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Editora Brasil Seikyo

Terceira Civilização - Edição 520 - 10/12/2011 - Pág.50 - Estudo

Terceira Civilização - Estudo

Os Três Tipos de Tesouros

Trecho da carta Sempre me lembro do momento, ainda hoje inesquecível, quando eu estava prestes a ser decapitado em Tatsunokuti e o senhor me acompanhou, segurando as rédeas do meu cavalo e derramando

lágrimas de tristeza. Não esquecerei disso, seja em que existência for. Se o senhor caísse no inferno por alguma ofensa grave, não importando quão o Buda Sakyamuni me pedisse para me tornar Buda, eu recusaria. Eu preferiria ir para o inferno com o senhor. Se o senhor e eu, Nitiren, entrarmos juntos no inferno, certamente encontraremos o Buda Sakyamuni e

o Sutra de Lótus. (

Mas se o senhor, mesmo que ligeiramente, deixar de seguir meu conselho, não me culpe pelo que lhe acontecer.

**

)

“Se chegarem a um beco sem saída, retornem ao ponto primordial” — esta foi a orientação do primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti. O Sutra de Lótus baseia-se no espírito da unicidade de mestre e discípulo. O Budismo Nitiren também

é um ensinamento de mestre e discípulo. Nosso ponto principal como praticantes, portanto, é nosso

juramento de lutar junto com o mestre. Se constantemente retornamos a esse ponto primordial de mestre e discípulo, nunca entraremos num beco sem saída. Nessa passagem, Nitiren Daishonin reafirma o incidente que se tornou o ponto principal na relação deles como mestre e discípulo. Aconteceu durante a Perseguição de Tatsunokuti.3 Como Daishonin

estava sendo levado para o local de execução, Shijo Kingo agarrou as rédeas do cavalo de seu mestre

e declarou estar preparado para morrer ao lado dele.

Louvando a fé que Shijo Kingo mostrou naquele momento, Nitiren Daishonin chega a ponto de dizer:

“Se o senhor caísse no inferno por alguma ofensa grave, não importando quão o Buda Sakyamuni me pedisse para me tornar Buda, eu recusaria. Eu preferiria ir para o inferno com o senhor” (WND, v. 1, p. 850). Encontramos a essência fundamental do ensinamento humanístico de Daishonin em seu espírito de responder sinceramente à genuína devoção de seus discípulos. Se Nitiren Daishonin e Shijo Kingo — mestre e discípulo defendendo firme fé na Lei Mística — caíssem no inferno, então o Buda Sakyamuni e o Sutra de Lótus com certeza também seriam encontrados lá.

Nesse caso, explica Daishonin, deixaria de ser inferno e passaria a ser o reino do estado de Buda. Este

é o princípio de que “o inferno pode imediatamente ser transformado na Terra da Luz Eternamente

Tranquila”.4

Manifestamos o brilho do mundo do estado de Buda em qualquer lugar. É isso o que ensina o Budismo Nitiren. Nossos dois primeiros presidentes, Tsunessaburo Makiguti e Jossei Toda, unidos pelos laços de mestre e discípulo, comprovaram isso com a própria vida. Numa cela de prisão “fria ao extremo”, conforme a descrição do Sr. Makiguti, ele escreveu: “Dependendo do estado de espírito, mesmo o inferno pode ser agradável”.5 Toda Sensei o acompanhou na prisão e observou: “Mesmo se eu caísse no inferno, não teria a mínima importância para mim. Gostaria apenas de compartilhar o mesmo ensinamento correto com os habitantes de lá e transformá-lo na Terra da Luz Eternamente Tranquila”.

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Esse espírito é a própria quintessência da fé no Budismo Nitiren. Enquanto Shijo Kingo não perdesse de vista esse espírito de lutar em conjunto com Daishonin, ele conseguiria triunfar em qualquer lugar e qualquer situação com base no princípio de que “o inferno pode imediatamente ser transformado na Terra da Luz Eternamente Tranquila”. Mas se ele fosse derrotado pela própria fraqueza, perdendo a paciência e deixando de mostrar consideração pelas pessoas, acabaria se desviando do caminho da unicidade com seu mestre. É por isso que Nitiren

Daishonin o adverte repetidamente para ter cuidado. Ele escreveu estas palavras: “Mas se o senhor, mesmo que ligeiramente, deixar de seguir meu conselho, não me culpe pelo que lhe acontecer” (WND, v. 1, p. 850).

A chave da vitória está em alinhar nosso coração ao coração de nosso mestre, que também incorpora

fielmente a Lei e a propaga. Se ignorarmos a orientação de nosso mestre e simplesmente nos basearmos em nossa própria mente vacilante, não concluiremos o caminho da prática budista. Um sutra afirma: “Torne-se o mestre de sua mente, em vez de deixar que sua mente o domine”6 (WND, v. 1, p. 502). Somente quando praticamos a fé com o mesmo espírito que nosso mestre nos tornamos mestres de nossa mente e atingimos o estado de Buda nesta existência.

Trecho da carta

Não lamente aos outros sobre quão difícil é para o senhor viver neste mundo. Agir assim é uma atitude totalmente imprópria para um homem digno (WND, v. 1, p. 850).

**

Lamentar os problemas retarda nosso desenvolvimento espiritual

Nesse trecho, Nitiren Daishonin repreende a lamentação e a autocomiseração. Essa passagem toca o coração das pessoas que estão sempre prontas a lamentar pelas questões que estão além de seu controle. Todos são suscetíveis de agir assim. Mesmo Shijo Kingo, que estava preparado para dar a vida junto com Daishonin num momento crucial, tendia a ter problemas de relacionamento por sua rigidez e sua franqueza, e pode ter começado a reclamar. Ao aconselhar Shijo Kingo a não sair por aí lamentando para outras pessoas, Daishonin ressalta que ficar reclamando dos próprios problemas ou infortúnios não é o modo de vida do sábio, mas, sim, do tolo. Nitiren Daishonin escreveu: “Se um homem se comporta desta maneira [infeliz], depois que morre, sua esposa, dominada pela tristeza por ter perdido o marido, contará às outras pessoas sobre as coisas vergonhosas que ele fez, embora ela não tenha nenhuma intenção de fazê-lo. De modo algum isso será culpa dela. É apenas o resultado do comportamento repreensível dele” (WND, v. 1, p. 850). Reclamar alimenta a fraqueza e a negatividade da pessoa e torna-se uma causa para a estagnação.

Daishonin ensina a Shijo Kingo que parar de se lamentar e desafiar a conquista da revolução humana é

o caminho certo para a vitória na vida.

Trecho da carta

É muito raro nascer como ser humano. O número de pessoas dotadas de vida humana é tão pequeno

quanto a quantidade de terra que se pode colocar sobre uma unha. Viver como ser humano é difícil — tão difícil quanto o orvalho permanecer sobre a grama.

É melhor viver um único dia com honra que viver 120 anos e morrer na desgraça. Conduza sua vida de

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forma que todas as pessoas de Kamakura o elogiarão e dirão que Nakatsukasa Saburo Saemon-no-jo (Shijo Kingo) é diligente em servir a seu lorde, ao budismo e à sociedade (WND, v. 1, p. 851). **

Tornem-se verdadeiros vencedores na vida

“É muito raro nascer como ser humano. O número de pessoas dotadas de vida humana é tão pequeno

quanto a quantidade de terra que se pode colocar sobre uma unha. Viver como ser humano é difícil —

tão difícil quanto o orvalho permanecer sobre a grama.” Assim, Nitiren Daishonin indica que nossa vida

como seres humanos é insubstituível e cada dia e cada momento são preciosos.

“É melhor viver um único dia com honra que viver 120 anos e morrer na desgraça” (WND, v. 1, p. 851),

declara Daishonin, destacando o critério para o verdadeiro mérito na vida. O verdadeiro mérito como

ser humano surge a partir do que decidimos tornar o propósito de nossa vida e como vamos alcançá-lo.

Nitiren Daishonin oferece essa orientação específica para seu discípulo com o desejo de que ele seja bem-sucedido num nível mais fundamental: “Conduza sua vida de forma que todas as pessoas de Kamakura o elogiarão e dirão que Nakatsukasa Saburo Saemon-no-jo (Shijo Kingo) é diligente em

servir a seu lorde, ao budismo e à sociedade” (WND, v. 1, p. 851). Isso implica três áreas específicas

em que Shijo Kingo precisa vencer: (1) reconstruir uma relação de confiança mútua com seu lorde; (2)

continuar a empreender esforços constantes como praticante da Lei Mística; e (3) conquistar a confiança daqueles que o cercam.

O tesouro do coração brilhará nesses três empreendimentos. Em outras palavras, somos

verdadeiramente vitoriosos quando manifestamos o brilho de nossa natureza de Buda em todos os aspectos da vida.

Nitiren Daishonin nos ensina a mostrar a prova real da vitória lutando para viver de forma a conquistar o elogio e a admiração dos que nos rodeiam. Isso oferece uma importante orientação sobre o que constitui a prova real da vitória no Budismo. Em suma, a vitória fundamental deriva do brilho interior de nossa humanidade que, naturalmente, atrai a admiração dos outros. Um ponto importante de nossa luta

em prol do Kossen-rufu é cada um de nós conquistar a confiança e o respeito na sociedade.

O poder de nossa humanidade como budistas inspira o elogio e o reconhecimento das pessoas. Em

outras palavras, quando cultivamos o tesouro do coração, ganhamos a confiança dos outros e a elevada consideração como indivíduos de caráter exemplar. Nossa natureza de Buda se manifesta como o brilho de nossa humanidade e toca o coração até mesmo de quem não pratica o Budismo Nitiren. “Há algo diferente nessas pessoas. Elas têm um brilho especial!” Assim, os demais vão pensar sobre

os membros da SGI. Conquistar tamanha confiança das pessoas é a prova real e definitiva do poder da prática budista.

As relações de Shijo Kingo com aqueles ao seu redor — o Lorde Ema, os membros da família dele,

seus colegas de trabalho, irmãos e companheiros de prática — estavam longe de ser pacíficas. Houve casos em que, provavelmente, sua obstinação criou problemas. Porém, sem resolver esses problemas,

ele não venceria na fé.

Por isso, Daishonin o estimula a melhorar seu caráter e mostrar a prova real por meio de uma grandiosa revolução humana. Era seu desejo que Shijo Kingo, como figura central entre seus discípulos em Kamakura, se tornasse um líder admirável na sociedade e levasse uma vida de profundo significado. Sem dúvida, essa conduta era baseada na orientação de Nitiren Daishonin que o

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encorajava a conquistar o reconhecimento do povo em Kamakura.

Trecho da Carta

O tesouro do corpo é mais valioso que aquele guardado no cofre; e o tesouro acumulado no coração é

muito mais valioso que o tesouro do corpo. A partir do momento em que o senhor ler esta carta, esforce-se para acumular o tesouro do coração (WND, v. 1, p. 851).

**

Um caráter plenamente polido é inestimável

A passagem acima é a mais conhecida deste escrito. “Guardado no cofre” indica os bens materiais; o

“tesouro do corpo” significa aspectos como a saúde ou as habilidades adquiridas; e o “tesouro do

coração”, num determinado nível, remete à abundância de riquezas espirituais e materiais e, num nível mais fundamental, refere-se à fé e ao brilho da natureza de Buda polida por essa fé. Nessa passagem, Nitiren Daishonin indica a ordem de prioridade dos três tipos de tesouro e apresenta um claro padrão de valor. Shijo Kingo estava diante da possibilidade de perder suas terras. A posse dessa propriedade representava uma fonte de renda importante para ele e sua família. Entretanto, Daishonin insiste que muito mais valioso que o tesouro guardado num cofre e o tesouro do corpo é o tesouro do coração. O acúmulo desse tesouro interior, diz ele, é a base para toda vitória.

O fato de Shijo Kingo enfrentar sua situação baseado na fé na Lei Mística corresponde a depositar o

valor mais alto no tesouro do coração. O resultado é sempre a vitória absoluta! É por essa razão que Nitiren Daishonin esclarece este ponto como uma diretriz universal e imutável para a vitória em todas as áreas da vida. Quando nos baseamos no tesouro do coração, o verdadeiro valor dos tesouros do cofre e do corpo também se torna abundante em nossa vida. Em suma, precisamos fazer do acúmulo do tesouro do coração nosso principal objetivo na vida. Se perdermos de vista esse objetivo e procurarmos acumular o tesouro do cofre e o tesouro do corpo, isso só dará origem ao apego. Quando tal fato ocorre, o medo de perder esses tesouros materiais ou físicos se torna uma causa para o sofrimento. Por isso, é importante acumular o tesouro do coração, pois reflete um senso correto de propósito na vida.

Trecho da Carta Confúcio apegava-se à sua crença nos “nove pensamentos para uma palavra”,7 afirmando que ele pensava nove vezes antes de falar. Tan, o duque de Chou,8 era tão atencioso em receber seus

visitantes, que ficou conhecido por ter interrompido seu banho por três vezes num dia, e sua refeição três vezes em outro, a fim de não deixá-los esperando.9 Considere esses exemplos cuidadosamente para o senhor não ter motivo de me censurar mais tarde. O que chamamos budismo encontra-se nesse comportamento (WND, v. 1, p. 851).

**

Ser sincero é a base do Budismo

O Budismo Nitiren não existe separado da realidade da vida.

Nitiren Daishonin preocupava-se muito com o temperamento explosivo de Shijo Kingo. Ao dizer que ele gostaria de relatar “um incidente que é habitualmente mantido em segredo”10 (WND, v. 1, p. 851), Daishonin compartilha com seu discípulo a história do irascível imperador Sushun (r. 587-592) [morto

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num complô arquitetado por um de seus criados]. Esta é uma lição sobre o que pode acontecer quando

a pessoa mostra abertamente sentimentos de antipatia com os outros (Cf. WND, v. 1, p. 851).

Em seguida, Daishonin menciona o exemplo do grande filósofo chinês Confúcio. Este escolhia as

palavras com tanto cuidado que pensava nove vezes antes de falar. Daishonin cita também a atitude do duque de Chou, na China antiga. Ele era tão preocupado em não fazer seus convidados esperarem que interrompia as refeições ou o tempo do banho para recebê-los. Por meio desses exemplos, Daishonin ressalta a necessidade de pensar de forma prudente e ter uma conduta sincera em nossas interações com os outros. “Considere esses exemplos cuidadosamente”, diz Daishonin, procurando deixar essa mensagem gravada no coração de Shijo Kingo. Ele sentia que seu discípulo não seria capaz de alcançar a verdadeira vitória na vida se não superasse o temperamento esquentado — uma falha que causaria sua queda — e se não acumulasse sinceramente o tesouro do coração. É por essa razão que Daishonin chega a ponto de dizer: “O que chamamos budismo encontra-se nesse comportamento”.

A expressão máxima do Budismo é nosso comportamento como seres humanos. Confúcio e o duque

de Chou manifestaram sua filosofia pessoal e sua crença em suas ações. Da mesma forma, a menos que expressemos em nossa conduta o tesouro supremo do coração exposto no Budismo — ou seja, a natureza de Buda se manifestando a partir de dentro —, não conseguiremos mostrar a prova real do poder da fé nem realizar o Chakubuku. Por isso, no final desta carta, Daishonin discute a importância de nosso comportamento como seres humanos.

Trecho da Carta

A essência de todos os ensinamentos de Sakyamuni é o Sutra de Lótus, e a chave da prática do Sutra

de Lótus encontra-se no capítulo “Bodhisattva Jamais Desprezar” [Fukyo].11 O que significa o profundo respeito que o Bodhisattva Jamais Desprezar demonstrava pelas pessoas? O propósito do advento do Buda Sakyamuni, o lorde dos ensinamentos, neste mundo encontra-se em seu comportamento como ser humano. O sábio deve ser chamado humano, e os tolos são denominados animais (WND, v. 1, p.

851).

**

O propósito fundamental do Budismo está no comportamento como ser humano

Na conclusão de “Os Três Tipos de Tesouro”, Daishonin afirma que o Sutra de Lótus é a essência dos ensinamentos da vida de Sakyamuni. Diz ainda que a chave da prática ensinada no Sutra de Lótus está no comportamento do Bodhisattva Jamais Desprezar [Fukyo]. Esse comportamento consta no capítulo “Bodhisattva Jamais Desprezar” e ensina como viver de acordo com a fé no ensino da iluminação universal. Compreendendo a verdade de que todos são Budas [iluminação universal] quando observados da perspectiva fundamental da vida, o Bodhisattva Jamais Desprezar reverenciava todos com quem se encontrava, não importando quão fosse perseguido e atacado. Este é o comportamento de quem realmente incorpora o espírito do Sutra de Lótus. Diz-se que o Sutra de Lótus representa a finalidade do surgimento de Sakyamuni neste mundo. A razão de o Sutra de Lótus descrever a prática do Bodhisattva Jamais Desprezar, que incorpora o espírito do Sutra, é indicar que o propósito do surgimento de Sakyamuni neste mundo está em seu comportamento

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como ser humano.

Nitiren Daishonin observa que “A Lei não se propaga por si mesma. Por ser propagada pelas pessoas, tanto a Lei como as pessoas tornam-se dignas de respeito” (Gosho Zenshu, p. 856).12 Conforme essa frase, a grandiosidade da Lei ou do ensinamento só é transmitida e difundida quando expressa nas ações humanísticas e no comportamento daqueles que a abraçam.

O tesouro do coração é invisível aos olhos. Quando esse tesouro é expresso de forma concreta, com

ações respeitosas com os outros, demonstra às pessoas o poder da Lei Mística e da natureza de Buda.

Considerar o tesouro do coração como o mais valioso de todos (Cf. WND, v. 1, p. 851) reflete um senso de valores relacionado com o que é mais importante e precioso na vida. Demonstrar respeito pelos outros em nossas ações constitui o padrão do nosso comportamento como budistas, tendo como base esse senso de valores, ou seja, o tesouro do coração.

O comportamento respeitoso do Bodhisattva Jamais Desprezar incorpora o ensinamento do Sutra de

Lótus, que expõe a verdadeira intenção do Buda de conduzir todas as pessoas à iluminação. Portanto, o respeitoso comportamento do Bodhisattva Jamais Desprezar é a verdadeira intenção do Buda. Manifestar o estado de Buda é um benefício da fé na Lei Mística. O comportamento de quem incorpora esse benefício é a prova real da grandiosidade da Lei Mística. O comportamento dessas pessoas caracteriza-se pelo respeito aos outros. Com base no Sutra, vamos reconfirmar como o Bodhisattva Jamais Desprezar — que foi Sakyamuni numa existência anterior — viveu de maneira sempre respeitosa em relação às pessoas. No início do 20º capítulo, “Bodhisattva Jamais Desprezar”, Sakyamuni explica que quem calunia o Sutra de Lótus terá uma severa retribuição por suas ofensas. Ele diz ainda que a pessoa caluniada por defender o Sutra de Lótus receberá o benefício da purificação dos seis órgãos dos sentidos13 (cf. LSOC, v. 20, p. 307 [LS, v. 20, p. 265]).14 Para exemplificar, Sakyamuni introduziu a prática do Bodhisattva Jamais Desprezar. Esse bodhisattva apareceu nos Médios Dias da Lei15 após a morte do Buda Rei Som Maravilhoso. Era uma época em que os monges arrogantes detinham muito poder, mas o ensinamento correto da Lei estava em declínio. Naquela ocasião, o Bodhisattva Jamais Desprezar curvou-se em reverência aos quatro tipos de crentes que eram despoticamente arrogantes — monges, monjas, leigos e leigas —, dizendo-lhes:

“Eu os reverencio profundamente, e jamais ousaria tratá-los com desprezo ou arrogância. Por quê? Porque os senhores estão praticando o caminho de bodhisattva e certamente atingirão o estado de Buda” (LSOC, v. 20, p. 308 [LS, v. 20, p. 266-267). Essa declaração expressa o ensinamento central do Sutra de Lótus de que todas as pessoas podem alcançar a iluminação e é chamado “Sutra de Lótus de vinte e quatro caracteres” [em referência ao número de caracteres chineses que compõem a passagem]. A prática do Bodhisattva Jamais Desprezar consistia em fazer reverência diante das pessoas e cumprimentá-las com essas palavras. No entanto, os quatro tipos de crentes ficaram cheios de arrogância e desprezo. Eles respondiam à sincera demonstração de respeito com ofensas e insultos; alguns até mesmo batiam no Bodhisattva Jamais Desprezar com paus ou atiravam-lhe pedras. Por ter suportado essas perseguições, ele conseguiu “acabar com as ofensas deles”16 (Cf. LSOC, v. 20, p. 312 [LS, v. 20, p. 270]) e transformar seu carma. Uma vez que o Bodhisattva Jamais Desprezar estava se aproximando da morte, o Sutra conta como ele ouviu no ar os inúmeros versos do Sutra de Lótus, anteriormente pregados pelo Buda Rei Som Maravilhoso. Ao abraçar a todos, o Bodhisattva Jamais Desprezar obteve o benefício da purificação dos

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seis órgãos dos sentidos, estendeu sua vida por “210 milhões de nayuta de anos”, continuou a pregar o Sutra de Lótus, atingiu o estado de Buda e renasceu como Sakyamuni (Cf. LSOC, v. 20, p. 309-310 [LS, v. 20, p. 267-268]). Em contraste, os quatro tipos de crentes que perseguiram esse Bodhisattva passaram por grandes sofrimentos durante um longo período de milhares de kalpa como resultado de terem cometido essas ofensas. Quando todas elas expiaram, reencontraram o Bodhisattva Jamais Desprezar e receberam suas instruções (Cf. LSOC, v. 20, p. 310-311 [LS, v. 20, p. 268-269]). Assim, mostrar respeito pelos outros por meio do comportamento tem o poder de mudar nossa vida, transformando o carma e purificando nossos seis órgãos dos sentidos. Ao compartilharmos respeitosamente os ensinamentos do Sutra de Lótus com outras pessoas por meio de nosso exemplo de conduta como ser humano, atingimos o estado de Buda. Quando o nosso comportamento realiza o Chakubuku, incorporamos o princípio da iluminação universal em nossa vida. Realizar o Chakubuku por meio de nosso exemplo de conduta como ser humano sem recuar diante das dificuldades é a prática capaz de conduzir todas as pessoas à iluminação. Essa prática ilumina brilhantemente até mesmo a vida de quem calunia e persegue os praticantes que incorporaram o princípio da iluminação universal. Em suma, a atitude do Bodhisattva Jamais Desprezar é o caminho direto para nos tornarmos budas. O grande desejo de conduzir todas as pessoas à iluminação só é possível porque o Buda ensinou a importância de nosso comportamento como seres humanos. Por essa razão, Daishonin afirma que este

é “O propósito do advento do Buda Sakyamuni, o lorde dos ensinamentos” (WND, v. 1, p. 852).

Nitiren Daishonin sempre demonstrou respeito pelos outros por meio de suas ações. A natureza de

Buda com toda certeza se manifestará na vida daqueles que despertam e mantêm a fé na Lei Mística, não importando quão a época seja ruim. O comportamento como seres humanos certamente pulsa com

a sabedoria fundamental da filosofia da prática do respeito pelos outros.

A prática do Chakubuku realizada por Daishonin, de refutar rigorosamente o erro, se fundamenta em

três pontos: no espírito de benevolência com o indivíduo que está enganado; no sentimento de

preocupação pela felicidade das pessoas; e no desejo fervoroso de concretizar a paz e a segurança da nação. É uma luta para refutar o falso e revelar o verdadeiro com o sentimento de respeito pela natureza de Buda de todas as pessoas.

O

Chakubuku no Budismo Nitiren baseia-se numa filosofia de respeito aos outros. Isso significa refutar

o

erro daqueles que desrespeitam a vida das pessoas. Baseando-se nesse entendimento, Daishonin

indica que, mesmo na era maligna dos Últimos Dias da Lei, precisamos agir de maneira prudente e respeitosa em vez de simplesmente nos apressar para refutar o erro. Afirmar a verdade de forma plena e explícita também é Chakubuku. Os Últimos Dias da Lei são uma época repleta de desconfiança e medo decorrentes de uma sociedade onde as pessoas não são

respeitadas e não há consideração pela vida. Numa época assim, o Chakubuku significa levantar-se só

e segurar bem alto a bandeira do respeito pelos seres humanos e pela dignidade da vida. Esta é

também a corajosa prática do Chakubuku. Como sempre afirmo, a solução dos diversos problemas de nosso planeta no século 21 depende do foco no ser humano. Esta é uma consciência compartilhada por muitos pensadores, ativistas da paz e conscientes líderes políticos. Como transformamos a escuridão fundamental inerente na vida das pessoas? Como expandimos a solidariedade de quem se dedica à causa do bem? E como construir uma sociedade na qual o

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humanismo e a coexistência harmoniosa prevaleçam? A SGI está tomando medidas para desbravar um caminho magnífico de diálogo intercultural e inter-religioso no sentido de encontrar respostas a essas perguntas. Ao transcender todas as diferenças e superar barreiras de etnia e nacionalidade, estamos construindo um mundo de intercâmbio amplo e aberto entre os seres humanos. A filosofia da SGI baseia-se no ensinamento do Sutra de Lótus de respeito aos outros por meio de nossas ações, bem como nos princípios de que toda mudança começa dentro de nós mesmos e do acúmulo do tesouro do coração. As pessoas ao redor do mundo têm grande expectativa com relação à filosofia humanística da SGI. Nossos esforços em realizar a revolução humana proporcionam esperança para a humanidade. Entramos numa época na qual os esforços sinceros de nossos membros, que estão pondo em prática o comportamento humanístico ensinado por Nitiren Daishonin, conquistam confiança e compreensão numa escala global.

Conclui-se aqui a explanação em três partes de “Os Três Tipos de Tesouro”.

Orando pela grande vitória no trabalho e na vida dos integrantes da Divisão Sênior e de todos os nossos membros no Japão e no mundo inteiro.

(Daibyakurengue, edição de dezembro de 2009.)

inteiro. (Daibyakurengue, edição de dezembro de 2009.) REVOLUÇÃO HUMANA. Elevar o estado da vida transforma o

REVOLUÇÃO HUMANA. Elevar o estado da vida transforma o ambiente ao redor

DISPOSIÇÃO Primeira festividade promovida pela Divisão dos Jovens, que originou os tradicionais festivais da Soka Gakkai (1954)