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Para Que Serve a Arte

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Published by: Ana Carolina Oliveira on May 26, 2011
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nfo/query=alain+de+botton/doc/{@1}/hit_headings/words=4/hits_only. Acesso em 26.01.06 Autor: ALAIN DE BOTTON. Origem do texto: Especial para a Folha. Editoria: MAIS! Página: 5-3 8/9599. Edição: Nacional Aug 23, 1998. Seção: AUTORES

Para que serve a arte? Desinteressada ou terapêutica, a definição de arte divide a história da filosofia Os filósofos frequentemente encararam a arte com um misto de curiosidade e inveja. Ora, não são os capítulos finais dos livros de filosofia que fazem as pessoas chorar (exceto os estudantes, que choram de alívio); escultores, músicos e novelistas conseguem agradar o nosso eu mais profundo de uma maneira singular, impossível a qualquer filósofo. As pessoas podem ter considerado Hegel e Hume inteligentes, mas era com Byron e Keats que elas queriam dormir. Eis o que nos leva a questionar: o que é arte e por que ela nos domina de modo tão avassalador? Um dos mais sugestivos pensadores a se debater com essas questões foi o filósofo e dramaturgo alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Nas suas "Cartas sobre a Educação Estética do Homem", Schiller reflete sobre o sentido da arte. Começa por distinguir dois lados da natureza humana: o primeiro, que ele chama de estado sensível, se refere a uma dimensão espontânea, emocional, comum a crianças; a segunda, designada como estado de razão e freqüente em filósofos, implica uma perspectiva racional, ordenada e lógica em relação ao mundo. Schiller argumenta que a composição psicológica dos seus contemporâneos é fragmentada, sendolhes difícil integrar os dois lados de sua natureza. É precisamente aqui que a arte entra em cena: Schiller pensa ser ela a melhor maneira de fundir o lado natural, sensível do homem com a sua dimensão racional. A arte poderia educar as pessoas desprovidas de um ou outro temperamento a se tornarem indivíduos mais integrados. Nesse sentido, o pensador argumenta: "Só se transforma em racional um homem sensível tornando-o primeiramente estético". E complementa: "Apenas a percepção do belo faz do homem algo inteiro, porque ela coloca em harmonia ambos os lados da sua natureza". Schiller não foi o primeiro filósofo a polemizar a respeito das dimensões terapêuticas da arte. Em sua "Poética", Aristóteles (384-322 a.C.), investigando por que as pessoas gostam de assistir a peças trágicas, chega à noção de catarse. Uma boa tragédia suscita no público uma mistura de compaixão e temor quanto ao destino do herói ou heroína. As pessoas choram e se apavoraram ao assistir "Medéia". Ao mesmo tempo, no entanto, a peça desencadeia a catarse ou purgação dessas emoções, de forma que, ao término do espetáculo, o público se sente mais esclarecido e apto a lidar com a realidade que o envolve. Aristóteles e Schiller influenciaram bastante o primeiro livro de Nietzsche (1844-1900), "O Nascimento da Tragédia". Aqui o autor argumenta que a antiga tragédia grega nasceu de uma conjunção de dois impulsos da natureza humana. O primeiro, o espírito dionisíaco, é um estado selvagem de exaltação e embriaguez, enquanto o segundo, o ordenado e frio espírito apolíneo, se expressa na arte como beleza formal. O milagre da arte reside no fato de manter juntos esses dois elementos, unificando ordem e embriaguez. As perspectivas estéticas de Nietzsche, Aristóteles e Schiller são impressionantemente práticas: o que garante o valor à arte são os seus efeitos benéficos sobre a psicologia do público. Outros pensadores discordaram dessa concepção, particularmente Immanuel Kant (1724-1804), que, em sua "Crítica da Faculdade de Julgar", rejeita a idéia de que a arte tenha qualquer propósito prático. O filósofo argumenta que nossa abordagem sobre a arte deve sempre se esforçar para ser "desinteressada". O sentimento que nos acomete na frente de uma obra de arte, tal como uma pintura, por exemplo, deve ser destituído de quaisquer desejos físicos pelas pessoas retratadas. Da mesma forma, não devemos nunca ter uma novela identificando-nos com os personagens ou esperando que as nossas vidas possam se assemelhar às deles.

muitos artistas ratificaram esta perspectiva _e pensamos que. Kant ou Stendhal: Só cabe a nós ris dos nossos estéticos que nunca se cansam de sustentar. é natural que às vezes tenham se questionado a respeito do valor de verdade da arte. Ele aludia a um pintor grego chamado Zeuxis. só poderia nos conduzir ao suicídio. São meros produtos da imaginação. Entretanto. exerceriam um papel fundamental para a nossa felicidade. A primeira foi alegar que a arte não nos desvia da verdade. entre outros. Em lugar de defender a arte com base no fundamento de verdade desta. Vem daí a reflexão de Nietzsche. Platão concebia que todos os bons cidadãos deveriam se abster de ler inclusive Hesíodo e Homero. . Houve duas linhas principais de respostas à crítica platônica da arte. Para Nietzsche. Segundo Platão.C. fornecida por um verdadeiro artista_ Stendhal. entre outros. O artista transfigura o mundo. Mas é-nos possível evitar tais conseqüências com a ajuda de um poder que contrabalança com a honestidade: a arte". Ele escreve mensalmente na seção "Autores". segundo Platão. inscrita certa vez ao acaso nas margens de um caderno de notas: "Essencialmente sou bem mais a favor de artistas do que de qualquer filósofo que tenha aparecido até agora".). Já que os filósofos tradicionalmente estiveram preocupados em encontrar a verdade e afastar a ilusão. que uma vez chamou o belo de 'promessa de felicidade'. A arte é essencialmente a afirmação. o bom drama não é aquele que é bom para a alma. muitas obras de arte são "imaginárias".. o pensador alemão proclamava que o valor da arte reside precisamente no fato de que ela não é verdade. já que deixa o público agitado e perturbado. é possível que Zeuxis tivesse sido um bom pintor. Apesar de tudo. em favor de Kant. Mann e D. diz Platão. esclarecida. tornando-se assim passível de ser vivido: "A arte aparece como uma fada encantadora que redime e cura. a arte apenas imita o mundo. Eis o porquê do seguinte aforismo: "A razão definitiva da nossa gratidão em relação à arte: a honestidade traria consigo desgosto e suicídio. A poesia dramática pode ser prazerosa. de forma que não podem reivindicar muito o respeito dos filósofos. Geralmente o drama "fomenta o crescimento de paixões que deveriam poder desaparecer". e uma visão de mundo honesta. a bênção e a deificação da existência". Felizmente para ele. Já que "a poesia dramática tem um poder descomunal de corromper até mesmo homens de caráter elevado".. mas "precisamos tirar uma lição da história do amante que renuncia radicalmente a uma paixão que ele pensa não lhe fazer bem". Peças de teatro repletas de pessoas serenas e sábias não são bons dramas _não obstante. Bernard Shaw.H. Tradução de Fraya Frehse. Kafka. Proust. É lógico que Nietzsche concordava integralmente com Stendhal em que a arte e a beleza. mas qual o sentido dessa tentativa de reproduzir habilmente uvas numa tela se elas já existem no mundo real? Platão também atacava o impacto emocionar da arte. não mantêm qualquer relação com eventos faturais. Ela transforma reflexões horríveis sobre o terror e a absurdo da existência em representações com as quais os homens podem viver. talvez tenha sido Nietzsche o autor da mais interessante resposta ao ataque platônico. Quem está certo. um mundo sem arte é um lugar desesperado. É autor. Lawrence assumiram Nietzsche como um de seus pensadores favoritos. Muitas obras de arte derivam o seu prazer da representação de pessoas em estados emocionais extremos.Nietzsche lançou um olhar sarcástico sobre essa concepção "desinteressada" de arte desenvolvida por Kant: Sem interesse! Compare esta definição com outra. com efeito. ou seja. concentrados que estão na busca da verdade. produzindo cópias de coisas que já existem na realidade. mas que é meramente uma maneira de nos fazer enxergar certas verdades impossíveis de serem vistas por meio da razão (argumentação de Schiller). O mais famoso filósofo a desprezar a arte como mera ilusão foi Platão (427-347 a. Alain de Botton é escritor britânico de origem suíça. que sob o encanto da beleza seja possível contemplar 'sem interesse' até estátuas femininas nuas'. cujo talento de pintar uvas era tamanho que os pássaros frequentemente se aproximavam do quadro para mordiscá-lo. dota-o de sentido e beleza. de "Ensaios de Amor" e "O Movimento Romântico" (Rocco). de que é uma ilusão. Para ele. Ele argumentava que a fúria e o sofrimento de "Medéia" não atraem a grande maioria de nós: a peça "estimula e fortalece um elemento que ameaça minar a razão".

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