho.
― Você ficou chateada? ― Minha pergunta acaba soando mais como
uma afirmação. Desde que chegamos, algo mudou, ela parece mais
preocupada, mais alerta, como se estivesse esperando constantemente que o
mundo fosse explodir. Eu entendo que é por causa da nossa conversa na
noite de Natal, ela mesmo disse que precisava focar mais no trabalho.
― Com o que exatamente?
― A viagem em si. Você não parece bem desde que voltamos. Eu
pensei que talvez ter me visto com a amiga de Katie... Eu queria me
desculpar.
― Bom, digamos que meu antigo trabalho está me rendendo mais
preocupações que o atual. Em relação à viagem… ― Ela dá ênfase na
palavra e então eu soube que ela se referia ao acontecimento no corredor. ―
Não fiquei chateada.
― Tem algo que eu poderia te ajudar? ― Uma mudança brusca na
velocidade do carro. Desencosto a cabeça do vidro alerta, olho pelo
retrovisor e noto Olivia focando em algo logo atrás do nosso carro.
― O que está acontecendo?― Me inclino para o banco da frente.
― Eu acho que estamos sendo seguidas. ― Ela olha nos meus olhos
pelo retrovisor por um momento.

OLIVIA
Eu sequer tinha superado o baque que foi a Diana tocando no assunto
do ano novo quando eu vejo um carro atrás de nós. Acelero e vejo que Luca
faz o mesmo. Eu jogo o carro no meio do corredor de veículos, tentando
pegar distância do Audi Prata. Aperto minha mão no volante, pensando que
eu precisava sair do meio desses carros para ganhar mais velocidade.
Confiro que o carro de Luca estava logo atrás e peço reforços para Jake
pelo rádio. O carro de Luca desvia bruscamente para a direita e então, como
a cereja de um bolo, começo a escutar tiros. Diana grita quando os tiros
começam a acertar o carro. Eu mando ela se abaixar e piso no acelerador.
― Você está bem? Pegou em você?― Pergunto preocupada.
― Olivia, a Katie… Ela está no outro carro. ― Ela responde, os
nervos à flor da pele.
― Fica calma, ok? Michelle e Luca estão com ela e vai ficar tudo bem.
― Olho rapidamente para o banco de trás antes de voltar o rosto para a
pista.
O carro de Luca estava na lateral do nosso, tentando ficar entre o carro
que estava atirando e a gente. Tiros atingem o carro deles, atravessando os
vidros. Algo em mim retorce e a minha garganta seca. Respiro fundo e piso
no acelerador. A Diana agora era a prioridade, Luca e Michelle sabiam se
cuidar.
Eu acelero e vejo os dois carros ficarem muito para trás. Observo que
Diana não tinha notado o que tinha acabado de acontecer.
― Olivia, temos um problema. É a Katie. ― Escuto Michelle no ponto
do meu ouvido. Olho para Diana no banco de trás, ela estava assustada,
mas, fora isso, estava sem um arranhão.
Como eu iria contar para ela?
― Tira esse carro daí agora. ― É tudo que eu digo. Eu quero dar um
tiro naquela secretária. Eu falei com todas as letras que a última coisa que a
chefe dela precisava era mais holofote apontado para ela.
Um segundo carro surge do nada à nossa frente, tentando nos bloquear.
Eu desvio, mas ele segue lado a lado. Em qualquer outra situação, eu
começaria a atirar para desacelerar o carro da frente, mas a última coisa que
eu preciso é que eles comecem a atirar de volta.
Então, o pior acontece. O carro gira na pista e tomba para o lado. É
tudo tão rápido que, em um momento, eu estava consciente do que estava
acontecendo e, no outro, eu apenas sinto minha cabeça ir em direção ao
vidro.

DIANA
Chamo o nome de Olivia, mas não recebo nenhuma resposta.
―Olivia, vamos! ― O desespero me atinge quando o corpo dela
continua inerte sobre o volante. ― Merda, Olivia, acorda, por favor! Eles
estão vindo. Vamos, eu preciso de você! ― Pego o rosto dela nas mãos, mas
sem nenhum sinal de consciência. Aquilo me desespera, porque o que eu
mais temia estava acontecendo. Ela estava machucada por minha causa.
Escuto passos correndo em direção ao carro. Dois homens, um deles me
puxa pra fora.
― Você vem comigo. ― Eu tento fugir, mas ele segura meus braços.
Eu tento me soltar assim como Olivia tinha me ensinado mais de uma vez,
mas sem sucesso. Eu chuto o joelho dele, fazendo de tudo, e ele agarra meu
corpo, colocando a arma contra a minha cabeça e me empurrando em
direção ao carro prata.
― Bonita, não é? ― Um diz para o outro. ― Leva ela, eu cuido da
guarda-costas. Vão ficar muito felizes quando descobrirem que tenho a
cabeça dela em mãos. ― O homem que me segura é muito magro e tinha o
cabelo preso em tranças. Ele tinha muitos piercings no rosto e tinha uma
expressão feliz, como se fosse ganhar muito dinheiro.
― Por favor, deixe ela fora disso. Ela só está trabalhando, ela é
inocente, por favor. ― Eu tremia enquanto um deles me afastava do carro.
― Não teria tanta certeza disso se eu fosse você. ― Ele responde e
puxa a cabeça inerte de Olivia pelo rabo de cavalo. ― Ela precisa pagar
pelo que ela fez.
― Não faça nada com ela, por favor! Eu faço qualquer coisa, deixe ela
fora disso. Eu estou implorando. Por favor!
A minha resposta é um puxão ainda mais forte no meu braço. Nós
andamos alguns metros, nos afastando da rodovia. Eu tentava pensar direito
para tentar me salvar, mas o pânico havia se tornado uma nuvem densa
demais na minha cabeça. Ele com certeza mataria Olivia se ela não
acordasse.
― De joelhos, anda logo. ― Ele aperta ainda mais meu braço, me
jogando no chão.
Meu coração batia com tanta força que parecia me deixar surda. Eu não
acredito que eu estou aqui, que eu vou morrer aqui de uma forma tão
patética e que não há absolutamente nada que eu possa fazer. Algo em mim
quebra quando eu escuto um tiro de longe. Olivia…
― Olha essa cara de choro.
― Vai pro inferno. ― O golpe vem com força e de repente. Um soco
potente no rosto que me faz cuspir meu próprio sangue.
― Acho que agora é a sua vez. ― Ele destrava a arma, apontando-a
para a minha nuca. ― Hora de ganhar uma passagem só de ida para o
inferno.
Um estouro e então uma pressão. Ele cai pro lado sangrando. Olivia
aparece, ele tenta atirar, mas ela é mais rápida e atira novamente. Ela corre
até mim, me abraçando.
― Caralho, você tá viva. ― Sinto um alívio tão grande que sinto como
se pudesse respirar de novo.
― Você está bem? Ele fez isso com você?
Ela olha pro meu rosto com um olhar quase assassino. Eu nunca tinha
visto ela assim antes. Não tenho muito tempo para pensar, ela me coloca
atrás dela e chuta a arma dele para longe. Ela ainda aponta a arma para ele
quando diz:
― O que você quer?
― Você poderia ter me matado, mas não o fez. ― Ele tosse, apertando
o ferimento com a mão. Ele tinha um tiro na lateral do corpo e outro na
clavícula. ― Ou você acha mesmo que eu vou acreditar que uma atiradora
de elite erraria um tiro na cabeça? Medo de ter mais um motivo para ser
caçada nas costas? Todo mundo quer a sua cabeça, mas o Chanceler pediu
para esperar. Me pergunto por quê. Se dependesse da vagabunda da mulher
dele, você já teria sido dada para os porcos comer faz tempo.
― O que você quer com ela, caramba?! ― Ela parece ignorar tudo que
ele diz.
― A cabeça dela vale muito, mas a sua vale muito mais. ― Ele
balbucia, começando a perder a consciência.
Começo a escutar sirenes se aproximando e as viaturas estacionam
perto de nós. Eu não conseguia ver o rosto de Olivia, mas noto a força com
que ela aperta a arma, fazendo as falanges de seus dedos embranquecerem.
Em segundos, os policiais descem das viaturas e algemam o homem. Um
dos policiais vem ao nosso encontro.
― Tira ela daqui. ― Conclui após uma rápida troca de olhares com
Olivia. Ela acena com a cabeça, me puxando rapidamente para dentro de
uma viatura.
― O que aconteceu? Em um segundo, você estava inconsciente e
agora você está aqui… Eu achei que você tinha morrido, Olivia. Por que
eles também querem você? Quer me falar pelo menos o que aconteceu com
o outro cara? ― Eu olho para ela, notando agora que tinha respingos de
sangue no rosto e um corte na têmpora.
― Morto.
― Como assim 'morto'?
― Morto, Diana. O que você queria que eu fizesse? Esperasse
calmamente ele me soltar enquanto tinha a porra de uma arma na sua nuca?!
― Ela estava furiosa, mas inteira e viva. Isso bastava. ― Quando eu falar
que não é uma boa ideia fazer uma coisa, você me escuta, porra! Você quase
morreu hoje.
― Como você ousa falar assim comigo?
― Eu te falei que isso ia acontecer, eu te dei mil formas de evitar isso.
Não é só a sua vida que estava na linha de fogo, era a de Luca, Michelle, a
sua e a de Katie. Agora, ela esta lá com a porra de uma bala no peito.
Ela liga as sirenes da viatura e disparamos pelas ruas. Meu corpo
estava anestesiado.

OLIVIA
Eu me arrependo das minhas palavras no momento em que fecho a
boca. Diana encarava um ponto fixo na frente, estática e morbidamente
calada. Calma, Olivia, vamos apagar um incêndio de cada vez, mesmo que
você tenha acabado de criar mais um.
Sinto meu sangue ferver com a adrenalina. Eu tive a sorte conseguir
acordar antes do homem tentar me matar. Foi tudo rápido: sacar a arma,
destravar e atirar. Eu consegui chegar a tempo em Diana. Ela estava viva,
era o que importava. Checo Diana o caminho inteiro. Eu poderia me
desculpar, mas não agora, ela está nervosa demais. Descemos do carro.
Vamos até à emergência, Luca e Michelle faziam guarda enquanto médicos
entravam e saiam da sala o tempo todo. Eles estavam inteiros e sinto um
peso sair dos ombros.
― Como está a minha prima? ― É a primeira coisa que Diana diz.
― Vocês chegaram poucos minutos depois da ambulância. Ainda não
sabemos de nada. ― Michelle responde.
― Como isso aconteceu? ― Diana continua falando, a voz
firme mesmo com os olhos marejados.
― O primeiro tiro atravessou o vidro direto e atingiu ela, só depois
vieram os outros. ― Michelle é interrompida pelos apitos dos aparelhos.
Mais enfermeiros entram na sala de trauma e a porta fica aberta. Eu já
estive aqui antes com Luca. Quando meu superior me liberou, eu fui
correndo para o hospital.
Um médico tentava reanimar Katie, fazendo compreensões enquanto
outro tentava encaixar um dreno entre uma costela e outra para tentar tirar o
sangue e o pulmão conseguir se expandir novamente. Eu estava vendo
Katie lutar pela vida exatamente do mesmo jeito que Luca havia lutado
anos atrás.
Não lembrava quando tinha começado a abraçar Diana, mas eu sabia
exatamente a aflição que ela estava sentindo. Ela não chorava, mas eu
conhecia os sinais, estava a segundos de ter uma crise. Diana se segura em
mim e o desespero dela faz cada palavra que eu havia falado mais cedo se
tornarem cacos de vidro dentro do meu cérebro. Minha atenção ficava
dividida entre minha chefe e o monitor que começava a formar linhas retas.

DIANA

A minha visão era uma bagunça de luzes turvas. O barulho do monitor


que indicava que o coração de Katie estava parando parecia estar apitando
diretamente de dentro na minha cabeça. Minha boca tinha virado uma lixa e
minha garganta o próprio inferno. Meu corpo inteiro parecia dormente e
meu braços rígidos.
Katie precisa de mim. Eu preciso ficar bem para cuidar de Katie.
Katie está morrendo na minha frente.
Um círculo de pessoas se forma ao meu redor, todas falando alguma
coisa diferente, mas sou incapaz de distinguir com clareza. Meu peito
queima e noto que eu não respiro. Me agarro na única coisa que parecia
familiar antes de apagar.

OLIVIA
Encosto a cabeça nas mãos, ainda sentindo a dor da batida. Diana
dormia numa cama de hospital. Ela soltou minha mão aos poucos conforme
os calmantes foram fazendo efeito. Luca senta do meu lado, me entregando
um pano com gelo. O frio em minhas mãos era confortável, me ajudava a
pensar com clareza. Suspiro, apertando o gelo nas minhas mãos.
― Agora são 29. ― Ele sabia a que eu estava me referindo. Eu
lembrava muito bem de cada vida que tinha tirado.
― Você está bem?
― Vou ficar.
CAPÍTULO 18
Diana

Eu acordo como se eu tivesse com uma bigorna amarrada na cabeça.


Demoro alguns segundos para lembrar de tudo que havia acontecido. Eu me
viro para o lado e a primeira coisa que eu vejo é Olivia. Ela está com a arma
na cintura e o terno jogado no sofá; o rabo de cavalo já havia virado um
coque frouxo sobre a cabeça. Ela assistia à televisão ligada no mudo.
― Eu te acordei? ― Ela pergunta assim que me nota e se levanta,
sentando num banco perto da cama logo em seguida. Meu estômago se
contorce e eu sinto o pânico começa a dar sinais, mas eu ignoro.
― Katie… Como ela está? Ela está viva? ― Me sento na cama.
― Ela está viva, mas ela teve uma hemorragia muito severa. O estado
dela ainda é muito crítico. Nós falamos com a mãe dela, Cassandra está a
caminho. Daqui a algumas horas, Jake estará aqui para recolher o seu
depoimento. ― Sua voz estava baixa e sua mão fazia carinho no meu
ombro, o toque quente e aconchegante.
― Quando eu vou poder ver Katie?
― Ela ainda não está acordada. Ela passou por uma cirurgia e você
acabou tendo um ataque de pânico muito severo. Um médico pediu para te
ver assim que acordasse e a sua psiquiatra esteve aqui há algumas horas.
― Olivia, nós precisamos conversar.
― Eu compreendo que fui muito grossa com você. Eu entendo que eu
deveria ter escolhido melhor as minhas palavras, mas isso não quer dizer
que eu…
― Está tudo bem. ― Eu balanço a cabeça. ― Eu entendo que foi a
adrenalina e que você ficou estressada. Eu só queria dizer que eu estou
muito aliviada de você estar viva. Eu realmente me importo com você.
Quando eu vi que você tinha se machucado, eu… Eu realmente não queria
te perder… ― Olivia interrompe minha linha de raciocínio quando me puxa
para um abraços, os dedos dela passando pela minha cabeça e meu rosto
escondido contra a camisa social que ela usava.
― Você também me deu um susto muito grande, sabia? ― Ela encosta
o queixo no topo da minha cabeça.
A luz branca do quarto parecia me deixar ainda mais nervosa. O
médico havia acabado de deixar Katie, ela dormia devido ao efeito da
anestesia, e ele disse que ainda não estava completamente fora de perigo,
mas, se ela passasse a noite sem mais complicações, ela ficaria bem. Passo
meus dedos entre os fios loiros do cabelo dela. Katie era a minha pessoa
preferida, minha melhor amiga e a irmã que eu nunca tive.
Luca entra em silêncio. Ele deposita as coisas de Katie em cima da
mesa.
― Como vocês estão? ― Pergunto. ― Ontem foi um dia complicado.
Katie não teria sobrevivido se não fosse por vocês e eu ainda não consegui
agradecer propriamente.
― Nós três estamos bem. Katie é quem merece toda atenção agora.
Não se preocupe conosco, dias como o de ontem fazem parte do trabalho.
― Ela te acha um gato, sabia? ― Dou uma risada lembrando dos
comentários depravados da minha prima.
― Olivia me contou. Ela foi muito corajosa. Poucas pessoas
conseguem fazer piada depois de levar um tiro. ― Ele pega na mão dela. ―
Ela fez várias.
― O médico disse que ela vai ficar bem. Aposto que, na primeira
oportunidade, ela vai levantar dessa cama apenas para me bater quando
descobrir que a mãe dela está num jatinho vindo para cá.
― Imagino. Se precisar de algo, pode chamar. Eu vou estar no
corredor. Olivia vem te buscar daqui 40 minutos.
Subitamente, nós dois começamos a escutar vozes vindo do lado de
fora da UTI. Saímos para averiguar.
― Eu trabalho com ela há mais tempo que vocês. Me deixem entrar. ―
Brett é a primeira a falar.
― O que está acontecendo aqui? ― Interrompo o conflito.
― Eu não posso deixar ela entrar. ― Michelle responde.
― Quem disse isso? ― Questiono.
― Katie Montserrat. ― Luca responde. Aquilo tira as palavras da
minha boca e me pesa de um jeito que eu não entendia o porquê.
― O que você tiver para falar, me mande por e-mail. Desmarque ou
adie tudo para a próxima semana. Depois eu lido com isso. Eu não quero
ser incomodada, não quero falar com ninguém. É isso, está dispensada. ―
É a minha ordem à Brett. Não espero ela ir embora antes de voltar para o
leito de Katie.
Olivia chega exatamente no horário que Luca disse que ela chegaria.
Tinha tomado banho e trocado de roupa; agora usava o cabelo preso em um
coque militar e não tinha sinais dos respingos de sangue do dia anterior.
Passamos no corredor, vejo de longe Jake segurando as mãos de Luca, ele
dá um beijo rápido no meu segurança e sai andando. É algo discreto e que
dura menos de alguns segundos.
― Ok, eu estou surpresa. Você viu o que acabou de acontecer? ― Eu
olho para Olivia, que andava um passo atrás de mim. Ela balança a cabeça e
sorri com o meu espanto. ― Você já sabia?
― Claro, eu mesma incentivei o casal. Eles namoram há pouco tempo.
― Katie vai ficar chateada. Ela acha seu amigo um gato.
― Ela supera. Que eu me lembre, ela tem um stripper ruivo à
disposição dela em Madri.
Olivia me leva até em casa. Tomo um banho, coloco roupas limpas,
tomo meus remédios e almoço quase em tempo recorde para poder voltar
para o hospital. Minha cabeça então volta a funcionar melhor, o que me faz
começar a pensar. Fico revivendo diversas vezes o acontecimento de ontem
na minha cabeça. Quando tudo aconteceu, eu mal tive tempo de digerir
tudo.
― Mas como isso foi acontecer? Os carros são todos blindados. ― Eu
sou a primeira a falar depois de um tempo em silêncio.
― Carro a prova de bala não é totalmente a prova de bala. ― Sua
postura é séria apesar da sua voz não carregar tanto peso. ― Pelo menos, o
vidro não é. O aço é mais encorpado e o vidro pode até ser mais grosso,
mas tem um limite até onde o fabricante pode deixar o vidro espesso.
Depois de certo ponto, o vidro deixa de ser funcional. É por isso que
quando os disparos começaram, eu te mandei abaixar. O tiro que atingiu
Katie não foi de revólver. O disparo teve potência o suficiente para romper
o vidro, ainda mais porque não foi um disparo de longa distância.
― A que exatamente eles estavam se referindo com “mais um alvo na
suas costas”? Por que eles estão atrás de você? ― A pergunta parece pegar
ela de surpresa.
Ela parece hesitar sobre o assunto, mas acaba me respondendo:
― O motivo de eu ter largado a polícia foi porque eu matei um dos
líderes de uma máfia, que, por alguma razão, está muito interessada em
você. Eu não sei muitos detalhes, muito menos por que o líder deles pediu
para esperar, mas eu deveria estar morta há muitos meses, antes mesmo de
ter começado a trabalhar para você. Mas, por alguma razão, o chefe deles
resolveu esperar.
― Então é isso? Você vai apenas esperar eles virem te matar? Você não
vai fazer nada? ― Um nó se forma na minha garganta, a imagem dela
desacordada sob o volante surge na minha cabeça e eu lembro do medo que
eu senti.
― Eu sei me cuidar. ― Ela se aproxima de mim, tocando cada lado do
meu rosto delicadamente. ― Prometo. ― Hoje ela estava usando uma
maquiagem marrom discreta, mas que faziam os olhos dela parecerem dois
pedaços de escuridão prestes a me engolir de tão perto que estavam.
― Eu estou falando sério. Uma ligação minha e eu te tiro desse país.
Você pode escolher o lugar e o jatinho. Se você quiser fugir pras
montanhas, me avisa. Eu te ajudo, eu vou junto se precisar. Eu tenho um
helicóptero, eu sei pilotar, a gente se vira. Eu só não quero te perder.
E então seu toque em meu rosto se torna firme e, quando me dou conta,
sua boca já está na minha. É um beijo longo, daqueles que pega qualquer
vestígio de dúvida e joga pela janela. Ela me queria.
CAPÍTULO 19
Diana

A minha tia chega no hospital como uma leoa, de mau-humor e muito


preocupada com a filha. Eu precisei intervir antes que ela começasse a
discutir com os meus seguranças. Contei o que havia acontecido e informei
que Katie estava começando a dar sinais de melhora. O processo era lento,
mas ela estava reagindo bem.
― A última coisa que eu disse para ela era que eu queria ela morta e
então ela vai lá e leva um tiro no peito. Que menina implicante. ― Ela se
aproxima da cama.
― Ela tem a quem puxar. ― Sorrio, tentando confortar minha tia. Por
fim, ela pediu para ficar a sós com Katie.
Fico esperando no corredor. Olivia estava usando roupas menos
formais, assim como os outros dois seguranças. Ela senta do meu lado.
Mais cedo naquele dia, eu conversei com Jake e mais alguns policiais. Katie
ficaria com a mãe essa noite e no final da tarde Olivia me deixaria em casa.
Na manhã seguinte, quando chego, Katie já estava acordada. Os médicos
falaram que ela ainda estava meio sonolenta devido à morfina, mas que
logo poderia deixar a UTI.
― Eu preciso te falar uma coisa. ― A voz dela estava fraca como se
doesse respirar, era meio da tarde e estava só nós duas. ― Brett… Ela foi a
culpada de tudo. ― Ela faz uma pequena pausa e uma careta de dor, mas
continua. ― Alguns minutos antes de entrar no carro, eu escutei ela falando
no telefone. Ela vem te roubando há meses. Eu não quis entrar em detalhes
no carro com os seus seguranças, apenas falei que ela não era de confiança
antes de tudo acontecer.
― Ok, eu acredito em você, mas você acabou de acordar de uma
anestesia. A última coisa que precisa é falar de trabalho agora. ― Eu me
sento na cama e seguro a mão dela.
― Você me deixou desacordada e sozinha com a minha mãe? Você
perdeu a cabeça?! Sinto te informar que ela tem capacidade de desligar os
aparelhos da tomada. ― Katie ajeita a cabeça no travesseiro.
― Mesmo eu realmente amando te ver brigando comigo agora, você
precisa descansar. Não se preocupe com Brett, com sua mãe ou qualquer
outra coisa. Eu vou cuidar disso, ok?
― Eu vou voltar a tocar nesse assunto depois. ― Ela respira fundo e
acena com a cabeça, mas não discute. Não demora muito e ela pega no
sono.
Dois dias depois…
― Então vocês se beijaram? Foi bom? foi tão bom quanto a noite do
Natal? Diana, você tem que me falar as coisas da sua vida amorosa. É o
único entretenimento que eu tenho.― Katie reclama enquanto mexe a sopa
de legumes que haviam dado para ela.
Era o primeiro dia fora da UTI. Ela ficava variando entre momentos de
muita dor, quando ela expulsava todo mundo do quarto, e momentos de
muito interesse na minha vida.
― Você levou um tiro no peito, lembra? Sua cardiologista falou que
você precisa de repouso. Não esqueça que você quase morreu 4 dias atrás.
― Não teria sido uma morte ruim. A última coisa que eu me lembro de
ter visto foi o rosto incrível de Luca me mandando ficar acordada.
― Não tem graça, Katie. ― Gesticulo com o livro que eu estava lendo
na direção dela.
― Teria, se ele fosse solteiro. ― Ela dá de ombros e mexe a colher na
sopa. ― Meu deus, que horrível. ― Ela reclama, mas continua comendo.
― Se eu não tivesse morrendo de fome, eu processaria esse hospital. Não
custa nada temperar a comida.
― Você conversou com a sua mãe? Ela não parecia um terço da
mulher que brigou com você em Madri.
― Sim e não. Sim, nós conversamos, mas não sobre isso. Nós estamos
apenas fingindo que nada aconteceu e tentando não tocar no assunto.
― Pelo menos, vocês voltaram a se falar.
― Eu precisei quase morrer para isso. Não brigamos e ela não está
fingindo um amor que ela não sente. Ela cuida de mim, mas não fica me
enchendo de carinho. Enfim, não tenho nada a reclamar.
― Você precisa conversar com ela depois que tudo isso se acalmar. ―
Eu volto a ler meu livro.
― Você precisa convidar a Olivia para sair. ― Katie diz depois de
alguns minutos de silêncio.
― Eu não acho que ela aceita. ― Desvio os olhos das páginas do meu
livro.
― Como você disse, eu quase morri uns dias atrás, mas poderia ter
sido você. Não temos como prever o dia de amanhã. Chame ela para sair
logo de uma vez! Eu sei que você quer. Acabe com a sua miséria e vá. Não
se preocupe comigo, eu ainda estou rabugenta e com dor, mas eu vou
sobreviver. Minha mãe está na cidade, então nada está te impedindo.
― Talvez. ― Guardo o livro. me levanto da cadeira e olho no relógio
de pulso. ― Sua mãe chega em 10 minutos. Eu preciso sair para resolver
umas coisas. Qualquer coisa, me liga e eu venho, ok? ― Eu dou um beijo
em sua bochecha antes de pegar a minha bolsa e deixar o quarto.
Ando um pouco mais rápido pelo corredor, aproveitando uma repentina
onda de coragem.
― Onde é o incêndio para você está andando rápido desse jeito? ―
Era justo quem eu procurava.
― Eu estava aqui pensando se você queria sair comigo... tipo, um
encontro, sabe? Olha, eu vou entender se você não quiser por tudo que você
me falou no Natal. Mas, sei lá, se você tiver mudado de ideia… ― Finjo
uma tranquilidade que eu realmente não tinha. O meu coração parecia
querer correr uma maratona por mim.
― Eu quero. ― Ela sorri. ― Amanhã de noite? ― Faço que sim com a
cabeça. ― Ok. Eu te busco às nove.
CAPÍTULO 20
Olivia

― Bom dia! ― Eu entro na cozinha e bagunço o cabelo de Luca.


― São cinco da manhã ainda, Olivia, vamos com calma. ― Ele se
arrasta pelo balcão da cozinha, alcançando a coqueteleira do pré-treino.
― Alguém está rabugento hoje. ― Eu começo a ajudar ele.
― É Jake. Eu gosto de ficar com ele, mas o nosso namoro em si…
Algo não encaixa. O sexo é bom, ele cozinha muito bem e é um amor de
pessoa, mas eu sinto como se os dois tivessem colocando esforço demais
em algo que deveria ser simples e natural.
― Ah, então é isso. Diga a ele. Aposto que ele deve pensar a mesma
coisa pelo que você disse. ― Eu começo a cortar as frutas pra mim.
― Por outro lado, você parece estar de bom humor.
― Está tão na cara assim? ― Eu me viro para ele, encostando no
fogão.
― Você está com trancinhas recém feitas no cabelo às 5 da manhã.
Ninguém de mau-humor tem disposição pra isso. ― Ele segura cada lado
da trança boxeadora que eu usava para apontar para o óbvio.
― Ok, culpada. ― Eu tiro as mãos dele no meu cabelo.― Eu tenho um
encontro hoje. ― Ele levanta as sobrancelhas, esperando eu continuar. ―
Diana.
― Alguém vai ter uma quantidade absurda de sexo essa noite.
― Luca, é só um jantar.
― Ela falta tirar a sua roupa com os olhos quando te vê, claro que não
é só um jantar. No seu lugar, eu já estaria separando umas algemas e alguns
vibradores, talvez você possa levar aquele vermelho que você gosta.
― Luca, eu jamais faria isso num primeiro encontro.
― A gente fez. ― Ele dá de ombros.
― Eu prefiro esperar.
― Olha só pra você, toda passivinha. ― Ele começa a encher meu
saco.
― Eu só estou dizendo que eu não levaria brinquedos sexuais para um
primeiro encontro. Para um segundo, talvez.
― Para quem tá indo só para um jantar, você está planejando bastante
os próximos encontros. ― Ele dá um gole longo no pré-treino, tomando
quase tudo de uma vez. ― Eu vou só trocar de roupa e pegar meu kimono.
Se quiser ir lá na frente e ir limpando o tatame… ― Ele joga a chave da
garagem para mim.
Vou para garagem, era bem grande, pintada com a mesma cor do
interior da casa. Acendo as luzes, passo um pano úmido na lona do tatame,
seco, seleciono uma playlist de treino. Começo a me alongar e fazer alguns
agachamentos para esquentar meu corpo. Escuto o barulho do meu amigo
passando pela porta da sala, ele veste a parte de cima do quimono e amarra
a faixa preta na cintura.
― Michelle comentou alguma coisa com você? ― Ele diz assim que
pisa na garagem. ― Ela está estranha comigo ultimamente, mal olha na
minha cara. Acha que tem a ver com o fato de eu estar namorando? Porque
faz pouco tempo desde que... Bom, você sabe.
― Eu não notei. ― Minto. ― Mas não acho que ela esteja muito
preocupada com o seu namoro, não.
― Mesmo? Porque faz dias que ela não troca uma palavra comigo.
Simplesmente ignora as minhas ligações. Eu fui à casa dela e ela sequer me
deixou entrar.
― Vai ver que ela só quer te dar um espaço agora que você está com
Jake. Compreensível.

Eu estava no corredor do hospital. Katie ainda estava em cirurgia e


Luca estava cuidando de Diana. Eu havia acabado de limpar o sangue do
meu rosto e tinha dado uma pausa para tomar um café. Eu estava quase
voltando para o quarto quando Michelle me alcança no corredor. As ondas
do cabelo da minha amiga estavam presas em um coque baixo; ela usava
um terno preto com uma blusa social da mesma cor da minha, roupas nas
quais tinham resquícios de sangue de Katie ainda. Ela estava com o rosto
claramente abatido.
― Tem algo errado. ― Ela diz.
― O que foi? É a Diana? Ela está bem? Ela está tendo outra crise?
Katie ainda está em cirurgia?
― Comigo. ― Ela faz uma pequena pausa, passando as mãos no
rosto, antes de continuar.― Tem algo muito errado comigo.― Os olhos
dela enchem de água e ela começa a chorar.
Eu seguro ela pelos ombros, puxando-a para dentro do banheiro que
havia no início do corredor. Ela chora tanto que chega a soluçar. Eu
começo a procurar algum machucado no corpo dela, algum tiro que tenha
passado de raspão, mas, não, ela estava inteira.
― Michelle, o que aconteceu?
― Eu acho que eu estou grávida. ― Ela volta a chorar. ― Na
verdade, eu tenho quase certeza. Eu não quero um bebê. Eu não sei o que
fazer. ― Ela tenta limpar o rímel borrado do rosto. Eu lembro de quando
ela passou mal, eu já estava desconfiada, mas, agora que realmente pode
estar acontecendo, eu estava sem saber como agir.
― Me explica direito, ok? Quando você descobriu isso?
― Alguns minutos depois de chegarmos no hospital com Katie. Eu
senti uma pressão muito forte. Uma cólica diferente que eu nunca senti na
vida. Minha menstruação nunca foi regulada, então, como ela estava
atrasada, eu simplesmente não cogitei a hipótese de estar grávida. A única
pessoa que eu transei nos últimos meses foi o Luca. Ele seria um pai
incrível e iria querer que eu mantivesse a criança, mas eu não quero. De
qualquer forma, é inútil, porque eu jamais teria coragem de fazer um
aborto. Olivia. eu não quero ser mãe.
― Michelle, uma coisa de cada vez. Você precisa de um médico. Eu e
Luca perguntamos como você estava inúmeras vezes mais cedo e você
escondeu estar sentindo dor. Eu mandei você procurar um médico no
momento que você passou mal na minha frente naquele dia na casa da
Diana. ― Eu encosto na porta atrás de mim, coçando a testa, ainda sem
saber direito o que pensar sobre o tsunami de informações que Michelle
estava jogando em mim. ― Por favor, minha amiga, me diz que pelo menos
você fez um teste.
― Eu estava com medo, porque, no fundo, eu sei que eu estou. Eu
sinto isso. ― Ela cobre o rosto com as mãos, chorando.― Olivia, eu não
quero ser mãe.
― Fica aí. Lava o rosto e tenta respirar. Me dá uns minutos que eu já
volto. ― Estou me preparando para sair, mas ela agarra meu braço.
― Luca não pode saber disso. Você não vai contar. Não cabe a você
fazer isso.― Ela diz séria. Eu aceno com a cabeça, deixando o banheiro.
Eu não demoro muito. Tinha uma farmácia do outro lado da rua.
Quando entro no banheiro novamente, Michelle tinha pelo menos parado
de chorar.
― Faz xixi aí. ― Entrego o exame para ela. ― Vamos descobrir se eu
virei titia.― Eu tento deixar ela situação menos tensa, mas ela me dá um
olhar assassino.
Após os procedimentos do exame, ela coloca-o na pia e nós
esperamos. Ela começa a andar de um lado pro outro, checando o palitinho
a cada minuto.
― Ei, você está demorando. Aconteceu alguma coisa? ― Escuto Luca
no ponto do ouvido. Michelle escuta também. Ela vira o pescoço para mim,
atenta.
― Eu... precisei sair para comprar absorvente. Diana ainda está
dormindo?
― Sim, algumas enfermeiras passaram aqui para checar os sinais vitais
dela há pouco tempo. ― Ele responde tranquilo, completamente alheio ao
que estamos prestes a descobrir e isso me corta o coração. Luca pode
ajudar. Michelle não merece passar por isso sozinha. Ela pareceu notar
meu rosto, porque sua cara se fecha em uma carranca e ela cruza os braços
na minha frente.
― Tudo bem. Vou demorar mais um pouco.
Desligo o microfone e ela volta a andar pelo banheiro. O exame na pia
parecia uma bomba-relógio prestes a explodir o hospital inteiro. Eu desligo
o temporizador quando ele apita. Mal desencosto da parede e minha amiga
já está com o teste em mãos. Eu vejo. É claro como a água as duas linhas
vermelhas.
Minha amiga olha para mim. O rosto vermelho é uma expressão de
dor. Eu a abraço sem saber o que falar.

― Oli, eu vi uma caixa de um exame de gravidez na sua bolsa mais


cedo. Eu queria saber se tá tudo bem. ― Ele me pergunta assim que pisa no
tatame.
Eu viro meu rosto devagar, examinando seu rosto, enquanto penso em
alguma mentira.
― Era pra mim. Dormi com um cara. Estava atrasada. E, sabe, como
eu geralmente durmo mais com mulheres, eu não tomo anticoncepcionais...
Enfim, não era nada no final das contas.
― Ah, que bom que não deu em nada. ― Ele se alonga e começa a se
aquecer. Nós lutamos pelas próximas horas.
CAPÍTULO 21
Olivia

Eu estava surtando.
Não tinha ideia da roupa que usaria para o encontro. Eu estava nervosa
e não sabia nem por onde começar quando cheguei do trabalho. Eu posso
pensar numa roupa enquanto eu depilo as minhas pernas, foi meu
pensamento assim que eu entrei no banheiro, carregando um pote gigante
de hidratante de cabelo.
Normalmente, eu ligaria para Michelle, mas, com tudo que está
acontecendo na vida dela, seria feio da minha parte. Reviro meu guarda-
roupas enquanto o creme age no meu cabelo. Eu deveria ir de salto?... E se
desse tudo errado e eu precisar correr com a Diana para algum lugar
seguro?
Meu Deus, Olivia. Você está indo para um encontro e não para uma
guerra. Não vai acontecer nada. Decido que vou deixar a minha arma em
casa porque, se eu fosse uma milionária renomada, eu não iria querer me
encontrar com uma pessoa carregando uma 38 na bolsa. Ok, menos uma
coisa para me preocupar.
Mando foto de duas blusas para Luca e peço pra ele escolher por mim
enquanto procuro alguma calça bonita. Eu pinto minhas unhas de vermelho,
tomo um banho demorado como se fosse lavar o nervosismo do meu corpo
e coloco a blusa que Luca havia escolhido. Na mensagem, havia também
um "essa é mais fácil de tirar, divirta-se'' seguido de uma carinha feliz com
o olho piscando. Visto uma calça e uma jaqueta. Estou prontíssima.
Eu estava amarrando os cadarços da minha bota de salto quando me
vem na cabeça o dia em que eu vi Diana Montserrat pela primeira vez. Eu
ainda trabalhava na polícia. Ela não me viu, porque eu era só mais uma
policial fardada no dia em que ela assumiu a presidência das empresas
Montserrat, mas eu a vi. Ela estava usando uma roupa azul marinho e o
cabelo estava mais curto. Naquela época, eu sequer imaginava que iria
trabalhar para ela e agora eu estava aqui, conferindo a minha maquiagem no
espelho pela quinta vez e esperando dar o horário marcado para buscar
aquela mesma mulher para um encontro.
Dou uma olhada rápida pelos cômodos no caso de hipoteticamente
Luca ter razão e ela querer estender o nosso jantar. Meu coração dá um
pequeno salto quando um despertador toca, me avisando que estava na hora.
Talvez eu estivesse sendo pontual demais…
Eu avisei para Diana que estava na porta mesmo eu tendo livre acesso
a todas as entradas da casa. A parte do meu cérebro que preza pelo
profissionalismo da nossa relação de VIP e guarda-costas sentiu a
necessidade de fazer isso. Ela pediu para que eu entrasse e esperasse na sala
que ela logo estaria pronta.
Então eu a vejo.
Talvez eu tenha voltado a ter 17 anos, pois eu estava em pânico apenas
por olhar uma mulher, que no momento estava mais parecida com uma
deusa, uma deusa malvada que havia roubado a minha capacidade de
formar palavras e falar alguma coisa. Eu me sentia completamente abalada.
Seu cabelo estava solto e repartido de lado, os fios refletiam mais ruivos
que o habitual caramelo escuro; e usava um vestido vermelho com mangas
transparentes que iam até os pulsos.
― Você está absolutamente incrível. ― É ela que quebra o silêncio. O
vestido de Diana era frente única e as costas nuas traziam um ar de
elegância e sensualidade.
― Mais incrível do que o meu terninho habitual? ― Pergunto com as
mãos na cintura, ainda me recuperando do choque que foi ver essa mulher
na minha frente. Definitivamente ainda estava pensando nas costas no
vestido.
― Melhor do que o seu terninho é só você de pijama em Madri. ― Ela
brinca.
― Você está passando muito tempo com a Katie. ― Espero ela passar
na frente para irmos pro carro.
― Talvez um pouco. ― Ela sorri.
Entramos no restaurante que Diana havia escolhido. Era bonito e
informal. Eu escolho um lugar onde eu consigo ficar de olho na porta. É um
encontro tranquilo, mas não esqueço do que aconteceu há quase uma
semana atrás.
― Então, no que posso ajudá-las? ― Pisco incrédula com a voz tão
familiar. Sorrio com a peça que o universo resolveu me pregar. ― Olivia,
você por aqui.
― Oi, Ally, que surpresa. Eu não sabia que você trabalhava aqui. ―
Meu sorriso muda para expressar meu nervosismo.
― Um amigo meu precisou cuidar da filha e pediu para eu cobrir ele
essa semana.
Nós fazemos nossos pedidos. As bebidas são as primeiras a chegar em
nossa mesa.
― Ah, vocês se conhecem… ― Diana começa assim que Ally nos
deixa a sós, mas para ao notar minha expressão facial. ― Ah, não, eu
conheço essa cara. Por favor, não diz que é uma ex com um passado mal
resolvido.
― Não! Meu deus, Diana, não mesmo. ― Eu nego rapidamente. ― O
nome dela é Ally. Normalmente, ela faz coquetéis no bar perto da minha
casa e... ― Eu estava na esperança dela não lembrar o nome, mas ela franze
o cenho por um segundo antes de seu rosto mudar completamente para
demonstrar surpresa.
― Não acredito! ― Ela sorri, impactada. ― Foi com ela que você...?
Meu Deus! ― Ela dá um gole longo na bebida dela.
― Eu estou tão surpresa quanto você. Desculpa, Diana, eu realmente
não fazia ideia que ela estava trabalhando aqui.
― Não se desculpe por causa disso. Você tem uma vida fora do
trabalho. Eu só fiquei surpresa, porque eu nunca imaginei a possibilidade de
conhecer uma das duas pessoalmente.
― As duas não namoravam quando eu saí com elas nas primeiras
vezes. Eu continuei saindo com elas algumas vezes depois disso, mas nunca
mais foi a mesma coisa. E, sabe, foi há meses. Depois disso, teve aquela
viagem, aquela noite no quarto e todo o resto... Enfim, você aconteceu e eu
nunca mais quis nada com as duas.
― Eu também nunca mais falei com a amiga de Katie. ― Uma parte
muito egocêntrica minha acredita até hoje que ela queria me fazer ciúmes.
Tento não pensar muito nisso.
― Você sabia que até meus 23 anos meu sonho era ter uma medalha
olímpica?
― Combina com você.
― Eu acredito fielmente que eu conseguiria se jiu-jitsu fosse um
esporte olímpico. Eu fiz judô por um bom tempo por causa disso, mas jiu-
jitsu faz mais meu estilo no final das contas. Eu já ganhei muitos
campeonatos grandes, no entanto, nunca tentei um mundial porque não
tinha tempo para treinar em tempo integral por causa dos meus estudos para
entrar na S.W.A.T. Quem sabe um dia.
― Você falando assim faz o processo seletivo da S.W.A.T. parecer uma
prova qualquer. Eu nunca tive um sonho. Geralmente, quando você tem o
dinheiro sobrando, você pode pagar por tudo, então, mesmo sendo uma
adolescente meio rebelde, eu nunca fui relutante para assumir as coisas da
família, porque é basicamente o que eu sei fazer.
― Pobre Montserrat, hoje ela só ganhou 100 mil por hora. ― Eu
brinco.
― Eu adorei as suas flores por sinal, eu ainda não tinha visto essa. ―
Toco na minha tatuagem, eram dois ramos de flores, que iam de um lado ao
outro da minha clavícula, e uma lua no meio, próxima aos seios. Era uma
das mais delicadas que eu tinha. Faço uma nota mental de que, tirando as
minhas tatuagens dos antebraços, Diana nunca tinha visto nenhuma.
―Obrigada, essa é uma das minhas preferidas. Acredito que a única
que eu gosto mais que essa é a Valkyria nas minhas costas.― Suas
bochechas coram e eu sei exatamente do que ela lembrou. Talvez eu tenha
feito isso de propósito.
― Eu ainda não tive a oportunidade de vê-la.
― Você está flertando comigo? ― O rosado em suas bochechas
suavizaram e então seus olhos ganharam um tom castanho profundo. Suas
sobrancelhas arquearam lentamente e havia um leve sorriso de lado em seus
lábios enquanto ela levava a taça até eles.
Discretamente, ela se inclinou para frente, colocando o braço livre na
horizontal, em frente ao seu peito. Meu corpo inteiro se arrepiou quando
senti seu pé deslizando pela minha perna. Diana havia cruzado as pernas e
tocou a minha de propósito. Ela ainda estava segurando a taça de vinho com
a outra mão.
― Você saberia se estivéssemos flertando.
― Nós definitivamente estamos.― Toco os dedos dela que agora
estavam na minha frente.
― Nós deveríamos nos pegar bem ali. ― Ela aponta para um canto
escuro da rua assim que saímos do restaurante. ― Vamos! Vai ser divertido.
E, depois, você vai poder dizer que já fez sexo em público.
― Não vai ser a minha primeira vez.
―Olivia, você acabou com o meu conceito de rebeldia. ― Ela para na
minha frente, apoiando os antebraços nos meus ombros. Eu abaixo o rosto e
ela deposita um beijo no meu nariz. ― Mas vai ser a sua primeira vez com
uma certa CEO fodona. Depois disso, nós podemos comer uma certa torta
de morango com abacaxi que você gosta.
― Diana Montserrat, você está tentando me comprar com comida? ―
Eu sorrio, puxando-a para perto de mim pela cintura.
― Está funcionando? ― Ela riu, uma gargalhada tão linda que nem
parece que ela acabou de sugerir algo tão irresponsável.
― Talvez.
Eu a beijo. Sentia meu corpo quente por causa da bebida mesmo com a
noite fria. Nós corremos até o beco e a Diana me empurra contra a parede,
me beijando do mesmo jeito que ela fez na noite em que fomos
interrompidas na casa em Madri: desesperada e cheia de desejo. Seguro sua
nuca, mergulhando de cabeça naquele mar de luxúria. Eu me escoro mais
baixo na parede e ela apoia o antebraço atrás de mim, descendo os lábios
pelo meu pescoço.
Ela põe as mãos dentro da minha jaqueta, passeando pelas minhas
costas até meus quadris. O silêncio falava por si só, aquele momento era
dela. Ela morde e lambe meu pescoço. Nada vindo daquele momento era
simples, tudo era quente, profano e úmido... Muito úmido.
Os dedos dela brincam com a renda do meu sutiã por baixo da minha
blusa, uma promessa que atiçava fogo em mim antes mesmo de se
concretizar. Ela segura minha coxa com força, me pressionando melhor na
parede, enquanto faz a festa com a boca em meus seios até onde o decote da
minha blusa a permitia ir.
A sensação do corpo dela contra o meu fazia o tempo parar. Parecia
que estávamos em uma realidade paralela, onde existiam só nós duas. O
cheiro era inebriante, abaixava minha guarda e me deixava indefesa.
Começo a pensar que talvez não fosse culpa do álcool o calor que estava
sentindo.
Toco as costas nuas de Diana, me deliciando com a sensação da pele
dela em meus dedos. Busco sua nuca com minha mão livre a fim de ter a
boca dela na minha novamente e ela entende. O beijo era lento e se tornava
mais gostoso conforme uma ia pegando o ritmo da outra.
Ela olha pra mim, os olhos escuros como a noite que escondia a gente
naquele lugar, e abre o fecho da minha calça devagar como se estivesse me
dando a chance de sair correndo. Eu não pretendia ir a lugar nenhum. Cada
parte de mim estava tomada pelo desejo. Ela abre um sorriso surpreso
quando me toca. Deito meu rosto na curva do pescoço de Diana, tentando
controlar a minha própria respiração. Ela movimenta os dedos e eu solto o
ar pelo nariz. Mordo o pescoço dela como um incentivo para que ela não
pare.
Os toques dela eram delicados. Em seu rosto, estava desenhado o
quanto ela se deliciava com a minha umidade entre seus dedos. Meus dentes
encontram a carne de seu ombro numa tentativa fracassada de abafar um
gemido. Eu fantasiei tantas vezes esse momento que estava difícil acreditar
que ele era real.
Minhas mãos tocam os seios da mulher à minha frente, sentindo
delicadamente com a ponta do polegar como os mamilos endurecem por
baixo do tecido fino do vestido. Arrasto meu nariz pelo pescoço dela, me
esbaldando do cheiro e me deixando levar pela sensação crescente no meio
das minhas pernas.
― Eu acho que a gente deveria ir para minha casa. ― Digo.
― Acho uma excelente ideia.
CAPÍTULO 22
Olivia

― Me dei conta que eu não te falei o quanto você está bonita hoje. ―
Comento.
No caminho para minha casa, nós passamos numa confeitaria perto da
empresa, porque Diana realmente encomendou uma torta igualzinha àquela
que eu comi no ano novo.
Meu apartamento era espaçoso. Tinha janelas grandes e poucos
móveis, tudo em uma decoração meio industrial e minimalista. Num canto
perto da janela, tinha uma pequena academia improvisada com supino,
saco de pancadas e alguns pesos.
― Não foi preciso. A cara de bobona que você fez mais cedo disse
tudo. ― Ela sorri, colocando o pé para dentro do apartamento. O rosto dela
curioso tenta captar cada detalhe enquanto segurava o embrulho rosa em
suas mãos com muita cautela. Era fofo.
Eu acendo a luz da cozinha e ela deposita o bolo no balcão que divide
o cômodo do resto da sala. Eu pego um pequeno jogo de pires que havia
ganhado de Natal da mãe de Michelle uns anos atrás. Ela caminha pela sala,
analisando o cômodo.
―Meu deus, eu amei essa foto! ― Ela aponta para uma pequena
moldura dourada num móvel perto do sofá. ― Nem em um milhão de anos,
eu imaginaria ver você com uma roupa colorida, quem dirá em um tutu
verde fazendo cosplay de docinho das Meninas Superpoderosas. O Luca
está perfeito de tutu azul e óculos escuros, temos que reconhecer também.
Pela cara da Michelle, ela que convenceu vocês a usarem esse look.
―Exato, mas ficou ótimo na gente no final das contas. Foi no
Halloween de dois anos atrás. ― Respondo da cozinha, procurando alguma
tesoura para abrir o bolo sem rasgar a embalagem.
― Uma foto de você com a farda de gala. Que gatinha. ― Eu nunca vi
um móvel com fotos entreter alguém do jeito que Diana estava agora.
― Você me vê de terno todos os dias.
― Olivia, aceite o elogio. Além disso, essa farda é linda. As insígnias,
a patente no colarinho... Tudo é muito sexy.
― Eu tive que passar maquiagem nas pernas para esconder as
tatuagens… ― Eu vou até ela.
― Estou tentando te seduzir, apenas aceite.
― Pervertida. ― Ela me dá um beijo rápido e foge para cozinha,
sentando em um dos banquinhos de ferro do balcão.
― Essa torta que eu mandei fazer não é exatamente igual a que você
comeu lá em casa, porque não foi a mesma pessoa que fez, mas é tão
gostosa quanto.
―Que chique. ― Eu corto um pedaço para cada. ― Como Katie está?
Imagino que não deve ser fácil ter que passar tanto tempo com a mãe.
― Ela está bem. Ainda está meio fraca e sentindo dor, mas vai
sobreviver. Luca está com ela também. Os dois se dão muito bem. Se ele
não namorasse, acredito que ela tentaria alguma coisa.
― É complicado. Não acredito que o relacionamento dos dois, Jake e
Luca, vai durar muito. Eu achava que um era feito por outro, mas acabei
mudando de ideia. ― Depois do que Luca me falou, duvido que eles
continuem juntos com a Michelle grávida.
― Preparada para a segunda melhor torta da sua vida? ― Ela pega o
pratinho em mãos e eu a acompanho.
A torta realmente era tão gostosa quanto eu me lembrava. Trocamos
alguns pedaços e fofocas sobre os parentes ricos da Diana enquanto
comemos.
― Sabe, eu me dei conta que você é um ano mais velha que eu. ― Ela
pega mais uma garfada da torta. ― Você acabou com todas as minhas
piadas de sugar mommy.
― Ainda não caiu a ficha que eu estou saindo com a minha chefe se te
conforta.
― Não seja por isso, podemos manter tudo isso estritamente
profissional. ― Sorri, levantando do lugar que estava e vindo em minha
direção. ― Toda vez que uma quiser algo da outra, a gente poderia usar um
vocabulário bem rebuscado. ― Ela se apoia no banco e seu rosto estava tão
próximo que eu conseguia ver os pequenos pontos de brilho em sua
maquiagem. ― Só pela piada. Por exemplo: por obséquio, eu, Diana
Montserrat, diretora da área executiva das empresas Montserrat, gostaria de
beijá-la. ― A mão dela alcança minha nuca delicadamente, fazendo cada
fio de cabelo daquela área arrepiar. Eu a puxo pela cintura.
Nós vamos para o sofá, ela monta em mim, colocando uma perna de
cada lado do meu colo. Eu deixo ela dominar o beijo. Não é o que eu
geralmente faço, mas vindo de Diana… Aquela mulher poderia fazer o que
quisesse e eu ainda assim iria achar um máximo. Comecei a tocá-la
devagar, descobrindo até onde ela deixaria eu ir, vendo o que ela gostava.
Uma vez eu li em um livro que amar era como beber champanhe, mas
Diana… Ela era vodca para mim, ardia, mas eu sempre iria me render a
mais um shot, mais uma chance de provar, só mais um pouco, até perder os
sentidos e a noção do certo e do errado.
As luzes da cozinha eram as únicas acesas no apartamento inteiro,
deixando tudo meio escuro. Ergo minha chefe pela cintura e coloco uma das
coxas entre as pernas dela. Ela entende o recado, movendo devagar sob
minha perna, roçando. Minha boca desce pelo pescoço dela, fazendo o
caminho até seu decote, sem pressa, apenas sentindo os movimentos
obscenos que ela fazia na minha perna.
― Quer saber de uma coisa, Diana? ― Digo entre uma lambida e
outra. Mesmo pelo tecido da minha calça, eu sentia o tanto que o íntimo
dela estava quente, apenas esperando para ser tocado. ― Eu quero fazer
muito mais do que só te beijar.
Levanto com ela no colo e recebo um gritinho de surpresa dela. Nós
rimos e eu faço o caminho até meu quarto. Solto o corpo dela devagar na
minha cama e ligo o abajur sem sair de cima. Eu volto a beijar sua boca.
Minha jaqueta é a primeira peça de roupa que Diana joga no chão. Minha
blusa é a próxima, mas eu mesma que tiro. Eu deixo uma porção do meu
peso sobre ela, aproveitando aquela sensação maravilhosa do corpo dela
contra o meu. Ela desce as mãos e começa a desafivelar meu cinto como
quem não quer nada, mas que, na verdade, quer tudo e, quem sabe, um
pouco mais.
Eu tiro minhas botas e me livro da calça. Diana toca meu corpo como
se estivesse se esforçando para memorizar cada tatuagem dele. Eu lembro
do que ela havia comentado no restaurante, por isso me afasto, me viro e
sento de costas para ela. Puxo o feixe do meu sutiã, afasto meu cabelo e
sinto ela se movimentar na cama. Em seguida, os toques dos seus dedos
descem pela minha coluna, por toda a extensão da minha tatuagem. Aquilo
me excita e de repente me via desesperada para que ela me tocasse um
pouco mais.
Ela beija meu ombro, meu pescoço, minha orelha. Tudo em mim
parecia acender e eu queria cada vez mais dos toques dela. Seus dedos
descem bem firmes pelas minhas costas, como uma massagem gostosa que
me relaxava e me deixava molhada ao mesmo tempo. Me viro para ela,
beijando aquela boca perfeita. Subo o vestido e ela me ajuda a terminar de
tirá-lo. Me lembrei exatamente o porquê de, no dia do aniversário dela, eu
fazer uma pequena comparação mental sobre ela ser tão bonita quanto uma
obra de arte: aquela mulher era a mais pura personificação do que eu acho
mais lindo.
Minha boca desce pelo seu corpo, sem pressa, apenas aproveitando o
quanto era gostoso sentir o corpo dela no meu, sua pele contra meus lábios
e os pequenos suspiros que ecoavam pelo quarto silencioso. Chupo a lateral
de sua barriga, bem acima de seus ossinhos da costela, e vejo seu corpo
fugir ao meu toque na mesma proporção que se arrepia. Constatoi que ela
sente cosquinhas nas costelas e sorrio com a descoberta.
Gosto da sensação dos seios dela na minha mão e da forma que seu
mamilo fica rígido só com o sutil toque do meu polegar. Gosto também da
forma que ela arqueia as costas quando passo a minha língua ali, fazendo a
festa com a minha boca, devagar ,apreciando o momento e a forma que seu
corpo reage.
― Eu acho que estou te devendo um presente de aniversário atrasado.
― Eu puxo as coxas dela para mim enquanto me acomodava melhor entre
elas. Aqui estou eu, jogando todo o meu profissionalismo pela janela e
gostando de cada segundo disso. ― Que você havia me pedido no banheiro
na noite do seu aniversário e que eu quase fiz. ― Eu tiro um salto dela e
depois o outro. ― Algo sobre segundas intenções que se perdeu em meio
uma piada bêbada sua… ― Subo meus dedos sobre a pele exposta, fazendo
uma trilha de beijos especialmente longa do joelho até o tecido delicado de
sua lingerie para, enfim, deslizar o fino tecido por suas pernas.
Eu começo com os meus dedos para saber como ela respondia. Assisto
em puro êxtase ela molhar meus dedos, a umidade escorrendo conforme
meus dedos entravam. Seus olhos estavam fechados e ela erguia o quadril
para mim, tinha mesma expressão da noite de Natal. Sorrio triunfante,
levando meus lábios até ela e beijando apenas em volta. Depois, com muita
delicadeza, separo seus pequenos lábios, deixando minha língua deslizar ali
no centro e, consequentemente, arrancando um suspiro alto. Fecho os olhos,
me concentrando em seu gosto e em como era delicioso sentir ela tão
quente na minha boca, seu clítoris inchado contra a minha língua conforme
os gemidos de Diana iam se desapegando da timidez. Suas mãos alcançam
minha cabeça, segurando o meu cabelo fora do caminho. Ela pulsa contra
minha boca toda vez que eu movimento meus dedos dentro dela.
Abro meus olhos, me deparando com uma imagem indecente do rosto
vermelho de prazer da minha chefe, que abraçava o travesseiro cada vez
mais forte conforme eu chupava seu centro. A cabeça estava jogada para
trás e ela fechava as pernas instintivamente. Eu continuo fazendo
exatamente a mesma coisa enquanto seguro o quadril dela no lugar.
― Olivia, oor favor… ― Sua voz sai trêmula e baixa segundos antes
dela se desfazer em um orgasmo, o sexo pulsante e molhado contra a minha
boca.
Me sento na cama, fazendo carinho da parte interna de sua coxa e
assistindo o quanto ela era linda. Seus seios subiam e desciam e seus lábios
estavam entreabertos em um sorriso radiante.
― Que bela visão. ― Digo quando ela começa a se recuperar.
― Você é absurda. ― Ela ri, apoiando os cotovelos no colchão.
Ela me puxa para um beijo demorado e tranquilo, a mão dela
delicadamente passando pelas minhas costas. Sua boca me pega de surpresa
quando desce até meus seios sem nenhum pudor. Aos poucos, nos viramos
até eu ficar deitada com as costas no colchão. Ela monta em cima de mim,
os dedos tocando as tatuagens da minha barriga. Faço carinho em suas
coxas, subindo e descendo as minhas mãos dos quadris aos joelhos dela.
Gostava que, quando ela sentava, uma parecia ainda maior, o jeito que cada
parte do seu corpo parecia ser feito para me tirar do sério era absurdo. Meu
olhar percorre sua barriga, seguindo até seus seios, que eram maiores que os
meus, e, agora que eu sabia o quão gostoso era senti-los na minha boca, eu
queria mais. Puta que pariu, eu estou diante de uma deusa.
― Coma-me? ― Ela toca a tatuagem que ficava escondida no
finalzinho da minha barriga.
― E você vai? ― Ela me olha incrédula, mas eu não perco o sorrisinho
de lado que se forma em seus lábios antes de abaixar, chupando a pele bem
próxima à tatuagem, extremamente perto da onde eu queria ela.
Ela beija e chupa ali enquanto sua mão desce devagar para dentro da
minha calcinha. Não demora e descartamos o tecido pro chão do quarto. Ela
me toca com mais precisão do que a algumas horas atrás.
Eu estava mais costumada a fazer sexo com pessoas desconhecidas.
Acho que a única pessoa que eu já havia me relacionado que eu sentia que
eu tinha o mínimo de intimidade foi Luca, então Diana era algo novo para
mim. Eu a conhecia. Diana me desestabilizava. Quando a boca quente dela
tocou em mim, eu senti meu corpo inteiro relaxar. A mão dela sobe e desce
pela minha barriga, me fazendo arrepiar. Eu estava ansiosa, meu corpo
estava febril. Me esforçava para ficar parada para prolongar aquela
sensação maravilhosa. Por um momento, não existia mais nada no universo,
apenas esse quarto e nós duas.
― Meu deus, como eu queria fazer isso. ― A voz da Diana sai baixa e
logo em seguida sinto a boca dela me devorando. ― Você é tão gostosa. ―
Ela sobe o corpo para me olhar e a boca dela toda molhada de mim me fez
sentir uma das melhores sensações do mundo, algo que se parece muito
com um frio na barriga, só que um pouco mais para baixo.
Sua boca volta a me chupar e é impossível manter meus olhos abertos.
Era tão gostoso, tão intenso.
Os movimentos de Diana passaram de delicados para mais firmes e
ritmados, aquela familiar sensação de quente entre as pernas. O prazer me
atinge de forma gradativa e devagar, mas o suficiente para colocar meu
corpo em chamas, revirar meu olho e me fazer contorcer de prazer.
Eu a puxo para mim, colando o corpo dela no meu. Era quase
impossível descrever a sensação gostosa que era ter a pele dela contra a
minha. Minha respiração ainda estava ofegante, eu ainda sentia pequenos
espasmos e era tão bom. Nos beijamos, era devagar, tranquilo, mas eu sabia
que tinha uma urgência mútua presente em cada toque, cada carícia e cada
gemido abafado.
Seguro-a pela coxa e a trago para mim em um puxão só, como se
corpo no corpo não fosse o suficiente. Eu queria mais, queria mais dela. As
nossas respirações se misturando, os gemidos dela com os meus, tudo, cada
coisinha. Seus braços abraçam meu pescoço e ela passa as pernas ao redor
da minha cintura, montando em mim. Agarro sua bunda, apertando com
gosto, e é automático o tapa logo em seguida.
Encho minha mão em seu cabelo, puxando para baixo e vejo que ela
gosta. Minha boca passeia por sua garganta até sua clavícula e ombro. Ela
estava tão entregue a mim, tão vulnerável.
― Dói? ― Pergunto baixinho, tocando seu clitóris com a mão livre.
Sei que provavelmente estava sofrendo com a hipersensibilidade.
― Não muito. Continue, por favor. ― A voz sai como um sussurro
manhoso. Brinco um pouco ali e Diana esconde o rosto na volta do meu
pescoço, sua respiração a centímetros do meu ouvido. Tão entregue, tão
minha.
Meus dedos entram e saem, e Diana começa a empurrar o próprio
quadril em minha direção. Eu sinto o quão perto ela estava. Algumas
palavras incoerentes escapam da boca de dela e se perdem entre os gemidos
e a respiração pesada. Ela goza nos meus dedos e eu permaneço ali,
sentindo meu coração disparado e os espasmos do corpo de Diana contra o
meu.
As pontas dos meus dedos descem e sobem pelas costelas de Diana,
deixando ela se acalmar. Era muito confortável sentir o peso dela inteiro em
cima de mim. Fico ali uns minutos, apenas focando na respiração dela se
misturando com a minha.
Ela rola para o lado e eu sinto a sensação maravilhosa do vento fresco
contra meu corpo. Viro pra Diana. Ela tinha o rosto corado e tão
perfeitamente lindo que eu poderia levantar só pra beijá-la de novo.
― Nossa… ― Tento recuperar o fôlego.
― Isso foi muito incrível. ― Ela diz ainda olhando para algum ponto
no teto. ― E eu estou com sede. ― Sua frase acaba em uma risadinha.
― Sem dúvidas. ― Eu me levanto da cama.― Eu vou pegar água para
você. Você pode usar o banheiro se quiser. Pode pegar um pijama meu caso
não queira vestir seu vestido agora.
Eu pesco uma blusa grande de pijama na gaveta e visto. Vou ao
banheiro e me limpo. Ela ainda está na cama me olhando como se eu fosse
a coisa mais interessante do mundo.
― Você está com fome? Eu posso fazer um sanduíche para você.
Ainda tem torta.
― Não precisa, sério.
Quando eu volto pro quarto, ela está em pé, na frente da TV,
procurando um filme. Está usando uma blusa que reconheci ser a mesma
que usei para dormir na casa dos pais dela. Será que, se eu jogasse ela na
cama novamente, ela se importaria?
― Nós vamos assistir à proposta. ― Ela afirma empolgada.
― Eu amo esse filme. ― Eu coloco a bandeja na cama. ― Aquela
cena do celular é uma obra de arte. ― Eu entrego o copo para Diana.
― O filme inteiro é maravilhoso.
Ela bebe e nós comemos. Então, nos deitamos para ver o filme. Eu
estava feliz. Não me sentia bem assim há tanto tempo. Acabo pegando no
sono antes mesmo da cena do celular.
― Olivia. ― Ela balança meu ombro para me acordar. Havia desligado
as luzes e o apartamento estava completamente escuro. ― Seu celular está
tocando lá na sala. ― Ela diz, ainda sonolenta.
Eu ando praticamente dormindo até a sala. O relógio do micro-ondas
indicava que faltavam apenas alguns minutos para às cinco da manhã. Pego
o celular e o nome da Michelle brilha na tela.
― Alô? ― Digo entre um bocejo e outro.
― Olivia, eu preciso de você. ― Ela diz séria. Aquilo me acorda.
― O que aconteceu?
― Eu não paro de sangrar, você precisa me levar pro hospital.
CAPÍTULO 23
Olivia

Subi as escadas do pequeno prédio onde Michelle morava tão rápido


que mal senti as escadas sob meus pés. Entrei no apartamento com a minha
chave e corri para o quarto dela. O cachorro pulou em cima de mim, latindo
como se soubesse que algo estava errado.
―Michelle? ― Entro no banheiro para encontrar ela sentada na
banheira, chorando desesperadamente. Ela não diz nada, apenas me abraça,
chorando no meu ombro. ― Por que você não me ligou antes? Tem quanto
tempo que você está desse jeito? Calma, deixa eu ver. ― Sangue manchava
seu pijama. ― Consegue ficar de pé? ― Ela faz que sim com a cabeça.
Eu pego a bolsa dela, coloco uma troca de roupa limpa e pego um
casaco grande. Ajudo ela sair do banheiro e a cubro com o casaco antes de
levá-la ao hospital. Michelle era uma bagunça de lágrimas e soluços quando
a entreguei para os médicos.
Agora me via sentada na sala de espera sem ter muito o que fazer. De
repente, meu telefone toca. É Luca.
― Eu posso saber o que você e a Michelle estão fazendo num hospital
às cinco da manhã? ― Ele está preocupado do outro lado da linha.
― Ah, como você sabe? ― Pergunto apenas para ganhar algum tempo.
Preciso pensar em algo.
― O rastreador do celular de vocês. Olivia, eu conheço esse tom de
voz, o que aconteceu? Vocês estão bem?
― Não queria ser a pessoa a te contar isso. ― Passo a mão no rosto.
Michelle vai me odiar por isso.
― Olivia, desembucha, eu to ficando preocupado.
― Michelle estava grávida e perdeu o bebê. ― Seguro a respiração e
ele desliga o celular na minha cara. Eu me encosto na parede, encarando um
dos panfletos de doação de sangue que estavam em uma caixa perto de um
filtro à minha frente.
― Cadê ela? Como ela está? ― Escuto a voz de Luca alguns minutos
depois quando ele chega no hospital.
― Calma, Luca, vai ficar tudo bem. Eu ainda não tive nenhuma
notícia, mas ela vai ficar bem, ok?
― Era meu? ― Sua voz é baixa e ele me olha repleto de dor.
― Sim. ― Ele fecha os olhos, processando a resposta. Meu amigo era
uma mistura de raiva e tristeza.
― Por que você não me contou nada? ― O rosto dele estava vermelho
e eu conseguia ver até uma veia pulsando em seu pescoço.
― Porque não cabia a mim te contar. Ela me fez prometer que eu não
te contaria e é lógico que eu não ia quebrar a promessa.
― Há quanto tempo ela estava grávida? ― Ele passa as mãos na
cabeça.
― Quase quatro meses eu acho. ― Digo.
― Porra, Olivia, isso é muito tempo e nenhuma das duas sequer
pensou que eu gostaria de saber que talvez eu fosse pai?! É da Michelle que
estamos falando, Olivia, não é qualquer uma dessas garotas que eu durmo.
Michelle, Olivia! A nossa amiga.
― Eu falei para ela te contar. Ela mandou eu não me meter e eu não
me meti.
― Você foi irresponsável! Você foi irresponsável não me contando!
Você é a chefe dela! Deixou ela trabalhar mesmo sabendo que ela estava
grávida! O nosso emprego é perigoso, Olivia! ― Ele anda de um lado pro
outro, nervoso.
― A culpa não foi minha, Luca. Eu descobri isso há poucos dias atrás.
Eu estava prestes a responder quando escutamos passos em nossa
direção. Uma médica velha e bem baixinha se aproxima de nós.
― Boa noite, vocês são os acompanhantes da senhorita Michelle
Lopez?
― Sim. ― Luca responde rapidamente.
― Poderiam me acompanhar? ― Entramos em um consultório alguns
corredores depois.
― Como que ela está? ― Perguntei.
― Ela vai ficar bem. Está sedada no momento. O que a paciente sofreu
foi um abordo espontâneo devido à anormalidade genética que pode ter sido
agravado por conta de algum trauma ou estresse. Nos casos como o dela, os
fetos não costumam passar de doze semanas. Nós realizamos o processo de
curetagem para limpar o útero. Assim que acordar, ela pode ir para casa.
Vocês sabem me dizer qual era a relação dela com a gravidez? Pois, se
necessário, eu posso prescrever um encaminhamento para um psicólogo. ―
Luca me olha, esperando uma resposta.
Ele estava confuso e com raiva por termos escondido isso dele. Há
algumas horas atrás, ele sequer pensava na hipótese de ser pai e agora
estava num consultório médico escutando sobre um aborto espontâneo.
Limpo a garganta, afastando a vontade de chorar súbita ao notar o quanto eu
fui uma péssima amiga e que não deveria ter omitido isso dele.
― Ela pode te informar melhor. ― Respondo.
― Bom, eu vou levar vocês até ela. ― A médica diz após terminar de
preencher uns papéis na mesa.
Nós seguimos a médica até o leito da emergência. Luca senta em um
banquinho na lateral da maca e faz carinho no cabelo de Michelle, que
dormia pesadamente.
― Luca, eu queria mesmo ter te falado isso no momento que eu
descobri, mas não pareceu certo. É algo que vocês dois precisavam resolver
e eu não deveria me envolver. Ela mesmo falou isso para mim. Mas ela
estava tão desesperada e tão triste por estar grávida que eu simplesmente
precisei ficar do lado dela por que eu sentiria o mesmo se fosse comigo.
― Tudo bem, Olivia, só me pegou de surpresa. Eu não deveria ter
falado daquele jeito com você. ― Eu me aproximo dele e dou um abraço.
― Bom, eu vou passar na casa dela e limpar o sangue do banheiro.
Acredito que ela não vai querer ver aquela bagunça quando chegar. Depois,
eu vou para casa. Diana ainda está me esperando lá.
― Tem certeza que não quer que eu faça isso? ― Ele pergunta, já se
levantando do banco.
― Tenho. Vocês dois precisam conversar também. Enfim… ―
Entrego a bolsa da Michelle para ele assim como o casaco dela.― Cuida
dela. Qualquer coisa, me liga que eu venho correndo, ok?
CAPÍTULO 24
Diana

Era oito de maio, final de tarde, um pouco mais de um mês depois do


nosso encontro. Estava no sofá da sala de Olivia, ela deitada em cima de
mim e com o rosto nos meus peitos. Sua atenção estava toda voltada a
apalpar meus seios por baixo da blusa, particularmente satisfeita pela
ausência de um sutiã ali. Ela estava tão feliz que parecia um pecado tirá-la
dali.
― Meus. ― Murmurou, dando um beijinho em cada um.
Ela usava uma blusa de manga longa bem justa ao seu corpo e um
short curto que mal alcançava o início de suas coxas. Depois de passar a
frequentar o apartamento dela com um pouco mais de frequência do que
nós duas gostaríamos de admitir, notei que era uma roupa que ela gostava
de usar quando estava fora do trabalho.
― Eu sempre achei que você era o tipo que preferia bundas.
― Eu vou deixar esse departamento para você. Acha mesmo que eu
não notei a secada que ganhei assim que me viu de shorts mais cedo? ― Eu
deixo um risinho escapar, assumindo o que fiz.
― Besta. Em minha defesa, não é um acontecimento cotidiano, só vejo
quando eu venho aqui.
― Minha bunda é um acontecimento? ― Ela me olha com um sorriso
sugestivo nos lábios.
― Não é pequena, nem grande demais... Ela só é uma delícia. ―
Explico meu ponto.
― Diana Montserrat, eu também acho seus peitos um acontecimento.
― Ela ri, me dando um beijo.
― Então, o que você disse que vai fazer amanhã mesmo?
― Eu e Luca fomos convocados para uma reunião com o coronel. Não
especificaram nada para gente, mas está na cara que eles irão nos colocar de
volta no batalhão.
― Então você vai simplesmente voltar para polícia? ― Odeio o meu
tom de voz, mas não consegui disfarçar.
― Não sei. ― Vejo que ela é sincera. ― Mas é provável.
― Você iria se te chamassem? ― Pergunto e ela hesitou em me
responder.
― Olha, se formos continuar com isso, talvez seja melhor assim. ―
Ela estava certa, mas ainda assim não conseguia me acostumar com a ideia.
― E se chegar algum policial de farda de gala na minha casa falando
que você levou um tiro na cabeça?
― O endereço que está lá é o da casa da minha mãe. Quem te contaria
seria o Luca. ― Ela ri.
― Seu senso de humor é podre. ― Eu bato nela com uma almofada.
― Que agressividade. ― Ela toma a almofada da minha mão e monta
no meu colo.
― Agora, além de precisar contratar uma secretária nova, vou precisar
de dois seguranças também. ― Reclamo, correndo os dedos pela serpente
tatuada na coxa dela.
― Brett te procurou depois que você demitiu ela? ― Olivia apoia um
dos braços no encosto do sofá.
― Felizmente, não. Eu só quero que ela suma da minha vida. Já tive
prejuízo demais. Alencar quer arrancar minha cabeça fora por demorar
tanto tempo para descobrir.
― Eu não vou com a cara dele, muito arrogante pro meu gosto.
― Ele paga de sarcástico, mas ele só late, não morde.
― Então quer dizer que você vai precisar de uma secretária nova? ―
Olivia me olha desconfiada. ― Assim que começa esses romances que você
lê. Eu vou ficar com ciúmes.
― Vai? ― Eu sorrio e ela se inclina para me beijar, suas mãos
voltando para debaixo da minha blusa para apertar meus seios.
― Posso te pedir uma coisa? ― Digo quando a boca dela se afasta da
minha. ― Por acaso, você tem... Quer dizer, é lógico que você tem, né?
Você é você. Eu queria saber se você tem… Err, brinquedos.
― Que tipo de brinquedo? ― Ela se faz de desentendida e ri, se
divertindo com a minha timidez.
― Olivia, você está sentada em cima de mim. Que outro tipo de
brinquedo eu poderia pedir? ― A risada dela ecoa pelo apartamento e ela
sai de cima de mim, indo em direção ao quarto. Não demora e volta com
uma mala de couro, os olhos brilhando em empolgação.
― Eu ainda não sei o que você gosta, então eu trouxe tudo, assim você
pode escolher o que você quer.
― Meu deus, esperava no máximo uma bolsinha com um vibrador
dentro. ― Eu abro a mala, puxando uma algema de couro de dentro e
tentando não imaginar ela usando as coisas daquela mala em outra pessoa.
― Olivia Winston, você é uma sádica!
Os vibradores e plugs ficavam guardados separadamente, em
saquinhos de pano dentro da mala. Porém, a parte mais grosseira, como
chicotes de couro, pás e algemas, ficavam soltos.
― Eu iria ficar na minha, mas você que trouxe o assunto. ― Ela brinca
com um chicote na mão. Não era aqueles que eu estava acostumada a ver
em despedida de solteiro, era longo, trançado em couro e com uma ponta
fina.
― Você não vai chegar com isso perto da minha bunda. ― Eu digo
quando ela começa a enrolar sugestivamente o couro entre os dedos.
― Não se preocupe, eu jamais usaria esse aqui em você de primeira.
Esse é o chicote mais violento que eu tenho. ― Ela larga o chicote na mesa.
― Se você gosta tanto de BDSM, por que nunca tocou no assunto? Eu
quero fazer as coisas que você gosta também.
― Eu mencionei vagamente no seu aniversário, mas, respondendo a
sua pergunta, é muito simples o motivo: não queria que você saísse
correndo.
― Eu não iria. Eu sempre tive um pouco de curiosidade. Lógico que
tem coisas que eu não faria, mas, por outro lado, tem umas que eu gostaria
de tentar. ― Eu aponto sugestivamente com a cabeça para as algemas da
mala.
― Pra mim, BDSM sempre se resumiu a algo estritamente dentro do
quarto. Não faz meu estilo nada próximo de exibicionismo ou de viver o
fetiche como parte do meu dia. Boa parte disso é por causa da polícia.
― E você é o que? ― Eu sinto minhas bochechas queimarem e não
entendo de onde vem tamanha timidez. ― Quero dizer, nós nunca tivemos
uma relação "passiva" e "ativa", então eu fiquei curiosa.
― Eu sou o que chamam de switch, conhece? Eu consigo me divertir
em ambos os aspectos, tanto como dominatrix quanto como submissa. Eu
sempre vou mais de acordo com a pessoa. O que ela gostar, eu faço.
― Eu estava pensando… Nós temos tempo hoje e a gente planejava
foder de qualquer forma. ― Ela cruza os braços e tomba a cabeça pro lado.
Eu acho sexy a maneira que conseguia ver os músculos de seus braços se
sobressaindo na blusa que usava.
― Bom, se você tem certeza, podemos tentar.
― Tenho certeza, amor.
Ela pega as coisas, devolvendo-as para a mala, e anda de mãos dadas
comigo até o quarto. A roupa de cama era um conjunto vinho que
combinava com a decoração aconchegante. O quarto estava perfeitamente
arrumado. A primeira coisa que Olivia faz é acender as luzes da lateral da
cama e fechar as cortinas.
― Bom, normalmente, eu prefiro conversar sobre isso antes, mas,
como você quer hoje, vamos ter algumas regras, está bem? A primeira é que
você vai ser sincera. Nada de fazer algo que você não queira. Eu vou estar
de olho em você o tempo todo, mas eu não tenho uma bola de cristal. ―
Sua voz era diferente. Direta, imperativa. ― A segunda é que, assim como
você pode parar quando quiser, eu também posso. Se eu sentir que você não
está confortável, eu paro. ― Ela anda pelo quarto, calmamente acendendo
algumas velas perfumadas que ela mantinha no lado oposto da cama.
― Entendido.
― E, por último, normalmente eu trabalharia com palavras de
segurança. O básico: vermelho, amarelo e verde. Mas você não é uma
pessoa que está acostumada, então pode se desesperar e esquecer, o que é
completamente normal. BDSM é sobre fetiche, mas também é sobre se
divertir e gozar. O que é bom para mim pode não ser bom para você. Então,
se você falar que é pra parar, eu vou.
― Vai doer? ― Faço uma piadinha pra quebrar o gelo. Eu estava
nervosa e Olivia sabia disso.
― Só se você quiser. ― Ela maneja a cabeça pra mala que foi deixada
perto da cama. ― Vem cá. ― Ela estica o braço na minha direção e me
puxa pra um abraço.
Beija a minha testa e arruma meu cabelo para trás da orelha. Seus
dedos alcançam a minha cintura e logo a blusa é puxada para cima. Ela se
abaixa, descendo os dedos pela minha barriga, e puxa meu short. Ela me
guia até o meio do quarto, no espaço entre a cama e a cômoda.
― Fique de joelhos, sentada em cima de seus calcanhares. ― Talvez
fosse simbólico, mas ajoelhar no chão não era algo que eu esperava fazer
logo de cara. Estou tão acostumada a mandar nas pessoas que o fato dela
pedir tão de cara algo tão impotente me deixou surpresa. Obedeço e ela
segura meu queixo com um pouco mais de força do que eu esperava, me
fazendo olhá-la. ― Postura, Diana. Coluna ereta, mãos atrás do corpo, um
joelho colado no outro. Não é pra ser confortável. ― Olivia era alta e,
naquela posição, meu rosto mal chegava na altura de sua barriga.
Algo ali é tão diferente, me faz sentir frio na barriga e meu orgulho se
contorcer ao obedecer. Eu estava indo contra a minha natureza e, o pior,
estava gostando. Ela segura meu queixo de novo e só larga quando se dá
por satisfeita. Vira de costas, coloca uma playlist para tocar bem baixinho e
começa a ajeitar as coisas que estavam dentro da mala em um móvel que
fica em frente a cama, tudo na maior calma do mundo.
Observo a maneira minuciosa que ela começa a organizar os itens. Ela
estava concentrada, quase como se estivesse meditando, e tão calma que
começo a achar exagero o meu coração batendo tão rápido. Ali havia sex
toys que eu nunca tinha visto. Outros mais simples, como o womanizer e
pequenos vibradores, ela já havia usado comigo de forma avulsa.
A música que tocava era muito lenta e sexy, e deixava tudo tão
confortável. Se não fosse pela expectativa e pelo nervosismo que pulsava
em mim, eu diria que era até relaxante estar ali. Olivia aprende o cabelo em
um coque bem alto no topo da cabeça assim que termina de organizar tudo.
Ela caminha até a cabeceira da cama, puxando uma parte pequena da
madeira para cima, e revela um gancho ali. Meus joelhos começam a forçar
contra o chão de madeira e minha coluna reclama da posição ereta.
― Esses aqui são ganchos para bondage. Eles são bem discretos, mas
são bem seguros. Você pode puxar à vontade, eles aguentam o tranco. ―
Ela passa uma corrente pelo gancho e prende. Dá dois puxões fortes na
corrente e aquele simples gesto me excita, não sabia dizer o porquê. ―
Funciona muito bem pra shibari, mas eu pessoalmente prefiro algemas. ―
Eu estou tímida e odeio admitir isso. Parecia tão natural pra ela e, por mais
que eu estivesse muito interessada, tinha medo de fazer algo errado.
Ela pega as mesmas algemas que eu havia visto mais cedo, o material
era de um couro bem grosso e escuro. Da mesma forma que eu sinto meu
rosto esquentar, eu sinto meu útero se contrair em aprovação.
― Levanta os pulsos pra mim. ― O tom de voz que ela usava era o
mesmo de sempre e talvez fosse isso que estivesse me deixando doida, a
forma como ela sequer precisava se esforçar para mandar em mim.
Ninguém manda em mim ou, melhor, mandava, porque aqui estou com os
meus joelhos no chão. ― Isso aqui são algemas, servem para restrição de
movimento. Práticas com ela são chamadas de bondage. Elas não podem
ficar nem apertadas demais nem folgadas demais. E, como você pode ver,
são completamente diferentes das que policiais usam. Elas são muito
grossas, pegam quase um 6cm do seu pulso. Serve pra, quando você puxar,
não causar nenhum dano aos nervos dessa região. ― Ela afivela as algemas
e percebo que são mais pesadas do que eu imaginei, no entanto, eram
confortáveis.
― Mesa pronta, cama pronta. Sua vez. ― Ela pega no meu queixo e eu
entendo como um sinal para ficar em pé. Sua mão toca minha garganta em
um carinho. ― Não vejo a hora de poder colocar uma guia aqui e te puxar
só por ela. ― Sua mão desce pela minha barriga e segue seu caminho mais
pra baixo, me masturbando.
― Olivia…
― Eu mandei falar? ― Seu tom é repreendedor e me cala na hora. Em
contraste com a sua voz, o toque de seus dedos em mim é delicado,
brincando apenas com a ponta deles, sem entrar em mim de fato. ― Eu nem
toquei direito e você já está assim. ― Ela brinca com o meu clitóris antes
de se afastar. Sinto ela colocar um pequeno vibrador em formato de tulipa
dentro da minha calcinha. A vibração era leve, mas impossível de ignorar.
Ela me deita na cama, ficando em cima de mim, e ergue as algemas,
prendendo-as nos ganchos. Meu coração estava acelerado e o barulho do
gancho sendo realmente travado parece virar uma chave na minha cabeça.
Era como se aquele pequeno barulho apertasse meu útero em um pequeno
espasmo causado pelo tesão. Olho pra Olivia em adoração, tão perfeita. É
como não pensar, o cérebro para de questionar, apenas indo no automático,
fazendo o que ela manda.
Meus músculos se contraem quando sua língua se move em leves
pinceladas sobre o meu pescoço, sugando a minha pele e deixando sua
marca ali. Era torturante não poder me mover, parecia intensificar demais os
estímulos. O pequeno vibrador ia gradualmente ficando mais difícil de
ignorar, a vibração constante no mesmo lugar me fazia ficar desesperada
por qualquer tipo de contato, qualquer coisa mais forte. Eu precisava de
mais. Era involuntário não me contorcer, eu sentia o aperto das algemas
conforme meu corpo ansiava por sentir mais prazer.
Ela desliza os dedos no meu pescoço, parando ali. Senta exatamente
em cima de onde o vibrador estava posicionado e seu peso faz com que ele
pressione ainda mais contra o meu clitóris. Eu seguro um gemido. Ela sobe
as mãos pela lateral da minha barriga, indo para os meus seios. Ela me
olhava com fome. Era bom, mas eu precisava mesmo que ela me tocasse.
― Olivia, por favor… ― Puxo involuntariamente as algemas,
desesperada por qualquer coisinha a mais.
― Eu vou ter que colocar uma mordaça em você pra você calar a
boca? Eu que estou no comando, é tudo quando eu quiser e como eu quiser.
― Ela espalma a mão pela minha barriga, forçando o corpo para baixo e
pressionando seu quadril no meu. Eu adoro a sensação.
Ela abaixa o tronco, colocando a boca em mim sem pressa. Sinto a mão
dela entre as minhas pernas, esfregando o brinquedo. Aquilo arranca um
gemido e, em resposta, eu ganho uma mordida forte. Ela volta com o
brinquedo de maneira nada gentil e eu sinto tudo esquentar. Minha perna
começa a tremer, me concentrando pra não fazer nenhum barulho como ela
havia pedido. Eu me sinto ficando cada vez mais molhada.
De repente, ela para e ainda tem a audácia de achar engraçado meu
descontentamento.
― Acha mesmo que eu vou facilitar para você? ― Ela se afasta,
ajoelhando na cama e puxando minha calcinha.
Olivia levanta, pega algo que não consigo ver e volta a se sentar na
cama. Dessa vez, se posiciona entre as minhas pernas. Sinto seus dedos
brincando com os meus pequenos lábios. Era gostoso e me permito fechar
os olhos, inclinando a cabeça para trás.
Mas então sinto um pequeno puxão e uma pressão. Ela prende meus
pequenos lábios nos grandes com um grampo de cada lado e eu me sinto
exposta. A pressão quase causa dor. Sua boca faz todo o caminho do meu
períneo até meu clitóris.
Eu estava tão sensível que, em minutos, me via esfregando com força
contra a boca de Olivia, mas ela me conhece bem demais. Ela sabe que não
ia demorar para eu ter um orgasmo daquele jeito, então ela sobe a boca pela
minha barriga. Travo minha mandíbula, frustrada. Ela podia me fazer gozar
se quisesse, ela só não está a fim.
Olivia toma meu seio com a boca enquanto uma de suas mãos faz
carinho na parte interna da minha coxa, brincando com o excesso de
excitação que havia ali. Ela então pega um vibrador e volta a se sentar entre
as minhas pernas, separando-as para que eu não consiga fechá-las e ela
consiga fazer o serviço sujo dela.
Era simples, como ela já havia feito muitas vezes, mas eu estava tão
sensível que algo tão simples pesava a minha respiração. Ela constrói o
orgasmo inúmeras vezes apenas para o destruir na ponta. Eu estava
fisicamente exausta, suada, meu braço ardia pela posição e meu tesão estava
começando a se transformar em raiva. Pelo sorriso cínico da Olivia, ela
tinha plena consciência disso.
― Olivia… ― Eu forço fechar as pernas, mas é completamente inútil.
No momento que eu abro a boca, eu me arrependo. Ela simplesmente
desliga o vibrador. ― Não acredito. ― Minha cabeça cai sobre o colchão
em frustração. ― Isso é maldade.
― Já faz um tempo que eu te imaginava assim, sabia? Implorando. Tão
perfeita, tão obediente. ― Ela liga vibrador de volta, mas diminui a
potência. Eu só sei gemer em resposta. ― Você quer que eu te deixe gozar,
não é?
― Por favor, amor. ― Ela beija a minha boca. Tinha um sorriso
travesso e eu vi ali que algo me aguardava.
Apenas com os dedos, ela me faz gozar. Afunda a cabeça na volta do
meu pescoço, mordendo ali, e então aumenta as investidas contra meu
clitóris. O segundo orgasmo vem mais violento que o primeiro. Meus
gemidos se tornam cada vez mais difíceis de controlar. Ela beija toda a
extensão da minha clavícula até meus ombros, subindo pelos meus braços.
Depois, ela volta a lamber minha barriga e segura a minha cintura com
força, deixando selinhos ali até finalmente chegar onde tanto queria. Ela me
chupa e eu puxo as algemas, sentindo a pressão crescer no meu quadril. Era
tão gostoso, tão molhado e quente ter a boca dela ali. O próximo orgasmo
vem. Eu gemo sem o menor pudor, completamente perdida no prazer
inebriante da língua que deslizava em mim.
Ela levanta o rosto e prende meu clitóris entre os dedos. Com a outra
mão, sinto ela tocar ali e aquilo dói por estar muito sensível. Olho para o
rosto de Olivia, seus olhos escuros de prazer e sua boca toda lambuzada de
mim. A visão me faz contrair de tesão e isso é a deixa para ela me tocar
com mais força, arrancando um gemido de dor de mim.
Agora eu entendo que era aqui que ela queria chegar: me deixar
sensível, vulnerável, onde qualquer coisa dói e ela sente prazer nisso.
Um arrepio corre pela minha espinha quando vejo que não tinha para
onde correr, eu era o brinquedinho dela e podia apenas ficar ali e aguentar
tudo que ela quisesse. A verdade é que eu sinto prazer de ser usada.
Ela coloca dois dedos em mim como um demônio que arrasta alguém
pro inferno, o corpo por cima do meu e me beija, me fodendo com força.
Gosto da forma que ela ofegava no meu ouvido e a forma que meus
gemidos se misturavam com o barulho dela entrando e saindo. Eu gozo
novamente, sentindo minha perna tremer e meus braços pesarem.
Ela pega novamente o vibrador, deslizando-o para dentro com
facilidade. O que fazia doer era a falta de intervalo, era um atrás do outro.
Muita coisa para o meu corpo processar, então choramingo em agonia e
puxo todo o meu corpo para cima, querendo fugir de seu toque. Recebo em
troca um tapa da mão pesada na coxa.
Ela sobe a mão, alcançando meu pescoço. Era um aperto diferente, eu
ainda respirava, mas a pressão na minha cabeça se tornava intensa
conforme ela aumentava seu aperto. Reviro o olho em prazer com a mistura
de sensações. Era demais.
― Goza de novo, vai lá. Não era isso que você queria? Mais um, eu
quero assistir. ― O rosto estava próximo do meu e a mão em meu pescoço
me obrigava a olhar para ela. Era tão bom.
Acho que aquela mulher conseguiu revirar toda a química do meu
cérebro, porque essa simples frase me faz acreditar que meu corpo deveria
entrar em combustão espontânea ali mesmo e eu ainda sentiria prazer. Eu a
quero.
Eu gozo olhando em seus olhos e entregando cada pedacinho do meu
corpo para ela brincar. Minha perna tremia violentamente e senti todo meu
prazer escorrer para fora do corpo. Ela sorri satisfeita, morde meu queixo e
sai de cima de mim. Com a ausência dela, consigo fechar a perna, relaxando
os músculos e me surpreendo com o tanto que eu estava molhada.
Ela pega uma magic wand pequena e gira entre os dedos. Ela tinha um
sorriso sádico, de quem iria me fazer sofrer e, ao mesmo tempo, me fazer
pedir mais. Ela se senta na minha frente, massageando minha perna e meus
braços. Tira as presilhas e volta para o lugar que estava anteriormente.
― Me dê um número de 10 a 50. ― Pisco incrédula. Não é possível.
― Isso tudo é impossível.
― Quer descobrir? ― Ela me olha. No escuro do quarto, sua beleza
parecia até mística. Sempre soube que criaturas vindas do inferno eram as
mais bonitas. Ela era linda demais.
― Não é como se eu fosse sair correndo, não é? ― Balanço as algemas
simbolicamente.
― Você só pode ter perdido a noção do perigo falando assim. ― Ela
gira o corpo, abrindo o zíper da mala. Ela tira lá de dentro algumas cordas e
uma tesoura achatada. ― Sua sorte é que você é novata.
― Achei que preferisse algemas. ― Ela me olha e eu não tenho tempo
de processar o segundo seguinte, quando a corda pesada se choca contra a
lateral da minha coxa como se fosse um chicote. Encolho a perna com a
dor. Ah, ok, jamais questionar uma bissexual sobre suas preferências. Ela
estava prestes a dar um segundo golpe, mas, dessa vez, eu tenho tempo de
pensar. ― Desculpa, desculpa, desculpa! Eu parei.
Ela se senta entre as minhas pernas, fazendo um nó rápido no meu
tornozelo. Então, dobra meu joelho bem firme, minha coxa pressionada
contra a panturrilha em um outro nó. Depois, com uma nova corda, ela
repete do outro lado. A sensação era boa, o aperto da corda era relaxante de
alguma forma. Era apertado, mas não prendia a minha circulação sanguínea.
Ela termina de prender os nós e se acomoda na minha frente. Beija
minha barriga e o interior das minhas coxas. Em seguida, liga o vibrador em
mim e me dou conta que eu ainda estava sensível demais. Aquilo me
arranca um suspiro e eu relaxo na boca dela.
Não demora e noto minha respiração pesada. Começo a sofrer em
antecipação. Queria ela me fodendo de novo, mas isso não cabia a mim
decidir.
Ela brinca com o vibrador, colocando dentro, e eu gemo seu nome,
como uma súplica desesperada para ter qualquer tipo de alívio. No primeiro
orgasmo, estava tudo lindo; no quarto, eu já estava sentindo mais dor do
que prazer. Olivia se divertia e eu estava uma completa bagunça. Eu só
sabia gemer, não podia me mexer e isso parecia intensificar tudo. Meu
corpo exausto, todos os músculos da minha barriga doíam e ela assistia com
prazer. Seu olhar bebia a minha imagem como se eu fosse uma obra-prima.
― Não dá mais. Está doendo muito, Olivia. ― Eu me contorço
,tentando escapar de seu toque.
― Dá, sim, só mais um. ― Ela se divertia com o meu desespero. ―
Você ainda consegue reclamar, então está ótima. ― Ela força meu canal e
desliza o vibrador para um ponto mais sensível e eu quebro em um orgasmo
no qual eu já desisti de contar. Minha perna tremia violentamente e eu
sentia todo meu canal se contrair.
Ela não espera meu corpo relaxar, devolvendo o brinquedo para o meu
clitóris. Doí pra caralho. Forço as algemas e tento fechar as pernas,
desesperada pra me ver livre de seu toque. Tudo é intenso demais, a pressão
é forte demais pra pensar em qualquer outra coisa.
Meus dedos se esmagam, me fazendo puxar meu pulso, o que apenas
força o aperto do couro em minha pele. Um tapa pesado vem na minha coxa
e seu aperto se intensifica. Sinto vontade de chorar pela sobrecarga de
sentimentos.
Eu sinto uma forte onda de prazer e me desfaço em um orgasmo que
parecia ter levado a minha alma para o inferno antes de tocar o céu.
Olivia só desliga o vibrador quando eu me acalmo. Eu sentia todo meu
interior pulsar e minha perna tremer quando ela finalmente me solta. Olivia
se senta do meu lado.
Ela faz carinho no meu rosto e depois sua mão desce pela minha
garganta. Ela solta as algemas da corrente que estavam presas nos ganchos
da cama. Meus braços caem pesados e a sensação da musculatura relaxando
conforme me deixava levar pelos resquícios do orgasmo era gostosa
demais.
― Por mais que eu esteja morrendo de tesão em ver o estado
deplorável que você se encontra com esse rímel todo borrado, preciso
perguntar: você quer continuar? ― Seu tom de voz era cheio de carinho.
― Quero. ― Minha voz sai manhosa. Tudo que eu sentia era tão novo,
tão quente e profano, que a minha curiosidade falou muito mais que meu
cansaço
― Fique de quatro. ― Obedeço. Ela puxa ambos meus pulsos,
prendendo as guias das algemas em cada tornozelo meu. Isso faz com que
meu rosto encoste no colchão e a minha bunda fique ainda mais pra cima.
― Boa garota. Tão obediente. Obedecer combina muito bem com você. ―
Ela segura cada lado de minha bunda, massageando. O tapa que segue me
pega de surpresa, estalando no quarto silencioso. O segundo tapa vem. ―
Eu mal comecei e você está tão vermelha. É lindo, eu consigo ver meus 5
dedos perfeitamente desenhados.
Escuto ela mexer na mesa e então sinto tiras de couro subindo pelas
minhas coxas. O primeiro golpe vem estalado na minha coxa, mas eu
permaneço quieta como ela havia mandado. O próximo golpe não é tão
gentil assim e um gemido que eu mal reconheço sai de mim. Um estalo
diferente diretamente na minha bunda e meu corpo tenta se esticar, fugindo
da dor.
Puxo a respiração pelo nariz com força, aumentando as lufadas de ar e,
consequentemente, o oxigênio que entra no meu cérebro. Sinto a minha pele
esquentar. Meu rosto estava suado, fazendo meu cabelo grudar. Olivia
aparece no meu campo de visão, ainda segurando o chicote na mão, de
forma tão natural que parecia ser uma extensão de seu braço. Ela joga todo
meu cabelo pra trás. Eu não tenho força para erguer meu corpo naquela
posição e isso parece excitá-la, a forma que olhava pra mim como se
estivesse orgulhosa da bagunça que eu havia me tornado dizia isso.
― Eu comprei uma coisa pra você… Na verdade, mais para mim,
porque eu vou ver você usando. Um plug verde pra combinar com o seu
cabelo. Não faz essa cara, não tem um buraco seu que eu não tenha a
intenção de foder. ― Ela brinca com os dedos nos meus lábios, como uma
promessa de que voltaria para eles depois.
Ela se levanta e eu sinto um tapa forte na minha bunda antes dela se
afastar. A próxima coisa que eu escuto é uma embalagem sendo aberta. Eu
quero esticar meu corpo, que estava dolorido depois de gozar tanto.
―Você já fez isso antes, amor? ― Ela massageia minha bunda com
carinho, ainda está sensível por causa da surra e eu sou grata por seu toque
delicado ali.
― Já.
― Interessante. ― Sinto ela pingar uma quantidade generosa de
lubrificante e seus dedos massagear a área. ― Me mostra então. ― Ela
desliza conforme eu relaxo e brinca com os dedos ali, depois desliza o plug
para dentro. Era bem maior do que eu já havia usado e o tamanho me pegou
de surpresa.
Não poder ver qual seria seu próximo movimento por causa da posição
crescia a minha expectativa. Eu estava cansada. Então, eu sinto um líquido
quente escorrer nas minhas costas, em seguida, na minha bunda e
escorrendo pelas minhas pernas.
― Sabe, se você fosse um pouquinho só masoquista, eu tiraria essa
parafina inteira na base do chicote. Seria lindo escutar você chorando de
dor. Não se preocupe. Por hoje, você se safa dessa.
― Eu quero tentar. ― Eu não sabia quanta dor ela se referia, mas eu
confio na Olivia, sei que ela jamais me machucaria pra valer.
Ela espalma a mão pela minha bunda, seu dedo brinca com o plug e
aquilo me excita. Sinto ela esfregar as fitas de couro do flogger no meio das
minhas pernas, subindo devagar e tocando o plug. O golpe vem primeiro na
lateral da minha bunda, forte e certeiro. Dói. Puxo o ar, respirando fundo e
escondendo a minha cabeça no colchão, esperando o próximo.
Ganho três seguidos na mesma região e, dessa vez, é impossível não
tentar me esquivar, mas eu não vou longe, porque ela me segura pelo
cabelo. Choramingo de dor com o próximo golpe, perto de mais da minha
buceta.
Ela gira o punho, fazendo o aperto no meu cabelo se intensificar, e eu
sinto um frio na barriga que se alastra pelo meu quadril e me lembra o
porquê eu estou tão molhada. Ela brinca com o chicote no meu clitóris e se
demora ali, esperando meu corpo relaxar. Quando afasta o chicote, o
encontro dele de volta na minha pele é potente e arde até a alma.
Solto um pequeno grito de dor e sinto a língua dela nas minhas costas.
A mão que segurava o chicote brinca com o plug, me fodendo ali e me
fazendo esquecer da dor, concentrada na boca de Olivia em mim.
― Não para, por favor. ― Minha voz sai meio aguda e desesperada.
Eu estava ofegante e me sentia suar por cada poro do meu corpo
dolorido. Olivia me escuta e continua fazendo movimentos circulares com o
plug. A respiração ofegante dela se mistura com a minha. A força dela em
me segurar me excitava e ela tinha esse poder de deixar tudo tão gostoso.
Ela solta o chicote e toma toda a minha bunda na mão, dando um tapa
pesado ali. Então, retorna com um dos vibradores em mim, dessa vez
desligado, e sou grata. A essa altura, meu clitóris já estava muito sensível.
Ela me fode sem dó, puxando meu cabelo para ela e mordendo meu ombro.
Eu gemo o nome dela e mais um combo de palavras incoerentes
enquanto meu corpo inteiro cede àquela intensidade tão grande e por tantos
estímulos diferentes. A respiração ofegante dela no meu ouvido mostra que
ela sente tanto prazer quanto eu.
Olivia me solta e meu corpo cai pesado no colchão, completamente
exausto e dolorido. A sensação era diferente de tudo que eu já havia
sentido, meu corpo inteiro suava e eu podia sentir meus músculos se
contraírem em pequenos espasmos. Entretanto, sinto um relaxamento por
completo. Eu não pensava em absolutamente nada, minha mente estava
calma como uma tela em branco. Ter ficado muito tempo presa e depois
poder esticar o corpo era terapêutico e gostoso, como se tivesse um cobertor
pesado em cima de mim. Melhor do que qualquer orgasmo.
Primeiro, ela solta as minhas pernas, depois tira meus pulsos das
algemas e massageia o local. Ela beija cada um deles, entra no banheiro em
seguida e volta segurando uma caixa de lenços. Ela limpa todo o restante da
cera de vela do meu corpo e o meio das minhas pernas. Escuto ela abrir um
pote e passar um pouco de creme na minha bunda e nas minhas coxas.
― Por que você está fazendo isso? ― Minha voz estava baixa. Sentia
que toda aquela atmosfera merecia silêncio.
― Isso que você está sentindo, essa euforia, essa calma, é uma grande
descarga de hormônio de endorfina no seu corpo. É incrível, não é?
Subspace é um jeito de nomear o lugar mental em que você está. Eu tenho
que cuidar de você, porque, se eu não fizer isso, você pode ter o que
chamamos na comunidade BDSM de subdrop, que é quando esses
hormônios da felicidade, que já estão altíssimos, caem muito rápido. Você
pode ficar muito mal e se sentir culpada, angustiada. Então, isso.. ― Ela dá
um beijo na minha testa. ― É pra que seu corpo volte ao normal no tempo
dele.
Ela abre a porta do banheiro e separa um pijama e uma toalha. Levanto
à contra-gosto e tomo um banho demorado. Quando volto, o quarto está
limpo e nem sinal da bagunça que havíamos feito.
― Beba. Acredite, você vai me agradecer depois. ― Ela me entrega
uma garrafa d'água e eu bebo.
Olivia joga o cobertor em cima de mim e me puxa para um abraço.
Sinto meu corpo pesar sobre o dela. Eu estava dolorida e fisicamente
exausta. Me mexer parecia esforço demais e Olivia parecia entender isso.
Ela apenas afasta meu cabelo e fica ali com a mão descendo o subindo pelas
minhas costas no escuro do quarto.

***
Acordo com uma movimentação no ambiente. Busco meu celular, vejo
que eram sete da manhã. Olivia estava tirando os tênis de corrida de perto
da cama.
― Me desculpa, eu não queria ter te acordado. ― Ela sussurra e me dá
um selinho.
― Está tudo bem, eu preciso trabalhar daqui a pouco mesmo. ― Eu
puxo a coberta ainda mais para perto, me aconchegando na cama e sentindo
meu corpo ainda pesado de sono.
― Como você está se sentindo? Depois de ontem, você capotou de
sono e, por mais que eu não tenha tentado arrancar a sua alma fora, eu
também não fui delicada. Eu separei um remédio pra dor, tenho algumas
pomadas caso precise.
― Eu fico muito curiosa pra saber o que mais pode sair dessa mente
perversa. Mas, piadas à parte, eu estou ótima. Talvez eu não ande por uns
três dias, mas eu estou ótima. ― Me espreguiço. ― Você acorda cedo assim
para correr?
― Não, eu acordo 5:20 e acabei de chegar. Você que dorme feito uma
pedra. Eu liguei a luz do quarto umas três vezes e você nem se mexeu. ―
Ela sorri, começando a tirar o casaco e a blusa.
― Você acorda 5:20 todo dia? Para correr?! De livre e espontânea
vontade?! Essa é a coisa mais psicopata que eu já vi.
― Geralmente, eu saio para treinar com Luca, mas, aparentemente,
Michelle dormiu lá essa noite. Não quis atrapalhar, o mês inteiro ficou um
clima estranho entre eles e eles precisam se acertar. ― Ela tira o top e o
short suados e joga no cesto de roupa suja. A esse ponto, é quase impossível
manter a atenção no rosto de Olivia.
― Como você sabe que ela dormiu lá? ― Pergunto, me virando na
cama para acompanhar ela andando só de calcinha no quarto.
― Nós três temos localizadores nos celulares e nos carros só por
questão de segurança. É bem prático. ― Ela tira uma toalha limpa do
armário e caminha até o banheiro.
― Nossa, seria muito interessante se não fosse trágico ter alguém
querendo te matar. ― Me espreguiço de novo, querendo voltar a dormir nos
minutos que eu ainda tinha.
Olivia era organizada. Admito que combinava com a personalidade
dela. Olho ao redor. O quarto era bonito, as paredes eram esverdeadas, tinha
um espelho num canto e havia até algumas plantas próximo à janela. Eu
volto a cochilar e só acordo com o barulho da porta abrindo.
Olivia veste uma calcinha e um top de academia limpo. Me espreguiço
mais uma vez na cama, sentindo algo escorrer no meio das minhas pernas.
― Não acredito. ― Levanto um pouco do cobertor para olhar e tenho
vontade de me jogar na janela de vergonha.
― Que foi? ― Ela pergunta enquanto revirava a gaveta.
― Eu acabei de sujar a sua cama de sangue.
― Ah, então era daí que veio aquele tesão todo. Você só estava de
TPM. ― Ela acha graça e volta a secar o cabelo com a toalha, como se eu
não tivesse feito uma bagunça na cama dela.
― Ai, meu deus, Olivia, me desculpa! Eu realmente não tinha ideia
que iria vir hoje. Ai, que vergonha eu sujei a sua cama.
― Relaxa, acontece comigo o tempo inteiro. ― Ela se aproxima de
mim. ― Não precisa ficar com vergonha. ― Ela beija a minha testa e passa
a mão no meu cabelo. ― Vá tomar um banho eu arrumo as coisas por aqui.
― Não tem a menor condição de eu ir até a sala pegar a minha bolsa.
Se importa de pegar meu coletor lá para mim?
― E você quer ajuda para colocar? ― Ela tem um sorriso divertido nos
lábios.
― Você não presta. ― Reviro os olhos, mas a risada dela me faz rir
também.
Levanto, tentando não sujar mais ainda as coisas, e odiando a meleca
que havia se formado no início da minha coxa. Tomo um banho demorado.
Pego meu coletor que a Olivia muito gentilmente havia trazido para mim.
Saio do banheiro de calcinha, mas ainda enrolada na toalha. A cama já está
completamente vazia e os cobertores estão dobrados em cima de uma
cadeira.
― Da próxima vez, eu coloco uma toalha embaixo. Mas, juro, você
pode me fazer precisar trocar de lençol sempre que quiser. ― Ela pisca para
mim, jogando uma ponta do tecido e eu a ajudo, colocando de um lado da
cama e ela do outro.
― Engraçadinha. ― Deito no colchão. ― Tem certeza que não quer
mesmo que eu te compre um lençol novo?
― Diana, pelo amor de Deus foi só uma manchinha de sangue. Eu
tenho máquina de lavar. ― Ela deita em cima de mim.
― Meu Deus, Olivia, lembra que você é quase duas vezes meu
tamanho. Tá me esmagando.
― Não estou nem aí, eu estou no meu direito, você faz isso direto
comigo. Você está com cólica?
― Um pouco só.
― E eu posso fazer alguma coisa pra ajudar? Uma massagem, um
chá…
― Eu sinto que eu criei um monstro quando eu aceitei brincar com
você ontem.
― Talvez. ― Ela sai de cima de mim e me manda um beijo no ar.
Vou para a cozinha. Era um saco fazer comida para Olivia, porque
qualquer coisinha ele reclamava que não fazia parte da dieta dela. Ela
literalmente pesava a comida para comer, então eu faço um café só para
mim e volto para o quarto segurando uma xícara.
Encontro Olivia parcialmente vestida, com uma toalha enrolada na
cabeça e fazendo a própria maquiagem. Tinha uma blusa preta separada
num cabide em cima da cama e o quarto inteiro tinha o cheiro do perfume
dela. Depois que eu termino meu café e visto uma roupa social para
trabalhar, espero ela terminar de se arrumar.
***
― Está entregue. Michelle já está lá em cima, é ela que vai te
acompanhar na empresa hoje. Eu sei que pedi o dia todo de folga por não
saber se vai demorar lá ou não. Mas, assim que terminar lá ,eu apareço na
empresa. ― Ela estaciona na garagem da mansão.
― Quando chegar lá, me avisa. ― Digo quando já estou fora do carro.
― Pode deixar. ― Ela deposita um beijo rápido na minha boca antes
de ir.
Subo as escadas e escuto a risada de Katie assim que coloco os pés
dentro de casa. Ela havia ganhado alta e, com isso, ela e a mãe entraram em
um acordo que já estava na hora da minha tia retornar para Paris.
Michelle estava com ela. Olivia me contou que, por conta da gravidez
de Michelle, Lucas terminou o namoro com Jake. Depois do que aconteceu,
ficou um clima estranho entre os dois. Porém, aos poucos, foi voltando a
normalidade.
― O que tem de tão engraçado?
― Estava convencendo Michelle a me contar o ponto de vista dela
sobre o seu namoro com a Oliviazinha.
― Nós não estamos namorando. ― Ainda, completo mentalmente.
― Fala isso para as câmeras de segurança da garagem. ― Katie
balança o tablet de Michelle, sorridente.
― Você deu isso para ela?
― Ela pediu tão entusiasmada que não consegui negar. ― Michelle
sorri também.
Tomo café da manhã com Katie e ficamos no meu escritório enquanto
resolvo algumas coisas antes de ir pro trabalho.
Então, o celular da Michelle toca. Ela se levanta, indo atender em outro
cômodo. Quando ela volta, sua postura havia mudado. Ela olha pelo lado de
fora da janela, buscando algo nas câmeras de segurança.
― Me escutem: vocês não vão entrar em pânico e vão fazer
exatamente o que eu mandar. Peguem as coisas de vocês, documento,
passaporte, celular, só o importante, e nós vamos subir pro heliporto da
casa. Luca vai estar lá, aguardando com um helicóptero.
― O que está acontecendo? ― Katie pergunta, assustada.
― Não temos tempo. Quando vocês duas estiverem seguras, nós
conversamos. ― A voz dela está calma, mas muito séria.
― Espera. Luca? Cadê a Olivia, o que aconteceu com ela? Era para os
dois estarem juntos. ― Digo enquanto ela me segue para os quartos. Vejo
ela travar todas as portas da mansão pelo tablet.
― Ela não chegou para a reunião do comandante. A gente não sabe
onde ela está. Tudo que temos é uma mensagem dela mandando te esconder
e é isso que estamos fazendo.
CAPÍTULO 25
Olivia/Diana

OLIVIA
Eu estava dirigindo, já sabendo o que aguardava desde o momento em
que virei a esquina da casa de Diana, quando meu carro começou a ser
seguido por algumas motos. Mando uma mensagem pro celular de Michelle
e outra para o de Luca. Tomo distância do melhor jeito melhor que pude.
Abaixei-me, pegando uma arma no console e cartucho extra de munição. Eu
sabia o que estava acontecendo e eu não iria apenas me defender, eu iria
atacar de volta.
Tinha duas vantagens: a minha arma era precisa o suficiente para eu
acertar a parte acrílica do capacete e a minha distância deles que me
ganharia um tempo. Saio do carro e uso a lataria como escudo. Faço o
disparo e o primeiro deles cai morto no chão sem sequer notar o tiro vindo
em sua direção. Eles atiram de volta.

DIANA

Eu estava de pé na sala de uma casa afastada da cidade. De acordo com


Luca, era uma casa da polícia para segurança de testemunhas ou algo assim.
Eu estava anestesiada de calmantes e ainda usando a mesma roupa do dia
anterior.
Jake e Luca me deixaram aqui e voltaram para procurar Olivia. De
acordo com Michelle, era uma ordem de Olivia. Se algo acontecesse com
ela, os dois deveriam me esconder antes de ir atrás dela. Isso me tirou do
sério. Algo havia acontecido com ela. Aperto meu antebraço, tentando
minimizar a dor que as minhas crises de ansiedade me causavam.
Meu coração volta a acelerar quando a porta se abre. Por um segundo,
espero ver Olivia com eles, mas não acontece. Apenas os dois atravessam
as portas de madeira. Luca usava o uniforme da S.W.A.T. e carregava um
tablet em mãos.
― E então? ― Ando até eles, mas o semblante de Luca apaga qualquer
esperança que eu tinha de notícias boas.
― Nenhum sinal dela. ― Luca responde, depositando o tablet que
carregava no balcão de mármore que dividia a sala da cozinha. O rosto dele
estava preocupado e cansado, claramente não tinha dormido desde o dia
anterior.
― A localização do celular dela levou para algumas ruas depois da sua
casa. Encontramos o celular no chão e 4 corpos. ― Jake abre as fotos
tiradas pela perícia no local. ― Todos com somente um tiro na cabeça. Só
um sniper muito experiente faria isso. ― Sinto Katie se aproximar atrás de
mim.
― Estamos esperando a perícia e a balística ficarem prontas, mas
conseguimos fazer o reconhecimento dos corpos. Os quatro criminosos são
conhecidos e trabalham para Robert Moore. Nós não sabemos onde, mas
tudo indica que Robert Moore está cobrando a morte do irmão depois de
todo esse tempo.
― E quanto ao carro dela? ― Pergunto. Os dois olham para mim por
um momento como se escolhessem as palavras, mas é Luca que responde.
― Achamos alguns tiros na lataria e nos vidros, havia sangue próximo
ao carro, então significa que ela pode estar ferida, o que diminui mais ainda
nosso tempo. ― Ele explica. Sinto as mãos de Katie no meu ombro.
― Mas vocês acham mesmo que ela ainda está viva?
― Estamos esperando o laboratório para descobrir se o sangue no
carro era de mais alguém. Mas, sim, nós acreditamos que ela esteja viva. Se
ela estivesse morta, eles teriam largado o corpo no local como fizeram com
os outros. ― Jake responde. Tento esconder a minha aversão com a
impessoalidade com que ele trata do assunto.
― Resumindo, eles pegaram Olivia. Ela evidentemente tentou se
salvar e, agora, a gente não sabe para onde a levaram. ― Michelle diz
impaciente.
― Eu e Jake só viemos aqui para darmos notícias e deixarmos algumas
coisas para vocês. Vamos voltar pro quartel. Estamos esperando as imagens
das câmeras de segurança.
Quando eles deixam a casa, nós três ficamos olhando uma para a cara
da outra em silêncio, tentando processar o que tínhamos acabado de
descobrir. Michelle murmura algo e anda até um dos banheiros. Katie faz
menção de ir atrás dela, mas eu nego com a cabeça.
― Ela precisa de um tempo sozinha. ― Eu me sento no sofá.
― Diana, a Olivia é forte, ela é uma policial excelente e ela vai
conseguir se safar dessa. Jake e Luca estão procurando ela sem parar desde
ontem. Vai dar tudo certo. ― Ela senta do meu lado, tentando me confortar.
Eu provavelmente teria uma crise de ansiedade se Katie não tivesse me
empurrado tanto calmante horas atrás. Fico lá sem saber muito bem como
lidar com a nuvem cinza que estava na minha cabeça.
Alguém pegou Olivia. Ela está ferida.
Michelle volta quase uma hora depois. O rosto vermelho fazia um
péssimo trabalho em esconder que havia chorado. Ela se senta na poltrona à
nossa frente, as falanges vermelhas segurando nos braços da poltrona. A
expressão estava controlada no rosto, mas o jeito que o corpo dela se
contraía na poltrona mostrava o quanto ela estava sofrendo.

OLIVIA

Eu não sabia que horas eram. Tudo que eu sabia era que meu corpo
doía e que eu não fazia ideia de como iria fugir. Há algumas horas atrás,
jogaram uma garrafa d'água pela porta. Mas propositalmente, pelo visto, eu
não consigo alcançar por causa das correntes.
Eu estava em uma sala suja que parecia o subsolo de uma casa. Minhas
mãos e pés estavam presos e eu podia sentir minhas costas sangrando pelo
tiro de raspão que havia me atingido. Eu sabia que iria doer como um
inferno mais tarde. Meu cabelo estava solto, jogado na frente do meu rosto,
o rabo de cavalo deve ter soltado quando estava lutando. Consegui atirar em
4 antes de conseguirem me pegar. Tentei manter a calma para ver se
conseguia escutar algo de relevante, mas estavam muito distantes.
Depois do que pareceram horas, três homens entram na sala. Meu
coração acelera, quase pulando pela boca. Eles usavam roupas sociais e o
terno do homem à minha frente era claramente caro. Sua elegância e seu
terno azul-marinho, por um momento, me fez pensar que fosse Alencar,
mas não era. Eu o reconheço. Lembro da ficha que Jake havia me mostrado.
Ele é irmão do homem que matei. Pela tatuagem, o atual chanceler.
Meu coração batia com tanta força que duvidei que conseguiria escutar
algo com clareza. Eu ainda tinha força, estava alimentada, saudável e sem
ferimento algum que me incapacitasse. Minha chance de sair dali antes que
acontecesse qualquer coisa comigo era alta. Mas a porta do local parecia a
de um freezer e não tinha janelas. Eu teria que lutar sozinha contra 3
homens armados.
― Você reconhece um bom soldado quando olha pro rosto dele e, no
lugar de desespero, vê que ele está pensando em como se livrar daquela
situação. ― O homem à minha frente diz. ― Tenho que admitir que
qualquer mulher no seu lugar já estaria chorando e esperneando. No
entanto, você sequer deu o trabalho de falar. É um prazer conhecê-la
pessoalmente. ― Ele maneia a cabeça em um cumprimento e eu permaneço
calada. ― Sabe, para te trazer aqui, me custou a vida de 4 homens. E, se eu
não estou enganado, agora são 33, não é? Você é boa. Em outro cenário, eu
iria te contratar como minha segurança.
― Não lembro de estar entregando currículos. ― Meu humor estava
uma maravilha, sem a menor paciência para vagabundo.
― O seu senso de humor é ótimo, mas agora vamos tratar de negócios.
― O que te fez mudar de ideia? Com o meu tempo na polícia, eu
acredito que não era costume de vocês deixar alguém como eu viver muito
tempo.
― Eu não tenho nada a ver com isso. Uma velha conhecida sua que
tem. Anthony era um garoto, não tinha o que era preciso para o trabalho
dele. Como ele era o mais velho, o cargo ficou para ele, mas quem mandava
e desmandava era eu. Imagina como foi conveniente para mim descobrir
que meu irmão havia sido morto. Foi por isso que você viveu tanto tempo.
― Ele muda o peso de uma perna para outra, acendendo um cigarro.
Quando eu não falo nada, ele continua:
― Mas você sabe como as coisas funcionam. Você só está aqui, porque
a viúva do meu irmão me pediu com muito jeitinho. Não pude negar. ―
Sua conotação era tão maliciosa que eu poderia facilmente imaginar como
foi esse pedido e sinto nojo. ― Mas antes eu preciso de um favor. ― Ele
traga o cigarro.
― O que você quer?
― Lindinha, que bom que você perguntou. Você pode começar me
falando onde você escondeu a sua chefe. O pai dela está me devendo muito
dinheiro. Como tudo está no nome dela, precisamos acertar as contas. ―
Eu esperava essa pergunta. Fiz Luca e Michelle prometerem que, se algo
acontecesse comigo, eles iriam sumir com Diana antes de me procurarem.
― Aliás, se queria tanto ela, por que vieram atrás de mim primeiro?
Foi difícil passar pela segurança? ― O barulho de uma arma sendo
destravada me faz encará-lo. ― A minha resposta ainda é não. Eu não sei o
esconderijo da senhorita Montserrat. ― Minha voz está calma, dando
ênfase no não. Ele não era nem louco de atirar em mim, ele precisava de
respostas. Mas a arma dispara e a bala passa a centímetros da minha cabeça.
― Péssima mira. Eu com a mão esquerda faço melhor e olha que eu sou
destra.
― Imaginei que começaria com gracinhas. Rapazes… ― Ele gesticula
com o cigarro como se estivesse dando algum tipo de autorização. Eles
prendem as correntes num ferro na parede.
Contorço-me involuntariamente quando os dois me prendem, fazendo
as correntes repuxarem nos meus pulsos, quase cortando a carne. Não grito,
pois sei que não iria adiantar muito. Se eles não acharam a Diana, significa
que Luca recebeu meu sinal e já sumiu com ela. Ela está segura.
Sem aviso algum, sinto um puxão no meu cabelo e, então, sem sequer
ter a chance de me proteger, um soco atinge meu estômago e, em seguida,
uma sequência de golpes no meu tórax. Sem poder me defender, fecho os
olhos e aguento firme.
― Covarde! Eu não… ― Começo, já ofegante, mas um soco no meu
rosto me faz calar a boca. Cuspo sangue no chão, esperando o próximo
golpe, mas ele não vem. Em vez disso, ele puxa um alicate de dentro do
terno.
― Agora eu vou te ensinar a ter um mínimo de respeito. Pensa que eu
vou deixar passar cada palavra que eu escutei da sua boca? Você está bem
enganada.
Eles me seguram de maneira que eu não consiga me mexer. Um deles
puxa a corrente, fazendo ela se apertar. Eu tenho apenas um segundo para
processar o alicate encostando na minha unha da mão. É uma explosão de
dor tão violenta que eu preciso trancar meu maxilar para não gritar. A dor
ainda queimava pelo meu braço quando a próxima unha se vai. Eu mordo
um dos braços que me segurava no desespero e recebo um soco violento no
rosto. Sinto meu próprio sangue quente escorrer pelo rosto.
― Vagabunda! ― Uma mão agarra meu cabelo, empurrando minha
cabeça em direção ao concreto. Outra unha é arrancada e eu tento respirar.
Eu não podia gritar de dor, não daria esse gosto para ele.
― Mais uma vez. Onde está a sua chefe? ― Ele encaixa o alicate no
anelar da minha mão esquerda.
― Vai pro inferno!
― Resposta errada. Eu tomaria mais cuidado com as suas palavras
daqui para frente. ― Ele gira o alicate e minha visão escurece com a dor.
Quando eles finalmente me deixam sozinha, eu estou com as mãos
sangrando. Percebo que meu corpo treme no momento em que encosto na
parede. A dor era tão grande que eu sentia meu braço inteiro arder e era
impossível formar qualquer pensamento racional. Sinto meu rosto molhado
pelas lágrimas que eu não havia permitido descerem na presença deles.
Pelo menos, ela estava segura.
CAPÍTULO 26
Olivia

Não sabia se era dia ou noite, mas eu estou há muitas horas acordada.
Ainda sentada no chão, com as costas encostadas na parede fria, a dor me
mantinha alerta. Outro ponto que me impedia de dormir era o desespero,
com medo do que fariam comigo, do que estava por vir.
Se eu dormisse, eu iria ficar vulnerável demais e isso poderia custar a
minha vida. Aperto os meus dedos feridos com força, mordo a bochecha e
tento não gritar. A dor das unhas recém-arrancadas queima pelo meu braço,
lágrimas descem pelo meu rosto sem eu estar de fato chorando e eu
desperto. Eu não vou dormir.
Se fosse um lugar fácil de rastrear, Luca e Jake já teriam derrubado
aquela porta. Eles sabem mais do que ninguém o que acontece nessa
situação. O chefe deles não foi a única pessoa do grupo deles que eu matei,
ele só foi a mais importante.
Eu não conseguia escutar quase nada daqui. Às vezes, eu ouvia vozes,
mas estavam tão abafadas que era impossível distinguir uma palavra da
outra. Imagino que aqui deva ser afastado da cidade, pois não escuto carros
com frequência e, na maior parte do tempo, é muito quieto.
As paredes são pintadas de verde-escuro e estavam descascando. Não
havia banheiro e a luz fluorescente no teto não iluminava muita coisa. A
corrente que prendia os meus pulsos estava começando a machucar de
verdade a minha pele e o peso delas intensificava ainda mais a dor nos
meus dedos.
Muitas horas se passam ou, ao menos, é o que parece, pois, depois de
um tempo, minha cabeça começa a ficar pesada mesmo com todo o meu
esforço para me manter acordada.
Me sobressalto com o barulho da porta pesada sendo aberta
repentinamente. Meu coração acelera na mesma velocidade que a pessoa
entra no cômodo. Não consigo evitar meu olhar de surpresa quando uma
mulher de cabelo trançado entra. Os olhos puxados e a maquiagem
perfeitamente aplicada como uma pintura. Subitamente, me via desperta,
surpresa de estar diante da última pessoa que imaginava ver aqui: Brett.
― Vermelho fica bem em você. ― Ela diz assim que nota o sangue nas
minhas mãos. Ela usava um vestido de seda roxo, que era curto, luxuoso e
com mangas longas que parecia ter sido feito sob medida. Ouro decorava
seus pulsos. Estava tão bem arrumada que, até mesmo nas unhas estileto
pintadas de preto, ficava claro que ela era a mulher do líder da máfia.
― Brett, fiquei sabendo ontem que você pediu para que me trouxessem
até aqui. Era mais fácil ter marcado um café, não teria me custado umas 7
unhas e... 4 pessoas mortas.
― Você só pode ser suicida pra falar comigo desse jeito. ― Atrás dela,
um cara entra com um carrinho, em cima tem um balde de gelo com um
espumante e duas taças. Ela abre a garrafa e despeja o líquido em cada uma
das taças de cristais.
Ela bebe um gole e me entrega a outra taça. Eu permaneço quieta,
sabendo que as correntes não me permitiriam alcançá-la.
― Eu conheço você. Está distribuindo gentilezas e atraindo a atenção
para si mesma, mas, no final das contas, está desesperada. Foi policial
tempo suficiente para saber como isso acaba. ― Ela anda pela sala
calmamente.
― Sabe também o que acontece com você e todo mundo aqui caso eu
consiga sair. Os que não forem presos, serão mortos.
― Mas você está aqui agora. E, pelo sangue nas suas roupas, eu não
diria que está na posição muito favorável. Sabe… ― Ela dá um gole na
bebida. ― Eu era apenas uma estudante de administração. Meu pai
acumulava uma montanha de dívidas com agiotas. Depois que ele declarou
falência, ficou difícil sustentar o vício. Então, para pagar as contas do meu
pai, eu passei a trabalhar em uma boate stripper, mas lógico que apenas
dançar não dá dinheiro a ninguém. Então eu conheci Anthony. Ele era dono
do local, disse que, se trabalhasse para ele, as dívidas do meu pai estariam
pagas. ― Mesmo controlada, era notável que aquele era um assunto muito
delicado para ela.
― E depois disso? ― Eu preciso arrancar dela o máximo de
informação, qualquer coisa que fosse útil para me ajudar a sair daqui.
― Fiquei meses presa na mansão dele sendo o seu brinquedinho
sexual. Mas Anthony era um homem bom, ele me tratava bem e era muito
carinhoso. Com o tempo, eu descobri que havia algo além do que ele
mostrava. ― Ela olha para o cristal com nostalgia e as palavras saem de sua
boca com dor. ― Então você matou o amor da minha vida. Você não sente
o mínimo de remorso?
― Eu já matei para sobreviver, já matei para salvar alguém e já matei
apenas porque me mandaram matar. Eu não consigo sentir remorso por
alguém que apontou uma arma para alguém que eu amo.
― Eu vou lembrar disso quando minha bala atravessar a cabeça da
Diana.
― Deixe ela fora dessa conversa.
― Por quê? Assim como eu, ela também tem que pagar pelos erros que
o pai dela cometeu. ― Ela bebe o champanhe. ― Meu pai era rico, muito
rico, eu estou falando de milhões de dólares. O pai dela passou a perna no
meu e ele se afogou em dívidas. Se não fosse por aquele filho da puta, eu
jamais teria sofrido a metade do que eu sofri a vida inteira.
Eu tento digerir as informações enquanto ela bebe o resto do líquido
rosa da taça.
― A essa altura, você deve imaginar que 100 milhões não foi nenhum
grande prejuízo para ela. Então, comecei a trabalhar para ela de vingança.
Precisava estudar ela de perto.
― E ainda assim se apaixonou por Anthony? O que dizer de uma
mulher que o único traço de personalidade é síndrome de Estocolmo.
Ela me olha furiosa. Aparentemente, eu feri os sentimentos dela. Meu
coração bate com força na garganta e todos meus instintos gritavam para eu
me proteger. Brett ajeita o vestido que usava. Ela empurra minha cabeça
com força na parede de concreto e agarra meu maxilar. Eu travo a
mandíbula, sabendo o que me aguardava. Assim, quando ela começasse a
me bater, meus dentes não cortariam a parte interna da minha boca.
― Eu fiz isso por mim mesma, pelos anos que eu trabalhei como
prostituta. ― Ela grita e bate na minha cara com força, perdendo o controle
completamente e descontando toda a raiva dela em mim. ― Pela infância
merda que eu tive. ― O próximo golpe vem mais forte e eu sinto o gosto de
sangue. Ela pega uma das taças, quebrando-a no meu rosto. ― E por causa
da perda da única pessoa que me amou na vida. ― Ela crava o caco de
vidro que havia sobrado na minha perna, arrastando o corte para baixo. Eu
grito de dor e, no instinto, eu agarro o pulso dela e giro. Mas o movimento
causa mais dor em mim do que nela devido às feridas recentes do dia
anterior.
É tudo tão rápido: os seguranças dela entram e, no mesmo segundo, eu
estava no chão com alguém pisando na minha cabeça. Vejo que ela
gesticula com a mão e eles trazem um tanque com água.
― Algo me diz que você está com sede. Vamos ver se você continua
com essa língua afiada. ― A voz dessa vez é mais controlada, mas ainda
trêmula de raiva.
Braços me agarram, empurrando a minha cabeça para dentro da água.
Eu tento me soltar. Me contorço, desesperada, e tento chutar o tanque para
virar a água no chão antes que eles me afogassem. No final das contas, eu
sequer tive tempo de prender o ar antes deles afundarem a minha cabeça.
Meu pulmão começa a arder e, quanto mais eu me movia, mais minha
cabeça era empurrada pro fundo do tanque. Eu tento desvencilhar, mas ele
segurava meu cabelo com tanta força que eu não conseguia fazer nada.
Meu corpo é puxado para cima novamente. Eu busco por ar
desesperadamente, tossindo.
― Vadia. Não consegue nem fazer o próprio trabalho sujo.― Eles
afundam minha cabeça na água de novo, fazendo questão de bater a minha
cabeça no metal. Meu peito queimava e tudo doía. Eu estava brigando por
oxigênio. Dessa vez, eles demoram demais para subir a minha cabeça e eu
finalmente entro em pânico.
Eu me contorcia violentamente, meu sangue manchando a água de
vermelho. Tudo era um borrão e eu só conseguia escutar o barulho da água.
Quando eles puxam minha cabeça para fora da água, estou quase
inconsciente. As vozes deles pareciam distantes e a única coisa que me
sustentava eram os braços que me empurravam para dentro da água.
― Agora você vai implorar com muita educação pra eu não te matar.
― Eu prefiro morrer. ― Uma risada fraca sai da minha boca e a minha
voz não passa de um murmúrio vago. Ela puxa o que havia sobrado da taça
na minha coxa e eu sinto o sangue correr livre pela minha perna.
Eu estava acordada quando eles enfiam a minha cabeça de volta na
água, mas eu não tinha certeza se estaria quando eles me puxassem de volta.
CAPÍTULO 27
Olivia

Há muitas horas eu estava sentada no meu próprio xixi por não poder
sair do lugar. O tanque de água ainda a alguns metros parecia rir da minha
cara. Não vi ninguém desde que apaguei. Durante esse tempo, eu fiquei
sozinha, no escuro. Só ligaram a luz quando me trouxeram água e algo para
comer. Descobri que fazia no mínimo três dias que eu estava aqui, pois a
data estava no jornal que usaram para me dar comida.
Depois disso, deixaram a luz apagada de novo. Não consegui avaliar
direito, mas, quando a luz ainda estava ligada, vi que o corte da minha
perna era profundo pela quantidade de sangue seco que cobria a minha
calça. A roupa e o meu cabelo ainda estavam úmidos, minha boca tinha o
pior gosto possível e meu corpo parecia todo dormente.
A luz se acende e minha visão escurece, tentando se adaptar com o
brilho repentino depois de tanto tempo no escuro.
― Olha pra você, nem parece a mesma pessoa que entrou aqui. Brett
fez um ótimo trabalho. ― O irmão de Anthony entra, fechando a pesada
porta atrás de si, junto com alguns seguranças. Ele usava uma roupa
parecida com a de antes, mas agora estava ligeiramente amarrotada como se
tivesse passado muito tempo sentado em uma reunião.
― Segurem ela. ― Ele dá a ordem e dois dos seguranças me colocam
de pé ao mesmo tempo que vejo o restante deles arrastando o mesmo tanque
de água. ― Nós vamos ter uma conversa. Fiquei sabendo que sua chefe está
sob a proteção da S.W.A.T.
― Eu juro que, se você encostar em um fio de cabelo dela, você está
morto.
― Ah… Eu não vou fazer isso, Brett vai. Eu só preciso que ela
continue acreditando que está sempre um passo à frente. Eu conheço aquela
vagabunda, Anthony entrou tão bem na cabeça dela que ela vai fazer de
tudo para vingar o meu irmão.
― Tente a sorte. Não é da boca para fora que eu digo que eu vou
colocar uma bala na sua cabeça na primeira oportunidade.
― Eu sei como você trabalha, eu comecei a te observar desde o hotel
em Nova Iorque, no restaurante e no atentado. Brett estava lá, lembra? Você
pode ser cautelosa e ter sangue-frio para matar sem pensar nem duas vezes,
mas você fica descuidada perto da sua chefe, o último lugar no qual você
deveria abaixar a guarda.
― Onde você quer chegar com isso?
― Eu só quero o dinheiro da Família Montserrat, ele me pertence. Mas
para que sujar minhas mãos quando eu tenho ela? Brett está tão obcecada
em se vingar de Diana e Matteo Montserrat que está cega. Está sendo
divertidíssimo vê-la achar que tem algum controle. Quando ela tomar todos
os bens da sua chefe, tudo que eu vou precisar fazer é matá-la.
― Se é tão simples, por que inferno eu estou aqui? ― Deixo pela
primeira vez minha raiva transparecer.
― Você matou o meu irmão, mas, acima de tudo, o marido dela. Soa
mal pra mim te deixar escapar mesmo a morte dele sendo conveniente.
Além disso, eu preciso convencer nossa querida secretária que ela tem
algum poder, então, quando ela fez toda aquela cena, me seduzindo, me
levando para cama e se lambuzando do meu pau apenas para tentar me
convencer a te trazer aqui, não pude perder a oportunidade de jogar o
joguinho dela para ver até onde ela acha que pode ir. ― A verdade estala no
meu cérebro e sou capaz de ler as entrelinhas. Eu quase rio.
― Eu estava convencida de que máfia era sobre lealdade à família e ao
sangue. Acho que estava enganada no final das contas. Você não faz ideia
da minha surpresa quando eu descobri que você tinha ficado genuinamente
contente com a morte do seu irmão. E agora eu descobri que você tem um
caso com a noiva dele. Faz quanto tempo isso? Porque com certeza não é
recente. Tudo isso é o quê? Ciúmes? Nada é capaz de me surpreender.
Eu mal tenho tempo para puxar o ar. Minha cabeça é socada para
dentro da água. Eu grito e esperneio. Levantam a minha cabeça para eu não
morrer sem oxigênio, mas logo mergulham de novo. A pressão que
segurava meus braços para trás era intensa. Eu engulo água sem querer e,
quando eles puxam meu corpo para cima, é mais difícil respirar. Começo a
tossir, meu corpo tentando expulsar a água dos meus pulmões. Me dei conta
que o plano deles era me levar à completa exaustão.
Eles mergulhavam o meu corpo no tanque e subiam apenas parecia
repetir o processo de novo, de novo e de novo. Com Brett, ela me segurava
e esperava mais tempo embaixo d'água, esperava até que eu estivesse quase
inconsciente.
― Água? De novo? Eu sinceramente esperava mais criatividade vindo
de você. Você nem me queria aqui. Era pra você ser grato, eu te dei o cargo
que você sempre quis e agora um rabo de saia tá te mandando o que fazer?
Não é você o chefe? Não foi pra isso que eu matei teu irmão, seu filho da
puta? ― Minha cabeça é socada na água violentamente e minha boca bate
na borda de ferro na volta. Eu sinto o gosto de sangue.
― Sabe que você tem razão? ― Ele sorri, tirando um maçarico do
bolso. Meu sorriso some. Eles me empurram violentamente e me amarram
de volta na parede. Dessa vez, me prendem nas algemas no ferro de cima,
me obrigando a ficar de pé. ― Você tem muitas tatuagens. Quero colocar
em um lugar limpinho. ― Ele agarra meu queixo, levantando meu rosto e
deixando meu pescoço exposto. ― Aqui vai servir.
A chama vem e eu grito. Eu grito tanto. Ninguém escuta. Eu via apenas
o teto e o reflexo da chama azul. O fogo queima a lateral do meu pescoço e
o cheiro de pele queimada esfrega na minha cara o tamanho da minha
impotência.
A sensação era desesperadora e eu tinha certeza que iria morrer. Foi
quando eu parei de lutar e torci para que meus órgãos começassem a falhar
mais rápido do que a chama que carbonizava a minha pele.
Quando eles soltam meu corpo, eu caio inerte no chão. Minha boca
sangrava e minha respiração estava fraca. Por um momento, pensei que
estava completamente cega, mas fiquei feliz quando percebi que era só a
minha consciência me deixando.
Meu corpo pesa pro lado, a dor tornando impossível o mínimo de
movimento. Apenas travo a mandíbula, chorando. Sinto o concreto gelado
contra o meu rosto quente e pontos escuros felizmente começam a
preencher cada vez mais a minha visão. Sinto meu corpo se deslocando da
minha mente, como se a dor que eu sentisse fosse tão violenta que meu
cérebro simplesmente não processava.
De repente, me pego tendo um devaneio. O rosto de Luca preenche a
minha memória, a visão dele na ponta da cama com o joelho apoiado na
beirada do colchão macio. Lembro da boca quente dele no meu sexo e da
maciez dos travesseiros em que apoiva minhas costas. Ele sorria satisfeito,
tirando o chicote da mala. Lembro que a ponta era tão fina que, se não
tivesse cuidado, poderia romper a pele e formar vergões severos.
Ele então puxa minhas pernas, girando meu corpo com facilidade e
prende meus tornozelos nas fivelas de couro. As algemas grossas e pesadas
eram minha parte preferida, tornavam o simples ato de me manter em
quatro apoios quase impossível. Ele sempre arrumava o meu cabelo,
tirando do meu rosto e prendendo em um rabo de cavalo alto com cuidado.
Deslizava os dedos pela pele das minhas coxas, dando beliscões e tapas
para aquecer a pele, e então o primeiro estalo vem. Lembro de segurar o
grito e sentir prazer. Os primeiros golpes sempre doem mais.
Luca gostava de se demorar, passeando com o chicote entre as minhas
pernas de modo que eu estivesse distraída o suficiente pra não me preparar
pro segundo golpe. Quando ele vinha, era com força. Meu olho enchia de
lágrimas com a dor cortante, mas o que saía da minha boca era um gemido
rouco. O terceiro e o quarto são seguidos um do outro e meu corpo luta
involuntariamente contra as algemas.
― Você não vai a lugar nenhum. ― Ele puxa minhas coxas sem muita
delicadeza, fazendo que eu perca meu equilíbrio e fique com a parte
superior encostada na cama, de joelhos e com o corpo jogado para frente.
― Quem disse que eu estou fugindo? ― Minha resposta é o couro
afiado chicoteando na parte interna das minhas coxas.
Os golpes continuam. Minha bunda e minhas coxas ardiam. Eu arfava
com a sensação do couro cortante em minha pele.
Naquela época, a dor era boa, me dava prazer. As correntes e as
algemas eram sinônimos de diversão e orgasmos intensos. Se eu tivesse
forças, eu riria da situação.
Do contraste.
Da ironia.
Do meu sangue derramado no chão.
Do xixi.
Dessa vez, quando eu abro os olhos, as luzes estão apagadas. Minha
cabeça demora alguns segundos para lembrar onde eu estava e o mínimo
movimento me faz querer gritar de dor. O enjoo me atinge e eu só consigo
virar o rosto o suficiente para não morrer afogada no meu próprio vômito.
Meu corpo começava a dar sinais claros de infecção.
Eu sou atéia desde adolescente, nunca me fez falta, mas, no momento,
eu queria acreditar em qualquer coisa. Iria pedir apenas para acabar com a
minha dor, para morrer logo, só isso. Eu estava tão fraca que a realidade era
fragmentos entre um desmaio e outro, cada vez voltando para mim como
um veneno amargo. Meu olho já acostumado com a falta de luz me faz
conseguir enxergar a figura de um homem encostado na porta fechada e fico
alerta.
― Olha pra você. Está morrendo. Pessoalmente, não acho que você
dure mais de alguns dias. ― O homem liga uma lanterna fraca e a apoia na
beira do tanque. Isso me permite ver que é um rosto conhecido, ele era o
homem que apontou uma arma para a cabeça de Diana no mesmo dia que
Katie foi baleada.
― Eu não imaginava que eu receberia tantas visitas. ― Digo, fraca
demais para prestar atenção completamente. Não estava surpresa dele não
ter ficado muito tempo preso, pessoas como ele nunca ficam.
Meu pescoço doía, a queimadura não era de terceiro grau, o que
significava que ainda havia nervos e músculos funcionais. Esse era o
máximo de sorte que eu havia tido nos últimos dias.
― Tenho uma proposta pra você. ― Eu fico em silêncio e ele continua.
― Eu tenho uma faca comigo. Eu sei que você preferiria tirar a própria vida
do que morrer na nossa mão. Porque, de qualquer jeito, você vai morrer,
mas, a esse ponto, eu acho que você já sabe. Eu posso te dar a chance de
acabar com isso logo. Leve isso como... Um ato de misericórdia. Ou você
pode me fazer um favor.
― Eu já poupei a sua vida antes.
― Não me dando um tiro na cabeça? Isso não foi nenhuma gentileza.
Mas, se você matar uma pessoa para mim, eu mando um sinal de
localização para aquela sua chefe. Eu não posso garantir mais que isso.
O desespero que eu sentia para sair daquele lugar falou mais alto do
que qualquer outra coisa. Foi lutando contra a agonia e a dor que reuni
forças para responder.
― Quem? ― Ele aponta para o tanque de água e eu entendo a
mensagem. ― Com prazer. Mas eu preciso de uma arma. ― Respondo,
apontando para a cintura dele.
― Só uma pessoa muito idiota daria uma arma de fogo na mão de um
sniper ameaçado. ― Ele leva a mão para o tornozelo. ― Você ganha isso.
― Ele joga a faca para mim. Era tão pequena que mais parecia um canivete.
― Faça ser suficiente.
CAPÍTULO 28
Luca/Olivia

LUCA
3 anos atrás…

Acordo com o barulho agudo do meu despertador. Reviro na cama sem


nem abrir os olhos direito e estico o braço em direção à mesinha de
cabeceira, mas tudo que encontro é um vibrador que foi deixado ali na
noite anterior.
Busco a fonte do barulho, passando a mão pela cama, mas não acho
nada. Abro os olhos à contra-gosto e me sento na cama, olhando em volta.
Nada também. Levanto e começo a procurar pelo quarto. Acho o maldito
do celular escondido debaixo de uma calça que estava jogada no chão.
― Vamos, Olivia, levanta. ― Acerto o corpo nu da minha amiga com
a calça dela. ― Toma banho logo, a gente vai perder a hora.
Eu cato uma cueca no chão e visto. O quarto está uma zona e cheirava
a sexo. Nada fora do que já é esperado.
Olivia senta na cama, com sono de mais para protestar alguma coisa,
encosta o rosto no braço e eu tinha certeza que ela iria voltar a dormir.
― Eu nunca mais transo domingo de noite. ― Ela resmunga, se
enrolando na coberta e deitando novamente. Eu pego as algemas de couro
e coloco na bolsa assim como os demais brinquedos que haviam
espalhados numa comoda na frente da cama.
― Você pode reclamar enquanto toma banho, porque assim ninguém
se atrasa. ― Cutuco a bochecha dela com um dildo laranja.
― Sai daqui com isso, Luca. ― Ela dá um gritinho, dando um tapa na
minha mão e cobrindo o rosto com a coberta.
― Levanta logo. ― Dou dois tapinhas na bunda dela e volto pra
minha missão de deixar o meu quarto menos parecido com um motel. No
nosso acordo, a responsabilidade de manter tudo que a gente usava em
ordem era minha. Então, eu cato tudo e coloco num saquinho de pano pra
poder higienizar quando voltasse do trabalho.
Escuto Olivia se espreguiçar e levantar da cama. Ela anda de um jeito
engraçado até o banheiro e tento não sorrir quando me deparo com todas
as marcas roxas espalhadas por sua bunda e coxa. Dava uma sensação
satisfatória de dever cumprido.
Olivia é a minha melhor amiga e isso faz com que ela tope fazer
muitas loucuras comigo, inclusive foder… Muito. Na grande maioria das
vezes, ela deixava eu dominar, mas, quando ela sentia vontade, eu deixava
ela ter o momento dominatrix dela. BDSM para nós era algo que
levávamos muito a sério, mas que acontecia estritamente dentro do quarto.
Era uma relação, acima de tudo, extremamente respeitosa. Desde o
básico, como palavras de segurança e cuidado um com o outro antes,
durante e depois de toda sessão; até uma preocupação extra, que era o fato
de que Olivia era uma mulher na polícia. Ela tinha uma integridade muito
mais frágil que a minha. Precisávamos ser muito cuidadosos para manter
isso privado.
Quando Olivia volta do banho, o quarto já está devidamente arrumado
na medida do possível graças ao pouco tempo que tínhamos. Depois disso,
eu tomo banho e me visto. Apenas roupas civis, porque a troca de uniforme
era feita no quartel por razões de segurança.
― Bom dia. ― Olivia sorri pela primeira vez enquanto colocava whey
em alguma vitamina de fruta que ela preparava para nós dois. Ela usava
um coque militar baixo, vestia uma calça preta e um casaco de tricô da
mesma cor.
― Bom dia. Se estiver doendo muito, tem remédio lá no quarto. ― Eu
digo enquanto organizo minhas coisas no sofá.
― Não precisa. ― Ela parecia distraída, lendo alguma coisa. ― Você
viu o jornal? Parece que a filha daquele bilionário vai assumir as empresas
do pai hoje.
― Eu fiquei sabendo, mas apenas porque a S.W.A.T. ficou responsável
por reforçar a segurança do local.
― Ela é bonita, né? ― Ela vira o jornal pra mim, quase grudando as
folhas na minha cara.
― Acho uma beleza normal. ― Olho para uma mulher que não
parecia ter mais de 29 anos. Ela tinha o cabelo curto, um ruivo sóbrio
quase marrom, e usava um terno vermelho bordô na foto.
― Beleza normal?! Pois eu acho que, se essa mulher passar por mim,
eu tenho um colapso. Olha essa cara de mandona. Só esse singelo rolex que
ela está usando compra todos os seus órgãos, Luca. ― Ela deposita o
jornal na mesa como se tivesse acabado de ganhar uma discussão. Eu
apenas rio, bebendo do meu café.

***
O sol estava quase se pondo. O dia até agora estava tranquilo, sem
nenhum chamado. Olivia estava parada do meu lado, com as duas mãos
apoiadas no colete a prova de balas e com o olhar fixo na fila de
repórteres. Normalmente, minha amiga odiava fazer segurança de eventos,
mas hoje ela parecia no mínimo interessada.
Então, uma Land Rover preta e blindada se aproxima da empresa, um
segurança abre a porta do carro e uma mulher usando um terno azul
marinho deixa o carro. Os flashes disparam e, com certeza, ela estaria na
próxima edição da Forbes.
― Au, au, au. ― Olivia late de maneira que só eu posso ouvir.
― Muita areia pro seu caminhãozinho.
O evento continua muito bem, sem nenhum imprevisto. Começamos a
andar pela área dos repórteres só para ter certeza que não tinha ninguém
mal intencionado. Nesse tipo de evento, era preciso não só prestar atenção
em tudo que estava longe e procurar por possíveis snipers, como o que
estava perto, uma pessoa quieta demais, alguém que permaneça muito
tempo com a mão nos bolsos e sempre ficar de olhos nas credenciais.
― Gostei desse lugar. ― Olivia foca nos prédios.― Mesmo com a
quantidade de pontos altos, daria muito trabalho pra qualquer sniper fazer
um tiro limpo. Tem muitas árvores ao redor, seria um saco tentar um tiro
aqui. Ainda assim, eu acho que a gente deveria entrar no prédio só pra ter
certeza.
― Tudo bem. ― Havia outros policiais para cuidar de toda a
comoção do lado de fora, o meu trabalho e o da Olivia era procurar por
suspeitos.
Nós entramos no prédio pela entrada da lateral e depois no elevador
de serviço.
― Ah, não. ― Diz Olivia assim que chegamos na cobertura. ― Bem
ali.― ela aponta com a cabeça para uma janela aberta num prédio vizinho
que não tinha como ser vista do chão. Ela pega a arma dela e usa a mira
para poder enxergar. ― Aquilo ali parece uma pessoa pra você?
― Mas ali não tem como acertar aonde eles estão.
― Não, mas, depois de lá, eles terão um jantar. ― Ela aponta para a
parte do prédio com um grande espaço aberto.― Ali ele tem um tiro limpo.
Eu chamo o resto da equipe no rádio enquanto eu Olivia corremos pra
fora do prédio. Passamos discretamente entre a multidão de repórteres e,
quando chegamos no blindado, os outros quatro integrantes da nossa
equipe já estavam lá.
Vejo Olivia colocar o capacete e eu faço a mesma coisa. Sinto ela
dando um soquinho no meu ombro, era um pequeno código e demonstração
de afeto nossa, significava "se cuidar e tentar não levar um tiro." Devolvo o
soquinho e pego meu armamento.
Foi fácil entrar no prédio, era uma construção que estava
completamente vazia, o que também significava: nada de elevadores. O
plano era simples, subir em silêncio e o mais rápido possível.
― Vinte e três andares de escada. ― Escuto Olivia reclamar. ―
Nunca mais aos domingos, Luca. Nunca mais!
― Desculpa. ― Eu seguro o riso e nós continuamos a subir os 23
lances de escada.
Subimos tudo praticamente correndo e só nos últimos lances
desaceleramos para não sermos ouvidos. Checamos pelo rádio, eles já não
estavam na área externa, estavam indo para onde aconteceria o jantar. A
notícia significava simplesmente que não dava tempo de negociar.
Finalmente alcançamos o andar que precisávamos. Era bem amplo,
mas, por sorte, o atirador não nos ouviu abrir a porta. De onde estávamos,
era possível ver a arma de precisão apoiada na janela e o atirador com o
olho no telescópio da arma.
Olivia gesticula pra mim e nós avançamos. Ela aponta a arma para a
cabeça do atirador, que parece tão focado no alvo que sequer nota quando
nos aproximamos.
― Larga a arma. ― Ela diz num tom firme.
O atirador se vira, assustado, mas o tempo de reação dele é rápido e
ele saca a arma para a Olivia. Meu tiro é certeiro em sua mão. Olivia chuta
o peito dele, levando-o para o chão e o algema enquanto dá voz de prisão.
Levamos o homem para o camburão, tudo isso o mais afastado possível do
prédio para não chamar atenção. Como eles não podiam simplesmente
cancelar o evento que já estava na metade, eu e Olivia voltamos para
dentro do prédio da empresa.
Estamos subindo uma escada de mármore, indo para nosso posto,
quando escutamos barulho de saltos. Olivia quase dá um pulo do meu lado,
mas se contém. Foi fácil reconhecer a mulher ruiva de blazer,
acompanhada de dois seguranças, que se aproxima de nós.
― No que posso ajudá-la? ― Vejo Olivia endireitar a postura.
― Eu acabei de ser informada do ocorrido. Gostaria de saber se já
possuem mais informações. ― O tom de voz era firme e eu podia sentir o
nervosismo da Olivia, mesmo que ela não demonstrasse em nada. Um gay
panic daquele tamanho não se escondia facilmente.
― Os policiais irão procurar a senhorita depois do evento para
esclarecimentos, mas nada que não possa ser resolvido depois da festa.
― Eu gostaria de agradecer. Fiquei sabendo que você foi a
responsável pela prisão do suspeito. O seu nome? ― Ela olha para Olivia
dos pés à cabeça. Eu estava adorando sentir o desespero da minha amiga.
― Tenente Winston.
― Obrigada por salvar a minha vida, Tenente Winston.
― Eu só estava fazendo o meu trabalho. ― Diana Montserrat acena
com a cabeça e segue seu caminho de volta para a festa.
― Você está suando. ― Abro a boca assim que ficamos sozinhos.
― Cala a boca. ― Ela revira os olhos e ri da situação.
***
OLIVIA

Diferente da inércia dos outros dias, eu estava agitada. Não podia


distinguir se era o instinto de sobrevivência falando ou se era a ideia mais
suicida que eu consegui pensar enquanto presa nesse cativeiro.
Minhas mãos estavam presas por algemas, que, a essa altura, já estava
em carne viva; eu estava desidratada e faminta; meu sangue manchava o
chão; e aquele cheiro me fazia enjoar. Também estava tremendo de frio,
suava e tinha certeza que meu corpo estava começando a sofrer seriamente
com a infecção.
Me obriguei a me sentar por mais fraca que estivesse me sentindo. Foi
dolorido e me fez urrar de dor. Evito pensar na Diana, porque só iria me
amolecer e eu não precisava disso hoje, não quando eu estava prestes a
matar alguém.
Hoje eu vou matar uma pessoa. Independente se ela me fez mal, ainda
assim é uma vida que eu tiro.
Não era a minha primeira vez matando, mas era a minha primeira vez
matando alguém com a mão. Eu sempre tive uma arma para me apegar, um
apertar de gatilho e estava feito. Agora, a história é outra. Tinha consciência
de que era a minha vida ou a dela, mas e depois? Eu não tenho força para
simplesmente levantar e sair correndo. Será que ele conseguiria mandar
minha localização antes deles me matarem?
Imagino que, se ele quer que eu a mate, ele vai arranjar um jeito de
trazer ela aqui.
Eu planejo. Penso em uma forma que fosse rápida e que não exigisse
esforço. Preciso desligar minha cabeça da dor que eu sentia para conseguir
fazer isso funcionar, mas, no escuro daquela sala, ficava muito difícil
distinguir o que era devaneio e o que era de fato plausível.
Penso na primeira vez em que matei alguém. Eu tinha pouco mais de
alguns meses na S.W.A.T., foi em uma penitenciária. Houve uma rebelião e
um dos carcereiros foi usado como escudo, o detento segurava uma faca em
seu pescoço. Minha bala atravessou sua têmpora antes que ele finalizasse o
corte. Eu conhecia a ficha criminal daquele detento. Homicídio, violência
doméstica, tráfico de drogas... Mas, ainda assim, eu tenho a imagem dos
olhos estáticos dele em mim. Ele tinha olhos verdes e algumas tatuagens no
rosto. Questionei se conseguiria me manter na S.W.A.T. depois daquele dia.
A porta se abre e eu levanto o olhar, esvaziando a mente e deixando o
oxigênio preencher os pulmões. Me concentro, pois precisa ser um único
movimento rápido e limpo. Meus músculos precisavam vencer a dor e o
cansaço.
― Você está péssima. ― Ela pisa com os saltos no sangue seco do
chão. ― Aqui está um cheiro horrível. ― Os seguranças estavam do lado
de fora, mas a porta estava praticamente fechada. Eu precisava dela perto.
― A empresa da sua chefe está coberta de policiais, mas sem sinal dela. Eu
tive o prazer de ver aquele seu amigo. Ele voltou a trabalhar pra polícia,
está tão desesperado procurando por você.
Demora alguns minutos de falatório, que eu ignoro. Precisava prestar
atenção em cada centímetros em que ela se deslocasse, precisava prever o
momento exato com calma. Ela era arrogante o suficiente pra não notar que,
mesmo meu olhar estando nela, eu não prestava atenção no que ela falava.
Então, a oportunidade surge. Um descuido causado pela própria
arrogância de se curvar sobre mim pra tentar me intimidar, mostrando uma
superioridade que ela não tem. Esse foi o seu erro. Ela esqueceu de quem
ela estava perto.
Eu seguro a corrente e a arremesso de forma que enrosque ao redor do
pescoço dela. Puxo com toda a força que tenho e ela cai em cima de mim.
Brett se contorce, finalmente se dando conta do que está acontecendo. Eu
pego a faca, enfiando com força no ouvido dela e ela grita de dor. Precisava
que ela sentisse dor o suficiente para parar de lutar. Eu não sinto remorso.
Ela me fez gritar exatamente assim uns dias antes.
Eu puxo a faca de seu tímpano e, quando a porta se abre, eu já estava
posicionada onde eu precisava. Vejo o rosto de Robert e de seus seguranças,
mas, antes que eles pudessem fazer qualquer coisa, eu já havia cortado a
garganta dela.
― Você pode adicionar mais essa morte na sua lista. ― O sangue
manchava meu rosto. Pela primeira vez naquele lugar, sangue que não era
meu.
Contudo, o esforço cobra seu preço. Eu perco o que me restava de
força, deixando meu corpo encostar na parede de concreto e a minha visão
oscila de tão cansada. Não sei o que os próximos segundos me guardam,
mas eu sei que não é bom. Seria melhor mesmo que eu não tivesse
consciente para ver. Talvez eles me matassem e, sinceramente, eu não iria
reclamar.
Olho nos olhos de Brett. A boca abria e fechava, buscando por um ar
que jamais chegaria a alcançar seus pulmões. As mãos fracamente tentando
segurar a própria garganta aberta. Eu conseguia ver a vida deixando seu
corpo conforme seus olhos perdiam o brilho. Foi rápido, ela não sofreu
muito.
Eu espero braços me agarrando e segurando minha cabeça no fundo do
tanque com água ou até mesmo um tiro na minha cabeça, mas, para minha
surpresa, ninguém vem para cima de mim. Robert que, a essa altura, estava
em pé a poucos metros de mim, apenas levanta o pulso, pausando os
seguranças no lugar. Ele me olha dos pés à cabeça, o rosto banhado de
satisfação.
―Você é muito interessante, Olivia Winston.
CAPÍTULO 29
Luca/Diana/Olivia

LUCA

Esfrego o rosto, frustrado. Eu queria gritar. Meu peito queima e o


desespero agarra o meu pescoço e sussurra merda no meu ouvido.
― Nós vamos achá-la. ― Michelle ainda está esperançosa.
Parte de mim sabia que as chances da minha melhor amiga estar viva
eram mínimas. Eu já havia invadido um cativeiro antes e ela era policial, eu
sabia o que esperar. Eles não eram de matar rápido. Eles faziam a pessoa
sofrer antes, mas o final era sempre o mesmo. Eu preciso de todo meu
autocontrole para não entrar em pânico.
― Eu não acho que ela ainda esteja viva. ― Estou puto da vida, mas
sei que a raiva não passa de uma desculpa pra não chorar.
― Ela está. Eu conheço a Olivia. Ela é muito forte. ― Michelle
segurava uma garrafa de suco em uma mão e um prato grande de comida na
outra. ― Você precisa estar inteiro para fazer isso. Você não comeu nada na
hora da janta, fora que quase desmaiou hoje. ― Seu tom de voz era duro e
repreendedor. Ela estava exagerando, eu apenas levantei da mesa de jantar
rápido demais.
― Como você está? ― Eu mudo de assunto.
― É realmente uma sensação desesperadora, mas eu prefiro ser
otimista. ― Michelle é fechada. Eu sei que iria precisar de mais do que uma
simples pergunta para ela se abrir.
Depois do que aconteceu há alguns meses atrás, parece que ela
construiu um muro entre mim e os sentimentos dela. E, mesmo nossa
convivência estando mais fácil, algo entre nós dois havia mudado.
― Você sabe que pode conversar comigo, não é? Não precisa guardar
tudo para você. ― Eu aceito a comida e coloco numa mesa que tinha no
quarto.
― Você não precisa me escutar falar sobre mim agora, você precisa
comer e dormir. Não vai ajudar ninguém se você entrar em colapso. Quando
eu voltar, espero que você já tenha comido. ― Ela aponta para a comida e
deixa o quarto.
A frieza dela me deixa chateado. Mesmo com as coisas entre nós
ficando minimamente melhor, ela se prova ser um iceberg. Eu entendi que
esse mau humor todo se dava por causa da situação estressante que
estávamos vivendo. Então, eu apenas deixei a minha amiga em paz.
Eu obedeço Michelle e como. Já nas primeiras garfadas eu me dei
conta o quanto estava faminto.
Eu conheci Michelle por causa da Olivia. As duas faziam academia
juntas e viraram amigas. Na época, eu não tinha me dado conta dos meus
sentimentos por Michelle. Eu sabia que eu me sentia fisicamente atraído e
que eu tinha uma necessidade absurda de ficar perto dela, mas eu
acreditava que o que eu sentia era a mesma coisa que eu um dia senti pela
Olivia.
Na minha cabeça, ela era apenas a terceira pessoa que se juntou à
minha amizade com a Olivia. Inclusive, ouso dizer que já cheguei a sentir
ciúmes das duas. Porém, aquela noite em que Michelle foi assistir a luta na
minha casa, na qual bebemos um pouco mais e acabamos fodendo, virou
uma chave na minha cabeça que me deixou transtornado.
Eu tenho plena consciência que eu errei em atropelar esse sentimento
namorando com Jake. Eu sei que foi a mesma coisa de querer fazer sombra
com uma peneira. No final das contas, a culpa de ter dado tudo errado tanto
com Jake como Michelle foi minha.
Foi um baque quando eu descobri que Michelle tinha perdido o bebê e
que ele era meu. Era uma mistura avassaladora de sentimentos. Eu me vi
sobrecarregado como jamais imaginei que sentiria. Depois que Olivia saiu e
Michelle teve alta, eu a levei pra casa e nós ficamos algumas horas em
silêncio enquanto eu fazia comida para ela. Demorou um tempo até que ela
conseguisse falar sobre o assunto. Ainda sim, a verdade é que, no fundo,
nenhum dos dois sabia lidar com aquilo.
Termino minha comida e saio do quarto para levar a louça para a
cozinha. Michelle estava no sofá junto com Diana e Katie. Diana estava
fisicamente mal com a situação. Com as crises de ansiedade cada vez mais
constantes, o corpo dela estava exausto.
Lavo a louça e me junto às três na sala. Reparo que o cabelo ondulado
de Michelle estava solto e ela usava um casaco meu. A falta de maquiagem
entregava as noites sem dormir dos últimos dias e as falanges inchadas dos
dedos refletiam o seu mau humor.
― Alguma novidade?― Katie quebra o silêncio da sala.
― Não. Reviramos todos os balcões, todos os clubes de sexo, cassinos,
prédios que sabemos que pertencem a eles, todos os lugares que eles
poderiam ter escondido ela. Não encontramos nada. Mas sabemos que eles
estão procurando a Diana na mesma proporção que estamos procurando a
Olivia.
― Diana se propôs a negociar com eles.
― É muito arriscado.
― Mas já faz quatro dias, estamos ficando sem escolha. ― Diana está
com a voz rouca por estar a tanto tempo em silêncio. ― Nós sabemos que
Robert Moore quer vingança pelo irmão, mas que, acima disso, me quer.
Nós podemos propor um acordo. Eu conheço o passado do meu pai, eu sei
que ele tem uma parcela de culpa e que é um covarde. Mas eu não sou ele.
― Ela muda de posição na poltrona. ― Antes, eu achava que era uma
questão de dinheiro. Eu pagaria quanto milhões ele quisesse. Mas eu me dei
conta que vai além disso. Orgulho talvez.
Eu estou prestes a responder quando meu rádio faz barulho.
Inicialmente, imagino ser Jake, mas me deparo com uma voz robótica. É
um endereço. Depois disso, a linha fica em silêncio.

DIANA
Meus braços ardiam, minha boca estava seca e meu corpo estava
cansado, mas eu demonstrava nada disso com meus saltos e uma roupa
cara. Desde que pegaram Olivia, eu nunca me senti tão impotente. Eu era
rica e, pela primeira vez, eu me via de braços cruzados, não havia nada que
eu poderia fazer.
Esse último mês que eu passei com a Olivia foi algo absurdo. Entre
uma semana e outra, nós sempre davamos um jeitinho de escaparmos para o
apartamento dela. Eu passava o fim de semana interno lá. Nós assistiamos
filmes e ficavamos matando o tempo no sofá, só nós duas. Apenas o
pensamento dela sorrindo pra mim de manhã me faz querer surtar, pois sei
que eu posso perder a pessoa mais incrível que eu já conheci.
Minha cabeça sempre imagina o pior cenário possível. A preocupação
quer me queimar viva, era desesperador. Dessa semana, o pior momento foi
quando começaram a fazer buscas com cachorros em locais que eles já
haviam encontrados corpos descartados por essa máfia. O próprio Luca deu
essa ordem e eu quis gritar com ele por perder a esperança.
Agora era início de uma madrugada de sábado e, há algumas horas
atrás, o rádio do Luca captou um sinal intruso com um endereço e eu estava
apreensiva. Estávamos todos na sala: eu, Luca, Michelle, Katie, Jake e uma
equipe de policiais da S.W.A.T.
― Esses policiais eram da equipe da Olivia na época que ela
trabalhava para a polícia. ― Michelle comenta, se encostando na parede do
meu lado e cruzando os braços. ― Ela era tenente deles. Junto com o Luca,
eles lideravam a equipe. O tenente da época que ela trabalhava lá
aposentou, Luca era o próximo no cargo e, como ele está de volta, o
comando da operação é dele.
― Vamos lá, gente? ― Lucas chama a atenção de todos. A essa altura,
ele já estava devidamente uniformizado. Ele apoiava as mãos no colete à
prova de balas e estava aparentemente calmo, anos na S.W.A.T. sendo
colocados à prova.
― Vamos agir o mais rápido possível, mas temos que ser
extremamente cautelosos. ― Jake diz.
― Eles não podem descobrir que vamos agir, porque, se souberem,
podemos correr o risco de eles mudarem a Olivia de lugar. Outro fator é
que, como recebemos por áudio, não temos como saber quem mandou essa
localização. Pode ter sido a própria Olivia, como pode ter sido eles.
Estamos indo para uma armadilha. No entanto, não estamos com tempo pra
investigar isso a fundo.
― Nós nao conhecemos o lugar, ou seja, vamos entrar às cegas.
Estejam espertos. ― Jake finaliza.
O pequeno grupo de 6 policiais acenam com a cabeça, se dirigindo aos
blindados que estavam do lado de fora da casa. Luca espera todos saírem e
puxa Michelle para um abraço. Ela retribui e sussurra alguma coisa para
ele. Ele apenas concorda com a cabeça e deposita um beijo na testa dela
antes de ir.

OLIVIA
Eu estava no chão. Sem dúvidas, está sendo o pior dia desde que
cheguei. Não havia comida suficiente no meu estômago para eu vomitar,
mas a infecção estava tão avançada que eu estava botando pra fora todo o
suco gástrico. Meu corpo ardia em febre e eu não sabia nem distinguir
direito de onde a dor estava vindo. Quando eu cheguei aqui uns dias atrás,
meu corpo sucumbia ao cansaço e eu costumava sonhar e acordar de um
pesadelo; agora, a consciência e a inconsciência andam livremente entre os
pontos pretos que se formam na minha visão.
Era completamente escuro todos os dias. Hoje, a fraca luz branca
balançava ironicamente no teto. Olho então para Brett, seu rosto sem vida
me encarava. Ela estava morta, mas seus olhos ainda estavam abertos. Não
quis fechar, ela merecia encarar o que tinha feito. Ninguém veio buscar o
corpo dela, então, aparentemente, ela não era tão importante para Anthony
como ela achava que fosse. Me preocupo, pois aqui era abafado e bem
úmido, não vai demorar para esse corpo começar a feder.
Fico olhando para a garganta dilacerada de Brett e é impossível não
pensar no que acontecerá com o meu corpo quando eu finalmente morrer.
Eu estou tremendo de febre. Meu coração dói, não queria morrer sozinha
aqui.
Meu corpo estava inerte no chão e eu tenho certeza que o que
encostava na minha bochecha era xixi. Eu mal consigo me manter com os
olhos abertos. Minha boca tem gosto de sangue, talvez a infeção finalmente
consiga me matar. Eu não acho que eu dure até as próximas 24 horas.
Eu acho que a porta se abre, mas não tenho certeza. Eu fico alucinado
com o barulho dela se abrindo o tempo todo.
Reconheço a voz dele, mas estou tão mal que quase não consigo
distinguir o que ele fala de primeira. Então, um chute me vira no chão e ele
se agacha do meu lado. Parte de mim torcia para perder a consciência logo.
Estava cansada e machucada demais para querer tentar algo. Começo
duvidar se matar Brett tenha ajudado em algo para me acharem. O meu
corpo estava tão prejudicado que comecei a duvidar que, se me acharem,
me achariam com vida ainda.
― Fiquei muito surpreso com a sua travessura ontem. ― Ele afasta
meu cabelo grudado na testa devido ao meu suor. Eu sinto um toque
plástico e me dou conta que ele usava uma luva. Em seguida, segura meu
rosto com força, apertando a minha mandíbula. Começo a temer seus
próximos movimentos. Seguro o choro e tento colocar o desespero de lado,
preciso ser forte pelo menos uma última vez. ― Eu sei que você está com
medo, só foi treinada o bastante para não demonstrar. Mas Brett já
conseguiu te quebrar uma vez, lembra? ― ele chuta o corpo de Brett para o
lado. ― Vamos ver se eu consigo fazer isso mais rápido dessa vez. ― Ele
se levanta e eu permaneço inerte no chão.
― Até ontem, você parecia muito satisfeito, por quê? ― Nem
reconheço minha voz, era um gemido baixo e falho. Robert fica de pé e
tudo que vejo são suas botas caras no chão úmido.
― Ah, sabe que eu poderia te contar essa história? Você vai estar
morta em algumas horas mesmo. Aqui vai um segredinho: o dinheiro da
família Montserrat é tão sujo quanto o meu. Matteo Montserrat era
conselheiro do meu pai e comandava o principal canal de traficantes de
Madri. Matteo importava, o pai de Brett distribuía e o meu articulava a
máfia para tudo funcionar. Mas Matteo Montserrat teve uma filha, cortou
laços com a máfia e levou uma boa parte da fortuna consigo. A morte do
meu pai sem dúvidas colaborou pra isso. Por que você acha que Matteo
Montserrat tem tanto medo de morrer?
Eu mal consigo processar a informação. A dor é dilacerante, parece
que me corta ao meio. Eu não sabia de onde estava vindo, eu não lembrava
de quando havia começado a gritar. A consciência estava me deixando
quando ele para.
Percebi que ele tinha chutado a minha cabeça. Não tentei lutar mais,
não me mexi. Notei que meu rosto estava molhado, mas não sabia se eram
lágrimas ou sangue. Ele me chuta para o lado apenas para me fazer virar no
chão novamente.
Eu não passo de um pedaço de carne podre.
― Isso aqui é um presentinho pra você. ― Ele ri e eu sinto uma lâmina
cortar um de meus pulsos e, em seguida, o outro. Era um corte preciso e não
muito grande, logo em cima de uma artéria.
Meu corpo congela. O raciocínio lento devido à dor finalmente
processa a mensagem. O presente era a morte, ele iria me deixar sangrar até
morrer. Eu sinto angústia, mas uma onda de alívio em saber que meu
sofrimento estava acabando me atinge na mesma proporção. Ele vê o
entendimento alcançar o meu rosto, me olha uma última vez e deixa a sala.
As luzes se apagam.
CAPÍTULO 30
Luca

O local é longe e de difícil acesso. Estamos há mais de uma hora no


blindado. Optamos por ir de carro, um helicóptero iria chamar muita
atenção. A casa está no meio do nada e tem cerca de 10 quilômetros de
mato para todos os lados. Eu coloco meu capacete e é inevitável não
lembrar da Olivia, imaginando-a fazendo o mesmo na época em que
trabalhávamos juntos. Não há ninguém do lado de fora, mas posso ver
algumas câmeras de segurança. A porta está trancada, porém, é tão velha
que é facilmente quebrada quando a derrubamos.
Não demora e os tiros começam, quatro homens aparecem atirando. No
entanto, como estamos em um número maior, é fácil neutralizar. Eu seguro
pela roupa o primeiro deles que aparece na minha frente e uso meu
antebraço para pressioná-lo contra a parede.
― Onde está ela? ― Ele me olha com deboche e isso faz meu sangue
ferver.
Meu punho se choca contra seu rosto sem sequer dar tempo de
resposta. Meu gancho de direita volta com uma cotovelada. Acerto o nariz
dele e eu só fico satisfeito quando vejo o sangue pingar no chão.
Ele tira meu antebraço de sua garganta, tossindo, e tenta me derrubar.
Contudo, eu soco seu rosto mais algumas vezes e aproveito o espaço para
agarrar a gola de sua camisa. Uso isso para segurar seu rosto no lugar e
poder acertar meu joelho em seu queixo. Ele tenta lutar de volta e, mesmo
ele sendo muito forte, eu estava possesso de raiva. Seu braço se estica e
agarra meu colete, eu puxo seu pulso para cima com as duas mãos. Ele fica
de costas para mim, com o mesmo braço imobilizado para trás. Eu chuto o
joelho dele com força, fazendo-o se ajoelhar.
Eu vou esfolar esse filho da puta na porrada até ele abrir a boca.
― Cadê ela, caralho?! ― Ele permanece calado. ― Vai falar, não? ―
Eu quebro o braço dele e ele grita. ― Tem certeza? Eu tenho um fuzil aqui
e ele está louco para ser descarregado.
― A porta no chão na área de serviço. ― Ele esperneia, chorando.
― Eu deveria fazer uma chacina nesse lugar. ― Resmungo e entrego
ele para um outro policial.
Finalmente, próximo a um banheiro que fica na área de serviço, acho
um alçapão. Desço uma escada para o porão. Está escuro e abafado. Ligo a
lanterna presa ao meu uniforme e sigo para o subsolo. A essa altura, estou
berrando o nome da Olivia, desesperado por uma resposta.
― Luca, tem uma porta aqui. ― Jake diz.
É uma porta de metal muito pesada que está presa por uma corrente
grossa e um cadeado.
― Olivia? ― Grito enquanto tento abrir a porta, mas não escuto nada.
Jake já está com o alicate de corte em mãos. Demora um pouco, porque
a corrente que está trancando a porta é muito, muito grossa. Quando a porta
finalmente se abre, a primeira coisa que eu sinto é um cheiro extremamente
forte de urina e vômito. Tenho que prender a respiração para não vomitar.
Há um interruptor do lado de fora. Jake acende a luz e a cena que
forma na minha frente é a pior possível. Dou um passo para dentro do
cômodo e a primeira coisa que vejo é uma mulher com a garganta cortada e,
mais atrás dela, outro corpo.
― Não, não, não. ― Eu tomo o corpo inerte da minha amiga nos
braços. ― Não faça isso comigo, por favor. ― Coloco dois dedos na região
lateral do pescoço, tentando sentir sua pulsação, mas não sinto nada. Seu
rosto está todo inchado e sujo de sangue. O pescoço está completamente
ferido e a roupa está úmida, provavelmente do líquido que estava abaixo
dela.
Eu deposito o corpo dela no chão, fazendo massagem cardíaca.
― Você não vai morrer aqui, entendeu? Porque, se você morrer, eu não
vou aguentar. Você precisa voltar por mim, pela Michelle e pela Diana.
Minhas duas mãos sobem e descem na região do tórax, mas nada está
mudando. Eu até mesmo sinto uma costela se partir, mas não há sinal de
vida. O corpo da minha amiga continua inerte e algo se parte dentro de
mim. Os segundos parecem horas e eu quero gritar. Meu corpo queima e eu
estou suando.
― Luca, já chega. Ela já se foi, cara. ― Eu sinto a mão de Jake no meu
ombro.
― Não foi! ― Agressivamente, eu tiro sua mão. Jake não pode aceitar
isso tão facilmente. Olivia precisa voltar. ― Eu quero um helicóptero aqui
agora. ― Estou praticamente gritando com o rádio.
Nesse tipo de situação, somos treinados a não olhar para o rosto da
vítima. Agora, isso é tudo que eu não consigo não fazer. Minha melhor
amiga está nos meus braços sem a porra da vida dela. Seu rosto está
inchado e com muitos ferimentos. Sua boca está aberta e os olhos estáticos.
Eu tenho a certeza de que essa imagem jamais vai sair da minha cabeça.
― Tudo bem, vamos trocar. Você já está esgotado.
― De jeito nenhum.
E só aí eu consigo prestar atenção no local. Nós estamos ajoelhados
numa poça de sangue, claramente vindo de Olivia. Jake rasga um pedaço da
calça dela para tentar estancar o sangue e depois quebra as correntes que a
prendiam na parede. Olho em volta e vejo o outro corpo a poucos
centímetros de Olivia. É uma mulher, os olhos ainda estão abertos e sua
garganta cortada. Uma descarga elétrica percorre minha coluna quando a
reconheço.
― Quanto tempo para essa porra desse helicóptero chegar aqui?! ―
Pergunto no rádio.
― Sete minutos, tenente.
― Faça chegar em três, porra! ― Eu checo o pulso de Olivia. Sua
pulsação está fraca, mas ao menos há uma pulsação.
―Olivia, olha para mim. Você está segura, a gente te achou. ― Eu
pego o rosto dela com as mãos e, apesar do olho ligeiramente aberto, ela
não parece consciente.
Parece uma eternidade até os paramédicos entrarem no local.
― Feminino, 33 anos, inconsciente, pulsação fraca, ferimento de corte
na região dos dois pulsos, alérgica à morfina. Por favor, salve a vida dela.
― Declaro assim que os paramédicos se agacham próximo à Olivia.
― Ela não está estável e vai acabar tendo outra parada cardíaca no
caminho. Ela precisa de sangue o mais rápido possível. ― É a única coisa
que consigo distinguir dos paramédicos assim que eles passam apressados
com a maca. Eu tento ir no helicóptero, mas eles não permitem devido à
gravidade do caso.
Eu entrego a cena para Jake lidar com a burocracia e pego a primeira
viatura que aparece na minha frente.
Assim que finalmente consigo chegar ao hospital, Michelle já está na
sala de espera e corre até mim, me abraçando.
― Ela está viva? Tudo que sabemos é que ela chegou pelo heliporto e
não falaram nada para a gente. ― Ela chora.
― Eu não sei.
― Meu Deus, você se machucou?
Como eu iria contar que todo esse sangue na minha roupa era da
Olivia? Eu apenas nego com a cabeça. Diana e Katie aparecem também.
― Diana, preciso te contar uma coisa, é sobre Brett. Ela estava lá
também. Mas, quando eu cheguei, ela estava morta.
― Meu deus… ― É Katie que diz.
― Mas e Olivia, o quão ruim a situação é? ― Diana está séria.
― Muito. ― Respondo e isso só piora o choro de Michelle. A cena
que eu havia acabado de presenciar ainda estava fresca na minha memória.
Katie segura a mão de Diana.
― Como exatamente ela estava? ― A voz de Diana continua firme.
― Nós não precisamos falar disso agora.
― Sim, nós precisamos. Ela não é só a sua amiga, eu mereço o mínimo
de esclarecimento. ― Ela não altera o tom de voz, mas eu sinto a dor em
suas palavras.
― Ela estava desacordada, acorrentada à parede em um quarto num
subsolo. Estava deitada numa poça do próprio sangue. ― Tento não entrar
muito em detalhes como se o que eu tivesse falado já não fosse ruim o
suficiente.
Nós esperamos por horas. Michelle estava sentada do meu lado com a
cabeça encostada no meu ombro. Mais na frente, estava Diana sentada ao
lado de Katie, ambas tinham cara de choro. Diana parecia que tinha
desaparecido dentro de si mesma. Eu podia sentir o tanto que ela estava
sofrendo. Por um momento, fico feliz que a minha amiga tenha achado
alguém que a ame nessa intensidade.
O sangue, agora seco, ainda manchava a minha mão. Eu não conseguia
parar de reviver a cena da minha amiga parada na minha frente. Era tão
surreal que parecia uma memória distante, não de apenas algumas horas
atrás. Ficamos esperando e, para mim, estava impossível parar quieto. Eu
andava de um lado para o outro e sentia meu corpo gelar toda vez que
algum médico passava perto da gente. Tudo que eu queria era saber se ela
ainda estava viva.
Pelo jardim de inverno da sala de espera, dava pra ver que o dia já
estava praticamente claro. Parte de mim sente alívio, porque aquela noite
parecia eterna.
Diana é a primeira a ficar de pé assim que nota o médico vindo em
nossa direção.
― Bom dia, eu sou o cirurgião major Baker, responsável pelo caso da
paciente tenente Olivia Winston. Vocês são da família?
― Ex-colega de equipe, tenente Shay.
― Winston chegou para nós com uma perda muito grande de sangue e
múltiplos ferimentos, principalmente na região do rosto e do pescoço.
Passou por um procedimento de reparação de danos e ficará na UTI até o
seu organismo ter força suficiente para aguentar um procedimento mais
invasivo. Ela possui lesões de golpes na região abdominal e cabeça, isso
causou danos em alguns órgãos internos. Então, temos sinais de tortura
espalhados pelo corpo. Precisamos lidar com uma infecção de ferida aberta
na perna e com uma infecção urinária agressiva que se alastrou na bexiga,
útero e estava começando a atingir outros órgãos.
Eu já esperava por isso antes mesmo de achar Olivia, mas nada me
preparou pra realidade. O corpo da minha amiga completamente
machucado por dentro e por fora. Na hora, eu fiz o que precisava ser feito,
massagem cardíaca e socorro rápido, mas sei que ela estava agonizando há
dias.
― Então, ela ainda corre risco? ― É Katie quem pergunta.
― Ela está estável e sendo monitorada, mas infelizmente sim. Se a
infecção continuar avançando nesse nível, os órgãos podem começar a
falhar.
― Nós podemos vê-la? ― Diana toma coragem para falar.
― Apenas duas pessoas. Uma enfermeira virá buscar vocês.
Ele se despede e nós olhamos um para cara do outro.
― Eu gostaria de ir. ― Diana é a primeira a dizer.
― Eu vou junto. Tudo bem pra você, Luca? ― Michelle diz.
― Claro. ― Aceno com a cabeça.
CAPÍTULO 31
Diana

Eu estava segurando a mão de Olivia com muito cuidado, porque ela


estava entubada e com um monte de fios que ligavam aos monitores. Os
pulsos e as pontas dos dedos estavam enfaixados, assim como quase todas
as feridas abertas do corpo. As unhas arrancadas também estavam
infecionadas. A queimadura do seu pescoço estava em carne viva.
O quarto cor creme e o constante murmúrio dos aparelhos passaram a
fazer parte da minha rotina nos últimos dias. Estávamos há quase duas
semanas no hospital. Olivia passou por algumas cirurgias e só apresentou
melhora significativa depois de quase 10 dias. Ainda estava entubada, mas
o médico estava muito otimista e notificou que, se continuasse nesse ritmo,
eles iriam começar o processo de desmame da ventilação mecânica. Por
enquanto, ela ainda estava tirando sono de todo mundo.
Para mim, era extremamente difícil segurar o choro quando estava só
nós duas, porque eu me negava a acreditar que o amor da minha vida estava
naquela cama. Quando eu estava ali vendo com os meus próprios olhos o
quanto a realidade era amarga, ficava difícil conter o medo. A quantidade
agressiva de antibióticos e outros remédios estavam exigindo muito de seu
corpo. E eu sentia medo como nunca antes, aterrorizante e paralisante que
doía fisicamente.
Uma parte não muito racional minha se sentia culpada por tudo que
tinha acontecido com ela. Era para ser eu naquela sala fechada. Aquele
sangue no chão deveria ter sido meu.
O cativeiro em que Olivia estava também era onde eles mantinham
outras mulheres. Aparentemente, elas trabalhavam nas boates e, quando
desagradavam alguém, eram mandadas para lá como punição. Elas ficavam
ali até eles decidirem o que iriam fazer. Achar Olivia foi como abrir um
vespeiro. Para todo o lugar que olhamos, ficava ainda mais nojento.
Meu pai vem ignorando todas as minhas ligações e eu não posso
simplesmente pegar um jatinho e exigir respostas. Mas minhas últimas
noites em claro foram totalmente dedicadas a descobrir o passado do meu
pai. Eu paguei Miller muito bem por sinal para me fazer um documento
com tudo que ele encontrasse sobre o meu pai. Eu precisava me preparar
muito bem antes de realmente fazer o que precisava ser feito. Desde que
pegaram Olivia, eu decidi que isso não vai ficar barato para ninguém, nem
mesmo para ele.
O barulho de uma enfermeira entrando no quarto me tira dos meus
pensamentos. Ela me cumprimenta e começa a verificar os sinais vitais.
― A enfermeira responsável pela medicação vai passar daqui alguns
minutos. O horário de visitas está quase no fim. ― Ela diz baixo e deixa o
quarto. Infelizmente, não permitiam acompanhantes na UTI o tempo todo.
Levanto-me, dou um beijinho na testa de Olivia e deixo o quarto.
Michelle aguardava do lado de fora, nós duas havíamos ficado todo o tempo
permitido pelos médicos. Ela havia voltado a trabalhar e, hoje, Miller, o
chefe de segurança da minha casa em Madri, chegaria e traria mais uma
guarda-costas com ele. Porque Luca e Olivia voltariam para a polícia.

***
Nós voltamos para mansão. Michelle e eu nos aproximamos muito
nessas duas semanas e, aos poucos, fomos voltando à rotina. Ela se mostrou
uma excelente amiga e ficou fácil entender o porquê dela e Olivia serem tão
próximas, as duas têm o mesmo senso de humor.
― Miller está te esperando no seu escritório. Eu liberei para ele entrar
como você havia pedido. ― Ela me segue pela casa com um tablet na mão.
― Senhorita Montserrat, boa noite! ― Miller me cumprimenta com
um aperto de mão firme assim que entro no meu escritório.
― Boa noite, Miller. Fico contente que tenha conseguido chegar em
segurança. Fico mais feliz ainda por aceitar vir trabalhar comigo, sei que
mudar de país assim tão rápido não deve ter sido muito prático.
A transferência de Miller foi feita em tempo recorde. Assim que ele
terminou tudo o que eu pedi, ele veio direto para cá com a outra segurança.
Eu mesma providenciei que um de meus jatinhos os trouxessem o quanto
antes.
― Fique tranquila, não me causou imprevisto nenhum. Essa é a
Sandara, ela é completamente de confiança assim como pediu.
― É um prazer. ― Sandara dá um passo à frente. Ela tinha traços
coreanos e a minha altura. O cabelo preto estava preso pela metade e ela
usava um blazer azul claro.
― O prazer é todo meu. ― Aperto sua mão.
― Miller, eu não fazia ideia que você trabalhava para ela! ― Michelle
diz, quase eufórica. ― É um prazer revê-lo. ― Eles trocam um aperto de
mão rápido. ― Miller e eu trabalhamos juntos por um tempo para fazer a
segurança de uma jornalista importante há alguns anos atrás.
― Sim, mas eu acabei me mudando para a Espanha e acabou que, com
o tempo, perdemos o contato.
― Bom, acho que reuni antigos amigos então. Se me dão licença, eu
tenho uma reunião importante agora. Michelle, por favor, atualize os dois
sobre o novo sistema de segurança da casa e sobre a rotina. Depois disso, se
quiser ir, está liberada. Não vou precisar sair mais hoje. Katie
provavelmente deve estar chegando. Ela teve que fazer umas fotos para a
marca dela.
A reunião com Alencar seria para ele me colocar a par dos assuntos da
empresa nesse tempo que fiquei afastada. Está sendo uma merda tentar
voltar à rotina com a Olivia daquele jeito. Queria voltar para um mês atrás,
quando eu passava os finais de semana com a cabeça no meio das pernas
dela, e não morrendo de preocupação e com o coração disparado toda vez
que o celular toca.
Alencar começa a despejar todos os problemas que eu preciso resolver
e isso me lembra que eu tenho uma reunião marcada na manhã seguinte
com 4 meninas que já eram estagiárias da empresa.
Quando finalmente encerro o meu último compromisso do dia, ando
praticamente me arrastando até o quarto. A casa está completamente vazia e
silenciosa. Tento guardar na memória que preciso começar a olhar alguma
cobertura para comprar. Essa semana, coloquei na cabeça que queria me
mudar para um lugar menor, porém, com os mesmos luxos. De início, eu
estava relutante com a ideia, pois, quando se tem o status que eu tenho,
mudar para algum imóvel considerado inferior faz as pessoas começarem a
achar que você ficou pobre, o que é completamente ridículo, mas, ainda
assim, um julgamento muito comum. Os nove zeros na minha conta
bancária acharam isso uma piada.
Tomo um banho demorado e acabo pensando em Olivia. Mando
mensagem para o Luca, perguntando se ele tinha notícias sobre o caso, e
fico esperando sua resposta. Sequer consigo relaxar no banho, estou com a
cabeça a mil.
Peço comida de um restaurante que eu gosto e como no meu quarto
enquanto assisto jornal. Eu estou quase acabando o meu jantar quando
Katie entra no quarto.
― Cheguei, prima. ― Ela descarta os saltos num canto. ― Como você
está? Tem notícia da Olivia?
― Ela está se recuperando aos poucos. Os homens que foram presos
no cativeiro não entregaram muita coisa, mas Luca conseguiu convencê-los
a falar de um jeito bem violento, assim espero. ― Ela faz uma careta com o
meu comentário. ― Aparentemente, o chefe deles não está mais no país.
Todos os aeroportos foram notificados, mas é como tentar agarrar areia com
a mão aberta.
― E o que você acha disso tudo?
― Eu penso que, assim que Olivia acordar, eu vou pegar um jatinho e
vou fazer uma visita ao meu pai. Vou precisar me ausentar por um tempo.
― Eu vou com você, tenho uns assuntos pra resolver em Madri
também. ― Penso em explicar que não queria companhia, mas decido
cortar o assunto ali quando eu a vejo tirar alguns comprimidos da bolsa e
tomá-los com água na beira da cama.
― Há quanto tempo você vem tomando essas vitaminas? ― Ela segura
a garrafa com as duas mãos, pensativa.
Quase consigo ver seu cérebro preparando o discurso antes dela
respirar fundo e me responder.
― Então, eu sei que nós não tocamos nesse assunto há alguns anos e
eu prefiro que continue assim. Eu só vou falar porque eu sei que mentir só
vai fazer as coisas piorarem. ― Ela faz uma pausa e, antes mesmo de abrir
a boca, eu consigo decifrar o que ela está prestes a dizer, mas não
interrompo. ― Eu estou tomando desde que eu tive uma recaída com a
minha bulimia.
― Por que você não falou nada antes? ― Tiro a comida de cima do
meu colo e vou até ela.
― Eu ia, mas aí uma coisa começou a dar errado atrás da outra, a
Olivia foi sequestrada e aconteceu tudo tão rápido. Você está com a sua
ansiedade completamente fora de controle. A situação já estava, e está, ruim
o suficiente. Eu não queria piorar as coisas.
― Katie, você é como uma irmã para mim. Eu jamais deixaria você
passar por isso sozinha. Desde quando você está assim? ― Tomo muito
cuidado, porque eu sei que, se ela sentir qualquer sinal de julgamento na
minha voz, ela não vai querer falar sobre o assunto.
Katie, mesmo nunca sendo oficialmente diagnosticada na adolescência,
sempre teve uma relação nada saudável com comida. Minha tia foi a maior
contribuinte para isso acontecer. Com 24 anos, ela finalmente conseguiu um
diagnóstico. penas nós duas sabemos disso, Cassandra nem sonha com o
transtorno alimentar da filha. E, mesmo assim, é um assunto tabu para
Katie, ela evita com todas as forças falar sobre isso.
― Desde que eu tive alta do hospital. Não foi um mar de rosas ficar
com a minha mãe.
― Katie, mas isso faz quase 2 meses… ― Eu tinha notado que ela
estava mais magra, mas seu corpo parecia o mesmo. Não foi uma mudança
muito drástica, então eu realmente não me atentei a nada.
― Eu comecei a ter episódios muito frequentes de compulsão
alimentar e uma coisa levou a outra. Eu não abandonei o tratamento, okay?
Eu só não estou no meu melhor momento. ― Vejo que ela não quer
continuar no assunto e não forço a barra. Já foi um feito enorme ela me
procurar, então opto por tentar deixá-la o mais confortável possível.
Enquanto Katie toma banho, decido que ela irá dormir comigo hoje. Eu
jogo fora a embalagem da minha comida, escovo os dentes e tomo meus
remédios.
Acordo cedo no dia seguinte. Coloco uma saia lápis, uma blusa justa
de manga longa e adiciono algumas joias. Estava formal, mas minimamente
confortável. Deixo que Katie durma mais um pouco e me junto aos
seguranças que já estavam me aguardando na cozinha.
― A enfermeira da Olivia me mandou mensagem, diminuíram os
sedativos dela há algumas horas. Se tudo der certo, ela sai do tubo hoje
mesmo. ― Michelle praticamente pula da cadeira quando me vê.
― Meu Deus, eu não acredito! ― Eu abraço-a, quase chorando de
alívio. ― Minha Oli é tão forte. Eu sabia que ela ia sair dessa, só precisava
de um tempinho.
Sandara sorri e Miller puxa Michelle para um abraço também. Os três
deixam a cozinha em um murmurinho de conversa e vejo o quanto eles se
deram bem. Eu faço um café na máquina de expresso para mim e como
qualquer coisa que encontro na geladeira. Eu estava saindo exatamente no
horário que a senhora que cuida dos serviços da casa chega, então peço para
fazer um café da manhã para Katie e insistir que ela comesse.

***
Eu mesma escolho as estagiárias e encaminho as três que não pegaram
o cargo de secretária para o RH para um emprego fixo, porque sei que elas
trabalham muito bem. Depois de toda essa confusão com a Brett, eu
contratei alguém para checar a vida delas antes de fato assinar o contrato. A
minha mais nova secretária se chamava Ellie, uma mulher de 25 anos que
estava terminando de se formar na faculdade. Entreguei um cartão de
crédito para ela comprar algumas roupas formais para o dia a dia e separei o
resto da manhã para explicar exatamente como eu precisava que as coisas
fossem feitas.
Termino tudo o mais rápido que posso e vou para o hospital.
Encontramos Luca lá de roupas civis, indicando que ainda não havia
começado o seu turno. Ele abraça Michelle e dá um beijo rápido em sua
testa, uma demonstração de afeto que ficou comum mesmo quando eu
sentia que eles estavam brigados. Era uma forma carinhosa de demonstrar
que, mesmo não estando num momento bom da relação entre eles, ainda
estavam lá um pelo outro.
― Como está a situação entre vocês dois? ― Pergunto para Michelle
assim que nos despedimos dele e começamos a andar em direção aos
elevadores.
― Eu sinceramente não sei como dar nome ao que temos. Luca sempre
foi o meu amigo mais próximo, tanto ele quanto Olivia são o meu porto
seguro.
― Sim, imagino. ― Vejo que ela ajeita a gola de sua blusa social e o
terno que usava, como se tivesse pensando se entrava naquele assunto ou
não. Nunca havíamos falado de algo tão pessoal.
― Mas, quando tiramos Olivia da equação e só pensamos em nós dois,
a história é outra. Tudo é complicado demais. Eu não queria um filho e eu
chorava todas as noites desde o dia que descobri. Mas, depois que eu perdi,
eu me senti quebrada e culpada de uma forma irreparável. Eu não contei
para ele assim que eu descobri que eu estava grávida e ele acabou
descobrindo da pior forma. Mesmo não me abandonando nenhum segundo
depois, eu não sei como me sentir com isso tudo. Ele seria um pai
excelente, escondi dele justamente porque eu não queria o filho... Então eu
perdi e não consigo olhar para a cara do meu amigo sem me sentir mal.
― Eu realmente não sei o que dizer, mas saiba que, o que você
precisar, eu quero te ajudar. Luca te ama muito independente de vocês
serem só amigos ou não. Acho que vocês merecem sentar para conversar e
colocar os pingos nos i's.
― Sim, claro, você tem toda razão. Eu vou fazer isso.
― Se você quiser, eu posso arranjar alguma viagem para vocês e me
certificar de que no quarto do hotel só tenha uma cama.
― Você está lendo muito romance. ― Ela revira os olhos e eu acho
graça, pois isso meio que havia funcionado com a Olivia há alguns meses
atrás.
A conversa dura o tempo de chegarmos no andar até o leito da Olivia.
Nós duas entramos na UTI, Olivia ainda estava do mesmo jeito, com
exceção de que não estava mais entubada. Ainda assim, só de saber que em
breve ela acordaria era acalentador. Mas não dá para ignorar que, mesmo o
pior já tendo passado, nós não sabemos em que estado mental ela irá
acordar. Não sabemos o que ela passou com exatidão e como estava sua
cabeça.
― Eu só quero que a minha amiga fique bem logo. ― Michelle se
aproxima da cama, sentando-se um banco ali perto.
― Ela vai ficar. Agora que diminuíram os sedativos, ela vai melhorar.
― Uma vez, quando nós três saímos juntos, e, num dos devaneios
bêbados da Olivia, ela chamou a gente de meninas superpoderosas,
ignorando completamente o fato do Luca ser homem. Tudo isso porque nós
três lutamos contra o crime… Sendo que eu trabalho com segurança pessoal
desde sempre. Enfim, foi um delírio bêbado depois de muita tequila. O
apelido nos rendeu uma ótima fantasia de Halloween.
― Ela tem uma foto de vocês três usando tutu colorido na sala dela. ―
Lembro do nosso primeiro encontro. ― E como era sair com eles?
― Dos dois, o Luca é o mais safado. Olivia não fica para trás, mas ela
pelo menos tem o mínimo de juízo. Quando saíamos, eu tinha praticamente
que colocar uma coleira nos dois para eles não saírem por aí igual duas
cadelas no cio. ― Ela ri.
― Eu preciso concordar. Durante esse mês que nós saímos, se eu tinha
alguma dúvida, eu passei a ter certeza. Ela é muito séria, mas você dá um
pouquinho de liberdade e ela vira um monstro.
― Bom saber que a minha amiga finalmente sossegou com alguém. ―
Ela comenta.
― Nós não temos nada sério... Ainda.
― Claro que vocês têm algo sério. Pode não ter sido oficializado, mas,
se você fosse só um caso qualquer, não estaria há duas semanas sem sair do
lado dessa cama.
― Eu só não quero levantar essa questão agora. Talvez daqui a algum
tempo, quando ela estiver bem de novo. Ela não precisa de um drama
amoroso agora. Eu confio no que nós duas temos e isso é o suficiente para
mim. As coisas vão dar certo no próprio tempo. Por agora, eu só quero que
ela acorde.

***
Passamos o dia todo ali e conversamos muito. Michelle me contou que,
ao contrário de seus amigos que começaram na carreira militar, sempre
trabalhou com guarda-costas. Ela me mostrou vários vídeos fofinhos do seu
corgi caramelo quando era filhote e, em um deles, Olivia aparece brincando
com ele. Ela também contou que ela e Olivia se conheceram na academia
quando treinavam juntas. Depois disso, começaram a sair quase todo final
de semana e Olivia acabou apresentando Luca para ela.
Estávamos quase juntando as coisas para ir embora quando escutamos
um suspiro um pouco mais alto vindo de Olivia. Andamos até a cama de
novo. Ela abria e fechava o olho devagar, olhando para todos os lados.
― Oi, meu amor. ― Seguro a mão dela. Os dedos se movem, quase
fechando a mão contra a minha, mas parece ser esforço demais e ela para.
Michelle chama a enfermeira. Não demora e tem uma pequena equipe
no quarto. Olivia estava confusa e parecia alheia às perguntas que faziam.
O rosto dela não estava mais tão inchado, mas ainda assim possuía
muitos hematomas. Seu globo ocular tinha uma mancha grande de sangue.
Leva um tempo para se situar, mas gradualmente ela vai respondendo às
perguntas do médico e sendo examinada. Uma enfermeira oferece um copo
de água com um canudo e eu noto o momento em que ela arregala os olhos,
como se tivesse ganhando um tapa na cara.
Eu vi ali o momento que ela acordou de verdade, se lembrando do que
havia acontecido. Seu rosto ganha uma expressão dolorida e, com muito
custo, ela encosta as pontas dos dedos no curativo do pescoço. Os aparelhos
se alteram, mas aceita a água, ainda desconfiada. Demora um pouco até
todos os médicos e enfermeiros deixarem o quarto.
― Como você está? ― Michelle apoia a mão na cama da Olivia.
― Cansada e com um pouco de dor. ― Sua voz estava bem rouca e
fraca, ainda meio grogue dos remédios. Ficar acordada parecia um esforço
bem grande. Nós respeitamos seu tempo.
O horário extra que os médicos nos cederam já estava quase no fim.
Mando mensagem para Katie, contando a novidade. Michelle deixa o
quarto, avisando que iria ligar para o Luca.
Ficamos a sós. Ela estava apenas esperando Michelle deixar o quarto
para chorar. Algo baixo e contido, mas que era o suficiente para encharcar
suas bochechas. Eu seguro a mão dela, algo tímido, sem saber se ela queria
ou não. Seus dedos se fecham contra os meus e eu permaneço ali.
CAPÍTULO 32
Olivia

Eu estava de olhos abertos. Era dia, porém, não dava para saber muito
bem o horário. Eu estava aliviada por ter luzes acesas.
― Bom dia. ― Escuto uma voz tranquila, mas isso não impede que eu
leve um susto. ― Está tudo bem. Você está segura. ― A mulher tenta me
manter na cama. A questão é que uma parte gritava para eu sair correndo e
a outra estava devagar demais para formar qualquer pensamento racional.
Eu tento me sentar e a minha visão escurece rápido. Eu estou
debruçada sobre os braços da enfermeira e eu podia sentir meu coração
bater na garganta. As memórias voltando mais rápido do que eu conseguia
acompanhar.
― Calma, garota. ― O braço dela sobe e desce pelas minhas costas. ―
Respira. Não precisamos testar esse coração agora. Você saiu. Te acharam.
Você está segura. ― Ela basicamente precisa sustentar todo meu peso para
conseguir me deitar de volta. Eu havia sonhado que estava no cativeiro
novamente. Parecia tão real por um segundo. Meu corpo estava fraco
demais, mas, em compensação, minha cabeça estava um turbilhão. ― Vou
deixar o médico saber que você acordou. Ontem, você ainda estava muito
grogue dos remédios.
Eu não tinha força pra falar. Eu não iria chorar, não agora. Relaxo na
cama, deixando o peso do meu corpo vencer. Ela sobe um pouco a parte de
cima para que não fique inteira na horizontal e me deixa sozinha por alguns
minutos. O leito era claro e as paredes da UTI tinham tons de azul. Tinha
tanto fio colado em mim que eu não sabia o que fazer com o meu corpo.
Quando o médico chega, eu assusto já que não tinha visto ele aparecer no
meu leito.
― Bom dia. Eu sou major Baker, o médico responsável pelo seu caso.
Você sofreu um grande trauma. Como está se sentindo?
― Com sede. ― Minha voz quase não sai de tão rouca.
― Isso é normal. Você deu muito trabalho para todo mundo, mas fico
feliz que esteja acordada. Nas próximas horas, você irá sentir um pouco
mais de dor do que ontem. Mas precisamos que os efeitos dos sedativos
passem por completo para poder te examinarmos melhor, ainda assim
vamos manter uma quantidade mais leve na medicação para dor. Vamos
segurar você mais uns dias aqui na UTI para ter certeza que a sua infecção
não volte.
Ele termina de me examinar, responde minhas perguntas e rapidamente
deixa o quarto.

***
Eu levo muitas horas para conseguir levantar a cabeça sem parecer que
eu tinha bebido toda a vodca da Rússia e, quando consigo, desisto na
mesma hora, porque sinto uma pontada de dor no pescoço. Imediatamente,
eu lembro do reflexo da chama no teto e da minha pele sendo queimada.
Meu pescoço doía, era como se estivesse sendo queimada novamente. Uma
enfermeira percebe meu desconforto e me ajuda, aumentando a medicação e
ajustando a posição da cama. Leva um tempo até que eu consiga me
acalmar de novo, mas vejo que ela espera pacientemente do meu lado.
Levanto a coberta e a cena que vejo é minha perna com um curativo grande
e fraldas. Era trabalho demais lidar com o estado do meu corpo agora.
As memórias dos dias anteriores iam voltando com mais nitidez. A
última coisa que tenho lembrança é apenas de ter sido deixada sozinha;
depois disso, é tudo confuso como se fosse um espaço inexistente no tempo.
Então, tudo que eu sinto agora é que, a qualquer momento, eu iria acordar e
estaria sentada naquele chão imundo novamente e que, cedo ou tarde, me
empurrariam para dentro da água.
Eu havia acabado de tomar café da manhã, uma comida pastosa que eu
jamais admitiria que achei uma delícia. Alguém se aproxima do leito. Luca
estava usando o uniforme da S.W.A.T.: calça, coturno e uma camiseta
simples com a logo nos ombros e nas costas. Além disso, ele estava com a
barba completamente raspada e o cabelo em um corte baixo típico no
militarismo.
―Olha só, a bela adormecida resolveu finalmente acordar. ― Ele toca
minha panturrilha. ― Como você está?
― Usando fraldas, com dor e de mau humor… ― Minha voz estava
péssima. As últimas semanas gritando de dor naquele inferno e o tempo
entubada ficavam bem aparentes toda vez que eu tentava falar. Doía e eu
precisava me esforçar muito, era cansativo.
― A fralda é só um charme, Oli. Daqui a uns dias, você vai tá forte o
suficiente para levantar. ― Ele dá dois tapinhas na minha perna. ― Eu
estive aqui ontem à noite, mas, quando consegui chegar, você já estava
dormindo novamente. ― Ele puxa um banquinho, se sentando. ― Como
seu amigo, eu quero te dar espaço; como seu colega de trabalho que
precisou te tirar de dentro de um cativeiro, eu quero esfolar a fuça de quem
fez isso… Então, eu preciso que você comece a falar.
― Tudo bem, eu entendo. ― Passo a mão no rosto como quem está
prestes a fazer um dever de casa insuportável. ― Comece a mover uma
investigação na família Montserrat. Começa pelo pai da Diana.
― Tem certeza disso? Pois vocês duas tem algo…
― Justamente por isso. Um pouco antes de apagar, Robert Moore me
disse muita coisa sobre o passado do pai de Diana. E também tem a questão
do pai da Brett, ela estava tentando se vingar da Diana esse tempo todo. ―
Minha voz falha no final e Luca me entrega uma garrafa com água que
estava perto dele.
― O que mais você sabe? ― Ele parece preocupado, mas continua
com as perguntas.
― Matteo Montserrant começou a sua fortuna por causa do tráfico. Ele
era rico já antes disso, precisamos lembrar que os Montserrat são uma
família rica há séculos, mas a ganância dele fez com que ele se envolvesse
com o tráfico. Isso com certeza deve ter elevado a sua fortuna a outro nível.
Mas, anos depois, ele tentou cortar laços, porque a Diana nasceu.
― Entendi. Eu vou atrás disso. ― Ele passa as mãos pela cabeça e
anda um pouco em volta da cama. ― Foi você que matou a Brett, não foi?
― Sua voz é receosa, mas, ainda assim, ele me olha nos olhos, esperando
uma resposta. A imagem do corpo daquela mulher na minha frente
preenche a minha visão e tento não me deixar levar por esse sentimento.
― Eu não tive escolha.
― Não vou tocar no assunto, mas nós vamos ter que falar sobre isso
em algum momento.
― Vocês prenderam um cara alto, cabelo trançado, porte de atleta…
― Não tinha ninguém assim na casa. Por quê?
― Ele foi preso no dia do atentado contra a Diana, mas foi solto
rapidamente depois. Descobre o nome dele para mim.
― Por quê? ― O semblante de Luca era de preocupação.
― Acredito que ele está tão disposto a foder com Robert Moore quanto
a gente. Imagino que, se você achar ele, não vai ser muito complicado fazer
ele falar e eu sei que ele sabe muito.
― Eu vou atrás disso assim que chegar no trabalho. Eu volto mais
tarde. As suas duas fiéis escudeiras chegarão para ficar com você. ― Ele
me dá um beijo da bochecha e um soquinho no braço. ― Fica bem, tá?
Descansa. ― Com isso, ele se despede e volta para o trabalho.
Eu durmo quase imediatamente depois que ele deixa o quarto.
O resto do dia passa muito rápido. Eu dormi a maior parte do tempo, só
acordava devido às enfermeiras mexendo comigo. Fiz diversos exames para
saber como eu estava me recuperando da infecção. Eu ainda estava
completamente cega de um dos olhos devido ao vaso sanguíneo que havia
se rompido.
Diana e Michelle ficaram comigo o tempo todo. E, no final do dia, elas
até fazem uma força tarefa para desembaraçar o meu cabelo, serviço esse
que levou mais de uma hora para terminar. Depois, Diana faz uma trança.
Eu estava exausta, mas, como eu ainda não conseguia ficar de pé para tomar
banho apropriadamente, foi revigorante.
Quando elas foram embora e não tinha ninguém para me impedir de
ser engolida pelos meus pensamentos, eu fui pega por eles. De mansinho, a
realidade foi se misturando ao pânico até se transformar em uma mistura
homogênea. Podia sentir água na garganta, no meu nariz, preenchendo cada
espaço por dentro e por fora, até mesmo dentro dos meus ouvidos. Começo
a tossir para expulsar a água como se adiantasse algo. Mãos me seguram,
me empurrando mais fundo e eu me contorço. Eu não conseguia gritar,
tinha muita água. Eu estou me afogando de novo.
― Você não está se afogando. ― Duas mãos seguram meu rosto. ―
Me escuta, você não está se afogando. Segura a minha mão. Estou aqui
agora na sua frente. ― A voz da Diana me traz de volta. Eu tossia tanto que
meus pulmões doíam. Viro o rosto para o lado, tentando respirar. ― Vamos
puxa o ar pelo nariz e solta pela boca devagar. Eu estou aqui com você,
ninguém vai te machucar. A gente só vai levantar quando você estiver
pronta.
Tento acompanhar o que ela diz para fazer. Ela segura a minha mão e
eu me agarro nela, sentindo o pânico e a dor varrer as minhas entranhas. As
lágrimas cegam a minha visão.
― Eu não consigo...― Tento dizer entre um soluço e outro. Nós duas
estávamos no chão, a menos de um metro da cama. Claro que a minha
tentativa de levantar não me levaria muito longe.
― Consegue, eu estou aqui com você. Eu te amo muito e não vou
deixar você sozinha. ― Descanso a cabeça no ombro dela e ela me abraça.
Eu me permito chorar por tudo que aconteceu e por toda dor que eu senti e
estava sentindo.
― Tá tudo bem chorar. Você vai ficar bem. Eu prometo que você vai
melhorar. ― Ela beija o topo da minha cabeça. Algumas enfermeiras que já
estavam na UTI me pegam no colo e me colocam na cama. Ela passa a mão
no meu cabelo, tentando me acalmar. ― Eu vou ficar aqui com você até
você conseguir dormir.
As enfermeiras voltam a colocar os eletrodos em mim e limpam o
sangue do meu braço, porque eu havia arrancado o catéter da medicação
quando tentei sair correndo.
Diana se senta na beira da cama e eu encosto a cabeça no peito dela.
Tento me concentrar na respiração dela e em como era gostoso sentir ela tão
perto. Ela faz carinho no meu cabelo e fica ali um bom tempo, mesmo
levando bastante tempo para eu conseguir pegar no sono novamente. Uma
enfermeira logo coloca um catéter novo e alguma medicação é
administrada. Eu realmente esperava que fosse algo que me fizesse apagar,
a ideia de estar consciente agora era agoniante. Quando eu menos esperava,
eu sentia um arrepio na espinha e me via naquele inferno novamente. Levou
um tempo para eu começar a me acalmar de fato. Fechei o olho e me
concentrei na respiração da Diana e no toque delicado dos dedos dela no
meu ombro.
CAPÍTULO 33
Olivia

Dizer que eu estava me sentindo mal era puro eufemismo. Eu poderia


culpar a quantidade absurda de corticoide que está deixando meu humor um
lixo ou que o remédio que eles estão me dando no lugar da morfina está me
deixando muito inchada. No entanto, eu sabia que eu estava me sentindo
mal, porque fui torturada.
Um abuso físico tão grande e violento que, nessa cama de hospital e
encarando o que haviam feito com o meu corpo, eu tinha certeza que não
iria me recuperar. Eu tinha certeza que eu não iria me recuperar toda vez
que alguém chegava perto e todo meu corpo se contraía de receio. Eu tinha
certeza que eu não iria me recuperar quando acordava de madrugada com
39 graus de febre. Tinha certeza que eu não iria me recuperar toda vez que
eu chorava de dor.
As enfermeiras me limpam da melhor forma que podiam, até mesmo
Diana ajudou. Mas, mesmo assim, eu me sentia suja. Eu ainda podia sentir
o sangue quente da Brett no meu rosto toda vez que eu fechava os olhos por
tempo demais.
Ela não era a primeira pessoa que eu tirava a vida. Eu sou a porra de
uma sniper. Eu já atirei na cabeça de trinta e três pessoas. Eu sou conhecida
por não errar. Eu sou a mulher que chamam quando tem uma pessoa
apontando a arma para cabeça de um inocente, sou eu quem faço o primeiro
disparo. Eu já salvei mais vidas do que tirei, mas então por que eu sinto
remorso agora que foi pra me salvar?
O barulho da Diana mudando de posição na cadeira me tira dos
pensamentos. Ela estava sentada próximo da cama. Usava um tênis branco e
uma calça de alfaiataria marrom, que combinava com a blusa de manga
longa bege e com toda aquela pose de mulher rica. Ela chegou com o cabelo
escovado, mas já estava há tanto tempo aqui que tinha passado a usar o
coque baixo na cabeça. Ficou bonito, deu um ar sexy por causa dos fios
soltos que haviam escapado do penteado e estavam decorando seu pescoço.
― O que você está lendo? ― Pergunto.
― Um romance. Uma líder de torcida que se apaixona por uma
jogadora de basquete.
― Vindo de você, eu esperava algo envolvendo alguma capa brega
com algum homem rico e sem camisa. ― Lembro dos livros que ela lia
quando íamos pro meu apartamento.
― Às vezes, a amazon lembra que eu sou lésbica e me recomenda
livros fofinhos com duas mulheres. Uma delas tem um risquinho na
sobrancelha igual ao seu. ― Ela sorri e cora.
― Está me procurando nos livros Montserrat? ― Ela revira os olhos e
se aproxima.
― Talvez. ― Ela coloca a mão no meu rosto, seu toque era quentinho
e confortável. ― Eu senti a sua falta. ― Eu sabia ao que ela se referia.
Desde que acordei, eu não havia parado para conversar com ela. A maior
parte do tempo eu estava dormindo ou com dor demais pra formar um
raciocínio.
― Eu também. ― Seguro a mão dela com a minha que estava boa. ―
Muita mesmo.
― Eu tive tanto medo de te perder. ― Ela diz baixinho e aquilo mexe
comigo. Movo minha mão até sua bochecha e ela chega mais perto do meu
rosto.
Começa com um selinho tímido e vejo que ela hesita um pouco por
medo de me machucar. Mas, no segundo seguinte, ela mesmo junta nossas
bocas em um beijo demorado e carinhoso. Ela chupa meus lábios e, depois,
volta sua língua junto à minha. Quando eu achei que ela iria se afastar, ela
se senta na borda da cama.
― Às vezes, eu sinto que a gente esqueceu de pedir uma à outra em
namoro e simplesmente namora. ― Eu fico meio tensa ao notar o que sai da
minha boca, mas, assim que olho para os olhos brilhantes da Diana, eu sinto
que é um território seguro para pisar.
― É que eu tinha em mente algo especial, te levar pra andar de
helicóptero só nós duas e tudo mais. Mas aconteceu uma coisa em cima da
outra e, depois de tudo, eu quis esperar você melhorar pra tocar no assunto
e te dar espaço. Eu nunca precisei de um título pra estar aqui por você,
sabe? ― Eu sinto sinceridade em cada palavra que ela diz e meu coração
fica tão quentinho. Eu sempre achei que, quando esse momento chegasse,
eu ficaria eufórica, mas tudo que eu sinto é paz, como se algo tivesse se
encaixado em seu devido lugar.
― Diana Montserrat, pessoa com os peitos mais lindos que já tive o
prazer de colocar a minha cara, você aceitar ser a minha namoradinha?
― Eu aceito, Olivia Winston, vulgo bunda mais bonita que eu já tive o
prazer de apertar. ― Ela ri e me dá um beijão.
Ficamos ali por um tempo, apenas curtindo uma à outra. Era tão
íntimo. Me dei conta que eu estava precisando dela mais do que imaginava,
Diana era um sol quentinho na manhã gelada que a minha vida havia se
tornado.

***
Durante essa semana, eu havia passado por uma cirurgia de raspagem e
aplicação de matriz dérmica no pescoço por causa da queimadura. Eram de
segundo e terceiro grau. O ferimento ia da minha garganta até atrás da
minha orelha direita, pegando uma parte da nuca. Essa infecção precisava
passar para eles conseguirem fazer qualquer tipo de enxerto na minha pele.
Minha visão já havia normalizado, minhas unhas estavam começando a
crescer de volta e meus pontos da perna estavam praticamente cicatrizados.
Algumas das minhas costelas haviam trincado, mas a minha hemorragia
interna se deu aos golpes levados. Olho para os meus braços. O corte que
Robert fez foi muito preciso, tinham o tamanho e a profundidade
necessários para me matar, sem contar que meus pulsos estavam feridos por
conta das algemas. Então, eu evitava me mexer, porque era doloroso demais
fazer qualquer coisa.
A única notícia boa é que hoje mesmo eu seria transferida da UTI pro
quarto. No finalzinho da tarde, o médico assinaria a alta.
Depois do meu pequeno surto, eu passei a ter visitas diárias de uma
psicóloga e é quase impossível ter o que contar quando se passa 24h deitada
na cama. Ela tocou no assunto poucas vezes, mas eu realmente não
conseguia de jeito nenhum colocar para fora o turbilhão de pensamentos
que rondavam a minha cabeça. Eu havia me olhado no espelho só uma vez,
porque queria ver o meu pescoço, mas o meu próprio reflexo havia se
tornado um fantasma que eu não me via pronta para encarar.
Toda manhã, Diana faltava entrar no quarto segurando pompons de
apoio moral e isso fazia toda a diferença, mesmo nos dias que eu não queria
nem levantar a cabeça. Ela pergunta se eu quero ajuda com o meu cabelo e
deposita algumas coisas no pequeno sofá ao lado da cama. A essa altura,
não havia shampoo seco que resolvesse o caos do meu cabelo. Passo a mão
na minha nuca, sentindo a parte do meu cabelo havia sido raspado por causa
da queimadura.
― Quando formos pro quarto, vamos perguntar pro médico se pode te
dar banho num chuveiro. Você vai ver vai se sentir muito melhor, nem que
seja só do ombro pra baixo. Depois a gente dá um jeito de lavar o seu
cabelo. ― Ela falava enquanto catava o lixo que havia sobrado do meu
almoço na mesinha próximo a mim. Ela estava certa, banho no leito
realmente não ajudava ninguém a se sentir realmente limpo.
Miller aparece na porta do quarto. Diana havia falado dos novos
guarda-costas dela e eu tinha pedido encarecidamente para Luca investigar
a vida pregressa de cada um, mesmo sabendo que a Diana já tinha feito
isso. Miller sempre trabalhou com segurança privada e Sandara foi tenente
na inteligência da aeronáutica. Miller era o chefe de segurança da casa da
Diana em Madri e sei que ele particularmente fez a segurança da mãe dela
por muito tempo.
Diana se despede, me dando um selinho, e vai para o trabalho. No
meio da tarde, Luca aparece com roupas civis. Eu olho ele dos pés à cabeça
e me deparo com algo verde escuro em seu pulso, como uma cordinha.
― Eu estou internada, mas eu não estou morta, Luca. Desembucha. ―
Aponto para o braço dele.
― Do que você está falando? ― Ele cruza os braços na frente do
corpo.
― Eu já vi a Michelle só de lingerie mais vezes do que eu já vi a
Diana. Eu conheço essa cordinha de sutiã.
― Você é muito perspicaz. ― Ele faz uma cara de falsa indignação.
― Você acha que eu não vou saber a cor do sutiã preferido da
Michelle? Eu que dei de presente. ― Eu me ajeito na cama e tento disfarçar
a minha expressão de dor, não queria que ele interrompesse o assunto
perguntando sobre mim.
― Ela deixou lá em casa, achei que combinava com o meu relógio.
― O que ela está usando seu?
Aqui vai uma coisa sobre os fetiches do Luca: quando ele arranja uma
submissa, ele usa uma cordinha de sutiã enrolada no pulso e ela usa um
relógio preto muito específico.
― Eu não vou te falar. Você vai ter que descobrir sozinha.
― Eu tenho tantas perguntas. Senta aqui. ― Aponto para o banquinho
perto da minha cama. ― Como você conseguiu convencer a pessoa mais
sistemática que a gente conhece?
― Eu tenho um ótimo argumento. ― Ele aponta para a calça.
― A gente sabe que não. ― Não ia perder a oportunidade de zoar com
a cara dele.
― Larga de ser mentirosa. ― Ele ri.
― Vamos, Luca, fora a Diana, essa é a coisa mais interessante que me
aconteceu nessas últimas semanas. ― Apelo à pressão psicológica. ― Mas
tudo bem, só quero te lembrar que ela é a minha melhor amiga. Em algum
momento, eu vou saber até a palavra de segurança de vocês. Mulheres
conversam, Luca.
― Ela está usando o relógio. ― Ele se dá por vencido. ― Mas nós não
fazemos nada muito pesado.
― Que bonitinho. ― Aperto a bochecha dele como se eu fosse uma
tia. Ele revira os olhos e tira um tablet da mochila.
― Eu fiz o que você pediu. Não tive tempo de tocar no assunto antes,
porque precisava correr atrás de uma burocracia. ― A foto na minha frente
provoca uma sensação de receio, mas ignoro.
― Ramon Walker Montserrat. ― Ele começa a falar e passa para a
próxima página do documento, abrindo a ficha policial. ― Filho de Matteo
Montserrat e Jenna Walker.
― Então...
― Sim, Matteo Montserrat tem um filho fora do casamento. ― Eu mal
tenho a chance de processar a informação quando Luca continua. ― Ele é 8
anos mais novo que Diana.
― Ela sabe disso?
― Imagino que não.
― Você vai trazer ele aqui. Eu preciso conversar.
― Enlouqueceu?
― Não. Eu sei que é o certo a se fazer. ― Eu olho a ficha criminal.
Fora as acusações que eu já imaginava que tinha lá, ainda possuía tráfico de
drogas e homicídio na lista. Nada que me surpreendesse de fato.
― Eu vou fazer isso, mas só depois que você sair da UTI e estiver um
pouco melhor. Pode ser? Você precisa dar tempo pro seu corpo se curar.

***
No final da tarde, eu fui transferida para o quarto. Eu nunca imaginei
que descer 2 andares de elevador e seguir por um corredor imenso seria um
sacrifício tão grande. Por um momento, eu tive certeza que iria desmaiar
quando me tiraram de cima da cama. Mesmo estando de cadeira de rodas,
meu corpo relutou muito e foi exaustivo. E essa não foi a pior parte. Me
colocar de volta na cama foi ainda pior. Eu sou muito alta e,
consequentemente, eu sou pesada. Então, quando os dois enfermeiros me
pegaram no colo para me deitar na cama, foi demais.
Eu expulsei todo mundo de dentro do quarto antes de me permitir
surtar. Eu chorei muito, de dor e porque lembrei dos homens me segurando
para Robert me bater. Eu estava envergonhada, mas era tão complicado
entender que eu estava segura que chegava a ser patético.
― Posso entrar? ― Luca coloca a cabeça para dentro do quarto quase
uma hora depois. Eu ainda estava chorando e, por mais que eu não o
quisesse ali, eu sabia que não tinha escolha, pois ele entraria no quarto de
qualquer jeito. Então, apenas aceno com a mão e ele se senta perto da cama.
Ele entrega um monte de papel toalha para eu limpar meu nariz. ― Quer
conversar?
― Não tem o que conversar. ― Eu viraria de lado e cobriria a minha
cabeça com a coberta se isso não fosse me dar vontade de gritar de dor. Ao
invés disso, aceito o lenço, limpo o nariz e entrego de volta pra ele jogar
fora. ― Teria sido mais humano se eles tivessem me matado de uma vez.
― Não fala assim, você tem uma vida toda pela frente e pessoas que te
amam. Isso… ― Ele gesticula pro quarto. ― Foi só uma parte, só um
detalhe de uma vida inteira.
― Por favor, sem discursos otimistas. Hoje não. ― Enxugo minhas
lágrimas com as mãos.
― Te achar foi o momento mais assustador da minha vida. Naqueles
poucos minutos que eu fazia massagem cardíaca e você não voltava, foi
desesperador. Os dias que se passaram e eu tive que assistir você ligada a
aparelhos sem nenhuma melhora foram tão ruins quanto. Eu passei dias sem
dormir. Toda vez que o meu celular tocava, eu atendia com medo de ser
uma ligação da Diana falando que você não tinha resistido. ― Eu faço
menção de falar, mas ele levanta a mão e eu deixo que ele fale. ― A
Michelle chorava todos os dias de noite, porque o tempo passava e você
simplesmente não melhorava. Foram 18 dias com você entubada, foram 18
dias que eu precisei segurar a barra da Michelle, porque ela estava prestes a
surtar. O que eu estou dizendo, Olivia, é que você é amada. Pra gente, nada
disso importa, as cicatrizes, o que você precisou fazer pra sobreviver. Nós
vamos te ajudar a passar por isso porque nós te amamos.
Quando ele termina de falar, eu estou chorando tanto que eu sinto a
minha queimadura doer. Eu estico os braços e ele me dá um abraço. Ele
encosta o queixo no topo da minha cabeça com muito cuidado para não
encostar em nenhum machucado.
― Eu te trouxe um celular novo já que destruíram o antigo. Assim,
você vai ter o que se ocupar. Eu passei na sua casa e fiz uma bolsa com
coisas que eu achei que você fosse precisar, mas, qualquer coisa, você avisa
e eu busco.
― Valeu, Luca.
Ele olha pro quarto meio perdido e, por um momento, eu acho que ele
vai falar algo, mas parece mudar de ideia. Ele levanta e começa a ajeitar as
coisas dele num canto.
― Eu e Diana estamos namorando. ― Quebro o silêncio.
― Eu fico feliz pelas duas. Dá pra ver que vocês se amam muito. Ela
te ama muito. Ela estava aqui o tempo todo desde o momento em que você
sumiu e todos os outros dias. É verdade, eu fico muito feliz que você tenha
encontrado alguém assim.
― Basicamente está sendo a única parte boa na minha vida.
― Quer dizer que eu oficialmente perdi a minha parceira de ménage?
― Ele abre o sorriso brincalhão e pergunta enquanto tira um casaco da
mochila.
― Perdeu sim. ― Sorri de volta. ― Mas você não pode reclamar, você
tem a Michelle.
― É, você tem razão. Se ela quiser, acho que não irei me opor. ― Ele
me olha com certo receio, como se esperasse que eu fosse rir da cara dele.
― Mas apenas se ela quiser também. Eu estou mais do que feliz só com ela.
― Sério?
― Ah, mas, se ela pedir, é diferente. Eu vou estar fazendo algo pra
agradar ela, sabe? Aí sim faria feliz e contente. Mas pra iniciativa partir de
mim? Não mesmo, ela é só minha.
― Mas como aconteceu?
― Nós ficamos muito tempo juntos e, com tudo acontecendo, ela
estava passando um tempo lá em casa, com o cachorro e tudo.
― Ah, então é namoro ou vocês só estão se divertindo com chicotes,
vibradores, algemas?
― Tudo começou quando, em um belo dia, ela estava mexendo no
armário, procurando munição, confundiu uma mala de couro pela outra e
achou a que eu guardava as coisas. Levou uns dias pra ela processar a ideia,
mas então, pra minha surpresa, eu cheguei do trabalho e ela estava lá com a
bolsa em cima da cama. Aí uma coisa levou a outra.
― Aí, eu queria estar lá pra ver a cara dela quando ela achou a bolsa.
― Ela tentou me bater com uma dragon tail, Olivia! Só porque eu ri da
cara que ela fez.
― Bem feito. ― Busco um jeito de tocar no assunto sem parecer que
estou me intrometendo. ― Você e Michelle se acertaram mesmo? ― Ele
sabia exatamente ao que eu me referia
― Em partes. Eu tenho medo de tocar no assunto, porque nós vamos
brigar se eu fizer isso. E esse tempo que a gente deu, essa trégua silenciosa,
por enquanto basta. Mas eu sei que, em algum momento, nós vamos ter que
sentar pra conversar direito e esclarecer as coisas.
― Eu espero que vocês se acertem.
― Eu também, Olivinha. ― Ele olha pra cima como se infinitas coisas
se passassem em sua cabeça e talvez esteja mesmo. Eu sei que Luca se
importa muito com a Michelle, mas eu sei bem que ele está filtrando a
informação, porque não se sente confortável em compartilhar ainda.
Eu respeito e acabo não tocando mais no assunto. Faço uma nota
mental de que preciso conversar com Michelle para saber como estão as
coisas para o lado dela da história, uma vez que sinto que ela se abre mais
comigo do que com o Luca. Só queria que os dois ficassem bem
independente do que decidam fazer daqui pra frente.
CAPÍTULO 34
Diana

A luz do meu notebook brilhava no escuro da sala da presidência. Se


não fossem por Miller e Sandara do lado de fora da minha sala, acho que eu
seria a última pessoa ali. Encaro todas as pastas com documentos que os
dois haviam juntado pra mim. Eu já havia lido cada um deles ao decorrer da
noite e o gosto da verdade era tão amargo quanto o uísque que descia pela
minha garganta.
Troco o gelo do meu copo e o preencho mais uma vez o líquido
alaranjado. Bebo tudo de uma vez, descartando o copo na bancada depois.
Minha resistência ao álcool parecia rir da minha cara, metade da garrafa e
eu ainda podia sentir meu cérebro torrar com as informações lidas horas
atrás.
Meu pai era conselheiro do pai de Robert e Anthony. Por ocupar a
posição de tesoureiro, ele ajudava a comandar o principal canal de
traficantes de Madri. No documento, também constava que o pai de Brett
estava envolvido no crime organizado, o que esclareceu o fato da minha ex-
secretária ter feito tudo que fez. Então, tudo funcionava da seguinte
maneira: Matteo importava e cuidava de quase toda a parte financeira; o pai
de Brett distribuía; e o de Anthony e Robert articulava a máfia para tudo
funcionar.
Umas páginas à frente, consta que Matteo Montserrat teve uma filha e,
consequentemente, cortou laços com a máfia e levou uma boa parte da
fortuna consigo. Mas, pelo andar da carruagem, eu duvido muito que ele
tenha realmente cortado as relações já que minha empresa estava com uma
dívida absurda quando eu assumi a empresa 28 anos depois. Nesse meio
tempo, Anthony assumiu o lugar do pai.
Por um segundo, penso em ligar para o hangar e pedirem para
prepararem o jatinho. Eu queria falar com ele e exigir respostas, mas, acima
de tudo, eu queria abraçar a minha mãe, que foi traída e não merecia nada
disso. Contudo, eu a conheço. De boba, ela não tinha nem um fio de cabelo
e, com toda certeza, já sabia. Meu pai tinha um filho fora do casamento oito
anos mais novo que eu, no entanto, ele levava seu sobrenome. Ramon
Walker Montserrat.
O mais revoltante disso tudo é que Matteo Montserrat, o homem que
chamo de pai, é um crápula nojento que bancava o tráfico, mas nunca foi
preso porque sempre foi rico demais para isso.
Sou tirada dos pensamentos por uma batida ritmada na porta. Katie
entra sem esperar uma resposta e se senta na cadeira de frente para a minha.
― Eu vim te buscar. Está aqui desde cedo e já são mais de meia-noite.
― Eu estou dando uma última olhada nos documentos do meu pai. Em
poucos dias, Olivia irá receber alta para ir pra casa e eu vou finalmente
poder ir pra Madri. ― Massageio as minhas têmporas, tentando minimizar a
tensão ali.
― Ainda não acredito nessa história. O cara tenta te matar e depois a
gente descobre que vocês são irmãos. ― Katie estava comigo no dia em
que descobri a verdade.
― Logo meu pai, a pessoa que mais se importa com as aparências que
eu conheço, teve a ousadia de ter um filho fora do casamento. Eu estou
preocupada, contudo, a minha única tranquilidade é que a fortuna
Montserrat está no meu nome. Eu fiz um advogado de confiança se
certificar da veracidade de todos os documentos legais que envolvem o meu
dinheiro. Quanto mais eu olho para esse documento, mais merda eu acho.
― E ele literalmente não precisava desse dinheiro, a nossa família é
rica há gerações.
― Pelo visto, quando a pessoa nasce pra ser alguém ruim, a ganância é
infinita. ― Digo irritada, enchendo meu copo novamente. ― Isso quase
custou a vida da Olivia, a minha, a sua… E mais uma lista interminável de
fatores que não precisaria ter acontecido se meu pai só se contentasse com a
merda da fortuna que ele já tinha. ― Viro o líquido inteiro na garganta. ―
A Olivia, ela não precisava ter passado por nada daquilo.
― Você gosta mesmo dela, não é?
― Eu estou preocupada, Katie. ― Levanto da mesa como se andar
fosse afrouxar o nó que a ansiedade havia feito no meu pescoço. ― Ela não
está bem, você consegue ver nos olhos dela que alguma coisa ali mudou. ―
Eu me sirvo de mais uma dose generosa de alguma bebida cara.
― Você acha que está tão ruim assim?
― Ela está com um olhar meio vago. A saúde física dela está melhor,
mas ela está cansada. Tem dias que ela está tão ruim que ela passa muitas
horas sem dizer uma palavra. ― Eu rodo o copo, observando o líquido entre
as pedras de gelo. ― A Olivia é uma sniper habilidosa. Quando ela sumiu,
ela deixou corpos para trás. Ela sabe acabar com uma vida. Katie, se ela
tentar se matar, não vai ser uma tentativa. ― Bebo todo o líquido ali de uma
vez.
― Olha, é uma situação muito séria, ainda mais porque tudo que
sabemos é o que os laudos médicos contam. Mas, de qualquer forma, ela
tem todo o apoio que precisa para aguentar seja lá o que esteja passando
pela cabeça dela.
― Eu gostaria de algum jeito de fazê-la se sentir melhor, sabe? ―
Encho meu copo novamente e não perco o olhar de Katie sobre ele. ―
Como você está? De verdade. Não quero uma resposta curta.
― Por onde eu começo? ― Ela muda de posição na cadeira, apoiando
os braços sobre a mesa. ― Eu desisti da terapia em grupo, aquele lugar é
um grande gatilho pra mim, então eu pulei fora. Troquei de psicóloga,
minha nutricionista me odeia, minha mãe me odeia, Luca está ficando com
Michelle e eu não posso me chatear com isso. Meu stripper de Madri não é
mais só meu e nisso, sim, eu posso ficar chateada. Eu comi todas as
refeições do dia e me sinto culpada por isso. ― Ela fala num tom de humor,
tentando tirar o peso de suas palavras.
― Mas você comeu, isso é uma vitória.― Finjo jogar confetes nela. É
um diálogo estranho, mas o álcool finalmente começa a tomar conta da
minha cabeça. ― Eu queria poder fazer mais por você. Juro que, se eu te
pegar vomitando, eu coloco um guarda-costas na sua cola, nem que seja o
Luca. Eu tenho certeza que eu pago mais que a S.W.A.T.
― Você está começando a ficar bêbada. Vamos logo, vou dormir na
sua casa hoje.

***
Hoje é a minha vez de dormir com a Olivia. Michelle ficou o dia
inteiro e eu ficaria durante a parte da noite. A enfermeira logo entra no
quarto. Ela embala o catéter que anteriormente estava no braço de Olivia.
Era o primeiro banho de verdade depois de tudo que aconteceu.
― Tudo bem, vou te ajudar a ficar de pé agora.
A psicóloga aconselhou evitar movimentos bruscos e, sempre que
pudéssemos, avisar o que iríamos fazer. Eu me sentia em um campo
minado, com medo de fazer algo e desencadear uma crise nela. Ela acena
positivamente com a cabeça, eu e a enfermeira a levantamos.
Leva um tempo, porque caminhar ainda era complicado, mas
chegamos na porta do banheiro. A enfermeira passa na frente para ligar o
chuveiro e volta para ajudar. Nós andamos mais uns passos e Olivia para
subitamente.
― Não dá. ― Ela reclama. ― Me solta.
― O que foi? ― A enfermeira pergunta com o rosto preocupado.
― Eu não vou conseguir colocar minha cabeça ali de baixo. ― Ela diz
baixo, como se confesse algo. ― Me solta, por favor. ― Seus olhos
estavam arregalados e seu rosto estava banhado pelo pânico.
― Tudo bem, nós podemos lavar só do pescoço pra baixo. ― Tento
tranquilizá-la.
― Me solta! ― Ela sobe o tom de voz. Nós soltamos e Olivia abraça
os próprios braços, voltando a caminhar devagar para cama com
dificuldade.
― Você está na cama há muito tempo, um banho de verdade vai te
fazer bem. Nós podemos pensar em algum jeito pra lavar seu cabelo. ― A
enfermeira explica pacientemente.
― Tudo bem. Vamos tentar, mas eu quero fazer isso por último. ― Ela
cede.
Nós damos banho na Olivia e depois partimos para o cabelo. Eu vi
aflição em cada centímetro do rosto dela. Peço para a enfermeira esperar
fora do banheiro para ver se ajuda de alguma forma.
― Deixa eu te ajudar. Olivia, você está segura, mas, se for muito pra
você, você fala e a gente para na hora, sem perguntas. Tudo bem? ― Ela
acena com a cabeça e inclina a cabeça para trás.
Ela respira fundo e eu ligo a torneira do chuveiro, deixando a água
quente numa temperatura confortável. Seguro a mão dela. Ela encolhe o
corpo quando a água encosta na cabeça e eu paro.
― Está tudo bem. ― Volto com água com muito cuidado.
Eu sabia o quanto ela estava aflita, seu corpo rígido e o pé firme no
chão como se ela fosse levantar e sair correndo a qualquer momento. Era
angustiante, eu não suportava vê-la assim para tomar um simples banho.
― Sabe o que eu lembrei? ― Falo com uma voz um pouco mais
animada, tentando tirar ela daqueles pensamentos ruins. Ela me olha, mas
não diz nada, então eu continuo. ― Nós criticamos tanto o meu irmão e a
namorada dele e cá estamos.
Termino de molhar o cabelo. Pela expressão de pânico da Olivia, eu
quis parar ali mesmo. Mas a situação do cabelo dela estava crítica,
realmente não tinha como adiar mais e ela sabia disso.
― Naquele dia, tivemos que escutar um casal hétero transando. Eca.
― Ela tenta fazer uma piada e vejo que ela se esforça para lidar com o
medo.
― Acho que esse ano, quando formos passar o Natal lá em casa, a
gente deveria se vingar.
― Não acredito no que eu estou ouvindo.
― Vamos alugar o ouvido do Elijah. ― Sorrio e ela solta um risinho.
― Eu vou comprar até uma lingerie nova para esse evento.
― Estou esperando ansiosa, a senhorita Montserrat. ― Ela ri também.
Depois, voltamos pro quarto, a enfermeira refaz os curativos da Olivia
e se despede.
― Como que eles estão? ― Olivia pergunta enquanto começo a
desembaraçar seu cabelo.
― Luca e Michelle? Ah, abalados. Eles ficam agindo como dois cães
de guarda quando o assunto é você. Mas, agora que você está melhorando,
eu estou vendo que eles estão menos tensos. Lena e Ally perguntaram por
você. Lógico elas não sabem o que aconteceu por completo, mas Luca disse
que você estava no hospital e elas te desejaram melhoras.
― Elas são umas fofas. Não vejo as duas tem meses, mas acho legal
elas lembrarem de mim.
― Legal, é? ― Finjo ciúmes e ela dá de ombros.
A enfermeira que entrega a medicação da noite entra e sai rapidamente
do quarto.
― Deita aqui comigo?
Subo na cama e ela se aconchega. Eu lembro da primeira vez que
dormimos juntas no dia do meu aniversário em Madri. Tanta coisa mudou,
mas pelo menos isso parecia o mesmo. Vejo que Olivia estava mais calma e
isso tranquiliza o meu coração.
Não demora mais que dez minutos para o remédio fazer efeito e ela cai
no sono pesado. Fico ali olhando ela dormir. Gosto da maneira como ela se
aconchega em mim e segura minha mão. Depois de quase um mês na UTI,
os braços de Olivia estão tomados por hematomas por causa das agulhas.
Eu fico olhando cada pedacinho dela, das tatuagens que saíam de seus
curativos e subiam escuras pelo braço, desaparecendo na roupa em que ela
usava.
Afasto a mecha que estava caindo teimosa em cima de sua bochecha e
observo seu rosto. Estava tão tranquilo. Eu gosto do formato de suas
sobrancelhas e como tudo se encaixava tão bem naquele rosto lindo. Muita
coisa dos últimos dias passou pela minha cabeça. Entretanto, naquele
momento ali no quarto, era como se nascesse uma esperançazinha das
coisas se ajeitarem e é nesse sentimento bom que eu me agarro. Eu iria
fazer de tudo para que meu amor sentisse isso também.
CAPÍTULO 35
Olivia

Hoje é mais um daqueles dias que eu fingia que estava bem. Essa
semana, eu havia feito um enxerto na queimadura de terceiro grau no meu
pescoço e ainda era extremamente desconfortável de me mexer. Se Luca
sentisse qualquer resistência da minha parte, ele com certeza não aceitaria
nada disso, então eu estava apenas aguentando firme. Quando Diana está
presente, eu jamais escondo algo assim. Michelle olhava de um lado para o
outro como se quisesse dar uma bronca no Luca ali mesmo, deixando claro
o quanto desaprovava aquilo tudo.
Respiro fundo, tentando ignorar todas as coisas que se passavam pela
minha cabeça. Jake manda mensagem, avisando que estava subindo com
Ramon. Assim como Robert, Ramon, que levou todos até lá graças ao nosso
combinado, já estava bem longe quando a polícia chutou a porta. Ele
acabou não sendo preso, mas Jake tinha alguns contatos e foi fácil achá-lo.
― De nada. ― Ramon sorri arrogante e se encosta na parede à minha
frente. Ele usava tranças azuis-escuras, presas em um coque topo da cabeça,
e algumas joias douradas, que contrastavam com as roupas mais despojadas
que usava.
― Igualmente. Se não fosse por mim, eu te garanto que você não
estaria aqui, e eu não estou me referindo a não ter te matado. ― Respondo.
― Um poço de gentileza. ― Ele revira os olhos. ― Irmãzinha. ― Ele
cumprimenta Diana, que estava em pé do meu lado, e a olha com um falso
sorriso.
― Podemos ir logo ao ponto? ― Estou impaciente.
― Foi lindo. Tinha câmeras onde você estava, sabia? Eu assisti.
Precisava ver você cumprindo a sua promessa. O sangue frio de cortar uma
garganta daquele jeito?! Um excelente trabalho. ― Luca se mexe,
incomodado, mas não diz nada.
― Não tenho dúvidas, você quem queria ela morta no final das contas.
Por quê?
― Ela tentou matar a minha mãe por causa de ciúmes. Minha mãe
trabalhou para Anthony por bastante tempo.
― Que tal outro combinado? ― Me esforço para continuar aquela
conversa. Ele parece ponderar por alguns segundos e dá um passo em
direção à cama. Luca desencosta da parede, se preparando para qualquer
ameaça. ― Você fala tudo que sabe e, em troca, a polícia te ignora. Pense
bem, você tem muitas passagens pela polícia, mas Robert é o nosso
verdadeiro interesse.
― Minha mãe era uma das putas das muitas festas que Matteo
Montserrat participava. A partir daí você consegue imaginar. Mas ele nunca
foi um pai pra mim. Nunca vi nenhum centavo daquele homem.
― De que lado você está? Por que, até um tempo atrás, você estava
com uma arma apontada pra cabeça da Diana. ― Michelle pergunta,
desconfiada.
― Eu realmente ia puxar o gatilho, eu tinha ordens pra fazer isso. Eu
cresci dentro da máfia, então, em teoria, minha lealdade era a Anthony e,
agora, a Robert, além de que ela é filha do homem que eu mais odiei na
vida. Então, sim, iria. ― Michelle não diz nada, mas eu vejo quando muda
de um pé para o outro, nervosa.
― Você tem homicídio na sua ficha criminal, não seria problema
nenhum para você matar Brett. Por que você quis a minha ajuda? ― Faço
outra pergunta.
― Porque eu ficaria mal visto. Eu não teria uma semana de vida se
matasse a princesinha de Anthony Moore. Mesmo ele estando morto, a
ligação dos dois foi tão forte que a Brett sozinha era muito influente.
Depois da morte de Anthony, Robert assumiu tudo que era dele, mas, ainda
assim, muitas pessoas ainda eram leais à Brett. ― Ele parecia dizer como se
fosse óbvio.
― Eu matei Anthony Moore e Brett e aqui estamos.
― Eu não sou tão ruim quanto o meu pai. Você não tinha nada a ver
com essa história, por isso te ajudei, mas, quanto a ela… ― Ele aponta a
unha pintada de branco para Diana. ― Seria uma morte interessante. Nada
pessoal, mas ela é a única pessoa que Matteo Montserrat se importa. Ele
acabou com a vida da minha mãe. Ela podia até ser uma prostituta, mas ela
era protegida de Anthony quando o seu pai a estuprou. Ela perdeu tudo,
porque Anthony não acreditou na lealdade dela.
― Onde está Robert agora? ― Diana pergunta.
― Em um de seus apartamentos de luxo, esperando a poeira baixar e
pensando no próximo passo. Ele quer a família Montserrat morta e o
dinheiro para ele.
― A verdade é que Matteo Montserrat voltou aos negócios. ― Olho
para minha namorada, que não tinha um músculo contraído. Ela estava com
o rosto sério e a postura reta. Meu cérebro liga os pontos da nossa conversa
no jantar da primeira noite em Madri. Matteo Montserrat queria que a filha
se juntasse a ele. Diana olha pra mim, sabendo exatamente o que passou
pela minha cabeça. ― Só que, dessa vez, por conta própria. Robert está
com inveja, porque Matteo é muito melhor no que faz e ele não está
sozinho. Alencar é um nome familiar para você?
― Sócios. ― O deboche na voz de Diana escorre como veneno. ―
Uau.
― Faz quase 7 meses que está envolvido com o tráfico de armas. Eles,
em pouco tempo, já são quase tão grandes quanto Robert. ― Faz 7 meses
desde que Diana assinou o contrato com Alencar, então o dinheiro inicial
era da Diana. Se os dois estão trabalhando juntos, isso quer dizer que o pai
está lavando o dinheiro da filha. ― Olho para Diana e vejo que ela olhava
para Ramon como se pudesse cravar uma bala na testa dele.
― 600 milhões. ― Diana resmunga, digitando alguma coisa no celular.
― Praticamente todo o valor já investido nas empresas. Como você
não tem filhos, se você morresse, o seu dinheiro voltaria para o seu pai, por
isso Robert te queria morta. Se o dinheiro ainda estivesse só com o seu pai,
seria mais fácil qualquer tipo de golpe.
― Mas e Robert, ele sabe disso? Porque, até onde eu sei, ele estava
espumando de raiva, porque Matteo Montserrat deixou de negociar com ele.
― Pergunto.
― Não tudo. Na cabeça dele, Matteo aposentou quando passou os bens
das empresas para a Diana.
― Imagino que é o suficiente. ― Luca quebra o silêncio e abre a porta,
gesticulando para que Ramon fosse embora. Ele vai, mas com um sorriso
sarcástico no rosto.
― Filho da puta. ― É o primeiro resquício de emoção que Diana deixa
transparecer.
― Não sei se você está xingando ele ou o seu pai, mas eu concordo. ―
Falo para ela.
― É isso, pessoal, Matteo Montserrat é um traficante milionário e
asqueroso.
Michelle se senta no sofá. Diana permanece em silêncio, com a cara
fechada e olhando para o celular. Eu sei que ela estava mandando preparar o
jatinho e que chegaria em Madri hoje mesmo. Nada que eu falasse iria
impedir ela de ir. Olho pra Michelle de novo e percebo que estava tendo
uma movimentação no ponto do ouvido pela maneira com que ela acena a
cabeça e tira o celular do bolso. Então, eu deixo as duas trabalharem.
CAPÍTULO 36
Diana

O jatinho aterrissou em Madri por volta das cinco horas da tarde.


Ignoro completamente as ligações de Katie de algumas horas atrás, porque
prometi que a traria comigo e quebrei essa promessa na primeira
oportunidade. Não queria ela colocar ela nisso.
Eu não confio em Ramon. O discurso dele é falho e, se ele tem tanto
medo de ser morto pela máfia, ele não teria nem ajudado Olivia nem falado
o que sabe. Trair Robert por si só é razão suficiente para morrer.
Colocando tudo isso em uma linha de raciocínio: Anthony se
relacionava com a mãe de Ramon e meu pai abusou dela. Como meu pai era
importante, a culpa caiu nos ombros da mulher. Brett assumiu o lugar dela
como mulher de Anthony. Meu pai rouba Anthony e o pai de Brett. Ela
busca vingança contra mim. Em paralelo, Olivia mata Anthony, e Robert
assume o lugar do irmão.
― Senhorita Montserrat. ― Sandara me cumprimenta, abrindo a porta
de trás do Jaguar.
O carro logo dá a partida. Não falei para ninguém da minha chegada,
nem minha família e nenhum funcionário. Os saltos Louboutin e a saia clara
que eu vesti fazem parecer que eu estava indo para qualquer lugar resolver
algo do trabalho, mas na verdade estava indo para casa. Aproveito o
silêncio do carro apenas para fazer uma lista mental das coisas que eu
precisava falar com o meu pai.
Atravessamos o corredor. Miller está a dois passos à frente, Michelle
ao meu lado e sandara dois passos atrás. Por um momento, desejei Olivia
ali. Sinto falta de vê-la saudável. Saber que ela está em uma cama de
hospital agora, me cortava o coração.
Eu tinha dois lugares que eu gostava de trabalhar: um que eu usava
sempre, que ficava perto do meu quarto; e outro que eu só usava quando
recebia fornecedores em casa, que afastado do resto da casa e tinha uma
vista para a cidade. A casa estava completamente vazia e, de acordo com
uma das empregadas, minha mãe havia saído e não tinha hora para voltar.
Saindo do meu escritório, está a última pessoa que eu queria ver:
Robert Moore. Meu pai aparece logo atrás.
― Diana Montserrat, boa noite. ― Ele diz num tom de voz moderado
que poderia intimidar qualquer pessoa, menos eu.
Penso por um segundo em como ele conseguiu passar pela segurança e
a verdade cai nos meus pés: ele não havia feito esforço nenhum. Foi
convidado, entrou pela porta da frente e foi mimado pelos funcionários
assim como qualquer outra visita importante.
― Boa noite. ― Levanto a mão apenas para que Miller se afaste. Toda
a raiva que eu tinha pelo o que ele tinha feito estava devidamente escondida
por trás da minha cara de CEO. ― Ao que devo a visita? ― Esse não era
um encontro com alguém que torturou o amor da minha vida, era, acima de
tudo, uma reunião de negócios e eu estava em casa.
― Estava tendo uma conversa com o seu pai, mas já estou de saída. Já
tenho tudo que preciso.
― Não, você não está. ― Miller inclina suavemente o corpo para a
esquerda, deixando claro que Robert não daria mais um passo. ― Não
achou que eu ia deixar barato, não é?
― Não seja tola, Diana. Tem tantos seguranças meus dentro dessa casa
que você deveria estar preocupada.
― Eu acho que não. Eu poderia te trancar no porão e fazer a mesma
coisa que você fez com a Olivia, porque eu posso. Não se esqueça disso.
Mas podemos ser civilizados. Por que você não entra de volta dentro
daquele escritório? ― Robert me olha dos pés à cabeça, me analisando. Por
fim, vejo que ele decide ficar.
― Diana, minha filha, isso não é da sua conta. ― Meu pai tem a cara
de pau de abrir a boca.
― Nós conversamos depois, pai. ― Meu tom é cordial e equilibrado,
exatamente como ele me moldou para ser desde a infância.
Miller acompanha Robert de volta ao escritório e eu entro logo em
seguida. Michelle e Sandara aguardam ao lado da porta, dentro no cômodo.
― Você não é tão pau-mandado do seu pai afinal. ― Robert diz de
maneira sutil e me vejo disposta a voltar com a minha palavra. Matar aquele
filho da puta parece o caminho certo a seguir. O olhar de Michelle sobre ele
diz o mesmo. Um acenar de cabeça e a bala atravessaria o crânio dele.
― Dá pra dizer o mesmo dos seus funcionários. ― Me sento na minha
cadeira de costume. Ele usava um terno preto e uma blusa social, que estava
aberta nos primeiros botões. ― Entregaram o lugar que a tenente Winston
estava na primeira oportunidade.
― Pelo visto, você tem a mesma língua afiada que a sua namoradinha.
― Eu não iria por esse caminho se fosse você. ― Pelo olhar de
Michelle, sei que ela está a dois segundos de voar no pescoço dele.
― Por quê? Acha que pode me fazer gritar do mesmo jeito que eu fiz
com a sua namoradinha? ― Michelle dá um passo à frente, mas sandara
toca seu ombro.
― Está tão incomodado assim? Porque, até onde eu sei, o seu irmão
não precisava provocar ninguém. Aliás, o que você quer com o meu pai?
― Ele não te contou? Ah. Depois que Alencar assumiu as empresas do
pai e as vendeu para você, ele viu uma ótima oportunidade de prosperar
como um sócio.
― Como eu vou saber que você não está mentindo?
― Porque não faz a mínima diferença na minha vida. Agora, para o
seu pai, eu não tenho tanta certeza. Lembra quando saiu uma reportagem
sobre o inquérito que fizeram contra o seu pai em janeiro? Por que você
acha que nunca mais falaram disso? Seu pai mandou calar a boca de todos
eles. Os que ele não subornou estavam com uma bala na cabeça no dia
seguinte.
― Se o meu pai é tão independente da máfia, o que você está fazendo
aqui?
― Você nunca realmente sai da máfia uma vez que se envolve, ainda
mais do jeito que seu pai se envolveu. Ele me deve tanto dinheiro que só a
sua cabeça pagaria. ― Ele faz menção de se mexer, mas o barulho de
Michelle destravando a arma o paralisa no lugar.
Acontece tudo muito rápido. Sandara o agarra, pressionando a cabeça
dele contra a mesa, e, em segundos, Miller entra na minha frente. Então
noto que ele estava a segundos de tirar a arma do corpo.
― Não ouse pisar nessa casa novamente ou eu juro que você não sai
vivo. ― É o que eu digo antes dele ser arrastado para fora.
•••
Subo as escadas, indo para o último andar, e sigo por um longo
corredor iluminado. Meu destino é a biblioteca da casa. Meu pai estava lá
como achei que estaria sentado em uma poltrona e bebendo uísque.
Aparentemente, esse é um traço que dividimos muito bem.
― Então quer dizer que você decidiu voltar aos negócios depois de eu
limpar a merda que você fez?! ― É a primeira coisa que eu falo.
― Mas como...? ― Meu pai começa, mas eu estou enfurecida demais
para deixá-lo continuar.
― Eu não me importo. O dinheiro e a vida são seus, você faz o que
quiser. Eu poderia ignorar o fato de você ter usado as empresas para lavar o
dinheiro, porque o que eu perdi foi insignificante. Mas você me traiu.
― Em dezembro, quando você veio passar seu aniversário, eu sugeri
que entrasse no negócio comigo.
― Ah, ótimo, agora eu sou a errada da situação.
― Eu usei a empresa para lavar o dinheiro em grande escala, sem falar
no que eu peguei emprestado no início. Você pagou desde a gasolina dos
caminhões até a munição do fuzil dos traficantes.
― Onde Alencar entrou nisso?
― Eu precisava de um sócio. Ele deu o golpe no próprio pai por
dinheiro e nós nos demos bem.
― Aquele filho da puta, hipócrita do caralho, que veio me encher o
saco por causa do dinheiro que Brett roubou?!
― Exatamente.
― Você tem dinheiro. Você não precisava pegar nada do que você
pegou da empresa. Aliás, que eu me lembre bem, a empresa estava no seu
nome até três anos atrás.
― Por que eu vou gastar do meu se eu posso gastar do de outra
pessoa? Além disso, não acha que seria muito suspeito? Eu precisava de um
fluxo grande de dinheiro pra não levantar suspeitas.
― Ah, claro, porque no nome da filha faz muita diferença.
― Você puxou a sua mãe, Diana. É certinha demais. Achei que, depois
desse tempo todo nas empresas Montserrat, você aprenderia algo.
― VOCÊ TRAIU A PRÓPRIA FILHA! ― Eu perco a paciência de
vez. ― Robert disse que foi por amor que você deixou os negócios da
máfia, mas tudo que saiu da sua boca prova o contrário. Seja honesto pelo
menos uma vez comigo.
― Eu estava cansado de dividir o dinheiro. Na época, Anthony era
muito prepotente e imaturo demais. O pai da Brett tinha pulso firme e
talento. Mas você sabe que a primeira regra da porra de um traficante é não
consumir a própria droga.
― A minha mãe sabe dessa merda? Sabe quantas pessoas você
mandou matar por dinheiro mesmo já nascendo rico? Ela sabe que é com
essa pessoa que ela vai dormir toda noite? Ela sabe que você é a porra de
um estuprador?
― Ela e sua tia Cassandra são mulheres do lar, Diana, não é da conta
delas.
― E você voltou só agora? Por que, até onde eu sei, você largou a
máfia porque eu nasci e cá estamos 32 anos depois. Três anos atrás, quando
queriam te matar e você passou tudo pro meu nome, foi uma dívida de 2
bilhões de dólares.
― Dívida de máfia dura anos. Tenho que admitir que você fez um
excelente trabalho.
― Filho da puta.
― Olha como você fala com o seu pai, Diana. ― Seu tom era de puro
deboche, como se eu não significasse nada para ele.
Eu saio da biblioteca. Michelle e Miller me aguardavam no final do
corredor.
― Eu quero o jatinho pronto. Já resolvi tudo que precisava.
CAPÍTULO 37
Luca/Olivia

LUCA

Olivia havia finalmente ganhado alta. Estava previsto para demorar


mais uns dias, mas o médico disse que, como teria alguém para cuidar dela,
ele poderia adiantar a alta. Diana ainda estava em Madri com Michelle e eu
estava preocupado. Mando uma mensagem assim que chego em casa,
avisando sobre a alta da Olivia e perguntando como elas estão.
― Você vai ficar no meu quarto, eu e Michelle vamos dividir o de
visitas. ― Abro a porta da casa e a deixo passar.
― Ainda preferia estar indo para a minha casa. ― Oli resmunga,
andando até o quarto, mas se dá por vencida antes mesmo de começar a
discutir.
A casa estava perfeitamente limpa. Eu havia mudado algumas coisas
de lugar. Levei boa parte das minhas roupas para o quarto de visitas para
poder colocar as dela no closet e havia tirado tudo que pudesse ser um
gatilho do quarto.
Minha casa nunca esteve tão cheia. Michelle trouxe o cachorro dela,
que, nesse momento, está deitado no pedaço do sofá que ele havia roubado
só para ele. Ele levanta a cabeça assim que me vê e corre na minha direção.
Me abaixo para dar atenção a ele, que pula em cima de mim e se mexe de
maneira frenética, latindo bem alto. Alcanço um dos muitos potinhos de
petisco que Mich havia trazido e dou um para ele. Foxy começa a me seguir
pela casa. Nós vamos para cozinha, pego uma garrafa de água para Olivia e
seguimos para o quarto.
Olivia estava deitada de bruços e com os olhos fechados. Assim que vê
a gente, ela se senta na cama, disfarçando uma careta de dor. Foxy sobe pela
escadinha que Michelle havia colocado ali há algumas semanas atrás e pula
por cima da minha amiga.
― Quem é a máquina de destruição mais fofinha dessa casa? Você
mesmo, Foxy. ― Ela faz uma voz aguda enquanto aperta a barriguinha
gorda do corgi.
― Desde que a Mich trouxe esse para cá, eu nunca mais tive a casa
limpa por mais de cinco minutos.
― Muito fofo vocês dois, já estão morando juntos e tem até um pet.
Mais rápido que isso, só um casal de lésbicas. ― Olivia volta a deitar e
abraça foxy como um ursinho de pelúcia.
― Ela não está morando, só passando uns dias. ― Me defendo.
― Mas vocês estão namorando ou só transando igual dois coelhos?
― Namorando, eu acho, mas ainda não tivemos tempo de ter nenhum
momento fofinho pra oficializar. Quem sabe daqui uns dias. Agora que você
está bem, o clima vai estar melhor.
― Então vocês se acertaram, mesmo com a perda do neném?
― Está mais fácil tocar no assunto.

Escuto vozes vindo da sala e me dou conta que Michelle chegou.
― Pelo amor de deus, menino, sua amiga que acabou de sair do
hospital está no quarto ao lado. ― É a primeira coisa que Michelle diz
quando entra no quarto e vê a bolsa de couro em cima da cômoda.
Eu tinha uma bolsa com algemas e chicotes exatamente igual à que
Olivia tinha no apartamento dela.
― Eu só lembrei de última hora dessa bolsa. Eu não ia deixá-la fácil
para Olivia pegar. Tem correntes e cordas aqui dentro. Não quero que sirva
de gatilho. ― Pego a bolsa e guardo-a no fundo do armário.
― Christian Gay. ― Michelle solta a piadinha enquanto tirava o tênis
que usava.
― Pansexual, minha querida. ― Mostro meu chaveirinho com a
bandeira do orgulho pan que eu tinha nas chaves de casa.
― Ninguém fala da dor de ser o chaveirinho hétero do grupo. ― Ela
começa a tirar a roupa no meio do quarto. ― Ia conversar com a Olivia,
mas cheguei no quarto e ela estava dormindo abraçada no meu cachorro.
― Posso fazer nada se eu sou um gostoso e você não resistiu ao meu
charme. ― Ela revira o olho, pega uma toalha e vai para o banheiro. ―
Falando em cachorro, você sabe que o seu corgi destruiu completamente o
pé da minha mesa de jantar, né?
― Desculpa. Ele ainda é filhote. Essa fase vai passar. ― Eu tiro a
roupa.
― Como foi lá?
― Você quer a verdade ou quer conseguir dormir de noite? ― Ela
entra debaixo do chuveiro e eu entro logo atrás. O meu silêncio a faz
entender que quero a primeira opção. ― Robert Moore estava lá,
literalmente dentro da casa. ― Ela me conta tudo e eu tento ignorar a
preocupação que se formou na minha garganta. ― A Diana quase ganhou
um tiro no meio da testa. Eu odeio aquele cara, sério. Juro que se não fosse
Sandara para me fazer cair na real, uma hora dessa eu teria que sumir com o
corpo dele.
― Eu ajudava. Dois segundos e eu sequestrava um dos jatinhos da
Diana. ― Rio, tentando deixar o clima menos tenso.
É inevitável falar dele e não começar a pensar em tudo que ele havia
feito com a minha melhor amiga. Tomamos banho e saímos do banheiro,
me visto primeiro e depois assisto Michelle passar uma sequência de
cremes no rosto e depois colocar um pijama. Era uma blusa de alcinha fina
e um short rosa, simples e folgado.
― Vamos dormir, eu estou implorando. ― Ela se aconchega do meu
lado na cama. Ela apaga as luzes e coloca a cabeça no meu peito.
No escuro do quarto, aquilo parecia tão certo, ter ela ali. Queria muito
que fosse para sempre.
― Sabe, faz muito tempo que eu não estou mais magoado de você não
ter me contado. Na verdade, minha raiva passou no momento em que te vi
dormindo no hospital e a ficha caiu. Fui muito covarde em não tocar no
assunto porque eu não queria brigar. Eu entendo que, para você, deve ter
sido difícil. Eu fui egoísta por ficar bravo com você.
― Eu não estava pronta para ter um filho, mas, sei lá, gosto de pensar
que era uma garotinha. Me sinto culpada por não ter dado um nome a ela.
Ela não foi amada como merecia e isso me faz me sentir culpada. Acabei
descontando o sentimento todo em você, ainda mais com tudo que estava
acontecendo. O sequestro e o estado de saúde da Olivia tiraram todo mundo
do sério. ― Sua voz estava tão baixa que mal passava de um sussurro.
Acabo não sabendo o que responder, mas o jeito que ela entrelaça a mão na
minha indicava que estava tudo bem.
Ficamos num silêncio confortável. Eu estou longe de estar com sono,
mas deixo Michelle descansar.
― Eu estou preocupada com a Olivia. ― Ela fala depois de um bom
tempo em silêncio. ― Ela não quis falar o que fizeram com ela. Tudo que
sabemos é que foi torturada. Quando estávamos no hospital, dava para ver
que ela estava o tempo todo tentando mediar as emoções dela. Até o olhar
dela está diferente. Eu não consigo lidar com o que fizeram com a minha
melhor amiga, me dói muito mais do que imaginei que doeria.
― Olivia é forte e, por isso, está viva. Ela lutou pela vida a cada
segundo naquele lugar.
Meu coração doía só de lembrar que estava quase morta quando
chegou naquele hospital. Senti meus órgãos se contorcerem quando o
médico disse que seu corpo estava coberto de sinais de tortura. Desde então,
minha cabeça não consegue parar de imaginar a cena. Eu nunca senti tanto
ódio em toda minha vida. Eu deveria ter feito algo. Às vezes, eu penso que,
se ela tivesse me deixado morrer naquele dia, isso não teria acontecido.
― Luca, ela está com medo do escuro. ― Entendo o que Michelle quer
dizer. O trauma foi tão grande que transformou uma das policiais mais bem
treinadas que a gente conhece em alguém que não suporta ficar em um
cômodo com a luz apagada.
Um grito longo, rouco e encharcado em pânico preenche a casa. Uma
descarga de adrenalina varre meu corpo. Levanto da cama e corro até o
quarto ao lado, Michelle está logo atrás de mim. O quarto estava claro por
causa das luzes nas laterais da cama. Olivia chorava e tremia em seu sono.
Eu puxo-a para se sentar na cama. Ela me encara, mas seus olhos não
estão focados. Mais um grito percorre a sua garganta antes de me empurrar.
Ela tenta correr para o outro lado do quarto, mas tropeça nos cobertores e
cai no chão. Quero me aproximar, mas Michelle me para.
Ela anda até minha amiga que chorava encolhida no chão do quarto.
― Olivia, está tudo bem, você está segura. Você saiu daquele lugar
horroroso. Nós estamos aqui com você. ― Michelle se senta ao lado de
Olivia no chão. ― Você precisa se acalmar, foi só um pesadelo. ― Olivia
parecia tão pequena ao se encolher e abraçar o próprio corpo. Os olhos dela
eram vagos enquanto encarava o chão e o suor brilhava em seu rosto.
― Vamos, garota, eu sei que você é mais forte que isso. Olha para
mim. ― Michelle pega o rosto de Olivia nas mãos, mas ela se afasta do
toque. ― Respira. Está tudo bem. Você está em casa. Ninguém vai te
machucar mais.
Olivia vira o rosto, mas o movimento parece repuxar o machucado de
seu pescoço e um gemido de dor abafado sai de sua boca. Suor continua
descendo de suas têmporas e respirar parecia ser dolorido.
Michelle puxa-a para um abraço e segura-a contra o próprio corpo até
o choro se acalmar. Depois de uns minutos, me aproximo devagar e a pego
no colo com muito cuidado para não encostar em nenhum dos machucados.
Não tem um sinal sequer da mulher que tinha conhecido antes. A raiva
me corroía por dentro por não ter conseguido impedir que a levassem.
Sento com ela na cama. Ela ainda tremia, mas a respiração estava
começando a voltar para um ritmo normal.
― Olivia, você sabe onde você está? ― Pergunto. Precisava saber se
ela não estava alucinando. Nos primeiros dias no hospital, quando a febre
ficava muito alta, ela tinha episódios de PTSD muito críticos. Ela acena
com a cabeça e esconde o rosto nas mãos. ― Eu e Michelle estamos aqui
para tudo, ok? Dê para gente o seu pior, a gente aguenta, mas, por favor,
não se feche para dentro de você.
Michelle deixa o quarto por alguns minutos e volta segurando dois
comprimidos e um copo de água. A médica disse que Olivia tinha
apresentado comportamentos autodestrutivos na terapia. Estamos sendo
muito cuidadosos, então, as caixas de remédios precisam ficar bem longe.
Olivia toma o remédio e deita. Eu deito de um lado e Michelle do
outro. Os remédios começam a fazer efeito e Olivia apaga em minutos.
Michelle cai no sono alguns minutos depois.

OLIVIA

Passo o dedo ao redor do corte na minha perna. Faz uma semana que
eu estou na casa do Luca. Eu estou fisicamente melhor. Minha rotina se
resume em ficar sem me mexer o máximo possível, sessões diárias de
fisioterapia e muitos remédios. Já consigo tomar banho sozinha e trocar
meus curativos sem precisar de ajuda na maioria dos dias. Por outro lado,
minha cabeça está um mar tempestuoso. Às vezes eu me sinto calma,
porém, é só pensar um pouco demais que tudo fica insuportável.
Eu estou nua, sentada na beira da cama e com a toalha jogada sobre os
meus ombros, vergonhosamente juntando coragem para tomar banho.
Minhas mãos estão apoiadas na minha coxa e eu acabo olhando para as
marcas ali.
Meus punhos ainda estão roxos, os cortes estão fechados e as marcas
das algemas são só hematomas escuros. Ficaram algumas cicatrizes, mas
nada que uma tatuagem não cobrisse. O pescoço ainda teria um longo
caminho pela frente. O enxerto não inflamou e a cicatrização estava boa.
Foram apenas alguns centímetros de pele e a dor estava se tornando mais
suportável com o tempo.
Se eu me distraísse o suficiente, eu poderia sentir a mão de Robert
agarrando minha mandíbula, o cheiro da pele queimada e o chão frio que
cai logo em seguida. É fácil lembrar do trauma.
Eu estou com dor, com raiva e frustrada. Não superei o que tinha
acontecido e Diana está até a cabeça atolada de problemas com a empresa.
Agora que a gente já sabe de tudo, eu queria ajudar em algo, mas eu
simplesmente não conseguia ser útil para nada. Além do mais, eu estava
triste. Meu peito não cabia em mim e eu queria gritar. Era uma espécie de
dor que queima embaixo da pele, mas não se externa. Qualquer pessoa que
me visse agora diria que estou completamente calma.
Levanto da cama e vou até o banheiro da suíte. Eu queria gritar até eu
me sentir completamente vazia, pois eu sentia que essa dor iria transbordar
a qualquer momento. Enquanto eu espero a banheira encher, tranco a porta
do quarto e depois me tranco no banheiro. Eu não aguento mais ser refém
dessas memórias.
Vadia, vagabunda, desgraçada. Eu deveria ter te matado mais devagar.
O barulho da água acelera meu coração.

Ela não vai ter esse poder sobre mim.


Ela não vai ter esse poder sobre mim.
Ela não vai ter esse poder sobre mim.
Ela não vai ter esse poder sobre mim.
Ela não vai ter esse poder sobre mim.

Ajoelho no chão em uma posição parecida com aquela me forçaram a


ficar e sinto apenas ódio. Eu não chorava, mas algo dentro de mim sem
dúvidas era motivo suficiente para me fazer sucumbir às lágrimas.
Mergulho a minha cabeça na água. Eu encosto a minha bochecha no fundo
e espero o pânico, porque eu sabia que ele viria.
Eu fecho os olhos e é fácil lembrar da água vermelha com o meu
próprio sangue, da água entrando na minha boca e no meu nariz. Solto o ar
que prendia e deixo a água me sufocar. Em menos de dez segundos, eu sinto
meu corpo querer lutar para a superfície. Agarro a borda da banheira,
lutando contra o impulso de subir à cabeça, mas nem um minuto se passa e
eu empurro meu corpo para fora, tossindo e cuspindo a água de volta na
banheira. Eu mergulho a cabeça novamente, não me dando tempo para
respirar.
No fim, encosto a cabeça na parede e me sinto exausta.
Escuto passos e só pelo barulho dos saltos eu sei que é a Diana. Ela
tenta abrir a porta e, quando percebe que está trancada, logo escuto ela me
chamando. Me enrolo na toalha e levanto, indo abrir a porta. Ela estava
usando sua costumeira saia lápis com um suéter creme, indicando que veio
direto do trabalho.
― Eu estava com saudade de você, sabia? ― Ela começa, mas seu
sorriso se desfaz assim que me vê. ― O que foi?
― Nada, besteira minha. ― Seguro a toalha mais forte contra o corpo.
― Eu estava indo tomar banho, mas vim abrir a porta para você.
― Você está bem? Está sentindo algo? É a queimadura? ― Atropela
uma pergunta atrás da outra. Sinto o olhar dela no meu corpo, procurando
alguma coisa, e isso é o suficiente para eu odiar estar nua.
― Não é nada, eu só… ― Minha garganta fecha e eu desabo em
lágrimas.
Ela fecha a porta atrás de si e me abraça. Eu curvo meu corpo sobre o
dela e, pela primeira vez, desejo não ser tão alta. Choro alto, sem o menor
controle dos tremores dos meus ombros. Eu me sento na cama e Diana me
abraça, encostando minha cabeça no ombro dela. Ela afaga meu cabelo e
estou praticamente gritando.
― Vai ficar tudo bem. ― Suas mãos descem e sobem pelas minhas
costas. Minha consciência passeia entre as palavras de conforto da Diana e
a imagem do corpo de Brett sem vida. Eu odeio o quão vulnerável estou. ―
Quer ajuda para tomar banho? ― Ela pergunta e eu aceno positivamente
com a cabeça. Nós entramos no banheiro e ela repara na banheira cheia,
mas não faz perguntas. Ela tira os saltos e enrola as mangas da roupa.
Diana lava meu cabelo e eu agradeço pelo barulho da água abafar o
meu choro. O banho é rápido, eu visto um pijama velho. Nós nos deitamos
na cama depois. Diana apaga a luz do teto, deixando apenas um abajur
ligado, e o quarto fica parcialmente escuro.
― Você sabe que isso que você está sentindo vai passar, né? Eu sei que
tudo parece ser o fim do mundo, mas você vai ficar bem. Eu vou estar aqui
por você o quanto precisar. ― Ela beija o topo da minha cabeça. ― Logo
você vai estar de farda, dentro de um blindado, protegendo as pessoas do
jeito que você sempre fez. ― Ela começa a fazer carinho no meu cabelo.
Eu simplesmente não conseguia parar de chorar. Ficamos ali por horas
até o momento em que meu corpo fica completamente exausto e eu sou
obrigada a relaxar em seu abraço.
CAPÍTULO 38
Olivia

Quando houve o atentado contra a vida da Diana há alguns meses atrás,


eu lembrei da primeira pessoa que matei e aqui estou eu, revivendo tudo de
novo na minha cabeça. Foi para fazer a liberação de um refém em uma
penitenciária. Lembro quando recebi a ordem para disparar o tiro e da
sensação de puxar o gatilho. No segundo seguinte, ele estava no chão e eu
tive que ir até o corpo para ver se estava de fato morto. Lembro de ver o
quanto o tiro estraçalhou parte de sua têmpora, o sangue que manchava o
chão escuro ao seu redor e, minutos depois, eu lembro de receber elogios.
“Esse foi um tiro ótimo!”, “Foi muito preciso!” “Missão muito bem
sucedida.” Mas o sentimento que fica é amargo. Eu tinha tirado a vida de
alguém.
Trabalhamos em pares em alguns tipos específicos de missões, como,
por exemplo, quando é preciso cobrir uma área muito grande. Quando eu
matei Anthony Moore, Luca foi a minha dupla. Existe o sniper número 1, o
mais preciso em termos técnicos, o que cuida dos cálculos, do vento e tudo
que o outro precisa para realizar o tiro; então, ele fala pro número dois
quando atirar. Minha posição era de sniper número dois, a posição
reservada ao melhor atirador em termos operacionais.
Eu tentei ao máximo não me isolar nesses dias quando eu estava em
casa com os meus dois amigos. Ainda assim, a rispidez e a urgência de
simplesmente não participar foram simplesmente maiores que a minha
vontade de socializar. Mesmo com os traumas que a S.W.A.T. me
proporcionou, eu nunca havia sentido esse tipo de vazio.
A verdade é que eu tenho vergonha do meu diagnóstico. O PTSD
arruína sua vida sexual, sua vida social, tudo. Por mais que eles tentem, eu
realmente não consigo ficar perto dos dois, pois eu fico com tanta raiva tão
rápido.
Quando eu estava no chão daquele quarto no subterrâneo, Robert
praticamente me idolatrou por matar 33 pessoas. Eu não pensei muito no
peso de suas palavras, mas, agora com o número em 34, sinto raiva por ele
ter cogitado glamourizar esse número.
Faz quatro semanas que eu estou na casa do Luca. Fisicamente, eu
estava bem, já me virava sozinha e não acordava gritando no meio da noite.
O meu médico me liberou para fazer atividades físicas simples, então, eu
saía para caminhar todos os dias de manhã e ia para a academia, levantando
uma carga que não é nem um terço do que eu estava acostumada.
Estou sentada no sofá da sala de Luca. Na TV, passa um campeonato
que eu já tinha desistido de prestar atenção faz tempo. O cachorro de
Michelle estava deitado ao meu lado e, a julgar pelas orelhas baixas, ele
estava tão entediado como eu.
Busco meu celular e não vejo nenhuma mensagem de Diana. Às vezes,
eu esqueço o quanto ela é ocupada. Foxy passa a me encarar com olhinhos
brilhantes, como se esperasse algo.
O barulho abrupto de algo caindo do chão se sobressai sobre o volume
da televisão e, então, passo a prestar atenção no barulho de respirações
ofegantes vindo do quarto. Eles estavam tentando ser discretos e eu
conseguia reconhecer o esforço, mas não era a primeira vez que os
escutava.
Faz quase dois meses desde o ocorrido e os dois nunca deixaram de
cuidar de mim, mas eu sabia que, mesmo não querendo, eu atrapalhava os
dois, ainda mais agora que eram oficialmente um casal.
Eu sentia falta de morar sozinha. Um suspiro um pouco mais alto é o
que basta para me fazer levantar do sofá e pegar a coleira de Foxy, que
rapidamente vem saltitando em minha direção.
― Vamos passear, garoto? ― Minha voz sai empolgada. ― Nós não
queremos escutar seu pai e sua mãe fodendo, não é? Dá a patinha aqui para
tia. ― Ele dá a patinha, eu coloco a coleira e saio de casa.
Eu olho para os lados, paranoica. Sair de casa ainda fazia meu coração
acelerar, mas não faltam incentivos da minha psicóloga para que eu fizesse
pequenas caminhadas. Eu me esforço para seguir seu conselho.
Começo a andar pela calçada, olhando para trás várias vezes e fazendo
vários planos sobre o que eu faria se alguém tentasse me machucar. Tento
ignorar que meu corpo está em completo estado de adrenalina e se
preparando para o pior quando eu preciso parar para que o cachorro de
Michelle faça suas necessidades em uma grama aleatória do caminho. Uso
um saquinho para catar antes de voltar a andar.
Tanta coisa tinha mudado e deixo minha cabeça ir bem longe. Quando
eu tinha 24 anos, eu peguei minha faixa preta e passei a dar aulas de jiu jitsu
para uma turma só de meninas. Eu estava tão empolgada. Tinha acabado de
pegar meu grau de professora, uns esparadrapos brancos em cada
extremidade da ponteira vermelha. Eu me sentia invencível e fazia de tudo
para que as minhas alunas se sentissem assim também. Foi uma época boa.
Eu nem imaginava que a minha vida iria dar essa reviravolta toda.
Eu consegui meu emprego dos sonhos e, depois, ele foi tirado de mim,
porque defendi um amigo. Por fim, acabei sendo torturada quase até a
morte pelo mesmo motivo.
Eu não me sinto viva. Todo mundo fala que eu fui uma guerreira, mas
eu sinto como se eu tivesse morrido, como se meu corpo ainda estivesse lá
acorrentado e apodrecendo. Eu sinto como se todos os dias fossem iguais e
dolorosos. Só de pensar que eu vou precisar viver o dia seguinte é
excruciante como uma música chata no ouvido.
Não estava nem a 100 metros da casa e eu já queria voltar. Não volto,
porque a ideia de escutar o casal apaixonado e com tesão não me agradava.
Tesão… tá aí uma coisa que também não estou tendo. A quantidade
absurda de remédios que eu passei a tomar diariamente era o principal
culpado. Pensando que eu genuinamente gostava de amarrar as pessoas e
fazê-las gozarem até elas implorarem para eu parar, eu sinto repulsa. Diana
está sendo paciente. Ela não tentou nada, nem mesmo um beijo mais
demorado.
Eu não me sinto mais tão confortável no meu próprio corpo. Todas as
minhas roupas parecem apertadas e pesadas demais. Está tudo tão ruim que
até mesmo minhas tatuagens me incomodam.
Continuo a andar pela calçada. O sol iria se pôr em menos de uma
hora. Me pergunto se já foi tempo o suficiente para os pombinhos
acabarem. Lembro da cena dos dois abraçados no sofá, assistindo um filme
que eu havia escolhido depois deles terem insistido muito para me tirar do
quarto. Michelle dormiu por mais da metade do filme com Luca fazendo
carinho em seu cabelo. Era uma cena bonita. Eles pareciam tão confortáveis
um com o outro que achei que era pessoal demais para eu ficar na sala. Pela
primeira vez na nossa amizade, eu senti como se eu tivesse sobrando.
Desejei a Diana ali, mas ela tinha ido para Nova York em uma viagem
rápida de negócios.
Subitamente me dei conta que talvez eu apenas estivesse com inveja,
porque eles estão felizes e eu não.
― Onde você estava? ― É a frase que me recepciona assim que fecho
a porta atrás de mim. Michelle que a diz. Ela usava shorts de pijama e uma
blusa do meu amigo, que, por sua vez, estava em pé atrás dela apenas de
samba-canção.
― Levando seu cachorro para passear. Ele estava ficando deprimido
com os gemidos de vocês. ― Solto a coleira de Foxy, que corre até a dona.
― Desculpa, Olivia, nós realmente não… ― Luca começa a dizer.
― Me poupe, vocês dois. ― Eu apenas caminho pro quarto, pego a
minha bolsa e um casaco. ― Eu preciso resolver umas coisas. Não me
esperem. ― Pego a chave do carro que estava em cima do aparador e saio.
Se isso acontecesse há alguns meses atrás, eu descontaria tudo que eu
estava sentindo em sexo. Ligaria da Lenna ou para a namorada dela. Mas,
agora eu tenho a minha própria namorada, que está desapontada com a
minha libido inexistente e o meu humor de bosta.
Diana me ofereceu um carro novo já que o meu tinha virado uma
peneira. Eu disse que iria pensar no assunto para ela parar de insistir. Sei
que um carro seria um troco de mercado para ela, mas ainda não me sinto
confortável para ganhar uma BMW do nada. Então, o carro do Luca seria
meu hoje.
Vou para o meu apartamento. Estava bem limpo, porque Diana havia
pago alguém para limpar. Abri a porta, decidida que já estava mais que
satisfeita de ficar na casa do Luca. Me deito no sofá, apenas aliviada de
estar em casa.
Depois de algumas horas, meu celular acende em cima da minha
barriga e atendo. É a Diana avisando que está subindo.
― Luca e Michelle estão desesperados procurando você. ― Ela diz
assim que eu abro a porta.
― Eles vão sobreviver. Como você sabia que eu estava aqui?
― Imaginei que você estava com saudade da sua casa. Eu vim te
buscar e isso não está aberto para discussão. Eu tenho dois guarda-costas lá
embaixo.
― Nossa, era só pedir por favor. ― Eu finjo estar magoada e me
levanto.
― Por favor? ― Ela faz um biquinho e me abraça.
Eu tranco o apartamento e nós saímos. Diana estava mais falante do
que o normal. Ela está tão empolgada em seus assuntos que era lindo de ver.
Falava de uma edição especial de um salto da Prada que ela só havia
conseguido por causa da Katie e que ele chegaria ainda essa semana.
Diana dispensa os seguranças assim que pisamos na sala da mansão.
― Vem tomar banho de piscina comigo? ― Foi impossível não olhar
para ela como se ela tivesse quatro cabeças.
― Sério? ― Ela tira o sobretudo vinho que usava e me puxa pela mão
até um dos elevadores.
― Seríssimo. Eu tenho uma surpresa para você. ― As portas se abrem
e passamos pela academia até a área da piscina.
Eu não estava pronta para o que vi. A piscina está iluminada e há um
caminho de velas até o pergolado, que está decorado com luzes e algumas
flores. Há uma mesa com fondue e a mesma torta que comemos no primeiro
encontro.
― Diana… Isso tá lindo. ― O lugar está decorado com luzinhas e um
sofá enorme foi colocado ali.
― Não achou que eu iria deixar o nosso primeiro mês de namoro
passar em branco, né? Precisava comemorar com a minha gatinha. ― Eu a
puxo pela cintura, abaixando um pouco para depositar um selinho.
― Gatinha?
― É que você tem medo de água. ― Não era para eu achar engraçado,
mas a gargalhada sai de mim da forma mais genuína possível.
― Não acredito no que eu tô ouvindo, Montserrat. ― Nego com a
cabeça, desacreditada do humor tosco que a gente compartilhava. ― Está
perfeito. ― Ela sorri, um sorriso meio bobo e eu demoro a notar que estava
com o mesmo sorriso estampado nos lábios.
― Eu ainda quero meu banho de piscina. ― Ela desabotoa a blusa e,
logo em seguida, puxa o longo zíper. Aos poucos, ela se livra das roupas,
revelando um sutiã sem bojo rendado e uma calcinha que combinava. ― Se
for muito para você, a gente para, tá bom?
Ela segura meu rosto e espera eu confirmar com a cabeça. Só então ela
puxa a minha blusa para cima. Tiro a calça de moletom que usava, tentando
não pensar em qualquer coisa que não fosse a minha namorada na minha
frente.
Pisamos na parte rasa na piscina. Fecho os olhos enquanto ela me puxa
pelos degraus. A água que abraça meu corpo é quente e confortável. Diana
me olha atenta. Me abaixo, sentindo a água cobrir meus ombros, e ela faz o
mesmo.
― E então? ― Ela pergunta, seus olhos ainda atentos em cada
movimento meu. É impossível eu não me sentir um pouco tímida.
― Eu estou bem. ― Digo com sinceridade. Eu sentia meu corpo um
pouco tenso, porém, eu estava bem, estava segura.
Sem pensar muito, eu fecho os olhos e mergulho, me permitindo sentir
a água abraçar meu corpo e a falta de oxigênio comprimir meus pulmões.
Abro os olhos no primeiro flash de lembrança ruim e tudo que eu vejo é
uma cabeleira ruiva iluminada pela luz da piscina. Diana está ali na minha
frente. Toco o rosto dela debaixo d'água. Ela é tão bonita, tão perfeita. Subo
meu corpo quando não consigo mais prender o ar. Ela me olha fixamente,
mas agora de um jeito diferente e eu não hesito em perguntar:
―O que foi?
― Seu top é branco e eu sou lésbica. ― Ela dá risada.
― Sua safada. ― Eu rio e jogo um pouco de água nela.
― Posso fazer nada, senhora peitos perfeitos. ― Ela joga água de
volta.
― Você é péssima flertando. ― Ela ri alto e começamos uma pequena
guerra com a água da piscina.
Mesmo com tudo que tinha acontecido, naquele momento, a gente
estava ali brincando, as gargalhadas dela se misturando com as minhas. Pela
primeira vez em muitas semanas, eu me sinto bem. É como se finalmente
tivessem tirado a minha cabeça de dentro daquele tanque horroroso de água.
Eu nado até ela e nós nos abraçamos. Ela está tão perto, com o corpo
no meu e as nossas testas juntas. Eu estou tão feliz.
Ela segura meus ombros, dando um pequeno impulso, e cruza as
pernas ao redor da minha cintura. Eu a seguro pelas coxas e ela sorri, me
dando um beijo rápido nos lábios.
― Achei que nunca mais veria esse sorriso de novo. Estava com
saudade dele. ― Ela tira meu cabelo do rosto. O beijo que segue é lento, os
lábios dela deslizando sobre os meus. A água quente cobre nós duas e o
escuro da noite deixa tudo tão íntimo, quase secreto. Um momento de
felicidade só nosso.
Depois de um tempinho namorando na piscina, tomamos um banho
bem rápido no banheiro perto da churrasqueira e colocamos roupões
combinando, porque a Diana tinha pensado em tudo aparentemente.
Nos sentamos no sofá, abrimos o champanhe, comemos a fondue e um
uma partezinha da torta.
Ela muda de posição no sofá enorme que estamos sentadas, me
olhando como se quisesse memorizar cada parte do meu rosto.
Eu me aproximo e deixo ela me beijar. Ela se senta no meu colo e
desce os beijos, lambendo o lado saudável do meu pescoço e afastando a
gola do meu roupão para passar seus lábios pelo meu ombro. Tento me
concentrar na sua boca em minha pele. Uma de suas mãos alcança minha
coxa e eu vejo o tanto que ela está sendo cuidadosa para não encostar em
nenhum machucado meu, mesmo que já cicatrizados.
Quando me dou conta, já estou pensando em outras coisas e não na
mulher maravilhosa montada em cima de mim. Eu toco a mão dela que
estava na minha coxa e ela para tudo que estava fazendo.
―Eu não consigo, não tudo pelo menos. ― Eu escondo meu rosto no
ombro dela, com receio de desapontá-la.
― Tudo bem, está me ouvindo? Não tem nada de errado. ― Ela segura
meu queixo em um toque delicado. Meu peito quase explode de amor. Eu a
abraço e fico ali um tempo.
― Deixa eu fazer em você? ― Pergunto depois de um tempo em
silêncio.
― Olivia, não precisa, eu não quero forçar a barra.
― Você não vai. ― Eu toco a coxa dela. ― Eu te amo, sabia? E você
está linda hoje.
O semblante preocupado dá lugar a um sorriso sincero. Aproveito para
fazer carinho em sua bochecha antes de pegar em sua nuca e trazer sua boca
até a minha. As luzinhas que enfeitavam o pergolado iluminam o corpo dela
de forma tão bonita. Deposito um beijo em seu queixo. Agarro a bunda dela
antes de dar um pequeno impulso para virá-la, colocando-a deitada em meio
às almofadas. Puxo o nó que ela havia feito no roupão, deixando o corpo
dela exposto pra mim, como uma obra de arte.
― Sabe, eu amo te ver pelada. Tem tanta coisa para olhar. ― Eu passo
os dedos na barriga dela. ― Eu amo seu ombro, porque ele é cheio de
pintinhas; amo seus seios, porque eles são maiores que os meus e, quando
eu aperto, fica a marca dos dedos por uns segundos. ― Encho a minha mão
neles, juntando um com o outro, e solto devagar. Abaixo meu corpo sobre o
dela, passando a língua por suas costelas. ― Eu gosto das suas costelas,
porque, toda vez que eu mordo aqui, você se arrepia. ― Dito e feito, o
suspiro que sai da boca da Diana apenas confirma isso.
Deposito pequenas mordidas em toda a lateral de sua barriga e depois
me concentro em um de seus seios. Eu amo o quanto o seu corpo está
entregue. Gosto de como é muito fácil fazê-la se arrepiar e tê-la toda
derretida por mim.
Eu volto a beijar sua boca sem delicadeza dessa vez e ela geme, me
abraçando pelos ombros e pegando no meu cabelo. A esse ponto, ela já está
respirando um pouco mais pesado e sua pele está quente em contato com a
minha. O tesão está claro em seu rosto e eu acho bonitinho o esforço que
ela faz pra não me agarrar.
Meu Deus, eu nunca fui tão emocionada.
Ela enrola as pernas ao redor da minha cintura e eu aperto sua bunda
por baixo do roupão. Ela termina de tirar o roupão por completo. Eu toco
seus joelhos, afastando-os. Mesmo com a iluminação indireta, é lindo ver o
brilho de umidade que lambuzava até o início de suas coxas.
Eu brinco com a parte interna de suas coxas, meio hipnotizada com a
forma que sua excitação pinga quando eu puxo a pele um pouco mais.
Levanto suas pernas, me acomodando no meio, mordo sua coxa. O gemido
que escapa de Diana é tão lindo que acabo mordendo um pouquinho mais
forte, deixando uma marca propositalmente ali.
Ergo o quadril dela e puxo duas almofadas, colocando ali embaixo.
Não estava com a menor pressa e queria ela confortável.
Vejo Diana morder o próprio lábio em antecipação quando começo a
massagear suas pernas. Subo minhas mãos até sua cintura, brincando com
os ossinhos protuberantes ali. Beijo sua barriga, descendo até embaixo de
seu umbigo. A respiração pesada e cheia de tesão faz com que seu quadril
suba e desça. É lindo.
― Inimiga declarada da minha ansiedade. ― Diana brinca, tirando
meu cabelo do meio.
― Você é muito gostosa, eu me distraio. ― Eu aperto simbolicamente
suas coxas.
Finalmente a toco, escorregando meus dedos delicadamente. Ela está
tão quente. Subo meu indicador, levando um pouco da sua umidade até seu
clitóris, e só esse pequeno movimento tira um gemido da minha namorada e
a faz ela se remexer embaixo de mim. Separo seus pequenos lábios com os
dedos, adorando a visão. Ela é perfeita. Me sinto completamente
hipnotizada. Aplico um pouco de pressão no final de sua barriga e, com a
outra mão, movo meus dedos, fazendo movimentos circulares em seu
clitóris.
― Assim mesmo. Por favor, não muda. ― Ela diz entre um gemido e
outro.
Eu obedeço a ela e não demora nem dois minutos para começar a se
contorcer de prazer, quase gozando. Apenas continuo e, em segundos, seu
corpo fica tenso e sua respiração descompassada. Ela estica o corpo,
jogando a cabeça para trás. Tinha esquecido o quanto era gostoso vê-la
gozar. Era lindo. Eu a seguro no lugar e só paro quando os tremores dela se
desfazem.
Eu me ajeito em meio suas pernas, tocando sua buceta e brincando com
a umidade que havia se acumulado. Por causa do orgasmo recente, até um
pequeno toque arranca um suspiro rouco da Diana.
― Chupa. ― Ela apenas abre a boca, recebendo meus dedos sem
hesitação. Suas bochechas estão rosadas e seus lábios inchados.
Ela olha pra mim enquanto prova si mesma e eu entendo o recado. Ela
quer chupar bem mais do que já está em sua boca. Eu puxo minha mão de
volta e me abaixo, agarrando suas pernas e começando a chupá-la. Dessa
vez, é a minha vez de gemer. É tão gostoso. Fecho os olhos, adorando tudo
aquilo: os gemidos e como ela segura os meus cabelos. Dou uma longa
lambida do seu períneo até o clitóris. Sua perna treme em êxtase.
― Olivia, puta merda, que gostoso… ― Sua voz é manhosa e rouca.
Eu soy apaixonada até nos palavrões que ela fala.
Meus dedos brincam com a sua entrada antes de eu deslizar para
dentro. Eu me movo um pouco mais rápido conforme ela começa a se
mexer contra meus dedos. Chupo seu clitóris e ganho um puxão com um
pouco mais de força no meu cabelo. Ela arqueia as costas e eu tenho que
segurá-la no lugar. Outro orgasmo para conta.
Levanto meu rosto. Meu nariz, meu queixo e minha boca estão todos
molhados. Seu olhar queima de tesão em mim por causa disso. E eu surto
internamente apenas por poder chupar aquela mulher. Sua pele brilha de
suor, seu rosto está vermelho, sua boca parece ainda maior e tinha outra
alguma coisa em toda a atmosfera ali que fazia dela a mulher mais gostosa
do mundo.
― Eu preciso que você sente em mim. ― Estou ofegante.
― Tem certeza? Tenho medo de me esbarrar no seu pescoço.
― Eu dou dois tapinhas na sua coxa se algo começar a incomodar. ―
Eu limpo brevemente meu rosto com um guardanapo deixado ali perto.
― Tudo bem.
Ela se levanta e me dá um selinho. Dou um tapa bem dado na bunda
dela antes de me deitar no lugar que ela estava antes. Sorrio com o gritinho
que ela dá.
Diana sobe com cuidado em mim, tirando meu cabelo do meio e
colocando um joelho de cada lado da minha cabeça. Olho para cima,
adorando a visão, enquanto ela se ajeita. De início, ela fica um pouco sem
saber o quanto precisa sentar, por isso, faço a gentileza de puxar seu quadril
todo na direção do meu rosto.
Demora alguns segundos para pegarmos o ritmo, mas gradualmente ela
começa a se mover contra a minha boca. Seguro suas pernas o tempo
inteiro, mantendo-a onde eu precisava para não forçar meu pescoço. Sinto
ela se contrair e seus movimentos ficarem mais firmes contra a minha boca.
― Olivia… ― Ela geme e eu dou um pouco mais de atenção a seu
clitóris, que já está sofrendo com hipersensibilidade por causa dos orgasmos
anteriores. Por mais que eu estivesse adorando aquilo, se ela gozasse
naquela posição, ela poderia esbarrar em mim sem querer.
Deixo-a ficar ali apenas mais um pouco antes de dar dois tapinhas em
sua coxa. Ela levanta devagar e sai de cima de mim, as pernas tremendo
com o movimento.
― Como você está se sentindo? ― Ela pergunta curiosa depois de se
acalmar, se ajeitando do meu lado.
― Eu amo a sua buceta. ― Eu finjo que não noto a mão dela na minha
coxa subindo e descendo. ― Você sabe que eu não vou conseguir gozar.
― Eu não ligo, eu só quero que você se divirta um pouco. ― Ela me
olha nos olhos, deslizando a mão pela minha perna. Eu estou molhada, mas
nada extraordinário. O toque dela não me faz estremecer. Eu não estou nem
perto de estar do jeito que ela está. Olho pra ela, um pouco aflita. ― Não
tem problema, está bem? ― Ela me tranquiliza com a voz baixa. ― Se
estiver ruim, me avisa e eu paro, okay? ― Ela se aproxima de mim, me
dando um beijo quase casto nos lábios. ― Eu tenho uma ideia.
Ela levanta, veste o roupão, anda até o banheiro e volta segurando uma
bolsinha. Eu já fico tensa, achando que ela tiraria qualquer brinquedo
daquilo, mas, não, ela tira um frasco de óleo corporal.
― Eu vou te mostrar que essas mãozinhas aqui fazem muito mais do
que dinheiro. ― Ela diz empolgada. ― Vai, deita de bruços.
Eu obedeço, me ajeitando entre as almofadas. Tiro o roupão, abaixando
até a altura da cintura. Sinto o peso dela quando ela se senta em mim. Ela
levanta meu cabelo, colocando-o de lado. O óleo cai sobre as minhas costas
e eu me arrepio. Ela começa a espalhá-lo pela expansão de pele exposta. O
primeiro lugar que seus polegares tocam é o final do meu pescoço, bem
onde a minha tatuagem começava. Ela desliza-os bem firmes por toda a
região do início das minhas costas e meus ombros.
― Você está tensa. Eu sei que não é novidade, mas é que agora eu
consigo literalmente sentir isso.
Ela começa apertando pontos específicos. De início, dói, mas, aos
poucos, meus músculos começam a parar de resistir ao seu toque e deus
dedos nas minhas costas me relaxam. Suas mãos passeiam até o meu ombro
esquerdo, massageando-o por inteiro. Depois, dá atenção para o meu braço
e repete a mesma coisa do outro lado.
Conforme suas mãos deslizam firmes sobre a minha pele, meu corpo
relaxa. É quente e ritmado. Chega a um ponto que eu não sei se consigo
distinguir com precisão que movimentos ela estava fazendo, eu só sabia que
era bom e que a Diana tinha mãos de fada.
― Amor, meu Deus… ― Suas mãos são rápidas e lentas na medida
certa. É impossível manter meus olhos abertos. Meu corpo está relaxado
como há muitos meses eu não me sentia. Eu deixo escapar um suspiro de
alívio quando ela desliza os dedos pela minha coluna.
― Você me chamou de amor. Acho que estou acertando na massagem.
― Ela brinca enquanto aperta a minha lombar e eu até escuto um pequeno
estalo. ― Eu estou aqui olhando suas tatuagens. Você tem o símbolo do
BDSM tatuado no ombro. O que é esse retângulo do lado? ― Ela passa a
dar atenção para o meu ombro esquerdo novamente.
― São as minhas graduações na faixa preta do jiu-jitsu.
― E aqui? ― Ela toca a lateral do meu braço.
― É um serafim, um anjo protetor. 6 asas e muitos olhos que não
descansam.
― Combina com você, mas a minha preferida ainda é essa aqui. ―
Sinto ela se abaixar e dar um beijinho onde o desenho da valquíria
começava. ― Penso nela por causa daquele dia no meu quarto.
Ela continua o que estava fazendo em silêncio, sempre alternando entre
meus braços, minhas costas e meu pescoço. Ela se concentra e seu toque é
tão quente contra a minha pele, quase febril. Ela fica mais uns bons minutos
ali antes de sair de cima de mim.
― Eu não tenho a menor condição de me mexer agora. ― Eu
choramingo, já sentindo falta das mãos dela me amassando. ― Você precisa
me ensinar isso depois.
Ela ri e pega uma das cobertas que estavam dobradas num cesto ao
lado. Joga por cima de nós duas e ficamos ali conversando por mais de uma
hora.
Passa das três da manhã quando levantamos e subimos pro quarto. Nos
vestimos e deitamos na cama. Ela apoia a cabeça no meu braço e beija a
minha mão.
― Obrigada por ter paciência comigo. ― Digo baixinho, já no escuro.
― Não se preocupe com isso, tudo bem? Eu adorei a nossa noite.
― Eu também. Você é muito romântica quando quer.
Ela me olha e me dá um beijo de boa noite nos lábios. Fico ali
brincando com os meus dedos em seus fios de cabelo até eu conseguir pegar
no sono.
CAPÍTULO 39
Diana

Olivia cantava twenty-one pilots quando entrei na cozinha. Os fones


estavam tão altos e ela estava tão focada em pesar a quantidade exata de
pré-treino na balança que sequer notou a minha presença.
O psiquiatra reduziu a quantidade de antidepressivos e antipsicóticos.
Ela ainda tomava regularmente, mas eu sentia que, pelo menos agora, o seu
corpo estava conseguindo lidar melhor. Isso sem dúvidas colaborou para o
bom humor dela.
Outra coisa que me deixou particularmente muito satisfeita: com a
diminuição da dose de antidepressivos, sua libido melhorou. Notei que ela
estava ficando excitada com um pouco mais de facilidade, algo que havia
sumido quase que completamente nos últimos tempos.
Os ataques de raiva e de pânico, por mais que ainda existissem,
estavam cada vez mais espaçados.
Ela está bem e nós duas estamos felizes. No entanto, ela não era a
mesma de antes. Também não esperava que fosse. O que passou foi demais
para qualquer um. Via quando ela não conseguia rir junto com todo mundo.
Quando ela estava com os amigos dela, eu via o esforço que ela fazia para
não deixar isso transparecer.
Eu assisti a Olivia queimar de febre em uma UTI e eu vi quando a
vontade de lutar estava indo embora. Eu a vi ficar olhando para o nada por
horas sem querer ter sobrevivido. Eu sabia mais do que ninguém o quão
longe ela tinha chegado. Não era justo exigir mais dela. Por isso, eu ficava
tão feliz quando ela tinha esses pequenos momentos de descontração.
― O que foi? ― Ela pergunta, finalmente notando a minha presença.
― Eu achei isso estranhamente atraente. ― Eu aponto para ela.
Ela usava um coque alto na cabeça, um short preto e um moletom que
caberia duas dela ali dentro facilmente. Minha namorada é apenas a mulher
mais gostosa que já pisou no planeta.
― Você está de TPM, é por isso que está me comendo com os olhos
desse jeito. Por causa de uma batida de morango!
Na verdade, tinha uma justificativa: ela não queria deixar eu tocar nela
de maneira maliciosa. Eu estava sendo paciente e não me incomodava o
fato dela se sentir confortável sendo 100% ativa, mesmo que eu estivesse
com saudade.
― Tem certeza que realmente está bem para voltar a lutar? ― Me
aproximo dela, abraçando-a pela cintura. Eu estava preocupada com o
pescoço dela, porque é uma arte marcial que exige muito atrito nessa
região.
― Tenho. Eu coloquei um esparadrapo grosso por cima e estou usando
uma blusa com gola alta. Sem falar que eu estou bem, okay? ― Ela abaixa
a cabeça para me olhar. Nessas horas, eu acho fofa a nossa diferença de
quase trinta centímetros de altura.
― Tenta só não se machucar. ― Ela abaixa mais um pouco, me dando
um beijo na testa.
Me sento no sofá de veludo da sala dela. Abro o meu notebook e
começo a responder alguns e-mails aleatórios do trabalho. Não demora
muito e Olivia se despede, me dando um beijo na testa e saindo do
apartamento.
Pego meu celular, aproveitando o silêncio. Abro minha conversa da
noite anterior com Katie e aproveito para ligar para ela.
― Diana, pombinha. ― Ela atende. Pelo barulho de música tocando no
fundo, ela muito provavelmente estava trabalhando.
― Ontem, você parou de me responder de nada, mas hoje você não vai
fugir de mim. ― Eu a escuto resmungar e uma porta se fechar, silenciando
a música.
― Eu não estava fugindo de você, eu estava te dando privacidade para
você ficar com a sua namorada.
― Ela toma remédio. Naquela hora já estava dormindo e você sabe
muito bem. Essa sua desculpazinha não colou. O que o médico disse?
― Eu estou com anemia. ― Quase consigo visualizar ela revirando os
olhos. ― Diana, eu tenho transtorno alimentar. O que mais você estava
esperando?
― Você não deveria falar isso com essa naturalidade, inferno! ― Passo
a mão no rosto, pensando no que pode ser feito pela minha prima.
― Tia Cassandra sabe que a filhinha dela desmaiou no trabalho essa
semana por acaso?
― Lógico que não.
― Katie…
― Não fique do lado daquela víbora. ― Ela resmunga. ― Joe está
comigo. Eu vou ficar bem.
― Ele é um stripper. Espera… Você fretou um jatinho para um garoto
de programa? ― Eu consigo facilmente imaginar notas de dinheiro criando
asas e voando da carteira de Katie para manter um luxo tão fútil.
― Não fala assim dele.
― Katie, foco. O que o médico disse?
― Ele disse que eu preciso me alimentar melhor. ― Escuto Katie
suspirar, perdendo a paciência. ― Já disse que não precisa dessa
preocupação toda comigo.
― Eu tenho muita coisa para resolver hoje, mas você pode ter certeza
que eu estarei aí essa semana.
― Tchau, Diana. ― Ela perde a paciência de vez.
― Katie, isso é… ― Ela desliga na minha cara.
Tento ligar novamente para a minha prima, mas, como esperado, ela
não me atende. Começo então a olhar para a tela do meu computador. Eu
havia feito algo na qual eu não me sentia minimamente confortável em ter
feito, mas sabia que era o certo. Mesmo com o mundo acabando, eu ainda
precisava fazer aquela empresa funcionar. Então, eu trabalho enquanto
imagino Alencar morrendo de maneira bem lenta na minha frente. Filho da
puta.
***
― Diana, cheguei. ― Olivia entra no apartamento algumas horas
depois. Ela passa por mim, me dá um selinho e anda até a cozinha. ― Está
um pouco frio. Pensei que voltaria para cama e eu iria chegar e você estaria
dormindo. ― Eu escuto o barulho do filtro enquanto ela enche a garrafa de
água dela.
― Precisei trabalhar. ― Explico enquanto a vejo dar um longo gole,
quase virando tudo de uma vez só. Ela se aproxima de mim, se sentando do
meu lado do sofá e olhando com cara de quem está prestes a pedir alguma
coisa. ― Que foi? ― Ela abre um sorriso e só então me dou conta que a
regata do pijama que eu usava havia descido, deixando meus peitos mais a
mostra do que de costume.
― Eu vou tomar um banho, porque estou toda suada, e você vem
comigo. ― Ela levanta do sofá.
― Por mais que eu queira, eu escovei meu cabelo ontem de noite pra ir
trabalhar. ― Digo e ela me olha com aqueles olhinhos de cachorro que caiu
da mudança.
― A gente coloca uma toquinha. ― Ela sorri, tentando me convencer.
― Não mesmo, Olivia. Eu deixo você fazer o que quiser depois. Não
quero me molhar. ― Ela me olha com um olhar divertido e só depois noto o
duplo sentido.
― Eu vou cobrar. ― Ela me ameaça, mas segue pro banheiro. Escuto
ela ligar o chuveiro depois de um tempo e volto a focar na tela do
computador.
― Montserrat, pega uma toalha para mim? ― Escuto ela gritar do
banheiro.
Pego uma toalha no armário e, quando eu estico a mão, sou puxada
para dentro do banheiro.
― Você não é nem doida. ― Eu corro do aperto dela, mas pouco
adiantava, ela era muito mais forte que eu. Ela gargalha, sabendo que ali era
uma batalha vencida. ― Olivia, não. ― Minha voz sai aguda e eu acabo
rindo junto.
― Vai tomar banho comigo sim.
― Olivia, respeita a sua namorada. ― Quando eu menos espero, ela
me coloca debaixo da água do chuveiro.
Mal tenho tempo de protestar e sou calada por um beijo. Ela cola o
corpo no meu e a sua boca é exigente, um beijo tão bem encaixado que eu
não queria parar ali. Sua boca sai da minha, explorando meu pescoço. Ela
me dá impulso e eu entrelaço minhas pernas ao redor da sua cintura
enquanto ela me segura pela bunda.
― Eu não acredito. ― Solto uma risada, passando os braços ao redor
dos seus ombros. ― Eu fui literalmente atacada. Meu cabelo, Olivia! Você
é uma tarada.
― Você também não está muito longe disso. ― Ela morde meu ombro
e o gesto é mais que suficiente para eu sentir uma pressão gostosa entre as
pernas. Minhas mãos vão direto para sua nuca, sabendo que ali era um local
que ela gostava de carinho. É um pequeno incentivo que dou para que ela
não parasse.
Ela me segurava contra a parede e suas mãos estavam bem firmes na
minha bunda. Ela beija meu pescoço, descendo devagar até os meus seios, e
era tão bom. Meu toque passeia pelos músculos definidos de seus braços.
Ela me segura mais perto, meu corpo pressionado contra o dela.
Seu braço se move e vejo que ela me apoia no chão. Ela tira o meu
short de pijama e a minha calcinha junto.
― Eu sou muito gay. ― Ela comenta, se agachando na minha frente e
apoiando uma mão na parte de trás de cada coxa minha. ― E muito sortuda
também. ― Eu recebo um tapa estalado na bunda antes dela apertá-la.
Então, ela sobe o olhar. A água cai nos meus ombros e desce pelo meu
corpo enquanto ela me olha em adoração. ― Abre as pernas para mim,
amor. ― Acaricia minhas coxas.
Eu obedeço. Me derreto inteira quando ela desliza os dedos em mim.
Aquela mulher não precisava fazer nenhum esforço para me ter
completamente enlouquecida. Sinto sua boca na barriga, descendo
gradualmente e mordendo logo abaixo do meu umbigo. Eu me apoio em seu
ombro, já sabendo o que me aguardava.
Ela me chupa e eu curvo meu corpo sobre ela. A luz do banheiro dava
um contraste tão bonito nas suas tatuagens.
Ela sobe o olhar de novo. Seus olhos, que já eram bem castanhos,
parecem ser completamente pretos naquela luz. Minha mão vai até seu
rosto, assistindo toda aquela cena. Era lindo vê-la me chupando.
Dois dedos entram em mim com muita facilidade. O movimento que
ela fazia gerava uma pressão tão gostosa. Encosto a minha cabeça na
parede, sentindo tudo dentro de mim esquentar. Fecho os olhos, sentindo
seus dedos brincarem com o meu ponto G enquanto ela me chupava. Me
deixo levar por tudo aquilo.
― Olivia, eu vou cair. ― Eu reclamo, sentindo minhas pernas
desistirem de mim. Era ridículo o tanto que eu estava ofegante.
― Vai nada, eu estou te segurando. ― Ela aperta ainda mais minhas
coxas. ― Você fica tão bonita assim, com cara de quem está quase gozando.
― Eu sinto meu íntimo se contrair com suas palavras. Era gostoso demais.
Ela sobe beijos por todo o meu corpo, sua boca passando sem vergonha
pelos meus peitos. Seus dedos saem e entram em mim com um pouco mais
de força, arrancando um gemido de mim. Um de seus braços me segura no
lugar e seus dedos começam a se mover um pouco mais exigentes em mim.
Em pouco tempo, eu estou tremendo. Meu corpo queima e eu estava
ofegante. Se não fosse o seu aperto, eu com certeza não ia me aguentar em
pé. Olivia me leva até a ponta do orgasmo e simplesmente para tudo para
começar de novo.
Eu sinto a respiração pesada dela no meu pescoço. Ela está tão faminta
por mim quanto eu estou por ela.
― Olivia, caralho… ― Minha voz sai tremula e eu sinto os dedos de
Olivia se movendo novamente dentro de mim. Eu já estava tão sensível que,
a essa altura, eu me segurava em seu ombro desesperadamente.
Ela entra e sai de mim de forma ritmada e eu nem sabia o meu nome
mais. Movo meu quadril em sua direção, mostrando o quão
desesperadamente eu precisava senti-la em mim.
― Você gosta quando eu te fodo assim, amor? ― Ela pergunta com a
voz quase zombando do meu desespero.
Minha mão se enrola no cabelo molhado de Olivia, trazendo sua boca
até a minha. Seus movimentos ficam mais fortes contra a minha entrada
conforme sua língua vem exigente até a minha, dominando o beijo. Seus
dedos trabalham tão bem que eu estou com dificuldade de corresponder. Eu
quero dizer o quanto eu estou apaixonada por ela e como nenhuma outra
havia feito eu me sentir assim, porém, tudo que o meu cérebro inebriado de
tesão me permite fazer é arfar e sentir tudo dentro de mim se contrair.
Sua boca desce até os meus seios. É tão gostoso. Seus dedos se
movendo em mim do mesmo jeito que sua língua, me levam ao puro êxtase.
Ela precisa me segurar para me manter em pé.
Passo minhas mãos por sua barriga, achando lindo a forma como os
músculos ali se contraem. Eu sou apaixonada por cada pedacinho do corpo
dela. Me limito ao descer a minha mão, mantendo apenas até a altura de sua
cintura, respeitando seu tempo.
― Olivia, no dia que eu puder tocar em você, você está muito fodida.
― É tudo que eu falo, ainda me sentindo mole enquanto ela me segura. Eu
sinto sua pele vibrar com a risada abafada.
― Olivia, não acredito que você me deu um chupão. ― Digo logo
após colocar o meu sutiã. ― Quantos anos você tem? Quinze?!
― Você acha que, eu podendo colocar os peitos na minha cara, eu iria
ficar de boa?
― Sorte sua que a minha blusa cobre.
― Eu tenho uma novidade para contar. ― Ela diz assim que sai do
banheiro, desenrola a toalha e começa a enxugar o cabelo. ― A psicóloga
me liberou. Eu estou oficialmente de volta na minha equipe da S.W.A.T. ―
Ela mostra o distintivo, sorrindo. ― Eu volto a trabalhar hoje. Não te
contei, porque precisava pegar o documento para entregar no quartel.
― Ai, eu estou tão orgulhosa de você! ― Eu ajoelho na cama e a
abraço. ― Você merece tanto. ― Começo a lembrar o quanto foi difícil
para ela o caminho até aqui e quantas noites passamos em claro. Acabo me
emocionando e fica difícil não chorar. ― Meu deus, você é tão incrível.
― Meu deus, não chora. ― Ela mesmo estava com a voz embargada
quando me puxa para um beijo.
― Eu te amo demais para não ficar feliz por ti. ― Eu enxugo meu
rosto.
― Inclusive, eu peguei umas fardas novas. ― Ela pega uma mochila
com o símbolo da S.W.A.T. que estava guardada dentro do armário.
― Eu sinto que eu estou prestes a ter o maior gay panic de toda a
minha vida.
― Não vai ser maior que o meu quando você assumiu as empresas do
seu pai. ― Ela comenta, começando a se vestir, e eu faço o mesmo,
tentando não ficar muito nervosa com o que me aguardava quando entrasse
naquela empresa hoje.
― Eu nunca olhei para alguém tão desrespeitosamente em toda a
minha vida. ― Ela estava usando apenas a parte de baixo da farda e um top
de ginástica. ― Eu juro, acho que a minha pressão caiu. ― Coloco a minha
mão na testa, encenando um quase desmaio.
― Não seja dramática. ― Ela ri e começa a amarrar o cadarço do
coturno.
― Estou sendo sincera, querida. ― Meu deus, que mulher bonita. ―
Toda vez que eu precisar de um cenário para imaginar quando eu for me
masturbar, vai ser esse aqui. Ele vai ficar guardado no mesmo lugar da
memória de você dirigindo a minha Ferrari.
― Pervertida. — Brinca, pegando uma blusa do cabide. Era simples,
exatamente igual a uma que eu já tinha visto o Luca usando, toda preta, de
manga longa, com o símbolo na frente e nos ombros. ― Tem a de manga
curta, mas eu não quero sair por aí com um monte de tatuagens à mostra. ―
Ela explica enquanto se veste.
Deixo Olivia terminar de se arrumar. Começo a colocar meus brincos,
pensando no inferno de dia que me aguardava hoje naquela empresa.
Vejo ela passar na minha frente, prendendo o cabelo em um rabo de
cavalo. Faltava um mês e meio para o aniversário de 33 anos dela e eu
estava começando a pensar no que daria de presente. Obviamente seria algo
caro, porque eu estava com vontade, mas não caro suficiente para deixá-la
desconfortável.
O meu celular tocando na cozinha me tira do meu devaneio. Era Ellie.
Nesse pouco tempo, eu aprendi duas coisas sobre a minha mais nova
secretária:
1. Ela era muito eficiente e organizada.
2. Ela se desesperava muito fácil.
Acabo perdendo a ligação e preciso retornar.
― Senhorita Montserrat? ― Ela atende no primeiro toque e coloco no
viva-voz. Olivia para no meio da sala, prestando atenção na conversa.
― Sim?
― A empresa está um caos. O prédio inteiro já sabe o que você fez. Eu
estou literalmente escondida num banheiro, porque todo mundo quer saber
onde você está. ― Mas é claro que eu teria que lidar com funcionários
enchendo a porra do saco.
― O que aconteceu? ― Pergunto. Eu sabia o que tinha acontecido,
mas eu precisava saber como a fofoca havia se espalhado.
― Alencar e Matteo Montserrat foram desligados da empresa nesta
manhã e a empresa está sob investigação criminal por lavagem de dinheiro.
― Eu aceno com a cabeça mesmo sabendo que ela não poderia me ver. Pela
falta de mensagens da minha mãe, a fofoca ainda não havia chegado até ela;
mas meu pai com toda certeza já havia sido notificado. ― O que eu falo
para sócios?
― Eles estão revoltados, mas eu ainda estou sentada na cadeira da
presidência. Fala para eles que, quando eu bem entender, eu apareço aí.
― Isso não é meio antiético, desligá-los da empresa? Mesmo você
sendo a dona majoritária, precisa de um conselho. Eles também têm
porcentagem das ações.
Antiético é lavagem de dinheiro.
― Foi justa causa, Ellie.
― Quer saber, finge que eu não falei nada. ― Acho engraçada sua
resposta.
Ela desliga o telefone. Eu ligo para os meus advogados, me
certificando da presença deles hoje dentro daquela empresa. Eu não
pretendia jogar a merda no ventilador. Puta que pariu, eu poderia ser presa
como laranja se isso caísse na mídia, afinal, a empresa é minha. Todo
cuidado é pouco.
― Diana... Caralho, puta que pariu. ― Olivia me olha perplexa, com
as mãos na cintura. ― Eu achava que a pessoa com tendências
autodestrutivas aqui era eu.
― Eles não acham divertido fazer as coisas nas minhas costas?
― Diana, eles vão matar você.
― Que eu saiba, estão tentando fazer isso há meses.
― Puta que pariu. Olha, eu vou te falar. ― Ela passa as mãos no rosto.
― Eu sei que o que você fez foi necessário, mas você está praticamente
implorando por um tiro na cabeça. ― Ela deixa o cansaço transparecer em
sua voz.
― Eu não mexi com Robert Moore, mexi com Matteo Montserrat. ―
Respondo.

***
Subo para a minha sala. Antes de qualquer coisa, eu me encontro com
advogados da minha confiança. Conversamos e eu tento ser o mais
detalhista com a minha versão da história. Apresento todos os documentos
que reuni contra o meu pai. Precisava ter a segurança de que, se ou meu pai
ou Alencar tentassem entrar com um processo contra a mim ou a minha
empresa, eu não seria pega de surpresa. Essa reunião também foi
inteiramente dedicada a nos prepararmos para, caso toda essa merda fosse
para a polícia, eu precisava conseguir provar que eu não tinha envolvimento
nisso, porque eu poderia ser presa como laranja uma vez que a minha
empresa foi o meio utilizado pelo meu pai.
A minha cabeça iria explodir só de calcular o prejuízo que isso iria me
causar. Queria ter alguém ali do meu lado, mas infelizmente a única pessoa
que de fato deveria estar ali era a principal culpada disso tudo. Eu olho para
as garrafas de uísque, odiando o fato de precisar estar sóbria durante aquele
dia.
Meu próximo compromisso não seria na minha sala, era na principal
sala de reuniões do prédio. Me sento na cabeceira da mesa e encaro os
homens e mulheres à minha frente: cabeça da empresa, diretores,
assessores, sócios… Todos putos da vida. Até nos mais leais a mim, era
possível ver certo descontentamento uma vez que o desligamento do meu
pai ou do Alencar jamais poderia ter sido feito sem o aval deles. Me
pergunto se mais alguém ali colabora com o meu pai, porque pelo menos a
metade dos que estavam ali trabalhavam na empresa quando ele era o dono.
Por sorte, quando eu encerro toda a reunião e estou terminando de
assinar a ata para Ellie, Miller aparece na porta. Só pelo seu olhar, eu já
sabia do que se tratava. O helicóptero do meu pai havia acabado de pousar
no heliporto da empresa. Eu tento me manter calma. Eu já sabia que tudo
aquilo me aguardava no momento que assinei o desligamento dos dois.
Deixo Ellie terminar o trabalho e ando até a minha sala quase que
preguiçosamente. A ansiedade enrolava o meu cérebro e gravava espinhos
atrás dos meus olhos. Pisco, focando minha atenção no meu barulho dos
saltos no chão de mármore. Hoje não era o dia que eu poderia me dar ao
luxo de me deixar levar por uma crise de ansiedade.
― Vagabunda! ― Meu pai vem em minha direção. Eu não me movo.
Ele tenta agarrar o meu braço, mas Michelle e Miller voam para cima dele.
― Como você tem a audácia de me trair?! ― Apenas aceno com a mão
para que soltem ele. Eles largam, mas não deixam a sala.
― Não é tão prazeroso quando acontece com você, não é? ― Me sento
na cadeira que um dia foi dele. ― Se você não é dono da empresa, de onde
vem o dinheiro que você lava? ― Digo irônica, vendo-o ficar
completamente puto na minha frente.
― Você não sabe o que você fez! ― Estar de frente para meu pai
nunca foi algo confortável. Ele tinha a pele clara e a maioria de seu cabelo
já era grisalho. Uma aparência comum para um homem de 63 anos. Ele
sempre estava impecavelmente vestido e seu olhar nunca era de amor,
nunca foi.
― Eu sei. Eu assinei um papel desligando você e o Alencar das
empresas Montserrat. ― Eu pego uma garrafa de uísque, um copo com gelo
e sirvo meu pai. Desdenho claramente do quanto ele estava fora de si. ―
Aliás, você sabe que você só entrou aqui devido ao seu sobrenome, porque
nem isso Alencar conseguiu fazer.
― O que você quer? Porque isso claramente é uma birra.
― Não me importo com o que você faz ou deixa de fazer, eu não quero
me meter no seu negócio sujo. Dessa empresa, você não tira mais meio
centavo no meu nome. Se vira. Eu sei que você tem dinheiro para bancar,
Alencar também tem. Se você é ignorante e joga o dinheiro da família pelo
ralo por uma ambição sua, problema seu. Eu não sou assim. ― Minha voz é
firme.
― Você é muito jovem. Não sabe o que está fazendo.
― Eu tenho 32 anos. Eu tanto sei que, se fosse um homem sentado na
sua cadeira agora, você jamais falaria isso para ele.
― Eu não precisaria, porque ele teria simplesmente aceitado a minha
proposta de negócios meses antes.
― Mas eu não aceitei. Pai, você passou as empresas pro meu nome
porque quis. Se achou que iria conseguir me ter na palma da mão porque eu
sou mulher, acredito que quem não sabia o que estava fazendo aqui era
você. Além do mais, você tem dinheiro. O problema é seu, lide com ele.
Mas não use a minha empresa achando que eu vou aceitar, porque eu não
vou, mesmo você sendo meu pai ou não.
― Realmente perdeu a noção das coisas, Diana. Robert Moore é um
cara ambicioso. Sempre existe a oportunidade de deixar velhas mágoas para
trás.
― O que você fez?
― O que você está dizendo.
― Você está desesperado. O que você fez? ― Pergunto pausadamente.
― São negócios. Eu nunca cheguei perto de um carregamento de
drogas, mas, se eu preciso passá-las de um lugar para o outro e depois lavar
o dinheiro, eu farei.
― O que você fez é CRIME.
― Existe uma linha bem fina que faz qualquer crime ser
completamente lícito. Essa linha é o dinheiro.
― Espera. Você voltou a fazer negócios com o Robert Moore? Era por
isso que ele estava na sua casa? E agora imagino que ele não deve estar nem
um pouco feliz porque você e Alencar não possuem nenhum negócio para
lavar dinheiro. Por que Alencar não usou as empresas do pai dele? Ah, é,
elas estão todas no meu nome. ― Rio, debochando da sua situação. ― Eu
não posso demitir ele de lá, mas aquelas empresas não são grandes o
suficiente para essa quantia de dinheiro passar despercebida.
― Eu te moldei. Tudo que você é, é porque eu te ensinei. Não pense
nem por meio segundo que nessa história você sairá por cima.
― Eu já saí por cima, pai. Por mais que você tenha muito dinheiro, não
tem uma empresa grande o suficiente para lavar o dinheiro do tráfico. As
empresas do Alencar não condizem com o fluxo de dinheiro de vocês.
― Quanto você quer?
― Ah, não venha com essa. Você é inteligente, vai achar uma forma de
lavar seu dinheiro sujo, as empresas Montserrat foram só uma desculpa
preguiçosa. Aposto que foi temporária inclusive. Não seria burro a ponto de
só ter essa saída. Me deixe longe dos seus negócios sujos e eu continuo com
o negócio da família. A gente sabe que, na verdade, eu só existo porque
você precisava de uma herdeira. ― Ele não se comove e sequer tenta
rebater. Ele sabia que era verdade. ― Sai daqui. Tudo que eu tinha para
falar com você, eu já falei. O senhor pode até ter o sobrenome Montserrat,
mas eu que pago o salário dos seguranças. Você não quer passar por essa
humilhação, não é?
Quando meu pai sai da minha sala, eu me sinto completamente
drenada. Me encosto na cadeira, apoiando o queixo na mão. No fundo, eu
me importava, sim, com os negócios do meu pai mesmo sabendo que
homens como ele sempre saiam impunes independentemente do crime
cometido. Eu sabia que não estava sob meu controle impedir que ele se
envolvesse com o tráfico, mas a parcela disso que eu poderia controlar era
tirar o meu da linha de fogo, nem que, para isso, eu precisasse refazer toda a
diretoria da empresa e sair demitindo um monte de gente.
Robert também me preocupava, mas de forma diferente. Sinceramente,
espero que o universo se encarregue de colocar uma bala na cabeça dele.
Brett procurou Olivia por vingança e acabou do mesmo jeito que Anthony.
Ele queria vingança com o meu pai e, agora com Brett e Anthony fora de
jogo, a máfia dele está mais enfraquecida do que nunca. Olivia não mentiu
quando disse que tentariam me matar.
Me pergunto se agora, sem as empresas para fazer o que bem entender,
meu pai tentará juntar forças com ele de novo. Robert está desesperado,
mas ele foi traído. Será que aceitaria? Nisso tudo, Olivia está envolvida em
cada parte de algum jeito. Eu sabia que ela tinha plena capacidade de se
cuidar, mas não iria aguentar outro trauma dessa magnitude.
Meu celular vibra com uma mensagem da Olivia, que me pergunta se
eu queria jantar com ela, mas acabo negando. Minha mãe sempre me
ensinou que colocar panos quentes era algo que funcionava muito bem com
gente rica, ou seja, precisava conter o caos que eu mesma havia instaurado
com a demissão do Alencar e do meu pai. Uma forma de fazer isso era um
jantar para acalmar o ânimo do pessoal e amaciar o ego deles. Assim, eles
esqueceriam essa história.
Chamo Ellie na minha sala para pedir que ela cuide disso para mim.
Os “laranjas” são pessoas que ocultam o patrimônio de sonegadores ou
servem para lavagem de dinheiro proveniente do crime organizado.
CAPÍTULO 40
Olivia

Eu sou ateia, sequer acredito nas famosas energias do universo pra ser
sincera. Mas acredito em sensações. Enquanto eu estava ali guardando a
minha bolsa no vestiário do quartel, eu senti como se já tivesse vivido
aquele dia, um déjà-vu. Era como se pudesse sentir a minha pele vibrar com
o receio e uma pedra do tamanho de uma laranja repuxar todo o meu
esôfago para baixo.
Poderia ser apenas trauma. O PTSD agora fazia parte da minha rotina.
Essa sensação de antecipação era muito comum, então apenas tento ignorar
enquanto tranco meu armário. Prendo meu cinto e ajeito meu smart watch
no braço. Uma novata entra no vestiário, se apresenta, bate continência e
começa a se arrumar. Era a primeira semana dela de serviço efetivo na
equipe. Eu avaliei sua última prova. Eu não fazia parte da academia, mas
ela era uma nova agente mulher e eu queria estar presente. Deixo-a fazer as
coisas dela e saio.
― O que você fez? ― Pergunto assim que Luca aparece.
― Nada. ― Ele continua andando e eu preciso ir atrás dele.
― Apesar de não saber detalhes, eu sei que a minha melhor amiga
estava de bom humor ontem e, hoje de manhã, quando eu estava no jiu-jitsu
e a encontrei, ela não estava mais.
― Fofoqueira. Não é da sua conta. ― Ele me olha com uma cara de
poucos amigos. ― Não foi uma briga, foi apenas um mero
desentendimento.
Antes que pudéssemos continuar, uma cadete se aproxima, se apresenta
e presta continência.
― Descansar. ― Respondo.
― Tenente Winston, o general te aguarda na sala dele.
― Tenho que ir. Depois conversamos. ― Uso um tom formal antes de
me afastar e seguir pra sala do general.
Entrego os documentos que ainda faltavam, ele pergunta se eu já
entreguei todas as pendências e assina alguns relatórios. Saio de sua sala e
continuo o meu dia. Apresento a novata, cabo Heller, à equipe. No meio da
tarde, eu aproveito o tempo livre para treinar com o Luca.
― Dá pra acreditar que aquela mulher me tem na palma da mão e tem
a cara de pau de falar que eu não levo nosso relacionamento a sério?! ―
Luca reclama enquanto eu desvio da pegada dele na minha nuca e deslizo
meu corpo para debaixo do dele.
Eu estava com raiva, porque ele não estava se esforçando pra lutar com
medo de me machucar. Além disso, estava desde o início do treino
reclamando da Michelle.
― Você tem a cara de pau de ir pra um bar sem avisar ela e você
espera que ela fique numa boa? ― Eu me ajeito embaixo dele e, se ele
repara, não demonstra, o que me deixa ainda mais frustrada. ― Seja o que
for a briga de vocês, eu estou do lado dela.
― Não é justo. Eu não fiz nada! ― Ele segura as minhas pernas e
ergue o corpo, saindo da guarda, mas falha, porque eu começo a seguir com
o quadril.
― É o que todos dizem. ― Eu reviro os olhos e puxo ele para baixo.
Ele tenta se soltar, mas o triângulo já estava encaixado. Eu assisto o rosto
dele ficar vermelho e mantenho a pressão enquanto ele tenta se soltar da
posição. ― É só bater que eu solto, flor. ― Digo com deboche, puta da vida
por ele ter pegado leve comigo. Ele tenta se soltar de todos os jeitos. Até
ficar em pé, ele tentou.
Ele finalmente bate e eu solto.
― Não custava nada avisar pra Michelle que você ia sair. Ela passou o
dia querendo fazer uma noite de filmes com você. ― Eu explico. ― Da
próxima vez que você lutar assim comigo, eu vou esquecer que é jiu-jitsu e
vou acertar o joelho na sua cara. ― Eu fico de pé, saindo do tatame.
Tomo um banho rápido e coloco uma farda limpa. Era quase noite e só
agora tinha notado que Diana havia recusado meu convite para jantar. Dou
de ombros. Eu meio que já esperava isso depois da ligação dela com a
secretária no almoço. Prendo meu cabelo em uma trança firme e volto para
o meu posto. Pego uma prancheta e começo a conferir o serviço que a cabo
Heller havia feito, que era a manutenção nos equipamentos que ficam
guardados dentro do blindado.
― Como está sendo a sua primeira semana? ― Ela não iria se abrir,
mas, como a vida dela estava na minha mão agora que ela fazia parte da
equipe, algum vínculo precisa existir.
― Aprendi bastante por mais que a pressão de ser um cadete e de
agora ser cabo seja completamente diferente.
― Espera só quando se tornar tenente. ― Quase rio, mas sinto uma
certa nostalgia. ― Qual o seu nome completo?
― Tracie Heller.
― Que fofo. ― Rio, pulando pra fora do blindado e fechando a porta.
― Nunca conheci uma Tracie que não fosse loira.
― Acredite, eu também nunca conheci outra Tracie que não fosse
loira. ― Fico feliz de ela levar na brincadeira. Gosto de fazer provocações
bestas para saber com quem estou lidando.
― Olivia Winston, o meu. ― Comecei a assinar os campos que
faltavam na prancheta. Heller deveria ter a mesma altura de Michelle, não
mais do que 1,75. Ela tinha o cabelo castanho e estava preso em um rabo de
cavalo. ― Bom, acho que não tem mais nada pra conferir. Está dispensada.
Checo meu relógio, procurando alguma chamada perdida da Diana,
mas até agora nada. Ela não havia respondido à última mensagem que eu
tinha mandado.
Dou uma última conferida nos itens da minha prancheta, assino o
documento e volto para dentro do prédio. Coloco a prancheta no devido
lugar e ando até a sala de planejamento de operações táticas. Conseguia
escutar a conversa do lado de fora, mas, por causa da porta grossa, não era
possível distinguir uma frase da outra. Assim que coloco o pé dentro da
sala, o silêncio se instala.
― Eu posso saber o porquê do silêncio? ― Eu olho para todos os
membros da equipe enquanto eles batem continência.
― Tenente. ― Luca começa. ― Michelle ligou para o meu celular. A
ligação ainda está acontecendo e estamos rastreando.
― Ela pode escutar a gente? ― Me aproximo do celular do Luca.
― Ela deve ter desligado o áudio da ligação pra não chamar atenção.
― É o que Jake diz enquanto espera algo carregar na tela do computador.
Começo a escutar a ligação. Não passava de barulhos distorcidos como
se o celular estivesse no bolso. Era difícil saber se ela estava dirigindo ou
se pegaram ela. Tudo que tínhamos era uma ligação e a localização do
celular.
Olho para o meu relógio, procurando qualquer ligação dela, da Diana
ou de qualquer um dos seguranças. Não tem nada. Sei que, se fizessem tudo
que fizeram comigo, Diana jamais se recuperaria. Meu estômago embrulha.
Foi muito difícil me achar. Ela já deve estar sofrendo há horas. O cenário
que se forma na minha cabeça é traiçoeiro. Se eu me deixasse levar pelos
meus sentimentos agora, poderia colocar tudo a perder.
― Tudo bem. ― Respiro fundo, incrédula com a situação. ―
Circulando, galera. Quero todo mundo no blindado o mais rápido possível.
― Os outros cinco policiais saem da sala, ficando apenas Luca, Jake e eu.
― Jake, eu quero essa ligação no ponto do meu ouvido.

***
― Você realmente pode fazer isso? Olivia, se você sair da linha e fizer
alguma merda... Você está sabendo que alguém pode morrer. É o seu
primeiro dia de volta. ― Luca pergunta enquanto calçava as luvas.
Ele parecia calmo, mas eu sabia que ele não estava. O pânico que me
apunhalava no estômago também atingia o dele. Michelle pode ter todo o
treinamento do mundo, mas Luca não consegue ficar calmo. Só de imaginar
as duas passando por tudo o que eu passei, eu sentia vontade de fazer uma
chacina naquele lugar.
― Não se preocupe, mas pode considerar 34 um número pequeno. ―
Eu coloco a máscara.
Ele pega o capacete e dá um soquinho no meu ombro antes de irmos
pro blindado.
Luca começa a explicar como será a missão enquanto eu me sento no
banco da frente do blindado, ao lado de Jake, que dirigia. Quase reviro o
olho quando noto que eu conheço esse caminho. Estávamos indo pro
mesmo lugar em que eu matei Anthony Moore.
A ligação no ponto do meu ouvido muda de barulho e logo escuto a
voz da Michelle sussurrada:
― Alguém ainda está na linha?
― Mich, você está bem? Estamos a caminho. ― Respondo.
― Eu estou bem, mas não tenho muitas munições. Robert está num
grupo muito grande. Eu contei mais de dez pessoas.
― O que aconteceu?
― Eles nos abordaram no estacionamento. Não consegui reagir,
porque colocaram uma arma na cabeça de cada. ― Olho para Luca, que
estava com uma expressão retorcida e eu não conseguia decifrar muito bem
o que passava em sua cabeça. ― Eles me prenderam em um dos containers.
Não sei pra onde levaram a Diana. Tenham cuidado, Robert está puto.
Desde que a Diana cortou Matteo e Alencar das empresas, ele parou de
receber a parte dele. Tenho que parar de falar, tem alguém vindo.
Escutamos Michelle correr. Alguns tiros e a ligação fica em completo
silêncio antes de cair completamente.
Meu corpo gela. Sinto cada centímetro do meu corpo doer como se
tivessem substituído meu sangue por ácido. Eu olho pra Luca, ele estava
branco como um papel.
Luca passa as mãos no rosto. Tento descobrir se ele precisava que eu
assumisse a missão. Ele percebe, nega com a cabeça e começa a explicar
para os outros membros da equipe que iremos entrar em duplas, cercando
todo o perímetro. Precisamos achar os 3 seguranças e Diana. Prendo o rifle
nas costas e destravo o fuzil, sabendo o inferno que me esperava dentro
daquele lugar.
― Não se desespere. Não temos como saber. ― Digo quando estamos
sozinhos, prestes a invadir o lugar. Sua resposta é um aceno rápido de
cabeça.
Eu entro no depósito logo atrás dele. Ele cobria a direita e eu a
esquerda. Entramos rápido. Estava parcialmente iluminado. Não havia
janelas, mas algumas luzes ainda funcionavam. Mal entramos no prédio e já
escutamos disparos distantes. Constato que foram tiros de fuzil. Eles não
estavam usando armamento leve. Os coletes usados no dia a dia dos guarda-
costas da Diana não foram feitos para segurar uma bala de fuzil. Olho para
o Luca. Eu não conseguia ver seu rosto, mas eu sabia que ele havia pensado
a mesma coisa.
Não vou pensar em Michelle agora, muito menos em Diana. Vou fazer
o que eu fui treinada. Vou entrar, contar a quantidade de tiros que saem do
meu fuzil, recarregar e repetir o processo.
Sigo o combinado. Procuramos Michelle primeiro. Ando com mais
atenção do que o normal. Luca estava com sede de sangue, estressado
demais, nervoso demais. Um homem de blusa vermelha aparece na nossa
frente, armado. O tiro de Luca é certeiro em sua cabeça e nós continuamos
andando. Nós seguimos simples, rápido e eficiente.
Presto atenção à minha esquerda. Puxo Luca para trás de uma viga de
metal segundos antes dos tiros começarem. Onde estávamos era uma parte
um pouco mais escura e o barulho ecoava. Notei que os tiros vinham apenas
de uma pessoa. O processo é rápido. Um fuzil tem 20 tiros. Quando a
pessoa para recarregar, o avanço é rápido e o tiro é só um.
Me aproximo do corpo, tomando o fuzil nas minhas mãos. Confiro a
quantidade de munição, está quase completo. Ótimo. Eu tinha mais alguns
cartuchos, mas, se nos achássemos qualquer um dos guarda-costas, isso
viria a calhar. Pego a arma e seguimos pelos muitos containers. Em
segundos, deixamos mais um corpo para trás.
Começamos a escutar tiros vindo de uma distância bem próxima. Olho
para Luca. Não precisa de muito esforço para distinguir que esses disparos
vinham de um revólver. Estranho, porque os traficantes de Robert estavam
de fuzil. Esses disparos só podiam estar vindo de um dos guarda-costas da
Diana. Nós saímos correndo, tentando seguir o barulho dos tiros. Leva
alguns minutos pelo quase inacabável labirinto de contêineres, mas nós
eventualmente encontramos o local.
Luca começa a andar mais devagar e logo levanta a mão para que eu
pare. Estávamos na ponta do corredor, prestes a virar.
― Laranja. ― Luca diz em alto e bom som.
― Laranja. ― Escuto uma voz firme vindo do fundo do corredor. Um
peso enorme saiu dos meus ombros. Luca abaixa a arma e nós vamos ao seu
encontro.
― Está inteira? ― Luca pergunta, abraçando a minha amiga.
Ele se afasta rapidamente, examinando como ela estava. Suas roupas
estavam bagunçadas como se tivesse lutado muito, mas ela estava bem.
Entrego o fuzil que eu tinha pego em algum dos corredores e entrego pra
ela. Não me passou despercebido os corpos de dois homens no chão perto
de onde ela estava. Até hoje, ela nunca tinha matado ninguém.
― Estou bem. Vamos pegar a Diana e sair logo desse inferno. ― Ela
passa a alça do fuzil pelos ombros. ― Dei sorte de encontrar vocês. Eu
estava quase sem munição já.
― Onde estão os outros dois? ― Pergunto.
― Levaram Miller junto com a Diana. Eu não sei se ele está vivo. Me
perdi da Sandara quando estávamos fugindo. Eles arrancaram o ponto do
meu ouvido, então não dá pra falar com ela.
Luca pergunta sobre os dois no ponto e logo respondem:
― Jake e a cabo Heller estão com ela. Ele acabou de me comunicar.
Ela está bem.
― Certo. ― Respiro fundo. A única coisa que eu sabia era que Diana
estava viva, porque Robert gostava de torturar as pessoas antes de matar. ―
Vamos procurar a Diana.
Nós saímos do lugar em que estávamos achando alguns corpos pelo
caminho. De repente, fica quieto demais. Se antes os tiros poderiam ser
ouvidos a distância, agora eles haviam cessado completamente. Olhamos ao
redor, procurando algum abrigo. Meu coração estava acelerado.
Quando abrem fogo na nossa direção, é automático: nos abaixamos e
nos escondemos atrás de uma viga de concreto. Luca vê primeiro que eu
uma mulher na esquerda segurando uma metralhadora. Ela cai morta com
um tiro na cabeça e nós seguimos. Presto atenção na minha frente e eu olho
para os lados, dando cobertura. Um pequeno barulho e começo uma troca
de tiros com um homem que se abrigava no final do corredor. Sinto a
pressão dos tiros passando perto de mim. Leva um tempo, mas uma
pequena fração de segundo é mais do que suficiente.
Aquele lugar era como um labirinto, mas eu sabia que Robert gostava
de montar um show, então com toda certeza ele estaria em algum lugar
aberto.
Luca dá um passo à frente e é arremessado contra a parede no mesmo
instante. Vejo Michelle dando um disparo e o autor do tiro que o atingiu cai
no chão com a têmpora estilhaçada.
― Inferno. ― Procuro o tiro e meu corpo gela quando noto que, por
pouco, a bala não atingiu seu peito, o colete segurou o projétil.
Puxo Luca pelo colete, correndo conforme os tiros começam a ficar
mais intensos. Ele corre da maneira que pode atrás de mim para sairmos
dali enquanto tosse desesperadamente. Michelle está alguns passos atrás,
dando cobertura. Viro, dando de cara com um homem de balaclava de
costas no corredor.
― Aonde foi? ― Michelle pergunta enquanto eu carregava a arma.
― Colete. ― Ele diz, puxando o ar.
Nos aproximamos do final da área de containers. Havia um homem
guardando a porta e não podíamos realizar nenhum disparo para não chamar
atenção. Luca chega por trás dele, prendendo-o em um mata leão. Demora
alguns minutos, mas logo ele dorme.
Escuto o grito de Diana e paro no lugar. Um milhão de cenários se
formam na minha cabeça. Luca nota, mas não diz nada, porque ele parece
escutar algumas coisas pelo ponto. Começo a soltar a corda de rapel do meu
uniforme. Acontece uma rápida troca de olhares e Michelle segue Luca para
o lado oposto ao que eu estava indo.
Olho bem para o local, lembrava uma espécie de mezanino. Apenas um
corredor de concreto separava Robert de mim. Escuto Diana gritar
novamente e começo a subir correndo pela primeira escada que eu acho. Da
onde eu estava, mesmo que de muito longe, eu já conseguia ver.
Ele estava pisando na garganta dela e tinha uma arma na mão. Havia
um pouco de sangue na roupa dela e seu rosto estava muito machucado,
mostrando que claramente ele tinha a espancado. Pelo jeito que ela se
mexia, deveria estar naquela posição há algum tempo. Eu sinto raiva acima
de qualquer outra coisa. Ela não merecia pagar desse jeito pelas coisas que
o pai dela fez.
Eu não ia negociar, não com Robert. Eu sabia as consequências disso.
Poderiam me devolver para o fundo daquele porão, mas ele não sai vivo
daqui.
Um estrondo e os polícias entram. Robert Moore não parecia surpreso.
Muito pelo contrário, ele apenas aperta mais a bota contra o pescoço dela.
Luca entra, Jake vai junto. Eles não se aproximam e vejo que Diana se
mantém firme.
Pego as cordas de rapel e subo na estrutura de metal, me escondendo
atrás de uma viga grossa. Deito no ferro, ajeito o rifle e encaro o telescópio
na minha frente. Respiro fundo, mirando com muito cuidado. Qualquer erro
de cálculo e a bala poderia atingir uma das vigas de ferro e ricochetear em
alguém.
― Olha só, que bom que estão aqui. Diga à Alma Montserrat que eu
mandei lembranças. Deixei um presente pra ela. ― Acho estranho ele
mencionar a mãe de Diana, porém, antes que alguém tenha tempo de falar
qualquer coisa, ele muda o revólver de mão. Eu espero que ele destrave,
mas ele finalmente nota a minha presença e me encara. No segundo
seguinte, eu aperto o gatilho.
Seu corpo cai para frente em uma posição torta. Diana grita e se afasta.
Os policiais vão até ela e eu sei que ela me procura pela forma que olha o
sobrenome nos uniformes.
Luca a alcança primeiro e ela o abraça. Vejo que ele confere se ela está
bem, ajudando-a a ficar de pé. Os dois falam algo e ele aponta pro teto em
minha direção antes de ajudá-la a sair dali.
Travo o rifle e desço pelo rapel até o chão, indo direto ao corpo. Me
agacho na lateral e tiro minha luva. Para minha surpresa, minha mão sequer
estava suada. Confiro sua pulsação. Nada. Fecho os olhos e tudo que eu
vejo são os sapatos caros de Robert quando ele ficou chutando o meu corpo
inerte de um lado pro outro.
Robert está morto.
Nenhum remorso vem.
Caminho até os dois que, a essa altura, já estavam do lado de fora.
Estava escuro e devia ser pouco mais de oito horas da noite. O brilho das
viaturas iluminava o local e havia quase o dobro de policiais lá desde que a
minha equipe chegou.
Eu corro até a minha namorada e eu ganho um abraço sem sequer ter
tempo de tirar meu capacete e a minha máscara antes. Eu seguro ela pela
cintura com cuidado, sem saber o quanto exatamente ela estava machucada.
Me permito relaxar no abraço dela só de saber que ela estava viva.
Finalmente deixo a carranca habitual do trabalho e a seguro firme contra
mim. Ela esconde o rosto na volta do meu pescoço e, somente quando ela
me solta, tenho tempo de tirar o capacete e puxar o tecido que cobria parte
do meu rosto.
― Você está bem? Ele te machucou? ― Seguro nos ombros dela,
olhando para os respingos de sangue na blusa. Seu rosto estava bem
vermelho nas laterais e havia um pequeno corte em sua boca. Sinto meu
sangue ferver sabendo que ele encostou nela.
― Foi só um arranhão, eu vou ficar bem. ― Ela me abraça de novo e
me dá um selinho. Respiro aliviada pela primeira vez no dia.
― Mich? ― Pergunto, vendo a minha amiga. Para o meu alívio, ela
estava inteira. Luca está logo atrás, segurando a sua mão. Eu queria abraçar
ela, porque eu imaginava que ela talvez não estivesse legal, mas sinto que
não é o momento. ― Tem notícias do Miller?
Ele está vivo? É o que eu tenho vontade de perguntar.
― Eu falei com o meu amigo. Ele e Sandara estão bem. Estão
prestando depoimento para a polícia. ― Fico aliviada genuinamente.
Luca fica com elas enquanto eu me ausento para cuidar de algumas
burocracias. Passamos no quartel para resolver a parte burocrática. Levou
bastante tempo uma vez que houve baixas de suspeitos e tudo precisa ser
minuciosamente registrado.
Pego um caderninho do fundo do meu armário, marcando rapidamente
os 4 nomes a mais que agora faziam parte daquela lista. Não gostava de
esquecer. Fingir que nunca aconteceu não fazia o meu tipo mesmo sabendo
que eu seria bem mais saudável de simplesmente esquecer.
― Pronta? ― Luca entra no vestiário, de banho recém-tomado. Eu
aceno com a cabeça, confirmando.
― Michelle está bem? Ela nunca tinha matado ninguém e eu estou
preocupada. ― Pergunto enquanto soco o caderninho para o fundo do meu
armário, sabendo muito bem que não seria a última vez que anotaria um
nome ali. Luca começa a se vestir e eu agradeço por não perguntar sobre o
caderno.
― Você sabe como a nossa Mich funciona, ela guarda tudo pra si
mesmo até ela se sentir confortável para conversar. Acho que esse momento
ainda não chegou pra ela. Então, ela está sentada lá fora com as mãos nos
bolsos como se nada tivesse acontecido. E a Diana?
― Todos os ferimentos foram superficiais. Ela achou muito estranho o
que Robert falou. Ela ligou para a mãe dela para saber de algo, mas, no
final das contas, Alma Montserrat estava perfeitamente bem e segura em
sua casa em Madri. ― Digo.
― Grande primeiro dia de volta, hein? ― Ele dá um soquinho no meu
ombro.
― Não teve nenhuma baixa na equipe. Todas as vítimas estão bem. Eu
dei um tiro na cabeça de Robert. Nada a reclamar.
― Aquele tiro foi lindo. Eu normalmente tenho respeito pelas baixas
de criminosos, mas não desse, não depois de te encontrar no chão daquele
jeito. Acredito que ele morreu mais rápido do que merecia. ― Ele termina
de se vestir e pegar as coisas no armário.
Nós saímos.
― Eu preciso passar em casa. Eu não estou me sentindo bem. Queria
tomar um banho, não sei explicar. ― Diana diz baixo enquanto Mich e
Luca saem andando em direção ao estacionamento do quartel.
― O que você está sentindo? Precisa que eu te leve ao hospital? ―
Meu peito se aperta em preocupação. Eu realmente achei que não tinha sido
nada demais.
― Está tudo bem, eu só realmente preciso ir pra casa. Acho que estou
começando a ter uma crise de ansiedade. ― Ela olha pra mim e seu rosto
estava muito pior do que algumas horas atrás.
― Olha, um dos remédios que eu tomo é o mesmo do seu. A gente só
precisa partir o comprimido para ajustar a dose. ― Eu faço menção de
pegar mochila
― Olivia, realmente não precisa. ― Ela pega na minha mão.
― Tudo bem. Vamos. ― Eu passo meus braços sobre o ombro dela e
dou um beijo no topo da sua cabeça.
Entramos no meu carro e mando uma mensagem para o Luca, que
resolve ir junto com Michelle. Olho meu relógio, passava das duas da
manhã. Durante o caminho todo, fico preocupada com Diana. O jeito que
ela prendia a mandíbula e como ela estava inquieta me deixava inquieta. A
última vez que a vi assim, prestes a explodir, foi quando eu a ajudei em seu
escritório muitos meses atrás.
Entramos na garagem e subimos para a casa. Diana sobe para o
escritório para pegar seus remédios e eu me dirijo para cozinha, indo pegar
água e alguma coisa pra ela comer.
Quando volto para sala, Michelle e Luca estão sentados no sofá
conversando baixo. Eu deixo os dois ali. Mas então eu olho para a porta
principal. Nós não a usamos, porque entramos pela garagem e só agora
percebo que a porta estava estranha. Me aproximo, vendo que a tranca
eletrônica estava completamente apagada, como se tivesse sido hackeada e
agora estivesse completamente inutilizada. Isso acende uma luz vermelha
na minha cabeça e eu dou uns passos para trás, tirando o meu revólver do
coldre.
Os meus amigos notam o movimento e levantam em um pulo do sofá.
Corremos para o andar de cima. Medo líquido me afoga e está complicado
de respirar. Uma sensação tão ruim me preenche que mal senti os degraus
de estaca sob meus pés.
― DIANA! ― Eu entro no escritório gritando. A cena que se forma
em minha frente é brutal.
Diana estava sentada no chão, tremendo e completamente encolhida, o
corpo rígido como se estivesse sentindo dor física. Quando meus olhos
vagam sobre o cômodo pouco iluminado, procurando qualquer sinal de
ameaça, vejo a imagem de um homem degolado na cadeira de couro e,
sobre a mesa, a cabeça do Matteo Montserrat com plaquês de dólares
enfiados em sua boca, igual a um pernil que recebe uma maçã na noite de
Natal.
EPÍLOGO
Diana/Olivia

DIANA
7 MESES DEPOIS

Eu estava tomando café da manhã enquanto o dia amanhecia


ensolarado do outro lado das janelas de vidro. Era a primeira semana na
minha casa nova, uma cobertura duplex luxuosa. Eu aluguei aquela mansão
gigantesca para um diplomata e me mudei para um lugar menor.
Sempre me imaginei vivendo sem o meu pai. Era inevitável. Ele falava
da própria morte o tempo inteiro, mas a realidade é como um sonho
estranho, onde a realidade parece contorcida, sem foco e nada realmente faz
sentido. Não é apenas o esperado sentimento de perda, é um misto de alívio
e de culpa que formam um coquetel de remorso espesso que desce amargo
pela minha garganta todas as vezes que o rosto do meu pai vem em minha
mente.
O velório do meu pai foi em Madri. Caixão fechado. Não posso dizer
que não chorei, porque era meu pai que estava ali. No entanto, a única
pessoa que estava realmente abalada era a minha mãe. Ela não demonstrou
isso por um tempo e tomou frente da situação, mas só eu sei quanto os dias
seguintes do velório foram doloridos para ela. Foram noites e mais noites
em claro conversando com a minha mãe.
Para minha surpresa, Ramon estava lá. Permaneceu no canto, fumando um cigarro e com cara de
nojo. Ele ficou a cerimônia do velório inteira assistindo ao vai e vem das pessoas e só foi embora
quando o caixão desceu na terra.
Michelle cuidou de cada detalhe da segurança. Luca conseguiu pegar uma dispensa de trabalho e
ajudou. Olivia ficou do meu lado o tempo inteiro, me ajudou a decidir as coisas do enterro e até
mesmo a levar a minha mãe para o quarto quando ela estava bêbada demais para levantar do sofá
assim que todos foram embora.
As semanas que se sucederam à morte do meu pai foram difíceis. Eu
fui a inventariante e isso exigiu muita paciência. Tudo que ainda estava no nome dele
e não no meu, foi dividido entre minha mãe e tia Cassandra. Me surpreendi em achar uma alteração
no inventário, ele deixou 15 milhões para Ramon, um valor insignificante comparado a fortuna dele.
Fez isso para mostrar que tinha dinheiro, para humilhar o rapaz. Quando eu mesma entreguei a
maleta para ele, ele apenas abriu um sorriso sarcástico e disse que mijaria na cova do meu pai na
primeira oportunidade, mas ele não é besta, aceitou os plaques de dólares sem pestanejar.
Morei quase três meses com a minha mãe em Madri enquanto
resolvíamos esse processo. Além do mais, minha mãe estava abalada com a
perda do marido e não quis deixar ela passar por isso sozinha.
Na primeira semana, Olivia ficou comigo, mas logo precisou retornar
ao trabalho. Ellie ganhou um aumento significativo por ter aceitado vir para
a Espanha nesse período. Aluguei um apartamento para ela perto da minha
casa.
Eu estava bem, até porque não era como se meu pai tivesse sido bom
para mim. Ainda assim, quando eu lembrava de pequenos momentos da
infância, eu sentia falta. De acordo com a perícia, ele já estava morto
quando separaram a cabeça de seu pescoço. O que o matou de fato foram os
tiros à queima-roupa. O resultado da balística mostrou que os projéteis
encontrados pertenciam à arma de Robert, a mesma que ele tentou tirar a
minha vida no meu escritório em Madri.
Quanto a Alencar, ele seguia vivendo como se nada tivesse acontecido.
Eu não poderia me importar menos sendo muito honesta. Desde que ele não
me metesse nos negócios dele, eu não estava nem aí.
Um abraço por trás me tira dos meus pensamentos. Olivia beija o topo
da minha cabeça. Ela fica ali comigo, vendo o nascer do sol. Meu amor por
ela se tornou a parte mais verdadeira da minha vida.
― Você está muito bonita hoje. ― Ela morde o lóbulo da minha
orelha. ― O cabelo liso combinou com você, te deixou com cara de
malvada. Deveria ir assim pra empresa. ― Ela passa os dedos pela minha
nuca. ― Mas não é só isso. Sei lá, você está mais bonita que o normal.
― Você também está uma delícia, sabia? ― Eu me viro para ela,
enchendo as minhas duas mãos na sua bunda por baixo da roupa. ― Eu
adoro esses seus shorts de pijama. ― Sorrio e ela me dá um beijo na ponta
do nariz.
O cabelo dela estava solto, ela usava um short folgado que sequer
cobria o início de suas coxas direito e uma blusa grande do Metallica.
― Eu vim no elogio inocente e você tá aí me olhando como se fosse
me comer. ― Ela balança a cabeça em julgamento, mas um sorriso safado
se faz presente em seus lábios.
Depois de todos esses últimos meses, Olivia estava bem, da melhor
forma que conseguia estar. Ela ainda tinha alguns momentos de flashback,
mas havia aprendido a lidar com eles. Ainda tomava a medicação, mas em
uma quantidade menor, e fazia acompanhamento com o psicólogo
mensalmente. Demorou um pouco, ainda mais por conta do tempo que
ficamos afastadas, mas eventualmente ela me deixou tocá-la de forma
maliciosa. No entanto, qualquer coisa envolvendo seus antigos fetiches, tais
como algemas e dor, Olivia nunca mais tocou no assunto. Um dia eu entrei no
quarto e ela estava sentada na cama segurando as algemas na mão. Com a cabeça tão distante que
O que me fez entender que, para ela, ainda eram
sequer notou a minha presença,
motivos de gatilho e talvez nunca deixassem de ser.
― A gente precisa se arrumar, o dia vai ser cheio. Mas o que é seu, tá
guardado. ― Falo isso, mas não faço menção de me mexer.
Hoje, nós iríamos viajar para Ibiza. Iria a galera toda: eu, Olivia, Luca,
Mich, Katie e Joe.
― Quem diria, hein, que trabalhar em um evento de posse de empresa
me renderia uma namorada?! ― Ela me olha de pertinho, lembrando do dia
que nos vimos pela primeira vez. ― Okay que ser sua guarda-costas
realmente ajudou.
― Eu não iria deixar uma policial gostosa dessa simplesmente passar
por mim. Meus instintos de sapatão jamais permitiriam isso. ― Dou um
tapa na bunda dela. ― Agora você é minha. ― Falo e solto uma risada
maléfica.
― A senhora é uma mimadinha. ― Ela me dá um beijo nos lábios.
Nos arrumamos e, poucas horas depois, Miller busca a gente no
apartamento para nos levar para o hangar. Eu mantinha Miller como meu
guarda-costas pessoal, mas Michelle e Sandara só trabalhavam pra mim em
eventos específicos.
― Será que dessa vez vamos encontrar com alguma celebridade? ―
Katie começa a falar, se acomodando em uma das poltronas do meu jatinho.
― Talvez. Da última vez, encontramos.
Eu e minha prima já fomos pra Ibiza comemorar o aniversário dela
uma vez e ficamos no mesmo corredor que algumas celebridades.
― Se vocês pudessem pegar uma celebridade, quem seria? ― Joe
pergunta, se sentando ao lado.
― Laura Prepon.
― Que falta de criatividade, Diana. ― Michelle me julga.
― O que é?
― Ela é a cara da Olivia. Não vale. Escolhe outra. ― Dessa vez, Luca
responde.
― Não é a cara da Olivia, só o formato do rosto, a boca, o cabelo
escuro, a pele clara... Eu estava pensando mais na Alex da série do que na
atriz.
― Sendo assim, eu escolho a Elizabeth Gillies. ― Olivia entra no
meio da conversa. ― A Fallon é ruiva e rica.
― Odeio casal no início de namoro. Vocês são um grude. ― Katie
brinca.
― Nem é tão recentemente assim, tem quase um ano. ― Respondo.
Em dois meses, eu e minha gatinha vamos comemorar um ano de
namoro. Passou tão rápido, talvez porque a vida tenha ficado mais tranquila
após tudo o que aconteceu. Aqui estamos curtindo uma à outra, com a nossa
rotina, o nosso grupo de amigos. Ela ainda morava na casa dela, mas
sempre dávamos um jeito de ficarmos juntas quando não estávamos
trabalhando. Por mais que durante a semana fosse complicado, nós quase
sempre tínhamos os finais de semana para ficar de conchinha no sofá e
assistir comédias românticas.
As horas de voo passam tranquilamente. Eu consegui terminar meu
livro e fiquei pelo menos uns 20 minutos escutando a Olivia falar que a real
razão dela estar comigo era porque eu tinha um jatinho que ela conseguia
caber confortavelmente na poltrona e que a coluna dela agradecia.
― Ninguém mandou você ser um poste, amor. ― Ela e Luca tinham
exatamente a mesma altura, sendo assim as pessoas mais altas do grupo.
Mal entramos no hotel e fomos recebidos por champanhe. Eu e Olivia
deixamos os quatro conversando e vamos fazer o check-in de todo mundo.
Iríamos ficar em três quartos, cada casal no seu.
Era uma viagem curta, só assim pra coincidir com a agenda de todo
mundo. Ellie fez milagres para reservar três suítes boas de última hora e em
alta temporada. Eu me ofereci para pagar as diárias de todo mundo, porque
estava de bom humor.
Nosso grupo se separa para nos arrumarmos para o primeiro dia de
festa. Nosso quarto era lindo. Tinha uma janela enorme com uma vista de
tirar o fôlego e uma decoração moderna com leds para todo o lado. Ainda
assim, era aconchegante por causa da maneira como a luz era distribuída.
Faço uma maquiagem leve enquanto Olivia arrumava o cabelo. Eu
usava um vestido branco soltinho e com um pouco de brilho; nos pés, salto
simples. Olivia usava um vans, short e uma blusa que deixava todas suas
tatuagens à mostra.
Fico olhando-a trançar o início do cabelo, afastando-o do rosto. O
penteado era como se fosse uma trança boxeadora, mas feita só com metade
do cabelo. Quando termina, ela nota que eu estou olhando para ela e vem
até mim. Beija meus lábios, a boca dela sem pressa até a minha e me
puxando pela cintura. Seu humor era de fases. Tinha dias que ela estava
bem, outros nem tanto. Porém, eu via que ela realmente se esforçava para se
cuidar e isso era mais do que o suficiente para mim.
Ela solta uma risadinha quando meus dedos brincam com o cós de seu
short. Acho que ainda tínhamos uns minutinhos antes do pessoal ficar
pronto…
― Oliviazinha! ― Assusto com o grito de Luca vindo do lado de fora
do quarto.
Minha namorada revira os olhos e volta a me beijar. Quase dou um
pulo quando a porta se abre de uma vez.
― Mas o que… ― Olivia começa, mas Luca logo a puxa pelo braço e
a joga por cima do ombro com uma facilidade impressionante. Mal tenho
tempo de raciocinar o que está acontecendo.
― Olivinha, somos amigos de foda, não somos? Pois, se eu não transo,
você não transa também. Tchau, Diana, foi um prazer te ver. ― Ele leva a
Olivia para fora do quarto.
― Me bota no chão, Luca! Eu não estou nem aí que a Michelle não
quer dar para você. Sai! ― Olivia se contorce e o fato dela ter 1,90 dificulta
a vida de Luca. Os dois vão pro chão.
― Em minha defesa, eu não disse que não estava a fim, eu disse que
não dava tempo. É diferente. ― Michelle sai do quarto usando um vestido
verde lindo.
― Estão parecendo duas crianças. Luca, devolve a minha namorada.
Anda! ― Cruzo os braços na frente dos dois.
― Vocês já estão prontos? ― Katie aparece com um vestido azul mais
curto que a minha paciência e com Joe em seu encalço. Ele, por sua vez,
usava uma blusa social branca que ornava de forma elegante com a
bermuda rosa clarinho.
― Estamos. ― Ajudo a minha namorada a sair do chão.

Eu vou andando na frente e a Olivia está logo atrás segurando minha
mão. A festa acontecia no local próximo ao hotel. Katie se encarregou de
planejar os eventos uma vez que ela já havia feito isso quando viemos aqui
antes.
Era um local alto e tinha uma visão privilegiada para a praia. O ar
cheirava a perfume caro e drogas. Tinha artistas em todo o lugar. Canhões
de fogo, DJs famosos, piscina, luzes coloridas… Era tudo que eu estava
precisando.
Uma garçonete usando roupas fluorescentes passa por mim oferecendo
drinques e eu pego um. Se tem uma pessoa mal intencionada, essa pessoa se
chama Diana Montserrat. Combinamos no hotel que hoje Oli seria a pessoa
menos bêbada do casal.
O sol estava começando a se pôr e a luz laranja fazia tudo aquilo ficar
ainda mais perfeito. Duas mulheres usando biquíni combinando acenam
para mim e eu sinto um frio na barriga quando minha namorada passa o
braço pelo meu ombro. Alguém estava com ciúmes. Gosto disso.
Estávamos indo pra área externa, onde um DJ estava tocando para as
pessoas na piscina. Então, eu sinto Olivia parar de andar atrás de mim.
Primeiro, eu acho que ela estava apenas olhando algo que ela havia achado
interessante, mas seus olhos estão fixos num ponto acima da minha cabeça.
―Algo de errado? ― Olho na mesma direção.
― Nada, eu vou ficar bem. Vamos só esperar aqui. ― Ela pisa firme
no chão com as pernas afastadas, como quem espera começar a lutar a
qualquer momento.
― Olivia, fala comigo. ― Toco em sua testa e noto que ela estava
suada.
― Eles estão jogando as mulheres dentro da piscina. ― A voz dela
está calma. ― Não é nada demais, okay? Eu vou ficar aqui e pronto. Eu
estou bem, prometo.
― Você tem certeza que não precisa de um lugar mais calmo?
― Diana, está tudo bem, eles estão brincando. Eu só… ― Ela procura
palavras, mas vejo que sua mão tremia um pouco contra a minha.
― Não precisa se explicar. ― Eu trago a mão dela aos lábios e dou um
beijo estalado ali. ― Vamos procurar alguma coisa pra beber. ― Arrasto-a
na direção oposta da piscina.
Encostamos em um balcão e vejo que leva alguns minutos para Olivia
melhorar. Eu sentia tanto orgulho dela, ela se esforçava tanto. Não demora
muito e Michelle e Luca acham a gente.
― Esqueceu as roupas no hotel, querido? ― Olivia brinca assim que
eles se aproximam. Luca estava sem camisa, só de bermuda.
― Você acha que eu ia perder a oportunidade de exibir meu corpinho
gostoso numa festa dessa? Olivia, você me conhece por acaso? ― Ele
flexiona os músculos, atraindo o olhar de algumas mulheres e até mesmo
alguns caras.
― Mich, segura teu macho.
― Eu não preciso. ― Ela aponta para a pulseira feita com a alça de
sutiã. Ele nunca tirava.
― Gente, vamos dançar, por favor. ― Joe chega por trás de Luca,
passando o braço pelo ombro dele. ― Eu sou especialista nessa música. É o
meu solo na boate.
Joe era mais baixo que Luca poucos centímetros, porém, tinha
músculos mais bem definidos.
― Meu deus, vamos!
Luca vira dois copos de shot rapidamente e o segue até um local com
mais espaço, que, por sinal, era à beira da piscina. Olho pra Olivia só para
ter certeza se estava tudo bem e ela acena com a cabeça.
Joe começa a ensinar a coreografia para Luca. Ele pega rápido e os
dois começam a dançar. Algumas pessoas ficam olhando a coreografia.
Michelle e Katie assobiavam, incentivando os dois. Bebo mais alguns
drinques conforme o pequeno show acontecia.
Fico aliviada quando noto que minha gatinha fica um pouco mais à
vontade. Eu reparo o tanto que as tranças a deixam com um mais jovem, é
como se eu pudesse visualizar a Olivia de 20 anos na minha frente. De
algum jeito, a luz laranja do sol indo embora ilumina seu rosto e o glitter de
sua maquiagem ganha toda a minha atenção. Pego meu celular e tiro uma
foto, que vai ser provavelmente meu mais novo papel de parede
Dou um beijo na bochecha dela quando está distraída e acabo
ganhando um de volta.
― Eu te amo. Sabia disso, gatinha?
― Eu também te amo, senhorita Montserrat.
― Bolinhos da felicidade pro casal? ― Uma garçonete de uma saia
azul e sutiã verde se aproxima com uma bandeja cheia de bolinhos
decorados com purpurina comestível e chantilly.
― Eu passo.
― Eu quero.
― Alguém não estava brincando quando disse que queria me dar
trabalho. ― Sinto a língua da Olivia no meu pescoço conforme pego os
bolinhos. ― Só tente não ficar muito chapada, eu preciso chupar essa
buceta mais tarde.
Não dá para ignorar o frio na barriga que o comentário me causa.
Olivia percebe e dá um longo gole na cerveja dela. A garçonete passa pelo
resto do pessoal e vejo que todos pegam um. Era uma delícia, tinha um
gosto de ervas e gengibre no fundo; e a cobertura era doce na medida certa.

― Galera, olha o que eu arranjei: TEQUILAAA. ― Me aproximo da
mesa com uma garrafa de bebida e vários copinhos de shot. ― Eu tenho
ótimas intenções com essa garrafa aqui. ― Eu sussurro essa parte no ouvido
da Olivia.
― Bodyshot?! Diana, sua safada. ― Katie entende o recado e pula do
colo de Joe. ― Eu faço as regras. Vai ser sorteado.
As luzes coloridas e meu cérebro já levemente entorpecido
acompanham o raciocínio da minha prima. Peço uma caneta e um pedaço
de papel e dou pra Olivia escrever, porque eu estava bêbada demais pra
isso. Ela faz o sorteio e a primeira dupla sai: Joe e Katie. Vejo a minha
prima puxando Joe para o meio da rodinha e beijando o pescoço dele. Ela
desce os beijos pela barriga dele como se estivesse prestes a chupá-lo ali
mesmo.
― Vai, Katie. ― Eu coloco a tequila no copo de dose e entrego pra ela.
Ela coloca o limão e lambe o pescoço dele antes de virar o shot. Nós
gritamos em comemoração.
― Minha vez. ― Joe pega um papelzinho da mão da Olivia. ― Mich,
vem cá. ― Ele balança o papel.
Vejo que Michelle olha para Luca, mas ele parece muito tranquilo e dá
corda inclusive.
― Eu não acredito na cena que está se formando na minha frente. ―
Olivia estava perplexa e sua boca se abre em choque, mais ainda quando
Joe desliza o limão pela coxa de Michelle e lambe antes do shot. Olho para
Katie e percebo que ela estava mais empolgada que eu.
― Minha vez! ― Michelle dá pulinhos até a Olivia e pega um
papelzinho. ― Katie, olha que nome eu tenho aqui! ― Ela morde os lábios.
― Que safadeza. Adorei! ― Olivia diz alto, sua voz ultrapassando o
volume da música.
Já tinha anoitecido há muito tempo, mas não fazia ideia do horário. Eu
havia perdido meu celular há pelo menos umas três horas, não que eu me
importasse.
― Está ansiosa para me chupar, Mich? ― Katie brinca, se sentando em
uma das banquetas.
― Pode apostar que sim. ― Michelle devolve no mesmo tom e
deposita o sal entre os seios de Katie.
― Quer que eu te empreste pra um ménage, amor? ― Luca morria de
rir no canto enquanto passava os braços por cima do ombro de Joe.
― Proposta tentadora, hein? ― Ela diz antes de chupar o sal, olhando
bem nos olhos de Katie.
― Katie, pegue aqui seu papelzinho. ― Olivia estende a mão.
― Olivinha. ― Katie balança o papel e as duas me olham, eu apenas
aceno com a cabeça confirmando.
Elas entregam os papéis picados para o Joe. Katie e Olivia saem
saltitando até o meio da rodinha.
― Katie está perspicaz, roubando todas as minhas amigas. ― Luca
brinca, servindo o shot uma vez que a minha habilidade motora já estava
prejudicada.
― Está com inveja? ― Ela deposita o sal na barriga definida da Olivia,
chupa ali e depois pega o limão da boca de Olivia, mas chupa olhando para
o Luca.
― Sua vez, Olivinha. Se você puxar o nome da Diana, eu vou fingir
que não vi e fazer você tirar outro. ― Joe brinca enquanto mistura os papéis
nas mãos e estica para Olivia pegar.
― Pois saiu o seu. ― Ela ri, amarrando o cabelo em um coque.
― Vai lá, gatinha, mostra pra essa língua grande que somos seres
superiores. ― Eu grito sobre a música enquanto eu seguro o copo de shot,
ajudando o Luca virar a tequila.
Olivia passa o sal no ombro de Joe antes de passar a língua ali e roubar
o limão de sua boca. Vira o shot e volta a se sentar no lugar dela. Eu me
sento em seu colo.
― Luca, sua vez. ― Eu vejo o olhar desafiador de Joe.
Luca levanta preguiçosamente e Joe deposita o sal em seu peito sem
desviar o olhar. Vejo que brinca com a língua bifurcada ali antes de roubar o
limão com a boca.
― Você viu isso, Katie? ― Michelle abraça Katie e elas começam a
fazer farra pelo casal no meio da roda.
― Beija, beija, beija! ― Michelle e Katie começam a atiçar em couro.
Vejo que eles olham na direção delas apenas para ter certeza, mas, em
segundos, Luca puxa Joe pelo pescoço. É um super beijo, longo e
demorado. Joe deixa Luca dominar e é nítido que o beijo encaixou muito
bem.
― Só queria lembrar que, passou de 3, é suruba gente. ― Olivia
aproveita para zoar. Nesse momento, eu sinto a mão de Olivia a subir e
descer pela minha coxa. ― Luca, pega um papelzinho. ― Ela balança a
mão livre.
Não me passa despercebido que seu toque começa a subir um pouco
mais. O álcool e talvez a maconha não me permitiam prestar atenção em
duas coisas, fazendo da mão de Olivia uma distração bem forte. Eu estava
com o corpo quente, mas aquilo ali definitivamente estava aquecendo ainda
mais.
Me deixo levar pelos movimentos de seus dedos, sabendo muito bem
que a Olivia podia sentir que eu estava começando a ficar molhada apenas
pela forma que ela começa a brincar com a borda da minha calcinha por
baixo do vestido. Me ajeito no colo dela, o que só piora a minha situação,
porque o movimento me encostar ainda mais na perna dela.
― Terra chamando Diana. ― Joe ri, notando que ele estava claramente
atrapalhando a gente. ― Sua vez.
― Uma pena atrapalhar as duas aí. ― Luca ri, colocando o limão na
minha boca assim que eu fico de pé e vou ao seu encontro. ― Como eu sou
um ótimo amigo, vou deixar a Olivia escolher aonde.
― Seja criativo. ― É o que Olivia grita de seu lugar da roda.
― Encosta no balcão, Diana, bunda pra cima. Vamos lá! ― Eu abro a
minha boca no mais puro choque, mas obedeço. Torço para que ele
ignorasse o que estava acontecendo entre as minhas pernas.
― Luca, você não presta mesmo. ― O tom de voz brincalhão da
Olivia me tranquiliza e logo sinto a língua quente dele perto do meu
biquíni. Ele se debruça sobre mim, pega o limão da minha boca e toma o
shot.
― Minha vez de sortear. ― Eu me volto pra Olivia, vendo que ela
descaradamente rouba o sorteio, porque só tinha o papelzinho com o nome
dela quando ela me entrega.
― Vamos lá, Diana, mas o shot é meu já que a senhorita já teve mais
que o suficiente de álcool hoje. Quero que você lembre de alguma coisa
amanhã. ― A voz de Olivia estava rouca no meu ouvido. Ela me pega pela
mão. ― Eu vou afastar seu vestido. ― Eu apenas aceno com a cabeça.
O ar frio da noite arrepiava a minha pele, que parecia querer entrar em
combustão. Tudo que eu queria era a boca dela em mim, eu precisava de
maneira quase desesperada ser chupada e beijada. Queria que ela usasse
cada pedacinho meu.
Eu estava tão entorpecida de tesão que até o toque quente de Olivia na
minha pele afastando meu sutiã para o lado fazia meu corpo borbulhar de
tesão. Sua língua desliza nos meus seios e depois brincava com o meu
mamilo. Eu estava me controlando com tanta força para não gemer, mas
seus dedos alcançam a minha intimidade de surpresa.
― Olivia… ― Ela continua enquanto sua boca vai até o meu pescoço.
― Você está morrendo de tesão e nem disfarça. ― Sussurra pra mim.
― Eu preciso… ― Sou interrompida pelos seus dedos brincando no
meu clitóris. Estava escuro o suficiente e a Olivia estava na frente, então
não dava para ver detalhes.
― Você precisa…? ― Ela brinca com um pouco mais de pressão.
― Se você continuar com isso, eu vou gozar no meio de todo mundo.
― Você quer que eu pare? ― O toque se intensifica e eu me derreto
completamente nos braços dela. Pouco me importando se alguém nos veja.
― Continua. ― Minha voz sai mais baixa que o planejado.
Sinto-a descer os beijos enquanto sua mão se mantém firme no meu
clitóris. Fecho os olhos, sentindo o vento bater no meu rosto e a música alta
inebriar meus sentidos. A boca quente da Olivia alcança meus seios. O
escuro da noite se mistura com as luzes piscando da festa.
Sua mão fica firme ao redor da minha cintura, me segurando conforme
a minha perna treme e tudo em mim se contrai. Jogo minha cabeça para
trás, sentindo a pressão entre as minhas pernas ficar quase insuportável,
desesperada para que seus movimentos se tornassem mais rápidos. Minha
respiração fica cada vez mais audível, acelerada e difícil de controlar.
― Esse definitivamente foi o orgasmo mais fácil que eu já arranquei
de você. ― Ela ri, devolvendo a minha roupa pro lugar. Nós continuamos
nos beijando enquanto eu tomava meu tempo para acalmar.
― Vocês estão muito exibidas hoje. ― Katie chega empolgadíssima
até nós duas. ― Quando passa de três ainda é ménage ou eu posso dizer que
quero participar de uma suruba? Mais alguém aqui tem interesse?
― Depois de três, é muita gente para administrar. ― Olivia dá um gole
em sua cerveja.
― Interessante. ― Ela anda de forma elegante até Michelle e sussurra
algo no ouvido dela.
― Ela vai fazer isso que eu tô pensando? ― Olivia pergunta, perplexa.
― Vai.
― Desde quando você lê mentes?
― Katie só pensa putaria e nada inocente vai sair da conversa daquelas
duas ali. ― Ela abaixa a cabeça, encostando o queixo na minha.
― Será que a gente pode assistir? ― Ela diz num tom de piada apenas
para implicar comigo.
― Olivia Winston, para de fogo no rabo. ― Eu faço questão de
encostar um pouquinho mais meu corpo no dela.
― Não fui eu que acabei de gozar no meio de todo mundo. Além do
mais, eu tenho coisas mais legais pra fazer. ― Ela brinca, seu tom de voz
entrega suas segundas intenções. Ela me segura pela mão e eu logo vou
atrás.
Mal andamos três passos e vejo Katie puxar a cintura de Michelle, a
mulher sentando descaradamente no colo da minha prima, e as duas
começam a se pegar muito. Eu arregalo os olhos e Olivia finalmente vê a
cena que se constrói na nossa frente. Nós olhamos uma pra cara da outra,
perplexas.
― É isso, o que acontece em Ibiza fica em Ibiza.

***
Nós entramos no quarto de hotel quando o céu estava começando a
ficar claro. Conforme o dia amanhece, deixa o quarto com uma iluminação
azulada. Mal fechamos a porta e Olivia puxa meu vestido pra cima, tirando-
o com facilidade. Ela coloca o corpo contra o meu, pressionando suas
pernas entres as minhas. Se aquilo já é bom normalmente, no momento,
estava muito melhor por causa da sensibilidade do orgasmo recente.
Sinto a boca dela contra a minha. Ela desliza a língua sem a menor
pressa enquanto esfrega o corpo no meu e me puxa para mais perto como se
fosse inadmissível o simples pensamento de não ocuparmos o mesmo lugar
no universo. Gostava de fechar os olhos e sentir cada coisinha que me
proporciona. É gostoso e avassalador as sensações de não saber onde um
toque acabava para o outro começar.
Agarro a sua bunda e ganho um gemido em aprovação. Me apoio nela,
movendo meus quadris e buscando um pouco de alívio contra sua coxa. Ela
larga a minha boca e passa a dar atenção para o meu pescoço. O jeito que a
sua boca toma a minha pele me faz ter certeza que vai estar marcado no dia
seguinte.
Ela continua seu caminho e afunda o rosto entre meus seios. Não
demora e sua boca começa a trabalhar ali. Puxo a blusa dela pra cima,
revelando um sutiã preto rendado e translúcido que não deixava nada pra
imaginação. Desesperada, corro as mãos até cós do short de Olivia, tirando
o cinto e desabotoando-o. Sinto que eu posso morrer de tesão quando, até
mesmo com ela ainda de calcinha, vejo ela molhar meus dedos. Eu troco de
posição com ela e ela se apoia na porta ofegante enquanto eu empurro o
short para baixo. Ela está usando uma calcinha de lingerie nova que eu
ainda não tinha visto. Sorrio com a surpresa.
Desço minha boca pela barriga esculpida de Olivia, deixando
mordidinhas logo abaixo de seu umbigo. Eu puxo o tecido para baixo,
vendo o pequeno estrago que eu havia feito ali. Passo o dedo na pequena
poça de umidade que havia ficado ali, meio hipnotizada e com o ego nas
alturas só de saber que eu era a responsável por causar aquilo.
Deslizo meus dedos por sua buceta, amando tudo sobre aquele
momento. Brinco um pouco, sentindo seu pequeno ponto inchado com as
pontas dos meus dedos. Gosto como o meu toque a faz estremecer e soltar
um gemido. Passo toda a extensão do meu dedo em seu ponto sensível, indo
e voltando várias vezes. Chupo ali, sentindo seu gosto se fazer presente na
minha boca. Meus dedos deslizam com facilidade até sua entrada. Gosto do
barulho que faz quando começo a mover para dentro e para fora.
O palavrão que ela solta se mistura com a respiração ofegante quando
eu finalmente consigo me acomodar entre as suas pernas. Não era a posição
mais confortável do mundo, mas a maneira que ela agarra o meu cabelo
vale a pena. Eu a sinto tão quente e molhada contra minha língua e é uma
delícia escutar os barulhos incoerentes que saem de sua boca conforme o
orgasmo a atinge.
― Acho que a sua moral pra me zoar por gozar fácil não existe mais,
gatinha.
Amo o jeito que ela me come com os olhos após meu singelo
comentário. Ela pisa para fora da roupa e me ajuda a ficar em pé. Ela está
suando assim como eu e, só de olhar, eu consigo ver que ela ainda está
faminta. Ela segura no meu pescoço, fazendo pressão e me prendendo
contra a parede segundos antes de reivindicar minha boca.
― Eu tomaria mais cuidado com as palavras. ― Ela diz entre um
beijo, a voz rouca de tesão. Tudo isso enquanto aumenta a pressão no meu
pescoço.
Ela me levanta como se eu não tivesse peso nenhum e me joga na
cama. Ela vem por cima, me beijando, e sinto suas duas mãos puxarem meu
quadril para cima e seus dedos se entrelaçarem no elástico na minha
calcinha, puxando-a para o lado. Quando ela retorna para cima de mim, o
beijo é demorado, agressivo e desesperado. Leva pouco tempo até que todas
as peças de roupas remanescentes atinjam o chão.
Ela passa as mãos pelo meu corpo, se demorando nas minhas costelas e
segurando firme ali enquanto sua boca chupava meus seios sem o menor
pudor. Talvez fosse a bebida ou a maconha fazendo efeito, mas eu me sinto
tão eufórica e cada toque dela parece intensificar esse sentimento de uma
forma tão incrível.
Sua mão alcança a minha coxa, apertando e trazendo meu quadril para
mais perto do dela. Suas mãos passam pela parte interna da minha coxa,
afastando-a.
― É tão bonito te ver molhada. ― Ela me toca delicadamente,
afastando meus pequenos lábios e eu gemo com a pressão gostosa que faz.
Ela brinca com o dedão no meu clitóris e eu sinto a facilidade com que
ela coloca os dedos em mim. Olho para ela, as tranças que prendiam metade
do seu cabelo ainda estão ali, só que bem mais bagunçadas.
O escuro do quarto faz minha visão ficar meio turva e as tatuagens
mesclavam com a escuridão, parecendo dançar em sua pele. Eu via o
contorno de seus seios pelo dia que começava aos poucos a amanhecer. Eu
toco-os com as pontas dos dedos apenas, achando tão lindo. Levo a minha
boca até eles, era gostoso demais. Conforme minha língua dança pela pele
de Olivia, seus dedos saem e entram em mim de maneira ritmada.
Eu a puxo ainda mais, me ajeitando na cama conforme ela passa uma
de suas pernas por cima. Gemo com o atrito da intimidade dela na minha.
Ela segura uma das minhas coxas, buscando um pouco de apoio, enquanto
se ajeita aos poucos. O silêncio do quarto destaca a respiração ofegante de
nós duas e o barulho molhado que faz quando ela se move. Um suspiro bem
audível sai de sua boca quando seu clitóris encosta no meu. Me apoio nos
cotovelos, sentindo-a pulsar contra mim.
Ela começa de forma lenta, se movendo contra o meu clitóris, mas não
demora e o ato se transforma em uma investida forte contra mim, uma atrás
da outra. Tudo que eu escutava era a mistura de nossos gemidos e o barulho
da cama.
― Não para, por favor. ― Eu me agarro nos seus ombros no
desespero. Minha perna treme tanto e eu sou incapaz de formular qualquer
pensamento racional.
Ergo meu corpo, buscando mais atrito, e é lindo ter a visão de Olivia
com a cabeça jogada para trás e o rosto banhado pelo prazer. Seus olhos
estão fechados, a boca entreaberta e o cabelo balança conforme ela se move
contra mim, buscando seu próprio prazer. Volto minhas mãos aos seus seios,
apertando-os e arrancando um gemido daquela boca perfeita.
O jeito que ela se move contra mim é de me fazer perder a cabeça.
Tudo era intenso demais: nossas respirações descompassadas e ofegantes
uma contra a outra, o atrito que ela fazia em meu clitóris, o jeito que nossos
gemidos preenchiam o quarto e até mesmo o som do encostar de uma
intimidade na outra.
Sinto o espaço entre nós ainda mais molhado e vejo Olivia revirar o
olho. A sensação dela pulsando tão forte contra mim me atinge e faz seu
prazer se misturar com o meu. Ela choraminga, apertando as minhas coxas,
e me arrepio por inteira, vendo-a chegar no limite de seu prazer. Em
segundos, o orgasmo me atinge com força e eu tremo de prazer contra o
corpo de Olivia.
― Isso foi… ― Ela começa a voz baixa e ofegante perto do meu
ouvido.
Ela tira a perna de cima da minha e deita do meu lado.
Ainda sinto minhas pernas iguais duas gelatinas quando Olivia desce a
boca pela minha barriga e começa a me chupar na mesma intensidade que
estava me masturbando minutos atrás. Ela aperta meus seios e jogo a minha
cabeça para trás, contorcendo em hipersensibilidade.
― Gostosa pra caralho. ― Ela elogia e pula pra fora da cama. Eu me
pergunto como ela ainda tem forças para fazer isso. Ela anda até a sua mala
e pega uma sacolinha de algodão de dentro. Coloca o strap em tempo
recorde e se curva em cima de mim. ― De quatro. Anda logo. ― Ela dá um
tapa na minha coxa para dar ênfase na ordem e eu obedeço igual uma
cadela no cio.
A mão dela brinca com a minha pele já vermelha e eu ganho um tapa
forte ali. Ela segura cada lado da minha bunda e separa os glúteos, me
deixando exposta para ela. Eu sinto sua boca nas minhas costas e sua mão
por todo meu corpo em completa adoração.
Primeiro, ela toca meus ombros, depois, minha clavícula e meu
pescoço. Ela pega em meus seios e suas mãos descem por minhas costelas
até minha barriga. Ela beija meus ombros e seu toque acompanha o ritmo,
explorando meus braços. Me trata como se eu fosse a mulher mais gostosa
que ela já ousou tocar. Sinto sua boca quente descendo em minhas costas.
Ela segura minhas coxas com força antes de começar a dar atenção para a
minha bunda. Ganho mais um tapa e, em seguida, uma mordida ali.
Ela passa as pontas dos dedos nas minhas coxas, fazendo carinho, e eu
me arrepio. Ela vê o efeito que causa e faz novamente. Ela se encaixa em
mim, entrando muito devagar. Suspiro ao ser preenchida. Ela apoia uma das
mãos na base das minhas costas, paciente, esperando eu me acostumar com
o tamanho. A sensação era tão boa que minha pele se arrepia novamente e
eu me sinto contrair com força ao redor do dildo. Ela começa a se mover
devagar, mas suas mãos firmes em mim ditam o meu ritmo.
Seus dedos passam em movimentos circulares no meu clitóris e eu
estremeço. Me ajeito na cama, empinando mais a bunda. Outro tapa vem e
eu sorrio. Ela volta a massagear a minha bunda, exatamente onde seu tapa
fez o impacto. Eu amo o jeito que ela faz, experiente e em seu próprio
território, porque já fez aquilo várias outras vezes.
Ela começa a entrar e sair de mim um pouco mais forte. A essa altura,
eu estava tão sensível por já ter gozado outras vezes que, em segundos,
estou me agarrando à coberta, sentindo meu centro queimar. Olivia tira o
meu cabelo do rosto e o arruma, dando uma volta na mão e me puxando pra
ela. É ali que eu quebro. A pequena mudança de posição faz as estocadas do
dildo alcançarem exatamente o ponto de mais prazer dentro de mim. Eu era
uma bagunça de gemidos desconexos e uma respiração alta. Olivia beija
meu ombro e escuto-a ofegante atrás de mim. Ela suspira no meu ouvido e a
posição a faz ir mais fundo em mim. Eu mal conseguia manter os olhos
abertos enquanto ela me fodia.
Eu estava quase gozando, mas eu tenho uma namorada malvada que
conhece meu corpo e para segundos antes. Choramingo, mas mal tenho
tempo de raciocinar e tenho meu corpo puxado em direção ao dela. O
movimento brusco me faz sentar ainda mais forte nela e eu um barulho de
dor e de prazer saem da minha boca. Ela faz minhas costas encostarem no
peito dela, puxando meu corpo para baixo mais uma vez. Sua mão alcança
meu pescoço, me fazendo olhar pra cima. Ela aperta e eu fico surpresa com
a força que ela tem na mão.
O dildo fazendo uma pressão gigantesca na minha entrada, os dedos de
Olivia me masturbando e seu aperto em meu pescoço são demais para lidar.
Meu corpo treme violentamente e eu quase grito de prazer. Sinto meu corpo
latejando e eu não tenho o menor controle sobre os tremores das minhas
pernas no momento.
― Olivia… ― Tento falar algo, mas nada além de gemidos vem
depois disso. Fecho minhas pernas, sentindo seu toque insuportável por
causa da hipersensibilidade.
Esse último orgasmo parece sugar todas as minhas forças. Eu cairia
para frente se não fosse ela para me segurar no lugar. Ela sai de dentro de
mim e eu me deito na cama. Ainda sentindo os tremores tomarem conta do
meu corpo, fecho os olhos e sinto a Olivia deitar no meu lado, igualmente
exausta.
― Se eu me lembro bem, já falei que amo seu rostinho de quem
acabou de ser fodida. ― Ela tira meu cabelo do rosto.
― Estava tentando me partir no meio? Eu não vou conseguir andar até
o banheiro. ― Digo na brincadeira, mas eu sabia que não havia a menor
condição de me mexer.
― Eu vou te limpar depois, não se preocupe. ― Por mais que BDSM
em si ainda seja um assunto delicado pra Olivia, alguns costumes ela ainda
mantinha, aftercare era um deles.
― Você é incrível, sabia?
― Acho que eu sei disso. ― Ela se aproxima e eu passo a minha perna
por cima dela. ― Vou te contar um segredo. Eu roubei metade do bodyshot.
Eu que formei as duplas na maior parte do tempo. Depois que você sentou
no meu colo, eu guardei os nossos nomes. O pessoal estava tão louco que
nem notou.
― Eu vi. ― Dou uma risada. ― Eu perdi meu celular.
― Nada. Quando eu vi que você estava ficando muito distraída, eu
guardei no meu bolso. Você simplesmente o deixou em cima de uma mesa e
saiu andando. Mas, falando do elefante verde na sala, o que será que
aconteceu depois que a gente veio pro quarto? ― Ela se apoia no braço para
me olhar melhor.
― A gente teria escutado alguma coisa. ― Respondo à pergunta
implícita.
― Não se eles foram pro quarto da Katie, que fica no final do corredor.
Será que todo mundo...?
― Não duvido.
― Os quatro?! ― Arregala os olhos.
― Teria sido seis se a gente tivesse ficado lá. ― Sorrio.
― Você teria? ― Ela pergunta, curiosa.
― Muita gente não faz meu tipo. Além do mais, Katie é minha
parente, praticamente uma irmã mais nova. Não me sentiria confortável.
― Não pensei nesse detalhe. Eu amei a nossa noite. Fofoca pós-sexo é
a minha mais nova coisa preferida.
Deitamos abraçadas depois de tomarmos um banho demorado. Eu
estava com a cabeça apoiada no braço da Olivia. Acho engraçado que ela
tem uma demônia de coleira tatuada ali. Meu olhar se perde nas cicatrizes
de seu pulso. Tanto as marcas dos cortes quanto as marcas das algemas
permaneceram ali, o tipo de cicatriz que, por mais cicatrizadas que estejam,
jamais sumiriam por completo.

***

OLIVIA
Eram quatro e trinta e oito da manhã, estava de pé bem mais cedo do
que o necessário, estava alongando na sala de casa. Havia tido um pesadelo
e simplesmente me recusei a voltar a dormir. Já havia tomado banho e
comido café da manhã. Usava uma calça de moletom, uma blusa grande de
banda e uma rashguard de manga longa e gola alta embaixo. Hoje não era
um dia bom. Não queria olhar para o meu corpo.
Pego a mochila da S.W.A.T. e vejo a pequena caixinha azul de veludo
se destacando entre as peças da farda. Fazia pelo menos um mês que eu
estava andando com ela de um lado para o outro. Estava esperando o
momento certo.
Fecho a mochila e pego as chaves do carro, este no qual que eu mesma
havia comprado para o desespero da Diana que queria me dar um novo de
presente. Rio com o pensamento, tirando o carro da garagem e dirigindo
para a pista de cooper que eu tinha o costume de ir. O caminho é rápido,
mas nunca é tranquilo.
Ao descer do veículo, sempre fico olhando para todos os lados, me
certificando que não tem ninguém me seguindo, ainda mais naquela hora da
madrugada. Começo a correr, sentindo a arma presa embaixo da minha
roupa. Nunca mais saí de casa desarmada depois daquele dia.
Hoje estava fazendo um ano desde o dia que me pegaram, 356 dias
depois do dia que me trancaram em um cativeiro e arrancaram as minhas
unhas. Atualmente, a maioria dos meus dias são bons. Com o tempo, eu me
acostumei com as cicatrizes e a lidar com as crises de raiva e pânico. Ainda
não cobri nenhuma das marcas com tatuagem, como eu disse que faria. Me
dei conta de que não quero associar minhas tatuagens que eu gosto tanto às
memórias tão ruins.
Puxo o ar pelo nariz e solto pela boca, repetindo o processo inúmeras
vezes e me lembrando de que sobrevivi. Deixo o oxigênio inflar meus
pulmões, me lembrando de que não estava mais com a cabeça enfiada
naquele tanque.
Quando termino de correr, vou direto pro quartel. Hoje é um dia
especial. Apesar de tudo o que significava, é um dia feliz. Faz uns meses
que eu venho participando do processo de adoção de uma cachorra militar.
Eu finalmente poderia levar Kira para casa. Ela é um Dutch Shepherd K9
aposentado. Não foi por acaso a adoção da Kira. Eu preciso ressignificar
essa data.
Chego no canil da polícia completamente eufórica. Eu já havia
assinado os papéis e estava na recepção. Fico olhando os cachorros policiais
entrarem e saírem com os seus tutores. Converso com um deles, trocando
dicas, pois quero que a Kira tenha a melhor vida de aposentada que um
cachorro possa ter.
E então ela vem, caminhando na coleira, ao lado da policial que
cuidava dela. Ela abana o rabo para mim, toda feliz. Eu passei por um
treinamento com ela, porém nos conhecíamos antes mesmo de começar o
processo. Kira era frequente nas operações em que a S.W.A.T. precisava de
um cachorro.
Ela entrou tranquilamente dentro do carro e ficou o caminho inteiro
com a cabeça entre os bancos da frente. Eu vou conversando com ela,
explicando o que estava acontecendo e que ela seria muito amada. Passo
num pet shop e ajudo-a a escolher uma caminha e alguns brinquedos.
Demora um tempo para ela entender que não estávamos ali procurando
drogas, mas deu tudo certo no final. Compro também um monte de outras
que eu julgo necessário, inclusive uma coleira preta, para combinar com as
minhas roupas, que o vendedor indicou ser a mais correta para correr na sua
com um cachorro no porte de Kira. Agora, eu teria uma companheira de
treino.
Ela era obediente, mas ainda estava um pouco desconfiada, durante os
treinos ela tinha costume de latir quase sempre. Além disso, notei que tinha
mania de montar guarda o tempo inteiro. Faço carinho na cabeça dela,
vendo que talvez somos mais parecidas do que eu pensava.
Nossa próxima parada é a cobertura da Diana.
Subimos para o último andar. Kira olha para tudo e fica do meu lado o
tempo todo. Eu a solto da coleira somente dentro do apartamento. Ela
chacoalha os pelos e anda pelo local, farejando o ar. Deixo-a livre para
andar, sabendo que a Diana estava quase chegando.
Me sento no sofá e vejo-a cheirando e inspecionando tudo calmamente.
Kira tem 7 anos e atingiu a idade máxima que um K9 trabalha.
― Você virou mamãe. ― Mando a mensagem para Diana, seguido de
um emoji de coração.
― Eu tenho super dedos, então. ― Ela responde quase na mesma hora
seguido de um emoji de óculos escuros e um coração rosa.
Como eu ainda moro sozinha, Kira é um segredo para todo mundo,
inclusive para Diana. Se morássemos juntas, eu conversaria antes de adotar
uma cadela de quase quarenta quilos. Deixo Kira conhecendo a sala, vou
para a cozinha, conto a novidade para Luca e Michelle, mandando uma foto
nossa que eu havia tirado no carro, enquanto esquento uma marmita da
minha dieta.
― Por que tem um cachorro do tamanho de um cavalo no meu sofá?!
― Escuto a voz da Diana vindo da porta da sala quase meia hora depois.
Vou até lá.
― Não seja exagerada. Ela é um Dutch Shepherd e não um dogue
alemão. ― Assim que a Kira me vê voltando para sala, levanta do sofá e
vem até mim. ― Diana, essa é a Kira. Ela é uma K9 aposentada e eu adotei
essa belezinha. ― Faço carinho na parte de trás das orelhas dela.
― Meu deus, você realmente adotou um cachorro. ― Ela se abaixa
para deixar Kira cheirar sua roupa. ― Ela é muito fofa. Meu deus, você tem
cara de malvada igualzinha à Olivia! ― Kira deixa a Diana fazer carinho.
― Ela é incrível. Eu já a vi derrubar um homem de oitenta quilos em
movimento no chão só com a mordida. Mas, no geral, ela é muito dócil.
― É você mesma na versão cachorro. ― Kira levanta o corpo,
apoiando as patas na saia da Diana e abanando o rabo.
― Pior que ela é uma ótima cão de guarda. ― Meu comentário faz
Diana rir alto.
― Eu estava preocupada em como você estaria hoje. Inclusive,
comprei sua comida preferida caso você estivesse triste. Está na geladeira
para você comer mesmo assim. Mas não tem como ficar triste ao ter uma
cadela enorme para dar carinho. Esse aqui é o brinquedo dela? ― Diana
pergunta, pegando uma cenoura de pelúcia jogada no chão, brinquedo que a
Kira havia escolhido no pet shop mais cedo.
Nós vamos para a parte externa da cobertura e começamos a brincar,
que corria de um lado pro outro atrás da cenoura de pelúcia. Ela, mesmo
sendo aposentada da polícia, era muito saudável e brincalhona. O
veterinário disse que, se mantermos uma dieta saudável, ela ainda tem
muitos anos pela frente.
Ficamos ali fora bastante tempo até a campainha tocar. O barulho toma
a atenção de Kira, que me segue até a porta.
― Cheguei para conhecer a minha sobrinha. ― Luca diz assim que
abro a porta. Ele segurava um brinquedo de cachorro na mão.
― Nós não trouxemos Foxy, porque o bichinho é pequeno. Vamos
esperar a Kira se acostumar com a casa nova dela. ― Michelle entra no
apartamento logo atrás.
Os dois ficam ali a tarde inteira. Mimamos a Kira e ficamos jogando
conversa fora. Quando todos vão embora, eu e Diana ficamos deitadas no
quarto. Kira descansa nos pés da cama. Diana corre os dedos pelo meu
cabelo enquanto eu permaneço com a cabeça na barriga dela.
Eu puxo o tronco dela para mim, prendendo-a em um abraço. Era tão
bom ter ela ali. Eu não sabia colocar em palavras o tanto que eu precisava.
― Obrigada.
― Por...? ― Ela levanta o rosto para poder me olhar de volta.
― Nada, eu só... fico muito feliz por você existir. Se não fosse por
você, eu não sei o que seria de mim. Meu amor por você não foi repentino,
eu te amei aos poucos. Primeiro, eu só te achava uma delícia, ainda acho.
― aponto para o corpo dela. ― Mas aquela viagem para Madri mexeu
muito comigo. Eu achava que só me sentia atraída fisicamente pela minha
chefe, mas, quando eu menos esperei, fiquei vários dias me mordendo de
ciúmes porque você beijou uma das amigas da Katie.
― Ah, então você admite que ficou com ciúmes!
― Eu disse que estava tudo bem, mas nunca disse que não estava com
ciúmes. Depois veio todo aquele problema com o atentado em que a Katie
quase morreu e eu quase te perdi. Ali eu vi que eu realmente gostava de
você, não era só atração física. Sei lá, eu não me apaixonei por só uma coisa
ou um evento, foi todo o conjunto.
― Sabe, Olivia, acho que quero adicionar a sua versão romântica na
lista de top cinco coisas que eu acho mais sexy. Eu estava aqui pensando…
na verdade, já faz um tempo. Vem morar comigo. ― Não sou pega de
surpresa. Minhas coisas já haviam tomado conta do closet da Diana e eu
passava mais tempo aqui do que na minha casa.
― Tem certeza? Agora eu tenho a Kira.
― Pelo amor de Deus, Olivia, eu me apaixonei por essa bola de pelos
mais rápido do que eu me apaixonei por você. ― Ela bagunça meu cabelo
e eu me viro, abraçando o corpo dela.
― Eu quero que você faça parte da minha vida. Você é muito além de
uma simples namorada. Eu quero construir uma vida do seu lado. Eu quero
que você saiba que, quando eu atravessar aquela porta, eu não tenho a
menor intenção de sair. ― Eu olho para ela com sinceridade.
― Você está me pedindo em casamento, Olivia Winston? ― Ela
inclina a cabeça para o lado. Meu coração acelera e eu saio de cima dela,
andando devagar demais até a cadeira que eu havia colocado a minha bolsa
em cima.
― Então… ― Eu abro o zíper, tirando a caixinha azul do bolso
interno. Eu nem tinha começado a falar e a Diana já estava perplexa, me
olhando com as mãos na boca. Então, para minha surpresa, ela começa a rir.
― Que foi?
― É que a gente teve a mesma ideia. ― Ela anda até o closet e volta
segurando uma caixinha preta. Meu coração se aquece de uma forma tão
genuína que sinto meus olhos encherem de lágrimas. Ela se aproxima de
mim e se ajoelha na minha frente, se sentando em cima dos calcanhares.
― Prometo ser mais romântica do que no nosso pedido de namoro. ―
Isso arranca uma risada de nós duas e ela limpa a garganta. ― Olivia
Winston, você aceita se casar comigo?
― Aceito. ― Eu balanço a cabeça, tentando não chorar, e puxo-a pela
mão para ficar de pé. ― Meu deus.
― Não chora, eu vou chorar também. ― Ela pega no meu cabelo antes
de abrir a caixinha e colocar o anel no meu dedo. Era um anel de ouro
delicado com uma joia. Tento me recompor e pego a minha caixinha,
ajoelhando na frente dela da mesma forma que ela havia feito.
― Diana Montserrat, você aceita se casar comigo? ― Ela abaixa o
corpo, me dando um selinho e sussurrando 'sim' um milhão de vezes. A essa
altura, ela tinha um sorriso lindo de orelha a orelha. A luz quente do quarto
deixava ela ainda mais ruiva e eu queria viver aquele momento para
sempre. Eu me levanto, beijando-a de verdade dessa vez.
Ali com Diana, tudo parecia tão certo. Meu coração estava tão cheio de
amor e aquele dia, que havia começado tão cinza, se transformou em algo
tão grandioso. Nosso beijo se torna um abraço que parece conectar nossas
almas e colocar o universo de volta no eixo. Eu nunca havia sentido esse
tipo de calma em toda minha vida. Afago o cabelo dela, sentindo a
respiração na altura do meu braço. Eu sabia que minha vida jamais seria a
mesma depois de tudo o que tinha acontecido. Mas, pela primeira vez em
muito tempo, eu me sentia realmente feliz de ter um futuro. Eu quero um
futuro com a Diana do meu lado. Preciso dela desesperadamente, como
alguém que teve o oxigênio negado e precisa respirar. Preciso tanto de cada
pedacinho dela.
Naquele quarto, eu tinha tudo que eu precisava.
― Eu consigo escutar seu coração batendo. Parece que você acabou de
correr um quilômetro. ― Diana sussurra.
― É porque eu estou muito feliz. ― Limpo as lágrimas teimosas que
insistiam em descer.
― Eu também. Te amo muito, tá? ― Ela se aconchega ainda mais no
meu abraço.
― Eu te amo mais.
FIM.
AGRADECIMENTOS

Minha jornada na escrita começou em 2013, lá com o nyah! fanfiction. Alguns anos depois,
migrei para o wattpad e, desde então, me apaixonei novamente pela escrita. É muito surreal pensar o
quanto foi difícil escrever esse livro. Aconteceu tanta coisa na minha vida do primeiro capítulo até
aqui. Olivia foi meu primogênito e foi o que segurou as pontas da minha vida quando ela desabou
alguns meses atrás. A Olivia me ensinou que é possível sair viva e lutar contra os próprios traumas
sem se perder e deixar ser engolida por eles.
Queria muito agradecer por todo o carinho que recebi. Em especial, minhas duas melhores
amigas, Emy e Amanda, que me ajudaram com Olivia desde a época em que o livro era apenas uma
vaga ideia. Preciso agradecer também às minhas duas betas, que acreditaram em mim
incondicionalmente: Lari, que praticamente me pegou no colo e me ajudou com tudo que eu precisei
na etapa final de Olivia, e a Gi, que não tinha uma pergunta minha que essa garota não sabia
responder. Minhas duas peixinhas de aquário, vocês foram tudo!
Por fim, um agradecimento às minhas leitoras lindas e maravilhosas, tanto as novas quanto as
que sempre estiveram aqui e não me deixaram largar a história. Espero que Olivia tenha tocado o
coração de vocês e que tenham conseguido sentir tudo que tentei expressar ao longo de todas essas
páginas. Muitíssimo obrigada por estarem aqui comigo e até o próximo livro!

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Copyright © 2023 Fernanda K.
 
Capa: Lilly Design
 
Diagramação: Fernanda Karolina, Gabriel Mello
 
Revisão: Amanda
ÍNDICE
 
SINOPSE
NOTA DA AUTORA E GATILHOS:
Prólogo
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍT
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
AGRADECIMENTOS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para quem já passou por um trauma e sobrev
SINOPSE
 
Olivia Winston tinha seu emprego dos sonhos, atiradora de elite da principal equipe da
S.W.A.T. Porem tudo que ela
NOTA DA AUTORA E
GATILHOS:
 
Olivia começou como uma ideia descontraída de quem queria ter algo para fazer durante os
prime
Prólogo
 
 
 
Meu relógio marcava 5:23. Pelo visto, passar o dia todo com Luca não
era o suficiente. Quando ele me tirou da c
― Bom dia, meus amores. ― Mich finalmente nos alcança. Minha
amiga era uma mulher de 1,75 de altura e dona da bunda mais boni
― Precisamos conversar. ― Ele começa. Eu conhecia aquele tom de
voz tão bem, era o mesmo que ele usava quando não queria mago

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