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Musicalização para bebês da UFBA: estrutura das aulas

Angelita Maria Vander Broock UFBA angelbroock@yahoo.com.br

Resumo: Considerando o crescente interesse de educadores musicais por musicalização para bebês, o objetivo deste relato de experiência é descrever o processo de preparação de aulas do curso de Musicalização para bebês da UFBA, na tentativa de ilustrar uma forma de se fazer este trabalho, enfocando os objetivos e os resultados. Para tal, foram descritos os principais objetivos das aulas, as estratégias utilizadas, o material didático, as partes da aula juntamente com as características de cada atividade, os critérios para escolha de repertório, as posturas adotadas pela professora e algumas observações referentes ao comportamento dos alunos.

Palavras chave: Educação Musical; Musicalização para bebês; preparação de aulas;

Introdução

A musicalização para bebês ainda é um campo pouco explorado no âmbito nacional.

No entanto, o interesse pelo tema vem crescendo gradativamente. Sempre que se fala sobre o

assunto, as pessoas ficam muito curiosas e interessadas em saber como funcionam as aulas,

que tipo de atividades são realizadas, quais são os comportamentos das crianças, quais

materiais são utilizados, entre outras coisas. Percebe-se que muitos bons educadores musicais

gostariam de trabalhar com bebês, entretanto, ainda não têm um direcionamento para tal.

Segundo Suzigan e Suzigan (1996), a educação musical para crianças deve ser

tratada com muita competência, pois as aulas de musicalização podem direcionar a vida

musical dos pequenos. Por esta razão, é necessário que programas de musicalização infantil

sejam orientados e que os professores estejam preparados para encarar variadas situações e

para considerar alguns dos vários fatores que acabam sendo inerentes ao ensino da música,

como a inserção de outras habilidades, visando uma educação multidisciplinar capaz de

facilitar o processo de ensino-aprendizagem, trabalhando competências diferenciadas,

utilizando a música não somente como fim, mas também como meio, capaz de contribuir na

formação de cidadãos e lidar com a diversidade social e artística (OLIVEIRA, 2006).

As aulas de musicalização para bebês consistem, basicamente, na sensibilização

musical através de atividades práticas envolvendo canto, movimento, improvisação, execução

musical, jogos e brincadeiras, resgatando o nosso patrimônio cultural através de rimas, lendas,

parlendas, cantigas folclóricas, canções de ninar e de várias partes do mundo, obras de música

erudita e canções inventadas, respeitando sempre o quadro de desenvolvimento físico, motor e cognitivo-musical das crianças em questão.

Objetivos

Os principais objetivos das aulas de musicalização consistem em:

- auxiliar na relação afetiva entre os pais e seus filhos;

- estimular competências e habilidades através de atividades musicais;

- proporcionar aos pais elementos que podem ser trabalhados facilmente em casa,

com o intuito de reforçar os conteúdos aprendidos em aula e propiciar um elemento a mais na relação entre pais e filhos. Vale ressaltar que estes são os objetivos específicos das aulas e não do curso como

um todo.

Organização das aulas

As aulas são realizadas na Escola de Música da UFBA, em uma sala espaçosa onde tem um piano, alguns armários onde são guardados os materiais e uma mesa para trocar fraldas em um espaço reservado da sala. As aulas acontecem semanalmente e possuem duração de 45 minutos. As turmas são divididas por idades, que podem variar entre 3 meses e 2 anos. Cada turma possui cerca de dez alunos, cada um acompanhado de um adulto exercendo o papel de cuidador, podendo ser a mãe, o pai, a babá, etc. Sempre que possível, as aulas seguem um roteiro padrão, que será descrito posteriormente, e são marcadas por uma canção inicial e uma canção de despedida. Além de atividades direcionadas, as aulas contêm alguns momentos livres, para que os pais possam brincar e interagir com seus filhos, além de socializá-los. Ao final há um momento de relaxamento.

Materiais didáticos

Os materiais utilizados pelas crianças são basicamente instrumentos de percussão, como caxixis, ovinhos de plástico, pandeirinhos, metalofones, maracas, entre outros, além de materiais alternativos, como bolas coloridas de vários tamanhos, bambolês, tecidos coloridos, baldes, bolinhas de sabão e latas. Além disso, utiliza-se aparelho de som e CDs, bonecos de pelúcia, fantoches e objetos do gênero. Devido à flexibilidade sugerida para o professor,

outros materiais podem ser utilizados, de acordo com a necessidade e aquisição dos mesmos. De acordo com Feres (1998), é necessário pensar sempre na segurança da criança ao escolher os materiais a serem utilizados.

Repertório

O repertório utilizado nas aulas varia entre músicas que sugerem movimentos através de suas letras, cantigas de roda, canções de ninar, rimas, parlendas, brincos, cantigas folclóricas, bem como músicas instrumentais, obras de música erudita e de várias partes do mundo. As músicas são selecionadas de acordo com o objetivo de cada atividade e há uma preocupação muito grande em proporcionar uma apreciação musical de forma ativa. De acordo com o “Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil” (Conhecimento de mundo) publicado em 1998 pelo Ministério da Educação, na página 64, o repertório utilizado para a Educação Infantil deve contemplar obras de música erudita, da música popular, do cancioneiro infantil, da música regional, etc., além da escuta de obras musicais de diversos gêneros, estilos, épocas e culturas, da produção musical brasileira e de outros povos e países.

Estrutura das aulas

Algumas educadoras musicais (BEYER, 2000; JOLY, 2003) colocam a rotina como algo importante e necessário para a educação musical para bebês. Sendo assim, as aulas seguem, sempre que possível, um roteiro padrão, para que não haja estranhamento por parte dos bebês. A seqüência de atividades do roteiro padrão pode variar de acordo com cada programa e professor. A seguir iremos relatar a seqüência de atividades utilizada no curso da UFBA, lembrando que este pode variar de acordo com a necessidade e respostas dos alunos durante a aula:

No momento da chegada, os alunos tiram os sapatos e sentam-se nos colchonetes que estão dispostos em roda; 1) Canção de boas vindas; Seguindo a ordem da roda, canta-se uma canção de “Bom Dia” para cada aluno, utilizando o nome de cada criança, para que elas se sintam presentes e para marcar o início da aula. É utilizada a mesma música durante todo o semestre. 2) Canção ou atividade em Roda (com cantigas de roda ou audição de músicas popular ou erudita);

Sugere-se que todos fiquem de pé em roda, e executem uma cantiga de roda com movimentos e regras ou, então, a professora sugere alguns movimentos para alguma música erudita ou popular tocada através de CDs, mudando os movimentos juntamente com as partes da música, enfatizando assim a forma musical. Normalmente são movimentos simples utilizando mãos, pés, palmas, giros, levantar, abaixar, etc. 3) Canções livres e com movimentos; Todos cantam músicas que sugerem movimentos através de suas letras, normalmente explorando partes do corpo ou psicomotricidade. Às vezes utilizam-se brincos ou parlendas neste momento da aula, onde os pais interagem diretamente com seus filhos. 4) Audição de música erudita ou instrumental com o uso de instrumento; Audição de música erudita ou instrumental para que os alunos acompanhem com o uso de um ovinho de percussão ou similar. Normalmente as músicas escolhidas possuem uma pulsação bem definida, para que os alunos vivenciem este conceito. 5) Canção folclórica ou previamente conhecida pelos responsáveis, ainda com o uso de instrumentos; Neste momento, é cantada uma canção folclórica ou outra que seja conhecida pela maioria dos pais, para que o foco da atividade seja ainda o uso dos instrumentos. 6) Canções com movimentos, com ou sem locomoção; Este é um momento “sessão cantoria”, quando se utilizam outras músicas que sugerem movimentos em suas letras, assim como na parte 3 da aula. Normalmente cantam-se pelo menos duas músicas diferentes, podendo os alunos estar sentados no chão ou de pé em roda. Isso varia a cada aula. Tendo em vista que desde 2008 temos trabalhado com temas semestrais, este momento da aula pode destinar-se à exploração do tema escolhido. 7) Músicas com o uso de instrumentos diversos, como: caxixis, pandeirinhos, xequerês, etc. Utilização de outros instrumentos, com o uso de músicas apropriadas para o momento, cantadas ou tocadas através de CDs. Vale dizer que a cada aula apenas um instrumento é escolhido. 8) Momento livre, com o uso de bolinhas, tules, bolas grandes, bambolês, tecido grande com peixinhos de E.V.A., etc; Este momento é de socialização, para que todos possam brincar e interagir. Esta atividade pode ser com direcionamento ou totalmente livre, e a música normalmente é utilizada para marcar o tempo da brincadeira e animar a turma. Utilizam-se materiais

alternativos com propostas que visam estimular o manuseio dos materiais e a troca dos mesmos com os outros colegas. 9) Canção pra embalar; Neste momento todos os pais ficam de pé com seus filhos no colo, canta-se uma canção de ninar e as crianças são embaladas. É um momento íntimo entre os pais e os filhos, e a música é cantada pelos participantes. Este momento serve para acalmar as crianças e preparar para o relaxamento. Normalmente pede-se que algum cuidador sugira a música que será cantada, levando em conta as músicas que o mesmo canta para sua criança no ambiente familiar.

10) Relaxamento; Todos se deitam no chão e uma música é tocada através de CD. É um momento para relaxar, e pode ser direcionado com uma indicação para massagem, por exemplo, ou pode ser totalmente livre. Este momento também é considerado a “hora do carinho”. 11) Canção de despedida; Todos voltam à posição inicial da aula e cantam uma música de despedida, utilizando os nomes das crianças. Este momento serve para marcar o término da aula. OBS: em todas as atividades cantadas, a professora sugere mudanças de andamento, intensidade, “brinca” com alturas, som, silêncio, entre outros conceitos musicais. Também é válido dizer que os alunos são educados a guardar os materiais após o uso, sendo este procedimento muito difícil nas primeiras aulas. Mas, à medida que vão sendo habituados com a rotina de atividades, vão devolvendo os materiais com naturalidade, na expectativa de receber outro material para a atividade seguinte.

Conceitos trabalhados

Segundo Piaget, até os dois anos de idade as crianças se encontram no período sensório-motor, sendo assim, as realizações dos bebês consistem em grande parte na coordenação de suas percepções sensoriais e em comportamentos motores simples. Os bebês passam a reconhecer a existência de um mundo externo a eles e começam a interagir com ele de maneiras deliberadas (COLE, 2004). Como se pode notar, através das atividades realizadas em aula, muitos conceitos são trabalhados e as crianças são estimuladas em diversos sentidos. Em relação aos conceitos musicais, as crianças vivenciam elementos como: pulsação, andamento, intensidade, alturas, som, silêncio, timbre, forma musical, exploração de sons através da execução de instrumentos e do próprio corpo, além de apreciação. Todos estes conceitos são trabalhados de forma intuitiva e lúdica.

Em relação a outras habilidades, as crianças trabalham: socialização, respeito, psicomotricidade, regras, reconhecimentos das partes do corpo, coordenação motora, entre outras coisas.

Algumas considerações importantes

O trabalho de musicalização para bebês visa uma continuidade no âmbito familiar. Portanto, é necessário que o professor incentive os pais ou cuidadores a realizarem as atividades em casa. Para isto, durante as aulas, o educador musical deve estimular os pais a cantarem e interagirem com seus filhos. Se isso for realizado com sucesso, é quase certo que o trabalho musical terá continuidade em casa, e que os conceitos trabalhados serão enfatizados e melhor aprendidos pelas crianças, além do que, a música poderá se tornar um forte elemento na relação entre pais e filhos.

Participação dos alunos e dos pais

Normalmente a participação dos pais ou cuidadores é muito ativa, no entanto, sempre há algumas exceções. Cabe ao professor estar sempre buscando alternativas para proporcionar o bom entrosamento entre pais e alunos no momento da aula. A participação das crianças também nem sempre se dá de forma ativa. É muito comum existir alunos que se mostram tímidos, que não participam da aula, ou ainda, que ficam correndo pela sala. No entanto, segundo relatos dos pais, estes mesmos alunos reproduzem em casa tudo o que foi aprendido durante a aula. Também existem aqueles alunos que se mostram tímidos nas primeiras aulas, e com o tempo vão se “soltando” e realizando as atividades. Contudo, também existem os alunos que participam ativamente desde a primeira aula.

Considerações finais

Através das discussões apresentadas neste artigo, é possível perceber que qualquer educador musical, que tenha afinidade e interesse por este assunto, pode estar apto a lecionar música para bebês. Basta ter paciência e ser sempre muito criativo e lúdico, buscando naturalidade na comunicação tanto com os pequenos quanto com os pais. Também é necessário que o professor esteja sempre atento às necessidades dos alunos, e que as atividades sejam condizentes ao desenvolvimento dos pequenos, tomando cuidado suficiente para não gerar possíveis frustrações para as crianças e seus pais.

Referências

BEYER, E. A construção do conhecimento no projeto "Música para Bebês". III Seminário de Pesquisa Região Sul ANPED, 2000, Porto Alegre. Anais do III Seminário de Pesquisa Região Sul (ANPed). Porto Alegre : UFRGS/PPGEDU, 2000. v. unico.

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COLE, Michael e COLE, Sheila. O desenvolvimento da criança e do adolescente. 4ª edição. Trad. Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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ILARI, B. Bebês também entendem de música: a percepção e a cognição musical no primeiro ano de vida. Revista da ABEM, Porto Alegre, 2002. p. 83-90;

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OLIVEIRA, A. Educação musical e diversidade: pontes de articulação. Revista da ABEM, n. 14, Porto Alegre, 2006. p. 25-34.

SUZIGAN, G. O. & SUZIGAN, M. L. C. Educação Musical – Um fator preponderante na construção do ser. São Paulo: G4 Editora, 2003.