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Sobre o Livro - A Natureza Ama Esconder-se.

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A NATUREZA AMA ESCONDER-SE? ENSAIO SOBRE NATURE LOVES TO HIDE JONAS R. B. ARENHART Programa de P´ os-Gradua¸ c˜ ao em Filosofia Grupo de L´ ogica e Fundamentos da Ciˆ encia Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 04.05.2010; Accepted: 08.07.2010

Abstract: Quantum mechanics raises deep questions about our conception of reality. In this essay we discuss a possible solution proposed by Shimon Malin in his book Nature Loves to Hide to some of these difficulties. Firstly we discuss Malin’s exposition about how the quantum theory entails a deep revision of our conception of reality, overthrowing some kinds of realism. Here, the main focus is quantum mechanics’ violation of Bell’s inequalities. After that, we briefly present the author’s proposal of a new conception of reality grounded in some relations he claims to hold between some features of quantum mechanics, mainly the collapse of the wave function, with the philosophies of Plotino and A. N. Whitehead. We end our discussion pointing to some difficulties in the author’s approach. Keywords: Quantum mechanics. Reality. Plotino. A. N. Whitehead. Resumo: A mecˆ anica quˆ antica levanta profundas quest˜ oes acerca de nossa concep¸ c˜ ao de realidade. Neste ensaio discutiremos uma poss´ ıvel solu¸ c˜ ao para algumas destas dificuldades proposta por Shimon Malin em seu livro Nature Loves to Hide. Primeiramente discutiremos a exposi¸ c˜ ao de Malin sobre o modo como a teoria quˆ antica acarreta uma profunda revis˜ ao de nossa concep¸ c˜ ao da realidade, derrogando certas formas de realismo. Aqui, o principal ponto centra-se no fato de a teoria violar das desigualdades de Bell. Depois, apresentaremos de modo mais breve a proposta do autor de uma nova concep¸ c˜ ao da realidade baseada em certas rela¸ c˜ oes que afirma existir entre algumas caracter´ ısticas da mecˆ anica quˆ antica, principalmente o colapso da fun¸ ca ˜o de onda, com as filosofias de Plotino e A. N. Whitehead. Finalizamos
Manuscrito – Rev. Int. Fil., Campinas, v. 33, n. 1, pp. 381-391, jan.-jun. 2010.

Shimon Malin. A 1 H´ a uma tradu¸ ca ˜o brasileira do livro. 320 p´ ags [2]. 1 Introdu¸ c˜ ao Resenha . S.dever´ a ser guiada tanto por um conhecimento da f´ ısica envolvida quanto da ampla gama de conceitos filos´ oficos que naturalmente est˜ ao presentes nestes contextos. com a ajuda de Fl´ avio Antonio Dias e outros. A natureza ama esconder-se. N. Plotino. O livro ´ e dividido em trˆ es grandes partes. e ainda mais complicado do que isto ´ e saber o que devemos colocar no lugar de nossa antiga concep¸ c˜ ao da realidade. Realidade. Fil. Uma busca por uma resposta . 2010. A.. Palavras chave: Mecˆ anica quˆ antica. o autor busca mostrar que. Entender a natureza desta revis˜ ao nem sempre ´ e algo f´ acil. 1. baseando-se em resultados experimentais da mecˆ anica quˆ antica. visando come¸ car a busca por um novo paradigma da realidade que n˜ ao envolva a hip´ otese do realismo e esteja de acordo com a mecˆ anica quˆ antica.ARENHART 382 apontando algumas dificuldades na abordagem do autor. segundo a qual. baseando-se na filosofia do processo de Alfred N..-jun. Manuscrito – Rev. Zylberlicht. em seu livro Nature Loves to Hide 1 . Int.se houver alguma . professor de f´ ısica te´ orica na Universidade de Colgate (Nova Iorque). Oxford. v. apresenta um ambicioso programa de fundamenta¸ c˜ ao de toda uma nova concep¸ c˜ ao da realidade. 288 pags. Paulo. As cita¸ c˜ oes e as p´ aginas mencionadas em nossa resenha referem-se ao texto original. ISBN 0195138945 [1] ´ quase um consenso entre os especialistas que a mecˆ E anica quˆ antica exige uma revis˜ ao radical de nossa concep¸ c˜ ao da realidade. Tendo em vista alguns resultados experimentais da mecˆ anica quˆ antica. como ele mesmo muitas vezes chama. 2001. Whitehead. o mundo real existe independentemente de qualquer observador. em inglˆ es. 33. jan. ou. Horus Editora. devemos eliminar de qualquer concep¸ c˜ ao ou vis˜ ao de mundo a chamada “hip´ otese do realismo”. apresenta um substituto para o velho paradigma. Whitehead.Nature Loves to Hide. Na segunda parte. . Este ´ e um debate que ocorre nas fronteiras da f´ ısica e da filosofia. 381-391. Campinas. n. tradu¸ c˜ ao de Lea P. 2003. pp. falando por alto. um novo paradigma da realidade. de Shimon Malin. no qual profundas sutilezas est˜ ao envolvidas. Na primeira delas. principalmente na viola¸ c˜ ao das desigualdades de Bell.

devemos procurar respostas n˜ ao na pr´ opria teoria quˆ antica. uma distin¸ c˜ ao que dever´ a ser transcendida em qualquer proposta que busque superar as dificuldades criadas por este inadequado modo de se compreender a realidade. mas o faz sem deixar de apontar paralelos entre estes sistemas e a mecˆ anica quˆ antica. pp. Malin busca completar sua proposta de novo paradigma com aspectos da filosofia de Plotino. A pr´ opria teoria n˜ ao pode nos fornecer uma resposta completamente adequada. 33. 381-391. ´ e composta de v´ arios n´ ıveis de ser e. ao inv´ es de um mundo constitu´ ıdo por objetos separados do sujeito que conhece e que s˜ ao dotados de dura¸ c˜ ao temporal. Tendo em vista estas dificuldades. Campinas. temos na verdade um mundo constitu´ ıdo por experiˆ encias. o novo paradigma deve estar de acordo com a teoria e nos ajudar a compreender a realidade descrita por ela. Fil. como s˜ ao os resultados da pr´ opria mecˆ anica quˆ antica que indicam a inadequa¸ c˜ ao do paradigma antigo. 2010. por ser uma forma de conhecimento cient´ ıfico.383 proposta feita ´ e a de que. com todas as controv´ ersias que envolvem qualquer tomada de posi¸ c˜ ao nesta complexa ´ area de pesquisa. e tanto seu desenvolvimento per se quanto sua liga¸ c˜ ao com a f´ ısica quˆ antica s˜ ao mais tateantes e mantidos mais ao n´ ıvel de uma su- Manuscrito – Rev. Esta liga¸ c˜ ao com a filosofia de Plotino visa principalmente a complementar algumas lacunas deixadas na segunda parte. n. estes paralelos entre os sistemas filos´ oficos apresentados e a teoria quˆ antica s˜ ao altamente sugestivos. jan. mas al´ em dela. centrando sua an´ alise principalmente no colapso da fun¸ c˜ ao de onda. as duas partes seguintes apresentam uma incurs˜ ao profunda em t´ opicos que s˜ ao completamente especulativos. segundo Malin.-jun. e podem indicar conex˜ oes profundas. O fio condutor que permeia as trˆ es partes da obra ´ e a mecˆ anica quˆ antica e seu extraordin´ ario sucesso. Malin apresenta sua concep¸ c˜ ao da realidade baseando-se em sistemas filos´ oficos especulativos. sendo que o desenvolvimento das duas u ´ltimas se¸ c˜ oes do livro ´ e quase que exclusivamente motivado por um aspecto bastante espec´ ıfico da teoria: o colapso da fun¸ c˜ ao de onda. v. segundo a qual a natureza est´ a viva. Int. contempla. Na terceira e u ´ltima parte. ainda pressup˜ oe uma distin¸ c˜ ao entre sujeito e objeto que est´ a fundamentada no velho paradigma.. pois. Segundo Malin. Al´ em disso. A rec´ em mencionada divis˜ ao do conte´ udo na obra de Malin tamb´ em est´ a em correspondˆ encia com uma ordem crescente do papel da especula¸ c˜ ao nos assuntos apresentados. . Buscando por um novo paradigma da realidade. que ocorre nas formula¸ c˜ oes mais usuais da mecˆ anica quˆ antica. 1. Enquanto na primeira se¸ c˜ ao predominam na maior parte do tempo discuss˜ oes sobre alguns dos assuntos cl´ assicos de fundamentos da f´ ısica quˆ antica. de certa forma.

com exce¸ c˜ ao do primeiro. uma boa ajuda na compreens˜ ao destes t´ opicos. 1. Neles. tanto quando trata de fundamentos da f´ ısica quˆ antica ou da teoria da relatividade. quanto quando trata da natureza da realidade e dos diferentes n´ ıveis do ser na segunda e terceira parte. na primeira parte.. mesmo quando considerados independentemente do contexto do livro. Julie e Peter. Para esclarecer o ponto em quest˜ ao para Peter. sendo. principalmente quando se trata de discutir pontos obscuros da proposta de Malin. Em particular. Todos estes apˆ endices tratam dos seus respectivos assuntos em um n´ ıvel bastante elementar. 33. como por exemplo. v. e 3) s˜ ao apresentadas e criticadas as interpreta¸ c˜ oes e modifica¸ c˜ oes mais conhecidas da mecˆ anica quˆ antica. n. 381-391. Neste ensaio de revis˜ ao. ´ e interessante notar que Malin menciona somente em seu apˆ endice o fato de que a teoria quˆ antica possa ser formulada sem que se adote alguma forma do colapso da fun¸ c˜ ao de onda. Isto ´ e relevante quando se tem em mente o papel preponderante que o colapso representa nas tentativas de Malin de relacionar a mecˆ anica quˆ antica com sua audaciosa proposta de fundamentar um novo modo de vermos a realidade baseado nas filosofias de Whitehead e Plotino. Al´ em disso. Para auxiliar em sua exposi¸ c˜ ao. s˜ ao louv´ aveis os esfor¸ cos de Malin para tornar toda sua discuss˜ ao clara. ou ent˜ ao alguma das propostas de Malin. a regra em geral ´ e sempre a mesma: Peter est´ a com dificuldades para compreender alguma caracter´ ıstica contra-intuitiva da mecˆ anica quˆ antica ou da teoria da relatividade. s˜ ao discutidos mais detidamente 1) alguns aspectos da teoria da relatividade (relatividade da simultaneidade e do comprimento). Int. 2010. ou de que o realismo n˜ ao deve fazer parte de uma vis˜ ao de mundo coerente. pp. Malin e Julie (que tamb´ em faz o papel de porta voz de Malin) discutem com ele suas dificuldades e fornecem exemplos e analogias. al´ em de apresentar v´ arias ilustra¸ c˜ oes. o fato de n˜ ao existir o colapso em algumas interpreta¸ c˜ oes ´ e visto por Malin como um defeito que dep˜ oe definitivamente contra estas interpreta¸ c˜ oes. .ARENHART 384 gest˜ ao plaus´ ıvel do que de uma resposta pronta. Fil. como por exemplo a interpreta¸ c˜ ao dos muitos mundos e a interpreta¸ c˜ ao de Bohm. Peter acaba sendo levado Manuscrito – Rev. de que a natureza est´ a viva. nos deteremos principalmente na primeira parte do livro. Durante todo o livro. Campinas. frequentemente faz uso de di´ alogos em que ele mesmo discute pontos complicados com dois personagens. respectivamente. Alguns leitores podem ficar com a impress˜ ao de que. jan. Aqui. o menos elucidativo de todos em nossa opini˜ ao. Malin tamb´ em fornece trˆ es apˆ endices ao final do livro.-jun. Para auxiliar a compreens˜ ao de t´ opicos que aparecem no texto cuja discuss˜ ao n˜ ao se encaixaria facilmente no desenvolvimento do livro. 2) ´ e fornecida uma prova elementar das desigualdades de Bell.

Muitos pontos importantes s˜ ao apenas mencionados. sem que as sutilezas envolvidas sejam desenvolvidas. 2 Discuss˜ ao A primeira parte do livro (cap´ ıtulos 1-7). 33. n˜ ao h´ a pr´ e-requisitos matem´ aticos. n.385 muito facilmente a concordar com as explica¸ c˜ oes que lhe s˜ ao propostas. que se iniciou no final dos anos 20 do s´ eculo passado e durou todo o per´ ıodo restante da vida destes dois cientistas. entre outros. Para citar um exemplo. buscando superar as principais dificuldades que podem surgir em sua compreens˜ ao. Campinas. Fil. a teoria ondulat´ oria de Schr¨ odinger. Certamente. os conceitos s˜ ao discutidos. . com suas dificuldades conceituais. como. Se algum destes conceitos ´ e particularmente importante e complexo. Nesta e nas outras partes do livro. 2010. o problema da dualidade onda-part´ ıcula. n˜ ao podemos esperar nem exigir que a discuss˜ ao da maioria dos t´ opicos seja extremamente precisa e leve em conta todas as nuances envolvidas. jan. a mudar seu ponto de vista e a considerar como superadas as dificuldades que no come¸ co do di´ alogo lhe pareciam absurdos. v. Malin faz uma apresenta¸ c˜ ao cronologicamente ordenada que vai desde os prim´ ordios da mecˆ anica quˆ antica. 381-391. al´ em de servir para fundamentar a afirma¸ c˜ ao b´ asica da tese de Malin de que o realismo deve ser abandonado. 1.. Malin o discute com Peter e Julie. tirados principalmente das mem´ orias de Heisenberg. respeitando as previs˜ oes da teoria quˆ antica. e complementa a apresenta¸ c˜ ao com descri¸ c˜ oes sobre como os principais envolvidos nas discuss˜ oes que ocorriam sobre a teoria viam o andamento do debate em busca do esclarecimento conceitual. a mecˆ anica ondulat´ oria de Schr¨ odinger ´ e discutida Manuscrito – Rev. Al´ em de apresentar datas historicamente importantes no desenvolvimento da teoria. Ao final do livro. passando pelo princ´ ıpio de incerteza de Heisenberg. at´ e finalmente chegar nas desigualdades de Bell e nos experimentos que mostram que estas desigualdades s˜ ao violadas.-jun. ilustrados e muitas analogias s˜ ao fornecidas. constitui-se em excelente exposi¸ c˜ ao de alguns conceitos envolvidos nos fundamentos da f´ ısica quˆ antica e do famoso debate Einstein-Bohr. Malin mescla em sua exposi¸ c˜ ao dados biogr´ aficos de alguns dos principais cientistas que deram contribui¸ c˜ oes que foram decisivas para o seu desenvolvimento. pp. ele j´ a´ e um partid´ ario convicto da solu¸ c˜ ao proposta por Malin. Buscando uma exposi¸ c˜ ao acess´ ıvel a um amplo p´ ublico de leitores n˜ ao-especialistas. em uma exposi¸ c˜ ao t˜ ao geral como ´ e esta. Int. como seria o caso em um livro dirigido a leitores especialistas. por exemplo.

ARENHART 386 brevemente. 6). alternativamente. Campinas. segundo a qual a realidade ´ e de tal forma que se conforma ao princ´ ıpio. ou. por sua vez. ela ´ e apenas uma aproxima¸ c˜ ao. ´ e visto no livro de Malin como o proponente de uma interpreta¸ c˜ ao epistˆ emica do princ´ ıpio de incerteza. v. n. 2) localidade. escrito em colabora¸ c˜ ao com dois assistentes. associada com Bohr e Heisenberg (que por sua vez. segundo a qual o princ´ ıpio de incerteza imp˜ oe limita¸ c˜ oes ao discurso significativo. uma interpreta¸ c˜ ao semˆ antica da posi¸ c˜ ao de Bohr. Primeiramente. ou seja. . N˜ ao ´ e mencionada uma terceira e bastante influente interpreta¸ c˜ ao de Bohr. 2 e cap. Einstein.-jun. buscou minar tanto o princ´ ıpio de incerteza quanto a suposi¸ c˜ ao de que a mecˆ anica quˆ antica nos d´ a uma descri¸ c˜ ao completa da realidade (cap. segundo o qual. principalmente o mais famoso deles. apesar de a mecˆ anica quˆ antica fazer excelentes previs˜ oes que est˜ ao surpreendentemente de acordo com os resultados dos experimentos. falando muito por alto. O fio condutor por tr´ as da discusso conceitual nesta primeira parte do livro ´ e o famoso debate Einstein-Bohr acerca da quest˜ ao fundamental: a mecˆ anica quˆ antica ´ e uma descri¸ c˜ ao completa da realidade? Devemos lembrar que. pp. ou seja. segundo a qual. eram baseados na cren¸ ca de Einstein em trˆ es princ´ ıpios fundamentais acerca da natureza da realidade: 1) realismo. tamb´ em n˜ ao estavam completamente de acordo sobre a maneira correta de se interpretar a teoria). Int. segundo o qual este princ´ ıpio imp˜ oe limita¸ c˜ oes ao que podemos conhecer sobre a realidade. ent˜ ao B n˜ ao deve ser afetado por esta medida. al´ em de ser uma teoria probabilista. como por exemplo. segundo o qual a realidade existe independentemente de nossas consciˆ encias. 1. E bido hoje que o pensamento de Schr¨ odinger passou por trˆ es grandes etapas. 33. existem pares de grandezas f´ ısicas que n˜ ao podem ser medidas simultaneamente com qualquer precis˜ ao que se deseje. seus ataques concentraram-se no princ´ ıpio de incerteza. posi¸ c˜ ao e momento. sem que se apresente a interpreta¸ c˜ ao do pr´ oprio Schr¨ odinger de ´ sasua teoria e as diferentes etapas pelas quais seu pensamento passou. e devemos buscar a teoria mais fundamental subjacente ` a mecˆ anica quˆ antica. a mecˆ anica quˆ antica estava sujeita ao princ´ ıpio de incerteza de Heisenberg. 381-391. atrav´ es de famosas experiˆ encias de pensamento. Podolski e Rosen (da´ ı o nome EPR) e publicado em 1935. Fil. Seus argumentos. Bohr. se efetuarmos uma medida em um objeto A afastado espacialmente de um objeto B. ela n˜ ao ´ e a teoria fundamental sobre a realidade. jan. 2010. nenhuma informa¸ c˜ ao pode viajar mais r´ apido que a Manuscrito – Rev. em oposi¸ c˜ ao a uma leitura ontol´ ogica do mesmo.. conhecido como o paradoxo EPR. nas quais desenvolveu uma interpreta¸ c˜ ao da teoria em rea¸ c˜ ao ` a interpreta¸ c˜ ao dominante. passa a buscar uma prova de que a teoria n˜ ao ´ e uma descri¸ c˜ ao completa da realidade. Diante do fracasso destas tentativas.

j´ a n˜ ao temos que esta seja uma propriedade do objeto. mas apenas a probabilidade de que certo resultado ocorra. Ficou famosa a frase de Einstein que resume seu desacordo com rela¸ c˜ ao a este aspecto da teoria. segundo o qual eventos futuros podem ser explicados causalmente por eventos anteriores a eles. Dependendo do aparato que utilizamos para realizar a medi¸ c˜ ao. Aparentemente. mas dito por alto. v. Campinas. Com este u ´ltimo. por exemplo. e em outros. 33. as duas situa¸ c˜ oes acima. Explica¸ c˜ ao similar pode ser empregada para as medi¸ c˜ oes submetidas ao princ´ ıpio de incerteza. n˜ ao podemos enunciar nada sobre ele com sentido. de modo que j´ a n˜ ao estaria isolado. Fil. Assim. 1. o framework nos diz que em situa¸ co ˜es como aquela da dualidade onda-part´ ıcula. pois o pr´ oprio ato de medi¸ c˜ ao perturbou o objeto. Int. pois nossas afirma¸ c˜ oes n˜ ao podem ser verificadas experimentalmente. e para verificar precisar´ ıamos interagir com o objeto. Quando o objeto est´ a isolado. n˜ ao temos que o mesmo item ´ e ao mesmo tempo onda e part´ ıcula. sua posi¸ c˜ ao. que nos fornece n˜ ao a possibilidade de prevermos com certeza qual dentre uma gama de poss´ ıveis resultados ir´ a ocorrer. com Bohr conquistando o maior n´ umero de seguidores (com Malin entre eles). e 3) determinismo. n˜ ao podem existir ao mesmo tempo. 3). temos em algumas circunstˆ ancias um resultado que mede uma onda. N˜ ao ´ e nada f´ acil se compreender exatamente o que Bohr tinha em mente em suas formula¸ c˜ oes da complementaridade. ter em mente o modo como Bohr via a mecˆ anica quˆ antica dava aos f´ ısicos “a sensa¸ c˜ ao de que a teoria Manuscrito – Rev. pois ao interagir com o aparato de medi¸ c˜ ao o objeto e o aparato formam um todo indissoci´ avel. n. sem entrar em contato com qualquer aparato. e n˜ ao temos mais um resultado que trata do objeto apenas. Bohr formula uma defesa da teoria baseada em seu famoso framework da complementaridade (cap. . mas sim que estes s˜ ao aspectos complementares e mutuamente excludentes da descri¸ c˜ ao de um mesmo item. pp.. jan. Einstein expressava seu descontentamento com o car´ ater probabilista da teoria quˆ antica. por exemplo. Contra os argumentos propostos por Einstein. 381-391. quando podemos afirmar algo sobre o objeto.387 velocidade da luz. A utiliza¸ c˜ ao de um aparato exclui a utiliza¸ c˜ ao do outro. uma part´ ıcula. Segundo Malin. segundo a qual “Deus n˜ ao joga dados”. o debate entre Einstein e Bohr ficou em aberto durante o per´ ıodo em que viveram. a mecˆ anica quˆ antica encontra em Bohr seu grande defensor. do objeto isolado e do objeto sofrendo algum tipo de medi¸ c˜ ao s˜ ao complementares. 2010. Por outro lado. O framework ainda pode ser utilizado para dar conta das situa¸ c˜ oes complementares em que um objeto quˆ antico ´ e considerado em isolamento e quando est´ a sendo medido.-jun.

que deveria ser respeitada por quaisquer teorias realistas locais (cap. ao longo da d´ ecada. n. 7). trabalhando na Universidade de Paris.ARENHART 388 fornece a chave para o mist´ erio do universo” (p. v. ´ e que por um lado. mas podemos de algum modo ampli´ a-lo e formular um novo paradigma para compreendermos toda ´ com esta motiva¸ a realidade (p. as hip´ oteses sobre as quais as desigualdades se baseiam. Em princ´ ıpio baseada em experiˆ encias de pensamento. Posteriormente. que seus diferentes componentes s˜ ao meramente elementos que simplesmente funcionam juntos. contra a mecˆ anica quˆ antica. novos experimentos foram sendo feitos. O grande passo em dire¸ c˜ ao a experimentos com um alto padr˜ ao de rigor foi dado em 1981. a concep¸ c˜ ao que guia nossa vida no dia-a-dia ´ e a do realismo. 1. Campinas. e resultou em acordo com a mecˆ anica quˆ antica.. O framework de Bohr funciona muito bem para a mecˆ anica quˆ antica. do paradigma vigente em nosso senso comum. em forma de desigualdade. s˜ ao verificadas na grande maioria dos casos. e assim. Int. A partir de ent˜ ao. devem ser abandonadas (p. realismo e localidade. Aspect. 33. Freedman em 1972. que n˜ ao era satisfat´ orio. A mecˆ anica quˆ antica decreta o fim do realismo. e o resultado ´ e que as previs˜ oes feitas pela mecˆ anica quˆ antica. os experimentos tem demonstrado com grande seguran¸ ca que as desigualdades s˜ ao violadas. 91)? E c˜ ao que Malin encerra a primeira parte do livro. em sua grande maioria a favor da mecˆ anica quˆ antica. 2010. Roger. a concep¸ c˜ ao de Einstein predomina com muito sucesso neste caso.-jun. 89). H´ a um grande conflito entre as concep¸ c˜ oes que sustentamos nestes dois campos. Clauser e S. . e que n˜ ao h´ a nada profundo ou significativo sobre ela [a teoria]” (pp. 89-90). O primeiro destes experimentos foi conduzido por J. a mecˆ anica quˆ antica ´ e nossa melhor descri¸ c˜ ao da realidade. pp. a situa¸ c˜ ao come¸ ca a mudar em 1964. O grande problema que esta situa¸ c˜ ao nos coloca. dizia respeito ao grau de precis˜ ao destes experimentos. contra as desigualdades. Malin apresentar´ a sua proposta. jan. enquanto que uma ado¸ c˜ ao da posi¸ c˜ ao de Einstein dava a entender que “a mecˆ anica quˆ antica ´ e uma estrutura matem´ atica algo arbitr´ aria. A principal dificuldade com estes testes. P. No entanto. violando as desigualdades de Bell. uma nova concep¸ c˜ ao Manuscrito – Rev. e por outro. segundo Malin. 81. com algumas exce¸ c˜ oes respeitando as desigualdades. O que devemos colocar em seu lugar? A segunda e terceira parte do livro v˜ ao se constituir em uma busca por respostas a esta pergunta. 381-391. Fil. 89). por A. Grangier e G. as desigualdades de Bell come¸ cam a ser testadas experimentalmente a partir da d´ ecada de 70. que n˜ ao permitia ainda que se conclu´ ısse definitivamente a favor da teoria e contra as desigualdades. quando John Bell deriva um teorema.

Aqui Malin estar´ a pisando em terreno ainda mais escorregadio. a realidade n˜ ao se constituiria de substˆ ancias cont´ ınuas. p. Al´ em disso. as potencialidades estariam em um reino fora do tempo. N˜ ao ´ e o pr´ edio diante de mim que ´ e concreto. ´ e interessante abrirmos parˆ enteses aqui para esclarecer que se trata do mesmo Whitehead que. 47-50). A filosofia proposta por Whitehead n˜ ao era de f´ acil compreens˜ ao. entendidos como momentos em um processo dinˆ amico de cria¸ c˜ ao. o sujeito e o objeto. em trˆ es volumes. baseada nas filosofias de Whitehead e Plotino. Segundo ele. ´ e n˜ ao reconhecermos que se trata apenas de uma abstra¸ c˜ ao com um campo de aplica¸ c˜ ao limitado. 381-391. uma fun¸ c˜ ao de onda descreve um campo de potencialidades. 172). Whitehead parte da Inglaterra para os Estados Unidos. a atualiza¸ c˜ ao ´ e realizada por uma medi¸ c˜ ao. Campinas. 8-9).-jun. Int. Whitehead propunha que volt´ assemos nossa aten¸ c˜ ao dos objetos para eventos. falaciosamente. uma hip´ otese. em parceria com Bertrand Russell. O realismo seria uma “abstra¸ c˜ a”. Bertrand Russell. . que se atualiza quando h´ a o colapso da fun¸ c˜ ao de onda atrav´ es de uma medi¸ c˜ ao. a filosofia ocidental havia dado muita importˆ ancia para categorias est´ aticas como “objetos” e “substˆ ancia”. ´ e a minha experiˆ encia de estar vendo um pr´ edio diante de mim que ´ e concreta. 8-16) destina-se principalmente a apresentar a filosofia do processo de Whitehead como uma alternativa e relacion´ a-la com o colapso da fun¸ c˜ ao de onda na mecˆ anica quˆ antica. jan. ou seja. Fil. Dividimos a natureza em dois lados. A liga¸ c˜ ao com a mecˆ anica quˆ antica baseia-se na interpreta¸ c˜ ao da fun¸ c˜ ao de onda segundo Heisenberg. A segunda parte (cap. 2010. pp. e logo depois do colapso. v. chegou a dizer que n˜ ao entendia sequer uma palavra da nova filosofia de Whitehead. Esta ´ e a rela¸ c˜ ao com a filosofia de Whitehead. segundo Malin. segundo Malin. mas de vibra¸ c˜ oes ou pulsa¸ c˜ oes de experiˆ encias (p. Inferimos.. 1. e o resultado disso ´ e o mundo sem cor e sem vida da ciˆ encia. n. que os objetos fora de n´ os s˜ ao concretos. Primeiramente (caps. Antes de seguirmos adiante. De acordo com Heisenberg (segundo Malin. Malin busca mostrar atrav´ es de argumentos filos´ oficos que a hip´ otese da realidade baseia-se na verdade em um engano inconsciente de nossa mente. que forjamos para conhecer o mundo atrav´ es da ciˆ encia. onde desenvolve sua filosofia do processo. Mas voltemos ao livro de Malin. em oposi¸ c˜ ao a categorias de movimento como “mudan¸ ca” e “processo”. 33. O problema.389 de realidade motivada pela mecˆ anica quˆ antica. Depois de contribuir nesta monumental obra. escreveu os famosos Principia Mathematica. no sentido Manuscrito – Rev. volta a ser apenas uma potencialidade. e mesmo seu antigo colaborador. enquanto dever´ ıamos perceber que o que ´ e concreto s˜ ao nossas experiˆ encias.

a contempla¸ c˜ ao da natureza desempenha papel an´ alogo ao do observador na teoria quˆ antica. Ele est´ a ciente das dificuldades na aceita¸ c˜ ao de sua proposta. faz com que a fun¸ c˜ ao de ondas colapse e um dentre os v´ arios poss´ ıveis resultados ocorra. por exemplo. na qual o n´ ıvel superior nada perde. 33. obje¸ c˜ oes de que seu modo de considerar o problema n˜ ao suficientemente cient´ ıfico (p. a respons´ avel pela escolha de uma dentre as v´ arias possibilidades em um campo de potencialidades..-jun. atrav´ es de algo como uma emana¸ c˜ ao. Segundo Plotino.ARENHART 390 do reino ideal platˆ onico. o colapso ´ e de importˆ ancia central para a proposta de Malin. pp. em sua apresenta¸ c˜ ao de um paradigma alternativo da realidade Malin est´ a apresentando mais uma possibilidade a ser considerada do que uma resposta pronta. e n˜ ao ´ e claro se aquilo que colocaremos em seu lugar ser´ a um substituto efetivo. . 17-19). ao realizar uma medi¸ c˜ ao e obter um resultado. 2010. em um dos di´ alogos que permeiam o texto. e chega mesmo a colocar na boca de Peter. Campinas. 159). Como dissemos anteriormente. pelo menos como ´ e praticada atualmente. Novamente. de algum modo. O problema ´ e saber at´ e que ponto a maioria dos leitores estar disposta a seguir Peter e adotar a proposta de Malin. A filosofia de Whitehead deixou em aberto a d´ uvida sobre como decidimos a seguinte quest˜ ao: qual. ´ e dif´ ıcil entender como este campo de potencialidades pode estar fora do tempo e ainda assim ser guiados pela equa¸ c˜ ao de Schr¨ odinger. v. jan. em oposi¸ c˜ ao ao racioc´ ınio discursivo. Aqui. Se compreendemos a proposta de Malin. Int. que em algumas de suas formas podem depender do tempo (ver. n. Na terceira parte (caps. sendo que os n´ ıveis inferiores s˜ ao criados pelos superiores. O papel que a contempla¸ c˜ ao acaba adquirindo. p. No entanto. 381-391. Fil. al´ em de se comprometer com todas as dificuldades j´ a conhecidas ` as teorias de Whitehead Manuscrito – Rev. Malin busca relacionar a filosofia de Plotino com sua proposta. a natureza contempla e h´ a v´ arios n´ ıveis do ser. que. chega mesmo a por em d´ uvida a pr´ opria possibilidade da ciˆ encia. Peter ´ e rapidamente convencido da razoabilidade do projeto. 1. 204). Podemos conhecer os n´ ıveis superiores do ser atrav´ es de alguma forma de introspec¸ c˜ ao. 3 Observa¸ co ˜es finais Uma das maiores dificuldades com a proposta de Malin. A contempla¸ c˜ ao por parte da natureza seria. dentre as v´ arias possibilidades em um campo de potencialidades ser´ a atualizada? Malin buscar´ a a resposta na filosofia de Plotino.

Oxford: Oxford Un. 2001. E ıcil de ver as liga¸ c˜ oes da mecˆ anica quˆ antica com a proposta de Malin seguindo Whitehead e Plotino sem o colapso. Nature Loves to Hide: Quantum Physics an the Nature of Reality.-jun.. E prov´ avel que esta teoria vir´ a a ser superada no futuro por uma teoria diferente. tradu¸ c˜ ao de Lea P. Zylberlicht. Trata-se de um livro interessante que merece ser lido principalmente pela valiosa exposi¸ c˜ ao de alguns conceitos da mecˆ anica quˆ antica para n˜ ao especialistas. mesmo que sua tentativa s´ eria de entender a natureza da realidade tenha ficado bastante obscura e tenda demasiadamente a algo como uma forma de misticismo no qual nem todos est˜ ao dispostos a acreditar completamente. Este ´ e um dos perigos que correm projetos de metaf´ ısica baseados em teorias cient´ ıficas particulares. [2] MALIN. com a ajuda de Fl´ avio Antonio Dias e outros. Ainda. que esta teoria futura n˜ ao ir´ a se comprometer com pressuposi¸ c˜ oes que n˜ ao s˜ ao t˜ ao facilmente colocadas em acordo com as filosofias de Whitehead e Plotino (pressupondo que a proposta de Malin seja bem sucedida). 1. . pp. uma Perspectiva Ocidental. Fil. S. Int. Manuscrito – Rev. v. e nada nos garante. S. Referˆ encias [1] MALIN. 2003. n. 2010.. S. o papel do colapso ´ e t˜ ao grande na proposta de Malin. jan. que n˜ ao nos admiramos de n˜ ao vermos discutidas mais longamente em seu livro propostas alternativas da ´ dif´ teoria quˆ antica em que o colapso n˜ ao aparece.391 e Plotino. A Natureza Ama Esconder-se: A F´ ısica Quˆ antica e a Natureza da Realidade. consiste no fato de que ele baseia sua nova vis˜ ao da realidade em ´ altamente paralelos destas teorias com a mecˆ anica quˆ antica com colapso. Paulo: Horus Editora. Press. 381-391. Campinas. em particular. estas obje¸ c˜ oes n˜ ao nos impedem de aprender algo importante com a proposta de Malin. a Western Perspective. 33.. No entanto.

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