NOTAS SOBRE CIDADANIA E MODERNIDADE* Carlos Nelson Coutinho** 1.

Foi-me sugerido desenvolver, nesta conferência, o tema das relações entre cidadania e modernidade. Ora, uma das características mais marcantes da modernidade -- ou seja, da época histórica que se inicia com o Renascimento e na qual, apesar das apressadas afirmações em contrário dos chamados "pós-modernos", ainda estamos hoje inseridos -- é precisamente a afirmação e expansão de uma nova concepção e de novas práticas da cidadania. Antes de mais nada, cabe lembrar que, sobretudo em sua acepção propriamente moderna, ocorre uma profunda articulação entre cidadania e democracia. Embora, no decorrer dessa conferência, eu me proponha a apresentar algumas determinações do conceito de democracia, tomarei como ponto de partida uma definição sumária e aproximativa: democracia é sinônimo de soberania popular. Ou seja: podemos defini-la como a presença efetiva das condições sociais e institucionais que possibilitam ao conjunto dos cidadãos a participação ativa na formação do governo e, em conseqüência, no controle da vida social. Há um importante conceito de Marx, hoje injustamente em desfavor (como, aliás, anda injustamente em desfavor o próprio marxismo), que é o conceito de alienação. Segundo Marx, os indivíduos constróem coletivamente todos os bens sociais, toda a riqueza material e cultural e todas as instituições sociais e

* Transcrição de conferência pronunciada na EMBRATEL, com transmissão em rede nacional de televisão executiva, em 20 de maio de 1994, num ciclo de debates sobre "Modernidade". Esta conferência foi publicada na revista Impresssa Praia Vermelha - Estudos de Política e Teoria Social. Vol. 1, n.1, set/1997, do Programa de Pós-Graduação da ESS/UFRJ e, também, no livro Contra a corrente ± ensaios sobre democracia e socialismo. São Paulo: Cortez, 2000, de autoria de Carlos Nelson Coutinho. ** Professor titular do Departamento de Política Social da ESS/UFRJ. Autor de vários livros e ensaios, publicou recentemente Marxismo e política. A dualidade de poderes e outros ensaios (São Paulo, Cortez, 2^ ed., 1996) e "Crítica e utopia em Rousseau" (Lua Nova. Revista de cultura e política, São Paulo, CEDEC, nº 38, 1996, pp. 5-30).

COUTINHO, C. N. Notas sobre cidadania e modernidade. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social, Ano 2, nº 3, dezembro de 2005 - ISSN - 1807-698X. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br

políticas, mas não são capazes -- dada a divisão da sociedade em classes antagônicas -- de se reapropriarem efetivamente desses bens por eles mesmos criados. A democracia pode ser sumariamente definida como a mais exitosa tentativa até hoje inventada de superar a alienação na esfera política. Desde Rousseau, o mais radical representante do pensamento democrático no mundo moderno, a democracia é concebida como a construção coletiva do espaço público, como a plena participação consciente de todos na gestação e no controle da esfera política. É precisamente isso o que Rousseau entende por "soberania popular". Um dos conceitos que melhor expressa essa reabsorção dos bens sociais pelo conjunto dos cidadãos -- que melhor expressa, portanto, a democracia -- é precisamente o conceito de cidadania. Cidadania é a capacidade conquistada por alguns indivíduos, ou (no caso de uma democracia efetiva) por todos os indivíduos, de se apropriarem dos bens socialmente criados, de atualizarem todas as potencialidades de realização humana abertas pela vida social em cada contexto historicamente determinado. Sublinho a expressão historicamente porque me parece fundamental ressaltar o fato de que soberania popular, democracia e cidadania (três expressões para, em última instância, dizer a mesma coisa) devem sempre ser pensadas como processos eminentemente históricos, como conceitos e realidades aos quais a história atribui permamentemente novas e mais ricas determinações. A cidadania não é dada aos indivíduos de uma vez para sempre, não é algo que vem de cima para baixo, mas é resultado de uma luta permanente, travada quase sempre a partir de baixo, das classes subalternas, implicando um processo histórico de longa duração. A noção de cidadania não nasceu no mundo moderno, embora tivesse encontrado nele a sua máxima expressão, tanto teórica quanto prática. Na verdade, as primeiras teorias sobre a cidadania, sobre o que significa ser cidadão, surgiram na Grécia clássica, nos séculos V-IV antes da era cristã, correspondendo ao fato de que os gregos conheceram na prática as primeiras formas de democracia, nas quais um número relativamente amplo de pessoas 2

Disponível em http://www. que viveu no século XVII. E foi precisamente com base nisso que Aristóteles definiu o cidadão: para ele. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. C. as mulheres e os estrangeiros.assistentesocial. como. constituíam mais de três quartos da população adulta ateniense. contribuindo para a formação do governo. a noção e a realidade da cidadania também estão organicamente ligadas à idéia de direitos. em conjunto. dezembro de 2005 .. também o dever) de contribuir para a formação do governo. John Locke. o direito à liberdade de pensamento e de expressão: foi por isso que Sócrates. os direitos de cidadania na Grécia envolviam somente o que hoje chamamos de "direitos políticos". mas. como entre os gregos. os quais. participando ativamente das assembléias onde se tomavam as decisões que envolviam a coletividade e exercendo os cargos que executavam essas decisões. já que esses direitos naturais estariam 3 . N. acusado de ter uma religião diferente da religião da pólis. mesmo nas situações mais democráticas. Notas sobre cidadania e modernidade.1807-698X. foi certamente na Grécia clássica onde. da cidade-Estado. Para os gregos. enquanto seres humanos (e não mais enquanto membros da pólis. nº 3. deveriam contratar entre si a criação de um governo. foi condenado à morte pela democracia ateniense. num primeiro momento. ao contrário dos gregos. enquanto indivíduos. Mas é importante registrar que a teoria e a prática da cidadania entre os gregos clássicos estava longe de possuir uma dimensão universal (como veremos. como na Idade Média). estavam excluídos dos direitos de cidadania os escravos. precisamente à idéia de direitos individuais ou "civis". por exemplo. por exemplo. Malgrado esses limites. No mundo moderno. é precisamente essa tendência à universalização da cidadania que irá caracterizar a modernidade). Os indivíduos. possuiriam direitos. baseou seu pensamento político na afirmação de que existiam direitos naturais. surgiu a problemática da cidadania. mas não compreendiam ainda os modernos "direitos civis". cidadão era todo aquele que tinha o direito (e.br interferia ativamente na esfera pública. ou seja. ou enquanto membros de determinado estamento.COUTINHO. como em Atenas nos séculos V e IV a.C. de um Estado. Além disso. contudo. Ano 2.ISSN .com. pela primeira vez na história. conseqüentemente. os direitos de participação no governo. Para garanti-los.

e é mais amplo 4 . de certo modo. Disponível em http://www. algo que antecede -. do Estado.ISSN .) não figuravam de modo algum na lista dos direitos naturais defendidos pelos jusnaturalistas liberais. à educação. são resultado da história. que incluiria não só os bens materiais dos indivíduos. aquilo que hoje quase todos consideram como direitos indiscutíveis (por exemplo. A tarefa fundamental do governo. a afirmação de que o direito é.de direitos que pertencem aos indivíduos independentemente do status que ocupam na sociedade em que vivem -. no quadro da vida social.assistentesocial. dezembro de 2005 . nessa versão liberal. Entre tais direitos inalienáveis. o jusnaturalismo terminou por se constituir na ideologia da classe burguesa. Notas sobre cidadania e modernidade. Esse conceito de "direito natural" -. Para além dessa limitação classista.1807-698X.COUTINHO. como o direito ao trabalho. Os indivíduos não nascem com direitos (uma noção. para Locke. os chamados direitos sociais. Por outro lado. aliás. seria precisamente a garantia desses direitos naturais. Ano 2. só são satisfeitas quando assumidas nas e pelas instituições que asseguram uma legalidade positiva. Mas há uma verdade parcial no pensamento dos jusnaturalistas. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social.teve um importante papel revolucionário em dado momento da história. ou seja. o que terminou por recriar uma nova forma de desigualdade entre os homens. As demandas sociais. Os direitos são fenômenos sociais. na medida em que afirmava a liberdade individual contra as pretensões despóticas do absolutismo e em que negava a desigualdade de direitos sancionada pela organização hierárquica e estamental própria do feudalismo. C. que prefiguram os direitos. nº 3. Locke priorizava o direito à propriedade. que ele considerava inalienáveis. ou liberdades concretas. Hegel tem plena razão quando diz que só há direitos efetivos. mas também sua vida e sua liberdade. à saúde. reafirmada em 1948 na Declaração dos Direitos da ONU). etc. a própria idéia de que existem direitos naturais é uma idéia equivocada. Decerto. sobretudo porque Locke e seus seguidores consideravam como direito natural básico o direito de propriedade (que implicava também o direito do proprietário aos bens produzidos pelo trabalhador assalariado). N.br ameaçados no pré-político estado de natureza.com.

5 . nos códigos. a votarem e ser votadas. etc. como um direito. sabe que os operários trabalhavam 14 horas por dia ou mais na época da revolução industrial. (Nisso. mas poderia me valer de exemplos de novos direitos civis. até. do que o direito estatuído nas Constituições.do que o direito positivo. enquanto só vieram a fazê-lo na Itália. pelo menos até meados do século XIX. Ano 2. E terminaram por inscrever nas leis positivas de todos os países (parece-me que a Suíça foi o último país a fazer isso) esse direito que já ninguém hoje contesta. o que só ocorreu. Quem conhece história. Os direitos têm sempre sua primeira expressão na forma de expectativas de direito. na Inglaterra. Vou dar um exemplo simples. Outro exemplo: as mulheres foram até meados do século XX excluídas do direito ao voto. na segunda metade do século XIX. Ao relembrar esses exemplos. Disponível em http://www. a partir do início do século XIX. C. Notas sobre cidadania e modernidade. pretendo apenas insistir no caráter histórico dos direitos (dei exemplos de direitos sociais e políticos. algo que ia de encontro às já então famosas "leis do mercado". pelo menos publicamente. não só no Brasil.assistentesocial. ou seja. então.com. a necessidade de fixar limites legais para a jornada de trabalho. mas na maioria esmagadora dos países do hoje chamado Primeiro Mundo. em dado momento histórico determinado.br -. dezembro de 2005 . isto é. lutaram para que fosse fixado um limite legal para a jornada de trabalho. por exemplo. tornou-se um indiscutível direito.COUTINHO. Importantes movimentos femininos demandaram e lutaram pelo que consideravam um direito indiscutível.ISSN . o Brasil não foi dos mais retardatários: as mulheres votaram aqui em 1933. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. Isso significa que a demanda dos trabalhadores por uma jornada de trabalho reduzida colocou-se historicamente como uma postulação. por conseguinte. de demandas que são formuladas. Na consciência dos trabalhadores (e na sua atividade prático-política). Os trabalhadores. ou seja. nº 3. já antes que a promulgação de uma lei tornasse esse direito algo positivo. N. no caráter fundamentalmente histórico da própria cidadania. como o relativo à liberdade de orientação sexual) e. em 1946). por classes ou grupos sociais.1807-698X.

não em último lugar. nº 3. mas 1. entre os quais o Brasil2.H. El Colégio de México--Fondo de Cultura Económica. Incluído em T. México.br Nesse sentido. a interessante reconstituição histórica de José Murilo de Carvalho. pp. O que são "direitos civis" e como surgiram historicamente? Para Marshall.tem o mérito não só de delimitar essas três determinações "modernas" da cidadania (civil. Rio de Janeiro. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social..COUTINHO. 2. veremos que os direitos civis elencados por Marshall em seu estudo são precisamente os direitos que Locke (que. N. consolidou nesse país a monarquia constitucional. 1967. Mas também me parece indiscutível que Marshall -. passa pelos direitos políticos e chega finalmente aos direitos sociais. Desenvolvimiento de la ciudadanía en Brasil. à liberdade de pensamento e de movimento (de ir e vir) e. Disponível em http://www. Se observarmos bem.com. 1995. C. descrevendo um processo que se inicia com a obtenção dos direitos civis. processual.no seu famoso ensaio sobre "Cidadania e Classe Social"1 -. à propriedade. política e social). Marshall deu uma importante contribuição para a compreensão da dimensão histórica da cidadania quando -. essencialmente. Notas sobre cidadania e modernidade. 2. Marshall. H. dezembro de 2005 . 6 . de 1688. Sabemos hoje que eles não são direitos naturais. penso que o sociólogo britânico T.1807-698X. esses direitos surgiram na Inglaterra no século XVIII.assistentesocial. do conceito e da prática da cidadania na modernidade. foi o principal teórico da Gloriosa Revolução) chamou de direitos naturais inalienáveis. traçou uma ordem cronológica para o surgimento desses direitos no mundo moderno. Cidadania. do direito à vida.definiu três níveis de direitos de cidadania e. tornando-se direitos efetivamente positivos depois que a chamada Gloriosa Revolução. sobre isso.ISSN . baseando-se na história da Grã-Bretanha.apesar deste e de outros limites -. Trata-se. não se reproduziu do mesmo modo em um grande número de países. Ano 2. do modo "clássico" como Marshall a descreve. mas também de insistir na dimensão histórica. classe social e status. 57114. Zahar. Cf. não casualmente. É indiscutível que essa ordem cronológica.

como vimos.com. Karl Marx. defendia essencialmente os interesses dos outros dois "Estados".COUTINHO. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. para o qual. Foi precisamente a natureza individual e privada desses direitos civis modernos que induziu Marx. ou seja. por exemplo. naquele momento da história. são direitos que os homens devem usufruir em sua vida privada. A questão judaica. Ano 2. ou seja.ISSN .tornou-se legítimo comprar a força de 3. que permite acumular o trabalho passado -. ser cidadão não é algo que se refira à vida privada. apresentada como o direito natural fundamental. mas precisamente à vida pública. diz que -. a caracterizá-los como meios de consolidação da sociedade burguesa.1807-698X. todos os que constituíam o que os franceses chamavam de "Terceiro Estado") em sua luta contra o Estado absolutista. Tomemos. o modo pelo qual Locke (e as várias Constituições que nele se inspiraram) tratou a questão da propriedade. surgiram como demandas da burguesia em ascensão (no momento em que essa classe representava todos os que não eram nem aristocratas nem membros do clero. N.com a invenção do dinheiro. da artistocracia feudal e do alto clero. num contrato firmado entre eles e com os governantes). 7 . Tratava-se então de criar um novo tipo de Estado. implicava uma limitação do poder do Estado. cuja legitimidade se assentaria no fato de respeitar plenamente esses direitos "naturais" que todos os indivíduos possuiriam. Disponível em http://www. fundado no consenso dos súditos (ou seja. Não hesito em dizer que. cuja garantia é a razão essencial pela e para a qual o Estado existe.br sim direitos históricos. Laemmert. 1972. que deve ser protegida contra a intervenção abusiva do governo. C.assistentesocial. da sociedade capitalista. portanto. nº 3. logo em seguida. Marx estava certo. São direitos dos indivíduos contra o Estado. em sua obra juvenil sobre A questão judaica3. dezembro de 2005 . à qual os gregos claramente subordinam a esfera privada. num determinado e decisivo sentido. Locke começa definindo o direito de propriedade como o direito aos frutos do nosso trabalho. ou seja. Notas sobre cidadania e modernidade. A afirmação dos direitos civis. Já aqui podemos observar uma significativa diferença em relação ao conceito grego de cidadania. Estado que. Rio de Janeiro. mas.

Mas. Manifesto do Partido Comunista. mas não se limita a eles. 6. Rio de Janeiro. São Paulo. 4. Também nesse sentido. Claude Lefort. Ascensão e queda da justiça econômica e outros ensaios.COUTINHO. particularista e excludente. Foi nesse sentido que Marx criticou os chamados "direitos do homem". 5. o sugestivo ensaio de C. 1983. na vossa sociedade.eles se transformam na prática em prerrogativas apenas de um tipo de homem. dezembro de 2005 . Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos.. universalizada6.com. N. pp. Disponível em http://www. 43 e ss. nesse seu texto juvenil. O próprio direito de propriedade não é negado por Marx e pelos marxistas. 103-113. vol. Ano 2. mas são certamente necessários. Notas sobre cidadania e modernidade. "Os direitos humanos como direitos de propriedade". nº 3. Vozes.. O sentido da crítica de Marx é outro: os direitos civis -. sobre cujos frutos teríamos também direito de propriedade4. cf. o brilhante filósofo liberal francês. a propriedade não pode ser privilégio de uns poucos. Obras escolhidas.B. [.os direitos do indivíduo privado -. Petrópolis. os direitos civis seriam em si direitos burgueses e.] O comunismo não retira de ninguém o poder de apropriar-se de sua parte dos produtos sociais.não são suficientes para realizar a cidadania plena. C. Macpherson. apenas suprime o poder de escravizar o trabalho de outrem por meio dessa apropriação" (K. A invenção democrática. Vemos aí um claro exemplo de como um direito universal (todos temos direito aos frutos do nosso trabalho) torna-se um direito burguês.assistentesocial. Paz e Terra. a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. desse modo.1807-698X. "Horrorizai-vos [os burgueses] porque queremos abolir a propriedade privada. São Paulo. restrito aos proprietários dos meios de produção. Brasiliense. para Marx. que ele chamava de "emancipação humana". elimináveis no socialismo5. John Locke. 1994: 97. Portanto. 1. in Id. in Id.ISSN . como mostrarei adiante. E é precisamente porque não existe para esses nove décimos que ela existe para vós. como tal. Marx e F.que.br trabalho de outros. mas sim requalificado: para que esse direito se torne efetivamente universal. p. a cidadania plena -.. parece-me incompatível com o capitalismo -. pp. 1956.entendidos como direitos únicos e exclusivos -. não tem razão quando diz que. Os limites do totalitarismo. 1991. mas também os gerados mais recentemente).. devendo ao contrário ser socializada e. 38). Penso que Claude Lefort. assegurando a todos a apropriação dos frutos do próprio trabalho.certamente incorpora os direitos civis (e não só os afirmados por Locke. Vitória. no sentido de que -. 8 . In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. o homem proprietário da classe burguesa. Engels.

La metafísica de las costumbres. asseguraram (ainda que nem sempre e nem todos) os direitos civis.br Por exemplo: não há cidadania plena (ou. sem o que Marshall chamou de "direitos políticos". 144-145. não há democracia). que é um dos principais meios de assegurar a participação na tomada das decisões que envolvem o conjunto da sociedade. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. e essa independência tinha para ele uma base econômica. nº 3. O direito universal ao sufrágio. temos ainda -. Immanuel Kant. Ano 2. classista. E quais são esses direitos? Além do direito de votar e de ser votado. por serem independentes.com. sem a retomada daquela dimensão da cidadania que era própria dos gregos. se é verdade que os regimes liberais. que consolidaram a dominação burguesa. foram negados à grande maioria da população. 9 . pp. concendendo-o apenas aos proprietários. A primeira Constituição que emerge da Revolução Francesa. Notas sobre cidadania e modernidade. é também verdade que não fizeram o mesmo em relação aos direitos políticos. mesmo nos regimes liberais. Um pensador tão importante como Kant -. o que é o mesmo. com o que atribuía tal direito apenas aos proprietários e aos produtores autônomos ou artesãos7. considerados como os únicos verdadeiros interessados no bem-estar da nação.1807-698X. C. teriam a possibilidade de um juízo livre e autônomo.COUTINHO. já que o filósofo alemão excluía do direito ao voto tanto as mulheres (que dependiam de seus pais e maridos) quanto os trabalhadores assalariados (que dependiam dos seus patrões). ainda que moderado -.o direito de associação e de organização. Tecnos. os pensadores e as Constituições liberais restringiram o direito ao sufrágio. Madri. a de 1791. N.não hesitou em justificar teoricamente essa limitação do sufrágio. Com diferentes alegações. que se tornou corriqueiro nas democracias contemporâneas.ISSN . pelo menos até o final do século XIX. que expressa a hegemonia dos liberais. Ora. Disponível em http://www. Esses direitos. foi uma árdua e difícil conquista. Segundo ele.assistentesocial. dezembro de 2005 .precisamente como condição para que essa participação se torne efetiva . consagrou legalmente essa distinção entre 7.certamente um liberal. só deveriam votar os indivíduos que. isto é. 1989.

(E.ao lado da redução legal da jornada de trabalho . os trabalhadores obtinham um preço para a força de trabalho diferente daquele que resultaria do "livre" movimento do mercado. o partido político de massa. por exemplo. Não me parece casual que o primeiro movimento operário de massa. até mesmo nesse nível do sufrágio.1807-698X. Também uma outra forma básica de organização na democracia moderna.precisamente o sufrágio universal. contra suas teorias e suas práticas. Ano 2. portanto. N.COUTINHO. que atuou na primeira metade do século XIX. durante muitos anos. Na França. como greves gerais. Com efeito. A mesma limitação da franquia (do direito ao voto) com base na propriedade está presente na totalidade das Constituições liberais do século XIX. que os trabalhadores (e as mulheres) transformaram em direitos positivos da cidadania moderna os chamados direitos políticos. Na Constituição de 1793.) Em muitos países europeus.ISSN . C. pelo menos até 1848.br "cidadão ativo" e "cidadão passivo". que expressa a hegemonia democrática dos jacobinos. nº 3. Foi assim em luta contra o liberalismo burguês. no Brasil. dezembro de 2005 . o cartismo inglês. é resultado da luta da classe trabalhadora. é uma invenção da classe trabalhadora: o primeiro 10 . enquanto o segundo teria apenas direitos civis. mas também ao direito de organização. E isso não se refere apenas ao sufrágio. mas para ser retomada nas Constituições francesas posteriores. Isso já indica um fato fundamental: a generalização dos direitos políticos.assistentesocial. para conquistarem esse direito. somente nos anos 70 do século XIX é que os trabalhadores conseguiram revogar a Lei Le Chapellier. os governos liberais proibiram os sindicatos. o primeiro dos quais com direito a votar e ser votado (e. promulgada em 1791. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. que proibia a associação dos trabalhadores e as greves. a ser governo). os trabalhadores tiveram de promover amplos movimentos sociais. em plena Revolução Francesa. sob a alegação de que eles violavam as famosas leis do mercado: com sua organização. quando a Constituição em vigor suprimiu a proibição de voto aos analfabetos.com. só em 1988. Notas sobre cidadania e modernidade. A transformação do direito universal ao sufrágio em um direito positivo só se completou na Europa no século XX. tivesse fixado como sua principal bandeira de luta -. Disponível em http://www. inclusive a brasileira. essa distinção desaparece.

COUTINHO. o que implica necessariamente o direito ao voto e à organização (em suma.e é preciso sempre insistir nisso . Ano 2.com. Decerto. assim. que supera claramente o velho modelo liberal do partido meramente parlamentar ou de "notáveis". falar em "democracia burguesa".assistentesocial. de natureza 11 . mas também uma injustiça contra os trabalhadores. tanto teórico quanto histórico. o direito à participação). à sua luta pela construção de uma ordem capitalista. atribuir à burguesia algo que foi conquistado contra ela.parlamentos eleitos por sufrágio universal através do embate de partidos políticos de massa -são uma conquista dos trabalhadores. Pode-se certamente caracterizar o liberalismo como uma teoria e um regime político burgueses: em sua origem. Portanto. seria não somente um equívoco. em outras palavras.ISSN . Já as conquistas da democracia enquanto afirmação efetiva da soberania popular. mais congruente com o ideal da soberania popular . também os institutos da democracia representativa tal como hoje existem -. ou. participativa. conquistando finalmente a legalidade após décadas de proibição e repressão.br partido desse tipo. só seria "proletária" a democracia direta. Segundo essa visão redutiva. o que não quer dizer que não existam no liberalismo -. Disponível em http://www. Notas sobre cidadania e modernidade.e.1807-698X. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. que se tornou o paradigma dos vários partidos operários de massa que se alastraram na Europa no último terço do século XIX. N. Não concordo.muitos elementos que transcendem esse vínculo com a burguesia e adquirem valor universal. são resultado de um processo de lutas que ampliou o estreito horizonte teórico e prático do liberalismo burguês originário.deve articular esses organismos representativos com outros organismos de base. baseada nos conselhos ou sovietes. portanto. o liberalismo se liga claramente à classe burguesa. como vimos. Ora. já podemos ver que é um grosseiro equívoco. é o Partido Social-Democrata Alemão. Por tudo isso. nº 3. uma democracia ampliada . têm resultado sistematicamente das lutas dos trabalhadores contra os princípios e as práticas do liberalismo excludente defendido e praticado pela classe burguesa. dezembro de 2005 . com a contraposição que habitualmente se faz (e cuja origem reside sobretudo em Lenin) entre "democracia burguesa" e "democracia proletária". C.

seguindo o que Marx já havia estabelecido em relação ao salário. portanto. (Esse mínimo. são sociais por sua origem e vigência). Finalmente. Ano 2.com. É interessante recordar que essa dimensão da cidadania foi relativamente reconhecida. mas deve ser definido sobretudo historicamente. esse direito já está presente nas Constituições que resultam da 8. além de impedirem os homens de se libertar da tutela de um poder estatal autoritário e paternalista. hegemonizado pela burguesia. o direito individual à propriedade). In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. passim. não deve ser concebido apenas com base em parâmetros naturais. já que todos os direitos.só foi assimilado (e mesmo assim parcialmente) como momento do direito positivo em nosso século. como resultado das lutas sociais). biológicos. pelos expoentes do chamado neoliberalismo.1807-698X. teórica e praticamente.ISSN . Já no mundo moderno. há um terceiro e decisivo nível dos direitos de cidadania. inclusive os civis e os políticos. mas não em último lugar. Os direitos sociais são os que permitem ao cidadão uma participação mínima na riqueza material e espiritual criada pela coletividade. sob a alegação de que estimulariam a preguiça. Rio de Janeiro. Não é assim casual que esses direitos voltem a ser negados hoje. Mas a necessidade dessa articulação só reforça o fato de que é um contra-senso falar em "democracia burguesa". precisamente o que Marshall chamou de "direitos sociais" (uma designação que pode levar a equívocos. N. 12 . laica e gratuita. C. As massas e o poder. em caso de necessidade. dezembro de 2005 . Civilização Brasileira. quando os plebeus conquistaram o direito de. entre tais direitos sociais. o primeiro a ser reconhecido de modo positivo: se não estou enganado. por exemplo. Na modernidade. violariam as leis do mercado (e. serem alimentados pelo Estado. Notas sobre cidadania e modernidade. Pietro Ingrao. os direitos sociais foram por muito tempo negados. na Roma clássica. Esse nível da cidadania . 1980. foi aquele à educação pública e universal. constituindo aquilo que o marxista italiano Pietro Ingrao chamou de "democracia de massas"8.assistentesocial.COUTINHO. Disponível em http://www.embora tenha sido reivindicado pelos trabalhadores ao longo de todo o século XIX -. nº 3.br claramente participativa.

A presença de tais direitos nas Constituições. o instrumento através do qual se materializam os direitos sociais -. Cabe registrar. 13 das classes trabalhadoras. Mas. etc. nº 3. que -. o que se coloca como tarefa fundamental no que se refere aos direitos sociais não é. as políticas sociais seriam nada mais do que um instrumento da burguesia para legitimar sua dominação. seu reconhecimento legal.). particularmente. terminando por gerar o que tem sido chamado de Welfare State. Para muitos autores que se baseiam numa leitura mecanicista do marxismo. N. É como se as políticas sociais fossem uma rua de mão única: somente a burguesia teria interesse num sistema educacional universal e gratuito. mas a luta para torná-los efetivos. são igualmente uma conquista da classe trabalhadora.ISSN .são muitas vezes definidas sem que esse fato seja levado em conta. à assistência.br Revolução Francesa. integrando-as subalternamente ao . o caso do Brasil.com. ou Estado do Bem-Estar. numa política previdenciária e de saúde. Tal como no caso dos direitos civis e políticos. através desses institutos. Esse é. Ano 2. não garante automaticamente a efetiva materialização dos mesmos. Embora possa parecer óbvio.ou seja. etc. Mais tarde.COUTINHO. embora a conversão desses direitos sociais em direitos positivos não garanta sua plena materialização.assistentesocial. já que isso facilita a luta para torná-los efetivamente um dever do Estado. Disponível em http://www. muitos outros direitos sociais foram se consolidando (à saúde. é muito importante assegurar seu reconhecimento legal.mesmo nos mais abrangentes tipos de Welfare . contudo.1807-698X. Notas sobre cidadania e modernidade. já que. C. o simples reconhecimento legal-positivo dos mesmos. não é desnecessário lembrar que os direitos sociais. Tampouco é casual que os neoliberais se empenhem hoje. dezembro de 2005 . E não é desnecessário porque as políticas sociais -. não só ampliaria sua taxa de acumulação. mas obteria ainda o consenso capitalismo.. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social.jamais foi assegurado o direito social à propriedade. em particular da própria Constituição. à previdência pública. por eliminá-los também das normas legais. mas de modo ainda mais intenso. muitas vezes. sobretudo em nosso século. inclusive em nosso País. à habitação. talvez ainda mais do que os direitos políticos.

a depender da correlação de forças. Obras escolhidas. essencialmente. de uma outra lógica de regulação social. De resto. no discurso que proferiu no ato inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores. nº 3.. também nesse terreno das políticas sociais nada está decidido a priori: embora tanto os direitos políticos como os direitos sociais sejam importantes conquistas dos trabalhadores. é equivocada. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. p. é como se Marx dissesse: tudo o que limita o mercado em nome de um direito social universal (ou. através da afirmação do mercado como forma suprema de regulação das relações sociais. por ser unilateral.assistentesocial. dezembro de 2005 . pode ocorrer que . 354. Através de suas lutas.COUTINHO. Notas sobre cidadania e modernidade. Em 1863. essa visão dialética dos direitos sociais como conquistas dos trabalhadores e não como simples instrumentos da burguesia já está presente na obra do próprio Marx. Disponível em http://www. Para que tal ocorra. isto é. da justiça social) é uma vitória da economia política do trabalho. Marx disse que a fixação legal da jornada de trabalho. Ano 2. In Marx e Engels. em determinadas conjunturas. Como todas os âmbitos da vida social. é mais uma vez necessária a intensificação das lutas pela realização da cidadania. a primeira vitória de um direito social sobre a lógica privatista do capitalismo. Portanto. cit. 14 . tinha sido a primeira vitória da economia política do trabalho sobre a economia política do capital9. Essa lógica se expressa. são uma sua indiscutível conquista. uma vez materializados. que acabara de ser promulgada na Inglaterra. também a esfera das políticas sociais é determinada pela luta de classes.ISSN . ou.em determinadas conjunturas e em função de correlações de força específicas eles não explicitem plenamente o seu potencial emancipatório. isso não anula a possibilidade de que. Karl Marx.br Essa posição. a burguesia use as políticas sociais para desmobilizar a classe trabalhadora. Manifesto de lançamento da Associação Internacional dos Trabalhadores. Assim como no caso do sufrágio universal (que não garante automaticamente a vitória dos trabalhadores). C. os trabalhadores postulam direitos sociais que. o estabelecimento de correlações de força favoráveis aos segmentos sociais efetivamente empenhados nessa realização.1807-698X.com. em outras palavras. 9. se preferirmos. N. para tentar cooptá-la. etc.

propondo devolver ao mercado a regulação de questões como a educação.). nos momentos de recessão (que são inevitáveis no capitalismo). o mesmo pode ser dito -. Rio de Janeiro. Ano 2. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. ela pode até tolerá-los e tentar usá-los a seu favor. Se uma reforma tópica. Marx fundamentou a legitimidade e a possibilidade concreta de obter transformações sociais substantivas através de reformas.e ainda com mais razão -. no chamado Welfare State.termina por se chocar com a lógica do capital. os atuais governantes burgueses buscam pôr fim ao Estado do Bem-Estar. Mas o que esse processo de ampliação também nos demonstra é que não se deve 10. a habitação. 15 . Pós-neoliberalismo. C. os transportes.propugne enfaticamente o fim dos direitos sociais. N. ao conjunto dos direitos sociais conquistados pelos trabalhadores.do conjunto de direitos sociais que terminaram por se consolidar. na segunda metade do século XX. As políticas sociais e o Estado democrático. não cabe esquecer que ele está igualmente presente ainda que por vezes sob formas menos radicais . o desmonte do Welfare State10. seja no Primeiro. não hesitaria em dizer que a ampliação da cidadania . a saúde. Paz e Terra. Por tudo isso. etc. dezembro de 2005 .COUTINHO.com. tais direitos se revelam contrários à lógica capitalista da ampliação máxima da taxa de lucro.na maioria esmagadora dos governos capitalistas contemporâneos. Pressionados pela queda da taxa de lucro provocada pela dura recessão que abala hoje o capitalismo. Não é assim casual que o neoliberalismo -.1807-698X. é uma vitória da economia política da classe operária.assistentesocial.ISSN . a fixação da jornada de trabalho. nº 3. Essa é uma clara prova de que os direitos sociais não interessam à burguesia: em algumas conjunturas.a ideologia hoje assumida pela burguesia. a previdência. Se esse objetivo assumiu formas extremas nos emblemáticos governos de Ronald Reagan e de Margareth Thatcher. cf. Para um eficiente balanço crítico do neoliberalismo. no Terceiro ou no ex-Segundo Mundos -. Disponível em http://www. os textos incluídos em Emir Sader e Pablo Gentili (orgs.esse processo progressivo e permanente de construção dos direitos democráticos que caracteriza a modernidade . 1995. mas se empenha em limitá-los e suprimi-los sempre que. Notas sobre cidadania e modernidade.br Essa formulação marxiana me parece ter uma significação bastante ampla: com ela.

16. Estamos diante de uma linha sinuosa. e.que ainda permanecem em vigor. N. de resto.assistentesocial. por um lado. in Sader e Gentili (orgs. sem nunca deixar de tentar instrumentalizar a seu favor (ou mesmo suprimir. 16 . ou seja. nº 3. a introdução cada vez maior de novas lógicas não mercantis na regulação da vida social. depois é forçado a recuar e fazer concessões. ela me 11. essa contradição entre cidadania (ou democracia) e capitalismo. Notas sobre cidadania e modernidade. uma tendência predominante: a da ampliação progressiva das vitórias da economia política do trabalho sobre a economia política do capital (para retomarmos a expressão de Marx). C.como. uns e outros aparecendo como óbices a que todos possam participar igualitariamente na apropriação das riquezas espirituais e materiais socialmente criadas. mas que tem tido até agora.br conceber esse choque.. Disponível em http://www.1807-698X. como algo explosivo. marcada por avanços e recuos. se há alguma conclusão a tirar disso. "Balanço do neoliberalismo".ISSN .COUTINHO. sobretudo na Europa. p. Marshall já chamara a atenção. em outras palavras: a divisão da sociedade em classes constitui limite intransponível à afirmação conseqüente da democracia. O fato de que essas novas lógicas só possam se consolidar plenamente no quadro do novo ordenamento socialista não impede a comprovação empírica dessa ampliação. Anderson.). Embora políticas neoliberais venham sendo sistematicamente aplicadas há vários anos em todo o mundo. concentrado num único ponto ou momento. Trata-se de uma contradição que se manifesta como um processo: processo no qual o capitalismo primeiro resiste. Esse antagonismo entre cidadania plena e capitalismo. no longo prazo. déficits. em última instância. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. dezembro de 2005 . ou seja. o faz Perry Anderson11 -. cit. ainda que sem lhe dar solução adequada). pode-se constatar -. expressa uma outra contradição (para a qual.com. privilégios. incompatível com a existência de uma sociedade de classes. P. Ano 2. como atualmente ocorre) os direitos conquistados. a contradição entre cidadania e classe social: a universalização da cidadania é. Ou. Ora. conquistas decisivas do Welfare State. Pós-neoliberalismo. a condição de classe cria. aliás. por outro. entre outros. Como parece óbvio.

com. mas me parece . citando Hegel. N.br parece óbvia (embora toda a propaganda ideológica atual tenda a negá-la): só uma sociedade sem classes .por motivos que não terei tempo de justificar aqui . mas que tem sua essência na permanente revisão dialética dos resultados já alcançados12. Se lermos o Manifesto Comunista de 1848.1807-698X. 1996. Marxismo e política. Para um mais amplo desenvolvimento dos temas indicados neste item. o paradigma marxista. 13-69. Como disse antes. cf. aquele que capta o maior número das determinações essenciais do Estado moderno. C. o Estado é definido como um aparelho que representa apenas os interesses da classe dominante e que faz valer tais interesses através da coerção. 17 . com o objetivo de gerir os negócios comuns dessa classe e impor seus interesses às demais classes. Coutinho.pode realizar o ideal da plena cidadania.COUTINHO. São Paulo. Disponível em http://www. como tal. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. Cortez. Ano 2.ISSN . veremos que nele o Estado moderno é definido sinteticamente como "o comitê executivo da burguesia". que não coagula ou dogmatiza observações desse ou daquele marxista.o mais rico. bem como para maiores referências bibliográficas. o que é o mesmo. da democracia. uma imposição que tem na violência e na opressão os seus principais recursos.assistentesocial. para discutir a questão do Estado. N.uma sociedade socialista . Notas sobre cidadania e modernidade. dezembro de 2005 . que é talvez o primeiro texto político significativo de Marx e Engels. A dualidade de poderes e outros ensaios. só existem direitos no Estado. ou. Irei adotar. pp. As duas afirmações se seguem como numa dedução lógica: na 12. influiu na evolução do Estado moderno. Em suma. nº 3. que tentei esboçar há pouco. o ideal da soberania popular e. Também veremos que se trata de um paradigma em evolução. Seria então interessante recordar rapidamente de que modo o processo de ampliação da cidadania. C. 3. ele não é certamente o único a fornecer contribuições para conceituar adequadamente o Estado.

Vejamos alguns exemplos. nº 3. Estados Unidos.COUTINHO.com. Os direitos sociais eram completamente ignorados. não me parece equivocada a definição "restrita" de Marx e Engels em 1848: nesse momento de sua história. o Estado czarista que ele se empenhava em abater apresentava-se como uma arma das classes dominantes. Onde havia sufrágio. sendo freqüentemente perseguidos. um mínimo de direitos políticos. Embora essa definição "restrita" nos pareça hoje distante da realidade de boa parte dos Estados capitalistas efetivamente existentes. se não único. quando não despóticos. dezembro de 2005 . como recordei antes: o voto era censitário. um direito atribuído apenas aos proprietários ou aos que pagavam um certo montante de impostos. Então. Não havia. França) estavam longe de assegurar a maior parte do que hoje consideramos como inequívocos direitos de cidadania. A maioria dos Estados existentes em 1848 se expressava através de regimes políticos claramente autoritários. E tampouco é casual que. Os sindicatos eram proibidos.ISSN . não eram infreqüentes as proibições à liberdade de pensamento e de sua expressão pela imprensa. e mesmo os poucos Estados liberais ou semiliberais da época (Inglaterra. N. tratava-se apenas de um sufrágio restrito. o Estado capitalista se manifestava efetivamente como uma arma nas mãos da burguesia. recurso de poder. em 1917. em O Estado e a revolução. que atuavam à margem da legalidade. Notas sobre cidadania e modernidade. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. Lenin houvesse retomado literalmente essa concepção restrita: com efeito. Disponível em http://www. ela correspondia essencialmente à natureza dos Estados com os quais Marx e Engels se defontaram quando escreveram o Manifesto. o que tornava precária a própria realização dos direitos civis. portanto. os partidos operários eram pequenas seitas. que formam de resto a esmagadora maioria da população. como algo fortemente excludente e coercitivo. C. Ano 2. como uma clara ditadura autocrática.1807-698X. Não havia ainda partidos de massa. Além disso.br medida em que não representa nem leva em conta os interesses das demais classes. o Estado burguês é obrigado a ter na coerção seu principal. que representassem os interesses das classes excluídas do poder. Mas 18 .assistentesocial.

que faz política. Foi precisamente esse novo espaço público que Gramsci chamou de "sociedade civil". a incorporar novos direitos de cidadania política e social. o Estado existe como um poder que assegura a propriedade e 19 . que exercia seu poder sobre uma sociedade atomizada e despolitizada. no intervalo de tempo que intercorre entre 1848 (ano da publicação do Manifesto Comunista) e 1917 (quando Lenin escreve O Estado e a revolução e lidera exitosamente a Revolução de Outubro). C. ou seja. não só através da progressiva ampliação do direito ao voto.assistentesocial.e formando um novo espaço de construção da esfera pública -. freqüentemente contrários àqueles representadas no e pelo Estado. Ano 2. conquistada de baixo para cima. quando a apresentaram como a única verdadeira concepção marxista de Estado. Com efeito. escrevendo no início do século XX. desaparece progressivamente aquele Estado "restrito". movimentos. Sem deixar de ser capitalista. pela pressão das lutas dos trabalhadores. Desenvolveu-se no último terço do século XIX e acentuou-se ainda mais no século XX o que tem sido chamado de "socialização da política". surgiram inúmeros fenômenos novos no mundo capitalista ocidental.br Lenin e os bolcheviques. Notas sobre cidadania e modernidade. estavam equivocados quando generalizaram essa concepção para todos os Estados capitalistas da época. dezembro de 2005 . não foi visto nem por Marx e Engels em 1848 nem por Locke e pelo liberalismo clássico. Para esses autores. Trata-se de um fenômeno que. surge agora uma sociedade que se associa. Disponível em http://www. nº 3. esse Estado asssumiu novas características. partidos. Ou seja: um número cada vez maior de pessoas passou a fazer política. N.1807-698X.com. Em face do Estado . mas também por meio do ingresso e da militância de amplos segmentos da população nas múltiplas organizações (sindicatos. etc. Configura-se assim uma ampliação efetiva da cidadania política.ISSN . Com isso.) que se iam constituindo. na medida que se viu obrigado. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social.COUTINHO. tanto na esfera econômica quanto na política. que multiplica os pólos de representação e organização dos interesses. mas sobretudo depois disso. que terminaram por modificar a própria natureza do Estado capitalista. curiosa e paradoxalmente.

precisamente esse espaço público situado entre a economia e o governo. Ano 2. Ora. para Gramsci.diz Gramsci . que tem praticamente a função de um guarda noturno. de um Estado agora concebido de modo "ampliado". C. dezembro de 2005 .assistentesocial. sobretudo. ou . Ainda que com sinais de valor claramente invertidos. N. o Estado tornou-se . ou seja. Notas sobre cidadania e modernidade. Ao usar essa denominação de "sociedade civil". ainda que relativo. Disponível em http://www.aquele que existe nas sociedades que Gramsci chamou de "ocidentais". o âmbito do Estado se "amplia" e ganha novas determinações.entre a "sociedade econômica" e a "sociedade política". ou Estado-coerção ou. garantindo e protegendo a autonomia da esfera privada. Locke e os jovens Marx e Engels limitam a esfera pública a esse Estado "restrito". o Estado capitalista "ampliado" . no qual deve interferir o mínimo possível. Por isso. Enquanto em Hegel e em Marx (mais em Marx do que em Hegel) "sociedade civil" designa o mundo da economia. esse termo denota em Gramsci um fenômeno historicamente novo. precisamente no âmbito da "sociedade civil". governo) e a "sociedade civil". simplesmente. a "sociedade civil" gramsciana. Na medida em que essa sociedade civil corporifica e representa os múltiplos interesses em que se divide a sociedade como um todo. o mundo dos interesses privados. do mundo das relações econômicas.para continuar usando a terminologia gramsciana . Diferentemente do que ocorria no protocapitalismo.1807-698X. tem incidências diretas sobre o Estado. nº 3. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social.uma síntese contraditória e dinâmica entre a "sociedade política" (ou Estado strictu senso. com isso.COUTINHO. dos governados.com.br monopoliza a coerção.ISSN . 20 . Trata-se de uma esfera que. a "sociedade civil" torna-se um momento do próprio Estado.já não pode ser estável e se reproduzir mediante o simples recurso à coerção. na medida em que nela se forjam claras relações de poder. sem ser governamental. Torna-se agora necessário obter também o consentimento. mas o faz emprestando-lhe um conteúdo diverso. onde ocorreu uma socialização da política . Gramsci emprega um termo bastante usado na obra de Hegel e de Marx. o que se opera. o que surge no final do século XIX e se reforça no XX é uma esfera pública situada fora desse Estado restrito.

incompletas . Foi porque se desenvolveram os direitos de cidadania. após uma série de conflitos e de ajustamentos. 13. o novo Estado "ampliado" não deixou de ser capitalista. quem fala em consentimento ou consenso fala em concessão ou negociação.no Estado "ampliado" . o socialismo. deu uma correta definição desse novo fenômeno quando afirmou que o Estado é a "condensação material de uma correlação de forças entre classes e frações de classe". Agora se tornou possível. p. ser apenas o seu "comitê executivo". O Estado. converte-se ao mesmo tempo. Decerto. Ano 2. de modo quase imediato. N. impor limites à implementação dos interesses burgueses e até mesmo. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. Graal.ainda que sempre parciais. 21 .1807-698X. C. que o faz permeável à ação e aos interesses das classes subalternas. ele próprio.ela se dá. Nicos Poulantzas. digamos assim.com. 1980. em certas condições. nº 3. essa nova concepção marxista do Estado me parece ligada organicamente aos processos de ampliação e construção da cidadania de que tratamos anteriormente. Nicos Poulantzas. mas alterou-se substantivamente o modo pelo qual ele faz valer prioritariamente os interesses da classe burguesa dominante. o que implica dizer que o novo Estado capitalista não pode mais ser o representante exclusivo das classes dominantes. tanto políticos quanto sociais. que se tornou possível essa nova configuração do Estado. em função da correlação de forças. o poder.br Ora. Disponível em http://www. Notas sobre cidadania e modernidade. sem deixar de representar prioritariamente os interesses da classe burguesia.assistentesocial. desenvolvendo as idéias de Gramsci. impor decisões que contrariem esses interesses e atendam a demandas das classes subalternas. Rio de Janeiro. na qual sempre se dá a preponderância ou hegemonia de uma classe ou de uma fração de classe13. O Estado capitalista é obrigado a se abrir também para a representação e a satisfação . Ele já é não mais uma simples arma nas mãos da classe dominante. 147.dos interesses de outros segmentos sociais. ou seja. numa arena privilegiada da luta de classes.COUTINHO. em última instância. Ora. Enquanto no Estado "restrito" essa preponderância ocorria em primeira instância.ISSN . agora . dezembro de 2005 .

Nesse novo paradigma de revolução. a classe hegemônica já não seja mais a burguesia e. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. mas como um processo de radicalização da democracia e. nº 3. 22 . N. Notas sobre cidadania e modernidade.1807-698X.assistentesocial. C. tornou-se factível inverter progressivamente a correlação de forças.br Essa nova configuração do Estado abriu a possibilidade concreta de que a transformação radical da sociedade . como era previsto no Manifesto e na reflexão de Lenin. o socialismo é concebido não mais como a brusca irrupção do completamente novo.com.a construção de um ordenamento socialista capaz de realizar plenamente a democracia e a cidadania . ao contrário. concentrada num curto lapso de tempo. Essa nova estratégia política poderia também ter o nome de "reformismo revolucionário". conseqüentemente. no limite. Disponível em http://www. Ano 2. fazendo com que.se efetue agora não mais através de uma revolução violenta.ISSN . dezembro de 2005 . mas sim através de um longo processo de reformas. do que Gramsci chamou de "guerra de posição". sim.COUTINHO. tanto na sociedade civil quanto no próprio Estado. de realização da cidadania. Através da conquista permanente e cumulativa de novos espaços no interior da esfera pública. o conjunto dos trabalhadores.

decerto. eu diria que uma das principais características da modernidade é a presença nela de um processo dinâmico e contraditório. ou de se identificar com o capitalismo (como dizem os neoliberais). cuja implantação. a maioria das quais produzidas e reproduzidas precisamente pelo capitalismo. como o fazem todos aqueles que parecem supor que uma sociedade se torna "moderna" quando está plenamente integrada na lógica da atual globalização capitalista. é preciso conceber a modernidade também pelo ângulo da ampliação e da universalização da cidadania.COUTINHO. ou seja. sujeito a avanços e recuos. Mas seria unilateral identificar pura e simplesmente a modernidade com o capitalismo. Ano 2.br 4.as generosas promessas de emancipação que ela criou . há um antagonismo estrutural entre essa universalização da cidadania e a lógica de funcionamento do modo de produção capitalista. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. outra das características marcantes da modernidade. Portanto. ou. em outras palavras. porque no limite. mas de certo modo constante. nº 3. podemos dizer que as possibilidades que a modernidade abriu para a humanidade . em conseqüência.1807-698X. N. de crescente democratização das relações sociais. Portanto. Disponível em http://www. de aprofundamento e universalização da cidadania. dezembro de 2005 .com. C. Esse processo é contraditório.ainda não foram realizadas. na luta pela construção de uma sociedade radicalmente democrática e socialista. que continua a empolgar nossos governantes e muitos de nossos intelectuais. a modernidade continua a ser para nós uma tarefa: a tarefa de prosseguir no processo de universalização efetiva da cidadania e. Notas sobre cidadania e modernidade. concebê-la como uma época histórica marcada pela promessa da plena emancipação do homem de todas as opressões e alienações de que tem sido vítima. na qual . como vimos. Contra essa visão. para concluir. consolidação e expansão foi.assistentesocial.ISSN . longe de se ter esgotado (como afirmam os "pós-modernos").como 23 . Nesse sentido.

43. 14. C.COUTINHO..br disseram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista .ISSN . N. nº 3. p. dezembro de 2005 . Ano 2. Manifesto. Engels. K.assistentesocial. Marx e F. cit. 24 . Notas sobre cidadania e modernidade."o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos"14. In Revista Ágora: Políticas Públicas e Serviço Social. Disponível em http://www.com.1807-698X.