A pintura de si no capítulo ‘Do Arrependimento’, nos Ensaios de Montaigne

Vitor Vieira Vasconcelos – Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais 1º semestre / 2003

Introdução:
Este estudo tem como objetivo abordar o tema da pintura de si nos Ensaios, escritos por Montaigne, especialmente em relação ao capítulo denominado “Do Arrependimento”, incluso no terceiro livro dessa obra. Para isso será preciso primeiro repassar brevemente o contexto dos demais capítulos do livro, especificando com mais clareza o que seria o conceito de ‘pintura de si’. Após essa introdução, nos daremos ao trabalho de repassar os temas e assuntos abordados no capítulo ‘Do Arrependimento’, sempre traçando paralelos com o tema da auto-retratação de Montaigne em seu livro. A primeira coisa, é preciso deixar claro, é que Montaigne não instituiu ou discursou propriamente sobre o tema ‘pintura de si’. Este conceito foi elaborado por todo um trabalho de comentadores, se referindo aos momentos em que o autor considera os Ensaios como um retrato seu, ou como um filho, e também devido à clara intenção de retratar ao longo da obra as opiniões, humores, hábitos, divagações que são em conjunto uma descrição de sua existência. Por exemplo, ao terminar de escrever os dois primeiros livros dos ensaios, em 1580, temos essa citação: “Eu quero que aqui me vejam em minha maneira simples, natural e ordinária, sem esforço e artifício: porque é a mim que me pinto. Meus defeitos e minha ingenuidade aqui serão lidos ao vivo, tanto quanto me permite a reverência pública. (...) Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria de meu livro...” (Ao leitor). Passemos então ao desenvolvimento dos ensaios. Qual será nossa surpresa ao notar que esta obra está longe de ser um discurso fechado e pronto sobre um eu estático e acabado, ou um sistema de opiniões estruturado e claramente edificado, como é de costume no terreno das obras de filosofia? Se tomarmos o enfoque nos primeiros ensaios, vemos que são uma coleção de citações, contos, fatos históricos, fontes filosóficas (em especial as estóicas) e divagações sobre o tema central de cada capítulo; e essas abordagens são, diversas vezes, contraditórias entre si. Não é para pensarmos que esses são só um conjunto de posições colhidas ao acaso: ao se colocar em seu livro, Montaigne passará a retratar nele suas próprias contradições, e poderemos perceber claramente o movimento de sua mente, passeando por um ou por outro ponto de vista. Como um retrato fiel de seu eu, deve mostrar que ele não tem uma forma fixa, mas está sempre em fluxo de

constante mudança: o livro então deve acompanhar e imprimir a evolução da mente de seu autor. É por razões com essa que Starobinski vai chamar Montaigne de um “escritor em movimento”. Se a alma de Montaigne se fixasse em uma forma definitiva, então ele não precisaria ‘se ensaiar’, mas sim escreveria um tratado sobre si mesmo. Ao passarmos pelo ensaio “Da amizade”, talvez tenhamos uma pista dos motivos que levaram Montaigne a empreender esse trabalho. É que, em sua profunda amizade com seu amigo La Boétie, dividia com ele suas opiniões e humores, sendo que os dois formavam praticamente uma identidade. Com a morte de seu amigo, Montaigne olha então para si e vê um eu fragmentado e disperso, e vai, através da escrita dos Ensaios, tentar encontrar a unidade de sua identidade. A partir daí, podemos encarar os Ensaios de uma maneira completamente nova: o eu que está para ser retratado não está suposto, ele precisa ser descoberto. Dessa forma não podemos mais encarar o texto como uma simples cópia de um original que está se duplicando ao escrever; o processo de escrita passa a ser de dupla formação, com o autor se escrevendo e refletindo sobre si mesmo, o que o leva por sua vez a um novo estado do sujeito, que, por conseguinte, será descrito adiante. Assim conciliamos a idéia do movimento com a da formação dos Ensaios e do próprio autor: um movimento circular entre a obra e o autor, se modificando mutuamente pelo processo da escrita e da reflexão. Servindo como corroboração dessa idéia, podemos perceber nos ensaios como um todo o que seria um “movimento geral” de Montaigne. Ao início temos a busca, principalmente nos exemplos clássicos, de uma certa unidade ou verdade sobre o mundo; porém essa tentativa mostrará que nem nos clássicos temos um consenso ou visão única sobre a realidade. Como conseqüência disso, temos um eu fragmentado, que descreve nos textos suas fantasias e imaginações, e aborda os temas sempre de uma maneira plural (seria uma experiência da dispersão do eu?). Isso vai levar os comentadores a contrapor a analogia da ‘pintura de si’ com a da moldura de figuras grotescas misturadas (exposta no capítulo “Da Amizade”), onde os ensaios seriam apenas um conjunto de pontos de vista dispersos e sem ordem; e que não conseguiria se mostrar, no conjunto, como uma imagem de um sujeito delineado. Como cume disso teremos o que Pierre Villey irá chamar de ‘crise cética’, que tem como expoente o capítulo chamado “Apologia de Raymond Sebond”. Nessa parte, Montaigne irá discorrer sobre a incapacidade humana de conhecer o mundo,

mostrando os diversos defeitos da razão. E aí chegamos a esse ponto: após ter reconhecido a precariedade do conhecimento, como é possível continuar tomando nossas próprias decisões, ou mesmo buscar ter uma vida feliz? Chegamos então ao período que corresponde de maneira geral ao terceiro livro dos Ensaios, que vai adquirir características peculiares em relação aos demais; e onde está o capítulo “Do Arrependimento”, ao qual daremos atenção particular. Parece que Montaigne, amadurecido pela reflexão feita até então, vai buscar em si, no “conhecete a ti mesmo”, a mola mestra de seu ser e suas decisões. Temos então os últimos ensaios, onde, mais seguro de si, o autor vai mostrar com mais firmeza as suas próprias opiniões (mesmo reconhecendo que elas não têm pretensão de se tornarem verdades últimas sobre o mundo).

Do Arrependimento:
O texto do Arrependimento começa com uma espécie de introdução, onde podemos ver claramente os temas do movimento e da pintura de si. Montaigne admite-se com uma pessoa que tem seus defeitos e contradições, e também que está em constante mudança. Mas insiste que está sempre sendo sincero ao escrever, pintando-se como é no determinado instante, “ajustando sua história ao momento”; mesmo sabendo que pode mudar logo em seguida. Os Ensaios podem até ser contraditórios (comparando diferentes pontos do texto), mas como o mundo e ele mesmo estão em transformação contínua, não significa que ele esteja mentindo. Montaigne irá, em seguida, escrever uma das frases que trará mais polêmicas às interpretações de sua obra: “Ligamos a filosofia moral tão bem a uma vida comum e privada quanto a uma vida de mais rico estofo: cada homem porta em si a forma integral da condição humana.” Será essa a chave para transformar os “Ensaios” de uma simples descrição de um indivíduo para uma obra de alcance rigorosamente filosófico? É o que Auerbach irá defender. Montaigne fala de si enquanto homem, enquanto portador dessa condição humana; as descrições completas que temos, principalmente ao longo do terceiro livro, e que vão de desde hábitos e gostos do cotidiano (por exemplo, gostar de melões e suas condições amorosas preferidas), até reflexões morais profundas,

abarcando sua parte corporal e ‘espiritual’, seriam uma maneira de retratar o ser humano de uma forma mais completa. Assim as pessoas conseguiriam se espelhar melhor, e aproveitar mais de seus exemplos. É importante notar as implicações dessa afirmação. Montaigne quer estender o alcance da filosofia moral para todas as pessoas, chegando até ao homem comum dos campos. Em outros momentos o autor já havia considerado que todo exemplo humano era digno de reflexão, inclusive ele poderia aprender muito observando a vida tanto de um camponês, como de uma grande figura do passado. Reconhecendo que nem ele nem a maioria das pessoas têm uma natureza perfeita, muitas vezes os exemplos das pessoas comuns estão muito mais próximos de nós. A filosofia antiga (por exemplo a estóica), pinta um homem muito nobre, acima dos padrões, que dificilmente pode ser alcançado ou espelhado pelas pessoas. Mas essa generalização do Montaigne particular para o homem em geral possui algumas ressalvas. Se o autor reconhece a dificuldade do homem em conhecer a própria alma, e que “há mais distância entre tal e tal homem, do que há entre tal homem e tal animal” (ambas as afirmações na ‘Apologia de Raymond Sebond’), então como ele pode ter essa pretensão de se colocar como exemplo? No capítulo ‘Da Experiência’, é demonstrado como as leis são falhas, por se aplicarem a situações e a indivíduos imaginários, enquanto a realidade é de extrema multiplicidade, onde cada um é um e cada caso é diferente dos anteriores. Ao invés de uma generalização de si mesmo, podemos interpretar os ensaios como o caminho inverso (segundo Sérgio Cardoso), abandonando as pretensões de universalidade e defendendo o eu particular e individual, que valoriza o conhecimento interior e a auto-reflexão. E quem sabe, criticando posições de Auerbach, talvez a condição humana seja reconhecer essa fluidez do homem e essa impossibilidade de se retratar como um todo bem delineado, devido aos limites da razão e da experiência. Sobre o restante do capítulo, podemos dividi-lo em três eixos principais, que se intercalam ao longo do texto: 1. Reflexão moral sobre o arrependimento, fazendo uma análise de abrangência psicológica, sobre se ele funciona ou não. 2. Reflexão moral sobre o vício e a virtude, incluindo a questão do indivíduo público e privado. 3. Passagens autobiográficas, onde Montaigne irá refletir se tem ou não motivos para se arrepender.

1 - Reflexão moral sobre o arrependimento:
Para contextualizar a opinião de Montaigne, temos que ter consciência de que a Igreja Católica já tinha uma orientação fortemente estabelecida sobre o assunto, afirmando que o arrependimento é de crucial importância para o ser humano. Para ter acesso à piedade divina, o indivíduo deveria, antes de mais nada, se arrepender de todos os seus pecados. Montaigne, a primeira vista, irá propor um ponto de vista totalmente contrário ao da Igreja: ele dirá que praticamente não se arrepende das coisas que faz, e que tem razão em fazer isso. Porém, é preciso que observemos que esse arrependimento é apenas no nível humano, pois nos assuntos de religião ele se submete à Igreja. Ele aceita que o arrependimento é importante para a salvação, embora ele não esteja ao alcance do homem; somente se Deus o fizer arrepender-se - como uma graça divina é que ele aceitaria o arrependimento de coração. Em todos os outros casos (na vida cotidiana), o arrependimento seria um mau negócio. Em sua vida prática, Montaigne era muito católico: não podemos achar que ele diz se submeter aos dogmas da Igreja só por medo da censura. Apesar de religioso, Montaigne faz sua filosofia no campo humano, onde ele pode tatear e especular à vontade, sem misturar nisso as crenças religiosas (uma prova disso é a de que os exemplos religiosos, ao longo do texto, valem tanto como os retirados das fontes antigas e da vida cotidiana). É como se existissem duas esferas distintas em sua vida: a religião e a filosofia(como discurso), e isso é bem típico do pensamento cristão; nos Ensaios, Deus parece estar tão longe que a razão humana ganha uma grande autonomia, chegando até, algumas vezes, a não precisar mais de Deus. Na filosofia antiga, um exemplo contrário ao de Montaigne é Plotino, que propõe apenas uma realidade, abrangendo de Deus (o Uno) e caminhando até o mundo criado. Montaigne vai então expor a sua teoria sobre o arrependimento. Ele admite que nós nos arrependemos de algumas ações, mas não de todas. Os erros que cometemos excepcionalmente, e que são estranhos à nossa natureza, desses nós nos arrependemos. Esses nós fazemos de repente e não sentimos mais vontade de repetilos novamente.

Mas há algumas atitudes incorretas que se repetem tanto que se incorporam ao nosso caráter, e aí nós deixamos de achá-las erradas. Os vícios que se tornaram hábito não provocam arrependimento. É o caso de uma pessoa que é preguiçosa, por exemplo, e dos diversos vícios de modo de ser, de profissão e de ocupação. Como podemos nos arrepender deles? Para que isso aconteça, só se for com a ajuda divina. Montaigne afirma que, se o arrependimento pesasse tanto nos pratos da balança, suprimiria o pecado, e o que vemos é justamente o contrário. Além de ser impossível mudar-se humanamente, mesmo tentar isso já é prejudicial para a pessoa. O homem é um ser maleável, de início, e que vai tomando uma determinada forma com o tempo (podemos tecer um paralelo de que a pintura de si também iria se consolidando com o tempo, já que percebemos também nos ensaios essa maior firmeza crescente nos últimos capítulos que foram escritos). Depois que a pessoa é formada de determinada maneira, é difícil mudá-la. É aqui que Montaigne faz uma crítica aos homens de seu tempo, aqueles que tentam mudar a maneira de viver que já está incorporada aos costumes da sociedade; essa crítica vale tanto para os revolucionários, para os reformadores protestantes quanto para os pregadores devotos da Igreja Católica. Acaba que quem tenta mudar sua própria natureza a faz só por fora, ocultando suas características, fingindo para si mesmo; e os vícios acabam retornando logo depois. Os que tentam mudar as outras pessoas só as mudam na aparência, os problemas continuam os mesmos no interior dos indivíduos. Também é interessante observar que, em uma primeira parte do capítulo do Arrependimento, Montaigne reflete sobre as mudanças no homem, abrangendo a pintura de si e a condição humana; mas no restante do ensaio ele enfatiza que nem adianta nos arrependermos, pois nosso caráter é fixo (e nisso é bem contraditório com a primeira parte) e não dá para mudarmos a nós próprios assim. Como já foi observado ao longo deste estudo, isso é um exemplo das contradições típicas ao movimento de constituição dos Ensaios. De acordo com o texto, a educação vai formando o indivíduo, e depois de formado não dá mais para mudar. Além disso, em outros momentos Montaigne defende a natureza humana (diferente em certas partes de uma pessoa para outra), que seria algo a que o ser humano sempre tende. Por fim, não nos fica muito claro se uma compleição é natureza ou costume. Podemos tentar interpretar do seguinte modo: a alma de uma pessoa teria uma natureza básica, com algumas inclinações naturais, e a educação poderia desviá-la até certo ponto. É o caso das feras das florestas, que

podem ser amansadas, embora ao ver uma gota de sangue retornem ao animal selvagem que reprimiram dentro de si. Não extirparíamos as nossas características naturais, apenas as ocultaríamos. Porém não dá para distinguir em Montaigne onde está a linha clara que separa o que é natureza e o que é educação. Ele dá o exemplo de que, embora tenha o hábito de ter conversado somente em francês em sua vida adulta, em momentos de emoção não consegue esconder sua verdadeira natureza, que é falar em latim. Mas falar em latim não é obra da educação? é o que perguntaríamos. É como se os costumes fossem se solidificando e se incorporando à própria natureza humana. E teremos no fim, como resultado, uma forma fixa de nossa personalidade, lutando contra toda educação posterior e tentativas de mudança, e também contra as paixões nossas que contrariem essa disposição. Seria uma forma mestra, pessoal, contra a qual lutariam as figuras da exterioridade. É preciso deixar bem claro, apesar do que foi aqui descrito aqui, que Montaigne não chega a definir uma distinção metafísica e ontológica do ser; há um espaço para relativização, e não podemos levar as especulações ao extremo (ao pé da letra).

Reflexão moral sobre o vício e a virtude
Ao discorrer sobre os vícios, a primeira questão a que o texto se dedica é sobre como reconhecê-los. Ele começa com a definição tradicional: quando reconhecemos um vício em nós, sentimos uma dor. Porém, devemos nos contentar com as definições de vício fornecidas pela sociedade? Ou a natureza humana da pessoa reconheceria os vícios? Montaigne acha que confiar ao julgamento de outrem nossas ações é um fundamento incerto e duvidoso, pois a sociedade se mostra muito corrompida e ignorante em diversos assuntos. Montaigne é mais favorável a que o indivíduo construa o seu próprio padrão de certo e errado. Ele diz ter um tribunal interno, ao qual se remete muito mais do que a qualquer opinião de outras pessoas. É nesse ponto que ele defenderá uma autonomia do indivíduo, que será importante na constituição da subjetividade do período Moderno. E qual deverá ser o nosso comportamento em relação aos vícios pessoais? Podemos tentar esboçar o pensamento de Montaigne em um sistema:

Mau

Meio Termo

Santo

-Não percebe os seus vícios

-Percebe os vícios -Incapaz de se arrepender e mudar

-Quer se arrepender de seus vícios e mudar-se

Explicando esse esquema, no canto direito temos as pessoas que nem enxergam seus vícios de tanto que estão coladas a eles. No meio termo, as pessoas que sabem que estão no vício, mas fazem acordos consigo mesmas, meio que covardemente (Montaigne se reconhece e se pinta nessa classe). O outro extremo é o daqueles que tentam se reformar, confiantes em suas razões, sua vontade ou suas religiões. Esse extremo é criticado por Montaigne, como já foi comentado na parte deste estudo referente à reflexão moral sobre o arrependimento. Nas entrelinhas do texto, podemos notar que o autor defende esse meio termo como o mais adequado para a condição humana, enquanto condição finita e moldada pelos hábitos (definindo o homem dessa maneira, seria uma forma de passar da descrição do indivíduo particular para o homem em geral). Montaigne acha errado o vício se integrar tanto à pessoa e ela não perceber que é viciosa, como também acha errado a posição dos que se arrependem só nas aparências. Ele critica tanto o ‘Mau’ quanto o ‘Santo’ e defende como mais adequado o seu modo de vista, o qual retrata nos Ensaios. Portanto, aqui devemos defender Montaigne dos comentadores que falam não haver uma moral nos Ensaios, já que ele aceita os seus vícios e não pretende mudá-los - o que pode até ser verdade, embora haja comportamentos que ele critica como piores que isso. Devemos, por tudo isso, fazer a distinção entre ‘arrependimento’ e ‘consciência do eu’. O segundo nos levaria à consciência do vício (que é necessário ter), enquanto o segundo incluiria a vontade de mudar-se. O arrependimento, enfim, só serviria para atos repentinos e inusuais. Assim, a razão não seria capaz de controlar nem nossas opiniões, nem nossas naturezas; é essa a dimensão da passividade humana, que não pode se dominar. O homem não é capaz de se começar de novo e se reconstruir, é capaz apenas de se distanciar um pouco de si e refletir sobre o que é. Os Ensaios seriam isso, com Montaigne sempre se enxergando a distancia, de maneira crítica, para fazer a pintura de si. A partir de então podemos encarar a pintura de si, não como uma simples descrição ou imagem dos hábitos, opiniões e humores de Montaigne, mas como um “olhar”, uma presença crítica na qual o autor analisa o seu próprio comportamento. É o que Paul Ricoer irá chamar de ‘identidade narrativa’, e os Ensaios seriam menos um auto-retrato, e mais uma reflexão e um julgamento sobre si. Também temos, ao longo deste capítulo, a reflexão sobre a vida pública e a vida privada. A posição principal a ser sustentada sobre esse assunto é que as pessoas que vivem só para o público não alcançam a virtude. Montaigne fala que é difícil encontrar uma pessoa que mantenha

a vida em ordem inclusive na esfera privada. Em primeira instância, é bastante complicado manter-se regrado internamente, e o grau vizinho disto seria ser regrado em casa, onde o olhar de outros não alcança. A virtude seria conseguir manter-se tão justo em casa quanto se é fora (quando se está sendo forçado por leis e obrigações sociais). O problema, fala o autor dos Ensaios, não é ter vida pública (Montaigne, por exemplo, cumpriu papéis políticos e sociais), mas ter esse descompasso entre o comportamento público e privado. É o caso do devoto que vai à missa várias vezes por semana, para dar a aparência de que mudou, mas que por dentro (e, por extensão, na vida privada) continua o mesmo, ou até pior. É relativamente fácil reparar que Montaigne vai revalorizar a vida cotidiana, simples e comum, como é a tendência do Renascimento (e que temos como exemplo nas pinturas) - sendo oposto à cultura antiga e medieval que valorizava os grandes heróis, governantes e santos. Ele vai valorizar mais a ordem privada que os grandes feitos públicos, mesmo que as ações públicas tenham uma repercussão social muito maior. Um exemplo é quando diz valorizar mais Sócrates (que tinha essa virtude interna) do que Alexandre, o Grande, pois podia imaginar o primeiro exercendo a vida do segundo, mas não achava possível Alexandre assumir o lugar de Sócrates e se manter na mesma virtude que este; é difícil manter essa vida regrada, constante e nãocontraditória. A nossa vida é cheia de variações, e Montaigne admite isso em um tom crítico, afirmando, embora também lamentando. O ideal seria tentar manter a vida em constância regrada. E todo homem tem essa esfera particular, ao passo de que nem sempre todos tem a mesma expressividade pública. A esfera particular é parte da condição universal do homem, logo a filosofia moral para ela seria extensível a todos os homens. Isso é mais um motivo para Montaigne se ater a ela, enfocando mais essa parte de sua pintura de si. Sobre o julgamento de outras pessoas, a verdadeira natureza de alguém acabaria se revelando em sua vida privada e doméstica. Montaigne complementa que devemos julgar uma pessoa pelo que ela tem de mais assentado, por essa sua forma mais fixa. Por isso é preciso tomála em suas situações normais e cotidianas, e não em horas de exaltação ou quando a pessoa está sendo estimulada por fatores externos e não usuais; o melhor seria avaliar as pessoas quando estão calmas, dentro de si, em sua vida particular e sem lustro. Montaigne faz uma denúncia à sua época, onda as pessoas, tanto católicas quanto protestantes, queriam se reformar ao máximo, segundo os valores de sua religião. Ele diz que não

adianta tentar mudar sua constituição externa. Então toda constituição interna seria válida? Não, Montaigne rejeita alguns modos de comportamento; vemos também que ao longo do texto há esse exemplo do homem comum e regrado, como um modelo; mesmo que esse modelo não seja uma receita certa que deva ser alcançada por todas as pessoas. E é dessa maneira que vemos, ao longo do terceiro livro dos Ensaios, Montaigne começar a delinear com mais liberdade a sua filosofia moral.

As passagens autobiográficas
Ao longo deste capítulo, Montaigne deixará claro que vai apenas falar de si e suas reflexões, e o leitor é que escolherá se estes exemplos lhe servirão para reflexão ou não. Escreve diretamente, na primeira frase do capítulo: “Os outros formam o homem; eu o descrevo; e reproduzo um homem particular muito mal formado...” É nessa descrição de suas passagens autobiográficas que veremos mais claramente o conteúdo da pintura de si. Ao falar de sua natureza interna, diz que dificilmente se abala por algo (é bem estável), tendo posse de si. Ele reconhece ter certos vícios, embora sua natureza naturalmente se afaste dos grandes e mais prejudiciosos. E diz estar sempre em si, ou pelo menos bem perto; tem sorte de não encontrar grandes paixões que o venham a lhe desestabilizar. Até mesmo nos momentos de paixão ele mantinha-se perto de si mesmo, com o bom senso de perto, dando espaço para as emoções mas sem cair em devaneios. Na vida pública, ele não tomava um partido, pois assim diminuiria a paixão de se engajar e perderia também a capacidade de livre julgar. Pode-se participar politicamente, mas sem se entregar totalmente, pois é preciso manter um pé em si para continuar podendo refletir conscientemente sobre suas situações.

É importante notar também como, no texto, há uma certa diferenciação entre a natureza do corpo e a da alma. Montaigne descreve seu corpo como sossegado e estável, enquanto sua alma é que o atrapalha e o agita. Ela é que fica imaginando, querendo ou desejando, tirando o autor de seu repouso. Enfim, ele olha para sua própria forma e se pergunta se tem algum motivo de arrependimento. Por que não se arrepende? Porque ele toca sua ação pelos seus próprios critérios, pela sua forma mestra. Como humano, ele não tem do que se arrepender (já que não se julga pelos critérios de um santo). Diz que viveria tudo de novo da mesma maneira, se fosse possível. Por último, temos a relação que Montaigne vai ter com sua velhice e com as mudanças próprias dessa idade. Ele admite escrever esses ensaios como um velho que fala de sua juventude passada. Fala, com sinceridade, que as condições de sua vida vão piorando, e não concorda com os filósofos que dizem a velhice ser boa por possibilitar os exercícios do espírito; para o autor dos Ensaios, a juventude foi o período mais belo de sua vida. Quando jovem, dizia que os velhos pioravam, e em sua velhice, continua dizendo o mesmo. Faz uma analogia em que diz que aparecerem mais rugas no espírito que na alma, e também que o homem caminha por inteiro (o corpo e alma), para seu crescimento e depois para sua decrepitude. Ele reconhece diversos problemas da velhice, como a tagarelice, o pedantismo e o fato de se tornar pão-duro, em uma época em que acumular sua riqueza não lhe servirá para nada. Apesar de tudo, termina não achando correto se arrepender pelos problemas da velhice em comparação com os tempos de jovem, como fazem muitos de seus conhecidos; afinal, há coisas que estão fora de nossa alçada decidir e, portanto, ter culpa. A velhice faz uma mudança no eu, mas o que Montaigne menos quer é que o eu de hoje julgue o eu de ontem; e se recusa a ser levado pelas tendências que a virtude frouxa e catarrenta da velhice lhe acarreta. Para ter um retrato fiel de si mesmo, não pode julgar o passado pelo presente, agora que enxerga pelos olhos (e pelo corpo) de um velho. Embora não aspire a ser o mesmo de ontem em relação a seu corpo, ele quer preservar o seu julgamento, o seu modo de ver de um jovem. Fala que o ponto de vista de um velho não é de maneira alguma mais sábio, e sim mais pedante. De fato, temos uma mudança do jovem para o velho, mas isso não significa que deve começar a pensar como um velho e renegar o retrato de sua juventude. Ele quer se pintar de forma inteira, e não de acordo com a pequena parte do final da sua vida; diz que ficaria

envergonhado se as tendências de sua decrepitude tivessem a preferência sobre a vida de seus bons anos de juventude. Corroborando seu posicionamento, para Montaigne o importante é ter vivido venturosamente, e não morrer venturosamente. Vai procurar então resistir a essas paixões da velhice (que ele admite já estar começando a manifestar), lutando contra as mudanças. É uma permanência artificial e racional do julgamento, contrariando o que seria natural (que seus humores o tenderiam a ser). É interessante observarmos isso logo no Ensaio em que Montaigne afirmou que devemos nos contentar com a nossa natureza interior; que não dá para nos arrependermos, se isso significar vontade de se mudar. Em sua pintura de si, Montaigne preserva e faz a manutenção de sua forma, dirigindo a si um olhar crítico através dos Ensaios. No nível ético, dos valores, ele quer preservar o seu julgamento dessas mudanças da idade. Podemos encarar isso como uma escolha moral do sujeito, e infelizmente, sem grandes esperanças: embora continue lutando contra as mudanças, não sabe até quando agüentará e, apesar disso, escreve para que saibam até quando ele agüentou em pé.

Conclusão:
O ensaio do Arrependimento é um dos mais indicados para tratar o tema da pintura de si, devido ao grande número de descrições pessoais e de reflexões profundas relacionadas aos posicionamentos de Montaigne. Outro ponto muito importante são as partes onde ele trata de até onde seus exemplos podem ser estendidos às outras pessoas – afinal, o que é a condição humana e como ela é partilhada por todos. Um último assunto importante a ser tratado sobre a pintura de si é o da presença da alteridade nos Ensaios. Durante o capítulo do Arrependimento, assim como em todos os demais, o ‘eu’ que está sendo retratado e formado nos ensaios vai manter relações profundas com outros sujeitos. É impressionante como Montaigne recorre a citações e opiniões de filósofos e autores antigos (declaradamente ou mesclando-os ao seu próprio texto), assim como também faz comparações com vários fatos de personagens históricos ou mesmo cotidianos, que participaram da época do autor. Sou eu, mas é outro: não faltam situações assim ao longo de todos os capítulos dos ensaios. O si mesmo não seria uma subjetividade fechada, pura e totalmente distinta da alteridade; e o sujeito não se apropria ou detêm o seu ‘eu’. Na pintura de si a

alteridade vai ter um papel fundamental, e apesar de tudo, nas questões éticas não se pode deixar de consultar a própria subjetividade. Ele descreve um acontecimento ou opinião de outro, para em seguida voltar a si, posicionando-se e descrevendo-se em relação ao tema em questão. Não poderíamos concluir este estudo sem relembrar brevemente as diversas características abordadas sobre a pintura de si:         A descrição da pessoa de Montaigne nos Ensaios, de forma completa: abrangendo

desde coisas específicas até reflexões mais gerais que extrapolam o limite do particular. A busca de encontrar um delineamento para o seu próprio eu pelo processo da

escrita dos Ensaios. A formação recíproca da escrita e da reflexão sobre a obra e sobre o próprio autor. A tarefa de escrever um eu em constante movimento, em que cada parte do texto

corresponde sinceramente a um instante do eu de Montaigne. A esfera moral do eu enquanto sujeito que deve assumir seus atos e opiniões, e

traçar o seu próprio perfil. A presença do outro (da alteridade), na formação de uma identidade do sujeito. Encarar os Ensaios não como uma simples duplicação de um ‘eu’, mas como um

olhar crítico em que o autor se distancia e reflete sobre si. Por último, como a experiência de vida e reflexão de Montaigne pode servir para

que os leitores de sua obra tenham uma visão mais crítica do mundo e da natureza humana.

Bibliografia:
 Montaigne, Michel de – “Os Ensaios” – Trad. de Rosemary Costhek Abílio, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2001.  Birchal, Telma – “Sobre Auerbach e Montaigne” –Duarte, R. Figueiredo (org.), in: Mímesis e Expressão, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2001.  Cardoso, Sérgio – “O Homem, um homem; do Humanismo Renascentista a Michel de Montaigne” - In: Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (org.) Perturbador Mundo Novo. Ed. Escuta, São Paulo, 1992.  Cardoso, Sérgio – “Paixão da Liberdade, paixão da igualdade” - In: Novaes Adauto (org.). Os Sentidos da Paixão.  Starobinski, Jean – “Montaigne em Movimento” – Ed. Cia das Letras, São Paulo, 1993.  Eva, Luis Alves – “O fideísmo cético de Montaigne” – In: Revista Kriterion, no. 86.

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