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Vida e Atos Dos Apostolos - SCHUTEL, Cairbar Souza

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A chegada de Paulo em Atenas foi verdadeiro sucesso. Observando a cidade ilustre, com os
seus majestosos monumentos, tais como o Areópago, o Prytâneo, o Odeon, a Academia, o Liceu, e
muitos outros dos quais apenas se conserva a memória, as descrições dos antigos escritores: o
Partenon, os templos de Júpiter Olímpico, de Teseu, da Vitória, a porta de Adriano, o teatro de
Bachus e inúmeros deles, cujas ruínas os viajantes admiram, o Apóstolo revoltou-se dentro de si
mesmo, vendo aquele centro de civilização cheio de ídolos que davam idéia de uma cidade
fantástica.

O seu espírito de repulsa por essa religião aparente em que predominava uma ortodoxia
severa, chegou ao auge, e ele nas ruas, nas praças, discutia com os judeus e com os que temiam a
Deus, fazendo-lhes ver o modo errôneo de encarar a religião, materializando-a em seus
fundamentos principais e fanatizando os crentes a ponto de desprezarem o verdadeiro Deus para se
entregarem ao culto de estátuas.

A palavra do Apóstolo, como outrora a de Sócrates fazia-se ouvir de quebrada em quebrada
e estava na ordem do dia em Atenas, era assunto em todas as rodas, de palpitante atualidade, mesmo
porque, naquele tempo, os Atenienses e os estrangeiros que ali moravam não se ocupavam de outra
coisa senão em contar ou em ouvir alguma novidade.

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A fama de Paulo, em poucos dias, tornou-se tal, que filósofos epicúreus (5)

e estóicos (6)
contendiam com ele, sem poderem destruir a doutrina da Ressurreição dos Mortos e a Palavra de
Jesus Cristo, que a todos anunciava.
Uns acolhiam suas palavras, com boa vontade, outros, menos inteligentes, diziam: “que

quererá esse paroleiro?”.

Muitos lhe faziam perguntas, pediam-lhe que lhes explicasse que doutrina nova era aquela
que ele pregava. Ansiosos, desejavam mesmo conhecer os fundamentos da excelsa filosofia, que
manava como um jorro d'água dos lábios inflamados do novo Apóstolo, até que conseguiram levá-
la ao Areópago, o célebre monumento de Atenas, que era a sede de reuniões de magistrados, sábios
e filósofos.

Foi aí que Paulo, o Apóstolo da Luz, disse o seu grande discurso, peça oratória de
verdadeira inspiração de uma forma belíssima, de um fundo admirável, que realça a mais pura
espiritualidade.

O Areópago se achava repleto de assistentes, tanto de filósofos, como de crentes religiosos e
judeus, quando o Emissário de Jesus, erguendo-se, disse:
“Atenienses, em tudo vos vejo muitíssimo tementes aos deuses. Pois, passando e observando
os objetos do vosso culto, achei um altar, em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO.
Aquele, pois, que vós honrais, não o conhecendo, vos anuncio.
“O Deus que fez o mundo e todas as coisas que nele há, este, sendo Senhor do Céu e da
Terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tão pouco é servido por mãos
humanas, como que necessitando de alguma coisa; pois, é Ele só quem dá a todos vida, respiração,
e todas as coisas.

“E de um sangue fez toda a geração de homens, para habitar sobre toda a face da terra,
determinando os tempos já d'antes ordenados e os limites da sua habitação; para que buscassem ao
Senhor, se porventura o pudessem apalpar e achar; ainda que não está longe de cada um de nós,
porque nEle vivemos e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas
disseram: porque somos também Sua geração.
“Sendo pois geração de Deus, não havemos de cuidar que a Divindade seja semelhante ao
ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens.
“De sorte que Deus, dissimulando os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os
homens, e em todo o lugar, que se arrependam; porquanto tem determinado um dia em que com
justiça há de julgar o mundo com justiça por Aquele varão que destinou; dando certeza a todos
ressuscitando-O dos mortos”.

Paulo não pode prosseguir a sua oração. Tudo poderia ainda ser aceito em Atenas, menos a
ressurreição dos mortos. É aí que está a pedra de tropeço para os: religiosos. A imortalidade da
alma, a comunicação e aparição dos Espíritos, é difícil ser aceita por um povo materialista que julga
tudo terminar com a morte.

A grande luta que Paulo sustentou, foi justamente quando proclamou estes princípios
básicos da vida. As. perseguições que moveram ao grande Apóstolo foram justamente por ele
sustentar estes princípios. É o próprio Paulo que o declara diante dos sacerdotes e de todo o
Sinédrio, onde se achavam fariseus e saduceus: “por causa da esperança de uma outra vida e da
ressurreição dos. mortos é que me querem condenar”. (Atos XXIII, 6).
Não só pela palavra, como também em suas Epístolas, o Apóstolo fazia questão fechada da
Imortalidade e. comunicação dos Espíritos. Na 1a

aos Coríntios, cap. XV ele é bem explícito,
estendendo-se em considerações que atualmente o Espiritismo referenda e explica. Diz:
“Entreguei-vos primeiramente o que também recebi: que o Cristo morreu por nossos
pecados, segundo as Escrituras, e que apareceu a Cefas e então aos doze; depois apareceu a mais de
quinhentos irmãos de uma vez; depois apareceu a Tiago, então a todos os Apóstolos; e por último

5

Epicurismo: Doutrina sensualista, fundada por Epícuro.

6

Estoicismo – Doutrina de Zenon: é um sistema filosófico que faz consistir a essência de tudo num
fogo sutil que é, ao mesmo tempo, força e matéria. É uma doutrina racionalista.

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de todos apareceu também a mim como a um abortivo. Pois eu sou o mínimo dos Apóstolos, que
não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a igreja de Deus; mas pela graça de Deus
sou o que sou”.

Mais adiante ele diz:
“Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós
que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição de mortos, nem Cristo ressuscitou, logo
é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé, e somos falsas testemunhas de Deus. Se os mortos
não ressuscitam, nem Cristo ressuscitou, a vossa fé é vã. Se só nesta vida cremos em Cristo, somos
os mais miseráveis de todos os homens.
“Mas prevalece que Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dos que

dormem”.

“O que farão então os que batizam pelos mortos, se realmente os mortos não ressuscitam?”.
Falando do corpo dos “mortos”, diz:
“Há corpo animal e corpo espiritual, e com este é que eles ressuscitam”.
Esta Epístola é muito elucidativa e substanciosa. Recomendamo-la aos estudiosos.
Na 1a

aos Tessalonicenses Cap. IV, v. 13, diz:
“Não queremos que sejais ignorantes acerca dos que dormem, para que não vos entristeçais
como fazem os demais que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, assim
também Deus trará com Jesus os que nEle dormem”.
Não será, certamente, necessário nos estendermos em maiores considerações para
demonstrar que a base da crença é a imortalidade, a ressurreição, a vida eterna, tal como a pregavam
os Apóstolos.

Finalmente, resumindo o discurso do Areópago, vemos nele a condenação à idolatria, ao
culto das imagens, adotado hoje pela igreja de Roma, e a proclamação do Deus Vivo, único,
onipotente, revelação dada a Abraão, confirmada no Decálogo a Moisés, referendada por Jesus, e
proclamada aos quatro ventos, hoje, pelo Espiritismo.
E é só obedecendo esses preceitos que pode haver unidade de Espírito, pois, como diz o
próprio Apóstolo: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que é
sobre todos, por todos e em todos”. (Efésios, Cap. IV, v. v. 5-6).
Concluindo o capítulo vemos que o discurso do Apóstolo não deixou de produzir efeito,
operando diversas conversões, entre as quais Dionízio, o areopagista, e família.

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