“Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho”

Análise sócio-histórica do filme “A central do Brasil”

Disciplina: Fenômenos e Processos II: Psicologia Sócio-histórica Profa. Lígia Márcia Martins

Aluno(a)(s): Bárbara Barcello Gaspar Flávia Franciane Ortega Dias Mariana Carvalho Koga Marina Leonel Soares Rafael Piccolo Feliciano Stephanie Olivato Yuri Navarrete de Faria Rosa RA: 923532 RA: 922994 RA: 924385 RA:1026437 RA: 1020099 RA: 1026402 RA: 920835

Novembro/2010

O filme “Central do Brasil” foi escolhido como objeto de análise para a articulação com a teoria sócio-histórica no presente trabalho. O longa-metragem se baseia na relação de Dora, a escrevedora de cartas e Josué, o garoto que, após a morte da sua mãe, inicia uma busca incessante por seu pai, junto à Dora. A história se inicia tendo a Central do Brasil (estação de trens no subúrbio do Rio de Janeiro) como cenário. Dora é uma professora aposentada que escreve cartas para analfabetos – mais especificamente, para a população migrante que almeja manter laços com os parentes distantes, e é revelada como uma pessoa sem compromisso com valores éticos e morais, uma vez que não coloca todas as cartas dos clientes nos correios e quase colocou Josué como vítima de tráfico externo. Tal ambiente é uma amostra da realidade dos migrantes nordestinos que se mudam para a cidade do Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, mas que num contexto de desigualdade social, na luta pela sobrevivência são entregues ao assalto, ao tráfico de forma a aumentar o quadro da violência urbana. Ana é uma das clientes de Dora, que leva o seu filho Josué, um garoto de nove anos, para escrever uma carta para o seu pai, o qual deseja conhecê-lo. Na saída da estação, Ana sofre um acidente de carro ao ser atropelada, que causa a sua morte. Desta forma, Josué fica abandonado na cidade e é o momento em que definitivamente decide procurar o seu pai. A única opção de Josué é pedir para que Dora escreva uma carta para atender a essa necessidade dele. Dora, no entanto, não parece se sensibilizar com a situação do garoto num primeiro momento. Posteriormente, se envolve com ele na sua busca pelo pai com destino à Bom Jesus do Norte, na Bahia. No discorrer do filme, vários obstáculos são postos para que alcancem sua meta, ao mesmo tempo em que os dois personagens conquistam uma relação de amizade cada vez mais afetuosa, passado o momentos inicial da rejeição recíproca. A trajetória dos personagens em busca do pai de Josué no sertão de Pernambuco e da Bahia é, portanto, o cerne sobre o qual se constrói o desenvolvimento do longa-metragem, no qual se inserem todos os personagens secundários, os equívocos nos endereços possíveis para a casa do pai de Josué e como a relação de Josué e Dora assume novos caminhos à medida que convivem, de forma a causar mudanças em suas atitudes. Nos momentos conclusivos do filme, eles são encontrados pela família do pai: os irmãos de Josué, os quais aguardavam pelo pai que saiu de casa e não mais retornou. Neste contexto, se mostra a revelação da carta do pai de Josué a Ana, na qual revela que

Ana. Dora. pois seu pai morava no Nordeste e não mantinha contato algum. por meio de relações concretas e históricas . vivia em contato com uma realidade social em que nem todas as objetivações feitas pelo homem eram possíveis de serem apropriadas. do universal. ou seja. junto de sua mãe. particular e universal é possível compreender o homem como um ser social. Ana. O acúmulo de experiências leva à maior complexificação do sujeito. de forma que suas funções cognitivas e emocionais produziram um grau de apropriação da realidade distante da objetivação do gênero humano. o homem como um ser social. que nunca às colocava no Correio. o trabalho. um indivíduo singular. E é no cerne da segunda relação . Desta forma. um indivíduo que depende fundamentalmente desta relação para formar sua essência humana. o singular se constrói no universal e este se concretiza através da atividade histórico-social desenvolvida pelo indivíduo. o capitalismo. ou seja. Isto só se torna possível através da mediação feita pelo particular. sem . universal. no processo chamado de humanização. O menino Josué. inclusive da construção de sua individualidade (particular).tinha a intenção de reencontrá-la e reunir a família para que vivessem juntos. resultou nas construções de vínculos de acordo com a sua condição concreta de vida. Esse contato com as objetivações do gênero humano torna-se fonte de mediação para o homem estabelecer objetivamente sua individualidade e se constituir como um ser social e genérico. No movimento que constitui tal dialética. mandava cartas a ele através da escrevedora Dora. isto é. A primeira trata-se da relação com as objetivações históricas humanas (universal): o homem se apropria delas e objetiva-se como sujeito ativo e participante das transformações do contexto em que vive. por não ter condições de viajar ao encontro do marido. isto é.que a primeira se realiza. de sua sociedade. indivíduo singular. através da dialética existente entre singular. devido ao modo de produção vigente. De acordo com a psicologia sócio-histórica. uma vez que a estrutura social na qual estava inserido. se constrói a partir da relação existente com a genericidade parte esta. A forma como todas as experiências sociais o afetaram. já que ela diferenciase entre os indivíduos. com as apropriações adquiridas pelo indivíduo em seu contexto de vida.entre indivíduo e sociedade. o personagem Josué vivia somente com sua mãe. através das apropriações e objetivações feitas ao longo de sua vida. Além de que. não dava acesso a elas. que obteve o sentido da sua trajetória concluído. No filme. a apropriação que ele fez da realidade foi subjetiva. retorna ao Rio de Janeiro. Tais experiências tiveram um papel particular na vida de Josué.

do meio social no qual o indivíduo está inserido. ambos humanizam-se e encontram no outro uma singularidade até então desconhecida. é conquistada socialmente. fazendo delas verdadeiras mercadorias. pois buscam conhecer a si mesmos. mas as deixam guardadas em uma gaveta. muda a atitude em relação às cartas. Toda atividade é gerada por uma necessidade. não possuem família – acentuada ausência da figura paterna – e estão aprendendo a sobreviver por conta própria desde muito novos. Ocorre a mudança de alguns traços do caráter de Dora na medida em que estabelece uma relação com Josué. ***Atividade é o meio/modo pelo qual o ser humano se relaciona com a realidade. Dora e Josué aproximam-se e identificam-se. se ela utilizasse seu aprendizado como professora para ajudar os outros. A ação humanizadora que este trabalho poderia ter. através da atividade vital humana. Dora compra roupas novas. que é social. perde seu sentido a partir do momento em que ela não envia as cartas. O fator determinante para a humanização dos antepassados animais do homem e. ainda mais depois da morte de sua mãe. É uma relação mediadora para ambos. ou seja. Entre pessoas desconhecidas e um cenário marcado pela pobreza. Todas as . ou seja. que manifesta toda universalidade já conquistada pelo gênero humano. torna-se mais vaidosa por influência do menino. Segundo Duarte (1999) o gênero humano pertence à categoria histórica. o menino que quer conhecer o pai de qualquer maneira.abdicar da singularidade alcançada. Ao acompanhá-lo na viagem em busca do pai. em um processo que suporta desavenças e abandonos. o trabalho. que sobrevive com o dinheiro que recebe transcrevendo cartas para supostos analfabetos. é uma mulher amarga e cínica. no início do filme. fazendo com que suas singularidades se confrontem e se complementem. Dora. que por sua vez é criada pelas condições concretas da vida. buscando a satisfação de suas necessidades. Josué passa a ser mais alegre e mais confiante em relação aos outros e deposita em Dora a figura materna e paterna ausentes. conseqüentemente o surgimento da sociedade foi o surgimento do trabalho. não as guardando mais ou jogando-as no lixo. e se realiza no interior das relações sociais concretas e históricas nas quais cada homem se insere. é uma síntese complexa em que a universalidade se concretiza socialmente e historicamente. novos elementos individuais e de personalização. em que eles transformam um ao outro e são transformados. que torna possível a construção de suas identidades. O homem com sua singularidade se resultam em uma síntese de múltiplas determinações.

(Duarte.modificações anatômicas e fisiológicas devidas ao desenvolvimento de atividades acarretaram necessariamente uma transformação global do organismo. membros de uma dada sociedade. um produto que não é mais um objeto inteiramente natural. isto é. por . como podemos observar na teoria marxista: (. em especial a linguagem. dada a interdependência natural dos órgãos e o surgimento da atividade vital humana – trabalho. Para Duarte (2000). de modo que o homem não entra somente em uma relação determinada com a natureza. É um processo que liga o homem à natureza. Leontiév e Vigotski utilizam o conceito de atividade/ação diretamente com o de trabalho humano. um produto que é uma objetivação da atividade e do pensamento do ser humano. a de ser uma atividade mediatizada pelos instrumentos e a de ser uma atividade que se materializa em um produto social. faz uso de instrumentos de mediação e produz algo que se pode caracterizar como elemento da cultura – ora pela existência física. É através do intermédio desta relação com outros homens que o indivíduo se encontra em relação com a natureza. uma atividade que distingue o ser social do ser natural. a atividade humana caracteriza-se por três aspectos fundamentais: ela é teleológica. ora pela simbólica – a qual consiste na objetivação do ser humano. mudando-a e. 208) A partir do referencial marxista. O trabalho é caracterizado por dois elementos interdependentes. por possuir essas três características: a de ser uma atividade conscientemente dirigida por uma finalidade previamente estabelecida na consciência. 2000.. Vigotski buscou criar uma teoria que englobasse uma concepção de desenvolvimento cultural do ser humano através do uso de instrumentos. para Marx. no qual ele age sobre a mesma. p. Eles são os meios externos utilizados pelos seres humanos para interferir na natureza. Segundo Bonin (1996). social e cultural. transformando-a e concomitantemente se transformando. O segundo consiste em que o trabalho somente pode ser efetuado em condições de atividade comum coletiva. sendo o primeiro deles o uso e o fabrico de instrumentos. tida como instrumento do pensamento. define a especificidade do ser humano como um ser histórico.) o trabalho é.. mas com outros homens.

em sua ontogênese. etc. escrevedora de cartas. pode-se inferir que Dora exerce a atividade de produção social. a partir daí transmutados em significação no psiquismo humano. Toda atividade humana produz cultura e. a linguagem materializa e constitui as significações construídas no processo social e histórico. O ato de escrevê-la constitui a sua ação. Se considerarmos a origem do ser humano. para tanto o resultado de qualquer atividade é tanto a produção da realidade humanizada quanto a humanização do indivíduo que a empreende. dois saltos qualitativos incidem em seu desenvolvimento: o primeiro. provocando mudanças nos mesmos. escreve o que lhe é solicitado pelas pessoas supostamente analfabetas. Como pagamento desta atividade. mediando assim suas formas de sentir. passam a ter acesso a estas significações que. uma vez que a personagem Dora. Por fim. . por sua vez. ela recebe um real pela carta escrita e mais um real pelo envio da mesma. sendo através desta função comunicativa que o ser humano se apropria do mundo externo. A apropriação caracteriza-se pela internalização dos signos. e o segundo. No desfecho do filme pode-se observar a ausência deste segundo salto qualitativo. De acordo com Vigotski. e serão estas significações resultantes que constituirão suas consciências. A linguagem é o instrumento da comunicação constituída de um sistema de mediação simbólica. sendo de princípio professora e posteriormente. O motivo de sua atividade é o próprio sustento. Já a finalidade é ganhar dinheiro. sentada atrás de uma mesa. Depois de aposentada é o único meio pelo qual ela optou de garantir sua sobrevivência. de conceitos e significados. na qual várias pessoas formam fila na Central do Brasil e ela. quando adquire a linguagem escrita. A partir do instante em que os seres humanos a interiorizam. como cartas para parentes distantes. amigos. estabelecendo interações nas quais abrangem negociações. quando este adquire a linguagem oral. reinterpretações das informações. pensar e agir. segundo Vigotski. no processo dessa produção. sendo estes utilizados pelos indivíduos na comunicação com os outros com os quais se relacionam e consigo mesmos. por exemplo) e o manuseio desses. E a operação é modo pelo qual ela realiza a ação de escrever as cartas: uso dos instrumentos (caneta e papel. objetiva o ser humano e ao mesmo tempo o subjetiva. A atividade pode ser mediada. servirão de base para significar suas experiências.conseqüência. como se pode observar na cena inicial do filme. através dos signos enquanto instrumentos psicológicos produzidos socialmente.

a escrevedora consegue recuperar Josué e estes iniciam uma atividade em comum. e. assim como o surgimento de uma nova atividade para Dora. o que fazia com que ele fantasiasse um perfeito ‘pai de família’. a de carpintaria. a partir da qual se fez mais adequado excluir da sociedade o sujeito dito . a relação com ela mesma e com sua consciência. Depois de Dora vender o garoto à Iolanda e se arrepender do feito. sendo que os últimos lhe garantem um salário para a execução de sua atividade. é através dos conteúdos do pensamento (conceitos e juízos) que ela se comunica com as pessoas. ainda que fosse pertinente a atividade de estudo. Pelas funções interpessoal. A partir deste momento Dora convida Josué a ir com ela para sua casa. Para Josué. de forma que se utiliza de suas objetivações para que transforme a realidade em que está inserido. pois Josué necessita encontrar o pai e que ele seja seu cuidador. esta se encerrará aí. assim. uma vez que passaria a se apropriar da atividade executada pelos seus irmãos. que esta morreu. podendo esta vir a ser uma atividade de produção social – trabalho. uma vez que é segurança dos camelôs da Central do Brasil. como é demonstrado no encerramento do filme. Já Dora tem como motivo de sua atividade ajudar o garoto a encontrar seu pai. É interessante observarmos o ponto crucial da mudança da vida da personagem. o desenvolvimento de sua atividade foi dirigido à busca de seu pai. para executar tal atividade. com necessidades distintas na medida em que se inicia um processo no qual o objeto e o motivo não coincidem. Pode-se exemplificar uma ação de Josué na cena em que. durante sua vida Ana lhe falava muito bem de seu pai. tem a carência de uma reconstituição familiar. de transição e intrapessoal ela organiza a sua relação com o outro. seu motivo era conhecer o pai. à espera de sua mãe. sozinho. Como por exemplo. e ele captura o efetuador do roubo. a cena que se segue é a de Dora conversando com o garoto e dizendo que sua mãe não voltará. ressalta-se a realidade apropriada pelo mesmo. como se requer num desenvolvimento típico. a mãe do garoto Josué. já que sua mãe foi embora do Nordeste grávida de Josué. isto é. na cena em que ocorre um roubo de um camelô. Concluindo. pode-se dizer que Pedrão exerce a atividade de trabalho. Além disso. morre e este se encontra na Central. Josué exerce no decorrer do filme a atividade de procura ao pai. e quando realizar tal atividade. Ainda pode-se inferir que possivelmente passará a exercer uma nova atividade. Quando Ana.A linguagem (instrumento) como sistema de signos é a base da atividade de Dora. o garoto entra no ônibus com Dora com destino à Bom Jesus do Norte. assassinando-o. Remetendo-se aos demais personagens do filme.

norma de comportamento. como mencionado anteriormente. devemos levar como pontos relevantes as condições objetivas em que se encontra disposto em suas circunstâncias. que poderá ser somado a conteúdos objetivados pelo sujeito. No decorrer da vida do homem. é a tomada subjetiva e pessoal da significação . Intrínseco a ele. No entanto. de maneira que recebe um salário para que objetive suas apropriações de forma a estabelecer transformações na realidade que lhe é posta. O indivíduo vai desenvolvendo a sua consciência conforme se apropria continuamente dos fenômenos no complexo de relações que o sustentam. ao invés da alienação em nível maior em que a maioria dos sujeitos está posta. de forma que é ilustrada no filme a objetivação de suas apropriações acerca da atividade. o que lhe confere estabilidade. os personagens exercem a atividade de produção social. tornam-se a consciência real dos indivíduos. ele assimila as experiências das gerações precedentes. etc. e este por sua vez é fixado sob a forma de conceitos – “modo de ação” generalizado. Deste modo. Quando nos referimos à estrutura da atividade devemos ter como pontos de análise as condições sociais e as relações humanas que as sucedem. a estrutura da consciência humana está intimamente ligada à estrutura da atividade humana. isto é. ou seja. a significação é refletida e fixada na linguagem. e com isso as objetivações deste sujeito agora serão direcionadas de outra maneira para os fins da atividade. é o momento inicial do reflexo da realidade. através dessa apropriação maior de consciência. e essa aquisição de significações acaba por culminar na apropriação gradual e potencial do patrimônio humano genérico. que transforma as qualidades do estímulo em fato da consciência. ao referimo-nos à consciência de um indivíduo isolado. assim vai adquirindo uma proximidade do significado real. uma vez que as significações lingüísticas. A respeito dos irmãos de Josué pode-se dizer que eles exercem atividade de carpintaria. Já o personagem César pode-se dizer que exerce a atividade de trabalho de “caminhoneiro”. A base da consciência é o conteúdo sensível. independentemente da relação individual ou pessoal do indivíduo com a realidade objetiva.não adequado a ela. Posteriormente. A atividade acaba por constituir a consciência e esta por sua vez a regula. dirige para diversos lugares com o principal objetivo de fazer entregas. é formado o reflexo psíquico da realidade. a significação é a forma pela qual o homem assimila a experiência humana generalizada e refletida. que constituem o conteúdo da consciência social. O sentido é adquirido a partir das experiências do sujeito. Assim. e assim sucessivamente pelas gerações posteriores.

o que culmina na ampliação do acervo histórico-social. o desenvolvimento dos fenômenos e processos psicológicos. observamos que a principal fonte de apropriação dos instrumentos e conhecimentos da cultura. Há poucos indícios no filme de uma possível alfabetização do garoto. uma vez que são instrumentos artificiais introduzidos pelo homem na atividade psicológica e cumprem a função de auto-estimulação. Para além da ligação entre os organismos vivos e o meio. qualidade essencialmente biológica e o objeto. A criança como ainda não se apropriou amplamente dos fenômenos da realidade objetiva e está adquirindo de forma primordial os conteúdos do patrimônio humano genérico. há a objetivação do conteúdo ora apropriado. partilha da consciência do adulto enquanto a sua se encontra em desenvolvimento e o outro passa a ter papel fundamental na constituição da sua consciência. Segundo Vigostki. para tal. e expressa a relação do mesmo com os fenômenos objetivos conscientizados. assim sendo.. Posteriormente.” (LEONTIEV. Dora. o sujeito forma um reflexo psíquico a partir da atividade que executa enquanto interage com a realidade material que o cerca. 1978: 103). procura Dora para que escreva uma carta para este. é sua mãe e posteriormente. sendo este quem dirige a ação correspondente a atividade em questão. em que o desenvolvimento da atividade se dá de maneira estritamente biológica e há a formação do reflexo psíquico proveniente dessa condição. Ou seja. considerando que o motivo é a relação entre a necessidade. Por fim.. o homem distingue essa relação como sendo a sua e toma consciência dela. Josué vive somente com a mãe e busca o pai que desapareceu sem deixar indícios. tendo Dora como . e não é sinalizado se freqüenta uma escola. com a morte da mesma. ou seja. o sentido compreende o motivo e a finalidade para que a ação se orienta. da consciência. entre aquilo que o incita a agir e aquilo para o qual a sua ação se orienta como resultado imediato. Em cenas do filme evidenciamos a apropriação acerca da realidade pelo garoto. “(. dá-se num primeiro momento pela apropriação dos objetos da realidade objetiva. visto que sua mãe não aprendera a escrever. a escrevedora de cartas da Central do Brasil. Contudo. sendo que essa apropriação varia qualitativamente frente às relações vitais em que está sustentada. que parte numa viagem não-planejada em busca do pai de Josué.para o indivíduo.) esse sentido consciente é criado pela relação objetiva que se reflete no cérebro do homem. Os signos são mediadores do processo de construção do sentido.

então sua atividade estava alienada. vê-se que o garoto tinha se apropriado de uma certa característica da atividade de escrever carta e agora a objetivava jogando as cartas no lixo. Assim. remete-nos ao ideal de família. considerando que ele encontrou a carta de sua mãe em uma gaveta da casa de Dora. como num modelo de família nuclear. Observa-se na obra que Josué possui um ideal de família. A cena em que Josué observa o quadro na casa de Dora. como a cena em que Josué questiona Dora: “Como se conta um quilômetro?” e ela responde indiferentemente: “Eles inventam. . tanto no âmbito material como no subjetivo. Traz em seu bojo o sentido estabelecido pelo garoto de uma estrutura familiar. e por uma mãe submissa ao controle paterno. que logo abandona o lar. E a ausência de uma família nos personagens Josué e Dora acaba por culminar numa identificação dos personagens. que era carpinteiro e construía casas e às figuras da mãe. remetendoo à figura do pai. e possui um significado. traz consigo lembranças de sua infância marcada por conflitos familiares. é uma objetivação da humanidade no decorrer da história. cujo sentido universal foi desenvolvido a partir de apropriações. dando a entender que o produto final da atividade não tinha valor algum. e quando Dora questiona a sua postura. sendo que questiona às pessoas que conhece se são casadas e tem filhos. Ela provém de uma estrutura familiar constituída por um pai alcoólatra. A personagem Dora. No entanto. a cena em que o garoto ingere a bebida alcoólica que a professora carregava em sua bolsa e fica bêbado. procura garantir condições melhores de vida ao se dedicar a escrever cartas para pessoas supostamente desprovidas de alfabetização na Central do Brasil. ela o surpreende alegando que dessa vez entregará as cartas. que não conhecia. professora aposentada. uma vez que o estímulo casa tivera se tornado fato da sua consciência. que passam a se apropriar de conhecimentos diversos. e a cena em que quando no nordeste.mediadora e a linguagem como elemento mediador. como a professora fazia na central. os quais são expostos por suas interações entre si e também entre demais pessoas que surgem no enredo do filme. Dora volta a escrever cartas para garantir que conseguissem se manter e continuar a busca pelo pai de Josué. que morre e de seus irmãos. evidencia os conteúdos da consciência. cujo desenho é de uma casa.”. frente ao salário e reputação inexpressivos atribuídos ao professor em nosso país. alega que ela também fazia uso dessas bebidas e não poderia corrigi-lo. e na volta de um dia de trabalho o garoto pega as cartas sinalizando jogá-las no lixo. ou seja. se a atividade consistia num produto final de entregar as cartas no correio. como almejava no decorrer do filme.

A consciência de Dora se modifica conforme vai se relacionando com Josué. que vende as crianças cabe a pergunta se há uma consciência social real ou quais as representações dela quanto ao ser humano como sujeito detentor de vida. enquanto Dora se recuperava do desmaio na sala religiosa. marcada por desigualdades sociais e pela luta de classes. Tratando-se da personagem Yolanda. Dora estabelece um vínculo materno com Josué. até então. nota-se que as pessoas se relacionam não como sujeitos. e reflete a realidade corrompida da instituição escolar. políticas públicas e da sociedade. O caminhoneiro César. ao invés de ensiná-las a escrever. Do ponto de vista das relações sociais como estão postas no filme. numa ação de afeto. que todas as noites enxotava as crianças do local e em uma das cenas mata um rapaz que roubou um camelô. também é professora aposentada. havendo também a possibilidade de causar algum dano à sua. o que é amplamente interiorizado pelo garoto. defasada por políticas públicas corruptas e pela perda do ideal de ensino e aprendizagem. quanto à questão de Josué de exercer a atividade de caminhoneiro e à Dora quanto ao seu envolvimento com outras pessoas. vendendo crianças a outras pessoas. Irene. De certa forma neste filme é mostrada uma visão pouco humanizada por parte dos personagens como também no caso do segurança da central. e pela sociedade. amiga Dora. amiga de Dora. visto que demonstra envolvimento emocional com o caminhoneiro. visto que até então exercera em sua atividade pedagógica uma relação alienada e o mesmo se dá posteriormente quando se torna escrevedora. em que não encontra subsídio para garantir sua sobrevivência. Para além desta relação. por conseguinte. mantendo a classe proletária longe das apropriações do conhecimento. fornecendo a ele proteção e cuidados. mostra-se como ser intermediador de consciência. Talvez as apropriações quanto à visão do indivíduo como sujeito foram distorcidas ao longo da sua história de vida.Dedicou-se a ao trabalho de professora. tendo em vista que trata os seres humanos apenas como um “produto” por assim dizer. ao passo que faz uso de sua consciência para o desenvolvimento de Dora e Josué. e leva-nos . e acaba por ser corrompida pela instituição escolar. marcado por sua religião aguçada. Torna-se assim. sendo objetivadas através de sua atividade da forma como se dava. mas como objetos de valor ou não. Pedrão. que aparece em uma das cenas do filme. instrumento de manutenção do ideal burguês. carinho. uma vez que mostrava indiferença às outras pessoas para quem escrevia cartas.

como observamos através do filme. como por exemplo. Isto parece ser resultado da escola como um dos instrumentos de humanização da sociedade pouco efetivo da forma como está estruturada. Então. Com um ano de idade mais ou menos a criança passa a requerer contato maior com as ações humanas. poder se desenvolver em cada estágio. Assim. Isto. então. objetos e formas de se relacionar e proceder diante deles. em que a consciência se faz pouco desenvolvida e com as funções psíquicas cada vez menos superiores e cada vez mais elementares. etc. A maioria das realidades demonstradas no filme carece de muitos recursos para que ocorra um desenvolvimento considerado saudável e que proporcione a humanização ilimitada dos indivíduos que se encontram nelas. Elkonin diz que a partir do momento em que o bebê nasce. assimilando-as à medida que as pessoas vão mostrando ações. se comunica por meio de reflexos e expressões copiadas dos adultos. diz respeito à periodização do desenvolvimento. cada qual possui uma atividade principal. denominados “crises” os processos que ocorrem de um para o outro. ele está em interação com outros seres humanos por meio da chamada comunicação emocional. com o ensino cada vez mais desvalorizado. é chamada de objetal manipulatória. 2006: 11). Elkonin formula seis períodos. múrmurios choro. porque é o início de interações com os outros por meio das emoções para que posteriormente desenvolva a linguagem. Restam à sociedade apenas as relações objetivadas em suas atividades. A passagem de um período para o outro é uma relação dialética em que é representada por estas atividades que vão se superpondo uma sobre as outras sem desconsideração das demais. Segundo Facci (FACCI. sorrisos.a pensar se conforme o decorrer do tempo o ser humano passa a ser mais humanizado ou mais hominizado novamente. de acordo com a psicologia histórico-cultural. aquela em que a criança começa a utilizar-se da assimilação . ou seja. ruídos. saciando suas necessidades cada vez mais instantaneamente. balbucios. apenas respondendo aos estímulos que estão postos na sociedade. passa a ter uma colaboração prática. Nesta fase a comunicação emocional. atividade que ocorre de maneira mais significativa para suprir as principais necessidades e assim. pela qual ocorrem estágios essenciais para que este ocorra de maneira humanizadora. na fase denominada pré-escolar a atividade mais importante é a designada jogo de papéis. tanto pela burguesia quanto pela prole e então acaba por ser um instrumento de poucas apropriações.

O próximo estágio é o de comunicação íntima pessoal. deve prosseguir nos demais anos da escola para desenvolver outras funções psicológicas. Sendo assim. no qual ocorre uma mudança na posição em que o adolescente ocupa diante dos adultos. Após o término da escolarização fundamental e média. mas não consegue realizá-las de fato. a priori. agora denominado adulto. para que ela mande carta para algum ente querido. sendo agora muito próximo a eles. porque é quando ela terá contato com objetivações. Pode-se perceber as dificuldades relacionadas ao estágio de atividade de estudo. Quando a criança começa a frequentar a escola. assim que começa a ter consciência sobre elas. tal como é conhecida no Brasil. se esta escola for dotada de um ensino satisfatório. a partir da convivência com companheiros de estudo. terá que optar por algum tipo de atividade profissional/estudo. o adolescente. Neste estágio de esforço maior. relações. onde matar e roubar são atividades corriqueiras e na qual nos transportes públicos as pessoas entram pelas janelas. alfabetizada. a criança terá se desenvolvido de forma ideal. nas quais as pessoas procuram Dora. É o estágio em que a crítica urge. as realidades de muitos indivíduos que vivem naquele local ou próximo dali. essas operações. das quais irá se apropriar e aprender elucidativamente a linguagem.um com os pais e irmãos e outro com a sociedade a partir do momento em que entra na escola. de uma educação que visa à humanização do indivíduo e que promova possibilidades de tornar o indivíduo alienado em menores graus para com as relações que estabelece com sua realidade e com as demais. ações. mostrando a própria Central do Brasil. Logo em seguida. portanto. que em nossa sociedade capitalista se traduz em formas de vender sua força de trabalho. ao passar dos anos. no qual a criança deveria ser. É importante notar as cenas iniciais. Pode-se dizer que a criança possui dois círculos de relações .de objetos desenvolvida para reproduzir ações humanas e o momento em que a criança começa a se esforçar de fato para agir como um adulto. portanto tal período é chamado de atividade de estudo. que é um tipo de mercado popular. para que seja feita a . sua principal atividade é o estudo. a criança consegue resolver a contradição de não conseguir executar operações e necessitar agir. pois simula através das brincadeiras e jogos. No início de “Central do Brasil” são mostradas algumas das condições concretas e. uma escrevedora de cartas. A consciência é direcionada para a compreensão do trabalho como atividade para organizar interações sociais com as pessoas.

por não ter conhecimento do mesmo e desconhecimento do funcionamento dos correios (que se consegue a partir do pensamento abstrato). na cena em que pergunta à Dora “o que é um quilômetro?”. Uma das dificuldades pode ser elucidada por uma personagem que ao ditar uma carta não descreve o endereço para onde quer mandar. mãe de Josué. nota-se também que o menino sempre pergunta para novas pessoas que conhece se estas possuem família. muito pouco. Após ter negado o fato da morte da sua mãe a Dora. pela significação desta palavra na linguagem que faz parte da sociedade brasileira. . Com isso. Pode-se citar a cena em que Josué pergunta a Dora sobre a morte da sua mãe: “Onde será que ela está agora?” Sabe-se que Josué esteve em contato com a morte pelo menos uma vez em sua vida. isto é. Pode-se citar também a ausência de uma gama de apropriações e desenvolvimento adequado de tais pessoas.“… põe a terceira casa. que à primeira vista poderia ser atribuída a uma escolarização. carregava consigo em um pilar em Bom Jesus do Norte. ele e Dora amarram o lenço que Ana. Na sequência desta cena. que pela interpretação do filme. é possível dizer que esta apropriação adveio a partir do signo “km” . conviveu somente alguns anos com ele. em questão. um conceito abstrato. Percebe-se em Josué uma necessidade de conhecer seu pai. não sei dizer direito não”.abreviação da palavra “quilômetro”. compreendeu a sua ausência e que não a veria mais.transição do pensamento empírico ao teórico. de modo que podemos estabelecer relação com o contexto em que ele se encontra: necessidade de entender melhor como se dá sua relação com as outras pessoas de forma que ainda pode vir a depender delas e de forma que aprende a reprodução de ações. em que lê “km” em uma placa na estrada. No personagem Josué. relações e operações. demonstrando que Josué compreendera o conceito de morte. e diz . no entanto são conhecimentos que provém das suas relações com os demais indivíduos. o que no início do filme mostra-se como uma grande dificuldade para tais pessoas. percebe-se que ele possui certa apropriação de conhecimentos cotidianos. depois da padaria. Então subtende-se que ele se apropriou a partir de relações sociais as quais não forneceram este entendimento e que careceram de ensino desta linguagem. contudo sem o estabelecimento de seu significado. seu conteúdo. Como por exemplo. que se dá pelo entendimento da palavra a nível supra-individual. se estão solicitando o trabalho de Dora é porque não sabem ler nem escrever ou se sabem. uma vez que. quando presenciou sua mãe sendo atropelada na rua.

portanto. da educação deste ser humano desde seu .” (Vigotskii. Entretanto. estaria bastante restrito ao empirismo. começa antes da aprendizagem escolar. alcançado pela criança antes de entrar para a escola. e a aprendizagem escolar pode também tomar uma direção contrária. e o seu pensamento. pois não obtiveram escolaridade formal ou esta foi insatisfatória. de determinada maneira. portanto sem passar devidamente por todas as fases propostas na periodização do desenvolvimento. não teria alcançado o desenvolvimento escolar ideal para a sua idade. Falar em desenvolvimento do psiquismo é falar do desenvolvimento do sistema interfuncional complexo de cada indivíduo que diz respeito às funções psicológicas que cada um pode ter. mesmo que Josué estivesse freqüentando o ensino fundamental em dadas condições. A aprendizagem da criança. no entanto. considerando sua realidade nas condições precárias de vida no subúrbio do Rio de Janeiro. portanto. o que vai depender. Mas tanto se a escola continua a pré-escola como se impugna. Para Vigotskii. não podemos negar que a aprendizagem escolar nunca começa no vácuo.Não há dados no filme que confirmam se Josué foi alfabetizado regularmente. há a existência de uma pré-história da aprendizagem escolar: “O curso da aprendizagem escolar da criança não é continuação direta do desenvolvimento pré-escolar em todos os campos: o curso da aprendizagem pré-escolar pode ser desviado. passando devidamente por todos os estágios de desenvolvimento. p. a aprendizagem de Josué não somente a uma eventual aprendizagem escolar – embora o ideal fosse se desenvolver em condições satisfatoriamente humanizadoras. mas é precedida sempre de uma etapa perfeitamente definida de desenvolvimento. que inclui a alfabetização e educação formal insatisfatórias. As realidades apresentadas tanto no subúrbio do Rio de Janeiro quanto na cidade de Bom Jesus do Norte no contexto do filme mostram-se inadequadas para o desenvolvimento das máximas potencialidades do psiquismo humano. e o convívio com a sua mãe que também era pouco alfabetizada. 110) Pode-se atribuir.

raiva). já que este é marcado por abstração que depende. à qual corresponde a reflexos sensoriais diretos. ou seja. isto é. de uma representação mental baseada em conceitos e na superação da imagem da “casa” sensório-perceptual. foi formando certos padrões de emoções como não só respostas fisiológicas como chorar. Pernambuco”. No filme pode-se notar desde o começo com várias pessoas ditando cartas até aos personagens principais como Josué e Dora. senti seu corpo junto ao meu. As primeiras funções que começam a se desenvolver a partir da existência de um ser humano são a sensação e a percepção. porque não precisam inicialmente da linguagem como base para seu desenvolvimento. o que. mas dela precisará para aperfeiçoar e estabelecer outras mais inúmeras conexões com realidades concretas. . bairro e número da casa. mas não o nome de sua rua. não muito ao se dizer das funções sensação e percepção. por exemplo. emoção e sentimento. por meio da evolução filogenética. depois da padaria. pensamento. disse o que garantia sua imagem unificada da localização daquela casa. bairro. Quando Dora pergunta a uma moça qual é o endereço ao qual quer enviar a carta. portanto. Uma vez que isso se refere à formação de conceitos pode-se dizer que a dificuldade se deu em nomear a rua. memória. alguns déficits e dificuldades em relação a elas. a mesma diz “não sei dizer direito não. diferentes níveis de desenvolvimento das funções psicológicas. além do desconhecimento desta necessidade para que a carta chegue ao seu destino. põe assim: terceira casa. daí a começar a significar – união de percepção imediata com percepção categorial. perceber algo. esta cena demonstra que ela disse o que havia percebido em relação à localização da casa a qual quer que chegue a carta. percepção. número da casa e etc. linguagem. imaginação. É existente também desde aí a função emoção.nascimento. pode-se dizer que ela tem um déficit em relação ao desenvolvimento do pensamento teórico. aparecendo nesta primeira etapa de desenvolvimento como adaptação ao meio. não há a necessidade do emprego de signos para sentir. É perceptível o destaque das emoções quando. ou seja. portanto. atenção. meu tesão. Mimoso. a partir da síntese de uma análise daquele objeto “casa” ela havia estabelecido conexões com a padaria perto dela e de quantas casas depois ela estaria. mas também cerebrais (tristeza. alegria. Estas são consideradas funções elementares. um moço que começa a ditar uma carta e descreve “Dalva. da realidade e do contexto em que ele está inserido para que desenvolva cada vez mais ou não todas elas: sensação.

. já que não havia feito com a anterior até então. O transporte público do local é um trem o qual a maioria das pessoas entram pelas janelas. pode-se dizer que Josué cria uma imagem do lar em que possivelmente irá morar com o pai em Bom Jesus do Norte. é claro. mas diferentemente daquela ao início do desenvolvimento. A partir disso. na casa de Dora. Quando Josué e Ana procuram Dora pela segunda vez para refazer a carta. e demais funções como a atenção. A imaginação é caracterizada pela construção antecipada da imagem do produto da atividade. É uma função elementar. diante do ocorrido com o garoto e da vontade deste de conhecer o pai.carne se unindo naquela cama de motel. a qual necessita da integração de outras funções. de forma que no filme pode-se visualizar esta função na cena em que Josué. sendo que elas precisaram analisar e sintetizar aquela imagem do transporte com suas possíveis vias de entrada. Diferentemente de imaginação. como além da sensação. porque. me sinto-me. pessoas envolvidas. Dora fica impaciente e se irrita com eles e acaba por não colocar a carta e a foto em um envelope.”. Esta é outra cena em que a percepção ortoscópica é destacável. estabilidade. assim sendo. da carga afetiva que é depositada nestas. e contar o que havia acontecido em relação a Ana e o pai deles. há sete anos. não só ela. nosso suor se misturando eu ainda me sinto-me. a fantasia consiste no desconhecimento da . Josué duvida se ela colocará ou não no correio. mas que para seu desenvolvimento se aperfeiçoe depende das relações sociais que a permeiam e também. isto porque diz respeito à características fisiológicas e sensoriais. na cena em que um dos irmãos de Josué (Isaías) pega a carta guardada a seis meses que seu pai havia mandado para Ana (mãe de Josué). entrar pela porta parece demorar mais. observa uma pintura que ilustra uma casa. isso porque a função psicológica foi desenvolvida de modo que infere-se o seu aperfeiçoamento pela carga afetiva ligada aos acontecimentos. muitas vezes. Pode-se verificar tal afirmação. o que não foi meramente por meio de uma percepção primitiva e sim também ortoscópica. significação e acuidade discriminativa para que funcione. devido a rapidez com que ele passa e. armazenamento e reprodução das experiências. demonstra de forma evidente os processos pertencentes à memória de modo que essa lembrança permanece muito forte. Destaca-se a partir daí o desenvolvimento de sensação e percepção destas pessoas. ao Isaías descrever a situação em que encontravam quando seu pai foi embora. carrega agora um significado e certo sentido. A memória se caracteriza por ser uma função na qual a imagem é produzida através da evocação por meio dos processos de fixação..

mas que. são formados por conceitos sociais. fantasia a respeito de uma profissão que deseja ter. Ao mostrar o que roubou para Dora ela o repreende e coloca em sua bolsa os alimentos trazidos por ele dizendo que iria devolvê-los. Na cena em que Dora está com César no restaurante. quando Dora resgata Josué da cada de Iolanda. apropriações a partir de objetivações que permitam o pensamento a respeito desta e também o seu “produto final”. isto é. a fantasia pretere as leis objetivas que regem a realidade. Diferente das funções sensação e percepção que ocorrem pela formação de imagens de objetos e fenômenos. Como por exemplo. emoções como raiva e desespero são evidentes nos três personagens. sendo elas subjetivas e afetivo-cognitivas. Na cena em que César chega para fazer sua entrega na mercearia. o que será apropriado a partir do pensamento empírico em direção ao teórico.realidade concreta a qual estaria imbricada com o produto de determinada atividade. Os sentimentos. os quais são constituintes do pensamento empírico. quando se dirige à mercearia não cumpre o que acabara de dizer. históricos. Isto porque com a ação de repreender subtende-se que Dora pretende ensinar a Josué valores de cidadania. Josué executa a ação de furtar alguns alimentos do local e. ao dizer que deseja ser caminhoneiro e ao sentar-se no colo de César para ajudá-lo a guiar o caminhão. por meio das experiências vividas. percebe. Josué. Com isso ao oferecer estes alimentos ao menino não revela o que acabou de fazer como também mente que pagou o que ele havia pegado e que ainda comprou mais. como o de ser honesto. ficando claro que ela se contradiz em suas ações. portanto. quando diz que ficou feliz por ter perdido o ônibus e consequentemente ter o conhecido . atenta-se em relação aos objetos que deseja ter e ao ambiente ao seu redor que parece estar isento de empecilhos para que a ação seja realizada. por não possuir contato com elementos da realidade concreta. sendo que. é possível observar que ele sente. o que faz com que sejam duradouros e pertencentes à cultura. como também furta ainda mais. As emoções e os sentimentos se formam a partir da relação sujeito-objeto. diferenciando-se delas. esta é permeada pelo desenvolvimento do pensamento efetivo e do pensamento figurativo. por isso são sempre particulares. diferentemente das emoções. ao contrário de furtar. Este valor de honestidade é um conceito no qual certos juízos são constituintes de forma que nesta ação pode-se inferir que ela tem como objetivo implícito a estimulação da criação da abstração em Josué para que este valor seja aprendido. elas se realizam a partir de cada relação com dado objeto. sendo assim. mas logo após. não se pode dizer que ele imagina. assim.

Assim que. A personalidade diferencia-se da individualidade no sentido de que a individualidade consiste em disposições inatas resultantes do desenvolvimento filo/ontogenético. sendo que estes últimos vão se formando e transformando-se na medida em que os dois personagens vão se aproximando ao que se dizer ao vínculo afetivo. Estas duas são interdependentes. disposição biológica fundada na individualidade. é uma disposição inata. mais a partir da segunda metade do filme é possível dizer que Dora e Josué parecem gostar muito um do outro e emoções como alegria e excitação aparecem com frequência. No começo do filme quando Josué e Dora se conhecem. pois a personalidade representa uma objetivação da individualidade e ao mesmo tempo em que a última influenciará a formação da personalidade.e então se aproxima fisicamente do mesmo de modo a pegar em suas mãos. o mesmo ocorrerá na direção contrária. sendo este representado também em sua relação com Josué. . essas emoções continuam evidentes de forma que vão se transformando em tristeza. é constituído por traços que se caracterizam por disposições neurofisiológicas e bioquímicas relativamente estáveis. portanto. e estas conferem ao temperamento a propriedade de ser mutável. síntese de peculiaridades congênitas adquiridas. No entanto. uma vez que a natureza do homem é social. morre e Josué e Dora convivem alguns dias na Central do Brasil. sua mãe. é possível dizer que é uma relação permeada de muitas emoções e sentimentos. Pode-se considerar carência como um sentimento de forma que é um conceito social e se expressa em Dora a partir do estabelecimento de relações afetivas com Josué. é possível perceber que Dora se expressou de forma a demonstrar sua carência para com relacionamentos e também o desejo de constituir uma família. e sentimentos como compaixão e pena se tornam evidentes em Dora para com Josué. É interessante verificar o quanto estes dois personagens se identificam ao que se dizer sobre a história familiar. enquanto a personalidade resulta de relações dialéticas entre os fatores externos e internos. trocam experiências e vivem algumas destas juntos. as particularidades inatas se unem às experiências do indivíduo. assim. quando Ana. a personalidade é construída ao longo da história do indivíduo. sintetizados na atividade social do indivíduo. Por meio da relação de Dora com Josué ao desenrolar do filme. O temperamento. Estes embarcam juntos para a busca do pai de Josué e com isso a relação se intensifica a medida em que conversam. de forma que se pode inferir que este seja já duradouro. e sentimentos como preocupação e desespero também. a relação deles é permeada por emoções como a raiva.

pode-se apontar forças de excitação e inibição (influenciados por uma alta mobilidade e baixo equilíbrio. que diferem em suas combinações e se expressam em cada pessoa de maneira singular) que acabariam por influenciar na formação de sua personalidade e assim. mas é um fator de auxílio na formação das mesmas. isto é. Josué supostamente não tendo a atividade escolar regular. Partindo dessa premissa. do temperamento. uma vez que em suas experiências ao lado de Josué e para com este. o que culmina em uma regularidade e autocontrole mais acentuados. 2007). Aptidões são disposições anátomo-fisiológicas que condicionam o indivíduo a execução exitosa da atividade. impaciente e sarcástica. cria-se um equilíbrio entre as forças de excitação e inibição. as propriedades do temperamento não estão restritas às qualidades naturais do sistema nervoso. no seu modo de agir no meio social em que vivia. No entanto. A forma como o sujeito irá se apropriar do patrimônio genérico humano influenciará no seu reflexo psíquico da realidade. passa a haver a alternância entre excitação e inibição. As aptidões não determinam o desenvolvimento de capacidades. nas suas relações sociais que são sintetizadas na atividade. isto é. bem como no desenvolvimento das capacidades. pode-se retomar que devido à alta plasticidade do cérebro. observa-se no decorrer do filme que seu temperamento assume novos delineamentos.em que supõe-se que seu temperamento possa ser compreendido a partir do indicador que segue: “desequilíbrio. com força do processo de excitação que culmina em uma alta excitabilidade emocional e interrupções nervosas” (MARTINS. Em Josué. habilidades e também na constituição do caráter. irá ter déficits no que rege o desenvolvimento de sua personalidade e o . atentemo-nos à personagem Dora que em sua trajetória inicial pode ser caracterizada como uma pessoa pouco tolerante. devido às condições objetivas nas quais o indivíduo está submetido. no filme. considerando que o seu temperamento foi se modificando ao longo da sua trajetória até a casa de seu pai. ou seja.Para ilustrar um dos indicadores da manifestação da atividade nervosa superior. alguma aptidão que facilitasse a construção de capacidades e a execução da atividade de professora e posteriormente escrevedora de cartas em Dora. Por exemplo. e presume-se que também posteriormente. no tocante de sua provável atividade de carpintaria. a trajetória de vida do sujeito permite grandes mudanças da atividade nervosa. Não é possível inferir a partir de elementos do filme. tampouco constatar aptidões que poderiam auxiliar a formação de capacidades em Josué.

sustentados por uma Ideologia – conjunto de ideais.. no sentido em que Josué irá se relacionar agora com o mundo tendo sua atividade de carpintaria como mediadora das relações sociais. o homem assimila modelos de reação. Pode-se identificar inicialmente em Dora traços referentes ao sistema de realidade externa como o egoísmo e individualismo. e sua expressão subjetiva se dará agora através de tal atividade.desenvolvimento de suas funções psíquicas superiores enquanto capacidades – sistema de atividades psíquicas generalizadas. estreitando sua relação com Josué. o de reações à realidade externa e o de reações à realidade interna. Dora. alterando então a forma subjetiva de relação entre sujeito e objeto. depende de uma vida social. instrumentos de trabalho. já que a sua formação de caráter se dá na relação do indivíduo com a coletividade. e são construídas à medida que tais apropriações e objetivações são conquistadas. e sua atividade também irá influenciar em seus traços de caráter. a procura a fim de que escreva uma carta a seu pai. e no decorrer da viagem. etc. Estas são desenvolvidas pela apropriação da linguagem. no início do filme. tinha a atitude de jogar no lixo as cartas que escrevia. Na cena em que está trabalhando na central e Josué. Já como exemplo de perseverança pode ser citada toda sua trajetória em busca de seu pai. ou seja. Já em Josué podemos identificar quanto ao primeiro sistema: sinceridade e arrogância e quanto ao segundo. e através da última. Sua possível futura atividade então de carpintaria irá atuar em suas capacidades e conseqüentemente em sua personalidade. costumes. Vale ressaltar que tais traços de caráter são modificados à medida que ambos são expostos a novas circunstâncias sob mediação da consciência e com isso são alteradas as suas respectivas formas de ação sobre a realidade e seus valores. ao surgir a necessidade de executar sua atividade de . e determinam atitudes que criam automatismo diante das circunstâncias. O caráter é constituído por traços de caráter. formada por dois grandes sistemas. após a morte de sua mãe. arte e etc. Os traços se objetivam na estrutura do caráter. traços como a arrogância. ela lhe nega auxílio sendo arrogante e egoísta no sentido de que sabia da morte de sua mãe e mesmo assim recusou lhe oferecer ajuda. originárias da atividade humana e que tem por objetivo satisfazer as necessidades. valores. ciência. Tal reação é aprendida – provém de um processo de apropriação. um conjunto de características que tornam cada indivíduo um ser particular. perseverança. A cena em que Josué questiona sobre a confiabilidade do trabalho de Dora ao perguntar à sua mãe “como você sabe que ela vai por as cartas no correio?” na presença da escrevedora traduz seus traços de sinceridade e arrogância. e quanto ao sistema de realidade interna.

fato que mostra um estreitamento dos vínculos afetivos. Josué vai acudi-la e mostra uma atitude de carinho. uma vez que de princípio o mesmo não aceitava a companhia de Dora em sua busca pelo pai. Esta mesma relação fez com que os traços de caráter de Josué também fossem transformados. no entanto. indica que então enviará as cartas que escreveu.escrevedora de cartas novamente. em uma das cenas que Dora desmaia em uma capela de Bom Jesus do Norte. .

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. LEONTIEV.São Paulo: Moraes. A teoria histórico cultural e condições biológicas. São Paulo (Brasil). Linguagem. LEONTIEV. & outros. 2000. N. São Paulo: Xamã. – 2. BONIN. – Campinas. A. 1996.S. A. Campinas: Autores Associados. D..N. et alii. L. LURIA. Método Histórico-Social na Psicologia Social. DUARTE. M. In: ARCE. Petrópolis: Vozes. ed. – (Coleção Contemporânea). Angelo Antonio. A formação social da personalidade do professor: um enfoque vigotskiano. VYGOTSKY. 2007. N. Editora Centauro. Sueli Terezinha Ferreira (Org. desenvolvimento e aprendizagem. G. FACCI. 2005. (1988). A. Vigotski e o “aprender a aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana.. Brincadeira de papéis sociais na educação infantil: as contribuições de Vigotskii.R. São Paulo (Brasil):Ícone. 2006. SP: Autores Associados. L. 1999. DUARTE. VYGOTSKY. Tese de Doutorado. N.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANTES. Os estágios de desenvolvimento psicológico segundo a psicologia sócio-histórica.F.). A e DUARTE. 2004. A individualidade para-si: contribuição a uma teoria histórico-social da formação do indivíduo / Newton Duarte.R. MARTINS. São Paulo: Cortez. MARTINS. .S.L. O desenvolvimento do psiquismo. M. L. Nilma Renildes da. Psicologia e pedagogia: bases psicológicas da aprendizagem e do desenvolvimento. SILVA. Leontiev e Elkonin. 1991.

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