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RAM 2005 - Caderno De Textos - Grupo de Trabalho: “Família, Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate”.

RAM 2005 - Caderno De Textos - Grupo de Trabalho: “Família, Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate”.

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VI Reunião de Antropologia do Mercosul

Caderno De Textos - Grupo de Trabalho 9: “Família, Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate”.

Coordenadoras:
Flávia de Mattos Motta - UFSC
mottaflavia@bol.com.br
Anna Paula Vencato - UFRJ
apvencato@gmail.com

Montevideo, Uruguay
Novembro de 2005
VI Reunião de Antropologia do Mercosul

Caderno De Textos - Grupo de Trabalho 9: “Família, Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate”.

Coordenadoras:
Flávia de Mattos Motta - UFSC
mottaflavia@bol.com.br
Anna Paula Vencato - UFRJ
apvencato@gmail.com

Montevideo, Uruguay
Novembro de 2005

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VI Reunião de Antropologia do Mercosul Caderno De Textos - Grupo de Trabalho 9

:

“Família, Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate”.

Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta - UFSC mottaflavia@bol.com.br Anna Paula Vencato - UFRJ apvencato@gmail.com

Secretaría: Congresos & Reuniones Cerrito 307 - Montevideo 11000 - Tel: 598 2 9160900 Fax: 598 2 9168902 E-mail: sextaram@fhuce.edu.uy - Pág. Web: www.fhuce.edu.uy/antrop/congreso

Sessão 1: (Homos)sexualidades, direitos e políticas. 16 de novembro

'Algumas garotas preferem garotas': The L Word, sexualidade e as políticas de visibilidade lésbica.
Anna Paula Vencato (IFCS – UFRJ) apvencato@gmail.com, apvencato@hotmail.com

52

Mulheres De Kêto: Um Estudo Etnográfico Sobre Lesbianidade, Família E Política Na Periferia De São Paulo
Camila Medeiros (Museu Nacional – UFRJ) milamed81@yahoo.com.br Eduardo Saraiva (UFSC – UNISC) eduardo@unisc.br

62

Performances Do Querer: Masculinidades Que Se Reinventam “Quem Precisa De Filhos?” Afirmação De Gênero Nas Construções De Parentalidade De Homens Gays, Travestis E Transexuais
Elizabeth Zambrano (UFRGS) elizamb@terra.com.br

85 102

O "povo de santo" do subúrbio carioca: homoerotismo, religiosidade e 'cor'
Laura Moutinho, Silvia Aguião e Crystiane Castro (CLAM - IMS/UERJ) lmoutinho@ims.uerj.br

143

Significados e representações da parceria civil registrada entre homossexuais masculinos em Cuiabá
Moisés Alessandro de Souza Lopes (UEL) sepolm@hotmail.com

189

Sonia Maluf (PPGAS – UFSC) maluf@floripa.com.br

Desejo e identificação: apontamentos para uma discussão sobre gênero e sexualidade

224

“Como Viver Bem”: Políticas de Identidade e Noções da Cidadã Ideal em uma Organização Brasileira de Lésbicas
Tomi Castle (University of Iowa) tomi-castle@uiowa.edu

239

1

Sessão 2: Sexualidade, Família e Gerações. 17 de novembro Mujeres migrando. El lugar de la família. 30 45

Ana Inés Mallimaci Barral (UBA) anamallimaci@yahoo.com.ar

Andréa Moraes Alves (UFRJ) andreamoraesalves@superig.com.br

Trajetórias Afetivas: Sexo E Amor Como Elementos Da Identidade Feminina

Discurso católico, familia y géneros en Chile, 1925-2004
Carmen Gloria Godoy R. (Universidad de Chile) cggodoy@vtr.net

74 103 119 158 207 250

Familia Y Democratización

Graciela Di Marco (Universidad Nacional de San Martín) gradimarco@sinectis.com.ar Ivonne Dos Santos (FHCE – UDELAR) ivonne2s@yahoo.com.ar

Paternidad Y Familia: Jóvenes De Sectores Pobres Urbanos Gênero, gerações e modos de vida

Mara Coelho de Souza Lago (CFH – UFSC) mlago@cfh.ufsc.br Pedro Nascimento (UFRGS, Instituto Papai, Fundação Ford) pedrofgn@uol.com.br

"Homens desempregados, mulheres provedoras: qual a novidade?"

Virna Virgínia Plastino (Museu Nacional - UFRJ) virna_plastino@yahoo.com.br

Dança com hora marcada: geração e gênero nos bailes de dança de salão.

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Sessão 3: Feminismo, Sexualidade, Reprodução e Saúde. 18 de novembro

Alinne De Lima Bonetti (UNICAMP) alinne@unicamp.br, alinnebonetti@hotmail.com

Confronto De Arapiracas – Gênero, Feminismos E Concepções Disputantes Género E Poder Nas Famílias Da Periferia De Maputo (Moçambique)

05

Ana Bénard Da Costa (: Instituto De Investigação Científica E Tropical, Lisboa) asbbc@yahoo.com.br

15 84

Dialvys Rodríguez Hernández (Centro De Antropología, Ministerio De Ciencia, Tecnología Y Medio Ambiente (Citma), Ciudad De La Habana.) dialvys@yahoo.es

Una Perspectiva De Género: El Hombre Y La Mujer De La Reserva De La Biosfera “Península De Guanahacabibes”.

Juliana Marcus (IIGG - CONICET, Facultad de Ciencias Sociales, UBA) julimarcus@velocom.com.ar

Anticoncepción y maternidad en mujeres migrantes de sectores populares residentes en hoteles de la Ciudad de Buenos Aires.

120

Jurema Machado de Andrade Souza (PPGCS/UFBA) jurema@anai.org.br

Gênero, Sexualidade e Reprodução entre os Pataxó Hãhãhãi sul da Bahia

132

Maria de Fátima Paz Alves (UFPE) fatimapalves@hotmail.com

Masculinidade, Sexualidade E Prevenção De Ist/Aids Entre Homens Rurais No Nordeste Do Brasil: Um Estudo De Caso Sexualidad, Sociedad y economía en el Noroeste Argentino

173

Nélida Luna, Luciana Miguel, María ElinaVitello (UBA) lucianamarcelamiguel@yahoo.com.ar

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Construções e Desconstruções: Identidade da Mulher Árabe Muçulmana em Brasília
Sônia Cristina Hamid (UNB) soniacrismid@ig.com.br

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Confronto de Arapiracas – Gênero, Feminismos e Concepções Disputantesi Alinne de Lima Bonetti alinne@unicamp.br e alinne.bonetti@gmail.com Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Introdução Em tempos de intensa crítica a categorias universalizantes, o feminismo, como uma ideologia política típica das sociedades ocidentais modernas, tem se deparado com o dilema e o desafio de definir o seu projeto político, circunscrever o seu sujeito político e viabilizar a sua prática política (cf. Young, s/d, Harding, 1993, Butler, 1998 e 2003).ii O movimento feminista, enquanto um movimento social, pressupõe um projeto político específico, entendido como o “conjunto de crenças, interesses, concepções de mundo, representações do que deve ser a vida em sociedade, que orientam a ação política” (Dagnino, 2002:282). A um projeto político específico corresponde um “(...) sujeito coletivo no sentido de uma coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas através das quais seus membros pretendem defender seus interesses e expressar suas vontades, constituindo-se nessas lutas” (Sader, 1995:55). Tal sujeito político específico do feminismo seria, no caso, as mulheres. No entanto, tomando-se como referência os movimentos feministas latino– americanos, pode-se situar a década de 90 (cf. Soares, 1998) como um marco na pluralização do feminismo, seja em termos de bandeiras de luta, de diversidade de grupos e de espaços de atuação, a ponto de passar a ser referido no plural. Essa recrudescente diversidade no interior do movimento feminista implica na co-existência de distintos projetos políticos. O desafio de manter uma unidade nas reivindicações e lutas passa a ser problematizado, levando ao questionamento da especificidade do sujeito político do feminismo. É possível uma ação política sem um sujeito coerente, identificável e estável? Como viabilizar a ação política em meio a uma exaustiva constituição de diferenças? Para refletir sobre essas questões, analiso alguns dados com os quais me deparei na pesquisa etnográfica que realizei em Recife (PE), junto a um importante espaço de articulação política do movimento de mulheres/feminista local – o Fórum de Mulheres de Pernambuco. Para analisá-los, inspiro-me na contribuição de duas estudiosas feministas, cuja posição teórica possibilita compreender essa intensa diversidade interna do campo feminista contemporâneo. Sônia Alvarez (1998) propõe pensar o feminismo não mais como um movimento, mas como um “campo discursivo de atuação/ação” (pg. 265). A sua concepção de “campo feminista” aponta para uma reflexão acerca do campo do político, ou seja, “no sentido mais amplo, o cultural, o simbólico e as relações de poder/gênero que aí se constituem e se reconfiguram continuamente (Alvarez, 1998: 267). O deslocamento analítico embutido na proposta de Alvarez possibilita acolher a diversidade de concepções sobre o que seja o feminismo e considerar com as disputas internas entre elas. Somando-se à noção de campo feminista, a posição crítica de Judith Butler sobre a presunção acerca da existência de uma identidade feminina estável e coerente que fundamentaria a política feminista (cf. Butler, 1997 e 1998) possibilita analisar a questão do sujeito político do feminismo. Essa autora alerta para a necessidade do desvendamento analítico da constituição cultural e histórica dos sujeitos políticos e das formas discursivas de lhes atribuir autoridade e legitimidade. Na sua concepção, o sujeito político é contingente - porque situado contextual e historicamente (cf. Butler,

Assim. como definem algumas feministas pernambucanas. Tal abordagem permitiu-me identificar que as concepções disputantes sobre o feminismo revelam intricadas relações de poder e de gênero. portanto. Gênero. tomado genericamente. A partir disso. No entanto. Logo.gênero. marcadas pelas interseções entre sexo. A existência de muitos grupos feministas antigos e de projeção nacional. não antecipadora com ênfase na instabilidade das categorias e na contingência.1998). Esta análise parte. buscarei demonstrar como o embate entre alteridades e entre concepções disputantes revelam diferentes sujeitos políticos. constituído “a partir de cadeias de significados socialmente construídos” (Pinto. tais como a autonomia. na prática. é provido de valores que podem estar implicados em processos de constituição de desigualdades e de relações de poder. como produtor de sentidos socialmente significativos. Assim. Atkinson. A partir destes pressupostos é que analisarei os dados etnográficos sobre a experiência do campo feminista recifense. horizontalidade na participação e a construção do consenso na ação. A abordagem etnográfica aqui utilizada preocupa-se com a interação entre contexto. à relação corpo biológico. O campo feminista recifense Atualmente Recife parece ocupar um lugar central na campo feminista nordestino. Tomando como universo de análise o campo feminista circunscrito ao Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE). Uma proposta anti-fundacionista. Procurarei demonstrar analiticamente como esse campo discursivo feminista se configura. Busca-se. através dela. classe. e como uma “categoria de diferenciação” (Strathern. também. impondo desafios constantes à prática política feminista. O gênero assim entendido cria categorizações. situação e sentido na constituição dos processos da ação social significativa. e dota de sentido. Não se restringe. Tais sujeitos desafiam a existência de um sujeito único e coerente. Butler propõe uma incompletude essencial da categoria mulheres (cf. tem como características os princípios democráticos tradicionais do feminismo. Esse feminismo. esses princípios devem ser analisados a partir de um contexto constituído por valores que implicam na distribuição desigual de prestígios e privilégios e no qual as diferentes agentes do campo ocupam posições simbólicas distintas.sexo. tal categoria de diferenciação perpassa e marca as mais diversas ações sociais. Acredito que tal experiência é reveladora dos mecanismos que engendram o campo feminista contemporâneo. Tal sistema se traduz. possibilitando compreender melhor a sua constituição. 1987:164). cujas relações entre si revelam possibilidades inventivas sobre relações de gênero e sobre relações sociais. para o feminismo. 1987:278). 1990: ix) que tem como referência a imagética sexual. 2003:36). a organização da vida social nas mais diversas manifestações das experiências humanas. 1982). resta atentar para as experiências concretas. orientação sexual e raça. Essa 5 . abarcar o significado da experiência social ao explorar os distintos domínios de sentido de gênero. contextuais e contingentes. antes abarca. Butler. somado ao grande investimento de agências de cooperação internacional na região redunda na consolidação de um feminismo forte e atuante. marcado pelo estabelecimento de um sistema de distribuição desigual de prestígio. no estabelecimento de relações de poder que posicionam desigualmente as alteridades em disputa no campo. da compreensão de gênero como “um princípio pervasivo da organização social” (Strathern. os seus contextos associados e o seu uso social pelos diferentes atores (cf.

Constitui-se como um importante espaço de confluência do feminismo na cidade de Recife. porque as opiniões me soavam muito parecidas e se repetiam. Era como se não pudessem abrir mão do espaço de fala e que a afirmação da sua posição era de crucial importância para o jogo político que se estabelecia ali.equação define quem tem o poder de fala e. que se tivesse de passar por situações que presenciara. Nas primeiras reuniões de que participei. em tom de brincadeira. pejado de conflitos. produzidos por essa práxis feminista. Fundado em 1988. Guia de Fontes do FMPE). é um dos mais antigos. raça/etnia. Sobretudo. 60 participantes. meio urbano. o Fórum de Mulheres de Pernambuco é um espaço privilegiado para se compreender tais relações. que me sentiria intimidada se tivesse que ficar brigando o tempo todo. mais ainda. com o movimento feminista de 6 . Numa conversa informal com uma participante. rindo-se muito do meu jeito. sempre contando com a exposição de diferentes pontos de vista defendidos com muito afinco. no qual as diferenças encontram espaço para a sua manifestação e. pesquisa. Nesse sentido. em torno de. saúde. Atualmente é composto por. Segundo Nair Valença. É uma articulação política que reúne representações feministas. comentei sobre esse meu estranhamento acerca do tom agressivo e beligerante das reuniões. Arapiracas – gênero e poder A primeira impressão que se tem quando se chega numa reunião do FMPE é a de que ali é um espaço plural. universidade. agressivo embate. para além do calendário feminista de datas comemorativas do movimento.iii Dentre as participantes há uma diversidade enorme no que tange à inserção política de cada grupo e à temática de trabalho. portanto. Contoume que a Casa Vive Mulher (ONG que representa no FMPE) esteve afastada do Fórum durante um tempo. Alaíde. de ser escutada. após o IX Encontro Nacional Feminista de Garanhuns. meio rural. a própria idéia da horizontalidade passa a ter uma outra conotação. Olhando-se mais detalhada e demoradamente para os significados em ação. mulheres de partido e de lutas comunitárias (DC090405). a composição política do Fórum é variada. ONGs. porque a presidente tinha rompido com o feminismo. formada por três representações dentre as que fazem parte da sua articulação. sendo que há algumas entidades participantes com mais de uma temática de trabalho. enfrentamento da violência contra a mulher. DST/AIDS. O FMPE pauta as suas ações em concordância com a agenda feminista. consolidados e atuantes do país. questão rural. trabalho e renda” (cf. juventude/adolescência. Ficava espantada de ver o tempo que se levava nas rodadas de discussão acerca de pontos de pautas mais polêmicos. O FMPE é dirigido por uma coordenação colegiada eleita a cada dois anos. Nos seus 17 anos de existência. participação política. eu choraria. Disse-lhe. pode-se perceber como se dá a disputa entre diferentes visões sobre o feminismo dentro do próprio campo local. uma das atuais coordenadoras do FMPE. conforme registrei: “Comentei que não tinha muito talento para o jogo político. educação.iv Os temas variam entre: “controle social. um primeiro estranhamento que tive foi o tom beligerante que marcava as discussões. escondendo em si relações internas de desigualdade. de forte e (aos meus olhos). distribuídas entre 48 entidades e representações de feministas independentes. O FMPE objetiva reunir e articular os diferentes grupos feministas e de mulheres existentes no estado. de exercício democrático intenso. direitos sexuais. Sendo assim. me sentenciou: não mermã! Nunca chore no Fórum de Mulheres que daí mesmo que elas vêm pra cima de tu com tudo! Nunca chore! Ali mulher não chora! O meu comentário a fez lembrar de uma situação que ela própria vivenciara.

Alaíde continuou a contar que elas e suas colegas costumavam brincar com essa história de arapiraca. se as mulheres que monopolizam a fala deixassem espaço para outras ali dentro se manifestarem. é algo recorrentemente utilizado nas reuniões do FMPE. para os diferentes sujeitos políticos em disputa e sentidos atribuídos ao feminismo. Antes de cada reunião. nem sempre há espaço para a sustentação da voz. conforme registrei: “Alaíde identifica. segundo a sua opinião. nunca têm espaço para falar porque se sentem intimidadas pela 7 . além disso. Gargalhamos juntas. As reuniões do FMPE costumam acontecer na sede do Instituto Mulheres pela Cidadania. somado à asserção “ali mulher não chora”. Contou-me de uma ocasião em que tivera de ir a uma reunião a fim de reivindicar uma vaga para a Casa numa importante conferência que ocorreria.. A idéia de colocar a arapiraca na mesa. Reclamação recorrente dentre as participantes do FMPE. em que somente determinadas figuras têm voz e força ali dentro e pautam as questões. agora despachadamente. Nem todas possuem uma arapiraca. faz-se necessário ser valente e ter coragem para enfrentar as disputas. tinha se retirara do Fórum.. frente ao conflito parece ser uma saída que remete a um determinado feminino. ela explicita a sua opinião sobre essa característica. dispondo-se as cadeiras num grande círculo. o espaço é organizado de forma a possibilitar o debate democrático e horizontal entre as participantes. diferentes sub-grupos. frágil e dependente. no espaço público. nas mais distintas situações. Estranhei de imediato a palavra e ela. a Casa estava queimada e até retomar a participação foi muita disputa pelo espaço e eu levei muito na cabeça.Recife e. do qual parecem querer se afastar as mulheres que estão nesse jogo político. Para se estar ali. conforme sugeri. Sustentar a sua voz. no jogo político e nos significados de gênero produzidos dentro do FMPE. Exemplificou com o caso das mulheres de base. Chorar. articulando e agora a Casa tem o seu espaço novamente. Quando as cadeiras são ocupadas pelas participantes. dentro da horizontalidade. mais acostumada com os códigos locais. angariar prestígio para estabelecer alianças e articular politicamente. questionando se não dava para colocar o útero mesmo. veriam que há muitas que não concordam com o discurso feminista lésbico e que não se identificam como feministas. Mas tem se que estar sempre na disputa para manter o espaço conquistado. o atributo arapiraca-coragem parece ser um importante traço que compõe o repertório simbólico do fazer político nesse campo. como me asseverou. É mais do que colocar o pau na mesa. Foi bem difícil. É nessa arena que o jeito singular do fazer político emerge e em que se dão as disputas. uma das entidades mais prestigiosas e antigas do campo feminista de Pernambuco. ilumina questões importantes sobre o campo feminista de forma geral.... Ainda rindo-se. Mas fui insistindo. Normalmente acontecem no auditório. as quais. como um recurso do qual se lança mão em meio à disputa política. entre risos tímidos. Elemento recorrente na pesquisa. A formulação de Alaíde é exemplar para se pensar sobre a prática feminista local: na forma como se estabelecem as relações. revelando as relações de poder internas a ele. Numa conversa sobre o funcionamento do FMPE com Alaíde. Temerosa de enfrentar o grupo sozinha. apontam para um modelo específico de feminilidade em curso naquele contexto. também.. O que forma. pode-se perceber claramente a disposição de acordo com critérios de afinidade. Em função disto. No entanto. na mesa. a sua colega de trabalho Luana.” (DC021104). é mais poderoso. Disse-me haver uma hegemonia de questões lésbicas e de um tipo de posição feminista marcada pela lesbianidade. me explicou: arapiraca é o simbólico do pênis. com capacidade para acolher em torno de 80 pessoas. tais relações revelam como o prestígio ali se distribui e apontam. portanto. incentivou-a que fosse à reunião e colocasse a arapiraca na mesa. hierarquias de poder. E. O tom aguerrido e a assertividade estranhadas pelo olhar estrangeiro da pesquisadora. é um requisito fundamental da práxis política local. ao invés da arapiraca. Segundo ela.

a gente vai e liga. na sua concepção. que aparece na reflexão de Alaíde acima. E são nos momentos de acirrada disputa política que esses elementos aparecem mais claramente. se reproduz dentro do FMPE. A questão de fundo aqui é a de explicitar a quem se refere esse genérico a gente no discurso de Odete. No entanto. num genérico nós x elas. coordenadora do Instituto pela Livre Expressão Sexual. há visões discordantes. remetem a uma noção de sujeito político que retira a sua legitimidade e autoridade da experiência imediata. Não é uma instituição em si. esboçando esse modo singular de fazer política. é uma das porta-vozes da luta pela visibilidade lésbica dentro do FMPE. nas mãos de quem está o poder de tomá-las? À primeira vista. Visão semelhante acerca da visibilidade lésbica e das relações de poder dentro do FMPE têm as ativistas da Associação de Mulheres pela Diversidade Sexual. A recorrência dos lugares de fala de cada mulher que interagiu nessa disputa aponta indícios dele. com o sinal trocado. Situando cada porta-voz em relação à entidade que representa. cujo conteúdo varia de acordo com a posição de cada sujeito de fala.na visão da informante . levando-se em conta essa distribuição diferencial de prestígio e de arapiracas. se a gente considera que determinada pessoa é mais adequada para a representação. da vivência. Ponderou que o discurso lésbico-feminista domina porque há muitas militantes lésbicas ali. Os critérios é o de fazer acordos. o que. Essas disputas se dramatizam na constituição de um par antagônico. que parecem ser muito importantes no campo feminista local. é assim que funciona. é o que dará o tom das relações políticas ali dentro. Kelly. Odete. Há. o a gente de Odete parece encontrar respaldo num feminismo que se pretende hegemônico ali dentro e que tem o maior capital de articulação. o que vale é a articulação política.vi Assim. está no nós heterossexuais X elas lésbicas. pode-se ter uma idéia de como o poder de decisão e de definir as pautas está distribuído. Além disso. Não sei se é certo ou errado. encerrado na noção de articulação. ela manifesta uma crítica à forma como a questão é tratada socialmente. expõe o modo de fazer política ali. Por mais que se assevere uma horizontalidade nas decisões. Ressentem-se exatamente do que identificam como uma invisibilidade das questões de interesse das lésbicas ali dentro. É o estilo de fazer política do fórum. muito articuladas e empoderadas. uma primeira questão que surge é o que pode ser encerrado na idéia de uma homo-normatividade. uma noção de sujeito político que é substancial. Um primeiro par de oposições. a distribuição diferencial da fala está associada com um jeito muito singular de fazer política. mas é assim que a gente trabalha (DC070405). mas com algumas diferenças. Na grande maioria das suas intervenções.truculência das que dominam a cena. resistentes a esse genérico coletivo a gente e que disputam entre si. a gente parece se referir ao coletivo democrático e participativo. 8 . Identificando um favorecimento maior em pautar questões lésbicas e de entender serem essas as vozes mais ouvidas. desde esses dois anos que estou aqui. com o intuito de encerrar a discussão: é por situação de articulação política. Conforme a necessidade e cada situação.” (DC021104). Na reflexão de Alaíde. A distribuição desigual de privilégios é claramente assumida quando. a matriz contingente que definiria a inteligibilidade das relações dentro do FMPE e um dos eixos da distribuição de prestígio seria a da homo-normatividade. Inspiro-me aqui nas reflexões de Butler (2003) acerca da “matriz heterossexual compulsória”. A habilidade em tecer alianças políticas. como poderá se perceber. militante feminista representante do Instituto Mulheres pela Cidadania. É curioso de se notar que as ativistas lésbicas que participam do FMPE não compartilham dessa mesma visão. otimizadas pelas relações pessoais . na intensa disputa argumentativa numa situação de definição de representações para uma evento.v No entanto.

a associação da dimensão de pertencimento social introduz uma segmentação no sujeito “lésbica”. Não estamos pleiteando o lugar do sujeito político do movimento social. vindo em seu auxílio. E que em virtude disso. cuja participação da entidade só foi possível a partir de uma representante mulher. Uma coisa com que não concordamos é que é barrada a participação dos homens. relações de poder. é a da misiandria. O movimento de mulheres e o movimento feminista em si tem enquadramentos que discordam. Definem-se como feministas. entre diferentes agentes do campo feminista local. que não participam do fórum. nós desistimos do embate. porque entendemos que o sujeito político são elas. o FMPE é um fórum reconhecido como combativo e que não foi um espaço fácil para o Instituto estar. Essa entidade tem uma estreita ligação com a Universidade Federal de Pernambuco. Essa mesma posição acerca da misandria do FMPE é compartilhada pelo Instituto pela Pluralidade Feminista. que enfrenta muitas dificuldades na sua participação no FMPE pelo fato de ter nos homens o seu foco de trabalho. o que não minimizou as tensões enfrentadas dentro do espaço do fórum: “Olavo desabafou que após reiteradas tentativas de participação no FMPE. se configura como um importante produtor de diferenças. surgiu uma crítica à dimensão de posição de classe adotada pelas vozes hegemônicas. O Fórum tem feministas. não podemos excluir os homens. O marcador de classe. tomado genericamente. tem que se assumir aportes do feminismo naquele momento. já que este é o grande medo delas. e que contribui para se pensar as características do feminismo produzido ali. completou: para se dizer feminista. Se outras não estiverem atentas. a discussão feminista na academia é outra. mas muda. ao apresentarem os princípios que regem a ONG: “Luana. mas tem também movimentos de mulheres. mas de um feminismo acadêmico. Alaíde. Ligado a esta distinção encontra-se também mais um elemento que contará no estabelecimento das. Ficou uma discussão muito periférica. Nos trabalhamos num processo maior. socialista e muitos outros istas. Quando eu cheguei aqui. como nosso foco é a violência doméstica. Também porque sabemos que nós. Segundo esse ativista. por exemplo de partidos. vira só feminista. enfaticamente. Tem espaços de lideranças de mulheres. e o que conta é a discussão das lésbicas” (DC181004). mulheres. Ao contrário do que ocorre no FMPE. homens e adolescentes. enquanto homens. a casa era feminista. Em conversa com Luana e Alaíde. único. tão denunciadas. Cabe ressaltar que a entidade fez parte da coordenação do FMPE durante um período. E tem de tudo ali dentro. a gente trabalha com gênero. que se aliam contra esse traço excludente de um discurso feminista que se pretende hegemônico. o Instituto foi o primeiro núcleo feminista a trabalhar com homens. O que influencia o jogo político e as alianças entre os grupos em disputa. porque tudo é tido como feminista e não tem espaço para discordar. Para ele a resistência na aceitação dos homens relaciona-se com uma determinada 9 . ambas foram categóricas em fazer uma separação entre gênero e feminismo. nesse contexto. mesmo com dificuldades. com direitos humanos. tendo se originado como um núcleo seu. conseguiram muito pouco ali dentro: não conseguimos colocar o problema dos homens ali. como ressalta Olavo Lugal. Essa visão apareceu recorrentemente. Segundo ele. afirmou que a gente não se diz feminista. somos a exceção num contexto maior em que a hegemonia é outra. E não tem espaço. é mais conceitual e por isto é mais permissível à participação de homens. Além disso se traduz numa intensa fonte de conflito entre as lésbicas intelectuais e as lésbicas populares. Na sua avaliação. Essa distinção desafia a possibilidade de afirmação de um sujeito político lésbico estável. desde de movimentos de mulheres que luta pelo empoderamento até aqueles que lutam contra o feminismo. Uma outra fonte de acusação e de disputa presentes no campo de pesquisa. da Casa Vive Mulher. Assim. conforme classificação êmica. sobre a sua relação com o feminismo e com o FMPE. tem muitas relações de poder lá dentro do fórum.Na concepção das ativistas do grupo. ativista da instituição. Nós. Mas depois se brigou com todos os istas. Aqui se estabelece uma oposição entre um nós mulheres X eles homens. como poderia dar a entender a reivindicação de Kelly anteriormente.

visão feminista: as mulheres feministas têm um entendimento de que o feminismo é para ser aplicado às mulheres apenas. balizadora de posições. um outro eixo de oposição de fundamental importância no campo também aparece: o nós mulheres X elas mulheres negras. No entanto. comparando o movimento negro ao movimento feminista. importante ativista do tema. do Grupo Saúde da Mulher e Aids. 10 . negras e brancas. porque tem que ter o seu espaço de privacidade. defendendo as especificidades das lutas dos diferentes movimentos. Esta formulação apareceu em meio a uma reunião temática do FMPE que tratava da relação entre feminismo e mulheres negras. ela imprime uma forte característica no campo de pesquisa. da mesma forma. Mas quando se diz que têm pautas do movimento feminista que não as inclui [as mulheres negras]. é como contraponto. na sua argumentação. Uma das primeiras características que ouvi sobre o espaço do FMPE foi sobre a sua composição variada. essa necessidade do protagonismo das feministas negras é contestada pelas próprias militantes. A visão do feminismo como sendo uma luta que somente diz respeito a mulheres e que exclui os homens. Boa parte das feministas não consegue fazer essa leitura de gênero. como o dominador. pode-se perceber uma certa segmentação entre agendas de luta. Temos de observar a força que nós mulheres negras fazemos no sentido de enegrecer o movimento feminista. que também quer ter o seu espaço de privacidade. dentre as quais se encontravam desde ONGs feministas e mulheres de base. as militantes negras se ressentem da falta de espaço para as questões raciais ali dentro. afirmou que a questão racial deve ser algo de todas as mulheres no fórum. É interessante perceber que na sua formulação. muito recorrente e marcante no campo. Eva Basso. Isso não é segregação. Por sua vez. Cíntia Dorneles. É uma luta que tem de ser nossa e o desafio é esse: como vai ser o diálogo do sujeito mulher negra com esse sujeito universal do feminismo (Dc160305). ele é visto como uma questão cuja bandeira deva ser primeiramente levantada pelas negras e não por qualquer uma das feministas ali dentro. Já na reflexão de Cíntia Dorneles acima. ele não parece gozar do mesmo grau de adesão e investimento que têm o tema da violência doméstica e do aborto legal e seguro. para ter uma discussão entre eles. Trata-se de uma distinção êmica. posto serem contra quem se luta. parece haver um entendimento é a de que a questão racial é um assunto cujo protagonismo deva ser das mulheres negras. que tem tendências segregacionistas. que parece estar associada com a noção de sujeito político como veremos a seguir. que é muito machista! Mas é na presença de mulheres oriundas de movimentos populares que se pode perceber um dos mais produtivos embates entre alteridades e a dramatização das relações de poder dentro do FMPE. Apesar de ser um tema que foi adotado como um dos eixos principais da luta do Fórum. é corroborada pela posição de uma ativista feminista de renome no campo. o respeito ao protagonismo das próprias militantes negras é atribuído à dificuldade de relacionamento com o próprio movimento de mulheres negras. como o que subordina. isso me incomoda bastante porque todas as questões do movimento feminista dizem respeito a todas as mulheres. A o se observar as discussões sobre o tema. Assim é o movimento negro. Segundo ela o movimento feminista não aceita homens. temos de feminilizar o movimento negro. O gênero propõe um exercício reflexivo e quando chegam num determinado ponto elas não conseguem passar da fixação na mulher” (DC101204). como cristalizado. a justificativa pela opção misiândrica. não. Mesmo em se afirmar a garantia do espaço de discussão do tema dentro das ações do FMPE. Segundo algumas informantes. Ela expõe. identificando-a como periférica no FMPE. quando os homens aparecem.

conforme alerta Scott (1999). uma arma na disputa política ao se tornar inconteste. No entanto. Na distribuição do espaço para a manifestação das arapiracas.O antagonismo entre um nós feministas X elas de base reveste-se de inúmeros sentidos: o de ter ou não ter acesso a estudos. Em vista disso. que soa. assim. estabelecer tais jogos tendo em vista ganhos políticos. monopolizado por algumas mulheres. aqui nesse jogo político ela toma outra forma. muitas se arvoram em ser suas porta-vozes. E é nesse movimento que se percebe combinações circunstanciais dos eixos de constituição de alteridades. a experiência empírica. adequando-os à sua prática. o argumento legitimador da experiência somado à tentativa de estabilização de uma identidade fixa e coerente acabam dando lugar a uma fluidez e a uma contingência. Essas alteridades em embate e as suas concepções disputantes acerca do feminismo revelam sujeitos políticos distintos. sem levar em conta a dimensão simbólica da distribuição do poder de fala ali dentro. É interessante de se perceber que a noção de sujeito político em curso nesse contexto investigado. revela-se como um significante importante que dota a prática política feminista de sentido. em ter ou não voz. cujas combinações demonstram a dinâmica desses pares antagônicos. como substancial. que resistem a uma unificação. Tal noção de identidade resulta na articulação de um sujeito político cujas autoridade e legitimidade advém de uma concepção muito particular de experiência. o grupo de mulheres de base são identificadas como as mais silentes no campo. Acredita-se. no embate político. Antes parecem estar a se manifestar de outras formas e a se apropriar de determinados discursos. que revelam um jogo de identificações e diferenciações constantes de acordo com cada situação. passa a ter importância fundamental a prática da coalizão. ter ou não recursos para a militância. em meio a um contexto de distribuição desigual de arapiracas. nesse contexto. das que têm a sua voz escutada. Dessa forma. 11 . a intensa produção de alteridades nesse contexto político solapa a possibilidade de estabilização de uma identidade coletiva comum. como é reiteradamente interpretado. o silêncio não parece significar passividade ou falta de empoderamento neste caso. Desse modo. No entanto. Tal formação de alianças situacionais. posto que visa abarcar o agenciamento e a forma como sujeitos são constituídos. conforme desabafou Kelly num dos inúmeros embates que travou dentro do FMPE a fim de defender a sua bandeira política. Esse suposto silêncio parece indicar um estratégico jogo de alianças. Muito embora a noção de experiência tenha um potencial desessencializador importante. seja em prestígio ou em possibilidades de financiamentos para garantir a sobrevivência dos seus pequenos grupos e a de suas militantes. Buscam. acaba por ser tomada como um fundamento ontológico dos sujeitos e. embora articulando qualidades ontológicas fixas. encerradas na expressão êmica fazer articulação. O silêncio é percebido (e ao que parece fonte de preocupação) pelas dirigentes do Fórum. acaba por impor uma fluidez ao sujeito político feminista. Os sujeitos políticos e os desafios à prática feminista O embate entre os diferentes sujeitos políticos sugere uma imprescindibilidade da presença de um representante legítimo para a defesa dos seus interesses. logo. Esses elementos parecem necessários ao jogo político inscrito num universo de valores marcado pela distribuição desigual de prestígio. que variam de acordo com a situação e com os interesses em jogo (como se pode ver mais claramente na tensão entre lésbicas intelectuais X lésbicas populares). que só vai para o cotidiano [lutar] quem sente a opressão na pele (DC070405). Levando-se essa dimensão em conta. Por esse motivo. Essa legitimidade parece advir de uma noção de identidade. entendido de maneira particular.

compartilhado. aos poucos vai se tornando mais monofônica. visando angariar para si. a experiência é coletiva assim como individual. mas ao contrário. levando-se em consideração a proposta de Alvarez (1998) de tomar o feminismo como um campo discursivo de atuação e ação.Em vista disso. contradições dentro de cada um deles. perceber como os múltiplos sujeitos entram no campo político-discursivo. resistente à unificação. autônomos. importa considerar as mediações simbólicas por que passam os processos cotidianos de disputas e embates entre os diferentes sujeitos do campo. de compreender como se estabelecem as relações e se distribui. Assim. 12 . 2000: 152). no contexto estudado há algumas vozes que são mais ouvidas. Scott propõe tratá-los como “eventos discursivos”. Esse sistema de distribuição desigual de prestígio impele o surgimento constante de novos jogos antagônicos entre vozes que buscam espaço no campo. Já que o discurso é. mais ainda. Ao estudar o movimento de mulheres chileno. também o poder de definição das pautas de lutas. a pluralidade de vozes (e presenças) que constituem a riqueza do campo discursivo feminista sintetizado no FMPE. o que significa recusar a separação entre ‘experiência’ e linguagem e insistir na qualidade produtiva do discurso. que exercem o livre arbítrio. (. Ao se depararem com um sistema de distribuição de prestígio e privilégios constituídos no estabelecimento de relações de poder. faz-se necessário adotar uma outra forma de se compreender a experiência e os sujeitos políticos. introduzem novas concepções. E através disso. assim. no qual são produzidas relações de poder e de gênero. Nessa disputa constante. mas existem conflitos entre sistemas discursivos.. múltiplos sentidos possíveis para os conceitos que usam. e para as suas bandeiras.” (Scott. Sujeitos são constituídos discursivamente. acerca do feminismo.. vozes que são por muitas vezes requisitadas a se manifestarem.) A experiência é um evento lingüístico (não acontece fora de significados estabelecidos). qual o conteúdo desse coletivo. um desafio à prática feminista em como reunir essa diversidade. E sujeitos têm agenciamento. por definição. Eles não são indivíduos unificados. buscam entrar no jogo. que são disputantes. são sujeitos cujo agenciamento é criado através de situações e posições que lhes são conferidas. Assim. A viragem discursiva proposta por Scott possibilita. diferencialmente. o poder de falar em nome do coletivo e. 1999:42) Como procurei demonstrar nas descrições etnográficas. Impõem. E. assim. mas não está confinada a uma ordem fixa de significados. Schild (2000) alerta para o fato de que “os termos da cidadania e da comunidade de gênero estão sendo cada vez mais definidos por algumas mulheres em nome de todas” (Schild. mais do que isto.

Afinal. DAGNINO. no. Vera. o que Querem as Mulheres na Política? In BARREIRA. GEERTZ. Florianópolis: Editora Mulheres. Evelina. Registro o meu agradecimento às colegas Soraya Fleischer e Heloisa Paim pela leitura crítica e pelas sugestões feitas ao primeiro tratamento do material de pesquisa. T. 1990 (1988). O gênero como serialidade – pensar as mulheres como um colectivo social. Céli. no. 265-284. Clifford. vol 08. 2004. Signs: journal of women in culture and society. nº6 (abr/mai/jun1989). do qual se originou esse texto. Signs: Journal of women in culture and society. São Paulo: Paz e Terra.05 STRATHERN. Vera. Muitas Faces do Feminismo no Brasil. Joan.Gênero e feminismo no Partido dos Trabalhadores. 1998.6. 7-32. In Revista Estudos Feministas. L. IFCS/UFRJ. (orgs. Iris Marion.fpa. 4. 2. Cadernos Pagu – Trajetórias do gênero. São Paulo: Paz e Terra. Sonia E. sabendo que elas não são o retrato fiel da realidade. Feminismos latino-americanos. A. SOARES. Experiência. Vol. Tatau. – (11). 1/93. iii i Destas 48. Ângela. An awkward relationship: The case of feminims and anthropology. 2003 (1990). Berkeley: University Of California Press.. Teoria e Debate. Ouricuri. (original: Signs. s/r. masculinidades. “Do ponto de vista dos nativos”: a natureza do entendimento antropológico. Petrópolis: Vozes. BUTLER. Naomi (ed. In BORBA. Pp. Mulher e Política . In WEED. Vitória de 13 . 1. In DAGNINO. Paulista e Camaragibe) e 9 no interior da estado. 26 são sediadas em Recife. Evelina (org. vol. 1987. The Gender of the Gift – problems with women and problems with society in Melanesia. Problemas de Gênero – Feminismo e subversão da identidade. _____. Vol. Anthropology – review essay. 1998 SOARES.). p. ii Harding (1993). Marilyn. espaços públicos e a construção democrática no Brasil: limites e possibilidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. no.2/98. YOUNG. Catende. Feminism meets Queer Theory.). edição).. posto que a vida social está em constante transformação. no. vol 12. ao criticar que o feminismo representa apenas um tipo de mulher: a branca. 1982. 236 – 258. Judith. Jane Monning. inconsistência e instabilidade. ocidental. Irlys e SADER. In Revista estudos feministas. 1999. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo.htm.org. A instabilidade das categorias analíticas na Teoria Feminista. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. ______. Defende que se trabalhe conscientemente com as categorias. ATKINSON. Falas de Gênero – Teorias. 02.). (orgs. propõe que a teoria feminista acolha e trabalhe com a instabilidade das categorias analíticas. Fundação Perseu Abramo. In GEERTZ. Recife. Joaquim Nabuco. 1986) PINTO. Maturidade ao poder. HARDING.S e RAMOS. 1997. In SILVA.Referências bibliográficas ALVAREZ.br/td/td06/td6_sociedade2. Indianapolis: Indiana University Press.R. Eder.C. Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do ‘pós-modernismo’. M. acesso em 02. SCOTT. 1998. burguesa e heterossexual. Análises. FARIA. 1995 (2a. Leituras. Para ela. 2002. Nalu e GODINHO.08. Sandra. ______. Sociedade Civil e Espaços Públicos no Brasil. Bloomington. Against proper objects.). no. em cidades como Serra Talhada. Guia de Fontes do Fórum de Mulheres de Pernambuco.O. LAGO. Elizabeth and SCHOR. CIEC/ECO/UFRJ. 13 na região metropolitana (Olinda. Campinas. Sociedade civil. Quando novos personagens entraram em cena – experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo 1970 – 1980. a teoria feminista deve ser marcada pela incoerência. Clifford. II. Pp. In http://www.

expressões e palavras grafadas em itálico são êmicas. o qual presume que. é necessário haver um sexo estável. vi Butler define essa matriz como “a grade de inteligibilidade cultural por meio da qual os corpos. não poderei demonstrar etnograficamente esse ponto.) o modelo discursivo/epistemológico hegemônico da inteligibilidade do gênero. também. dado o caráter fortemente contextualizador (e portanto revelador) da etnografia. para os corpos serem coerentes e fazerem sentido (masculino expressa macho. 215-216). gêneros e desejos são naturalizados. (Butler. que é definido oposicional e hierarquicamente por meio da prática compulsória da heterossexualidade”. O uso de categorias êmicas revelam um esforço do pesquisador em construir conceitos a partir do exercício da alteridade. Uma interessante reflexão sobre este aspecto da produção antropológica pode ser encontrado em Geertz (1998). buscando entender o universo simbólico do grupo pesquisado nos seus próprios termos. Logo. Categorias e conceitos êmicos são categorias nativas.Santo Antão. Guia de Fontes do FMPE.. os nomes encontrados ao longo do texto são todos fictícios. expresso por um gênero estável. Por ora fica apenas a sua menção. lançado em novembro de 2004). (cf. feminino expressa fêmea). construídas pelos próprios informantes. iv Muito embora tenha consciência da vã tentativa em buscar manter o anonimato das pessoas com quem pesquisei. v 14 . Cabo de Santo Agostinho e Palmares. que todos os fragmentos textuais. Alerto. optei por trocar os nomes tanto das pessoas quanto das instituições a que estão ligadas.. Em função do reduzido espaço. (. 2003.

famílias. Polana Caniço A e Hulene B1. com as representações sociais e culturais e com a auto percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. onde se articula a avaliação da efectiva capacidade de controlo de recursos que os homens e mulheres da família exercem.br Género e poder nas famílias da periferia de Maputo Resumo Esta comunicação baseia-se numa investigação sobre estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias da periferia de Maputo que decorreu no âmbito de dois projectos realizados entre os anos de 1998 e 2002 nos bairros de Mafalala. A presente análise baseia-se em investigações realizadas na periferia de Maputo entre 1999 e 2002 (Bénard da COSTA 2003 . Com base nessa investigação esta comunicação desenvolve uma abordagem relacional das questões de género e poder. permite compreender a dinâmica inerente às relações de género e de poder que num dado universo social se desenvolve. Palavras Chave: Género.com. Nesta análise discute-se se as transformações ocorridas nestes dois aspectos da realidade social terão contribuído (ou não) para uma modificação nos papeis de género e mais especificamente para um acréscimo do poder e autonomia das mulheres e para uma valorização do seu estatuto social. Defende-se que essa perspectiva. . OPPENHEIMER 2003). Lisboa . Após introduzir o texto com uma breve caracterização do contexto de investigação e das estratégias familiares. uniões conjugais. poder. doutorada em Estudos Africanos Interdisciplinares em Ciências Sociais e Investigadora no Instituto de Investigação Científica e Tropical. caracterizado por uma precariedade de infra- 1. asbbc@yahoo. Antropóloga.Ana Bénard da Costa. estratégias económicas Introdução Foi num contexto social e espacial. a reflexão centra-se em dados empíricos que se reportam a relações de aliança e a práticas desenvolvidas pelos membros das famílias para obtenção de rendimentos e/ou produtos.

O lobolo não é um acto ou uma cerimónia circunscrita a um momento. culturais e naturais) que são articulados de forma dinâmica e relacional pelos actores sociais no quadro das estratégias económicas que desenvolvem. 16 . Matrimónios. Nesta comunicação analisam-se os diferentes papéis desempenhados pelos homens e mulheres ao nível das famílias. Nessas investigações concluiu-se que as estratégias de sobrevivência e reprodução social das famílias se caracterizam pela coexistência de múltiplas articulações e interrelações entre diferentes actividades geradoras de recursos económicos. Desta forma. Há uniões formalizadas simultaneamente no Registo Civil. e simbólicos. simbólica e económica) e diferentes tipos de recursos (humanos. Formalizar de algum modo uma união implica. uma intenção 2. implica diferentes cerimónias e o pagamento de uma prestação matrimonial. 3. há famílias poligâmicas. Estas práticas. pelo menos ao nível das representações. outros que se casaram «muçulmanamente» . coexistem diferentes processos de formalização das uniões conjugais que não são exclusivos entre si. leis e tradições A diversidade de tipos de uniões matrimoniais é significativa. entre outras coisas. sociais. quando os actores sociais se afirmam «casados» podem referir-se a inúmeros tipos de casamento. em que cada uma das mulheres é casada de forma diferente com o marido e há «uniões de facto» que não envolveram qualquer formalização. Entende-se como estratégias económicas o conjunto de práticas articuladas através das quais os membros das famílias obtêm rendimentos e/ou produtos. é um processo que. por índices elevados de «pobreza» e desemprego formal. envolvem múltiplas dimensões (social. reflectindo-se sobre as implicações que as mudanças ocorridas nas relações de aliança e nas estratégias económicas das famílias2 têm (ou não) na sua transformação. na Igreja Católica e através de lobolo3 . Uniões conjugais em transformação e questões de género No contexto em análise. que se desenvolveram as investigações em que a presente comunicação se baseia e que se centrou em famílias maioritariamente originárias das regiões rurais do Sul de Moçambique. Para a compreensão de todo este processo foi essencial o estudo das relações de género e poder que se processam no interior das famílias.estruturas urbanas e de serviços sociais. diferentes tipos e níveis de relações sociais e diferentes comportamentos regidos por valores díspares. sociais. há casais que só cumpriram parcialmente as diferentes cerimónias e prestações que o lobolo implica.

http://www. Cf. deveres e obrigações dos diferentes membros da família. 4. nomeadamente no que se refere ás uniões que pode ser repartida por tempos diferentes. sistemas de sucessão e herança e sistemas matrimoniais são interpretados de forma diversa. não só entre o casal e entre as duas famílias que assim se unem. Pretende-se que esta nova Lei da Família venha a ser um importante instrumento de mudança no conjunto de práticas sociais (consagradas na anterior Lei ainda do tempo colonial e imanentes dos diferentes sistemas de parentesco moçambicanos) que sustentam e promovem profundos desequilíbrios nas relações de género4.de compromisso.mujeresenred. Depois de um longo debate o Parlamento aprovou em Dezembro de 2003 a nova Lei da Família. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união conjugal e o facto de existirem uniões de facto em que casal se considera e é considerado socialmente casado. E. pode significar alterações substantivas nas relações de género e de poder que implicam rupturas profundas com os modelos matrimoniais prevalecentes e com os papéis que os respectivos cônjuges supostamente assumem dentro na união conjugal. dificulta a análise das diferentes situações. 3) mudanças estruturais nas relações familiares que se estabelecem através das alianças matrimoniais e cuja dinâmica não se coaduna com o «compromisso» de «longo prazo» que os diferentes sistemas criam. 2) a desadequação dos diferentes sistemas matrimoniais ao contexto periurbano actual. A pluralidade de formas possíveis de formalizar uma união matrimonial tem várias implicações. A morosidade deste processo legislativo e a polémica que à volta dele se desenvolveu testemunha as contradições resultantes da coexistência de diferentes sistemas culturais que permitem uma dinâmica «normativa». sendo esta promulgada pelo Presidente Joaquim Chissano vários meses depois (a 25 de Agosto de 2004).net/mozambique/Outras_voces-3Maio % 202003.doc 17 . por último. sendo uma das mais importantes a legal. possibilitando arbitragens permanentes entre vários referentes. mas também entre estas e o(s) modelo(s) social (is) de onde emanam os ritos ou as leis através dos quais esse casamento se realiza. Não formalizar uma união num contexto onde se cruzam diferentes sistemas matrimoniais – criando diferentes tipos de relações familiares – pode ter múltiplos significados : 1) uma diminuição da importância do casamento dentro da estrutura familiar. em que direitos.

Hesseling & Lauras-Locoh 1997). Algumas casas de construção muito recente ocupavam toda a área do talhão e incluíam no seu interior a cozinha e a casa de banho que em muitos talhões se situam em anexos no exterior. cada vez mais. 18 . pois muitas mulheres (em regime de monogamia ou poligamia) consideram-se casadas mesmo sem terem sido loboladas.poligâmicas. torna ainda mais problemática a poligamia. a exiguidade da maior parte dos talhões associa-se a um modelo «moderno» de construção que tende a concentrar. E. O modelo «moderno» e «urbano» de concentração espacial6. a tendência para a dispersão residencial das diferentes esposas em meio urbano explica-se mais por esta última razão do que por uma autonomia feminina previamente conquistada. transcrevem-se aqui as palavras de uma mulher. secretária da OMM (Organização da Mulher Moçambicana) no bairro de Hulene B : 5. sob o mesmo tecto. no contexto em análise. A propósito da poligamia importa ainda referir que em meios urbanos – em Maputo ou noutras cidades da África Subsariana – a poligamia não implica necessariamente a co-residência das diferentes esposas (Loforte 2003. Desta forma. Esta distinção é subtil e. já que cada uma das mulheres possui a sua palhota e não tem de partilhar o mesmo espaço físico de habitação com as outras (Junod [1996 : 287). não foi possível apurar se todas estas relações eram poligâmicas de tipo «tradicional» ou se eram casamentos monogâmicos onde havia uma «amante». Esta co-residência tem um significado diferente no meio rural. aliado ao facto de muitas casas terem poucos quartos. Há-de vir um senhor que é meu marido De forma a compreender as transformações ocorridas ao nível das relações de aliança e nos processos que nos últimos anos poderão ter contribuído para uma alteração significativa nas relações de género no contexto em análise. as diversas «divisões». eventualmente. Este modelo «moderno» é visível nas casas mais recentes e aparentemente mais «ricas» e contrapõe-se a um outro modelo em que as diferentes divisões se distribuem pelo talhão de forma independente. 6. Na cidade. o lobolo não é o factor que introduz a diferença. embora em 24 % das famílias estudadas5 existissem relações entre um homem e duas ou mais mulheres. Foram entrevistadas 81 famílias e inquiridas 1 000 e foi realizado trabalho de terreno mais aprofundado com seis famílias do bairro Polana Caniço A.

quando morre o marido eles arrancam todas as coisas da mulher. Ou arranja um amigo que lhe dá qualquer coisa para poder sustentar os filhos». mas como eles sabem que os filhos são despesas. então deu a liberdade à mulher. deixam a viúva com os filhos […] sem nada […] e a mulher volta para casa dos pais […] e ela engravida. […] A mulher tem direito de falar. antes. […] mas ela trabalha. a mulher livre da actualidade. e assim sucessivamente.«Minha mãe não quis casar com o cunhado e por isso mandaram-na embora. Só que a diferença deve haver porque da mulher nasce bebé […]». A família do marido leva todos os bens da senhora […] podem até levar os filhos. Posteriormente referiu : « Porque a mulher. ela estava muito fechada […] eu caso. como a libertação da mulher da tutela da família «tradicional» e das regras rígidas que a reduziam a um « ser menor ». Estão nascendo os filhos com muitos pais e ela sem nenhum marido e então chamamos de «mães solteiras» e ela não tem marido e não tem ninguém que lhe ajude […] Mas quem ajuda normalmente é a mãe dela […] mas também as mães ficam saturadas […] ela sai. Nestes excertos estão patentes as contradições entre uma «realidade» que ela descreve como composta de mães solteiras e mulheres abandonadas e as representações ideológicas que contrapõem à mulher submissa da sociedade tradicional. que o papel desempenhado pelo lobolo se relacione exclusiva e fundamentalmente com o estabelecimento de direitos e deveres de mulheres 19 . tem todos os direitos iguais aos do homem. com a independência. no entanto. mais outra vez. Mas qual é a verdadeira situação da mulher moçambicana em meio urbano? A existência de um elevado número de mulheres «mães solteiras» tem sido apontada como espelhando tanto a crise social que se vive e a dissolução da família «tradicional» e dos laços familiares subjacentes a esta. tem outro filho. tem direito de trabalhar como homem. fica sozinha com os filhos. não levam os filhos. ou o que ela faz. Não parece. O lobolo (ilustrando o «pluralismo moral» do contexto) é visto como um acto abominável através do qual mulheres são compradas e vendidas e simultaneamente como algo positivo que sanciona e dá estabilidade a uniões. ou vender. […] faziam isso antigamente. vou viver com aquela família definitivamente porque me lobolaram […] e a mulher era como tipo mão-de-obra […] Depois a Frelimo.

casado com três mulheres a quem lobolou. Esta prestação matrimonial era. para muitos dos jovens e das suas famílias. Por outro lado.e maridos. não passam necessariamente pelo casamento e pelo pagamento de prestações matrimoniais. em meio urbano. […] a pessoa é conhecida quando faz lobolo. obrigando à criação e ao desenvolvimento de novas cadeias de solidariedade. por isso. explica porque o considera importante : «Eu nunca gostei de ficar com filhos de dono sem saber porque é que estão comigo. simultaneamente. entre outras coisas. E. Aparentemente esse aumento não é do interesse de nenhuma das partes: os rapazes querem cumprir a obrigação e não têm meios suficientes. como parece acontecer em muitos casos (Loforte 1996 : 163-165). você não tem onde apresentar as dificuldades que estão a passar aqui dentro de casa se não fez lobolo […]. porque não me conhece. Pode ser conhecido. a que este e a sua filha vivam maritalmente. o noivo (e a família deste) não o pode pagar e que arrisca. se exigir muito dinheiro. a sua concretização. para isso não há contribuição. mas sobretudo com a criação. Um dos informantes. podendo esta ser abandonada com mais 20 . estruturante das estratégias matrimoniais que visavam antes de mais estabelecer uma cadeia de relações entre diferentes linhagens (Feliciano 1989a). quando se trata já do matrimónio. Josué. Ninguém na família me ajudou. na sociedade tsonga. as raparigas sentem que se «juntarem» sem lobolo não estão casadas . o aumento verificado nesta prestação matrimonial mencionado por diversos membros das famílias. manutenção e desenvolvimento de redes de solidariedade entre diferentes grupos familiares. dificulta ou impossibilita. a família destas sabe que. estas reflectem. eu não posso ir apresentar o problema a casa dessa pessoa. Estas solidariedades. senão há-de querer casar sem dinheiro e ainda confiar nos familiares ». mas não tem aquele tratamento que a pessoa que fez lobolo tem. e para eles também é muito importante. O aumento (relativo) do custo desta prestação matrimonial reflecte. mesmo que fosse esse o seu desejo. Se actualmente se verificam transformações que implicam a sua diminuição. a crise social e económica e as contradições internas das estratégias de reprodução social. porque no caso de eu ter um problema aqui. o processo de deslocamento em que estas populações estiveram envolvidas nos últimos anos e que tornaram por vezes obsoletas as velhas alianças.

as transformações que se verificam em todo o processo cerimonial do lobolo não reflectem necessariamente mudanças qualitativas nas relações de género. A cerimónia de casamento é. mesmo quando as situações indefinidas criadas ao nível das relações de aliança permitem à mulher uma maior liberdade e autonomia face às suas obrigações tradicionais. sendo a família uma das mais importantes . e como referem: «há-de cumprir-se».facilidade do que aconteceria se fosse lobolada. à semelhança das próprias uniões conjugais (o divórcio e a separação não são novidades). o rapaz e a família deste façam os sacrifícios necessários para as poder cumprir. Concluindo. eventualmente. escrevem a carta onde as exigências ficam expressas e esperam que. algo em permanente construção que se pode ir realizando ou protelando no tempo. no contexto em que a união se efectiva — Maputo —. apesar de ambas as partes não considerarem que a formalização do acto de matrimonial se tenha cumprido na íntegra. Essas transformações – instabilidade das uniões matrimoniais verificada sobretudo entre os membros da geração mais nova e a pluralidade de tipos possíveis de uniões conjugais – reflectem a dinâmica das estratégias de sobrevivência e reprodução social que articulam de forma ambígua valores contraditórios. No entanto. Nesse hipotético futuro se projectam actos e cerimónias como se de processos se tratasse. não sobrevivem se não desenvolverem práticas «egoístas» que lhes permitam satisfazer 21 . Consideram. são muitas vezes auto-percepcionadas como negativas e podem traduzirse num maior isolamento social das mulheres e consequentemente num decréscimo do seu poder e estatuto. também. simultaneamente. os indivíduos para sobreviverem e se reproduzirem necessitam de estar inseridos em redes sociais de solidariedade. Essa liberdade e autonomia. correndo o risco. num contexto onde a sobrevivência e a reprodução social dependem em grande medida do estabelecimento de redes familiares de entreajuda. Por outras palavras. Por isso. que o dinheiro que assim vão receber pode contribuir para fazer face a outras despesas essenciais (por exemplo. ajudar um filho a pagar o lobolo que outra família exige). Porém. não é necessário que todos estes requisitos se cumpram para o casal se sentir «casado» e para a família de ambos os aceitar como tal. Mas «a vida está cara». e muitos dos actores sociais disseram que o valor monetário do lobolo era calculado em função das despesas que haviam tido com a educação da filha.

O trabalho feminino nas estratégias económicas das famílias A estas transformações nas práticas matrimoniais e à instabilidade das uniões conjugais aliam-se importantes mudanças económicas. Eu não faço nada. Grande parte destas actividades realiza-se de modo «informal» e/ou destina-se ao auto consumo. Antes de reflectirmos sobre o seu impacto nas relações de género e de poder importa apresentar alguns dados das investigações mencionadas. existe sempre a possibilidade de «circulação » entre redes de solidariedade e por isso é possível aos indivíduos e às famílias estabelecerem novas alianças com outras unidades sociais (novas uniões matrimoniais) e desenvolverem processos dinâmicos e versáteis de reprodução social.as suas necessidades materiais. confeccionam comida para venda. No entanto. Muitas destas famílias têm bancas de vendas dos mais variados produtos à porta de casa ou vendem noutros locais : mercados do bairro. as famílias desenvolvem uma estratégia pela qual tentam conciliar a instabilidade das relações de aliança com as necessidades de coesão interna. Uma das soluções possíveis passa pela aceitação e criação de condições que transformem as cerimónias matrimoniais em processos em permanente construção que podem a qualquer altura ser interrompidos. como é o caso da produção agrícola nas machambas urbanas ou rurais exploradas directamente por membros da família residentes na cidade ou por outros familiares que residem no campo. pequenos «bares» que fazem em casa. continuidade e reprodução social. Para subsistir e fazer face às suas responsabilidades 22 . Essas práticas podem gerar a quebra de alguns dos compromissos sociais em que se baseiam as referidas redes (neste caso. têm pequenas oficinas. na estrada. de forma a contextualizar a análise. Da análise dos dados concluiu-se que em praticamente todas as famílias existem várias pessoas a trabalhar em actividades geradoras de rendimentos ou de produtos. Muitos dos membros das famílias desenvolvem outros tipos de actividades geradoras de rendimentos em casa : são curandeiros. só vendo Verificou-se que em praticamente todas as famílias. matrimoniais) que tenderiam a perpetuar essas unidades sociais. as mulheres exercem actividades geradoras de rendimentos ou produtos e as vendas são uma das tarefas principais em que se ocupam. Desta forma. as famílias) e por conseguinte quebram-se as alianças (neste caso.

em face da ausência de outras alternativas viáveis (entre os membros das famílias estudadas que trabalham no sector formal apenas se encontra uma mulher) tiveram de inserir-se nos circuitos do chamado mercado informal. pelo facto de obterem rendimentos monetários em actividades que exercem «fora de casa». as mulheres e os seus maridos não consideram as actividades que estas desenvolvem como «trabalho». ele não tem nada a ver com isso». têm a possibilidade de aceder a certas posições de poder e de conquistar uma certa visibilidade a nível do bairro que pode influenciar positivamente o seu estatuto na família e fora da família.«tradicionais» de provedoras do sustento da família. as mulheres. venda de lenha. estando nas «bancas» sempre que é necessário. e referem : «eu não faço nada. um acréscimo de trabalho e de responsabilidades. Importa notar que. em meio urbano africano. Rocha & Grinspun 2001). assim. Loforte 1996). ou que ele tinha arranjado outra mulher e quando vinha dava uma quantia insignificante. que têm chamado a atenção para o facto de muitas mulheres que desenvolvem actividades geradoras de recursos financeiros terem. estas mulheres. Normalmente as crianças colaboram nestas actividades. foi possível concluir que em muitas famílias o número de mulheres que trabalham é igual ou superior ao número de homens que trabalham. Estas actividades e as redes sociais em que as mulheres se inserem contribuiriam. venda de produtos hortícolas e frutícolas. para uma maior determinação no controlo das suas vidas e um maior poder de negociação e independência face aos homens. Esta ideia tem sido contrariada por outros autores (Caplan 1995 & Campbell 1995 . só vendo» ou «aquilo que ela faz é para entreter». as mulheres afirmaram que eram elas que efectivamente sustentavam a família e que a contribuição financeira do marido para as despesas domésticas não era suficiente: «atirou toda a responsabilidade. para um acréscimo da sua autoconfiança. face às mulheres que não as desenvolvem. As 23 . Não obstante este facto e a dificuldade de apurar a importância da contribuição financeira das mulheres para os orçamentos familiares – a maioria das actividades não tem um rendimento constante e não é realizada de forma continuada –. executando aí um leque muito variado de actividades – confecção e venda de carvão. Segundo alguns autores (Tripp 1989 . em alguns casos. Em alguns casos. confecção e venda de alimentos ou revenda de produtos importados.

há uma repartição hierárquica das diferentes tarefas e responsabilidades e uma maior autonomia e disponibilidade daquelas que têm um estatuto mais elevado. Estas últimas. para muitas mulheres.primeiras continuam a ser responsáveis pela preparação das refeições da família e por todas as outras tarefas domésticas. irmãs mais novas. são as outras mulheres da família de estatuto inferior (noras. e a ausência de alternativas – uma mulher sem família é socialmente marginalizada – podem transformar a autonomia em sofrimento e a liberdade num pesadelo. Quem vai buscar água e comprar lenha. O potencial de conflitos. quem vai às compras ou cozinha. sendo necessário relacionar inúmeras variáveis para compreender a posição das mulheres em termos de autonomia. embora continuem a gerir as actividades domésticas. 24 . as crianças e os jovens (incluindo rapazes). Destacam-se algumas: a estrutura familiar (tipo de família. é ela que dá ao marido» – ou rompimentos com redes familiares e de parentesco. para outras tal não acontece. Se o exercício de actividades geradoras de rendimentos monetários cria possibilidades para o aumento de autonomia e liberdade das mulheres face às obrigações e normas tradicionais e maior espaço social de circulação. poder e estatuto. número de membros da família e distribuição por sexo) . na ausência deste. a posição que a mulher ocupa dentro desta estrutura. a relação afectiva e emocional com o cônjuge ou. Esta situação é comum nas famílias numerosas onde existem muitas mulheres nas diferentes faixas etárias. Em termos da análise empírica constatou-se que existiam situações muito diversas. quem varre o chão e lava a roupa. Nestes casos. a situação do homem em termos de trabalho/rendimentos. por isso às vezes a mulher faz sem dizer nada ao marido. as actividades que desenvolve e a importância relativa dos rendimentos daí resultantes no orçamento familiar. segundas mulheres. essa possibilidade pode gerar conflitos quando é concretizada – «há muita zanga entre os homens e as mulheres por causa do que hão-de fazer ao dinheiro. com outros elementos masculinos da família . que por vezes atingem níveis dramáticos. não as realizam. as actividades geradoras de rendimentos representam um acréscimo de trabalho. Os homens não tiram o dinheiro. os recursos materiais disponíveis e a capacidade da mulher para os mobilizar e rentabilizar em seu benefício. Assim se.

Uma mulher sem filhos. Prefiro assim. mas desde que o senhor Josué [marido] cuide de mim. mas vive sozinha. estou num lar O estatuto do casamento e da maternidade constitui um factor de grande peso cultural e social. Uma (Eva) é a terceira esposa de um casamento poligâmico e outra (Cristina) afirma-se casada.Agradeço a Deus o que me deu. estou num lar que já tinha lá duas mulheres. Sou casada mas ainda não fui lobolada. comprei o talhão sozinha e foi o meu irmão que fez a casa […]. apenas produz para o consumo da família. Cristina é professora na escola comunitária do bairro Polana Caniço A. tem um ordenado e casa própria. marido e filhos. Estas mulheres referem-se nos seguintes termos às suas situações : «Cristina (29 anos) : Eu há dois anos que vivo numa casa que é só minha em Magoanine. A primeira trabalha na machamba da família e não obtém quaisquer rendimentos monetários com essa actividade. estou à espera que ele venha para saber se fica comigo ou não. trate de mim. para mim basta ». sozinha. não tenho quase despesas. ele está na África do Sul e nunca mais veio.» Eva (30 anos) : «Não me considero uma mulher com sorte porque não tive o marido só para mim. ele é de três. mas também não posso dizer que sou muito azarada em relação à minha amiga. 25 . Como exemplo destas situações e da importância de equacionar diferentes dimensões da realidade social quando se reflecte sobre questões de género. nem registo nem nada. A autonomia da mulher pode ainda traduzir-se numa capacidade limitada para mobilizar recursos (humanos e materiais) e num aumento consequente de responsabilidades face a si e aos seus filhos e num maior isolamento social. sou só eu e o meu irmãozinho de dez anos que vive comigo […]. […] Mas gostava mais de ter uma família. solteira e com uma situação económica que lhe permite possuir casa própria e usufruir de uma certa independência não se considera necessariamente mais «valorizada» socialmente (embora seja certamente mais independente e tenha mais poder e autonomia sobre a sua vida) do que outra mulher inserida numa família poligâmica e sem rendimentos próprios. porque esta aí ainda anda a tentar ver se consegue um lar […] agradeço a Deus o que me deu. apresenta-se aqui o testemunho de duas amigas da mesma idade que vivem situações muito diferentes. do que esta situação de independente.

se manifestam diferentes graus de subordinação ou de poder (Mouffe 1996 : 104). o exercício de profissões. Neste complexo jogo e face às alternativas existentes. mas estas mudanças ocorrem em múltiplos sentidos. A formação escolar. mesmo limitando o universo de análise às mulheres estudadas. As diferenças entre essas mesmas experiências são ontologicamente complexas. os ganhos monetários provenientes de diversas actividades. Esse contexto. pois esta era 26 . de forma dinâmica e por vezes ambivalente. efectivamente. Simultaneamente. experiências e memórias acumuladas. é necessária prudência quando se tenta extrair conclusões sobre eventuais modificações nas relações de género e é difícil percepcionar as direcções para as quais tendem as transformações observadas. romper com fidelidades antigas que as subalternizavam. contraditórias e em transformação. traduzir-se num aumento relativo do espaço de poder feminino face ao masculino. para além de estar profundamente marcado por relações de género que subalternizam o papel social da mulher face ao do homem. que existem efectivamente mudanças no papel que a mulher desempenha dentro da família. mas o facto de as mulheres terem a responsabilidade de prover ao sustento alimentar básico da sua família não constitui uma mudança. No entanto. 60) e que uma mesma mulher vive uma multiplicidade de relações de diferente tipo. cada mulher é portadora de identidades múltiplas. em certos casos. Por outro lado. estas não são um grupo homogéneo nem são vítimas passivas. uma vez que as mulheres não partilham uma mesma realidade material (Casimiro 1999 : 53-54. têm estratégias de poder diferenciadas que variam em função de inúmeros factores: tipo de família em que se inserem. E tal pode. estas «conquistas» só adquirem «valor» quando têm significado e reconhecimento social dentro do contexto em que se efectivam. a afirmação de interesses individuais e a capacidade (e coragem) de certas mulheres tornam possível. onde. de acordo com as circunstâncias diversas com que interage e com as diferentes posições que nestas circunstâncias ocupa. é pleno de contradições e articula de forma complexa valores «tradicionais». complexas. interesses «modernos» e representações ideais de modernidade. A análise demonstrou que as mulheres constituem um elemento essencial nas estratégias económicas. idade.Através destes discursos é possível concluir. neste «estudo de caso».

ao nível das representações sociais e culturais no contexto em questão (como a sociedade em causa molda os papéis e os comportamentos de ambos os sexos) e em termos da auto-percepção que os membros da família têm do poder que exercem ou ao qual se submetem. A compreensão destas questões pressupõe uma análise integrada onde intervêm diferentes significados e interpretações : o significado que o investigador dá a esses conceitos e que influencia as interpretações que faz da realidade social que analisa. as mulheres participam frequentemente em grupos religiosos (igrejas). por outro. e as práticas concretas dos actores. bem como significados que essas questões e conceitos têm no contexto cultural e social em observação. uma transformação valorativa no estatuto das mulheres. Simultaneamente. No entanto. Estas mudam frequentemente de culto quando se casam e passam a seguir a religião do marido. O que se verificou foi que questões relacionadas com «autonomia». há ainda que ter em conta não só os múltiplos referentes em presença como as diferenças entre valores culturais e representações sociais. Da mesma forma o acesso aos rendimentos monetários não se traduziu numa maior visibilidade ou intervenção a nível do bairro. Neste último caso. por um lado. é reduzida. esta mudança não significou. Da mesma forma. «controlo» e «relações de poder» são extremamente complexas e têm de ser contextualizadas. Sendo assim. Neste sentido. A diferença reside nos rendimentos monetários que agora adquirem através do seu trabalho. «independência». a análise das questões de género constitui essencialmente uma análise relacional e o que está em jogo são fundamentalmente relações sociais entre os membros masculinos e femininos da família. por si só. Pelo contrário. não faz sentido falar de poder ou de autonomia sem os contextualizarmos dentro desta dinâmica relacional (Medick e Sabean 1988: 18). as relações de poder devem ser compreendidas em termos de avaliação da capacidade de controlo de recursos materiais e humanos por parte dos homens e mulheres da família. Mas mesmo a vida religiosa da mulher está por vezes dependente da vontade do marido. a essência multidimensional das relações familiares implica que nessas mesmas 27 . As informações empíricas disponíveis não permitem chegar a conclusões acerca de modificações nos papéis de género. por exemplo no «xitike». associações de bairro (excluindo aqui a Organização da Mulher Moçambicana) e grupos de entreajuda. A participação das mulheres em ONG.«tradicionalmente» a sua obrigação.

«Femmes. Faculdade de Economia. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. A. 1997. «Conceptualizing Gender Relations and the Household in Urban Tanzania ». De todos estes factos deriva a presente dificuldade em expressar conclusões gerais – mesmo que limitadas ao universo em análise – sobre a influência que as actividades geradoras de rendimentos desenvolvidas por mulheres terão nas relações de género no seu maior ou menor acréscimo de poder e estatuto no interior ou no exterior da família. Coimbra. COSTA. Family and Household in Tanzania. XXVII (12) : 2021-2044. pouvoir. Gender. Politique Africaine. 1988 : 18). T. «Paz na Terra. Estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias na periferia de Maputo. 28 . A. tese de doutoramento em Estudos africanos interdisciplinares em Ciências sociais. Avebury : 178-202.. Bibliografia citada BEBBINGTON. CASIMIRO. dissertação de mestrado. World Development. I. Family and Household in Tanzania. Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique. CAPLAN. dissertação de doutoramento. & LAURAS-LOCOH. Lisboa. Aldershot. G. F. 1989. sociétés». CREIGHTON . CREIGHTON. J. 1999. HESSELING. ed. Universidade de Coimbra. in C. 1995. « Capitals and Capabilities : A Framework for Analyzing Peasant Viability. Guerra em Casa : Feminismo e Organizações de Mulheres em Moçambique ». J. 65 : 3-20. mimeo. mimeo. Gender. 1995. P. Rural Livelihoods and Poverty ». 1999. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa (ISCTE). Aldershot. Lisboa. Avebury : 118-138. Bénard da 2003.relações sejam expressos diversos tipos e níveis de poder que não só podem não ser coincidentes como são dinâmicos e se alteram permanentemente sob a influência de inúmeros factores (Medick e Sabean. ed.. FELICIANO. mimeo. «"In My Office We Don’t Have Closing Hours" : Gendered Household Relations in a Swahili Village in Northern Mafia Island» in C. CAMPBELL.

in Interest and Emotion : Essays on the Study of Family and Kinship. mimeo. Usos e Costumes dos Bantos. A. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa. et al. 1996. MEDICK. 29 . Ela Por Ela. 1989. Instituto superior de ciências do trabalho e da empresa (ISCTE). Lisboa. Estudos de desenvolvimento nº 6. 2001. 1996. mimeo. Lisboa. Cambridge University Press : 1-8. MOUFFE. Lisboa. Universidade técnica de Lisboa. dissertação de doutoramento. Trabalho assalariado e estratégias de sobrevivência e reprodução social de famílias em Luanda. Lisboa. U. «Introduction». UNDP (United Nations Development Programme). M. C.M. «Urbanização acelerada em Luanda e Maputo : impacto da guerra e das transformações sócio-económicas (décadas de 80 e 90)». Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. Lisboa. Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique. doutorada em Estudos Africanos Interdisciplinares em Ciências Sociais no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). TRIPP.JUNOD. A. Maputo.W. Instituto superior de economia e gestão. D. «Private Adjustments : Households. O Regresso do Político. Journal of Modern African Studies. OPPENHEIMER.A. 1988. Lisboa. «Women and the Changing Urban Household Economy in Tanzania». org/dpa/publications/choicesforpoor/ENGLISH/CHAP03. Dicionário Changana-Português. 1996. 2004.. Instituto nacional de desenvolvimento da educação. ROCHA. 2001. http ://www. ––––– 2003. RODRIGUES. Cambridge. 3ª edição. H. Maputo. C. [1912-1913] LOFORTE. B. GONZÁLEZ de la & GRINSPUN. 2 vols. 1996. Crises and Work» in Choices for the Poor : Lessons from National Poverty Strategies. A. Gradiva. Arquivo Histórico de Moçambique. H. textos preliminares. SITOE. J.. tese de doutoramento em Estudos africanos interdisciplinares em ciências sociais. undp. M. Centro de estudos sobre África e do desenvolvimento. & SABEAN. 27 : 601-23 Ana Bénard da Costa é Antropóloga.

estrategias y acomodaciones en las trayectorias migratorias. El lugar de la familia” Ana Inés Mallimaci anamallimaci@yahoo. .ar Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género – FFYL-UBA.“Mujeres migrando. Palabras Claves: Migraciones. familia. / Facultad de Ciencias Sociales-UBA Resumen: Los estudios migratorios en sus versiones más novedosas han introducido a la familia como unidad de análisis desde la cual reconstruir prácticas. sostienen una serie de afirmaciones sobre las migraciones de las mujeres (relacionadas con su origen y configuración) cuando migran con sus parejas y/o hijos (las migraciones de tipo “familiar”). no como mero ejercicio teórico sino como una herramienta desde la cual comprender el sentido que las migrantes construyen sobre sus trayectorias. Las concepciones sobre la familia. representaciones familiares.com. Bolivianas. De este modo se analizarán las concepciones familiares asumidas por las teorías migratorias y las representaciones sobre la familia (en tanto ideal y en tanto prácticas) re-construidas en las entrevistas para dar cuenta de las distancias entre las verdades asumidas y las prácticas reales en las experiencias vividas. A partir del análisis de entrevistas en profundidad realizadas entre mujeres nacidas en Bolivia y migrantes recientes cuya residencia sea la ciudad de Buenos Aires y Ushuaia intentamos desconstruir estas afirmaciones. supuestos casi nunca expresados. Mujeres migrantes.

La elección de este grupo de mujeres no es azarosa sino que se trata de mujeres cuya trayectoria migratoria ha sido analizada como “típica” de las primeras olas migratorias y que en las discusiones sobre las motivaciones de migración han sido encasilladas entre aquellas que migran motivadas por la “reunificación familiar”. Las técnicas de campo. Este tipo de motivaciones le son exclusivas y se diferencian de las de cualquier típico varón migrante o de las típicas mujeres que conforman la llamada “feminización de la migración” que atraviesan las fronteras solas con el fin de trabajar. enmarcando el análisis en un enfoque conjunto de las teorías feministas y las interpretativas dentro del campo sociológico. Objetivos: Para esta presentación hemos decidido trabajar con una pequeña porción de nuestra indagación: las representaciones familiares y su vinculación con las trayectorias migratorias de mujeres que migran a la Argentina después de sus maridosiii. en la literatura más clásica. en las casas o lugares de trabajo de los/as entrevistadas/os con el principal fin de reconstruir las trayectorias migratorias de las/los entrevistadas/os. Es en estas ideas donde vamos a encontrar concepciones supuestas y no discutidas sobre la familia por parte de los analistas que reproduce en mucho el ideal de familia nuclear conyugal y heterosexual de occidente. Se migra para reunirse con “la familia”. en su gran mayoría. consideramos que el hecho de ser mujeres migrantes (es decir que estamos trabajando con mujeres pertenecientes a los sectores más bajos de Bolivia) provenientes. es decir con aquel varón que espera. de zonas rurales y de provincias específicas (Potosí y Cochabamba) permitiría algún grado de generalización no probabilística Interpretar sus experiencias implica en mucho tomar distancia de naturalizaciones y cotidianidades relativas a nuestras propias experiencias femeninas. Las 15 entrevistas seleccionadas para este trabajo pertenecen a mujeres que residen en áreas urbanas de la Ciudad de Buenos Aires y en Ushuaiaii con migraciones “familiares” y cuya edad varía desde los 23 años a los 70. Analíticamente. Para ello estamos entrevistando a mujeres y varones que hayan nacido en el territorio boliviano y hayan atravesado las fronteras con nuestro país con el “ánimo de residir”i. Aún así. urbanas y occidentales con el fin de ejercer vigilancia epistemológica y evitar el etnocentrismo que implicaría analizar desde lo propio realidades cercanas en el espacio (medido en metros) pero lejanas en cualquier otra dimensión. Nuestro trabajo se construye entonces a partir y sobre los relatos de estas mujeres y varones nacidas/os en Bolivia. no considerar ambas dimensiones impide indagar sobre las distancias y posibles tensiones entre las prácticas familiares vividas y lo idearios acerca de lo 31 . En esta presentación decidimos trabajar sobre las motivaciones de la migración ya que es allí donde “la familia” aparece. generalmente de un encuentro. de análisis y de escritura intentan dar cuenta de la “perspectiva que los actores y actoras sociales” imprimen a y en sus acciones en contextos culturales. sociales y económicos específicos. como un origen de las acciones y el destino para estas mujeresiv.Introducción Esta presentación es un producto del trabajo que estoy realizando para la tesis doctoral cuyo tema central radica en analizar las múltiples relaciones entre las migraciones bolivianas a la argentina (ciudad de Buenos Aires y Ushuaia) y las estructuraciones de género. Las técnicas de recolección/construcción de información empleadas fueron entrevistas en profundidad no estructuradas. En este trabajo no hemos enfatizado en las múltiples diferencias presentes entre las propias mujeres bolivianas frente a una misma trayectoria migratoria.

Intentaremos dar cuenta de la articulación de lo económico con lo doméstico como parte de un mismo sentido que impide su conceptualización como dos dimensiones separadas del mundo social. a.familiar. Gregorio Gil (1997)-. lo hacen con el fin de la “reunificación familiar”. Por lo tanto esta ponencia se estructura en base a un triple problema: a) Los estudios migratorios utilizan a la familia como parte de sus análisis: que es lo que generalmente se entiende por ella? A partir de ello propondremos nuestros propios sentidos acerca de las familias. es considerada entonces como “mesoestructuras” o estructuras intermedias que permiten comprender las decisiones de migración y los modos del movimiento y radicación -Hoerder (2000). c) Basado en una visión dicotómica de la sociedad. Balán. Significados sobre la familia en los estudios migratorios Realizaremos aquí un brevísimo repaso sobre las configuraciones sobre “la familia” en los estudios migratorios de corte sociológico. Sin embargo. Si el concepto de familia no 32 . desde hace algunos años. El análisis que realizaremos deberá ser comprendido como esbozos de ideas surgidas de algunas entrevistas realizadas en el marco de una investigación más amplia. Pensada como estrategia (y solución) para superar la dicotomía entre los análisis estructurales (tanto los de raigambre marxista como aquellos incluidos en las teorías Push-pull) y aquellos centrados en el individuo racional (con información completa que decide. luego de sopesar costos y beneficios. utilizar como unidad de análisis a “la familia migrante” y no a los individuos supuso mediar entre estructuras e individuos.v Nada de lo que será dicho puede entenderse como el resultado de un análisis acabado sino como las primeras hipótesis surgidas de la indagación empírico – teórica. Quiminal). se ha difundido y aceptado la idea de que la comprensión de los motivos. Antes de comenzar esperamos se nos disculpen algunas advertencias para la lectura de las palabras que siguen. La familia (junto con las redes de sociabilidad). se desprende del corolario anterior que si las mujeres migran en y por la familia sus motivaciones no son económicas sino “sociales”. Una vez más (y como suele ocurrir con aquellas realidades cercanas que se nos aparecen como obvias y a veces naturalizadas). En el juego de reflexión sobre datos empíricos para volver y enriquecer al campo.vi Específicamente dentro del campo de los estudios migratorios. migrar como una estrategia racional)vii. trayectorias y relaciones con las sociedades receptoras y de origen deben ser analizadas en y a través de las familias migrantes. entre la ideología familiar y las estructuras y económicas reales de unidad doméstica ((Moore 1996)) tanto de los investigadores como de los actores y actrices sociales cuyos mundos se analizan. Cuáles son los motivos re-construidos por nuestras entrevistadas? Que sentido le atribuyen a la “reunificación familiar”?. la categoría familia se da por supuesta y ya sabida y es incluida como un dato de la realidad o una posición en una variable independiente cuyo mayor dinamismo es registrar el “tipo” de familia según tamaño y estructura interna ( ver por ejemplo los trabajos de Poggio y Woof. este corrimiento en las perspectivas teóricas hacia las familias poco y nada nos dice acerca de las conceptualizaciones sobre la familia empleadas lo cual resulta paradójico dado el papel protagónico concedido a la familia. “privadas”. como distintas puertas que serán abiertas para convertirse (con suerte) en futuros ejes y categorías de análisis. Las motivaciones de migración serán comprendidas entonces como “estrategias familiares” en ciertos contextos estructurales. b) Los estudios migratorios han producido una verdad que establece que cuando las mujeres migran después de sus maridos. este trabajo se sitúa en el primer paso.

sin el objetivo principal de reunirse con su pareja ya migrada)xi. se confunde un tipo ideal. abstracto y teórico con prácticas familiares reales. 33 . para luego traer a su familia. y tal como es expresado por Bernardes (1997) y (Moore 1996). el lazo afectivo entre los miembros de la familia. vestimenta. por lo menos. se supone que los recursos materiales y simbólicos.forma parte del objeto construido como problemático existirán supuestos sobre qué es una familia que sostendrán silenciosamente los análisis posteriores. son distribuidos de forma igualitaria. la mujer migrante es la reproductora biológica y la representante simbólica de la reproducción nacionalix. Asimismo. Con ello queremos decir que si bien esta imagen típica de familia migrando y su típica trayectoria no puede considerase como falsa ya que describe experiencias migratorias realesx al ser clasificada como “típica” y convertida en un supuesto que. causas y consecuencias de la migración. De este modo. al comprender la migración de mujeres solteras por la ausencia o falta de una estructura familiar que la contenga o la ausencia de un varón que cumpla el rol productivo). La familia en la que se piensa es de tipo nuclear (con lazos con el resto de las familias nucleares a partir de las redes de parentesco) y heterosexual. el núcleo conyugal atraviese las fronteras de uno o más países. al menos. Un ejemplo claro de ello es lo difícil que ha sido incluir en la agenda de investigación el caso de mujeres que migran autónomamente (es decir. puede opacar otras prácticas familiares y migratorias y sobre todo invisibilizar las prácticas de las mujeres migrantes y de los hijos/as. su mujer e hijo/as) que se juntarán con él y comenzarán una nueva vida en familia. es decir. Lo que constituye un ideal. etc. Típicamente la forma de las trayectorias migratoria de los miembros de la familia es “en cadena”((Benencia 2004. no aparece como problematizado y problematizable. un modelo se confunde así con las prácticas reales (Salles y Tuirán 1996). festividades. Por otro lado. d) La estructura familiar se mantiene integrada por la clara división jerárquica de roles generacional (adultos activos. c) Se da por entendido o. y paradójicamente. b) La unidad conyugal está en el centro de la estructura familiar. Devoto 2004)): un varón como jefe de hogar y padre de familia. Además. niños pasivos) y de género (varón en lo “público”. decide trasladarse a otro país (como parte de una estrategia familiar de supervivencia). no es revalidado en el trabajo empírico. una ideología. será la principal encargada de mantener el lazo cultural con la sociedad de origen a través de la enseñanza y reproducción de costumbres. Este traslado será facilitado por las redes de parentesco y sociales cuyas consecuencias son siempre positivas y beneficiosas para el ahora devenido migrante y su familia. afecto y emotividad familiar (aunque trabaje “productivamente” esta será su principal función) y principal encargada de la integración de la familia en su interior y con la sociedad más amplia. es el que migra por ser el que ejerce el rol productor de bienes y recursos) y la mujer confinada a lo doméstico y ejerciendo el rol de reproductora de la unidad. comidas. Las migraciones familiares Cuando se conceptualiza a la migración como familiar se entiende por ello que. al tomarse un tipo de familia como la norma se prescriben los modos adecuados de vivir en familia (por ejemplo. Si su inserción resultara “exitosa”. trabajador. La mujer será la encargada principal de la integración de sus hijos e hijas a un nuevo entorno como reproductora de lo doméstico. su mujer y sus hijos. traerá o mandará llamar a su familia (es decir. También. lenguas. Este modelo típico de familia supuesto en la mayor parte de los trabajos migratorios pueden rastrearse diferentes supuestos anclados en la “exitosa” imagen funcionalista sobre la familiaviii: a) Como unidad social diferente de otras. en general.

lo hacen con el fin de la “reunificación familiar”. padre o madre. meramente. pareja/s. De este modo la familia lejos de ser fijada en una forma única. En este artículo trabajaremos con los relatos de mujeres cuyas trayectorias de familias migrando han sido similares: juntadas (formal o informalmente) en Bolivia las trayectorias migratorias “familiares” comienza con la del varón en búsqueda de trabajo y pasado un tiempo (que varía de acuerdo a los casos) la migración de la mujer y sus hijos/as. es decir. siempre que una mujer migre luego de su marido el sentido mentado del movimiento será el de la “reunificación familiar” dando por supuesto las significancias de este título que se opone entonces a las migraciones de los varones motivadas económicamente y por factores productivos. Esta afirmación tendría como destinatarias a las mujeres sobre las cuales se basan estas reflexiones. abordados en esta presentación. 34 . Mantener implícitas las definiciones familiar ha implicado en la mayor parte de los casos reproducir imágenes familiares que invisibilizan nuevos modos de ser en familia. Partiendo de esta primer definición de familia lo que intentaremo aquí es incorporar en el análisis los modos en que la familia es vivida y representada por las mujeres bolivianas entrevistadas. b) Cuando las mujeres migran después de sus maridos.Asimismo creemos central destacar el frecuente solapamiento entre las formas del migrar y los sentidos que supuestamente le corresponden: ante formas familiares y migratorias similares se prescriben sentidos equivalentes. etc. Cómo puede comprenderse a la familia? Como hemos visto resulta de singular importancia reflexionar acerca de la familia en los estudios migratorios. Se incluyen también otros lazos de reciprocidad que no necesariamente son consanguíneos pero que funcionan como redes de recursos simbólicos y materiales que no solo cumplen funciones integradoras al estilo del modelo familiar funcionalista sino que sus consecuencias también son diferenciales de acuerdo al cuerpo que se tenga. de organización familiar y de percepciones familiares por parte de quiénes “hacen” a la familia. o suponiendo un modo normal de ser en familia (en su doble acepción de norma y corrección) aparece en el análisis como uno de los escenarios o contextos posibles en el que se decide migrar a la vez que se viven y hacen las experiencias familiares. En nuestro trabajo consideramos a la/s familia/s como “contextos de intercambio de experiencias”. Es este segundo conjunto de problemas los que serán. si se tienen hijos/as a cargo. El contenido de estas experiencias es re-construido a partir de los relatos. Las concepciones familiares de los/as analistas orientarán en gran parte el trabajo sobre las migraciones lo que impacta de sobremanera en el estudio sobre las mujeres inmigrantes (por la tendencia occidental de considerar a la mujer en el ámbito de lo doméstico y reproductivo). Por ello le damos importancia a la línea de partida desde la cual se construyen las investigaciones que permitirán problematizar algunas cuestiones e invisibilizar otras. Asimismo creemos que este enfoque premite atravesar la división público / privado y analizar las diferentes experiencias y sentidos que puede adquirir la experiencia migratoria de acuerdo a si se es mujer o varón. el poder que se ejerza y los recursos que se pueden poner en juego. Consideramos así la pluralidad de experiencias para no trasladar los modelos hegemónicos (y propios) como destinos naturales o normativos.

Lo que vuelve más interesante el estudio de la migración de estas mujeres es que una mirada que no problematice a la familia. extensas. entre las mujeres que entrevistamos se destaca la vigencia de un modelo “ideal” conyugalidad en la que los cónyuges. el trabajo asalariado). a veces. Barrancos 2002 y Harris 1983). lo económico y lo productivo y las mujeres como dependientes y pasivas en relación a las decisiones de migraciones en el seno familiar. representaciones y aspiraciones de sujetos que tanto en su país de origen como en el de llegada conviven con modelos culturales diferentes pero negociados y negociables. las mujeres bolivianas provenientes de zonas rurales y campesinas han trabajado desde niñas y en sus hogares la división entre lo productivo y lo reproductivo asimilable a dentro del hogar / fuera del hogar no funcionan del mismo modo que en nuestras sociedades occidentales. al indagar en las diferentes relaciones familiares en las que han vivido en sus primeros años resalta la pluralidad de dichas experiencias: conyugales. b. debe destacarse que este ha sido un trabajo pionero en darle visibilidad a las mujeres bolivianas como migrantes introduciendo dimensiones analíticas no exclusivamente centradas en torno a lo “verdaderamente” productivo (es decir. el análisis de las entrevistas recorre tensiones entre las prácticas discursivas y no discursivas. Sin embargo. el primer aspecto a destacar es el hecho de que la pertenencia a un país o incluso a sociedades similares (campesinas de ciertas regiones de Bolivia) y trayectorias migratorias semejantes no implica una socialización en estructuras familiares idénticas. Generalmente. En este punto como en otros. lo que en la literatura clásica se ha denominado como reunificación familiarxiii o migración “social”. con ausencia cotidiana del padre o madre consanguíneo. Ante la pluralidad de experiencias la unicidad del modelo aspirado. entendidos como padre varón y madre mujer. En primer lugar. su interpretación sobre los motivos diferenciales de mujeres y varones reproduce en mucho los clásicos diferenciales de roles: los varones como seres productivos y las mujeres (privadas) afincadas a lo reproductivo y encargadas de la unión familiar. añorados. entre las mujeres bolivianas lo productivo constituye un aspecto central de su subjetividad. Estos trabajos destacan la experiencias que. Segundo. propondremos aquí que esta similitud con el modelo en cuanto a las formas del migrar poco nos dice acerca de los sentidos puestos en el movimiento (derivados de una única concepción familiar) las relaciones de género y las experiencias familiares. (para ambas dimensiones pueden consultarse los trabajos de Benencia 1995. Sin embargo. practicados y. monoparentales. Cuando hablamos de las experiencias familiares de estas mujeres bolivianas. en primer lugar.1) Las diversas experiencias familiares y la ideología familiar. Al respecto debemos decir que. Pongamos como ejemplo un estudio paradigmático: el trabajo de Balan (1990) sobre los motivos diferenciales de mujeres y varones Cochabambinos para migrar a la Argentina. desde 35 . el mismo Balán 1990. en los análisis una vez identificadas estas motivaciones se consideran sus trayectorias migratorias como no vinculadas al trabajo.b.2) Motivaciones de migración Una de las dimensiones en la que pueden rastrearse estas tensiones es la que se desprende del relato sobre sus propias motivaciones para migrarxii. deben estar unidos y ser la base de lo que se considera como familia. a los géneros y sus relaciones puede fácilmente reproducir los modelos clásicos de interpretación comprendiendo al movimiento de mujeres como “dependiente” de la primer (y “verdadera”) migración masculina. Considerando el aspecto formal. Sin embargo. Ante la pregunta de por qué migraron se respondía primeramente la necesidad de reunirse con sus parejas. etc.

aunque sea van a estar juntos”. en sus propios relatos hace. Para ellas la migración era una entre otras posibilidades.Claro..Sí. Cuando les pregunto los motivos de estas decisiones (que en muchos casos tarda años en concretarse) no hay en sus respuestas contenidos referidos a motivaciones personales (es decir referidas a ellas como personas individuales ya sean satisfacciones personales. Bueno de esa manera vinimos. los procesos que llevan a esta decisión. madres. al ser mujer. Gerarda. Yo tenía una madrina argentina. pero ella era de Jujuy. resulta interesante que en el proceso de toma de decisión (que como ya dijimos puede ser largo) generalmente son nombradas en los relatos otras mujeres cercanas y ya unidas en pareja (abuelas. en la reconstrucción de las trayectorias migratorias relatadas lo productivo pareciera relegarse frente a otras dimensiones a la hora de decidir migrar a la Argentina. deseos y obligaciones Cuando se analiza no solo las respuestas al “por qué” migraron sino que se reconstruye el como. melancolías. Sin embargo. Sí. tías) que les aconsejan migrar enfatizando la necesidad de que los cónyuges estén unidos. que el varón y la mujer como sostenes (y reproductores) del grupo familiar no deben estar separados. Si lo productivo resulta tan importante para la construcción de si mismas.¿Y vos querías ir? . Asimismo. b. Las dudas que surgían. tus hijos pueden quedarse sin padre”. en mucho. tienen las mujeres en las arenas productivas y su vinculación al mercado. las veces que dijeron que no. ¿porqué ponerlo en juego en pos de la reunificación familiar? ¿Cómo podrían entenderse estas tensiones? Intentaremos algunas respuestas provisorias. La gran mayoría de ellas no contaban con los mismos problemas laborales que sus maridos. amores. las entrevistadas dan cuenta de las contradicciones que el viajar les provocaba. Y ellas deciden venirxiv. yo también decidí venir ... él (su marido) vino primero después mi hermana me dijo “vamos allá que vas a estar más o menos junto con tu marido” . y es desde aquí que parte el trabajo de Balan.. etc) ni estructurales (la falta de trabajo imperante.. una cosa llevó a la otra... etc) sino que responden ubicándose a ellas mismas como las representantes de la familia (su familia) que habla a través de ellas (es la familia el sujeto de la decisión). pero sus maridos ya habían migrado en búsqueda de mejores condiciones de trabajo. En sus palabras queda claro que la migración familiar no puede entenderse como una estrategia familiar en el sentido de estrategia de y para toda la familia entendida como un objeto unívoco. condiciones de vida no satisfactorias. 27 años. Teresa. así también marido y mujer están juntos. Ahí (cuando su marido ya estaba en Buenos Aires y ella dudaba en venir) me dice “pensalo porque tenés tus hijos. El trabajo y lo productivo.niñas. la pobreza. Cuando tenía ocho años me quería traer pero yo lloraba. Y dije “entre la pareja comer sin comer.. deseos. 32 años 36 . bueno.¿Por qué? . Todas las entrevistadas realizaban algún tipo de tarea productiva y remunerativa en los tiempos previos a la migración (con la presencia o ausencia de sus parejas). hermanas.3) Conflictos..

visitan. la distancia entre la pareja conyugal es recurrente. Mientras los varones se constituyen en migrantes también vuelven. ahora son los varones y no las mujeres las que se distancian. Dos diferencias se asoman entre estas distancias y las que motivan la migración. hoy mujeres migrantes. en los relatos sobre su vida en Bolivia. No es entonces que la distancia. las mujeres son las encargadas principales del mercadeo de los productos del trabajo familiar sobre la tierra. como explicación y justificación del migrar. 41 años Sí. Ellas. sus madres y hermanas han viajado largas distancias ausentándose del hogar por varios días. ¿Usted prefería estar acá? Sí. querían mucho. Berta. primero vinieron sus maridos y después les llamaron Claro ¿Y ellas querían irse? Sí. La relación con el padre sanguíneo se pierde con el abandono pero se conserva la relación con la madre que se separa de sus hijas ante la conformación de una nueva familia nuclear (el juntarse con un nuevo varón) y. las distancias femeninas siempre son temporales. siempre se “está viniendo”. Estaban sufriendo dicen porque su marido va a trabajar acá en Buenos Aires “queremos ir” dijeron a mi mamá. las separaciones sean siempre interpretadas como negativas o como situaciones que deberían evitarse. Por otro lado. Estas situaciones no son sentidas como anormales (si bien algunas destacan la soledad y tristeza de alejarse de la madre) sino como estrategias necesarias: ante una nueva unión se instituye una nueva familia que gira alrededor de los cónyuges. Primero. de peligro en esta distancia no presente en las distancias femeninas. Si las parejas a distancia parecieran no sustentarse. Para la mayoría esta situación de ausencia masculina se inaugura con las migraciones intraestatales y hay algo de fragilidad.Claro. a la frontera también. relatan sus experiencias infantiles con una naturalidad ajena a las normas y valores de nuestras sociedades occidentales. Ante la ausencia masculina entonces. por la negativa. tampoco las parentalidades: no se puede ser padre (o madre) a la distancia. y “bueno váyanse” y así vinieron. para no estar separados. sí. Las hijas de estas madres. existe la posibilidad del largo plazo. Por otro lado. sobre todo. la llegada de hijos e hijas de esta segunda unión. Entre las de origen campesinos. vivir “a la distancia” constituye una situación que debe normalizarse. la normativa de la corresidencia conyugal pareciera pesar en tanto que arquetipo familiar. En el caso de las mujeres 37 - - . yo quería estar acá al lado de él porque no es lo mismo es sacrificado porque yo tenía que dejar a mis hijos. Ante ello dos opciones: que las mujeres e hijos/as migren o que el varón decida quedarse. Las relaciones entre los cónyuges y sus hijos/as pequeñosxv necesitarían entonces la cercanía de los cuerpos para hacerse familiares. envían dinero pero la temporalidad es otra. han sido recurrentes los relatos de abandono materno y paterno quedando la crianza a cargo de los abuelos. 29 años La distancia entre los cónyuges es usada entonces. Pareciera que las mujeres pueden ausentarse sin que se ponga en riesgo a la familia constituida sobre los cónyuges. Si no hay separaciones. en general. viajar hasta Villasón. Y sin embargo constituyen el principal motivo explicitado por las entrevistadas para su propia migración. Norma. maternos. Pareciera que “ser familia” (tal como lo entendemos desde nuestra cultura) requiere para estas mujeres y su entorno la unión de los cónyuges y esa unión es también espacial. Sin embargo.

emociones. Debate que excede y mucho los objetivos de este trabajo sólo diremos que el paradigma economicista (en todas sus vertientes ideológicas) enfatiza estas jerarquías quedando los sentimientos (que. La reunificación familiar adquiere aquí un sentido propio. Si bien en este artículo no trabajamos con varones migrantes. En este sentido. en general. es una clásica reinvindicación feminista la de definir al trabajo doméstico como prácticas tan productivas y económicas como aquellas tareas remuneradas ejercidas fuera del espacio doméstico.entrevistadas. mente versus corazón. Uno de los objetivos de las feministas dedicadas a la teoría del conocimiento es atravesar estas dicotomías e introducir como un aspecto fundamental de la vida social los sentimientos. la segunda opción no aparece como posibilidad en el horizonte posible de decisiones. sobre todo. Por otro lado. que por los criterios de selección de la muestra comparten el haber optado por la primer opción. c1) Motivaciones públicas – privadas Ante ello. El fuerte economicismo de las teorías migratorias (re-discutidas en la actualidad) y esta división explica también la invisibilidad de las mujeres en los trabajos migratorios. Dado que son las mujeres las actrices de estas prácticas. la división social/económico (y el resto de las dicotomías que sustenta) invisbiliza aspectos de las migraciones masculinas. en nuestra investigación (así como en toda la vasta literatura sobre cadenas y redes migratorias) es claro que los varones migran también a un espacio en el que se encuentra una persona con la que se mantiene y recrea (en parte por la migración misma) un lazo social que. Aquí deberemos nuevamente tomar los aportes de las teorías feministas que tanto han discutido la dicotomía Público / privado fundantes de las sociedades modernas occidentales. están asociados a las mujeres y a lo familiar) fuera del interés científico. en la división de motivaciones privadas-sociales para mujeres / públicaseconómicas para los varones pareciera erigirse intacta la implícita jerarquía de estas motivaciones en y para la investigación científica: racionalidad versus emotividad. c) Si las mujeres migran en y por la familia sus motivaciones no son económicas sino “sociales” y/o “privadas”. bajo imperativos públicos y privados de reunificación familiar. son sus propias acciones las que quedan invisibilizadas. Si la presencia de otras/os familiares condiciona las migraciones femeninas también lo hace en las masculinas sin que a ningún/a teórico/a se le haya ocurrido titular esta migración como privada y/o social. Sin embargo. Siguiendo el hilo de nuestra trabajo. la unión conyugal (el motivo explicitado) no se expresa como un deseo frustrado de compañía o con contenidos nostálgicos sentimentales sino. para coincidir con Balán (y muchos otros) en definir las motivaciones de las mujeres como no económicos – productivos debe conservarse sin críticas la visión de la sociedad y lo social configurada en un espacio público-productivo separado de otro privado-reproductivo y una concepción de las relaciones familiares como pertenecientes a este último espacio. ¿deberemos decir que las motivaciones de las mujeres son de índole privada a diferencia de los varones que tienen motivaciones públicas. razón versus sentimientos. las acciones cotidianas y las miradas micros que incluyen en el gran abanico de lo que es considerado potencial objeto científico las prácticas de 38 . Asimismo. racionales y económicas?. En su libro Murillo (1996) reconstruye históricamente el proceso por el cuál se ha ido configurando esta dicotomía que es generizada y jerárquica y que oculta prácticas y sentidos al confinarlas al ámbito de lo privado. Lo que se juega aquí es una interpretación acerca de lo familiar relacionado con los aspectos domésticos / privados de las vidas en sociedad. en general es un familiar.

Porque estaba en su casa. Cuando el marido migra. "vamos". en la economía argentina. La familia como excluida del ámbito de lo económico. Para entonces cuando se vino él acá me quedé en su casa de nuevo... De allí que a lo recientemente relatado pueda incluirse otra vía de interpretación. vamos a Buenos Aires. 32 años. la reunificación familiar adquiere otro sentido que se yuxtapone al anterior. Cuando las mujeres están solas con hijos/as se les hace más difícil trabajar y su movilidad está restringida a la presencia de familiares o amigos/as. Las paradojas que surgían al considerar a mujeres forjadas en lo público que prescindían de ello por motivaciones privadas son trasladadas entonces a otra matriz de interpretación: primero.¿Seguías con tres hijos vos allá? . De este modo.. las experiencias vividas en contextos familiares pueden incluir lógicas económicas y productivas que pueden reconstruirse a partir de sus relatos. el de la lógica económica y productiva. Al respecto es ilustrativa la historia de Teresa quien trabajaba mercadeando en Bolivia mientras sus hijos/as eran cuidados por su familia... En sus relatos las mujeres dejan claro que migran para tener mejores condiciones de vida que implica reunirse con sus maridos ya instalados e insertos.. ¿Por qué no considerar que..disposiciones sociales relativas a la familia no pueden comprenderse como imposiciones sin más a los sujetos cuyas prácticas solo estarían 39 . es especialmente cuidadoso en no considerar “privadas” las motivaciones de las mujeres actualiza otra dicotomía: motivaciones sociales (¿no económicas?) para las mujeres – motivaciones económicas – laborales para los varones. Las causas de las migraciones nunca son unicausales y se hace necesario complejizarlas si bien quizás sea imposible aprehenderlas en toda su dimensión. ¿Volvió tu marido? (de la Argentina) . C2) Motivaciones sociales – económicas Si bien el trabajo de Balán.así que quedé sola y dije "bueno. generalmente de modo informal. Las certidumbres (nunca completas) de posibilidades de trabajo para ellas acompaña la reunificación familiar. queda sólo esperar el envío de las remesas y dedicarse a las actividades domésticas. Su marido se fe a Buenos Aires por trabajo y durante un año y medio Teresa se negó a su migración hasta que. de generar mayores ingresos familiares? . después de un año medio. Sin embargo. De este modo. las pre .Sí seguía.Me quedé y para entonces ya mi abuela había muerto. En este sentido son ilustrativos los relatos de aquellas mujeres más reticentes a migrar a nuestro país ya que deciden el movimiento migratorio recién ante la ausencia de las redes locales familiares que les permitían ausentarse de sus hogares. el imperativo de corresidencia conyugal en este caso. también puede integrarse a una lógica económica al considerar a la familia como una unidad productiva y reproductiva. sencillamente.lo privado. nos vamos". al que hemos hecho referencia. Teresa. mi abuela murió y mis hermanos se fueron uno y el otro lado. Lo familiar. . teniendo en cuenta las identidades productivas de las que dan cuenta las mujeres entrevistadas (y diversos estudios realizados tanto en nuestro país entre migrantes bolivianos como en la misma Boliviaxvi) la reunión familiar es un modo de renegociar los roles o.. lo que en nuestras sociedades es casi equivalente a decir las prácticas de las mujeres. Ello significa que lo emocional también se expresa desde códigos y normativas sociales acordes a un momento histórico y cultural específico. migrar para cumplimentar con normas sociales sobre los modos adecuados de hacer familias es un modo de hacer prácticos imperativos públicos y privados.Volvió.

cumplimentar el imperativo de la conyugalidad “normal y corresidente” más allá de entenderse como una imposición social es una pieza clave para insertarse y ser reconocidas por los otros y otras significantes. Las relaciones y prácticas familiares deben comprenderse atravesando y configurando ambas dimensiones así como lo hacen las mujeres y varones que las conforman. La migración en sus relatos es configurada también como una estrategia económica (que no implica racionalidad exenta de condicionamientos y emocionalidad). Los mismos sujetos. Asimismo. la crítica a la dicotomía público privado ha de-mostrado como aplicada al análisis de las motivaciones de migración oculta más de lo que permite analizar. asimismo. ser mujer y varón cotidianamente. ser familia en la práctica. Hemos intentado este ejercicio para una dimensión clásica en el estudio de las y los migrantes: las motivaciones del movimiento migratorios. Las criticas a estas dicotomías se construyeron a partir de la conceptualización y construcción de las experiencias femeninas de migrantes cuya trayectoria familiar y migratoria reproduce en su forma los modelos típicos supuestos para el sostén de dichas dicotomías. De este modo hemos hipotetizado que el sentido de la reunificación familiar lejos de ser “privado” (como derivación de un supuesto ámbito familiar reino de lo privado en contraposición a lo público) pareciera inscribirse en un ideal cultural y social que prescribe la unión del grupo conyugal como modo de ser y hacer familia. A partir de ello. pareciera pesar más entre las mujeres que entre los varones relacionado con la asignación de una imagen deteriorada de la mujer “con familia” pero “sin” ella. Sin embargo.orientadas a la reproducción de estas normas y valores sociales y personales. Aún si en las trayectorias migratorias relatadas en las entrevistas hubiesen resaltado únicamente motivaciones ausentes de racionalidad económica y con contenidos sentimentales.sociales (para las mujeres) y “públicos” – económicos (para los varones). cuya decisión de migración representó conflictos y negociaciones y en donde la separación fue una de las opciones consideradas. 3. deseos y acciones estructurados pero puestos en marcha de diferentes modos por los actores sociales. Este imperativo. Circunstancias personales y sociales ubican de diferente modo a los actores sociales frente a las normativas sociales (y personales). No pareciera entonces que sea el “ser madre” lo que diera unidad a las concepciones familiares de las personas entrevistadas sino “ser mujer y varón” en la cercanía. Algunas ideas como conclusiones: Como hemos visto el estudio sobre las familias y aquellos sobre migraciones se nos ofrecen como dos campos de estudio que se potencian al integrarse y traingularse (si bien en este trabajo hemos hecho solo uno de los caminos). afectividades. Ahí encontramos a las mujeres reticentes a las exigencias de la corresidencia. este decir debe ser analizado y desconstruido para reconstruirlo sociologicamente. estas dimensiones no están exentas de 40 . sociabilidades) constituyen aspectos fundamentales del proceso migratorio y pueden (deben) ser analizadas “científicamente”. hemos visto que las referencias a motivaciones englobadas en aquello que los analistas han denominado “reunificación familiar” (sentimientos. se discutió principalmente la división entre motivos “personales/privados” . De este modo. Para todas. el mismo fenómeno puede ser así interpretado desde diferentes miradas que visibilizan algunos aspectos olvidados en otras miradas (que seguramente olvidará y omitirá otros). Atendiendo a las respuestas y sentidos de nuestras entrevistadas podemos decir que efectivamente la reunificación familiar es proyectada como un fin deseado a ser alcanzado con el accionar migratorio.

vi A lo largo de este trabajo nuestras principales referencias serán acerca de debates sociológicos dentro del campo migratorio. Por último. la antropología tiene una larga tradición sobre el estudio de las familias y sistemas de parentesco y un estudio sobre las y los migrantes que difiere en parte del sociológico sobre los que no podremos dar cuenta en esta breve presentación. Los trabajos referenciados son citados de acuerdo a nudos problemáticos. factores psicológicos o personales. Antropología y feminismo. el número 165 de la Revista UNESCO (2000) o Pizarro. 2003. "El mapa migratorio de América Latina y el Caribe. queda reflejada en los trabajos sobre mujeres migrantes que han debido justificar su objeto de estudio con cifras estadísticas que demuestren la magnitud del fenómeno. 1996.. Sin embargo. Morokvasik (2000). las ciudades actuales de destino no marcan fronteras de sentidos. Cátedra. por ejemplo. ix Para un análisis entre la relación entre concepciones femeninas y nacionalismos ver Nira Yuval-Davis 1993. es decir que no responden únicamente a conciencias individuales.posibilidad de análisis socio-lógicos. Jorge Martinez. Exigencia de la que han sido eximidos los trabajos basados en el modelo típico descripto. x Como las tendencias generales de la migración de ultramar hacia los países latinoamericanos Ver Devoto (2003 ) xi Esta dificultad. el de las decisiones migratorias. el caso de la comunidad Boliviana en zonas urbanas. sobre todo porque más que un estado hace referencia a un proceso que en algunas ocasiones puede durar toda la vida.. v Proyecto de Doctorado: “Migración y Género”. vii Para una revisión reciente de las teorías migratorias ver Cristina Blanco (2000). esta última referida a Malinowski. hemos visto como atravesando y reforzando el ideal de conyugalidad puede entreverse la dimensión económica formando parte de las mismas motivaciones de las prácticas desarrolladas. trabajamos también con un “sentido común” del campo de estudios migratorios que sin estar explicitado aparece en congresos. viii Ver Parsons (1978) y las referencias al modelo clásico en Cheal (1991) y Moore. con fines técnicos de conformación de la muestra. La definición de migrante es de complicada delimitación. Por ello. seminarios y artículos varios. Henrietta L. sabemos que. Ariza (2000). Me parece justo excluir en nuestro país a Devoto cuyas historias de migración complejizan gran parte de las verdades sacralizadas en las teorías. Madrid. en el sentido durkheimniano. xii Es necesario aclarar que el lugar dado a las motivaciones de la migración no implica de modo alguno desconocer los condicionamientos económicos y sociales que generar las condiciones para que un grupo 41 i . ya superada por el trabajo constante de muchas investigadoras. Ver los trabajos de Gregorio Gil (1997). Esto no significa tampoco un determinismo social tout court dado que cumplimentar normativas deja espacios para estrategias diferenciales o modos de convertir las normas en recursos puestos en prácticas. Caccopardo (2004) para nuestro país y los múltiples estudios sobre migración y maquila desarrollados en México. hemos decidido que denominaremos “migrantes” a quienes llegan a la Argentina con ánimo de residir (para excluir a lo/as trabajadores temporales) sin importar el tiempo que efectivamente residan en el territorio argentino o los/as que sin que dicho “ánimo” sea parte del proyecto inicial del movimiento por diferentes motivos deciden la radicación. Hemos aquí propuesto una vía de interpretación social asociando dichos contenidos con el deseo de cumplimentar con un ideal (social) de madre y esposa coherente con un ideal familiar que contiene la normativa de la corresidencia conyugal. Si bien muchosdebates aquí emprendidos son compartidos por otras disciplinas sociales. las mujeres y el género. iii El trabajo se realiza a partir del análisis de 18 entrevistas en profundidad realizadas en el año 2004 en la Ciudad de Buenos Aires y en Ushuaia. ante la artificial separación de dimensiones relacionadas a lo “familiar” y aquellas relativas a las áreas productivas y económicas de las decisiones individuales o colectivas." Seríe Población y Desarrollo. iv Basta ver para ello los estudios realizados sobre las migraciones “masivas” de principio de siglo. Celade 44. ii Si bien existen diferencias contextuales entre ser migrantes en la Ciudad de Buenos Aires o en Ushuaia para el tema que nos ocupa.

es decir. Cusicanqui. xvi Por ejemplo. Aquí puede hablarse entonces de familias transnacionales para las relaciones padres/madres hijos/as pero es la imposibilidad de mantener este tipo de familia lo que ha hecho que las mujeres entrevistadas decidieran su migración.de la población se convierta en emigrable. de trabajar y enviar dinero a sus familias (a diferencia de lo ocurrido con migrantes de Paraguay y Perú no se ha observado que las mujeres bolivianas en un número considerable migren solas. (Benencia 2004: 442) xiv Queda claro que en nuestra muestra solo están presentes aquellas que deciden finalmente movilizarse. no se advierte una “feminización de la migración”). Lo que aquí se analiza son las representaciones y sentidos de las actrices sociales sobre sus propias acciones con el fin de “interpretar” más que de “explicar” el movimiento migratorio. y de hecho se mantienen a través del espacio material. entre otros. Benencia 42 . Harris (2). el mismo Balán. no tenemos contactos con las que optan por otras modalidades ya sea continuar con sus parejas viviendo en dos países diferentes o las que deciden separarse (mujeres en Bolivia). xiii La migración boliviana a la argentina se inicia generalmente con la migración de los varones de diferentes edades con el fin. Barrancos. xv Aclaramos las edades de los hijos/as dado que una vez considerados “responsables” (lo que será diferencial para varones y mujeres) las relaciones pueden.

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Trajetórias afetivas: sexo e amor como elementos da identidade feminina Andréa Moraes Alves andreamoraesalves@superig. intitulada Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário. onde a mulher age como se não correspondesse aos avanços do homem.br Universidade Federal do Rio de Janeiro – RJ/Brasil O jogo da “coqueteria”. A autora. porém. Essa opinião está bem representada por Heilborn (2004). * A dificuldade em se estabelecer contornos claros para a definição das camadas médias já se tornou lugar comum na teoria social. no trabalho investigativo. desde os trabalhos pioneiros de Gilberto Velho. sublinha a dimensão da moralidade como aquela que seria mais capaz de expressar a identidade desses grupos médios. Nessa atuação. o ethos e o estilo de vida ganham preeminência na conformação desses segmentos.72) . em sua tese de doutorado recentemente publicada. Embora haja certa fluidez na marcação dos limites.com. Uma opinião comum se afirma entre esses pesquisadores que se defrontam com o desafio de delimitar empiricamente. É sobre esse ponto específico que eu vou me dedicar nesse artigo. uma série de antropólogos e sociólogos vem discutindo a formação dessas camadas no Brasil e sua relação com a urbanização. é uma “forma de associação” que institui através de sua operação cotidiana as dimensões da feminilidade e da masculinidade em relação às exibições de afeto: ao comportamento cortês do homem corresponde uma mise-en-scene da reserva feminina. Eles se definem muito mais pela diferença em relação aos outros do que pela ênfase na homogeneidade interna. Um aspecto que se sobressai no material de entrevista recolhido pela pesquisa em curso é de que a associação entre sexo e amor é obrigatória. No caso brasileiro. se estabelecem padrões de relacionamento de gênero e se difunde a expectativa de que cabe a mulher o papel de objeto nas relações amorosas. tenho me perguntado sobre a existência de um padrão socialmente aceito e difundido de exibição do amor e do desejo sexual por parte dessas mulheres. a vantagem “reside em apontar a dimensão plural (donde a fórmula também adotada de segmentos) e simultaneamente não depender de premissas substancialistas contidas na tradição vinculada à estratificação social ou na teoria que deriva a posição das classes dos meios de produção. apresentarei um breve perfil das mulheres entrevistadas e a forma como foi feito o contato com essas mulheres.” (Heilborn:2004. Meu questionamento está centrado na idéia de que diferentes gerações de mulheres podem experimentar essas demonstrações de afeto e sexualidade de maneira diversa e essas experiências servem de gancho para pensarmos a reconstrução da identidade feminina em relação ao amor e à vida sexual. como nos lembra Simmel (1969) ao descrever esse tipo de sociabilidade no início do século XX. Nas pesquisas que venho recentemente desenvolvendo sobre afetividade e sexualidade nas trajetórias de vida de mulheres de camadas médias urbanas e nascidas na década de 1940. Os estratos de camadas médias se diferenciam entre si e de outras camadas marcando as fronteiras simbólicas da distinção. as fronteiras de seu grupo de estudo. Antes de aborda-lo.

principalmente pública. Foi a partir da militância na Juventude Universitária Católica (JUC)iii que as vidas dessas mulheres se cruzaram. Esse deslocamento geográfico marca também uma distinção. restaurantes diferenciados. Dessa busca.Nessa pesquisa contei com a participação de duas bolsistas de iniciação científicai. Entre elas existem casadas. Essas mulheres têm formação universitária e um mesmo passado de militância política. no subúrbio e na zona oeste da cidade. Deste modo. Sou professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e selecionei essas alunas para participarem do projeto. As três mulheres que concederam entrevistas possuem ensino médio completo. A primeira função das bolsistas foi de buscar possíveis candidatas à entrevista. museus. maior é a defasagem. nenhuma delas cursou a universidade. “fruto de muita luta e trabalho árduo”. ambos no serviço público. existem mais opções de cinema.ii Quanto mais longe do centro e da zona sul. O resto da cidade ficaria com o outro extremo da escala: lá falta tudo isso. assim como elas. sendo que uma delas acabou desistindo de conceder a entrevista. Assim. Um outro grupo de entrevistadas. ao passo que o resto da cidade abrigaria uma classe média voltada muito mais para o ethos do trabalho e do esforço para subir na vida. Esse ethos localiza a camada média suburbana numa fronteira entre as camadas populares e os estratos médios. Todas residem na zona sul da cidade. teatros. aproximando mais dos quadros médios. principalmente a universitária. livrarias. 46 . Por várias vezes escutei as estudantes utilizarem a expressão “morar mal” para se referir as suas áreas de residência na cidade. mais educadas e civilizadas – no sentido que Norbert Elias (1990) dá ao termo. Os trabalhos exercidos foram de auxiliar de enfermagem e auxiliar de escritório. seria um dos marcadores importantes para a delimitação dessa fronteira. pertencessem à camada média do subúrbio e da Baixada. ou seja. Longe do campus da Praia Vermelha – zona sul – as alunas do curso de serviço social residem em geral na zona norte. composto por seis mulheres. embora com níveis de adesão diferenciados. O deslocamento espacial implicado nessa entrada numa universidade localizada na zona sul da cidade torna ainda mais real para a estudante esse sentimento de sacrifício e esforço para transitar de uma fronteira social à outra. incentivei as alunas a procurarem também entre suas vizinhas e conhecidas possíveis candidatas à entrevista. A zona sul é o espaço da cidade onde se encontram todas as facilidades para aprimorar aquele estilo de vida mais refinado que é identificado com as camadas médias da região. escolas e equipamentos urbanos que funcionam com mais regularidade. mas não necessariamente mais ricas. As leituras sobre pesquisa com camadas médias ajudaram a problematizar essa busca assim como tiveram o efeito de questionar o seu próprio pertencimento de classe. shows de música. A educação. A zona sul seria o habitat natural das camadas médias elitizadas. apareceram quatro mulheres moradoras do subúrbio e da zona oeste. duas trabalharam fora e hoje estão aposentadas. Uma delas atua politicamente na Baixada Fluminense. pertence a uma rede de amigas de uma professora da faculdade. Pedi que elas localizassem pessoas que. é traduzido como “uma conquista”. viúvas e separadas. são todas casadas. o ingresso na universidade.

Negociam-se aspectos da ritualização do enlace. Nas últimas deixei que elas se encarregassem sozinhas de algumas. Ou seja. as experiências juvenis relacionadas a namoro. * A convergência obrigatória entre sexo e amor foi encontrada em todas as entrevistas. elas observavam e eu conduzia. na verdade. a união entre sexo e amor esteve marcada. Optei por realiza-las na residência da pessoa. As entrevistas tiveram duração variada: de duas até oito horas. onde o “complexo do amor romântico” institui um duplo movimento: “por um lado. Mesmo no caso de uma entrevistada que assumiu sua condição homossexual. Durante as entrevistas não obedecemos necessariamente a essa ordem. por outro lado. escolhe-se o socialmente próximo. é de mulheres solteiras e que ainda atuam profissionalmente no mesmo ramo: a área da saúde. a entrada na universidade e/ou no mercado de trabalho e casamento/criação de filhos. quer dos ascendentes. a idéia central era fazer com que as mulheres relatassem suas trajetórias de vida com o mínimo de interferência direta da entrevistadora. Uma delas mora na zona sul e a outra na zona norte. Essa divisão em blocos serviu para a formulação do roteiro. Elas se tornaram amigas através da profissão e comungam na origem social e no estado civil. Em três ocasiões a entrevista foi feita só por mim. acentuando os componentes de atração e da lógica dos sentimentos como fatores decisivos. transformou-se numa díade porque só duas concederam entrevista. Vieram para o Rio quando jovens para estudar provenientes do nordeste do país e aqui tiveram acesso ao ensino universitário. mas . ela está subsumida ao sentimento de intimidade e de compromisso com aquele ou aquela com quem se estabelece uma relação sexual. que refletissem as representações das mulheres sobre os temas: sexualidade e corpo. AnáliaTorres (2001: 114) ressalta a existência de formas de controle social sobre a experiência desse afeto. o cotidiano e os projetos atuais. perguntas fechadas foram evitadas. a escolha do parceiro (é feita) num clima de liberdade. A sexualidade não se constitui para elas como um domínio “desentranhado” (Duarte. de forma tendencial. família e educação. Os blocos serviam de guias para a condução da entrevista. mas. Numa interessante resenha sobre as análises sociológicas dedicadas ao tema do amor. 2004). principalmente no Ocidente. As entrevistas seguiram um roteiro estruturado em quatro blocos: os relatos sobre a família e a região de origem.Uma terceira rede que. fui com as alunas. Uma delas se prontificou e acabou introduzindo também a amiga. As alunas também foram orientadas a fazer um diário de campo sobre o contato com as entrevistadas. como a vida profissional e o grau de escolaridade. procura-se desde logo compatibilizar esses sentimentos com as expectativas quer dos pares. Nas primeiras entrevistas. compreendendo um certo campo comum de comunicação entre essas mulheres. procura-se limar os aspectos eventualmente mais 47 . O contato com elas foi estabelecido pelas alunas que procuravam voluntárias para a pesquisa em um grupo de terceira idade. por exemplo. Nas entrevistas mais longas foi necessário mais de um encontro com a entrevistada. dá-se sinais de desejo de integração. ao mesmo tempo tão próximas no discurso sobre sua vida afetiva. ou seja. Tão diferentes em outros aspectos. Em cada um desses pontos foram explorados tópicos relevantes para o assunto da pesquisa.

Reprodução e casamento estariam necessariamente ligados. conseqüentemente. sendo muitas vezes tidos como motivos legítimos para a separação de um enlace e começo de um novoiv. Velho retoma Simmel para problematizar esse discurso sobre a paixão em oposição à razão como uma marca do pensamento ocidental e que implica também numa visão da paixão como um elemento de enriquecimento da “cultura subjetiva”. drogas e rock and roll” que. principalmente da vivência da paixão como tendo a propriedade de acentuar a singularidade de suas experiências individuais. eram residentes na zona sul da cidade e falavam de suas experiências afetivas. As pessoas que concederam essas entrevistas a Gilberto Velho fazem parte da mesma faixa etária das mulheres que entrevistei. as relações de aliança domesticam o potencial de perda de controle que a paixão traz.disruptivos da escolha amorosa. se deixado livre. as entrevistadas atribuíam essa reversão ao acaso (sorte) ou a uma guinada individualista-afetiva em suas vidasv. acomodando o papel de esposa e esposo e. O sofrimento e a euforia causados pela paixão seriam vistos como recursos de intensificação da subjetividade e formas de auto conhecimento. As solteiras. as solteiras de meu grupo de informantes não resignificaram a experiência sexual fora dos marcos do casamento e da reprodução como elementos de enriquecimento de suas “culturas subjetivas”. Esse. As razões para o início das relações residem no sentimento de paixão/amor. não tiveram filhos. ambas se viram prejudicadas pelo projeto de vida profissional autônoma e/ou pelo trabalho de engajamento político. As pessoas entrevistadas tinham entre 30 e 40 anos no final da década de 1970 no Rio de Janeiro. de pai e mãe. sofreram uma interrupção do fluxo: elas não se casaram. o trabalho político e a vida profissional se tornaram os eixos centrais de sua subjetividade. porém o prazer sexual e a vivência das paixões poderiam ocorrer fora dos laços de matrimônio. mas como uma obrigação social. diferente delas. O tom forte e dramático que aparecia no discurso sobre a paixão contrastava com a racionalidade do casamento. No que concerne às relações homem/mulher. por seu turno. Em alguns casos. no entanto. não se dedicaram à atividade política contra a ditadura militar como um projeto individual. Essa é também a tônica identificada por Gilberto Velho (2002) em seu estudo com camadas médias urbanas intelectualizadas. integrando-a numa lógica social mais global. uma exigência feita por seus pares para confirmar a vida independente que levavam nas esferas econômica e política. Essas emoções são valorizadas pelos segmentos médios urbanizados por lhes conferir acesso ao ideal de individualização difundido pelas sociedades modernas. inaugurou a vida sexual dessas mulheres e na seqüência trouxe a maternidade. No entanto. Se para seus 48 . a experiência da paixão antecedeu ao casamento.” As regras matrimoniais são assim vistas como uma forma de disciplinar o amor que. pode ocasionar um desgoverno das vidas individuais. Essa incompatibilidade gerou também uma insegurança em relação à qualidade afetiva de seus envolvimentos sexuais. As mulheres que compõem a rede de militantes políticas da JUC se referem a esse universo entrevistado por Gilberto Velho como a geração “sexo. esse prejuízo pôde ser revertido. mas o casamento moldaria esse sentimento. Para as exmilitantes da JUC. Aqui vida afetiva pode ser tomada em seu sentido amplo: não só as relações homem/mulher como também a relação mãe/filhos. Comparando com os entrevistados de Gilberto Velho. mas escolheram ter vida sexual ativa o que lhes apresentou um dilema na construção de sua identidade feminina: a incompatibilidade forçada entre casamento e sexo. Mesmo aquelas mulheres que fazem parte das outras redes de entrevistadas compartilham desse processo. mas com o prejuízo de suas vidas afetivas.

” (Luzia. Há uma certa sensação de fracasso por não ter realizado. essas coisas. com um companheiro. Era um sexo burocrático. a dissociação entre sexo e amor era impensável. 62 anos) “Eu nem lembro da minha primeira vez direito. mesmo que temporariamente. Se o corte entre sexo e casamento era vivido como um dilema. “Eu tinha o maior medo que meus pais soubessem. elas tinham que perder a virgindade e ter relações sexuais independente do projeto de casamento. São essas mulheres que conseguem falar mais abertamente de sua vida sexual e das mudanças sentidas por elas nessa área. vieram os filhos e o amor extinguiu-se. Como se a experiência do divórcio trouxesse os 49 . “Eu estudei. ser mãe. fiz e acabou. sem sentimentos. A separação abre portas para o fortalecimento da vida profissional e para o exercício da vida sexual fora do casamento. o dilema era outro: justificar a separação. essas mulheres tinham também que enfrentar um conflito interno: lidar com os códigos aprendidos de vivência afetivo-sexual. mas eu também queria ter casado de véu grinalda. eu já tinha 30 anos na cara e todo mundo implicava comigo: Como é que pode uma mulher independentevi como você ser virgem? Eu tive que acabar com aquilo. marcas de afeto.contemporâneos. não de um casamento. Foi ali no Aterro do Flamengo. nas suas práticas sexuais cotidianas. Essa extinção do amor relatada com muito sofrimento resgata a noção de crescimento pessoal abordada anteriormente e de “coragem”.” (Luzia. vestígios do amor. que tipo de amor era esse que elas poderiam viver? A insegurança que essa pergunta trazia a todas aquelas que não se casaram fica refletida em vários momentos de suas entrevistas. Mas. mas de construir um novo amor com um companheiro.. um modelo de homem que pudesse corresponder aos seus anseios afetivos sem o custo da padronização dos papéis domésticos. entendeu?” (Maria. O grande problema para essas mulheres depois de estabelecida a ruptura entre sexo e casamento era buscar. O preconceito em relação às mulheres divorciadas era alardeado em acusações de promiscuidade. Na clandestinidade ninguém era de ninguém mesmo. Abandonado o projeto de casamento que houvesse então amor entre ela e seu escolhido. se elas aprenderam a vida toda que o destino do amor é necessariamente o matrimônio e os filhos. tenho meu trabalho e minha independência.” (Ana Clara. O rompimento de uma união sem amor e a aventura de conquistar um espaço como indivíduo torna as separadas da década de 1980 personagens de um romance heróico. fui lá. 62 anos) Para aquelas que foram casadas e se separaram. embora não sem problemas. estabeleceu-se a união como era previsto. 63 anos) “Olha. o casamento e a maternidade. eu só sei que eu tinha que resolver aquilo. O amor existiu em algum momento.. que ficasse escrito na minha testa que eu não era mais virgem. para seus familiares essa vivência não poderia aparecer. Essas mulheres também acalentaram a expectativa de uma nova relação. você nem sabia o nome de verdade daquela pessoa. 68 anos) Além do conflito com a família de origem e o modelo de casamento e vida afetiva que eles representavam. vistos como sinais da identidade feminina.

elas não fracassaram no projeto de casamento. Casamento é um negócio muito difícil. questionam menos a importância desses temas e tratam-nos de uma forma mais racionalista. me permitiu um desenvolvimento profissional. mas cada um na sua casa. Eu fiz análise. mas também cria uma relação.. eu achava que era assim um declínio natural: você casa. os filhos e os netos como esteios da relação. Em muitas situações fica claro o sofrimento e a relutância em se separar. mas é difícil sim. escutando a música que gosta porque alma gêmea não existe. 60 anos) No universo pesquisado encontramos pelo menos três maneiras distintas de conceber a interação entre sexualidade a afeto. com exceção daquela que julga ter tido uma história incomum de companheirismo com seu falecido esposo (o fato dela ser viúva há pouco tempo também pode contribuir para essa “idealização” de seu próprio matrimônio). são duas pessoas diferentes. gosto muito.. o sexo perde cada vez mais o lugar e entra a categoria nativa de “costume” ou “hábito” para definir a relação do casal. “Eu pensei: não tenho mais vinte anos. Afinal. Adoro meu marido. Os conflitos são previsíveis. “Eu acho que o casamento é muito bom. já vou fazer quarenta.” (Carla. O amor é tido como um sentimento mais tranqüilo e seguro. é um cúmplice que você tem.” (Isabel. aí a gente se separou e ficou cada um pro seu lado. esse foi pra segurar a barra mesmo porque estava muito pesado. depois acaba. tem filho na época reprodutiva. Pra mim foi muito bom naquele momento tomar uma posição. relação sem culpa” (Roberta. ou eu tomo coragem e tomo essa decisão agora ou nunca mais por que aos cinqüenta. uma série de hábitos diferentes. elas o negaram. o sexo e o casamento. permitiu relações com dezenas de outras pessoas. já tinha feito anteriormente. No entanto. como as solteiras. embora não necessariamente do amor e essa vivência independente do sexo tenha se dado com menos culpa e insegurança do que nas mulheres solteiras da mesma geração. um companheiro. têm uma visão mais tradicional sobre o amor. Essa articulação nos oferece um caminho para pensarmos a construção da identidade feminina em relação à experiência do amor e do casamento. recordada como algo que ficou no passado e que a realidade do casamento molda e ao moldar traz também vantagens. às vezes tem que dar briga mesmo. O ideal é que você pudesse ter um marido legal. não devemos ter uma visão épica desses processos de divórcio. Então um gosta do Zeca Pagodinho e o outro de Madre Deus e eu tenho que escutar Zeca Pagodinho e por aí vai. mas era mais problemas da existência. de compreensão e que nem sempre você está com paciência aí estoura o conflito. sessenta fica mais difícil se separar.marcos necessários para viver o sexo como efetivamente separado do casamento.a proximidade é muita. O corte geracional que adotamos permite pensarmos essas maneiras como referências para problematizarmos a vivência afetiva de outras gerações de mulheres. isso é história. 64 anos) As que permaneceram casadas. 50 . Morar junto é um exercício de paciência. A paixão é entendida como um momento pré-matrimônio. foi traumático. 63 anos) “Eu já estava com quarenta e poucos anos.

Rio de Janeiro: Garamond. A Sexualidade nas ciências sociais: leitura crítica das convenções. Simmel. me apaixonei e ele era alguém capaz de compreender e partilhar comigo.42. sendo o acesso à universidade tomado como o momento inaugural dessa passagem./dez. Gregori. Maria Luiza (2004) Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário. A. O Processo civilizador. set. (orgs. 2004) iii A Juventude Universitária Católica (JUC) era um grupo de militância política e social ligado à Igreja Católica. Gilberto (2002) Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração.17. Velho.) Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Do “Mundinho fechado” ao universo quase infinito: negociando a saída de casa. Carrara. Norbert (1990). projetos e fluxos culturais.. Nesses projetos aparece como dado relevante o deslocamento espacial e simbólico entre as áreas de moradia e o campus universitário. v.n.Bibliografia Duarte. Anália Cardoso (2001) Sociologia do casamento: a família e a questão feminina.M. In: Piscitelli. A referência que marca a passagem da dependência para a independência está na entrada para o mundo público. Rio de Janeiro: Garamond. Rio de Janeiro: Zahar. atuante entre os anos 1950 e 1960 no Brasil. ii i 51 . Eu sei que o casamento que eu tive com ele não é modelo pra ninguém da minha geração”. Uma análise parcial das pesquisas está publicada (Lins de Barros.365-373. Heilborn. Michelle Terra Esperandio de Sá e Claudia Pontes Porto Myriam Moraes Lins de Barros concluiu duas pesquisas com estudantes universitários: Universidade. iv Também sobre o tema das relações de casamento e os modelos de casal moderno nos segmentos médios urbanos ver Heilborn (2004 v Maria (68 anos) diz: “Eu tive muita sorte na vida! Eu encontrei um homem aos 40 anos de idade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. pp. redes sociais. Oeiras: Celta Editora. Myriam Moraes. Lins de Barros. Elias..F. Georg (1969) Cultura Feminina. Lisboa: Galeria Panorama.2004. Caderno CRH: Salvador. família e juventude e Juventude universitária. Torres. vi A categoria “independência” reaparece em várias falas.S. Luis Fernando Dias (2004).

sobretudo na mídia virtual7 (nacional e internacional) e seus impactos no âmbito da visibilidade lésbica. Até então. por exemplo. nesse texto gostaria de refletir não apenas sobre ele mas. o seriado vem sendo foco constante de criticas. O furor é tanto que no Brasil. Está no intervalo da segunda para a terceira temporada nos EUA. em alguma escala. o que se modifica um mês depois da estréia depois de vários protestos feitos à Warner Channel6. também sobre algumas coisas que vem sendo escritas sobre o seriado. mas isso não faz dele algo central para a série). laugh) temos a base de um seriado norteamericano. como o Brasil. Nos sites lésbicos brasileiros e estrangeiros. fazendo com que mesmo aquelas/es que não sabia inglês (mas têm acesso à Internet) pudessem assistir aos episódios já exibidos fora do país quase que imediatamente após sua exibição no país de origem. admiração. principalmente.no Brasil5. o seriado ainda não era exibido por nenhum canal de TV no Brasil ou América Latina. lies. legendaram e distribuíram para o público.UFRJ Resumo: O seriado norte-americano The L Word tem se transformado num fenômeno de mídia nos países em que vem sendo assistido mesmo naqueles em que ainda não passava. como eu. Partindo dessa idéia e associando o L de lésbica a outros L´s (love. há grupos na internet que baixaram os episódios já exibidos nos EUA. Recentemente. questionamentos e. debates. sexualidade e as políticas de visibilidade lésbica1. Embora eu tenha assistido às duas temporadas na íntegra e alguns dos episódios editados que estão passando no Brasil. Nos EUA a segunda temporada já terminou e a terceira está sendo gravada. passou a ser exibido também na América Latina e Brasil. Quando pensei pela primeira vez em escrever sobre The L Word. A primeira temporada do seriado começou a ser exibida nesses países em versão com cortes.com Universidade Federal do Rio de Janeiro. produzido pelo canal Showtime (interessante notar que com exceção do episódio piloto todos os episódios têm título que começa com a letra L). life. faz-se necessário pensar sobre que tipos de imagens de lésbicas estão sendo expostos no TV show e quais os possíveis impactos e implicações dessas representações nas políticas atuais de visibilidade lésbica. Anna Paula Vencato2 apvencato@hotmail. Sexuality is fluid. you just go with the flow3. (Shane) The L Word4 faz referência à “aquela palavra que começa com L e que temos desconforto em pronunciar”. O seriado trata do dia-a-dia de um grupo de amigas. Até porque. e estreou no Brasil e América Latina em julho de 2005. loneliness. era restrito a países anglofônicos. hoje não se pode pensar em visibilidade e militância gay sem prestar atenção a uma maciça presença de sites dirigidos ao público homossexual na . exceto pelo fato de que tal grupo é composto por mulheres homo e bissexuais (o elemento transgênero até aparece em alguns poucos episódios. Isso não significa que.“Algumas garotas preferem garotas”: The L Word. losing. Nesse contexto. exibido pela Warner Channel. Whether you're gay or you're straight. fórmula bastante conhecida já. várias outras pessoas tivessem acesso aos episódios – legendados ou não .

pode ter apelo junto ao público heterossexual masculino se pensarmos na idéia de ménage como uma fantasia sexual extremamente comum. 53 . esse ideal de feminilidade lésbica. na imagem11 abaixo). que reclamavam que as lésbicas masculinizadas deveriam estar representadas não apenas como figurantes eventuais. que moram em Los Angeles. lésbicas e bissexuais. mas partem da idéia de que a orientação sexual cria uma série de inserções sociais que não poderiam ser pensadas fora desse contexto. devo concordar que há. Voltando ao que os websites lésbicos internacionais têm discutido. inclusive. a boas roupas e cabeleireiros. no que tange a padrões de consumo. não pautam seu discurso na idéia de “só ser uma mulher completa dentro de uma relação”. Isso causou alguma celeuma nos fóruns internacionais. a ausência de “lésbicas masculinizadas12”. alto poder aquisitivo. A beleza das atrizes geralmente é citada muito mais em tom de tietagem que qualquer outra coisa. Essa discussão. intelectualizadas. no caso brasileiro. Essa comparação pode ser feita. Essa ausência talvez não tenha um impacto maior que o de ausência nos meandros do discurso político americano mas. Contudo. ou desejem isso. modelos estéticos e pertencimento de classe. cujo instrumento principal de agência é a idéia de que é bom ter este estilo de vida e que é bom estar fora do armário10. em que a maior parte das discussões passou mais pela idéia de que é bom ver mulheres lésbicas bonitas na TV. mesmo as drag kings apresentadas são bastante femininas (embora seja difícil pensar numa drag king “feminina/lipstick” no mundo real). uma vez que no imaginário social lésbicas são comumente pensadas como mulheres masculinizadas e descuidadas. diversas campanhas de fim político que tomam grande vulto especialmente ao circularem pela Internet. O seriado exibido nos EUA propõe discutir a vida de um grupo de amigas. este seria o argumento mais politizado e pouco citado. contudo. contudo. mas menos moralista9”. não é incomum que se retrate The L Word como um “Sex and the city8 lésbico” ou um “Sex and the city lésbico. especialmente no que concerne ao sexo. entre outras coisas. inclusive. com acesso a bens culturais simbólicos de prestigio. Evidentemente. um lugar diferenciado no mundo. as lésbicas de The L Word embora estabeleçam relações de longo prazo em alguns momentos. de fato. não teve quorum no Brasil. são de classes médias. Quando se fala em mídia internacional especializada. Há.Internet. Estão longe de um modelo masculinizado (“butch” ou “dyke”) e. As lésbicas de The L Word têm “glamour” e alto poder aquisitivo (como pode ser visto na propaganda americana da primeira temporada.

conjugalidade . homoparentalidade. muito criticada e pouco defendida. Não há uma narrativa sobre sexo seguro na trama. provavelmente. 54 . homossexualidade13 e trabalho. não se pode pensar em The L Word fora de um movimento de política identitária americanizado e que tenta representar vários sujeitos diferenciados dentro daquele cenário social. a maior parte das pessoas compartilha ex-namoradas ou “ex-ficantes”. etc. (construção de/ relação com) família. também. É interessante pensar nesse quadro e como de fato corresponde a algo extremamente comum no universo lésbico (não apenas o troca-troca. legitimar uma e deslegitimar a outra. sado-masoquismo. uso de drogas (álcool e outras). alguns momentos numa casa de strip tease em que uma das personagens trabalha durante algum tempo e um vernissage na galeria de arte em que a outra trabalha). com reprodução assistida). sair do armário . traição. bastante discutida nesse meio: sempre citada jocosamente.. apesar dessa ausência. A série traz.traição. práticas sexuais. nem sobre doenças sexualmente transmissíveis. seria mais fácil ficar com alguém “decente” quando se está ficando com alguém já conhecido. homossexualidade e consumo14.visibilidade. A série se esforça em inserir personagens de etnias diversas. O seriado gira em torno de algumas narrativas pertinentes ao grupo: homoparentalidade (no caso. Nesse ínterim. O argumento da personagem e o de que as pessoas estão conectadas de fato por uma rede de relações de uma proximidade impressionante.Contudo. nesse contexto. A idéia é a de que em qualquer círculo de amizades lésbico existiria uma espécie de o troca-troca de parceiras no sentido de que. No final dessa rede. discute família. Há argumentos que tentam defender essa prática. não apenas no nível mais privado de amigas que se reúnem na casa de alguém. Outro discurso comum é o de que é mais fácil estabelecer relações dentro do próprio grupo porque o meio gay tem muita gente que “não presta” e. desenhado pela personagem Alice. sem tentar. Uma dessas narrativas diz respeito ao estabelecimento de relações erótico-afetivas no universo lésbico. que normalmente falam da ausência de mulheres disponíveis no mercado. mas a freqüência a casas noturnas dedicadas ao público lésbico e também alguns outros (embora poucos) lugares dirigidos ao público gay em geral ou ao público heterossexual (no caso. A idéia de festa está presente também. homossexualidade e lazer. A prática do troca-troca é. de modo geral. o que estimularia esta certa endogamia afetivo-sexual. tentando dar um tom inclusivo a práticas sexuais diversas. raça. inclusive. mas também desenhar o quadro). discussões acerca do sexo conjugal e do sex for fun (sexo pelo sexo). não apenas mulheres gays estarão ligadas umas as outras por ter “ficado” com alguém que uma amiga ou ex já teria “ficado”. que demonstra “quem ficou com quem” em Los Angeles (cidade cenário da série). o seriado nos apresenta um quadro (ver figura abaixo). mas provavelmente podem-se inserir personagens do mundo hetero e do universo gay masculino nesse quadro.

O seriado não possui marcas de classe claras que crie diferenciações entre as personagens principais que. Castro e Moutinho (2005). inclusive no que diz respeito ao fato de circularem num meio extremamente protegido. é um termo chave para pensar no conjunto de relações sociais estabelecidas pelas personagens da série. O interessante é que. a prática não se dá sem conflitos. femininas. As demais até fazem poucas ou nenhuma referência à família. Em The L Word. A inserção de grupo das personagens e os locais pelos quais circulam permitem que se mantenham distantes do risco de ataques de conservadores radicais ou grupos que atuem de forma violenta contra homossexuais. comumente. O recorte étnico existe. As marcar étnico-religiosas aparecem com muito mais freqüência em referências a família de origem do que em outros aspectos. especialmente quando ainda há sentimento pela pessoa com quem a amiga passou a ficar ou namorar. No caso do seriado. O argumento contrário à prática mais extremista afirma que é este tipo de comportamento que dá base à idéia de promiscuidade no universo homossexual feminino e que. tende a ser temporário e. no caso). esbarra-se no modelo de políticas identitárias americano em contraste com a relativa “mistura” brasileira. na faixa dos 25-35 anos (e até por essa razão. e. em alguns momentos. dependendo do caso). Quando se tenta comparar o contexto da série com o contexto brasileiro. a prática aparentemente não afeta diretamente ao grupo embora algumas das personagens sejam “ex” umas das outras. Isso pode significar que também nos EUA. mesmo. todas as pessoas voltam a fazer parte de um mesmo grupo de sociabilidade (com grau de amizade mais ou menos intenso. a prática aumenta o preconceito contra as mulheres. com carreiras relativamente consolidadas e com alto poder aquisitivo. latinas e negras convivem aparentemente sem conflitos étnicos. das personagens brancas. aliás. dentre homossexuais exista um trânsito possível e maior circulação de pessoas pertencentes a 55 . em uma pesquisa sobre homossexualidade em favelas cariocas havia apontado isso com relação a jovens negros homossexuais que. “assumidas”). às classes medias. Em The L Word lésbicas brancas. nesse contexto. mesmo quando contam alguma história sobre ter sido abandonada pela família de origem e ter vivido em abrigos pertencem. não só conseguem circular pelas favelas a despeito das divisões territoriais ocasionadas pelo tráfico mas também por outros lugares da cidade. aquilo que se está vendo no seriado chega a ser fantasioso demais se comparado ao caso brasileiro. como no Brasil. quando o fazem acionam um discurso de não-aceitação. mas me parece que menos marcado dentro desse grupo do que o usualmente acionado na a sociedade americana. É bastante comum que. e embora amplamente difundida no meio lésbico. a prática é apontada. com eventuais aparições da mãe nos episódios (a personagem que é bissexual. mais tarde. distância ou abandono. Em alguns momentos. mas é condizente com o que defende uma espécie de estabelecimentos de relacionamento erótico-afetivos mais endogâmicos. como elemento constituidor do grupo. o que contrastaria com os discursos mais moralistas sobre esta prática. pois ficar com a ex de alguém pode indicar uma certa traição da amizade.Apesar de alguns discursos favoráveis. inclusive de ataques homofóbicos. essa troca de pares acabe resultando no término de relações longas de amizade. apenas uma tem um discurso mais organizado sobre família. como os bairros de classes médias e altas. As personagens são mulheres lésbicas. O rompimento desses laços de amizade pode ser “para sempre” mas. na idade adulta. Endogamia.

como um sinônimo de branquidade. seja através do uso de roupas. em que as barreiras da segregação podem ser rompidas. Ou seja. Ser negro. não é pensado como uma questão de ethos ou de cultura. O mesmo movimento pode ser visto claramente em The L Word. Talvez isso indique que há um espaço. e acho que este é o principal ponto aqui que da mesma forma em que o mercado baliza a possibilidade da construção da identidade de classe média para a população negra no Brasil. conforme o argumento de Fry. Num texto acerca da publicidade recente e criação de um mercado15 de produtos de beleza para negros no Brasil. para esse segmento do mercado. esta mercantilização traz colada em si uma tendência a investir num certo fortalecimento do self. não teriam relação com as “forças de mercado”. são fundamentais para um reposicionamento do papel desses sujeitos dentro da sociedade brasileira. as lésbicas ali retratadas constroem carreiras sexuais pautadas num tipo de consumo gay comum ao modelo americano: cruzeiros lésbicos. mas. assim como na própria construção da identidade social16 desses sujeitos. solteiras ou não. em principio. historicamente. uma vez que na sociedade brasileira. mas por especificidades estéticas. contudo. possuem sua própria casa montada. palco para encontros de uma noite ou relações mais duradouras. um seriado como The L Word em termos de política de visibilidade constrói uma visibilidade lésbica nunca antes vista. os embelezadores. a transformação dos traços fenotípicos seja através do uso de produtos de beleza. Estendendo este debate ao que poderia interessar numa política de visibilidade lésbica. O investimento em uma certa estética e um certo padrão de beleza. pensar os porquês da ausência de mulheres masculinizadas na série. foi constituidora dessa classe média. festas em resorts dirigidos ao público homossexual feminino e. Diferente da idéia de uma lésbica descuidada. de fato. e o acesso a produtos que deixam a pessoa mais bonita pode ser interpretada como um movimento político que constrói uma auto-estima melhor e insere essas pessoas em outra posição social. mesmo. mas lhes propicia outros lugares que antes pareciam impossíveis por barreiras fenotípicas significadas como menos belas em nossa cultura. também. lugares inusitados eventualmente. mas uma sexualidade que pode ser vivida intensamente pois todas. o acesso e realização de certas fantasias sexuais que envolvem uso de acessórios. pensar a falta de fragmentação identitária étnica no grupo mostrado pela série e. famosa pela segregação identitária. Nesse contexto. O autor nos informa. que o fenômeno que descreve é o de um mercado que busca lucro embasando-se em parâmetros culturais que. mesmo dentro da sociedade americana. 56 . Fry (2002). acessórios e maquiagens reposiciona os sujeitos que lançam mão dessas estratégias dentro da estrutura social. discute que essa demanda não foi produzida pelo estabelecimento de uma classe média negra no Brasil. Não que uma melhor aparência seja equivalente a esquivar-se dos preconceitos históricos contra os negros.diferentes etnias e que isso pode indicar que a orientação sexual pode mobilizar e levadas a cabo essa circulação de sujeitos que possuem sexualidades não-hegemonicas. há uma comodificação das relações implicada nessa construção da sexualidade lésbica e. boa aparência foi utilizada. Conforme aponta Gregori (2004) em relação ao consumo de mercadorias de sex-shops. poder-se-ia retomar a comparação entre The L Word e Sex and The City.

conseqüentemente. a atividade sexual constitui atualmente um dos sinais mais reveladores da nova organização das idades e do curso de vida” (2004. com a idéia de que as mulheres “não transam tanto quanto os homens ‘naturalmente’” e. O discurso sobre o sexo em The L Word. 57 . ilustrada de forma contundente na tela da tevê delineia contornos de para um grupo social que sempre viveu a margem dos grupos homossexuais masculinos nas representações midiáticas e. Lésbicas . é representado (mesmo que com personagens que vivem num mundo fantasioso povoado de entidades sobrenaturais e não-humanas) pela primeira vez. O mais próximo que se havia chegado até então duma relação homossexual num seriado acontecera em “Buffy . também.. mas que mesmo que o façam isso não indicaria uma vinculação de prazer sexual pautado num modelo de sexo heterossexual (no sentido de englobar necessariamente a penetração de uma vagina por um pênis17). “. Um dos aspectos apresentados na série é a idéia de que mulheres fazem sexo por diversão. com que passa a namorar ao longo da série e. embora estivessem presentes em alguns outros. Em termos de como se dá essa busca pelo prazer e vivência das sexualidades. há uma preocupação constante nas narrativas dos episódios de evitar o julgamento moral de várias práticas não-normativas (uso de acessórios de sex-shops. Contudo. necessariamente. Conforme Bozon. “a afirmação de um critério mundano de ‘satisfação’ e ‘prazer’ como justificação da vida humana é um dos traços mais característicos da inflexão moderna da cultura ocidental e certamente se associa ao processo de requalificação do ‘erotismo’ no quadro das fontes específicas de prazer (. embora ficasse subliminar em sua relação com Gabrielle que tinham algo mais que apenas amizade. passa a namorar Kennedy. não se pode pensar tal discursividade (nos termos de Foucault. que duas mulheres juntas tenderiam a ter.). “Xena. Tara. mais tarde.Mas não é apenas pela idéia de consumo que a lesbianidade se constrói no seriado.. que há mulheres que têm várias parceiras sexuais ao longo da vida e lésbicas podem ou não fazer uso de acessórios sexuais. uma caça-vampiros em formação.. A idéia própria de que duas mulheres juntas fazem sexo e não precisam de um homem para isso. De qualquer forma. com a morte de Tara. 63-64). de modo geral com “conversões temporárias” e posterior retorno à heterossexualidade. mas. a idéia de sexo lésbico com cenas que apontam. entre outros). sexo em locais públicos.e especialmente lésbicas que fazem sexo . por exemplo. Conforme Duarte. a princesa guerreira” a orientação sexual da personagem nunca foi claramente posta.” (2004. p. ménage. uma relação mais pautada em afetividade que em sexo..A caça vampiros”. 1999. p. em que a bruxa Willow descobre-se envolvida com outra bruxa. mas timidamente. sendo que isso é fundamental. apesar do público da série ser inicialmente adolescente. A meu ver é no que concerne às práticas sexuais entre lésbicas que The L Word de fato tem algo a nos dizer acerca do universo lésbico. inclusive no ideal de indivíduo autônomo em relação a sociedade em que está inserido. quando argumenta contra a hipótese repressiva18) fora de um contexto de adequações a uma certa normatividade.nunca haviam sido mote central para nenhum seriado para a TV. Mesmo num clássico televisivo lésbico. para a realização de sexo oral. Isso implicaria em dizer que ao falar sobre a atividade sexual entre mulheres como um aspecto importante de suas vidas coloca-se também a questão de que mulheres podem romper em alguma medida. em Buffy. É de fundamental importância nesse processo a conotação de transgressão na obtenção de prazer.43-44). em boa parte das populares.

e que esse tipo de construção tem implicações na construção das identidades sociais das lésbicas que assistem ao seriado. Sopa de letrinhas: Movimento homossexual e a produção de identidades coletivas nos anos 90. Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Rio de CASTRO. Alain. pp. Regina. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.). História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. 1982. Sergio. DUARTE. FREIRE COSTA. GREGORI. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Maria Luiza. 303-326. A sexualidade nas ciências sociais: leitura crítica das convenções. 2004. Assim. Crystiane. In: CARRARA. pp. 87-115. no prelo. sex-shops e S/M. FACCHINI. (homos)sexualidade e pobreza no subúrbio carioca. Rio de Janeiro: Garamond. Maria Filomena. 136-145. GREGORI. 1996. 58 . Rio de Janeiro: Garamond. 3. 2005. In: Para inglês ver. penso que o seriado pode e deve ser pensado dentro da perspectiva proposta por Gregori. Actes de la recherche en sciences sociales. pp. Rio de Janeiro: Garamond. _____. Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. 1992. 4-23. n° 128. FRY. Michel. Jurandir.) Nu e Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca.sobre um sexo “liberado” cria um espaço de regulação desse próprio sexo e acaba por legitimar alguns tipos de práticas sexuais enquanto marginaliza outras. BARBOSA. Sergio. Sociologia Janeiro: FGV. Adriana (org. In GOLDENBERG. Laura. In: PARKER. 2004. Adriana (org. Regina Maria. ed. Referências Bibliográficas BOZON. juin 1999. Sexualidades brasileiras. MOUTINHO. FOUCAULT. 2005. GREGORI. Rio de Janeiro: Graal. HEILBORN. In: CARRARA. Prazer e perigo: notas sobre feminismo. GIAMI. 2004. A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo. Mirian (org. Estética e Política: Relações entre "raça". quando afirma que “hoje assistimos à criação de um erotismo politicamente correto protagonizado por atores ligados à defesa das minorias sexuais” (2004: 235). Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar. 1999. Reflexões sobre raça. Maria Filomena e PISCITELLI. Rio de Janeiro/São Paulo: Record. Richard. _____.). Luis Fernando Dias. Michel. publicidade e produção da beleza no Brasil. Maria Filomena e PISCITELLI. Les significations sociales des actes sexuels. 2002. pp. Peter. Ser ou estar homossexual: dilemas de construção de identidade social. da sexualidade.

terra. outra reivindicação dos fãs.com (http://www. MixBrasil (http://mixbrasil. solteiras.com/site/lword/home. Algumas das pessoas que produziram ou dirigiram os episódios já tiveram atuação na produção/direção de filmes de temática lésbica.aspx?cmm=435211).com. Há um grupo que se especializou em baixar. que a sua audiência cresceu em 30% com a apresentação do seriado [Matéria disponível no link: http://observatorio.shtml). Maria Luiza Heilborn e pelo Prof. às 23h. Alice Pieszecki (Leisha Hailey). Como o cliente sempre tem razão.com/).br/) e The L Word BR (http://www. a estratégia mudou.com/main. em matéria da Folha de São Paulo.sho. lang.. Disponivel no site http://www. . entitulada "'L word': cenas de sexo agora sem censura": "Os cortes nas cenas mais picantes de ‘L word’.) Embora tenha anunciado ‘L word’ como ‘polêmica’.quarenta anos. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – IFCS – UFRJ.com. A partir deste domingo. assim como algumas atrizes já representaram lésbicas antes. que não é acessível para computadores de fora dos Estados Unidos (Showtime . BellaOnLine (http://www.lesbianation. 4 3 2 1 The L Word tem 13 episódios por temporada.com/group/thelword_br/) e comunidade no Orkut (http://www.groups.thelwordbr.br/artigos.É a primeira vez que o Warner traz um programa desse gênero. The L Word Online (http://www. "Episode Clip 1" for 1x01 "Pilot Episode" . A primeira temporada tem como personagens principais Jenny Schecter (Mia Kirshner). nem que para citar a peculiaridade de que a única atriz que é lésbica de fato na vida real interpreta a única personagem bissexual da trama. Tina Kennard (Laurel Holloman). pois há boatos acerca das outras) na vida real. Os episódios não são escritos e dirigidos sempre pela mesma pessoa. Apenas Leisha Hailey é lésbica (assumida.br/).thelwordonline. Dr. GLS Planet (http://glsplanet. traduzir e legendar os episódios e distribuí-los pela internet. O seriado é inspirado no livro homônimo da 59 . The L Word Fan Site (http://www.com. oferecida pelo canal a cabo americano Showtime justamente para facilitar sua comercialização. Bette Porter (Jennifer Beals).bellaonline. o Warner comprou a versão light do programa. bem sucedidas profissionalmente. Em janeiro.com/city/) e exibida no Brasil pelo canal de TV fechada FOX A série fala sobre a vida de quatro amigas na faixa dos trinta ." A Warner recentemente afirmou. no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – IMS – UERJ. Às sextas.asp?cod=343ASP026]. tenho acompanhado o site oficial da produtora do seriado. Marina e Tim saem na segunda temporada e entra outra personagem central à trama.com/Community. Dr. ou seja.) ‘L word’ ganhará também horários alternativos. foram ouvidos. como o Chile. será reprisado o capítulo de domingo. para o Segundo Caderno do jornal O GLOBO.com/transcripts/.yahoo.. que moram em Nova Iorque. diretora de programação do canal na América Latina. 8 7 6 5 Série americana produzida pela HBO (http://www.com/). sob orientação do Prof. publicada em 12 de agosto de 2005. Peter Fry. no mesmo horário. com duração de cerca de 45 minutos cada um.lword.. então decidimos fazer um teste e optamos por exibir a versão light . Com a gritaria.http://origin. sem cortes.uol.ig. Contudo.br/) e também uma lista de discussão (http://br. a série recomeçará do primeiro episódio . quando o sexto episódio irá no ar. Shane McCutcheon (Katherine Moennig). e já foi “casada” com a cantora k. Carmen de la Pica Morales (Sarah Shahi).lword. O resultado foi animador.html). em 2005/1. um ícone lésbico nos EUA. primeira série a retratar o universo das lésbicas. Dra.hbo. no Brasil: Labris (http://labris. mas. Michel Bozon. Evidentemente essa informação é usada amplamente por sites que falam do seriado. por via das dúvidas. Dana Fairbanks (Erin Daniels). compramos agora a versão integral. Conforme matéria de Lilian Fernandes.br/).com/site/gaylesbian) e LesbiaNation (http://www.diz Wilma Maciel. (. o Warner tomou alguns cuidados antes de lançá-la na América Latina. foram organizados grupos de discussão para avaliar a programação do canal. Às segundas. Kit Porter (Pam Grier) e Marina (Karina Lombard). para ter acesso aos episódios era necessário um conhecimento mínimo de internet e acesso à internet não-discado. A versão light sai do ar..com.org/).Como recebemos elogios pela iniciativa de exibir a série e reclamações por causa dos cortes. Dentre os sites da mídia especializada que tem falado sistematicamente sobre o seriado e que venho acompanhado posso citar.com.d.afterellen. levou os telespectadores a entupir o Warner Channel de reclamações. .do) e também os sites AfterEllen. ministrada pela Prof. das quais participo. a série passará a ser exibida integralmente.orkut. às 2h.com/TV/thelword.www. Fora do país. O mote da historia são os relacionamentos que estabelecem e as conversas que tem sobre estes e sobre sexo.thelwordbr. e os participantes responderam a algumas perguntas sobre a série.Trabalho de conclusão apresentado à disciplina “Tópicos Especiais em Saúde Coletiva: novos temas na abordagem Sócio-Antropológica da Sexualidade”.agora. Tim Haspel (Eric Mabius). temendo principalmente a repercussão em países mais conservadores que o Brasil. (.ultimosegundo. O grupo tem um site (http://www.TV Transcript. uma conexão rápida.

Não tratarei neste texto de questões relativas a homoparentalidade. you're hiding the best part. por vezes. que prega que devemos ser respeitados porque homossexuais também constituem família. Parece-me que ambos os discursos postulam. extremamente difundido pelas casas noturnas e alguns eventos de moda. a segunda não. Lara Perkins: Because you're going to be miserable being in the closet. Dana: [holding back tears] Anything. que veio como proposta de substitutivo para o patologizante “homossexualismo”. really gay.porque não é um substantivo (p. por espaço. Esse discurso pode tornar-se tão perigoso quanto o pensamento de que “pink money is pink power”. que ilustra como o coming out é pensado dentro da série. a qual poderia nos levar a uma essencialização das diferenças e a um esvaziamento do sentido político das próprias categorias. A primeira comparação sobrevive aos cortes primeiramente realizados pela Warner Channel. Por vezes aciona-se um discurso que venho chamando de “ideologia do gay limpinho”. e só dessa forma pudesse ser “verdadeira”.).jornalista Candace Bushnell. Contudo. If you hide that. que assinava uma coluna sobre sexo no jornal The New Yorker Observer (cf. nos alerta 15 60 . monogâmica e “repleta de amor (romântico)” entre duas mulheres. 10 9 No quinto episódio da primeira temporada. “se dão ao respeito” e. etc. seja interessante porque exclui alusão à patologias.php?cat_id=53613). 13 14 Em termos de mercado. Para a autora.guiadoscuriosos. Segue o transcrição das falas: Dana: [apologizing to Lara] Can I please try again? I really want to try again. como poderia me ser dito. Também não vou tratar do consumo de substâncias psicoativas porque não há associação causal no seriado entre a homossexualidade das personagens que as utilizam recreativamente e o efetivo consumo delas. sendo um termo mais utilizado dentro de uma lógica de mercado no universo homossexual. no sentido de legitimar opiniões que diferenciam moralmente lésbicas “para casar” de outras lésbicas. um termo em princípio político. há um diálogo entre a personagem Dana (que é auto-homofóbica e refrata a idéia de sair do armário. a autora nos leva. Lésbicas e Simpatizantes. Lara Perkins: And it's one of the things I like so much about you. GLS significa Gays. marcas condicionais (com implicações morais) sobre as bases em que deve ser construído o respeito. Contudo. informações do site http://www. uma excessiva fragmentação identitária pode esvaziar a identidade reivindicada e prejudicar a visibilidade de uma categoria grupo (que luta por seus direitos. o discurso de que gays consomem e por isso devem ser respeitados. poderia fazer uso de homoerotismo. para não cair num discurso sobre uma condição ou identidade homossexual. tem filhos/as. Uso aqui o termo “homossexualidade”. Nesse contexto. Dana: I will. "Lawfully". não essencializa a prática e descreve melhor pessoas que sentem desejo por pessoas do mesmo sexo por não indicar identidade . Dana: [almost laughing] I know. conforme propõe Freire Costa (1992). 21). As imagens aqui utilizadas são de divulgação e pertencem ao canal Showtime. Apesar da proposta de usar homoerotismo. a realizar uma reflexão crítica sobre os perigos dessa fragmentação e proliferação de identidades propostas pelo movimento. referência a um modelo identitário. Can I? Lara Perkins: One thing. me parece importante dizer que. de fato. por visibilidade. me parece mais adequado a uma análise acerca de politicas de visibilidade lésbica manter um termo que faça. De acordo com Facchini (2005) o Movimento Homossexual acaba lançando mão de outras designações mais específicas e com o intuito de contemplar a várias identidades distintas que compõem o movimento e o meio homossexual. conforme Fry (1982). que a série deu base (embora não propositalmente) a um certo discurso dentre lésbicas que defendem uma postura conservadora.br/index. Lara Perkins: You have to start taking at least take some steps towards being out.com. Dana: I know. à construção de um núcleo familiar homoparental e à conjugalidade. Lara Perkins: And you are really. quando se fala de homossexualidade no Brasil é inevitável não lembrar da categoria GLS. chegando a recusar-se a ser vista com outra personagem porque era "lésbica demais") e sua namorada Lara. Em outro contexto. ou incorrer no risco de criar diversas categorias estanques. 11 12 Ao que tudo indica uma lésbica masculinizada será inserida na terceira temporada dentre as personagens principais da trama. É como se identidade lésbica se construísse a partir da noção de uma relação estável. em níveis diferentes. no que concerne há várias discussões de fãs brasileiras sobre a questão.

há um diálogo que evidencia como isso é pensado na série: Alice: Hey guys! Jenny: Hello! Alice: Alright. 16 A identidade social.). [Everybody laughs. etc. and then it disappears.. Alice: You only get it for 24 hours. conforme Heilborn. Gagnon e Simon vêem a sexualidade como um comportamento que pode ser explicado e tem origem em outras condutas sociais.que “construir a cidadania a partir do reconhecimento da diversidade. A fairy godmother comes to visit.] 17 18 De acordo com Bozon e Giami (1999). Shane: (nods) Mm-hmm. Segundo os autores. antes.. idade. Dana: That's all you would do. Dana: Oh my god. "Lynch Pin". (. 61 .. What do you do with that penis for 24 hours? Shane: I would pee standing up on every bush I could find. e não o contrário. enfrentando o dilema entre a ‘cidadania’ e o ‘orgulho/afirmação de diferenças essenciais e estanques’. No quarto episódio da segunda temporada.” (p. tomando corpo em significados que articulam a imagem de si em relação com o outro (1996: 137).. you would just. é um conjunto de marcas sociais que colocam um sujeito num determinado mundo social e vai apontar para três dimensões de modelação da pessoa: 1) atributos/traços que constituem classificatoriamente o sujeito (gênero. Gagnon e Simon já haviam falado em sexualidade menos como um princípio de coerção e mais como um princípio indispensável de produção das condutas sexuais e significados que lhe são atribuídos/vinculados. Foucault levanta a hipótese repressiva mas. Jenny: You really wouldn't try to fuck a lot of girls? Shane: (smiling) I don't need a dick to do that. 2) como esses atributos se inserem num campo de significações sociais (que possui outros tantos atributos próprios). just pee. She tells you she's gonna give you a penis.282).) parece ser o desafio colocado atualmente tanto para o MHB [Movimento Homossexual Brasileiro] quanto para todos os movimentos que se fundam em demandas especificas de uma ‘comunidade’. 3) Como esses atributos vão se expressar através de alguns valores. Yup.

a coordenar um movimento de moradia organizado na região. passou a desenvolver muitas atividades voltadas para o “segmento GLBT” (Gays. outras questões naquele momento emergiram. possibilitando aproximar a “maternidade lésbica” da “vida vivida” de Flávia. investigação que resultou em minha monografia de graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina. da qual foi exonerada na gestão atual de José Serra (PSDB). Ela participava do evento como coordenadora de uma associação de mulheres lésbicas. uma vez que busco retomar temas da vida de Flávia que não haviam sido explorados com a delimitação do recorte. A etnografia permite atenuar estas separações. Lésbicas. esse a indicou para coordenar um dos diretórios de articulação da campanha de Marta Suplicy (PT) – na época candidata à prefeita pela cidade de São Paulo. É sobre aquele “pano de fundo” que se centra meu interesse atual de investigação. um cargo na Coordenadoria de Participação Popular da prefeitura. Assim. há quatorze anos. se antes a pesquisa era sobre “Flávia. Durante este período. Apresentarei a seguir alguns aspectos de sua história de vida. descobriu que o terreno que havia comprado estava em uma área irregular. Se o tema da “maternidade lésbica” norteara a entrevista. nesta “colcha” que não é de retalhos. O objetivo da pesquisa que agora desenvolvo para a dissertação de mestrado segue talvez um “caminho de volta”. negras da periferia. lésbicas. e devido principalmente ao trabalho que Flávia começou a desenvolver na associação que criou para mulheres. quando se mudou para o bairro onde reside atualmente. família e política na periferia de São Paulo” Camila Pinheiro Medeiros milamed81@yahoo. Flávia. e nestes quatro anos participou . e passou. ao qual logo se filiou. A partir de sua atuação no movimento de moradia estabeleceu contato com um deputado estadual do PT.com. então. Bissexuais e Transgêneros). com a eleição de Marta. pois não apresenta costuras que delimitam espaços. é nascida e criada na cidade de São Paulo. dentre outros “atributos”. e irmã do meio entre dois irmãos. realizava um trabalho social junto ao Conselho Regional da Juventude da Igreja Católica na região onde morava. mãe e lésbica”. já há muito tempo separados. candomblecista”. da periferia da cidade de São Paulo. o método de entrevistas baseadas em histórias de vida levava a um recorte do objeto que privilegiava a comparação entre os depoimentos colhidos em entrevistas com outras mulheres.br Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro Em novembro de 2003. é filha de uma dona de casa e de um operário. esta mobilização aproximou-a do Partido dos Trabalhadores (PT). Desde muito jovem iniciou uma trajetória de militância política: quando adolescente.“Mulheres de Kêto: um estudo etnográfico sobre lesbianidade. procuro agora articular o “negra. conheci Flávia no XIV Encontro Nacional Feminista ocorrido em Porto Alegre. Nesta função. 39 anos. Aceitou ser entrevistada para a pesquisa que eu estava realizando na época a respeito de mulheres que tiveram filhos em um relacionamento heterossexual antes de se assumirem lésbicas. Flávia atuou sobretudo com a questão GLBT. Neste espaço. negras. as quais renderam-lhe. ficando porém como pano de fundo daquela problemática central à época. Naquele primeiro momento. moradora da periferia. negra.

000 pessoas. Luiza. reuniu 1. conheceu Luiza. passou a integrar – à frente da associação que criou para as mulheres lésbicas e negras de seu bairro – uma rede de discussões que se estabelece entre os grupos feministas e lésbicos de São Paulo e do país. 41 anos. Há cinco anos. Elas continuam coordenando suas associações e também são importantes articuladoras de um fórum de discussão acerca do “segmento LGBT na periferia de São Paulo” que está se consolidando no bairro onde moram. durante a campanha da prefeitura. que ficou exclusivamente destinada às associações. por exemplo. Como Flávia está desempregada. sempre às escondidas. Quando tinha 32 anos “descobriu-se” lésbica a partir de um contato íntimo que começara a estabelecer com uma amiga do movimento de moradia. Elas estreitaram os laços depois da eleição. quando perdeu a visão). pois Flávia. mas não recebe salário pois seu cargo é considerado de “relevância pública” (o qual não prevê remuneração). relação com a saúde. desde quando a menina tinha 4 anos de idade. biscuits. que é deficiente visual. que teve seu primeiro relacionamento homoerótico. Tem meninas que nunca foram ao ginecologista. em seu cargo na Coordenadoria de Participação Popular. mas tem que ter uma discussão política. Nestes últimos anos também. Quando se decidiu separar de seu exmarido. a fonte de renda familiar é a aposentadoria de Luiza (ela aposentou-se por invalidez aos 20 anos.600. este chegou a agredir Flávia quando ela expôs a circunstância de sua aproximação com sua primeira companheira. Nós temos assim. bijouterias etc. foi terminado em função principalmente do incômodo de Flávia com a forma como sua companheira lidava com a lesbianidade. estava participando como representante do segmento da mulher com deficiência. não querendo assumir. com os postos de saúde. depois de dois anos. quando ainda estava com sua primeira companheira. porque acham que porque se relacionam com 63 . Vanessa (15 anos). dava assessoria ao Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. Sobre a associação que coordena. em um conjunto habitacional muito próximo à casa onde moravam. Foi com esta mulher. Nesta época. com as delegacias de mulheres. camisetas bordadas. Atualmente ele está casado com uma outra mulher e pouco mantém contato com Flávia. onde Luiza trabalhava – primeiro como conselheira. Neste espaço também funcionava a associação fundada por Flávia e a ela se juntou a organização dirigida por Luiza que há dez anos trabalha com mulheres com deficiências. Flávia falou-me em certa ocasião: “Porque falta uma formação política. estava em crise no casamento de oito anos que mantinha com o pai de suas duas filhas – Tatiana (atualmente com 12 anos) e Daniela (9 anos). Flávia está produzindo artesanatos (velas. Flávia. mas logo desistiu da idéia. Depois de sete meses de namoro. Há dois anos. mais próximas. E nós buscamos nos reunir para trabalhar a questão do emprego.) para complementar o orçamento doméstico. No momento. ela cuidava da filha de seu irmão mais novo. Luiza continua na presidência do referido conselho na prefeitura. e há dois anos como presidente eleita. auto-estima. As pessoas acham que é para se mobilizar só para fazer festa. Luiza foi morar na casa que Flávia residia com suas filhas. elas mudaram-se para um apartamento.ativamente da organização da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo – que em 2004. Além disso. Elas conseguiram colocar este apartamento no nome do casal e das duas filhas de Flávia e é lá que as quatro residem atualmente (Vanessa foi morar com a mãe durante este ano). segundo estimativa da organização. Tatiana e Daniela. conforme me narrou. no qual Luiza estava inscrita. então. umas vinte mulheres no nosso grupo. ele ameaçou requisitar a guarda das filhas. Na época. o qual.

Não bastasse aquele apartamento ser um universo onde pululavam diversas questões antropológicas – a respeito de família. quando fui a São Paulo conhecer sua família e a associação que coordena. Além do cotidiano dessas mulheres estar pautado por militâncias políticas. A partir desta experiência etnográfica de pesquisa. mas sua articulação neste cotidiano. E elas não têm opção de ir a um outro médico. ela e a filha Tatiana farão sete anos de santo. Flávia ofereceu-me a hospedagem em seu apartamento para a pesquisa de campo que vim a realizar nos meses de fevereiro e março de 2005. Penso então que o direcionamento da trajetória de militância de Flávia articulase com as preocupações suscitadas por eventos de sua vida: se o terreno irregular comprado foi o principal propulsor da mobilização em torno das questões de moradia. e eu falo que eu sou lésbica. as pessoas ficam loucas. pois se Flávia faz sua assunção lésbica reverberar pública e politicamente. por exemplo. e o presente artigo é uma tentativa. trata-se de uma “família candomblecista”: em dezembro. gênero. não é de menor importância). E se elas vão nesses postos de saúde da região muitas vezes elas sofrem preconceito. pude repensar certas análises que realizei na pesquisa anterior.mulheres. havia uma porta aberta pela qual adentravam outras mulheres que também foram se tornando essenciais para a pesquisa – principalmente no que tange à possibilidade de informarem a respeito 64 . principalmente. muitas nunca tiveram uma penetração. porque elas têm relatos. e que minha companheira tem deficiência. você tem que ver. Retomei o contato com Flávia em outubro de 2004. cada uma querendo pegar uma dessas especificidades”. do candomblé. Conforme Flávia designou-me. não precisam. não será possível desenvolver detidamente neste espaço a vivência religiosa do candomblé. pude em algum grau vislumbrar uma “vida em movimento” que permitiu reelaborar certos pressupostos: a análise das “esferas em (inter)ação” possibilitou. Neste tempo em que convivi com uma “família recomposta homoparental feminina” (LE GALL. perceber que o “ser mãe” não pode ser dissociado do “ser lésbica”. como uma espécie de resposta política a demandas particulares – uma atitude que parece ser central e que dá sentido ao “ser-no-mundo” de Flávia. o envolvimento religioso também está aí fortemente imbricado. em certa medida. Tem a questão da educação também. aquelas mulheres que foram presas e que tem todo um trabalho de auto-estima para ser feito com elas. algum lugar. porque nós temos meninas que têm dificuldade em ler. religião. é também esta esfera de atuação política que a impulsiona assumir sua lesbianidade. Na verdade. sua atuação junto ao segmento GLBT emergiu a partir do momento em que se assumiu lésbica. que por sua vez é impensável sem se abordar a atuação política de Flávia (infelizmente. e o médico já vai logo enfiando aquele bico de pato. como já referido. de reescrever algumas reflexões. E tem também as regressas. –. política. 2001). porque o médico não leva em consideração a especificidade delas. Luiza é iniciada há dezessete e no início deste ano ocorreu a iniciação de Daniela. etc. Este “envolvimento múltiplo” é sentido por Flávia. muito difíceis do tempo em que elas estiveram presas”. que brinca que elas fazem parte da “exclusão dentro da exclusão”: “Quando eu vou me apresentar em algum seminário. negra. é um caminho de mão dupla. Nesta ocasião. da periferia. mãe.

por exemplo. Fabiana (28 anos). como um liderança política e centralizadora de uma “rede de relações” (BOTT. por si só. já que a lesbianidade foi um assunto debatido em diversas ocasiões – seja em discussões conjuntas na sala do apartamento. conversava com Cecília (26 anos) na cozinha do apartamento. não se pode falar em opção. Flávia. porque não é uma questão de escolher Natura ou Boticário. Os pais voltaram para a cidade de origem e ela ficou em São Paulo principalmente em função do namoro com Fabiana. com as filhas e família extensa. refiro-me então àquelas “reflexões compartilhadas” citadas na introdução deste artigo. ou de uma família. o qual durou sete anos e terminou há dois. Portanto. Cecília é da Paraíba. Na verdade.de reflexões compartilhadas acerca do ser lésbica na periferia. Falava-me sobre seus pais e sobre sua lesbianidade: “Meus pais vieram para cá. e veio morar com os pais em São Paulo quando tinha 7 anos. auxilia a mãe ou pai-de-santo durante as iniciações – de ambas). penso ser importante apresentar a forma como a lesbianidade é tratada neste contexto. é difícil voltar. Suas concepções informam. 1976). no candomblé. ou em circunstâncias de conversas particulares – por outras lésbicas que fazem parte da rede próxima de Flávia. o consenso é nítido com relação ao assunto: ser lésbica não é uma questão de escolha. moraram um tempo e depois voltaram. Seguindo uma idéia de que o que Flávia diz/informa não se refere apenas a ela. 65 . Além do mais. Flávia é mãe-pequena – aquela que. relacionamento conjugal. estes dados – esta teoria nativa – já têm um potencial questionador da teoria antropológica. é que apresento os dados a seguir. Conforme desenvolverei abaixo. Quando eu tinha uns 18. as quais talvez permitam falar em uma delineação de um ethos. é uma coisa que nasce com a gente”. em São Paulo – representando as lésbicas. têm uma representatividade que vai muito além daqueles limites físicos impostos pelas paredes de seu exíguo apartamento. ou melhor. e discursou no carro de som da Marcha Mundial de Mulheres no 8 de março – que ocorreu na Avenida Paulista. enquanto ela preparava o jantar. são as pessoas mais próximas de Flávia e Luiza e estão quase diariamente no apartamento delas – elas são próximas pois. além de vizinhas. nasce-se assim. Em uma ocasião. eu fui morar com eles. Justifico uma antropologia a partir de uma pessoa. enfoco primordialmente apenas uma família. É neste sentido. Significados do ser lésbica como um dado importante para pensar a vida familiar Antes propriamente de falar de características desta família homoparental no que concerne a “papéis familiares”. Ela e uma outra moça. esta concepção parece-me ser fundamental no sentido de que influencia a delineação de arranjos familiares. expondo que. ou de um apartamento. que ela fala pelas lésbicas da periferia em reuniões de organização da Caminhada Lésbica que ocorre em São Paulo um dia antes da Parada do Orgulho GLBT. mas quando você tem independência. Neste momento. Mães ou não. “condensa” opiniões de um círculo maior de pessoas que estão à sua volta. mas contestarei este “apenas” a partir da apresentação de uma ‘expansividade’ que este caso pode ter. se esta é – segundo distinção exposta por elas mesmas – “estado” ou “condição”. De vez em quando eu fico com saudade. são as principais participantes da associação coordenada por Flávia (além disso. Mas o que pega mesmo é minha opção sexual. Eu fiquei.

festas. A partir do surgimento de uma proposta de integrar mulheres heterossexuais e bissexuais na LBL. Luiza. ela respondeu: “A pessoa não é bi porque ficou com homem uma vez. Mas é muito diferente. Por conseguinte. firmeza de posição daquelas da periferia. como já dito. Em outra ocasião. Todo sábado. Aqui a realidade é outra. além de realizar encontros bianuais. “Para mim não tem essa história de ‘estar lésbica’” (Luiza). ninguém parece se arriscar a ficar com uma menina se não for para valer. Frente ao comentário de uma mulher neste encontro de que Flávia era bissexual porque já fora casada com um homem. se não tiver certeza de sua condição. sabe? E nós apresentamos isso para elas. O “ser lésbica na periferia” ilumina a concepção do “ser lésbica” na medida em que. localizada em um prédio de uma área nobre de São Paulo: era uma ampla sala com computador. para estas mulheres. falava-me Fabiana. em dezembro de 2004. Fabiana e Cecília. No mural. porque todas lá têm convênio médico. sessões de filmes. E eu não posso separar a discussão lésbica da vida dessas meninas aqui da periferia”. videokês. as preocupações são muito diferentes. Explicando melhor: o bairro da periferia onde elas moram é caracterizado como de extremo preconceito a lésbicas e gays. narravam-se os debates em torno do assunto que aconteceram no último encontro da Liga Brasileira de Lésbicas (a LBL é uma articulação de grupos lésbicos de todo o país. quando narramos a reunião para Flávia. ocorre anualmente um dia antes da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. Em uma discussão acalorada entre Flávia. É bi porque fica vez com homem. onde as pessoas controlam e onde tem violência”. do ser lésbica na periferia.Este tipo de discurso foi recorrente enquanto lá estive: “porque com a gente não tem essa de ‘estar’. Esta concepção também embasa a argumentação contrária à bissexualidade que elas explicitam. e da vinculação no movimento lésbico – dimensões que parecem formar três vértices de um triângulo. Conforme me apontou Fabiana. onde pode tudo. sobre equipamentos de saúde. Já em casa. que. porque centraliza concepções acerca do ser lésbica. ela complementou: “Nós tínhamos mais proximidade com elas antes. vez com mulher”. Saíamos de uma reunião de organização da Caminhada Lésbica – que. havia chamadas para diversos eventos que lá ocorriam: saraus. não se assume lésbica a pessoa que não tem certeza de sua condição. por exemplo. Conversávamos a respeito daquele encontro: “Elas sempre deixaram claro que elas não têm uma proposta de formação política. contrapõe-se uma. A um certo descompromisso que elas por vezes apontam às lésbicas do centro – dentro de uma figura de oposição centro/periferia que elas costumam lançar mão –. porque as conseqüências podem ser duras. voltava com Fabiana da sede de uma associação de “lésbicas do centro”. 66 . digamos. e várias situações homofóbicas de agressão física e atentados de morte foram narradas. Elas se preocupam em manter aquele espaço”. Luiza indignou-se: “daqui a pouco vai ser a ‘Liga do Vai Quem Quer’!”. e na periferia. Elas não têm uma discussão. Eu ‘sou’ [enfática] lésbica” (Fabiana). mantém uma lista de discussão na internet). 12 ou 13 anos de idade. Esta posição contrária à bissexualidade parece ser nodal para estas mulheres. sobre atendimentos a lésbicas em postos de saúde. “é muito diferente você ser lésbica no centro. eu dava um jeito para que fossem duas ou três participarem das atividades lá. Foi comum também ouvir histórias de mulheres que se descobriram lésbicas aos 9. Chamou-me atenção o espaço da sede. uma grande televisão. DVD.

a bissexualidade torna-se inconcebível: na periferia só se assume quem está certa de sua condição. ele acaba com a menina na paulada”. andarem de mãos dadas nas ruas. na medida em que sua ausência leva a uma outra “política da lesbianidade”. Mais de uma vez. portanto. e depois fica com um rapaz. É neste sentido também que a idéia de se “estar lésbica” é muito criticada e é localizada às mulheres do centro da cidade. Conforme já exposto. ser colocada nos seguintes termos: já que se é. Por quê? Porque tem sempre uma cobrança. à Caminhada Lésbica. após a separação. se o rapaz sabe que ela ficou com a Fabiana. elas moram em uma casa próxima ao apartamento de Flávia e Luiza. que morreu sem saber que a filha era lésbica. Apesar dos dois casamentos. por exemplo. pois significaria ficar em cima do muro por receio das conseqüências que o “ser” pode trazer. e esta noção. mas – conjecturo – a não atuação em movimentos de militância leva a uma outra política: a do “se resguardar”. “ser lésbica na periferia” delineia a idéia de condição do “ser lésbica”. Se eu não tivesse filho. já havia traçado uma oposição entre mulheres vinculadas a movimentos sociais e aquelas não militantes no que se refere ao posicionamento político da família homoparental e exposição da lesbianidade. Experimentar os “dois lados” pode levar a conseqüências nefastas. Seguindo esta argumentação. Cecília e suas respectivas namoradas beijarem-se publicamente. à marcha do 8 de março. Fabiana. a reuniões de militância. Na pesquisa anterior. seria mais fácil para você impor sua presença e tudo. Esta dicotomização foi também observada no contexto em que agora pesquiso... ser bissexual ou considerar-se como “estando lésbica” implicaria para elas um esvaziamento do teor político. se eu tivesse seguido outra vida e tudo. O vértice de “vinculação ao movimento lésbico” é fundamental nesta tríade. porque sou e acabou”. luta-se politicamente em torno da questão. de chegar: “ah. conforme narrou Luiza: “Aqui na periferia. então. eu não tenho aquela postura. eu tenho uma vida assim. por sua vez. 67 . Entrevistei Helena (39 anos) e Lila (29 anos). dois filhos (17 e 15 anos) do segundo e. Então eu não vou fazer assim: “olha. é um propulsor da vinculação política em torno da questão lésbica – é uma estratégia de politização.. Mais uma vez. Fabiana e Cecília na militância política (não vão à Parada. Elas participam de algumas reuniões da associação mas não têm o mesmo envolvimento de Flávia. por divergências relativas à religião da mãe – Helena e Lila fizeram santo no mesmo barco (grupo de pessoas que são iniciadas conjuntamente) que Daniela. eu sou isso mesmo. junto com os dois filhos mais velhos de Helena. A relação entre estes dois vértices talvez possa.Luiza continuou: “elas têm uma outra concepção de visibilidade. Helena disse que se descobriu lésbica aos 11 anos. A essencialização. mas que se casou principalmente para não decepcionar a mãe. e esta idéia de condição. Luiza. Elas não sabem o que é não poder assumir para não sofrer agressão”. e também são filhas pequenas desta. inviabiliza pensar um relacionamento com homens. uniu-se a Lila. se uma menina fica com a Fabiana. por sua vez. Aquela coisa mesmo. requer uma politização da lesbianidade que só é vislumbrada quando a mesma é tratada como condição. a filha mais nova de Flávia. Não. “vinculação ao movimento lésbico”).. Atualmente. “ser lésbica na periferia”. que moram juntas há quinze anos. leva a uma publicização da lesbianidade. O mais novo saiu recentemente de casa. Helena tem um filho de 23 anos do primeiro casamento. Ou eu tenho meus filhos. entendeu? Eu sempre fui dessa opinião. a gente não tem aquele negócio. somada à atuação política. presenciei Flávia e Luiza. Volto à imagem do triângulo (“ser lésbica”. “Não. por exemplo).”. Lila nunca teve relacionamentos com homens. namorarem dentro dos ônibus. Ambas consideram a lesbianidade como condição. sou isso mesmo. e a luta política.

Uma bandeirinha do arco-íris tem lugar de destaque na estante da sala. grosso modo. principalmente. até para quebrar com a chance do ‘ah é. por conseguinte. uma repercussão no viver em família. um sapo feminino. inclusive tomando a palavra em algumas situações. com os filhos e com a família extensa. Flávia deu o nome de Safos (em uma referência a Safo de Lesbos. dentre demais usos). Com esta exposição.. em uma circunstância há a vinculação a algo que. explicou-me Fabiana certo dia. De fato. Ambos os casos (Flávia/Luiza e Helena/Lila) tratam a lesbianidade como condição. ao relacionamento conjugal. com cama de casal – não se furtam de se relacionarem afetivamente na frente das crianças. e reapropriado como um emblema para estas mulheres. de você morar em um lugar e todo mundo conhecer. que o utilizam estampado em camisetas. mas Flávia busca contornar a situação na base de muita conversa. Isto parece denotar uma distinção interessante nas configurações familiares no que diz respeito. que pensam a lesbianidade como condição. E a gente sempre fez questão de não omitir. poderíamos nomear como movimentos sociais (Flávia/Luiza) e na outra não (Helena/Lila). vinculada ou não a movimentos sociais. o qual ela tem conhecimento da conotação (“sapatão”.’ 68 . que sempre foi – e ainda é – um termo pejorativo para se referir a lésbicas. o que parece fortalecer a tese da militância política. penso que a “política da lesbianidade” varia se esta é considerada como estado ou condição. mas o fato de ter filhos não leva a uma “política do resguardo” por parte de Flávia. seguindo uma linha de que é na explicitação que o “inimigo” é desarmado. do Seminário Nacional de Lésbicas. conforme Luiza explicou enquanto conversava com um vizinho amigo delas que também assume publicamente sua homossexualidade: “Todo mundo sabe. Relacionamentos e papéis familiares Neste tópico. há certamente uma preocupação relativa a reações lesbofóbicas que as filhas possam sofrer. então você fica mais assim (Helena)”. e Tatiana leva pendurado na mochila um chaveiro com um sapinho.Mas a gente se cala mais diante da situação.. continuarei insistindo na comparação entre os dois casos citados no parágrafo anterior. É neste sentido que isto é mostrado abertamente também à vizinhança desde que Flávia e Luiza se mudaram. Estes signos também são usados pelas filhas Tatiana e Daniela: elas inclusive vão para a escola com camisetas e bótons do movimento lésbico. porém. em ambos tratam-se de mulheres da periferia. Tatiana e Daniela com freqüência estão presentes em conversas a respeito de temas lésbicos. Em comum. foi transformado em “sapa”. sob forma de chaveiros. conforme será apresentado a seguir. da Parada do Orgulho GLBT. não ficar escondendo para ninguém saber. E esta política da lesbianidade terá. “Nós temos uma política de não deixar de falar as coisas na frente das crianças”. Assim. dentre outros signos que demonstram explicitamente a “orientação sexual”. poetisa grega da qual se originou a palavra lésbica) a uma tartaruga que Luiza lhe deu e que é seu animal de estimação. O relacionamento com o pai das(os) filhas(os) é semelhante nos dois casos e parece seguir uma tendência já observada na pesquisa anterior: a ausência do pai – fato que me fez repensar a idéia de pluriparentalidade associada a famílias recompostas homoparentais femininas. Diante de você ter filhos. é com freqüência que elas estão com camisetas da LBL. dentre as variáveis que pude observar. Flávia e Luiza – que têm seu próprio quarto. se a pessoa é do centro ou da periferia.

sendo que esta ainda era viva nos primeiros anos de relacionamento com Lila. Eu tento levar. e os últimos meses de sua vida passou morando na casa de Flávia e Luiza. entendeu? Então não é aquela coisa assim de sentar e perguntar. como já citado. quando se insinua qualquer coisa. Ela expôs que tem certeza que isto será julgado negativamente à luz do argumento de que ele é gay por ter convivido quinze anos com sua mãe e a companheira. por ser lésbica. que é mais distante. vizinhança etc. a mim eles não perguntam (Helena)”. Mas por respeito mesmo. Ela aceita bem tanto a situação da neta. seu pai. nunca falou nada à mãe. não vai ter nenhum impacto porque não é novidade para ninguém. Mas. A mãe não aceitou. por exemplo. na verdade. Por sua vez. E não vão usar isso como xingamento também..) com relação à educação das filhas e argumenta que. ela faleceu há aproximadamente dois anos. conforme a primeira apresentou-me: “Porque na verdade. Então. apesar de morar no mesmo bairro da mãe. raramente elas se vêem. o cuidado neste sentido deve ser redobrado para evitar os comentários de que se algo sai errado é por conta do “mau exemplo” que se tem em casa. mas. Contrariamente a esta situação de apresentação da lesbianidade para a família. os vizinhos descobriram e ficou insustentável morar lá”. apesar de sempre insistir que ela deve ter sua própria casa. Mas Flávia expõe que isto não impede que haja cobranças externas (família extensa. quanto a do filho. sabem. No entanto. pai e irmãos. Helena. A gente trata sempre na esportiva assim. cujo filho (tio de Lila) com quem mora. ao contrário do que ocorre na casa de Flávia. Luiza saiu de casa e elas ficaram muito tempo sem se falar. Atualmente Flávia é síndica do bloco e. é mais na brincadeira. também sabe – ele está gradativamente melhorando o seu trato com Luiza ao telefone. Helena apresentou a mesma preocupação e está muito apreensiva e resistente com o fato de seu filho do meio estar “se enveredando” pelos caminhos do homoerotismo. A mãe de Flávia sabe do relacionamento da filha e. um ano após o falecimento de seu pai. conforme elas me apontaram. Luiza. porque elas sempre esconderam. Ela foi eleita com a incumbência de colocar as contas do prédio em dia. que é filha única. Quem cuidou de Lila desde a infância foi sua avó materna. assumiu-se lésbica com 13 anos.[imitando um tom de fofoca]. Seus irmãos também sabem e se relacionam bem com Luiza. 69 . A gente tem um casal de amigas que teve que se mudar do conjunto onde elas moravam. No caso de Lila.. nunca foi sentado e conversado. também é gay. nas duas reuniões de condomínio que pude acompanhar. como a mãe. deixou de pagar diversas mensalidades de água e luz. Pais e irmãos são distantes. é muito respeitada pelos moradores. Exatamente. ex-marido. nunca houve uma conversa entre eles a respeito do vínculo que une Helena e Lila. visto que a síndica anterior – que já havia se mudado –. A postura entre os dois casos aqui analisados também é diferenciada no que se refere ao relacionamento com demais membros da família extensa. Sabem. mostrar as coisas para eles na brincadeira. no mínimo uma noite por semana dorme no apartamento da filha. em uma gestão comprovadamente fraudulenta. [Pergunto se eles sabem do caráter do relacionamento entre elas]. Se eles não me perguntam mesmo assim é por respeito. ela perdeu o contato com o pai há muitos anos e.

estas famílias ressaltam ainda mais o caráter social do parentesco. estava implícito que se referiam a Sérgio. cabe também a Cecília e Fabiana. Por conseguinte. “pai Antônio”. Num dos dados que penso ser mais notáveis desta circunstância. Na casa de Helena e Lila. A ausência do pai faz-se sentir também pelas escassas referências das filhas a ele. que mora na mesma cidade. Estas mulheres todas estão. procriação e filiação não se dispõem em um eixo comum. em uma época que fazia serviços gerais em uma escola. Durante todo o tempo em que estive no apartamento de Flávia e Luiza. Para posicionar a questão. não queria que eu trabalhasse”. as famílias de Flávia/Luiza e Helena/Lila – seguindo uma constante que também foi observada entre outras mulheres que já havia entrevistado – caracterizam-se pela quase ausência do pai das(os) filhas(os). Lila. “Pai Sérgio” é o primeiro. há uma preocupação do casal relativa à educação das filhas. Na situação de Flávia. os homens não têm lugar – “o cheiro do apartamento muda quando tem homem”. E complementou: “você acha que não tem gênero também na relação entre mulheres? Tem sim”. até por uma questão – conforme Lila me explica – de prezar pela saúde da companheira. quando elas falam simplesmente “pai”. Anne Cadoret (2001a e 2001b) apresenta o caráter profundamente perturbador das famílias homoparentais por não basearem sua organização social em uma complementaridade biológica entre os sexos. a última é categórica com relação a não deixar a companheira trabalhar. e não necessariamente biológicas. cuidarem para que Tatiana e Daniela façam as refeições. Por fim.Além da postura de exposição da lesbianidade. No caso das famílias recompostas homoparentais. conforme Luiza falou-me uma vez. cujo apartamento é uma afluência de mulheres formando uma espécie de “rede lésbica”. principalmente. é notável como as esferas da conjugalidade. o segundo. permanece mais em casa –. Helena já trabalhou fazendo faxinas e. sexualidade. arrumem as camas. vão para a escola. ia para a referida escola fazer as tarefas que cabiam a Helena. em diferentes graus. retomarei idéias de Anne Cadoret e Didier Le Gall. que mora próxima à filha. Finalizando considerações: pensando pluriparentalidade e lesbianidade Esta observação acerca da ausência do pai biológico fez-me refletir a respeito dos pressupostos de parentesco e do conceito de “pluriparentalidade” que embasaram a análise do trabalho anterior. Sobre “papéis de gênero”. o que parece mudar com relação ao pertencimento ou não a movimentos sociais é a relação conjugal. apesar da proeminência das mães (Flávia e Helena). durante as férias escolares. devido ao desemprego. Flávia disse: “é porque nós conversamos muito e por toda a questão feminista também. que é diabética. uma vez que enfatizam que a parentalidade pode se configurar a partir de relações sociais e afetivas. comprometidas com os cuidados com as crianças. “Pai Sérgio” é muito mais recorrente na conversa entre elas e. Por Luiza estar o dia inteiro fora trabalhando – assim também era o cotidiano de Flávia. no começo. Em ambos os casos. Mas a Luiza. não houve nenhum telefonema do pai de Tatiana e Daniela e elas não passaram nem um dia com ele. A autora se refere a como estas famílias contestam a idéia de que o pai e a mãe 70 . porque ela merece”. – cuidados que são freqüentemente compartilhados com a mãe de Flávia. depois de sair de seu trabalho. ambos pesquisadores da parentalidade lésbica. “Eu queria dar tudo para a Helena. Apesar de elas estarem passando por uma difícil situação financeira decorrente do desemprego de Lila. falava-me Lila. diversas vezes. Tatiana e Daniela utilizam o prenome para fazer uma distinção entre os dois “pais”: o pai-desanto e o “pai de verdade” (sic). que agora. façam os deveres etc. esta não admite que Helena trabalhe.

Somando-se aos casos que analisei na pesquisa anterior. que também ressalta a característica própria das famílias homoparentais de “agitar” a idéia de justaposição entre procriação. Depois deste trabalho de campo que realizei. o que o autor chama de “situação ideal” não se encaixe no contexto em questão: Flávia sente pelo ex-marido não procurar as filhas. Luiza e Antônio. além de Luiza.. há a mãe de Flávia. 2001b:279-80 – livre tradução). da família” (CADORET. Após a experiência etnográfica. E conclui: “o biológico não é mais o fundamento do social. seguindo uma diretriz de que “quem está junto. O que dá a impressão é que. por conseguinte. Este argumento vai ao encontro daquele de Le Gall (2001). repito-me chamando a atenção para este afastamento do ex-marido nas situações das famílias recompostas homoparentais femininas. apresentando que a noção de que “o biológico no nascimento emoldura o social da aliança (.) não é mais adaptável à família homossexual”. a pluriparentalidade pode ser percebida. uma vez que passa a ter um lugar reconhecido. busquei empreender um outro movimento. a “madrasta” vem para somar. Fabiana e Cecília –. talvez. onde em apenas um deles o pai se faz presente. Penso que este quadro faz repensar as bases daquela idéia de pluriparentalidade. esta “família de mulheres” assim se configura também em função de como é pensada a lesbianidade (sob a luz da idéia de condição). Esta noção acabou orientando as análises para um caminho onde se buscava localizar na trajetória das mulheres entrevistadas indícios de que a lesbianidade era algo construído. O que gostaria de aqui acrescentar. Este fato ressalta o caráter premente dos laços afetivos em detrimento daqueles de sangue nestas configurações familiares. Na “equação” desta família considerada. mas não por uma soma dos três componentes Flávia. Parece-me que na pesquisa anterior. mas as ondas emitidas pelas demais também devem reverberar. surgem outras possibilidades – mais criativas – de desempenho dos papéis parentais. é que. e tentar não mais utilizar a teoria antropológica para. é para ajudar”. era como se estivesse explicando o que realmente acontecia na trajetória daquelas mulheres com relação à lesbianidade. saindo de cena o par biológico. preza pela situação deste não interferir na educação que dá às meninas – esta não interferência do ex-marido é que parece ser a situação ideal para Flávia e Luiza. um parentesco adicional baseado na eleição mútua. repenso esta postura. o pai é eclipsado (pois não é eliminado por completo) e outras “figuras de verdade” entram em cena – no caso em questão. É a respeito deste ponto que desenvolverei uma segunda consideração crítica acerca de uma idéia que havia levantado na referida monografia de graduação: a de que a homossexualidade é concebida como algo tão construído socialmente quanto a heterossexualidade. Ele narra que nas situações ideais de recomposição homoparental feminina – que ele caracteriza como sendo quando o exmarido aceita a lesbianidade da mãe de seus filhos e continua presente na socialização e educação das crianças –. É de Flávia que irradia o motor principal na educação das filhas. desta forma.. As conclusões do trabalho. não como concorrente ao do pai. no limite. o que o discurso delas sobre o caráter essencializador (o ser lésbica) poderia informar. Baseando-me nos dados da família de Flávia.biológicos são as “figuras de verdade” (sic) na educação dos filhos. Conforme já apresentado. mas ao mesmo tempo. Se eu estou em uma discussão entre quatro lésbicas – como 71 . centraram-se fortemente em uma dimensão de escolha que suas narrativas claramente rechaçavam. mas no sentido de um terceiro parent. por elas não estarem em um posição favorável para fazê-lo. desconstruir a teoria nativa. baseando-me nesta experiência etnográfica. parentalidade e relação de casal. desconsiderando. o que parece delinear uma “família de mulheres”.

vinculações políticas e religiosas. a etnografia não pode ser concebida como “uma produção de exemplos”. e levá-lo a sério quer dizer pensá-lo como possibilitador de mudanças da prática acadêmica. 69. Deste modo. nº 2. Paris: Bayard. mas de condição. Yvone (org). França: 2001(b). o caminho – da teoria antropológica para teoria nativa – deve ser repensado. RIBEIRO. Affaire privée. não posso simplesmente usar da teoria antropológica para tentar desconstruir este argumento e. 265. 1. ed. Família em Processos Contemporâneos: inovações culturais na sociedade brasileira.ocorreu enquanto estive lá – na qual se afirma categoricamente que ser lésbica não é uma questão de estado. a partir de uma análise da trajetória de vida delas. 2. Antonádia Monteiro. 2001(a). 1. que desencadeará rompimentos e arranjos familiares. de repente. 2003. Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ.282. Se elas contradizem o que antes havia sido exposto. por exemplo. Ana Clara Torres (orgs. 2000. “Maternité et homossexualité”. mas buscar compreender que orientação esta idéia promove na interpretação destas mulheres acerca de suas histórias de vida – em que medida esta concepção é um motor para certas formas de agir e pensar. ______. São Paulo: Loyola. In: Compendre – Le lien familial. Se a “violência da escrita” é inevitável. Este “desalojar de certezas” é o que possibilita o avanço conceitual da antropologia.). Família. 1976. ______. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS. Portanto. provar que a lesbianidade é algo de fato construído. Família e Rede Social. Elizabeth. Cecília e Fabiana. Helena. A teoria antropológica só pode avançar mediante um movimento infinito onde as dúvidas trazidas pela realidade etnográfica desafiam as certezas da disciplina (BORGES. p. O sistema classificatório nativo é o propulsor das dúvidas. Luiza. p. penso que falar em homossexualidade construída quando os discursos nativos apontam sempre para o contrário. ed. 2003). Lila. “Amor e Família: vacas sagradas de nossa época”. mas como dados que fazem a antropologia pensar. 77. In: RIBEIRO. FONSECA. Maternité.89. Tempo de Brasília: etnografando lugares-eventos da política. Fofoca e Honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. é uma forma de acentuar esta violência. Claudia. É ela. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Anne. BIBLIOGRAFIA BORGES. 1995. 72 . penso que se deve refletir o que as categorias nativas – o sistema classificatório nativo – têm a abalar com relação às “crenças antropológicas”. Rio de Janeiro: Francisco Alves. “Le bricolage de la parenté”. In: KNIBIEHLER. BOTT. Este – a condição inata da homossexualidade – é um ponto de partida interpretativo fundante para a compreensão das trajetórias de Flávia. p. Ivete. Acredito portanto que a questão central não seja a de inferir se é ou não algo construído. ed. affaire publique. CADORET.91.

ed. La Pluriparentalité. In: LE GALL. 2002. The Gender of the Gift: problems with women and problems with society in Melanesia. BETTAHAR. “Ensaio sobre as variações sazoneiras das sociedades esquimó”. Didier. 1996. 1984. Maria Luiza. In: OGDEN. Tristes Trópicos. Berkeley/Los Angeles/London: University of California Press. In: ______. (Coleção Os Pensadores) ______. 1974. 1988. 1955. A. LE GALL. Sociologia e Antropologia (vol. RICHARDS. O Significado de Significado: um estudo da influência da linguagem sobre o pensamento e sobre a ciência do simbolismo. Sexualidades Brasileiras. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. Yamina (orgs). 136. C. K. ed. In: ______. 2.. 1. p. STRATHERN. Chicago: The University of Chicago Press. 295. França: Puf. p. “Recompositions homoparentales féminines”. I. Marilyn. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária. William. Richard.330. Didier.FOOTE WHYTE. 3.242. 1972. “Lição de Escrita”. Marcel. Bronislaw. MALINOWSKI. “Ser ou estar homossexual: dilemas de construção de identidade social”. p. 235. São Paulo: Abril Cultural. “O problema do significado em sociedades primitivas”. 73 . Lisboa: Edições 70. ed.326. MAUSS. 203. LÉVI-STRAUSS. Rio de Janeiro: Zahar. In: PARKER.145. p. Regina Maria (orgs). II). Claude. HEILBORN.300. Street Corner Society: the social structure of an Italian slum. p. BARBOSA. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ABIA-IMS-UERJ. 290. (orgs).

Abstract This paper presents the results of an investigation(1) focused in the catholic institutional discourse about family and gender during great part of the XXth century and beginning of the XXIst. Universidad de Chile. no marco do impulso dado à modernização da vida privada. y más recientemente sobre la distribución y acceso a la denominada “píldora del día después” o “método de anticoncepción de emergencia”(2). mención Humanidades. And in this context. Toda vez que dichos debates suponen la posibilidad de producir transformaciones en el ordenamiento social existente. The aims of the above mentioned investigation were pointing to know about what way was articulating the ecclesiastic discourse with the discourse and the actions of the Chilean State. se as transformações sociais derivadas disso tiveram algum impacto no discurso da hierarquia católica. gender relations. cggodoy82@hotmail.net. cggodoy@vtr. E nesse marco. Palabras claves: Familia. fundamentalmente en . relaciones de género. familia y géneros en Chile. Os objetivos de dita investigação apontavam a conhecer de que maneira foi-se articulando o discurso eclesiástico com o discurso e as ações do Estado chileno. la educación sexual. already be under the form of its denial or resignificance. com respeito aos modelos familiares e os padrões de gênero.com Antropóloga. in the frame of the impulse started to the modernization of the private life. Universidad Academia de Humanismo Cristiano. Entre otras razones. Magíster en Estudios de Género y Cultura. la legalización del aborto. em função de determinadas iniciativas estatais implementadas no Chile na área social. if the social transformations derived from it had some impact in the discourse of the catholic hierarchy. religión y Estado. producto de su capacidad para ejercer presión en debates tales como la Ley de divorcio. familia y modernidad En Chile. já seja sob a forma de sua negação ou resignificação. religion and State. Profesora Escuela de Antropología. with regard to the familiar models and gender patterns. depending on certain state initiatives implemented in Chile in the social area. desde comienzos de la década de 1990 asistimos a un proceso en el que se ha venido haciendo patente la relegitimación del poder de la jerarquía eclesiástica católica para influir política y legislativamente en temas de interés público.Discurso católico. Resumo Esta conferência apresenta os resultados de uma investigação enfocada no discurso católico institucional a respeito da família e os gêneros durante grande parte do século XX e começos do XXI. Tradición. 1925-2004 Carmen Gloria Godoy R. Key Words: Family.

que promueven modelos de familia y género hegemónicos. la familia y la patria. Ello. asociada a una identidad cultural. sufrió una suerte de actualización durante los últimos años que da cuenta de alguna manera de la profundidad de su influencia en la sociedad chilena. No obstante. En este sentido. y que otorga sentido a las relaciones sociales(4). De hecho. ya a fines del siglo XX. una transformación tan radical como supuso su separación del Estado.las concepciones tradicionales sobre lo masculino y lo femenino. la actitud de la jerarquía respecto a la familia no sufrió prácticamente ninguna modificación durante los siguientes cuarenta años. y a una “tradición vinculada a la identidad nacional que debe ser preservada como el elemento clave para enfrentar lo que se aprecia como una ‘crisis de la familia’(5). a partir de mediados de los años sesenta. no así como instrumento y/o expresión de las transformaciones ocurridas a lo largo de casi un siglo. la posición e influencia de la Iglesia Católica en la vida pública no habría sufrido en el transcurso del siglo XX. existe una suerte de imaginario compartido por todos aquellos que de una u otra forma hemos recibido una formación católica.en los debates sobre la familia.su interés por la problemática social y acogiendo desde de fines de la década de 1950. Es en el denominado “debate de temas valóricos” que comenzó a tomar forma en el país en los inicios de la década de los noventa –coincidentemente con el retorno a la democracia. y los roles asignados a hombres y mujeres en las relaciones sociales de género. que parecen acoger las transformaciones económicas. de carácter ya no sólo local sino también global(6). cambios estructurales sobre todo en términos económicos y políticos. el repliegue de su esfera de influencia exclusivamente a la orientación espiritual de los creyentes (3). porque no obstante. lo que se refleja más en la oposición al divorcio por cuestiones doctrinales -afirmando la indisolubilidad del matrimonio. sociales y también políticos. y no como la transformación de sus sentidos y funciones como resultado de procesos económicos. pero continúan sobrevalorando los roles de género tradicionales al interior de las familias. y una suerte de acuerdo tácito en ciertos momentos claves y frente a situaciones específicas. sociales y políticas de carácter global. sino también al creciente protagonismo que adquieren hoy los discursos conservadores acerca de lo privado. la pregunta que surge apunta no sólo a la tan mentada discusión sobre la “modernidad incompleta” de la sociedad chilena. se proyectó entonces hacia el mundo de lo privado. se consolidó una tensión permanente entre ambos actores. y a ésta como soporte del orden social establecido. precisamente porque la importancia de la voz de sacerdotes. La resistencia de la Iglesia a los cambios que se producían en la sociedad chilena. que trasciende el ámbito de las creencias religiosas. expresando -institucionalmente. y en el mundo en general. Esto es. las distintas corrientes y movimientos que conforman la Iglesia Católica. A partir de la separación constitucional del Estado chileno y la Iglesia en 1925. que osciló entre el pánico de la jerarquía católica ante la posible “destrucción” de la sociedad. obispos y arzobispos –de distintos sectores de la Iglesia.que en la aceptación de las nulidades matrimoniales como “mal menor”. en cuanto éstas son reconocidas como situaciones fraudulentas a las que se les debe poner freno. 75 .donde los sectores más conservadores de la sociedad chilena levantan un discurso organizado en torno a “la nostalgia por el pasado”.

La disolución de los hogares suele causar en los hijos heridas psicológicas profundas. Caro Rodríguez (21de Enero 1955) (R. El interés por el Bien Común. vigente en los pueblos no cristianos (. Debilitar la familia es también. y favorecer en ellos el resentimiento contra una sociedad que no les brindó el amor y la seguridad que necesitaban y a que tenían derecho. debilitar la Nación. sin embargo. se produjeron sucesos importantes que aparecían como promesas de cambio -entre ellos la celebración del Concilio Vaticano II y la emergencia de nuevas corrientes de pensamiento de carácter latinoamericano. pero eso no le otorga necesariamente legitimidad moral a la unión. el rol de las mujeres en la vida social han tenido fuerte presencia como temas de debate en sí. se termina por reconocer la obligatoriedad del matrimonio civil pero siempre relevando su carácter antinatural. la indisolubilidad de las uniones y luego. más adelante será tanto la estabilidad social como cultural la que se juega en la indisolubilidad del matrimonio. necesariamente. A lo largo de casi ochenta años el matrimonio religioso. también lo mandan las leyes del Estado y deben observarse por todos los ciudadanos.C. para asegurar a sus hijos y esposos sus derechos civiles. no es más que el interés por preservar la fortaleza de la nación. (Declaración del Comité Permanente de Episcopado a propósito del proyecto de Ley de Divorcio Civil. que la que tendría sólo por el hecho de apelar al ordenamiento social.218) No obstante. El llamado Matrimonio Civil (. Para mediados de los años ‘50.) no es el matrimonio primitivo establecido por Dios en nuestros primeros padres. Pastoral. p.) La Santa Iglesia. El rol que la Iglesia dice tener en este aspecto. 5 agosto de 1964) 76 .las bases ideológicas del discurso católico en torno a la familia y los géneros no sufrieron una modificación sustancial (7). De esta forma.La persistencia ideológica del discurso Si bien durante el transcurso del siglo XX y sobre todo a mediados de los años sesenta. José María Card. su importancia radica en que asegura los derechos civiles de los contrayentes y sus hijos. de forma tal que el amor y la seguridad son derechos que sólo se obtienen al interior de una familia fundada en el matrimonio. La metáfora de la nación como familia.. manda que todo matrimonio se inscriba en el Registro Civil. Enero-Abril 1955.. “Acerca de la familia cristiana”. Nadie puede ignorar la importancia que para el progreso de una Nación tiene la familia bien constituida y estable. le da una profundidad simbólica mayor a la institución familiar. si bien la concreción ( al menos oficial) del proceso de secularización que se lleva a cabo mediante la separación de la Iglesia del Estado genera resistencia por parte de aquélla y de los sectores conservadores. los que en el futuro se constituirán en una amenaza contra la sociedad. Son los hijos de los hogares disueltos por el divorcio. civil y religioso. N°971... y como elementos que constituyen las bases del orden social. es el del “esclarecimiento” de una madre que habla a la conciencia de “sus hijos”.

Si bien la familia permanece como un espacio “moralizante”. por vía de ejemplo. y sólo en materia familiar y reproductiva llegaron a puntos de consenso. La familia fue relevada como una metáfora de la nación chilena (9). expuestos a situaciones de vulnerabilidad. cabe destacar el hecho que durante el período dictatorial claramente la familia adquirió una importancia fundamental. se reconocen situaciones de hogares “mal avenidos” y violencia que desestabilizan internamente a las familias. las denominadas “encíclicas sociales” introdujeron un cambio en la mirada sobre los problemas de los sectores más pobres de la sociedad. ya que la reflexión sobre la familia progresivamente irá replegándose sobre sus propios límites. resumió la postura de aquel respecto al uso y difusión de ciertos métodos anticonceptivos. y similar tal vez a lo que sucede actualmente cuando la discusión sobre el tema se ha extendido a todas las áreas de la vida social. La Política de población del año 1979. que plantea que una sociedad menor (la familia) no puede abandonar en una sociedad mayor (el Estado) responsabilidades que le son propias.No obstante. y se convirtió en el espacio físico y simbólico donde se desarrollará la vida de los ciudadanos. ya que permitiría que el varón se desligue de todas sus responsabilidades con respecto a su esposa y sus hijos. Una vez instalados los militares en el poder. (“Matrimonio y Divorcio” Declaración del Comité Permanente del Episcopado.por la manera en que los problemas económicos generados por la implantación del modelo neoliberal afectaban a la población. Ahora bien. las relaciones entre Iglesia y Gobierno fueron difíciles. así como una legislación que proteja mejor los derechos de la mujer abandonada y de los hijos. gran parte de la relegitimación del poder de la Iglesia en la regulación de las prácticas del mundo privado se apoyaría hoy en la autoridad moral que le confirió su preocupación por los problemas sociales y su defensa irrestricta de los derechos humanos durante el régimen militar. Sugerimos. 6 de febrero de 1971) El divorcio. en vez de planear la forma legal de su posible disolución. en la medida que se consideraba que la crisis política recientemente experimentada por el país. Se estableció que el Estado no podía interferir en las decisiones que los grupos familiares tomaran respecto a la planificación familiar. Esto parece contradecir. No obstante. muy superior a la que tuvo en otros gobiernos. será visto no como una solución. en este sentido. sobre todo por las familias más desposeídas: mucho que hacer de positivo por su afianzamiento. y especialmente sobre la práctica del aborto (8). Una vez finalizada la 77 . y especialmente a los sectores populares. también había tocado a la familia. El primer aspecto se expresó en su preocupación – afianzada en la mirada crítica al capitalismo y al marxismo que planteaba la encíclica Laborem Excersens. no obstante. argumentando el carácter cristiano del “pueblo chileno” y el principio de subsidariedad del Estado. sino al contrario como un factor que contribuye al empobrecimiento de las mujeres. la actitud que la institución adoptó una vez que retornó la democracia al país. y que requieren de soluciones concretas. una política más orgánica de asignaciones familiares. sobre todo de las mujeres y los niños. Hay mucho que hacer por la familia en Chile. que son generalmente los más afectados por las situaciones irregulares.

remarcando el peligro del divorcio y el aborto. Las nuevas libertades conseguidas y la reaparición de ideas y conductas silenciadas por años. No obstante. sobre todo entre quienes se autodefinían como católicos pero no aceptaban “la moral de la Iglesia. retornó con mayor fuerza un discurso crítico sobre las transformaciones en las conductas y opciones individuales. a principios de los años noventa también se produjo temor e inquietud en la institución eclesiástica. lo que revela una cierta contradicción entre las críticas al modelo económico neoliberal 78 . Así como en 1925 la separación del Estado generó temor a los cambios. la controversia con la Iglesia no se hizo esperar. Evidentemente. el escenario de nuestro actual “drama” social. ni en la vida privada ni en la pública”. en el que la familia adquiere un papel protagónico en la definición de las identidades individuales y colectivas. de tal manera que la educación sexual se convirtiera en una tarea que comprometiera a la sociedad. generaron el escenario propicio para instalar en el año 1990 un debate que fue conocido como la “crisis moral”. y focalizada en la familia. En dicho documento se señalaba que si bien la educación sexual era primariamente responsabilidad de la familia. la Política de Educación en Sexualidad elaborada por el Misterio de Educación en 1993. y se requería también de la colaboración de distintos actores. La presentación en el año 1998 del proyecto de Ley de matrimonio civil que se concretó finalmente en el 2004. en el marco de la “amenaza” que subyace en el proceso globalizador. la atención a parejas con problemas. ésta podía participar en la elaboración de diagnósticos y la definición de contenidos escolares referidos al tema. la cual aparece como elemento cohesionador no sólo de la sociedad sino también de la identidad cultural. La tensión respecto a las acciones del Estado. caracterizado por su tendencia conservadora y restauradora. y la educación se convirtió en una estrategia para promover planes propios en los establecimientos educativos de orientación católica. vuelven claramente a un punto de quiebre. concentró estos esfuerzos orientando su acción hacia la formación de agentes pastorales y el desarrollo de cursos de preparación al matrimonio. constituyéndose junto a los derechos sexuales como los dos ejes fundamentales del periodo 2000-2004. tal como en 1925. entre otras actividades. La creación de la Vicaría para la Familia en 1998. también generó una fuerte reacción. apoyándose para ello en organismos privados que comparten esa mirada. articulándose con centros de orientación y mediación familiar dependientes de instituciones de educación superior y técnico-profesional de orientación católica. y se manifiesta el repliegue hacia una moral conservadora. con la familia y el matrimonio como sus bastiones principales. generaron una fuerte oposición de la jerarquía eclesiástica. ya que la discusión del proyecto de Ley de divorcio en el Congreso y la anticoncepción de emergencia. tuvo importantes repercusiones durante los años posteriores. Frente al temor al “mal uso” de la libertad conseguida. en este sentido. el entonces arzobispo Carlos Oviedo reflexionaba sobre el abandono generalizado de la moral natural.dictadura. En ese contexto. Inaugurando en cierta forma. esto se ajusta a la política que desde el Vaticano se ha venido desarrollando intensamente a partir del papado de Juan Pablo II. centrados en los temas de sexualidad y familia. que instala un debate sobre los límites de la moral individual y colectiva.

que produce la desigualdad como consecuencia de la injusta distribución de la riqueza. en 79 . este discurso hegemónico que articula la posición de la Iglesia con la de los sectores más conservadores de la sociedad. Así como en la creación de instituciones como Fundación Chile Unido. no así como instrumento y/o expresión de las transformaciones ocurridas a lo largo de casi un siglo. el tema de los derechos sexuales y reproductivos. la familia y los derechos de las mujeres. y a ésta como soporte del orden social establecido. es sólo la identidad de las mujeres la que aparece más expuesta a los riesgos de que sus funciones biológicas predominen en la definición de su “esencia”. aparece como la otra columna del debate que se ha desarrollado con intensidad desde los años noventa. Por otra parte. pero continúan sobrevalorando los roles de género tradicionales al interior de las familias. la religión -y que en el caso de la religión católica se le asigna el carácter de elemento constitutivo de la identidad chilena. proyectada desde lo físico a lo simbólico. La necesidad de establecer consensos como una manera de asegurar la estabilidad política y social desvía el conflicto hacia la sexualidad. presentándose como una fuente valórica y un discurso convocante frente a la ausencia. pero adhiriendo a la vez a una moral conservadora en el ámbito de las relaciones sociales. o más bien. para unificar cuerpo y espíritu. no una ley natural. que las alianzas mencionadas surgen en una coyuntura histórica muy particular. En este sentido. Así. y consistente. ante una sociedad que funciona sobre un modelo económico agresivo. También desde los años noventa. se opone a la comprensión de las diferencias sexuales desde la categoría género. algunos sectores empresariales y políticos han venido manifestando un “tradicionalismo ideológico”. y acentuado con el último gobierno de la Concertación de Partidos por la Democracia. No obstante. Sin embargo.vuelve a ofrecer sentido a la experiencia humana. Sin embargo. y esta suerte de alianza generada en pro de la “defensa de la familia”. De esta forma. sociales y políticas de carácter global. específicamente los derechos sexuales y reproductivos. convirtiendo así a la familia más que en un lugar de socialización primaria y de constitución de afectos. con una importante presencia en los medios de comunicación a través de campañas en contra del aborto y a favor del “fortalecimiento de la familia”. también podría llegar a traducirse en la resistencia a establecer un diálogo con individuos que no se rigen por la moral católica y todo lo que ella implica en cuanto estilo de vida. la diferencia fundamental que la Iglesia plantea entre hombres y mujeres. Cabe recordar en este sentido. vinculada a grupos políticos y empresariales conservadores. Los discursos conservadores acerca de lo privado adquieren creciente protagonismo promoviendo modelos de familia y género hegemónicos. la paulatina emergencia de nuevos proyectos políticos y sociales. precisamente porque en ella tales diferencias operan como una construcción histórico-cultural. rechazando toda forma de intervención estatal en lo económico y exaltando las ventajas del libre mercado. la resistencia a los avances de un mercado deshumanizante. acogen formalmente las transformaciones económicas. la maternidad continúa siendo determinante. las identidades tanto de hombres como mujeres dicen ser concebidas desde principios que trascienden su condición biológica. A esto se agrega la alta convocatoria generada en estos sectores por movimientos católicos de carácter ultraconservador tales como Opus Dei y Legionarios de Cristo. convirtiéndola en una amenaza permanente.

La polémica se suscitó ante la posibilidad de acceder libremente al fármaco Postinor 2. La Iglesia Católica. Asociación Chile de Protección a la Familia (APROFA) Disponible al 14 de septiembre de 2005 en < http://www. CEDEMFLACSO. Universidad de Chile (2005). la Iglesia continuó aliada al Partido Conservador –de carácter confesional y al cual el clero apoyaba explícita o implícitamente. Azún et. representada por la Virgen-Madre y vinculada a 80 . DIBAM. La Revista Católica entre 1925-2000”. Ver también de Hans Küng. familia y géneros. Este trabajo abordó. Conservadurismo y Transgresión en Chile. Santiago. familia y géneros. 1925-2004.cl> 3. 2002. un accidente anticonceptivo o de una violación. Reflexiones sobre el mundo privado. Revista de Humanidades y Ciencias Sociales. “Iglesia y política: el colapso del partido conservador”. “Modernización y vida privada en tres grupos sociales de Santiago”. supuso la conformación de un ethos y una nueva cosmovisión.hasta fines de la década de 1950. Fuente: “Anticoncepción de Emergencia”. 2. Si bien el Vaticano aceptó desde mediados de los años ‘20 la separación de la Iglesia del Estado. En: Candina. las identidades y roles femeninos y masculinos -incluyendo la dimensión sexual. para evitar ser atacada por los regímenes fascistas que comenzaban a instalarse en Europa.al. Mondadori. con los partidos católicos. En Chile.y fue realizado como tesista dentro del marco de un proyecto más amplio del Fondo Nacional de Ciencia y Tecnología (FONDECYT) N°1030150. aunque de carácter informal. Es claro que no es posible caracterizar el pensamiento de la Iglesia Católica como unitario y homogéneo. la Anticoncepción de Emergencia consiste en una serie de métodos orientados a evitar el embarazo antes de que transcurran 72 horas de haber realizado un coito sin protección. sustenta un imaginario cultural tanto en Latinoamérica como en Chile.aprofa. pp. Su venta se hace con receta médica retenida. prohibiendo a los sacerdotes participar en actividades políticas. segundo semestre 1991. Santiago. Síntesis realizada sobre la tesis para optar al grado de Magíster en Estudios de Género y Cultura.137-138. 2005. 4. el discurso católico acerca de la familia y el matrimonio. Correa. Discurso católico. Las divinidades masculinas fueron desplazadas de su lugar dominante. Colección de Investigadores Jóvenes. y “sobre ellos se posó la figura de una diosa poderosa. cuyo componente es el Levonorgestrel. promovió la participación de los laicos en movimientos apostólicos no partidistas y mantuvo estrechas alianzas.un espacio constrictor y tensionado que impide la afirmación de los sujetos y la construcción de nuevas formas de convivencia social. si bien como se plantea. Barcelona.entre los años 1925 y 2000. más conocido como “píldora del día después”. mención humanidades: Acerca de la familia cristiana. Sofía. entre otras razones por su común temor al comunismo. en Mapocho.Notas 1. N°30. También se basa en un trabajo anterior de la autora sobre los contenidos de La Revista Católica – publicación oficial de la Iglesia Católica en Chile. y desde la perspectiva de algunos autores constituye el eje articulador de una cultura mestiza latinoamericana que producto del proceso de conquista y colonización. sobre la base de la revisión de un extenso corpus documental. De acuerdo a la Asociación Chilena de Protección a la Familia (APROFA). correspondiente al artículo: “Discurso católico.

en Mapocho. la que sigue sin ser revocada. En: Candina. Chile. Vida privada. Santiago. así como a diversos aspectos de su mitología”.. 1999. p. 6. y la nueva Ley de Matrimonio Civil (2004) que sustituye la ley de 1884. y se considera como un problema de salud pública que afecta principalmente a las mujeres (las leyes contra el aborto se encuentran en el Código Penal.al. Fuente: “Aborto en Chile”. Modernización agraria y modernidad. Santiago. Alegorías del Mestizaje chileno. El “modelo mariano” ejercería así fuerte influencia en la conformación de las identidades de género femenina y masculina. segundo semestre 1991. igualando a los hijos nacidos dentro y fuera del matrimonio. Foro Red de Salud y Derechos Sexuales y Reproductivos. Artículos 342 A y 245. 7. Conservadurismo y Transgresión 81 . “Discurso católico. “Iglesia y política: el colapso del partido conservador”.forosalud. Centro de Estudios para el Desarrollo de la Mujer (CEDEM).688 (2000) que establece el derecho de las alumnas embarazadas de continuar sus estudios. familia y géneros. Carmen Gloria. Ms. Ver de Sonia Montecino. Disponible al 14 de septiembre de 2005 en < http://www. Santiago.31. N°30. En Chile el aborto está penalizado en todas sus formas. al considerar que toda mujer cuya vida estuviera en peligro podía solicitar un aborto si contaba con la aprobación de dos médicos. la Ley 19. 65 5. Katia. y sobre la base de un poder vertical. Valdés S. Dichas transformaciones se expresan entre otros fenómenos. Godoy Ramos. “Identidad nacional. Este tema fue desarrollado más ampliamente en el trabajo realizado como tesis para optar al grado de Antropóloga Social. 1991) p. 2001. DIBAM. Revista de Humanidades y Ciencias Sociales. Universidad Academia de Humanismo Cristiano. En 1989 la dictadura militar eliminó esta excepción. Editorial Sudamericana. 8. tales como la Convención para la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra las Mujeres (CEDAW) y la Convención sobre los Derechos del Niño y de la Niña. Santiago. la Ley 19.cl > 9. bajo la denominación “Crímenes y Delitos contra el Orden Familiar y la Moralidad Pública). La Revista Católica entre 1925-2000”. la promulgación de la Ley de violencia intrafamiliar 19. Femenino y masculino en el régimen militar. otorga validez al matrimonio religioso y establece el divorcio vincular. Sofía. sin embargo. Referencias bibliográficas Correa.585 (1998) que modifica el Código Civil. de tal manera que las acciones de las iglesias locales deben ajustarse a los preceptos emitidos desde el Vaticano adaptándolos a sus particularidades culturales. el aborto terapéutico constituyó una excepción permitida por el Código de Salud entre 1931 y 1989. No está demás recordar que la Iglesia Católica opera en términos de universalidad. y entre otras.325 (1992). Azún et. a través de una serie de reformas tendientes a la promoción de la igualdad y democratización en las relaciones entre géneros y generaciones. Madres y Huachos.las divinidades femeninas precolombinas. 1996 (1ª ed. 1973-1986”. Ximena y Araujo K.

Carlos Oviedo. Colección de Investigadores Jóvenes. Fuentes documentales La Revista Católica.forosalud. juventud y sociedad permisiva”. Declaración del Comité Permanente de Episcopado a propósito del proyecto de Ley de Divorcio Civil. Conferencia Episcopal de Chile. Ms. N° 971. Santiago. mención Humanidades. ------------------------------------------.cl>) Ministerio de Educación de Chile. 2005. 2001. Santiago.iglesia. 1991) Valdés S. Küng. Sonia. 19252000. Santiago. (Disponible al 14 de septiembre de 2005 en <http://www. Política de Educación en Sexualidad. Seminario Pontificio Mayor. Caro Rodríguez (21de Enero 1955) (R. Discurso católico. Universidad de Chile. 6 de febrero de 1971(Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http://www. Mondadori. Hans. 1925-2004. “Acerca de la familia cristiana”. Pastoral.cl>) “La Iglesia Católica y el Proyecto de Ley sobre Matrimonio Civil”.) “Aborto en Chile”. 2005. 2001 (4º ed. 15 de agosto 1998 (Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http:// www. Universidad Academia de Humanismo Cristiano.uchile. Centro de Estudios para el Desarrollo de la Mujer (CEDEM). Carta pastoral 24 septiembre 1991. Madres y Huachos.iglesia. Santiago. Enero-Abril 1955.iglesia. Foro Red de Salud y Derechos Sexuales y Reproductivos. Vida privada. Política Poblacional. Katia. Tesis para optar al grado de Antropóloga Social. José María Card. Oficina de Planificación Nacional (ODEPLAN). Editorial Sudamericana. “Moral. Hacia un mejoramiento de la calidad de la educación. Tesis para optar al grado de Magíster en Estudios de Género y Cultura. 1973-1986”. 1999.“Identidad nacional. Alegorías del Mestizaje chileno. --------------------------------------.Acerca de la familia cristiana. Reflexiones sobre el mundo privado.cl >) 82 . 1996 (1ª ed. Santiago.127.C. CEDEM-FLACSO. La Iglesia Católica. Santiago. Barcelona. familia y géneros.cfg. Arzobispo de Santiago. Montecino. 2002. 5 agosto de 1964 (Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http://www. abril 1979. Ximena y Araujo K. (Versión electrónica disponible al 31 de marzo 2005 en <http://www. Ms. Santiago.en Chile.cl>) Presidencia de la República de Chile.cl>) “Matrimonio y Divorcio” Declaración del Comité Permanente del Episcopado chileno. Femenino y masculino en el régimen militar. Modernización agraria y modernidad.. Números 563-1. Chile.

aprofa.“Anticoncepción de emergencia”. Asociación Chile de Protección a la Familia (APROFA) (Disponible al 14 de septiembre de 2005 en <http://www.cl >) 83 .

es TÍTULO: Una Perspectiva De Género: El Hombre Y La Mujer De La Reserva De La Biosfera “Península De Guanahacabibes”. El Vallecito y La Bajada. a la población que habita en las comunidades El Valle de San Juan. Se analiza el papel del hombre y la mujer en el quehacer cotidiano de estas comunidades. Tecnología Y Medio Ambiente (Citma).AUTOR/A: Dialvys Rodríguez Hernández INSTITUIÇÃO: Centro De Antropología. Ciudad De La Habana. Cuba. RESUMO: En este trabajo se hace una caracterización de la condición del hombre y de la mujer. E-MAIL: dialvys@yahoo. enfocado desde una perspectiva de género. estudiando la influencia que esto ha tenido en el nivel educacional. enclavadas en la Península de Guanahacabibes. e incluso en los índices de salud y el estado nutricional de cada individuo. y el desempeño de cada uno de ellos en el desarrollo de la familia como unidad básica de la sociedad. Ministerio De Ciencia. Como ha sido reportado anteriormente. es la mujer la máxima responsable del mantenimiento de la familia y la más afectada en los índices analizados. 84 . el estatus laboral. Pinar del Río.

identidade. de classe média. experiência reconhecida como heterossexual. quando pensava sobre as referências teóricas necessárias para me ajudar a compreendê-lo. como refere Joel Birman (1999). Doutorando no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas (UFSC).). rearranjos identitários (compreensão sobre si mesmo. Este artigo é fruto de uma inquietação que assume uma forma de investigação acadêmica que está em andamento. Autor: Eduardo Steindorf Saraiva Psicanalista. subjetividade. me peguei indagando se esses homens seriam homossexuais. sexualidade. em determinado momento. masculinidades. rearranjos familiares (mudança na relação com filhos.ou?? Perguntava-me se haveria uma outra possibilidade de compreensão que não passasse necessariamente por estas categorias. heterossexuais. tornando necessário repensar os fundamentos de nossa leitura da subjetividade: . existem novas modalidades de inscrição das subjetividades no contexto atual das sociedades contemporâneas. Grossi e Profª Drª Mara Lago. No doutorado estou desenvolvendo uma pesquisa etnográfica junto a homens “maduros” (acima dos 30 anos de idade). Professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Logo no início dessa minha aventura pelo campo. mas que em algum momento de suas vidas se vêem envolvidos de forma muito intensa com outro homem. Tal envolvimento implicou em separação (das esposas).. até mesmo porque. bissexuais. Palavras-chave: Gênero. na linha de Estudos de Gênero. Mestre em Educação (UFRGS). parentes. que viveram uma longa experiência afetivo-sexual-conjugal com mulheres. em processo.Título : Performances do querer: masculinidades que se reinventam. heteronormatividade.. etc. sua sexualidade) e a adoção de um vínculo nomeado e reconhecido por “homossexual” (esta é a expressão corrente entre os informantes) por se tratar de uma relação com alguém do mesmo sexo. nível superior. urbanos. Rio Grande do Sul. Orientadoras: Profª Drª Miriam P.

a indagar sobre o lugar do desejo nas experiências dos meus informantes. tornando-as substâncias. O fato é que são realidades vividas e sentidas. Partilho de uma concepção na qual tanto as categorias hetero/homo/bi quanto desejo/amor/sexo não são “naturais”. portanto construídas na articulação sujeito/subjetividade/cultura/sociedade.16) Tal pensamento me ajuda a justificar e dar consistência ao que percebo como crucial para aqueles que se propõem a investigar os novos territórios subjetivos. já que esses destinos nos permitem captar o que se passa nas subjetividades. nomeadas. interiores. individuais (e o são!) como as experiências sexuais ou desejantes. 2000. existência concreta. das recomposições desejantes. o que não significa que estejam para sempre prisioneiras de um único sentido ou significado. realidades lingüísticas. principalmente daqueles fundamentos que sustentam um caráter natural e/ou essencial para as identidades. Mesmo as experiências consideradas mais íntimas. dadas a priori. pois. não se trata simplesmente de um dado da natureza. Parafraseando Butler (2003) pergunto: podemos referir-nos a um “dado” sexo ou um “dado” gênero. tal como Foucault 86 .” (p.“Trata-se. estas perguntas remetem para a noção de sexo e de como esta noção é construída de dentro da matriz heterossexual (BUTLER.2003). Ou seja. que foi heterossexual e agora é homossexual? Com certeza. porém são vividas pelos sujeitos como se fossem. de pensar nos destinos do desejo na atualidade. está inscrito historicamente. estão inscritas na linguagem. o necessário trabalho de pôr em questão alguns dos “fundamentos normativos” que operam no sentido de confinar as subjetividades em “identidades”. ou seja. Nesse sentido. Comecei. do sentimento amoroso. singulares. essenciais. então. o que é o “sexo”? Qual a concepção de sexo que autoriza o uso da expressão “pessoas do mesmo sexo?” Estas perguntas já indicam a direção conceitual que irei tomar: acredito que o sexo tem história. significadas. uma das primeiras questões que coloco é: o que faz alguém se reconhecer. e da relação entre desejo/amor/sexualidade. Significa sim. nomear o que sente e o que vive enquanto algo homossexual? Heterossexual? Bissexual? Com base em que e no que pode o sujeito afirmar que o seu desejo é homossexual? Ou. O que não significa negar a sua materialidade. sua corporeidade. são tecidas ali. sem que haja uma investigação sobre como são dados o sexo e/ou gênero e por que meios? Afinal. afirmar na via de uma investigação crítica.

propõem na genealogia. da sua “natureza”. Algo como: gostou do que viveu. gostou da experiência. em uma determinada ocasião enquanto assistiam a um filme. lembrou que quando sua esposa viajava. Após essa experiência sexual com o amigo. ao invés disso. que as categorias fundantes do sexo. Tal como na crítica genealógica.”(Butler. Ao relembrar estes eventos. 18 anos. são efeitos de uma formação específica de poder. Marcos se casou. designando como origem e causa categorias de identidade que. uma identidade sexual genuína ou autêntica que a repressão impede de ver. e a experiência com o amigo na adolescência. e ele deixou. Por exemplo. Um amigo muito próximo. é uma formação discursiva que atua como fundação naturalizada da distinção natureza/cultura e das estratégias de dominação por ela sustentadas. lembra que começou a fazer comparações entre esta e as experiências sexuais que havia tido com namoradas. do sexo-comoinstrumento-de-significação-cultural. expressão. mas sentiu medo do que poderia vir pela frente (mudança de orientação sexual). pergunta se o que viveu na experiência com o amigo poderia ter precipitado sua “necessidade” de casar. irei trazendo alguns fragmentos das entrevistas que venho realizando com os meus informantes. Nesse sentido. são efeitos de instituições. MARCOS. nas suas palavras: “com ele senti prazer pela primeira vez”. antes disso somente quando criança. em brincadeiras com os primos. práticas e discursos cujos pontos de origem são múltiplos e difusos. que precisa ser “controlado”. a opção por casar-se com 87 . então resolveu casar para se proteger. gênero. meu informante afirma que durante o tempo em que foi casado não teve qualquer relacionamento homossexual. investigar as apostas políticas. isso estimulava fantasias. ele alugava filmes pornográficos gays. Trouxe lembranças sobre estratégias de encobrimento do desejo homossexual. E então percebeu. Foi a primeira experiência com alguém do mesmo sexo nesse período da vida. que para este informante o desejo sexual está compreendido enquanto algo. a verdade íntima do desejo. na verdade. entendo que não se trata de buscar as origens do gênero. intensa. Afora as experiências sexuais na infância com os primos. desejo. Reprimir o quê? Por quê?De que forma? Neste caso. um episódio que ocorrera por volta dos seus 17. começou a tocá-lo. 2003: 66) Para dialogar com a teoria. Conta que “rolou tudo” penetrou e foi penetrado. nunca concretizadas. Percebo através deste fragmento. reprimido. 32 anos: Lembra de um evento da sua adolescência. Poucos anos depois desta experiência. “o próprio conceito do sexo-como-matéria.

uma mulher foi uma tentativa estratégica. Onde localizar a estratégia de dominação? No fato de que este sujeito irá produzir. imediatamente. de amigos que tinham namoradas.Você era casado? Sim.. como se fosse uma tensão absolutamente natural. tinha aquela história de grupinho de colégio. inexoravelmente. Calígula. todas as crianças devem fazer isso. Aquilo me bloqueava logo em seguida. Mas na minha infância. Na época. eu tive uma experiência com um primo meu. íamos nos barzinhos. Tanto que todos os meus amigos da adolescência eram heterossexuais e eu também.. quando é a própria noção de “natural” que é forjada para produzir. Eu tinha muitas fantasias na adolescência. até conhecer a minha esposa.. Identidade homossexual.. Entendo que a sua fala remete para a tensão naturezaXcultura. Outro filme foi sobre a história de um padre que teve uma relação com um cara. As brincadeiras de guri. entre casamento e ideal heterossexual. Logo depois eu fiquei noivo.E quando adulto? Quando eu olhava um filme que envolvia um homossexual. do proibido. . O trocatroca.Você não fazia nenhuma questão de ver o que era? Não. Precisava encontrar um lugar na cultura. Como eram as tuas fantasias? Era uma coisa de corpo.E aí o que você pensava? Que não tinha nada a ver. tive uma namorada. fazia gozação.. PAULO. . . me deixava excitado. Aquela coisa de um segurar o pênis do outro. com a vida social do colégio. A gente brincava. . nada. uma identidade.. do contato. do beijo.E nunca rolou nada? Não. eu não queria nem pensar no assunto. de toque. uma identidade. Aquela relação dele. Mas acho que isso é normal. A estratégia de dominação está em fazer acreditar que a identidade é natural. por oposição e exclusão do que viveu. A questão é: ele não poderia desejar também a mulher? Acredito que sim. . Eu me casei com 27 anos. e não uma estratégia de dominação forjada pelas normas regulatórias do sexo. nunca mais. qual lugar: de homem heterossexual. quando eu tinha 8 anos. instituída historicamente.E as fantasias passaram? Sim. nada. Concursos de masturbação quando era mais guri. de nu. . Era neste sentido. Como se casando com uma mulher afirmasse o desejo heterossexual. por volta dos 26 anos. 46 anos: Isso estava adormecido dentro de mim. Mas aí. aquilo me despertava. Aparece aqui essa forte relação. Por que você tomava essa atitude? - 88 .

se eu gostava e se eu dava prazer. Então sim. porque eu tinha uma relação sexual que eu tinha prazer. uma casa . desde o início. Foi aí que eu comecei a questionar. “aquilo”. o desassossego. porque eu tinha escolhido outra vida pra mim. era tudo perfeito. e que era isso que eu queria. não sei. Na fala deste informante destaco as expressões “isso”. A minha relação de ser pai. eu estava me sentindo bem sexualmente. Do que está falando? Do controle? Não somente. Para não ficar “incoerente” precisa recorrer a uma identidade. Por isso que a categoria do “sexo” é.. Se você tem uma relação e se sente bem insatisfeito com ela. eu não cheguei a analisar muito bem isso. Foi aí que eu tive a primeira experiência. Não era o meu caso. 2000. Tinha prazer e dava prazer. “adormecido”.. p. normativa. percebi que eu gostei mais desta relação homo. Estava muito legal. para materializar o sexo do corpo e a diferença sexual a serviço da consolidação do imperativo heterossexual (Butler. Mas talvez possa ter sido por causa dos filhos. Eu não chegava a questionar isso. que uma característica atribuída ao sexo e muito articulada ao conceito de homossexualidade. Acordar “aquilo” significaria produzir uma incoerência. É tudo bem lógico no seu contexto. O que não poderia irromper? A natureza? Instinto? Muito interessante a tensão que ele refere entre o que “tinha escolhido” e aquilo que ele nem queria pensar. ter uma esposa. Porém. o sexo do homem e o sexo da mulher. é a propriedade de ser dividido em dois. Tem que procurar resolver isso. fala como se fossem experiências impossíveis de coabitarem no mesmo sujeito..” (BUTLER.155) As normas regulatórias do “sexo” trabalham de uma forma performativa para constituir a materialidade dos corpos. Tal característica fundamenta a idéia de heterossexualidade e homossexualidade. o que é o “coerente”? Aí percebemos a força da estratégia de dominação. é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa: “o sexo é um construto ideal que é forçosamente materializado através do tempo. por causa do meu casamento. alguma coisa está errada. Ele não é um simples fato ou a condição estática de um corpo. mas um processo pelo qual as normas regulatórias materializam o sexo e produzem essa materialização através de uma reiteração forçada destas normas.Olha.. Entretanto. É o desconforto. Tanto assim o é. 89 . Seria inominável? Perturbador? Este sujeito vinha mantendo uma coerência dentro daquilo que é socialmente esperado. Até que o próprio desgaste da relação trouxe à tona essas minhas fantasias. Eu não me sentia insatisfeito. Isso tudo tinha ficado adormecido este tempo todo. pois afirma ter tido experiências prazerosas e com muito sentido em sua vida. Então se eu sentia prazer. 2000).

(BUTLER. A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada exige e regula o gênero como uma relação binária em que o termo masculino diferencia-se do termo feminino. e mais do que isso. desejo e prática. ele está diretamente relacionado à sexualidade. 90 .Por que? Pela postulação dos princípios: atração pelo sexo oposto. para mostrar a marca do paradigma naturalista que estabelece uma continuidade causal entre sexo. mostrando sua fórmula socialmente instituída. em certo sentido. homem ou mulher. a “coerência” e a “continuidade” não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa. instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo. culpado ou envergonhado por apaixonar-se por homens e mulheres. “velho sonho da simetria”. normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas por uma concepção de gênero que pressupõe uma relação causal entre sexo. Supõe-se que a unidade metafísica dos três seja verdadeiramente conhecida e expressa num desejo diferenciador pelo gênero oposto – numa forma de heterossexualidade oposicional. gênero e desejo. E se referem porque estão acreditando que ele exista. E a coerência ou a unidade internas de qualquer dos gêneros. gênero e desejo. gênero. Os gêneros “inteligíveis” são aqueles que. gênero. Entendo que é a este “eu verdadeiro” que os informantes se referem quando remetem à noção de essência. um jovem de 19 anos escrevia em seu diário longas e ardentes cartas de amor para suas amadas Julia e Elizabeth e seus amados Anthony Halsey e John Heath. atração pelo mesmo sexo. sendo compreendidos como atributos expressivos de “macho” e “fêmea”. prática sexual e desejo. na Nova Inglaterra. É a visão do gênero como substância. exigem uma heterossexualidade estável e oposicional. ao contrário. no gênero e no desejo. Butler resgata a expressão de Irigaray. 2003) Para exemplificar estas noções de inteligibilidade enquanto coerência entre sexo. Albert Dodd não parecia constrangido. Então. Quem deseja o mesmo sexo? Quem deseja o sexo oposto? A estratégia de heterossexualização do desejo requer e institui a produção de oposições discriminadas e assimétricas entre “feminino” e “masculino”. mas. pois também está pressuposto aí que um “eu verdadeiro” é revelado no sexo. realizando-se essa diferenciação por meio das práticas do desejo heterossexual. trago um exemplo que tomei de Jurandir Freire Costa: “Em 1837.

além da sexual. Você tinha envolvimento sexual. Simplesmente.eu sou capaz de amar. e contrariamente ao período em que Dodd expressava seu amor tanto para homens quanto para as mulheres. não consigo. O fato de amar homens não o fazia representante de uma outra espécie de homem. foi imaginariamente rebatida sobre o casal heteroerótico. É até aqui e ali eu não passo. ao mesmo tempo. 1992.Dirigia-se à Júlia no mesmo tom em que dizia: ‘John. pecado contra a alma. p. A coisa não foi simplesmente assim. 91 . quatro filhos. simplesmente era capaz de sentir-se atraído por pessoas do mesmo sexo.. Já havia tido experiências sexuais com outros homens. É um pouco germânica a coisa. era.” (1992. Por que com esse? O que você acha que este teve que os outros não tiveram? Não sei. puro. realmente o amo. Não consigo. querido John. aberração moral. viril. eu o amo. Da primeira ‘paquera’ até o altar e depois ao berçário. Até que passou e eu não tive mais controle. a imagem de virilidade que tinha de si mesmo. porém sem vínculo afetivo. mantendo. p. Deus sabe que eu sou capaz de amar. 53 anos. tudo que podemos dizer sobre o amor está imediatamente associado às imagens do homem e da mulher.” (COSTA. Até aqui é aqui. O homoerotismo vivia sua era científica de culpa.93) Voltando aos meus informantes. agora. Por exemplo: FABIO. Dodd podia referir-se a seus amores masculinos na linguagem do romantismo. toda linguagem amorosa. penso que estes sujeitos afirmam uma experiência amorosa. “Em nossa cultura. O que sinto por você é uma amizade de um tipo mais forte. Sabe que eu sempre me fiz essa pergunta várias vezes.. Estou compartimentalizado. 25 anos de casamento. Antes.41) Porque nasceu antes da invenção histórica do homossexual. psíquica e cívica. e pensando nesta questão do amor que não ousa dizer o nome.. e assim o podia nomear. p. também.”(COSTA.. um amor sincero..43) Além disso.. para tanto foi transformado em “homossexualismo”: “Nos fins do século XIX a empresa chegava a seu termo. este “erotismo rebelde e indiferenciado” precisava ser controlado e redirecionado.. Porém. mas sem afeto? São os compartimentos. que é essencialmente a linguagem do amor romântico. O antigo ‘vício que não tinha nome’ transformara-se no ‘amor que não ousa dizer seu nome’. profundo e fervoroso. Como é que se consegue controlar isso? Explica. vergonha e maldição. 1992. Mas não consegui saber por que.

resolveu entrar. foi um sofrimento muito grande. E eu não tava preparado pra isso na época. Tanto que quando eu ia ao apartamento dele era sempre escondido.Foi um processo? Sim. ou seja. Foi um processo estranho. porque ele teve o carinho necessário. Foi quando eu realmente tive coragem e fui. 32 anos. E a minha ex-mulher começou a fazer. E era uma relação. duas quadras. uma chantagem emocional. Mas a relação já tinha terminado. parado e olhando para ele. PAULO. e ele. Fiquei separado da minha esposa. digamos assim. Ela me aceitou de volta. conversarem. um filho. na verdade. mesmo porque ela não sabia que estava tendo um caso com um homem. das orgias nos anos 20 e por aí afora e coisas do gênero. assim por diante. olhou e percebeu que era aquele rapaz “bonito” que estava no carro. um convívio. parou no viaduto próximo da sua casa e ficou contemplando a cidade. 42 anos. uma filha. . de certa forma. Ouviu uma buzina.. do seu caso. esse tipo de coisa toda. Eram casados praticamente. E não é correto estar com alguém só para ter uma experiência.Você voltou? Sim. Foi até o carro “tremendo todo”. Embora não vivessem juntos. dois filhos... Eu escondia da minha família. um processo. percebeu que os dois estavam “tremendo”. estava muito carente. mas de vez em quando olhava para trás e percebia que o homem continuava lá. ele era filho único. Ao que Marcos respondeu: “não 92 . E eu acabei ficando novamente envolvido. e ele foi fantástico. digamos assim. não tanto da minha mãe. já separado e tentando namorar a ex-esposa. Aí eu conheci o. o primeiro amor da minha vida. sete anos de casamento. que tudo que eu sentia pela minha mulher era uma coisa um tanto quanto forçada e. Foi na “recaída”. a paciência necessária. Os pais dele já sabiam.. eu queria estar mais com eles. 15 anos de casamento. Então. Foi um período de muito sofrimento pra mim e pra ele também. Terminei a minha relação com o Cláudio porque percebi que. foram. Ele sabia que você era casado? Sim. tanto da minha parte como da dele. 46 anos. sentia muitas saudades. Então o rapaz lhe disse: “sei que essa é velha. Ele tinha uma relação estável. eu não gostava dele. já conviviam com isso há muito tempo. ele sempre foi muito transparente. E a gente queria sempre estar junto. só queria ter uma experiência. na realidade. que um dia estava ele andando no centro de Porto Alegre em direção a sua casa (estava morando sozinho) quando parou em uma banca de revistas. da fronteira. que ela não casou virgem. Mas eu terminei a minha relação e voltei para a minha mulher. 15 anos de casamento. Eu voltei por causa dos meus filhos. Em termos de homossexualidade ele tinha muito mais experiência. apesar de na adolescência e na juventude ter tido muitas conversas com a minha avó a respeito de sexualidade. difícil. Nisso um homem passou por ele e fitouo nos olhos de uma forma incisiva. o rapaz o convidou para entrar. A gente se encontrava e o sexo era maravilhoso. seis meses. Aí eu realmente vi que não era . então não tinha problema nenhum. E eu sabia que ele tinha uma relação estável. Pensou: “que homem bonito. tinha muito mais vivência. porque em função da formação religiosa do meu pai. mas eu acho que te conheço”. desvirginado no universo gay. ZÉ. Foi uma grande paixão. Quando já havia se afastado do local. eu acho que quase dois anos. moravam muito próximos. Era ardente. apesar do pai dele ser gaúcho. MARCOS. Mas dois meses depois eu comecei a sair com o Claudio.” Continuou andando. só tinham casas separadas. Ele retribuiu o olhar.

É inegável que estas experiências produziram desestabilizações nos sujeitos citados. o sujeito pode efetivamente colocar a sua vida em risco. é possível afirmar que. 1 2 BUTLER. guardava lembranças do seu sorriso e carisma. definitivamente. G. Marcos ficou impressionado. porque é o colorido da vida. de desejo? No que está sustentada essa coragem? Acho que é amor. Chegou um ponto que não conseguia levar mais. . entrava nas salas. e o espaço para a expressão destas está sujeito a regras. Marcos responde que sim. inclusive pessoalmente. E por que estas experiências tiveram uma maior força de desestabilização do que as experiências exclusivamente sexuais? Podem ser consideradas práticas perturbadoras1? As emoções sempre têm uma dimensão social2. Fazia um ano mais ou menos que eu acessava a Internet. Mas. Foi um período muito difícil. porque houve muito. separar-se da esposa. E eu sempre achei que ia ficar somente nas brincadeiras. mas muito afeto. E eu. Os guris me ensinaram a acessar. somos colegas de profissão. Começamos na brincadeira e íamos levando. pois o registro biológico da vida seria permeado pelas pulsões. Por exemplo: FABIO: Faz três anos que nós nos conhecemos (se referindo ao atual companheiro). Na época eu era casado. 2002. Nesse sentido. que nunca ia passar disso. Aí eu encontrei colegas. Pode-se morrer de amor e de carência erótica. por minha conta e risco. lembrava do local. Ele então pergunta se Marcos competia na modalidade de ginástica olímpica. não foi em função dele. na realidade. e também que meu informante lhe chamou a atenção. prevista. . mas muito difícil mesmo. Era uma coisa que transbordava. entretanto a paixão trás algo de original e transforma o cotidiano. . pelo erotismo. O rapaz lhe fala de uma competição que tinha ocorrido há uns dez anos atrás. E vi quantas pessoas acessavam essas salas. 2003. Iniciaram um relacionamento. era uma história de amor.Você era casado ainda? Sim. A irrupção da paixão não está ao nível da representação consciente. Dentro de uma compreensão psicanalítica. Foi somente aí que Marcos decide.lembro de ti”. um processo lento de aproximação. A gente fazia umas brincadeiras. embora seja encarada como possibilidade. ao mesmo tempo em que é uma das formas mais dramáticas de vivenciar a existência e a relação com o outro. tanto física quanto afetivamente.Essa coragem que você tem é em nome do quê? De amor. VELHO.E que brincadeira era essa? Brincadeira no sentido de sexualidade. 93 .

Marcos diz que viveu uma condição heterossexual. A existência de algo inquietante que se impõe ao psiquismo e que estaria além do controle do sujeito. Para justificar seu autoconceito como gay ao invés de bissexual. Uma lógica que desse conta de explicar como e por que um homem que estava tão estabilizado dentro dos critérios de gênero tal qual conhecemos. perguntando-se de onde vêm? O recurso de remeter à “essência” vem responder um pouco a essa desestabilização. 1998.. e não bissexual como alguns chegam a pensar. está se dizendo que na sexualidade as dimensões da intensidade e do afeto são fundamentais. quando se enuncia que o sexual é permeado pela economia pulsional. estando então no registro do afeto e da afetação. Por exemplo: MARCOS. mas também percebe que sempre lutou e batalhou muito para anular o que chama de sua essência. novamente. de maneira a assujeitá-lo. à matriz de inteligibilidade cultural e tentar forjar um sentido para essa experiência.) a paixão é sempre algo que o sujeito sofre como paciente e nunca como agente. criando uma certa ficção particular sobre as origens. Como se procurassem por algo ou alguém responsável por isto.116) A pulsão afeta o sujeito. esta lógica da paixão produziu uma certa “desordem de gênero” nos sujeitos da minha investigação. Para a psicanálise. o fechamento de suas fendas. diz 94 . Desta maneira. Percebe hoje que sempre teve muita atração por homens. 32 anos. p.Conforme Birman (1998. indica os limites da racionalidade para lidar com essa irrupção. que é gay. ela põe o sujeito em movimento.. para barrar o abismo existente entre o dentro e o fora. Então. Atualmente Marcos assume para si mesmo e para alguns amigos mais próximos. pois a paixão toma literalmente o sujeito. 1999). é pelo erotismo que o sujeito busca a todo custo a completude corporal. no centro da leitura psicanalítica de subjetividade: “(. seria a incompletude corpórea e a não suficiência do sujeito o que criaria a condição de possibilidade do erotismo. por sua vez. no passado remoto.” (BIRMAN. Não tem registro? Muitos vão buscar na infância. dele se apodera. tanto que em uma conversa recente com sua exesposa disse a ela que teria encontrado sua cara-metade. funcionando pela lógica da paixão. considerando que teve uma relação heterossexual. Isso revela a dimensão de paixão que funda o conceito de pulsão que está. se perturba afetivamente por outro homem. Para dar conta disso penso que eles precisaram recorrer.

bem como os lugares subversivos de sua convergência e re-significação. 95 . “dentro deles”. 46 anos Você disse para si mesmo que era/é um homossexual? Sim. A noção de uma substância permanente é uma construção fictícia. com casos esporádicos. Então. O fato de os regimes de poder do heterossexismo e do falocentrismo buscarem incrementar-se pela repetição constante de sua lógica.. Por que? Eu era o que sempre fui: um homossexual. “aquilo”. Para que a heterossexualidade permaneça intacta como forma social distinta. Algumas se liberam. ao mesmo tempo em que estão referindo-se a algo que. sua metafísica e suas ontologias naturalizadas não implica que a própria repetição deva ser interrompida – como se isso fosse possível. outras não. Outras permanecem casadas. inclusive tinham uma boa relação sexual. ela exige uma concepção inteligível da homossexualidade e também a proibição dessa concepção.. acho que é o que acontece com todas as pessoas.que não sente mais tesão ou atração por mulheres. levando uma vida dupla. sempre esteve “neles”. eu não me tornei homossexual depois de 40 anos. com certeza.a unidade do gênero é o efeito de uma prática reguladora que busca uniformizar a identidade do gênero por via da heterossexualidade compulsória. nestes casos. Eu nasci assim. pareceu-me uma forma de realocarem-se em uma identidade. mediante um aparelho de produção excludente. Acho que as pessoas são gays porque têm isso dentro delas. supostamente. Por que eu sou gay? Porque a minha mãe deu mais atenção para o meu pai? Há tantos casais que fazem o mesmo e nem por isso os filhos se tornam gays. Você nasceu assim? Com certeza. A regulação dos atributos de gênero se dá conforme linhas de coerência culturalmente estabelecidas: “. A força dessa prática é. ‘homossexualidade’ e ‘bissexualidade’. por ser tão íntimo torna-se desconhecido. todos os homossexuais nasceram assim. E se a repetição está fadada a persistir como mecanismo da reprodução cultural das identidades. Ninguém influencia. Sentia tesão por sua ex-mulher no início do casamento. Não é à toa que os sujeitos usam as expressões “isso”. porque não é a praia deles. Muitas vezes o pai e a mãe têm uma relação normal e o filho é gay. restringir os significados relativos de ‘heterossexualidade’. Recorrer à essência. Essência como sinônimo de substância. PAULO. produzida pela ordenação compulsória de atributos em seqüências de gênero coerentes. tornando-a culturalmente ininteligível. Outras nunca tiveram essa experiência. você bloqueava? Sim.

O que é ousar dizer o nome? Por que esta relação com o amor? 3 COSTA. Nestas situações não se diz o nome. Ousar. porém sem implicação amorosa. No entanto. Sou macho. Ato por ato. respondem: isso é coisa de viado! De gay. é uma ação desejante. olhar. Ousar dizer o nome. heterossexuais: no exercício de algumas fantasias eróticas eles podem experimentar tocar o sexo de outro homem. 2003. mesmo entre aqueles casados. p. o nome próprio. Ou seja. Isto não estaria evidenciando o dilema identitário? Porém. transar. não se trata simplesmente de pensar em identidade. mas é plenamente excluído da cultura dominante.daí emerge a questão crucial: que tipo de repetição subversiva poderia questionar a própria prática reguladora da identidade?” (BUTLER. plenamente dentro da cultura.57) Que tipo de repetição subversiva poderia questionar a própria prática reguladora da identidade? Nesse sentido. com certeza. na desestabilização de um arranjo. quando há a experiência perturbadora dos afetos e o desdobramento desses afetos na prática sexual. Isto implica em uma outra posição do sujeito naquela experiência. mas de quem é não importa muito. pois tanto pode ser subversivo quanto não ser. assim. porém é regra o anonimato. fruto da matriz de inteligibilidade heterossexual. O “impensável” está. principalmente entre o sexo e o amor. olhos com pênis. não precisa ser nomeado. mesmo nas configurações homoeróticas há a inscrição em modelos sociais vigentes. É como se a relação se desse entre “partes” do corpo. por estar diretamente associada com a relação homoerótica. isso me parece subversivo. Pensemos nas práticas muito comuns entre homens. Nas salas de sexo na Internet. 1992. pênis com pênis. alguns homens heterossexuais se permitem dizer para outro homem: quero sexo. Associo impensável com a expressão: “o amor que não ousa dizer o nome”3. onde está o sujeito nesta ação? Que. Quando deparados com alguma pergunta sobre envolvimento amoroso com outro homem. pênis com ânus”. Concordo com Butler quando ela afirma que a repetição é muito difícil de ser interrompida. o que venho escutando dos meus informantes é algo ambíguo a esse respeito. E a relação destes com as normas de inteligibilidade dos gêneros. mas nos elementos envolvidos aí. 96 .

São identidades sócio- 97 .(.” (Costa. esteve ali. de fato têm. e não o de reinventar o desejo. substância. que lutou contra tudo e todos para se tornar presente. É também a cultura das identidades. nomear. cristalizando-a. nem dependem exclusivamente de pretensos fatores biológicos para serem reconhecidos como realidades subjetivas particulares. como. uma enorme força performativa na definição das subjetividades humanas.. de “verdade última do sujeito”. Também é uma forma de dizer: o mal inevitável ou. Homossexuais e heterossexuais não são realidades lingüísticas ilusórias ou delirantes. Afirmar sua presença. a minha condenação. perversos. sabe-se apenas que. homossexuais. tanto que ela própria se torna um ideal normativo ao invés de uma característica da experiência. 1992:15. considerando que subjetividade pode ser compreendida como “um efeito das linguagens. Tomar um desejo enquanto algo da natureza é uma forma de afirmar que se sabe não sabendo. gênero e sexualidade. bissexuais.Indo além. Também muito associado a uma lógica do sofrimento. normais. Dizer. para se referirem ao Mal usavam as expressões: “Aqueles que não devemos pronunciar”. atiçar. em que uma das estratégias usadas por aqueles de posição social dominante e que detinham um saber. se materializar. das práticas lingüísticas que determinam suas regras de formação e reconhecimento privado e público. precisa do discurso do reprimido. doentes.. E esta é uma observação importante quando se trata das identidades sexuais: “Heterossexuais. “identidade” é assegurada por conceitos estabilizadores de sexo. provocar. desde sempre. Entendo que tais ideais normativos inscrevem-se pela linguagem. onde a invenção não tem lugar. lembro de algumas passagens dos filmes A Vila e Harry Potter. Acompanhado dessa idéia está uma noção muito forte do “reprimido”. principalmente pela sua força performativa na construção das subjetividades. saber. Para Butler (2000). sadios ou desviantes sexuais não existem “na natureza”. 1995) As realidades subjetivas são realidades lingüísticas. conhecer. Para ser percebido como essência. Vivemos em uma cultura presa à noção de essência. “Aquele que não devemos dizer o nome”. anormais. O trabalho das subjetividades seria um trabalho de lutar contra o que reprime. invocar. E realidade psíquica ou lingüística é tudo que tem efeitos performativos sobre as subjetividades. Tanto é essência.) São seres verbais ou figuras de discurso que podem ter.

p. de forma alguma. pois. simplesmente. Não se pode. uma função de diferenças materiais que não sejam. pensar.. seus contornos.”(COSTA. Ao invés disso. podendo colocar as normas do sexo em uma crise potencialmente produtiva. POSSIBILIDADES OUTRAS. não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável. como o efeito mais produtivo do poder.155) 4 Conceito fundamental no discurso psicanalítico. será plenamente material. Este caráter de “construído” vai ser enfocado através de diferentes campos do conhecimento. mas a materialidade será repensada como o efeito do poder. seus movimentos. etc. amar. até a psicanálise. Portanto. O ‘sexo’ é. a diferença sexual4 não é. 98 .43) A noção de que pode haver uma “verdade” do sexo. algo que escapa à norma.. completamente. p. simultaneamente marcadas e formadas por práticas discursivas. sentir.” (2000. quer como um suposto sexo. a materialidade do corpo não pode ser pensada separadamente da materialização daquela norma regulatória. o caráter imutável do sexo é contestável. que condicionam nossas maneiras de viver. de alguma forma. conceber o gênero como um constructo cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria – quer se entenda essa como o ‘corpo’. e está justamente nessa instabilidade a possibilidade desconstitutiva no próprio processo de repetição. é produzida precisamente pelas práticas reguladoras que geram identidades coerentes por via de uma matriz de normas de gênero coerentes. mas também se produzem instabilidades. Então. e pela ação do recalque que o sujeito se subjetiva enquanto masculino ou feminino. 1995.culturais. por ser um construto tão culturalmente construído quanto o gênero. tal como denomina Foucault. uma vez que o próprio ‘sexo’ seja compreendido em sua normatividade. às normas pelas quais sua materialização é imposta. sempre há instabilidades e possibilidades de rematerialização: “o que constitui a fixidez do corpo. é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural. O sexo adquire um efeito naturalizado. desde as teorias construtivistas na produção contemporânea da antropologia no campo das sexualidades. Butler ressalta que os corpos não se conformam. sofrer. pois é através do reconhecimento da diferença sexual. nunca.

53 anos Você se define hoje em dia como homossexual? É. Marca em que sentido? Acho que o homem tenta justificar a supremacia da raça em outra vida. Logo que eu voltei. à matriz de inteligibilidade heteronormativa. como essência. com certeza. E esta é uma estratégia de dominação. de assumir. Entretanto. Eu morei dois anos e meio na Espanha. Por quê? Eu estou feliz com a relação que estou tendo. Amigos também. em termos do dia-a-dia inclusive. Cortou. De assumir? Sim. Entendo que é uma estratégia própria às normas de regulação dos sexos. Isso foi opção. selecionou. eu tinha 44 anos.FABIO. anteriormente não. em 1996. Você passa a ter outra percepção das coisas. se é a natureza. Eu me acidentei e fiquei em coma. E eu tive a nítida sensação de que ali terminaria tudo. Esta foi uma das coisas. essa é a essência daquela experiência. As coisas mudaram muito E isso marca muito. acredito que tais experiências podem ser consideradas focos de disseminação de “desordens do gênero”.. Este informante valoriza um aspecto da experiência de vida associado ao reconhecimento das possibilidades de mudança.. A sensação é de que temos de viver bem aqui. A opção foi agora. Na verdade. Você alguma vez pensou nisso? O que será isso em mim? De onde vem? Eu acho que não é opção. É uma coisa que me deixou feliz e intenso. de regulação identitária. até mesmo porque não ter o reconhecimento social como heterossexual efetivo é perder uma identidade social possível em troca de uma que é radicalmente menos sancionada. etc. e sim. Em valores gerais. Há um grande debate sobre se é opção. como propõe Butler (2003). que não podem ser tomados como experiência. práticas perturbadoras e até mesmo subversivas. 99 . uma forma de afirmar que podia “escolher”. A minha vida tem esse marco. dos desejos. Desgrudou-se de alguma coisa. Eu passei a ser muito seletivo. FINALIZANDO Os informantes se reconhecem em uma natureza sexual. se é a cultura etc.

(org. BUTLER. __________. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2001. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.). 2003.BIBLIOGRAFIA BIRMAN. Joel. 1999. desamparo e feminilidade – uma leitura psicanalítica sobre a sexualidade. Erotismo. Gramáticas do erotismo: a feminilidade e as suas formas de subjetivação em psicanálise. M. BIRMAN. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. A sexualidade nas ciências humanas. In: LOYOLA. Rio de Janeiro: EdUERJ. Judith. 100 . J. 1998.

Paixão e ternura: um estudo sobre a noção do amor na obra freudiana. In: PARKER. FOUCAULT. Michel. A inocência e o vício : estudos sobre o homoerotismo.). 4ed. 2002.). G. A sexualidade nas ciências humanas. 2002. 1996. e BARBOSA. Regina (orgs. 2ed. 101 . (org. Rio de Janeiro : Relume-Dumará. ___________________ . Belo Horizonte: Autêntica. Rio de Janeiro : Graal. Sexualidades brasileiras. 10ed. São Paulo: Escuta. O referente da identidade homossexual. COSTA. Rio de Janeiro: EdUERJ. Ana Lila. R. 2000. LEJARRAGA. VELHO. (org. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Guacira L. O corpo educado: pedagogias da sexualidade.. 1988. Rio de Janeiro: Relume Dumará: ABIA: IMS/UERJ. Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Maria A. 1985. 1998. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Jurandir Freire. 3ed. Rio de Janeiro : Graal. A face e o verso. _________ .BUTLER. LOYOLA. ____________________ . Estudos sobre o homoerotismo II. _______ . Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1992. Judith. In: LOURO. FAPERJ. 1995. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”.). História da sexualidade 1: a vontade de saber.

br TÍTULO: “Quem Precisa De Filhos?” Afirmação De Gênero Nas Construções De Parentalidade De Homens Gays. Levanta-se a hipótese de que a existência dos filhos é uma das possibilidades encontradas para reafirmação da identidade masculina nos homossexuais e feminina nas travestis e transexuais. e como essas representações se constituem enquanto elementos legitimadores da sua identidade de gênero. Busca-se analisar como pessoas até então consideradas não capazes de constituir “família” passam a construir novas configurações familiares. considerando as identidades e as posições relacionais dessas pessoas em seus grupos familiares (re)construídos. de gênero e de orientação). Travestis E Transexuais RESUMO: O trabalho se propõe a refletir sobre como homens homossexuais. 102 .AUTOR/A: Elizabeth Zambrano INSTITUIÇÃO: UFRGS E-MAIL: elizamb@terra. Considera-se as inúmeras possibilidades dessas combinações e as dificuldades de classificação daí decorrentes. que tem ou pretendem ter filhos. acionam representações de parentesco. Pensa-se que o uso do termo “familia homoparental” exige a explicitação de uma “identidade” dos pais (de sexo. travestis e transexuais. Os dados sobre os quais se embasa esse trabalho fazem parte da pesquisa do projeto “Direito à Homoparentalidade”.com. com apoio do PROSARE e Fundação McArthur. em andamento desde setembro de 2004.

Grupo de Trabalho 9 : Família. Argentina gradimarco@sinectis.ar democ@unsam. Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta .edu.UFSC e Anna Paula Vencato . Coordinadora Programa de Democratización de las relaciones Sociales. Escuela de Posgrado Universidad Nacional de San Martín.UFRJ Ponencia: Familias y Democratización Graciela Di Marco.VI REUNIÓN DE ANTROPOLOGIA DEL MERCOSUR. Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate.com.ar .

regional y nacional. la Convención sobre la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra la Mujer (Naciones Unidas. Esta ponencia resume los puntos centrales desarrollados en el libro: Di Marco. Reforma laboral: Estímulo al Empleo Estable: incorporación de dos incentivos para el empleo de mujeres. aprobación de la Convención sobre la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra la Mujer. la Convención Interamericana para prevenir. Ratificada por Ley Nº 23. 1994). artículo 75. el Pacto de San José de Costa Rica. permite corroborar una mayor afirmación de sus derechos. Introducción. la Convención sobre los Derechos del Niño (Naciones Unidas. la desigualdad. inciso 22. * Esta ponencia y las presentadas en los grupos de trabajo once y veintinueve se articulan . reforma el Régimen de Patria Potestad y Filiación del Código Civil. Hijos de la libertad I.2 Sin embargo. 1990). Participación Femenina en las Unidades de Negociación Colectiva de las Condiciones Laborales (Cupo Sindical Femenino). Protección contra la violencia familiar. el maltrato y la violencia no han desaparecido. sexo o religión. Graciela (2005) Democratización de las Familias. creación de un Sistema de Inasistencias Justificadas por razones de Gravidez. OEA. en el capítulo cuarto. institución del Día Nacional de los Derechos Políticos de las Mujeres.Familias y Democratización. lo que se confirma en cambios visibles y en los diferentes instrumentos de regulación jurídica que se han generado en el nivel internacional. la libertad y la democracia no sólo en forma de gobierno. decreto sobre acoso sexual en la Administración Pública Nacional. la discriminación. Decreto Plan para la Igualdad de Oportunidades entre Varones y Mujeres en el Mundo Laboral. delitos contra la integridad sexual. Las leyes sancionadas en estos veinte años de democracia son las siguientes: ley que otorga el derecho a pensión del/de la concubino/a. pues. Cuota mínima de participación de mujeres. UNICEF. divorcio vincular (1987). sumada a su papel activo y protagónico en las luchas sociales. impulsadas por las Naciones Unidas. ya que forman parte del acervo de reflexiones que estamos realizando en el Programa de Democratización de las Relaciones Sociales de la UNSAM En el nivel internacional: Conferencias Mundiales sobre la Mujer. aprobación de la Convención Interamericana para prevenir. Decreto Igualdad de Trato entre Agentes de la Administración Pública Nacional.179 del año 1985). 1979). sino también en forma de vida? Ulrich Beck. Reforma laboral: introducción de la figura de despido discriminatorio por razón de raza. acompañada por una creciente conciencia de su situación desigual. La incorporación en los últimos treinta años de las mujeres en el mercado laboral. sancionar y erradicar la violencia contra la Mujer. En el nivel nacional: La reforma de la Constitución de la Nación de 1994.1 ¿Cómo se convierten. sancionar y erradicar la violencia contra la mujer (Belem do Pará. Régimen Especial de Seguridad Social para Empleados/as del Servicio Doméstico. establece que los tratados de derechos humanos tienen jerarquía constitucional: la Convención sobre la Eliminación de todas las formas de Discriminación contra la Mujer (aprobada por la Asamblea General de las Naciones Unidas. Convención de Belem do Pará. 2 1 104 . modificación del Código Penal.

familias ensambladas. educación. divorcios. separaciones. nuevas uniones. Para ello. enfatizando la planificación estratégica de las acciones que se emprendan. Estas nuevas formas muestran cómo los lazos familiares se crean y recrean continuamente. mediante la redefinición de las relaciones de autoridad y poder entre mujeres y varones y el reconocimiento y puesta en práctica de los derechos de la infancia. así como sobre las relaciones de autoridad masculina. con el fin de estimular el respeto y la autonomía en su educación. niñas y adolescentes. Las formas familiares emergentes muestran diferentes relaciones de afecto. En La Argentina hemos desarrollado un programa de democratización de las familias como construcción de aportes para el impulso de nuevas políticas públicas dirigidas a los miembros de las familias considerados como sujetos de derecho. 105 . salud. de subordinación femenina y de ejercicio de poder de los adultos y adultas sobre niños. niños y adolescentes.Por otra parte. en un marco de cuidado y de interdependencia mutuos. Con este propósito buscamos que el ejercicio de la autoridad de adultos y adultas se desarrolle en un contexto de seguridad y confianza para aquellos. justicia y derechos humanos. tanto dentro de la familia como en las relaciones sociales en general. ponemos el acento en la dimensión política de las relaciones de género y en la necesidad de una reflexión crítica sobre los valores y las costumbres culturalmente arraigados y sostenidos desde el sistema patriarcal. a nivel provincial y municipal. las tendencias actuales muestran las profundas modificaciones que se están produciendo en las familias: retraso en la formación de parejas y vida en común sin matrimonio. de sostén y de reproducción. La propuesta de democratización de las relaciones familiares pretende la construcción de políticas públicas integradas que articulen los esfuerzos de varias áreas: desarrollo social. trabajando desde dos ejes fundamentales de intervención y análisis simultáneos: la equidad de género y los derechos de niñas. en un marco que promueve la articulación entre la ética del cuidado y la ética de los derechos. familias con un solo progenitor. El punto de partida de esta propuesta es la necesidad de elaborar estrategias para evitar o mitigar la incidencia y reproducción del autoritarismo y la violencia. varios grupos familiares emparentados que deciden compartir una vivienda por deterioro de las condiciones económicas. promoviendo una convivencia basada en el respeto de los derechos y en el cumplimiento de responsabilidades. además de su protección y cuidado.

El enfoque está basado en la perspectiva de derechos humanos, por lo cual consideramos que la intervención del estado para recoger experiencias de transformaciones en marcha, y multiplicarlas en otras poblaciones, está vinculada con aquellos, ya que el extremo del autoritarismo en las familias se traduce en violencia contra las mujeres y niños/as, que son consideradas violaciones de los derechos humanos. La familia ha sido la institución patriarcal clave como generadora de relaciones autoritarias y desiguales. Por tal motivo las políticas públicas que se replantean a cada uno de sus miembros como sujetos de derechos se proponen promover la igualdad de oportunidades entre hombres y mujeres y el fortalecimiento de los vínculos basados en la autonomía de sus miembros. Por estas razones, el programa que desarrollamos puede contribuir a las transformaciones en varios niveles: En las relaciones familiares, para el desarrollo de relaciones más democráticas, que favorezcan la igualdad de oportunidades para mujeres y para varones y la elaboración pacífica de los conflictos, y que contribuyan al descenso de la violencia ejercida hacia las mujeres, niños y niñas. En el estado, para la construcción e implementación de políticas integrales desde una perspectiva de democratización, basadas en la ética de los derechos y la del cuidado. En el de las diversas acciones que realizan los profesionales en las áreas sociales del estado, para la profundización de las prácticas que permiten la convergencia de los derechos, en especial, de las mujeres y niños y niñas. II. Marco conceptual La base teórica está constituida por el conjunto de las investigaciones que venimos realizando desde 1989 en Argentina.3 Como resultado de las mismas, hemos hallado dos prácticas que tienen un potencial transformador del autoritarismo en las familias: a) la acción colectiva de las mujeres, en el caso de que se trate de un espacio genuino de desarrollo de capacidades sociales y personales -y no cualquier tipo de participación- y b) las prácticas de negociaciones democratizadoras al interior del grupo familiar, que permiten instalar, mediante un discurso de derechos,

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Di Marco, 1992, Schmukler y Di Marco,1997, Di Marco y Colombo,2001, Di Marco, 2002

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nuevas formas de ejercer la autoridad familiar entre varones y mujeres y enfrentar los conflictos, teniendo en cuenta el desarrollo hacia la autonomía de los niños, niñas y jóvenes. Estas prácticas pueden ser impulsadas – tanto a nivel de los decisores políticos, de los agentes de las áreas sociales, como de la misma población- a través de propuestas elaboradas desde un enfoque que considere las relaciones entre hombres y mujeres como relaciones de poder asimétricas. Este programa se basa en la perspectiva de ampliación de la ciudadanía y propone promover activa y simultáneamente los derechos de las mujeres y de niños, niñas y jóvenes en los grupos familiares. Nos referimos a la ciudadanía como el derecho a tener derechos, asumiendo una conceptualización que no considera a la ciudadanía como una propiedad de las personas, sino como una construcción histórica y social, que depende de la sinergia entre la participación y la conciencia social. II. I La construcción de la perspectiva de democratización de las relaciones familiares. En este apartado mencionaremos algunas notas distintivas de los procesos de democratización social. Este concepto especifica los procesos de cambio del autoritarismo y la desigualdad de poder y de los recursos existentes en las instituciones públicas y privadas, y los mecanismos participativos que facilitan la incorporación a la ciudadanía de actores desplazados tanto en virtud de su género, como por su edad, religión, etnia, etc. Nos referimos a un progresivo aunque contradictorio desarrollo de una cultura democrática a nivel macro y microsocial, con valores tales como la participación, el pluralismo, la desnaturalización de la dominación, la redefinición de la autoridad y el poder, la concepción de la vida cotidiana como lugar, no sólo de las pequeñas cosas, sino como fermento de la historia (Hopenhayn, 1993, Heller, 1977). Los procesos democratizadores se vinculan a la revisión de los supuestos que sustentan las bases de la autoridad, la explicitación de la desigualdad para los actores marginados o subordinados, la distribución de los saberes y recursos de un colectivo social. La toma de conciencia de los actores institucionales, acerca de los

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mecanismos que permiten la desigualdad social, es parte incuestionable de la democratización, ya que fomenta la ampliación de la ciudadanía. El discurso de derechos hace visible y legible al poder, lo desmitifica y permiten revisar y deconstruir los viejos contratos y acuerdos autoritarios de la sociedad, en los niveles macro y micro-políticos. Estos discursos incorporan el reconocimiento de las diferencias, la búsqueda de la dignidad, la desmitificación de las relaciones de poder establecidas, la construcción de interdependencias entre actores y organizaciones, permitiendo la democratización de la democracia (Giddens, 1992). La democratización no se refiere únicamente a la dimensión política, sino que avanza a hacia las diferentes esferas en las que se construye -o no- el discurso democrático, entre ellas, las relaciones familiares. Las familias pueden ser los ámbitos del amor, la intimidad, la seguridad, y simultáneamente, los de la opresión y la desigualdad, tanto en las relaciones de género, como en las de las generaciones, estabilizando conflictos surgidos de la naturalización de las relaciones de subordinación (como la violencia y abuso hacia mujeres y niños y niñas o personas mayores). Desde el enfoque de democratización se pone el acento en que las mujeres puedan posicionarse desde un lugar de autoridad y poder en sus relaciones, y que este proceso forme parte de una ampliación del reconocimiento de sus derechos. En consecuencia, más que referirnos a procesos de empoderamiento, preferimos considerar los procesos de reconocimiento del poder de las mujeres en diversos ámbitos, esto es, reconocimiento de la legitimidad de ese poder (autoridad), siendo un eje central el proceso de reconocimiento de su autoridad en la familia. La perspectiva de democratización de las relaciones familiares es un proceso abierto, que se nutre de diversos aportes teóricos, articulándolos en un marco conceptual que permita fundamentar políticas y acciones vinculadas con las familias, tal como lo hemos expresado en el desarrollo del libro. Para finalizar, proponemos la posibilidad de repensar la autoridad (y el poder), no dentro de la lógica del patriarcado, donde hay un solo vértice en la pirámide, sino con otra lógica por construir, donde la autoridad pueda ejercerse situacionalmente y no dependa de una jerarquía que otorga privilegios basados en criterios tradicionales.

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Además, es necesario incorporar en las políticas sociales nuevas dimensiones: las de la mutualidad o interdependencia, la asistencia, el cuidado y las emociones (Tronto, 1994; Shakespeare, 2000; Shanley, 2001). Se trata de la elaboración de discursos que articulan la justicia y el cuidado -de uno mismo y de otros y otras- y los derechos de los que reciben asistencia a ser parte activa en la definición de sus necesidades (especialmente en el caso de ancianos y discapacitados), sin que los que los cuidan los subordinen. El aspecto del cuidado vinculado a la interdependencia existe como encuentro de sujetos autónomos: todos y todas necesitamos cuidar, y ser cuidados, para que la vida social tenga sentido. Esta tarea, que ha estado centralmente a cargo de las mujeres, es así reconsiderada para ser la responsabilidad tanto de las mujeres como de los hombres. Vincular la ética de los derechos con la ética del cuidado permite avanzar en una concepción de la política social que tiene presentes a los sujetos en su integralidad. La articulación interdependiente de la redistribución, el reconocimiento, el cuidado, el respeto a la integridad corporal, está íntimamente ligada a la democratización de las relaciones sociales, especialmente las de los grupos familiares. Por estas razones, el enfoque de democratización familiar: pone el acento en las relaciones de poder y autoridad; considera que los desafíos actuales se centran en la ampliación de las ciudadanías, con una concepción de simultaneidad de derechos, que no pueden ser abordados por etapas. Los ejes centrales son la igualdad de género y los derechos de la infancia. Los derechos de los niños y niñas son específicamente tomados en cuenta, especialmente en las relaciones en los hogares, pero también en las escuelas y en otras instituciones; se ubica en la interacción entre políticas de distribución y reconocimiento para acercarse al ideal emancipatorio de la justicia social; introduce la concepción critica de los enfoques de las masculinidades para repensar la equidad de género; intenta dar mayor visibilidad teórica y práctica a las dimensiones vinculadas a las emociones, el cuidado, la interdependencia y la mutualidad;

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enfatiza el ejercicio de maternidades no subordinadas a lo privado doméstico, sino maternidades sociales, que convierten las necesidades vinculadas a sus hijos e hijas en acciones políticas.

II.II Ciudadanía, derechos, justicia social. Consideramos de central importancia el desarrollo de las condiciones necesarias para que las personas desarrollen capacidades para elegir la vida que quieren vivir, reconociendo la diversidad y heterogeneidad de las necesidades, vinculadas con las diferencias personales - sexo, edad, incapacidad, enfermedad- con el medio ambiente, con las relaciones sociales en un contexto determinado, con la distribución del poder dentro de la familias. La capacidad de participar en las decisiones que se tomen en el conjunto de la sociedad, es una dimensión central para evaluar la calidad de vida de ese conjunto social (Sen, 2000: 94) El derecho a un nivel de vida adecuado se vincula con la ciudadanía social, más allá de la posición económica del individuo, así como de su desempeño en el trabajo o cualquier otro ámbito de mercado. Se trata de una concepción de la solidaridad social amplia, colectiva y universalista, que alcanza a la población entera, por contraposición al enfoque focalizador de la asistencia social, estigmatizador para los receptores. Nos referimos con esto a las políticas que focalizan en virtud de la asignación de recursos, y no a aquellas que Consideramos propician acciones afirmativas (discriminación positiva) para conjuntamente los dos aspectos centrales de la justicia: la aboga por un colectivos en desventaja, con el fin de lograr una posterior igualación. redistribución y el reconocimiento (Fraser, 1997). La autora citada

paradigma que pueda contener a ambos. Los reclamos redistributivos (productos de la injusticia socioeconómica), se vinculan a un reparto más justo de bienes y recursos, y los de reconocimiento de las diferencias (productos de la injusticia cultural), a una aplicación más amplia de los derechos de las personas, que no esté ligada exclusivamente a las normas y valores culturales considerados “normales” o naturalizados. Fraser puntualiza como núcleo normativo de su concepción la idea de paridad en la participación: la justicia requiere que todos los miembros de la sociedad sean considerados como pares, para esto es necesaria la distribución de bienes materiales que asegure la independencia y la “voz” de los participantes y que las pautas

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culturales de interpretación y valor aseguren la igualdad de oportunidades y el respeto por todos/ as. Se enlazan, entonces. la justicia social y económica, la identidad y el reconocimiento, la redistribución y la participación. (García y Lukes, 1999). Raczynski (1998) presenta la siguiente categorización de las políticas sociales: políticas de inversión en servicios básicos de educación y salud, políticas y subsidios para vivienda, equipamiento comunitario e infraestructura sanitaria; políticas de apoyo a la organización social y de capacitación para proveer de información para tener “voz” y participar en la toma de decisiones; políticas laborales y de remuneraciones, , políticas asistenciales, de empleo de emergencia o de transferencias directas de dinero y/o bienes. Los programas que apuntan al reconocimiento, se concretan en el tercer tipo de políticas mencionadas en el párrafo anterior, aquéllas que contribuyen a la igualdad de oportunidades, favoreciendo las organizaciones colectivas, que intentan contribuir a la democratización de las relaciones sociales, a través de promover la participación, la capacidad para tener “voz” en los asuntos que nos competen. La propuesta de Democratización de las relaciones sociales como política social puede ser considerada cómo una política de reconocimiento, pues pone el acento en la afirmación de los derechos de las mujeres y de niños, niñas y adolescentes y la puesta en práctica de estrategias para hacerlos cumplir efectivamente y en forma simultánea.. La redefinición de la autoridad femenina, replanteando las relaciones de poder y subordinación entre los géneros y la transformación de los contratos autoritarios que naturalizan la subordinación femenina y que no contemplan en toda su magnitud los derechos de la infancia, son dimensiones centrales del mismo. La interdependencia entre participación y conciencia social es una base fundamental para el desarrollo de procesos democratizadores, pues es en la acción colectiva donde se pueden iniciar y desarrollar estas transformaciones. En el enfoque se pone el énfasis en repensar el poder y la autoridad, tomando como eje las dificultades de reconocimiento de la autoridad de las mujeres, esto es, de la legitimidad de sus decisiones, basadas en sus deseos y necesidades. El enfoque de poder, autoridad y comunidad que desarrollamos nos ha llevado a apartarnos de la

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La posibilidad de repensar los modos autoritarios de relación familiar. es posible que se expresen acuerdos. los relacionados con los modelos (convencionales o no) de género y autoridad. Desde este enfoque de derechos se contemplan todas las diferencias que generan desigualdades. por lo tanto. discapacitados y discapacitadas5. entonces. La 4 5 ver libros citados. pueden ser comprendidas como los sitios de la reproducción de valores y normas culturalmente tan arraigados que se los considera “naturales” o bien como aquellos sitios donde se cuestionan y se cambian las reglas. o como el lugar donde se configuran y recrean sistemas de creencias y prácticas acerca de varias dimensiones centrales de la vida cotidiana. además de las nuevas concepciones que se van construyendo acerca de las masculinidades. como las personas mayores. de la desigualdad y el autoritarismo. en los que se respeten las diferencias de cada uno o cada una. 112 .noción actual de “empoderamiento”. dimensiones necesarias para promover una transformación democrática de las relaciones de autoridad en las familias. que someten a niños. es decir. donde se producen procesos de transformación. Las familias. II. El papel de las familias en la socialización de las generaciones jóvenes puede ser considerado como el de simple reproductor de los patrones de jerarquía por sexo y edad. La incorporación de las reflexiones acerca de las construcciones de la masculinidad que proponemos se sustenta en la necesidad de promover vínculos entre hombres y mujeres. aunque desde el programa que desarrollamos nos centremos estratégicamente en los derechos de las mujeres y de la infancia y adolescencia. entre ellos. niñas y mujeres a situaciones de violencia (verbal. desacuerdos o prácticas contradictorias en relación con esos patrones culturales. para que estas diferencias no se conviertan en motivos que justifiquen la desigualdad y la subordinación y. es una forma de comenzar a plantear el desarrollo de otras relaciones autoritarias. por esto hacemos hincapié en la noción de democratización4. no interfieran en la construcción de la ciudadanía plena para hombres y mujeres. niñas y adolescentes y de otros miembros de la familia. física) y facilitan el desarrollo de más violencia en una escalada en la que todos y todas se involucran.III Categorías teóricas clave. En las interacciones familiares. Esta perspectiva incluye la concepción integral de los derechos de niños. emocional.

Para aproximarnos a la democratización de las relaciones en los grupos familiares. Nuestro objetivo es repensar la organización desigual de las relaciones familiares de manera tal que hombres y mujeres puedan tomar conciencia de sus posibilidades de transformarlas. la escuela. ya que su impulso ha permitido transformar muchos aspectos de la realidad en los últimos años. el hospital. desvalorización. para favorecer el ejercicio de una autoridad democrática Somos conscientes de la multiplicidad y de la diversidad de comportamientos y conductas que asumen las personas en sus relaciones cotidianas. se formula una estrategia conceptual que apunta a las causas profundas del autoritarismo y la violencia. Las elaboraciones teóricas y las discusiones conceptuales que planteamos pretenden dar cuenta de una situación histórica y culturalmente creada de desigualdad entre hombres y mujeres (desigualdad que asume diferentes formas: descalificación. Para que las formas de convivencia más democráticas se transformen en estilos de vida se requiere un cambio cultural en los modelos de género. la transformación de las relaciones sociales entre los géneros requiere de un enfoque complejo que trabaje. sometimiento afectivo y/o sexual. la asociación comunitaria.democratización de las relaciones de familia puede retroalimentar la democratización de las instituciones próximas a la vida cotidiana. para abordar la problemática de la democratización de las relaciones familiares y para desarrollar 113 . pero es cierto que esta multiplicidad permanece enmarcada en un sistema de relaciones de género que privilegia a un género (el masculino) sobre otro (el femenino). y no meramente a sus efectos más visibles e inmediatos. y en la concepción de los derechos de la infancia. el centro de salud. según metodologías apropiadas. Las hipótesis desde las que se parte consideran que la democratización social comienza por su práctica en los ámbitos donde transcurre la vida de la gente: la familia. tanto la construcción de las subjetividades femeninas como la de las masculinas. Por estas razones. consideramos indispensable trabajar desde el “colectivo” mujeres. que se produce y luego reproduce en todas las instituciones sociales. junto con una concepción del cuidado mutuo entre todos los miembros del grupo familiar. de autoridad. Por esta razón. cada vez que sea necesario. disciplinamiento. Consideramos que la familia es un núcleo indispensable de socialización donde se tejen las relaciones básicas para el desarrollo de la vida social y al mismo tiempo el lugar donde se gestan y se desarrollan con más claridad las relaciones de desigualdad. violencia física). la vecindad. Por eso.

desde el cual se considera a niños. consideramos que es conveniente reflexionar sobre algunos conceptos teóricos clave: Las familias: como institución social. destacando la centralidad de la experiencia de la maternidad en las vidas de muchas mujeres. Desde la definición y desde las características centrales de las masculinidades. sino que estos modelos son aquellos sobre los cuales se realiza la interpretación y valoración de la normalidad o no de las familias concretas. rituales. se analizan la familia y la maternidad en la Argentina. identificando rupturas y continuidades del modelo patriarcal. Asimismo. la conformación de los modelos hegemónicos de relaciones familiares y las modificaciones del sistema patriarcal en la sociedad occidental.niñas y adolescentes como sujetos únicos de derechos y se deja de considerarlos como objetos pasivos de intervención por parte de las familias. donde se pone en evidencia la aparición de un nuevo paradigma. La construcción social de la niñez y de la adolescencia. tradiciones y espacios de socialización que perpetúan desigualdades y comportamientos autoritarios. considerando las relaciones existentes entre feminidad y maternidad. Se analizan los sistemas de poder y autoridad dentro de la familia y las jerarquías implícitas en las relaciones de poder entre sus miembros. A partir de una revisión histórica y crítica de las concepciones sobre estas categorías se llega hasta la aprobación de la Convención sobre los Derechos del Niño. Allí se reconocen las identidades masculinas –y las femeninas– como construcciones 114 . la escuela y el Estado para reconocerlos como portadores de derechos especiales según las etapas de desarrollo que estén transitando. Masculinidades: Se aborda la relación entre la construcción de masculinidades y las relaciones que los hombres establecen dentro de sus familias. en la medida que la maternidad es resignificada por las mujeres.herramientas adecuadas que la lleven adelante. Se tienen en cuenta la influencia de los modelos que la sociedad ofrece a la infancia y la adolescencia. Esta presentación no está indicando que los grupos familiares de los diversos países occidentales se ajustaron al modelo patriarcal en forma homogénea. Los conceptos acerca de las relaciones de género: La construcción de las identidades de género como parte de un aprendizaje familiar y social de pautas y valores asociados a cada género. así como las implicaciones que ésta tiene en la construcción de ciudadanía. en el cual los sujetos no son entes pasivos que absorben estas normas sin contradicciones. en el pasaje por ciertas instituciones. se analiza la ubicación de privilegio de los hombres dentro de las relaciones de género y la manera en que ésta se inserta en la familia.

culturales que se reproducen socialmente, a través de distintas instituciones: familia, escuela, Estado, iglesias, etc., que vehiculizan modos de pensar y actuar, a la vez que establecen lugares de jerarquía de la masculinidad dentro de las relaciones de género mediante mandatos que subyacen en los comportamientos, actitudes, afectos y relaciones vinculares. Los conflictos: Se analizan las situaciones conflictivas que suceden en el ámbito familiar: las vinculadas con las relaciones de pareja y aquéllas relacionadas con hijos e hijas. Además se señalan las formas violentas de resolver conflictos y se considera la relación entre conflicto, poder y autoridad. Se plantea la democratización de las relaciones familiares, se proponen procesos de negociación que cuestionen las relaciones de poder y autoridad y se diferencian las negociaciones tradicionales de las democratizadoras, haciendo especial referencia al concepto de “discurso de derechos”. Las políticas sociales y las bases teóricas e ideológicas de aquellos discursos sobre los que se asientan los programas y las prácticas de intervención. Se analizan los discursos de tres perspectivas relevantes en el análisis de género, exactamente aquellas que tienen efectos a la hora de ser utilizadas para la fundamentación de políticas y programas. Por último, se analiza el concepto de empoderamiento, muy usado en estos discursos, y se propone el concepto de democratización para presentar una concepción de la política social que concibe a los sujetos en su integridad, vinculando en forma interdependiente la redistribución, el reconocimiento, el cuidado y el respeto por la integridad corporal. III. Algunas reflexiones. Durante diez años la mayor parte de los programas que se realizaron desde el estado estuvieron referidos al tema de la violencia contra las mujeres, propiciados por un clima favorable a su visibilización como agravio a los derechos humanos de las mujeres y a la implementación de leyes y políticas referidas a este problema. Estos años fueron fructíferos en capacitaciones específicas y en el armado de dispositivos institucionales para hacer frente a las consecuencias de la violencia en las mujeres y niños/as. En cambio, la propuesta desplegada estimula el reconocimiento de los factores que facilitan socialmente el maltrato y la violencia. Esta perspectiva necesita tiempo para ser desplegada y asumida por los actores institucionales, para que, sin dejar de
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atender los estragos de la violencia, pudieran despegar su mirada de las víctimas, para repensar los contratos autoritarios que naturalizan la desigualdad en la de que ésta reposa, mas allá de los efectos de espejismo que ciertas condiciones de las mujeres actuales pudieran provocar, en el sentido de considerar que las relaciones de género se han tornado igualitarias6. Estas razones nos hicieron pensar que debíamos generar un programa cuyo propósito actual es el de generar una masa critica de diversos actores sociales (agentes institucionales, miembros de movimientos sociales y de organizaciones no gubernamentales) formados/as en este enfoque, para que de su práctica se desprendan proyectos que puedan contribuir a sostener propuesta. la perspectiva

Para este punto ver: Di Marco (2005) Democratización de las Familias. UNICEF y Di Marco, Graciela (2005) Democratización de las Familias. Estrategias y alternativas para la implementación de programas Sociales. UNSAM-Baudino.

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AUTOR/A: Ivonne Dos Santos INSTITUIÇÃO: FHCE - UDELAR E-MAIL: ivonne2s@yahoo.com.ar TÍTULO: Paternidad Y Familia: Jóvenes De Sectores Pobres Urbanos RESUMO: Las transformaciones producidas en el plano de la sexualidad, de los roles de género y de las estructuras familiares, inciden sin duda en la conformación de las identidades y de las relaciones familiares. Lo que nos lleva a preguntarnos cómo los cambios sociales repercuten en los sujetos y cómo sus prácticas transforman su propio contexto. El considerar el efecto de las prácticas de los sujetos en sus familias nos permitirá entender cómo se retro-alimenta la configuración social estructurando los grupos familiares en un contexto de pobreza urbana. Me propongo analizar aquí las representaciones de jóvenes varones acerca de la paternidad y cómo sus prácticas reproductivas inciden en las dinámicas y estructuras familiares, buscando problematizar los conceptos de padrepaternidad-genitor. Por otro lado visualizar cómo los arreglos familiares funcionan como modelos a seguir por parte de los jóvenes y cómo las proyecciones discursivas entorno a “cómo son los hombres” a “cómo son los padres” construyen un “deber ser” y un “ser” (representaciones y prácticas) con relación a las prácticas reproductivas y vinculares de éstos jóvenes.

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pero también la incidencia del espacio juega un papel sumamente significativo.ar Instituto Gino Germani / Universidad de Buenos Aires / CONICET Introducción La ponencia centra su mirada en algunos aspectos de mi proyecto de tesis doctoral1 ju sobre la socialización urbana y sus efectos en los consumos. propiedades intrusadas.). inherente al ser mujer. por un lado utilizan métodos anticonceptivos para regular su maternidad. pero por otro lado muchas de ellas la perciben como algo “natural”. percibimos ciertas tensiones y contradicciones entre la herencia cultural que portan estos sujetos y los nuevos saberes y creencias que van asimilando de a poco. provenientes de sectores populares.com. Aspectos metodológicos Al interior de los sectores populares existe una gran heterogeneidad. provenientes en su mayoría de sectores populares de las provincias del Noroeste y del Noreste argentino. el lugar de origen (provienen del conurbano. con el objetivo de realizarse personalmente en otras esferas de la vida social. nos referimos a una heterogeneidad que combina varios factores. las significaciones relativas a la pareja y al cuerpo. la anticoncepción (conocimiento y acceso a los MAC) y las relaciones de género. indagamos sobre el sentido que las mujeres de sectores populares urbanos le otorgan a la maternidad y sobre cómo es percibido y valorado socialmente el “ser madre” al interior del sector estudiado. Los resultados de investigaciones anteriores3 nos han revelado que en los sectores populares la maternidad cobra un sentido distinto en madres adolescentes y madres jóvenes y adultas (generación). interior del país y países limítrofes) y la generación. la educación de sus hijos. Como veremos. práctica asimilada a través del contacto con “otros culturales”. con lo cual deberíamos hablar de “maternidades” y no de maternidad. los modelos de maternidad y familia internalizados. En este sentido. Nuestra hipótesis se orienta a afirmar que existen diversos factores que están incidiendo en las prácticas de estas mujeres. la afectividad y la sexualidad de jóvenes migrantes. etc. hoteles. Se trata de mujeres migrantes. asentamientos. que han sido socializadas en la gran ciudad durante los últimos quince años. los mandatos culturales y prohibiciones acerca de la sexualidad. El modo en que se vivencia la maternidad no es el mismo si se trata de .“Anticoncepción y maternidad en mujeres migrantes de sectores populares residentes en hoteles-pensión de la ciudad de Buenos Aires” Juliana Marcús ♦ julimarcus@velocom. representación que reproduce y reactualiza su habitus de clase. asociados a las representaciones que poseen acerca de los papeles sociales que deben desempeñar. luego de varios encuentros con ‘nuestras nativas’. En esta oportunidad. Aquí nos ocuparemos sólo de algunos: la espacialidad / hábitat2 (pueden habitar en villas. en contacto e interacción con otros códigos culturales diferentes a los propios y que por lo tanto han asimilado nuevos comportamientos relativos a al “ser mujer”. inquilinatos. Sin embargo. que habitan en hoteles-pensión de la ciudad de Buenos Aires.

establecimientos educacionales. Para desentrañar las estructuras de significación atendimos a la conducta de los actores (representaciones. significados. Estos planteos fueron los propuestos por Rousseau y Freud. Al postular que la maternidad genera naturalmente amor y la dedicación al niño. que si se trata de mujeres que viven en hoteles-pensión ubicados en la ciudad de Buenos Aires. Mediante la utilización de técnicas etnográficas (observaciones prolongadas. Siguiendo a Badinter. Lejos de poseer este carácter esencial. la maternidad es cultural. Por ende. aquellos imperantes en los sectores medios. precariedad material. “establecer la significación que determinadas acciones sociales tienen para sus actores”. Nancy Scheper-Hughes Lo importante al desnaturalizar el concepto de maternidad es abolir la supuesta existencia de una maternidad basada en el instinto. ni las desdichas que acechan al hijo abandonado por la madre que trabaja. En contraposición se esgrime el argumento de la mala madre como aquella “incapaz o indigna”. escasamente integrados en las instituciones de la sociedad civil y del Estado. cooperativas. moderna y de clase media.mujeres que residen en zonas marginales. donde tienen menos posibilidades de traspasar las fronteras del propio grupo. 121 . hospitales. Utilizamos el método de la descripción densa (Geertz. comprender el universo cultural4 en el que desarrollan sus vidas. es decir. en condiciones de pobreza. integrados en cierta medida a la dinámica de las instituciones sociales (ámbito laboral. diferentes a los propios. ONGs. las aberraciones eran percibidas como excepciones patológicas a la norma (Badinter. realizamos visitas reiteradas a los hoteles e indagamos sobre la vida cotidiana de cinco mujeres con el objetivo de acceder a sus historias. considerada como algo nato en la mujer. inestabilidad ocupacional. deben analizarse con sentido crítico las teorías que históricamente han postulado como generales o universales las normas de lo que debe ser una buena madre diseñada de acuerdo a los patrones de la familia occidental. y particularmente las significaciones que ellas otorgan al “ser mujer”. etc. donde la primera condición de una buena maternidad es la capacidad de adaptarse a las necesidades del hijo. a través de luchas por la imposición de un sentido legítimo del ser madre.) interactuando constantemente con otros códigos culturales. representa más bien una matriz de imágenes. que con ciento cincuenta años de distancia elaboraron una imagen de mujer coincidente: destacan su sentido de la abnegación y el sacrificio. 1987:37) donde nos ocupamos de interpretar. a lo largo de la historia. Aportes conceptuales sobre la(s) maternidad(es) El amor materno no es un amor natural. discursos y prácticas) puesto que en ella las formas culturales encuentran articulación. sucesivas visitas a los grupos familiares. rescatar e inscribir lo dicho por los nativos. 1991:264). prácticas y sentimientos que siempre son social y culturalmente producidos. se construye contextualmente. entrevistas en profundidad e historias de vida). durante décadas la prensa francesa no escatimó la imagen estereotipada de la buena madre que se queda en casa. es decir. que según ellos caracteriza a la mujer “normal”.

2000). Si la virilidad en sí misma es un fenómeno superior.cit. la anatomía es destino. El lenguaje de la “naturaleza” recubre suposiciones patriarcales sobre la pasividad (en las mujeres) y la actividad (en los hombres) (Chodorow.cit. Las feministas eran plenamente conscientes del doble carácter de la maternidad: valiosa para la libertad. Desde esta noción de la maternidad no se consideran moralmente correctos ciertos “sentimientos maternales” diferentes. Con relación a las mujeres de la clase obrera se insistía en las condiciones materiales inadecuadas en que se veían forzadas a ser madres (trabajos insalubres. debiera poder probarse.: 281). el masoquismo y el narcisismo propios de la personalidad femenina. citado en Chodorow. 1984: 230). representaban la norma de un correcto desarrollo femenino. Kate Millet. desde hace cientos de años que en las familias campesinas la lógica de la reproducción se relaciona con la inversión en un gran número de miembros del grupo que garantice el mantenimiento de la mano de obra. op. como aquellos de los sectores más pobres de la sociedad. aún hoy en la cultura 122 . once años después de la aparición de El segundo sexo de Simone de Beauvoir. la opresión parecía venir de la mano del afianzamiento del modelo maternal hegemónico impulsado por los médicos. 1997: 385). valiosa para la opresión. Puesto que eran o podían ser madres. pues arguye que “la exigencia feminista de derechos iguales para ambos sexos no nos llevará muy lejos. Para las mujeres de sectores medios o incluso de la elite. no podía privarse a las mujeres de derechos civiles. donde se encuentran presentes otras prácticas maternales. las feministas intentaron reformular la maternidad. nació en Estados Unidos un importante movimiento feminista cuyo objetivo prioritario fue cuestionar los fundamentos de la concepción freudiana de femineidad. En condiciones de alta mortalidad ocurre que las mujeres suelen tener muchos hijos. una “posición política”: el ejercicio de la maternidad era una forma de hacer política. incluso. pues la distinción morfológica se expresa obligatoriamente en diferencias de desarrollo psíquico” (Freud. Según Freud.En la Argentina. “lo adquirido se declaraba innato” (Badinter. 1924: 178. la pasividad. op. esta estrategia resulta ajena a los significados compartidos por la mayoría de las mujeres que vive en situaciones de extrema pobreza.: 280). volvió caduca la teoría de la madre naturalmente abnegada. En los años ‘60. También. supo mostrar las fallas del razonamiento freudiano. Asimismo. pasiva y masoquista. aunque sobreviven sólo algunos de ellos. Esta concepción moderna del amor materno es el resultado de una estrategia reproductiva que promueve “tener pocos hijos e invertir a fondo (emocional y materialmente) en cada uno de los que nacen” (Scheper Hughes. Las teorías contemporáneas del sentir maternal 6 o amor materno son el producto de un momento histórico que coincide con la transición demográfica y con el auge de la familia nuclear moderna burguesa. Fundamentalmente la consideraron una “función social” y para algunas. Freud parece pensar como un determinista biológico. Poco importaba que la educación y los factores de socialización hayan inducido a las mujeres a adoptar esas actitudes. durante la década del ’40. Para el psicoanálisis. hecha para el sacrificio. abandono de sus esposos). Sin embargo. op. Al destruir el mito freudiano de la mujer normal. Para Freud hay un destino reservado a las diferencias anatómicas entre los sexos. sociales y políticos (Nari. violencia familiar. perteneciente al feminismo radical norteamericano5. tal como argumenta Freud.cit. Millet piensa que hay que buscar la respuesta en la sociedad patriarcal y en la situación que esa sociedad les reserva a las mujeres (citado en Badinter.).

2004). como parte de sus pertenencias. los significados que se le atribuyen son diferentes: en los sectores populares la maternidad aparece como el principal o único proyecto de vida que una mujer puede tener. constituyen una fuente de legitimidad social. autoridad moral y gratificación emocional (González Montes. Muchas veces los embarazos no son planificados ni buscados por estas mujeres y junto al sentimiento de gratificación que supone ser madre se superpone otro: el de una aceptación a veces resignada como un destino inherente al ser mujer: soy madre porque soy mujer. En cuanto al valor atribuido a los hijos y el significado de la maternidad en sus vidas. reproduce y afirma aún más el lugar de madre como dadora de identidad. las pautas que cada sociedad transmite en cuanto al momento para ser madre o al número de hijos. mientras que en los sectores medios y altos. así como la cantidad de hijos por mujer suele ser bastante más elevada que en los sectores medios. aunque su significado adquiere diferentes características según la clase social y las diferentes culturas. los hijos tienen un valor simbólico como afirmación de su identidad. Las mujeres de sectores populares urbanos verbalizan que. Sentir a sus hijos como propios. Si bien en nuestra cultura occidental. 2003: 45). La maternidad es percibida socialmente en los sectores populares como un valor positivo donde “(…) se potencia la valorización de la maternidad como principal proyecto de vida y símbolo de la identidad femenina”(Mancini y Wang. La percepción de la maternidad al interior de los sectores populares El mandato cultural de “ser madre” recae sobre toda mujer sin importar clase social (Mancini. la maternidad las reivindica frente a la comunidad al tiempo que les permite ejercer un control sobre los hijos. varían de acuerdo a los diferentes estratos socioculturales. pues su hijo es su alegría y su justificación. La figura de la madre acarrea prestigio y valoración social a las mujeres. poder y abundancia del grupo familiar (Wang. 1994. Es posible ver en el embarazo y la maternidad una forma de afirmación de la subjetividad de las jóvenes y de proyección a futuro. la maternidad funciona como posibilidad de tener un 123 . en el caso de las jóvenes del sector. es decir. A través de él termina de realizarse socialmente. la maternidad aparece como un proyecto casi insoslayable pero no exclusivo. 2003: 236). Se sienten un individuo completo en tanto madres. ya que el rol maternal les brinda recompensas y gratificaciones que no encuentran en otros ámbitos de sus vidas. si bien tanto en los sectores populares como en los sectores medios y altos funciona el mandato cultural de la maternidad. La maternidad también es vista como una fuente de poder. la maternidad es el principal organizador de la vida de la mujer.reproductiva de los sectores populares tener muchos hijos es símbolo de prestigio. Una frase que lo resume es soy mujer porque soy madre. Los hijos se convierten en elementos clave a partir de los cuales se define esta identidad. 2004). Es el feminismo quien viene a cuestionar el lugar de la mujer-madre como biológicamente determinado. Por ejemplo. Al comprender las prácticas populares se puede pensar que. puesto que el ser madre otorga identidad como mujer. citado en Ariza y De Oliveira. además de dar sentido a sus vidas. En los sectores populares se liga directamente a la mujer con el ser madre. En estos estratos la maternidad temprana es culturalmente más aceptada. La maternidad es parte importante del proyecto de vida.

ser madre aparece como una forma de realización personal. En este sentido. pues de ellos esperan recibir ‘amor y compañía’. no mezclarse con los asuntos de fuera.8 Si bien es sabido que es a través del rol materno como la familia ejerce su principal influencia en la conformación de la subjetividad de los hijos. Residir cerca de los hospitales. como la realización personal por fuera de la esfera afectiva y doméstica. como soporte afectivo y doméstico (Schmukler. La socialización urbana de estas mujeres de origen popular. Ser madre en mujeres de sectores populares residentes en hoteles-pensión de barrios céntricos de la Capital Federal En este apartado nos centramos en las entrevistas e historias de vida que realizamos en el marco de nuestra investigación a mujeres migrantes provenientes de sectores populares que han sido socializadas en la ciudad mediante su residencia en hotelespensión ubicados en los barrios porteños de Balvanera. Vivir en zonas céntricas de la Ciudad de Buenos Aires supone para estas mujeres cierto grado de integración a las instituciones de la sociedad civil. En definitiva se sintió realizada como mujer. les posibilita interactuar con “otros culturales”. 2000). de los comercios. Por todo esto. Constitución. Geldstein. así como darles lo que a ellas les faltó de niñas. pues “. más tarde Cristina consideró que sus hijas otorgaban un sentido de trascendencia a su vida. 1762: 872. es considerado un beneficio que otorga la ciudad. En el caso de Cristina7. con sujetos de sectores medios que adscriben a pautas culturales distintas y a veces desconocidas por ellas. aún siguen vigentes en los sectores populares más marginales: “la mujer debe limitarse al gobierno doméstico. generando nuevos saberes y formas culturales. Al mismo tiempo.proyecto propio. “Estas mujeres les asignan a sus hijos un valor afectivo y ‘reparador’. Congreso y Barracas. Parecería que algunos argumentos postulados en el siglo XVIII.” (Pantelides. aquella responsable de las representaciones con las que se subordina a la mujer identificándola con la esfera privada. 124 . mantenerse dentro de la casa” (Rousseau. citado en Badinter: 1991: 204-205). sus interacciones son siempre con otros que forman parte del mismo ambiente sociocultural. 1989). lo que empobrece su sociabilidad (Merklen. los barrios populares del Gran Buenos Aires y las zonas semi-urbanizadas del interior del país. En el discurso y las prácticas de nuestras entrevistadas se evidencia la fuerte influencia del hábitat urbano y la interacción con otros/nuevos códigos y mandatos culturales asociados a las capas medias de la sociedad. condiciona sus formas de vida y adaptación. es decir. consideramos que estas mujeres ocupan una posición más ventajosa (social. que no han podido traspasar los límites de su grupo social de pertenencia donde ocasionalmente comparten su vida cotidiana con los pobladores de otras zonas de la ciudad. esquemas de percepción y comportamiento. no hay que perder de vista la “otra cara” de la maternidad. de ciertas organizaciones sociales.una mujer sin hijos no es una mujer completa” nos decía en uno de nuestros encuentros. 1995: 59). del colegio de los niños. una de nuestras jóvenes entrevistadas. lo cual no supone ubicar tal proyecto como ausencia de otros proyectos o mero relleno de un futuro inimaginable para ellas. Infesta Domínguez. Si bien al principio la noticia no fue recibida con buenos augurios. cultural y simbólicamente) al interior de los sectores populares respecto a la población de mujeres socializadas en contextos marginales como las villas miseria. es decir.

Ese fue un proyecto que tuve desde chica. no encuentran ni existen proyectos alternativos9 a ser madre que demanden una consciente planificación de la maternidad. Él es todo.) ser madre. Como argumentamos más arriba. Es madre de 2 hijas) “Mi gran amor es mi hijo. para nuestras entrevistadas los hijos cumplen un papel muy importante en sus vidas. En este sentido.. Tiene un hijo. oriunda de San Juan. correntina. Vive en la Ciudad de Buenos Aires desde los 5 años.. yo me levanto cada día por él.) una de las mejores cosas que me han pasado en la vida es tener mis hijos (. Es lo más importante que tengo en mi vida. regulando el número de hijos. “Mis hijos para mí son lo más valioso de mi vida (.. cada hijo concebido refuerza y potencia su identidad como mujer y como madre.. que con mi mamá siempre lo tuvimos. pues ya han “cumplido” con el mandato y el deseo de la maternidad y ahora prefieren dedicar sus vidas a la realización personal en otras esferas sociales como la del trabajo. no lo encuentran como único proyecto posible. aquí la gente está de paso y no podés hacer amigos. Cuando uno tiene un hijo sabés que hay cosas que vas a poder hacer y otras que no..” (Susana. yo hago mi vida en función de él. Siempre sueño con tener mi casa propia (.. La verdad soy muy feliz. “Nunca me gustó vivir en hotel porque aquí no hay vecinos permanentes. ni hablar con alguien.Si bien la maternidad es percibida como un rol dador de identidad. Pero las que no podes hacer valen la pena”. Es madre de dos hijos) “El proyecto mío que de a poco se va cumpliendo. Las representaciones de estas mujeres influidas por nuevos mandatos culturales se diferencian a las de aquellas pertenecientes a los sectores populares más desfavorecidos de la sociedad donde la realización como mujer reside casi exclusivamente en el hecho de “tener hijos”. él es mi motor. es una cosa linda que a una mujer le puede pasar” (Mirta. es decir. 29 años. mi mejor logro es mi hijo.) ojála (sic) pudiera comprar un terreno y construir mi casa para asegurarles el futuro a mis hijas. Mi mejor proyecto hasta ahora. Me hacían sentir alguien” (Cristina. Vive en Buenos Aires desde 1992. 28 años. Por un lado. pero como veremos se trata de un proyecto más que completa su realización como mujer y sujeto social. Vive en la Capital Federal desde los 6 años. la realización personal y el sentirse plenas no radica exclusivamente en el “ser madres”. 125 . junto a sus familias. no me sentía tan sola. provincia de Buenos Aires. Tampoco me gusta tener que compartir el baño y a veces limpiarlo para que las nenas lo usen.) Uno de los proyectos que aparece con más fuerza es el de tener la “casa propia”. 30 años. no cambiaría un segundo de mi vida por tenerlo. es de tener mi casa. todas ellas han tenido entre dos y cuatro hijos. puesto que se trata de mujeres que han vivido durante muchos años en reducidas piezas de hotel. (Ana. 5 hijos) “Me sentía diferente con ellas. el estudio y concretar el sueño de la “casa propia”. Por otro lado. Creemos que estos factores socioculturales inciden en la falta de uso o uso ineficiente de los métodos anticonceptivos sin perder de vista las condiciones de precariedad material que dificultan el acceso a la información.

Ya madre soy. El Molino] me siento sumamente realizada porque vengo a trabajar para tener mi vivienda. igualmente me siento realizada en el sentido de ser madre. A la gente ignorante es más fácil dominarla. 23 años que tenía como una sensación de que se pasaba el tiempo. Y con la cooperativa [Cooperativa de vivienda. ni plan jefes y jefas ni vale de comida. Falta que tenga trabajo para sentirme totalmente realizada en todo. Ahora mis proyectos son terminar la carrera (profesorado de educación física) y trabajar como profe. por qué no?. trabajar para pagar mi lugar. (Alejandra. por los 21. 34 años. tener mi lugar. una primera contradicción aparece en sus discursos y sus prácticas cuando por un lado se evidencia un esfuerzo por valorarse como mujeres no sólo ejerciendo la maternidad sino por fuera de ella. No se me perdieron las esperanzas de llegar a estudiar algo. En este sentido. Hace 25 años llegó a Buenos Aires) El trabajo y la posibilidad de estudiar también representan un medio de realización y de desarrollo de la personalidad. Pero el tema de realizarme profesionalmente todavía no se me pierde porque no hay edad.. lo cual refleja cierta asimilación de mandatos culturales propios de los sectores medios de la sociedad. el estudio y la participación en organizaciones civiles. El día que yo me muera se que me voy a morir tranquila porque se que yo he hecho mi casa. 42 años. festejan los cumpleaños de sus hijos y su marido pero nunca el de ellas. Lo que pasa que el tema de los hijos te absorben el tiempo.) Yo estoy orgullosa de trabajar.. Pero me parecía que necesitaba algo más. -¿Te gustaría tener más hijos? -Sí. (. la realización personal excede al de ser madres.” (Ana) Ahora bien. Por eso no fui a Pavón y Entre Ríos a pedir pieza [Secretaría de Desarrollo Social del Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires].) Sentí que cuando fui madre algo ya completé de mi persona. Tenía la necesidad de realizarme como mamá. persiguiendo la realización personal en el trabajo. Si estudiás además podés tener un trabajo mejor. pero me falta el trabajo.” (Mirta) “Trato y quiero superarme. Llegó a Buenos Aires a los 5 años de edad. Me siento realizada como mujer y como persona. (.. que he llegado al logro que tanto anhelaba yo y que tanto quería y que después va a quedar para los chicos. Pero bueno también desarrollar mi persona está puesta en otras expectativas. Es bueno estudiar porque el hecho de saber evita que la gente te lleve por delante.) “Ahora estoy sin trabajo pero en el momento en que tengo trabajo me siento más realizada todavía. salen de compras para agasajar a su familia. y por otro lado son ellas mismas quienes se ubican en un lugar ausente y relegado. -¿Tenías otros proyectos o ese era el único proyecto a perseguir? -Mi proyecto era realizarme con alguna profesión.. me gustaría. obviamente y bueno ahora con el tema de formar la cooperativa..” (Mirta. (. pero ellas no se 126 . Yo soy una persona que le gusta estudiar y sé que quiero progresar para mí y para mi hijo. Como vimos. No me quiero quedar acá.)Hay una etapa después de los 20. cordobesa. Tiene 2 hijas.. El proyecto de la casa propia se está empezando a dar. porque yo quería ser profesora de inglés y yo hice hasta segundo año y después dejé.Poco a poco lo voy concretando. mi propia casa. donde sus gustos y deseos no son tenidos en cuenta. no me gusta ir a pedir nada. mendocina.

. Desde los 18 años reside en la Capital Federal) “Yo me cuido con pastillas. “tratemos de cuidarnos”. en Badinter. ocultando su construcción social y cultural a lo largo de la historia. En un contexto en el que los hijos son vistos como una prueba de virilidad y masculinidad. Este sentido de la maternidad como algo nato en la mujer. yo después de los veintipico sentí la necesidad de ser madre. Pero llegó un momento que estábamos necesitando tener hijos..¿Él no pone ninguna resistencia al preservativo? . Sin embargo aún sigue vigente en los intersticios de la sociedad. En este sentido. los hombres son un poco. inherente al ser mujer.. yo me hice poner el DIU. lo siento.. Si vos querés planificar los embarazos tenés que cuidarte porque si no obviamente que van a venir de sorpresa (Alejandra. Yo a la más grande la tuve a los 24. 34 años. En sus representaciones y discursos se reproducen los modelos teóricos que sostienen que la ‘biología es destino’ (Rousseau. 1991).. 2003).. bueno. 1762 y Freud. estamos alquilando”.. la gonorrea. Llegó a la Provincia de Buenos Aires a los 5 años con su madre y una de sus hermanas luego de la separación de sus padres. Empecé a cuidarme con pastillas cuando tuve la cuarta hija que fue una nena que es Erica” (Mirta) “Después de tener a Lucas [su segundo y último hijo]. . y fue así. ha sido impuesto socialmente por la sociedad patriarcal entre los siglos XVIII y XX. 1924. lo tiene que usar y sino le gusta.. “mirá en qué situación estamos. nos cuidamos.” (Susana) Pero por otro lado perciben la maternidad como algo “natural”. En segundo lugar se evidencian ciertas tensiones y contradicciones entre la herencia cultural que portan estas mujeres y los nuevos saberes y creencias que van asimilando de a poco. “todavía no”.) Decíamos. las relaciones de género tradicionales no logran ser permeadas por roles de género más igualitarios. recayendo sobre algunas fracciones como los sectores populares. Yo me cuido con anticonceptivos y él usa su preservativo.Sí. (. La maternidad es vivida por las mujeres de sectores populares como un atributo de la esencia femenina. subordinando sus gustos a los de ellos. Hay ciertas etapas de la mujer. .. Y después es algo natural. 127 .. cocinan las comidas favoritas de sus hijos y esposo.Le costó un poco. como un instinto. “darle hijos” a la pareja puede funcionar como un modo de complacer al varón (Mancini y Wang. práctica asimilada a través del contacto con “otros culturales”. Por un lado utilizan métodos anticonceptivos para regular su maternidad y así poder realizarse por fuera de la esfera afectiva. Aunque tengo el DIU a la otra persona le digo que use preservativo. No está solamente el SIDA sino también la sífilis. es que el hecho de tener hijos puede ser vivido por muchas mujeres como un servicio que se le presta a la pareja. “Llegó un momento que [ser madre] parecía que era una necesidad. nacida en Córdoba. pero bueno tratemos de respetarnos (.)yo no sé si tiene algo y me lo pasa a mí y después que hago porque hay diferentes enfermedades de transmisión sexual.obsequian nada.” (Alejandra) Una tercera tensión vinculada a la anterior.

sino porque la intervención de otro en su vida es casi original” (op. se reconstituyen a sí mismas físicamente y se reproducen a sí mismas en tanto madres en la generación siguiente.).cuenta en su obra ¿Existe el instinto maternal? (1991) que en lugar de instinto. ‘para mí esto ya es todo. en su rol doméstico. pues en su percepción se pueden leer las huellas que ha dejado la visión del mundo hegemónica. reconocimiento social de la mujer en tanto madre). Simone de Beauvoir argumenta en su obra El segundo sexo (1999) que si la niña mucho antes de la pubertad se presenta ya como sexualmente especificada. Muchas feministas se han empeñado en destruir el mito de la maternidad natural.Para él ya está. Según Chodorow (op.: 208). Como vimos. impuesta por el patriarcado: hacer parecer natural lo que en realidad es una construcción social y cultural. como un instinto. op. es como que la satisfacción de él ya la cumplió. ¿no sería más válido hablar de una presión social dirigida a que la mujer se realice exclusivamente a través de la maternidad?.cit. han cuestionado el concepto de instinto maternal. De este modo contribuyen a la perpetuación de sus propios roles sociales y a la posición que ocupan en la jerarquía de los sexos. Él me dice. Para hacerlo. la reproducción del ejercicio de la maternidad es la base de la reproducción de la situación de las mujeres y de su responsabilidad en la esfera doméstica. una respuesta a presiones sociales. como algo natural. ya me diste dos hijos hermosos’ (Mirta) Mi marido me dijo que quiere que le dé otro bebé.cit. Lo que pasa que un día dijimos que cuando la chiquita tenga tres ó cuatro años íbamos a tener otro y ya va tener tres!. En este sentido.cit. Las mujeres ejercen la maternidad porque antes ésta fue ejercida en ellas por otras mujeres (Chodorow. Elisabeth Badinter – discípula de Simone de Beauvoir .). aquel mandato cultural reactualiza y reproduce el habitus de clase recayendo del mismo modo sobre toda fracción de los sectores populares donde la maternidad es pensada como un destino inherente al ser mujer. El ejercicio maternal de las mujeres. ¿Cómo saber si el legítimo deseo de maternidad no es un deseo alienado en parte. la 128 . Las mujeres. Partiendo de la gran heterogeneidad que se vislumbra al interior de los sectores populares. en cuanto es un rasgo de la estructura social. “no es porque misteriosos instintos la destinen inmediatamente a la pasividad. la coquetería y la maternidad. a un deseo social de ser madre inscripto en las mujeres?. Yo ahora estoy muy absorbida por muchas cosas. Reflexiones finales Ni la biología ni los instintos ofrecen una explicación adecuada de las razones por las cuáles las mujeres llegan a ejercer la maternidad. requiere de una explicación en los términos de la estructura social. a una herencia cultural que pesa sobre la mujer (penalización de la soltería y de la no maternidad. pero yo no quiero saber nada ahora (Alejandra) “Ser madre es un hecho natural”: la reactualización del habitus de clase La maternidad es vivida por las mujeres de sectores populares como un atributo de la esencia femenina. deberíamos hablar de “maternidades” y no de maternidad.

Argentina.cit. cultura.). Paris) -DOROLA. Evangelina (1989). 129 . Buenos Aires. -CHODOROW. vínculos en las familias”.cit. “Acerca de las familias y los hogares: estructura y dinámica”.). Ed. Elisabeth (1991). España. Juventud. Margulis y otros. Juliana (2003).. Cátedra. -DE BEAUVOIR. “Estilo de vida. En Z. pues. Orlandina (2003). cultura. Patriarcado capitalista y feminismo socialista.(mayo). op. “Modelos de maternidad entre las jóvenes de los sectores medios de Buenos Aires”. y E. citado en Badinter. -MANCINI. Taller de Investigaciones Sociales en Salud Reproductiva y Sexualidad. Madrid. AEPA. Buenos Aires. CEDES. ¿Existe el instinto maternal?. Universidad de California). Diana (1996). imágenes de género y proyecto de vida en adolescentes embarazadas”. la transformación de las familias. Sudamericana.: 292). Gedisa Editores. Alejandra y Arias. Eisenstein (comp. -BOURDIEU. “La naturalización de los roles y la violencia invisible”. En M. En C. Bibliografía -ARIZA. Ed. En AA. En A. Buenos Aires.: 140). Pan y afectos. Gedisa. -GIDDENS. El segundo sexo. M. Para Condorcet “el genio femenino no se limita a la maternidad. y no la naturaleza. Buenos Aires. “Prácticas anticonceptivas en las mujeres jóvenes”. Giberti (comp. Buenos Aires. Familia. Lucía (2003). (primera edición en 1949 por Editorial Gallimard. Nancy (1984). porque sólo la injusticia. CENEP. Wainerman (comp. Buenos Aires. -BADINTER. Ponencia presentada en el VII Congreso Argentino de Antropología Social. Biblos. que habitan en la ciudad y se encuentran en permanente contacto con los códigos culturales imperantes en los sectores medios10. donde priorizan no sólo el rol maternal. -GEERTZ. La mujer y la violencia invisible. (primera edición en inglés en 1978. Espasa Calpes. Fernández. Resulta evidente. Inés (2004). amor y erotismo en las sociedades modernas. Sudamericana. Universidad Nacional de Córdoba. El ejercicio de la maternidad. Buenos Aires. Inés y Wang. Taurus. Barcelona. -MANCINI. Buenos Aires. les impide el conocimiento y el poder” (1791: 281. Fondo de Cultura Económica. La transformación de la intimidad. -EISENSTEIN. Paidos. Mario (1994). Pierre (1991). sexualidad. El sentido práctico. La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires.VV. sino también la realización en otras esferas de su vida. Marina y De Oliveira. Silla (1980). trabajo y género. sino que la mujer puede acceder a todas las posiciones. Buenos Aires. Anthony (1998). sostiene que son las condiciones sociales las que llevan a la desigualdad social y de género. Un mundo de nuevas relaciones. Clifford (1987). op. México. Madrid. Biblos. Margulis y otros. Juventud.“Hacia el desarrollo de una teoría del patriarcado capitalista y el feminismo socialista”. -JELIN. Sexualidad. sexualidad.). Ed. En M. que no existe un comportamiento maternal suficientemente unificado como para que pueda hablarse de instinto o de actitud maternal “en sí” (Badinter. -MARGULIS. -CLIMENT. “ ‘Por nuestras hijas’. Ed.maternidad se vive y percibe distinto en madres de sectores populares marginales y madres de sectores populares deslocalizados. Ed. La interpretación de las culturas. FCE. -MARCÚS. La cultura de la noche. Siglo XXI. En este sentido. Simone (1999). La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. Ed. Elizabeth (1998). Ed.

“Vulnerabilidad y Exclusión en América Latina”. Doctoranda en Ciencias Sociales. Silvia y Gazzoli. Sudamericana. Mujer y sociedad en América Latina. Ed. con subsidios UBACyT otorgados por la Secretaría de Ciencia y Técnica de la misma universidad. quien ha contribuido a elaborar 2 130 . -PISCITELLI. del C. Argentina. UBA. 1 ♦ Las características del hábitat. -ROSTAGNOL.ar Este trabajo de investigación se desarrolla en el marco del Proyecto UBACyT SO10. Cuaderno del CENEP Nº 51. encontrar la especificidad femenina que no sea la que el patriarcado ha impuesto históricamente. Infesta Domínguez. “Género y división sexual del trabajo. Pita y G.com. Minujin. compartidos por un grupo social. Buenos Aires. -PANTELIDES. pp. CLACSO. Sexualidad. ese ambiente que media las interacciones con los demás considerado como espacio simbólico y cultural. el cuidado). En F. Violencia y vida cotidiana en Brasil. Ernesto. titulado "Cultura y Juventud en Buenos Aires: cambios en los códigos culturales relativos a la afectividad y la sexualidad". Ini. 2003. 3 Al respecto ver Margulis y otros: Juventud. “Vivir en los márgenes: la lógica del cazador.-MARGULIS Mario y otros (2003). IIED. Barcelona. Buenos Aires. Historia de las mujeres en la Argentina. -PASTRANA. En Cuadernos del Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano. es decir. Buenos Aires. La mujer y la violencia invisible. Biblos. Editorial Taurus. El caso de la industria de la vestimenta en Uruguay”.. -WANG. Buenos Aires. Biblos. Buenos Aires. Agostinis. Gil Lozano. La muerte sin llanto. 5 El feminismo radical forma parte de la teoría feminista de la diferencia cuyos postulados se inclinan por la valoración positiva de la femineidad (propensión de las mujeres a la ternura. -NARI. Santillana/UNICEF. “Ambigüedades y desacuerdos: los conceptos de sexo y género en la antropología feminista”. Lucía (2004). “Maternidad. N° 16. La transformación de las identidades sociales. Nancy (1997). M. Buenos Aires. Este libro presenta algunos resultados de investigaciones realizadas entre 1998 y 2003 por un equipo de investigación de la UBA del cual formo parte. que hacen posible la identificación. En M. Buenos Aires. La gran creadora de esta teoría es la lingüista y psicoanalista Luce Irigaray (1974). Vivir en un cuarto: inquilinatos y hoteles en el Buenos Aires actual. julimarcus@velocom. 153-169. Beatriz (1989). Editorial Biblos / UNGS. Notas sobre sociabilidad y cultura en los asentamientos del Gran Buenos Aires hacia fines de los 90”. Imágenes de género y conducta reproductiva en la adolescencia. -SCHMUKLER. Colombia.). sexualidad. -MINUJIN. Rosa. Ed. en Sociología (UBA). siglo XX. Geldstein. “La dimensión cultural de la maternidad de las jóvenes que asisten a un hospital municipal de Buenos Aires”. -SCHEPER-HUGHES. Bellardi Marta. Bustelo y A. Todos entran. Universidad Nacional de Córdoba. Denis (2000). 1994: 13). Cultura. históricamente constituidos. “El rol materno y la politización de la familia”. Año 14. la comunicación y la interacción” (Margulis. Alberto (1998). En A. en Maristella Svampa (editora) Desde abajo. ponencia presentada en el VII Congreso Argentino de Antropología Social. Revista Medio Ambiente y Urbanización. Ediciones Ariel. influyen y condicionan las prácticas de los actores. Susana (1991). Lic. Ed. Edith. Nº 50-51. (mayo). Adriana (1995). Buenos Aires. Buenos Aires. Feijoo. Giberti (comp. V. Fernández y E. En E. Marcela María Alejandra (2000). dirigido por el Profesor Mario Margulis e integrado por un grupo de jóvenes investigadores. -MERKLEN. Rubén (1995). 4 Entendemos por cultura al “conjunto interrelacionado de los códigos de la significación. tomo II. cultura. política y feminismo”. La dimensión cultural en la afectividad y sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de Buenos Aires. docentes y estudiantes. Alejandra (1995). Juventud.

planificándola con relación a otros aspectos de la vida (Datos obtenidos de una encuesta -155 casos.realizada en 1999 por el equipo de investigación dirigido por el Prof. estamos hechas solamente para ser madres” (citado en Badinter. quedando asimilada al deseo masculino. 7 Los nombres utilizados son ficticios para resguardar la identidad de las entrevistadas.cit. En ellas persiste con vigor el deseo de desarrollarse en el mundo del estudio y del trabajo. op. el feminismo de la igualdad postula que la diferencia femenina es un producto cultural. 8 Balzac en su obra Mémoires de deux jeunes mariées le hace decir a uno de sus personajes: “una mujer sin hijos es una monstruosidad. El psicoanálisis hace que la niña se aleje de su primera identificación que es la madre. Hay una desvalorización del propio sexo femenino considerando a la niña como un varón imperfecto y mediocre. donde la falta de oportunidades profesionales y educativas terminan imponiéndose y estableciendo que la maternidad se constituya en su principal destino y objetivo en la vida. El universo que compuso la muestra de la encuesta se orientó hacia jóvenes de sectores medios. 1994: 32). instruidas y activas son las mujeres. se llega a serlo” (1999: 207). La maternidad se posterga hasta alrededor de los treinta años. pues dicha igualdad entre el varón y la mujer hace perder la identidad femenina. asocian en menor grado el logro y la felicidad femenina con la maternidad. cuanto más jóvenes. De aquí se desprende la afirmación que reivindica Simone de Beauvoir en su obra El segundo sexo: “no se nace mujer.una “identidad subjetiva sexuada” (Rivera. existiendo un rechazo hacia ella. Kennell y Ruddick. Irigaray fue en Francia una de las primeras psicoanalistas que refutó el modelo freudiano. Critica al feminismo de la igualdad. en su gran mayoría estudiantes universitarios y profesionales que habitan en barrios de clase media de la Ciudad de Buenos Aires). 6 Para un análisis más completo de las teorías del sentir maternal desarrolladas por Klaus. ver Scheper Hughes (1997). una construcción social impuesta por el patriarcado que supone la sumisión de la mujer al hombre. Por otro lado. de 18 a 32 años de edad. 131 . Mario Margulis en el marco del Proyecto UBACyT TS25. “La dimensión cultural en la afectividad y la sexualidad de los jóvenes de sectores medios”. Esta corriente tiene por objetivo la superación de las diferencias de género y culturales que suponen la sujeción de un género (femenino) a otro (masculino). 10 En cuanto a los sectores medios y altos.: 212). Sostiene que en Freud la mujer aparece como lo negativo. como la carencia. 9 Tener en cuenta que el proyecto de vida se liga a la maternidad no implica olvidar que ello también funciona como indicador de una situación económica y social desventajosa.

Sexualidade e Reprodução entre os Pataxó hãhãhãi” Jurema Machado de Andrade Souza Universidade Federal da Bahia. mediante a laqueadura tubária.“Gênero. este diagnóstico constatou que. líderes indígenas masculinos relacionaram o fato às condições de vida desses grupos. das aldeias Bahetái e Caramuru. Palavras-chave: Pataxó-hãhãhãi. seguindo uma perspectiva mais geral de gênero. apresentava um surpreendente índice de laqueaduras. na década de noventa do século passado. Brasil juremam@ufba. a imprensa do sul do Brasil divulgou a ocorrência de uma esterilização em massa entre as mulheres em idade fértil. que abrangia 100% das mulheres em idade reprodutiva existentes nas 10 famílias que compõem a aldeia (CIMI 1998:2). as lideranças informaram haver tomado conhecimento do fato mediante um “diagnóstico das condições de saúde” realizado nas aldeias Pataxóiii. . caracterizado-o como uma prática genocidaii e racista.br Resumo: Inserido no campo da etnologia dos índios do nordeste do Brasil. Naquele mesmo ano. o artigo tece considerações a respeito das denúncias de esterilização de mulheres indígenas do povo Pataxó Hãhãhãi. esterilização. entre as 14 aldeias incluídas. sexualidade e reprodução à luz dessas denúncias de esterilização. no sul da Bahia. sexualidade. localizado no sul da Bahia. Em uma notícia-crime dirigida à Procuradoria Geral da República em Salvador. a de Bahetá. através de declarações à imprensa e de documentos elaborados sobre o tema. Isso será feito ao propósito de demarcar questões relacionadas ao desenvolvimento de minha pesquisa de mestrado (em andamento) sobre práticas e representações de gênero. notadamente as Pataxó hãhãhãi. Por sua vez. situada em Itaju do Colônia. Introdução Em 1998. reprodução.

nem têm nascido mais crianças. O rio Colônia. com 40 anos e seis filhos. Não é difícil imaginar o que levou as mulheres casadas de Bahetá a fazerem a esterilização.a 110 Km de Ilhéus --. Roland Lavigne. reiteradas vezes. que corta a aldeia. A primeira. Assim. as mulheres confirmaram a realização das laqueaduras. eliminar a presença dos índios na região. Nessa ocasião.Os líderes dizem que.). quatro anos depois das primeiras cirurgias (feitas em 1994). que invadem a reserva indígena e que têm tentado. vem sendo represado pelos fazendeiros da região e já não tem mais água nem peixes suficientes. o povo Pataxó hãhãhãi mostra aparente arrependimento pela decisão antes tomada. não há sequer uma índia grávida.98). os Pataxó estão vendo sua nação minguar” (O Globo. Espremidos entre a cidade de Itajú do Colônia -. afirmou ter-se arrependido “porque ainda poderia aumentar minha família de índios. A denúncia repercutiu e mobilizou a grande imprensa. “Na aldeia Bahetá.. olho para a minha aldeia e vejo eles se acabando”. na época. que não teriam sido submetidas a exames médicos prévios para a realização dessas intervenções cirúrgicas. e propriedades de grandes fazendeiros que se apoderam de parte da reserva. mãe de cinco filhos e com o marido doente. Hoje. A mesma matéria traz os depoimentos de duas mulheres. e deputado. parecia ser a salvação para quem não tinha como alimentar suas crianças (ibid. 133 133 . e que.08. Segundo uma repórter do jornal O Globo. de um alqueire de terra seca e improdutiva e sem alimentos. Os índios passam fome e sobrevivem da cesta básica fornecida pelo governo.). Os índios vivem numa pequena área. o Dr. confessou que. 30. o cacique geral das aldeias Pataxó setentrionais. e a segunda. ainda. “acabou convencida de que não teria condições de sustentar outras crianças e resolveu fazer a operação” (ibid. e o cacique da aldeia Bahetá – denunciaram o ato cirúrgico e interpretaram-no politicamente. e.). convocaram uma reunião com a população daquela aldeia. Diante do fato consumado. às quais teriam sido induzidas por agentes da campanha política de um médico. associando-o a mais uma possível investida dos fazendeiros. sem meias palavras. Apesar das dificuldades.. constatado o fato. os líderes – o presidente do Conselho de Saúde Indígena. afirmam que “(.) os fazendeiros e os políticos envolvidos pretendem exterminar o povo Pataxó hãhãhae” (ibid.

coletivos e difusos. e se desdobra em várias dimensões. a questão é complexa.) em especial as que disciplinam o planejamento familiar (. verificando as circunstâncias em que foram realizados. 1998:52).)” (Diário da Justiça. averiguar também o eventual prejuízo contra o patrimônio da União. entre outros. notadamente as das aldeias de Panelão e Caramuru.. (. Através da Procuradoria da República no Estado da Bahia. dado que lhe cabe proteger as comunidades indígenas e defender seus direitos..). agravando a situação criminal dos responsáveis pelo ato. a possível existência de infração das normas constitucionais e infraconstitucionais estabelecidas para proteção e garantia dos direitos individuais. nos planos étnico. hoje. o método de controle de natalidade mais largamente usado no mundo.. caracterizaria mesmo uma tentativa de esterilização. nesta conjuntura. particularmente da medicalização da procriação. sócio-econômico. segundo consta. que. teriam custeado tais procedimentos (ibid. a fim de identificar. e investigar seus autores. Os exames realizados nas mulheres esterilizadas concluíram pela irreversibilidade do processo. por omissão. nessas condutas. reforçaram pressões ou estímulos para o encerramento das carreiras reprodutivas” (Souza. Como se pode ver. Segundo Guaraci Adeodato de Souza. jurídico-político. e as conseqüências imediatas e mediatas para a já reduzida população Pataxó hãhãhãi.O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) obteve números referentes a mulheres indígenas de outras aldeias. para o assessor jurídico do CIMI. A esterilização é. o Ministério Público da União resolveu instaurar inquérito civil para apurar “a efetiva ocorrência dos procedimentos médico-cirúrgicos de esterilização noticiados.. Além disso. também. o que. E apurar. reprodutivo. a eventual responsabilidade da União. demográfico. indisponíveis. as crescentes e desiguais conquistas de sobrevivência dos filhos e a radicalização da medicalização da vida social. que também teriam sido esterilizadas. 134 134 . “analisa-se como nas classes populares. já que este pode provocar a gradativa extinção do povo indígena (CIMI 1998:2). em face do uso irregular de verbas do Sistema Único de Saúde – SUS. 1996: 229).

notadamente no que diz respeito ao corpo. mudanças no campo dos gêneros. constitui forte evidência de alterações em curso nas relações entre os gêneros” (Carvalho. à sexualidade e à reprodução. Assim. o que. e não exclusiva das índias Pataxó hãhãhãi – como. constata-se que a grande maioria das índias. que os Pataxó hãhãhãi. A partir das considerações tecidas. 1998). práticas e representações das mulheres Pataxó Hãhãhãi sobre sexualidade. tanto do sul como do norte. tratando o tema da laqueadura no contexto indígena para tentar descrever possíveis especificidades.Bahia) sobre DST / AIDS. sem conhecimento dos maridos. especialmente no que se refere ao caso das esterilizações. segundo os depoimentos dados pelas próprias mulheres ao Ministério Público Federal. pretendo dar continuidade a um trabalho iniciado na graduação. o meu interesse na pesquisa surgiu na medida em que o caso revelava.É importante esclarecer que meu interesse não incide apenas sobre a questão da esterilização propriamente dita. já que. obriga o pesquisador a acolher outras 135 135 . baseada nos noticiados fatos sobre as esterilizações. aliás. entre índias do norte e sul do Estado da Bahia. constitui o universo das concepções. Por outro lado. dos líderes ou da própria FUNAI. Nessa pesquisa. Isto. ou pelo menos apontava. que culminou na minha monografia de conclusão de curso. cujo objeto. adotaram a laqueadura como o mais recorrente método contraceptivo (Carvalho & Souza. Em suma. 2002). por sua vez. portanto. notadamente os da aldeia Bahetá e Caramuru. reprodução e contracepção. o demonstraram os dados da pesquisa realizada pela ANAÍ (Associação Nacional de Ação Indigenista . no que diz respeito à condição feminina na composição interna dos grupos domésticos. a esterilização pode ser tomada como ponto de partida para a investigação que desenvolvo no mestrado. o fato de a etnologia indígena se tratar de um campo composto por sociedades/culturas cujos níveis de organização/observação são estreitamente relacionais. na maior parte dos casos. estão “experimentando mudanças nos padrões de reprodução e sexualidade. muito resumidamente. alterações no campo dos gêneros entre essa população. as cirurgias teriam sido feitas. A esterilização evidencia. especialmente. Eu parto do pressuposto. preenchendo possíveis lacunas no recolhimento do material etnográfico e na sua análise. De fato. a laqueadura é apresentada pelos índios como prática comum de contracepção.

sinalizaria para modificações produzidas nas identidades em conjunção. admitindo que estes fatores possam se alterar a depender do indivíduo e das circunstâncias em que ele esteja envolvido.variáveis. não obstante pertençam às mães. devido à forte ideologia masculina de virilidade relacionada ao desempenho reprodutivo masculino – que parece preconizar que os filhos. como memória histórico-social. são “feitos” pelos pais (Carvalho. o comportamento reprodutivo dos grupos indígenas deixa-se orientar – salvo em situações adversas pós-contato. Neste sentido. ou outro fator inibidor — pela prática de “deixar vir os filhos até a menopausa” (Souza apud Carvalho 1998). pretendo responder as seguintes questões: • Quais são as práticas e representações relacionadas à sexualidade e reprodução. • Quais os fatores motivadores da escolha da esterilização como método contraceptivo. ao interromper esse processo. manifesta na sua maior exposição pública. 1998). especialmente significativas em situação de contato interétnico. inclusive aquelas tidas como tradicionais. a masculinidade. a própria identidade masculina. parece suscitar nos homens os sentimentos de que exercem certa dominação sobre suas parceiras e gozam de autonomia. talvez mais particular e intensamente. O suposto e o objetivo da pesquisa Como atestam as evidências empíricas de significativo conjunto de etnografias. 136 136 . que estariam afetando. Algo assim. ao mesmo tempo em que confere às mulheres “segurança ontológica” enquanto seres humanos produtores (Almeida apud Carvalho 1998: 69). bem como outras práticas contraceptivas. dando conta do sistema de relações significativas (modos de ação e cognição) no qual está imerso o sistema de relações de gênero dos Pataxó hãhãhãi. identidade étnica e relações econômico-sociais e simbólicas com a terra. As esterilização de mulheres Pataxó hãhãhãi. • Analisar as distintas posições de homens e mulheres na estrutura social e as reações dos líderes masculinos frente à esterilização.

com a divisão da área em dois Postos Indígenas: o Caramuru. Aqueles que resistiram tornaram-se empregados nas fazendas vizinhas. objetivava conter os índios que ainda se encontravam nas matas do sul da Bahia e representavam empecilho à expansão da lavoura cacaueira. ao mesmo tempo em que pequenos lotes nas suas margens começam a ser arrendados a não-índios pelo próprio SPI. que hoje abarca 54. o campo a ser investigado é a Reserva CaramuruParaguaçu. A partir da década de 30 do século XX. o governo do Estado da Bahia concedeu títulos de propriedade aos invasores da reserva. e no próprio padrão demográfico registrado no Brasil para outros grupos indígenas. A partir de 1936. o Posto Caramuru. dos Pataxó Hãhãhãi e Baenã. Após sérias e violentas investidas. a reserva passa a apresentar uma nova configuração administrativo-espacial. Itajú do Colônia e Camacã. o então Serviço de Proteção aos Índios – SPI criou a Reserva CaramuruParaguaçu. localizada nos municípios de Pau Brasil.• Identificar as repercussões das práticas contraceptivas no padrão demográfico dos distintos grupos étnicos que compõem a Reserva Caramuru-Paraguaçu. Em 1926. para “gozo dos índios Pataxós e Tupinambás” (Lei Estadual nº 1916/26)iv. e o Paraguaçu. ou seja. Entre as décadas de setenta e oitenta do século XX. ao sul. 2000). as terras da referida reserva começam a ser alvo da cobiça de grandes fazendeiros. Campo Etnográfico Como já mencionado anteriormente. para o recolhimento e “pacificação” dos “índios apanhados na mata” (Nimuendaju. com a 137 137 . a quase totalidade das terras dos dois postos da reserva foi invadida.099 hectares dos municípios de Pau-Brasil. 1938 apud Carvalho & Souza. distante apenas 1. o que culminou na quase total expulsão dos índios. em terras devolutas do Estado da Bahia. estabelecido ao norte. notadamente a área concernente à cidade de Pau Brasil.5 km da cidade de Itaju do Colônia. Itaju do Colônia e Camacã. A criação da Reserva. as localidades de Mundo Novo (Aldeia Caramuru) e Água Vermelha. ou permaneceram no que restou da sede do posto localizado no norte da reserva. ou seja. reservado aos índios oriundos de outras aldeias extintas.

apenas.. só meia dúzia de descendentes no posto abandonado de Itajú do Colônia”v. Como bem observa Fredrik Barth. as informações serão revertidas para o grupo investigado. compartilhada. nas reuniões dos agentes de saúde e Grupo das Mulheres Hãhãhãivii da aldeia Caramuru. Em 1982. da ocupação de 12. Como preocupação central desta proposta. por exemplo. Kariri-Sapuyá. Após sistematizadas.. a Fundação Nacional do Índio – FUNAI entrou com um processo de Ação de Nulidade de Títulos junto ao Supremo Tribunal Federal. Neste sentido. em áreas descontínuas e retomadas muito recentementevi. O material coletado deverá servir aos índios em diversas ocasiões. no decorrer das quais lançarei mão de entrevistas semi-estruturadas (individuais e com grupos). a fim de contribuir para a discussão e reflexão sobre o tema. Até o resultado do julgamento. Baenan. os índios deverão se manter nas áreas retomadas através de ações de manutenção de posse ou de negociações de pagamento de benfeitorias.099 hectares demarcados para a instalação da reserva Caramuru-Paraguaçu.000 hectares. índios de Olivença. como. não pode haver um método comparativo para as comparações feitas entre objetos mais distantes e mais contrastivos (geralmente chamadas de comparações entre culturas ou sociedades) e outro método (que poderíamos chamar de análise detalhada) para as comparações feitas entre diferentes casos e vozes de um grupo designado. A Metodologia do Trabalho A investigação se apóia na observação sistemática. Kamakan. atenção especial será conferida à comparação dos próprios objetos descritos. os índios gozam. inicialmente previsto para o ano de 2003.justificativa de que alí “não havia mais índios. Dos 54. não importando que o grupo designado ao qual consideramos que eles pertencem e ao qual eles 138 138 . através das quais poderei reconstituir micro-histórias de vida (das trajetórias de contato e dos ciclos reprodutivos). decorre o requisito fundamental de atentar para o complexo mosaico étnico que caracteriza a Reserva Caramuru-Paragussu – coexistência de índios Pataxó hãhãhãi.) trabalhando com os termos de uma moderna concepção de cultura. “(. realizada em etapas distintas.

Considerações Finais Para tentar dar conta das questões propostas. segundo a qual “as representações são enunciados performativos que pretendem fazer acontecer o que eles enunciam. 1998). Igualmente. Assim. e apoiadas em relações sociais com a terra. serão privilegiados os modos de ação e as representações. cumpre também levar em consideração as observações de Cecília Busby. buscando-se verificar a relação entre a estrutura e a prática. idade. sexuais e regionais. as próprias idéias de dentro e entre parecem perder sua força e utilidade” (Barth 2000: 195).) e o caráter arbitrário das nossas distinções entre sociedades (.. ou como esta reproduz o sistema. portanto. restituir ao mesmo tempo as estruturas objetivas e a relação com estas estruturas.. e que no caso a ser pesquisado.consideram pertencer seja pequeno (. de compreender e prever mais exatamente as potencialidades nela 139 139 .).. nas quais é. é o mesmo que se munir do instrumento capaz de dar conta mais completamente da “realidade”. mais do que propriamente diferenças corporais. 1997).. casamento e grupo doméstico. Neste sentido. Algo assim tende a levar em consideração a acepção de Bourdieu. etc.. busco sempre levar em conta a premissa de que as categorias de gênero são relacionais. de classe. que aponta para o fato de que a definição do que venha significar as classificações de gênero em uma determinada população é algo sempre sujeito a uma construção. invariavelmente. étnicas. reciprocamente. ou então. o trabalho. e como este. eu parto do suposto de que o gênero intersecta modalidades de identidades discursivamente construídas – raciais.. identidade étnica. a questão do gênero está relacionada ao modo como as pessoas negociam e alternam suas percepções de gênero e corpo nas várias relações que constituem sua vida social (Busby. Deste modo.). para tentar nortear a investigação. são interseccionadas por variáveis como memória histórico-social. pode ser mudado pela prática (Carvalho. produzido e mantido (Butler 1990:3). Se reconhecemos a natureza contínua da variação na cultura (. o que torna impossível separar gênero de intersecções políticas e culturais..

889 de 1º de outubro de 1956). localizados no sul da Bahia. Kamakan e Kariri-Sapuyá). quando os índios conseguiram avançar para áreas mais distantes do núcleo onde se concentravam. com regionais. Os arrendamentos sucessivos celebrados pelo SPI. Em 1997 mais três fazendas foram retomadas. 2. nos municípios de Itaju do Colônia. Referências Bibliográficas 140 140 . pelo SPI. levariam à completa intrusão da área e à expulsão dos índios. através de lesão grave à integridade física de membros do grupo. ou seja. no todo ou em parte. falecida em 1996 (supostamente de cólera) era considerada a última representante do povo indígene HãHãHãi. intencional. As interações que pautam a vida cotidiana dos índios Pataxó hãhãhãi nas relações de sociabilidade que estabelecem com seus pares e com os não-índios engendram as concepções de mundo que regulam a vida social na aldeia. os Pataxó em dois ramos. o grupo étnico. Pau Brasil e Camacã. 1998:112). nos municípios de Porto Seguro. Mongoió. 9935. Santa Cruz de Cabrália. Botocudo. considerada “medicina tradicional”. como a preparação de remédios. foi estabelecido. que. e os meridionais.contidas. bem como discussões que possam articular a participação dessas mulheres na vida política do grupo. iii A literatura etnológica divide. que. na medida em que possibilitam que dispositivos de reconhecimento do grupo sejam acionados. de 1079 ha. as possibilidades que ela oferece objetivamente às diferentes pretensões subjetivas” (Bourdieu. intermitentemente. aqueles a quem estou referindo. no extremo sul da Bahia. juntamente com outros grupos (Baenã. Assim. no sul da Bahia. compelidos à dispersão pelas fazendas vizinhas. quando questionados sobre a ilegalidade da distribuição dos títulos numa área demarcada para reserva indígena. ii Genocida. ou melhor. vii i As mulheres Pataxó hãhãhãi reúnem-se. e revestem essas mesmas práticas de significação e legitimidade. os setentrionais. Pp. e confecção de roupas. Itamaraju e Prado. de condições de existência capazes de ocasionar-lhes a destruição física total ou parcial. na Reserva Paraguaçu-Caramuru. v Depoimento de Maura Titia. as práticas cotidianas e as relações de sociabilidade estão norteando a construção de um anteparo interpretativo que faz do agregado de indivíduos uma coletividade específica. em 1926. para realização de atividades. e da adoção de medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo (Lei No. iv Estado da Bahia. criada em 1926 com 20 léguas quadradas em florestas gerais e acatingadas. 11/08/1926. Notas A aldeia referida recebeu o nome da índia Bahetá. Salvador. vi A primeira retomada da área deu-se em 1982. no sentido de haver sido realizada com a intenção de destruir. uma fazenda denominada São Lucas. índia Baenã. à luz de critérios geográficos e sócio-culturais. “índios de Olivença”. da imposição. sobre a resposta que lhe foi dada pelos representantes do governo. Diário Oficial. O processo de aceleramento de retomada do território teve vez a partir de 1999.

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VI Reunião de Antropologia do Mercosul .UFRJ . Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta . Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate. religiosidade e 'cor' Laura Moutinhoi Silvia Aguiãoii Crystiane Castroiii Grupo de Trabalho: Família. Fragmentación e Diversidad” O "povo de santo" do subúrbio carioca: homoerotismo.UFSC e Anna Paula Vencato .“Identidad.

Parte dos estudiosos compreendeu que os homossexuais eram motivo de “constrangimento” e um elemento a mais no estigma que sempre pairou sobre o candomblé. na idéia de formalizar a união no plano religioso. Neste paper. e. Desta forma. Maria Lina Leão Teixeira (1986) coloca o corpo no cerne deste cruzamento. como. que venho visitando há mais ou menos um ano e meio. Por ora. os candomblés se mantêm – de modo particularmente visível nos subúrbios e nas favelas cariocas -. estigmatização e desconforto com a presença de homossexuais nos candomblés são um ponto nevrálgico da literatura sobre as chamadas religiões afro no Brasil. de sociabilidade. entretanto. uma religião tida como menos prestigiosa na hierarquia religiosa (Birman. A despeito do visível crescimento das igrejas evangélicas. Os relacionamentos afetivo-sexuais heterocrômicos entre homossexuais são. neste sentido. o objetivo deste paper é analisar a dinâmica dos afetos e prazeres presente nos relacionamentos afetivo-sexuais heterocrômicos entre parcerias gays que freqüentam os cultos de possessão do subúrbio carioca e discutir uma das formas (entre as muitas existentes) com que o “povo de santo” se insere na cena gay carioca. uma das formas de expressão de si. 1997: 229). entretanto.Introdução A negação. pretendia incluir na análise as parcerias heterocrômicas entre as lésbicas freqüentadoras do barracão. igualmente. (:02) Para Teixeira uma “sexualidade mítica” informa a construção das identidades sexuais neste contexto. Esta é uma distinção que funciona apenas para um primeiro contato com o tema. lazer e encontros amorosos. como um espaço fundamental não somente de vivência e expressão da religiosidade mas. um campo privilegiado para a análise. tampouco aparece como um interdito. Estas questões ganham contornos ainda mais complexos quando à homossexualidade são agregados a diferenciação racial. Relacionar-se sexualmente com pessoas do mesmo sexo. posto que o ponto de partida que informa a presente pesquisa está calcado na idéia de que neste segmento as esferas religiosa e erótica aparecem não somente com uma ênfase particular mas. como um dilema particularmente expressivo. por ser um “veículo” através do qual os orixás se manifestam. que possui. Assumir a identidade homossexual em alguns segmentos do “povo de santo” não aparece. como fortemente intercruzadas. esta relação surge eivada de tabusiv. posto que a possessão funciona como mecanismo de construção da diferença entre os gêneros. sobretudo. O candomblé. entretanto. mas em alguns níveis. não excluem a tensão que de modo mais ou menos explícito perpassa o tema da homossexualidade. Voltarei a este ponto. por exemplo. Inicialmente. Além disso. em verdade um caráter profundamente exploratório será dado destaque aos cultos de possessão mais como espaço de sociabilidade do que como expressão de religiosidade. igualmente. gostaria de destacar que alguns dos relatos surgidos no trabalho de campo ainda que apresentem situações e apontem para espaços de acolhimento. a homossexualidade encontra um lugar no candomblé por conta da própria lógica que estrutura o culto. entrou em crise nos últimos meses por conta de uma série de divergências entre alguns filhos-de-santo com o pai-de santo local que vem sendo acusado de negligência e desleixo por estar sendo absorvido em excesso com um novo 144 . a miscigenação e o racismo. na interpretação de Patrícia Birman (1995).

para ter acesso às trajetórias sexuais/amorosasix foi necessário que eu adquirisse alguma competência no santo. A diferença reside. justamente. esportes ou qualquer situação de lazer que seja convidada para participar. passou a perguntar e tentar entender como “raça”. rolos. (homos)sexualidade e religiosidade eram articuladas. Não quis me afastar do grupo pelo fato de. entretanto. né?! Festa de santo é festa nossa. Trata-se de um percurso interessante de sociabilidade. Venho acompanhando de longe o conflito. como dito. no qual eles me acolheram animadamente. Seguir este itinerário com eles tem me permitido compreender alguns dos caminhos e descaminhos do desejo que anima o grupo. ficantes “inter-raciais”. Desde minha primeira visita à favela da Maré. Trata-se de “um povo” que paquera e namora muito entre si. no mercado de trabalho.. além do candomblé o grupo costuma circular por algumas boates e/ou casas de amigos da região. sobretudo.vii bairros do subúrbio e da zona sul. que tenham mantido ao menos. Além disso.. a partir de certo momento do trabalho de campo. em algum momento de suas trajetórias. O desenho da pesquisavi Há cerca de três anos venho entrevistando e convivendo com gays e lésbicas. Meu foco eram os casais. Aconteceu algumas 145 . por outro lado. escolares. bem como os cálculos que cada um faz com relação à prevenção às DSTs/Aids. construídas e vividas neste segmento religioso. assim. percorro candomblés. no caso dos jovens. Assim.. pois o adév que me acolheu e abriu as portas do grupo está. mas não é cego. por um lado. no próprio culto. bem como se intercruzam com as esferas normativa e erótica. subúrbio do Rio de Janeiro. na busca por casais. fortemente intercruzados com a esfera religiosaviii no candomblé. moradores de diversas regiões do Rio de Janeiro. Como me disse um dos entrevistados ao ser perguntado sobre as relações afetivo-sexuais no barracão: “uai. Além disso. Esta dinâmica ficará mais clara nas próximas páginas.amor. entrando em minha pesquisa e me conduzindo para outras regiões como os bairros de Madureira. como nos demais ambientes religiosos. no centro da disputa. como as favelas da Maré e Rio das Pedras. quando procuro registrar tanto a trajetória afetivo-sexual dos entrevistados quanto as experiências religiosas. o candomblé também funciona como um espaço de lazer e facilitador de encontros amorosos. o “povo do santo” foi. comprometer o desenho da pesquisa.. O erótico e a própria dinâmica dos afetos e prazeres estão. um relacionamento afetivo-sexual heterocrômico. O trabalho de campo consiste em entrevistas no formato história de vida. A leiga. A seguir irei apresentar com o trabalho de campo foi estruturado e está se desenvolvendo. A esfera religiosa não havia sido pensada no desenho original da pesquisa. ainda que eventualmente tenso. boates. minha filha (. Modificar a estratégia do campo iria.) você está para o seu santo. por assim dizer. no fato de que neste segmento homossexuais “assumidos” não somente circulam abertamente como possuem um espaço. Vila Kennedy. As fofocas sexuais compõem um importante espaço da pesquisa. como fui chamada..”. não querer me perder de uma genealogia específica que se espraia pelo subúrbio carioca (todos ligados a um influente pai-de-santo do bairro de Madureira). rolos e ficantes inter-raciais e não tinha intenção de explorar diretamente de que forma essa dimensão se inter-relaciona com outros aspectos da vida dos sujeitos da pesquisa. Senador Camará e Brás de Pina.

neste sentido. o “vôlei dos gays” da praça do Cemitério de Irajá às terças e quintas-feiras. 1995. ele gosta de. Fosfobox (Copacabana).vezes de após uma entrevista ou depois de uma animada conversa sobre sexo e paqueras com o grupo. disputas e ironias. a Le Boy em Copacabana. o Cabaré Casa Nova na Lapa. 1994) a ser explorado no mercado afetivo-sexual carioca diferenciado das moças e rapazes heterossexuais destas regiões. fazem sexo e se separaram (ou não). Por fim. não foi apresentado como possuindo um caráter poluidor. o idioma de gênero. ou seja. aquilo que literatura destaca como “xoxação”. O Buraco da Lacraia no Bairro de Fátima. No subúrbio carioca as “quartas-feiras gays” do Shopping Madureira. paqueram. Algumas boates apareceram nas falas de meus entrevistados como locais de encontros amorosos entre indivíduos de classes e cores diferenciadas. tanto os moradores do subúrbio quanto das favelas parecem ter um “campo de possibilidades” (Cf. ainda. a freqüente desconfiança com relação à performance viril dos ogãsx. Teixeira.T. Galeria Café (Ipanema). boate de Jacarepaguáxiv. (cuja sigla significava “Barbies in total control here”)xiii. “raça” e sexualidade dominante nestas regiões e sua articulação com violência e o tráfico de drogas em cada território observadoxv.e a conversa envereda para detalhes picantes. é possível percorrer e ultrapassar de diferentes modos e com distintas interações as linhas de classe do Rio de Janeiro.. Na zona sul carioca. que as fofocas e as relações jocosas não são diretamente despertadas pelo tema da pesquisa. que não oferece exatamente perigo de perda de prestígio ou posição. boates como Dama de Ferro (Ipanema). Como vários autores destacaram este segmento religioso tem como marca as rivalidades e fofocas. é importante ter em mente. Há outros circuitos mais fechados.H. também apareceram na pesquisa. sempre contado em tom de riso e galhofa. 1986. em especial.C. O autor problematiza 146 . foram citados como espaços onde gays e lésbicas de distintas regiões do Rio de Janeiro se encontram. entre outros). é preciso explicitar que a análise de Luiz Fernando Dias Duarte (2003) traz um importante aporte para o presente estudo. Fredoom (Barra). sobre um ou mais membros do grupo. além da festa X-Dementexi. Este tipo de rumor. mas como parte de um jogo lúdico. Velho. ser puxada para um canto e ouvir aos sussurros que o que “fulano” falou não é bem assim e que. cumprindo este papel. 00 (Gávea) que tem somente um diaxii dedicado a este público e festas como a B. bem como o próprio circuito dos barracões de candomblé e as escolas de samba. Fry. a 1140. digamos assim. para certas “tribos”. um ponto importante. 1982. Para os mais escuros. na verdade. A perspectiva tradicional destaca a influência da religião sobre o ethos e estilo de vida dos fiéis. Importante destacar. (Cf. Cabe destacar. Neste aspecto. faz parte do que pode ser chamado de ‘circuito GLS’ underground carioca. São muitos os mapas ou territórios de encontros que vêm se delineando na pesquisa. Duarte vem trabalhando com uma perspectiva que inverte a lógica tradicional que explica a adesão religiosa.. no sentido que lhe empresta Mary Douglas (1966). como aliás.I. Birman. ainda que disseminado e presente nas conversas. que faz com que o circuito dos barracões de candomblé adquira relevância no interior de um eixo mais amplo: os homossexuais masculinos.

entretanto. quando “além de homem é homossexual. (Cf. por exemplo. como por exemplo. no ritual os “viados” “respeitam mais que o sapatão”: trocar de roupa na frente de um “irmão de santo”.e homossexuais devem seguir uma etiqueta cuja a tônica é a discrição. entretanto. nos rituais estas esferas podem. prestando atenção em tudo.. do ponto de vista biológico. o gênero feminino “recebe santo”. neste sentido. entretanto. Duarte fornece. estão sempre prontos para a “caça sexual” (Heilborn. Deste modo. “moreno-branco” é ilustrativa: “vamos dizer. O pólo feminino. você tá na roda do candomblé. como destacou Saulo. De acordo com alguns relatos de gays que entrevistei. elas tão dançando mas a gente tá vendo tudo o que tá acontecendo. com os flertes se superpondo à performance do santo. A narrativa de João. pois são homens e. A sobreposição entre a etiqueta do santo e a social é ainda compreendida por parte da literatura que trata do tema como resultado do impacto do escravismo na organização religiosa. especialmente os homossexuais.homem em si já é mais nervoso. ao contrário. é recorrente nos estudos sobre homossexualidade.. como parte da literatura consultada reconhece. a coisa piora”. 22 anos. porque a gente tem 147 . na desvinculação do sexo da reprodução. permite explorar sob outro ângulo a(s) escolha(s) religiosa(s) dos entrevistados e a forma com que eles vivem e refletem sobre suas experiências amorosas e sexuais neste e em outros ambientes. mas “a sapatão” expressa certa “malícia” neste momento. podem tanto ser do sexo masculino como do feminino. o masculino é definido no candomblé em oposição à possessão. 1995. A idéia de que os homens. não é definido como oposto do masculino. “moreno”. O mercado dos afetos e prazeres homossexual e heterocrômico entre o “povo de santo” No candomblé. contribuindo para a elaboração de um idioma de gênero distinto daquele que informa e organiza a sociedade mais ampla. não é problema.essa perspectiva defendendo. esta questão ganha contornos particulares. está freqüentemente sob suspeição e a percepção generalizada é de que eles precisam de limites. 2004). ser inter-cruzadas. Desta forma. os namoros e as paqueras hetero. Nesse sentido. Segato. no caso da pesquisa em questão. de 18 anos. entre outros autores). que seria o estilo de vida que influenciaria a escolha religiosa. não importando se o sujeito é biologicamente masculino. uma contínua inversão simbólica dos gêneros.xvi Neste contexto. A sexualidade aparece como um dos elementos que ganharam contornos particulares neste cenário. que reforçou a família do santo. um novo aporte que. O comportamento dos homossexuais masculinos. ao explorar as construções de gênero nos cultos de possessão e explicitar que o candomblé opera através da possessão (e não da ordem biológica). imagina sendo homossexual?! Os homens. . eventualmente. você vê que a gente fica assim olhando. mais atirado. até mesmo as mulheres. Patrícia Birman (1995) seguindo uma pista aberta pioneiramente por Peter Fry (1982)xvii forneceu a chave para se entender o lugar dos homossexuais no culto. em detrimento da sanguínea. o que significa que acolhe indivíduos que. você vê.

do sexo e do erotismo. que quando está no candomblé “se dedica ao santo” mas que às vezes acontece envolvimento porque “há muita gente bonita aqui”. Tá me cantando.. E contou que certa vez “fui para assistir uma coisa e. O fato de distintas esferas de vivência estarem imbricadas coloca freqüentemente sob suspeição a performance no santo. A pomba-gira pode falar. a transgressão que exsuda dos jogos de cena e brincadeiras adquire um sentido particular na hierarquia religiosa do candomblé. essa dupla esfera de ação está relacionada às experiências terrenas dos orixás. Como a “festa do santo é festa nossa”. ela pode deixar um recado pro médium que ela está incorporada de que é pra tomar cuidado com a pessoa. é apegado à vida mundana e os orixás..... é mais coisa que o povo fala. Os amores vividos podem receber a intervenção das entidades. chamando atenção para as “falsas possessões”. que a pessoa não vai ser boa pro cavalo”. né? (. entra... Mateus esclarece.) Aí. entra o [fulano] e eu me interesso. uma das facetas da falsa possessão está diretamente relacionada à paquera. vamos supor.Por que Pomba Gira vai perder o tempo dela pra cantar alguém por mim?”. Mas há limites: “interferir.. ainda que possuam “mais luz”.”. Ele até conheceu um ex-namorado branco em um candomblé. assim como o próprio lugar dos adés no ritual.. a pomba-gira virar e falar: ‘eu que encostei em fulano pra fulano sair’.. No caso do candomblé... de 18 anos. 148 .. não se paquera com as entidades. Isso não existe.que tomar conta da casa. inclusive. sou sozinho. nas palavras de João: “se a pomba-gira te encosta.. mas entre um despertar ou outro. o ritual para o santo pode se intercruzar com o ritual de paquera. com “uma vida muito voltada para a caridade”. Para Mateus. Vejamos um relato ilustrativo: “a primeira vez que [fulano] viu a pomba-gira do meu pai eles pensaram até que a pomba-gira tava cantando ele porque a pomba-gira chegou pra ele e falou assim: ‘quando o senhor precisar de mim. o barracão não é local de paquera. é categórico sobre este ponto: “rola muito fingimento.. Os santos católicos experimentaram a vida terrena de modo santificado. Na perspectiva apresentada por João. Birman (1997) associa este evento. Usa o nome da pomba-gira pra fazer tudo o que tem vontade”. assim. “Esse viado tá de fingimento. fala comigo e com o meu menino’”. Eu vou dar uma encarada pra ver qual é e tal”.... negro. à lógica de alteridade e do feminino que estrutura o candomblé. Só falou assim. todo exu.. mas concebe o barracão e o momento ritual como de dedicação aos orixás. Para Fry (1982). Nesse sentido. Assim.. mas sim. as potencialidades abertas pela linguagem do santo. Os adés não são aqueles que exploram a aflição ou a queixa. As relações entre homens e entidades transformam a paquera em um ritual de duas dimensões. sempre se olha em volta. por exemplo. João. Recorre-se ao transe e à autoridade que os espíritos conferem para explorar interesses sexuais e eróticos. trazem parte da experiência humana. acabei fazendo outra”.

de short curto desfiado aparecendo a popa da bunda. a cor negra perde relevância. vai marica. Vamos botar assim: se você tiver passando na rua. João recriminou o racismo dos homossexuais. Por este motivo ele também defende que não há racismo neste espaço.Aí. Para Mateus e vários outros entrevistados. por ter “muita atração” pela cor: “Olha. No dizer de Paulo. Assim.. com cerca de 30 anos: “eu acho a cor mais bonita. unha feita. por exemplo. Para João. Interessante notar que quando o assunto muda para a beleza dos ogãs negros que tocaram na saída de uma Iaôxx que eu tinha assistido uma semana antes. Especialmente. Vejamos a seguir como o universo do “povo de santo” se inter-relaciona com outros espaços próprios da cultura GLSxxi carioca.A “compostura” como atitude que impõe respeito e proteção contra as fofocas. “tem que ser a última pessoa a ter discriminação. Tal atitude seria capaz de neutralizar a discriminação racial.quer dizer. Ele diz assim: “às vezes você passa na rua.”. é claro.. Para João: “vamos botar assim. Então. tonalidade mais clara”. Entre os brancos entrevistados a cor negra como fator de atração aparece como o motivo principal dos encontros amorosos-sexuais. Como no universo das relações heterocrômicas e heterossexuaisxix a idéia de “convivência” é chave para que se possa compreender sua posição: “a gente convive mais e. Aí a gente ta passando e: “viadinho!” ou “ah. 149 . eles acabam procurando o que? Os viados!”.”. pois considera que aquele que sofre tanta discriminação. sobretudo. os “gays” se atraem pela postura viril dos ogãs e os ogãs se atraem pelos gays porque “eles fazem o que as mulheres não gostam de fazer.. É a primeira.. tem muito casal inter-racial nos barracões “porque o povo do candomblé está acostumado com os pretos”xviii. no espaço da rua. se ele tiver “boa postura”. cabelo pintado de loiro... os rumores e os mal-entendidos se coadunam com uma certa etiqueta religiosa. a discriminar qualquer coisa”. não rola isso. que reaparece quando a questão racial entra em cena. Tudo é sua postura. O próprio termo “racismo” é freqüentemente utilizado como sinônimo de discriminação – formulações como “havia muito racismo contra homossexuais” são registros comuns no trabalho de campo. vários brincos na orelha. bichona!”. Enquanto conversávamos sobre o tema.. é vaidoso. um mulato acaba sendo um negro mas de cor mais clara. tem branco. acho que tudo é a forma como você se porta. pai-de-santo branco... que a “convivência” não aparece como vetor explicativo com relação ao preconceito contra os homossexuais. você nem mexe. não... tem moreno. na frente de um bar onde tem um monte de homens bebendo passar um homossexual preto de unha pintada de rosa. a cor mulata. diz que “gosta de sair com preto”. mais chamativa. anda perfumado. ele tá pedindo o quê? ‘Bicha preetaa!’ É a primeira coisa que falam. a gente nem fala nada. aquilo me atrai. É interessante notar. o homem é negro e assim se veste bem. para João não é complicado sair e namorar um negro. João.. porque se você perceber todo mundo discrimina um pouco a cor negra”. entretanto. mistura! Tem preto.

como vem evidenciando meu trabalho de campo. de um turismo mais “família”. É interessante notar como as noções de raça e cor intercruzadas com nacionalidade compõem um quadro hierarquizado de ofertas sexuais no mercado do amor e do sexo em Copacabana. outras vezes para “fazer dinheiro”. escolas de samba e boates do subúrbio. Saulo. com termas e boates. entretanto. África. morador do subúrbio de 24 anos. mas “não agem como putas”. que somente circulam por locais “brancos”. o que prevalece em Copacabana. 2004) é uma categoria-chave neste universo. Uma percepção que também se faz presente entre as garotas de programa. pois “eles só querem branquinhos”. Este é um aspecto interessante. De acordo com Blanchette e Silva (2004) que analisam o mercado sexual (heterossexual) carioca. Saulo já “saiu”. interessa-me reter a idéia de que a situação assim percebida facilitaria a transformação dos envolvimentos sexuais em afetivos. inclusive. embora não surpreenda. Deste ponto. o Rio de Janeiro seja tido com um espaço relativamente seguro e pelo fato de que o mercado do sexo conta com uma estrutura qualificada de organização. Para estes viajantes a “mistura” não aparece como um problema.Intersecções do desejo: do circuito do “santo” para o circuito da “pegação” A maior parte dos entrevistados não se mantém apenas nos candomblés. desdobrar-se em um vínculo mais longo. Ferreira notou que ao invés de grandes grupos. situada no mesmo bairro. em um lugar central. Ele faz sucesso entre homossexuais brancos e estrangeiros e com os negros forâneos disse passar despercebido para os angolanos. um rapaz negro. Trata-se. Neste “turismo afro-americano”. Às vezes vão para “zoar” e paquerar.que circula pelos points do subúrbio e da zona oeste. Saulo aponta o negro africano como o menos prestigiado neste contexto. Às vezes ele vai à boate Le Boy. são os negros norte-americanos. Alguns destes contatos podem. as mulheres negras aparecem. pela idéia de que em relação a outros mercados como a Ásia. este viajante vem no máximo com três pessoas. à praia de Copacabana e à Lapa é um programa que eles fazem com alguma regularidade. no qual a demanda por viver (e se alimentar) de um mercado étnico/racial é organizada pelas mulheres. de acordo com o autor. A busca por “autenticidade” (Piscitelli. Com eles. com viés fortemente militante. negros e mestiços no Brasil. Marcelo Ferreira (2005) trabalha exatamente com o desconforto do mercado do turismo carioca com negros norte-americanos de alto poder aquisitivo. o Rio de Janeiro funciona como um “campo de diversões sexuais” para estrangeiros por conta da desvalorização do Real frente ao Euro e ao dólar. com pouco interesse pelos pontos turísticos tradicionais e mesmo pela forma como se organizam as relações entre brancos. No caso do chamado “turismo sexual”. para “pegar” uns “gringos” e “fazer um trocado”. Ir às boates. não se 150 . em Copacabana ou na boate Help. especialmente. Piscitelli (2001) trabalha com um conceito de turismo sexual que auxilia na compreensão deste universo. Oriente Médio. que tem como destino principal o Rio de Janeiro e a cidade de Salvador. Os mais bonitos. faz parte deste grupo de amigos – todos de santo . de fato. Dentre os fatores perfilados pelos autores chama atenção. a crença na sensualidade particular da mulher brasileira. que. É significativa a percepção de que as garotas de programa se prostituem.

Segundo sua explicação. como elucidou. gays e brancos dizem: “puxa! O que vocês têm? A gente fica de escanteio”. E para ele os gringos “são legais” porque “eles têm uma cultura diferente”. Ele morou com o gringo. Marcos tinha pouco mais de 20 anos quando eu o entrevistei. Disse ainda que “é legal ter contato com uma pessoa que me mostra coisas que eu só vejo na televisão”. Sobre discriminação. Mas que os gringos acham que eles são fogorosos! No mercado do amor e do sexo Marcos considera que não tem chance com os brancos brasileiros.restringe ao turismo heterossexual..”. como ele vive lá e eu falo como vivo aqui. inclusive. que freqüenta a Lapa. A trajetória de Marcos expressa o que estou tentando enfatizar. A perspectiva apresentada por Marcos é muito interessante pois está todo o tempo falando em troca. de outro país”. Mas que onde mora é mais complicado ser gay do que ser lésbica. por exemplo. como explicou de modo evasivo. uma “travola”’. é bem legal você explorar isso dele e ele explorar isso da gente”. Ele fala dele. principalmente por ser negro. ele me disse que é muito difícil ser negro e homossexual: “nenhuma família merece!”. fazia telecurso. Vejamos o que diz a autora: “o turismo sexual é (. para matar saudade. da zona sul” E que com os “gringos” isso não acontece. os gringos acham que os “negros tem mais calor. é que quase todos os dias ele voltava para a região onde reside para ver os amigos. Afirmou também que gosta muito de homem bonito. 151 . no qual a sexualidade alarga a “agência” dos entrevistados. Sexualmente ele diz que é “normal”. ele ia a festas. nunca tinha tido namorado ou ficado com uma mulher: “nunca nem beijei mulher”. Interessante.. “Eles acabam dando preferência para a gente. não. Marcos não acha os gringos fisicamente muito atraentes. uma boate de Bangu e algumas outras de Copacabana. Ele acha que elas são mais respeitadas.) qualquer experiência de viagem na qual a prestação de serviços sexuais da população local em troca de retribuições monetárias e não monetárias seja um elemento crucial para a fruição da viagem”.. com quem namorou por seis meses.. Ele se sente muito discriminado mas é “boyzinho” (quer dizer se veste como homem) e que o pior mesmo é ser “travesti”. semelhanças interessantes com as das mulheres pesquisadas por Piscitelli (2004). bem como desestabiliza o roteiro tradicional da desigualdade carioca. As trajetórias de Saulo e de outros rapazes negros guardam. Eu também não sei o que é isso. Amigos meus.. Disse que os homens nem conversam com “travesti”. conheceu gente de vários países: ele aprendeu e deu informações e ao mesmo tempo também as recebeu. Então isso é muito interessante. chegando a morar com ele em Ipanema. “porque eles dão preferência ao pessoal que é dali. que tem uma coisa diferente”. branco. disse ele gesticulando enfaticamente de modo a expressar espanto e incerteza. Marcos contou que ele e vários de seus amigos negros vão para as boates da zona sul encontrar os gringos: “Tem muitos gays que vem para o Brasil e eles gostam muito de paquerar os negros”. ele disse. Ele se “atrai” pelo “jeito de ser”: “ser pessoas de fora. Foi em uma delas que ele conheceu um namorado europeu. porque se ele sentar com uma para conversar vai todo mundo dizer que “ele tá pegando um travesti.. Marcos explicou da seguinte forma este tipo de encontro: “trocar informação.

é algo que se desenvolve com a criação (socialização) não tem a ver com raça. (. para a dificuldade de se articular duas formas distintas de desigualdades. mas o outro motivo que o levava a não sair com negros se referia a “oportunidade”. Por outro lado. classe e idade e. Para o autor. De acordo com alguns jovens filhos-de-santo negros. que encompassam o racismo. por exemplo. conferindo. 1991). O universo pesquisado se aproxima de algumas das reflexões tecidas por Perlongher (1993). alguma coisa”. constituem categorias que funcionam como tensores libidinais que orientam os sujeitos na busca por corpos e prazeres. Vale ainda destacar que tanto nos arranjos heterocrômicos homossexuais quanto entre os heterossexuais a raça/cor não evoca uma distinção moral. em O Negócio do Michê demonstra como gênero. sexualidade e gênero. nas quais o negro ou o pólo mais escuro aparece associado à maior excitação e desempenho sexuais – não deve ser percebido de forma estática. neste sentido. que. Além disso. mas também contribui para dificultar a aceitação da homossexualidade em certos contextos. 2004). A cor e a raça também aparecem como um elemento a mais – e de fundamental importância – na elaboração estética que acompanha e constitui. Tal associação possui enorme atrativo no mercado dos afetos e prazeres cariocaxxii. a homossexualidade e a homofobia aparecem como categorias dominantes. tem sido mais difícil trabalhar com a questão racial neste campo do que anteriormente (idem). na pesquisa realizada até o momento. A representação corrente de um forte erotismo associado à cor negra – que neste ponto não se diferencia nas relações homo ou heterossexuais. De fato. sobretudo. Perlongher (1987). a principal dificuldade sentida refere-se à forte articulação entre virilidade e raça negra. no eixo da discriminação. 152 . Faz-se necessário enfatizar. em vez de dissertarmos sobre identidades talvez seja conveniente falarmos de territorialidades uma sugestão particularmente interessante posto que o tema ora sob análise se desenrola em um espaço profundamente marcado por facções violentas. à identidade e aos desejos que animam os mercados do prazer e do sexo.. “raça”. a correlação entre cor/raça e erotismo entre parcerias gays e lésbicas heterocrômicos. o referencial da homossexualidade se sobrepõe ao da raça. Por um lado. das que dizem respeito às questões relativas à territorialidade. por fim. Stolcke.. contornos específicos às distinções de raça.Marcos disse que sentia atração sexual por homens brancos. em certas regiões empobrecidas e favelizadasxxiii. sobretudo. o espaço do candomblé. não apresenta diferenças substantivas em relação aos relacionamentos afetivo-sexuais interraciais entre heterossexuais (Cf. em especial.) Acho que dentro deles deve existir algum preconceito. algum bloqueio. de forma mais porosa. por exemplo. Sua fala possui eco com a de outros entrevistados: “parece que um negro não gosta de outro negro. que atuam em inúmeros territórios na cidade do Rio de Janeiro. As falas remetem. raça/cor e homossexualidade compõem na fala dos entrevistados um somatório de discriminações (Cf. Caráter. Ainda que nos jogos eróticos encenados no candomblé e em outros espaços a cor e a raça apareçam associadas ao erotismo e que todos considerem que o candomblé seja mais acolhedor para com relacionamentos afetivos-sexuais heterocrômicos. O contraste branco/negro – mais claro/mais escuro povoa o universo erótico dos encontros. Moutinho.

cor e religiosidade: flerte entre o “povo de santo” no Rio de Janeiro”. Além disso.como apontou. Recebe. venho contando com o apoio fundamental de Crystiane Castro. Sobre o tema do erotismo. Fazem parte da equipe de pesquisa: Silvia Aguião (pesquisando a favela de Rio das Pedras). Sobre homossexualidade e pentecostalismo. aos quais os indivíduos estão submetidos ao longo de suas trajetórias de vida. Cf.com. que (re)ordena. ver Natividade (2003 e 2004). cujas mudanças tornam visíveis (como. Heilborn. ix A noção de carreiras sexuais/amorosas tem como aporte a idéia de que a sexualidade é experimentada. idade entre outras categorizações -.CLAM/IMS/UERJ. De acordo com Bataille (1988). O ponto da reflexão de Perlongher que interessa diretamente a esta pesquisa refere-se a maneira de compreender os sistema classificatórios: são “sinalizadores” de intensidades libidinais. estudante de ciências sociais da UERJ. “bicha” e “gay’. Notas Doutora em antropologia pelo PPGSA/UFRJ. subsídios da FAPERJ e do programa “Cientista Jovem do Nosso Estado – FAPERJ/2003”. que pesquisa na Internet e nos chats homossexuais) e Débora Baldelli (festas/boates de música eletrônica da zona sul carioca). Gênero e Família: rupturas e continuidades na experiência da pessoa ocidental moderna”. raça/cor. Mas no caso do catolicismo brasileiro é preciso ter mente que o sincretismo entre santos católicos e os orixás torna a experiência religiosa muito mais dinâmica e complexa do que a primeira aproximação que estou esboçando neste paper permite entrever. professora visitante do PPGSC/IMS/UERJ e pesquisadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos . os sujeitos circulam por uma “trama” e por “redes” definindo-se a partir de sua “trajetória e posição ‘topológica’ na rede”. vii viii i Sobre o intercruzamento entre raça. classe. Religião e Sexualidade. o erotismo “viceja na transgressão”.br iv A relação entre homossexualidade e religiosidade foi explorada mais detalhadamente no artigo “Homossexualidade. lmoutinho@ims. percebida e vivida de acordo com os roteiros de socialização . orientação sexual e religiosa. cryscastro65@yahoo.uerj. 2002. 1999. gênero e violência na favela de Rio das Pedras. 153 . igualmente.com. entre outros.Em termos formais pode-se dizer que enquanto o cristianismo se construiu em oposição ao “espírito da transgressão”. que será publicado na Coletânea Família. vi Esta pesquisa integra o projeto Recém-Doutor que desenvolvo no âmbito do IMS e do CLAM. no momento. 1988) e está em contínuo movimento. Cf. reconfigura e por vezes obscurece as hierarquias e desigualdades que conformam o tecido social. mas. A pesquisa foi apoiada inicialmente pelo CNPq e atualmente faz parte do “Projeto Integrado Sexualidade.br iii Estudante de graduação do curso de Ciências Sociais (UERJ) e assistente de pesquisa do Centro LatinoAmericano em Sexualidade e Direitos Humanos .o catolicismo que adentrou em solo brasileiro trazia junto com o colonizador português a sensualidade e uma forte cultura sexual. No candomblé em questão a categoria mais utilizada para homens que mantém relações sexuais com homens é “entendido”. v São assim chamados os homens que mantém relações sexuais com homens e que entram em transe no culto. ver Carrara & Ramos (2005). Sobre o caráter excludente das religiões cristãs. saguiao@terra. Vítor Grunvald (bolsista de Iniciação científica pela FAPERJ. ver também Gregori (2003). as trajetórias de Marcos e Saulo evidenciaram). há que se considerar a crença de que .com base em gênero. Nesta parte do trabalho. no candomblé estes domínios não foram elaborados em oposição. alguns dos (des)caminhos de um desejo “viceja na transgressão” (Bataille. por exemplo. Moutinho. Gilberto Freyre .CLAM/IMS/UERJ. coordenado por Luiz Fernando Dias Duarte (PPGAS/MN/UFRJ) e Jane Russo (CLAM/IMS/UERJ).br ii Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC/IMS/UERJ) e pesquisadora assistente do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos . organizada por Maria Luiza Heilborn e Luiz Fernando Dias Duarte (no prelo).CLAM/IMS/UERJ.Assim. considerada mais amena e respeitosa do que outras que eles também utilizam como “viado”.

xv Sobre o tema Cf. entre outros motivos. 2004:5/6) xii No período em que a maior parte do trabalho de campo foi realizado nesta área. A X-Demente é composta por um público predominantemente masculino e branco. Débora & MOUTINHO. Rio de Janeiro: Editora FGV.. xx Iaôs são “filhos de santo (. 2002. xxiii Sobre o tema Cf. x Bibliografia ALVITO. Georges (1998). Moutinho (2002).Forma como são chamados os homens iniciados que não entram em transe. Rio de Janeiro: CEPESC/IMS/UERJ. 2001. Política. Paper apresentado na XXIV Reunião Brasileira de Antropologia. sendo reconhecida como uma festa de “pegação gay masculina”. entre outros. violência e homossexualidade: 9ª Parada do orgulho GLBT – Rio 2004. geralmente de peito raspado. criando gênero. que não se restringem ao gênero eletrônico. Brandão (2004). Rio de Janeiro: UFRJ. Niterói: PENESB. Novos Estudos (Cebrap). BALDELLI. Rio de Janeiro: Pallas Editora. era aos domingos. lésbicas e simpatizantes ou suspeitos como se diz em tom anedótico e provocativo. xviii Para uma relativização de que as religiões afro eram populares e freqüentadas exclusivamente por negros. ver Maggie. Sobre o tema ver. Rio de Janeiro: Relume Dumará. recentemente as quintas-feiras passaram a ser o dia da semana dedicado ao público GLS. 1995. Ana Paula A mistura clássica. 2002 e 2004. xxii Cf. Baldelli & Moutinho. xvi Cf. Sílvia (2005). nº 21. o prefácio de Mariza Corrêa e a apresentação de Peter Fry à 2ª edição de A Cidade das Mulheres.) que estão cumprindo seus deveres religiosos e aprendendo o conhecimento gradativo que o processo iniciático supõe. Moutinho 2004 a. Landes inaugurou as análises sobre gênero e homossexualidade no candomblé. responsável pela sua exclusão acadêmica.) Não devem questionar as ordens que lhes são dirigidas pelos irmãos mais velhos ou pela hierarquia de mando do terreiro”. BLANCHETTE. 154 .. xvii Fry (1982) foi o autor que enfrentou pioneiramente a polêmica em torno da etnografia de Ruth Landes (1947). mas são a mão-deobra maior utilizada nos serviços. Pernambuco. In: Vianna. Tem um papel menor na estratificação do grupo. Antígona. BATAILLE. Patrícia (1995) Fazer estilo. Diferentemente dos adés a performance dos ogãs é viril e seu desejo sexual se dirigem à meninas e não meninos como no caso dos adés. corpo e transe ao som da música eletrônica”. 2004. Ed. Cunha (2002). xiii Sobre o tema Cf. que compõem a maior parte do público freqüentador da festa. Elza (1988). O Erotismo. BIRMAN. 2004. Laura (2004) “‘Hoje eu vou me jogar!’ – Indivíduo. 1986: 210) xxi Sigla para Gays. adotando uma perspectiva que foi. xi A X-Demente é conhecida como a festa das “Barbies”.. direitos. Lisboa. Leitura crítica. xiv A 1140. RAMOS. T. (. Moutinho. BERQUÓ.. CARRARA. xix Cf. abrindo espaço para que a homossexualidade pudesse ser analisada sob nova perspectiva. Moutinho. referência para a identificação de homens gays fortes. junto com a Le Boy de Copacabana. Olinda. entre outros. malhados e musculosos. Heilborn (2004). Sérgio. André Augusto (2004) Miséria da Periferia: desigualdades raciais e pobreza na metrópole do Rio de Janeiro. Zaluar (1994). Patrícia (1997) “Futilidades Levadas a Sério: o candomblé como uma linguagem religiosa do sexo e do exótico”. pp. (Baldelli & Moutinho. BIRMAN. a Freedom na Barra da Tijuca e a Hábeas da Tijuca compõem o circuito mais amplo das “boates gays”. Marcos (2001) As cores de Acari. publicada em 2002. 74-85. “Demografia da Desigualdade”. BRANDÃO. Alvito (2001). e SILVA. Rio de Janeiro. H (Org) Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros culturais. (Teixeira. o apelo do Rio de Janeiro como destino para o turismo sexual.

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O trabalho tem se desdobrado com a utilização de técnicas da antropologia visual. gerações e subjetividades. escola. Família e Relações de Gênero. focalizando as trajetórias de sujeitos egressos do meio rural. a casa e os afazeres domésticos. aposentadoria.ufsc.br Instituição: Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC Margens – Núcleo de Pesquisa Modos de Vida.Título: Gênero. foram entrevistados mulheres e homens de três gerações. além de ilustrarem melhor todo o contexto das pesquisas. viuvez. ou de urbanização de seus espaços de vida e trabalho. no processo de migração para a cidade. têm propiciado um retorno interativo do trabalho de campo aos sujeitos entrevistados. Autora: Mara Coelho de Souza Lago 1 mlago@cfh. Titulação: Doutora em Psicologia Educacional – UNICAMP. parentalidade. produzindo fotos e vídeos que.SP Mestra em Antropologia – UFSC-SC Resumo Em pesquisas realizadas em municípios da Região Metropolitana de Florianópolis (Antônio Carlos e Biguaçú). sobre gênero. . Gerações e Modos de Vida. trabalho. A análise das entrevistas tem trazido um material precioso para refletir sobre gênero e gerações suscitando questões específicas sobre vínculos familiares.

Um ser biológico em absoluto estado de desamparo. identifica-se. em um indivíduo. daquilo que desde fora lhe é ensinado/acrescentado. Sujeito em posições. na sociedade. se pode dizer eu de si mesmo. Uma concepção que se distancia do sentido (mais atraente) de sujeito da vontade. – Quais as questões? – Que conceitos precisam ser explicitados? Da discussão sobre sujeitos. que nasce na cultura. gerações. consciente e dono de si. uma história de vida que o particulariza. o trabalho de campo. assim. sujeito do inconsciente. identificação. Subjetivação/objetivação. da falta. desejante. Sujeito significante. na linguagem. 2004) retomemos a questão das identificações. que é falado. os esclarecimentos conceituais se fazem mais necessários (do que realmente já o são. sejam exercidas por quem for). Numa posição acadêmica interdisciplinar na área das ciências humanas (sociais. o processo de constituição de sujeito se dá no sentido da individuação de um ser desde sempre cultural. Identificado. função de pai. individualiza. subjetividade. com o interesse flutuando entre disciplinas (antropologia – psicanálise – psicologia social). tão cara às explicações sociológicas que repetidamente caem na distinção opositiva entre indivíduo e sociedade. Identificação como uma categoria diferenciada e superadora da concepção de socialização. identidade (conferir Lago 1999. necessitando de cuidados (função de mãe. à sua dimensão de aprendizagem). portanto). culturalmente significado.As questões teóricas. com diferentes olhares sobre o(s) mesmo(s) objeto(s). classe. num movimento de internalização (a socialização é reduzida. é porque nos processos inconscientes de identificações. significado e fala. os sujeitos Gênero é um tema interdisciplinar e esta afirmação já é um lugar comum. significa. incompleto. No centro das análises desta linha de pesquisa há uma concepção de sujeito cuja dimensão social não resulta de um processo gradativo de inserção. etnia e outras diferenças que se façam presentes em diferentes contextos e situações históricas. Ao contrário. a partir de diferentes quadros teóricos). Sujeito cultural que transita na cultura e não pode ser oposto à dimensão social. 159 . no interior de uma mesma disciplina. vai construindo a memória de si. um conhecimento organizado de sua própria trajetória. de gênero. diferenciase. constitui-se em particularidades e.

Quando vamos a campo pesquisar nossos informantes, sujeitos em diferentes posições, estamos no terreno do empírico. Além do que podemos observar e além de todas as informações que podemos obter em documentos de vários tipos sobre eles e seus contextos, vamos atrás de seus relatos, das narrativas que nos possam fazer de suas experiências, suas histórias pessoais, seus modos de vida. È este, em geral, o material que privilegiamos nas pesquisas que denominamos etnográficas, pesquisas qualitativas por excelência (Fonseca, 1999), que não produzem dados no sentido duro, e que resultam de relações que almejam ser dialógicas (Cardoso de Oliveira, 2000) marcadas pela intersubjetividade, pesquisas que se objetivam nos documentos (escritos, visuais, audiovisuais), em análises interpretativas, como lembra Clifford Geertz (1996) interpretações de interpretações, que refletem fortemente a subjetividade do/a pesquisador/a, marcadas pelas teorias que dirigem seu olhar (e que o/a disciplinam, no trocadilho que faz Cardoso de Oliveira, inspirado que é também por Foucault). Estamos em campo, então, frente a outras subjetividades, buscando familiaridade com o desconhecido, procurando colocar-nos no lugar do informante, do seu ponto de vista e, ao mesmo tempo, esforçando-nos para nos despirmos de pré-noções sobre o diferente e tentando estranhar o que nele nos é familiar. (Da Matta, 1981). Em campo, as diferentes posições dos sujeitos se impõem aos nossos olhares – sujeitos de gênero, de origem étnica, de classe, habitantes do campo ou da cidade, com modos de vida e formas de trabalho diferenciados, sujeitos de gerações, que “vivem uma certa não contemporaneidade de contemporâneos”, como refere Alda Motta (2004), reportando-se a uma concepção de Karl Mannheim (1982). Minhas pesquisas centradas em sujeitos que vivenciam a urbanização de seus espaços de vida e trabalho (Lago, 1992, 1996), iniciaram com os descendentes de açorianos na Ilha de Santa Catarina e agora se dirigem para os descendentes de alemães que fundaram a antiga colônia de São Pedro, próxima à Florianópolis. Colonos que viviam da agricultura, em lavoura de pequena propriedade, produzindo para o consumo com mão de obra familiar e que, buscando novas terras para cultivo nos arredores, fundaram outras colônias (como o município de Antônio Carlos, que resultou da expansão desse território).

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Os trabalhos etnográficos, que se constroem muito especialmente sobre as narrativas dos informantes, nesta perspectiva inspirada por concepções (pós)-estruturalistas e semióticas de sujeito e cultura (Geertz, leitura lacaniana de Freud, estudos de gênero), têm como foco muito central a consideração da linguagem, a fala, a dimensão simbólica que define o humano. As falas Assim, precisamos nos deter, de início, no termo “colono”, como “colono alemão2” definidor de etnia (identidade étnica) e de posição diferenciada no mundo do trabalho. Homens e mulheres rurais, cuja primeira língua, o alemão, não era substituída por um nível satisfatório de domínio do português apreendido nas escolas (isoladas, cursadas em geral até as primeiras séries primárias, pelas gerações dos adultos entrevistados que agora estão com mais de 40 anos). A vergonha de falar “errado”, com sotaque, carregando nos erres, e a recusa em continuarem a ensinar o alemão a seus filhos. Vergonha do idioma, revelando uma posição desprivilegiada na escala social de classes, corroborada pelas atividades que realizam no mercado de trabalho no processo de urbanização: construção civil, trabalho doméstico, enfim, setor de serviços, como mão de obra não qualificada3. Esta é uma questão dos “colonos alemães” oriundos da região de São Pedro, colônia que “não deu certo” se comparada (e é sempre comparada) à da região do Vale do Itajaí, mais especificamente, à colonização de Blumenau. Não deu certo porque não alcançou o desenvolvimento industrial e o nível de urbanização de Blumenau e outras cidades do Vale, que se constituíram como importantes pólos industriais do Estado de Santa Catarina, a importância de cada uma crescendo ou decrescendo em diferentes momentos, a partir do sucesso ou insucesso de diferentes empreendimentos industriais, empresariais. Quando consideramos condições objetivas e subjetivas dos contextos sóciohistórico-culturais vivenciados, podemos destacar alguns aspectos diferenciais que se concretizam. Os habitantes urbanos de Blumenau, Brusque e Joinville4 e outras cidades do Vale, mais orgulhosas de suas origens, identificam-se como “alemães”, ensinando o alemão (como primeira língua) a seus filhos, em diversas gerações (Seyferth, 1974) e ressaltando

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características positivas de identidade cultural, em relação aos que chamam de “brasileiros” (Schulze, 1996; Paquette, 1994). Características que talvez não sejam valorizadas da mesma forma pelos “colonos” que vivem da agricultura nos arredores rurais destas mesmas localidades urbanas. (O modo de falar)... é um traço distintivo de identidade a ser exibido com orgulho ou a ser disfarçado com vergonha, conforme seus falantes sejam valorizados ou, ao contrário, denegridos, como acontece muito com as populações de origem rural e pobre (LAGO, 1996, p. 24). Tomemos alguns dos sujeitos falantes para refletir sobre questões que suas narrativas nos trazem (e que possibilitam/desencadeiam interpretações).

Escuta/interpretação Um autor importante para orientar nosso olhar nesta linha de pesquisa tem sido Louis Dumont (1985, 1992) (e seus tradutores5 na antropologia brasileira, entre os quais destaco Luiz Fernando Duarte, 1986). As análises e concepções de Dumont são esclarecedoras para refletir sobre as sociedades ocidentais contemporâneas, que ele caracteriza como marcadas pela ideologia do individualismo, o indivíduo como valor, em contraposição às sociedades “tradicionais”, hierárquicas, em que o valor está ligado ao todo, ao interesse coletivo. Sua concepção de que todo e parte não são oposições dicotômicas e que se articulam numa relação de englobante/englobado, posições que podem ser invertidas de tal forma que, em determinadas circunstâncias, o elemento englobado passe a ser o englogador e vice-versa, tem sido extremamente importante para pensar sobre transformações sociais, no caso, sujeitos de origem rural vivenciando o processo de urbanização. Estas contribuições teóricas têm fundamentado as reflexões da linha sobre as questões que articulam, nas pesquisas empíricas, famílias, sujeitos e suas posições de gênero, gerações, classe, origem étnica, trabalho, etc. Tomemos a narrativa do informante de 55 anos, entrevistado em momento anterior da pesquisa (Lago et al, 2000). Ele mora em um município vizinho ao de Antônio Carlos,

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onde nasceu e viveu trabalhando na agricultura desde criança até os 34 anos, quando casou e passou a trabalhar no setor de construção civil em Biguaçú, Florianópolis e arredores. Em suas palavras “... a mulher puxou para sair do sítio (...) a gente veio morar aqui e no primeiro tempo não se acostumou...”. Em toda a sua entrevista este informante permanece entre o campo e a cidade, comparando, mudando de posição, opinião), avaliando o antes e o agora, o trabalho rural e o trabalho na cidade, a aposentadoria lá e cá. Na realidade, ele foi puxado para/pela cidade e está sempre olhando para o modo de vida anterior, comparando o seu cotidiano com o dos irmãos que permaneceram no campo, a qualidade de vida cá e lá. Um parêntese: nas entrevistas com os homens as questões ligadas ao trabalho ganham um maior destaque e penso que isto se dá não apenas por eles se referirem mais ao trabalho, mas porque nós entrevistadoras/es costumamos centrar nossas perguntas nessas dimensões da vida social. Pesquisadoras, inclusive, que acabam(os) referindo mais os homens à vida no espaço público, à função de principais responsáveis pelo sustento da família. Mesmo nesta família, dou-me conta, que acompanho e sei serem os encargos fundamentalmente divididos, o salário da mulher sendo tão (ou mais) importante que o do marido, já que ela trabalhava à cerca de 15 anos no mesmo emprego, enquanto ele costumava passar alguns meses recebendo o seguro desemprego entre os trabalhos numa e noutra construção, já que não fazia parte de equipes regulares de construtoras específicas. Entressafras em que procurava serviços de pedreiro por conta própria, ganhando por dia menos que uma diarista em trabalho doméstico. Fecha parêntese. Os pais deste informante tiveram 13 filhos (2 falecidos). Seus irmãos que vivem na agricultura têm cinco, seis filhos. Ele, apenas três. Seus pais já faleceram e as terras, que tinham sido do avô e do pai, ficaram com dois irmãos mais velhos, que compraram as partes dos outros e permaneceram no trabalho rural. “... hoje já tem uma porção de sobrinhos morando no mesmo terreno...”, mas poucos deles se mantendo apenas com a produção agrícola e, em geral, durante os períodos em que não estavam empregados em outras atividades (conforme nos mostraram as observações no local). Os/as irmãs/os que saíram de Antônio Carlos foram para localidades próximas em Santa Catarina, exceto a “irmã mais velha que foi lá pra Pouso Redondo em cima do Rio Grande do Sul (...) tinham que sair porque ficar tudo também não dava, não”. (Esta

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expressão em cima do Rio Grande do Sul é intrigante. – Tem a ver com a condição de agricultor, em cima da terra, a terra como elemento fundamental de trabalho, como condição de vida?). Na continuidade de sua fala, o informante prossegue na comparação dos modos de vida “... mas quem tá lá ainda reclama... tem gente que tá aqui e reclama e vai lá no sítio e acham que não ta bom. Mas hoje ta melhor pra eles, do que antigamente...” Em sua avaliação, o fator que propiciou esta melhora foi a obtenção da aposentadoria pelos agricultores, uma questão que ele percebe com ambigüidade “... igual meus irmãos, lá eles fazem 55 anos e os homens se aposenta e ganha um salário mínimo, e a mulher 50 anos. Mas eles têm tudo assim, de planta, e têm vaca de leite, tudo, e com aquele salário eles vivem bem”. Em outro momento de sua entrevista, falando da aposentadoria que tentava obter como operário, agregando o tempo que fora agricultor, revela: “quando eu tinha os papel pronto o governo tinha traçado aquilo ali, fechou (...) dia 10 de setembro, dia 15 eu peguei os papel (...) eu falei com advogado e ele disse que era pra eu esperar fazer 65 anos que eu posso me aposentar por mais... Isso eu acho errado, o operário tem que ter 65 anos na idade prá se aposentá e o colono se aposenta com 55 pelo mesmo salário e não paga a bem dizer nada, o lavrador. E a mulher com 50”. Lembrado que o colono trabalha desde criança, ele ressalta “Mas eu também, porque quem trabalha nesse serviço que nem eu é só gente do interior...”. Em seu relato, ele está subjetivando os temas do êxodo rural, do trabalho na cidade como mão de obra não qualificada, a dependência das pessoas em relação às decisões arbitradas pelo governo sem formas efetivas de reação, tendo que seguir o que foi traçado pelo poder institucional. Traçados que em certas circunstâncias beneficiam os sujeitos, no caso, os irmãos agricultores que têm perspectivas diferentes das que os pais tiveram “já antigamente com os nossos pais, naquele tempo se os filhos ajudavam e sustentavam, tudo bem, senão eles passavam mal, hoje nesse ponto o sítio até que tá melhor”. Mas os sujeitos falam de uma aposentadoria que se distancia das discussões atuais sobre os déficits dos sistemas previdenciários das “sociedades de mercado democráticas” em que a aposentadoria que foi “... institucionalizada como um meio de compensação ao risco de privação advinda da perda da capacidade para o trabalho devido ao declínio físico do envelhecimento” (Simões, 2004) passa a ser questionada, à medida em que deixa

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. aprendia. um motivo forte para ele deixar os estudos foi a idade boa. no corpo. para o consumo. Esta adjetivação de boa ou muito boa para se referir a mais idade ou bastante idade me fez refletir e levou-me à associação com outra fala do entrevistado “Hoje pros filhos tá 165 . novos patamares geracionais. O processo de envelhecimento é referido pelo entrevistado com a expressão “estar com uma idade boa”. a quem se podia atribuir mais idade. inquirido sobre o desejo de voltar para o meio rural. porque estes colonos que trabalham/ram na terra de sol a sol desde criança. Da mesma forma. para se tornar uma etapa de novas oportunidades de lazer e aprendizado.... para quem a aposentadoria não era percebida como inatividade. tendo que se contentar com atividades que não exigem qualificações específicas.) os pais davam tempo prá gente ir à aula e naquele tempo era assim. Etapa que busca outras designações. na pele. esses/as homens e mulheres do campo que vieram buscar trabalho na cidade. Um homem de 56 anos..) era só até a quarta série do primário (... Primeiro. quem não aprendia ficava assim.”.. trazem nas mãos.. Apesar de várias dificuldades arroladas. apesar das aulas serem “mais fracas (. carne. Falando sobre escolaridade e informando que estudara até a terceira série primária com 12 anos ele contou que não se interessava em continuar os estudos porque “. em função da evolução dos níveis da perspectiva de vida e outros fatores. daí não”.. agora os filhos não querem mais e a gente está com uma idade muito boa e não adianta mais”. não aprendeu nem ler nem escrever e foi passado para trás. Também portam as mesmas marcas.) a gente pouco se interessava também (. estando ela ainda alguns anos distante dos 60. ovos. as marcas do labor nos sinais de envelhecimento. ele respondeu “Hoje não adianta mais. 2004. que ficava irritada quando lhe franqueavam as filas de idosos no comércio. “uma terceira idade” de jovens velhos. enquanto possível. daí já tem uma idade boa. As/os aposentados/as do meio rural não deixam de trabalhar porque “o mínimo” que o Estado lhes paga só ajuda na sobrevivência. de velhos velhos (Motta 1997...de ser a marca de entrada na velhice. nos setores de serviço. Debert. etc. contraposta a uma “quarta idade”.. o informante. Assim. eu tinha um irmão que. não os/as isentam de continuar plantando e produzindo leite. bem como à esposa.. mas como um reforço seguro que lhe possibilitaria uma continuidade mais tranqüila da atividade remunerada.. quem aprendia. 1997).

1985). ser mais velho. ainda quando formados em 2º ou 3º grau). era ter uma idade boa/muito boa. Ela mora numa casa antiga construída pelo avô de seu marido. com outros valores. por não poderem mais trabalhar? Quando precisavam vender parte da propriedade. se ajudam nas despesas familiares. de serem as mulheres descendentes de alemães muito trabalhadeiras6 . idoso. concluindo que agora já não é tão bom ser pai. é melhor ser jovem. a qual 166 . Foi transformada pelas práticas e ideário individualistas. Ser adulto.. ser responsável. são dirigidos principalmente para atender às suas próprias necessidades individuais (roupas.. Agora que está mais velho (com uma idade que deveria ser muito boa). Ser pai. podia significar algo bom na sua infância e juventude (tempo de identificações estruturantes). com a figura paterna responsável pelas decisões familiares. quando trabalham. viúva recente. ser homem. O informante constata e reflete com os irmãos que. Aí não era tão bom ser criança/jovem e a idade que se acrescentava à vivência de cada sujeito era boa. Mas seriam sempre muito boas essas idades? E quando os pais ficavam dependentes dos filhos. ganham independência e não trabalham “pro monte”. Aqui ele precisa continuar a dar estudo para os filhos que. etc. embora continuando no meio rural vivenciam experiências semelhantes com os filhos (a cidade já chegou lá). em grupos familiares extensos. ele vive numa sociedade urbana. tomar as decisões pela família. A idade muito boa já não tem as mesmas compensações. Uma senhora de 62 anos entrevistada em Antônio Carlos. Jovens. estudos. adulto. da mesma forma que outras mulheres desse município e de Biguaçú. em que os filhos trabalhavam nas terras dos pais e os ganhos eram para “o monte”. ressaltou a importância.. constituir família e deixar a casa paterna. eles passam a trabalhar para si e para as famílias que constituem. cujos ganhos.muito melhor. outros modelos de família. mãe de muitos filhos. lazer. confome relatou uma das entrevistadas? Percebe-se que ser “velho velho” também era uma questão delicada mesmo no meio rural. no modelo hierárquico de família.Tomam suas próprias decisões e os pais têm que aceitá-las. com modelos mais hierárquicos de família. transporte. às vezes aos próprios filhos. para terem um pecúlio na velhice. eu até digo pros meus irmãos mais velhos que hoje tá mais fácil ser filho do que ser pai”. são estudantes que já trabalham (diferentes dos informantes de Brandão.

fazia crochê e bordados para fora. tendo a filha mais moça e o genro morando com ela.. Na ocasião da pesquisa. Em sua condição de trabalhadeira ela também fazia bolos e salgados para festas. precisando adequar-se aos seus horários de permanência nos locais e eventos a que comparecia. 2004). na linha de depoimentos obtidos em outras pesquisas (Motta. já que passou a depender mais da carona dos filhos para os acontecimentos sociais. Mas eu mais gosto mesmo é da minha casa”. trabalho e interesses partilhados. 1997). Se a freqüência ao grupo de meia idade a aproxima da experiência dos “velhos jovens” contemporâneos em ambientes urbanos. destacando o convívio de pessoas de sua geração. ela tem uma vista muito bonita. que são parte importante ainda. embora se possa perceber entre os adultos jovens e entre as moças e rapazes entrevistados. lhe trouxe após mais de trinta anos de casamento com vida.mostra com orgulho. fez ano passado. além de ensinar estas artes a um grupo de terceira idade do qual participava. Contou sentir-se também restringida em sua autonomia. 167 . pais de uma menina pequena. conforme ocorre com algumas mulheres (Motta. da vida na localidade. Apesar do convívio com os filhos. pra falar a verdade às vezes eu digo pros meus filhos que a minha casa tem 100 anos. mesmos os que saíram do município e moram em Florianópolis e Blumenau. concomitante ao trabalho na roça do qual participava com o marido e os filhos. eu abro a porta aqui pra ti. de tarde eu prefiro ficar aqui. Fez uma relato sobre a importância subjetiva dessa participação. os passeios que realizavam e o fato de manter-se ativa. mas eu me sinto tão bem nessa casa que eu não trocaria ela por uma casa nova (. onde a produção de hortifrutigranjeiros é a atividade econômica relevante. na paróquia do município. destacando todos os afazeres domésticos que sempre desenvolveu. ela discorreu bastante sobre o sentimento de solidão que a viuvez..) Queres ver. a tendência ao abandono do trabalho na agricultura. Sua residência foi a primeira construção em estilo germânico restaurada no município e ela relata: “Olha. a viuvez não é vivenciada por ela como uma oportunidade para livrar-se do ambiente doméstico ou de restrições impostas pelo cônjuge.

. agora centrada na recuperação/visibilização do trabalho doméstico e da importância subjetiva da casa para as mulheres..) a professora não escolheu” P... Era lá no Beto Carreiro World .. Pesquisa que projeta desdobramentos na produção de um documentário áudio-visual e de material fotográfico sobre as casas germânicas restauradas.) quando a gente crescer a gente trabalha e depois ganha dinheiro e daí pode ir... em suas particularidades. trazemos algumas de suas falas: “Vai ter festa junina (. E tu não gostaste de não ser escolhida? R. Tinha que pagar 42 reais. os homens.) eu ia ser dama..) eu não vou fazer nada. Material (vídeo e fotos) que servirá para um retorno mais efetivo dos estudos realizados aos sujeitos que os têm possibilitado. com vistas a uma exposição de fotos no município de Antônio Carlos. com suas histórias de vida. Mas o buquê não deu pra jogar porque era da loja lá (. E foi difícil de ensaiar. processo que está ocorrendo com intensidade atualmente.) Minha tia se casou (.).. Quando eu era pequena eu também ajudava bastante.....) eu vou usar meu vestido melhor (.) Eu não fui em nada aqui (... enfim 7.... Não pude ir (.. Daí foi bem legal o casamento. 168 .. Ah. Ressaltando que os sujeitos pesquisados têm vivenciado as experiências de urbanização de seus espaços e modos de vida.. quase todo mundo errô (.. A forma como ela e as outras informantes mais jovens se referiram às tarefas domésticas e o cuidado que mostraram com suas casas (as antigas e as novas). e eu tinha um ingresso. Tinha aqui.A casa que lhe pertence.. eu odiei! Eu queria fazê o pau de fita (.. tem motivado a continuidade da pesquisa. tem pouca fita.. o acompanhante levava . E continuo ajudando. um a um.) eu não pude ir porque pagava muito caro os brinquedo .. e à qual ela mostra pertencer.) todo mundo não ia dar .. só que daí eu era muito grande e o vestido era muito caro pra mim . sabe aquelas promoção (. parece ter antecipado um movimento de restauração das construções de estilo alemão da localidade. Agora tinha ingresso na escola. para as famílias.. só vou me vestir de jeca e vou ir lá na festinha (. tinha dois acompanhante...

. porque senão era difícil a atividade que eles faziam sem essa mão de obra. ex-agricultor.. É a única filha entre três homens. mas participando das atividades dos pais. no seu inconformismo consumista...”.Agora tô chegando mais cedo da escola. mas também eles não tinham que pagar (. como professor graduado. 8 anos) Esta menina não falou só de frustrações e carências.. além de estudarem ajudavam nos serviços da casa. (Professor. porque era necessário.) tendo aí a necessidade dos casais terem muitos filhos. sobre o problema do trabalho infantil... e mesmo das crianças filhas dos adultos mais jovens que entrevistamos em Antônio Carlos. a vida era difícil e todos tinham que ajudar (. profissão que os informantes não aprenderam na escola... 36 anos) Este relato traz a questão do trabalho infantil na agricultura. todas as crianças. era até um tipo de escravidão que hoje muitos adultos têm lembranças ruim daquele tempo. “As pessoas se restringiam aos estudos até na 4 ª série e depois paravam e auxiliavam os pais na roça. Então os filhos eram uma mão de obra que eles tinham . aos 5.. quer dizer. né? E desde aos poucos anos de idade. distanciando-se do relato defensivo dos agricultores. dois do primeiro casamento do pai. porque não sei o que que deu na escola que to chegando mais cedo.) É claro que humanamente falando talvez as crianças sofriam muito. parece estar dialogando com o discurso institucional no Brasil. 169 . tendo migrado do trabalho no campo no extremo oeste de Santa Catarina. daí agora eu posso assistir toda vez Pokemon”.. não era gratuita. da roça. e está feliz porque ganhou um sobrinho. 6 anos. quando enfantizam que as crianças precisam aprender o hábito do trabalho desde cedo.. 3º grau completo. mas era um jeito que os pais tinham de controlar a situação e . (Menina. daquilo que eles que eles podiam (. em Biguaçú. Sua fala. Trouxe essas falas porque ela me pareceu bastante diferente das crianças de camadas médias urbanas. É bem protegida pela família e pelos parentes que moram perto.) Afinal.

se não tá com namorado. a centralidade das formações familiares para as diversas gerações pesquisadas. A constituição de família.. bolsistas de Iniciação Científica. a maternidade são vistas pela jovem como algo que “todos querem”. teve como auxiliares de pesquisa Carla Nichele Serafim. é esse”. todo mundo quer né.) ele ( irmão) só fazia quando não tinha ninguém em casa.. eu sempre faço (. morre. Famílias que. nessas pesquisas com classes trabalhadoras no/entre o campo e a cidade. À guisa de fechamento podemos ressaltar. tem gente que se não casa. 2. daí ele fazia só prá ele mesmo. atualmente. a escolaridade colocada como condição para o trabalho no meio urbano. Notas 1. E o trabalho feminino fora do lar. como atividade inquestinável. são o lócus de sua própria contradição. Carolina Duarte de Souza e Marina Silveira Soares.. Mas eu queria mesmo me formar primeiro. como grupos com interesses coletivos educando indivíduos individualistas. A mãe manda a gente fazer.) Mas eu não.. ou quando a mãe não deixava alguma coisa pronta prá ele.. como seria mais correto falar – indicando aí a questão importante da identidade cultural (e pessoal!). essas coisas (.) eu queria me formar primeiro e depois casar. E não colono de origem alemã. Este relato traz a questão do projeto de futuro para as novas gerações... Se bem que pra mim ela não precisa mandar muito assim.. cursando pré-vestibular. Mariana Grasel de Figueiredo e.Conferir Lago(1999). Mas o resto . Erikson Kaszubowski.). (Moça. (. vinculado a continuidade dos estudos.Esta linha de pesquisa tem contado com a colaboração valiosa de alunos de graduação. Que é o meu primeiro objetivo.. como ensina Duarte8. mas que deve vir depois do término dos estudos.. tudo isso aí. Agradeço a todos o inestimável trabalho que têm realizado.“O pai que reina um pouquinho. mas não é assim né eu tenho que casar. 18 anos). 170 . eu levo a minha vida (. ter filho. Eu quero me casar. Nas investigações referidas neste trabalho.) final de semana quando ela tá em casa é sempre ela que faz comida. mas quem manda é a mãe mesmo (...

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atribuídas à imaturidade. É reconhecido o desejo feminino e valoriza-se a reciprocidade nas relações sexuais ao tempo em que se distingue o que se faz com a “mulher de casa e de rua”. masculinidade. admitindo-se múltiplas parceiras para os homens. Palavras Chave: Gênero. Alguns homens relatam experiências homoeróticas na infância e adolescência. não percebendo-se os entrevistados sob risco de contraí-la.com No trabalho buscamos entender como homens rurais residentes num município da zona da mata de Pernambuco/Brasil concebem o masculino e as relações de gênero e como representam suas práticas sexuais e de prevenção de IST/AIDS. percebido negativamente. MASCULINIDADE. ambigüidade. prevenção. SEXUALIDADE E PREVENÇÃO DE IST/AIDS ENTRE HOMENS RURAIS NO NORDESTE DO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO Maria de Fátima Paz Alves Doutoranda em Antropologia/UFPE fatimapalves@hotmail. principalmente solteiros. assim como a atuação pouco eficaz dos serviços de saúde locais e campanhas de prevenção acentua a vulnerabilidade dos homens e suas parceiras às ISTs e a AIDS.MASCULINIDADE. As ambigüidades presentes no discurso. explorando diversos aspectos que configuram à masculinidade e as relações de gênero. O trabalho tem por base 22 entrevistas semi-estruturadas com estes homens e observação do cotidiano local. SEXUALIDADE E PREVENÇÃO DE IST/AIDS ENTRE HOMENS RURAIS NO NORDESTE DO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO Apresentamos e discutimos neste artigo os significados atribuídos ao masculino por homens rurais. As ISTs são pouco temidas ao passo que a AIDS é associada à morte. destacando-se uma rígida separação dos universos masculino e feminino. concorrendo com o conhecimento da parceira. é inconstante e irregular. A sexualidade caracteriza-se por uma dupla moral de gênero. que não afetam a construção da identidade masculina. O uso do preservativo. sexualidade. Os resultados indicam que os homens apresentam um modelo de masculinidade pautado em valores tradicionais. assim como a sua visão da vivência da sexualidade e da prevenção .

Eles apresentam em sua maioria baixa escolaridade e tem renda média de um salário mínimo. um é agente de saúde. Consideramos para efeito de análise a existência de modelos centrais de masculinidade que representam referência para os homens. Doze são solteiros. residem no campo e já desenvolveram. 2001). sexualidade e saúde reprodutiva. 1998. suas terras férteis tem sido ocupadas desde o início da colonização portuguesa. sendo também realizada observação participante do cotidiano nas localidades investigadas3. reconhecendo a existência de relações assimétricas entre os gêneros (Scott. há sempre o contraponto feminino na afirmação da masculinidade. 1992. raça.Ele tem por base pesquisa realizada num município da zona da mata de Pernambuco2. Há entre eles 10 católicos. Na construção e vivência das masculinidades e das feminilidades destaca-se o significado das inserções de classe. A maioria dos entrevistados (treze) se situam na faixa etária entre 18 e 30 anos. onde funciona uma usina de açúcar e Engenho Pitu3. geração opção sexual. 4 Neste trabalho nos detemos na análise de homens que grosso modo se assemelham enquanto categoria social. 1997.de IST/AIDS1. Kimmel. 174 .área desapropriada para assentamento na década de 60. exercendo coerção em relação a atitudes e comportamentos. 9 protestantes e 3 que declararão não ter religião. capazes de configurar contornos específicos às vivências e seus sentidos considerando as especificidades dos distintos contextos (Connel. sete entre 30 e 35 anos e dois tem mais de 40 anos. Fonsêca. Os entrevistados exercem algum tipo de atividade relacionada ao campo ou. Oliveira. 1990. Engenho Cachoeirinha. 2 1 A pesquisa foi realizada entre outubro de dezembro de 2001 nos engenhos Galiléia. entre as quais aquelas relativas à sexualidade são constituídas e compartilhadas por homens e mulheres. entretanto. 1998. 8 se denominam agricultores (dispondo ele ou a família de um terreno para plantio e criação). como também na forma como ele se concretiza no cotidiano (Connel. 1997. Tomamos como referência a perspectiva de gênero. 2001). com o plantio de cana-de-açucar. 3 A zona da mata é formada por uma faixa de terra que fica entre o litoral e o agreste do estado. 2001)4. 2000. Entendemos também que as expectativas e experiências que dizem respeito à construção e vivência do masculino (e do feminino). que há uma significativa flexibilidade nos elementos que configuram estes modelos. engenho desativado onde só se planta cana na atualidade. Heiborn. etnia. 1996). não tomando como objeto a relação entre estes e seus patrões ou superiores. 1997. reconhecendo. Almeida. apoiado pela Fundação Ford. já que a assimetria não anula a Na realização da pesquisa da qual deriva este trabalho contamos com bolsa do Programa interinstitucional de treinamento em metodologia de pesquisa em gênero. Oliveira. 1998. quando foram entrevistados 22 homens residentes em três localidades situadas na zona rural do município de Vitória de Santo Antão. que ainda persiste. embora no século XX tenha havido significativa mudança em sua organização econômica e social (FIDEM. um aposentado e um é servente. nove são casados (dois encontram-se no segundo casamento) e um estava separado no momento da pesquisa. 2000. 11 são assalariados rurais. Almeida. entre outras. que inspirada na crítica feminista afirma a construção social e histórica das vivências e significados relativos ao ser homem e mulher.

1999. 2001). se solteiro goza de 175 . Leal. se ultrapassa a idéia inicial de que as informações sobre a infecção por HIV e as formas de transmissão evocariam uma proteção individual e adoção de medidas eficazes de prevenção. “de caráter“ e “de moral”: “um cabra rochedo”.1999. verifica-se sua banalização (Knauth.cit). 1998). sabe chegar e sair dos lugares. 1997. 1998. 1999. Enquanto em outros. limites e flexibilizações na representação da Masculinidade Ser homem na visão dos entrevistados significa ser “homem de respeito”. na formação das identidades e das expectativas em relação ao comportamento sexual.cit). Leal e Boff. 2000. "os normais". 2000). inclusive sexuais. 1991. Alves. que é honesto. procura atender às expectativas relativas às suas atribuições enquanto marido e pai. Eles demonstram que isto se dá desde o processo de socialização. Loyola. econômicos sociais e culturais (Daniel e Parker. Também não se vêem como "grupo de risco". termo que conduz a se pensar seu oposto: "grupo sem risco". A idéia de que o gênero informa ou mantém relação estreita com a vivência e representação da sexualidade por homens e mulheres tem sido demonstrada em diversos estudos. 1. 1998.1998). op. Leal e Boff. afastando-nos de uma perspectiva “naturalista” que a toma como algo inerente à natureza biológica e/ou psicológica do humano (Heilborn 1999. 1999. Knauth. 2001. Alves. A difusão da AIDS mais recentemente (a partir dos anos 90) tem sido vista como produto de fatores políticos. condizente com uma não preocupação com a prevenção. 1994.Nesta perspectiva. os homens heterossexuais não se percebem como minorias. Vilela e Barbosa. 1992. relacionada a uma introjeção da lógica de gênero na abordagem a estes. Portela e Nascimento. 1998. nem se sentem impelidos a lutar por seus direitos.importância e o lugar das mulheres na vida dos homens (Fonsêca. 2002). Se casado. condicionando às carreiras sexuais. Parker. 2001). 1996. onde a negociação não se desloca das relações assimétricas entre estes/as (Heilborn. 1996. cujo modelo é o casal heterossexual. trabalhador. no qual o homem tem ampla liberdade para exercer sua sexualidade. Prerrogativas.Destaca-se em diversos contextos a concepção da AIDS como “doença do outro” (Loyola. Monteiro. Para Vilela (op. A sexualidade é concebida como uma construção social e histórica de relações que atendem a múltiplos sentidos e finalidades. Ressalta-se ainda a falta de prioridade dada a homens heterossexuais nas estratégias de prevenção ao HIV (Vilela. sustenta e protege sua família. Knauth.

o significado da traição feminina neste contexto. particularmente. O homem que não presta neste contexto é o “maconheiro”. sendo desqualificado por esta. o assassino. pois não Vale de Almeida (1996) teve semelhante percepção em seu estudo da masculinidade numa aldeia portuguesa. o que bate em mulher. passando a servir como referência negativa para a comunidade. Ser evangélico neste contexto é distinguir-se dos demais. fragilizando o laço conjugal e familiar e favorecendo a infidelidade da mulher. particularmente. Eles por sua vez tendem a passar uma imagem de correção num discurso onde se observam por vezes contradições entre representações e vivências. “o fresco” (homossexual). fazer bagunça ou ser motivo para chacota. o ladrão. 6 Vez por outra se comenta que alguns crentes não correspondem às expectativas santidade que apregoam fazendo coisas que não devem. destoa-se do padrão de masculinidade idealizado na área. de serem evangélicos. o que se aproxima da representação do que seja o “homem que não presta”. particularmente em relação o lazer e à sexualidade. ou se “não sabe beber”. tendo em vista. Não ser visto como “homem de respeito” significa fugir das prerrogativas afetas ao modelo de masculinidade idealizado localmente. devendo. o que significa ser homem no contexto analisado. A categoria respeito é bastante significativa para se compreender os valores vigentes no campo. sendo o bêbado alvo de chacotas que o desqualificam enquanto homem. embora queiram.5 O álcool é um elemento importante na sociabilidade cotidiana dos homens que não são “crentes”. Alguns entrevistados demonstram dificuldade. É comum visualizar diariamente nos bares rodas de homens que conversam. Neste sentido é interessante observar uma contradição potencialmente conflituosa: se os homens arrumam mulher fora.maior liberdade. sabendo “entrar e sair dos lugares” sem criar confusão. tendo amizade com todos. riem e bebem juntos. feminilizando-o. entretanto. O “crente” não precisa fazer o que os outros fazem porque supostamente a vida de “renúncia do mundo” já representa uma prova6. se se bebe demais. O respeito associa-se tanto a capacidade de não desprender ação que possa prejudicar alguém quanto ao agir de modo “pacato”. mas também pode tornar-se motivo de repúdio quando exageram. Por sua vez. A religião parece representar uma espécie de salvo conduto para a masculinidade. respeitar os pais e “não se juntar com quem não presta”. isso lhe valoriza perante outros homens. Com outros homens se mantém sempre uma relação de amizade e competição. apresentando um comportamento “mais recatado”. o homem que sai com outras mulheres e despreza a “mulher de casa”. 5 176 .

ao exercício da sexualidade e a falta de compromisso financeiro. sendo mal visto o homem que permanece solteiro além do tempo considerado adequado. que deve ser exercida com a mulher de casa preferencialmente. Um homem separado entrevistado coloca-se como se tivesse voltado a vida de solteiro “Agora. retirando-os da “desordem” da vida de solteiro. sem as quais não se verifica a consolidação da identidade adulta do homem. considerando-se neste sentido.agüentariam tantas restrições. até esta parece afirmar-se em função dos ditames da igreja. Esta distinção. Eu ando prá todo canto assim mais os amigos”. que se acentua com a chegada dos filhos. de forma discreta para não desestabilizar o laço conjugal. as relações que eles estabelecem com outros homens e com as mulheres. A comunidade de parentes e vizinhos/as pode ser vista como um cenário importante. Esperam-se mudanças no comportamento dos homens com o casamento7. sendo a formação da família algo fundamental para a construção da identidade masculina adulta. 7 177 . É neste cenário que se constrói as prerrogativas de um modelo que se flexibiliza em função de recortes que demarcam distinções coletivas e individuais entre os homens. Isto pode se relacionar tanto com a visão da sexualidade como algo necessário a uma vida “normal” como pela homofobia que perpassa as suas concepções sobre o ser homem. por sua vez. Para os entrevistados o casamento representa uma significativa mudança. principalmente financeira. É quase sempre considerada boa a vida de casado. por vezes sendo tido como “donzelo” (aquele que aparentemente não tem vida sexual) ou “fresco”. considerando-se a constante e próxima convivência entre as pessoas por vezes desde a infância. diminuição da liberdade de ir e vir (fica mais caseiro). ressaltando-se o afeto e a responsabilidade pelo sustento destes. na medida em que dá um norte às suas vidas. A vida de casado caracteriza-se pelo seu oposto: pela responsabilidade. não anula a assimetria com as mulheres. O casamento é pensado para a vida toda. por vezes. na configuração da masculinidade nas localidades. talvez o principal. A vida de solteiro é caracterizada pela liberdade em relação ao uso do tempo e aos deslocamentos. podendo eventualmente se dar “pulos de cerca”. atribuídas principalmente à traição feminina. e maior controle da sexualidade. mudou de novo. A chegada dos filhos é um fato visto sempre de forma positiva pelos homens e que acentua a transformação ou a consolida. mas acontecem separações. como no caso de dois entrevistados.

que acentua a dependência econômica das mulheres do pai ou companheiro. como caçar. Os entrevistados tendem a minimizar ou negar a importância da renda auferida pelas mulheres possivelmente porque este reconhecimento lhes afetaria tendo em vista ser o provimento da família uma prerrogativa importante do ser homem9. passear na cidade. que tanto pode significar vaguear pelas redondezas. Evidentemente nem sempre tudo funciona como no modelo. tomar banho de bica. que adquiram o que precisam ou possam desfrutar melhor as horas vagas e. que é melhor ter emprego do que estar desempregado. uma outra é merendeira e outra agente de saúde. uma vez que se relaciona diretamente com o bom desempenho das atribuições do seu papel de provedor ou mesmo com os gastos referentes à vida de solteiro. Para os mesmos é preferível a companhia dos amigos a dos parentes em suas horas vagas. Nas horas vagas tanto os solteiros (mais estes) como os casados relatam uma gama ampla de coisas que podem fazer. sendo vista em geral como uma futura dona de casa. como a Cabília. A liberdade traduz-se no termo andar. “para arrumar alguém que tome conta dela”. A menina deve ser criada para ser esposa. o que embora tenha sido visto na pesquisa de campo. jogar bola. (1999). 9 Portela e Nascimento (2000) destacam a importância das aposentadorias rurais para a população da zona da mata. Parece contribuir para a manutenção deste modelo a baixa empregabilidade da mão de obra feminina. até mesmo por conta do desemprego ou sub-emprego de muitos homens nas localidades. e quando falam de ficarem em casa se referem a descansar muito mais que ficar com os filhos ou fazendo algum tipo de atividade doméstica. não foi explicitado nas entrevistas. legitimado como masculino8. distinguindo-se Concepção semelhante tem sido identificada em sociedades tradicionais. 8 178 . analisada por Bourdieu.Representa-se a socialização das mulheres como relacionada à contenção de comportamentos e a uma maior circunscrição ao espaço doméstico ao passo que a socialização masculina se daria preferencialmente no espaço público e denotaria um movimento de ocupação cada vez maior deste espaço. especialmente o assalariado representa mais uma obrigação não se lhe atribuindo uma conotação positiva para além da afirmação de que este lhes permite que se mantenham e as suas famílias. sair com os amigos ou ir para o bar ou para o cabaré. Contudo. A disposição para o trabalho ou o ser trabalhador é um dos requisitos mais importantes do ser homem. o trabalho em si. pescar. 03 das esposas dos entrevistados exercem atividade remunerada como costureiras.

Embora isto não seja visto para eles como lazer ou diversão. parece assumir este papel no seu cotidiano. constituindo. aquém dos caracteres diferenciais que a heterogeneidade masculina sinaliza. Alguns elementos relativos à representação da vivência da sexualidade pelos homens Os entrevistados parecem divididos entre a idéia do sexo como “necessidade. Eles consideram que o desejo sexual é um atributo tanto dos homens quanto das mulheres. conforme veremos a seguir. entre os quais: geração. pertencimento religioso. 2. mesmo considerando-se as especificidades do contexto local. algumas que se aproximam mais de um padrão idealizado e outras que parecem distar deste. Entretanto. que parece pouco favorável à realização de um projeto de autonomia feminina. Por outro lado. posição no núcleo familiar e as interações cotidianas entre homens e entre homens e mulheres. que homogeneíza as diferentes masculinidades: as relações assimétricas que travam com as mulheres. não se pode dizer que a assimetria entre homens e mulheres necessariamente retire delas todo o poder de barganha com estes. quando se aborda a forma como se dão as relações de gênero na vivência da sexualidade. orientação sexual. portanto várias masculinidades. condição de solteiro e casado. As relações dos homens com diferentes instituições e a forma como atuam em distintos campos da sua existência estabelece diferenciais entre homens e grupos de homens. o que não representa uma queixa. além do que costumam participar ativamente das atividades da igreja. entre outros aspectos. embora eles o tenham em maior intensidade. observa-se uma atualização e um redimensionamento das prerrogativas relativas à definição do que signifique ser homem. com a família e com a esposa ou namorada no caso dos solteiros. prazer e obrigação”. Os evangélicos ressaltam que sua condição os impede de se divertirem como as “pessoas do mundo”. há características que prevalecem estabelecendo um ponto em comum.basicamente os programas que se faz com os amigos. já que se dizem plenamente satisfeitos nessa condição. Verifica-se a existência de nuances relativos à noção de masculinidade no contexto focalizado. Levando em conta vários recortes. na qual inclusive se sentem protegidos “do que não presta”. elas como 179 . Isto fica evidente.

Neste caso fica bastante explícita a construção social da “necessidade” explicitando-se também que há outros nuances para além da relação de subordinação. fazendo com que ele fique fraco. contrariando de certa forma a visão predatória e animalizada do sexo que tendem a colocar. Dos homens que responderam a pergunta: quem gosta mais de sexo: seis disseram que eram as mulheres. em principio não pensando-se nela para uma relação estável e duradoura12. aprovando-o ou valorizando-o diante de outros homens não há possibilidade de uma negativa. os homens e sete os dois. vista em geral como uma moça não virgem (mãe solteira ou separada) que mantém com eles relações sexuais sem pagamento. diante da convocação de uma mulher.que por compensação tem a capacidade de ter mais orgasmos. três. e mulheres para casar ordenam o modo 10 180 . embora não se relacione com a cor/raça da mulher em questão. já que o sexo é visto como uma espécie de tarefa pesada. Godelier (2001) e Bourdieu (1999).10 Para eles parece difícil aceitar que alguém possa não ter vida sexual. considerando o acúmulo. o que dizem ter tido péssimo. 11 Este termo remete a uma alusão clara a desvalorização da mulher negra. Ao que parece. Observa-se uma visão da sexualidade feminina como capaz de exercer um efeito devastador. o que. 12 Heilborn (1999) constatou algo semelhante em suas pesquisas. mas se for de mais suga sua energia. podendo prejudicar o desempenho no trabalho. na relação sexual o homem se alivia. que poderá julgar sua performance. o que é traduzido na afirmação de que as mulheres gostam mais de sexo. esgotando as energias masculinas. entre outros. Verifica-se uma distinção na forma como os homens denominam as mulheres com quem se relacionam sexualmente fora do casamento.dominação entre homens e mulheres. e “menina”. termo que significa uma mulher de pouco valor: “uma prostituta” ou uma mulher fácil. mesmo num contexto de assimetria de gênero. sexo demais também faz mal. contudo diferencia-se da namorada e da esposa. o que remete a representação desta como algo perigoso. Alguns entrevistados afirmam que já transaram por obrigação. principalmente se for homem só poderia estar relacionado a algum tipo de anormalidade ou doença. verificando que as categorias de classificação que opõem mulheres “fáceis”. senão poderá vir a resultar em doença. Por outro lado. “que dão mole”. também referido como feito com cuidado ou com amor. o que também foi observado nos estudos de Malinowski (1983). ora denominando-as de “negas”11. Com as últimas a sexualidade ganha uma conotação de sexo domesticado: “tranqüilo”.

pelo fato de precisarem delas e pagarem para isso. Para Sebastião. Os entrevistados afirmam que a virgindade não é fundamental em sua escolha para o casamento. e pelos evangélicos quando eram solteiros e /ou não eram crentes. Melhor mesmo é quando conseguem uma “pessoa certa” com quem ficam regularmente. sentindo-se dependentes. Por outro lado. de fazer um sexo apressado. de fazer sexo com vários homens. A referência ao cabaré é feita em geral pelos homens solteiros ou pelos casados em relação ao tempo de solteiros. tem relações sexuais fora do casamento ou namoro. segundo os entrevistados. com a qual inclusive podem vir a ter uma relação com mais afeto. Com os evangélicos se acentuam estas objeções. a moça que ele escolhe para namorar “tem que ser bem direitinha. relacionada aos seguintes aspectos: ao fato de cobrar pelo sexo. seja financeiramente. passível de compromisso. quietinha. pois só podem namorar com moça da igreja e um namoro com regras mais rígidas. devem preferencialmente ter relações com as suas mulheres. cabendo um comportamento bastante exemplar nestes casos para que tenham chance de serem vistas como “mulher direita”. podendo eventualmente vir a se relacionarem com outras ou mesmo ir ao cabaré. Os homens casados. que representariam o maior perigo de contrair infecções sexualmente transmissíveis. pensando já no próximo cliente. fazendo coisas que as outras não fazem para conseguir o dinheiro do homem. mas sem comprometer o convívio no núcleo familiar. ou trazendo doenças para a mulher de casa.Os entrevistados apresentam uma visão negativa em especial da mulher do cabaré. entretanto a mulher não virgem ou separada em seu ponto de vista corre grande risco de ser vista como “de um e de outro”. e por ser arriscado transar com elas. ainda que tendo como contraponto o masculino. aquela que o cara sabe que presta”. Se a moça é virgem é preciso ter cuidado para não vir a ter problemas caso venha a ter relação com ela. ao que parece. ou seja. como os homens se aproximam das figuras femininas em e relações que são organizadas por um princípio de valorização do masculino. Carinho na linguagem dos homens representa a depender do contexto tanto a demonstração de afeto quanto a prática de carícias mais ousadas na relação sexual. 13 181 . no sentido de ser “safada”. seja pelo conhecimento por parte da comunidade do fato ou de sua continuidade ou constância. a mulher de cabaré é vista como mais “carinhosa”13. Os jovens solteiros evangélicos por vezes demonstram-se pressionados entre a “necessidade” e os ditames da igreja. certinha. Os critérios de escolha de uma moça para namorar evidenciam a distinção na forma como concebem as mulheres com quem namoram ou estão casados e aquelas com as quais ficam. Mais ainda.

1999. um incidente de percurso. embora nem sempre isto fique muito claro no depoimento dos homens. na prática. Verifica-se uma incompatibilidade entre o estereótipo de homossexual representado pelos entrevistados e a gama de experiências sexuais de que falam. Apesar da infidelidade feminina ser considerada um fato grave é freqüente nas localidades a referência a sua ocorrência. ou necessidade. ora persistindo uns ora outros. se os homens fazem uma separação clara entre categorias de mulheres. se casam com mulheres não virgens ou transam com as namoradas. embora estejam presentes no modelo. enquanto representações. em particular sobre as classes populares (Parker. e o “fresco”. Nascimento. 182 . assim como a negação desta para a mulher. que não deve se envolver com outro homem. também dizem não dar importância à virgindade. no exercício de sua liberdade ou mesmo por dinheiro. o homem incompleto. e três referiram já ter se relacionado anteriormente. pois. assim como pelos entrevistados. Dois deles disseram que se separaram por haverem sido traídos. A aceitação social da infidelidade masculina relacionada à percepção da sexualidade masculina como mais próxima da animalidade aliada a dependência econômica das mulheres desfavorece a ocorrência de um conflito mais sério quando o homem é infiel. A constante referência a “moças de família” que transam com o namorado ou engravidam também parece admitir que a separação entre as categorias de mulheres não funciona exatamente como nos padrões tradicionais. mas é visto como natural a possibilidade de traição do homem. efeminado. 2001). de moral e de respeito. 1994. dois afirmaram se encontrar com mulheres casadas no momento. O “tipo ideal” que surge nesta 14 Trata-se de uma visão também encontrada em outras análises. ao contrário da feminina. Para os entrevistados tanto o homem como a mulher deve ser fiel. um “pulo de cerca”. sendo concebida em geral a traição do homem como um fato banal. Verifica-se no discurso dos entrevistados uma distinção e uma espécie de continuum entre o homem maduro. A homossexualidade é vista como algo que fere a natureza já que “Deus fez o homem para a mulher e a mulher para o Homem”14. Alves. A referência ao sexo com outro homem sugere um comportamento ativo. quase que desprovido de características masculinas. garoto que ainda não tem experiência ou mesmo o homem solteiro que pode vir a ter por inexperiência.Verifica-se uma certa ambigüidade na adoção de valores “tradicionais” e “modernos”. se o faz é considerado “cabra safado”.

Não é necessário o uso do preservativo segundo os homens: em casa com a esposa porque ambos são fiéis ou porque se usa o preservativo fora. neste último caso. assim sendo. Ou seja. como por exemplo. ser homem não significa necessariamente ser ativo. transa-se com camisinha ou com mulher conhecida. 1994. a forma como se reconhece e legitima as práticas homoeróticas entre distintas categorias de homens. enquanto sete afirmam que usam na atualidade. sem que se tenha um compromisso efetivo. 1994. 1999). 1996. 3. Loyola. em princípio qualquer mulher seria elegível desde que passasse no teste. concorre com o preservativo. quando através de uma espécie de teste pode-se avaliar se a parceira está saudável. Oito deles declararam já ter usado camisinha. Destaca-se. Um entrevistado afirmou que a dona do cabaré que ele freqüenta exige que as suas funcionárias usem. abrindo-se o leque para outros requisitos que podem vir a fortalecer a masculinidade.Concepções sobre a Prevenção de IST/AIDS Todos os entrevistados dizem conhecer o preservativo. colocando-se como possibilidade em determinadas circunstâncias e não em outras. 2000).Cinco homens declararam nunca terem usado o preservativo. em geral uma mulher das proximidades com a qual se fica.16 15 Esta questão da obrigatoriedade nem sempre se confirma.representação aparece como um elemento raro nas comunidades enquanto as experiências homoeróticas parecem ser relativamente comuns. 16 Esta característica aparece como um aspecto recorrente em vários estudos. Ao que tudo indica não parece haver uma relação necessária entre identidades e práticas sexuais neste contexto (Lago. identificado principalmente como método preventivo contra ISTs e AIDS. observandose um sinal. em relação à construção e vivência da masculinidade. A idéia sobre o conhecimento da parceira. Seu uso é visto como necessário com mulher de cabaré. embora persista enquanto representação uma relação de atividade-passividade entre um homem que mantém as características da masculinidade (ainda que por vezes incompleto) e um outro homem efeminado conforme padrão explicitado por Parker (1994. mas que lá dentro elas não usam. ou fazendo um certo tipo de toque nos órgãos genitais da mulher. o que sugere que na prática estas se dão entre homens que não se enquadram necessariamente neste modelo. entre os quais: Guimarães. 183 . com pessoa conhecida. O uso da camisinha aparece como inconstante e irregular. o status ocupacional mais elevado. Neste caso. Berquó. pelo fato delas transarem com muitos homens ou porque lá é obrigatório15. como modo de andar ou a presença de secreção na calcinha.

Os entrevistados tem conhecimento de diversas ISTs ou porque já tiveram ou porque conhecem outros que tiveram. e penetrar. à maneira deles. As informações que tem nem sempre são verdadeiras ou consistentes. A AIDS é concebida pelos entrevistados como uma doença que não tem cura. a um farmacêutico ou utilização de chás ou fórmulas caseiras. o preservativo não permite que se “sinta o gosto” ou tira o prazer. Eles o consideram barato. por nomes conhecidos localmente. embora por vezes se atrapalhem na hora de dizer quanto custa. principalmente porque se relaciona com qualquer mulher. mas tem remédio. um deles afirma ser muito caro e não estar ao alcance dos pobres. Para o tratamento das ISTs há referência a consulta a um médico. “é feito cachorro”. por vezes. Há referencia também ao fato dele não se cuidar como a mulher. Elas são identificadas. ficar em contato com a parte interna da mulher. também sobre ISTs. Foram citadas: sífilis. mostrando-se em geral muito genéricas e parciais. formigueiro. levando-o a broxar. ao passo que as ISTs incomodam.A mulher que tem muitos homens 184 . Vários referem a existência de doação de preservativos nos postos de saúde da cidade.Embora se reconheça a importância do uso da camisinha para evitar ISTs e AIDS. Alguns depoimentos revelam a existência de um contra-discurso bastante difundido entre os homens a respeito da camisinha. O preço do preservativo não é visto pelos entrevistados como empecilho a sua aquisição. Aliás. O homem é visto como tendo mais facilidade de pegar ISTs e AIDS.Alguns entrevistados sabem que existe medicação para prolongar a vida do portador de HIV. que pode ser canalizada para se pensar em estratégias de intervenção. que mata aos poucos. quando deveria se molhado pelo sêmen do homem. prende e retém algo que deveria ser solto. pode favorecer a uma performance ruim ou fraca. mula e crista de galo. parece haver uma significativa circulação de informação. dada a falta de familiaridade. Para eles. capaz de inibir o uso por parte dos mais jovens. Esta parece ser a representação mais forte em relação ao preservativo. Verifica-se ainda a idéia de que o uso da camisinha faz mal a mulher. sua prevenção e tratamento. gonorréia de sangue e de pus. Todos os entrevistados já ouviram falar da AIDS. faz a pessoa secar. Em alguns depoimentos o assento e o beijo aparecem como formas de infecção por HIV. deixando seu útero seco. “não escolhe”. e jogado no útero da mulher. capim. comumente indicadas pelos amigos. há uma percepção negativa desta quando se considera a possibilidade de utilizála. que nem sempre foi possível traduzir.

A AIDS. associando-se à virilidade. como o lugar das mulheres (em suas várias categorias) na construção e vivência desta. Loyola. As campanhas de prevenção parecem não ter um impacto significativo sobre estes homens talvez pela falta de conhecimento do seu universo cultural. que são flexibilizados em função de distintos contextos e circunstâncias. 1999. assim. O risco é avaliado em função do número de parceiros que se imagina que alguém teve. baseiam-se num conhecimento impreciso e inconsistente. ainda é vista como “doença do outro”18. Afirma-se que ela ao saber que está com AIDS se vingará de todos. verifica-se em alguns aspectos. mesmo considerando a referência a esta como de domínio público nas localidades. Verifica-se uma percepção negativa do preservativo. 18 Diversos autores encontraram representação da AIDS como doença do outro. aparecendo uma fantasia em relação a esta. por sua vez. As informações sobre a AIDS e as DSTs e sobre suas formas de prevenção e tratamento. 185 .Considerações finais Os entrevistados demonstram uma concepção tradicional dos atributos alocados à masculinidade e a feminilidade. quando a prostituta era vista como a fonte do mal. o que pode relacionar-se a própria negação da relação homoerótica.1998. uma certa ambigüidade. A esposa ou companheira nunca é vista como passível de transmitir ISTs ou AIDS. 1996). Para eles o risco de contrair ISTs não representa algo tão grave assim. No contexto brasileiro ver Knauth. 4. Os entrevistados não se vêem como estando em risco em relação a ISTs e principalmente a AIDS. 1994 e Guimarães. As mulheres representam um contraponto para a construção da masculinidade. e uma visão distorcida e distante do risco em relação às ISTS e a AIDS. pois acreditam tomarem os devidos cuidados. por se valerem de critérios que consideram confiáveis para a escolha das parceiras. 1994. notadamente no que diz respeito à sexualidade. o que parece se relacionar diretamente com o seu não uso.aparece em seguida como mais vulnerável e por último o homossexual. bastante ameaçadora. podendo-se mesmo dizer que em algumas situações ou circunstâncias podem colocá-la em xeque. escondendo a doença. Embora predomine uma visão tradicional das relações de gênero. não se 17 Esta representação assemelha-se aquela de que fala Carrara (1994) ao discorrer sobre a transmissão da sífilis no século XIX. Destaca-se o significado do casamento e da chegada dos filhos na formação da identidade masculina madura. Em geral a prostituta é pensada como fonte de doenças17. da quantidade. Parker. observando-se uma oscilação entre “valores antigos e modernos”.

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Sexualidade e Saúde Reprodutiva promovido pelo Programa de Estudos e Pesquisas em Gênero. Sexualidade e Saúde/IMS/UERJ com apoio da Fundação Ford. destaco que essa pesquisa assume importância por analisar um dos maiores núcleos urbanos do interior do país e o maior do oeste brasileiro. tendo como metodologia a pesquisa qualitativa sendo que a estratégia metodológica empregada para a coleta de dados está sendo a realização de entrevistas face a face por meio de roteiro semi-estruturado. Além disso. como as vêem. Resta dizer. Essa pesquisa tem como objetivo principal identificar e analisar como os homossexuais que vivem relações estáveis significam suas relações. sendo a primeira composta por mais de 500 mil habitantes. esse artigo assume relevância por desenvolver uma análise. dos significados e das representações sociais que homossexuais masculinos têm da regulamentação civil da união entre pessoas do mesmo sexo. segundo o censo de 2004. Esse núcleo urbano é formado pelas cidades de Cuiabá e Várzea Grande. que . Brasil. fato que ocorrerá em novembro desse ano. 1. Essa análise só está sendo possível pelo desenvolvimento de uma pesquisa que está sendo financiada com recursos do Programa Interinstitucional de Treinamento em Metodologia de Pesquisa em Gênero. as constroem e as vivem cotidianamente. Introdução Esse artigo tem como fim desenvolver uma análise dos significados e das representações sociais que homossexuais masculinos que vivem uma relação de conjugalidade tem da Parceria Civil Registrada. Resta destacar ainda que a pesquisa não se encontra concluída com a necessidade de um retorno a campo com a realização de mais entrevistas.com Mestre em Ciências Sociais.SIGNIFICADOS E REPRESENTAÇÕES DA PARCERIA CIVIL REGISTRADA ENTRE HOMOSSEXUAIS MASCULINOS EM CUIABÁ Moisés Alessandro de Souza Lopes . ainda preliminar. Desse modo. a Grande Cuiabá que conta com uma população total superior a 700 mil habitantes.sepolm@hotmail. bem como da possibilidade de regulamentação de sua união.

mas não abandonou o cenário político. inserida na proposta do programa de governo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva do PT. que a Deputada Marta Suplicy. 1999). a principal preocupação daqueles parlamentares e também do movimento dos(as) homossexuais ao se buscar o reconhecimento da conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo era assegurar o direito à inclusão dos(as) parceiros(as) na Previdência Social e em planos de saúde privados. em 1995. mais especificamente em 1994. bem como de diversas ONGs favoráveis. como os beijaços que ocorreram nos shoppings e restaurantes das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. No Brasil. no âmbito das eleições para a Presidência da República. vale destacar aqui as manifestações das igrejas católicas e evangélicas contrárias ao projeto. Devem-se destacar também aqui os diversos estudos desenvolvidos principalmente na França em decorrência da aprovação do Pacte Civil de Solidarité (PACS) em 1999. Sob pressão de grupos conservadores essa proposta foi retirada do programa presidencial de governo. as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo têm assumido gradualmente espaço na mídia nacional e internacional. Já a discussão sobre a união entre homossexuais na sociedade não seguiu o mesmo caminho. esse projeto que busca garantir aos(as) homossexuais a condição de cidadãos(ãs) não foi até hoje para a votação na Câmara dos Deputados estando engavetado. as passeatas do orgulho gay que em dado momento tiveram como tema a união homossexual e a criação de fóruns e grupos de debate na internet. 1999). É somente após a realização do 1º Congresso da Associação Brasileira de Gays. uma expansão de estudos sobre as 190 . Conjugalidade homossexual no Brasil. eles participaram mesmo. Na academia ocorreu. Nas palavras dela3. Refiz o projeto baseada nas observações deles”. Lésbicas e Travestis (ABGLT) e da 17ª Conferência da Internacional Lesbian and Gay Association (ILGA). É a partir da apresentação e publicização desse projeto na Câmara dos Deputados que a discussão sobre a conjugalidade homossexual ganhou impulso e foi colocada em foco na mídia brasileira de maneira mais sistemática. em parceria com especialistas e lideranças do movimento dos(as) homossexuais.2. No entanto. define a proposta original do Projeto de Lei de Parceria Civil Registrada (Almeida Neto. Inúmeros países de quase todos os continentes aprovaram ou colocaram em discussão leis específicas com o fim de regulamentar a possibilidade de existência jurídica dessas famílias formadas por gays e lésbicas. A luta por conjugalidade teria como justificativa a legalização de uma situação de fato e a garantia de amparo aos(as) homossexuais que perdem seus(suas) parceiros(as) principalmente em decorrência da AIDS (Almeida Neto. Além dessas ocorreram manifestações por parte dos(as) próprios(as) homossexuais que colocavam em questão a união homossexual e o preconceito sofrido. situando os termos do debate. “Apresentei a idéia e contei com grande colaboração dos grupos gays. Assim. entre outras iniciativas. tendo sido derrubada apenas na Holanda e encontrando-se em discussão em alguns outros países. bem como direitos relativos à herança. paralelamente a esse movimento de maior visibilização das uniões entre pessoas do mesmo sexo. pois deputados eleitos2 assumiram o compromisso de defender essa proposta. a discussão sobre o reconhecimento da conjugalidade homossexual emergiu no cenário político1 por volta do final da década de 90. se tornando pública com manifestações de apoio e repúdio de diversas instituições em diversos momentos. Houve um intercâmbio muito intenso. Vale ressaltar que uma característica comum de quase todos os projetos aprovados é a proibição da adoção de filhos por parte dos casais homossexuais. Durante os últimos anos.

ou outra categoria. necessariamente. Embora o ator. projeto e memória se articulam com o fim de significar a vida e as ações dos indivíduos construindo. se a memória permite uma visão retrospectiva mais ou menos organizada de uma trajetória e biografia. creio que toda a noção de projeto está indissoluvelmente imbricada à idéia de indivíduo-sujeito. podendo ser um grupo social. Esse núcleo urbano é formado pelas cidades de Cuiabá e Várzea Grande. A consciência e valorização de uma individualidade singular. destaco que essa pesquisa assume relevância por analisar um dos maiores núcleos urbanos do interior do país e um dos maiores do oeste brasileiro.] conduta organizada para atingir finalidades específicas. como as vêem. conseqüentemente. 1981) que em suas palavras se refere a. Ou invertendo a colocação – é indivíduo-sujeito aquele que faz projetos. preconceitos. as “[. a tese de Anna Paula Uziel (2002) que desenvolve uma análise da relação entre família e homossexualidade a partir de duas ilustrações. sua identidade social e possibilitando a esse sujeito situar e ordenar suas experiências individuais dentro de uma sucessão de etapas (trajetória). Além disso. sendo a primeira composta por mais de 500 mil habitantes. Velho (1999. temos de levar em conta que o projeto sempre leva em consideração a existência do outro..101).] circunstâncias de um presente do indivíduo envolvem.101) destaca que. indivíduos ou grupos. existindo assim como meio de comunicação. em princípio. segundo o censo de 2004. Nesse sentido. Portanto. diante disso esse estudo adquire importância por buscar identificar e analisar como os homossexuais que vivem relações estáveis significam suas relações. p. Partindo disso. Somando-se a isso. um partido. a Grande Cuiabá que conta com uma população total superior a 700 mil habitantes. No entanto. [. não seja necessariamente um indivíduo. Nesse sentido. na medida em que busca. se torna essencial para a consistência do projeto uma memória que forneça a noção de um passado que produziu o presente constituindo uma trajetória e uma biografia do indivíduo. valores. a tese de doutorado de Luiz Mello de Almeida Netto (1999) que desenvolve uma análise da construção social da conjugalidade homossexual. objetivos. tendo como metodologia a pesquisa qualitativa sendo que a estratégia metodológica empregada para a coleta de dados está sendo a realização de entrevistas face a face por meio de roteiro semi-estruturado. Destacam-se aqui a tese de doutorado de Maria Luiza Heilborn (1992) que desenvolve um estudo comparativo entre a conjugalidade de heterossexuais e homossexuais (gays e lésbicas) e aponta similitudes e diferenças. p. pois é na verdade um instrumento de negociação da realidade com outros atores. Vale destacar. através do estabelecimento de objetivos e fins. emoções”. Assim. uma no campo do Legislativo e outra no campo do Poder Judiciário.homossexualidades e as diversas manifestações homoeróticas. o projeto é a antecipação no futuro dessas trajetória e biografia. o projeto deixa 191 . incluindo entre elas a conjugalidade homossexual. de expressão de interesses. poucos estudos no Brasil se preocuparam em analisar como os(as) próprios(as) homossexuais significam e representam sua relação estável. é o que possibilita a formulação e condução de projetos. sentimentos e aspirações para o mundo.. para apreender como se dá a construção da conjugalidade homossexual masculina dentro da complexidade e fragmentação da sociedade contemporânea tomo como ponto de partida o conceito de projeto desenvolvido por Velho (1999.. baseada em uma memória que dá consistência à biografia. que a noção de projeto busca dar conta da margem relativa de escolha que indivíduos e/ou grupos tem em determinado momento histórico em uma sociedade. as constroem e as vivem cotidianamente.. bem como. a organização dos meios através dos quais esses poderão ser atingidos (1999.

acabam provocando um silenciamento da própria união e uma escolha sobre as possíveis pessoas que poderiam ser portadoras desse “segredo”.. assim como de pré-julgamentos que tomam a homossexualidade como uma doença ou falha de caráter moral. p. Esse preconceito e homofobia dispersos no imaginário social acabam influenciando a construção de um projeto de conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo e. quando já estabelecido esse projeto. A identidade nas sociedades urbanas contemporâneas. Segundo Velho (1999) por ser produto de uma interação entre indivíduos e/ou grupos. auxilia-nos a noção de campo de possibilidades como dimensão sociocultural.40). poder. tornam mais difícil o momento da revelação. que com isso. Nesse sentido. 1999.] aos indivíduos transitarem entre diferentes domínios e situações. Tarnovski (2003) afirma que: A existência de estereótipos negativos. sem que isso signifique uma exclusão dos outros indivíduos. em suas palavras. desenvolvem-se papéis e desempenhos mais especializados. sem esvaziá-las arbitrariamente de suas peculiaridades e singularidades (Velho. a partir de uma visão mais estática de identidade. o projeto tem um caráter marcadamente dinâmico. sendo importante nessa pesquisa a formulação e colocação em prática desse projeto de vida a dois. claramente existentes. portanto. Assim. que faz com que todos.82). 192 . possam participar de n códigos e mundos. acrescenta novos sentidos e significados a sua biografia provocando repercussões em sua identidade. origem. Pelo contrário. associada à possibilidade de trânsito entre estes. As diferenças.de ser exclusivamente racional sendo resultado de uma deliberação consciente diante das circunstâncias que envolvem o indivíduo (campo de possibilidades).17). sem maiores danos ou custos psicológico-sociais. teriam assim uma maior margem de manobra. potencialmente. Dentro desse repertório. Desse modo. trata-se de uma característica mais generalizada da sociabilidade contemporânea. prestígio. Esse autor intitula essa diversificação de papéis de “potencial de metamorfose” que permite. associadas à natureza da estrutura social (p. ao contrário do que se poderia esperar. independente da possibilidade de existência de um plano detalhado passo a passo ou dele ser vago. Levarei também em consideração que o projeto individual de conjugalidade é resultado de uma interação deste com diversos outros projetos individuais dentro de um campo de possibilidades. [. pois estariam apoiadas em um “anonimato relativo” e em uma diversificação de papéis e domínios. com ênfase na consciência individual. resultando em uma produção de identidades multifacetadas e de relativa estabilidade. dizer-se gay ou homossexual é o primeiro e mais difícil momento de um longo processo de desconstrução das imagens negativas associadas à homossexualidade e aos homossexuais (p. evitando um voluntarismo individualista agonístico ou um determinismo sociocultural rígido. bem como pela existência do preconceito e da homofobia. se devem a especificidades de trajetória. Nas palavras do autor: Para lidar com o possível viés racionalista. espaço para formulação e implementação de projetos. de constante reelaboração e releitura do passado pelo ator. A problemática do “anonimato relativo” se agudiza e se complexifica ao se tratar do estabelecimento de um projeto de conjugalidade homossexual devido a existência no imaginário de uma infinidade de representações sociais de caráter negativo sobre as homossexualidades.. ao me referir a um projeto de conjugalidade entre homossexuais masculinos levarei em consideração a ação deliberada que resulta em um planejamento para o estabelecimento desse objeto e/ou a intenção de realizá-lo. as noções de projeto e campo de possibilidades podem ajudar a análise de trajetórias e biografias enquanto expressão de um quadro sócio-histórico.

nas décadas de 70 e 80. a luta do movimento homossexual se fazia pautada principalmente na idéia de liberalização sexual que implicava na existência de múltiplos(as) parceiros(as) sexuais (Arán. Grossi (2003). marcados pelo modelo de um conjunto formado pela díade do casal heterossexual com sua prole. por lésbicas e gays vivendo em grandes metrópoles mundiais. que assumiriam modelos de fechamento no conforto do lar tecnologizado dos casais DIWC (duplo salário sem filhos). Grossi. por causa da AIDS. assumir um projeto de conjugalidade igualmente passaria por um processo de desconstrução de estereótipos e representações negativas que abarcariam agora dois indivíduos. Em suas palavras. na homossexualidade feminina essa não é a questão principal. Antes disso. Heilborn (1992). No entanto. Féres-Carneiro (1997) e Grossi (2003) chamam atenção para especificidades que as diferenças de gênero nas questões referentes às homossexualidades implicam. seria uma das conseqüências dos inúmeros casos dramáticos de pessoas que perderam. moradia e renda. devido à inexistência de amparo legal para a união entre dois indivíduos do mesmo sexo. ocorreu a emergência do reconhecimento civil da conjugalidade homossexual. particularmente. como dito anteriormente. através das leis de parceria civil. aponta que no final da década de 90. A forte demanda por reconhecimento legal destas uniões. Não podemos nos esquecer também que é somente a partir da década de 90 que se busca o reconhecimento da conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo. além do companheiro. Assim. 2003). 193 . Alguns autores enfatizam a emergência do modelo individualista moderno constituído. 2003. Outros ressaltam o impacto da AIDS sobre a comunidade gay. tornando mais complexa a possibilidade dessa visibilização. e sim a assunção de um modelo conjugal igualitário. Assim. se a busca pela conjugalidade homossexual masculina é pautada como uma maneira de “proteção” a epidemia de AIDS. no Brasil.Se “assumir-se” como homossexual é o ponto inicial do processo de desconstrução das imagens negativas associadas à homossexualidade. busca que se iniciou na Europa e nos Estados Unidos e que. a revelação do “segredo” de uma união homossexual passaria por um processo de diálogo/negociação de visibilidades e de aceitação das respectivas homossexualidades. vai culminar no Brasil com a apresentação do Projeto de Parceria Civil Registrada em 1995. que teria sido um propulsor da busca por conjugalidade em relações homoeróticas como forma de autoproteção à contaminação. Há várias explicações para esse desejo de conjugalidade entre indivíduos do mesmo sexo. e que esse fenômeno assinala uma etapa significativa nos modelos ocidentais modernos de parentesco.

As entrevistas tiveram por base um roteiro semi-estruturado que foi organizado em torno de quatro blocos temáticos. 4. tais como: idade. busquei eliminar indivíduos que se auto-declaram como sozinhos (mesmo que vivam uma situação conjugal com outro homem).3. redes de sociabilidade. discriminações sofridas individualmente. profissão. que incluíam: questões relativas ao modo de estabelecimento da parceria afetivo/sexual. Universo de entrevistados e configuração da pesquisa. conhecimento de terceiros de sua homossexualidade.) Significados e vivências da homossexualidade: questões que buscavam analisar os significados da sexualidade e como se refletiram na construção do sujeito. isto é. Além disso.) Relação conjugal atual: questões que buscaram compreender como ocorreu a construção do projeto de vida em comum. fidelidade. resultando em um total de seis entrevistas realizadas e mais algumas a serem realizadas no mês de 194 . se relacionam tanto com homens quanto com mulheres. 3. relatos das conversas não gravadas (tanto antes quanto depois das entrevistas) e contatos estabelecidos (pessoalmente ou por telefone) que não resultaram em entrevistas. questões referentes a organização de tarefas e funções domésticas. questões referentes a características da relação conjugal. questões referentes a preconceitos ou discriminação sofridos como casal. conjugalidade dos pais). quais sejam: 1. bem como. vizinhos e parentes. regulamentação da conjugalidade homossexual. no qual foi marcado um encontro pessoalmente para explicar os motivos da pesquisa. tempo de relação e configuração da família de origem do entrevistado (número de irmãos(ãs). no trabalho. tais como: etapas da trajetória de vida em que a homossexualidade apareceu como “problema” ou ponto de inflexão significativo e envolvimento da família de origem. religião.) Conjugalidade homossexual: questões que deram acesso a representações e significados da conjugalidade que incluíam: questões referentes a tipos de parceria afetivo/sexuais. bem como o universos de homens que vivem uma vida “dupla”. Cada uma das entrevistas totalizou uma média de 60 minutos e foi realizada (quase que na totalidade) na casa dos entrevistados após um primeiro contato por telefone. amigos e conhecidos que apresentaram amigos e conhecidos dentro dos critérios estabelecidos para que a pesquisa pudesse ser desenvolvida. tempo de relação e nomeação do parceiro. entre os amigos. Assim.) Dados do sujeito e do parceiro: dados que permitiram estabelecer o perfil sócio-econômico e cultural dos sujeitos entrevistados e de seus parceiros. Um dos princípios relevantes para a delimitação dos sujeitos participantes da pesquisa foi a auto-definição de estar vivendo uma situação de conjugalidade. O acesso ao campo foi realizado através de contatos mediados por pessoas de minha rede de relações. 2. também foi feito um diário de campo com o fim de anotar informações sobre o contexto das entrevistas. negociação de dificuldades e conflitos. O trabalho de campo foi realizado durante todo o mês de agosto em Cuiabá (infelizmente não tive acesso a nenhum casal homossexual que morasse na cidade de Várzea Grande até o momento) e compreende seis entrevistas gravadas que serão analisadas nesse artigo. questões sobre o conhecimento de legislação sobre união civil entre pessoas do mesmo sexo e sobre o estabelecimento de contrato de parceria. comparação com a conjugalidade heterossexual. Essa escolha foi motivada pelos objetivos da pesquisa que busca analisar as representações e os significados da conjugalidade entre indivíduos homossexuais que vivem uma união. escolaridade. co-habitação.

fato que acontecerá no mês de novembro desse ano.novembro. na qual casais heterossexuais e homossexuais e. também indivíduos homossexuais que aspiram a um relacionamento estável. marcamos a entrevista e no dia anterior a realização desta. Os outros três entrevistados não se conheciam nem faziam parte dessa rede de sociabilidades e me foram apresentados por três diferentes amigos. nem com os indivíduos dessa rede de sociabilidades. mesmo que ainda em um ambiente receptivo e relativamente “seguro” para tal vivência. Paulo e André fazem parte de uma rede de sociabilidades mista. qual seja: os casais homossexuais não formam um grupo visível e de fácil identificação. Marcelo e Murilo não se conhecem nem tem nenhum contato entre si. se reúnem com uma certa regularidade para realização de almoços e jantares. Assim. através de um amigo. Já os informantes Marcos. Após a realização dessas entrevistas surgiu a necessidade de realização de uma análise dos dados obtidos com a possibilidade de retorno ao campo para a realização de mais entrevistas. Outra característica importante é que apesar de não haver essa visibilidade ocorre a formação de redes de sociabilidades específicas que envolvem geralmente indivíduos que vivem também uma situação de conjugalidade ou outros que buscam igualmente uma situação de conjugalidade. a uma dessas redes de sociabilidades e realizei a partir dela três entrevistas. já o segundo. O quadro abaixo resume até o momento o perfil dos participantes da pesquisa: Nome (fictício) Rodrigo Paulo André Marcos Marcelo Murilo Idade 31 29 33 42 35 20 Escolaridade Pós-graduação 3º grau incompleto 3º grau cursando 3º grau completo 3º grau incompleto 3º grau cursando Profissão Professor e revisor de textos Professor e guia turístico Técnico em enfermagem Professor Promotor de eventos Bancário 2 anos 1 ano e meio 6 anos 10 anos e meio 2 anos e meio Tempo de relação 7 anos Os informantes Rodrigo. 195 . ficou dependente da possibilidade de identificação e acesso a esses informantes. esse possível informante me ligou desistindo de participar. Essa dificuldade de acesso pode apontar para uma característica importante desse tipo de relação na cidade de Cuiabá. um deles se prontificou a ser entrevistado. mas esse também desistiu de participar da pesquisa. Essa característica aponta para um processo de vivência da conjugalidade fora do âmbito doméstico. Esse tipo de acesso aos informantes. apesar de guiado por critérios pré-definidos como classe social e auto-definição de vida em comum. Além desses informantes alguns outros me foram apresentados por uma amiga pessoal para a realização da entrevista. entrei em contato com dois desses por telefone. para a realização das entrevistas tive acesso. fiz o contato por telefone e pessoalmente.

e se somada a Várzea Grande (cidade vizinha) comporia a chamada Grande Cuiabá. centros regionais e/ou nacionais de desenvolvimento marcadas por uma grande concentração populacional e existência de um “anonimato relativo” nas relações interpessoais. Mas temos também de levar em consideração que em comparação com cidades menores ao seu redor a Grande Cuiabá torna-se local de turismo. Analisando a procedência de meus entrevistados e seus companheiros. Em sua primeira edição.4. a Grande Cuiabá se enquadra entre as cidades de porte médio do Brasil e. visibilidade e discrição. Recife (Parker. organizada pelo grupo Livre Mente. sendo que o informantes restantes ou são procedentes do interior do estado (4 deles). Esse fluxo de homossexuais para Cuiabá também fica explícito quando da realização da Parada Gay da cidade. Porto Alegre. transeuntes e curiosos. Belo Horizonte. 196 . é necessário apontar a formação de “culturas gays” cada vez mais visíveis em diversas cidades menores do país. marcada pela menor possibilidade de estabelecimento de um “anonimato relativo” como nas outras cidades. uma ong fundada em 1997 com o objetivo de possibilitar um espaço para a discussão de problemas comuns entre homossexuais. Analisando o tamanho dessas cidades poderia se dizer que em sua maioria todas se destacam como capitais. apesar de capital. constatei que a maioria não é natural de Cuiabá. essa migração de cidades pequenas para grandes é motivada pela esperança de encontrar anonimato e indiferença a sua maneira de viver. que permitem uma maior diversificação de papéis. bem como a produção de identidades multifacetadas e de relativa identidade (Velho. prazer e lazer no período de férias e finais de semana para homossexuais. Essa conurbação teria uma população de mais de 765 mil habitantes com Cuiabá respondendo por 525 mil e Várzea Grande por 240 mil habitantes. de acordo com o jornal “Folha do Estado”. apenas um é procedente de uma outra cidade do mesmo porte que Cuiabá. sendo que o restante (7) migrou de cidades menores do que Cuiabá. local de migração para os que buscariam “se libertar da família” estabelecendo uma vida mais autônoma e independente. Curitiba. mesmo assim ficaria bem abaixo da cidade menos populosa supra-citada que compreenderia mais de 1 milhão de habitantes. é também uma busca explícita para comunidades com reputação estabelecida e organizada. 2002). Estabelecendo uma comparação com essas cidades. 1999). e também. Mundo gay de Cuiabá. Belém. entre essas destacam-se: Fortaleza. Cuiabá se estabeleceria como uma cidade média. Assim. a manifestação teve como título “I Parada da Diversidade de Cuiabá” sendo realizada em 26 de junho de 2003 com a participação de cerca de duas mil pessoas. apenas quatro dentre eles são naturais da cidade. em comparação com cidades maiores. Segundo Bozon (2004). A Parada Gay de Cuiabá é realizada desde junho de 2003. devido a seu porte e complexidade. em matéria do dia posterior a parada. ou são de outras cidades do interior de outros estados também consideradas pequenas (3 deles) e. que atrai caravanas de diversos municípios do interior e também de outros estados. Ou seja. Embora cidades como Rio de Janeiro e São Paulo tenham se tornado os centros mais importantes da vida gay no Brasil. tanto em termo de lazer quanto de saúde e resistência à discriminação. entre os seis indivíduos entrevistados e seus companheiros apenas 5 são de cidades médias e nenhum é procedente de uma cidade maior que Cuiabá. entre homossexuais. tem uma vida gay muito mais circunscrita e restrita.

um de meus informantes afirma a existência de uma forte hipocrisia da sociedade no que tange a questão da homossexualidade apontando a existência do que chamou de “pacto de mediocridade” no qual as pessoas fingem não saber a respeito da homossexualidade das pessoas. nas palavras dele: Eu acho. Já a terceira edição ocorreu no dia 29 de julho de 2005 e. janela. eu finjo que estou te enganando e você finge que está sendo enganado e é assim que as famílias se portam. não (sic). travestis. entre aspas. somos profissionais. idosos. mureta. que sim nós não somos só homossexuais. Cuiabá apresenta poucas possibilidades de locais para encontro entre homossexuais. acho que isso é muito prejudicial. que é só gay e não é mais nada. porque as pessoas sabem. ou como eles próprios chamavam. que sim nós estamos aqui. nos telhados. o título da parada foi “Pouca vergonha é o seu preconceito” e segundo dados da Polícia Militar promoveu a concentração de cerca de 7 mil pessoas. Murilo. já segundo da organização reuniu cerca de 10 mil pessoas. outras pessoas e escondem. Eu acho que isso é uma coisa muito prejudicial. mesmo casadas com outra. bem como a existência de manifestações contrárias a realização desse evento. os locais de “pegação” estão dispersos na cidade com destaque para o Parque Okamura. a região do porto. Somando-se a isso. Em sua segunda edição. para muitas pessoas homossexuais. somos seres humanos. pois a partir do momento que nós não nos mostrarmos de certa forma. reuniu cerca de 10 mil pessoas de acordo com a Polícia Militar e cerca de 18 mil segundo organizadores do evento. mas fingem que não sabem. segundo informantes os locais das interações homoeróticas. que são homossexuais passam anos de relacionamento. né. o bar Presidente que fica na área central e aumenta a freqüência depois das 22 horas. gays. O espetáculo. eu acho que há uma aparente aceitação em Cuiabá. né. que homossexual é só homossexual e não é mais nada. Um exemplo disso foi a tentativa no ano de 2005 por parte do prefeito – apoiado por grupos evangélicos – de impedir a realização da parada no centro da cidade na véspera dessa. mobilizou estudantes. transexuais e simpatizantes contagiaram os curiosos. acompanhado por som de trios-elétricos. Eu acho que é isso que tem que transparecer. disputando um melhor ângulo na avenida. paralisando o fluxo de veículos em horário comercial. ruas e avenidas do centro da cidade. transeuntes e. A homossexualidade em Cuiabá é velada. para que as pessoas vejam que sim nós existimos. apresentação de filmes e palestras a respeito da discriminação homossexual. as famílias homossexuais se portam. É um pacto de mediocridade. se relacionando. que nós somos estudantes. alegando que a avenida não poderia ser ocupada por movimentos sociais. localizada no centro-sul da cidade conhecido como sendo de 197 . no período das 17 às 19 horas. É importante destacar que a referida parada acontece anualmente nas principais praças. apresentação de teatro. Comparada a cidades maiores.Lésbicas. vale a pena lembrar a existência de uma grande presença de “curiosos” que exclusivamente assistem a parada. intitulada “O mundo mudou. é uma hipocrisia muito grande dizer que as pessoas daqui respeitam mais os homossexuais do que em outros lugares. os desconfiados e os desavisados que aderiram ao movimento. coisa que havia sido feita há alguns dias por uma festa promovida pela própria comunidade evangélica. Havia gente amontoada em porta. a sauna que funciona todos os dias da semana das 16 às 22 horas. até quem estava em horário de trabalho não resistiu e prestigiou a parada. somos tanta coisa. traga sua família”. já que o referido parque fecha seus portões às 18 horas. mas que realmente “esquenta” de quinta-feira a domingo de acordo com informantes. no dia 19 de junho de 2004. Destaca-se também a existência de alguns outros eventos que ocorrem na semana da Parada tais como.

assinalaram a todo o momento uma diferenciação na vivência da homossexualidade entre Cuiabá e outras cidades grandes. É claro que esses locais não são os únicos em que acontece a existência de interação homoerótica. de maneira oposta. a boate Zum Zum que funciona de quinta-feira a sábado. em que a relação entre parceiros(as) fossem mais fáceis. sem a exposição pública de uma identidade homossexual. De acordo com esse autor essa busca se apóia na ignorância dos sistemas de relações. a vida. especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. com agressões e violência. né. pois vivem suas homossexualidades de maneira clandestina. Segundo Bozon (2004). Cuiabá é vista com uma cidade com uma população que ameaça a honra do indivíduo. não é adequado para um casal. um ambiente aonde você. a avenida Barão de Melgaço próximo a Ong Livre mente. os princípios delas muitas vezes não são os seus. nas palavras de Marcelo isso fica bem claro. que oferecem um grau limitado de segurança para os indivíduos que podem não querer ser identificados publicamente como gays. Há também uma particularidade entre as interações homoeróticas ocorridas em Cuiabá como afirmou um informante. “todo mundo de Cuiabá trepa em Várzea Grande. que não tem princípios. Além disso. A discrição é uma grande preocupação em todas as interações entre homossexuais a ponto de muitos desses não irem a locais declarados de freqüência de homossexuais. já que a boate é considerada como “local de pegação” e por estarem vivendo uma situação de conjugalidade não acham condizente com a situação. fica mais discreto”. imposições e dependências estabelecidas que caracterizam essas outras sociedades e no caráter mítico da noção de liberdade sexual. na região central.] a infidelidade ela é muito constante e presente num relacionamento. 198 . né. No desenvolvimento da entrevista a maioria de meus informantes afirmou não freqüentar o “meio gay” e. então existem algumas coisas que acabam atrapalhando né... com comentários e. [. ponto dos garotos de programa e. os que o fazem afirmaram a existência de uma baixa freqüência a boates e uma maior possibilidade de presença em bares. exceção da boate e da sauna. informantes afirmaram que essa interação acontece em todos os lugares inclusive em boates e bares de freqüência heterossexual a diferença é que nesses locais a interação é feita de maneira absolutamente “silenciosa” e discreta. que são vistos como locais de vivência plena da liberdade de ser homossexual com possibilidade de parceiros andarem de mãos dadas e se beijarem sem serem constrangidos ou ameaçados em qualquer lugar e momento e. principalmente pra gente que vive em um meio aonde tem pessoas que não tem.freqüência das travestis. historicamente o homem (e também a mulher) sempre procurou fora de sua própria sociedade uma sexualidade mais livre. Apontaram também a existência de uma aparente aceitação da homossexualidade pela sociedade de Cuiabá que se contrapõem à prática cotidiana com diversos exemplos de atitudes discriminatórias e preconceituosas. em outros termos parecem querer evitar que lhes seja colada a imagem negativa e estereotipada do “homossexual promíscuo”. Esses locais têm freqüência de públicos com idades e classes sociais variadas sendo que essas interações assumem o caráter de clandestinidade por se misturarem ao fluxo da vida e se concentrarem majoritariamente em locais abertos. que não trariam nada de positivo pra relação. ou que preferem se encontrar em espaços que são reconhecidamente gays e heterossexual ao mesmo tempo. bem como violência dirigida a homossexuais de uma maneira geral.

] Peter Gay realiza uma boa digressão sobre o incômodo e a ambigüidade que a expressão sempre comportou. buscarei nesse artigo desenvolver algumas reflexões sobre o conhecimento do Projeto de Parceria Civil Registrada. 1992). É preciso lembrar que as discussões sobre conjugalidade nos estudos contemporâneos buscam dar conta das estruturas pertinentes a uma vida a dois se situando como um recorte da problemática conjugal frente à da família (Heilborn.5. tendência inicialmente mais visível nas camadas médias urbanas e. a dificuldade de definição do que se entende por camadas médias. Esses novos arranjos conjugais estruturam-se basicamente a partir do princípio da igualdade . Esse estudo se pauta na trilha já traçada por Heilborn (1992) privilegiando o universo simbólico que sustenta os denominados novos arranjos conjugais e. levando em conta os estudos já desenvolvidos sobre a conjugalidade.71). Desse modo. Assim.rejeitando qualquer diferença de status entre os gêneros -. essas mudanças seriam resultantes de uma tendência à passagem de um modelo de família hierárquica para outro de família mais igualitária. partindo da seleção de indivíduos e seus companheiros provenientes desse universo de classe média. a igualdade e a mudança. tais segmentos sociais eram todos aqueles que se situavam entre a aristocracia e o proletariado (2004. partindo das informações obtidas pelas entrevistas e de uma análise do perfil desses casais. com destaque para a expansão de famílias monoparentais e chefiadas por mulheres. E é também histórico: [. Conjugalidade gay em Cuiabá: Parceria Civil Registrada e regulamentação da união. no companheirismo e no apoio psicológico. Velho (1981) e Heilborn (1992) também apontam essa expansão do igualitarismo em detrimento da tradicionalidade no domínio da família assim como. nas palavras de Heilborn: O problema da definição das camadas médias é clássico: são definidas pela exclusão. das análises já desenvolvidas sobre as mudanças que vem ocorrendo gradualmente na instituição familiar que tradicionalmente se encontrava centrada na idéia de um casal heterossexual e os filhos resultantes dessa união e hoje se encontra com um formato muito mais plural. ou ao menos circunscrever. bem como o conhecimento sobre a regulamentação civil dessa união.. Essa transposição de modelos está pautada em um processo de aprofundamento e extensão do individualismo que estimula a instabilidade e a volatilidade nas relações íntimas no casamento e na família. e dedica um bom número de páginas para tentar resolver. termo preferencialmente no plural entre os ingleses. Vaitzman (1994) e Berquó (1998).. O quadro abaixo dará uma idéia real do perfil dos participantes da pesquisa até o momento: 199 . Assim. os problemas no uso das expressões burguesia ou classes médias. com o tempo. De acordo com Figueira (1987). Como dito anteriormente. desse modo o recorte social denominado por essa autora de “perfil moderno das camadas médias” que possui três princípios: a psicologicidade. esse estudo partirá. levei em consideração esses e outros estudos para o desenvolvimento da pesquisa aqui empreendida. por aquilo que não são. essa pesquisa tem por objetivo identificar e analisar os significados e representações que os parceiros homossexuais masculinos têm de suas relações estáveis. assim como também das representações sobre regulamentação civil dessa união. Típicos in between. passando a permear também as camadas populares. p.

vocês compraram juntos. né. morre. que a gente coloca nas coisas. mas é assim. assim.NOME (fictícios) Rodrigo Paulo André Marcos Marcelo Murilo IDADE ESCOLARIDADE PROFISSÃO IDADE DO COMPANHEIRO ESCOLARIDADE DO COMPANHEIRO 3º grau cursando 2º grau incompleto 2º grau completo 3º grau completo Pós-graduação Pós-graduação PROFISSÃO DO COMPANHEIRO Técnico em enfermagem Vendedor Funcionário administrativo Enfermeiro Administrador Professor TEMPO DE RELAÇÃO 7 anos 2 anos 1 ano e meio 6 anos 10 anos e meio 2 anos e meio 31 29 33 42 35 20 Pós-graduação 3º grau incompleto 3º grau cursando 3º grau completo 3º grau incompleto 3º grau cursando Professor Professor e guia turístico Técnico enfermagem Professor Promotor de eventos Bancário 37 23 29 28 30 28 De uma maneira geral. Então eu acredito que há necessidade de uma regulamentação. não. Todos os informantes sem exceção apontam a necessidade de regulamentação dessa união. não é merecedor você viver com a pessoa nove. porque eu conheço casos de pessoas que viveram juntas e quando o outro vai embora. você colocou as coisas aqui de acordo com o gosto de vocês. eu acho que tem isso. aquela era a cadeira que seu pai sentava e via ou assistia televisão. Então. não assim como de repente. Além disso. 15. ah. exceção verificada entre Marcos e seu companheiro com uma diferença etária de 14 anos. alguns afirmam que essa regulamentação é necessária no caso da morte de um dos parceiros para garantir a transmissão de bens. 5 anos e você construir um lar. podemos perceber a existência de uma relativa homogamia etária entre os entrevistados e seus companheiros. Então onde é que está a sua história o que você construiu. eu sou casado. porque eu acredito que como na família heterossexual você constrói uma história dentro do lar com os filhos. não de apego material. com tudo que você tem que torna-se assim esse é o sofá que seu pai sentava. mas de sentimento né. a família vem e levam tudo. iria passar a 200 . é uma. a gente compra junto tudo. acredito que sim. No transcorrer das entrevistas além de questões que diziam respeito a fidelidade. 10. eu não vejo por isso. desde a roupa. porque assim. outros acrescentam que além da questão da morte essa regulamentação se faria necessária também para extensão de direitos para o casal homossexual que são garantidos para o casal heterossexual. discriminação e preconceitos sofridos foram feitas perguntas com o tema da regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo. em tudo que a gente faz. coabitação. verifica-se também uma relativa homogamia escolar entre os casais. né. na fala de Marcelo isso fica bem claro: Pesquisador: Você acha que a conjugalidade homossexual deve ser regulamentada? Marcelo: Acredito que sim. construiu coisas e a família fica com tudo não assim visando apenas a questão material que isso é uma coisa que eu e meu companheiro estamos amadurecendo. Como se percebe na tabela ocorre uma grande variação nas profissões/trabalhos nos quais os entrevistados se mantêm com uma pequena concentração desses na carreira do magistério. é desumano. mais assim. o tempo de relação foi outro critério que variou bastante com a existência de relacionamentos estabelecidos no período de um ano e meio até a existência de relações mantidas há 10 anos e meio. onde vai colocar qualquer coisa da decoração e de repente quando um falece. por questões assim de direitos que o companheiro de repente teria. acho que não seria desumano. hoje isso na minha cabeça ela está mais (pausa) tá mais certa.

de um conjunto de direitos através de legislação. todos afirmam que a possibilidade de estabelecimento dessa especificidade se basearia em uma discriminação. ela poderia. não sei. ela beneficia não só o funcionário. cidadania se refere a um status que é “[.e constata a existência de três momentos de construção dessa universalização: os direitos civis. disso eu discordo. que possibilitasse as pessoas se relacionar. diferentemente do que aconteceu na Inglaterra.ter na empresa. Quando questionados se já haviam conversado com o companheiro a respeito da regulamentação de 201 . não no momento. Assim. os direitos políticos e os direitos sociais4. Assim. Já os direitos sociais só foram reconhecidos pelo Estado no século XX. antes disso a educação e a saúde ficavam a cargo de entidades privadas quase que exclusivamente (Carvalho. para esse autor.com o fim de perceber quais são esses direitos de cidadania na Inglaterra .. Na sociedade atual a expressão cidadania ganha espaço com multiplicidades de sentidos e intenções. que iriam ajudar e ele iria se sentir valorizado também. Marshall constrói um histórico . como é que chama (pausa) ser muito mais um controle desses relacionamentos. eu acho que é isso que a norma tem que possibilitar. mas em contrapartida eu acho que uma regulamentação. Essa comparação entre direitos de casais heterossexuais e de casais homossexuais aparece na fala de todos os informantes. mas eu acho que a lei deveria ser ampla para todos. todos apontam a necessidade de equiparação entre esses dois tipos de conjugalidade. Temos de lembrar também que até o início da “abertura política” todos esses direitos foram colocados em suspensão pela ditadura militar. Porque só o homem ele pode colocar os filhos dele e a mulher dele. e o companheiro não pode né. 1995). mas sim de modo intercalado. com outras coisas. 76)”. políticos e sociais não se deu de forma sucessiva. enquanto os direitos civis antes da abolição da escravatura não existiam e foram posteriormente universalizados. o estabelecimento de direitos civis. eu gostaria que a legislação fosse uma porque eu não acredito que nós sejamos diferentes. com plano de saúde. cidadania está inextricavelmente ligada ao reconhecimento. estabelecer suas relações e tivesse os direitos que tem os heterossexuais. Para solucionar esse problema. Tal como formulada por Marshall (1967). Pesquisador: Você acha que deve ter uma legislação específica ou deve-se enquadrar tudo na mesma legislação de heteros e homossexuais? Murilo: Olha. mas uma legislação específica. pois homossexuais e heterossexuais são igualmente cidadãos e não deveriam ser diferenciados. mas o companheiro dele. eu vejo possibilidades. Murilo afirma isso constantemente em sua entrevista e essa fala é bem representativa dessa questão. Uma outra questão que apareceu muito na fala de meus entrevistados é o desejo de estabelecimento de um contrato para assegurar os bens conquistados. não consigo vislumbrar. mais. Essa concepção cidadania passa a ser entendida como o conjunto de direitos estabelecidos pelo Estado aos seus membros integrais e seu exercício é identificado com o uso desses direitos legalizados. A mídia a acrescenta diariamente em seus noticiários e os diversos grupos em sua luta por reconhecimento. Mas temos de levar em conta que o próprio autor alerta sobre a inexistência de qualquer princípio que defina qual devam ser esses direitos universais.] concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade (p. né. quando questionados sobre a necessidade de uma legislação específica para casais homossexuais.. No Brasil. com outros benefícios que. que tenhamos que ser tutelados pelo Estado como se fossemos incapazes. no período colonial já existia o direito ao voto que após a libertação dos escravos foi restringido. por parte do Estado. E.

a despeito da visibilidade alcançada na mídia através da veiculação de notícias e na sociedade através das “Paradas Gay” torna-se um projeto que alcança pouca repercussão. Além disso. o que chamou a atenção nas entrevistas é que todos os entrevistados apesar de terem ouvido falar do projeto de Parceria Civil Registrada. só por alto. Pesquisador: E o que foi que você ouviu por alto? Marcelo: É exatamente isso que você falou né. eu não quero que acontece com ele entendeu de ele ficar desamparado e. Pesquisador: Você já pensou em fazer algum contrato para regulamentar a relação de vocês? Paulo: Sim. que a legislação aprove uma lei de casais homossexuais. não li. todos entrevistados afirmaram que já haviam conversado e que sentiam necessidade de algo que desse uma garantia ao companheiro. Pesquisador: Você nunca ouviu falar nada a respeito? Marcelo: Não assim muito específico não. né. já pensamos nisso né. que ela. como que eles herdem tudo de dentro da casa. eu só sei que ela levou pra Câmara. a fala de Marcelo aponta isso com muita clareza. da pessoa. citavam apenas que a referida proponente do projeto era a favor da união de casais gays. assim. e que ela defende. Pesquisador: Você já ouviu falar do projeto da Marta Suplicy. e mais pra frente vamos conseguir. para que todos possam casar. o projeto de Parceria Civil Registrada? Marcelo: Já ouvi falar. e queremos fazer. nem dos direitos que esse buscava garantir. né. né. não conheço nada do assunto. não sabiam do conteúdo do projeto. e o que eu sei vai até aí.o sinceramente houve casos de amigos em que aconteceu de estarem juntos a um bom tempo e de uma hora para outra aconteceu algo com uma das duas pessoas e a família vem e toma tudo e isso eu não quero que acontece comigo. ou qualquer coisa parecida. de pessoas do mesmo sexo. que ela é a favor da união de casais homossexuais. e ta tentando. como que seria. pelo menos entre meus entrevistados. apresentado pela então deputada Marta Suplicy na Câmara dos Deputados. inclusive você tocou em um ponto que semana retrasada estávamos conversando eu e ele de fazer uma espécie de um contrato e procurar um advogado para ver como seria estarmos. mas eu não conheço a fundo. um projeto que busca assegurar direitos a casais homossexuais.sua união. não sei mais nenhuma informação. ela saiu outros pegaram pra dar continuidade e a coisa realmente não vai pra frente. pro Congresso. tampouco ele comigo. ficaria para a pessoa. mas eu não conheço. Assim. e fazermos qualquer coisa para que o outro. Pensamos em fazer iss. 202 .

203 . A pretensão dessa pesquisa é buscar problematizar ainda mais o debate acerca da conjugalidade homossexual trazendo à discussão representações e significados da união entre pessoas do mesmo sexo em uma cidade média do interior do país. Esse recorte não esgotou de maneira alguma a riqueza e complexidade do material levantado por meio de entrevistas e observações. mesmo porque será acrescentado mais dados a essa pesquisa decorrente de uma nova ida a campo e a realização de novas entrevistas no mês de novembro desse mesmo ano.6. Considerações finais As análises contidas nesse artigo se referem a recortes particulares das entrevistas privilegiando os significados e representações sociais da Parceria Civil Registrada entre homossexuais masculinos que vivem uma situação de conjugalidade. bem como busca desenvolver uma análise da regulamentação da união civil entre homossexuais em uma cidade do interior do país. observação e referencial teórico metodológico apontando algumas perspectivas de análise e não se referindo a conclusões ou resultados finais alcançados. Lembro que esse é ainda um trabalho não concluído e que essa apresentação na verdade trata-se de uma primeira tentativa de articulação entre análise de dados.

Individualismo e Cultura: notas para uma antropologia da Sociedade Contemporânea. Florianópolis. Cidadania. 1993.scielo. LOURO.php?script=sci_arttext&pid=S0102-9721997000200012&lng=pt&nrm=iso>. Tomo Editorial. Rio de Janeiro. Maria Cecília de Souza. México: Fondo de Cultura Econômica. políticas e direitos. Tese de doutorado. POLLAK. 2002. Psicol. Maria de Nazareth Agra. 1995. In: ARIÉS. 08-34. Editora Garamound. 1981. Ana Clara T. In: Pesquisa qualitativa em Saúde: uma Introdução ao tema. 1999. Loyola. UnB. Ceres Gomes. Gilberto. Rio de Janeiro. Peter. Rio de Janeiro. vol. igualitarismo e identidade sexual em camadas médias urbanas”. Tese de Doutorado. 2002. Ivete e RIBEIRO. BOZON. SP-RJ. O Corpo Educado: Pedagogias da sexualidade. Família em processos contemporâneos: Inovações Culturais na Sociedade Brasileira.). 2004. In: MINAYO.11-52. no. Belo Horizonte. MINAYO. 204 . Bibliografia ALMEIDA NETO. Abaixo do Equador. Rio de Janeiro. Daniela Riva. Dois e Par: Conjugalidade. dezembro de 2003. Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira. GT Homossexualidades: cultura. Rio de Janeiro.2. TARNOVSKI. UZIEL. Brasiliense. Desenvolvimiento de la ciudadania em Brasil. HASSEN. Editora FGV. Philippe e BÉJIN. KNAUTH. 1987. Flávio Luiz.7. FRY. Rio de Janeiro. ou: a felicidade no gueto?”. pp. Zahar. pp. Unicamp. Porto Alegre. 2004a. “Pedagogias da sexualidade”. 1995. 2001. 2004. ____________ (Org. ____________. PARKER. Zahar Editores. Michel. saúde e Doença na Antropologia”. casal? Conjugalidade.10. “Pai é tudo igual?”: significados da paternidade para homens que se autodefinem como homossexuais. Autêntica. ____________.br/scielo. São Paulo. “A homossexualidade masculina. 2001a. Família e homossexualidade: velhas questões. 1982. “O que faz um casal. São Paulo. Michael. Brasília. 197-247. Grall. “Fase de análise ou tratamento do material”. FERES-CARNEIRO. Maria Cecília de Souza. 91106. classe social e status. Tese de doutoramento. 2000. Zahar.). ____________. José Murilo de. T. “Corpo. CARVALHO. SC.H. Maria Luiza. A escolha amorosa e interação conjugal na heterossexualidade e na homossexualidade. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro. Família e Sexualidade. Luiz Mello de. Dois é Par: Gênero e Identidade Sexual em contexto igualitário. 1992. Família no Brasil dos Anos 90: Um estudo sobre a construção social da conjugalidade homossexual. Record. novos problemas. pp. São Paulo. Anna Paula. Guacira Lopes. Rio de Janeiro. 1967. VELHO. O desafio do conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde.351-368. Comunicação apresentada na V Reunião de Antropologia do Mercosul. FOUCAULT. MARSHALL. Editora FGV. Crit. pp. Terezinha. Sexualidades Ocidentais: Contribuição para a história e para a sociologia da sexualidade. In: RIBEIRO. Gênero e Identidade Sexual em um Contexto Igualitário.In: LOURO. Museu Nacional. R. História da Sexualidade: A vontade de saber. Guacira Lopes (org. Jorge Zahar Editores. Sociologia da Sexualidade. Rio de Janeiro. André (orgs. 1997. M. VICTORA. p. HEILBORN. 1999. Disponível em: http://www. Hucitec-Abrasco. Reflex.).

os direitos sociais que dizem respeito à garantia de uma série de benesses. Telma de Souza (PT/SP) e José Fortunari (PT/RS).br/diversao/gls/suplicy.uol. 1 205 . www. visto que as discussões sobre conjugalidade na esfera jurídica são anteriores a esse período. 4 Segundo Marshall (1967) os direitos civis dizem respeito à propriedade de seu corpo e a possibilidade de recorrer à justiça. Notas explicativas Falo aqui em cenário político fazendo contraposição ao cenário jurídico. 3 Entrevista concedida ao site UOL. educação e legislação trabalhista. por fim. os direitos políticos se referem à possibilidade de organização e participação nas instituições da vida política do Estado.8. cito o caso muito publicizado da disputa em torno dos bens do pintor Jorginho Guinle que faleceu em decorrência da AIDS e que teve desfecho através de julgamento em 22 de agosto de 1989.formada pelos Deputados Fernando Gabeira (PV/RJ). Como exemplo dessa anterioridade.htm. tais como saúde. e.sem isso implicar na homossexualidade de seus integrantes . Marta Suplicy (PT/SP). 2 Segundo Almeida Neto (1999).com. chegou-se a falar na existência de uma “bancada gay” .

Los cambios estructurales operados en las comunidades indígenas visitadas han significado una nueva división sexual del trabajo. E-MAIL: Lucianamarcelamiguel@yahoo. Procuraremos explicar cuales son los indicadores que nos permiten entender el rol actual de las mujeres. Sociedad y economía en el Noroeste Argentino RESUMO: Este trabajo forma parte de una investigación sobre los modelos de existencia y reproducción de población indígena en agricultores de regadío de la quebrada de Humahuaca. que origina determinadas relaciones de género cuyo resultado se manifiesta en el incremento del poder del masculino. su identidad de genero y su subjetividad en distintos momentos de su ciclo vital.ar TÍTULO: Sexualidad. María ElinaVitello INSTITUIÇÃO: UBA.com. Lo que nos proponemos es mostrar como el modo de producción de una sociedad conforma y determina la construcción social de la sexualidad. realizadas a las mujeres en su contexto familiar y comunal.AUTOR/A: Nélida Luna. La metodología propuesta triangula datos secundarios provenientes de la etnohistoria combinando dicha información con entrevistas semiestructuradas. 206 . cuya especificidad es pertenecer a una identidad étnica con largo asentamiento en esa región. y las modalidades en las que se expresan las prácticas sexuales dentro de un grupo. Luciana Miguel.

UFRJ (apvencato@gmail.com.br Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.VI Reunião de Antropologia do Mercosul Grupo de Trabalho: Família.com. Bolsista IFP – Fundação Ford.com) Homens desempregados. mulheres provedoras: qual a novidade? Pedro Nascimento – pedrofgn@uol.br) e Anna Paula Vencato .UFSC (mottaflavia@bol. Coordenadoras: Flávia de Mattos Motta . . Gênero e Sexualidades: perspectivas contemporâneas em debate.

E a pergunta central para esta investigação era: a inversão do padrão de homem provedor e mulher dona de casa subverte (ou em que medida altera) as relações tradicionais marcadas pela dominação masculina? No presente artigo. sustentados por outrem.. busquei perceber as estratégias que eram utilizadas para associar as dificuldades da vida diária à idealização de um certo modelo de masculinidade (Nascimento. Falar em homens desempregados aciona uma compreensão de sujeitos que de alguma forma estiveram inseridos no mercado de trabalho formal. nordeste brasileiro. Pernambuco. A partir de distintas dimensões – a relação com as mulheres. Não estudei a condição de homens que. meu objetivo foi se orientando para perceber. naquele momento. Estarei mais interessado em oferecer exemplos que permitam pensar situações específicas onde determinados sujeitos encontram sentidos diferenciados para contextos onde as questões enunciadas aqui são vivenciadas. aparentemente “acomodados”. o que são as buscas de 208 . mulheres provedoras: qual a novidade? Pedro Nascimento Pra começar: itinerários de pesquisa e uma autocrítica Este artigo é baseado em pesquisas realizadas entre 1997 e 2000 em uma comunidade de baixa renda no município de Camaragibe. mulheres provedoras”. a homossociabilidade masculina. Seria possível para a população com a qual trabalhei falar simplesmente em desemprego ou estaríamos diante de uma forma diferenciada de experiência do trabalho? Por outro lado. Antes de avançar nestas questões. 1999). falar em mulheres provedoras poderia acionar a idéia de que estaríamos simplesmente diante de uma alteração dos atores de uma função exercida sempre da mesma forma. junto a isso. as implicações do fato de os homens não serem provedores de seus lares e dependerem financeiramente de mulheres (Nascimento). Região Metropolitana de Recife. particularmente nos bares.Homens desempregados. estavam à procura de trabalho. Meu interesse era caracterizar a condição de homens que apresentaram essa trajetória mas que.. ou então da confusão entre “chefe da família” e “provedor” (Oliveira. articulando reflexões presentes nestes dois momentos. mais precisamente. tendo sua história laboral caracterizada por períodos regulares de desemprego. a busca por trabalho. Falar de mulheres provedoras traz o pressuposto de que os homens foram sempre esses sujeitos e estariam agora perdendo esta função. não mais buscavam superar esses períodos de desemprego: estavam adaptados à nova situação em que se identificavam e eram identificados como “homens que não trabalhavam”. particularmente. bem como sua vinculação com o assalariamento e uma associação de trabalho em emprego. Sempre o foram? Importa refletir o que são os padrões idealizados a esse respeito e. as conexões entre gênero e desemprego masculino ou. talvez seja importante explicitar alguns pressupostos problemáticos presentes no título desta comunicação. Num segundo momento. desempregados. apresentarei particularmente algumas questões sobre a persistência das imagens fixas de homem provedor e mulher dona de casa como domínios estanques contrapondo-os a um conjunto de situações presenciadas em minha experiência etnográfica onde estes domínios estão cotidianamente sendo negociados e suas fronteiras questionadas por diferentes razões. Não estarei aqui interessado em pensar se está acontecendo algum tipo de transformação estrutural maior ou se estamos diante de uma configuração muito particular dadas as características dos sujeitos investigados. Num primeiro momento destas investigações estava interessado em observar a diversidade das experiências associadas à construção das imagens de “homem” nesta comunidade. 2005). “Homens desempregados.

Em números absolutos. Para as mulheres.4% em julho de 2005 para 7. Não são estes principalmente que alimentam as estatísticas oficiais sobre ocupação e desemprego. para seis regiões metropolitanas (São Paulo. A taxa de desemprego elevou-se significativamente nos anos 90. tanto a feminina como a masculina. havia 926 mil homens desempregados em agosto. mesmo num contexto de crise.139 milhão. resultado de uma queda de 3% no número de desempregadas. tendência de crescimento da taxa de participação feminina concomitante à queda daquela referente aos homens (Santos & Moretto. Mas. temos que. Esse movimento pode ser observado pela análise dos dados da PME. recuando de 11.9% para 11.4%. A quantidade de mulheres desempregadas elevou-se em aproximadamente 300 mil. assim como pela análise dos dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) para a Região Metropolitana do Recife. 25% das mulheres que ingressaram na PEA ficaram desempregadas. 209 . 2003). representando 4. enquanto a PEA cresceu apenas 680 mil. Belo Horizonte. que saíram de 1. a elevação do número de ocupados ficou próxima a 415 mil e o estoque de desempregados aumentou em 264 mil. enquanto que entre os homens esta proporção foi de 39% (Santos & Moretto. refletindo a contratação de 182 mil além dos 10. teremos em vista estas perguntas para fugirmos à tentação de incorrermos em simplificações e generalizações. Contudo. Recife. pela não qualificação.5% entre as mulheres. entre 1991 e 1999. Da mesma forma. Ou seja. não se pode negar as mudanças no perfil da inserção feminina no mercado de trabalho no século passado e as mudanças daí decorrentes. a tendência inverteu-se.atualização de um modelo marcadas sempre pela ambigüidade e o conflito cotidianamente. Os estudos sobre mercado de trabalho e gênero constataram durante os anos 90. como fugir de uma avaliação linear que colocaria a presença de diversos sujeitos como sendo responsáveis pelo sustento da casa como não sendo uma novidade inaugurada pelo quadro do desemprego contemporâneo? Como não pensar a presença da mulher neste cenário como sendo também não apenas uma decorrência. 2001. o número de desempregados caiu 15. considerando-se o saldo da década. Qual seria então o sentido de falar em desemprego para esta população ou procurar conexões entre suas trajetórias e os determinantes estruturais do mundo do trabalho? Estaríamos perpetuando uma compreensão que toma como sinônimos trabalho e emprego? Ao lidarmos com os dados disponíveis sobre ocupação e desemprego no Brasil. pela marginalidade. ainda será importante considerar que a grande maioria das pessoas com as quais convivi apresentam uma trajetória laboral marcada pela informalidade. a taxa de desemprego aumentou de 7. Rio de Janeiro.5%. Como o crescimento da PEA feminina foi de 1. Montali. Na comparação com agosto de 2004 percebe-se que o total de desempregadas encolheu 18. com a incorporação de 288 mil trabalhadoras ao universo das pessoas com algum tipo de ocupação. É impossível desconsiderar o quadro atual do mundo do trabalho e da economia que apontam para uma tendência irreversível do desemprego. No caso dos homens. particularmente do desemprego masculino e sua precarização sobretudo nos anos 90.65% no mês seguinte entre os homens. mas também como não significando simplesmente a ocupação de uma atribuição masculina? O que têm os moradores de Camaragibe a ver com os números do IBGE? Além destas ressalvas. De acordo com O IBGE. cerca de 900 mil mulheres encontraram ocupação. Porto Alegre e Salvador). 2001).3%.173 milhão para 1.990 milhões de pessoas ocupadas do sexo masculino registradas em agosto de 2004.2 milhão. pode-se concluir que o impacto foi mais desfavorável para os homens do que para as mulheres. Entre os homens.

Ele trabalha numa banca de jogo de bicho num bairro vizinho àquele onde moram. cadeira. É neste sentido que estes dados estão sendo apresentados aqui. além de se ser passível de questionamentos ao longo da história encontra indicadores na conjuntura econômica atual. deixava sua filha na casa de sua mãe e ia para a avenida com seu filho mais novo ou sozinha.Segundo Montali (2003). Deste casamento têm dois filhos. até servia algum cliente. etc. Masinho. Luzia tem outros três filhos de seu primeiro casamento. todas as tardes. Luzia havia "botado a banca de acarajé na avenida". Era Luzia quem muitas vezes dava o dinheiro para ele ir comprar estas coisas que faltavam. a panela com o acarajé para ser frito. e sempre procurou ocultar esta relação. mas para insistir na idéia de que um quadro nitidamente configurado entre funções masculinas e femininas no âmbito do sustento financeiro dos lares. Assim. Não para afirmar que o que pude perceber naquela comunidade específica é apenas um reflexo de uma tendência global inexorável. estendia-se até por volta das 19 ou 20 horas. o que precisava comprar. como por o acarajé para fritar. ele nunca fazia. Essa atividade que iniciava por volta das 16 horas. Luzia sempre trabalhou de algum modo. Com grande habilidade. em outras. ou em sua "banca de acarajé". Umas vezes. ela. que é a área "mais movimentada" do bairro. ocupava-se do fogo para que não se apagasse. Durante todo o tempo em que convivi com eles. afetados pela composição predominante da etapa do ciclo de vida familiar” (Montali. em pouco tempo. fogareiro. bem como diversos sentidos estão em jogo na definição destas atribuições. mas algumas atividades. Sua relação com o trabalho de Luzia sempre foi bastante ambígua. Quando chegava a hora de ir para casa. este trabalho era pensado como 210 . Várias vezes. mas preferia que ela ficasse em casa para cuidar das crianças. Acendia o fogo. Quando os conheci. assumindo especificidades nos diferentes tipos de família. sempre achou que seria melhor que ela não o fizesse. apresentava-se como seu proprietário. Conduzia todo o material necessário num carro de mão: mesa. Dizia-me que só considerava a possibilidade de a esposa trabalhar fora pela necessidade financeira. Desemprego e trabalho feminino em Camaragibe Com relação às questões que nos interessarão mais diretamente aqui – o trabalho em suas várias compreensões ou sua ausência e as imagens associadas à idéia de provedor – antes de pensarmos experiências daqueles homens identificados por períodos longos sem trabalho e sem participar diretamente do provimento do lar. vejamos como estas situações variam. era ela própria. Ele tem 38 anos e há dez anos é casado com Luzia. 2003: 129-130). Em geral. carvão. por volta das 18 horas Firmino chegava. seja vendendo os mais variados produtos "de porta em porta". Às vezes. organizava todo o material em cima da mesa e punha o acarajé para fritar. conduzia o carro. falou-se sobre o tempo em que Luzia também trabalhava como balconista numa padaria. era ele quem se encarregava de juntar o material e organizá-lo no carro de mão. dependendo "do movimento". Chegava e perguntava se tinha alguma coisa faltando. é necessário entender a inserção diferenciada dos componentes da família no mercado de trabalho como sendo definidos articuladamente pela “dinâmica da economia e das relações familiares e de gênero. embora ele sempre estivesse reivindicando participação. sempre precisou que a esposa trabalhasse. Firmino. que vivem com sua mãe. colocava o "negócio pra funcionar". em outros. um de seus filhos do primeiro casamento. assim como a grande maioria dos homens que conheci. ela fechava a casa. Ele que diretamente não contribuía para o "negócio" e que até desencorajava Luzia em vários momentos. Fique claro que. mas na maioria das vezes. bem como conduzi-lo até sua casa.

onde ele foi parando em cada um dos bares do caminho. aqui e também no caso de Luzia. Minha mãe me dá. Outros já não fazem biscates. Biu me falava: "Ela bota pra dentro e eu também. Neste mesmo dia. pra ficar gostando mais". como acabou virando um hábito meu. ele deixava de trabalhar e esperava pelo dela. o que não deu certo). quando eu não tenho ela tem. nem sempre igualitária. certa vez. No período junino saía todos os dias bem cedo para comprar milho para Luzia cozinhar e fazer pamonha e canjica para vender. Em relação ao trabalho. fazendo planos de expandi-lo (como de fato fizeram posteriormente. na hora de voltar para casa. Em todas elas existe sempre a tensão acionada pelo reconhecimento de que o trabalho desenvolvido pelo homem não é suficiente para o “sustento” da casa. limpando fossa. Firmino voltou. afirmava que ele é quem dava dinheiro a ela. ou com as redes femininas consangüíneas para realizar as suas atividades. recolhendo lixo. Ela tem que achar que ele não gosta.. Ao voltar à noite.". atrapalhou as vendas e ainda a detratou frente alguns clientes. Num imaginativo recurso. Outros homens ainda.. o que era mais um elemento para ele desqualificá-lo em outras vezes. outros fazendo biscates: limpando jardins e quintais de residências. Minha mãe “abanca” eu e meu irmão". seja na sua "assistência" a Luzia. devido ao grande número de desempregados. procuram definir um perfil igualitário de divisão de responsabilidades: "Mas é assim. eu tenho. como os citados. bem como o seu de que ela estava ganhando mais dinheiro que ele. Importa notar que este "quando eu não tenho". na banca de Luzia. Firmino estava lá e percebi-o visivelmente embriagado. Comentou que "um homem não pode deixar a mulher saber que ele gosta dela. comprando e transportando botijões de água ou de gás em troca de algum dinheiro. do orçamento doméstico. Conheci muitos homens procurando emprego. na 211 . a ambigüidade do reconhecimento da necessidade do trabalho feminino e a busca de recompor ou se reacomodar frente à cisão simbólica entre aquilo que era esperado de cada um. pedindo dinheiro "emprestado" às mulheres. mães ou outro parente. como é o caso de Brito. aparentemente recuperado da embriaguez. eu fiz questão de conduzir o carro de mão com o material. Ela lamentava. alugando um quiosque. Luzia estava só e começou a contar-me de seu desapontamento com Firmino. de acordo com o modelo vigente.uma atividade dela. contrariando todo discurso de Luzia de que ele não estava contribuindo financeiramente. às vezes. Nessa caminhada de volta para casa. quando ela não tem. como o fez em alguns momentos.. pois ele. Porém. conforme diziam repetidamente: "Emprego tá muito difícil". sendo ajudante de pedreiro. vi o mesmo Firmino e outros homens. e faziam isso de modo constrangido e até buscavam estratégias para fazer ver que ainda tinha alguma participação no provimento do lar. muitos lares são sustentados pelas esposas. para ver se ele "se tocava". desempregado.. Além desta "divisão". nem procuram emprego. dizendo que todas as vezes que começava a ganhar algum dinheiro. A consangüinidade operando (Fonseca. meio que justificando sua atitude àquela tarde. diziam: "Nesses dias que eu tô sem trabalhar". inclusive para comprar bebida. Em alguns momentos. participava e até incentivava Luzia. bêbado. Esta era a razão porque ela dizia que ia deixar de trabalhar. Dizia-me. Em alguns momentos. parecia querer demonstrar que o negócio também era seu. passei na avenida. Procurando dar o tom de ocasionalidade. que conta com a sua mãe. Esta situação vivenciada por Luzia e Firmino apresenta muitas características percebidas em outras relações. Para além das singularidades deste caso. 1987). pois percebi que ele não estava em condições de fazê-lo. Luzia foi na frente com uma colega e ele ficou comigo. seja em demonstrar que ele era quem comprava a matéria-prima. Disse-me que ele falou quando ela não quis ir embora para casa com ele: "Você quer ficar só aí por causa dos machos".

Esse esforço envolve doença. ainda. Depois que ela se foi. salvo momentos em que bebem demais e não têm condições físicas. Em nenhum momento a condição de dependente de outrem é simplesmente apresentada. transportando água para casa). fazendo um contraponto que é também uma inversão de um discurso largamente difundido de que o dinheiro que a mulher ganha é para suas “coisinhas”. "vendo filme de boneco". esses homens muitas vezes desenvolvem pequenas atividades e recebem algum dinheiro por isso. onde novos recursos eram utilizados. lanches etc. pelo fato de viver ainda com a esposa e 212 . não sendo os provedores do lar.maioria das vezes se estende por anos. A busca de biscates não é uma prática constante para a maioria deles. sempre pensada como complementar e inferior (Agradeço a Alinne Bonetti por essa e muitas outras perspicazes observações a esse texto). esperteza etc. refiro-me ao sentido de não-participação no conjunto das despesas da casa. mais corriqueiramente. Brito afirmou que sua esposa sai de casa para trabalhar às cinco horas da manhã e deixa a sua comida já pronta. com bastante variação. Alguns deles brincaram certa vez. ou por articulações desses fatores. seja por razões de saúde. que não o desejam. que os mantenha por um certo tempo. enquanto ele fica os dias entre os bares e casa de Dão. Constatei. Certa vez. Fazendo biscates dos mais diversos tipos (construindo laje. mas em busca de legitimação. em geral decorrentes de debilitação pela bebida. casos de homens que. que eram da "CIT: Companhia Inimiga do Trabalho". 40 anos). prestando pequenos serviços a vizinhos ou. usando um recurso diferente quando a força não funciona. Muitos destes homens apresentavam-se como fazendo entre 3 e 12 anos que não desenvolviam atividades consideradas relevantes para o sustento financeiro de seus lares. até os casos dos que “não fazem nada”. radicaliza esta situação. preguiça. seja pela impossibilidade de encontrar um trabalho que faça diferença no orçamento doméstico. sua esposa reclamou num dos bares porque seu proprietário tinha vendido fiado a seu marido sem sua autorização. seu melhor amigo. O reconhecimento do desemprego: assumindo-se não provedores Com o passar do tempo e uma maior abertura das pessoas em campo. Tião disse malandramente: "Tá botando bocão porque? Não é pra me sustentar que ela trabalha?". No entanto. conjuntura nacional. Seu destino em geral é a própria bebida ou outras pequenas compras pessoais como cigarro. Passava-se então a uma nova situação. mesmo que para alguns sempre tenha havido períodos sem trabalho e para outros seja tentadora a possibilidade de ter alguém que os “banque”. logo após afirmarem que estavam desempregados. Quando digo que não trabalham. Ela sempre vem acompanhada de uma tentativa de justificação e demonstra um esforço engenhoso para dizerem que não têm condições de voltar a desempenhar esse papel ou. Brito (casado. Seria possível apresentá-los em um continuum que vai desde os que fazem pequenas atividades diariamente. não sendo possível associar definitivamente a nenhum deles nem predefinir que tarefas seriam mais próprias de alguns. é possível identificar na trajetória de todos os sujeitos a referência ao trabalho como dimensão importante da vida. nem houve um redimensionamento das atividades domésticas. Em outro momento. vão se adaptando a um certo jeito de viver. com diferenciadas ênfases de acordo com a pessoa e o momento. não apenas admitindo sua condição. dizendo. estes homens já não buscavam ocultar o fato de que não trabalhavam e que não dependia deles a manutenção financeira da casa. mas isso precisaria ser compreendido numa dinâmica que permite variações. ao longo do tempo. seja pelo fato de perceber que é possível aproveitarse do resultado do trabalho alheio.

muitas vezes – penso ser possível afirmar . é de passar fome” (Zélia. quando estão desempregados.. destacando sempre que "somente uma pequena proporção dos homens é capaz de atualizar a norma ideal. aos 62 anos. cansaram-se de tentar reverter a situação e já não esperam que seus homens voltem a trabalhar para que elas apenas complementem os recursos. como é o caso de Dona Neide. O que vai variar é o tom com que cada um apresenta essa experiência.. não trabalhou com regularidade e não contribui mais para a provisão do lar: – De lá pra cá eu não. enquanto é possível. e não acha emprego. e poucos grupos domésticos conformam-se à norma tradicional que define a divisão de trabalho entre marido e mulher” (Woortmann. esses são os que não apenas não trabalham. 1987). mas de casos onde as mulheres. tem problematizado os modelos aqui discutidos. no dia que aparecer eu vou. Se isso acontece na relação entre maridos e esposas. pingado aí (. então. que têm entre 22 e 40 anos. já tou ficando velho mesmo.. 1990. a complementação de recursos” (Neves. o negócio cai mesmo.. Fonseca.. Se o cara for procurar. 1987.) E até hoje nunca me preocupei mais. mas ele não trabalha. a mulher vai procurar mudar a situação “cooptando o companheiro a assumir os papéis principais ou a assegurar os recursos básicos à reprodução da família. toma conta de todas as atividades da casa e se refere a seus filhos. como se sabe que não irão fazê-lo.. Dona Neide..desistiram. Trabalhei assim. mas estão sempre à procura de algum trabalho. como é o caso de Brito. outros mais constrangidos. não vai mesmo. cabendo-lhe. o filho mais novo nunca teve emprego nem contribuiu significativamente para o orçamento familiar. ou ainda momentos em que brigam com suas mulheres ou mesmo se separam. tou com ele assim. Se eu não trabalhar. Embora focalizando as mulheres e sua condição de chefes de família. gasta o dinheiro que tem e não come. Os casos por mim estudados certamente configuram arranjos bastante distintos dos enunciados por Neves. querendo a todo instante passar um tom de naturalidade. 39 anos). e emprego tá difícil mesmo. além de não ser a discussão sobre arranjos matrifocais que está em jogo aqui. Há um reconhecimento explícito de que não podem mais contar com eles: “o jeito é eu trabalhar. 1987: 66). 51 anos. o mesmo se percebe entre mães e filhos. não tem mais com que me aperrear com nada. 1985. como “os 213 . trabalhei muito tempo mais não. Woortmann. assumidamente.não desenvolver qualquer atividade remunerada torna seu discurso ainda mais significativo quando fala que. 2000). nem querermos restringir a importância das relações entre demais consangüíneos (Fonseca. dois deles. Meu marido. já não trabalham e são os “papudinhos” (termo usado para designar os dependentes de bebida alcoólica) da casa. Todos esses homens se percebem e são percebidos como pessoas que não estão trabalhando.. Um conjunto importante de estudos na antropologia sobre famílias pobres das periferias urbanas brasileiras (Neves. Scott.. esposa de Dino. Neles. Ela tem sete filhos. assumem-se dependentes. Só nessa. e os demais se revezam entre períodos em que moram em outra casa com suas esposas ou companheiras e períodos em que recorrem à casa da mãe. Que vou fazer? Fico o dia inteiro em casa. desde que casou. 1985: 202). forneceram elementos para se pensar a condição masculina e suas relações. Neves (1985) destaca o fato de que os arranjos matrifocais são uma variação que permite o controle de situações críticas onde.. Diferentemente daqueles que não trabalham por um período. Uns mais à vontade.. Uma irmã é empregada doméstica e mora em uma casa vizinha com seu marido e dois filhos.. “Coitados” ou “espertos”. não fiz mais nada na vida. não se trata de uma variação para controle de situações críticas. se eu não trabalhar. E essas afirmações não são feitas apenas para mim.

vai procurar emprego. apenas dois deles concluíram o primeiro ciclo do ensino fundamental (antigo primário) e só Neto concluiu o segundo (antigo ginásio). é clara a distinção de que o que se leva em conta na relação com os homens não é apenas o fato de não trabalharem.) que a gente vê em repórter. E o de 30 anos. Entre eles. A situação tá difícil mesmo porque emprego hoje em dia. os outros homens falam de sua condição corroborando a compreensão de Dona Aline. e pra quem não tem? Pra quem tá novo assim de 20 anos. e pronto. ao menos. o mais presente na fala de homens e mulheres é o reconhecimento da dificuldade de qualquer homem conseguir emprego em virtude dos contextos conjunturalmente formados. Mesmo figurando junto à noção de que muitas vezes há desinteresse e preguiça dos homens. os meus meninos não têm profissão. hoje em dia pro cara arrumar um trabalho. o que depende do tipo de relação mantido pela pessoa envolvida e dos contextos em que cada experiência é avaliada. Um de seus filhos.. emerge a busca por uma compreensão que justifique a experiência atual. que tem profissão. só dentro de casa com. né? Emprego tá difícil. explica que é ela quem mantém a casa com o dinheiro que recebe da pensão do falecido esposo: – É porque é uma mixaria de nada né. insistindo em que não valeria a pena sair para procurar trabalho. pra começar. não encontra. mesmo. não vou negar. tudo. 214 . quando a gente vê no rádio. né? Por que eles não compram. 52 anos) Do mesmo modo que Brito comentava em outro momento que “emprego tá difícil mesmo”.meninos”. dos sujeitos investigados. a falta de qualificação para o mercado contribui decisivamente para manter esses homens afastados do mundo do trabalho ou. aí eu faço mais é. Desde o discurso revoltado de uma mulher casada há mais de dez anos com o homem que não mais trabalha e bebe. tem que ter o primeiro grau. (Dona Aline. A mesma mãe que.. O que varia é a ênfase dada a cada caso. vê notícia. Embora nenhuma delas considere essa uma condição “normal”. não dá pra mim. porque se eu não comprar as coisas pra dentro de casa a gente vai viver como. Considerando que. ainda é mais fácil. Joca (32 anos) reafirma... hoje não é ele só. com enorme sintonia de argumento. reclama porque o filho não trabalha e questiona sua constante embriaguez. mesmo que tolerada com maior ou menor resignação. emprego tá difícil. que nem trabalhar em loja. lhes dá mais elementos para justificar sua condição de dependentes de outras pessoas. ao invés de consegui-lo. Porque você vê. em alguns momentos. essas coisas.. pois. a pessoa. É em todo canto que passa é essa calamidade que não tem emprego (. preencher que eu sei preencher. o que é que eu vou fazer? É só preencher a ficha.. Mas. acabaria por gastar dinheiro com transporte e alimentação. às vezes. eu ainda compro as coisas para dentro de casa. o chão da casa só.. que não querem empregar mais? E outra. na televisão. quem tem que comprar sou eu mesma. não sei o que mais. passando pela compaixão ou o sentimento de obrigação ou de solidariedade. Porque eu não sei. o segundo grau. se acontecer de eu tiver a sorte de entrar numa firma. é clara a percepção de que se está diante de uma situação com contornos bem marcados. Eu só faço. eu não tenho esses estudos. precisa de curso não sei de quê.. 22 até 25. a consideração de que existem elementos externos à vontade dos sujeitos é reconhecida por todos. as razões de não estar trabalhando: – Porque. para arrumar serviço melhor.. pode em outro momento compadecerse de sua condição: – Na maioria. vê pai de família desempregado às vez não é nem por causa de cachaça. às vez tem profissão. Frente a esses diversificados posicionamentos. só.. Se pra quem tem profissão já é difícil. mas a maneira como se comportam nessa situação.

aí tou por aqui. essa é uma das implicações. o principal elemento para que um homem se instale na condição de não-trabalhador será o fato de ter alguém que o sustente. eu ir procurar? Não me interessa mais. Quem tem condições vai. será explícito para todos que. porque vê que a pessoa não tem resistência pra continuar aquele serviço. há muito tempo.. Em outros casos. pra mim não tou nem ligando agora. mas pra trabalhar no pesado mesmo. não agüento. pra ver se arruma alguma coisa. né? O cara tem que passar o dia. Ele não pega por causa da bebida.. mas também do reconhecimento de que a bebida interfere em sua capacidade de trabalho por debilitá-los fisicamente. qualquer coisa que ele pega. a noite lá. Tou pra isso não. a esposa de Dino. mas procurar. procurar. sem uma sandália (. Se o fato de “ter o prato de comer” já desencoraja esses homens de procurar trabalho. O cara ter que dormir na fila do trabalho.. Principalmente quando surgem as comparações com o passado (possível diferenciador da condição atual). Brito fala com extrema naturalidade articulando todos esses argumentos apresentados até agora: – Ave Maria! Vou fazer força? Não. tem que sustentar ele agora até o fim”.. vou procurar trabalho mais não. sua tanto. Ele pegava qualquer biscate. rapaz. Trabalho. A resistência dele é muito fraca.. vai? Muito embora prevaleça a percepção de que “alguém” os sustenta.. acho que não vivia assim e a pessoa não vai andar sem uma roupa. né? Vai se preocupar. vai passar o dia todinho com fome. que nem tá acontecendo aí nos serviços que tem aí.. falar com alguém.. sabe? Bebia cana. tornaram-se vagabundos e “entregaram-se à bebida”. A mãe é a primeira e mais importante referência de cuidado. mas não bebia tanto. É. porque. eu nunca corri de trabalho não. sabe? Agora é que ele bebe direto sem parar. Zélia.) não vai viver sem alimento. ela é reconhecida em diversas situações como um empecilho ao trabalho. Eu vou dizer.. Agora que tá ruim mesmo. é por que tem alguém pra dar. a pessoa tem que batalhar. A maioria dessas pessoas que vivem assim é por que têm alguém pra ajudar. Beto. começar e continuar. Doente.Além desses elementos conjunturais. A importância da bebida na configuração e legitimação desse quadro dá-se não só no sentido de que alguns homens deixaram de trabalhar. que pra mim tenho o prato de comer pr’eu comer e pronto. se não tivesse.. Não agüento mais não.. Porque quem vai dar serviço a uma pessoa que só bebe? Não dá.. Trabalha tanto pra nunca ter nada na vida. se aproveitar. a noite com frio.) também uma coisa dessas também não se pode trabalhar mais né. Agora. Mesmo mantendo-se válidas as opiniões a respeito da bebida como irresponsabilidade ou esperteza de homens que preferem a vida dos bares ao trabalho.. (. falando sobre seu irmão. pegar uma ficha ainda pra ir lá e. o que eu tinha de fazer já fiz já. sem poder trabalhar.. Eu. depende da pessoa mesmo. aí eu vou.. vê se trabalha ainda. né? Porque a pessoa dentro de casa não arruma nada não. para além dessas justificativas. Trabalhar eu posso. Se ele quiser me procure. mesmo usando argumentos semelhantes. 215 . Se vive. só coisa pouca. como aparece na fala de Dona Aline: – No caso.. tanto faz... fazia biquinho. tem que sair. essa justificativa via doença vem aliada a uma admissão explícita de que não querem voltar a trabalhar. um dos principais argumentos para o nãotrabalho é a própria bebida. explica por que o mesmo não trabalha: “Porque ele bebe. só nessa. A pessoa dentro de casa arruma o quê? Nada. Ele pega uma coisinha assim. vou nada. deixa entrever isso quando compara a situação atual de seu marido com esse tempo passado e reconhece sua incapacidade para assumir algum trabalho: – Ele trabalhava. na maioria das vezes esse alguém é a mãe. quem não tem. chega eu penso que ele vai ter um troço.

pelos homens marcam a diferença definida pela presença de uma ou outra. há uma marcante compreensão dos homens acerca de que trabalhar é muito mais do que apenas 216 . Essa referência corrente à mãe irá aparecer não apenas pelo que significa em termos de provimento financeiro. Mesmo que uma mulher ocupe o lugar da mãe. não seria compreensível a situação de Severino no tempo em que morou sozinho. Ele tem vários filhos e. mesmo que não definitivas. Essa fala de Zeneide não apenas refere à predestinação da mãe como cuidadora. entretanto não a impediu de cuidar dele quando veio a adoecer. Mesmo que esse provimento se dê via irmãs ou esposas. estava doente]. Ele tá doente porque quer. de mim você tá cortado. Contudo. que um homem acolhido por uma delas seja obrigado a encontrar outras possibilidades no futuro. viu? Porque sua mãe cuida de você. mesmo frágil. Quando me refiro ao apoio que recebem e ao cuidado devotado pelas mulheres. mesmo Zeneide.Tanto Neto como Brito localizam na morte de suas mães a passagem para períodos de maiores dificuldades. sempre tensas e passíveis de rupturas. eu sempre eu digo ao daqui de casa [o marido]: ‘Reze pra você só adoecer enquanto sua mãe tiver viva. mesmo sendo em muitos aspectos semelhante aos seus amigos no que se refere à bebida e qualificação profissional. quando não há a figura da mãe. Isto aponta não só para a centralidade das mulheres na vida desses homens. essa substituição nunca é vivida como satisfatória. Bem mais do que uma simples justificativa para o fato de não trabalharem. assiste-o com alimentação e outros cuidados. A própria esposa de Brito já o havia alertado antes para que não viesse a adoecer novamente por causa da bebida. a mãe dele faz. ou a situação de Bento. mas retoma a questão dos constantes alertas e das ameaças feitas aos homens em razão da bebida. a possibilidade de sobrevivência de um homem passa pela presença feminina. como também deixa claro que os arranjos construídos para sua sobrevivência não são fixos. como que lhes dando um norte (Villa. O argumento da pressão da necessidade não é suficiente. é essa possibilidade de contar com alguém que lhes permite manipular todos os argumentos aqui delineados. ou. Você morre aí no chão. vivem em piores condições do que qualquer outro – é o de que. Tão significativo quanto o fato de que não foi possível localizar nenhum homem sendo cuidado por outro homem – além do fato de que. Trabalho e honra: quando é melhor não trabalhar Mesmo sendo essa explicação válida para o caso de Bento. A mãe é apontada tanto pelos próprios homens quanto pelas mulheres como capaz de dar atenção ao filho nas mais diversas situações: – E. as mães são pensadas como “naturalmente” mais propensas a serem as cuidadoras. Cuido não. nunca se deu “ao luxo” de não trabalhar. Se assim não fosse. o que. Eu boto você pra dormir no chão. 1997). colega de bebida dos homens aqui referidos. Quando morrer. apesar de todas as reclamações. No dia que sua mãe bater as botas (se eu não bater as botas primeiro) e você chegar ao ponto dele [referindo-se a Brito que. ela será insuficiente para pensar a situação de muitos homens que não trabalham há muitos anos. nessa época. eu vou lá no cemitério e enterro’. Enquanto a mãe dele estiver viva. As dificuldades de convivência apontadas. estou falando de negociações constantes. permitindo que um homem que hoje mora só possa vir no futuro a ser novamente acolhido por sua irmã. ou ao menos é necessário dizer que os homens encontram outros argumentos para não trabalharem. em momentos distintos. porque na minha cama não dorme. quando seu esposo chega bêbado em casa e acorda com os efeitos devastadores da ressaca. e levar pro hospital não levo não. então. Além disso. quando sozinhos.

tem leite pra comprar e o cara tem que batalhar. p. e certamente o barulho que os muitos filhos do vizinho fazem à sua porta permitem-no respirar aliviado quando lembra que não os tem. cinco filhos não pode (…) Aí o cara tem que ser explorado mesmo de toda maneira. viu? Passar por certa humilhação que eu vejo o povo passar por aí… P : Que tipo de humilhação? – É. pelo direito ao “orgulho de si mesmo” (Pitt-Rivers. A utilização desses argumentos precisa ser levada em conta para não cairmos na explicação fácil da pressão da necessidade. quando há a expectativa de que uma outra pessoa irá trabalhar para sustentá-lo. Apesar disso. batalhar pra arrumar o leite pro menino. ao mesmo tempo. Para ela. a noção de honra permite empreender uma reelaboração simbólica que tende a maximizar o amor próprio. tranqüilo. porque sabem que eu não vou mesmo. O príncipe que não veio: conjugalidade e desemprego masculino As diversas questões referidas até aqui procuram problematizar as várias possibilidades de formações em relação à provisão do lar e as justificativas dadas para se posicionar frente às mesmas. porque tem filho pra dar de comer. Não por acaso. Vou nada. onde a idéia de que a esperteza do pobre e uma dignidade que não pode sucumbir frente ao dinheiro repõe a igualdade. Existe uma diferença marcante entre ricos e pobres mas. marcada pelo sentido de honra. Da mesma forma como as ameaças de abandono 217 . prefiro ficar em casa. o pão mais tarde. ficar doente. Vou não. que já não podem contar com apoio algum.desenvolver alguma atividade. redefine-se cotidianamente a relação. sem precisão. Os argumentos apresentados pelos homens podem ser pensados na direção do que Fonseca (2000) sugere sobre a mesma noção de honra. por mais difíceis que fossem as circunstâncias em que estavam vivendo esses homens. busca-se mostrar que o fato de os homens não trabalharem não é percebido de forma tranqüila. qualquer coisa. este precisa ser capaz de fazer com que eles vislumbrem a possibilidade de virem a estar em uma situação melhor do que a atual e aparece como uma importante justificativa para recusar certos serviços que aparecem. Estas configurariam um recurso que chamei de auto-elogio (Nascimento. filhos ou irmãos. Porque o cara que tem quatro. ao mesmo tempo. Vou me aperrear pra quê? Trabalhar de me matar pra ninguém. Com essa fala Brito certamente se referia a Bento. 2000: 21). a honra figuraria “como elemento simbólico chave que. O trecho que se segue – que é de uma conversa entre o pesquisador (P) e Brito – revela as razões de manter sua condição. de que. as mulheres em algumas situações apresentam certa resignação na fala. Segundo a autora.13). Tem que correr atrás de alguma coisa. 1999). eles sempre apresentavam diversas estratégias para se apresentarem como próximos das características percebidas como masculinas no nível ideal. regula o comportamento e define a identidade dos membros do grupo” e permite dar ênfase aos aspectos não-materiais da organização social. sejam os sozinhos ou os que têm grande família para sustentar. Ao mesmo tempo. o homem “se acomoda”. utilizando-se um “filtro imaginário que permite ver e narrar sua vida de acordo com uma imagem de si socialmente aceitável” (Fonseca. Além de ter um trabalho. quando se referem aos homens com quem vivem. sem fazer nada. que mora em frente a sua casa. Só assim será possível somar-se a esse conjunto de fatores o fato já mencionado. Se tivesse menino. o que faz com tranqüilidade: – Aqui eu vivo só. É por isso que eles não me chamam pra trabalhar. Podemos então entender a diferença entre estes acomodados e aqueles. Foi a esposa de Bento quem me disse certa vez com sorriso irônico que Brito “dormia demais”. Ter menino é fogo. sejam maridos. E tem gente que se apóia nesse tipo de coisa (…) aí quer maltratar a pessoa. 1971. trabalhar. nem que eu quisesse não tava. Tu é doido? Aí o cara assim.

as diferenças são marcantes. mas perceber que o tipo de vínculo mantido em cada par define os contornos assumidos na trajetória de aparentes subversões dos padrões de gênero: se o par é formado por um esposo e uma esposa. Contudo. sempre deixaram evidente que as despesas da casa são pagas pela mãe de Renato. Que ela vê que eu não tenho condições de comprar. Mesmo quando as mulheres fazem comparações entre o tempo em que esses homens não bebiam e o presente. Este não trabalha. Em outros casos. eu compro. aí. Muito embora existam discursos emancipatórios e críticas vorazes. Podemos pensar que em nossa sociedade a imagem de alguém sozinho ou abandonado não é o que se pode chamar de um projeto acalentado. umas não. quando é remédio pra mim ela é quem compra. sabe? ‘É. por outro apóia-se no fato de que não é da esposa que depende para sobreviver. é criticado pela esposa por beber e não trabalhar. Além disso. mas eu fico calado. Eu tou comendo e dormindo. ela é quem compra. bem como as queixas em razão da bebida e da falta de trabalho não resultam facilmente em rupturas e mudanças. remédio caro.em caso de doença não se confirmam. Assim. o que se percebe é mais um lamento por não se poder ver cumpridas as expectativas alimentadas do que uma crítica irrestrita à postura masculina. estas não são feitas como uma cobrança insistente do tipo “agora ou nunca”. ela é quem compra. o que funciona a favor deste: se. ou um irmão e uma irmã. remédio de dez. Os sonhos são refeitos a cada dia de acordo com a experiência que se apresenta. referindo-se a sua sogra: – Ela me ajuda ainda. o discurso de Brito afirmando não se incomodar com as críticas e xingamentos que recebe sugere a possibilidade de pensarmos sua condição como uma situação legitimada. Muito embora acredite que não seja possível responder à pergunta “Por que essas mulheres não abandonam esses homens?”. ouvi dizer. vende produtos de beleza a domicílio. 1987 para a mesma questão). Quando é. Vejamos como ela explicita essa relação. mais do que uma cesta básica. A segunda questão refere-se à necessidade de entender os vários arranjos constituídos em suas características específicas. quarenta e acima. por um lado. considero importante destacar duas questões que devem ser levadas em conta se quisermos entender ao menos algumas de suas nuances(ver também Fonseca. A primeira é que não operam com a noção de que qualquer discrepância do homem em relação ao esperado implicaria necessariamente o fim do relacionamento. sugerindo uma maleabilidade ou plasticidade que confere a essas relações capacidade de manutenção maior do que a habitual. uma mãe e um filho. assim. apenas com base na racionalidade. O grande trunfo de sua esposa na equação de forças é a posse da casa que. vou tá me 218 . podemos pensar que não só se provêm alimento e teto. Ficam falando. Ao contrário. às vezes. vem sendo construída há anos com seu dinheiro. não parece sobrar dúvida de que a manutenção da casa é assegurada pela mãe de Renato. porque Marta se lasca de trabalhar. pra dar de comer a Brito. um bocado. eu sei das coisas. em virtude de suas vantagens intrínsecas: – Umas pessoas por aí. Reforçando essa idéia. os constantes conflitos. pra mim e pra minha menina. e não tou devendo a ninguém. Ou seja. segundo ela. há em geral mais de duas pessoas envolvidas na questão. o exemplo de Zeneide e Renato é bastante elucidativo. Zeneide recebe pensão do primeiro marido e. o que se percebe é um longo período de negociações e adaptações. Eles moram numa casa nos fundos da casa da mãe de Renato. não sei o quê’ (…) Aí eu tou. não se trata de pensar homens e mulheres como categorias absolutas. mas quando é remédio de vinte. ela me dá cinqüenta reais e o bujão [de gás] todo mês (…) E assim. Para pensar sobre esse aspecto. que eu não vou me preocupar com isso. Ela me dá assim. doze reais.

não senti diferença nenhuma. a vendedora de acarajé cujo exemplo utilizei inicialmente. Porque um homem dentro de casa é pra ajudar a gente. Ele chega. de não ter assim a força de um homem. conversar com a gente. Ou ainda.. sabe. mãe e esposa. todas as vezes que começava a ganhar algum dinheiro. certa noção de que. de algum modo.. Perguntei certa vez para Zélia se ela percebia diferença entre o tempo em que seu marido fazia biscates e o tempo em que não mais trabalhava e ela apresentou essa diferença entre a falta material e a falta afetiva: Pra mim. mas de elementos subjetivos como o respeito e a companhia. não haverá. faço minhas compras. Luzia via muitas mulheres nos pontos de ônibus.. isso aí. às vezes com filho no braço. sem ter assim um. Sentir falta assim. de jeito nenhum. ter um diálogo pra gente conversar e tudo. “isso não é vida de ninguém”. Ela dizia que só trabalhava quando “as coisas apertavam”. Só servia pra ele mesmo. o que é que eu vou fazer?”. Nunca teve. as mulheres referem sua condição de independência financeira em relação aos maridos como algo positivo.. Não se trata de mandá-lo procurar emprego ou mudar 219 .. reclamava que. elas não trabalhariam tanto: “Queria que ele trabalhasse e sempre continuasse botando a feira dentro de casa. seu marido passava a faltar ao trabalho com o objetivo de ser demitido. Por vezes a vi reclamar de sua situação dizendo. Isso é suficiente para ele não se apresentar destituído. É um homem assim sem. A falta sentida é não apenas a de um homem provedor. se seus homens trabalhassem. a gente sente falta assim. esperando o marido chegar”.. alegando não sentir falta da ajuda do marido. Mas ele não me ajuda. Pra mim. de maior ausência do marido.. A mesma Luzia. mesmo se insatisfatória? Este conjunto de expectativas aparece quando a mesma mulher fala acerca das tarefas que manda o marido fazer. Outros homens – e mulheres. esperando seus maridos chegarem do trabalho. ele não tem não. para além das queixas. sabe. Não sinto falta de nada dele não. Ao longo dos anos de convivência... ela talvez tenha continuado a esperar que isso se efetivasse. não faz. Outro elemento igualmente importante nessa configuração é a fuga da solidão.aperreando?! Tem certas pessoas que falam demais. Mesmo sentindo essa falta desde que o conheceu. sabe. Eu mesmo (. assim desde o começo ele nunca fez isso não.. A casa é citada como contrapartida. eu sinto falta. outro não. essa dimensão simbólica se atualiza pela presença do homem. Outras vezes suspirava dizendo que “a coisa mais linda do mundo é uma mulher em casa com as coisas feitas.) trabalho. muito embora digam que. Aí eu fazia assim: trabalhava um dia. e ela [sua esposa] nunca se preocupou com isso não. Isso indica que não houve uma ruptura radical no quadro original do casamento. romanticamente idealizada. É significativo o fato de Brito não apenas dizer que sua esposa “nunca se preocupou com isso não”. Assim.. um. Mas será possível pensar que algo mais possa ainda ser conseguido? Daí a idéia de não se separar. como alguém que não tivesse nada a dar em troca na relação. porque os biscates dele pra mim não servia. Por sua vez.. Importante notar que essa falta é remetida a um tempo anterior. a relação foi mantida. Não sinto falta não. A queixa principal de muitas mulheres é à impossibilidade de experimentar a situação tradicional. [poderia] ficar mais em casa. um homem sem força. ele nunca fez. de mulher dona de casa. É pra ter uma conversa. aí isso aí a gente sente falta. bem como o de reforçar na seqüência que a mesma já sabia de sua condição de desemprego e de não procurar trabalho desde que se conheceram. como o caso de Zeneide citado há pouco – usam o argumento de não abrir mão da casa como razão para não se separarem. Sinto falta. Parece não esperar mais que o provimento econômico se efetive. Aí.

já que todas as atividades mencionadas até então seriam obrigação da esposa. Diante dessa declaração... (. não sou machista não. ela retoma o discurso. eu mesma. muda muito. foi o lugar onde eu mais vi homem gigolô.. fui buscar. eu disse na outra tem. se acostuma.) Porque. as mulheres consideram que não abandonarão por completo os homens. Eu mesmo. não reclama não. ‘Vai buscar uma coisa ali e tal’. mas eu digo assim (. e ele não foi”. Outras porque. por um lado. olhe. Quando perguntada por que acha que as mulheres aceitam a situação. mesmo que depois apresente seus sonhos.. Não tem quem goste. Ontem eu mandei ele ir buscar o bujão de gás. Deixo a comida pronta. sem reclamação: – Não. só viver de beleza dentro de casa.. ele não vai. né?'.. E eu vou tá perdendo tempo pra fazer comer?! Tem dia que eu acordo. (. Foi ali. não posso nem morrer. são safados. ele não vai. Eu reclamo porque eu digo assim. sei lá? E outras porque eles não saem. se fosse homem. reafirmando sua impossibilidade por razões que estariam para 220 . honra as calças que veste.): 'Comida.. porque é a obrigação dela.) Mas nem todo homem é assim. não foi. por exemplo. Zeneide avalia a manutenção do casamento usando exemplos de outras mulheres. Difícil ele encher essas jarras. eu vou dizer. – Eu deixo pronto.. mas eu reclamo e tudo. A inversão desses papéis não altera as demais relações de forma significativa. não sai de dentro de casa. foi até ali numa barraca que tem. as mulheres dizem manter suas atividades de dona de casa. mas né não.totalmente de vida. ele pareceu constrangido em dizer que a obrigação dele seria trabalhar para sustentar a casa. O que ela reivindica é que ele faça certas coisas. (. se acomoda. a essa noção corresponde a percepção masculina de ser legítimo o cuidado que as mulheres lhes devotam.. enquanto homem e esposo. atribuindo sempre ao homem o poder de efetivar a ruptura. “Quem é que quer ter um homem que não quer trabalhar. Sua cobrança é pela execução de pequenas tarefas compreendidas como masculinas: “Eu reclamo porque eu digo. mas ao mesmo tempo deixa entrever as vantagens da situação: Muitas aceitam. não queria depender de mulher.. agora incluindo-se no grupo das mulheres que esperam o dia em que seus parceiros irão embora. Perguntei qual seria. há queixas ecoando sempre. [risos] é. Ó. mas ao mesmo tempo não o põe para fora de casa por variadas razões. ontem eu mandei ele ir buscar o bujão de gás. é porque ela tem que ter a obrigação dela. (. decidi provocá-lo para verificar se ele manteria o mesmo tom de sua fala. Brito relata alegremente por que é sua esposa quem tem de fazer todas as atividades domésticas quando chega em casa à noite.) Eu mesmo moro porque. quem queira”. A vida é dar comida a ele aí. Mesmo não contando com a contrapartida masculina do provimento. não foi. Se. quando se referem a trabalhar fora de casa. Essa noção se associa às falas onde aparece a idéia de que a mulher não quer mais conviver com o marido. Interessante observar aqui que sua reivindicação não é a de que ele rompa totalmente com a situação presente. Já sofri muito pra ter. sei lá? Porque tem pena. “não se entregue” totalmente. Por um breve lapso de tempo. de irmão. deixou. e ela sabe. vou fazer o quê? Deixar minha casa eu não vou.. né? Muitas porque têm medo de botar pra fora. Disse que na outra não tinha. eu aceito. E aqui em Camaragibe. de mãe. feito marica? Sem querer ter obrigação com nada na vida? Eu acho que muda. Como já mencionado. aí ele come mais a filha (risos). ‘vai buscar uma coisa ali e tal’. sua obrigação. segundo ele.) E muitas mora assim. então. apontam para a idéia de que estão vivendo situações que não gostariam de viver. Usa o discurso de que quer se separar. a gente dá um prato de comer até um animal. Difícil ele encher essas jarras. sei lá. Tanto Zélia como Dona Aline.. mas. se acostuma.

porque senão. daquele suor do homem que vem do trabalho.) ele se realizar. Meu sonho era esse (.. ele tá com aquele suor. Aí quando ele chegar. poderia levar à visão deles como vítimas de uma estrutura injusta de desemprego. meu Deus. pra (.) porque não tinha quem fizesse. como os dados aqui trazidos sugerem. cheirar ele com aquele suor que ele vem do serviço. rapidamente voltou ao tema das funções domésticas para dizer que. eu ia passar fome era.. sabia? Imaginava assim: ele chega. a obrigação não seria sua: – Não.. como faz Zélia: Eu sonhava assim: “Meu marido vai ser um homem cheiroso’. não sei. Mas sua argumentação busca dizer não apenas que há alguém que provê sua manutenção e satisfaz suas necessidades materiais. Lavava roupa. era obrigação. tiro até o sapato dele (. Quando ele chegar. mas não vai se realizar. A despeito da grande distância dos desígnios tradicionais de gênero.) eu imaginava de tirar. O fato de certas mulheres manterem as uniões não implica sua concordância com a forma de sua vida hoje. Oh. É obrigação dela. ou as declarações de mulheres que acham que têm de manter suas atividades. por quê? Eu com mulher em casa.. visando afirmar que as coisas não estão assim tão modificadas quanto parecem.. já mencionados. lindo.... quem ia fazer? Eu ia. do jeito que ele chegar. não é assim não. acho que não. aí era obrigação minha mesmo. (riso). estão sendo negociadas sob diversos aspectos cotidianamente... já tou tão. tampouco pretende operar com a idéia de que tudo é sempre igual ao “que já foi um dia”. eu acho que. Tento evitar uma oscilação entre duas possíveis interpretações mais imediatas para esse quadro. se eu não fizesse. só se esse sonho passar pra minha filha. Agora. meu sonho era esse. pode apresentá-los como exploradores e as mulheres como vítimas.. Uma primeira leitura.. focalizando os argumentos de Brito... busca demonstrar que o que ocorre não chega a reconfigurar totalmente as relações estabelecidas. É fácil imaginar que ele queria eliminar qualquer possibilidade de eu vir a fazer dele o mesmo juízo que fazem seus vizinhos – preguiçoso e explorador.. Outra leitura.).. me cheira. não tivesse ninguém pra fazer. aí eu. lindo. mesmo admitindo a noção radicalizada do ideal burguês fracassado. Assim como iniciei dizendo que não pretendia operar com noções estanques onde idéias de provedores e donas de casa 221 . já botei água pra ela lavar roupa. não só em relação ao trabalho e seu lugar na casa. Experimento aqui uma terceira interpretação que precisa considerar o universo simbólico onde se situam as relações de gênero e o lugar do valor trabalho e do valor provimento para a constituição das convenções de gênero que. Não. mas a aspectos subjetivos de suas vidas. focalizando os homens como doentes ou desempregados e impossibilitados de conseguir qualquer trabalho. morrer de sede? Esse engenhoso discurso para justificar a submissão feminina deve certamente ser também entendido como um daqueles discursos de auto-afirmação. Sua inserção nesse contexto não lhes faz abrir mão totalmente dos sonhos que alimentaram. Pode ser uma tentativa desesperada de dizer que alguma coisa ainda sobrevive da forma como ele imagina que deveria ser – nem que essa sobrevivência dure o tempo de uma entrevista.. *********** Esta fala apresentada assim no final de um artigo que pergunta no título qual a novidade? não tem a mera intenção da contundência. se eu tivesse só. como já foi dito. eu tou tomada banho esperando ele.além de sua vontade. morasse só. Eu vou pegar e vou lavar minha roupa.. a despeito de ele não trabalhar: o mais importante em sua fala é o tom de naturalidade que ele imprime. mesmo assim. Eu acho lindo. porque é muito bonito. se eu morasse só (.

fossem vista como significando sempre a mesma coisa. Nesse âmbito é que se torna possível pensar afirmações como a de uma mulher que diz. mas tem a ver com estes mesmos processos como estas pessoas estão conduzindo suas vidas hoje em meio a todos os elementos com que temos argumentado aqui.4. como vimos. p. (orgs. Rio de Janeiro. Referências ALMEIDA.161-89. In: ANUÁRIO Antropológico 95. 222 . 1996. propondo que a pergunta deveria ser não a respeito de que os homens são ou não os provedores. C. O que pudéssemos pensar como possibilidade para a filha desta mulher (que transfere para a mesma seu sonho não realizado) não seria simplesmente a repetição ou algo absolutamente novo. ___________. mas “como foi possível manter-se a imagem de homem provedor por tanto tempo e de maneira tão geral se. 2005. da UFRGS. jun. que o dinheiro do marido “só serve pra ele mesmo”. 510-553. família e trabalho no Brasil. São Paulo. FONSECA. v. 1997 p. Porto Alegre: Ed. SCALON. Claudia. mãe e pobre" In História das Mulheres no Brasil (Mary DelPriore. mas o nosso foco principal tem a ver com a forma como estas imagens se reproduzem. n. Família.). os vários níveis em que as relações de parentesco são acionadas. na realidade a maior parte dos lares teve outros provedores” (Latapí. apesar de ser um modelo legítimo em geral é válido apenas para uma minoria de homens. _________. 1987. ARAÚJO. "Ser mulher. A relação entre o jogo dos sentidos com que se opera no cotidiano e os condicionamentos estruturais (inclusive estes sendo acionados a todo instante através principalmente da repetida frase “emprego ta difícil”) certamente precisa ser considerada. Da mesma forma. FGV. pela experiência cotidiana. 2000. A despeito dos discursos e das idealizações. não quero agora sugerir que os sujeitos com os quais convivi fazem exatamente o contrário do que gostariam de fazer. Revista Brasileira de Ciências Sociais. masculinidade e poder: revendo um caso do sul de Portugal. p. Certamente muitos estudos problematizam para a realidade brasileira este quadro (Araújo e Scalon. Gênero.88-104. fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. C. org.) Gênero. 1998: 199-200). Aliados e rivais na família: o conflito entre consangüíneos e afins em uma vila portoalegrense. (ou melhor seria dizer assim como os discursos e as idealizações) os valores passam pela prática. Neste jogo constante entre modelos de feminilidade e modelos de masculinidade.2. Miguel V . São Paulo: Editora Contexto. O que busquei neste artigo foi menos uma explicação para possíveis mudanças e permanências e mais uma reflexão sobre porque insistimos sempre nas mesmas imagens para pensar distintas realidades. Agustín Latapí (1998) pensando sobre o processo de reestruturação produtiva no México e as trajetórias masculinas neste cenário argumenta que o homem provedor único é um “mito” há muito tempo e que a capacidade dos homens de serem provedores exclusivos dos lares. 2005). provimento material e provimento simbólico é possível visualizar ao mesmo tempo um jogo de inversões das convenções tradicionais de gênero e sua marca ao mesmo tempo aparecendo na fala dos sujeitos. nas quais a consangüinidade opera na construção das redes de apoio e solidariedade (o que não quer dizer isenta de conflitos como vimos) é outro elemento. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. É necessário pensar como esses modelos se reproduzem.

Fortaleza: UFC. CNPq. 1997. Pedro F.) Gênero. Não-provedores: desemprego e alcoolismo masculino em comunidades de baixa renda (no prelo). p. MONTALI. SANTOS. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. ‘Ser homem ou nada’: diversidade de experiências e estratégias de atualização da masculinidade hegemônica em Camaragibe./Jun 2003.) Antropologia Cultural.gov. Relação família-trabalho: reestruturação produtiva e desemprego. Lilia. Alejandro M. PITT-RIVERS.doc> Acesso em 08. 223 . 1987. Amilton. São Paulo. p. (org. São Paulo Perspec. A família das mulheres. p. percepção e experiências do domínio doméstico.123-135.1998.115-40.11-60. Cadernos de Pesquisa.) Direitos tardios: saúde. p. In: PERISTIANY.) Honra e vergonha: valores das sociedades mediterrâneas. 123-147. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Nesse terreiro galo não canta: estudo do caráter matrifocal de unidades familiares de baixa renda. C. NASCIMENTO.) Gênero e trabalho na sociologia latino-americana. (Mestr. (orgs. OLIVEIRA. Zuleica L. VILLA.17. 1985. PE. Anuário Antropológico 83. In: COSTA. FGV. vol. p. Cynthia. SCALON. _____________. Agustín Escobar. SCOTT. G. 199-226. Albertina (org. R. SARTI. São Paulo: Autores Associados. 1999. família e trabalho no Brasil. Dissert. Anselmo e MORETTO.10. A família como espelho: estudo sobre a moral dos pobres. p. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Parry. O homem na matrifocalidade: gênero. In: ABRAMO. Delma P . Recife. “Desemprego e participação feminina no mercado de trabalho: um estudo exploratório sobre os anos 90” (2001) <http://www.br/biblioteca/doc/Desempreparticfemin. Alice Rangel (orgs. Significados da reprodução na construção da identidade masculina em setores populares urbanos. Laís e ABREU.LATAPÍ. sexualidade e reprodução na América Latina. São Paulo: FCC. John G.observatorio. Klaas. Abri. WOORTMANN. Ed. NEVES. 2005. Julian. 1971.2005. “A provisão da família: redefinição ou manutenção dos papéis?” In ARAÚJO. no.sp. Reestructuración y masculinidad en México". Rio de Janeiro. "Los hombres y sus historias.38-47. n. C.73.2. maio 1990. 1996. UFPE. São Paulo/Rio de Janeiro: ALAST.. 34. Honra e posição social.

abordagens que propõe gênero e sexualidade como dois “sistemas distintos”. Particularmente na antropologia. pode trazer uma contribuição para esse debate. sobretudo pelas teóricas feministas do cinema ao analisar as diferentes posições do olhar e da imagem no cinema. e na rejeição do desejo homossexual. que indivíduos se constituem como sujeitos masculinos e femininos. É na adesão a essa matriz. se a diferença entre “identidade de gênero” e “orientação sexual” se mostrou proveitosa no sentido de romper e desnaturalizar a justaposição entre essas duas categorias. 224 .UFSC E-MAIL: Maluf@floripa. A crítica mais forte à separação entre gênero e sexualidade como dois campos distintos tem partido de algumas teóricas feministas. A crítica à distinção entre desejo e identificação.AUTOR/A: Sonia Weidner Maluf INSTITUIÇÃO: PPGAS . por outro lado acabou limitando uma compreensão tanto etnográfica quanto teórica de como gênero e sexualidade se articulam nas formas dominantes de constituição de sujeitos e de subjetividades (nas quais tanto diferença sexual quanto sexualidade são biologizadas).br TÍTULO: Desejo e identificação: apontamentos para uma discussão sobre gênero e sexualidade RESUMO: O objetivo do paper é fazer uma reflexão sobre a forma como os conceitos e as temáticas de gênero e sexualidade têm sido articulados – ou desarticulados – nos estudos na área.com. fundamental para a consolidação da matriz heterossexual da sexualidade (Butler) baseada no modelo binarista atividade/passividade. e de outro aquelas que alertam sobre os limites de se pensar uma teoria e um campo de análise próprio da sexualidade sem um diálogo com teorias de gênero ou com as teorias feministas. de um lado. para quem tal separação pressuporia a distinção entre desejo e identificação. Pretende-se explorar.

de como se reconhecem como mulheres. Com o intuito de alcançar uma das dimensões desta identidade. contudo. Nesse sentido. de forma mais ampla. Assim. Em ambas. uma manifestação individual do inconsciente coletivo proposto por Durkheim. buscando. incorporações e ressignificações das idéias. Sempre que tiver informações precisas2. Ao contrário. transformações e mudanças.” (HALBWACHS. Para refletir sobre as perdas. busco apreender a visão feminina a respeito do casamento. adoto como fio condutor a memória. valores e práticas relacionados ao casamento. 1990. ou seja. em alguma galeria subterrânea de nosso pensamento. Brasil Este ensaio se traduz como o primeiro esforço de perceber como mulheres imigrantes árabes muçulmanas reconhecem. mas manifestações de um modo de pensar e sentir coletivo e estruturado. é a memória que dirá o que foi perdido e o que foi encontrado. analiso as falas de duas famílias de origem árabe: egípcia e palestina. pois são relativas e mutáveis -. o conceito de memória adotado na análise será o proposto por Maurice Halbwachs (1990) que afirma que toda memória é um fenômeno coletivo e social. assim. Para o alcance do objetivo proposto. não subsistem. p. imagens completamente prontas. Ao buscar entender as percepções de indivíduos. partindo dos discursos e narrativas das imigrantes e descendentes.“Construções e Desconstruções: Identidade da Mulher Árabe Muçulmana em Brasília” Sônia Cristina Hamid (soniahamid@gmail. mas na sociedade. o que o autor busca realmente advertir é que é impossível rememorar se não se tem como ponto de partida quadros sociais reais. a memória individual seria uma interpretação/ressignificação da memória coletiva ou. em Brasília. parto das percepções das entrevistadas. constroem e reconstroem sua identidade num país ocidentali. o que se encontra não são opiniões soltas e desestruturadas. constroem e reconstroem suas identidades. nesse processo. . que é um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações. mencionarei também os costumes e práticas das mães e avós das imigrantes entrevistadas. considerando as diferenças percebidas ao longo desse processo de convivência com duas culturas. as quais nos representamos de modo incompleto ou indistinto.. ou seja. se não se parte do grupo em que se vive e se os próprios elementos lembrados não foram vividos em grupo. de forma mais ampla. da imigração e.77) Dentro de uma perspectiva mais durkheimiana.. longe de querer definir antecipadamente o que é o ocidental e o oriental e/ou o que é tradicional e moderno – definições que comprometeriam toda a validade do trabalho. analisarei as mudanças de concepções nas práticas de casamento entre mulheres de duas gerações: imigrantes e descendentes. Nesse contexto.com) Universidade de Brasília – UnB. Em outras palavras. ao contrário. o que é próprio daqui e o que é próprio de lá. das diferenças percebidas na vivência entre duas culturas e como. pensam. onde estão todas as indicações necessárias para reconstruir tais partes de nosso passado. uma percepção das mudanças que já ocorriam nos países de origem. “Para nós. não tenho como intuito desenvolver uma análise psicológica do sujeito.

São estruturadas porque atuam dentro de um habitus de grupo. são. seguem sempre um padrão. na pesquisa desenvolvida com as mulheres árabes de Brasília. este habitus poderia ser definido como o sistema dos esquemas interiorizados que permitem engendrar todos os pensamentos. exercido principalmente pela escola. mas que são tomados e vividos como se fossem seus. e tentando definir os elementos constitutivos da memória.as memórias individuais são sempre coletivas. p.. São todos aqueles eventos. não obstante as variações. Sendo a memória constituída de narrativas. temos as imigrantes que se socializaram dentro da própria cultura árabe e que possuem. BOURDIEU (1974) defende que há um processo de inculcação da cultura. É dentro desse contexto que Pollak irá mostrar que o sentimento de identidade está profundamente ligado a memória.. poderíamos dizer que são estruturas estruturadas constituintes do sujeito e que orientam o próprio modo de perceber e sentir os outros elementos da cultura. iguais. p. que dota uma coletividade de um modo de pensar e agir semelhantes.. ou um grupo de esquemas de pensamento particulares e particularizados. a partir dos quais se engendram uma infinidade de esquemas particulares. a cultura não é só um código comum. . (POLLAK.(WOORTMANN 1998. previamente assimilados.. por outro lado.embora individuais.e que. uma negociação de subjetividades com um pano de fundo estruturado”. nesse sentido.. mas que no processo de socialização foram tão inculcados que acabaram por se tornar parte do próprio sujeito. São elementos. e somente esses”. Estes últimos se caracterizariam como acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou. que se repetem constantemente na fala dos indivíduos. que não se situam dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo. p.“. na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”. em grande medida. nessas. Em outras palavras. afirma o autor.. e nos remetendo a Bourdieu.. Se por um lado. nem mesmo um repertório comum de respostas a problemas comuns.90).201) afirma que existe na memória individual e coletiva aquilo que ele define como os acontecimentos vividos e os acontecimentos herdados (ou vividos por tabela). afirma que existem marcos e pontos relativamente invariantes e imutáveis na memória. uma memória de acontecimentos vividos. em seu texto Memória e Identidade Social. Pollak (1992. temos as descendentes de imigrantes que se socializaram entre duas culturas – árabe (família) e brasileira (sociedade) . compreendemos melhor quando Pollak.1992.349) Considerando essas reflexões. possuem uma memória de acontecimentos herdados que são incorporados como se tivessem sido vividos. tanto individual como coletiva.204) 226 .. (p. continua o autor. num certo sentido. Seguindo suas análises. podendo ser considerados pontos chaves que ajudam a constituir a identidade do sujeito. percepções e ações característicos de uma cultura. é sobretudo um conjunto de esquemas fundamentais. temos então. “A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade.

nesse mesmo sentido. apesar de estarmos falando sobre vidas pessoais. este reconstrói o passado em função dos seus interesses e de sua posição no presente. ELY e McCABE (1996) já apontavam no texto “Gender Differences in Memories for Speech” as peculiaridades com que homens e mulheres lembravam a mesma informação. a medida em que dá presença ao passado para dar significado ao presente. confirma que a memória é prática. substituição ou incorporação de elementos próprios de cada local. Quem são elas? Como pensam as práticas de casamento? Percebem diferenças nos costumes dos países? Em uma dimensão mais ampla. pois as lembranças dependerão do social (presente e passado). tanto em relação a si mesmo como aos outros. Feita essa primeira exposição. é seletiva. a memória nos traz a dimensão do social e do sentimento de pertencimento. organizado e estruturado. num processo dialético. Neste sentido. quais os elementos que são importantes para que elas continuem com o sentimento de continuidade e coerência e. O meu interesse de desenvolver estudos entre mulheres árabes-muçulmanas está profundamente ligado ao fato de ser 227 . na verdade. que adquira esse sentimento de pertencimento ao grupo. variando conforme o lugar. A memória aqui estudada também não se caracteriza como um livro aberto que pode ser consultado no momento da necessidade. percebemos que são as memórias desse passado vivido no Oriente que mostram para essas mulheres quem elas são e quais são seus valores. é o presente agora vivido no Ocidente que diz como elas irão lembrar ou mesmo esquecer esse passado. não podemos esquecer que é o presente vivido entre duas culturas que irá possibilitar uma reflexão. Ora. nos aproximando de um pensar coletivo. Tentando pensar dentro da realidade das imigrantes. nos possibilita perceber que. A importância do presente para lembrar o passado será retomada várias vezes ao longo do texto. tendo em vista que é a partir dos dados presentes que as cenas vividas são interpretadas e ressignificadas. aqui buscarei entender o que a memória feminina pensa a respeito de concepções e práticas de casamento. Ela. revelando ao indivíduo quem ele é ou pode ser. é preciso esclarecer a relação que estabeleço com as mesmas. juntamente com algumas reflexões a respeito da realidade estudada. além disso.É a memória que permite que o indivíduo construa a imagem que tem de si. como se percebem enquanto mulheres entre essas duas realidades? Definindo o campo de trabalho Antes de tudo. Entretanto. contudo. continuidade e coerência. que tenha um sentido de continuidade dentro do tempo e que se desenvolva dentro de um sentimento de coerência. Woortmann. a pessoa com quem se fala e sua situação presente. Assim. trabalho. é importante ressaltar que ao mesmo tempo em que a memória sustenta e apóia a identidade de um determinado grupo. é a memória que dá sentido ao presente e é este presente que ressignifica esta mesma memória passada. Antes de iniciar a análise das falas das duas famílias entrevistadas. pois se constitui como ponto chave para o entendimento das mudanças nas concepções das imigrantes. de aceitabilidade e admissibilidade do novo grupo que as cerca. tratarei diretamente agora das imigrantes e descendentes estudadas. Esse primeiro “caminhar” pelas teorias da memória. Longe de significar somente um passeio pela psicologia do indivíduo. também. Halbwachs já afirmava que a memória é em larga medida uma reconstrução do passado. chamada “memória de gênero”. é importante esclarecer que este ensaio trata de uma modalidade da memória coletiva. estamos. sendo estas reflexos da maneira como cada sexo era socializado. ao mesmo tempo que a escolha pela manutenção.

esclarece que “a saída do país de origem não pode ser desvinculada do projeto maior envolvendo a família grande. está profundamente ligada a grupos de poder. Esquecimento e Silêncio” adverte que a memória não está somente relacionada à adesão a uma comunidade afetiva. Ao ter que abordar as relações estabelecidas dentro de minha família. Quando se opta por desenvolver uma pesquisa com a própria família por meio da memória. ao se casarem.descendente de árabes e. onde o plantio de azeitonas e o cuidado de cabritos. seja na busca de melhores condições de vida para seus membros”. de querer me aprofundar nos estudos da adaptação e socialização dessa etnia em países ocidentais. é importante para que o leitor saiba de onde se parte e qual a relação do pesquisador com seus sujeitos de pesquisa. percebo que enquanto nativa e pesquisadora minha saída será a mesma da de minhas entrevistadas: a memória é seletiva. mais do que um projeto individual. pelas dificuldades econômicas e escassez de terras para cultivo. pois era contratado para trabalhar como sheik em um país ocidental. além dos “bicos” conseguidos no Estado de Israel garantiam o sustento da família. Retomo então a reflexão iniciada. pois exige todo um esforço de distanciamento e de estranhamento do familiar. Desenvolvendo a análise das famílias. Tanto Ayda como seu marido são da cidade do Cairo. Deste modo. ainda que fosse inconsciente. Amira e seu marido são da cidade da Cisjordânia. pude pensar sobre a minha própria maneira de rememorar e mesmo de esquecer ou querer calar. seja pela questão da dificuldade de sobrevivência na terra natal. vivendo dentro de uma memória enquadrada. o marido já tinha profissão garantida. as diferenças históricas e sócio-culturais vivenciadas nos países de origem. Ao imigrar para o Brasil. Nesse sentido. Assim. ao estudar a imigração árabe em São Paulo. pensam e ressignificam a realidade. optei por partir da análise de entrevistas desenvolvidas com a família de minha professora de árabe e com minha própria família. O que levou o marido de Amira a imigrar foi o desejo de encontrar uma situação de vida melhor com possibilidades de ascensão social e econômica. muitas vezes.28). viviam naquilo que eles concebem como roça. selecionaria fatos entendidos como apropriados e importantes para analisar neste contexto. a imigração para o marido de Amira significou um desejo de melhorar a vida de toda a família grande. Pollak (1992) em seu texto “Memória. Além disso. o desafio se torna ainda maior. Toda a descrição exposta acima foi feita no sentido de mostrar que não estamos tratando de famílias que partem do mesmo país ou da mesma realidade sócio-cultural. o que se percebe é que o motivo que levou Ayda e Amira3 a imigrarem foi o mesmo: o casamento. em grande medida. em grande medida. a um processo de enquadramento da memória. Ao longo da escrita e do processo de reflexão possibilitado pelas várias experiências narradas. Samira Osman (1997. Os motivos que levaram os maridos a imigrarem revelam. Sendo assim. Partindo de contextos distintos. somente alcançaram nível de instrução fundamental. p. Reconheço que ser nativa e pesquisadora ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil. Assim. me pego entre a necessidade de expor e analisar fatos e de silenciá-los. reconhecendo os limites e possibilidades que minha condição proporciona. Revelar-se. onde deixar transparecer alguns fatos poderiam comprometer o próprio sentimento de coerência identitário. gerando necessidades ou mesmo obrigando pessoas ao esquecimento e silêncio. mas. neste sentido. me vejo. tanto árabe como 228 . podemos pensar essas questões dentro da realidade que estava tentando apresentar. Num outro contexto. nesse sentido. Embora o autor esteja tratando precisamente da relação entre memória oficial e oficiosa em um âmbito mais político. Como os maridos de ambas as entrevistadas já viviam e trabalhavam no Brasil. pela vida em uma realidade distante e estranha daquela então vivenciada. elas também optaram. como defendia Halbwachs. pertencem a famílias de classe média e possuem nível de instrução superior.

do lado egípcio. Não sei assim. a formação que a menina recebe. em seguida. exploro e reflito as percepções por gerações – primeiro as imigrantes e depois as descendentes – para. poderíamos dizer que também existe um conjunto de esquemas básicos próprios da cultura e da religião que são interpretados de maneira particular conforme a realidade e vontades dos membros de cada país. trabalhando a vida inteira na casa do pai. parto da entrevista de Amira. tentei de muitas formas. o que tento esclarecer é que não busco encontrar uma única memória a respeito dos vários contextos apresentados. Na família palestina. por exemplo. tá bom”. Com isso. Contudo. mas memórias – no plural . Aí. Não sei se seria bom ou não.(Amira. O que Deus dá. As Imigrantes . ele acaba que por criar dicotomias “hierárquicas”: de um lado. que eu tenho hoje. pra fazer família. buscar uma análise crítica de ambos os discursos. pouco valorizada.que revelam a riqueza e diversidade vivenciada em cada realidade. ia ficar mulher solteira. tendo que trabalhar toda a vida com os pais. contudo.E quando a pessoa não casa? “Ah.O que significa o casamento pra você? “Casamento é a felicidade da mulher. deixaremos que elas falem. valorizada. O valor do casamento dentro do mundo árabe torna-se mais claro quando uma situação adversa não permite sua continuidade. também não posso te afirmar porque eu tentei. diferente. fazer casa dela. minha casa”. assim. Então. menina assim muçulmana árabe. principalmente para a mulher. muito indesejada. tem-se a mulher casada. o casamento é o próprio símbolo da felicidade e do “poder”. não vai ter nada. não vai ter filho. se identificando um com o outro nesse sentido. nada. muito pesada. neto pra mãe e pai dela. às vezes sem valor nenhum. Porque a gente é criada. Ninguém gosta de casar e 229 . fazer dar certo. 2005) . né? Porque tinha 23 anos. tem-se a mulher solteira. Não vai ter marido.(Amira 2005) Na memória de Amira. reconheço que há alguns esquemas básicos que são comuns e que fazem com que se percebam como árabes e muçulmanos. complementando com minhas próprias informações.brasileira de maneira diferenciada. A palavra separação lá é muito forte. Ao se constituir como um elemento de valor social. Daremos voz às memórias que são partes constituintes de cada uma delas e que revelam como pensam seus passados e suas identidades atuais. que ao analisar a origem dos contos infantis em vários países percebe como uma mesma estrutura de história é ressignificada de acordo com os interesses e necessidades locais. Fazendo um paralelo com DARTON (1986). Como critério de análise. É ele que garante a continuidade e prosperidade da família. com marido e filho. triste. é importante retomar Woortmann (1998) quando afirma que as lembranças variam. fazer filho pro marido. feliz. analiso as falas de Ayda e de sua filha Leila. Em meio a toda essa diversidade. Pra viver feliz na vida. Assim. “Porque nunca consegui criar uma afinidade. Não tem essa de que se não der certo separa. a partir de agora. que casamento é pra vida toda. mas dentro de um pano de fundo estruturado. Falei pra você que se talvez eu tivesse a maturidade. de outro.

A sua manutenção se caracteriza também como um esforço desejado que revela. O que se percebe.separar. foi porque o marido tinha problemas psicológicos graves. muito inexperiente. Ao mencionar a separação. as pessoas ainda reservam essa coisa de família. nunca vi esse exemplo. adaptar essa pessoa dentro da minha mente e tentar jogar essa pessoa a ser do jeito que me agrada. 2005) Depois de 23 anos de casada. se eu quisesse repetir essa experiência e viesse a descobrir que aquela pessoa que eu me casei não é a mesma pessoa que eu fiz a imagem. mostra que numa tentativa de validação da memória. Neste contexto. Assim. (Ayda. é que Ayda atribui o fracasso de sua vida conjugal a dois fatores: a sua falta de maturidade e aos problemas psicológicos do marido. Se acabou tomando esta decisão. Tenho 7 ou 8 tios da parte da mãe. reforça que no mundo árabe. Ayda se separou do marido. Mas eu era muito jovem. que você pode ajudar a pessoa a ser o que ela não é. Nem pra si. retira a culpa do marido. em seu texto Memories of Tomorrow: on the Interpretation of Time in Later Life. casamento é para toda a vida. que eu criei a imagem. Tanto que ele ficava daquele jeito agressivo e de repente voltava ao normal. Fazer acreditar que o ser humano não é perfeito. uma separação definitiva assim.. mas que depois voltou para o marido dela. quando diz que era imatura. Eu era muito imatura também.. contudo. Lá. ele não é exemplo de nada. a pessoa pode usar o passado para revelar a competência do indivíduo no presente e no futuro. Robert Katestenbaum (1975). passa a atribuir-se parte da responsabilidade pelo fracasso. de casar pra vida toda”.Ao mesmo tempo. podemos mostrar o que Halbwachs havia dito da memória como reconstrução do passado. talvez seja com a memória do futuro que ela esteja se preocupando. 2005) Você conhece alguém lá que se separou? “Tem uma prima minha que se separou. nem pras filhas. ela. (Ayda. Ninguém deseja isso nunca. faz questão de lembrar que se esforçou muito para que isso não acontecesse. de alguma forma. aqui se separa muito mais fácil. eu vou tentar adequar.. A necessidade de ressaltar tal característica da cultura surge em contraposição à realidade percebida no Brasil. Que muitas vezes funciona. pois justifica dizendo que se ele era agressivo é porque tinha problemas que iam além do seu controle. a aptidão e habilidade feminina em preservar uma instituição de prestígio. nem pra ninguém. por exemplo. Aqui se não deu certo as pessoas separam na maior naturalidade. Ele tinha problemas mesmo”. Vive muito bem agora com ele. Que a maturidade que faz a gente pensar dessa forma. muito imatura”. Ayda mostra que no mundo árabe. sofrendo de depressão e de mudança brusca de humor e personalidade. tenho primas e primos. em vários relatos. onde ela ressalta: “não. Que realmente é uma experiência muito traumática”. É com os olhos do presente – hoje se vendo como uma mulher madura com capacidade de adaptar o outro de acordo com sua vontade – que ela analisa a falta de sucesso no casamento. Neste trecho. “. Nos dois casos. “Com a convivência. perdoando o marido porque era doente ou se atribuindo 230 . não conheço”. eu fui descobrindo que ele não era aquilo que eu achei que fosse. Agora. Eu hoje. em alguma medida.. mais do que o presente. não é só a união do casamento que é importante para definir a posição e status da mulher. Ao dizer que sofria de depressão e distúrbios. essa coisa patológica.

eles que foram me contando. Nesse sentido. como o relatado por Amira no trecho acima. Como já afirmava Pollak (1992). Ainda é interessante notar. Seguindo um padrão. como membro da família. “O casamento foi um pedido do irmão. neste caso.. clandestinas ou mesmo vergonhosas. Ayda não chegava a expor exatamente que tipo de patologia e atitudes o marido possuía. camuflado. por trás da memória oficial enquadrada. os interessados se dirigiram aos homens responsáveis pela família e pediram as moças em casamento. tanto material como social. é visto como mais seguro para a mulher. meu irmão. nesse sentido. além disso. “Como ocorreu o casamento?”. Em sua família. o noivado para o casamento. A memória do ideal. na realidade de vida na roça. mãe. Fiquei sabendo do pessoal lá. Ao longo da entrevista. Casar com parentes. sempre com a presença da família. O marido de Amira é também seu primo de terceiro grau. tio. sandália. Não durou nem 10 dias. O marido não é visto por Ayda como uma pessoa que simboliza os valores e idéias da cultura. dos parentes. paralelos ou cruzados. Não sei o que fomos fazer e ele até comprou presente para mim. a oposição criada entre memória psicológica/individualizada e memória cultural/ideal. também se tem vantagens econômicas ao unir forças de trabalho ou ao manter e perpetuar a propriedade familiar. serve de parâmetro para classificar aquilo que corresponde aos valores e idéias das tradições. dificilmente se separaria dela ou 231 . sapatilha. há o costume de se casar com parentes. Somente depois desse primeiro contato e do consentimento dos parentes é que os noivos passaram a estabelecer relações com suas futuras esposas.” (Amira 2005) Tanto o casamento de Ayda como o de Amira ocorreu em menos de um mês. embora nunca vivida.parte da culpa. mostrava sua preocupação em não denegrir a imagem da cultura. eu. numa cidade chamada Nablus. mas também aquilo que é silenciado. tanto paternos como maternos. Percebe-se que falar mal da postura de um homem árabe numa cultura ocidental seria confirmar todos os estereótipos e preconceitos que se pregam nos meios de comunicação e que já se configuram como representação coletiva no ocidente. escondido. esconde-se um conjunto de memórias subterrâneas – proibidas. É importante perceber para quem se fala e que tipo de imagem se quer passar dentro de uma pesquisa que trata da cultura árabe. gerando. que orienta o que deve ser dito ou silenciado.. principalmente com primos. ocorrendo geralmente na casa da noiva ou em pequenos passeios. O casamento entre parentes. É importante ressaltar que a entrevista não compreende somente os ditos. ela pode estar querendo transparecer a imagem de uma boa mulher e esposa – memória que pretende que os outros tenham em relação a ela no futuro. Esses encontros eram formais. Fazia questão de ressaltar que ele não era exemplo de homem árabe e. há toda um cuidado com o que se expõe. parece. saímos. foi bom”. Ao mesmo tempo em que se ajuda tirando uma parente da condição de solteira. desta forma expectativas nos indivíduos.. sendo um caso patológico que se distingue radicalmente daquilo que ela esperava ou foi ensinada a ter. Amira conta que sua avó e sua mãe se casaram com seus respectivos primos de primeiro grau e que ela somente não casou porque ocorreu um imprevisto que dificultou a união. Mais uma vez é a situação presente . significa um sistema de troca e de ajuda mútua. neste caso a sócio-política. Nesse meio tempo.. pois o noivo. ele. da cunhada.

Seguindo a tradição e considerando a realidade observada no Brasil. conseguir alguma coisa. resolveu pedi-la em casamento para seu pai. deseja que se casem com muçulmanos.”(p. 232 . já afirmava que “o conhecimento de parentesco é fundamental para a construção de estratégias matrimoniais. Aqui. Não é melhor porque ele é mais compreensivo ou não faz cobranças. mesmo que sejam brasileiros. um homem árabe também seria melhor. Para sua filha. ela se arrepende por ter se casado tão rápido e por não ter conhecido suas características e personalidade anteriormente. dificilmente deixa a mulher. diferente de Amira. seria mais compreensiva.tentaria tirar algum proveito da situação. não se separa da mulher e lhe garante uma vida mais digna até sua velhice. conhecer bem o marido antes – o que não pressupõe contatos físicos – é um elemento importante para garantir uma boa escolha e a felicidade do casamento. ao contrário de Amira. Lá o homem não separa. Woortmann (2001). Em relação às suas filhas. Acho que eles se dariam melhor com árabe. ao contrário do brasileiro. às vezes. garantindo assim a continuidade da religião para a próxima geração. ao estudar uma comunidade de imigrantes alemães no sul do Brasil. É difícil para uma mulher depois que tá velha. Considerando todo o ocorrido ao longo da relação. A mulher árabe. Ayda. mas a religião. O elemento importante aqui não é a origem. dado o casamento preferencial entre primos. os mesmos princípios de vida. Pra minha filha viver melhor. as pessoas ficam casadas há 50 anos e depois acabam separando.. de outro. mas os argumentos utilizados são distintos. Tudo aqui no Brasil é motivo de briga”. pela linha paterna. que pressupõe um conjunto de idéias e condutas específico e particular. Neste contexto. Para ela. ela não vai pensar que o homem tá traindo ela. Lá as mulheres aceitariam eles quando eles saem. é o principal elemento trazido por Amira para justificar sua preferência por um genro árabe. de um lado. de que se torne mulher solteira. pois estaria acostumada a entender melhor todas as situações. não se casou com um parente e diz que esse costume não fez parte de nenhuma geração de sua família. 218). dentro do mundo árabe. aceitam mais as coisas. Considerando que a religião é transmitida.. o valor dado ao casamento e o medo da separação trazidos pela tradição árabe e. é importante que uma menina muçulmana se case com alguém que siga o islamismo. é que a imigrante constrói seus discursos justificando a preferência por árabes nos casamentos de seus filhos. (Amira. Combinando. porque aqui diferente. “Gostaria que eles casassem com árabe. O medo de que sua filha fique sozinha. A mulher lá já tá acostumada. geniosa e um pouco intolerante com os atrasos e saídas do marido. se interessando. Ayda também lembra que o casamento terá mais chance de ser feliz se os dois envolvidos compartilharem as mesmas crenças e valores. assim. 2005). Seu marido a viu por meio de um amigo e. tem filhos. a brasileira é vista como desconfiada. Diz que se fosse hoje. a imagem construída em relação a personalidade e a falta de compromisso do brasileiro. seguindo. Se eles demoram a chegar dá briga. faria como sua mãe que se relacionou durante quase dois anos com seu pai antes de optar pelo casamento. possuir uma memória genealógica é extremamente importante. Amira também gostaria que seus filhos se casassem com primos ou então com alguma pessoa de origem árabe. Diferente da árabe. nesse contexto. mas porque.

assim. Ao expor a fala que remete ao uso do véu. Ele naturalmente tem mais razão que a mulher”(Amira. de alguma forma. ocorreu. um elemento importante para garantir a harmonia e coerência do lar e. é interessante notar que no que diz respeito à questão sexual. o homem é concebido como o mais sensato e equilibrado. Acho que o homem tem que ter a palavra mais forte que a mulher. Ainda que a mulher trabalhe fora – como era o caso de Ayda -. abordaremos melhor esse tema num próximo ensaio. Modell e Hinshaw (1996). ao discutirem a respeito da memória de gênero construída em torno de uma fábrica. por isso. no plano das atrações físicas. pois esta é muito emotiva e. de criar os filhos. a diferenciação dos espaços e atividade é. só lhe resta o instinto. É o homem quem dá a palavra final na casa porque ele é o machão. a culpa é da mulher. A mulher tem que ser menos um pouquinho que homem. razão X emoção. sem dúvida. poderíamos dizer que há duas dicotomias principais que orientam a prática e o pensamento do homem e da mulher na relação: público X privado. Se por um lado. Assim. a perda de todo um “framework for memories” que era a base para a construção de ambas as identidades. ainda. abrindo possibilidades para que haja cobranças mútuas no que diz respeito aos deveres e obrigações. essas definições e delimitações continuam atuando. elas declaram que o homem possui um lado instintivo incontrolável. “O véu significa proteção. Se para tomar as decisões importantes. Seu espaço é o da casa. Mas se acontecer alguma coisa errada. Ele é visto como praticamente incapaz de controlar seus olhares e atos. O homem só trabalha fora pra trazer dinheiro pra casa. não é lá que ela exerce sua verdadeira função. em grande medida. Dos filhos também. quem é que tá te desejando. né? Então. Homem é homem. os espaços e as funções destinados a homens e mulheres são muito bem definidos e delimitados. No que diz respeito à dicotomia razão e emoção.“Quem cuida da casa é a mulher. Para as imigrantes. a mulher o quanto mais protegida assim com a roupa. mostraram como homens e mulheres possuíam espaços e atividades delimitadas e como a memória feminina também era construída a partir da atividade e do espaço masculino. Na rua você nunca sabe quem é que tá te olhando. Homem tem uma mente um pouco animalesca. fazendo. Ainda que a mulher tenha muitas vezes acesso a ele. Contra os olhos malvados. a obrigação da mulher é cuidar dos filhos. do papel da mulher e da relação estabelecida entre a cultura árabe e a ocidental mereceriam. pra mim é melhor”. né? No trabalho. Não sabe nada da casa. na escola. quando a fábrica fechou – espaço masculino. menos capaz de lidar com situações críticas que exijam equilíbrio e serenidade. a obrigação do homem é garantir o sustento econômico da família e tomar as decisões mais importantes. 2005) Dentro do casamento. um espaço de análise maior. No casamento. não pode ser dois juntos não. as duas entrevistadas acreditam que o homem tem uma capacidade racional maior que a mulher. ligado à família e é a partir dele que ela acaba definindo sua identidade. os olhares que querem te despir. Contudo. por outro. O espaço público é predominantemente masculino. contudo. pois os limites deste trabalho e o tema aqui proposto não permitem que nos prolonguemos muito. devido ao trabalho. para constituir suas identidades enquanto mulheres e esposas na família e sociedade. com que elas tenham que se cobrir para evitá-los. na faculdade. só queríamos analisar a contradição da visão tida em 233 . da casa e do marido. A discussão a respeito do véu.

na família de Leila. Ao contrário do que aconteceu com sua mãe. recentemente. mas não aquela coisa em que todo mundo quer ver quem é. somente um viajou para conhecer os parentes na Palestina. é interessante lembrar de Connerton (1999) quando mostra a importância de performances rituais como meios de transmitir as imagens e o conhecimento passado. aconteceu. foi criada entre árabes. acha desinteressante e constrangedor que haja mediadores direcionando a relação. Pô. ela apresentaria para a família. começa a reparar nele. aprendeu a língua. sendo dois ou três anos o tempo ideal. Leila tem o objetivo de se relacionar e de se casar com um muçulmano dentro das tradições. Eu particularmente não tô nem um pouco preparada pra casar. não gostaria que a pessoa falasse anteriormente com a família e que houvesse encontros formais que expusesse o casal. desde pequena. né. de um funcionário de uma Embaixada aqui de Brasília ter me visto na mesquita. Não que eu não queira que minha família conheça meu futuro marido. Se de um lado. sem. aí vai o sheik também. 2005) Leila. Já viajei cinco vezes ao Egito. e havendo interesse mútuo. Em contrapartida. As descendentes A cultura árabe sempre esteve presente durante sua criação? “Com certeza. Revela-me que acha importante também conhecer bem a pessoa antes de casar. objetos ou pessoas. né! É porque é a coisa mais constrangedora do mundo você se deparar com uma pessoa que você nunca viu na vida. foi falar com minha mãe e queria me conhecer. mais natural” (Leila. é importante analisar os discursos das descendentes.. desde as piadas até rezar e lidar com coisas um pouco mais sérias assim. É interessante perceber que a forma de abordagem utilizada pelos pretendentes de Leila foi a mesma usada no casamento de sua mãe e que parece ser comum no mundo 234 . Antes que façamos uma análise mais geral das concepções de casamento das imigrantes. Neste sentido. em minha família. foram criados os mecanismos para a perpetuação dos valores próprios da cultura. principalmente nesses conformes. eu nem sabia quem era. contudo. Aí sai toda minha família pra jantar com ele. Neste sentido. né? Minha mãe o convidou. Contudo. conheci meus avós. “É porque. o tempo todo. os poucos elementos presentes ficaram restritos à família. fazendo com que nenhum dos filhos se interessassem pela religião ou em seguir os costumes do país. o ambiente de minha casa sempre foi muito isolado dos eventos e símbolos do mundo árabe. Dos três filhos. 2005). aí vamos todos e eu querendo morrer. na realidade.relação ao homem que oscila do “animalesco” ao racional e a maneira como as mulheres se constroem em relação a essas categorias. Se interessou por mim. Gostaria que ocorresse de forma mais natural e agradável. Partindo da análise de cerimônias comemorativas e práticas corporais. com intenções de casar contigo. estabelecer vínculos de afinidade com os mesmos. o autor expõe os mecanismos utilizados por uma sociedade para perpetuar-se. (Leila. viajou para o país de seus pais e freqüentou mesquitas e eventos próprios da cultura. é mais legal que a coisa seja mais agradável. seja através dos espaços. de outro. em que a família toda tem que conhecer antes. exponho os principais relatos que manifestam o ponto de vista de mulheres que se socializaram entre duas culturas..

Contudo. Não vou dizer subserviente. Coincidentemente com a elaboração deste trabalho. Não aceitar o pedido de casamento também traduz esse meu processo de convivência e ressignificação dos valores de ambas as culturas. Aqui. chega a dizer que acha ridículo esse tipo de situação. nunca houve a iniciativa por parte de meus pais de que conhecêssemos a árvore genealógica da família. em grande medida.. Só tento dizer que. mas que costuma receber bem os pretendentes para não denegrir a imagem da família. por meio de seu irmão. contudo. contando-me dos interesses do mesmo para um casamento próximo. não é sentido como uma perda para os pais e família grande. cheguei à conclusão de que não queria seguir com a tradição de casamento de meus pais. mas assim.. Nesse sentido. desde a infância. apesar de casada. Contudo. O casamento. práticas e bens no círculo familiar e. convivência por um período longo.214) Durante minha criação. reconhecer a tentativa de perpetuação dos costumes e do patrimônio dentro da família. seria perigoso. cuidando da casa. ao mesmo tempo. de que os três filhos se casariam com os primos paternos. (p. percebemos que a memória genealógica é tão seletiva quanto qualquer outra memória e que ela também age tendo como base os interesses e valores presentes. Eu gosto mais da interação assim do papel dos dois. “Tem o papel da mulher árabe no casamento de sempre cuidar do marido. como seria sentido se o pedido fosse o de um brasileiro. recebi uma proposta de casamento do meu primo. é obrigação dela e isso eu já não gosto tanto. Ela se sente constrangida. O parentesco é construído por uma memória seletiva: o que deve ser retido e o que deve ser esquecido. prosseguida por um interesse mútuo. produtos do trabalho da memória. significa dizer que a menina. Contudo. a memória genealógica está estreitamente associada à construção da identidade”. é importante retomar Woortmann (2001) quando trata de memória genealógica. nesse contexto. as expectativas e sentimentos da descendente são distintos dos vividos outrora. Significa aceitar que valores como “necessidade de sentimentos profundos pelo outro”. além disso. na medida em que poderia se caracterizar como uma maneira de fossilizar cada tradição e prática. a depender do valor que representa para o que se poderia chamar de“agentes da memória”. Neste caso. “Nas alte Kolonien. Próprio do machismo árabe. mas deve ser casual. não da religião. Como em minha família há a tradição de casamento entre primos. da cultura. a vida dos primos sempre era exaltada e contada entre nós.árabe. afirmar de onde parte cada um desses valores – se da cultura ocidental ou árabe. a abordagem não deve acontecer por meio de mediadores. E dentro do casamento árabe não acontece muito isso. dentre as muitas negociações entre idéias diversas. Casar com um parente significa garantir a permanência dos valores. o parentesco é concebido por determinadas categorias. busca de outras realizações (pessoais e profissionais) são importantes para um casamento feliz e para a constituição de uma identidade plena. sempre houve insinuações. sempre provendo ele. fundadas entre 1824 e 1832. Analisar o pedido de casamento de meu primo é. que são instrumentos da memória e. sem contato físico e com a presença de parentes e amigas nos passeios e encontros. Partindo do exposto. tanto elementos da cultura árabe como da cultura ocidental se mostram presentes. O tipo de relação estabelecida ao longo do namoro será dentro dos costumes e tradições árabes. ainda faz parte da família. Nesse 235 . “não foi perdida” para alguém de fora.

Na sociedade brasileira. em regra. será encontrado com um marido árabe/brasileiro. nesse contexto. Tem que haver uma harmonia. mas uma negociação de valores.(Leila) No que diz respeito à relação entre marido e mulher no casamento. Como havia dito no início. tampouco. disseram que não. do papel da mulher como mãe. tem todo um pressuposto pra mulher obedecer ao marido. acredito que se configuram como árabesbrasileiras. essa oposição não é feita para se criar uma síntese das duas. estão envoltas por ambos os valores. Criando a categoria árabe-brasileiro. ele também tem que acatar as opiniões dela”. provavelmente. a palavra final seria dele. que seus valores continuavam exatamente como eram antes. já um brasileiro convertido não traria os elementos da cultura considerados tão importantes. É interessante notar que não se reconhecem enquanto árabes. esse trabalho é o primeiro esforço de pensar como mulheres árabes-muçulmanas constroem sua identidade num país ocidental. Considerações finais Sylvia Yanagisako (1985). Quando perguntei se percebiam mudanças em seus comportamentos. idéias e sentimentos que dependem da memória familiar e cultural mantida e reforçada ao longo do processo de socialização e dos interesses presentes no momento de escolha dos elementos. porque a mulher tem que obedecer ao marido. Para ela. uma síntese dos dois. nesse sentido. formulando a partir daí. A mulher não vai poder dar ordem ao marido. Leila parece mostrar que o que busca não é o representante da cultura daqui nem. contudo. da cultura de lá.sentido. substituição e negociação de elementos de ambas as culturas. um árabe socializado dentro da cultura oriental poderia ser muito machista para os seus parâmetros. As imigrantes árabes criam a oposição simbólica. mas não é assim. por que eu acho assim muito importante a cultura. do homem não ser egoísta de tomar a decisão baseando somente no ponto de vista dele. mas aí é que tá: tem que haver esse equilíbrio entre o homem e a mulher em estar pensando. construindo quase que uma terceira forma de pensar. já realmente cogitei a possibilidade de me casar com um brasileiro filho de árabes. Contudo. acredito que essa noção poderia somente ser utilizada em relação às descendentes. e. antes de tudo. entre a cultura árabe e a cultura brasileira. E muçulmano sempre. Nesse sentido. No que diz respeito às descendentes. ao estudar as mudanças ocorridas nas relações de parentesco e nas práticas de casamento entre duas gerações de imigrantes japonesas nos Estados Unidos. No caso das imigrantes e descendentes árabes. discordo quando a autora adota a palavra síntese para designar a relação estabelecida entre as duas culturas. sentir e se comportar. seu sentimento identitário e suas lembranças parecem se criar por meio da interação. a mulher deve obedecer ao marido. O que ela espera é uma relação de complementaridade entre ambos e acha que isso. ressalta que deve haver uma interação de respeito e aceitação mútuos. o que elas buscam é reforçar os próprios elementos da cultura de origem. tampouco como brasileiras. em estar decidindo. O que há não é uma junção. Leila reconhece que. reforçam a importância do casamento e de sua manutenção. afirma que eles se configuram como americanos-japoneses e que concebem suas relações de parentesco em termos de uma oposição simbólica entre japonês e americano. entretanto. se vêem enquanto árabes. referida acima. É complicado isso. Essa 236 . mas para mostrar que elas são diferentes das brasileiras e. dona de casa e boa esposa e do interesse de que seus filhos dêem continuidade a tradição se casando com árabes. dessa forma cega.

In: Estudos Históricos. Celta Editora.1992. por abordar de forma mais precisa as gerações das imigrantes e descendentes devido a dificuldade de se conseguir informações das entrevistadas a respeito das gerações anteriores. E.A – 1997. R. Edit. C. Memories of Tomorrow: On the Interpretation of Time in Later life. J. (sherover. Graal. Como as Sociedades Recordam. 10.1996. Rio de Janeiro. A Memória Coletiva. optou-se. Mulheres de Ontem: gênero e memória no seringal. M.1974. que a memória é o fio condutor principal capaz de desvendar as possíveis transformações ocorridas entre as culturas. neste ensaio. . NOTAS Tema de minha Dissertação de Mestrado que será defendida entre 2006/2007. . 2 i BIBLIOGRAFIA BOURDIEU. In: Série Seminários de Pesquisa.primeira abordagem. texto 5.1990. op cit OSMAN. São Paulo. R. História Oral de Famílias Imigrantes árabes em São Paulo.: Anais do I Seminário e da II Semana deAntropologia da UCG. P. KASTENBAUM.F. Memory and Gender in Homestead. 3 Nomes fictícios.org) Nova York: New York Univ. Oeiras. In: The Personal Experience of Time. Embora o objetivo inicial tenha sido o de analisar as concepções das práticas de casamento de quatro gerações. CONNERTON. Memória e Identidade Social.1998. Pennsilvania. – 1986. Editora Perspectiva. tratando de práticas de casamento.Rio de Janeiro. Ela nos mostra. J. Vértice Editora. O Grande Massacre dos Gatos. Goiânia. Introdução e Memória Social DARNTON. e HINSHAW. P. In: FREITAS. já nos mostra a complexidade e amplitude de tal relação. São Paulo POLLAK. e McCABE. Esquecimento e Silêncio. 237 . . Edit. .1992.Gender Differences in Memories for Speech. ___________ . Press.UCG. São Paulo. Memória. M.cm. ainda. .1999.1996. vol. A Economia das Trocas Simbólicas. R. 1975 MODELL. ELY. In: Estudos Históricos op cit WOORTMANN. . . In: LEYDERSDORF et alli. Homens de Hoje . In: LEYDERSDORF et alli. S. op cit HALBWACHS.

UFRGS. . S. Stanford University Press. 238 . no. YANAGISAKO._______________. . Transforming the past: Kinship and Tradition among Japanese Americans. In: Horizontes Antropológicos.1985. Porto Alegre.2001. 14. Identidades e Memória entre Teuto -Brasileiros.

Neste trabalho. ao contrário. Brazil. e proponho que a luta pela cidadania ultrapassa uma luta por direitos e/ou a luta pelo reconhecimento legal. se concentra na inclusão total na vida pública. Department of Anthropology tomi-castle@uiowa. investigações antropológicas de cidadania têm se focalizado em tipos de cidadãos que não integram quaisquer dos lados da divisão tradicional entre cidadania liberal e cidadania republicana. Palavras-chaves: cidadania. rewriting those conceptions through their refusal of the role of marginalized other in Brazilian society. Doutoranda em Antropologia pela University of Iowa. identidade. re-escrevendo essas mesmas concepções pelo fato de rejeitarem o papel do “outro” marginalizado na sociedade brasileira. simultaneously. social movements. Brazil . sugiro que essas mulheres estão capitulando às concepções culturais hegemônicas e. lesbians.“Como Viver Bem”: Políticas de Identidade e Noções da Cidadã Ideal em uma Organização Brasileira de Lésbicas Tomi Castle. I argue that these women are both capitulating to hegemonic cultural conceptions of propriety and. lésbicas. instead. Abstract: Recent anthropological investigations of citizenship have tended to focus on varieties of citizens that do not fit neatly into either side of the traditional divide between liberal and republican citizenships. concomitantemente. I examine a citizenship course recently offered by a lesbian rights organization in Campinas. I suggest that the fight for full citizenship goes beyond a struggle for rights and/or for legal recognition and. Brasil Key Words: citizenship. identity politics. movimento social.edu Resumo: Recentemente. concentrates on full inclusion in public life. investigo um curso de cidadania oferecido por uma organização de lésbicas em Campinas. Ao examinar as idéias da cidadania lésbica que foram elaboradas no curso. By examining the notions of lesbian citizenship elaborated during the course. Brasil. In this paper. mas.

de ‘extranha’ (Phelan 2001) na sociedade brasileira. investigações antropológicas de cidadania têm se focalizado em tipos de cidadãos que não integram quaisquer dos lados da divisão tradicional entre cidadania liberal e cidadania republicana.Le. pondero noções de cidadania que não encaixam facilmente nos modelos correntes de cidadania. pelo menos teoricamente falando. Também afirmo que atores sociais que demandam cidadania total podem. ius sanguinis ou ius soli. simultaneamente. possibilidade de exclusão. Em seguida. Ao examinar um curso de cidadania lésbica realizado pela organização lésbica Mo. que teve como intenção ‘capacitar’ as mulheres para poder demandar participação como cidadãs do Brasil. Phelan 2001). Brasil em 2004. sugiro que. enquanto outros encaixam mais precisamente no conceito de ‘extranha’ (Bauman 1991.Ca. argumento que as demandas pela cidadania ultrapassam as demandas pelos direitos civis e/ou reconhecimento legal. ao mesmo tempo. se não exclusivamente.Recentemente. rechaça entendimentos fáceis da cidadania como algo conferido primariamente. sugiro que ao focalizar a cidadania lésbica como uma chave para erradicar a discriminação Estadual e como um conceito que inclui 240 . (Movimento Lésbico de Campinas) em Campinas. Recorro aos conceitos de cidadania mais utilizados na literatura acadêmica contemporânia. Ao examinar o conteúdo do curso e as respostas das participantes.Ca. cobrarem de sí mesmos um papel. novas variedades de cidadãos em todo o mundo estão exigindo inclusão de uma maneira que combina um focus no status legal com um ênfase na prática e. advogado por várias organizações GLBT nos Estados Unidos e no Brasil. se torna inútil diante de demandas pela cidadania total. dessa forma. De fato. e me detenho especialmente nos modelos mais útis no caso de Campinas. Embora o discurso sobre direitos tenha permeado muitas discussões de cidadania no grupo. Pelo contrário.. Finalmente. uma postura de ‘cidadãos ideais’ negando. o focus em ganhar direitos um por um. Ao examinar as definições da ‘cidadã ideal’ desenvolvidas durante o curso de Mo.Ca. talvez.Le.Le. as demandas pela cidadania que discuto aqui tratam da inclusão total e participativa na vida pública e não só de acesso a direitos específicos. ao mesmo tempo. essas mulheres estão utilizando concepções culturais de adequação e re-escrevendo essas mesmas concepções na recusa do papel de ‘outro’ marginalizado (Lister 2003:74) ou. examino o curso de cidadania recentemente desenvolvido pelo Mo. Tais cidadãos incluem os ‘cidadãos flexíveis’ de Ong (1999) e os ‘nacionalistas à larga distância’ ou ‘cidadãos trans-border’ de Schiller (2002).

De forma mais ampla. que leva um conjunto de direitos e responsibilidades.” com sua promessa de conferir benefícios ao soldado como um prêmio. na defesa do Estado e. Mas. se focaliza em ‘prática’ ou seja.vários direitos e responsabilidades—tanto do Estado quanto da cidadã—as mulheres de Mo. é o modelo “martial” de cidadania. que provavelmente tem visto tantas variações quanto a cidadania liberal e republicana. estes ainda servem de base para começar a desenvolver ‘novos’ modelos (e. Cidadania(s) Recentemente. essa estratégia inverte noções tradicionais de cidadania. Esse modelo localiza o serviço militar. Stewart 1995) ou para repensar questões de cidadania (e. tem sido utilizado como uma maneira de conseguir mobilidade social. Embora hoje esses modelos são utilizados sem modificações muito infrequentemente. Embora pareça contraditório. Outro jeito popular de conceitualizar a cidadania. Como D´Amico (2000) explica no seu estudo de noções “martial” de cidadania nos Estados Unidos contemporâneo.g. em contraste. A definição de cidadania do modelo republicano. rejeita as idéias dominantes de quem poderia e deviria participar no fórum público e utiliza tais noções. têm sua origem na Grécia Antiga.Le. nas versões mais antigas. frequentemente.’ dois modelos que. o modelo “martial. que escolhe se e quando atuar. atual o potencial. pode esperar todos os benefícios da cidadania. 241 . se for preciso. estão empenhando uma forma de ativismo social que. ‘a tradição republicana tem providenciado visões fortes de participação ligadas diretamente a exclusões fortes das pessoas vistas como inadequadas’ (Phelan 2001:13). mas depende da aprovação de outros. um cidadão é alguém que participa em governar e em ser governado. especialmente nas populações mais desesperadas. Lister 2003). conferido através de caminhos legais. o modelo liberal considera o cidadão em termos de um status legal. depender do modelo “martial” como uma maneira de mudar relações sociais injustas é. trata cidadania como um prêmio para o serviço (Elshtain 1987). virando a extensão de cidadania um resulto lógico. O cidadão/soldado ideal tem a espectativa de se sacrificar. Shane Phelan (2001) tem reconsiderado dois modelos distintos de cidadania que tem dominado o discurso público e acadêmico por muito tempo: o modelo ‘liberal’ e o modelo ‘republicano. ao mesmo tempo. como requisito do status de cidadão e. participação nessa visão não é limitada só pelo indivíduo.Ca. Assim.g. em retorno. Esse conceito de “direitos iguais” para “responsabilidades iguais” (Kerber 1990:90) não é o mais conhecido e tampouco o mais comum. porém ainda utilizado. Além disso.

A descrição dela parece. não só pela exclusão de homens vistos como “inadequados” pelo serviço. Concepções “martial” de cidadania são perigosas. Embora os modelos elaborados por Ong e Schiller constituam em uma avanço em modelos anteriores que 242 . e o conceito dela de “trans-border citizens” leva em conta “a participação política e a reivindicação de direitos e privilégios num Estado por pessoas que não são cidadãos legais do Estado” (2001:362). mais também. Em argumentar que mulheres deveriam aceitar uma versão de liberalismo de Kant nas lutas pela igualdade. Enquanto a posição de Nussbaum é admiravelmente otimista—que argumentação racional poderia conseguir justiça—parece pouco aplicável na vida real. mulheres. As “nacionais a larga distância” de Nina Glick Schiller´s (2001) também questionam fronteiras. e de fato exclusão a acesso de cidadania. sem especificar o papel de cidadão. melhor demostrada na opinião dela nos trabalhos de Catherine MacKinnon e John Rawls. Pelo mesmo modo.. complicado. Modelos de cidadania elaborados mais recentemente para lidar com questões não facilmente encaixadas nos modelos citados têm a tendência de lidar com questões de cidadania escolhida. A filosofa feminista Marth Nussbaum recentemente elaborou uma visão de cidadania. ser uma versão modificada do modelo liberal de cidadania e se focaliza em acessar privilégios e direitos através de caminhos legais. cidadania múltipla—e sobretudo cidadania através de fronteiras. Afro-Americanos. famílias de classe trabalhadora.. e mais frequentemente. em que atores racionais lutam para mudar seu status de excluído. nenhum dos quais é o resultado da racionalidade. também. pela exclusão de mulheres e minoridades sexuais. apesar de inclusão legal. sendo essa uma sutileza que não encaixa bem em modelos tradicionais. estão achando. Como ela explica. Nussbaum se concentra menos na cidadania em sí.” Cidadãos flexíveis trabalham apesar das fronteiras nacionais e com fronteiras nacionais. conforme servem suas necessidades e interesses. sugere que “[m]ulheres têm muitos motivos para desconfiar da maioria dos hábitos das pessoas através dos séculos. “exatamente como as sufragistas acharam o voto inadequado para conseguir uma transformação nas hierarquias de gênero. inicialmente.[e então] mulheres especialmente precisam da `razão´” (1999:79). por exemplo. então. e minoridades sexuais. captura o caráter escolhido e transnacional de algumas formas de cidadania contemporânea no modelo de “cidadania flexível. Aihwa Ong (1999). acesso a instituição militar” (D´Amico 2000:117).no melhor caso. e mais no uso de “razão” em combater discriminação. Aqui Nussbaum presume que a “razão” é o suficiente para combater prejuízo e sexismo.

no seu excelente trabalho sobre Aqui. focalizam sua introdução a uma coleção recente.. cidadãos legais. mas que por vários motivos não têm acesso à essa cidadania. Phelan sugere que “a distância da estranha de inclusão cultural a faz vítima continua de exclusão. a análise de Phelan chama atenção à separação atual entre cidadania de jure e de fato nas vidas de muitos Americanos.).[e] violência” (ibid.” Mais propriamente. Holston e Appadurai. crime.” nem “inimigos.:5).. É esse modelo que mais pode ser aplicado ao curso de cidadania das lésbicas brasileiras que trato aqui. 243 . também são entendidas como espaços que podem responder com mais violência a demandas pela inclusão.. Teresa Caldeira.se deveria ser reconhecido” (2001:14). nascimento.eram incapazes de ajustar e entender às exigences de cidadania globalizada. cit. embora cidades são segregação e cidadania em São Paulo (2000). nenhum dos dois modelos é apropriado para considerar a posição de pessoas GLBT-identificadas. encaixam nos requisitos de cidadania. conceitualizadas como espaços que podem permitir mais variação de cidadania..” nem “amigos. no Brasil. Em outras palavras. Ao tratar a questão de pessoas que. Na mesma linha. por sangue. ou naturalização. Phelan propõe que gays e lésbicas nos Estados Unidos são “estranhos”—nem parte de “nós” nem parte de “outros. especificamente. a analise de Phelan preenche a lacuna deixada por outros acadêmicos. Ao demonstrar que cidadania tem relação com “o reconhecimento que.” Esse modelo se focaliza dentro de fronteiras nacionais e em pessoas que são. por exemplo. na violência. que cause mais ansiedade (op. Um modelo final de cidadania que é particularmente importante para teorizar a posição em que pessoas GLBT frequentemente se encontram é a utilização de Shane Phelan (2001) do conceito de Bauman (1991) de “a estranha. e encontros nos espaços públicos. a “estranha” é numa posição liminal. que examina o papel de cidades vis-à-vis cidadania. tanto quanto em outros lugares. argumenta pela inseparabilidade de violência. tecnicamente. na violência urbana. o modelo de Phelan providencia um modo interessante e realisticamente útil para começar a pensar sobre cidadania lésbica no Brasil. Como coloco aqui. Outro jeito corrente de conceitualizar a cidadania se concentra menos em elaborar modelos de que a cidadania é ou deveria ser e mais em impedimentos à cidadania na prática e. Argumentam que “pessoas usam violência para elaborar demandas da cidade e usam a cidade para elaborar demandas violentas” (1999:16).

Ca. porém o discurso de direitos esteve presente. embora o grupo sim lide com esses problemas em outras atividades. Embora esses direitos e outros direitos não disfrutados por participantes do curso e. Como demostram 244 .Ca. parece encaixar (1999). As participantes no curso de cidadania de Mo. participantes atribuiram sua incapacidade de acessar esses direitos inteiramente à falta de acesso a cidadania total.Le. mas em aprender jogar com tais regras tão bem que não poderiam mais ser excluídas. outros grupos marginalizados. providenciaram uma parte da motivação do curso. por outras lésbicas brasileiras. durou 10 semanas. não estavam preocupadas principalmente em mudar as idéias da população ou em iniciar debates públicos sobre problemas de preconceito ou homofobia. Vale pontuar que a atmosfera das reuniões do curso não era composta por mulheres sem poderes buscando adquirir meios de obter um status de cidadã geralmente negado. Que esses atores novamente capacitados intelectualmente poderiam acessar uma inclusão total na vida pública. por extensão. adoção. guarda de crianças. não em montar um desafio às regras do sistema. têm mais a ganhar por confiar em “razão. entre o dia 13 de março 2004 até o dia 29 de maio de 2004. herança. A suposição extremamente idealista atrás do curso se pautava na ânsia de que atores socias “capacitados” poderiam derrubar sistemas opressivos com o seu conhecimento. No lugar desse focus. e não em gahnar direitos específicos. Em contraste aos atores sociais de Nussbaum. e a inclusão de companheiras em planos de saúde. estes não constituiram o motivo principal. E é aqui que a sugestão de Martha Nussbaum. que mulheres e.” era a conclusão pre-determinada do curso.Ca.Le. De fato. Ao contrário. e as participantes se reuniram todos dos sábados (menos feriados) por 3 horas para participarem de palestras ministradas por pessoas com experiência acadêmica e/ou profissional sobre assuntos distintos com o auxílio de leitura de textos previamente selecionados. as mulheres de Mo. o curso se tratava de providenciar para as mulheres a capacidade—o conhecimento—de serem atores sociais empenhados. as participantes procuravam se capacitar para trabalhar dentro do sistema legal brasileiro.Le. Os direitos principais discutidos em conjunção com cidadania no curso foram: casamento/união civil.” ao contrário de tentar mudar hábitos.O Primeiro Curso de Cidadania Lésbica O primeiro curso de cidadania lésbida de Mo. sendo isso o que as participantes entendiam por “cidadania. se concentraram em ganhar acesso a cidadania. O conceito de cidadania promulgado durante o curso não girava em torno de direitos. por extensão.

de cidadania no Brasil.” Na procura do papel de “cidadã lésbica ideal. mulher. Monique Wittig. o focus era sobre o que significava ser uma “cidadã” no Brasil. mas diariamente impedidas de acessar esse papel—na posição de “estranha” definida por Phelan (2001)—era o problema principal a ser resolvido no curso. lésbica.Ca. 245 . e. tanto quanto históricos. Movimentos Sociais: Cidadania e Direitos. Outros autores discutidos.” participantes sempre lembravam da sua posição liminal na sociedade brasileira. procurando entendimentos contemporâneos. embora reticente a aceitar um ponto de vista biologizante vis-a-vis sexualidade. o primeiro artigo na apostila do curso foi uma discussão caústica entitulado “Diga Não ao Casamento Gay. tanto quanto os antropólogos Margaret Mead e Gilbert Herdt. mais não lidos diretamente. Leituras para cada semana eram dirigidas a tópicos específicos julgados importantes para formulações de cidadania lésbica incluindo as seguintes temáticas: Constituções Brasileiras. as participantes utilizaram as idéias baseado na sua utilidade para o projeto de criar uma cidadania viável no Brasil. idéias foram criticadas mais frequentemente.” Mas precisamente. como se poderia teorizar gênero e sexualidade lésbica. e Brasileira. como virar uma “cidadã lésbica. gerando mais espaço para debater o que poderia significar ser uma “cidadã lésbica. como se poderia unir os dois—em outras palavras. Muitos dos textos continham idéias distintas. o mais importante. incluiam as feministas Simone de Beauvoir. por Peter Fry e por Michel Foucault. e Judith Butler. Em ponto de fato. vários textos escritos por estrangeiros eram incluidos: por exemplo. Mulheres na Sociedade Brasileira. participantes de Mo. Cidadania da Mulher Lésbica. Para começar um processo de abandono dessa posição liminal de “estranha” e acessar participação total na vida pública. as participantes leram vários textos. não no mérito intelectual. nem simplesmente familiaridade com o “inimigo. definiam e entendiam que eram legalmente cidadãs brasileiras. Por exemplo. não estavam simplesmente procurando ganhar direitos específicos. e. mas no que poderiam significar para a luta por cidadania total.” Nem todos os textos utilizados eram pro-lésbicas. por último. historicamente e contemporaneamente.as leituras do curso.” O que as mulheres ganharam ao discutir essas matérias não foi somente um arsenal de conceitos teóricos. Ou seja. Ao final.Le. e as vezes. Homossexualidade e Legislação Brasileira. Luce Irigaray. contraditórias. Embora muitos dos autores lidos no curso fossem brasileiros. cada artigo foi examinado para entender a relevância das idéias para cultivar uma identidade como cidadã.

Ao contrário de abordar profundamente questões de sexualidade ou identidade sexual.. Mais importante ainda.como com Hitler.” mas também com a crença (se já não possuiram.Ca. idéias biologizantes eram repudiadas.. promovida não só no curso. e algumas com certeza não) que estavam lutando por uma coisa que era delas por direito—que não estavam pedindo privilégios especiais. específicamente de lesbianismo.Le.participantes eram igualmente duvidosas ao respeito de um ponto de vista construtivista-social... participantes no curso frequentemente contextualizaram seu projeto de cidadania como uma batalha numa guerra internacional para igualdade e se referiram a exemplos como a revolta de Stonewall em 1969 como uma inspiração. “essencialismo estratégico” se consta em “geralizações temporárias que frequentemente são necessárias no estabelecimento de instituções sociopolíticos como campos de pesquisa e movimentos políticos” (2004:477). porque poderia começar falar da seleção natural e vai acabar falando em coisas bastante féias. tais posições poderiam debilitar a viabilidade de demandas por cidadania por fazer com que as lésbicas pareçam ter escolhido o papel de ‘desviantes’. era acessível somente se se preparassem completamente. Embora relutante a aceitar a idéia que todas as lésbicas são intrinsicamente parecidas ou que todas sofrem precisamente o mesmo tipo de discriminação. as mulheres de Mo.” A visão de sexualidade e. se argumentos para a construção social de sexualidade fossem aceitos e a “naturalidade” de sexualidade lésbica fosse questionada. mas também nas outras atividades de Mo.mas a gente sabe que não existe um tipo de humano melhor..” Como Bucholtz e Hall explicam. além de intervir não somente no nível pessoal ou só no nivel Estadual para tentar mudar sua situação..Le.. O curso de cidadania buscou providenciar o primeiro passo imprescindível nessa preparação.. é um exemplo perfeito do que Spivak (1995) chamou “essencialismo estratégico. participantes escolheram se concentrar em como a “cidadã” foi compreendida no Brasil e como poderiam aprender a exercer esse papel. Algumas questões foram ressaltadas nas discussões do grupo. Da mesma forma. Letícia colocou a questão assim: “têm muitas pessoas que têm respostas biologizantes [para questões de sexualidade]. além de ser delas por direito. Gostaria agora de sugerir que.mas acho que são um problema. entre elas a idéia que. O resultado esperado era que as participantes saíssem do curso não só com conhecimento detalhado das oito constituções brasileiras e as idéias de cidadania encapsuladas em cada ou com maior entendimento de teórias “da moda.Ca. em vez 246 . participantes aprenderam que cidadania.

.Le. essas mulheres estão recusando a permanecer “estranhas” e estão exigindo a ser tratadas com a mesma dignidade e respeito que outros brasileiros. estão tomando o papel de cidadã. De fato. não encaixam facilmente com a maioria de entendimentos de cidadania.” Mais adiante.Ca. Tão projeto indica uma forma nova de ativismo social—em que atores individuais tentam ganhar inclusão na vida pública por virar “cidadãos ideais. este se ajusta com o curso de Mo. mais interessante sobre o tipo de cidadania que está sendo elaborado aqui é a impossibilidade de compreende-lo através dos modelos acadêmicos mais conhecidos. Embora Phelan tenha desenvolvido o modelo para teorizar a posição precária de gays e lésbicas nos Estados Unidos. o modelo da “estranha” de Phelan (2001).” O que é.” Tal descrição lembra da contenção de Lister que cidadania “se opera simultaneamente como mecanismo de inclusão e exclusão e também com idioma de ambos disciplina e resistência” (2003:4-5). é um dos poucos modelos que procura entender a divisão atual entre cidadania de jure e de facto. Mo. de “estranha.. De fato. e a posição das mulheres de Mo. Porém. têm razão. As noções de cidadania promovidas aqui.Ca. Conclusão Tenho tentando esboçar os aspectos mais importantes de um curso pioneiro de cidadania promovido recentemente por um grupo de ativistas lésbicas no interior de estado de São Paulo.Le. Se as participantes de.Ca.de internalizar e utilizar concepções de propriedade. como uma forma de enfrentamento a essas mesmas exclusões. cidadães lésbicas capacitadas poderão frustrar qualquer tentativa de excluílas da vida pública por virarem a sempre-incluída “cidadã ideal. estão re-escrevendo esses concepções e recusando o papel de outro marginalizado—ou. talvez. em tomar cidadania como algo verdadeiramente delas. mas em contrapartida disputa idéias dominantes sobre quem pode e deveria participar no forum público.Le. um papel tradicionalmente negado para elas. A “cidadã ideal” elaborada nesse curso assumiria então o papel através do esforço concentrado em dominar os entendimentos de cidadania operando no Brasil contemporâneo. As participantes 247 . Embora seja verdade que as participantes no curso de cidadania fizeram pouco para desestabilizar cidadania como um lugar principal de exclusão ou inclusão no Brasil. é iqualmente verdade que. o modelo que utilizei aqui. as noções de cidadania promovidas durante o curso são progressivas e conservadores—obrigando resistência tanto quanto capitulação. virar uma cidadã ideal não simplesmente inclui capitulação.

têm julgado.” claro. Participantes de Mo.Ca. A procura por cidadania participatória e total de Mo. importantemente.Le.” 248 . e até mais prioritariamente. que tem pouco a ganhar pelo projeto de cidadania em entrar em debates sofisticados sobre a sexualidade lésbica. Longe de serem vítimas passivas de exclusão estadual. pode não achar sucesso. provavelmente corretamente. ao fato de privilegiar as experiências vividas de mulheres individuais tentando resolver questões de cidadania. vai requerer mais tempo e esforço. não está somente relacionada a análise. mas de forma simples e profunda com “como viver bem.entendiam que não eram precisamente “incluídas. ela respondeu. A importância desse trabalho então. mas ao mesmo tempo reconheceram que não viviam em uma posição de “inimigas” também não. Provavalmente. tanto quanto um pouco de sorte. mas.Ca. as mulheres tratadas aqui assumem responsibilidade para mudar sua posição e o fazem sem desculpar o Estado. mas também. Esse projeto também vislumbra providênciar um exemplo de essencialismo estratégico em ação. nem com algum dado e tampouco com um esboço de como seria uma cidadã lésbica incluída. Quando pedí que Ana explicasse o que se aprende em um curso de cidadania. não com alguma teória específica.Le. não são crentes ingênuas em uma idéia de “irmandade” universal entre lésbicas. Mas as lições desenvolvidas durante o curso não serão esquecidas pelas participantes tão cedo.

Citizenship: Feminist Perspectives. 356-365. Gender. New York: Basic Books. ed. Malden. Lister. Kerber.” pp. Linda K. Sexuality and the US Military. Modernity and Ambivalence. “May All Our Citizens Be Soldiers and All Our Soldiers Citizens: The Ambiguities of Female Citizenship in the New Nation. Jean Bethke. Gayatri. “Long-Distance Nationalism Defined. Second edition. 1987. and War: Essays in History. “Cities and Citizenship. and Critique. Martha. Elshtain. Durham and London: Duke University Press. 1. New York and Oxford: Oxford University Press. Oxford. Susie Jacobs. Militarism. in Women. in Cities and Citizenship. Segregation. Theory. ed. Race. 2002. Sex and Social Justice.” pp. Caldeira. Donna Landry and Gerald MacLean. Nina Glick and Georges Fouron. New York: Palgrave MacMillan. in The British Journal of Sociology. Aihwa.” in Language and Society. Phelan. 1991. AU: Blackwell Publishing. Spivak. The Spivak Reader. Holston. 249 . Berkeley: University of California Press. eds. Nussbaum. Women and War. Jean Bethke Elshtain and Sheila Tobias. and Citizenship in São Paulo.Referências Bibliográficas Bauman. 63-78. Politics and Social Theory. Philadelphia: Temple University Press. 46. Ruth.89103. 1995. Violence and Resistance. no. Francine. “Citizen-Soldier? Class. eds. 1990. Angus. 1-18. Mary and Kira Hall.” pp. Schiller. 1999. Joan Vincent. New York: Routledge. Sexual Strangers: Gays. Teresa Pires do Rio. Ltd. James and Arjun Appadurai. Savage. 33:469-515. MA. Ithaca. eds. in States of Conflict: Gender.” pp. Shane. and Dilemmas of Citizenship. 105-122. Flexible Citizens: The Cultural Logics of Transnationality. New York: Cornell University Press. “Theorizing Identity in Language and Sexuality Research. 2003. and Jennifer Marchbank. James Holston. 1999. Ltd. UK. Ong. London and New York: Zed Books. in The Anthropology of Politics: A Reader in Ethnography. Lesbians. vol. MD: Rowman & Littlefield. City of Walls: Crime. Durham: Duke University Press. and Victoria. 2001. “Two Conceptions of Citizenship. Stewart.” pp. 2000. Bucholtz. Zygmunt. 1999. D’Amico. 2000. 2004. Ruth Jacobson.

onde categorias como gênero. Nesse movimento de viver. por meio da dança de salão. RESUMO: Nesta comunicação pretendo discutir como as formas contemporâneas de masculinidade e feminilidade são elaboradas. nas academias localizadas em bairros nobres da cidade. classe. em “gafieiras” localizadas no centro da cidade do Rio de Janeiro. mesclando-se em uma natureza diversa própria daqueles que dançam. contra o envelhecimento. majoritariamente. para acompanhá-las nos bailes. O interesse primordial é analisar as representações masculinas e femininas nesses espaços de relações e refletir sobre o caráter polissêmico da idéia de tradição associada ao contexto em estudo. Já as mulheres concebem o “jeito tradicional” de dançar como fonte de monotonia e de repetição. por homens e mulheres com mais de 60 anos de idade. principalmente quando contrastado a um “elemento” transformador: uma outra performance inserida nos salões por jovens dançarinos. etnia e geração se transformam continuamente.br TÍTULO: Dança com hora marcada: geração e gênero nos bailes de dança de salão. 250 . a exaltação da “idade de ouro” coexiste com reformulações no sistema classificatório nativo.UFRJ E-MAIL: virna_plastino@yahoo. no qual os freqüentadores expressam um certo apego à vida em um embate contra o tempo. negros. as quais são freqüentadas. moradores da periferia que são contratados.com. Os homens freqüentadores antigos dos bailes aludem a um “tempo áureo” da gafieira onde o “romantismo” estava presente no modo como abordavam ou conduziam as “damas nos salões”.AUTOR/A: Virna Virgínia Plastino INSTITUIÇÃO: Museu Nacional .

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