“Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho”

Análise sócio-histórica do filme “A central do Brasil”

Disciplina: Fenômenos e Processos II: Psicologia Sócio-histórica Profa. Lígia Márcia Martins

Aluno(a)(s): Bárbara Barcello Gaspar Flávia Franciane Ortega Dias Mariana Carvalho Koga Marina Leonel Soares Rafael Piccolo Feliciano Stephanie Olivato Yuri Navarrete de Faria Rosa RA: 923532 RA: 922994 RA: 924385 RA:1026437 RA: 1020099 RA: 1026402 RA: 920835

Novembro/2010

O filme “Central do Brasil” foi escolhido como objeto de análise para a articulação com a teoria sócio-histórica no presente trabalho. O longa-metragem se baseia na relação de Dora, a escrevedora de cartas e Josué, o garoto que, após a morte da sua mãe, inicia uma busca incessante por seu pai, junto à Dora. A história se inicia tendo a Central do Brasil (estação de trens no subúrbio do Rio de Janeiro) como cenário. Dora é uma professora aposentada que escreve cartas para analfabetos – mais especificamente, para a população migrante que almeja manter laços com os parentes distantes, e é revelada como uma pessoa sem compromisso com valores éticos e morais, uma vez que não coloca todas as cartas dos clientes nos correios e quase colocou Josué como vítima de tráfico externo. Tal ambiente é uma amostra da realidade dos migrantes nordestinos que se mudam para a cidade do Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, mas que num contexto de desigualdade social, na luta pela sobrevivência são entregues ao assalto, ao tráfico de forma a aumentar o quadro da violência urbana. Ana é uma das clientes de Dora, que leva o seu filho Josué, um garoto de nove anos, para escrever uma carta para o seu pai, o qual deseja conhecê-lo. Na saída da estação, Ana sofre um acidente de carro ao ser atropelada, que causa a sua morte. Desta forma, Josué fica abandonado na cidade e é o momento em que definitivamente decide procurar o seu pai. A única opção de Josué é pedir para que Dora escreva uma carta para atender a essa necessidade dele. Dora, no entanto, não parece se sensibilizar com a situação do garoto num primeiro momento. Posteriormente, se envolve com ele na sua busca pelo pai com destino à Bom Jesus do Norte, na Bahia. No discorrer do filme, vários obstáculos são postos para que alcancem sua meta, ao mesmo tempo em que os dois personagens conquistam uma relação de amizade cada vez mais afetuosa, passado o momentos inicial da rejeição recíproca. A trajetória dos personagens em busca do pai de Josué no sertão de Pernambuco e da Bahia é, portanto, o cerne sobre o qual se constrói o desenvolvimento do longa-metragem, no qual se inserem todos os personagens secundários, os equívocos nos endereços possíveis para a casa do pai de Josué e como a relação de Josué e Dora assume novos caminhos à medida que convivem, de forma a causar mudanças em suas atitudes. Nos momentos conclusivos do filme, eles são encontrados pela família do pai: os irmãos de Josué, os quais aguardavam pelo pai que saiu de casa e não mais retornou. Neste contexto, se mostra a revelação da carta do pai de Josué a Ana, na qual revela que

Desta forma. de forma que suas funções cognitivas e emocionais produziram um grau de apropriação da realidade distante da objetivação do gênero humano. sem . Esse contato com as objetivações do gênero humano torna-se fonte de mediação para o homem estabelecer objetivamente sua individualidade e se constituir como um ser social e genérico. no processo chamado de humanização. No filme. universal. Ana. Ana. o capitalismo. do universal. se constrói a partir da relação existente com a genericidade parte esta. O menino Josué. retorna ao Rio de Janeiro. uma vez que a estrutura social na qual estava inserido.tinha a intenção de reencontrá-la e reunir a família para que vivessem juntos. um indivíduo singular. de sua sociedade. particular e universal é possível compreender o homem como um ser social. um indivíduo que depende fundamentalmente desta relação para formar sua essência humana. a apropriação que ele fez da realidade foi subjetiva. ou seja. isto é. por não ter condições de viajar ao encontro do marido. o homem como um ser social. A primeira trata-se da relação com as objetivações históricas humanas (universal): o homem se apropria delas e objetiva-se como sujeito ativo e participante das transformações do contexto em que vive. De acordo com a psicologia sócio-histórica. indivíduo singular. Isto só se torna possível através da mediação feita pelo particular. que obteve o sentido da sua trajetória concluído. inclusive da construção de sua individualidade (particular). Dora. por meio de relações concretas e históricas . ou seja. resultou nas construções de vínculos de acordo com a sua condição concreta de vida. através das apropriações e objetivações feitas ao longo de sua vida. já que ela diferenciase entre os indivíduos. isto é. A forma como todas as experiências sociais o afetaram. que nunca às colocava no Correio. E é no cerne da segunda relação . pois seu pai morava no Nordeste e não mantinha contato algum. o personagem Josué vivia somente com sua mãe. devido ao modo de produção vigente.entre indivíduo e sociedade. No movimento que constitui tal dialética. o trabalho. com as apropriações adquiridas pelo indivíduo em seu contexto de vida. não dava acesso a elas. o singular se constrói no universal e este se concretiza através da atividade histórico-social desenvolvida pelo indivíduo. junto de sua mãe. através da dialética existente entre singular. vivia em contato com uma realidade social em que nem todas as objetivações feitas pelo homem eram possíveis de serem apropriadas. O acúmulo de experiências leva à maior complexificação do sujeito. Além de que. Tais experiências tiveram um papel particular na vida de Josué. mandava cartas a ele através da escrevedora Dora.que a primeira se realiza.

e se realiza no interior das relações sociais concretas e históricas nas quais cada homem se insere. fazendo com que suas singularidades se confrontem e se complementem. fazendo delas verdadeiras mercadorias. Ao acompanhá-lo na viagem em busca do pai. o trabalho. Todas as . ***Atividade é o meio/modo pelo qual o ser humano se relaciona com a realidade. é uma síntese complexa em que a universalidade se concretiza socialmente e historicamente. Segundo Duarte (1999) o gênero humano pertence à categoria histórica. em um processo que suporta desavenças e abandonos. Toda atividade é gerada por uma necessidade. mas as deixam guardadas em uma gaveta. A ação humanizadora que este trabalho poderia ter. ou seja. Dora compra roupas novas. não possuem família – acentuada ausência da figura paterna – e estão aprendendo a sobreviver por conta própria desde muito novos. que por sua vez é criada pelas condições concretas da vida. Entre pessoas desconhecidas e um cenário marcado pela pobreza. que é social. se ela utilizasse seu aprendizado como professora para ajudar os outros. ainda mais depois da morte de sua mãe. buscando a satisfação de suas necessidades. não as guardando mais ou jogando-as no lixo. torna-se mais vaidosa por influência do menino. conseqüentemente o surgimento da sociedade foi o surgimento do trabalho. Ocorre a mudança de alguns traços do caráter de Dora na medida em que estabelece uma relação com Josué. ambos humanizam-se e encontram no outro uma singularidade até então desconhecida. através da atividade vital humana. em que eles transformam um ao outro e são transformados. do meio social no qual o indivíduo está inserido. no início do filme. É uma relação mediadora para ambos. pois buscam conhecer a si mesmos. perde seu sentido a partir do momento em que ela não envia as cartas. Dora e Josué aproximam-se e identificam-se. que torna possível a construção de suas identidades. que sobrevive com o dinheiro que recebe transcrevendo cartas para supostos analfabetos. novos elementos individuais e de personalização. que manifesta toda universalidade já conquistada pelo gênero humano. Dora. é conquistada socialmente.abdicar da singularidade alcançada. O homem com sua singularidade se resultam em uma síntese de múltiplas determinações. é uma mulher amarga e cínica. o menino que quer conhecer o pai de qualquer maneira. O fator determinante para a humanização dos antepassados animais do homem e. ou seja. Josué passa a ser mais alegre e mais confiante em relação aos outros e deposita em Dora a figura materna e paterna ausentes. muda a atitude em relação às cartas.

208) A partir do referencial marxista. faz uso de instrumentos de mediação e produz algo que se pode caracterizar como elemento da cultura – ora pela existência física. como podemos observar na teoria marxista: (. isto é. (Duarte.modificações anatômicas e fisiológicas devidas ao desenvolvimento de atividades acarretaram necessariamente uma transformação global do organismo. por possuir essas três características: a de ser uma atividade conscientemente dirigida por uma finalidade previamente estabelecida na consciência. uma atividade que distingue o ser social do ser natural. mas com outros homens. Vigotski buscou criar uma teoria que englobasse uma concepção de desenvolvimento cultural do ser humano através do uso de instrumentos.) o trabalho é. social e cultural.. um produto que não é mais um objeto inteiramente natural. a atividade humana caracteriza-se por três aspectos fundamentais: ela é teleológica. a de ser uma atividade mediatizada pelos instrumentos e a de ser uma atividade que se materializa em um produto social. p. O segundo consiste em que o trabalho somente pode ser efetuado em condições de atividade comum coletiva. dada a interdependência natural dos órgãos e o surgimento da atividade vital humana – trabalho. sendo o primeiro deles o uso e o fabrico de instrumentos. para Marx. 2000. O trabalho é caracterizado por dois elementos interdependentes. Leontiév e Vigotski utilizam o conceito de atividade/ação diretamente com o de trabalho humano. tida como instrumento do pensamento. em especial a linguagem. por . É através do intermédio desta relação com outros homens que o indivíduo se encontra em relação com a natureza. Para Duarte (2000). É um processo que liga o homem à natureza. Segundo Bonin (1996). mudando-a e. Eles são os meios externos utilizados pelos seres humanos para interferir na natureza. transformando-a e concomitantemente se transformando. define a especificidade do ser humano como um ser histórico. ora pela simbólica – a qual consiste na objetivação do ser humano. um produto que é uma objetivação da atividade e do pensamento do ser humano. membros de uma dada sociedade.. de modo que o homem não entra somente em uma relação determinada com a natureza. no qual ele age sobre a mesma.

a linguagem materializa e constitui as significações construídas no processo social e histórico. reinterpretações das informações. etc. O motivo de sua atividade é o próprio sustento. mediando assim suas formas de sentir. Se considerarmos a origem do ser humano. sendo estes utilizados pelos indivíduos na comunicação com os outros com os quais se relacionam e consigo mesmos. . e o segundo. objetiva o ser humano e ao mesmo tempo o subjetiva. por sua vez. dois saltos qualitativos incidem em seu desenvolvimento: o primeiro. para tanto o resultado de qualquer atividade é tanto a produção da realidade humanizada quanto a humanização do indivíduo que a empreende. Toda atividade humana produz cultura e. sendo através desta função comunicativa que o ser humano se apropria do mundo externo. provocando mudanças nos mesmos. de conceitos e significados. escrevedora de cartas. sendo de princípio professora e posteriormente. em sua ontogênese. E a operação é modo pelo qual ela realiza a ação de escrever as cartas: uso dos instrumentos (caneta e papel. estabelecendo interações nas quais abrangem negociações. Por fim. sentada atrás de uma mesa. O ato de escrevê-la constitui a sua ação. por exemplo) e o manuseio desses. a partir daí transmutados em significação no psiquismo humano. quando este adquire a linguagem oral. como se pode observar na cena inicial do filme. como cartas para parentes distantes. A partir do instante em que os seres humanos a interiorizam. pode-se inferir que Dora exerce a atividade de produção social. e serão estas significações resultantes que constituirão suas consciências. uma vez que a personagem Dora. Já a finalidade é ganhar dinheiro. pensar e agir. Depois de aposentada é o único meio pelo qual ela optou de garantir sua sobrevivência. De acordo com Vigotski. ela recebe um real pela carta escrita e mais um real pelo envio da mesma.conseqüência. no processo dessa produção. na qual várias pessoas formam fila na Central do Brasil e ela. A atividade pode ser mediada. quando adquire a linguagem escrita. segundo Vigotski. A linguagem é o instrumento da comunicação constituída de um sistema de mediação simbólica. escreve o que lhe é solicitado pelas pessoas supostamente analfabetas. No desfecho do filme pode-se observar a ausência deste segundo salto qualitativo. amigos. através dos signos enquanto instrumentos psicológicos produzidos socialmente. Como pagamento desta atividade. servirão de base para significar suas experiências. A apropriação caracteriza-se pela internalização dos signos. passam a ter acesso a estas significações que.

o desenvolvimento de sua atividade foi dirigido à busca de seu pai. de forma que se utiliza de suas objetivações para que transforme a realidade em que está inserido. a mãe do garoto Josué. ainda que fosse pertinente a atividade de estudo. sozinho. a escrevedora consegue recuperar Josué e estes iniciam uma atividade em comum. a partir da qual se fez mais adequado excluir da sociedade o sujeito dito . assassinando-o. como é demonstrado no encerramento do filme. Pode-se exemplificar uma ação de Josué na cena em que. o garoto entra no ônibus com Dora com destino à Bom Jesus do Norte. Remetendo-se aos demais personagens do filme. seu motivo era conhecer o pai. isto é. à espera de sua mãe. morre e este se encontra na Central. pode-se dizer que Pedrão exerce a atividade de trabalho. Para Josué. tem a carência de uma reconstituição familiar. assim como o surgimento de uma nova atividade para Dora. a relação com ela mesma e com sua consciência. uma vez que passaria a se apropriar da atividade executada pelos seus irmãos. pois Josué necessita encontrar o pai e que ele seja seu cuidador. Depois de Dora vender o garoto à Iolanda e se arrepender do feito. Quando Ana. a cena que se segue é a de Dora conversando com o garoto e dizendo que sua mãe não voltará. uma vez que é segurança dos camelôs da Central do Brasil. como se requer num desenvolvimento típico. assim. e. podendo esta vir a ser uma atividade de produção social – trabalho. o que fazia com que ele fantasiasse um perfeito ‘pai de família’. A partir deste momento Dora convida Josué a ir com ela para sua casa. na cena em que ocorre um roubo de um camelô. que esta morreu. Além disso. Concluindo. durante sua vida Ana lhe falava muito bem de seu pai. Ainda pode-se inferir que possivelmente passará a exercer uma nova atividade. Josué exerce no decorrer do filme a atividade de procura ao pai. É interessante observarmos o ponto crucial da mudança da vida da personagem. é através dos conteúdos do pensamento (conceitos e juízos) que ela se comunica com as pessoas. e quando realizar tal atividade. para executar tal atividade. com necessidades distintas na medida em que se inicia um processo no qual o objeto e o motivo não coincidem. Já Dora tem como motivo de sua atividade ajudar o garoto a encontrar seu pai. esta se encerrará aí.A linguagem (instrumento) como sistema de signos é a base da atividade de Dora. sendo que os últimos lhe garantem um salário para a execução de sua atividade. e ele captura o efetuador do roubo. já que sua mãe foi embora do Nordeste grávida de Josué. Como por exemplo. Pelas funções interpessoal. ressalta-se a realidade apropriada pelo mesmo. a de carpintaria. de transição e intrapessoal ela organiza a sua relação com o outro.

Posteriormente. através dessa apropriação maior de consciência. devemos levar como pontos relevantes as condições objetivas em que se encontra disposto em suas circunstâncias. uma vez que as significações lingüísticas. o que lhe confere estabilidade. Deste modo. é o momento inicial do reflexo da realidade. de forma que é ilustrada no filme a objetivação de suas apropriações acerca da atividade. é a tomada subjetiva e pessoal da significação . os personagens exercem a atividade de produção social. Já o personagem César pode-se dizer que exerce a atividade de trabalho de “caminhoneiro”. a estrutura da consciência humana está intimamente ligada à estrutura da atividade humana. Quando nos referimos à estrutura da atividade devemos ter como pontos de análise as condições sociais e as relações humanas que as sucedem. A respeito dos irmãos de Josué pode-se dizer que eles exercem atividade de carpintaria. a significação é a forma pela qual o homem assimila a experiência humana generalizada e refletida. No decorrer da vida do homem. O sentido é adquirido a partir das experiências do sujeito. e assim sucessivamente pelas gerações posteriores. que poderá ser somado a conteúdos objetivados pelo sujeito. como mencionado anteriormente. que transforma as qualidades do estímulo em fato da consciência. Intrínseco a ele. independentemente da relação individual ou pessoal do indivíduo com a realidade objetiva. assim vai adquirindo uma proximidade do significado real. A base da consciência é o conteúdo sensível. ao referimo-nos à consciência de um indivíduo isolado. norma de comportamento. ou seja. isto é. ao invés da alienação em nível maior em que a maioria dos sujeitos está posta. ele assimila as experiências das gerações precedentes. Assim. e com isso as objetivações deste sujeito agora serão direcionadas de outra maneira para os fins da atividade. No entanto. e este por sua vez é fixado sob a forma de conceitos – “modo de ação” generalizado. A atividade acaba por constituir a consciência e esta por sua vez a regula. O indivíduo vai desenvolvendo a sua consciência conforme se apropria continuamente dos fenômenos no complexo de relações que o sustentam. que constituem o conteúdo da consciência social. a significação é refletida e fixada na linguagem. é formado o reflexo psíquico da realidade. etc. de maneira que recebe um salário para que objetive suas apropriações de forma a estabelecer transformações na realidade que lhe é posta. dirige para diversos lugares com o principal objetivo de fazer entregas.não adequado a ela. e essa aquisição de significações acaba por culminar na apropriação gradual e potencial do patrimônio humano genérico. tornam-se a consciência real dos indivíduos.

procura Dora para que escreva uma carta para este. “(. qualidade essencialmente biológica e o objeto. Em cenas do filme evidenciamos a apropriação acerca da realidade pelo garoto. Há poucos indícios no filme de uma possível alfabetização do garoto. partilha da consciência do adulto enquanto a sua se encontra em desenvolvimento e o outro passa a ter papel fundamental na constituição da sua consciência. considerando que o motivo é a relação entre a necessidade. ou seja. dá-se num primeiro momento pela apropriação dos objetos da realidade objetiva. o desenvolvimento dos fenômenos e processos psicológicos. o sujeito forma um reflexo psíquico a partir da atividade que executa enquanto interage com a realidade material que o cerca. o sentido compreende o motivo e a finalidade para que a ação se orienta. o homem distingue essa relação como sendo a sua e toma consciência dela. que parte numa viagem não-planejada em busca do pai de Josué. observamos que a principal fonte de apropriação dos instrumentos e conhecimentos da cultura. com a morte da mesma.para o indivíduo. entre aquilo que o incita a agir e aquilo para o qual a sua ação se orienta como resultado imediato. para tal. é sua mãe e posteriormente. Contudo. sendo que essa apropriação varia qualitativamente frente às relações vitais em que está sustentada. a escrevedora de cartas da Central do Brasil. Os signos são mediadores do processo de construção do sentido. Para além da ligação entre os organismos vivos e o meio.. da consciência. tendo Dora como . Segundo Vigostki. Ou seja. visto que sua mãe não aprendera a escrever.) esse sentido consciente é criado pela relação objetiva que se reflete no cérebro do homem. Posteriormente. A criança como ainda não se apropriou amplamente dos fenômenos da realidade objetiva e está adquirindo de forma primordial os conteúdos do patrimônio humano genérico. Por fim. e não é sinalizado se freqüenta uma escola. uma vez que são instrumentos artificiais introduzidos pelo homem na atividade psicológica e cumprem a função de auto-estimulação. sendo este quem dirige a ação correspondente a atividade em questão. e expressa a relação do mesmo com os fenômenos objetivos conscientizados.. 1978: 103).” (LEONTIEV. Dora. há a objetivação do conteúdo ora apropriado. assim sendo. em que o desenvolvimento da atividade se dá de maneira estritamente biológica e há a formação do reflexo psíquico proveniente dessa condição. Josué vive somente com a mãe e busca o pai que desapareceu sem deixar indícios. o que culmina na ampliação do acervo histórico-social.

ou seja. alega que ela também fazia uso dessas bebidas e não poderia corrigi-lo. A personagem Dora. remetendoo à figura do pai. como a cena em que Josué questiona Dora: “Como se conta um quilômetro?” e ela responde indiferentemente: “Eles inventam. como num modelo de família nuclear. dando a entender que o produto final da atividade não tinha valor algum. se a atividade consistia num produto final de entregar as cartas no correio. evidencia os conteúdos da consciência. que não conhecia. uma vez que o estímulo casa tivera se tornado fato da sua consciência. No entanto. Observa-se na obra que Josué possui um ideal de família. os quais são expostos por suas interações entre si e também entre demais pessoas que surgem no enredo do filme. cujo desenho é de uma casa. cujo sentido universal foi desenvolvido a partir de apropriações. que logo abandona o lar. frente ao salário e reputação inexpressivos atribuídos ao professor em nosso país. que morre e de seus irmãos. Traz em seu bojo o sentido estabelecido pelo garoto de uma estrutura familiar.mediadora e a linguagem como elemento mediador. como almejava no decorrer do filme. e a cena em que quando no nordeste. ela o surpreende alegando que dessa vez entregará as cartas. sendo que questiona às pessoas que conhece se são casadas e tem filhos. Ela provém de uma estrutura familiar constituída por um pai alcoólatra. e possui um significado. como a professora fazia na central. vê-se que o garoto tinha se apropriado de uma certa característica da atividade de escrever carta e agora a objetivava jogando as cartas no lixo. Dora volta a escrever cartas para garantir que conseguissem se manter e continuar a busca pelo pai de Josué. traz consigo lembranças de sua infância marcada por conflitos familiares. então sua atividade estava alienada. Assim. e quando Dora questiona a sua postura. professora aposentada. remete-nos ao ideal de família. que passam a se apropriar de conhecimentos diversos. e na volta de um dia de trabalho o garoto pega as cartas sinalizando jogá-las no lixo. e por uma mãe submissa ao controle paterno. considerando que ele encontrou a carta de sua mãe em uma gaveta da casa de Dora.”. . tanto no âmbito material como no subjetivo. procura garantir condições melhores de vida ao se dedicar a escrever cartas para pessoas supostamente desprovidas de alfabetização na Central do Brasil. a cena em que o garoto ingere a bebida alcoólica que a professora carregava em sua bolsa e fica bêbado. é uma objetivação da humanidade no decorrer da história. A cena em que Josué observa o quadro na casa de Dora. E a ausência de uma família nos personagens Josué e Dora acaba por culminar numa identificação dos personagens. que era carpinteiro e construía casas e às figuras da mãe.

em que não encontra subsídio para garantir sua sobrevivência. vendendo crianças a outras pessoas. visto que demonstra envolvimento emocional com o caminhoneiro. amiga de Dora. De certa forma neste filme é mostrada uma visão pouco humanizada por parte dos personagens como também no caso do segurança da central. também é professora aposentada. e leva-nos . Talvez as apropriações quanto à visão do indivíduo como sujeito foram distorcidas ao longo da sua história de vida. mostra-se como ser intermediador de consciência. havendo também a possibilidade de causar algum dano à sua. enquanto Dora se recuperava do desmaio na sala religiosa. políticas públicas e da sociedade. e reflete a realidade corrompida da instituição escolar. O caminhoneiro César. marcado por sua religião aguçada. Tratando-se da personagem Yolanda. uma vez que mostrava indiferença às outras pessoas para quem escrevia cartas. que aparece em uma das cenas do filme. Do ponto de vista das relações sociais como estão postas no filme. Para além desta relação. mantendo a classe proletária longe das apropriações do conhecimento. sendo objetivadas através de sua atividade da forma como se dava. Irene. nota-se que as pessoas se relacionam não como sujeitos. mas como objetos de valor ou não. que vende as crianças cabe a pergunta se há uma consciência social real ou quais as representações dela quanto ao ser humano como sujeito detentor de vida. e acaba por ser corrompida pela instituição escolar. até então. que todas as noites enxotava as crianças do local e em uma das cenas mata um rapaz que roubou um camelô. tendo em vista que trata os seres humanos apenas como um “produto” por assim dizer. instrumento de manutenção do ideal burguês. numa ação de afeto. amiga Dora. Pedrão. fornecendo a ele proteção e cuidados. A consciência de Dora se modifica conforme vai se relacionando com Josué. defasada por políticas públicas corruptas e pela perda do ideal de ensino e aprendizagem.Dedicou-se a ao trabalho de professora. marcada por desigualdades sociais e pela luta de classes. ao passo que faz uso de sua consciência para o desenvolvimento de Dora e Josué. ao invés de ensiná-las a escrever. o que é amplamente interiorizado pelo garoto. carinho. quanto à questão de Josué de exercer a atividade de caminhoneiro e à Dora quanto ao seu envolvimento com outras pessoas. visto que até então exercera em sua atividade pedagógica uma relação alienada e o mesmo se dá posteriormente quando se torna escrevedora. Dora estabelece um vínculo materno com Josué. por conseguinte. e pela sociedade. Torna-se assim.

múrmurios choro. ruídos. é chamada de objetal manipulatória. passa a ter uma colaboração prática. Com um ano de idade mais ou menos a criança passa a requerer contato maior com as ações humanas. etc. sorrisos. então. Isto. Elkonin diz que a partir do momento em que o bebê nasce. saciando suas necessidades cada vez mais instantaneamente. na fase denominada pré-escolar a atividade mais importante é a designada jogo de papéis.a pensar se conforme o decorrer do tempo o ser humano passa a ser mais humanizado ou mais hominizado novamente. com o ensino cada vez mais desvalorizado. como por exemplo. 2006: 11). cada qual possui uma atividade principal. objetos e formas de se relacionar e proceder diante deles. poder se desenvolver em cada estágio. Segundo Facci (FACCI. A passagem de um período para o outro é uma relação dialética em que é representada por estas atividades que vão se superpondo uma sobre as outras sem desconsideração das demais. Isto parece ser resultado da escola como um dos instrumentos de humanização da sociedade pouco efetivo da forma como está estruturada. se comunica por meio de reflexos e expressões copiadas dos adultos. ou seja. ele está em interação com outros seres humanos por meio da chamada comunicação emocional. assimilando-as à medida que as pessoas vão mostrando ações. A maioria das realidades demonstradas no filme carece de muitos recursos para que ocorra um desenvolvimento considerado saudável e que proporcione a humanização ilimitada dos indivíduos que se encontram nelas. de acordo com a psicologia histórico-cultural. balbucios. porque é o início de interações com os outros por meio das emoções para que posteriormente desenvolva a linguagem. Elkonin formula seis períodos. em que a consciência se faz pouco desenvolvida e com as funções psíquicas cada vez menos superiores e cada vez mais elementares. denominados “crises” os processos que ocorrem de um para o outro. Restam à sociedade apenas as relações objetivadas em suas atividades. aquela em que a criança começa a utilizar-se da assimilação . Então. diz respeito à periodização do desenvolvimento. atividade que ocorre de maneira mais significativa para suprir as principais necessidades e assim. como observamos através do filme. Nesta fase a comunicação emocional. tanto pela burguesia quanto pela prole e então acaba por ser um instrumento de poucas apropriações. Assim. apenas respondendo aos estímulos que estão postos na sociedade. pela qual ocorrem estágios essenciais para que este ocorra de maneira humanizadora.

a criança consegue resolver a contradição de não conseguir executar operações e necessitar agir. Quando a criança começa a frequentar a escola. que é um tipo de mercado popular. o adolescente. para que ela mande carta para algum ente querido. se esta escola for dotada de um ensino satisfatório. as realidades de muitos indivíduos que vivem naquele local ou próximo dali. alfabetizada. Pode-se perceber as dificuldades relacionadas ao estágio de atividade de estudo. que em nossa sociedade capitalista se traduz em formas de vender sua força de trabalho. portanto. porque é quando ela terá contato com objetivações. assim que começa a ter consciência sobre elas. Pode-se dizer que a criança possui dois círculos de relações . ao passar dos anos. relações. para que seja feita a . mostrando a própria Central do Brasil. portanto tal período é chamado de atividade de estudo. Neste estágio de esforço maior. deve prosseguir nos demais anos da escola para desenvolver outras funções psicológicas. Logo em seguida. terá que optar por algum tipo de atividade profissional/estudo. Sendo assim. Após o término da escolarização fundamental e média. A consciência é direcionada para a compreensão do trabalho como atividade para organizar interações sociais com as pessoas. É o estágio em que a crítica urge. de uma educação que visa à humanização do indivíduo e que promova possibilidades de tornar o indivíduo alienado em menores graus para com as relações que estabelece com sua realidade e com as demais. sendo agora muito próximo a eles. ações. É importante notar as cenas iniciais. uma escrevedora de cartas. das quais irá se apropriar e aprender elucidativamente a linguagem. no qual a criança deveria ser. a partir da convivência com companheiros de estudo. essas operações. tal como é conhecida no Brasil. sua principal atividade é o estudo. agora denominado adulto. a priori. nas quais as pessoas procuram Dora. no qual ocorre uma mudança na posição em que o adolescente ocupa diante dos adultos. No início de “Central do Brasil” são mostradas algumas das condições concretas e. onde matar e roubar são atividades corriqueiras e na qual nos transportes públicos as pessoas entram pelas janelas.de objetos desenvolvida para reproduzir ações humanas e o momento em que a criança começa a se esforçar de fato para agir como um adulto. mas não consegue realizá-las de fato. O próximo estágio é o de comunicação íntima pessoal. pois simula através das brincadeiras e jogos. a criança terá se desenvolvido de forma ideal.um com os pais e irmãos e outro com a sociedade a partir do momento em que entra na escola.

que à primeira vista poderia ser atribuída a uma escolarização. nota-se também que o menino sempre pergunta para novas pessoas que conhece se estas possuem família. isto é. carregava consigo em um pilar em Bom Jesus do Norte. não sei dizer direito não”. mãe de Josué. o que no início do filme mostra-se como uma grande dificuldade para tais pessoas. Percebe-se em Josué uma necessidade de conhecer seu pai. No personagem Josué.transição do pensamento empírico ao teórico. depois da padaria. é possível dizer que esta apropriação adveio a partir do signo “km” . na cena em que pergunta à Dora “o que é um quilômetro?”. e diz . quando presenciou sua mãe sendo atropelada na rua. pela significação desta palavra na linguagem que faz parte da sociedade brasileira. um conceito abstrato. percebe-se que ele possui certa apropriação de conhecimentos cotidianos. Pode-se citar a cena em que Josué pergunta a Dora sobre a morte da sua mãe: “Onde será que ela está agora?” Sabe-se que Josué esteve em contato com a morte pelo menos uma vez em sua vida. contudo sem o estabelecimento de seu significado. que pela interpretação do filme. se estão solicitando o trabalho de Dora é porque não sabem ler nem escrever ou se sabem.abreviação da palavra “quilômetro”. ele e Dora amarram o lenço que Ana. em que lê “km” em uma placa na estrada. demonstrando que Josué compreendera o conceito de morte. conviveu somente alguns anos com ele. que se dá pelo entendimento da palavra a nível supra-individual. em questão. compreendeu a sua ausência e que não a veria mais. Então subtende-se que ele se apropriou a partir de relações sociais as quais não forneceram este entendimento e que careceram de ensino desta linguagem. relações e operações. . muito pouco. de modo que podemos estabelecer relação com o contexto em que ele se encontra: necessidade de entender melhor como se dá sua relação com as outras pessoas de forma que ainda pode vir a depender delas e de forma que aprende a reprodução de ações. seu conteúdo. no entanto são conhecimentos que provém das suas relações com os demais indivíduos. Como por exemplo. Na sequência desta cena. Com isso.“… põe a terceira casa. Uma das dificuldades pode ser elucidada por uma personagem que ao ditar uma carta não descreve o endereço para onde quer mandar. Pode-se citar também a ausência de uma gama de apropriações e desenvolvimento adequado de tais pessoas. por não ter conhecimento do mesmo e desconhecimento do funcionamento dos correios (que se consegue a partir do pensamento abstrato). uma vez que. Após ter negado o fato da morte da sua mãe a Dora.

não podemos negar que a aprendizagem escolar nunca começa no vácuo. portanto. Para Vigotskii. de determinada maneira. p. pois não obtiveram escolaridade formal ou esta foi insatisfatória. Entretanto. não teria alcançado o desenvolvimento escolar ideal para a sua idade. há a existência de uma pré-história da aprendizagem escolar: “O curso da aprendizagem escolar da criança não é continuação direta do desenvolvimento pré-escolar em todos os campos: o curso da aprendizagem pré-escolar pode ser desviado. portanto sem passar devidamente por todas as fases propostas na periodização do desenvolvimento. começa antes da aprendizagem escolar. alcançado pela criança antes de entrar para a escola. considerando sua realidade nas condições precárias de vida no subúrbio do Rio de Janeiro.” (Vigotskii. e o convívio com a sua mãe que também era pouco alfabetizada. mesmo que Josué estivesse freqüentando o ensino fundamental em dadas condições. mas é precedida sempre de uma etapa perfeitamente definida de desenvolvimento. e a aprendizagem escolar pode também tomar uma direção contrária. estaria bastante restrito ao empirismo. Falar em desenvolvimento do psiquismo é falar do desenvolvimento do sistema interfuncional complexo de cada indivíduo que diz respeito às funções psicológicas que cada um pode ter. As realidades apresentadas tanto no subúrbio do Rio de Janeiro quanto na cidade de Bom Jesus do Norte no contexto do filme mostram-se inadequadas para o desenvolvimento das máximas potencialidades do psiquismo humano. 110) Pode-se atribuir. A aprendizagem da criança. que inclui a alfabetização e educação formal insatisfatórias. passando devidamente por todos os estágios de desenvolvimento. portanto. a aprendizagem de Josué não somente a uma eventual aprendizagem escolar – embora o ideal fosse se desenvolver em condições satisfatoriamente humanizadoras. e o seu pensamento. Mas tanto se a escola continua a pré-escola como se impugna. o que vai depender. no entanto. da educação deste ser humano desde seu .Não há dados no filme que confirmam se Josué foi alfabetizado regularmente.

Estas são consideradas funções elementares. perceber algo.nascimento. imaginação. já que este é marcado por abstração que depende. É perceptível o destaque das emoções quando. No filme pode-se notar desde o começo com várias pessoas ditando cartas até aos personagens principais como Josué e Dora. bairro. além do desconhecimento desta necessidade para que a carta chegue ao seu destino. pensamento. memória. É existente também desde aí a função emoção. não muito ao se dizer das funções sensação e percepção. foi formando certos padrões de emoções como não só respostas fisiológicas como chorar. alguns déficits e dificuldades em relação a elas. senti seu corpo junto ao meu. alegria. esta cena demonstra que ela disse o que havia percebido em relação à localização da casa a qual quer que chegue a carta. mas dela precisará para aperfeiçoar e estabelecer outras mais inúmeras conexões com realidades concretas. percepção. mas também cerebrais (tristeza. portanto. portanto. não há a necessidade do emprego de signos para sentir. aparecendo nesta primeira etapa de desenvolvimento como adaptação ao meio. atenção. um moço que começa a ditar uma carta e descreve “Dalva. isto é. Uma vez que isso se refere à formação de conceitos pode-se dizer que a dificuldade se deu em nomear a rua. ou seja. a mesma diz “não sei dizer direito não. de uma representação mental baseada em conceitos e na superação da imagem da “casa” sensório-perceptual. bairro e número da casa. linguagem. ou seja. raiva). Mimoso. diferentes níveis de desenvolvimento das funções psicológicas. emoção e sentimento. . disse o que garantia sua imagem unificada da localização daquela casa. à qual corresponde a reflexos sensoriais diretos. daí a começar a significar – união de percepção imediata com percepção categorial. a partir da síntese de uma análise daquele objeto “casa” ela havia estabelecido conexões com a padaria perto dela e de quantas casas depois ela estaria. por exemplo. põe assim: terceira casa. Quando Dora pergunta a uma moça qual é o endereço ao qual quer enviar a carta. As primeiras funções que começam a se desenvolver a partir da existência de um ser humano são a sensação e a percepção. da realidade e do contexto em que ele está inserido para que desenvolva cada vez mais ou não todas elas: sensação. o que. meu tesão. número da casa e etc. mas não o nome de sua rua. porque não precisam inicialmente da linguagem como base para seu desenvolvimento. depois da padaria. Pernambuco”. pode-se dizer que ela tem um déficit em relação ao desenvolvimento do pensamento teórico. por meio da evolução filogenética.

. muitas vezes. observa uma pintura que ilustra uma casa. ao Isaías descrever a situação em que encontravam quando seu pai foi embora. diante do ocorrido com o garoto e da vontade deste de conhecer o pai.”. na cena em que um dos irmãos de Josué (Isaías) pega a carta guardada a seis meses que seu pai havia mandado para Ana (mãe de Josué). na casa de Dora. devido a rapidez com que ele passa e. assim sendo. A imaginação é caracterizada pela construção antecipada da imagem do produto da atividade. O transporte público do local é um trem o qual a maioria das pessoas entram pelas janelas. Diferentemente de imaginação. estabilidade. como além da sensação. a fantasia consiste no desconhecimento da . Destaca-se a partir daí o desenvolvimento de sensação e percepção destas pessoas. é claro. significação e acuidade discriminativa para que funcione. pode-se dizer que Josué cria uma imagem do lar em que possivelmente irá morar com o pai em Bom Jesus do Norte. da carga afetiva que é depositada nestas. A partir disso. armazenamento e reprodução das experiências. o que não foi meramente por meio de uma percepção primitiva e sim também ortoscópica. Josué duvida se ela colocará ou não no correio.. sendo que elas precisaram analisar e sintetizar aquela imagem do transporte com suas possíveis vias de entrada. Dora fica impaciente e se irrita com eles e acaba por não colocar a carta e a foto em um envelope. mas diferentemente daquela ao início do desenvolvimento. A memória se caracteriza por ser uma função na qual a imagem é produzida através da evocação por meio dos processos de fixação. porque. há sete anos. carrega agora um significado e certo sentido. mas que para seu desenvolvimento se aperfeiçoe depende das relações sociais que a permeiam e também. e demais funções como a atenção. entrar pela porta parece demorar mais. me sinto-me. a qual necessita da integração de outras funções. não só ela. pessoas envolvidas. e contar o que havia acontecido em relação a Ana e o pai deles. nosso suor se misturando eu ainda me sinto-me. Pode-se verificar tal afirmação. Esta é outra cena em que a percepção ortoscópica é destacável. isto porque diz respeito à características fisiológicas e sensoriais. É uma função elementar. de forma que no filme pode-se visualizar esta função na cena em que Josué. isso porque a função psicológica foi desenvolvida de modo que infere-se o seu aperfeiçoamento pela carga afetiva ligada aos acontecimentos. já que não havia feito com a anterior até então. Quando Josué e Ana procuram Dora pela segunda vez para refazer a carta.carne se unindo naquela cama de motel. demonstra de forma evidente os processos pertencentes à memória de modo que essa lembrança permanece muito forte.

como também furta ainda mais. Na cena em que Dora está com César no restaurante. Josué executa a ação de furtar alguns alimentos do local e. o que faz com que sejam duradouros e pertencentes à cultura. históricos. isto é. fantasia a respeito de uma profissão que deseja ter. ao contrário de furtar. Este valor de honestidade é um conceito no qual certos juízos são constituintes de forma que nesta ação pode-se inferir que ela tem como objetivo implícito a estimulação da criação da abstração em Josué para que este valor seja aprendido. Diferente das funções sensação e percepção que ocorrem pela formação de imagens de objetos e fenômenos. sendo assim. por meio das experiências vividas. Ao mostrar o que roubou para Dora ela o repreende e coloca em sua bolsa os alimentos trazidos por ele dizendo que iria devolvê-los. ao dizer que deseja ser caminhoneiro e ao sentar-se no colo de César para ajudá-lo a guiar o caminhão. são formados por conceitos sociais. portanto. quando Dora resgata Josué da cada de Iolanda. assim. Com isso ao oferecer estes alimentos ao menino não revela o que acabou de fazer como também mente que pagou o que ele havia pegado e que ainda comprou mais. a fantasia pretere as leis objetivas que regem a realidade. Como por exemplo. sendo que. As emoções e os sentimentos se formam a partir da relação sujeito-objeto. Josué. diferentemente das emoções. ficando claro que ela se contradiz em suas ações. elas se realizam a partir de cada relação com dado objeto. emoções como raiva e desespero são evidentes nos três personagens. Os sentimentos. Isto porque com a ação de repreender subtende-se que Dora pretende ensinar a Josué valores de cidadania. por isso são sempre particulares. quando diz que ficou feliz por ter perdido o ônibus e consequentemente ter o conhecido . quando se dirige à mercearia não cumpre o que acabara de dizer. é possível observar que ele sente. por não possuir contato com elementos da realidade concreta. esta é permeada pelo desenvolvimento do pensamento efetivo e do pensamento figurativo. sendo elas subjetivas e afetivo-cognitivas. o que será apropriado a partir do pensamento empírico em direção ao teórico. mas que. atenta-se em relação aos objetos que deseja ter e ao ambiente ao seu redor que parece estar isento de empecilhos para que a ação seja realizada. os quais são constituintes do pensamento empírico. Na cena em que César chega para fazer sua entrega na mercearia. apropriações a partir de objetivações que permitam o pensamento a respeito desta e também o seu “produto final”. mas logo após. percebe.realidade concreta a qual estaria imbricada com o produto de determinada atividade. diferenciando-se delas. não se pode dizer que ele imagina. como o de ser honesto.

sendo que estes últimos vão se formando e transformando-se na medida em que os dois personagens vão se aproximando ao que se dizer ao vínculo afetivo. quando Ana. e sentimentos como compaixão e pena se tornam evidentes em Dora para com Josué. sintetizados na atividade social do indivíduo. Estas duas são interdependentes. uma vez que a natureza do homem é social. Por meio da relação de Dora com Josué ao desenrolar do filme. é constituído por traços que se caracterizam por disposições neurofisiológicas e bioquímicas relativamente estáveis. No entanto. o mesmo ocorrerá na direção contrária. . é possível perceber que Dora se expressou de forma a demonstrar sua carência para com relacionamentos e também o desejo de constituir uma família. e estas conferem ao temperamento a propriedade de ser mutável. essas emoções continuam evidentes de forma que vão se transformando em tristeza. a personalidade é construída ao longo da história do indivíduo. é uma disposição inata.e então se aproxima fisicamente do mesmo de modo a pegar em suas mãos. A personalidade diferencia-se da individualidade no sentido de que a individualidade consiste em disposições inatas resultantes do desenvolvimento filo/ontogenético. morre e Josué e Dora convivem alguns dias na Central do Brasil. de forma que se pode inferir que este seja já duradouro. O temperamento. sendo este representado também em sua relação com Josué. portanto. Estes embarcam juntos para a busca do pai de Josué e com isso a relação se intensifica a medida em que conversam. sua mãe. mais a partir da segunda metade do filme é possível dizer que Dora e Josué parecem gostar muito um do outro e emoções como alegria e excitação aparecem com frequência. enquanto a personalidade resulta de relações dialéticas entre os fatores externos e internos. trocam experiências e vivem algumas destas juntos. pois a personalidade representa uma objetivação da individualidade e ao mesmo tempo em que a última influenciará a formação da personalidade. É interessante verificar o quanto estes dois personagens se identificam ao que se dizer sobre a história familiar. as particularidades inatas se unem às experiências do indivíduo. disposição biológica fundada na individualidade. e sentimentos como preocupação e desespero também. a relação deles é permeada por emoções como a raiva. No começo do filme quando Josué e Dora se conhecem. síntese de peculiaridades congênitas adquiridas. Assim que. Pode-se considerar carência como um sentimento de forma que é um conceito social e se expressa em Dora a partir do estabelecimento de relações afetivas com Josué. assim. é possível dizer que é uma relação permeada de muitas emoções e sentimentos.

no tocante de sua provável atividade de carpintaria. mas é um fator de auxílio na formação das mesmas. As aptidões não determinam o desenvolvimento de capacidades. Partindo dessa premissa.em que supõe-se que seu temperamento possa ser compreendido a partir do indicador que segue: “desequilíbrio. ou seja. o que culmina em uma regularidade e autocontrole mais acentuados. com força do processo de excitação que culmina em uma alta excitabilidade emocional e interrupções nervosas” (MARTINS. cria-se um equilíbrio entre as forças de excitação e inibição. a trajetória de vida do sujeito permite grandes mudanças da atividade nervosa. pode-se retomar que devido à alta plasticidade do cérebro. A forma como o sujeito irá se apropriar do patrimônio genérico humano influenciará no seu reflexo psíquico da realidade. Josué supostamente não tendo a atividade escolar regular. isto é. isto é. nas suas relações sociais que são sintetizadas na atividade. 2007). no filme. alguma aptidão que facilitasse a construção de capacidades e a execução da atividade de professora e posteriormente escrevedora de cartas em Dora. irá ter déficits no que rege o desenvolvimento de sua personalidade e o . impaciente e sarcástica. atentemo-nos à personagem Dora que em sua trajetória inicial pode ser caracterizada como uma pessoa pouco tolerante. pode-se apontar forças de excitação e inibição (influenciados por uma alta mobilidade e baixo equilíbrio. as propriedades do temperamento não estão restritas às qualidades naturais do sistema nervoso. no seu modo de agir no meio social em que vivia. Aptidões são disposições anátomo-fisiológicas que condicionam o indivíduo a execução exitosa da atividade. Em Josué. Por exemplo. devido às condições objetivas nas quais o indivíduo está submetido. habilidades e também na constituição do caráter. observa-se no decorrer do filme que seu temperamento assume novos delineamentos. bem como no desenvolvimento das capacidades. que diferem em suas combinações e se expressam em cada pessoa de maneira singular) que acabariam por influenciar na formação de sua personalidade e assim. tampouco constatar aptidões que poderiam auxiliar a formação de capacidades em Josué.Para ilustrar um dos indicadores da manifestação da atividade nervosa superior. passa a haver a alternância entre excitação e inibição. Não é possível inferir a partir de elementos do filme. uma vez que em suas experiências ao lado de Josué e para com este. No entanto. do temperamento. e presume-se que também posteriormente. considerando que o seu temperamento foi se modificando ao longo da sua trajetória até a casa de seu pai.

sustentados por uma Ideologia – conjunto de ideais. ao surgir a necessidade de executar sua atividade de . já que a sua formação de caráter se dá na relação do indivíduo com a coletividade. costumes. estreitando sua relação com Josué. Tal reação é aprendida – provém de um processo de apropriação. e através da última. Estas são desenvolvidas pela apropriação da linguagem. Vale ressaltar que tais traços de caráter são modificados à medida que ambos são expostos a novas circunstâncias sob mediação da consciência e com isso são alteradas as suas respectivas formas de ação sobre a realidade e seus valores. valores. e quanto ao sistema de realidade interna.. alterando então a forma subjetiva de relação entre sujeito e objeto. tinha a atitude de jogar no lixo as cartas que escrevia. O caráter é constituído por traços de caráter. perseverança. ciência. Pode-se identificar inicialmente em Dora traços referentes ao sistema de realidade externa como o egoísmo e individualismo. traços como a arrogância. e determinam atitudes que criam automatismo diante das circunstâncias. originárias da atividade humana e que tem por objetivo satisfazer as necessidades. no sentido em que Josué irá se relacionar agora com o mundo tendo sua atividade de carpintaria como mediadora das relações sociais. Dora. A cena em que Josué questiona sobre a confiabilidade do trabalho de Dora ao perguntar à sua mãe “como você sabe que ela vai por as cartas no correio?” na presença da escrevedora traduz seus traços de sinceridade e arrogância. Na cena em que está trabalhando na central e Josué. e no decorrer da viagem. Os traços se objetivam na estrutura do caráter. Já em Josué podemos identificar quanto ao primeiro sistema: sinceridade e arrogância e quanto ao segundo. o homem assimila modelos de reação. ela lhe nega auxílio sendo arrogante e egoísta no sentido de que sabia da morte de sua mãe e mesmo assim recusou lhe oferecer ajuda. a procura a fim de que escreva uma carta a seu pai. depende de uma vida social. após a morte de sua mãe. formada por dois grandes sistemas.desenvolvimento de suas funções psíquicas superiores enquanto capacidades – sistema de atividades psíquicas generalizadas. Já como exemplo de perseverança pode ser citada toda sua trajetória em busca de seu pai. arte e etc. instrumentos de trabalho. e são construídas à medida que tais apropriações e objetivações são conquistadas. no início do filme. o de reações à realidade externa e o de reações à realidade interna. um conjunto de características que tornam cada indivíduo um ser particular. etc. e sua expressão subjetiva se dará agora através de tal atividade. e sua atividade também irá influenciar em seus traços de caráter. Sua possível futura atividade então de carpintaria irá atuar em suas capacidades e conseqüentemente em sua personalidade. ou seja.

escrevedora de cartas novamente. Esta mesma relação fez com que os traços de caráter de Josué também fossem transformados. uma vez que de princípio o mesmo não aceitava a companhia de Dora em sua busca pelo pai. fato que mostra um estreitamento dos vínculos afetivos. . indica que então enviará as cartas que escreveu. em uma das cenas que Dora desmaia em uma capela de Bom Jesus do Norte. Josué vai acudi-la e mostra uma atitude de carinho. no entanto.

.R. D. N. A.N. VYGOTSKY. 2007. LURIA. 2005. G. (1988).F. Petrópolis: Vozes. FACCI. SILVA.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANTES. L. MARTINS. 2006. A. Sueli Terezinha Ferreira (Org. VYGOTSKY. A teoria histórico cultural e condições biológicas. 1991.São Paulo: Moraes. L.). DUARTE. In: ARCE. 1996.L. BONIN. Linguagem. Campinas: Autores Associados. São Paulo (Brasil):Ícone. L. Editora Centauro. desenvolvimento e aprendizagem. 2004. Tese de Doutorado. O desenvolvimento do psiquismo. São Paulo: Xamã.R. – 2. Método Histórico-Social na Psicologia Social. LEONTIEV. & outros. Vigotski e o “aprender a aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. São Paulo (Brasil).S. – (Coleção Contemporânea). A. São Paulo: Cortez. M. A e DUARTE. A formação social da personalidade do professor: um enfoque vigotskiano. – Campinas. SP: Autores Associados. 2000. DUARTE. et alii. . MARTINS. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 1999. N.S.. Os estágios de desenvolvimento psicológico segundo a psicologia sócio-histórica. Brincadeira de papéis sociais na educação infantil: as contribuições de Vigotskii. Psicologia e pedagogia: bases psicológicas da aprendizagem e do desenvolvimento. ed. A individualidade para-si: contribuição a uma teoria histórico-social da formação do indivíduo / Newton Duarte. LEONTIEV. N. Leontiev e Elkonin. Angelo Antonio. M. Nilma Renildes da.

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