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CANTO GREGORIANO A Palavra Cantada

CANTO GREGORIANO A Palavra Cantada As origens, a forma, a prática e o poder terapêutico do

As origens, a forma, a prática e o poder terapêutico do Canto Gregoriano

“Pode-se afirmar que o Canto Gregoriano nos propõe modelos acabados de música viva, logo humana, logo indefinidamente atual e susceptível, portanto, de satisfazer às aspirações das almas sedentas de espiritualidade profunda”. (M. Le Guennant, Diretor do Instituto Gregoriano de Paris).

Preparação do texto e produção digital:

Luiz Edgar de Carvalho

MENSANAPRESS Publicações digitais Há maneiras de ler que são maneiras de ser Abril, 2016

Canto Gregoriano

A Palavra Cantada

As origens, a prática e o poder terapêutico do canto gregoriano.

I. Bem-vindos ao canto gregoriano

II. Uma pequena história do canto gregoriano

III. O caminho da devoção

IV. A maneira de interpretar o canto gregoriano

V. O poder curativo do canto gregoriano

VI. A vida do canto gregoriano

I. BEM-VINDOS AO CANTO GREGORIANO

Bem-vindos ao Canto Gregoriano A Palavra Cantada. Um curso? Não, propriamente. Mas apenas uma simples apostila que apresenta as fontes históricas e litúrgicas do canto gregoriano. Ex- plica também como e de que modo o canto gregoriano pode nutrir-nos espiritualmente e transformar as nossas vidas, de forma irresistível, com os seus tons simples, puros e tranquilos, interpretados sempre “a capela”. Dom Eugène Cardine, monge beneditino e gregorianista francês, que viveu de 1905 a 1988, dizia que o canto gregoriano é, de fato, música essencialmente vocal, ou, melhor dizendo, palavra cantada. Vamos conhecer alguns dados sobre as origens, a história, a forma, a prática e o poder tera- pêutico do canto gregoriano. Esta parte pode ser ilustrada com músicas interpretadas pelo coro dos Monges Beneditinos de São Domingos de Silos na Espanha. As músicas gregorianas são sempre cantadas em latim. Os cantos se sucedem a intervalos re- duzidos, somente com o espaço de respiração, de modo a manter a atenção do ouvinte durante toda a execução. Algumas músicas são relacionadas com certos eventos religiosos: Puer natus est nobis, et filius datus est nobis: cuius imperium super humerum eius. Faixa 1. (Partitura no final). “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado”. Algumas rememoram antigas escrituras hebraicas: Os justi meditabitur sapientiam, et lingua eius loquetur judicium. Lex Dei eius in corde ipsius. (Partitu- ra no final). A boca do justo exprime sabedoria, e sua língua proferirá julgamentos sábios. É tam- bém motivo de regozijo ouvir a canção do peregrino que se aproxima das portas da cidade santa:

Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi: in domum domini ibimus. Alegrei-me quando me disse- ram: vamos à casa do Senhor. Se quisermos receber e sentir a música do canto gregoriano, ela nos chega facilmente e sem qualquer esforço. Precisamos apenas ouvir cuidadosamente o seu suave crescendo e diminuendo. O seu som agradável é resultado de uma prática consciente. Nunca é invasiva e nos dá calor e clarida- de. O canto gregoriano nos estimula a parar e repousar, a desfrutar não somente a melodia amorá- vel, mas também o silêncio de onde ela veio e para onde gradualmente retorna. Os cantos são sempre interpretados em perfeito uníssono, cada nota é clara e límpida, marca- da pela ausência de qualquer harmonia que poderia distrair-nos. Não há momentos de clímax que se façam esperar com ansiedade e aos quais retornaríamos emocionalmente exauridos. Em vez disso, a linha musical é sustentada, alimentando nossa vida emocional interior, sem excitar nossos sentimen- tos superficiais. Se não conhecemos bem o texto, é difícil saber exatamente a nossa reação. Talvez a mensagem seja a de que devemos reagir de modo algum, mas nos contentar em relaxar na presença serena e elevada que a música desperta.

Em virtude de sua estreita ligação com as sagradas palavras das Escrituras e com a prática re- ligiosa, o canto gregoriano tem o poder de conduzir a mente e o coração a níveis mais profundos de existência, tanto do ouvinte quando do intérprete. A música proporciona este alto nível de consciên- cia devido à prática cuidadosa e dedicada do canto através dos séculos, principalmente pelos mon- ges e freiras em seus conventos. A espiritualidade e a autenticidade que se percebem nos cantos derivam, em grande parte, do modo de vida deles e da sua interpretação em atitude de devoção a Deus.

Nos dias de hoje, nos mais diversos ambientes, a música é encontrada de forma tão fácil e a- bundante, para a maioria das pessoas, que a achamos perfeitamente natural. Escutamos música am- biente nos consultórios médicos e dentários, enquanto esperamos ser atendidos, ou no aeroporto, enquanto o avião se prepara para decolar. Imaginem fazer exercícios aeróbicos sem alguma música energética nos estimulando! Nas estações terminais de ônibus, metrôs, trens e mesmo dentro das composições, a música ambiente está presente tornando mais tolerável a espera e transmitindo um sentimento de ordem e contentamento. Onde quer que estejamos, ouvimos sempre música de fundo, usada com objetivos cujo limite é a nossa imaginação. Ligamos e desligamos a música quase sem pensar, às vezes inconscientes do efeito benéfico ou maléfico que ela pode nos causar. Quanto ao canto gregoriano, é uma música da qual podemos participar, não só ouvindo, mas entoando, cantando, no sentido em que repetimos seus sons prolongados, geralmente simples vogais de uma nota singela. Todas as tradições da fé têm sons disponíveis, que mantêm e encarnam seus ensinamentos sagrados e que têm o poder de propiciar maior devoção e estados mais elevados de

consciência. Muito mais atenção está sendo dedicada à prática desses sons, tanto pelo seu conteúdo devocional quanto pelo seu poder transcendental e até mesmo curativo.

Já ultrapassamos as portas do segundo milênio e estamos ainda no limiar do terceiro. Como

indivíduos estamos procurando sabedoria e espiritualidade. Há uma sede, não somente de novas idéias ou de algo mais para ver e observar do exterior, mas por algo que possamos realmente viven- ciar.

A fim de aproveitar completamente o que o canto pode nos oferecer, temos que reservar al-

gum tempo para nos acostumarmos a uma mentalidade bem diferente da nossa. Tanto na arte, como na arquitetura e na adoração medievais não havia nada puramente arbitrário, isto é, sem um sentido prático. O artista, o compositor ou o devoto seguiam padrões e rituais que eram determinados pela

arte sagrada do número. Observando-se o plano do pavimento de uma catedral gótica, vê-se que a sua aparente complexidade e a sua originalidade resultam da repetição de um padrão simbólico úni- co.

Na numerologia medieval, o número sete representava o acontecimento completo, a união das forças divinas e terrenas. A oitava musical, com seus sete intervalos (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó), era uma ilustração perfeita da forma como todos os acontecimentos eram estruturados. Se cantar- mos ou tocarmos esta escala, podemos ter uma idéia de como era vista esta progressão. é o co- meço, a idéia inicial forte que determina toda a ascensão. é a nota que marca o primeiro passo titubeante em direção à realização da idéia. Aqui é fácil desistir, a nota pode perder sua firmeza e voltar ao . A qualidade do mi é agradável. O primeiro passo foi dado e sabemos que a subida é possível, talvez até aprazível. Neste ponto da oitava atinge-se um degrau diferente dos dois anteriores, de a , e de a mi. Embora o passo seja perceptivelmente menor, é necessário um esforço real para continuar. Se pensarmos no modo como a palavra Amém se apresenta musicalmente (e de volta a mi), pode-se observar a circunstância de que o , de certo modo incisivo em qualidade, pode ainda retornar ao

ou pode subir

ponto de partida, isto é, para baixo, mi, e eventualmente ainda mais baixo, para mais.

A qualidade do sol é completamente diferente. Trata-se de uma nota brilhante e triunfante. O

que fora antes incerto, agora se resolveu. Há muita energia e entusiasmo impelindo-nos a prosse- guir. O sol, referido como a nota dominante da oitava, é extremamente forte.

A oitava continua com o , uma nota que perde um pouco do brilho que era evidente com o

sol. Aqui, o direcionamento para o alto é indiscutível, mas existe também uma forma de resignação:

“Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. No si, não existe a possibilidade de retorno. O , no topo, está chamando, e o si, reconhecen- do a sua total inabilidade de resolver a oitava com suas próprias forças, aceita a compaixão e a gra- ça oferecidas do alto e faz a união completa com o dó, que ressoa com o dobro do número de vibra- ções por segundo que tem o de abertura. A oitava então está completa. O que quer que tenha sido planejado na sua origem atingiu a perfeição. (Cantar a música Dó domingo um lindo dia ) Na Idade Média, a oitava era vista pelo povo, não somente como um meio de governar o de- senvolvimento da música, mas como um instrumento capaz de determinar a seqüência correta de todos os acontecimentos significativos. Tudo era feito de acordo com as leis, que eram tidas como inerentes à própria natureza do mundo. Podemos falar e pensar sobre a fascinante numerologia tão onipresente na visão do mundo medieval e isto é muito útil para a nossa compreensão. Entretanto, há algo mais que escapa ao nosso entendimento: o sentido da presença evocada pela arte e pela liturgia consciente da Idade Média. Há nas melodias do canto gregoriano uma qualidade que desafia qualquer explicação. Nossas tentativas modernas para compreender bem tudo, de que é exemplo veemente, para o

bem e para o mal, a linguagem vernacular empregada na celebração da missa moderna, podem ter o efeito de cortar a nossa experiência religiosa antes que ela floresça plenamente. É fato notório que a fachada é apenas uma parte da história. Para os iniciados e talvez o som seja a nossa porta de en- trada haverá sempre mais alguma coisa a ser experimentada. Jesus lembrou isto aos seus discípu- los quando disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Seria muito importante entrarmos de corpo e alma no mundo medieval para encontrarmos as fontes históricas e litúrgicas do canto gregoriano. Isto exigiria muito mais tempo do que o que nós dispomos aqui. Entretanto, vamos apresentar uma pequena história desse canto, destacando alguns pontos e também alguns dos personagens que contribuíram para que ele chegasse até os nossos dias como um canto sempre antigo, mas sempre novo e belo.

O fato singelo mais importante é que o canto gregoriano é uma música litúrgica, concebida

para expressar as palavras das sagradas escrituras judaicas e cristãs. O canto gregoriano nos trans- mite o Espírito Santo transfigurado em música. Ouvir os monges do Mosteiro Beneditino de Santo

Domingo de Silos cantando a Sequência “Veni, Sancte Spiritus”, (Partitura no final) faixa 19. Um momento de rara beleza que devemos agradecer-lhes por partilharem conosco este sublime privilé- gio musical.

II. UMA PEQUENA HISTÓRIA DO CANTO GREGORIANO

“Et hymno dicto exierunt in montem Oliveti”. – “E depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras”, assim contam os Evangelistas Mateus (26,3 e Marcos (14,26) Já se compenetraram do que querem dizer as três primeiras palavras? Ouçam o lindo comen- tário do Cônego ratisbonense Pedro Griesbacher, uma das maiores notabilidades musicais (1933). Foi na primeira Quinta-Feira-Santa que nasceu a Liturgia católica, servindo de canção de berço ao Hino, criança-prodígio, que, de certo, também o Salvador, como celebrante, cantou entre os seus apóstolos, nesse timbre de baixo, sublime, consolador e tranquilizador que, na Paixão, o cantochão litúrgico atribui a Cristo. Quanto não daríamos para termos esse hinoem palavras e música, ritmo e melodia, coro e solo, com a clareza e nitidez com que, hoje, as conquistas técnicas nos permitem fixar cada som, com precisão fonográfica, para todo o futuro! Temos apenas indícios históricos de que, com certeza, se tratou do Hallel (Sl. 113-118), todo ou em parte, ou, então, do grande Hallel (Sl. 134-136)". É de supor que esse canto de salmos, ao todo, com a sua intonatio, mediatio, finalee reci- tação do texto, foi, mais ou menos, idêntico à nossa salmodia de hoje, embora esta, no correr dos tempos, tenha recebido sua forma definitiva pelos tons eclesiásticos que surgiram sob a influência da teoria musical dos gregos. Com o texto dos salmos do Antigo Testamento era preciso que entras- se na liturgia cristã também o modo de cantar dos judeus.

Será fantasia de escritor? Ora, ainda hoje a Igreja lembra em seu Ofício da Semana Santa, mediante o alfabeto hebraico, a origem sinagógica das admiráveis Lamentações de Jeremias, cujo canto salmódico consegue comover profundamente. Os apóstolos exortaram diretamente os cristãos a cantar. Assim, Paulo, em sua Epístola aos Efésios (5,18-19): Enchei-vos do Espírito Santo; entretendo-vos com salmos, hinos e cânticos espi- rituais, cantando e salmodiando nos vossos corações ao Senhor.Cantaram, diz Griesbacher, sob a direção dum precantor, tão necessário então como hoje, e apoiados, em breve, num coro de cantores, para o qual já as Constituições apostólicas deram pres- crições. Cantaram, além dos salmos, os canticatirados da S. Escritura, a saber: o Cantemus Domino, de Moisés; Benedicite, dos três Jovens; Benedictus, de Zacarias; Magnificat, de Nossa Senhora; Nunc dimittis, do velho Simeão. Remontam também a tempos antiquíssimos as melodias do Pater Noster e do Prefácio da Missa, mostrando, apesar de suas formas mais ricas, parentesco real com a salmodia e as lamentações. Assim foram criadas as primeiras formas de música sacra, aqueles “hinos”, dos quais talvez várias melodias suaves, na moldura da liturgia eclesiástica, se abriram caminhos através dos séculos. Em resumo, o cantão gregoriano é uma verdadeira jóia. Não uma jóia qualquer, mas uma do mais fino quilate, do mais alto valor, uma obra-prima das mais belas artes que o mundo conhece.

O uso do latim: É preciso uma pequena explicação para o uso da língua na qual os textos e- ram (e são ainda) cantados: o latim. Na Palestina, a liturgia da igreja primitiva continuou a usar o aramaico, a língua falada por Jesus. Entretanto, quando os apóstolos começaram a pregar os ensi- namentos de Jesus em outros lugares, foi adotado o grego, que era a língua internacional da época. Muito flexível, o grego era apropriado não apenas para contar as histórias da vida de Jesus, mas também dotado de rico vocabulário técnico para a doutrina e a organização das comunidades primi- tivas. O evangelista Marcos escreveu para a comunidade romana em grego, e o apóstolo Paulo tam- bém escreveu suas epístolas aos romanos nesta língua. Não era o grego clássico, mas o coiné, a lín- gua vernácula dos pequenos comerciantes, viajantes, colonos e outros que haviam sido expulsos de seus lares, a oeste do império romano, pelas guerras ou por motivos econômicos, e haviam-se esta- belecido nas grandes cidades ou nos portos do Ocidente. Foi em meio a esta gente humilde que o Cristianismo encontrou os seus primeiros convertidos. O Reino de Deus havia sido prometido aos pobres e tinha um enorme apelo para esta gente simples. No meio destas comunidades de gregos ou cristãos bilíngües, aumentou muito o número de convertidos que falava o latim. Este latim falado era uma combinação de grego e latim, incompre- ensível para os que não pertenciam à mesma fé. Era repleta de palavras tomadas tanto do grego co- mo do latim, como atestam os antigos textos das escrituras. Muitos dos termos gregos foram sim- plesmente transliterados e tornavam-se parte do latim cristão. Apostolus, angelus, baptisma, eccle- sia, Kyrie Eleison etc, são alguns dos termos que ainda encontramos nos cantos. Com o decorrer do tempo, este latim que refletia os hábitos de linguagem dos primeiros con- vertidos a quem o evangelho era pregado, foi lentamente ganhando precedência e nova dignidade. Conhecido como vulgata, isto é, vulgar, do povo, passou a ser usado nas escrituras e na liturgia, causando um profundo efeito nos cristãos romanos mais educados e mais cultos. São Jerônimo, um intelectual, responsável pela tradução de uma versão da Bíblia grega para o latim, no fim do século IV, deixou inalterados muitos dos “vulgarismos” dos velhos textos. Sua tradução, conhecida como Vulgata, passou a ser usada, na sua forma revista, como a versão autorizada da Igreja Católica Ro- mana.

A criação da língua latina vernácula, usada nos cantos, ocorreu num longo período de tempo e envolveu pessoas de origens diversas. Nasceu assim, uma língua eclesiástica, de caráter ecumênico,

e aceita pela comunidade cristã, espalhada numa grande área geográfica, da Itália à França, Espanha

e sul da Inglaterra. Esta língua tornou-se consistente devido ao ir-e-vir constante de missionários e outros representantes da Igreja.

Alguns personagens marcantes dessa história do canto gregoriano.

Santo Ambrósio: (340-397). Arcebispo de Milão. Teve um papel de suma importância tanto no desenvolvimento da Igreja como no da sua música. Grande estadista eclesiástico, a Santo Am- brósio é creditado o fortalecimento da Igreja contra as crenças pagãs e heréticas, e a afirmação do seu poder em questões religiosas, até mesmo contra o próprio imperador. Ambrósio introduziu na Igreja ocidental o canto de hinos e salmos de forma antifônica, o solista versus a congregação ou a congregação dividida. Ele mesmo compôs diversos hinos, alguns dos quais autenticados e usados até hoje.

São Bento ou Benedito de Nórcia: Depois da queda de Roma em 476, os visigodos se ex- pandiram pela França e conquistaram a Espanha. A Itália caiu nas mãos do general bárbaro Odoa- cro, que se livrou dos imperadores. Como conseqüência, o barbarismo se espalhou pela Europa. A Igreja permaneceu como a única instituição estável num mundo confuso e caótico. Entretanto, uma luz brilhante iluminou esse período São Bento de Nórcia que, em 520, consagrou o famoso mos- teiro de Monte Cassino, no sul da Itália. Ali, ele fundou a ordem dos monges que tem o seu nome, os beneditinos. A Regra dos Mosteiros, por ele escrita, para instrução e educação dos monges, reve-

la sua preocupação com todos os aspectos da vida, desde a observância religiosa ao trabalho manual necessário para cuidar das necessidades físicas da comunidade. Particularmente relevante para a historia do canto é o fato de que Bento estabeleceu o Ofício Divino oito cultos diários , celebra- dos durante todo o ano. Note-se que ele dividiu o dia numa “oitava” de cultos, separados por sete intervalos de várias atividades. De novo vê-se como o pensamento musical informa, guia e estrutura

a vida monástica.

Papa Gregório I: (c. 540-604). Deu seu nome ao repertório do canto ocidental. Era um líder enérgico da Igreja, tanto em matérias eclesiásticas como civis, e um escritor prolífico. Não se sabe ao certo se ele era compositor ou cantor. De fato, diz-se que em dado momento ele repreendeu seus diáconos por cantar na liturgia, dizendo-lhes que seriam mais úteis pregando e cuidando das almas do que granjeando elogios com suas vozes. Gregório é representado recebendo a música dos cantos do Espírito Santo, simbolizado por uma pomba pousada no seu ombro e sussurrando no seu ouvido. Pelo que se sabe da sua carreira, imagina-se que ele não escrevia música, mas comentários bíblicos. Nascido de família romana nobre e rica, Gregório recebeu excelente educação latina. Treina- do para a carreira política, em 573 foi prefeito de Roma. Entretanto, inspirado pelo exemplo de Bento de Nórcia, renunciou ao seu posto, distribuiu sua herança e fundou um mosteiro beneditino. Mais tarde, a Igreja reconheceu seu talento político e administrativo, ordenando-o diácono de Roma

e núncio apostólico em Constantinopla. Em 590 ele foi elevado ao Papado. Gregório escreveu muito e sua influência foi imensa. Recebeu o título de Doutor da Igreja, partilhado com Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Jerônimo. É improvável que Gregório haja composto qualquer canto que ostente o seu nome. Mais provavelmente, eles nem foram escritos sob sua supervisão, embora alguns possam ter sido adotados sob sua autoridade. O repertório do canto

gregoriano, como hoje o conhecemos, não poderia ser o trabalho de um só indivíduo. Em vez disto,

é o resultado de um processo cumulativo de evolução que se estende por vários séculos. A maior habilidade de Gregório não foi seu trabalho com a música por si, mas sua habilidade em propagar a fé cristã através do Império Romano, até lugares longínquos como a Bretanha. Pelos seus muitos dotes como escritor, diplomata, administrador e homem de fé, seu nome se perpetuou pela sua associação com o canto ocidental.

Cluny: A Abadia de Cluny, na Borgonha (França), ocupou uma posição central na Cristanda- de, desde a sua fundação, no ano de 910, e por todo o período medieval. Finalmente, a Revolução Francesa destruiu o seu poder. A abadia foi concebida como uma instituição sob a liderança absolu- ta do seu abade, e nem os bispos nem o poder temporal podiam interferir de qualquer forma nas suas atividades. Ela era diretamente ligada à Igreja Católica de Roma e veio à luz num tempo em que os centros de ensino, fundados pelos mosteiros e pelas catedrais carolíngias (De Carlos Magno), se encontravam em franca decadência.

Sob a direção de uma admirável sucessão de abades, a influência de Cluny se estendeu, sobre- tudo, pela França e Espanha. Ela representa uma das principais contribuições para a arte romanesca. Mantendo astutamente a sua independência dos imperadores, reis e bispos, aderindo a um código estrito, a ordem dos beneditinos de Cluny tornou-se um farol de reforma numa Igreja cujo poder temporal havia corrompido o espiritual.

A intensa atividade ritual, guiada por uma diligente procura da perfeição, teve um efeito mar-

cante na celebração da missa e no modo como era cantada.

O canto comedido, pausado, uniforme ressoava acima dos contrastes, sendo esta interpretação

usada desde o século XI. Este estilo, divulgado e cantado maravilhosamente pelos monges, tem uma qualidade mais doce, mais celestial, talvez etérea. Este estilo teve, sem dúvida, muitas causas, mas é significativo que, enquanto ele se consolidava na música litúrgica, a literatura vernácula também

estava se desenvolvendo. Surgiram delicados poemas e canções de amor, divulgados por repentistas e trovadores, menestréis e poetas ambulantes, que iam de castelo em castelo cantando o seu repertó- rio. Ao mesmo tempo, espalhou-se pelo Cristianismo o culto da Virgem Maria, no Oriente e no O- cidente. Existe, sem dúvida, uma qualidade feminina neste novo estilo, que o faz contrastar com a música proporcional até então dos primeiros tempos, uma qualidade que pode ser mais apreciada quando se ouvem músicas como Ave mundi spes Maria ou o Salve Regina, interpretadas pelos monges. Os livros de cantos eram usados, até então, pelos regentes, apenas para refrescar a sua memó- ria, antes e talvez durante a própria execução; os cantores não precisavam destes livros, uma vez que o canto estava nas suas mentes e nos seus corações e era deles extraído pelas mãos do regente. Os cantos eram aprendidos de ouvido e nunca olhando para o texto escrito. As melodias e suas tona- lidades eram conhecidas, sabidas de cor, e apenas tinham que ser extraídas dos intérpretes, pelo regente, através do uso cuidadoso da gesticulação. Os livros continham apenas os textos litúrgicos e certos sinais musicais colocados acima de cada sílaba, fáceis de interpretar. Veremos alguns destes sinais depois. No fim do século XII, o repertório do canto havia aumentado tanto, que não podia mais ser guardado de memória. Tornou-se cada vez mais necessário escrever os tons, passando-se a usar um novo sistema de escrita musical com sinais quadrangulares, conhecidos como neumas, escritos so- bre uma pauta de quatro linhas. Este canto passou a ser cantado em ritmo uniforme, no qual cada nota tem aproximadamente a mesma extensão, sendo indivisível, e a acentuação textual se faz notar mais pelas nuanças de inter- pretação do que pela extensão. Este estilo, que predominou a partir de então, logo ganhou adeptos nas igrejas e nos últimos oito séculos tem sido considerado como sinônimo de canto gregoriano.

A Abadia de Solesmes: Muitas das transcrições dos primeiros cantos gregorianos foram rea- lizadas no mosteiro beneditino de Saint-Pierre de Solesmes, na França. Datando do século XI, mas destruído pela Revolução Francesa, o mosteiro foi novamente fundado em 1830 por Dom Prosper Guéranger, um homem que se dedicava apaixonadamente à restauração das melodias autênticas e do modo de interpretar os cantos gregorianos.

O primeiro livro moderno de cantos foi completado em Solesmes em 1856, depois que muitos

estudiosos brilhantes da liturgia e da história da Igreja juntaram-se para a realização da tarefa. Du- rante o último quarto do século XIX, os paleógrafos de Solesmes se esforçaram diligentemente para

que seu trabalho fosse aceito oficialmente pelo Vaticano, o que finalmente veio a ocorrer em 1904. Hoje, o trabalho continua, e visitantes de todo o mundo vão a Solesmes ouvir a grande música que dele resultou. Um dos maiores legados de Solesmes é a publicação da Paleografia Musical, uma série de livros com reproduções fotográficas dos principais manuscritos de cantos do século X ao século XIII.

O Canto Gregoriano, hoje, tomou a forma de cantar à maneira de Solesmes. Move-se leve e

suavemente, nunca lentamente. As notas são basicamente iguais em extensão, e indivisíveis. Algu- mas podem ser ligeiramente alongadas ou reduzidas, com nuanças de uma sílaba aparecendo mais do que a de outra. Como o ritmo do canto não era mensurável em compassos, a partir do século XIII ele passou a ser chamado cantus planus, “cantochão ou canto plano.

O movimento gótico, em arco, do canto uniforme, pode ser compreendido pelos gestos. Em

vez de indicar cada nota, a mão do maestro descreve arcos menores e maiores no ar. Um pequeno movimento circular da mão compreende duas notas, um movimento mais largo compreende três notas, e assim, com gesticulação cuidadosa, chamada quironomia,, os cantores conseguem interpre-

tar em uníssono.

É admirável como melodias singelas, contidas numa tessitura de oito notas, e não contendo

batidas ou padrões rítmicos regulares e repetidos, constituam o acompanhamento indispensável da liturgia por centenas de anos. Talvez seja a sua própria simplicidade a responsável pela sua extraor- dinária permanência. Nelas, os modestos meios musicais são usados para ressaltar, jamais para rou- bar, a atenção da expressão mais completa da Palavra, as próprias Sagradas Escrituras. Cabe registrar aqui que grande parte das melodias e, principalmente das sequencias, foi criada por poetas, compositores, instrumentalistas e cantores anônimos. Como autores célebres e de mérito real, registram-se, ainda hoje, os nomes de Tuotilo (915), Ratpert (884), Notker Balbulus (912), Notker Physicus (981), Notker Labeo (1022), Hermannus Contractus (1054). Representam a orien- tação pela qual se celebrizou o Mosteiro beneditino de S. Galo, o romanticismo do canto gregoria- no. Os autores das sequencias eram festejados em toda a parte, e tiveram a satisfação de ver entrar- lhes as composições nas cortes, nos burgos da nobreza e em todas as camadas do povo. Da imensa

popularidade das seqüências dizem os “Analecta Hymnica", que publicam nada menos de 4.500. São as respectivas festas que imprimem o cunho às sequências ainda em uso: Victimae Pas- chali laudes, de Wipo de Borgonha (1050); Veni, sancte Spiritus, que se atribui a Hermannus Con- tractus; Lauda Sion, sobre as maravilhosas palavras de Santo Tomás de Aquino, musicada por Adão de São Vitor (1192); - Stabat Mater que deve a conservação, provavelmente, ao lirismo inexcedível dos versos; a melodia é do beneditino D. Jausions (1868); Dies irae, que impressiona tanto pelo texto quanto pelas melodias; o poema pertence às grandes obras da literatura mundial.

III. O CAMINHO DA DEVOÇÃO

A Igreja sempre estabeleceu uma distinção entre o culto particular as orações, a leitura das

escrituras e as meditações realizadas pelo indivíduo e o litúrgico, que é celebrado de forma comu- nal. A liturgia, derivada da palavra grega que significa “função pública”, é o culto formal celebrado por uma comunidade religiosa, que se reúne para expressar suas graças a Deus. O aspecto comunal é de suma importância, pois não se completa apenas com a ação do celebrante no altar, mas com a atenção coletiva dos fiéis, o que dá à liturgia o seu poder restaurador.

O Ofício Divino: Em um mosteiro, há uma estreita relação entre a liturgia e os acontecimen- tos da vida diária. Esta relação sagrada é descrita em detalhes por São Bento, na sua Regra para os Mosteiros. Nenhum aspecto da vida individual ou da vida na comunidade é esquecido neste manual conciso e direto, que trata do caminho beneditino para Deus. A interpretação dos cantos pelos bene- ditinos é parte integrante da Regra e está intimamente ligada ao seu modo de vida. O fato central da vida monástica era a Opus Dei “O Trabalho de Deus”, que consistia na obrigação de se reunir em horários determinados, para orar e louvar a Deus, resumindo-se no lema “Ora et labora” (Oração e Trabalho). Estes períodos são conhecidos como Ofício Divino ou Horas Canônicas. Os monges se

reuniam oito vezes por dia para cantar salmos, ouvir a leitura das escrituras e oferecer suas orações para que a presença de Cristo, invocada na missa, fosse recordada e conscientemente mantida.

É importante notar que havia sete serviços de dia e um de noite. Os monges não apenas can-

tam a música, mas sua vida se torna música dentro da sinfonia universal. Nisto não há monotonia. Ao contrário, há uma melodia com mudanças constantes de intensidade, tonalidade e o tom forneci- do pelas várias atividades oração, estudo e trabalho. As mudanças do horário do dia, pelo relógio do Ofício Divino, bem como as mudanças das estações, ambas naturais e litúrgicas, relacionam-se com as oitavas dos ciclos universais.

São Bento se refere à sacralidade do número sete, que na numerologia medieval representava a união do céu e da terra, os três componentes da Trindade Pai, Filho e Espírito Santo reunindo- se e habitando os quatro elementos do Universo ar, fogo, água e terra. Mais ainda, o número sete pode ser visto nos sete dias da semana, nos sete planetas, nos sete primeiros anos, onde se diz que a criança atinge a idade da razão, as sete idades do homem, do nascimento até a morte, e assim por diante.

A organização dos ofícios, como prescrita por São Bento, tinha a seguinte ordem: Matinas,

ainda durante a madrugada; Laudes, logo antes do nascer do sol; as horas Prima, Tércia, Sexta e Nona, que aconteciam entre seis da manhã, nove da manhã, meio-dia e três da tarde, ajustando-se conforme as estações do ano; estas horas eram seguidas pelas Vésperas, ao pôr-do-sol, e Completas, antes de se retirar para deitar. A cada serviço cantavam-se salmos e outras músicas, hinos, poemas

de natureza devocional, de sentimento mais popular do que os salmos e contendo maior apelo rítmi- co; e cantigas e canções do Novo Testamento. Cantavam-se passagens proclamadas das escrituras bem como respostas e orações.

A celebração da missa: Apesar da importância do Ofício Divino na vida do mosteiro, o foco principal era a celebração regular da missa, o centro para o qual todos se voltavam. A missa era vista tradicionalmente como uma experiência viva. Na Idade Média, os membros das comunidades não freqüentavam os cultos pensando que aprenderiam alguma coisa nova ou diferente. De fato, é

improvável que muitos entendessem a liturgia da missa, pois era proclamada em latim, uma língua estranha para a maioria. Mas, independentemente de conhecerem ou não a língua, o fato de que eram participantes voluntários fazia com que todos ficassem fascinados pela própria estrutura das cerimônias. Nesses momentos, dois ingredientes fundamentais eram precisos: a fé do participante e a ab- soluta graça de Deus. Não sendo uma ocasião para uso do intelecto, a missa era o momento de in- vocação da misteriosa presença de Deus através de graças e louvores.

A missa se inicia com uma introdução musical, chamada Intróito, ou canto de abertura, anun-

ciando o tema particular da missa que será celebrada no dia, incutindo nos crentes o espírito de ado-

ração e ao mesmo tempo anunciando as cerimônias que se seguirão.

O intróito é uma peça musical muito difícil, que muda a cada missa, normalmente executado

por um grupo de cantores. Desde o início da missa procura-se criar uma atmosfera na qual todos os sentidos serão solicitados ouvem-se textos das Sagradas Escrituras, vêem-se os movimentos sim- bólicos do celebrante, degustam-se o pão e o vinho oferecidos na comunhão, sente-se o odor do incenso usado para purificar o ar, tocam-se as mãos uns dos outros e oferece-se o abraço quando os fiéis desejam “a paz do Senhor”. A liturgia era um drama, elaboradamente criado, e que proclamava aos fiéis não apenas o aspecto externo da vida de Cristo, mas também o seu significado interior. Através do mistério da missa, operava-se uma transformação profunda e misteriosa na vida dos fi- éis.

Ao Intróito, seguia-se o Kyrie Eleison, uma oração pedindo a misericórdia do Senhor, cantada três vezes pela congregação. Seguia-se o Gloria in Excelsis Deo, derivada da canção dos anjos aos pastores na época do nascimento de Jesus. Depois vinha uma oração cantada pelo celebrante e ade- quada para o dia de festa particular celebrada naquela data, e de acordo com o calendário litúrgico. Com esta oração encerravam-se os ritos de entrada, o estado de consciência fora da Igreja. Depois vinha o Ofício da Leitura, incluindo textos do Antigo e do Novo Testamentos. Antes da leitura do Evangelho, havia vários tipos de respostas musicais para as escrituras já lidas, o Gra- dual, assim chamado porque o cantor se colocava nos degraus do altar para cantar; o Aleluia ou o Trato, também cantados pelos cantores mais experientes, eram, o primeiro, uma alegre canção de oração, o último, o substituto nas ocasiões de luto ou penitência. O Aleluia e o Trato, ambos partes do Próprio, as partes mutáveis da missa, tendiam a ficar cada vez mais longos com o decurso do tempo, tornando-se mais e mais elaborados. Adicionava-se também a Seqüência, um hino de natu- reza popular e que estendia ainda mais o Aleluia em certos dias de festa. A leitura do Evangelho era seguida de um Sermão (Homilia). Então vinha o todo-importante Credo, ou profissão de fé, cantada pela congregação.

O momento mais sagrado da missa era preparado cuidadosamente pela liturgia do Ofertório,

um processional cantado pela scholam cantorum enquanto o pão, o vinho e outras oferendas, “traba- lho de mãos humanas”, eram levados ao altar. Seguia-se a Oração Eucarística, constituindo no Prefácio, cantado pelo celebrante, e pelo

Sanctus, cantado pela congregação, fazendo uma ponte com o Cânon, a parte mais sagrada e imutá- vel da missa, lida pelo celebrante em voz baixa, enquanto a congregação observava um profundo silêncio. Ao término do Cânon, todos respondiam com um sonoro Amen, indicando anuência e a- clamação. Começava então o Rito da Comunhão com o Pater Noster, a oração que Jesus ensinara aos seus discípulos, oferecida pelo celebrante. (Cantar o Pai Nosso )

A congregação cantava o Agnus Dei, uma oração pedindo paz e misericórdia. O Kyrie Elei-

son, o Glória, o Credo, o Sanctus, e o Agnus Dei, pertenciam ao Ordinário da missa, as partes imu-

táveis. Durante a Comunhão, a schola cantava um pequeno texto, ou antífona adequada ao dia, se- guido de um salmo, enquanto os fiéis seguiam em procissão para a o altar a fim de receberem o sa- cramento. Na parte final, o diácono cantava as palavras Ite Missa est, “Ide, estais dispensados”, a que todos os fiéis respondiam Deo Gratias, “Graças a Deus”. No ano 1000, a missa tomou a forma que descrevemos e continuou a ser assim celebrada, em latim, por mais de 900 anos, desde os tempos carolíngios até o Concílio Vaticano II, na década de

1960.

Com o passar do tempo, o número de serviços aumentou e muitos dias festivos em honra aos santos ou à Virgem Maria foram acrescentados. Criou-se o ano litúrgico com um calendário pró- prio, com seus vários ciclos temporais: Natal, Quaresma, Páscoa, Pentecostes e o Tempo Comum.

A ano litúrgico fornecia mais que a variedade do texto escrito e a música que o acompanhava.

Sua natureza cíclica oferecia uma oportunidade renovada de participar das celebrações como se elas

acontecessem no mesmo dia dos serviços litúrgicos. O tempo litúrgico assim insistia que o evento estava acontecendo no exato momento de rememoração ou da celebração. Explica-se porque nume- rosos cantos começam com a palavra hodie, “hoje”. Nos eventos do ano litúrgico, os fiéis experi- mentavam, pessoalmente, a história sagrada, à medida que esta se desenrolava. Os cantos, parte essencial destas celebrações, motivavam e avivavam a experiência e a esperança dos fiéis.

O que se esperava era a reprodução mental e espiritual dos acontecimentos trazidos pela litur-

gia, fazendo de Cristo uma presença real e disponível para toda a comunidade cristã.

IV. A MANEIRA DE INTERPRETAR O CANTO GREGORIANO

O som da voz. A voz humana é um instrumento magnífico. Constitui uma parte tão íntima, tão pessoal e característica, que nossos amigos são capazes de nos identificar ao telefone ouvindo pouco mais de uma sílaba. O som da voz pode ser confortante e consolador, mas pode também nos destroçar. Podemos iniciar uma conversação por vários motivos: para divertir ou nos divertir, para dar ou receber informações, satisfazer nossa vontade, encontrar companhia e apoio; entretanto, há muita coisa acontecendo além do nosso conhecimento. Quando estamos doentes ou quando nos sentimos solitários, o tom do que se diz é tão importante quando as palavras. As palavras podem nos alimentar. A voz de um amigo que nos fala de forma carinhosa, encorajadora e positiva pode ter um enorme efeito reanimador. No som da voz encontramos uma rica fonte de informações, que freqüentemente perdemos, pois nos concentramos no conteúdo da conversação. A voz é o barômetro das nossas condições físi- cas, emocionais e mentais. Ela revela o estado de nossa saúde e da nossa energia; guarda o reserva- tório da nossa vida emocional, indicando os nossos sentimentos presentes, nossas atitudes em geral, e em particular a situação em que nos encontramos. Ela também conserva, de certa forma, as nossas experiências passadas. O tom da nossa voz informa nosso estado geral de atenção e compreensão. Ela diz se estamos agitados ou se nosso estado é pensativo e queremos meditar. Ela reflete as nossas companhias intelectuais e sociais. Em resumo, a voz é o repositório de tudo que acumulamos, dos hábitos mais arraigados às nossas mais altas aspirações.

Em adição à tonalidade e ao volume, a voz tem velocidade e medida. Algumas pessoas falam muito depressa, com os pensamentos tropeçando e se sobrepondo. Outras precisam de muito tempo para fazer sair a mensagem. Cada som tem, também, o seu timbre, que é a qualidade particular que

o distingue dos demais. Estas qualidades são variáveis e sujeitas a mudanças de acordo com o nosso estado mental, emocional e físico.

A audição. De vez em quando prestamos atenção ao tom de voz, deixando que ele nos infor- me o sentido real das palavras. Ouvir a entonação da voz de alguém, como ouvir a sua própria, é um esforço delicado. Não se trata de simplesmente escutar, pois a audição é basicamente uma atividade passiva. É mais um esforço para focalizar a nossa atenção no tom de voz, sem nos distrair pelos nossos próprios pensamentos, ou pelas coisas que acontecem em nosso ambiente. Se estivermos interessados no que se estiver dizendo, será mais fácil. Se a conversa for maçante, pensamos logo em outras coisas mais interessantes e estimulantes. Às vezes é difícil, especialmente quando esta- mos sobrecarregados de tarefas, interromper a nossa atividade e dar à audição a atenção que ela merece. Continuamos ocupados enquanto a outra pessoa nos fala, e como resultado não escutamos nem o conteúdo nem a entonação do que ela diz, mas ouvimos uma espécie de eco na periferia da nossa mente. Não é de admirar que esqueçamos tais conversas e cometamos erros em nosso traba- lho quando outra pessoa está falando.

A escuta atenciosa requer presença de espírito e uma cabeça fresca e tranqüila. Quem se dedi-

ca diariamente à meditação descobre que esta prática permite atingir um estágio de serenidade que ajuda a melhor executar suas atividades ao longo do dia. Aqueles que tiveram contato com o canto gregoriano também percebem que ele tem o efeito de estimular a audição e acalmar a mente. Inici- almente, é necessário um pouco de tranqüilidade para este tipo de música. Mais tranqüilidade surge como resultado de nos integrarmos a ela.

A conscientização para a audição é importante para a nossa saúde e o nosso bem-estar. Há

uma forte tendência, na maioria das pessoas, de se deixar absorver completamente por certos pen- samentos, às vezes a ponto de que determinadas idéias fixas induzam a um estado patológico. O simples exercício de sentar-se sossegado, numa postura correta e confortável, e tomar conhecimento dos sons audíveis, à medida que eles se apresentam, é de muita ajuda neste sentido. Comece com os sons que estão mais próximos do aposento onde você se encontra, e lenta- mente expanda a sua atenção para abranger uma área maior toda a casa, a vizinhança em torno, a comunidade. Não estabeleça limites de até onde você pode ouvir. Não deixe que comentários sobre

a experiência o distraiam do sentido da audição. Este simples esforço de ficar atento terá como efei- to a abertura do espaço em sua mente. Ter este espaço disponível, voluntariamente, é bastante útil para tomarmos conhecimento do mundo e para ouvir o canto gregoriano.

Escutando a nossa própria voz. Falando ou cantando, nos sentimos muito vulneráveis. Sem entendermos como isto acontece, temos consciência de que a voz revela muito de nós. Temendo que a voz nos exponha demais mais do que desejamos que os outros saibam a nosso respeito , nos escondemos quando falamos, fazendo com que o som termine a alguns palmos do nosso nariz. Certas vezes nos recusamos a usar a voz e permanecemos em silêncio, quando uma palavra poderia ser uma dádiva para alguém necessitado. Mesmo depois de anos de experiência, muitos oradores ou cantores profissionais ainda sentem ansiedade no palco. A boca fica seca e as pernas tremem. Tão forte e aparentemente tão normal é nossa identificação com a nossa voz, que, quando jo- vens, desenvolvemos uma extrema sensibilidade às críticas a seu respeito. É um triste fato que mui- tos adultos se confessem incapazes de entoar uma simples nota, atribuindo esta inabilidade para fazer uma coisa natural e desenvolver uma atividade agradável ao fato de lhes ter sido dito, quando crianças, que não tinham voz, que não deveriam cantar, só silabar as palavras pior ainda, que eles arruinariam todo o conjunto se suas vozes fossem ouvidas. Essas impressões dolorosas da infância podem calar fundo e produzir efeitos danosos duradouros e profundos, a ponto de algumas pessoas ficarem incapacitadas até de tentar cantar.

A maioria das pessoas não escuta o som da sua própria voz quando canta ou fala. Temos pro- va disso todas as vezes que não conseguimos lembrar o que acabamos de dizer! Talvez sejamos precipitados, saltando por cima de nós mesmos, na corrida louca de colocar tudo para fora. Talvez fiquemos confusos com tantas idéias, algumas brilhantes, outras não, que nos bombardeiam de for- ma mais ou menos contínua. Pode ser também que tenhamos a impressão de que ouviríamos no som de nossa voz certas coisas que não desejamos. De qualquer modo, temos a impressão de não ouvir o som de nossa voz no momento em que falamos. Ouvimos o eco de como seria, com certo atraso, se conseguimos ouvir alguma coisa. Se nós não temos vontade de ouvir nossa própria voz, por que alguém se incomodaria em escutá-la?

Purificando o som e o coração. Apenas ouvindo o som da voz de alguém é fácil ficar atrás do som e se unir a ele. Neste sentido, a prática de cantar ou vocalizar vogais simples como A (aaa), I (iii) e U (uuu), de forma suave e em qualquer tom, pode ajudar. À medida que cantamos e conti- nuamos a ouvir o nosso som, vamos percebendo que ele se modifica. Os sons estranhos que nos rodeiam desaparecem gradualmente e as notas se tornam mais claras e mais puras, mais bonitas. Há uma crescente consciência do que está sendo cantado, um brilho e um estado de alerta que não eram tão aparentes antes. O som se torna vivo porque alguém está presente observando e cuidando dele. No ensino espiritual oriental, o canto ou a enunciação repetida de certas frases sonoras, cha- madas mantras, têm o poder de limpar a mente das camadas de pensamentos superficiais o que comi no café da manhã, que carro vou comprar, que filme gostaria de assistir e tornar a mente mais receptiva aos chamados interiores do espírito. No contexto do cristianismo, o canto repetido das palavras dos salmos tem o mesmo efeito, dando repouso à mente de suas divagações habituais e penetrando no reino íntimo do coração, onde as intenções e a vontade poderão ser purificadas.

Audição consciente. Audição atenta e refinada é coisa rara. Saber ouvir é uma arte. Bons ou- vintes não consideram que o fato de alguém lhes falar seja uma interrupção ou uma intrusão em algum tipo de agenda preestabelecida. Ao contrário, vêem nisto uma oportunidade não só de ser útil à pessoa que lhes pediu atenção, como também de exercitar esta atividade de maneira mais consci- ente que mecânica. É necessário a crença de que a audição, por si mesma, valha o esforço, e que haverá, de fato, tempo para cuidar de todos os assuntos urgentes. Em suma, saber ouvir é uma dádi- va de nós mesmos e do nosso tempo, um serviço desinteressado para o próximo. O ensino espiritual sempre ressaltou que toda criação tem um som e uma vibração própria e única. Como ouvintes conscientes, podemos perceber, mais e mais, o que o Universo tem a nos di- zer, pelo simples ato de ouvir. Podemos aprender a apreciar todos e cada um dos sons o cricrilar dos grilos, o ruído de um computador que é ligado, os gritos das crianças brincando lá fora, na rua. Podemos ouvir os sons que as pessoas fazem ao lavar os pratos, ao subir as escadas, ao fechar a porta do carro. Podemos também oferecer a dádiva da nossa completa e irrestrita atenção quando alguém nos dirige a palavra. Portanto, toda ênfase deve ser dada em nossos poderes de ouvir e cantar o canto gregoriano. A razão disso é que os monges cantores são gente como você e eu, sujeitos às mesmas confusões e distrações; no entanto, há uma diferença, foram chamados a cantar para a glória de Deus, até oito vezes por dia. Precisamos apreciar a intenção e o esforço necessário para cantar desta maneira, para termos alguma compreensão de como os próprios monges são treinados para o canto.

A prática do canto. O canto gregoriano sempre é entoado como um ato de adoração. É uma oração, seja no contexto da missa, nas horas canônicas, e uma interpretação das Escrituras, de acor- do com a tradição da Igreja. O canto propriamente dito segue uma linha melódica singela e não tem acompanhamento. É interpretado de modo simples, em uníssono e sem vibrato verbal indevido. A qualidade despojada da música presta-se a um foco de atenção concentrada para participantes com- pletamente dedicados ao ato de adoração que ele representa.

Na Igreja do Ocidente, o canto não se limitou ao ambiente monástico. Desde o princípio, ele fazia parte do culto congregacional nas igrejas paroquiais e nas catedrais. Todas continuaram a usá- lo, até as drásticas mudanças que se seguiram ao Vaticano II. Não é preciso que os intérpretes os monges ou as freiras sejam cantores profissionais. De fato, é preferível que eles não possuam a sofisticação vocal que caracteriza a voz artística imposta- da. Em seu cantar há um sentido de medida, governada, não pelo indivíduo e sua competência vo- cal, mas pelo esforço unido do grupo como um todo. O importante é que todos cantem no mesmo tom, respirem ao mesmo tempo, sustentem as vogais e articulem as consoantes finais de modo uni- do e no momento certo. A prática e o treinamento são indispensáveis, e, em alguns casos, pode levar quatro anos até que o noviço esteja pronto para participar integralmente. É preciso aprender a ouvir não apenas as notas musicais, mas também os espaços entre elas. Tem que se aprender como fazer uma caixa de ressonância, não apenas da boca e da garganta, mas de todo o corpo. Algumas passagens das Escri- turas a serem cantadas podem ser bem longas, e os cantores têm que saber controlar o fôlego de forma sustentada. Para todos esses atos, a postura deve ser correta. O fundamento do canto gregoriano é a lectio divina diária (a leitura orante da Bíblia), uma parte intrínseca da vida religiosa. O propósito não é ler um texto longo, mas fazer uma leitura pro- funda. Escolhe-se uma passagem curta, em geral dos Salmos ou do Evangelho. A leitura pode ser feita individualmente ou em grupo. Primeiro, é necessário ler os versículos escolhidos, devagar e cuidadosamente, um certo número de vezes. Se essa leitura for feita em silêncio, as palavras serão repetidas para si mesmo quase sílaba por sílaba. Inicialmente, os textos são tratados como assunto de conversa, cada passagem provocando uma reação pessoal. As aplicações ou interpretações que vierem à mente são faladas e meditadas. Em nenhum momento se permite disputa ou discussão; qualquer que seja o resultado da leitura, este é gratamente recebido, e o processo continua. À medi- da que aumenta o conhecimento das passagens, o leitor é conduzido, mais e mais, a uma experiên- cia de oração. Não se trata de uma tarefa puramente intelectual, em que se fala com os personagens envolvidos, se participa do drama e se relata ou se ministram ensinamentos, mas sim de uma leitura que atinge o mais profundo das emoções. Leva-se mais em consideração a qualidade de um encon- tro direto com Deus ou com Cristo. Com o desenvolvimento da fé e da confiança, fruto da repetição continuada, a leitura aumenta a capacidade de gozar da presença de Deus, muito além de quaisquer conceitos, sentimentos ou atos particulares. Esses resultados permanecem, mesmo em meio a gran- de atividade. Para o monge ou a freira cantora, a compreensão intelectual do texto lido não é o úni- co objetivo desejado. Trata-se de uma experiência viva, uma realização dentro de si mesma, o exa- me da passagem que melhor informa a sua interpretação. A vida monástica propicia tempo não so- mente para a leitura das palavras sagradas, mas também para a sua absorção e integração interior: a interiorização da palavra de Deus. Nos mosteiros beneditinos observa-se a regra do silêncio, pela qual a comunidade se abstém de falar durante todo o dia ou uma parte dele. O objetivo desta disciplina é criar uma atmosfera na qual o controle da língua não é um problema, e a atenção completa pode ser dada a um único propó- sito: que a presença imanente de Deus se torne uma realidade viva. A tranqüilidade prevalecente fornece um ambiente para a interpretação do canto. Trata-se de uma presença palpável antes, duran- te e depois do canto.

O objetivo do canto. Em cada fato comum de nossa vida, seja o de pregar um prego, cuidar de uma criança ou tocar um instrumento musical, existe, além da pessoa que executa a atividade e as coisas ou pessoas relacionadas com a atividade, também um terceiro fator que determinará a qua- lidade do que está acontecendo. No caso do canto, há os cantores e a canção. O terceiro fator que se junta aos dois anteriores é a atitude dos cantores, sua reação íntima e pessoal no momento da músi- ca. Eles podem estar profundamente concentrados no que se passa, podem estar indiferentes, ou a meio-termo. Em qualquer situação, as pessoas podem estar distraídas, interessadas em ganho pesso- al, desejosas de obter alguma coisa para si, ou simplesmente cuidando do assunto presente.

A interpretação do canto gregoriano exige um terceiro ponto muito calmo e elevado. A músi- ca devocional pede o completo anonimato da parte dos cantores uma vontade de abandonar todas as preocupações pessoais, pelo menos durante os cantos. Qualquer falta de atenção à música, às palavras, à respiração, qualquer pensamento perdido ou distração, será percebido e perturbará a ex- periência de adoração. O cantar exige total presença de espírito, total ausência de amor-próprio, total obediência à vontade divina como revelada nas exigências da música. As pessoas de pouca fé podem não estar preparadas para este tipo de experiência. Cada vez que o canto gregoriano é cantado, trata-se, primordialmente, e sobretudo, de um ato de obediência e de fé. A música está ali para ser cantada, não floreada ou embelezada. O alvo é lou- var a Deus através da expressão musical das sagradas escrituras. Os cantores relatam uma experiên- cia semelhante a Deus cantando através deles, em vez de eles cantando para ou por Deus. Através da música eles são trazidos de forma mais clara à lembrança de sua fonte divina.

O efeito do canto. A característica prática desta música é a marca do absoluto anonimato. É

como se não houvesse um cantor, entretanto a própria música é cheia de presença. Durante o canto,

o tempo parece que se imobilizou e os sobressaltos da mente desaparecem, sobrevindo uma tranqüi-

la atenção, livre das preocupações e inquietudes mundanas. O som, em si mesmo, é cheio e rico, e ao mesmo tempo não é invasivo. Ele encarna todos os elementos do próprio Universo. Este bem aberto para o éter ou o espaço no qual ele repousa e é sustentado, é palpável como o ar suave do verão tocando as nossas faces. Com cada frase ele é criado do silêncio e volta ao silêncio, carregado nas ondas da respiração. Como o fogo, cada linha tem seu brilho e energia, uma força que é chama- da, se alça e então se entrega. Como a água, a música sobe e desce numa onde gentil de amor que lava, limpa e acaricia os nossos espíritos, deixando-nos flutuantes e revigorados. Como o cheiro da terra revolvida antes do plantio, ele é fresco e doce, um bálsamo suave para nossos espíritos.

V. O PODER CURATIVO (OU TERAPÊUTICO) DO CANTO GREGORIANO

A energia do som. O ouvido humano é de importância vital para estimular a atividade cere-

bral; em particular, ele serve para carregar de eletricidade o córtex cerebral. Portanto, uma pessoa

com deficiência auditiva é incapaz de receber a carga de energia fornecida pelo ouvido. Um ouvido bem afinado é capaz de estimular o cérebro e há mais ainda. A pesquisa moderna identifica dois tipos de sons, conhecidos como sons de “descarga”, que causam fadiga ao ouvinte, e os de “carga”, que dão energia e saúde e que têm o poder de restaurar a audição e recarregar de energia a mente e

o corpo. Os sons de cargas são ricos em altas freqüências, enquanto os sons de descarga apresentam baixas freqüências. Em experiências realizadas comparando-se várias línguas, em termos de seu campo de freqüência, isto é, seu potencial para fornecer certas cargas de energia para o cérebro, cientistas concluíram que, por exemplo, o inglês britânico apresenta freqüências particularmente altas, com um alcance de seletividade de 2.000 a 12.000 hertz, ou ciclos por segundo, enquanto o francês apresenta de 1.000 a 2.000 hertz, e o inglês americano de 800 a 3.000 hertz. Quando se fala ou se canta, não é tão importante ter a voz em tonalidade aguda para aumentar a geração de sons de alta freqüência. As altas freqüências no inglês britânico são devidas ao número de sons explosivos e ao modo geralmente cortante de falar. Em contrapartida, colocando-se um osciloscópio para medir as ondas sonoras do canto grego- riano, verificou-se que ele contém todas as freqüências do espectro vocal, aproximadamente de 70 a 9.000 hertz, mas com uma curva envolvente diferente da fala normal. Os monges cantam em tom médio o de barítono mas, devido à unidade e à ressonância, suas vozes produzem ricos semitons de alta freqüência. São estes tons agudos, especialmente na freqüência de 2.000 a 4.000 hertz, que dão carga elétrica ao cérebro. Isto traz, em conseqüência, que, recebendo uma dose diária de energi- a, pode-se experimentar uma sensação de calma e tranqüilidade.

Estas energias são muito reduzidas, em termos mensuráveis. Imagina-se que sejam de nature- za sutil. Não é o conteúdo energético, isto é, a medida em watt-segundos, ergs, ou qualquer outra medida utilizada , que importa, mas a informação que ela carrega. A maneira pela qual se recebe a energia através do som é que atua parcialmente, como um sinal, o qual, mediante a complexa orga- nização do corpo humano e seus campos de energia, serve para equilibrar a distribuição de energia no corpo. O resultado é um sentimento de ganho ou perda de energia, dependendo de como estas energias são redistribuídas dentro dos centros. Do ponto de vista do ouvinte, há mais um ponto a ser analisado. Recebemos energia quando ouvimos o canto gregoriano, mas ao mesmo tempo sentimos calma e tranqüilidade. Isto porque po- demos participar dos mesmos padrões de respiração profunda e pacífica, quando os monges estão cantando as longas linhas melismáticas do canto gregoriano. A maioria dos textos e melodias do canto gregoriano pode ser encontrada no Líber Usualis, o livro de cantos das liturgias da Igreja Ca- tólica Romana. Este livro foi substituído pelos Graduale Romanum, Líber Hymnarius e Líber Anti- phonarius, ainda no final da década de 60. Infelizmente, estes livros não estão mais sendo publica- dos. Em meu “Manual de Canto Gregoriano”, publicado pela Paulus, infelizmente também esgota- do, foi colocada uma pequena antologia de cantos gregorianos. Alguns desses cantos encontram-se gravados nos discos dos monges de São Domingos de Silos e de Solesmes. É bastante interessante tentar cantar junto com os monges. É uma experiência gratificante, mesmo que você só leia a músi- ca para discernir que a melodia sobe ou desce de nota a nota. Irá surpreender-se ao descobrir que é como se estivesse cantando precisamente ao mesmo tempo em que se escutam as vozes no disco. Um pequeno milagre de simultaneidade uma experiência de se perder a noção do tempo , carac- terístico do canto gregoriano.

Atenção e som. Uma das maneiras mais poderosas pelas quais o som tem efeito sobre nós é a capacidade de nos interiorizar. Certas músicas prendem a nossa atenção, permitindo-nos uma fusão completa com elas. Se estivermos bem atentos ao som, somos por ele arrebatados, livrando-nos da dor, da tristeza, da agitação e da confusão. Aqueles familiarizados com a prática da meditação reco- nhecerão o mesmo efeito, quando escutam e seguem o som do seu mantra ou palavra sagrada. Pela repetição, a mente se concentra e se enfoca. Não estamos mais em estado de confusão conosco, cor- rendo de um pensamento a outro ou de uma sensação a outra. Podemos até achar que, como resulta- do de entrarmos mais e mais profundamente no centro do som, o nosso corpo se endireita e nos sen- tamos de forma mais confortável. O som ocupa um espaço calmo, seguro, do qual não queremos sair. Como se não houvesse qualquer diferença entre o ouvinte e a canção, ambos partilham da mesma unidade. Quando isto acontece, o tempo se imobiliza. Não mais conscientes do passado e do futuro, sentimos a plenitude do momento presente. Quando ouvimos o canto com atenção, o equilíbrio do corpo e da mente ocorre de modo natu- ral, como resultado direto da suspensão de todos os esforços, menos os necessários para nos man- termos concentrados no som. Um profundo sentimento de paz nos envolve. A música e o som representam uma forma sutil de alimento, pois não nos nutrimos somente de comida, mas também de ar e de impressões. A digestão, a respiração e o processamento de im- pressões são fortemente interligados. Do equilíbrio destas funções resulta uma boa distribuição de energia aos centros apropriados. O uso eficiente de alimento dentro do corpo é obviamente depen- dente do oxigênio trazido pelo sistema respiratório. Igualmente importante é o efeito do sentido das impressões na operação da digestão e da respiração. A linguagem popular reconhece esta ligação quando se diz que uma certa impressão tira o nosso fôlego ou estimula o nosso apetite. Um elemen- to importante da boa saúde é a manutenção de um equilíbrio adequado entre estas funções. O canto exige uma fina coordenação e sincronia entre a respiração e a audição. Quando ouvimos o canto, caímos facilmente no seu ritmo e partilhamos destes benefícios.

O efeito do som. Diz-se que vivemos numa cultura visual. O fato é que vivemos também nu- ma atmosfera cheia de sons. Só que perdemos a consciência deste ambiente de som. Entretanto, estamos constantemente expostos ao incessante ruído de aparelhos eletrônicos: computadores, lu- zes, amplificadores, motores e assemelhados.

Além disso, escutamos toda a sorte de barulhos sirenes, ônibus, aviões, motores, cortadores de grama, sem contar os alto-falantes gritantes e a música berrante propagando-se das janelas dos automóveis. Calcula-se que milhões de pessoas vivem, trabalham, ou se divertem na proximidade de música com volume perigosamente alto. Está comprovado que a música tocada com volume e- xagerado, ou muito perto do ouvido, causa substancial perda de audição. O que ouvimos também é importante. Isto está se tornando cada vez mais óbvio. Realmente, o som é importante. Ele tem o poder de alterar a forma de certos materiais inertes, como limalha de ferro, gotas d‟água, bolhas de sabão etc. Quando submetidos a uma variedade de

sons, à medida que estes sons mudam, estes materiais passam por uma série de padrões variados, de grande beleza e complexidade.

O efeito do som sobre organismos vivos também está devidamente comprovado. Estudos já

realizados mostram que as árvores aumentam sua produção sob a influência da música. Como rea- ção à música tocada, algumas plantas cresceram na direção oposta aos alto-falantes. Com certas músicas, algumas plantas até murcharam e morreram. Os seres humanos também são, obviamente, muito sensíveis ao que ouvem. Embora tenhamos cinco sentidos, ou cinco grupos de órgãos, através dos quais entramos em contato com a realidade exterior, enfrentamos esta realidade de três modos: intelectualmente, emocionalmente e ativamente.

Estes modos constituem a base tradicionalmente aceita para a formação da personalidade, que se considera como sendo orientada dentro de três grandes correntes de atividade física: intelectual, emocional e motora. Cada uma delas é associada numa relação psicossomática com a localização do corpo, que aparentemente evoca uma ressonância. É claro que o centro somático destas funções não pode ser localizado com exatidão, mas a linguagem popular, sempre viva e direta, fala da cabeça, coração e tripas neste sentido. A observação é bastante simples e elementar, entretanto profunda. Esta organização fornece um modelo prático e útil, fundado com vigoroso bom senso e informada por uma aguda observação psicológica, resultado da prática de séculos. Ela pode se desenvolver em fino instrumento de auto-análise, bem como para adquirir conhecimento sobre o comportamento de outrem.

A música que ouvimos é, primordialmente, recebida num centro emocional, intelectual ou de

atividade, embora qualquer música contenha todos os elementos. Agindo repetidamente naquele centro, ela transmite sua qualidade à nossa personalidade.

Nas marchas militares, costumamos ouvir uma música que inspira força e coragem, dirigindo- se, portanto, ao centro de atividade e emocional. Algumas músicas de rock and roll, que fazem a pelve girar, dificilmente se elevam acima da cintura. O amor e a devoção, que obviamente falam ao centro emocional, são fortemente evocados pelos próprios cantos. A música barroca de Bach, Händel ou Vivaldi, por exemplo tem um forte componente intelectual e se relaciona com a cabe- ça, embora o ritmo afete o nosso princípio ativo, e seu timbre e sua sonoridade afetem as nossas emoções. Parece que a música de Mozart alimenta os três princípios.

É interessante notar que a língua, falada ou cantada, é formada de sons consonantais e vocáli-

cos. As consoantes possuem a maioria das informações, a inteligência da palavra, enquanto as vo- gais têm a cor e o aspecto emocional do sentido. As vogais constituem o resultado da vibração pro- duzida pela corrente de ar nas cordas vocais e nos órgãos da fala. Estes sons, por sua vez, ressoam nas cavidades corporais em localizações específicas. Articulando as vogais U, O, A, E e I, é fácil verificar que o U ressoa na base da espinha dorsal; o O, na barriga; o A no peito ou no coração; o I na garganta e o E no meio da cabeça, de forma que o U e o O são ligados ao princípio ativo, o A ao emocional, o E ao intelectual e o I participa tanto no intelectual como no emocional. Assim, estas vogais têm o poder de afinar estes princípios com os órgãos a eles ligados. As consoantes (que significam “soar com”) são simplesmente usadas para começar e inter- romper os sons vocálicos. Elas limitam e formam os sons, tornando-os inteligíveis. O latim é rico em vogais e este fato contribui para a qualidade emocional do canto gregoriano. Isto se torna parti- cularmente aparente quando as vogais são cantadas sobre muitas notas, como nas passagens melis- máticas.

A ressonância criada nos corpos dos cantores pelo canto dessas vogais forma semitons altos

em freqüência que têm um efeito estimulante. São os sons carregados de energia de que falamos antes.

Seria difícil pensar em uma música que fosse mais equilibrada do que o canto gregoriano, su- bindo e descendo como o suave movimento das marés. Nem atraindo nem repelindo, ela permanece centrada num ponto de repouso e estabilidade. Ela não nos sobrecarrega com sentimento, mas nos convida a nos unirmos à devoção que ela evoca. Não há nada na música do canto gregoriano para nos fazer pensar ou nos incitar à ação. Em vez disso, ela nos traz alívio contra o excesso de idéias e de atividades, que nos exaurem e nos enfraquecem, fornecendo algo de vital importância: alimento para o coração (para A alma).

Som interior. Seria um erro considerarmos o som apenas como um fenômeno físico perce- bido somente pelo ouvido. Ouvimos também o som em nossas mentes, como eco do que já escuta- mos, ou como fragmentos dos nossos pensamentos e da nossa imaginação sons sutis, talvez, mas sempre sons. Melodias, vozes, jingles de publicidade e conversações se repetem sempre. Todos os dias escutamos este barulho. Esses pensamentos repetidos e recorrentes permanecem relativamente despercebidos. Nós nos damos conta deles quando nos preparamos para dormir. Reconhecemos a melodia com característica mecânica e tentadora, que se repete em nossos pensamentos todo o dia, ou a conversação que tanto ensaiamos e nunca realizamos. Todos esses sons e músicas estão sendo tocados continuamente em nossa cabeça, um tipo de orquestra sutil e discordante, nunca ouvida por ninguém, senão por nós mesmos. Por vezes paramos para ouvir esta bagagem sonora interna e em certas ocasiões a mandamos para outro lugar, para que fique quieta. O importante é saber que tais sons, bem ou mal, servem como anteparo para qualquer experiência que se apresenta em nosso caminho. Como óculos escuros, eles podem mudar comple- tamente a percepção do que está acontecendo diante de nós. Todos os dias podemos escolher, até certo ponto, o que colocamos em nossas mentes, o que chamarão nossa atenção. Do ponto de vista da seleção de música, se desejarmos um ambiente tran- qüilo, agradável e razoável para a nossa vida, uma boa idéia é escutar o canto gregoriano.

O poder terapêutico do canto gregoriano. Do mesmo modo que se diz que o canto do man-

tra muda gradualmente o estado de espírito do devoto, o canto gregoriano é feito de modo a induzir respeito, reverência e gratidão entre os que o cantam ou o escutam. Ele age como uma proteção contra os pensamentos negativos, que podem invadir a nossa mente quando estamos desprevenidos.

O

efeito positivo do canto é amplificado através do trabalho da liturgia no ambiente monástico.

O

canto gregoriano é fundamentalmente uma atividade comunal e litúrgica que traz plenitude

às

comunidades que o praticam. Ele foi formulado quando o estado da sociedade era confuso, e teve

uma influência poderosa para restaurar a coesão e a estabilidade a todo aquele império. O canto gregoriano não foi criado para curar indivíduos portadores de qualquer doença em particular. Entre-

tanto, se a pessoa não se sente bem, a sociedade também não passa bem. O canto gregoriano é, antes de tudo, oração. Como tal, seu efeito depende da graça de Deus e das intenções da congregação:

cantores e ouvintes, celebrantes e fiéis, pois eles formam uma única comunidade no ato de adora- ção.

O efeito do canto é equilibrar a mente, as emoções e o corpo. Cantando ou ouvindo ativamen-

te o canto com atenção, sentimos o pleno e uma parte de uma plenitude maior. É precisamente esta

tendência à integração que constitui a bênção da cura. Abençoar é refazer a integridade, mas nem sempre abençoar significa curar completamente. O paciente agonizante pode receber a bênção da cura, mas não pode ser curado. Isto era bem compre-

endido nos primeiros hospitais e hospícios fundados no século XII. E é o que está sendo redescober-

to nos dias de hoje. Através do canto gregoriano, a dignidade, o respeito, a simplicidade, o contato

direto e o isolamento são trazidos a uma situação cultural escondida pela negação e pela indiferen- ça.

Este processo de bênção da cura começa com um desejo de plenitude, uma integração que é tão abrangente quanto seja permitido pelo estado de conscientização dos membros da comunidade. Este estado demonstra o grau de sua atenção, a força da sua fé, a perseverança dos seus esforços.É através dos seus corações abertos e generosos que este raio de compaixão, moldado pelo poder da tradição, e limitado apenas pelo poder de ouvir, se espalha por indivíduos e famílias, nações e toda a humanidade, para finalmente se tornar a comunhão ativa com toda a criação, de que fala São Fran- cisco de Assis. Nas suas palavras encontramos a culminância deste poder do amor, cultivado pelos cantos, ressoando com claridade e equilíbrio, numa escala global, trazendo paz e bênçãos até entre os elementos:

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento. Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água, que é mui útil e humilde e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual iluminas a noite. E ele é belo e jucundo e vigoroso e forte. Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.

Notamos, aqui e ali, um despertar de interesse pelo canto gregoriano. Talvez é chegado o momento de enfrentar nossos problemas de modo diferente, esquecendo os antigos e fracassados paradigmas de tantas guerras perdidas, seja a guerra contra a pobreza ou contra o crime. Talvez seja verdadeira a crença difundida, de que há um poder nos antigos cantos para domar as feras da intole- rância, da indiferença, da violência que sitiam as nossas sociedades, ou até para cuidar dos desabri- gados que estão se constituindo em nova classe social, uma nova ordem, uma sociedade ao lado da classe dirigente e da minguante classe dos que têm emprego. Os-que-não-têm e os-que-têm-tudo, e os-que-têm-o-que-os-que-têm-tudo-decidiram-conceder constituem, sem dúvida, uma nova ordem feudal para este novo milênio que está apenas começando. Se este despertar de interesse pelo canto gregoriano é indicativo de tendências futuras, talvez, com bastante persistência, esta nova geração tenha tanta sorte com suas belas canções, para constru- ir uma nova ordem, com homens e mulheres novos, convivendo em solidariedade plena uns com os outros.

VI. A VIDA DO CANTO GREGORIANO

Vimos até agora o canto gregoriano no contexto do seu ambiente filosófico e religioso e tra- çamos uma síntese da sua história através da Idade Média. Falamos do canto gregoriano como uma música devocional contendo palavras das sagradas escrituras usadas na missa e no Ofício Divino. Explicamos brevemente a sua construção e formação e o modo como é cantado, realçando a impor- tância de dar ao canto gregoriano a nossa completa atenção quando o escutamos. Vivemos numa sociedade onde as pessoas são levadas ao limite de sua resistência, e na qual há uma exigência constante de seus esforços. Somos assediados de todos os lados pelas obrigações do trabalho, o cuidado com os mais idosos, a educação dos filhos, as responsabilidades religiosas e civis. Enfrentamos, muitas vezes, uma situação em que não há descanso e o lazer é mínimo. As ta- refas se multiplicam e às vezes parece que não temos tempo nem para respirar. Em meio a tudo isso, perguntamos: será que música pode nos salvar? Então, ligamos a músi- ca. Qualquer música. Infelizmente, a maioria delas não contribuirá para mudar a nossa situação. Mesmo as músicas românticas, as clássicas ou as da “nova era” não serão suficientes e até poderão agravar a nossa agitação, aumentando a sensação de confusão e falta de objetivo. O que estamos precisando, em verdade, é de uma música que nos ajude a relaxar, muito em- bora não em demasia. É aí que o canto gregoriano pode nos ajudar. Se nos dispusermos a dar-lhe a atenção completa, o som de suas antigas e belas melodias nos levará a um lugar tranqüilo, mas cheio de vida, onde encontraremos o alívio que tão desesperadamente buscamos.

À medida que ampliamos a nossa esfera de percepção pela escuta consciente dos sons, expan-

de-se a amplitude do nosso ser e de nosso espaço. A corrida dos acontecimentos torna-se mais lenta. Pelo relógio, nada mudou, mas temos uma nova percepção do que está acontecendo. Subitamente, dispomos de mais tempo; temos mais e mais para usar. Para chegarmos a este estado de alerta e

receptividade é necessário um pequeno esforço: uma vontade de escutar, um espírito de participação ativa em vez de passiva. Se alguém é crente ou não e os que dizem que são, em todos os momentos e circunstâncias, são poucos e muitos têm dúvidas não é de importância primordial. Do mesmo modo que não pre-

cisamos acreditar em todos os princípios do hinduísmo para entrar no espírito e na intenção da ioga

e aproveitá-la completamente, além dos benefícios do seu salutar efeito no corpo e na mente, assim

deve ser a nossa participação na do canto gregoriano. Não é necessário ser um cristão praticante

para participar desta música, trata-se mais de uma questão de esquecer momentaneamente a incre- dulidade. Como alguém que vai à ópera ou a uma peça de teatro, temos de entrar em sintonia com a mesma onda e prosseguir para partilhar de uma experiência fundada na humanidade comum a todos nós.

O canto gregoriano nos chama, primordialmente e acima de tudo, para uma experiência de u-

nidade, a unidade que existe entre o cantor, o ouvinte e o próprio som. Ele nos convida a nos unir-

mos por alguns momentos no que essencialmente é um ato de adoração. Primeiro ficamos parados,

e então tranqüilamente e gentilmente o canto se alça. Somos levados juntos na crista de sua onda:

homens e mulheres celebrando a nossa humanidade e a nossa divindade. Quando a onda se quebra na praia, permanecemos alertas e em repouso. Experimentamos então o que Jacques Maritain define como sendo “a intercomunicação de todas as coisas, entre elas e nós, o fluxo criativo de onde vem toda a existência”. Para terminar este momento, ouvir com devoção o que pode ser considerado como dois dos mais belos exemplos da música gregoriana. São seleções cantadas pelos monges de São Domingos

de Silos nas faixas 8 e 12 do seu disco. Escutar a música ao mesmo tempo e será fácil seguir o cres- cendo e o diminuendo da melodia como escrita com os neumas na anotação tradicional.

O primeiro canto é Christus factus est pro nobis, (Partitura no final) faixa 12, o texto extraído

do Novo Testamento da Epístola de São Paulo aos Filipenses (2,8-9), é o gradual, ou responsório, para a epístola lida na missa na quinta-feira da Semana Santa. Ouçamos, com atenção.

Cristo tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremanei- ra e lhe deu o nome que está acima de todo nome.

A abertura do texto – “Cristo tornou-se obediente até a morte” – é cantada durante todo o dia

da Quinta-Feira Santa, ao final de cada uma das horas canônicas. Esta prática continua na Sexta-

Feira Santa, exceto que o versículo seguinte, “morte de cruz”, é acrescentado. No sábado de Alelui- a, quando toda a Igreja permanece em silêncio e respeito, esperando o dia da Ressurreição, o texto inteiro é cantado, acrescentando-se as palavras: “Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome”.

A canção de louvor começa de modo grave e solene, enfatizando que o sacrifício de Cristo foi

por ele aceito como exigido por Deus (obediens) e completou-se, até à morte na cruz. Tudo é decla- rado numa onde singela e equilibrada de sons. Então, depois de hesitar na palavra autem, “até”, co-

mo se temendo falar, a música decresce radicalmente para admitir que a morte foi vergonhosa, nu- ma cruz. O canto então se apressa em acrescentar, numa onda crescente de triunfo, que foi exata- mente por esta razão (propter quod) que Deus o exaltou (exaltavit illum) mais alto do que o madeiro onde ele foi supliciado, dando-lhe um nome e aqui a canção cai em respeito para entoar quod est super omne nomen, “que está acima de todo nome” e pertence a Deus, o nome que não pode profe- rido.

E vamos concluir apropriadamente com o começo. O exemplo musical, aqui, é o Intróito, ou

canção de entrada, da Missa de Pentecostes. O texto é tirado do Antigo Testamento, no livro da Sa- bedoria de Salomão, 1,7. Corresponde à faixa 8. Ouvir, com atenção.

O Espírito do Senhor enche toda a Terra, aleluia, e o que contém todas as coisas tem conhecimento da voz, aleluia, aleluia, aleluia. (Salmo) Levanta-se Deus; dispersam-se os seus inimigos; de sua presença fogem os que o aborrecem. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: como era no princípio, e agora e para todo o sempre através de todos os tempos. Amém. O espírito do Senhor

No contexto da missa, o Intróito sempre declara o significado profundo da festa celebrada. Aqui a música se alça com o Spiritus Domini replevit orbem terrarum, (Partitura no final) “o Espíri- to do Senhor enche todo o orbe terrestre” pairando acima da palavra replevit (enche) para demons- trar toda a extensão da plenitude. As notas permanecem iguais e acentuadas quando toda a Terra (orbem terrarum) se posta em atitude de respeito, pronta a receber. A resposta jovial Alleluia (lou- vado seja Javé) completa a cláusula musical. Cheio de profundo mistério, o texto continua “e tudo que contém todas as coisas tem conhe- cimento de sua voz”. A música é demonstrativa ad quod (a que) e expressamente redonda em omnia (todas as coisas) e preparatória para proclamar a consciência da voz pelo espírito (scientiam habet vocis). Um Aleluia tríplice é então cantado com uma alegria que tem tanto um sentido de alívio quanto de aceitação. Usando uma fórmula melódica antiga, os cantores então entoam o primeiro verso do salmo 68: “Levanta-se Deus; dispersam-se os seus inimigos; de sua presença fogem os que o aborrecem”. Segue-se uma doxologia, ou forma litúrgica de louvor, à Trindade, havendo um retorno à antífona inicial, “Spiritus Domini”. A festa de Pentecostes, aqui celebrada, nos traz a oportunidade de partilhar tudo que foi reali- zado, na sua expressão mais completa. A visão da criação, expressa por este canto, e pelo canto gregoriano de uma maneira geral, é a de que a vida da humanidade está cada vez mais se tornando a Vida Divina. Seu som é unificador, amorável e gracioso, apontando para a bênção e a plenitude. Cada vez que ouvimos o canto gregoriano, somos convidados a partilhar da música, não como estranhos que, de um tempo, lugar e tradição diferentes, escutam estas antigas canções, mas se co- locam longe delas. Ao contrário, devemos escutá-las como parceiros e companheiros, unindo às dos monges cantores as nossas próprias experiências, entoando em nosso coração as canções de louvor e de graças.

No caso de não ter o CD do coro dos Monges do Mosteiro Beneditinode Santo Domingo de Silos, acessar esse link no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=rJ2FWpgzcf8&nohtml5=False

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- Genuit Puerpera Regem (3:41)

- Ave Mundi Spes Maria (6:41)

- Occuli Omnium (11:03)

- Veni Creator Spiritus (14:29)

- Alleluia, Beatus Vir Qui Suffert (17:06)

- Os Iusti (20:20)

- Spiritus Domini (23:13)

- Kyrie Fons Bonitatis (27:03)

- Laetatus Sum (31:08)

- A Solis Ortus Cardine (33:29)

- Christus Factus Est Pro Nobis (36:34

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- Mandatum Novum Do Vobis (39:18)

- Pange Lingua Gloriosi (50:14) - Jacta Cogitatum Tuum (53:01) - Gloria XV (56:39) - Veni Sancte Spiritus (58:56) - De Profundis (1:01:41) - Salve Regina (Solemne) (1:03:17) - Kyrie Xi, A (1:05:52) - Salve, Festa Dies (1:07:03)

PUER NATUS EST NOBIS

PUER NATUS EST NOBIS Um menino nasceu para nós: um Filho nos foi dado! O poder

Um menino nasceu para nós: um Filho nos foi dado! O poder repousa nos seus ombros. Ele será chamado: “Mensageiro do Conselho de Deus”.

Cantai ao Senhor um canto novo, Porque ele realizou grandes maravilhas.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo:

Como era no princípio, agora e sempre Pelos séculos dos séculos. Amém. Repetem Um menino nasceu para nós

VENI SANCTE SPIRITUS

VENI SANCTE SPIRITUS Continua

Continua

Continuação

Continuação Vem Espírito Santo, e emite a radiância da tua luz divina Vem, pai dos pobres,

Vem Espírito Santo, e emite a radiância da tua luz divina Vem, pai dos pobres, cumulador de dádivas, luz dos corações. Ótimo consolador, doce hóspede da alma, doce refrigério. Descanso no labor, sombra no calor, alívio de nossas tribulações. Ó luz beatífica, enche profundamente o coração de teus fiéis. Sem tua luz, a humanidade é nada, nada é inofensivo. Lava o que sórdido, irriga o que é árido, cura o que está doente. Dobra o que está rígido, aquece o que está frio, corrige o desviado. Dá aos teus fiéis, que em ti confiam, os bens dos teus sete dons. Dá mérito à virtude, dá saúde no sucesso, dá alegria perene.

SPIRITUS DOMINI REPLEVIT ORBEM TERRARUM

SPIRITUS DOMINI REPLEVIT ORBEM TERRARUM Fonte G.R. p. 252 O Espírito do Senhor enche toda a

Fonte G.R. p. 252

O Espírito do Senhor enche toda a Terra, aleluia, E o que contém todas as coisas tem conhecimento da voz, aleluia, aleluia, aleluia. Levanta-se Deus e dispersam-se os seus inimigos:

De sua presença fogem os que o aborrecem. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo:

Como era no princípio, agora e sempre Pelos séculos dos séculos. Amém. Repetem O Espírito do Senhor

CHRISTUS FACTUS EST PRO NOBIS

CHRISTUS FACTUS EST PRO NOBIS Fonte G.R. p. 148 Cristo tornou-se obediente até a morte, e

Fonte G.R. p. 148

Cristo tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome.

CANTO GREGORIANO A Palavra Cantada

CANTO GREGORIANO A Palavra Cantada MENSANAPRESS - Publicações digitais Há maneiras de ler que são maneiras
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MENSANAPRESS - Publicações digitais Há maneiras de ler que são maneiras de ser Abril, 2016