Estado Providência português (1974-1988)
Situação portuguesa como um estado semiperiférico.
O conceito “semiperiferia” formulado por Wallerstein é vago na medida que são
múltiplos e dificilmente quantificáveis, os critérios de que decorre a atribuição da
posição semiperiférica. As sociedades semiperiféricas no contexto europeu
caracterizam-se por uma descoincidência articulada, entre as relações de produção
capitalista e as relações de reprodução social. - Este conceito continua a poder aplicar-se
em Portugal
Isto acontecesse porque durante a primavera marcelista (1969- começa a crescer a nível
económico e político- onde existem contestações sobre a ditadura) se retomaram os
primeiros seguros e as primeiras pensões.
O Estado vai criando serviços públicos que implementam as políticas, tornando-se um
instrumento empregador. A partir do 25 de abril de 1974 dissocia-se dos países de 1º
(países desenvolvidos) e 3º (países em vias de desenvolvimento) mundo. Considera-se
que se pode utilizar o conceito de Estado Semiperiférico que, apesar de ser vago, se
enquadra em Portugal, uma vez que há uma estrutura económica e salarial que tem
condicionado esta expansão do Estado Providência em Portugal.
O nível de desenvolvimento das relações sociais de produção capitalista é mais baixo ou
atrasado que o nível de desenvolvimento da reprodução social (o PIB português é
inferior à despesa pública, por isso é que Portugal é semiperiférico no sistema de bem-
estar que produz):
o Situação de semi-industrialização, que se está a alterar através da diversificação
da economia, da formação dos trabalhadores, etc (obstáculo ao Estado
Providência em Portugal);
o Perda de competitividade de mercado;
o Nível de produtividade baixo por consequência salários baixos- opção
condicionada pela estrutura económica e empresarial do país.
A sustentabilidade do Estado Providência passa por conciliar crescimento económico, justiça
social e democracia. O modelo económico tem de estar assente na industrialização, na justiça
social redistributiva e na produtividade.
No campo das interações sociais concretas, verificámos que as manifestações sociais da
crise são geralmente moderadas. No contexto da crise é a pequena agricultura que
funciona como um mecanismo de compensação da crise, que permite às várias classes
neutralizar os efeitos mais negativos da crise.
A descoincidência relativa entre a produção capitalista e a reprodução social não se
deve exclusivamente à pequena agricultura familiar, deve-se também à proliferação das
formas de “economia subterrânea”, ou seja, à quantidade de pessoas que trabalham em
“biscates”. A situação do país não depende apenas desta descoincidência, mas também
de uma economia informal cultural.
A desarticulação interna da produção capitalista e da reprodução social:
o Discrepância entre o enquadramento jurídico-constitucional e as práticas sociais
(direito ao trabalho, saúde, escolaridade- direitos constitucionais) - para haver
uma aproximação entre os direitos e as práticas sociais é necessário dinheiro
que o país ainda não tem;
o Descoincidência relativa entre o nível de desenvolvimento da reprodução social
e o nível de desenvolvimento da produção capitalista- está relacionada com a
visão política dos nossos governantes;
o Estagnação e degradação da segurança social, deterioração do Serviço Nacional
de Saúde, aumento do défice habitacional das classes trabalhadoras.
Formas de dominação: a lógica de atuação do Estado Paralelo
o Age com frequência à revelia das políticas oficiais a que se propõe e subverte o
seu próprio quadro jurídico e institucional;
o A auto-negação dá-se de várias formas: instrumentalizando as instituições, as
leis e os regulamentos, colocando-os ao serviço de objetivos diferentes dos
propostos inicialmente, efetuando legislação sem rigor;
o Esta contradição interna da atuação do Estado deu origem a uma forma de
dominação estatal que se sintetiza na existência de um Estado Paralelo;
o É necessário haver uma política laboral mais forte e melhores salários.
A relações sociais capitalistas: regresso do capital variável
o Ao ilustrar as formas de atuação do Estado Paralelo ou subterrâneo (não
aplicação da lei, aplicação seletiva e instrumentalização da lei) o Estado
Português, embora específico nas suas formas de atuação, integra-se no
movimento inter estatal mundial de regresso do capital variável;
o Este capital assenta num reforço do autoritarismo do estado nas áreas que
diretamente favorecem acumulações (subsídios, incentivos, infra-estruturas,
repressão dos direitos dos trabalhadores, etc).
Em síntese:
o O desenvolvimento do papel social do Estado em Portugal, no período do
Estado-Novo ocorreu, entre 1935 e 1973, num ambiente político e ideológico
conhecido (doutrina corporativa) e num certo contexto nacional de
transformações económicas, de alterações demográficas e de enquadramento
internacional de surgimento e desenvolvimento do Welfare State e de
desenvolvimento dos direitos sociais na Europa. A construção do Estado-
providência em Portugal inicia-se no pós 25 de abril de 1974.
Fatores que marcaram o seu desenvolvimento:
o A criação da previdência social em 1935 e as várias reformas e ajustamentos
que tiveram lugar ao longo do período do Estado-Providência, que originaram a
cobertura de riscos sociais clássicos numa lógica de seguro social e de
solidariedade intra-profissional de base corporativa;
o Revolução de 25 de abril de 1974 , arranque do regime democrático, que se
traduziu na consolidação dos direitos da cidadania, consagrando direitos civis e
políticos e alargando e aprofundando os direitos sociais, originando o carácter
universal de alguns deles, de onde resultou um aumento das despesas sociais
públicas, obrigando a um reforço de solidariedade;
o Adesão de Portugal à CEE/EU , em janeiro de 1986. Traduziu-se numa
europeização do Esrado-Providência, consistindo numa alteração do contexto
(de nacional a supranacional) em que a política social passou a ser feita, de
conteúdo da intervenção política e da orientação dessa política (em termos das
grandes opções e objetivos de política, dos instrumentos)