Aula 1 – Técnicas de oratória
Senhora e senhores sejam muito bem-vindos à nossa primeira aula
de Oratória Criativa. É sempre uma honra e responsabilidade ter você aqui
conosco.
Peço que preste atenção à aula, siga o programa das cinco semanas
e aplique os desafios que serão disponibilizados às sextas-feiras. O objetivo
prático do curso é transformar vidas. Assim, recomendo colocar em prática
o que for aprendido a partir de hoje.
Na nossa primeira aula, abordaremos Técnicas de Oratória. Segundo
Aristóteles, a oratória é a arte do discurso que visa à persuasão. Ainda, na
concepção do filósofo, oratória e retórica são palavras empregadas como
sinônimas.
Portanto, nós aprenderemos, neste curso, técnicas de discurso
objetivando a persuasão, ou seja, o convencimento de alguém.
1. Preparação
Imagine que eu dissesse para você fazer uma apresentação sobre
obesidade. Bem, sabendo que você não tem conhecimento aprofundado
sobre o tema, daria uma semana para que você se preparasse. Assim,
preparação significa estudar o tema, pois muitas vezes não o estudamos e
nos sentimos sem confiança para abordar o assunto.
Se você deseja contar a sua história para as pessoas é necessário
planejar a sua apresentação. Isso não significa estudar a sua história, já que
você a conhece.
A preparação é imprescindível para uma boa apresentação. Vejamos
a importância dela por meio do seguinte exemplo:
“Supondo que você é um corretor de imóveis e deseja vender um
apartamento para mim. Contudo, você não conhece nada sobre o imóvel,
pois não o estudou. Na hora de mostrar o imóvel, como você não
consegue explorar as especificidades do apartamento, eu não o compro”.
Perceba que se você tivesse explorado o imóvel, o cliente compraria.
Preparação significa estudar o que será apresentado em toda e qualquer
apresentação.
Eu, por exemplo, não sei nada sobre obesidade. Talvez saiba alguma
coisa, pois ouvi um podcast recentemente. Então, se eu tivesse que fazer
uma apresentação sobre obesidade, eu estudaria o tema. Realizaria
pesquisa sobre o tema nos sites de busca, acessaria sites de universidades
respeitadas, leria estudos recentes e faria um compilado de informações
sobre o tema.
Não basta estudar o tema. Às vezes, estudamos o tema e não nos
sentimos aptos para falar sobre ele.
Supondo que você, agora, é um advogado e estudou o processo para
fazer uma sustentação oral. Observe que não dá para fazer uma
sustentação sem ter estudado o processo.
Contudo, não basta ter estudado o processo para fazer a sustentação
oral. Dentro da preparação, passamos para o segundo ponto, que é
sistematizar o conteúdo em tópicos.
1.1 - Sistematizar o conteúdo
Sistematize o conteúdo da sua palestra em tópicos. Ninguém quer
ver você lendo o seu discurso. As pessoas estão esperando que você fale
com elas. Ora, afinal, ler qualquer um pode.
O ideal é que você fale o discurso olhando nos olhos das pessoas.
“Samer, mas eu não posso correr o risco de não abordar pontos
principais”. Correto. É isso mesmo! Nesse caso, vejamos as orientações
abaixo para que os pontos importantes da palestra sejam devidamente
abordados:
- Ir à palestra levando consigo uma folha com os principais tópicos
que serão apresentados ao longo da palestra;
- Colocar a folha em cima do púlpito ou da mesa;
- Começar a falar atentando-se aos tópicos da sequência presentes no
papel à sua frente.
Às vezes, queremos apenas ter uma conversa com o nosso pai.
Observe se o assunto é difícil. Nesse caso, saiba mais sobre o assunto,
tenha em mente os pontos que deseja falar. Por exemplo, aluguel, venda e
mudança. Em primeiro lugar, quero falar sobre aluguel, depois sobre
venda e, por fim, sobre mudança. Saber essa sistematização ajuda a não
esquecer.
2. Planejamento
Aristóteles ensina que existem 3 elementos do discurso:
1. Orador: é a pessoa que fala (orador). No presente caso é você;
2. Ouvinte: como o nome já diz, é a pessoa que ouve, ou seja, é o
destinatário da fala;
3. Discurso: possui o seu objeto e a sua finalidade definidos conforme o
destinatário da mensagem.
Imagine, então, que o seu discurso é sobre obesidade. Digamos que
você vai falar sobre obesidade para idosos. Perceba que, nesse caso, o
discurso é um. No entanto, se você for falar sobre obesidade para
adolescentes nas escolas, o discurso será outro.
Na hipótese do destinatário ser residente de endocrinologia, o
discurso também será outro. Assim, quando o público alvo muda, o
discurso também muda. É por isso que Aristóteles diz: “O destinatário da
mensagem define o objeto e a finalidade do discurso”.
2.1 - Personalização
Esteja atento para personalizar o seu discurso conforme o
destinatário. Aqui, fazer uso da Escuta Ativa (tema da próxima aula) é
importante para entender a necessidade do ouvinte. Por exemplo, para um
casal que pretende comprar um imóvel com 3 suítes, talvez o tamanho da
sala não seja tão importante para ele. Até mesmo a localização do prédio
pode importar menos do que o fato de ter 3 suítes.
No entanto, as necessidades de uma pessoa solteira podem ser
completamente diferentes. Para um solteiro, talvez bastasse uma suíte,
uma sala ampla e boa localização.
É por isso que a abordagem do palestrante deve levar em
consideração o público-alvo para perceber quais pontos devem ser
enfatizados durante a apresentação.
O convencimento se dá através da impressão que você gera no
outro. Ninguém decide racionalmente, pois decidimos segundo às paixões
incutidas em nós durante o discurso.
A arte de emocionar e tocar o outro está diretamente ligada ao
conhecimento que você tem do outro. Imagine um neto que pretende
comprar um apartamento. Ele gosta muito dos avós e pretende levá-los
para o seu novo apartamento. Então, o corretor de imóveis vai mostrar ao
cliente os espaços em que os avós poderiam descansar, ficarem à conversa
com o neto.
Ora, ao cliente, imaginar a interação dele com os avós, o seu
emocional será ativado. Entretanto, perceba que isso não está relacionado
com conhecer o produto ou com sistematizar o conhecimento. A
personalização da mensagem faz parte do planejamento.
Personalizar significa saber o que interessa à pessoa que está me
ouvindo. Todavia, além disso, também é preciso estar ciente do assunto do
momento, ou seja, da pauta quente.
2.2 - Assunto do momento
Saiba que é possível conectar o interesse do ouvinte e relacioná-lo
com uma pauta quente. Essa é uma forma de prender a atenção das
pessoas.
Vamos supor que você seja um profissional liberal que trabalha com
a internet. Você é um nutricionista! Então, quem segue você são pessoas
interessadas em nutrição, em vida saudável e em perda de peso.
Você conhece o seu público alvo e, como o destinatário da minha
mensagem define o objeto e a finalidade da minha mensagem, é nele que
devo focar, abordando temas do interesse dele.
Em paralelo, podemos relacionar a personalização a uma pauta
quente e atual, como forma de reter a atenção do maior número de
pessoas possível.
Na pandemia, as pessoas assistiam ao Big Brother com maior
frequência. Naquele momento, todo e qualquer assunto que dizia respeito
ao Big Brother chamava a atenção das pessoas.
Um nutricionista, nessa altura, poderia abordar, por exemplo, a
alimentação na casa do Big Brother ou de determinado participante.
Também sobre o impacto da alimentação no humor de alguma pessoa
que teve alguma reação incomum dentro da casa.
O nutricionista ao relacionar um assunto de interesse do seu público
com uma pauta quente (temática que está em alta na mídia) conquistará a
atenção de mais pessoas.
Um tema que agita o país é a eleição presidencial, veja que se trata
de uma pauta quente e de um assunto atual.
No meu caso, muitas pessoas que me seguem desejam saber mais
sobre oratória. Eu posso relacionar um curso de oratória com a pauta
quente das eleições presidenciais, em ano eleitoral.
Sugiro a vocês, dentro do planejamento, unir o conhecimento com a
personalização e a pauta quente.
Quando a rainha Elizabeth II morreu, vários consultores de moda
falaram sobre o seu estilo de vestimenta. Essas postagens engajaram e
tiveram uma maior repercussão. Em termos de discursos, isso significa que
você pode prender a atenção de mais pessoas.
Um dos princípios da persuasão é a autoridade. Na medida em que
você estuda, a sua segurança para falar é maior; Na medida que você
planeja, a assertividade do discurso é maior.
Se eu preciso fazer uma apresentação, ela não pode ser a primeira
vez em que vou apresentar algo. É preciso colocar em prática, por meio de
um treino antes de ir para o jogo.
3. Prática
Esteja atento às recomendações que serão agora apresentadas para
a realização da prática.
Pratique em casa, mesmo sem motivo. Não espere o motivo surgir
para você praticar em casa. Não espere o momento da dissertação do seu
mestrado, a tese do doutorado, a apresentação do relatório na empresa, a
gravação de um vídeo.
Treine em casa, mesmo sem motivo, para desenvolver esse hábito.
Treine em frente ao espelho. Sempre recomendei treinar em frente
ao espelho. No entanto, uma boa possibilidade também é utilizar o celular
para gravar a si mesmo. Basta colocar o aparelho num tripé e começar a
filmar. O ideal é que você não esteja se vendo. Use apenas 5 min para
gravar e depois assista ao vídeo. Anote o que errou. Grave novamente
tentando corrigir os defeitos do vídeo anterior. Os vícios de linguagem são
os mais frequentes, esteja atento a eles.
Quando falo para treinar em frente ao espelho, a utilidade está em
poder corrigir os erros de forma instantânea. Atitudes que podem ser
corrigidas: mexer no cabelo, mexer com os dedos e etc.
Além disso, recomendamos que o treinamento seja feito em voz alta,
usando a mesma roupa que usará no dia (o objetivo é fazer o discurso
como se você já estivesse discursando para a plateia).
“Quanto mais próximo o treino for do jogo, mais próximo o jogo será
do treino”.
Fazendo isso, no dia da apresentação, você estará mais à vontade,
uma vez que estará mais acostumado com a vestimenta e estilo.
Se for o caso, compre um púlpito pequeno e coloque na sua casa
para que você possa usá-lo nos seus treinos. Se for uma apresentação no
trabalho, pegue o seu notebook, ligue o cabo numa televisão e faça a
apresentação como se você estivesse falando para o seu chefe. Tente
reproduzir, o mais próximo possível, como será no dia da sua apresentação.
Recomendamos começar com um público pequeno. O ideal é que
essa exposição seja feita de forma gradual, pois, aos poucos, você se sentirá
mais confortável numa situação desconfortável.
Comece falando para uma, duas, três pessoas. Você pode, inclusive,
pedir para alguém de sua casa assistir à apresentação gravada.
Você vai perceber que se já existem 2 a 3 pessoas assistindo à sua
apresentação, de uma certa forma, isso até já pode deixar você inibido. O
objetivo é superar gradualmente a inibição para que você fique mais
confortável.
4. Postura corporal
Postura corporal é um tema ligado diretamente à linguagem
corporal, assunto sobre o qual trataremos na próxima aula. Eu quero tão
somente fazer algumas observações, pois trataremos desse tema
posteriormente.
A sua postura deve ser natural. As pessoas, às vezes, aprendem
oratória e acham que é preciso gesticular e ter uma postura ereta. Durante
o discurso, a pessoa pode até ter uma postura ereta, mas coloca a mão
aqui e alí.
Não perca a naturalidade da sua postura corporal e articulação. Esse
é o primeiro ponto.
O segundo ponto é que as pessoas precisam prestar mais atenção
no conteúdo da sua fala do que na sua má postura. Se você começar a sua
palestra com o corpo curvado as pessoas vão prestar mais atenção na sua
postura do que no conteúdo da sua fala.
Então, a gente precisa ter cuidado com a postura para que o
principal continue sendo o principal, ou seja, que a mensagem continue
sendo o objeto da atenção do meu ouvinte.
O terceiro ponto é a sua postura. Fala do tamanho da sua convicção.
A gente vai estudar isso dentro da linguagem corporal, mas a ideia é a
seguinte: quando você mantém a cabeça para baixo, significa que o
ambiente é maior do que você. Você está constrangido.
Uma cabeça reta significa que há um equilíbrio entre o externo e
interno. Uma cabeça erguida significa que naquele momento, você está
sendo racional. Então, não só racional, mas que o interno está
prevalecendo sobre o externo. Contudo, devemos tomar cuidado. Em
algumas situações, isso cabe e em outras não. Naturalidade é você falar
reto.
Há outros pontos da linguagem corporal. Quando, por exemplo, se
estufo o peito, estou emocionado. Então, nos discursos de forte emoção,
você pode reparar que o sujeito está com o peito estufado. O peito para
frente (peito de leão) fala muito sobre a vida emocional. A cabeça, sobre a
vida intelectual e espiritual. Já o abdômen sobre a vida instintiva. Nós
vamos ver isso.
Eu não quero tão somente destacar esses três pontos. A sua postura
deve ser natural. As pessoas devem prestar mais atenção no que você fala
do que na sua postura.
A postura fala sobre o tamanho da convicção que você tem no tema.
Para lembrar Machado de Assis: “O que vence não é a verdade, é a
convicção”. Porque as pessoas com convicção defendem as suas ideias de
tal forma que elas convencem mais.
Então, você precisa estar convicto e a sua postura corporal fala sobre
o tamanho da convicção que você tem sobre aquele assunto.
Bom, prosseguindo com o assunto, as pessoas me perguntam como
começar os discursos e como terminar o discurso. São duas perguntas
com respostas diferentes.
Algumas coincidem, evidentemente, mas trazem opções que se
diferenciam em alguma medida.
Como começar? Eu vou começar um discurso. Eu vou começar uma
palestra. Como começo? Há diversas formas de você começar. A primeira
delas, você pode começar com um elogio. Pode ser um elogio ao local, um
elogio ao povo local, um elogio à cidade, ao estado, ao país ou às pessoas
daquela região.
Eu vou dar um exemplo. Eu adoro Manaus e adoro Recife, então
sempre que eu vou à essas cidades, começo o meu discurso falando sobre
isso, falando sobre o prazer que é estar naquela cidade. Digo: “eu não
acredito em outra vida, mas, se eu acreditasse em reencarnação, teria
certeza de que, em outra vida, nasci em Manaus. Eu me sinto em casa
quando estou aqui”. Então, isso já envolve as pessoas e é uma verdade. Eu
estou falando uma verdade.
Quando você é do Rio Grande do Sul e vai palestrar em Minas Gerais,
você pode começar o seu discurso fazendo um elogio à cidade, às pessoas
de Belo Horizonte, ao sotaque mineiro, à recepção que é sempre dada a
você pelas pessoas de lá. Isso faz com que as pessoas se sintam bem. Uma
forma de começar a sua apresentação é fazendo um elogio ao local ou às
pessoas do local.
Uma segunda forma de você começar o discurso é com um toque
de humor inteligente. Entretanto, cuidado. As pessoas correm o risco de,
quando fazem humor, extrapolarem a linha do aceitável.
Existem certas piadas que eram aceitas no ano 2000 e que são
inaceitáveis agora em 2024. Então, há expressões, piadas e gracinhas que,
no ano 2000 eram feitas com tranquilidade. No entanto, agora não.
Qual a melhor forma de você fazer humor? É falar de si mesmo.
Fazer graça de si mesmo.
Bom, eu meço 1,70 m de altura. Quando eu vou ministrar uma
palestra, às vezes estou sentado numa mesa junto com outras pessoas.
Quando me chamam para falar e perguntam em que posição eu prefiro
falar (se é em pé ou sentado) respondo que prefiro falar em pé. Levanto
para falar em pé. Então, começo a minha palestra dizendo: “Eu preciso
falar em pé. Em pé já é difícil as pessoas me enxergarem, imaginem
sentado?”. As pessoas que estão assistindo já acham graça e isso quebra o
gelo.
Eu me recordo de um endocrinologista que me ligou pouco antes da
sua apresentação. Um dia antes da sua apresentação. Ele disse: “Como é
que eu começo?”. Eu recomendei que ele começasse com um toque de
humor.
No dia seguinte, a apresentação dele era às 11h00, então, ele
acordava cedo para revisar a apresentação. Só que ele levou a gravata e,
quando percebeu, ela tinha ido sem o nó e ele não sabia fazer. Ele usava
aquela gravata com o nó feito e só colocava na hora.
Então, ele pesquisou no YouTube para aprender a fazer nós de
gravata (ele realmente tem uma grande dificuldade). Ele ficou 1 hora para
conseguir fazer um nó de gravata na altura certa.
Diante disso, ele começou a palestra falando justamente sobre o nó
da gravata, mais ou menos assim: “Costumeiramente, antes de palestrar,
eu reviso o tema da palestra no quarto do hotel. Só que eu não sei dar o
nó de gravata. E hoje, quando eu abri a minha mala, eu vi que a minha
gravata estava sem nó. Então eu precisei pesquisar no YouTube e fiquei
01h12 tentando até conseguir, de maneira que eu não consegui revisar o
tema da palestra, mas consegui chegar engravatado”.
As pessoas ali já se identificaram e riram. É interessante que você
faça graça de si mesmo. Essa é uma forma de você começar o discurso. Eu
gosto de começar o discurso com um elogio local, com um toque de
humor.
Assim, é melhor do que começar o discurso de um jeito padrão,
cumprimentando a mesa, o presidente, os secretários, os servidores, as
pessoas da segurança, os estudantes, o pessoal da limpeza. Ficamos, então,
uns 10 minutos cumprimentando as pessoas. Para quem está assistindo,
isso é muito chato.
Claro, você pode cumprimentar todos, se quiser. No entanto, você
pode começar a cumprimentar só depois de ter feito a graça. O
cumprimento pode ser simples e apenas com uma frase: “Em tempo,
quero cumprimentar todos os presentes na pessoa do presidente que
senta ao meu lado”.
Você pode começar com um elogio. Você pode começar com o
humor, mas você pode começar com uma citação. Quando você começa
com uma citação, você começa com uma inspiração. Suponhamos que
você seja uma mulher fazendo um discurso. É um discurso firme diante de
um parlamento, de autoridades, de pessoas que têm o poder de mudar
uma realidade local, regional ou nacional.
Nesse caso, você pode, ao invés de começar fazendo humor ou
elogio ao local, você pode começar com uma citação.
Cite, por exemplo, Margaret Thatcher. Quando eu der o microfone,
você pode começar dizendo assim: “Estar no poder é como ser uma dama.
Se você precisa dizer que é, é porque você não é. Senhoras e senhores, nós
estamos no poder. Ninguém aqui precisa nos dizer o que nós podemos ou
não fazer. Se alguém é imbuído de sua vaidade ou imerso em sua
vaidade, pretende afirmar qualquer coisa, saiba você não é. Todos nós
temos consciência de nossas responsabilidades. A partir de agora, eu,
você e todos os presentes temos que mudar a história desta cidade, deste
estado e deste país”.
Você pode começar com uma citação de Ariano Suassuna, William
Shakespeare, Machado de Assis, George Orwell, Saramago, Ortega, Gabriel
García Márquez. Essa é uma forma de começar o seu discurso de forma
mais inspirada.
Você pode começar o discurso contando uma história, por meio do
storytelling (os senhores terão aula sobre isso).
Suponhamos que o tema da sua palestra é o Poder da Palavra. Você
pode começar a sua fala assim: “14 de maio de 2002 e eu andava a pé.
Trazia comigo a mochila e o Geraldo. O Geraldo era o meu guarda-chuva.
Eu morava em Florianópolis. Chove e eu ia à escola todos os dias a pé.
Quando chovia, íamos eu e o Geraldo. Naquele dia 14, chovia. Então, eu
chegava à escola com Geraldo. Enquanto eu guardava o guarda chuva, a
água que nele carregava se espalhou e acabou molhando a professora
que estava na porta. Nada demais. Um pouco de água, mas ela olhou
para mim e disse: “Você é um idiota”. Eu tenho certeza de que você não
vai dar em nada na vida. Aquela palavra acabou comigo. Eu tinha 12
anos de idade e eu só fui me curar dela 20 anos depois, aos 32, em uma
terapia. Senhoras e senhores, há poder na palavra”.
Perceba que eu comecei a contar uma história e prendi a atenção de
todo mundo. Nos quatro exemplos, consigo prender a atenção de quem
me ouve.
Como é que eu termino? Pode terminar com uma frase marcante.
“Ah, pode ser uma citação?” Pode. Pode ser uma citação ou poesia. Você
pode terminar de uma forma marcante, se valendo de uma frase. Para
encerrar, Fernando Pessoa dizia: “Potencial para abrigar um castelo
qualquer terra larga tem. Mas onde estará o castelo se não for construído
ali? Senhoras e senhores, todos nós temos potencial. Agora cabe a você
explorar o seu. Muito obrigado”.
Eu também posso terminar com uma mensagem de força. Quando
você leu o discurso de Churchill no chamado Milagre de Dunquerque.
Apesar de ser um milagre, há uma derrota.
Quando Churchill termina o seu discurso, ele devolve força e
esperança às pessoas. Ele diz: “Nós lutaremos nas praias, nós lutaremos
nas ruas, nós lutaremos nas praças, nós jamais nos renderemos”.
É uma mensagem de força na parte final do discurso, pois a pessoa
que ouve tem que sair melhor do que entrou. Então, uma maneira de você
terminar o seu discurso é com uma mensagem de força.
Outra forma é terminar com uma convocação, instigando pessoas a
mudarem de comportamento: “A partir de hoje, senhoras e senhores, eu
convoco todos vocês para uma mudança de comportamento. Assinem o
manifesto, assinem a procuração, façam isso. Mudem agora”.
Bom, posso terminar com algum elemento de humor? Pode. Posso
terminar contando uma história? Pode. Essa também é uma forma
belíssima de terminar. Você pode terminar com uma citação, uma
convocação, uma mensagem de força.
Agora, eu quero passar para os quatro perigos que você corre. O
primeiro perigo é o da prolixidade. Não seja prolixo, está bem? Uma pessoa
prolixa é uma pessoa que explica a mesma coisa diversas vezes, usando
outras palavras ou não. Eu tinha um professor na faculdade de Direito que
passava o resto da aula repetindo a mesma coisa com outras palavras,
usando expressões diferentes. A aula era enfadonha. Ele era um sujeito
prolixo.
Também é prolixo quem faz do acessório o principal. Isso acontece
quando você, por exemplo, pergunta à pessoa se ela foi ao supermercado
comprar a carne. Essa pessoa diz assim ou eu pergunto você comprou a
carne? Qual é a resposta? Sim, comprei. Não, não comprei. No máximo, a
pessoa diz: “Eu fui ao supermercado e comprei a carne”. Acabou!
Já uma pessoa prolixa falaria mais ou menos assim: “Você sabe que
eu fui ao supermercado, mas eu iria a pé. Só que ontem aconteceu um
assalto aqui na rua de casa. Não tá dando mais para ir a pé. Então, eu
peguei o meu carro. Quando eu liguei o carro, descobri que estava na
reserva. Eu tive que passar para abastecer no posto. Você não acredita?!
O preço da gasolina subiu dez centavos de segunda para hoje e fui
abastecer. Tudo bem, abasteci. Havia fila porque disseram que vai subir
ainda mais. Quando terminei de abastecer, fui passar o cartão. O moço
falou - ‘não, esse preço que eu fiz para você foi débito’. E eu passei no que
tinha levado, que era o cartão de crédito. Até que eu desci, fiz o pix porque
tem que fazer na loja de conveniência. Então, fui até o supermercado.
Quando eu cheguei no supermercado, dei de cara com o Antônio. Lembra
do Antônio? Eu não acredito. O Antônio se divorciou, tá, gente?...”
Calma. Eu só fiz uma pergunta: “Você comprou a carne? É sim ou
não? “ A pessoa prolixa dá uma volta ao mundo antes de chegar à
resposta. Cuidado para que o seu discurso não seja prolixo. Por mais que
você fale bem, se ele for prolixo, você vai afastar pessoas.
Então, como não ser prolixo? Explico uma vez, mas com clareza e
sem fazer do acessório, o principal.
O uso de recursos audiovisuais também pode ser perigoso. É claro
que é bom você se valer de um PowerPoint, de um recurso audiovisual na
sua palestra. Isso pode conferir a ela maior dinamicidade, mas qual é o
perigo?
Primeiro, o perigo é ser prolixo. O segundo é o uso inadequado de
recursos audiovisuais. O cara coloca o PowerPoint em vez de fazer a
apresentação, fica lendo.
Ele está lendo a apresentação. Ora, ler eu sei. Se for para ler os slides,
você não precisa se apresentar. Mande slides para o meu e-mail que eu
leio.
Outro ponto negativo é o uso inadequado de recursos audiovisuais,
de maneira a ler a sua apresentação.
Também é um perigo não ter referência. No YouTube você encontra
vários discursos eletrizantes. Se você assistir ao Martin Luther King e as
pregações de Billy Graham verá que são espetaculares. Você precisa de
referência para aprender a falar.
Eu sou um advogado. Vou fazer uma sustentação oral. Vá ao Tribunal
de Justiça, do seu Estado, ao TRF, ao TRT, se estiver em Brasília, ao STJ, ao
TSE, ao STF. Para assistir às sustentações orais. Você vai se inspirar nessas
sustentações. Você vai aprender com essas sustentações e nos seus 15
minutos você irá fazer uma sustentação oral brilhante. É preciso ter
referência.
O quarto perigo é colocar o foco em você e não no público. Você tem
que fazer o inverso. O foco tem que ser no público, não em você. A
apresentação tem que ser voltada para o público. Você quer convencer
alguém de alguma coisa? Então, o foco não é você. O foco é o público.
Aqui a gente está diante do quarto perigo. É o cara que faz a
apresentação para ele mesmo. O foco está nele mesmo. Ele quer alimentar
o ego.
O foco tem que ser o público. Então, os quatro perigos são: a
prolixidade, uso inadequado de recursos audiovisuais, não ter referência e
colocar o foco em você (e não no público).
Por fim, eu quero fazer duas observações. A primeira delas é que o
Maracanã está vazio. Quando você decide fazer uma publicação na
internet, você fica com receio do que as pessoas vão pensar de você.
Afinal, qualquer pessoa pode assistir. Então, você tem uma sensação
de que está entrando no Maracanã.
Eu conversava com o Paulo Cuenca e ele que usou a expressão “A
pessoa acha que está nua no Morumbi”. Então, vou adaptar para um
estádio maior: “Você acha que está nu no Maracanã”.
Quando você publica um vídeo numa rede social, por exemplo, se o
seu vídeo for ruim e sem graça, ninguém vai assistir ao seu vídeo.
Como para você isso é uma coisa importante, você vai ter se
preparado, ensaiado, então ele não vai ser grotesco ao ponto de chamar a
atenção do mundo pela má qualidade do que você fez. Ele simplesmente
não vai ser visto. Então, é como se você tivesse entrado nu no Maracanã,
mas ele estava vazio. Não mudou nada. Fique em paz e se exponha,
porque o Maracanã está vazio. Ele só estará cheio quando o seu vídeo e a
sua exposição for espetacular.
Ao se preparar, você tem apenas o risco. Você corre apenas o risco de
a sua apresentação ser positivamente marcante. O que eu estou dizendo
com isso? Estou dizendo que as pessoas têm medo quando elas vão fazer
uma apresentação, uma palestra, qualquer coisa de aquilo ali ser muito
ruim e as pessoas ficarem comentando negativamente.
Bom, se aquele é um momento importante, você se preparou. Só há
duas maneiras de uma palestra, de uma fala, de um discurso serem
marcantes ou porque foi horrível, horroroso e péssimo. A pessoa só falou
bobagem e foi horrível. O outro motivo é porque foi espetacular,
maravilhoso, foi marcante. A pessoa que assistiu não consegue esquecer.
Só tem essas duas possibilidades. Concorda comigo?
Quando você se prepara porque é um momento importante, você
estuda, você planeja, você faz os tópicos. Não vai ser horrível, não vai ser.
Então, você não vai marcar negativamente. A única chance que você tem é
de ser extraordinário e marcar. Se for uma palestra normal, cinco minutos
depois, as pessoas nem vão se lembrar. Então, você não corre o risco de
receber fama de péssimo orador. Você só corre o risco de ser espetacular.
Então, a partir do momento em que você se prepara, planeja, pratica,
tem atenção com a sua postura corporal, começa e termina
adequadamente. Além disso, se esquiva dos quatro perigos, a sua oratória
passa a ser muito diferente e melhor.
Senhoras e senhores, com isso nós chegamos ao fim desta aula e eu
espero você na nossa próxima aula. Até lá. Tchau!