Violência e Psicanálise em Freud
Violência e Psicanálise em Freud
RESUMO
Este artigo busca refletir sobre a violência na natureza social humana, levando em consideração a Psicanálise
freudiana. Inicia-se fazendo uma pequena introdução acerca dos estudos sobre violência nas ciências humanas de
uma forma geral, tendo como base a história da humanidade e sua relação com a violência. Destacando até o
ponto em que se resgatou Freud e seu entendimento sobre como se dá a relação entre natureza humana e a
violência. Assim, de caráter bibliográfico, esta pesquisa foi realizada através de uma revisão teórica dos
principais pontos da obra freudiana a tratar da violência, sendo eles: a teoria da sedução, o mito da horda
primitiva e a teoria das pulsões. Foi discutido como isso reflete no entendimento do fenômeno da violência na
obra de Freud, bem como suas possíveis implicações para o sujeito e a sociedade de maneira geral. Conclui-se
que a violência faz parte da humanidade, mas não é imperativo a vida humana.
INTRODUÇÂO
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Graduando em psicologia pela faculdade de ciências humanas ESUDA.
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Contudo, devem ser analisados com cuidado, livres de reducionismo, pois interpretações
equivocadas carregam o perigo de legitimar e até banalizar atos de violência, quando na
verdade não é esse o objetivo freudiano, conforme será visto mais adiante.
Este estudo surgiu no contexto das eleições brasileiras de 2018, onde a violência social
foi um dos principais assuntos debatidos entre os candidatos às vagas da presidência. Não era
novidade o crescente aumento da violência urbana em que a sociedade vivenciava, e vivencia
até hoje. Chamou a atenção, no entanto, que os debatedores que apresentaram as soluções
mais agressivas para esse problema social, tiveram maior adesão dos eleitores.
Com isso, ficou evidente que o discurso de boa parte da população junto com as
principais lideranças políticas mais recentemente eleitas, é que a solução para violência no
Brasil seria justamente o aumento da violência naturalizada contra um determinado grupo
social (formado sobretudo por jovens, negros e pobres) representados como sinônimo de
criminalidade e agressividade. Por exemplo, o armamento da população civil, bem como atos
de violência contra “criminosos”, além do apoio à redução da maioridade penal, tem sido
constantemente apontados como saídas à violência e não como “falsas soluções” que apenas a
agravam.
Nesse entendimento a ideia aparentemente majoritária da população brasileira de que
contra a violência, deve se usar mais violência, talvez seja um sintoma da pouca reflexão
sobre esse tema. Essa inquietação aumentou ao perceber na Psicanálise, e em Freud
especificamente, algumas pistas que talvez explicassem a questão da violência no homem.
Esse fenômeno chama a atenção de Freud, ao ponto de fazê-lo se dedicar bastante a esse tema.
Será que somos de fato violentos e devemos nos habituar a isso? Tendo a reposta afirmativa,
como explicar a indignação, que surge em indivíduos civilizados, frente a atos violentos? E os
anseios do homem pela paz, pela tranquilidade, que rechaça o ímpeto a violência a ponto de
não enxergar o mínimo de sentido na agressividade, não é natural?
Essas questões serviram de propulsão para a pesquisa, no entanto dada a
complexidade do tema, não foi possível respondê-las de forma completa e definitiva. Mas a
partir delas e demais inquietações, construiu-se o seguinte problema de pesquisa: Como se dá
a construção do conceito de violência como algo constitutivo da psiqué humana a partir da
teoria freudiana?
Caniato (2000), refletindo sobre violência e a sociedade, chama atenção para o fato de
nossa sociedade ser pautada pela violência. Essa cultura tem gerado a dificuldade em entender
a dimensão do problema e apresentar soluções eficazes, fazendo com que a violência seja
banalizada e não gere indignações. Isso termina contribuindo para a manutenção dessa ordem,
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uma vez que os indivíduos, muitas vezes, não se agrupam, tendo em comum essas
indignações, e não buscam suficientemente ações de mudanças e resistências sociais, contra a
violência social.
Tudo isso deixa bastante claro que esse assunto precisa ser estudado e refletido a fim
de que o ciclo de violências, dentro de um entendimento, seja descontinuado. A reflexão e o
fazer psicanalítico norteiam em uma esperança de que novos caminhos podem sim ser
seguidos, como nos tranquiliza Rocha (2012). Conhecimento é um instrumento de
transformação social, pesquisar\conhecer sobre a violência tende aponta para o surgimento de
novas possibilidades e soluções.
Assim, o objetivo geral deste trabalho consistiu em refletir sobre a violência na
natureza humana, levando em consideração a Psicanálise freudiana. Mais especificamente,
buscou-se: compreender as principais ideias sobre violência a partir de um percurso histórico
na ciência e do início da Psicanálise analisar o papel da violência em Totem e Tabu e
compreender como a Psicanálise pode contribuir para a descontinuidade das relações entre
violência e sociedade.
MÉTODO
indivíduos agradavam a esse Deus com guerras e assassinatos, para evitar ser vítima atos
violentos. O que gerava uma certa economia da violência, onde quanto mais violento um
indivíduo era menos violência ele iria sofrer (HAN, 2017).
Essa economia da violência tinha um final trágico: o excesso de violência em algum
momento, exterminaria a todos. O caos seria só uma questão de tempo, e algo deveria cessar
essa reação em cadeia. É aí que entra a religião, que na época cuidou de criar um mecanismo
para trazer a paz, e evita o pior. O curioso é que a violência também foi peça fundamental
nesse dispositivo que evitaria um aniquilamento geral entre homens. Então para quebrar esse
ciclo de assassinatos e violência cria-se o sacrifício expiatório (HAN, 2017).
Assim, toda a violência, contendas, invejas, brigas e rivalidades eram descarregadas
em uma vítima conciliatória, podendo de um outro humano, um animal ou algo que tivesse
sangue. Esse sacrifício expiatório não ao acaso era bastante violento, tinha poderes mágicos
para evitar infortúnios, trazer sorte e coisas boas. Foi através da violência, que o homem
primitivo teve seus primeiros contatos com experiências religiosas. Esses sacrifícios religiosos
estão presentes nos astecas, gregos, indianos, judeus e povos africanos, ou seja, em
basicamente todos povos primitivos que conhecemos a história (HAN, 2017).
Arendt (1985), em seu livro: Sobre a violência, ao discorrer sobre a onipresença da
violência na humanidade, deixa claro que qualquer estudioso dedicado à história, ou a
política, ou a antropologia, enfim humanidades em geral, não pode permanecer alheio ao
papel vultoso da violência. E tal presença tão marcante, desperta questionamentos sobre a
natureza humana. A violência seria algo inato ao homem? Ou o que possibilita o surgimento
da violência nas relações humanas?
Thomas Hobbes (2002), pensando em como se deu a necessidade de criação da
sociedade e do Estado, em uma publicação de 1651, teoriza que a necessidade de um
governante surge para apaziguar a vida selvagem, que seria caótica e violenta. Hobbes via
natureza humana como algo cruel, violenta e egoísta. Logo, o homem sendo governado por
sua natureza vivia em um estado de caos e guerra, surgindo aí a necessidade de algo que
tamponasse essa natureza. Logo o medo do Governante\Estado, teria que suprimir o medo do
vizinho, que existiria em um estado natural. O Leviatã traz essa ideia de um estado
monstruoso que cause terror a ponto de ofuscar o medo que o cidadão pudesse sentir do
próximo.
Costa (1986), destaca que a ideia hobbesiana da natureza humana como algo cruel faz
bastante sucesso no meio acadêmico em que Freud está inserido. Hobbes escreve sobre a
natureza humana duzentos anos antes de Freud e o serve de inspiração. O próprio Freud se
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Nessa publicação, Freud trata e enumera alguns mecanismos da sociedade que seria
um entrave a felicidade do homem, e porque desses entraves serem necessários a uma vida em
sociedade. A tese é que a sociedade surge para refrear os instintos agressivos no homem e
possibilitar o convívio em sociedade, o que lembra um pouco a ideia Hobbesiana da
necessidade de um Estado Forte. A agressividade inerente a natureza humana é tão clara pra
Freud que logo depois da citação anterior, um pouco mais a frente nesse mesmo livro ele
evidência ainda mais: “Nenhum outro trabalho me deu a sensação, como este, de expor algo
conhecido, de gastar papel e tinta e fazer trabalhar o tipógrafo, para falar de coisas evidentes”
(FREUD, 2010, p. 83).
É inegável que Freud levou a questão da agressividade humana, como algo inerente ao
homem. E a Psicanálise funda-se com essa visão de homem em vista. É certo que 1930, o ano
em que Freud escreveu esse texto, foi um ano complicado para o mundo de uma forma geral e
para o próprio Freud, a humanidade ainda estava sobre efeitos da depressão econômica de
1929, o antissemitismo estava em alta na Europa, e nazismo em ascensão na Alemanha. Fatos
esses que poderiam apontar um certo ressentimento, e até contaminar, essa obra.
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É importante resgatar aqui que o Freud, e muitos outros psicanalistas após ele,
pensam a violência com a clássica versão Aristotélica: “Violência como a qualidade do
movimento que impede as coisas a seguirem seu movimento natural” (COSTA, 1986, p.15).
Daí então essa noção em que põe a violência com algo primordial no homem freudiano, tem
como início na teoria do trauma infantil, ou teoria da sedução, que seria o elemento fundante
do psiquismo do indivíduo. “Considerando que, para Freud, a sexualidade infantil resulta da
confluência de três fatores – O estimulo biológico, o estimulo ligado ao exercício das funções
vitais e o estimulo exógeno, determinado pelo pais.” (COSTA, 1986, p.19). Onde esse
estimulo exógeno seriam orientados pelo desejo libidinal dos pais pelo filho, violentando de
certa forma o curso natural da criança.
Costa (1986), nos aponta também que o desejo dos pais é produto de uma longa
complexa convergência de sentidos criados a partir da cultura e de uma história, muito acima
da capacidade absorção da criança. Logo “A criança é obrigada a introjetar ou interiorizar
uma excitação sexual, portadora de um significado que ultrapassa sua capacidade de absorção
biopsicológica” (COSTA, 1986, p. 19).
Nessa perspectiva, a criança é violentada porque existe a impossibilidade de saber qual
o seu desejo, restando somente a imaginação do adulto. Por exemplo, a criança chora. Mas
qual o motivo daquele choro? Seria fome ou sono? Chega a ser cômico, imaginar uma criança
chorando em seu berço por estar com calor. A mãe que não sabe o motivo infere ser fome,
oferece o peito, a criança mama. Logo depois a criança chora de novo por qualquer outra
causa, a mãe novamente sem saber o motivo do choro, tenta solucionar dando mais uma vez
de mamar.
Roudinesco e Plon (1998), explicam que a palavra sedução denota uma cena sexual
onde um dos participantes de forma ativa, e tendo recursos superiores aos outros envolvidos,
se vale dessa posição para cometer o abuso sexual. A palavra supõe uma certa violência moral
e até física. Baseado nessa dinâmica Freud cria a teoria da sedução, em que um trauma sexual,
da criança na infância, resultaria na estrutura neurótica observada na clínica. Essa teoria foi
utilizada durante muito tempo na clínica, no entanto mais tarde o próprio Freud abandona esse
raciocínio quando se dá conta que nem todos os pais eram violadores. Nesse abandono ele
percebe que em muitos casos na clínica esse possível abuso sexual era uma fantasia de seus
pacientes, e ai em substituição a teoria da sedução ele cria a teoria da fantasia.
Costa (1986), concorda com Freud no abandono da teoria da sedução enquanto
elemento traumático em um abuso real, e em si. Demostra ainda que na ideia inicial do desejo
dos pais violentando o curso natural da criança, não faz sentido uma vez que não existe curso
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natural no psiquismo infantil nesse período, uma vez que ele se funda nesse processo. Se há
violência em um possível trauma infantil fundante do psiquismo, seria a questão da introjeção
da cultura e seu mal-estar. Dentro da ideia de que cultura é uma imposição de ritos e
significações de forma arbitrária. Mas que é necessária tendo em vista que somos seres sociais
e que necessitamos da cultura para intermediar nossas relações, como comprova Freud em
1930 no seu O Mal-estar na Civilização.
mulheres do grupo, resolve proibir o acesso dos filhos as fêmeas, que basicamente seriam
suas irmãs e mãe. Isso gera um desconforto entre os filhos (homens), uma vez que há o desejo
de tomar para si as mulheres, e acusam o pai de querer tê-las só para si. Por conta disso há
uma rebelião dos filhos, que se unem, contra esse líder paterno. Nessa rebelião os filhos
matam o pai e comem seu cadáver (SILVA JR, 2007).
Após o ato animalesco há o arrependimento dos filhos. E a partir disto uma nova
ordem social passa a existir. O assassinato desse pai ao invés de destruí-lo, o torna ainda mais
poderoso, uma vez que o arrependimento do crime de sua morte, traz a culpa e o remorso.
Com isso o pai se inscreve internamente nos filhos. A proibição inicial passa a ser internaliza.
Os filhos instituem a exogamia ao grupo, reconhecendo o tabu do incesto, aceitando a
interdição as mulheres feita pelo pai. É interessante como a violência é importante nesse
texto, e que através de sua máxima expressão: o assassinato, há a possibilidade da
internalização da lei, que é imprescindível na estruturação da sociedade hoje. A cultura para
Freud nasceria desse ato destrutivo (SILVA JR, 2007).
Nakasu (2005), comenta que no desenvolver da teoria psicanalítica o fenômeno da
violência até Totem e Tabu era descrito por Freud como algo individual ao sujeito, seja no
trauma da sedução ou a teoria das pulsões. Foi evidenciado como sendo algo particular dos
sujeitos e de seu funcionamento psíquico. Em “Totem e Tabu”, há a universalização da
violência ao atrelar ao crime de parricídio o surgimento da religião, da arte e da cultura. Há
uma ampliação da noção de violência no homem nessa obra. “A maldade e agressividade
humana saem do campo do clínico e do terreno dos fenômenos normais individuais para
ingressarem no campo da cultura e da pré-história do indivíduo” (NAKASU, 2005 P.143).
O homem repete essa carga de destrutividade inconscientemente, a ponto de só lhe ser
possível viver em sociedade se submetendo a leis internas que restrinjam essa agressividade.
Após esse texto Freud volta a acrescentar dados sobre o fenômeno da violência no homem,
em 1930, no livro Mal-estar na Civilização, que de certa forma retoma esse entendimento,
como também em 1932 no texto, Por que a Guerra?
Costa (1986), ao comentar o mito da horda primordial, salienta que essa narrativa deve
ser vista como uma metáfora explicativa do complexo de Édipo. Nesse complexo a criança
tem o desejo inconsciente de eliminar o pai, seu rival, e ter a sua mãe só para si. Em Totem
em Tabu Freud aplica essa Teoria a gênese da sociedade. “Mostrando que a história individual
de cada sujeito não é mais do que a repetição da história da própria humanidade”
(ROUDINESCO E PLON, 1998. p.757).
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Freud ao pensar uma teoria para gênese da sociedade utiliza da violência como
elemento fundante, não só ele, na verdade é até uma ideia bastante recorrente. Hobbes, Max
Heber e Darwin também se utilizam dessa forma de pensar. No entanto Freud pensa dessa
forma mas reconhece um caráter mitológico nesse pensar. E levar o mito da horda primitiva
como literal, e portador de verdades fidedignas levou Totem e Tabu a ser um dos livros mais
criticados da bibliografia Freudiana. Muitas dessas considerações negativas partem de
intepretações que o enxergam puramente como um livro sociológico ou historiográfico.
Quando na verdade a publicação deve ser vista como uma mitologia psicanalítica que
possibilita a postulação de intepretações variadas, como a do Jurandir Freire “Freud quis
mostrar como o contrato social é obedecido sem que haja a necessidade de uma força externa
coercitiva e permanente” (COSTA, 1986, p. 52).
Um outro ponto sensível ao tema proposto, é teoria das pulsões, que além de ser uma
das teorias nevrálgicas da metapsicologia Freudiana, é o ponto da Psicanálise que ficou
popularmente conhecido por ter uma maior aproximação com a violência.
Freud (2019), no ano de 1938, inicia um projeto que não pode ser finalizado devido a
reincidência de seu câncer. “O Compêndio, ou esboço, de Psicanálise”, que seria a reunião de
sínteses das criações freudianas de uma forma mais madura e consolidada. No capítulo dois,
há o resumo que as pulsões são variadas forças, que tendem a ser conservadoras, constantes, e
que são responsáveis por gerarem as tensões na vida anímica individual, seguindo as
necessidades do inconsciente humano. Por uma questão prática e teórica o Freud agrupa essas
forças em duas categorias, opostas de Pulsões: a de Eros e a de destruição.
Seguindo o texto, é definida a pulsão de Eros como a de conservação de espécie, ou de
busca pelo prazer, tendo “O objetivo de sempre produzir maiores unidades e assim mantê-las”
(FREUD, 2019, p. 25), e a de destruição como: “Aquela cujo objetivo final seja levar o
organismo vivo ao estado inorgânico. Por isso a chamamos também de pulsão de morte”
(FREUD, 2019 p. 25). Essas duas atuam constantemente na psique do indivíduo combinando-
se, em poucos casos, ou contrariando-se (o mais provável uma vez que são forças contrarias)
produzindo assim a diversidade dos fenômenos da vida. Com essa ideia o Freud cria uma
dialética de forças que gera uma dinâmica do funcionamento da psique humana, nesse sentido
a violência funcionaria como sinônimo para pulsão de morte.
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Roudinesco e Plon (1998), revelam que a ideia de pulsão tem alguns pontos de contato
com a filosofia nietzschiana, na qual o espírito humano era resultado de uma series de
colisões de forças contrarias. Com essa influência, Freud desenvolveu a dinâmica pulsional no
desenvolver de seus atendimentos e suas publicações, sendo a primeira aparição da ideia no
ano de 1895 em um texto endereçado a Flies que ficou conhecido no Brasil como “Projeto
para uma psicologia Cientifica”. E a sua última no ano de 1938, no texto Esboço de
Psicanálise. Ou seja, Freud contribui para a ideias das pulsões praticamente por toda a vida.
Para os autores, é o desenvolver, e a criação da teoria das pulsões, que levam ao Freud ser tão
enfático quanto a questão da agressividade e a tendência a destruição do homem, no livro
Mal-estar na Civilização. Colocando a violência no homem como uma satisfação a pulsão de
morte.
Costa (1986), para entender essa questão da violência na pulsão de morte, evoca uma
outra passagem dos escritos de Freud em que ele fala sobre a violência. Em uma carta de 1932
(dois anos após escrever Mal-estar na Civilização) trocada com Albert Einstein, que ficou
conhecida como: “Por quê a Guerra?”, eles discutem temas pertinentes de sua época, dentre
eles a segunda guerra mundial, que estava prestes acontecer. Freud revisita alguns dos velhos
temas da agressividade e violência no gênero humano, apresentando a violência em dois
contextos. O primeiro onde a violência aparece unicamente como uma satisfação ao instinto e
ao desejo destrutivo do homem. E em um segundo, bastante interessante, onde ela aparece
como uma possível consequência dos conflitos de interesse. Ou seja, para o Freud (2010), as
guerras são uma das muitas possibilidades que os homens têm de resolver seus conflitos, e
que em algumas situações recorrer a violência é necessário.
Nessa mesma carta, Freud aponta uma saída a violência na sociedade. Que seria a
criação de um estado universal, ou uma lei, em que houvesse direitos, onde a maioria das
pessoas estivessem em unidade. Nesse sentido essa unidade arbitraria os conflitos e não mais
a violência individual, ou de um grupo. Embora essa unidade pudesse em alguns aspectos usar
da força coercitiva para a resolução de possíveis conflitos a violência individual teria um
decréscimo (FREUD, 2010).
Para Costa (1986), essa resolução para o problema da violência no homem é
interessante porque, de forma complexa, mostra a violência como um instrumento de união
para os indivíduos. Fazendo uma ponte desse texto com Totem e Tabu, a comunidade seria
mantida, não só pela força coercitiva (violência), mas também por vínculos emocionais e
racionais. Com essa resolução, é aberta uma nova possibilidade de entender a violência na
obra freudiana. Não mais, simplesmente, como uma mera satisfação de instintos primitivos.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A violência perpassa toda a história humana, bem como a vida psíquica do indivíduo.
No entanto, isso não significa que o homem é exclusivamente guiado nesse sentido. O ser
humano é complexo e não comporta ser reduzido a uma mera economia de instintos e suas
respectivas satisfações. A violência está presente, mas nossa natureza é social: somos seres
sociais e o estar com o outro, se relacionando, é fundamental para o nosso pleno
desenvolvimento. É preciso estar em comunidade para ser feliz. Uma criança humana não
sobrevive sozinha, tamanha nossa dependência de uns com os outros. E dentro dessa ideia, a
violência frustra o relacionamento com o próximo. O medo do outro pautado pela violência é
um entrave à socialização.
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Freud tem grande importância na história da humanidade, porque, dentre outras coisas,
ele tinha a consciência das complexidades humanas. Seus textos devem ser entendidos
levando-se em consideração essa complexidade. Quando buscamos entender determinada
ideia na obra freudiana, é necessário unir todos os textos que ele trata sobre este assunto, sem
isolar um conceito dos outros, dentro da cronologia dos fatos. O tempo é fundamental para
entender a obra freudiana, uma vez que as teorias criadas por ele com o passar do tempo são
aperfeiçoadas e até abandonadas, quando se mostram falhas. Isso se dá porque a ciência
freudiana foi criada em meio a sua prática. Obviamente, isso não a deslegitima, ao contrário:
mostra que há a flexibilidade para se adaptar à realidade e até uma certa humildade.
Ao tratar da violência, o autor não é diferente. Freud, em seus últimos textos, leva o
seu entendimento sobre esse fenômeno a um outro patamar. Colocando em perspectiva a
busca do homem pela paz. A paz tão desejada em todos os tempos frente a violência, é que
propiciaria a tranquilidade para nos relacionarmos uns com os outros, extinguindo o medo da
violência.
É certo que na metapsicologia freudiana, está a teoria das pulsões, que fala de uma
dualidade de convergência dinâmica. A pulsão de morte portanto está como elemento violento
e destrutivo. Mas é primordial entender essa pulsão em sua convergência à pulsão de Eros,
que busca felicidade, a vida, o prazer. Não se deve entender essas pulsões isoladas, mas em
constante interação. Uma não existe sem a outra: é preciso vida para haver morte; é preciso
morte para haver vida.
A violência existe, é inegável, mas não deve ser superestimada ou sacralizada. Freud
deixa explicito em sua carta a Einsten. Ela deve ser entendida como só mais um meio de
solucionar conflitos, entre tantos outros meios disponíveis a humanidade. Como, por exemplo,
o diálogo. A linguagem, que foi criada pelos homens para possibilitar o relacionar-se com
outros homens. A humanidade saiu das cavernas, inventou diferentes utensílios de trabalho,
elaborou formas de se comunicar, concebeu linguagem, a escrita, para viver em sociedade.
Leis e normas sociais, foram geradas, com o objetivo de ter uma vida social de paz e
tranquilidade. Tudo isso, para se relacionar com seus semelhantes.
Todo esse percurso é incompatível com a ideia de um homem exclusivamente “mau”,
violento e/ou destrutivo. Essa ideia deve ser abandonada, pois se mostra longe da realidade. O
homem é também solidário, terno, sensível com o próximo, resiliente, criativo e dispõe do
amor. Devemos investir mais nesses potentes fenômenos humanos, que são permeados pelo
amor, na esperança de uma sociedade menos destrutiva e mais inventiva.
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REFERÊNCIAS:
ARENDT, Hannah Da Violência. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1985.
CHAUÍ, Marilene. Uma ideologia perversa: explicações para a violência impedem que a
violência real se torne compreensível. Folha de São Paulo, 14 de março de 1999. Caderno
Mais. p. 3-5. 1999.
COSTA, Jurandir Freire. Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1986.
FERREIRA, Mauricio Murad. A violência no futebol. São Paulo: Editora Saraiva, 2017.
FREUD, Sigmund. Totem e tabu e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
GIL, Antonio Carlos et al. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.
NAKASU, Maria Vilela Pinto. O parricídio em Totem e tabu: uma análise acerca da gênese
do conceito de pulsão de morte. Revista de Filosofia Aurora, v. 17, n. 20, p. 137-146, 2005.